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BOX DUOLOGIA

CORAÇÃO FERIDO – Livro 1


CORAÇÃO VALENTE – Livro 2
CORAÇÃO FERIDO

MARI SILLVA
Copyright © 2020 – Mari Sillva

Capa: LA Capas
Revisão: Fabiano Jucá
Diagramação: Denilia Carneiro

1ª Edição

Esta é uma obra de ficção. Nomes, personagens, lugares e acontecimentos


descritos são produtos da imaginação da autora. Qualquer semelhança com
nomes, datas e acontecimentos reais é mera coincidência.

Esta obra segue as regras da Nova Ortografia da Língua Portuguesa.

Todos os direitos reservados.

São proibidos o armazenamento e / ou a reprodução de qualquer parte dessa


obra, através de quaisquer meios ─ tangível ou intangível ─ sem o
consentimento escrito da autora.

A violação dos direitos autorais é crime estabelecido na lei nº. 9.610/98 e


punido pelo artigo 184 do Código Penal.
Sumário
CORAÇÃO FERIDO
PRÓLOGO
CAPÍTULO UM
CAPÍTULO DOIS
CAPÍTULO TRÊS
CAPÍTULO QUATRO
CAPÍTULO CINCO
CAPÍTULO SEIS
CAPÍTULO SETE
CAPÍTULO OITO
CAPÍTULO NOVE
CAPÍTULO DEZ
CAPÍTULO ONZE
CAPÍTULO DOZE
CAPÍTULO TREZE
CAPÍTULO QUATORZE
CAPÍTULO QUINZE
CAPÍTULO DEZESSEIS
CAPÍTULO DEZESSETE
CAPÍTULO DEZOITO
CAPÍTULO DEZENOVE
CAPÍTULO VINTE
CAPÍTULO VINTE E UM
CAPÍTULO VINTE E DOIS
CAPÍTULO VINTE E TRÊS
CAPÍTULO VINTE E QUATRO
CAPÍTULO VINTE E CINCO
CAPÍTULO VINTE E SEIS
CAPÍTULO VINTE E SETE
CAPÍTULO VINTE E OITO
CAPÍTULO VINTE E NOVE
CAPÍTULO TRINTA
CAPÍTULO TRINTA E UM
EPÍLOGO
OBSERVAÇÃO IMPORTANTE
AGRADECIMENTOS
CORAÇÃO VALENTE
NOTA DA AUTORA
EPÍGRAFE
PRÓLOGO
CAPÍTULO UM
CAPÍTULO DOIS
CAPÍTULO TRÊS
CAPÍTULO QUATRO
CAPÍTULO CINCO
CAPÍTULO SEIS
CAPÍTULO SETE
CAPÍTULO OITO
CAPÍTULO NOVE
CAPÍTULO DEZ
CAPÍTULO ONZE
CAPÍTULO DOZE
CAPÍTULO TREZE
CAPÍTULO QUATORZE
CAPÍTULO QUINZE
CAPÍTULO DEZESSEIS
CAPÍTULO DEZESSETE
CAPÍTULO DEZOITO
CAPÍTULO DEZENOVE
CAPÍTULO VINTE
CAPÍTULO VINTE E UM
CAPÍTULO VINTE E DOIS
CAPÍTULO VINTE E TRÊS
CAPÍTULO VINTE E QUATRO
CAPÍTULO VINTE E CINCO
CAPÍTULO VINTE E SEIS
CAPÍTULO VINTE E SETE
CAPÍTULO VINTE E OITO
CAPÍTULO VINTE E NOVE
CAPÍTULO TRINTA
CAPÍTULO TRINTA E UM
CAPÍTULO TRINTA E DOIS
CAPÍTULO TRINTA E TRÊS
EPÍLOGO
RECADINHO CARINHOSO DA AUTORA
OUTROS LIVROS DA SÉRIE
AGRADECIMENTOS
Dani

O ruído irritante do salto fino rosa púrpura do meu scarpin da Prada,


comprado em Paris nas férias do ano passado, bate no chão em um som
ritmado e ecoa pelas quatros paredes da ampla sala fechada, mesmo com o ar-
condicionado ligado no máximo, livrando-me do calor infernal de Barretos;
estou suando feito Gisele Bündchen depois de um dia inteiro posando para a
lente ágil de um fotógrafo conceituado bem no meio do deserto do Saara.
Sinto como se mãos fortes em volta do meu pescoço me sufocassem
vagarosamente, enquanto os meus olhos estão fixados no emaranhado de fios
grisalhos do senhor de terceira idade sentado à minha frente.

Com calma, ele me avalia de volta com o mesmo grau de intensidade


por cima dos óculos de graus e os olhos cheios de pena. Sabe quão
esperançosa eu estava dessa vez. Coça a cabeça à espera de algum sinal de
vida da minha parte, não sabe se deixa as mãos sobre a mesa ou as recolhe e
esconde no bolso do jaleco impecavelmente branco com o seu nome bordado
no lado esquerdo do peito.
— Está tudo bem com você, senhorita Flores? Faz mais de quinze
minutos que está imóvel, se não reagir terei que mandar interná-la — alerta

doutor Mauro, fitando-me preocupado.

Além de pena, parece constrangido, como se sentisse culpa pelo meu


estado de choque. Abro a boca para dizer algo, mas não sai nenhum som
entendível. Meu cérebro está paralisado, cada músculo do meu corpo

contraído.

— Por favor, filha, diga alguma coisa — insiste, toca meu braço e se
assusta com a frieza da minha pele.

Mas eu preciso ser forte.

Encho o peito de ar, conto 1… 2… 3 e esboço um sorriso falso. Estou


ficando ótima em demonstrar falsa estabilidade mental. Até porque, se eu não
mostrar nenhum sinal de lucidez, acredito que doutor Mauro será capaz sim
de assinar minha internação a qualquer momento.

— Tem certeza de que não tem tratamento, doutor? Talvez em outro


país? Um experimento novo? Eu faço qualquer coisa, pago o que for preciso.
Só preciso de uma alternativa. Só uma. — Debruço sobre a mesa, sem
nenhuma condição de me manter em uma posição digna. Esse é o décimo
diagnóstico que ouço dele nas últimas semanas.

— Eu realmente sinto muito, filha, muito mesmo. Mas não há nada que
eu ou qualquer pessoa no mundo possa ajudar no seu caso, acho que já
passou da hora de parar de lutar e aproveitar o tempo que lhe resta. — Desvia

a atenção para qualquer ponto da sala para não precisar lidar com lágrimas
teimosas que deslizam pelo meu rosto; por mais que as tente segurar, não
consigo.

— Ele é tão jovem, tem tantas coisas para fazer e lugares novos para

conhecer. Se eu pudesse, dava a minha vida no lugar da dele. — Minha voz


sai elevada num misto de dor e desespero; mais triste do que desistir, é não
ter mais alternativas para continuar tentando.

— Eu sei que faria, querida, mas não pode! O máximo que o menino
tem são alguns meses de vida, com muita sorte seis, no máximo. Aceite isso,
sei que é doloroso, mas é preciso.

— O senhor está sugerindo que eu faça o quê? Desista? Fique de braços


cruzados vendo meu irmãozinho que acabei de conhecer morrer por conta

desse maldito câncer? — Aponto o dedo na cara dele, descontrolada.

Marcelo não é apenas meu irmãozinho que acabei de conhecer, ele é


meu filho. Minha vida. Meu tudo. Se ele morrer, eu vou morrer também.
Simples assim.

Assim que tomei conhecimento da existência do Marcelinho, poucos


meses atrás, mexi céus e terras para tomar a guarda dele à pilantra que o
gerou devido aos maus tratos à criança. Ela não mexeu um dedo para ficar
com o filho, ainda riu na minha cara pelo fato de que em breve eu também o

perderia para a morte, pois sua doença é terminal. Entrei em pânico, não
tenho feito outra coisa desde então, além de pular de um médico para o outro,
na espera de encontrar alguma cura para o meu irmãozinho.

— Se acalme, Daniele, precisa aceitar os fatos! — tenta apaziguar a

situação.

— Me acalmar coisa nenhuma, não preciso aceitar nada! O senhor que


precisa de uma decoradora nova para essa sua sala cafona, urgente! Quem
criou a lei que os hospitais têm que ser todos brancos e tristes? Vou pesquisar
sobre isso depois, talvez possa ser revogada.

— Se isso te fará sentir melhor, filha, vá em frente. — Ergue as mãos,


rendendo-se ao meu surto.

— Pois vou mesmo, uma vergonha o Hospital de Câncer Infanto-

Juvenil desse gabarito, que recebe diariamente crianças e adolescentes de


todas as regiões do Brasil serem obrigadas a se tratar nesse lugar deprimente
— continuo a falar, falar e falar coisas sem sentido, sempre faço isso quando
estou apavorada.

É o meu mecanismo de defesa.

— Tudo bem, filha, eu deixo extravasar sua raiva em mim. — Segura


minha mão, compreensivo.

Choro mais ainda, destruída.

— Desculpa, doutor, não quis ser grossa. — Volto a si com a mesma


rapidez que explodo, essa sou eu.

Daniele Flores.

Fala demais, mas em seguida percebe o erro, volta atrás e pede


desculpas.

— Em nenhum momento disse para você ficar de braços cruzados


vendo o seu irmão morrer, Daniele. Ao contrário, estou pedindo que lute com
todas as suas forças para fazê-lo feliz o máximo que conseguir durante o
tempo que lhe resta. — Fico mais zangada ainda, não pelo doutor estar errado
sobre o que diz, mas sim por estar coberto de razão.

— Mas como eu farei isso, doutor, sabendo que perderei Marcelinho

em seis meses? Não dá para fazer ninguém feliz quando se está com o
coração quebrado em mil pedaços como o meu. — Assente, mas não em
concordância. Só se compadecendo da minha dor mesmo.

Doutor Mauro simpatiza muito com meu irmãozinho, todo mundo que
o conhece precisa apenas de alguns minutos para se apaixonar pela sua
perseverança e sorriso cativante. É incrível como o câncer faz as pessoas
amadurecem à força, como no caso de Marcelinho, antes do tempo. Todos os
dias me surpreendo com as coisas sábias que ele solta assim do nada, me
fazendo sentir sortuda por tê-lo em minha vida, mesmo que por tão pouco

tempo. Às vezes penso que ele é um anjo que Deus mandou para minha vida
por algum motivo maior.

— Apenas o ame a cada dia mais, mas não basta só sentir. Precisa
demonstrar com palavras, mas principalmente atitudes — aconselha.

— Eu já faço isso desde que conheci o Marcelinho, mas posso me


esforçar mais.

— Pode chorar e gritar agora, mas assim que colocar o pé para fora
dessa sala, bote um maldito sorriso no rosto e seja a melhor irmã que uma
criança de cinco anos possa ter. — Me dá um sacode sem encostar um dedo
em mim para me fazer acordar para a vida; agora é tudo ou nada.

— Mas… — tento argumentar, sou uma advogada recém-formada e


nunca dou o braço a torcer.

— Mas, nada! Chega de obrigar esse pobre garotinho a fazer um monte


de exames desnecessários e dolorosos, só está perdendo o precioso tempo
dele. — Seu tom é zangado, ele tira os óculos e massageia a área do nariz
com marcas da armação.

De cabeça baixa, concordo e peço para ir ao banheiro. O doutor


autoriza e aponta para a porta à direita, já sabe a minha intenção. Assim que
entro, me tranco no pequeno cômodo quadriculado e deslizo as costas na
porta até meu corpo bater contra o chão frio, cubro o rosto com as duas mãos

e choro de gritar, sem me importar com quem esteja ouvindo.

Esmurro a parede, arranho meu próprio corpo e fico muito brava com
Deus por me deixar passar por algo tão horrível de perder quem eu mais amo
em todo o mundo.

— Por que colocou Marcelo na minha vida para tirá-lo tão rápido de
mim, Deus? Desculpa por não ter sabedoria para entender, mas respeito a sua
vontade e farei o melhor para realizar a missão que me deu — falo em
oração, os olhos apertados, sem saber mais o que fazer com tanta dor.

Choro e choro por um longo tempo, jogada no chão em posição fetal,


sentindo-me no fundo do poço. Ferida demais. Assustada demais. Nunca
precisei lidar com nenhum problema sozinha, fui criada para ser perfeita. Mas
é hora de deixar a vida de princesa de lado, quero ser a melhor irmã mais

velha que uma criança possa ter. E eu serei.

Depois de surtar e colocar toda a minha dor, medo e insegurança para


fora, quando me levanto já não sou mais a mesma pessoa. Enxugo todo e
qualquer vestígio de lágrimas em minha face e ajeito a saia lápis, parte do
meu terninho rosa-choque de três peças, é a minha cor favorita. Saio de
cabeça erguida do banheiro, mais forte, porém quebrada. Sem condição de
dizer mais nada, apenas aceno a cabeça para o doutor e giro o corpo para ir

embora.

— Durante um dos vários exames que fiz no seu irmão, eu o perguntei


com jeitinho o que ele mais gostaria de ter no mundo. Sabe o que ele me
respondeu? — o médico toma a palavra mais uma vez.

— Não, senhor, o quê? — Puxo uma lufada de ar, lágrimas sobem para

os meus olhos novamente.

— Um pai, porque Deus já mandou uma irmã maravilhosa que cuida


dele como se fosse sua mãe — revela e meus lábios tremem.

— Obrigada por tudo, doutor! — Saio praticamente correndo da sala e


bato a porta atrás de mim.

Assim que chego na recepção, obrigo meu corpo a tomar uma postura
digna. Mesmo com o coração sangrando dentro do peito, protagonizo meu
melhor sorriso ao ver o grande amor da minha vida fazendo um pequeno

grupo de enfermeiras rirem a ponto de ficarem com a pele vermelha, seus


cabelos acastanhados quase loiros se movem em sua performance do seu
cantor favorito, Michael Jackson. Na opinião dele, o melhor de todos os
tempos.

— Olá, meninas! Espero que ele não tenha dado muito trabalho para
vocês. — Ainda com o sorriso rasgando o meu rosto, tento ignorar o olhar de
pena das enfermeiras sobre mim.

— Oi, mamãe! É a primeira vez que não sai chorando da sala do

doutor, isso quer dizer que vou ficar bem, não é? — Meu meio-irmão, que
começou a me chamar com carinho de mãe recentemente, numa preguiçosa
manhã de domingo, vem e abraça a minha cintura, todo feliz.

Ele me contou que a sua mãe verdadeira nunca o deixou chamá-la de

mamãe, porque a fazia se sentir velha. Então, assim do nada, durante um


passeio no parquinho com várias outras mães brincando com os seus filhos,
eu pensei:

Por que não?

Enquanto empurrava Marcelinho no balanço, disse a ele que poderia


me chamar de mãe se quisesse. Porque para mim seria uma grande alegria,
afinal, já o amava como a um filho. Desde então, meu menino me chama
apenas de mamãe.

— É claro que você vai ficar bem, meu amor. Nós vamos ficar. Eu
prometo! — Inclina a cabeça para trás para olhar em meu rosto, oferecendo-
me o sorriso mais esperançoso do mundo.

Seus olhinhos verdes idênticos aos meus têm o brilho da inocência e o


mais puro amor que existe, toda vez que olho para eles minhas forças
renovam.
— Eu te amo, Marcelinho, daqui até o infinito. — Aliso o seu rosto
lindo bem de leve e me pergunto como vou conseguir viver um dia sequer

sem olhar para ele, isso vai ser muito difícil para mim.

— E eu te amo além do infinito, mamãe — declara de volta e eu me


compadeço de tanto amor por essa criança.

— Ahh, que amor — suspira um coral de enfermeiras.

— Podemos ir para casa agora, mãe? Eu estou com sono. — Me olha


daquele jeito que eu sei que não está com sono coisa nenhuma, mas sim com
dor.

O câncer dos glóbulos brancos é o mais comum entre as crianças. Cerca


de 30% das neoplasias diagnosticadas em crianças e adolescentes são casos
de leucemia. Tem como sintomas a dor nos ossos e nas articulações, febre,
manchas roxas pela pele e palidez. Se descoberta e tratada cedo, através de
quimioterapia, as chances de cura são de mais de 80%. Infelizmente, a vadia

da amante do meu pai só o levou ao médico quando não tinha mais jeito.

— Claro que sim, meu amor, chega de exames e hospitais daqui para
frente. Faremos só coisas divertidas — prometo.

— Ebaaaa! Você é a melhor mãe do mundo! — Me abraça bem forte e


chego a erguê-lo do chão, tem o melhor abraço do mundo.

— E você é o melhor filho do mundo, Marcelo. Vem, vamos para a


nossa casa. — Nos despedimos das enfermeiras e, de mãos dadas, seguimos o
nosso caminho rumo a um futuro incerto, que Deus nos ajude daqui para

frente.

No entanto, não estou preocupada com as dificuldades que com certeza


aparecerão de todos os lados. O importante é que estaremos juntos, o resto a
gente dá um jeito. Marcelo é uma criança linda, amorosa e gentil, e a farei a

mais feliz desse mundo nos próximos seis meses. Se ele quer tanto um pai, eu
darei um ao meu filho. Mesmo que seja de aluguel.

Momentos desesperadores requerem medidas desesperadas.


Dani

Como uma malabarista habilidosa, equilibro Marcelinho apenas com


um braço em sono sereno, com a cabeça apoiada na curva do meu pescoço.
Sacudo os ombros bem de leve e ajeito a mochila nas costas, no outro braço
está pendurada a minha bolsa salmão favorita da Gucci. Tudo isso
equilibrando nosso jantar só com uma mão. O voo de Barretos para o Rio de
Janeiro chegou um pouco tarde, meu menino dormiu quase toda a viagem.
Está exausto e faminto, assim como eu.

Meu celular não para de tocar no meu bolso. Minhas melhores amigas,
Julia e Yudiana, não param de me ligar à procura de notícias sobre a consulta.

Sem condições emocionais para explicar tudo, apenas enviei uma mensagem
para não se preocuparem, pois está tudo sob controle agora.

— Seja forte, Dani, são apenas cinco andares. — Sorvo uma longa
lufada de ar ao olhar para a infinita escada na minha frente a me desafiar, o
elevador do nosso novo prédio não está funcionando.

Assim como o portão elétrico da frente, linha telefônica, torneira da pia


da cozinha e as travas das janelas, entre tantas outras coisas. Nem interfone
nos apartamentos tem.

Que maravilha!

Depois de ser despejada de casa pelo meu querido pai, aluguei um


apartamento minúsculo localizado numa área de classe média, mas que
parece pra lá de baixa. Tenho muito medo de morar aqui com uma criança

pequena que requer cuidados especiais. Contudo, é o que o meu dinheiro dá


para pagar no momento. Assim que eu confrontei o meu querido pai quando
descobri a existência do Marcelo e saí de casa, fez questão de cortar minha
mesada, cancelou todos os cartões de crédito e bloqueou a poupança que
mantinha no meu nome.

Como acabei de me formar em direito, não será fácil arrumar um


emprego nessa área sem experiência alguma. Mesmo se tivesse, tenho certeza
de que o todo poderoso juiz Flores irá usar toda a sua influência para impedir

que qualquer pessoa no mundo contrate a sua filha rebelde. Eu destruí a vida
dele quando contei para a minha mãe sobre o filho que ele teve com a
amante, então agora ele quer ferrar com a minha. Simples assim.

— Como foi em Barretos, vizinha? — Obrigo-me a sair dos meus


devaneios ao ouvir o sussurro da minha vizinha de porta de frente, Paula.

Está relaxada e com as costas apoiadas na parede do corredor, com um


dos seus vestidos curtos bem justo ao corpo, são quase todos iguais, só muda
a cor. O tom escolhido de hoje é o vermelho-sangue. Minha vizinha tem

orgulho de mostrar a tatuagem de uma comitiva inteira de borboletas na coxa


esquerda, tão malabarista quanto eu, se equilibrando sobre saltos finos
prateados altíssimos.

Não consigo ver o rosto da minha vizinha, coberto pelos longos fios

lisos pretos do seu cabelo lindo, pois está concentrada ao contar uma pilha de
notas de cinquenta reais. Não sei ao certo no que ela trabalha, mas notei que
chega tarde todas as noites e com muito dinheiro no bolso. Ela é um pouco
mais nova do que eu, mas tem uma filha linda na idade do Marcelo. Deve ter
engravidado nova demais. A pequenina Maria é uma menina encantadora de
cabelos cacheados. Os dois se tornaram melhores amigos no mesmo dia em
que nos mudamos para cá há quase um mês; na verdade, fomos bem
acolhidos por todos deste prédio.

— A mesma de sempre, Paula, essa foi minha última tentativa. O


melhor é aproveitar o tempo que me resta — sussurro de volta, ela joga o
dinheiro de qualquer jeito dentro da bolsinha de couro a tiracolo pendurado
no ombro e vem me abraçar.

Faz carinho no cabelo do Marcelo e beija sua bochecha, bem de leve


para não o despertar.
— Eu sinto tanto, vizinha, eu e a Maria vamos te ajudar no que for
preciso. — Quando se afasta, percebo seus olhos marejados e muito

vermelhos, como se já estivesse chorando antes de eu ter chegado.

Eu poderia dizer a ela que um dos cílios falsos gigantes está quase
caindo, mas isso não é nada perto do borrão, como uma sombra preta, em
volta dos seus olhos, assim como o batom vinho mais espalhado pelo rosto do

que na própria boca. A bochecha está vermelha como se tivesse levado uma
bofetada, quase é possível ver as marcas dos dedos, mas não vou falar nada,
não quero constrangê-la.

— Muito obrigada, amiga, eu trouxe uma torta vegana para o nosso


jantar. Será que a Maria ainda está acordada? Podemos comer nós quatro
juntos. — Assente revirando os olhos, não é muito fã de comida saudável.

— Pode ser, loira, mas eu vou fazer algo decente para nós comermos.
Nada de vegano, pelo amor de Deus, e nem me venha com algum dos seus

sucos verdes detox — concordo sem pensar duas vezes, Paula tem mãos de
anjos na cozinha e sempre nos chama para o almoço aos domingos.

—Está tudo bem, mamãe? — Marcelo acorda coçando os olhos.

— Está sim, querido, acabamos de chegar em casa. Está com fome? —


Beijo o topo da sua cabeça.

— Você vai cozinhar? — Me olha assustado com os olhinhos


apertados.

Da última vez que tentei preparar o nosso jantar, quase coloquei fogo

no prédio inteiro, chegou a tocar o alarme de incêndio, ainda bem que


consegui contornar a situação antes que os bombeiros chegassem. No
entanto, isso não impediu o dono do imóvel de me passar um sermão
daqueles.

— Graças a Deus não, querido, eu vou preparar algo decente para o


nosso jantar. — Paula pega o pequeno do meu colo e começa a fazer cócegas
na sua barriga, arrancando altas risadas dele.

— Vocês são dois engraçadinhos, sabia? — Ajudo a fazer cócegas no


Marcelo, que ri mais ainda.

— Por que não vão tomar um banho bem gostoso enquanto dispenso a
babá da Maria? Devem estar cansados da viagem. Podem deixar tudo por
minha conta, só relaxem. — Dessa vez eu que abraço minha vizinha, ela é

uma pessoa incrível.

Sinto um cheiro estranho impregnado no seu vestido quando me


aproximo mais, uma mistura de álcool, cigarro e várias colônias masculinas
diferentes. Sei lá, deve ser alguma marca de perfume exótico.

— Ebaaa! Eu vou poder brincar com a Maria. Você é tão legal, Paula,
quando eu crescer quero me casar com você. — O grilinho falante solta uma
de suas fofuras e abraça o pescoço dela.

— Eu não poderia encontrar um pretendente melhor, docinho. Uma

pena eu não ser o “tipo” para casar, mas ficaria imensamente feliz em ter um
genro igual a você. — Alisa as costas dele com a palma da mão aberta, cheia
de afeto.

Trocamos olhares por cima do ombro do Marcelo, Paula trinca os

dentes para segurar o choro. Estico o braço e seguro sua mão. Nós duas
sabemos que nosso menino nunca vai crescer, se apaixonar, casar ou ter
filhos. Ela, como mãe, entende perfeitamente o tamanho da minha dor.

Toda criança deveria ter a chance de viver todas essas coisas, ou qual
seria o sentido da sua vinda ao mundo? Não sei se algum dia entenderei por
que algumas pessoas têm que ir tão cedo, isso é cruel demais para os que
ficam.

— Não fala essas coisas, filho, porque a mamãe fica com ciúmes. —

Pigarreio para nublar meu tom sôfrego.

— Não precisa ficar com ciúmes, mamãe, também gosto de você. —


Ergue o rosto de repente, nós duas atuamos um sorriso para que ele não
perceba a nossa dor.

— Eu sei, rapazinho, só estou brincando! — Jogo minhas bolsas no


chão e dessa vez sou eu que faço cócegas nele, suas risadas tomam conta do
corredor.

— Posso colocar minha fantasia nova de Homem-Aranha?

— Claro que sim, Marcelinho, pode vestir a fantasia que quiser. —


Sorri sapeca, não consigo dizer não para ele.

Na última visita das minhas amigas, as tias Julia e Yudiana, Marcelo

ganhou um guarda-roupa inteiro de fantasias de todos os super-heróis que


existem para que todo os dias possa usar uma diferente. E nem vou falar nada
do monte de brinquedos que os maridos das minhas melhores amigas
compram para essa criança. Como não aceitei a generosa ajuda financeira que
o rabugento delegado Avilar e o misterioso juiz Thompson me ofereceram
quando saí da casa dos meus pais, tentam mimar meu filho o máximo
possível.

Sei que não estou na posição de negar dinheiro, mas chega de viver às
custas dos outros. Quero trilhar meu caminho sozinha, um passo de cada vez,

crescer por conta própria e provar para o meu pai que posso sim me virar
sozinha. Eu acredito na minha capacidade, vou trabalhar duro para dar um
final confortável e cheio de amor para o Marcelo. Meus amigos amados
podem mimar meu filho quanto quiserem, mas ajuda financeira não aceito.

— Isso não é hora de ficar de conversa fiada no corredor, eu estou


tentando dormir. Se não calarem a boca vou chamar a polícia — rosna a
bruxa do 115 ao abrir uma fresta na porta do seu apartamento, uma senhora
de cinquenta e poucos anos, baixinha e muito rabugenta.

Dona Antônia não gosta de ninguém, sua vida se resume em implicar


com todos os vizinhos. Se acha a síndica, faz uma ronda matinal no prédio
todos os dias com o caderno de notas na mão, e no final do mês mostra para o
proprietário. Sempre usa o mesmo vestido azul florido, pantufas felpudas e

vários bobs no cabelo.

— Ah, vê se não enche o saco, velha mexeriqueira do caralho! —


contra-ataca Paula, com as mãos na cintura. Tapo os ouvidos do Marcelo para
que não escute.

Ela é uma pessoa maravilhosa, mas quando nervosa fala o que vem na
cabeça sem se importar que as crianças estejam por perto.

— Desculpa, dona Antônia, nós já estávamos entrando em casa. —


Pego a chave no bolso do meu paletó, abro a porta do meu apartamento e

acendo a luz; faço sinal e Marcelo entra em casa pisando nas pontas dos pés
para não fazer mais barulho.

— Não tem nada do que se desculpar para essa escrota, Dani. Nós
pagamos o aluguel dessa merda em dia, então podemos conversar em
qualquer horário que quisermos — Paula se exalta ainda mais, gesticulando
as mãos no ar, não suporta a vizinha do 115.
— Essa sua boca suja deveria ser lavada com sabão, Paula, não sei
como uma criança tão linda como a Maria possa ter vindo de uma mulher

desavergonhada feito você. — Bate a porta na nossa cara a mal-educada, não


sei por que tanto mau humor gratuito.

Outra grande dúvida é o porquê de todos do prédio pegarem tanto no pé


da Paula, algumas outras mães dos outros andares nem a cumprimentam,

viram o rosto quando passam por ela.

— Por que não repete isso na minha cara, dona Antônia? Por isso está
solteira até hoje, é melhor ser desavergonhada do que mal-amada! — berra
socando a porta da nossa vizinha.

Pode xingá-la do que quiser, mas não coloca o nome da Maria no meio
que a coisa fica feia mesmo.

— Calma, amiga, não pode deixá-la te afetar assim. — Tento me


aproximar, mas ela se afasta andando em círculos.

— Eu odeio essa velha bruxa! — resmunga, mas não desisto, tento


outro tipo de aproximação com diálogo.

— Então, sei que moro aqui há pouco tempo. Mas já te considero uma
grande amiga, gostaria de saber qual é o problema que a dona Antônia tem
com você? — Me encara com as mãos erguidas como se a resposta fosse
óbvia; continuo com uma expressão confusa.
Sem paciência para me explicar, passa as mãos no rosto e respira
pesadamente.

— Relaxa, loira, dona Antônia é o menor dos meus problemas! Vejo


você e o Marcelinho daqui a pouco, agora vai atrás dele.

— Está bem, amiga — resolvo não insistir no assunto.

— Ah, outra coisa importante, Dani. Regra mais importante de ser mãe,
nunca deixe uma criança sozinha em casa. Então corre — alerta.

Cato nossas bolsas e a torta vegana do chão e entro em casa correndo


atrás do Marcelo, minha vizinha ri do meu desespero. Gosto muito da Paula,
sempre é tão boa comigo. Sendo sincera, não vejo nenhum motivo para
alguém não gostar dela. É uma mãe exemplar, diferente de mim, que estou
tendo que aprender tudo em tempo recorde.

— Já posso tomar banho agora, mamãe? — Paro logo ao passar pela


sala ao ouvir a vozinha que aquece o meu coração, giro o olhar e encontro

meu filho sentado no sofá.

Com a toalha de banho perfeitamente dobrada sobre o colo, me


esperando para auxiliá-lo no banho, não porque que ele não sabe fazer isso
sozinho, mas sim porque ama fazer essas coisinhas simples do dia a dia entre
mãe e filho, já que não teve a oportunidade com a sua mãe biológica. Por isso
quer aproveitar cada detalhe comigo, como se soubesse que temos pouco
tempo juntos.

— Claro que sim, rapazinho, vamos antes que a tia Paula apareça aqui

gritando que o jantar está pronto. — Deixo as bolsas sobre o sofá, chuto meus
scarpins e tiro o meu casaco, colocando-o nas costas da cadeira.

Como de costume, Marcelo faz uma festa debaixo do chuveiro com os


seus bichinhos de plástico. Gosta de brincar com as várias camadas de

espuma formadas pelo sabonete líquido infantil que comprei. Quando eu era
pequena amava a hora do banho apenas por conta disso, então quis
compartilhar com ele.

Pode parecer bobo, mas o amor verdadeiro se revela nas pequenas


coisas.

— Mudei de ideia, mamãe, quero colocar a fantasia do Capitão


América — diz enquanto enxugo os fios loiros dos seus cabelos, toda vez que
me chama de mamãe tenho vontade de chorar de tanta felicidade.

A maternidade de fato é algo fenomenal.

— Como você quiser, filhote. — Ajudo ele a se vestir, tranco a porta e


deixo meu filho lindo e cheiroso brincando em cima da minha cama para
tomar o meu banho.

Mas o chuveiro simplesmente não funciona, sou obrigada a tomar


banho na água fria.
— Mas que inferno! — grito ao sair do banheiro enrolada no meu robe
de seda, tremendo de frio. Lembrar da banheira enorme da minha suíte me

deixa com vontade de chorar, só o meu closet era maior do que esse
apartamento inteiro.

Visto o meu pijama, um macacão muito fofo da Pantera Cor-de-rosa.


Pego Marcelo e vamos para o apartamento da Paula. Bem no instante que

íamos bater na porta, ela abre em um rompante para ir atrás de nós.

— Até que enfim chegaram, pensei que você e o meu gatinho não
vinham mais — dramatiza, nos joga para dentro e fecha a porta com o pé.

— Engraçado, mãe, pensei que eu fosse a sua gatinha — brinca Maria


com um sorriso lindo feito um raio de sol, parece uma princesa com o seu
vestido da Elza do filme da Frozen, também é fã de fantasias.

Paula nunca me falou nada sobre o pai da sua filha, mas com certeza
puxou a maioria dos traços dele. Sua pele é negra, cabelo bem cacheadinho

sobre os ombros e olhos escuros fechadinhos. Linda demais a doce Maria.

— Sinto muito, filha, mas já viu o sorriso desse garotinho aqui? É


irresistível! — Aperta os dois lados da bochecha do Marcelo, meu filho não
gosta disso, mas cavaleiro como é, não diz nada.

Ao contrário, sorri mostrando todos os dentes, lisonjeado com o elogio.

— É verdade, mãe, eu também gosto do sorriso do Marcelinho —


Maria diz, tímida, segurando a barra do vestido, toda graciosa.

Acho que ela gosta dele e ele dela, não é fofo? Demais.

Às vezes imagino ela e o meu filho crescendo juntos como melhores


amigos, estudando na mesma escola e fazendo parte de outro círculo social.
Depois se apaixonando na adolescência, mais tarde casados e dando vários
netos para mim e Paula.

— Agora chega de conversa fiada e vamos comer, meu povo, fiz meu
prato especial de estrogonofe. Sentem-se, crianças, as mamães vão arrumar a
mesa. — Me pega pelo braço e me arrasta pelo braço até a cozinha. Voltamos
com uma travessa de estrogonofe e outra de arroz com um cheiro
maravilhoso.

Eu trago os pratos e talheres, servimos as crianças e nos sentamos para


comer juntos. Mas estou sem fome, nada desce pela minha garganta. Fico em
silêncio enquanto os três conversam o tempo todo de boca cheia. Acho

engraçado, se eu fizesse isso na mesa minha mãe me mandava parar na


mesma hora ou ficaria de castigo por uma semana ou mais.

— Será que posso usar o seu notebook por alguns minutos, Paula?
Preciso pesquisar sobre uma coisa muito importante.

Meu pai não me deixou trazer o meu notebook ou nada de muito valor,
principalmente o meu carro, apenas minhas roupas e sapatos.
— Claro que pode, está sobre a escrivaninha no meu quarto. — Me fita
desconfiada ao avaliar minha feição, sabe que estou escondendo algo.

— Obrigada, amiga, já volto. — Levanto-me, preciso resolver isso o


quanto antes.

Abro a porta do quarto de Paula e me assusto com a decoração,


digamos, um pouco mística. A parede pintada de preto, cheia de prateleiras e

repleta de manequins sem rosto da parte do dorso para cima, com diferentes
modelos e cores de peruca, a janela coberta por cortinas grossas vermelho-
escuro.

Na escrivaninha, além de encontrar o notebook, vejo algumas velas


acesas, uma bola de cristal e um monte de cartas de tarô.

— Será que ela trabalha como vidente? — penso em voz alta, dou de
ombros e me sento na cama com o notebook no colo.

Abro o Google e inicio a minha pesquisa; quando vejo os valores que

surgem na tela, entro em desespero, nunca vou ter dinheiro para pagar algo
assim.

— Pra que você está procurando um ator branco dos olhos castanho-
claros na faixa de trinta e poucos anos que topa fazer trabalhos particulares?
— Quase morro do coração quando giro o pescoço e vejo Paula atrás de mim
bisbilhotando-me na cara dura. Tento fechar a tela, mas ela me impede.
Deus do céu, como essa mulher entrou aqui no quarto que eu não vi?
Credo, que estranho.

— Ok, Paula, descobri que o maior sonho de Marcelinho é ter um pai, e


eu estou disposta a qualquer coisa para conseguir um para ele até o seu
último suspiro — cochicho ao deixar a porta entreaberta, não quero correr o
risco de as crianças nos escutarem.

— Qualquer coisa mesmo, loira? — Assinto.

— Entendo, mas não acredito que procurar um cara na internet seja


uma boa ideia.

— Eu sei, mas não faço ideia de onde encontrar alguém disposto a


fingir ser o pai de uma criança doente — bufo frustrada.

— Vamos pensar com calma, não pode ser qualquer cara. Precisa ser
alguém de confiança, ter os traços um pouco parecidos com os de Marcelinho
e que saiba mentir bem. — Seu rosto se ilumina todo, como se tivesse tido

uma grande ideia. Só falta aparecer uma lâmpada sobre a sua cabeça, tenho
até medo do que está por vir.

— No que você está pensando, Paula? — Arqueou a sobrancelha.

— Para a sua sorte, vizinha, eu tenho um amigo com todas essas


características e que me deve um grande favor. Isso não quer dizer que fará o
“trabalho” de graça, mas por um valor que você consiga pagar. — Abro um
sorriso gigante, parece até mentira isso tudo.

Além de amigo de Paula, vai fazer o trabalho por um preço dentro do

meu orçamento. Com certeza deve ser uma cara muito legal, mal posso
esperar para conhecê-lo.

— Muito obrigada, amiga, por colocar esse anjo na minha vida, serei
eternamente grata a você por isso. — Pulo no pescoço dela e nós duas caímos

sobre a cama, eu não consigo parar de sorrir, mas ela se mantém séria.

— Bem, amiga, eu não chamaria o Léo de anjo… — Dá um sorrisinho


amarelo e passa a mão pelo cabelo, sem graça, pensativa, eu diria.

Não entendo o que ela quer dizer com isso, contudo, estou tão feliz de
ter encontrado um pai de aluguel para o meu filho que não vou me preocupar
com os pequenos detalhes. Não conheço esse tal de Léo, mas já gosto dele.
Dani

Acabamos ficando depois do jantar para assistir ao novo filme do Rei


Leão que as crianças queriam ver desde a semana passada. Marcelinho caiu
em um sono pesado antes do final. Gentil, Paula diz que posso deixá-lo
dormir lá porque a Maria não tem aula no dia seguinte, e como ela trabalha
apenas à noite, poderia cuidar deles sem nenhum problema enquanto eu
resolvo as minhas coisas. Sabe que tenho uma importante entrevista de
trabalho bem cedo. Depois de enviar centenas de currículos para várias
empresas, graças a Deus uma delas retornou meu e-mail com a vaga de
secretária disponível.

Preciso aproveitar essa oportunidade, tenho contas e um pai de aluguel


para pagar. Ajudo Paula a arrumar uma cama improvisada para o meu filhote
no quarto da Maria, me despeço com um beijo no rosto dele e volto para
minha casa depois de agradecer minha vizinha pela noite maravilhosa que
tivemos.

Como de costume, faço o meu ritual noturno antes de dormir. Escovo


meu cabelo exatas cem vezes, passo máscara de pepino no rosto e hidratante
em todo o corpo. Uso cremes específicos para mãos e pés para então dormir.

Meu despertador toca às seis horas da manhã, tiro meu tapa-olho ao bocejar e
me arrasto da cama. Acho que nunca precisei acordar tão cedo antes.
Caminho a passos lentos até o banheiro, sento no vaso para fazer xixi e acabo
cochilando com a cabeça encostada na parede.

Acordo assustada com o autofalante do caminhão do gás que passa


todas as quartas-feiras às 06h30 em ponto; se não fosse isso, teria acordado
só ao meio-dia e perderia minha entrevista. Ser uma pessoa responsável é
mais complicado do que pensei.

— Você vai conseguir, Daniele Flores, só precisa de um café bem forte


e vai estar novinha em folha — converso comigo mesma pelo reflexo do
espelho e jogo um jato de água fria no rosto. Em seguida, vou direto para a
cozinha.

Coloco uma música relaxante no meu celular e deixo sobre o balcão,


tenho uma coletânea invejável de música clássica. Abro o armário e pego
uma chaleira, encho de água e coloco no fogo para fazer o meu delicioso
café. Bufo ao lembrar que o meu chuveiro não está funcionando, então serei
obrigada a mudar os planos e usar a água quente para o meu banho. Nunca
imaginei que chegaria a esse ponto, meu Deus! Preciso arrumar um eletricista
com urgência, o problema é que não tenho dinheiro para pagar pelos seus
serviços no momento.

Faço uma pausa na minha mente e medito por alguns minutos, respiro

devagar uma... duas... três vezes. Meia hora depois já estou de "banho"
tomado e mais calma; escolho um modelito maravilhoso para me dar ânimo
para enfrentar o dia longo que terei hoje. Um vestido rosa lindo de morrer
que eu mesma desenhei e mandei fazer sob medida para mim, um modelo

folgadinho alguns dedos abaixo do joelho. Gola alta e mangas três quartos.
Para dar um charme especial, fiz uma fenda na parte de trás.

Faço uma maquiagem perfeita, discretamente puxada ao tom nude, mas


marcante. Deixo o cabelo por último, já que é lindo de natureza e não precisa
de muita coisa para ficar perfeito. Decido usar apenas um xampu a seco novo
que comprei em uma lojinha R$ 1,99 aqui na esquina. A vendedora simpática
da loja me garantiu ser ótimo, estou ansiosa para experimentá-lo. Pelo que li
na descrição, esse produto veio da China e é da marca chinguilingue. Nunca

pensei que fosse possível comprar algo importado tão barato, isso é
fantástico.

Sentada em frente à penteadeira, tiro o lacre do vidro e espirro em toda


extensão dos fios loiros medianos, uma nuvem de fumaça se forma em torno
da minha cabeça e quase me mata sufocada. No entanto, meu desespero é
ainda maior quando ela se dissipa e mostra o resultado no espelho.
— Ahhhhhhhhh! — berro ao ver o meu reflexo, acho que o quarteirão
inteiro deve ter ouvido.

Meu cabelo está parecendo um ninho de pássaros, e cheira igual a um


gambá morto. Os fios estão duros e espetados para cima com uma cor
esverdeada, não dá nem para prender com um elástico. E agora, o que vou
fazer? Não tenho tempo suficiente para arrumar isso, se é que tem conserto.

O jeito é amarrar um lenço rosa na cabeça, cobrir esse desastre e ir para a


entrevista de trabalho assim mesmo. Seja o que Deus quiser. Antes de sair
pego o spray do diabo e coloco na bolsa, vou devolver essa porcaria e pegar
os meus R$ 1,99 de volta.

Sem o meu carro e sem dinheiro sobrando para pagar um táxi, jogo o
endereço da empresa no Google Maps e vejo como consigo chegar de
transporte público. Nunca andei em um ônibus em toda a minha vida, mas
não deve ser tão difícil assim. Sempre quis saber como é a sensação de

sentar-se do lado de algum desconhecido e admirar pela janela a paisagem lá


fora através do vidro. Vai ser incrível viver essa aventura. Tiro meus óculos
escuros de dentro da bolsa caramelo pendurada no antebraço e o coloco, toda
plena; saio a passos firmes até o ponto em frente ao meu prédio. Depois de
meia hora esperando, enfim o ônibus passa.

Direto por mim.


Ora essa, não sei por que ele não parou se o motorista me viu parada na
calçada. De braços cruzados.

— Ei, motorista, me espera! — Saio correndo feito uma maluca atrás


do veículo com a minha sandália plataforma da Anabela, linda para se usar
em qualquer evento e muito confortável.

— Por que não acenou para o ônibus parar, moça? — indaga o

motorista depois de abrir a porta, então minha ficha cai.

Para o ônibus parar, é preciso acenar para ele. Como não pensei nisso?
É tão óbvio.

— Eu estava distraída, senhor, me desculpe. — Lhe ofereço um sorriso


amarelo e entro morta de vergonha. Se pudesse, me enfiaria inteira dentro de
um buraco.

O ônibus está lotado, parece que tem mais gente de pé do que sentada.
Pago a passagem e passo pela roleta, mal consigo me mexer, está um calor

infernal aqui dentro, deveria ter uma placa de uso obrigatório de desodorante.
Tiro da bolsa meu leque gracioso com estampa indiana em vermelho e preto e
começo a balançar sobre o meu rosto, mas em uma distância segura para não
borrar o meu blush.

— Nossa, que cheiro é esse, meu povo? Parece que tem alguma coisa
podre aqui dentro — reclama o senhor alto e careca, de sobrancelhas grossas,
próximo a mim, com as narinas infladas à procura de onde vem o odor.

Engulo em seco. Contudo, mantenho a pose de Escarlate, toda plena e

de nariz empinado. Se perceberem que vem do meu cabelo, podem me


colocar para fora.

— Esse odor está bravo mesmo, gente, vamos abrir as janelas! — grita
uma mulher lá do fundão.

Me encolho toda e escondo o rosto atrás do meu leque, na esperança de


não ser descoberta. Maldito xampu chinês. Para apertar mais a saia justa em
que me encontro o meu celular toca. Quase me desequilibro em uma parada
do ônibus, mas consigo atender.

— E aí, loira, como estão você e o nosso menino? — Sinto vontade de


chorar ao ouvir a voz de Yudiana, tudo o que eu mais queria agora é poder
abraçar um amigo bem forte e ter certeza de que tudo vai ficar bem.

— Estamos bem, amiga, aos poucos as coisas vão se ajeitando. — Fico

em silêncio, torço o pescoço de um lado para o outro. Sinto um cansaço como


se o peso do mundo todo estivesse nas minhas costas. — Mas e vocês, como
vai a vida de casada e mãe de família? — Sinto alguém relando atrás de mim;
apesar de incomodada, não me preocupo, o transporte está de fato lotado.

Meu coração aperta ao ver tantos idosos, grávidas e mulheres com


crianças pequenas de pé e um monte de jovens sentados, a maioria homens na
flor da idade, fortes e saudáveis com seus fones de ouvido gigantes, presos no
seu próprio mundo. Como se eles não fossem ficar velhos um dia. Uma pena,

mas já não existem mais cavalheiros como antigamente, para mim homem
para casar deve ser no mínimo capaz de ceder o seu lugar para alguém mais
de idade.

— Eu e a minha família não poderíamos estar mais felizes, as crianças

estão ansiosas para o Marcelinho passar um dia aqui em casa conosco para
brincar com eles. — Seu tom é radiante.

— Em breve eu o levarei para visitar vocês, Yudi, mas antes preciso


organizar a minha vida para o bem-estar do meu filhote. — Aperto os olhos
com o coração encolhido dentro do peito.

— Já te disse que podemos te ajudar no que precisar, sua mocreia! Para


de ser orgulhosa. Eu e Julia somos suas melhores amigas e só queremos o
melhor para você e o Marcelinho — repete pela milésima vez, sei que é de

coração e eu quero muito aceitar, mas realmente não posso.

Do que adiantaria lutar por Marcelo se for pelas mãos de outras


pessoas? Essa luta é minha, vou até o fim e não abro mão. Passo o perrengue
que for, mas darei o melhor que essa criança merece. Meu pai me tirou tudo,
mas não a minha dignidade. Ele disse que não sou capaz de cuidar de mim
mesma sozinha, que dirá de uma criança de cinco anos. Bom, é o que
veremos.

— Também amo vocês, Yudiana, mas eu preciso fazer isso sozinha. É

complicado explicar, pela primeira vez na vida vou seguir o pedido do meu
coração, e não aos privilégios que tive a vida toda através do ambiente onde
nasci e cresci, seja pelas pessoas que amo ou a sociedade. — Paro de falar,
assustada, o ônibus entra em um túnel e tudo fica escuro.

A pessoa que estava relando atrás de mim se atreve a apertar a minha


bunda e me dar uma encoxada, sinto algo duro contra minha traseira.

Fico furiosa. Quando saímos do túnel, olho para trás e o desgraçado


está com um sorriso malicioso exibido no rosto, deixando à mostra duas
falhas nos dentes da frente, um homem pavoroso! Barrigudo e todo sujo,
mexendo nas partes íntimas onde tem uma mancha branca úmida, acho que
teve uma ejaculação praticamente em cima das minhas nádegas.

Que nojo!

— Você ainda está aí, Dani? — pergunta Yudiana, preocupada, do


outro lado da linha.

