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UNIVERSIDADE ESTADUAL DE CAMPINAS

INSTITUTO DE ECONOMIA

TOMÁS RIGOLETTO PERNIAS

A Regressão Social dos Estados Unidos na Era da


Globalização

Campinas
2021
UNIVERSIDADE ESTADUAL DE CAMPINAS
INSTITUTO DE ECONOMIA

TOMÁS RIGOLETTO PERNIAS

A Regressão Social dos Estados Unidos na Era da


Globalização

Prof. Dr. Denis Maracci Gimenez – Orientador

Tese de Doutorado apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento


Econômico do Instituto de Economia da Universidade Estadual de Campinas para
obtenção do título de Doutor em Desenvolvimento Econômico, na área de Economia
Social e do Trabalho.

ESTE EXEMPLAR CORRESPONDE À VERSÃO


FINAL DA DISSERTAÇÃO DEFENDIDA PELO
ALUNO TOMÁS RIGOLETTO PERNIAS,
ORIENTADO PELO PROF. DR. DENIS
MARACCI GIMENEZ.

Campinas
2021
UNIVERSIDADE ESTADUAL DE CAMPINAS
INSTITUTO DE ECONOMIA

TOMÁS RIGOLETTO PERNIAS

A Regressão Social dos Estados Unidos na Era da


Globalização

Prof. Dr. Denis Maracci Gimenez – Orientador

Defendida em 09/04/2021

COMISSÃO JULGADORA

Prof. Dr. Denis Maracci Gimenez - PRESIDENTE


Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP)

Prof. Dr. Márcio Pochmann


Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP)

Prof. Dr. Luiz Gonzaga de Mello Belluzzo


Faculdades de Campinas (FACAMP)

Prof. Dr. Daví José Nardy Antunes


Faculdades de Campinas (FACAMP)

Prof. Dr. Carlos Eduardo Fernandez da Silveira


Instituto de Pesquisas Tecnológicas do Estado de São Paulo (IPT)

A Ata de Defesa, assinada pelos membros


da Comissão Examinadora, consta no
processo de vida acadêmica do aluno.
O presente trabalho foi realizado com apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento
de Pessoal de Nível Superior – Brasil (CAPES) – código de financiamento 001
Para Cristina e Gibi
Agradecimentos

Agradeço, primeiramente, ao meu orientador, Denis Maracci Gimenez, que esteve


presente em todos os momentos para orientar e apoiar o desenvolvimento deste trabalho.
São poucos os alunos que têm a sorte de encontrar um orientador paciente e cuidadoso
para a orientação da tese. Eu sou um desses sortudos. Desde o início da dissertação de
mestrado, até a banca de defesa da tese de doutorado, pude contar com o olhar crítico e
as sugestões precisas do Professor. Denis, sem a sua orientação, eu não seria capaz de
escrever uma tese. Obrigado.
Em segundo lugar, agradeço à UNICAMP, ao Instituto de Economia e ao CESIT,
instituições que me receberam durante os anos de pós-graduação. Esses espaços de
convivência, estudo e aprendizado foram essenciais não somente para o desenvolvimento
da tese, mas também para o aperfeiçoamento da minha formação, profissional e pessoal.
Estendo aqui os meus agradecimentos aos colegas e aos professores da pós-graduação. O
processo de aprendizado é mais eficaz se realizado de forma coletiva, e a UNICAMP me
proporcionou esse ambiente rico, repleto de pessoas brilhantes para me guiar durante o
mestrado e o doutorado.
Em terceiro lugar, agradeço aos integrantes da banca de defesa pela leitura
cuidadosa e pelas observações sobre o trabalho: Luiz Gonzaga de Mello Belluzzo, Daví
Antunes, Márcio Pochmann e Carlos Silveira. Agradeço também ao professor Hugo e ao
Waldir Quadros, presentes na banca de qualificação, quando a tese ainda estava em
desenvolvimento. Os professores mencionados, além de integrantes nas bancas de
avaliação, tiveram uma influência decisiva em minha formação.
Agradeço, afetuosamente, à Maria Beatriz, que esteve presente em todos os
momentos de dificuldade e incerteza que me acompanharam durante o desenvolvimento
da tese. O seu carinho foi fundamental para que os momentos de angústia se
transformassem em momentos de paz, reflexão e alegria. Obrigado pela paciência e pelo
afeto que você sempre demonstrou.
Por fim, agradeço aos meus país, Cristina e Gibi. Nenhuma conquista em minha
vida teria sido possível sem o apoio incondicional que vocês me deram. Em momentos
de dúvida, vocês me dão certeza; em tempos difíceis, vocês me trazem facilidades; em
épocas de tormento, eu tenho um porto seguro. Pai e Mãe, vocês são os alicerces da minha
vida. Tudo que eu tenho, devo a vocês. Obrigado.
Resumo: a presente tese tem por objetivo caracterizar os retrocessos sociais que
acometem a sociedade norte-americana, desde 1980. Conhecido pela “excepcionalidade
americana”, durante o século XIX, e pela “sociedade afluente”, nos anos dourados, os
Estados Unidos da era da globalização guarda poucas semelhanças com aquela sociedade
próspera, dinâmica e afluente, do passado. A implementação do receituário neoliberal na
economia, somado aos efeitos da globalização, trouxeram aos Estados Unidos uma onda
de retrocessos que se manifestaram em diversas áreas, econômicas e sociais,
evidenciando os limites do neoliberalismo em conduzir um país à melhoria de seus
indicadores sociais. Do ponto de vista metodológico, a tese foi dividida em 6 capítulos:
1) A sociedade afluente e o desenvolvimento do capitalismo nos Estados Unidos; 2) A
economia e a sociedade afluente revisitada na era da globalização; 3) A regressão
dinâmica do mercado de trabalho norte-americano na era da globalização; 4) Mundos dos
rendimentos nos Estados Unidos; 5) A desigualdade com símbolo de uma era americana;
e, derradeiramente, 6) A nova pobreza dos Estados Unidos. Observando, em conjunto, a
degradação da economia, a decadência do mercado de trabalho, a estagnação dos
rendimentos, a explosão da desigualdade e o crescimento da nova pobreza nos E.U.A.,
defende-se que: os Estados Unidos vivenciaram um período de regressão social na era da
globalização, deixando de ser aquele país que deu concretude à expressão “sonho
americano”.
Abstract: the main purpose of the thesis is to demonstrate the severe social
regression that affects the american society, since 1980. Once known for the “american
exepcionalism”, during the XIX century; and the “afluent society”, in mid XX century,
the United States of nowadays sustain very few resemblances with that prosperous,
dinamic and afluente society that it was in the past. The neoliberal times brought to the
United States a wave of setbacks that were manifested in many áreas, social or economic,
demonstrating the limits of the neoliberal policies to guide e promote a country towards
the improvement of it’s social indicators. From a methdological point of view, this work
was divided in 6 chapters: 1) The afluent society and the capitalist development in the
United States; 2) The economy and the afluent society in the age of globalization; 3) The
dinamic regression of the american labor market; 4) Remuneration: worlds apart; 5)
Unequality as a symbol of an american age; 6) The “new” poverty in the United States.
Observing, together, the deterioration of the economy, the decay of the labor market, the
stagnation of incomes, the explosion of inequality and the growth of new poverty in the
USA, it is argued that: the United States experienced a period of social regression in the
era of globalization, ceasing to be the country that gave concrete expression to the
expression "American dream".
Sumário
Introdução – os mitos dos Estados Unidos: a “excepcionalidade americana”, a “terra das
oportunidades” e o “American dream” .................................................................................... 11
Capítulo 01 - A sociedade afluente e o desenvolvimento do capitalismo americano ........... 26
1.1. Max Weber: a estrutura social no capitalismo moderno dos E.U.A............................ 36
1.2. Thorstein Veblen: o consumo conspícuo nos Estados Unidos ................................... 42
1.3. Wright Mills e a mobilidade social americana ............................................................ 48
Argumento em síntese ............................................................................................................. 54
Capítulo 2 – Economia e a sociedade afluente revista na era da globalização .................... 57
2.1. Um olhar sobre o Produto Interno Bruto ..................................................................... 67
2.2. O Consumo Privado .................................................................................................... 71
2.3. Investimento privado ................................................................................................... 74
2.4. Exportações e Importações.......................................................................................... 76
2.5. O Gasto Governamental .............................................................................................. 81
Argumento em síntese ............................................................................................................. 85
Capítulo 3 - A regressão dinâmica do mercado de trabalho norte-americano na era da
globalização................................................................................................................................ 90
3.1. Indicadores gerais do mercado de trabalho ................................................................. 98
3.2. A estrutura ocupacional ............................................................................................. 111
3.3. A fatia do trabalho (Labor Share) ............................................................................. 116
Argumento em síntese: .......................................................................................................... 120
Capítulo 04 - Mundos dos rendimentos nos Estados Unidos............................................... 125
4.1. A evolução dos rendimentos familiares ......................................................................... 135
4.2. Evolução do rendimento das pessoas ............................................................................. 147
Argumento em síntese ........................................................................................................... 159
Capítulo 05 – A desigualdade como símbolo de uma era americana .................................. 163
5.1. A desigualdade nos E.U.A em perspectiva internacional............................................... 173
5.2. A desigualdade pelo índice de Gini e a desigualdade patrimonial domiciliar................ 180
5.4. A composição da riqueza entre os segmentos sociais .................................................... 188
5.4. A distribuição da renda nos anos recentes, 2007-2016 .................................................. 191
Argumento em síntese ........................................................................................................... 197
Capítulo 06 – A nova pobreza norte-americana ................................................................... 200
6.1. A pobreza nos Estados Unidos, em perspectiva internacional ....................................... 208
6.2. A pobreza Estados Unidos ............................................................................................. 213
Argumento em síntese ........................................................................................................... 239
Considerações finais ................................................................................................................ 243
Referências bibliográficas: ........................................................................................................ 251
11

Introdução – os mitos dos Estados Unidos: a “excepcionalidade americana”, a “terra


das oportunidades” e o “American dream”

Em março de 2005, os correspondentes do jornal “The New York Times”


conduziram uma pesquisa com 1.764 adultos dos Estados Unidos, selecionados
aleatoriamente de uma lista com 42.000 domicílios espalhados pelo território americano.
O assunto da pesquisa: classes sociais. Uma das perguntas da pesquisa é particularmente
valiosa para melhor compreender a sociedade americana, e relevante para iniciar a
discussão dessa tese.

Tabela 01 – Pesquisa New York Times, 2005*

“O que a expressão "sonho americano" significa para você?”


Segurança financeira/trabalho estável 19%
Liberdade/oportunidade 20%
Possuir uma casa 13%
Família 7%
Alegria/paz de espírito 19%
"Vida na américa" 1%
Emprego bom 1%
Sucesso 7%
Saúde 2%
Aposentadoria confortável 2%
Pagar menos impostos 0
Não existe/ilusão 2%
Outros 2%
Não sei/sem resposta 5%

(*). What does the phrase “American Dream mean to you”


Elaboração própria a partir de (KELLER, 2005)1

Quando questionados sobre o significado da expressão “sonho americano”, a


maioria dos entrevistados citou temas que estão relacionados à segurança financeira e a
uma vida financeiramente protegida. Em síntese, a pesquisa revela que o sonho americano
está, em larga medida, idealizado pelos americanos como um estilo de vida que reúne
algumas características, em particular, como um emprego estável, uma remuneração
adequada, uma casa para morar, e, não menos importante, oportunidades na vida. Esses
aspectos, cumpre salientar, foram os traços mais característicos da sociedade afluente

1
KELLER, B. CLASS MATTERS. (Appendix) – The New York Times Poll on Class. New York/NY. Ed: Time
Books. 2005. p. 248.
12

americana, durante a expansão econômica ocorrida após a Segunda Guerra Mundial.


Eram os anos dourados, marcados pela ampliação da classe média, crescimento do
consumo e melhora no padrão de vida da população americana.
Uma das características definidoras do “sonho americano” é o ideal de que os
jovens terão um padrão de vida mais elevado do que a geração anterior. Trata-se, em
outras palavras, da noção de que nos Estados Unidos há algo como uma mobilidade social
ascendente ao longo do tempo. Entretanto, o estudo “The Fading American Dream2”,
realizado por pesquisadores da universidade de Harvard, constatou que, em vez de uma
vida melhor, os jovens estão com dificuldades para replicar o padrão de vida da geração
anterior. Em 1940, mais de 90% dos jovens ganhavam mais do que os pais. Em meados
da década de 1980, essa proporção beirava os 50%. A ascensão social nos Estados Unidos
tem se tornado, para grande parte da população, um mito.
Por definição, pode-se compreender um mito como um sistema de crenças e
entendimentos que organiza a consciência humana com a realidade. O mito desempenha,
sobretudo, uma função social: a de condicionar o comportamento individual numa
sociedade, ao estabelecer um papel para os seus cidadãos, moldando a sua forma de
enxergar a realidade, e adequando as suas condutas. Há no mito, portanto, algo de
funcional para a sociedade, de caráter eminentemente político: o mito estabelece uma
relação coesiva entre os cidadãos, a cultura, as instituições políticas e a sociedade. Trata-
se, portanto, de uma funcionalidade sútil capaz de moldar e condicionar o comportamento
social, mediante a influência que as ideias e as crenças produzem sobre o comportamento
humano. 3
Se, por um lado, o mito pode ser empregado para condicionar o comportamento
humano, assegurando a harmonia social e mantendo a coesão entre o homem e as
instituições políticas, há também a possibilidade de que o mito atue de forma inversa. O
mito pode prejudicar o regime social vigente, desestabilizando as forças políticas
estabelecidas, particularmente quando as circunstâncias materiais não correspondem às
expectativas, ou aos entendimentos que estão em torno do mito. Nessa situação, o mito
pode se tornar uma base para fomentar a insatisfação para com as instituições políticas e
sociais.4

2
Ver CHETTY, R et al. The Fading American Dream: Trends in absolute income mobility since 1940. In:
NBER working paper series, n. 22910. 2016.
3
ARCHER, J. The resilience of a mith: the politics of american dream. In: Traditional dwellings and
settlements review, spring, 2014. Vol. 25, n. 2. pp. 7-21. 2014.
4
Ibidem
13

Nos Estados Unidos o mito do sonho americano também possui um aspecto


funcional, ao promover uma relação harmônica entre a sociedade e as suas instituições.
O sonho americano, cumpre ressaltar, esteve atrelado às condições políticas e ideológicas
dos Estados Unidos. Nos anos 1920, por exemplo, o sonho da casa própria para cada
núcleo familiar surgia como um componente central do “sonho americano”, simbolizando
uma conquista material que dava concretude a esse mito. Ao longo dos anos seguintes, a
expansão acelerada da moradia própria, e, portanto, do número de americanos que
conquistavam uma casa para as suas famílias, aumentou significativamente, servindo à
estabilidade política da nação americana. A casa e o veículo próprio representavam o
ideal do “sonho americano”, e a posse desses bens materiais simbolizava o sucesso
individual na América. Num âmbito geral, o “sonho americano” também agia
coletivamente, na medida em que a ideia de uma família tradicional, possuidora de uma
casa e veículos próprios, era transmitida às próximas gerações como um ideal a ser
seguido e replicado5
Foi na América do passado, vale salientar, no final do século XIX, e
principalmente em meados do século XX, que surge a expressão “The American Dream”,
o sonho americano. Um “sonho” que pode ser vagamente compreendido como um
conjunto de expectativas de vida, culturais e materiais, intimamente relacionadas à
esperança de que a vida nos Estados Unidos irá garantir, eventualmente, um processo de
ascensão social. Trata-se, contudo, de uma expressão imprecisa, geralmente pouco
explicada ou raramente definida por quem a utiliza. Cotidianamente, o seu uso pode
indicar coisas banais, bem como pode fazer referência a processos mais amplos, como
uma série de aspirações culturais e desejos compartilhados por aqueles que vivem em
território norte-americano. Seja qual for o seu significado exato, este é sem dúvida um
mito resiliente que habita a sociedade norte-americana. 6
O que pode acontecer, entretanto, quando esses mitos falham? O que acontece
quando esse “sonho” se afasta, e muito, da realidade da maioria dos americanos? Quando
este mito mais se assemelha a uma fábula do passado, a uma narrativa fantasiosa, e menos
com a história do norte-americano comum, qual é a reação da população? O que passará
na cabeça dos norte-americanos que acreditavam que, “se jogassem conforme as regras”,
lhes seriam concedidas todas as benesses do sonho americano? E se, depois de
diligentemente terem dedicado uma vida inteira às “regras do jogo”, lhes forem negados

5
Ibidem
6
Ibidem
14

os bens materiais e a vida que aspiravam ter nos E.U.A?


Numa possibilidade, o conformismo toma conta da população. Contrapõe-se a
realidade com o “sonho” prometido, e o americano compreende que o mito não passa de
uma fábula, com baixa probabilidade de concretizar-se. Numa outra hipótese, o
desalinhamento entre as expectativas de vida, enebriadas pelo “sonho americano”, com
as condições materiais da realidade cotidiana, leva ao questionamento da ordem, das
práticas e das condições políticas contemporâneas7.
A atualidade traz um exemplo disso. Em 2016, Donald J. Trump foi eleito o 45º
presidente dos Estados Unidos, numa eleição que representou um repúdio significativo
do “establishment” político norte-americano. Trump foi alçado à presidência norte-
americana numa eleição explosiva, em claro confronto com as instituições políticas dos
Estados Unidos. Donald Trump, empresário, que atuou em shows de televisão e não
possuía experiência alguma em cargos políticos, obteve a vitória sobre Hillary Clinton,
adversária democrata, que exerceu o cargo de secretária de Estado dos Estados Unidos,
além de ter sido a primeira-dama na década de 1990. O resultado é uma contestação do
legado democrata, particularmente de Barack Obama, e representa uma rejeição às
décadas de multiculturalismo e globalização, que marcaram a história dos Estados Unidos
nos últimos 40 anos. Após a vitória de Donald Trump, em torno das três e meia da manhã,
depois de Hillary ter reconhecido a derrota, Trump disse: “os homens e as mulheres
esquecidas não serão mais esquecidos”. Este era o sentimento da maioria dos norte-
americanos que elegeu Trump: a América os havia esquecido. Quais seriam os motivos
que levaram Donald Trump, um “outsider”, ao posto de Presidente dos Estados Unidos?
Ao longo de 40 anos, a população americana se sente abandonada à própria sorte,
esquecida e desamparada tanto pelos Democratas, bem como pelos Republicanos mais
tradicionais. Para grande parte dos americanos, desde 1980 não há “sonho americano”. 8
Foi John Kenneth Galbraith quem captou, de forma precisa, a realidade do “sonho
americano”, na obra a “A Sociedade Afluente”. Ao se debruçar sobre as transformações
sociais e econômicas vivenciadas pelos Estados Unidos ao longo do século XX, Galbraith
descreve as características de uma sociedade cuja marca principal era a mobilidade social
ascendente. Elementos como o crescimento econômico, o aumento da produção, uma

7
Ibidem
8
FLEGENHEIMER, M; BARBARO, M. Donald Trump is elected presidente in stunning repudiation of the
establishment. In: NY Times. 09 de novembro, 2016. Recuperado em
https://www.nytimes.com/2016/11/09/us/politics/hillary-clinton-donald-trump-president.html.
Acessado em 24/09/2020.
15

melhor distribuição da renda, a diminuição da pobreza e a provisão de serviços públicos


à população carente se somavam para criar um cenário de melhora progressiva no padrão
de vida dos americanos. Ao mesmo tempo em que Galbraith descreve os Estados Unidos,
ele também descrevia uma sociedade afluente9.
A constituição do padrão de vida que permitiu o surgimento de algo como um
“sonho americano” também está, em alguma medida, no estudo de James Beniger, “The
Control Revolution”. O autor descreve a crescente necessidade de burocratização das
grandes empresas modernas, uma tendência egressa do século XIX, que se intensifica a
partir do século XX. O processamento, controle e interpretação dos dados e informações
em meio à expansão produtiva leva à hipertrofia da burocracia empresarial: uma estrutura
de controle descentralizada, com departamentos integrados sob um mesmo comando, mas
segmentados por atividade e função. A complexidade da gestão empresarial levou à
expansão dos cargos de escritório, que deram uma nova feição à estrutura de empregos
da sociedade norte-americana no século XX10. Esse processo foi também interpretado por
Wright Mills, que viu na expansão dos cargos de colarinho branco a origem de uma “nova
classe média”11. A melhora no padrão de vida de boa parte da sociedade norte-americana,
portanto, esteve indiretamente associada à formação de uma estrutura de empregos que
permitiu a criação das bases da nova classe média. Os efeitos da globalização e a
deterioração do mercado de trabalho no capitalismo contemporâneo, por outro lado,
solaparam os pilares que amparavam a classe média. Sem esses empregos, não há
sustentação do sonho americano, pois este último se apoiava na estrutura de emprego e
renda criada e formada nos “anos dourados”.
Posteriormente, sob à luz dos acontecimentos contemporâneos, Galbraith se
propôs a revisar o seu texto, no prefácio “A Sociedade Afluente Revista”. O autor
reconheceu, na ocasião, os sinais de uma nova era. O autor destacou, em primeiro lugar,
a predominância da grande empresa moderna, que influencia os preços, molda o desejo
consumidor e exerce pressão sobre os políticos, presidentes e até sobre as forças armadas.
Galbraith lamenta, todavia, que os ensinamentos econômicos convencionais ocultem este
fato: a ortodoxia prega que todas as empresas comerciais e industriais estão
inexoravelmente subordinadas à autoridade pessoal do mercado, a despeito de todas as

9
GALBRAITH, J. K. A sociedade afluente. São Paulo/SP. Ed: livraria pioneira editora. 1987.
10
BENIGER, J. R. The Control Revolution – Technological and Economic Origins of the Information
Society. London. Ed: Harvard University Press.
11
WRIGHT, C. MILLS. A Nova Classe Média (White Collar). Rio De Janeiro/RJ. Ed. Zahar. 1969.
16

evidências do contrário. É a camuflagem do poder econômico que domina o cenário


industrial moderno. Após 1980, o governo Reagan parte para o ataque: redução do apoio
econômico aos mais carentes, diminuição dos gastos com o Estado de bem-estar social,
e, ao mesmo tempo, alivia-se a tributação sobre as pessoas físicas e jurídicas, em claro
benefício dos mais ricos. Galbraith vislumbrava, na “revolução” de Reagan e de Thatcher,
sinais de retrocessos sociais, na medida em que a afluência da sociedade norte-americana
mostrava sinais de esgotamento, quando não de regressão. As características supracitadas
da “Sociedade Afluente”, destacadas por Galbraith, já não eram mais os traços principais
dos E.U.A. na era da globalização12.
Partindo de Marx e Engels, Belluzzo contextualiza os retrocessos observados por
Galbraith, ao inseri-los numa moldura analítica mais ampla: a do caráter universal da
expansão do regime do capital. Na era da globalização americana, compreendida como
“a generalização e a intensificação da concorrência protagonizadas pela grande
empresa transacional”, os Estados Unidos projetaram a influência e o poderio de suas
empresas sobre os outros países. A internacionalização do capital contemporânea, ao
destravar a concorrência, engendrou: 1) a centralização do controle proprietário, por meio
de fusões e aquisições; 2) uma nova distribuição espacial produtiva, formada a partir das
cadeias globais de valores; e, 3) novas ondas de automação da produção. A era da
globalização, que trouxe consigo a liberalização produtiva e comercial contemporânea,
veio acompanhada de um aumento brutal da centralização de capital, da concentração do
poder sobre os mercados e, talvez mais importante, da capacidade de alterar as condições
de vida da população13. A gênese de uma nova gestão empresarial e a formação das
cadeias globais de valor, que se desenvolvem apoiadas sobre uma nova onda de
automação do trabalho, derrubaram “sonho americano”.
Dito isso, cumpre lembrar das palavras de Marx: “A anatomia do ser humano é
uma chave para a anatomia do macaco14”. São as estruturas mais avançadas que tornam
mais explícitos os desenvolvimentos atuais da sociedade. Logo, as expressões mais atuais
da sociedade americana, como a desigualdade, a pobreza, a exclusão social, a deterioração
do mercado de trabalho, o rebaixamento do padrão de vida da classe trabalhadora, e, de
forma geral, a queda no padrão de vida do americano, é um sinal das tendências que o

12
GALBRAITH, J. K. op. cit. 1987.
13
BELLUZZO, L. G. A internacionalização recente do regime do capital. In: Carta Social e do Trabalho. n. 27
– jul/set. 2014.
14
MARX, K. Grundrisse: manuscritos econômicos de 1857-1858: esboços da crítica da economia política.
São Paulo/SP. Ed: Boitempo. 2015. p. 84
17

capitalismo contemporâneo tem demonstrado. A investigação das marcas atuais de uma


sociedade mais evoluída, os E.U.A., corrobora para uma compreensão mais precisa das
tendências contemporâneas na era da globalização. O fim do sonho americano é um
prenuncio dos desdobramentos que provavelmente estarão presentes em outras partes do
mundo.
Um outro que mito habita o imaginário coletivo dos Estados Unidos é o de que os
E.U.A são uma espécie de “terra das oportunidades”, a prometida “land of opportunities”.
Há uma crença disseminada Estados Unidos de que, em outros países do mundo, o pobre
tem a certeza de que ele permanecerá pobre pelo resto de sua vida. Fora dos Estados
Unidos, o indivíduo privado de uma educação de qualidade estaria condenado a uma vida
difícil: sujeito à trabalhos precários, mal pagos e sem uma perspectiva de carreira de
sucesso. Isso, todavia, supostamente não aconteceria na América, a terra das
oportunidades, onde a mobilidade social seria garantida àqueles que trabalhassem duro
para isso. Afinal de contas, os E.U.A., que, ao longo de sua história recebeu milhares de
imigrantes em busca de uma vida melhor, sempre recebeu os estrangeiros e lhes
proporcionou um lugar, as ferramentas e as oportunidades para conseguir uma vida
melhor.15
Os Estados Unidos, contudo, deixaram há muito tempo de ser essa terra
prometida. A desigualdade encontra-se em níveis elevados, aqueles que estão no topo
abocanham uma parcela cada vez maior da riqueza social, o número de pobres está
crescendo e o abismo entre a classe média e os ricos está aumentando. Se, no passado, os
americanos preferiam se enxergar como os habitantes de uma terra repleta de
oportunidades, onde se formou uma sociedade de classe média, atualmente essas
condições estão longe de corresponderem à realidade. Hodiernamente, os mercados ditam
as regras do jogo; o sistema político tem sido moldado para favorecer aos ricos; e a
institucionalidade do sistema, por seu turno, se tornou predatória, canalizando a riqueza
dos estratos inferiores para aqueles que estão no topo. Por fim, as regras da globalização
deixaram os trabalhadores em desvantagem: a grande empresa, agora internacionalizada,
ignora o poder de barganha dos trabalhadores e desloca a sua produção para outros países
com mão de obra mais farta, e barata. O resultado: na América atual, as chances de vida
de uma criança dependem, em larga medida, do nível de renda de seus pais, inclusive

15
LEVY, HAROLD, O. America is the land of opportunity, and we should be proud of it. In: Fox News. 08 de
outubro, 2017. Recuperado em https://www.foxnews.com/opinion/america-is-the-land-of-opportunity-
and-should-be-proud-of-it. Acessado em 25/09/2020.
18

mais do que em qualquer outro país avançado. Hoje, o “sonho americano” é não somente
um mito, mas também uma história que não condiz com as circunstâncias materiais da
população norte-americana.16 A América foi, portanto, a terra das oportunidades.17
Para além desses mitos que circundam o americano, há também uma outra crença
que merece destaque, e que de certa forma endossa a ideia de que os E.U.A é, ou foi, de
fato uma sociedade mais dinâmica e próspera no passado. Trata-se da “excepcionalidade
americana”. Existe um sentimento profundamente enraizado no imaginário coletivo da
sociedade norte-americana, que, inclusive, está presente em diversas interpretações dos
que se debruçaram para investigar as características dos Estados Unidos. Trata-se, grosso
modo, de um sentimento de triunfo da igualdade numa sociedade que, em tese, está
sempre aberta ao êxito e à autorrealização individual. Uma sociedade em que, para todo
homem e toda mulher, haveria diferentes formas de se chegar a um mesmo lugar: o
sucesso pessoal. Nos E.U.A., o caminho para a ascensão social estaria desobstruído
graças à liberdade desfrutada pelos que vivem sob a bandeira dos Estados Unidos. As
desigualdades de classe e os impedimentos hereditários seriam problemas pequenos perto
da enorme gama de oportunidades abertas para todos os norte-americanos. Esse
sentimento, que também pode ser grossamente definido como um “sistema de crenças”,
é o que Seymour Martin Lipset, por exemplo, chama de “excepcionalismo americano”, e
que pode ser identificado nos escritos dos federalistas, em Tocqueville, nos estudos de
estratificação do século XX, e até em Karl Marx, cumpre acrescentar.
Essa expressão, sobretudo, se refere à noção de que, nos Estados Unidos, desde a
sua criação, predominam algumas particularidades que o distinguem das demais nações.
O criador desse “pensamento” dentro do campo das ciências sociais, vale destacar, foi
Alexis de Tocqueville, que escreveu em meados de 1830, sobre o que ele observava de
singular na formação da sociedade norte-americana. Nos tempos de Tocqueville, cumpre
salientar, identificar as distinções que tornavam os E.U.A. um local e uma sociedade única
não era exatamente uma tarefa de grande dificuldade, uma vez que somente havia
somente um pequeno punhado de países “modernos”: os países europeus, de um lado, e
os E.U.A, de outro. Esse “senso de distinção” perdurou pelo menos até depois da segunda
grande guerra mundial. 18

16
STIGLITZ, J. America is no longer a land of opportunity. In: Financial Times. 25 de junho, 2012.
Recuperado em https://www.ft.com/content/56c7e518-bc8f-11e1-a111-00144feabdc0. Acessado em
25/09/2020.
17
Ibidem.
18
SHAFER, B. E. American exceptionalism. In: Annual review of political Science. Vol, 2. 1999.
19

A discussão em torno do “excepcionalismo americano” tem uma longa história.


Tocqueville foi um dos primeiros autores que apontou para a instabilidade das posições
sociais na sociedade americana: tratar-se-ia de uma sociedade cujas demarcações de
classe não estavam claras. Algumas décadas depois, Marx e Engels fizeram observações
no mesmo sentido, ainda que a preocupação central do estudo realizado pela dupla fosse
muito diferente do que as inquietações do francês. O contraste que era notado pelos
autores estaria entre o velho e o novo mundo, sendo que, neste último, o desenvolvimento
e a consolidação das classes não teriam acontecido como verificado nos países europeus,
cujas sociedades apresentavam uma rigidez social por demais evidente. Para Marx e
Engels, o fato de que os E.U.A apresentavam inúmeras oportunidades econômicas para
os pequenos negócios, somado ao fato de que a fronteira nacional ainda estava em
delimitação, configuravam elementos que impediam a formação de um proletariado
permanente. Foi Engels que, ao final do século XIX, disse que a América se aproximava
de uma nação em que todos os indivíduos poderiam ser independentes, produzindo ou
trocando para obter o seu próprio sustento, por conta própria. 19
As circunstâncias que deram origem ao termo, e os elementos que fomentaram a
crença no “excepcionalismo americano”, são controversas. Martin Lipset, por exemplo,
argumenta que o fato de os E.U.A não ter um passado feudal em sua história constituiu
um bloqueio ao desenvolvimento de uma consciência de classe nos cidadãos. Nas
sociedades europeias, marcadas por seu passado aristocrático, há maior ênfase na pressão
coletiva para a modificação da estrutura de classes. Assim, a justificativa para a falta de
uma consciência de classe nos trabalhadores norte-americanos, pondera Lipset, estaria
tanto na orientação igualitária da sociedade, bem como no sentimento “anti-classe”
compartilhado pelos americanos. Nos E.U.A, a ênfase colocada sobre o esforço individual
como o elemento determinante do sucesso ou fracasso de alguém, ademais, faz com que
o trabalhador não se veja como membro de uma classe. Além disso, a industrialização
norte-americana trouxe um crescimento acelerado e contínuo da riqueza nacional, o que
fez dos Estados Unidos, já no século XIX, uma das nações mais ricas do mundo. Essa
abundância econômica garantiu à maioria da população norte-americana um padrão de
vida razoavelmente confortável, dificultando a penetração das ideias socialistas e dos

19
ERIKSON, R; GOLDTHORPE, J. H. Are american rates of social mobility excepcionally high? New evidence
for an old issue. In: European sociological review. Vol, 1. n. 1. May. 1985
20

movimentos “de classe” em meio à sociedade. 20


Outros pesquisadores argumentam que a mobilidade social era mais acelerada nos
E.U.A, especialmente no século XIX. Joseph Ferrie, recentemente, investigou se há, de
fato, evidências que dão suporte à crença de que a mobilidade social nos E.U.A era mais
intensa do que nos países europeus, o que daria razão as teses de Tocqueville, Marx e
Sombart sobre a América. O autor responde que sim, a percepção social sobre a
mobilidade da sociedade norte-americana era realmente calcada na experiência histórica.
Não se trataria, portanto, de uma percepção equivocada dos fatos: os autores estavam
certos. Sua investigação aponta que, de forma geral, a mobilidade absoluta era maior para
os E.U.A em comparação à Grã-Bretanha, independentemente da distribuição
ocupacional escolhida para a comparação. Nos E.U.A, por exemplo, entre 1850 e 1880,
81,4% dos filhos de pais ocupados em trabalhos “não qualificados” conseguiram um
emprego melhor; ao passo que essa proporção, para a Grã-Bretanha, foi de apenas 51,3%.
A mobilidade relativa também se mostrou superior nos Estados Unidos em relação à Grã-
Bretanha, reforçando a hipótese que a estrutura ocupacional dos E.U.A era mais “fluida”.
São diferenças que conferem à sociedade norte-americana o status de “excepcional”, dado
que a sua mobilidade no século XIX era mais acelerada do que em qualquer país da
Europa. Ferrie conclui: os observadores da sociedade norte-americana no século XIX
estavam certos, uma vez que se tratava de uma nação cuja mobilidade social era mais
dinâmica, algo que persistiu até meados de 1920, contrariando inclusive a previsão de
Karl Marx, que afirmou que a mobilidade social diminuiria assim que as fronteiras do
país fossem estabelecidas. 21
Outras evidências sobre a “excepcionalidade americana” podem ser encontradas
no livro “O capital no século XXI”, de Thomas Piketty. Segundo o autor, no “novo
mundo” o valor do estoque do capital nacional em relação à renda nacional era
significativamente mais baixo quando comparado aos países da Europa. Isso, vale
ressaltar, entre 1770 e 1810. Piketty argumenta que o ponto fundamental é que na
América do Norte havia mais hectares de terra por habitante, ou seja, havia mais capital
para cada americano. Dado que nos E.U.A a terra era um fator abundante, o seu valor de
mercado era baixo, fazendo com que qualquer pessoa tivesse a chance de possuir grandes

20
LIPSET, S. M. A sociedade americana – uma análise histórica comparada. Rio de Janeiro/RJ. Ed: Zahar.
1966.
21
FERRIE, J. P. History lessons: The end of american excepcionalism? Mobility int the United States Since
1850.
21

extensões territoriais. Ademais, o fato de os Estados Unidos ser uma sociedade ainda em
formação, com muitos imigrantes, fez com que outros tipos de “capital”, como os imóveis
ou capitais internos, fossem menos relevantes, pois eles ainda estavam situados em níveis
mais baixos. Esses fatos, combinados, fizeram com que a estrutura de desigualdade da
sociedade norte-americana fosse diferente do cenário europeu. Piketty, nesse sentido,
reforça as observações de Tocqueville sobre a América: tratava-se de uma sociedade
menos desigual. Portanto, o ideário norte-americano dos homens “livres e iguais”, ao
menos no século XIX, possui lastro na experiência real dos que viveram naquela época.
22

Há apoio empírico, portanto, demonstrando que havia algo como um


“excepcionalismo americano”, ao menos no passado. Os observadores do século XIX,
que enxergaram diferenças entre a mobilidade social entre os E.U.A e a Europa, faziam
suas afirmações com base em fenômenos que realmente aconteceram. Havia, ao menos
nos estágios iniciais do capitalismo norte-americano, mais possibilidades de o homem
“comum” desfrutar de uma vida decente para os padrões materiais da época, vivenciar
algum grau de ascensão social, e, de forma geral, conseguir os meios para a sua
subsistência. Marx e Tocqueville estavam certos quanto às melhores perspectivas de
ascensão social na América. 23
Há, portanto, evidência suficiente para atestar a veracidade, ao menos em algum
grau, do excepcionalismo americano. Essa tese, por outro lado, busca no cenário
contemporâneo evidências que vão no sentido contrário. Ou seja, essa tese procura
demonstrar que os traços de uma sociedade afluente não estão mais presentes nos Estados
Unidos atual. Ao agregar informações sobre os retrocessos sociais e econômicos que se
acumulam nos Estados Unidos, desde 1980, demonstra-se que, atualmente, não há apoio
empírico para afirmar que os E.U.A. é uma sociedade em que se vive um “sonho
americano”. Os indicadores socioeconômicos relativos à economia, ao mercado de
trabalho, aos rendimentos, à desigualdade e à pobreza não dão sustentação à ideia de que,
na América, persista algo como uma “terra das oportunidades”. O agregado dos dados
coletados nesta tese retrata de modo claro que, durante as últimas décadas, a
“excepcionalidade americana” terminou. O “sonho americano” não é mais uma realidade

22
PIKETTY, T. O capital no século XXI. Rio de Janeiro/ RJ. Ed: intrínseca. 2014. p. 151
23
BOURDIEU, J; FERRIE, J; KESZTENBAUM, L. Vive la difference? Intergenerational mobility in France and
the United States during the nineteenth and twentieth centuries. In: The jornal of interdisciplinar history.
Vol. 39, n. 4. pp. 523-557. 2009.
22

para a maioria dos norte-americanos.


Não se trata, como já foi realizado em outros trabalhos, de investigar os processos
que levaram a esses retrocessos, ou que impulsionaram a degradação do padrão de vida
da maioria dos norte-americanos. De início, deixa-se claro a perspectiva teórica embutida
nesta investigação: foi particularmente depois de 1980, com a adoção de uma orientação
econômica de viés neoliberal na economia dos Estados Unidos, que esse processo de
ascensão social e melhoria de vida dos norte-americanos foi interrompido. O foco dessa
tese é outro: defender que o sonho americano não é mais uma realidade. Para cumprir
esse objetivo, optou-se por dividir a tese em 06 capítulos, com diferentes temáticas,
demonstrando, por meio de uma série de indicadores sociais e econômicos, que os Estados
Unidos não são mais o país das oportunidades. Por meio de diversos ângulos de análise,
como: a degradação do crescimento econômico, a deterioração dos indicadores no
mercado de trabalho, a segregação dos ricos e dos pobres quanto aos rendimentos, a
explosão da desigualdade, e, por fim, o crescimento da pobreza, defende-se que, para a
maioria dos americanos, as circunstâncias materiais não permitem afirmar os Estados
Unidos ainda representam a terra das oportunidades.
Sob o ponto de vista metodológico, a tese está dividida em 06 capítulos. O
primeiro deles, “A sociedade afluente e o desenvolvimento do capitalismo norte-
americano”, parte de John Kenneth Galbraith, em “A sociedade afluente”, para lembrar
como os Estados Unidos chegaram a simbolizar a inauguração de uma era de prosperidade
socioeconômica nunca conhecida pela humanidade. O aumento da produtividade, o
crescimento e a disseminação dos bens materiais de consumo, a eliminação da escassez e
a diminuição da insegurança econômica, por exemplos, são elementos presentes na
análise que Galbraith faz dos Estados Unidos. O primeiro capítulo, todavia, foca em
reunir diferentes lentes de análise, conforme perspectivas teóricas distintas, para fazer um
retrato da estrutura social dos Estados Unidos no século XIX e no século XX. Em Max
Weber, nota-se que a estrutura social dos E.U.A se tornou mais heterogênea, na medida
em que o desenvolvimento do capitalismo aumenta a complexidade da estrutura
ocupacional; em Veblen, nota-se como os E.U.A mudaram desde o século XVII, e como
o espetáculo do consumo conspícuo reina nos Estados Unidos; por fim, Wright Mills
aponta para o surgimento de uma nova classe média, subproduto do desenvolvimento
capitalista, dos novos serviços que surgem nos tempos modernos, e, também, do maior
envolvimento do Estado na economia e na organização da sociedade. Neste capítulo,
emprega-se tais autores retratar as mudanças que o desenvolvimento capitalista dos
23

Estados unidos trouxe para a sociedade americana: um mercado de trabalho dinâmico, a


diminuição da insegurança econômica, o surgimento de uma nova classe média e a
consolidação do consumo de massa.
No segundo capítulo, “Economia e a sociedade afluente revisitada na era da
globalização”, explora-se a lenta desaceleração econômica que acomete os Estados
Unidos. Este capítulo, que possui uma investigação centrada nos marcos temporais
propostos desta tese (1980-2018), demonstra que os últimos 40 anos foram marcados por
uma lenta degradação das condições econômicas que garantiram o forte desempenho
econômico dos E.U.A no passado. O aumento do consumo em meio à diminuição do
crescimento do investimento privado e público mostra um país que, vagarosamente, tem
dependido cada vez mais dos produtos importados, fragilizando a sua produção industrial
doméstica. Se, entre 1960-1980, o desempenho da economia norte-americana esbanjava
vigor, a partir dos anos 2000 o que se verifica é um crescimento econômico moderado,
bem inferior ao que foi atingido no passado. Nesse capítulo, para deixar claro ao leitor a
diferença de desempenho entre os marcos temporais analisados, faz-se uma investigação
do consumo, investimento, dos gastos governamentais e das importações e exportações.
Em larga medida, trata-se de uma análise do Produto Interno Bruto dos Estados Unidos,
pelos últimos 40 anos. Trata-se de um amplo panorama capaz de demonstrar, de modo
geral, quais são as principais tendências que tem acompanhado a economia dos Estados
Unidos, desde 1980.
Os impactos da desaceleração são vistos, principalmente, sobre o mercado de
trabalho. O desempenho moderado da economia dos Estados Unidos, as medidas que
degradaram o poder de barganha dos trabalhadores, e o posterior deslocamento da balança
de poder em favor dos ricos, produziram gradativamente uma deterioração das relações
de trabalho nos Estados Unidos. É justamente esse o tema central do terceiro capítulo da
tese, “A regressão dinâmica do mercado de trabalho norte-americano”, que demonstra
os retrocessos que podem ser observados no mercado de trabalho norte-americano, desde
1980. Há, nos tempos atuais (ao menos antes da pandemia Covid-19), um discurso
exaltando o desempenho do mercado de trabalho dos Estados Unidos, que, supostamente,
estaria em pleno emprego, haja vista as baixíssimas taxas de desocupação. Entretanto,
uma análise mais atenta dos indicadores do mercado de trabalho americano demonstra
que as taxas de desocupação perderam, em parte, o seu poder de retratar adequadamente
o que se passa mercado de trabalho dos E.UA. Este “pleno emprego”, que convive com a
queda salarial, o aumento dos inativos, a degradação do poder de barganha dos
24

trabalhadores e uma deterioração dos empregos não deve ser interpretado isoladamente,
e tratado como um sinal inequívoco de progresso social. Este, justamente, é o objetivo
geral do terceiro capítulo: demonstrar, por meio de uma série de indicadores do mercado
de trabalho, a regressão dinâmica que se projeta sobre a estrutura de emprego e renda nos
E.U.A, desde 1980.
A degradação do mercado de trabalho e a piora das relações laborais nos E.U.A
repercutem sobre a estrutura de rendimentos. A conjugação dos seguintes elementos: a
degradação do poder de barganha dos trabalhadores, a disseminação dos empregos de
baixa qualidade, a maior capacidade dos privilegiados de abocanhar fatias cada vez
maiores da renda nacional e, de forma geral, a deterioração do mercado de trabalho,
produziram efeitos adversos sobre a estrutura de remuneração dos Estados Unidos.
Quando se pergunta: os Estados Unidos vão bem? É preciso qualificar a resposta: depende
do ângulo que se analisa a questão. Para os ricos, os Estados Unidos vão bem. Avanço
dos lucros, aumento da remuneração, aumento da massa de serviçais disponível e
crescimento da remuneração, por exemplo, são processos que caracterizaram a vida dos
mais privilegiados nos E.U.A. Para aqueles situados na base e no meio da pirâmide social,
há um mundo diferente: estagnação dos rendimentos, letargia do crescimento da
remuneração ao longo dos anos 2000, e, para uma série de categorias, diminuição real do
nível de renda. Trata-se de processos iniciados em 1980, mas que assumem contornos
mais dramáticos nas décadas mais recentes. Mundos diferentes no que tange aos
rendimentos, portanto, é a temática que domina o quarto capítulo: “Mundo dos
rendimentos nos Estados Unidos”.
No quinto capítulo, explora-se mais a fundo um tema que, desde 1980, tem
ganhado cada vez mais espaço nos debates sobre os Estados Unidos: a desigualdade. No
quarto capítulo, foram encontradas fartas evidências de que a desigualdade de
remuneração aumentou nos E.U.A. Todavia, é no quinto capítulo que esse assunto é
tratado com mais atenção, com um panorama da distribuição de riqueza entre os diversos
estratos sociais dos Estados Unidos. “A desigualdade como um símbolo de uma era
americana”, título do quinto capítulo, explicita que as disparidades sociais e econômicas
nos Estados Unidos são emblemáticas dos tempos atuais dessa nação. O traço mais
marcante dos E.U.A, desde 1980, aliás, tem sido o crescimento da desigualdade, processo
que tem acompanhado este país durante as últimas décadas, sem sinais de desaceleração.
É particularmente durante a investigação da desigualdade nos Estados Unidos que se nota
a gravidade da deterioração social que acomete a sociedade americana, ao longo dos
25

últimos 40 anos.
O sexto capítulo, “a nova pobreza norte-americana”, apresenta uma outra face
da degradação social nos Estados Unidos. Ao contrário do que se poderia esperar de um
país rico e desenvolvido, os E.U.A. não têm sido capaz de frear o crescimento do número
de pobres. Esse fracasso em conter a pobreza, vale ressaltar, coincide com o início dos
anos 1980, quando foram implementadas uma série de políticas de cunho neoliberal na
economia, enfraquecendo a capacidade que o Estado tem de proteger o cidadão contra os
azares do livre mercado. Neste capítulo, aprofunda-se na taxa de pobreza, número de
pobres e como este fenômeno tem acometido os diferentes grupos sociais nos Estados
Unidos.
Ao final da tese, restará claro ao leitor que, desde 1980, os Estados Unidos tem
apresentado uma gradual deterioração da sua estrutura social, processo que tem se
manifestado em diversas frentes, e por diferentes formas: no âmbito econômico, o
crescimento tem sido cada vez mais lento; no mercado de trabalho, a estrutura
ocupacional dá sinais preocupantes, na medida em que diversos indicadores apresentam
sinais sombrios, que contradizem a ideia de que os E.U.A vivem um “pleno emprego”;
os rendimentos, por seu turno, mostram um panorama de estagnação e letargia salarial,
principalmente a partir dos anos 2000; a desigualdade, sem dúvida, se tornou o símbolo
dos Estados Unidos; e a pobreza, por fim, passou a crescer aceleradamente, a despeito
dos números relativos escamotearem esse fato.
A caracterização da regressão social dos Estados Unidos, vale ressaltar, adota o
mundo do trabalho como espaço privilegiado de análise para a compreensão das
tendências estruturais da sociedade americana. Outras dimensões da questão social, como
a política social e a tributação, ainda que não desenvolvidas ao longo do texto, estão
integradas à hipótese geral e à tese defendida neste trabalho, sobre regressão social dos
Estados Unidos. Nesses dois casos, cumpre salientar, política social e tributação, mesmo
no período de afluência dos anos dourados, a experiência dos Estados Unidos foi uma das
mais modestas entre os países desenvolvidos em termos de promoção de maior igualdade.
Defende-se, neste trabalho, a tese de que na era da globalização americana, os
Estados Unidos viveram um período de regressão social, deixando de ser aquele país que
deu concretude à expressão “sonho americano”. Não restará dúvida de que um longo
processo de deterioração do padrão de vida e, consequentemente, rebaixamento das
expectativas de vida, tem afetado a população dos Estados Unidos. O sonho americano
terminou.
26

Capítulo 01 - A sociedade afluente e o desenvolvimento do capitalismo


americano

Introdução

Na obra “A sociedade afluente”, John Kenneth Galbraith lembra que a história da


existência humana é a história da pobreza, da privação e da austeridade. Numa sociedade
em que a pobreza era a sorte normal de qualquer pessoa, não se imaginava uma outra
maneira de viver, pois, na melhor das hipóteses, a pobreza seria apenas temporariamente
substituída pela privação. Foi nesse contexto de privação, cumpre salientar, em que foram
forjadas as ideias que regem as intepretações da existência humana, até os dias atuais.
Além disso, foi somente nos tempos modernos, e para uma pequena parcela de pessoas,
que a fartura e o bem-estar puderam se tornar uma realidade. Os Estados Unidos, em
função do dinamismo de seu desenvolvimento capitalista, foi uma dessas exceções, onde
o progresso material aumentou a olhos vistos, a insegurança econômica diminuiu ao
longo do tempo, e a população pode desfrutar de um padrão de vida cada vez melhor.24
As ideias criadas para interpretar e reger o comportamento humano naqueles
tempos de escassez, de privação e de fome não se adequavam ao capitalismo moderno
dos Estados Unidos, onde a pobreza não era um fato onipresente, a miséria diminuía e o
cidadão passava a ter acesso à bens e serviços inacessíveis até para mais os ricos de
séculos atrás. É justamente ao fazer esse esforço de desconstrução do “saber
convencional”, denunciando o caráter arcaico do conhecimento econômico dominante,
que Galbraith ilustra o processo de afluência social vivido pela sociedade norte-
americana. Uma nação que desenvolveu um capitalismo dinâmico e próspero, criando as
bases para uma melhoria progressiva e substancial da qualidade de vida de sua população.
25

Ao tratar do cenário vivido pelos E.U.A após a Segunda Grande Guerra Mundial,
Galbraith diz que em poucos lugares o interesse pela desigualdade diminuiu tanto como
nos Estados Unidos. Ainda que, nos círculos mais conservadores e liberais, a
desigualdade ainda possua um caráter sagrado, desempenhando um papel mais ritualístico
do que tudo, a sua relevância na consciência coletiva decaiu significativamente ao longo
do tempo. Essa irrelevância do tema “desigualdade” no debate público, contudo, não pode
ser atribuída a uma vitória da igualdade. A desigualdade nos Estados Unidos, em 1970,

24
GALBRAITH, J. K. op. cit. 1987.
25
ibidem.
27

ainda era um problema. Esse desinteresse pela desigualdade vem, em primeiro lugar, pelo
fato de que, naquele momento, ela estava estacionada: a desigualdade não havia se
tornado violentamente pior, como sugeriam algumas previsões marxistas. Em segundo
lugar, o poder dos ricos e das grandes empresas parecia ter sido diluído, na medida em
que homens como os Rockefellers tiveram sua relevância pública obliterada pelo
crescimento do prestígio detido pelo governo norte-americano. Os ricos ainda eram ricos,
mas o seu poder político não era o mesmo de antes: “O poder que outrora era irmanado
com a riqueza deteriorou-se em sua própria essência”. 26
A segurança econômica e o crescimento da renda dos pobres encarregaram-se, em
parte, de diminuir o número de integrantes da classe servil. Ademais, o a produção em
massa de bens de consumo permitiu que a distinção via consumo se tornasse menos
impactante: o automóvel, na era da produção em massa, perdeu a sua áurea de
singularidade. Milhares de minúsculos quartos de apartamentos e hotéis em Palm Beach
popularizaram um local que antes era frequentado somente pelos que possuíam uma casa
suntuosa no local. A exibição do consumo, antes restrita a uma porção de bilionários que
conheciam uns aos outros, agora era ofuscada pela fabricação em massa, permitindo que
até os cidadãos mais afluentes pudessem também aproveitar os bens de consumo mais
modernos. Diamantes que antes eram usados pelos que comandavam a sociedade em
tempos passados agora eram vistos não somente nas atrizes famosas, mas também nas
prostitutas mais talentosas. Algo diferente era visto no Oriente Médio e na América
Latina, lugares em que a exibição ostentosa, a opulência do consumo, ainda era
empregada e praticada pelos ricos. Isso é compreensível, pois nesses locais a maioria da
população, pobre e privada até dos serviços essenciais mais básicos, não conseguia
adquirir os bens de consumo que simbolizavam a riqueza. Essa situação não era mais
encontrada no E.U.A. moderno, onde a população passou a desfrutar de um padrão de
vida cada vez mais elevado, recheado de bens de consumo antes restritos a uma ínfima
parcela da população. 27
O desenvolvimento do capitalismo norte-americano também mitigou a
insegurança econômica que regia o destino dos homens. Houve, principalmente a partir
da década de 1930, um esforço em direcionar fundos públicos para a assistência social,
que serviriam de proteção econômica aos cidadãos. Nesse conjunto de medidas que
transformou a vida da população há o seguro-desemprego, a aposentadoria por idade e as

26
Ibidem. p. 74.
27
Ibidem. p. 76.
28

pensões. Para os produtores rurais, os subsídios e a fixação de preços garantiram uma


segurança mínima para a sua produção, que sofria com a sazonalidade de preços. Os
sindicatos, por sua vez, expandiram as suas atividades, a sua base de representação e
conseguiram mais terreno de negociação para conquistar mais garantias à classe
trabalhadora, como as proteções contra a demissão ou o despedimento sem justa causa.
Essas, nota Galbraith, foram medidas microeconômicas voltadas à proteção do
trabalhador e da população mais vulnerável contra as adversidades econômicas, e foram
complementares a um esforço muito mais amplo. 28
A redução da insegurança econômica, para mais, contou com processos mais
amplos, que sustentaram a demanda agregada, garantindo o escoamento da produção e a
manutenção da geração do emprego e da renda. A redução da insegurança econômica por
meio de políticas macroeconômicas foi um elemento fundamental para abrandar os ciclos
econômicos, as oscilações na demanda, e, de maneira geral, as crises. Assim, foi possível
garantir a estabilização da atividade econômica de modo que a força de trabalho estivesse,
em grande medida, empregada e ocupada no crescimento da produção. À época, as
políticas de estabilização foram vistas como um fim em si mesmas. Todavia, o
distanciamento histórico favorece a interpretação de que essas medidas integraram um
conjunto de políticas mais amplas, que, juntas, mitigaram a insegurança econômica que
sempre acompanhou a população. Extinguiu-se a ideia de que era preciso, ou benéfico,
deixar as crises econômicas acontecerem e seguirem o seu curso. 29
Em especial, foi na década de 1930 que que se assistiu a elaboração e a
implementação das medidas que aumentaram a segurança econômica no capitalismo
moderno dos Estados Unidos. Conservadores, sempre alarmados com os efeitos que a
segurança econômica pode produzir sobre a competitividade; e liberais, contagiados pela
“magia política” trazida junto do aumento da segurança, embarcaram nessa empreitada.
Os perigos econômicos que envolviam a vida do trabalhador, como o desemprego, a
fome, a insegurança, a falta de moradia, a falta de saúde e o envelhecimento na miséria,
por exemplo, faziam da vida um processo muito arriscado, concluiu-se. Era necessária a
criação de um espectro de políticas públicas que amparassem o cidadão e o protegessem
de ser “dilacerado pela máquina social” a que ele servia30.

28
Ibidem..
29
Ibidem. pp. 86-87
30
Ibidem. p. 88.
29

Galbraith é preciso: as antigas preocupações que afligiam a vida econômica, a


pobreza, a insegurança, o desemprego e a fome foram sendo gradualmente substituídas
pela preocupação com a produtividade e a produção, o que foi um resultado da
progressiva afluência social que acompanhava a população norte-americana. O
crescimento da produtividade e da produção se transformou no elemento capaz de
distensionar os conflitos sociais, ao mesmo tempo em que prevenia a ocorrência das
privações na vida moderna. A produção tomou o centro das preocupações, antes voltadas
à temas como a desigualdade e à insegurança. 31
Na medida em que a afluência social se tornou a regra, o consumo pôde se
distanciar das necessidades mais imediatas do homem: do abrigo contra o frio, a sede e a
fome, o consumo se deslocou para necessidades supérfluas. Nas palavras de Galbraith:
“À medida em que uma sociedade vai se tornando cada vez mais afluente, as necessidades
passam cada vez mais a ser criadas pelo processo através do qual são satisfeitas”. O
crescimento do consumo passa a depender da própria produção, da criação de
necessidades e da emulação do consumo. Nos Estados Unidos da modernidade, a
produção antecede a necessidade, pois esta última está sendo cuidadosamente moldada
pela propaganda, pelo marketing e por uma indústria que manipula discretamente os
desejos da população. As expectativas seguem crescendo na medida em as necessidades
vão sendo preenchidas. O crescimento da produção deixa de representar,
obrigatoriamente, uma melhora no bem-estar. É possível que o incremento da produção
resulte apenas numa criação mais acelerada de novas necessidades. 32
O nascimento e o desenvolvimento dessa sociedade afluente nos Estados Unidos,
contudo, não obliterou todos os problemas sociais. Se a produção era realizada em
abundância, não se pode dizer o mesmo dos serviços prestados pelo governo. Não se trata
de algo subjetivo, diz Galbraith: em Nova York, por exemplo, a precariedade dos serviços
municipais e metropolitanos era notória. Escolas antigas, lotadas, uma força policial
aquém do necessário e a imundície das ruas era algo conhecido por todos. O transporte,
por sua vez, nojento e superlotado. O contraste entre a abundância de bens privados e a
agrura dos serviços fornecidos pelo governo era facilmente observada pela família que,
ao transitar pela cidade em seu carro novo, com ar-condicionado, direção hidráulica e
freios a disco, percorria uma cidade num estado lastimável: ruas mal pavimentadas, lixo
amontado e edifícios arruinados faziam parte da paisagem urbana, quase que

31
Ibidem. p. 97.
32
Ibidem. p. 130.
30

completamente coberta por anúncios de novos produtos. O piquenique da família,


realizado com uma geladeira portátil do último modelo, acontecia no parque mal-cuidado,
ao lado do rio poluído. O acampamento acontece numa barraca moderna, de material
sinteco, onde a família se deita sobre um chão fedido e imundo. 33
Essa é a discrepância que estava no cotidiano das famílias dos Estados Unidos.
Uma sociedade afluente, em que as necessidades mais imediatas da população foram
preenchidas, mas, por outro lado, uma série de outras falsas necessidades, criadas pela
indústria, se faziam presentes e igualmente urgentes, como todas as outras. Uma
sociedade imersa na abundância dos bens de consumo privados, mas afogada na
precariedade dos serviços públicos. Esses são os contrastes descritos por Galbraith, que
tinha os Estados Unidos em mente ao escrever “A sociedade afluente”. Uma nação que
conseguiu desenvolver o seu capitalismo e pôde aumentar, progressivamente, a qualidade
de vida de sua população. Por outro lado, não foi possível resolver alguns problemas
básicos da sociedade. A maré subindo elevou o padrão de vida da população em geral,
mas houve avanços insuficientes para garantir um equilíbrio social mais adequado. Los
Angeles, nos tempos modernos, é um exemplo dessa “desigualdade”: de um lado,
automóveis, fábricas gigantescas, refinarias de petróleo e uma produção pujante; de outro
lado, a inexistência de um sistema municipal de coleta de lixo, junto de um ambiente
extremamente poluído. 34
Uma parte importante da discussão realizada aqui nesta introdução, como se viu,
está relacionada à afluência da sociedade norte-americana: a mitigação da insegurança
econômica, a diminuição da pobreza e o crescimento da produção de bens. Contudo, há
de se enfatizar também as transformações do capitalismo norte-americano que deram
origem – e viabilizaram – todas essas mudanças na sociedade. Transformações que, em
larga medida, estiveram relacionadas ao “Novo Estado Industrial”, também descrito
precisamente por John Kenneth Galbraith.
Este “novo estado industrial” descrito por Galbraith compreende uma série de
mudanças no padrão de regulação e na organização da economia moderna, principalmente
nos Estados Unidos, país que serve de inspiração para o autor escrever o seu livro. No
campo da produção, Galbraith destaca o uso crescente da inovação tecnológica: a
aplicação das máquinas no processo produtivo continuou substituindo a mão de obra do
operariado, e tende ao aprofundamento dessa substituição. Quanto às empresas, o autor

33
Ibidem.
34
Ibidem.
31

joga luz para os processos de centralização da produção: se, antigamente, havia apenas
algumas empresas que exigiam escalas de produção gigantes, agora até os serviços antes
oferecidos pelas pequenas empresas passaram a ser incorporados pela grande indústria. É
nas maiores firmas que está o grosso dos assalariados, e é pelas grandes empresas que
passa a maior parte dos fluxos comerciais. A relação entre o Estado e a economia também
foi modificada: os serviços federais cresceram, representando uma fatia maior da
atividade econômica.35
A atuação do Estado, dentro de amplo escopo de política públicas “keynesianas”,
assegurava uma demanda minimamente estável para a produção social. Se, desde os
primórdios do capitalismo até a segunda guerra mundial, a regra dos mercados era a da
oscilação da atividade produtiva, os ciclos crescimento, e, posteriormente, retração e
recessão econômica, o “novo estado industrial” fez diferente. Nas curtas décadas que se
seguiram logo após a Segunda Guerra Mundial, não foram registradas quedas
significativas no desempenho econômico dos Estados Unidos. 36
Shonfield também destaca que foi justamente entre a década de 1950 e boa parte
dos anos de 1960 que os países industrializados desfrutaram de um longo período de
prosperidade econômica e social. O crescimento da economia, em primeiro lugar, foi mais
acelerado do que no passado. As crises, que foram raras, não afetaram a sociedade como
em outros tempos, na medida em que os países viveram anos seguidos de crescimento
econômico sem grandes interrupções. Em segundo lugar, o produto total da sociedade
aumentou de forma rápida durante esses anos. O caso dos Estados Unidos, cumpre
acrescentar, é um caso excepcional, haja visto o seu crescimento econômico nessa época.
Em terceiro lugar, os benefícios e os frutos econômicos gerados nesse período foram
amplamente distribuídos: o emprego e a renda cresceram de forma conjunta, a
desigualdade diminuiu e os níveis de exclusão social caíram progressivamente. Essas três
características do capitalismo moderno norte-americano, portanto, fazem dessa época um
período excepcional: houve crescimento econômico, aumento dos bens produzidos e
redução das desigualdades. 37
Esse esforço de redução da exclusão social é bem representado pelas políticas
deflagadas durante a presidência de Lyndon Johnson, quando foi realizado um amplo
esforço para garantir o bem-estar de todos os cidadãos. Sob o slogan de uma “grande

35
GALBRAITH, J. K. O novo estado industrial. São Paulo/SP. Ed: Nova cultural. 1988. p. 14.
36
Ibidem.
37
SHONFIELD, A. Capitalismo Moderno. Zahar, Rio de Janeiro, 1964
32

sociedade”, a “Great Society”, procurou-se ampliar o rol de oportunidades para os


americanos desfavorecidos, mitigar as desvantagens financeiras, e, de maneira geral,
combater os efeitos deletérios da pobreza e da privação que ainda subsistiam para muitos
americanos. Até meados dos anos 1970, com um aumento expressivo da cobertura dos
programas sociais e auxílio governamentais, a assistência pública estava chegando para
praticamente todos aqueles mal remunerados, pobres, cegos, portadores de necessidades
especiais e famílias chefiadas por mães solteiras. Os programas de saúde tratavam dos
indigentes e os programas de assistência alimentar se expandiram rapidamente.
Evidentemente, esse esforço também teve os seus problemas. Entretanto, o próprio
presidente Johnson advertiu: “a Grande Sociedade não é um porto seguro, um lugar de
descanso, um objetivo final ou um trabalho pronto. É um desafio constantemente
renovado (...)”38
O que faz desses anos um período tão extraordinário, pondera Shonfiled, é
justamente a quantidade de fatores que corroboraram para, de um lado, ampliar o controle
sobre o sistema econômico, e, de outro lado, para garantir e assegurar um nível razoável
de demanda numa economia que produz cada vez mais, e de forma cada vez mais
acelerada. Assim como Galbraith destaca para o “Novo Estado Industrial”, Shonfiled
também faz um apontamento similar ao descrever o “Capitalismo Moderno”: o Estado
teve que, sobretudo, desenvolver meios para intervir na economia; em segundo lugar, a
administração pública teve que aprender a manejar habilidosamente esses instrumentos
para manter e canalizar o ritmo das atividades produtivas conforme fins pré-estabelecidos.
Nos Estados Unidos, em 1961, depois de oito anos de mandatos presidenciais
republicanos, os democratas foram eleitos, passando a concentrar toda a atenção e esforço
para atingir o pleno emprego. Nessa empreitada pelo incentivo à produção, vale
acrescentar, os Estados Unidos miraram inclusive numa experiência histórica particular:
a Europa continental, que agregava elementos como pleno emprego, elevada demanda
pela produção industrial e uma boa capacidade de competir no plano internacional. 39
Todas essas transformações da grande empresa e da relação do Estado com a
economia são sintomas de uma mudança mais ampla. É preciso, portanto, analisá-las em
conjunto, e não isoladamente. Galbraith denomina essa grande mudança de sistema de
planejamento que tomou conta das sociedades industriais modernas. Ou, mais

38
LEVITAN, S. A; TAGGART, R. The Great Sociery did succeed. In: Political Science Quarterly, vol 91. n. 4.
(Inverno, 1976-1977), pp. 601-618.
39
SHONFIELD, A. Op. cit. 1964. p. 107
33

especificamente, de “novo Estados Industrial”. Um sistema que produz massas crescentes


de bens e serviços, que se adapta às necessidades do homem, mas cujos homens também
se veem impelidos a adaptarem-se a ele. Os fluxos de investimento, o uso da tecnologia
e a massa de renda não são mais elementos dispersos, organizados pela anarquia do
mercado. Da criação do Novo Estado Industrial em diante, todos esses fatores passam a
ser alvo de um cuidadoso planejamento: são elementos sujeitos a um controle público.
Esse controle assegura que os homens e as mulheres trabalharão sem economizar energia,
na medida em que a sociedade passa a ser avaliada pela quantidade de bens que ela
consegue produzir. O trabalho do homem se torna ainda mais distante de atender somente
as suas necessidades mais imediatas, pois a disciplina econômica impõe um ritmo de
produção mais acelerado. A realização da sociedade passou a ser mensurada pelo aumento
constante do Produto Interno Bruto.40
Há de se frisar, todavia, que essa sociedade mais planejada, afluente e subordinada
a um moderno sistema de planejamento geral não foi capaz de eliminar a pobreza,
principalmente nos Estados Unidos. O que Galbraith destaca, todavia, é que a pobreza
que não foi eliminada é aquela que não foi integrada a este Novo Estado Industrial.
Aqueles que não foram incorporados ao sistema de planejamento, seja porque não foram
capazes de se integrar ao sistema de produção, ou porque não foram atraídos por suas
engrenagens, formam a massa da pobreza que ainda restou. Isso, contudo, aponta também
para um limite claro da nova sociedade moderna que se formava nos Estados Unidos. De
todo modo, houve uma redução significativa da pobreza nos E.U.A, além de uma
diminuição considerável do trabalho manual realizado ao longo do tempo. Essas
conquistar, vale acrescentar, são frequentemente subestimadas por aqueles que nunca
vivenciaram o “trabalho duro e tedioso” durante as suas vidas.41
Todas essas transformações descritas por Galbraith a partir do capitalismo
moderno podem ser observadas, em maior ou menor grau, nos principais autores que se
debruçaram sobre a sociedade norte-americana. Max Weber, Werner Sombart, Thorstein
Veblen e Wright Mills, por exemplo, são autores que, a despeito da amplitude de suas
elaborações teóricas sobre a sociedade, as classes e os estratos sociais, estiveram em
algum grau inspirados pelo contexto socioeconômico dos Estados Unidos, em diferentes
momentos de sua história. Em outras palavras: as transformações da estrutura social

40
GALBRAITH, J. K. Op. Cit. 1988.
41
Ibidem.p. 233.
34

norte-americana podem ser explicadas através da lente de análise de cada um desses


autores mencionados.
Assim, Max Weber, Veblen e Wright Mills, autores reunidos neste capítulo,
trazem análises que retratam a complexidade social de uma sociedade já mergulhada nas
profundas transformações do capitalismo moderno. Não é à toa que Weber, por exemplo,
inspirado em parte pelo que ele observou da estrutura social norte-americana,
desenvolveu novas categorias para descrever a classe trabalhadora, apresentando uma
definição de “classe” muito mais pluralista do que Marx propôs, ainda no século XIX.
Weber, impactado pelo que testemunhou nos Estados Unidos, observa a sociedade através
de uma lente que realça as tendências à racionalização social, em suas várias dimensões.
Ao investigar um mundo radicalmente diferente do que Marx presenciou, o autor não
demonstra otimismo algum pelas saídas revolucionárias, e não reconhece a possibilidade
de que uma revolução possa eliminar a sociedade de classes. Pelo contrário, Weber
acredita em outros modos de estratificação para além das diferenças com relação à posse
dos meios de produção, uma teoria elaborada para descrever uma sociedade
crescentemente complexa, com diferenças que vão muito além da classe social nos termos
marxistas. Uma sociedade moderna, marcada por fenômenos como o surgimento das
novas classes médias e a melhora no padrão de vida dos trabalhadores. Weber traz uma
definição mais pluralista do conceito de classe, adaptada aos novos tempos do
capitalismo, que muito difere da rigidez social e das condições extremas observadas por
Marx.
Thorstein Veblen, por sua vez, enxerga uma sociedade norte-americana que muito
difere do otimismo e do triunfo da igualdade retratadas pelos primeiros intérpretes da
estrutura social norte-americana, como os federalistas e Tocqueville. Veblen descreve
uma sociedade fundada no consumismo exacerbado e com uma ânsia pela diferenciação
social a todo custo. Trata-se de marcas da modernização social numa sociedade instituída
sobre o poder do dinheiro e sem as distinções sociais que se assentavam na realeza
aristocrática. Veblen joga luz sobre a cultura pecuniária que ganhou predominância sobre
a consciência coletiva norte-americana no capitalismo moderno. Ao retratar os hábitos e
o comportamento da classe ociosa, que se apoia no consumo conspícuo para suas
demonstrações de poder, opulência e riqueza, o autor retrata um ângulo interessante da
sociedade norte-americana. Veblen, nesse sentido, descreve não somente uma sociedade
profundamente influenciada pelo darwinismo social, mas, por outro lado, o autor elabora
também uma teoria da sociedade em que a diferenciação social está intimamente ligada
35

ao padrão de vida, às demonstrações de poder via consumo e ao prestígio social adquirido


na sociedade.
Wright Mills, por fim, debruçado sobre a sociedade norte-americana, desvela o
surgimento de uma nova classe social, a “nova classe média”, que se apoia em toda a
gama de ocupações de nível médio que surgem e proliferam no capitalismo moderno.
Mills, que busca suas referências teóricas em Weber, descreve o estilo de vida da nova
classe média, e, neste processo, retrata um padrão de vida historicamente constituído, que
se reproduzirá em outras as nações que vivenciarem as transformações socioeconômicas
causadas pelo crescimento da indústria, pela proliferação dos serviços e pela dilatação
dos aparatos de controle e regulação do Estado. São os colarinhos brancos. Uma
concepção pluralista de classe é que o Mills utiliza para retratar esse novo grupo social42.
Olhando também para os Estados Unidos, o autor faz também uma interessante reflexão
sobre a centralização do controle econômico e social, em sua obra, “A elite do poder43”,
já enxergando os desdobramentos futuros de algumas tendências de sua época. Em sua
obra, Mills descreve não somente o surgimento de uma nova classe média, mas também
relata o declínio da elite norte-americana, e a transformação dos E.U.A. numa sociedade
de massas.
Trata-se, portanto, de um conjunto de autores que interpretaram, descreveram e
apontaram os sentidos das transformações sociais que puderam ser verificadas nos E.U.A,
sob a égide do capitalismo moderno. Ainda que cada um dos autores apresentados neste
tópico traga um olhar sobre um problema específico, com uma explicação fundada numa
vertente teórica particular, são todas interpretações de fenômenos sociais observados, em
algum grau, nos E.U.A, ao longo do desenvolvimento do capitalismo moderno. Em todas
essas investigações, estão dispersas as características de uma sociedade profundamente
transformada pelo desenvolvimento das forças produtivas, pelos seus desdobramentos no
mercado de trabalho, e, também, pelas mudanças nos padrões de regulação social e
econômicas dos Estados Unidos.

