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Copyright © 1995 by Warren Dean

Para Tom, Julie e Yun-ah


Título original:
With broadax and firebrand
The destruction of the Brazilian Atlantic F orest
Indicação editorial:
Gabriel Bolafi
Capa:
Ettore Bottini
Índice remissivo:
Maria Claudia Carvalho Mattos
Preparação:
Rosemary Cataldi Machado
Revisão:
Ana Maria Barbosa
Luciola M. S. de Morais
Isabel Cury
Ana Paula Castellani

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)


(Câmara Brasileira do Livro, sr, Brasil)

Dean, Warren, 1932-1994.


A ferro e fogo : a história e a devastação da Mata
Atlântica brasileira I Warren Dean ; tradução Cid Knipel
Moreira ; revisão técnica José Augusto Drummond. - São
Paulo: Companhia das Letras, 1996.

Tftulo original: With broadax and firebrand


Bibliografia.
ISBN 978-85-7164-590-5

1. Desmatamento - Brasil - Mata Atlântica - História 2.


Florestas tropicais úmidas - Brasil- Mata Atlântica - História
3. Homem - Influência na natureza - Brasil - Mata Atlântica
- História 4. Mata Atlântica - Condições ambientais - História
r. Título.

96-3476 CDD-304.28098109152

Índice para catálogo sistemático:


1. Mata Atlântica: Brasil: Condições ambientais :
Ecologia 304.28098109152

2013

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das florestas do Brasil com o patriotismo, asseverando que é a adequação ele
cada obra da natureza a um local específico que inspira os cidadãos ao amor
à sua terra natal. Esta era, porém, uma visão fortuita, isolada; o sentimenta-
lismo nacionalista pela natureza ainda estava três quartos de século no futuro,
7 e a moda do naturalismo romântico da Inglaterra da época não encontrava
nenhum eco no Brasil.'
!\ FLORESTA SOB A oportunidade propiciada pela independência, por um Estado tranqüilo
;OVERNO BRASILEIRO e pelo espírito reformista dos tempos foi desperdiçada. O império logo foi
assolado por conflitos externos e internos tão constantes que parecia que seu
destino seria o mesmo das ex-colônias espanholas. D. Pedro se envolveu na
sucessão do trono português e, conseqüentemente, foi obrigado a renunciar ao
seu. No governo da regência que se seguiu, rebeliões regionais e guerrilheiras
transbordavam de modo sangrento em levantes de massa. Esses conflitos
As divisões principalmerue [das posses] só são firmadas, e foram resolvidos no governo de seu filho, Pedro lI, coroado em 1840, mas a
respeitadas, pela arma de fogo desfechada d'emboscadas interferência do Brasil nos negócios de seus vizinhos sulistas continuou,
de traz dos grossos troncos de nossas árvores seculares. explodindo em uma guerra contra o Paraguai em 1865, Embora esta violên-
JOÃOCALDAS VIANA,VICE-PRESIDENTE
cia se encerrasse em 1870, ela debilitou o império, que caiu vinte anos mais
DAPRovíNCIADORIODEJANEIRO(1843)
tarde, deixando para a república um legado de reformas postergadas ou per-
vertidas, de um governo incapaz de controlar seu patrimônio, impor o
domínio da lei ou promover a massa de sua população do servilismo à cidada-
o novo governo, desvinculado de sua subserviência a um monarca ex- nia. Esses fracassos iriam cobrar um preço terrível da Mata Atlântica, que
plorador e distante, viu-se abençoado com recursos e oportunidades extraor- logo .<:.e transformou de um obstáculo ocasional à riqueza, que poderia ser
dinários. A independência fora conquistada a um custo insignificante em ter- obtida dos metais e pedras preciosos, na própria fonte da riqueza.
mos de sangue. As classes abastadas em cada capitania haviam aceitado a Não é de admirar que, a princípio, da agenda dos notáveis que cons-
legitimidade do imperador e sua Constituição, retirando com isto, das massas truíram o novo Estado constasse predominantemente, na verdade, quase ex-
oprimidas, a oportunidade para um levante. O território brasileiro foi assim clusivamente, o engrandecimento pessoal e faccional, porque conquistar po-
preservado integralmente, ao contrário dos vice-rei nos do império hispânico, der era pré-requisito para a realização de programas substantivos. Tampouco
que na mesma época mergulharam em guerras civis cruentas e aparentemente é de admirar que seu ressentimento para com a finada autocracia tenha se
intermináveis. O país herdara um quadro científico e técnico modesto mas voltado contra muitas de suas políticas racionais, embora seja impressionante
básico e estava dotado de um imenso território, com sua maior parte ainda como muitas dessas políticas se frustravam por mera indiferença e incem-
I'Dl'i1do domínio neo-europeu e de um valor potencial ignorado. A intelectua- preensão . .As omissões dos novosgovernantes, entretanto, não denotavam,
Ikludc. lendo absorvido o pensamento social e político do século do Ilurninis- essencialmente, nem procrastinação nem incompetência: a Independência
1110,l'llli>or:1convcncida de seu direito à distinção e ao privilégio, professava ofereceu aos grandes proprietários de terra a oportunidade de deixarem de
1,('\1(\('SI!.io (ir conduzir a nação a um estágio de civilização igual ao da Euro- resistir aos ditames da autoridade central para moldá-Ias segundo seus in-
1'11,11111' I\H'lo dl' lei!' justas c liberais, educação e desenvolvimento institu- teresses e, sem dúvida, esta era a fonte do seu patriotismo.'
1.111111111t' l'l'III\()IIIII'11. O mais importante dos interesses que desejavam promover era o tráfico
l'lnll Mil \,11111\ 111'111IIIU',toduviu, que essa intelcctualidade concebesse a escravo africano. O rei d. João VI havia sido obrigado pelos ingleses a
1I1I\11I1111lII \11111\111111' (1111111 1111{.11
1111Ii~ qUI' 11111 Lstudo c uma cidadania assegu- restringir a escravidão às colônias portuguesas ao sul do equador e a condi-

11"II,tI . \lh'hl I"


IIIIIIIN)lIiI 11t1\1\1'I11I~ \1111111\1111
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1I1~íll!l!!!h~ \11 11 i\ 11"1111
111'1111111111"
1111
[1~'lIplwd\lllnl C,~ptlÇO geográfico con-
_\'1 l'llllillllí'l\ln 1111111
~'lllll\lllidlldl' idcutificada
d'l IjWil 1\\I~ \,ldII\IIIIIN111111'IIN/lI1I11 IH1'111'11""lIl'IlIL'
cionar seu governo à extinção final do tráfico. Julgou conveniente, em princí-
pio, juntar-se às outras potências européias na oposição à escravatura. Ora,
com a Independência, o Brasil poderia, de um só golpe, abjurar este comer-
11111 liI,i 1111 !!IIIIII IlIrll~II'IIIIVI'I 1'1111111111111\1\11111
Ítili "hlltl 1I1111111t111, dll .io rct rógrado e iniciar a tarefa de eliminar totalmente a escravidão. l:1n
iill ii "\lllIiiJlitlrú\IIII!1 1'lIltlllll (\11Id, 1111111111 II1\IIIIHI \I\~(\II '()ll(li<,:õl:~que poderiam ainda permitir '1'''l'ohl'cvivl2ncilldus lZI'/II1UUS
ra/.Cllcl:ls

161
ou, pelo menos, de seus proprietários enquanto classe. Em ] 822, todos os ou- trizes suficientes para contestar sua versão da história. A opção ele Sc' ;1(" .. "
tros países ocidentais haviam abjurado o tráfico; apenas Portugal não se COIl- à escravidão até o mais amargo fim, se é que o termo se aplica, deinousu. 1\1"
vertera. O Brasil poderia ter começado sua vida enquanto nação sem ser mu- quanto era dominante o interesse da plantação e o quanto ela íora indcpc..
culado por essa desonra. Embora o próprio Pedra I confessasse aos ingleses o dente do despotismo "absoluto" da monarquia portuguesa. Na verdade, ()
desejo de pôr um fim ao tráfico e seus conselheiros mais próximos - dos governo britânico, supostamente cheio de sentimentos humanitários, havia
quais os mais importantes eram José Bonifácio de Andrada e Silva e seus recuado em sua insistência na abolição do tráfico escravo como condição par"
irmãos -, juntamente com muitos outros liberais atraídos para a corte, deplo- o reconhecimento da independência do Brasil, ao ponderar que a medida
rassem a escravidão e desejassem o seu fim, não se dispunham a colocar em poderia levar o império fi ser deposto e as províncias a se esfacelarem. Isto lhe
risco, na luta por esta grande reforma, as posições que tão recentemente ha- seria extremamente lamentável, porque desejava manter em solo americano
viam conquistado. Duramente pressionado pelo governo britânico, que poderia pelo menos 11111 exemplar r()IÜ~do princípio monárquico.'
ter concedido consideráveis benefícios em troca, o imperador e seu círculo,
contudo, contemporizaram. Apenas em 1831 foi assinada, com relutância. a
lei que abolia o tráfico; não entrou em vigor, todavia, até 185 I. Durante esse Outro gr:llldc intcrcs:«: dos I:I/.clldciros CT" livrar-se de toda rcsuiçào ao
último meio século do tráfico, nada menos de 1 milhão e 250 mil escravos seu rnonupó lio sobre ;I.''; terras púhlicas. () .~islem" de sC..~111:1ri"s,urna lic(;:ío
foram importados, o suficiente para abastecer o sistema de planração até o legal que legiumnm a lISllrp,\i,:;-IOdo p.urimônio da Coroa, mostr.ua-xo veículo
apagar do século XIX.3 conveniente para esse Iim CI1Ilodo () pcrúxlo colonial. I)lira 11tr: () .~c:l'III().\VIII,
É impossível calcular a extensão do impacto de UIll reginle de trabalho a Coroa "clI1linuara" emitir cs.~"s C'(lIlU'ssilCS)l:ll·;!f:lvOIl'n'r li('''''' (. j1(Hln(ls'l:;,
agrícola escravo sobre a região de florestas do sudoeste do Brasil; identificar com os quais se identificava e contava para povoar a vasta colônia. a prodl\(Jlo
esse impacto, porém, não é difícil. O afluxo desse grande conüngcntc em si de bens exportáveis e defender suas fronteiras. Os ricos e poderosos, no cnrau
mesmo requeria áreas muito mais vastas para culturas de subsistência. Esses to, descobriram falhas no sistema. O tamanho da sesmaria fora em geral limi-
recrutas permitiram excluir os lavradores nativos itincruntes em regime de tado a não mais que uma légua quadrada (43,56 km-) em regiões adequadas à
subsistência e os pequenos produtores de safras comerciais do comércio agricultura. Para os notáveis rurais, isso parecia uma benesse insignificante e
exportador, que os fazendeiros reservavam para si mesmos. lmpoxxihiliravaru, frequentemente reivindicavam direitos sobre diversas sesmarias mediante tes-
por outro lado, atrair para o Brasil um número significativo ele trubalhadorcs tas-de-ferro ou parentes. A prática era comum também entre funcionários da
imigrantes livres, o principal meio pelo qual o governo esperava uanxfcrir as Coroa, que não estavam qualificados a solicitar concessões mas consideravam
natural valer-se de seus cargos para obtê-Ias.
práticas agrícolas mais intensivas da Europa para a atrasada collíni" emanei-
pada. O mais prejudicial eram as técnicas inevitáveis ao funcionamento das Uma causa importante da destruição da Mata Atlântica foi que o governo
não dava nenhum valor à terra que concedia tão gratuitamente. Tendo consumi".
plantações escravistas. Constantemente movidos pela "escassez de mão-de-
cio toda a floresta primária mais promissora em dada sesmaria, um donatário
obra", ela qual a causa última era a expansão espcculativa dos plauriox e a
costumava vendê-Ia por uma ninharia e pedia outra, que normalmente obtinha
recusa de uma força de trabalho escrava em trabalhar mais intensamente ou
com mais dedicação do que a chibata podia insuflar-lhcs, os fazendeiros se sem dificuldade, Segundo um relatório de fins do século XVIII de Minas Gerais:
envolveram em uma forma de agricultura tão exploradora que mal merece o A facilidade que tem havido na concessão das sesmarias tem sido muito prcjll
nome de agricultura. Era inerentemente predatória: não podia ser intensifica- dicial, porque se tem queimado os matos melhores, e os mais próximos .i.:
da e se expandia ao longo de uma fronteira ele recursos até exauri-los. povoações, as quais já [1780] sentem a falta das madeiras, das lenhas ,. ,ltI', ,.,
O fato de permitir que essa forma de exploração suprimisse e distorcesse pins [...]. Além disto não praticam os lavradores alguma forma de (',tll("., I"'" I'"
o emprego de habilidades humanas por mais 66 anos, até cessar, por fim, o a exercitam sem beneficiarem as terras, sendo infinitas :lSqlle' ,""Ia" k (-..,01., , I

fluxo de novos escravos e a última geração deles, nascida no Brasil e cada vez que haviam de produzir frutos em mais abundân •.ia do '(I'" a' . .t, . (, ,,' ",'
mais saturada com a protelação, deixar de pegar na enxada, obrigando com [Portugal], se as beneficiassem. Aquela facilidade 1:1'/ ,',,,,, '(I'" I"" ,I" 'I" li'.

isto a assembléia a aceitar em 1888 o fait accompli, é a mais terrível reflexão tania de Minas não sejam estáveis; jlorqllC"os ,'((ti,.. ,,,(,,,, '.' li.. ", .. ,101,
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sobre as classes governantes da nação. Descaradamente, descreviam-se como culta a concessão de novas Icnas, 1l;'!O 1':1"/.1"11 :1:. 111'111. II.tll.l', .11. 11.1,- I I II I '1"

pOSSlIClll, c as ahandon.un /H\I" 'ttl;II~;111[("r 1IItll"',I', .1,- 11111\1 rir, 11' I I 11111 111.
se tivessem sido abolicionistas desde o início, arrogando-se o crédito total
pela abolição final e orgulhando-se por amoldar-se a tempo de evitar a guer- Curiosamcnn, ;11)('11;\,':
:1 (\\,((,,, (((1,'1('.(,(.,'/, , ,111 ,li 1111 1111111

ra civil. Nas costas dos homens libertos e nas encostas desnudadas havia cica- prálicls da ili/ln;'III' i:( 1'!:(li,:td.1 1"·1.,· ,I, 111/' i ,,,t. I. I I ,.,

162 ,
~~
..
gUVt.:l'llIliI\II\'i~ I' li:. )lI'(lpl'ill~d()llóll~ri()s, sempre ávidos de explorar uma força agrimensor. A Coroa, longe de pretender agir com equanimidade, estava sob
!I" truhulhn \'11111\1\'1. () l'\'slIlI;Ic!O,segundo o relatório, era que "há na mesma o impulso da necessidade de compensar os seus parasitas por sua lealdade nas
1'lIplilJlIlll \·I'III\·IIIi.~ de scsrnarius há muitos anos concedidas e que não têm o agruras da corte tropical, e esta compensação, frequentemente, tomou a forma
111i'l111l vlllllvo; " os huhituntcs continuam sempre a pedir novas terras, sem de concessões de terra. Os proprietários nas capitanias podiam prever que a
11'11' 1111.111(\11111<1"\'1' necessidade de concedê-Ias". corte os passaria para trás na disputa pelas melhores terras."
(\ dl'spl'iln da facilidade com que os pretendentes eram contemplados Em meio à crise política que levou à Independência, a concessão de ses-
1'111\1 múlriplus scsrnarias e elo conseqüente preço baixo da terra, era axiornáti- marias foi suspensa e depois foi abolida pela Assembléia Constituinte, aves-
CIl que "1\ propriedade de terras é a maior riqueza", porque apenas a terra con- sa que .estava a permitir que essa enorme fonte de clientelismo passasse para
I'L'I'iaprestígio, possibilitava a acumulação de outras formas de riqueza e d. Pedro I, que vinha demonstrando considerável talento para usurpar po-
.ximi» seu detentor dos muitos encargos impostos pelos funcionários reais.' deres. Havia diversas propostas para a reforma das concessões de terra. Na
Embora incapaz de conceber alternativas para as sesmarias, a Coroa verdade, os reformadores da era de d. João VI anteciparam a maioria das pro-
procurava, cada vez mais, impor condições restritivas para sua concessão. O postas feitas na década de 1880 - e, de fato, na de 1960. Baltasar da Silva
decreto de 1795, provavelmente obra de Rodrigo de Souza Coutinho, exigia a Lisboa queria reverter para a Coroa as sesmarias não efetivamente ocupadas e
demarcação ele todas as sesmarias existentes e futuras. (A prática tinha sido distribuí-Ias a pequenos proprietários, para "abolir o desemprego de homens e
omitir da petição todas as referências a limites e área!) O decreto também limi- terras"; o que gerava cidadãos, insistia ele, era a propriedade. Antônio
tava o tamanho de sesmarias próximas a vilas e ao longo de rios, exigia a Rodrigues de Oliveira juntava reforma agrária com abolição da escravatura -
manutenção de registros da terra e criava juízes reais para julgar disputas ele cada um dos libertos deveria ser contemplado com um hectare ou dois, com
terra. Alegou-se que a escassez de fiscais na colônia frustrara o decreto de titulação bem definida. A Coroa deveria honrar com o título de fidalgo os pro-
1795; foi revogado um ano depois, para grande satisfação dos proprietários de prietários que doassem terras para esse fim. Segundo essa proposta, o gover-
terra que também alegavam insuficiência de fundos para pagar a demarcação.' no deveria assumir o lugar da polícia privada - uma idéia altamente subver-
Os proprietários não tinham o menor interesse em que o Estado fixasse siva. José Bonifácio de Andrada e Silva propôs aos delegados ao governo
os limites de suas terras e legitimasse seus direitos. Preferiam a incerteza, provisório que as terras não cultivadas revertessem à propriedade nacional e
para melhor invadir terras públicas. Mas a incerteza levava à violência, em que aos proprietários de sesmarias fosse permitido reter apenas um quarto de
escala que devastava o interior e desafiava a autoridade da Coroa. O fato de légua quadrada (l0,6 km') de suas doações, com a condição de que esta
que os proprietários de terra preferissem derramamento de sangue à estabili- fração fosse imediatamente cultivada. Os posseiros que ocupavam terras
dade de títulos bem definidos garantidos pelo Estado sugere um sistema devolutas teriam direito apenas à terra que estivessem cultivando, além de
político ainda mais centrífugo que o feudalismo. A sesmaria podia ser bran- uma reserva de cerca de 75 hectares. Todos os proprietários seriam obrigados
dida no tribunal por todo e qualquer litigante nas primeiras disputas da zona a conservar um sexto de sua propriedade com cobertura florestal ou a replan-
rural, mas o efeito era menor que quando se brandiam armas de fogo na trilha tá-Ia até esse montante, no caso de já haverem desmatado uma área maior.
da floresta; conseqüentemente, ela apenas oferecia uma vantagem insigni- Doravante, recomendava ele, toda terra da Coroa deverá ser vendida, não
ficante. O fato é que muitas sesmarias eram obtidas meramente para extorquir doada, a trezentos réis (trinta centavos) por hectare, o salário de um dia para
um pagamento dos colonos legítimos que mais tarde poderiam aparecer. um trabalhador comum. A receita dessas vendas deveria ser aplicada na colo-
Dessa forma, as licenças e os subornos que tinham que pagar pelas sesmarias nização, tanto européia como nacional. Essas propostas teriam reestruturado
eram necessariamente moderados - segundo Auguste de Saint-Hilaire, a sociedade brasileira no prazo de uma geração. Precisamente por esse moti-
100 mil réis (na época, cem dólares, portanto 43 centavos o hectare). Mesmo vo, não receberam nenhuma consideração. Poderiam também ter evitado que
a demarcação por um funcionário da Coroa, ao que parece, pouco acrescenta- as florestas da nova nação, vítimas, disse ele, da "ignorância e do egoísmo",
va il segurança da propriedade e pouco, portanto, ao valor de uma concessão.' fossem "reduzidas às terras estragadas e desérticas da Líbia" .10
A súbita transferência da sede da autoridade real para o Rio de Janeiro Infelizmente, nos 27 anos seguintes, a assembléia evitou a decretação ele
havia ameaçado esses autocratas rurais. Emitiram-se decretos em rápida qualquer método de alienação de terras da Coroa que substituísse as ses-
sucessão, exigindo confirmação de todas as sesmarias pelo palácio, creden- marias. Estas continuaram, de fato, a ser concedidas excepcionalmente por
ciando forasteiros (favoritos de d. João) para receberem sesmarias, eliminan- presidentes de províncias se o pretendente fosse poderoso o bastante ou um
do ti necessidade de testemunhas para confirmar que o candidato tinha meios rebelde incipiente, prática discretamente sancionada em 1829 por uma de-
pU!'1\ trnbulhur Lima sesmaria e criando em todo distrito judiciário o cargo de cisão administrativa do imperador. Durante esse longo intervalo, estabelece-