— Te retorno mais tarde, amiga, preciso resolver uma coisa. —


Encerro a ligação.

— Se passar essa mão suja em mim novamente, eu vou te fazer se


arrepender de ter cruzado o meu caminho. — Enfio o dedo cara adentro do
sem vergonha, ele continua rindo mesmo debaixo dos olhares repressivos de
todos os presentes.

— E vai fazer o que, hein, patricinha? Me agredir com a sua bolsa de


couro? Estou morrendo de medo. — Gargalha maléfico, vindo para cima de
mim com o peito estufado, disposto a me tocar mais uma vez, o típico macho
escroto.

O que faz um homem achar que tem o direito de tocar em uma mulher
sem o seu consentimento? Isso é inaceitável. Não me afasto um centímetro,
me imponho no meu um metro e meio de altura e, de queixo erguido, lanço
meu olhar de feminista com orgulho.

— Não, querido, eu farei isso. — Tiro o frasco de xampu a seco da


bolsa e espirro nos olhos dele, ele grita de dor sem enxergar nada. Talvez
meu dinheiro não tenha sido gasto em vão nesse produto.

E não paro por aí, uso o meu leque para dar na cara dele. Tomadas pelo

meu ato de coragem, outras mulheres se manifestam e me ajudam a conter o


meu assediador. Quando uma se impõe, as outras seguem o exemplo.

— Deixa a moça em paz, sem vergonha! Se sua mãe não lhe ensinou a
respeitar as mulheres, nós vamos! — Uma senhorinha usa a sombrinha
florida para dar na cabeça do homem, um golpe atrás do outro.

— Eu vou chamar a polícia para você, tarado! — Outra mulher tira o


tênis de corrida e joga no machista, outras formam uma roda em volta dele e
o empurram de um lado para o outro feito um pião dentro do ônibus em

movimento.

O motorista, vendo o tumulto, estaciona. Enfim dois homens tomam


uma atitude e jogam o tarado para fora, levando consigo uma ótima lição.
Depois que o ônibus volta à rota normal, recebo uma salva de palmas de

todos os passageiros.

— Desça nesta parada, local de destino a quinhentos metros andando


— avisa a voz feminina do Google Maps. Entro em desespero sem saber
como pedir para parar.

— Alguém para esse ônibus, please! — grito a ponto de pular pela


janela a qualquer momento.

— Nesses ônibus mais antigos tem que puxar aquela cordinha ali para
parar, agora só no próximo ponto, minha filha — avisa a senhora agressora

da sombrinha, com um olhar de pena. Está na cara que nunca andei em um


ônibus na vida.

— Muito obrigada, a senhora é muito gentil — digo engolindo o choro,


eu faço tudo errado!

Fico de cabeça baixa, xingando-me em pensamento.

— Definitivamente isso não tem como ficar pior, não mesmo! —


resmungo ao descer no ponto seguinte, olhando para todos os lados sem fazer
a mínima ideia de onde estou.

Tento ver minha localização, mas minha bateria acaba. Como se não já
não fosse o bastante, num estalar de dedos começa a chover forte. Agora,
além de descabelada e fedida, estou sem comunicação, molhada e perdida.
Mas isso não é o pior, nem por um milagre conseguirei chegar na minha

entrevista de emprego a tempo.

Entro em uma lanchonete para fugir da chuva, encontro uma mesa


escondida no fundo e me sento com as duas mãos sobre o rosto, em prantos.

— Então, moça, em que posso lhe ajudar? — Ergo o olhar para o


garçom, ou melhor dizendo, garçonete. Ele está vestido com um uniforme
feminino de muito bom gosto, devo dizer, um xadrez de vermelho e preto.

Nunca vi uma maquiagem tão bem-feita antes, e olha que sou exigente
com combinações de cores fortes quando o assunto é sombra, mas ele

conseguiu misturar amarelo e azul de um jeito que combinou e muito com o


tom negro da sua pele. Apesar do fato dele já ter o rosto muito bonito de
natureza ajudar muito. Gosto dos seus traços marcantes, boca grande e nariz
longo.

É um homem alto e traz o cabelo em um corte curtinho que valoriza as


duas argolas grandes douradas na orelha que balançam de um jeito charmoso.
Tudo nele exala elegância.

— Pode me ajudar arrumando uma outra entrevista de emprego, tenho

um filho doente e muitas contas para pagar. Também preciso com urgência
dar um jeito no meu cabelo, um banho de verdade em uma banheira gigante
cheia de sais de frutas. Mas por hora, se puder me emprestar um telefone para
eu pedir uma carona para casa, eu já agradeceria muito. — Entorno tudo em

cima dele feito uma maluca, depois começo a chorar.

Primeiro seus olhos quase saltam para fora das órbitas, depois
recompõe a postura e olha para o relógio na parede.

— E eu que pensava que a minha vida era uma merda, moça. Mas a
sua? Só Jesus na causa. Toma, pode usar o meu celular o tempo que quiser.
— Sorri carinhoso, de um jeito que me faz sorrir de volta.

Tira o celular do bolso e me entrega; disco o número da única pessoa


capaz de me encontrar, não importa onde eu esteja.

— Alô, filha, tudo bem com você? — Choro mais ainda ao ouvir sua
voz paternal, como senti saudades desse velho rabugento.

— Será que pode vir me buscar, senhor Li? — peço ao motorista da


minha família há mais de trinta anos, foi ele que trouxe minha mãe do
hospital para a casa comigo nos braços quando nasci.

Me levou no primeiro dia de aula e em todos os anos seguintes. Fez o


mesmo na faculdade. Sempre ia comigo fazer compras em todos os outros
lugares que eu ia antes de tirar habilitação, ganhei meu primeiro carro aos

dezenoves anos. Mesmo assim, o elo que criamos em todos esses anos
continua intacto. É como um pai para mim.

— Claro que sim, senhorita Flores. Onde você está?

— Eu não faço ideia! Parei no ponto de ônibus errado, e o meu celular

acabou a bateria, então pedi o de outra pessoa emprestado. — Começo a


chorar novamente, estou no fundo do poço.

— Calma, filha, me deixa falar com o dono do celular para que eu


possa descobrir onde você está e em breve apareço para te pegar — diz no
seu tom doce paternal, que sempre me faz sentir segura.

— Obrigada, senhor Li, mas pensando melhor, me ajudar não vai te


arrumar problema com o meu pai? — Paro de drama e caio em mim.

— O seu pai nem está na cidade, Dani, foi em uma reunião de trabalho

em São Paulo e só volta amanhã. — Respiro aliviada, não quero que se


prejudique por minha causa.

— Assim fico mais tranquila, muito obrigada por tudo.

— Não precisa agradecer, filha, agora passa o celular para o dono —


pede e assim o faço, envergonhada de estar dando tanto trabalho para um
estranho.
Eles conversam por alguns minutos, depois encerram a ligação.

— Seu motorista disse que chega em trinta minutos, pediu para que não

chore mais porque tudo vai ficar bem. — Sua expressão é de alívio por mim,
ainda existem boas pessoas no mundo.

— Estou te devendo uma! Só para deixar claro, adorei o seu corte de


cabelo. Elegante e ao mesmo tempo muito estiloso — sou obrigada a elogiar.

— Obrigada, baby, pena que eu não posso dizer o mesmo do seu. —


Aperta o nariz com os dedos e contorce o rosto. — Vem comigo, vamos
começar dando um jeito no seu cabelo enquanto o seu motorista não chega.
Para a sua sorte tenho um intervalo de trinta minutos agora. — Pega o meu
braço e me puxa para um quarto nos fundos da lanchonete, uma espécie de
vestiário para os funcionários.

— Não precisa fazer isso, moço, chega de te dar mais trabalho. —


Finge que não me escuta, arrasta um banquinho e me faz sentar nele.

— Se me chamar de "moço" de novo, patricinha, eu vou rodar a minha


baiana. Meu nome é Michelle, com dois “LL”, porque é mais chique. Muito
prazer. — Finge beijar cada lado do meu rosto, ele é engraçado.

Com uma técnica de mestre e uma pomada anti frizz milagrosa e muito
cheirosa, usa o auxílio de um pente fino para cumprir a promessa de dar um
jeito no meu cabelo. Enquanto trabalha, me conta um pouco sobre a sua vida;
começa aos dezessete anos, quando descobriu-se transexual, e de como teve o
apoio de toda a família no processo, inclusive do pai. Que, quando descobriu,

disse ao filho que ele o amaria sempre, independente de qualquer coisa. Mas
não teve o mesmo apoio da sociedade, já foi agredido e humilhado na rua por
estar vestido de mulher, entre tantas outras situações difíceis.

Sua história é uma inspiração para mim, mesmo depois de tudo, nunca

desistiu de seguir em frente. Apesar dessa manhã desastrosa, estou feliz pelo
meu caminho ter cruzado com o de Michelle. Alguma coisa me diz que Deus
tem um grande propósito para isso no futuro, seja para ela ou para mim. Cedo
ou tarde ainda vamos nos reencontrar.

— Então, linda, gostou? — Me empresta um espelho pequeno de bolso


para ver o resultado, fez uma trança de lado com várias camadas.

Simplesmente divina!

— Eu não gostei, Michelle, eu estou in love com esse penteado. —

Levanto e a abraço, já me sinto amiga dela.

Está sendo tão gentil comigo sem nada em troca, salvou o meu dia.

— Calma, mulher, ainda falta um detalhe. — Abre o seu armário, tira


um vestido lindo de lantejoulas lilás e me entrega.

— Ele já está na minha bolsa tem uma semana para entregar para
doação, já brilhei muito com ele nos meus shows de Drag Queens, mas nem
se eu ficar sem comer um ano vou conseguir entrar nele de novo. Pode ficar
com ele e tira logo essa roupa molhada, não quero que pegue um resfriado.

— Começo a dar pulinhos de alegria e a puxo para um abraço, pequenos


gestos podem salvar o dia de alguém.

— Essa é uma das minhas cores favoritas, a outra é rosa. — Bato


palminhas.

— É, bebê, pela sua alegria eu percebi. — Gira os olhos.

— Se você gostasse de mulheres, me casava com você. — Solta


uma gargalhada alta.

— Vira essa boca pra lá, criatura, sou muito feliz do jeito que sou.
Agora vai se trocar logo, meu intervalo está quase no fim. — Me entrega uma
sacola de plástico para colocar minhas roupas molhadas e mostra o banheiro,
sempre cuidadosa e gentil para me fazer sentir à vontade.

Assim que termino de me trocar, senhor Li manda uma mensagem

dizendo que já chegou. Me despeço de Michelle com muito carinho, agradeço


novamente e deixo o meu telefone para que possamos tomar um café juntas
em breve. Quero levar o meu filho comigo, será muito bom para o
Marcelinho conhecer esse exemplo incrível de ser humano lindo por fora e
por dentro.

Ao sair do restaurante, logo de cara vejo o Audi preto estacionado do


outro lado da rua. Encostado no veículo, de braços cruzados, está o senhor Li
com o seu terno preto impecável, ele é a única pessoa que conheço que

consegue ser ainda mais baixa do que eu, quase um anão.

— Bom dia, senhorita Flores, aonde deseja ir? — Tira o quepe da


cabeça e acena, como sempre fazia quando me esperava depois da escola.

— É tão bom ver o senhor, senti saudades. — Abraço o seu pescoço,

ele sorri meio sem jeito, mas retribui o meu gesto de carinho.

— Também senti muitas saudades, filha, e não sou só eu. — Abre a


porta de trás do veículo. Quando vejo quem está sentado no banco, meu
coração falta pouco a saltar do peito.

— Walter! — Abro os braços, quando ele me vê salta para fora do


carro com sua gravata borboleta azul e pula no meu colo.

Walter é o cão mais lindo do mundo, um pinscher de pelagem preta


com marrom, metido e bem treinado, de sete anos. Não vai no colo de mais

ninguém além do meu. Eu o amo demais, quase me acabei de tristeza quando


fui embora de casa e o meu pai me proibiu de levá-lo comigo. Disse que, se
foi comprado com o dinheiro dele, lhe pertencia, fez isso de maldade porque
sabe que amo essa criaturinha como se fosse o meu filho mais velho.

— Oi, filho, sentiu falta da mamãe? — Como se entendesse o que eu


digo, lambe todo o meu rosto em resposta.
— Desde que foi embora, ele permaneceu deitado em frente à porta
esperando a sua volta, nem isso comoveu o seu pai. Por isso resolvi trazê-lo

para a senhorita escondido. Quando o juiz Flores voltar, direi que o cão fugiu.
— Dá de ombros e abre a porta de trás para nós entrarmos.

— Eu serei eternamente grata por isso, senhor Li — afirmo rindo


sozinha. Agora eu, Marcelinho e o Walter somos uma família de três.

Marcelo vai amar o Walter, tenho certeza.

— Trouxe as coisas do Walter, não é? Por favor, diga que sim.

— Claro que sim, senhorita, a bagagem dele está no porta-malas — me


tranquiliza, sabe o quanto Walter é exigente com as suas roupas de marca.

Eu mesma montei o seu guarda-roupa com o auxílio de um estilista


canino italiano, tem de roupa esportiva a terno. Uma coleção de gravatas de
todos os modelos e cores, e apesar de ser menino, ama a cor rosa, assim como
eu. Gosto de sair com ele combinando cores.

— Eu não sei se já te disse isso, Daniele, ou se tem valor para você,


mas saiba que estou muito orgulhoso pelo que está fazendo pelo garoto. Se eu
tivesse uma filha, queria que fosse igual a você. Forte, corajosa e com um
coração do tamanho do mundo. — Sorri para mim pelo retrovisor enquanto
dirige, sorrio para ele de volta.

O meu dia que começou terrível, não me parece mais tão ruim. Se tudo
tivesse dado certo eu poderia ter um emprego agora, mas não teria aprendido
uma lição importante:

"O que não me mata faz de mim mais forte."

De quebra ainda fiz uma amiga, matei a saudade do senhor Li e ainda


tenho o meu querido Walter de volta.

— Eu iria amar ser sua filha e ter traços orientais, acho tão lindo!
Menos esse olho puxadinho, nem consigo ver a cor dos seus olhos, senhor Li
— implico, se tem uma coisa que esse homem ama é ser chinês.

— Que nada, menina, a mulherada pira nesse meu olhinho puxado. —


Faz biquinho e beija o ombro para que o recalque passe longe.

Fazemos o trajeto até a minha casa rindo, conto para o senhor Li sobre
o xampu chinguilingue que comprei vindo do seu país e tem um ataque de
risos enquanto dirige. Viajar com ele para qualquer lugar é sempre muito
divertido.

— Estão entregues em casa, senhorita Flores. Se precisar de mim, não


hesite em ligar, virei o mais rápido que eu puder. — Abre a porta para eu
descer em frente ao meu prédio, foi muito bom passar um tempo com ele e
me sentir em casa novamente.

— Obrigada, senhor Li, por tudo!

— Só um minuto, vou pegar a mala do Walter. — Vai até o porta-


malas, de onde pega uma mala pequena e me entrega, além de uma mochila
só com os brinquedinhos do meu cão. Sempre mantive suas coisas bem

organizadas, tem um espaço especial no meu closet só para ele.

— Você é uma das pessoas mais incríveis que conheço, senhor Li —


me despeço dele com um abraço forte, sempre me dei muito bem não só com
ele, mas com todos os empregados lá de casa.

Todos já estavam lá antes de eu nascer. Como meu pai vivia


trabalhando e minha mãe gastando o dinheiro dele, eu passava a maior parte
do tempo com os empregados. São minha segunda família, cada um deles
muito querido para mim.

— Se cuida, filha, fica com Deus. — Acena da janela e se vai, fico


olhando até que o carro suma no final da rua.

— Pronto para conhecer a sua nova casa, filhinho? — Beijo seus pelos
sedosos enquanto subimos as escadas, ele se espreguiça manhoso, gostando

do meu carinho. — Conta para mim o que andou fazendo longe da mamãe!
Espero que não tenha namorado aquela poodle metida dos nossos vizinhos.
Ela não é cachorra para você, muito menos serve para ser mãe dos meus
netos — sou direta, ele ergue as orelhas me olhando de canto de olho.

Sim! Ele andou de namoro com a poodle esnobe. Cães, todos iguais.

— Eu sabia que as loiras são burras, mas malucas é novidade para mim.
Sabe que esse cão sarnento não fala, né? — Uma voz grossa toma conta do
corredor, grave e imponente demais a ponto de subir um calafrio por toda a

minha espinha.

Rapidamente me recomponho e viro para olhar o dono dela, um


moreno, aquele tipo perigoso de tirar o fôlego.

— Você me chamou de quê? — Encaro o peito largo do gigante diante

de mim, o monte de músculos explodindo debaixo da camiseta branca.

Os braços são cobertos de tatuagens sinistras, nunca tinha visto um


homem com tantas assim de perto. A cozinheira lá de casa, senhora Vanda,
sempre dizia:

“Os homens tatuados são os melhores na cama, têm mais atitude. Mas
para casar, escolha os de gravata e uma maleta que chegam a tempo para o
jantar.”

— Pelo visto, além de maluca é surda também. Que maravilha! — Seu

tom é uma mistura de ironia e irritação, inclino a cabeça para trás com uma
boa resposta na ponta da língua que grosseirões como ele merecem.

Eu e o Walter vamos erguendo o olhar sobre o estranho,


vagarosamente, passo pelos óculos escuros estilo aviador preso na gola da
sua camisa e o cordão no pescoço com um pingente de cruz de madeira e vou
subindo até encontrar o seu rosto. Palavras me faltam quando encontro os
olhos negros mais intensos que já vi. Tento ver algo bom detrás deles, mas
não encontro nada além de dor e vazio. Um vazio tão imenso, que lágrimas

sobem em meus olhos.

Apesar dos traços rústicos e um gosto terrível para roupas, sou obrigada
a admitir que estou diante de um homem extremamente charmoso.
Misterioso. Sobrancelhas grossas quase unidas, barba grande farta de ano ou

mais. E o cabelo castanho escuro com algumas mechas mais claras, preso
igual ao de um samurai.

— E... eu — tento dizer algo inteligente e manter a pose de durona,


mas a forma como suas pupilam dilatam ao me encarar meio que me
hipnotiza.

— Ainda por cima a loira burra é gaga, Jesus Cristo! — Gira os olhos
sem paciência, como se a sua vontade fosse exterminar todas as loiras da face
da Terra.

Qual o problema desse cara, hein?

— Eu não sei de onde você veio, rapaz, muito menos o que está
fazendo no meu prédio. Mas vou conversar com o porteiro para não autorizar
mais a sua entrada na portaria. — Fico nas pontas dos pés e enfio o dedo na
sua cara, minha raiva dobra conforme um sorriso de canto presunçoso se
forma em seus lábios grossos.
— Para começo de conversa, patricinha, esse prédio velho do cacete
nem tem porteiro — rebate com a sua postura superior com as mãos no bolso,

pelo visto sabe mais sobre esse prédio do que eu.

— Patricinha é a sua mãe, seu grosso! — Não sou de ser grossa com
ninguém, mas só o olhar desse cara me irrita e eu acabei de conhecê-lo.

— Não ouse falar da minha mãe, ela não está mais entre nós para se

defender. — Infla sobre mim parecendo ainda mais alto e forte, quero correr,
mas minhas pernas não se movem.

Ameaço abrir a boca para dizer algo, mas o som da porta do


apartamento de Paula se abrindo me cala.

— Pelo visto você já conheceu o pai do seu filho, Dani, espero que
estejam se dando bem — fala aos risos, tanto eu quanto o ogro ficamos sem
palavras.

O fato do queixo do tal de Léo estar literalmente caindo me diz que a

maluca da Paula ainda não falou nada sobre o Marcelinho para ele até o
presente momento.
Dani

Meus olhos giram dentro da cavidade ocular na direção de Paula,


mascando seu chiclete de cereja com a boca aberta. Braços cruzados e o pé
esquerdo batendo no chão sem parar, como um tique nervoso. Desde que
intimou a mim e ao grosseirão do Léo para entrar no seu apartamento para
uma conversa, que o homem não para de gritar feito um maluco. Nem me
movi depois que sentei no sofá, esse cara me assusta de um jeito que não
explicar. Não é só eu, Walter se escondeu dentro da minha bolsa, com as
orelhas em pé.

Ainda bem que a babá da Maria veio mais cedo hoje, a pedido da mãe,

e levou as crianças para passearem no parquinho atrás do prédio antes da


nossa chegada. Paula tinha tudo planejado, eu vou matá-la depois!

— Você só pode estar de brincadeira comigo, Paula, que história é essa


de pai de aluguel? Mas nem fodendo! — esbraveja com a voz grossa e
elevada.

— Calma, Léo, me deixa explicar melhor — Paula tenta argumentar,


mas o grosso não deixa.

— Não precisa explicar porra nenhuma! Se foi para esse trabalho que

me chamou aqui para conversar, estou fora. Eu nem gosto de crianças. —


Retoma a atenção em mim, com aquele olhar de desprezo capaz de congelar.
— Muito menos das mães delas, em especial aquela dali. — Aponta para
mim, que idiota.

— Como não gosta? Se é um amor com a Maria, até aceitou ser


padrinho dela — Paula o coage.

— Eu não gosto da Maria, aprendi a suportá-la porque é filha da minha


amiga. Isso é bem diferente. — Uma veia solta para fora do seu pescoço, não
sei para que tanta raiva dentro do coração.

— Foda-se, Léo! Você me deve uma, já esqueceu o que aconteceu na


virada do ano de 2018?

— Lembrar disso é jogo sujo até para você, Paula. Sabe que não gosto

de falar nisso, principalmente na frente de terceiros.

No caso, eu.

— Eu sei, Léo, desculpa. Mas tenta pelo menos uma vez na sua vida
pensar em alguém que não seja você mesmo. Além do mais, não está na
condição de escolher trabalho, precisa de cada centavo que puder juntar para
seu o ... — O jeito que Léo olha para Paula, de canto de olho,
ameaçadoramente, faz com que ela cubra a boca com as duas mãos antes de
falar algo que só os dois sabem, e se depender dele vai continuar assim…

Em total segredo.

— Por que é tão importante para você que eu ajude essa patricinha
metida? Resolveu bancar a Madre Tereza de Calpusá? — pergunta irônico.

— É Tereza de Calputá, seu idiota — corrige Paula, mais errada do que


o amigo.

— É Tereza de Calcutá, gente! — penso alto, revirando os olhos.

— Ninguém pediu a sua opinião, patricinha, então mantenha a porra da


boca fechada. — Os olhos negros caem sobre mim, tempestuosos, ele sabe
como intimidar alguém.

— Não fala assim com a Dani, ela só está desesperada para fazer o
filho feliz — Paula tenta me defender, mas o seu amigo sabe ser bastante

persuasivo.

— Ajudar como? Pagando um garoto de programa para se passar por


pai dele, nossa! Ela com certeza vai ganhar o prêmio de mãe do ano por isso
— debocha, e eu fico de boca aberta.

Não tenho nenhum preconceito contra esse tipo de profissão, mas Paula
deveria ter me contado esse pequeno detalhe antes de indicá-lo para ser o pai
do meu filho.
— Não fala do que você não sabe, seu babaca, o filho dela está doente e
sonha em ter um pai — argumenta apelando para chantagem emocional, mas

acho que isso não funciona com esse cara.

— Eu não estou nem aí se esse garotinho está doente, todo mundo vai
morrer um dia. É o ciclo da vida. — Balança os ombros com desdém. Não
disse? Só se importa com ele mesmo.

Mesmo assim, fico perplexa com a falta de tato e desprezo desse ser
humano ao falar de um garotinho em uma situação tão delicada, tem que ser
muito mal para isso. Ranço mortal desse cara.

— Pode ficar tranquilo, moço, eu prefiro ver o meu filho morrer órfão
do que com um “pai” desprezível como você. — Viro o rosto para o outro
lado, se eu olhar para ele nesse momento sou capaz de deixar as marcas das
minhas unhas de gel na cara desse energúmeno.

— Que bom que pelo menos concordamos em alguma coisa, patricinha.

— Sorri de canto, irônico.

Tira os óculos escuros da gola da camiseta e coloca cheio de estilo,


jogando a franja que se desprendeu para o lado, pretencioso.

— Agora, se me derem licença, tenho mais o que fazer do que atender


ao capricho de uma amiga sem noção e uma mãe maluca. — Se vai sem ao
menos olhar para trás.
Sinto-me aliviada em vê-lo partir, espero que essa seja a última vez que
nossos caminhos se cruzam.

— O filho da Dani tem câncer terminal, dessa vez a leucemia vai levar
um menino lindo de cinco anos — Paula tenta uma última investida, seu tom
é baixo e cuidadoso, como se pisasse em um campo minado.

A mão aberta de Léo paralisa no ar antes mesmo que possa tocar a

maçaneta, é possível ver cada músculo das suas costas largas se contraindo.
Ombros encolhidos, pés tocando o chão de maneira incerta, como se acabasse
de ser acertado por um tiro.

— Quanto tempo o moleque tem? — questiona em um tom


apaziguador, ainda de costas para nós.

— O médico disse que, com muita sorte, seis meses — respondo com a
dor me corroendo por dentro

— Eu faço o trabalho, mas com as minhas condições. Depois envio

tudo por escrito e reconhecido por cartório, não confio nessa loira aí. — Gira
o pescoço e me fita por cima dos ombros, desafiador e cheio de mistério.

— Você vai? — Empalideço.

— Só para você saber, mamãe do ano, sou muito bom em tudo o que
faço. Isso quer dizer que os meus serviços não são baratos. — Joga uma
piscadela na minha direção, depois vai embora cheio de pretensão.
Fico de pé, decidida a fazer o mesmo caminho de saída que ele. Por
mais que eu tente digerir tudo o que aconteceu aqui, simplesmente não

consigo. Me sinto traída por uma amiga e humilhada por um estranho


escroto.

— Eu sabia que o Léo iria aceitar, amiga, deu tudo certo. — Paula me
abraça eufórica, mas estou tensa demais para retribuir de maneira sincera.

— Quando pretendia me contar que o seu amigo é um acompanhante


de luxo? Para mim tanto faz qual é a profissão desse Léo, mas deveria ter me
alertado sobre isso, e que ele é um grosso de marca maior. — Me afasto dela,
pensei que fosse minha amiga e gostava do Marcelinho.

— Eu sei que o Léo parece assustador à primeira vista, mas não julgue
o livro pela capa. Dê uma segunda chance a ele. Por trás desse cavalheiro
sombrio, existe um príncipe encantado que criou essa barreira de gelo em
volta do coração por medo de ser magoado por alguém mais uma vez. —

Abraça o próprio corpo com o olhar perdido, ela sabe de alguma coisa sobre
esse cara que a faz acreditar fielmente que tem alguma coisa de bom nesse
embuste tatuado de um metro e noventa.

— Por acaso passou pela sua cabeça que alguma cliente poderia
reconhecê-lo na frente do Marcelinho e dizer ou fazer algo indiscreto?

— Pode ficar tranquila, Dani, nesse ramo da prostituição a primeira


regra é não dizer absolutamente nada sobre a vida pessoal para os nossos
clientes — explica sem pretensão ao balançar os ombros, como se tivesse

mestrado e pós-doutorado no assunto.

Com calma, tira um elástico do bolso e prende o cabelo em um rabo de


cavalo torto.

— Nossos clientes? — repito suas últimas palavras com a sobrancelha

arqueada, o bom de ser advogada é que você está sempre ligado em cada
detalhe.

— Merda! Eu e essa minha boca grande, agora vou perder a única


amiga que fiz em muitos anos. Já vi esse filme antes. — Começa a dar tapas
no próprio rosto, como que se quisesse se castigar por falar demais.

— Para com isso, Paula, vai acabar se machucando — peço.

— Vá em frente, Daniele Flores, pode dar o seu ataque de pelanca e


sair batendo a porta e nunca mais falar comigo. Só peço que não proíba

minha filha de ver o Marcelo, ela gosta muito do coleguinha e não tem nada a
ver com as merdas que eu faço.

— O quê? — Junto as sobrancelhas, não sei em que ponto ela quer


chegar com essa conversa.

— Onde estava com a cabeça quando pensei que alguém de classe


como você poderia algum dia fazer amizade com a prostituta de esquina? Isso
só acontece nos filmes clichês — tropeça entre as palavras andando em
círculos pela sala, enrolando uma mecha de cabelo entre os dedos, agitada.

Coloco minha bolsa com o Walter sobre a mesinha de centro em frente


ao sofá de couro marrom, só com a cabecinha para fora, de olho na situação,
e vou até Paula. Seguro-a pelos braços e dou um sacode nela, obrigando-a a
voltar a si, parece estar em surto.

— Primeiro, eu amo filme clichê. Segundo, o que você faz ou deixa de


fazer da sua vida não me interessa. Seu corpo, suas regras. O que importa
para mim de verdade é a maneira como me trata. Se for legal comigo, eu serei
legal com você e ponto final. Amigo de verdade não julga as decisões do
outro, respeita. — Primeiro a mulher fica muda com os olhos arregalados
sobre mim, depois inicia um ataque de choro.

— Eu… eu pensei que fosse me abandonar como todos fizeram quando


engravidei da Maria com apenas quinze anos. Como não cedi à exigência da

minha mãe de fazer o aborto, tive que escolher entre entregar o bebê para a
adoção ou sair de casa. Bem, acho que já sabe qual foi a minha escolha. —
Fita os próprios pés, envergonhada demais para olhar para mim, como se
tivesse feito alguma coisa de errado ao escolher ficar com a filha ao invés de
acatar o pedido cruel da mãe, de abortar um anjinho inocente.

Talvez por isso eu e Paula nos demos tão bem logo de cara; apesar de
histórias completamente diferentes, nós duas abrimos mão de tudo por amor a

um filho.

— Eu sinto muito por toda dificuldade que passou, Paula, mas estou
muito orgulhosa de você por não ter desistido da Maria e se tornado essa mãe
maravilhosa. — A abraço por um longo tempo e deixo que chore com a
cabeça apoiada no meu ombro, mas ainda sinto suas lágrimas deslizando pelo

seu rosto e gotejando em mim.

A puxo para o sofá, ela se senta ao meu lado ainda com a cabeça
apoiada no meu ombro, confiante para desabafar um pouco.

— Sem o Léo eu não teria conseguido, Dani. Por isso me jogaria no


fogo por ele, não me pergunte por que confio tanto nele. Para explicar, teria
que contar coisas sobre seu passado que não tenho autorização de dizer.

— Mas, e o pai da Maria, por que não pediu ajuda dele quando
descobriu que estava grávida? — questiono, mas ela não responde e começa a

tremer muito.

Assustada, talvez?

— Nunca mais fale deste homem, eu odeio! Enquanto você quer


arrumar um pai para o seu filho, desejo todos os dias que o da minha morra
da pior maneira possível por ter destruído a minha vida.

— Nossa! Mas o que ele fez de tão ruim para desejar sua morte?
— Me iludiu com o seu falso amor; jovem e inocente, me entreguei a
ele. Quando contei da minha gravidez, toda feliz, me deu uma bofetada e

disse que o problema era meu e não estragaria sua vida por causa de um filho.
Foi embora e nunca mais o vi. — A tristeza nubla suas feições, nem parece
mais a mulher forte e destemida que conheço.

— Eu sinto muito por ter passado por tudo isso, Paula. Desculpa por ter

perguntado sobre algo tão delicado. — Enfiei o dedo em uma ferida aberta de
muitos anos, me sinto mal por isso.

—Tudo bem, amiga. Vamos mudar de assunto, vai ou não contratar


Léo para se passar por pai de Marcelinho? Por favor, diz que sim — insiste.
Não sei por que está tão teimosa em relação a isso se já viu no meu primeiro
encontro com o embuste que somos a Chanel e a Prada.

Cada marca tem o seu estilo único, mas se tentar combinar as duas num
só look, vira um desastre total.

— Me dê um bom motivo para contratá-lo, e eu o farei. Porque, sendo


sincera, depois de conhecê-lo não vejo nenhum motivo para isso. — Só de
lembrar daquela cara de esnobe desse cara, me dá urticária.

— Você não entendeu, Dani. Não é o Marcelinho que precisa de


alguém como Léo na vida dele para salvá-lo de um final triste, mas sim o
contrário. — Fica de joelhos de frente para mim e segura as minhas mãos,
não vai desistir tão fácil.

— Como assim, Paula? Estou confusa.

— Eu sou sensitiva como a minha vó, consigo sentir a aura do seu filho
a quilômetros de distância, nunca vi nada nem parecido antes. É algo
diferente. Celestial. — Meu coração bate forte, a razão me diz que isso tudo
é uma grande loucura, mas talvez traga muitas respostas para as quais eu não

tenho capacidade de compreender no momento.

— Fala para o seu amigo que é bom chegar no meu apartamento


amanhã às 19h em ponto para conhecer o Marcelo, de banho tomado e uma
roupa decente, ou o trato será desfeito — dou o veredito final, mas apavorada
de estar fazendo a coisa errada.

Mas se tem uma coisa que aprendi na vida, é que só erram aqueles
corajosos o suficiente para tentar. Não dar certo é melhor do que o
arrependimento de não ter tentado. Preciso preparar o Marcelo para esse

encontro amanhã, e principalmente o meu psicológico para aturar esse Léo.


Querendo ou não, se tudo der certo, fará parte das nossas vidas pelos
próximos seis meses
Dani

Saio do apartamento da minha vizinha, pensativa, chego em casa e a


primeira coisa que faço é deixar Walter dormir na sua caminha. Coloco meu
celular para carregar sobre o móvel da sala e ligo o aparelho para enviar uma
mensagem de pedido de desculpas para a empresa, por não conseguir chegar
a tempo para a entrevista de trabalho. Mas, quando abro minha caixa de
mensagens, vejo que recebi um e-mail desconhecido escrito apenas:

“Essas sãos as minhas condições para fazer o trabalho”

Léo R.

Só um minuto, como esse cara conseguiu o meu endereço de e-mail?


Isso tanto faz agora, aproveito que a babá da Paula não chegou com as
crianças e vou para a casa ler com calma o arquivo anexado na mensagem.
Deixo meu celular carregando e faço um chá de maracujá para acalmar os
ânimos, minhas mãos estão trêmulas. Mas consigo colocar a água quente na
xícara e jogar o sachê. Tiro os sapatos e sento no sofá da sala, bem à vontade,
tomos dois goles do meu calmante natural e deixo sobre a mesa de centro à

frente.

Pego o meu iPhone e abro o documento enviado pelo embuste, pulo a


parte burocrática e vou direto nas suas exigências.

1 - Não atrase o pagamento.

2 - Eu estipulo meus horários de trabalho, horas extras deverão ser


solicitadas antes e serão cobradas em dobro.

3 - Lembre-se que serei apenas pai de aluguel, não sou sua babá.

4 - Eu decido o que vestir.

5 - Mantenha seu filho limpo.

6 - Mantenha seu cão pulguento longe de mim.

7 - Odeio demonstração de afeto, então não espere isso de mim com


o menino.

8 - Não pergunte sobre minha vida pessoal.

9 - Não me conte nada sobre a sua vida pessoal.

10 - Por último e não menos importante, não se apaixone por mim.


— Não me apaixonar por ele? Isso só pode ser piada. — A última
cláusula do contrato me faz ter um ataque de riso daqueles de perder o fôlego,

que pretensão da parte desse cara.

Faço questão de responder o e-mail, alguém tem que baixar a bola dele.

“Olá, senhor ego,

Pode imprimir os documentos e trazer amanhã quando vier conhecer o


Marcelo, concordo com todas as suas exigências e irei assinar com prazer.
Mas gostaria de salientar que a cláusula número 10 é totalmente
desnecessária, não me apaixonaria por você nem se fosse o último homem da
face da terra. Pode ficar tranquilo quanto a isso.”

Aperto a tecla de envio com tanta força que quase atravessa a tela,

nunca tive tanto prazer em enviar uma mensagem na vida. Espero… espero e
espero e nada de retorno. Roo minhas unhas ao andar em círculos sem tirar os
olhos do celular sobre o braço do sofá, droga! Uma casa toda bagunçada para
eu arrumar e eu perdendo tempo com bobeira, melhor ir organizar o meu
quarto.

Depois de dois passos o meu celular apita, volto correndo e tropeço no


tapete e caio de cara no chão. No entanto, isso não me impede de esticar o
braço e pegar o aparelho e abrir o novo e-mail que chegou.

“Olá, Patricinha metida,

Eu vou manter a cláusula 10 só por precaução. Como eu disse, não


confio em mulheres. Principalmente as loiras oxigenadas.”

Respondo de volta:

“Se isso te faz sentir melhor, senhor ego, vá em frente. Mas vai gastar
tinta à toa. E só para deixar bem claro, meu cabelo loiro é natural.”

Ele responde de volta:

“Querendo mentir para o maior dos mentirosos, patricinha metida?”

Desligo meu celular bufando, e me jogo nos meus afazeres domésticos.


Sem nenhuma prática no assunto, mas seguindo à risca os tutoriais que achei
na internet de como manter uma casa organizada e limpa. Pechinchando aqui
e ali, customizando alguns móveis usados comprados em bazar, consegui
deixar meu apartamento muito charmoso.

Pintei as paredes de rosa e branco, a decoração é dividida nessas cores

também, mais rosa do que branco.

— Ei, mamãe, cheguei. De quem é esse cachorrinho fofo? — Marcelo


chega e vai direto na cama do Walter, paro a limpeza do banheiro no meio e
corro para impedir.

Meu pinscher só aceita vir no meu colo, digamos que não é muito fã de
crianças e odeia ser acordado no meio do seu sono de beleza.

— Cuidado, Marcelo, ele é pequeno, mas bem perigoso às vezes.

— Tudo bem, mãe, os animais gostam de mim. — Ameaça tocar na


pelagem brilhante, Walter rosna sem se mexer ou abrir os olhos antes mesmo
que ele consiga tocá-lo.

Marcelo ri baixinho com a mão na boca.

— Não te disse?

— Vamos deixar ele dormir, depois tento outro tipo de aproximação.


— Mexe as sobrancelhas russas, tenho até medo dos planos que se passam na
sua cabeça.

— Está bem, meu amor, mas agora preciso ter uma conversa séria com
você. — Decido não adiar mais o inevitável.
Sento com ele na pequena mesa charmosa de dois lugares da cozinha,
comprei por uma pechincha em um bazar e, depois de uma boa mão de

verniz, ficou uma belezinha.

— A senhora vai ter um bebê? — pergunta animado batendo palmas,


ter um irmão é um dos seus maiores desejos. Mas é impossível de se realizar.

Mesmo que eu engravidasse agora, ele não teria tempo suficiente para

ver o bebê nascer, morreria meses antes.

— Não, filho, é outra coisa que você quer mais do que tudo. Eu recebi
uma mensagem do seu pai e ele quer te conhecer amanhã à noite — digo e
seus lábios tremem, trinca os lábios a ponto de ficar vermelho.

Debruça-se sobre a mesa e começa a chorar de emoção, um choro


misturado com risos. Eu choro junto, nunca imaginei que uma presença
paternal pudesse fazer tanta falta na vida do meu filho.

Juiz Flores, eu te odeio!

— E se ele não gostar de mim, mamãe? — Entra em conflito com a


novidade, puxo sua cadeira para perto da minha.

— É impossível não gostar de você, Marcelo, é a criança mais doce que


conheço. — Enxugo suas lágrimas com o meu polegar, enfim o seu sorriso
lindo floresce.

A noite cai, e Marcelo não consegue dormir direito. Acorda cedo e me


chama o tempo todo, está agitado. A verdade é que não sei quem está mais
nervoso com esse encontro, eu ou o meu filho. Não para de falar um minuto

sobre como o “pai” deve, assim como ele, estar muito feliz de tê-lo
encontrado depois de tanto tempo à sua procura.

Ouvi-lo dizer isso corta o meu coração, mas às vezes realmente não
temos uma alternativa a não ser mentir para as pessoas que amamos se essa

for a última chance de fazê-la feliz.

Marcelo faz questão de tomar um banho demorado e colocar a roupa


que mais gosta, sua camisa do Homem de Ferro azul e a bermuda branca com
bolsos grandes laterais.

— Você disse que o meu pai iria chegar quando os dois ponteiros
estiverem no sete, mas já passou faz tempo e ele não apareceu. Será que
desistiu de me conhecer? — Inseguro de um jeito que nunca vi antes, meu
filho de coração tão valente concentra o olhar nos próprios pés, sem coragem

de me encarar.

Esse cara mal entrou nas nossas vidas e já está fazendo o Marcelinho
sofrer, onde eu estava com a cabeça quando concordei com essa loucura?
Nem chegar na hora marcada no primeiro encontro esse Léo consegue. É um
irresponsável. O problema é que agora é tarde demais para voltar atrás, meu
filho sofreria ainda mais se soubesse que tudo não passa de uma farsa.
— Não é isso, filho, seu pai me mandou uma mensagem avisando que
atrasaria um pouco porque teve um problema no trabalho. Contudo, nada o

impediria de vir conhecer você. — Assim espero, penso comigo com um


sorriso mais falso do que bijuteria barata.

Se esse cara não aparecer eu vou encontrá-lo nem que seja no inferno e
acabar com a raça dele. Se vai ser bem pago pelo trabalho, que o faça direito.

O que eu fiz para merecer isso?

Na minha adolescência tudo o que eu mais queria é que quando eu


virasse adulta nada mais esquentasse a minha cabeça além do secador e
chapinha, agora vou agradecer se chegar aos trinta sem cabelos brancos.

— No que ele trabalha, mamãe? — Engasgo com minha própria saliva.

— O Léo trabalha com esportes, é um atleta bastante conhecido na sua


área — falo a primeira coisa que vem à mente, nunca tive uma mente muito
criativa para mentiras.

— Que esporte ele faz? — me aperta mais contra a parede, parece que
está desconfiado de alguma coisa, é um garoto esperto.

— Natação, filho, dizem que parece um peixe de verdade quando está


em uma piscina. — Desvio o olhar, dando de ombros.

— Uau… uau… — Walter late duas vezes e gira o focinho no ar sem


balançar o rabo, ele me conhece como ninguém, sabe quando estou mentindo.
— Se comporte, rapazinho, seu irmão precisa de nós agora. Seja um
cão educado com a nossa visita. — Faço carinho na sua pelagem, ele acaba

cedendo e volta para a sua caminha com forro de seda cor-de-rosa e


almofadas brancas.

Passa-se mais meia hora e nem sinal do cretino chegar, invento um


monte de desculpas para ganhar tempo. Coloquei a culpa no trânsito, na

chuva forte de semana passada e até nas centenas de buracos do calçamento


da nossa rua. No final, fico sem ter o que dizer.

— É, mamãe, acho que ele não vem mesmo. — Marcelo segura a


minha mão e me olha de baixo para cima com os olhos cheios de lágrimas,
fico morrendo de pena.

— Eu sinto muito, querido, não devia ter colocado você nessa situação.
A verdade é que o Léo não é o seu… — Antes que eu termine a frase, a
campainha toca.

— Meu pai chegou! — Corre eufórico e abre a porta sem nem ao


menos olhar na cara do indivíduo, agarra o par de calças jeans desbotado
como se não fosse soltar nunca mais.

Para ele tanto faz a aparência do pai, só o fato de ter um já faz dele a
criança mais feliz do planeta. Ainda bem, porque o sem classe nem teve o
trabalho de se vestir de maneira decente, se bem que não deve ter nada
melhor no seu guarda-roupas do que essa camiseta preta surrada debaixo do
colete jeans com estampas de símbolos de clube de motoqueiros.

Mas poderia pelo menos ter penteado esse cabelo solto estilo “foda-se”,
e essas horrorosas botas de couro escuro, cano longo e cadarços estão me
dando agonia.

— Oi, garoto — cumprimenta sem tentar disfarçar o tom frio por trás

da sua voz, imóvel feito um poste, sem saber como corresponder ao abraço de
uma criança amorosa de cinco anos.

— Vem, papai, entra. Vem conhecer a nossa casa, esse é o meu amigo
Walter. — Puxa Léo para dentro e o obriga a abaixar para brincar com o
nosso pinscher esnobe. Droga, eu esqueci que ele não gosta de cachorros,
devia tê-lo deixado preso na varanda.

Ainda bem que conheço bem o meu Walter, jamais irá querer qualquer
contato com o Léo. No mínimo uma bela mordida caso o provoque, mas não

quero que isso aconteça, pois não quero que ele corra o risco de pegar raiva.

No caso, o Walter.

— Melhor não, Marcelinho, você sabe que o Walter não gosta de


estranhos. — Pego meu cão no colo, que late feito um pitbull raivoso, antes
que o pior aconteça.

— Eu não sou mais um estranho, Daniele, sou o pai do seu filho. —


Toma o Walter do meu colo e começa a fazer carinho nele, o traidor para de
latir e fica todo manhoso nas mãos do inimigo.

Meu queixo cai! Nem com o Marcelinho foi de primeira, estou muito
abalada com isso.

— O que foi, Daniele? Ficou quieta de repente — provoca, desliza os


dedos pelos cabelos e empurra a franja para trás, disposto a ver com mais

clareza como suas atitudes me desconcertam.

A forma como o meu nome saiu da sua boca dessa vez é ainda mais
intensa, chega a ser quase uma proclamação sagrada, sinto como se eu fosse
vomitar um arco-íris a qualquer momento. Respiro fundo, Léo fica de pé
diante de mim e me encara com os seus olhos negros como se pudesse ler a
minha mente. Isso não é só mais um trabalho para ele, se tornou um jogo
desafiador e eu sou o alvo.

Léo deixou bem claro que não queria pegar esse trabalho, só aceitou

por pressão da amiga.

— Não, só estou feliz porque o pai do meu filho apareceu para


conhecê-lo, mesmo tão atrasado — falo entre os dentes. Se horas extras serão
cobradas em dobro, as de atraso serão descontadas.

— Verdade, mãe, que bom que o meu pai veio! Eu amo essa palavra,
paiii… papaiii... Uhumm… Eu tenho pai! Um papai que usa roupas maneiras.
— Marcelo começa a saltitar com os bracinhos erguidos sobre a cabeça, sabia
que ficaria alegre por “ter um pai”, mas não esperava que seria tanto.

— Será que pode parar de repetir papai o tempo todo? Isso me irrita —
a euforia exagerada do Marcelo faz Léo soltar sem pensar, mais elevado do
que deveria.

Ele joga Walter sobre o tapete como se fosse uma bola de futebol.

Ainda bem que é macio, a grosseria desse homem não tem limite.

A alegria do Marcelo se vai e fica no lugar uma tristeza profunda, não


pelas palavras que o suposto pai disse, mas sim pela maneira dura que olhou
para ele quando as proferiu.

— Me desculpa, senhor, eu não vou falar mais essa palavra. Nunca


mais! Por favor, não vá embora. Sempre sonhei em ter um pai, mesmo que
ele não me amasse. Porque isso não importa, eu posso amar por nós dois. —
Dá de ombros, sorridente, essa criança só pode ter vindo de outro planeta.

Nada o abala fácil, tem uma resposta madura e inteligente para tudo,
até mesmo uma grosseria sem tamanho. Percebendo que pegou pesado, Léo
baixa o olhar de maneira que o cabelo cai sobre o rosto e deixa em segredo
suas feições diante do golpe que recebera de uma criança.

— Foi mal aí, garoto, eu não quis ser rude. Ter alguém me chamando
de papai da noite para o dia é um pouco estranho, vou precisar de um
tempinho para me acostumar com isso. — Se ajoelha para ficar na altura dele,
com a fala mansa.

Ora, ora… então o ogro sabe pedir desculpas?

Interessante.

