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Grupo Alfa e Ômega de Estudos Apologéticos

O texto a seguir é a Introdução do livro “Fé Racional: a apologética e a veracidade da fé Cristã” de


William Lane Craig. (Craig, William Lane. Reasonable faith: Christian truth and apologetics—3rd ed.
Crossway Books).

Tradução: http://deusemdebate.blogspot.com/

Introdução

O que é apologética? Apologética (do grego apologia: defesa) é o ramo da teologia cristã
que visa proporcionar uma justificação racional para as declarações de veracidade da fé
cristã. Apologética é, assim, primariamente uma disciplina teórica, embora tenha uma
aplicação prática. Além de servir, como o resto da teologia em geral, como uma expressão
de amor a Deus com toda a nossa mente, a apologética serve especificamente para mostrar
aos incrédulos a veracidade da fé cristã, confirmar essa fé para os crentes e para revelar e
explorar as conexões entre a doutrina cristã e outras verdades. Como uma disciplina
teórica, então, a apologética não é um treinamento na arte de responder perguntas, ou de
debater, ou de evangelismo, embora tudo isso faça uso da ciência da apologética e a aplique
praticamente.

Isto significa que um curso de apologética não tem o propósito de ensinar-lhe: "Se ele
diz isso e aquilo, então você responde tal e tal coisa". A apologética, repito, é uma disciplina
teórica que tenta responder a questão, Que justificativa racional pode ser dada para a fé
cristã? Portanto, a maioria de nosso tempo deve ser gasto tentando responder a esta
pergunta.

Agora, isso sempre vai ser desapontador para alguns. Eles simplesmente não estão
interessados na justificativa racional do cristianismo. Eles querem saber: "Se alguém diz:
„Olhe para todos os hipócritas na igreja!‟ o que eu digo?" Não há nada de errado com essa
questão; mas a verdade é que tais questões práticas são logicamente secundárias às
questões teóricas e não podem, em nosso espaço limitado, ocupar o centro da nossa
atenção. O uso prático da apologética deveria ser uma parte integrante de cursos e livros
sobre evangelismo.

Apologética? Pra quê?

Algumas pessoas depreciam a importância da apologética como uma disciplina teórica.

"Ninguém vem a Cristo através de argumentos," eles lhe dirão. "As pessoas não estão
interessadas no que é verdadeiro, mas naquilo que funciona para elas. Eles não querem
respostas intelectuais, querem ver o cristianismo sendo vivido." Eu acredito que a atitude
expressa em destas declarações é tanto limitada quanto equivocada. Deixe-me explicar três
papéis vitais que a disciplina da apologética desempenha hoje.

1) Moldar a cultura. Os cristãos precisam olhar para além do seu contato evangelístico
imediato e perceber o quadro mais amplo do pensamento e da cultura ocidental. Em geral,
a cultura ocidental é profundamente pós-cristã. Ela é produto do Iluminismo, que
introduziu na cultura Européia o fermento do secularismo que agora já permeou toda a
sociedade ocidental. O marco do Iluminismo era "livre pensamento", isto é, a busca do
conhecimento apenas por meio da razão humana desimpedida. Embora não seja inevitável
que tal exercício leve a conclusões não cristãs e embora a maioria dos próprios pensadores
iluministas originais fossem teístas, o impacto avassalador da mentalidade iluminista é que
os intelectuais ocidentais não mais consideram possível o conhecimento teológico. A
teologia não é uma fonte de conhecimento verdadeiro e, portanto, não é uma ciência (em
alemão, uma Wissenschaft). Razão e religião estão, portanto, em contradição entre si. Apenas
as afirmações das ciências físicas são tidas como guias dotadas de autoridade para a nossa
compreensão do mundo, e a confiante pressuposição é que a imagem do mundo que
emerge das ciências genuínas é uma imagem completamente naturalista. A pessoa que
segue a busca da razão com firmeza será ateísta ou, no melhor dos casos, agnóstica.

