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LEGISLAÇÃO PENAL COMUM – CEFC 2019

AUTORIDADES

Governador do Estado do Rio de Janeiro


Exmº Sr Wilson Witzel

Secretário de Estado de Polícia Militar


Exmº Sr Coronel PM Rogério Figueredo de Lacerda

Subsecretário de Estado de Polícia Militar


Ilmº Sr Coronel PM Márcio Pereira Basílio

Diretor-Geral de Ensino e Instrução


Ilmº Sr Coronel PM Rogério Quemento Lobasso

Comandante do CFAP 31 de Voluntários


Ilmº Sr Tenente-Coronel PM Marcelo Andre Teixeira da Silva

Comandante do Centro de Educação a Distância da Polícia Militar


Ilmº Sr Tenente-Coronel PM Alexandra Ferraz de Oliveira

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APRESENTAÇÃO

Estamos vivendo a era da tecnologia, na qual a informação está


cada dia mais latente e veloz em nossa rotina diária.
Este curso tem por objetivo , formar e especializar os Cabos da
Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro. Para tal, o Curso ocorrerá na
modalidade semipresencial, pois as disciplinas ocorrerão na modalidade EaD
no ambiente virtual de aprendizagem, por intermédio da Escola Virtual, no
Centro de Educação a Distância Cel Carlos Magno Nazaré Cerqueira
(CEADPM) e as avaliações de forma presencial no Centro de Formação e
Aperfeiçoamento de Praças ( CFAP 31 Vol.).
É fundamental o seu empenho no curso, pois você terá na parte
EaD autonomia de estudos e de horários, mas também é necessário disciplina
e dedicação para o êxito dessa jornada, pois alcançar o sucesso depende do
esforço coletivo e também individual, objetivando que nossos policiais sejam
cada vez mais qualificados, bem treinados e especializados, para cumprirmos
nossa missão, buscando cada vez mais a excelência de nossas ações.
O bom treinamento envolve aspectos físicos e cognitivos, na era
da informação e da tecnologia, precisamos nos aprimorar cada vez mais a
fim de garantir uma tropa consciente, respeitosa, pautada em valores morais
e institucionais, garantindo assim o cumprimento de suas funções com
dignidade e excelência.
Esperamos que você aproveite ao máximo os conhecimentos
adquiridos através deste curso e busque uma reflexão acerca de suas funções
perante a sociedade e seus companheiros de profissão. Que seja um
momento de repensar as práticas e fortalecer seu vínculo profissional,
ampliando cada vez mais seus conhecimentos para lidar com as
particularidades de ser um Policial Militar no Estado do Rio de Janeiro.

Desejamos a todos bons estudos!

Rogério Quemento Lobasso – Coronel PM


Diretor-Geral de Ensino e Instrução

Marcelo André Teixeira da Silva – Ten Cel PM


Comandante do CFAP

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Desenvolvedores
Supervisão Geral EAD
CAP PM Ped Vânia Pereira Matos da Silva

Equipe Técnica
SUBTEN PM Wilian Jardim de Souza
3º SGT PM Marco Antônio José Ribeiro Júnior

Conteudista
Divisão de Ensino CFAP 31 Vol

Revisor Ortográfico
CAP PM PED Patrícia Kalife
SGT PM Elaine Xavier de Oliveira Alves de Lima
CB PM Juliana Pereira de Carvalho

Exercícios
CAP PM PED Patrícia Kalife
SGT PM Elaine Xavier de Oliveira Alves de Lima
CB PM Juliana Pereira de Carvalho

Diagramação
2º SGT PM Wallace Reis Fernandes
3º SGT PM Ronie Camargo dos Santos
CB PM Michele Pereira da Silva de Oliveira
CB PM Alecsara Tognoc da Costa Abreu
CB PM Thiago Silva Amaral

Design Instrucional
CAP PM Ped Vânia Pereira Matos da Silva

Vídeo e Animação
CB PM Joyce Gaspar de Almeida

Designer Gráfico
SD PM Leonardo da Silva Ramos

Suporte ao aluno
2º SGT PM Anderson Inacio de Oliveira

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SUMÁRIO

INTRODUÇÃO ................................................................................ 6
CONCEITOS E FUNDAMENTOS ....................................................... 7
DIREITO PENAL OBJETIVO E DIREITO PENAL SUBJETIVO ............ 8
FONTES DO DIREITO PENAL E A INTERPRETAÇÃO DA NORMA E DA
LEI PENAL ..................................................................................... 9
DOLO, CULPA, ERRO DE TIPO E EXCLUDENTE DE ILICITUDE –
CONCEITOS E AÇÃO PENAL ......................................................... 13
AÇÃO PENAL ............................................................................... 17
RELAÇÃO DE CAUSALIDADE ........................................................ 17
ANÁLISE DE ALGUNS TIPOS PENAIS ........................................... 19
ALGUNS CRIMES CONTRA A HONRA - APONTAMENTOS ............... 26
ALGUNS CRIMES CONTRA A LIBERDADE PESSOAL -
APONTAMENTOS ......................................................................... 28
ALGUNS CRIMES CONTRA A INVIOLABILIDADE DO DOMICÍLIO -
APONTAMENTOS ......................................................................... 30
ALGUNS CRIMES CONTRA O PATRIMÔNIO - APONTAMENTOS ..... 31
ALGUNS CRIMES CONTRA OS COSTUMES - APONTAMENTOS ....... 39
ALGUNS CRIMES CONTRA A PAZ PÚBLICA - APONTAMENTOS ..... 40
ALGUNS CRIMES CONTRA A ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA -
APONTAMENTOS ......................................................................... 43
ALGUNS CRIMES PRATICADOS POR PARTICULAR CONTRA A
ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA – APONTAMENTOS ........................... 47
CONCLUSÃO ................................................................................ 51
REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA ..................................................... 52

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INTRODUÇÃO

De todos os ramos da grande árvore jurídica, o Direito Penal é


aquele que protege os valores mais preciosos e significativos para a
convivência social. Quais são esses valores? São por exemplo, a vida,
a saúde, a honra, a liberdade, a paz pública. Em razão de relevante
importância desses valores,quando alguém pratica um homicídio não
compete aos parentes ou amigos da vítima punir o autor do delito. A
maioria dos crimes tem caráter público e não privado. Ofende a
todos, isto é, à sociedade e não exclusivamente a vítima. Portanto,
compete ao Estado - Juiz, como representante da sociedade, o direito
e o dever de punir os infratores da Lei penal.
O conjunto dos profissionais
chamados de “operadores do direito”
não se limitam aos juízes,
promotores, advogados e aos
agentes das polícias judiciárias, mas,
também, aos policiais militares.
O conhecimento jurídico é imprescindível para o policial militar
não incidir em práticas de atos arbitrários, que consistem em
posicionamentos antagônicos à prática de atos discricionários, o
policial militar deve ter a noção exata dos contornos legais da
discricionariedade. Destarte, não existe outra forma senão estudar
as leis, conhecer a doutrina e, ainda, tomar contato com a
jurisprudência, como faz um bom operador do direito.
Diante disto, é importante que ele receba uma boa formação
técnico-jurídica para que se sinta preparado e, consequentemente,
encontre-se seguro ao tomar decisões, sob o peso da
responsabilidade de quem representa o próprio Estado e, nessa
condição, é o primeiro normalmente a tomar contato com situação
de conflito, adotando providências imediatas e indispensáveis para o
restabelecimento da ordem pública.

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CONCEITOS E FUNDAMENTOS

FINALIDADE DO DIREITO PENAL


“Ninguém será obrigado a fazer ou a deixar de fazer alguma coisa
senão em virtude de lei”, dispositivo pétreo da nossa Constituição
Republicana consagra o Princípio da Legalidade, que deve nortear o
entendimento do Direito Penal, portanto, a proteção dos bens jurídicos
mais importantes e necessários para a própria sobrevivência da
sociedade perpassam pela legalidade, evitando o exercício arbitrário
da própria razão ou o uso violento da força sem reserva legal para
tanto, funcionando como um instrumento de controle social.