— Não se preocupe, temos todo o tempo do mundo juntos — Marcelo

diz confiante.

— Sendo sincero, acho que não nasci para ser pai. Mas se for paciente
comigo, faremos isso dar certo. — Aponta para Marcelo e depois para ele
mesmo, esse momento é só deles.

Léo ergue a mão para o meu filho em sinal de bandeira branca, Marcelo
olha para mim pensativo antes de responder.

— Trato feito, eu também estou aprendendo agora isso de ter um pai.


Estou muito feliz pelo senhor existir, Deus é muito bom comigo. — Abraça o

pescoço de Léo, que, para a minha surpresa, retribui de maneira mais sincera,
rodeando os braços fortes em volta do meu filho de maneira protetora.

— Gostaria de fazer uma coisa bem legal, garoto?

— Sim, pa… quer dizer, senhor. Ou prefere que eu te chame de Léo?


Estou confuso agora — pergunta em um tom inocente que chega a doer na
alma, o “pai” mexe a boca algumas vezes, até que enfim sai um ruído baixo e
quase inaudível.
— Pensando melhor, acho que já me acostumei com papai. — Bagunça
os cabelos do Marcelo, seu rosto se contorce quase em uma expressão

divertida.

Como que pode o meu filho conseguir domar essa fera em menos de
cinco minutos? Parece até bom demais para ser verdade, quando a esmola é
grande o santo desconfia.

— Agora vamos nessa, garotão, vou te levar para dar uma volta. —
Ergue Marcelo com um braço só e o joga nos ombros, e saem ambos sem
nem ao menos olhar para mim.

Simplesmente desaparecem pela porta.

— Volta aqui com o meu filho, Léo, sair sozinho com ele não faz parte
do acordo! — Parto atrás deles aos berros, quem esse cara pensa que é para
sair com o filho dos outros à noite, sem pedir permissão à mãe?

Por mais que eu desça a escada pulando dois degraus por vez, não

consigo vê-los. O passo do Léo deve ser três vezes maior que o meu. Enfio a
mão no bolso em desespero, pego o meu celular e ligo para a polícia.
Dani

— Polícia Militar, em que posso ajudá-la? — diz a atendente do outro


lado da linha.

— Desculpa, senhor, foi engano. — Encerro a ligação antes mesmo de


chegar do lado de fora do prédio e ouvir o ronco de um motor potente, e em
seguida a risada alta de Marcelo.

Chego na calçada e encontro meu filho pendurado em uma moto


gigante, Léo emprestou para ele sua jaqueta de couro e os óculos escuros.
Mesmo com o meu curto conhecimento sobre motos, com certeza essa é a

mais bonita que já vi. Esses modelos mais clássicos são mais usados por
aqueles motoqueiros de raiz e possuem mais itens que permitem a
personalização. Toda estilosa, na cor preta e guidão largo, tanque em formato
de gota, com muito cromado e brilho.

Quando Léo nota a minha presença, faz questão de acelerar ainda mais.
Chega a tremer os meus tímpanos, levo um susto e ele ri. Me provocar o
diverte.
— Eu nunca andei em uma moto antes, hoje é mesmo o dia mais feliz
da minha vida! — grita Marcelo para quem quiser ouvir, é apaixonado por

motos.

Léo tenta ajeitar o capacete grande na cabeça do menino, mas volta a


ceder para um lado, é grande demais para uma criança.

— Está preparado, garoto?

— Sim, papai!

Léo sobe na moto com ele e começam a dar voltas até no final da rua,
toda a minha neura fica de lado e um sorriso grato brota em minha face, devo
admitir que os dois combinam muito juntos. A afinidade entre eles é gritante,
como se já se conhecessem há anos.

Encosto as costas no poste da calçada, cruzo os braços e limito-me a


fazer a única coisa que me resta: desfrutar da minha invisibilidade repentina e
assumir meu posto de vigia, nem sei se Marcelo lembra mais da palavra mãe.

É sempre assim, as mães fazem de tudo pelos filhos e no final os pais roubam
toda a atenção deles em um minuto.

— Que cena mais linda de pai e filho, não é? Chegam a subir lágrimas
nos olhos. — Aparece Paula, ela tinha que vir me provocar como se eu já não
estivesse tensa o suficiente com toda essa situação estranha.

Torço para o seu cinismo ir ao chão junto com o seu tomara-que-caia


branco acima do umbigo cheio de piercings. Passando pela cintura é possível
ver a parte de uma tatuagem, o que acredito ser o final do desenho de uma

calda de dragão.

— Eu não quero ser grossa, Paula, mas é melhor me deixar sozinha.


Não estou com paciência para você hoje. — Viro o rosto para o lado, o brilho
da luz do poste sobre nós reflete nas argolas prateadas exageradamente

grandes penduradas nas suas orelhas a balançar, ofuscando a minha visão.

— Por que essa tromba enorme, vizinha? Eu consigo ver o brilho nos
olhos do seu filho daqui. Nunca o vi sorrir assim, nem mesmo com você, essa
é a verdade.

— Você não está ajudando, Paula.

— Chega de drama! Marcelinho e o Léo estão se dando bem logo no


primeiro dia, isso não é ótimo? — Passa o braço por dentro do meu e apoia a
cabeça no meu ombro, toda sentimental.

Reviro os olhos.

— Estão se dando bem até demais, Marcelinho até se esqueceu de mim


desde que esse cara chegou. — Mordo os lábios, é como eu sempre digo, a
vida é feita de altos e baixos.

Um dia é sapatilha confortável, no outro é salto quinze agulha.

— Sério mesmo que vai ficar com ciúmes, mulher? Pensei que a
felicidade do seu filho fosse mais importante que qualquer coisa — se zanga
comigo e acena para os meninos de longe, Marcelo aperta a buzina.

No fundo sei que Paula está coberta de razão, preciso aprender a


controlar os meus sentimentos. O mal dos ciúmes é fazer a gente esquecer
das prioridades e querer dominar a vida do outro; além do mais, meu
cabeleireiro me disse que é uma das maiores causas das pontas duplas.

Deus me free!

— Você está certa, amiga, Marcelo está muito feliz. Esse é o propósito
do plano — me animo novamente.

— Ainda bem que no final deu tudo certo, mas ainda assim fica de olho
no Léo. Como eu disse, não é flor que se cheire…

— Como assim, mulher? Acha que ele pode fazer alguma maldade com
o Marcelo? — Olho para Léo de longe, no mesmo instante que ele olha na
minha direção como se soubesse que ele é o foco da nossa conversa.

— Claro que não, ficou louca? Léo é padrinho da minha filha. Apesar
de ele não admitir, sei que adora a Maria. Esse seu jeito rabugento é só
fachada, jamais faria mal a uma criança. Minha preocupação é com você,
Dani — alerta séria.

— O que você quer dizer com isso, acha que ele seria capaz de me
machucar de alguma forma? — Meus batimentos cardíacos elevam, coloco a
mão sobre o peito para abafar o som que vibra por toda a minha alma.

— Ele não, Dani, mas você mesma pode se machucar caso “confunda”

as coisas. Agora vou entrar, amiga, preciso me arrumar para o trabalho. —


Beija o meu rosto e entra no prédio, sei qual é a preocupação dela.

Paula tem receio que eu me apaixone por esse cara e ele estraçalhe o
meu coração em mil pedaços, contudo, isso é uma hipótese totalmente sem

lógica. Me dá até vontade de rir, Léo pode ser lindo de morrer, porém a
beleza não compensa toda a sua rudeza.

— O papai pode ficar para o jantar, mãe? Por favor, deixa. — Dou um
sobressalto quando Marcelo puxa o cós da minha calça, nem percebi que Léo
tinha estacionado a moto a poucos metros de mim.

Se deixar por conta dessa criança, o “pai” não vai embora nunca mais.

— Seria ótimo, querido, mas acredito que o seu pai já tem outros
planos para essa noite. — Não foi uma indireta, mas Léo coça a barba farta

como se fosse.

— Na verdade não tenho, Daniele, cancelei todos os meus


compromissos para dedicar o dia ao meu filho querido — provoca.

Uma briga de olhares se inicia.

— Tenho certeza de que vai odiar a minha comida, não sei cozinhar
direito. Não é, filho? — Aperto as bochechas de Marcelo, certa de que a
confirmação fervorosa do Marcelo me ajude a me livrar desse cara pelo
menos por essa noite.

Já não suporto mais olhar para o sorriso de deboche desse cara, sou
forte, mas nem tanto.

— É verdade, pai, ela na cozinha é um perigo. — Coloca a mão na


boca segurando o riso, menino danado!

— Isso é bem a cara da sua mãe mesmo, garoto. Ela já te deu algo para
comer hoje? — interroga meu filho, como se eu fosse alguma mãe
desnaturada.

— Já sim, comemos sopa de lentilha no almoço. — A careta azeda que


Léo faz confirma as suas suspeitas.

Sopa de lentilha, na minha opinião, tem um gosto agradável. É fácil de


fazer, muito nutritiva e boa para a pele.

— Sopa de lentilha? Jesus Cristo! Só gente velha come isso. Para a sua
sorte, Marcelo, eu sei cozinhar muito bem e hoje vou preparar o seu jantar —
avisa.

— Eba! Posso te ajudar, pai?

— Pode sim, preciso de alguém forte para me ajudar a abrir os potes.


— Pega na mão do Marcelo e, ao passarem por mim, Léo se inclina e
sussurra no meu ouvido:
— O menino está com os dias contados, e você dá lentilhas para ele
comer? Francamente! — Balança a cabeça.

Entram no prédio da mesma maneira que saíram, ignorando-me


totalmente. Vou atrás deles com os punhos trincados, odeio violência, mas a
minha vontade é socar a cara desse escroto.

Sentindo-se em casa, Léo entra no meu apartamento e vai direto para a

minha cozinha como se conhecesse bem o lugar.

— Por que não vai escolher uma das suas fantasias legais para mostrar
para o seu pai? Vou esquentar água para você tomar um banho bem gostoso
antes do jantar. — A contragosto, meu filho assente.

— Volto logo, pai, não vá a lugar nenhum sem mim. — Abraça as


pernas do Léo e sai correndo em direção ao seu quarto, cantarolando, mas
para de repente.

— O que foi, filho? — indago e ele se vira de frente para mim.

— Esqueci de uma coisa, mãe. — Dá um sorrisinho.

— O que, filho? — pergunto, mas já sei do que se trata.

— Isso. — Me chama com o dedo indicador, vou até ele, me inclino e


esfrego o meu nariz no dele.

Só depois disso Marcelo vai se preparar para o banho.


— Mas o que foi isso? — Me viro e dou de cara com o Léo a me
encarar com a testa enrugada.

— É uma maneira que eu e o Marcelo criamos para dizer tchau, não é


fofo? — Coro as bochechas.

— Demais, patricinha, vou até chorar — ironiza.

Sorvo uma longa lufada de ar antes de enfrentar a fera, odeio gente


abusada que não sabe conversar com outros sem ser inconveniente.

— Nem sei por que tento conversar com você, vou preparar o banho do
meu filho. — Se eu fosse mal-educada, mostraria o dedo do meio para ele.

— Por que precisa esquentar água? — Tira algumas panelas do armário


debaixo da pia, sabe com exatidão onde encontrar tudo o que precisa numa
cozinha.

— Nosso chuveiro estragou, mas ainda não encontrei nenhum

eletricista para resolver o problema. — Giro o pescoço para especular o


porquê desse homem estar com a cara enfiada dentro da minha geladeira,
olhando frasco por frasco dentro dela.

— É só olhar na lista telefônica do prédio, santo Deus! Tem um cara


faz-tudo, basta uma ligação e o senhor Pedro vem arrumar em cinco minutos.
Mas deixa pra lá, vou dar um jeito nisso, sei qual deve ser o problema —
rosna em um suspiro impaciente.
Coloca uma panela de água no fogão, pinga algumas gotas de azeite e
uma pitada de sal e liga o fogo. Pega uma faca na gaveta e vai para a varanda

dos fundos.

— O que está fazendo? Não precisa arrumar nada. Guarda essa faca.

— Para consertar o seu chuveiro preciso desligar o disjuntor, fique com


o menino, não quero que ele se assuste com o escuro — pede, mas não saio

do lugar, com os olhos fixos na faca em suas mãos.

— Já disse que vou chamar alguém para arrumar isso, não se preocupe
— insisto.

Finge que não escuta, desliga o disjuntor e a casa vira uma escuridão.
Como sabia onde ir para tirar a energia da casa? Parece que conhece esse
lugar melhor do que eu.

— Mamãeeeeee! — grita Marcelinho quando as luzes se apagam.

Corro até ele, entro no seu quarto e tranco a porta. Estamos no escuro,
com um homem estranho armado em casa. Qualquer barulho estranho, grito
por socorro.

— Tudo bem, querido, a mamãe está aqui. — Me sento na cama e o


abraço forte, instantes depois as luzes se acendem.

— O chuveiro está arrumado, vou terminar o jantar — avisa Léo depois


de duas batidas na porta e se vai.
— Pode me soltar agora, mãe, está me sufocando — sussurra meu bebê
quase sem ar, nem percebi que ainda o apertava forte dentro dos meus braços.

— Desculpa, filho. Vem, vou te ajudar no banho.

— Não precisa, meu pai me disse que já sou um homenzinho e preciso


ser forte. — Fica nas pontas dos pés, pega a toalha pendurada atrás da porta e
vai tomar o seu banho, confiante.

Que maravilha! Léo mal chegou e já está fazendo a cabeça do menino.

— Nem pensar, Marcelo Flores, sempre te ajudei com o banho. —


Minha voz é engolida pelo barulho do chuveiro ligando, isso me traz uma
sensação boa de limpeza.

Faz tempo que eu e o meu filho não tomamos um banho decente, fecho
os olhos e quase posso sentir a sensação gostosa da água morna deslizando
pelo meu corpo. O escroto mandou bem arrumando o chuveiro, preciso
agradecer.

— Pode tomar banho sozinho, meu amor, mas com a porta aberta, e eu
virei a cada 30 segundos ver se está tudo bem.

— Tá bom, te amo, mãe! — grita e eu me derreto toda.

— Também te amo, filho. — Volto para a cozinha contorcendo as


mãos, meu pescoço está suando.

Meu coração acelera, sinto minha garganta fechada como se não fosse
possível passar uma gota d’água. Logo eu, sempre tão cheia de extroversão e
desenvoltura, escolhendo as palavras para dizer um simples “obrigado”.

— Será que tem alguma coisa nessa casa que não seja vegetariano?
Agora está explicado esse seu corpo magrelo, parece até que tem anorexia —
grunhe maldoso enquanto coloca macarrão na água fervente, minha cozinha
está uma bagunça, tem farinha por toda a parte, até nele mesmo.

Sério mesmo que ele fez a massa de macarrão tão rápido? Estou em
choque. Tenho vontade de rir ao vê-lo usando o meu avental da Barbie no
Reino Encantado, ficou uma graça nele, não cobre a metade das coxas.

— Não como carne, qual o problema? Tenho pena dos animais. E


anorexia não é brincadeira, Léo, perdi uma amiga no sexto ano, fazia seis
meses que havia conseguido entrar em uma agência de modelos. — Me sinto
mal toda vez que lembro disso, poderia ter acontecido comigo.

— É mesmo? Antes ela do que eu — ironiza.

— Nossa, você é tão gentil, Leonardo — ironizo de volta.

— Meu nome não é Leonardo. — Me olha feio.

— Então qual é? — Deixo a curiosidade falar mais alto.

— Cláusula número 09, minha vida não é da sua conta, patricinha


metida. — Tira uma folha dobrada do bolso da parte de dentro do colete toda
amassada e me entrega para assinar, parece não ser o tipo que confia fácil nas
pessoas.

Pego uma caneta dentro da gaveta do armário e assino o contrato,

depois entrego de volta para ele.

— Vou ajudar o meu filho no banho, obrigada por arrumar o chuveiro.


— Me retiro da sua presença desagradável.

De banho tomado, Marcelo desiste de colocar uma fantasia e veste o


pijama normal mesmo e parte para bajular o pai. Decido ficar escondida no
meu quarto por mais alguns minutos, preciso de um tempo para respirar.

— Por favor, Deus, me dê um sinal de que estou fazendo a coisa certa e


as coisas vão começar a dar certo daqui para frente — rezo com as mãos
juntas e os olhos fechados.

Logo em seguida, Michelle, minha nova amiga querida, me chama no


WhatsApp com a notícia de que estão contratando garçonete no restaurante
em que ela trabalha, e o teste para a vaga será amanhã. Chego a sorrir

sozinha, esse trabalho já é meu ou não me chamo Daniele Flores!

— O senhor agiu rápido mesmo, hein, Deus? Muito obrigada por me


ouvir, prometo não te decepcionar dessa vez.

Minha felicidade é tanta que até resolvo ir ajudar os meninos com o


jantar, mas quando chego na cozinha encontro Marcelinho sentado tristinho
na mesa, com um prato de macarronada a exalar um cheiro maravilhoso.
— Onde está o seu pai, Marcelo? — Ergo o seu rosto para que olhe
para mim, está em lágrimas silenciosas.

— Ele recebeu uma ligação de uma mulher e foi embora, pediu para te
avisar que apareceu um trabalho importante e da próxima vez compensa as
horas — explica entre os soluços.

— Trabalho de última hora, sei… — Franzo o cenho.

Já que fez tantas exigências, não pode sair em horário de trabalho sem
pedir minha autorização antes. Eu sou a chefe aqui. Na parte burocrática do
contrato está bem específico que serão três visitas por semana na duração de
três horas, nem um minuto a mais, nem um minuto a menos. O pagamento
será feito em dinheiro todo último dia do mês.

— Que pena. Pensei que o papai fosse jantar com a gente — suspira
profundo, chateado.

— Não acredito que ele foi embora sem se despedir de mim — penso

alto, mas logo me recomponho.

— Quero dizer, filho, humm… deve ter sido algo de fato sério para o
seu pai sair correndo assim. Mas olha que prato lindo ele fez para você, em
breve o verá de novo, não se preocupe. — Um sorriso nasce por detrás das
lágrimas, pega o garfo e começa a comer.

— Nossa, está uma delícia, meu pai cozinha muito bem — comenta
com a boca cheia.

— Come devagar, filho, cuidado para não se engasgar. — Uso um

lenço de papel para limpar o molho de tomate em volta da sua boca, está
devorando o prato, parece até que está há vários dias sem comer.

Sirvo um prato de macarrão para mim e me sento com Marcelo para


comer, e, minha santinha da culinária italiana! Está mesmo delicioso, chego a

gemer de prazer a cada garfada que levo à boca. Léo mais uma vez me
surpreende, pelo menos dessa vez de maneira positiva.

— Lembra que você disse que eu poderia pedir o que quisesse, mamãe?
— muda de assunto em um sussurro, paro de enrolar o macarrão no garfo e
ergo o olhar para o seu rostinho lindo.

Por favor, Deus! Tomara que ele não me peça nada muito difícil dessa
vez.

— Eu gostaria de voltar para a escola, Maria disse que na sala dela tem

vaga. Desde que a minha outra mãe me levou no médico que me proibiu de ir
às aulas. Disse que o estudo só serve para quem terá um futuro, mas esse não
é o meu caso. O que ela quis dizer com isso, mamãe? — Me encara inocente
à espera de uma resposta, não consigo dizer nada a princípio.

Estou sem reação diante de tanta crueldade de uma mulher que colocou
no mundo uma criança apenas para usá-la como moeda de troca, nunca sentiu
nenhum carinho pelo próprio filho.

— Já disse para esquecer essa mulher, filho, a única mãe que você tem

agora sou eu. — Engulo em seco para não colocar para fora tudo o que comi,
meu apetite foi destruído pelo resto do dia.

— Está bem, mãe, desculpa. — Abaixa a cabeça.

— Não precisa de desculpa. — Inclino e beijo seu rosto. — Por que


isso de voltar para a escola agora? Pensei que gostasse de ficar em casa
brincando. — Bebo um pouco de água do copo sobre a mesa e tento manter a
postura, devia ter me preparado para quando ele entrasse nesse assunto da
escola.

Eram tantas outras coisas para eu pensar quando Marcelinho apareceu


na minha vida, que a palavra escola nem passou pela minha cabeça. Sendo
sincera, por mim ficaria ao seu lado em cada minuto que lhe resta. Mas
também não quero sufocá-lo com a minha presença, está claro que mesmo

tendo a Maria para brincar, sente falta de fazer outros coleguinhas. Mas sinto
que tem mais coisa atrás desse pedido.

— Porque sei que o Dia dos pais está chegando e eu não quero perder
esse ano, nunca tive quem levar na festinha. Bom, mas agora eu tenho um
papai irado com uma moto muito maneira. — Sua boca se curva em um
sorriso, o mais doce do mundo.
Estico o braço para acariciar o seu queixinho redondo e ele sorri ainda
mais, Marcelo só quer viver algo que sempre quis com um pai e nunca teve a

oportunidade antes. E é claro que farei o possível para que se realize.

— E como você sabe que o Dia dos pais está chegando, hein,
espertinho?

— A Maria me contou que a professora dela está preparando uma

festinha de Dia dos pais. Ela, assim como eu antes, não tem um papai para
levar. Pensei em emprestar o meu para ela, o que acha? Não me importo em
dividir.

— Quando penso que não tem como eu te amar mais, você vem e me
surpreende. Verei o que posso fazer em relação à escola. — Eu o puxo para o
meu colo e o abraço fortemente, que orgulho desse garoto.

Tudo o que eu quero é que o Marcelo tenha um final tranquilo, não


como um prisioneiro dentro de casa. Quanto mais amigos fizer, melhor,

quero que deixe esse mundo sendo amado pelo máximo de pessoas possível.
Irei conversar com o médico dele sobre o assunto. Com a liberação vou entrar
em contato com a escola da Maria e realizarei mais esse desejo do meu filho.
Dani

Diferente da outra vez, acordo bem cedo para me preparar e chegar a


tempo na entrevista de trabalho. Levo o meu filho ainda dormindo para a casa
da Paula, pedi a opinião dela sobre o pedido do Marcelinho de estudar na
escola da Maria e ela super apoiou, disse que a professora da filha é
maravilhosa e entende bem o que é ter alguém com condições especiais na
família e fará de tudo para ajudar. Estou mais animada agora, só falta ligar
para o médico e, caso ele libere, amanhã mesmo farei a matrícula na
escolinha infantil.

Consegui chegar meia hora mais cedo para a entrevista, Michelle me

explicou qual ônibus pegar que faz parada em frente ao restaurante. Assim
que desço, vejo minha amiga encostada na porta me esperando de braços
abertos, radiante como uma flor do campo molhada pelo orvalho da manhã.

— Como é bom te ver, Michelle, mais uma vez me ajudando quando


mais preciso. Acho que Deus te escolheu como minha fada-madrinha. —
Meu coração transborda de gratidão, ela me acolhe em seus braços, cheia de
carinho.

— Uma fada-madrinha Drag Queen? Adorei! — Passa a mão na careca

como se jogasse a franja imaginária para o lado, rimos muito.

— Agora chega de graça, loira, vou te ensinar o básico de como servir


uma mesa. Posso apostar que nunca precisou carregar um prato na vida, não é
mesmo? — Um rubor me toma a face, antes eu nem percebia o exagero em

que os meus pais me criaram, rodeada de empregados que só faltavam servir


a comida na minha boca.

Sempre amei a minha babá, Berenice, mas às vezes exagerava nos


cuidados para comigo. Não tenho nenhuma lembrança da sensação dos meus
pés tocando o chão do jardim ou a roupa suja de terra quando era pequena,
estava sempre limpa e o cabelo impecável, sem nenhum fio fora do lugar.
Mas não exagerava assim por vontade própria, e sim por ordens da socialite
mais respeitada do Rio de Janeiro. Vulgo minha mãe.

Isso fez de mim uma criança solitária, ninguém da escola queria ser
amigo da garotinha perfeita demais.

— Não precisa, Michelle, eu passei a noite inteira treinando em casa.


Estou muito confiante, essa vaga já é minha!

— Tem certeza, bonequinha? Vestida assim, o único trabalho que vai


conseguir é na Disney. — Segura minha mão e a ergue no ar, me obrigando a
dar uma voltinha, não sei qual o problema com o meu vestido rosa rodado
com estampa de flores de outono na altura de quatro dedos acima do joelho.

Minhas sandálias brancas de salto médio com tiras trançadas dão um


toque delicado e combinam com o laço prateado no meu cabelo preso de um
lado. Escolhi com todo cuidado para não parecer exagerado demais.

— Mas eu fui cuidadosa para escolher um look simples, nem passei

maquiagem com glitter — digo em minha defesa.

— Imagina se não tivesse sido, misericórdia! — Balança a cabeça e


me puxa pela mão para dentro.

Como o restaurante ainda não abriu, enquanto troca o uniforme


Michelle me explica tudo sobre o gerente que irá entrevistar os candidatos
para a vaga. Na verdade, é a gerente. A responsável por tomar conta de todos
os funcionários aqui é uma mulher, nas palavras da minha amiga, uma cobra
venenosa que pega no pé de todo mundo só por olhar para ela.

— Então é óbvio que ela não vai gostar de mim, Miche, as pessoas
sempre me julgam uma patricinha metida logo de cara — bufo desanimada e
a ajudo a fechar o zíper nas costas, não posso voltar para a casa com outra
resposta negativa.

— Terezinha não gosta nem dela mesma, quem dirá das outras pessoas.
Tomara que ela não esteja tão insuportável hoje, mas acho difícil. Antes que
eu me esqueça, por favor, não comente nada sobre o estilo exótico dela —
alerta.

— Como assim estilo exótico?

— Vai saber quando colocar os olhos nela. E que história é essa de me


chamar de Miche?

— Porque já somos íntimas para usar apelidos. Mas sobre a gerente, ela
não deve ser tão ruim assim. Tenho certeza! — sou otimista.

Até o momento da entrevista.

Não vieram muitas pessoas para a entrevista, mas as que vieram


seguravam currículos de várias páginas. Enquanto o meu mal deu uma
página, não tenho experiência em nenhuma área para colocar e não acho certo
inventar só para ter mais chances de ficar com a vaga.

Pensei que a entrevista seria feita por ordem de chegada, mas não foi.

Estão chamando pelo nome, eu que cheguei primeiro fui a última a ser
chamada.

— Pode entrar, Daniele Flores! — a gerente do restaurante berra o meu


nome da sala dela, estou ansiosa para conhecê-la pessoalmente.

Bato na porta com a mão trêmula, mas com o coração esperançoso.

— Bom dia, como vai? — Abro meu melhor sorriso.


— O que tem de bom? — Faz sinal para eu me sentar.

Deixo meu currículo sobre a mesa e puxo a cadeira, ela passa o olho

sobre a página e depois me encara. É alta e deve dar umas quatro de mim, no
mínimo. Tem um cabelo médio cacheado e volumoso cheio de estilo, e um
rosto redondo muito bonito, mas a maquiagem é chamativa demais. Veste um
macacão em caimento terrível cheio de riscos parecendo um arco-íris

ambulante, ninguém ficaria bem com essa roupa.

— Que merda de currículo é esse, garota? — grita.

Rasga na minha frente e joga no lixo, fico perplexa.

— Eu levei um tempão para fazer isso, senhora — lamento vendo um


pedaço do meu currículo que caiu sobre a mesa.

— Tanto faz, por que quer trabalhar de garçonete no meu restaurante?


Pessoas como você não vêm aqui nem como cliente. — Aponta o dedo na
minha direção e me olha de um jeito que me dá muito medo, parece que não

sabe conversar com os outros de outra maneira que não seja aos gritos.

— Porque eu realmente preciso do emprego, não faz ideia do quanto.


Por isso, estou disposta a dar o meu melhor caso me dê um voto de confiança
— sou sincera.

— Os tempos estão mudando mesmo... — Balança a cabeça rindo de


um jeito estranho e irônico.
— Por que, senhora?

— O jogo virou, a negra gorda vinda da favela mandando na patricinha

magricela da Zona Sul. Isso vai ser divertido. — Bate a mão na mesa e
gargalha. — Está contratada, pode começar na próxima segunda. — Solto um
grito de tanta alegria, ela me olha feio e cubro a boca com a mão.

— Desculpa! Muito obrigada pela oportunidade, Terezinha. Prometo

não te decepcionar, posso te dar um abraço de agradecimento? — Levanto-


me e me aproximo.

— Não ouse! — Me impede antes de chegar a tocá-la e aproxima o


rosto rente ao meu. — Para você, dona Tereza está ótimo. Terezinha é para os
mais chegados, e esse nunca será o seu caso — adverte rude.

— Já chega de assustar a menina, Terezinha. Quando posso começar a


treiná-la para servir as mesas? — Michelle entra na sala com as mãos na
cintura e pisca para mim, acho que escutou tudo atrás da porta.

— Essa eu faço questão de treinar pessoalmente, Michelle. Vai fazer


um mês de experiência, mas não dou nem duas semanas para pedir para sair
— garante.

Engulo em seco, acho que a minha contratação é mais um acerto de


contas devido a toda humilhação que dona Terezinha passou nas mãos dessa
sociedade racista e nojenta (da qual não faço parte).
— Já terminou de jogar a sua praga na garota, baleia orca? — Michelle
entra na minha frente.

— Já sim, sua bicha louca, não perde essa mania de bisbilhotar os


outros. A gerente aqui sou eu, leva a sua protegida daqui e arrume dois pares
de uniforme para ela — não manda, pede gentil até demais contendo um
sorriso divertido.

Percebo pela maneira de se olharem que se conhecem há tempo o


bastante para se referir uma à outra com ofensas, não maldosas de fato,
apenas implicância entre colegas de trabalho mesmo.

— Sim, senhora, Vovozona. — Michelle corre aos risos, me puxando


pela mão, antes que o porta-retrato que Terezinha joga a acerte.

— Não pode fugir de mim, sua bichona! — grita da sala rindo também.

Talvez ela não seja tão durona assim, seja como for farei o possível
para conquistar sua confiança e respeito.

— Eu estou feliz que vai trabalhar comigo, mas acho que a Terezinha
não foi com a sua cara. — Contorce o rosto.

— Mas hoje ela até brinca com você, Michelle, conquistou o respeito
dela.

— Mas isso levou muito tempo, ela pegava muito no meu pé quando
comecei a trabalhar aqui há dez anos. Mas, no seu caso, ela vai caprichar
fazendo da sua vida nesse restaurante um pesadelo. — Dá três tapinhas no
meu ombro.

— Não existe pesadelo maior do que perder um filho para o maldito


câncer, Michelle. Aturar uma chefe durona não vai me fazer nem cócegas. —
Balanço os ombros, ela segura o meu queixo e sorri triste.

— Oh, minha bonequinha, vem aqui me dar um abraço. — Me jogo em

seu abraço e aproveito o seu afeto sincero, hoje em dia é tão difícil encontrar
isso por aí.

***

Depois de conversar mais um pouco com Michelle, pego os meus


novos uniformes e vou embora. No ônibus de volta para a casa, aproveito a
longa jornada e ligo para o médico do Marcelo para perguntar qual a
orientação em relação ao seu pedido de voltar para a escola. O doutor libera e
diz que interagir com outras pessoas na sua idade o fará muito bem, mas

salienta que antes de matriculá-lo devo ligar e explicar a situação para a


direção da escola, e principalmente para a professora.

Suas condições são diferentes das outras crianças, requer mais atenção
e cuidado. No final da ligação, completa uma fala que me deixa muda:

— Nas últimas semanas do Marcelo, ele vai precisar muito de você. As


coisas vão ficar muito feias, não faz ideia do quanto. Vai ter que ser forte, não
é fácil perder um filho nessas condições, ainda mais quando se trata de uma
criança. — A linha fica muda, seguro todo o ar dentro dos meus pulmões.

O doutor respeita o meu silêncio, espera até que eu esteja pronta para
falar.

— Enquanto o Marcelo puder correr eu estarei ao seu lado, quando não


puder mais o carregarei nos braços. E quando chegar o momento do seu

último suspiro, doutor, eu estarei segurando a sua mão. — Juro para mim
mesma.

Sempre tento não pensar no momento da despedida final do Marcelo,


mas só o fato de saber que não importa o que aconteça, ele vai chegar em
breve, acaba comigo. Nunca mais serei a mesma depois disso.

— Tenho certeza disso, filha, não precisava nem ter dito.

— Obrigada, doutor, por continuar acompanhando o caso do Marcelo


mesmo sem eu ter mais dinheiro para pagá-lo.

— Um bom médico nunca abandona seu paciente, ainda mais um


garotinho tão especial como o Marcelinho. — Eu sorrio, pessoas boas sempre
me fazem sorrir.

Chego em casa mais cedo que o esperado, tudo o que quero é pegar
meu filho na casa da Paula e levá-lo para almoçar o que ele escolher para
comemorar o emprego novo. Bato sorridente na porta da minha vizinha,
contudo, meu sorriso morre assim que ela se abre e sou recebida pelo som
agudo da guitarra da música “Nothing else matters”, da banda Metallica. Que

em português significa:

Nada mais importa…

— Até que enfim a patricinha resolveu aparecer, aqui não é creche,


sabia? — Fecho a cara e entro sem permissão.

— Onde está a minha vizinha, Léo? Vim pegar o meu filho. — Acerto
a postura, ele me mede de cima a baixo como se eu fosse uma vitrine de
lingerie.

Seus cabelos estão mais bagunçados do que as outras vezes que o vi,
soltos sobre os ombros com uma montoeira de fios volumosos a moldar o
rosto quadrado. Parece um leão selvagem, daqueles mais perigosos, que
gostam de brincar com a presa antes de devorá-la.

— Nosso filho, loira. Esqueceu? — Ergue uma sobrancelha em um aro

perfeito.

— Eu cheguei, Paula, vim buscar o Marcelo! — grito e o leãozinho


cruza os braços com os olhos semicerrados.

— Paula teve que atender um cliente preferencial que vem de outra


cidade apenas para ser “atendido” por ela. Como a moça que cuida da Maria
não pôde vir mais cedo hoje, me ligou para cuidar das crianças até você
chegar. — Respira profundo e inspira, se não consegue suportar uma criança,
imagina duas.

A Paula só pode ter ficado louca de deixar nossos filhos aos cuidados
desse maluco, eu não confio nele nem para deixar o Walter por dez minutos.
Esse silêncio todo no apartamento não é normal, quando o Marcelo e a Maria
se juntam só falta derrubarem o prédio inteiro.

— O que você fez para as crianças ficarem tão quietas, Léo? Onde elas
estão? Quero vê-las. E abaixa essa maldita música. — Aponto o dedo na sua
cara.

— Talvez eu tenha matado as crianças e escondido os corpos, por que


não procura pelo apartamento, sua maluca?

— Isso não tem graça, Léo — o repreendo.

— Se me der licença, tenho mais o que fazer. Quando passar o chilique,


me encontre na cozinha. — Se vai dando a mínima para o meu desespero,

esse cara nunca me leva a sério.

Ele pode ser um macho escroto, mas Paula me garantiu que jamais faria
mal às crianças.

— Léo está só blefando comigo. É isso. Tenho certeza! Daqui a pouco


as crianças vão aparecer, devem estar brincando em algum lugar — penso
alto, tentando me tranquilizar.
Passa um minuto…

Dois…

Não espero o terceiro minuto começar, aparecem várias imagens


terríveis na minha cabeça, não vou pagar para ver. Saio correndo e começo a
procurar as crianças em todos os cômodos da casa.

— Marcelo, onde você está, filho? Fala com a mamãe. Maria, meu
amor, me dá um sinal de vida — imploro, mas não consigo nenhuma
resposta.

Começo a entrar em pânico depois de procurar por quase toda a casa,


falta apenas a cozinha nos fundos do apartamento, onde aquele demônio disse
que estaria à minha espera. Vou para lá feito uma onça, ele vai ter que
confessar o que fez com as crianças.
Dani

Conforme me aproximo da cozinha a música de rock fica cada vez mais


alta. O rádio está logo na entrada sobre o aparador da janela; viro o corpo e
abaixo o volume. Meus tímpanos param de tremer, mas um zunido ainda
ecoa dentro da minha cabeça.

— Mamãe, você chegou! — Marcelo larga o hambúrguer que comia


sobre a mesa, limpa as mãos sujas de maionese e ketchup na camiseta branca
e me recebe com um caloroso abraço.

— Eu… eu… pensei que tinha te perdido, filho — gaguejo tremendo os

lábios.

Inclino e ergo Marcelo do chão, apertando-o bem próximo a mim.


Agora eu sei um pouco como será a sensação terrível de perdê-lo, é como
estar perdida em uma névoa escura sem fim.

— Não precisa se preocupar, mamãe. O papai está cuidando bem da


gente, não é, Maria? Fez ovos com bacon e panquecas de chocolate no café
da manhã e hambúrguer para o almoço. Estou me divertindo muito — conta
empolgado.

— Isso é maravilhoso. Que bom que está feliz, querido. — Sorrio sem

graça e ajeito o cabelo do Marcelo com os dedos.

— Oi, tia Dani, nós ajudamos o meu padrinho a fazer sorvete de


morango com bolo para sobremesa. Quer um pouco? Era para comer depois
do almoço, mas ele deixou a gente comer antes. — Giro o pescoço na direção

da voz doce da Maria, ela está sentada no balcão, já de banho tomado e


vestida com o uniforme da escola.

Na gola da blusa tem um guardanapo de papel preso para protegê-la do


molho da metade do hambúrguer em uma de suas mãos, e na outra equilibra
um copo de suco natural de laranja. No entanto, o que me chama a atenção
mesmo é que, enquanto Maria come, Léo arruma o cabelo dela com toda a
calma do mundo. Com prática, como se já tivesse feito aquilo centenas de
vezes.

Usa o cabo de um pente fino para separar mechas pequenas e passa


creme em uma por uma, depois prende com os grampos presos entre os seus
lábios. Falta pouco para finalizar o penteado que está ficando uma lindeza.
Simples, mas delicado e bem feito.

— Obrigada, Florzinha, mas eu não estou com fome agora. — Um


rubor me toma toda a região da face até o pescoço, que vergonha, meu Deus.
Que vergonha!

Eu certa de que Léo havia sumido com as crianças, sendo que,

sinceramente, está cuidando delas melhor do que eu e a Paula juntas. Maria


até o deixou pentear seu cabelo sem chorar, o que nunca vi acontecer com a
mãe. Tem os cachinhos muito enroladinhos, então quando tem que pentear
reclama que está doendo.

— Deixa eu adivinhar, loira, está de dieta e não come doces? —


alfineta Léo, sem tirar a atenção do que está fazendo, pega o último grampo
da boca e dá o último retoque no penteado.

— Eu não faço dieta, Léo. E não, não tenho costume de comer doces —
sou sincera, mas evito olhar na sua direção.

— Sei… — pigarreia.

— Termine de comer o seu lanche para irmos para casa, Marcelo. —


Sento-me na cadeira onde o meu filho estava e o coloco no meu colo, só

quero sair logo do clima tenso dessa cozinha.

— Não é lanche. É almoço. Algum problema com o menu, mamãe? —


Léo continua com a provocação.

— Problema nenhum — respondo apenas.

— Acabei de arrumar o seu cabelo, pestinha, vamos pegar a sua


mochila porque vou te levar para a escola.
— Ebaaaaa, adoro quando o senhor me leva para a escola, padrinho.
Minhas coleguinhas acham o senhor bonito. — Solta uma risadinha, beija a

testa do Léo e ele devolve o beijo no mesmo lugar, e depois somem pela
porta de mãos dadas.

Marcelo solta o hambúrguer sobre o prato e arrasta para longe, se


encolhe no meu colo e esconde o rosto na curva do meu pescoço.

— Podemos ir embora agora, mãe? Perdi a fome — sussurra no meu


ouvido.

— Você ficou triste porque a Maria vai para a escola com o seu pai,
não é? — Assente e uma lágrima desliza pelo seu rostinho lindo.

— Às vezes parece que meu pai gosta mais da Maria do que de mim,
mas acho que é porque ele me contou que a conhece desde que nasceu e é
padrinho dela. — Junto nossas mãos. Sua inocência me emociona.

Nem por um minuto passou pela sua cabecinha a grande coincidência

que é o seu pai aparecer do nada, e por acaso ser o padrinho da sua melhor
amiga, filha da nossa vizinha.

— Tudo bem, filho, amanhã mesmo vamos lá conhecer a escola da


Maria. Se você gostar do lugar e a direção aprovar a sua matrícula, acredito
que poderá começar no dia seguinte. — Seus olhos dispararam e depois a
gritaria e pulos pela cozinha começam.
— Eu vou mesmo estudar na escola da Maria?

— Se tudo der certo, vai sim, filho. — Batemos as mãos.

— Me manda o horário da visita da escola amanhã, quero estar


presente. — Quase morro do coração com o Léo com as costas encostadas na
porta, olhando para mim e o Marcelo, com as mãos no bolso de um jeito
enigmático.

— Que legal, pai, vai ser um passeio em família. — Pega a minha mão,
puxa até o pai, me obriga a segurar a dele e abraça nós dois, eu e o Léo nos
entreolhamos com a mesma pergunta em mente.

Que história é essa de família?

— Por que não vai contar a novidade para a Maria, garoto? — Tira
Marcelo de cena antes que ele seja colocado em um cenário afetivo ao qual
não saberia como agir.

Tenho um palpite que não sabe o que é fazer parte de uma família há
muito tempo, se é que teve uma algum dia. Seu mau humor constante pode
ser a falta de amor de mãe na infância.

— Tá bem, papai. — Sai correndo.

— Será que pode soltar minha mão agora, patricinha? — Olha para
nossas mãos unidas, meus dedos pequenos e delicados entrelaçados em meio
aos dele, grandes e calejados.
— Ah! Me desculpe. — Desfaço o contato físico e me afasto dois
passos antes que sinta vontade de voltar a tocá-lo.

Me sinto quase órfã com a perda do calor do seu toque misturado com
o meu, tenho vontade de sorrir e nem sei o porquê.

— Por que está me encarando com essa cara de idiota? — Massageia os


ombros largos evitando ter que me encarar, é mais fácil para ele bancar o

malvado quando não olha nos meus olhos.

Mas esse Leãozinho de feroz não tem nada, talvez um grande coração
habite bem lá no fundo do peito, só precisa de alguém corajoso o suficiente
para cavar até encontrá-lo.

— Por que quer nos acompanhar amanhã na visita da escola? Não


precisa fazer se não quiser, acho que vai achar chato.

— Eu te disse que sou bom em tudo o que faço, já que estou no lugar
de pai do Marcelo, quero… — pigarreia com o punho fechado sobre a boca.

— Quero dizer, eu tenho que participar de todos os momentos importantes da


vida do garoto daqui para frente. Mas dentro das horas pagas, não trabalho
um minuto de graça, as de hoje serão descontadas. — Recolhe os pratos do
“almoço”, joga as sobras no lixo e coloca na lava-louças.

— Muito obrigada por isso, e de toda forma, por cuidar das crianças
hoje. Eu consegui a vaga de garçonete em um restaurante, começo na semana
que vem e estou muito animada.

— Quem em sã consciência contrataria você? Me fala onde é esse

restaurante, para eu passar bem longe. — Joga a cabeça para trás em uma
risada maldosa, aperto a minha bolsa contra o peito, constrangida por ser o
motivo de tanta graça.

— Engraçado, pelo menos nisso você é igualzinho ao pai biológico do

Marcelo. Ele também pensa que sou uma inútil, que não sei fazer outra coisa
além de compras. — Sorrio amarga, falar do meu pai dói tanto quanto um
golpe de uma espada. — Quando sair, deixe o Marcelo na porta de casa,
obrigada — peço antes de ir embora, ele não está mais rindo agora.

Saio da cozinha de cabeça erguida. Estou farta de as pessoas duvidarem


da minha capacidade. Nasci em berço de ouro, assumo que cresci de maneira
privilegiada, mas isso não faz de mim uma inútil que não mereça uma
oportunidade de maneira digna, sem virar motivo de chacota. Estudei feito

uma louca para me formar em direito, mas não me importo de precisar


começar em uma função mais baixa. Desde que seja honesta, darei o meu
melhor nela e ponto final.

Chego na porta do meu apartamento e procuro a chave na bolsa, dou


uma olhada rápida no meu celular e vejo várias chamadas perdidas da Julia e
da Yudiana. Tenho evitado falar com elas, não quero que me vejam nesse
estado emocional crítico.

Mas em breve devo mandar uma mensagem para marcar um encontro,

estou com saudades delas.

— Aquelas duas malucas! — Sorrio ao lembrar das tretas em que


aquelas duas viviam se metendo, uma vez quase morreram sequestradas na
mão de um traficante perigoso.

Coloco a chave na fechadura, mas logo percebo que a porta está


destrancada e eu tenho certeza de que tranquei antes de sair de casa. Empurro
devagar até abrir o espaço suficiente para passar o meu corpo, giro os olhos
num ângulo de 360 graus e tudo parece como deixei. Uma bagunça, diga-se
de passagem.

No entanto, ainda assim, estou com uma sensação estranha. Cadê o


Walter que não veio correndo me receber fazendo drama porque não o levei
comigo? Tem alguma coisa muito estranha aqui.

— Cadê você, Walter? A mamãe chegou. — Ouço um latido fraco


vindo da cozinha, mas ele não vem ao meu encontro.

Vou imediatamente ver como meu cão está, logo da entrada o vejo
esparramado no chão, quase morto, gemendo. De tanto comer. Sua vasilha de
refeições está pela metade de ração, vinda do pacote próximo a ela, que tem
trinta quilos. Medindo pelo tamanho do meu cão, vai dar para mais de um
ano. E não para por aí, tem um bilhete fixado na geladeira que diz:

“Agora não tem mais desculpas para dar sopa de lentilha para o

garoto.”

Abro a geladeira e encontro frutas, iogurte, doces e vários outros


tipos de coisas. Começo a abrir as portas do armário, também está abarrotado
de pacotes de todo o tipo de comida e enlatados. Sobre a mesa, um livro de

receitas da Ana Maria Braga, da grossura de um tijolo.

Apoio as costas na parede, estupefata, não acredito no que estou vendo.

— Eu definitivamente não entendo esse homem! Não mesmo. — Age


como vilão e mocinho ao mesmo tempo, faz questão de deixar claro que não
se importa, mas depois tem atitudes que provam o contrário.

Léo é uma verdadeira caixa de pandora, não dá para fazer ideia do que
guarda a sete chaves no seu interior. Às vezes até dá curiosidade de ir mais a
fundo e descobrir, mas o medo de ser algo letal será sempre maior.

— Eu preciso agradecê-lo por toda essa comida, que cara louco. —


Saio a passos largos de volta ao apartamento da Paula, sinto como se fosse
vomitar uma chuva de estrelas cadentes.

Não sei por que essa atitude solidária do Léo mexeu tanto comigo,
talvez porque veio de alguém que jamais esperava.

— Olha o que o meu pai me deu, mãe. — Encontro Marcelo na sala,


acabou de chegar com as mãos cheias de diferentes tipos de chocolate.

— E onde seu pai está, filho? Preciso falar com ele.

— Foi levar a Maria na escola e me deixou aqui em casa, ué, você


esqueceu? — Me encara confuso.

— Não esqueci, meu amor, a mamãe só está um pouco confusa. —

Mais do que deveria, completo em meus pensamentos.

Deito no tapete, de barriga para cima, e começo a roer as unhas fitando


o teto, vários pensamentos ilusórios dançam pela minha mente. Estou tão
confusa, minha intuição diz para ficar longe do Léo, mas meu coração insiste
que devo descobrir mais sobre ele.

