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Lawrence Stone. Causas da Revolução Inglesa. (1529-1642)

Cap. 2. As Origens Sociais da Revolução Inglesa

Interpretações sobre o problema das origens sociais da revolução inglesa:

1. R. H. Tawney – Houve, no século que precedeu a guerra civil, uma mudança na


posse da propriedade, resultando na decadência dos senhores rurais antiquados e
na ascensão social de uma nova classe de gentry.
- As mudanças são atribuídas às diferenças no grau de
adaptabilidade da gestão fundiária ao aumento dos preços, às novas técnicas
agrícolas, ao aparecimento de novos mercados e à presença ou ausência de fontes
não agrícolas de riqueza.
- Interpreta os acontecimentos de 1640 como uma alteração da
estrutura política para acomodar o poder da nova classe de proprietários em
ascensão, a gentry.
- Sua tese da mudança social apóia-se em duas séries
estatísticas: uma que mostra uma queda dramática nos domínios senhoriais da
aristocracia em comparação aos da gentry; e outra que mostra uma alteração no
tamanho dos domínios senhoriais, passando do grande para o médio proprietário.

2. L. Stone - Ao publicar um artigo sobre a aristocracia elisabetana (1948),


aproveita um elemento da tese de Tawney – o do declínio da aristocracia. Mas
atribui a ele não uma gestão ineficiente da terra, mas a um gasto excessivo,
apresentando dados sobre o endividamento da antiga aristocracia, que estariam à
beira da falência financeira.

3. H. R. Trevor-Hoper - Publica, em 1953, uma crítica à tese de Tawney,


afirmando ter havido, ao invés de uma ascensão da gentry, um declínio da gentry
comum – pequenos ou médios proprietários, esmagados pela inflação e carentes
de fontes alternativas de renda para manter o modo de vida ao qual estavam
acostumados.
- Quem ascendeu foi, em primeiro lugar, a yeomanry,
cuja prosperidade provinha dos lucros obtidos com a terra que ela mesma cultivava,
da rigorosa austeridade com os gastos e da poupança sistemática; em segundo lugar,
a gentry e a nobreza que tinham acesso às dádivas de que a Coroa dispunha ou
exerciam o comércio ou o direito. A gentry ascendente era composta de cortesãos,
juristas e comerciantes monopolistas.
- A gentry comum, que pagava por toda essa
prodigalidade, representava o “partido do país” e, nos anos 1640, derrubou o sistema
da Corte, combateu e derrotou o Rei, e emergiu nas figuras dos líderes radicais do
Exército de Novo Tipo, os independentes.
- Seu programa político defendia a descentralização, a
redução dos custos legais, a eliminação da Corte e a destruição de seus fundamentos
financeiros: o comércio estatal, os monopólios manufatureiros, a venda de cargos,
das tutelas e similares.
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4. Christopher Hill e P. Zagorin – Criticam a tese de Trevor-Hoper, mostrando a


inadequação entre gentry comum e pequena gentry, e entre esta e a gentry em
decadência; criticam a suposição de que não era possível extrair lucro da
agricultura numa época de inflação, o pressuposto de que a Corte era uma super
via para a riqueza fácil, a explicação do radicalismo religioso como um refúgio
para a decadência econômica, a identificação dos independentes com a classe da
gentry comum e a descrição do programa político dos independentes como
descentralizador.

5) J. H. Hexter – Critica tanto a tese de Tawney como a de Trevor-Hoper. Tawney


estaria obcecado pela tese marxista da ascensão da burguesia e declínio do
feudalismo e tentava enquadrar os acontecimentos ingleses neste molde
predeterminado.
- Trevor-Hoper estava obcecado pela motivação econômica em
detrimento dos ideais e da ideologia, e considerava a política como uma simples luta
entre “ins” e “outs”, entre a Corte e o País.
- Sua explicação para as mudanças ocorridas era uma nova versão
da tese de Stone sobre o declínio da democracia. Ele recusava o conceito de
decadência financeira, mas dizia que havia um colapso no controle militar exercido
pela aristocracia sobre a gentry. Ou seja, a liderança política transferira-se da
Câmara dos Lordes para a Câmara dos Comuns. Hexter atribui as causas imediatas
do colapso político dos anos 1640 aos tradicionais fatores religiosos e
constitucionais.

Interpretações posteriores de Stone:

- 1965 - publica um livro sobre a aristocracia, no qual desenvolve uma nova


interpretação, um amálgama de algumas de suas idéias anteriores com as de Hexter.
- argumenta que a aristocracia perdeu poder militar, possessões territoriais e
prestígio; que sua renda real declinou bruscamente sob Elisabeth, devido
principalmente ao consumo conspícuo, e que se recuperou vigorosamente no início
do século XVII, devido ao aumento das rendas fundiárias e à prodigalidade dos
favores reais.
- a mudança deixou o Rei e a Igreja numa situação perigosamente exposta
no momento em que começaram a adotar uma política constitucional e religiosa
altamente impopular, e que a sua derrubada foi possível por este prévio declínio no
poder e na autoridade dos pares.

- As tensões na sociedade e sua base social - Afirma que as tensões internas à


sociedade assumiram as formas tradicionais de um conflito político entre uma série
de elites de poder local e o governo central, e de um conflito religioso entre
puritanos e anglicanos.
- Começou a emergir a base social
dessas tensões, isto é, a transferência do poder, da propriedade e do prestígio para
grupos da elite fundiária local, sempre mais organizados, tanto no plano nacional quanto
local, para resistir às imposições políticas, fiscais e religiosas da Coroa; e transferência
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de poder para os novos interesses mercantis londrinos organizados em desafio ao


monopólio econômico e ao controle político da oligárquica mercantil.
- Visão da revolução inglesa como marcada por diversas fases: cada fase foi
desencadeada por diferentes questões imediatas, cada uma tornou-se possível por
diferentes movimentos sociais e ideológicos de longo prazo, e cada uma foi dirigida
por um diferente setor da sociedade.