42
MILLS, W. The sociology of stratification. In: HOROWITZ, I. L. (Org.) Politics & People – The collected
essays of C. Wright Mills. New York/NY. Ed: Oxford University Press. 1963.
43
MILLS, W. The power elite. New York/NY. Ed: Oxford Press. 1956
36

1.1. Max Weber: a estrutura social no capitalismo moderno dos E.U.A.

Max Weber foi convidado a visitar os Estados Unidos em 1904, país que lhe serviu
de inspiração para o desenvolvimento de comparações entre diferentes sociedades, bem
como lhe incentivou a tecer novas conclusões em seus trabalhos. Na sua grande obra
publicada postumamente, “Economia e Sociedade”, há diversas referências aos E.U.A, e
o seu capítulo sobre as classes, o status e os partidos, em particular, se refere diretamente
à vivência e às observações que o autor teve em solo norte-americano.44
Se, nas sociedades europeias, a “classe” ainda era uma característica marcante e
influente, nos E.U.A a sociedade era menos marcada pelas clivagens de classe. O que
Weber nota, cumpre salientar, é que a desigualdade nos E.U.A se expressava mais pelos
grupos de status, e menos pelas definições de classe estritamente marxistas, tal como essas
últimas vinham sendo desenvolvidas até então. Até a ênfase nos partidos que o autor dá
em seus escritos, ademais, está relacionada a sua observação da “máquina política” nas
maiores cidades dos E.U.A. O mesmo pode ser dito com relação às ideias de Weber sobre
a burocratização, encontradas ao longo de sua obra. Foi na América que Weber conseguiu
vislumbrar o futuro.45
Weber, nascido no ano de 1864, integrou uma geração que viu o surgimento da
socialdemocracia como uma consequência da oposição entre os interesses de classe na
sociedade capitalista, assim como de uma tendência que as classes têm de se organizarem
em prol de seus interesses. Evidentemente, o marxismo teve tinha grande influência entre
os que integraram essa geração, pois foi Marx quem chamou atenção para o fato de que
o conflito de classe é uma característica central da sociedade capitalista. A teoria de Marx,
contudo, não traz uma resolução fácil para esse conflito. Essa geração, ao rejeitar as saídas
socialistas, enxergou uma oportunidade de estabelecer as condições para a regulação e a
subordinação da luta de classes aos objetivos éticos e políticos da nação. Apoiando a
liberalização das políticas estatais, a diminuição das restrições sobre o capital e a
regulação do sindicalismo, procuraram a conciliação dos conflitos de classe com um
consenso político e ético, que é a base do Estado liberal. Em larga medida, estavam
preocupados com os problemas e os limites do livre mercado, e, simultaneamente,
olhando para natureza e aos limites do Estado liberal. É justo dizer que Max Weber foi

44
HESS, A. Concepts of social stratification – european and american models. Nova Ioque/NY. Ed:
Palgrave. 2001. p. 33.
45
Ibidem. p. 33.
37

representantes mais destacados dessa geração. 46


À época de Weber, as teorias marxistas sobre o capitalismo e sobre as classes
sociais eram criticadas por todos os lados. Dizia-se, por exemplo, que a análise social
marxista não sobreviveria a uma análise mais rigorosa dos fatos, haja visto o seu caráter
demasiadamente simplista e restrito A sociedade alemã, até o final do século XIX, não se
encontrava polarizada em duas classes sociais, e a classe trabalhadora não estava
pauperizada. O que se passava na Alemanha, de fato, era uma melhora progressiva no
padrão de vida da população, pari passu ao crescimento econômico e ao fortalecimento
do ambiente nacionalista que precedeu a primeira grande guerra. Os trabalhadores
urbanos, com suas diferentes qualificações e fundos culturais distintos, escancaravam
mais a existência de frações de classe, e menos a possibilidade de uma unificação do
proletariado empobrecido. São contrastes sociais, portanto, que urgiam pela consideração
de outros aspectos das distinções de classe, para além da posse dos meios de produção,
envolvendo diferenças de status, prestígio e outras variáveis que integram a estratificação
social, especialmente nos Estados Unidos.47
Weber não era um radical, mas um liberal com aspirações nacionais. Marx, por
sua vez, vivenciou somente os estágios iniciais do capitalismo, enquanto Weber
conseguiu observar o capitalismo numa fase mais desenvolvida, testemunhando, mesmo
que à distância, acontecimentos como a Primeira Grande Guerra e a Revolução Russa.
Por Weber ter observado esses acontecimentos, o autor é menos otimista com relação ao
futuro da humanidade - algo que pode ajudar a explicar sua abordagem mais realista
acerca do desenvolvimento social. 48
O fracasso da interpretação marxista em explicar as transformações sociais no
início do século XX fortaleceram os movimentos políticos “reformistas”, que buscavam
uma rota pacífica em direção ao socialismo, sem o envolvimento do conflito aberto entre
as classes. Os adeptos das novas vertentes teóricas, além de prover as bases para o que se
poderia chamar de uma “sociologia da estratificação”, procuraram solucionar certas
deficiências analíticas do marxismo, tais como: a) determinadas diferenças de classe são
ligadas à dimensão cultural e se manifestam por meio de um estilo de vida; b) a o
desenvolvimento do capitalismo deu origem a uma nova classe média; c) é preciso

46
CLARKE, S. Marx, Marginalism and Modern Sociology – from Adam Smith to Max Weber. London. Ed:
Macmillan. 1982. p. 246
47
TURNER, B. S. On the origins of the sociology of social class – introduction. In: TURNER, B. S (Org.).
Readings of the sociology of social class. London. Routledge/Thoemmes Press. 1998. p. 7.
48
HESS, A. Op. cit. 2001. p. 26.
38

diferenciar os proprietários, dos gerentes e dos administradores; e d) a instituição e o


crescimento do estado de bem estar social e o sufrágio universal suavizaram alguns efeitos
negativos do capitalismo. 49
Weber, portanto, descreve esses novos elementos que passaram a ser relevantes
para a diferenciação social. A luta de classes, claro, ainda tinha a sua importância, mas
era necessário enriquecer o arcabouço teórico da sociologia com novos conceitos e
categorias que pudessem dar conta dessa nova situação, como o status e os partidos. Se a
classe, na definição marxista, dizia respeito aos meios de produção, esses outros
elementos, como o status, estavam relacionados ao estilo de vida, à ocupação, à honra, a
todos os outros aspectos capazes de estabelecer um enorme espectro de distinção entre os
indivíduos. Elementos, aliás, que por vezes são de difícil mensuração.50
O fenômeno das “novas classes médias”, por exemplo, que engloba a
multiplicidade ocupacional criada a partir do desenvolvimento econômico nos quadros
do capitalismo moderno, era um indício da complexidade social encontrada nas
sociedades industriais. Para descrever essa sociedade moderna, Weber desenvolve os
conceitos de status e prestígio social, apoiados nas características da ocupação, do
consumo e do estilo de vida, melhor retratando a estratificação social de sua época. Assim,
o autor pinta uma visão alternativa às teses marxistas, demonstrando outros modos de
estratificação que podem coexistir nas sociedades modernas. Por um lado, Weber
demonstra que o status e prestígio também merecem atenção, e, por outro lado, o autor
elabora uma forma de classificar os indivíduos, de acordo com outros fatores, que não
somente a posse dos meios de produção. 51
Segundo Weber, o ponto que marca a diferença central entre o capitalismo
moderno e as formas de organização social e econômicas do passado não está relacionado
ao caráter de classe do capitalismo. O ponto de ruptura fundamental repousa no caráter
racionalizado da grande empresa produtiva capitalista, um aspecto, aliás, que pode existir
também no socialismo. A expropriação do trabalhador e os seus meios de produção,
portanto, faz parte de um processo amplo, mais ligado às tendências gerais que seguirão
existindo, e menos ligado a uma característica peculiar de um modo de produção

49
TURNER, B. S. Op. cit. 1998. p. 7, 8.
50
HESS, A. Concepts of social stratification – european and american models. Nova Ioque/NY. Ed:
Palgrave. 2001. p. 29.
51
BOTTOMORE, T. B. As classes na sociedade moderna. Rio de Janeiro/RJ. Ed: Zahar. 1968. pp. 24, 25.
39

específico. 52
Sobre o método de investigação do autor, algumas palavras: para Weber, apenas
uma parte da realidade histórica pode ser compreendida pelo pesquisador. Assim, uma
observação a posteriori de eventos históricos exige a utilização de instrumentos de análise
que auxiliem a caracterizar os fenômenos observados. É justamente aqui que entram os
conceitos “puros” e os “tipos ideais” de Weber, que são construções mentais para a
caracterização de padrões de comportamento sociais, em que se enfatiza determinados
elementos, abstraindo-se de alguns outros. Isso, com o intuito de facilitar a descrição e o
entendimento da realidade observada. Em outras palavras, Weber elabora regras formais
para alcançar um conhecimento condicional da realidade estudada. O autor isola alguns
objetivos e os elementos principais que o auxiliam a interpretar um certo fenômeno
social.53
Weber emprega três conceitos fundamentais para descrever sociedade: a classe, o
status e os partidos, elaborando uma nova maneira de retratar a distinção de classe, ao
trazer novas dimensões para o estudo da diferenciação social. Esses conceitos, cumpre
ressaltar, serviram de inspiração para teorias futuras que solidificariam o que se
usualmente passou a ser denominado de corrente “weberiana”. Essa tríade conceitual, no
pensamento do autor, representa três esferas relativamente autônomas, capazes de retratar
a desigualdade em suas várias dimensões54
Assim, Weber, utiliza conceitos que vão além da propriedade dos meios de
produção para qualificar a classe trabalhadora em diversos segmentos, conforme outras
dimensões da desigualdade. Trata-se de um exercício que a teoria de Marx, em função de
suas limitações já explicitadas, não pode realizar. Por isso, Weber consegue delimitar
outras classes sociais, para além da dicotomia marxista mais simplista: os trabalhadores,
a pequena burguesia, a intelligentsia (sem propriedade), e uma série de outras classes,
privilegiadas ou não pela propriedade e pela educação. Essa bateria de elementos
empregados na sociologia weberiana, portanto, viabilizou uma nova série estudos
históricos e comparativos, nos quais a propriedade dos meios de produção não são os
únicos, e nem os mais importantes elementos que determinam a estratificação social. A

52
GIDDENS, A. A Estrutura de Classes das Sociedades Avançadas. Rio de Janeiro/RJ. Ed. Zahar Editores.
1975. p. 57.
53
HIRANO, S. Castas, estamentos e classes sociais – introdução ao pensamento de Marx e Weber. São
Paulo/SP. Ed: Alfa-Omega. 1975. p. 17, 18. Ver também FERNANDES, F. Fundamentos Empíricos da
explicação sociológica. São Paulo/SP. Ed: Cia. Nacional. 1967.
54
ESTANQUE, E. Classe média e lutas sociais – ensaio sobre sociedade e trabalho em Portugal e no Brasil.
Campinas/SP. Ed: UNICAMP. 2015. p. 35.
40

partir de Weber, os estudos da estrutura social passaram a se dividir entre o materialismo


histórico de Marx e a sociologia de Weber.55
Para Weber a classe é definida conforme os seguintes elementos: 1) pelo destino
em comum que os indivíduos possuem em suas chances de vida; 2) pela renda e os
interesses econômicos em comum que os indivíduos têm; e 3) pela posição que os
indivíduos têm no mercado. Essa posição dos indivíduos no mercado, para mais, está
relacionada ao tipo de serviço oferecido no mercado de trabalho, assim como pela posse
da propriedade (dos meios de produção), sendo este último elemento crucial para
determinar as chances individuais no mercado. A “classe”, para Weber, é uma categoria
econômica fundamentalmente ligada ao mercado, mais especificamente à posição
individual no mercado de trabalho, e não somente das relações de produção56.
Para mais, em Weber a o conceito de “classe” é compreendido como um grupo de
pessoas que possui um conjunto de oportunidades, condições, experiências de vida e
possibilidades de aquisição de bens e poder em comum. São pessoas que compartilham
situações e perspectivas de vida semelhantes. O elemento mais importante para a
distinção da visão de Weber da análise marxista, contudo, reside nas maiores
possibilidades de diferenciação social, para além dos conceitos de classe trabalhadora e
classe capitalista. Pode-se distinguir o tipo de propriedade empregada para o lucro, ou até
o tipo de serviço que é oferecido pelo trabalhador no mercado. Aqueles que detém a
propriedade dos meios de produção se diferenciam de acordo com a sua capacidade de
consumo, liquidez de seus ativos e ou ainda pelo controle da produção. Os trabalhadores,
que não possuem a propriedade, por sua vez, ofertam uma enorme gama de serviços, de
naturezas diversas. O tipo de oportunidade que o indivíduo tem no mercado é, para
Weber, o elemento mais importante para a classificação social.
Weber corrobora com a noção de classe determinada pelas relações do mercado e
pela da estrutura de propriedade do sistema capitalista. Assim, o autor reconhece o mérito
da percepção marxista sobre a estrutura de classes. Todavia, Weber acrescenta elementos
“subjetivos” para a investigação da estrutura social: estilos de vida, status e prestígio são
aspectos que devem ser levados em consideração para uma melhor descrição da
estratificação social no capitalismo moderno57. Trata-se de uma metodologia útil, uma

55
TURNER, B. S. Op. cit.. 1998. p. 7, 8.
56
HESS, A. Concepts of social stratification – european and american models. Nova Ioque/NY. Ed:
Palgrave. 2001. p. 28.
57
GERTH, H; MILLS, C. W. Introdução: o homem e sua obra. In: WEBER, M. Ensaios de sociologia. Rio de
Janeiro/RJ. Ed: Zahar Editores. 1971. p. 88.
41

vez que os estratos intermediários, por vezes, têm pouca, ou quase nenhuma semelhança
com os trabalhadores não qualificados. Não é uma coincidência que Mills, ao analisar a
sociedade norte-americana (em “A nova classe média58), usa Weber como o seu marco
teórico principal.59
A sociologia weberiana, nesse sentido, ajuda a explicar parte das transformações
que aconteceram na sociedade norte-americana, principalmente a partir do capitalismo
moderno. A tendência à racionalização das atividades produtivas, verificada no
engrandecimento das atividades produtivas (a grande empresa, o crescimento das escalas
de produção, a centralização e a concentração do capital), é um processo que pôde ser
visto ao longo do desenvolvimento do capitalismo norte-americano. Ao mesmo tempo, a
maior complexidade dos processos produtivos aumentou, em proporção similar, a
necessidade de trabalhadores mais qualificados, ocupados em posições intermediárias,
afastadas do chão de fábrica. Essa parte da classe trabalhadora, para ser adequadamente
retratada pelas ciências sociais, exigia uma amplitude maior do instrumental teórico e
analítico até então empregado, estritamente marxista. Weber, portanto, faz uso de novas
categorias sociológicas, e um conceito mais pluralista de classe, para descrever as
transformações que estavam ocorrendo na época, em parte inspirado pelo que via nos
Estados Unidos. É justamente por esse motivo que este capítulo, voltado a uma descrição
das mudanças na sociedade norte-americana ao longo do capitalismo moderno, traz
Weber como um de seus principais intérpretes. Weber não somente cria conceitos que são
relevantes para melhor retratar a sociedade no capitalismo moderno, mas também é um
autor fundamental para compreender o desenvolvimento do capitalismo e da sociedade
americana.
Por derradeiro, é justo afirmar que a economia política de Weber pode ser
interpretada como um reflexo do mundo e das transformações sociais que transcorreram
aos olhos do autor. A obra de Weber representa, ao seu modo, uma teorização de uma
sociedade crescentemente modernizada, e igualmente complexa. Para tanto, foi
necessário expandir o arsenal de conceitos e categorias até então empregadas para
descrever a sociedade. Esse, é um dos esforços mais relevantes de Weber. Além disso,
Weber foi mais adiante do que os economistas clássicos e a crítica de Marx: suas
observações quanto às tendências à burocratização e à racionalização social são aspectos

58
MILLS, C W. A Nova Classe Média (White Collar). Rio De Janeiro/RJ. Ed. Zahar. 1969.
59
GIDDENS, A. A Estrutura de Classes das Sociedades Avançadas. Rio de Janeiro/RJ. Ed. Zahar Editores.
1975. p. 48.
42

que a análise marxista, demasiadamente focada no eterno desenvolvimento das forças


produtivas, não conseguiu prever60. Isso, vale ressaltar, é especialmente verdade para os
Estados Unidos.

1.2. Thorstein Veblen: o consumo conspícuo nos Estados Unidos

Em “A teoria da classe ociosa”, publicada em 1899, Veblen inicia seu texto


descrevendo a importância que o aspecto econômico possui para a estruturação social. O
autor enfatiza que a instituição da propriedade privada é um marco fundamental para
estabelecer a diferenciação social: onde existir a propriedade privada, o “processo”
econômico irá adquirir o caráter de uma luta entre os homens pela posse dos bens. Se,
num primeiro momento da história, os modos primitivos de produção e a escassez dos
bens dificultavam a acumulação; num segundo momento, com o progressivo
desenvolvimento das forças produtivas, a subsistência deixou de ser um problema, e a
acumulação se tornou uma possibilidade real. A instituição da propriedade privada, o
desenvolvimento das forças produtivas, a progressiva eliminação da escassez e as
mudanças culturais envolvidas nesses processos transformaram as bases de diferenciação
entre os indivíduos. Da força bruta e o manejo das armas, nas sociedades primitivas, as
bases de comparação individual na sociedade moderna se deslocaram para a esfera
econômica: a posse da riqueza se tornou o elemento mais relevante para a estima e a
reputação. As possibilidades de acumulação, com o tempo, se tornaram cada vez maiores,
assim como a propriedade e a riqueza adquiriram maior preponderância para demonstrar
uma posição honrosa na sociedade. A propriedade e a riqueza se transformaram em
marcas e símbolos da eficiência pessoal. 61
O desejo de riqueza, pela sua natureza, é insaciável. Logo, não é possível que tal
“necessidade econômica”, o desejo pela acumulação e pelo enriquecimento, seja
satisfeito: o resultado é uma luta por honorabilidade fundada numa odiosa comparação
de prestígio entre os indivíduos; assim sendo, é impossível uma realização definitiva62.
Em seu tempo, Keynes já advertia: o impulso pela acumulação de dinheiro, que se
assemelha a uma perturbação mental, é um sentimento que remete à infantilidade. No
fundo, o amor pelo dinheiro está intimamente relacionado à insegurança pessoal, na

60
HESS, A. Op. cit. 2001.
61
VEBLEN. T. A Teoria da classe ociosa (Um estudo econômico das instituições). São Paulo. Ed: Livraria
pioneira. 1965.
62
Ibidem. p. 45.
43

medida em que a posse do dinheiro aumenta a tranquilidade individual. O raciocínio


keynesiano, observarão os mais cultos, parte de uma leitura de Freud. 63
A classe ociosa, embora ela já exista desde as sociedades mais primitivas, assume
uma nova significação na sociedade contemporânea, caracterizada pelo que o autor
denomina de “estágio pecuniário”. Nessa fase, a classe ociosa já é isenta de todo o
trabalho útil, pois o esforço produtivo é entendido como indigno daqueles que detém
riqueza. A abstenção do trabalho funciona como um símbolo convencional e
incontestável da riqueza – marca convencional da posição social. Na mesma proporção,
o trabalho útil traz consigo o caráter de uma incumbência indigna, moralmente impossível
para os homens nobres e livres. A riqueza, nesse sentido, aparece aqui também como
uma proxy razoável do estilo de vida, status e prestígio que um indivíduo detém na
sociedade. “O padrão de gastos aceito pela comunidade ou pela classe a que o indivíduo
pertence determina, em grande extensão, o seu padrão de vida.”64
Filho de imigrantes noruegueses com raízes protestantes, Thorstein Veblen foi
criado no campo, em área rural dos Estados Unidos. A sua infância pobre e a sua trajetória
de vida, do interior até lecionar numa das mais prestigiosas instituições de ensino superior
dos E.U.A., fornecem pistas para uma melhor compreensão de sua obra. As influências
durante a sua formação acadêmica, e, principalmente, a sua origem humilde, em contraste
com a riqueza de seus colegas universitários, colaboraram para a formação de suas teorias,
que carregam um profundo ressentimento e criticismo com relação às classes
privilegiadas. Esse contexto ajuda também a entender por que Veblen sempre foi um
estranho nos círculos mais tradicionais da intelectualidade de sua época. 65
Ao se debruçar sobre a obra de Veblen, o leitor deve manter em mente dois pontos
importantes. Primeiramente, é preciso considerar a formação acadêmica e intelectual do
autor, marcada pelo “pragmatismo americano”, menos preocupado com as grandes
questões filosóficas da sociedade, e mais centrado em dar respostas concretas às questões
existentes. Em segundo lugar, Veblen teve uma forte influência do darwinismo social por
meio de seu orientador, na Universidade de Yale. Mesmo sem incorporar as ideias e os
conceitos do evolucionismo social em sua obra, trata-se de uma presença intelectual que
produziu algum reflexo em seus textos, que, felizmente, não carregam a linguagem crua

63
DOSTALER, G. Keynes and the love of money – the Freudian connection. Denver. June 26-29, University
of Colorado Denver. 2009
64
VEBLEN. T. Op. cit. 1965. p. 53, 111.
65
HESS, A. Op. cit. 2001. p. 58, 59.
44

das perspectivas darwinistas mais puritanas. 66


Em segundo lugar, é preciso lembrar que Veblen produziu os seus textos durante
a “Era Dourada” (Gilded age) dos Estados Unidos: um período marcado por drásticas
transformações econômicas e sociais, um acelerado crescimento da produção industrial
e, evidentemente, uma acentuada polarização da sociedade. Trata-se, essencialmente, da
transformação dos Estados Unidos em uma sociedade verdadeiramente capitalista.
Veblen, portanto, escrevia no período em que a América se convertia, de uma nação
predominantemente rural, num país cuja economia se apoiaria na indústria e na produção
em larga escala. Enquanto Tocqueville observava uma sociedade rural, cujas bases eram
a comunidade, os laços religiosos e a criação da república federativa, Veblen presenciava
mudanças radicais na sociedade norte-americana. 67
Séculos se passaram desde que a obra “A riqueza das nações” foi publicada, e,
depois de todo esse todo esse tempo, tem-se a sensação de que os economistas se
debruçaram para investigar todos os aspectos que se pode imaginar da realidade social: a
opulência, a miséria, as conquistas tecnológicas etc. Contudo, não se pode esquecer que
a vasta maioria das interpretações realizada nesse período, ainda que distintas em muitos
aspectos relevantes, tinham um denominador em comum: eram essencialmente voltadas
à explicação dos problemas europeus. Ou seja, diziam respeito ao velho mundo, e, por
isso, tinham características peculiares por se tratar de, fundamentalmente, análises de uma
mesma sociedade. 68
Os autores europeus descreviam uma sociedade em que ainda se preservava o
reino tradicional da nobreza, ao menos no imaginário coletivo. Um lugar onde os novos
ricos fizeram as suas fortunas e conquistaram o seu lugar entre aqueles “do bom sangue
e das boas maneiras”, mas trazendo consigo as atitudes da classe média, e carregando,
inclusive, um sentimento anti-aristocrático, na medida em que estavam cientes de que
determinados estratos sociais sempre estariam fechados para eles. Para frequentar a
nobreza e a aristocracia social da Europa, era preciso mais do que grandes somas de
dinheiro.69
Esse pensamento, contudo, não era o que reinava na América, lugar cujos
fundadores se opunham às divisões de “nome e de nascimento”, prezando pelas

66
Ibidem. p. 60.
67
Ibidem. 2001.
68
HEILBRONER. A história do pensamento econômico. São Paulo/SP. Ed: Nova cultural. 1996. p. 199.
69
Ibidem.
45

conquistas individuais, realizadas em meio à um espírito de independência que o folclore


nacional cultivou com tanto esmero. Na América, um homem poderia ser tão bom quanto
provasse sê-lo, na medida em que o grau de seu sucesso não seria mensurado de acordo
com a métrica genealógica da aristocracia. Não seria possível encontrar muitas diferenças
entre as fábricas da Nova Inglaterra e as unidades de produção da velha Inglaterra. As
dessemelhanças, contudo, poderiam facilmente ser observadas no comportamento e nas
maneiras dos donos das fábricas: o capitalista europeu operava tímido sob um passado
feudal, e o ganhador de dinheiro americano não apresentava restrições quanto ao
exibicionismo de sua riqueza e busca do poder. 70
Na batalha pela supremacia industrial norte-americana, os meios violentos para se
alcançar a vitória eram tidos como manobras normais, e os meios menos violentos eram
mais notados pela sagacidade do que por sua indecência. Nos E.U.A, onde o jogo do
dinheiro era mais duro e menos cavalheiresco do que na Europa, o dinheiro era um
passaporte certo para o reconhecimento social, e o milionário norte-americano não toparia
com portas fechadas para entrar nas classes mais altas da sociedade. Trata-se de uma
nação que substituiu o florete do cavalheiro pelos punhos do arruaceiro. “Negócios, nesta
era dos barões, era um negócio brutal, e o preço da moralidade era a derrota.”71
Poucos economistas conseguiram captar esse espírito e teorizá-lo sobriamente,
sem estar capturado pelo entusiasmo do período. Faltava o olhar de um estranho, tal como
fora o de Tocqueville no passado, e esse olhar pertenceu a Thostein Veblen. Pode-se
afirmar que certos economistas, como Smith e Marx, não estavam apenas presentes em
sua sociedade, mas vinham dela, possuíam profunda admiração pelo mundo que viam,
ou demonstravam grande desespero pelo que presenciavam. Contudo, este não é o caso
de Veblen, que, durante a sua vida, permaneceu afastado do agito e do êxtase típico da
comunidade e do tempo em que vivia: “sem envolvimento, sem raízes, remoto, distante,
desinteressado, um estranho.”72
Veblen explica que o desenvolvimento econômico e a maior complexidade social
nos tempos modernos aumentaram a importância do consumo ostensivo como uma
maneira de demonstração da riqueza e da boa reputação, ao mesmo tempo em que o ócio
se tornou menos relevante para tais fins. A mobilidade social mais intensa, junto ao
surgimento dos meios de comunicação de massa, permitiu que o indivíduo expusesse seu

70
Ibidem. pp. 201, 203.
71
Ibidem. pp. 201, 203.
72
Ibidem. pp. 204.
46

padrão de consumo para mais pessoas. Ao mesmo tempo, tornou-se mais difícil, e menos
eficaz, demonstrar a riqueza e o poder por meio do ócio apenas para o círculo de relações
mais próximas. 73
A tendência à emulação pecuniária na sociedade transformou o consumo dos mais
diversos bens num meio de comparação invejosa entre as pessoas. Os bens foram
revestidos de uma utilidade secundária: provar a capacidade de pagar, consumir e
demonstrar posse de riqueza. Ao consumir bens dispendiosos, o consumidor se prova
honorável aos olhos da sociedade, elevado na hierarquia social e, de forma geral, detentor
de grandes somas de dinheiro. Os bens que são custosos, portanto, carregam indícios de
valor supérfluo, e, quando mais se afastam de sua finalidade direta e mecânica, mais
servem à comparação emuladora. Os bens que um indivíduo ostenta são reveladores de
sua classe social. Trata-se de respeitabilidade pecuniária, um dos aspectos do
reconhecimento social. 74
A lente de análise empregada por Veblen, portanto, é capaz de jogar luz sobre as
transformações no padrão de consumo e lógica de distinção que são formadas nos Estados
Unidos, com o desenvolvimento do capitalismo, o crescimento da produção e o
espraiamento do consumo em massa. Isso tudo, vale acrescentar, numa sociedade que
absorveu profundamente os valores individualistas, e destituída dos preconceitos
encontrados na sociedade europeia. Assim, Thorstein Veblen é particularmente útil para
retratar as mudanças na sociedade norte-americana, onde a desigualdade se faz
proeminente, mas ainda havia amplas oportunidades de ascensão social. O resultado dessa
corrida pela emulação pecuniária, numa sociedade crente nos poderes da meritocracia e
nas benesses do individualismo, é uma corrida pelo prestígio, em que os ricos largam na
frente, e as classes inferiores largam atrás, esforçando-se em vão para replicar um nível e
um estilo de consumo irreplicável. Por isso, Veblen é um autor fundamental para
compreender a sociedade afluente que se forma sob o desenvolvimento do capitalismo
norte-americano.
Nas sociedades modernas, em que as linhas de demarcação entre as várias classes
sociais se tornaram difusas e, por vezes, indefinidas, o modo de vida, os hábitos
adquiridos e as convenções seguidas pela classe superior são fundamentais para a
identificação da classe ociosa. Esse esquema de vida da classe superior, largamente
relacionado ao consumo conspícuo, demonstrações de consumo e símbolos de riqueza se

73
VEBLEN. T. Op. cit. 1965
74
Ibidem. p. 148.
47

reflete nas classes inferiores: há uma busca pela observância desses padrões de
comportamento e consumo, evidentemente em escala menor, ou modificada, consoante o
padrão de vida de cada família. As classes inferiores procuram reproduzir o modo de vida
da classe ociosa. É o que Veblen denomina de “influência coercitiva da classe superior
por toda a estrutura social”. Ao mesmo tempo em que os ricos se distanciam dos estratos
inferiores por meio de demonstrações de consumo conspícuo, as classes inferiores
dirigem suas energias para viverem segundo aquele ideal75. Veblen, nesse sentido,
analisa a estrutura de classes por meio dos valores, aspirações e atitudes em comum que
os indivíduos possuem. Classe, nesse caso, como um fenômeno que abrange tanto
aspectos sociais, bem como psicológicos.
É justamente em função dessa tese que Veblen ganhou fama por ter cunhado a
ideia de consumo conspícuo. Às classes baixas, coagidas para emular tal padrão de vida
inalcançável, só lhes resta reproduzir as maneiras da classe alta, e falhar nisso. As
observações de Veblen garantiram que o conceito de “consumo conspícuo” pudesse se
tornar parte importante do vocabulário da sociologia, ainda que poucos pesquisadores
utilizem o mesmo raciocínio do autor. De todo modo, Veblen teve sucesso em demonstrar
a relevância dos símbolos de status na sociedade, bem como chamar atenção para o
processo de corrupção da cultura ao longo do tempo. 76
É assim que Veblen retrata e descreve o espetáculo da desigualdade na sociedade
norte-americana. Uma descrição, em larga medida, da ostentação, do desperdício e da
imoralidade dos abastados nos E.U.A, que procuraram a todo momento evidenciar o seu
sucesso pecuniário numa cultura que vangloriava a cultura do dinheiro. Se os ricos
estavam desvinculados de qualquer função econômica relevante, vivendo no ócio, o
trabalho era a marca certa da inferioridade: o trabalho era associado à sujeição, ao passo
que a riqueza era associada ao sucesso numa sociedade que exaltava a cultura predatória.
Assim, a sua obra o coloca como uma das figuras mais importantes do pensamento
econômico e social norte-americano. 77
Em suma: Veblen, ao jogar luz sobre o espetáculo da desigualdade e da ostentação
nos Estados Unidos, enriquece a descrição de um país que, ao longo do século XX, passou
por drásticas mudanças econômicas e sociais. O desenvolvimento do capitalismo
americano trouxe, a despeito de uma melhora no padrão de vida da população, a criação

75
Ibidem. pp. 87, 88.
76
LITTLEJOHN, J. Estratificação social – uma introdução. Rio de Janeiro/ RJ. Ed: Zahar. 1972. pp. 31, 32.
77
GALBRAITH, J. K. Op. cit. 1987. p. 46.
48

de uma sociedade cujos valores se assentam no sucesso individual e no poder de consumo.


Veblen mostra que o E.U.A., sem a obstrução das tradições aristocráticas europeias, teve
o caminho livre para o florescimento de uma sociedade assentada no amor ao dinheiro,
na comparação odiosa, e sem escrúpulos para que seus cidadãos exibiam o seu poder e a
sua riqueza.

1.3. Wright Mills e a mobilidade social americana

No texto, “sociology of stratification”, que reúne as anotações de uma palestra que


Wright Mills escreveu para o seu curso na universidade de Columbia, Mills teoriza sobre
a estrutura social norte-americana, a partir de 1929.78. Nesse exercício de análise da
sociedade estadunidense, Mills pondera que, em todas as comunidades e em todas as
nações, é possível identificar os que estão no topo, aqueles na base, e, em muitas
sociedades, um grande setor intermediário. A investigação social, portanto, exigirá do
pesquisador, eventualmente, uma classificação do que ele observa. Uma das
possibilidades para essa classificação, segue o autor, está em realizar uma divisão
conforme a distribuição social dos “bens” e das “experiências” pessoais, cujo intuito
repousa em descobrir como, e porque, determinadas pessoas recebem o que recebem, e
vivenciam o que vivenciam. Mills, como se pode notar, elaborava uma de suas
proposições mais importantes, e uma premissa que balizaria o restante de seus estudos: é
esse tipo de exercício, a “classificação”, a base de todo o trabalho envolvido nas pesquisas
sobre a estratificação e a estrutura social. 79
Num trabalho posterior, “A nova classe média – White colar”, o Wright Mills
desenvolve melhor os seus argumentos e investiga as relações de classe e estrutura
ocupacional, sem, todavia, esquecer do status e do prestígio, conceitos fundamentais que
remetem à Weber. No livro mencionado, Mills demonstra como o desenvolvimento do
capitalismo norte-americano, em sua fase monopolista, teve desdobramentos importantes
no mercado de trabalho. A ascensão da grande empresa moderna, o engrandecimento das
unidades produtivas e a hipertrofia das instituições do Estado deram origem a uma nova
gama de ocupações de nível médio. A multiplicação das tarefas de administração,
controle, distribuição, supervisão e gerência, tanto nas firmas, bem como nas escolas e
nos hospitais, é o fenômeno que viabilizou uma significativa expansão dos empregos

78
HESS, A. Op. cit. 2001. p. 93.
79
MILLS, W. The sociology of stratification. In: HOROWITZ, I. L. (Org.) Politics & People – The collected
essays of C. Wright Mills. New York/NY. Ed: Oxford University Press. 1963. p. 305
49

chamados “colarinhos brancos”. 80


Em geral, os pesquisadores norte-americanos não conduziram estudos de larga
escala sobre as classes na sociedade norte-americana. Uma exceção, todavia, foi Wright
Mills, em sua investigação sobre os colarinhos brancos, em que o autor realiza uma
tentativa de descrever e retratar a situação das classes médias nos Estados Unidos. Por
meio de diversas fontes, como estatísticas governamentais, dados retirados de sindicatos,
monografias, romances, manuais de administração e a vivência do próprio autor, Mills
“pinta” um quadro da sociedade norte-americana. Um cenário, cumpre frisar, elaborado
com forte influência do pensamento weberiano, e inspirado numa profunda insatisfação
com os rumos da sociedade norte-americana. 81
Para Mills, o marxismo e o liberalismo já não eram mais suficientes para
compreender as transformações da estrutura social norte-americana. Se, por um lado, a
escola marxista focava demasiadamente nos aspectos de classe, o liberalismo, por seu
turno, tinha apenas o indivíduo como foco da análise. Para desenvolver melhor o que
ocorreu nos E.U.A, Mills divide o seu argumento em quatro etapas: em primeiro lugar,
houve o declínio da antiga classe média; em segundo lugar, a ascensão de uma nova classe
média; em terceiro lugar, os impactos que tais mudanças provocaram no sistema de
estratificação social dos E.U.A; e, por fim, quais foram os problemas políticos que se
formaram a partir dessas metamorfoses na sociedade norte-americana. Sobre os dois
últimos pontos, cumpre adiantar que, a despeito de Mills evitar fazer maiores previsões
sobre os resultados de todo esse processo, o autor deixa uma suposição que, naquele
momento, lhe parecia mais evidente: o surgimento de um americano passivo, apático e
centrado em si mesmo. 82
Sociologicamente, a nova classe média foi descrita por Mills como uma “pirâmide
dentro de uma pirâmide”. Mills demonstrou que essa classe social não representa um
estrato social homogêneo, com indivíduos portadores das mesmas características
socioeconômicas, mas, sim, trata-se de um agregado social heterogêneo. Ao mesmo
tempo que a nova classe média abrange gerentes e diretores, alocados no topo das
estruturas administrativas empresariais, com grande poder, prestígio e remuneração,
havia também os integrantes da classe média localizados na base da pirâmide social,
recebendo salários idênticos aos dos operários. Mills, ademais, segue as observações de

80
WRIGHT, C. M. A Nova Classe Média (White Collar). Rio De Janeiro/RJ. Ed. Zahar. 1969.
81
GORDON, M. M. Social class in american sociology. London, N.W. Ed: Mcgraw-Hill. 1963. pp. 204-209.
82
HESS, A. Op. cit. 2001. p. 97.
50

Weber sobre as tendências à racionalização e à burocratização das grandes empresas. O


trabalho nas grandes corporações se tornou mais padronizado e regularizado em
processos pré-estabelecidos, onde o trabalhador não teria mais espaço para o
desenvolvimento de seu talento, suas habilidades e capacidade de contribuição de acordo
com as suas possibilidades criativas. Ao perceber-se como uma parte da estrutura
administrativa e produtiva, o indivíduo não se veria mais como um integrante de uma
classe social específica. Esse sentimento de pertencimento seria expurgado por ele
mesmo. O resultado seria uma personalidade passiva e indiferente, que desfavoreceria a
organização política. 83
Nesse trabalho, (“A nova classe média – White Collar”) Mills demonstra de forma
minuciosa como as transformações do capitalismo monopolista nos E.U.A. esmagaram,
vagarosamente, o mundo da antiga classe média, composta principalmente por pequenos
agricultores e comerciantes. Os antigos elementos da classe média foram atropelados pelo
domínio da grande empresa e do comércio varejista. A obra de Mills, nesse sentido,
descreve também a decadência da antiga classe média urbana e rural. Entretanto, outros
personagens surgiram para ocupar os segmentos intermediários e preencher o elenco
social: a nova classe média. 84
Trata-se de uma classe que reúne especialista em lidar com pessoas, dinheiro e
símbolos, ao contrário dos operários (blue-collars), empregados diretamente na produção
de bens e mercadorias. A referência de “colarinhos brancos”, nesse sentido, remete ao
traje de passeio utilizado pelos trabalhadores de escritório e o seu status na sociedade, um
fator essencial para compreender a divisão de classe proposta pelo autor 85. Novamente,
pode-se notar uma relação muito estreita com os critérios de classificação social de
Weber, dado que a noção de status social, ligada à posição ocupacional dos colarinhos
brancos na sociedade, cumpre um papel fundamental para estabelecer as divisões de
classe na teoria de Mills.
Wright Mills, portanto, é um autor imprescindível para compreender as
transformações da sociedade norte-americana sob a égide do capitalismo moderno. A
crescente complexidade social verificada nos Estados Unidos do século XX, cumpre
acrescentar, foi um fenômeno já notado por Max Weber, tal como descrito nas páginas
anteriores. Entretanto, Mills pôde presenciar não somente essa maior complexidade

83
Ibidem. p. 96, 97.
84
WRIGHT, C. MILLS. A Nova Classe Média (White Collar). Rio De Janeiro/RJ. Ed. Zahar. 1969.
85
Ibidem.
51

social, mas também pôde teorizar sobre o surgimento de uma nova classe média, apoiado
nas construções teóricas de Weber. Mills, assim, olha tanto para o passado, demonstrando
o encolhimento da antiga classe média, dos pequenos comerciantes e dos pequenos
agricultores; bem como olha para o presente (e futuro), ao delinear a ascensão de um
estrato da classe trabalhadora que carrega uma distinção social particular, cujo maior
símbolo é justamente o uso de roupas de passeio no trabalho, os colarinhos brancos, a
nova classe média.
O estudo conduzido por Mills é uma análise impressionante das transformações
que ocorreram na sociedade norte-americana, e, ainda mais importante, trata-se de uma
demonstração das principais tendências que estavam em andamento com relação à
estrutura ocupacional dos E.U.A. Entretanto, pode-se tecer algumas críticas às
observações do autor: a) em primeiro lugar, sobre os aspectos “psicológicos” da classe
média; b) em segundo lugar, quanto a sua descrição da orientação política dos colarinhos
brancos. As generalizações realizadas por Mills de que a classe média é infeliz, confusa
e desesperada seriam mesmo apuradas? Elas teriam algum fundamento na realidade?
Ainda que esses possam ser alguns dos atributos dos colarinhos brancos, essa
caracterização não está apoiada em nenhum estudo quantitativo, e, portanto, mais
parecem estar baseadas nas suposições que Mills faz sobre o mundo dos colarinhos
brancos. De todo modo, o estudo realizado pelo autor ilumina aspectos importantes da
sociedade americana, ao olhar para os segmentos médios por meio de uma abordagem
que privilegia a estrutura ocupacional como método de investigação. É um estudo
provocante, que mistura dados bem fundamentados com generalizações duvidosas, mas
cujo produto é apresentado numa redação convidativa. Não é preciso concordar com tudo
que Mills diz para reconhecer o mérito de seu trabalho. Se, por um lado, é justo dizer que
o livro em questão é uma tentativa bem-sucedida de avançar na compreensão do que
ocorreu com os segmentos médios na sociedade norte-americana; também é correto
afirmar que as suas falhas, por outro lado, estão intimamente relacionadas aos desafios e
aos problemas de se investigar as classes sociais numa sociedade de massas. 86
Posteriormente, em “The power elite”, o autor muda o foco de seu interesse
epistemológico e passa a investigar algumas das implicações políticas que a
transformação da estrutura social dos Estados Unidos trouxe consigo. Sem abandonar o
seu quadro de referência de estratificação social, essencialmente weberiano, Mills faz

86
GORDON, M. M. Op. cit. 1963. pp. 204-209.
52

uma análise da sociedade com um teor mais próximo da teoria marxista. O autor
enxergava, na sociedade dos E.U.A, uma clivagem fundamental entre duas grandes forças
opostas: de um lado, a massa, de outro, uma elite que detinha todo o poder. 87
Mills assevera que a concepção e a unidade de uma “elite do poder” nos E.U.A.
se devem ao desenvolvimento de interesses correspondentes nas organizações
econômicas, políticas e militares. Mais especificamente, essa união de interesses possui
seu lastro na origem e nas perspectivas em comum das pessoas que transitam nos círculos
do topo das hierarquias dominantes. Trata-se, portanto, de uma conjunção de forças
institucionais e psicológicas dos indivíduos que transitam pelos altos níveis hierárquicos
da esfera econômica, política e militar. Mills provoca: se a elite do poder se encontra cada
vez mais poderosa, unificada e cheia de intenções, o que estaria acontecendo com o resto
da sociedade?88
A ascensão dessa elite, argumenta Mills, se apoia na transformação da sociedade
norte-americana numa sociedade de massas e, de certa forma, faz também parte desse
processo. A própria ideia de uma sociedade de massa, diz o autor, sugere a existência de
uma elite do poder. Por outro lado, a existência de uma nação com um “público”, ao invés
de uma massa, remete à tradição liberal de uma sociedade sem uma elite do poder. Além
disso, Mills elenca alguns fatores importantes para compreender a transformação da
sociedade americana numa sociedade de massas: a) as forças que aumentaram e
centralizaram o poder político, fazendo com que as sociedades modernas se tornem menos
“políticas” e mais “administrativas”; b) a transformação das classes médias antigas em
algo que talvez nem se possa chamar de classe média; c) a comunicação de massa que
não comunica coisa alguma; e, por fim, d) a ausência de associações voluntárias que
conectem a população aos centros decisórios. Esses elementos explicariam: 1) como a
população perdeu a sua capacidade de ação e decisão, dado que ela não está mais munida
dos instrumentos para isso; 2) como o público perdeu o sentimento de pertencimento,
uma vez que ele não pertence a mais nada; e 3) como o público perdeu a vontade política,
pois não há mais forma de concretizá-la. Enquanto o topo da sociedade americana está
cada vez mais unificado e intencionalmente coordenado em prol de seus interesses,
fazendo surgir uma elite de poder, a classe média está à deriva, sem ligar a base ao topo.
A base da sociedade, por sua vez, está fragmentada, numa condição politicamente passiva

87
HESS, A. Op. cit. 2001. p. 98.
88
MILLS, W. The power elite. New York/NY. Ed: Oxford Press. 1956
53

e completamente impotente. É o surgimento de uma sociedade de massas. 89


Essa elite descrita por Mills exerce o seu poder por meio de uma estrutura de poder
triangular: o domínio sobre a esfera econômica, a esfera política e o âmbito militar. O
conceito de poder, mais uma vez, é diretamente retirado do arcabouço teórico weberiano:
o poder como a habilidade de alguém fazer valer a sua vontade mesmo enfrentando a
resistência de outras pessoas. Ainda que esse poder se manifeste por diversas formas,
Mills enfatiza a importância das instituições para que esse domínio se faça presente e
eficaz. O poder sobre a sociedade funciona por meio das instituições; o indivíduo se
tornará rico e poderoso por intermédio dessas instituições; e, por fim, verifica-se a mesma
situação com o status, uma vez que a distinção social está intimamente às instituições. 90
Mills identifica também algumas diferenças entre o cenário europeu e o norte-
americano. Se, na Europa, o poder, a riqueza e o prestígio sempre estiverem claramente
separados em classes ou estratos diferentes, algo relacionado à disputa entre a aristocracia
decadente e a ascensão da burguesia, nos E.U.A, onde não houve um passado feudal, a
elite pôde se apoiar na riqueza, no prestígio e no poder político. Desse modo, ao prever o
surgimento de uma elite do poder nos Estados Unidos, bem como a sua permanência por
um longo período, Mills apresenta uma teoria que carrega alguma correspondência com
outros “teóricos da elite”, como Pareto, por exemplo. O autor, todavia, nunca abandonou
suas bases teóricas, Marx e Weber, principalmente. 91
A leitura de “The power elite”, assim, demonstra que Mills passou a ter uma visão
mais angustiante sobre o futuro da estratificação social americana, bem como sobre o
panorama apresentado em “A nova classe média – white colar”. No topo, uma elite dos
que comandam as instituições econômicas, políticas e militares; no meio, uma classe
média que se empenha e batalha para tentar chegar perto da elite; e, na base, uma massa
populacional apática e pouco consciente de seu lugar na sociedade. O leitor não se
enganará: Wright Mills não tinha esperança alguma quanto a uma possível emancipação
social. O esforço do autor, assim, é a uma realização de uma anatomia da estrutura de
poder na sociedade norte-americana. 92

89
Ibidem.
90
HESS, A. Op. cit. 2001.
91
Ibidem. p. 99.
92
Ibidem. p. 103.
54

Argumento em síntese

As transformações do capitalismo moderno, nos quadros da II Revolução


Industrial, produziram repercussões importantes nos E.U.A. A incorporação da ciência
aos processos de produção, o engrandecimento das unidades produtivas e a expansão do
setor de serviços, por exemplo, impactaram profundamente nos rumos do
desenvolvimento social e econômico verificados ao final do século XIX e durante boa
parte do século XX. A vigorosa expansão dos serviços terciários, um dos fenômenos mais
importantes do capitalismo moderno, ampliou sobremaneira a oferta de cargos de nível
médio, uma característica própria de uma estrutura ocupacional que perdia em termos
relativos os empregos da indústria, enquanto crescia a sua gama de ocupações mais bem
remuneradas pelos escritórios, instituições públicas, escolas, hospitais nos demais setores
de serviços. Essas, foram algumas das transformações que atravessaram o capitalismo
norte-americano, e deram uma nova feição às estruturas sociais de todos os países que
vivenciaram mudanças semelhantes na estrutura produtiva. Trata-se, no fundo, da
transformação de uma estrutura social polarizada e rígida, no caso do capitalismo inglês,
ou da transformação de uma sociedade mais dinâmica e menos desigual, no caso norte-
americano, numa sociedade urbano-industrial, marcada pelo crescimento da
produtividade, pelo incremento da condição material das classes trabalhadoras e, de modo
geral, por maiores possibilidades de afluência social.
Essas transformações sociais, relacionadas ao fenômeno da afluência social
verificada no capitalismo moderno, foram interpretadas de diversas maneiras, por autores
distintos, filiados às mais variadas correntes teóricas. Ainda que cada visão aqui
apresentada carregue suas influências teóricas específicas, é possível identificar em cada
uma delas uma interpretação que, em larga medida, está relacionada às metamorfoses
sociais decorrentes da transformação e mudança do padrão de regulação da estrutura
econômica no capitalismo moderno. Pode-se dizer que as interpretações aqui reunidas
contam a história, cada uma ao seu modo, das transformações sociais que ocorreram em
decorrência das profundas transformações que a economia dos E.U.A. sofreu nas últimas
décadas.
Assim, os intérpretes dos Estados Unidos aqui reunidos contam, cada um ao seu
modo, a história da estrutura social norte-americana. Por meio de ângulos diferentes, eles
captam as características da sociedade norte-americana em momentos diferentes de sua
história. Os desdobramentos socioeconômicos trazidos pelo capitalismo moderno foram
55

analisados por Max Weber, Veblen, e Wright Mills, que se debruçaram sobre os E.U.A
do século XX, para compreender essa crescente complexidade que se erguia. Os autores
fizeram uso de novos conceitos e categorias analíticas para descrever essa sociedade
moderna, apontando para os novos atores que surgem no cenário social americano, numa
sociedade industrializada, com forte influência do darwinismo social, valores
individualistas e atravessada pelo poder do dinheiro.
Trata-se de autores, portanto, que impactados por sua vivência em solo norte-
americano, desenvolvem novas categorias analíticas para dar conta da complexidade
social típica da sociedade moderna americana. Ao invés de um proletariado empobrecido,
o que se via era uma progressiva melhoria nas condições materiais da classe trabalhadora.
Ao mesmo tempo, as diferenças de qualificação e no padrão de vida dos trabalhadores
estabeleciam distinções importantes mesmo entre aqueles que nada possuíam, a não ser a
sua força de trabalho. Weber, nesse sentido, tocado pelo que vivenciou nos Estados
Unidos, desenvolve uma concepção de classe mais pluralista, que serviria de base e
inspiração para outros intérpretes da sociedade norte-americana.
Thorstein Veblen por sua vez, descreve o espetáculo de consumo, da ostentação e
do desperdício promovidos pela elite norte-americana durante o capitalismo moderno. O
autor, de origem humilde, sempre descolado dos círculos de riqueza, poder e comando
nos E.U.A, é um observador “de fora” que descreve a transformação dos Estados Unidos
numa sociedade capitalista. De uma sociedade predominantemente rural até um país
industrializado, Veblen vivenciou transformações radicais na sociedade norte-americana:
a instituição do poder do dinheiro, a tendência à emulação pecuniária, o consumo
conspícuo e a desigualdade são aspectos presentes em sua obra, que, em larga medida,
capta o espírito norte-americano durante a “era dourada” (gilded age). Sua descrição da
sociedade norte-americana, que joga uma sombra pessimista sobre o que se desenhava no
futuro, possui aspectos interessantes para todos aqueles interessados na estrutura social
dos E.U.A durante o capitalismo moderno.
Wright Mills, apoiado na definição mais pluralista de classe proposta por Weber,
enxergou mais longe o quadro que se formava nos E.U.A. Mills descreve com maestria
as principais transformações sociais que acontecem nos E.U.A durante o capitalismo
moderno, apontando, de um lado, para o encolhimento da antiga classe média, composta
por pequenos produtores e pequenos comerciantes; de ou outro lado, o autor desvela o
surgimento de uma nova classe média, que alcançou a sua distinção ostentando um padrão
de vida específico, e um estilo de vida particular, que são aspectos que a diferenciam da
56

massa proletária. Mills, ao observar o desenvolvimento do capitalismo moderno nos


Estados Unidos, também escancara o seu pessimismo com os rumos dessa sociedade, uma
sociedade de massas, despedaçada politicamente, e sob o comando de uma elite do poder.
Ao longo de “A nova classe média”, Mills não esconde suas afeições pela teoria de Weber.
Todavia, o panorama descrito em “A elite do poder” remete mais ao Marx que do que ao
Weber. Já era um aviso sobre uma das possibilidades que poderia vir a se concretizar no
futuro dos Estados Unidos.
Neste primeiro capítulo, portanto, reuniu-se interpretações que estabelecem os
critérios e o espaço teórico para tratar, tanto da afluência social americana, no capitalismo
moderno, bem como da posterior regressão dos indicadores socioeconômicos, no
capitalismo contemporâneo. Cada uma das interpretações aqui reunidas descreve, a sua
maneira, os novos tempos retratados por Galbraith, nas obras “A sociedade afluente” e
“O Novo Estado Industrial”. Por meio de diferentes ângulos de análise, o esforço deste
capítulo joga luz sobre aspectos diferentes da sociedade afluente americana: a sua maior
complexidade social; o nascimento de uma nova classe média, o crescimento do consumo
de massa, a homogeneização do padrão de consumo, a expansão vigorosa dos cargos
intermediários, e, por fim, o espetáculo da ostentação e da disseminação de padrões de
distinção social calcados no poder simbólico do consumo. Isso tudo, vale acrescentar,
numa sociedade significativamente influenciada por valores individualistas e crenças
firmes na meritocracia social.
57

Capítulo 2 – Economia e a sociedade afluente revista na era da globalização

Introdução:

Passados 30 anos da publicação do livro “A sociedade Afluente”, John Kenneth


Galbraith se propôs a revistar o seu esforço no prefácio “A Sociedade Afluente Revista”93.
Dispondo de uma perspectiva histórica mais ampla, o autor se debruçou sobre o seu
esforço inicial, presenteando os seus leitores com observações pessoais sobre quais foram
os pontos de seu livro que se mostraram fiéis à realidade, e quais pontos mereciam ser
retificados. Num raro exercício de crítica desapaixonada, Galbraith tece comentários
pertinentes sobre o seu texto.
Para começar, Galbraith destaca que, nos anos que se passaram após o lançamento
de seu livro, todas as grandes empresas se tornaram ainda mais poderosas. Ainda que a
sabedoria econômica convencional procure camuflar o poderio da grande empresa e a sua
influência sobre o Estado e a sociedade, Galbraith aponta que o poder empresarial,
principalmente das 1000 companhias mais poderosas do mundo, não pode deixar de ser
notado. Essas grandes empresas dominam aproximadamente dois terços de toda a
produção industrial mundial. Assim, o autor já denuncia umas das características mais
importantes do capitalismo contemporâneo: na era da globalização, a grande corporação
americana é protagonista.94
Sobre a igualdade e a distribuição da renda, o autor também possui observações
relevantes sobre o que se passava 30 anos após a publicação de seu livro95. Galbraith
lembra que foi o governo Reagan um dos grandes responsáveis por recolocar em cena o
debate sobre a economia política que envolve as questões distributivas da sociedade.
Nesses anos, reduziu-se os gastos com o bem-estar da população, ao mesmo tempo em
que se diminuiu os impostos das pessoas físicas e jurídicas. Esta última medida, cumpre
ressaltar, favoreceu de maneira significativa a acumulação de renda daqueles que já eram
bem afluentes. David Stockman, um dos funcionários do alto escalão de Reagan,
confessou, posteriormente, que a diminuição geral dos impostos foi apenas uma maneira
de fazer a redução dos impostos aos mais ricos se tornar mais palatável publicamente.
Nas palavras de Stockman: “eu nunca acreditei que apenas cortando impostos seria

93
Ver mais em GALBRAITH, J. K. Op. cit. 1987. p. XIII
94
Ibidem.
95
Ibidem.
58

possível expandir a produção e o emprego.96


Se, no período anterior, durante o desenvolvimento do capitalismo norte-
americano, a segurança econômica e a desigualdade foram elementos que tiveram a sua
importância diminuída, pois a afluência social cresceu, o contrário ocorreu a partir dos
anos 1980. As recessões e as depressões trouxeram esses temas novamente à tona, na
medida em que a comparação com os anos anteriores demonstrou que, para determinados
segmentos de renda, houve diminuição do padrão de vida. Quando homens e mulheres
recebem salários crescentes, pouco importa a situação dos outros; mas, quando o
desemprego e insegurança econômica se tornam endêmicas, “A mente então volta a
maturar sobre a melhor sina dos mais afortunados”. A desigualdade adquiriu novamente
uma posição de destaque como um problema relevante da sociedade norte-americana.
Além disso, diminuíram-se os benefícios e o apoio dado aos mais carentes, os pagamentos
de seguridade social contraíram, os programas de selos de comida foram limitados, e o
auxílio às famílias com crianças dependentes foi ceifado. Nas palavras de Galbraith,
passou-se a fazer e a se preocupar menos com a segurança na vida econômica da
população.97
Galbraith, especificamente sobre os Estados Unidos, reforça uma observação que
ele já havia feito em seu livro: o desequilíbrio entre a oferta de bens públicos e a oferta
de bens privados é grave. O equilíbrio entre o consumo individual e a provisão de serviços
públicos, como a saúde e a educação, piorou nos anos que se seguiram à publicação de
seu livro. As condições de vida nas grandes cidades pioraram de forma constrangedora,
na medida em que os serviços públicos se deterioraram progressivamente. Segundo o
autor, serviços como o policiamento, o cuidado com as ruas e o lixo gerado nas cidades,
a segurança pública, os parques, as escolas, o transporte coletivo pioraram de forma
nítida. Assim, enquanto cresceu o nível de consumo particular, parece cair na mesma
medida a qualidade dos serviços oferecidos pelo Estado. “Na típica comunidade urbana
de hoje, o cidadão deixa a sua confortável casa ou apartamento, dotada de todas as
manifestações internas de afluência, para caminhar em meio à imundície”. 98
Uma das mudanças que corroborou para essa deterioração da qualidade de vida
nos grandes centros urbanos, menciona Galbraith, foi o êxodo da população rural pobre

96
GREIDER, W. The Education of David Stockman. The Atlantic. 1981 issue. Recuperado em
https://www.theatlantic.com/magazine/archive/1981/12/the-education-of-david-stockman/305760/.
Acessado em 10/08/2020
97
GALBRAITH, J. K. Op. cit. 1987.
98
Ibidem. p. XXII.
59

em direção aos guetos das cidades, fenômeno que se estendeu por quase 30 anos. Essa é
uma primeira razão que ajuda a explicar o crescimento da miséria e da exclusão nas
metrópoles. Outro motivo que corroborou para a deterioração dos serviços públicos,
pouco perceptível à primeira vista, é o esforço dos afluentes para se esquivar de custear
os serviços públicos que são essenciais para os pobres que chegam às cidades. Os
poderosos e os ricos, ao invés de melhorar a qualidade das escolas, da polícia, dos
parques, das bibliotecas e da infraestrutura de lazer, preferem arcar com os custos desses
serviços de forma particular, em escolas privadas, clubes particulares, guardas pessoais e
transporte individual. Há, constantemente, uma tentativa de acobertar essa deterioração
dos serviços públicos por meio de uma indignação moral frente à ameaça de impostos
sobre os ganhos dos ricos, algo reforçado por um discurso que denuncia a ineficiência
governamental. 99
No passado, foi a necessidade de angariar votos entre os mais pobres, ou daqueles
que temem a pobreza, que deu impulso para mitigar as incertezas relacionadas à
insegurança e à privação econômicas. Foi, nas palavras de Galbraith, da “compaixão e da
cautela sagaz de muitos afluentes” que se desenvolveu o estado de bem-estar social
moderno, garantindo a todos os cidadãos uma renda mínima e serviços básicos gratuitos
e essenciais, por meio de uma infraestrutura legal e física de seguridade social. Foi um
esforço capitaneado por Franklin D. Roosevelt, nos Estados Unidos, e por Lloyd George,
na Inglaterra (sem esquecer do Partido Trabalhista). No mundo moderno, contudo, a
crescente afluência difundiu o conforto e o bem-estar individual, fazendo com que uma
boa parte da população se sentisse feliz com a sua posição econômica. Os motivos que
persuadiram as pessoas a se preocuparem com a segurança econômica: a mitigação da
desigualdade, da pobreza e da miséria foram se perdendo ao longo do tempo. Em seu
lugar, restou a indiferença, o não envolvimento e a negação da pobreza. Os indivíduos
financeiramente seguros afastaram do poder aqueles que, no passado, se preocuparam em
fornecer essa segurança para a população. Os que ajudaram a criar este mundo de
afluência foram retirados do poder pelos operários de classe média, pela nova classe
média ampliada, pela burocracia moderna e pelos funcionários bem remunerados, já
protegidos das aflições do desemprego, da velhice e da doença. “Aqueles que idealizaram
os modelos de segurança econômica e de afluência do mundo moderno estavam
preparando a sua própria derrocada política. 100

99
Ibidem. p. XXII.
100
Ibidem. p. XXVII
60

Nos trechos finais de seu prefácio, Galbraith confessa uma última preocupação
que ele não foi capaz de antever. Essa nova sociedade industrial, para além de seu
compromisso com o incremento da produção, agora se volta cada vez mais para uma
produção indiscriminada de armas. O poderio militar, a burocracia do pentágono, os
fabricantes de armas e os políticos comprometem valores cada vez mais elevados com a
área militar. Se pudesse rescrever algo sobre estema tema, Galbraith diz que enfatizaria
muito mais esse aspecto da sociedade norte-americana: essa espécie de corrida
armamentista em que se vive. Se, no passado, a tecnologia militar ainda era uma fonte de
inovações tecnológicas, capaz de estabilizar a economia, talvez não seja mais o caso no
presente, haja vista o divórcio entre o uso dos equipamentos miliares e o seu uso no
âmbito civil. A energia atômica, por exemplo, mostrou-se extremamente decepcionante
do ponto de vista funcional. Em tempos de excessiva capacidade bélica, indaga o autor,
qual é o verdadeiro propósito de despender ainda mais dinheiro no setor militar?101
Ao revisitar o seu prefácio, em “A sociedade afluente revista”, portanto, Galbraith
ilumina alguns aspectos que estiveram ocultos em tendências pregressas, ao mesmo
tempo em que reforça outros processos que se confirmaram, ou se reforçaram ao longo
do tempo. O autor, em larga medida, retifica as suas observações ao se debruçar sobre o
as transformações sociais e econômicas dos Estados Unidos contemporâneo. Mudanças
que, vale acrescentar, foram também investigadas por outros pesquisadores atentos do
cenário internacional.
Já ao final dos anos 1960, diversos eventos marcaram a reorganização da
economia e da sociedade que viria nas décadas posteriores: a ordem internacional de
Bretton Woods foi sendo erodida, o padrão de desenvolvimento tecnológico vigente
apresentava sinais de esgotamento, o retorno das crises de acumulação e as crises
financeiras, somadas ao crescimento da rivalidade comercial internacional, por exemplo,
foram elementos desestabilizadores da ordem econômica na época. Os pilares que
sustentaram os Anos Dourados, tempos especiais no que diz respeito ao progresso
econômico e social dos países ocidentais, foram progressivamente derrubados.102
Lazonick destaca que, desde os anos 1980, há alguns focos estratégicos que
orientam as reorganizações empresarial: o corte de funcionários e o foco nas atividades

101
Ibidem. p. XXXIII.
102
ANTUNES, D. J. N. Capitalismo e Desigualdade. UNICAMP/IE. 2011. (Tese de Doutorado).
61

core-business; a “racionalização”; e, por fim, a “globalização” e a “marketização103.


Desde a década de 1980, ocorre por partes das empresas uma procura de plantas que
podem ser fechadas e empregos que podem ser eliminados - essa é a racionalização
produtiva; ao longo dos anos 1990, a “marketização” colocou um fim no costume e na
convenção de se manter um funcionário na empresa até o final de sua carreira; e, a partir
dos anos 2000, o deslocamento das atividades produtivas para fora das fronteiras
nacionais e a possibilidade de manter empregos “offshore” colocou a classe trabalhadora
norte-americana numa situação delicada. Até aqueles com credenciais educacionais
avançadas se viram ameaçados pela globalização produtiva. A adoção de cada uma dessas
estratégias, vale ressaltar, pode ser justificada na sua época com eventos conjunturais: a
realocação de recursos conforme as novas transformações dos mercados, das tecnologias
produtivas e da competição internacional, por exemplo; a ascensão dos produtores
asiáticos e a sua superioridade produtiva; ou ainda, a possibilidade de utilização de
grandes quantias de mão de obra barata nos países em desenvolvimento. Esses, e diversos
outros, são fatores que podem explicar a adoção dessas novas maneiras de “engenharia
financeira” adotada pelas grandes corporações norte-americana. Entretanto, o fato é que,
uma vez adotadas essas mudanças estruturais, elas passaram a ser empregadas,
progressivamente, como uma forma de aumentar os ganhos financeiros. Os ganhos
corporativos passaram a ter como meta as expectativas de Wall Street. Eventualmente, as
companhias passaram a gastar o seu lucro retido em “recompras” de ações, reajustando o
preço de suas próprias ações, para cima. Nesse processo, os acionistas ganham com um
patrimônio mais elevado, e os executivos e diretores, cuja remuneração possui critério
atrelado ao desempenho das ações, são beneficiários diretos dessa política corporativa.104
Como primeiro sinal da mudança dos tempos, o desempenho econômico dos
países ocidentais caiu drasticamente. As taxas de crescimento, o nível de preços e o
desemprego se deterioraram ao mesmo tempo. Se a boa teoria julgava que os ciclos
econômicos faziam parte do passado, a realidade demonstrava o contrário. Em segundo
lugar, a súbita mudança das condições econômicas, marcada pelo fim de um longo ciclo
de crescimento, engendrou uma crise entre os economistas, lançando a macroeconomia
num estado de grande confusão, colocando em xeque tanto o pensamento keynesiano,

103
O termo empregado pelo autor é “marketization”. Em função das dificuldades envolvidas na tradução
do termo, optou-se por usar a expressão “marketização”.
104
LAZONICK, W. Profits without prosperity: how stocks buybacks manipulate of the market, and leave
most american worse off. Harvard business review. 2014.
62

como as ideias da síntese neoclássica. Interpretar a realidade se tornou um desafio para


aqueles que acreditaram que a curva de Philips, que propõe a existência de um trade-off
entre o desemprego e a inflação, forneceria a base necessária para a elaboração da política
econômica. A coexistência da inflação e do desemprego demonstraram que as condições
reais da economia poderiam diferir muito das previsões cuidadosamente elaboradas nos
manuais de economia. Os economistas não souberam lidar, e nem ao menos interpretar,
o fenômeno da “estagflação”. Para mais, um dos fatores que se tornou evidente,
particularmente após a década de 1970, e que corroborou para o interesse renovado nos
estudos da Economia política, foi que tanto as respostas, bem como o desempenho
econômico entre os países, variaram consideravelmente. A atenção se voltou para as
comparações internacionais, instituições locais, estruturas sociais e diferenças culturais
para dar conta dos fenômenos que estavam em andamento. 105
Ressuscitados pela “estagflação”, os liberais saíram da tumba, assevera Belluzzo.
Confrontaram o “consenso keynesiano”, corroboraram para abandonar as políticas que
sustentaram os “Anos Dourados” e incentivaram a promoção de reformas que, segundo a
cantilena liberal, promoveriam os ajustes necessários para reencontrar a senda do
crescimento econômico. Esse receituário liberal-conservador se colocou contra todo o
espectro de políticas criadas para proteger o cidadão os azares do livre mercado. No
início, com Hayek e Friedman, e depois, com os novo-clássicos, condenaram a
intervenção do Estado na economia, promoveram reformas liberais, diminuíram os
impostos sobre os ricos e desregulamentaram o mercado de trabalho. O objetivo final
dessas reformas, segundo os adeptos dessas teorias, consistia em eliminar a distorção de
preços causada pela regulação governamental, aumentar o investimento e estimular a
competição empresarial. 106
Era o fim dos Anos Dourados, que representaram anos de prosperidade, melhorias
sociais e aumento no bem-estar material em diversos países do Ocidente. Os
desequilíbrios e as contradições que vieram e se acirraram com o fim da ordem
internacional de Bretton Woods, somada às transformações da esfera produtiva e
financeira, num contexto de perda da base social que sustentava politicamente toda a
regulação econômica até então vigente, mudaram o cenário esperado para os anos

105
GOLDTHORPE, J. H. Introduction. In: GOLDTHORPE, J. H. (Org.). Order and conflict in contemporary
capitalism – studies in the political economy of western european nations. Oxford/NY. Ed: Clarendon
Press. 1985. pp. 1-3.
106
BELLUZZO, L. G. A internacionalização recente do regime de capital. In: Carta Social e do Trabalho. n.
27 – julho a setembro de 2014.
63

seguintes. Da expectativa de uma melhora progressiva nas condições de vida, entrou-se


numa era em que as expectativas eram declinantes. Essa guinada nos rumos econômicos,
cumpre ressaltar, aconteceu com menos dificuldade nos Estados Unidos, onde o
darwinismo social já se mostrava mais consolidado em meio à consciência coletiva da
população. Nas palavras de Daví Antunes: “nos Estados Unidos, a terra das
oportunidades, o viés sempre foi o do individualismo”. 107
Esse retorno aos valores ideológicos “pré-rooseveltianos”, marcados pela ideia de
que o Estado deve se abster de regular a economia, e que os caminhos da sociedade devem
ser guiados pela meritocracia, tiveram diversos efeitos importantes, e que devem ser aqui
destacados. A condenação da intervenção estatal na economia, por exemplo, facilitou a
liberalização dos mercados e a dominação financeira; o tricle-down economics virou
regra a ser seguida, e as decisões de gasto e investimento, por seu turno, passaram a ser
ditadas pela lógica do “enriquecimento financeiro”. Na estrutura ocupacional, também há
mudanças a serem destacadas, pois o emprego público passou a se expandir com menos
vigor. Vale lembrar que os Estados Unidos, quando comparado aos outros países ricos, já
se destacava por sua parcela relativamente menor do emprego público em relação ao total
do emprego. Nessa nova sociedade norte-americana, regida pelo poder da finança, um
dos aspectos que mais se intensificou foi a desigualdade social. 108
Se, no período que se seguiu à segunda Guerra Mundial, o princípio que norteava
a ação empresarial era o de “reter e reinvestir”, no capitalismo contemporâneo o lema se
tornou o de “cortar e distribuir”. No passado, as corporações retinham os seus lucros e
procuravam reinvesti-lo em suas capacidades produtivas, principalmente nos
funcionários mais produtivos, relevantes para garantir a competitividade da empresa. Essa
forma de manutenção do orçamento empresarial e de gestão do caixa, diz Lazonick,
contribuía para o crescimento estável do crescimento econômico. Entretanto, as
mudanças aqui mencionadas, que tomaram forma ao final da década de 1970,
transformaram a relação da empresa para com a sua gestão financeira. O regime de “corte
e distribuição”, expressão utilizada por Lazonick para descrever a tendência atual de
redução do quadro de funcionários e do crescimento da distribuição de lucros, corroborou
para que acontecesse, em pouco tempo, uma quebra entre o crescimento da produtividade
e o aumento dos salários. Por meio da lógica de “corte e distribuição”, se favorece os
interesses financeiros, às custas dos empregados que contribuem para o processo de

107
ANTUNES, D. J. N. Op. cit. p. 69.
108
Ibidem.
64

criação do valor. Um dos subprodutos dessa lógica recente de administração das


empresas, focada na “geração de valor para o acionista”, é que se contribuiu para agravar
a instabilidade do emprego e a desigualdade de rendimentos. 109
Uma série de fatores contribuiu para a piora da desigualdade social nos E.U.A,
fenômeno que pode ser identificado, com mais clareza, a partir de 1980. Ainda que
possam existir fatores exógenos que corroboraram para o crescimento da desigualdade
nos Estados Unidos, no âmbito interno os países têm as ferramentas para a implementação
de políticas públicas que combatam a piora da desigualdade de renda, ou de patrimônio.
Nos Estados Unidos, contudo, as ferramentas que foram utilizadas funcionaram como um
catalisador da concentração de renda e da riqueza. Em parte, essa distorção pode ser
explicada pela desigualdade que existe na representação política dos E.U.A., marcada
pela grande influência que os ricos exercem sobre o planejamento e a implementação das
políticas econômicas conforme os seus interesses particulares. A dimensão política,
evidentemente, não é o único elemento que explica o crescimento da desigualdade social
nos E.U.A. Entretanto, essa dimensão certamente teve um grande papel em moldar e
condicionar esse processo de concentração da riqueza, que acontece desde meados da
década de 1980. 110
O fenômeno da desigualdade se tornou tão notório na sociedade dos Estados
Unidos, que, quando se pergunta, “como está a economia dos E.U.A?”, é preciso
qualificar essa questão: depende, de qual economia se está falando? A melhora no poder
de consumo dos estratos mais ricos da população norte-americana, o 1% mais abastado,
foi notável durante as últimas décadas. Para a maioria da população americana, todavia,
os anos recentes foram marcados por ganhos medíocres, especialmente quando se
compara os números atuais com aqueles observados para o período pós II Guerra. Uma
batelada de mudanças conservadoras na economia corroboraram para este resultado: a
estagnação do salário mínimo, a diminuição dos impostos sobre a renda dos mais ricos,
os obstáculos à sindicalização, o livre comércio internacional (com a omissão dos
governos nacionais em conter os malefícios da globalização), o poderio crescente da alta
finança, o abandono às políticas de perseguição do pleno emprego e o assalto aos
arcabouço jurídico e regulatório que garantia o bem-estar dos cidadãos, por exemplo, são
elementos que ajudam a compreender as transformações sociais que tem ocorrido nos

109
LAZONICK, W. Op. cit. 2014.
110
APEL, H. Income inequality in the U.S. from 1950 to 2010: the neglect of the political. In: Real-world
economics review. n. 72. 30 de setembro. 2015.
65

Estados Unidos durante o capitalismo contemporâneo. 111


O pontapé inicial para as políticas pró-desregulamentação econômica veio com as
ilusões da “economia de oferta. Seria preciso, diziam os seus adeptos, colocar um fim no
estímulo fiscal “desenfreado” e coibir a atividade sindical, elementos que, conjugados,
estariam impulsionando a estagnação nos Estados Unidos. Por meio de uma
reestruturação conservadora, que aumentasse a poupança dos ricos, diminuindo a rigidez
no mercado de trabalho, poder-se-ia retomar o progresso econômico. Era preciso,
conforme os economistas dessa estirpe, liberar o impulso do investimento privado, ao
diminuir as distorções e as rigidez criada pela ação do Estado, incentivando a
concorrência empresarial. A alta finança, com seu poder crescendo progressivamente,
impôs novas formas de administração da poupança coletiva. Promovia-se, a passos
acelerados, a liberalização dos mercados, a globalização financeira e a centralização da
riqueza líquida. 112
Sob o comando da alta finança envolvida no processo de internacionalização da
produção e no acirramento da concorrência em escala global, prometeu-se à classe
trabalhadora empregos de qualidade, salários crescentes e mais liberdade. Entregou-se,
contudo, a disciplina dos mercados, a austeridade do governo e a concentração da renda.
Em vez de progresso social e econômico, os últimos quarenta anos foram marcados por
um déficit democrático. Importou menos, por todo esse tempo, a diminuição do tamanho
do Estado, e importou mais, para aqueles no comando, garantir que todas as esferas vida
se submetessem à mercantilização. Nas palavras de Belluzzo, para não ferir a precisão do
autor: “O projeto ocidental da cidadania democrática e igualitária não “cabe” no
espartilho amarrado na ilharga das sociedades pela “racionalidade” do capitalismo
contemporâneo”. 113
Para além da guinada liberal-conservadora que ditou os rumos da economia dos
Estados Unidos depois de 1980, há também uma outra transformação relevante do
capitalismo contemporâneo, explica Belluzzo: um “cataclismo” na divisão internacional
do trabalho, na medida em que a Ásia desponta como a principal produtora de
manufaturados, simples e complexos, do mundo. A maior parte dessa produção, cumpre
especificar, acontece na China, país que se tornou, ao longo do tempo, uma grande

111
BIVENS, J. America the Unequal: origins and impacts of a policy Revolution. In: Demos. 2013. Disponível
em http://www.demos.org/sites/default/files/publications/Bivens.pdf. Acessado em 16/07/2020.
112
BELLUZZO, L. G.; GALÍPOLO, G. Manda quem pode, obedece quem tem juízo. São Paulo/SP; Ed: Contra-
corrente. 2017.
113
Ibidem. p. 38.
66

importadora de matérias primas, e exportadora de bens manufaturados. Ao contrário do


Ocidente, que nas décadas recentes tem procurado manter políticas de liberalização
comercial, a China tem perseguido um receituário desenvolvimentista, ao executar
políticas de industrialização, se aproveitando também da onda de descolamento das
atividades produtivas em âmbito internacional para atrair grandes empresas. Trata-se,
explica Belluzzo, de uma notável readequação das políticas indústrias à realidade do
capitalismo contemporâneo. Fazendo o uso combinado de políticas que induzem a
competitividade nos setores, mas ao mesmo tempo empregando também políticas
desenvolvimento industrial, o sistema chinês tem sido capaz de controlar as instituições
centrais da economia moderna para atingir objetivos econômicos pré-estabelecidos. Essa
mudança nos fluxos comerciais globais, vale ressaltar, tem uma implicação importante
para os Estados Unidos: os E.U.A mantiveram um déficit comercial com a China.114. É o
arranjo comercial sino-americano, que se intensifica a partir dos anos 2000.
“Puede salvarse Estados Unidos?”, livro de Patrick Artus e Marie-Paule Virard,
também toca neste ponto importante: os efeitos que a globalização produziu sobre os
tecidos produtivos nacionais. Desde o fim da década de 1990, comentam os autores, o
centro de gravidade da economia mundial se deslocou para o leste asiático, mais
especificamente, para a China. Houve uma acelerada transferência das atividades
produtivas para os países emergentes. Se, em 1998, as economias emergentes respondiam
por 27% do comércio mundial, este número aumentou para 45%, em 2008. Ademais, as
atividades produtivas que se deslocaram para os BRICS vão muito além de energia e
recursos não renováveis. Trata-se de setores intensivos em tecnologias, como a
informática, os equipamentos de comunicação e eletrônicos, em geral. Essa redistribuição
das cartas no cenário internacional conferiu uma nova faceta para as especializações
produtivas, em especial dos países localizados no leste asiático. 115
Neste capítulo, portanto, voltado à análise do desempenho da economia norte-
americana durante o intervalo de 1980-2018, pretende-se demonstrar a deterioração que
tem acompanhado a economia dos Estados Unidos durante esse tempo. Fazendo uso de
informações disponibilizadas pelo Bureau of Economic Analysis (BEA), apresenta-se um
panorama geral das principais tendências que se fizeram presentes, desde 1980, nos
Estados Unidos. De um lado, será notado que há uma deterioração quantitativa do
desempenho econômico dos Estados Unidos. Essa piora quantitativa, vale acrescentar,

114
BELLUZZO, L. G. Op. cit. 2014.
115
ARTUS, P; VIRARD, M. Puede salvarse Estados Unidos? Buenos Aires. Ed: Capital Intelectual. 2009.
67

poderá ser notada por meio de um crescimento cada vez mais lento do Produto Interno
Bruto. Por outro lado, há de se apontar também para a deterioração qualitativa do
crescimento econômico dos Estados Unidos. Os elementos que sustentaram o
crescimento dos E.U.A no passado estão se enfraquecendo no cenário recente.