CÓDIGOS PENAIS DO BRASIL


Pensando na história, desde que o
homem passou a viver em sociedade até
quando iniciou o controle social temos
diversas fases, começando na punição
oriunda dos deuses ou para satisfazer suas
aspirações, passando pela vingança
privada e chegando na vingança pública.
Atualmente vivemos a fase humanitária,
onde as penas devem corresponder ao
crime cometido, não na ideia de vingança, antes correção.
Feita a síntese genérica e mui rápida, vejamos os códigos penais
do nosso país:
Período colonial – do descobrimento ao Império. Valia o direito
Lusitano e vigoravam as Ordenações Afonsinas que foram substituídas
pelas Ordenações Manuelinas e por fim Ordenações Filipinas. O que
haviam de comum nessas Ordenações era que não se adotava o
princípio da reserva legal, antes sem direito a defesa e com penas
cruéis e desproporcionais o Estado punia o criminoso;

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Período Imperial –Grande avanço


humanitário em relação ao período anterior,
proibindo torturas, marcas de ferro, açoites
entre outras práticas como a personalização da
pena, que passou a ser apenas do delinquente,
mas foram mantidas a pena de morte, trabalho
forçado, banimento entre outras. Foram
editados os códigos penais: 1) Código Criminal do Império do Brasil –
1830; 2) Código Penal dos Estados Unidos do Brasil – 1890;
Período Republicano – é o atual, com grandes tendências
humanitárias, contudo atualmente marcado pela fragilidade do Estado
no enfrentamento a criminalidade crescente e desenfreada. Foram
editados os seguintes códigos: 1) - Consolidação das Leis Penais –
1932; 2) Código Penal – 1940, cuja parte especial, com algumas
alterações, vigora até hoje; 3) Código Penal – 1969, que teve uma
‘vacatio legis’ de aproximadamente nove anos, e foi revogado sem
nunca ter entrado em vigor; 4) Código Penal – 1984, que revogou tão
somente a parte geral do Código de 1940.
Assim, o nosso atual Código possui uma parte
geral (arts. 1o a 120), que reporta a 1984, e uma
parte especial (arts. 121 a 361), que reporta a 1940
com alterações. Embora muitas leis esparsas tenham
sido editadas, nosso código penal já está
ultrapassado carecendo de uma nova edição.

DIREITO PENAL OBJETIVO E DIREITO PENAL SUBJETIVO

Direito penal objetivo – em síntese são as Leis em vigor, ou


seja, as editadas e não revogadas.
Direito Penal subjetivo – é a possibilidade que tem o Estado
de punir o cidadão dentro da sociedade, que abarca: a) a possibilidade

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de criar Leis, impondo sanção a determinados comportamentos


abstratamente considerados; b) o poder-dever de aplicar a pena
cominada quando ocorrer, concretamente, o comportamento proscrito;
c) o poder-dever de executar a pena aplicada, forçando o delinquente
condenado a efetivamente se submeter à sanção que lhe foi imposta;
d) a possibilidade de abolir figuras delitivas ou restringir o alcance das
mesmas.

Nas letras B e C – a polícia é um


dos órgãos que tem esse poder-
dever!

FONTES DO DIREITO PENAL E A INTERPRETAÇÃO DA NORMA E


DA LEI PENAL

INFRAÇÃO PENAL – CONCEITOS E CONSIDERAÇÕES GERAIS


O legislador penalista
estabeleceu diferença entre
crime (ou delito - sinônimo)
e contravenção penal, mas
essa diferença não é
essencial, situando-se, tão
somente, no campo da pena.
Os delitos sujeitam seus autores a penas de reclusão e detenção,
enquanto as contravenções, no máximo, implicam prisão simples,
portanto, o critério é exclusivamente político.
Uma contravenção muito comum no cotidiano do policial é o
cidadão não querer se identificar, conforme o artigo 68 da LCP.

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Interessante notar que a rigor não existe diferença entre ilícito


civil e penal, pois ambos são infrações à Lei, contudo, o ilícito penal
afronta bens jurídicos mais importantes para a sociedade.
Um ilícito civil muito comum em nossa cidade é o ato de urinar
na rua, punido com multa, cujo agente fiscalizador é a prefeitura
municipal, não a polícia.
Agora no tocante ao conceito de crime, nosso legislador não o
conceituou, portanto, este é essencialmente jurídico. O crime pode
apresentar três conceitos diferentes: conceito formal; material e
conceito analítico.
CONCEITO FORMAL – o crime é determinado pelo conceito da
Lei;
CONCEITO MATERIAL – todo o fato humano lesivo de um
interesse capaz de comprometer as condições de existência, de
conservação e de desenvolvimento da sociedade. É a conduta que viola
os bens jurídicos mais importantes.
CONCEITO ANALÍTICO – crime é ação típica (tipicidade –
reserva legal), antijurídica ou ilícita (ilicitude – comportamento
contrário a lei) e culpável (culpabilidade– consciência que afere dolo
ou culpa).
Aqui começa a confusão, pois nesse ponto se conceitua o crime
a partir dos seus elementos, principalmente pela posição pacífica em
que o crime é um fato típico, ilícito e culpável.
O principal motivo dos debates é a conduta. Existem três teorias
acerca da conduta – causal, social e finalista.
Para nosso estudo importa duas formas de condutas humanas:
AÇÃO E OMISSÃO.
Os crimes podem ser praticados por ação (crimes comissivos) ou
por omissão (crimes omissivos). Os crimes comissivos consistem num
fazer, numa ação positiva. Os crimes omissivos consistem na
abstenção da ação devida.

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Os crimes omissivos dividem-se em: omissivos próprios (ou


omissivos puros) – deixar de socorrer (135 CP), por exemplo sem o
dever de agir, respondendo apenas pelo não agir e nunca pelo
resultado; e comissivos por omissão (omissivos impróprios – 13§
2º CP) – deixar de socorrer, sendo policial ou bombeiro ou qualquer
agente garantidor. Há de se avaliar o crime de deixar de socorrer e o
resultado da omissão do dever de agir.

Um caso interessante para nosso cotidiano é o


caso da tortura, pois a Lei 9455/97 pune a conduta
de quem se omite em face da tortura, quanto tinha o
dever de evitar ou apurar o fato.

A conduta penal ainda precisa ser analisada sob o aspecto do


dolo e da culpa.

 DOLOSA – ocorre quando o agente quer o resultado ou


assume o risco de produzi-lo;
 CULPOSA – ocorre quando o agente dá causa ao resultado
em virtude de sua imprudência, imperícia ou negligência.

Via de regra, os crimes só podem ser dolosos, sendo culposos


apenas quando houver previsão legal expressa nesse sentido. De
acordo com o artigo 18, parágrafo único, do CP. Salvo os casos
expressos em lei, ninguém pode ser punido por fato previsto como
crime, senão quando o pratica dolosamente.
Interessante e oportuno trazer ao conhecimento que se não
houver vontade dirigida à produção de um resultado qualquer, não
haverá, penalmente falando, conduta. Ocorre nos casos de: a) força
irresistível (seja proveniente da natureza ou da ação de um terceiro);

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b) movimentos reflexos (só excluem a conduta quando absolutamente


imprevisíveis); c) estado de inconsciência, entre outros.
Outro ponto a destacar é que a simples vontade de delinquir não
é punível, se não for seguida de um comportamento externo. Nem
mesmo o fato de outras pessoas tomarem conhecimento da vontade
criminosa será suficiente para torná-la punível. É necessário que o
agente, pelo menos, inicie a execução da ação que pretende realizar
(a exceção é no crime de terrorismo e o de quadrilha ou bando).
Logo, o ‘Iter Criminis’
divide-se duas fases: uma interna
e outra externa. Na fase interna,
está a cogitação. Já na fase
externa, estão preparação,
execução e consumação. É
importante perceber que nem todo
crime percorre o iter criminis
completo. (Crimes tentados, crimes de terrorismo, quadrilha ou
bando).
O crime pode ser Permanente, continuado ou instantâneo.
Crime permanente é aquele crime que a sua consumação se
estende no tempo.
Crime continuado quando o agente pratica várias condutas,
implicando na concretização de vários resultados, terminando por
cometer infrações penais de mesmas espécies, em circunstâncias
parecidas de tempo, lugar e modo de execução, aparentando que umas
são meras continuações de outras. Em face disso aplica-se a pena de
um só dos delitos.
Já o crime instantâneo é porque a consumação ocorre num só
momento, num instante, sem continuidade temporal.
Um segredo para identificá-los é analisar o verbo descrito no tipo
penal.

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DOLO, CULPA, ERRO DE TIPO E EXCLUDENTE DE ILICITUDE –


CONCEITOS E AÇÃO PENAL

Dolo
O artigo 18 do CP diz do crime doloso: quando o agente quis o
resultado ou assumiu o risco de produzi-lo, logo, dolo é a vontade livre
e consciente de realizar a conduta prevista no tipo penal incriminador.
Para juristas o dolo possui inúmeras classificações. Nós ficaremos
apenas com o dolo direto e o
eventual. Assim, dolo direto é
aquele em que o agente quer o
resultado e o indireto ou
eventual onde o agente
assume o risco de causá-lo.

