Você está na página 1de 14

ABES - Associação Brasileira de Engenharia Sanitária e Ambiental VI - 012

AUDITORIA AMBIENTAL: UMA PROPOSTA METODOLÓGICA

Regina Coeli Montenegro Generino(1)


Engenheira Química, desde 1984, com 12 (doze) anos de experiência nas
áreas de Engenharia e Gerenciamento Ambientais. Atualmente, cursa o
Mestrado em Tecnologia Ambiental e Recursos Hídricos da Universidade
de Brasília. É consultora do IBAMA/sede.
Oscar de Moraes Cordeiro Netto
Engenheiro Civil (UnB) em 1978, Doutor em Ciências e Técnicas
Ambientais pela École Nationale des Ponts et Chaussées (França) em
1995. É, atualmente, professor adjunto, Depto de Engenharia Civil (UnB),
lecionando no Mestrado em Tecnologia Ambiental e Recursos Hídricos.

Endereço(1): SQS 304, bloco I - apto. 508 - Asa Sul - Brasília - DF - CEP: 70337-090 -
Brasil - Tel: (061) 226-5638 - Fax: (061) 225-0445 - e-mail: generino@tba.com.br.

RESUMO

Trata-se de trabalho que apresenta resultados preliminares de uma pesquisa desenvolvida no


âmbito de uma dissertação de mestrado sobre metodologias de avaliação suscetíveis de serem
utilizadas em auditorias ambientais. Inicia-se o trabalho com uma apresentação de breve
histórico das auditorias ambientais, ressaltando-se o caráter voluntário que as auditorias
apresentam no resto do mundo e o caráter obrigatório desse instrumento que alguns Estados e
municípios já impuseram às empresas com alto potencial poluidor. Prossegue -se o trabalho com
uma discussão tanto sobre metodologias adotadas para desenvolvimento de auditorias
ambientais quanto sobre os métodos multicritério de auxílio à decisão. Após se concluir sobre o
interesse potencial em se utilizarem métodos multicritério para desenvolvimento de auditorias
ambientais, discutem-se dois métodos dessa natureza, pré-selecionados, após uma pesquisa
bibliográfica realizada, para uma utilização em auditorias ambientais. São os métodos
ELECTRE III e ME-MCDM. São apresentados, então, os fundamentos desses dois métodos,
tendo sido realizado um teste para verificar a viabilidade global de adoção dessas abordagens
em auditorias ambientais. O teste realizado considerou cinco casos fictícios de empresas a
serem auditadas, a partir de 10 (dez) critérios de auditoria. Os resultados obtidos indicam, de
um lado, o interesse potencial de se utilizarem esses dois métodos pré-selcionados para
auditorias ambientais e, de outro, a necessidade de se realizarem mais testes com esses dois
métodos, assim como com outros métodos que se mostrarem também suscetíveis de utilização
em auditorias ambientais.

PALAVRAS -CHAVE: Auditoria Ambiental, Metodologia, Avaliação, Métodos Multicritério,


Auxílio à Decisão.

19o Congresso Brasileiro de Engenharia Sanitária e Ambiental 2284


ABES - Associação Brasileira de Engenharia Sanitária e Ambiental VI - 012

INTRODUÇÃO

A Auditoria Ambiental - AA é um instrumento de gestão ambiental de origem relativamente


recente. Foi formulada e difundida pelos Estados Unidos da América - EUA, no final da década
de 70, a partir da iniciativa de empresas privadas. Na década de 80, houve a sua disseminação
para o Canadá e países europeus, através das filiais de empresas norte-americanas nesses
países.

Nesse período, o principal interesse das empresas na utilização das AAs residia no temor das
ações judiciais e da demanda das autoridades ambientais. Atualmente, a AA é vista pelas
organizações como um instrumento útil na identificação e redução das suas responsabilidades
por danos ambientais (THOMPSON e WILSON, 1994).

O que se busca com a auditoria é oferecer uma resposta sobre a performance ambiental da
empresa, não apenas aos órgãos governamentais ou à sua administração, mas, principalmente, à
sociedade civil, em geral, e aos consumidores de bens e serviços, em particular, que transmitem
ao mercado a valorização de processos, artigos e atividades que respeitam o meio ambiente.