2.1. Um olhar sobre o Produto Interno Bruto

Primeiramente, será relevante fazer uma análise geral do Produto Interno Bruto norte
americano. O leitor verá que o indicador mais comum do desempenho da economia
aponta que os E.U.A, ao longo das últimas décadas, tem crescido cada vez mais
lentamente. Em outras palavras, trata-se de uma notável desaceleração que tem
atravessado a economia norte-americana, desde 1980. A verificação desse fato, todavia,
é apenas um primeiro passo do estudo aqui conduzido. Além de uma análise quantitativa
dessa desaceleração, será realizada também, nos passos seguintes, uma investigação
qualitativa da performance econômica norte-americana, desagregando os componentes
mais gerais do PIB, com o objetivo compreender como se deu essa deterioração
econômica.
A evolução do Produto Interno Bruto norte-americano, em detalhe, fornece mais
pistas sobre o que tem ocorrido nos E.U.A, durante as últimas décadas. Ao analisar a
tabela 02, portanto, o intuito repousa em analisar categorias que não foram analisadas
anteriormente. Ou seja, a ideia, neste caso, é aprofundar nos detalhes, por meio de uma
investigação mais cuidadosa e atenta.
68

Tabela 02 – Variação porcentual detalhada do PIB, E.U.A: 1960-2018


1960-1979 1980-1999 2000-2018 1980-2018
Categoria
(% a.a.) (% a.a.) (% a.a.) (% a.a.)
Produto Interno Bruto 3,9 3,2 2,1 2,6
Consumo 4,0 3,4 2,4 2,9
Bens 3,7 3,5 3,0 3,3
Bens duráveis 5,8 5,5 5,1 5,3
Veículos a motor e peças 5,6 4,3 2,1 3,2
Mobília e equip. doméstico 4,6 3,9 4,9 4,4
Bens recreacionais e veículos 8,8 10,7 9,5 10,1
Outros bens duráveis 6,2 4,2 4,9 4,5
Bens não duráveis 2,8 2,5 2,0 2,2
Comida e bebida p/ consumo ext. 1,8 1,4 1,6 1,5
Roupa e calçado 3,9 4,5 2,4 3,5
Gasolina e energia 2,6 1,2 -0,2 0,5
Outros bens não duráveis 4,0 3,2 2,9 3,0
Serviços 4,3 3,3 2,1 2,7
Despesas familiares com serviço 4,3 3,1 2,0 2,6
Habitação e utilidades 4,5 2,6 1,6 2,1
Saúde 5,7 2,5 3,0 2,7
Transporte 4,1 4,1 1,4 2,8
Serviços recreacionais 5,2 5,5 2,1 3,8
Comida e acomodações 3,4 2,2 2,3 2,3
Financeiro e seguros 4,6 5,4 1,4 3,4
Outros 3,3 3,1 1,8 2,5
Despesas de ASFL* p/ famílias (1) 4,2 10,8 4,9 8,0
Produção bruta de ASFL p/ famílias (2) 5,1 3,7 2,9 3,3
Menos: receitas de vendas de bens e serv. por ASFL que
5,4 1,7 2,2 1,9
atendem famílias (3)
Investimento privado 5,5 4,6 2,6 3,6
Investimento fixo 5,3 4,3 2,5 3,4
Não resid. 6,2 5,1 3,4 4,2
Estruturas 4,2 1,1 0,5 0,8
Equipamentos 7,4 5,9 4,3 5,1
Equipamentos de processamento de informação 15,0 13,7 8,1 11,0
Computadores e equip. periféricos 37,2 33,9 8,5 21,5
Outros 9,7 6,1 8,0 7,0
Equipamentos industriais 5,2 1,7 1,5 1,6
Equipamentos de transportes 6,9 3,5 5,1 4,2
Outros equipamentos 5,1 1,9 2,6 2,2
Produtos de P. I 6,8 8,3 4,6 6,5
Software (4) 26,4 17,4 7,2 12,4
P&D (5) 6,3 5,7 3,2 4,5
Entretenimento, literatura e arte 3,5 4,5 2,2 3,4
Residencial 3,8 2,9 0,3 1,6
Exportação Líquida de bens e serviços - - - -
Exportações 7,0 6,6 3,8 5,2
Bens 7,7 6,7 3,8 5,3
Serviços 5,3 6,5 3,9 5,2
Importações 6,3 7,2 3,9 5,6
Bens 7,4 7,7 4,0 5,9
Serviços 3,4 5,6 3,9 4,7
Consumo e investimento governamental 2,3 2,2 1,1 1,7
Federal 1,1 1,4 1,9 1,7
Defesa nacional -0,1 1,2 1,6 1,4
Consumo 0,2 0,8 1,4 1,1
Investimento Bruto -0,6 2,3 2,6 2,5
Não defesa 4,7 2,0 2,4 2,2
Consumo 3,4 1,8 2,6 2,2
Investimento Bruto 8,2 2,4 2,0 2,2
Estados e local 3,9 2,6 0,7 1,7
Consumo 4,4 2,5 0,8 1,6
Investimento Bruto 2,3 3,6 0,3 2,0

(*): ASFL = associação sem fins lucrativos


1: Despesas líquidas das ASFL
2: Saldo líquido de vendas, para comércio, negócios, governo e para o resto do mundo
3: Exclui vendas, para comércio, negócios, governo e para o resto do mundo
4: Exclui software incorporado ou adicionado em computadores e equipamentos
5: P&D exclui gastos em desenvolvimento de software
Elaboração própria a partir de BEA – Bureau of Economic Analysis
69

O primeiro passo repousa em analisar de maneira ampla todo o período aqui


considerado, de 1980-2018. Primeiramente, as categorias ligadas ao consumo. O que salta
aos olhos, vale ressaltar, é o crescimento anual do consumo de bens recreacionais e
veículos, cuja taxa de crescimento ao ano atingiu 10,1%, liderando o crescimento entre
os bens duráveis. Entre os bens não duráveis, se destaca o consumo de roupas e calçados,
com um crescimento de 3,5% ao ano. Na categoria dos serviços, o crescimento é
relativamente homogêneo, com todas as categorias crescendo mais que 2% ao ano: o
destaque repousa no consumo de serviços recreacionais, financeiro e seguros e transporte,
que apresentam taxas de crescimento de 3,8% a.a., 3,4% a.a. e 2,8% a.a., respetivamente.
Os gastos em saúde, que serão analisados com mais atenção em um outro momento,
cresceram 2,7% a.a. Nos investimentos privados, os destaques estão concentrados nas
novas tecnologias de informação: o investimento em equipamentos de processamento de
informação, computadores e periféricos e software, por exemplo, apresentaram um
crescimento anual médio de 11,0%, 21,5,%, 12,4%, respectivamente. Trata-se, sem
dúvida, de um sinal claro de uma economia que procura concentrar os seus investimentos
em novas tecnologias e no desenvolvimento de novos equipamentos ligados à terceira
Revolução Industrial116. Por fim, em relação ao gasto governamental, cumpre mencionar
que, a despeito da vocação militar norte-americana, os investimentos brutos em defesa
nacional cresceram 2,5% a.a.; já os investimentos não alocados em defesa nacional
cresceram a taxas médias anuais de 2,2% a.a. Ainda sobre o tema “investimento, cumpre
observar que o investimento bruto privado cresceu a 3,6% a.a. entre 1980-2018, enquanto
o investimento governamental bruto (tanto em defesa como “não defesa”, cresceu a 2,2%
a.a., como já mencionado (cumpre mencionar que o investimento bruto dos estados e
local cresceu a 1,7% a.a., uma taxa inferior, inclusive, ao que foi verificado para o nível
federal). Ou seja, ao longo das últimas décadas, houve um crescimento mais acelerado do
investimento privado, na medida em que o investimento público pouco ultrapassou o
limite de 2% a.a.
O segundo exercício consiste em segmentar o período selecionado em dois
intervalos, 1980-1999 e 2000-2018, com o objetivo de observar diferentes tendências ao
longo do tempo. Á primeira vista, o que se observa é uma desaceleração entre os períodos
mencionados. Entre 2000-2018, foi observado, para as seguintes categorias, o

116
Uma síntese das transformações da III Revolução Industrial pode ser encontrada em COUTINHO, L. A
terceira revolução industrial e tecnológica: as grandes tendências de mudança. In: Economia e Sociedade.
v. 1, n. 1; ago. 1992
70

crescimento médio anual de: bens recreacionais e veículos (9,5%), roupa e calçado
(2,4%), investimento em equipamento de processamento de informação (8,1%) e
investimentos em computadores e periféricos apresentaram (8,5%). Já entre 1980-1999,
para as mesmas variáveis, o seu crescimento médio anual: bens recreacionais e veículos
(10,7%), roupa e calçado (4,5%), investimento em equipamento de processamento de
informação (13,7%) e investimentos em computadores e periféricos apresentaram
(33,9%).
Em todos os casos, portanto, houve uma notável diminuição, sinalizando que tanto
o consumo e o investimento apresentaram uma redução na velocidade do crescimento
anual médio. Uma exceção digna de nota, vale ressaltar, reside no consumo com despesas
de saúde, que, entre 1980-1999, cresceu 2,5% a.a., enquanto no segundo intervalo de
tempo, mais recente, houve um crescimento de 3,0% a.a. Outro ponto que merece
destaque repousa na diferença observada entre o crescimento anual médio dos
investimentos residenciais entre os períodos mencionados: para 1980-1999, um
crescimento de 2,9% a.a., para 2000-2018, apenas 0,3% ao ano. Quando se analisa o
crescimento médio anual do investimento residencial entre 1980-2018 (1,6% a.a.), no
entanto, essa desaceleração passa despercebida. Assim, enquanto houve uma
desaceleração do consumo, do investimento privado, e, em termos gerais, do gasto
governamental, uma das poucas categorias em que se verificou um crescimento, ainda
que pequeno, foi o consumo no setor de saúde.
Por fim, uma breve comparação entre 1960-1979 com 2000-2018, apenas para
ilustrar melhor a desaceleração econômica norte-americana nos anos recentes. Entre
1960-1979, as categorias e seus respetivos crescimento anuais médios: bens recreacionais
e veículos (8,8%), roupa e calçado (3,9%), investimento em equipamento de
processamento de informação (15,0%) e investimentos em computadores e periféricos
apresentaram (37,2%). Já o crescimento médio anual das mesmas variáveis entre 2000-
2018, como já mencionado: bens recreacionais e veículos (9,5%), roupa e calçado (2,4%),
investimento em equipamento de processamento de informação (8,1%) e investimentos
em computadores e periféricos (8,5%). Ou seja, com a exceção dos bens recreacionais e
veículos, a desaceleração é mais notável quando se analisa o crescimento anual médio
dos anos recentes com o desempenho da economia norte-americana nos “anos de ouro”.
71

2.2. O Consumo Privado

Após uma ampla investigação do Produto Interno Bruto dos E.U.A, cumpre entrar
numa análise mais detalhada de cada componente do PIB. Num primeiro passo, o
consumo. Nessa busca por desvendar a deterioração qualitativa que tem acompanhado a
economia norte-americana durante as últimas décadas, o consumo será o primeiro
componente do PIB a ser destrinchado. Uma investigação mais cuidadosa dos gastos em
consumo, portanto, cumpre aqui um papel fundamental para entender mais sobre a
desaceleração econômica norte-americana que tem ocorrido nos anos recentes.

Tabela 03: Variação porcentual de Despesas em Consumo, por grande tipo de produto,
E.U.A: 1960-2018

1960-1979 1980-1999 2000-2018 1980-2018


Categoria
(% a.a.) (% a.a.) (% a.a.) (% a.a.)
Despesas em consumo pessoal 4,0 3,4 2,4 2,9
Bens 3,7 3,5 3,0 3,3
Bens duráveis 5,8 5,5 5,1 5,3
Veículos a motor e peças 5,6 4,3 2,1 3,2
Mobília e equip. doméstico 4,6 3,9 4,9 4,4
Bens recreacionais e veículos 8,8 10,7 9,5 10,1
Outros bens duráveis 6,2 4,2 4,9 4,5
Bens não duráveis 2,8 2,5 2,0 2,2
Comida e bebida p/ consumo ext. 1,8 1,4 1,6 1,5
Roupa e calçado 3,9 4,5 2,4 3,5
Gasolina e energia 2,6 1,2 -0,2 0,5
Outros bens não duráveis 4,0 3,2 2,9 3,0
Serviços 4,3 3,3 2,1 2,7
Despesas domiciliares com serviço 4,3 3,1 2,0 2,6
Habitação e utilidades 4,5 2,6 1,6 2,1
Saúde 5,7 2,5 3,0 2,7
Transporte 4,1 4,1 1,4 2,8
Serviços recreacionais 5,2 5,5 2,1 3,8
Comida e acomodações 3,4 2,2 2,3 2,3
Financeiro e seguros 4,6 5,4 1,4 3,4
Outros 3,3 3,1 1,8 2,5
Despesas de A.S.F.L.s. p/ famílias (1) 4,2 10,8 4,9 8,0
Produção bruta de ASFL p/ famílias (2) 5,1 3,7 2,9 3,3
Menos: receitas de vendas de bens e serv. por ASFL que
5,4 1,7 2,2 1,9
atendem famílias (3)
Adendo
Despesas em consumo excluindo comida e energia (4) 4,5 3,8 2,6 3,2
Bens de energia e serviços (5) 3,3 1,3 0,2 0,8
Despesas em consumo baseadas no mercado (6) - 3,3 2,4 2,7
Despesas em consumo baseadas no mercado, excluindo
- 3,6 2,6 3,0
comida e energia (6)

(*): ASFL = associação sem fins lucrativos


1: Despesas líquidas das ASFL
2: Saldo líquido de vendas, para comércio, negócios, governo e para o resto do mundo
3: Exclui vendas, para comércio, negócios, governo e para o resto do mundo
4: "Comida" consiste em comidas e bebidas compradas para consumo externo; serviços de alimentação, que incluem compras de
refeições e bebidas, não são incluídas como "comida"
5: Gasolina e outros bens de energia, eletricidade ou serviços de gás
6: Despesas baseadas no mercado é uma medida suplementar baseada em gastos domiciliares em que há preços mensuráveis.
Excluem a maior parte das transações embutidas sem pagamento e consumo de serviços ligados às instituições sem fins lucrativos
que servem aos domicílios (serviços financeiros, realizados sem pagamento, por exemplo)
Elaboração própria a partir de BEA – Bureau of Economic Analysis - Tabela 2.3.1

Por meio de uma análise da tabela 03, será realizada uma análise mais cuidadosa
72

das despesas em consumo. Tal como se tem feito para as outras figuras, cumpre em
primeiro lugar fazer uma análise mais ampla do período 1980-2018. No período
mencionado, o crescimento anual em despesas de consumo pessoal cresceu, em média,
2,9%. Contudo, esse crescimento ocorreu de modo diferente, conforme o tipo de produto
analisado: se, por exemplo, o consumo de “mobília e equipamento doméstico”, “bens
recreacionais e veículos” e “roupas e calçados cresceram” 4,4%, 10,1% e 3,5% ao ano,
respectivamente; para as seguintes categorias: comida e bebida para consumo externo e
gasolina e energia, houve um crescimento de apenas 1,5% e 0,5% ao ano,
respectivamente. Desse modo, contata-se que houve um crescimento mais acelerado das
despesas com bens de consumo duráveis (crescimento de 5,3% a.a.), ao passo os bens de
consumo não duráveis tiveram um crescimento médio anual menos intenso (2,2% a.a.).
Entre 1980-2018, os gastos pessoais em serviços tiveram um crescimento médio anual de
2,7% a.a. Contudo, esse aumento ocorreu de maneira diferente conforme a categoria
analisada. Algumas categorias tiveram um crescimento menos intenso, como despesas
domiciliares (2,6%), habitação e utilidades (2,1%) e comida e acomodações (2,3%), por
exemplo. Por outro lado, outras categorias, como transporte (2,8%), serviços
recreacionais (3,8%) e serviços financeiros (3,4%) apresentaram um crescimento médio
anual mais intenso. As despesas em saúde cresceram 2,7% a.a. entre 1980-2018. Contudo,
ao contrário das outras despesas pessoais em consumo, que apresentaram uma
desaceleração relativa nos anos recentes, os gastos com saúde cresceram mais
aceleradamente nos anos 2000, quando comparado ao intervalo temporal anterior, de
1980-1999.
Em segundo lugar, cumpre analisar o grande período de 1980-2018 em dois
intervalos mais curtos: 1980-1999 e 2000-2018, com o objetivo de identificar se existe
alguma tendência particular nas despesas pessoais em consumo. É notório que, entre os
dois intervalos de tempo mencionados há para quase todas as categorias de consumo
pessoal, tanto de bens como de serviços, uma desaceleração em seu crescimento médio
anual. Ou seja, em geral, as despesas em consumo dos norte-americanos estão crescendo
mais lentamente nos anos 2000. Existem, todavia, duas exceções, os gastos em saúde e
os gastos em comida e bebida para consumo externo. Os gastos pessoais com saúde, por
exemplo, cresceram, entre 1980-1999, 2,5% a.a., e, entre 2000-2018, foi registrado um
crescimento médio anual de 3,0%. Trata-se, evidentemente, de uma pequena variação.
Contudo, essa pequena aceleração indica que, nos anos recentes, os norte-americanos
estão despendendo cada vez mais dinheiro com a saúde. Ademais, para ilustrar de maneira
73

mais ampla essa desaceleração mencionada do consumo, basta observar o crescimento


médio anual das seguintes categorias, para 1980-1999: “bens duráveis” (5,5%), “veículos
a motor e peças” (4,3%), “bens não duráveis” (2,5%), “gasolina e energia” (1,2%),
“serviços” (3,3%) e “despesas em consumo excluindo comida e energia” (3,8% -
verificado na seção “adendo”). As mesmas categorias, entre 2000-2018, apresentaram o
seguinte crescimento médio anual: “bens duráveis” (5,1%), “veículos a motor e peças”
(2,1%), “bens não duráveis” (2,0%), “gasolina e energia” (-0,2%), “serviços” (2,1%) e
“despesas em consumo excluindo comida e energia” (2,6% - verificado na seção
“adendo”).
Novamente, apenas para ilustrar ainda mais esse fraco desempenho da economia
norte-americana nos anos recentes, é importante comparar o período de 2000-2018 com
os anos de ouro. Entre 1960-1980, as seguintes variáveis apresentaram um crescimento
médio anual de: bens duráveis” (5,8%), “veículos a motor e peças” (5,6%), “bens não
duráveis” (2,8%), “gasolina e energia” (2,6%), “serviços” (4,3%) e “despesas em
consumo excluindo comida e energia” (4,5% - verificado na seção “adendo”). Entre 2000-
2018, as mesmas variáveis apresentam o seguinte crescimento, tal como já registrado no
parágrafo anterior: bens duráveis” (5,1%), “veículos a motor e peças” (2,1%), “bens não
duráveis” (2,0%), “gasolina e energia” (-0,2%), “serviços” (2,1%) e “despesas em
consumo excluindo comida e energia” (2,6% - verificado na seção “adendo”). Ou seja,
quando se compara o desempenho do consumo norte-americano entre 1960-1980 e 2000-
2018, a situação assume proporções mais dramáticas, na medida em que o consumo em
serviços, por exemplo, cresce significativamente menos anos mais recentes. Outro
exemplo dramático reside nas despesas em consumo, excluindo comida e energia, que
passam a crescer apenas 2,6% a.a. nos anos recentes. A curiosidade entre os dois períodos,
todavia, repousa nos gastos em saúde, que cresceram 4,5% a.a. entre 1960-1999,
desaceleraram nos anos 1980-1999 e voltaram a crescer nos anos 2000.
Conclui-se, à vista disso, que as despesas em consumo pessoal nos E.U.A estão
crescendo menos intensamente nos anos mais recentes, algo que, em longo prazo, pode
implicar numa diminuição do padrão de vida da sociedade norte-americana. Entretanto,
ao mesmo tempo observou-se uma aceleração nas despesas pessoais com saúde, um sinal
de que, enquanto todas as outras categorias de consumo estão, ao longo do tempo,
crescendo menos intensamente, os gastos com saúde estão aumentando.
74

2.3. Investimento privado

O investimento privado o é próximo componente do Produto Interno Bruto que


será analisado. O investimento, cumpre salientar, é uma variável fundamental para
compreender o crescimento econômico, o nível de emprego e a criação de nova
capacidade produtiva de um país. Por isso, com o objetivo de analisar mais
detalhadamente a deterioração qualitativa do PIB dos E.U.A, é necessário investigar com
atenção as transformações do investimento privado. O esforço deste tópico, à vista disso,
é dedicado a uma análise detalhada do investimento privado, com o intuito auxiliar este
estudo a verificar a deterioração da performance econômica dos E.U.A pelas últimas
décadas.
Por meio da tabela 04, a seguir, pode-se é possível identificar quais foram as
tendências mais importantes com relação ao investimento em capital fixo na economia
norte-americana. Dado que o investimento privado é um dos fatores responsáveis pela
determinação da demanda agregada, afetando, portanto, o crescimento econômico, a
análise do investimento é fundamental para analisar como o gasto na sociedade norte-
americana poderá impactar no crescimento do produto em longo prazo. É justamente esse
o intuito de apresentar aqui a tabela 03: destrinchar o que está ocorrendo com as despesas
em investimento nos Estados Unidos.
O primeiro passo consiste em analisar, de maneira ampla, qual foi a tendência
mais ampla do crescimento médio anual em investimento fixo durante todo o período de
1980-2018: o investimento em capital fixo (3,4), não residencial (4,2%), em
equipamentos (5,1%), em propriedade intelectual (6,5%), residencial (1,6%) e
equipamentos (3,7%) não dá pistas de que a economia norte-americana estaria numa
desaceleração. Esses números, na realidade, passam a impressão de uma economia
vigorosa, em que o investimento em capital fixo cresce a taxas moderadas. Contudo, para
saber o que realmente se passa na sociedade norte-americana, é preciso destrinchar esse
período em intervalos menores.
75

Tabela 04 – Variação porcentual do Investimento real privado fixo, E.U.A:


1960-2018*
1960-1979 1980-1999 2000-2018 1980-2018
Categoria
(% a.a.) (% a.a.) (% a.a.) (% a.a.)
Investimento privado fixo 5,3 4,3 2,5 3,4
Não residencial 6,2 5,1 3,4 4,2
Estrutura 4,2 1,1 0,5 0,8
Comercial e saúde 5,3 3,1 -0,3 1,4
Manufatura 7,9 -0,6 1,7 0,5
Energia e comunicação 3,9 0,1 2,9 1,5
Mineração, poços e eixo (1) 3,7 -0,9 4,7 1,8
Outras estruturas (2) 1,9 3,0 1,0 2,0
Equipamento 7,4 5,9 4,3 5,1
Processamento de informação 15,0 13,7 8,1 11,0
Computador e periféricos 37,2 33,9 8,5 21,5
Outros (3) 9,7 6,1 8,0 7,0
Equipamento industrial 5,2 1,7 1,5 1,6
Equipamento transporte 6,9 3,5 5,1 4,2
Outros equipamentos (4) 5,1 1,9 2,6 2,2
Propriedade intelectual 6,8 8,3 4,6 6,5
Software (5) 26,4 17,4 7,2 12,4
P&D (6) 6,3 5,7 3,2 4,5
Entretenimento, literatura e arte 3,5 4,5 2,2 3,4
Residencial 3,8 2,9 0,3 1,6
Estruturas 3,7 2,9 0,2 1,6
Área permanente 3,7 2,9 -0,1 1,4
Uma família 3,3 3,9 -0,1 1,9
Várias famílias 7,4 -0,1 2,3 1,1
Outras estruturas (7) 4,5 3,2 1,2 2,2
Equipamento 7,5 3,0 4,6 3,7
Adendo
Investimento privado fixo em estruturas 3,7 1,8 0,1 1,0
Investimento privado fixo em nova estrutura 3,5 1,5 0,0 0,8
Estrutura não residencial 4,1 1,1 0,3 0,7
Estrutura residencial 3,4 2,7 0,1 1,4
Investimento privado fixo em equipamentos de
15,7 14,4 7,8 11,2
processamento e software

1: Inclui petróleo e exploração mineral


2:Consiste em estruturas religiosas, educacionais, vocacionais, acomodações, ferrovias, fazendas, parques e recreacionais,
compra líquida de estruturas usadas e comissões na venda de estruturas
3: Inclui equipamento de comunicação, instrumentos não relacionados à medicina, equipamentos médicos e instrumentos
de fotocópias e equipamentos correlatos, bem como equipamentos de escritório.
4: Consiste principalmente de móveis, maquinário agrícola, maquinário de construção, maquinário de mineração e extração
de óleo, maquinário de serviço industrial e equipamentos elétricos não classificados em outras categorias
5: Exclui software embutido e computadores e equipamentos
6: Inclui despesas de P&D para software
7: Consiste principalmente de produção de casas, melhorias em dormitórios, compras líquidas de estruturas usadas e
comissões na venda de estruturas residenciais.
Elaboração própria a partir de Bureau of Economic Analysis (BEA)

Quando se faz uma comparação entre o período de 1980-1999 com o intervalo de


2000-2018, todavia, a situação se altera. Para as mesmas variáveis, primeiramente para o
intervalo de 1980-1999, registrou-se: o investimento em capital fixo (4,3), não residencial
(5,1%), em equipamentos (5,9%), em propriedade intelectual (8,3%), residencial (2,9%)
e equipamentos (3,0%). Em seguida, cumpre analisar o crescimento médio anual das
variáveis supracitadas para o intervalo mais recente, de 2000-2018: o investimento em
capital fixo (2,5), não residencial (3,4%), em equipamentos (4,3%), em propriedade
76

intelectual (4,6%), residencial (0,3%) e equipamentos (4,6%). Há, portanto, sinais de uma
nítida desaceleração no ritmo do investimento privado em capital fixo, o que pode ajudar
a explicar o crescimento mais lento dos E.U.A no período recente. Tal como será visto
posteriormente, o governo também diminuiu sua taxa de gasto e investimento na
economia durante os anos recentes, o que, somado ao fato de que o investimento em
capital fixo tem crescido de modo mais lento a partir dos anos 2000, corrobora para
explicar o desempenho mais fraco da economia norte-americana.
Por fim, o último exercício com relação a essa figura diz respeito a uma
comparação entre os anos recentes e o período de ouro do capitalismo norte-americano.
Cumpre, assim, analisar o crescimento anual médio das variáveis já mencionadas, agora
para o intervalo temporal de 1960-1979: o investimento em capital fixo (5,3), não
residencial (6,2%), em equipamentos (7,4%), em propriedade intelectual (6,8%),
residencial (3,8%) e equipamentos (7,5%). Quando se compara, portanto, o desempenho
do investimento privado em capital fixo dos anos 1960-1979 com os anos recentes, a
situação se torna mais dramática. Fica evidente que os anos recentes foram marcados por
um fraco crescimento médio anual do investimento em capital fixo. O investimento em
capital fixo geral no primeiro intervalo, 1960-79 atingiu 5,3% a.a.; enquanto nos anos
2000, essa taxa cai para 2,5% a.a. Em termos de crescimento anual médio dos gastos,
trata-se de uma diminuição de aproximadamente 50%. Assim, é somente quando se divide
o grande período de 1980-2018 em intervalos mais curtos que se torna possível, e mais
claro, verificar que a economia norte-americana passa por uma desaceleração
significativa. Assim, pode-se reiterar o argumento deste capítulo: a economia norte-
americana passa por uma crise silenciosa, que não se revela por meio de um olhar
superficial dos dados. Trata-se de uma longa desaceleração, iniciada em meados de 1980,
e que toma contornos mais dramáticos a partir dos anos 2000.

2.4. Exportações e Importações

Um terceiro assunto que será abordado neste capítulo é a evolução das exportações
e das importações pelos Estados Unidos. Uma vez que o comércio externo é uma das
variáveis que exerce influência no Produto Interno Bruto, a investigação das exportações
e das importações cumpre um papel importante para explicar o desempenho econômico
dos E.U.A. Portanto, este tópico é voltado a uma breve investigação das exportações e
importações de bens e serviços, bem como do saldo comercial norte-americano. Além
disso, uma análise das transações externas pode revelar mais detalhes sobre a inserção
77

dos E.U.A no comércio internacional. Em tempos de globalização comercial e da


ascensão da China como uma potência econômica, é importante olhar para o que tem
ocorrido com as transações externas dos E.U.A.
A tabela 05, apresentada a seguir, demonstra a evolução das exportações e
importações nos E.U.A. Uma investigação atenta das transações externas pode
demonstrar as características e a interação da economia norte-americana com os outros
países. Em outras palavras, trata-se de investigar de que maneira os E.U.A tem se
relacionado no comércio internacional ao longo das últimas décadas. Em função de
limitações ligadas à série histórica, optou-se, nesta figura, em selecionar apenas os dados
e as observações a partir de 1980.
O primeiro exercício, portanto, repousa em analisar de maneira ampla o período
de 1980-2018. Durante todo o período em questão, as exportações de bens e serviços
cresceram, em média, 5,2% ao ano. Para as exportações de bens (5,3% a.a.), bens duráveis
– industrial e materiais (3,4%), bens não duráveis - industrial e materiais (4,4%) e serviços
(5,2%), o crescimento médio anual foi positivo. Para as importações de bens e serviços
(5,6%), de bens (5,9%), bens duráveis - industrial e materiais (3,6%), bens não duráveis
– industrial e materiais (1,5%) e importação de serviços (4,7), também houve crescimento
anual médio positivo. No entanto, de modo geral, as importações de bens e serviços, numa
média anual, (5,6%) cresceram ligeiramente acima das exportações de bens e serviços
(5,2%). Ou seja, ao longo das últimas décadas, houve um crescimento mais acelerado das
importações quando comparado às exportações. Mais pistas sobre o crescimento das
importações podem ser encontradas também na seção “adendo”: a evolução geral dos
bens duráveis exportados (6,1% a.a.), se deu abaixo da importação dos bens duráveis
(8,0% a.a.). Por fim, outros destaques ficam por conta da exportação de computador e
periféricos (16,9% a.a.), que sofrem uma desaceleração brusca nos anos recentes; bem
como da importação de computadores, periféricos e partes (25,7% a.a.). São números que
indicam uma economia cujas transações externas voltadas aos equipamentos eletrônicos
de alta tecnologia cresceram significativamente nas últimas décadas.
78

Tabela 05 – Variação porcentual real das exportações e importações de bens e serviços,


por tipo de produto, E.U.A.: 1980-2018

1980-1999 2000-2018 1980-2018


Categoria
(% a.a.) (% a.a.) (% a.a.)
Exportação de bens e serviços 6,6 3,8 5,2
Exportação de bens (1) 6,7 3,8 5,3
Alimentação, refeições e bebidas 2,1 2,8 2,4
Suprimento industrial e materiais 3,8 4,3 4,1
Bens duráveis 3,9 2,9 3,4
Bens não duráveis 3,8 5,0 4,4
Petróleo e relacionados 6,4 9,2 8,0
Bens não duráveis, exclui petróleo e relacionados 4,2 2,7 3,3
Bens de capital, exceto automotivo 10,7 4,0 7,5
Aeronave civil, motor e partes 5,5 1,6 3,6
Computador, periférico e partes 28,1 5,1 16,9
Outros 9,0 4,6 6,9
Veículos automotivos, motor e partes 4,5 4,1 4,3
Bens de consumo, exceto comida e automotivo 7,5 4,9 6,3
Bens duráveis 7,8 5,6 6,7
Bens não duráveis 7,6 4,3 6,0
Outros (2) 6,2 -0,1 3,1
Exportação de serviços (1) 6,5 3,9 5,2
Transporte 3,8 1,6 2,7
Viagens (todos os motivos, incluindo educação) 8,5 2,2 5,4
Encargo por uso de P. I 7,3 3,5 5,4
Outros serviços de negócios (3) 10,3 7,3 8,8
Bens e serviços governamentais 0,6 3,5 2,0
Outros 4,5 0,1 2,4
Importação de bens e serviços 7,2 3,9 5,6
Importação de bens (1) 7,7 4,0 5,9
Alimentação, refeições e bebidas 3,6 3,5 3,5
Suprimento industrial e materiais 3,3 0,5 2,0
Bens duráveis 4,3 2,7 3,6
Bens não duráveis 3,1 -0,1 1,5
Petróleo e relacionados 2,3 -0,8 0,8
Bens não duráveis, exclui petróleo e relacionados 6,1 1,6 3,9
Bens de capital, exceto automotivo 17,5 6,9 12,4
Aeronave civil, motor e partes 12,7 1,7 7,4
Computador, periférico e partes 42,5 8,1 25,7
Outros 14,2 7,2 10,8
Veículos automotivos, motor e partes 6,5 4,2 5,4
Bens de consumo, exceto comida e automotivo 8,7 6,2 7,5
Bens duráveis 8,4 7,9 8,1
Bens não duráveis 9,1 4,4 6,8
Outros (2) 10,2 2,2 6,3
Importação de serviços (1) 5,6 3,9 4,7
Transporte 3,2 1,5 2,4
Viagens (todos os motivos, incluindo educação) 9,3 2,6 6,0
Encargo por uso de P. I 10,8 6,1 8,5
Outros serviços de negócios (3) 11,0 7,6 9,3
Bens e serviços governamentais -1,3 -0,2 -0,8
Outros 2,4 2,9 2,7
Adendo
Exportação de bens duráveis 8,2 3,8 6,1
Exportação de bens não duráveis 3,9 3,9 3,9
Exportação de bens agrícolas 1,8 3,0 2,4
Exportação de bens não agrícola 6,5 3,9 5,2
Importação de bens duráveis 10,2 5,6 8,0
Importação de bens não duráveis 4,4 1,7 3,1
Importação de bens não petrolíferos 9,2 4,9 7,1

1. Começando em 1986, reparos e alterações nos equipamentos são reclassificados de "bens" para "serviços"
2. Inclui exportações líquidas de mercadorias para a comercialização, começando em 1999, reclassificado de "serviços" para "bens"
3. Inclui manutenção e serviços de reparo, serviços de seguro, financeiro, telecomunicação, serviços de PC e informação e outros
serviços de negócios
4. Inclui partes de alimentos, refeições, bebidas, suprimentos industriais "não duráveis", além de bens de consumo não duráveis não
ligados ao setor automotivo.
Elaboração própria a partir de BEA – Bureau of Economic Analysis
79

O segundo exercício repousa em analisar se há alguma diferença significativa


entre o período de 1980-1999, e o período mais recente, de 2000-2018. Para o período de
1980-1999, as seguintes variáveis e o seu crescimento anual médio: as exportações de
bens e serviços cresceram, em média, 6,6% ao ano. Para as exportações de bens (6,7%
a.a.), bens duráveis – industrial e materiais (3,9%), bens não duráveis - industrial e
materiais (3,8%) e serviços (6,5%). Com relação à evolução anual média das importações:
para as importações de bens e serviços (7,2%), de bens (7,2%), bens duráveis - industrial
e materiais (4,3%), bens não duráveis – industrial e materiais (3,1%) e importação de
serviços (5,6%). Ou seja, já entre 1980-1999, as importações cresciam mais
aceleradamente do que as exportações – uma indicação de que, já no passado, os E.U.A
estavam, ano a ano, importando num ritmo mais acelerado do que as suas exportações.
No adendo, as exportações dos bens duráveis (8,2% a.a.) também cresceram a um ritmo
mais lento quando se analisa a evolução das importações de bens duráveis. Para o
intervalo temporal mais recente, de 2000-2018, as mesmas variáveis já mencionadas e o
seu crescimento anual médio: as exportações de bens e serviços cresceram, em média,
3,8% ao ano. Para as exportações de bens (3,8% a.a.), bens duráveis – industrial e
materiais (2,9%), bens não duráveis - industrial e materiais (5,0%) e serviços (3,9%).
Com relação à evolução anual média das importações: para as importações de bens e
serviços (3,9%), de bens (4,0%), bens duráveis - industrial e materiais (2,7), bens não
duráveis – industrial e materiais (0,1%) e importação de serviços (3,9%). Assim, é
possível analisar que, de modo geral, há uma desaceleração tanto do crescimento das
exportações e das importações nos E.U.A. No entanto, mesmo com a desaceleração, o
crescimento anual médio das importações de bens e serviços ainda ficaram acima do que
foi verificado para as exportações (com uma diferença muito pequena). Ainda sobre 2000-
2018: na seção adendo, nota-se que o crescimento anual médio das exportações de bens
duráveis (3,8%) também difere significativamente do crescimento anual médio das
importações de bens duráveis (5,6%).
Por fim, pode-se concluir: os dados demonstram, nos anos recentes, uma
diminuição do crescimento médio anual tanto das exportações como das importações. No
entanto, desde 1980, as importações crescem num ritmo mais acelerado do que as
exportações. Ou seja, o valor importado pela economia norte-americana tem, durante as
últimas décadas, crescido progressivamente, ao passo que o valor exportado tem crescido
de modo cada vez mais lento. Antes dos anos 2000, as exportações e as importações
80

cresciam mais aceleradamente. Contudo, mesmo com a diminuição do ritmo de


importações e exportações, essa diferença entre o crescimento do que se importa e o que
se exporta se manteve, mesmo que pequena.

Gráfico - 01 – Evolução do valor acumulado anual real de exportações e importações de


bens, por categoria final de uso, E.U.A: 1994-2018*

3.000.000
2.786.639

2.500.000
2.223.922

2.000.000
1.820.176

1.500.000 1.385.458 1.780.900

854.584
1.000.000 1.198.934

646.203
500.000
1994
1995
1996
1997
1998
1999
2000
2001
2002
2003
2004
2005
2006
2007
2008
2009
2010
2011
2012
2013
2014
2015
2016
2017
2018
Import. Export.

(*):milhões de dólares fixos para 2012


Elaboração própria a partir de: U.S. Census

Para melhor descrever esse processo de crescimento das importações e


exportações nos E.U.A, cumpre olhar mais detalhadamente o crescimento real dos valores
importados e exportados, desde 1994. Pode-se observar que, para o crescimento das
exportações e as importações de bens nos E.U.A, há um claro movimento de
distanciamento entre essas duas variáveis, sendo que as importações lideram esse
aumento. Ou seja, desde 1994, ano inicial da série histórica aqui apresentada, há um
crescimento mais acelerado das importações nos E.U.A. Trata-se, vale ressaltar, de um
fenômeno diretamente relacionado à transformação da inserção comercial dos E.U.A no
comércio internacional, marcada pela ascensão da China como “fábrica do mundo”. Há,
vale notar, uma breve diminuição do valor importado entre 2008-2010, período que
compreende a crise financeira de 2008. Mas, desde então, o acumulado anual das
importações voltou a crescer progressivamente.
81

2.5. O Gasto Governamental

Uma quinta dimensão a ser analisada neste capítulo é o gasto governamental, que
engloba tanto as despesas governamentais em consumo, bem como as despesas com
investimento. O gasto governamental, cumpre salientar, é um componente fundamental
para compreender a evolução do Produto Interno Bruto dos E.U.A, e, portanto, o
crescimento econômico. Ademais, vale lembrar que o consumo e o investimento
governamental são variáveis que exercem uma influência decisiva sobre a demanda
agregada e o nível de emprego num país. Nesse sentido, a investigação das despesas
públicas adquire uma conotação especial, na medida em que a sua variação pode ajudar
a explicar a performance da economia norte-americana pelas últimas décadas. Este tópico
traz uma breve análise, portanto, da despesa governamental dos E.U.A., com um olhar
atento sobre a evolução das despesas militares.
Abaixo, a tabela 06 demonstra o crescimento anual médio das despesas
governamentais em consumo e investimento bruto. Por meio de uma investigação do
gasto público, será possível identificar com mais clareza onde se concentraram os gastos
governamentais, e quais foram as áreas que tiveram menor prioridade ao longo do tempo.
Tal como se tem realizado para as outras figuras deste trabalho, o primeiro
exercício repousa em investigar, de maneira ampla, o período que compreende os anos de
1980-2018. Foi verificado o seguinte crescimento médio anual para as variáveis em
questão: consumo, despesa e investimento bruto (1,7%), âmbito federal (1,7%), defesa
nacional (1,4%), não defesa (2,2%), estadual e local (1,7%). Ou seja, de modo agregado,
apenas os gastos estaduais e locais cresceram acima de 2% ao ano, e os gastos em defesa
nacional cresceram a 1,4% ao ano. Cumpre, agora, realizar uma análise mais cuidadosa
do crescimento médio anual para o investimento: investimento bruto geral (2,1%), âmbito
federal (2,3%), investimento em defesa nacional (2,5%), investimento bruto “não defesa”,
(2,2%), investimento bruto “estadual e local” (2,0%).
82

Tabela 06 – Variação porcentual real de despesas em consumo e investimento


governamental, E.U.A: 1960-2018*

1960-1979 1980-1999 2000-2018 1980-2018


Categoria
(% a.a.) (% a.a.) (% a.a.) (% a.a.)
Consumo, despesa e investimento bruto governamental 2,3 2,2 1,1 1,7
Despesa em consumo (1) 2,6 2,0 1,1 1,5
Investimento bruto (2) 1,7 3,0 1,1 2,1
Estrutura 1,0 2,0 -0,6 0,7
Equipamento 0,4 4,9 3,6 4,3
Propriedade intelectual (produtos) 4,8 2,6 2,3 2,4
Software 66,1 9,9 4,8 7,4
P&D 4,3 1,3 1,5 1,4
Federal 1,1 1,4 1,9 1,7
Despesa em consumo 1,0 1,1 1,8 1,5
Investimento bruto 1,5 2,4 2,3 2,3
Estrutura -1,5 -0,5 -2,5 -1,5
Equipamento 0,5 4,0 4,4 4,2
Propriedade intelectual (produtos) 4,6 2,0 1,9 1,9
Software 25,2 8,9 4,8 6,9
P&D 4,2 1,1 1,3 1,2
Defesa nacional -0,1 1,2 1,6 1,4
Despesa em consumo 0,2 0,8 1,4 1,1
Investimento bruto -0,6 2,3 2,6 2,5
Estrutura -5,6 0,7 -3,6 -1,4
Equipamento 0,0 3,0 4,4 3,7
Propriedade intelectual (produtos) 1,4 1,9 1,5 1,7
Software 21,5 10,0 4,1 7,1
P&D 1,1 1,2 1,2 1,2
Não defesa 4,7 2,0 2,4 2,2
Despesa em consumo 3,4 1,8 2,6 2,2
Investimento bruto 8,2 2,4 2,0 2,2
Estrutura 2,4 -0,5 -1,6 -1,0
Equipamento 10,4 9,0 4,6 6,8
Propriedade intelectual (produtos) 12,1 2,1 2,2 2,2
Software 34,0 8,2 5,3 6,8
P&D 11,5 1,1 1,4 1,3
Estadual e local 3,9 2,6 0,7 1,7
Despesa em consumo 4,4 2,5 0,8 1,6
Investimento bruto 2,3 3,6 0,3 2,0
Estrutura 1,7 2,4 -0,3 1,0
Equipamento 6,1 8,1 2,3 5,3
Propriedade intelectual (produtos) 9,7 8,1 4,1 6,1
Software 64,7 12,6 4,8 8,8
P&D 7,5 4,9 3,5 4,2

1: Despesa governamental em consumo consiste em serviços (como educação e defesa, por exemplo) produzidos pelo governo e cujos
valores são mensurados conforme o seu custo de "produção". Exclui as vendas governamentais para outros setores e e investimento
entre as próprias contas governamentais (construção, software e P&D)
2. Investimento governamental bruto consiste em despesa governamental e despesas das empresas públicas em ativos fixos;
Investimento no inventário é incluído em "consumo governamental".
Elaboração própria a partir de BEA

Quando se destrincha o gasto geral do governo pelo investimento, observa-se que


os investimentos em defesa nacional tiveram destaque ao longo de todos esses anos, com
o crescimento anual médio de 2,5% a.a. O menor crescimento anual médio, por outro
lado, ficou por conta dos investimentos brutos no âmbito estadual e local, que cresceram
apenas 2% ao ano durante todo esse tempo. Pela ótica do consumo (despesas em
consumo), cabe realizar a mesma análise: despesa em consumo geral (1,5%), consumo
federal (1,5%), consumo em defesa nacional (1,1%), consumo “não defesa” (2,2%) e
consumo “estadual e local (1,6%). No âmbito do consumo governamental, o crescimento
83

anual médio mais acelerado se deu justamente no consumo “não defesa”, e o menor
crescimento anual médio em consumo ocorreu para a defesa nacional. Ou seja, quando se
trata de defesa nacional, o governo norte-americano priorizou os investimentos, em
detrimento do consumo em defesa. Por fim, o destaque em relação ao crescimento médio
anual de todo este período reside nas despesas em software (7,4%); tanto em âmbito
federal (6,9%), em defesa nacional (7,1%), em “não defesa” (6,8%) e nível estadual e
local (8,8%).
Identifica-se, em segundo lugar, as diferenças no crescimento anual médio entre
o intervalo de 1980-1999 e os anos mais recentes, que compreendem os anos de 2000-
2018. Uma análise mais ampla de 1980-1999, para as seguintes variáveis: consumo,
despesa em investimento bruto geral (2,2%), consumo geral (2,0%), investimento bruto
(3,0%), gasto em âmbito federal (1,4%), gasto em defesa nacional (1,2%), gasto “não
defesa” (2,0%) e gasto âmbito estadual e local (2,6%). Agora, o crescimento médio anual
das mesmas variáveis, para o intervalo temporal de 2000-2018: consumo, despesa em
investimento bruto geral (1,1%), consumo geral (1,1%), investimento bruto (1,1%), gasto
em âmbito federal (1,9%), gasto em defesa nacional (1,6%), gasto “não defesa” (2,4%) e
gasto âmbito estadual e local (0,7%). Verifica-se, portanto, que de modo geral houve uma
redução significativa no crescimento anual médio dos gastos em consumo e investimento
público entre os intervalos temporais mencionados. Entretanto, há diferenças importantes,
na medida em que os ritmo de crescimento dos gastos federais aumentaram, no entanto,
houve uma diminuição drástica do consumo e do investimento em nível estadual e local.
Ademais, em todos os níveis, (federal, defesa, não defesa e gasto local), houve uma
notável diminuição no crescimento anual médio dos investimentos em software.
O último exercício repousa em analisar, de maneira ampla, as diferenças que
podem existir entre o intervalo temporal mais recente, de 2000-2018, e os anos de ouro
do capitalismo norte-americano, 1960-1979. Como já se observou nos parágrafos
anteriores, para as variáveis durante o período mais recente (2000-2018): consumo,
despesa em investimento bruto geral (1,1%), consumo geral (1,1%), investimento bruto
(1,1%), gasto em âmbito federal (1,9%), gasto em defesa nacional (1,6%), gasto “não
defesa” (2,4%) e gasto âmbito estadual e local (0,7%). As mesmas variáveis, para o
intervalo mais antigo (1960-1979), demonstram um crescimento anual médio de
consumo, despesa em investimento bruto geral (2,3%), consumo geral (2,6%),
investimento bruto (1,7%), gasto em âmbito federal (1,1%), gasto em defesa nacional
(0,1%), gasto “não defesa” (4,7%) e gasto âmbito estadual e local (4,4%). Ou seja, de
84

modo, geral, o período mais recente demonstra uma redução notável do consumo e do
investimento governamental. Ademais, no intervalo mais antigo é notório o crescimento
médio anual verificado para os gastos em “não defesa”, especialmente do investimento
bruto e o investimento em software; contudo, os anos recentes se destacam justamente
pelo crescimento vigoroso das despesas relacionadas à defesa nacional, especialmente do
investimento em defesa.
De maneira geral, observa-se uma desaceleração dos gastos públicos e do
investimento bruto do governo norte-americano ao longo do tempo. Se, num primeiro
momento, essa tendência não pode ser notada numa análise ampla do período em questão,
uma investigação mais cuidadosa revela que não somente existem diferenças importantes
em relação aos intervalos temporais considerados, mas que, principalmente, há uma
redução geral do crescimento médio anual para o consumo, a despesa e investimento
bruto públicos norte-americanos. Pode-se concluir, portanto, que nos anos recentes os
gastos públicos norte-americanos, tanto em consumo como em investimento, estão
crescendo cada vez mais lentamente. Aliás, no período recente houve um crescimento do
ritmo anual para os investimentos em defesa, ao passo que houve uma diminuição do
crescimento anual médio para os gastos em “não defesa”.
85

Argumento em síntese

Neste capítulo, foi realizada uma investigação sobre a desaceleração que atravessa
a economia dos E.U.A, desde 1980. O percurso trilhado para descrever essa deterioração
da performance econômica dos Estados Unidos envolveu, num primeiro momento, uma
análise do Produto Interno Bruto. Nessa primeira parte do trabalho, restou claro que o
período neoliberal trouxe uma desaceleração econômica notável para os E.U.A.
Num segundo momento, foi realizada uma análise mais detalhada dos
componentes do Produto Interno Bruto. O caminho percorrido nas etapas seguintes do
capítulo envolveu uma investigação mais detalhada do consumo, do investimento
privado, das exportações e importações, e, por fim, do gasto governamental. Cada
componente do PIB foi analisado isoladamente, para que fosse possível ter uma ideia
mais específica sobre o que aconteceu com a economia norte-americana durante esse
tempo. Além disso, para facilitar a identificação da deterioração econômica nos Estados
Unidos ao longo do tempo, optou-se por segmentar o período de 1980-2018 em intervalos
temporais mais curtos (1980-1999 e 2000-2018). Somente assim foi possível identificar
as tendências específicas que se ocultam entre todos esses anos, pelos diversos
componentes do PIB. Por meio desse exercício de segmentação temporal, restou claro
que existe uma diferença notável entre o desempenho econômico dos intervalos
mencionados. Entre 1980-2000, os resultados não são desastrosos, mas já há indícios de
uma desaceleração. Nos anos mais recentes, todavia, a partir dos anos 2000, a
desaceleração assume contornos mais dramáticos, e a deterioração econômica é mais
notável.
Podem restar, entre os economistas, dúvidas quanto aos motivos que levaram a
essa desaceleração da economia. Pode-se, por exemplo, debater quais foram os elementos
que influenciaram negativamente o desempenho da economia nos E.U.A; ou, ainda, pode-
se debater sobre qual foi o peso de cada componente do PIB para explicar essa
deterioração na performance econômica longo das últimas décadas. Contudo, não se pode
duvidar de algo que os dados demonstram de maneira tão clara e direta: os E.U.A, durante
as últimas décadas, tem apresentado um crescimento de sua economia cada vez mais
lento. A política econômica liberal conduzida nos Estados Unidos, desde 1980, trouxe um
desempenho econômico pior do que o verificado no passado.
Quanto à desaceleração econômica observada nos Estados Unidos, os dados
demonstraram que há diferenças importantes entre o período de 1980-2000, e os anos de
86

2000-2018. Durante o intervalor de 1980-2000, cumpre ressaltar, não houve uma queda
brusca do crescimento econômico. Pelo contrário, entre 1980-2000, o desempenho da
economia norte-americana não foi desastroso, mas apenas mais lento do que no passado.
Há, sim, uma desaceleração que se inicia a partir dos anos 1980, na medida em que a
economia norte-americana passa a demonstrar um dinamismo mais lento do que ela havia
registrado nos anos de ouro. Todavia, de início, a era neoliberal trouxe apenas uma
moderação nas taxas de crescimento. O que se nota, contudo, é o começo de uma lenta
degradação dos pilares que garantiram o crescimento econômico norte-americano: o
investimento privado e o investimento governamental passam a crescer num ritmo mais
lento do que o verificado no passado. Trata-se de um fenômeno que se inicia nos anos
1980, mas cujos impactos só se farão mais presentes e notórios a partir dos anos 2000,
nos quadros de um arranjo comercial sino-americano, de uma crise financeira mundial e
um declínio relativo da hegemonia norte-americana.
O primeiro componente do PIB a ser escrutinado foi o consumo privado. O
consumo, tal como as outras variáveis aqui observadas, passou a crescer mais lentamente
nos anos recentes. Entretanto, a queda no consumo privado é menos proeminente do que
a diminuição para outras variáveis do PIB, vale salientar. De todo modo, cumpre notar
que há tendência diferenciadas no consumo privado que merecem destaque: os gastos em
saúde, a partir dos anos 2000, passaram a crescer mais aceleradamente, da mesma maneira
que o consumo de bens duráveis também apresentou uma tendência à estabilidade ao
longo do tempo. Assim, alguns dos traços mais relevantes do consumo privado norte-
americano, ao longo das últimas décadas, tem sido o elevado consumo de bens e veículos
recreacionais, além das despesas mais elevadas com saúde nos anos 2000. Concluiu-se
que, a despeito da desaceleração no consumo que foi verificada ao longo do tempo, não
houve para o consumo privado uma modificação brusca ou mesmo drástica de seu ritmo
de crescimento. A deterioração da performance econômica dos E.U.A não pôde ser
observada pela ótica do consumo.
O investimento privado, por outro lado, que configura uma variável fundamental
para compreender o crescimento econômico, o nível de emprego e a criação de nova
capacidade produtiva, apresentou pistas mais sólidas da deterioração econômica dos
Estados Unidos ao longo das últimas décadas. A partir de 1980, o investimento em
manufatura deixou de ser um dos setores que concentra os investimentos privados,
apresentando um crescimento mais lento nos anos recentes. Igualmente, os investimentos
privados em equipamentos industriais passaram a crescer mais lentamente após 1980.
87

Trata-se, nesse sentido, de um sinal da erosão das bases que garantiram o crescimento
econômico dos E.U.A durante os “anos de ouro”. Mesmo os investimentos em novas
tecnologias, que ganharam importância nos gastos privados, desaceleraram com o tempo:
os gastos com computadores e processamento de informações, que demonstraram
patamares elevados passado, perderam força nos anos 2000. Sobre o investimento
privado, concluiu-se: há um longo processo de degradação das bases que garantiram o
crescimento econômico norte-americano durante as últimas décadas. Deterioração, que,
vale acrescentar, se manifestou de forma evidente por meio da desaceleração do
investimento privado.
O próximo componente do PIB a ser analisado foram as exportações e as
importações. Nessa investigação, foi comprovado que as exportações dos E.U.A,
especialmente em bens duráveis, tem crescido mais lentamente do que as importações em
bens duráveis. Esse fato, somado à constatação de que o investimento privado tem
desacelerado, mas que o consumo privado não tem diminuído na mesma proporção,
parece indicar que os E.U.A. têm abastecido o seu mercado interno com produtos
importados, ao invés de produtos fabricados nos Estados Unidos. O resultado dessa
persistente tendência verificada nas transações externas é um hiato crescente entre o valor
anual acumulado das exportações comparado às importações (por categoria final de uso
final). Este cenário preocupante aponta que a demanda da população por bens e serviços,
especialmente os bens duráveis de consumo, portadores de novas tecnologias, tem sido
direcionada para o estrangeiro. Ou seja, parte importante da demanda agregada nos E.U.A
está sendo, durante as últimas décadas, canalizada para outros países. Concluiu-se, tendo
em vista os dados obtidos sobre as transações externas de bens e serviços nos E.U.A, que
as importações têm crescentemente afetado de forma negativa a evolução do Produto
Interno Bruto.
O último componente investigado do Produto Interno Bruto foi o gasto
governamental. Por meio de uma análise das despesas públicas, constatou-se que o
investimento governamental dos E.U.A tem desacelerado ao longo do tempo. A economia
dos Estados Unidos passou a contar, nas últimas décadas, com um crescimento cada vez
menor de sua despesa pública para impulsionar a criação de nova capacidade produtiva.
Além da constatação de que o investimento público tem desacelerado com o tempo, foi
observado que, curiosamente, os gastos em defesa nacional têm crescido mais
aceleradamente, principalmente nos anos 2000. Esse aumento da relevância dos gastos
em defesa nacional, vale ressaltar, contrasta com o que foi observado para os “anos de
88

ouro” do capitalismo, época em que os gastos em defesa nacional dos E.U.A diminuíram,
ao invés de aumentar. Trata-se de uma mudança sutil, mas que carrega consequências
importantes: nos anos recentes, as despesas que aumentam a capacidade produtiva da
economia “não militar” cresceram de maneira letárgica, ao mesmo tempo em que os
gastos bélicos passam a aumentar mais aceleradamente. Na medida em que o gasto
governamental cresce mais lentamente, em sintonia com a diminuição no ritmo dos
investimentos privados, o gasto público nos Estados Unidos tem, portanto, atuado pró-
ciclicamente, contribuindo para a diminuição do investimento total na economia, e
corroborando para uma deterioração da performance econômica americana.
Após uma ampla investigação do Produto Interno Bruto dos Estados Unidos, foi
possível concluir que os anos de 1980-2000 não foram desastrosos para a economia norte-
americana. Em geral, o que se observou foi uma desaceleração generalizada do
crescimento econômico, que se manifestou em praticamente todos os componentes aqui
analisados. Os primeiros 20 anos do neoliberalismo norte-americano, portanto, não
trouxeram um desastre econômico, mas, sim, uma sensível desaceleração da performance
econômica. Foi somente a partir dos partir dos anos 2000 que se desvelou toda a extensão
da deterioração quantitativa e qualitativa do crescimento econômico norte-americano.
Quando os dados do PIB dos Estados Unidos são colocados em perspectiva, comparados
ao que foi observado durante os anos de ouro do capitalismo, (1960-1979), as diferenças
de desempenho entre o consumo, o investimento, as transações externas e as despesas
pública é gritante. As políticas neoliberais não trouxeram bons resultados para a economia
dos Estados Unidos.
Nesse sentido, a despeito do crescimento mais lento da economia norte-americana
após 1980, o ponto mais relevante da análise repousa nas mudanças qualitativas mais
profundas que os E.U.A. vivenciaram, particularmente nos anos 2000, sob os efeitos da
desregulamentação financeira e da nova divisão internacional do trabalho. Neste
processo, há de se ressaltar a aproximação entre a China e os E.U.A., e a crescente
presença chinesa no comércio internacional, em meio a um cenário de intensificação da
concorrência e da gênese das cadeias globais de valor. É o que Belluzzo denomina de
relação econômica sino-americana117.
De todo modo, a comprovação de que as últimas décadas de neoliberalismo nos
Estados Unidos trouxeram uma deterioração da performance econômica é apenas o

117
Ver mais sobre o que Belluzzo denomina de relação econômica sino-americana em BELLUZZO, L. G;
GALÍPOLO, G. Manda quem pode, obedece quem tem prejuízo. São Paulo/SP. Ed: Contra-corrente. 2017.
89

primeiro passo da análise desenvolvida nesta tese. A partir dessa constatação, cumpre
investigar ais detalhadamente quais foram os impactos mais gerais e específicos que essa
longa desaceleração da economia trouxe para a sociedade norte-americana. É justamente
esse o esforço desenvolvido nos capítulos seguintes, que tratam da degradação no
mercado de trabalho, na estrutura ocupacional, nos rendimentos, na pobreza e na
desigualdade dos Estados Unidos. Em outras palavras, trata-se de investigar de que forma
essa desaceleração econômica impactou no “sonho americano”.
90

Capítulo 3 - A regressão dinâmica do mercado de trabalho norte-americano


na era da globalização.

Introdução

Neste capítulo, apresenta-se um panorama geral da deterioração do mercado de


trabalho nos Estados Unidos, desde 1980. O título do capítulo trata essa deterioração
como uma regressão dinâmica pelos seguintes motivos: em primeiro lugar, a piora dos
indicadores está em movimento, ou seja, trata-se de uma tendência que se estende pelas
últimas décadas, mas adquire contornos mais dramáticos nos anos 2000. Em segundo
lugar, essa deterioração afeta uma estrutura ocupacional que, no passado, sustentou a
“sociedade de classe média” dos E.U.A, mas que, no presente, tem gradativamente se
transformado num pilar frágil demais para assegurar este padrão de vida para a maioria
de sua população. Em terceiro lugar, esse espaço de negociação de compra e venda da
força de trabalho, que amparava uma sociedade afluente, tem se tornado em um mercado
crescentemente polarizado, com exigências de super qualificação, de um lado, ao mesmo
tempo em que caminha para a desqualificação das massas, de outro. Em suma, o mercado
de trabalho dos Estados Unidos tem sofrido uma regressão que pode ser notada por
diversos ângulos, e que, portanto, tem afetado a classe trabalhadora por diversas maneiras.
O produto combinado desses movimentos de regressão, contudo, tem um só sentido: a
desestruturação da sociedade afluente que foi criada a partir do desenvolvimento do
capitalismo norte-americano durante os “anos de ouro”.
Pretende-se reforçar, por meio da exposição aqui apresentada, que a sociedade
americana vive um longo período de decadência, iniciado em 1980, mas agravado
atualmente. Neste capítulo, o argumento é reforçado com uma demonstração da
deterioração que se projeta sobre o mercado de trabalho. Decerto há, cumpre ressaltar,
comportamentos diferentes dos indicadores do mercado de trabalho ao longo do tempo.
Contudo, a força desta tese repousa em, justamente, demonstrar que, a despeito da
movimentação contraditória que pode ter ocorrido em determinados indicadores, há no
pano de fundo da sociedade norte-americana uma tendência estrutural de degradação do
mercado de trabalho
Na pesquisa conduzida pelos correspondentes do “New York Times”, citada na
introdução deste trabalho, há uma pergunta relevante para este capítulo, e que corrobora
para iluminar, de um lado, os problemas contemporâneos do mercado de trabalho dos
Estados Unidos; e, de outro, ajuda a desvendar a mentalidade dos americanos no cenário
91

hodierno.
Tabela 07 – Pesquisa New York Times, 2005*
Quando você pensa sobre sua situação financeira atual, o que o preocupa mais?

Respostas 1995 2005


Não ter dinheiro o suficiente 19% 21%
Perder emprego/estabilidade no trabalho 17% 11%
Plano de saúde 7% 11%
Aposentadoria 6% 8%
Economia piorando 6% 6%
Medo do futuro 5% 3%
Seguridade Social 4% 4%
Pagar a faculdade dos filhos 4% 6%
Pagar as dívidas do cartão/empréstimos 4% 4%
Impostos 3% 3%
Taxa de juros 2% 0
Déficit/Dívida pública 2% 1%
Nada 12% 12%
Outros 2% 3%
Não sei/sem resposta 7% 6%

(*). When you think about your current financial situation, what, if anything, worries you the most?
Elaboração própria a partir de (KELLER, 2005)118

Quando questionados sobre as suas preocupações financeiras, os americanos


responderam de maneira similar entre 1995 e 2005, mas há diferenças importantes que
merecem destaque. Em primeiro lugar, chama a atenção que o quesito “perder
emprego/estabilidade no trabalho” tenha perdido importância ao longo do tempo. É uma
indicação de que o americano está menos preocupado com a possibilidade de encontrar
um emprego. Por outro lado, houve um aumento das seguintes preocupações: a) não ter
dinheiro o suficiente, b) plano de saúde, c) aposentadoria, e d) pagar a faculdade dos
filhos. O crescimento dessas preocupações, vale ressaltar, expressa a situação em que se
encontra o mercado de trabalho dos E.U.A. nos anos 2000: o problema não reside na
geração de empregos, mas na qualidade desses trabalhos: a sua remuneração precária e a
sua baixa segurança. Este capítulo demonstrará, em parte, como a deterioração da
estrutura ocupacional, que se manifesta por meio da proliferação de empregos precários,
está por trás da estagnação salarial, da queda dos rendimentos, da diminuição de empregos
com plano de saúde e condições especiais de aposentadoria.
O comportamento do desemprego, por exemplo, que tem caído progressivamente
ao longo do tempo, não revela essa regressão dinâmica que tem acompanhado o mercado

118
KELLER, B. (Appendix) – The New York Times Poll on Class. New York/NY. Ed: Time Books. 2005.
92

de trabalho americano durante os anos 2000. Salvo em algum momento de crise mais
aguda, como no início dos anos 1980, não há desemprego. Entretanto, esse indicador não
é mais capaz de relevar as condições que atravessam o mercado de trabalho nos Estados
Unidos.
Gráfico 02 - Evolução da taxa de desemprego oficial (U3) nos E.U.A: 1948-2018

12,0
10,8
9,9
10,0
8,2
8,0
6,6 6,6
6,0
3,5
4,0

2,0

0,0
1948
1950
1952
1954
1956
1958
1960
1962
1964
1966
1968
1970
1972
1974
1976
1978
1980
1982
1984
1986
1988
1990
1992
1994
1996
1998
2000
2002
2004
2006
2008
2010
2012
2014
2016
2018
(*): dados ajustados para os meses de dezembro
Fonte: elaboração própria a partir de BLS – Bureau of Labor Statistics

A taxa de desemprego oficial nos E.U.A, em 2018, se aproximava dos níveis mais
baixos já registrados. Houve ampla divulgação desta informação, tanto por parte da mídia,
bem como do governo norte-americano, fazendo-se uso desse número para justificar os
rumos da política econômica, angariar apoio político e, especialmente, fazer propaganda
eleitoral119. Por parte dos propagandistas que exaltam a diminuição do desemprego,
argumenta-se que esse indicador, em níveis tão baixos, é um sinal inequívoco de que a
política econômica dos últimos anos tem sido correta. Haveria pleno emprego, um forte
desempenho do mercado de trabalho e uma abundância de empregos disponíveis. Tratar-
se-ia de um sinal evidente de progresso social, embasado por uma política econômica
adequada.120

119
TILLIER, M. Market Reaction to Jobs Report Shows Economic Strenght. In: Nasdaq. 06 de dezembro,
2019. Disponível em https://www.nasdaq.com/articles/market-reaction-to-jobs-report-shows-
economic-strength-2019-12-06. Acessado em 08/06/2020.
120
Council of Economic Advisors. U.S. Unemployment rate falls to 50 year low. Council of Economic
Advisers. 04 de outubro de 2019. Disponível em https://www.whitehouse.gov/articles/u-s-
unemployment-rate-falls-50-year-low/. Acessado em 08/06/2020.
93

Gráfico 03 - Evolução das formas alternativas de mensuração do desemprego


nos E.U.A: 1980-2018

18,0
17,1
16,6
16,0
15,2
14,0 14,4
13,6
13,1
12,0
11,3 11,2
10,9
10,0 10,0 9,9
9,4 9,2
8,8
8,0 8,4 8,1 8,1
7,6
6,9
6,0 5,8 5,8 6,1
5,6 5,7
4,9 5,1 4,8
4,0 4,3
3,6
2,9 2,6
2,0 2,1 1,9
1,6 1,5 1,3
0,0
2006 2008 2010 2012 2014 2016 2018 2020

U1 U2 U3 U4 U5 U6

(*): dados ajustados para os meses de dezembro


Fonte: elaboração própria a partir de BLS – Bureau of Labor Statistics

As formas alternativas de mensuração do desemprego também caminham na


mesma direção, em níveis historicamente baixos. O movimento que se verifica para todas
as formas de mensuração de desemprego e subutilização do trabalho apontam, logo após
a crise de 2008, para cima, demonstrando o impacto da crise sobre a economia e sobre a
sociedade. Entretanto, a partir de 2010 nota-se uma progressiva diminuição da taxa de
desocupação. A taxa U6, por exemplo, que agrega o total de desempregados, aqueles
“marginalmente” ligados ao mercado de trabalho e todos os empregados part time por
razões econômicas, atinge 17,1% no auge da crise. Ao longo do tempo, todavia, a taxa
(U6) cai progressivamente, registrando, em dezembro de 2018, 7,6% da força de trabalho.
Por meio das informações relacionadas à taxa de desemprego, inclusive as diferentes
formas de mensuração da subutilização do trabalho, haveria a impressão de que os tempos
de dificuldade para o mercado de trabalho dos Estados Unidos ficaram para trás.
Será demonstrado ao longo do capítulo, contudo, que essa não é realidade do
mercado de trabalho nos Estados Unidos. A crise e a extensão dos retrocessos sociais nos
E.U.A. não podem ser percebidas pelos indicadores mais comuns. A taxa oficial de
desemprego, por exemplo, é um dos exemplos dessa incapacidade que os dados mais
comuns têm de retratar o quadro dramático que projeta sobre a classe trabalhadora dos
94

Estados Unidos. A taxa de desocupação nada diz sobre a qualidade dos empregos gerados,
nada diz sobre a remuneração desses empregos e, por fim, também nada diz sobre as
condições de trabalho nos E.U.A. Após uma ampla investigação do mercado de trabalho
dos Estados Unidos, restará claro que não há motivos para celebrar. O crescimento do
nível de ocupação, acompanhado da queda na taxa de desocupação, não dá informações
precisas sobre as transformações mais recentes que tem atravessado a vida econômica das
famílias americanas, dependentes de empregos e salários para obter o seu sustento e a
manutenção de seu padrão de vida. Essa, portanto, é uma característica importante do
mercado de trabalho norte-americano: a taxa de desocupação explicita o que tem
realmente acontecido no mercado de trabalho. Ou seja, a taxa de desemprego não fornece
um quadro preciso da saúde do mercado de trabalho norte-americano.
Assim como há uma ampla divulgação das baixas taxas de desocupação, há
também uma crescente preocupação com a qualidade dos empregos que estão sendo
gerados. No passado, as preocupações com relação ao mercado de trabalho estiveram
relacionadas à taxa de desemprego, ao passo que a quantia de empregos criados era o
tema fundamental que guiava a análise e a percepção dos agentes sobre o que estava
acontecendo na sociedade. Essa preocupação, por exemplo, é facilmente verificada na
fala de do Presidente Donald Trump, que exalta a diminuição da taxa de desocupação121.
Entretanto, há, cada vez mais, uma preocupação adicional: qual é o tipo de emprego que
está sendo gerado. A qualidade dos empregos gerados também importa.
Os dados demonstram que, nos últimos 40 anos, houve uma progressiva
deterioração das relações de trabalho nos Estados Unidos. Em condições econômicas
“pré-pandêmicas”, ou seja, antes do novo coronavirus, americanos tinham emprego, mas
em condições de trabalho e remuneração cada vez piores. A proporção de trabalhos bem
remunerados tem diminuído, na medida em que há uma proliferação de trabalhos mal
pagos, particularmente para todos aqueles que não possuem uma instrução escolar
elevada. Contudo, até os trabalhadores “educados”, nos últimos anos, estão com
dificuldade de encontrar empregos bem remunerados. 122

121
CONNOR, F. Historic low unemployment is creating new problem for US business, labor secretary says.
In: FOXBUSINESS. 18 de dezembro, 2018. Recuperado em
https://www.foxbusiness.com/markets/historic-low-unemployment-new-problem-american-business.
Acessado em 17/08/2020.
122
KALLEBERG, A; HOWELL, D. There’s an under the radar job crisis hurting millions of americans. Business
Insider. 03/11/2019. Disponível em https://www.businessinsider.com/jobs-report-quality-labor-market-
crisis-economy-hurts-americans-2019-11. Acessado em 19/04/2020.
95

Howell e Kalleber, em “Good Jobs Bad Jobs123”, analisam essa tendência à


deterioração da qualidade dos empregos nos E.U.A. Essa degradação no mercado de
trabalho norte-americano, dizem os autores, é a raiz de uma série de outras mazelas
sociais nos E.U.A, como a desigualdade social, o crescimento da pobreza e a
desintegração familiar. Essa piora na qualidade dos empregados é marcada pela
estagnação salarial, pela polarização ocupacional e pela proliferação de trabalhos mal
pagos. Essas tendências mais atuais, portanto, contrastam com o cenário observado
durante nos anos que se seguiram após a II Guerra Mundial. Nos tempos atuais, o que se
vê é uma polarização da sociedade, na medida em que cresce a diferença entre
remuneração dos indivíduos situados no topo da pirâmide social, e o “resto”. Para Howell
e Kalleberg, os Estados Unidos passaram nas últimas quatro décadas por um período de
crescimento econômico “mal partilhado”: os frutos do crescimento foram, em larga
medida, apropriados por aqueles mais privilegiados na sociedade.
Esse ponto de vista também é observado no relatório “The State of Working
America”, publicado em 2020. O documento revela que a história dos rendimentos
salariais nos E.U.A, pelos últimos 40 anos, foi marcada por um crescimento lento e
desigual. O relatório destaca as seguintes características dos rendimentos americanos
pelas últimas décadas: a) um crescimento extremamente lento, que, por vezes, mais se
assemelha a uma estagnação; b) o crescimento da desigualdade salarial entre aqueles que
ganham bem e todos os que estão “por baixo” na sociedade; c) hiatos remuneratórios entre
raça e etnias que ainda não foram eliminados, mas que se agravaram nos anos recentes;
d) um hiato remuneratório persistente entre as mulheres e os homens; e, por fim, e) um
crescimento mais lento dos salários para os jovens graduados menos favorecidos. A
desigualdade e o crescimento letárgico da remuneração tem sido as características mais
marcantes que acompanham a evolução dos salários nos E.U.A.124
O Bureau of Labor Statistic (BLS), fonte de dados mais consultada neste capítulo,
apresenta algumas pistas sobre essa proliferação de trabalhos mal pagos no mercado de
trabalho norte-americano. Uma de suas projeções mais interessantes é a estimativa das
ocupações que gerarão a maior quantidade de empregos nos próximos anos. Trata-se de

123
HOWELL, D; KALLEBERG, A. Declining Job Quality inthe United States: explanations and evidence. In:
RSF: The Russel Sage Foundation of the Conference on changing Job Quality. Setembro, 2019.
124
GOULD, E. State of Working America Wages 2019 – A story of slow, uneven and unequal wage growth
over the last 40 years. Fevereiro, 2020. Disponível em https://www.epi.org/publication/swa-wages-
2019/. Acessado em 28/04/2020.
96

uma maneira interessante de prever o que aguarda a classe trabalhadora nos Estados
Unidos.
Tabela 08 – Projeção das ocupações com a maior geração de emprego: 2018-2020

Número projetado de
Ordem Ocupação
vagas (2018-2028)

1 Assistente de cuidado pessoal 881,000

2 Preparação e serviço de comida, incluindo fast food 640,100


3 Enfermeiras registradas 371,500
4 Assistentes de saúde em domicílio 304,800
5 Cozinheiros (restaurantes) 299,000
6 Desenvolvedor de software e aplicativos 241,500
7 Garçom, garçonete 170,200
8 Gerentes gerais e de operações 165,000
zeladores e faxineiros (excluindo empregados
9 159,800
domésticos)
10 Assistentes médicos 154,900

Elaboração própria a partir de Employment Projections –Bureau of Labor Statistics (atualizada em abril, 2020)

O Bureau of Labor Statistics fornece um panorama dessa deterioração que


acontece no mercado de trabalho norte-americano. A projeção das ocupações com a maior
criação de empregos, até 2028, revela um cenário preocupante para a classe trabalhadora
norte-americana. Entre as 10 ocupações que mais criarão empregos, segundo as
estimativas do BLS, estão os assistentes de cuidado pessoal, os preparadores de comida
fast food, os cozinheiros, os garçons, os zeladores e os faxineiros, por exemplo. Ou seja,
entre as ocupações que mais terão vagas até 2028, figuram algumas profissões marcadas
pela baixa remuneração e condições precárias de trabalho. Trata-se de uma condição que,
segundo os dados do BLS, poderão se agravar no mercado de trabalho norte-americano.
Para onde foram todos os bons empregos nos E.U.A? Há, cumpre ressaltar,
diversos elementos que ajudam a explicar essa deterioração no mercado de trabalho norte-
americano. O relatório “Where Have All the Good Jobs Gone” destaca que, entre os
elementos que concorrem para a deterioração do mercado de trabalho norte-americano,
estão, por exemplo: a queda no poder de barganha dos trabalhadores, particularmente
aqueles situados nos estratos intermediários da pirâmide social; a diminuição dos
sindicalizados; a diminuição real do salário mínimo ao longo do tempo; o “outsourcing”
de empresas, e, portanto, de empregos; e a internacionalização da produção, que coloca
os trabalhadores norte-americanos em concorrência com outros trabalhadores em
mercados de trabalhos cuja média salarial é bem mais baixa. Todos esses fenômenos, vale
97

acrescentar, ocorreram num ambiente político-institucional que deu muito mais ênfase ao
controle inflacionário do que a perseguição ao pleno emprego. Trata-se, portanto, de uma
série de transformações socioeconômicas causadas por decisões políticas, que ajudam a
explicar essa incapacidade dos E.U.A de gerar bons empregos. 125
Um outro aspecto relevante que será brevemente tratado neste capítulo, para mais,
repousa numa análise da fatia do trabalho (“labor share”) nos E.U.A. Por meio de uma
investigação da proporção de recursos que é destinada aos trabalhadores, seja em relação
ao produto total, ou considerando a remuneração dos trabalhadores como um “custo”, é
possível ter uma noção mais ampla do que tem ocorrido com a classe trabalhadora durante
as últimas décadas. A investigação da fatia do trabalho (“labor share”) durante as últimas
décadas revela, como será visto mais detalhadamente no momento oportuno, que a era
neoliberal esconde tendências importantes. O setor manufatureiro, por exemplo, segue
com a sua produtividade crescendo durante o período neoliberal, mas sua a remuneração
não cresce na mesma medida. Ademais, o emprego passa a crescer em setores marcados
pela baixa remuneração e menor produtividade. 126

Na investigação realizada nesse capítulo, será feito uso extenso de informações


disponibilizadas pelo Bureau of Labor Statistics (BLS), oriundas tanto da Current
Population Survey (pesquisa domiciliar do mercado de trabalho norte-americano), bem
como da Current Employment Statistics (cujos dados são coletados a partir de relatórios
preenchidos pelas empresas). Ambas as pesquisas, cumpre ressaltar, fornecem dados
complementares, permitindo assim uma investigação ampla do mercado de trabalho
norte-americano. A escolha metodológica do presente capítulo está em linha com o que
foi apresentado em outros capítulos: procura-se apreender os retrocessos da sociedade
norte-americana, de 1980 a 2018, ressaltando as tendências específicas que podem existir
dentro desse grande intervalo de tempo, como nos anos 2000, por exemplo.

125
JONES, J; SCHIMITT, J. Where have all the good Jobs gone? In: CEPR – Center for Economic and Policy
research. Julho, 2012.
126
MENDIETA-MUÑOZ, I; RADA, C; ARNIM, R. V. The decline of the U.S Labor Share Across Sectors. In:
Institute for new Economic Thinking. Working paper . 105. Outubro, 2019.
98

3.1. Indicadores gerais do mercado de trabalho

Primeiramente, cumpre fazer uma ampla investigação dos traços mais relevantes
do mercado de trabalho dos Estados Unidos, com o intuito de captar a deterioração das
relações de trabalho nos E.U.A. Não se trata, aqui, portanto, de esmiuçar todos as
informações sobre o mercado de trabalho, mas, sim, de selecionar os processos mais
relevantes, capazes de contribuir para o argumento geral desenvolvido nessa tese.

Tabela 09 – A evolução da força de trabalho nos E.U.A, total e por gênero: 1980-2018*

Ano Total Homens Mulheres


1980 107.009 61.056 45.953
1990 125.635 68.857 56.778
2000 143.110 76.359 66.750
2010 153.156 81.504 71.653
2018 162.510 85.857 76.654
1980-2018 (%) 51,9 40,6 66,8
1980-2000 % a.a. 1,5% 1,1% 1,9%
2000-2018 % a.a. 0,7% 0,7% 0,8%
1980-2018 % a.a. 1,1% 0,9% 1,4%

(*): dados não ajustados para os meses de dezembro, em milhares.


Elaboração própria a partir de Bureau of labor Statistics

A tabela 09 demonstra a evolução da força de trabalho nos E.U.A, com um recorte


de gênero. Observa-se, em primeiro lugar, que desde 1980 houve um crescimento
acumulado de 51,9% no nível da força de trabalho. Contudo, esse crescimento acumulado
aconteceu com maior vigor entre as mulheres (66,8%), dado que os homens apresentaram
um crescimento acumulado menor (40,6%). Mais interessante, todavia, é a investigação
do crescimento anual médio entre os períodos selecionados. Nota-se que, tanto para o
total de pessoas, e para os homens e para as mulheres, o crescimento da força de trabalho
ocorre de modo mais acelerado entre 1980-2000. Ou seja, antes dos anos 2000, a força de
trabalho crescia mais aceleradamente do que nos anos recentes. Para os anos recentes,
nenhuma das categorias analisadas demonstra um crescimento médio anual maior que
0,8%. Assim, pode-fazer uma primeira e importante observação: a força de trabalho tem
crescido de maneira mais lenta nos anos recentes. O segundo destaque fica por conta das
mulheres, que apresentaram um crescimento acumulado e anual médio mais intenso do
que os homens, em todos os intervalos temporais analisados. Nota-se, à vista disso, que
uma análise superficial do crescimento acumulado da força de trabalho esconde
tendências importantes, que dizem respeito às diferenças de gênero e disparidades
99

temporais que são dignas de nota.

Tabela 10 – A evolução da taxa de participação nos E.U.A, total e por gênero: 1980-
2018*
Ano Total Homens Mulheres
1980 63,6 77,0 51,5
1990 66,4 76,3 57,3
2000 67 74,7 59,9
2010 64,3 70,7 58,3
2018 63,1 69,0 57,5
1980-2018 (p.p) -0,5 -8 6
1980-2000 p.p. 3,4 -2,3 8,4
2000-2018 p.p. -3,9 -5,7 -2,4

(*): dados ajustados para os meses de dezembro.


Elaboração própria a partir de Bureau of labor Statistics

A tabela 10 demonstra a evolução geral da taxa de participação nos E.U.A, total e


por gênero, desde, 1980. Nesse primeiro exercício de análise da taxa de participação, é
possível notar que, no acumulado geral em porcentagem, o maior crescimento se deu para
as mulheres (6 p.p.). Os homens, por outro lado, tiveram uma diminuição de 8 p.p., o que,
na média entre os dois gêneros, resultou num decréscimo acumulado de 0,5 p.p. Há de se
observar, todavia, que em 1980 as mulheres apresentavam uma taxa de participação muito
inferior à taxa observada para os homens. Os números demonstram que, entre 1980-2000,
houve uma progressiva integração da mulher no mercado de trabalho norte-americano.
Ademais, quando se analisa a diferença entre os períodos de 1980-2000 e anos
mais recentes, de 2000-2018, observa-se algumas tendências importantes. Se, para o
período de 1980-2000 houve uma diminuição da taxa de participação masculina,
acompanhada de um aumento da taxa de participação feminina (em linha com o
acumulado para todo o período de 1980-2000), nos anos recentes essa tendência assume
outros direcionamentos. Nos anos recentes, conforme a tabela pode demonstrar, houve
uma diminuição relativa da taxa de participação de ambos os sexos. Ou seja, nos anos
2000, o que se verifica é uma diminuição geral taxa de participação tanto para os homens
(-5,7 p.p.), bem como para as mulheres, ainda que em menor grau (-2,4). No geral, isso
resultou numa diminuição de -3,9 p.p. Portanto, os anos 2000 marcam uma interrupção
da integração da mulher no mercado de trabalho, pelo menos em termos relativos.
Conclui-se: os anos recentes foram marcados por uma queda relativa na taxa de
participação.
100

Tabela 11 – A evolução do nível de emprego nos E.U.A, total e por gênero: 1980-2018*
Ano Total Homens Mulheres
1980 99.634 57.288 42.346
1990 118.241 64.746 53.495
2000 137.614 73.563 64.050
2010 139.301 73.597 65.704
2018 156.945 83.041 73.904
1980-2018 (%) 57,5 45,0 74,5
1980-2000 % a.a. 1,6% 1,3% 2,1%
2000-2018 % a.a. 0,7% 0,7% 0,8%
1980-2018 % a.a. 1,2% 1,0% 1,5%

(*): dados ajustados para os meses de dezembro.