— Você está comendo suas unhas, mãe, está com fome? Toma, pode
ficar com os meus doces — fala com a boca cheia, estica o braço e me
oferece uma barra de chocolate com duas mordidas no topo.

Marcelo parece uma formiguinha roendo esse monte de açúcar, tem


farelo do chocolate em toda a sua roupa. Não para de sorrir, está vivendo uma
festa depois que o Léo apareceu na sua vida. A verdade é que ele está fazendo
o melhor que pode dentro das suas condições pelo Marcelo, se eu não
estivesse tão ocupada desconfiando dele o tempo todo e dando chiliques, já
teria percebido isso.

Droga!
Eu não sei o que vai acontecer nos próximos meses em relação à
presença desse homem em nossas vidas, a única certeza que tenho é que no

final ele e o Marcelo irão embora e eu terei que seguir em frente sozinha.
Meu filho vai para o céu, e o Léo, para qualquer lugar bem longe de mim.
Dani

Meu filho e eu chegamos no colégio no horário agendado pela diretora.


Na ligação que fiz para ela à tarde, fiz um breve resumo da situação do meu
filho. Ela me pareceu uma mulher bastante dura e direta, não deu muitas
esperanças em aceitar uma criança nas condições dele. Não sei se o Léo virá,
como prometeu, ontem à noite mandei um e-mail para ele com o aviso do
horário e agradeci pelas compras que deixou na minha casa. Contudo, não
respondeu de volta.

— Olha, mãe, que jardim lindo, e tem um monte de brinquedos. —


Aponta o dedinho para tudo o que vê, criança adora conhecer coisas novas.

Esse pátio é de fato muito legal, com brinquedos de todos os tamanhos


e gostos. Casinhas de madeira com escorregadores e labirintos feitos com
minhocas gigantes. Balanços reciclados feitos de pneus de carros, rodas
gigantes giratórias, caixas de areia com vasos e pás de plásticos, entre tantos
outros. Se a parte de fora já é linda, por dentro deve ser ainda melhor.

— Bem-vindos ao colégio Futuro Brilhante, em que posso ajudar? — A


secretária me recebe com um sorriso educado, sai de trás do balcão apenas
para nos cumprimentar.

Vejo seu nome, Bianca, na plaquinha dourada presa no seu uniforme,


um terninho azul-escuro feito com um tecido de ótima qualidade.

— Obrigada, Bianca. Viemos para conhecer a escola, a diretora já está


à nossa espera — explico.

— Ah, sim, você deve ser a Daniele Flores e esse garoto lindo, o
Marcelo. — Toca o dedo na ponta do nariz do meu filho, ele prende um
sorriso envergonhado.

— Sim, somos nós — confirmo.

— A diretora Helena me contou a bela história de vocês. — Toca o


meu braço com aquele olhar de pena que todos fazem quando descobrem que
meu filho tem câncer terminal, percebo que não tem coragem de olhar para o
Marcelo por mais de cinco segundos.

— Meu papai já chegou, moça? — Morde a manga da blusa, olhando


para todos os lados à procura do Léo.

— Talvez seu pai não possa vir, querido, ele trabalha muito. Então não
fique triste se ele não aparecer, meu amor. — Beijo o topo da sua cabeça.

— Mas o Léo já chegou faz uns vintes minutos, um rapaz encantador


— suspira e abana o rosto, esse é o efeito dele nas mulheres.
— E onde ele está? — Mordo o lábio.

— Ele e a diretora estão à espera de vocês na sala dela, é a segunda

porta no corredor à direita. — Aponta a direção, agradeço e saio puxando


Marcelo pela mão, andando depressa.

Não precisamos andar muito para ouvir as risadas vindas da sala da


diretoria, a porta está apenas encostada. Entro sem bater e me deparo com

uma senhora de cabelos grisalhos curtos, bastante pés de galinha no rosto e


peitos caídos sem sutiã debaixo da blusa branca transparente. Fazendo caras e
bocas para o homem com um terço da sua idade, a ponto de pular da sua
cadeira sobre a mesa e se jogar no colo do Léo a qualquer momento.

Mas que velha oferecida!

— Bom dia a todos, incomodo? — Tento disfarçar a ironia na minha


voz, mas o meu olhar franzido me entrega.

Léo está sentado de costas para mim e de frente para a diretora, mas

consigo ver sua expressão sedutora pelo reflexo do seu rosto através do vidro
do aquário quadrado ao fundo da sala, com alguns peixes laranjas estranhos
nadando de um jeito mais estrando ainda.

— Bom dia, senhorita Flores, entre e fique à vontade.

— Eu sabia que você viria, papai. — Solta a minha mão e gruda no pai.

— A senhora decidiu se vai aceitar o Marcelo nesse colégio? — Vou


direto ao ponto antes mesmo de me sentar; dependendo da resposta já volto
pelo mesmo caminho por onde cheguei.

— Já aceitei! Sendo filho de um homem tão inteligente e carismático


como Léo, será uma honra receber Marcelo na minha escola. — Arreganha
os dentes amarelados até mostrar os lá de trás, os da frente estão sujos de
batom rosa.

Léo gira o pescoço e me fita por cima do ombro, ergue a sobrancelha e


puxa o canto da boca em um sorriso presunçoso que grita:

“Eu sou o dono do mundo.”

— Muito obrigada, diretora Helena, nem sei como agradecer. — Sinto


um alívio tremendo, mais um desejo do meu filho realizado.

Que alegria!

Puxo a cadeira e me sento ao lado de Léo, porém, não perco o meu

tempo para olhar para ele. Mas sinto seus olhos sobre mim, me consumindo
dos pés à cabeça.

— Eu sei, mãe. — Marcelo dá a volta na mesa dela e a abraça, a


diretora sorri surpresa pelo seu ato inesperado.

— Além de bonito igual ao pai, é muito gentil. Quando crescer, vai


arrasar corações — pensa melhor no que disse e fica vermelha, o clima se
torna tenso.
— Quero conhecer qual será a minha nova sala, senhora diretora. Vou
estudar com a Maria, não é? — totalmente inocente na conversa, o próprio

Marcelo muda de assunto e o ar constrangedor se vai.

Volta para o Léo e se senta no colo dele, todo à vontade.

— Claro que sim, Marcelo, seu pai já conversou comigo para deixar
você na mesma sala que a sua coleguinha. — Joga uma piscadela para o pai

do meu filho, ele fecha os olhos lentamente conforme concorda com a cabeça
e depois sorri galante.

Então é assim que Léo atrai as suas presas para conseguir o que quer?
Usando todas as suas armas de sedução? Cheio de trejeitos e palavras de
duplo sentido. Até a postura do seu corpo muda, como se apertasse um botão
e entrasse em modo ataque. Um macho alfa com o seu aroma erótico
entorpecente, que seduz e ilude mulheres de todas as idades e diferentes
personalidades.

Só não funciona comigo, graças a Deus.

— Com todo o seu encanto, Helena já me mostrou toda a escola.


Inclusive qual será a nova sala do garoto.

Helena? Pelo que parece, já estão bem íntimos.

— Ah, é mesmo, papai? — uso de ironia.

Um músculo na sua mandíbula contrai-se, trocamos olhares raivosos


por um instante.

— Sim, Daniele. Se quiser pode ficar e resolver os detalhes da

matrícula, eu levo o garoto para se familiarizar com o lugar e conhecer sua


nova professora — rosna.

— Ótima ideia, Léo. Muito obrigada — concordo entre os dentes.

Os dois saem da sala de mãos dadas, e o sorriso da diretora vai junto


com o charme do pai de mentira do meu filho.

— Preciso dos documentos do seu filho, senhorita Flores, esse é o valor


da matrícula e essa é a mensalidade do nosso colégio. — Coloca os óculos de
graus e circula os números no final da folha. Chego a engolir em seco.

Eu sabia que esse colégio é particular, mas não imaginava que a


mensalidade é tão alta. Como a Paula consegue pagar isso e ainda manter um
apartamento e as contas em dia, meu Deus? É quase o valor do meu salário,
não tenho a mínima chance de colocar essa despesa dentro do meu

orçamento.

— Posso fazer uma ligação rápida, diretora? Já volto. — Me olha por


cima dos óculos e faz um bico, mas assente.

— Pode, mas não demora porque não estou só por sua conta hoje. —
Faz sinal com a mão para que eu saia, como se eu fosse um cão sarnento.

Do lado de fora da sala disco os números no celular, meus olhos vão


inundando de lágrimas a cada chamada.

— Alô, Dani, tudo bom?

— Eu aceito o dinheiro que você queria me emprestar, Julia, mas não


sei quando vou poder pagar — vou direto ao ponto, chega de ser orgulhosa.

Se eu tenho amigos que me amam e podem me ajudar, por que não

aceitar? Não vou privar o meu filho de nada por conta do meu orgulho, se ele
quer estudar nessa escola, ele vai estudar.

— Onde você está, amiga? Eu estou com a Yudiana, vamos até você
agora.

— Estou na diretoria do colégio Futuro Brilhante, fica no bairro… — A


ligação cai.

Tento ligar novamente várias vezes, mas Julia não atende.

— Eu não acredito que você estava a pouco metros de nós, sua vaca! —

Yudiana aparece na ponta do corredor, com a respiração ofegante como se


tivesse corrido uma maratona inteira.

Para mim é a mesma coisa que a chegada de um anjo, vou ao seu


encontro e a abraço bem forte.

— Como chegou aqui tão rápido, Yudi? Isso não faz sentido, estava
falando agora há pouco com a Julia por telefone. — Sinto-me melhor só de
ver minha amiga.
Yudiana está mais linda do que nunca; não estou falando somente
fisicamente, mas espiritual também, seu sorriso tem um brilho diferente.

— Os meus filhos e os da Julia estudam aqui, sua bobinha, já te falei


várias vezes, mas com essa cabecinha de vento não prestou a atenção. — Dá
um tapinha na minha testa.

— Não mesmo, desculpa! — Fico sem graça, que tipo de amiga eu sou

que nem sei onde os filhos das minhas amigas estudam?

Esse mundo de mãe era algo muito distante da minha realidade antes do
Marcelo aparecer na minha vida, então quando minhas amigas entravam
nesse assunto de casa, marido e filhos eu meio que ficava perdida na
conversa. Não tinha muito o que dizer, só escutava e não precisava absorver
nada. Em poucas palavras, entrava em um ouvido e saía pelo outro.

— Toda semana nos encontramos no horário de trazer as crianças para


o colégio, às vezes saímos para fazer algo com outras mães — fala distraída

enquanto esfrega uma mancha escura na sua blusa amarela, parece de café ou
coca-cola.

Passa um casal por nós no corredor, o homem de mãos dadas com a


mulher falta pouco para quebrar o pescoço, com os olhos grudados na
Yudiana. Algumas coisas nunca mudam! Minha amiga sempre teve o mesmo
efeito com os homens que o Léo com as mulheres, quase infalível, sem
sequer precisar mexer um dedo.

Seu marido, o juiz Thompson, tem toda razão em morrer de ciúmes

desse mulherão. Alta e com o corpo rico em curvas, peito grandes e bunda
empinada. A pele cor de caramelo e o cabelo preto comprido e liso natural
cobrindo as costas, qualquer coisa fica bem nela, parece uma índia.

— Por que você não me esperou, Yudi? Não consigo correr com esse

bebê chutando dentro de mim feito o Cristiano Ronaldo em época de Copa do


Mundo. — Julia chega cansada e aponta para a barriga enorme, em breve a
família dela vai ficar maior.

Julia tem três filhos e o caçula da família, Ricardo Junior, está a


caminho. Sempre digo que ela nasceu para ser mãe, é linda tanto por dentro
quanto por fora. Cresceu no Morro do Alemão e se formou na mesma
faculdade que eu, mas na garra e coragem, batalhando muito em três
empregos e criando uma filha pequena ao mesmo tempo.

Essa mulher é minha inspiração para a vida toda, venceu na garra indo
contra todo preconceito do nosso país que diz que o negro favelado nunca vai
ser alguém na vida.

Pois bem, dê licença que a minha amiga Julia Helena quer passar com o
seu diploma de direito na mão, esfregando na cara desses preconceituosos de
plantão.
— Como é bom te ver também, Julia. — Abraço-a, amo tanto minhas
amigas e não quero mais ficar fugindo delas e segurar o peso do mundo

sozinha.

Quando estamos com os amigos de verdade, tudo parece mais


suportável.

— Nós estamos aqui agora, muito felizes por enfim você deixar de ser

tão cabeça dura e aceitar a nossa ajuda. — Julia ajeita o meu cabelo, tem mais
cabelo solto do que preso no rabo de cavalo.

— Amiga, você está um bagaço, há quanto tempo não dorme uma noite
inteira? — Penso por um tempo, mas não encontro uma resposta em minha
mente para a pergunta de Yudiana.

— Sendo sincera, não me lembro, depois que o Marcelo apareceu na


minha vida eu não dormi uma noite tranquila de sono. Tenho medo de
acordar de manhã e ele não estar mais respirando e ter me deixado antes do

tempo — desabo e elas me amparam em um abraço triplo, como eu precisava


disso.

Calor humano e apoio sincero, isso não tem preço. Acolhe a alma e
aquece o coração.

— E onde está o Marcelinho?

— Depois eu explico, espero que vocês não arranquem minha cabeça


fora. — Estremeço.

— O que você andou aprontando, loira? — Yudi franze o cenho,

quando eu contar sobre o Léo vai falar na minha cabeça pelo resto da minha
vida.

— Isso não importa agora, preciso resolver a questão da matrícula do


Marcelo. Ele quer muito estudar nessa escola, e eu não tenho dinheiro para

pagar a matrícula, muito menos a mensalidade.

— Não precisa se preocupar com isso, eu pago a escola do Marcelo. E


nem me venha com esse papo que vai me pagar depois, porque nunca mais
falo com você. — A marrenta do Morro do Alemão fecha a cara, e eu não
ouso contrariar uma mulher grávida com os seus hormônios instáveis
causados pela gravidez.

— Obrigada, Julia, eu e o meu menino agradecemos de coração. Ele


não tem falado em outra coisa além de estudar nesse colégio, e eu quero que

tenha uma vida normal até quando for possível — me animo, mais um desejo
do meu filho realizado.

— E eu também tenho um presente para você, loira, eu e o John íamos


te fazer uma visita para te contar essa semana. — Segura as minhas mãos,
meu coração começa a bater forte. — O apartamento que você mora agora é
seu. Ele comprou na semana passada, foi muito difícil convencer o dono a
vendê-lo. Mas agora já está no seu nome. — Tira a papelada da bolsa e me
entrega, pego com as mãos trêmulas.

— Eu… eu não sei o que dizer, Yudi, eu agradeço muito, mas não
posso aceitar uma coisa assim — gaguejo, passo a mão na minha nuca e a
sinto toda suada.

— Não só pode como deve, mas agora vamos na sala daquela bruxa da

diretora resolver a matrícula do Marcelinho. — Julia me cata pelo braço e me


puxa até a diretoria, Yudiana dá de ombros e nos segue.

Não disse que minhas amigas são malucas?

E muito amáveis.

— Enfim voltou, senhorita Flores. Já estava indo atrás da senhora, vai


ou não querer matricular o seu filho na minha escola? — rosna a diretora,
entretida lendo alguns documentos.

Ela percebeu o meu susto com o valor absurdo, com certeza pensa que
voltei para falar que não vou mais matricular o meu filho e quer me
despachar logo.

— Seu colégio, diretora Helena? Meu marido é grande amigo do


proprietário desta entidade de ensino, e ele não se parece nem um pouco com
a senhora — Yudiana não perde a oportunidade de colocar a metida no lugar
dela, cruza os braços e espera a bonita se dar o trabalho de olhar para nós.
— É senhorita, querida. — Ergue o olhar pronta para rebater à altura,
mas quando percebe quem está falando engole em seco.

Não é boba de confrontar a esposa de um juiz e a outra de um


respeitado delegado. Ainda mais sendo duas malucas barraqueiras que
colocariam essa sala abaixo em um estalar de dedos, então logo abre um
sorriso falso de orelha a orelha.

— Olá, senhora Julia e Yudiana, como vão? Não sabia que conheciam
a Daniele Flores.

— Somos as melhores amigas dela e amamos o seu filho como se fosse


nosso, então peço que os atenda com muito carinho — Yudi é bastante clara,
mas está com uma risada presa na garganta que eu sei.

— Olha, diretora, chega de conversa e vamos resolver a matrícula do


Marcelo, porque meu bebê está com fome. — Alisa a barriga, puxa uma
cadeira e se senta de cara fechada segurando a barriga.

Meia hora depois saímos da diretoria com tudo certo para o meu filho
começar a estudar amanhã mesmo, até peguei o uniforme dele. Suspiro de
alegria. Quero sair mais tarde com o Marcelo para comprar os seus materiais
escolares, vai ser muito legal fazer esse programa com ele. Coisas normais
que mães e filhos fazem ao longo da vida, para mim vale mais que todo
dinheiro do mundo. Porque, no meu caso, só terei a oportunidade de viver
essas emoções apenas uma vez ao lado do meu menino.

— Está feliz, amiga? — Andamos pelo pátio, Julia de braço dado

comigo de um lado e Yudiana do outro, estou mais tranquila agora.

— Muitão! E graças a vocês, obrigada por existirem, meninas. — Olho


para uma e para a outra e sorrio grata, tem muita saudade para colocar em
dia.

— Manhêêêê, você precisa ver como a minha professora nova é linda!


— Marcelo chega de repente e puxa a barra da minha blusa para chamar a
minha atenção, fala várias coisas ao mesmo tempo que quase não dá para
processar.

— É mesmo, filho? Que legal que gostou da sua professora nova.

— Gostei muito. Ela tem tranças compridas e várias tatuagens igual ao


papai, o nome dela é Solange. Mas disse que posso chamá-la de Sol —
continua tagarelando.

— Várias tatuagens, igual ao seu papai, é? Que interessante — Yudiana


repete as palavras do Marcelo e troca olhares com a Julia, depois lançam
ambas seus olhares sobre mim, com as mãos na cintura.

— Sim, aquele papai lá, oh! — Marcelo aponta para o Léo atrás das
duas a alguns metros de nós, com seu estilo e beleza rústica.

Vestido de jeans rasgado e botas de couro escuro de cano longo


surradas. Ele coça a cabeça e acena todo sem jeito. Minhas amigas acenam de
volta em choque, como se não acreditassem no que estão vendo.

Sim, ela vai arrancar minha cabeça fora!

Divido o olhar entre Julia e Yudiana, elas sabem parecer perigosas


quando querem. Uma balança o pescoço igual ao de uma cobra e a outra com
a testa franzida, ambas com os braços cruzados para não ceder ao desejo de

saírem me puxando pelo cabelo na frente de todo mundo.

— Ora essa! Você tem muita coisa para contar para as suas amigas,
Daniele Flores.

— Eu vou, Yudi, não se preocupe.

— Por que não vai lá e dispensa o pai do seu filho e vamos almoçar
juntas? — exige Julia.

Empina a barriga pronta para a briga, tenho até medo de imaginar o que

o pobre delegado Avilar passa na mão dessa mulher.

— Vem, filho, vamos nos despedir do seu pai.

— Está bem, mamãe. — Vai andando na frente e fala com o pai


primeiro.

Nem preciso explicar muito para o Léo, a expressão fechada das


minhas amigas na nossa direção deixa muito claro que é hora dele ir embora.
Caramba! Não queria que elas descobrissem sobre ele dessa forma, rezo para
que não fiquem zangadas porque tomei uma decisão tão importante sem
contar para elas antes.

Na verdade, só não disse nada porque fiquei com vergonha do que elas
iriam pensar ou medo de me fazerem mudar de ideia e voltar atrás nessa
loucura.

— Pronto! Já dispensei o Léo, vamos? — peço.

— Deixei o meu carro no estacionamento, longe demais para uma


mulher grávida, então vamos andar devagar, pelo amor de Deus — suspira e
nos guia até o local.

— Então Léo é o nome do pai do seu filho, amiga. Que legal —


alfineta.

— Tudo bem, Yudi, já entendi que está magoada comigo. Desculpa!


Mas na frente do Marcelo não, por favor — peço e ela rosna.

— Do que você está falando, mamãe?

— Nada, querido, vem aqui com a tia Julia. O bebê chutou, quer sentir?
— Pega sua mãozinha e coloca sobre a sua barriga, Julia é mãe há mais
tempo do que eu e a Yudiana, por isso sabe como agir com crianças em
momentos indiscretos.

— Nossa, que legal! Ei, Junior, calma que daqui a pouco você sai daí,
tá bom? — tenta acalmar o bebê fazendo carinho na barriga, Julia amolece
diante de tanta fofura em uma criança só.

— Falta pouco mesmo agora, Marcelinho. — Inclina e segura o rosto

do meu filho entre as mãos e deposita um beijo na bochecha dele com


carinho, ele fica nas pontas dos pés para alcançar o pescoço da tia.

— E eu não ganho beijo, loirinho? — Yudiana, sempre tão dramática.

Marcelo vai até Yudi e ganha uma chuva de beijos regados de amor, ela
o abraça com tanto fervor que o separa do chão.

— Faz cambalhota comigo, Tia Yudi?

— Pensei que não fosse pedir, docinho. — O ergue pelos bracinhos e


ele escala o corpo dela como se fosse uma montanha e dá impulso para o
salto para trás, repetem a brincadeira mais algumas vezes.

— Agora chega, filho, vai amarrotar a roupa da sua tia. — Tento tirá-lo
do seu colo, mas ela não deixa.

— Deixa o menino, Dani! Ou vai fazer o quê? Contar para o pai dele?
O bonitão tatuado. — Fecho a cara e aumento os passos, enfim chegamos na
droga do carro.

Eu amo a Yudi, mas quando resolve começar com as suas provocações


ficamos pelo menos duas semanas sem nos falar.

— Segura a sua onda, Yudiana Thompson — repreende Julia, não em


minha defesa, acredito, mas para proteger o Marcelo de saber mais do que
deve.

— Desculpa, eu me excedi.

— Tudo bem, Yudi. Tem todo direito de estar zangada comigo — digo.

— Que bom que você sabe, loira. — Mostra a língua.

Abre a porta, tira o Marcelo do colo e o coloca em uma das cadeirinhas

dos gêmeos da Julia no banco de trás e se senta perto dele. Os dois começam
a conversar.

— Posso dirigir, Julia? — quase imploro, sinto muita falta do meu


carro.

— Claro que sim, loira, pode até ficar com o meu carro, se quiser.
Posso usar o do Ricardo, depois que o bebê nascer nem sei quando ele vai me
deixar voltar a dirigir. — Seus olhos giram dentro das órbitas e joga as
chaves para mim.

Senta no banco do carona e inicia uma briga para fechar o cinto de


segurança por causa da barriga grande. Fala alguns palavrões baixinho para
que Marcelo não escute.

— Vocês já fizeram demais por mim e o meu filho, Julia. Daqui para
frente eu dou os meus pulos. Eu até tenho um emprego novo, começo na
próxima semana. — Endireito os ombros e seguro firme o volante, estou
muito orgulhosa de mim mesma.
Minhas amigas também estão, Yudi sorri para mim pelo retrovisor e
Julia se inclina para o lado e me abraça.

— Parabéns, loira, temos que comemorar. Uhuhuu! — grita Yudiana, a


raiva dela enfim passou.

— Eu também quero comemorar, tia, posso? Posso? — Marcelo faz


biquinho.

— Você pode tudo, coisa linda. — Aperta as bochechas dele.

— Então pé na estrada, eu pago o almoço. Não aceito não como


resposta, é a minha forma de agradecer por tudo que estão fazendo por mim.
— Depois de muita relutância, enfim aceitam.

Escolhemos um restaurante espanhol, Yudi disse que costuma ir lá com


o marido. Disse que além da ótima comida, tem uma área especial para deixar
os filhos, onde podem se distrair com desenhos para colorir. Muito giz de
cera, brinquedos e massinha de modelar disponibilizados nas mesas com

outras crianças pequenas, e os pais podem monitorar os pequenos por uma


televisão que fica no salão.

Gostei da ideia, assim poderemos ter nossa conversa à vontade


enquanto meu filho se diverte. Minhas amigas não falam mais nada em
relação ao Léo durante o percurso, o que mantém o clima agradável.
Conversam com o Marcelo sobre várias coisas, contudo, a cada dez palavras
que ele fala, nove são sobre o pai. Na opinião dele, o melhor do mundo.

Chegamos ao restaurante e escolhemos uma mesa perto da vista para a

rua, não demoramos para fazer os pedidos. Marcelo logo se enturmou com
dois meninos em uma mesinha na área para crianças, vez ou outra acena para
mim e sorri.

— Então vamos lá, Dani, onde encontrou aquele homem gostoso que o

seu filho pensa que é pai dele? — curta e grossa, Yudiana inicia a conversa.

Sinto como se estivesse em um interrogatório, suspeita de ter cometido


um grave crime.

— Léo é um garoto de programa que contratei para se passar pelo pai


do Marcelo, sempre sonhou em ter um. Podem me julgar o tanto que
quiserem, mas nada paga a felicidade que essa criança está deste que esse
homem entrou na sua trágica história de vida. — O garçom vem trazer nossas
bebidas, pego a taça de sangria de vinho que pedi e sorvo em um gole só.

Essa bebida é famosa na Espanha, e a desse restaurante é fiel na


qualidade da original que provei a primeira vez na Espanha, feita por mãos
espanholas com prática no assunto.

— Onde você conseguiu o contato de um garoto de programa, Dani? —


Julia pergunta quase gritando. Já que não pode beber álcool, agarra o seu
suco de laranja sobre a mesa e vira sem respirar.
Algumas pessoas olham para nós, fico muito vermelha.

— Minha vizinha, Paula, me indicou os serviços dele. Como trabalham

no mesmo ramo e são amigos, ele fez um preço que eu consiga pagar —
resumo por alto.

— Cacete! A história fica cada vez pior. Como você sabe que pode
confiar nesse homem indicado por uma mulher que mal conhece, criatura? —

Conheço esse tom da Yudi, se minha explicação não for convincente, vai
caçar o Léo até no inferno e torturá-lo.

— Porque em poucos dias esse homem deu mais alegria para o meu
filho do que o verdadeiro pai biológico desde que o pobrezinho nasceu — a
resposta sai no automático, escorre dos meus lábios em uma fração de
segundos.

Como se estivesse ali no meu inconsciente à espera do momento certo


para vir à tona e esclarecer muitas perguntas que até então eu não tinha

resposta, ou pelo menos fingi não ter.

— Dá para perceber quando Marcelinho fala desse cara, ele está nas
nuvens — assume Yudiana.

Olhamos para o Marcelo, rindo e interagindo com os novos coleguinhas


enquanto comem. Tudo o que fiz e faço, por mais louco que seja, é para que
esse sorriso lindo nunca saia do seu rosto.
— Também percebi que Marcelo olhava para o cara lá na escola como
se estivesse diante de um super-herói, parece até essas histórias que só se vê

em livros. — Sorrindo, Julia desliza a mão sobre a mesa e segura a minha.

— Eu não acho que esse Léo leva jeito para super-herói, está mais para
vilão. E aquela cara de mau dele? Corpão sarado e cheio de tatuagens. Ai,
que delícia! — A maluca da Yudi pega o cardápio sobre a mesa e abana o

rosto, rindo feito uma maluca.

— Deixa o seu marido ouvir isso, sabe como ele é ciumento. — Dá de


ombros e continua rindo.

— Nesse ponto sou obrigada a concordar com a Yudi, o cara é um


gostoso da porra! E pelo ramo que ele trabalha, deve saber fazer gostoso.

— E eu com isso, Julia? Não tenho interesse sexual nenhum no Léo,


apenas quero que seja um bom pai para o meu filho. Vai ser bem pago para
isso. — Tento parecer firme, mas minhas pernas estremecem debaixo da

mesa. — Até porque ele não faz o meu tipo de homem — completo.

Pego um guardanapo e esfrego uma mancha imaginária no vidro da


mesa, minhas amigas me conhecem melhor do que eu. Tenho medo de que
elas vejam algo nos meus olhos que me entregue.

— E que tipo de homem seria? — questiona Yudi dissimulada.

— Aqueles para casar, fiel, romântico e responsável. Companheiro.


Que eu sei que não importa o quanto as coisas fiquem feias, permanecerá ao
meu lado sempre — suspiro, ainda sonho em achar a minha outra metade um

dia.

— Meu Deus! Em que mundo você vive, Dani? Homens perfeitos não
existem, mas sim os cheios de defeitos que se esforçam para fazer dar certo,
como no meu caso e o da Julia. Se continuar pensando assim, vai envelhecer

sozinha.

— Não destrua a ilusão da nossa amiga, Yudi, deixa ela sonhar com um
príncipe encantado vindo num cavalo branco. — Viro alvo de chacota das
duas.

— Fica esperta, Dani, às vezes tudo o que sempre sonhamos está bem
diante dos nossos olhos. Mas às vezes só enxergamos quando é tarde demais
— filosofa Yudiana enquanto eu sorrio educada para a garçonete que serve os
nossos pratos.

Presto atenção em cada movimento seu, a forma como equilibra


bandejas e mantém a postura elegante ao mesmo tempo. Um dia ainda
chegarei nesse nível de prática e surpreenderei a dona Terezinha. Vou
sobreviver a esse mês de teste e vou virar funcionária fixa.

— Eu sinceramente não sei onde querem chegar com essa conversa,


meninas, acho que não estamos falando do mesmo cara. Léo não é o tipo para
ter qualquer tipo de relacionamento, tenho certeza que estraga muitos por aí e
ganha muito bem para isso. — Enfio quase um pimentão vermelho recheado

com carne assado inteiro na boca e mastigo ferozmente, elas conseguiram me


fazer perder a paciência, mas não o apetite.

Mas Yudiana não se dá por vencida e acrescenta:

— Esse que é o problema, loira, como diria o chorão do Charlie Brown

Jr…

“Toda patricinha gosta de um vagabundo.”


Léo

O brilho do diamante gigante preso ao anel de noivado atravessa as


lentes grossas e reflete nas íris cor de mel dos lindos olhos assustados da
moça tímida sentada na cama. Com a mão trêmula, empurra os óculos de
grau para trás e cruza as pernas de um lado para o outro. Se eu não agir
rápido, ela fugirá a qualquer momento. Já faz mais de dez minutos que,
vamos chamá-la de Mariana, chegou muda nesse quarto de hotel de luxo
segurando a bolsa contra o peito como se fosse uma arma de defesa contra
mim.

— Quem é você e o que fez com as minhas amigas? Era para eu

encontrá-las aqui. — Olha de um lado para o outro em uma varredura


minuciosa pelo cômodo, sua ficha não caiu ainda.

A cada cinco segundos desliza a mão pelos fios avermelhados


volumosos do cabelo preso em um rabo de cavalo baixo, treme tanto que a
cama chega a balançar.

— Suas amigas não puderam vir, moça, mas me enviaram para te fazer
companhia. Elas realmente gostam de você, me ofereceram uma pequena
fortuna para largar outro trabalho e vir ao seu encontro. — Aproximo um

passo, mas ela se afasta dois e agarra a bolsa com mais força e crava as
pontas dos dedos no couro marrom, reparei que suas unhas são roídas bem
curtas, quase em carne viva.

— Minhas amigas jamais fariam isso comigo! Elas serão minhas

madrinhas de casamento amanhã, e hoje era para sairmos juntas para


comemorar minha despedida de solteira e… — Fica em silêncio por alguns
segundos, enfim a bendita ficha cai. — Aquelas vacas! — De confusa, se
torna raivosa.

Levanta e começa a andar pelo quarto, movimenta os pés de tal maneira


que o tecido leve da saia longa verde-água chacoalha pelo ar, diferente da
blusa preta de mangas longas justa com a gola alta que cobre todo o pescoço.
Confesso que estou decepcionado pelo fato de eu ter me arrumado todo para

atendê-la, sendo que a cliente não se deu ao trabalho de colocar um salto ou


passar um batom antes de sair.

Em anos trabalhando no ramo da prostituição, essa com certeza é a


noiva mais desleixada que atendo em uma despedida de solteiro. Parece que
acabou de sair apressada do culto de uma igreja de crente. Pela postura séria,
acredito que usar maquiagem não seja algo rotineiro da sua parte. É o tipo
nerd. Mas não chega a ser feia, já peguei trabalho piores.
— Gostaria de beber algo? Vai ser bom para você um pouco de álcool
no sangue. — Abro as abotoaduras da minha camiseta social branca, ela me

observa pelos cantos dos olhos a todo momento, ajeitando a franja reta acima
das sobrancelhas grossas.

A respiração acelerada da pobre garota é audível, nada como uma ou


duas taças de champanhe para aflorar nossos desejos mais sujos.

— Sim… por … favor. — gagueja abraçando o próprio corpo, essa


guria vai me dar trabalho.

Ótimo! Adoro um bom desafio.

Caminho sobre as pétalas de rosas espalhadas pelo chão e vou até a


mesa de canto, pego uma garrafa de champanhe dentro de um balde de gelo e
duas taças de cristal. As madrinhas dela capricharam na decoração do quarto,
com direito a luz de velas e música relaxante ao fundo.

Me aproximo da cama a passos lentos, sento-me ao lado de Mariana e

lhe ofereço uma taça, ela pega com as mãos trêmulas.

— Obrigada — sibila.

Ela se assusta com o barulho da garrafa se abrindo e soltando espuma


para todo o lado como um vulcão em erupção; depois do susto, acha graça da
bagunça que eu fiz. Sirvo sua taça olhando profundamente nos seus olhos,
agora é tudo ou nada.
— Eu vou direto ao ponto com você, menina. Não sou o tipo de homem
que só faz papai e mamãe, mas sei fazer bem gostoso caso você queira. Ou

podemos apenas conversar se quiser manter-se fiel ao seu noivo. Mas caso
tenha curiosidade em experimentar coisas novas, prometo que nunca vai ser
tão bem comida em toda a sua vida quanto será essa noite. — Aproximo a
boca ao pé do seu ouvido e mordo a ponta de leve; ela se arrepia toda e solta

um gemido, aliso a parte interna da sua coxa.

Como Mariana não responde nada de imediato, me afasto para fitá-la e


vejo dois olhos arregalados quase saltando para fora da órbita. Ergo a mão
para tentar um primeiro contato físico, mas a moça recua em movimentos
bruscos e corre em direção à porta, batendo-a com toda a força.

Com ela do lado de dentro.

— Já que estou aqui, faça valer a pena cada centavo que as minhas
madrinhas te pagaram. — Tomada por aqueles vinte segundos de coragem,

solta a bolsa de qualquer maneira no chão e arranca os óculos fundo de


garrafa e joga longe.

Com o olhar feroz, solta o cabelo e começa a tirar a roupa na


velocidade da luz.

— Como você quiser, senhorita, estou aqui para realizar as suas


fantasias sexuais mais pervertidas. — Garanto com um sorriso devasso, ela
pega um pacote de camisinhas sobre o criado-mudo e joga em mim.

Em seguida a mulher vem para cima de mim feito uma leoa e me acerta

um golpe com as duas mãos abertas sobre o meu peito. Empurra-me sobre a
cama, pula em cima de mim e me devora até o dia amanhecer como se eu
fosse a sua última refeição antes do fim do mundo.

De manhã, a safada ainda queria mais, embora meu horário pago pelas

amigas já tivesse vencido. Mas não vai rolar, faz tempo que não como uma
mulher de graça.

— Você tem algum programa agendado para a parte da manhã? —


Boceja deitada nua de barriga para cima na ponta da cama, com o cabelo cor
de fogo espalhado pelo lençol branco a me observar vestir minhas roupas;
não vai me deixar ir embora tão fácil.

— Não costumo marcar trabalho de manhã, essa parte do dia é sagrada


para mim. — Puxo o fecho da minha calça.

— O que acha de abrir uma exceção? Pago o dobro do que as minhas


madrinhas de casamento lhe deram, só para passar mais algumas horas com
você, Léo. — Abre as pernas para mim e massageia o clitóris com cara de
devassa, lambe o dedo e introduz na buceta toda molhadinha.

Puta que pariu! Cadê a moça toda tímida que chegou aqui ontem? Eu
criei um monstro sexual.
— Pagando bem, meu anjo, eu te como pelo resto da sua vida, se essa
for a sua vontade. — Tiro as roupas com a mesma rapidez que coloquei, boto

uma camisinha no meu pau já duro de vontade de meter fundo na vadia


disfarçada de santinha.

Puxo a cachorra pelo cabelo e a obrigo a ficar de quatro, enfio meu pau
num golpe só e dou uma palmada na bunda dela, que solta um grito agudo de

prazer.

— Isso, me fode com força, caralho — geme feito uma maluca e


impulsiona o corpo para trás ao encontro das minhas estocadas, inclino e jogo
meu corpo sobre o dela e agarro o seu pescoço, aumentando o ritmo das
investidas.

Devido à sensibilidade da noite regada de sexo, Mariana goza rápido.


Mas não dou tempo dela se recuperar do clímax, continuo em cima da safada.
Metendo, metendo e metendo até deixá-la mole.

Enfim à tarde consigo sair do quarto com uma boa grana no bolso.
Deixo uma cliente muito satisfeita dormindo exausta com o meu cartão preso
na mão esquerda, tenho certeza de que vai entrar em contato comigo em
breve. Depois que uma mulher experimenta o que é ter um banquete nos
braços de um homem de rua, não se contenta fácil com o arroz e feijão
oferecido pelo marido cansado demais do trabalho para satisfazer a esposa.
Tudo o que quero agora é ir para a minha casa, tomar um banho e
relaxar algumas horas, tenho mais duas clientes para atender à noite. Mas

meu celular toca no bolso da minha jaqueta, alguma coisa me diz que os
meus planos irão por água abaixo.

— O que você quer, Paula? Tenho mais o que fazer — digo, mas a
linha fica muda.

Eu conheço essa mulher, não para de falar nunca, parece um disco


arranhado. Se está calada, é porque alguma coisa está errada.

— Fala logo, mulher, aconteceu alguma coisa com a Maria? — fico


apreensivo.

— Não, é o Marcelo. Ele está no hospital, houve um...

— Que hospital? — corto sua explicação, sinto uma coisa estranha


como se um buraco estivesse abrindo no meu peito.

— Calma, Léo, me deixa explicar o que aconteceu.

— Fala logo o nome da porra do hospital, Paula! — grito com ela, por
que as mulheres têm que ser sempre tão irritantes? Que inferno.

— Vou te mandar por mensagem, seu grosso, mas acho que não devia
ir lá. Você sabe como esses lugares te deixam mal e…— Desligo na cara
dela, não estou a fim de tocar em feridas antigas.

Jurei para mim mesmo que nunca voltaria a pisar em um hospital


novamente, e eu nunca quebro uma promessa. Mas preciso ver o garoto de
um jeito ou de outro.

Paula envia o endereço do hospital, junto com mais meia dúzia de


palavrões.

— Porra, tinha que ser logo esse hospital? — praguejo, passo a mão na
cabeça e soco a parede do corredor.

Paula envia outra mensagem com uma observação de que, para quem
diz que não gosta da Dani, eu estou preocupado até demais com ela e o filho.
Não dou ouvidos. Quero que essa loira metida se foda, na verdade não tenho
paciência nem de ouvir a voz dessa garota. É burra e se veste como uma
adolescente do ensino médio, aquelas loiras de um metro e meio de altura.
Populares e desejadas pela beleza e pela grana, mas que não têm nada na
cabeça além do próximo look que vai vestir.

Mas o moleque, apesar de meio grudento, não é tão chato quanto a

mãe. Até é legal e mais maduro do que ela. Quero fazer o meu melhor nesse
trabalho. Não que eu goste dessa criança, posso ser um caso perdido, mas
prezo todo cliente que tenho, por mais peculiares que sejam. Prestar serviços
como pai de aluguel não estava nos meus planos, porém, o destino gosta de
ferrar com o meu psicológico. Além do mais, não estou em condições de
negar serviço, preciso juntar uma grana antes que a situação saia de controle.
Prometi para a chata da Paula que iria dar um jeito nisso, e vou cumprir.

Ao chegar no elevador, aperto o botão várias vezes e logo ouço o

ranger dos cabos de aço subindo com a caixa de ferro. Resolvo descer pela
escada, mas está interditada, tem um operário arrumando alguns degraus.

— Cacete! O jeito vai ser improvisar, não posso perder tempo. —


Resolvo descer de uma maneira mais criativa, saio pela saída de incêndio do

prédio.

Como pratico parkour desde a minha adolescência, vai ser moleza


descer até a garagem. Esse esporte foi criado na França nos anos 1980, é
inspirado em técnicas de salvamento e fugas de emergência performadas por
bombeiros. O objetivo é se deslocar de um ponto a outro de modo rápido e
direto, sem desviar de obstáculos como muros, vãos ou carros. Essa
modalidade envolve saltos, escaladas e nenhum equipamento além do próprio
corpo. As manobras utilizam técnicas da ginástica olímpica e de artes

marciais.

— Desce daí, menino, vai acabar caindo — grita a senhora bisbilhoteira


da janela do prédio da frente, finjo que não escuto e sigo pulando de uma
pilastra para a outra e passo debaixo da escada de ferro para chegar na porta
da garagem.

Coloco meu capacete e acelero a minha moto feito um louco, chego no


hospital na metade do tempo. Paro na recepção para pedir informação, muita
coisa mudou por aqui, está com uma decoração mais moderna.

— Boa tarde, gostaria de ver o garotinho que deu entrada nesse hospital
hoje. — Me aproximo do balcão e pergunto para a secretária, ela está de
costas para mim, a digitar ferozmente no seu celular.

— Léo? Eu pensei que nunca mais voltaria a pisar nesse lugar, mas é

bom te ver novamente. Como está, meu filho? — Para o que está fazendo e
gira o pescoço para me fitar com o mesmo olhar de sempre.

O de pena.

— O nome do garoto é Marcelo Flores. Pode me dizer em que andar ele


está, por favor? — Desvio o olhar, então a secretária, agora de cabelos
brancos e pele envelhecida pelo tempo, entende o recado.

Algumas coisas devem ser deixadas onde estão, no passado.

— Vou conferir para o senhor, só um minuto —responde triste e


confere no computador.

— Ele está no pronto-socorro com a mãe, fica no prédio B.

— Muito obrigado. — Saio correndo, mas paro antes de chegar a sair


do prédio.

— Foi bom ver você também, dona Sonia — digo sem olhar para trás,
mas posso sentir o seu sorriso gentil de sempre se abrindo.
Sigo caminho, chego no pronto-socorro e vejo a mãe do meu filho
pendurada no pescoço de um playboyzinho de jaleco branco e um

estetoscópio. Cara negro musculoso e boa pinta, bem vestido. O tipo galante
para casar e exibir para amigas.

— Posso saber o que está acontecendo aqui? — A patricinha arregala


os olhos como se tivesse visto um ser de outro planeta, e solta o médico no

mesmo instante.

Eu acho bom que ela tenha uma explicação para ter deixado o garoto
sozinho e estar flertando com o médico, mulher é tudo igual mesmo. Não
podem ver um bom partido que caem matando.

— E você, quem é? Aqui não atende pelo SUS, só particular.


Atendimento gratuito só no prédio A. — O médico vira as costas para mim e
volta a babar em cima da patricinha, dando continuidade na conversa como se
eu não existisse.

É incrível como gente rica se atrai como moscas na sopa.

— Sou o pai do filho dela, algum problema com isso, doutor? — O


espanto muda o rosto da patricinha.

E o do médico também, ele me fita de cima a baixo com desprezo como


se eu fosse um depósito de lixo onde só se encontra coisas sem valor que
ninguém quer mais, depois encara a sonsa da Daniele pensando em como
uma mulher como ela engravidaria de um cara como eu.

— Problema nenhum, rapaz, me diz você. — Incha o peito, dou um

passo na sua direção.

Não vai me usar para bancar o herói às minhas custas.

— Léo, por favor. Para com isso! — Entra no meio de nós dois para

evitar que as coisas esquentem de verdade.

— Está tudo bem, Daniele? Se estiver sofrendo algum problema de


violência doméstica em casa, eu posso te ajudar. — Alisa o braço da suposta
donzela em perigo, o meu sangue ferve.

Sério mesmo que esse filho da puta está insinuando na minha presença
que sou um agressor de mulheres? Eu jamais seria esse tipo de covarde
nojento, meu pai não me criou dessa forma. Ele me ensinou que devo
respeitar as outras mulheres com o mesmo respeito que tenho pela minha
mãe.

É sempre como eu digo, um cara não pode ter um estilo diferente e uma
meia dúzia de tatuagens que é denominado bandido.

— Violência doméstica? Não, doutor, nem somos um casal.

— É muito bom saber disso, princesa. — Doutor Amor coça o


cavanhaque e joga o anzol no mar, louco para pegar a sereia ingênua de jeito,
e ela está caindo direitinho no jogo de sedução dele.
— Chega de jogar conversa fora. Eu só quero saber como o garoto está,
depois podem continuar a fazer o que quer que estavam fazendo antes da

minha chegada. — A face da Daniele se fecha, dura, entendeu bem a ironia


por de trás das minhas palavras.

Não é tão burra quanto parece.

— Marcelo sofreu um acidente, tudo aconteceu muito rápido. — Fico

mais apreensivo, como assim acidente? Pobre garoto, como se sua situação já
não fosse ruim o suficiente.

— Como ele está, Daniele? Foi muito grave? Quero vê-lo agora
mesmo.

— Ele está bem, não se preocupe. Só teve alguns arranhões na barriga e


pernas. — Sinto um alívio imenso, a hora dele ainda não chegou.

— Eu fiquei muito preocupado. Pensei que… bem, você... — Não


consigo nem dizer em voz alta o que pensei, minha boca trava.

— Você ficou mesmo preocupado? — pergunta surpresa, apenas


assinto. — Ainda temos um tempinho com o Marcelo, vai ficar tudo bem. —
Entrelaça os dedos entre os meus para passar apoio, mas o seu simples toque
desperta outros sentimentos mais fortes em mim.

Inesperados.

— Como foi esse acidente? — indago.


— Marcelo estava brincando na calçada do nosso prédio quando um
ciclista passou e o atropelou, por sorte o doutor Enrique passava de carro e

prestou os primeiros socorros. Nos trouxe para o hospital particular onde


trabalha, tudo por sua conta — explica.

— É mesmo? Que coincidência — ironizo de cenho franzido.

— Muito! Não foi gentil da parte dele? — Baixa o olhar, corada, e

mexe no cabelo, é evidente que também está a fim do cara.

Até para paquerar ela age como uma garota de quinze anos. Meu
estômago chega a revirar com essa cena, se eu não sair de perto vou vomitar.

— É, foi sim. Muito obrigado por ajudar o meu filho, doutor Amor. —
Lhe ofereço um sorriso falso.

— Já chega dessa implicância toda com o doutor, Léo! Ele foi muito
legal com o nosso filho, então pega leve. — Dessa vez sou eu quem troca
olhares com a patricinha, permanecemos assim por um tempo, como que

ligados por uma força maior.

Mesmo em um momento de raiva, é a primeira vez que se refere ao


garoto como nosso filho.

— Eu já o agradeci, posso ver o garoto agora? — Cruzo os braços e


volto minha atenção para o doutor Amor, a expressão dele endurece.

Dani pode dizer o que quiser, mas não vou ser simpático com esse cara
só porque ele ajudou uma criança porque quer comer a mãe dela.

— Como não houve nenhuma fratura, já podem levar o Marcelo para

casa. Infelizmente, não podemos fazer mais nada pelo filho de vocês. — Toca
o ombro da Dani, minha vontade é arrancar a mão desse cara fora.