Culpa
O mesmo artigo 18 do CP diz do crime culposo: quando o agente
deu causa ao resultado por imprudência, negligência ou imperícia e no
seu parágrafo único afirma que salvo os casos expressos em lei,
ninguém pode ser punido por fato previsto como crime, senão quando
o pratica dolosamente.
Nos delitos culposos, a conduta do agente é dirigida, em regra,
a um fim lícito. Não há conduta sem finalidade, seja ela dolosa ou
culposa. Cabe ressaltar que na conduta dolosa a ação é impulsionada
por uma finalidade ilícita já na culposa, visto ser a finalidade
geralmente lícita, precisar-se-á analisar o resultado.

Erro de Tipo
O artigo 20 do CP ensina que o erro de tipo pode ter duas facetas:
erro de tipo escusável – é o erro de tipo invencível, em que qualquer
pessoa normal poderia incorrer; - erro de tipo inescusável – é o erro

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de tipo vencível, que poderia ter


sido evitado se o agente tivesse
agido com as diligências
ordinárias.
OBS.: Seja o erro de tipo
escusável ou inescusável, o fato é
que ele sempre afastará o dolo do
agente.

Excludente de Ilicitude
O artigo 23 do CP (42 do CPM) enumera as causas excludentes
de ilicitude: Estado de necessidade - quando o autor pratica a conduta
para salvar de perigo atual não provocado voluntariamente pelo
agente.
Legítima defesa - consiste em repelir
moderadamente injusta agressão a si próprio ou a
outra pessoa.
A legítima defesa requer, para sua
configuração, a ocorrência dos seguintes
elementos:

 QUE O SUJEITO CONHEÇA


A SITUAÇÃO DE FATO
JUSTIFICANTE, ou seja,
sabe que está agindo em
legítima defesa (animus
defendendi);
 AGRESSÃO INJUSTA: AGRESSÃO É CONDUTA HUMANA.
Não vale por exemplo, contra quem cumpre mandado de prisão;
vale contra inimputáveis; pode ser usada pelo provocador, desde
que não premeditadamente;

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 AGRESSÃO ATUAL OU IMINENTE: Atual é aquela que está


ocorrendo e iminente é aquela que está prestes a ocorrer. Não é
a simples ameaça;
 LESÃO OU AMEAÇA DE LESÃO A DIREITO PRÓPRIO OU
ALHEIO: Significa que o agente pode repelir injusta agressão a
direito seu (legítima defesa própria) ou de outrem (legítima
defesa de terceiros). Pode ser filho, cônjuge, um segurança com
relação ao patrão.
 USO DO MEIO NECESSÁRIO:
eficaz e suficiente. Juristas
entendem que é aquele que o
ofendido dispõe no momento em que
está sendo agredido ou na iminência
de sê-lo.
 MODERAÇÃO NO EMPREGO DOS MEIOS: Significa que o
agente deve agir sem excesso. Comedimento, visando apenas
afastar a agressão, interrompendo a reação quando cessar a
reação injusta.
 INEVITABILIDADE: não é a covardia, mas os tribunais têm
entendido que: “o cômodo e prudente afastamento do local”.

Estrito Cumprimento de Dever Legal


Quando o autor tem o
dever de agir - por ser agente
público - e o faz de acordo com
determinação legal.
Exemplos de estrito
cumprimento de dever legal,
largamente difundidos na doutrina:
 Policial que viola domicílio onde está sendo praticado um delito;
 Emprego de força indispensável no caso de resistência ou
tentativa de fuga;

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 Soldado que mata um inimigo no campo de batalha;


 Oficial de justiça que viola domicílio para cumprir ordem de
despejo, dentre outros.

Exercício regular de direito


Consiste na atuação do agente dentro dos limites conferidos pelo
ordenamento legal.
Exemplos de exercício regular de direito largamente difundidos na
doutrina:
 Correção de filho pelo pai;
 Violência esportiva, praticada nos
limites da competição;
 Prisão em flagrante por particular;
 Direito de retenção por
benfeitorias previsto no Código
Civil;
 Desforço imediato no esbulho possessório;
 Trote acadêmico ou militar.

OBS.: O agente, em qualquer das hipóteses,


responderá pelo excesso doloso ou culposo.

As excludentes de ilicitude como a própria designação


sugere, eliminam a antijuridicidade da conduta do agente. Não há,
portanto, fato típico e antijurídico (o fato é lícito), logo, não há crime
a ser imputado, em princípio.

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AÇÃO PENAL

É um direito subjetivo público de se invocar do ‘Estado-


Administração’ a sua tutela jurisdicional, a fim de que decida sobre
determinado fato trazido ao seu crivo, trazendo de volta a paz social,
concedendo ou não o pedido levantado em juízo. A ação penal é,
portanto, o exercício de uma
acusação, que indica o autor de
determinado crime,
responsabilizando-o, e pedindo,
para o mesmo, a punição prevista
em lei.

Inúmeras são as doutrinas e correntes sobre o tema. A nós


interessa conhecer que existem ações penais públicas, públicas
condicionadas e privadas. As ações penais públicas independem da
vontade da vítima, já as públicas condicionadas/ privadas carecem de
manifestação da vítima ou de seus familiares. Normalmente crimes
sexuais e ligados à honra são públicos condicionadas/ privadas.

RELAÇÃO DE CAUSALIDADE

Nexo Causal
Nexo de causalidade, também chamado de nexo causal ou
relação de causalidade, é o elo que existe entre a conduta e o
resultado. É a relação de causa e efeito existente entre a ação ou
omissão do agente e a modificação produzida no mundo exterior, em
resumo significa avaliar se a conduta deu ou não causa ao resultado.
Inúmeras são as correntes doutrinárias e jurisprudenciais, além
de várias teorias. A nós importa saber que o nexo causal ocorrerá nos
seguintes crimes:

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a) Crimes materiais – a lei penal exige,


para sua caracterização, a produção de
um resultado que cause uma
modificação no mundo exterior,
perceptível pelos sentidos. Exemplos:
homicídio, tráfico de entorpecentes,
roubo de veículo, etc.

b) Crimes omissivos impróprios (comissivos por omissão) –


são os constantes do §2º do artigo 13 do CP, que também
exigem materialidade para a responsabilização do agente.
Exemplo: mãe que não alimenta o filho e ele morre.
Porém, não ocorrerá nexo causal, nos seguintes crimes:
c) Formais – não importa o resultado, apenas a conduta.
Ocorrendo ou não o resultado o crime estará caracterizado. O
resultado é mero exaurimento. Exemplo extorsão, corrupção,
ameaça, desacato, etc.
d) De mera condutam – delitos de simples atividade, em que o
legislador não fez qualquer previsão de resultado a fim de
caracterizá-lo. Difere-se do formal porque, neste,
embora não seja necessário o resultado para sua
consumação, o legislador o prevê como mero
exaurimento do crime. Exemplos: o porte ilegal de
arma de fogo (perigo abstrato), violação de
domicílio e o controvertido embriaguez ao volante,
etc....

Esses crimes são assim interpretados para repelir


comportamentos indesejados na sociedade.

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LEGISLAÇÃO PENAL COMUM – CEFC 2019

e) Omissivos próprios ou omissivos puros – para sua


caracterização, basta a
inação do agente. Exemplo é
a omissão de socorro.
Atenção - Quem se omite
não permanece inativo, mas
realiza uma ação diferente à que se podia e devia esperar!

ANÁLISE DE ALGUNS TIPOS PENAIS

Alguns Crimes Contra a Vida - Apontamentos

Homicídio (121 CP)

 Objeto jurídico: Preservação da vida humana.


Convém destaque que pode
restar caracterizado pela omissão do
autor, nas hipóteses de crime
omissivo impróprio, aqueles que a
norma impõe ao autor obrigação de
impedir a ocorrência crime (fala-se
também em impedir o resultado), previstas no artigo 13, §2.º, do
Código Penal.
A conduta também admite a colaboração de terceiros: a
coautoria e/ou a participação.
O homicídio simples será considerado hediondo se praticado em
“... atividade típica de grupo de extermínio...”, mesmo praticado por
um só agente. Também será hediondo o homicídio qualificado, previsto
nas hipóteses do § 2.º do artigo 121 (artigo 1.º, inciso I, da Lei n. º
8072/90).

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LEGISLAÇÃO PENAL COMUM – CEFC 2019

 Sujeito ativo: Qualquer pessoa.


 Sujeito passivo: Qualquer
pessoa com vida.
 Elemento subjetivo: Dolo ou
Culpa.
 Consumação: Evento morte. Só
ocorrerá a tentativa se, e apenas
se, por circunstâncias alheias à
vontade do agente o evento não
ocorrer.