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rarn-se milhares de plantações de café, e dezenas de milhares de garimpeiros para os expropriadores - foi uma das maiores causas do rápido desnuun
de ouro desanimados se espraiaram em busca de pastagens de gado bovino e mento. Um cronista de Minas Gerais do século XIX reconheceu os "terríveis
sítios no sistema de derrubada e queimada. As novas propriedades eram pos- efeitos" dessas políticas:
ses baseadas no direito de ocupação ou invasão de terras devolutas. Estas
eram extravagantes na sua enormidade: estendiam-se freqüentemente a dez Os sesmeiros derrubaram e queimaram a floresta, não beneficiaram os terrenos
e, quando Ihes faltava espaço necessário para as plantações, abandonavam as
ou vinte vezes o tamanho das doações reais de uma única Jégua quadrada.
sesmarias ou vendiam-nas por pouco mais de nada e iam requerer nova sesmaria
Semelhante pretensão era inconcebível para o sertanejo comum, mas era
ou apossavam-se de terreno em outro lugar."
cabível ao líder, ou pretenso líder, de um clã, alguém que convidava parentes
com seus agregados e escravos a participarem da usurpação de terra pública É por isso, dizia, que as casas rurais eram tão instáveis e temporárias,
em uma escala grandiosa o bastante para intimidar rivais, subornar fun- que se podiam ver tantas taperas na província e que a madeira de construção
cionários, e estabelecer uma preeminência local que o governo imperial seria estava a léguas dos povoamentos. Confirmava-se, pois, a concepção de que o
obrigado a reconhecer. I1 solo era um recurso descartável. Evidentemente, não fazia sentido tentar man-
A posse dependia da violência ainda mais do que a sesmaria. O presi- ter uma fazenda que podia ser substituída sem custo algum. Tampouco uma
dente do Rio de Janeiro, em 1840, confessou abertamente na assembléia de fazenda que já havia sido trabalhada podia alcançar preço no mercado igual à
sua província que "é sabido que para estabelecer uma posse e mantê-Ia [... -1 é terra dcsmarada de fronteira, Que sentido teria, então, tentar preservar sua fer-
indispensável a força. Aquele que carece dela é obrigado a ceder a terra a ti Iidade? Sob tais condições, a terra, ainda que fundamento do poder político
outro que é mais f011e ou a vendê-Ia a alguém que seja capaz de retê-Ia me- da distinção social, não era patrimônio. É interessante observar que os
diante a mesma força". Embora ele e outros funcionários clamassem por uma nobres cio i mpério desfrutavam de seus títulos apenas em vida. Os filhos dos
solução legal para esse estado de coisas, a assembléia persistiu em medrosa "barões do café" raramente recebiam título de nobreza e os que recebiam
indecisão até 1850, quando finalmente aprovou uma lei sujeitando todas as quase nunca residiam na mesma fazenda que os pais. De fato, existe pelo
terras da Coroa à venda pública. As posses anteriores àquela data, por maiores menos um caso de um barão que se viu forçado a emigrar para outra provín-
que fossem, eram reconhecidas, desde que não contestadas e devidamente cia com todos os seus escravos quando sua fazenda foi à ruína sob seu coman-
registradas em cartório de terras. A aplicação desta lei foi quase tão caricata do, muito provavelmente devido a administração descuidada."
quanto o período anterior de ausência de lei. Essas concessões, como as ses- A aplicação patriarcal da lei de herança foi um fator que estimulou a
marias, eram registradas sem demarcações nos cartórios. Os ocupantes que expansão explosiva da fronteira no século XIX. Alida Metcalf demonstrou que
detinham lotes de subsistência eram normalmente pobres demais para pagar os pais habitualmente favoreciam genros e filhos mais novos na concessão de
a taxa de registro e ficavam em situação tão precária quanto antes. A .suas propriedades, na tentativa de protelar ao máximo a inevitável transfe-
usurpação prosseguiu como até então, sujeita a numerosas fraudes para fazer rência cio controle da família e seus recursos para a geração mais nova.
parecer que a ocupação era anterior a 1850. A terra privatizada não era sujei- Genros, geralmente imigrantes valorizados por seus laços comerciais e peles
ta a nenhum imposto, exceto para transferências e, mesmo neste caso, havia indubitavelmente brancas, eram até menos propensos que os filhos mais
evasão por subavaliação." jovens a desafiar a autoridade do velho pater familias. Os filhos mais velhos
O governo imperial nunca realizou um inventário das terras públ icas. eram sutilmente persuadidos ou incentivados a se mudarem e se estabele-
Ficava, pois, limitado a indagar dos conselhos municipais se existia alguma cerem ao longo da fronteira, distante da fazenda da família. Essa maneira de
em sua jurisdição. Ardilosamente, estes sempre notificavam que todas haviam transferir direitos de terra assegurava que os proprietários, de geração para
desaparecido. Na província do Espírito Santo, uma região tão destituída de geração, permanecessem estranhos à terra, primeiro proscritos e usurpadores,
atrativos para a colonização neo-européia no século XIX que o governo impe- depois epígonos e arrivistas."
rial tivera de assumir praticamente todos os encargos de povoá-Ia, inclusive o
patrocínio da imigração e da colonização, era possível uma contagem apro-
ximada. Em 1888, o último ano do império, um inspetor especial de terras e A terceira facilidade pleiteada pelas classes proprietárias de terra era a
colonização descobriu que mesmo ali as posses inválidas e ilegais somavam constante remoção dos indígenas de suas terras e seu recrutamento forçado
quase 44% de toda a terra reivindicada como particular." para a força de trabalho como auxiliares, se não mesmo como escravos, Os
A incapacidade do império de controlar as terras públicas - na verdade, monarcas portugueses diversas vezes haviam proibido sua escravização, e
sua inclinação a ser conivente com a expropriação privada sem custo algum
,
tentaram de novo de modo mais retumbante em um decreto que entrou em

166 167
\1!'OI 11,1I' "1.," ,1.,1\1.11:1 ,\II;III1ICI em 1758, Daí em diante, os missionários para qualquer ofício, rapidamente farejou a oportunidade de explorar otra-
'1.11'1"1i.u n r r r.rr ' ,1111< '1Id:ld(' xohrc as aldeias indígenas, Temendo-se, contudo, balho nativo - melhor ainda, de explorar a sexualidade nativa, "pilhar as
<[li<' ,", ,I',' 111,1,1 •... II;IS ;"tll'ias imediatamente desaparecessem na floresta, os mulheres índias, praticando com elas as maiores depravações" ,18
""\ '111.,01"1":: 1')1'"11 autorizados a indicar administradores civis com autori- Os indígenas também eram capturados por cidadãos patriotas que or-
,1.1.1,·,,,111" "I,,:: I{ar<> na o branco que assumiria tal responsabilidade sem o ganizavam entradas na floresta, Os aprisionados dessa maneira estavam
11111111" ,I,' np[()r;.lr ao máximo o trabalho dos nativos e de ser conivente na sujeitos à escravidão pelo prazo, fixado na declaração de guerra, de dez
1!.',IIII':J',,;IO(iL' xuax terras, Em conseqüência, muitas aldeias ao longo do litoral anos; logo depois, esse prazo foi elevado para doze, depois quinze anos,
do 1< 10 1.iL'Janeiro e do Espírito Santo tinham sido praticamente extintas em Para os rapazes, o prazo começava apenas após completarem catorze anos;
I /()S, quando um decreto esclarecido devolvia o controle das aldeias a seus para as meninas, doze, A interpretação local do decreto considerava que o
[ll'l'lprios líderes, medida de pouco efeito já que os administradores indígenas prazo só começava depois do batismo, cerimônia que tendia a adiamentos
eram pouco ouvidos nos tribunais ou no palácio do governador, prolongados, A interpretação local permitia também a venda desses cativos,
A chegada da corte portuguesa não levou a uma política mais humana, que passaram a ser chamados curucas, a terceiros, Um curuca chegava a
A declaração de gueo'a do regente aos botocudos, que habitavam a região ser- valer 100 mil réis, na época em que um escravo africano era vendido seis
rana entre os distritos de ouro e diamante e o litoral, destinava-se a incentivar vezes mais caro, Embora a autorização para matar e capturar fosse válida
,I garimpagem na região, até então interditada para a colonização a rim de apenas contra botocudos e bugres, os coroados que se entregavam espon-
coibir o contrabando, A terra estava sendo invadida por garimpeiros na .:s]>.:- taneamente à proteção dos brancos também eram tomados como cativos;
rança de um último golpe de sorte, e a COro:I, mais que d('JlI'L'SS'1.,'"'L: dispunh» 2 mil foram assim escravizados em Ouro Preto em 1811. No prazo de uma
a agradá-tos. Os botocudos tinham sobrevivido lleSS<i I,OIl<i illteir;lI11l'llle 1"1(1- semana, todos os homens desse grupo escaparam e iniciaram uma guerra de
rl'st:ldil porque evitaram iI ;lgriclIlllllil, qll" ti,': Il'I'i:l l"Il\I.'I() :1 ";I\:;lllorl's, " murtc coutra seus traidores."
porque combatcr.uu knll,llwnll' os intrusos. N" v.rd.u!«. ('I,'s huvi.uu .ulqui ri SlIrprc.enllc.ntCIl1ClIle, em 1813, a corte designou para esse sinistro
do 1I11l<ln:put;I\JIO, iJlII'H"Cidil IllilS ut i l. dc l';lI1ih"i,s, lJUI' "!',(1I:J iil xrr l'lll[lI't'!'," rcduíu gCllocida um oficial francês no exílio, que era simpático aos indígc-
d:l cOJllr" eles, Ao l'Illllh:ltl'r l' <lftlg('III:II' os !',:lriIIlPl'iros, rl'lirilr;III1S(' p;lr:l II:1S, (;uido Thoma» Marlicrc. A floresta remota e ameaçadora foi a princí-
ksll' I' dali p:ISS:lr;1I11;1 :l1I1I':I,':lr os P()V():lllIl'lIlos costeiros do I>:,spirilo S:lllt\l. pio ;Lpl'II:1Suuut oportunidade para demonstrar sua lealdade, mas ele logo se
(', '111["'1i:IIII, t"llIh(~III, 111<1i,,",l'IIC<lJ"Ili~';ld;III1L'IIil'com seus riv.us. ()S c(lrtl:id(IS, "ki\:()(lLl a ela ficou 1I1t.:,SIlIOdepois que o rei d. João regressou a Lisboa,
IHlV()S qlll: untcriormcntc haviam sido mais scdcnuirir», e horticultorcs, Os 1~k ascendeu da condição de comandante de um dos distritos militares para
grupos de coroados foram então obrigados a "descer", em busca de proteção, a de coronel, com a responsabilidade pela pacificação dos nativos em toda
até os domínios neo-europeus. A declaração de d. João foi logo estendida a Minas Gerais, li época de sua aposentadoria, em 1829, Marliêre encontrou
outros caçadores-coletores que incomodavam os fazendeiros de gado nas alguns missionários que já trabalhavam na região, notadamente o padre
faixas de pastagens no interior de São Paulo. Esses grupos, alguns dos quais Manuel de Jesus Maria, A mãe deste padre era uma africana e, assim, ele
sem nenhum contato anterior com neo-europeus, migravam rumo à costa a também tinha boas razões para preferir distanciar-se do desdém da corte, A
partir do interior, às vezes em busca da lendária "terra sem males"." estratégia de Marliere diferia da de levas anteriores de missionários, Ele não
As aldeias eram estabelecidas para receber os cativos trazidos pelas aceitava o "descimento" dos povoados tribais; ao contrário, sediava as
tropas, fixá-Ios em um lugar para que pudessem ser catequizados e ficar ü dis- aldeias bem no interior da floresta, afastadas dos assentamentos dos bran-
posição para trabalhar nas terras dos brancos, Essas aldeias eram confiadas cos e próximas aos recursos silvestres, principalmente de riachos ricos em
não aos missionários, mas aos mesmos comandantes de armas cujos salários peixes, Ordenava a suas tropas que abrissem clareiras com queimadas e as
eram acertados pelo número de nativos que matassem ou capturassem, Os plantassem, de sorte a assegurar a subsistência de seus neófitos durante o
postos militares ficavam ao lado das aldeias e os brancos deviam estabelecer- primeiro ano; depois, atraía os moradores da floresta presenteando-os com
se entre os nativos, para instruí-Ios no comércio e na agricultura, Verificou-se facões e enxadas."
que os soldados eram normalmente mestiços ou nativos recrutados de tribos A partir daí, a preocupação constante de Marliere, conforme informou a
rivais, cujo caráter vingativo muitas vezes era inspirado por motivos pessoais, seu superior em 1825, era precaver-se contra colonos brancos que procu-
Os colonos brancos, por outro lado, eram "vagabundos, os canalhas mais ravam usurpar terras dos nativos assediando-os com bebidas alcoólicas,
[1l'l'igosos para a sociedade", nas palavras do governador, que vislumbrava soltando gado em suas clareiras e expondo-os deliberadamente à varíola,
11111:1 oportunidade para esvaziar suas prisões, Essa escória, desqualificada Nesta batalha, as autoridades públicas não.se mostravam dispostas a ajudar:

