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ORGANIZAÇÃO HELENA MARTINS

PREPARAÇÃO TETÉ MARTINHO


REVISÃO GUILHERME MAZZAFERA
CAPA GUSTAVO PIQUEIRA | CASA REX
DIAGRAMAÇÃO / MONTAGEM DO E-BOOK CÉSAR ZAMBONE
 
 
 
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação – CIP

M356 Martins, Helena, Org.


Desinformação: crise política e saídas democráticas para as fake news /
Organização de Helena Martins. Prefácio de Sergio Amadeu da Silveira. –
São Paulo: Veneta, 2020.
108 p.
 
Intervozes - Coletivo Brasil de Comunicação Social / Fundação Ford
 
ISBN 978-65-86691-04-7
 
1. Comunicação. 2. Estratégias de Comunicação. 3. Comunicação de Massa. 4. Análise do
Discurso. 5. Mídias Sociais. 6. Desinformação. 7. Fake news. I. Título. II. Sentidos políticos e
saídas possíveis para as fake news. III. A desinformação é uma indústria. IV. Muito além das
fake news: o problema da desinformação em meio à crise social. V. Aspectos da
desinformação: capitalismo e crises. VI. Muito barulho para silenciar. VII. Para além da
aparência: saídas amplas e democráticas. VIII. Martins, Helena, Organizadora. IX. Silveira,
Sergio Amadeu da. X. Westrup, Ana Carolina. XI. Mariconi, Bruno. XII. Amorim, Eduardo.
XIII. Vieira, Ramênia. XIV. Galassi, Vanessa.
 
CDU 001.9 CDD 302.2

Catalogação elaborada por Regina Simão Paulino – CRB 6/1154


 
 
 

EDITORA VENETA
Rua Araújo, 124 1º andar 01220-020 São Paulo SP
www.veneta.com.br | contato@veneta.com.br
PREFÁCIO
Sergio Amadeu da Silveira
 

INTRODUÇÃO
Helena Martins
 

1. ASPECTOS DA DESINFORMAÇÃO, CAPITALISMO E CRISES


Bruno Marinoni e Vanessa Galassi
 

2. MUITO BARULHO PARA SILENCIAR


Eduardo Amorim e Ramênia Vieira
 

3. PARA ALÉM DA APARÊNCIA: SAÍDAS AMPLAS E


DEMOCRÁTICAS
Ana Carolina Westrup
 

SOBRE OS AUTORES
CAPÍTULO 1
ASPECTOS DA
DESINFORMAÇÃO,
CAPITALISMO E CRISES
1
ASPECTOS DA DESINFORMAÇÃO,
CAPITALISMO E CRISES
Bruno Marinoni e Vanessa Galassi

A filipina Arlyn B. Calos perdeu dois filhos no intervalo de uma semana


em 2018. As crianças foram infectadas pelo vírus do sarampo. Calos não
as levou para serem vacinadas. Longe de ser um comportamento
displicente, a não imunização ao vírus foi consequência de um processo
de desinformação: Arlyn Calos relatou que tinha lido “notícias” dizendo
que a vacina fazia muito mal. Essas fake news viralizaram nas Filipinas.
“Sinto raiva, porque eu não devia ter dado ouvidos à TV nem ao
Facebook”, disse a mãe, conforme registrou reportagem da BBC16.
A história chocante é apenas um exemplo entre muitos das graves
consequências que as chamadas fake news têm gerado. Não se trata de
um caso isolado. Segundo pesquisa realizada pela ONG Avaaz, em
parceria com a Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm), em
novembro de 2019, 67% dos brasileiros acreditaram em, pelo menos,
uma notícia falsa sobre vacinação, recebida sobretudo pelas redes
sociais17. O estudo ainda aponta que quase metade dessas “notícias”
vem de sites publicados originalmente em inglês, nos Estados Unidos.
Em 2019, o movimento antivacinação foi incluído pela Organização
Mundial de Saúde (OMS) em relatório sobre os dez maiores riscos à
saúde global. A medida foi uma resposta à campanha mundial
antivacina18 que cresceu, entre outros motivos, com a disseminação de
informações falsas em redes sociais, blogs e sites com conteúdos de
baixa credibilidade, de acordo com o estudo Movimento antivacinas:
cenário atual e consequências para o futuro. Realizada por estudantes de
medicina da Universidade Federal de Lavras (MG) em 2018, a pesquisa
examinou fenômenos como um grupo antivacina formado por pelo
menos 13 mil pessoas no Facebook.
Outro exemplo drástico envolvendo informações manipuladas foi
registrado na Índia, em 2018: uma série de linchamentos encetados pela
divulgação, via WhatsApp, de um vídeo que mostrava uma criança
sendo levada por um motociclista resultou em dezoito mortes. O vídeo
era a versão editada de uma campanha de autoridades do Paquistão em
prol da segurança das crianças. Na versão que circulou nas redes,
suprimiu-se o trecho final, em que o suposto sequestrador devolve a
criança e levanta um cartaz onde se lê: “Basta um só momento para uma
criança ser sequestrada nas ruas de Karachi”.
Manipular informações com o objetivo de enganar, convencer, gerar
paixões ou ampliar audiência não é algo novo. Segundo a linha do tempo
incluída em Um breve guia da história das fake news, do International
Center for Journalists, uma das primeiras manifestações dessa prática
de que se tem notícia foi registrada ainda no século I a.C, quando
Otávio, que viria a ser o imperador romano Augusto, promoveu uma
campanha de difamação contra Marco Antônio com o objetivo de
manchar sua reputação e, assim, obter vantagens na disputa pelo
comando do Império Romano.
Em suas Reflexões de um historiador sobre as falsas notícias da guerra,
de 1921, o historiador Marc Bloch anota:
 
Falsas notícias, em toda a multiplicidade de suas formas – contos simples, imposturas,
lendas – encheram a vida da humanidade. Como elas nascem? De quais elementos as tiram?
Como elas estão se espalhando e ganhando impulso quando passam de boca em boca ou de
escrito em escrito19?
 