A auditoria ambiental, de acordo com a União Européia, é “uma ferramenta de gerência que
compreende uma avaliação sistemática, documentada, periódica e objetiva do
desempenho de uma organização, do seu sistema de gerência e de equipamentos
destinados à proteção do meio ambiente, com os objetivos de facilitar à gerência o
controle de suas práticas ambientais e avaliar o cumprimento de políticas ambientais da
companhia, incluindo a observância da legislação”.

O contexto apresentado até aqui se refere às AAs voluntárias , onde o escopo da auditoria é
definido entre o empreendedor e o auditor, atendendo também às determinações contidas na
norma ISO 140101, que estabelece as diretrizes e os princ ípios gerais da AA.

No entanto, diferentemente dos países europeus, dos EUA e do Canadá, o Brasil instituiu a
realização de AAs obrigatórias para empresas com elevado potencial poluidor.

Os instrumentos legais vigentes no país referentes à matéria foram definidos para as esferas
estadual e municipal, podendo-se citar o exemplo dos estados do Rio de Janeiro, de Minas
Gerais e do Espírito Santo e os municípios de Santos (SP) e Vitória (ES) que possuem leis
específicas para a adoção de AAs. O Projeto de Lei federal, dispondo sobre o tema, encontra-
se em tramitação no Congresso Nacional desde 1992.

Com o advento da exigência, em nível federal, da utilização de AAs, vislumbra-se um


crescimento significativo do número de empresas que passarão a utilizar esse instrumento.

Não existe até hoje no Brasil, no entanto, nenhum procedimento estabelecido para a elaboração
de auditoria e, muito menos, para a sua avaliação pelo órgão regulamentador.

1
ISO - International Standard Organization, com sede em Genebra. É uma federação
mundial de normatização

19o Congresso Brasileiro de Engenharia Sanitária e Ambiental 2285


ABES - Associação Brasileira de Engenharia Sanitária e Ambiental VI - 012

Nesses casos, prevê -se que “à semelhança do que ocorre com os estudos de impacto
ambiental2, o órgão público ambiental poderá elaborar um ‘termo de referência’,
contendo orientações a serem seguidas em casos concretos ou genericamente no
procedimento” (MACHADO, 1995).

Considerando que o órgão de meio ambiente é quem emitirá o parecer final sobre as auditorias,
acredita-se que será de extrema importância que os procedimentos a serem adotados na
execução e na avaliação dessas AAs sejam o mais homogêneos possíveis, de forma a facilitar o
processo de análise, auxiliar o poder público na formulação de políticas a partir dos resultados
de AAs obtidos a médio e longo prazos - e avaliar riscos/potencialidades da AA enquanto
instrumento da gestão ambiental.

Outros aspectos a serem considerados são aqueles relacionados ao subjetivismo da análise,


uma vez que não existe padronização dos procedimentos, ficando a critério de cada auditor a
aprovação ou reprovação de uma auditoria. Em realidade, o processo de auditoria ambiental
atualmente em curso é de participação restrita, sendo conduzido pelo reduzido grupo de
auditores ambientais. No entanto, a partir do momento em que este instrumento passar a ser
obrigatório em nível federal, os órgãos ambientais deverão ter como responsabilidade a
elaboração de Termos de Referência e a análise da auditoria. Os órgãos de meio ambiente não
têm, atualmente, conhecimento de como proceder para assumir mais esta responsabilidade, o
que gera, dessa forma, atitudes de dúvida e de receio quanto à eficiência do novo instrumento.

Nesse contexto, acredita-se que a formulação de uma metodologia-padrão para realização e


avaliação de AAs obrigatórias poderá ser de utilidade para a ação dos órgãos ambientais, bem
como poderá contribuir para o estabelecimento de diretrizes básicas para a execução das AAs
por parte das empresas auditadas.

Para a formulação dessa metodologia, estão sendo utilizados, no âmbito do presente trabalho,
além de informações inerentes ao processo de auditoria ambiental, métodos multicritério de
auxílio à decisão.

A metodologia assim desenvolvida poderá ser utilizada quer como ferramenta para o decisor,
no caso específico o órgão ambiental, para a tomada de decisão quanto à aprovação ou não do
objeto auditado, quer por outros interessados no processo de auditoria ambiental.