- Questões suscitadas pela controvérsia sobre a revolução inglesa:

1. O que causa as revoluções¿


2. É possível construir um modelo de uma situação revolucionária ou não há
qualquer modelo padrão de revolução burguesa, havendo muito mais diferenças
do que analogias entre a revolução francesa e a inlesa¿
3. Havendo elementos uniformes, que revolução foi a inglesa¿ Foi a revolução de
uma classe em decadência ou de uma classe cujas expectativas estavam
aumentando mais rapidamente do que a sua situação objetiva¿ É um movimento
de protesto de uma gentry comum socialmente frustrada e em estado de
estagnação ou declínio econômico, ou de uma gentry rica e ascendente
contrariada em suas aspirações pela arbitrariedade fiscal, pela política religiosa e
pelo autoritarismo¿
4. Existia na Corte um grupo cujo tamanho crescente e riqueza e arrogância
provocaram a rebelião dos excluídos¿ Ou o poder, a riqueza e o prestígio da
Corte, da Igreja e da aristocracia estavam afundando, e os excluídos estariam
tentando se apoderar do seu controle¿
5. Os dois contendores da guerra civil podem ser equiparados, segundo os
marxistas, como sendo a burguesia ascendente de um lado e as classes feudais de
outro¿

- O que as revoluções do século XVII têm em comum¿

- Segundo Trevor-Hoper, a sua característica básica é a revolta do “país”, privado de


privilégios e esmagado pelos impostos, contra as expansionistas, opressivas, corruptas e
autoritárias cortes e burocracias da época; que elas representaram a ultima tentativa de
barrar o processo de centralização nacional antes de se iniciar a era do absolutismo.

- Porém, está em discussão se a Inglaterra possuía uma burocracia e uma Corte de


envergadura minimamente comparáveis com as de Bruxelas, Paris ou Madri, e se as
aspirações da oposição parlamentar em 1640-42 possuíam de fato um caráter
descentralizador e anti-Corte.

- Debate sobre a extensão das causas dos grandes acontecimentos:

- Nem todos os historiadores concordam que os grandes acontecimentos devem


necessariamente ter grandes causas. Há os que vêem o colapso de 1640 e a guerra de
1642 como simples produto de uma série de asneiras políticas cometidas por
determinados indivíduos no poder.
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- Objeção de Stone: assim procedendo, confundem-se duas coisas bastante diferentes: as


precondições, as tendências sociais, econômicas e ideológicas de longa duração, que
tornam possíveis as revoluções, e que são passíveis de análises comparativas e
generalizações; e os detonadores, as decisões pessoais e o padrão acidental dos
acontecimentos que podem ou não desencadear a explosão revolucionária.

- É necessário dar um peso muito maior ao entusiasmo ideológico, à força militar e aos
hábitos tradicionais de obediência, os quais juntos ou separadamente podem com
freqüência contrabalançar as puras e simples pressões econômicas.

- A visão de que deve haver uma relação direta entre estrutura social e instituições
políticas e que a primeira tende a se impor às segundas, é amplamente aceita na
atualidade, mesmo por historiadores e políticos antimarxistas.

- Teoria de Marx e Engels:

- A primeira grande transformação da sociedade européia foi a passagem da fase feudal


à burguesa, que ocorreu no século XVII na Inglaterra e no fim do século XVIII na
França.

-Engels enfatiza que a revolução inglesa se encaixa no quadro da interpretação marxista:


ele transformou nobres e gentry em “senhores de terra burgueses”, tornando possível
olhar a revolução como um movimento burguês.

- O resultado final foi a criação de um Estado fundado no compromisso de 1689, pelo


qual “os troféus políticos – os cargos, sinecuras, ordenados – das grandes famílias da
aristocracia rural eram respeitados, desde que defendessem os interesses da classe média
financeira, industrial e mercantil.”

- É a esta teoria que remonta a definição de Tawney quando atribui à gentry em


ascensão posições progressivas e capitalistas e, aos partidários do rei, posições
antiquadas e feudais.

- Somente na década de 1950, esta equação entre gentry e burguesia foi severamente
criticada por Hexter e Zagorin, tanto no terreno da lógica quanto no dos fatos.

- Visões estreitas sobre as causas da revolução inglesa e multiplicidade causal

- Todas as partes envolvidas sustentavam sobre as causas da revolução idéias muito


estreitas para serem defendidas. Deu-se muita atenção à distribuição da riqueza e muito
pouca às mudanças dos ideais, das aspirações e dos hábitos de obediência.

- As revoluções têm origens muito complexas e as causas sociais não são mais do que
uma entre muitas.
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CAP. 3. AS CAUSAS DA REVOLUÇÃO INGLESA

Os Pressupostos

A respeito das diversas interpretações sobre a revolução inglesa:

- Cada autor expõe um lado de um todo múltiplo, mas tende a ignorar as facetas que não
se ajustam ao seu estereótipo, e focaliza exclusivamente a etapa – de um processo que
teve várias – que melhor ilustra sua hipótese particular.

Pressupostos básicos da análise de longo prazo de Stone:

1. A dissolução do governo foi a causa da guerra, e não a guerra a causa da dissolução


do governo: a maioria das instituições do Estado e da Igreja – a Coroa, a Corte, a
administração central, o exército e o episcopado – entraram em colapso dois anos antes
da guerra.

2. Foi algo mais do que uma simples rebelião contra um rei particular: houve uma
mudança fundamental na organização política e no mito predominante da ordem social,
e alguns grupos (os niveladores) exigiam uma mudança fundamental na estrutura social.

2.1. por outro lado, grande parta da velha organização política foi restaurada em
1660 e, apesar do controle sobre a propriedade econômica ter sido tirado das mãos da
coroa e do episcopado, tanto os independentes quanto os presbiterianos estavam
satisfeitos com a distribuição existente da propriedade privada dentro da sociedade, e
estavam determinados a manter a hierarquia social e o padrão de autoridade.

3. A teoria da luta de classes dos marxistas tem aplicação limitada no século XVII: a
grande contribuição do marxismo à interpretação do período foi ter enfatizado a
extensão e a importância de um desenvolvimento capitalista no comércio, indústria e
agricultura no século anterior à revolução.