Tais questionamentos evidenciam que a prática da disseminação de


desinformação causa preocupações há tempos, ainda que não tenha
estado sempre no centro do debate público. Foi em 2016 que ganhou o
destaque atual, ao ser associada à expressão fake news ou “notícia falsa”.
O termo foi usado inicialmente em referência aos sites e blogs que
despontavam na cobertura das eleições norte-americanas daquele ano,
propagando informações falsas travestidas de jornalismo. O
republicano Donald Trump, que concorria com a democrata Hillary
Clinton, adotou a expressão para falar dos veículos de imprensa que se
opunham à sua campanha com notícias ou comentários críticos, ao
mesmo tempo que informações manipuladas ou falsas favoráveis ao
candidato eram enviadas a cidadãos e cidadãs estadunidenses pelas
redes sociais, de forma segmentada. Isso foi possível graças à utilização
de um vasto banco de dados obtido pela empresa de análise de dados
Cambridge Analytica, que teve acesso a informações sobre 87 milhões
de usuários do Facebook e, compartilhando-as de forma ilegal,
desenvolveu um sistema capaz de direcionar conteúdos pró-Trump e
contrários à adversária de forma personalizada, considerando as
inclinações políticas do público. Ao falar sobre a eleição norte-
americana de 2016, o diretor da campanha digital de Trump, Brad
Parscale, disse à emissora CBS: “[Em um] dia normal [fazíamos] de 50 a
60 mil anúncios, mudando idioma, palavras, cores”. À prática, de escala
até então inédita, atribui-se a apertada vitória de Trump.
Foi também em 2016 que o termo fake news ganhou espaço nas
campanhas do plebiscito que definiria a saída do Reino Unido da União
Europeia, mais conhecido como Brexit. O uso de um poderoso banco de
dados pessoais, também obtido pela Cambridge Analytica, permitiu
inundar as redes sociais do eleitorado com notícias falsas e
desinformação. Circulou, por exemplo, que 50 milhões de turcos
imigrariam para a Inglaterra caso o país permanecesse na União
Europeia, e que a Grã Bretanha estava despendendo enormes recursos
financeiros para permanecer no bloco sem qualquer retorno, quando
poderia investir o montante em áreas como saúde.
Dois anos depois, a desinformação voltaria a desempenhar um papel
de destaque, desta vez nas eleições presidenciais brasileiras. Antes e
sobretudo ao longo da campanha, um número impressionante de
grupos públicos surgiu no aplicativo de mensagens WhatsApp para
apoiar, por meio da divulgação de informações falsas ou manipuladas, o
candidato ultradireitista Jair Bolsonaro (PSL). Entre as estratégias
usadas, estava a disseminação de conteúdos que apresentavam
respostas, ainda que sem base de verdade, a notícias publicadas por
veículos de comunicação tradicionais que podiam atrapalhar a
campanha de Bolsonaro. Além disso, os grupos espalhavam ataques ao
principal adversário de Bolsonaro, Fernando Haddad (PT)20, e sua vice,
Manuela D’Ávila (PcdoB); ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva,
liderança do PT; a partidos de esquerda, como o PSOL; a centrais
sindicais, como a Central Única dos Trabalhadores (CUT); ao
Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e ao
Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST); à União Nacional dos
Estudantes (UNE); a diversas outras organizações da sociedade civil e
aos “direitos humanos” em geral.
Em agosto de 2018, durante uma tradicional rodada de entrevistas
dos presidenciáveis ao Jornal Nacional, Bolsonaro mostrou o livro
Aparelho sexual e cia., afirmando que ele integrava a campanha Brasil
Sem Homofobia, desenvolvida no governo da presidenta Dilma
Rousseff (PT) e engavetada após pressão de grupos conservadores. O
livro, que traz na capa um menino de topete loiro olhando assustado
para o que tem dentro da calça, jamais fez parte do projeto, que visava
formar educadores em temas relacionados aos direitos LGBTQI+.
Aproveitando-se do telejornal mais assistido do Brasil, a estratégia do
pesselista era reforçar e tornar plausível a informação que já circulava
nas redes sociais sobre a iniciativa, preconceituosamente alcunhada kit
gay.
Paralelamente, o candidato usava a mesma estratégia de Trump,
chamando de mentirosa a imprensa tradicional que publicasse
qualquer notícia capaz de atrapalhar sua jornada rumo à presidência da
República e desferindo acusações falsas e maldosas contra os
adversários, inclusive em transmissões ao vivo pelo Facebook,
reforçando o que já era propagado em grupos de WhatsApp. Ainda que
seja difícil cravar um motivo principal entre os vários que levaram à
vitória de Jair Bolsonaro, é possível afirmar que, como aconteceu a
Trump nos Estados Unidos, o resultado favorável ao candidato no
Brasil foi facilitado pela disseminação massiva de desinformação.
Com essas mudanças na forma de construir e operar discursos,
especialmente políticos, a desinformação passou a despertar a
curiosidade de pesquisadores, como já ocorrera no fim da década de
1930, quando foram estabelecidas as bases dos estudos sobre
comunicação de massa e sua lógica de distribuição de conteúdos, de um
produtor para uma audiência ampla. Hoje, os estudos em torno das fake
news buscam definir os contornos do fenômeno e compreender como
ele se materializa nas redes digitais, que operam de forma distinta da
mídia tradicional.
A discussão passa pelos aspectos da produção, do formato e da
disseminação de informações no cenário político atual via novas
tecnologias, que permitem reproduzi-las em grande velocidade, com
longo alcance e “gratuitamente”. Sabe-se, por exemplo, que a aplicação
de técnicas de psicometria, associada ao uso indiscriminado e indevido
de dados pessoais, tem servido para mapear perfis e definir estratégias
eficazes para atingir receptores com conteúdos desinformativos de
forma segmentada. Além disso, utiliza-se uma estética “realista”, que
imita o formato jornalístico e a estrutura da notícia – por vezes até a
aparência de sites conhecidos – para ludibriar o usuário e capitalizar a
credibilidade de marcas de comunicação conhecidas.
Nesse processo, definidos esses perfis e construídas essas narrativas,
avança-se para a disseminação, potencializada pelas redes sociais. A
informação falsa ou manipulada – que, quando veiculada pelos meios de
comunicação tradicionais, pode sofrer certo controle externo do
público –, agora circula sem barreiras efetivas. Pode ser disseminada, de
forma veloz e viral, por robôs – programas que reagem
automaticamente a determinadas entradas de dados – ou pelos
próprios receptores, que a compartilham. Ela é também mais barata –
exige apenas uma conexão com a internet, um aparelho eletrônico que
acesse a rede e um software ou aplicativo – e mais diversificada nos
temas que aborda, até porque não há a limitação de espaço como ocorre
com os jornais ou na programação televisiva. É com essas
características que a desinformação vem moldando a opinião pública,
aguçando a polarização da sociedade, transformando o mundo.
 
Fake news: um termo sem consenso
 

Os estudos sobre o processo de produção e disseminação de


informações falsas, manipuladas ou tendenciosas mostram que o termo
fake news é insuficiente para traduzir o fenômeno mundial e trazer,
portanto, algum ganho epistemológico. Ao se debruçar sobre a tentativa
de conceituá-lo, Habgood-Coote21 faz uma série de questionamentos. O
termo fake news aplica-se apenas a notícias divulgadas online, ou
também à mídia impressa? Fake news podem ser verificadas em
postagens individuais nas redes sociais, ou apenas em materiais
veiculados por grandes veículos? Sátiras e paródias podem ser
classificadas como fake news? Um elemento falso em uma notícia que
contém elementos verdadeiros faz dela uma fake news? Um erro
cometido sem intenção é capaz de criar uma fake news? Uma
informação fora do contexto gera fake news?
Ainda que as respostas variem, é possível enxergar uma diferenciação
importante: desinformação, diferentemente de má informação, resulta
de uma conduta deliberada, que produz informação falsa para obter
vantagem ou lucro. O esforço de definir o termo está relacionado ao
desejo de identificar seus impactos e apontar soluções. A mídia
tradicional, implicada em diversos episódios de produção e
disseminação da desinformação, tem particular interesse em associar
fake news a informações falsas produzidas e/ou divulgadas por canais
de notícias que operam apenas na internet. Sua intenção é resgatar para
si um lugar de credibilidade e de primazia como produtora de
informação, em meio à pluralidade de veículos e fontes que surgiram
com a rede mundial de computadores. “Assim, as chamadas fake news
viraram um excelente argumento para os donos da mídia voltarem a
dizer: ‘a verdade está aqui’, numa tentativa de ressignificação de um
papel que, convenhamos, nossa imprensa cumpre muito mal”, afirmam
Barbosa e Valente22.
Para que possamos avançar nessa reflexão e nesse debate, seguem-se
algumas definições correntes de fake news produzidas por diferentes
instituições e acadêmicos. Em documento oficial do Facebook
publicado em 2017, os analistas e executivos da rede Jen Weedon,
William Nuland e Alex Stamos afirmam que esse termo surgiu como um
genérico para se referir a artigos que expressavam opinião, paródias,
sarcasmo, memes, abusos online e distorções factuais. Para os autores,
essa amplitude conceitual é prejudicial à abordagem, pois não permite
entender os problemas envolvidos. Para superar a questão, eles
sugerem outras quatro terminologias para abordar o que consideram
como diferentes fenômenos: 1) operações de informação (ou
influência), que são ações tomadas por governos ou atores não estatais
organizados para distorcer o sentimento político nacional ou
estrangeiro; 2) notícias falsas (usam false e não fake news), artigos de
notícias que parecem ser factuais, mas que contêm distorções
intencionais de fatos com o propósito de provocar paixões, atrair
audiência ou enganar; 3) falsos amplificadores, que se referem à
atividade coordenada por contas não autênticas com a intenção de
manipular; e 4) desinformação, que expressa a existência de conteúdos
falsos, imprecisos ou manipulados que são disseminados
intencionalmente. As distinções mais importantes, na visão dos
autores, consistem na intenção, nos meios e na amplitude conferida aos
conteúdos.
Mais descritiva que analítica, a abordagem acima deixa de observar as
interações entre esses diferentes fenômenos. Ficam assim afastadas do
debate as implicações que resultam das opções políticas ou de lucro
feitas pelas próprias plataformas que regulam o ambiente digital de
circulação de (des)informação na hora de conceber a arquitetura da
rede.
Em sentido semelhante, Lazer et al. entendem que as “notícias
falsas” não se referem a problemas do processo organizacional, mas são
um fenômeno que se sobrepõe a outros desarranjos da informação:
 
Definimos “notícias falsas” como informações fabricadas que imitam o conteúdo noticioso
na forma, mas não no processo organizacional ou na intenção. Os veículos de notícias falsas,
por sua vez, não têm normas editoriais para garantir precisão e credibilidade da informação.
As notícias falsas se confundem com outras desordens da informação, como informações
equivocadas (misinformation) e desinformação (informações falsas que são difundidas
deliberadamente para enganar as pessoas)23.
 