Por que essas considerações de cultura são importantes? Elas são importantes
simplesmente porque o evangelho nunca é ouvido em isolamento. É sempre ouvido contra
o pano de fundo do ambiente cultural em que uma pessoa vive. Uma pessoa educada em
um ambiente cultural em que o Cristianismo ainda é visto como uma opção
intelectualmente viável apresentará uma abertura para o evangelho que uma pessoa
secularizada não terá. Para a pessoa secular que você pode também tanto dizer-lhe que
acredite em fadas ou duendes quanto em Jesus Cristo! Ou, para dar uma ilustração mais
realista, é como nós sermos abordados na rua por um devoto do movimento Hare Krishna
que nos convida a crer em Krishna. Tal convite nos pareceria estranho, bizarro, até mesmo
divertido. Mas para uma pessoa nas ruas de Delhi, tal convite pareceria, eu acho, bastante
razoável e motivo de séria reflexão. Eu temo que os evangélicos pareçam quase tão
estranhos para as pessoas nas ruas de Bonn, Estocolmo ou Paris quanto os devotos de
Krishna.

O que nos espera na América do Norte, se nossa descida para o secularismo continuar
sem resposta, já é evidente na Europa. Embora a maioria dos europeus mantenha uma
filiação nominal com o Cristianismo, apenas cerca de 10 por cento são crentes praticantes, e
menos da metade desses é de teologia. A mais significante tendência na afiliação religiosa
europeia é o crescimento dos classificados como "não religioso", de zero por cento da
população em 1900 para mais de 22 por cento hoje. Como resultado, o evangelismo é
incomparavelmente mais difícil na Europa do que nos Estados Unidos. Tendo vivido por
treze anos na Europa, onde falei evangelisticamente em campi universitários em todo o
continente, eu posso pessoalmente testemunhar de como o terreno é difícil. É difícil para o
evangelho até mesmo ser ouvido.

Os Estados Unidos estão seguindo a alguma distância por esta mesma estrada, com o
Canadá em algum lugar no meio. Para que a situação não se degenere ainda mais, é
imperativo que moldemos o clima intelectual de nossa nação de forma que o cristianismo
continue a ser uma opção viável para homens e mulheres pensadores.

É por isso que os cristãos que depreciam o valor da apologética porque "ninguém vem a
Cristo através de argumentos" são limitados. Porque o valor da apologética se estende
muito além de um contato imediato de evangelização. A tarefa mais ampla da apologética
cristã é ajudar a criar e sustentar um ambiente cultural no qual o evangelho possa ser
ouvido como uma opção intelectualmente viável para homens e mulheres pensadores.
Em seu artigo "Cristianismo e Cultura", no começo da Controvérsia Fundamentalista, o
grande teólogo de Princeton J. Gresham Machen solenemente advertiu,

As idéias falsas são os maiores obstáculos para a recepção do Evangelho. Podemos pregar
com todo o fervor de um reformador e ainda assim conseguir apenas ganhar um perdido aqui
e ali, se permitirmos que o pensamento coletivo da nação seja controlado por idéias que
impeçam que o Cristianismo seja considerado como algo mais do que uma inofensiva ilusão. 1

Infelizmente, o alerta de Machen foi ignorado, e o cristianismo bíblico retirou-se para o


armário intelectual do fundamentalismo. O anti-intelectualismo e a instrução segunda se
tornou a norma.

Já em sua época, Machen observou que "muitos fariam os seminários combater o erro
atacando-o na forma como é ensinado por seus expoentes populares" em vez de confundir
os alunos "com um monte de nomes alemães desconhecidos fora dos muros da
universidade." Mas, pelo contrário, Machen insistiu,

...é crucial que os cristãos estejam atentos ao poder de uma idéia antes que ela atinja a sua
expressão popular. O método acadêmico de proceder, ele disse, baseia-se simplesmente em
uma profunda crença capacidade das idéias se difundirem. O que é hoje uma questão de
especulação acadêmica começa amanhã a movimentar exércitos e a derrubar impérios. Nessa
segunda fase, foi longe demais para ser combatida, a hora de parar com isso foi quando ainda
era apenas uma questão de debate. Assim, como cristãos, devemos tentar moldar o
pensamento do mundo, de forma a fazer da aceitação do cristianismo algo mais do que um
absurdo lógico.2

Na Europa, temos visto o fruto amargo da secularização, que agora ameaça a América do
Norte também.