Elaboração própria a partir de Bureau of labor Statistics

Desde 1980, chama atenção que, no acumulado, houve um crescimento de 57,5%


do nível de emprego, sendo que os homens tiveram um crescimento de 45%, e as mulheres
74,5%. Assim, a primeira característica ao longo desse tempo é um crescimento
substancial do número de empregados, com destaque para o crescimento do emprego
entre as mulheres. Trata-se, pode-se dizer, de números que demonstram a integração da
mulher no mercado de trabalho ao longo das últimas décadas.
Esse crescimento do número total de empregados entre 1980-2018, todavia,
esconde tendências importantes, e que merecem ser mencionadas. Entre 1980-2000,
houve um crescimento médio anual de 1,6% do número total de empregados, sendo que
os homens tiveram um crescimento de 1,3% a.a., e as mulheres apresentaram um
crescimento mais intenso, de 2,1% ao ano. Ou seja, em linha com o crescimento
acumulado, as mulheres tiveram um crescimento do número de empregadas mais notável.
Contudo, é interessante notar que, nos anos recentes, entre 2000-2018, a intensidade do
crescimento anual médio dos empregados cai substancialmente. No total, houve um
crescimento de 0,7% ao ano; 0,7% a.a. para os homens e um crescimento de 0,8% a.a.
para as mulheres. Ou seja, o crescimento do número de empregados cresce, nos anos
recentes, mais lentamente do que no passado. Conforme a tabela, o crescimento médio
anual do total de empregados entre 1980-2000 foi de 1,6% a.a., mas este número caiu
para 0,7% a.a. entre 2000-2018 – um crescimento aproximadamente 50% mais lento. Para
as mulheres, essa diminuição é ainda mais significativa: se, entre 1980-2000 o
crescimento anual médio das empregadas foi de 2,1% a.a., esse número cai para 0,8% a.a.
no intervalo temporal recente.
Se, num primeiro momento, parece que o mercado de trabalho norte-americano
apresentou uma taxa de crescimento razoável dos empregados entre 1980-2018 (de 1,2%
101

a.a. no total, 1,0% a.a. para os homens e 1,5% a.a. para as mulheres) a situação se modifica
quando se analisa as tendências que existem dentro deste desse período. Ao contrário do
que está sendo alardeado pelo governo norte-americano127 (sobre a vitalidade do mercado
de trabalho nos E.U.A recentemente), os dados demonstram que os anos 2000 foram
caracterizados por um crescimento mais lento do total de empregados. Ou seja, entre
2000-2018, ao menos no que diz respeito à evolução do total de empregados, os E.U.A
teve um crescimento bem mais fraco do que os números que já foram verificados no
passado. Conclui-se: o número total de empregados, nos anos 2000, tem crescido de modo
mais lento quando comparado aos anos que compreendem o intervalo de 1980-2000. Os
dados, portanto, não trazem evidências de que o mercado de trabalho norte-americano
vive os melhores de seus dias.

Tabela 12 – A evolução da relação emprego/população nos E.U.A, total e por


gênero: 1980-2018*

Ano Total Homens Mulheres


1980 59,0 71,7 47,6
1990 62,2 71,3 53,9
2000 64,4 71,7 57,6
2010 58,3 63,6 53,3
2018 60,6 66,3 55,2
1980-2018 % p.p. 1,6 -5,4 7,6
1980-2000 p.p. 5,4 0,0 10,0
2000-2018 p.p. -3,8 -5,4 -2,4

(*): dados ajustados para os meses de dezembro.


Elaboração própria a partir de Bureau of labor Statistics

Em 1980, 59% da população se encontrava empregada, sendo que entre os homens


essa proporção chegava a 71,7%, ao passo que as mulheres que estavam empregadas não
chegavam nem a metade da população feminina (47,6%). Ou seja, em 1980 a relação
emprego/população das mulheres era significativamente inferior à relação verificada para
os homens. Em 2018, a situação mudou sensivelmente, mas os dados ainda apresentam
uma situação desfavorável para as mulheres. O total de pessoal empregadas em relação à
população pouco mudou (uma variação de 1,6 p.p), mas os homens apresentaram uma
queda em sua relação emprego/população de -5,4 p.p., ao passo que as mulheres tiveram
um crescimento de 7,7 p.p. Assim, ao longo das últimas décadas, mais mulheres

127
Ver, por exemplo: Council of Economic Advisers. Job Market Continues to Crush Expectations. 7 de
fevereiro de 2020. Disponível em https://www.whitehouse.gov/articles/job-market-continues-crush-
expectations-2020/. Acessado em 13/04/2020
102

ingressaram no mercado de trabalho e passaram a trabalhar. Contudo, as mudanças foram


tímidas, na medida em que ainda pode ser verificada uma diferença de 11 pontos
percentuais entre a relação emprego/população dos homens e das mulheres.
Em relação aos intervalos temporais aqui selecionados, alguns comentários
merecem destaque. Entre 1980-2000, houve um aumento de 5,4 p.p. na relação
emprego/população total, mas esse aumento ocorreu de modo diferente conforme o sexo:
os homens não apresentaram crescimento algum (0,0 p.p.), enquanto as mulheres tiveram
um crescimento de 10,0 p.p. O período de 1980-2000, portanto, foi caracterizado pela
integração da mulher no mercado de trabalho, enquanto os homens apresentaram uma
estagnação. Os anos 2000-2018, entretanto, apresentam uma outra tendência: a
diminuição da relação emprego/população. Há de forma geral, menos pessoas
empregadas em relação ao total da população civil não institucional, mostram os dados.
Novamente, essa diminuição da relação emprego/população ocorre de modo diferente de
acordo com o sexo considerado. Entre 2000-2018, os homens tiveram uma diminuição de
5,4 p.p., e as mulheres tiveram uma diminuição de 2,4 p.p. Desde 1980, desde modo, não
houve crescimento algum da relação emprego/população masculina. Assim, os anos mais
recentes foram marcados por uma diminuição da relação emprego/população, um sinal
que contrasta com a ideia comumente disseminada de que o mercado de trabalho norte-
americano vive, nos anos recentes, os melhores de seus dias.

Tabela 13 – Evolução do trabalho part time nos E.U.A, total e por gênero: 1980-2018*
Relação mulheres/homens
Ano Total Homens Mulheres
(simulação)
1980 16.874 5.523 11.369 2,1
1990 20.144 6.596 13.566 2,1
2000 23.633 7.596 15.993 2,1
2010 27.419 9.941 17.512 1,8
2018 26.994 9.713 17.267 1,8
1980-2018 (%) 60,0 75,9 51,9 n/a
1980-2000 % a.a. 1,7% 1,6% 1,7% n/a
2000-2018 % a.a. 0,7% 1,4% 0,4% n/a
1980-2018 % a.a. 1,2% 1,5% 1,1% n/a

(*): dados ajustados para os meses de dezembro. Em milhares


Elaboração própria a partir de Bureau of labor Statistics

Desde 1980, o acumulado total dos trabalhadores part time aumentou 60%, sendo
que esse aumento foi maior para os homens (75,9%) e menor para as mulheres (51,9%).
Contudo, as mulheres já tinham em 1980, um nível muito maior de trabalhadoras part
time. Na última coluna da tabela, a relação mulheres/homens part time demonstra que,
103

para cada homem trabalhando em tempo parcial, havia 2,1 mulheres ocupadas em
empregos part time. Ou seja, ainda o crescimento do emprego part time tenha ocorrido
de modo mais intenso para os homens desde 1980, são as mulheres que estavam mais
sujeitas ao regime de tempo de trabalho parcial. Em 2018, a situação pouco mudou, dado
que para cada homem trabalhando em regime part time havia 1,8 mulheres em regime na
mesma situação. Assim, chega-se a uma primeira conclusão: o trabalho part time, em
termos absolutos, tem aumentado consideravelmente desde 1980. Contudo, as mulheres
são as mais afetadas por este fenômeno, na medida em que há mais mulheres trabalhando
em regime de tempo part time.
Em relação às diferenças que podem existir entre os intervalos temporais
selecionados, cabem alguns comentários relevantes. Entre 1980-2000, o crescimento
médio anual do part time job total foi de 1,7% a.a., sendo que os homens e as mulheres
apresentaram um crescimento anual médio similar, de 1,6% a.a. e 1,7% a.a.,
respectivamente. Entre 2000-2018, por outro lado, esse crescimento foi mais lento, no
total de 0,7% a.a.; 1,4% a.a. para os homens e de 0,4% a.a. para as mulheres. Assim,
pode-se concluir que, nos anos recentes, o fenômeno do trabalho em regime de tempo
part time se espalhou numa velocidade média anual mais lenta do que no passado.
Todavia, nos anos recentes essa modalidade de trabalho se disseminou com mais
intensidade entre os homens. Se, portanto, entre 1980-2018 o crescimento anual médio
do regime de trabalho part time foi de 1,2% ao ano, cumpre salientar que foi antes dos
anos 2000 que esse crescimento se deu de modo mais acelerado. O fato de o mercado de
trabalho norte-americano apresentar um desempenho mais fraco nos anos 2000, cabe
adicionar, parece ter impactado também o crescimento do trabalho part time.
104

Tabela 14 – Evolução dos multiple jobholders nos E.U.A, total e proporção por gênero:
1980-2018*

Multiple jobholders Multiple jobholders (%) Multiple jobholders (%)


Ano Total1
(%)2 Masc.3 Fem.4

1994 7.391 5,9 6 6,1


2000 7.556 5,5 5,4 5,9
2010 6.899 5 4,5 5,5
2018 7.866 5 4,8 5,5
1994-2018 % 6,4 n/a n/a n/a
1994-2000 % 0,4%6 -0,45 -0,65 -0,25
2000-2018 % 0,2%6 -0,55 -0,65 -0,45
1994-2018 % 0,3%6 -0,95 -1,25 -0,65

(*): Todos os dados dizem respeito aos meses de dezembro.


1. Dados ajustados sazonalmente.
2. Dados ajustados sazonalmente.
3. Dados não ajustados sazonalmente.
4. Dados não ajustados sazonalmente.
5. Dados em p.p.
6. Número em % ao ano.
Elaboração própria a partir de Bureau of labor Statistics

Na tabela 14, faz-se uma investigação dos Multiple Jobholders (doravante MJ) no
mercado de trabalho dos Estados Unidos. Primeiramente, uma análise geral dos multiple
jobholders. Desde 1994 até 2018, houve um crescimento de apenas 6% do nível total de
MJ. Ou seja, não houve um aumento significativo do número de pessoas que possuem
mais de um emprego nos E.U.A. Entre 1994-2000, o crescimento médio anual do número
total foi de 0,4% a.a., e, entre 2000-2018, este número foi de 0,2% a.a., mostrando que
há, inclusive, uma desaceleração do crescimento de MJ ao longo do tempo. A proporção
do número de MJ em relação ao total de empregados, ademais, se manteve praticamente
estável, demonstrando até uma ligeira diminuição de 0,9 p.p. desde o início da série
histórica, até 2018. Assim, a proporção de MJ não cresceu a ponto de se transformar num
grande problema no mercado de trabalho norte-americano.
Não há, para mais, diferenças dignas de nota entre a proporção de MJ homens e
mulheres. Em 1994, ambos tinham em torno de 6% de seus empregados em mais de dois
empregos, e, em 2018, os homens tinham 4,8% e as mulheres 5,5% de seus trabalhadores
nessa condição. Assim, houve pouca mudança ao longo do tempo, mas os dados indicam
que a proporção de mulheres MJ é ligeiramente maior do que a proporção de homens na
mesma condição. Trata-se de um indício, ainda que pequeno, de uma inserção mais
precária da mulher no mercado de trabalho norte-americano.
Nota-se, por esses dados, que a crise americana não se explicita pela quantidade
de empregados ocupados em mais de um emprego, e tampouco pelos trabalhadores em
105

cargos part time job. Há, conforme as tabelas que dizem respeito a essas informações, um
crescimento dessas modalidades de trabalho/ocupação desde 1980, mas elas não
configuram o problema central do mercado de trabalho dos Estados Unidos. O “mal-
estar” do mercado de trabalho norte-americano começa a ser notado, de maneira mais
contundente, ao se analisar a evolução dos inativos: um sinal de que, a despeito da criação
de empregos, há quem prefira, ou tenha desistido, de procurar um emprego. Em síntese,
o crescimento dos indivíduos inativos na sociedade norte-americana, como se verá a
seguir, é um sintoma de um problema mais profundo do mercado de trabalho: a
deterioração do trabalho, o rebaixamento salarial e a falta de perspectivas num mercado
de trabalho supostamente dinâmico.

Tabela 15 – Evolução dos inativos (não estão na força de trabalho) nos E.U.A, total e
por gênero: 1980-2018

Relação inativos e gênero


Ano Total Homens mulheres
(mulheres/homens)
1980 61.531 18.416 43.115 2,34
1990 63.875 21.535 42.340 1,97
2000 70.488 25.903 44.585 1,72
2010 85.240 33.917 51.323 1,51
2018 95.649 38.785 56.864 1,47
1980-2018 (%) 55,4 110,6 31,9 n/a
1980-2000 % a.a. 0,7% 1,7% 0,2% n/a
2000-2018 % a.a. 1,7% 2,3% 1,4% n/a
1980-2018 % a.a. 1,2% 2,0% 0,7% n/a

(*): dados ajustados para os meses de dezembro. Em milhares


Elaboração própria a partir de Bureau of labor Statistics

Um próximo passo da análise repousa em investigar a evolução dos inativos do


mercado de trabalho dos Estados Unidos. Desde 1980, o que se observa é um crescimento
significativo do número total de inativos: 55,4%. Esse aumento se deu de forma muito
mais intensa entre os homens (110,6%), mas houve também um crescimento notório entre
as mulheres (31,9%). Vale notar, contudo, que a inatividade parece afetar de forma muito
mais intensa as mulheres, dado que o número de absoluto de pessoas fora da força de
trabalho para as mulheres é bem superior ao número verificado para os homens. Havia,
em 1980 por exemplo, 2,34 mulheres inativas para cada homem na inatividade. Ou seja,
já em 1980, o número de mulheres na inatividade excedia o número de homens na
inatividade em mais de duas vezes. Em 2018, essa relação mulher/homem na inatividade
caiu para 1,47 (para cada homem na inatividade havia 1,47 mulheres na inatividade).
Entretanto, isso não se deve porque houve uma diminuição no nível absoluto de mulheres
106

inativas, mas, sim, porque o número acumulado de homens na inatividade cresceu mais
aceleradamente.
Ademais, sobre as tendências anuais, alguns comentários merecem destaque. Para
o total de pessoas fora da força de trabalho, entre 1980-2000, foi verificado um
crescimento anual médio de 0,7% a.a.; sendo que os homens cresceram 1,7% a.a., e as
mulheres 0,2% a.a. Contudo, entre 2000-2018 houve uma aceleração generalizada do
crescimento absoluto das pessoas fora da força de trabalho: no total, o crescimento foi de
1,7% a.a.; para os homens, 2,3% a.a.; para as mulheres, 1,4% a.a. Assim, os anos recentes
foram marcados por um crescimento mais acelerado daqueles que estão fora da força de
trabalho. Trata-se, é fundamental ressaltar, de um movimento que vai totalmente contra
a ideia, amplamente disseminada, de que o mercado de trabalho norte-americano vive os
melhores de seus dias. Ademais, são tendências que não são visíveis quando se analisa o
movimento geral da inatividade, entre 1980-2018, de maneira superficial. Há, nesse
sentido, outro indício de que é preciso mergulhar a fundo nos dados do mercado de
trabalho norte-americano para compreender o que realmente se passa nessa sociedade.

Tabela 16 - Evolução do nível de sindicalizados e representados por sindicatos


nos E.U.A: 1983-2018*

Representados
Ano Sindicalizados Homens Mulheres Homens Mulheres
por sindicatos
1983 17.717 11.809 5.908 20.532 13.270 7.262
1990 16.776 10.597 6.179 19.105 11.775 7.330
2000 16.334 9.664 6.671 18.153 10.491 7.662
2010 14.715 7.994 6.722 16.290 8.761 7.528
2018 14.744 8.082 6.662 16.380 8.868 7.512
1983-2018 % -16,8 -31,6 12,8 -20,2 -33,2 3,4
1983-2000 % a.a. -0,5% -1,2% 0,7% -0,7% -1,4% 0,3%
2000-2018 % a.a. -0,5% -0,9% 0,0% -0,5% -0,8% -0,1%
1983-2018 % a.a. -0,5% -1,1% 0,3% -0,6% -1,1% 0,1%

(*): dados anuais, em milhares.


Elaboração própria a partir de Bureau of labor Statistics

Na tabela 16, há uma ampla investigação do número de trabalhadores


sindicalizados e representados por sindicatos nos Estados Unidos. Pode-se notar,
facilmente, que o prognóstico não é promissor para o sindicalismo nos E.U.A, pois há
uma diminuição do nível absoluto de sindicalizados, desde 1983, de 16,8%. Ademais,
desde 1983, o nível geral de pessoas sindicalizadas diminuiu a uma taxa média de 0,5%
ao ano. Essa diminuição só não foi mais acelerada por causa das diferenças verificadas
entre os sexos: os homens, desde 1983, tiveram uma diminuição de 31,6% nos
107

sindicalizados; as mulheres, por outro lado, tiveram um crescimento de 12,6%. Há,


portanto, uma diferença importante entre os sexos: os homens apresentaram uma queda
significativa do nível de sindicalizados, ao passo que o sexo feminino, desde 1983,
cresceu em termos absolutos.
O número de pessoas representadas por sindicatos é maior do que quantia de
pessoas sindicalizadas. Contudo, houve também para os representados por sindicatos uma
queda significativa desde 1983, de 20,2%. Em suma, observa-se que na década de 1980
ocorreu uma diminuição de aproximadamente um quinto de pessoas na contabilização
geral daqueles representados por sindicatos. Entre os homens, essa diminuição foi
particularmente notável, de 33,2%; entre as mulheres, houve um pequeno crescimento,
de 3,4%, desde 1983.

Tabela 17– Evolução da proporção (%) geral de sindicalização e de representados


por sindicatos nos E.U.A: 1983-2018*
Homens Mulheres
Representados Homens representados Mulheres representadas por
Ano Sindicalizados por sindicatos sindicalizados por sindicatos sindicalizadas sindicatos
1983 20,1 23,3 24,7 27,7 14,6 18
1990 16 18,2 19,1 21,2 12,5 14,9
2000 13,4 14,9 15,2 16,5 11,4 13,1
2010 11,9 13,1 12,6 13,8 11,1 12,4
2018 10,5 11,7 11,1 12,2 9,9 11,1
1983-2018 (p.p) -9,6 -11,6 -13,6 -15,5 -4,7 -6,9

(*): dados anuais


Elaboração própria a partir de Bureau of labor Statistics

Em sentido similar à tabela anterior, a tabela apresenta um panorama da proporção


de homens e mulheres sindicalizadas, ou representadas por sindicatos, nos Estados
Unidos. É fácil reparar que, desde 1983, há uma tendência clara de diminuição tanto da
taxa de sindicalização, bem como da proporção dos que estão cobertos por alguma forma
de contrato realizado por sindicatos. Ou seja, desde os anos 1983, a cobertura geral dos
sindicatos tem, grosso modo, caído entre os assalariados norte-americanos. A proporção
geral de sindicalizados caiu, desde 1983, 9,6 pontos percentuais; os representados por
sindicatos caíram 11,6 p.p.; os homens sindicalizados caíram 13,6 p.p; os representados
por sindicatos caíram 15,5 p.p.; as mulheres sindicalizadas caíram 4,7 p.p.; e, por fim, as
mulheres representadas por sindicatos caíram 6,9 p.p. Ou seja, em todas as categorias
aqui analisadas houve uma queda considerável da sindicalização. Ademais, cumpre
ressaltar que, ainda em 1983, as taxas de sindicalização e representação sindical já não
era altas, e, desde então, o que se observou foi um aprofundamento do movimento de
108

desproteção do trabalhador norte-americano. Cumpre observar, ademais, que as mulheres


sindicalizadas e aquelas representadas por sindicatos exibiam, ainda em 1983, taxas bem
inferiores aos patamares verificados para os homens. A mulher norte-americana sofre não
somente com uma inserção mais precária no mercado de trabalho, mas, como agravante,
possui também uma dimensão mais frágil de proteção, haja visto suas menores taxas de
sindicalização.
Gráfico 04 – Greves e paralisações nos E.U.A - dias de ociosidade como % do
tempo de trabalho total: 1980-2018

0,10
0,09 0,09
0,08
0,07
0,06 0,06
0,05
0,04
0,03
0,02 0,00 0,01
0,01 0,00
0,00

(*): dados anuais


Elaboração própria a partir de Bureau of labor Statistics

A figura 18 apresenta a proporção de dias em greve e paralizações nos Estados


Unidos. Se, em 1980, o tempo total de paralisação em foi de 0,09% do total, em 2018
essa fração chegou a 0,01%. Assim, o que se observa, desde 1980, é uma progressiva
diminuição do tempo de ociosidade da produção por causa das paralisações, com a
exceção de alguns picos eventuais. Há de se mencionar, contudo, que houve um salto
importante no ano de 2018 em relação ao ano de 2017. Isso mostra que, mesmo com uma
taxa de desemprego baixa, tal como foi registrado nos tópicos anteriores, a insatisfação
entre os trabalhadores cresceu, e isso se manifestou por meio de greves e paralisações.
Um segundo exercício repousa em analisar o total de dias na ociosidade, em
milhares, considerando todas as paralisações contabilizadas pelo BLS. O número de dias
na ociosidade, conforme as informações disponibilizadas pelo BLS, diminuiu
significativamente desde 1980, mostrando que as greves, muito que provavelmente,
deixaram de ser um instrumento utilizado pelos trabalhadores como meio de pressão para
conquistar direitos, aumentos salariais e melhora nas condições de trabalho.
109

Gráfico 05 – Greves e paralisações nos E.U.A – número de dias na ociosidade


(em milhares), todas as paralisações: 1980-2018

20.844 20.419
20.000

15.000

10.000

2.815
5.000 440

(*): dados anuais


Elaboração própria a partir de Bureau of labor Statistics

A quantidade de dias na ociosidade caiu, desde 1980, para aproximadamente 10%


de seu nível antigo. Portanto, há aqui a mesma tendência verificada para a fração de dias
na ociosidade em relação ao total, uma queda vertiginosa que, tirando alguns picos
eventuais, se estende até os dias atuais. Cumpre salientar, ademais, que em 2018 houve
um salto importante dos dias na ociosidade em função das paralisações. Ou seja, a
despeito das baixas taxas de desemprego, a movimentação das paralisações cresceu no
último ano, evidenciando que há uma insatisfação latente no mercado de trabalho, e isso
se manifestou por meio das horas na ociosidade. De todo modo, desde 1980 o número de
paralisações iniciadas envolvendo mais de 1000 trabalhadores diminuiu de maneira
notável. Ou seja, recorre-se cada vez menos às paralisações como um meio ou
instrumento alterar a correlação de forças no mercado de trabalho e na sociedade.
110

Gráfico 06 – Greves e paralisações nos E.U.A – número de paralisações iniciadas no


período envolvendo mais de 1000 trabalhadores: 1980-2018
200
180 187
160
140
120
100 69
80
51
60 39 20
40 7
5
20
0

(*): dados anuais


Elaboração própria a partir de Bureau of labor Statistics

Se, em 1980, foram iniciadas 187 paralisações envolvendo mais de 1000


trabalhadores, e que duraram mais de um turno, em 2017 esse número caiu para 7, uma
queda significativa. Percebe-se, à vista disso, que as paralisações têm sido, nos anos
recentes, um instrumento cada vez menos empregado como instrumento para alterar a
correlação de forças na sociedade. Por fim, vale salientar que, em 2018, houve um salto
importante das paralisações iniciadas: em 2017, este número estava em 07; em 2018,
saltou para 20. Numa visão ampla, trata-se evidentemente de um número pequeno,
especialmente comparado os números verificados no começo de 1980, por exemplo.
Contudo, é um sinal relevante e que merece ser acompanhado com atenção.
O número de paralisações efetivamente ocorrendo durante os dias de referência
da pesquisa também seguem o mesmo movimento de todas as variáveis observadas até
aqui: queda vertiginosa desde 1980. Ou seja, todas as vezes em que foi realizada a
pesquisa mensal para verificar quantas paralisações estavam ocorrendo, o número
registrado, ano após ano, foi cada vez menor.
111

Gráfico 07 – Greves e paralisações nos E.U.A – número de trabalhadores (em


milhares) envolvidos e paralisações que iniciaram no período: 1980-2018
1000
900
800 795
700
485
600
500
400 394
300
200 13 25
100
0

(*): dados anuais


Elaboração própria a partir de Bureau of labor Statistics

O número de trabalhadores envolvidos nas greves e nas paralisações dos Estados


Unidos está em sintonia com os outros gráficos apresentados até aqui. Ou seja, desde
meados de 1980, há cada vez menos trabalhadores que participam das interrupções na
produção. O número cai, gradualmente, até 2016, quando é verificado um salto dos
trabalhadores envolvidos em paralisações.

3.2. A estrutura ocupacional

Neste tópico, será realizada uma análise da estrutura ocupacional norte-americana


durante as últimas décadas. Por meio desse exercício de investigação, será possível
observar quais foram as principais tendências que atravessaram a estrutura ocupacional
dos Estados Unidos.
É possível observar, pelos dados do nível de emprego por indústria, que os E.U.A
passa por uma notável desaceleração com relação ao crescimento do emprego. Entre
1960-1980, vale observar, o setor de serviços cresceu a 3,3% a.a., e o emprego na
manufatura cresceu 0,9% a.a. Outro destaque desde primeiro intervalo temporal, cabe
mencionar, está no emprego não agrícola, que cresceu 2,7% a.a. no período. Já o emprego
total privado cresceu a 2,5% a.a. neste período. Entre 1980-2000, por outro lado, verifica-
se uma diminuição do crescimento médio anual em quase todas as indústrias. As exceções
ficam por conta do setor de serviços e negócios profissionais e atividades de informação.
O setor de manufatura, composto pela indústria de produção de bens duráveis e não
duráveis, por exemplo, teve um crescimento negativo de 0,4% a.a., por exemplo.
112

Tabela 18 – A evolução do nível de emprego nos E.U.A, por indústria: 1960-2018*


1960-1980 1980-2000 2000-2018 1980-2018
Ano 1960 1980 2000 2018
% a.a. % a.a. % a.a. % a.a.
Não agrícola (Non-farm) 53.742 90.943 132.709 149.865 69,2 2,7% 45,9 1,9% 12,9 0,7% 64,8 1,3%
Total privado 45.145 74.570 111.905 127.370 65,2 2,5% 50,1 2,1% 13,8 0,7% 70,8 1,4%
Produção de bens 18.548 24.182 24.575 20.948 30,4 1,3% 1,6 0,1% -14,8 -0,9% -13,4 -0,4%
Mineração/exploração de
739 1.127 602 741 52,5 2,1% -46,6 -3,1% 23,1 1,2% -34,3 -1,1%
madeira
Construção 2.862 4.415 6.792 7.402 54,3 2,2% 53,8 2,2% 9,0 0,5% 67,7 1,4%
Manufatura 14.947 18.640 17.181 12.805 24,7 1,1% -7,8 -0,4% -25,5 -1,6% -31,3 -1,0%
Bens duráveis 8.681 11.621 10.862 8.038 33,9 1,5% -6,5 -0,3% -26,0 -1,7% -30,8 -1,0%
Bens não duráveis 6.266 7.019 6.319 4.767 12,0 0,6% -10,0 -0,5% -24,6 -1,6% -32,1 -1,0%
Serviços 35.194 66.761 108.134 128.917 89,7 3,3% 62,0 2,4% 19,2 1,0% 93,1 1,7%
Serviços privados 26.597 50.388 87.330 106.422 89,4 3,2% 73,3 2,8% 21,9 1,1% 111,2 2,0%
Trocas, transporte e
11.045 18.429 26.280 27.666 66,9 2,6% 42,6 1,8% 5,3 0,3% 50,1 1,1%
utilidades
Comércio atacado 2.664 4.556 5.836 5.873 71,1 2,7% 28,1 1,2% 0,6 0,0% 28,9 0,7%
Comércio varejo 5.564 10.277 15.379 15.704 84,7 3,1% 49,6 2,0% 2,1 0,1% 52,8 1,1%
Transporte e estocagem - 2.935 4.463 5.538 - - 52,1 2,1% 24,1 1,2% 88,7 1,7%
Utilidades - 661 601 552 - - -9,0 -0,5% -8,3 -0,5% -16,6 -0,5%
Informação 1.691 2.364 3.705 2.854 39,8 1,7% 56,7 2,3% -23,0 -1,4% 20,7 0,5%
Ativ. Financeiras 2.560 5.100 7.839 8.665 99,2 3,5% 53,7 2,2% 10,5 0,6% 69,9 1,4%
Serviços e negócios prof. 3.710 7.691 16.869 21.128 107,3 3,7% 119,3 4,0% 25,2 1,3% 174,7 2,7%
Educação/serviços de saúde 2.972 7.227 15.465 23.844 143,2 4,5% 114,0 3,9% 54,2 2,4% 229,9 3,2%
Lazer e hospitalidade 3.454 6.765 11.976 16.415 95,9 3,4% 77,0 2,9% 37,1 1,8% 142,6 2,4%
Outros serviços 1.165 2.812 5.196 5.850 141,4 4,5% 84,8 3,1% 12,6 0,7% 108,0 1,9%
Governamental 8.597 16.373 20.804 22.495 90,5 3,3% 27,1 1,2% 8,1 0,4% 37,4 0,8%

(*): dados não ajustados para os meses de dezembro. Em milhares


Elaboração própria a partir de Bureau of labor Statistics

Entre 2000-2018, ademais, a situação é mais drástica. O emprego não agrícola e


o emprego total privado cresceram a uma taxa média anual 3 vezes menor do que nos
“anos de ouro” do capitalismo norte-americano, e a indústria de produção de bens teve
um crescimento médio anual negativo. A manufatura, em bens duráveis e bens não
duráveis não somente apresentou um crescimento médio anual negativo, mas essa
diminuição se acelerou em relação ao período de 1980-2000. O setor de serviços, entre
2000-2018, ademais, cresceu a uma velocidade média de 1,0% a.a., demonstrando a
letargia da criação de empregos no setor de serviços.
Há um denominador comum, entretanto, em todos os períodos investigados neste
exercício: o crescimento dos empregos em saúde e educação. A saúde, particularmente,
tem sido um dos setores em que o crescimento das ocupações tem se mostrado mais
intenso, e trata-se de uma tendência que se repete ao longo das últimas décadas. Ou seja,
há uma tendência de diminuição da geração de empregos em outros setores, o setor de
educação e saúde tem se mostrado resiliente na geração de postos de trabalho. Essa
constatação, vale ressaltar, serve de prenúncio do que pode vir a ocorrer ao longo do
desenvolvimento capitalista em outras nações. Uma forte geração de empregos nos
113

setores de educação e saúde, particularmente, dos serviços médicos, em suas diversas


modalidades, parece ser um dos traços mais relevantes da estrutura ocupacional norte-
americana. Entre 1980-2018, o crescimento dos empregos no setor de educação e serviços
de saúde aumentou 229,9%.
Seguindo a análise, cabe destacar que, entre 2000-2018, todos os setores
apresentaram um crescimento médio anual mais lento do que o período de 1980-2000. A
situação se torna ainda mais drástica quando se analisa o período de 2000-2018 com o
intervalo de 1960-1980, dado que este último foi marcado por um forte crescimento do
emprego.
São tendências, é preciso salientar, que não são facilmente notadas por meio de
uma análise superficial do mercado de trabalho norte-americano. Quando se analisa a
evolução da estrutura ocupacional norte-americana de uma maneira ampla, entre 1980-
2018, sem segmentar este grande período em intervalos temporais mais curtos, essa grave
desaceleração corre o risco de passar despercebida. Por meio de uma análise mais atenta,
portanto, que procure identificar tendências especificas do mercado de trabalho entre
1980-2018, é possível notar que os E.U.A passam por uma grave desaceleração no
crescimento do emprego, um fenômeno verificado para todas as indústrias. Trata-se de
uma constatação que vai diretamente contra a ideia de que o mercado de trabalho norte-
americano vive os melhores de seus dias. A crise norte-americana é uma crise silenciosa,
e mora nos detalhes. É uma longa desaceleração, que pode ser identificada desde 1980, e
se intensifica nos anos 2000.
Gráfico 08 – Evolução do emprego em manufatura, E.U.A.: 1939-2018
20.000
19.301

18.000
16.526

16.000

14.000 12.805

12.000

10.000 9.949

8.000
1951

1981
1939
1942
1945
1948

1954
1957
1960
1963
1966
1969
1972
1975
1978

1984
1987
1990
1993
1996
1999
2002
2005
2008
2011
2014
2017

Fonte: elaboração própria a partir de Bureau of Labor Statistics (BLS)


114

A evolução do emprego em manufatura, desde 1939, revela a drástica


transformação em andamento na estrutura ocupacional dos Estados Unidos. Se, em 1939,
havia quase 10 milhões de trabalhadores ocupados na manufatura, esse número salta para
aproximadamente 19.3 milhões, no início da década de 1980. Todavia, em meados de
1980, o número de empregados manufatura começa a diminuir, e, desde então, o que se
observa é uma diminuição gradual da ocupação nesse setor. A diminuição da ocupação
manufatureira americana, cumpre ressaltar, é emblemática da inserção produtiva
internacional dos E.U.A. na era da globalização: o deslocamento das atividades
produtivas para a Ásia elimina não somente os empregos na manufatura, mas também
afeta os “bons” empregos da estrutura ocupacional, ofuscando as possibilidades de
perpetuação do “sonho” americano atualmente.

Gráfico 09 – Crescimento anual projetado do emprego nos E.U.A conforme os


setores selecionados: 2018-2028*

-1 -0,5 0 0,5 1 1,5 2

Serviços de saúde e assistência social 1,6


Serviços educacionais, privado 1,2
Construção 1,1
Lazer e hospitalidade 0,9
Serviços e negócios profissionais 0,8
Mineração 0,6
Transporte e estocagem 0,6
Ativ. Financeiras 0,3
Outros serviços 0,1
governo estadual e local 0,1
Informação 0
Comércio varejo -0,1
Comércio atacado -0,2
Utilidades -0,3
Governo Federal -0,5
Manufatura -0,5

(*): dados em porcentagem


Elaboração própria a partir de – Employment projections128 - Bureau of labor Statistics

Na figura 24, pode-se observar uma estimativa de crescimento do emprego até


2028, projetada pelo Bureau of Labor Statistics. Conforme a estimativa do BLS, os
serviços de saúde e assistência social terão, até 2028, a maior taxa de crescimento anual,
de 1,6%. Ou seja, espera-se que o grosso das novas ocupações esteja em larga medida,

128
Informações coletadas e gráfico elaborado em 24/04/2020
115

concentrada nos serviços sociais. É o que indica, aliás, o segundo setor que figura como
um dos que mais irá crescer em termos relativos, os serviços educacionais privados.
Tendo essas estimativas do BLS, portanto, pode-se especular que as novas vagas estarão
ligadas aos setores de educação e saúde, principalmente. Por outro lado, é interessante
observar a estimativa que o BLS faz para o setor de manufatura norte-americano. Estima-
se que, anualmente, haverá uma diminuição de 0,5% no emprego da manufatura. Segundo
as projeções do BLS, portanto, constam como principais transformações da estrutura
ocupacional norte-americana pelos próximos 10 anos: em primeiro lugar, o crescimento
do emprego nos serviços de saúde e educação; e, em segundo lugar, a queda do emprego
no setor manufatureiro.

Gráfico 10 - Bons empregos como proporção do emprego total, todos os


trabalhadores e por gênero: 1979-2010

80,00%

70,00%

60,00%

50,00%

40,00% 37,40%
30,80% 31,90%
27,40% 26,80% 28,20% 27,70%
30,00% 24,60% 25,00% 24,60%
20,70% 21,30% 21,10%
20,00% 16,60%
12,40%
10,00%

0,00%
1979 1989 2000 2007 2010

Todos trabalhadores Mulheres Homens

Fonte: elaboração própria com base em (SHIERHOLZ; MISCHEL; GOULD; BIVENS, 2012)

No estudo “The State of Working America”, os autores fazem uma estimativa da


parcela de bons empregos nos E.U.A. em relação ao emprego total. De início, cabe
apontar que, ainda em 1979, somente 37,4% dos empregos nos Estados Unidos eram
considerados “bons”. Além disso, as mulheres ocupavam a menor parte desses empregos,
evidenciando a inserção mais precária da mulher no mercado de trabalho dos Estados
Unidos. Para mais, os resultados pioraram ao longo do tempo: em 2010, somente 27,70%
dos empregos eram considerados empregos “bons” nos E.U.A. Durante a era da
116

globalização, portanto, a parcela de empregos “bons” caiu nos Estados Unidos,


sinalizando uma deterioração generalizada da estrutura de emprego e renda americana.
Há de se apontar que, desde 1979, houve um crescimento da presença feminina nos
empregos “bons”. Essa degradação da estrutura ocupacional dos Estados Unidos, vale
ressaltar, dificulta que as novas gerações repliquem o padrão de vida do “sonho
americano”, na medida em que há, gradativamente, uma escassez de bons empregos nos
Estados Unidos. Sem uma estrutura ocupacional que sustente o padrão de vida de “classe
média” nos E.U.A., não há dúvidas quanto à perspectiva de regressão da estrutura social
americana.

3.3. A fatia do trabalho (Labor Share)

Nesse último tópico, serão apresentados alguns dados que indicam o que essa
deterioração do mercado de trabalho tem resultado para a classe trabalhadora dos Estados
Unidos. Esse movimento de regressão dinâmica, que se manifesta por meio de retrocessos
diversos, tal como foi visto nas páginas anteriores, impacta diretamente na capacidade
que os trabalhadores têm de se apropriar de uma parte relevante do produto total gerado
pela sociedade. Isso pode ser visto claramente pela fatia do trabalho, que mede o total da
renda que é apropriada pelos trabalhadores e trabalhadoras dos Estados Unidos.
Em 1980, por exemplo, a fatia da renda bruta doméstica que cabia aos empregados
era de 57,7%, mas este número caiu para 53,2%, em 2018. Essa queda se reflete, ademais,
nos salários e ordenados, que compunham 48,8% da renda doméstica em 1980, mas que
caiu para 43,3% em 2018. O suplemento dos salários e ordenados (contribuições patronais
para os fundos previdenciários, públicos e privados), por outro lado, aumentou pouco
mais de um ponto percentual, mas isso não foi suficiente para contrabalancear essa queda
sensível que ocorreu na proporção dos salários e ordenados. Ou seja, o Bureau of
Economic Analysis demonstra, de maneira geral, que houve uma diminuição na proporção
da renda doméstica bruta destinada aos trabalhadores por meio de salários e ordenados.
117

Tabela 19 – Evolução da proporção da Renda Doméstica Bruta nos E.U.A


(dados anuais): 1980-2018
Categoria da Renda bruta 1960 1980 2000 2017 2018 1960-1980 1980-2000 2000-2018 1980-2018
Renda doméstica bruta1 3.268 6.654 13.255 18.171 18.628 103,6 99,2 40,5 470,1
Compensação aos empregados 55,4 57,7 56,6 53,2 53,2 2,3 -1,1 -3,4 -4,5
Salários e ordenados 50,2 48,8 46,7 43,3 43,3 -1,4 -2,1 -3,4 -5,5
para pessoas 50,2 48,8 46,6 43,2 43,2 -1,4 -2,2 -3,4 -5,6
Ao resto do mundo 0,1 0 0,1 0,1 0,1 -0,1 0,1 0 0,1
Suplemento dos salários e
5,2 8,8 9,9 10 9,9 3,6 1,1 0 1,1
ordenados2
Renda do proprietário 3* 9,3 6,1 7,3 7,8 7,7 -3,2 1,2 0,4 1,6
Lucro corporativo 4* 9,5 6,7 6,2 7,9 7,6 -2,8 -0,5 1,4 0,9
Impostos sobre renda corporativa 4 2,7 2,3 1,6 1,1 -1,3 -0,4 -1,2 -1,6
Lucro após imposto* 5,5 4 3,9 6,3 6,6 -1,5 -0,1 2,7 2,6
Dividendos líquidos 2,3 2,1 3,7 5,3 2,3 -0,2 1,6 -1,4 0,2
Lucro não distribuído5* 3,2 1,9 0,3 1 4,3 -1,3 -1,6 4 2,4

(1). US$ fixos para 2012.


(2). Consiste nas contribuições patronais para planos de pensão, seguro e previdência social
(3). Renda corrente de proprietários, parcerias e cooperativas isentas de imposto. Exclui dividendos, juro recebido
por negócios não "financeiros" e renda de aluguel recebida por pessoas não dedicadas às atividades imobiliárias.
(4). Mede os lucros da produção corrente. É a renda oriunda da produção antes de impostos. Grosso modo, trata-se
das receitas menos despesas, tal como definido pelas leis tributárias federais. Receita exclui ganhos de capital e
dividendos recebidos; despesas excluem dívidas não pagas (bad debt) e perdas de capital.
(5). Porção dos lucros corporativos não distribuídos depois que os impostos e dividendos foram pagos
(*): Itens com (*) contém ajuste de inventário e ajuste para o consumo de capital
Elaboração própria a partir de BEA – Bureau of Economic Analysis (BEA)

Para mais, é importante olhar também o que ocorreu com a proporção da renda
doméstica bruta que foi apropriada na forma de lucros e dividendos, ou seja, a renda do
proprietário. Desde 1980, a renda do proprietário cresceu 1,6 p.p. (6,1% para 7,7%,) um
aumento pouco notável, mas que ajuda a explicar, em parte, a diminuição da proporção
destinada aos empregados. O lucro corporativo, da mesma maneira, subiu 0,9 p.p. (6,7%
para 7,6%), um crescimento pequeno. O imposto sobre a renda corporativa, por outro
lado, diminuiu desde 1980, demonstrando que o governo taxou (ou se apropriou) de uma
porção menor da renda corporativa. Para mais, o lucro após as deduções com imposto de
renda aumentou 2,6 p.p. (4% para 6,6%), um crescimento notável. A composição deste
lucro, porém, é importante, na med1ida em que os dividendos líquidos aumentaram pouco
se compararmos 1980 com 2018. No entanto, optou-se por selecionar também aqui o ano
de 2017, para demonstrar que, especificamente nesse ano, a proporção da renda doméstica
na forma de dividendos líquidos foi de 5,3%. Ou seja, se considerarmos os anos de 1980
e 2017, a fração da renda doméstica na forma de dividendos líquidos praticamente dobrou.
Um aumento relevante também ocorreu para o lucro corporativo não distribuído, que em
2018 foi de 4,3%. No entanto, até 2017, a maior parte do lucro tomava a forma de
dividendos líquidos. Em 2018, de modo excepcional, a maior parte dos lucros ficaram
retidos. Contudo, isso não muda a tendência mais ampla que foi verificada até os anos
recentes: crescimento do lucro corporativo, diminuição dos impostos e um crescimento
118

significativo dos dividendos líquidos. Ou seja, um olhar rápido sobre a composição da


renda doméstica bruta fornece informações relevantes sobre o que tem ocorrido com a
fatia do trabalho no mercado de trabalho norte-americano.

Gráfico 11 - Fatia do trabalho (labor share), por grande setor: 1980-2018*


67,0

65,5
65,5
65,0

63,0

63,3 59,7
61,0
63,1

59,0

56,5
57,0

55,0
1980 1982 1984 1986 1988 1990 1992 1994 1996 1998 2000 2002 2004 2006 2008 2010 2012 2014 2016 2018

Negócios não agrícola Negócios Corporações não financeiras

(*): dados anuais.


Elaboração própria a partir de Bureau of labor Statistics (BLS)

Na figura acima, apresenta-se uma ampla análise da fatia do trabalho, por grande
setor. Neste exercício, a fatia do trabalho (“labor share”) representa a fração do produto
que é retornada aos trabalhadores na forma de uma compensação material. Os dados do
Bureau of Labor Statistics demonstram uma tendência preocupante para a classe
trabalhadora norte-americana. Desde 1980, a fatia do trabalho tem variado
significativamente, mas há um movimento nítido de sua diminuição, fenômeno que se
agrava a partir dos anos 2000. A despeito de todas as limitações e problemas envolvidos
na mensuração da fatia do trabalho, sabe-se que essa queda acentuada da parcela da renda
que cabe ao trabalho não é um bom sinal para a sociedade norte-americana. Se, entre
1980-2000, a renda do trabalho variou entre pouco menos de 61% e pouco mais de 65%,
a depender do grande setor analisado, a partir dos anos 2000 há uma queda significativa
dessa proporção. Todos os três setores analisados, negócios não agrícolas, negócios e
corporações não financeiras apresentam, grosso modo, a mesma tendência: leve oscilação
entre 1980-2000 e, a partir dos anos 2000, uma queda significativa. Ou seja, ao longo das
últimas décadas, quando se analisa a parte do produto total que é destinada ao trabalho,
119

percebe-se que essa proporção diminuiu de maneira notável. Ou seja, hoje, os


trabalhadores desfrutam de uma proporção da produção total significativamente menor
do que os trabalhadores desfrutavam em 1980. É uma tendência que coloca em xeque
qualquer argumentação de que, nos anos 2000, o mercado de trabalho norte-americano
vive os melhores de seus dias. Pela ótica da fatia do trabalho, é justamente o contrário:
desde 1980, o mercado de trabalho norte-americano está cada vez pior.
120

Argumento em síntese:

Neste capítulo, realizou-se uma análise geral da degradação do mercado de


trabalho dos Estados Unidos, desde 1980. Para lograr esse objetivo, analisou-se uma série
indicadores capazes de captar os retrocessos que se manifestaram em diversas frentes: a
estrutura ocupacional, a força de trabalho, a taxa de participação, a taxa de sindicalização
e a fatia do trabalho, por exemplo, foram variáveis consideradas neste capítulo. Utilizou-
se, portanto, diversos instrumentos de análise para a investigação dos retrocessos no
mercado de trabalho norte-americano.
Destacou-se que os indicadores mais comuns do mercado de trabalho norte-
americano são incapazes de explicitar todas as transformações que vêm acontecendo nos
E.U.A. As taxas de desocupação, nas mínimas históricas em 2018, por exemplo,
supostamente apresentam um ótimo cenário para o mercado de trabalho. Os dados são
verdadeiros. Contudo, são números que não conseguem descrever os processos internos
de degradação mais profunda que estão ocorrendo no mercado de trabalho. A taxa de
desemprego é um número relevante, mas não pode ser o único modo de analisar a
complexidade de um mercado de trabalho. Por isso, argumenta-se que o conjunto de
indicadores visto neste capítulo coloca em xeque a ideia de que o mercado de trabalho
norte-americano vive um momento de pleno emprego. Quando o pesquisador investiga o
mercado de trabalho dos Estados Unidos somente pela ótica do desemprego, ele observa
a sociedade por meio de um ângulo que não revela a extensão da degradação que tem
acompanhado o mercado de trabalho, desde 1980, e, principalmente, a partir dos anos
2000. Este ângulo, portanto, não revela a totalidade das transformações que vem
acontecendo no mercado de trabalho norte-americano durante as últimas décadas.
A segmentação do grande intervalo de 1980-2018 em períodos mais curtos (1980-
2000 e 2000-2018) foi um passo fundamental para melhor compreender as
transformações do mercado de trabalho norte-americano. Somente assim foi possível
identificar quais são as tendências que atravessam o mercado de trabalho dos Estados
Unidos. Se, portanto, o intervalo de 1980-2000 pode ser descrito como uma continuação
da incorporação da sociedade ao mercado de trabalho, porém mais lenta do que no
passado, o mesmo não pode ser dito sobre os anos 2000. A partir dos anos 2000, há uma
guinada sensível no desempenho do mercado de trabalho norte-americano, reflexo direto
de um crescimento econômico mais lento, nos quadros de um arranjo comercial com a
China, em meio a um cenário de acirrada competição comercial internacional. Nos anos
121

2000, o mercado de trabalho norte-americano não vive o pleno emprego, mas, sim, uma
letargia na incorporação da população no mercado de trabalho. Entre as mudanças mais
relevantes, destaca-se: o emprego cresce mais lentamente, há uma queda do emprego no
setor produtivo, a taxa de participação diminui, a relação emprego/população cai, cresce
o número de trabalhadores part-time que não encontraram emprego melhor; cresce o
número de pessoas com mais de um emprego; o número de inativos cresce mais
aceleradamente e há uma redução dos sindicalizados. Ademais, dois movimentos de
longo alcance merecem destaque, pois ambos estão presentes entre 1980-2000 e entre
2000-2018. A primeira delas, é estagnação (e diminuição, nos anos recentes) do emprego
no setor de produção de bens. A segunda tendência de longo alcance repousa na
diminuição da fatia do trabalho (labor share) como proporção do produto total,
profundamente relacionada às mudanças econômicas contemporâneas, e outras
tendências, como a queda na sindicalização dos trabalhadores americanos.
Constatou-se, ademais, que a mulher possui, em diversos aspectos, uma inserção
mais precária no mercado de trabalho norte-americano, quando comparada à situação dos
homens. Ainda em 2018, a força de trabalho feminina era inferior à masculina; a taxa de
participação feminina é significativamente mais baixa do que a masculina; o nível de
emprego feminino é inferior ao masculino; a relação emprego/população feminina é
inferior à masculina; a quantidade de mulheres ocupadas em part-time jobs é
significativamente maior do que a masculina; a proporção de mulheres ocupadas em mais
de um emprego é maior do que a masculina; o número de mulheres na inatividade é maior
do que a quantia observada para os homens; e, por fim, há menos mulheres sindicalizadas
e representadas por sindicatos, quando comparadas ao número verificado para os homens.
Cumpre salientar, contudo, que a maioria desses indicadores de desigualdade entre os
sexos demonstrou que, desde 1980, houve uma melhora gradual da inserção que a mulher
tem no mercado de trabalho dos Estados Unidos. Entretanto, essas diferenças entre os
sexos ainda persistem em 2018, são eixos importantes de desigualdade que foram
identificados no mercado de trabalho norte-americano.
Para mais, cabe fazer alguns comentários específicos sobre os pontos tratados
neste capítulo, para reforçar os argumentos apresentados na introdução. Em primeiro
lugar, as taxas de desemprego não refletem as verdadeiras condições do mercado de
trabalho norte-americano. A taxa de participação, desde 1980, tem diminuído. Há,
contudo, uma diferença importante entre os sexos: enquanto os homens têm uma queda
na taxa de participação, as mulheres apresentam um crescimento dessa proporção – é a
122

integração da mulher no mercado de trabalho. Todavia, nos anos recentes, ambos os sexos
apresentam uma diminuição na taxa de participação, mostrando que, a partir dos anos
2000, o mercado de trabalho parece entrar numa fase diferente, mais letárgica, marcada
pela incorporação mais lenta de homens e mulheres no mercado de trabalho.
Ademais, nos anos recentes a intensidade do crescimento do emprego para ambos
os sexos cai substancialmente. Ao contrário do que se imagina, a verdade é que os anos
2000 foram marcados por um crescimento mais lento do emprego. Não há aqui dados que
sustentam a tese de que o mercado de trabalho norte-americano vive seus melhores dias.
Há, nos anos recentes, uma letargia no crescimento do emprego, principalmente quando
se compara os números dos anos 2000 com as décadas anteriores. Outra informação que
contesta uma visão mais otimista do mercado de trabalho reside no fato de que, entre 2000
e 2018, houve uma diminuição da relação emprego/população, algo que ocorre tanto para
os homens, bem como para as mulheres.
O crescimento em nível absoluto do “part time job”, os trabalhos em tempo
parcial, foi considerável desde 1980. Trata-se, ademais, de um fenômeno que afeta muito
mais as mulheres, reflexo direto da inserção mais precária que a mulher tem no mercado
de trabalho norte-americano. Os multiple jobholders, aqueles com mais de um emprego,
por sua vez, diminui em proporção desde 1994. Se, no futuro, as tendências atuais se
mantiverem, o fenômeno não tende a se generalizar no mercado de trabalho norte-
americano, ao menos nos próximos anos. O número de inativos também foi analisado:
em primeiro lugar, a maioria dos inativos são mulheres (mais um sinal da inserção
precária da mulher no mercado de trabalho). Ademais, o crescimento da inatividade se
acelerou ao longo dos anos 2000, mostrando que, nos anos recentes, aumentou a parcela
daqueles que estão fora da força de trabalho.
A evolução da sindicalização nos E.U.A, que foi também analisada neste capítulo,
revela tendências importantes, que ajudam a explicar a estagnação da remuneração ao
longo das últimas décadas. As instituições que representam os trabalhadores parecem
perder força nos E.U.A, na medida em que há uma diminuição em níveis absolutos
daqueles sindicalizados e representados por sindicatos, fenômeno que se arrasta desde
1980. Os homens, ademais, têm uma taxa de sindicalização maior do que a das mulheres,
revelando que as mulheres, para além de uma posição mais precária no mercado de
trabalho, possuem também menor capacidade de influenciar nas barganhas coletivas, na
correlação de forças ou nas negociações trabalhistas, em geral. Em 1980, as taxas de
sindicalização já eram baixas, e, desde então, o cenário piorou. Há, nesse sentido, uma
123

corrosão progressiva da capacidade de barganha dos trabalhadores norte-americanos, algo


que se estende desde 1980.
Soma-se a este quadro de baixíssima representatividade sindical, tanto para os
homens como para as mulheres, a diminuição do uso de paralisações e greves como
instrumentos para influenciar a correlação de forças no mercado de trabalho. Verificou-
se que as paralisações, desde 1980, diminuíram drasticamente: os números mostram uma
quantidade cada vez menor de trabalhadores envolvidos e dias ociosos nas últimas
décadas. Até 2017, os dados indicam que as paralisações pareciam algo ultrapassado no
mercado de trabalho norte-americano. Contudo, houve uma forte guinada em 2018, na
medida em que ocorreu um súbito crescimento das paralisações. Algo não vai bem no
mercado de trabalho norte-americano.
Sobre a evolução da estrutura ocupacional norte-americana, é preciso reforçar
alguns aspectos relevantes que foram observados. Constatou-se que, desde 1980, há um
movimento de diminuição dos empregos ligados à produção. Essa tendência, ademais, se
acelera nos anos 2000. Simultaneamente, verifica-se um crescimento acelerado das
ocupações no setor de educação e saúde. Ou seja, o crescimento do emprego nos E.U.A
tem se concentrado em setores marcados pela baixa produtividade. Ademais, a tendência
mais ampla que acompanha todas essas transformações mais internas da estrutura
ocupacional, principalmente nos anos recentes, é um crescimento mais lento do número
de empregados, fenômeno ainda mais nítido nos anos recentes. A estrutura ocupacional
dos Estados Unidos, nesse sentido, acompanha o movimento mais amplo da economia:
uma desaceleração entre 1980-2000, e uma letargia nos anos 2000.
Derradeiramente, o último exercício realizado foi uma análise da fatia do trabalho
“labor share” no mercado de trabalho norte-americano. Os dados demonstraram que, de
forma geral, há uma diminuição dos salários na proporção da renda doméstica bruta, e
um aumento correspondente dos lucros e dividendos líquidos. Entre o capital e o trabalho,
é o capital que tem tomado uma parte cada vez maior da renda nacional. Ademais,
verificou-se também que a fatia do trabalho como proporção do produto total tem
gradualmente diminuído ao longo do tempo. Desde 1980, portanto, a fatia do trabalho
tem diminuído, algo que acontece para os negócios não agrícolas, para os negócios e para
as corporações financeiras. Esse fato, somado a todo o quadro de lenta, porém gradual,
degradação do mercado de trabalho, reforça a ideia de que existe uma crise silenciosa que
afeta a sociedade norte-americana.
Em suma, a degradação do mercado de trabalho nos Estados Unidos se manifesta
124

de diversas maneiras. O crescimento mais lento do número de empregados, o aumento do


trabalho part time e a elevação da inatividade se combinam num cenário de profunda
reorganização da estrutura ocupacional, tendo como pano de fundo a queda dos empregos
manufatureiros, a eliminação dos empregos de “classe média” e a proliferação de
empregos precários nos próximos anos. Esses movimentos aliás, acontecem num contexto
de diminuição acelerada da sindicalização, o que enfraquece o poder de barganha dos
trabalhadores. Esses e outros movimentos de regressão social são investigados mais
detalhadamente nos próximos capítulos da tese, que investigam a evolução da renda, da
desigualdade e da pobreza nos Estados Unidos era da globalização.
125

Capítulo 04 - Mundos dos rendimentos nos Estados Unidos

Introdução

Entre 1980-2018, foi constatada uma tendência de desaceleração da economia


norte-americana, fenômeno que, a partir dos anos 2000, adquiriu contornos mais
dramáticos. Neste intervalo de tempo, ademais, observou-se uma lenta, porém gradual,
deterioração de uma série de indicadores do mercado de trabalho dos Estados Unidos.
Considerando esse quadro de desaceleração da atividade econômica e degradação das
relações de trabalho, este capítulo tem como objetivo descrever o que aconteceu com os
rendimentos nos Estados Unidos, durante as últimas décadas. Para adiantar o argumento,
será demonstrado que, nos últimos anos, formou-se na sociedade norte-americana dois
mundos diferentes no que tange aos rendimentos: o mundo dos bem afortunados e dos
afluentes, que vê a sua renda e o seu padrão de vida aumentar progressivamente; e o
mundo daqueles que viram a sua renda estagnar, ou até diminuir, ou seja, de todos aqueles
que foram abandonados.
Nos E.U.A, onde a maior parte da renda é proveniente dos empregos, e a inserção
do indivíduo no mercado de trabalho é o alicerce das famílias e das pessoas na estrutura
social, é esperado que a degradação das condições de trabalho e da remuneração
representem um rebaixamento do padrão de vida. Portanto, este capítulo analisa quais
foram os impactos mais gerais que ocorreram na estrutura de rendimentos dos Estados
Unidos, desde 1980. Trata-se, mais especificamente, de uma ampla investigação dos
rendimentos, empregando dados familiares e individuais para demonstrar o que tem se
passado com o mundo dos rendimentos nos E.U.A. Por meio de uma análise da renda,
será possível identificar com um maior nível de detalhe quais grupos sociais foram
especialmente afetados pela degradação das condições sociais e econômicas nos Estados
Unidos. Trata-se de um passo fundamental para entender melhor a evolução dos E.U.A
no período neoliberal.
Nos Estados Unidos, o sustento da grande maioria da população é proveniente de
salários, uma remuneração pelo trabalho, ao invés da renda gerada por investimentos e
aplicações. Todavia, as últimas décadas foram marcadas por um fraco aumento salarial,
na medida em que a remuneração pela hora aumentou muito pouco, ou nada. Ou seja,
ainda que os últimos anos tenham sido caracterizados por um crescimento positivo da
economia, a maioria das pessoas não tem conseguido se beneficiar desse aumento da
produção. Uma compreensão melhor desse fenômeno, a estagnação salarial dos norte-
126

americanos, vale ressaltar, é mais do que um problema meramente “acadêmico”. Trata-


se, em larga medida, de algo que pode corroborar para redesenhar uma série de políticas
públicas, para que mais pessoas consigam aproveitar os frutos do crescimento econômico.
Entre os fatores que são necessários para assegurar esse aproveitamento dos trabalhadores
no crescimento econômico, os autores destacam: o crescimento constante da
produtividade; a garantia de que a “fatia” do trabalho na parcela da renda nacional
permanecerá em patamares estáveis ao longo do tempo; e, por fim, é preciso atenção para
que os ganhos sejam “espalhados” pela pirâmide social. 129
O relatório “State of Working America”, de 2019, aponta que a história dos
rendimentos nos Estados Unidos tem sido, durante os últimos 40 anos, marcada pela
letargia e pela desigualdade. O documento traz elementos importantes para a presente
discussão: dos últimos 40 anos, somente 10 foram caracterizados por um crescimento
significativo da remuneração; a desigualdade na remuneração é um fato marcante, pois
os 5% mais bem remunerados estão se afastando cada vez mais do restante da população;
a política pública importa, pois verificou-se que os estados com os maiores ganhos
salariais foram justamente aqueles com aumentos maiores do salário mínimo; o hiato
remuneratório entre homens e mulheres, assim como brancos e negros, ainda persiste; e,
por fim, a remuneração das pessoas quem tem ensino superior tem, desde o início dos
anos 2000, diminuído, ao invés de aumentar. Parece evidente que, desde meados da
década de 1970, ocorreu uma dissociação entre o crescimento da produtividade e a
incorporação desses ganhos nos rendimentos dos trabalhadores. Em outras palavras, os
salários não têm incorporado os ganhos que o aumento da eficiência produtiva tem
proporcionado durante os últimos 40 anos. O relatório conclui que o crescimento letárgico
dos rendimentos, além da desigualdade no aumento salarial, é um resultado direto de uma
série de medidas que enfraqueceram o poder de barganha dos trabalhadores. 130
Ao longo das últimas décadas, procurou-se explicar a evolução dos salários
fazendo uso da curva de Philips, raciocínio que liga o crescimento da inflação com a taxa
de desocupação. Conforme essa linha de raciocínio, a diminuição do desemprego traria,
eventualmente, um crescimento salarial, que rebateria de modo adverso na inflação.
Entretanto, diminuição da taxa de desemprego e a persistência da estagnação salarial

129
SHAMBAUGH, J; NUNN, R. Why Wages Aren’t Growing in America. Harvard Business Review. 2017.
Recuperado em https://hbr.org/2017/10/why-wages-arent-growing-in-america. Acessado em
20/08/2020.
130
GOULD, E. State of Working America Wages 2019. Economic Policy Institute. 20 de fevereiro de 2020.
Recuperado em https://www.epi.org/publication/swa-wages-2019/. Acessado em 20/08/2020.
127

colocou esse pensamento em xeque, na medida em que os Estados Unidos apresentaram


um crescimento econômico positivo, mas os salários não se moveram. Essa contradição
levou, inclusive, àqueles mais apegados aos “manuais” acreditarem que a estagnação
salarial configura um dos maiores “mistérios” da atualidade, como escreveu Jeff Cox,
para a CNBC131. Um artigo veiculado pela FORBES, todavia, vai direto ao ponto,
argumentando que é preciso olhar para além das teorias mais comuns utilizadas pela
ortodoxia econômica: deve-se abandonar a teoria de “maximização do valor” do
acionista. No passado, todos os “stakeholders” eram considerados na mesa de negociação
e nas atividades da empresa. Contudo, em algum momento o “valor” do acionista tomou
a dianteira em todas as decisões, e os outros “stakeholders” passaram a ser tradados como
commodities. A estagnação salarial não é um “defeito” da economia, diz o autor, mas um
processo que resulta de decisões como essa, de colocar os acionistas sempre em primeiro
lugar, por exemplo. 132
O artigo de Jeff Cox, mencionado anteriormente, destaca que, a despeito de um
nível de emprego cada vez maior, não parece haver contrapartida alguma no patamar
salarial. Ou seja, há um crescimento dos empregados nos Estados Unidos, mas essa
demanda por mais trabalhadores não tem afetado os rendimentos. Joseph Song,
economista do Merril Lynch, comenta: “a falta de crescimento salarial frente a uma
diminuição do desemprego é um mistério”. Song ainda acredita, todavia, que a
diminuição do desemprego eventualmente trará um impacto positivo nos salários. A fala
de Song, cumpre salientar, representa um pouco das frustrações e das esperanças dos
economistas ortodoxos. 133

131
COX, J. The Economy’s Biggest Mistery – paychecks just aren’t growing. CNBC. 08 de dezembro de
2017. Recuperado em https://www.cnbc.com/2017/12/08/lack-of-wage-growth-remains-the-economys-
greatest-mystery.html. Acessado em 20/08/2020.
132
DENNING, S. How to fix Stagnant Wages: Dump The World’s Dumbest Idea. FORBES. 26 de julho de
2018. Recuperado em https://www.forbes.com/sites/stevedenning/2018/07/26/how-to-fix-stagnant-
wages-dump-the-worlds-dumbest-idea/#1b65c69c1abc. Acessado em 20/08/2020.
133
COX, J. Op. cit. 2017.
128

Tabela 20 – Pesquisa New York Times, 2005

"Você acredita que irá alcançar o "sonho americano" durante a sua vida, ou você já o
alcançou?"*

Não sei/Sem
Data da pesquisa Já alcancei Alcançarei durante a vida Não alcançarei
resposta
Agosto/1992 37% 43% 17% 4%
Dezembro/1995 45% 35% 16% 5%
Março/2005 32% 38% 27% 3%

(*). Do you think you will reach, as you define it, the “American Dream” in your lifetime, or have you already reached it?
Elaboração própria a partir de (KELLER, 2005)134

Nesse cenário de desalento para a classe trabalhadora dos Estados Unidos, não
espanta que a pesquisa conduzida pelos correspondentes do “The New York Times”, em
2005, mostre essa falta de esperança. Quando questionados “se já alcançaram, ou se
alcançarão” o sonho americano, a resposta do americano mudou sensivelmente ao longo
do tempo. Em 1992, 37% dos entrevistados disse que já havia alcançado o sonho
americano; em 2005, essa proporção caiu para 32%. Em 1992, 43% dos entrevistados
disse que alcançaria o sonho americano em algum momento da vida; em 2005, a parcela
dos otimistas caiu, posto que somente 38% dos entrevistados acreditava que o sonho
americano poderia ser alcançado em vida. A prova final está entre aqueles que não
acreditam que o sonho americano pode ser alcançado: em 1992, 17% dos entrevistados
estava descrente no sonho americano; em 2005, a fração dos que não acreditam nesse
sucesso cresceu para 27%. A pesquisa revela que, ao longo do tempo, cada vez menos
americanos acreditam que esse “sonho” pode se tonar uma realidade.
Depois da crise financeira de 2008, a economia dos Estados voltou a se recuperar,
apresentando anos consecutivos de crescimento econômico (ao menos antes da pandemia
Covid-19). As grandes empresas têm reportado lucros cada vez mais elevados, a atividade
econômica está de volta aos trilhos e o desemprego tem caído progressivamente.
Entretanto, esses processos não têm levado a um aumento proporcional dos salários. Na
realidade, não tem acontecido aumento salarial algum nos países desenvolvidos,
incluindo os Estados Unidos. Esse problema, cumpre ressaltar, possui implicações
políticas importantes: o ressentimento da classe média; a sensação de que a classe
trabalhadora não está recebendo a sua parte no processo produtivo; e, talvez uma das mais
importantes, a eleição de líderes da extrema direita em diversos países da Europa, ou de

134
KELLER, B. Op. cit. 2005. p. 248.
129

Donald Trump, por exemplo. Ángel Talavera, economista de Oxford, pondera: “esse (a
estagnação salarial) é um dos maiores problemas econômicos de nossos tempos.”.
Economistas, contudo, não conseguem entrar num acordo sobre o porquê de os salários
não crescerem nos Estados Unidos, ou em qualquer outro país desenvolvido.
Antigamente, era certo que uma diminuição do desemprego traria um aumento salarial.
A escassez de trabalhadores levaria, eventualmente, a um aumento dos salários. A curva
de Philips, cumpre lembrar, baseia-se na ideia de que há uma relação inversa entre a taxa
de desemprego e a inflação. Logo, a diminuição do desemprego resultaria em aumentos
salariais, e, consequentemente, isso impactaria a inflação. Contudo, nos anos recentes,
tem sido muito mais difícil explicar a relação entre o crescimento econômico, os salários
e a inflação. 135
Na Bloomberg, Noah Smith diz que os economistas estão “confusos”: a economia
está crescendo, mas os salários não estão aumentando na mesma medida. Como isso
poderia acontecer, uma vez que o desemprego está baixo, e a atividade econômica dá
sinais de crescimento sucessivo ano após ano? Quando o mercado de trabalho está
“apertado”, os salários deveriam crescer, mas, pelo contrário, o que se observa é uma
letargia salarial. Uma das possibilidades que pode explicar esse fenômeno, aventada por
Paul Krugman, é que os empresários estão concentrando um poder “monopolista” cada
vez maior, forçando uma estagnação salarial. Isso ajuda a explicar, por exemplo, a
dificuldade que os jovens têm nos Estados Unidos de encontrar um trabalho bem
remunerado. Sem esquecer, evidentemente, a progressiva queda nas taxas de
sindicalização, aspecto que corrobora para dificultar o crescimento salarial. Este
fenômeno, cumpre ressaltar, acontece também no Japão, que também apresenta um
mercado de trabalho com uma baixa taxa de desocupação, mas onde o pagamento dos
trabalhadores permanece estagnado. O comércio internacional também é um elemento
óbvio que deve ser considerado nessa equação: na medida em que, a partir dos anos 2000,
a China surge como uma fornecedora de trabalho barato para as empresas transacionais,
os salários nos países ricos, como nos Estados Unidos, passaram a crescer mais
lentamente. 136

135
EWING, J. Wages are rising in Europe. But Economists are Puzzled. In: New York Times. 25 de julho de
2018. Recuperado em https://www.nytimes.com/2018/07/25/business/europe-ecb-wages-
inflation.html. Acessado em 20/08/2020.
136
SMITH, N. The Mistery of Muny Pay Raises. Bloomberg. 11 de junho, 2018. Recuperado em
https://www.bloomberg.com/opinion/articles/2018-06-11/a-tight-u-s-job-market-should-deliver-
bigger-raises. Acessado em 24/08/2020.
130

É preciso destacar, além disso, que pouco (ou nada) tem sido feito para impedir a
diminuição do poder de barganha dos trabalhadores norte-americanos. Ao longo do
tempo, houve uma dissociação entre o crescimento dos salários e o aumento da
produtividade, e o resultado, vale apontar, é que a classe trabalhadora não tem recebido a
parcela justa do valor criado pelo seu trabalho. Um dos elementos que pode explicar esse
fenômeno, aponta Noah Smith, é o declínio que os sindicatos têm sofrido durante as
últimas décadas. Atuando como um mecanismo de representação coletiva para barganhar
por melhores salários e condições de trabalho, os trabalhadores sindicalizados costumam
receber pagamentos melhores do que aqueles não sindicalizados. Entretanto, até os
trabalhadores que não pertencem aos sindicatos se aproveitam do crescimento da
remuneração, que atua para elevar o patamar salarial. A diminuição da taxa de
sindicalização, os novos desafios impostos aos sindicatos no cenário atual, como a
dispersão das empresas pelo território americano, ou em países diferentes, contudo, tem
minado a capacidade que os sindicatos têm de impulsionar a remuneração da classe
trabalhadora nos Estados Unidos. 137
Paul Krugman apelidou esse fenômeno, a estagnação da remuneração dos norte-
americanos, de “quebra cabeça salarial”. O economista aponta para o paradoxo que está
presente nos Estados Unidos: de um lado, a diminuição da taxa de desocupação mostra
uma economia que flerta com o pleno emprego; de outro lado, os salários, desde a crise
de 2008, cresceram apenas modestamente. O que está acontecendo? Krugman aponta que,
a despeito de a maioria dos economistas jogar luz sobre a taxa de desemprego, é preciso
olhar também para o número total de empregados, que, nos anos recentes, ainda se
mantem abaixo dos níveis pré-crise de 2008. A parcela da população empregada e a taxa
de participação, diz o autor, são elementos importantes, e que podem ajudar a
compreender a estagnação salarial nos Estados Unidos: ambos indicadores mostram
sinais de uma lenta deterioração ao longo do tempo. Ademais, segundo o autor existem
evidências o suficiente para dizer que os empregadores detêm um poder desmensurado
atualmente, de modo que seja observado uma espécie de monopsônio no mercado de
trabalho. Por fim, os empregadores teriam ficado “mal-acostumados” com a oferta de

137
Verificar mais em SMITH, N. Stronger Labor Unions Could Do a Lot of Good. Bloomberg. 06 de
dezembro, 2017. Recuperado em
https://web.archive.org/web/20190816230041/https://www.bloomberg.com/opinion/articles/2017-
12-06/stronger-labor-unions-could-do-a-lot-of-good. Acessado em 25/08/2020.
131

trabalho barato durante a crise econômica, e, agora, estão resistentes em oferecer salários
menores numa situação de “normalidade” de contratações. 138
Jerome Powell, ‘Chairman” do Federal Reserve, demonstrou que a cúpula da alta
finança não sabe como lidar com esse “paradoxo” que afeta os trabalhadores norte-
americanos. Numa conferência realizada em Washington, ainda em 2018, Powell foi
indagado: “Quando as pessoas começarão a ter aumentos salariais de verdade?”; o
Chairman respondeu: “Então, isso é um enigma (...). Eu não diria que é um mistério. Mas
é, um pouco, como um enigma.”. Ou seja, uma das autoridades monetárias mais altas dos
Estados Unidos não somente é incapaz de formular uma resposta para esse problema,
mas, também, considera que a estagnação salarial da classe trabalhadora norte-americana
é uma espécie de charada mágica a ser desvendada. De todo modo, o FED não parece ter
as respostas para resolver esse “enigma”. Na ocasião, Powell repetiu o que outros
economistas confusos com o tema diziam: a economia norte-americana estaria
demonstrando baixos níveis de produtividade, e, um dos resultados disso, seria a
estagnação dos pagamentos aos trabalhadores. 139
Um artigo veiculado no NY Times também toca nesse ponto problemático. Desde
a crise de 2008, a taxa de desemprego caiu drasticamente. Entretanto, no quesito salarial,
os trabalhadores ainda não conseguiram recuperar o terreno perdido. O pagamento pela
hora de trabalho não tem crescido como esperado, e, enquanto isso, o poder de compra
dos desfavorecidos é vagarosamente corroído pela inflação. Ademais, o uso de
empregadores “independentes” fazendo uso da terceirização, assim como o “outsourcing”
de serviços para os outros países, são processos que tem colocado os trabalhadores em
desvantagem de negociação. Há relatos nos E.U.A., cumpre ressaltar, de que é possível
encontrar emprego sem dificuldade: trabalhos de cozinheiro, ou em algum restaurante
qualquer; de chapeiro, numa hamburgueria; ou ainda em trabalhos mais árduos, em
depósitos de estocagem. O problema, portanto, não é a falta de empregos, mas, sim, a
remuneração, como foi o caso de Ms. Jones, de 53 anos de idade, que após dezenas de
entrevistas de emprego, terminou como uma funcionária de banco, recebendo 2/3 do

138
KRUGMAN, Monopsony, Rigidity, and the Wage Puzzle (Wonkish). Ny Times. 20 de maio, 2018.
Recuperado em
https://web.archive.org/web/20190512152949/https://www.nytimes.com/2018/05/20/opinion/monop
sony-rigidity-and-the-wage-puzzle-wonkish.html. Acessado em 24/08/2020.
139
Jerome Powell, Chairman do FED, ao ser indagado quando que os norte-americanos vão ter aumentos
salariais. Ver em ChicagoTribube. Weak pay growth puzzles Fed chief, just like everyone else. 14 de junho,
2018. Recuperado em https://www.chicagotribune.com/business/ct-biz-weak-wage-growth-powell-fed-
20180614-story.html. Acessado em 24/08/2020.
132

salário que ela tinha antigamente. Nas palavras dela: “Claro, você consegue um emprego
virando hamburguers em algum lugar, ou em algum depósito (...). Você escuta que a taxa
de desemprego está mais baixa do que nunca, mas é desencorajador”. Os economistas
oferecem diversas explicações para tentar descrever esse fenômeno, mas o fato é que a
deterioração dos rendimentos segue de forma persistente. Enquanto isso, os dados
demonstram que a fatia do trabalho na renda nacional tem diminuído progressivamente.
Em medida similar, a parcela dos lucros tem crescido, desde 1980. 140
Por fim, Larry Summers vai direto ao ponto: os trabalhadores norte-americanos
precisam de mais “poder”. A pandemia do novo coronavirus escancarou as diferenças
entre os americanos com altos salários, que recebem as suas encomendas no correio; o os
americanos mal remunerados, que entregam essas encomendas. São dois mundos
diferentes. Um mundo com salários fartos, com empregos de colarinho branco home
office; e outro mundo, subalterno, daqueles que são obrigados a se exporem aos ricos do
contágio, utilizando uma proteção inadequada. Em larga medida, a pandemia do Covid-
19 expôs essas realidades diferentes, de pessoas que moram num mesmo país, mas
parecem habitar mundos diversos. O vírus demonstrou tendências que já estavam
presentes há muito tempo na sociedade norte-americana, comenta Larry Summers: de um
lado, a tendência de queda da fatia do trabalho na renda nacional, do crescimento da
desigualdade e de aumentos salariais praticamente inexistentes; de outro lado; o aumento
do valor das ações e aumento nos lucros empresariais. Atualmente, o “ativismo” dos
acionistas tomou conta das decisões tomadas dentro das empresas: a administração das
empresas é completamente voltada aos interesses dos “shareholders”, os acionistas,
enquanto os “stakeholders”, os outros participantes do processo produtivos, como os
trabalhadores, foram abandonados. Desde 1980, ademais, os benefícios aos trabalhadores
das grandes empresas foram se tornando cada vez mais raros. É cada vez mais comum
encontrar trabalhadores operando sob “empregadores independentes”, disfarçando um
processo de terceirização, que se não acontece em âmbito doméstico, agora também pode
acontecer em âmbito internacional.141

140
COHEN, P. Paychecks Lag as Profits Soar and Prices Erode Wage Gains. New York Times. 13 de julho,
2018. Recuperado em https://www.nytimes.com/2018/07/13/business/economy/wages-workers-
profits.html. Acessado em 25/08/2020.
141
SUMMERS, L; STANBURY, A. U.S. workers need more power. In: Larry Summers (blog). 2020.
Recuperado em http://larrysummers.com/2020/06/29/u-s-workers-need-more-power/. Acessdo em
26/08/2020.
133

Summers comenta que parte do problema está relacionado à globalização, ou com


a mudança tecnológica. Contudo, boa parte desse processo - a deterioração da
remuneração dos trabalhadores, bem como o crescimento da desigualdade dos
rendimentos - está relacionado a elementos institucionais, mais ligados às políticas
públicas dos Estados Unidos, e menos relacionados à processos econômicos fora do
controle da sociedade. Desde 1980, a estrutura legal e política tem favorecido cada vez
mais os acionistas, minando a possibilidade dos trabalhadores e dos sindicatos
barganharem por maiores aumentos salariais. O crescimento da desigualdade e a
estagnação salarial, cumpre ressaltar, é um fenômeno que acontece em diversos países.
Todavia, o fato de que nos E.U.A esses processos terem sido verificados com mais
intensidade sugere que existe algo de específico na política americana. É preciso, tal como
sugeriu John Kenneth Galbraith, fortalecer o poder de barganha dos trabalhadores, e, ao
mesmo tempo, atuar com políticas tributárias e redistributivas. Um problema tão grave
deve ser olhado de múltiplos ângulos, e não somente de uma única perspectiva. Na visão
do autor, é preciso aumentar o poder dos trabalhadores, e isso deve ser uma prioridade na
agenda das autoridades que estão preocupadas com as condições de remuneração e
desigualdade nos Estados Unidos. 142
Frente a esse fenômeno que acompanha a sociedade norte-americana nas últimas
décadas, este capítulo tem como objetivo investigar a evolução dos rendimentos nos
Estados Unidos. Em relação à metodologia de análise empregada neste capítulo, alguns
comentários são importantes. Tal como em outros capítulos, o período de 1980-2018 será
analisado por meio de uma segmentação em dois intervalos mais curtos: 1980-2000 e
2000-2018. Restará claro, nas páginas seguintes, que, para uma compreensão adequada
do que aconteceu com os rendimentos norte-americanos, é preciso fazer uma análise
detalhada desse período, dividindo este grande intervalo em momentos diferentes.
Uma análise superficial, por exemplo, que considere somente a evolução da renda
média por todo o período de 1980-2018, não encontrará problema nenhum na sociedade
americana. A evolução da renda média domiciliar entre 1980-2018, por exemplo,
demonstrou um crescimento de 46,9% no período. Ou seja, uma análise superficial dos
rendimentos poderá transparecer, equivocadamente, uma situação de “normalidade” com
os rendimentos. É preciso realizar uma investigação mais detalhada dos rendimentos
americanos.