Voltaremos a essa distinção adiante; por ora, cumpre destacar que,


aqui, a desinformação aparece como prática carregada de
intencionalidade, ao passo que as notícias falsas, ainda que sejam
definidas como algo fabricado para imitar padrões de veículos
noticiosos, não geram “suposições sobre as características de fontes ou
estratégias de amplificação”.
Ulrich Richter Morales, autor que examina os novos problemas éticos
e legais que derivam do desenvolvimento da internet e da ascensão de
plataformas como Google e Facebook, enfatiza a questão da intenção.
Para ele, fake news são mentiras produzidas por interesse político ou
financeiro:
 
As fake news são algo mais que informações tendenciosas ou manipuladas. São mentiras.
Para a editora do Dicionário Collins, uma notícia falsa é uma “informação falsa, muitas vezes
sensacionalista, divulgada sob a aparência de cobertura de imprensa”. Concordamos, mas
acrescentamos algo mais: as fake news são informações falsas concebidas para se fazer passar
por notícias, com o objetivo de difundir uma farsa ou desinformação deliberada e alcançar
um fim político ou financeiro24.
 
Allcott e Gentzkow também destacam a questão da intencionalidade
ao propor o conceito de fake news como peças noticiosas que são
intencional e comprovadamente falsas, capazes de enganar os leitores.
A definição pode abarcar até mesmo informações oriundas de sites
satíricos, desde que projetadas para parecer factuais, emulando
mecanismos da enunciação jornalística. Além disso:
 
Também inclui muitos artigos que se originam em sites satíricos, mas podem ser mal
interpretados como factuais, especialmente quando vistos isoladamente em feeds do Twitter
ou do Facebook. […] Nossa definição exclui […] 1) Erros não intencionais [...] 2) Rumores não
originados de uma notícia particular; 3) Teorias da conspiração (essas, por definição, difíceis
de verificar como verdadeiras ou falsas, e são tipicamente originadas por pessoas que
acreditam que sejam verdadeiras); 4) sátira que é improvável ser interpretada como factual;
5) declarações falsas de políticos; e 6) relatórios que são inclinados ou enganosos, mas não
completamente falsos25.
 

Para entender o fenômeno, Ortellado e Moretto26 propõem usar o


conceito de “mídias hiperpartidárias”, que definem como sites que se
empenham em disputar e moldar a opinião pública com proselitismo
em forma de material noticioso, criando desarranjos comunicacionais
como manchetes sensacionalistas, informações descontextualizadas,
especulações apresentadas como fatos e, ocasionalmente, mentiras.
Segundo os autores, esse tipo de material é difundido sobretudo, ainda
que não exclusivamente, nas redes sociais, onde encontra um público
propenso a compartilhar conteúdos para afirmar sua identidade
(política, econômica, religiosa, social, cultural) e atacar a identidade e
as posições alheias. A meta, pontuam, é “atender um ambiente político
polarizado”.
Se no campo acadêmico se observa uma multiplicidade de conceitos e
abordagens para essa questão, as instituições que promovem os direitos
humanos – tanto em âmbito local quanto internacional – parecem
convergir para o conceito de desinformação, que utilizam para criar
uma distinção entre notícias falsas e fatos, e para evidenciar o aspecto
da intenção. O termo desinformação foi adotado, por exemplo, na
Declaração conjunta sobre liberdade de expressão e ‘notícias falsas’,
desinformação e propaganda, assinada pela Relatoria Especial das
Nações Unidas (ONU) para Liberdade de Opinião e Expressão e pela
Relatoria Especial da Organização dos Estados Americanos (OEA) para
a Liberdade de Expressão em 2017, entre outras agências:
 
[…] Desinformação e propaganda são frequentemente projetadas e implementadas com o
objetivo de confundir a população e interferir no direito do público de conhecer e no direito
das pessoas de buscar e receber, e também transmitir, informações e ideias de toda índole,
sem considerar os limites, direitos estes protegidos pelas garantias legais internacionais dos
direitos à liberdade de expressão e de opinião27.
 

O documento defende como necessária a promoção da diversidade da


mídia e das fontes de informação, além de definir parâmetros e
responsabilidades para ajudar governos, veículos de comunicação e
empresas de tecnologia a responder aos desafios apresentados pela
onda crescente de desinformação, garantindo o direito à liberdade de
expressão.
Em 2018, ao lançar uma consulta pública sobre o impacto da
desinformação no contexto eleitoral, a Relatoria Especial para a
Liberdade de Expressão da Comissão Interamericana de Direitos
Humanos (CIDH/RELE), o Departamento de Cooperação Eleitoral
(DECO) e o Departamento de Direito Internacional da Organização dos
Estados Americanos (OEA) divulgaram um texto explicitando que
desinformação é a disseminação massiva de informação falsa que é feita
1. sabidamente e 2. na intenção de enganar o público. Trata-se,
portanto, de uma violação dos direitos à comunicação e à liberdade de
expressão, entendidos como o direito de receber informações e também
de produzir, interagir e participar livremente do processo de
comunicação.
A Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a
Cultura (Unesco), entendendo que só podemos chamar de notícia algo
que não é falso, prefere não utilizar o termo fake news. Em vez dele, usa
“campanhas de desinformação” para nomear “conteúdos
intencionalmente mentirosos que são lançados em sites falsos ou redes
sociais para prejudicar uma pessoa ou um grupo”. Nesse sentido, falar
em “notícias falsas” seria uma contradição, pois:
 
[…] Notícias significam informações verificáveis de interesse público, e as informações que
não atendem a esses padrões não merecem o rótulo de notícias. Nesse sentido, então, a
expressão ‘notícias falsas’ é um oxímoro que se presta a danificar a credibilidade da
informação que de fato atende aos parâmetros de verificabilidade e interesse público – isto é,
notícias reais28 .
 

Para fazer diferenciações que consideram o teor factual e de


intencionalidade, a Unesco introduz outros dois termos:
misinformation (informação equivocada) e mal-information
(informação maldosa). Misinformation seria um tipo não intencional de
desinformação, sem objetivo de causar dano, como um erro de
apuração; mal-information, uma informação baseada na realidade, mas
manipulada para gerar prejuízo a alguma pessoa, grupo ou país.
Desinformação, portanto, não é notícia e não se confunde com deslizes
na apuração jornalística.
Alinhados à abordagem internacional, o Conselho Nacional dos
Direitos Humanos (CNDH) brasileiro, órgão colegiado de composição
paritária que promove e defende dos direitos humanos, o Comitê
Gestor da Internet no Brasil (CGI), estrutura multissetorial que
coordena iniciativas relacionadas ao uso da internet no país, além de
outras organizações, como o Intervozes – Coletivo Brasil de
Comunicação Social, optam por usar o termo “desinformação” em lugar
de fake news. Todos a definem como um fenômeno que se dá de forma
intencional e organizada, buscando gerar influência e/ou lucro.
Segundo o texto do CGI:
 
A “desinformação” acontece quando informações inventadas para produzir lucros ou
comprometer a reputação das pessoas passam a influenciar o debate público nas redes e fora
delas. Uma característica central desses conteúdos é que são produzidos de forma
organizada e intencional para enganar 29.
 

Se há consenso entre as referidas instituições e organizações sobre o


fato de a desinformação decorrer de processos que podem ser
intencionais e organizados, com o objetivo de prejudicar um alvo
individual ou coletivo, ela também pode ser considerada um
subproduto do modelo de negócio estabelecido pelas plataformas
digitais – um modelo que se baseia na concentração e na exploração
indevida de dados pessoais de usuários/as. Como ocorria na mídia
tradicional, a desinformação fundamenta-se não somente em
informação falsa, mas também em outros desarranjos comunicacionais,
como exagero, omissão e descontextualização; aqui, porém, ela ganha
contornos e potencial novos com as formas de produção, circulação,
mediação e acesso à informação que são características das redes
digitais.
A disseminação do que preferimos chamar de desinformação nas
plataformas, sobretudo de redes sociais, está ancorada em um modelo
de funcionamento que é refratário à participação democrática, já que
inviabiliza o domínio dos usuários sobre seus conteúdos e faz dos
algoritmos ferramentas a serviço da dominação, da exploração e da
opressão capitalista. Em países como o Brasil, onde o sistema midiático
é essencialmente privado e pouco se discute criticamente a mídia, esse
modelo ganha lastro ainda maior. As corporações do setor concentram
poder e impõem seus interesses ao conjunto de usuários/as, ignorando
direitos fundamentais à liberdade, à privacidade e à informação desde
que isso garanta retorno financeiro.
É imprescindível garantir e incentivar o debate sobre as fake news,
ampliando seu escopo para abranger o fenômeno da desinformação em
todas as suas dimensões – histórica, econômica, política, social e
cultural. Além de implicações específicas no que vier a se estabelecer no
ordenamento jurídico e na dimensão efetiva da garantia de direitos,
esse esforço produzirá subsídios para que a população compreenda e
seja capaz de enfrentar o problema.
 