ló8 /69
Há treze anos que grito aos sucessivos governos, contra os matadores, opres- conseguissem provê-los com comida suficiente à sua "gulodice desmcsura
sores e invasores das terras dos índios; nunca obtive senão respostas evasivas, da". Os mais valentes e poderosos entre eles vangloriavam-se de suas repu-
devassas de encomenda, que não se verificaram, ordens que ficaram sem exe-
tações como guerreiros; aqueles que haviam guerreado os brasileiros recea-
cução e promessas de regulamento e direções que nunca me vieram: não se
vam a subseqüente retaliação. Além de tudo isso, os homens se recusavam a
enforcou um só matador de índios; não se castigou a opressão; não se restituiu
abandonar a bebida e a poligamia, queixava-se Bonifácio, sugerindo um con-
um palmo de terras."
traste mais idealizado que realista com a sociedade neo-européia, Ainda que
As cartas de Marliêre relatam dúzias de crimes praticados pelos próprios admitisse que os conflitos brotavam inevitavelmente da experiência do passa-
funcionários do governo - a compra e venda de crianças, a conivência de do de escravidão, roubo de terras, fraudes, recrutamento militar forçado e
juízes com a grilagem de terras, o rapto de indígenas para as milícias e para o desprezo generalizado, enxertando "todos os nossos vícios e fraquezas, sem
trabalho nas estradas e roubo e lesões corporais cometidas por seus próprios comunicar nenhuma de nossas virtudes e talentos", impunha-se reconhecer
soldados. Ele considerava o único padre que era respeitado pelos nativos como quem eram, "para que possamos então encontrar os meios de convertê-los
uma "rara avis". Um padre a quem ele confiara uma escola, a um salário de naquilo que convém a nós que eles sejam] l]"."
150 mil réis por ano, imediatamente subcontratou o serviço de um surdo por As prescrições que emanavam dessa análise eram inevitavelmente simi-
50 mil réis e embolsou o resto. Enquanto isso, as autoridades recebiam lares às políticas do passado. Expedições, que José Bonifácio não se enver-
petições assinadas por centenas de colonos, queixando-se de que Marliere, um gonhava de chamar de bandeiras, inspirado nos caçadores de escravos do
não-católico confesso (!), estava malversando fundos e era complacente século XVII, deveriam ser enviadas para a floresta com intérpretes e padres,
demais com os botocudos, que continuavam com seus antigos hábitos, rouban- para persuadir os indígenas a se fixar em aldeias. As aldeias deveriam estar
do gado e destruindo plantações, cujas indenizações Marliêre postergava. Era sob a supervisão não de funcionários militares, mas de missionários. Postos
necessário mão mais forte, clamavam, para refrear "homens tão bárbaros"." militares, contudo, deveriam ser organizados nas proximidades, submetidos à
A rede de aldeias de Marliere chegava a cerca de duas dúzias ao final de autoridade missionária, talvez equipados com poucas e pequenas peças de
sua carreira, estendendo-se do alto Jequitinhonha até as cabeceiras do rio artilharia. José Bonifácio estava tão empenhado quanto qualquer dos conse-
Pomba, uma distância de quase seiscentos quilômetros, ao longo de uma faixa lheiros de d. Pedro em aumentar a força de trabalho das grandes fazendas,
de uns cem quilômetros de largura. No auge do assentamento, viviam nelas mas aceitava taciturno a realidade de que não se podia esperar que esses con-
uns 10 mil coroados e botocudos. Esforços similares no Rio de Janeiro e no vertidos de última hora à civilização constituíssem uma boa mão-de-obra
Espírito Santo haviam assentado vários milhares mais, sob circunstâncias agrícola; no máximo, poderiam servir em ocupações auxiliares, como condu-
menos benévolas que as do distrito de Marliêre, Todas sofreram o mesmo des- tores de mulas, pescadores, soldados de infantaria, lenhadores ou batedores.
tino nos anos de 1840. Suas populações rapidamente declinaram, à medidaque É evidente, contudo, que as modestas parcelas ele terra atribuídas ~IS suas
as infecções se espalhavam entre elas. Saint-Hilaire, que visitara uma série aldeias não se destinavam a mantê-Ios independentes - de um modo ou de
dessas aldeias e se confessara tomado de "piedade e mortificação" diante da outro acabariam por tornar-se assalariados subordinados às fazendas.
visão, previra: Marliere não teria nenhum sucessor, e sua obra, como a ele l-oram estas, pois, as linhas gerais da política adotada pelo império nos
todos os outros "agentes civilizadores", não teve "nenhum outro resultado qu anos seguintes. As bandeiras foram organizadas pelos governadores das
o de acelerar a destruição daqueles a quem ele queria fazer fel i7.CS" 1:1 províncias, e o ministro do império lhes aconselhava "tolerância e afabili-
Embora d. João viesse a entender que as rebeliões nativas cr.un reações dade". Aos notáveis locais, eram concedidas faixas de terra, onde residiam
aos maus-tratos e que as campanhas de pacificação envolviam "assassinatos grupos tribais, na suposição - um tanto hipócrita - de que mostrariam aos
e crueldades", não via outra maneira de lidar com os indígenas senão intimi- nativos o benefício da civilização. Em 1831, a mesma regência liberal, que
dando-os e mesmo destruindo-os. Os partidários da independência não divi- "abolira" o tráfico de escravos africanos, finalmente pôs fim ao estado de
saram medidas significativamente diferentes das do regime colonial. As guerra contra os botocudos e bugres, encerrando também a servidão daqueles
"Sugestões para a civilização dos índios selvagens", de José Bonifácio, apre- que haviam sido capturados, na medida em que a autoridade do governo
sentadas à Assembléia Constituinte, davam o retrato mais desdenhoso que se valesse pelo interior, declarando-os sob tutela do Estado, ao cuidado das
pode imaginar dos brasileiros nativos: vagabundos sempre envolvidos com o cortes de órfãos. Esse mesmo governo prosseguia seu curso de descentraliza-
roubo e a guerra, sem nenhum freio religioso ou civil sobre suas paixões, ção autorizando os presidentes das províncias a realizarem seus próprios pro-
eram dados por natureza à indolência, deixando o capim invadir suas hortas. gramas de pacificação.
Recusavam-se a abandonar a caça, receando que as aldeias assentadas não Em 1843, o governo imperial convidou capuchinhos italianos, já pre-

170 17/
sentes IIU Pllf~, li nssumircm a pacificação e assentamento de grupos tribais por inerentes à fundação de aldeias simplesmente assassinando nativos encontra-
lodo o 1l1'1I~1J. Acima dos missionários, estava um órgão governamental, o dos em terra cobiçada. Isso podia ser feito com menor risco agora, já que o
Sl'l'vl~'() dl' Cutcqucsc e Civilização, representado em cada província por um mercado brasileiro estava adequadamente abastecido de espingardas.
lln-tur, Novamente. como no início da invasão portuguesa, apelava-se para Começava a surgir a profissão de caçador de nativos e a expressão "matar
11111:1 l'urpora<,:ão religiosa estrangeira, desta vez uma que se supunha mais sub- uma aldeia" estava passando a ter as implicações contratuais de qualquer
mixsn li ingerência do rei que os jesuítas, mas, ao que se pode supor, nem um outra tarefa necessária para se iniciar uma fazenda, como "limpar um campo"
pouco mais inclinada a valorizar o ambiente da floresta, de onde deveria ou "construir um engenho". Em São Paulo, esses caçadores passaram a ser
extrair seu rebanho, ou o conhecimento que os indígenas tinham dela. O sis- conhecidos como bugreiros. Os funcionários das províncias, a despeito de
ICIII;I das missões não excluía inteiramente uma opção militar. No Espírito expirada a declaração de guerra aos botocudos, continuavam a autorizar
Sumo, uma fileira de guarnições era mantida ao longo da costa. Em São Paulo assaltos e, de fato, a cornandá-los: em uma expedição punitiva, em algum
c no Paraná, que foi separado de São Paulo em 1853, algumas colônias' mili- momento depois de 1838, próximo a São Mateus, no litoral do Espírito Santo,
tarizadas, destinadas a resistir aos ataques nativos, foram estabeleci das nos o comandante militar do distrito retomou em triunfo com trezentas orelhas.
extremos da Mata Atlântica. Destas, a última foi assentada em 1888, na foz do Outros nativos eram empregados nessas incursões, intensificando as rivali-
rio Iguaçu. A lei sobre as terras públicas, por tanto tempo adiada, foi aprovada dades entre eles. Às vezes, como forma de extorsão, pagavam-se indígenas
em 1850 e consagrou o princípio legal colonial de que todo o território para atacarem colonos neo-europeus, induzindo pedidos de que fossem todos
nacional pertencia à Coroa por direito de conquista, postulado 350 anos antes, eliminados. Os grupos que colaboravam não ganhavam com isso privilégios
quando a tripulação de Cabral lavrou uma cruz de madeira na areia da praia especiais; ao contrário, os brancos, tendo perdido o medo deles, roubavam
em Porto Seguro, extinguindo todos os direitos indígenas anteriores." suas terras bem mais depressa."
Embora a formação de aldeias prosseguisse até o final do século, erri mea- Aqui e acolá, alguns invasores procuravam poupar os silvícolas, após o
dos deste o zelo missionário das épocas anteriores, por meio do qual - como exemplo de Marliêre. Em 1852, Teófilo Otoni, uma figura política visionária,
afirmou o administrador das aldeias de São Paulo em 1862 - "tantas almas caindo em desgraça na corte por haver participado da rebelião liberal de 1842,
foram conquistadas para a religião, tantos homens para a civilização e tantas exilou-se no vale do rio Mucuri, onde colocou em prática um plano de aces-
mãos para o trabalho", "não mais brilha[ va] na Província". As aldeias so ao mar ao norte de Minas Gerais. Organizou uma companhia de transporte
tornaram-se obsoletas, seu papel perdera valor econômico. Nos anos de 1840, hidroviário e rodoviário e, associado a ela, fundou um povoamento em um
a zona de ocupação nativa da Mata Atlântica reduzira-se, em Minas Gerais, à dos afluentes do Mucuri, no terreno onde hoje está a cidade que leva seu
região entre os rios Doce e Jequitinhonha, onde os botocudos ainda vagavam nome. Ele a chamou de Filadélfia, em homenagem ao princípio adotado na
livremente, às vezes atacando intrusos. No Sul, as explorações do governo colônia Quaker da Pensilvânia de coexistência com os indígenas. Talvez pela
estendiam-se agora para além do rio Paranapanema e até o lvaí, e o povoa- primeira vez na história brasileira, os batedores que ele empregava tinham
mento neo-europeu, anteriormente confinado às pastagens próximas a ordens de não atirar nos indígenas, mesmo em resposta a suas flechas. De
Curitiba, avançava pelas margens florestadas dos rios Tibagi e Iguaçu. A fron- fato, os botocudos, por diversas vezes, atacaram os construtores da estrada.
teira neo-européia expandia-se mais depressa que antes, e os invasores dese- Otoni convenceu-os por fim - ao lhes devolver curucas, na maioria mulheres
javam impacientemente a eliminação dos indígenas. A ação predatória dos raptadas por soldados como escravas sexuais - de que não pretendia fazer-
nativos sobre o gado solto em seus antigos terrenos de caça enfurecia os fazen- lhes mal. Os índios cederam, então, parte de sua terra para a companhia e, em
deiros. O potencial de mão-de-obra desses silvícolas era de reduzido interesse. troca, Otan i lhes forneceu ferramentas de metal e cuidou para que as terras
Os neo-europeus sempre haviam tachado os indígenas de preguiçosos, mesmo que lhes restavam fossem devidamente registradas."
quando os escravizavam. Estes últimos grupos sobreviventes eram de utilidade Otoni pretendia que o Mucuri ficasse livre da escravidão; por isso, intro-
ainda menor que seus predecessores. Seu isolamento prévio deixara-os mais duziu imigrantes alemães, suíços, belgas e outros, colocando como requisito
suscetíveis a doenças, de sorte que morriam ainda mais rapidamente; não ti- que trouxessem poupanças em dinheiro e prometendo, em troca, que a com-
nham experiência alguma em agricultura, às vezes nem mesmo conheciam panhia os trataria como associados e não como proletários. Embora fre-
instrumentos de ferro e, então, não poderiam ser recrutados à força para ne- qüentemente Otoni fosse enganado por alguns de seus agentes de imigração
nhum trabalho regular. Os brancos começaram a rejeitar, como desordeiros e na Europa, que deturpavam as vantagens que a companhia oferecia ou envia-
improdutivos, os prisioneiros nativos que lhes eram oferecidos." vam patifes recém-saídos da prisão, o vale do Mucuri prosperou sob esse
Por isso, tornara-se comum a prática de evitar os aborrecidos atrasos regime liberal de igualitarismo e respeitóxmútuo. Filadélfia chegou a ter mais

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ele 4 mil residentes e os botocudos, não mais guerreando entre si, assumiam a porém, era separá-los definitivamente da selva. Nas aldeias, os capuchlnhos
agricultura e comerciavam com a população da vila. A paz que Otoni man- procuravam convertê-los o mais rápido possível em camponeses neo-euro-
teve entre seus colonos, a guarnição local e os nativos, em grande parte era peus. Eram vestidos, já que sua nudez representava para os brancos não só
devida à força de seu caráter e exemplo. Em 1862, contudo, opositores políti- tentação sexual e rejeição do recato cristão, mas também independência da
cos no Rio de Janeiro obrigaram-no a vender sua companhia ao governo civilização. Os capuchinhos davam aula em português e os nativos aprende-
imperial e a se retirar. ram a sentir vergonha de usar sua própria língua, só voltando a empregá-Ia na
Esse assentamento idílico sofreu, então, vicissitudes fatais. Eclodiram presença dos aldeães quando embriagados. Eram incentivados a desposar
conflitos entre indígenas e neo-europeus que continuaram até 1873, quando brancos e mestiços estabelecidos entre eles. O casamento legal com nativos
padres capuchinhos fundaram uma aldeia, chamada Itambacuri, cerca de era uma novidade que excitava a "curiosidade" e muitas vezes a "zombaria"
quarenta quilômetros ao sul de Filadélfia. Ao contrário dos jesuítas, os dos moradores das vilas, quando os padres traziam casais de noivos até os
capuchinhos, desde o início, misturaram neo-europeus entre os nativos, enco- cartórios. No fim desse processo de aculturação, os neófitos não tinham ne-
rajando o casamento interétnico. Durante vinte anos a aldeia manteve uma nhuma memória de seus costumes ancestrais e partilhavam do desprezo bran-
população de cerca de quinhentos indígenas e outros 2 mil vagavam pelas vi- co por seus irmãos não pacificados. As aldeias do período jesuítico, depois de
zinhanças, aparecendo na missão em dias santos. Aí também grassavam epi- quase um século sem tutela, haviam se tomado "nominais", segundo um
demias periódicas. Uma outra aldeia nas vizinhanças havia sido destruída por administrador, "onde, além de não ter mais que uns poucos mestiços, que mal
um surto anterior quando, em 1890, Itambacuri foi assolada por doenças se lembram da existência de seus antecedentes, são tão mesclados com a po-
introduzi das por refugiados de uma seca no Norte. Os colonos, que desejavam pulação atual que mal se conseguiria distingui-los", estando suas terras "qua-
se livrar dos capuchinhos, incitaram os indígenas a acreditarem que os mis- se totalmente ocupadas por invasores, alguns deles poderosos"."
sionários os estavam envenenando. Os índios se sublevaram em 1893, destruí- O desaparecimento de povos nativos da Mata Atlântica, íntimos da flo-
ram a missão e voltaram para a floresta. Alguns permaneceram inconforma- resta e empiricamente familiarizados com suas utilidades, não consternava os
dos e hostis, ameaçando a construção da ferrovia para Salvador até 1909. O neo-europeus. Os nativos tinham sido "ingratos, inconstantes, desleais, inve-
distrito desbravado por Otoni é hoje o mais pobre do Estado." josos", segundo Antônio Muniz de Souza, um observador brasileiro sem
Em São Paulo e Paraná, apenas seis aldeias foram fundadas após a inde- papas na língua, como outros do século XIX, que escreveu um livro de
pendência, mais por iniciativa de particulares. A mais duradoura foi a de João memórias de suas viagens pelo interior. Insistia em que os índios eram natu-
da Silva Machado, barão de Antonina, que em 1845 assentou em sua fazenda, ralmente "preguiçosos, desorganizados, fiéis a todos os vícios, principal-
na atualltaporanga, estado de São Paulo, centenas de caingangues, cujas ter- mente o de beber aguardente". Muitos outros autores concordavam com ele.
ras haviam sido roubadas, a que se juntaram diversos guaranis. O barão con- E, no entanto, Muniz de Souza reconhecia que as qualidades demonstradas
vidou um capuchinho para fazer trabalho missionário e obteve reconhecimen- pelos indígenas eram apropriadas a um ambiente do qual haviam sido priva-
to da aldeia pelo governo da província. Ele também trabalhou para a formação dos, ao passo que as qualidades de que careciam eram demandadas por uma
da aldeia de São Pedro de Alcântara, no rio Tibagi, no Paraná. Defendeu ali- sociedade que, esta si m, era arti ficial:
vamente seus protegidos, que eram atacados por bugreiros sempre que saíam
Tenho ouvido alguns homens, que pensam filosoficamente, dizerem que não há
de sua propriedade. Após a morte do barão e a queda do império, os grileiros
vida igual à dos índios, porque estes seguem a ordem da natureza. Não duvido
se apoderaram da fazenda, não obstante seu título ser garantido e ter mais de
disto; mas apenas na medida em que não sejam interrompidos por nós, ou por
meio século e apesar de a aldeia ter sido administrada conforme a lei. Em
nossa ordem social, que é inteiramente contrária à ordem da natureza que
1898, havia cerca de quarenta posseiros na terra. Em 1910, um agente do seguem.
recém-criado Serviço de Proteção ao Índio recomendava medidas para
reassentar os nativos - ele teria Ibes outorgado um oitavo de suas terras ori- De fato, admitia ele, seu presente estado de "constante miséria" devia-se
ginais - mas mesmo esta modesta concessão à justiça foi rejeitada." à circunstância "de que tiramos deles uma grande parte de suas terras e flo-
No final do século, portanto, quase todos os ocupantes originais da Mata restas", reduzindo seu suprimento de caça e outros recursos. Em compensação,
Atlântica tinham sido afastados ou expulsos. Residência permanente nas queixava-se de que os vizinhos dos indígenas haviam adquirido seus hábitos
aldeias era o sinal mais seguro de que a conversão se efetuara. Embora os deploráveis, em particular a "preguiça", que era generalizada no Brasil."
jesuítas não dessem a seus pupilos permissão para partirem, os capuchinhos Muniz de Souza estava descrevendo uma cultura rural nitidamente
ficaram satisfeitos em trazê-los gradualmente de volta; o objetivo último, mestiça, na qual os elementos indígenas.eram adaptáveis e úteis demais para