3.1. seu ponto fraco foi o esforço em ligar este desenvolvimento capitalista à
revolução, por meio da teoria da luta de classes, que funciona bem para a Inglaterra do
século XIX, mas que distorce a realidade social dos períodos anteriores.
3.2. Não houve uma guerra de pobres contra ricos, mas uma quase total
passividade das massas rurais, os foreiros e os trabalhadores agrícolas. Os pobres do
campo mantiveram-se quase neutros durante as décadas de 1640 e 1650. Houve
passividade também dos assalariados nas cidades.
3.3. neutralidade ou divisão da burguesia: havia a tendência dos pequenos
proprietários no campo e dos artesãos, aprendizes e pequenos lojistas nas cidades em
apoiar o Parlamento. Mas as ricas oligarquias de mercadores das cidades, ou ficaram
neutras ou ficaram do lado do Rei, patrono de seus privilégios econômicos e políticos.
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3.4. a fissura não corria de acordo com os alinhamentos de classe, mas de acordo
com a riqueza relativa e o acesso aos privilégios políticos e econômicos.
3.5. neutralidade ou divisão da gentry: a divisão não acompanhava de maneira
definida as diferenças de riqueza. A camada mais rica da gentry se dividia entre
partidários e adversários do rei, assim como não se pode identificar a gentry mais pobre
com qualquer um dos lados.

4. Recusa da dicotomia burguês/feudal: não foi relevante para os acontecimentos de


1640.

5. Defesa da teoria da inconsistência de status: uma sociedade com uma proporção


relativamente grande de pessoas submetidas a uma alta mobilidade encontra-se
provavelmente numa situação instável.

5.1. Teria havido uma luta complexa entre ordens e grupos de status, limitada aos
membros de diversas elites rachadas e fragmentadas por diferenças de ordem
constitucional, aspirações religiosas e padrões culturais, por conflitos de interesse e
conflitos de lealdade.

5.2. Devem-se levar em conta os efeitos desestabilizadores provocados pela rapidez


do desenvolvimento econômico e da mudança social.

6. Colapso e perda de credibilidade das instituições do governo: houve uma crise do


regime: a alienação de amplos segmentos das elites com relação às instituições políticas
e religiosas vigentes.

7. Enfoque multi-causal: deve ser dada importância tanto aos defeitos institucionais e às
paixões ideológicas, quanto aos movimentos sociais e às mudanças econômicas, para
que se apreenda todos os fios que conduziram à crise.

8. Caráter conservador da oposição: grande parte da retórica se expressava em termos


de um retorno a uma idade de ouro imaginária do passado, e a própria palavra
“revolução” não significava uma mudança para algo totalmente novo, mas a rotação
circular ou elíptica a uma posição já ocupada anteriormente.

8.1. O movimento teria sido então basicamente conservador, não sendo uma
revolução no sentido usual da palavra.
8.2. A gentry e a nobreza eram reformistas, e não revolucionários, pois não tinham
intenção de alterar a estrutura social e, embora desejassem fazer mudanças de grande
alcance nos organismos da Igreja e do Estado, estavam bem longe de planejar a
derrubada das instituições estabelecidas.
8.3. Em 1640, ninguém sonhava com a abolição da monarquia ou da Câmara dos
Lordes, e apenas uma minoria esperava abolir o episcopado ou os dízimos.
8.4. Os líderes da oposição parlamentar eram moderados do ponto de vista político e
religioso, conservadores em termos sociais e utilizavam argumentos legalistas e
voltados para o passado.

9. A natureza revolucionária da revolução inglesa: Em que pese o conservadorismo


presente, a revolução inglesa teria uma natureza revolucionária, que pode ser
demonstrada tanto por suas ações como por suas palavras.
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9.1. Ações - execução do rei e seu julgamento em nome do “povo da Inglaterra”,


acusado de alta traição por ter violado “a constituição fundamental deste reino.”
- abolição da instituição monárquica;
- abolição da Câmara dos Lordes;
- eliminação da Igreja estabelecida e confisco das propriedades episcopais;
- abolição de várias instituições administrativas e legais de crucial importância
para o governo.
9.2. Palavras – foram torrentes de palavras impressas, evidenciando um choque de
idéias e ideologias e a emergência de concepções radicais, afetando todos os aspectos do
comportamento humano e todas as instituições da sociedade, da família, da Igreja e do
Estado.
- “reforma do mundo inteiro”, “colocar a primeira pedra de felicidade no
mundo”, “completa reforma tanto da Igreja quanto do Estado”, “construir um novo
mundo”.

10. Revolução cultural e surgimento de novas idéias

10.1. Teoria da soberania (Henry Parker): a fonte do poder político repousa no


consenso e na adesão de todos os súditos. O Parlamento era autoridade suprema por
representar toda a comunidade, e os súditos se reservavam o direito final de resistência
contra o exercício arbitrário do poder executivo.
10.2. Desejo de mudança: em 1640, quando o governo entrou em colapso, existia
entre os nobres e gentlemen – normalmente conservadores – um forte desejo de amplas
mudanças: nos mitos políticos (com a não aceitação do direito divino dos reis); na
constituição (com a não aceitação da onipotência do executivo e a distribuição da
autoridade entre o rei e seus dependentes e a assembléia representativa da nação
política); nas estruturas legais e administrativas (com a destruição de grande parte dos
tribunais privilegiados); nos poderes, na riqueza e na organização da Igreja nacional
estabelecida; no conceito de hierarquia social (defesa do tratamento igual, independente
da posição ocupada em função dos títulos).

As Precondições, 1529-1629

1.A Instabilidade da política Tudor

- Aspiração ao despotismo – entre 1529 e 1547, existiu nos círculos oficiais ingleses o
desejo de adquirir alguns instrumentos para um governo monárquico forte.

- Limitações ao despotismo – sobrevivência de poderosas instituições e tradições


políticas medievais, particularmente o direito consuetudinário e o Parlamento;
- necessidade de fazer muito em pouco tempo: a Coroa,
mal tinha dominado a nobreza feudal medieval, melhorado suas finanças e restaurado
alguma aparência de lei e ordem, quando se viu confrontada com os problemas da
Reforma.
- a necessidade de legitimação e apoio popular para o
rompimento com Roma obrigou o rei a consultar o Parlamento.
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- Crise da década de 1540: crescimento da divisão entre as duas facções religiosas de


tendências opostas.
- guerra contra a França (1543-1551), dissipando recursos
financeiros e energias políticas da Coroa.
- período pós-guerra: a Coroa vendeu ou cedeu a maior
parte das propriedades monásticas, a classe governante estava rachada pelos conflitos
religiosos e as tropas mercenárias, necessárias à consolidação do absolutismo régio,
foram despedidas por falta de fundos.
- o Parlamento reivindicava cada vez mais autonomia,
fundada sob o controle do orçamento e a necessidade de sua assistência legislativa para
um arranjo em matéria religiosa.