Felizmente, nos Estados Unidos, nas últimas décadas, um evangelicalismo revitalizado


emergiu do armário Fundamentalista e começou a levar a sério o desafio de Machen.
Estamos vivendo numa época em que a filosofia Cristã está experimentando um verdadeiro

1
J. Gresham Machen, “Christianity and Culture” [O Cristianismo e a cultura], Princeton Theological Review 11
(1913): 7.
2
Ibid.
renascimento, revigorando a teologia natural, numa época em que a ciência está mais aberta
à existência de um Criador e Designer transcendente do cosmos do que em qualquer época
da história recente, e em uma época em que a crítica bíblica embarcou em uma nova busca
do Jesus histórico que trata os Evangelhos seriamente como fontes históricas valiosas para a
vida de Jesus e tem confirmado as principais linhas do retrato de Jesus pintado nos
Evangelhos. Estamos bem preparados intelectualmente para ajudar a remodelar a nossa
cultura para recuperar o terreno perdido, para que o evangelho possa ser ouvido como uma
opção intelectualmente viável para pessoas pensantes. Enormes portas de oportunidade já
estão abertas diante de nós.

Agora eu posso imaginar alguns de vocês pensando: "Mas, nós não vivemos em uma
cultura pós-moderna, em que estes apelos aos argumentos apologéticos tradicionais não
são mais eficazes? Uma vez que os pós-modernistas rejeitam os cânones tradicionais da
lógica, racionalidade e verdade, argumentos racionais para a verdade do Cristianismo não
funcionam mais! Em vez disso, na cultura de hoje deveríamos simplesmente compartilhar
nossas narrativas e convidar as pessoas para participar delas."

Em minha opinião, esse tipo de pensamento não poderia estar mais enganado. A idéia de
que vivemos em uma cultura pós-moderna é um mito. De fato, uma cultura pós-moderna é
uma impossibilidade; ela seria absolutamente impossível de viver. Ninguém é um pós-
moderno quando se trata de comparar os rótulos em um vidro de remédio e de uma caixa
de veneno de rato. Se você tem uma dor de cabeça, acho bom você acreditar que os textos
têm um significado objetivo! As pessoas não são relativistas quando se trata de questões da
ciência, engenharia e tecnologia; elas são sim relativistas e pluralistas em assuntos de
religião e ética. Mas isso não é pós-modernismo, isso é modernismo! Essa é apenas a linha
antiga do Positivismo e Verificacionismo, que sustentava que tudo o que você não puder
provar com seus cinco sentidos não passa de uma questão de gosto pessoal e expressão
emocional. Nós vivemos em um ambiente cultural que continua profundamente
modernista. Assim, pessoas que pensam que vivemos em uma cultura pós-moderna têm
entendido muito mal a nossa situação cultural.

Na verdade, eu penso que fazer as pessoas acreditar que vivemos em uma cultura pós-
moderna é um dos mais astutos enganos que Satanás já concebeu. "O modernismo é
passado", nos diz ele. "Você não precisa mais se preocupar com ele. Então esqueça isso! Ele
está morto e enterrado." Enquanto isso, o modernismo, fingindo estar morto, vem
novamente com seu extravagante vestido novo de pós-modernismo, tentando aparecer
como um novo desafiante. "Seus antigos argumentos e sua apologética não são mais
eficazes contra esta nova chegada," nos é dito. "Deixe-os de lado, eles são de nenhum uso.
Apenas partilhe a sua narrativa!" De fato, alguns, cansados de longas batalhas contra o
modernismo, realmente saúdam o novo visitante com alívio. E assim, Satanás nos engana
para voluntariamente deixarmos de lado nossas melhores armas da lógica e da evidência,
garantindo assim o despercebido triunfo do modernismo sobre nós. Se adotarmos este
curso suicida de ação, as consequências para a Igreja na próxima geração serão
catastróficas. O Cristianismo será reduzido a apenas outra voz numa cacofonia de vozes
competidoras, cada uma compartilhando sua própria narrativa e nenhuma se apresentando
como a verdade objetiva sobre a realidade, ao passe que o naturalismo científico molda a
nossa visão da cultura de como o mundo realmente é.

Agora, é claro, é desnecessário dizer que, ao fazermos apologia devemos ser relacionais,
humildes e convidativos; mas isso nem chega a ser uma idéia original do pós-modernismo.
Desde o começo, os apologistas cristãos têm sabido que devemos apresentar as razões da
nossa esperança "com mansidão e temor" (1 Ped. 3:15-16 ACRF). Não é preciso abandonar
os cânones da lógica, da racionalidade e da verdade para exemplificar essas virtudes
bíblicas.
A apologética é, portanto, vital na promoção de um ambiente cultural no qual o evangelho
possa ser ouvido como uma opção viável para pessoas pensantes. Na maioria dos casos,
não serão argumentos ou evidências que trarão um buscador à fé em Cristo—essa é a meia-
verdade vista pelos detratores da apologética—mas, mesmo assim, será a apologética que,
fazendo do evangelho uma opção crível para pessoas buscadoras, lhes dá, por assim dizer,
a permissão intelectual para crer. Assim, é de importância vital que preservemos um
ambiente cultural no qual o Evangelho seja ouvido como uma opção viável para pessoas
pensantes, e a apologética será fundamental para ajudar a produzir esse resultado.