— Papai, é você? Eu estou aqui. — Ouço a voz do Marcelo vindo de


um dos leitos separados por cortinas azuis do pronto-socorro, e a minha raiva

se dissipa como fumaça ao vento, só ele consegue esse efeito em mim.

— Eu estou indo, garoto, vou te levar para casa. — Saio sem pedir
licença e sigo a direção até o leito de onde veio a voz do Marcelo.

Quando me vê chegar, me recebe com um sorriso que não sei se um dia


vou superar o impacto que causa em mim. Talvez isso de ser pai de verdade
não seja tão ruim assim, vez ou outra deve ter os seus bons momentos.

— Oi, campeão, como se sente? — Me aproximo da sua cama, a


enfermeira que está tirando o acesso do soro do braço dele sorri para mim

com intimidade.

Ela não me é estranha, talvez já tenha sido minha cliente. Acho que são
poucas as mulheres do Rio de Janeiro que não foram. A sociedade não sabe,
mas os serviços solicitados pelos garotos de programa são mais frequentes do
que se pensa.

— Bem, papai, mas eu não gosto de agulhas. — Olha para o acesso do


soro no seu braço e faz biquinho para chorar, seguro a sua mão e ele segura
as lágrimas enquanto a enfermeira puxa a bendita agulha.

Antes de sair, pisca para mim, meu Deus! Será que essa criatura não
respeita nem o local de trabalho? Tem um paciente criança aqui, porra!
Depois nós homens que somos taxados como safados insensíveis, tudo tem
hora e lugar.

— Está tudo bem agora, filho, você foi muito corajoso. — Afago os
seus cabelos acastanhados, tem um pequeno arranhão na testa, quase
invisível.

Ele começa a chorar com o rostinho escondido no travesseiro, fico sem


saber o que fazer para que pare.

— O que foi, por que está chorando? Está com alguma dor? Vou
chamar o doutor Amor. — Ameaço sair, mas ele segura a minha mão.

— Eu estou bem, papai, não vá — pede, mas continua chorando, chega

a soluçar.

— Então, por que ainda está chorando?

— Porque você sempre me chama de garoto, mas agora disse filho.


Estou tão feliz que tenho vontade de chorar. — Cobre a boca com as
mãozinhas para abafar o choro, está visivelmente emocionado.

Eu não se sei ainda tenho um coração, mas se tiver ele acabou de partir
dentro do peito. Marcelo é tão carente de amor paternal, não sei quase nada
sobre o pai biológico dele, mas já quero dar uma lição nesse covarde filho da

puta.

— Eu não gosto de te ver chorando, filho. Além do mais, homens de


verdade não choram, então limpe essas lágrimas que eu vou te levar para
casa.

— Está bem, papai. — Se apressa em limpar as lágrimas.

— Vem, vamos embora. — Pego-o no colo, ele deita a cabeça no meu


ombro e faz carinho na minha barba; está sonolento.

Eu não sei o que está acontecendo comigo depois que conheci essa
criança. Sempre fui um putão sem causa que não se importa com ninguém
além de mim mesmo, mas agora estou me sentindo tomado por um
sentimento de proteção e cuidado tão imenso que seria capaz de matar
alguém para manter esse garoto seguro.

— Você vem ou vai ficar aí flertando com o doutor Amor? — Passo


reto pelo casal maravilha, a patricinha precisa correr para acompanhar os
meus passos.

— Muito obrigada por ter vindo, Léo. Mas pode me dar o meu filho
agora, eu assumo daqui. —Tenta tirar o garoto à força do meu colo assim que
saímos do hospital, mas ele acorda e começa a chorar.
— Eu quero o meu pai. — Ergue os bracinhos, pego ele e o pequeno
volta a dormir, sereno.

Assovio para um táxi que passa na rua e entro sem olhar para a loira
antipática, ela já me irritou o suficiente por hoje. Acho bom que mantenha a
maldita boca fechada durante a viagem, estou exausto, sem dormir uma noite
inteira, e ainda vou ter que voltar na porra desse hospital depois para buscar a

minha moto, e que Deus abençoe que eu não tope com o doutor Amor, pois,
se me provocar, não vou ser tão gentil como agora.

Chegamos no apartamento da patricinha já à noite, levo o garoto para o


quarto dele para colocá-lo na cama. Mas ele não me solta de jeito nenhum, se
eu insisto começa a resmungar. Deito-me com ele sobre o meu peito para
esperar que o seu sono fique pesado e eu possa ir embora sem que acorde,
enquanto isso vou fechar os olhos e descansar só por quinze minutinhos.
Dani

Ando de um lado para o outro à espera de Léo voltar do quarto do meu


filho, não tive a oportunidade de agradecer pessoalmente pela comida que
comprou para nós e pelo fato de ter ido ao hospital ver o Marcelo. Só não
precisa agir feito um babaca o tempo todo com o doutor Enrique, aquele
homem gentil e educado. Lindo e ainda adora crianças, foi muito atencioso
comigo e o Marcelo. Um partidão, como diria minha mãe. Apesar de maluca
sinto muita falta dela.

Já liguei várias vezes para o spa onde ela está, mas dona Vera, com
toda a sua teimosia, nunca aceita falar comigo. É a forma dela de lidar com

toda essa situação, talvez a ficha só vá cair quando os papéis do divórcio que
pediu para o meu pai chegarem e enfim possa ficar livre dele de uma vez por
todas.

— Que estranho, já era para o Léo ter voltado. — Olho no relógio na


parede sobre o móvel, faz quase vinte minutos que ele foi colocar meu filho
na cama.
Vou até o quarto do Marcelo, talvez ele tenha acordado. Quando chego
tenho uma bela surpresa.

— Ohhh, que fofinho. — Não estava preparada para essa cena, Léo
caiu no sono com o Marcelo dormindo sobre o seu peito.

Meu filho está agarrado ao homem que acredita ser o seu pai com tanta
força, as duas mãos cravadas na gola da camisa do Léo, com medo dele ir

embora. No fundo, meu filho sabe que ele não pertence a nós.

— Boa noite, meninos. — Inclino e deposito um beijo na testa do


Marcelo, subo e decido fazer o mesmo com o Léo.

No entanto, sou tentada a mudar de rota quando coloco os meus olhos


tão de perto na boca mais atraente que já vi na vida. Lábios grossos e
avermelhados, rústicos, mas com contornos bem delineados. Tento ser forte e
não cair no feitiço que o Léo exala sobre as mulheres, porém, não consigo.

É mais forte do que eu.

Mais forte que tudo.

Puxada pela força de um imã, fecho os olhos e os meus lábios tocam os


de Léo tão depressa que quase não sinto. Mas é o suficiente para ficar
grudado na minha mente para sempre. Ele resmunga algo e remexe na cama,
saio correndo pisando bem de leve. Me escondo no meu quarto, mas não
existe lugar seguro no mundo o suficiente para me proteger desse sentimento
avassalador que sinto.

Sento na cama, pasma com o que acabei de fazer, meu corpo queima

por completo como se estivesse amarrada em uma fogueira sendo queimada


viva. Por mais que me debata e tente fugir, as chamas me consomem por
completo de maneira impetuosa e possessiva.

— Eu não acredito que você roubou um beijo, Daniele Flores! —

Coloco a mão sobre meu coração, ele bate tão forte que a impressão que
tenho é que vai sair pela boca a qualquer momento.

Tiro a roupa e me jogo debaixo do chuveiro frio para ver se essa


adrenalina toda vai embora, para não dizer outra coisa…

Depois do banho coloco um pijama fresco e não demoro a pegar no


sono, tive um dia tenso.

*****

— Acorda, mamãe, vamos nos atrasar para a visita na escola. —


Acordo com o Marcelinho dando pulos na minha cama às cinco horas da
manhã, sendo que a aula dele começa bem mais tarde.

Não dormiu direito essa noite, está ansioso com o primeiro dia de aula.

— Deita aqui comigo e volta a dormir, filho, ainda está muito cedo. —
Puxo a ponta do lençol sobre o meu rosto e vejo o sorriso mais lindo do
mundo.
Seus olhinhos verdes brilham como duas pedras preciosas, é mais fácil
eu me levantar do que essa criança voltar a dormir.

Santo Deus!

— Não, mamãe, eu estou oxioso. — Salta sobre mim e começa a alisar


o meu rosto bem de leve, puxo o edredom e o cubro.

— É ansioso que fala, filho, mas não precisa se preocupar porque vai
dar tudo certo — tento acalmá-lo.

— Qualquer dia me leva para conhecer onde você trabalha?

— Claro, meu amor, você vai amar a minha amiga Michelle. —


Enquanto fala, ele me olha calmamente com a mãozinha apoiada sobre o
peito.

— Posso dizer uma coisa? — Aconchega a cabeça no meu ombro.

— Claro que sim, filhote. — Bagunço seu cabelo.

— Você é a menina mais linda que eu conheço no mundo todo, mamãe.


— Suas bochechas coram, a coisa mais fofa desse mundo.

Um sorriso rasga o meu rosto, com a certeza de que esse foi o elogio
mais sincero e lindo que já recebi.

— E você é o menino mais lindo do mundo, meu amor. — Aperto-o


bem dentro dos meus braços, como se fosse um bebê.
— Minha barriguinha está fazendo barulho, estou com fome. — Bate
na barriga com as duas mãozinhas, empurrando-a para frente.

— O que acha de a primeira receita que aprendermos a fazer do livro


da Ana Maria Braga que o seu pai me deu for um chocolate quente bem
gostoso? Depois você pode levar para ele na cama, acho que vai ficar
orgulhoso de nós — sugiro, contudo, com os pensamentos em conflito sobre

qual será a minha reação quando vir Léo depois do que fiz ontem.

— Claro, mãe, acho que o chocolate quente vai me ajudar a ficar menos
axioso. — Seguro o riso, acho uma gracinha quando ele fala alguma palavra
errado, nem vou mais corrigi-lo.

Vamos para a cozinha de pijamas mesmo, só de meias para não fazer


muito barulho e acordar o Léo. Além de zangado, parecia mesmo exausto
ontem à noite.

— Podemos fazer biscoitos para o papai também, mamãe? Acho que

ele vai ficar muito feliz. — Faz cara de cão sem dono, acabo assentindo. Mas
a verdade é que não sei se teremos sucesso no preparo do chocolate quente,
imagina biscoitos.

— Podemos tentar a sorte, querido. — Com o cardápio da manhã


escolhido, colocamos mãos à obra.

Como os biscoitos são mais demorados, começamos por eles, encontro


várias receitas diferentes do livro da Ana Maria Braga. Escolho a mais fácil,
óbvio. Me atrapalho para pegar os ingredientes necessários na medida certa,

mas consigo achar tudo e coloco sobre a mesa. Antes de começar a preparar,
confiro tudo novamente e, minha nossa! É muita coisa.

150 g de margarina

3/4 xícara (chá) de açúcar

1 xícara (chá) de açúcar mascavo

1 ovo

1 3/4 de xícara (chá) de farinha de trigo

1 colher (sopa) de fermento em pó

300 g chocolate em gotas ou picado

canela e baunilha a gosto.

— Não deve ser nenhuma coisa de outro planeta, vamos lá, filho. —
Começo a misturar os ingredientes, seguindo passo a passo a receita.

— É assim mesmo que fica? — Sentado sobre a mesa, Marcelo tenta


tirar a colher de pau de dentro da vasilha de plástico verde redonda, mas não
consegue, está grudada na massa que mais parece um grude.
— Deixa eu tentar, Marcelinho. — Puxo a colher com força e ela sai,
mas vem com todo impulso e bate no meu rosto.

Agora tem massa espalhada por toda parte, tanto em mim como em boa
parte da cozinha.

— Você é tão engraçada, mamãe. — Ri de mim com gosto, está se


divertindo com a bagunça que eu fiz.

— Ah, você está achando graça, é? — Encho a mão de massa e jogo


nele, Marcelo ri mais ainda.

— Guerra de comida! — Cubro o rosto para me proteger da chuva de


massa que o meu filho joga em mim, quando se distrai é a minha vez de
atacar.

Nossas risadas tomam conta da cozinha, faz tempo que não me divirto
tanto.

— Vocês sempre acordam cedo assim? — Léo aparece na porta


esfregando os olhos, seu tom estridente faz com que eu e o Marcelo
paralisemos.

Sempre me perguntei se sua aparência era tão irresistível de manhã


quando acorda com cara de sono e o cabelo bagunçado sobre o rosto. Bem,
agora pude comprovar que é ainda melhor.

— Bom dia, papai, eu e a mamãe estamos fazendo seu café da manhã


— diz no seu tom animado de criança, ele parece um fantasminha todo
branco, coberto de farinha de trigo.

— Sério? — Léo enruga a testa e olha para mim, confirmo com a


cabeça. — Então, por que estou vendo todo o meu café da manhã espalhado
pela cozinha? — Tira as mãos do bolso da calça jeans e cruza os braços
musculosos sobre o peito da maneira mais máscula possível, meu Deus! Ele

está sem camisa e com os pés descalços tocando o chão frio.

Sua expressão está longe de ser azeda agora, os cantos da boca estão
franzidos quase em um sorriso. Não consigo olhar para a boca dele sem sentir
vontade de beijá-lo novamente, se dormindo já foi bom, imagina acordado?
Contudo, não acredito que alguém tão confiante quanto Léo beijaria alguém
tão insegura quanto eu por vontade própria.

— Boa pergunta, Léo. Mas não seja por isso, eu posso juntar seu café
da manhã para você. Toma! — Começo a recolher um pouco da massa

espalhada pelo chão e jogo na cara dele bem em cima do olho esquerdo,
pensei que acharia engraçado, mas o homem não ri.

Acho que fui impulsiva, Léo não é o tipo que brinca de guerra de
comida.

— Você não devia ter feito isso, patricinha. Agora vai ter o que merece.
— Tira a massa do rosto e esfrega no meu cabelo, Marcelo se acaba de tanto
rir de mim.

— Boa, papai!

— Você está rindo, é, garoto? Tem para você também. — Lambuza o


rostinho do menino de massa, e pela primeira vez ouço o som da risada de
Léo.

É alta e divertida, dá vontade de ouvir o dia todo. Ele está se divertindo,


isso é incrível. Parece à vontade de uma maneira que nunca tinha visto, como
se sentisse em casa.

A guerra de comida continua e até o teto fica sujo, mas valeu a pena
pelo tempo bacana que passamos juntos.

— Obrigada pela comida que comprou para nós, como vê, estou
tentando aprender a cozinhar. Mas acho que não levo muito jeito para isso. —
Fico cabisbaixa.

— Não ficou tão ruim assim, vai. — Passa o dedo na massa na minha
bochecha e lambe olhando no fundo dos meus olhos, sinto um formigamento
e dessa vez não é no estômago; sou obrigada a cruzar as pernas.

— Ficou ruim sim, papai. — Marcelo faz uma careta, sua sinceridade
arranca risadas do Léo.

— Na segunda tentativa sua mãe acerta, filho. Eu acredito nela. —


Puxa um sorriso de canto que me nocauteia, sinto um frio na barriga toda vez
que me olha assim de maneira íntima.

É a primeira vez que ele não me julga ou critica. Nunca imaginei que

iria sobreviver para ver o Léo me apoiando em qualquer coisa que fosse,
gosto mais dessa versão dele.

— Eu vou pegar os ingredientes, isso aí. Eu posso sim fazer isso! —


me animo.

— Enquanto a mamãe cozinha, nós vamos limpar essa bagunça, não é,


filho? — confirma mordendo o dedinho todo feliz, gosto quando o Léo o
chama de filho, sai tão natural da sua boca que até parece verdade.

No entanto, não me iludo. Sei que é tudo atuação, mas me traz uma
sensação boa toda vez que ele fala assim. Para quem não gosta de crianças,
está se saindo um pai e tanto. Juntos montamos uma boa equipe, eles limpam
e eu cozinho. Ou pelo menos tento cozinhar, contudo, estou mais confiante
dessa vez.

Pelo canto do olho vejo Marcelo entretido sentado no chão, desenhando


na farinha espalhada à sua volta com o dedo, perdido no seu próprio mundo.
Fazendo mais bagunça em vez de ajudar Léo a limpar.

— Você está mexendo a massa errado, é assim que faz. — Léo se


posiciona atrás de mim e cola o corpo no meu, o calor dos nossos corpos se
juntam.
Passa os braços fortes em volta do meu frágil corpo e coloca as mãos
em cima das minhas, conduzindo os movimentos, mexendo a massa de dentro

para fora e esticando-a. Começa devagar e depois acelera.

— Isso mesmo… assim — sussurra ao pé do meu ouvido, tão de perto


que sinto o calor da sua boca dançar sobre a minha pele.

Começo a suar frio, a temperatura da cozinha sobe gradativamente. Léo

esfrega o corpo no meu e sou obrigada a trincar os lábios para conter um


gemido, ele está me provocando de propósito.

— Você não vai me ajudar a limpar, papai? — Léo dá um pulo para


longe de mim com as mãos cobrindo a parte da frente do corpo, todo sem
graça.

— Claro que sim, filho, vamos terminar isso logo. — Pega Marcelo e o
vira de cabeça para baixo, está sendo mais carinhoso com ele depois que foi
ao hospital.

Enquanto os meninos terminam de limpar a cozinha, eu tiro duas


bandejas de biscoitos do forno e coloco sobre a mesa para esfriar um pouco.
Por alguns segundos, olho para Léo e o Marcelo juntos levando o lixo para
fora enquanto conversam algo sobre a escola nova do meu filho. Parecemos
uma família normal como qualquer outra de verdade, trabalhando em
conjunto no preparo do café da manhã.
Deve ser incrível viver essa troca de amor todos os dias.

— O que foi? — pergunta Léo depois que volta com Marcelo nos

ombros e me encontra no mesmo lugar, encostada no balcão os admirando.


Eles são tão lindos juntos.

— Nada! Os biscoitos estão prontos, estou ansiosa para que provem. —


Sorrio e balanço a cabeça.

— Pelo menos o cheiro está agradável, a cara parece boa também —


elogia Leãozinho, parece sincero.

— Muito obrigada! Querem experimentar? Eu estou nervosa.

— Posso ser o primeiro, mãe?

— Claro que pode, querido. — Pego um biscoito e levo à boca do


Marcelo, ele mastiga com gosto.

— Que delícia, mãe, vou levar para o Walter também. — Pega alguns

biscoitos na bandeja e vai à procura do nosso cão, não acho que seja uma boa
ideia acordá-lo agora, esse pinscher odeia acordar cedo.

— Minha vez agora, mamãe. — Espio Léo e engulo em seco, ele tem
aquele sorrisinho cafajeste que só aparece quando está no modo “ataque”.

Com a mão balançando feito um liquidificador, pego um biscoito nas


pontas dos dedos e aproximo da boca sedutora de Léo, ele morde e os
granulados de chocolate derretem e escorrem pelos seus lábios.
— Sua boca está suja de chocolate. — Limpo com o meu polegar, Léo
segura minha mão e lambe o meu dedo de maneira provocante, sem tirar os

olhos dos meus.

— Delicioso! — geme.

— Que bom que gostou do biscoito, eu fiz com muito carinho. — Viro
o rosto sem saber mais o que dizer para acabar com esse clima de cunho

sexual, mas Léo segura no meu queixo e me obriga a continuar encarando-o.

— Não estava falando do biscoito, Daniele — revela me chamando


pelo nome.

Estremeço.

Nenhum homem despertou isso em mim antes, algo profano. Léo me


faz ter pensamentos impuros que nunca pensei que teria um dia, aqueles que
o padre da igreja que eu frequentava com os meus pais dizia ser coisa do
diabo.

— Eu quero dizer uma coisa antes que eu me esqueça. Muito obrigada


pelo ótimo trabalho que tem feito no papel de pai do Marcelo. Ele nunca
esteve tão feliz — tento mudar o rumo da conversa, mas está difícil com ele
alisando a lateral do meu rosto.

— Marcelo é um bom garoto, não precisa agradecer. — Contorna meus


lábios com os dedos, bem devagar.
— Precisa sim, obrigada pelas compras que fez para nós. Quero saber o
valor para devolver junto com o seu pagamento. — Dou um passo para trás,

sinto que estou perto demais da zona de perigo.

— A única coisa que quero de volta de você, patricinha, é algo que


roubou de mim ontem à noite quando pensou que eu estava dormindo. —
Tenta me tocar, mas me esquivo.

Fui pega no flagra.

— Eu não sei do que você está falando, Léo. Deve ter sonhado e está
confundindo as coisas. — Forço um sorriso.

Odeio mentir, mas não tenho outra saída.

— Não tem como fugir agora, senhorita Flores. Quando alguém pega
uma coisa de mim sem o meu consentimento, eu sempre pego de volta de um
jeito ou de outro. — Me cata pela cintura e leva para si unindo nossos corpos
como se fossem um só; com carinho, encosta a testa na minha e coloca o meu

cabelo atrás da orelha.

— O que você está fazendo, Léo? — digo em um suspiro, vendo a sua


boca se aproximar da minha quase que em câmera lenta.

— Já disse, cobrando uma dívida. — Segura meu rosto entre suas mãos
e esfrega o nariz no meu, nós dois sorrimos.

Nossa respiração acelera, o tempo parece ter parado, não se ouve nem
um ruído. Não sei o que está acontecendo aqui, só sei que quero muito.

E ele também.

Agora com mais calma e tão de perto, sem aquela sensação estranha de
estar fazendo algo escondido, posso avaliar mais detalhadamente a beleza
rústica de Léo. Percebo que tem uma marca bem pequena de nascença no
pescoço, parecida com um trevo de quatro folhas, acaricio com o polegar

sobre ela e subo com o dedo em uma linha reta, passando pelo queixo
quadrado, e deslizo entre os fios grossos de sua barba farta. Ele fecha os
olhos e se aproxima mais de mim para sentir melhor o meu toque. Nossas
testas se esbarram.

Léo esfrega o nariz no meu em um gesto de carinho e eu acabo


sorrindo, os fios da sua barba em atrito com a minha pele faz cócegas. Como
o seu cheiro é bom. Sedutor. Ele cheira a colônia amarga de homem de rua.
Aqueles que sabem que quando passam pela rua são desejados pelas

mulheres e invejados pelos homens.

— Eu gosto tanto do seu cheiro, se eu pudesse sentia o dia todo. —


Aproximo da curva do seu pescoço, esfrego o nariz pela sua pele e inalo
profundamente, parece uma droga, quanto mais sinto mais eu quero.

— Não brinca com fogo, garota. — Léo geme com a voz rouca, segura
na minha cintura e gira nossos corpos, trocando de lugar comigo e me
erguendo do chão para me colocar sentada sobre a mesa.

Com os seus olhos escuros fixos aos meus, passa os dedos através do

meu cabelo, segura na nuca e vem se aproximando da minha boca. Nesse


meio tempo tudo fica em câmera lenta. Todos os meus sentidos parecem
aguçados, posso ouvir o canto dos pássaros lá fora anunciando o clarear do
dia. A goteira da torneira bate no fundo da pia em conjunto com o tic toc dos

ponteiros do relógio na parede da sala e as buzinas dos carros começando a


rodar na rua em frente ao prédio formam um só ritmo.

E os lábios dele…

Enfim tocaram os meus...

O beijo que eu tanto desejei em segredo acontece…

Enquanto Léo pressiona a boca contra a minha, com tanta vontade e ao


mesmo tempo suavidade e uma sensualidade que todo o meu corpo amolece
em seus braços. Envolvo meus braços ao redor de seu pescoço para não cair,

ele segura firme em volta da minha cintura, puxando-me para mais perto
enquanto aprofunda o beijo.

Sinto um calor imenso e ao mesmo tempo aquele frio na barriga. Minha


alma está leve feito uma pluma, quero gritar e colocar para fora toda essa
explosão de sentimentos dentro do meu peito. Mas permaneço paralisada,
tenho medo de dar algum passo em falso e estragar esse momento mágico.
— Léo…— Solto um gemido quando ele separa nossos lábios por
alguns segundos, mas isso parece o instigar ainda mais e logo suas mãos me

puxam para ele novamente, dessa vez com mais voracidade.

Sua boca se move contra a minha, abrindo os lábios suavemente com


sua língua buscando a entrada. Eu deixo que entre, no começo fico perdida
com esse beijo mais intenso que o primeiro. Não sei como agir, então ele

toma a liderança da situação e entrelaça nossas línguas em uma dança erótica.


Aperta a minha bunda e eu fico toda molhada, querendo mais.

No entanto, Léo para de repente e se afasta. Permaneço com os olhos


fechados por alguns segundos à espera de outro beijo. Como isso não
acontece abro os olhos e vejo à minha frente um homem com a expressão
mais presunçosa possível e os braços cruzados.

— Que decepção, patricinha, seduzir você é ainda mais fácil do que eu


pensei — debocha rindo, posso ouvir o som do meu coração se quebrando em

milhares de pedaços dentro do meu peito.

Mais uma vez tudo não passou de uma encenação para me fazer de
piada, e eu caí direitinho. Nosso beijo não passou de uma mentira. Abraço o
meu próprio corpo me sentindo exposta.

— Dessa vez você foi longe demais, Léo. Vai embora daqui agora, eu
odeio você! — Pulo da mesa e aponto para a porta, nunca vou perdoá-lo por
isso.

A culpa toda é minha, eu devia ter desconfiado de alguma coisa, Léo é

mestre em mentir para as mulheres na intenção de vender o seu corpo para


elas.

— Por que vocês estão brigando? — Marcelo aparece na cozinha com


o Walter no colo, se assustou com o meu grito e veio ver o que está

acontecendo.

— Vai para o seu quarto agora, Marcelo — ordeno, não quero que me
veja nesse estado deprimente.

Humilhada e destruída.

— Posso me despedir do meu pai antes, mamãe? — pede engolindo o


choro, os olhos inundados.

— Não! Eu mandei você ir para o seu quarto, respeita a sua mãe! —

perco a paciência e grito com Marcelo também, que arregala os olhos e dá um


passo para trás. Eu nunca elevei a voz para ele antes.

— Não grita com o garoto, Daniele. Seu problema é comigo. — Segura


o meu braço a ponto de os seus dedos afundarem na minha carne.

— Não é da sua conta como eu falo como o MEU filho, então tire as
suas mãos de cima de mim. Cláusula 9 diz: sem toque, lembra? — Puxo o
meu braço de maneira nada gentil, pego Marcelo no colo e caminho na
direção do quarto dele.

— Não, mãe, eu quero dar um abraço de despedida no meu pai. — Se

debate nos meus braços, paro de andar e tento controlar a minha respiração
acelerada quando sinto as suas lágrimas gotejarem no meu ombro.

Estou com tanta raiva, magoada e envergonhada. Não entendo por que
Léo me odeia tanto e é sempre tão cruel comigo. Agora entendo o medo da

Paula de o amigo dela me fazer sofrer, ele gosta de brincar com os


sentimentos das pessoas. Por mim, eu e o Marcelo nunca mais colocaríamos
os olhos nesse homem novamente.

Mas, pelo meu filho, sou capaz de suportar qualquer coisa. Eu o deixo
ir.

— Como você quiser, filho. — Coloco-o no chão e deixo que vá se


despedir do “pai”. Prometi que nunca diria não para o Marcelo, mesmo que o
motivo parta o meu coração em mil pedaços.

Meu filho prefere ficar com o homem que acabou de me destruir do que
comigo, me sinto pior ainda. Antes de ir para o meu quarto, olho para trás e
vejo Marcelo pendurado no pescoço de Léo. O desgraçado olha para mim
com os olhos estreitos por cima do ombro dele, com o sorriso do diabo e
mexe os lábios:

“Até o seu filho gosta mais de mim do que de você.”


— Que homem cruel, meu Deus! — Corro para o meu quarto e me
tranco nele até que esse monstro vá embora, me jogo na cama e choro toda a

dor guardada.

Tenho sido forte há muito tempo. Me esforçado para ser boa o


suficiente, mas nada parece o bastante. As pessoas só mentem para mim, me
julgam mal. Sinto falta de quando eu e o Marcelo éramos uma família de

dois, apenas eu e ele contra o mundo.

— Mamãe, você está de mal comigo? — Ouço suas batidas inseguras


na porta, não tenho forças nem para respondê-lo.

Com certeza o pai perfeito foi embora e então voltou para mim, o
estepe para quando ele não está. O pior é que nem posso reclamar por isso, eu
me coloquei nessa situação quando trouxe aquele homem para as nossas
vidas. Agora preciso ser forte.

— Não precisa ficar com ciúmes do meu pai, eu também amo você,

mãe. Mas se quiser eu não vou gostar mais dele, só de você. — Começa a
chorar e eu também, como eu te odeio, Léo!

Mas não quero obrigar meu filho a ter de escolher entre mim e ao pai,
isso seria cruel demais.

— Mamãeee, você está mimindo ou não gosta mais de mim? —


sussurra tristinho.
Limpo as lágrimas e me levanto, forço um sorriso e abro a porta.
Marcelo me abraça fortemente.

— Eu nunca vou deixar de gostar de você nem por um segundo da


minha vida, Marcelo. Sabe por quê? — Acaricio os seus cabelos, uma mãe é
capaz de esquecer qualquer dor quando tem o filho nos braços.

— Por que, mamãe?

— Porque não importa o que aconteça, você será sempre a melhor coisa
que aconteceu na minha vida. Um presente de Deus — digo mais para mim
do que para ele, está na hora de acreditar mais nos planos de uma força maior
ao invés de questioná-la.

Deito com ele na minha cama e acabamos cochilando abraçados, vai


ficar tudo bem. Marcelo só acorda na hora de se arrumar para ir para o
colégio.

— O que acha de escolhermos uma roupa bem bonita para o seu

primeiro dia de aula?

— Sim, ebaaaaa! Eu estou tão animado. — Não consegue parar de


sorrir.

— Que bom, filho! — Beijo o seu rosto, são esses momentos que
fazem todo sacrifico que tenho feito valer a pena.

Depois de prontos, pegamos o ônibus até o colégio do Marcelo. A


Paula disse que a Maria vai chegar um pouco atrasada na aula porque hoje a
pequena tem dentista.

Meu filhote ficou lindo com o uniforme, um terninho azul-escuro e


gravata vinho muito fofo. Está igual a um homenzinho, dá vontade até de
colocar em um potinho e guardar.

— Está feliz, meu amor? — Abaixo na porta da sala dele e fico na sua

altura, passo a língua no dedo e ajeito um fio do cabelo arrepiado do meu


menino lindo.

A mãe que nunca fez isso com o filho que atire a primeira pedra.

— Eu estou muito, mãe, obrigado. — Me abraça, aproveito para ajeitar


a mochila em formato de carro de corrida em suas costas que saímos para
comprar depois do almoço que tive com as minhas amigas.

— Olá, Marcelo, seja bem-vindo à minha turma. — A professora chega


e, minha nossa, ela é de fato tão linda como o Marcelo havia falado.

Estilosa e ao mesmo tempo elegante.

A professora inclina e beija o rosto do Marcelo, ele fica todo tímido.


Acho que gosta dela.

— Olá, tudo bom? Sou a Daniele, mãe do Marcelo. — Estico minha


mão e a cumprimento, ela sorri para mim como se me conhecesse há anos.

— Sou Solange, mas pode me chamar de Sol. O prazer é todo meu. —


Gosto do seu aperto de mão, é forte e passa segurança, seu braço direito é
fechado de tatuagens indianas, assim como toda parte do colo e ombros.

E esse cabelo preto cheio de tranças longas? Perfeito! O vestido longo


modelo riponga com estampa da cultura africana e as sandálias rasteiras são
de muito bom gosto, essa mulher é uma obra de arte multicultural ambulante.
Agora entendo toda a fascinação do meu filho por ela.

— Eu gostaria muito de conversar com você sobre o Marcelo, tem


cinco minutinhos?

— Claro, por que não entra e escolhe uma mesa para você se sentar,
querido?

— Sim, senhora, professora. Tchau, mãe.

— Tchau, meu amor, a tia Paula vem buscar você e a Maria no final da
aula. Te pego na casa dela depois do trabalho.

— Tá bom. — Me chama com o dedinho, me aproximo e esfrego o


meu nariz no dele.

Espero Marcelo entrar na sala para iniciar a conversa com a professora,


preciso ser rápida, não quero atrasar a sua aula.

— Eu não sei se a diretora já conversou com você sobre a doença


terminal do Marcelo, eu só realizei o desejo dele de voltar para a escola
porque quero que tenha uma vida normal o máximo de tempo possível —
explico.

— O caso do Marcelo já veio ao meu conhecimento, quero que saiba

que te admiro muito por isso. Eu, melhor do que ninguém, entendo você e
farei o máximo possível para que o seu filho se divirta durante a minha aula,
prometo ficar de olho nele. Peguei seu número na ficha dele e te manterei
informada de tudo durante o dia. — Toca o meu braço. Não sei por que, mas

suas palavras conseguem me tranquilizar.

— Muito obrigada mesmo, Solange, e só para te avisar, acho que meu


filho está apaixonado por você. Fazer o quê? Ele tem bom gosto para
mulheres. — Ela acha graça do que eu digo, além de linda tem uma boa
energia.

— Que fofo! Seu filho é um amor.

— Eu sei — digo sem modéstia.

— Ah, só mais uma coisa, Daniele, na próxima segunda-feira à noite

será a festinha de comemoração ao Dia dos pais aqui na escola. Poderia


passar o convite para o pai do Marcelo, por favor? As mães também podem
vir. Terá uma apresentação das crianças.

— Passo sim, obrigada. Nós viremos com certeza — confirmo com um


sorriso amarelo.

Maldição!
Tinha me esquecido que o Dia dos pais está chegando. Vou ser
obrigada a falar com aquele escroto de um jeito ou de outro, se o Léo não

aparecer nessa festa, além de ter partido o meu coração, vai partir o do meu
filho também.
Léo

Escondido atrás de uma parede do colégio, espero que a mãe do garoto


converse com a professora dele e vá embora. Depois da maneira que a tratei
hoje, não tenho coragem de olhar nos seus olhos. É complicado explicar. Para
pessoas que já foram feridas demais pela vida, como eu, quando nos sentimos
em perigo o único modo de defesa que temos é o ataque.

Contudo, o garoto não tem nada a ver com as merdas que eu faço.
Devido a isso, resolvi aparecer e desejar sorte no seu primeiro dia de aula, sei
como é difícil ser o novato na escola. Algumas crianças sabem ser cruéis
quando querem, fico feliz que ele tenha a Maria aqui para lhe fazer

companhia.

— Papai! — A expressão do garoto ao me ver é impagável, levanta da


cadeira e corre até mim.

Faço sinal para a professora de longe, ela já iniciou a aula, então


preciso ser rápido.

— Oi, filho, eu vim te desejar boa aula. — Me abaixo para ficar da sua
altura, ele me abraça tão forte que não consigo conter um sorriso.

E eu não sou o tipo que sorri fácil, não de maneira sincera e

involuntária. Sem interesse.

— Eu sabia que viria, você é o melhor pai do mundo! — Me abraça de


novo ainda mais forte e os meus olhos ficam molhados, essa criança tem
despertado o melhor de mim.

— O que foi, você está chorando? — Acaricia o meu rosto com


carinho, preocupado.

— Não, filho, foi só um cisco que caiu no meu olho. Como eu te disse,
homens não choram. — Pigarreio e esfrego os olhos, eu não sei que porra
está acontecendo comigo.

— Sabe, papai, eu queria que meninas também não chorassem, assim


minha mamãe não ficaria mais triste. — Abaixa a cabeça, tristonho.

— Sua mãe chorou depois que o papai foi embora hoje?

— Sim, papai, muito. Eu pensei que ela não fosse mais gostar de mim
porque voltei para me despedir de você em vez de ir para o meu quarto como
minha mãe mandou. — Sinto como se tivesse levado um soco no estômago,
eu sabia que tinha magoado muito a patricinha quando disse que era uma
“mulher fácil”.

Mas ouvir de uma criança que viu a mãe chorar e pensou que ela não
gostava mais dele por minha causa acaba comigo, eu sou mesmo o monstro
que todos pintam.

— Sua mãe nunca vai deixar de gostar de você, filho. Precisa só ser
paciente com ela, mesmo sendo uma maluca desastrada. Ela está fazendo o
melhor que pode e seria capaz de fazer qualquer coisa para te ver feliz.

— Está bem, eu prometo ser paciente com a mamãe.

— Ótimo, campeão, agora o papai precisa ir trabalhar. Amanhã eu


volto no horário do intervalo para ver você e a Maria, está bem? Mas não
pode contar nada para a mamãe.

— Combinado, pai, qualquer dia me leva no seu trabalho? — Engasgo


com a própria saliva.

— Não sei se isso vai ser possível, Marcelo. No meu trabalho não pode
levar crianças — sou sincero.

— Que pena! Eu queria tanto te ver em uma competição naquelas


piscinas gigantes, sempre quis aprender a nadar. — Gesticula e fala ao
mesmo tempo.

— Como assim, me ver em uma competição na piscina?

— Minha mãe me disse que você trabalha como atleta olímpio, um


nadador profissional. — Contraio a mandíbula, de onde aquela maluca tirou
isso? Deve ter inventado no improviso.
— É olímpico que fala, filho. Me diz uma coisa, você já viu o mar de
perto? — Nega com a cabeça, foi o que eu pensei.

— Me leva na praia algum dia, papai?

— Claro que sim, mas primeiro temos que pedir à sua mãe. Agora volta
para a sua aula, depois conversamos sobre isso. — Me dá um último abraço e
volta para a sua cadeira, agradeço à professora de longe.

Saio do colégio me sentindo bem. Não vejo mais essa situação como
um trabalho, sendo sincero, acho que me acostumaria fácil com isso de ser
pai.
Léo

Os dias vão passando e nada da patricinha entrar em contato comigo


para agendar a próxima visita. Para conseguir ver o garoto tenho continuado
com as visitas diárias escondido. Paula tem me apertado de todos os lados
para saber o que aconteceu entre nós para a amiga não querer falar comigo;
eu não disse nada, é bem possível que me dê um tiro na cara e com razão.

Mas vida que segue, tenho outros trabalhos para me preocupar. Faço
parte de uma lista de cinquenta garotos de programas que foram contratados
para alegrar a festa de aniversário da filha de um empresário rico e suas
amigas em uma cobertura no Leblon de frente para o mar, para comemorar o

seu aniversário de trinta anos.

— Uau, que lugar incrível! Tem muita mulher gostosa pra todo lado e
ainda vamos ser pagos para comê-las, esse é o melhor dia da minha vida —
comemora um rapaz que não deve ter vinte anos, bem afeiçoado, loiro dos
olhos azuis e inocente.

Alvo fácil para os cafetões sanguessugas, eu tenho muitos amigos que


sofreram nas mãos desses “agentes”. Eu sempre trabalhei sozinho, conquistei
minha própria clientela.

— Deixa eu adivinhar, sua primeira festa como garoto de programa


contratado? — pergunto, esse tipo de festa luxuosa é mais normal do que as
pessoas imaginam.

Sempre somos contratados para vir só de calça social preta e gravata

borboleta. Depois de muitas bebidas e dança erótica, entre outras coisas…

As convidadas escolhem qual de nós a agrada mais e leva para a sua


casa e tem uma noite de pura putaria, sem tabu ou frescuras. Sexo sujo
mesmo.

— É sim, comecei há pouco tempo no meio da prostituição. Faço


medicina e fica puxado para os meus velhos pagarem, eu tenho irmãos
pequenos. Então estou dando os meus pulos. — Dá de ombros trocando
olhares com uma morena se insinuando para ele na pista entre os goles da sua

bebida, as mulheres em eventos assim não perdem tempo.

— Sendo sincero, não gosto desse tipo de trabalho. Mas pagam bem,
então sempre venho quando me chamam. — Olho para um lado e para o
outro e a única coisa que vejo são grupos diferentes formados pela burguesia
feminina cariosa, antipática e esnobe.

Filhinhas de papai vestidas com roupas de marcas enfeitadas com joias


caras, a maioria aqui nunca trabalhou na vida. Eu não gosto desse tipo de
gente, fui alvo deles na escola por anos.

— Você não parece mesmo ser o tipo que curte lugares como esse,
deixa eu adivinhar. Faz parte de um grupo de motoqueiros? — Assinto, o
moleque é bom em palpites. — Mas olhe novamente ao seu redor com outros
olhos, parceiro. Acabamos de chegar em um paraíso, então vai ser feliz. —

Passa um braço sobre o meu ombro e vira para o salão de dança, a visão de
fato é bastante atrativa.

Um monte de mulheres gostosas quase nuas se esfregando umas nas


outras e se embebedando, olhando para nós quase implorando para irmos lá
fazer companhia a elas.

— Acho que você está certo, novato. — Troco olhares com uma
mulher que chamou a minha atenção entre todas as outras, tem um estilo
diferente que me atrai.

Uma ruiva de tirar o fôlego, ela dança de um jeito sensual e vez ou


outra olha para mim e coloca o cabelo atrás da orelha.

Tem um estilo diferente, alguns dreads no cabelo e tatuagens bem


legais no pescoço e ombros, deixados à mostra no decote em V do vestido
marrom do tipo “me coma”. Essa garota é o meu número certo dos pés à
cabeça. Tem atitude.
— Acho que você já encontrou o seu alvo da noite, garanhão, e eu
também. — Apertamos as mãos e cada um foi atrás da sua presa.

— Oi, gato, quer que eu te leve para casa comigo essa noite? — Aperta
o meu pau indo direto ao ponto.

Mesmo de salto alto dá para perceber que é uma mulher alta, gosto de
como seus cabelos longos caem sobre as costas em cachos largos. Seu corpo

é malhado, dá para ver pelo jeito que o vestido preto cai perfeitamente
sensual pelas suas curvas.

— Tive medo de que não perguntasse, gata. — Puxo-a pela cintura com
um sorriso de canto, reconheço um bom negócio de longe.

Essa tem cara que sabe pagar um boquete gostoso, sem nenhum tabu na
cama.

— Esse lugar está muito sem graça, acho que deveríamos ir embora e
fazermos a nossa própria festa. — Depois de muitas bebidas e esfrega no

meio da pista de dança, enfim resolve ir embora.

— Por mim já tínhamos ido há muito tempo, gata. — Aperto a sua


bunda dos dois lados e sacudo, quero enterrar o meu pau nela hoje.

— Não faz isso que eu gozo aqui mesmo. — Passa a língua nos lábios
cobertos de batom vermelho e ergue o vestido para mostrar que não usa
calcinha, que vadia safada.
— Então vamos nessa, garanhão. — Me puxa pela gravata borboleta
para fora da festa, a agarração já começa no corredor.

Entramos no elevador e a agarração continua, que mulher gostosa! Ah,


como eu amo o meu trabalho.

— Eu quero te comer aqui mesmo, ruiva — gemo no seu ouvido.

— Então come, meu amor — geme manhosa.

Saltamos do elevador quando para no estacionamento do prédio, ela me


joga em uma caminhonete prateada de frente para ela. Antes que eu possa
dizer algo, a ruiva abre o meu cinto, puxa a calça para baixo e quase engole o
meu pau, puta que pariu! Prendo o seu cabelo em um rabo de cavalo e dito a
velocidade.

Fecho os olhos por alguns segundos sentindo um tesão da porra, mas


quando resolvo olhar para baixo de relance a garota ruiva não está mais lá, no
lugar tem uma loira de olhos verdes passando a língua em volta do meu pau

lentamente, sem tirar os olhos dos meus, a exibir um leve sorriso de menina
malvada. Quase gozo só com essa cena.

— Daniele? — chamo baixinho, sem acreditar no que estou vendo.

Pisco várias vezes, incrédulo, então vejo a ruiva tarada de novo


mandando ver lá embaixo. Porra! Acho que bebi demais.

— Você só pode estar de brincadeira, cara! — A mulher fica furiosa


com o meu pau mole em suas mãos, pela primeira vez na vida eu broxo.

Com seu orgulho ferido, a minha cliente volta a me chupar feito uma

maluca e nada do meu pau dar sinal de vida novamente. Mas não adianta,
nada do que ela fizer o fará subir. Nesse momento só uma mulher no mundo
poderia fazer isso, contudo, ela nunca mais deixará que eu volte a tocá-la.

Porra! Eu broxei.

Agora eu estou muito assustado mesmo, não sei o que está acontecendo
comigo. Perdi o controle do meu próprio pau, isso só significa uma coisa:

Estou falido!
Dani

O final de semana chega e passa num piscar de olhos, passamos apenas


eu e o meu filho fazendo diferentes tipos de programa em família. Fomos ao
cinema e em uma exposição muito legal dos personagens da Marvel que está
de passagem pela cidade. Eu me diverti muito, mas não sou mais a mesma
depois do que houve na semana passada com o Léo. Alguma coisa quebrou
dentro de mim.

Meu mundo cor-de-rosa agora se tornou cinza, sem graça e cruel.


Contudo, apesar de ferida me sinto mais forte e madura. Nada ensina mais
que a dor.

Enfim, vida que segue.

— Por que não me conta o que aconteceu, vizinha? — pergunta Paula


pela milésima vez esparramada no meu sofá com as pernas para o ar,
preguiçosamente.

Veio trazer a Maria para eu levar para o colégio junto com o Marcelo,
estão brincando no quarto dele até dar a hora do nosso ônibus. Como o
colégio fica no trajeto para o meu trabalho, eu levo as crianças e ela busca.
Assim, uma ajuda a outra.

— Não aconteceu nada, Paula. Já disse — minto na cara dura, não tive
coragem de contar para ela o que o seu amiguinho fez comigo, quero
esquecer daquele maldito dia.

Por isso finjo falsa calma e continuo a dobrar o cesto de roupas ainda

quente que acabei de tirar da máquina de secar, esse final de semana não foi
só diversão, fiz uma faxina geral no apartamento e tudo está um brinco.
Aprendi mais algumas receitas novas do livro, em especial uma lasanha
magnífica de queijo e presunto que o meu filho amou.

— Nunca te vi tão séria antes, não está nem usando nada rosa hoje.
Seja lá o que tenha acontecido, foi muito grave. — Analisa minha camiseta
branca discreta e a calça preta.

Dou de ombros. Como um grande estilista suíço sempre diz:

“O look que escolhemos a cada dia segue conforme o nosso estado de


espírito.”

No meu caso hoje, nem aí para coisa nenhuma.

— Eu só estou nervosa para o meu primeiro dia de trabalho, Paula,


minha chefe tem um temperamento forte — bufo.

Separo meu uniforme de trabalho e coloco dentro da minha bolsa,


espero que dê tudo certo na minha estreia no restaurante.

— Então me explica por que você me pediu para avisar o Léo sobre a

festa do dia dos pais hoje à noite no colégio? Outra coisa, percebi que ele não
tem vindo ver o Marcelo nos últimos dias — continua sua investigação, se
continuar assim em breve pode enviar seu currículo para o FBI.

— Nossa, já está na hora do meu ônibus, vou chamar as crianças —

desconverso e pego o meu tênis branco perto da estante e calço, nada de salto
alto hoje, quero me sentir confortável. — Falando na festa do colégio, vamos
juntas, não é? — Ando na direção pelo quarto do meu filho, a criatura vem
atrás de mim esfregando os olhos com sono.

Apesar de muito lucrativo para minha vizinha, trabalhar à noite tem o


seu preço.

— É claro que eu vou, amiga, sempre compareço na festinhas dos dias


das mães e pais. Afinal, faço os dois papéis na vida da minha filha.

— Nada mais que justo, amiga. Maria tem sorte de ter você na vida
dela.

— Digo o mesmo em relação ao Marcelinho, para quem começou


agora você está se saindo uma ótima mãe. — Trocamos sorrisos sinceros.