OBJETIVOS DO TRABALHO

Como salientado, o objetivo geral da pesquisa, da qual o presente trabalho constitui um resumo
da primeira etapa, é o de formular, com base em abordagens do tipo multicritério, suporte

2
Em 1986, a Resolução CONAMA Nº 001 incorporou a questão ambiental no processo
decisório, a partir da exigência de apresentação de Estudo de Impactos Ambientais e o
respectivo Relatório de Impacto Ambiental - EIA/RIMA na fase de planejamento de
empreendimentos potencialmente poluidores do meio ambiente. É um instrumento de
licenciamento ambiental utilizado na fase de planejamento de um empreendimento.

19o Congresso Brasileiro de Engenharia Sanitária e Ambiental 2286


ABES - Associação Brasileira de Engenharia Sanitária e Ambiental VI - 012

metodológico suscetível de ser utilizado na realização e na avaliação de auditorias ambientais


obrigatórias.
Esse suporte propiciaria, de forma suplementar:

- avaliar riscos/potencialidades da AA enquanto instrumento de gestão ambiental em


implementação no Brasil
- propiciar a interessados no processo de AA (auditores, empresas auditadas, empresas de
consultorias, organizações não - governamentais) a adoção de um suporte metodológico que
auxilie a sua participação no processo de auditoria ambiental;
- avaliar potencialidade dos métodos multicritério de auxílio à decisão para promover
avaliação global da performance ambiental de empreendimentos ou instituições.

METODOLOGIAS UTILIZADAS EM AUDITORIAS AMBIENTAIS

De acordo com GREENO (1987), as auditorias ambientais têm sido sempre utilizadas de
diferentes formas pelas organizações. O escopo para a realização dessas auditorias não é ainda
preciso3. Esses podem se limitar a verificar o cumprimento das legislações, regulamentos e
políticas da empresa. Entretanto, é crescente o número de empresas que auditam os seus
processos de segurança e higiene industrial, medicina ocupacional e os aspectos relacionados à
segurança dos seus produtos.

De maneira geral, as AAs observam os “critérios técnicos e organizacionais previamente


estipulados, identificando, no mínimo, os possíveis riscos ambientais e o atendimento
a(sic) legislação pertinente”. Poderá atender a objetivos e clientes distintos, “que definirão
seu escopo, seus critérios e sua classificação em voluntária ou compulsória” (BARATA,
1995).

Em realidade, cada programa de auditoria “envolve um grupo de pessoas que conduzem o


trabalho de campo, coletando informações e as analisando, fazendo julgamento sobre a
conformidade ambiental da empresa e relatando as suas descobertas” (GREENO, 1987).

As metodologias mais utilizadas são a do tipo convencional e a pontuada. Na metodologia


convencional, a AA é realizada em três etapas: atividade de pré-auditoria, atividade de campo e
pós-auditoria.

Na fase de pré-auditoria, é onde acontece o planejamento do processo e a definição do escopo


da auditoria e da equipe de auditores. O escopo da AA “é determinado pelo auditor-líder
mediante consulta ao cliente, de forma a atender seus objetivos. O escopo descreve a
extensão e os limites da auditoria ” (NBR ISO 14010, 1996). Nessa fase, utiliza-se
questionário para coleta de informações da empresa.

A segunda etapa tem como resultado o relatório com as conclusões da auditoria. Para tanto,
são realizadas reuniões, entrevistas, visitas a campo, avaliação dos controles ambientais

3
Segundo BAILEY et al. (1992), "não existe nenhuma metodologia uniforme para AA"

19o Congresso Brasileiro de Engenharia Sanitária e Ambiental 2287


ABES - Associação Brasileira de Engenharia Sanitária e Ambiental VI - 012

utilizados pela empresa, verificação das informações contidas no questionário e outras


atividades que se mostrem necessárias para a realização do processo de AA.
Com relação ao relatório, este só será finalizado após sofrer comentários e revisões pela
empresa auditada.

