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ADRIANA GRINER

O DIA EM QUE FUI NARIZINHO

RIO DE JANEIRO
MAIO 2021
ADRIANA GRINER

O DIA EM QUE FUI NARIZINHO

Trabalho da disciplina Bases


Contemporâneas da Aprendizagem na
Infância para Graduação no Curso de
Pedagogia, do Serviço Nacional de
Aprendizagem Comercial.

Professora: Tamires Alves Monteiro

RIO DE JANEIRO
SETEMBRO 2021
Há muitos, muitos, muitos anos, estudei em uma escola tradicional. Um
pleonasmo talvez: quase todas as escolas eram tradicionais então. A diferença de
minha escola era não haver punições excessivas e um certo acreditar em reforço
positivo. E tentativas de fazer atividades em que as crianças se engajassem.
Lembro-me de que, no segundo ano primário, encenamos Reinações de
Narizinho e eu fui a Narizinho. Poderia ter sido apenas uma atividade em minha vida
escolar, e eu jamais a recordaria. Mas foi uma experiência. Para compreender isso,
é preciso voltar à minha vida pregressa, e o faço baseada em relatos familiares.
Eu era um bebê que acordava muito cedo. Muito. E então, para não acordar a
babá e minha irmã, assim que eu acordava às quatro da manhã, eu era colocada por
meu pai em um cercadinho cheio de brinquedos, arrumados por “cantos” por minha
mãe, à noite, para que pudesse passar de um a outro quando me cansasse, até o
resto da casa acordar. Eu amava os cubos de “construir cidades”, e ficava horas
brincando, sozinha. Com isso, a maturação natural, que ocorre em toda criança,
desenvolvia-se numa explosão de sinapses que só a experiência de um meio rico
proporciona: a desequilibração que a construção externa com os cubos causava
levava à construção interna de novos esquemas. Mas não só os cubos: todos os
cantos do cercadinho.
Além disso, minha mãe considerava que crianças precisam de sol. E como era
uma pessoa metódica, nós íamos à praia, religiosamente, de oito às dez horas da
manhã, todos os dias do ano. E brincar na areia molhada e no mar, com as crianças
da redondeza, deu-nos a possibilidade do conhecimento físico e da interação social
com os pares desde um ano de idade até ao menos os oito anos.
Posso, hoje, dizer que a maturação, o conhecimento físico e a interação social
me permitiram desenvolver as estruturas que, por sua vez, me permitiram aprender
a ler sozinha antes de entrar na escola. Foi assim que, quando meus colegas
fizeram a peça baseada em Reinações de Narizinho, talvez para eles tenha sido
mais uma atividade pela qual eles passaram. Para mim, foi uma experiência. Como
diz Larrosa Bondía (2002, p.21), “experiência é o que nos passa, o que nos
acontece, o que nos toca. Não o que se passa, não o que acontece, ou o que toca.”
Pois, quando eu fui a Narizinho, eu já havia lido grande parte da obra de Monteiro
Lobato para crianças. Ser Narizinho não era apenas repetir as falas, mas
experienciar um mundo, ser, me acontecer. Algo que fazia parte de minha psique,
que o meu desenvolvimento biopsicossocial permitira ser uma experiência única e
real, uma experiência que me marcou e me fez me desequilibrar e me reequilibrar na
vida.

Referências

FOLQUITTO, Camila Tarif Ferreira. Bases contemporâneas da aprendizagem na


infância. São Paulo: Centro Universitário Senac, 2015. Disponível em:
https://senacsp.blackboard.com/bbcswebdav/pid-7234965-dt-content-rid-
225995043_1/courses/LPEDCAS3DA_2103-2103-
668170/Template/2S_Bases_Contemporanea_Aprendizagem_.pdf . Acesso em: 30
ago. 2021.

LARROSA BONDÍA, Jorge. Notas sobre a experiência e o saber da experiência.


Revista Brasileira de Educação, Rio de Janeiro, n. 19, p.20-28, jan./fev./mar./abr.
2002. Disponível em:
https://www.scielo.br/j/rbedu/a/Ycc5QDzZKcYVspCNspZVDxC/?lang=pt&format=pdf.
Acesso em: 30 ago. 2021.

MANTOVANI DE ASSIS, Orly Zucatto. Desenvolvimento intelectual da criança. In:


ASSIS, Mucio Camargo de; MANTOVANI DE ASSIS, Orly Zucatto (org.). PROEPRE:
Fundamentos teóricos da educação infantil. Campinas: Book Editora, 2013. p. 55-79.

PIAGET, Jean. A formação do símbolo na criança: imitação, jogo e sonho,


imagem e representação. Rio de Janeiro: LTC, 2020.

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