2) Fortalecer os crentes. Não só a apologética é vital para moldar a nossa cultura, mas
também desempenha funções vitais na vida das pessoas individuais. Uma dessas funções
será fortalecer os crentes. O culto cristão contemporâneo tende a se concentrar na promoção
da intimidade emocional com Deus. Embora isso seja uma coisa boa, as emoções vão
carregar uma pessoa até certo ponto, e então ela vai precisar de algo mais substancial.

A apologética pode ajudar a fornecer um pouco dessa substância.

Falando em igrejas em todo o país, eu frequentemente encontro pais que vêm depois do
culto e dizem algo como: "Se você tivesse passado aqui há 2 ou 3 anos! Nosso filho [ou,
nossa filha] tinha questões sobre a fé que nenhum de nós podia responder, e agora ele
perdeu sua fé e está longe do Senhor." Simplesmente quebra meu coração encontrar pais
como esses. Infelizmente, essa experiência não é incomum. No 2° grau e na faculdade, os
adolescentes são intelectualmente assediados com todo tipo de filosofia não cristã associada
a um esmagador relativismo. Se os pais não estiverem intelectualmente engajados com sua
fé e não tiverem argumentos sólidos para o teísmo Cristão e boas respostas para perguntas
de seus filhos, então estamos em um real perigo de perder a nossa juventude. Não é mais
suficiente ensinar aos nossos filhos histórias da Bíblia; eles precisam doutrina e apologética.

Francamente, eu acho difícil entender como as pessoas hoje podem arriscar a


paternidade sem ter estudado apologética.

Infelizmente, nesta área, a maioria de nossas igrejas deixou a bola cair. É insuficiente que
grupos de jovens e classes de escola dominical ponham o foco em entretenimento e
pensamentos devocionais alegrinhos. Nós temos de treinar nossos filhos para a guerra!
Como ousamos enviá-los para a escola pública e para universidade armados com espadas
de borracha e armaduras de plástico? O tempo de brincadeiras acabou!

Precisamos de pastores educados em apologética e engajados intelectualmente com a


nossa cultura de forma que possam pastorear seu rebanho entre os lobos. Por exemplo, os
pastores precisam saber algo sobre ciência contemporânea. John La Shell, ele mesmo um
pastor de uma igreja batista, adverte que "os pastores já não podem se dar ao luxo de
ignorar os resultados e as especulações da física moderna. Essas idéias estão atingindo a
consciência comum através de revistas, tratados popularizados, e até livros de ficção. Se
não nos familiarizarmos com eles, podemos nos encontrar em uma estagnação intelectual,
incapazes de lidar com o homem bem informado do outro lado da rua."3 O mesmo vale
para a filosofia e para a crítica bíblica: de que adianta pregar sobre, por exemplo, valores
cristãos, quando há uma grande porcentagem de pessoas, mesmo cristãos, que dizem que
não acreditam na verdade absoluta? Ou, de que simplesmente citar a Bíblia em seu estudo
de Bíblia evangelístico quando alguém do grupo diz que o Jesus Seminar [Seminário Jesus]
refutou a fiabilidade dos Evangelhos? Se os pastores deixam de fazer sua lição de casa
nestas áreas, haverá sempre uma parcela substancial da população—infelizmente, as
pessoas mais inteligentes e, portanto, mais influentes na sociedade, como médicos,
educadores, jornalistas, advogados, executivos, e assim por diante—que permanecerá
intocada pelo seu ministério.

Quando eu viajo, eu também tenho a experiência de conhecer outras pessoas que me


contam de como foram salvas da apostasia aparente através de leitura de um livro
apologético ou de ver um vídeo de um debate. Em seu caso, a apologética tem sido o meio
pelo qual Deus produziu sua perseverança na fé. Agora, é claro, a apologética não pode
garantir a perseverança, mas em alguns casos pode ajudar e pode, na providência de Deus,
até mesmo ser necessária. Por exemplo, após uma palestra na Universidade de Princeton
sobre argumentos para a existência de Deus, fui abordado por um jovem que queria falar
comigo. Obviamente tentando segurar as lágrimas, ele me disse que um par de anos antes,
ele vinha lutando com dúvidas e estava à beira de abandonar sua fé. Alguém, em seguida,
deu-lhe um vídeo de um dos meus debates. Ele disse: "Isso me salvou de perder a minha fé.
Não posso lhe agradecer o suficiente.”