Deficiências do Estado elisabetano: faltavam alguns dos componentes essenciais do


poder.

1.Dinheiro: a Coroa dependia dos recursos aprovados pelo Parlamento, pois ela
dispunha de uma renda própria que mal dava para os períodos de paz.
- a Coroa não conseguiu desenvolver fontes alternativas de renda: Uma
das fontes poderia ser o monopólio sobre um mineral, mas a Coroa foi privada da
oportunidade de se beneficiar das reservas quase ilimitadas da Inglaterra em carvão e
metais preciosos. Outra fonte seria a venda de cargos na administração e na Justiça, mas
a burocracia inglesa era reduzida e os esforços para aumentar o número de cargos
jurídicos foram anulados pelos juízes, em 1587. Além disso, os poucos cargos eram
vendidos pelos próprios funcionários e cortesãos, sem benefício algum para a Coroa.
- ineficiência fiscal: a fraqueza administrativa da monarquia e a
necessidade de se apoiar na gentry e nos mercadores, impossibilitou o ajuste dos velhos
tributos às novas condições. A Coroa não conseguiu ajustar a arrecadação com a
inflação e nem tributar a nova riqueza.
- obstáculos legais e políticos ao aumento da eficiência fiscal: as classes
proprietárias já estavam habituadas à evasão fiscal, sendo inevitável o fracasso das
tentativas de tributar os ricos.

2.Tropas: a Coroa contava apenas com uma milícia local, mal armada e mal
treinada, dependendo do apoio militar voluntário dos súditos.

3.Autoridade judiciária: a Coroa tentou reforçar sua autoridade judiciária, criando


novos tribunais que exerciam poderes judiciários e administrativos sobre algumas
regiões geográficas e para determinadas categorias de delitos. Estes novos tribunais
estavam submetidos a um controle régio maior do que os tribunais de direito
consuetudinário.
- sobrevivência dos tribunais de direito consuetudinário e de suas tradições.

4.Administração central unificada: houve êxito na criação de uma administração


central unificada, com o Lorde Tesoureiro à frente e o Conselho Privado como principal
órgão executivo.
- Porém, continuavam a existir a autonomia do Tribunal das Tutelas, entre
outros.

5.Burocracia própria: praticamente não existia neste período, na Inglaterra.


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6.Controle da palavra escrita e falada: a lei assegurava censura sobre a imprensa,


mas sua eficácia era enfraquecida pela proteção que a aristocracia dava aos panfletistas
puritanos, pelo contrabando de livros estrangeiros e pela existência de gráficas
clandestinas.

- Relação da Coroa com a Gentry e a aristocracia tradicional: tentativa de fortalecer


o poder da gentry como meio para destruir as bases do poder local dos súditos mais
poderosos, a aristocracia feudal.

- a aristocracia tradicional e feudal monopolizava o poder local, o privilégio e


o patronato, a tal ponto que a gentry das regiões passou a depender mais dessa
aristocracia do que do poder do Rei.
- a destruição desses monopólios locais era importante para reforçar a
autoridade régia.
- fortalecimento da gentry rica: levou a um enfraquecimento da autoridade
dos magnatas tradicionais, pois esta gentry enriquecida era dependente da Coroa em
suas possibilidades de ascensão e de poder.

- Crescimento dos particularismos locais junto com o crescimento do governo


central:
- as classes representadas na Câmara dos Comuns estavma disposta a apoiar a
Coroa em suas opções políticas e religiosas, desde que coubesse a elas governar os
campos e as cidades.
- a Coroa não conseguiu substituir a gentry local por seus próprios
funcionários remunerados, resultando no acordo de divisão de responsabilidade, e o
peso principal da administração local teve que ser deixado nas mãos da gentry não
remunerada e dos notáveis urbanos, cuja lealdade e eficiência dependiam do respeito
prestado aos seus interesses, privilégios e preconceitos.

- A questão religiosa:
- Fragmentação da unidade religiosa: fracasso na tentativa de criar uma Igreja
nacional.
- Nas décadas de 1540 e 1550, a Coroa vendeu ou cedeu aos leigos, junto
com as propriedades dos monastérios, o padroado sobre muitos benefícios eclesiásticos.
Assim, a nomeação de grande parte do clero não era mais controlada pelo Estado ou
pela Igreja, mas por grandes proprietários leigos. Nem o rei nem os bispos eram patrões
em sua igreja.

-Fraqueza na estrutura social: eliminação dos súditos poderosos da Idade Média


tardia, por meio de seqüestros judiciários e confiscos.
- Para se assegurar de apoio local e nacional à Reforma e à sucessão dinástica,
Henrique VIII teve que substituir estes magnatas por uma nova aristocracia de
funcionários e militares, estabelecidos como grandes proprietários de terras.
- Futuramente, abriu-se caminho para que os herdeiros destes homens
enobrecidos dirigissem contra a Coroa o seu poder e as suas clientelas.
- As pressões financeiras em decorrência da guerra forçaram a Coroa a vender
grandes extensões de terras eclesiásticas, que foram parar nas mãos dos yeoman
(pequeno proprietário rural que goza de direitos políticos e membro da yeomanry, os
arqueiros do rei) ou gentry local, criando uma squirearchy (conjunto de escudeiros,
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pertencentes à nobreza menor), cujas aspirações e interesses teriam que ser acomodados
no sistema político.

- Sobrevivência do Parlamento: poderoso organismo representativo nacional, que


conseguiu conservar os poderes essenciais de aprovar impostos e votar as leis.

- Contradições e fraquezas da estrutura política elisabetana: vista por qualquer que


seja o ângulo – sustentação política, recursos financeiros, poder administrativo e militar,
coesão social, subordinação à lei, unidade religiosa -, ela aparece permeada de
contradições e fraquezas.