19o Congresso Brasileiro de Engenharia Sanitária e Ambiental 2288


ABES - Associação Brasileira de Engenharia Sanitária e Ambiental VI - 012

Como atividades de pós-auditoria, há o estabelecimento de um plano de ação, utilizando-se as


constatações da AA, com cronograma de execução e definição das responsabilidades para o
cumprimento do mesmo. Nessa fase, é também realizado um acompanhamento do cumprimento
do cronograma.

Na metodologia pontuada, a medição do desempenho ambiental da empresa é realizada a partir


da pontuação para cada elemento da auditoria. Dessa forma, apresenta como resultado um
valor numérico que pode ser qualificado como bom, regular ou insatisfatório.

Nesse caso, apesar de existir uma nota e um peso associados a cada elemento de auditoria, não
existe a definição detalhada do que deve ser observado para cada nota. No caso dos pesos,
esses são definidos por cada grupo de auditores, de acordo com as suas preferências. Assim
sendo, é possível que o resultado de uma auditoria se apresente bastante diverso do resultado
de uma outra auditoria, realizada por auditores distintos.

Outra desvantagem é que “pode-se inferir que razoável número de não-conformidades


sejam consideradas aceitáveis. Também existe uma tendência natural de ser obtida uma
nota para passar na auditoria” (GREENO, 1985 apud AMARAL, 1994).

No Brasil, as AAs começaram a ser utilizadas pelas empresas transnacionais que desejavam
“alcançar uma performance similar nos diferentes países onde eles operavam ”. “Neste
caso, a AA não tem limites bem determinados como outros campos tradicionais de
conhecimento do gerenciamento industrial, tais como os aspectos de saúde e segurança
das unidades industriais. Por exemplo, indústrias químicas como Sandoz, White Martins e
Hoeschst possuem checklist para implementação das auditorias que abarcam essas três
áreas”. E é muito freqüente a importação do sistema de AA de outros países, sem a devida
adaptação de suas especificidades nacionais, regionais e locais (LA ROVERE, 1995).

De acordo com KNAPP (1993), a metodologia utilizada pelas indústrias transnacionais segue,
em geral, o seguinte modelo: inicialmente as matrizes procuram uniformizar “suas políticas
ambientais em suas unidades em todo o mundo”. Nesse caso, realiza-se auditorias ambientais
em algumas de suas filiais. A primeira série de auditorias tem como objetivo a “revisão das
conformidades com as normas e legislações ambientais locais, dos sistemas de gerenciamento
ambiental dentro das unidades e do desempenho dos equipamentos de controle de poluição”.
De posse desses resultados, a matriz delineia “suas políticas e diretrizes internas”. A partir daí,
são elaborados os “manuais de práticas ambientais corretas”, os quais são geralmente
“acompanhados de cronogramas de implementação de medidas de controle da poluição e de
diretrizes gerais”. Geralmente, essas diretrizes contemplam “o treinamento de pessoal em meio
ambiente, elaboração de planos de contingência e emergência em caso de acidentes envolvendo
o meio ambiente, manejo de matérias-primas, sub-produtos e resíduos, emissões atmosféricas e
líquidas”. Após a implementação dessas recomendações, são realizadas as “auditorias de
acompanhamento”.

Em realidade, as metodologias de realização de AAs não se encontram padronizadas o


suficiente de forma a serem capazes de apresentarem “retratos” da real situação das empresas
suscetíveis de serem comparadas. Dessa forma, os autores deste trabalho acreditam que se
deva investir no desenvolvimento de metodologias nessa área, sobretudo quando se considera o
desenvolvimento de AAs obrigatórias.

19o Congresso Brasileiro de Engenharia Sanitária e Ambiental 2289


ABES - Associação Brasileira de Engenharia Sanitária e Ambiental VI - 012

METODOLOGIAS MULTICRITÉRIO

Os métodos multicritério têm como objetivo propiciar a “seleção de uma ou várias soluções
para um problema apresentado”. São utilizados para tratar problemas multi-objetivo
(CORDEIRO NETTO et al., 1993). Os métodos multicritério são utilizados, normalmente,
como instrumento de auxílio na tomada de decisão.

Como são muito numerosos os métodos existentes, a utilização de um deles irá depender do
problema a ser analisado, da familiaridade do analista por determinado método e da existência
dos recursos necessários para a sua execução.