Eu disse: "Foi o Senhor que te salvou de cair." "Sim", respondeu ele, "mas ele usou você.
Eu não poderia agradecê-lo o bastante." Eu lhe disse como eu estava feliz por ele e
perguntei-lhe sobre seus planos futuros. "Eu estou me formando neste ano", ele me disse, "e
pretendo ir para o seminário. Eu estou indo para o pastorado.”

Louvado seja Deus pela vitória na vida desse rapaz!

3
Advertência crítica de Ian G. Barbour, Religião em uma Era de Ciência, revista por John K. La Shell, Jornal
da Sociedade Evangélica Teológica 36 (1993): 261.
Mas apologética cristã faz muito mais do que proteger contra falhas. Os efeitos positivos,
de edificação, de um treinamento apologético são ainda mais evidentes. As igrejas
americanas estão cheias de cristãos que estão inativos em uma neutralidade intelectual.
Como cristãos, suas mentes estão indo para o lixo. Um resultado disto é uma fé imatura e
superficial. Pessoas que simplesmente andam na montanha russa da experiência emocional
estão privando-se de uma fé cristã mais profunda e mais rica por negligenciarem o lado
intelectual da fé.

Eles sabem pouco das riquezas da compreensão profunda da verdade cristã, da


confiança inspirada pela descoberta de que a fé é lógica e ajustada aos fatos da experiência,
e da estabilidade trazida à vida pela convicção de que a fé é objetivamente verdadeira. Um
dos resultados mais gratificantes das conferências anuais de apologética realizadas pela
Evangelical Philosophical Society [Sociedade Filosófica Evangélica] em igrejas locais
durante o curso de nossas convenções anuais é ver a luz entrar na mente de muitos leigos,
quando eles descobrem pela primeira vez em suas vidas que há boas razões para acreditar
que o cristianismo é verdadeiro e que existe uma parte do corpo de Cristo, que eles não
sabiam que existia, que lida regularmente com o conteúdo intelectual da fé Cristã.4

Eu vejo também os efeitos positivos da apologética, quando eu debato em campi


universitários. Normalmente eu sou convidado a um campus para debater algum professor
que tem a reputação de ser especialmente abusivo com os estudantes cristãos em suas
aulas. Nós temos um debate público sobre, digamos, a existência de Deus, ou humanismo
versus Cristianismo, ou algum tópico assim. De novo e de novo, eu descubro que, embora a
maioria destes homens seja muito boa em espancar intelectualmente um aluno de dezoito
anos de idade em uma de suas aulas, eles não conseguem dar conta quando se trata de ir de
igual para igual com um de seus pares. John Stackhouse, uma vez me disse que estes
debates são realmente uma versão ocidentalizada do que os missiologistas chamam de “um
encontro de poder." Eu acho que essa é uma análise perceptiva. Os estudantes cristãos saem
destes encontros com a confiança em sua fé renovada, suas cabeças erguidas, orgulhosos de
ser cristãos, e mais ousados em falar de Cristo em seu campus.

4
Para obter mais informações sobre estas extraordinárias conferências para leigos, vá para www.epsociety.org.
Muitos cristãos não compartilhar sua fé com os descrentes simplesmente por medo. Eles
têm medo de que os não cristãos façam uma pergunta ou levantem uma objeção que eles
não possam responder. E então eles escolhem ficar em silêncio e assim escondem sua luz
sob um alqueire, em desobediência ao mandamento de Cristo. O treinamento em
Apologética é um grande impulso à evangelização, pois nada inspirar mais confiança e
ousadia em uma pessoa do que saber que ela tem boas razões para aquilo em que acredita e
boas respostas para as típicas perguntas e acusações de que o descrente possa levantar.

Uma sólida formação em apologética é uma das chaves para um evangelismo sem medo.
Desta, e em muitas outras formas, a apologética ajuda a edificar o corpo de Cristo através
do fortalecimento individual dos crentes.