142
SUMMERS, L; STANBURY, A. Op. cit. 2020.
134

Tabela 21 – Evolução da renda média domiciliar nos E.U.A: 1980-2018*


Ano Renda média
1980 61.283
1990 69.892
2000 83.545
2010 77.783
2018 90.021
1980-2018 (%) 46,9

(*): dados em milhares, US$ constantes para 2018, para os meses de março do ano seguinte.
Fonte: elaboração própria a partir de U.S. Bureau of the Census (household data

A evolução da renda média, quando analisada isoladamente, desde 1980, sem


fazer uso de uma segmentação temporal mais breves, passa a falsa impressão de que os
E.U.A vivem um longo momento prosperidade. Portanto, é fundamental segmentar esse
grande período de 1980-2018 em intervalos mais curtos, com outros dados de análise,
para complementar a investigação aqui realizada da sociedade americana. Um dos
esforços deste capítulo vai nessa direção: a de descrever mais cuidadosamente quais são
as tendências mais significativas que atravessam a estrutura de rendimentos da sociedade
norte-americana. Espera-se demonstrar, ao final do capítulo, mais um retrato dos E.U.A,
neste caso, sob o ângulo dos rendimentos.
O intervalo temporal empregado para analisar a estrutura social segue o padrão
dos outros capítulos: 1980-2018. Portanto, sempre que possível, optou-se por selecionar
os dados que compreendem esse grande intervalo temporal. No entanto, em função de
algumas limitações das séries históricas das fontes utilizadas, nem sempre foi possível
obedecer a este marco temporal. Para todas as exceções, a decisão escolhida foi a de
selecionar o ano inicial da série histórica que mais se aproximasse de 1980. Ademais,
sempre que possível foi realizada uma segmentação deste grande período: fragmentou-se
o grande intervalo de 1980-2018 em dois períodos menores, 1980-2000 e 2000-2018. Ao
final do capítulo, o leitor verá que esse exercício de análise se mostrou imprescindível
para observar os retrocessos que estão presentes, desde 1980, no mundo dos rendimentos
dos Estados Unidos.
135

4.1. A evolução dos rendimentos familiares

Uma das maneiras de compreender o que vem acontecendo com os rendimentos


familiares reside em observar a evolução dos limites superiores de cada quintil. Trata-se,
vale ressaltar, de uma maneira de acompanhar como se comportou a renda familiar ao
longo do tempo, baseado na estruturação dos quintis. Por “família”, O U.S Census define
um grupo de duas pessoas ou mais (sendo uma delas o “householder”, proprietário ou
responsável pelo aluguel da unidade residencial) relacionadas por laços de nascimento
(laços paternos, maternos e outros laços familiares) que residem juntas. Todas as pessoas
abrangidas nessa definição serão consideradas membros de uma família.143

Tabela 22 – Limites superiores de renda para cada quintil e 5% mais ricos, famílias
nos E.U.A: 1980-2018*

Limite superior de cada quintil


Ano n. famílias Limite inferior dos 5% mais
Primeiro Segundo Terceiro Quarto rico
1980 60.309 30.259 50.946 72.156 101.251 160.024
1990 66.322 31.479 54.272 78.557 114.901 191.268
2000 73.778 35.094 59.718 89.672 133.611 234.134
2005 77.418 33.018 58.030 88.040 132.891 237.811
2010 79.559 30.609 55.401 85.409 130.930 231.067
2014 81.730 30.896 55.950 87.096 136.969 244.229
2018 83.508 35.864 63.023 96.340 150.117 279.240
1980-2000 (%) 22,3 16,0 17,2 24,3 32,0 46,3
1980-2000 % a.a. 1,0% 0,7% 0,8% 1,1% 1,4% 1,9%
2000-2018 (%) 13,2 2,2 5,5 7,4 12,4 19,3
2000-2018 % a.a. 0,7% 0,1% 0,3% 0,4% 0,6% 1,0%
1980-2018 (%) 38,5 18,5 23,7 33,5 48,3 74,5
1980-2018 % a.a. 0,9% 0,4% 0,6% 0,8% 1,0% 1,5%

(*): dados em milhares, US$ constantes para 2018, para os meses de março do ano seguinte.
Fonte: elaboração própria a partir de U.S. Bureau of the Census (Family Data)

Em primeiro lugar, algumas observações sobre o crescimento do número de


famílias nos E.U.A. Segundo os dados familiares disponibilizados pelo U.S Census,
houve desde 1980 um crescimento de 38,5% no número de famílias. Esse crescimento
vale ressaltar, se deu de modo mais intenso e acelerado entre 1980-2000 (22,3%); e de
modo menos acelerado entre 2000-2018 (13,2%). Portanto, há nos anos recentes uma
tendência de crescimento mais lento do número de famílias nos E.U.A.
Uma análise dos limites superiores de renda para cada quintil revela que, nos anos

143
Subject definitions. U.S Census Bureau. Disponível em https://www.census.gov/programs-
surveys/cps/technical-documentation/subject-definitions.html#household. Acessado em 04/05/2020
136

recentes, há um crescimento muito mais lento da renda. Entre 1980-2000, o primeiro


quintil apresentou crescimento de 16% de seu limite superior. Nos anos recentes, esse
crescimento foi de apenas 2,2%. Entre 1980-2000, o segundo quintil apresentou
crescimento de 17,2% de seu limite superior. Nos anos recentes, esse crescimento foi de
5,5%. Entre 1980-2000, o terceiro quintil apresentou crescimento de 24,3% de seu limite
superior. Nos anos recentes, esse crescimento foi de 7,4%. Entre 1980-2000, o quarto
quintil apresentou crescimento de 32% de seu limite superior. Nos anos recentes, esse
crescimento foi de 12,4%. O limite inferior dos 5% mais ricos apresentou, entre 1980-
2000, por seu turno, um crescimento de 46,3%. Entre 2000-2018, esse crescimento foi de
19%. Logo, verifica-se que, entre 1980-2000, o crescimento dos limites dos quintis
ocorreu de modo mais intenso do que entre 2000-2018.
Os 2000-2018, desse modo, são marcados por um movimento muito mais lento da
ascensão social familiar. Para mais constata-se que houve, tanto para 1980-2000, como
entre 2000-2018, um crescimento mais intenso dos limites nos quintis mais privilegiados.
O primeiro quintil, portanto, foi o mais prejudicado, ao apresentar um crescimento mais
lento de seu limite inferior. É um primeiro indício de crescimento da desigualdade
familiar, ou seja, do crescimento da desigualdade social. Logo, pode-se concluir que o
período de 1980-2000 foi marcado pelo crescimento da desigualdade familiar mensurada
pelos limites dos quintis. Entretanto, ainda houve um movimento geral de ascensão social
domiciliar. O intervalo temporal de 2000-2018, por outro lado, também mostrou um
crescimento mais forte dos limites nos quintis mais privilegiados, demonstrando que o
crescimento da desigualdade familiar ainda persiste. Todavia, esse crescimento da
desigualdade nos anos recentes foi acompanhado por um movimento muito mais lento
dos limites para todos os quintis. Nos anos recentes, portanto, há igualmente indícios de
crescimento da desigualdade, mas agora também com sinais de estagnação da renda,
diminuindo o “espaço” para acomodação social.
137

Tabela 23 – Parcela da renda agregada recebida por cada quintil e 5% das famílias mais
ricas: 1980-2018*
Primeiro Segundo Terceiro Quarto Quinto 5% mais
Ano
quintil quintil quintil quintil quintil ricos

1980 5,3 11,6 17,6 24,4 41,1 14,6


1990 4,6 10,8 16,6 23,8 44,3 17,4
2000 4,3 9,8 15,4 22,7 47,7 21,1
2005 4,0 9,6 15,3 22,9 48,1 21,1
2010 3,8 9,4 15,4 23,5 47,9 20,0
2015 3,7 9,2 15,2 23,2 48,6 20,9
2018 3,8 9,3 14,9 22,6 49,4 21,6
1980-2000 (p.p) -1,0 -1,8 -2,2 -1,7 6,6 6,5
2000-2018 (p.p) -0,5 -0,5 -0,5 -0,1 1,7 0,5
1980-2018(p.p) -1,5 -2,3 -2,7 -1,8 8,3 7,0

Fonte: elaboração própria a partir de U.S. Bureau of the Census (Family Data)

Uma análise da parcela da renda agregada tomada por cada quintil permite
observar que os quintis superiores foram os mais beneficiados, desde 1980. Desde 1980,
o primeiro quintil perdeu 1,5 p.p. da renda total; o segundo quintil perdeu 2,3 p.p. da
renda total; o terceiro quintil perdeu 2,7 p.p. da renda total, demonstrando que os estratos
intermediários foram os que mais perderam, em termos relativos; até o quarto quintil
perdeu, desde 1980, 1,8 p.p. da renda total. Por outro lado, uma situação bem diferente
ocorreu com os quintis superiores: desde 1980, o quinto quintil recebeu 8,3 p.p. a mais
da renda total; as famílias 5% mais ricas, por sua vez, passar a tomar mais 7 p.p. da renda
total. Ou seja, há um claro movimento de concentração da renda no quintis superiores,
em detrimento dos quintis inferiores, sendo que as maiores perdas em pontos percentuais
ocorreram para o terceiro quintil, os estrados intermediários. Trata-se de uma
manifestação muito clara do processo de concentração de renda que existe nos E.U.A.
Ademais, cumpre observar que existem diferenças importantes que merecem
destaque entre os intervalos temporais selecionados. Foi entre 1980-2000, vale ressaltar,
que o processo de concentração da renda nos quintis superiores ocorreu de modo mais
acelerado. O quarto quintil, por exemplo, perdeu entre 1980-2018, 1,8 p.p. da renda, mas
foi entre 1980-2000 que essa diminuição foi mais acentuada, com uma queda de 1,7 p.p.
O terceiro quintil, por exemplo, perdeu entre 1980-2018, 2,7 p.p da renda total, mas foi
entre 1980-2000 que grande parte da diminuição ocorreu, com uma queda de 2,2 p.p. O
primeiro quintil, por fim, perdeu entre 1980-2018, 1,5 p.p. da renda total, mas boa parte
(1,0 p.p.) dessa queda ocorreu entre 1980-2000. O crescimento da renda tomada pelo
quinto quintil e pelas 5% famílias mais ricas, para mais, também foi muito mais intenso
138

entre 1980-2000 do que nos anos recentes (2000-2018). Há indícios, à vista disso, de que
o processo de concentração da renda entre os quintis ocorreu de modo mais acelerado
entre 1980-2000. Se, portanto, parece que os anos de 1980-2000 foram marcados por um
crescimento geral da renda, ao mesmo tempo há indícios de que a desigualdade social se
acentuou de modo mais intenso nesse mesmo período. Nos anos recentes, a concentração
da renda por quintil ainda persiste, mas num ritmo mais lento.

Tabela 24 – Renda média recebida por quintil e 5% mais ricos, dados para famílias
nos E.U.A: 1980-2018*

Primeiro Segundo Terceiro Quarto Quinto


Ano 5% mais ricos
quintil quintil quintil quintil quintil

1980 18.653 40.605 61.341 85.104 143.288 203.696


1990 18.374 42.857 66.003 94.920 176.405 276.788
2000 20.650 47.214 74.204 109.362 229.453 406.594
2005 19.034 45.290 72.474 108.394 227.232 397.817
2010 17.224 42.602 69.437 105.938 215.971 361.116
2015 18.407 45.258 74.723 113.958 238.774 410.001
2018 20.378 49.214 78.966 119.904 261.762 457.189
1980-2000 (%) 10,7 16,3 21,0 28,5 60,1 99,6
1980-2000 % a.a. 0,5% 0,8% 1,0% 1,3% 2,4% 3,5%
2000-2018 (%) -1,3 4,2 6,4 9,6 14,1 12,4
2000-2018 % a.a. -0,1% 0,2% 0,3% 0,5% 0,7% 0,7%
1980-2018 (%) 9,2 21,2 28,7 40,9 82,7 124,4
1980-2018 % a.a. 0,2% 0,5% 0,7% 0,9% 1,6% 2,2%

(*): dados em milhares, US$ constantes para 2018, para os meses de março do ano seguinte.
Fonte: elaboração própria a partir de U.S. Bureau of the Census (Family data)

O traço mais marcante da evolução da renda média entre os diferentes quintis é o


crescimento muito mais acelerado da renda média no quinto quintil e entre as famílias
5% mais ricas. Desde 1980, o crescimento da renda média para o quinto quintil foi de
82,7%, ao passo que o crescimento da renda média das famílias 5% mais ricas foi de
124,4%. Enquanto isso, o primeiro quintil apresentou um crescimento de 9,2% da renda
média; o segundo quintil, de 21,2%; o terceiro quintil, de 28,7%; o quarto quintil, de
40,9%. Por meio de uma análise da renda média por quintil, portanto, nota-se que o
primeiro quintil teve um crescimento muito mais lento da renda média do que o verificado
para outros quintis, especialmente aqueles privilegiados. Essa, portanto, é a primeira
observação que merece destaque: os quintis inferiores tiveram um crescimento pouco
notável da renda média. As famílias 5% mais ricas, por outro lado, tiveram um
crescimento significativo da renda média, número que se torna alarmante quando
139

colocado em comparação ao crescimento da renda média para os outros quintis,


especialmente aqueles em posição inferior e intermediária.
A segunda observação que merece destaque: os anos recentes demonstram um
crescimento muito mais lento da renda média, fenômeno que ocorre para todos os quintis.
Boa parte do crescimento da renda média observado desde 1980, vale ressaltar, ocorreu
entre 1980-2000. O primeiro quintil, por exemplo, teve entre 1980-2000 um crescimento
de 10,7% da renda média. Nos anos recentes, houve uma queda de 1,3%. Para o segundo
quintil, houve entre 1980-2000 um crescimento de 16,3% da renda média. Nos anos
recentes, houve um crescimento de 4,2%. Para o terceiro quintil, houve entre 1980-2000
um crescimento de 21% da renda média. Nos anos recentes, houve um crescimento de
6,4%. Para o quarto quintil, houve entre 1980-2000 um crescimento de 28,5% da renda
média. Nos anos recentes, houve um crescimento de 9,6%. Para o quinto quintil, houve
entre 1980-2000 um crescimento de 60,1% da renda média. Nos anos recentes, houve um
crescimento de 14,1%. Para as famílias situadas entre as 5% mais ricas, houve entre 1980-
2000 um crescimento de 99,6% da renda média; nos anos recentes esse crescimento caiu
para 12,4%. Assim, pode-se concluir que boa parte do crescimento da renda média
verificado desde 1980 ocorreu entre 1980-2000. Os anos recentes, por outro lado, foram
marcados pela estagnação da renda, ou pelo rebaixamento social no caso do primeiro
quintil, vale salientar.
140

Gráfico 12 – Crescimento acumulado do salário anual, por segmento de renda, E.U.A.:


1979-2017

Fonte: imagem retirada de (GOULD, 2019)144

O crescimento da desigualdade nos Estados Unidos pode ser representado,


caricaturalmente, como uma batalha entre o 1% mais rico e os 99% “de baixo”. Nota-se,
conforme a imagem retirada do estudo “The State of Working America Wages”, que a
renda domiciliar do 1% mais rico cresce vertiginosamente, desde 1979: mais
especificamente, 157,3%. Ainda mais impressionante é o aumento salarial verificado para
o 0,1% mais rico, o ínfimo segmento de renda que abriga os indivíduos mais abastados:
343,2%. Não foi verificado, todavia, um crescimento semelhante nos outros segmentos
analisados. Há, em larga medida, uma estagnação generalizada para todos os outros
grupos de renda que não pertencem ao estrato mais abastado da sociedade norte-
americana. As últimas décadas, portanto, representaram uma acentuação da desigualdade
entre os cidadãos norte-americanos. A era da globalização trouxe um cenário de afluência
para os ricos, mas não trouxe a mesma sorte para o “resto”. Se os americanos fossem
divididos entre “ganhadores” e “perdedores”, as últimas 4 décadas teriam representado
uma série de derrotas sucessivas para a classe trabalhadora norte-americana.

144
Ver mais em GOULD, E. The State of Working America Wages 2018. In: Economic Policy Institute EPI.
20 de fevereiro, 2018. Disponível em https://www.epi.org/publication/state-of-american-wages-2018/.
Acessado em 25/01/2021.
141

Tabela 25 – Evolução da renda mediana e renda média familiar nos E.U.A: 1980-2018*
Tamanho médio
Ano n domicílios Renda mediana Renda média
das famílias
1980 60.309 61.167 69.753 3,27
1990 66.322 66.061 79.700 3,18
2000 73.778 74.182 96.176 3,14
2005 77.418 72.431 94.485 3,13
2010 79.559 69.523 90.234 3,14
2015 82.199 74.932 98.224 3,14
2018 83.508 78.646 106.045 3,14
1980-2000 (%) 22,3 21,3 37,9 -
1980-2000 % a.a. 1,0% 1,0% 1,6% -
2000-2018 (%) 13,2 6,0 10,3 -
2000-2018 % a.a. 0,7% 0,3% 0,5% -
1980-2018 (%) 38,5 28,6 52,0 -4,0
1980-2018 % a.a. 0,9% 0,7% 1,1% -

(*): dados em milhares, US$ constantes para 2018, para os meses de março do ano seguinte.
Fonte: elaboração própria a partir de U.S. Bureau of the Census (Family data)

Um próximo exercício relevante consiste em acompanhar a evolução da renda


média e da renda mediana familiar ao longo do tempo. Desde 1980, é nítido que o
crescimento da renda mediana aumentou menos intensamente do que o crescimento da
renda média. Assim, há um movimento claro de distanciamento da renda média em
relação à renda mediana, indicando que existe uma tendência de crescimento da
desigualdade social nos E.U.A. Se, entre 1980-2018, a renda média aumentou 52%, o
aumento da renda mediana foi de 28,6%.
Ademais, há de se observar que, nos anos recentes, o crescimento dos rendimentos
familiares é muto mais lento do que o verificado no passado, entre 1980-2000. Entre
1980-2000, o crescimento da renda mediana foi de 21,3%; e o crescimento da renda média
foi de 39,7%. Já havia, portanto, um movimento de distanciamento da renda média em
relação à renda mediana, mostrando uma tendência de aumento da desigualdade social no
período. Entre 2000-2018 também se observa um movimento de distanciamento da renda
média em relação à renda mediana, contudo, ambas as formas de mensuração da renda
demonstram um crescimento mais lento nos anos recentes: um aumento de 6% da renda
mediana e um aumento de 10,3% da renda média. Conclui-se: entre 1980-2000, houve
um movimento de crescimento da desigualdade social, conforme mostram os rendimentos
familiares. Entretanto, esse crescimento da desigualdade social aconteceu com um
crescimento mais notável dos rendimentos familiares, sinalizando que, a despeito do
aumento da desigualdade, houve espaço para alguma ascensão e acomodação social. Nos
142

anos recentes, por outro lado, há crescimento da desigualdade com um aumento pouco
notável dos rendimentos, mostrando que, entre 2000-2018, houve menos espaço para a
acomodação social.

A evolução dos rendimentos familiares por grau de escolaridade, na tabela a


seguir, revela tendências importantes. Em primeiro lugar, uma breve análise do número
de famílias conforme a escolaridade do chefe domiciliar revela que há uma diminuição
das famílias chefiadas por pessoas com baixa escolaridade (menos do que 9 anos de
estudo, 9-12 anos e somente high school). Por outro lado, há um forte crescimento das
famílias chefiadas por pessoas com um maior nível de escolaridade (grau associado,
bacharéis, pessoas com mestrado e doutorado, por exemplo). O maior crescimento
relativo, vale ressaltar, se deu para as famílias chefiadas por pessoas com doutorado, vale
acrescentar. Esse movimento parece estar relacionado a uma maior instrução geral da
população norte-americana, que se reflete numa diminuição das famílias chefiadas por
pessoas com baixa escolaridade, ao mesmo tempo em que há um crescimento das famílias
chefiadas por pessoas com maior grau de instrução formal.
Em segundo lugar: para todos os graus de escolaridade investigados, houve uma
desaceleração do crescimento dos rendimentos nos anos 2000. Em diversos casos, os anos
recentes (2000-2018) registraram uma queda de algum tipo de rendimento, seja da renda
média ou da renda mediana (ou as duas). É o caso, por exemplo, das famílias chefiadas
por pessoas com 9-12 anos de estudo; famílias chefiadas por pessoas somente com high
school; famílias chefiadas por pessoas com college incompleto; famílias chefiadas por
pessoas com “grau associado”; famílias chefiadas por pessoas com bacharelado
(diminuição somente da renda mediana); famílias chefiadas por pessoas com bacharelado
ou mais (diminuição somente da renda mediana); famílias chefiadas por pessoas com
mestrado (diminuição somente da renda mediana). Ou seja, houve queda dos rendimentos
nos anos 2000 para uma série de categorias, especialmente aquelas entre os segmentos
intermediários. Nos casos em que houve queda da renda mediana, por exemplo, isso
implica que para metade das pessoas ocorreu uma queda no padrão de vida. Assim, os
dados dos rendimentos familiares por grau de escolaridade indicam que os anos 2000
foram particularmente danosos para a sociedade americana. Houve queda no padrão de
vida para um número considerável de famílias. Essa constatação indica que, nos anos
recentes, o “sonho americano” não é mais uma realidade para a maioria dos que vivem
nos Estados Unidos.
143

Tabela 26– Evolução dos rendimentos familiares nos E.U.A, conforme o grau de
escolaridade: 1980-2018*

Categoria/ 1991-2000 2000-2018 1991-2018


Escolaridade 1991 2000 2010 2018
renda % a.a. % a.a. % a.a.
Famílias 6.048 4.232 3.466 2.608 -30,0 -3,9% -38,4 -2,7% -56,9 -3,1%
Menos que 9º ano Mediana 31.930 36.748 31.237 37.116 15,1 1,6% 1,0 0,1% 16,2 0,6%
Média 40.334 46.993 41.432 48.577 16,5 1,7% 3,4 0,2% 20,4 0,7%

Famílias 7.045 6.180 5.302 4.497 -12,3 -1,4% -27,2 -1,8% -36,2 -1,6%
9º-12º ano Mediana 40.391 41.960 35.682 37.202 3,9 0,4% -11,3 -0,7% -7,9 -0,3%
Média 48.523 53.509 46.629 49.496 10,3 1,1% -7,5 -0,4% 2,0 0,1%

Famílias 22.160 21.774 22.064 20.288 -1,7 -0,2% -6,8 -0,4% -8,4 -0,3%
High school Mediana 59.960 64.042 55.710 57.627 6,8 0,7% -10,0 -0,6% -3,9 -0,1%
Média 67.429 75.849 67.779 74.470 12,5 1,3% -1,8 -0,1% 10,4 0,4%

Famílias 10.726 12.750 13.491 13.436 18,9 1,9% 5,4 0,3% 25,3 0,8%
College incompleto Mediana 72.640 76.022 67.731 71.027 4,7 0,5% -6,6 -0,4% -2,2 -0,1%
Média 81.531 92.658 81.572 87.136 13,6 1,4% -6,0 -0,3% 6,9 0,2%

Famílias 3.715 6.051 7.640 8.923 62,9 5,6% 47,5 2,2% 140,2 3,3%
Grau "associado" Mediana 79.668 84.484 78.211 78.502 6,0 0,7% -7,1 -0,4% -1,5 -0,1%
Média 86.987 100.593 88.968 95.562 15,6 1,6% -5,0 -0,3% 9,9 0,3%

Famílias 9.288 12.370 15.166 18.642 33,2 3,2% 50,7 2,3% 100,7 2,6%
Bacharelado Mediana 101.063 112.756 104.501 111.415 11,6 1,2% -1,2 -0,1% 10,2 0,4%
Média 113.870 139.604 124.884 140.210 22,6 2,3% 0,4 0,0% 23,1 0,8%

Famílias 14.837 19.227 24.209 30.750 29,6 2,9% 59,9 2,6% 107,3 2,7%
Bacharelado ou mais Mediana 109.389 121.512 114.924 121.062 11,1 1,2% -0,4 0,0% 10,7 0,4%
Média 125.682 152.735 138.632 155.079 21,5 2,2% 1,5 0,1% 23,4 0,8%

Famílias 3.579 4.624 6.476 9.004 29,2 2,9% 94,7 3,8% 151,6 3,5%
Mestrado Mediana 118.192 132.852 124.082 131.172 12,4 1,3% -1,3 -0,1% 11,0 0,4%
Média 130.806 160.978 147.892 162.050 23,1 2,3% 0,7 0,0% 23,9 0,8%

Famílias 1.247 1.180 1.234 1.232 -5,4 -0,6% 4,4 0,2% -1,2 0,0%
Grau "profissional" Mediana 154.914 (X) 157.868 186.902 - - - - 20,6 0,7%
Média 178.622 225.904 212.418 251.494 26,5 2,6% 11,3 0,6% 40,8 1,3%

Famílias 723 1.053 1.333 1.872 45,6 4,3% 77,8 3,2% 158,9 3,6%
Doutorado Mediana 142.309 (X) 155.961 158.342 - - - - 11,3 0,4%
Média 160.732 188.795 181.756 206.159 17,5 1,8% 9,2 0,5% 28,3 0,9%

(*): US$ constantes para 2018, para os meses de março do ano seguinte. Nessa figura, são apenas considerados os householders acima
de 25 anos de idade. Por isso, há uma diferença entre o número total de domicílios e o número de domicílios considerados
especificamente nessa figura.
Fonte: elaboração própria a partir de U.S. Bureau of the Census (Family data)

Ademais, os dados dos rendimentos familiares mostram, tanto para 1980-2000


como entre 2000-2018, um crescimento mais acelerado da renda média em relação à
renda mediana. Ambos os períodos, portanto, foram marcados por um crescimento da
desigualdade. A diferença, cumpre salientar, é que entre 1980-2000 houve aumento da
144

desigualdade com algum crescimento da renda, permitindo algum grau de mobilidade e


acomodação social. Nos anos recentes (2000-2018), diferentemente, houve aumento da
desigualdade, mas acompanhado de uma queda dos rendimentos para diversos segmentos
aqui analisados. Entre 2000-2018, houve para diversas famílias uma queda nos
rendimentos pari passu ao crescimento da desigualdade social.
Tabela 27 – Relação renda/pobreza nos E.U.A, dados familiares: 1980-2018*

1980- 2000- 1980-


Ano 1980 1990 2000 2010 2015 2018
2000 2018 2018
n. total de famílias1 60.309 66.322 73.778 79.559 82.199 83.508 22,3 13,2 38,5
Primeiro quintil (inferior) 1,03 0,99 1,1 0,9 0,97 1,09 0,1 0,0 0,1
Segundo quintil 2,17 2,27 2,45 2,23 2,37 2,58 0,3 0,1 0,4
Terceiro quintil 3,11 3,35 3,68 3,5 3,8 4,04 0,6 0,4 0,9
Quarto quintil 4,2 4,7 5,25 5,19 5,67 5,96 1,1 0,7 1,8
Quinto quintil (superior) 6,82 8,61 10,85 10,28 11,47 12,67 4,0 1,8 5,9

(1): Os resultados para os intervalos temporais estão em porcentagem.


Fonte: elaboração própria a partir de U.S. Bureau of the Census (Family data)

Uma das maneiras que o U.S Census elaborou para mensurar a desigualdade entre
as famílias e investigar as vulnerabilidades que podem existir em meio à sociedade está
na “relação renda/pobreza”. Essa relação é baseada na seguinte lógica: quantas vezes a
renda média de um quintil corresponde ao valor que é o limite da pobreza. Ou seja,
quantas vezes a renda média do quintil excede o limite da pobreza. Essa análise, quando
realizada por quintil, pode revelar discrepâncias importantes entre as famílias, entre os
quintis, e, principalmente, pode revelar quais grupos sociais estão mais sujeitos a cair na
pobreza.
Os dados mostram que, desde 1980, a vulnerabilidade financeira das famílias
alocadas no primeiro quintil pouco mudou. A renda média do primeiro quintil, em 1980,
excedia apenas em 0,03 a linha de pobreza. Em 2018, a renda média do primeiro quintil
excedia a linha de pobreza apenas em 0,09 vezes. Ou seja, as pessoas situadas no primeiro
quintil estão muito próximas da pobreza, tanto em 1980, assim como em 2018. A
vulnerabilidade financeira e sujeição à pobreza acompanha de perto as famílias situadas
no primeiro quintil. As famílias do segundo quintil, por sua vez, tinham uma renda média
em torno de 2,17 vezes a linha da pobreza. Em 2018, essa relação atingiu 2,58, uma
mudança pouco notável. A mudança mais significativa se deu justamente para o quintil
mais privilegiado, o quinto quintil, que em 1980 possuía uma renda média de 6,82 vezes
a linha da pobreza. Em 2018, a relação renda/pobreza do quintil superior atingiu 12,67.
Ou seja, em relação à linha da pobreza, a renda média do quintil superior praticamente
145

dobrou. Enquanto isso, a renda média do primeiro quintil, quando colocada em relação a
linha da pobreza, não sofreu alteração alguma digna de nota. Ou seja, para os grupos que
já estavam mais vulneráveis à condição de pobreza, a situação pouco mudou. Contudo,
para aqueles que já estavam numa situação privilegiada em termos financeiros, afastados
da condição da pobreza, a situação se tornou ainda melhor. Os que precisavam de mais
apoio, não o obtiveram, e aqueles já confortáveis, melhoraram ainda mais a sua posição.
Ou seja, ao longo das últimas décadas, aqueles que necessitavam de um
incremento na renda para fugir das vulnerabilidades financeiras, do rebaixamento do
padrão de vida e da sujeição à pobreza, foram justamente aqueles que não tiveram
crescimento algum da renda. Se houve crescimento, esse aumento é insignificativo.
Enquanto isso, as famílias que já estavam numa posição privilegiada na estrutura social e
desfrutando de um padrão de vida confortável, foram justamente as que tiveram o maior
crescimento da relação renda/pobreza. Isso mostra que a mobilidade social nos E.U.A,
durante todas as últimas décadas, foi demasiadamente limitada. As famílias que estavam
muito perto da pobreza em 1980, ainda estão em situação similar em 2018, quase 40 anos
depois.

Tabela 28 - A distribuição (%) das famílias por faixas de renda ao longo do tempo,
E.U.A: 1980-2018
Diferença em p.p.
Ano 1980 1990 2000 2010 2018
1980-2000 2000-2018 1980-2018
n. total de famílias 60.309 66.322 73.778 79.559 83.508 22,3 13,2 38,5
Total 100 100 100 100 100 n/a n/a n/a
Abaixo de $15.000 6,7 7 5,5 7,5 6 -1,2 0,5 -0,7
15.000 até 24.999 8,5 7,5 6,7 7,5 5,8 -1,8 -0,9 -2,7
25,000 até 34,999 9,7 8,5 7,6 8,9 7,4 -2,1 -0,2 -2,3
35,000 até 49,999 14,6 13,3 12,6 12,2 11,1 -2 -1,5 -3,5
50,000 até 74,999 23,4 21,2 18,5 17,5 17,3 -4,9 -1,2 -6,1
75,000 até 99,999 16,8 15,8 14,9 14 14,1 -1,9 -0,8 -2,7
100,000 até 149,999 14,4 16,6 18,6 17,1 18,2 4,2 -0,4 3,8
150,000 até 199,999 3,8 5,8 8,1 7,8 9 4,3 0,9 5,2
Acima de 200,000 2,1 4,3 7,5 7,3 11,2 5,4 3,7 9,1

(*): US$ constantes para 2018, para os meses de março do ano seguinte.
Fonte: elaboração própria a partir de U.S. Bureau of the Census (Familiy data)

É importante analisar, para além da renda média e da renda mediana, como se deu
a distribuição das famílias por faixas de renda ao longo do tempo. Trata-se de um
exercício relevante para compreender melhor a estrutura social norte-americana, por meio
de uma investigação ligada à renda familiar. A distribuição das famílias pelas faixas de
renda demonstra que, de modo geral, o movimento de ascensão geral das famílias se deu
146

de modo mais lento nos anos recentes. Por exemplo: entre 2000-2018, houve um aumento
da parcela de famílias que vivem abaixo de US$ 15.000. Por outro lado, quase todas as
outras faixas de renda tiveram uma diminuição em p.p., especialmente as faixas
intermediárias, da “classe média”. Entre 1980-2000, ademais, houve uma diminuição da
parcela de famílias que viviam com US$ 15.000-24.999, de 1,8 p.p. Entre 2000-2018,
essa diminuição foi de 0,9 p.p. Outro exemplo: entre 1980-2000, houve diminuição da
parcela de famílias que viviam com US$ 25.000-34.999, de 2 p.p. Entre 2000-2018, essa
diminuição foi de 0,2 p.p. Em suma: entre 2000-2018, o movimento de ascensão das
famílias em direção aos segmentos de renda mais elevados perde vigor. Esse fenômeno,
vale ressaltar, está alinhado com todas as tendências para os rendimentos familiares
analisadas até aqui. Ou seja, entre 1980-2000, houve um crescimento dos rendimentos
com aumento da desigualdade social. Entre 2000-2018, por outro lado, há um crescimento
muito lento (por vezes estagnação) da renda, mas a desigualdade social segue se
aprofundando. Essas diferentes tendências demonstram a importância de segmentar o
grande período de 1980-2018 em intervalos mais curtos, que podem mostrar essas
nuances entre diferentes intervalos temporais.
Conclui-se: os anos 2000 demonstram um cenário preocupante para a estrutura
social norte-americana. Em vez de ascensão social e crescimento generalizado da renda,
há casos de estagnação, aprofundamento da desigualdade, e, para alguns segmentos,
rebaixamento do padrão de vida.
147

4.2. Evolução do rendimento das pessoas

Para além dos dados familiares, cumpre analisar também informações sobre os
rendimentos individuais. Trata-se de uma forma importante de olhar os rendimentos dos
americanos, com o intuito de enriquecer a análise da estrutura de remuneração nos
Estados Unidos. Um primeiro passo da análise repousa em observar a evolução da renda
média e da renda mediana masculina, feminina e para ambos os sexos combinados.

Tabela 29 – Evolução dos rendimentos individuais nos E.U.A: 1980-2018*


1980-2000 2000-2018 1980-2018
Categorias 1980 1990 2000 2010 2018 % a.a. % a.a. % a.a.
n. pessoas 225.242 248.886 279.517 306.553 324.356 24,1 1,1% 16,0 0,8% 44,0 1,0%
Total população
R. per capita 22.656 26.884 32.675 30.653 36.080 44,2 1,8% 10,4 0,6% 59,3 1,2%
n. pessoas 159.487 180.465 200.208 212.411 232.139 25,5 1,1% 15,9 0,8% 45,6 1,0%
Remunerados
Mediana 23.113 26.876 31.462 30.211 33.706 36,1 1,6% 7,1 0,4% 45,8 1,0%
acima 15 anos
Média 31.999 37.077 45.620 44.237 50.413 42,6 1,8% 10,5 0,6% 57,5 1,2%
n. 78.661 88.220 98.504 105.191 115.219 25,2 1,1% 17,0 0,9% 46,5 1,0%
Homens
Mediana 36.456 37.920 41.444 37.170 41.615 13,7 0,6% 0,4 0,0% 14,2 0,3%
remunerados
Média 44.632 48.661 58.861 54.335 61.180 31,9 1,4% 3,9 0,2% 37,1 0,8%
n. 80.826 92.245 101.704 107.220 116.920 25,8 1,2% 15,0 0,8% 44,7 1,0%
Mulheres
Mediana 14.315 18.817 23.488 23.978 27.079 64,1 2,5% 15,3 0,8% 89,2 1,7%
remuneradas
Média 19.703 25.998 32.795 34.331 39.803 66,4 2,6% 21,4 1,1% 102,0 1,9%

Ganhos Mediana M/H (%) 39,3 49,6 56,7 64,5 65,1 17,4 - 8,4 - 25,8 -
Mulheres/Homens Média M/H (%) 44,1 53,4 55,7 63,2 65,1 11,6 - 9,3 - 20,9 -

(*): US$ constantes para 2018, para os meses de março do ano seguinte.
Fonte: elaboração própria a partir de U.S. Bureau of the Census (People data)

Os dados sobre os rendimentos individuais demonstram que os anos recentes


(2000-2018) não foram tempos de bonança para a população norte-americana. Em todas
as categorias aqui analisadas (renda per capita, renda geral, homens e mulheres, tanto
para a renda mediana como para a renda média), houve um crescimento mais notável dos
rendimentos entre 1980-2000, em relação aos anos 2000-2018. Em todos os casos,
ademais, a renda média cresceu mais do que a renda mediana, sinalizando um crescimento
da desigualdade entre os indivíduos. Entre os destaques, cumpre mencionar o aumento da
renda média e renda mediana das mulheres remuneradas entre 1980-2000, acima de 60%.
Contudo, nos anos 2000 esse crescimento cai significativamente, mostrando a falta de
dinamismo dos rendimentos nos anos recentes. Os rendimentos masculinos nos anos
2000, aliás, também mostram uma desaceleração: o crescimento da renda mediana
masculina entre 2000-2018 foi de 0,4%, um aumento insignificativo.
Conclui-se, à vista disso, que os anos 1980-2000 foram marcados por um
crescimento da renda com aumento da desigualdade, havendo, portanto, algum espaço
148

para a ascensão e acomodação social nos E.U.A. Entretanto, os anos recentes foram
marcados por uma desaceleração generalizada do crescimento dos rendimentos. Em
alguns casos, como a renda mediana masculina, por exemplo, houve estagnação. Entre
2000-2018, verificou-se um aumento da desigualdade (crescimento mais acelerado da
renda média em relação à renda mediana) junto a um crescimento demasiadamente lento
(ou estagnação) da renda média e renda mediana. Ou seja, a partir dos anos 2000 o
aumento da desigualdade não é acompanhado por um crescimento significativo dos
rendimentos, limitando o espaço para a acomodação social nos E.U.A. Uma primeira
aproximação dos rendimentos individuais apresenta um cenário preocupante para os
trabalhadores norte-americanos a partir dos anos 2000.
Por fim, nas duas últimas linhas da figura acima, calculou-se os ganhos das
mulheres (renda média e mediana) em relação aos ganhos masculinos. Pode-se notar que,
desde 1980, houve uma diminuição da desigualdade entre a renda mediana feminina em
relação à masculina. A diminuição dessa desigualdade se deu de modo mais intenso entre
1980-2000, e desacelerou entre 2000-2018. Houve, portanto, algum avanço da renda
mediana feminina em relação à masculina. Todavia, em 2018 a renda mediana feminina
ainda atingia somente 65,1% da renda mediana masculina. Nota-se, portanto, um avanço
dos rendimentos femininos em relação aos rendimentos masculinos, processo que,
durante as últimas décadas, representou uma diminuição do hiato salarial entre os sexos.
Porém, esse hiato ainda é significativo, e persiste até os dias atuais.
149

Tabela 30 – Evolução dos rendimentos, por idade e sexo, E.U.A: 1980-2018*

1980-2000 2000-2018 1980-2018


Renda Idade Sexo 1980 1990 2000 2018
% a.a. % a.a. % a.a.
Homem 13.375 11.808 13.959 15.224 4,4 0,2% 9,1 0,5% 13,8 0,3%
15-24 anos
Mulher 9.089 9.160 10.762 12.971 18,4 0,8% 20,5 1,0% 42,7 0,9%
Homem 45.330 39.975 44.239 41.646 -2,4 -0,1% -5,9 -0,3% -8,1 -0,2%
25-34 anos
Mulher 20.288 23.524 30.779 32.098 51,7 2,1% 4,3 0,2% 58,2 1,2%
Homem 58.298 55.634 55.451 53.957 -4,9 -0,3% -2,7 -0,2% -7,4 -0,2%
35-44 anos
Mulher 18.810 27.102 32.282 36.946 71,6 2,7% 14,4 0,8% 96,4 1,8%
Homem 58.115 57.940 60.009 56.712 3,3 0,2% -5,5 -0,3% -2,4 -0,1%
Mediana 45-54 anos
Mulher 18.630 26.590 34.702 36.894 86,3 3,2% 6,3 0,3% 98,0 1,8%
Homem 46.302 46.349 49.992 50.962 8,0 0,4% 1,9 0,1% 10,1 0,3%
55-64 anos
Mulher 14.332 17.565 24.741 30.616 72,6 2,8% 23,7 1,2% 113,6 2,0%
Homem n/a 29.838 31.388 38.427 - - 22,4 1,1% - -
65-74 anos
Mulher n/a 15.304 15.950 22.038 - - 38,2 1,8% - -

mais de 75 Homem n/a 21.827 25.142 29.891 - - 18,9 1,0% - -


anos Mulher n/a 14.745 16.245 18.884 - - 16,2 0,8% - -
Homem 18.458 16.244 19.227 21.184 4,2 0,2% 10,2 0,5% 14,8 0,4%
15-24 anos
Mulher 12.729 13.077 15.454 18.060 21,4 1,0% 16,9 0,9% 41,9 0,9%
Homem 47.483 45.529 54.408 53.750 14,6 0,7% -1,2 -0,1% 13,2 0,3%
25-34 anos
Mulher 23.023 27.945 36.072 39.687 56,7 2,3% 10,0 0,5% 72,4 1,4%
Homem 62.511 64.408 73.205 72.839 17,1 0,8% -0,5 0,0% 16,5 0,4%
35-44 anos
Mulher 23.617 33.013 40.849 50.542 73,0 2,8% 23,7 1,2% 114,0 2,0%
Homem 63.908 69.479 81.670 80.753 27,8 1,2% -1,1 -0,1% 26,4 0,6%
Média 45-54 anos
Mulher 23.311 33.319 43.363 51.866 86,0 3,2% 19,6 1,0% 122,5 2,1%
Homem 55.543 59.607 72.103 74.990 29,8 1,3% 4,0 0,2% 35,0 0,8%
55-64 anos
Mulher 20.946 25.850 33.544 44.199 60,1 2,4% 31,8 1,5% 111,0 2,0%
Homem n/a 40.710 48.163 58.960 - - 22,4 1,1% - -
65-74 anos
Mulher n/a 21.740 24.218 34.807 - - 43,7 2,0% - -

mais de 75 Homem n/a 31.223 36.449 45.851 - - 25,8 1,3% - -


anos Mulher n/a 20.891 21.827 28.027 - - 28,4 1,4% - -

(*): Income. US$ constantes para 2018, para os meses de março do ano seguinte.
Fonte: elaboração própria a partir de U.S. Bureau of the Census (People data)

A evolução dos rendimentos por idade demonstra algumas desigualdades que


merecem destaque. Há de se notar, por exemplo, o rebaixamento do nível da renda
mediana verificada para os homens mais jovens: os homens de 25-34 anos tiveram, entre
1980-2000, uma diminuição de 2,4% de sua renda mediana, ao passo que, entre 2000-
2018, essa diminuição foi de 5,9%; os homens de 35-44 anos, por sua vez, tiveram entre
1980-2000 uma queda de 4,9% em sua renda mediana, ao passo que entre 2000-2018 essa
diminuição da renda mediana foi de 2,7%. No acumulado (1980-2018), os homens de 25-
34 tiveram uma diminuição de 8,1% na renda mediana; os homens de 35-44 anos tiveram
uma diminuição de 7,4% da renda mediana; e os homens de 45-54 anos tiveram uma
diminuição de 2,4% em sua renda mediana. A diminuição da renda mediana para os
150

homens entre 25-54 anos, portanto, pode ter representado um rebaixamento do padrão de
vida para todos os homens que estão situadas entre essa faixa etária.
Houve, ademais, para a maioria das faixas etárias um crescimento mais lento dos
rendimentos entre 2000-2018, em relação ao intervalo temporal anterior, de 1980-2000.
Para os homens, quase todas as faixas etárias do intervalo de 1980-2000 apresentaram um
aumento mais rápido da renda média em comparação à renda mediana, indicando que
houve, entre os homens, um crescimento da desigualdade de rendimentos. Esse
crescimento mais rápido da renda média em relação à renda média segue se aprofundando
para os homens nos anos 2000. A diminuição da renda mediana para diversas faixas
etárias masculinas demonstra que, entre 1980-2018, houve queda do padrão de vida para
muitos homens. Esse rebaixamento dos rendimentos já é verificado entre 1980-2000, mas
se aprofunda entre 2000-2018, sinalizando que, para os homens, o espaço para a
acomodação social e ascensão na pirâmide de rendimentos esteve limitado desde 1980.
O traço característico da evolução dos rendimentos para os homens, desde 1980, portanto,
foi a estagnação salarial, rebaixamento do padrão de vida e aumento da desigualdade.
As mulheres, por outro lado, tiveram um crescimento mais notável da renda,
especialmente entre 1980-2000, o que lhes permitiu diminuir o hiato salarial entre os
sexos ao longo do tempo. Entre 1980-2000, por exemplo, todas as faixas etárias (mais de
75 anos é uma exceção) femininas apresentaram um crescimento mais forte de sua renda
mediana quando comparada à renda mediana dos homens. Esse movimento é também
verificado para a renda média: quase todas as faixas etárias femininas apresentaram, entre
1980-2000, um aumento mais notável da renda média em relação à renda média
masculina. Para algumas faixas etárias femininas, inclusive, o período de 1980-2000
apresentou um crescimento mais intenso da renda mediana do que da renda média,
sinalizando que houve, de fato, um processo de ascensão social para algumas mulheres.
Por isso, reitera-se aqui a necessidade de realizar um corte por sexo ao analisar a
evolução dos rendimentos das pessoas nos E.U.A. Há claramente tendências diferentes
conforme o sexo analisado: para os homens, desde 1980 há um processo de estagnação
da renda e rebaixamento do nível de rendimentos. Isso, para a população masculina, tende
a refletir uma queda no padrão de vida e, ao longo do tempo, uma deterioração de seu
padrão de consumo. Os rendimentos das mulheres, por outro lado, apresentaram entre
1980-2000 uma tendência notadamente diferente do movimento que houve para a renda
masculina. Ne medida em que, entre 1980-2000, o crescimento dos rendimentos
femininos cresceu mais rapidamente do que os rendimentos masculinos, isso representou
151

a diminuição do hiato salarial entre os sexos. Para alguns segmentos femininos, inclusive,
houve entre 1980-2000 um aumento da renda mediana mais intenso do o crescimento da
renda média, sinalizando uma melhora no padrão de vida das mulheres.
Não se trata, aqui, de exagerar o processo de crescimento dos rendimentos para as
mulheres norte-americanas. Pois, como se observou em outras análises deste capítulo,
essa diminuição do hiato de rendimentos entre os sexos ainda ocorre em meio a um
processo geral de crescimento da desigualdade e deterioração do aumento dos
rendimentos nos anos 2000. O que importa, nesse caso específico, é salientar as diferentes
tendências de rendimentos que foram observadas conforme os sexos. Para os homens, o
caso geral foi o do rebaixamento do padrão de vida e estagnação da renda; para as
mulheres, o aumento da renda mediana representa melhoria no padrão de vida, pari passu
à diminuição do hiato salarial entre os sexos. O cenário geral, como se viu no tópico
anterior, contudo, ainda se mantém: na média, o período de 1980-2000 trouxe crescimento
da desigualdade e algum crescimento dos rendimentos. O período mais recente, por sua
vez, foi marcado por um crescimento mais lento dos rendimentos, acompanhado do
aprofundamento da desigualdade.

Tabela 31 – Evolução dos rendimentos, por sexo, E.U.A: 1980-2018*


1980-2000 2000-2018 1980-2018
Categoria 1980 2000 2010 2018
% a.a. % a.a. % a.a.

n. homens 78.661 98.504 105.191 115.219 25,2 1,1% 17,0 0,9% 46,5 1,0%

Renda mediana 36.456 41.444 37.170 41.615 13,7 0,6% 0,4 0,0% 14,2 0,3%
Remunerados Renda média 44.632 58.861 54.335 61.180 31,9 1,4% 3,9 0,2% 37,1 0,8%
15 anos ou
mais n. mulheres 80.826 101.704 107.220 116.920 25,8 1,2% 15,0 0,8% 44,7 1,0%

Renda mediana 14.315 23.488 23.978 27.079 64,1 2,5% 15,3 0,8% 89,2 1,7%

Renda média 19.703 32.795 34.331 39.803 66,4 2,6% 21,4 1,1% 102,0 1,9%

(*): US$ constantes para 2018, para os meses de março do ano seguinte.
Fonte: elaboração própria a partir de U.S. Bureau of the Census (People data)

A evolução dos rendimentos gerais, por sexo, dá uma visão ampla do que tem
acontecido com a renda média e a renda mediana nos E.U.A. Para além dos recortes por
região e idade, é importante não perder a visão mais geral dos rendimentos individuais.
Trata-se, portanto, de um exercício que ajuda a colocar em perspectiva as tendências mais
específicas que foram até agora encontradas, demonstrando um cenário mais amplo do
tema.
Nota-se que, entre 1980-2000, a renda média masculina cresceu mais rapidamente
do que a renda mediana, indicando que houve um processo de crescimento da
152

desigualdade de rendimentos. Entre 2000-2018, a renda mediana fica estagnada,


sinalizando que, para metade dos homens, não houve melhora alguma no padrão de vida
em aproximadamente 20 anos. Além disso, entre 2000-2018 a renda média cresce também
mais rápido do que a renda mediana. Ou seja, para os homens, o período inteiro de 1980-
2018 representou uma época de aumento das desigualdades. A diferença foi que, entre
1980-2000, houve algum crescimento da renda; entre 2000-2018, houve estagnação da
renda acompanhada do crescimento da desigualdade.
Para as mulheres, entre 1980-2000, houve um crescimento similar da renda
mediana e da renda média (diferença de aproximadamente 2 pontos percentuais). Isso
indica que o período de 1980-2000 foi uma época de melhora geral no padrão de vida das
mulheres. Entre 2000-2018, por outro lado, o crescimento dos rendimentos se dá de modo
muito mais lento do que no intervalo temporal anterior. Ademais, a renda média começa
a se descolar do crescimento da renda mediana, indicando que o processo de crescimento
da desigualdade começa a se aprofundar entre o rendimento das mulheres. Contudo, os
anos 2000-2018 não representam para as mulheres, como foi verificado para os homens,
uma estagnação completa da renda mediana. Trata-se, no caso feminino, de um
crescimento da desigualdade com um crescimento notadamente mais lento da renda.
Essas informações, portanto, demonstram que o período de 1980-2000 foi
marcado por um crescimento da desigualdade com algum aumento da renda: para as
mulheres, isso representou um aumento no padrão de rendimento e ascensão social, para
os homens, o aumento da desigualdade e lentidão no crescimento da renda já se faziam
mais presentes. Entre 2000-2018, houve aprofundamento da desigualdade com um
crescimento muito mais lento da renda: para as mulheres, o crescimento da desigualdade
se fez agora acompanhado de um aumento mais lento da renda; para os homens, o
crescimento da desigualdade ocorreu juntamente a uma completa estagnação da renda.
No geral, entre 1980-2000, a marca mais característica dos rendimentos foi aumento da
desigualdade com crescimento da renda. Entre 2000-2018, a marca mais característica
dos rendimentos foi um crescimento letárgico da renda com o aprofundamento da
desigualdade.
153

Tabela 32 – Evolução dos rendimentos conforme a escolaridade, por sexo, E.U.A: 1991*
1991-2000 2000-2018 1991-2018
Escolaridade Sexo Renda 1991 2000 2010 2018
% a.a. % a.a. % a.a.
Mediana 18.605 20.663 18.910 22.678 11,06 1,2% 9,8 0,5% 21,9 0,7%
H
Menos que 9º Média 23.338 26.385 24.866 28.034 13,06 1,4% 6,2 0,3% 20,1 0,7%
ano Mediana 11.301 12.496 12.327 12.735 10,57 1,1% 1,9 0,1% 12,7 0,4%
M
Média 13.213 16.070 14.942 16.693 21,62 2,2% 3,9 0,2% 26,3 0,9%
Mediana 26.569 27.658 22.340 23.649 4,10 0,4% -14,5 -0,9% -11,0 -0,4%
H
Média 31.919 35.616 29.891 30.893 11,58 1,2% -13,3 -0,8% -3,2 -0,1%
9º-12º ano
Mediana 12.720 14.715 13.937 14.176 15,68 1,6% -3,7 -0,2% 11,4 0,4%
M
Média 16.267 18.399 17.623 17.933 13,11 1,4% -2,5 -0,1% 10,2 0,4%
Mediana 38.848 40.182 34.914 36.476 3,43 0,4% -9,2 -0,5% -6,1 -0,2%
H
Média 43.839 47.947 42.492 45.107 9,37 1,0% -5,9 -0,3% 2,9 0,1%
High school
Mediana 19.505 22.157 20.574 21.133 13,60 1,4% -4,6 -0,3% 8,3 0,3%
M
Média 23.627 27.072 25.771 27.263 14,58 1,5% 0,7 0,0% 15,4 0,5%
Mediana 47.944 48.720 41.811 42.379 1,62 0,2% -13,0 -0,8% -11,6 -0,5%
H
College Média 53.905 60.513 50.950 54.511 12,26 1,3% -9,9 -0,6% 1,1 0,0%
incompleto Mediana 25.176 29.487 26.325 26.498 17,12 1,8% -10,1 -0,6% 5,3 0,2%
M
Média 29.616 34.152 32.111 32.544 15,32 1,6% -4,7 -0,3% 9,9 0,3%
Mediana 52.933 55.603 47.291 50.034 5,04 0,5% -10,0 -0,6% -5,5 -0,2%
H
Grau Média 57.848 65.251 54.951 58.719 12,80 1,3% -10,0 -0,6% 1,5 0,1%
"associado" Mediana 31.308 33.813 32.487 30.957 8,00 0,9% -8,4 -0,5% -1,1 0,0%
M
Média 34.660 38.404 37.736 37.660 10,80 1,1% -1,9 -0,1% 8,7 0,3%
Mediana 65.030 71.767 63.740 65.981 10,36 1,1% -8,1 -0,5% 1,5 0,1%
H
Média 75.381 94.499 81.593 87.866 25,36 2,5% -7,0 -0,4% 16,6 0,6%
Bacharelado
Mediana 37.804 44.478 41.965 43.951 17,65 1,8% -1,2 -0,1% 16,3 0,6%
M
Média 41.897 50.918 49.796 55.951 21,53 2,2% 9,9 0,5% 33,5 1,1%
Mediana 71.766 78.212 71.008 74.161 8,98 1,0% -5,2 -0,3% 3,3 0,1%
H
Bacharelado Média 85.373 106.971 94.242 100.508 25,30 2,5% -6,0 -0,3% 17,7 0,6%
ou mais Mediana 42.600 48.470 47.451 50.385 13,78 1,4% 4,0 0,2% 18,3 0,6%
M
Média 47.282 57.339 57.066 64.011 21,27 2,2% 11,6 0,6% 35,4 1,1%
Mediana 77.755 87.342 80.303 85.600 12,33 1,3% -2,0 -0,1% 10,1 0,4%
H
Média 89.410 113.629 100.092 107.331 27,09 2,7% -5,5 -0,3% 20,0 0,7%
Mestrado
Mediana 53.635 59.395 55.964 56.545 10,74 1,1% -4,8 -0,3% 5,4 0,2%
M
Média 55.490 66.663 63.309 69.632 20,14 2,1% 4,5 0,2% 25,5 0,8%
Mediana 114.926 122.391 111.046 120.030 6,50 0,7% -1,9 -0,1% 4,4 0,2%
H
Grau Média 132.946 174.699 159.573 170.019 31,41 3,1% -2,7 -0,2% 27,9 0,9%
"profissional" Mediana 61.418 67.386 69.801 77.868 9,72 1,0% 15,6 0,8% 26,8 0,9%
M
Média 80.808 90.586 90.966 110.564 12,10 1,3% 22,1 1,1% 36,8 1,2%
Mediana 93.478 104.215 99.491 100.658 11,49 1,2% -3,4 -0,2% 7,7 0,3%
H
Média 112.599 134.135 130.934 140.687 19,13 2,0% 4,9 0,3% 24,9 0,8%
Doutorado
Mediana 67.148 75.247 81.274 77.412 12,06 1,3% 2,9 0,2% 15,3 0,5%
M
Média 72.141 88.347 99.876 101.154 22,46 2,3% 14,5 0,8% 40,2 1,3%

(*): Income. Dados US$ constantes de 2018 para os meses de março do ano seguinte. Nessa figura, são apenas considerados as pessoas
acima de 25 anos de idade. Por isso, há uma diferença entre o número total de pessoas remuneradas nos EU.A. e o número de pessoas
consideradas nessa tabela.
Fonte: elaboração própria a partir de U.S. Bureau of the Census (People data)

A apresentação geral dos rendimentos (income) conforme o nível de escolaridade


por sexo traz informações relevantes sobre o que vem acontecendo na estrutura social
norte-americana. Entre 1991-2000, primeiramente, cabe observar que quase todas as
categorias aqui analisadas apresentaram um crescimento mais acelerado da renda média
154

em relação à renda mediana, um indicativo de que a desigualdade social cresceu. Para


diversos segmentos, contudo, esse período (1991-2000) representou algum grau de
crescimento da renda, demonstrando que a década de 1990 trouxe ascensão social para
determinados segmentos. Outros, contudo, vivenciaram algo mais próximo de uma
estagnação, como os homens com “college incompleto”, que tiveram um aumento de
apenas 1,62% da renda mediana entre 1991-2000. De forma geral, contudo, foi possível
notar algum grau de crescimento da renda junto ao aumento da desigualdade social. Foi
um período, nesse sentido, que incorporou algum grau de aumento da renda, depender do
segmento analisado. Os anos de 2000-2018, por outro lado, demonstram uma situação
mais preocupante. Das 10 categorias aqui analisadas, 9 delas tiveram alguma diminuição
da renda, para os homens ou mulheres, seja da renda média ou da renda mediana. Ou seja,
quase todos os segmentos analisados tiveram, entre 2000-2018, algum grau de
rebaixamento social. Os homens que possuem entre 9-12 anos de instrução, por exemplo,
tiveram uma diminuição de 14,5% da renda mediana entre 2000-2018; Os homens com
college incompleto tiveram, entre 2000-2018, uma diminuição de 13% da renda mediana;
os homens com grau associado, entre 2000-2018, tiveram uma diminuição de 10% da
renda mediana; os homens com bacharelado ou mais tiveram, entre 2000-2018, uma
diminuição de 5,2% da renda mediana.
Ou seja, para uma grande parte dos segmentos analisados nesse exercício, os anos
recentes foram marcados por uma diminuição da renda média e da renda mediana,
indicando que os anos recentes foram caracterizados por um rebaixamento no padrão de
consumo, deterioração do estilo de vida e uma degradação mais geral da sociedade. Os
dados sobre os rendimentos por nível de escolaridade, nesse sentido, demonstram uma
situação preocupante para a estrutura social norte-americana. Em diversos segmentos,
houve uma piora no padrão de vida, algo que foi verificado principalmente (mas não
somente) nos estratos intermediários, com mais intensidade entre os homens. Os
rendimentos por nível de escolaridade comprovam que, ao menos durante os anos 2000,
não houve nada que se possa parecer com o “sonho americano” na estrutura social dos
E.U.A.
155

Tabela 33 - Evolução da renda de trabalhadores em tempo integral, por todo o ano, por
sexo, E.U.A: 1980-2018*

1980-2000 2000-2018 1980-2018


Income full time, todo ano 1980 1990 2000 2010 2018
% a.a. % a.a. % a.a.

n. 41.903 49.172 59.607 56.286 67.208 42,2 1,8% 12,8 0,7% 60,4 1,3%

Homem R. Mediana 55.784 54.151 56.868 57.883 57.219 1,9 0,1% 0,6 0,0% 2,6 0,1%

R. Média 62.368 65.544 77.208 75.748 80.399 23,8 1,1% 4,1 0,2% 28,9 0,7%

n. 22.967 31.734 41.731 43.179 50.802 81,7 3,0% 21,7 1,1% 121,2 2,1%

Mulher R. Mediana 33.724 38.477 42.585 44.366 46.528 26,3 1,2% 9,3 0,5% 38,0 0,9%

R. Média 37.041 43.711 51.187 54.701 60.986 38,2 1,6% 19,1 1,0% 64,6 1,3%

(*): income. Tabela realizada com US$ constantes de 2018 para os meses de março do ano seguinte. Nessa figura, são apenas
considerados as pessoas acima de 15. Por isso, pode haver diferenças entre o total de trabalhadores em outras tabelas aqui elaboradas.
Fonte: elaboração própria a partir de U.S. Bureau of the Census (People data)

A evolução da renda (income) recebida pelos trabalhadores em tempo integral, por


todo o ano, demonstra que mesmo aqueles que tiveram um trabalho pelo ano inteiro
estiveram sujeitos às tendências mais gerais observadas para todas as análises deste
capítulo. Para começar, basta observar que, tanto para as mulheres, bem como para os
homens, a renda média entre 1980-2000 superou em boa medida o crescimento da renda
mediana, indicando que há um processo de crescimento da desigualdade de renda entre
esses trabalhadores. Para as mulheres, contudo, nesse intervalo (1980-2000) houve um
aumento mais notável da renda mediana, indicando uma possível melhora no padrão de
vida. Para os homens, por outro lado, o período de 1980-2018 trouxe um crescimento
pouco significativo da renda mediana. Um sinal de que, por todo esse tempo, metade dos
trabalhadores masculinos em tempo integral tiveram uma renda estagnada. Durante os
anos 2000-2018, ademais, a renda média segue crescendo de modo mais intenso do que
a renda mediana, sinalizando que o processo de crescimento da desigualdade salarial
segue persistente nos anos 2000. Contudo, para as mulheres, há um aumento menor da
renda, quando comparado ao período imediatamente anterior. Para os homens, a
estagnação da renda continua.
Pode-se, à vista disso, concluir: para os trabalhadores em tempo integral, o período
de 1980-2018 foi marcado pelo crescimento da desigualdade. Entretanto, o intervalo de
1980-2000 mostrou um aumento mais notável dos rendimentos femininos, e um
crescimento demasiadamente lento da renda mediana masculina. Nos anos 2000, a
estagnação da renda masculina segue de modo persistente, agora acompanhada de um
156

aumento mais lento dos rendimentos femininos. Entre 2000-2018, desse modo, há menos
possibilidades de acomodação social em maio ao crescimento da desigualdade.
Foi realizada, em diversas análises até aqui, uma investigação da renda média e
da renda mediana dos indivíduos nos E.U.A. Todos esses exercícios de análise, contudo,
focaram no período 1980-2018, que é o foco deste trabalho. Num último exercício, de
caráter extraordinário, será colocada em perspectiva a evolução da renda mediana nos
E.U.A, desde 1960. Trata-se, cumpre ressaltar, do último exercício deste capítulo. Uma
breve comparação entre os anos de ouro do capitalismo e os anos neoliberais, por fim,
não deixará dúvidas sobre a deterioração que se projeta, nos anos recentes, sobre a
população, o mercado de trabalho e o “estilo de vida” norte-americano. Restará claro que,
se houve “sonho americano” algum dia, ele certamente terminou antes de 1980.

Tabela 34 – Evolução da renda mediana (somente assalariados) nos E.U.A: 1960-2018*


Homem Mulher
Ano
n. Renda mediana n. Renda mediana

1960 43.302 31.995 25.978 11.868


1980 60.140 40.998 49.321 19.796
2000 74.890 45.335 68.349 29.931
2018 82.784 47.204 76.154 33.289

% 38,9 28,1 89,9 66,8


1960-1980
% a.a. 1,7% 1,2% 3,3% 2,6%

% 24,5 10,6 38,6 51,2


1980-2000
% a.a. 1,1% 0,5% 1,6% 2,1%

% 10,5 4,1 11,4 11,2


2000-2018
% a.a. 0,6% 0,2% 0,6% 0,6%

% 37,7 15,1 54,4 68,2


1980-2018
% a.a. 0,8% 0,4% 1,1% 1,4%

(*): Tabela realizada com US$ constantes de 2018, meses de março do ano seguinte. Até 1980, considera-se nessa tabela os
trabalhadores acima de 14 anos; após 1980, considera-se apenas os trabalhadores acima de 15 anos. Entre 1974 e 1976, os dados
abrangem somente os trabalhadores “civis”. A renda mediana aqui considerada engloba apenas os trabalhadores assalariados,
remunerados seja por um salário mensal, seja por uma remuneração por hora/produto.
Fonte: elaboração própria a partir de U.S. Bureau of the Census (People data)

Ao se investigar a renda mediana dos trabalhadores assalariados dos E.U.A, desde


1960, fica claro que a evolução dos rendimentos nos anos recentes tem crescido aquém
do esperado. Entre 1960-1980, anos de rápido crescimento econômico e progresso social
nos E.U.A, a renda mediana masculina cresceu 28,1%, enquanto o número de assalariados
aumentou 38,9%. A renda mediana feminina, por sua vez, cresceu 66,8%, ao passo que o
número de assalariadas cresceu 89,9%. Entre 1980-2000, período que foi um dos
intervalos temporais privilegiados para o presente estudo, a renda mediana masculina
157

cresceu 10,6%, enquanto o número de trabalhadores aumentou 24,5%. Entre 1980-2000,


a renda mediana feminina cresceu 51,2%, enquanto o número de trabalhadoras aumentou
38,6%. Já se percebe, portanto, que os anos 1980-2000 representaram, para os homens,
uma desaceleração no crescimento dos rendimentos. Para as mulheres, os anos de 1980-
2000 ainda trouxe um crescimento significativo da renda mediana, assim como do
número de assalariadas. A tendência pregressa, de incorporação da mulher no mercado
de trabalho nos E.U.A, segue firme. A partir dos anos 2000, porém, a situação dos
rendimentos para os assalariados norte-americanos toma contornos dramáticos, na
medida em que a renda passa a crescer num ritmo demasiadamente lento, quase letárgico.
Para os homens, o aumento da renda mediana foi de 4,1%, com um crescimento de apenas
10,5% dos trabalhadores. Para as mulheres, a renda mediana cresceu 11,2%, com um
aumento de 11,4% no número de trabalhadoras. Resta claro, por meio desse amplo
exercício de análise da renda mediana, que os rendimentos dos assalariados têm crescido
de modo muito mais lento nos anos recentes.
Os anos 1980-2000 não foram desastrosos para os rendimentos dos assalariados
nos E.U.A. Contudo, é nítido que, em relação ao período anterior, os “anos de ouro” do
capitalismo, há uma desaceleração do aumento nos rendimentos, particularmente da renda
mediana masculina, mas cujo impacto também se faz sentir da renda mediana feminina.
Nos quadros do neoliberalismo dos anos 2000, com a ascensão da China em meio ao
comércio internacional, a classe trabalhadora dos E.U.A vê seus rendimentos aumentarem
em ritmo letárgico. Quando se compara a evolução dos rendimentos entre 2000-2018 com
o período de 1960-1980, é cristalino que a situação é preocupante para os assalariados
nos E.U.A. É seguro dizer, à vista disso, que os anos 1980 representam o marco inicial
da crise do “sonho americano”. Nesse interregno de tempo, quando começam as políticas
neoliberais, houve aumento da desigualdade acompanhado de algum crescimento da
renda. Os anos 2000, por sua vez, sepultaram de vez o “sonho americano”. A crescimento
da desigualdade persiste, mas o crescimento da renda é interrompido.
158

Tabela 35 – Dados financeiros domiciliares em relação à renda pessoal disponível RPD,


E.U.A. (%): 1980-2018*
Ano 1980:Q4 1990:Q4 2000:Q4 2010:Q4 2018:Q4
Total Ativo domiciliar /RPD 555,49 600,87 688,21 699,24 757,61
Total Passivo domiciliar /RPD 68,06 84,84 97,95 122,15 99,15
Passivo Hipotecas/ RPD 43,58 56,86 63,7 86,79 63,66
Passivo Crédito ao consumidor/ RPD 16,84 18,83 23,03 22,99 24,92
Outros Passivos / RPD 7,64 9,14 11,23 12,36 10,57

(*): Dados domiciliares, que incluem as instituições sem fins lucrativos. Todas as informações dizem respeito ao 4º trimestre de cada
ano. A renda pessoal disponível (RPD) é a quantia que sobra para os residentes dos E.U.A. gastarem, ou pouparem, após os efeitos
tributários. Ou seja, renda pessoal menos o imposto devido.
Fonte: Federal Reserve - FED

Num último exercício do capítulo, nota-se o crescimento das dívidas dos


americanos em relação à renda pessoal disponível. Há indícios de que o crédito ao
consumidor tem sido empregado como uma alternativa para garantir a perpetuação do
padrão de consumo da população americana. Desde 1980, o passivo cresce em relação à
renda pessoal disponível: mais especificamente, 31,09 p.p.. Esse crescimento também é
verificado na relação das dívidas hipotecárias em relação à renda pessoal disponível: um
aumento de 20,08 p.p., de 1980 até 2018. O crédito ao consumidor também cresce em
relação à RPD: 8,08 p.p. Em suma, na ausência de um crescimento robusto da renda dos
americanos, o crédito tem sido um dos elementos que tem sustentado o consumo da
população dos Estados Unidos. Em 2018, por exemplo, o passivo detido pelos domicílios
e pelas instituições sem fins lucrativos chegou a 99,15% da renda disponível.
159

Argumento em síntese

Neste capítulo, foi realizada uma ampla análise dos rendimentos norte-
americanos, com dados familiares e individuais. Num primeiro momento, fez-se uso de
dados familiares para descrever os rendimentos nos Estados Unidos. Partiu-se da
premissa de que a família é um núcleo importante de socialização, e que, portanto, o
rendimento familiar pode dar uma aproximação do padrão de vida dos membros de uma
mesma família. Na segunda parte do capítulo, fez-se uso de dados individuais, com o
objetivo de enriquecer a presente análise, ao descrever quais são as principais tendências
que atravessam os mundos dos rendimentos individuais nos Estados Unidos. Em ambos
os casos, optou-se por segmentar o período de 1980-2018 em intervalos mais curtos, para
melhor identificar os movimentos da renda nesse tempo.
A primeira parte do capítulo foi dedicada à descrição do mundo dos rendimentos
nos Estados Unidos por meio de dados familiares. A família é um espaço importante de
socialização, na medida em que os indivíduos da mesma família comungam de chances
de vida em comum, e experiências de vida similares, ao fazer uso partilhado da renda
obtida pela família. Depois de analisar a evolução dos rendimentos familiares, restou
claro que o “sonho americano” não é uma realidade factível para a maioria das famílias.
Se, num primeiro momento, há a impressão de que entre 1980-2018 houve um
crescimento progressivo e estável dos rendimentos familiares, uma análise desse período
em intervalos temporais mais curtos desvelou tendências importantes, que contrariam a
ideia de que as famílias americanas vivem, nos anos recentes, num mar de prosperidade
e melhora no padrão de vida. Em todos os exercícios de análise, ficou comprovado que
os anos de 2000-2018 trouxeram uma desaceleração tanto da renda média, bem como da
renda mediana. Ou seja, os anos 2000 apresentam uma tendência clara de crescimento
cada vez mais lento dos rendimentos familiares nos E.U.A.
A depender do recorte utilizado, foi possível observar uma queda dos rendimentos
reais, indicando que, para um número substancial de famílias, os anos recentes
representaram um rebaixamento do padrão de vida. As famílias nos estratos superiores,
cumpre ressaltar, ficaram em larga medida protegidas dessa diminuição dos rendimentos,
pois ao longo do tempo os abastados passaram a abocanhar uma parcela maior da renda
ao longo do tempo. Logo, conclui-se que os anos 2000 trouxeram a interrupção da
ascensão social para as famílias nos E.U.A, particularmente aquelas situadas na base da
pirâmide social.
160

Outro traço marcante dos rendimentos familiares, entre 1980-2018, foi o aumento
da desigualdade. Contudo, há de se mencionar que, nesse amplo intervalo de políticas
econômicas neoliberais, há diferenças importantes que merecem destaque. Entre 1980-
2000, houve crescimento generalizado dos rendimentos acompanhado do aumento da
desigualdade. Ou seja, os “primeiros” 20 anos de neoliberalismo nos Estados Unidos
foram caracterizados por um crescimento da desigualdade, mas num contexto em que
ainda houve algum espaço para a ascensão social, mesmo que mais limitado. Foi somente
nos anos 2000, por outro lado, nos quadros de um acirramento da competição
internacional e de uma desaceleração econômica, que o aumento da desigualdade nos
anos recentes passou a andar acompanhado de um crescimento mais lento dos
rendimentos. Em alguns casos, cabe ressaltar, esse crescimento mais lento dos
rendimentos foi substituído por uma completa estagnação da renda, e, em outros
momentos, por uma diminuição dos rendimentos reais. Tendo em vista os dados coletados
para os rendimentos familiares, é seguro afirmar que, ao menos a partir dos anos 2000,
não há evidências de os E.U.A. vive algo como um “sonho americano”. Pelo contrário,
há fartas provas de que o termo que melhor caracteriza os tempos atuais para as famílias
norte-americanas é a deterioração dos rendimentos e a degradação social.
Na segunda parte do capítulo, foi realizada uma investigação dos rendimentos
individuais. Esse esforço final, voltado ao estudo dos rendimentos “pessoais”, foi o último
passo da análise desenvolvida neste capítulo, complementando a investigação realizada
para as famílias. De modo geral, os rendimentos individuais demonstraram as mesmas
tendências que foram observadas para as famílias: entre 1980-2018, um aumento
generalizado da desigualdade, com tendências diferentes da renda para o intervalo de
1980-2000 e para o período de 2000-2018. Grosso modo, nos primeiros 20 anos da era
neoliberal nos E.U.A., o aumento da desigualdade foi acompanhado de um crescimento
mais notável dos rendimentos, indicando que ainda havia algum espaço para a
acomodação social. Entre 2000-2018, contudo, há sinais de que a desigualdade seguiu se
aprofundando, mas sem a contrapartida do crescimento dos rendimentos, pois a renda
cresceu muito mais lentamente nos anos recentes. A depender do recorte empregado para
a investigação dos rendimentos individuais, foi observada uma queda dos rendimentos
reais a partir dos anos 2000.
O destaque da investigação realizada para os rendimentos das pessoas, cumpre
salientar, reside na apresentação das desigualdades que estão presentes na sociedade
norte-americana, que até então estavam ocultas sob os dados familiares. Há, por exemplo,
161

uma diferença marcante entre as trajetórias dos rendimentos masculinos e femininos,


desde 1980. Os rendimentos masculinos individuais, desde 1980, apresentaram um
crescimento pífio. A renda masculina seguiu as grandes tendências já explicitadas aqui,
de crescimento generalizado da desigualdade entre 1980-2018, algum aumento da renda
entre 1980-2000 e letargia dos rendimentos a partir dos anos 2000. Entretanto, a depender
do recorte utilizado para acompanhar a evolução dos rendimentos masculinos, foi
possível observar uma queda nos rendimentos reais para determinados segmentos de
renda dos homens. Em repetidos exercícios de análise, constatou-se uma queda da renda
mediana e da renda média nos anos recentes, e, em alguns casos, essa diminuição da renda
real ocorreu, inclusive, entre 1980-2000. Essa deterioração da renda masculina, portanto,
não é um fenômeno isolado, mas, sim, um processo frequente, que se repetiu em diversos
momentos deste capítulo. Em síntese: os homens nos E.U.A. não estão vivenciando
nenhum processo que se assemelhe a um “sonho americano”. Para a população masculina
norte-americana, 1980 parece marcar o fim de qualquer possibilidade de viver esse sonho.
As mulheres, por outro lado, apresentaram uma trajetória dos rendimentos que se
distanciou do que foi observado para os homens. O aumento relativo verificado tanto para
a renda média e para a renda mediana feminina é substancialmente mais elevado do que
para os homens, durante os mesmos períodos. Entretanto, a evolução dos rendimentos
femininos também apresenta indícios de um agravamento das desigualdades, na medida
em que a renda média cresceu persistentemente mais rápido do que a renda mediana.
Contudo, o forte crescimento da renda mediana feminina, principalmente entre 1980-
2000, demonstra que as últimas décadas trouxeram uma melhora no padrão de
remuneração das mulheres nos E.U.A.
Todavia, na mesma medida em que houve um crescimento substancial dos
rendimentos femininos durante as últimas décadas, impressiona também as diferenças
que se mantém entre o patamar da remuneração masculina e os rendimentos femininos.
Desde 1980, com os rendimentos femininos crescendo mais rápido do que os rendimentos
masculinos, e foi possível notar uma diminuição das diferenças de remuneração entre os
sexos. Contudo, ainda em 2018, as discrepâncias entre os rendimentos dos homens e das
mulheres se mostraram demasiadamente significativas. A longa evolução positiva dos
rendimentos femininos sobre os rendimentos masculinos, observada desde 1980, não foi
suficiente para eliminar o hiato de renda entre os sexos. Há muito ainda para se evoluir
nessa seara.
O mundo dos rendimentos nos Estados Unidos, portanto, apresenta uma
162

divergência: a renda dos afluentes cresce aceleradamente, desde 1980, impulsionando os


a escalada da desigualdade de rendimentos nos Estados Unidos. Ao mesmo tempo,
determinados segmentos da sociedade sofrem uma estagnação grave de sua renda,
particularmente nos anos 2000. Quando o assunto é dinheiro, portanto, há mundos
diferentes nos Estados Unidos: para uma parte da sociedade, o neoliberalismo trouxe
ganhos e uma melhora no padrão de vida; para uma outra parcela da população norte-
americana, o que tem acontecido, desde 1980, representa uma diminuição dos
rendimentos e do poder de consumo.
O “sonho americano” pressupõe que todos os que vivem nos E.U.A. terão as
mesmas oportunidades para alcançar os seus objetivos de vida. Desde 1980, todavia,
somente um número seleto de pessoas tem ascendido na pirâmide social. Há um contraste
nítido entre o desempenho dos rendimentos do 1% mais rico e a evolução da renda dos
outros 99% “restantes”. O rendimento dos que dependem do mercado de trabalho, vale
destacar, sofreu mais do que a geração de renda associada ao rentismo. Nesse quadro de
estagnação e de diminuição da renda dos trabalhadores, a busca do “sonho americano”
foi viabilizada pelo crédito farto disponibilizado à população. O sonho, por onde ele ainda
subsiste, tem sido financiado pelo crédito.
Em suma: num cenário de regressão da estrutura social, em que 75% dos empregos
não são considerados empregos “bons”, não há “sonho americano”. Na ausência das
condições objetivas que promoveriam a sua ascensão social, o americano recorreu aos
bancos para elevar o seu padrão material de consumo, hipotecando o seu futuro e
parcelando o seu estilo de vida.
163

Capítulo 05 – A desigualdade como símbolo de uma era americana

Introdução

No livro “O riquistão”, Robert Frank descreve o surgimento de um novo país


dentro dos Estados Unidos. O autor, num trabalho de caráter jornalístico e bem-
humorado, atua como um correspondente estrangeiro dentro de um país em construção:
a nação dos super ricos americanos. Frank lembra que, antes de 1980, os ricos viviam
juntos, em pequenos enclaves, mantinham hábitos semelhantes e cultivavam a mesma
mentalidade. Os super ricos do passado norte-americano poderiam formar, talvez, um
vilarejo, em que “a educação e a linhagem importavam tanto quanto as contas
bancárias”. As novas fortunas eram raras, pois a grande maioria dos abastados já nascia
rica, oriunda de famílias de grandes proprietários. No fim dos anos 80, contudo, a
ascensão dos mercados financeiros e a ascensão das empresas ligadas às novas
tecnologias trouxeram consigo uma nova geração de ricos: mais representativa, mais
jovem e com divisões importantes. Há o baixo riquistão, em que vivem os ricos com
patrimônio familiar de US$ 1.000.000 a 10.000.000; há o médio riquistão, composto por
todos que possuem entre US$ 10.000.000 e US$ 100.000.000; e, por fim, não se pode
esquecer do alto riquistão, com habitantes que detém fortunas de US$ 100.000.000 a US$
1.000.000.000. Em síntese: nascia um novo país dentro dos Estados Unidos, composto
pelos ricos, pelos super ricos, e por todos aqueles que eram “realmente” ricos. É a nova
classe ociosa.145
O relato de Frank descreve, indiretamente, um dos fenômenos mais notórios dos
Estados Unidos ao longo dos últimos 40 anos: a explosão da desigualdade social. Pari
passu ao empobrecimento geral da classe trabalhadora dos Estados Unidos, a
concentração da renda e da riqueza promoveram o surgimento de uma nova geração de
habitantes do “Billionaireville”. O hiato entre os ricos e o resto da população, ao longo
do tempo, formou uma grande cisão na sociedade dos Estados Unidos: trata-se de um país
rasgado ao meio. Talvez, nem tão ao meio: mais especificamente, entre o 1% mais rico,
e os outros 99%, que almejam ingressar no riquistão. O lado irônico da história, vale
ressaltar, é que a ascensão do riquistão está diretamente relacionada à erosão do sonho
americano, ou seja, à ideia de que, por meio do trabalho e da paciência, todos os habitantes
dos E.U.A. poderiam alcançar o sucesso desejado. Este capítulo explora uma das facetas

145
FRANK, R. O riquistão – como vivem os novos-ricos e como construíram as suas megafortunas.
Barueri/SP. Ed: Manole. 2008. p. 5.
164

deste assunto: o crescimento da desigualdade nos Estados Unidos: a desigualdade como


um símbolo dos E.U.A. na era da globalização.