Importante conhecer um pouco sobre o homicídio privilegiado,


cuja natureza jurídica é de causa de diminuição de pena, e embora a
letra da lei mencione que o juiz pode diminuir a pena, na verdade, a
doutrina e os tribunais tem entendido tratar-se de um dever por parte
do magistrado e não uma faculdade. O ‘privilégio’, por ser circunstância
subjetiva, não se comunica aos colaboradores no caso de concurso de
pessoas. Já o homicídio qualificado é aquele que é cometido em
circunstâncias que o tornam ainda mais reprovável.

Homicídio Culposo de Trânsito (302 CTB)

Desse tipo penal


importante salientar que para a
caracterização não basta que o
homicídio seja no trânsito, é
necessário que seja na condução
de veículo automotor.
Se alguém no trânsito,
conduzindo uma mobilete, uma
bicicleta, uma carroça, matar alguém, responderá pelo Código Penal.

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LEGISLAÇÃO PENAL COMUM – CEFC 2019

OBS.: Não é necessário que o acidente com


veículo automotor ocorra na via pública. Não há
essa especificação no art. 302. Se o homicídio
ocorrer em via particular também incidirá o CTB.

Induzimento, Instigação ou Auxílio ao Suicídio (122 CP)

 Objeto jurídico: Preservação da vida humana.

 Sujeito ativo: Qualquer pessoa.

 Sujeito passivo: Qualquer pessoa com discernimento.

 Elemento subjetivo: Apenas o dolo.

 Consumação: Com o evento morte ou lesão corporal


grave.

Induzir: Significa despertar, dar, criar a


ideia na cabeça da vítima.

Instigar: Significa reforçar, encorajar


uma ideia já existente.

 Auxiliar: Significa dar apoio material ao ato suicida,


disponibilizar os meios materiais para que o suicídio morra.

São duas as modalidade de participação ao suicídio: Moral -


Induzir e Instigar e Material - Auxiliar.

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LEGISLAÇÃO PENAL COMUM – CEFC 2019

Infanticídio (123 CP)

 Objeto jurídico: Preservação da vida humana.

 Sujeito ativo: Só a mãe.

 Sujeito passivo: O recém-


nascido.

 Elemento subjetivo: Apenas o dolo.

 Consumação: Com o evento morte, admissível a


tentativa.

Para entender melhor o tipo penal, o puerpério é o período que


se estende do início do parto até a volta da mulher às condições pré-
gravidez e como toda mãe passa pelo estado puerperal, algumas com
graves perturbações e outras com menos, é desnecessário a perícia.

Aborto (124 a 128 CP)

 Objeto jurídico: Preservação da


vida humana.

 Sujeito ativo: A gestante no auto

abortamento e qualquer pessoa no


aborto provocado por terceiros.

 Sujeito passivo: O feto no auto abortamento e o feto e a


gestante no aborto provocado por terceiros.

 Elemento subjetivo: Apenas o dolo.

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LEGISLAÇÃO PENAL COMUM – CEFC 2019

 Consumação: Com o evento morte, admissível a tentativa ou


a destruição do óvulo.

O aborto consiste na interrupção da gravidez com a consequente


morte do feto, que pode ser realizada pela própria gestante ou por
terceira pessoa.
O aborto em geral é classificado em:
a) natural: interrupção espontânea da gravidez;
b) acidental: decorrente de queda ou
traumatismo da gestante, por exemplo;
c) criminoso;
d) legal ou permitido.

Lesão Corporal (129 CP)

 Objeto jurídico: Integridade física e


psíquica da pessoa.

 Sujeito ativo: Qualquer pessoa.

 Sujeito passivo: Qualquer pessoa.

 Elemento subjetivo: Dolo e culpa.

 Consumação: Com a efetiva ofensa, admissível a tentativa.


Importante salientar que ainda que a vítima sofra mais de uma
lesão o crime será único.

O delito de lesão corporal consiste em todo e qualquer dano


produzido por alguém, sem animus necandi, à integridade física ou
à saúde de outrem. Ela abrange qualquer ofensa à normalidade

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LEGISLAÇÃO PENAL COMUM – CEFC 2019

funcional da pessoa, tanto do ponto de vista anatômico, quanto do


fisiológico ou psíquico. A doutrina e os Tribunais tem entendido ser
impossível uma perturbação mental sem um dano à saúde, ou um dano
à saúde sem uma ofensa física. O objeto da proteção legal é a
integridade física e a saúde do ser humano.
A autolesão não é punida no ordenamento jurídico brasileiro.
No crime, mesmo doloso, é cabível fiança e admite transação
penal.

Agora um assunto a se estudar


profundamente é o crime de
disparo de arma de fogo,
estabelecido pelo Estatuto do
Desarmamento versus o crime de
lesão corporal, o disparo de arma
de fogo no seu artigo 15, verbis:

Art. 15. Disparar arma de fogo ou acionar munição em


lugar habitado ou em suas adjacências, em via pública ou
em direção a ela, desde que essa conduta não tenha como
finalidade a prática de outro crime:
Pena – reclusão, de 2 (dois) a 4 (quatro) anos, e multa.
Parágrafo único. O crime previsto neste artigo é
inafiançável. (grifei)

A jurisprudência dos tribunais quanto à condenação de policiais


por disparos de arma de fogo, sem a observância do princípio da
proporcionalidade, é farta!
A questão que se coloca para solução doutrinária e
jurisprudencial é o disparo de arma de fogo realizado por policial que
causa lesão corporal de natureza leve, sem que a intenção deste seja
o homicídio. Alguns poucos juristas entendem que o disparo de arma

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LEGISLAÇÃO PENAL COMUM – CEFC 2019

de fogo por ser crime mais grave que a lesão corporal leve deve
prevalecer na tipificação delitiva, contudo, toda a questão se prende a
conduta do policial, qual foi o seu ânimo. Por moderação/
proporcionalidade, alguns tribunais têm entendido que o disparo para
o alto para cessar grave perturbação da ordem é cabível ou para
reprimir a ocorrência de outro crime, como por exemplo se defender,
ou a terceiros, do ataque de uma multidão, mas repudiam, condenando
o policial pelo chamado ‘tiro de advertência’.
A jurisprudência majoritária e a doutrina dominante, entende que
o crime de disparo de arma de fogo é subsidiário à prática do delito de
lesão corporal, sendo por este
absorvido. Assim, uma vez
comprovado que a conduta do
agressor, ao disparar a arma,
almejava lesionar os ofendidos,
não se pode falar em condenação
pelo crime meio, mesmo que a sua
pena seja superior à do crime fim.

Frisando bem o tipo penal inserto no art. 15 da Lei 10.826 /03


apenas restam configurado se a conduta praticada não tenha como
finalidade precípua a prática de outro crime, não se concretizando
quando o agente se vale do disparo da arma
de fogo apenas como um meio para se atingir
outro objetivo criminoso final. Se o agente
comete o crime de ameaça ou de lesão
corporal leve utilizando-se de disparo de arma
de fogo para tanto, impera aplicar o princípio
da consunção, em que o crime-meio resta
absorvido pelo crime-fim ainda que o Código
Penal comine a esta pena privativa de liberdade menor.

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LEGISLAÇÃO PENAL COMUM – CEFC 2019

ALGUNS CRIMES CONTRA A HONRA - APONTAMENTOS

Calúnia (138 CP)

 Objeto jurídico: Honra objetiva (reputação).

 Sujeito ativo: Qualquer


pessoa.

 Sujeito passivo: Qualquer


pessoa.

 Elemento subjetivo: Apenas o Dolo.

 Consumação: Quando chega ao conhecimento de uma terceira


pessoa.

Difamação (139 CP)

 Objeto jurídico: Honra objetiva (reputação).

 Sujeito ativo: Qualquer pessoa.

 Sujeito passivo: Qualquer


pessoa.

 Elemento subjetivo: Apenas o


Dolo.

 Consumação: Quando chega ao conhecimento de uma terceira


pessoa.

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LEGISLAÇÃO PENAL COMUM – CEFC 2019

Injúria (140 CP)

 Objeto jurídico: Honra subjetiva (sentimento de per si).

 Sujeito ativo: Qualquer pessoa.

 Sujeito passivo: Qualquer pessoa.

 Elemento subjetivo: Apenas o Dolo.

 Consumação: Quando chega ao


conhecimento do ofendido.

Para que se caracterize a calúnia, deve haver uma falsa


imputação de fato definido como crime (não se admite fato definido
como contravenção penal) de forma determinada e específica, onde
um terceiro toma conhecimento.
Já o crime de difamação consiste na atribuição de um fato
desonroso (não precisa ser falso) e não criminoso, distinguindo-se da
calúnia por essa razão.
Por derradeiro injuriar alguém, significa imputar a este uma
condição de inferioridade perante a si mesmo, atacando de forma
direta seus próprios atributos pessoais. Se
gerar uma discussão onde ambas as partes se
atacam verbalmente procurando diminuir o
outro, ambos cometem o crime. Se houver
agressão física, ocorre a chamada injúria real
e dependendo da lesão, pode haver o
concurso com o crime de lesão corporal.