— Hora de ir para a escola, crianças. — Apareço na porta do quarto do


meu filho e ele e a Maria param de conversar de repente, como se não
quisessem que eu ouvisse o assunto.

— Está bem, mamãe, vem, Maria. — Sai puxando a coleguinha.

— Tchau, mãe, te vejo depois da escola. — Paula inclina para beijar o


rosto da filha.

— Tchau, meu amor, boa aula.

— Obrigada, mãe! — A menina morde os lábios ansiosa e olha para a


mãe.

Ameaça dizer algo, mas Marcelo nega com a cabeça e arrasta a coitada
para fora do quarto.

— Esses dois estão estranhos hoje, não acha?

— Olha só quem está falando, Dani. — Puxa meu cabelo a vaca e ri,
está de bom humor hoje.

Paula nos acompanha até o ponto e fica conosco até o ônibus chegar, as

crianças sobem na cadeira e dão chão para ela pela janela até sua imagem
ficar bem distante. Dá gosto de ver esses dois pequenos juntos, Maria é uma
florzinha e o meu filho um cavalheiro com ela, sempre atencioso.

Chego na escola e os deixo na porta da sala como sempre faço, me


despeço do Marcelo primeiro e ele entra na frente e vai cumprimentar os
outros coleguinhas. Aproveito que a Maria está sozinha para interrogá-la.
— Está acontecendo alguma coisa aqui na escola que você gostaria de
contar, Maria? — Ela volta a morder o lábio, olha para o Marcelo e abaixa a

cabeça.

— Não posso, é segredo — sibila em um tom de culpa.

Me abaixo para ficar da sua altura, se alguém estiver fazendo bullying


com os dois eu vou fazer um escândalo nessa escola.

— Qual segredo, meu amor?

— Desculpa, tia Dani, mas não posso mesmo contar. Prometi para o
meu padrinho guardar segredo que ele tem vindo ver o Marcelo todos os dias
no horário do intervalo. — Tapa a boca com as mãozinhas e arregala os
olhos, depois sai correndo para dentro da sala. O segredo escapou antes que
ela pudesse segurar.

Saio da escola sem rumo, surpresa e muito confusa. Por que o Léo tem
vindo ver o Marcelo escondido? Isso não faz sentido nenhum. Nunca conheci

alguém tão confuso antes. Contudo, não quero me preocupar com as atitudes
malucas desse cara agora, tenho uma chefe carne de pescoço para enfrentar e
não quero me distrair com mais nada.

Chego no restaurante e já vou direto colocar o uniforme; assim que


termino, Michelle envia uma mensagem avisando que terá uma reunião de
última hora com todos os funcionários no salão antes de abrir e só falta eu.
Deixo minhas coisas pessoais no armário do vestiário e me apresso para me
juntar a eles.

— Atrasada no primeiro dia, novata? — a gerente anuncia a minha


chegada assim que me vê passar pela porta, todos os pares de olhos presentes
se viram para mim.

Alinho os ombros e mantenho a pose, não quero me sentir intimidada

por nada ou ninguém nunca mais.

— Boa tarde, senhora! No e-mail que você me enviou ontem dizia para
eu estar aqui às dez da manhã, e ainda faltam dez minutos para esse horário.
Então não posso estar atrasada para uma reunião com os funcionários que
nem sabia que teria. — O queixo da Michelle cai com a minha resposta,
depois abre um sorriso orgulhosa por ter me imposto.

— Essa baixinha aí é a nova garçonete? Fala sério! — comenta um


rapaz magrelo com cara de bebê e todos riem, deve ser jovem-aprendiz,

porque não deve ter mais de dezesseis anos.

O típico garoto abusado que perde o amigo, mas não perde a piada.

— Fala sério mesmo — insinua a garçonete de aparência gótica mais


ao fundo do salão, isolada do grupo. Olho na sua direção e a atrevida enfia o
dedo na boca como se fosse vomitar.

Ela é meio sombria, a pele muito branca e o cabelo muito preto raspado
de um lado. Deve ter pelo menos uma meia dúzia de piercings espalhados
pelo rosto e orelhas.

— Será que podem parar de zoar a novata e vamos direto ao ponto? Ou


vamos acabar abrindo o restaurante tarde hoje. — A seriedade na voz do
senhor negro de cabelo branco faz com que todos engulam o riso, já gostei
dele.

Acho que é alguém que todos respeitam aqui, provavelmente o


cozinheiro-chefe.

— Isso mesmo, senhor Carlos, coloca ordem no galinheiro. Dani é


minha amiga, quem arrumar problema com ela, vai arrumar comigo também.
— Michelle me puxa para perto dela, seguro sua mão bem forte.

— Agora chega! Fechem a boca todos — ordena a gerente em um grito


estridente, não se ouve nem a respiração de ninguém. — Está vendo, garota?
Mal chegou e já está causando tumulto na equipe. — Conto até três para não

gritar com ela e dizer que eu não causei tumulto nenhum, estou de saco cheio
da maneira grosseira como ela e todo mundo me trata.

Mas me calo, preciso da merda desse trabalho. Pelo menos por


enquanto, porque vou me esforçar para encontrar algo melhor em breve.

A gerente explica algumas novas regras do restaurante, pelo que


entendi a partir dessa semana um grupo grande de pessoas de uma fábrica
recém-inaugurada na rua de baixo virá almoçar aqui todos os dias úteis, ou
seja, vai lotar durante toda a semana.

Nossa, que sorte a minha!

Minha primeira semana de trabalho já começando com tudo, preciso


pegar o ritmo de funcionamento do estabelecimento rápido ou estou ferrada.

A gerente dá mais alguns avisos, presto atenção em cada palavra que


sai da sua boca para seguir à risca. Depois finaliza sem muitos rodeios.

— Bom, a reunião termina por aqui. Podem ir trabalhar, hoje Pablo


vem servir no salão e a novata assume a pia de pratos sujos. — Essas sãos
suas ordens finas, em outras palavras:

Que a implicância comece!

— Obrigada, senhor, estou livre pelo menos por hoje! — comemora o


tal de Pablo, o garoto magrelo.

— Mas isso não é justo, Terezinha. Hoje é o primeiro dia da garota e já


vai colocá-la em um serviço pesado desse? Pensei que iria treiná-la para
servir as mesas. — Michelle sai em minha defesa.

— Ela vai lavar louça suja o dia todo sim. E só vai embora depois que
todos os pratos e panelas estiverem brilhando.

— Isso não é justo, Terezinha, e você sabe disso, a vaga que anunciou
foi de garçonete e não lava-louça. Se virou bagunça agora, me coloca na pia e
deixa a garota no salão — minha amiga briga com a chefe em minha defesa,
dá vontade de abraçá-la e não soltar pelo resto do dia.

— Acha que vou te deixar enfiada na cozinha, Michelle? É a melhor


garçonete que tenho, me poupe. Sou eu que decido quando devo ou não
começar a treinar a novata a servir mesas — Michelle ameaça continuar a
discussão, então puxo sua mão e faço sinal que não.

— Tudo bem, amiga, eu aprecio o que está fazendo por mim. Mas tudo
bem, o que não me mata me fortalece. — Dou um meio sorriso e beijo o seu
rosto, ela faz bico relutante, mas concorda.

Também não quero que tenha problemas por minha causa. Se a gerente
quer me testar me levando ao meu limite, eu darei conta na metade do tempo.
Foi o que eu pensei até algumas horas depois, não importa quão rápida eu
seja, essa pia gigante de pratos sujos não abaixa.

Nem faço hora de almoço para ver se adianta, estou com medo de não

chegar a tempo de ir à festa no colégio do meu filho. Se eu tiver forças para


ir, nem sinto os meus braços mais. Meu rosto parece uma mina d’água, não
para de suar, limpo com as costas da mão onde dá e logo volta a gotejar
novamente.

— Se deu mal, Barbie — a garçonete gótica não perde a oportunidade


de implicar comigo, toda vez traz algo para colocar na pia, não sei por que ela
precisa ser tão implicante.

A vida não é difícil, as pessoas é que são.

— Por que não cuida da sua vida, Vandinha Adams? — Seu sorrisinho
escorrega, pega seu humor sarcástico e some de perto de mim.

Já que inventou um apelido para mim, dei um para ela também.

— Isso aí, Vandinha Adams, deixa minha amiga em paz — Michelle


adere ao novo apelido, adora um malfeito. — Nossa, estou amando essa
língua afiada, essa rebeldia toda só pode ter macho no meio, pode ir me
contando tudo. — Apoia o queixo no meu ombro e abraça minha cintura.

— Não tem macho nenhum, Michelle. — Pigarreio para disfarçar a


minha mentira.

— Vou fingir que acredito, bebê. Mas você precisa comer alguma
coisa, está há horas em pé nessa pia, não parou nem para ir ao banheiro.

— Eu ando sem fome mesmo, amiga. — Limpo o suor da minha testa,


essa cozinha funcionando é um verdadeiro forno.

— Quando se sentir à vontade para me contar o motivo desses olhinhos


tristes e a falta de apetite, eu estarei aqui. — Ela pisca.

— Nada de conversinhas paralelas durante o trabalho, Michelle. — De


cara fechada, a gerente chama nossa atenção e se vai.
— Bem-vinda ao inferno, amiga — Michelle resmunga e volta ao
trabalho. Se aqui é o inferno eu não sei, mas é quente como se fosse,

misericórdia.

Continuo lavando, lavando e lavando. O restaurante fecha e eu estou


lavando. Todos os funcionários já foram embora, e eu ainda estou lavando.
Michelle quis ficar para me ajudar, mas não deixei, óbvio. Apenas a gerente

está no escritório fazendo as contas do dia, faz algumas horas que não dá o ar
da graça por aqui.

— Enfim terminei, obrigada, meu Deus. — Imediatamente confiro no


meu celular quando será o próximo ônibus, só tem em vinte minutos.

Se eu for rápida, consigo limpar esse chão, é bom que o tempo passa
logo. Apesar de moído, meu corpo ainda está ligado em modo limpeza. Pego
o rodo e mando ver, não me mandaram fazer isso, mas esse piso sujo está me
dando agonia, são muitas pessoas andando para lá e para cá o dia todo.

Pego um balde com água, molho o pano e quando abaixo para começar
a limpar, minhas costas soltam um estalo. Meus pés estão inchados de tanto
ficar de pé e minhas unhas grandes tão lindas já eram, duas quebraram e as
outras estão roídas na ponta devido ao contato prolongado com os produtos
de limpeza pesada.

No entanto, me forço mais um pouco e em dez minutos o chão está


brilhando, até consigo ver o meu reflexo nele.

— Minha nossa, você ainda está aqui? — A gerente aparece na cozinha

com uma pasta debaixo do braço, parece surpresa.

— Sim, senhora, terminei o que mandou fazer. Mas como faltava um


tempinho para o meu próximo ônibus, decidi limpar o chão — expliquei,
receosa de ela brigar comigo por conta disso também.

Pela primeira vez desde que conheci essa mulher, a vejo sorrir de
maneira doce.

— Vem, garota, eu te dou uma carona. Michelle me disse que hoje tem
uma festa na escola do seu filhinho, não quero que se atrase. — Não pergunta
se eu quero, coloca as mãos nas minhas costas e sai me empurrando para os
fundos do restaurante onde guarda seu carrão, um Camaro amarelo novinho
em folha.

Sabia que ela não é tão ruim assim, deve ser estressante comandar esse

monte de funcionários malucos, até eu viveria de mau humor.

Durante todo o caminho Terezinha conversa com um tal de Jair aos


gritos e berros pelo celular, como usa um microfone no ouvido só ouço o que
ela diz. Pelo que entendi é um ficante ou namorado, sei lá, só sei que o foco
da briga é porque ela quer conhecer a família dele e o boy está a enrolando
para que esse encontro aconteça.
— Obrigada por me trazer em casa, senhora, tenha um boa noite —
digo ao me preparar para sair do carro.

— Boa noite, Daniele. Não fica até tarde nessa festa, precisa descansar
para amanhã. Vou começar a te treinar para atender às mesas no salão. —
Contenho um grito de vitória, não quero parecer uma maluca.

Mas estou a ponto de explodir de tanta alegria, sentir orgulho dos

outros é lindo, mas sentir de nós mesmos é impagável.

— Sim, senhora, valeu pelo voto de confiança. — Me fita do canto dos


olhos.

— Espero que não me decepcione, garota.

— Não vou — garanto, mais para mim do que para ela.

Fecho a porta do carro e minha chefe sai cantando pneu, espero o carro
dela sumir das minhas vistas e começo a pular e gritar no meio da rua feito

uma maluca, num estado de euforia sem medida, tanto que começo a subir as
escadas do prédio correndo, tudo o que quero é abraçar o meu filhote.
Contudo, depois que passo o primeiro andar já estou quase morta, em vez de
andar me arrasto degrau por degrau.

Estou tão cansada, só preciso sentar uns dez minutos. Toda a adrenalina
desse dia longo foi embora, meu corpo dolorido só pede cama.

— Meu Deus, menina, você está com a cara horrível. — Topo com
dona Antônia quando chego no topo da escada, a fofoqueira do 115 não
poderia apenas passar e seguir o seu caminho.

Tem que ser inconveniente.

— Somos duas então, dona Antônia — rebato à altura.

Peguei ranço dessa velha depois que descobri o porquê de não gostar da

Paula, cada um trabalha com o que quiser e ninguém tem nada com isso.
Muito menos essa bruxa.

— Mas que mocinha malcriada, sua mãe não te ensinou a respeitar os


mais velhos? — Coloca as mãos na cintura e me segue em busca de tirar
satisfação, tem uma sacola plástica branca na cabeça e um cheiro forte de
creme para cabelo.

— Ela ensinou sim, mas só àqueles que merecem. — Fecho a porta na


cara dela, que mulher chata.

Me jogo no sofá, como vim de carro posso usar a metade do tempo


economizado na viagem para descansar um pouco até a cavalaria formada por
duas crianças elétricas e uma amiga maluca chegar me apressando para me
arrumar para a festa.

— Mamãe, você já chegou. — Não deu tempo nem de fechar os meus


olhos, Marcelo entra feito um furacão em casa e pula em cima de mim.

— Olá, meu amor, que saudade de você. — Beijo sua testa e o aperto
forte, parece que fiquei um ano inteiro longe dele.

— Também senti saudade. Já podemos ir para a festa agora? — A

animação da sua vozinha manda o meu cansaço embora, vou me arrumar


lindona e quero que o meu filhote se divirta muito essa noite.

Espero que Léo só converse comigo o necessário, se possível nem isso.


No entanto, por enquanto não quero ouvir sua voz e lembrar de como ela fica

ainda mais bonita ao pé do meu ouvido, por mais que eu tente não consigo
esquecer o nosso falso beijo. Que para mim foi de verdade, e eu me odeio por
isso.

Fiquei mexida em saber que tem ido ver Marcelo escondido na escola,
contudo, deve ser mais uma das suas armações, por isso ficarei esperta.

— Ainda está cedo, filho. Vem, precisamos nos arrumar.

— Desculpa, Dani, ele ouviu você chegar e saiu correndo. — Paula


aponta a cabeça na porta com a maquiagem parada na metade, mas já dá para

ver que vai ficar linda.

Ouço Maria cantarolando atrás da mãe.

— Tudo bem, amiga, obrigada! Vai lá e termina de se arrumar, eu e o


Marcelo ficamos prontos em meia hora.

— Falou, vizinha, te vejo daqui a pouco. — Sua voz é engolida polo


som da porta se fechando.
— Quem chegar por último no banheiro, Marcelo, é a mulher do padre.

Saímos correndo e rindo, deixo que ele ganhe, é claro, só para ver o seu

sorriso lindo enquanto faz a dancinha da vitória. Espero que nossa noite
termine da mesma maneira divertida que está começando.
Dani

Não fico surpresa ao chegarmos no salão de festas do colégio e não


encontrar Léo em nenhum lugar, juro que se esse filho da puta não aparecer
eu o mato com as minhas próprias mãos.

— Calma, Dani, ele não confirmou nada, mas tenho certeza de que vai
aparecer. Só fica de boa e curta a festa com o seu filho — me conforta Paula
em um tom que as crianças de mãos dadas à nossa frente não escutem, parece
até que ela leu os meus pensamentos.

Na verdade, acho que minha cara azeda diz tudo.

— Você está certa, amiga. — Relaxo um pouco, ou pelo menos finjo


que sim.

Dá para perceber que a direção do colégio decorou tudo com carinho,


nas cores branco e dourado, foram cuidadosos nos mínimos detalhes para
receber as famílias dos seus alunos. Gosto de como as mesas foram
enfeitadas com toalhas de laços pomposos na barra e vasos com flores
naturais. Mais tarde devem servir o bufê.
Mais ao fundo, nossa atenção logo na entrada é atraída por uma parede
coberta com os desenhos das crianças dos seus respectivos pais colados em

fileiras aleatórias como um grande mosaico, rico em cores e formas


diferentes. Depois vou lá procurar o do Marcelo.

— Olha, mãe, a tia Julia e Yudiana. — Acena para as tias, estão com a
família completa, marido e filhos brincando de pique-pega ao redor deles.

— Vem, Paula, quero te apresentar aos meus amigos — convido, mas


ela hesita.

Deixo as crianças irem na frente, Marcelo, independente, logo abraça as


tias e tios. Apresenta Maria para eles, que faz todos rirem com a sua doçura.
Logo se juntam na brincadeira com as outras crianças.

— Acho que não é uma boa ideia, Dani. Digamos que não sou muito
bem-vinda pela maioria das mães dessa escola.

— Tem alguma coisa a ver com o seu trabalho? — confirma com um

sinal constrangido com a cabeça.

— Uma delas me viu no calçadão à espera de um cliente e saiu


espalhando para as outras, chegaram a fazer um abaixo-assinado para tirar
minha filha da escola. Mas não deu em nada — confessa sem graça e alisa o
braço, não está confortável nesse lugar.

De fato, tem vários grupinhos de mulheres sem ter o que fazer olhando
para a minha amiga, cochichando e rindo. Não só por preconceito, mas por
pura inveja. Paula é linda, chama a atenção onde chega. Tem uma beleza

privilegiada e um corpão enaltecido pelos seus looks sensuais. Hoje mesmo


está um arraso dentro de um vestido bege de gola alta abaixo das coxas,
extremamente justo às suas curvas, parece uma segunda pele.

— Pode ficar tranquila, minhas amigas não são esse tipo de mãe. —

Ofereço a mão para ela, não precisa se esconder mais do mundo.

— Se você está dizendo, Dani, eu confio em você. — Segura minha


mão com mais força agora e vamos até os meus amigos, sei que a receberão
da melhor maneira possível, com carinho e respeito.

— Eita loirão, hein! Você está um arraso com esse vestido preto!
Cortou o cabelo e está usando batom vermelho. Gente, nem acredito no que
estou vendo. — Yudi ergue meu braço e me obriga a dar uma voltinha, quase
fico tonta.

Deixando o rosa de lado novamente, escolhi um vestido preto soltinho


de alças finas mais curto do que os que costumo usar. Foi presente da minha
mãe, seu desejo sempre foi que eu me vestisse e agisse como uma mulher
confiante e decidida igual a ela quando tinha a minha idade.

Bem, acho que esse momento chegou. Uma pena ela não estar aqui
para ver, ficaria orgulhosa de mim.
— Gostou do meu cabelo novo? Eu mesma cortei hoje. — Apoio a mão
debaixo do queixo e sorrio para que admirem meu visual novo, foi decidido

de última hora.

Depois do banho, enrolada em uma toalha, de pé em frente ao espelho


do banheiro, olhei o meu reflexo, o mesmo de muitos anos: “a filhinha de
mamãe perfeita, loira dos olhos verdes”.

— Hora de criar sua própria identidade, Dani — disse para mim mesma
ao pegar a tesoura no armarinho debaixo da pia.

Desfiei as pontas e fiz uma franja reta sobre as sobrancelhas, nada de


muito exagerado, mas deu uma grande diferença. Aproveitei o embalo e fiz
uma maquiagem marcante com sombra escura e batom vermelho sangue.
Finalizei com saltos finos altos, aqueles que te fazem se sentir poderosa a
cada passo que dá.

Visual novo…

Vida nova…

— Você está linda mesmo, com uma beleza mais madura. — Julia me
alisa.

— Muito obrigada, meninas. Quero que conheçam minha nova amiga,


Paula.

— “A vizinha” — fala de supetão o delegado Avilar, sem maldade, e


ganha uma cotovelada da esposa na costela, bem feito, quem mandou falar
demais?

Com certeza, Julia contou em casa para ele sobre o Léo e a minha
vizinha também garota de programa.

— Olá, rapazes, bom ver vocês — cumprimento os dois rabugentos,


esses caras são duas figuras!

— Olá, é um prazer conhecê-los. — As bochechas de Paula coram,


mantém o olhar baixo.

— Ei, Paula, bem-vinda ao grupo. — Yudi vai logo puxando-a para um


abraço, Julia faz o mesmo.

Seus maridos ficam só no aperto de mão mesmo, são acanhados com


quem não têm costume. Logo começam um assunto de homens, e nós de
mães.

— Então, você é a mãe daquela menininha linda?

— Sou sim, Julia, ela é a razão da minha vida. — Olha orgulhosa para
a filha.

— Aquela ruivinha lá é a minha primogênita, Maria Lara. Tenho mais


um casal de gêmeos em casa com a avó e um garotão a caminho. E que Deus
me ajude! — Faz carinho na barriga aos risos. Se bem a conheço e ao marido,
que ama crianças, não vão parar só nesses.
Não mesmo.

— Que linda, parabéns! Você vai tirar de letra, filhos sempre são uma

benção.

— Concordo, Paula, eu tenho um casal que eu e o meu marido


adotamos logo no começo do nosso casamento, e posso garantir sem sombra
de dúvidas que foi a melhor coisa que fizemos na nossa vida — afirma Yudi

e acena para os filhos brincando dentro da casa de bolinhas próxima a nós,


ela é outra mulher depois que encontrou o amor da sua vida e se tornou mãe.

— Eu também concordo, tenho amadurecido muito depois que o


Marcelinho entrou na minha vida.

— Eu passo um dobrado para criar minha filha. Mas eu não me


arrependo de nada, faria tudo de novo. — E faria mesmo, Paula é uma
guerreira e faz o melhor dentro das suas possibilidades.

— Eu sou prova disso, Paula, vejo como é uma ótima mãe. E tem me

ajudado muito com o Marcelo — meu elogio lhe arranca um meio sorriso, eu
não conhecia esse seu lado inseguro.

Acho que é boa para lidar com os seus clientes, mas no meio social se
fecha.

— Somos muito gratas pelo que está fazendo pela Dani, estamos felizes
que nossa amiga tenha você. — Julia sorri para ela, minhas amigas são um
amor e sabem fazer qualquer pessoa se sentir acolhida.

— Eu que sou muito grata por tê-la em minha vida, fazia muito tempo

que eu não sabia o que é ser amiga de alguém. — Encolhe os ombros e desvia
o olhar.

— Mas agora tem mais duas amigas, não é, Yudiana? Temos que
marcar para sairmos juntas em um passeio só de meninas essa semana, tem

alguém aqui que precisa contar tudo sobre o seu primeiro dia no trabalho. —
Aponta para mim, sorrio mostrando todos os dentes.

Paula fica eufórica com a ideia do encontro, não vai parar de falar nisso
depois até sairmos juntas.

— Sério mesmo, Julia? Podemos ir a um café, podem marcar o dia e o


horário que eu vou com certeza — sua empolgação é visível.

— Isso aí, Paula, você é das minhas. — Yudiana bate a mão na dela.

A partir daí as três engatam em um papo descontraído que não consigo


acompanhar. Fico mais apreensiva conforme o tempo vai passando. Daqui a
pouco a homenagem das crianças para os pais vai começar e nada do traste
do Léo chegar, não consigo tirar os olhos da porta na esperança de que ele
entre a qualquer momento com a sua postura esnobe e superior como se fosse
o dono do mundo.

— Será que o meu pai não vem, mamãe? — Marcelo para de brincar
com os coleguinhas e vem me abraçar, tristonho.

— Sendo sincera, eu não sei, Marcelinho.

— Vem brincar com a gente, Marcelo — chama o filho mais velho da


Yudiana, o inteligente Max.

— Não, eu estou cansado. — Nega com a cabeça, ofegante como se

estivesse com dificuldade de respirar.

Tenho percebido que ele vem ficando cansado com mais frequência,
preciso ficar mais atenta. Não quero perdê-lo antes da hora, vou agendar uma
consulta com o médico.

— Quer sentar-se um pouco no colo da mãe, filho?

— Não precisa, já estou me sentindo um pouco melhor — garante, mas


não acredito muito.

Passa uns dez minutos e a professora Solange vem buscar as crianças

para se prepararem para iniciar as apresentações de homenagem aos pais,


Marcelo vai de mãos dadas com ela, calado e de cabeça baixa. Perdeu as
esperanças de que o pai virá.

— Por favor, Paula, liga para o seu amigo e diga que se ele não
aparecer nesse colégio, vou arrancar o coração dele e vou comer de garfo e
faca — cochicho no seu ouvido, não quero que meus amigos percebam o meu
desespero e tomem minhas dores.
É bem capaz do delegado e o John encontrarem o Léo nem que seja no
inferno e o arrastarem até aqui, mas não quero envolvê-los nas merdas que eu

faço.

— Por que você mesma não faz isso, mulher? Não entendo por que está
fugindo tanto do Léo.

— Paula… — digo seu nome em um tom agudo, se estou nessa agonia

ela tem grande culpa nisso por indicar esse traste para o trabalho.

— Está bem, loira, já estou indo. — Sai da aglomeração das pessoas e


vai para a varanda do lado de fora, disca os números pelo menos umas cinco
vezes.

Sem sucesso, Paula se vira na minha direção e balança a cabeça


negativamente. Agora nem ela consegue entrar em contato com o
energúmeno. Depois dessa, quero esse homem fora da minha vida e do
Marcelo de uma vez por todas. Não sei se terei forças para ver a carinha dele

quando for fazer a sua apresentação e o pai não estiver entre os presentes.

— Você está preocupada porque o Léo não apareceu ainda, não é? —


Julia se aproxima e pergunta com jeito, não aguento segurar sozinha e a raiva
começa a se manifestar através de lágrimas.

— Ele vai partir o coração do meu filho também, eu sabia disso!

— Também, Dani? — Ergue a sobrancelha, Yudi sempre está atenta às


palavras.

— É uma história longa, meninas, não estou pronta ainda para falar

sobre isso. No momento só estou preocupada com o Marcelo, estava tão


empolgado com essa festa.

— Eu vou arrancar as bolas desse homem com os dentes, mas que filho
da puta — ameaça Julia, quando pega ranço de alguém sai de baixo.

— Arrancar as bolas de quem, Julia? Eu não fiz nada de errado. — O


marido dela escuta a conversa por alto e encara nós três ao mesmo tempo.

— Não estou falando de você, criatura, é do pai de aluguel do Marcelo.

— O que esse cara fez? Deixa que eu e o Ricardo resolvemos isso,


vamos ter uma conversinha com ele. — Pelo olhar obscuro de Thompson, a
“conversinha” dele envolve no mínimo duas pernas e um braço quebrado.

— Calma, gente, aqui não é lugar para termos essa conversa. Além do

mais, a apresentação das crianças vai começar. — Todos concordam comigo,


graças a Deus.

— Vamos ir mais para a frente do palanque? Quero gravar. — Yudi vai


abrindo caminho entre as pessoas, ficamos bem na primeira fileira.

Logo Paula se junta a nós novamente e agarra meu braço, chateada por
mim com essa situação. No entanto, o clima ruim vai embora quando todas as
crianças aparecem no palanque. As apresentações foram separadas por salas,
quando chegou a vez da turma do Marcelo e da Maria foi uma emoção
enorme para mim e Paula. Minha amiga sorri para a filha, cheia de amor.

Marcelo também sorri amplamente cheio de amor, mas não na minha


direção. Sigo seu olhar e encontro Léo com sua aparência selvagem de
sempre, cabelo caído sobre o rosto. Traja colete jeans e calça rasgada.

Léo sorri de volta para o meu filho na mesma proporção de afeto que

recebe, um elo se formou entre os dois, forte demais para ser quebrado.

— Oi, papai — fala baixinho e acena discreto.

— Oi, filho. — Léo pisca para ele puxando um sorriso de canto, para a
Maria beija a mão e joga na direção da afilhada, que finge pegar e guardar no
bolso do vestido.

Isso foi muito fofo, devo admitir.

— Eu disse que ele iria aparecer, Dani. — Recebo uma cutucada da

Paula.

Acena para o amigo vir até nós, penso que não ousaria, mas Léo não só
vem como para bem ao meu lado, sem falar uma palavra. Fico tensa, quis
tanto que viesse, mas agora estou nervosa com a sua presença.

A apresentação segue, cada criança diz uma mensagem para o pai. Com
exceção da Maria, que declara todo seu amor pela mãe e o padrinho legal que
cuida dela quando a mamãe está ocupada. A coisa mais linda do mundo.
Paula se acaba de tanto chorar.

Marcelo fica por último. Mesmo tímido, pega o microfone da mão da

professora e desanda a falar.

O meu papai é o cara mais legal do mundo todo, é o meu melhor amigo

também. Meu herói. Gosto quando cozinha para mim, brinca comigo e me
leva para dar uma volta na sua moto maneira. Ele me ensinou que homens
não choram nem quando a enfermeira tira uma agulha enorme do seu braço
e que devo ser paciente com a minha mãe mesmo sendo uma maluca
desastrada, porque ela está fazendo o melhor que pode e seria capaz de fazer
qualquer coisa para me fazer feliz.

Quando eu crescer, quero ser igual a você, papai. Forte e corajoso. Eu


te amo!

O discurso do Marcelo emociona a plateia pela sabedoria escondida


atrás do seu jeito inocente, eu jamais poderia imaginar que Léo falasse coisas
boas de mim para o meu filho quando eles estavam sozinhos. Quero muito
olhar para ele nesse momento, mas me seguro.

A turma da professora Solange se despede com uma reverência debaixo


de uma chuva de palmas muito merecidas, Marcelo acena para mim sorrindo
enquanto as cortinas se fecham. Os pais rapidamente se espalham pelo salão
novamente à espera de que as professoras tragam nossos filhos, nesse

intervalo de tempo o DJ solta a música e o bufê é liberado.

Eu permaneço no mesmo lugar e o Léo também, estou preocupada com


ele. Está imóvel, com a cabeça inclinada para baixo de maneira proposital. O
cabelo cobre todo o seu rosto, uma mão está escondida no bolso e a outra

sobre o peito, que sobe e desce rápido.

— Está tudo bem com você, Léo? — Me aproximo em um tom brando,


ele não se move.

— Eu só preciso de alguns minutos sozinho. — Esconde o tremor de


sua voz em um pigarreio, mantendo-se na posição de maneira que eu não veja
suas feições.

Se vira e vai a passos largos na direção do banheiro fitando os próprios


pés, parece sem rumo.

— Vem sentar na nossa mesa, Dani. Sua amiga está lá conosco, se


quiser pode chamar o Léo, vimos que ele veio. Assim nós poderemos
conhecê-lo melhor.

— Está bem, Yudiana, acho que ele foi ao banheiro. Mas não sei se vai
querer juntar-se a nós — explico.

Quando chegamos na tal mesa, estão apenas Yudi e Paula sentadas.


Ricardo e John foram pegar um pratinho de salgadinhos para a Julia, só não
entendi o motivo de irem juntos para fazer isso. Sento-me e espero que

Marcelo volte, a professora veio trazê-lo pessoalmente junto com a Maria.

— Seus bebês estão entregues, mamãe, divirtam-se.

— Obrigada, Solange. — Ela sorri e vai conversar com outros pais.

— Cadê o meu papai, mãe? — É a primeira coisa que o Marcelo


pergunta ao sentar-se no meu colo, olhando para todos os lados à procura do
Léo.

— Não se preocupa, Marcelinho, ele está vindo. — Ricardo chega com


o prato de salgadinhos para a esposa, com cara de quem tem culpa no
cartório.

Não completa nem um minuto que o Ricardo e o John chegaram e se


juntaram a nós na mesa e Léo aparece no salão com um semblante ainda mais
estranho do que antes. Meu filho, é claro, assim que o vê vai correndo ao seu

encontro e não desgruda mais dele nem um segundo. Nem quis mais brincar
com a Maria e os filhos das minhas amigas, a coitadinha até ficou triste e
veio ficar com a mãe na mesa com os adultos.

— Por que não vai lá ficar com eles, Dani? — Nego com a cabeça,
Paula sabe muito bem que o amigo dela não aprecia a minha presença.

— Melhor não, você foi convidá-lo várias vezes para interagir conosco.
Mas ele insiste em se manter distante, talvez seja melhor assim. Pelo menos
está interagindo bastante com o Marcelo. — De onde estou consigo vê-los

conversando e rindo, se dão muito bem.

Mas não consigo evitar que essa sensação de exclusão doa no fundo da
minha alma, acho que toda mãe sente isso quando o filho dá mais atenção
para o pai do que para ela.

— Você que sabe, amiga. Vem, Maria, vamos dançar, eu amo essa
música. — Se levantam e vão sacudir o corpo no meio do salão, estou feliz
que pelo menos Paula está se divertindo com a filha.

Meu celular vibra dentro da bolsa, sorrio quando abro a mensagem e


leio. Respondo na mesma hora. Vou até Paula na pista de dança e cochicho
algo no seu ouvido.

Volto para a mesa mais animada, até puxo conversa com a galera. Mas
então, no meio da conversa o nome do Léo é citado.

— Não sei por que tanto alvoroço por causa desse cara, aquelas
mulheres estão a ponto de comê-lo vivo — rosna Ricardo, olhando na direção
do grupinho de oferecidas que se formou em volta do Léo com o Marcelo no
colo.

Vai de mães solteiras a funcionárias da escola, inclusive a diretora


Helena está no meio. As casadas só não foram ainda porque seus maridos
estão de vigia. Eu apenas suspiro, não quero falar demais e deixar
transparecer toda a minha raiva.

— Acho que é por causa do estilo diferente do Léo, mulheres gostam


de homens com personalidade forte — comenta Julia inocente de boca cheia,
essa mulher não para de comer.

— Como é que é, Julia? — Ricardo lança os olhos semicerrados sobre

a esposa. — Não sabia que calça toda rasgada e jaqueta de couro velha virou
estilo agora, para mim é falta de grana. — Trinca o maxilar.

— Com esse monte de mulher em volta, para conseguir um horário


com ele só com um mês de antecedência. — Eu e a Yudiana rimos do
comentário da Julia, agora ela foi longe demais.

Contei 1… 2… 3… e o Ricardo explode.

— Agora já chega! Não quero você de papo com esse garoto de


programa — ordena um marido muito ciumento.

— Vê se não enche, Ricardo, eu converso com quem eu quiser —


rebate.

— Não me irrita, Julia! — Olha de canto de olho para a esposa. — O


que esse cara tem que eu não tenho, tatuagens?

— Não me irrita você, cacete! Para de paranoia. Nem grávida me deixa


em paz com o seu ciúmes, quem vai querer uma mulher com a barriga desse
tamanho? — Aponta para ela mesma, tapo a boca para segurar o riso.

Esse delegado com ciúmes é uma piada!

— O Ricardo está certo, também não quero Yudiana de papo com esse
rapaz.

— Ainda bem que você não manda em mim, não é, Thompson? —

provoca Yudiana, adora deixar o juiz nervoso.

— Tudo bem, mas depois não reclame se ouvir por aí que andei
conversando com uma garota de programa. Como é mesmo o nome da
vizinha, Dani? — Mesmo estando calada, meu nome surge no meio da
confusão.

— Não me envolvam nisso, por favor. — Levanto as duas mãos, eles


que são marido e mulher que se resolvam.

— Se não tiver medo de morrer, seu filho da puta do caralho, vá em

frente — ameaça Yudi, mesmo depois de casada e mãe de família continua


com a boca suja.

Decido sair de fininho e tomar um ar, depois de passar o dia todo


naquela correria e gritaria toda que é a cozinha do restaurante, tudo o que
preciso agora é de um pouco de silêncio. Antes paro na parede com os
desenhos das crianças colados, vejo o da Maria e os dos filhos das minhas
amigas. Ficaram uma graça. Procuro o do Marcelo várias vezes, mas não
encontro, a professora deve ter esquecido de colar o dele.

Chego no pátio e puxo uma profunda lufada de ar e aliso os pelos do

meu braço, arrepiados devido à brisa fresca. Inclino a cabeça e olho para o
céu coberto de estrelas, faz muito tempo que não paro para admirar a beleza
noturna da natureza.

— Que noite linda! — Sou agraciada com a queda de uma estrela

cadente deixando um rastro de luz para trás que me faz sorrir encantada.
Fecho olhos e faço um pedido.

— Linda mesmo! — Abro os olhos e Léo está parado à minha frente,


fitando-me enigmático.

Fixa o olhar em qualquer ponto atrás de mim para não ter que me
encarar nos meus olhos, não sabe se deixa as mãos escondidas no bolso ou
cruza os braços.

— Aconteceu alguma coisa com o Marcelo? — pergunto fria.

— Não, deixei ele com a Paula e a Maria e vim fumar um cigarro. —


Coça a nuca meio desconcertado, como se quisesse me dizer algo, mas não
tivesse coragem.

Engraçado, nem sabia que ele fumava.

— Ok. — Ofereço-lhe as costas e continuo usufruindo do meu ar puro


em paz, espero que se toque que não é bem-vindo aqui e vá embora.
— Você está diferente. Bem... quero dizer, muito bonita — tropeça
entre as palavras, não preciso me virar para saber que está passando a mão

pelo cabelo.

— Valeu — agradeço desdenhosa.

— Você está gostando da festa? — insiste em puxar conversa, não sei o


que está tramando dessa vez.

— Sim, mas acho que vou gostar ainda mais de onde vou agora. Minha
carona acabou de chegar. — A Ferrari vermelha do doutor Enrique estaciona
do outro lado do portão da frente da escola, a pintura chega a brilhar com a
luz da lua.

A mensagem que recebi depois da apresentação das crianças foi do


doutor me convidando para sair, a princípio pensei em dizer não. Mas percebi
que Marcelo está deslumbrado com a festa e só tem olhos para o pai. Então
disse onde estava e ele veio me buscar.

Foi isso que cochichei no ouvido da Paula enquanto dançava, ela disse
para eu ir me divertir e não me preocupar que ficaria de olho no Marcelo e o
levaria para a casa quando fosse embora. Quanto aos meus amigos, inventaria
alguma desculpa. Por isso amo essa mulher.

— Onde você pensa que vai, Daniele Flores? — Eleva a voz, dou uma
risada na sua cara tomada pelo tormento.
— Penso não, já estou indo. Até mais, Léo. — Dou um beijinho no
ombro e me mando antes que me encha mais o saco, idiota arrogante.

— Nossa, como você está linda, meu anjo, parece uma deusa da
sedução — elogia doutor Enrique, todo saidinho.

Cavalheiro, sai do carro e me cumprimenta com um beijo de cada lado


do rosto.

— Muito obrigada, doutor Enrique. — Abre a porta no lado do carona


para eu entrar, tudo debaixo do olhar zangado de Léo.

Perfeito!

Talvez assim ele aprenda como um homem de verdade deve tratar as


mulheres. Como eu mereço ser tratada.
Léo

Sentado no sofá da sala em meio ao escuro da madrugada, ouço o


estalo irritante do salto fino vindo do corredor cada vez mais próximo. A
porta é aberta com uma certa dificuldade, o molho de chaves cai no chão pelo
menos duas vezes até que consegue acertar a fechadura. A bandida chuta os
sapatos em qualquer canto e tateia a parede em busca do interruptor. Quando
encontra e acende a luz, solta um grito ao se deparar comigo sentado com os
braços abertos no topo do sofá à sua espera.

— O que você está fazendo aqui, Léo? Invasão de privacidade é crime.


Sai agora! — tropeça nas palavras e aponta para a saída, mal consegue se

manter de pé.

— Então, mamãe, espero que o seu rolê com o doutor Amor tenha
valido a pena a ponto de deixar o seu filho dormir chorando por sua causa —
exalo o meu veneno, sua expressão de menina baladeira se transforma em
puro vazio e culpa.

Sei que depois do monte de merda que fiz com ela não tenho nenhum
direito de estar aqui no meio da madrugada tirando satisfação, porém, não
consigo evitar o ódio que estou sentindo por ela ter saído linda desse jeito

com aquele idiota. Não fiquei puto só por isso, o garoto, assim que soube que
a mãe foi embora da festa sem ele, entrou em desespero. Começou a chorar
chamando por ela, eu e a Paula tivemos que trazê-lo para a casa dela e o
coitadinho dormiu agarrado comigo, em soluços.

Minha vontade era rodar o Rio de Janeiro inteiro e encontrar esses dois
nem que precisasse virar a cidade de cabeça para baixo e matar o doutorzinho
no soco por tirar a mãe do meu filho e fazê-lo chorar, mas ainda vou ter a
oportunidade de acertar as contas com esse cara.

— Eu vou buscá-lo na casa da Paula, quando eu voltar não quero te


encontrar aqui ou vou ligar para a polícia. — Vira e caminha em direção à
porta, mas eu a alcanço e agarro o seu braço.

— Ele não está com a Paula, está dormindo no quarto dele. Não tem

desculpa para fugir de mim. — Empina o peito e toma uma postura


defensiva, nem parece aquela menina assustada mais, está afrontosa me
encarando de frente.

— Como você entra na minha casa quando quer, hein, Léo? Tanto faz.
Muito obrigada por ter cuidado do meu filho enquanto estive fora, já pode ir
embora agora e não entre mais na minha casa sem ser convidado — esbraveja
aos gritos, tapo sua boca para que não acorde o garoto.

— Eu te fiz a porra de uma pergunta, garota, você se divertiu com o

doutorzinho? — Imprenso seu corpo contra a porta e apoio um braço de cada


lado da sua cabeça, esta mulher está cheirando a puro álcool.

— Eu me diverti muito, você não faz ideia do quanto. Satisfeito agora?


— Deixa no ar com aquele sorriso de quem andou aprontando e muito a filha

da mãe.

— Você o beijou? — ouso perguntar e ela ri na minha cara, fico mais


puto ainda.

Eu preciso saber se ela deixou o doutor Amor tocá-la ou vou morrer,


essa dúvida está me matando desde que a vi entrar na Ferrari dele.

— Isso não é da sua conta, Léo, vai para o inferno! Eu te odeio. —


Tenta se soltar, porém não tem muita chance contra alguém do meu tamanho.
Eu poderia acabar com ela com um sopro, se quisesse.

Mas eu jamais seria capaz de encostar um dedo nela, prefiro acabar


com a minha própria vida antes.

— Responde logo, porra! — Perco a paciência e soco a porta, essa


mulher está fodendo com o meu psicológico.

— O que você acha, hein, Léo? Como disse, sou uma garota fácil,
lembra? — Acerta o meu coração em cheio, mal consigo respirar.
— Você é ainda mais burra do que eu pensei, Daniele Flores. — A
solto com um sorriso amargo, ela é tão ingênua que não consegue ver o que

está bem na sua frente.

— Não precisa nem dizer o quanto sou burra, querido, isso ficou bem
claro quando acreditei que o nosso beijo foi verdadeiro. — As palavras saem
de sua boca carregadas de puro desprezo, ela me odeia.

E com razão.

— Não, Daniele, você é a maior burra de todas por acreditar que um


beijo daquele foi de mentira. — Vou embora batendo a porta, totalmente
transtornado.

Não tenho mais nenhuma condição psicológica de ficar aqui olhando


para ela linda desse jeito e tão vulnerável, preciso esfriar a cabeça antes que
eu exploda e fale mais merda.

Volto para a casa imerso nos meus pensamentos, jogo meu capacete de
qualquer jeito no chão da sala e vou direto para o meu quarto.

— Você é um idiota, Léo! — Soco a parede do meu quarto até brotar


sangue nas costas da minha mão fechada em punho, um golpe atrás do outro,
cada vez com mais força.

Esse inferno de vida me dando mais uma rasteira daquelas, perdi todo o
controle sobre as minhas próprias ações e dos meus sentimentos. Sabia que
não devia ter aceitado participar dessa merda, nunca misturei trabalho com

vida pessoal antes, mas tem alguma coisa de muito especial nesse garoto. Ele
me ama de verdade e faz muito tempo que ninguém sente nada de bom por
mim. Para o Marcelo sou como uma espécie de herói, sem defeitos ou falhas.
Sua homenagem de dia dos pais acabou comigo, o que senti quando ele disse

que me amava foi como ser atingido por uma onda gigante.

Ele me faz querer ser uma pessoa melhor. Um pai de verdade. Por isso
já até tentei largar esse trabalho. Um dia que fico sem ver o garoto já sinto
falta. Como depois do final desastroso do nosso beijo na cozinha a mãe não
tem me chamado para as visitas semanais, tenho ido escondido visitá-lo
durante o horário do intervalo da escola.

Merda, eu estou muito fodido!

Além de toda essa dor de cabeça com a mãe e essa afeição repentina

pelo garoto, os amigos da Dani estão de olho em mim. Eles deixaram isso
bem claro quando fui ao banheiro durante a festa da escola e, assim que
fechei a porta, fui pego de surpresa por uma chave de pescoço de um juiz
psicopata e duas armas de fogo de um delegado maluco enfiadas uma de cada
lado do meu rosto.

— Mas que porra é essa? — Tentei me soltar, mas quanto mais me


mexia, mais o cara forçava o braço em volta do meu pescoço.

— Calma, garotão, que fazemos parte dos mocinhos, somos homens da

Lei. — Tirou o distintivo preso em um cordão de prata para fora da gola da


camisa e esfregou na minha cara, rindo feito um retardado.

A situação era ainda pior. Por que esses canas estavam atrás de mim
dessa vez?

— O que vocês querem? Eu não tenho problemas com a justiça há


muito tempo, o que devia já paguei. Então tirem suas mãos de cima de mim.

— Calma aí, garotão, nós nem nos apresentamos ainda. Sou John
Thompson, juiz criminalista do Rio de Janeiro. E o cara com as armas ali é o
meu amigo delegado Ricardo Avilar. — Se apresentaram de maneira
amistosa, como se estivéssemos em um encontro casual entre homens no
balcão de um bar qualquer.

— Fodam-se quem vocês são, cara, eu não dou a mínima.

— Pois devia. Dani é muito amiga das nossas esposas, e nossa


também. Nós amamos o filho dela pra cacete, então se machucar qualquer
um dos dois, vamos te torturar até a morte — deu o seu recado.

— Isso é uma ameaça? Pode não cair bem para vocês se eu abrir a
minha boca lá fora, dois homens da Lei armados ameaçando alguém em
plena festa pré-escolar — dei o meu recado de volta, não vão conseguir me
intimidar tão fácil.

— Se contar para alguém o que aconteceu nesse banheiro, Léo, você

morre também. — O delegado maluco enfiou a arma dentro da minha boca,


não estavam de brincadeira mesmo.

— Entendeu bem o que o meu amigo disse? — Assinto de leve com a


cabeça.

— Ótimo, bom menino. — Guardou as armas no colete debaixo do


paletó e deu dois tapinhas no meu rosto, o outro enfim soltou o meu pescoço.

— Agora que estamos entendidos, vamos nessa, rapazes. Não podemos


perder a homenagem dos nossos filhos.

— Não esqueça de levar o prato de salgadinhos para a Júlia, delegado.


Ou ela vai comer o seu fígado no lugar, sabe como a sua mulher fica quando
está com fome.