3) Evangelizar os incrédulos. Poucas pessoas discordariam de mim, que a apologética


fortalece a fé dos cristãos. Mas dirão que a apologética não é muito útil no evangelismo.
Como observado anteriormente, eles afirmam que ninguém vem a Cristo através de
argumentos. (Não sei quantas vezes ouvi isso ser dito).

Agora, esta atitude de desprezo em relação ao papel apologética no evangelismo não


certamente é o ponto de vista bíblico. Como se lê nos Atos dos Apóstolos, é evidente que foi
o procedimento padrão apóstolos argumentar a favor da verdade da cosmovisão cristã,
tanto com os judeus quanto com os pagãos (por exemplo, Atos 17:2-3, 17; 19:8; 28:23-24). Ao
lidar com o público judeu, os apóstolos apelavam para a profecia cumprida, para os
milagres de Jesus e, especialmente, para a ressurreição de Jesus como prova de que ele era o
Messias (Atos 2:22-32).

Quando eles confrontaram audiências de gentios que não aceitavam as Escrituras


judaicas, os apóstolos apelavam para obra de Deus na natureza como prova da existência
do Criador (Atos 14:17). Então era feito um apelo para o testemunho ocular da ressurreição
de Jesus, para mostrar especificamente que Deus se revelou em Jesus Cristo (Atos 17:30-31;
1 Coríntios. 15:3-8).
Francamente, eu não posso deixar de suspeitar aqueles que consideram a apologética como
algo fútil na evangelização simplesmente não fazem evangelismo suficiente. Eu suspeito
que eles tenham tentado usar argumentos apologéticos em uma ocasião e viram que o
incrédulo não ficou convencido. Eles, então, tiram uma conclusão geral de que a
apologética é ineficaz na evangelização.

Agora, em certa medida, essas pessoas são apenas vítimas de falsas expectativas.
Quando você reflete sobre o fato de que apenas uma minoria de pessoas que ouvem o
evangelho vai aceitá-lo e que apenas uma minoria dos que o aceitam fazem-no por razões
intelectuais, não deveríamos ficar surpresos que o número de pessoas com quem a
apologética é eficaz é relativamente pequeno. Pela própria natureza do caso, devemos
esperar que a maioria dos incrédulos permaneça não convencida pelos nossos argumentos
apologéticos, assim como a maioria permanece intocada pela pregação da cruz.

Bem, então, por que se preocupar com a minoria de uma minoria com a qual a
apologética é eficaz? Primeiro, porque cada pessoa é preciosa para Deus, uma pessoa por
quem Cristo morreu. Assim como um missionário chamado para alcançar um obscuro
grupo de pessoas, o apologista cristão é encarregado de alcançar essa minoria de pessoas
que responderão à argumentação racional e evidências.

Mas, em segundo lugar—e aqui o caso difere significantemente do caso do grupo


pessoas obscuras—este grupo de pessoas, embora relativamente pequeno em números, é
enorme em influência. Uma dessas pessoas, por exemplo, foi C.S. Lewis. Pense no impacto
que a conversão de um homem continua a ter! Eu acho que as pessoas que mais respondem
ao meu trabalho apologético tendem a ser engenheiros, pessoas da área da medicina e
advogados. Essas pessoas estão entre as mais influentes na formação da nossa cultura hoje.
Então, alcançar essa minoria de pessoas produzirá uma grande colheita para o reino de
Deus.

De qualquer forma, a conclusão geral de que a apologética é ineficaz na evangelização é


precipitada. Lee Strobel recentemente me disse que perdeu a conta do número de pessoas
que vieram para Cristo através de seus livros “The Case for Christ” [Em Defesa de Cristo] e
“The Case for Faith” [Em Defesa da Fé]. Palestrantes como Josh McDowell e Ravi Zacharias
trouxeram milhares de pessoas a Cristo através de um evangelismo associado à
apologética. Também, se eu posso falar pessoalmente, não tem sido a minha experiência
que a apologética é ineficaz na evangelização. Nós constantemente ficamos entusiasmados
ao ver pessoas comprometendo suas vidas a Cristo através de apresentações apologéticas
do evangelho. Após uma conversa sobre os argumentos para a existência de Deus ou
evidências da ressurreição de Jesus ou uma defesa do particularismo Cristão, eu às vezes
concluo com uma oração de compromisso de dar a vida a Cristo, e os cartões de comentário
indicam que os estudantes se inscrevem em tal compromisso. Eu mesmo vi alunos virem a
Cristo apenas ouvindo uma defesa do argumento cosmológico Kalam!