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LEGISLAÇÃO PENAL COMUM – CEFC 2019

ALGUNS CRIMES CONTRA A LIBERDADE PESSOAL -


APONTAMENTOS

Ameaça (147 CP)

 Objeto jurídico: Liberdade pessoal, paz de espírito, segurança


da ordem jurídica, tranquilidade pessoal entre outros.

 Sujeito ativo: Qualquer pessoa.

 Sujeito passivo: Qualquer pessoa capaz de sentir-se


intimidado.

 Elemento subjetivo: Apenas o Dolo específico.

 Consumação: Quando chega ao conhecimento do ofendido. É


crime formal.

Ameaçar significa procurar


intimidar, prometendo malefício.
Pode ser oral, escrito, por mímica e
até simbolicamente. O mal deve ser
injusto e grave, além do meio ser
idôneo e sério.
Vale ainda frisar que
predomina, portanto, o
entendimento de que a ameaça,
para configurar o tipo penal, precisa
ser marcada pela seriedade e idoneidade, razão pela qual diversas
decisões judiciais apontam a não configuração de crime quando a
ameaça é produto de ato impensado, tal qual em momento de cólera,
revolta ou ira; ou estando o autor ébrio; ou ainda quando a vítima não
lhe confere maior relevância.
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LEGISLAÇÃO PENAL COMUM – CEFC 2019

Cumpre distinguir a ameaça do constrangimento ilegal, onde este


o objetivo a subjugação, por meio da violência ou grave ameaça, da
vontade do ofendido para alcançar um fim ilegítimo e, aquela o
incutimento do medo é um fim em si mesmo.

Sequestro e cárcere privado (148 CP)

 Objeto jurídico: Liberdade individual, notadamente a de


locomoção;

 Sujeito ativo: Qualquer pessoa (se funcionário público o crime


pode ser outro);

 Sujeito passivo: Qualquer pessoa;

 Elemento subjetivo: Apenas o Dolo;

 Consumação: Delito material e permanente. Admite-se a


tentativa.

O sequestro pode dar-se mediante detenção que em síntese


consiste em levar a vítima para outra casa e prendê-la em um quarto,
ou retenção que nada mais é que impedir que a vítima saia de casa.
Outros autores afirmam que o tipo penal procura tutelar o direito à
liberdade. Inúmeros meios podem ser empregados para concretizar o
intento criminoso como, por exemplo o emprego de substâncias
entorpecentes, fraude, ameaça, não conceder autorização para
liberação de enfermo, dentre outros que a mente criminosa puder
imaginar.
Importante frisar que o núcleo do tipo penal admite hipótese de
omissão, qual seja, a do agente garantidor, que ao tomar
conhecimento não adota providências para cessar o crime.

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LEGISLAÇÃO PENAL COMUM – CEFC 2019

É um crime material e permanente, como já estudado.


A respeito sobre o tipo penal há pequenas diferenças entre as
condutas criminosas, a saber: no crime de sequestro, a vítima possui
maior liberdade de locomoção, enquanto que no crime de cárcere
privado a vítima quase não tem como se locomover, sua liberdade é
mais restrita.
Se o crime for praticado por funcionário público no exercício de
suas funções, aplica-se, de acordo com o princípio da especialidade, a
Lei 4898/65 – Abuso de Autoridade.

ALGUNS CRIMES CONTRA A INVIOLABILIDADE DO DOMICÍLIO


- APONTAMENTOS

Violação de Domicílio (150 CP)

 Objeto jurídico: Inviolabilidade da casa.

 Sujeito ativo: Qualquer pessoa.

 Sujeito passivo: Morador da casa.


 Elemento subjetivo: Apenas o Dolo.

 Consumação: Com a entrada ou permanência. Crime formal de


mera conduta.

Fazendo uma leitura do tipo penal, podemos conceituá-lo como


o ato de entrar ou permanecer, de maneira clandestina ou astuciosa,
em casa alheia, contra a vontade do seu habitante.
Este é um tipo penal também consagrado constitucionalmente
contendo um dos princípios mais sagrados da Constituição Federal, no

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LEGISLAÇÃO PENAL COMUM – CEFC 2019

seu artigo 5º inciso XI, que estabelece a casa como asilo inviolável do
cidadão.
A busca sem mandado judicial só é justificada por uma fundada
suspeita da prática de crime permanente, como por exemplo o tráfico
de drogas e a posse de armamento de uso proibido ou restrito.
Observa-se que as decisões majoritárias dos tribunais, deixam
bem claro a conduta policial esperada, mesmo ante crimes
permanentes:
Desconstruindo a afirmativa que deve ser analisada frente
às narrativas comuns aos autos de prisão em flagrante por
tráfico de drogas, descobre-se que, em regra, não há uma
situação de flagrância comprovadamente constatada antes
da invasão de domicílio, o que a torna ilegal, violadora de
direito fundamental. Porém, como em um passe de mágica
juridicamente insustentável, por uma convalidação judicial,
a apreensão de objetos ou substâncias que sejam proibidos
ou indicativos da prática de crime e a prisão daquele (s) a
quem pertença (m) travestem de legalidade uma ação
essencialmente – e originariamente – violadora de direito
fundamental.

O STF definiu que o ingresso forçado em domicílios sem mandado


judicial apenas se revela legítimo, em qualquer período do dia
(inclusive durante a noite) quando tiver suporte em razões
devidamente justificadas pelas circunstâncias do caso concreto e que
indiquem que no interior da residência esteja a ocorrer situação de
flagrante delito, sob pena de responsabilidade penal, cível e/ ou
disciplinar do policial.

ALGUNS CRIMES CONTRA O PATRIMÔNIO - APONTAMENTOS

31
LEGISLAÇÃO PENAL COMUM – CEFC 2019

Furto (155 CP)

 Objeto jurídico: Propriedade, posse, detenção da coisa.

 Sujeito ativo: Qualquer pessoa.

 Sujeito passivo: Proprietário, possuidor ou detentor da coisa.

 Elemento subjetivo: Apenas o Dolo.

 Consumação: Quando a coisa é retirada da esfera da


disponibilidade do ofendido. É crime material e admite tentativa.
Para a jurisprudência do STF, para a consumação do crime de
furto basta a posse do bem em poder do agente,
independentemente de vigilância da vítima ou posse tranquila,
de modo que a fuga logo após o furto caracteriza a inversão da
posse estará consumado mesmo havendo perseguição imediata
e, consequente retomada do objeto.

O crime insculpido no artigo 155 do CP consiste em subtrair coisa


alheia móvel. A subtração é o ato de tomar para si aquilo que não está
sob a sua legítima posse ou de que não seja de sua propriedade, logo,
o verbo é SUBTRAIR, consiste em tirar; retirar de outrem, bem móvel
sem a permissão com o ânimo definitivo de ficar com a coisa. É a
retirada do bem sem o consentimento de quem detém ou possui o
bem. A coisa não está com o sujeito ativo.
Importante salientar que para o direito penal, o conceito de
móvel é o natural, qual seja tudo aquilo que é removível de um local
para outro, pouco importando se a coisa está ou não incorporada ao
solo.
Não pratica furto o funcionário público que subtrai dinheiro, valor
ou bem, público ou particular, ou concorre para que seja subtraído,

32
LEGISLAÇÃO PENAL COMUM – CEFC 2019

valendo-se de facilidade proporcionada pela qualidade de funcionário,


antes pratica o crime de “peculato-furto”, previsto no art. 312, § 1º,
do CP.
Pode haver alguma confusão com o tipo penal da Apropriação
indébita, previsto no art. 168 do CP e uma forma bem simples de saber
quando se aplica uma ou outra tipicidade, dentro da esfera penal e
aplicando a análise ao caso concreto, é saber o seguinte:
A coisa estava com o agente?
Se a resposta for positiva, o crime é de apropriação indébita
(analisadas as circunstâncias);
Se a resposta for negativa, o crime é de furto (analisadas as
circunstâncias).
Outro assunto interessante para conhecermos é que o furto com
abuso de confiança, furto uso, quando a pessoa repõe em seguida ao
uso, não é considerado ilícito penal, mas ilícito civil.

Roubo (157 CP)

 Objeto jurídico: Propriedade, posse, detenção da coisa.

 Sujeito ativo: Qualquer pessoa.

 Sujeito passivo: Proprietário, possuidor ou detentor da coisa.

 Elemento subjetivo: Apenas o Dolo.