Saem andando como se nada tivesse acontecido, eu tenho pena dos


bandidos presos por esse delegado e os réus julgados por esse juiz.

— Você não vem, cara? — perguntou o delegado.

— Sim. — Segui atrás deles, calado, a uma distância segura, só não fui
embora daquele lugar na hora por causa do Marcelo.

A patricinha e o garoto devem ser muito importantes para esses caras


colocarem os trabalhos deles em risco ameaçando alguém à mão armada no
banheiro do colégio dos filhos, não gosto da maneira deles de conversarem,
mas estou feliz que eles tenham amigos que se preocupam.

Não sei como as coisas ficarão daqui para a frente, eu perdi o foco e
coloquei tudo a perder.

— Sendo sincero, depois da merda que fiz hoje nem sei se a patricinha
vai me deixar ver o meu filho — penso alto.

— Porra! Eu disse filho em voz alta? Não, eu não disse — afirmo para
mim mesmo.

— Ah, você disse sim, Léo, eu ouvi perfeitamente — opina meu colega
de trabalho, Felipe.

Todo à vontade, tragando um cigarro na sacada do meu quarto, calça


jeans larga deixando a metade da bunda branca de fora, está sem cueca. Que
nojo! Dividimos esse apartamento há mais tempo do que eu queria. Pediu
para ficar uns dias aqui e não foi mais embora, de resto me dei por vencido.

— Por que não me disse que estava aí desde que cheguei, Lipe? —
rosno e ele vem até mim, não tinha visto que segura uma garrafa de cerveja
gelada.

— Você já chegou socando a parede, resolvi não me manifestar e


deixar que extravase a sua raiva. — Se aproxima e toca no meu ombro como
se fosse dizer algo importante, mas solta um arroto nojento na minha cara.
— Eu não entendo como uma mulher ainda paga para transar com
você, Felipe. — Reviro os olhos, está para nascer pessoa mais desorganizada

e sem modos do que esse cara.

Assim como eu, também trabalha como garoto de programa. Tem uma
aparência privilegiada de carinha de bebê e cabelos cacheados, pele
bronzeada e olhos claros. É rato de academia e gosta de coisas caras, mas não

tem cuidado com elas, seu prazer está em comprar.

— Ah, vai se ferrar, seu filho da puta. — Mostra o dedo do meio para
mim, toma um gole da sua cerveja e balança a cabeça rindo.

— Você não toma jeito mesmo, irmão. — Empurro ele, somos


diferentes tanto por fora quanto por dentro.

Sou um cara simples e calado. Fechado. Nunca comento nada sobre


minha vida, nem ele ou a Paula que são meus melhores amigos há vários anos
sabem de onde eu vim ou o meu verdadeiro nome. Já o Felipe não está nem aí

para nada! Fala o que vem na cabeça, não tem vergonha de ser um garoto de
programa, atende homens e mulheres. É bissexual.

Eu só trabalho com mulheres, é claro, não tenho nada contra, mas


macho me tocando não rola.

— Quantas vezes eu te falei para não fumar essas porcarias na minha


sacada, seu vacilão? — Tomo a sua cerveja e desabo na minha cama usando
uma das mãos como apoio para a nuca, ele se deita do meu lado e solta
fumaça em formatos redondos no ar.

O meu quarto é o único com varanda aqui em casa. Por preguiça de sair
para fumar, invade o meu espaço com essa desculpa barata.

— Muitas. Assim como eu te disse várias vezes para sair fora desse
trabalho de pai de aluguel, lembra? Sabia que seria uma furada, mas você

tinha que ir na ideia da maluca da Paula, como sempre.

— É. Você disse, Felipe. — Me arrependo amargamente por não ter


ouvido seu conselho. Penso, mas não falo para não alimentar o seu ego.

— Mas me conta aí, pelo menos a mãe do moleque é tesuda? —


pergunta rudemente.

— Acho que tesuda não é uma palavra que combine com a Daniele, ela
tem uma beleza diferente. — Viro de lado na cama e fecho os olhos, abraço a
garrafa e lembro de cada detalhe do rosto mais delicado entre todas as

mulheres que já passaram pela minha vida.

E não foram poucas, não mesmo. Nessa profissão já dormi com tantas
mulheres que já perdi a conta, mas o que tive com todas elas juntas não
chegou nem perto do que senti quando beijei a patricinha. Eu não estava
preparado para aquele beijo, simplesmente aconteceu. Na hora acabei
entrando em parafuso sem saber como administrar aquele turbilhão de
sentimentos dentro de mim e acabei fazendo merda.

— Diferente como? Que resposta estranha. Você comeria ela ou não?

— Ela não é o tipo para comer de vez em quando só para aliviar o


tesão, seu idiota. É para fazer amor em uma manhã preguiçosa de domingo,
num dia frio com aquela garoa fina caindo lá fora, grossa o suficiente para
escorrer pelo vidro transparente da janela — devaneio, materializando a cena

na minha cabeça.

Não consigo evitar, a inocência de Daniele é quase irresistível. Inferno!


Ela sorri e fica corada toda vez que olha para mim, como uma flor
desabrochando em plena primavera, pronta para ser colhida.

— Eu nunca ouvi tanta baboseira! Ou você enlouqueceu de vez ou pior.


— Me obriga a ficar de frente para ele, todo dramático. — Está apaixonado
pela mãe do seu filho de aluguel, ou seja, muito fodido — constata em um
tom grave de suspense.

Mostro o dedo do meio, que cara chato! Mas errado ele não está, nunca
vou esquecer a cena do meu pau mole na mão daquela ruiva. Inferno! Fui até
embora depois daquilo, sabia que não iria receber o cachê depois, mas não
quis arriscar a vergonha de completar a segunda broxada da minha vida na
mesma noite.

— Vê se não enche e sai do meu quarto, Felipe! Chega de ouvir


besteira por hoje. Preciso descansar um pouco, tem um programa em duas
horas. — O empurro para fora da minha cama, ele cai no chão feito um saco

de batatas.

— Eu vou mesmo, irmão, essa sua paixão toda pode ser contagiosa. E
você sabe que, no nosso ramo, gostar de alguém significa falência total. —
Apaga o cigarro na parede e joga em qualquer canto do meu quarto, o quarto

dele parece um lixão.

— Tá bom, Lipe, agora some daqui e leva o que restou da sua cerveja
com você! — Jogo a garrafa nele, infelizmente acerta na parede e espalha
estilhaços por toda a parte.

Tento dormir um pouco, tenho vários programas agendados para hoje,


mas é só ajeitar a cabeça no travesseiro e fechar os olhos que o sono vai
embora. Viro para um lado e para o outro e nada, decido levantar e tomar um
banho. Tiro minhas roupas e jogo no chão do banheiro, ligo o chuveiro no

frio e apoio as mãos no azulejo. Aperto os olhos e deixo a água cair sobre a
minha cabeça e correr pelo meu corpo. Vou relaxando aos poucos e, antes
que eu possa impedir, a lembrança da porra do beijo com a patricinha toma
forma na minha mente.

O gosto da boca daquela mulher ainda está na minha, assim como o seu
cheiro adocicado grudado em mim.
— Isso só pode ser brincadeira, porra! — Fico de pau duro em
segundos, aquele tipo de ereção que não se sacia fácil.

Primeiro aquela diaba loira me faz broxar com uma cliente, agora me
faz ficar de pau duro debaixo do chuveiro. Eu nem sei se me lembro mais
como me masturbar, tem muito tempo que não preciso fazer isso. Desde que
virei garoto de programa faço sexo praticamente todos os dias. Nem fodendo

que vou me rebaixar dessa forma por causa dessa garota, sou orgulhoso.

Não mesmo.

Tento me concentrar e fazer minha ereção baixar por vontade própria,


penso em coisas broxantes como o Felipe andando pelado pela casa ou o dia
em que peguei ele de quatro no tapete da sala, chupando uma amiga deitada
de pernas arreganhadas, enquanto o ex-namorado dele, um cara enorme e
musculoso, com uma cueca fio dental, o comia por trás. Nunca vou esquecer
dessa cena, meu colega de apartamento me traumatizou por toda a vida.

No começo meu plano funciona, meu pau vai cedendo e amolece aos
poucos. Abro um sorriso vitorioso, mas não comemoro por muito tempo. A
imagem do rosto de Daniele vem com tudo na minha mente novamente, mas
que inferno! Ela me olha com aqueles olhos verdes assustados e os lábios
pequenos rosados que eu amaria ver em volta do meu pau sugando com
vontade, lambendo e chupando rápido e bem gostoso.
— Filha da puta! — Soco a parede.

Agarro meu pau duro feito pedra, chega a doer quando toco nele, meu

tesão está à flor da pele. Trinco os dentes e faço movimentos rápidos de sobe
e desce, não consigo nem respirar. A pressão na minha cabeça é tão grande
que parece que vai explodir, meu coração bate forte e acelerado.

Primeiro, a sensação que tenho é que vou morrer, depois sou tomado

por um nível de prazer que nunca cheguei antes.

— Daniele… — urro o nome da desgraçada feito um maluco e gozo


por vários segundos, mal consigo me manter de pé, sou obrigado a apoiar as
costas no vidro do box enquanto o líquido branco grosso ainda entorna do
meu pau e goteja no piso escuro.

— Eu não sei o que aconteceu aqui, mas isso não pode se repetir.
Preciso me controlar — afirmo para mim mesmo e termino o meu banho,
mais relaxado.

Saio do banheiro limpo e saciado depois da masturbada mais intensa de


todos os tempos, volto para a cama ainda molhado e desabo em um sono
profundo.
Léo

Acabo dormindo boa parte da manhã, há muito tempo não dormia tão
bem assim. Levanto em meio a um bocejo longo pelo caminho até o
banheiro, jogo água no rosto e escovo os dentes. Minha vontade mesmo é
voltar para a cama, mas vou para a cozinha preparar um rango gostoso. Não
sou de faltar no trabalho, contudo, vou tirar o resto do dia de folga. Como
Felipe tem um cliente fixo toda tarde a casa é toda minha, por isso essa é a
minha parte favorita do dia.

Obrigado, Deus!

Vou poder cozinhar em paz, esse é o meu hobby favorito, criar a arte da
mistura dos sabores.

— E sou muito bom nisso. — Levanto a tampa da panela em fogo


brando e sinto o cheiro divino do meu picadinho de carne com legumes
exalar pela cozinha, a parte desta casa que mais me sinto à vontade.

Um lugar sagrado para mim, não deixo Felipe nem chegar perto. Levei
um tempão para conseguir decorar do jeito que eu queria, não foi barato e
tive dificuldade em encontrar algumas coisas, então mandei fazer sob medida.
Mandei colocar o forno a lenha de tijolos vermelhos, armários e mesa grande

de seis lugares de madeira escura bem envernizada. Todo trabalho valeu a


pena, o resultado foi uma cozinha rústica. Bem mineira mesmo, porém não
chega nem perto da que a minha mãe tinha.

Assim como eu, minha mãe tinha paixão por cozinhar. Tudo o que

aprendi foi com ela, começou a me ensinar ainda garoto.

Ela sempre dizia:

“Case-se com alguém que saiba cozinhar, porque o amor acaba, mas a
fome não.”

Além de ótimo ser humano, minha mãe era muito engraçada. Nasci e
cresci em uma fazenda em Minas Gerais, a melhor época da minha vida.
Onde minhas únicas preocupações eram ajudar o meu pai a cuidar do gado e
das lavouras de café, nunca serei nem a metade do grande homem que ele foi.

Mas de um dia para o outro, tudo mudou.

Foi o início do fim…

— Já estou indo atender meu cliente, Léo, deixa um pouco desse grude
aí que está fazendo para mim na geladeira. — Felipe chega com a cara na
porta, com quase meio quilo de gel no cabelo.

— Está bem, Lipe, agora vasa. — Faço sinal para que saia, sabe que
odeio ser interrompido quando estou cozinhando.

— O que acha do meu visual? Caprichei hoje, vou atender um

empresário ricaço. Ele pagou uma diária inteira. — Tira o sapato antes de
entrar, na minha cozinha só pisam pés descalços.

Foi a primeira regra da casa que passei para o Felipe quando se mudou
para cá, essa parte do apartamento mantém vivas as lembranças mais

importantes que tenho da minha mãe e deve ser preservada.

— Então, fala logo, o que achou? — Para na frente do balcão de


mármore, como não dou moral bate a mão sobre a pedra escura.

Sem paciência, paro de picar o tomate e olho para ele, que segura na
lateral do paletó preto com uma mão de cada lado e mostra a camisa social
salmão por baixo. Dá várias voltas igual a uma galinha tonta.

— Horrível, coloca outra coisa. — Volto a picar o meu tomate.

— Não mesmo! Eu amei esse look. Nem sei por que ainda peço a
opinião de um cara que anda igual a um membro de gangue de rua. —
Empina os ombros cheio de soberba, não sei por que pede minha opinião se
nunca leva em consideração.

— Eu me pergunto a mesma coisa, Felipe.

— Babaca! — Gira o nariz no ar, coloca os sapatos e vai embora


batendo a porta.
— Graças a Deus, enfim a sós — digo para as minhas panelas no fogo.

Cinco segundos depois a campainha toca, aposto que o idiota do Felipe,

como sempre, esqueceu a chave e voltou para pegar.

— O que está fazendo aqui? — pergunto ao abrir a porta, Felipe não


esqueceu a chave dessa vez.

— Como você pode insinuar para a Dani que ela não é uma boa mãe,
Léo? Ela esteve na minha casa transtornada, pediu para te entregar isso. —
Paula joga um envelope branco na minha cara e entra sem ser convidada.
Pelo vestido vermelho curto, peruca loira e óculos escuros, saiu do trabalho
só para vir aqui reportar o recado da amiguinha.

— Por que ela adiantou o meu pagamento? O combinado é que seria


feito no final do mês. — Tiro as notas de dentro do envelope, o cheiro doce
da patricinha está impregnado nele.

— Ela não quer mais os seus serviços, mandou o dinheiro equivalente

ao mês completo para compensar as compras que fez para ela.

— Eu não quero essa porra! Leva de volta de esmola para aquela


metida, que use para comprar uma passagem para ela e o doutor Amor só de
ida para o inferno. — Enfio as notas na bolsa de Paula e volto para a minha
cozinha, aquela mulher consegue me irritar mesmo de longe.

Agora que arrumou um pai melhor para o filho dela, não precisa mais
de mim.

— Não me deixa falando sozinha, cacete! — A mulher vem atrás de

mim, que inferno.

— Tira os saltos antes de pisar na minha cozinha, não sei onde andou
com isso. — Me olha com a cara feia, mas faz o que eu peço, conhece bem as
regras da casa.

— Está feliz agora? — Joga as sandálias em um canto qualquer.

— Muito, mas vou ficar ainda mais depois que você for embora.

— Vai se ferrar, Léo. — Senta-se em cima da mesa, pega uma maçã no


cesto e morde com vontade, como se não tivesse comido nada hoje. Reviro os
olhos, que mulher folgada.

— Você já almoçou, Paula? Pensei que só trabalhava à noite.

— Não almocei! E sim, trabalho só à noite. Como estou com agenda

cheia tive que agendar alguns clientes para mais cedo, só parei para vir aqui.
— Alisa o braço e olha para baixo, parece exausta.

Não tenho nenhum problema com a nossa profissão, mas gostaria muito
que Paula saísse dessa vida. Uma garota de programa nunca será bem vista
pela sociedade, principalmente por outras mães. Ela não tem amigas, e eu sei
que isso faz muita falta na vida dela. Por isso está tão apegada à nova vizinha.

— Não acha que já está na hora de sair dessa vida, Paula? Talvez
conheça alguém legal para ser o pai da Maria, podem começar do zero e
formar uma bela família longe daqui. — Pego um pouco do meu picadinho

com a colher, sopro e provo.

Mais uma pitada de sal e uma folha de orégano e vai ficar perfeito.
Desligo o fogo. Pego dois pratos no armário e começo a montar a mesa.

— Eu sempre fui mãe e pai da minha, Léo. Não preciso de um homem

para formar uma família. Nós duas já somos uma. — Levanta e pega os
talheres na gaveta e me ajuda a montar a mesa, coloca tudo no lugar errado,
mas o que vale é a intenção.

Digamos que bons modos não fazem parte das qualidades de Paula,
muito menos boa etiqueta e moda. Veio de uma família complicada, tudo o
que sabe aprendeu sozinha nas ruas.

— Você que sabe. Mas um dia a minha afilhada vai crescer e fará
perguntas sobre o pai dela, não adianta adiar o inadiável. — Nos sentamos,

sirvo o prato dela, depois o meu.

Fiz pão de sal para acompanhar, Paula pega três logo de uma vez.

— E você virou psicólogo agora? Não vim aqui falar de mim, mas sim
de você. — Aponta a colher na minha direção, sempre foge do assunto
quando falo do cuzão do pai da Maria. — Quero que se desculpe com Dani e
peça o trabalho de volta, o menino vai ficar muito triste se sumir da vida dele
assim, do nada — não pede, exige.

— Mas nem fodendo, Paula. Se a própria mãe não está preocupada com

o sofrimento do filho, me dispensando, muito menos eu.

— Foda-se, você me deve uma, Léo. Sabe disso! — apela para


chantagem mais uma vez, sempre lembra desse episódio terrível da minha
vida quando quer me forçar a fazer algo que não quero.

— Eu sei. Você faz questão de me lembrar sempre que pode.

— Claro que faço, não quero que aquela merda se repita. — Aperta a
mão com tanta força que o pão que segurava é esmagado, abaixa a cabeça e a
lágrima cai na borda do prato.

Lembrar daquele dia a machuca tanto quanto a mim, não queria que
tivesse presenciado aquela merda. Se eu pudesse, apagava da sua mente por
completo.

— Ei, vai ficar tudo bem. — Ergo seu queixo e a obrigo a olhar para
mim, está toda trêmula. — Eu prometi que não aconteceria de novo e não vai,
pode ficar tranquila — tento reconfortá-la.

— Mas eu tenho medo assim mesmo, amigo, também disse que daria
um jeito nas outras vezes e sempre termina da mesma forma.

— Agora é diferente, Paula, eu estou decidido a fazer dar certo — sou


sincero, tenho me esforçado muito.
— Acho bom mesmo. Junte a porra dessa grana e paga essa merda logo
e tenha a vida tranquila que sempre sonhou, eu não tenho muito guardado,

mas posso te emprestar um pouco. — Seguro sua mão, Paula é uma amiga
leal.

— Nem em sonho vou deixar que tire um centavo da minha afilhada


para me ajudar nisso, eu criei o problema. Eu resolvo.

— Resolve como? Negando trabalho dessa forma? Vai conseguir a


grana quando for tarde demais.

— Eu não estou negando droga nenhuma, sua vizinha que me


dispensou. — Trinco o maxilar, a patricinha desistiu de mim mais cedo do
que eu esperava. — Sendo sincero, Paula, já resolvi. A dívida está paga e
nem precisei vender a minha moto — garanto, mas pelo seu olhar
semicerrado não acreditou em uma palavra do que eu disse.

— Pagou como, Léo? A quantia que você precisava era muito grande.

— Arqueia a sobrancelha, analisando minhas feições cuidadosamente.

— Não interessa, Paula, se contende em saber que resolvi o problema.

— Resolveu só um, falta se desculpar com a Dani — começa com a


mesma ladainha.

— Nem fodendo, pode tirar o seu cavalinho da chuva porque isso


nunca vai acontecer.
— Ela é sensível, Léo. Só está magoada por causa do beijo. Minha
amiga me contou tudo hoje, eu devia te dar um tiro na cara por conta disso.

Aja como um homem e peça desculpas, diga que não vai se repetir. Tudo o
que essa coitada não precisa agora é se apaixonar por um cara como você —
balbucia com a boca cheia.

— Um cara como eu? — Estreito os olhos na direção dela.

— Sim, que não vale um tostão furado. — Balança os ombros e me


encara como se fosse óbvio.

— Entendo. Mas creio que não precisa se preocupar com isso, pessoas
como a sua amiguinha gostam de caras graduados e com uma Ferrari na
garagem. — Só de lembrar do doutor Amor meu sangue ferve, odeio esse
cara.

Aposto que sempre anda com a roupa alinhada e um sorriso no rosto,


mas na verdade, na encolha faz coisas que até Deus duvida.

— Alguém como ela, né? — Bate o prato na mesa e aponta o dedo na


minha cara, vai começar a gritaria. — Você não sabe nada sobre a Dani, vive
a chamando de patricinha, mas não sabe o que essa garota tem passado. Ela é
mais forte do que pensa — esbraveja enquanto continuo a fazer minha
refeição calmamente.

— Tipo o quê? Ficar pobre e ter que se virar sozinha? Acorda, Paula,
nós já fazemos isso desde que nascemos.

— A Dani não ficou pobre, Léo, ela abandonou todo o luxo da vida que

levava antes por alguém que amava.

— Deixa eu adivinhar, o pai do garoto? — Típica história de romance,


patricinha mimada troca a família rica por um cara rebelde sem causa.

Depois o babaca a engravida e vaza fora.

— O pai dela é o mesmo que o do Marcelo, seu idiota, os dois são


meio-irmãos. Dani descobriu a existência do garoto há pouco tempo —
revela e o meu cérebro entra em pane.

— Eles são irmãos?

— Sim, Léo! O cretino do pai dela, juiz Flores, teve um filho com a
amante que nunca assumiu. Se tivesse cuidado da criança direito, teriam
descoberto a doença com antecedência e hoje Marcelinho poderia estar

curado.

— Mil vezes maldito! — Jogo tudo que tem sobre a mesa no chão,
quando eu encontrar esse homem eu o mato.

Além de ser o culpado da morte do filho, ainda o priva do sonho de ter


um pai? Isso é cruel demais até para mim que não valho nada.

— Maldito mesmo! Agora, em vez de um filho, abandonou dois,


porque quando Dani assumiu a responsabilidade pelo Marcelo o pai a
deserdou. Por isso estava feito uma maluca atrás de emprego. — Fico ainda
mais perplexo com o desfecho dessa história de horrores, tento dizer algo,

mas palavras me faltam para tanta crueldade de um ser humano.

— Minha nossa! E eu ainda a fiz se sentir mal por sair e se divertir um


pouco — penso alto, me sentindo um verdadeiro covarde.

— Pois é. Você não faz ideia de como é difícil ser mãe, temos que ser

sempre perfeitas. Se for solteira então, e não ter o apoio da família, aí que a
coisa fica feia mesmo. Não importa quão boa sejamos, um deslize e já somos
julgadas por essa sociedade hipócrita composta em grande maioria por
mulheres e mães. Isso é o mais triste — desabafa não se referindo somente a
Dani, mas também a si.

— Por que não me contou isso tudo sobre a Dani e o garoto antes,
Paula?

— Porque a Dani me pediu segredo, seu idiota, não queria expor a vida

dela para um estranho.

— Eu não sou um estranho, Paula. Sou seu amigo. Caralho!

— Sim, é. Mas a Dani também é minha amiga. Por isso, quando me


pediu para levar o filho para a casa comigo porque iria sair com o doutor
gostosão, eu apoiei na hora. Tinha que ver a cara dela olhando para vocês
dois se divertindo na festa sem ela. Era de cortar o coração. — Fecho a cara,
mais uma iludida pelo doutor Amor.

— Eu entendo, mas ainda não acho certo ela ter saído sem pelo menos

ter se despedido do garoto antes, você viu como ele ficou quando soube que
ela foi embora sem ele.

— E quem é você para achar alguma coisa, vai cuidar da sua vida! Dani
queria se despedir do filho, mas eu não deixei porque ele iria começar a

chorar e ela acabaria não saindo. O nome disso é birra, toda criança faz, até as
mais fofas como o Marcelo.

— Mas…

— Mas porra nenhuma, Léo! Você queria que ela fizesse o que, papai?
Ficasse lá não se sentindo à vontade só para marcar presença? Ah, me poupe!
Vá se foder você e essa sociedade hipócrita que só julga, mas não apoia. —
Mostra o dedo do meio para mim.

Como fico sem argumentos, ela continua a esfregar verdades na minha

cara.

— Essa garota tem se esforçado demais por uma responsabilidade que


nem é dela. Eu amo o Marcelinho, mas quem devia cuidar dele é o pai
biológico que é montado na grana. Não da Dani, a coitada fodeu sua vida por
amor ao irmão. Tendo que aprender a ser pobre e mãe ao mesmo tempo na
marra, e está se saindo muito bem, essa é a verdade, digam o que quiserem.
— Aponta o dedo na minha cara.

— Ela é uma ótima mãe, Paula. Assim como você. — Sorri com o

elogio, mas logo a expressão fica zangada novamente.

É por isso que eu gosto tanto da Paula, ela quando é amiga de alguém,
não mede esforços para defender a pessoa, mesmo que tenha que brigar com
outro amigo caso acredite que ele esteja errado.

— Não sabe o prazer que é ver um cara com toda a sua arrogância com
essa cara de trouxa que está agora. Antes de tirar conclusões precipitadas
sobre alguém, procure saber mais sobre a pessoa, okay?

— Okay, Paula, você está certa! Me desculpe. Para quem tem uma
profissão tão malvista como a nossa pela sociedade, eu tenho julgado demais
as pessoas — admito por fim.

— Não é para mim que você deve desculpas, Léo — diz antes de
bater a porta. O silêncio volta a reinar em casa.

Permaneço parado pensando em tudo o que a Paula me contou, eu


jamais poderia imaginar que a Daniele é irmã do garoto. Poucos teriam a
coragem de fazer o que ela fez, largar uma vida confortável para cuidar de
uma criança doente desprezada por todos, até mesmo os próprios pais. Isso é
admirável.

— Eu sabia que você iria acabar comigo desde o primeiro dia que eu
pus os meus olhos em você naquele bendito corredor conversando com
aquele cão pulguento no colo, Daniele Flores. Eu sabia! — Pela primeira vez

tenho coragem de dizer em voz alta o que venho negando para mim mesmo
todo esse tempo, chega de tentar bloquear o que sinto.

Chega de me esconder do mundo. Não queria ter me tornado essa


pessoa cruel que sou hoje, mas a vida me obrigou a ser. Perdi a todos que

amava bem diante dos meus olhos. Um por um. Ninguém merece passar pelo
que passei, porra! Era apenas um garoto. Sozinho e assustado. Fui seduzido
pelos benefícios do mundo da prostituição e não saí mais. No entanto,
sobreviver nesse meio não é fácil. É preciso aprender a deixar os sentimentos
de lado, criar uma barreira em volta do coração. Assim é mais fácil tratar as
pessoas com indiferença, fingindo envolvimento em momentos oportunos.

No entanto, tudo veio à terra quando conheci a Dani e o seu filho. Eles
arrebataram os meus sentimentos de tal maneira que o meu mundo virou de

ponta-cabeça. Tentei fugir e negar o máximo que pude, mas não há mais o
que fazer.

Eu me rendo!
Dani

Respiro uma… duas… três vezes bem devagar e me inclino sobre a pia
do banheiro, encho a mão de água fria, jogo no rosto e passo um pouco na
nuca. Está tão quente hoje que as minhas bochechas estão avermelhadas,
estou toda suada e cheirando a fritura.

— Por que está demorando tanto, Daniele? Tem várias mesas para
servir, então sai desse bendito banheiro. — Dou um sobressalto com as
batidas da senhora Tereza na porta, chega a estremecer a parede, mais um
pouco e tudo vai ao chão.

Ela segue os funcionários feito uma sombra. Depois que me treinou


tenho me saído melhor do que ela esperava servindo no salão, porém, mesmo
assim às vezes ainda pega no meu pé sem razão alguma.

— Eu já estou indo, senhora, só um minuto. — Jogo mais água fria no


rosto, estou tão cansada, só preciso descansar um pouco.

Sentar e colocar os pés inchados para cima e relaxar, eles estão quase
explodindo para fora das minhas sapatilhas.
— Nem mais um minuto, sai agora, Daniele, ou está demitida — dá o
veredito.

— Sim, senhora, já entendi. — Olho o meu reflexo no espelho, estou


uma verdadeira bagunça.

Bolsas escuras em volta dos olhos realçam ainda mais a minha pele
pálida, eu que não ia nem na esquina sem maquiagem não tive tempo sequer

de escovar os dentes hoje.

— Esse é o preço da maturidade. — Sorrio para o meu reflexo. Apesar


de difícil, eu estou amando isso tudo. Ser dona do meu próprio destino sem
dar satisfações para ninguém, passar por vários perrengues e dar conta do
recado.

Saio do banheiro já com a caneta e o bloco de notas em mãos para


atender às mesas, aqui é preciso ser rápida para não deixar os clientes
esperando muito tempo.

— Você está bem, amiga? Parece que vai cair dura a qualquer
momento. — Michelle coloca a mão na minha testa para ver se estou com
febre, ela sempre acha que estou doente.

Olho para um lado e para o outro, a nossa patroa sumiu, deve estar
atormentando algum dos funcionários da cozinha.

— Eu estou sim, Miche, só está muito calor hoje. — Sorrio para a


minha amiga.

— Está mesmo, bebê, ainda bem que amanhã é sábado e você está de

folga. Uhull!

Ainda bem mesmo, quero dormir até mais tarde abraçada com o meu
filho, comer o que achar na geladeira e depois voltar a dormir. Por muita
sorte, foi feito um sorteio para ver quem pegaria os finais de semana de folga

desse mês e eu e a Vandinha Adams fomos as premiadas. O povo reclamou


um pouco por eu começar no serviço já com privilégios. Mas sorteio é sorteio
e ponto final.

Eles que lutem!

— Vou hibernar durante o dia todo em casa com o meu filhote, fazendo
programas caseiros de mãe e filho. — Dou um beijinho no ombro.

— Isso aí, garota, agora vai lá atender as mesas antes que a chefona
apareça dando show. — Bate na minha bunda e vai buscar os pedidos na

cozinha, cantando uma música em inglês tudo errado e desafinado.

Giro o corpo rindo e não vejo que Vandinha Adams está vindo com
uma bandeja na mão e coloca o pé bem na minha frente de propósito para eu
cair, mas não chego a ir ao chão.

— Peguei você. — Não sei o que me deixou mais atordoada, se foi a


voz grossa ou os braços fortes que me cataram no ar e puxaram contra o seu
peito.

— Tire suas mãos de mim! — exijo e ele me solta e se afasta. Primeira

vez que faz o que eu peço sem reclamar. — O que você está fazendo aqui,
Léo? Pensei que não quisesse passar nem perto do restaurante que eu
trabalho.

— Os planos mudam, Boneca. — Me puxa mais para si e me abraça, o

que há de errado com esse homem? Está mais estranho que o normal.

E o que é essa história de me chamar de boneca? Sempre me chama de


patricinha medita, garota idiota, burra, entre outros apelidos rudes.

— Você está bem, Léo? Parece agitado. Os olhos vermelhos com as


pupilas dilatadas. — Tento analisá-lo melhor, mas trinca o maxilar e se
esquiva.

— Estou bem, Boneca, só trabalhei muito na noite passada. — Funga e


passa a mão no nariz.

— Será que pode parar de me chamar de Boneca, por favor? Isso está
me irritando.

— Eu tive que pensar em outro apelido, patricinha metida não combina


mais com você. — Estica a mão para tocar o meu rosto, mas eu a empurro
antes que seus dedos consigam tocar a minha pele.

— O que você quer aqui, Léo? Fala logo e vai embora.


— Preciso falar com você, mas tem que ser em particular e tem que ser
agora. — Estreito os olhos.

O que esse cara está aprontando agora? Seja o que for não vai rolar, não
caio mais nos seus truques.

— Não posso, hoje o restaurante está lotado. — Tento ir embora, mas


ele me segura pela cintura.

— Por favor, Daniele. É muito importante — implora.

Isso mesmo, implora.

Nunca pensei que veria o poderoso Léo fazer isso um dia, quase se
humilhando para falar comigo. Até fiquei curiosa agora.

— Está bem, Léo. Mas agora eu realmente não posso, se a minha chefe
me vê falando com você serei demitida — explico, mas o homem não me
solta, parece determinado a conseguir o que quer.

— Ok. Então quando você pode? Eu espero o tempo que for preciso.
Mas tem que ser hoje.

— Só posso depois do trabalho, mas falta muito para fechar o meu


horário. Então é melhor conversarmos outro dia.

— Tudo bem, eu espero. — Sai do restaurante e fica do lado de fora


feito uma estátua humana em frente à janela panorâmica com visão de todo o
salão; cruza os braços e me encara através do vidro.
— Mas o que deu nesse homem? — me pergunto em voz alta.

— Boa pergunta, amiga, ele está te perseguindo? Qualquer coisa vou lá

e boto pra correr. — Michelle termina de servir uma mesa correndo, quase
arremessando os pratos sobre os clientes.

Não perde tempo e vem até mim com a badeja debaixo do braço, doida
para saber mais informações.

— Eu conheço ele, não é ninguém importante. — Evito olhar na


direção do Léo, continuo a recolher os pratos de uma mesa que acabou de ser
liberada.

— Importante não sei, mas gostoso com certeza! — Acena para ele,
Michelle não pode ver um par de calças que fica toda ouriçada.

— Vai trabalhar, mulher! — Ela resmunga um pouco, mas vai.

O primeiro grupo de funcionários da nova indústria chega para

almoçar, é tanta gente que mal dá para acomodar todo mundo. Eles são
sempre muito gentis, chamam os garçons pelo nome e dão ótimas gorjetas.
Os pedidos começam e vira aquela correria como em todos os dias nesse
horário. Tento esquecer da presença do Léo. Uma hora ele desiste e vai
embora.

Me concentro em servir às mesas, uma atrás da outra, sem parar. Esse


grupo termina horário de almoço e volta para a fábrica para liberar o restante
do pessoal para vir almoçar. Nesse meio tempo limpamos as mesas; quando
chegam, dez minutos depois, está tudo organizado para recebê-los. Graças ao

meu bondoso Deus, hoje não quebrei ou derrubei nada em ninguém.

Já estou me acostumando a essa correria toda e já conquistei a amizade


de quase todos os funcionários, são todos gente boa. Menos a Vandinha
Adams, essa eu tenho ranço.

— Ei, Terezinha, cadê o leitão assado que me prometeu de presente de


aniversário? — O dono da fábrica pergunta em tom de divertimento, faz
questão de almoçar junto com os seus empregados.

Sempre muito gentil e atenciosos com todos, parece um bom homem.

— Nosso chefe acabou de avisar que ficou pronto, vou pedir para
servirem, só um minuto. — Minha chefe olha na minha direção, tento sair de
fininho.

Já é muito difícil para uma pessoa vegetariana trabalhar em um

restaurante com churrascaria e ver os clientes devorando todo tipo de carne o


tempo todo, imagina ter que servir um filhotinho de porco tão lindinho assado
com uma maçã na boca. É demais para mim. Se me conheço bem, vou chorar
tanto de dó do bicho, é bem capaz de ele criar vida e sair correndo.

— Vem aqui, Daniele Flores, antes que eu perca minha paciência de


vez com você.
— Por favor, dona Tereza, peça para outra pessoa servir esse leitão
assado. Eu sou defensora dos animais. — Me aproximo dela com cautela.

Tento não reparar demais no seu modelito de hoje, que, pela nossa
senhora do bom gosto! Esse vestido balonè laranja dela a deixou parecendo
uma abóbora ambulante.

— Mas é claro que não! Acha que não te vi chorando escondido aquele

dia por causa dos caranguejos que aquele casal de turcos pediu para serem
servidos vivos? — Assinto.

Meus olhos enchem de lágrimas só de lembrar daqueles turcos dos


infernos arrancando as patas dos pobres bichinhos com os dentes e eles se
debatendo pedindo socorro.

— Então o que a senhora deseja?

— Será que pode ir lá fora pedir para o seu namoradinho ir embora?


Ele me disse que é pai do seu filho. — Arregalo os olhos, depois de tanto

tempo não esperava que Léo ainda estivesse lá à minha espera.

Sendo sincera, tinha até me esquecido da sua existência.

— Ele não é pai de verdade do meu filho, mas é complicado demais


explicar — suspiro impaciente, quem esse babaca pensa que é para sair
espalhando por aí que é pai do Marcelo, se já o dispensei do trabalho?

Já virei a página e coloquei um ponto final nessa história, até convenci


o Marcelo que o pai foi para uma viagem longa de trabalho e não sei quando
volta. Quero Léo longe de nossas vidas de uma vez por todas.

— Tanto faz, garota! O fato é que ele está assustando os clientes parado
lá fora feito um maníaco. Já disse para ele sair, mas deixou bem claro que não
vai dar um passo até falar com você. — Aponta o dedo na minha cara, mas
dessa vez não tenho culpa de nada.

— Eu já falei para ele que só posso depois do trabalho, se quer esperar


assim mesmo o problema é dele, não meu. Se a senhora está tão incomodada
com isso chame a polícia, eu não me importo. — Cruzo os braços, chega
disso do Léo achar que é o dono do mundo e pode fazer o que quiser sem
haver consequências.

Não estou nem aí se for preso, um tempo enjaulado vai fazer bem para
o seu ego. Pelo menos vai me deixar em paz.

— Sei. Tanta raiva assim para você que acredita que o mundo é cor-de-

rosa, só pode ter paixão envolvida nessa história. — Solta uma risada,
continuo séria.

— Era só isso, senhora?

— Não, vai trabalhar porque as mesas não vão se servir sozinhas. —


Dá o recado e se vai rebolando, joga o cabelo para o lado toda metida se
achando a Beyoncé.
Só que com um mau gosto terrível para roupas, soberba e uns quilinhos
a mais.

Assim o dia segue dentro da normalidade. Como no finalzinho da tarde


as coisas ficam tranquilas, sempre aproveito meu tempo livre para ajudar o
Pablo na pia de pratos sujos. Provei na pele o quanto é difícil passar o dia
todo em pé nessa função, então faço questão de dar uma mão para o garoto.

— Eu vou fazer dezoito anos, mas não vou terminar essa disgraça!
Parece que sujaram todos os pratos desse restaurante de uma vez só —
dramatiza Pablo, falando sozinho.

Que judiação, hoje o restaurante lotou mais que o normal mesmo.

— Ainda bem que você tem a mim para te ajudar, moleque. — Dou um
tapa na sua nuca, ele leva um susto danado, não tinha me visto chegar.

Ele tem dezessete anos, mas deve ter um e noventa de altura. É


contratado do restaurante como jovem-aprendiz.

— Obrigada, baixinha! Você é a melhor, Dani. — Joga o avental na


minha cara.

Eu não gostava desse moleque quando cheguei, achava meio abusado.


Mas depois de passarmos horas lavando pratos sujos juntos, deu para
conhecer um pouco sobre a vida dele e ele da minha. Nos tornamos amigos,
ele é muito engraçado e carismático. Um lutador contra a sua dura realidade.
Pablo é morador da Favela da Rocinha, estuda na parte da manhã e
pega vários ônibus para vir trabalhar aqui no centro. Me explicou que todos

da sua família começam a trabalhar muito cedo para ajudar em casa. Apesar
das dificuldades, parecem bastante unidos.

— Pode falar a verdade, Pablito, você ama quando eu venho te ajudar


só para desfrutar da minha agradável presença. — Encosto o meu ombro no

braço dele.

Coloco as luvas, pego a esponja e coloco mãos à obra. Me junto ao


Pablo na pia gigante de louça suja.

— Sendo sincero, quando você chegou pensei: “essa garota deve ser
muito metida e chata pra cacete”, mas aí te conheci melhor e percebi que
estava certo — brinca, pego a mangueira que usamos para tirar o sabão e jogo
água nele.

— Para de falar besteira e vai trabalhar, seu bobo, não quero ir embora

muito tarde hoje porque estou louca para ver o meu filho lindo.

— Quando vai trazê-lo aqui no restaurante? Depois de ouvir você falar


tanto na sua cria, faço questão de conhecer o menor.

— Não sei se a chefona deixaria eu trazer o Marcelinho aqui, Pablo,


mas sinta-se convidado para a festa surpresa de aniversário antecipado que
estou planejando fazer assim que colocar as minhas contas em dia.
— Então não vai ser nunca, né, querida? Aprenda uma coisa muito
importante sobre ser pobre, Daniele, sempre estamos devendo um boleto ou

dois, no mínimo. — Ele ri de um jeito muito engraçado, acabo rindo também.

Estou ansiosa para ver qual será a expressão do meu filho quando vir a
festa à fantasia surpresa com o tema de super-heróis que quero fazer para ele.
Uma vez ele me contou que nunca teve ou foi em uma festa de aniversário na

vida.

— Sério mesmo, Pablo, que você também já se rendeu ao charme da


Barbie? — Além da indireta, Vandinha Adams trouxe mais uma pilha de
louça suja para nós lavarmos.

— Vai cuidar da sua vida, Marta. Larga de ser chata e deixa a gente em
paz — Pablo responde à altura, ela até responde alguma coisa, mas não
escutamos porque voltamos à nossa conversa animada.

Mesmo ajudando o Pablo levamos um tempão para deixar tudo

brilhando, para piorar começa a chover forte. Todos os outros funcionários já


foram embora, até a gerente, só restamos eu e ele, ainda bem que tem uma
chave-reserva para o caso de alguém precisar trabalhar até mais tarde.

— Falta só levar o lixo para fora e finalizamos, Dani. — Ergue as mãos


para o céu como se estivesse agradecendo a Deus.

— Tudo bem, pode ir embora, moleque, você mora mais longe do que
eu. Com essa chuva pesada os ônibus podem atrasar, então vai logo. Eu fecho
o restaurante, além do mais, amanhã estou de folga mesmo. — Elevo os

cantos da boca e mostro todos os dentes.

— Você é melhor colega de trabalho do mundo, mulher! — Beija a


minha bochecha e sai saltitando pegar a sua mochila e vai embora, feliz da
vida.

— É incrível como pequenos gestos podem trazer grande felicidade


para alguém, tanto para quem faz quanto para quem recebe — digo para mim
mesma.

Levo o lixo para fora, volto para dentro e confiro se todas as janelas e
portas estão trancadas. A porta da frente é automática e só digitando os
números do alarme de segurança que as trancas são ativadas.

— Vou deixar para trocar o uniforme em casa, essa chuva está ficando
mais forte. — Pego a minha bolsa no vestiário e apresso o passo em direção à

saída. Vou apagando as luzes pelo caminho.

Cato o meu celular na bolsa para conferir as mensagens recebidas


durante o dia, é proibido usar durante o horário de trabalho. Distraída,
mexendo no aparelho ao passar no escuro entre as mesas, escuto o som
gostoso da chuva caindo lá fora. Levo um tremendo susto quando cai um
relâmpago e a energia acaba. Um clarão brilha em volta do homem parado do
outro lado do vidro embaçado, lá fora, todo molhado e tremendo de frio
debaixo dessa chuva pesada.

Sem pensar duas vezes, solto minha bolsa, deixo o meu celular cair no
chão e saio correndo até o homem mais teimoso do mundo.

— Você ficou louco, Léo? Não tem medo de pegar uma pneumonia e
morrer? — Agarro a gola da sua jaqueta de couro, puxo para dentro do

restaurante e digito o código de tranca da porta, ele precisa sair desse frio ou
pode ficar hipotérmico.

— Meu maior medo é que nunca me perdoe, Daniele, tenho sido muito
cruel com você desde que te conheci. Por isso vim aqui para te pedir perdão
de joelhos, se for preciso. — Meu queixo cai e não é no sentido figurado da
palavra, tenho até medo desse seu arrependimento todo.

Mesmo assim me arrisco, guardar ódio no coração faz mal tanto para
quem odeia quanto para o odiado.

— Tudo bem, já passou. Só não entendo por que isso logo agora,
espero que não esteja aprontando mais uma vez pra me fazer de idiota. —
Permaneço distante e dura, ele não vai me enganar tão fácil dessa vez.

— O único idiota que tem aqui sou eu, conhecer você e o Marcelo foi
uma das melhores coisas que aconteceram na minha vida em muito tempo.

— Não ouse falar no nome do meu filho, você nunca mais vai colocar
os olhos nele. — Elevo o meu tom e ele recua.

Mesmo com a pouca claridade, percebo que fecha os punhos como se

tentasse controlar sua raiva e respira fundo antes de falar qualquer coisa.

— Eu não aceito, mas entendo a sua decisão. Mas me deixe pelo menos
me despedir do garoto. Não quero que pense que o abandonei — pede em um
tom brando e apaziguador, com a cabeça baixa.

— Melhor não, Léo, eu disse para o Marcelo que você teve que viajar
para bem longe por causa de um problema no trabalho. Para minha surpresa,
ele aceitou bem, nem chorou — minto em parte, Marcelo me pergunta o
tempo todo quando o pai vai voltar, mas não chegou a chorar de saudade
dele.

Mas sente muita falta dele que eu sei. Contudo, com o tempo vai acabar
esquecendo, a gente se acostuma com tudo nessa vida, até com um coração
partido.

— Você não pode fazer isso comigo, porra! Eu já pedi desculpa, o que
mais você quer? — se exalta, começa a esmurrar uma pilastra.

Tento controlá-lo antes que alguém escute e chame a polícia, aí a coisa


vai ficar feia para nós dois.

— Para com isso, Léo, por favor, você está me assustando. — Em um


ato de desespero em conter a raiva de um homem enorme e furioso, faço a
única coisa que posso fazer.

Abraço as suas costas, ele para no mesmo instante e fica em silêncio.

— Você não entende, não é mesmo? Não é o Marcelo que precisa do


meu amor de pai, sou eu que preciso do amor dele de filho — assume com
tanta dor que chega a doer em mim.

Fico tão surpresa que não perco a voz, jamais imaginei que o
Marcelinho tivesse um significado tão grande na vida desse ser humano com
um coração que até então pensava ser incapaz de se importar de verdade com
alguém, além dele mesmo.

— Você está chorando, Léo? — Giro seu corpo de frente para mim,
antes que eu possa olhar nos seus olhos ele me abraça bem forte.

Esconde o rosto na curva do meu pescoço e chora, um choro dolorido


que parece estar guardando há muito tempo, escondido dentro de si. Sendo
honesta, estou tão tocada com essa cena que nem me lembro mais por que

estava zangada com ele.

— Eu tenho tanto medo de nunca mais sentir isso novamente, faz muito
tempo que eu não sentia — sussurra.

— Sentir o quê? — indago.

— Isso. — Se afasta, pega a minha mão e coloca sobre o seu peito,


pode parecer loucura, mas é como se as batidas altas e aceleradas do seu
coração falassem comigo, cheias de vida e esperança.

Mas ao mesmo tempo cheio de melancolia e frieza, como se existissem

duas diferentes personalidades que habitam dentro dele e se alimentam de


sentimentos. Uma boa e a outra ruim, onde só permanecerá aquela que for
mais alimentada.

Pelo menos por hoje, farei a minha parte e alimentarei a que eu acredito

que deve prevalecer.

— Vem, eu vou cuidar de você, vamos para a cozinha. Você precisa


tirar essa roupa molhada e comer algo quente, não tem como ir embora agora
com essa tempestade lá fora. — Concorda e me acompanha, procuro minha
bolsa no chão e ilumino o caminho com a lanterna do meu celular.

Espero que essa chuva passe logo e possamos ir para a casa, sem
energia as torres de celular não funcionam e eu não posso mandar uma
mensagem para a Paula explicando o que aconteceu. Léo e eu estamos presos

aqui, no meio dessa tempestade e sem nenhum tipo de comunicação, nem


mesmo para pedir ajuda.
Dani

Pego algumas velas que vi no armário outro dia e as acendo sobre a


mesa da cozinha, uso a chama para acender algumas trempes do fogão a gás
para aquecer o ambiente.