O Desenvolvimento do Desequilíbrio, 1529-1629

1. O Crescimento Econômico

- Inabilidade do Estado para se ajustar às novas forças sociais.

- Mudanças econômicas que geraram as novas forças sociais:

1.Crescimento populacional e econômico: o aumento da população impactou sobre


todos os aspectos da sociedade e cujas causas remontam às mudanças ocorridas na
agricultura, comércio, indústria, urbanização, educação, mobilidade social e
estabelecimentos ultramarinos.

2.Revolução agrícola: deveu-se à expansão da superfície cultivado, incorporando áreas


incultas, florestas, colinas e pântanos; ao melhoramento das técnicas agrícolas, com
culturas alternadas, fertilização mais eficaz, intensificação da drenagem, criação de
prados regados, rotação mais racional das colheitas, criação mais científica de animais e
novos tipos de forragens.
2.1.Transformação no equilíbrio social existente: no campo, houve
transformação da relação feudal e paternalista entre senhor e arrendatário para um novo
tipo de relação baseada na maximização dos lucros em uma economia de mercado.
- no século XVI, o aumento dos preços dos alimentos e a estagnação
das rendas resultaram na transferência dos lucros agrícolas das mãos do proprietário
para as do arrendatário; já no século XVII, as rendas aumentaram mais rápido do que os
preços e os lucros voltaram para as mãos dos proprietários.
- reorganização dos direitos de propriedade, fazendo mais terras
pararem em mãos privadas, principalmente com os cercamentos dos campos.
- concentração das lavouras em unidades de produção maiores: levou
à emergência do padrão tripartido da sociedade rural inglesa: o proprietário, o
arrendatário próspero e o trabalhador sem terra.
- as mudanças levaram ao aumento da produção, mas também à
expulsão de milhares de pequenos lavradores das terras, que se tornaram assalariados.

3.Crescimento do mercado externo: levou à diversificação dos mercados e das fontes de


importação, preparando o caminho para o crescimento ainda maior do final do século
XVII.
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4.Crescimento da indústria: a indústria têxtil era um elemento de coesão social, pois sua
prosperidade afetava as classes fundiárias – proprietários das ovelhas que produziam a
lã -, os trabalhadores pobres e suas mulheres que a fiavam, os artesãos que a teciam, os
fabricantes que a tratavam, e os mercadores que a exportavam.
- identidade de interesses econômicos entre as classes
fundiárias, os artesãos e os mercadores: foi a principal força que unificou a oposição em
torno de questões como impostos, tributos, monopólios e política externa, tornando-se
muito difícil à Coroa jogar um grupo contra o outro.

5.Crescimento do mercado interno: permitiu o suprimento do incremento demográfico,


sendo favorecido pela organização de transportes regulares ao longo das estradas
principais; pelo crescimento de mercados especializados; e pela proliferação de
vendedores ambulantes nas localidades.

6.Queda nas taxas de juros: passou-se da proibição legal ao juro sobre o capital para a
permissão ao empréstimo de dinheiro em termos melhores que os anteriores,
aumentando o capital líquido e desenvolvendo facilidades institucionais para o seu
emprego, como as sociedades por ações e o depósito bancário.
- era conseqüência da crescente disponibilidade das classes
fundiárias para emprestar dinheiro a juros e do montante de capital absorvido em
investimentos na aquisição de cargos e rendas governamentais.

- Relação entre estas mudanças e a queda do Antigo Regime:

- Segundo Stone, não é possível demonstrar uma relação causal entre estes
desenvolvimentos e o colapso do Antigo Regime dos Stuart, no sentido de um choque
de interesses: não é possível sustentar que as classes empreendedoras, os industriais e os
mercadores, eram partidários do Parlamento.

- Somente pode se afirmar que as mudanças estavam dissolvendo os antigos vínculos de


obrigação e serviço, dando lugar a novas relações fundadas nas operações de mercado, e
que a política interna e externa dos Stuart não conseguia responder a estas
circunstâncias cambiantes.

- Vários atritos políticos foram gerados por tensões e ciúmes pelo enriquecimento de
novos grupos e declínio de outros, e a Coroa foi inábil para lidar com a situação.

2. A Mudança Social

- O impacto das mudanças sobre os grupos sociais:

- O mais importante a se observar não era o aumento da riqueza, as mudanças na forma


de adquiri-la e a sua concentração geográfica, mas as mudanças que resultaram para as
diferentes ordens e camadas sociais no que diz respeito ao seu número relativo e à sua
parte na renda nacional.
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- Entre 1540 e 1640, houve um aumento em número e riqueza das classes fundiárias e
das profissões liberais.

1.Mercantilização da terra e seus resultados:

1.1.Surgimento da gentry: expansão das elites fundiárias, com a transferência


de enormes extensões de terra para os leigos (gentry), devido à venda das terras pela
Coroa para custear as guerras.
- Gentry = gentleman: bastava ser rico e estar disposto a comprar uma
propriedade rural (com solar e mansão) e um brasão. Terra e brasão podiam ser
comprados livremente no mercado.
- A casa funcionava como lar para a família e os criados, como centro
para a administração do patrimônio fundiário e como base de poder político para
dominar a localidade.
- crescimento do número de juízes de paz: decorrente não apenas de
uma medida para garantir mais eficiência ao governo local, mas também do
reconhecimento do grande aumento numérico da elite local elegível ao cargo.
- mobilidade social das classes fundiárias.
- passagem de grandes quantidades de terra da esfera institucional à
privada, criando uma gentry mais numerosa e com mais influência política e religiosa.
- aumento da renda real e de acumulação de capital e bens de consumo
pela gentry.
1.2. Diversidade social entre a gentry: enquanto alguns subiam, muitos eram
os decaíam.
- diferença entre a rica e poderosa squirearchy - as poucas famílias
que dominavam em cada condado, e a massa da pequena “gentry de paróquia”, cujas
perspectivas e aspirações eram muito mais limitadas, embora estivesse também
melhorando de situação social.
1.3. Alteração na atitude para com os magnatas locais tradicionais e para
com o Estado: houve uma mudança nas idéias sobre lealdade, em conseqüência do
declínio do poder e da influência da aristocracia.
- enfraquecimento do controle dos nobres sobre a gentry e os
arrendatários: crescente absenteísmo dos primeiros e transformação das obrigações em
dinheiro.
- em curto prazo, declínio da influência da aristocracia e aumento da
dependência da gentry em relação à Coroa; em longo prazo, tendência à independência
da gentry em relação à Coroa.
- em 1640, a gentry, formada por homens independentes e com recursos,
predominava na Câmara dos Comuns.