 Consumação: Quando a coisa é retirada da esfera da


disponibilidade do ofendido. É crime material e admite tentativa.
Para a jurisprudência do STF, para a consumação do crime de
roubo basta a posse do bem em poder do agente,
independentemente de vigilância da vítima ou posse tranquila,
de modo que a fuga logo após o roubo caracteriza a inversão da

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LEGISLAÇÃO PENAL COMUM – CEFC 2019

posse estará consumado mesmo havendo perseguição imediata


e, consequente retomada do objeto.

O roubo nada mais é que o furto agravado pelas circunstâncias


da violência física ou psíquica contra a pessoa, ou ainda por outro meio
que a impede de resistir aos propósitos e à ação do delinquente. 1
O roubo próprio, previsto no caput do artigo 157 do CP, para sua
configuração, exige que a violência ou grave ameaça ocorra para
possibilitar a subtração do bem, enquanto que no roubo impróprio,
descrito no § 1º do artigo referido, primeiro ocorre a retirada do bem
da vítima e, logo após, haja a violência ou grave ameaça para garantir
a manutenção da posse da coisa subtraída. Portanto a diferença entre
ambos está no momento em que ocorre a violência, se antes – roubo
próprio, se depois – roubo impróprio.
Interessante observar que se por alguma razão, não houver
violência após a subtração da coisa, não haverá roubo tentado, mas
furto consumado, sendo essa a posição doutrinária e jurisprudencial
dominante.

Extorsão (158 CP)

 Objeto jurídico: O patrimônio, a liberdade e a incolumidade


pessoais.

 Sujeito ativo: Qualquer pessoa.

 Sujeito passivo: Qualquer pessoa.

 Elemento subjetivo: Apenas o Dolo, admissível a tentativa.

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LEGISLAÇÃO PENAL COMUM – CEFC 2019

 Consumação: É crime formal e consuma-se mesmo sem a


obtenção da vantagem indevida. Ela consuma-se, portanto, no
momento em que a vítima, depois de sofrer a violência ou grave
ameaça, realiza o comportamento desejado pelo criminoso.

No crime de extorsão, usando da violência ou da grave ameaça


o criminoso, obriga outra pessoa a ter determinado comportamento,
com o objetivo de obter uma vantagem econômica indevida.
A vítima é coagida pelo autor do crime a fazer, tolerar que se
faça ou deixar fazer alguma coisa.
Importante saber que se a extorsão fosse crime material, o
agente poderia ser preso no momento em que estivesse recebendo a
vantagem, no entanto, como a extorsão é crime formal, a prisão em
flagrante deverá levar em consideração o momento em que houve o
agente constrangeu a vítima. Se o constrangimento for feito em um
momento e a obtenção da vantagem em outro, o que importa para o
flagrante é o instante do constrangimento, o recebimento da vantagem
indevida é mero exaurimento.
Exemplificando, podemos citar que se o agente constrangeu a
vítima a dar o seu cartão bancário e senha em um dia, mas somente
foi sacar a quantia três dias depois, nesse momento do saque não
haverá mais flagrante.

Extorsão Mediante Sequestro (159 CP)

 Objeto jurídico: O patrimônio, a liberdade e a incolumidade


pessoais.

 Sujeito ativo: Qualquer pessoa.

 Sujeito passivo: Qualquer pessoa.

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LEGISLAÇÃO PENAL COMUM – CEFC 2019

 Elemento subjetivo: Apenas o Dolo, admissível a tentativa.

 Consumação: Com o sequestro/ privação de liberdade. É um


crime permanente.

A corrente majoritária entende que no tipo penal da extorsão a


expressão “qualquer vantagem diz respeito realmente a ‘qualquer
vantagem’, sendo irrelevante que seja devida ou indevida, econômica
ou não econômica”.
Também é um crime complexo formado pela conexão de dois
crimes, o de extorsão e o de sequestro. O objeto jurídico protegido pela
norma é o patrimônio, a liberdade de locomoção e a incolumidade
pessoal, e mesmo havendo ofensa à liberdade pessoal, trata-se de
crime contra o patrimônio, pois o sequestro é crime meio para obter
vantagem patrimonial.
Interessante relembrar, tal qual no crime do artigo 148, algumas
diferenças conceituais entre sequestro e cárcere privado. A primeira
diferença é que o cárcere privado consiste na privação da liberdade de
locomoção de uma pessoa nos moldes mais estrito, concretizada por
meio da clausura, no local onde ela estiver. Já o sequestro admite que
essa mesma privação da liberdade de locomoção seja efetivada de uma
forma mais ampla – geograficamente –, admitindo sua efetivação em
local diverso daquele no qual ela se encontrar.

Apropriação Indébita (168 CP)

 Objeto jurídico: O patrimônio.

 Sujeito ativo: Quem tem a posse ou a detenção lícita da coisa.

 Sujeito passivo: O dono ou o possuidor em razão de direito


real.

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LEGISLAÇÃO PENAL COMUM – CEFC 2019

 Elemento subjetivo: Apenas o Dolo.

 Consumação: Com a negativa de devolver a coisa.

O tipo penal consiste no apoderamento de coisa alheia móvel,


sem o consentimento do proprietário. O criminoso recebe o bem por
empréstimo ou em confiança, e passa a agir como se fosse o dono.
Como já estudado, pode haver alguma confusão com o tipo penal
do Furto, previsto no art. 155 do CP e uma forma bem simples de saber
quando se aplica uma ou outra tipicidade, dentro da esfera penal e
aplicando a análise ao caso concreto, é saber o seguinte:
A coisa estava com o agente?
Se a resposta for positiva, o crime é de apropriação indébita
(analisadas as circunstâncias);
Se a resposta for negativa, o crime é de furto (analisadas as
circunstâncias).

Estelionato (171 CP)

 Objeto jurídico: O patrimônio.

 Sujeito ativo: Qualquer pessoa.

 Sujeito passivo: Qualquer pessoa determinada.

 Elemento subjetivo: Apenas o Dolo. Admissível a tentativa.

 Consumação: Crime material. Consuma-se no momento e local


em que o agente obtém a vantagem ilícita em prejuízo alheio.

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LEGISLAÇÃO PENAL COMUM – CEFC 2019

O tipo penal deverá sempre abarcar o fim econômico, de


natureza patrimonial. A vantagem precisa ser ilícita, do contrário o
crime será o previsto no artigo 345 CP, exercício arbitrário das próprias
razões.
Se o sujeito passivo for criança ou menor incapaz o crime será o
de abuso de incapaz, previsto no 173 CP.
Interessante em nossa prática diária, conhecer que a chamada
“COLA ELETRÔNICA” segundo a orientação do STF e do STJ, não é
crime de estelionato, antes crime de fraude em concurso público
previsto no artigo 311-A CP.
Ainda de acordo com o com o STJ, a exploração e funcionamento
de máquinas eletrônicas programadas, denominadas caça-níqueis,
videopôquer, vídeo bingo e equivalentes, em qualquer uma de suas
espécies, revela prática contravencional, não configurando o
estelionato.

Receptação (180 CP)

 Objeto jurídico: O patrimônio.

 Sujeito ativo: Qualquer pessoa.

 Sujeito passivo: Qualquer pessoa.

 Elemento subjetivo: Dolo e culpa. Admite-se tentativa.


 Consumação: Crime material e formal. Enquanto material
(receptação própria) consuma-se no momento em que ocorre a
aquisição, transporte, condução (e outras condutas) de objeto
produto de crime. Já no formal (receptação imprópria) consuma-
se com a conduta idônea de influir na opinião, requerendo
segundo corrente majoritária, no entanto, que o terceiro pratique
o ato para o qual foi induzido.

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LEGISLAÇÃO PENAL COMUM – CEFC 2019

Interessante para nosso estudo pontuar que no crime de


receptação, a alegação de desconhecimento que o bem era oriundo de
um crime, se o valor ou a condição do objeto indicam que ele não vem
de boa procedência, o comprador ou quem receber estará cometendo
o crime de receptação.
A expressão ‘deve presumir’ usada na lei é muito importante,
pois a pessoa não precisa ter certeza ou evidência de que o produto
tem origem criminosa, basta que a condição ou preço faça com que
qualquer pessoa normal suspeite que o produto é originário de um
crime.

ALGUNS CRIMES CONTRA OS COSTUMES - APONTAMENTOS

Estupro (213 CP)

 Objeto jurídico: A liberdade sexual da pessoa.

 Sujeito ativo: Qualquer pessoa.

 Sujeito passivo: Qualquer pessoa.

 Elemento subjetivo: Apenas o Dolo, admitida a tentativa.

 Consumação: O estupro é crime material, se consuma com a


cópula vagínicae/ou outro ato libidinoso, indispensável o
constrangimento da vítima, mediante violência ou grave ameaça.