Várias são as tipologias desenvolvidas envolvendo a classificação dos métodos multicritério.


Adotando-se tipologia de VINCKE (1992), têm-se três grandes famílias de métodos: modelos
aditivos, métodos de desclassificação4 e métodos interativos. Esquematicamente, os modelos
aditivos consideram a agregação de diferentes critérios em uma única função, a ser otimizada,
tendo com regra fundamental a transitividade das preferências (se a é melhor que b e se b é
melhor que c, logo a é melhor que c). A segunda família considera outros tipo de relações de
preferência entre alternativas (como preferências fraca e forte, não comparabilidade e
indiferença), estabelecendo hierarquia entre ações a partir de comparações entre o conjunto
de pares de ações, sob os diferentes critérios adotados. Os métodos interativos são a mais
recente família e se caracterizam por não considerar a definição prévia do sistema de
preferência do decisor, sendo o mesmo revelado a partir de processos interativos entre decisor
e analista.

Neste trabalho, após levantamento bibliográfico do assunto e avaliação do estado da arte,


passou-se a uma seleção preliminar dos métodos multicritério mais adaptados ao problema de
auditoria ambiental. Essa seleção indicou, como primeira possibilidade, a utilização dos métodos
ELECTRE III (ROY, 1985) e ME-MCDM - Multi Expert - Multi Criteria Decision Making
(YAGER, 1993).

De acordo com CORDEIRO NETTO et al. (1993), o método ELECTRE III é uma técnica de
auxílio multicritério à decisão, de caráter quantitativo, que classifica as diversas alternativas para
solução de um problema “no caso de um ‘único’ decisor”. Pertence à família dos métodos de
desclassificação (de acordo com tipologia de Vincke).

Quando se tem mais de um decisor, o método ELECTRE III pode ser utilizado desde que
sejam adotadas hipóteses referentes ao peso de cada um dos decisores ou à existência de um
critério ou função de compromisso.

Para representar esses conceitos, adotou-se a simbologia:

i = 1,..m,...I. onde I = número de critérios


j = 1,..a,...J. onde J= número de alternativas
k = 1,..x,...K. onde K= número de decisores

4
Do inglês outranking e do francês surclassement.

19o Congresso Brasileiro de Engenharia Sanitária e Ambiental 2290


ABES - Associação Brasileira de Engenharia Sanitária e Ambiental VI - 012

O método ELECTRE III considera que, quando o decisor necessita comparar duas ações, ele
poderá reagir por uma das seguintes formas: preferência por uma delas, indiferença entre elas,
recusa ou incapacidade de compará-las. Essas relações são traduzidas por situações de
preferência, indiferença e incomparabilidade (VINCKE, 1992). São definidos, assim, no
Método ELECTRE III, os limites p, q e v, respectivamente, como sendo os valores que
definem as mudanças nas relações de preferência, indiferença e comparabilidade, para cada
critério e para cada decisor, ao se compararem duas ações entre si. Um exemplo de utilização
dessas funções, para o caso do critério custo, seria:

im (jb ) < im (ja) + q(im (ja)) ? não preferência (j a não desclassifica jb)
im (ja) + p(im (ja)) < i m (jb) ? preferência forte (ja é preferível a jb)
im (ja) +q(im (ja)) < im (jb) < im (ja) + p(im (ja)) ? preferência fraca (ja é fracamente preferível a
jb)
im (ja) +v(i m (ja)) < im (jb ) ? não comparabilidade (j a não pode ser comparado a jb)

Esse método será utilizado neste trabalho para permitir, por exemplo, a agregação dos
diferentes critérios de avaliação, com vistas a se obter uma avaliação global da performance de
uma empresa a ser auditada. O decisor, no caso, pode ser assemelhado ao auditor ambiental,
que será responsável por uma avaliação global da empresa. No caso de vários auditores, como
já salientado, o método também pode ser utilizado, mediante algumas simplificações e
modificações.

O método ME-MCDM é, de acordo com YAGER (1993), utilizado para avaliação e seleção
de alternativas, usando-se uma escala não-numérica, a partir da avaliação de um ou mais
especialistas. Os critérios poderão ter níveis diferenciados de importância, sendo esses níveis
também representados por uma escala lingüística. O uso de uma escala não-numérica é
recomendado pelo autor em função da “falsa precisão” associada à utilização de números e
operadores numéricos (médias, somas, etc.) em problemas multicritério e multidecisor, em que
é elevado o nível das incertezas, como os problemas de caráter ambiental.