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que O~ iIlYWi!!I\'~ ():-; igllorilssl:m ou evitassem. Embora tivessem perdido suas Nacional foi solicitado a pesquisar a extração do corante, uma sugestão sen-
terras ~' sldl) I()rl;;ld(),~H SL:conformarem a uma ordem social mais poderosa, sata ainda que feita com centenas de anos de atraso. Infelizmente, nada resul-
llS 11111IV\lS lllll:ificados conferiram a esta elementos de sua própria ordem tou dela e as exportações da madeira corante desabaram, poucos anos depois,
s(ll'illl. (\)111 todu certeza, a economia, aparentemente uma construção integral com a invenção dos vistosos corantes de alcatrão mineral. O monopólio foi
riu colóuiu nco-curopéia e do império que a sucedeu, era muito singularmente finalmente abolido em 1859.34
Illlllt!iI(liI.jrt L:IIIpleno século X1X e até mesmo no século xx: pelas práticas e Enquanto isso, no interior, o extrativismo propiciava um meio de troca
preferências ele povos caçadores e coletores. entre os indígenas que continuavam na Mata Atlântica, fugindo ao seden-
tarismo e à sujeição, e os agentes comerciais das vilas e portos. É repugnante
Iistar, como um dos produtos extrativos, seres humanos, embora assim fosse,
A quarta questão importante para os interesses dos proprietários de terra como havia sido desde as bandeiras do século XVI. OS botocudos capturavam
era livrar-se da legislação florestal imposta desde o início da colonização. As as crianças de tribos rivais para vendê-Ias como curucas aos neo-europeus, ao
proibições reais do corte de pau-brasil e de madeiras de lei adequadas à cons- que parece a preços consideravelmente abaixo de seu valor de revenda.
trução naval negavam, em princípio, os direitos de domínio pleno da pro- Admitia-se que os nativos possuíam uma variada farmacopéia e esta era uma
priedade ela terra, mesmo que essas proibições recaíssem sobre áreas onde das maiores fontes de medicamentos. Em troca, eles obtinham ferramentas de
eram de aplicação quase impossível e fossem fáceis ele burlar. O império metal e armas, roupa, alimentos e cachaça, sempre cachaça. Alguns desses
dotado ele Constituição preservou esses monopólios por um certo tempo. Os produtos da Mata Atlântica eram exportados, principalmente a salsaparrilha,
interesses econômicos locais, já agressivos antes de a corte portuguesa deixar cinchonas falsas, ceras, bálsamos e ipecacuanha. Destes, o mais. importante
o Rio de Janeiro, abrigaram-se sob o novo regime para destruí-Ios. Em 1827, era a ipecacuanha, cujos derivados alcalóides eram, na época, apreciados
a responsabilidade pelo inventário das reservas florestais e a vigilância contra como ernéticos, adstringentes e sudoríferos.
o cone não autorizado de árvores passou do conselho tazendário do Rio de As exportações de ipecacuanha cresceram em volume de cerca de quatro
Janeiro e dos juizes conservadores para os juizados de paz, autoridades eleitas toneladas por ano, no início do século, para cerca de 25 toneladas no final dos
e subservientes aos proprietários locais. Uma lei de 1829 reiterou a proibição anos de 1860. Nesta época, contudo, caboclos do Rio de Janeiro, onde arvore-
ele derrubada em terras públicas, mas permitu que os conselhos municipais cios nativos da planta já haviam desaparecido, deslocaram-se para Minas
concedessem licenças. Em 1831, os hortos florestais foram extintos, encer- Gerais, obviamente atraídos tanto pelo extrativismo vegetal quanto pela espe-
rando assim a supervisão imperial da floresta litorânea sobrevivente, que rança de descobrir ouro ao longo das trilhas da floresta. Infelizmente para a
poderia ter imposto um regime de conservação e renovação florestal. As floresta, abriram estradas que estimularam o afluxo de migração bem maior de
proibições do corte não autorizado, em propriedade privada, de um número lavradores itinerantes. O tráfico de ipecacuanha não sobreviveu por muito
reduzido de espécies de madeiras de lei continuaram, entretanto, em vigor, tempo a esses coletores clandestinos, porque arrancavam a planta antes que ela
ainda que não aplicadas, até 1876.33 desse sementes, levando à extinção local. O tráfico começou a deslocar-se para
O governo imperial deteve ainda por algum tempo o monopólio de com- o Mato Grosso em 1830. Ali durou mais de um século, aparentemente pela
pra e exportação do pau-brasil. A madeira corante representava uma fonte adoção de método mais racional de coletar a planta: em vez de colhê-Ia na flo-
modesta mas valiosa de divisas que eram aplicadas na dívida externa e no ração, esperavam que ela desse sementes. Um certo pássaro (Lipaugus voei-
custeio do inexperiente serviço diplomático. Infelizmente, era um produto ferans), que se alimenta de sementes de ipecacuanha e as dispersa, era então
sempre fácil demais de contrabandear a partir de dezenas de pequenos portos seguido até as faixas da planta. Não parece ter havido nenhuma tentativa de
ao longo da floresta litorânea. Relatórios oficiais dos últimos anos de domínio cultivá-Ia, embora a idéia tivesse sido mencionada. Tal como no caso da bor-
colonial mencionam um volume maior de contrabando, apreendido ou dando racha e da erva-mate, essa proeza foi realizada em outra parte, na Índia. Essa
entrada em portos estrangeiros, que o volume das vendas oficiais. As receitas falta de iniciativa é ainda mais lamentável porque a ipecacuanha passou,
desse produto, portanto, raramente alcançavam o nível das previsões orça- recentemente, a ser considerada como um remédio contra disenteria amebiana,
mentárias. O governo tentava monitorar o corte do pau-brasil permitindo que esquistossomose e mesmo certos tumores."
fosse feito apenas por proprietários em cujas terras a árvore florescia. A medi- Indígenas e caboclos eram caçadores perseverantes. O naturalista alemão
da se mostrou inaplicável e foi revogada, seguindo-se outra que permitia o Georg Freyreiss relatou que muitos povos caçavam, passando dias, na floresta.
corte por empreiteiros em terra privada e, mediante licença, em terras públi- Procuravam presas para o comércio e também para subsistência: peles de ani-
cas. As receitas, entretanto, continuavam a cair. Em 1826, o diretor do Museu mais, pássaros vivos, peixes, macacos, floses, penas de pássaros, borboletas e

176 177
outros insetos. Muniz de Souza esbravejava contra os caçadores, a quem tempo que colocava uma cortina sobre a realidade do interior brasileiro. Os
chamava "a primeira classe dos vadios", mas uma pele de onça valia 6 mil réis, nativos, informava àqueles, estavam absorvidos nesse comércio juntamente
o equivalente ao preço de um boi. Agentes comerciais compravam peles para com os caboclos movidos pelo "sagrado amor ao trabalho"."
exportação, às vezes para serem vendidas como peças empalhadas para A realidade era a rápida invasão do comércio coletor pelos caboclos, que
exposição. Em Nova Friburgo, um taxidermista local chamado Beschke com- consideravam os indígenas apenas como um obstáculo ao acesso direto aos
prava peles de macacos, contribuindo, segundo consta, para-sua extinção local recursos da floresta e que tinham apenas aprendido muito bem a lição de que
em 1850. Coletavam-se, também, na selva, matérias-primas para a confecção de a maximização imediata dos lucros era alcançada mediante a rninimização
artesanato para os mercados das vilas. Nativos e caboclos descendentes de dos insumos de mão-de-obra e supressão de qualquer respeito que podiam
nativos, sedentarizados havia algum tempo, ou mestiços de mães indígenas con- eventualmente sentir pela floresta que os alimentava. As epífitas desejadas
tinuaram nas tradições do artesanato indígena usado pelos moradores das vilas: pelos agentes comerciais ingleses, belgas, franceses e alemães se aninhavam
esteiras de junco, cordoalhas, artigos de vime e os cestos tubulares de taquara nos galhos elas árvores mais altas da Mata Atlântica. A única maneira prática
usados para extrair o sumo venenoso da mandioca ralada. A floresta fornecia de obtê-Ias era cortar as árvores. Em 1853, o naturalista Hermann von
também cabos de ferramentas, tamancos e outros implementos de madeira." Burmeíster encontrou diversas árvores derrubadas naquilo que restava da flo-
Um dos primeiros entusiasmos que arrebataram os burgueses europeus resta primária na região de Nova Friburgo, onde ele também notara a presença
foi a coleção de flores tropicais. Fascinados pelas memórias de viagem de de uma das mais belas orquídeas, a Cattleya labiata. É possível que esses
cientistas como Humboldt, Von Martius e La Condamine, eram ávidos expo- cortes aleatórios estivessem a serviço do comércio ele orquídeas que, con-
sitores de troféus inanimados do mundo natural - objetos como fósseis, forme Burmeister notara, era organizado na região por um residente francês
pedras, pássaros empalhados e cristais. Tinham uma ânsia ainda maior de chamado Pinel. A extração de orquídeas, todas indiscriminada e imprecisa-
exibir aos amigos coleções vivas de flores frágeis, que exalavam perfumes mente chamadas de "parasitas" pelas pessoas do meio rural, continuou por
exóticos da floresta tropical, sugeriam perigos e dificuldades inimagináveis e algumas áreas até que a queimada da floresta para o plantio do café final-
revelavam a destreza do seu dono em jardinagem. Navios de carreira a vapor, mente pôs um fim ao tráfico. Consta que, no sudoeste de Minas Gerais, um
terrários, estufas aquecidas e ferrovias possibilitaram essas transposições sur- único agente embarcou mais de 20 mil orquídeas de uma única espécie, a
preendentes. A região planaltina da Mata Atlântica, com seus invernos frios e Oncidium varicosum rogersii. Eventualmente, todas as orquídeas de uma
chuvas sazonais intermitentes, era uma fonte excelente desses tesouros, dada localidade podiam ser removidas. Uma localidade, abandonada pelos
porque suas espécies resistiriam a sistemas de aquecimento domiciliar incer- garimpeiros de ouro anos antes, refloresceu na metade do século pela chega-
tos e inadequad.os da Europa setentrional e aos hábitos erráticos d.e rega de da de um agente comercial estrangeiro que comprava orquídeas até por 2 mil
jardineiros novatos. A caça de epífitas inflorescentes - bromélias, cactos e, réis a unidade. Moradores locais entravam alegremente na floresta com seus
sobretudo, orquídeas - tomava-se, assim, um grande negócio, empregando machados, abatendo árvores até que as orquídeas se tornaram tão raras que
agentes que se seguiram à primeira geração de cientistas cujos desenhos c não valiam mais o tempo do agente; então, segundo o botânico Álvaro da
espécimes secos haviam despertado seus instintos comerciais. Uma única Silveira, que relatou este caso, o "explorador dos caboclos" abandonou os
dessas firmas importava de 100 mil a 200 mil orquídeas por an037 "exploradores da floresta" e a localidade voltou a afundar na apatia."
Essas incursões no interior da Mata Atlântica, fazendo dela um alrnoxa- Para os colecionadores europeus, mais importante que a beleza, fragili-
rifado para os moradores das cidades da costa, e mesmo para os urbanóides dade e exotisrno era a raridade das epífitas. A raridade, em termos grosseiros,
sofisticados do mundo que se industrializava, sugerem uma homeostase salu- elevava o seu preço. A demanda pela raridade era outro dos perigos do comér-
tar, uma floresta primária convertida em "reserva extrativa", um conceito cio extrativista. Os caboclos, é óbvio, eram pagos de acordo com a raridade.
recentemente transformado em lei na Amazônia. As terras nativas não Qual o problema, então, se uma dúzia ou uma centena de árvores tivesse de
estavam, evidentemente, em nenhum sentido, reservadas no século XIX, ainda ser derrubada para achar um espécime das mais raras? Os caboclos não hesi-
que a imagem dos indígenas como iluminados, detentores exclusivos do saber tavam; eram capazes de abater uma árvore em busca de uma colméia ou de
sobre os usos da floresta, capazes de trocar seus produtos por dinheiro e ainda um animal. Charles Darwin, ao acompanhar uma equipe de caça próximo à
mantê-Ia íntegra, fora evocada em 1873 pelo botânico José Saldanha da Gama cidade do Rio de Janeiro, se admirara quando um de seus rudes anfitriões der-
em texto que apresentou, em Viena, em um congresso internacional de rubara uma árvore porque um macaco que ele alvejara em um de seus galhos
agrônomos e silvicultores. As observações de Saldanha da Gama eram não caíra no solo. Na verdade, o macaco havia sido alvejado no dia anterior,
românticas, destinadas a encantar especialistas estrangeiros cultos, ao raesmo de sorte que a qualidade da refeição quedele se obteria era, àquela altura,
\
178 \ 179
duvidosu. :"k II vnlor ele uma árvore era menor que o de um prato putrefeito .', .ocasionais e sem supervisão. Tomavam-se também serradores; na verdade,
de CII~·II.() que xcriu em relação a uma orquídea cujo valor poderia alcançar o ':cespecializavam-se nesta arte. A aldeia de São Pedro, no baixo Paraíba do Sul,
I\III~I'I() de uniu semana? Qual o problema, então, se todos os exemplares de .' era uma das mais importantes fornecedoras de madeira nobre para o Rio de
umn cxpécic rara fossem assim removidos? De fato, era do interesse do agente ,.Janeiro. Segundo o botânico austríaco Heinrich Schott, as terras da aldeia
;011 1I,;I'Cill I que todos lhe fossem trazidos, sem deixar nada para os outros. Ao " eram "extraordinariamente ricas" em diversas espécies valiosas de árvores e
Iinnl de sua temporada, ele não se oporia a garantir seu monopólio pagando ali-ele obtivera muitos de seus espécimes. Burmeister, que perambulou por
aos caboclos para queimar o que restara da floresta. No século xx, Mulford e grande parte do Rio de Janeiro e Minas Gerais, descobriu naquela área as
Rucinc Sarasy Foster, coletores de bromélias para jardins botânicos, preocu- maiores árvores que já vira no Brasil, algumas de 2,4 metros de diâmetro. É
pavam-se tanto em que seus achados mais raros não fossem explorados por .notável que essas aldeias - algumas, como a de São Pedro, fundadas no iní-
agentes comerciais que, freqüentemente, omitiam as localizações em seus cio do século XVII - ainda tivessem floresta primária para explorar. Mesmo
relatórios de campo." um observador tão afável como Saint-Hilaire queixava-se reiteradamente da
De longe, o mais valioso dos produtos extrativos da Mata Atlântica era "imprevidência" dos indígenas, embora eles tivessem preservado por séculos
sua madeira de lei. Equipamentos de serraria tornaram-se comuns em 1820; o que os neo-europeus normalmente destruíam tão logo avistavam. Só
em 1838, havia 53 serrarias em São Paulo. Nos anos de 1850, a siderúrgica podemos especular a respeito dos motivos que levaram os indígenas a explo-
de Monlevade, em Minas Gerais, estava fabricando lâminas para serrarias. rar e vender, po.' fim, a floresta que lhes fornecera caça e recursos coletados
Havia surgido uma modesta demanda externa de madeiras de lei, vendidas durante séculos."
sob os nomes genéricos de jacarandá, pau-rosa ou palissandra e utilizadas em Nas terras altas, que não dispunham senão de transporte de mula, a
marcenaria fina. Pranchas de madeira de lei eram vendidas a 280 mil réis (150 madeira de lei tinha pouco valor para os proprietários de terra, afora suas
dólares) a dúzia, quase o mesmo preço, por peso, do café. As serras operadas necessidades imediatas. Quando uma faixa de floresta tinha de ser queima-
mecanicamente também tornavam mais comerciais as espécies de valor infe- da, suas árvores raramente eram tiradas de antemão. Tal material útil pode-
rior no mercado interno. Reduziam, até pela metade, os custos dc construção ria ter sido armazenado para necessidades futuras, mas, ao que parece,
e estimulavam a construção naval." armazenar era uma prática ainda mais rara, sugerindo que a imprevidência
A derrubada comercial de madeiras de lei era realizada em vales dos seria mais justamente atribuída aos neo-europeus. Francisco de Lacerda
rios abaixo das corredeiras; na região da Mata Atlântica, essa era uma área Werncck, um fazendeiro do Rio de Janeiro, deplorava o "maior desperdício
muito limitada, devido à barreira dos penhascos costeiros. Grande parte das [que] se encontra entre quase todos os lavradores, não apenas permitindo
madeiras de lei era mais pesada que a água e, então, tinham de ser trans- que a madeira apodreça no chão, quando poderiam carregá-Ia e guardá-Ia
portadas em balsas junto com madeiras mais leves para trazê-Ias ao porto, em depósitos, mas~bém colocando fogo nela com o maior sangue-frio,
mas descê-Ias por cascatas ou corredeiras era muito mais difícil. Ao longo como se estivessem praticando um ato heróico". Ao final da corrida ao ouro
do estreito litoral, grande parte da floresta foi queimada pelo menos uma em Minas Gerais, as madeiras de lei haviam se tornado extremamente
vez nos trezentos anos desde a invasão portuguesa; a floresta secundária, escassas e caras nas vilas, porque toda a floresta primária desaparecera de
que se seguia a tal evento, não conteria espécimes maduros durante um suas imediações, uma realidade econômica que era previsível e talvez
século ou mais. Trezentos anos de corte de árvores empregadas na cons- pudesse ter sugerido uma oportunidade de lucro para lavradores mais pru-
trução naval haviam tornado escassas muitas das melhores espécies, mesmo dentes e frugais."
em matas que não haviam sido queimadas. Além disso, mesmo na mata Espantosamente, o Rio de Janeiro importava mogno da Jamaica, pagando
virgem, apenas umas poucas espécies eram consideradas comerciais; e consideravelmente mais caro por ele que pelas madeiras nobres locais.
nunca eram encontradas em bosques densos, mas sempre espalhadas na flo- Saldanha da Gama espantou-se de ver o jacarandá sendo utilizado na Europa
resta primária remanescente. Todas essas circunstâncias encareciam consi- para o mais refinado trabalho de marcenaria. Sem dúvida, a mentalidade emi-
deravelmente os custos e reduziam a viabilidade de encontrar e extrair nentemente burguesa, que deprecia o que é local, estava em ação, possibilitan-
madeiras de lei." do margens de lucro desnecessariamente altas para importadores ingleses e
Não é de admirar, portanto, que grupos tribais que haviam sido assenta- franceses de madeiras brasileiras. O custo para o novo império não era insigni-
dos em aldeias fossem capazes de se integrar no comércio como lenhadores. ficante, mas tampouco era grande. As madeiras de lei representavam uma
Inteiramente familiarizados com o terreno, eram especializados no reconhe- parcela muito pequena das exportações: todos os produtos extrativos da Mata
cimento das espécies de árvore e estavam dispostos a trabalhar em tarefas Atlântica juntos representavam menos que 2'0/0 do valor das exportações."