São quatro os condutas a serem observadas: (1)


constrangimento decorrente da violência física ou da grave ameaça;
(2) dirigido a qualquer pessoa, seja do sexo feminino ou masculino;

39
LEGISLAÇÃO PENAL COMUM – CEFC 2019

(3) para ter conjunção carnal; (4) ou, que a vítima pratique ou
permita que com ela se pratique qualquer ato libidinoso. O estupro,
consumado ou tentado é crime hediondo.
Para configurar o estupro é necessário que durante todo o ato
sexual que a vítima não concorde e manifeste de forma clara e objetiva
que não deseja que com ela se pratique, seja cópula vaginal, seja ato
libidinoso, sem, contudo, exigir comportamento heroico que coloque
em risco sua vida.
Para os casos de vítimas vulneráveis o consentimento é
indiferente!
Sobre vítimas vulneráveis, o bem jurídico tutelado no art. 217-A
é a dignidade do menor de catorze anos, do enfermo e do deficiente
mental, ou seja, pessoas que possuam discernimento reduzido.
Outrora, o tipo penal para vítimas vulneráveis permitia muitas
elucubrações, o que com o atual tipo não ocorrem, uma vez que basta
ser menor de 14 anos de idade.
A conhecida corrupção de menores da nossa profissão, hoje no
artigo 218 do CP, impõe analisar se o agente induziu (convenceu, criou
a ideia) da vítima praticar algum ato que visasse satisfazer a lascívia
de outra pessoa, de forma meramente contemplativa, sem que exista
qualquer contato físico, que se vier a ocorrer, ambos, quem induziu e
beneficiado, serão responsabilizados por estupro de vulnerável, desde
que, tenha existido dolo do aliciador nesse sentido.
Importante salientar que todos os crimes contra o costume, a
liberdade sexual, passaram a ser de ação pública condicionada a
representação e, para vulneráveis, pública incondicionada.

ALGUNS CRIMES CONTRA A PAZ PÚBLICA - APONTAMENTOS

Apologia de Crime ou Criminoso (287 CP)

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LEGISLAÇÃO PENAL COMUM – CEFC 2019

 Objeto jurídico: A paz pública.

 Sujeito ativo: Qualquer pessoa.

 Sujeito passivo: A coletividade, se for pessoa determinada o


crime será outro.

 Elemento subjetivo: Apenas o Dolo, admitida a tentativa.

 Consumação: É crime formal, não sendo necessário que alguém


cometa o crime incitado.

Impossível esgotar o tema. Mas alguns apontamentos


importantes para nossa profissão:
Incitação na área musical/ artística: Inicialmente cumpre
estabelecer que a música é uma forma de expressão cultural, e como
tal, a Constituição a protege com veemência: Inciso IX, do artigo 5º
da CF - É livre a expressão da atividade intelectual, artística, científica
e de comunicação, independente de censura ou licença.
E não poderia ser diferente tendo em vista constituir-se nosso
país num Estado Democrático de Direito, sendo um de seus objetivos
a construção de uma sociedade livre, justa e solidária, contudo, não se
pode entender que há, caso a caso, liberdade absoluta.
Nesse sentido seria legitimado, por exemplo, expressão cultural
de caráter claramente antidemocrático, como a que pregasse o racismo
ou o nazismo, uso de entorpecentes? Claro que não. O direito à
liberdade de expressão deve ser sopesado com outros direitos, como
o da segurança, sob a perspectiva do princípio democrático.
Importante frisar que a conduta pública a ser avaliada, deve
constituir incentivo doloso indireto a prática de crime.
Outro local onde o crime de incitação ao crime é fértil é a internet,
sendo os crimes cuja incitação ou apologia mais comuns são: a

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LEGISLAÇÃO PENAL COMUM – CEFC 2019

pedofilia, racismo, nazismo, uso de entorpecentes e pirataria (violação


dos direitos autorais).
Um último detalhe, fazer publicamente apologia de alguém que
fugiu não é crime porque fugir não é crime, mas apologia de
favorecimento pessoal ou do criminoso que ajudou a escapar ou que
escapou é crime.
Interessante frisar que defender publicamente alguém
condenado, não é apologia a criminoso, mas puro e simples exercício
da liberdade de expressão. Ser amigo de criminoso também não é
crime. Enfim você pode se associar, gostar ou desgostar de quem
quiser, mas dizer que alguém que cometeu um crime é um exemplo a
ser seguido, um herói, etc, é crime.

Associação Criminosa (288 CP)

 Objeto jurídico: A paz pública.

 Sujeito ativo: Qualquer pessoa. Trate-se de crime coletivo ou


plurissubjetivo, que requer a participação de pelo menos 3
pessoas.

 Sujeito passivo: A coletividade.

 Elemento subjetivo: Apenas o Dolo.

 Consumação: É crime formal e permanente, se consuma com a


efetiva associação.

O ponto central da análise do novo tipo penal trazido pela Lei


12.850/2013 é que não basta que de três (ou mais) pessoas pratiquem
delitos. É necessário que se faça para a específica prática de crimes. A

42
LEGISLAÇÃO PENAL COMUM – CEFC 2019

lei exige que a paz pública seja afetada pela intenção específica de
cometer crimes.
Ressalte-se que se associação criminosa não possuir estabilidade
e caráter de permanência será considerado mero concurso de agentes.
Vale acrescentar que se trata de atividade criminal ordinária,
devidamente orquestrada.
Por fim interessante observar que o crime de associação
criminosa é formal, autônomo e independe da prática e/ou
comprovação de outros delitos e enquadra-se na modalidade de ofensa
a paz pública.

ALGUNS CRIMES CONTRA A ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA -


APONTAMENTOS

Peculato (312 CP)

 Objeto jurídico: A administração pública no aspecto moral e


patrimonial.

 Sujeito ativo: O funcionário público.

 Sujeito passivo: O Estado e a entidade de direito público.

 Elemento subjetivo: Dolo e culpa.

 Consumação: Quando o agente passa a dispor do objeto


material como se fosse seu e quando existe o desvio da coisa
pública.

De forma resumida, o crime de peculato, previsto no artigo 312


do Código Penal, ocorre com a apropriação (peculato-apropriação) ou

43
LEGISLAÇÃO PENAL COMUM – CEFC 2019

desvio (peculato-desvio) devalor ou qualquer outro bem móvel, público


ou particular, de que tem a posse em razão da função, ou o desvia em
proveito próprio ou alheio (peculato-furto).

Concussão (316 CP)

 Objeto jurídico: A administração pública no aspecto moral e


patrimonial.

 Sujeito ativo: O funcionário público.

 Sujeito passivo: O Estado e a entidade de direito público.

 Elemento subjetivo: Apenas o dolo, não há forma culposa.

 Consumação: Crime formal, se consuma com a simples


exigência.

Em resumo, o crime de Concussão previsto no artigo 316 do


Código Penal, ocorre quando o funcionário público, em razão do cargo,
exige para si ou para outrem, vantagem indevida. Como exemplo
poderíamos ter um delegado de polícia exigindo dinheiro para permitir
o funcionamento de prostíbulo.
Mister destacar que a vantagem deve ser indevida, caso seja
devida não há o crime. Caso o particular ceda à exigência indevida,
não comete crime algum.
É preciso que o agente efetivamente exija a vantagem, não
basta que a peça, que a solicite. Quando servidor público apenas ‘pede’
vantagem ilícita devido à sua função, isso caracteriza outro crime, que
o caso concreto dirá qual será, contudo, se a vantagem for oferecida
por alguém ao agente público, não haverá crime de concussão, mas
corrupção ativa, de acordo com o artigo 333 do Código Penal.

44
LEGISLAÇÃO PENAL COMUM – CEFC 2019

Corrupção Passiva (317 CP)

 Objeto jurídico: A administração pública no aspecto moral e


patrimonial.

 Sujeito ativo: O funcionário público.

 Sujeito passivo: O Estado e a entidade de direito público.

 Elemento subjetivo: Apenas o dolo, não há forma culposa.

 Consumação: Crime formal, se consuma com a simples


exigência.

Em síntese, na corrupção passiva, o servidor público comercializa


sua função pública. Sua honra e caráter não importam...
Não existe crime mais sério do que a corrupção. Outras ofensas
violam uma lei enquanto a corrupção ataca as fundações de todas as
leis.
“Sob nossa forma de Governo, toda a autoridade está
investida no povo e é por ele delegada para aqueles que o
representam nos cargos oficiais. Não existe ofensa mais
grave do que a daquele no qual é depositada tão sagrada
confiança, quem a vende para seu próprio ganho e
enriquecimento, e não menos grave é a ofensa do pagador
de propinas. Ele é pior que o ladrão, porque o ladrão rouba
o indivíduo, enquanto que o agente corrupto saqueia uma
cidade inteira ou o Estado. Ele é tão maligno como o
assassino, porque o assassino pode somente tomar uma
vida contra a lei, enquanto o agente corrupto e a pessoa

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LEGISLAÇÃO PENAL COMUM – CEFC 2019

que o corrompe miram, de forma semelhante, o


assassinato da própria comunidade” .