Um exemplo de escala lingüística usada pelo método, e que foi adotada no presente trabalho, é
apresentada a seguir:
Escala S n, onde 1 ? n ? N e N = 7 (número de avaliações)
S7= perfeito;
S6= muito oportuno;
S5 = oportuno;
S4 = médio;
S3 = inoportuno;
S2 = muito inoportuno;
S1 = nulo.

Para determinação de uma avaliação global para uma ação, utiliza-se a seguinte expressão:

Pjk = Minj [ Neg.I(qj) ? Pik (qj)], onde:


Pjk - avaliação global da ação para cada decisor;
Minj - operador de mínimo;

19o Congresso Brasileiro de Engenharia Sanitária e Ambiental 2291


ABES - Associação Brasileira de Engenharia Sanitária e Ambiental VI - 012

? - operador de máximo;
Neg. - operador de negação;
I(qj) - importância atribuída a cada critério por cada decisor (expresso na escala S 1 a S7);
Pik (qj) - avaliação sob critério i (expresso na escala S1 a S 7).

19o Congresso Brasileiro de Engenharia Sanitária e Ambiental 2292


ABES - Associação Brasileira de Engenharia Sanitária e Ambiental VI - 012

para:
Neg.Sn = SN-(n-1)
onde N = número de avaliações na escala numérica adotada
(N = 7, neste caso, por exemplo, Neg.S 5 = S 7-(5-1) = S3)

ESTÁGIO ATUAL DA PESQUISA

Em atendimento à metodologia traçada para o desenvolvimento deste trabalho, foi realizado um


levantamento bibliográfico preliminar e levantadas informações a partir da leitura crítica de
relatórios de AAs, com o objetivo de verificar como as auditorias vêm sendo desenvolvidas
atualmente.

A partir das informações coletadas, foi formulado um teste inicial para avaliação das
metodologias propostas (ELECTRE III e ME-MCDM).

Promoveu-se a definição de 10 (dez) critérios, a partir das informações coletadas nas auditorias
avaliadas, os quais, por hipótese, foram ponderados em sete níveis: nulo, muito inoportuno,
inoportuno, médio, oportuno, muito oportuno e perfeito. Esses pesos correspondem a valores
que variam de 1 a 7, para o método ELECTRE III e, na escala de S1 a S7, para o método ME-
MCDM.

Considerou-se, como hipótese simplificadora, que as avaliações, sob cada um dos critérios,
seriam também expressas em valores que variam de 0 a 6, para o método ELECTRE III, e, na
escala de S1 a S7, para o método ME-MCDM

Os critérios selecionados foram:


1.Cumprimento da legislação ambiental
2.Controle de poluição e/ou de degradação ao meio ambiente
3.Avaliação das ações preventivas versus ações corretivas
4.Forma de utilização matéria -prima, insumos e energia
5.Nível de controle do processo industrial
6.Relacionamento com a sociedade civil e poder público
7.Programas de monitoramento
8.Plano de descomissionamento
9.Plano de emergência
10.Ações relativas à saúde do trabalhador

Para o método ELECTRE III, foram definidos os valores de p, q e v como sendo,


respectivamente, 2, 1 e 5. Para utilização do método ELECTRE III, houve, também, a
necessidade de se definirem 4 (quatro) auditorias fictícias, as quais receberam pontuações
idênticas para todos os critérios: ambientalmente perfeita (valor 7), muito eficiente (valor 6),
eficiente (valor 5) e média (valor 4). Essas auditorias fictícias são definidas como referências de
avaliação para as empresas auditadas. O objetivo da empresa auditada é desclassificar o
maior número dessas empresas fictícias para ter uma boa avaliação na auditoria ambiental.
Considera-se como critério que, caso a empresa não se coloque melhor que a empresa média

19o Congresso Brasileiro de Engenharia Sanitária e Ambiental 2293


ABES - Associação Brasileira de Engenharia Sanitária e Ambiental VI - 012

(valor 4), ela não teria sua auditoria aprovada. Salienta-se que o resultado de aplicação do
Método ELECTRE III é uma hierarquia de ações, não havendo uma avaliação global para cada
ação: pode-se dizer, somente, que a é melhor, pior ou equivalente a b, por exemplo.
No caso do método ME-MCDM, seria considerada aprovada a empresa que obtiver uma
avaliação global melhor ou igual a S4 (médio).