A desinformação como problema histórico


 

O mundo vem sofrendo transformações muito profundas nas últimas


décadas. Às vezes, imersos no cotidiano, não nos damos conta da
extensão e da intensidade dessa mudança. Basta pararmos alguns
instantes para refletir como costumava ser nossa dinâmica de trabalho,
nossa vida doméstica e nossa interação com amigos/as e parceiros/as –
ou a de nossos pais e avós – nas décadas de 1980 e 1990, porém, para
percebermos as diferenças.
Para muita gente, é até difícil imaginar ou lembrar como se
encontrava um endereço quando queríamos ir a um lugar
desconhecido, ou como comunicavam a alguém que estava fora de casa
ou do trabalho que chegariam atrasadas a um encontro marcado. Há
vinte anos, buscar informações em publicações e notícias para subsidiar
pesquisas científicas, trabalhos escolares ou textos informativos
poderia demandar muitos deslocamentos – e sempre havia o risco de o
material estar sendo utilizado por outra pessoa, ou simplesmente não
estar disponível.
Pensando em situações como essas, conseguimos perceber como o
nosso sistema de referências – o suporte e o repertório de informações
que usamos para nos localizar e nos mover no mundo – se transformou,
assim como a relação que estabelecemos com ele. Talvez mais do que
nunca estejamos dependentes das dinâmicas de comunicação, pois tudo
indica que elas ocupam um espaço maior na nossa vida e de forma mais
intensa do que no passado. Essa é uma transformação que envolve todo
o planeta.
De acordo com o relatório Digital in 2019, elaborado pelas agências
de pesquisa de mercado We are social e Hootsuites, a penetração da
internet chega hoje a 57% de uma população estimada em 7,67 bilhões
de pessoas, ou seja, é usada por 4,38 bilhões delas. Segundo o
documento, esse índice supera o nível de urbanização do planeta, de
56%. O crescimento em relação a janeiro de 2018 foi de 9%. A agência de
pesquisa Statista registrou número semelhante em fevereiro de 2019,
estimando a “população digital” em 4,33 bilhões de pessoas.
As formas como essas pessoas se conectam à rede mundial variam
conforme uma série de fatores – como território, renda e gênero. Por
outro lado, mesmo quem não tem acesso direto à internet pode ser
afetado por ela. O mundo se tornou pequeno demais para que possamos
“nos esconder” de seus efeitos (se pensarmos no poder dos satélites e
no mapeamento das cidades por ferramentas como o Google Street
View, a metáfora ganha uma dimensão quase literal). Os impactos
ambientais, econômicos e políticos desse mundo digitalizado e
hiperconectado já atingem a todos/as – com destaque para o
ecossistema comunicacional controlado por algumas corporações, que
estimulam o desenvolvimento de arquiteturas voltadas à exploração
das interações sociais.
Se a sociedade contemporânea tem um caráter essencialmente
tecnológico, também é certo que toda tecnologia tem sempre um
conteúdo social. A forma assumida pelas tecnologias resulta da
interação entre diferentes agentes, como as empresas privadas e as
instituições públicas, que fazem escolhas sobre o que desenvolver e
como, e os usuários/as, que desenvolvem diferentes usos sociais para as
tecnologias, muitas vezes imprevistos. O desenvolvimento de padrões
como o “protocolo de transferência hipertexto” (HTTP), no fim da
década de 1980, permitiu o surgimento de sistemas como a WWW
(world wide web), que tornaram a relação dos “não iniciados” com a
rede muito mais palatável, dando à internet um grande potencial de
atrair diversas atividades corriqueiras, como fazer compras, informar-
se ou conversar com amigos e parentes.
Nos anos 2000, observando o crescente grau de interação social que a
internet tornava possível, algumas empresas desenvolveram as
chamadas redes ou mídias sociais, ambientes digitais que, simulando
espaços de socialização, promovem a interação entre pessoas. Estas
redes absorveram e passaram a dominar boa parte dessas conexões.
Outras empresas criaram ferramentas que, ao facilitar a busca por
conteúdos na rede, viabilizaram a exploração desse papel de mediação.
Nesse processo, algumas corporações se consolidaram e passaram a
regular parte considerável dos fluxos de comunicação e informação
digital.
O já citado relatório Digital in 2019 mostra que existem cerca de 3,48
bilhões de usuários ativos das redes sociais ao redor do mundo, o que
equivale a cerca de 45% da população mundial. Segundo a pesquisa da
Statista, o Facebook é a rede social líder de mercado, atingindo quase
2,38 bilhões de usuários ativos a cada mês. Em sexto lugar, com 1 bilhão
de usuários, está o Instagram, pertencente ao mesmo grupo. A receita
registrada em 2018 pelo Facebook foi de US$ 55,8 bilhões, US$ 15
bilhões a mais do que no ano anterior e o dobro de 2016, quando o
escandaloso fenômeno da desinformação explodiu nas eleições
estadunidenses.
Como é possível perceber, o cenário de interconexão crescente em
que vivemos é profundamente marcado, também, pela concentração de
audiência, recursos e, portanto, poder; isso deriva de sua capacidade de
mobilizar o tempo e as ações das pessoas que as usam. Nesse quadro,
plataformas digitais como Facebook, Google e outras desempenham um
papel central, tendo se tornado, inclusive, as mais valiosas empresas do
mundo contemporâneo.
As plataformas digitais, também chamadas de plataformas online ou
tecnológicas, podem ser consideradas, de alguma forma, sucedâneos
contemporâneos das “praças de mercado”30, nas quais vendedores e
compradores se encontravam, artistas exibiam espetáculos para os
passantes e as pessoas se encontravam para interagir. Esses agentes de
mediação variam, podendo ser determinados pela busca de bens e
serviços (Amazon e Apple Store), de audiência (YouTube, Netflix), de
interação social (Facebook e Snapchat) ou outras. A pesquisa
Monopólios Digitais, do Intervozes (2018), mostra que as plataformas
operam com base na coleta e no processamento de dados,
instrumentalizados para definir as relações entre os vários lados que
põem em contato (como anunciantes e possíveis compradores).
Na mediação das interações sociais que realizam, essas plataformas
são pautadas pelo imperativo econômico da maximização dos lucros
dos grandes grupos capitalistas que as controlam. Isto tem tido um
impacto importante na transformação da sociabilidade
contemporânea, regulada de forma cada vez maior por algoritmos –
rotinas codificadas em forma de linguagem de programação – moldados
conforme os interesses dessas megaempresas.
A reprodução da desinformação em grande escala vem encontrando
terreno fértil nessas plataformas, que, por seu caráter monopolista e
capitalista, tendem – de forma, em princípio, “amoral” – a maximizar
quaisquer práticas que façam sua receita crescer. Em outras palavras,
elas preferem fomentar dinâmicas que gerem mais “engajamento” e
“viralização”, independentemente de seus conteúdos, pois essas ações
se convertem em faturamento – graças a um complexo sistema de
exploração do trabalho, expropriação da privacidade e comercialização
da audiência.
 