Tabela 36 – Pesquisa New York Times - 2005

"O quão importante você acha que vir de uma família rica é para progredir na vida"*

Data da Um pouco Não é muito Não é NS/Sem


Essencial Muito importante
pesquisa importante importante importante resposta
1987 4% 19% 28 30% 17% 3%
2000 3% 16% 27% 33% 14% 8%
mar/05 11% 33% 40% 10% 6% 1%

(*). How important do you think coming from a wealthy Family is for getting ahead in life – essencial, very important,
somewhat important, or not important at all?
Elaboração própria a partir de (KELLER, 2005)146

Na pesquisa realizada pelos correspondentes do “The New York Times”, já citada


anteriormente, nota-se que a população americana está ciente de que a riqueza familiar
influencia decisivamente nas oportunidades de vida. Quando indagados sobre a
importância da riqueza familiar para o sucesso na vida, a resposta dos americanos foi se
alterando ao longo do tempo. Em 1987, somente 4% dos entrevistados afirmou que a
riqueza é essencial para progredir na vida; em 2005, essa parcela subiu para 11%. Em
1987, apenas 19% dos entrevistados disseram que a riqueza é muito importante para a
progressão na vida; em 2005, 33% dos entrevistados, aproximadamente 1/3, acreditava
que a riqueza é muito importante na vida. Trata-se de um aumento notável. Em 1987,
28% dos entrevistados disse que a riqueza é um pouco importante para progredir na vida;
em 2005, 40% dos americanos acreditava que a riqueza é um pouco importante para a
progressão na vida. As provas finais estão nos dados a seguir. Em 1987, 30% dos
entrevistados disse que a riqueza “não é muito importante” para progredir na vida; em
2005, somente 10% dos entrevistados disse que a riqueza não é muito importante para a
progressão na vida. Por fim, em 1987, 17% dos entrevistados não acreditava na
importância da riqueza para progredir na vida; em 2005, apenas 6% dos entrevistados
demonstraram esse posicionamento. A pesquisa revela que, ao longo do tempo, a
população americana passou a acreditar que a riqueza é cada vez mais determinante para
condicionar o sucesso pessoal. Ou seja, a riqueza familiar é um elemento que influencia

146
KELLER, B. Op. cit. 2005. p. 250.
165

de maneira determinante nas oportunidades de vida. Trata-se de um sinal de que a


população americana já se enxergava numa sociedade dividida.

Tabela 37 – Pesquisa New York Times, 2005

"Você acha que os americanos que são muito ricos têm muito poder nos Estados Unidos?"*

Não tem poder o Não sei/Sem


Data da pesquisa Muito poder Na medida certa
suficiente resposta
1985 68% 23% n/a 8%
mar/05 72% 1% 23% 4%

(*). In general, do you feel that americans who are very rich have too Much power in the United States, not enough power,
or is it about right?
Elaboração própria a partir de (KELLER, 2005)147

Na mesma pesquisa, uma outra questão é relevante para captar o sentimento do


norte-americano no que tange à desigualdade. Em 2005, os entrevistados foram
questionados sobre o poder dos ricos nos Estados Unidos. Os dados mostram que, na data
da pesquisa, 72% dos entrevistados acreditavam que os ricos têm muito poder nos Estados
Unidos. Em suma, A pesquisa revela que a população consegue notar o entrelaçamento
que existe entre o poder econômico e o poder político na sociedade americana.

Tabela 38 – Pesquisa New York Times, 2005

"Você acha que o sistema de justiça nos E.U.A. favorece os ricos, ou o sistema de justiça trata
todos os americanos da forma mais igualitária possível?"*

Favorece os Trata todos Não sei/Sem


Data da pesquisa Favorece os pobres
ricos igualmente resposta
mar/05 65% 2% 27% 6%

(*). Do you think the justice system in the United States mainly favors the rich, mainly favors the poor, or does the justice
system treat all americans as equally as possible?
Elaboração própria a partir de (KELLER, 2005)148

Ainda na mesma pesquisa, os entrevistados foram indagados sobre o tratamento


que a justiça dos Estados Unidos dá aos ricos e o tratamento concedido aos pobres. Será
que haverá algum grau de igualdade nesse ponto? A grande maioria dos entrevistados dos
Estados Unidos afirmou que a justiça favorece os ricos. Em suma, o sentimento que existe
nos E.U.A, no momento da pesquisa, era o de que a sociedade americana favorece, em
maior ou menor grau, as pessoas ricas. Desde 2005, vale ressaltar, a desigualdade cresceu

147
Ibidem. p. 247.
148
Ibidem. p. 246.
166

de forma acentuada.
Uma das maiores controvérsias que existem no pensamento econômico está
relacionada à ideia de que os ricos devem (voluntariamente ou involuntariamente)
compartilhar a sua riqueza com outras pessoas. A despeito de algumas raras exceções ou
excentricidades pessoais, os ricos sempre se opuserem a qualquer iniciativa nesse sentido,
por um motivo básico: eles não querem abandonar tudo aquilo que detém. Em geral, os
pobres, por outro lado, são mais favoráveis às políticas públicas que favoreçam a
igualdade social. Contudo, há, também as exceções no lado menos privilegiado da
sociedade: existem os que se posicionam contrariamente à implementação de políticas
que redistribuam a riqueza, na esperança de que, em algum dia no futuro, eles também
venham a se tornar ricos. 149
Ao longo da história, a defesa da desigualdade tomou formas e teorias diferentes.
Contudo, as teorias que prezam pela desigualdade entre os homens costumam centrar-se
na ideia de que tudo aquilo que o homem recebe, é seu, por direito e por justiça. Qualquer
tentativa de modificação da “ordem inevitável”, ou, em outras palavras, da disposição dos
bens, dinheiro e propriedade, resultaria numa disfunção social. Haveria a quebra dos laços
que unem o esforço laboral e a sua recompensa material, os incentivos presentes na
sociedade seriam distorcidos, a criatividade e a inventividade seriam inibidas, e, num
segundo momento, todos estariam em pior situação, especialmente os mais pobres. A
sabedoria convencional, explica Galbraith, toma como dado que a desigualdade possui
uma função social importante para a promoção do crescimento econômico, para a
formação do capital e para o progresso da sociedade, em geral. 150
Essa noção convencional sobre o papel e a importância da desigualdade na
constituição de uma sociedade pode ser encontrada na história moderna dos Estados
Unidos. Se, após a Segunda Guerra Mundial, a desigualdade deixou momentaneamente
de preocupar os homens, ela nunca abandonou o seu papel ritualístico no saber
convencional, ainda que tenha existido um relativo silêncio sobre essa questão.151
John Kenneth Galbraith, na obra “A sociedade Afluente”, explica que o principal
motivo que ensejou a diminuição da preocupação com a desigualdade social, ao menos
na época em que o autor escrevia, está relacionado ao fato de que a concentração de renda
e riqueza não havia se agravado naqueles anos. O autor, que escrevia após a Segunda

149
GALBRAITH, J. K. Op. cit. 1987. Ver capítulo VII – Desigualdade, p. 67.
150
Ibidem. 1987.
151
Ibidem. 1987.
167

Grande Guerra Mundial, e profundamente influenciado pela prosperidade


socioeconômica vivida nos E.U.A, elenca alguns motivos que explicam o porquê de a
desigualdade ter desaparecido do debate público. Naqueles anos de progresso, segue o
autor, o crescimento da desigualdade foi controlado, o poder das grandes empresas foi
limitado, o poder dos ricos foi circunscrito aos que estavam diretamente subordinados a
eles, e, pelo lado do governo, houve o aumento do poder e do prestígio do governo dos
Estados Unidos. O poderio econômico, antes parente do poder político, encontrava limites
claro à realização de suas vontades. Num contexto de aumento do bem estar material, diz
o autor, as tensões sociais foram atenuadas, e a preocupação com a desigualdade social,
afrouxou. 152
Os tempos atuais, todavia, são diametralmente opostos ao que Galbraith descreveu
na segunda metade do século XX. Desde 1980, a desigualdade explodiu nos Estados
Unidos. Não se pode compreender as transformações sociais mais recentes que ocorreram
nos Estados Unidos sem considerar este fenômeno recente: o agravamento da
concentração de renda e riqueza nas últimas décadas. Nesse sentido, o aumento da
desigualdade nos Estados Unidos é uma dimensão importante a ser apreendida por todos
aqueles que desejam compreender melhor os retrocessos que estão acontecendo na
estrutura social norte-americana.
É o retorno de uma ideia zumbi153, que ronda as teorias econômicas há séculos,
baseada na ideia de que a desigualdade é necessária para fomentar o crescimento
econômico. Trata-se, mais especificamente, de acreditar que a desigualdade é uma
espécie de mecanismo eficaz para fomentar as habilidades, o trabalho e a inovação
humana, especialmente no campo econômico, ao instigar os indivíduos a se esforçarem
mais para serem remunerados conforme a sua produtividade. Na medida em que os
indivíduos forem remunerados conforme a relevância da sua contribuição individual à
sociedade, a desigualdade emergirá como um fato natural de qualquer civilização. Na
economia, portanto, a desigualdade serviria como uma estrutura de incentivos –
monetários, que convoca as pessoas a se esforçarem mais para se diferenciarem umas das
outras. Nesse sentido, a desigualdade não somente se apresentaria como um fato da vida,
mas como uma solução social: um mecanismo gerador de inovação, crescimento e

152
Ibidem. 1987.
153
Ver outras ideias zumbi que rondam a economia em QUIGGIN, J. Zombie Economics. New Jersey:
Princeton, 2010
168

desenvolvimento econômico. 154


Ocorre que, desde o final da década de 1970, houve nos Estados Unidos uma
mudança brusca nas crenças que conduziam a política econômica. Essa mudança radical
a que se fez referência, cumpre destacar, se deu no sentido de aprofundar o
fundamentalismo do livre mercado na sociedade. Nessa acepção da economia, poder-se-
ia reencontrar a senda do crescimento econômico aumentado a desigualdade, que seria
uma das formas de incentivar o trabalho e a geração de mais investimentos. A
desregulação do mercado financeiro, dos mercados de trabalho, o encolhimento do Estado
de bem-estar social e a adoção de sistemas tributários menos progressivos seriam os
ingredientes dessa receita. É o grande experimento do laissez-faire, em que o Estados
Unidos teve um papel preponderante, não somente como um eixo disseminador dessa
ideologia, mas também como nação que adotou esse pensamento e o traduziu em políticas
econômicas no âmbito nacional.155
A distribuição da renda foi deixada ao sabor do livre mercado, na medida em que
a crença de que a tentativa de modificar a distribuição dos frutos econômicos
enfraqueceria os nexos entre o esforço individual e a sua devida recompensa, diminuindo
o potencial de crescimento econômico de uma nação. O fortalecimento dessa crença
deslocou a balança de poder em favor dos donos do capital, e a distribuição da renda
passou a acontecer cada vez mais em benefícios dos ricos156. A investigação da
desigualdade nos Estados Unidos, realizada neste capítulo, caracteriza as principais
tendências que atravessam a sociedade norte-americana, quando o assunto é a
desigualdade social. A pretensão deste capítulo, no que diz respeito à desigualdade, não
é tratar do tema à exaustão, esgotando e descrevendo todas as métricas, formas e maneiras
de mensurar a desigualdade, mas, sim, de apresentar ao leitor as tendências mais gerais
da desigualdade social que assolam os Estados Unidos, desde 1980.
A grande maioria das explicações econômicas sobre o crescimento da
desigualdade de renda e de riqueza costuma focar nas forças competitivas do mercado.
Conforme essa linha argumentativa, a raiz dos problemas relacionadas à desigualdade

154 Na economia, essa ideia se apresenta por diversas formas, desde teorias ligadas ao darwinismo social,
até as teorias mais modernas do tricle down economics. Na sociologia, essa ideia atravessa todas as teorias
funcionalistas de estratificação social.
155 HOWELL, D. R. The great laissez-faire experiment – American inequality and growth from na
internacional perspective. Center for american progress. 2013
156
WADE, R. How inequality plus neoliberal governance weakens democracy. Challenge, 56:6, 5-37. 2013
169

repousa no mercado de trabalho, local de negociação que, nas últimas décadas, passou a
remunerar e premiar melhor os trabalhadores mais qualificados. Há, nesse sentido, uma
tentativa de normalizar o crescimento da desigualdade, colocando a culpa em processos
neutros e impessoais, que, em última instância, seriam consequências do
desenvolvimento tecnológico e da maior demanda por determinadas capacidades
intelectuais. Assim, o crescimento da desigualdade estaria relacionado a uma demanda
por trabalhadores mais qualificados, frente a uma oferta limitada desses profissionais. O
resultado, conforme esses modelos simples de oferta e demanda, seria o crescimento
salarial daqueles que detém essas qualificações. Essa explicação é comumente
denominada de “SBTC” – “Skill Biased Technological Change”, e é aceita como o
modelo “canônico” de explicação das desigualdades no cenário contemporâneo, ao
menos para os economistas ortodoxos. 157
Desde o início dos anos 1990, contudo, os críticos dessa “visão” canônica
argumentam que a explicação convencional “SBTC” não é capaz de explicar o
crescimento da desigualdade contemporânea. Por meio da argumentação referida (“Skill
Biased Technological Change”) não se pode explicar, por exemplo, porque os salários da
classe média têm crescido tão vagarosamente, por vezes até mais lentamente do que de
trabalhadores na base da pirâmide social. Além disso, essa explicação da desigualdade
puramente baseada nas forças de demanda e oferta do mercado não fornece uma
explicação crível sobre o crescimento salarial dos mais ricos, observada nos últimos anos.
Howell, assim, apresenta uma outra visão para compreender a desigualdade
contemporânea nos Estados Unidos: uma visão que traz elementos da economia política.
Para Howell, houve nas últimas décadas uma mudança profunda nas relações de poder
que existem na sociedade norte-americana. A ascensão da ortodoxia do livre mercado nas
políticas públicas promoveu uma série de transformações políticas e institucionais que
facilitaram para que aqueles privilegiados na sociedade pudessem usar o seu poder para
abocanhar uma parcela maior da renda nacional. As inovações tecnológicas foram
empregadas junto a uma desregulamentação que acelerou a financeirização do capital,
produtiva e comercial. Tais mudanças, por sua vez, encontraram um mercado de trabalho
com baixa densidade sindical, estagnação do salário-mínimo e já despedaçado pelas
políticas de terceirização. Combinadas, tais forças aumentaram a desigualdade na
distribuição de rendimentos e de riqueza, promovendo uma deterioração generalizada dos

157
HOWELL, D. R. Op. cit. 2013
170

indicadores de desigualdade. No pano de fundo dessas transformações, a estrutura


tributária dos Estados Unidos suavizou as taxas sobre os ganhos dos mais ricos. 158
Josh Bivens comenta que, nas três décadas que se seguiram à Segunda Guerra
Mundial, era fácil mensurar “como a economia dos E.U.A” estava indo: bastava observar
o crescimento dos rendimentos anuais da população. Desde o fim dos anos 1970, todavia,
a reposta para a questão supradita se tornou mais complexa. Atualmente, para saber como
a economia dos Estados Unidos está indo, é preciso qualificar melhor esse
questionamento: depende, de qual economia se está referindo? Para as famílias situadas
nos estratos inferiores e médios da pirâmide social, a renda tem crescido muito
lentamente, enquanto para as famílias do topo, o crescimento dos rendimentos tem sido
farto e notório. Essa “fratura” na sociedade americana, ou seja, esse crescimento
escancarado da desigualdade, aponta o autor, é o “fato mais saliente” da sociedade norte-
americana nos últimos tempos.159
Bivens, ademais, aponta que essa “fratura” na sociedade norte-americana é uma
consequência direta de profundas transformações da política econômica nos últimos anos.
Mudanças, vale salientar, que tiveram um impacto dramático sobre a distribuição da renda
e da riqueza. Até recentemente, comenta o autor, o crescimento da desigualdade era
atribuído a forças impessoais, como a tecnologia, ou globalização, por exemplo.
Entretanto, é preciso salientar que todas essas mudanças estiveram, em algum grau,
interconectadas, na medida em que todas caminham para um mesmo sentido. O sentido
dessas mudanças, em larga medida liberais-conservadoras, diz Bivens, é o de uma
mudança significativa nos paradigmas da política pública nos Estados Unidos. Bivens
acredita, portanto, que não se trata de uma ou outra mudança pontual, mas, sim, de um
conjunto de mudanças, que, juntas, corroboraram para dilacerar o poder de barganha das
pessoas situadas na base e nos estratos intermediários da estrutura de rendimentos. Ao
mesmo tempo, essas mudanças aumentaram significativamente a capacidade dos ricos de
se posicionar na sociedade de modo a abocanhar uma parcela maior da renda nacional.
160

Entre os elementos que compõem esse pacote de medidas que promoveu a


mudança liberal conservadora na política pública dos Estados Unidos, Bivens cita: a) o

158
Ibidem.
159
BIVENS, J. America the Unequal: Origins and Impacts of a Policy Revolution. In: New Economic
Paradigms – Core Challenges & Emerging Perspectives.
160
Ibidem.
171

salário mínimo, que se manteve praticamente congelado nas últimas décadas; b)


mudanças na estrutura tributária, no sentido de aliviar a taxação sobre as altas rendas; c)
medidas de desincentivo à sindicalização, somadas a uma queda progressiva da filiação
aos sindicatos; d) as regras da globalização, que, colocadas como estão, promoveram uma
integração produtiva às custas do padrão de vida da classe trabalhadora norte-americana;
o crescimento do poderio do setor financeiro, setor onde o “prêmio” salarial aumentou
consideravelmente; e) o comprometimento reduzido com a perseguição do pleno
emprego, durante as décadas de 1980 e 1990; e, por fim, o “assalto” aos direitos e às
modificações institucionais, como os cortes ao orçamentos sociais, novas regras para a
remuneração de “horas extras” e os ataques à rede de proteção social. 161
O mais importante a reter de todas essas medidas, contudo, é que, enquanto cada
um desses elementos teve um impacto relativamente discreto na sociedade, é a sua
interação, suas forças combinadas, que magnificaram os seus danos. Todavia, para uma
análise do impacto dessas transformações mencionadas, é preciso lembrar que existe uma
“fratura” na sociedade americana: essas mudanças foram boas para os Estados Unidos?
Depende, quando se considera a maioria da população americana, essa mudança
conservadora nas políticas públicas foi um tremendo fracasso. Todavia, quando se
considera somente o 1% mais rico, os rendimentos e a riqueza dos que ocupam o topo da
pirâmide social, esse conjunto de medidas foi um “grande sucesso”. 162
Em junho de 2020, o New York Times divulgou um editorial que diz: “vivemos
numa era de lucros sem prosperidade, mas o poder de reescrever as regras do mercado
está em nossas mãos”. No texto “The Jobs We Need”, o jornal transmite a mensagem de
que os E.U.A. dos anos recentes não tem sido capaz de entregar uma vida decente para
grande parte de sua população, e isso deve mudar. As últimas quatro décadas, segue o
artigo, foram marcadas pela diminuição do poder da classe trabalhadora, algo que se
manifestou por meio de uma queda nos salários, nos benefícios e nas condições laborais.
O produto anual da economia, desde 1980, quase triplicou. Entretanto, os foram os ricos
que desfrutaram dos benefícios desse crescimento econômico. Para ilustrar esses
processos, o NY Times compara a nação americana a um navio pirata: nas décadas
recentes, os donos do navio gradualmente se apropriaram de uma parcela cada vez maior
dos saques, às custas da tripulação. Diz o editorial, que essa profunda desigualdade
observada na vida americana são é um produto das leis que favorecem os ricos, e das

161
Ibidem..
162
Ibidem.
172

instituições que operam em benefícios dos afluentes. Os problemas dos Estados Unidos,
hoje, tal como antigamente, na época de Roosevelt, tem raízes em problemas políticos.
163

Outro veículo de informação conhecido nos E.U.A, o “The Washington Post”,


também se coloca a favor de uma diminuição da desigualdade social. Num artigo assinado
pela equipe editorial, intitulado “A desigualdade nos E.U.A. não precisa ser a pior do
mundo industrializado”, argumenta-se que é preciso repensar as políticas governamentais
que regem o mercado capitalista nos Estados Unidos. O artigo frisa que o “capitalismo de
mercado” é o melhor sistema para a produção de riqueza e renda que o mundo já
conheceu. Entretanto, há de se adequar as políticas públicas para garantir que os frutos
econômicos sejam distribuídos com a devida justiça. O editorial comenta que, após algum
pequeno avanço no combate à desigualdade social promovido nos anos recentes
(conforme o índice de Gini verificado logo que Obama deixou a presidência), há sinais
de regressão num futuro próximo. As políticas de cortes de imposto aos mais ricos
realizadas por Trump, por exemplo, tem o potencial de agravar a desigualdade social nos
Estados Unidos. Se, entre 1978 a 2016 o que se observou foi uma distribuição de renda
crescentemente em favor dos afluentes, os anos recentes parecem reforçar essa tendência.
164

O Economic Policy Institute, por sua vez, chama o período atual vividos pelos
Estados Unidos de uma nova “era dourada” (“Gilded Age”). O instituto aponta que a
desigualdade cresceu em praticamente todos os estados, desde 1980. A escalada da
desigualdade, pondera o instituto, não é apenas uma história dos altos rendimentos de
“Wall Street”, ou do vale do silício. Trata-se de compreender que os ganhos do 1% mais
rico estão cada vez maiores, pois este pequeno segmento populacional tem se apropriado
de uma fatia da renda nacional cada vez maior. Essa tendência, segue o EPI, caminha ao
contrário do que se verificou em boa parte do século XX, quando a fatia tomada pelo 1%
mais rico diminuiu na maioria dos estados. No passado, elementos como o crescimento
do salário-mínimo, os baixos níveis de desemprego e a maior capacidade dos
trabalhadores de barganhar por melhores condições de trabalho corroboraram para a

163
The Editorial Board. The Jobs We Need. NY TIMES. 24 de junho, 2020. Recuperado em
https://www.nytimes.com/2020/06/24/opinion/sunday/income-wealth-inequality-america.html.
Acessado em 01/09/2020.
164
The Post’s View. U.S income inequality doesn’t have to be the worst in the industrialized world. 28 de
julho, 2019. Recuperado em https://www.washingtonpost.com/opinions/us-income-inequality-doesnt-
have-to-be-the-worst-in-the-industrialized-world/2019/07/28/61ed1e0a-afc0-11e9-8e77-
03b30bc29f64_story.html. Acessado em 01/09/2020.
173

queda da desigualdade. Nos tempos hodiernos, esses elementos não estão mais presentes.
Logo, deve-se avançar na elaboração de políticas públicas que impeçam alguns poucos
ricos de se apropriar de uma parcela indevida dos frutos econômicos. 165
Dedica-se este capítulo, portanto, a uma descrição da desigualdade, em suas diversas
formas, nos E.U.A. Trata-se de um esforço voltado à demonstração de como esse
fenômeno social tem se comportado nos Estados Unidos, ao longo das últimas décadas.
A investigação da desigualdade aqui apresentada cumpre um propósito muito importante
no âmbito mais geral desta tese: ao final deste capítulo, restará claro que, desde 1980, a
desigualdade social cresce aceleradamente nos E.U.A. Por meio dos dados e informações
apresentadas neste capítulo, será possível fortalecer o argumento de que o crescimento da
desigualdade social não possui caráter positivo algum para a sociedade norte-americana,
na medida em que, concomitantemente ao seu crescimento, a economia passou a crescer
mais lentamente, o mercado de trabalho se deteriorou, os rendimentos caíram e a pobreza
aumentou. Para fazer essa relação, todavia, é preciso avançar na demonstração do que
ocorreu com a desigualdade social nos Estados Unidos. É este, justamente, o esforço geral
e intenção da segunda parte deste capítulo.

5.1. A desigualdade nos E.U.A em perspectiva internacional

Neste exercício, apresenta-se um panorama geral da renda per capita conforme os


diversos países da OCDE. O esforço aqui realizado cumpre o propósito de demonstrar,
em perspectiva internacional, o quão rico os Estados Unidos são. Em outras palavras,
trata-se reiterar, nesse primeiro exercício, que os E.U.A são um dos países mais ricos
conforme a renda nacional bruta. Os Estados Unidos é um país rico, que detém muitos
recursos, mas cujos indicadores sociais estão entre os piores entre os países ricos da
OCDE.

165
SOMMEILLER, E; PRICE, M The New Gilded Age – income inequality in the U.S by state, metropolitan
área, and county. Economic Policy Institute. 19 de julho, 2018. Recuperado em
https://www.epi.org/publication/the-new-gilded-age-income-inequality-in-the-u-s-by-state-
metropolitan-area-and-county/. Acessado em 31/08/2020.
174

Tabela 39 – Ranking da renda per capita e da renda nacional bruta (US$), países da
OCDE e outros*, (2015-2018)
Renda per capita1 Renda nacional bruta2
LUX 74.292 USA 20.837.347
NOR 70.525 JPN 5.420.859
CHE 69.546 DEU 4.641.067
IRL 66.343 FRA 3.180.958
USA 63.638 GBR 3.072.866
DNK 58.701 ITA 2.672.506
NLD 58.135 MEX 2.507.773
AUT 56.733 TUR 2.231.641
SWE 56.227 KOR 2.180.192
DEU 55.980 ESP 1.898.751
BEL 52.618 CAN 1.896.105
AUS 51.925 AUS 1.297.755
CAN 50.443 POL 1.154.948
FIN 50.420 NLD 1.001.783
FRA 47.290 BEL 601.270
GBR 46.253 CHE 592.135
ITA 44.265 SWE 577.953
JPN 42.872 AUT 501.391
KOR 42.246 CHL 458.201
NZL 41.540 CZE 405.817
ESP 40.633 NOR 374.631
ISR 40.290 PRT 360.742
CZE 38.189 ISR 357.819
SVN 38.174 DNK 340.112
EST 35.754 GRC 324.065
PRT 35.105 IRL 322.470
LTU 34.681 HUN 296.329
SVK 33.422 FIN 278.397
HUN 30.313 NZL 201.990
LVA 30.230 SVK 182.258
GRC 30.194 LTU 97.161
POL 30.067 SVN 79.095
TUR 27.787 LVA 58.231
CHL 24.067 EST 47.163
MEX 20.129 LUX 45.229

(*). Dados foram coletados pela OECD para os anos de 2015-2018. A sigla dos países obedece aos padrões internacionais
ISO 3166.
(1). Milhares de US$, valores correntes, PPP.
(2). Milhões de US$ em valores correntes, PPP.
Elaboração própria a partir de OECD Data166

Quando se analisa a renda per capita de uma série de países integrantes da OECD,
nota-se que os E.U.A. estão entre os países mais ricos da OCDE. Ademais, quando se

166
OECD. Health Spending. OECD Data. 2020 Disponível em https://data.oecd.org/healthres/health-
spending.htm. Acessado em 17/06/2020
175

analisa a questão pela renda nacional bruta, os E.U.A. apresentam a maior renda nacional
bruta dos países selecionados. Em outras palavras, fica claro que os Estados Unidos é um
país rico, detentor da maior renda nacional bruta de todos os países, o que lhe confere
também uma elevada renda per capita. Contudo, todos os indicadores deste capítulo
demonstram que, se é verdade que os E.U.A é um país rico, é igualmente verdade que
essa riqueza está mal distribuída.
No próximo passo, demonstra-se a gravidade com que as várias dimensões da
desigualdade afetam os Estados Unidos, ao apresentar uma comparação internacional
com os países da OCDE. Por limitações de espaço do trabalho, optou-se por disponibilizar
todos os dados compilados em tabelas, por tema, conforme as abreviações do padrão
ISSO 3166167. No primeiro grupo de colunas, há uma análise do índice de Gini; no
segundo grupo de colunas (P50/P10), foi analisada a razão entre a renda mediana e o
limite superior do primeiro decil; no terceiro grupo de colunas (P90/P50), foi analisada a
razão entre o limite superior do nono decil (os 10% com a renda mais elevada) e a renda
mediana; no quarto grupo de colunas (P90/P10), foi analisada a razão entre o limite
superior do nono decil (os 10% com a renda mais elevada) e o limite superior do primeiro
decil; no quinto grupo de colunas, foi analisado o índice Palma, explicado posteriormente;
no sexto grupo de colunas, por fim, há uma comparação internacional da razão entre a
renda média dos 20% mais ricos em relação à renda média dos 20% mais pobres. Todas
essas formas de mensurar a desigualdade representam metodologias diferentes de
apreensão da desigualdade de renda nos vários países da OCDE aqui reunidos. Para essas
análises, foram consideradas todas as formas de renda domiciliar, seja de um emprego,
remuneração por trabalho autônomo, salário, ordenado ou transferências monetárias de
toda a sorte, após as deduções com impostos e contribuições obrigatórias, durante um
ano. Restará claro, ao final deste trecho, que, entre os países mais desenvolvidos, os
Estados Unidos se destacam por seus elevados índices de desigualdade, em suas várias
metodologias. Trata-se de uma maneira de contextualizar o estudo sobre a desigualdade
que será realizado nesta segunda etapa do capítulo, para solidificar o seguinte argumento:
os E.U.A é um país muito desigual.

167
Ver mais em Popular Standards -ISO 3166 Country Codes. The Internacional Standard for country codes
and codes for their subdivisions. ISO. Disponível em https://www.iso.org/iso-3166-country-codes.html.
Acessado em 16/06/2020
176

Tabela 40 – As mensurações das desigualdades entre os países da OCDE e outros


(ranking do mais desigual para os menos desiguais) *
1. Gini ** 2. P50-P10 3. P90-P50 4. P90-P10 5. Índice palma 6. S80-S20
ZAF 0,62 ZAF 4,8 ZAF 5,3 ZAF 25,6 ZAF 7,03 ZAF 37,6
CRI 0,478 CRI 3 CRI 3,3 CRI 9,8 CRI 2,83 CRI 12,7
CHL 0,46 ROU 2,9 CHL 2,9 CHL 7,2 CHL 2,55 CHL 10,3
MEX 0,458 KOR 2,8 MEX 2,7 MEX 6,7 MEX 2,51 MEX 10,3
TUR 0,404 USA 2,7 TUR 2,5 USA 6,2 TUR 1,91 USA 8,4
BGR 0,395 ISR 2,6 USA 2,3 ROU 6 BGR 1,83 TUR 7,8
USA 0,39 LVA 2,6 BGR 2,2 KOR 5,8 USA 1,76 BGR 7,7
LTU 0,374 BGR 2,5 LTU 2,2 TUR 5,7 LTU 1,61 LTU 7,4
GBR 0,357 CHL 2,5 KOR 2,1 LTU 5,6 GBR 1,48 ROU 7,2
KOR 0,355 JPN 2,5 LVA 2,1 BGR 5,5 KOR 1,44 KOR 7
LVA 0,355 LTU 2,5 LUX 2,1 LVA 5,5 LVA 1,44 LVA 6,7
ROU 0,351 MEX 2,5 ROU 2,1 ISR 5,3 ROU 1,39 ISR 6,5
ISR 0,348 ESP 2,4 RUS 2,1 JPN 5,2 ISR 1,38 JPN 6,2
JPN 0,339 ITA 2,4 AUS 2 ESP 4,8 JPN 1,32 GBR 6,2
ITA 0,334 EST 2,3 ESP 2 EST 4,7 AUS 1,3 ITA 6,1
ESP 0,333 TUR 2,3 EST 2 ITA 4,7 ITA 1,3 ESP 6
RUS 0,331 AUS 2,2 ISR 2 RUS 4,6 RUS 1,28 AUS 5,6
LUX 0,327 GRC 2,2 ITA 2 LUX 4,5 ESP 1,27 LUX 5,6
AUS 0,325 LUX 2,2 JPN 2 AUS 4,3 LUX 1,22 RUS 5,5
PRT 0,32 RUS 2,2 PRT 2 GRC 4,3 PRT 1,22 GRC 5,4
GRC 0,319 CAN 2,1 GBR 2 GBR 4,3 GRC 1,2 EST 5,2
CAN 0,31 GBR 2,1 CAN 1,9 PRT 4,2 CAN 1,14 PRT 5,2
EST 0,309 DEU 2 GRC 1,9 CAN 4,1 EST 1,1 CAN 5,1
CHE 0,296 BEL 2 HUN 1,9 DEU 3,7 CHE 1,09 DEU 4,5
IRL 0,295 IRL 2 DEU 1,8 IRL 3,6 FRA 1,08 CHE 4,5
FRA 0,292 POL 2 AUT 1,8 POL 3,6 IRL 1,08 FRA 4,4
DEU 0,289 PRT 2 FRA 1,8 CHE 3,6 DEU 1,05 HUN 4,4
HUN 0,289 SWE 2 NLD 1,8 AUT 3,5 HUN 1,04 IRL 4,4
NLD 0,285 AUT 1,9 IRL 1,8 BEL 3,4 NLD 1,03 NLD 4,3
SWE 0,282 SVK 1,9 POL 1,8 FRA 3,4 SWE 1,02 AUT 4,2
AUT 0,275 SVN 1,9 CHE 1,8 NLD 3,4 AUT 0,96 POL 4,2
POL 0,275 FRA 1,9 BEL 1,7 HUN 3,4 POL 0,95 SWE 4,2
FIN 0,266 NLD 1,9 DNK 1,7 SWE 3,3 FIN 0,94 NOR 4
BEL 0,263 HUN 1,9 SVN 1,7 SVK 3,1 DNK 0,91 BEL 3,9
NOR 0,262 NOR 1,9 FIN 1,7 SVN 3,1 BEL 0,9 FIN 3,8
DNK 0,261 CHE 1,9 ISL 1,7 FIN 3,1 NOR 0,9 DNK 3,7
ISL 0,257 DNK 1,8 NOR 1,7 NOR 3,1 ISL 0,89 SVK 3,7
CZE 0,249 FIN 1,8 CZE 1,7 ISL 3 CZE 0,85 SVN 3,6
SVN 0,243 ISL 1,8 SWE 1,7 CZE 3 SVN 0,81 ISL 3,6
SVK 0,241 CZE 1,7 SVK 1,6 DNK 2,9 SVK 0,78 CZE 3,5

(*). Dados foram coletados pela OECD para os anos de 2015-2019, conforme a disponibilidade de cada observação. A renda
empregada para o cálculo do Gini corresponde à “renda pessoal disponível”. A sigla dos países obedece aos padrões internacionais
ISO 3166
(**) Dados do Gini de 2015, para a Renda Pessoal Disponível (disposable income), após os efeitos tributários e transferências. Por
isso, há discrepância entre os dados coletados a partir da OECD e os dados do Census Bureau. Ademais, a definição de “income” para
a OECD contém elementos adicionais, como a produção para o consumo próprio, considerada renda de autônomo, ampliando a
margem de diferença para o Gini obtido a partir do Census Bureau.
Elaboração própria a partir de OECD Data168

No primeiro grupo de colunas da figura acima, há um panorama geral do índice


de Gini para os países da OCDE, conforme a renda domiciliar, hierarquizados do mais
desigual para o menos desigual. O coeficiente de Gini, vale lembrar, varia entre 0 e 1,

168
OECD. Income Inequality (indicador). OECD Data. 2020 Disponível em
https://data.oecd.org/inequality/income-inequality.htm. Acessado em 15/06/2020
177

sendo que quanto mais perto do número 1 o país se encontrar, tanto maior será a sua
desigualdade; quanto mais perto do número 0 o país estiver, mais perto da perfeita
igualdade ele estará. Assim, o índice de Gini fornece um modo de mensurar a
desigualdade de um país, ao mesmo tempo em que possibilita a comparação direta entre
países. Mais especificamente, o índice mede o quanto a distribuição de renda de um país
se afasta de uma distribuição completa da renda. 169
Entre todos os países da OCDE170, os Estados Unidos se destacam como um dos
países que possui um elevado índice de Gini (0,39). O número de 0,39, Gini dos E.U.A,
figura atrás de países como a Polônia, a Grécia, a Espanha, a Itália, A Rússia, Letônia e a
Lituânia, por exemplo, que são países que possuem uma renda per capita bem inferior à
dos E.U.A. Ou seja, quando se considera o “clube” de países que integra a OCDE, os
Estados Unidos aparece como um dos países em que a desigualdade é mais proeminente.
Portanto, é possível tecer uma primeira conclusão, tendo em mãos uma comparação
internacional do índice de Gini: entre os países ricos, os Estados Unidos é um dos países
mais desiguais.
O segundo grupo de colunas da figura analisada demonstra a razão entre a renda
mediana e o limite de renda superior do primeiro decil. Trata-se de uma maneira de
investigar a desigualdade entre os estratos de renda, conforme a renda domiciliar dos
limites já mencionados. Neste exercício, nota-se que os E.U.A figura como um dos países
em que a razão P50/10 (2,7) o coloca como um dos países mais desiguais da OCDE. A
Bulgária, Lituânia, Romênia e a Rússia, por exemplo, são países que demonstram uma
desigualdade menor do que os Estados Unidos.
No terceiro grupo de colunas da figura analisada, foi analisada a razão entre o
limite superior do nono decil (os 10% com a renda mais elevada) e a renda mediana. Neste
exercício, nota-se que os E.U.A figura como um dos países em que a razão P90/renda-
mediana (2,3) o coloca como um dos países mais desiguais da OCDE. Os E.U.A, aqui,
figura atrás de países como a Letônia, Lituânia, Bulgária e Romênia, por exemplo. Ou
seja, trata-se de mais uma prova de que, entre os países ricos, os Estados Unidos figuram
como um dos países mais desiguais da OCDE.
No quarto grupo de colunas, foi analisada a razão entre o limite superior do nono
decil (os 10% com a renda mais elevada) e o limite superior do primeiro decil. Trata-se

169
Gini Index. Glossary of Statistical Tems. OECD. 2006. Disponível em
https://stats.oecd.org/glossary/detail.asp?ID=4842. Acessado em 16/06/2020.
170
A Colômbia entrou para a seleta lista dos países da OCDE em 2020 e, portanto, não foi considerada.
178

de uma maneira de verificar a desigualdade entre os extremos da pirâmide de renda.


Novamente, a razão P90/P10 estabelece uma hierarquia entre os países da OCDE em que
os Estados Unidos (6,2) aparecem como um dos países mais desiguais dessa lista. Na
frente dos E.U.A aparecem como menos desiguais os seguintes países, por exemplo:
Japão, Espanha, Itália e Rússia.
No quinto grupo de colunas, há uma comparação internacional do índice Palma171,
que configura uma outra forma de mensurar a desigualdade entre os países, focando nas
“caudas” da distribuição da renda. Aqui, considera-se a razão entre a parcela da renda
disponível dos 10% do topo com a parcela da renda detida pelos 40% com a menor renda
disponível. Trata-se, de todo modo, de mais um modo de averiguar a desigualdade. Neste
exercício, Estados Unidos também apresentam um índice (1,76) que o coloca como um
dos países mais desiguais da lista da OCDE. Aparecem na frente dos E.U.A, como menos
desiguais, os seguintes países, por exemplo: Alemanha, Áustria, Portugal e Grécia.
No sexto grupo de colunas, por fim, há uma comparação internacional da razão
entre a renda média dos 20% mais ricos em relação à renda média dos 20% mais pobres.
Como esperado, tendo em vista a posição dos Estados Unidos (8,4) em todos os outros
exercícios de comparação internacional da desigualdade de renda, neste caso os E.U.A
também figura como um dos países mais desiguais da OCDE. Todos esses exercícios de
comparação internacional da desigualdade entre os diversos países permitem o
desenvolvimento da seguinte conclusão: entre os países ricos, os Estados Unidos figuram
como um dos países mais desiguais.

171
Ver mais sobre o “Palma Ratio” em PALMA. J. G. Has income share of the middle and upper-muddle
been stable around the “50-50 rule”, or has it converged towards that level? The Palma Ratio” Revisited.
In: Development and Change, 45(6), 1416-1448. 2014.
179

Tabela 41 – Efeitos da tributação e transferências de renda nacionais sobre o índice


de Gini, países selecionados – 2015*

Antes de impostos e transferências (Market Depois de impostos/ transferências (Renda


income) pessoal disponível) - Disposable Personal Income

País Gini País Gini


Islândia 0,385 Eslováquia 0,25
Suíça 0,386 Eslovênia 0,25
Coréia do Sul 0,396 Islândia 0,257
República
Eslováquia 0,4 0,258
Checa
Noruega 0,432 Finlândia 0,26
Suécia 0,432 Dinamarca 0,263
Canada 0,435 Noruega 0,272
Holanda 0,446 Áustria 0,275
Israel 0,45 Suécia 0,278
Dinamarca 0,451 Hungria 0,284
Polônia 0,452 Holanda 0,288
Eslovênia 0,456 Polônia 0,291
República Checa 0,46 Alemanha 0,293
Luxemburgo 0,467 França 0,295
Estônia 0,47 Suíça 0,296
Letônia 0,475 Irlanda 0,298
Chile 0,486 Luxemburgo 0,306
Áustria 0,494 Canada 0,318
Hungria 0,494 Estônia 0,33
Alemanha 0,504 Itália 0,333
Japão 0,504 Portugal 0,336
Estados Unidos 0,506 Japão 0,339
Finlândia 0,507 Grécia 0,34
Lituânia 0,514 Espanha 0,344
França 0,516 Letônia 0,346
Reino Unido 0,52 Romênia 0,346
Bulgária 0,52 Coréia do Sul 0,352
Costa Rica 0,523 Israel 0,36
Itália 0,524 Reino Unido 0,36
Espanha 0,524 Lituânia 0,372
Portugal 0,536 Bulgária 0,377
Romênia 0,537 Estados Unidos 0,39
Irlanda 0,545 Chile 0,454
Grécia 0,547 Costa Rica 0,479
África do Sul 0,715 África do Sul 0,62

(*). Dados se referem ao ano de 2015. As diferenças entre o market income e os dados disponibilizados pelos Census
Bureau estão relacionadas ao fato de que o censo dos E.U.A considera as transferências, mas não o efeito dos impostos.
No Market Income da OCDE, por outro lado, não se considera efeito algum da atuação estatal. A Renda pessoal disponível,
por outro lado, é a renda que sobra para o consumo e poupança após os efeitos tributários e transferências.
Fonte: elaboração própria a partir de OECD Stats

Uma última comparação internacional deixa claro que, mesmo após os efeitos da
tributação e das transferências de renda, os E.U.A. são um país com elevada desigualdade
de renda. Atualmente, há evidências suficientes para dizer que a desigualdade é, em larga
medida, o resultado de uma escolha política172: combater ou não a concentração da renda
e da riqueza. Logo, os dados indicam que os E.U.A. não têm feito a escolha de mitigar as
suas desigualdades sociais. Se, antes das transferências de renda e dos impostos, os
Estados Unidos já figuram como um mais notoriamente desigual, após os esses efeitos,

172
Ver mais em PERNIAS, T. Duas visões sobre o crescimento da desigualdade de renda no capitalismo
contemporâneo. In: RBEST: Revista Brasileira de Economia Social e do Trabalho. 2020.
180

os E.U.A. se mostra ainda mais desigual do que outros países ricos. Isso significa que a
capacidade de alteração da distribuição primária de rendimentos nos Estados Unidos é
baixa.

5.2. A desigualdade pelo índice de Gini e a desigualdade patrimonial


domiciliar

Para início de análise, cumpre demonstrar como se deu a evolução de dois


indicadores importantes da desigualdade de renda nos Estados Unidos: o índice de Gini
domiciliar e o índice de Gini familiar. Trata-se, cumpre ressaltar, de uma primeira
aproximação do tema, para contextualização geral do fenômeno que se procura aqui
melhor descrever.

Gráfico 13 – Índice de Gini para a renda domiciliar nos E.U.A: 1980-2018*

0,500
0,486
0,480 0,469

0,456
0,460

0,440

0,420

0,400
0,406
0,380

(*). Os dados do gini diferem das informações da OECD em função de metodologias diferentes nos cálculos. No Cesus
Bureau, considera-se as transferências, mas não os efeitos tributários.
Fonte: elaboração própria a partir de U.S. Bureau of the Census (household data)

O crescimento da desigualdade entre os domicílios pode ser verificado


diretamente pelo coeficiente de Gini domiciliar. Verifica-se, conforme o gini domiciliar,
que a desigualdade tem crescido de forma progressiva desde 1980. Há uma gradual piora
neste índice de desigualdade, que acompanha os domicílios americanos durante as últimas
décadas. Não se trata de intuição, portanto, dizer que a desigualdade de renda entre os
domicílios cresceu. Os dados mostram que há, de fato, uma escalada da desigualdade nos
Estados Unidos, desde meados de 1980. Trata-se de um processo gradual, mas contínuo
e persistente, cujas consequências são percebidas mais notoriamente nos anos 2000.
181

Gráfico 14 – Índice de Gini para a renda familiar nos E.U.A: 1980-2018*

0,470
0,452
0,450
0,426 0,432
0,430
0,433
0,410
0,397
0,390

0,370
0,365
0,350

(*). Os dados do gini diferem das informações da OECD em função de metodologias diferentes nos cálculos. No Cesus
Bureau, considera-se as transferências, mas não os efeitos tributários.
Fonte: elaboração própria a partir de U.S. Bureau of the Census (Family data)

O índice de Gini familiar, que é uma forma de mensurar a desigualdade dos


rendimentos familiares, não deixa dúvidas: está um curso, desde 1980, um movimento de
crescimento da desigualdade de renda familiar. Pode-se notar que, em 1980, o índice de
Gini apontava o número de 0,365 para a renda familiar. No início dos anos 2000, seu
valor atingiu 0,433, indicando que houve um processo de crescimento da desigualdade
para os rendimentos familiares, entre 1980-2000. Em 2018, ademais, o índice de Gini
registrou o número de 0,452. Ou seja, verificou-se um aumento progressivo da
desigualdade nos rendimentos familiares norte-americanos. O agravante, mostram os
dados coletados em outros capítulos desta tese, é que nos anos recentes esse crescimento
da desigualdade tem ocorrido concomitantemente a um crescimento lento da renda
mediana. Há uma degradação em curso do padrão de vida da população dos Estados
Unidos.
Nos próximos exercícios, será realizada uma ampla análise da desigualdade
patrimonial nos E.U.A, conforme diferentes recortes de investigação, com o objetivo de
detalhar a distribuição da riqueza nos Estados Unidos. Será aqui utilizada a compilação
de dados feita pelo Federal Reserve, a partir da Survey of Consumer Finance (SCF173),
que fornece informações numa base trimestral sobre o balanço patrimonial de diversos
setores da economia norte-americana. Além da SCF, o FED também compila os dados
sobre a desigualdade patrimonial nos E.U.A com base na monitoração de transações

173
Survey of Consumer Finance (SCF). FED. Disponível em
https://www.federalreserve.gov/econres/scfindex.htm. Acessado em 22/06/2020.
182

financeiras, ligadas aos ativos e aos passivos domiciliares. O FED, vale ressaltar, realiza
essa compilação do balanço patrimonial domiciliar desde 1989. 174

Tabela 42 – A distribuição da riqueza, E.U.A: 1990-2018*


A distribuição da riqueza (wealth)
Riqueza por faixas de percentil (%)
Categoria 1% mais rico 90-99% 50-90% 50% restantes
1990 23.1 37.1 36.0 3.8
2000 28.0 34.6 34.0 3.4
2010 29.2 39.1 31.0 0.7
2018 31.4 37.7 29.6 1.3
Riqueza por nível educacional (%)
Superior
Categoria Ensino superior High school Sem High School
incompleto
1990 55.5 18.0 17.7 8.8
2000 61.2 18.1 16.4 4.3
2010 67.7 14.9 14.9 2.4
2018 71.4 15.3 9.2 4.1
Riqueza por nível Idade (%)
Categoria 70 + 55-69 40-54 Abaixo de 40
1990 20.6 35.3 32.2 11.8
2000 20.8 33.9 36.0 9.3
2010 22.3 44.8 27.7 5.1
2018 27.5 44.8 21.6 6.1
Riqueza por "geração1" (%)
Baby
Categoria Geração "silenciosa" Geração X Millenials
Boomer
1990 79.1 20.4 0.5 0.0
2000 53.8 40.4 5.9 0.0
2010 35.5 52.9 10.8 0.8
2018 24.9 56.4 15.6 3.0
Riqueza por cor/etnia (%)
Categoria Brancos Negros Hispânicos Outros
1990 90.0 3.9 1.9 4.2
2000 91.1 3.4 2.2 3.3
2010 87.5 3.8 2.3 6.4
2018 85.2 4.3 3.1 7.3
Riqueza por percentil (renda) (%)
Categoria 99-100% 80-99% 60-80% 40-60% 20-40% 0-20%
1990 17.0 42.7 17.0 12.5 7.5 3.3
2000 20.0 44.3 16.5 9.4 6.9 2.9
2010 21.2 46.3 14.6 8.9 5.4 3.5
2018 24.7 46.7 14.8 7.5 4.1 2.2

(*). Os números dessa figura representam % do agregado total das variáveis analisadas, para o 4º trimestre do ano.
(1). A geração “silenciosa” reúne aqueles nascidos antes de 1946; a geração baby boomer reúne todos os nascidos entre 1946-1964; a
geração X, os que nasceram entre 1965-1980; a geração Millennial, por fim, abarca pessoas nascidas entre 1980-1996.
Elaboração própria a partir de: Federal Reserve (FED)

No primeiro exercício de análise da distribuição patrimonial domiciliar nos


E.U.A, foi apresentada a distribuição da riqueza, conforme os dados compilados pelo

174
BATTY, M; BRIGGS, J; PENCE, K; SMITH, P; VOLZ, A. The Distributional Financial Accounts. FEDs NOTES.
30 de agosto, 2019. Disponível em https://www.federalreserve.gov/econres/notes/feds-notes/the-
distributional-financial-accounts-20190830.htm. Acessado em 23/06/2020.
183

Federal Reserve, baseados na Survey of Consumer Finance (SCF). Conforme a primeira


tabela da figura, com a riqueza por faixas de percentil, fica claro que há um movimento
de aumento da concentração da renda. Quando se considera o total de riqueza (ativos
menos passivos), o 1% mais rico aumentou sua riqueza de 23,1% para 31,4% do agregado
nacional. Ao mesmo tempo, os 50% “de baixo” tiveram uma diminuição substancial na
participação da riqueza, dado que a este estrato restou somente 1,3% de toda a riqueza
dos Estados Unidos. Ou seja, o processo de concentração de renda caminha
apressadamente nos Estados Unidos. O estrato intermediário (59-90%), por sua vez,
também perdeu participação, reunindo menos de 29,6% da riqueza total, em 2018. Houve
“sonho americano”, portanto, apenas para aqueles situados entre os 10% mais ricos dos
Estados Unidos. Para todos os outros, desde 1990 há uma diminuição gradual da posse
da riqueza.
Essa concentração da riqueza também é nítida quando se analise o nível
educacional, uma vez que somente aqueles que possuem ensino superior aumentaram a
posse da riqueza. Aqueles com superior incompleto, apenas high school e sem High
School tiveram uma diminuição da participação na riqueza dos E.U.A, com destaque para
os que possuem High School ou menos, cuja diminuição foi significativa.
A riqueza por idade também pode demonstrar como há discrepâncias importantes
na distribuição da riqueza nos E.U.A, ainda que o fator geracional, ou seja, a mera
diferença de idade e acúmulo de bens seja um fator aqui a se considerar. É possível notar,
em primeiro lugar, que a riqueza daqueles abaixo de 54 anos diminuiu ao longo do tempo,
em vez de aumentar. Ou seja, as gerações mais jovens parecem acumular menos riqueza
ao longo do tempo, fenômeno que, à primeira vista, parece ser contraditório. Em segundo
lugar, pode-se notar como a geração dos millenials ainda não foi capaz de acumular
riqueza, ao passo que a participação que geração silenciosa possui na riqueza tem
diminuído. De todo modo, há uma clara e progressiva transmissão da riqueza entre as
gerações.
A riqueza por cor e etnia, além disso, escancara como a desigualdade nos E.U.A
está intimamente relacionada à cor. Em 2019, por exemplo, as estimativas do United
Status Census Bureau175 apontavam que 13,4% da população dos E.U.A negra (sem
combinação com outras etnias e cores). Entretanto, no ano de 2018 os negros agregavam,
conforme os dados do FED, somente 4,3% da riqueza total, considerando os ativos e os

175
Ver mais em QuickFacts United States. Disponível em
https://www.census.gov/quickfacts/fact/table/US/IPE120218. Acessado em 22/06/2020.
184

passivos da sociedade. Ou seja, há uma disparidade substantiva entre a representatividade


populacional dos negros e a quantia de riqueza possuída pelas pessoas que se
autodeclaravam negras. Essa desigualdade entre os negros, brancos e os hispânicos, vale
ressaltar, diminuiu desde 1990. Entretanto, os números apontam que a desigualdade “de
cor” nos E.U.A ainda é um problema grave.

Tabela 43 – A distribuição dos ativos, E.U.A: 1990-2018*


A distribuição dos Ativos
Ativos por faixas de percentil, conforme a riqueza (%)
Categoria 1% mais rico 90-99% 50-90% 50% restantes
1990 20,5 34,1 38 7,4
2000 24,7 32,4 35,5 7,4
2010 25 35,6 32,5 7
2018 28 35,3 30,9 5,8
Ativos por nível educacional (%)
Superior
Categoria Ensino superior High school Sem High School
incompleto
1990 54,5 18,7 18,3 8,5
2000 59,8 18,9 16,9 4,4
2010 65,5 16,2 15,7 2,6
2018 70 16,2 9,5 4,2
Ativos por nível Idade (%)
Categoria 70 + 55-69 40-54 Abaixo de 40
1990 18,1 32,4 33,1 16,3
2000 18,5 31,7 37,2 12,7
2010 19,5 41,5 30,2 8,8
2018 25 42,5 24,1 8,4
Ativos por "geração" (%)
Geração
Categoria Baby Boomer Geração X Millenials
"silenciosa"
1990 73,8 25,5 0,7 0
2000 49,5 42,7 7,8 0
2010 31,4 51,9 15 1,7
2018 22,8 54,1 18,5 4,6
Ativos por cor/etnia (%)
Categoria Brancos Negros Hispânicos Outros
1990 88,8 4,2 2,6 4,5
2000 90 4 2,5 3,5
2010 85,5 4,4 3 7,1
2018 83,8 4,9 3,5 7,8
Ativos por percentil (renda) (%)
Categoria 99-100% 80-99% 60-80% 40-60% 20-40% 0-20
1990 15,4 43,1 18,4 12,6 7,3 3,1
2000 18,1 44,2 17,7 10,1 7 2,9
2010 18,6 45,8 16,1 9,9 5,7 3,8
2018 22,4 46,2 15,8 8,4 4,6 2,6

(*). Os números dessa figura representam % do agregado total das variáveis analisadas, para o 4º trimestre do ano.
(1). A geração “silenciosa” reúne aqueles nascidos antes de 1946; a geração baby boomer reúne todos os nascidos entre 1946-1964; a
geração X, os que nasceram entre 1965-1980; a geração Millennial, por fim, abarca pessoas nascidas depois de 1996.
Elaboração própria a partir de: Federal Reserve (FED)

Uma das formas mais importantes de mensuração da desigualdade patrimonial nos


E.U.A consiste em verificar a distribuição dos ativos na sociedade. Por ativos, aqui,
185

compreende-se: os ativos não financeiros (propriedades e bens duráveis) e os ativos


financeiros (depósitos bancários, investimentos em curto e longo prazo, fundos e ações,
títulos públicos, títulos estrangeiros, outros empréstimos, ativos hipotecários, reservas
ligadas aos seguros de vida e saúde, pensões diversas, participação em negócios) 176. A
contabilização dos ativos, portanto, considera todas as formas de riqueza,
desconsiderando todas as formas de passivo que existem na sociedade.
Quando se analisa a distribuição dos ativos pela sociedade norte-americana,
também é notável que, desde 1990, há um processo de concentração dos ativos. O 1%
mais rico passou a abocanhar uma parcela maior dos ativos, ao passo que os ativos em
posse dos 90% diminuiu. Ou seja, houve um aumento dos ativos detidos pelos 10% mais
ricos da sociedade, especialmente do 1% mais ricos, enquanto, para 90% dos norte-
americanos, a porcentagem de ativos diminuiu ao longo do tempo. A distribuição de
ativos por percentil de renda também indica que, para todos os que estão abaixo daqueles
20% com as maiores rendas, a posse de ativos diminuiu. Isso se trata de um claro processo
de crescimento da desigualdade social nos Estados Unidos.
Quando se analisa a distribuição dos ativos por nível educacional, observa-se que
houve aumento substancial dos ativos em posse daqueles com ensino superior, ao passo
que houve uma diminuição dos ativos para todos aqueles que não possuem grau escolar
superior. Para todos os norte-americanos menos privilegiados, ou que não tiveram a
oportunidade de cursar e completar um ensino superior, a parcela de ativos diminuiu. A
distribuição de ativos por geração, todavia, demonstra uma progressiva transmissão
intergeracional dos ativos, na medida em que a geração “silenciosa” sofre uma queda
acelerada dos ativos, ao passo que a geração baby boomer e a geração X começam a
acumular riqueza. Quando a distribuição de ativos é olhada por etnia, nota-se que houve
algum grau de desconcentração da posse de ativos, mas ainda muito limitada, na medida
em que os brancos ainda concentram uma enorme fatia de ativos, em detrimento dos
negros e dos hispânicos.
O próximo passo da investigação patrimonial consiste em analisar a distribuição
dos ativos, por categoria de ativo e por recorte de análise. Por meio de uma análise
detalhada da distribuição de ativos na sociedade norte-americana, será possível identificar

176
BATTY, M; BRICKER, J; BRIGGS, J; HOLMQUIST, E; McINTOSH, S; MOORE, K; NIELSEN, E; REBER, S;
MOLLY, S; SOMMER, K; SWEENEY, T; VOLZ, A. H. Introducing the distributional financial accounts of the
United States. In: Finance and Economics Discussion series, 2019-017. Washington: Board of governors of
the Federal Reserve System. 2019.
186

as desigualdades patrimoniais que, até agora, estiveram ocultas nesta tese. Trata-se, vale
salientar, de mais um passo para compreender melhor as transformações da sociedade
norte-americana durante as últimas décadas.
O balanço patrimonial dos domicílios dos Estados Unidos é composto por ativos,
mas também por passivos, sendo que este último conceito engloba todas as dívidas e os
empréstimos tomados pelos domicílios. Logo, uma investigação da riqueza nos Estados
Unidos deve levar em conta também a distribuição das dívidas na sociedade. Neste
próximo exercício, portanto, será realizada uma investigação da: a) distribuição do
passivo agregado; b) das hipotecas imobiliárias (70% de todo o passivo) e, por fim; c)
créditos aos consumidores (26% de todo o passivo). A porcentagem restante, considerada
“outros tipos de passivos”, não será analisada, em função de sua baixa representatividade.
177

Sobre a distribuição do passivo agregado, analisado na tabela a seguir: em


primeiro lugar, salta à vista que a concentração geral do passivo na mão do 1% mais rico
é substancialmente menor do que a concentração de ativos, ou mesmo da riqueza total. O
grosso do passivo está concentrado entre os 90% mais pobres, enquanto os 10% mais
ricos guardam menos dívidas. Isso leva à uma primeira conclusão: os ricos nos Estados
Unidos concentram em suas mãos os ativos da sociedade (propriedades imobiliárias,
ações, direitos à pensão e participação em negócios privados). Contudo, as dívidas
parecem estar em larga medida concentradas nos estratos intermediários e entre os mais
pobres.

177
Ibidem.
187

Tabela 44 – A distribuição do passivo agregado, E.U.A: 1990-2018*


A distribuição do passivo
Passivo, por faixas de percentil (%)
Categoria 1% mais rico 90-99% 50-90% 50% restantes
1990 4,2 15,5 50,4 29,9
2000 4,6 18,8 44,8 31,9
2010 4,8 18,9 39,5 36,8
2018 5,2 19,2 39,6 35,9
Passivo, por nível educacional (%)
Categoria Ensino superior Superior incompleto High school Sem High School
1990 48,8 22,8 21,7 6,7
2000 50,8 24,2 20,3 4,7
2010 54,9 22,5 19,1 3,4
2018 61,2 22,1 11,8 4,9
Passivo, por nível Idade (%)
Categoria 70 + 55-69 40-54 Abaixo de 40
1990 2,3 14,5 38,9 44,3
2000 4,3 18,3 44,1 33,3
2010 5,9 25,7 42,1 26,4
2018 8,9 27 40,4 23,7
Passivo, por "geração" (%)
Categoria Geração "silenciosa" Baby Boomer Geração X Millennial
1990 40,6 57,3 2,1 0
2000 23,3 56,9 19,8 0
2010 11,8 47,2 35,3 5,7
2018 8,4 38,9 37,4 15,3
Passivo, por cor/etnia (%)
Categoria Brancos Negros Hispânicos Outros
1990 81 6,1 6,8 6,1
2000 83,4 7,4 4,8 4,4
2010 75,8 7,2 6,3 10,6
2018 74,4 8,7 5,8 11
Passivo, por percentil (renda) (%)
Categoria 99-100% 80-99% 60-80% 40-60% 20-40% 0-20%
1990 5,4 45,6 27,3 13,5 6,2 2
2000 6,6 43,6 25,3 14,2 7,7 2,6
2010 6,3 43,3 23,2 14,6 7,3 5,3
2018 7,4 42,7 22,3 14,1 8 5,4

(*). Os números dessa figura representam % do agregado total das variáveis analisadas, para o 4º trimestre do ano.
(1). A geração “silenciosa” reúne aqueles nascidos antes de 1946; a geração baby boomer reúne todos os nascidos entre 1946-1964; a
geração X, os que nasceram entre 1965-1980; a geração Millennial, por fim, abarca pessoas nascidas depois de 1996.
Elaboração própria a partir de: Federal Reserve (FED)

Quando se analisa o passivo por nível educacional, contudo, a amplitude da


investigação mostra, sim, uma concentração das dívidas em torno daqueles com superior
completo, ao passo que para todas as outras categorias houve uma diminuição na
participação no passivo. Isso, entretanto, pode implicar que a classe média detentora de
ensino superior esteja aqui inclusa entre os que tem se endividado mais. Por idade, nota-
se também uma concentração do passivo em torno dos mais velhos, entre 55 ou mais anos,
ao passo que para todos aqueles com menos de 54 anos ocorreu uma diminuição da
participação no passivo. Há ademais, uma transferência do passivo entre gerações, na
188

medida em que o passivo detido pela geração “silenciosa” diminui substancialmente ao


longo do tempo, enquanto as dívidas da geração X e dos millenials aumenta. Há de se
fazer neste ponto outro comentário relevante: enquanto, em 2018, os millenials
concentravam somente 4,6% dos ativos, a sua participação no passivo chegava a 15,3%.
Trata-se de um claro indício de que a geração millennial possui, proporcionalmente, mais
dívidas do que ativos. Uma geração que cresce mais endividada e menos rica.
Quando se analisa o passivo, por cor, nota-se também uma desconcentração, ainda
que esse fato possa não representar algo positivo: o passivo detido pelos negros nos E.U.A
cresce, ao passo que a participação dos brancos no passivo total diminui. Os hispânicos
apresentam uma pequena diminuição em sua participação no total de passivos. Por fim,
quando se analisa a distribuição do passivo conforme a hierarquização dos percentis, por
renda, nota-se que o grosso das dívidas está concentrado entre os 40-99% da pirâmide de
renda. Ou seja, enquanto o 1% demonstra uma baixa participação no passivo total, os
estratos intermediários ou “médio-elevados” mostram uma alta participação no agregado
de passivos.
Há de se mencionar, por fim, que os 20% mais pobres, conforme os percentis de
renda, dobraram a sua participação no passivo agregado, desde 1990. Em outras palavras,
isso equivale a dizer que os mais pobres ficaram proporcionalmente mais endividados ao
longo do tempo. Ao mesmo tempo, vale lembrar, a participação dos 20% mais pobres na
posse de ativos, desde 1990, caiu. Em resumo: os pobres tiveram sua participação
diminuída nos ativos da sociedade, enquanto sua participação nas dívidas aumentou: esse
é um bom retrato do que tem acontecido na sociedade norte-americana durante as últimas
décadas.
5.4. A composição da riqueza entre os segmentos sociais

Para além de uma extensa investigação da distribuição dos ativos e do passivo


domiciliar nos Estados Unidos, há uma outra forma de analisar o balanço patrimonial
domiciliar que merece ser aqui destacada: a composição da riqueza por segmento social.
Trata-se, neste caso, de verificar como os diferentes grupos sociais (por recorte de
riqueza, cor, educação, idade ou geração), mantiveram a composição de seu patrimônio
ao longo do tempo. Este exercício permitirá uma descrição mais detalhada de como os
diversos segmentos da sociedade norte-americana mantém a sua riqueza, e quais foram
as mudanças mais importantes que puderam ser notadas ao longo do tempo.
189

Tabela 45 – Composição dos ativos, por percentil de renda: 1990-2018*


Propriedade Bens Direitos à Negócios
Percentil Ano Ações/fundos Outros
imobiliária duráveis pensão privados
1990 16,2 6 15,4 9,4 22,7 30,3
99-100% 2018 14,3 2,8 36,5 6,8 18,5 21,1
% p.p. -1,9 -3,2 21,1 -2,6 -4,2 -9,2

1990 28,4 7 7,9 22,1 12,9 21,7


80-99% 2018 24,1 3,5 19,8 25,5 9,8 17,3
% p.p. -4,3 -3,5 11,9 3,4 -3,1 -4,4

1990 32,4 10,2 5,2 24,8 7,4 20


60-80% 2018 29,5 6,7 9,1 35,7 4,3 14,8
% p.p. -2,9 -3,5 3,9 10,9 -3,1 -5,2

1990 32,5 9,6 4,8 21,3 8,9 22,9


40-60% 2018 34,6 8,4 6,3 28,3 3,1 19,2
% p.p. 2,1 -1,2 1,5 7 -5,8 -3,7

1990 38,8 10,9 3,3 16,4 6,6 24


20-40% 2018 38,2 10,9 6 21,6 4,1 19,2
% p.p. -0,6 0 2,7 5,2 -2,5 -4,8

1990 37,2 11,5 5,1 14,1 10,3 21,8


0-20% 2018 40,9 11 9 10,3 11,3 17,6
% p.p. 3,7 -0,5 3,9 -3,8 1 -4,2

(*). As linhas referentes ao ano de 1990 e 2018 representam frações (%) da composição patrimonial do segmento analisado. Todas as
observações desta figura dizem respeito ao 4º trimestre do ano.
Elaboração própria a partir de: Federal Reserve (FED)

Por fim, uma breve análise da composição dos ativos, conforme os percentis
hierarquizados por renda. Em linha com as observações que foram vistas até aqui, nota-
se um aumento forte da participação das ações nos ativos dos mais ricos, especialmente
do 1% com as mais altas rendas, cujo crescimento da participação das ações foi de 21,1
p.p., desde 1990. Entre os 60-100% com as maiores rendas, ademais, houve, desde 1990,
uma diminuição da propriedade imobiliária em sua na carteira de ativos. Por outro lado,
para as faixas de percentil 40-60% e 0-20% ocorreu um crescimento da participação dos
ativos imobiliários em sua carteira de ativos. Há uma tendência, portanto, entre os mais
ricos e os estratos médios, de diminuição da participação que a propriedade imobiliária
possui na carteira total de ativos. Contudo, para os mais ricos e os estratos médios são as
ações que preenchem essa diminuição dos ativos imobiliários; para os pobres, são os
direitos à pensão que parecem fazer essa função.
Por fim, após uma investigação da composição da carteira de ativos de cada
segmento social, cumpre analisar também a composição do passivo para cada um dos
190

grupos analisados. Este é um último exercício análise da desigualdade patrimonial, no


caso, dos passivos domiciliares.