Tem sido emocionante, também, encontrar pessoas que vieram para Cristo através da
leitura de algo que escrevi. Por exemplo, quando eu estava falando em Moscou há alguns
anos atrás, eu conheci um homem de Minsk, na Bielorrússia. Ele me disse que, logo após a
queda do comunismo, tinha ouvido alguém lendo em Russo meu livro “The Existence of God
and the Beginning of the Universe” [A Existência de Deus e o Início do Universo] através do
rádio em Minsk. Ao final da transmissão, ele havia se convencido de que Deus existe e
rendeu sua vida a Cristo. Ele me disse que hoje está servindo ao Senhor como um ancião de
uma igreja Batista em Minsk. Louvado seja Deus! Recentemente, na Universidade A&M do
Texas, eu encontrei uma mulher assistindo a uma de minhas palestras. Ela me disse, com
lágrimas, que por vinte e sete anos, ela tinha estado longe de Deus e estava sentindo-se
inútil e sem sentido.
Procurando em uma livraria Border onde havia entrado, ela encontrou meu livro “Will the
Real Jesus Please Stand Up?” [Poderia o Verdadeiro Jesus se Apresentar?], que contém o meu
debate com John Dominic Crossan, co-presidente do radical Seminário Jesus, e comprou
uma cópia. Ela disse que enquanto lia, era como se a luz tivesse entrado, e ela entregou sua
vida a Cristo. Quando eu lhe perguntei o que ela faz, ela me disse que é uma psicóloga que
trabalha em uma prisão do Texas para as mulheres. Pense na influência cristã que ela pode
ter em um ambiente tão desesperado!

Histórias como estas poderiam ser multiplicadas. Então, aqueles que dizem que a
apologética não é eficaz com os incrédulos devem estar falando de sua experiência
limitada.

Quando a apologética é persuasivamente apresentada e combinada sensivelmente com


uma apresentação do evangelho e um testemunho pessoal, o Espírito de Deus se agrada de
usá-la para trazer certas pessoas para si.
Então, a apologética cristã é uma parte vital do currículo teológico. Nosso foco neste
livro será sobre as questões mais teóricas do que na prática do “como fazer”.

Ao mesmo tempo, reconheço que ainda há a questão de como aplicar o


material teórico aprendido neste curso. Eu sempre pensei melhor deixar esse para cada
indivíduo trabalhar de acordo com o tipo de ministério para o qual ele se sente chamado.
Afinal de contas, eu estou interessado não só em formar pastores, mas também teólogos
sistemáticos, filósofos da religião e historiadores da igreja. Mas tornou-se claro para mim
que algumas pessoas simplesmente não sabem como traduzir a teoria em prática. Por isso,
incluímos uma subseção sobre aplicação prática depois de cada seção principal do curso.
Eu sei que o material teórico possui aplicação prática, porque eu o emprego muitas vezes na
evangelização e no discipulado e vejo Deus usá-lo.

Dois tipos de apologética

O campo da apologética pode ser dividido em dois tipos: apologética ofensiva (ou
positiva) e apologética defensiva (ou negativa). A apologética ofensiva visa apresentar um
caso positivo para as declarações de veracidade do Cristianismo. A apologética defensiva
visa anular as objeções a essas declarações. A apologética ofensiva tende a se subdividir em
duas categorias: teologia natural e evidências Cristãs. O encargo da teologia natural é
fornecer argumentos e provas em suporte do teísmo independente de uma revelação divina
autoritária. Os argumentos ontológico, cosmológico, teleológico e moral para a existência
de Deus são exemplos clássicos de argumentos da teologia natural. O objetivo das
evidências Cristãs é mostrar por que o teísmo especificamente cristão é verdadeiro.
Evidências Cristãs típicas incluem as profecias cumpridas, as radicais declarações pessoais
de Cristo, a confiabilidade histórica dos Evangelhos, e assim por diante. Uma subdivisão
semelhante existe na apologética defensiva. Na divisão correspondente à teologia natural, a
apologética defensiva lida com objeções ao teísmo. A alegada incoerência do conceito de
Deus e o problema do mal seriam a questões de maior importância aqui. Correspondentes
às evidências Cristãs será uma defesa contra acusações ao teísmo bíblico. As objeções ao
registro bíblico apresentadas pela crítica bíblica moderna e pela ciência contemporânea
dominam esse campo.
Na prática, estas duas abordagens básicas—ofensivas e defensivas—podem se misturar.
Por exemplo, uma forma de oferecer uma defesa contra o problema do mal seria oferecer
um argumento moral positivo para a existência de Deus, precisamente com base no mal
moral no mundo. Ou ainda, ao oferecer uma defesa positiva para a ressurreição de Jesus,
uma pessoa pode ter que responder a objeções levantadas pela crítica bíblica para a
credibilidade histórica das narrativas da ressurreição. No entanto, o sentido geral destas
duas abordagens permanece bastante distinto: o objetivo da apologética ofensiva é para
mostrar que há alguma boa razão para pensar que o Cristianismo é verdadeiro, enquanto o
objetivo da apologética defensiva é mostrar que nenhuma boa razão tem sido dada para
pensar que o Cristianismo é falso.