A economia no controle das interações sociais


 

Ao longo do século XX, cresceu a influência e o controle do capital


sobre o que seria, supostamente, o “tempo livre”31. A indústria cultural
assumiu o papel de agente desse processo de “colonização da vida” pela
máquina de acumulação de capital32. A cultura se fundiu em grande
medida com a publicidade, aproximando os modos de viver e a estética
da mercadoria – o microuniverso simbólico que gira em torno dos
produtos capitalistas.
O funcionamento desses agentes organizadores da cultura que
dominaram o século XX, com os quais convivemos até hoje, porém, é de
outra ordem se comparado ao dos mecanismos das plataformas digitais.
No sistema contemporâneo, o/a usuário/a está integrado/a de forma
mais ativa ao processo de acumulação do capital, que demanda dele/a,
inclusive, um dispêndio maior de energia e de tempo. Nós, usuários,
somos instados a desempenhar uma série de ações para potencializar o
funcionamento das plataformas; no modelo tradicional da indústria
cultural, nos cabia apenas ver, ouvir, ler. Agora precisamos, além disso,
clicar, escrever, gravar etc. Em troca, recebemos tipos diversos de
compensação simbólica, psíquica, afetiva, financeira etc.
Atendo-nos apenas aos principais mecanismos de retorno financeiro
desenvolvidos pelas plataformas digitais, é possível perceber como
estes dependem daquilo que os/as usuários/as produzem, na forma de
registros de sua atividade.
O chamado Custo Por Clique (CPC), ou Pagamento Por Clique (PPC),
é o tipo de técnica mais utilizado pelas plataformas digitais na relação
que geram entre anunciantes e usuários/as. Estes/as recebem um
pagamento proporcional à sua taxa de sucesso em convencer outros/as
usuários/as a clicarem em links que promovem produtos e serviços de
terceiros. É o que acontece, por exemplo em muitas fanpages do
Facebook. O/a usuário/a-alvo (target) dessa “captura” é “encontrado/a”
graças à utilização de seus dados pessoais, processados por um banco de
dados que ele/a provavelmente desconhece. O site hospedeiro pode
pertencer à própria plataforma. Há também, por outro lado, o serviço
de agenciamento entre anunciante e proprietários de sites
independentes, aproximando-se, assim, do papel de um agente
publicitário em busca de diretores (Publishers) de jornais ou revistas. É
o que faz, por exemplo, a empresa Hotmart ou mesmo o Google
AdSense com seus “programas de afiliados”.
O Custo Por Mil (CPM) funciona de forma similar; aqui, porém, o que
define o valor do retorno financeiro não é o número de cliques, mas de
visualizações. Para cada milhar de “views” capturadas, o anunciante
concorda em pagar ao agente que publica o anúncio uma quantia pré-
determinada. Isso significa que o/a usuário/a responsável por gerenciar
o conteúdo é compensado/a por cada anúncio mostrado. O Custo Por
Aquisição (CPA) só gera pagamento quando se consegue fazer com que
o usuário realize uma operação comercial, comprando um produto ou
serviço, cadastrando-se em um banco de dados etc.
O que temos, aqui, é um motor financeiro voltado a produzir o
máximo possível de cliques, visualizações e outras ações que garantam
sua autorreprodução em escala ampliada. Trata-se de uma lógica
socioeconômica de hiperestímulo à produção de conteúdos, à
sociabilidade baseada no consumo e à regulação dos nossos hábitos –
algo que não fica muito a dever aos cenários distópicos produzidos pela
ficção científica na literatura, no cinema e nos quadrinhos. Esse
interesse por retorno financeiro de uns converge com o desejo narcísico
de outros de se exibir, ver suas ações reforçadas pela aprovação de
“amigos” colecionados nas redes, parecer bem informados etc. Tudo
isso é devidamente explorado pelo sistema de reprodução do capital,
que envolve as plataformas e outras empresas que lucram com vendas
realizadas online ou nas lojas, a partir da mobilização gerada pelos
anúncios.
Nossa atenção está sendo disputada. Quanto mais tempo as
plataformas nos mantêm conectados, mais cliques, visualizações,
adesões e aquisições são gerados e convertidos em lucro. Além disso,
enquanto navegam, os/as usuários/as produzem e compartilham dados
pessoais, entregando informações que ajudam a mapear seu
comportamento. Não apenas esses mapas serão vendidos no mercado,
que comercializa grande volume de dados – os big data, tecnologias de
tratamento de grande quantidade de dados –, como os usuários também
acabam sendo influenciados por esse tipo de modulação política e
culturalmente.
Para “caçar” cliques e afins, gerar dados e vender anúncios, as
plataformas reelaboram as tecnologias de persuasão e dissuasão
utilizadas pelas indústrias culturais desde os seus primórdios, e
também desenvolvem outras. Sua arquitetura de interconexão
instantânea e global, assim como sua alta capacidade de processar
informações – sobretudo dados sobre usuários, cidades, organizações
etc. – elevam seu potencial de influência a um patamar inédito.
De 2016 em diante, esse potencial tornou-se visível no mundo todo.
Desde então, processos eleitorais em países diversos vêm se mostrando
termômetros importantes da magnitude da influência das novas
configurações e usos das plataformas digitais na organização de nossas
sociedades.
 

Mecanismos de estímulo e extração


 