Tabela 46 – Composição do passivo, por percentil de renda E.UA.: 1990-2018*


Hipoteca Crédito ao
Percentil Ano Outros
imobiliária consumidor
1990 68,4 15,8 15,8
99-100% 2018 63,4 16,1 20,5
% p.p. -5 0,3 4,7

1990 79,6 15,9 4,5


80-99% 2018 78,2 18,2 3,6
% p.p. -1,4 2,3 -0,9

1990 71,6 25,3 3,2


60-80% 2018 65,3 32 2,7
% p.p. -6,3 6,7 -0,5

1990 61,7 36,2 2,1


40-60% 2018 62,3 36,3 1,4
% p.p. 0,6 0,1 -0,7

1990 54,5 40,9 4,5


20-40% 2018 54,1 42,6 3,3
% p.p. -0,4 1,7 -1,2

1990 28,6 71,4 0


0-20% 2018 48,8 34,1 17,1
% p.p. 20,2 -37,3 17,1

(*). As colunas referentes ao ano de 1990 e 2018 representam frações (%) da composição patrimonial do segmento analisado. Todas
as observações desta figura dizem respeito ao 4º trimestre do ano.
Elaboração própria a partir de: Federal Reserve (FED)

Por motivos de espaço, optou-se por apresentar a composição do passivo dos


percentis (hierarquizados por renda) separadamente. Nota-se que, desde 1990, as dívidas
de hipotecas imobiliárias tiveram um aumento notável na participação do passivo para os
20% mais pobres. Ao mesmo tempo, foi observada uma grande diminuição que o crédito
ao consumidor possui no passivo dos mais pobres. Ademais, pode-se observar que, para
estratos médio-altos e para os mais ricos (60-100%), ocorreu uma diminuição que a
hipoteca imobiliária possui na composição do passivo destes percentis. Contudo, para os
todos os percentis de renda inferiores (0-60%), houve aumento, ou uma semiestagnação,
que a dívida imobiliária possui no passivo destes percentis. Ao que parece, os mais ricos
conseguiram diminuir, proporcionalmente, suas dívidas imobiliárias. Não foi o caso dos
mais pobres, especialmente daqueles entre o 0-20% com as menores rendas.
191

5.4. A distribuição da renda nos anos recentes, 2007-2016

Em meados de 1930, Simon Kuznets argumentou que a mensuração de variáveis


econômicos agregadas, como o Produto Interno Bruto, por exemplo, não são suficientes
para medir o bem-estar de uma sociedade. Foi somente em 1953, contudo, que Selma
Goldsmith, uma economista do Departamento de Comércio e Negócios (OBE, conforme
a sigla na língua inglesa)178, escreveu um artigo sobre a distribuição da renda “pessoal”,
entre 1944-1950. Entre 1950 e 1962, tanto o Departamento de Comércio e Negócios,
como o Bureau of Economic Analysis, que sucedeu ao OBE, publicaram regularmente
algumas estimativas sobre a distribuição de renda. Desde então, outras tentativas de medir
e investigar a distribuição da renda foram realizadas, mas foi em 2020 que o Bureau of
Economic Analysis decidiu retomar a publicação regular de estimativas da distribuição
pessoal da renda nos E.U.A, ainda que como um projeto protótipo. 179
Para além dos dados agregados sobre a economia, o Bureau of Economic Analysis
(BEA) também passou a fazer, desde 2007, um acompanhamento detalhado da
distribuição de renda. Na medida em que cada domicílio ou indivíduo possui direitos
diferentes de apropriação sobre a renda nacional, a mensuração da distribuição da renda
se torna um ponto relevante para compreender melhor a atividade econômica e a tomada
de decisão dos agentes inseridos na economia. 180
A renda que compõe a “renda pessoal”, conforme as definições do B.E.A, consiste
na somatória de: salários, ordenados e dividendos; contribuições patronais aos planos de
aposentadoria, seguro de vida e o valor da “renda” de aluguel de casas próprias;
contribuições patronais aos seguros de saúde, incluindo transferências do Medicare e do
Medicaid; e, por fim, outras transferências, como as contribuições patronais para a
aposentadoria públicas, créditos tributários e programas governamentais de assistência
nutricional181. Para coletar os dados de todas essas fontes de renda, o BEA faz uso de
retiradas ou baseadas no Internal Revenue Service (IRS), Current Population Survey

178
Department of Commerce Office of Business Economics (OBE)
179
FIXLER, D; GINDELSKY, M; JOHSON, D. Measuring inequality in the National Accounts. In: BEA Working
Paper Series, março 2020. Disponível em https://apps.bea.gov/data/special-topics/distribution-of-
personal-income/measuring-inequality-in-the-national-accounts.pdf. Acessado em 26/06/2020.
180
GINDELSKY, M. Technical Document: A Methodology for Distributing Personal Income. In: Bureau of
Economic Analysis. U.S Department of commerce. Março, 2020. Disponível em
https://apps.bea.gov/data/special-topics/distribution-of-personal-income/technical-document-a-
methodology-for-distributing-personal-income.pdf. Acessado em 26/06/2020.
181
Ver What counts toward household personal income? In: Distributional of Personal Income. Prototype
Statistics. BEA. Disponível https://apps.bea.gov/data/special-topics/distribution-of-personal-
income/measuring-the-distribution-of-personal-income-infographic.pdf. Acessado em 26/06/2020.
192

(CPS), Congressional Budget Office (CBO), Survey of Consumer Finance (SCF),


Consumer Expenditure Survey e do Centers for Medicare & Medicaid Services182. Trata-
se, portanto, de uma ampla investigação da renda da sociedade norte-americana.
Num dos passos finais do capítulo, será apresentada uma análise mais detalhada
da distribuição da renda nos E.U.A. Na tabela anterior, foi realizada uma análise mais
ampla, agregando os decis, para além de uma investigação do 1% e dos 5% mais ricos da
sociedade. Neste exercício, que se trata de uma análise da distribuição da renda por decil,
será possível verificar com um maior nível de detalhe o que ocorreu na sociedade norte-
americana, com relação à distribuição da renda, desde a crise financeira de 2008.
Em seguida, cabe realizar uma breve análise sobre os estratos intermediários, entre
os 30-80% mais ricos da pirâmide social de renda. Entre os 30-40% da pirâmide de renda,
houve diminuição da participação na: renda pessoal, renda domiciliar, contribuição de
trabalhadores, renda do proprietário, renda de ativos, renda de juros e renda de
dividendos. Os 30-40%, portanto, tiveram uma perda na participação tanto da renda do
trabalho, bem como da renda nos “ativos”. Trata-se de um primeiro indício de que os
estratos médios não estão indo bem nos anos pós-crise 2007. Os 40-50% da pirâmide de
renda, por seu turno, tiveram uma diminuição da renda pessoal, da renda domiciliar, da
compensação aos trabalhadores, da renda do proprietário, da renda de ativos, juro e
dividendos. Trata-se um segundo indício de que os estratos médios estão perdendo
participação na renda total. Entre os 50-60% da pirâmide de renda, foi possível notar:
diminuição da participação na renda pessoal, na renda domiciliar, na compensação dos
trabalhadores, na renda do proprietário, na renda de ativos, juro e dividendos. Trata-se de
mais um indício de que os estratos médios estão perdendo participação tanto na renda do
trabalho, bem como na renda do proprietário. Entre os 60-70% da pirâmide de renda, foi
possível notar: diminuição da participação na renda pessoal, na renda domiciliar, na
compensação aos trabalhadores, na renda do proprietário, ativo e dividendos. Trata-se de
mais uma pista de que a classe média norte-americana está desfrutando de uma parcela
cada vez menor dos frutos econômicos. Por fim, entre os 70-80% da pirâmide de renda,
pode-se apontar: uma diminuição da participação na renda pessoal, renda domiciliar, na
renda do proprietário, ativos e dividendos. Por outro lado, o segmento dos 70-80% teve
um aumento na participação da compensação aos trabalhadores. Trata-se do primeiro
segmento intermediário que apresentou um aumento na participação na renda do trabalho,

182
GINDELSKY, M. Op. cit. 2020.
193

desde o começo da análise por decil. É um primeiro indício de que os decis mais
privilegiados na estrutura de renda já possuem uma capacidade maior de apropriação da
renda nacional.
194

Tabela 47 – Análise detalhada, por decil, da distribuição da renda, E.U.A: 2007-2016*

Componente Ano 0-10 10-20 20-30 30-40 40-50 50-60 60-70 70-80 80-90 90-100
2007 2,1% 3,7% 4,6% 5,4% 6,3% 7,3% 8,8% 10,8% 14,5% 36,7%
Renda pessoal 2016 2,1% 3,5% 4,4% 5,2% 6,1% 7,2% 8,6% 10,6% 14,6% 37,6%
p.p. 0,0% -0,1% -0,2% -0,2% -0,2% -0,1% -0,2% -0,1% 0,1% 0,9%
2007 2,1% 3,6% 4,6% 5,4% 6,3% 7,3% 8,8% 10,8% 14,5% 36,7%
Renda
2016 2,1% 3,5% 4,4% 5,2% 6,1% 7,1% 8,6% 10,7% 14,6% 37,6%
domiciliar
p.p. 0,0% -0,1% -0,2% -0,2% -0,2% -0,1% -0,2% -0,1% 0,1% 0,9%

Compensação 2007 1,5% 2,5% 3,4% 4,4% 6,2% 8,1% 10,8% 13,6% 18,1% 31,5%
de 2016 1,2% 2,2% 3,1% 4,0% 5,4% 7,7% 10,5% 13,9% 18,6% 33,4%
trabalhadores p.p. -0,3% -0,3% -0,3% -0,4% -0,8% -0,4% -0,3% 0,2% 0,6% 2,0%
2007 0,4% 0,7% 1,0% 1,4% 2,3% 3,5% 5,3% 7,7% 13,9% 63,8%
Renda do
2016 0,2% 0,3% 0,6% 0,7% 1,3% 2,2% 3,7% 6,3% 13,5% 71,2%
proprietário
p.p. -0,2% -0,4% -0,4% -0,8% -0,9% -1,3% -1,6% -1,4% -0,3% 7,4%

Renda do 2007 2,0% 3,5% 4,2% 4,8% 5,6% 6,3% 7,4% 10,2% 14,5% 41,6%
aluguel, 2016 2,0% 3,6% 4,8% 5,7% 6,3% 6,9% 8,4% 10,1% 13,7% 38,6%
domiciliar p.p. 0,0% 0,1% 0,6% 0,9% 0,7% 0,7% 1,0% -0,1% -0,8% -3,1%

Renda de 2007 0,8% 1,1% 1,4% 2,0% 2,7% 3,5% 4,8% 6,7% 11,2% 65,8%
ativos, 2016 0,8% 0,9% 1,2% 1,6% 2,1% 3,1% 4,6% 6,6% 11,2% 67,9%
domiciliar p.p. 0,0% -0,1% -0,3% -0,4% -0,6% -0,4% -0,2% -0,1% 0,1% 2,1%
2007 1,2% 1,6% 2,1% 2,8% 3,7% 4,8% 6,4% 8,4% 13,4% 55,6%
Renda de juros,
2016 1,2% 1,5% 1,9% 2,4% 3,2% 4,5% 6,5% 9,2% 14,5% 55,0%
domiciliar
p.p. 0,1% -0,1% -0,2% -0,4% -0,5% -0,2% 0,1% 0,8% 1,2% -0,6%

Renda de 2007 0,2% 0,2% 0,3% 0,6% 1,0% 1,5% 2,1% 3,8% 7,6% 82,8%
dividendos, 2016 0,1% 0,2% 0,2% 0,4% 0,7% 1,2% 2,0% 3,2% 6,9% 84,9%
domiciliar p.p. -0,1% 0,0% -0,1% -0,1% -0,3% -0,2% -0,1% -0,6% -0,7% 2,2%

Outras 2007 6,9% 12,2% 14,2% 14,8% 13,1% 10,6% 8,2% 7,0% 6,2% 6,7%
transferências, 2016 6,9% 11,0% 12,5% 13,9% 13,9% 11,4% 9,1% 7,3% 6,9% 7,1%
domiciliar p.p. -0,1% -1,1% -1,8% -0,9% 0,7% 0,8% 1,0% 0,3% 0,7% 0,4%
2007 6,3% 12,4% 14,5% 15,2% 13,4% 10,6% 8,1% 6,9% 6,0% 6,5%
Benefícios
2016 6,3% 11,2% 12,7% 14,2% 14,1% 11,5% 9,2% 7,1% 6,7% 6,9%
governamentais
p.p. 0,0% -1,3% -1,8% -1,0% 0,7% 0,9% 1,1% 0,3% 0,7% 0,4%
2007 9,8% 9,6% 9,8% 9,9% 10,1% 9,9% 10,0% 10,0% 10,3% 10,5%
Negócios 2016 9,0% 9,1% 9,3% 9,8% 10,1% 10,3% 10,5% 10,5% 10,6% 10,9%
p.p. -0,8% -0,5% -0,5% -0,2% 0,0% 0,4% 0,4% 0,4% 0,3% 0,4%
2007 21,8% 6,4% 7,5% 7,4% 7,4% 9,0% 9,5% 9,9% 10,2% 10,8%
A.S.F.L.1
2016 21,7% 8,5% 5,7% 7,4% 7,8% 7,7% 7,6% 11,6% 11,0% 11,0%
(líquido)
p.p. -0,1% 2,2% -1,9% -0,1% 0,4% -1,3% -2,0% 1,7% 0,8% 0,2%
Menos: 2007 1,6% 2,7% 3,5% 4,6% 6,4% 8,4% 11,1% 14,0% 18,6% 29,2%
Contribuições,
2016 1,4% 2,4% 3,3% 4,1% 5,5% 7,9% 10,8% 14,2% 19,2% 31,2%
seguridade
social p.p. -0,3% -0,3% -0,3% -0,5% -0,8% -0,5% -0,3% 0,2% 0,6% 2,0%

(*). Em cada ano, a somatória das informações para cada agrupamento de percentil equivale a 100%, ou seja, o total da renda em cada
categoria de renda.
(1.) Associações sem fins lucrativos
Elaboração própria a partir de Bureau of Economic Analysis BEA

Por fim, uma análise dos 80-100% mais bem posicionados na estrutura de renda
dos Estados Unidos. Para o segmento de 80-90%, é possível analisar que: houve um
aumento da participação na renda pessoal, aumento na participação da renda domiciliar e
195

aumento na participação da compensação de trabalhadores. Assim, nota-se que este


estrato já apresenta um aumento na participação na renda, especialmente da compensação
dos trabalhadores, mostrando que os estratos mais bem posicionados na estrutura de renda
estão conseguindo – ao menos nos últimos anos – se apropriar de uma maior parcela da
renda nacional. É um primeiro indício de que os mais ricos, após a crise de 2008, estão
abocanhando de uma parcela cada vez maior da renda nacional.
Sobre os 90-100% mais ricos: foi constatado, para os mais ricos, um aumento na
participação na renda pessoal, na renda domiciliar, um aumento significativo na
participação da compensação aos trabalhadores (2,0 p.p.), um aumento vigoroso na
participação da renda do proprietário (7,4 p.p.), aumento na participação na renda
proveniente de ativos (2,1 p.p.) e um aumento notável na participação na renda oriunda
de dividendos (2,2 p.p.). Tais números, que mostram o aumento na participação dos mais
ricos em diversas fontes de renda, provam que os segmentos mais privilegiados na
estrutura de renda estão mais bem posicionados para se apropriar da renda nacional. Em
suma, trata-se de compreender que, desde a crise de 2008, os mais ricos têm abocanhado
de uma fatia da vez maior da renda nacional, o que configura um indicativo de que, nos
anos recentes, a concentração de renda tem se agravado aceleradamente nos E.U.A.
196

Gráfico 15 – Evolução da compensação dos trabalhadores e a produtividade nos Estados


Unidos: 1948-2020

Fonte: retirado de Economic Policy Institute, atualizado de BIVENS (2014)183

Para compreender a situação em que os E.U.A. se encontram atualmente, basta


olhar para o crescente hiato que existe entre a evolução da compensação dos trabalhadores
e a evolução da produtividade da economia. O Economic Policy Institute comenta que a
maioria dos americanos acredita que a “alta da maré” elevará todos os barcos ao mesmo
tempo184. Essa crença, vale salientar, foi em boa medida verdadeira, ao menos durante as
décadas que se seguiram após a Segunda Guerra Mundial. Entre 1948-1979, a
produtividade aumentou 108,1%, enquanto a compensação dos trabalhadores cresceu
93,2%. Todavia, entre 1979-2018, a produtividade aumentou 69,6%, mas a compensação
cresceu apenas 11,6%. É o retrato dos Estados Unidos na era da globalização.

183
BIVENS, J; GOULD, E; LAWRENCE, M; SHIERHOLZ, H. Raising America’s Pay. 2014.
184
No inglês: “Most americans believe that a rising tide should lift all boats – that as the economy expands,
everybody should reap the rewards” ver mais em Economic Policy Institure. The Productivity Gap. 2019.
Disponível em https://www.epi.org/productivity-pay-
gap/#:~:text=From%201979%20to%202018%2C%20net,(after%20adjusting%20for%20inflation).
Acessado em 02/02/2021
197

Argumento em síntese

Estados Unidos é um país rico. Isso é um fato incontestável, revelado pela


comparação internacional da renda per capita dos Estados Unidos e os outros países da
OCDE. A renda nacional bruta dos E.U.A está num patamar mais elevado do que os
outros países da OCDE. Ou seja, os Estados Unidos são um país com muito recursos
financeiros. Não se trata, portanto, de um país subdesenvolvido, que carece de recursos
materiais, ou que sofre com a penúria de recursos o seu planejamento econômico.
Contudo, após uma ampla investigação da desigualdade nos Estados Unidos, concluiu-se
que essa riqueza está mal distribuída entre os cidadãos norte-americanos.
Num primeiro exercício de investigação da desigualdade entre os países da
OCDE, foram empregadas formas diversas de mensuração da desigualdade: índice de
Gini; a razão entre a renda média e o limite superior do primeiro decil; a razão entre o
limite superior do nono decil e a renda média; a razão entre o limite superior do nono
decil e o limite superior do primeiro decil; o índice palma; e, por fim, a razão entre a renda
média dos 20% mais ricos e dos 20% mais pobres. Todas essas medidas representam
modos diferentes de captar a desigualdade de renda na sociedade, e, cada uma delas, traz
uma metodologia particular, que lhe permite observar a desigualdade por um ângulo
diferente. Em todos os casos, foi constatado que os Estados Unidos são um dos países
mais desiguais da OCDE. Na maioria dos casos analisados para a desigualdade de renda
entre os países, os Estados Unidos apresentaram índices melhores do que a África do Sul,
Chile, México e Bulgária, por exemplo. Todos os outros países da OCDE, especialmente
os mais desenvolvidos, como a Islândia, a Bélgica, a Finlândia e a Dinamarca, por
exemplo, possuem índices de desigualdade melhores do que os Estados Unidos. Restou
claro, após esse amplo exercício de verificação da desigualdade de renda entre os países
da OCDE, que os Estados Unidos são um país rico, porém muito desigual. Além disso,
foi constatado que a capacidade de distribuição primária dos rendimentos nos E.U.A. é
muito limitada, ou seja, os efeitos tributários e as transferências de renda não melhoram
a posição dos Estados Unidos em comparação aos outros países ricos.
Após esse primeiro passo, focado na desigualdade em perspectiva internacional,
as etapas seguintes deste capítulo estiveram direcionadas a uma investigação da
desigualdade norte-americana em âmbito interno. Desde 1980, ademais, os rendimentos
familiares estão cada vez mais concentrados entre os estratos mais privilegiados. Ou seja,
ao longo das últimas décadas, a desigualdade social tem se agravado nos Estados Unidos.
198

Os rendimentos têm se concentrado naquelas famílias que estão em posição privilegiada


na estrutura social. Trata-se de um problema que se arrasta há décadas, e um elemento
que corroborou para colocar um fim no “sonho americano”.
Foi observado, para além da piora do índice de Gini domiciliar e familiar, que a
distribuição da riqueza (dos ativos e dos passivos) também apresenta sinais de
agravamento nas últimas décadas. Desde 1990, há um processo gradual de concentração
da riqueza em torno do 1% mais ricos dos E.U.A. Trata-se de compreender que os
segmentos mais ricos estão em posição mais privilegiada para abocanhar os frutos do
crescimento econômico norte-americano. Enquanto isso, os estratos intermediários e os
estratos mais pobres sofrem, progressivamente, com um encolhimento de sua parcela na
riqueza total. Há, portanto, ganhadores e perdedores nessa história: os mais ricos, durante
as últimas décadas, tem sido os ganhadores, o resto da população, os perdedores. Numa
nação em que somente os 10% mais ricos da população conseguem melhorar o seu padrão
de vida ao longo do tempo, certamente não há “sonho americano”.
Os dados sobre a desigualdade patrimonial mostram informações relevantes sobre
como os ricos mantém a sua riqueza. Foi observado que, entre os estratos superiores, há
uma preferência por manter a riqueza em ações e aplicações em fundos de investimento,
em detrimento de outras formas de riqueza, como a propriedade imobiliária, por exemplo.
É justamente isso que os dados mostram: desde 1990, há um notável crescimento da
riqueza acionária no estoque de ativos dos mais ricos. Esse fato prova que, a despeito da
“pulverização” da propriedade empresarial proporcionada pelo mercado acionário, a
posse desses ativos, ou seja, o controle dessa riqueza, é muito concentrado. Os mais ricos
detêm não somente a maior parte das ações e aplicações em fundos de investimento, mas
também mantém grande parte dos negócios privados, não transacionados no mercado em
forma de ações. Em outras palavras: o poderio econômico nos Estados Unidos está cada
vez mais nas mãos de algumas poucas pessoas.
Uma investigação detalhada da distribuição da renda pessoal e domiciliar após a
crise financeira de 2008, ademais, mostra qual é o panorama geral dos anos recentes: os
mais ricos estão abocanhando a maior parte dos frutos econômicos gerados pela economia
dos Estados Unidos. Conclui-se, nesse sentido, que a renda nacional tem sido repartida
de modo a, cada vez mais, favorecer os estratos mais privilegiados da estrutura social.
Desde a crise de 2008, os mais pobres têm visto a sua parcela da renda nacional diminuir;
desde a crise de 2008, os estratos médios têm visto a sua fatia da renda nacional cair; os
estratos mais ricos, por outro lado, têm visto, desde a crise de 2008, a sua parcela da renda
199

nacional aumentar. Conforme os dados recolhidos neste capítulo, é justo afirmar: o


“sonho americano” ainda existe nos Estados Unidos, mas ele existe somente para os mais
ricos, especialmente para o 1% mais privilegiado. Não há evidência empírica que dê
suporte a ideia de que a população norte-americana vive, atualmente, algo que se possa
chamar de “sonho americano”.
200

Capítulo 06 – A nova pobreza norte-americana

Introdução

Em 1964, o Presidente Lyndon Baines Johnson declarou guerra à pobreza. Desde


então, houve um crescimento significativo do interesse em mensurar quantos norte-
americanos estavam na condição de pobreza, e como o número de pobres varia de ano
para ano. Foi somente no ano seguinte, contudo, que o Office of Economic Opportunity
adotou uma definição de pobreza baseada nos trabalhos de Mollie Orshansky, uma
economista que trabalhava para a Social Security Administration. A princípio, confessou
Orshansly, seus trabalhos não tinham como objetivo definir um limite para a pobreza,
mas, sim, medir os diferenciais de oportunidade entre os diferentes grupos sociais e as
diversas regiões dos E.U.A. Sua versão inicial dos limiares da pobreza continha apenas
dois limites: um para as famílias com uma criança, e outro, para indivíduos que não
constituíam uma família. 185
Logo em 1965, pesquisadores da Social Security Administration perceberam que
os níveis de subsistência tendem a aumentar com o tempo, na medida em que os
rendimentos reais crescem, criando problemas para estabelecer um valor estático para
servir como limiar da pobreza. Ao final de 1967, pesquisadores da mesma instituição
também observaram que os preços gerais estavam aumentando mais rapidamente do que
os preços dos alimentos, e, como este último era o valor utilizado para atualizar os limites
da pobreza, haveria uma defasagem de custos e preços que não estava sendo embutida no
cálculo dos limites da pobreza. Foi constatado que, entre 1963 e 1964, e novamente entre
1966 e 1967, não houve aumento no preço dos alimentos, fazendo com que os limites da
pobreza não fossem modificados nesses anos. Entretanto, a inflação geral, conforme
mensurada pelo Consumer Price Index (CPI), estava crescendo. Ou seja, era preciso
realizar uma constante atualização dos limiares da pobreza, conforme os diversos custos
de vida. Foi então que, em 1967, após verificações de que existem custos importantes que
não estavam sendo considerados para o cálculo dos limiares da pobreza, optou-se por
indexar o recorte de pobreza ao índice de preços Consumer Price Index (CPI). 186

185
FISHER, G. M. The development and history of the Poverty Thresholds. In: Social Security Bulletin. Vol.
55. n. 4. 1992; ver também The History of the Official Poverty Measure. In: United States Census Bureau.
Disponível em https://www.census.gov/topics/income-poverty/poverty/about/history-of-the-poverty-
measure.html. Acessado em 04/05/1990.
186
FISHER, G. M. Op. cit. 1992.
201

Desde então, foi realizado um esforço, em diversas frentes e instituições, para


aprimorar as formas de mensuração da pobreza nos Estados Unidos. Em 1978, por
exemplo, o Bureau of Labor Statistics (BLS) introduziu uma nova forma de mensurar a
variação dos preços nos E.U.A, o Consumer Price Index for all Urban Consumers (CPI-
U), mais preciso para a medição da inflação para a população urbana. A partir de 1979, o
Census Bureau tomou a decisão de considerar o CPI-U para a atualização do valor que
representa o limiar da pobreza. Ademais, em 1981 foram realizadas três atualizações: a
primeira, eliminou os diferentes limites da pobreza que existiam para a área rural e para
a área urbana (passou-se a adotar o limite de pobreza “urbano” para todas as famílias); a
segunda atualização, por sua vez, eliminou a distinção que havia para os limites da
pobreza entre famílias chefiadas por homens e famílias chefiadas por mulheres; por fim,
elevou-se o limite de pessoas num família para “nove ou mais pessoas”, sendo que antes
o limite considerado era de somente “sete ou mais pessoas”. 187
Ao mesmo tempo em que cresceu o interesse pela mensuração do número e
parcela de pobres nos Estados Unidos, travava-se uma batalha ferrenha contra o fenômeno
da pobreza. A guerra incondicional de Lyndon Johnson à pobreza envolveu uma série de
iniciativas propostas em sua administração, com a anuência do congresso, e
implementadas pelas agências públicas. Nas palavras do ex-presidente americano, o
objetivo daquelas políticas era mais ambicioso do que um simples alívio da pobreza. O
conjunto de iniciativas que integrava a “guerra pobreza” mirava em “curá-la”, bem como
em preveni-la. Entre as políticas desenvolvidas, merecem destaque: a “Social Security
Amendment“ de 1965, que criou o Medicare e o Medicaid, expandindo também os
benefícios da seguridade social para os aposentados, viúvas e aos portadores de
necessidades especiais; o “Food Stamp Act”, de 1964, que estabeleceu o “Job Corps” e
o programa VISTA, ambos voltados ao treinamento da força de trabalho; e, por fim, o
“Elementary and Secondary Act”, que implementou políticas de subsídio em escolas
frequentadas por estudantes de baixa renda. 188
Até então, as atrocidades da pobreza na era da afluência permaneciam ocultas, ao
menos no grande debate público. Um dos pontapés para mudar essa situação, ao menos
no que diz respeito à invisibilidade da pobreza nos Estados Unidos, vale acrescentar, foi

187
FISHER, G. M. Op. cit. 1992.
188
MATTHEWS, D. Everything you need to know about the war on poverty. Washington Post. 08 de
janeiro, 2014. Recuperado em
https://www.washingtonpost.com/news/wonk/wp/2014/01/08/everything-you-need-to-know-about-
the-war-on-poverty/. Acessado em 11/09/2020.
202

dado pelo veículo de comunicação “New Yorker”, no artigo “Our Invisible Poor”. O texto
mencionado consistia numa crítica do livro de Michael Harrington: “The Other America”,
publicado em 1962. O artigo e o livro corroboraram juntos para jogar luz sobre um fato
incômodo da realidade norte-americana em meados do século XX: os pobres eram os
mais afligidos por doenças e diversos outros males de saúde, mas eram justamente eles
os que não tinham plano de saúde, ou dinheiro para evitá-los. Nos Estados Unidos, a
classe média afluente convivia com uma pobreza persistente, cada vez mais visível189.
Nos anos 2000, décadas após dos eventos supramencionados, a pobreza nos Estados
Unidos tem crescido, e a pobreza profunda está se tornando cada vez mais grave, como
se verá nas próximas páginas.

Tabela 48 – Evolução da quantidade e proporção de pessoas abaixo de 50% do nível da


pobreza, E.U.A: 1980:2018*
1980-2000 2000-2018 1980-2018
Ano 1980 1990 2000 2010 2018
% a.a. % a.a. % a.a.
n. (Pop. total) 225.027 248.644 278.944 306.130 323.847 24,0 1,1% 16,1 0,8% 43,9 1,0%
n. pessoas abaixo de
50% do nível de 9.804 12.914 12.592 20.541 17.274 28,4 1,3% 37,2 1,8% 76,2 1,5%
pobreza
(%) 4,4 5,2 4,5 6,7 5,3 0,11 n/a 0,81 n/a 0,91 n/a

(*): Números absolutos em milhares para o mês de março do ano seguinte .


(1). Números em pontos percentuais
Elaboração própria a partir de: U.S Census

A evolução da pobreza profunda nos E.U.A, ou, em outras palavras, a quantidade


e a parcela daqueles pobres abaixo de 50% da linha da pobreza, apresenta uma dimensão
preocupante da estrutura social norte-americana. Entre 1980-2000, ocorreu um
crescimento de somente 0,1 p.p. da parcela de pobres nessa condição. Contudo, a
quantidade de pobres abaixo de 50% da linha da pobreza aumentou 28,4%, um número
expressivo. Entre 2000-2018, a situação se modifica, para pior: há um aumento de 0,8
p.p. dos pobres nessa condição, e, ao mesmo tempo, um crescimento de 32,2% do número
de pessoas que se encaixa nesse critério. Os anos recentes, portanto, trouxeram uma piora
substantiva da pobreza “profunda’ nos Estados Unidos.
No acumulado total, entre 1980-2018, ocorreu um aumento de 0,9 p.p. da parcela
de pobres nessa situação, e, no total, o aumento foi de 76,2%. Esses números demonstram
que o período neoliberal representou trouxe uma piora substancial para aqueles que já

189
LEPORE, J. How a New Yorker article launched the first shot in the war against poverty. Smithsonian
Magazine. Setembro de 2012. Recuperado em https://www.smithsonianmag.com/history/how-a-new-
yorker-article-launched-the-first-shot-in-the-war-against-poverty-17469990. Acessado em 11/09/2020.
203

estavam em meio à precariedade financeira durante todos esses anos. Em 2018, mostram
os números, havia pouco mais que 17 milhões de norte-americanos nessa situação. Não
há, para os pobres nos Estados Unidos, algo que possa ser chamado de “sonho
americano”.

Gráfico 16 - A Evolução da Pobreza nos Estados Unidos (atual e simulada): 1959-2009

Fonte: Economic Policy Institute EPI (2013)190

Os dados coletados e disponibilizados pelo Economic Policy Institute demonstram


que, a partir de meados da década de 1960, a pobreza caia de modo consistente nos
Estados Unidos. De pouco mais de 20% de pobres, ainda na década de 1960, os Estados
Unidos chegaram aos anos de 1980 com uma diminuição dramática da taxa de pobreza,
sinal claro de que a política iniciada por Johnson produziu frutos positivos para a
sociedade americana. Entretanto, como se pode observar no gráfico acima, o processo de
diminuição da taxa de pobreza nos E.U.A. foi interrompido ao final da década de 1970.
Ainda em 1967, o Congresso americano transferiu o controle de alguns programas
sociais para as autoridades locais, esvaziando parte do papel federal nesses projetos. No
ano seguinte, em 1968, Johnson desistiu de concorrer à presidência, em parte devido aos
problemas com a guerra do Vietnã. Após a posse de Richard Nixon, mais programas que
haviam sido elaborados e estavam sob responsabilidade do OEO (“Office of Economic
Opportunity”) foram transferidos para outras agências federais. Progressivamente, o OEO

190
Ver mais em GOULD, E; MISHEL, L; SHIERHOLZ, H. Already More Than a lost decade – Income and
poverty trends continue to paint a bleak Picture. Economic Policy Institute. 2013. Disponível em
https://www.epi.org/publication/lost-decade-income-poverty-trends-continue/. Acessado em
07/02/2021.
204

foi perdendo suas funções. Dentro do que se pode chamar de “saber convencional”, a
guerra à pobreza e as missões do OEO teriam falhado. Não se sabe exatamente como que
essa crença foi incorporada ao “saber convencional”, uma vez que a taxa de pobreza,
durante o mandato de Johnson, caiu aproximadamente 30% (6,2 pontos percentuais). Em
geral. Os presidentes são responsabilizados pelo que acontece em sua administração. Não
parece ter sido o que aconteceu com Johnson.
Mais de 50 anos depois das palavras do ex-presidente americano Lyndon Johnson:
“Nosso objetivo não é somente aliviar os sintomas da pobreza, mas curá-la, e, sobretudo,
preveni-la”191, o New York Times publicou um artigo relatando a dificuldade de milhares
de norte-americanos em escapar da insuficiência alimentar, mesmo com o apoio
financeiro dos diversos programas de assistência nutricional e suporte comunitário. O
trabalho fotográfico realizado por Ann Kenneally explora como as forças econômicas
podem destruir a vida das pessoas, por mais de uma geração. Pela natureza de seus
trabalhos anteriores, a precariedade financeira não era algo exatamente novo para a
fotógrafa. Contudo, ela se espantou com o tamanho das filas concentradas nos “bancos
de alimentos”, locais que distribuem comida para aqueles que se encontram em momentos
de necessidade192. A insegurança alimentar, aliás, afeta desproporcionalmente a
população negra e as famílias hispânicas dos Estados Unidos. Antes mesmo da pandemia
covid-19, 56% dos idosos que residem no Mississipi já sofriam para conseguir
quantidades adequadas de comida. Atualmente, 1 em cada 4 pessoas que mora no
Mississipi sofre com a insegurança alimentar. Desemprego, baixos salários, preços
elevados dos itens alimentares, custos médicos elevados e o transporte público com baixa
confiabilidade, por exemplo, estão entre as causas da insegurança alimentar, O artigo do
Times revela, grosso modo, a fragilidade da vida americana, algo que foi exacerbado e
exposto pela pandemia de 2020. Escancarou-se nessa crise quantos americanos estão
vivendo tão próximos do “limite”, e o quão vulneráveis as famílias norte-americanas estão
com relação ao seu modo de vida. 193

191
Palavras do ex-presidente Lyndon Baines Johnson, em seu discurso inaugural de 1964. Ver mais em
https://www.americanrhetoric.com/speeches/lbj1964stateoftheunion.htm. Acessado em 11/09/2020.
192
LEBLANC, A. N. How hunger persists in a rich country like America. New York Times Magazine. 02 de
setembro, 2020. Recuperado em https://www.nytimes.com/2020/09/02/magazine/food-security-
united-states.html. Acessado em 15/09/2020.
193
KENNEALY, B. A. America at hunger’s edge. New York Times Magazine. 02 de setembro, 2020.
Recuperado em https://www.nytimes.com/interactive/2020/09/02/magazine/food-insecurity-hunger-
us.html. Acessado em 15/09/2020.
205

O aprofundamento da pobreza nos E.U.A é outro problema que tem se destacado


nas últimas décadas, como retratado pela revista britânica BBC, que demonstrou o grave
problema que a privação de moradia traz aos pobres norte-americanos. Ainda que o
crescimento econômico esteja positivo e o mercado de trabalho esteja gerando postos de
trabalho, a bonança não chegou para todos os cidadãos. De um lado, o acirramento da
desigualdade social tem progressivamente diminuindo a fatia de renda que é destinada
aos pobres; por outro lado, o encarecimento da moradia – consequência direta da
supervalorização de determinadas áreas da cidade – são fatores que dificultam a
acessibilidade à moradia nos E.U.A. Segundo a reportagem, o crescimento do número de
sem teto nos Estados Unidos, inclusive em regiões da costa oeste, perto de áreas
consideradas prósperas e modernas, é uma “bomba-relógio”. Los Angeles, cidade
marcada pelo turismo, é citada como um dos lugares que possui mais de 50.000
desabrigados, e Nova Iorque, por seu turno, agrega 75.000 pessoas que não possuem
moradia. Trata-se de moradores de rua, que dormem sobre papelão, no chão, sob pontes
ou abrigam-se em meio aos parques públicos, configurando um sério problema para a
sociedade norte-americana. De acordo com a reportagem, em 2017 seriam 553.742 o
número de pessoas que estariam nesse estado: sem condições de alugar uma moradia
decente e sem lugar para se abrigarem. Não há perspectivas para que a situação melhore,
adiciona o artigo da BBC. O sonho americano está se tornando uma ilusão. 194
Sobre a metodologia empregada no cálculo da pobreza utilizado neste trabalho: o
U.S. Census dedica uma atenção especial para a mensuração da quantidade de pobres nos
Estados Unidos, tanto em números absolutos, como relativos. Sua metodologia para a
contabilização da população pobre obedece ao seguinte critério: faz-se uso de “limiares
de pobreza195”, que configuram uma quantidade mínima de dólares que será a linha de
corte para a definição da pobreza familiar. Assim, todas as famílias que estiverem abaixo
dessa quantia mínima de dólares serão consideradas pobres nos Estados Unidos. O que
deve ser destacado dessa metodologia, contudo, é que ela se modifica conforme a unidade
de análise: os limiares da pobreza variam conforme a quantidade de adultos e crianças da
família. Trata-se de uma maneira eficaz de mensurar a pobreza considerando a variação
do número de pessoas na família, com maior precisão do padrão de consumo de famílias
compostas por muitas ou poucas pessoas. Grosso modo, a metodologia de cálculo da

194
BBC. O aumento do número de sem-teto nos E.U.A é “bomba-relógio”. 13 de outubro de 2018.
Acessado em 04/11/2019. Disponível em https://www.bbc.com/portuguese/geral-45809130
195
Tradução livre do termo original: “poverty thresholds”
206

pobreza definida pelo U.S. Census estabelece que, se a renda familiar antes da dedução
de impostos estiver situada abaixo de um determinado limite - o limiar considerado a
linha de corte da pobreza (tendo em vista a quantidade de adultos e crianças na família) -
essa família será considerada pobre. Dado que esses limites variam conforme o tamanho
da família e ao longo do tempo (há de se considerar os efeitos inflacionários 196), trata-se
de um modo interessante de comparação da quantidade de pobres, tanto entre diferentes
grupos sociais, bem como entre diferentes períodos. Os limiares de pobreza, portanto,
variam em função em função da quantidade de pessoas na família e conforme os efeitos
inflacionários ao longo do tempo. Entretanto, não há variação conforme a localização
geográfica considerada. Ou seja, os limiares de pobreza definidos pelo U.S. Census são
os mesmos para qualquer unidade da federação.197
Na renda familiar considerada para a mensuração da pobreza, conforme a
metodologia definida pelo United States Census Bureau, entram: rendimentos do
trabalho, seguro-desemprego, transferência monetárias referentes à assistência pública,
pagamento aos veteranos de guerra, pensão ou aposentadoria, dividendos, aluguéis e
outras formas de remuneração, contanto que monetárias. Ou seja, todo tipo de renda será,
grosso modo, contabilizado para a mensuração da pobreza familiar ou individual.
Contudo, assistências que envolvam algum tipo de compensação não diretamente
monetária, como food-stamps, Medicaid ou moradia pública, por exemplo, serão
desconsideradas para o cálculo da pobreza. Além disso, o U.S. Census não mede a
pobreza em instituições como prisões, cadeias ou casa de repouso; dormitórios estudantis
de faculdades, instituições militares e tampouco em situações de moradia não
“convencionais” (que não configuram casas, apartamentos ou abrigos).

196
Para considerar a variação de preços, o U.S Census utiliza o Consumer Price Index (CPI-U), discutindo
do capítulo 03 da presente tese.
197
LEE, A. U.S. Poverty Thresholds and Poverty Guidelines: What’s the Difference? In: Population
Reference Bureau (PRB). Disponível em: https://www.prb.org/insight/u-s-poverty-thresholds-and-
poverty-guidelines-whats-the-difference/. Acessado em 04/05/2020.; ver também How the Census
Bureau Measures Poverty. In. United States Census Bureau. Disponível em
https://www.census.gov/topics/income-poverty/poverty/about.html. Acessado em 04/05/2020.
207

Tabela 49 - Limiares da pobreza conforme o U.S. Census em 2018*


Número de crianças na família
Tamanho da família Limiar da
0 1 2 3 4 5 6 7 8 ou mais
pobreza
Uma pessoa (sem família) 12.784
Abaixo de 65 anos 13.064 13.064
Acima de 65 anos 12.043 12.043
Duas pessoas 16.247
Prop. da residência -
16.889 16.815 17.308
abaixo de 65 anos
Prop. da residência + de 65
15.193 15.178 17.242
anos
Três pessoas 19.985 19.642 20.212 20.231
Quatro pessoas 25.701 25.900 26.324 25.465 25.554
Cinco pessoas 30.459 31.234 31.689 30.718 29.967 29.509
Seis pessoas 34.533 35.925 36.068 35.324 34.612 33.553 32.925
Sete pessoas 39.194 41.336 41.594 40.705 40.085 38.929 37.581 36.102
Oito pessoas 43.602 46.231 46.640 45.800 45.064 44.021 42.696 41.317 40.967
Nove ou mais pessoas 51.393 55.613 55.883 55.140 54.516 53.491 52.082 50.807 50.491 48.546

(*). Valores em US$ de 2018.


Fonte: elaboração própria a partir de U.S. Census

A figura acima traz um exemplo de funcionam os limiares da pobreza conforme


as diferentes características de uma família. Para uma pessoa somente, por exemplo, o
limiar de pobreza estava, em 2018, na média de US$ 12.784, sendo que os valores diferem
conforme a idade da pessoa: acima de 65 anos ou abaixo de 65 anos. Para famílias com
duas ou mais pessoas, o limiar da pobreza estava, na média, em US$ 16.247, sendo que
há diferenças conforme a idade do proprietário da residência, bem como para a quantidade
de crianças na família. Pode-se notar, ademais, valores diferentes também para famílias
com três, quatro ou mais pessoas, conforme a quantidade de crianças na família. Os
limiares da pobreza definidos pelo U.S Census, portanto, consideram as diferentes
características familiares, com o objetivo de captar de forma mais precisa o fenômeno da
pobreza nos Estados Unidos. Esses valores supramencionados, pelos diferentes anos, irão
variar, conforme já mencionado, pelo Consumer Price Index (CPI-U), que mede a
inflação nos E.U.A. Ao todo, cumpre salientar, o U.S. Census determina 48 possibilidades
diferentes para os valores que configura o limiar da pobreza. Todas essas possibilidades,
todavia, refletem em alguma medida as necessidades básicas familiares, mas trata-se de
valores criados com propósitos estatísticos, com fins comparativos e de análise geral da
população, e não podem ser definidos como uma descrição completa e detalhada do que
uma família precisa para viver decentemente nos Estados Unidos. 198
Neste capítulo, portanto, será apresentada uma breve investigação da evolução da
quantidade de pobres e da parcela de pobreza nos Estados Unidos. Este é um esforço
relevante para compreender os retrocessos da estrutura social norte-americana durante as

198
How the Census Bureau Measures Poverty. In. United States Census Bureau. Disponível em
https://www.census.gov/topics/income-poverty/poverty/about.html. Acessado em 04/05/2020.
208

últimas décadas. Trata-se de descrever e mensurar este fenômeno, a pobreza, que costuma
ser um sintoma observado mormente em países subdesenvolvidos, que carecem dos
recursos, da riqueza, do desenvolvimento tecnológico e das capacidades produtivas que
podem ser observados nos Estados Unidos. Nesse sentido, este capítulo cumpre o papel
fundamental de demonstrar como um país rico como os E.U.A. têm sido capazes gerar
tantos pobres, mesmo sendo conhecido como a “terra das oportunidades”.

6.1. A pobreza nos Estados Unidos, em perspectiva internacional

Na primeira parte do capítulo, será realizada uma investigação da taxa de pobreza


numa comparação internacional. O esforço realizado neste item é voltado a demonstrar a
gravidade com que a pobreza afeta a população norte-americana, em comparação com os
outros países da OCDE.
Cumpre salientar, antes de prosseguir, que a taxa de pobreza aqui considerada
difere da taxa de pobreza definida pelo U.S Census. A taxa de pobreza estipulada pela
OCDE consiste na relação de pessoas (numa determinada faixa etária) cuja renda está
num patamar mais baixo do que a metade da renda mediana domiciliar para a população
total. Trata-se, nesse sentido, não de uma taxa de pobreza que considera um limiar fixo
para a pobreza, mas, sim, um limite “móvel”, conforme a estrutura de renda dos vários
países da OCDE aqui analisados.
Quando se analisa a taxa de pobreza por faixas etárias entre os diferentes países
da OCDE, nota-se que os Estados Unidos apresentam uma das piores taxas de pobreza
para os países analisados. Para todos os habitantes, por exemplo, a taxa de pobreza dos
E.U.A está situada num patamar pior do que a países como a Turquia e o México. Para
os jovens, os E.U.A apresenta uma taxa de pobreza pior do que a Bulgária e a Espanha,
vale ressaltar; para as pessoas de meia idade, até o Chile possui uma taxa de pobreza
melhor do que os Estados Unidos; e por fim, para os idosos, até a África do Sul traz uma
taxa de pobreza num patamar melhor do que os Estados Unidos. Em síntese, tanto quando
se considera a taxa de pobreza da população, bem como por um recorte de idade, os
Estados Unidos se destaca como um país com parcelas relativamente elevadas de pobres.
Em vez de disputar as primeiras posições do ranking demonstrado, ao lado de países como
a Islândia, a Dinamarca, a Finlândia ou a França, a realidade dos Estados Unidos é outra.
Parece mais adequado comparar as taxas de pobreza dos E.U.A com a África do Sul,
Chile, Turquia e Romênia.
209

Tabela 50 – A taxa de pobreza, por faixa etária, países da OCDE e outros


selecionados*: 2015-2019.
Taxa de pobreza, total. 0-17 anos 18-65 anos 66 + anos
ZAF 26,6% ZAF 32,0% ZAF 23,9% KOR 43,8%
CRI 19,9% CRI 26,8% CRI 16,4% EST 37,2%
ROU 17,9% TUR 25,3% ROU 15,9% LVA 35,3%
USA 17,8% ROU 24,7% USA 15,4% LTU 28,2%
KOR 17,4% ISR 22,2% ESP 14,7% CRI 24,8%
LTU 17,3% CHL 21,5% CHL 14,5% MEX 24,7%
TUR 17,2% USA 21,2% ITA 14,0% AUS 23,7%
ISR 16,9% BGR 20,2% LTU 13,8% BGR 23,3%
LVA 16,6% MEX 19,8% MEX 13,8% USA 23,1%
MEX 16,6% RUS 19,6% JPN 13,6% ZAF 20,7%
CHL 16,5% ESP 19,6% GRC 13,5% ISR 20,6%
BGR 16,2% ITA 18,7% TUR 13,5% JPN 19,6%
EST 15,8% LTU 18,4% ISR 13,2% CHE 19,5%
JPN 15,7% GRC 15,9% BGR 13,0% ROU 18,5%
ESP 14,8% KOR 14,5% KOR 12,7% CHL 17,6%
ITA 13,9% JPN 13,9% LVA 12,6% TUR 17,0%
RUS 12,7% LUX 13,9% CAN 12,2% GBR 15,3%
GRC 12,6% SVK 13,9% LUX 11,9% RUS 14,1%
AUS 12,4% AUS 13,3% EST 11,6% SVN 13,2%
LUX 12,2% BEL 13,2% GBR 10,6% CAN 12,2%
CAN 12,1% GBR 12,9% PRT 10,5% IRL 11,4%
GBR 11,9% PRT 12,2% RUS 10,5% SWE 11,3%
PRT 10,7% CAN 11,6% DEU 10,2% POL 11,2%
DEU 10,4% AUT 11,5% POL 10,0% LUX 10,9%
BEL 10,2% DEU 11,3% BEL 9,7% DEU 10,2%
POL 9,6% FRA 11,2% AUS 9,6% ESP 10,2%
AUT 9,4% LVA 11,1% NOR 9,5% PRT 10,1%
SWE 9,3% NLD 10,9% AUT 8,8% AUT 9,7%
CHE 9,1% HUN 9,9% NLD 8,8% ITA 9,7%
IRL 9,0% EST 9,8% IRL 8,7% BEL 8,8%
SVK 8,5% CHE 9,5% SWE 8,6% CZE 7,4%
SVN 8,5% SWE 9,3% HUN 8,4% GRC 7,2%
NOR 8,4% IRL 8,7% FRA 8,3% FIN 6,3%
NLD 8,3% NOR 8,0% SVK 7,8% HUN 4,9%
FRA 8,1% CZE 6,8% SVN 7,8% SVK 4,4%
HUN 8,0% POL 6,8% DNK 7,3% NOR 4,3%
FIN 6,3% SVN 6,4% FIN 7,2% FRA 3,6%
DNK 5,8% ISL 5,9% CHE 6,4% NLD 3,1%
CZE 5,6% DNK 3,7% ISL 5,7% DNK 3,0%
ISL 5,4% FIN 3,6% CZE 4,7% ISL 3,0%

(*). Dados foram coletados pela OECD para os anos de 2015-2019, conforme a disponibilidade de cada observação. A sigla dos países
obedece aos padrões internacionais ISO 3166. A taxa de pobreza considera todos os que vivem abaixo de 50% da renda mediana
nacional. As divergências em relação às outras tabelas do capítulo se dão em função de anos diferentes, no caso da OECD data; ou de
metodologia de cálculo diversa, como no caso do Census Bureau.
Elaboração própria a partir de OECD Data199

Vale lembrar, como já foi salientado, que a taxa de pobreza conforme a


metodologia da OCDE considera um limiar de pobreza diferente conforme a estrutura de
renda de cada país. Há, evidentemente, diferentes níveis de privação entre os pobres dos
Estados Unidos, México, África do Sul e Áustria, por exemplo. Contudo, anda que esses

199
OECD. Poverty Rate. OECD Data. 2020 Disponível em https://data.oecd.org/inequality/poverty-
rate.htm#indicator-chart. Acessado em 16/06/2020
210

limites sejam móveis, e nada digam sobre a severidade da pobreza em cada país e o padrão
de vida em cada localidade, trata-se de uma maneira interessante de comparação da
pobreza em âmbito internacional.
Num segundo exercício, será realizada uma comparação do hiato de pobreza entre
os países da OCDE. Trata-se, cumpre ressaltar, de uma medida que é capaz de mensurar
a “severidade” da pobreza num determinado país, complementando a descrição sobre a
contagem de pessoas na pobreza, ou mesmo da parcela de pobres numa região. O hiato
da pobreza, nesse sentido, permite uma melhor comparação da intensidade da pobreza
entre diferentes regiões e diferentes estruturas de renda.
O número total de pobres e a parcela de pessoas vivendo em meio à pobreza são,
usualmente, os indicadores mais utilizados para descrever o fenômeno da pobreza.
Entretanto, há algumas limitações básicas desses indicadores, nem sempre divulgadas.
Esses indicadores mais populares, o número de pobres e a taxa de pobreza, nada dizem
sobre a intensidade da pobreza, ou mesmo sobre a desigualdade entre os pobres de cada
região. Dois países, por exemplo, podem apresentar a mesma taxa de pobreza, mas a
intensidade da pobreza em cada localidade, em função dos diferentes níveis de renda entre
os pobres de cada local, pode ser diferente. É justamente essa dimensão que o hiato de
pobreza (poverty gap) procura captar: trata-se de uma fração que diz quanto da renda, em
média, falta para os pobres atingirem o nível de subsistência (pobreza). Uma vez que a
metodologia de cálculo do hiato de pobreza envolve a soma de recursos necessários para
a erradicação da pobreza, em tese, o indicador pode dar uma pista da quantidade de
recursos que seriam requeridos para eliminar a pobreza. O hiato da pobreza, contudo,
representa a média (em porcentagem) de recurso que faltou aos pobres para sair da
pobreza. Portanto, ainda se trata de uma estimativa, mas de grande valia para comparar a
severidade da pobreza em cada país, localidade e região. 200
Justamente por se tratar de um hiato médio, há uma fraqueza deste indicador que
merece destaque. O hiato de pobreza, ao agregar a quantia média de recursos que falta
aos pobres para alcançar a linha de pobreza, nada diz sobre a desigualdade de renda que
existe entre as pessoas pobres. Não há como saber, portanto, se as pessoas pobres estão,
em geral, perto da média, ou afastados dela. Trata-se de um nivelamento da pobreza que

200
Ver mais em OSORIO, R. G. A desigualdade racial da pobreza no Brasil. In: Texto para discussão, n. 2487.
IPEA. Rio de Janeiro, julho de 2019. ver p. 14; Handbook on Poverty statististics: concepts, methods and
policy use. Special Project on Poverty Statistics. United Nations Statistics Division. 2005.
211

desconsidera essa dimensão da desigualdade. De todo modo, o hiato da pobreza é um


indicador relevante e útil para complementar a investigação da pobreza neste trabalho.

Tabela 51 – O hiato da pobreza, países da OCDE e outros selecionados*: 2015-2019


Total 18-65 anos 66 ou mais anos
ZAF 48,5% ZAF 51,9% MEX 45,7%
ITA 40,4% ITA 43,6% KOR 40,0%
SVK 40,3% ROU 42,5% USA 38,2%
ROU 39,0% SVK 42,1% LUX 35,2%
USA 38,8% LVA 40,7% ZAF 33,6%
CRI 36,0% USA 40,4% JPN 32,4%
KOR 35,5% GBR 39,7% CRI 31,8%
LUX 35,2% LTU 39,3% TUR 31,8%
HUN 34,9% NOR 38,8% NLD 31,4%
ESP 34,6% CRI 37,2% ISR 31,3%
GBR 34,4% LUX 36,7% CHL 28,5%
NOR 34,3% HUN 36,3% ITA 28,4%
JPN 33,7% CAN 36,1% GBR 27,0%
GRC 33,6% ESP 36,1% ESP 26,9%
MEX 33,5% GRC 35,9% AUT 26,2%
LTU 33,2% NLD 35,5% FRA 24,9%
LVA 33,0% EST 34,9% CHE 24,3%
ISR 32,5% JPN 34,7% SVK 24,1%
NLD 31,6% AUS 34,3% ROU 23,9%
CHL 31,0% DNK 33,8% GRC 23,7%
CAN 30,5% BGR 33,7% LVA 23,1%
BGR 30,4% KOR 33,4% AUS 22,5%
DNK 29,9% MEX 32,4% HUN 21,8%
AUS 29,7% CHL 31,9% PRT 21,4%
AUT 29,0% POL 31,9% LTU 19,7%
POL 28,6% AUT 29,9% BEL 19,3%
TUR 28,2% PRT 29,5% BGR 18,8%
PRT 28,0% ISL 29,1% POL 18,1%
ISL 27,1% ISR 28,8% RUS 17,9%
CHE 26,2% DEU 28,3% DEU 17,0%
EST 26,1% FRA 28,1% SVN 16,9%
RUS 25,4% CHE 28,1% IRL 16,8%
FRA 25,3% TUR 26,9% EST 16,2%
DEU 25,1% SWE 26,3% NOR 15,2%
SWE 22,5% RUS 25,6% SWE 14,2%
IRL 22,1% IRL 25,1% CAN 12,6%
CZE 21,8% CZE 24,4% FIN 11,6%
BEL 21,7% SVN 24,3% ISL 11,5%
SVN 21,5% FIN 23,8% CZE 11,2%
FIN 21,0% BEL 23,1% DNK 10,9%

(*). Dados foram coletados pela OECD para os anos de 2015-2019, conforme a disponibilidade de cada observação. A sigla dos países
obedece aos padrões internacionais ISO 3166
Elaboração própria a partir de OECD Data201

A comparação internacional do hiato de pobreza escancara a severidade da


pobreza nos Estados Unidos. Em relação à linha de pobreza, os pobres nos E.U.A.
necessitariam de um aumento da renda da ordem de 38-40% para fugir da condição de

201
OECD. Poverty Rate. OECD Data. 2020 Disponível em https://data.oecd.org/inequality/poverty-
rate.htm#indicator-chart. Acessado em 16/06/2020
212

pobreza. Essa fração difere muito do que seria requerido, por exemplo, na Finlândia, na
Bélgica ou na Dinamarca para a erradicação da pobreza. Para os mais idosos, aliás, a
posição dos Estados Unidos no ranking internacional piora, somente a frente de países
como a Coréia e o México. Conclui-se, à vista disso, que a pobreza nos Estados Unidos
é relativamente mais severa do que na grande maioria dos países da OCDE. Ou seja, a
estrutura social dos Estados Unidos mostra o cenário de um país que não vive um sonho,
mas, sim, o retrato de um pesadelo, ainda que num contexto de uma nação rica.

Tabela 52 – Taxa de pobreza antes e depois de transferências e efeitos tributários, países


da OCDE e outros selecionados, (50% poverty line): somente ano de 2015*
Antes da tributação e transferências Depois da tributação e transferências
País Taxa pobreza País Taxa pobreza
Suíça 15,8 Islândia 5,4
Chile 18 Dinamarca 5,5
Islândia 19,4 Finlândia 6,3
Coréia do Sul 19,5 República Checa 6,4
Turquia 19,5 Holanda 7,8
Israel 24,2 França 8,1
Eslováquia 24,3 Noruega 8,1
Dinamarca 24,9 Hungria 8,5
Noruega 24,9 Eslováquia 8,5
Canada 25,3 Áustria 8,7
Suécia 25,4 Suíça 9,1
Costa Rica 26,3 Eslovênia 9,2
Holanda 26,7 Suécia 9,2
Estados Unidos 26,7 Irlanda 9,8
Polônia 28,1 Alemanha 10,1
República Checa 28,7 Luxemburgo 10,9
Eslovênia 29,2 Reino Unido 10,9
Letônia 29,4 Polônia 11,1
Reino Unido 29,8 Portugal 12,5
Estônia 30,4 Canada 14,2
Áustria 31,2 Itália 14,4
Luxemburgo 31,7 Grécia 14,9
Japão 33 Espanha 15,3
Bulgária 33,1 Japão 15,7
Lituânia 33,2 Estônia 16
Alemanha 33,5 Chile 16,1
Portugal 33,7 Letônia 16,2
Finlândia 34,1 Lituânia 16,5
Grécia 34,5 Estados Unidos 16,8
Hungria 34,5 Bulgária 16,8
Itália 35 Turquia 17,2
França 36,4 Coréia do Sul 17,5
Espanha 37,2 Romênia 19,3
Irlanda 37,6 Israel 19,5
Romênia 37,8 Costa Rica 20,6
África do Sul 40,8 África do Sul 26,6

(*). A poverty line 50% é calculada a partir da quantidade de pessoas que está abaixo de 50% da renda mediana
domiciliar. Logo, o uso de um índice relativo para a pobreza implica que os países ricos terão limiares de pobreza mais
elevados. Assim, capta-se no cálculo todos aqueles que não conseguem dispor dos serviços comumente utilizados em
cada local. A renda mediana é baseada na renda de toda a população.
Fonte: elaboração própria a partir de OECD Stats

Um outro exercício relevante consiste em investigar a taxa de pobreza (poverty


line 50%, da OECD) antes e depois das transferências de renda e da tributação. Nessa
análise, em especial, a taxa de pobreza abrange todos aqueles que estão abaixo de 50%
213

da renda mediana de seus respectivos países. Nesse sentido, capta-se neste cálculo todos
os que não conseguem usufruir dos serviços comumente utilizados em cada local. O
primeiro detalhe que merece destaque: entre uma série de países ricos os E.U.A. possuem
uma taxa de pobreza elevada (26,7%) antes e depois das transferências de renda e da
tributação. Ou seja, praticamente um quinto (1/5) dos americanos está abaixo de 50% da
renda mediana dos Estados Unidos. O que mais chama atenção, todavia, é o baixo efeito
das transferências de renda em mitigar a pobreza nos Estados Unidos. Em países como a
Noruega e a Dinamarca, por exemplo, a poverty line 50% é relativamente elevada antes das
transferências de renda. Contudo, os efeitos das transferências proporcionam um elevado
grau de mitigação da pobreza relativa. Isso, contudo, não é verificado nos Estados Unidos.
Em suma, a transferência de renda que acontece nos Estados Unidos não é capaz de mudar
radicalmente a estrutura de pobreza e desigualdade gerada pelas forças do mercado. O
resultado dessa escolha é que os Estados Unidos poderão continuar o status de país rico,
mas a pobreza relativa seguirá como um sintoma persistente de uma sociedade muito
desigual, e pouco preocupada com as mazelas sociais e econômicas.

6.2. A pobreza Estados Unidos

Nesta segunda parte do capítulo, será realizada uma ampla investigação da


pobreza nos E.U.A, desde 1980. Todos os exercícios de análise baseados nas informações
obtidas a partir do Census Bureau empregam as linhas de pobreza já estipuladas pelo
Bureau, tal como explicitado na introdução deste capítulo. Esse exercício de análise,
cumpre ressaltar, é um dos últimos estudos que esta tese apresenta, com o objetivo de
demonstrar a evolução da estrutura social norte-americana, entre 1980-2018. Num
primeiro exercício, será feita uma investigação abrangente da pobreza nos E.U.A, com
alguns recortes mais amplos, para ilustrar a situação geral que se pretende esmiuçar nessa
última parte da tese.
214

Tabela 53 – Evolução da pobreza, por status individual, E.U.A: 1980-2018*


1980-2000 2000-2018 1980-2018
Categoria 1980 2000 2010 2018 % a.a. % a.a. % a.a.
Total 225.027 278.944 306.130 323.847 24,0 1,1% 16,1 0,8% 43,9 1,0%
Todas as pessoas n. 29.272 31.581 46.343 38.146 7,9 0,4% 20,8 1,1% 30,3 0,7%
Pobres
% 13,0 11,3 15,1 11,8 -1,71 n/a 0,51 n/a -1,21 n/a
Total 196.963 231.909 250.200 262.010 17,7 0,8% 13,0 0,7% 33,0 0,8%
Pessoas em famílias n. 22.601 22.347 33.120 25.489 -1,1 -0,1% 14,1 0,7% 12,8 0,3%
Pobres
% 11,5 9,6 13,2 9,7 -1,91 n/a 0,11 n/a -1,81 n/a

Pessoas em famílias Total 27.565 38.375 46.454 46.660 39,2 1,7% 21,6 1,1% 69,3 1,4%
com mulheres chefes
n. 10.120 10.926 15.911 12.491 8,0 0,4% 14,3 0,7% 23,4 0,6%
da residência, sem Pobres
cônjuge presente % 36,7 28,5 34,3 26,8 -8,21 n/a -1,71 n/a -9,91 n/a
Total 27.133 45.624 54250 60.768 68,1 2,6% 33,2 1,6% 124,0 2,1%
Indivíduos sem família
n. 6.227 8.653 12449 12.287 39,0 1,7% 42,0 2,0% 97,3 1,8%
(unrelated) Pobres
% 22,9 19,0 22,9 20,2 -3,91 n/a 1,21 n/a -2,71 n/a

(*): Números absolutos em milhares para o mês de março do ano seguinte .


(1). Números em pontos percentuais
Elaboração própria a partir de: U.S Census

Em primeiro lugar, cumpre realizar uma análise do período de 1980-2000, que


compreendem os primeiros 20 anos do neoliberalismo nos Estados Unidos. Nesse
intervalo, houve uma diminuição dos pobres em relação ao total da população (-1,7 p.p).
Essa informação, cumpre ressaltar, passa a falsa impressão de os Estados Unidos teve
sucesso em combater a pobreza entre 1980-2000. Apenas por meio de uma análise dos
números relativos, tem-se a falsa impressão de que a pobreza diminuiu. Esconde-se por
trás desse dado, todavia, um detalhe importante: em números absolutos, a quantidade de
pobres nos E.U.A, entre 1980-2000, na realidade, cresceu. Mais especificamente, esse
crescimento dos pobres foi em torno de 7,9%. No entanto, esse crescimento “oculto” da
pobreza não veio das pessoas que vivem em famílias: os indivíduos ligados às famílias
apresentaram uma queda da pobreza tanto em relação à população total, bem como na sua
quantia total de pobres. A situação é diferente para as famílias com mulheres registradas
como as responsáveis pela unidade residencial, sem cônjuge presente. As famílias nessa
situação tiveram uma boa diminuição da parcela de pobres em relação à população.
Entretanto, a quantidade absoluta de pessoas pobres nessa situação familiar aumentou 8%
no período. Por fim, observa-se que há um problema grave na pobreza dos indivíduos que
não vivem em família. Entre 1980-2000, a parcela de pobres em relação à população
nessas condições diminuiu. Entretanto, em números absolutos, a pobreza desses
indivíduos aumentou 39%. Entre 1980-2000, portanto, quando se observa a pobreza em
215

relação à população como um todo, há a impressão e que o combate à pobreza nos E.U.A
está sendo bem efetivo. Contudo, os números absolutos mostram uma outra história.
Entre 2000-2018, a evolução da pobreza nos E.U.A. sofre uma guinada, para um
sentido negativo. A parcela de pobres em relação à população total aumenta (0,5 p.p.).
No mesmo sentido, a quantidade absoluta de pobres cresce 20,8%. Nos anos 2000,
portanto, a pobreza passa a aumentar, em ambos os sentidos (absolutos e relativos) nos
Estados Unidos. Para as pessoas em família, a situação é similar: aumento de 0,1 p.p. em
relação ao total de pessoas nessa situação, junto de um crescimento de 14,1% de pessoas
pobres. As pessoas em famílias com mulheres responsáveis pela unidade residencial, sem
cônjuge presente, por outro lado, apresentam uma diminuição da parcela de pobres em
relação ao total de pessoas nessa situação. Entretanto, o seu número total de pobres
aumenta em 14,3%, precisamente. Por fim, os indivíduos em família, entre 2000-2018,
têm um crescimento de 1,2 p.p. na população pobres em relação ao total de pessoas nessa
condição. No mesmo sentido, verifica-se um aumento de 42% do número de pobres. Entre
1980-2000, o número de pobres nessa condição cresceu 39%, entre 2000-2018, o número
de pobres nessa condição aumentou 42%. Conclui-se: não há base empírica para afirmar
que os Estados Unidos têm feito, ao longo dos anos 2000, um combate efetivo contra o
fenômeno da pobreza.
Essas, portanto, são as primeiras características que marcam a evolução da
pobreza nos Estados Unidos. Num primeiro momento, há a falsa impressão de que a
pobreza está diminuindo nos E.U.A, quando se analisa a situação somente através da lente
dos números relativos. Contudo, quando se observa o número total de pobres em famílias
chefiadas por mulheres, e, principalmente, aqueles não relacionados a uma família,
verifica-se um crescimento significativo da quantidade de pessoas pobres nos Estados
Unidos. Os indivíduos não ligados a uma família, cumpre acrescentar, tiveram, entre
1980-2018, um aumento de 97,3% do número de pobres.
Outro comentário relevante, e que deverá guiar todos os exercícios seguintes que
serão aqui realizados, está em observar que os anos 2000 foram particularmente ruins no
que tange à pobreza nos E.U.A. Se, entre 1980-2000, há essa falsa impressão de que o
combate à pobreza está sendo efetivo, a partir dos anos 2000 não há mais essa impressão.
O número total de pobres, tanto em termos absolutos quanto em termos relativos, passa a
aumentar nos Estados Unidos. Conclui-se, portanto, que há uma deterioração clara da
estrutura social norte-americana nos anos recentes.
216

Um próximo exercício que será realizado para analisar a evolução da pobreza nos
E.U.A, por idade. Trata-se de uma maneira de acompanhar o que tem acontecido com a
quantidade, absoluta e relativa, de pobres entre as diferentes faixas etárias.

Tabela 54 – A evolução da pobreza nos E.U.A, por idade: 1980-2018*


1980-2000 2000-2018 1980-2018

Faixa etária/categoria 1980 2000 2010 2018 % a.a. % a.a. % a.a.


Total 62.914 71.741 73.873 73.284 14,0 0,7% 2,2 0,1% 16,5 0,4%
Menos
n. 11.543 11.587 16.286 11.869 0,4 0,0% 2,4 0,1% 2,8 0,1%
de 18 Pobres
% 18,3 16,2 22,0 16,2 -2,11 n/a 0,01 n/a -2,11 n/a
Total 137.428 173.638 192.481 197.775 26,3 1,2% 13,9 0,7% 43,9 1,0%
18-64 n. 13.858 16.671 26.499 21.130 20,3 0,9% 26,7 1,3% 52,5 1,1%
Pobres
% 10,1 9,6 13,8 10,7 -0,51 n/a 1,11 n/a 0,61 n/a
Total 24.686 33.566 39.777 52.788 36,0 1,5% 57,3 2,5% 113,8 2,0%
65 + n. 3.871 3.323 3.558 5.146 -14,2 -0,8% 54,9 2,5% 32,9 0,8%
Pobres
% 15,7 9,9 8,9 9,7 -5,81 n/a -0,21 n/a -6,01 n/a

(*): Números absolutos em milhares para o mês de março do ano seguinte .


(1). Números em pontos percentuais
Elaboração própria a partir de: U.S Census

Uma ampla investigação sobre a evolução da pobreza nos E.U.A, conforme as


diferentes faixas etárias, pode ajudar a detalhar com mais precisão o que tem acontecido
com esse fenômeno social. Em primeiro lugar, uma análise do período 1980-2000,
iniciando com as pessoas menores de 18 anos. Houve, entre 1980-2000, uma diminuição
de 2,1 p.p. dos pobres em relação ao total para as pessoas menores de 18 anos. Ao mesmo
tempo, ocorreu um aumento de somente 0,4% da quantidade de pobres nessa faixa etária.
Para as pessoas de 18-64 anos, a situação é mais preocupante: há uma diminuição de 0,5
p.p. na parcela de pobres em relação às pessoas dessa idade. Ao mesmo tempo, por outro
lado, ocorreu um crescimento de 20,3% no número total de pobres entre 18-64 anos.
Identifica-se, nesse caso, uma diminuição da pobreza em termos relativos, mas um
aumento em termos absolutos. O pesquisador que analisar a pobreza somente em termos
relativos, portanto, terá a falsa impressão de que o combate à pobreza nos E.U.A, entre
1980-2000, tem sido eficaz. Por fim, entre os mais velhos, a situação é positiva, entre
1980-2000: há uma diminuição de 5,8 p.p. na proporção de pobres, ao mesmo tempo em
que foi verificado uma queda de 14,2% do número total de pobres idosos. No caso das
pessoas mais velhas, portanto, o combate à pobreza, antes dos anos 2000, foi eficaz.
Os anos 2000, por outro lado, mostram um cenário mais preocupante para a
evolução da pobreza nos E.U.A. Entre 2000-2018, para os jovens, a parcela de pobres em
relação às pessoas de até 18 não se alterou. Entretanto, ocorreu um crescimento de 2,4%
217

do número total de pobres. Entre as pessoas de 18-64 anos, houve um aumento de 1,1 p.p.
da parcela de pobres. Ao mesmo tempo, houve um crescimento de 26,7% do número total
de pobres. Entre os idosos, houve uma diminuição de 0,2 p.p. na parcela de pobres.
Contudo, houve um crescimento de 54,9% do número de pobres. Ou seja, os anos 2000
apresentam uma tendência preocupante, na medida em que, para todas as idades, há um
crescimento do número total de pobres. Quando aos números relativos, há apenas
diminuição em p.p. para os mais velhos. De todo modo, mesmo entre os mais velhos o
crescimento do total de pobres impressiona.
Pode-se concluir, à vista disso, que o cenário não é positivo para o combate à
pobreza nos E.U.A, entre 1980-2018. Houve aumento do número total de pobres para
todas as idades. Para as pessoas que possuem entre 18-64 anos, por exemplo, o esse
crescimento foi de 52,5% (com um aumento de 0,6 p.p. na parcela de pobres); para os
idosos, o aumento dos pobres foi de 32,9%. Apenas os jovens tiveram um crescimento
pequeno, de somente 2,8% dos pobres, acompanhado de uma diminuição de 2,1 p.p. da
parcela de pobres, entre 1980-2018. Os números relativos, entre 1980-2018, portanto,
passam a falsa segurança de que a pobreza está crescendo pouco, ou que ela está sendo
contida nos E.U.A. Os números absolutos, contudo, pintam um cenário totalmente
diverso, e muito preocupante para a sociedade norte-americana. Em particular, os anos
2000 demonstram uma piora no que tange à evolução da pobreza.
Um próximo passo na investigação da pobreza nos E.U.A reside em analisar a
parcela e a quantidade de pessoas pobres, conforme o sexo e por um recorte de idade.
Num primeiro momento, o recorte de sexo demonstrará se existem diferenças importantes
quanto à diferença de sexo; num segundo momento, será acrescentado, para além da
segmentação por sexo, um recorte por idade. Pretende-se, ao final deste exercício, ter
caminhado um passo a mais na caracterização geral desse fenômeno social nos Estados
Unidos.
218

Tabela 55 – Evolução da pobreza, por sexo, E.U.A: 1980-2018*


1980-2000 2000-2018 1980-2018
Categoria 1980 1990 2000 2010 2018
% a.a. % a.a. % a.a.
n. Total 108.990 121.073 136.274 149.737 158.741 25,0 1,1% 16,5 0,9% 45,6 1,0%
H n. 12.207 14.211 13.536 20.893 16.782 10,9 0,5% 24,0 1,2% 37,5 0,8%
Pobres
% 11,2 11,7 9,9 14,0 10,6 -1,31 n/a 0,71 n/a -0,61 n/a
n. Total 116.037 127.571 142.670 156.394 165.106 23,0 1,0% 15,7 0,8% 42,3 0,9%
M n. 17.065 19.373 18.045 25.451 21.363 5,7 0,3% 18,4 0,9% 25,2 0,6%
Pobres
% 14,7 15,2 12,6 16,3 12,9 -2,11 n/a 0,31 n/a -1,81 n/a
Pop. Total 225.027 248.644 278.944 306.130 323.847 24,0 1,1% 16,1 0,8% 43,9 1,0%

(*): Números absolutos em milhares para o mês de março do ano seguinte .


(1). Números em pontos percentuais
Elaboração própria a partir de: U.S Census

O primeiro detalhe que chama a atenção quando se analisa a evolução da pobreza


nos E.U.A., por sexo, é o fato de que as mulheres apresentam uma taxa de pobreza mais
elevada do que os homens. Os números absolutos da pobreza feminina, ademais, também
são maiores do que os números masculinos. Assim, já se tem uma primeira conclusão
sobre este exercício de análise: a pobreza afeta mais as mulheres nos E.U.A do que os
homens. Essa constatação, vale ressaltar, está em linha com o que foi observado em outros
capítulos: a mulher possui uma inserção mais precária no mercado de trabalho, que se
traduz em menores rendimentos e menor presença em ocupações ligadas à uma renda
média e renda mediana elevadas.
O próximo passo consiste em analisar a pobreza, por sexo, entre 1980-2000. Os
homens, nesse intervalo temporal, apresentaram uma diminuição da parcela de pobres, de
-1,3 p.p. Contudo, a quantidade absoluta de pobres homens aumentou em torno de 11%.
Assim, o número de pobres homens cresceu, mas a quantidade relativa diminuiu. Para as
mulheres, houve uma queda na parcela de pobres mais notável, de -2,1 p.p. Ao mesmo
tempo, o crescimento da quantidade de pobres mulheres foi de 5,7%. Entre 1980-2000,
portanto, ambos os sexos demonstraram uma diminuição na parcela de pobres, sendo que
essa melhora foi mais proeminente para as mulheres. Ao mesmo tempo, todavia, ocorreu
um aumento na quantidade total de pobres, para ambos os sexos, sendo que o aumento
total de pobres foi relativamente menor para as mulheres. Assim, o que se observa, entre
1980-2000, é uma falsa impressão de queda na pobreza. O número de pobres segue
crescendo, mas, em relação ao total, a proporção diminuiu.
Entre 2000-2018, por outro lado, a situação é mais preocupante. Para os homens,
há um aumento na parcela de pobres, de 0,7 p.p. Ao mesmo tempo, ocorreu um
crescimento de 24% do número de homens pobres. Trata-se, vale salientar, de um salto
219

de aproximadamente um quarto do número de homens pobres, entre 2000-2018. Para as


mulheres, o aumento em pontos percentuais foi somente de 0,3 p.p. Houve para as
mulheres, assim como foi observado para os homens, um aumento do número de pobres,
de 18,4%, no caso feminino. Entre 2000-2018, portanto, os dados mostram um aumento
na parcela de pobres, de ambos os sexos, sendo que o aumento é menos expressivo em
pontos percentuais para as mulheres. No mesmo sentido, ocorreu também um aumento
do número total de pobres, tanto para os homens, bem como para as mulheres, sendo que
no caso feminino esse aumento da quantidade de pobres, em porcentual, foi menos
expressivo. Assim, os anos 2000 foram anos em que ocorreu um claro aumento do número
de pobres nos Estados Unidos. Ao contrário dos anos 1980-2000, em que havia sinais
contraditórios quando aos números da pobreza, entre 2000-2018 não há dúvidas: a
pobreza piorou nos Estados Unidos.
Essas tendências, cumpre ressaltar, não podem ser observadas quando se analisa
o grande intervalo de 1980-2018, sem fazer uso de segmentações temporais mais curtas.
Um pesquisador que procure analisar a pobreza nos E.U.A, desde 1980, sem considerar
os pontos intermediários que existem nesse período, corre o risco de não perceber essas
diferentes tendências quanto à evolução da pobreza, principalmente a piora desses
indicadores, vista a partir dos anos 2000. Nesse sentido, reforça-se aqui uma hipótese
repetida em outros capítulos deste trabalho: para observar a crise que se projeta sobre a
sociedade norte-americana, é preciso fazer uma análise mais atenta, que vá além dos
dados mais superficiais.
A seguir, será explorada a evolução da pobreza nos E.U.A, entre sexo, mas
também por idade. Trata-se de um passo necessário para averiguar quais são as diferenças
que existem não somente entre as diversas faixas etárias, mas também para descobrir
como a pobreza, o sexo e a idade podem estar relacionados na sociedade norte-americana.
A ordem de análise seguirá os intervalos temporais aqui selecionados. Portanto, em
primeiro lugar será analisado o período de 1980-2000, para as mulheres e para os homens
das diferentes idades. Em segundo lugar, será feito o mesmo exercício para o intervalo de
2000-2018. Por fim, serão feitas algumas considerações finais sobre as informações que
puderam ser observadas.
220

Tabela 56 – Evolução da pobreza, por idade e sexo, nos E.U.A: 1980-2018*

1980-2000 2000-2018 1980-2018


Categoria 1980 2000 2010 2018
% a.a. % a.a. % a.a.
n. Total 32.114 36.735 37.752 37.440 14,4 0,7% 1,9 0,1% 16,6 0,4%
-18 n. 5.817 5.871 8.377 6.074 0,9 0,0% 3,5 0,2% 4,4 0,1%
Pobres
% 18,1 16,0 22,2 16,2 -2,11 n/a 0,21 n/a -1,91 n/a
n. Total 66.768 85.424 94.603 97.377 27,9 1,2% 14,0 0,7% 45,8 1,0%
18-
H n. 5.288 6.698 11.346 8.771 26,7 1,2% 30,9 1,5% 65,9 1,3%
64 Pobres
% 7,9 7,8 12,0 9,0 -0,11 n/a 1,21 n/a 1,11 n/a
n. Total 10.108 14.115 17.382 23.923 39,6 1,7% 69,5 3,0% 136,7 2,3%
65 -
n. 1.102 967 1.169 1.937 -12,3 100,3 3,9% 75,8 1,5%
+ Pobres 0,7%
% 10,9 6,8 6,7 8,1 -4,11 n/a 1,31 n/a -2,81 n/a
n. Total 30.800 35.006 36.121 35.844 13,7 0,6% 2,4 0,1% 16,4 0,4%
-18 n. 5.726 5.716 7.909 5.795 -0,2 0,0% 1,4 0,1% 1,2 0,0%
Pobres
% 18,6 16,3 21,9 16,2 -2,31 n/a -0,11 n/a -2,41 n/a
n. Total 70.659 88.214 97.878 100.398 24,8 1,1% 13,8 0,7% 42,1 0,9%
18-
M n. 8.570 9.973 15.153 12.359 16,4 0,8% 23,9 1,2% 44,2 1,0%
64 Pobres
% 12,1 11,3 15,5 12,3 -0,81 n/a 1,01 n/a 0,21 n/a
n. Total 14.578 19.451 22.395 28.865 33,4 1,5% 48,4 2,2% 98,0 1,8%
65 -
n. 2.769 2.356 2.389 3.209 -14,9 36,2 1,7% 15,9 0,4%
+ Pobres 0,8%
% 19,0 12,1 10,7 11,1 -6,91 n/a -1,01 n/a -7,91 n/a

(*): Números absolutos em milhares para o mês de março do ano seguinte .


(1). Números em pontos percentuais
Elaboração própria a partir de: U.S Census

Entre 1980-2000, os homens apresentaram, em todas as idades, uma diminuição


da parcela de pobres. Contudo, essa diminuição ocorreu com intensidades diferentes
conforme a idade analisada: para os jovens, essa diminuição foi de 2,1 p.p.; para os
homens de meia idade, a diminuição foi insignificante, de 0,1 p.p.; para os idosos, houve
uma diminuição considerável de 4,1 p.p. Em relação à quantidade total de pobres,
contudo, houve aumento tanto para os jovens (0,9%), bem como para os homens de meia
idade (26,7%). Se, para os jovens, esse aumento é praticamente nulo, entre os homens de
meia idade trata-se de um aumento de aproximadamente um quarto do total. Para os
homens mais velhos, houve inclusive uma diminuição da quantidade de pobres, de 12,3%.
Os anos de 1980-2000, portanto, foram anos de diminuição notável da pobreza entre os
mais idosos; aumento expressivo da quantidade de homens pobres de meia idade; e, por
fim, um pequeno aumento da quantidade de jovens pobres, mas com uma leve diminuição
de sua taxa de pobreza. Há de se notar, contudo, que a taxa de pobreza dos homens mais
jovens é significativamente mais elevada do que os homens de meia idade e dos mais
velhos. A nova geração, nesse sentido, é a que mais percebe o fim do “sonho americano”.