A avaliação de cada critério será realizada de duas maneiras: diretamente por uma avaliação do
auditor, que classificará o critério em valores que variam de 1 a 7, de acordo com a per-
formance da empresa sob aquele critério; ou através da utilização de 6 (seis) perguntas com
respostas do tipo sim, valendo um ponto, e não, valendo zero, para um outro critério em ques-
tão. Nesse último caso, será possível obter-se uma classificação que também variará de 1 a 7.

As perguntas em referência seriam selecionadas a partir de informações provenientes do


levantamento bibliográfico, dos relatórios de auditoria, bem como do conhecimento dos autores
deste trabalho.

Na Tabela 1 são apresentados os critérios, os parâmetros relacionados ao método ELECTRE


III, bem como a realização de 5 (cinco) testes (T1 a T5). A importância dos critérios para cada
um desses testes foi adequada, também, para aplicação no método ME-MCDM, conforme
mostrado na Tabela 2 5.

Tabela 1: Aplicação do método ELECTRE III.


CRITÉRIOS ( C ) PESO T1 T2 T3 T4 T5
1.Cumprimento da legislação ambiental 7 4 4 7 1 1
2.Controle de poluição / degradação ao meio ambiente 6 6 3 6 2 2
3.Avaliação ações preventivas versus ações corretivas 5 6 6 4 6 6
4.Forma de utilização matéria-prima, insumos e energia 6 5 5 7 1 1
5.Nível de controle do pr ocesso industrial 7 4 2 7 1 6
6.Relacionamento com a sociedade civil e poder público 6 4 1 6 1 1
7.Programas de monitoramento 7 5 4 7 6 6
8.Plano de descomissionamento 6 4 7 6 6 6
9.Plano de Emergência 7 7 6 7 6 5
10.Ações relativas à saúde do trabalhador 6 5 3 7 6 5

Tabela 2: Aplicação para o método ME-MCDM 4.


Critérios I Neg T1 T2 T3 T7 T8
I
1.Cumprimento da legislação ambiental S7 S1 S4 S4 S7 S1 S1
2.Controle de poluiç. / degradação ao meio amb. S6 S2 S6 S3 S6 S2 S2
3.Avaliação ações prevent. versus ações corretivas S5 S3 S6 S6 S4 S6 S6
4.Forma utiliz. matéria-prima, insumos e energ. S6 S2 S5 S5 S7 S1 S1
5.Nível de controle do processo industrial S7 S1 S4 S2 S7 S1 S6
6.Relacionamento com socied. civil / poder púb. S6 S2 S4 S1 S6 S1 S1
7.Programas de monitoramento S7 S1 S5 S4 S7 S6 S6

5
Na conversão dos pesos referentes à utilização do método ELECTRE III para uso no método
ME-MCDM, utilizou-se a seguinte relação de correspondência: 0 - S1, 1 - S2, 2 - S3, 3 - S4,
4 - S5, 5 - S6, 6 - S7

19o Congresso Brasileiro de Engenharia Sanitária e Ambiental 2294


ABES - Associação Brasileira de Engenharia Sanitária e Ambiental VI - 012

8.Plano de descomissionamento S6 S2 S4 S7 S6 S6 S6
9.Plano de Emergência S7 S1 S7 S6 S7 S6 S5
10.Ações relativas à saúde do trabalhador S6 S2 S5 S3 S7 S6 S5

19o Congresso Brasileiro de Engenharia Sanitária e Ambiental 2295


ABES - Associação Brasileira de Engenharia Sanitária e Ambiental VI - 012

RESULTADOS OBTIDOS

Com a aplicação dos métodos ELECTRE III e ME-MCDM para todas as alternativas padrão
e os testes, obteve -se, resumidamente, a classificação apresentada na Tabela 3.