São três as condutas típicas que caracterizam corrupção passiva:


(1) solicitar (pedir) vantagem indevida; (2) receber referida
vantagem; e, por fim, (3) aceitar promessa de tal vantagem, anuindo
com futuro recebimento. A corrupção passiva é a prostituição da
pureza do cargo pela parcialidade ou pelo interesse.
No verbo solicitar, a corrupção parte do funcionário público
corrupto e aqui reside a diferença marcante entre os crimes de
corrupção passiva e concussão, qual seja a ação do funcionário, no
caso da concussão, representa uma exigência, e, no caso da corrupção
passiva, representa uma solicitação (pedido).

Prevaricação (319 CP)

 Objeto jurídico: A administração pública no aspecto moral e


patrimonial.

 Sujeito ativo: O funcionário público.

 Sujeito passivo: O Estado.

 Elemento subjetivo: Apenas o dolo, não há forma culposa.


 Consumação: Com o efetivo retardamento, omissão ou prática.

A doutrina o considera crime funcional, isto é, um dos crimes que


o agente público pode praticar contra o funcionamento regular da
administração pública em geral, ao deixar de praticar o ato de ofício
definido pela lei como decorrente de trabalho do agente público, ou
seja, ato que deve ser praticado pela própria natureza do trabalho do
agente, mesmo que não seja provocado para isso de forma específica.

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LEGISLAÇÃO PENAL COMUM – CEFC 2019

Seu retardamento, omissão ou a prática desvirtuada (ilegal) do ato


devem ocorrer para a satisfação de interesse ou sentimento pessoal, e
é nesse sentido que o crime de prevaricação se torna dificílimo de
punição no Brasil, uma vez que a prova de interesse ou sentimento
pessoal são difíceis de produzir e somado a isso, uma pena muito
pequena para o delito.

ALGUNS CRIMES PRATICADOS POR PARTICULAR CONTRA A


ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA – APONTAMENTOS

Resistência (329 CP)

 Objeto jurídico: A administração pública no aspecto moral e


patrimonial.

 Sujeito ativo: Qualquer pessoa.

 Sujeito passivo: O Estado e a pessoa contra a qual a ação é


praticada, ou seja, o funcionário público.

 Elemento subjetivo: Dolo, não há modalidade culposa.

 Consumação: Com a prática de violência ou ameaça,


independentemente de conseguir obstar a execução (crime
formal).

Neste tipo penal, a conduta incriminada é a oposição à execução


de ato funcional.
Os meios empregados são a violência física ou a ameaça verbal
ou escrita, independentemente da gravidade.

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São pressupostos do delito em estudo: a) Ato legal - é necessário


a legalidade do meio e forma de execução, posto que a ilegalidade do
ato do funcionário público, torna legítima a resistência e afasta o crime;
b) Funcionário competente -é mister que o funcionário seja
efetivamente competente, ou seja, competência funcional para praticar
o ato; c) Violência física ou ameaça –é essencial para a configuração
do crime, não caracterizando o crime a simples desobediência ou
resistência passiva.

Desobediência (330 CP)

 Objeto jurídico: A administração pública no aspecto do


cumprimento de suas ordens.

 Sujeito ativo: Qualquer pessoa.

 Sujeito passivo: O Estado.

 Elemento subjetivo: Dolo, não há modalidade culposa.

 Consumação: Com a efetiva desobediência, após o prazo que


se estabeleceu para o cumprimento da ordem (crime formal).

O tipo penal de desobediência exige para a sua configuração a


existência de pessoa determinada, contra quem foi expedida a ordem
da autoridade. Por isso se diz que a ordem deve emanar de funcionário
público, pois somente este é o agente do Poder Público, em cujo nome
atua, expedindo ordem de cumprimento obrigatório direcionada a uma
pessoa determinada.
Portanto a ordem deverá ser direta, inequívoca e induvidosa,
emanada por agente público competente. Por isso se diz que a
desobediência é ao agente, não a Lei.

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LEGISLAÇÃO PENAL COMUM – CEFC 2019

Para o caso da nossa realidade, resistência passiva a prisão não


é desobediência bem como crime de qualquer espécie.
Outro ponto relevante para nossa profissão é o conhecido teste
do bafômetro/exame de sangue e a presunção de inocência/ produção
de prova contra si versus crime de desobediência – sem delongas o
assunto ainda não foi pacificado nos tribunais bem como na doutrina,
existindo teses para todos os gostos. De fato, ninguém é obrigado a
produzir prova contra si mesmo, mas no caso de recusa o funcionário
público deve considerar outro meio de prova, mas em todos os casos
não é cabível a tipificação do delito de desobediência.

Desacato (331 CP)

 Objeto jurídico: A administração pública.

 Sujeito ativo: Qualquer pessoa.

 Sujeito passivo: O Estado, secundariamente o funcionário


ofendido.

 Elemento subjetivo: Dolo, não há modalidade culposa.

 Consumação: Com o ato ou palavra de que o ofendido tome


conhecimento (crime formal).

O cerne do delito está no verbo desacatar, que em outras


palavras quer dizer ofender, menosprezar, diminuir, humilhar. Em
suma qualquer palavra ou ato que procure impingir ao funcionário
público algum tipo de humilhação, desprestígio, vexame, entre outras.
Desnecessário estar na presença de outras pessoas, ou seja, mesmo
presente apenas o funcionário público e o desacatante, o crime se
consuma.

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É importante frisar que o funcionário público deve estar no


exercício da função ou o desacato deve ser em razão da função
exercida.
Aspecto relevante para nossa profissão é que se o funcionário
der causa ao desacato, não haverá crime, apenas retorsão ou repulsa.
Outro assunto importante a tratar é que a desaprovação, censura
áspera ou reprovação não injuriosa da conduta do funcionário público
não constitui crime.
Por ser um crime formal é irrelevante o pedido de desculpas por
parte do agente infrator. Um outro detalhe e relevante para nossa
profissão é que mesmo embriagado o agente comete o crime, ficando
pela corrente majoritária sem pena.

Tráfico de Influência (332 CP)

 Objeto jurídico: A administração pública.

 Sujeito ativo: Qualquer pessoa.

 Sujeito passivo: O Estado e o prestígio da Administração.

 Elemento subjetivo: Dolo, não há modalidade culposa.

 Consumação: Com efetiva solicitação, exigência, cobrança ou


obtenção de vantagem ou promessa desta, sem necessidade do
resultado (crime formal).

Atento ao tipo penal e seus verbos, entende-se no delito em


questão que alguém pode se aproveitar de uma posição privilegiada
dentro de uma instituição pública ou ainda de conexões com pessoas
em posição de autoridade, para obter favores ou benefícios para
terceiros, geralmente assim agindo em troca de favores ou ainda um

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pagamento. Tal qual na corrupção, esse tipo é nocivo porque se trata


de mercadejar a função pública!
Para nossa profissão é mister entender que o funcionário público
que se deixa influenciar o crime deste é a corrupção!
Muitos outros crimes poder-se-ia estudar de forma sucinta e
prática, contudo estes estão aí para auxiliar-nos no exercício da
profissão.
Se entender pertinente outros tipos penais, não hesite em
comentar com seu professor.

CONCLUSÃO

A formação jurídica nos cursos de formação do policial militar


se justifica no reconhecimento da efetiva operação do direito que se
processa na relação direta com a população, em tempo real, fora dos
cartórios dos fóruns, das salas de audiência e longe dos gabinetes
dos estudiosos do direito, das salas de aula e mesmo das sedes dos
distritos policiais.
Portanto, considerando a atuação do policial militar como
gestor de conflitos sociais e agente garantidor da lei, que age ativa
e ostensivamente contra a ocorrência de infrações penais, sabendo
quando, como e quando agir no estrito cumprimento da lei faz-se
necessário o conhecimento do Direito Penal.

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REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA

GRECO, Rogério. Atividade Policial. Editora Impetus. 2016. 7ª


Edição. Niterói, RJ.
GRECO, Rogério. Curso de Direito Penal. Parte Geral - Volume
I. Editora Impetus. 2016. Niterói, RJ.
GRECO, Rogério. Curso de Direito Penal. Parte Especial -
Volume II e III. Editora Impetus. 2016. Niterói, RJ.

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