180 181
***
o Brasil independente, liberado da opressão mercantilista, não mais um
peão movido por uma monarquia portuguesa avara para defender seu jogo no
tabuleiro de xadrez europeu, decidira adotar políticas autônomas que lhe per- 8
mitissem prosperar acelerando a exploração de seus recursos- naturais, intensi-
ficando, em suma, a economia extrativista colonial, mas agora em uma era de O CAFÉ DESALOJA A FLORESTA
livre comércio e agricultura racionalizada. A Mata Atlântica era um ativo fun-
damental e a maneira de administrá-lo não diferiria da dos tempos passados.
Nem todo membro da elite aprovava essa trajetória. Alguns devem ter
concordado com José Gregório de Moraes Navarro, cujo panfleto contra a de-
vastação da floresta foi publicado na virada do século por Conceição Velloso:
Dirão que esta conduta dos brasileiros é muito útil e vantajosa porque, de outro Consolemo-nos com a consideraçãode que a terra foi dada
modo, nenhum proveito poderia ser tirado dessas imensas matas, hábitat oculto das [ao homem,
feras selvagens; a grande variedade das árvores e plantas, seus usos ou virtudes, não que as matas caem para estender o domínio da civilização.
poderiam ser conhecidos. Os ricos tesouros que a terra esconde em seu seio não THEODOR PECKHOLT (1871)
poderiam ser descobertos, as nações bárbaras que eram delas nativas não poderiam
ser civilizadas, o comércio interno e estrangeiro daqueles vastos domínios não
poderia ser incrementado. Finalmente, dirão que, segundo nosso mesmo princípio,
As políticas sociais exigidas pelos grandes proprietários de terra do Brasil
uma vez que a terra sempre é capaz da mesma produção, não faz diferença que os
independente e imperial garantiam-lhes uma força de trabalho e os credenciavam
homens por um certo tempo a esterilizem porque quando não tiverem mais terras
novas que voluntariamente ofereçam seus produtos naturais, depois que toda a terra
a qualquer porção de terra pública que quisessem chamar de sua. Essas políticas
estiver povoada, depois que toda a raça de animais selvagens e venenosos se extin- não podiam garantir, no entanto, que o emprego dos recursos assim assegurados
guir, depois de civilizar e elevar as pessoas do meio das feras, então elas farão uso gerassem capital; na verdade, esse monopólio autoritário em grande parte frus-
daqueles meios que a necessidade e o esforço puderem demonstrar como mais con- traria sua utilização eficiente. No interior, havia vastas posses, habitadas por
venientes para ressuscitar a fertilidade anterior da terra. esfomeados e controlada por sátrapas cuja reserva de capital consistia em bois e
porcos e cujas habitações, vestuário e conhecimento do mundo eram pratica-
Tais eram, freqüenternente, os argumentos em favor de estabilizar o mente indiscerníveis dos de seus camponeses e escravos. A independência não
curso da economia brasileira. No entanto, Moraes Navarro se perguntava,
exorcizara uma realidade colonial crítica: o capital para transformar essas terras
"poderão eles alcançar todas essas vantagens sem se privarem de muiris ou-
estéreis em riqueza e poder efetivos tinha de vir do estrangeiro, através da venda
tras, que mediante seu erro estão perdendo, e que seus descendentes não serão
de mercadorias apreciadas pelos países mais ricos. Quase tudo o que favorece-
capazes, mesmo que o queiram, de reparar?"." Essa pergunta foi ignorada
ria tal fim precisava ser obtido na Europa. Desta vinha também o luxo que sig-
depois da independência política. O Estado transferiu para os grandes
11 ilicava status para uma elite jovem que, durante quinze anos, observara de perto
proprietários de terra, e para os que tinham recursos para virem a sê-Io, o
o seu consumo por parte de seus mentores e mestres da realeza.
direito de converter a floresta em dinheiro o mais depressa possível. Os obs-
A independência havia melhorado as condições nas quais tais transfe-
táculos ao domínio senhorial desse vasto reservatório de matérias-primas -
rências eram possíveis, porque banira o jugo do mercantilismo, já retraído
seus habitantes indígenas e o Estado enquanto guardião do patrimônio nacio-
quando a corte se transferira para o Brasil. De fato, o governo britânico obri-
nal e protetor de brasileiros que nasceram escravos mas que seriam futuros
gara o império a adotar uma política de livre comércio em troca do reco-
cidadãos - tinham sido superados pelo controle alcançado sobre o Estado e
nhecimento. Embora esse tratado caducasse em 1845 e tarifas mais elevadas
pelo seu poder privado inteiramente incontestado. A Mata Atlântica passaria
fossem então progressivamente impostas, a avidez do governo em estimular
por uma nova provação quando seus proprietários de terra se desviassem para
as exportações jamais esmoreceu. O governo imperial desejava ampliar o
uma forma nova e drástica de produção. Abandonando em grande parte a
comércio porque praticamente toda a sua receita derivava de taxas de impor-
busca de pedras e metais preciosos, tornaram-se novamente agricultores,
tação. As importações não eram apenas uma f~nte conveniente de taxas; dada
adotando uma cultura exótica de enorme potencial econômico.

182 183
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_-'-- " 11 fragilidade tI<, governo, t:J':II11 a única lente viável. Um pequeno serviço
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, alfandegário. facilmente monitorado, arrecaduvu em alguns pontos contro-
~ 12 láveis. Aplicadas a fabricantes e comerciantes estrangeiros, as tari Ias não
;;; C3 8 oneravam diretamente os cidadãos brasileiros; na verdade, elas despertavam
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~ ro Õ maior lealdade por parte dos artesãos do país. Além disso, ar tarifas de impor-
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'" ~ rg o tação podiam ser arrecadadas em ouro, colocando assim nes mãos do império
8'" ooo?,
'" o os meios de saldar pagamentos de sua dívida externa - na verdade, uma
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parcela da dívida portuguesa -, que os ingleses o haviam forçado a assumir
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t:: 8 'ü como mais um dos custos do reconhecimento e que, desde então, o império
~O:-<Ç> passou imprudentemente a ampliar. As divisas estrangeiras também lhe per-

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mitiam importar por sua própria conta utilidades, como equipamento militar,
por exemplo, para aumentar seu poder. Dessa forma, as metas dos proprie-
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'''' tários de terra - pelo menos daqueles cujas propriedades ficavam a uma dis-
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tância conveniente dos portos - coincidiam com as do governo independen-
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para cobrir as despesas do Estado.
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podia restabelecer sua proeminência. As jazidas remanescentes, muito explo-
radas durante a estada do rei no Rio de Janeiro, não davam base a grandes
esperanças, pelo menos não nos termos da tecnologia em vigor. O barão Von
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!,:;", ..• ....~_;. .~ ""-.f, ,":,..;."..,"" ., __
o '. ,..,r;S O O t:11~ Eschwege, o mais ativo especialista contratado para ressuscitar o setor, previa
a necessidade de métodos de uso mais intensivo de capital. Desanimado com
a capacidade dos notáveis locais de cooperarem em empreendimentos de
grande escala devido a "inveja e desconfiança", procurou estabelecer, perto de
o Ouro Preto, uma usina de laminação com respaldo do governo. Eschwege fra-
01
~ cassou, segundo seu relato, porque foi assediado por um enxame de fun-
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cionários que bloqueavam todos os seus passos. Aparentemente, ele não se
~ dava conta de que tais pessoas só estavam atrás de propinas. A corrida do ouro
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empregara inúmeros servidores públicos que agora, quando o fluxo de ouro
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"O se esgotava, estavam desesperados para restabelecer suas rendas. Os "ciclos"
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U) de exportação, tão característicos da história econômica brasileira - em que
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"O por certo tempo, ainda que de modo ineficiente, um produto é gerado com
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.S2 sucesso com base na fartura da natureza, mas depois desaparece do comércio
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mundial à medida que aquela fartura escasseia e que se fracassa em aplicar
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~ técnicas mais eficientes de produção -, em grande parte resultam da inca-


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ê<í pacidade de combinar capitais e iniciar uma exploração mais intensiva e
~ livrar-se do parasitismo burocrático.'
< Os capitalistas ingleses logo ocuparam esta lacuna e constituíram uma
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00
o, série de companhias de mineração de ouro. A maioria delas faliu, mas duas
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~ foram bem-sucedidas, aplicando as técnicas de poço fundo dos mineiros de
Cornwall aos poucos veios importantes que haviam sido localizados, em

185
Gongo Soco, próximo de Caeté, e em Morro Velho, perto da atual Belo e solitários, sob a suspeita do diretor do Jardim, Leandro do Sacramento, de
Horizonte. Juntas, essas operações somavam menos de um décimo daquilo estarem deliberadamente ocultando as técnicas de beneficiamento. Era con-
que se obteve durante o pico da corrida do ouro na metade do século XVIII. A siderável a confusão em relação ao seu trabalho: Darwin ficou surpreso e
caça ao ouro prosseguia nos confins da Mata Atlântica, financiada por indiví- desapontado ao descobrir que o chá, que ele viu no Jardim Botânico em 1832,
duos endinheirados, e pequenas descobertas podem ter sido secretamente sistematicamente plantado em fileiras retas, era um "arbustozinho insignifi-
exploradas aqui e acolá, porque o império era menos eficaz que o vice-reino cante". Achou que a infusão preparada com as folhas verdes, que gentilmente
no policiamento das fontes de renda, mas a grande corrida do ouro havia ter- lhe feira servida por um dos jardineiros, "mal possuía o aroma próprio ao
minado. Muitas vilas mineradoras entraram em decadência e seus moradores chá". Na época, o mais avançado conhecimento botânico ocidental acredita-
vagavam pela floresta para reassumir a lavoura da derrubada e queimada, va que o chá verde e o chá beneficiado derivassFm de espécies diferentes. É
ainda que com um olho sem dúvida voltado para os riachos promissores. Na bem possível que os plantadores chineses de ch'lj estivessem acostumados a
verdade, é provável que a fronteira do século XIX tenha sido dilatada tanto beber seu chá verde e simplesmente não soubessem como secá-lo de forma a
pela constante esperança de novamente descobrir ouro e diamantes em algum torná-Ia aceitável para o paladar ocidental."
lugar à sombra da floresta, quanto pelo caráter extensivo da prática agrícola, Sacramento parece ter desistido de tentar extrair dos chineses os "segre-
de sorte que a falta de um achado de ouro pode ter sido quase tão danosa para dos" do beneficiamento do chá, antes mesmo de se aposentar da diretoria do
a Mata Atlântica quanto a própria descoberta de ouro o havia sido.' Jardim Botânico. As plantas, contudo, interessaram pelo menos alguns pro-
Os proprietários de terra ou o governo tampouco se mostravam capazes prietários.de terra. Ela crescia prodigiosamente até em solos inapropriados. O
de avançar na aclimatação e desenvolvimento das culturas tro-icais que tanta produto era extremamente leve em relação ao seu valor e assim podia ser
atenção mereceram dos botânicos brasileiros e portugueses. O Jardim Botâ- transportado até nas execráveis trilhas de mulas que eram a única ligação da
nico do Rio de Janeiro e o museu de história natural rapidamente foram rele- maioria dos agricultores com os portos. Embora o chá exigisse um trato
gados ao quase abandono. Observadores estrangeiros notavam, consternados, cuidadoso, o trabalho era leve e, conforme esperavam, poderia ser executado
que o Jardim Botânico, enriquecido com tantas espécies exóticas, não passa- facilmente pelos filhos de seus escravos. A província de São Paulo importou
va de um parque público no qual não se desenvolvia mais trabalho botânico um segundo grupo de chineses supostamente qualificados no cultivo e uma
algum. É sintomática da mudança de concepção das novas autoridades uma série de fazendeiros importantes decidiu plantar o chá, inclusive José Arouche
ordem, em nome do imperador recém-aclamado, escrita por José Bonifácio de Toledo Rondon, que escreveu um ensaio sobre seu cultivo e preparação.
de Andrada e Silva, agora não mais um cientista praticante, mas o conselheiro Também houve plantios experimentais no Jardim Botânico de Ouro Preto e
político mais próximo de d. Pedro. Requisitava ao encarregado do museu os de Santa Tereza, no Rio de Janeiro. Infelizmente, amostras de chá enviadas à
espécimes embalsamados de tucanos, "aqueles que têm as gargantas bem Inglaterra em 1837 não foram recebidas favoravelmente. Experimentos con-
amarelas", deixando apenas dois para exibição, de sorte que se pudesse con- fusos prosseguiram nos anos de J 850 e certa quantidade do produto conti-
feccionar um manto emplumado a tempo da coroação. Os dignitários es- nuava a ser oferecida nos mercados locais. O cná o: asileiro, porém, não con-
trangeiros testemunharam assim o intento exótico da nova dinastia de saquear seguia ser exportado. Segundo um especialista da época, era mais de duas
seus recursos nativos para consolidar seu poder. O manto permanece em vezes mais caro que o chá chinês da mesma qualidade. É possível que, com
exibição no museu imperial de Petrópolis, um atestado da prioridade da nação mais esforço, os custos de cultivo pudessem ter sido reduzidos e a qualidade
em relação à natureza.' melhorada. O horticultor belga Jean-Christian Heusser considerou falhos os
O experimento mais inovador e conduzido com mais determinação, que métodos de beneficiamento e propôs melhorias muito simples. Tais medidas,
se iniciou no Jardim Botânico no governo do último rei português, foi a ten- 110 entanto, não foram adotadas. O Brasil foi obrigado a importar a maior
tativa de aclimatar o chá. Os plantadores chineses de chá, trazidos de Macau parte do seu chá, e apenas um século depois os colonos japoneses imigrantes
em 1814 para cultivar as plantas e ensinar métodos de beneficiamento das fo- foram capazes de abastecer o mercado interno.'
lhas, continuaram a trabalhar assiduamente no Jardim Botânico. Os visitantes É possível que as dificuldades experimentadas na introdução de novos
comentavam a perfeição das plantas, que produziam seis colheitas por ano, produtos no mercado decorresse em parte de preferências imperiais não reco-
comparadas às quatro que rendiam na China. É difícil imaginar o desespero nhecidas. É evidente que a Companhia Britânica das Índias Orientais, uma
desses imigrantes infelizes, de quem o isolamento e o desenraizamento ex- empresa ainda monopolista, desejou manter seu controle do mercado, com
tremos não encontram nenhum outro paralelo no agitado século XIX. Per- base em sua fonte chinesa. Nos anos de 1840, os interesses ingleses voltavam-
maneceram trabalhando no Jardim Botânico pelo menos por dez anos, alheios se para o cultivo do chá em Assam; os brasileiros suspeitam de que eles podem