Tabela 3: Resultados de aplicação dos métodos ELECTRE III e ME-MCDM.


Testes ELECTRE III ME-MCDM
1 melhor que a média S4 - médio
2 pior que a média (reprovada) S2 - muito inoportuno (reprovada)
3 melhor que muito eficiente S4 - médio
4 pior que a média (reprovada) S1 - nulo (reprovada)
5 melhor que a média S1 - nulo (reprovada)

Comparando-se esses resultados, e consid erando que houve uma mesma correlação de
importância entre os métodos, observou-se que há certa coerência entre os resultados obtidos.
Somente para o teste 5, a empresa auditada seria considerada melhor que a média para o
método ELECTRE III e reprovada, pelo método ME-MCDM.
De todo modo, o objetivo dessa primeira fase era bastante modesto. Buscava-se testar a
viabilidade e aplicabilidade de dois métodos. Vários testes e comparações deverão ainda ser
feitos, buscando-se estudar a sensibilidade dos métodos a variações de peso e de escalas de
avaliação. Outros métodos deverão, também, ser testados.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

1. AMARAL, S. P. .Auditoria ambiental: apostila, Rio de Janeiro: ABES, 1994


2. BAILEY, J. et al. Environmental auditing: artificial waterway developments. Western Australia.
Journal of Environmental Management, v. 34, p. 1-13, 1992.
3. BARATA, M. M. L. Auditoria ambiental: um importante instrumento de preservação ambiental. In:
ENCONTRO ANUAL DA SEÇÃO BRASILEIRA DA INTERNATIONAL ASSOCIATION FOR IMPACT
ASSESSMENT - IAIA, 4, 1995, Belo Horizonte. Anais .Belo Horizonte: Seção Brasileira da Associação
Internacional de Avaliação de Impactos, p. 413- 423, 1995.
4. CORDEIRO NETTO et al. Métodos multicritério aplicados ao planejamento de recursos hídricos: o
caso da escolha de um sítio de barragem de regularização no sudoeste da França. Parte 1 - discussão
teórica In: Congresso da ABRH, 1993.
5. GREENO, J. L. et al. Environmental auditing fundamentals and tecniques. 2. ed. [s.l.]: Arthur D.
Little, 1987, 368p.
6. KNAPP, C. e CLÁUDIO, J. R. Auditoria ambiental: um instrumento de gerenciamento ambiental na
indústria. In: Congresso Brasileiro de Engenharia Sanitária, 17., Natal. Anais ... Natal: ABES, vol. 2, tomo
4, 312-318, 1993.
7. LA ROVERE, E. L. e D’AVIGNON, A.. Emerging environmental auditing regulations in Brazil and the
prospects for their implementation. Industry and Environment, v. 18, n. 2-3, p. 11-14, 1995.
8. MACHADO, P. A. L. Direito ambiental brasileiro. 5. ed. São Paulo: Malheiros, 1995
9. NBR ISO 14010. Diretrizes para auditoria ambiental - Princípios gerais. ABNT, Rio de Janeiro, 5 p,
nov, 1996.
10. REGULAMENTO (CEE) Nº 1836/93. Permitiu a participação voluntária das empresas do setor
industrial num sistema comunitário de ecogestão e auditoria, jun, 1993
11. ROY, B. Méthodologie muticritère d’aide à la decision, Economica, Paris, 1995, 423p.
12. THOMPSON, D. e WILSON, M. J. Environmental auditing: theory and applications. Environmental
Management: An International Journal for Decision Makers, Scientists and Environmental Auditors,
Springer-Verlay New York Inc., USA, jul./aug.,v. 18, p. 605-615, 1994.
13. VINCKE, P.. Multicriteria Decision-Aid. John Wiley & Sons Ltd, Chichester, England, 1992, 154p.

19o Congresso Brasileiro de Engenharia Sanitária e Ambiental 2296


ABES - Associação Brasileira de Engenharia Sanitária e Ambiental VI - 012

14. YAGER, R. Y. Non-numeric multi-criteria multi-person decision making. In: Shakun, M. F. (ed.),
Group Decision and Negotiation, v. 2, n. 1, Kluwer Academic Publishers, 1993.

19o Congresso Brasileiro de Engenharia Sanitária e Ambiental 2297