2.Ascensão das classes de profissionais liberais: advogados de camada média ou ricos


advogados e oficiais de justiça londrinos; médicos; mercadores de Londres e das
maiores cidades, que enriqueciam e aumentavam sua influência.

3.Deslocamento da riqueza relativa: das mãos da Igreja e da Coroa, bem como dos
muito ricos e muito pobres, passou às mãos das classes média e média alta.
3.1. causas do deslocamento: venda de terras e concessões de monopólio
pelo governo para custear a guerra; inflação de preços; imprevidentes padrões de
1

despesas dos antigos ricos; atividades empreendedoras dos novos ricos e crescente
demanda por serviços profissionais por parte de uma sociedade mais sofisticada.
3.2. mudança no equilibro socioeconômico: atrito entre os tradicionais
detentores de poder – Coroa, cortesãos, alto clero e aristocracia, e as forças crescentes
da gentry, dos advogados, mercadores, pequenos proprietários rurais e pequenos
comerciantes.

3. O Declínio das Ameaças Externas

- Fim da coesão da elite dirigente – durante o século XVI, esta coesão era garantida
pelo triplo temor de uma insurreição dos pobres, de uma guerra civil por disputa de
sucessão ligada a divisões religiosas, e de uma invasão externa.

- Século XVII: diminuição de todos esses temores.


1. Não havia mais perigo de insurreição dos pobres: diminuição do
crescimento populacional; aumento dos salários reais; substituição dos cercamentos de
pastagens pelos de cultivo, com mais mão de obra; e sistema nacional de assistência aos
pobres.
2. Conseguiu-se evitar a guerra civil ligada à sucessão: a política da rainha
Elisabeth, baseada na inatividade e na contemporização tática, teve sucesso, prevenindo
guerras civis.
- por outro lado, os problemas com os quais a sociedade se defrontava não
foram resolvidos, e sim protelados, com risco de uma guerra civil futura.
- falsa segurança por parte das elites inglesas, estimulando-as à guerra em
1642; o sucesso de se evitar a guerra civil fez com que as classes proprietárias não
tivessem atrás de si, em 1642, uma tal experiência da qual pudessem extrair as lições de
moderação e compromisso. (contraste com 1688)
3. Diminuição do risco de uma invasão externa: desaparecimento do risco de
invasão espanhola, com a paz de 1604.
- a possibilidade de que a Irlanda fosse usada como cabeça de ponte para
uma invasão espanhola foi eliminada pelo genocídio planejado da população irlandesa
por meio da fome, no biênio 1600-1601, pelo estabelecimento de colonos ingleses e
pela recuperação econômica.
- a Escócia também foi eliminada como cabeça de ponte de uma invasão
francesa pela conversão da nobreza escocesa ao protestantismo e pela união das duas
coroas, em 1603.

4. A Crise de Confiança

- Decadência do governo e das instituições – perda de prestígio e respeito e perda de


confiança dos líderes em sua capacidade de governar.

1.Vazio de credibilidade das instituições:

1.1. Igreja: desprezo pelo clero por parte dos leigos.


- os bispos elisabetanos eram obrigados a alienar a propriedade hereditária
de suas sedes em troca de sua nomeação.
1

- decreto de 1558 – deu à Coroa o poder de confiscar ricas propriedades em


troca de pedaços e parcelas de terras da Coroa que em sua maioria careciam de valor.
- publicação de panfletos indecentes contra o episcopado na década de 1630.
- Igreja Anglicana: o clero paroquial era incapaz de satisfazer as novas
necessidades dos leigos, havendo declínio do número de aspirantes ao sacerdócio.
- exigência de padrões morais e educacionais: o clero não tinha condições
de atender essa exigência, embora, no final do século XVI tenha havido uma ascensão
do clero paroquial, com elevação do status (mais do que da renda) e uma melhoria da
instrução e do nível intelectual do clero.
- a regeneração educacional e espiritual do clero aumentou a fragmentação
religiosa, entre puritanos e anglicanos: o vazio de zelo religioso, criado pelo clero
absenteísta da igreja anglicana, que não pregava nem fazia proselitismo, foi preenchido
por dois grupos de homens dedicados e determinados: os padres de seminário e
pregadores e ministros puritanos.
- os reformadores puritanos demandavam mudanças radicais na organização
eclesiástica.
- desaparecimento da chance de união em torno de uma Igreja nacional.
- dificuldade de sobrevivência do Estado, sem a união das lealdades
religiosas de seus súditos.

1.2.Aristocracia: Perda de gigantescas posses e poder militar


(desmembramento de suas propriedades perda de controle sobre um grande número de
soldados).

- diminuição da influência dos nobres sobre a gentry e os arrendatários


(absenteísmo dos aristocratas e conversão das rendas em dinheiro).
- perda do capital fundiário: venda imprevidente de terras para manter o
padrão de vida o status.
- concessão de títulos honoríficos por dinheiro, e não mérito, a pessoas
indignas, diminuindo o respeito pela hierarquia das posições e enfurecendo os que
ficavam para trás na ascensão social, devido à injustiça deste sistema de mobilidade.
- outras causas do declínio da aristocracia: enfraquecimento de sua influência
eleitoral, sua crescente predileção pela vida extravagante na cidade ao invés da vida no
campo e dúvidas sobre sua probidade financeira e moralidade sexual.

1.3. Corte: grupo que compreendia bispos, aristocratas, conselheiros,


servidores, funcionários em torno do príncipe – centro monopolista do poder político,
mercado onde se distribuíam dinheiro, pensões, empregos, monopólios e favores.
- bom funcionamento do sistema: dependia da manutenção de um
equilíbrio político complicado, em virtude do qual não era permitido a nenhuma facção
se apoderar do mecanismo das decisões ou distribuições dos benefícios, e em que os
favores distribuídos eram amplos o bastante para satisfazer uma maioria de influentes
suplicantes, mas não tão imoderadamente pródigo para suscitar a indignação dos
contribuintes.
- primeiros stuarts: o bom funcionamento do sistema foi quebrado,
com presentes extravagantes, festas opulentas, canalização de benefícios para alguns
favoritos.
- alienação política da Corte em relação ao País – alienação moral e
intelectual.
1

- o conceito de harmonia e cooperação no interior da nação havia


desaparecido.