186 187
ter de seu produto. Era visível a rivalidade econômica
il\tt'll'l\lldUIIIlIl\.',\,;jtuçilo
A maior parte do açúcar, e praticamente todo o açúcar para exportação,
1'~\II~nl)dos
1111 Irnnccses diante das notícias de que o Brasil estava cultivando era produzida em usinas movidas a boi ou água - engenhos - que unifi-
:1I~.11,11\ I K.\K. () botânico D. M. Guillemin foi enviado ao Rio de Janeiro para cavam a moagem e a cristalização. As usinas menores eram designadas, de
IIHIIl'doJ1lll' úSSéS esforços e para levar sementes para a França, de onde pode-
forma pejorativa, engenhocas, às vezes operadas manualmente. Em geral, o
rlnm SUl' implantadas em suas próprias colônias. Para seu crédito, trouxe con- seu produto era cachaça e não açúcar. A cachaça das engenhocas, destilada
Slgl) várius sementes em troca, mas nenhuma era de valor potencial com-
diretamente da garapa, era considerada superior à dos engenhos, destilada do
purrivc! Quaisquer que fossem os interesses do colonialismo europeu, pelo licor que sobrava do beneficiamento, A força de trabalho nas grandes fazen-
IIIU!IOSos comerciantes norte-americanos, que não possuíam nenhuma colônia das de açúcar era diversificada. Em algumas áreas, os proprietários de terra
tropical e que obtinham apenas uma cota mesquinha do fornecimento chinês, comandavam suas próprias turmas de escravos, que podiam passar de uma
bem podem ter refletido sobre o absurdo de se enviar navios, passando pelo centena. Em outras, os proprietários dividiam parte de seus campos em lotes
Rio de Janeiro, até os confins de Cantão em busca de um produto que, conve- entregues a parceiros, que empregavam familiares e um escravo ou dois,
nientemente, poderiam comprar dos brasileiros. Ao invés, o Rio de Janeiro instalavam suas próprias moendas de madeira, improvisavam potes para
continuava a importar dos Estados Unidos parte do chá que consumia!" cristalizar o melaço e entregavam metade da produção para o dono da usina."
A política do governo colonial em relação à produção de açúcar e álcool,
a partir de 1681, tinha sido aparentemente conservacionista: nenhuma usina
A região da Mata Atlântica experimentou por um certo tempo o renasci- de açúcar podia ser construída a menos de meia légua (3,3 quilômetros) de
mente da exportação de sua cultura mais tradicional e menos aprimorada, a outra, considerando que as reservas florestais de cada usina tinham de ser
cana-de-açúcar. As plantações de açúcar do Rio de Janeiro haviam entrado em grandes o bastante para garantir a lenha necessária aos processos de fervura e
declínio no início do século XVIII com a descoberta do ouro, o que aumentou cristalização. Em Minas Gerais, a construção de engenhos foi proibida
o custo da reposição de sua força de trabalho escrava. O açúcar brasileiro durante todo o século XVIII, salvo com a autorização do governador, sob a jus-
perdera mercados da Europa setentrional quando os holandeses, franceses e tificativa de que desviava trabalhadores da lavagem de ouro e gerava dis-
ingleses estabeleceram plantações em suas colônias insulares no final do solução e desordem. A despeito de tal medida, centenas de engenhocas ope-
século XVIl. Assim, as exportações do açúcar brasileiro sofreram múltiplos raram durante a corrida do ouro e do diamante. Em 1802, d. João assinou
desfalques, atingindo a média de pouco mais de 10 mil toneladas anuais nos outro decreto, insistindo na utilidade das medidas anteriores, ainda que
anos de 1750, pouco mais da metade da média de cinqüenta anos antes. As admitindo que estas haviam sido ignoradas. Para evitar o descumprimento no
exportações voltaram a crescer no final do século, à medida que a revolução futuro, a exigência de autorização governamental foi estendida a todas as ca-
e o conflito mercantilista assolavam o Caribe e o oceano Índico, elevando os pitanias. Talvez, até certo ponto, tenha vigorado. Objetava-se, provavelmente
preços e atraindo os comerciantes dispostos a correr os riscos aumentados do com justiça, que essas medidas eram meros pretextos para manter os privilé-
comércio em tempo de guerra, Em 1800, o Brasil vendeu cerca de 24 mil gios dos proprietários das usinas existentes e relegar os pequenos produtores
toneladas de açúcar.' de cana a uma situação de dependência. As medidas eram também uma opor-
A cana-de-açúcar era cultivada em quase todo povoado neo-europeu na tunidade para extorsões informais por parte dos funcionários da Coroa: é
região da Mata Atlântica porque o mascavo - açúcar não refinado, saturado patente, por exemplo, que o governador do Espírito Santo tirou partido do
de melaço - era um gênero básico e porque a garapa era a matéria-prima decreto de 1802 para favorecer seus interesses particulares. 10
para a destilação da aguardente. Centenas, talvez milhares, de pequenos O status especial, e contraditório, desses produtores de açúcar que eram
engenhos primitivos atendiam a uma demanda interna consideravelmente donos de engenhos fica evidente no epíteto que sempre os acompanhou: se-
maior que a do mercado ultramarino. Enquanto cultura de plantation, pro- nhores de engenho. Imagine-se um dispositivo tão complexo quanto um en-
duzida em larga escala para exportação, o açúcarera importante em núcleos genho como o domínio de um senhor - um título que tinha tudo a ver com
dispersos ao longo das baixadas costeiras úmidas, de Natal ao Rio de Janeiro. status social e nada a ver com engenhosidade ou empreendimento. O decreto
O plantio comercial do açúcar tornou-se lucrativo também, marginalmente, de Pombal, de 1758, isentando os fazendeiros de açúcar do Rio de Janeiro de
no planalto paulista, após o calçamento, em 1792, da trilha de mulas que processos por dívida, resumia e legitimava o privilégio feudal de uma elite
descia a escarpa costeira até Santos. Alguns anos depois, autorizava-se a colonial imersa em um regime que, quanto ao resto, era implacavelmente
exportação direta a partir daquele porto. A produção paulista continuou a se mercantilista. Sem dúvida, a intenção era proteger os recursos daqueles de
expandir; em 1836, havia 558 usinas em operação.' quem se esperava a geração de receitas p<l{ao regime. Em 1807 e 1814, essa

188 189
medida economicamente retrógrada era ratificada no governo de d. João, cuja tação que ela substituía, era colhida após um ano e deixada a rebrotar de suo,
corte supostamente se inclinava para o liberalismo. Nesses decretos, pelo raízes por duas colheitas mais, para depois ser queimada e replantada. O ciclo
menos, a proteção ficava limitada a casos nos quais a dívida total era menor se repetia por uma ou duas vezes e depois o campo era abandonado para
que o valor da fazenda. Evidentemente, a Coroa procurava preservar da frag- reverter a floresta, a princípio pelo tempo necessário para se formar uma
mentação as plantações geradoras de receita, com base na premissa de que os capoeira moderadamente alta, talvez vinte anos. Quando os preços subiam, a
que operavam em pequena escala não iriam exportar. Foi apenas em 1827 que fase de pousio era abreviada para até três anos. Essa prática, contudo, reduzia
o império encerrou as restrições quanto à construção de engenhos e, em 1833, a fertilidade, e assim os ciclos de plantio também tinham de ser reduzidos,
restabeleceu suas obrigações para com os credores." talvez para um único plantio. I)

A ressurreição do açúcar ao final do século xvui incentivou certos pro- Por fim, após vinte ou trinta anos, o fazendeiro perderia o interesse,
prietários de terra a instalar algumas das melhorias que havia muito eram declararia sua terra "cansada" e faria a solicitação de outra sesmaria. O culti-
comuns no Caribe. A transição para técnicas mais eficientes de moagem foi, vo do açúcar espalhou-se, assim, para além da planície de Campos, rumo ao
contudo, muito gradual. Embora a mudança dos cilindros da posição vertical norte e interior do sul do Espírito Santo e rumo a oeste e interior do piernonte
para a horizontal e a adição de um terceiro cilindro tivessem sido introduzi- florestado; no planalto paulista, mais para o interior, depois de Campinas. A
das pelos menos um século e meio antes, essas alterações não tinham sido prepotência dos senhores de engenho pode ter sido um impedimento à intro-
generalizadas. Após os ferreiros estrangeiros instalarem oficinas no Rio de dução oportuna de técnicas mais intensivas. Certamente mostraram-se menos
Janeiro, a partir de 1837, cilindros de ferro fundido ou de madeira com chapa que receptivos a conselhos técnicos, na visão do infatigável viajante Antônio
de ferro foram instalados em muitos dos engenhos das baixadas e em alguns Muniz de Souza, que encontrou muitos desse tipo que o informavam
do planalto. A maioria dos engenhos era, no início da reativação, operada com
de que não há nada em todo o macrocosmo maior que seu engenho; de que não há
força animal; relativamente poucos eram movidos a água. Em 1818, um en- nenhum método melhor, nem meios mais fáceis de fabricar açúcar que aqueles que
genho movido a água, próximo à corte, era uma curiosidade digna de ser adotaram e empregam e, finalmente, eles presumem que não pode haver nenhuma
exibida a um visitante estrangeiro. O primeiro engenho com cilindros movi- maneira ou princípios sobre os quais estes mesmos métodos poderiam ser refor-
dos a vapor foi construído em 1816. Daí em diante, a conversão prosseguiu e, mados ou modificados, inclusive os abusos e perdas que ainda deles derivam."
pelo menos na região de Campos, os engenhos movidos a vapor eram comuns
em meados de 1850. O "trem jamaicano" - a disposição ordenada de tan- As exportações brasileiras de açúcar podem ter chegado em média a 16
ques de fervura graduados por tamanho, mais econômicos em combustível, mil toneladas por ano durante todo o século XVIlI, aumentando talvez para 30
parece não ter se generalizado nos engenhos da baixada até 1800, ainda que mil toneladas em 1850. Isso sugere a produção para exportação de cerca de 2,6
tivesse sido inventado, provavelmente no Brasil, nos anos de 1650. Termô- milhões de toneladas por um período de 150 anos. Qual o tamanho da área da
metros que indicavam quando os melaços da cana estavam prontos para cris- Mata Atlântica que linha de ser derrubada para produzir 2,6 milhões de
talização começaram a ser importados nos anos de 1840. O uso do bagaço pa- toneladas de açúcar? O coeficiente extrativo provavelmente não era melhor, em
ra combustível era desconhecido, exceto em Campos, e, mesmo em 1850, era média, que 3,5°;(!, ou 74 milhões ele toneladas de cana. Os canaviais rendiam
incipiente." cerca ele cinqüenta toneladas por hectare, de sorte que os campos suficientes
Melhorias na moagem não implicaram melhorias no plantio. A cana para cultivar essa quantidade teriam ocupado a média de mil km'. Se os fazen-
taitiana, trazida triunfalmente de Caiena, foi rejeitada pela maioria dos fazen- deiros cultivassem seus campos por cerca de vinte anos, então a derrubada,
deiros. Embora essa variedade fosse de crescimento mais rápido, mais durante um século e meio, totalizava 7500 km', Parece provável, contudo, que
resistente aos ventos e de rendimento maior, seus talos eram mais finos e parte dessa área tenha sido recrutada de florestas secundárias nascidas em cam-
muito difíceis de moer com cilindros de madeira ou de madeira chapeada com pos usados há mais tempo, ou então, principalmente na região de Campos, de
ferro. O cultivo era realizado da mesma maneira que a lavoura de subsistên- terrenos que haviam sido pastos naturais ou criados pelos indígenas. Jj

cia, de derrubada e queimada. Em certas áreas convertidas à cana, a vegetação A cana-de-açúcar também consumia a floresta na forma de combustível
original ou induzida pela pecuária bovina tinha sido a pastagem; em outras, para os tanques de fervura. Havia muita preocupação, principalmente no
especialmente na área a leste da baía da Guanabara e no planalto paulista Nordeste, com a enorme demanda dos engenhos por lenha. As exigências de
próximo à capital da capitania, persistia apenas a floresta secundária. Mas a combustível foram muito reduzidas pela implantação do trem jamaicano, de
floresta primária era queimada e derrubada em toda parte onde ocorresse, cerca de quinze para cinco quilos de lenha por quilo de açúcar. Devido a essa
porque recobria os solos mais férteis. A cana, plantada nas cinzas da vege- melhoria não ser ainda de uso geral, mesm~\~m 1800, talvez sete quilos este-

190 191
ja J1wis P\"!'IO rlu verdade. Uma demanda de 18 milhões de toneladas de da armada. A cachaça era colocada em barris, preferivelmente de canela
mudchn dlll'illlIl' ISO anos teria consumido cerca de novecentos km2 de flo- . tOcotea spp.). Todas eram árvores da floresta primária. Os bois puxavam cana
rcsm. ~IIP()lId()-s(;que duzentas toneladas de lenha adequada para os fornos dos campos e moviam os engenhos menores. Tinha-se de formar pastos para
jlll(\L'SSI.'I)1
ser encontradas em um dado hectare. Grande parte dessa lenha '~ alimentá-los. À medida que os canaviais substituíam o gado na região de
111Il!l1(;lIl
teria sido extraída de floresta secundária ou, no início do surto da Campos e penetravam na terra florestada do planalto paulista, esses animais ti-
:1\1111,
pelo menos, de floresta crescida durante o pousio . Mesmo assim, exis- nham de- ser criados a distâncias consideráveis das plantações, nas montanhas
1\.:111
evidências de que se derrubava floresta primária com esse propósito - "de Minas Gerais, no vale do rio Pomba ou na região de cerrado de Goiás."
tiS VCl.CS, ela era simplesmente queimada para tornar a extração de lenha Os produtores brasileiros enfrentavam um mercado internacional de açú-
menos trabalhosa! '6 car que lhes foi favorável apenas por pouco tempo. Surgiram muitos concor-
Os cálculos sugerem que o plantio de cana-de-açúcar até 1850 não rentes, entre eles os produtores europeus de beterraba, após as crises de re-
destruía tanto a floresta a ponto de ser abandonado em qualquer área grande, volução e guerra que haviam propiciado ao Brasil a oportunidade inicial. O
mesmo levando em conta sua grande extensão. Existem, no entanto, alguns resultado foi queda nos preços, o que tomava difícil instalar o novo e dispen-
registros de abandono de plantações devido à exaustão de lenha; casos isola- dioso equipamento que estava reduzindo drasticamente os custos dos produ-
dos, provavelmente. Um engenho de porte médio, como o que podia ocupar tores de açúcar europeus. Em conseqüência, o cultivo da cana-de-açúcar no
sesmaria de umalégua quadrada (4356 ha), quase sempre produzia menos de sudeste da Mata Atlântica nos anos de 1850 entrou em declínio. O distrito de
trinta toneladas de açúcar por ano. As cifras citadas acima sugerem que rlão Campos, beneficiado com ricos solos de aluvião, continuou a especializar-se no
mais de dezoito hectares teriam sido necessários para gerar essa produção e açúcar, abastecendo os consumidores urbanos internos, mas em outras regiões
que menos de um hectare de mata por ano teria sido abatido para lenha. É evi- o plantio se reduzia em escala. Pelo resto do século, a cana-de-açúcar foi uma
dente que uma escala tão limitada de cultivo de cana-de-açúcar seria total- causa claramente secundária para a destruição adicional de florestas primárias."
mente sustentável por tempo indefinido, mesmo se a troca de campos fosse
muito freqüente. Deve-se buscar a explicação para o abandono dessas terras
doadas em outras atividades que não a produção de açúcar para exportação." A área montanhosa acima da cidade imperial do Rio de Janeiro havia
As planícies gramadas de Campos eram excepcionais. Ali, a falta ele flo- escapado ao plantio comercial da cana-de-açúcar, porque possuía apenas
resta nativa pode ter representado uma limitação real P,U'é1 a expansão do cul- faixas isoladas de terras de aluvião adequadas à cultura. Mas outro produto
tivo da cana-de-açúcar. A lenha era mandada de São Fidélis, pelo rio Parafba, tropical de plantation, que acenava para os proprietários de terra nesta zona
e de mais longe, provavelmente descendo o rio Muriaé, em cuja margem, a problemática e ainda densamente florestada com a perspectiva de ganhos
uns oitenta quilômetros de Campos, existe ainda um local chamado Porto muito maiores, estava atraindo sua atenção. O mesmo recuo da concorrência
Madeira. Em 1844, um canal de cerca de cem quilômetros foi aberto até colonial estrangeira, que estimulou a cana-de-açúcar, também incentivara uns
Macaé, em parte para trazer lenha para os engenhos, O aumento da utilização poucos proprietários a experimentar uma planta quase desprezada pelos fun-
do bagaço, nos anos de 1840, nos engenhos de Campos também estava asso- cionários da Coroa e seus assistentes botânicos. Essa cultura nova, o café,
ciado à escassez de lenha. O bagaço, contudo, tinha vantagens, só lentamente tornar-se-ia, nas primeiras décadas do império, a base da economia exporta-
admitidas, independentemente da disponibilidade de lenha: aquecia o trem de dora do Rio de Janeiro. O café, ou Coffea arabica, uma pequena árvore da
fervura mais depressa, exigia menos alimentação elo fogo e eliminava os família das rubiáceas, nativa do sub-bosque da floresta do sudoeste do planal-
custos de abate, corte e transporte de lenha. Surpreendentemente, alguns fa- to da Eriópia, gerava as sementes carregadas de cafeína tão apreciadas pelos
zendeiros de açúcar mandaram seus escravos derrubar troncos inteiros dos moradores urban.rs da Europa. Seu oportuno surgimento resolveria de moclo
gigantes da floresta para alimentar as fornalhas! A utilização do bagaço brilhante a busca de um produto que o novo império poderia trocar pelas ma-
reativou o plantio da cana taitiana, pois seus talos lenhosos eram especial- nufaturas e luxos da Europa. Tal como o século XVTII havia sido para o Brasil
mente adequados para alimentar as caldeiras." o século do ouro, o século XIX seria o século do café. Para a Mata Atlântica,
O plantio da cana exigia outros produtos da floresta, em quantidade menor entretanto, a introdução dessa planta exótica significaria uma ameaça mais
mas não insignificante. A madeira era queimada para. produzir cinzas para intensa que qualquer outro evento dos trezentos anos anteriores.
purificar o açúcar cristal. O açúcar continuava a ser embalado em caixas e cer- A chegada do café à região do Rio de Janeiro é obscura. Séculos antes,
tas árvores eram preferidas para tal fim porque não lhe conferiam cor ou sabor. a planta havia sido transferida da Etiópia para o Iêrnen, onde passou a ser cul-
Entre elas, estavam o jequitibá e a tapinhoã, supostamente reservadas para uso tivada comercialmente. Todo o café postesiormente introduzido no Sul e