Para as mulheres, os anos de 1980-2000 trouxeram tendências semelhantes


àquelas observadas para os homens. Houve diminuição na parcela de pobres para as mais
221

jovens (-2,3 p.p.); para as mulheres de meia idade (-0,8 p.p.); e, para as mais idosas,
ocorreu uma diminuição expressiva de 6,9 p.p. na parcela de pobres. Em relação à
quantidade de mulheres pobres, os anos de 1980-2000 trouxeram uma diminuição pouco
notável para as mais jovens; um aumento sensível para as mulheres de meia idade; e, para
as mais idosas, foi verificado uma diminuição expressiva de 14,9%. Houve, entre 1980-
2000, portanto, uma diminuição efetiva da parcela e da quantidade de mulheres pobres
idosas; algum avanço para as mulheres mais jovens; e sinais contraditórios para as
mulheres de meia idade. De forma geral, os números observados para as mulheres tiveram
avanços melhores do que os dos homens. Contudo, as taxas de pobreza das mulheres de
meia idade e das mulheres mais idosas estão situadas em patamares mais elevados do que
a parcela de pobreza masculina.
Entre 2000-2018, a situação piora de modo expressivo para a população
masculina. Houve, para todas as idades, um crescimento da parcela de pobres: 0,2 p.p.
para os mais jovens; 1,2 p.p. para os homens de meia idade e um crescimento de 1,3 p.p.
para os mais velhos. Os retrocessos mais claros, todavia, podem ser vistos mais
claramente na quantidade de pobres: um aumento de 3,5% para os jovens; um crescimento
de 30,9% para os homens de meia idade; e, por fim, foi constatado um aumento de 100,3%
na quantidade de homens pobres idosos. Sob todos os aspectos, os anos 2000 trouxeram
uma piora substantiva da pobreza para os homens. Os retrocessos, nos anos recentes,
podem ser observados na parcela de pobres, para todas as idades. Contudo, é na
quantidade de pobres que essa deterioração da estrutura social masculina se manifesta de
modo mais clara.
Para as mulheres, os anos 2000 trouxeram tendências contraditórias, com uma
leve piora em relação ao que foi observado no intervalo temporal anterior. Houve, por
exemplo, uma diminuição pouco significativa da parcela de mulheres pobres mais jovens,
que, porém, foi acompanhada de um crescimento de 1,4% na quantidade de pobres. Para
as mulheres na faixa intermediária, houve tanto crescimento da parcela de pobres, bem
como da quantidade total. Esse crescimento da taxa e da quantidade de mulheres pobres
de meia idade representa uma clara deterioração da estrutura social feminina nos anos
2000. Para as mulheres idosas, sinais contraditórios: diminuição de 1 p.p. da parcela de
pobres, mas um aumento de 36,2% da quantidade de mulheres pobres. Para as mulheres
mais pobres, assim, por trás de uma diminuição de 1 p.p. na pobreza, esconde-se um
aumento de mais de 35% na quantidade de mulheres pobres.
222

O período de 1980-2018, à vista disso, trouxe de maneira geral uma deterioração


da estrutura social norte-americana, que pode ser notada pelo aumento expressivo da
quantidade de pessoas pobres. Por trás de algumas pequenas diminuições na parcela de
pobres, por vezes limitada a somente 1 ponto percentual, ocultou-se, a depender do caso
analisado, um crescimento de 100% na quantidade total de pessoas pobres. Se o problema
for analisado somente pela ótica da parcela de pobres, portanto, há uma falsa impressão
de que a pobreza tem sido eficazmente combatida nos Estados Unidos. Desde 1980, a
parcela de pessoas idosas pobres diminuiu, tanto para os homens, bem como para as
mulheres, mas esse pequeno crescimento veio acompanhado de um forte crescimento do
número de pobres, principalmente para os homens. Os jovens, por todo o período,
conviveram com indicadores contraditórios: ocorreu, por um lado, alguma diminuição da
parcela de pobres; por outro lado, viu-se aumentar – ainda que pouco – a quantidade de
jovens pobres. Por fim, cumpre salientar que, tanto em 1980, bem como em 2018, a taxa
de pobreza entre as mulheres superou, em larga medida, a parcela de pobres verificada
para os homens. É justo concluir que, desde 1980, o fenômeno da pobreza, se analisado
pela ótica da quantidade de pobres, piorou nos E.U.A, sendo que esse fenômeno acomete
com mais intensidade a população feminina.
Num próximo passo, será realizada uma ampla da investigação por status família:
todas as famílias, famílias em casal, famílias com um chefe familiar homem (sem cônjuge
presente) e famílias com um chefe familiar mulher (sem cônjuge presente. Trata-se,
cumpre ressaltar, de mais um exercício voltado a análise de como o fenômeno da pobreza
acomete os diferentes grupos sociais. Neste caso, os diferentes tipos de famílias.
223

Tabela 57 – Evolução da pobreza, por tipo de família, E.U.A: 1980-2018*


1980-2000 2000-2018 1980-2018
Status da família 1980 2000 2010 2018
% a.a. % a.a. % a.a.

n. Total 60.309 73.778 79.559 83.508 22,3 1,0% 13,2 0,7% 38,5 0,9%
N. total de
n. 6.217 6.400 9.400 7.504 2,9 0,1% 17,3 0,9% 20,7 0,5%
famílias Pobres
% 10,3 8,7 11,8 9,0 -1,61 n/a 0,31 n/a -1,31 n/a

n. Total 49.294 56.598 58.667 61.971 14,8 0,7% 9,5 0,5% 25,7 0,6%

Famílias de casal n. 3.032 2.637 3.681 2.938 -13,0 -0,7% 11,4 0,6% -3,1 -0,1%
Pobres
% 6,2 4,7 6,3 4,7 -1,51 n/a 0,01 n/a -1,51 n/a

n. Total 1.933 4.277 5.649 6.485 121,3 4,1% 51,6 2,3% 235,5 3,2%
Chefe de família
homem, sem n. 213 485 892 824 127,7 4,2% 69,9 3,0% 286,9 3,6%
esposa presente Pobres
% 11,0 11,3 15,8 12,7 0,31 n/a 1,41 n/a 1,71 n/a

n. Total 9.082 12.903 15.243 15.052 42,1 1,8% 16,7 0,9% 65,7 1,3%
Chefe de família
mulher, sem n. 2.972 3.278 4.827 3.742 10,3 0,5% 14,2 0,7% 25,9 0,6%
marido presente Pobres
% 32,7 25,4 31,7 24,9 -7,31 n/a -0,51 n/a -7,81 n/a

(*): Números absolutos em milhares para o mês de março do ano seguinte .


(1). Números em pontos percentuais
Elaboração própria a partir de: U.S Census

A evolução da pobreza por tipo de família nos E.U.A revela que existem
diferenças importantes em como esse fenômeno afeta os diferentes grupos sociais.
Quando se consideram todas as famílias, o período de 1980-2000 trouxe uma leve
diminuição da parcela de famílias pobres, de 1,6 p.p. Contudo, houve um pequeno
aumento da quantidade de famílias pobres, de 2,9%. Assim, por trás dessa diminuição da
parcela de pobres, já pôde ser visto um pequeno crescimento das famílias consideradas
pobres. A situação, contudo, piora nos anos 2000: agora, há um aumento de 0,3 p.p. na
parcela de famílias pobres, mas acompanhado de um crescimento de 17,3% na quantidade
de famílias pobres. Nos anos 2000-2018, portanto, foi observado um aumento
considerável da quantia de famílias pobres. Se, portanto, há sinais contraditórios entre
1980-2000, dado que há uma diminuição na taxa de famílias pobres junto de um aumento
da quantidade de famílias pobres, os anos recentes mostram uma situação diversa. Nos
anos recentes, há definitivamente uma piora dos números da pobreza relacionados às
famílias. Os anos 2000, nesse sentido, demonstram que não há algo como um “sonho
americano” vigente na sociedade norte-americana.
Em seguida, uma análise ampla do período de 1980-2000. Para as famílias em
casal, houve avanço no combate à pobreza, entre 1980-2000: uma diminuição de 1,5 p.p.
na parcela de pobres e uma queda de 13% do número absoluto de famílias pobres. Ou
seja, pelas duas perspectivas foi verificado uma diminuição da pobreza. Para as famílias
224

com chefes homens de família, sem esposa presente, houve uma piora da pobreza: foi
observado um aumento de 0,3 p.p. na parcela de pobres, acompanhado de um crescimento
de 127% no número de famílias pobres. Trata-se de uma clara piora da pobreza entre
famílias chefiadas por homens. Para as mulheres, por fim, entre 1980-2018 foi observado
uma diminuição forte de 7,3 p.p. na parcela de pobres. Ao mesmo tempo, contudo,
ocorreu um aumento de 10,3% na quantidade de famílias pobres. Ou seja, por trás dessa
diminuição da parcela de pobres, ainda se esconde um aumento do número de famílias
pobres chefiadas por mulheres. Ademais, vale observar que, em 1980, a parcela de
famílias pobres chefiadas por mulheres (32,7%) era de quase três vezes a parcela
observada para a pobreza em meio às famílias chefiadas por homens (11%). Em 2018,
houve algum avanço, mas a taxa de pobreza para as famílias chefiadas por mulheres, sem
esposo presente, ainda é substancialmente mais elevada do que a parcela de pobres entre
famílias chefiadas por homens.
Entre 2000-2018, a situação se altera, para pior. Entre as famílias em casal, a
parcela de pobres se mantém estagnada, mas há um aumento de 11,4% na quantidade de
famílias pobres. Entre as famílias chefiadas por homens, há um aumento de 1,4 p.p. da
parcela de pobres, agora acompanhado de um crescimento de 69,9% da quantidade de
famílias pobres que se enquadram nesses termos. Nesse sentido, percebe-se para as
famílias chefiadas por homens um persistente aumento da pobreza, tanto em termos
relativos como em termos absolutos, desde 1980. Para as famílias chefiadas por mulheres,
entre 2000-2018, houve novamente uma diminuição da parcela de famílias pobres, agora
de somente 0,5 p.p. Ou seja, a pobreza para as famílias chefiadas por mulheres seguiu
caindo, mas agora em ritmo bem mais lento. A quantidade de famílias pobres chefiadas
por mulheres, por sua vez, aumentou mais aceleradamente nos anos recentes: 14,2%.
Um passo seguinte na investigação da pobreza nos E.U.A consiste em analisar a
evolução e a distribuição da pobreza em diferentes regiões dos Estados Unidos. Trata-se,
cumpre salientar, de um exercício importante para enxergar de que maneira a pobreza
está distribuída pelo território norte-americano. Neste exercício, as proporções aqui
demonstradas dizem respeito à parcela de pobres em cada região em relação ao total de
pobres. Ou seja, os pobres da região em relação ao total de pobres nos E.U.A.
225

Tabela 58 – A distribuição da pobreza nos E.U.A, por regiões: 1980-2018*


1980-2000 2000-2018 1980-2018
Região 1980 2000 2010 2018
% a.a. % a.a. % a.a.
n. 29.272 31.581 46.343 38.146 7,9 0,4% 20,8 1,1% 30,3 0,7%
Nacional
% 100 100 100 100 - - - - - -

n. 5.369 5.474 7.038 5.682 2,0 0,1% 3,8 0,2% 5,8 0,1%
Nordeste
% 18,3 17,3 15,2 14,9 -1,01 n/a -2,41 n/a -3,41 n/a

n. 6.592 5.916 9.216 7.005 -10,3 -0,5% 18,4 0,9% 6,3 0,2%
Centro-oeste
% 22,5 18,7 19,9 18,4 -3,81 n/a -0,31 n/a -4,11 n/a

n. 12.363 12.705 19.123 16.757 2,8 0,1% 31,9 1,5% 35,5 0,8%
Sul
% 42,2 40,2 41,3 43,9 -2,01 n/a 3,71 n/a 1,71 n/a

n. 4.958 7.485 10.966 8.701 51,0 2,1% 16,2 0,8% 75,5 1,5%
Leste
% 16,9 23,7 23,7 22,8 6,81 n/a -0,91 n/a 5,91 n/a

(*): Números absolutos em milhares para o mês de março do ano seguinte .


(1). Números em pontos percentuais
Elaboração própria a partir de: U.S Census

Há diferenças importantes entre as diferentes regiões dos Estados Unidos quanto


o assunto se trata de pobreza. Em primeiro lugar, salta à vista que a região Sul agrega a
maior parte dos pobres. Enquanto a região Sul reúne, em 2018, 43,9% da população
pobre, essa fração é de 14,9% no Nordeste. Em números absolutos, essa diferença também
é marcante: quase 17 milhões de pessoas pobres no Sul, ao passo que a região Nordeste
apresenta pouco mais de 5 milhões de pobres. Ou seja, a pobreza está mal distribuída pelo
território norte-americano, na medida em que a pobreza se concentra mais no Sul e no
Leste, enquanto na região Nordeste a pobreza é menos acentuada.
Em seguida, uma análise do intervalo de 1980-2000. No Centro-Oeste, houve
nesse período uma diminuição de 3,8 p.p. na parcela de pobreza, ao mesmo tempo em
que foi observada uma queda de 10,3% do número de pobres. Para a região Centro-Oeste,
portanto, os anos de 1980-2000 representaram uma diminuição tanto da taxa, bem como
da quantidade de pobres. Na região Sul, por outro lado, ocorreu uma diminuição de 2 p.p.
na parcela de pobres, mas um pequeno aumento de 2,8% na quantidade de pobres. A
região Sul, vale lembrar, apresenta a maior taxa de pobreza entre as regiões dos Estados
Unidos. A região Leste, nesse período, apresentou um aumento de 6,8 p.p. na parcela de
pobres, ao mesmo tempo em que foi verificado um crescimento de 51% na quantidade de
pobres. Assim, a região Leste apresentou uma piora significativa da pobreza, entre 1980-
2000.
Entre 2000-2018, a situação se torna mais dramática: na região Nordeste, há uma
queda mais pronunciada de 2,4 p.p. na parcela de pobreza. Contudo, há ao mesmo tempo
226

um pequeno aumento de 3,8% na quantidade de pobres. Trata-se, nesse sentido, de um


aumento limitado da pobreza no Nordeste, que inclusive permitiu essa diminuição na taxa
da pobreza nessa região. Na região Meio-Oeste, foi observada uma queda insignificativa
de 0,3 p.p. na parcela de pobres, agora acompanhada de um aumento de 18,4% na
quantidade total de pobres. Na região Leste, houve uma ligeira diminuição de 0,9 p.p. na
parcela de pobres, junto de um crescimento de 16,2% na quantidade de pessoas pobres.
Na região Sul, por fim, houve entre 2000-2018 um crescimento de 31,9% da quantidade
de pobres, o que corroborou para que o sul passasse a agregar, em 2018, mais 3,7% dos
pobres dos Estados Unidos.
No acumulado de 1980-2000, tanto a região Sul como a região Leste apresentaram
um crescimento na taxa de pobreza, acompanhado de um crescimento expressivo na
quantidade de pessoas pobres. Ou seja, para essas regiões, o período neoliberal trouxe
retrocessos claros da pobreza. Para a região Centro-Oeste e a região Nordeste, houve uma
diminuição da parcela de pobres, com um pequeno aumento da quantidade total de
pessoas pobres. Assim, mesmo nas regiões em que aconteceu uma evolução positiva do
fenômeno da pobreza, a quantidade de pessoas pobres cresceu. Ou seja, a diminuição da
taxa de pobreza nessas regiões, de certa forma, oculta o crescimento de pessoas pobres
nos E.U.A, algo que, no acumulado, tende a agravar o nível de miséria social nos Estados
Unidos. Para mais, vale frisar que o fenômeno da pobreza parece estar concentrado na
região sul, que abriga mais de 40% dos pobres norte-americanos. A pobreza, nesse
sentido, está mal espalhada pelo território dos E.U.A.
Um próximo exercício que será realizado consiste em analisar a pobreza nos
E.U.A, conforme o tipo de localidade: zona metropolitana, cidades grandes ou zonas não
metropolitanas. Trata-se, cumpre ressaltar, de mais uma maneira de acompanhar o
crescimento e a transformação da pobreza nos Estados Unidos. Por “região
metropolitana”, o U.S Census entende uma área urbana que contém uma população de ao
menos 50.000 habitantes; as “cidades principais”, por sua vez, compreenderão todas as
cidades com mais de 10.000 habitantes dentro das zonas metropolitanas. Se localidade
não está inserida numa área que é considerada uma aglomeração urbana, mas possui mais
do que 250,000 habitantes, esse local será considerado uma cidade principal. As demais
227

localidades que não se enquadrarem nesses termos especificados são consideradas “zonas
não metropolitanas”. 202

Tabela 59 – Evolução da pobreza por tipo de localidade, E.U.A.: 1980-2018*


1980-2000 2000-2018 1980-2018
Categoria 1980 1990 2000 2010 2018
% a.a. % a.a. % a.a.
Pobres 18.021 24.510 24.603 38.466 31.936 36,5 1,6% 29,8 1,5% 77,2 1,5%
Zona metropolitana
% 11,9 12,7 10,8 14,9 11,3 -1,11 n/a 0,51 n/a 0,51 n/a

Pobres 10.644 14.254 13.257 19.532 15.287 24,5 1,1% 15,3 0,8% 43,6 1,0%
Cidades principais
% 17,2 19,0 16,3 19,8 14,6 -0,91 n/a -1,71 n/a -1,71 n/a

Pobres 7.377 10.255 11.346 18.933 16.649 53,8 2,2% 46,7 2,2% 125,7 2,2%
Fora das cidades principais
% 8,2 8,7 7,8 11,9 9,4 -0,41 n/a 1,61 n/a 1,61 n/a

Pobres 11.251 9.075 6.978 7.877 6.210 -38,0 -2,4% -11,0 -0,6% -44,8 -1,6%
Fora da zona metropolitana
% 15,4 16,3 13,4 16,5 14,7 -2,01 n/a 1,31 n/a 1,31 n/a

(*): Números absolutos em milhares para o mês de março do ano seguinte .


(1). Números em pontos percentuais
Elaboração própria a partir de: U.S Census

Entre 1980-2000, houve um crescimento de 36,5% na quantidade de pobres em


zonas metropolitanas, acompanhado de uma diminuição de 1,1 p.p. na sua parcela de
pobres. Trata-se, mais uma vez, de uma situação em que o aumento do número de pobres
é expressivo, mas esse crescimento se esconde por trás de uma diminuição pouco
significativa da parcela de pobres. Nas cidades principais, a mesma situação, na medida
em que há um aumento do número de pobres, acompanhado de um crescimento pouco
expressivo da parcela de pobres. É o mesmo caso, aliás, para a pobreza fora das cidades
principais, que apresenta um aumento de 53,8% da quantidade de pobres, entre 1980-
2000. A pobreza fora da zona metropolitana, por outro lado, apresenta uma diminuição
do número e da parcela de pobres. Em todos os casos da pobreza metropolitana, portanto,
foi observado um crescimento expressivo dos pobres, acompanhado de uma diminuição
pouco notável da parcela de pobres. Todos esses casos obedecem ao mesmo padrão que
foi observado em diversos outros exercícios da análise da pobreza nos Estados Unidos:
por trás de uma mísera diminuição da parcela de pobres, que parece apresentar um avanço
no combate à pobreza, há um crescimento expressivo da quantidade de pobres.
Entre 2000-2018, por outro lado, há um crescimento expressivo da pobreza
metropolitana, acompanhado de um pequeno crescimento da parcela de pobres. Nas

202
Ver mais em Glossary. Core based statistical áreas and related statistical áreas. U.S. Census. Disponível
em https://www.census.gov/programs-
surveys/geography/about/glossary.html#:~:text=Metropolitan%20Statistical%20Areas%20are%20CBSAs
,population%20of%20at%20least%2050%2C000.&text=NECTAs%20are%20defined%20using%20the,cate
gorized%20as%20metropolitan%20or%20micropolitan. Acessado em 11/06/2020.
228

cidades principais, há um sensível aumento do número de pobres, mas uma pequena


diminuição da parcela dos pobres. Fora das cidades principais, o cenário é adverso, na
medida em que há um expressivo crescimento do número de pobres, acompanhado de um
pequeno aumento da parcela de pobres. Fora da zona metropolitana, por fim, segue a
diminuição do número de pobres, mas agora com um aumento da taxa de pobres.
Por meio de uma análise do agregado, entre 1980-2018, é possível desenvolver
argumentos mais conclusivos: desde 1980, o número de pobres nas zonas metropolitanas
cresceu expressivamente, acompanhado de um pequeno aumento da taxa de pobreza. Em
suma, a falta de políticas públicas voltadas à resolução deste fenômeno social durante os
anos neoliberais resultou no agravamento da pobreza metropolitana. Nas cidades
principais, houve um forte aumento do número de pobres, mas o crescimento da
população citadina diluiu esse aumento, resultando numa queda da taxa de pobres. Fora
das cidades principais, o cenário se apresentou mais grave: aumento de 125% do número
de pobres, acompanhado de um crescimento pequeno da taxa de pobreza. Enquanto isso,
a quantidade de pobres fora das zonas metropolitanas diminuiu, acompanhado de um
aumento da taxa de pobreza. Pode-se concluir, à vista disso, que durante as últimas
décadas a pobreza urbana se agravou, e por trás de um aumento ligeiro da taxa de pobreza,
se esconde um brutal crescimento do número de pobres.
Num próximo exercício: uma das formas de mensurar a precariedade financeira
das pessoas que já estão na pobreza consiste em verificar o tamanho da proporção e
quantidade de pessoas que vive abaixo dos 50% do limite da pobreza. É, em outras
palavras, o que se usualmente denomina de pobreza profunda, ou, no inglês, “deep
poverty”. Trata-se de uma maneira de verificar, entre os que já são pobres, qual é a
“gravidade” da pobreza que os afeta.
Uma outra maneira de investigar a situação do mercado de trabalho e da estrutura
social dos Estados Unidos consiste em verificar quantos trabalhadores estão na situação
de pobreza. Trata-se de averiguar quantos, e qual é a proporção, de trabalhadores que não
conseguiram ficar acima do limite da pobreza, mesmo tendo trabalho. Será analisado
também, ao lado dos trabalhadores pobres, aqueles pobres acima de 16 anos que não
trabalharam, para fins de comparação.
229

Tabela 60 – Evolução da pobreza, por experiência no trabalho: 1987-2018*

1987-2000 2000-2018 1987-2018


Categorias 1987 2000 2018
% a.a. % a.a. % a.a.
Total 128.316 151.625 167.261 18,2 1,3% 10,3 0,5% 30,4 0,9%
n. total de
n. 8.257 8.511 8.213 3,1 0,2% -3,5 -0,2% -0,5 0,0%
trabalhadores1 Pobres
% 6,4 5,6 4,9 -0,82 n/a -0,72 n/a -1,52 n/a
Total 77.015 101.353 117.957 31,6 2,1% 16,4 0,8% 53,2 1,4%
Trabalharam
Trabalharam
durante o n. 1.821 2.439 2.591 33,9 2,3% 6,2 0,3% 42,3 1,1%
por todo o ano1 Pobres
ano
% 2,4 2,4 2,2 0,02 n/a -0,22 n/a -0,22 n/a
Total 51.301 50.272 49.304 -2,0 -0,2% -1,9 -0,1% -3,9 -0,1%
Trabalharam
apenas parte do n. 6.436 6.072 5.621 -5,7 -0,4% -7,4 -0,4% -12,7 -0,4%
ano1 Pobres
% 12,5 12,1 11,4 -0,42 n/a -0,72 n/a -1,12 n/a

Não n. Total 56.780 63.532 92.188 11,9 0,9% 45,1 2,1% 62,4 1,6%
trabalharam
n. 12.288 12.569 19.283 2,3 0,2% 53,4 2,4% 56,9 1,5%
durante o Pobres
ano % 21,6 19,8 20,9 -1,82 n/a 1,12 n/a -0,72 n/a

(1). São consideradas pessoas que trabalharam o ano todo aquelas que tiveram trabalho por ao menos 50 semanas anuais, com pelo
menos 35 horas trabalho por semana; aquelas que tiveram “algum” trabalho, são as que trabalharam entre 01 e 49 semanas no ano,
por 35 ou menos horas de trabalho semanais.
(2). Em pontos percentuais
Elaboração própria a partir de: U.S Census

Entre 1987-2000, houve um crescimento de 33,9% do número de pessoas que


trabalharam o ano inteiro e, ainda assim, foram classificadas como pobres. A parcela de
trabalhadores nessas condições, todavia, se manteve, entre 1980-2000, estável. No
mesmo período, houve uma diminuição tanto da parcela, bem como do número de pessoas
que trabalharam apenas parte do ano e foram classificadas como pobres. Por fim, nesse
intervalo de tempo, aqueles que não trabalharam durante o ano e foram considerados
pobres aumentaram 2,3%, mas a parcela de pessoas enquadradas nesse critério caiu 1,8
p.p. Do número total de trabalhadores, entre 1980-2018 houve um crescimento de 3,1%
do número de pobres, e uma diminuição de 0,8 da parcela de trabalhadores pobres.
Entre 2000-2018, houve um aumento de 6,2% do número de trabalhadores
ocupados por todo o ano que foram considerados pobres. Houve, todavia, uma
insignificativa diminuição de 0,2 p.p. das pessoas que estão abrangidas por esses critérios.
No mesmo período, ocorreu uma queda de 0,7 p.p. no número de pessoas que trabalharam
apenas parte do ano e foram classificadas como pobres. Foi, ademais, observada uma
diminuição de 7,4% das pessoas nessas condições. Por fim, entre 2000-2018, foi
observado um aumento significativo de 53,4% do número de pessoas que não trabalharam
e foram consideradas pobres. Ao mesmo tempo, ocorreu um crescimento de 1,1 p.p. na
parcela de pessoas que estavam dentro desses parâmetros.
230

No acumulado, entre 1980-2018, para o número total de trabalhadores


(independentemente do tempo trabalhado), houve uma diminuição pouco significativa
(0,5 p.p.) no número de trabalhadores pobres, ao lado de uma pequena queda de 1,5 p.p.
na parcela de trabalhadores na pobreza. Ou seja, o período neoliberal pouco mudou esses
números, que, desde 1980, se mantiveram relativamente estáveis, com uma pequena
melhora. Entretanto, o número absoluto de pobres que não trabalharam durante o ano
cresceu 56,9%, desde 1980, ao lado de uma diminuição pouco significativa de 0,7 p.p. na
parcela das pessoas nessas condições. Concluir, à vista disso, que o período neoliberal
trouxe sinais contraditórios para a pobreza que afeta os trabalhadores pobres. Nos casos
em que houve melhora, os sinais foram pouco expressivos, ou em direções contrárias
(número absoluto crescendo, mas com um número relativo diminuindo pouco).
De um outro ângulo, é preciso analisar mais um fenômeno importante nos Estados
Unidos: o número de pobres que trabalharam durante o ano, por algum tempo, ou por
todo o ano. São as pessoas pobres que, mesmo ocupadas em alguma forma de trabalho
remunerado, ainda não ganham acima do limite da pobreza. Trata-se de um modo
relevante de investigação da qualidade dos empregos gerados nos Estados Unidos, pois o
número de pobres trabalhadores corrobora para avaliar a qualidade e o nível de
remuneração dos empregos nos E.U.A.
Os novos pobres trabalhadores (working poor) dos Estados Unidos, cumpre
salientar, possuem diversos atributos da classe média: casa, eletrodomésticos e até um
carro. Contudo, a despeito de manterem um emprego, e trabalharem até a exaustão, eles
não têm dinheiro. O seu consumo, em larga medida, é realizado via financiamento
bancário, e as dívidas se acumulam no banco. Isso acontece, explicam Artus e Virard,
porque a renda recebida é integralmente despendida nos bens imprescindíveis para se
viver, bem como para manter o padrão de vida dos filhos: saúde, educação, moradia e
comida. Deixam os filhos na escola, mas estão malvestidos para o trabalho; vão de carro
até o emprego, mas estão afogados em dívidas; possuem um emprego, mas o salário não
permite a compra de planos de saúde para a família. O novo pobre americano possui
eletrodomésticos e um teto, mas a sua conta bancária denuncia a precariedade de sua
posição, e a vulnerabilidade da sua condição de vida. Um passo em falso, um emprego
perdido, ou uma dívida a mais, podem o levar à pobreza.203

203
ARTUS, P; VIRARD, M. Puede salvarse Estados Unidos? Buenos Aires. Ed: Capital Intelectual. 2009. p.
70.
231

Tabela 61 – Evolução dos pobres trabalhadores, E.U.A: 1980-2018*


1980-2000 2000-2018 1980-2018
Ano 1980 2000 2010 2018
% a.a. % a.a. % a.a.
Pobres, acima 16 anos n. 18.892 21.080 31.731 27.496 11,6 0,5% 30,4 1,5% 45,5 1,0%

Pobres, tiveram algum n. 7.674 8.511 10.742 8.213 10,9 0,5% -3,5 -0,2% 7,0 0,2%
trabalho (%) 40,6 40,4 33,9 29,9 -0,21 n/a -10,51 n/a -10,7 n/a

Pobres, trabalharam o ano n. 1.644 2.439 2.640 2.591 48,4 2,0% 6,2 0,3% 57,6 1,2%
todo (%) 8,7 11,6 8,3 9,4 2,91 n/a -2,21 n/a 0,7 n/a

(*): Números absolutos em milhares para o mês de março do ano seguinte.


(1). Números em pontos percentuais
Elaboração própria a partir de: U.S Census

A parcela e o número de pobres trabalhadores nos E.U.A. ajudam a compreender


melhor como a pobreza pode, inclusive, estar infiltrada em meio daqueles que tiveram
algum emprego durante o ano, ou, também, durante o ano inteiro. As informações
mostram que, entre 1980-2000, a parcela de pobres que teve algum trabalho durante o
ano diminuiu 0,2 p.p., mas houve um aumento de 10,9% da quantidade de pobres nessa
condição. Por outro lado, ocorreu um crescimento de 2,9 p.p. da parcela de pobres que
trabalharam o ano inteiro, acompanhado de um aumento de 48,4% do número de pobres
nessa situação, ou seja, que estiveram ocupados em algum trabalho durante todo o ano.
Trata-se de uma situação preocupante, o fato de que, entre 1980-2000 aconteceu um
aumento expressivo dos pobres que, a despeito de estarem ocupados durante todo o ano,
foram consideradas em situação de pobreza.
Entre 2000-2018, houve uma diminuição de 10,5 p.p. na parcela de pobres
trabalhadores que tiveram algum trabalho durante o ano. O mesmo tempo, ocorreu
também uma queda de 3,5% no número de trabalhadores nessa condição. Para os pobres
que trabalharam por todo o ano, ocorreu também uma diminuição de 2,2 p.p. da parcela
de trabalhadores pobres, mas foi verificado um pequeno crescimento de 6,2% do número
de pobres que tiveram trabalho durante o ano inteiro. Ou seja, por trás dessa diminuição
na taxa de pobres com trabalho durante todo o ano, escondeu-se um ligeiro aumento do
número de pobres que se enquadra nesse critério.
Ademais, no acumulado, entre 1980-2000, ocorreu uma diminuição de 10,7 p.p.
na taxa de pobres trabalhadores com algum trabalho durante o ano, mas isso se deu
acompanhado de um aumento de 7% do número de trabalhadores nessa condição. Para os
pobres trabalhadores que tiveram trabalho por todo o ano, foi observado um crescimento
de 0,7 p.p. daqueles que trabalharam o ano todo, acompanhado de um crescimento
acumulado de 57,6% do número total de pobres com trabalho por todo o ano. Assim, é
232

justo dizer que o período neoliberal não trouxe melhora nos indicadores dos pobres
trabalhadores. O que se observa, vale dizer, é um agravamento dos números relacionados
a esse fenômeno.
Uma outra maneira de investigar a pobreza nos E.U.A. repousa em verificar como
a pobreza se distribui pela população, considerando tanto os nativos, bem como os
estrangeiros (naturalizados ou não), vivendo em território norte-americano. Trata-se,
cumpre ressaltar, de uma maneira de averiguar quais são os grupos sociais mais afetados
pela pobreza.

Tabela 62 – Evolução da pobreza por nacionalidade e nascimento, E.U.A: 1980-2018*


1993-2000 2000-2018 1993-2018
Categoria 1993 2000 2010 2018
% a.a. % a.a. % a.a.
n. 259.278 278.944 306.130 323.847 7,6 1,0% 16,1 0,8% 24,9 0,7%
População Total n. 39.265 31.581 46.343 38.146 -19,6 -3,1% 20,8 1,1% -2,8 -0,1%
Pobres
% 15,1 11,3 15,1 11,8 -3,81 n/a 0,51 n/a -3,31 n/a
n. 236.745 247.162 266.723 278.051 4,4 0,6% 12,5 0,7% 17,4 0,5%
Nativos n. 34.086 26.680 38.485 31.828 -21,7 -3,4% 19,3 1,0% -6,6 -0,2%
Pobres
% 14,4 10,8 14,4 11,4 -3,61 n/a 0,61 n/a -3,01 n/a
n. 22.533 31.782 39.407 45.796 41,0 5,0% 44,1 2,1% 103,2 2,3%
Total n. 5.179 4.901 7.858 6.317 -5,4 -0,8% 28,9 1,4% 22,0 0,6%
Pobres
% 23,0 15,4 19,9 13,8 -7,61 n/a -1,61 n/a -9,21 n/a
n. 6.973 11.785 17.344 22.294 69,0 7,8% 89,2 3,6% 219,7 3,8%
Estrangeiro Naturalizados n. 707 1.060 1.954 2.215 49,9 6,0% 109,0 4,2% 213,3 3,8%
Pobres
% 10,1 9,0 11,3 9,9 -1,11 n/a 0,91 n/a -0,21 n/a

Estrangeiros n. 15.560 19.997 22.063 23.502 28,5 3,6% 17,5 0,9% 51,0 1,3%
(Not a n. 4.472 3.841 5.904 4.103 -14,1 -2,1% 6,8 0,4% -8,3 -0,3%
Citizen) Pobres
% 28,7 19,2 26,8 17,5 -9,51 n/a -1,71 n/a -11,21 n/a

(*): Números absolutos em milhares para o mês de março do ano seguinte .


(1). Números em pontos percentuais
Elaboração própria a partir de: U.S Census

Por limitações da série histórica, este exercício irá considerar somente os dados
coletados a partir de 1993. Entre 1993-2000, houve uma diminuição expressiva da
pobreza nos E.U.A, quando se considera a população total: queda de 19,6% do número
de pobres e uma diminuição de 3,8 p.p. na parcela de pobres. Quando se olha a década de
1990, portanto, há, no geral, uma diminuição substancial da pobreza nos E.U.A. Para os
nativos, essa diminuição da pobreza foi significativa, demonstrando uma queda tanto do
número total de pobres, bem como da taxa de pobreza. Para os estrangeiros, existe uma
outra história para a pobreza nos E.U.A. Entre 1993-2000, houve, no total, uma
diminuição expressiva da taxa de pobreza, mensurada em pontos percentuais,
acompanhada de uma pequena diminuição da quantidade total de pobres. Para os
naturalizados, contudo, ocorreu um aumento de 49,9% do número de pobres, mas uma
diminuição de 1,1 p.p. na taxa de pobreza. Isso foi possível, vale observar, em função do
233

crescimento expressivo do número de pessoas naturalizadas nos Estados Unidos, que


permitiu essa “diluição” da taxa da pobreza em meio aos naturalizados. Para os
estrangeiros não naturalizados, ocorreu uma diminuição tanto da taxa de pobreza, bem
como do número de pobres. Contudo, tanto em 1993, assim como em 2018, a taxa de
pobreza entre os estrangeiros não naturalizados está num patamar muito acima do que foi
verificado para os outros segmentos sociais aqui analisados.
Entre 2000-2018, por outro lado, a situação se altera, para pior: o número de
pobres em meio à população total cresce 20,8% número que contrasta com o que foi
observado na década de 1990. Há, ademais, um aumento de 0,5 p.p. da pobreza para o
total da população. Para os nativos, esse aumento foi de 19,3% no número de pobres, com
um crescimento de 0,6 p.p. na taxa de pobreza. Assim, é justo afirmar: se, antes dos anos
2000, o crescimento da pobreza estava concentrado nos estrangeiros naturalizados, agora
o cenário muda drasticamente: o fenômeno da pobreza atravessa o padrão de vida os
nativos, ou seja, aqueles que nasceram em território norte-americano. Trata-se de uma
mudança importante, pois aqueles que antes não eram o foco da pobreza, agora estão no
epicentro do crescimento deste fenômeno.
Para o total de estrangeiros, entre 2000-2018, houve um aumento de 109% do
número total de pobres, acompanhado de um crescimento de somente 0,9 p.p. na taxa de
pobreza. Novamente, esse crescimento pequeno da taxa de pobreza aconteceu devido a
um aumento intenso da quantidade de naturalizados. Ou seja, por trás de um crescimento
baixíssimo da taxa de pobreza, está escondido um aumento de mais de 100% do número
de naturalizados pobres nos E.U.A. Isso, cumpre ressaltar, é mais um sinal de que as taxas
de pobreza nos E.U.A devem ser olhadas com cautela, pois elas não demonstram a
extensão dos retrocessos sociais que acumulam nos últimos anos.
No acumulado, portanto, entre 1993-2018, foi observada uma diminuição tanto da
taxa de pobreza, bem como do número total de pobres. Todavia, esse número, quando
analisado de modo amplo, esconde que os anos recentes foram marcados por
transformações importantes no que diz respeito à pobreza nos Estados Unidos. Em
primeiro lugar, a partir dos anos 2000 passou a ser verificado um forte aumento da
pobreza total, especialmente entre os nativos, grupo social que antes era menos afetado
pela pobreza. Ademais, o número global de pobres, sem uma análise mais atenta por
recortes específicos ligados ao local de nascimento, esconde que há um forte crescimento
do número de pobres naturalizados nos Estados Unidos. O crescimento brutal dos pobres
naturalizados nos E.U.A, ademais, tem sido ocultado por trás de um crescimento forte do
234

número total de pessoas naturalizadas, fato que tem diluído a taxa de pobreza, mitigando
o aumento da parcela de pobres.

Tabela 63 – Pessoas abaixo de 125% do nível de pobreza e perto do limiar da pobreza,


E.U.A.: 1980-2018*
1980-2000 2000-2018 1980-2018
Ano 1980 2000 2010 2018
% a.a. % a.a. % a.a.
n. (pop total) n. 225.027 278.944 306.130 323.847 24,0 1,1% 16,1 0,8% 43,9 1,0%

n. 40.658 43.612 60.669 51.706 7,3 0,4% 18,6 1,0% 27,2 0,6%
Abaixo de 1.25
% 18,1 15,6 19,8 16,0 -2,51 n/a 0,41 n/a -2,11 n/a

n. 11.386 12.030 14.325 13.560 5,7 0,3% 12,7 0,7% 19,1 0,5%
Entre 1.00 e 1.25
% 5,1 4,3 4,7 4,2 -0,81 n/a -0,11 n/a -0,91 n/a

(*): Números absolutos em milhares para o mês de março do ano seguinte .


(1). Números em pontos percentuais
Elaboração própria a partir de: U.S Census

Entre 1980-2000, houve uma diminuição de 2,5 p.p. da parcela de pessoas abaixo
de 125% do nível de pobreza. Ao mesmo tempo ocorreu um crescimento de 7,3% no
número de pessoas nessa condição. Assim, a despeito de uma queda relativa, houve um
crescimento absoluto daqueles que vivem em situação vulnerável, sob o perigo constante
de ingressar na pobreza. Ademais, entre 1980-2000, ocorreu uma diminuição de 0,8 p.p.
na parcela de pessoas situadas entre 100-125% do nível de pobreza. Ao mesmo tempo,
observou-se um pequeno aumento de 5,7% de pessoas nessa condição. Ou seja, por trás
de uma ligeira diminuição na parcela de pessoas em situação vulnerável, o período de
1980-2018 esconde um aumento da quantidade de pessoas vivendo muito próximo da
pobreza.
Entre 2000-2018, a situação piora: há um aumento de 0,4 p.p. na parcela de
pessoas abaixo de 125% do nível da pobreza, acompanhado de um aumento de 18,6%
nessas condições. Em suma, os dados mostram que os anos recentes trouxeram mais
vulnerabilidade financeira para a população dos Estados Unidos, pois há mais pessoas
suscetíveis à pobreza. Para aqueles entre 100-125% do nível de pobreza, ocorreu uma
diminuição pouco notável da parcela de pessoas enquadradas nesse critério. Ao mesmo
tempo, ocorreu um crescimento de 12,7% no número de pessoas nessas condições.
Conclui-se: entre 2000-2018, há um aumento claro do número de pessoas suscetíveis à
pobreza.
No acumulado, entre 1980-2018, há uma pequena diminuição na parcela de
pessoas suscetíveis à pobreza, em ambos os critérios aqui mencionados. Contudo, para as
duas condições ocorreu um aumento do número total de pessoas nessas condições. Assim,
235

por trás de um aumento pouco significativo medido em pontos percentuais, há um


crescimento expressivo do número de pessoas vulneráveis financeiramente. Ademais, os
dados evidenciam que, nos anos recentes, a situação piorou consideravelmente para a
população dos Estados Unidos, com mais pessoas suscetíveis à pobreza. Ou seja, boa
parte deste resultado aparentemente positivo deriva dos números verificados até os anos
2000, uma vez que, no período recente, os números pioraram significativamente.
Por fim, resta uma investigação da pobreza por cor e etnia, considerando o status
e relação familiar. Neste tópico, restará claro que a pobreza afeta de maneira mais adversa
os negros e os hispânicos.
236

Tabela 64 – Evolução da pobreza, por cor, status e relação familiar, E.U.A:


2002-2018*
Somente Branco, não hispânico Negros, somente
2002- 2002-2018
Categoria 2002 2018 Categoria 2002 2018
2018 (%) (%)
n. 194.144 194.815 0,3 n. 35.678 42.773 19,9
Total n. 15.567 15.725 1,0 Total n. 8.602 8.884 3,3
Pobres Pobres
% 8,0 8,1 0,11 % 24,1 20,81 -3,3
n. 158.764 154.545 -2,7 n. 29.671 33.237 12,0
Pessoas em Pessoas em
n. 9.389 8.883 -5,4 n. 6.761 6.242 -7,7
famílias Pobres famílias Pobres
% 5,9 5,7 -0,21 % 22,8 18,81 -4,0
Família n. 18.664 18.179 -2,6 n. 13.030 13.500 3,6
Família
chefiada
n. 3.733 3.740 0,2 chefiada por n. 4.980 4.277 -14,1
por mulher Pobres Pobres
2 mulher 2
% 20,0 20,6 0,61 % 38,2 31,71 -6,5

Pessoas n. 34.614 39.694 14,7 n. 5.858 9.388 60,3


Pessoas sem
sem
n. 5.947 6.664 12,1 família n. 1.800 2.584 43,6
família Pobres Pobres
(unrelated)
(unrelated) % 17,2 16,8 -0,41 % 30,7 27,51 -3,2

Asiáticos, somente Hispânicos, qualquer raça


2002- 2002-2018
Categoria 2002 2018 Categoria 2002 2018
2018 (%) (%)
n. 11.541 19.768 71,3 n. 39.216 59.957 52,9
Todas as Todas as
n. 1.161 1.996 71,9 n. 8.555 10.526 23,0
pessoas Pobres pessoas Pobres
% 10,1 10,1 0,01 % 21,8 17,61 -4,2
n. 9.899 16.765 69,4 n. 34.598 52.041 50,4
Pessoas em Pessoas em
n. 763 1.243 62,9 n. 7.184 8.368 16,5
famílias Pobres famílias Pobres
% 7,7 7,4 -0,31 % 20,8 16,11 -4,7
Família n. 1.019 1.686 65,5 n. 7.013 11.939 70,2
Família
chefiada
n. 155 327 111,0 chefiada por n. 2.554 3.716 45,5
por Pobres Pobres
mulheres2
mulheres 2 % 15,2 19,4 4,21 % 36,4 31,11 -5,3
n. 1.613 2.946 82,6 n. 4.364 7.645 75,2
Pessoa sem Pessoa sem
família n. 390 732 87,7 família n. 1.255 2.047 63,1
(unrelated) Pobres (unrelated) Pobres
% 24,2 24,8 0,61 % 28,8 26,81 -2,0
(*): Números absolutos em milhares para o mês de março do ano seguinte . Os números e frações das
diferentes cores/etnias não somam 100%, pois nessa tabela não estão considerados as pessoas que se
autodeclaram pertencentes às etnias das ilhas do pacífico e Havaí.
(1). Números em pontos percentuais
(2). Mulher chefe familiar, responsável pela unidade residencial, sem cônjuge presente.
Elaboração própria a partir de: U.S Census

Em primeiro lugar, uma análise das pessoas que se declaram brancas, não
hispânicas. Em 2018, a taxa de pobreza dos brancos, para as seguintes variáveis, era: total,
8,1%; pessoas em família, 5,7%; famílias chefiadas por mulheres (sem cônjuge presente),
20,6%; pessoas sem família, 16,8%. Para os que se auto declararam somente negros: total,
20,8%; pessoas em família, 18,8%; famílias chefiadas por mulheres (sem cônjuge
presente), 31,7%; pessoas sem família, 27,5%. Para os que se declaram asiáticos: total,
10,1%; pessoas em família, 7,4%; famílias chefiadas por mulheres (sem cônjuge
presente), 19,4%; pessoas sem família, 24,8%. Para aqueles que se declaram hispânicos,
237

de qualquer cor: total, 17,6%; pessoas em família, 16,1%; famílias chefiadas por mulheres
(sem cônjuge presente), 31,1%; pessoas sem família, 26,8%
Nota-se, à vista disso, que, a despeito da maior parte dos pobres nos Estados
Unidos se declarar branco, o fenômeno da pobreza afeta de maneira proporcionalmente
mais intensa os negros e os hispânicos. Conforme o parágrafo anterior, restou claro que
há, em relação ao total da população de cada cor/etnia, muito mais pessoas pobres negras.
Num primeiro momento, portanto, a distribuição dos pobres nos E.U.A dá a impressão
de que os brancos sofrem mais com a pobreza, dado que, em números absolutos, há mais
brancos na pobreza. Contudo, quando se analisa a taxa de pobreza entre pessoas de cores
diferentes, fica claro que a pobreza nos E.U.A afeta muito mais os pobres e os hispânicos.
Para terminar, será retomado um exercício similar ao que foi realizado na primeira
parte deste capítulo, voltada a uma análise da pobreza nos E.U.A. A diferença é que, neste
caso, acrescentou-se o período de 1960-1980, investigando-se também a evolução da
pobreza antes do período neoliberal. Assim como foi realizado em outros capítulos, este
exercício serve ao propósito de solidificar o argumento de que o neoliberalismo nos
Estados Unidos implicou numa deterioração da estrutura social americana.

Tabela 65 - Evolução da pobreza nos E.U.A: 1960-2018*

Categoria 1960 1980 2000 2018 1960-80 1980-00 2000-18 1980-2018


Total 179.503 225.027 278.944 323.847 25,4 24,0 16,1 43,9
Pop. Total n. 39.851 29.272 31.581 38.146 -26,5 7,9 20,8 30,3
Pobres
% 22,2 13,0 11,3 11,8 -9,21 -1,71 0,51 -1,21
Total 168.615 196.963 231.909 262.010 16,8 17,7 13,0 33,0
Pessoas em famílias n. 34.925 22.601 22.347 25.489 -35,3 -1,1 14,1 12,8
Pobres
% 20,7 11,5 9,6 9,7 -9,21 -1,91 0,11 -1,81
Total (NA) 27.565 38.375 46.660 n/a 39,2 21,6 69,3
Fam. chefiadas por
n. 7.247 10.120 10.926 12.491 39,6 8,0 14,3 23,4
mulheres2 Pobres
% 48,9 36,7 28,5 26,8 -12,21 -8,21 -1,71 -9,91
Total 10.888 27.133 45.624 60.768 149,2 68,1 33,2 124,0
Indivíduos sem família n. 4.926 6.227 8.653 12.287 26,4 39,0 42,0 97,3
Pobres
% 45,2 22,9 19,0 20,2 -22,31 -3,91 1,21 -2,71

(*): Números absolutos em milhares para o mês de março do ano seguinte .


(1). Números em pontos percentuais
(2). Sem cônjuge presente.
Elaboração própria a partir de: U.S Census

Primeiramente, cumpre realizar uma ampla análise do período 1960-1980: para a


população total, houve uma diminuição de 26,5% do número de pobres, acompanhada de
uma queda de 9,2 p.p. na parcela total de pobres. Para as pessoas em família, uma queda
similar: 35,3% a menos de pobres em famílias, acompanhado de uma redução de 9,2 p.p.
na parcela de pobres em famílias. Ou seja, de forma geral, os anos de ouro do capitalismo
238

norte-americano foram extremamente positivos quando ao combate à pobreza: foi


observada uma diminuição expressiva da quantidade total de pobres, acompanhado de
uma diminuição notável da taxa de pobreza. Essa, portanto, é uma observação
fundamental para a conclusão do capítulo: nos anos de outro, houve uma diminuição forte
da pobreza, algo que não aconteceu durante a época neoliberal. Pelo contrário, os anos de
política econômica neoliberal trouxeram um aumento significativo da quantidade de
pobres.
Entre 1980-2000, como já se viu em todos os outros exercícios de análise aqui
realizados, já foram observados os primeiros indícios de sinais contraditórios na pobreza
geral: um aumento sensível da quantidade total de pobres, acompanhado de uma pequena
redução da taxa de pobreza. Nos anos 2000-2018, por outro lado, a situação já se mostra
dramaticamente pior: o crescimento expressivo da quantidade de pobres é agora
acompanhado de um aumento na taxa de pobreza também. No agregado, com um aumento
de 30,3% dos pobres, entre 1980-2018, é justo concluir que os anos de neoliberalismo
nos Estados Unidos foram um fracasso quando o assunto é o combate à pobreza. Este
aumento de quase um terço da quantidade de pobres é um sinal claro da incapacidade das
políticas econômicas neoliberais de lidar com os problemas sociais causados pelo
capitalismo em sua forma mais perversa, o livre mercado.
239

Argumento em síntese

Neste capítulo, investigou-se a evolução da pobreza nos Estados Unidos, de 1980


até 2018. Foram utilizadas uma série de recortes e diferentes variáveis de análise (sexo,
idade, status familiar e região, por exemplo) para uma caracterização detalhada desse
fenômeno nos E.U.A. De início, um ponto da análise merece destaque: durante os “anos
de ouro” do capitalismo norte-americano, a pobreza caiu tanto em termos absolutos como
em termos relativos. As décadas seguintes de neoliberalismo econômico, por seu turno,
trouxeram resultados desastrosos para a pobreza. Essa, portanto, é uma observação
fundamental para compreender a evolução da pobreza nos E.U.A. ao longo das últimas
décadas, que foram marcadas pela adoção a um receituário neoliberal na economia. Desde
1980, o número de pobres aumentou expressivamente nos Estados Unidos.
Entretanto, esse crescimento da pobreza acontece de modo diferente conforme o
intervalo temporal analisado. Entre 1980-2000, por exemplo, os indicadores da pobreza
demonstram sinais contraditórios: de um lado, o número total de pobres cresce
sensivelmente; de outro, há uma diminuição pouco significativa (por vezes abaixo de 2
p.p.) da parcela de pobres. Trata-se, contudo, de um sinal preocupante para a estrutura
social dos Estados Unidos, na medida em que isso significa que a quantidade de pobres
está crescendo, mas está aumentando apenas em ritmo mais lento do que o total da
população. De todo modo, em termos relativos, a pobreza ainda estava contida entre
1980-2000. Trata-se de um primeiro indício de que o “sonho americano” estava
ameaçado.
Entre 2000-2018, contudo, o cenário se torna mais adverso para os indicadores da
pobreza nos Estados Unidos. Não há, nos anos recentes, sinais contraditórios para a
quantidade de pobres e a taxa de pobreza, pois ambos os indicadores passam a crescer no
mesmo sentido. Nos anos 2000, o que se verifica é um aumento expressivo da pobreza
total nos Estados Unidos, agora acompanhada de um pequeno aumento da taxa de
pobreza. Ou seja, a taxa de pobreza passa a crescer junto com esse aumento notável da
quantidade total de pessoas que estão vivendo abaixo da linha de pobreza. Nos anos
recentes, portanto, os Estados Unidos vivem um momento dramático para a sua estrutura
social. Num contexto de crescimento em termos absolutos e relativos da pobreza, é justo
dizer que o “sonho americano” não é, ao menos nos anos recentes, uma realidade para a
população.
Para além desta constatação de que o “sonho americano” não é mais uma
240

realidade, a presente análise da pobreza nos Estados Unidos revelou detalhes importantes
sobre como a pobreza está distribuída tanto pelo território norte-americano, bem como
pelos diferentes grupos sociais da população. Em primeiro lugar, cumpre destacar que a
pobreza afeta de modo mais intenso, tanto em termos absolutos como em termos relativos,
as mulheres dos Estados Unidos. Quando se fez uma análise da pobreza com um recorte
de gênero, foi observado que há um número maior de mulheres que vivem abaixo do
limite da pobreza, quando comparado aos homens. Isso, ademais, implicou numa taxa de
pobreza mais elevada para as mulheres.
Em segundo lugar, foi observado que a taxa de pobreza é maior entre os jovens.
Proporcionalmente, os jovens sofrem mais com o fenômeno da pobreza, ainda que o
maior número total de pobres seja verificado para aqueles que possuem entre 18-64 anos.
Em terceiro lugar, vale ressaltar que, entre as famílias, sofrem mais com a pobreza aquelas
famílias chefiadas por mulheres, sem cônjuge presente. As taxas de pobreza observadas
para as famílias chefiadas por mulheres estão em patamares substancialmente mais
elevadas do que a parcela de pobreza para famílias que se encaixam em outros critérios.
Esse fato implica também que a taxa de pobreza entre as crianças que vivem em famílias
chefiadas por mulheres é mais alta do que para crianças em outros tipos de família.
Em quarto lugar: a pobreza está mal distribuída pelo território norte-americano: a
grande maioria dos pobres está concentrada na região Sul, que abrigava, em 2018, 43,9%
dos pobres norte-americanos; seguida da região Leste, que agregava, também em 2018,
22,8% do total de pobres nos E.U.A. Em quinto lugar, ficou comprovado que, durante as
últimas décadas, houve um aprofundamento da “pobreza profunda” (deep poverty) nos
Estados Unidos. Desde 1980, os indicadores demonstram que o neoliberalismo não foi
capaz de ajudar aqueles que já estavam numa situação de extrema vulnerabilidade
financeira: o número de pobres que se enquadram no que se pode chamar de “pobreza
profunda” aumentou expressivamente, desde 1980, junto com um pequeno crescimento
da parcela de pobres nessa condição.
Outro fenômeno importante que foi analisado é o crescimento dos pobres
trabalhadores, em primeiro lugar. Em outras palavras, aquelas pessoas que, vivendo
abaixo do limite da pobreza, tiveram algum tipo de trabalho. O destaque se deu para os
pobres que trabalharam o ano inteiro, cujo número aumentou expressivamente, desde
1980. Esse aumento do número total de pessoas nessa situação também foi acompanhado
de um crescimento da proporção de indivíduos nesses critérios. Em outras palavras, trata-
se do aumento em termos relativos e absolutos de pessoas que, mesmo trabalhando o ano
241

inteiro, não conseguiram escapar da condição da pobreza. Esse dado é incompatível com
o discurso meritocrático de que se pode fugir da pobreza por meio do trabalho. O que
parece acontecer nos Estados Unidos é o contrário: pessoas trabalham, mas ainda assim
são pobres.
Além disso, constatou-se que, nos anos recentes, há um crescimento do número
de pessoas suscetíveis à pobreza. Os anos 2000 representaram um período em que a
população dos Estados Unidos se tornou mais vulnerável aos azares do mercado, na
medida em que mais pessoas estão perto do limiar da pobreza. Se, entre 1980-2000, houve
uma ligeira diminuição da parcela de pessoas perto da pobreza; os anos 2000 demostram
que essa tendência foi interrompida. Trata-se de mais um indício de que o “sonho
americano” se tornou ainda mais distante do que se imaginava.
Por fim, um dos aspectos mais interessante que a investigação deste capítulo
demonstrou reside em como a pobreza impacta diferentemente a população norte-
americana, conforme a cor e etnia considerada para a análise. Num primeiro momento,
nota-se que a maioria dos pobres são brancos, algo que pode levar a crer que a pobreza
nos E.U.A afeta mais a população branca. A distribuição da pobreza, por cor, pode levar
a uma interpretação equivocada deste fenômeno nos Estados Unidos. Quando se investiga
a taxa da pobreza dos indivíduos em relação ao total de pessoas de sua cor (ou etnia), e
não em relação ao total da população, o cenário é outro, e muito adverso para todos
aqueles que não são brancos.
Em 2002, por exemplo, a taxa de pobreza para todos aqueles que se autodeclaram
como negros era três vezes superior à parcela de pobres brancos. Essa fração pouco
mudou até o ano de 2018. Esse fenômeno, o fato de os negros apresentarem uma taxa de
pobreza muito superior aos brancos, se verifica também para as pessoas em famílias,
famílias chefiadas por mulheres e para as pessoas sem família. Em outras palavras: ainda
que a quantidade total de pobres brancos seja maior do que o número de negros pobres, a
taxa de pobreza para cada cor revela que existem dois Estados Unidos, quando o assunto
se trata da pobreza: os Estados Unidos dos brancos, que possui uma taxa de pobreza de
8,1%, em 2018; e os Estados Unidos dos negros, que possui 20,8% de pobres. Ou seja, 1
em cada 5 negros vive abaixo do limiar da pobreza. Há, ademais, os Estados Unidos dos
hispânicos, que apresentam taxas de pobreza similares às parcelas de pobres apresentados
pelos negros. O que se destaca de todos esses exercícios de investigação da pobreza por
cor nos Estados Unidos, portanto, é que a pobreza afeta de modo muito mais intenso os
242

negros e os que tem descendência hispânica, fato que os tornam grupos mais vulneráveis
da população norte-americana.
Derradeiramente, ao investigar a pobreza conforme a nacionalidade (nativo,
naturalizado ou estrangeiro), uma informação preocupante foi descoberta. Se, entre 1980-
2000, o maior crescimento em porcentagem do número de pobres estava concentrado nos
estrangeiros naturalizados, ou seja, em larga medida os hispânicos, a partir dos anos 2000
a pobreza passou também a afetar cada vez mais os nativos. Em outras palavras, a pobreza
nos Estados Unidos parece deixar de ser um problema exclusivo dos negros e dos
hispânicos, e, cada vez, mais, passa a integrar o rol de problemas de todos aqueles
nascidos e criados em território estado-unidense, sob hinos de liberdade, meritocracia e
realização individual por meio do “sonho americano”.
Na era da globalização, a pobreza é um fenômeno de destaque nos Estados Unidos.
Mais pobreza, com um considerável número de americanos imerso na miséria (pobreza
profunda), ou na iminência da pobreza. Trata-se da nova pobreza nos Estados Unidos. A
velha pobreza americana, herança residual da construção de uma sociedade urbano
industrial e de um mercado de trabalho dinâmico, agora se soma à pobreza gerada na era
da globalização. A inserção precária da população no mercado de trabalho e a fragilidade
da proteção social, no cenário atual, são decisivas. No passado, Galbraith já alertava para
a dificuldade de se proteger os pobres numa sociedade afluente. Hodiernamente, há a
possibilidade da pobreza em massa se tornar mais um dos problemas dos Estados Unidos.
243

Considerações finais

Após uma extensa demonstração da regressão social dos Estados Unidos na era
da globalização, conclui-se que o “sonho americano” não é mais uma realidade para a
maioria dos americanos. A desaceleração do crescimento econômico, a deterioração do
mercado de trabalho, a diminuição dos rendimentos, a explosão da desigualdade e o
crescimento vertiginoso da quantidade de pobres não permite afirmar que, atualmente, os
Estados Unidos podem ser descritos como a “terra das oportunidades”. No passado, o
dinamismo do capitalismo norte-americano criou uma sociedade afluente, onde a maioria
dos indivíduos podia almejar um padrão de vida cada vez mais requintando, recheado de
bens de consumo e farto conforto material. Hodiernamente, isso não acontece: os
indicadores sociais e econômicos apontam para uma era de expectativas declinantes nos
Estados Unidos: um padrão de consumo cada vez mais deteriorado e um estilo de vida
em nítida degradação.
Essa tese apresentou, por meio de diversos ângulos de análise, que o “sonho
americano” não é mais uma realidade nos Estados Unidos. Os indicadores sociais e
econômicos dos E.U.A, referentes ao Produto Interno Bruto, ao mercado de trabalho, aos
rendimentos, à desigualdade e à pobreza não permitem afirmar que, para a maioria da
população americana, que lhes espera é a ascensão social, mais conforto material e
melhoria no padrão de vida. Os dados revelam, na realidade, justamente o contrário: a
diminuição do crescimento econômico, a precarização dos empregos, a estagnação (ou
queda real) dos rendimentos, a explosão da desigualdade e o espraiamento da pobreza são
processos, hoje, mais poderosos do que as chances de ascensão social que subsistem nos
Estados Unidos.
Evidentemente, sempre haverá exemplos e histórias de sucesso individual nos
Estados Unidos, demonstrando que a possibilidade de alcançar o sucesso material nos
E.U.A. permanece viva. Histórias que coroam o esforço individual, a diligência pessoal,
a dedicação ao trabalho e que simbolizam a chance de “subir de vida” na América: o “self
made man” da “terra das oportunidades”. Entretanto, o investigador que procura
caracterizar as transformações da estrutura social deve se ater aos fenômenos vivenciados
pela maioria da população, ou seja, o que acontece com a maioria dos americanos: a média
dos homens, e a média das mulheres, que vive, cresce e constrói uma vida nos Estados
Unidos. Histórias que fogem à regra, e que, portanto, estão situadas “fora da curva”, os
“outliers”, podem manter o mito do “sonho americano” vivo, mas não são suficientes
244

para atestar a veracidade e a existência de uma “excepcionalidade americana”. É


justamente esse o esforço que foi desenvolvido ao longo desta tese: reunir uma série de
indicadores para observar o que tem acontecido com a sociedade norte-americana, desde
1980.
No primeiro capítulo da tese “A sociedade afluente e o desenvolvimento do
capitalismo nos Estados Unidos”, partiu-se de John Kenneth Galbraith para reconstruir a
ideia de uma sociedade afluente, representada pela sociedade e pela economia dos Estados
Unidos em meados do século XX. Pelas palavras do autor supracitado, reconstituiu-se
uma sociedade que mitigou a insegurança econômica, aumentou o padrão de vida da
população e melhorou conforto material dos indivíduos. Essa proteção ao cidadão contra
os azares do livre mercado, cumpre salientar, se desenvolveu até mesmo nos E.U.A, uma
sociedade atravessada pelos valores individualistas, pelas crenças firmes nos processos
meritocráticos e pela a desconfiança tipicamente “americana” quanto à participação e à
interferência do Estado na economia. Retoma-se, primeiramente, os argumentos de Max
Weber, autor que, inspirado por sua estadia nos E.U.A, escreveu sobre a necessidade de
novos elementos e categorias para retratar uma sociedade complexa demais para ser
retratada pela dicotomia marxista. Ainda, no mesmo capítulo, Veblen demonstrou o
espetáculo do consumo conspícuo nos Estados Unidos, escancarando de que maneira a
desigualdade no consumo passaria a servir de base para a diferenciação social. Wright
Mills, outro intérprete da estrutura social norte-americana, demonstra o surgimento de
uma nova classe média nos Estados Unidos, um padrão de vida e de consumo que seria
posteriormente replicado em outros países ricos. O primeiro capítulo traz, portanto,
autores que analisaram o desenvolvimento do capitalismo norte-americano e a criação de
uma “sociedade afluente”. De fato, existia algo de extraordinário naquela sociedade
dinâmica e próspera que se formava no “novo mundo”. Desde o final do século XIX e até
meados de 1970, portanto, os Estados Unidos representavam uma sociedade em que todos
estavam mais propensos a melhorar de vida.
No segundo capítulo da tese, “Economia e a sociedade afluente revista na era da
globalização”, demonstrou-se que, desde 1980, os Estados Unidos têm apresentado um
crescimento econômico cada vez mais lento. Se, entre 1960-1980, os E.U.A teve um forte
desempenho de seu Produto Interno Bruto, de seu investimento privado e de seu gasto
governamental, não se pode dizer o mesmo dos períodos seguintes. A partir de 1980, e
principalmente nos anos 2000, nota-se um desempenho cada vez mais letárgico do
investimento privado nos E.U.A, e, de maneira semelhante, seus investimentos
245

governamentais crescem menos intensamente. Este capítulo prova que, desde quando o
E.U.A. adotou o liberalismo econômico como a orientação principal de sua política
econômica, seu desempenho econômico piorou. Não há base empírica, à vista disso, para
afirmar que as políticas econômicas de recorte neoliberal melhorem o desempenho da
economia. Durante as últimas décadas, a economia norte-americana sofreu com taxas
cada vez mais baixas de crescimento, o que, evidentemente, afetou a estrutura
ocupacional, a capacidade de geração de bons empregos, e, de forma geral, a estrutura
social norte-americana. Nota-se, ademais, que nos anos 2000 a desaceleração econômica
dos E.U.A tem assumido contornos mais dramáticos. Pela ótica da economia, portanto,
as últimas 4 décadas não foram de “sonho americano”, mas de letargia econômica e
debilidade do investimento privado.
Em suma, comprovou-se que as últimas décadas de neoliberalismo nos Estados
Unidos resultaram numa deterioração de sua performance econômica. A partir dessa
constatação, a tese se voltou a uma investigação dos indicadores sociais, desde 1980,
iniciando pelo mercado de trabalho. O terceiro capítulo, “A regressão dinâmica do
mercado de trabalho norte-americano”, por meio de uma série de indicadores do
mercado de trabalho, demonstrou que há um panorama sombrio para a classe trabalhadora
dos Estados Unidos. Ao contrário dos discursos mais superficiais, exaltando o
desempenho do mercado de trabalho e apontando, equivocadamente, para a existência de
um suposto “pleno emprego” nos E.U.A, há diversos retrocessos que merecem ser
destacados: o número de empregados tem crescido mais lentamente, há uma queda
progressiva de empregos no setor produtivo, a taxa de participação tem diminuído, a
relação emprego/população está diminuindo, o número de trabalhadores empregados em
trabalhos part time está crescendo, o número de empregados em mais de um emprego
(multiple jobholders) tem aumentado e, por fim, a quantidade de trabalhadores inativos
também está aumentando. Ademais, a proporção de sindicalizados e representados por
sindicatos tem diminuído progressivamente. Esse último fato, somado à verificação de
que as greves têm caído em desuso como forma de pressionar por melhores condições de
trabalho e remuneração, tende a enfraquecer o poder de barganha dos trabalhadores. Em
síntese, os dados coletados sobre o mercado de trabalho não permitem dizer que há “pleno
emprego” nos Estados Unidos. O que realmente há, conforme os dados mostram, é um
mercado de trabalho que, desde 1980, passa por uma lenta, gradual e constante
deterioração. Além disso, neste capítulo foi constatado que, entre 1980-2000, há um
desempenho misto dos indicadores. Contudo, a partir dos anos 2000, os retrocessos são
246

mais evidentes. Pelo ângulo do mercado de trabalho, a “terra das oportunidades” está se
tornando, lentamente, uma terra arrasada.
No quarto capítulo, analisou-se a evolução dos rendimentos nos Estados Unidos,
desde 1980. De início, cumpre lembrar que, ao realizar uma investigação dos rendimentos
nos Estados Unidos, é preciso qualificar a discussão: de quem estamos falando? A
depender do segmento social analisado, o cenário poderá ser, no caso dos ricos, de um
crescimento da renda média, aumento da renda mediana, e, de forma geral, mais
oportunidades de ascensão social; no caso da classe média, ou daqueles que estão situados
na base da pirâmide social, o cenário é outro, e adverso: diminuição da renda mediana,
estagnação da renda média, e, de forma geral, um rebaixamento em potencial no padrão
de vida. Nos E.U.A, portanto, é possível notar uma trajetória de remuneração muito
diversa conforme o segmento social analisado: aos ricos, um mundo de afluência e mais
oportunidades de obter renda; àqueles abandonados em meio ao neoliberalismo e à
precarização dos empregos, um mundo de estagnação, rebaixamento salarial e degradação
do padrão de vida.
Foi observado, ademais, que o crescimento dos rendimentos masculinos foi
particularmente medíocre nos anos recentes. A estagnação e a queda dos rendimentos
reais foram processos frequentes em diversas análises da remuneração masculina. Por
outro lado, desde 1980, os rendimentos femininos tiveram um desempenho notável,
marcadamente em função da maior presença feminina em profissões mais bem
remuneradas, como as ocupações que exigem graduação, mestrado ou doutorado. O fato
de a remuneração feminina ter crescido de forma substancial, desde 1980, corroborou
para que, na média, a remuneração geral dos americanos apresentasse um crescimento
lento, porém gradual, durante as últimas décadas. Contudo, um crescimento lento e
gradual não esconde as desigualdades gritantes que ainda permanecem vivas na sociedade
americana: por um lado, há uma diferença substancial na renda média e na renda mediana
entre os homens e as mulheres; por outro lado, a diferença entre a renda média e a renda
mediana entre os “vencedores” e os “perdedores” nos Estados Unidos tem aumentado
consideravelmente, indicando que a desigualdade é um elemento cada vez mais presente
nessa sociedade. A primeira forma de desigualdade, entre os homens e as mulheres, tem
melhorado progressivamente, a despeito das diferenças substanciais que permanecem; a
segunda forma de desigualdade, entre os 10% mais ricos, de um lado, e o “resto” dos 90%
mais pobres (classe média e massa trabalhadora), de outro, tem aumentado. Em suma, no
mundo dos rendimentos, foi observado que, entre 1980-2000, há um desempenho misto
247

dos indicadores, a despeito do aumento da desigualdade. Contudo, a partir dos anos 2000
o crescimento dos rendimentos se torna muito mais lento, e, a depender do segmento, há
uma queda real da remuneração. No mundo dos rendimentos, portanto, notou-se que as
oportunidades de ascensão social e aumento da renda estão limitadas demais para afirmar
que nos E.U.A há algo como um “sonho americano” ainda vigente.
O crescimento da desigualdade de renda e de riqueza foi o tema explorado no
quinto capítulo, “A desigualdade como símbolo de uma era americana”. O fenômeno
mais característico dos Estados Unidos, durante as últimas décadas, é o aumento da
desigualdade social, pois trata-se de um processo que acompanha os E.U.A tanto entre
1980-2000, bem como a partir dos anos 2000. Ou seja, o traço mais marcante do
neoliberalismo norte-americano repousa no crescimento da desigualdade, seja da renda,
seja da riqueza. Os efeitos deletérios da desigualdade, todavia, só foram percebidos com
mais clareza nos anos recentes, pois os retrocessos sociais se combinaram, num cenário
de crescimento mais baixo, diminuição das oportunidades e rebaixamento do padrão de
vida para grande parte da população. Portanto, enquanto ainda havia um crescimento
moderado do Produto Interno Bruto, algum crescimento da renda e alguma expansão dos
empregos de colarinho branco, a desigualdade ainda não se fazia notar. Em outras
palavras: a desigualdade cresce significativamente nos E.U.A. desde os anos 1980, mas
num cenário de crescimento econômico moderado e algum aumento da renda, os
retrocessos da desigualdade social foram amortecidos por um cenário relativamente
estável para os americanos. Contudo, os processos sociais e econômicos resultantes do
neoliberalismo nos E.U.A, a partir dos anos 2000, corroboram para que, nos anos
recentes, o drama da desigualdade tome ares mais dramáticos.
As últimas décadas nos E.U.A, nesse sentido, demonstraram um aumento da
riqueza dos 10% mais ricos, que tem tomado para si uma fatia cada vez maior das ações,
renda, patrimônio imobiliário e outros ativos. Para os 90% mais pobres, contudo, há um
processo de empobrecimento geral da população: a posse de ações, fundos de
investimento, renda e patrimônio imobiliário está cada vez menor entre as pessoas
situadas nos estratos baixos e intermediários da pirâmide social. Os E.U.A se destacam
por ser um país rico, com uma elevada renda per capita. Contudo, há provas fartas de que
essa riqueza está mal distribuída entre os americanos, e que, nos anos recentes, os efeitos
negativos da desigualdade social estão se somando a outros retrocessos na estrutura
social, criando uma sociedade de baixa mobilidade social, rebaixamento do padrão de
vida da população, e, de forma geral, menos oportunidades de ascensão na estrutura de
248

emprego e renda. Na medida em que, hodiernamente nos E.U.A, a renda dos pais de uma
criança é um condicionante cada vez mais relevante para determinar a sua trajetória de
vida (ainda mais do que nos países europeus), é justo dizer que não há mais um “sonho
americano” nos Estados Unidos. A desigualdade deixou de ser um traço adicional de uma
sociedade meritocrática e dinâmica, para se tornar no símbolo de uma era: a era da
desigualdade nos Estados Unidos.
O último capítulo da tese, “A nova pobreza dos Estados Unidos”, completa a
investigação da estrutura social norte-americana, demonstrando um panorama sombrio
para a população. Foi constatado que, a despeito da taxa de pobreza apresentar uma
trajetória de estagnação nos últimos anos, ou de uma leve piora, a depender do segmento
social analisado, os números absolutos mostram uma realidade diferente. O número de
pobres nos E.U.A., desde 1980, cresce aceleradamente, demonstrando que o
neoliberalismo nos Estados Unidos não tem sido capaz de lidar com os problemas sociais
mais básicos da população, como a pobreza. Se, entre 1980-2000, os indicadores da
pobreza ainda traziam sinais contraditórios, com um número total de pobres crescendo,
mas com um número relativo ainda controlado, nos anos recentes não há mais sinais
mistos quanto a este problema. Entre 2000-2018, o cenário se mostra adverso para os
indicadores da pobreza nos Estados Unidos: tanto a taxa de pobreza, como como o
número total de pobres, passa a caminhar no mesmo sentido: o sentido do aumento da
pobreza nos E.U.A. Constata-se, portanto, que a estrutura social americana passa por
momentos dramáticos nos anos recentes, reforçando uma hipótese contida nesta tese: o
“sonho americano” acabou.
A pobreza tem afetado com mais intensidade, por exemplo, os mais jovens, que
estão vivenciando um “sonho” muito diferente do que viveram os seus pais, esses últimos
numa geração anterior, quando havia um crescimento econômico mais vigoroso, junto de
um welfare state mais desenvolvido, entre 1960-1980. As famílias chefiadas por
mulheres, ademais, estão particularmente entre as mais afetadas pelo fenômeno da
pobreza. As famílias que vivem na região Sul dos Estados Unidos, além disso, trazem
sinais de uma pobreza concentrada, mal distribuída pelo território americano. Um dos
aspectos mais interessantes da análise, por fim, repousa na constatação de que existem
diferenças importantes da pobreza entre as diferentes raças e etnias: a taxa de pobreza
para os que se autodeclaram negros era, em 2002, três vezes superior à taxa verificada
para os brancos, dado que pouco se modificou até 2018. Para mais, os hispânicos também
apresentam uma taxa de pobreza muito mais elevada, se comparada com a taxa de pobreza
249

entre os brancos. Contudo, vagarosamente esses traços estão se modificando: se, antes a
pobreza estava somente concentrada em guetos de hispânicos recém naturalizados, ou de
negros que habitam a periferia urbana, agora a pobreza tem afetado cada vez mais os
nativos dos Estados Unidos. A nova pobreza dos E.U.A, lentamente, tem se tornado a
pobreza dos brancos, que viveram e cresceram em solo americano, acreditando nos ideais
de liberdade, trabalho honesto e oportunidade para todos. É a nova pobreza dos Estados
Unidos, num país que deixou de ser um modelo de referência para o resto do mundo. A
excepcionalidade americana acabou.
Em síntese: o conjunto de dados reunidos nesta tese sustenta a hipótese de que os
Estados Unidos, desde 1980, deixou de ser uma sociedade afluente, na medida em que
sua estrutura social dá sinais de retrocessos, em diversas frentes. Na economia,
comprovou-se que há uma longa, porém gradual, desaceleração econômica,
principalmente nos anos recentes. Não se trata mais, portanto, de uma economia dinâmica
e pujante, tal como ela foi no passado. No mercado de trabalho, não há pleno emprego e
multiplicação dos cargos de colarinho branco, mas, sim, precarização dos empregos,
diminuição do poder de barganha dos trabalhadores, retrocessos na estrutura ocupacional
e em diversos outros indicadores do mercado de trabalho. No campo dos rendimentos, há
uma cisão entre duas Américas: uma, atravessada pela afluência, crescimento da renda e
aumento do bem-estar material; e outra América, dos “perdedores”, da classe média
dilacerada e dos desafortunados, sujeitos à estagnação e à queda real dos rendimentos. O
aumento persistente deste hiato entre os ricos e o “restante” da sociedade tem criado uma
sociedade dividida, fragmentada, e em vias de polarização, que caminha para o
agravamento da crise social. A desigualdade, por fim, explodiu desde o início do
neoliberalismo nos Estados Unidos. De fato, a marca principal dos E.U.A, durante os
últimos 40 anos, é o crescimento da desigualdade. Derradeiramente, o crescimento da
pobreza surge apenas como uma última confirmação de que os E.U.A. não é a mesma
sociedade do passado. A velha pobreza, resíduo da formação dos Estados Unidos numa
sociedade urbano industrial, agora se soma à nova pobreza, fruto da deterioração
generalizada do padrão de vida nos Estados Unidos.
Em suma, na era da globalização os E.U.A: 1) vivem uma lenta desaceleração
econômica, agravada pela internacionalização produtiva das empresas americanas; 2)
passam por uma deterioração de seu mercado de trabalho, com a proliferação de empregos
precários; 3) sofrem com a estagnação da renda, com retrocessos para diversos segmentos
sociais; 4) estão sendo rasgado pela desigualdade, que tem criado mundos diferentes
250

dentro de um mesmo país; e, 5) vivenciam o crescimento da pobreza, na medida em que


ela deixa de ser um fenômeno isolado, para se tornar problema típico do americano
branco, nativo, criado e educado sob hinos de liberdade, progresso, sucesso e realização
individual. O resultado é a corrosão do padrão de vida americano, tal como conhecido
antigamente, quando os Estados Unidos eram uma sociedade de classe média, com uma
economia pujante, que gerava bons empregos em número suficiente para as próximas
gerações. A nova classe média, símbolo da sociedade afluente no passado, agora
representa um estilo de vida cada vez mais distante e inacessível para a maioria dos
americanos.
Conclui-se essa tese, portanto, com a confirmação empírica de que, atualmente,
os Estados Unidos não vivem um “sonho americano”, não proporcionam a
“excepcionalidade americana” aos seus cidadãos, e, tampouco, oferecem aos imigrantes
uma “terra de oportunidades”.
251

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