1.4. Burocracia: a corrupção gerou desconfiança em relação à burocracia.


- a corrupção foi gerada pela diminuição dos favores aos grandes
funcionários e pela redução dos salários pela inflação.
1.5. Monarquia: colocação em questão da santidade da monarquia.
- política externa de Jaime: acusada de ser pró-espanha e de nutrir
simpatia pelo papado, traindo os interesses nacionais da Inglaterra.
- arrogância, frieza e falta de admiração popular em torno de
Carlos I, assim como também era acusado de simpatia pelo papado.

5. O Avanço da Oposição

1. Aumento do prestígio e do poder do Parlamento: a oposição construiu sua base no


Parlamento, notadamente na Câmara dos Comuns.
- razão para seu prestígio: as subdivisões administrativas eram muito
pequenas para se constituírem em focos de atividade política.
- na ausência de rivais sérios, o Parlamento aumentou seu prestígio e poder,
até o ponto das pessoas lutarem, e até pagarem, para dele se tornar membro, ao invés de
serem reembolsadas de suas despesas como estímulo para servir.
- aumento dos poderes do Parlamento e diminuição da capacidade da Coroa
em controlá-lo. Ex: controle do Parlamento sobre os impostos e a legislação.
- século XVII: surgimento de uma oposição formal: Patriotas ou País, que
desenvolviam suas próprias ideologias e táticas.
- Câmara dos Comuns: reivindicações constitucionais novas – exigiam o
direito de iniciar a discussão e influenciar a política.
- as classes representadas na Câmara dos Comuns estavam mais confiantes
e desenvolviam meios técnicos para se livrar do controle régio, enquanto a Coroa
fracassava em modificar suas políticas para contemplar as opiniões das classes
proprietárias.
- Câmara dos Comuns: críticas à política externa pró-católica, à política
militar inepta, às finanças públicas caóticas, à corrupção e ao nepotismo, e ao
monopólio de favores exercido por alguns favoritos.

2. Gentry: enquanto membro do Parlamento, exigia maior participação nas decisões


políticas; enquanto juíz de paz, estava ganhando experiência na administração local.
- o aumento de seu número e experiência aumentava também seu poder de
paralisar o funcionamento de qualquer governo do qual discordassem seriamente.
- a lealdade da gentry menor tinha seu foco cada vez mais centrado no
condado, a arena onde eles faziam política e viviam sua vida cotidiana.
- melhoria da educação da gentry, aumentando sua auto-confiança; grande
parte da gentry era educada nas escolas secundárias, escolas privadas e faculdades, cujo
corpo docente era constituído de dissidentes ideológicos.

3. Educação e novas ideologias: influência das novas idéias, notadamente puritanas, nas
universidades e colégios.
- o sistema educacional estava em grande parte nas mãos de homens que
rejeitavam os valores fundamentais do Estado.
1

- as universidades formavam clérigos e leigos cultos em quantidade maior


do que a disponibilidade de emprego, gerando um grupo numeroso de excluídos
descontentes.
- expansão da alfabetização: suscitou expectativas de participação política
e religiosa e um desejo de igualdade.

4. Fragmentação do judiciário: atrito entre funcionários e juízes dos tribunais – juristas


do direito consuetudinário conflitavam com juristas do direito romano.
- adesão de muitos juristas à oposição: os juristas consuetudinários se
deram conta de que seus interesses profissionais e suas inclinações os levavam a apoiar
a política do partido do País na Câmara dos Comuns – atitudes políticas concernentes à
santidade da propriedade e à supremacia do direito.

- Exigência de um novo papel do Estado na manutenção da estabilidade social:

- as mudanças econômicas estavam subvertendo as antigas relações sociais e criando


novas classes de pessoas que não mais se ajustavam ao antigo e ordenado sistema
hierárquico.

- Havia um número maior de empreendedores sem escrúpulos que perturbavam a ordem


pública com seu ímpeto materialista voltado para o ganho econômico; havia também um
número maior de pobres perigosos que não tinham aonde viver e nem trabalho.

- essas pressões exigiam uma nova concepção de Estado, cujos deveres incluíam o
exercício inteligente do poder para refrear os excessos que ameaçavam a estabilidade,
para incrementar a riqueza nacional e para melhorar as condições materiais de todos os
cidadãos.

6.Novas Idéias e novos valores

- Várias correntes intelectuais ajudaram no enfraquecimento da confiança nas


instituições centrais, como a Igreja e o Estado. Vejamos quais são elas.

6.1.Puritanismo: necessidade de independência de julgamento por parte de cada um


com base na consciência e leitura da Bíblia.
- desejo de simplificar os serviços da Igreja e melhorar a qualidade de
seus ministros, reduzir a autoridade e a riqueza do clero, aplicar os princípios da moral
particulares à Igreja à sociedade e ao Estado, anticlericalismo e necessidade de controle
leigo sobre a Igreja.
- atitudes puritanas: compartilhada por vários grupos sociais.
- ideologia puritana: antipapismo e glorificação dos ingleses como povo
eleito.
- as idéias puritanas identificavam-se com a onda nacionalista
estimulada por uma ameaça de invasão espanhola.
- adesão da elite fundiária: em busca de nova justificação moral para sua
posição privilegiada: conceito puritano de vocação.
- conseqüências políticas do puritanismo:
1

a) legitimou a idéia de resistência contra as autoridades: as


convicções puritanas davam segurança à retidão de sua causa; independência de
julgamento moral sobre a hierarquia religiosa e política, surgida do processo de
interpretação individual da Bíblia; transferência de valores, do Rei e da Corte, para os
devotos puritanos da Câmara dos Comuns.
b) caráter subversivo do puritanismo: ocorreu sem a aprovação deles
próprios, que eram conservadores; as ações puritanas encorajaram as idéias de
democracia participativa, embora poucos fossem favoráveis a ela.
c) proporcionou um embrião de organização da qual brotou o
radicalismo: classes presbiterianas e congregações foram os modelos para uma
organização ideológica do partido; praticavam uma democracia dirigida na qual a ampla
participação na discussão combinava-se com uma firme direção pelo alto e uma rígida
disciplina na execução política.
d) forneceu à oposição a liderança necessária: o lobby puritano na
Câmara dos Comuns tem sido descrito como o primeiro partido político da história
inglesa; o puritanismo não forneceu apenas idéias e convicções morais, mas também um
programa e uma direção.