Essa dinâmica de transformações, concentração de poderes e


interesses econômicos à qual nos referimos é um dos aspectos mais
fundamentais para compreender o ecossistema em que floresce a
desinformação em sua forma capitalista contemporânea. Como já
vimos, a desinformação não é nova; hoje, porém, assume características
específicas e inéditas, associadas ao fato de circular, sobretudo, nas
plataformas digitais. Daí a importância de pensarmos na relação entre a
arquitetura dessas plataformas e os mecanismos das manifestações de
desinformação.
Como já dissemos, o modelo de negócio das plataformas digitais tem
como fundamento o hiperestímulo ao engajamento e à viralização, com
o objetivo de converter a atividade do usuário em lucro. Preocupações
éticas com relação a conteúdos e tipos de usos possíveis aparecem, aos
olhos das empresas, como obstáculos de ordem não econômica à
maximização dos ganhos.
Podemos assumir que, em um ambiente idealmente neutro,
informação e desinformação teriam, em princípio, o mesmo potencial
para tornar-se objeto de processos de viralização. Todavia, a
preocupação do sujeito com a veracidade de um conteúdo, ainda que
idealizada pelo sujeito, implica em uma espécie de constrangimento
que não incide sobre a produção de desinformação. Esta encontra
terreno livre para dizer ao receptor tudo aquilo que for tido como uma
forma eficaz de persuadi-lo.
Essa “vantagem de circulação” da desinformação, combinada com as
técnicas atuais de processamento de dados pessoais, permite que, a
partir da coleta e mineração33 de grande quantidade de dados, a
produção de conteúdo segmentado se aproxime da individualização.
Convencionou-se chamar esse processo de “perfilamento”. Os/as
usuários/as têm seu perfil psicológico delineado a partir de seus dados
individuais, confrontado com tipologias preconcebidas e interpretado
por algoritmos. Estes são codificados com base em hábitos de consumo,
redes de relacionamento etc. Em muitos casos, esses códigos-máquinas,
mimetizando seres inteligentes, tomam decisões sobre a melhor forma
de influenciar nossas ações.
Mecanismos de recomendação de conteúdo nos perseguem no
Facebook, nas ferramentas que usamos do Google e em outras
plataformas. As “razões” que levam um algoritmo a nos recomendar
determinados conteúdos são, muitas vezes, inacessíveis, opacas. Além
de exigir conhecimento técnico especializado, não há transparência
sobre os critérios usados por desenvolvedores/as. Soma-se a isso a
incapacidade humana de interpretar diretamente o grande volume de
dados processados e o fundamento probabilístico das respostas que os
programas dão para determinadas situações (outputs)34. Por outro lado,
esses mecanismos incorporam, desde a concepção, ideologias e
preconceitos de classe, gênero, raça, orientação sexual – e outros – da
sociedade na qual estão inseridos, , e assim acabam por perpetuar e
reforçar desigualdades e injustiças35.
Essa alienação do usuário em relação aos mecanismos que
selecionam, sugerem, exibem e definem os conteúdos aos quais tem
acesso reforça a entropia do sistema, gerando desinformação sobre os
fluxos de comunicação, aumentando seu potencial de impacto e
solapando o regime de verdade antes vigente. Apesar da opacidade das
inteligências artificiais que processam os dados na interface com os
usuários, há indicações significativas de que parte dos problemas de
desinformação que se alimentam desses modelos de negócio das
plataformas digitais não se deve a imperativos técnicos do sistema nem
ao desconhecimento de gerentes. Funcionários e ex-funcionários do
YouTube denunciaram que a Google – empresa que controla a
plataforma de vídeos – ignora há algum tempo seus alarmes sobre o
crescimento preocupante do número de vídeos “falsos, incendiários e
tóxicos”36.
O escândalo que envolveu o Facebook e a empresa especializada em
análise de dados Cambridge Analytica nas eleições estadunidenses de
2016 revelou as entranhas do sofisticado sistema de dominação política
que se desenvolveu com base nas plataformas digitais e na
cumplicidade de seus executivos, movendo campanhas
deliberadamente manipulativas. O crescente papel das plataformas de
redes sociais nos processos eleitorais, assim como em decisões políticas
em geral, já vinha sendo reconhecido por observadores quando a
denúncia feita por um ex-funcionário da Cambridge o colocou em
evidência. O caso revelou a relação direta entre a difusão de
desinformação política, a coleta de dados pessoais pelas plataformas e o
mercado de big data. O mesmo se verificou no plebiscito sobre a saída
do Reino Unido da União Europeia, no mesmo ano.
Outro aspecto do modelo de negócios de algumas plataformas
digitais que é importante para compreender a produção e circulação da
desinformação diz respeito aos limites impostos artificialmente aos/as
usuário/as. O desenvolvimento de códigos que permitem disponibilizar,
dentro do “ecossistema” das plataformas, conteúdos produzidos fora
delas cria o que se convencionou chamar de “jardins murados”,
dissuadindo o usuário de buscar informação em outros lugares37. Esse
confinamento é conformado, também, pelo condicionamento do acesso
ao pagamento. Com barreiras como essas, as empresas mantêm sua
influência sobre as ações dos usuários e maximizam o tempo que têm
para expropriar seus dados pessoais e sua atenção/audiência.
O chamado zero rating (tarifa zero) reforça esse efeito dos jardins
murados. No Brasil, os serviços de telefonia celular disponibilizam
alguns aplicativos “gratuitamente” para os clientes, depois de esgotada
a franquia de dados contratada. Com acesso restrito a alguns
aplicativos, o/a usuário/a de baixa renda fica com uma capacidade de
navegação limitada, o que dificulta a checagem de informações que
recebe nas plataformas e pelos serviços de mensagem oferecidos pelas
corporações parceiras das multinacionais telefônicas. Foi em parte
como consequência desse modelo de negócio que o WhatsApp
protagonizou o espetáculo da desinformação nas eleições brasileiras de
201838.
Pelo perfil socioeconômico de grande parte da população brasileira, o
zero rating é muitas vezes a única possibilidade de acesso aos conteúdos
que circulam na web. Com acesso parcial a um conjunto maior de
informações, os usuários ficam sujeitos – e não apenas no período
eleitoral – a campanhas de desinformação orquestradas nas redes e
turbinadas por bots e ciborgues, mecanismos de propagação automática
e semiautomática de conteúdos39.
O florescimento da desinformação nas plataformas digitais, porém,
não pode ser atribuído apenas ao funcionamento desalmado dos
algoritmos. No contexto político, econômico e moral de um capitalismo
global em crise, as pessoas criam práticas que exploram o sistema de
desinformação para obter ganhos político-ideológicos. Em Veles,
cidadezinha de 50 mil habitantes na Macedônia, por exemplo, um
pequeno exército de jovens se envolveu na criação de mais de 100
páginas de notícias falsas, que foram usadas para interferir nas eleições
estadunidenses de 2016. Em um contexto de desemprego, viram a
possibilidade de explorar conteúdos sensacionalistas e desinformativos
para gerar cliques e, logo, renda. Para isso, utilizaram o serviço Google
AdSense disponibilizando espaço comercial virtual em troca de
remuneração. Enquanto o eleitorado era bombardeado com
desinformação nos Estados Unidos, o prefeito de Veles elogiava o
“empreendedorismo” da juventude da cidade, como noticiado pelo
BuzzFeed News40.
Em outro exemplo que ganhou notoriedade em 2014, o francês
Nicolas Gouriou registrou mais de 80 endereços de rede (URLs, ou
Localizador Padrão de Recursos) em seu nome, e mais de uma centena
em nome da sua empresa, a Media Vibes SNC, na Bélgica. A partir deles,
distribuiu-as na rede e incentivou a produção de notícias falsas na
forma de piada, gerando tráfego, cliques e lucros. A iniciativa teve
abrangência “multinacional”, com sites adaptados às diversas línguas
da comunidade europeia41.
Estes são apenas alguns exemplos reveladores da complexidade do
problema da desinformação, que é capaz de mobilizar interesses
econômicos e produzir consequências político-ideológicas. Se
abordarmos a desinformação como uma simples questão de
manipulação política – em que produtores de conteúdo controlam
receptores de mente frágil –, incorreremos em um erro grave,
reproduzindo preconceitos e uma visão limitada do processo
comunicacional. Não é uma forma eficaz de enfrentar o problema. É
preciso compreender o papel desempenhado pelos diversos agentes que
participam desse sistema e o que ocorre quando se conectam e
interagem.
A desinformação não nasceu com a internet nem com as redes
sociais. Também não é uma receita implacável que a extrema-direita
desenvolveu para enfeitiçar o/a eleitor/a desavisado/a. Trata-se de um
conjunto de práticas econômicas e políticas ligadas a um modelo
irrigado pela lógica de acumulação econômica ampliada, de exploração
do trabalho alienado e de dominação capitalista – algo que se fortalece
de forma surpreendente em um contexto de crise. A digitalização, a
interconexão mundial e as tecnologias associadas a elas intensificaram
muito o potencial “destrutivo” e desestabilizador da desinformação,
mas estão longe de ser a razão da sua existência.
 

A crise das instituições e do registro da verdade no contexto da


concentração da mídia e dos monopólios digitais
 

O intervalo de tempo entre a quebra da bolsa de Nova York (1929) e o


pânico causado pela transmissão do programa Guerra dos mundos, por
Orson Welles, pela rádio CBS (1938)42, talvez seja similar demais ao que
transcorreu entre a crise do subprime, que se seguiu à falência do banco
Lehman Brothers (2008), e o escândalo das fake news na eleição de
Trump (2016) para ser ignorado. Apontar uma relação de causa e efeito
pode ser uma forma bastante reducionista de observar tanto um caso
quanto o outro; mas essa analogia coloca questões que merecem
reflexão.
Embora se superdimensione o impacto da transmissão de Guerra dos
mundos sobre a sociedade estadunidense, a situação pode ser
interpretada como um sintoma muito intenso da relação entre crise e
desinformação. Não só os ouvintes foram tomados pelo pânico diante
de uma suposta invasão alienígena; pesquisadores de psicologia social
também acreditaram estar vendo uma sociedade “à flor da pele” e
propensa a se apegar de forma ferrenha a preconceitos e ideias de matiz
fascista. Não se sabia o quê, mas algo importante estava acontecendo.
 
Por causa de sua preocupação com o fascismo e a propaganda, [Hadley] Cantril e o Instituto
[para Análise de Propaganda em Nova York] viram algo sinistro nos resultados da Guerra dos
mundos. O pânico, eles escreveram na proposta de pesquisa, provou que pairava livremente
na América o mesmo tipo de ansiedade que sustentou a ascensão do nazismo na Alemanha43.
 