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do tratamento cuidadoso que a propriedade familiar e os incentivos salariuh
Sudeste da Ásia e no Novo Mundo derivou de duas variedades do Iêmen,
podem suscitar, no Brasil seria cultivado e comercializado nas mesmas COJl
atualmente conhecidas como "típica" e "Bourbon". Sementes da variedade
dições aplicadas ao cultivo da cana-de-açúcar. O café passou a ser o produto
típica podem ter chegado ao Brasil no final dos anos de 1600, talvez via Índia,
mas o produto não era então exportado. Uma possível segunda introdução das grandes fazendas doadas em sesmarias, enquanto a corte portuguesa
ocorreu em 1727: os franceses haviam recebido café dos holandeses e o trans- . residia no Rio de Janeiro. Na verdade, o café foi a salvação da aristocracia
feriram para a Guiana Francesa. Um oficial da armada brasileira, para lá en- colonial. Foi também a salvação da corte imperial cambaleante, que, assedia-
viado a fim de verificar a situação da fronteira, carregara sub-repticirnente da por rebeliões regionais e duramente pressionada a pagar pelas burocracias
para Belém do Pará um punhado de sementes geradas por essas árvores. Ali civil e mi litar necessárias para consolidar o Estado, foi resgatada pelas
e no vizinho Maranhão, logo se tornou um produto comercial modesto. Um receitas do café que afluíam para a alfândega do Rio de Janeiro. Na época,
juiz servindo no Maranhão pode ter trazido as primeiras mudas para o Rio de esse comércio foi totalmente fortuito para o império. Caso as condições de
Janeiro em 1752 ou 1762, Foram conservadas no horto do mosteiro dos cultivo tivessem sido mais favoráveis ao café nas distantes e rebeldes cidades
capuchinhos, mas aparentemente eram consideradas apenas plantas ornamen- do Recife, Porto Alegre ou São Luís, seriam geradas forças centrífugas que
tais. Quando o capitão e explorador Jarnes Cook visitou o Rio de Janeiro em teriam dividido o Brasil. O império, portanto, mimou os fazendeiros do Rio de
1768, descobriu que a cidade ainda estava importando café de Lisboa." Janeiro: eles eram seu grupo de interesse primordial e seu esteio financeiro.
Com a formação da Academia Fluviense em 1772, Johan Hopman, um Por outro lado, as exigências ecológicas dessa planta etíope colocavam os
holandês exilado que mantinha um horto, começou a distribuir as sementes limites físicos para a reprodução do sistema de plantation e, portanto, para a
dessas árvores e instruções sobre seu cultivo. Os primeiros que as receberam estabilidade do império. A planta encontrou na província do Rio de Janeiro um
podem ter sido dois padres que possuíam fazendas nos subúrbios. Em 1779, ambiente adequado, se não ideal, para o seu cultivo. Exige precipitação pesada
quando o vice-rei Lavradio entregou seu cargo, o café ainda era tão insigni- de chuvas, de 1300 a 1800 milímetros por ano, porque transpira continuamente
ficante que ele o desconsiderou em seu relatório final, muito embora men- e, como lima árvore do sub-bosque, não tem nenhum mecanismo para armazenar
cionasse diversas outras culturas até menores. Enquanto isso, os franceses ou conservar umidade. Submetida a uma estação seca em seu hábitat nativo, reti-
haviam adquirido a outra variedade do Iêmen e trouxeram-na para a ilha de ra umidade do solo a profundidades consideráveis - três metros ou mais -
Reunião - na época, chamada Bourbon, no oceano Índico. Esta variedade como reserva de água. O café foi a princípio plantado ao longo do litoral, onde
também chegou ao Brasil em alguma data incerta. Talvez tenha sido a que foi pode ter sofrido um pouco com os ventos salinos oceânicos. Logo foi transferi-
introduzida em 1782, obtida diretamente de Caiena pelo bispo José Joaquim do para o planalto um pouco mais fresco, onde se dispõe de uma temperatura
Justiniano. Em 1790, pouco mais de uma tonelada de café foi produzida para ótima de 20° a 24"C. A estação seca mais pronunciada do interior também é
o mercado local. Naquele ano, sua presença foi notada por Manuel Ferreira favorável porque o início das chuvas é o principal indutor da florescência e por-
da Câmara, que previu que os solos do Rio de Janeiro ofereceriam a melhor que a floração promove o amadurecimento simultâneo dos frutos. A estação se-
localização para sua expansão. ca, de maio até agosto, quando se realiza a colheita, oferece outra vantagem
Considerando que a planta se tornou e durante um século e meio per- competitiva, porque facilita a secagem dos grãos ao ar livre, um processo que,
maneceu o mais importante produto básico do Brasil, a reprimenda de em outras circunstâncias, teria de ser realizado em fomos a lenha."
Domingos Borges de Barros, escrita quando o cultivo do café era apenas O café é mesial, isto é, exige solos que não sejam nem encharcados nem
incipiente, ecoa como lástima: secos. Nas áreas altas do Rio de Janeiro, os fundos dos vales er~ fracamente
Não sei por que gastamos tanto tempo, e papel, para saber quem comandou esta drenados e, dessa forma, o plantio tinha de ser feito em encost íngremes e
ou aquela batalha, quantos mortos tombaram no campo; e nada para transmitir desencorajantes - os "mares de morros" ou "meias-laranjas" 'a paisagem
para a posteridade os nomes daqueles a quem devemos esta ou aquela planta; física regional. A Mata Atlântica estabilizara-se nessas áreas, ao 10rlRo de mi-
será que, por acaso, é mais interessante saber quem contribui para a destruição lhares de anos de incipiente intervenção humana, um solo raso mas mode-
que para a conservação da espécie humana?" radamente fértil e um tanto ácido. Este material e a biornassa da própria Ilo-
resta podiam, por um certo tempo, suprir os nutrientes essenciais.
Para os infelizes condenados pela escravidão a cultivar o café por mais
Era precisamente este o perigo para-a Mata Atlântica: acreditava-se que
setenta anos, os heróis anônimos que o implantaram teriam parecido tão
o café tinha de ser plantado em solo coberto por floresta "virgem". O capital
destrutivos quanto algum Napoleão ou Wellington. Embora o café definitiva-
e o trabalho eram escassos demais para gastar :'.
no plantio em solos menos
mente seja uma planta cujas safras e qualidade podem ser aumentadas através

195
194
férteis, O l'lil't~l~ uruu pllllll.ll perene -leva quatro anos para atingir a maturi- oeste, A espessura da camada de húmus era encarada como sinal promissor:
dade c POdl\ plil'IlIIIIH.:Cerprodutiva por trinta anos - e assim podia-se ima- supunha-se que ela devia ser suficiente para um homem afundar nela até o
i11111' qllb, 111111\
vez implantado, representaria um regime agrícola de perspec- meio da barriga da perna. (Fica-se a imaginar se alguma das matas suposta-
IlvmlllNlrtvuls e conservadoras. Mas não era assim. Nas plantações do Rio de mente "primárias" encontradas na região ainda apresentaria húmus espesso o
.11111(11 I'(), plnnrnções velhas não eram replantadas mas abandonadas, e novas bastante para se afundar nele até o meio da perna, quanto mais as "quatro pal-
i'ldxtls de llorcxra primária eram então limpas para manter a.prcdução. O café mas" - 88 em - mencionadas por Inácio Accioli de Vasconcellos; talvez os
IIVlIllc,:OU, portanto, pelas terras altas, de geração para geração, nada deixando pe-squisadores contemporâneos estejam ignorando um sinal claro da ação
'111seu rastro além de montanhas desnudadas. humana anterior nessas áreas.) É possível que os fazendeiros novatos igno-
Os fazendeiros não prezavam nem a produtividade nem a qualid~, ape- rassem mesmo esses poucos conselhos e que aprendessem a partir da expe-
11:\-'(I economia de trabalho e capital e, não por acaso, seu próprio esforço riência, uma escola que custava para a Mata Atlântica ainda mais caro que
administrativo. Esta estratégia, se assim pode ser chamada, gerava um produ- aqueles conselhos."
to de qualidade apenas medíocre. Francisco Peixoto de Lacerda Werneck, um Em outros lugares e climas, o café era cultivado na sombra, uma prática
dos mais importantes da primeira geração de plantadores de café do Rio de que imita seu hábitat original e que parece melhorar sua qualidade. No Brasil,
Janeiro, um homem que sem dúvida conhecia bem seus vizinhos e partilhava em vez de preservar parte do dos sel nativo, a floresta inteira era destruída na
ela maioria de seus preconceitos, não estaria expressando nada além de suas preparação pa-a o plantio - salvo, aqui e acolá, um pau-dalho. Essas árvores
aspirações comuns ao parafraseá-tos assim: "O que eu quero é muito {café]; eram poupadas, porque eram consideradas o mais seguro de todos os padrões
dá um preço mais baixo ... , mas eu tenho o mesmo lucro líquido, muito em- e, pois, exibidas para um comprador potencial da fazenda como prova da pro-
bora eu não tenha o mesmo trabalho". Contra isso Lacerda Werneck respon- dutividade de seus cafezais. (E quando os cafezais se arruinavam e eram
dia mordazmente que se o café, o açúcar e o algodão brasileiros fossem tão abandonados, os paus-dalho sobreviventes eram um conforto para o gado,
bem considerados quanto aqueles exportados pelos outros países, não fica- porque transpiram uma secreção aromática que repele os insetos.) Não está
riam encalhados por meses e até anos nos depósitos da Europa aguardando claro se o desprezo pelo café sombreado foi uma inovação deliberada. Apa-
compradores. Felizmente, os norte-americanos eram menos exigentes que os rentemente, os primeiros fazendeiros tinham pouca noção de como se planta-
europeus. À medida que a população e a economia dos Estados Unidos explo- va o café em outros lugares e simplesmente aplicavam técnicas tradicionais
diam, mais e mais seus consumidores podiam dar-se ao luxo desse hábito e o de derrubada e queimada em uma escala maior e ainda mais drástica. Não foi
império brasileiro ficava cada vez mais atado a esse único mercado." senão muito depois de o cultivo do café no vale do Paraíba ter entrado em
A escolha do terreno onde plantar, enquanto ainda existisse floresta decadência que se levantou seriamente a questão de que o sombreamento
primária, era uma questão de mero empirismo. Uma patrulha de reconheci- poderia ter sido uma técnica superior. Por certo, a derrubada e a queimada
mento foi encarregada de localizar espécies consideradas como "padrões" eram a maneira mais barata de iniciar a produção e isso talvez bastasse para
indicadores dos melhores locais para os cafezais. O manual dos agricultores, justificá-Ias."
ele Lacerda Werneck, com base em sua própria experiência, apresenta Nos meses frios de maio, junho e julho, turmas de lenhadores itinerantes
reflexões sobre as práticas dos fazendeiros mais representativos e aparente- eram contratadas para executar a tarefa da derrubada segundo um sistema
mente foi o mais lido, recebendo duas outras edições após sua primeira pu- chamado "picarias". * Trabalhando de baixo para cima a partir da base da
blicação, em 1847. Nesse manual, ele aconselhava que as encostas dos rnon- montanha, brandiam os machados sucessivamente contra cada árvore, talhan-
rcs fossem observadas na primavera, quando muitas árvores da floresta estão do até que o tronco, ainda inteiro, gemesse com a iminência de sua queda. Um
(;1111'101'.Onde se visse o jacarandatã ou outras espécies determinadas - ele capataz experiente observava cuidadosamente a rampa da montanha, a
rclucionava dezesseis - a terra era de primeira qualidade. Todas eram, como posição de cada árvore e osCípós~~bundantes nesse setor da Mata Atlânti-
() café, rncsiais e eram encontradas apenas na florestaprimária. Havia autores, ca -, que prendiam cada uma a sua vizinha, e dirigia o corte de forma a cada
contutlo, que arrolavam outras árvores, e nem mesmo Lacerda Werneck acu- árvore ficar posicionada para cair em uma direção precisa. Os lenhadores iam
mulura experiência suficiente para ter certeza de que as condições de cresci- subindo, talhando em um e depois em outro tronco, cada vez mais acima, até
II I\.'III() do culé se equiparavam exatamente às do jacarandatã ou de algum que se chegava ao cume. Então, a tarefa do capataz era decidir qual a árvore-
()lltl'Ojllldl'ilOque ele mencionava. Lacerda Werneck também desaconselhava
11 plliull\) UIII('II(;osIIlS voltadas para o sul, que ele considerava frios demais; (*) Sic. Parece tratar-se de equívoco ou de termo de uso muito restrito, já que o único
Illltl\HI 1I111\lH:N, \'011111ll'1I11H
Ilígica, rejciruvaru encostas voltadas para leste ou sentido consignado 110 dicionário Aurélio refere-se-a equitação. (N. T.)

IVn 197
mestra, a gigante que seria cortada até o fim, carregando consigo todas as ou-
fagulhas. Durante muitas horas as cinzas caíam como chuva. O fogo ardln
tras. Se fosse bem-sucedido, o sopé inteiro desabava com uma tremenda
durante dias e depois fumegava por muitos outros, erguendo-se de suas brasas
explosão, levantando uma nuvem de fragmentos, bandos de papagaios,
"espiráculos de fumaça cinzenta, como se saindo de fendas de uma imensa
tucanos, aves canoras e, da parte dos lenhadores, um grito de alegria e alívio.
fornalha que estivesse oculta e queimasse mais embaixo". Chegavam, por
Isso porque, se a decisão do capataz se mostrasse equivocada e apenas umas
fim, as chuvas, que adicionavam ao esterco gorduroso do húmus e do solo os
poucas árvores caíssem, então os infelizes lenhadores teriam. de descer entre
nutrientes liberados do rico leito das cinzas."
as gigantes cambaleantes e acabar de derrubá-Ias unia a uma. Não era raro,
As posturas locais exigiam também que, antes de atear fogo, fossem
então, que as gigantes desencadeassem sua vingança ao caírem de forma
abertos aceiros e alertados os vizinhos. É improvável que, no caso de flores-
imprevista:
ta primária afastada de vilas, tais barreiras, que teriam custado um consi-
Em sua queda um galho se prende contra uma vizinha e o tronco cortado, encon- derável trabalho adicional, fossem regularmente adotadas, especialmente se o
trando um ponto de apoio, descreve um arco; os lenhadores que têm os olhos campo não confrontasse com a terra de um vizinho. Em todo caso, exigia-se
pregados nele, evitam o perigo saltando para o lado; mas o tronco, colidindo que o aceiro tivesse apenas de quatro a seis metros de largura, absolutamente
ainda contra outra árvore, muda de direção, livrando-se dos galhos que por um insuficiente para prevenir acidentes em florestas altas. Assim, o fogo muitas
instante o tinham prendido, e impelido por seu próprio peso desaba com a vezes escapava, principalmente nos anos mais secos. John Luccock teste-
velocidade de um relâmpago. De nada vale a precaução e destreza do lenhador munhou tal acidente próximo à cidade do Rio de Janeiro em 1816. Embora
- ele é esmagado. meia légua quadrada tenha virado fumaça, os moradores locais não se
Não admira que esse trabalho valesse o dobro do dia de trabalho comum mostraram muito preocupados, porque a destruição havia ocorrido em terra
e credenciasse esses rurícolas libertos, acima de todos os seus companheiros, pública. No interior, onde a chuva era muito mais sazonal, o fogo normal-
a pelo menos um certo grau de respeito e orgulho no interior dessa sociedade mente fugia do controle: "Se alguém deseja limpar um hectare, às vezes
opressiva." destrói cinco ou dez através do bárbaro recurso ao fogo", comentava um espe-
Alguns desses troncos assim derrubados eram retalhados para fazer cialista francês em café que testemunhou essa "loucura" durante sua visita a
carvão para o mercado da cidade ou eram arrastados ou cortados no local, a São Paulo em 1892.)11
serrote de dois cabos, como material de construção. As posturas municipais A destruição da floresta era lamentada apenas momentaneamente por
normalmente exigiam que os troncos derrubados em estradas ou cursos parte daqueles que a assistiam; depressa seus sentimentos eram seguidos por
d'água fossem removidos. O restante era deixado a secar por algumas sema- outros - pragmáticos:
nas e, então, no frio do final de agosto, logo antes das chuvas, todo o amon- 1\0contemplar, porém, () trabalho consciencioso realizado nas proximidades de
toado de floresta derrubada era incendiado. Isto também era trabalho para os sentimo-nos reconciliados com as devastações anteriormente nota-
CUIlI.<lgilJO,
experientes e audaciosos. Era fundamental uma queimada de intensidade ade- das. mormente ao pensar nos henefícios que tal obra há de proporcionar, não só
quada: que não chamuscasse a camada de húmus, mas que não fosse tão aos seus executantes. corne a todos os que mais tarde vierem continuá-Ia, pos-
superficial que não produzisse cinzas suficientes para neutralizar o solo ou suídos do mesmo amt if'terra.3I
que deixasse ilesos os insetos residentes. Se os lenhadores não fossem habili- j
- ou cstranharnente pi~filos:
dosos, o fogo poderia também passar por cima de algumas áreas, deixando-
as sem queimar. Começando ao meio-dia, quando o ar estava parado, os O fogo... é terrível, mas nos atrai, porque sentimos a necessidade de observá-lo
lenhadores se dividiam em dois grupos no topo da clareira. Cada grupo descia bem de perto ... Realmente, como é bela a chama de uma grande queimada ... Que
ao longo de uma das orlas da derrubada, colocando fogo com a tocha enquan- sensação estranha ... É perturbadora para alguns, é verdade; para outros, é um
to iam passando, reencontrando-se por fim na base da clareira. Esse trabalho espetáculo grandioso que desperta as sensações e aguça o olhar da mesma
nunca era confiado a escravos porque, se não estivessem muito atentos, os maneira que somos arrebatados quando vemos e ouvimos a massa de um exérci-
senhores poderiam ser facilmente aprisionados no incêndio." to que se move ao som de uma marcha triunfal. J2
A vegetação ressecada saltava em labaredas com um rugido e o espou- Os incêndios de muitas clareiras elevavam imensas nuvens cinzentas de
car das varas de bambu, segundo um observador, soava como disparas de es- fumaça. O vale do Paraíba deve ter parecido infernal ao finul das l'st:!<;fks
pingarda e os troncos rachavam como artilharia. Da conflagração vulcânica secas, com centenas de fogos se espalhando por todos os lados. NH mcuulc do
subia um turbilhão de fumaça para o céu, carregando gêiseres brilhantes de século, à medida que se acelerava a derrllb~da ela Mata Arlâniicn para () café,