Fica evidente, só de olhar para o sumário desse livro, que este constitui um curso de
apologética ofensiva, ao invés de defensiva. Embora eu espere algum dia escrever um livro
oferecendo um curso de apologética defensiva, acho que um primeiro curso nesta disciplina
deve ser de natureza positiva. Existem dois motivos por trás dessa essa convicção.
Primeiro, uma apologética puramente negativa só diz o que você não deve acreditar, e não
o que você deve acreditar. Ainda que uma pessoa pudesse refutar todas as objeções
conhecidas ao Cristianismo, ela ainda ficaria sem qualquer razão para pensar que é
verdade. Na época pluralista em que vivemos, a necessidade de uma apologética positiva é
especialmente urgente. Em segundo lugar, tendo em mãos uma justificativa positiva da fé
Cristã, uma pessoa pode automaticamente esmagar todas as visões de mundo concorrentes
que não tenham uma defesa igualmente forte. Assim, se você tem uma boa e convincente
defesa para o Cristianismo, você não precisa se tornar um especialista em religiões
comparadas e seitas cristãs, de modo a oferecer uma refutação pra cada uma dessas visões
anticristãs. Se a sua apologética positiva é melhor que a deles, então você fez o seu trabalho
em mostrar que o Cristianismo é verdade. Mesmo que você seja confrontado com uma
acusação que não possa responder, você ainda pode apresentar sua fé como mais plausível
do que as concorrentes se os argumentos e evidências a favor das declarações Cristãs de
veracidade forem mais fortes do que aqueles a favor da objeção não respondida. Por estas
razões, tenho procurado neste livro expor um caso positivo para a fé cristã, que, espero,
será útil para você em confirmar e apresentar sua fé.
Para muitos leitores muito desse material do curso será novo e difícil. No entanto, tudo
é importante, e se você aplicar-se diligentemente para dominar e interagir pessoalmente e
criticamente com este material, tenho certeza de que você o achará tão emocionante quanto
é importante.

QUESTÕES SOBRE A INTRODUÇÃO

1. Veja a definição de apologética cristã. Qual é o significado dos três elementos desta
definição, que afirmam que a apologética (1) é um "ramo da teologia cristã" (2) visa
proporcionar "uma justificação racional", e (3) enfoca as “declarações de verdade” do
Cristianismo?

2. Quais são os quatro propósitos da Apologética?

3. Quais são as três funções vitais da Apologética?

4. Porque é uma visão limitada depreciar o valor da apologética, porque "ninguém vem a
Cristo através de argumentos”?

5. Porque a idéia de que vivemos em uma cultura pós-moderna é um mito? Por que isso
é um erro potencialmente desastroso no diagnóstico de nossa situação cultural atual?

6. Uma pergunta de autoexame: Até que ponto tenho sido intelectualmente engajado
com a minha fé?

7. Em que dois aspectos a Apologética pode fortalecer os crentes?

8. Compartilhe alguma maneira como você como um crente tem sido fortalecido através
do estudo da apologética. Seja específico.

9. Quais são os fundamentos bíblicos para o uso da Apologética na evangelização dos


incrédulos?

10. Por que não devemos desanimar se muitos incrédulos permanecerem não
convencidos pelos nossos argumentos apologéticos?
11. Por que deveríamos estar preocupados com essa minoria de pessoas que responderá
positivamente aos argumentos apologéticos?

12. Liste as divisões e subdivisões da Apologética.

13. Quais são as duas razões por que o livro “Fé Racional” enfoca a Apologética
ofensiva?