A ideia de crise sugere um alto nível de instabilidade, uma dissolução


de referências. Quando “tudo que é sólido desmancha no ar”, a
tendência de alguns é agarrar-se com firmeza a destroços que
aparentam ter o mínimo de solidez. Nesse contexto, a desinformação
mimetiza, ainda que exagerando seus traços, “instituições sólidas” da
modernidade, como o jornalismo, os pronunciamentos oficiais de
figuras eminentes, o “star system” da indústria cultural etc.
Embora caricatural ou mesmo grotesco, o fenômeno da
desinformação se manifesta no interior da esfera pública, como parte
dela mesma, desmascarando a promessa idealizada de que a “discussão
racional empreendida por um público capaz de julgar” conseguiria
levar à depuração das opiniões44. Os discursos negacionistas e o
irracionalismo surfam na onda de uma cultura dirigida pela estética da
mercadoria e pelo compromisso com o hiperestímulo da sensibilidade
humana, tecnicamente direcionado ao consumo e à dominação
capitalista. Em outras palavras, a desinformação encontra uma
sociedade que alimenta um desejo patológico por pirotecnia e que
almeja ampliar indiscriminadamente a reprodução do capital.
As considerações feitas em 2019 por Steve Bannon – ex-estrategista-
chefe da Casa Branca, cofundador e dirigente da Cambridge Analytica –
sobre Alexandria Ocasio-Cortez, congressista estadunidense de
esquerda conhecida pelas críticas ao governo e à intervenção dos
interesses econômicos na política, ilustram bem (para além da
reprodução de preconceitos) a forma como os que estão à frente das
principais campanhas de desinformação pensam a política a partir de
aspectos estéticos, atributos capazes de despertar paixão: “Eu [a] adoro!
Ela tem o que é preciso ter para ganhar. Determinação, coragem,
tenacidade... É verdade que não sabe muito e o que sabe é
completamente equivocado, especialmente em economia. Mas tem algo
que não se treina”45.
A estetização da política foi a resposta que o fascismo ofereceu à
população desalentada após a crise de 1929, apontou Benjamin em A
obra de arte na era da reprodutibilidade técnica, texto de 1932. Ela
parece estar também no fundamento das campanhas de desinformação
contemporâneas. Como muitos já perceberam, aparentemente não há
debate possível com pessoas que se apegam a notícias falsas e à
desinformação, pois o que as mobiliza não são argumentos. Se a lógica
cultural do capitalismo monopolista, a crise e os modelos de negócio
das plataformas digitais preparam o terreno, a extrema-direita
deliberadamente semeia desinformação para colher seus frutos de
autoritarismo, negacionismo e irracionalismo.
Esse “sucesso” na instrumentalização da desinformação talvez se
explique pelo fato de o conteúdo ideológico desinformativo processado
e distribuído pela extrema-direita – em resposta à crise social – se
fundamentar em preconceitos arraigados e ideias dominantes (em
versões desprovidas do conteúdo racional). Dessa forma, podemos dizer
que a prática ultraconservadora, ou reacionária, se compatibiliza com
os elementos que alimentam os processos de desinformação (fobias,
preconceitos, narcisismo etc.) e ecoa nas estruturas de reprodução dos
poderes vigentes (mercado e aparelhos do Estado).
Steve Bannon, mais uma vez, é revelador. Sua ação reúne o exemplo
da exploração econômica e política dos big data e da estratégia
deliberadamente desinformativa das campanhas eleitorais que
impulsiona e organiza em âmbito mundial. Mentor do que chama O
Movimento, articulação internacional que se diz “nacional-populista”,
o estrategista afirma que a crise leva as pessoas ao “populismo”. Por
suas posições, tem sido visto como participante de uma luta contra as
ideias e o espírito da democracia, nos termos de Alexander, que
acrescenta:
 
Quando faz menção a grandes pensadores – seus simpatizantes o reputam um intelectual
brilhante e leitor voraz –, Bannon acena com admiração para fascistas, fanáticos, ditadores e
teocratas reacionários46.
 

A esquerda, ao contrário do que vimos em relação à direita, busca


dialogar com sua base, a princípio, a partir da crítica às estruturas
estabelecidas de dominação, dos preconceitos e das estruturas
ideológicas por trás do senso comum. Dessa forma, não seria possível se
pensar em estabilizar uma estratégia de desinformação a partir dessa
posição política, embora possam ser identificados episódios isolados
sem qualquer repercussão relevante no cenário atual. O apelo à
desinformação, nesses casos, trai seu princípio crítico-transformador e
acaba por se chocar com elementos internos da própria esquerda,
enfraquecendo seu potencial de viralização. Em outras palavras,
enquanto a mobilização de preconceitos serve de “cola” para a base da
direita, na base da esquerda, ao contrário, ela tende a fragmentar sua
base de ação.
Um bom exemplo disso é a frustração declarada pelos já referidos
jovens macedônios na sua tentativa de fazer emplacar uma campanha
de desinformação “a favor” do candidato da esquerda estadunidense
Bernie Sanders. Segundo os testemunhos veiculados nas reportagens
que trataram do caso, apesar da crescente popularidade de Sanders, sua
base social não foi capturada pela agitação que envolveu fortemente a
de Trump.
Outro exemplo que podemos destacar foi a tentativa de divulgar a
imagem do candidato Jair Bolsonaro em 2018 passeando normalmente
pelo hospital de Juiz de Fora após receber a facada, quando na verdade a
foto havia sido capturada algumas horas antes. Essa iniciativa de
desinformação teve uma repercussão muito curta se comparada à
popularidade dos conteúdos capitalizados pela estratégia bolsonarista.
Ainda que a política apareça como um ambiente particularmente
propício à desinformação, por ser o principal cenário das disputas pelo
poder, o fenômeno apresenta também uma face social, mais difusa,
geralmente relacionada a episódios de opressão e violência. Mesmo em
casos que não são estritamente políticos, porém, em geral é possível
identificar algum tipo de dimensão política, como a descrença nas
autoridades.
São conhecidos muitos episódios em que, desacreditando os
aparelhos da justiça, convocam a população para efetivar diretamente o
justiçamento de supostos responsáveis por crimes de grande
repercussão47. A incitação a esse tipo de violência nutre o discurso
eleitoral de muitos candidatos de perfil fascistoide. Esse tipo de
linguagem, inclusive, vem sendo explorado há muito tempo por
programas policialescos, que enaltecem a barbárie social sob o disfarce
de um “serviço público” jornalístico de denúncia da violência urbana.
Os casos de desinformação nas campanhas de vacinação também
impactam o funcionamento dos serviços públicos de saúde,
desacreditando e reduzindo a capacidade do Estado de desenvolver
políticas de assistência social48.
Apesar de podermos identificar seus efeitos, não é simples
correlacionar o conteúdo desinformativo e a intenção de quem o
promove em casos nos quais as fobias sociais são atiçadas. Mas
podemos imaginar como os conteúdos que reproduzem preconceitos
despertam curiosidade e produzem cliques. Não é tão simples
identificar a origem da desinformação na internet, ou pelo menos de
seu input nas plataformas digitais, quanto seria nas mídias tradicionais.
A concentração de poder privado das corporações que dominam o setor
digital e o alto grau de opacidade técnica dos algoritmos dificultam
bastante esse rastreio. Sempre há, porém, a possibilidade de pressionar
esses agentes para que a arquitetura dos circuitos onde a circulação de
(des)informação se concentra esteja sujeita a uma regulação fundada
em bases democráticas, de forma a assegurar um maior equilíbrio entre
os direitos à liberdade de expressão, à privacidade, à informação e à
comunicação.
 

Desinformação, direito à informação e liberdade de expressão


 

A forma como a estrutura das plataformas digitais se consolidou traz


muitas preocupações quanto à garantia da liberdade de expressão e,
consequentemente, o direito humano à comunicação. A produção de
conteúdo e a simples navegação nas redes – geradora de dados por parte
do/a usuário/a de forma voluntária ou involuntária – passaram a ser
apropriadas por agentes interessados em comercializar essas
informações ou vigiar os nossos passos.
A partir dessa lógica da mercantilização e da vigilância, plataformas
como o Facebook vêm implementando ferramentas de distribuição
segmentada de informações e oferecendo ferramentas pagas de
impulsionamento de postagens, que ajustam a visibilidade dos
conteúdos usando critérios não explicitados de distribuição – como a
segmentação baseada em perfilamento e o condicionamento ao
pagamento por cliques. A matemática que decorre daí é supostamente
simples: quanto mais se paga, mais pessoas se atinge. Podemos
acrescentar a seguinte questão: se uma plataforma digital entender que
deve priorizar a visibilidade de algo, o que a impediria de exercer sua
ingerência nesse ambiente – que vê como “privado”, embora
nitidamente possua caráter público?
Observando o poder de impactar a opinião pública que esses gigantes
privados podem oferecer aos que se submeterem a seus “termos e
condições”, produtores de conteúdo têm buscado tais ambientes para
difundir (des)informações. Esses conteúdos são, por vezes,
deliberadamente associados a mecanismos que reforçam ideias
preconcebidas e ocultam a diversidade de discursos. Isto acontece
porque a arquitetura de persuasão dessas plataformas se fundamenta
em uma lógica de exploração do comportamento do usuário que tenta
mantê-lo conectado e influenciado por meio de uma sofisticada
tecnologia de interação psíquica. Como resultado, a diversidade do real
é excluída de seu campo de visão e passa a constituir uma ameaça à
manutenção do vínculo usuário- plataforma. Em uma sociedade que
sofre com a instabilidade decorrente da atual crise do capitalismo, isto
acaba por intensificar a polarização social.
Alguns dados ajudam a dimensionar o problema. O gigante Facebook,
maior plataforma de rede social no Brasil e do mundo, registrava no fim
de 2017 mais de 2 bilhões de usuários, sendo 1,37 bilhão deles visitantes
diários49. Contudo, segundo o Relatório Mídia Digital Reuters 2019, que
ouviu usuários em 38 países, embora o Facebook ainda seja a rede social
mais acionada como fonte de notícias, muita gente passou mais tempo
no WhatsApp e no Instagram e menos no Facebook em 2019, em
comparação a 2018. No que diz respeito à disseminação de
desinformação, o crescimento do uso do aplicativo de mensagens é
ainda mais preocupante, pois a criptografia que ele oferece, importante
para garantir a liberdade e a privacidade do usuário, torna ainda mais
difícil identificar a origem de informações falsas.
É justamente o WhatsApp o aplicativo que os brasileiros mais usam
para consumir e compartilhar notícias. Segundo o relatório da Reuters,
o índice chega a 53%, o maior entre os países pesquisados; seguem-se a
Malásia (50%) e a África do Sul (49%). Mais: embora 85% dos
brasileiros se digam preocupados em discernir o que é real do que é
falso na internet, estamos entre os entrevistados mais propensos a
aceitar participar de grupos grandes de WhatsApp com pessoas
desconhecidas. Essa é “[...] uma tendência que reflete como os
aplicativos de mensagens podem ser usados para compartilhar
facilmente informações em grande escala, incentivando
potencialmente a disseminação de desinformação”50.
 