6.2.Direito Consuetudinário: debates travados em termos legais ou com referência a


precedentes legais.
- conceito medieval de liberdade, dos interesses corporativos, baseados
num conjunto de normas e convenções herdadas da Idade Média, que eram usadas para
erigir barreiras em torno da propriedade privada, interesses e pessoas privadas, para
protegê-las do Estado centralizador.
- conceito de constituição equilibrada: Mito da Magna Carta, ou seja,
crença na existência de uma antiga constituição que precedia a prerrogativa régia.
- Parlamento como guardião da constituição, chegando a abolir os
tribunais privilegiados que davam suporte ao poder real.
- idéia de santidade dos direitos individuais à propriedade, que
estariam sendo violados pelos Stuarts, ao tributarem os ricos e determinarem a
subordinação dos interesses privados ao bem público.

6.3.Ideologia do País - País X Corte: o país como ideal; superioridade do campo sobre
a cidade (o campo é pacífico e limpo; a cidade é feia e suja); superioridade moral em
relação à Corte (o país é virtuoso, frugal, honesto, casto, heterossexual, sóbrio,
nacionalista, sincero defensor dos antigos hábitos e liberdades, protestante e puritano; a
Corte é malvada, extravagante, corrupta, promíscua, homossexual, xenófila, desonesta,
promotora das novidades administrativas e práticas tirânicas e contaminada de
tendências papistas.
- paternalismo do campo x egocentrismo da cidade; localismo x
cosmopolitismo; generosidade hospitaleira x luxo de Londres.
- desenvolvimento de 2 culturas distintas: da Corte e do país.
- dois centros de lealdade da gentry: para com a comunidade local
(condado) e para com a nação.
- defesa de uma teoria política: a “antiga constituição” garantia o
equilíbrio entre os órgãos do governo, no qual a função do Parlamento era frear o uso
exorbitante do poder executivo, para preservar a propriedade (sinônimo de liberdade).

6.4.Ceticismo: solapou a crença nos valores e hierarquias tradicionais.


1

- pluralismo religioso: gerou a indiferença e o ceticismo, surgindo a


questão: qual é o caminho certo para a salvação? Todos ou nenhum. Estímulo à dúvida.
- transferência da fidelidade ao Estado secular.

- A insegurança causada pela intensa mobilidade social

- Grandes pressões sobre a estrutura social: resultantes da duplicação da população, da


inflação, da abertura do mercado de terras com a venda das propriedades monásticas, do
crescimento da indústria e do comércio, da reorganização da produção e distribuição
agrícolas.

-Grau perigoso de mobilidade entre os grupos: mobilidade rápida do ponto de vista


geográfico (de uma aldeia a outra, do campo para a cidade) e vertical (para baixo e para
cima da escala social)

-1540-1640: houve mais membros da gentry em ascensão e queda;


- mobilidade geográfica dos escalões inferiores.

- causas do fluxo migratório: aumento da população nas aldeias, forçando o excedente a


se mudar por necessidade econômica; revolução social na agricultura; e fluídas
condições do sistema de propriedade.

- incerteza demográfica: pestes e doenças.

- desarticulação econômica: desemprego.

- o tradicional e conservado sistema de valores levou à insatisfação devido à


mobilidade, principalmente em razão da discrepância entre a riqueza, o status e o poder:
a) mercadores: ressentiam-se de serem economicamente ascendentes, mas
sem prestígio por não possuírem a posse da terra;
b) advogados e nobreza menor: ressentiam-se por estarem excluídos do
poder da Corte;
c) assalariados: ressentiam-se por estarem esmagados pela inflação e pelos
baixos salários, participando de motins e tumultos;
d) pequena gentry da paróquia: ressentia-se com a sua estagnação e
invejava o sucesso dos mercadores, cortesões e squires;
e) filhos menores da gentry: condenados pela lei da primogenitura a
deslizarem abaixo na escala social; muitos se alistaram nos exércitos durante a guerra
civil.

- sentimento de insegurança em todos os níveis:


a) nas posições superiores, a grande mobilidade gerava ciúmes, inveja e
desespero entre os fracassados, e ansiedade de status entre os bem sucedidos.
b) nas posições inferiores, as mobilidades geográficas e as periódicas
catástrofes das epidemais uniam-se para dissolver os laços de família, os homens dos
ambientes e associações aos quais estavam acostumudos.
1

- mal-estar, ansiedade e anomia: gerados pela desordem provocada na hierarquia de


status, devido à mobilidade.

- frustração e ressentimento entre nobres, squires e gentry: dotados de instrução


superior, mas sem possibilidades de emprego.

Conclusão

6. Novo grupo de ricos proprietários, profissionais liberais e mercadores:


aumentavam seu peso social e econômico e sua independência política.
7. Esse novo grupo queria mudança: reforma moral, financeira e pessoal da Corte,
política externa protestante, purificação do ritual da Igreja, diminuição da
autoridade episcopal, voz nos assuntos políticos, etc.
8. Elementos mais importantes entre as múltiplas pré-condições da revolução
inglesa de 1640:
8.1. Fracasso da Coroa na aquisição de dois instrumentos chave do poder:
exército permanente e uma burocracia assalariada e confiável.
8.2. Declínio da aristocracia e ascensão da gentry.
8.3. Puritanismo.
8.4. Crise de confiança na integridade e no valor moral dos dirigentes.

OBS: nenhum dos fatores tornou inevitável o colapso do governo e a eclosão da guerra
civil, porém era inevitável a redistribuição do poder a provável a reforma da Igreja. Mas
a forma como isso aconteceria não podia ser prevista.