198
/99
uma nuvcm runun-ludu puiruva sobre a província durante esses meses, obscure- que frutificassem em abundância ou produzissem grãos de melhor qualidade;
:ondo (\ ~(\I do illu c upugundo as estrelas à noite. Os viajantes, não acostuma- provinham de compras ou presentes casuais, acolhidas de bom grado, qual-
dOH('0111\l it'n()nll'1I0, ficavam surpresos diante da bruma que limitava a visi- quer que fosse sua proveniência ou linhagem. Essas sementes heterogêneas
IIlIldlllll' dONIOpOS<.Iasmontanhas e que encurtava seu fôlego, provocando-Ihes costumavam ser inicialmente plantadas em urna sementeira, uma pequena
I11I111 ,~('1I1I1I~1I1()
de fadiga. Em agosto e setembro, as cinzas do interior caíam faixa queimada na floresta para garantir a sombra que essa árvore do sub-
MIIII'l' 1Ivldllde do Rio de Janeiro: "TamanhaJra a quantidade de fumaça que bosque evidenciava necessitar por um ou dois anos de crescimento. Em ou-
dUl"lllllv dius, e mesmo meses, o sol fica quase totalmente oculto ou, se o tros cacos, eram plantadas diretamente no campo, e as mudas, à medida que
V('I\IIIS, ele é vermelho, quase como se o enxergássemos através de vidro ene- germinavam, eram protegidas por alguns sarrafos ou talos do milharal na
.recido". Curiosamente, havia gente que na cidade não admitia que as quei- forma de um telheiro. Quando os arbustos se desenvolviam, as sementeiras
madus fossem a causa e chegou-se a debater formalmente, na culta Sociedade eram eliminadas, porque o fazendeiro podia agora contar com mudas fortui-
Vcllosiana, por que o Rio de Janeiro experimentava essa assim chamada tas brotando aqui e acolá sob os galhos das plantas maduras, parecendo não
"névoa seca anual". O botânico Francisco Freire Alemão comentava que ape- vir ao caso se as plantas originais eram produtivas ou não."
1l;ISos que nunca haviam presenciado as queimadas podiam duvidar de que A densidade normal de plantio era de 800 a 900 plantas por hectare. Era
fossem elas as culpadas, salientando que o fenômeno só se manifestava quan- extraordinariamente baixa, considerando-se a prática moderna de 3 mil a 5
do o vento soprava do norte e que o mesmo se encerrava com as chuvas." mil. A baixa densidade permitia que as árvores crescessem em largura e
O terreno assim preparado pela mão purificadora do homem assemelha- altura, dificultando a colheita, facilitando a invasão de capim. O pior de tudo
va-se um pouco a um moderno campo de batalha, enegrecido, fumegante e é que isso reduzia o rendimento por hectare. Se o plantio denso tivesse sido a
desolado. Muitas árvores tombadas tinham sido apenas parcialmente inci- regra, a derrubada da floresta teria sido em grande parte reduzida em sua
neradas; eram deixadas a apodrecer com seus tocos ainda enraizados e os extensão.
troncos caídos ao longo da linha da encosta. Então as turmas encarregadas do O cultivo não era realizado mediante princípios de conservação do recur-
plantio procediam da maneira obviamente menos estafante, trabalhando so. O capim começava a surgir nos solos florestais recém-expostos dos
morro acima. Assim, os pés de café eram alinhados da forma mais desastrosa afczais novos só quando as plantas chegavam à maturidade, com três ou qua-
imaginável. As fileiras se desviavam ao subir as encostas, orientadas pelas tro anos. A capina era feita com pesadas enxadas de ferro, duas ou três vezes
formas dos troncos caídos. Descendo as fileiras, as chuvas cavavam sulcos, por ano, quando se dispunha de mão-de-obra. A turma de escravos trabalhava
formando gargantas entre elas, carregando o húmus e a camada superficial do morro abaixo, um procedimento que facilitava a vigilância, porque os traba-
solo com rapidez e eficiência. Nunca houve a prática de girar os troncos para lhadores permaneciam em fileiras retas. Isso também acelerava o escoamento
formar barreiras contra a erosão. Ao contrário, os troncos caídos transver- da água cla chuva. A enxada pesada cortava raízes superficiais, um traço mor-
salmente eram receados e evitados porque, quando os tocos e raízes que os fológico do pé de café - notado somente muito mais tarde -, que fornecem
mantinham no lugar apodreciam, sabia-se que rolavam morro abaixo, arrui- considerável parcela dos nutrientes da planta. As plantas que não resistiam a
nando pés de café e esmagando trabalhadores que por azar estivessem no esse tratamento raramente eram substituídas; apodreciam no local. Os nutrien-
caminho. O exilado francês Jousselandiere afirmou que oito dos escravos de tes do solo quase nunca se reciclavam e jamais eram substituídos. A expecta-
um antigo seu tinham sido mortos por um único tronco que havia rolado. Só tiva era que as cinzas e a camada de húmus fornecessem tudo que a planta
depois que as chuvas começavam a expor as raízes é que se faziam pequenos pudesse precisar, por toda a sua vida. A descoberta dos nutrientes minerais,
esforços para fazer taludes para impedir o deslizamento." feita por Justus von Liebig em 1840, foi por muitos anos ignorada no Rio de
Os cafeicultores, na pressa de instalar seus cafezais o mais rápido pos- Janeiro. A análise química das demandas da planta foi empreendida apenas
sível, não os dividiam em blocos. Isso teria sido uma perda de tempo, porque nos anos de 1870, e só foi associada à prática muito tempo depois. Admitia-se,
não se preocupavam em experimentar sementes de procedências, técnicas de contudo, que o "adubo verde" - isto é, folhas e galhos mortos - era vanta-
plantio ou cultivo diferentes, ou mesmo de manter registros de custos e rendi- joso e às vezes era empilhado sob as árvores ao fim da colheita. Os escravos
mentos por cafezal. Não se davam ao trabalho de plantar no padrão losangu- descalços devem ter relutado em empreender essa tarefa, porque a palhada
lur, embora cientes de suas vantagens. Muitos deles, contudo, tinham o hábito atraía ratos e os ratos atraíam cobras. Muitas vezes, essa matéria orgânica não
-struuho c contraproducente de podar a ponta das raízes principais das mudas. era conservada de modo algum, sendo simplesmente queimada."
N,10 Sl'lCCiOIlUVOIl1 plantio. As fazendas normalmente começavam com as As técnicas usuais de colheita e beneficiamento reduziam a produção e a
1\1l11\IIIII~ poiliuns 1\ um parente ou vizinho. Não eram escolhidas de plantas qualidade. Dividiam-se cotas aos escravos no campo e estes então pelavam

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indiscriminadamente os galhos com frutos verdes, maduros e passados. Os deixou inteiramente arruinado". A floresta não se restabelecia, portanto. AIIL)S
métodos de secagem, descasque e peneiragem dos grãos tiveram de ser decifra- mais tarde, bem depois de as árvores terem desaparecido, encostas estéreis
dos nos anos que se seguiram à introdução do café, um processo predomi- com o estranho aspecto variólico, como se fossem locais de combates de arti-
nantemente empírico que adaptava implerrlentos simples utilizados no Iharia, permaneciam como testemunho da rápida passagem do café ao longo
descasque do arroz, moagem do milho e trituração da cana. A secagem dos do vale do Paraíba. Por fim, mesmo esses traços eram apagados pelo gado,
grãos era feita ao sol, ao ar livre, porque a estação da colheita costumava ser re- cujos cascos perseverantes entalhavam trilhas em forma de faixas em zi-
lativamente livre de chuvas. Os terreiros de secagem eram de terra batida; só guezague pelo chão duro desses lúgubres monumentos ao desperdício."
nos anos de 1860 é que foram revestidõs-corn tijolos. O beneficiarnento era tra- O primeiro século do cultivo comercial do café na região da Mata Atlântica
balhoso, contradizendo a noção de que havia escassez de mão-de-obra. As mu- _ 1788 a 1888 - foi também o último da escravidão. Durante esse período, o
lheres escravas, agachadas nos solos de terra dos galpões de armazenagem, Brasil produziu cerca de 10 milhões de toneladas de café, quase todas passando
separavam os grãos. O descasque era feito em grandes pilões de madeira. A pelos portos do Rio de Janeiro e Santos. Supondo-se que setecentos quilos fos-
energia hidráulica foi logo aplicada a esta tarefa e desenvolveram-se moinhos sem o rendimento médio por hectare, e supondo-se que o cafezal médio fosse
primitivos nos quais as unidades pilão e almofariz eram montadas em fila, No .conornicarnente produtivo durante vinte anos, então foi necessário desmatar para
início de 1850 surgiram as primeiras máquinas a vapor no distrito pioneiro de !SSC fim uns 7200 km' de floresta primária, o equivalente a trezentos milhões de
Vassouras, mas não se sabe que tipo de equipamento era acionado por elas." toneladas de hiomassa florestal consumida em fumaça. Essa área representava
Os proprietários de fazendas não dispunham dos recursos para colocar nproximathnncntc I W'/t'Jda superfície da província do Rio de Janeiro, onde quatro
de imediato todas as suas propriedades na produção de café e, assim, o vale quintos desse café foram plnutadox. A essa área deve-se acrescentar a floresta der-
do Paraíba se tomou uma colcha de retalhos de cafezais e floresta primária à rubada ]1111"11
sllhsislCn<.:illdH força de trabalho escrava, que deve ter chegado, em
medida que, em primeiro lugar, as encostas voltadas para o norte e, depois, os média, a 140 l)liI p<.:s~()"s.Umil parcela desconhecida de roças de subsistência,
locais menos favoráveis, eram queimados e plantados. O rápido envelheci- talvez nas CIl~()SIWi voltudns pnrn o sul, pode ter sido coberta de floresta primária."
mento dos pés em seus poleiros precários aumentava o valor da tloresta N<I época do ~'(lI(lps(1 dll ,·sI.'I'Hviduo, ns terras consideradns adequadas
remanescente: "A riqueza de uma plantação consiste, portanto, menos na para o cultivo de café l.:f;IIIVillllquusc cxuuridns no Rio de Janeiro. O quanto
grande extensão de seus cafezais que nas terras disponíveis para o plantio seriam biologicamente llniclIS úSIHISZOIlHSlia Mutn Atlântica? Infelizmente,
futuro da rubiácea", como afirmou o naturalista Hermann von Burmeister. Os não se trata de urna questão que pOSSH sor objeto de investigação retrospecti-
principiantes no negócio do café preferiam comprar terras mais acima do va, embora seja historicamente vcrttlcãvcl que poucas de suus espécies foram
vale, ao longo da fronteira da província de São Paulo, ou na zona da Mata, a coletadas antes de virarem 1"111)111,'11. 1\1I1\lIste de SlIiJlI·Jliluirc achava que a
zona de florestas de Minas Gerais que mais recentemente havia sido despoja- zona ocidental do vale do Parufba IIbrigllvlllI VCI-\(llll)nlll1l1lÍ~ divorsificudu que
da de sua população indígena, onde ficavam as nascentes dos rios Doce, ele vira em todas as suas viagens pclu Mutu 1\ UfiJllÍ(.'1I , Bem se I~()(k perguntur,
Pomba e das Mortes. O café chegou um pouco mais tarde ao Espírito Santo, portanto, se algumas das criaturas, í,;SJ')I.:l:IIIII11(!lltl!
do dossl'l, '111('dllVII1I1som-
onde as condições de solo e crescimento eram menos favorávejs. Assim, o bra a ele e a seus colegas cientistas. II1I1S que eles II:!()dispuuluuu it-' IIWillSp:11"II
cultivo do café espalhou-se de modo extensivo e uma parcela considerável da investigar, já não estariam desaparecendo puru sell1pl'\!, l'lll\Wt: 110111l'IlIISpos-
região montanhosa da Mata Atlântica foi transformada em um mar encapela- sível que as extinções eram parte do preço puru se II.lVIII'10 1111 11i()l:S de
do de pés de café." toneladas de café ao mercado, mesmo que lIS ospécics <':lI,iON l'l·pI'Ci-It\IIIIII1Il.\H
Em geral, os pés de café assim plantados e cuidados começavam a decair estão armazenados em frascos de conserva o prcnsadns em Inl~IiIlIINIHl.lurdin
no prazo de vinte anos de maturidade. A senescência marcava o fim da vida des Plantes e no Bayerische Botanischc Gcscllschaft tcnluuu III~ 111-\(\1"11 ":l\hl'I'
produtiva da própria fazenda. Quando um cafezal se tornava tão decadente vivido. Esses primeiros investigadores não dispunham nem do tempo ncrn dos
que não mais valia a pena ser colhido, era eventualmente podado, o que em recursos para fazer mais que recolher amostras das termas de vkln dlls 1'I(l/\'Hlllk
geral dava apenas magros resultados. Na maioria das vezes, era deixado no que atravessavam. Quase todos eles se mantiveram n:l~ mcsmn« lri!""" dL'
lugar, as árvores arrendadas a comerciantes de lenha; o mato então invadia, mulas, na maioria evitavam as florestas altas, que eram dl.ll1l11silldl)impc
seguido pelo gado, muitas vezes sob uma nova administração. O próprio netráveis e problemáticas, e suas expedições foram rcalizndns ap6sjt'i inicindu
Lacerda Werneck, o especialista empírico no plantio de café, legou a seus o assalto à floresta. Entre os botânicos, apenas o brasileiro l-rnncisco Prcim
herdeiros uma plantação "muito antiga e estéril", nas palavras de seu filho, Alemão aproveitou a oportunidade apresentada pela destruição da floresta:
escritas em 1858, "de cujo solo meu pai retirou toda sua fortuna, mas ao qual corria de uma equipe de derrubada para oJtra, para examinar as gigantes abati-

202 ?m
das que eslllVllI1lsendo previamente retiradas para depois queimar as restantes. Essas reflexões sugerem que uma política de recursos voltada para a
Mas ele ('./'/I/lp~'IIIIStllll indivíduo, que mal dava conta de estudar as árvores em estabilidade e a renovação dos mesmos poderia ter atendido melhor ao bem-
si, qU/lIIIOIllllis SUílSepffitas e parasitas. Além disso, carecia de fundos para estar político e econômico e de mais longo prazo dos habitantes do sudeste da
'olvlllJ',' 11J'J11:t/'.cnar
tudo que encontrou ou para publicar suas anotações." Mata Atlântica, inclusive da própria classe superior proprietária de terras. Um
século depois da introdução do café, Augusto Ruschi, o grande naturalista e
ambientalista do Espírito Santo, lamentava o resultado: "Jamais restabelece-
Às vezes se afirma que a exploração mais racional de um recurso natu- remos o clima e as condições bióticas do solo que possuíamos". Ainda que
ral é a mais rápida, acompanhada pelo menor dispêndio de trabalho ou capi- fosse do café "que a vida de nossa gente depende; dele depende um bom ou
tul para que o recurso possa ser transformado o mais rapidamente possível em mau governo", ainda assim, vaticinava Ruschi, "daríamos tudo que desfruta-
mais capital, uma herança maior que o recurso intocado a ser transmitido para mos em decorrência desta monocultura do café para ficar livres deste intruso
a posteridade. O argumento tem uma pitada de egoísmo, e a história do vale indesejável". As características da sociedade pós-colonial- sua avidez pelo
do Paraíba demonstra parte de sua fragilidade. A Mata Atlântica era indu- lucro imediato, concentração de riqueza, fixação na vigilância e no controle,
bitavelmente, na escala de tempo que concernia a seus expropriadores, seus empirismo extremo e total desrespeito por aquilo que apenas cem anos depois
credores e corretores, e ao governo do império, um recurso não-renovável. uns poucos iluminados lembrariam como riqueza natural inestimável- evo-
Nesse contexto, sua destruição era inevitável com o aumento populacional, cam instantaneamente o quanto é fútil levantar agora tais objeções quando o
fosse qual fosse o produto plantado, para exportação ou consumo local. Uma feito está consumado e nenhum traço da floresta restou sobre os morros secos
vez desmatados, contudo, os montes do Rio de Janeiro também eram tratados e amarelados do vale do Paraíba."
como não-renováveis, quando poderiam ter sido definidos em outros termos. Nós que nos reportamos a esses eventos com uma perspectiva de mais de
Caso o plantio do café tivesse sido realizado com cuidado, poderia ainda estar um século podemos imaginar que a ciência moderna concebeu meios mais
sendo cultivado onde foi introduzido primeiramente e grande parte da Mata saudáveis para o mesmo fim, mas não é bem este o caso. Embora a seleção,
Atlântica poderia ter sido poupada para algum outro propósito ou ser deixa- reprodução, plantio e cultivo do café tenham se racionalizado bastante, ainda
da em paz, sem propósito algum. não existe ferramenta melhor que a caixa de fósforos para estabelecer uma
A maioria dos recursos obtidos através da venda do café não foi "acu- plantação de caré. A floresta primária sobrevivente, na região da Mata
mulada" ou "formada" como capital para equipar a energia de uma geração Atlântica ou em qualquer outro lugar no Brasil - ou, de fato, no resto do
futura, mas gasta em bens na época apreciados como luxos, exclusivamente mundo tropical -, onde alguma parte dela encontre solos adequados para se
importados para o consumo das famílias que possuíam as propriedades e os disseminar, continua a ser uma enorme tentação para qualquer um que, me-
trabalhadores. A preservação do comércio do café serviu como argumento diante um ganho, se disponha a administrar à espécie humana sua dose diária
principal para retardar a abolição da escravidão, uma instituição que mesmo de cafeína.
os detentores de escravos se envergonhavam de defender sob quaisquer outros
pretextos. O Brasil foi o último país no hemisfério ocidental a pôr um fim
nesse flagelo. As receitas do café, arrecadadas nas alfândegas do governo
imperial, foram em grande parte gastas na rede ferroviária que levava o 'café
para o mercado; parte considerável desse investimento foi antieconômico
uma vez que faliram as fazendas de café por ele atendidas. A maior parte do
restante desses recursos se destinou ao pagamento de salários do serviço
público civil c militar, que, ao final do ciclo do café, incluía muitos herdeiros
dns J'ill11rJillS dux I'u/',cndlls dCCII<!CIlICH. Quando, à medida que a economia do
VIII\' do PlIl'llnm \'llIllIlIIh'IIViI. () IlIlp~rill leve dificuldades em manter os
1'1111'111 111 vhln dll/I 11I/1'11dl·IIII/I,
dl\ II~IIIHIlI\ inustraram ingratos e se pronuncia-
1111111111111\111 di 11111111111111111111 1111111'1I11I!lualgum capital estrangeiro para
j(tll, 111,1''11111 I 11111" I h 111"11111ti 11I 111(1111)
direto ou indireto do comércio
11,,' Ilhili'l'hhl un
1I,,;III!!~ IWII'IH'rll 1,11 ieromos especulativos e de curto ,
:\,
IIIIII"II!~líilH 1\l11\1;lh!lI~ ~ países de origem.

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