Desinformação e o reforço do eu
 

A disseminação de informações falsas nas redes sociais e aplicativos


de mensagens se serve de perfis falsos e do envio mecânico por robôs
(bots). Embora sejam eficazes para acelerar a disseminação da
desinformação, os robôs não são os protagonistas dessa ação. Na
pesquisa Iniciative on the Digital Economy, realizada em 2018, o
Massachusetts Institute of Technology (MIT) analisou a rede social
Twitter e mostrou que notícias falsas tinham 70% mais chances de
serem retuitadas que as verdadeiras, e que os humanos, não os robôs,
são os principais responsáveis pela disseminação de fake news.
Há quase cem anos, Bloch disse: “Um erro se espalha, cresce, só vive
com uma condição: encontrar na sociedade onde se espalha um caldo de
cultura favorável. Nele, inconscientemente, os homens expressam seus
preconceitos, seus ódios, seus medos, todas as suas fortes emoções”51.
Ortellado faz análise semelhante dos tempos atuais quando afirma que
“[…] o fenômeno da notícia falsa não é de total responsabilidade dos
agentes maliciosos”52. O pesquisador pondera que, em uma sociedade
polarizada (o que, como vimos, também é agravado pela estrutura das
redes), a capacidade crítica do indivíduo cai; assim, ele tende a aceitar e
a tomar como verdade aquilo em que já acredita ou com o que já
compactua. Na psicologia, isso é explicado pelo fenômeno que Peter
Wason chamou em 1960 de “viés de confirmação”: a incapacidade de
submeter à crítica aquilo em que já se acredita.
É importante considerar, todavia, que essa tendência humana de
buscar confirmação para suas crenças pessoais não exime os diversos
setores da sociedade de ter de buscar soluções para o problema. O
letramento midiático (ou literacy), a transparência, a diversidade de
temas e fontes e a maior participação da sociedade nos processos do
ecossistema da comunicação são algumas das sugestões que surgem
nesse cenário, em contraponto à tendência humana de eleger como
fatos suas próprias verdades. Iniciativas como essas permitem preparar
a sociedade para receber informações e construir narrativas
alternativas a partir do exercício do pensamento crítico. Essas ações vão
em sentido contrário à concentração do poder midiático – e, também
por isso, é notória a falta de empenho, por parte de empresas e
governos, em promovê-las.
Afundada em um ambiente de polarização tanto na vida offline como
na vida online, agravado pela desinformação potencializada e pelos
efeitos colaterais da arquitetura de persuasão das plataformas digitais, a
sociedade sofre um processo que acaba por inviabilizar o diálogo e,
consequentemente, o debate democrático. No revés da democracia,
caminha-se cada vez mais para a construção e proliferação de discursos
de ódio e intolerância, que conduzem a uma sociedade dicotômica, em
vez de diversa e plural. Fazer resistência ao cenário que assusta é, acima
de tudo, ter plena consciência do direito humano à comunicação,
entendendo, como cita o Intervozes em documento, que ela:
 
[…] não pode estar somente nas mãos do mercado nem tampouco do Estado, deve estar nas
mãos da sociedade civil. É necessário reconhecer e efetivar outro modelo de comunicação
global, com um fluxo horizontal de informação e de conhecimento, que privilegie o diálogo
em detrimento do monólogo, que não fique restrito aos detentores das novas tecnologias,
que descentralize o poder e a riqueza, que busque a emancipação de todos os povos e suas
respectivas culturas, e que priorize a radicalização da democracia53.
 

Dar voz a todos os grupos sociais, de forma coletiva ou individual,


deveria ser princípio inerente a uma sociedade democrática. Ter
liberdade de expor seus pensamentos, ou seja, ter liberdade de
expressão, ainda que isso gere posições contrárias ou provoque
desconforto, é prerrogativa para a promoção do debate e a consequente
formação do pensamento crítico, que desemboca na construção da
opinião pública. Isso não significa violar direitos; o exercício da
liberdade de expressão deve estar em harmonia com outros direitos e
valores, não podendo ser tolerados, por exemplo, a incitação ao crime e
à violência, o discurso de ódio, a expressão de preconceito de raça, cor,
etnia, religião, condição socioeconômica, orientação sexual ou
procedência nacional, o desrespeito à presunção de inocência e a
exposição indevida da pessoa.
O direito humano à liberdade de expressão está categoricamente
garantido em vários documentos internacionais. Na Declaração
Universal dos Direitos Humanos, artigo XIX, define-se que: “Toda
pessoa tem direito à liberdade de opinião e expressão; este direito inclui
a liberdade de, sem interferência, ter opiniões e de procurar, receber e
transmitir informações e ideias por quaisquer meios e
independentemente de fronteiras”. O mesmo direito está garantido
também no Pacto Internacional de Direitos Civis e Políticos, de 1966, na
Convenção Americana de Direitos Humanos (CADH), de 1969, e, no
artigo 5º da Constituição Federal brasileira de 1988.
Ao longo do século XX, conforme crescia a importância dos fluxos de
informação e da comunicação na sociedade, avançou-se na ideia de que
a liberdade de expressão não pode ser entendida apenas no âmbito do
indivíduo, mas também em sua fundamental dimensão coletiva; é
preciso garantir o direito coletivo de receber ideias, informações e
pensamentos de outros. Para expressar essa dimensão, foi cunhado o
conceito de direito à comunicação. Ele significa que todas as pessoas
devem poder se expressar livremente, produzir informação, fazer
circular essas manifestações, opiniões, produções. Não basta, nessa
perspectiva, ter liberdade de expressão ou acesso a uma vasta gama de
fontes de informações. É preciso que Estado e sociedade adotem
medidas para garantir que todos e todas possam exercer plenamente o
direito à comunicação.
No ambiente digital, a liberdade de expressão e, sobretudo, o direito à
comunicação sofrem prejuízo. As políticas de uso das plataformas
digitais são concebidas privadamente, sem transparência, para atender
objetivos no mercado. Elas não garantem ao usuário o livre discurso ou
a livre recepção de ideias e informações. Como dissemos, suas ações são
“filtradas” por algoritmos, que prejudicam inclusive a possibilidade de
alcançar pessoas.
Outros modelos de negócio desenvolvidos no mercado também
limitam o exercício da liberdade de expressão. É o caso do zero rating,
ou planos de tarifa zero na telefonia, que, como já mencionamos, dão
tratamento diferenciado a determinados provedores de conteúdo e
aplicativos. Isso fere a autonomia do usuário de escolher o conteúdo
que trafega na rede (e sua liberdade de expressão), atingindo, inclusive,
o princípio de neutralidade da rede expresso no Marco Civil da
Internet, pelo qual não deve haver diferença no tratamento do que
circula naquele espaço.
É em tal contexto que viceja, hoje, a desinformação. Opondo-se
diretamente ao direito à comunicação, ela interfere na livre construção
do pensamento crítico, estrangula a razão e fomenta a polarização –
inviabilizando, consequentemente, o debate. Combater a
desinformação é, portanto, lutar pela garantia de direitos fundamentais
e, em última instância, da própria democracia. Também por isso, um
problema multifacetado como a desinformação exige uma solução
multidimensional, sob o risco de, em vez de garantir, privarmos a
sociedade do convívio com a diferença e da possibilidade de discussão
aberta sobre seus próprios rumos.
 

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Notas:

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