— Tire suas roupas, vou no vestiário pegar algum uniforme reserva de


um dos meninos para você vestir. — Pego umas das velas e saio.

— Obrigado, Daniele.

— Não precisa agradecer, eu faria o mesmo por qualquer outra pessoa.


— Ouço seu suspiro desanimado.

Quando volto com um uniforme reserva que achei no armário do Pablo,


fico em choque quando encontro Léo à minha espera só de cueca box branca
transparente. Que corpo! Musculoso e tatuado, mas nada de exagero. Tudo na
medida certa.

Com esse físico e o volume privilegiado no meio das pernas moldado


pelo fino tecido branco, deve ter uma lista de clientes de quilômetros de
distância.
— Aqui está, vista-se, por favor. — Jogo as roupas na sua direção e
viro de costas, mas a vontade de continuar olhando é bem grande.

— Leônidas — diz e o meu coração dispara.

— O que você disse? — pergunto, acho que não ouvi direito.

— A história é um pouco engraçada. Minha mãe contava para todo

mundo que quando engravidou de mim e descobriu que seria um menino, ela
queria colocar o nome Leônidas, e o meu pai, Rafael. Para não ter briga
acabou ficando Leônidas Rafael. Mas só no papel, porque todos lá em casa só
me chamavam de León. — Dá de ombros.

— Eu gosto dos dois jeitos, combina com você. — Quando menos


espero, lá estou eu dando o braço a torcer sorrindo para o inimigo.

Mas que droga!

— Você é a primeira pessoa no Rio de Janeiro inteiro que sabe disso

agora, espero que seja boa em guardar segredo. — Viro de frente para ele,
que sorri tímido, totalmente exposto à minha frente e disposto a se abrir de
verdade comigo.

— Por que me contou isso? No contrato diz que não devo saber nada
sobre a sua vida — rebato.

— Acho que o contrato não tem mais valor agora, não é mesmo,
Daniele? Além do mais, outra regra mais importante foi quebrada há muito
tempo. A regra importante sobre não se apaixonar é bem clara. — Dá de
ombros.

O que ele quer dizer com isso? Mas que metido.

— Eu não me apaixonei por você, se é o que está insinuando, pode


ficar tranquilo. — Levo as mãos na cintura, afrontosa.

— Não estou falando de você, estou falando de mim. Não se apaixonar


nunca, essa é a minha regra mais importante no ramo da prostituição, que
venho seguindo à risca até... — Para no meio da frase, meu coração para de
bater junto.

— Até? — instigo que continue.

— Até que eu conheci o seu filho, Daniele. Eu estou completamente


apaixonado por ele, ser pai dele me faz querer ser uma boa pessoa. Por favor,
não me impeça de vê-lo.

— Eu não sei se acredito, Léo. Tenho medo que você o magoe assim
como fez comigo, nunca sei quando mente ou fala a verdade.

— O que eu posso fazer para você acreditar em mim?

— Quero saber toda a sua história, cada detalhe. De onde veio, sua
família e trabalho.

— Sem problemas, qual a primeira pergunta? — Sentamos na mesa um


de frente para o outro.
— Quantos anos você tem?

— 28.

— Seu sobrenome?

—Moura.

— De onde você é? Tem um leve sotaque de algum lugar que não

consigo identificar.

— Minas gerais. — Gostei, acho os homens mineiros os mais


charmosos e lindos do Brasil.

De quebra, a maioria cozinha muito bem e são românticos. Minha avó


sempre fala que a melhor culinária e os melhores partidos para montar uma
família só se encontram em Minas Gerais.

— Por que escolheu fazer parte do mundo da prostituição?

— Eu não escolhi esse mundo, Daniele, ele me escolheu. — Sua voz é

sombria.

— Como foi o seu primeiro programa?

— Essa história é muito longa — rosna.

— Essa chuva não vai parar tão cedo, então temos tempo de sobra, Léo.

— Certo! — Enfim, o homem abre a boca e começa a contar.

“Naquela época eu era muito novo, apenas dezessete anos e revoltado


com o mundo. Sem um centavo no bolso, vagando sozinho pelas ruas, prestes

a entrar no mundo do crime. Foi quando um carro preto com os vidros

escuros diminuiu a velocidade e começou a me seguir, o vidro escuro baixou


e uma mão com as unhas compridas pintadas de vermelho me chamou com o
dedo.

Curioso, me aproximei da janela e vi uma mulher loira na faixa dos

quarenta e poucos anos abanando o rosto com várias notas de cinquenta


reais. Sendo tão jovem, nunca tinha visto tanto dinheiro junto.

— Gostaria de dar uma voltinha comigo, querido? — convidou com a


voz manhosa e eu neguei com a cabeça.

Continuei andando.

Ela não fazia o meu tipo, não era muito bonita. O cabelo loiro
desbotado em um corte estranho curto atrás e longo na frente, a maquiagem
exagerada e a roupa social como se tivesse acabado de sair do trabalho.

— Certeza, garoto? Tem muito mais de onde veio esse dinheiro, seja
bonzinho comigo que eu serei com você — propôs e parou o carro, em
seguida destrancou a porta.

Fiquei assustado, mas precisava muito da grana. Então entrei.


Comecei a tremer amedrontado quando a mulher começou a alisar a minha
perna, o máximo que conhecia de uma mulher era das revistas que o meu pai
escondia da minha mãe na garagem.

— Gosta disso? — Começou a me masturbar por cima da calça,

inclinou em cima de mim e passou a língua no meu pescoço.

— Si...m — soltei em um gemido.

A essa altura aquela situação toda me seduziu, só queria me aliviar de

todo aquele hormônio adolescente e comer aquela maluca e ainda levar uma
boa grana.

— Vamos para a minha casa, lá ficaremos mais à vontade. — Meteu o


pé no acelerador, ela morava numa mansão.

Fizemos um sexo muito gostoso naquela noite, a mulher era experiente


no assunto. De manhã, eu a aconcheguei em meu ombro e ela me disse que o
seu nome era Valeria, começou a me contar sobre sua vida, angústias,
desilusões, planos futuros. Estava em processo de divórcio, havia sido traída.
E eu sempre fui bom ouvinte.

Valeria não dormiu comigo apenas por prazer, queria voltar a se sentir
viva.

Desejada.

Ela gostou tanto da minha companhia que me pagou mil reais pela
noite e pediu meu celular. Foi tudo muito de repente. Num instante, eu estava
andando sem rumo na vida; pouco depois tinha perdido minha virgindade
com uma estranha boa de cama e ainda fui bem pago por isso.

De certa forma, eu e a Valeria criamos um vínculo. Ela me ligava

periodicamente e sempre me pagava cada vez mais. Com o tempo, foi me


indicando para amigas, a maioria casadas e na mesma faixa etária, 30 a 40
e poucos anos.

Quando dei por mim, já era um GP (sigla usada para Garotos de

Programa) conhecido, com uma clientela fixa na zona sul do Rio. Mas nem
tudo é tão fácil quanto parece. Os ganhos podem ser altos e sedutores nessa
profissão, mas em onze anos de carreira já passei por muitos perrengues.
Nem vale a pena citar todos. Os mais comuns são clientes apaixonadas,
ciumentas, possessivas e psicopatas. Já ouvi histórias de GPs que tiveram
suas vidas infernizadas, perderam namoradas ou até mesmo a vida.

— Por isso a maior regra entre os GPs é nunca se envolver


sentimentalmente com uma cliente. Mas às vezes simplesmente acontece,

existe sempre uma em um milhão que é impossível de resistir. — Olha no


fundo dos meus olhos e eu engulo em seco, corada.

— Que droga, Léo, apenas dezessete anos? — Massageio as têmporas,


pensar que ele passou os melhores anos da sua vida correndo os perigos dessa
profissão incerta é triste.

— Sim, mas nessa época, apesar de muito jovem, as minhas


responsabilidades eram as de um adulto.

— Tinha que ganhar dinheiro para ajudar a sua família, Léo?

— Eu não tenho ninguém, Daniele. — Endurece o tom, acho que pisei


em um território proibido.

— Você é órfão então?

— Não! Eu tive uma infância incrível, morava em uma fazenda enorme


em Minas gerais com os meus pais e uma irmã de doze anos. Éramos tão
felizes. — Aperta os olhos e balança a cabeça.

— Deve ser incrível crescer em meio à natureza, sua infância deve ter
sido mágica.

— Foi mesmo, meus pais eram carinhosos e se amavam muito. Achava


graça quando meu pai chamava minha mãe de Boneca, era ridículo e ao
mesmo tempo tão romântico. Eu sempre pensava que quando tivesse a minha

garota, eu a chamaria do mesmo jeito — conclui descontraído, depois de


jogar a indireta na minha cara.

Ainda bem que a iluminação produzida pelas chamas das velas é baixa,
porque eu devo estar muito vermelha nesse momento. Léo me deu o mesmo
apelido que o pai deu à mãe, que fofo da sua parte.

— Me fala mais sobre os seus pais, eles ainda moram em Minas


Gerais? — Finjo que a sua investida passou despercebida.
— Não. Nossa vida virou de cabeça para baixo quando a minha mãe
ficou doente. — Engole um soluço, lutando contra as lágrimas.

Cubro sua mão com a minha sobre a mesa, se for o que eu estou
pensando ele vai precisar de força para continuar contando.

— Ela tinha câncer, não é? — indago.

— Sim, leucemia igual ao Marcelo. Meu pai fez de tudo para salvá-la,
pegou vários empréstimos no banco e hipotecou a nossa fazenda. Mas foi
tudo foi em vão, em menos de um ano a melhor mãe e esposa que alguém
possa ter se foi.

— Oh, Léo, eu sinto muito — me compadeço vendo o seu sofrimento,


suas feições estão marcadas pelas linhas do tormento.

— Isso foi só o começo do fim, Daniele. Pouco tempo depois minha


irmã ficou doente, e adivinha? Ela também teve o mesmo tipo de câncer. Nós
não tínhamos mais dinheiro para o tratamento e a nossa fazenda estava para

ser tomada pelo banco a qualquer momento.

— Quanto sofrimento, Senhor! Imagino como deve ter sido difícil


receber essa notícia, e ainda nem tinha se curado do luto pela perda da sua
mãe.

— Foi muito tenso, tivemos que vender toda a colheita de café que era
para pagar a hipoteca da fazenda para dar início ao tratamento da minha irmã
aqui no hospital do Rio de Janeiro, o mesmo onde minha mãe morreu e que o
Marcelinho ficou no dia que sofreu o acidente.

— Deve ter sido muito difícil para você voltar naquele lugar, Léo.

— Foi demais, a dor parecia a mesma da última vez que estive lá. Eu
jurei que nunca mais voltaria naquele maldito hospital, perdi toda a minha
família lá. — Lágrimas silenciosas correm pelo seu rosto, é impossível contê-

las.

— Como assim todos, Léo? Seu pai também ficou doente?

— Não, pior do que isso. No dia em que o médico deu a notícia que o
tratamento não estava dando resultado e que as chances da minha irmã
sobreviver eram muito poucas, transtornado, meu pai deixou o médico
falando sozinho e desapareceu. — Baixa o olhar e suas mãos começam a
tremer, acho que está revivendo uma cena muito horrível.

Nem quero mais saber o final dessa história, sei que eu não vou gostar

nadinha. Mas sinto que precisa desabafar, então deixo que coloque tudo para
fora.

— O seu pai não voltou mais naquele dia?

— Ele nunca mais voltou. Fui eu, Daniele, eu que o encontrei


pendurado com o próprio cinto no banheiro do hospital, ele havia se matado.
— Não aguentei mais, dei a volta na mesa e o abracei bem forte, preciso tocá-
lo para que sinta o quanto estou devastada por ele ter passado por tanta
tragédia nessa merda de vida.

Algumas pessoas parecem vir a esse mundo predestinadas a sofrer, o


que eu vivi não chega nem perto do que esse homem passou. Agora entendo
muita coisa, principalmente esse medo todo do Léo disfarçado de frieza para
não deixar que as pessoas se aproximem dele, fere para não ser ferido.

— Sei que o meu abraço não vai fazer sua dor passar, mas espero que
lhe traga um pouco de conforto. — Ele me puxa para o seu colo e
permanecemos assim por um bom tempo, abraçados como se não existisse
mais nada lá fora.

Somos só eu e ele.

— Você teria amado a Marcela, minha irmã sabia ser engraçada,


mesmo quase sem forças depois das quimioterapias. — Dá um sorriso triste.

— O nome da sua irmã era Marcela? Que coincidência — fico

impressionada.

— Ela era tão inteligente e madura, assim como o Marcelinho. Quando


contei que o papai havia ido ficar junto com a mamãe, disse que estava tudo
bem, pois em breve se juntaria a eles.

— Deve ser a coisa mais triste para se ouvir de uma irmãzinha, imagino
como você a amava.
— Marcela era a minha vida. Tudo de bom que existia em mim se foi
junto com ela. Eu que deveria ter morrido no seu lugar. — Um músculo da

sua mandíbula se contrai e o olhar se torna perdido, seguro o seu rosto entre
as minhas mãos e o obrigo a me encarar nos olhos.

— Você já tentou acabar com a sua própria vida alguma vez, Léo?

— Mais vezes do que você possa contar, Daniele. — Afasta as

pulseiras de couro que usa nos pulsos e mostra as cicatrizes, profundas e mais
escuras que o tom da sua pele.

— Essas cicatrizes são da última vez que tentou?

— Não, a última vez que tentei me matar foi na última virada de Ano
Novo, foi a Paula que me encontrou e levou para o hospital. Me fez prometer
que nunca mais faria essa merda, chora até hoje quando toca no assunto. —
Começo a chorar só de pensar o que poderia ter acontecido se Paula não
tivesse chegado a tempo.

Léo é mais importante na minha vida do que pensei. Seu coração ferido
só faz com que eu me apaixone ainda mais por ele.

Leônidas Rafael Moura é um sobrevivente da maior cilada de todas


chamada destino.

— Não chore por mim, meu anjo, eu não mereço suas lágrimas. Eu não
presto. Nem estava ao lado da minha irmã quando ela morreu, duas semanas
antes do tempo previsto pelo médico.

— Como soube que ela havia partido?

— Quando cheguei ao hospital para visitá-la com flores e um urso de


pelúcia gigante, entrei no seu quarto com um sorriso enorme, mas a cama da
minha menininha estava vazia. Caí de joelhos e chorei por não segurar a sua
mão no seu último suspiro. Nunca vou me perdoar por isso.

— Que triste, Léo, mas tenho certeza de que ela sabia o quanto a amava
e tinha orgulho de ser sua irmã — tento confortá-lo.

— Não sentiria se soubesse que eu estava com uma cliente enquanto


ela morria, sozinha. Mas eu precisava fazer muita grana e rápido, tinha que
pagar a conta do hospital e não era barato. Não me orgulho de onde vinha o
dinheiro, mas também não me arrependo.

— Você não era perfeito, Léo. Ninguém é. Fez o melhor que pôde pela
sua irmã e precisa se perdoar por não ter conseguido se despedir dela, sei que

isso é muito triste. Mas continuar remoendo isso não vai te levar a nada, se
matar também não vai resolver nada. — Enxugo seu rosto, não quero que
chore mais, me destrói vê-lo nesse estado.

— Não tenho mais desejos suicidas desde que conheci você e o seu
filho, na verdade, nunca me senti tão vivo igual eu me sinto do seu lado. —
Depois dessa, encerro nossa conversa com um beijo, só quero fazer sua dor
passar.

Logo o beijo se intensifica. Léo fica de pé, me coloca sentada em cima

da mesa e se enfia entre as minhas pernas, enlaço seu corpo cruzando-as em


volta do seu corpo e me entrego a esse momento de redenção.

Ele vai me deitando sobre a tábua de madeira. Tomado pelo desejo,


começa a desabotoar os botões do meu uniforme.

— Deus! Como eu sou viciada no seu cheiro, Leônidas Rafael. Senti


tanta falta dele — admito enquanto ele devora o meu pescoço entre mordidas
e chupões.

— Você é toda viciante, Daniele Flores — solta em um rosnado de


puro tesão e aperta o meu seio, desce a mão, enfia debaixo do vestido e me
toca por cima do tecido fino da calcinha.

— Acho melhor irmos com calma, Léo. Pensando melhor, não quero
que isso aconteça assim no calor do momento em cima de uma mesa —

travo.

— Você está certa, Boneca, me desculpa. — Se afasta em um pulo, mas


posso ver o volume enorme que se formou debaixo da sua calça.

— Eu vou fazer uma sopa quente para você tomar, ficou muito tempo
parado lá fora no frio. — Me levanto e abro os armários para ver o que
encontro, tem tanta coisa que estou um pouco perdida.
— De lentilha não, por favor — brinca.

— Você vai amar minha sopa de lentilha, querido, tenho certeza. —

Pego as suas roupas molhadas e coloco para secar atrás da geladeira, daqui
algumas horas já devem estar secas.

Michelle que me ensinou esse truque para quando lembrar de lavar o


meu uniforme em cima da hora, é tiro e queda.

— Se você está dizendo, eu acredito. — Sorri, parece mais leve agora.

Faço a sopa de lentilhas e ele é obrigado a assumir que gostou,


conversamos mais um pouco e a chuva ainda cai lá fora. Lavamos os pratos e
resolvemos deitar um pouco na cama da sala de descanso dos funcionários,
muitos vêm de longe para trabalhar e gostam de dormir no seu horário de
intervalo.

Deitamos em posição de conchinha, fico rindo feito uma boba quando


Léo segura a minha mão e entrelaça os dedos em meio aos meus e acabamos

dormindo com o calor dos nossos corpos misturados.

— Caramba, Léo, acorda! Já amanheceu e daqui a pouco vão abrir o


restaurante, se nos pegarem aqui eu vou ser demitida. — O preguiçoso só
resmunga e vira para o outro lado, corro na cozinha e arranco suas roupas de
trás da geladeira.

— Anda logo, homem, levanta e se veste. — O sacudo até abrir os


olhos, depois que acorda rapidamente coloca sua roupa.

Ouço vozes se aproximando, pego minha bolsa e, feito dois fugitivos,

saímos depressa pela porta dos fundos. Mesmo já do lado de fora


continuamos correndo de mãos dadas e rindo rua afora. Por um segundo, olho
para o lado e encontro um Léo totalmente diferente daquele sombrio de
ontem, preso ao passado.

Seu cabelo cai sobre o rosto enquanto corre, seu sorriso é leve e
divertido. Encantador. Em determinado momento, me cata pela cintura e me
arrasta para um beco.

— Vem aqui, Boneca. — Rouba um beijo, depois outro e mais outro.

— Agora está bom, Léo, preciso ir para casa. Paula deve estar
desesperada porque não cheguei até agora, também estou com saudades do
meu filho. — Ajeito minha roupa, ele me deixou toda desalinhada.

— Eu também estou com saudades do garoto, tudo bem se eu te

acompanhar até em casa?

— Claro que pode, mas eu vou de ônibus, o ponto fica aqui perto.

— Sem problemas, vai ser uma honra andar de ônibus com você. —
Segura a minha mão e caminhamos lado a lado, como dois namorados de
verdade.

Entramos no ônibus vazio, podemos sentar juntos. Contudo, de repente


todas as cadeiras ficam ocupadas. Uma senhora entra e me surpreendo
quando Léo, cavalheiro, rapidamente se levanta para ela se sentar.

É como dizem por aí, a gentileza gosta de surpreender vindo de quem a


gente menos espera.

Chegamos e vamos direto pegar o Marcelo, minha vizinha deve estar


desesperada sem notícias minhas. Resolvemos não mandar mensagens pelo

caminho para fazer surpresa. Paula atende à porta de camisola preta e a cara
toda amassada e o que restou da maquiagem do trabalho.

— Mas vocês dois não escutam uma palavra do que eu disse sobre não
se apaixonar, não é mesmo? — Olha feio para nossas mãos agarradas uma na
outra, mas logo abre um sorriso.

— Sabia que você ia ficar feliz, sua vaca! — brinco com ela.

— Eu estou mesmo, foda-se o resto. Quero que os dois sejam felizes.


Mas se magoar a minha amiga, Léo, eu te castro. — Abraça nós dois ao

mesmo tempo, estou feliz que temos a benção dela.

Paula nos convidou para entrar. Como as crianças ainda estão dormindo
fomos acordá-las. Marcelo quase chorou de alegria quando viu o pai.
Acabamos ficando para o café da manhã, sentamos todos na mesa juntos e
fizemos o nosso desjejum em meio a risos e conversas sobre coisas bobas do
dia a dia.
Percebi que às vezes Léo olha para o rosto de cada um de nós com um
sorriso de canto, como que pensando:

“Eu não estou mais sozinho.”


Dani

Depois do café da manhã, Léo precisa ir embora porque precisa


resolver algumas coisas importantes. Se despede do Marcelo jogando-o para
cima, quase me matando do coração de susto, enquanto o menino dá
gargalhadas.

— Eu volto para ver vocês assim que der, tenta não sentir muitas
saudades até lá, ok? — diz com a voz grossa.

— Combinado então, Leãozinho. — Bagunço a sua cabeleira.

— Leãozinho? — Eleva a sobrancelha, não muito satisfeito com o

apelido.

— Se eu sou a sua Boneca, você é o meu Leãozinho, uai — uso uma


gíria mineira que ele deve conhecer muito bem.

— Justo! — Me beija de maneira discreta e vai embora levando o meu


coração junto com ele.

— Muito obrigada pelo café da manhã, Paula. — Pego o Marcelo e


vamos para a casa antes que a minha vizinha comece a fazer mil perguntas

sobre a noite passada, agora tudo o que preciso é de um banho quente e cama.

No entanto, não adianta tentar fugir dessa mulher. Por volta da hora do
almoço ela bate na minha porta com a filha e convida para irmos às compras.
Diz que tenho bom gosto e quer minha ajuda para comprar uma roupa
especial, porque vai ter um encontro de verdade e não como prostituta. Me

contou que conheceu um cara legal na fila do caixa do supermercado,


trocaram números e ele acabou convidando-a para sair amanhã à noite. Está
eufórica.

Primeiro passamos em uma sorveteria a pedido das crianças, como sei


que o Walter ama sorvete o levei conosco, é claro. Arrumei meu pinscher
todo lindo com uma camisa social branca e gravata vermelha. Não tenho
dado muita atenção para ele, coitadinho, tenho medo de virar um cão
depressivo passando tanto tempo em casa sozinho.

— Então, Paula, me conta mais sobre o cara com quem vai sair hoje.
Estou curiosa. — Chego para mais perto dela no banco, pareço uma criança
curiosa.

Enquanto isso as crianças estão deixando a coitada da moça da


sorveteria louca pedindo vários sabores diferentes de uma vez só, eu me
contentei apenas com o de morango e Paula, de baunilha.
— Não tem muito o que contar, já te falei tudo. Ele estava atrás de mim
na fila do supermercado, deixei minha carteira cair e baixamos para pegar no

mesmo momento. Nossas cabeças se colidiram, foi algo casual e divertido.


— Mexe seu sorvete no potinho com a colher de plástico azul de um lado
para o outro, suspira profundo e sorri torto.

— Quando foi a última vez que teve um encontro que não foi de

trabalho, amiga? — Desvia o olhar e os lábios tremem.

— Para ser sincera, eu não me lembro. O pai da Maria não gostava


muito de sair — sibila tentando parecer que isso não a afeta, mas nós duas
sabemos que sim.

Deixo meu sorvete debaixo da mesa para o Walter, sentado todo


comportado como um bom menino, quero abraçar minha amiga querida.
Paula é orgulhosa demais para chorar na minha frente, mas está com vontade.

Gosta de bancar a durona, mas é uma mulher como qualquer outra, que

sonha em ser amada e respeitada.

— Então precisamos comprar uma roupa babadeira para o seu primeiro


encontro, conheço um lugar perfeito para isso. — Fico de pé, vou deixar essa
mulher igual a uma rainha para hoje à noite.

Levo Paula numa tradicional butique em um shopping que amo, todo


final de semana costumava fazer compras com a minha mãe em pelo menos a
metade das lojas do local. Sinto falta do tempo que passávamos juntas.

— Que prazer te ver na nossa loja, Daniele. — Cumprimento o senhor

Carlos, o dono da butique.

Um senhor baixinho com mais de sessenta anos que faz questão de


atender pessoalmente os clientes mais antigos, com toda atenção e respeito.
Sempre muito elegante, camisa branca social impecável debaixo do suéter

vinho e os sapatos mais bem engraxados que já vi.

— O prazer é todo meu, senhor Carlos. Lembra do Walter? — Meu


bebê coloca a cabeça para fora da minha bolsa.

— Ah! Como eu poderia esquecer do Walter? O cão mais boa pinta que
conheço. — Faz carinho no pelo marrom, o cãozinho fica todo cheio de graça
e balança as orelhinhas para ele.

Sinto-me emocionada por ter Walter em minha vida, é o único membro


da minha família que não me abandonou.

— E esse rapazinho aqui é o meu filho, ele não é lindo?

— Seu filho? — Franze o cenho, confuso.

Eu era só uma jovem consumista com uma mãe maluca e um cartão de


crédito sem limites quando vinha aqui.

— Ele é adotado, senhor Carlos.


— Ah, que atitude linda, minha filha. — Passa a mão na cabeça do
Marcelo. — Olá, rapazinho, qual o seu nome? — Inclina para ficar da altura

dele.

— Olá, meu nome é Marcelo e tenho cinco anos. Aquela é a minha


amiga Maria e a mãe dela, a tia Paula. — Aponta para a coleguinha de mãos
dadas com a mãe do lado de fora da boutique, a teimosa achou o lugar chique

demais para ela e a filha.

Paula nunca entrou em um lugar tão luxuoso como esse antes e ficou
com medo que façam com ela igual ao filme “Uma linda mulher”, onde a
personagem também é garota de programa e foi humilhada quando entrou em
uma boutique, mas aqui é a vida real, e eu nunca iria trazer ela e a filha em
um lugar onde não teria certeza que seriam bem tratadas.

Por isso vim aqui dentro pedir reforço para o dono da loja ir me ajudar
com a minha amiga cabeça dura, ele vai saber achar o que ela precisa para

arrasar no encontro.

— Minha nossa, que menino lindo e educado, parece com o juiz Flores.
Ele e toda a sua família devem estar surtando de alegria com essa criança. —
Tira um monte de balas do bolso e dá para ele.

— Ah, com certeza eles estão, principalmente os meus pais. — Mostro


os dentes em um sorriso falso.
— Mas me diga, Daniele, no que posso te ajudar, senhorita?

— Aquela moça sem jeito lá fora precisa de ajuda para escolher a roupa

perfeita para o primeiro encontro, algo sensual, mas sem ser vulgar. Num
preço justo, é claro.

— Deixa comigo, querida! — Senhor Artur vai até Paula, educado, e as


convida para entrar, dando a elas o máximo de atenção possível, como um

guia.

Resolvo esperar por elas sentada com Marcelo na sala de espera do


provador, incomodada com o fato de o Walter estar agitado dentro da minha
bolsa.

— O que foi, meu amor, está muito calor aí dentro? — Cometo o erro
de tirá-lo e colocar no colo, ele começa a latir sem parar chamando a atenção
de todo mundo.

— Deixa eu segurar ele, mãe? Acho que quer brincar.

— Não, Marcelo! — grito, mas é tarde.

Marcelo tenta pegar o Walter, mas o cão levado consegue pular no chão
e sai correndo para fora da loja, parece estar à procura de alguma coisa.
Nunca fugiu de mim antes.

— Pode deixar, mãe, eu trago ele de volta. — Marcelo corre atrás do


Walter, e eu corro atrás dos dois dentro do shopping.
— Parem esse cachorro, por favor! — peço aos berros enquanto Walter
sobe a escada rolante pulando os degraus, parece determinado a encontrar

algo.

Consigo alcançar Marcelo fácil, ele não aguenta correr muito e fica sem
ar.

— Você está bem, filho?

— Sim, mãe, o Walter entrou lá — sibila ofegante e aponta para uma


loja de luxo no segundo andar, pego meu filho pela mão e vamos atrás do
nosso cão.

Ah, mas quando eu pegar esse pinscher, vou deixá-lo de castigo por um
mês. Assim que entro vejo a ponta do rabinho indo direto na loja mais cara de
roupa de gala que tem no estabelecimento, isso é muito a cara dele.

— Pegamos ele, Marcelo, entrou no provador. — Puxo a cortina


entreaberta do provador e levo um susto com o que vejo.

— Daniele? — Marcelo se assusta com a voz elevada e se esconde


atrás das minhas pernas, enquanto Walter lambe o pelo todo à vontade no
colo da pessoa.

— Pensei que ainda estava isolada no spa de repouso, mãe, e por isso
não tivesse me procurado para saber como estou depois do que o seu marido
fez. — Tento parecer indiferente na frente dela, mas eu a amo de qualquer
forma e senti muitas saudades.

Olhar para a dona Vera é como ver uma versão minha mais madura,

todo mundo fala que me pareço muito com ela, e é verdade. Temos o mesmo
tom de cabelo loiro e olhos verdes, a mesma altura e o mesmo gênio de cão,
como dizia o meu pai.

— Ex-marido, filha, graças a Deus o divórcio saiu. Em breve, aquele

traste vai ter que me dar a metade de todo o seu império. — Eleva o queixo.

Fala comigo, mas os olhos estão no Marcelo.

— Ótimo, mãe, assim vai poder continuar comprando suas roupas caras
— banco a irônica e examino o vestido longo dourado tomara que caia no seu
corpo revestido de pedras brilhantes, tenho até medo de ver o valor na
etiqueta presa na lateral da peça.

— Não tenho que lhe dar satisfação de nada, Daniele, gasto o meu
dinheiro como eu quiser. Você escolheu o fruto da traição do seu pai ao invés

de mim, nem sei como ainda tem coragem de falar comigo — começa a fazer
drama.

Seus olhos verdes fervorosos pairam sobre o Marcelo com desdém, é a


primeira vez que eles se encontram. Minha mãe não é uma pessoa má, apenas
meio avoada. Ela ama crianças.

Se está agindo assim é porque seu coração foi quebrado, e uma mulher
com o coração partido em pedacinhos pelo homem que amava não consegue
ver as coisas com clareza.

— Podemos pegar o Walter e ir embora, mamãe? — pede Marcelo


baixinho, está com medo dela.

— Por Deus, Daniele! Você adotou mesmo essa criança? Ela até te
chama de mãe. — Solta uma risada fria e uma lágrima escorre lenta e

dolorosa pelo canto do olho, me sinto mal por fazer minha mãe sofrer dessa
forma. — Se contasse ninguém acreditaria, agora virei avó do filho do meu…
— Faço ela calar com um grito.

— Cala a boca, mãe!

Ainda bem que consigo interrompê-la antes que fale demais, mas isso
só piora a situação. Minha mãe solta o Walter e senta em uma almofada
grande e começa a chorar escandalosamente.

— Não grita com a moça, mamãe, ela está triste. — Marcelo, na sua

inocência, se aproxima da mulher que o despreza e limpa as lágrimas dela


com o polegar, igual ao meu pai fazia.

Minha mãe vira o rosto para não ter que olhar para o filho do homem
que ela amou por mais de trinta anos, e saber que essa criança linda saiu de
um útero que não era o dela.

— Olha para ele, mãe, por favor. Só por um segundo — imploro.


Já expliquei várias vezes que não posso virar as costas para uma
criança doente, mas ela se recusa a entender. Talvez se olhar nos olhos do

Marcelo e só encontrar amor e inocência, isso a toque de alguma forma.

— Desculpa, Dani, eu não posso. — Nega com a cabeça.

— Vem, filho, vamos embora daqui. Nossa presença não é bem-vinda.


— Pego Walter e puxo Marcelo pela mão, ele não consegue deixar de olhar

para trás enquanto andamos.

Solta a minha mão, volta correndo e abraça minha mãe, sabia que ela
não queria esse abraço, mas precisava dele.

— Minha mãe sempre diz que um abraço é capaz de fazer qualquer


pessoa feliz, e quando estamos felizes podemos ver as coisas de outra forma
— diz no seu tom inocente.

— Eu sei, querido, porque fui eu que ensinei isso para ela quando tinha
a sua idade. — Para minha surpresa, ela corresponde ao abraço do Marcelo e

chama eu e o Walter com a mão para fazer parte dele.

— Muito obrigada, mãe, eu senti tanto a sua falta. — Fecho os olhos e


sinto o cheiro dela como faço desde que era muito pequena. Ainda continua o
mesmo.

— Eu estou muito orgulhosa de você, filha, me perdoa por ter sido tão
egoísta com você. Agora entendo por que renunciou a tudo por essa criança,
ela é especial. — Fico emocionada, como sonhei em ouvir isso dela.

— E faria tudo de novo, mãe, mil vezes se fosse preciso — afirmo.

— Então, se ela é sua mãe, então é minha avó? — Marcelo parece


confuso, antes que eu abrisse a boca para negar minha mãe se adianta.

— Sim, querido, eu sou a sua avó Vera. — Sorri em meio às lágrimas e

puxa Marcelo para outro abraço, cheio de carinho. — Você precisa de roupas
novas, nesse shopping tem uma loja infantil maravilhosa, vem. — Sai
puxando o menino, giro os olhos.

Vera Flores sendo Vera Flores.

Quer dizer, só Vera, porque graças a Deus se divorciou do meu pai.

— Obrigada por isso, Walter, você sentiu o cheiro da minha mãe e nos
trouxe até ela. — Beijo meu cão lindo.

Sabia que minha mãe iria cair em si cedo ou tarde. Mas assumir a

posição de avó do Marcelo é melhor do que eu pensava. Estou tão feliz por
ela, o perdão faz bem para quem nós machucamos, mas principalmente para
nós mesmos.
Dani

— O que aconteceu, Dani? Você e o Marcelinho saíram correndo sem


dizer nada. — Paula aparece correndo com a filha no colo, toda ofegante,
coitada, o olhar preocupado dividido entre minha mãe e eu.

— Tudo culpa do Walter, amiga. Ele sentiu o cheiro da minha mãe e


saiu correndo atrás do rastro dela. — Aponto para o meliante, ele abaixa as
orelhas e mostra os dentes como se estivesse sorrindo de uma piada sem
graça.

— Nossa, como sua mãe é linda, parece sua irmã, de tão jovem —

elogia.

Maria e Marcelo pegam Walter e se sentam no chão para brincar,


crianças se divertem em qualquer lugar.

— Ai, que moça gentil, qual o seu nome? — Os cantos da boca da


minha mãe vão de orelha a orelha, adora receber um elogio, ainda mais
quando é direcionado à sua juventude mantida à base de sessões semestrais
de peeling e botox.
— Sou Paula, prazer. Beleza? Sou vizinha e amiga da sua filha. —
Minha mãe estende a mão, mas Paula a ergue em um abraço de urso.

— O prazer é todo meu, querida, sou Vera. Fico feliz que minha filha
tenha amigas além da Julia e Yudiana, acho que está se dando melhor sozinha
do que pensei — alfineta de leve.

— Dani é uma ótima mãe e amiga, senhora. Veio comigo me ajudar a

escolher um look legal para mim. Ela entende de moda, está sempre tão bem
vestida.

— Que fofo! Eu posso ajudar vocês se quiserem, tudo o que a Dani


sabe de moda e etiqueta fui eu que ensinei.

— Agora pronto! — penso em voz alta.

— É claro que eu aceito, senhora, toda ajuda é bem-vinda.

— Nada disso de me chamar de senhora, só Vera está ótimo. Agora

vem aqui, querida. — Minha mãe vira Paula de um lado para o outro,
consegue adivinhar as medidas de qualquer um só no olho.

— Então, mãe, teve alguma ideia de look para ela? — dou asa à cobra.

— Sua amiga vai precisar de toda ajuda possível, só o look não adianta,
olha esse cabelo. — Pega uma mecha e balança.

Fico com vergonha da varredura minuciosa que minha mãe faz pelo
corpo da Paula, começa na sandália de salto vermelho e sobe pela meia de
tela preta.

Passa pela bermuda jeans curta e termina na blusa de alcinha fina

branca, menor que o número proporcional para ela.

— Minha situação está tão ruim assim? — Eu e a minha mãe


confirmamos com a cabeça.

— Ruim é uma palavra delicada para usar no seu caso.

— Mãe! — me zango com ela. — Tudo bem, amiga, nós vamos ajudar
você. Está em boas mãos — garanto.

— Só um minuto, vou marcar um horário com o meu cabeleireiro para


daqui a duas horas. — Dona Vera liga para o salão, sempre pensa em tudo.

— Enquanto isso eu vou escolher os modelos de vestidos em tons mais


neutros para Paula experimentar, tons fortes nunca dão certo no primeiro
encontro. Pode passar a impressão de que ela quer chamar a atenção, e nós

não queremos isso. Uma mulher esperta… — começo a frase.

— ... vale mais do que todos os homens do mundo. Um dia


dominaremos — minha mãe a conclui.

Nós duas rimos muito, esse é o nosso grito de guerra. Como senti falta
desses nossos momentos especiais de mãe e filha, nunca mais quero que se
afaste de mim.

Chego em casa só à noite depois de passar um dia maravilhoso na


companhia de pessoas que amo, meu filho está radiante porque agora tem
uma avó. E minha mãe feliz por ter um neto, ela comprava tudo o que o

Marcelo e a Maria queriam. Paula conseguiu comprar o vestido perfeito para


a grande noite, foi ao salão e hidratou e cortou o cabelo.

Está tudo encaminhado para amanhã à noite, o resto é com ela.


Tomara que tudo saia conforme as grandes expectativas que a minha amiga

está pondo nesse cara.

— O que acha de vermos um filme, Marcelinho? Vou fazer pipoca e


tem suco de uva na geladeira. — Mexo as sobrancelhas e as pontas dos dedos
para dar ênfase ao convite, ele acha graça.

— Simmm, podemos convidar o papai para vir assistir com a gente?

— Bem que eu gostaria, filho, mas o seu pai enviou uma mensagem
dizendo que tem um encontro importante hoje à noite. — Encho o peito de ar,
faz dez minutos que li a mensagem e a minha raiva continua a mesma.

Eu criei sentimentos pelo Léo sabendo qual é a sua profissão. Mas não
sei se posso conviver com isso, se ele quiser ficar comigo vai ter que escolher
entre mim e o mundo da prostituição.

— Ah, que pena, posso ligar pra ele e desejar boa noite?

— Pode sim, mocinho, mas só porque eu te amo muito! — Ergo-o do


chão e o coloco sentado sobre o balcão, faço a chamada no meu celular e
coloco no viva-voz.

Enquanto isso começo a preparar a nossa pipoca, vou fazer uma

bandeja salgada e outra doce, com direito a cobertura de leite condensado.


Agora que tenho aprendido uma receita nova do livro por dia, estou virando
uma cozinheira e tanto.

— Oi, Boneca, saudades da minha voz? — Prendo o riso, Léo atende

no primeiro toque e pensa que sou eu.

— Oi, papai, não é a Boneca. Sou eu, Marcelinho. Liguei para dizer
boa noite. — Ouço a gargalhada gostosa de Léo do outro lado da linha, meu
filho acaba rindo também e nem sabe o motivo.

— Oi, filho, boa noite. Como foi o seu dia?

— Foi muito legal, mamãe e eu saímos com a tia Paula e a Maria para
fazer compras. Eu tomei sorvete e conheci a minha avó, ela é tão legal.

— Sério mesmo, campeão? Que legal!

— Sim, papai, tia Paula comprou um montããão de roupas. Mamãe


gostou só de um vestido, mas não comprou porque era muito caro e ela está
juntando dinheiro para viajar comigo para algum lugar bem bonito — me
entrega para o pai e eu quase morro de vergonha, repetiu as mesmas palavras
que eu disse para a vendedora que insistia para eu comprar o vestido.

Paula e a minha mãe se ofereceram para pagar, mas não aceitei, é claro.
— E onde a mamãe está agora, filho? — pergunta, mas já sabe que
estou por perto ouvindo a conversa deles.

— Fazendo pipoca, vamos assistir um filme juntos. Eu queria que você


viesse, mas a mamãe disse que tem um compromisso importante. — Faz
biquinho, a coisa mais fofa do mundo.

— Desculpa, campeão, mas o pai realmente tem um encontro inadiável

hoje. Mas amanhã eu posso, vou tirar o dia de folga só para ficar com você.
— Se eu não estivesse morta de ciúmes desse encontro inadiável, teria
suspirado pelo jeito carinhoso que falou com o Marcelo.

— Eba! Vai ser muito divertido.

— Vai sim, Marcelo, agora preciso desligar. Tchau, filho!

— Tchau, papai, não quer falar com a mamãe? — Abro um sorriso,


solto a travessa de pipoca e me viro com um frio na barriga só de ansiedade
em ouvir a sua voz.

— Não! Preciso me arrumar, estou atrasado. — Encerra a ligação.

Ele não quis nem falar comigo? Ok. Não estou nem aí, vou passar uma
noite incrível com o meu filho e se o Léo não quer fazer parte disso quem
perde é ele, e não eu.

— A pipoca está pronta, Marcelinho, quer escolher filme?

— Simmm! — Abraça uma travessa de pipoca e vai para a sala, sigo


atrás dele.

Marcelo escolhe o filme do Pantera Negra, nos enfiamos debaixo de

um cobertor quentinho no sofá e começamos a assistir. Mais ou menos por


volta de uma hora depois a campainha toca. Levanto com o cabelo todo
bagunçado e vou atender com os pés descalços mesmo.

— Boa noite, Boneca. — Quase não acredito quando vejo Léo parado

na minha porta com um buquê de rosas vermelhas lindas e uma caixa dourada
com um laço preto.

Ele está todo lindo e arrumado, mas sem perder o seu estilo despojado.
Veste uma camisa preta com a estampa de caveira, calça escura e jaqueta
jeans amarrada na cintura. As botas de couro marrom que usa hoje são novas
e bem estilosas, devo dizer.

Cortou o cabelo e aparou a barba, mas não muito, só o suficiente para


ser notado.

— O que aconteceu, seu encontro foi cancelado? — Mordo o lábio.

— Ele nem começou ainda, vim buscar minha acompanhante. — Me


entrega o buquê de flores, puxando o canto da boca cheio de charme. —
Você aceita sair comigo, Daniele Flores? — faz o convite e as minhas pernas
tremem.

Minha vontade é rir e gritar ao mesmo tempo, ele está me chamando


para sair.

— Ai, meu Deus! Nós vamos mesmo ter um encontro de verdade,

Leãozinho? — Enlaço seu pescoço, as flores quase se amassam entre nós.

— Sim, mas você tem que se arrumar logo porque o lugar onde vamos
fica fora do centro. — Assinto várias vezes.

Ainda não acredito que ele preparou essa surpresa linda para mim, se
queria me impressionar, conseguiu com louvor! Então ele sabe ser romântico
quando quer.

— Mas e o Marcelo?

— Já conversei com a babá da Paula, vou pagar ela para cuidar dele
junto com a Maria hoje. — Aperto sua bochecha, meu Leãozinho pensou em
tudo.

— Então vou me arrumar, estou tão animada! — Fecho a porta na cara

do Léo e vou tomar o meu banho, só lembro que esqueci de convidar o


homem para entrar quando chego no meu quarto e jogo o buquê sobre a cama
e volto correndo.

— Ai, Léo, desculpa! — Abro a porta e ele está com a caixa nas mãos
rindo do meu nervosismo, parece até que esse é o meu primeiro encontro. —
Entra, por favor, o Marcelo está assistindo o filme. — Sorrio sem graça.

— Você esqueceu do seu presente, maluquinha. — Pego a caixa,


seguro sua mão e o puxo para dentro, estou ansiosa para ver onde vai me
levar.

— Olha quem chegou, Marcelo!

— Papaiii! — Os olhos dele saltam quando vê o Léo, pula do sofá e se


joga no colo dele.

— Que abraço gostoso, filho. — Deita a cabeça no ombro do pai.

Não tenho mais ciúmes de ver os dois juntos, acho a coisa mais linda
do mundo. É como se agora eu fizesse parte do elo de amor deles, antes eu
me sentia excluída.

— Bom, eu vou deixar os rapazes colocando o papo em dia e vou me


arrumar. — Deposito um beijo no rosto de cada um deles.

Eu nunca fiquei tão feliz em me arrumar para sair. Contudo, antes de


qualquer coisa, paro para sentar na cama e abrir o presente que o Léo trouxe

para mim.

— Não acredito! — Fico sem reação com o que encontro, tiro a peça de
dentro da caixa com as pontas dos dedos e ergo sem acreditar no que estou
vendo.

De alguma forma, Léo conseguiu descobrir qual o vestido que eu gostei


na loja e comprou para eu usar no nosso primeiro encontro, aposto que tem o
dedo da minha vizinha nisso.
— Isso foi muito doce da sua parte, Leônidas Rafael. — Abraço o meu
presente, com cuidado para não amassar.

O vestido de fato é muito lindo, na cor vinho em um tecido aveludado


divino. Com as mangas três quartos e a gola baixa, começa justo na cintura e
vai abrindo a saia bem rodada com o auxílio de forro de véu tipo bailarina,
que mal cobre as coxas.

Mal posso esperar que Léo me veja dentro dele!

Corro para o banheiro e tomo um banho caprichado, mas não


demorado. Deixo o meu cabelo secar ao natural enquanto passo maquiagem,
abuso na sombra escura e alongo as pestanas. Uso um batom mate aveludado
no exato tom do vestido já no meu corpo e, para finalizar, calço botas de cano
curto.

— Será que eu prendo ou deixo solto? — Uso a mão para juntar o


cabelo no topo da cabeça, viro de um lado para o outro na frente do espelho.

— Eu prefiro ele solto, Boneca. — Léo aparece no quarto e abraça


minha cintura por trás. Solto os fios loiros e ele os afasta para o lado para
beijar a curva do meu pescoço.

Está no modo predador, tem experiência de sobra para ir direto ao


ponto fraco de uma mulher e deixá-la subindo pelas paredes sem fazer muito
esforço.
Léo

— Léo. — Aliso a parte de dentro da sua coxa, provocando-a.

Ouço seu gemido quase sem ar.

— Eu passei as últimas horas imaginando você dentro desse vestido,


mas ao vivo é ainda melhor. — Esfrega o meu corpo no seu, se eu pudesse a
possuiria aqui mesmo no chão desse quarto.

Deus, como ela está linda! Daniele tem uma beleza diferente que se
destaca entre as outras e um jeito de menina que me encanta, toda vez que ela
sorri todo o meu mundo fica mais bonito.

— Então você gostou mesmo? — Vira de frente para mim com as


sobrancelhas erguidas e coloca as mãos na cintura, fazendo pose feito uma
menininha toda boba com a roupa nova.

Quando Marcelinho disse na ligação que a mãe havia gostado de um


vestido e só não trouxe porque está economizando para fazer uma viagem
com ele, a primeira coisa que fiz ao encerrar a ligação foi entrar em contato
com a Paula e pedir para me passar o endereço da loja, e então fui lá comprar.
Estou feliz que Dani gostou tanto do presente que vai usar no nosso
primeiro encontro, planejei algo bem legal para fazermos juntos.

— Isso responde à sua pergunta? — Cato-a pela cintura e dou aquele


beijo de tirar o fôlego, ela fica toda mole nos meus braços.

— Não sei, pode repetir? — diz quase sem fôlego e querendo mais.

— Com prazer! — A beijo com mais fervor, agarro sua bunda e a


empurro contra a penteadeira. Metade das maquiagens sobre ela vai ao chão.

— Espera, Léo, não quero que o Marcelinho pegue a gente se


agarrando.

— Ele está vidrado vendo um desenho animado, relaxa. — Tento


continuar de onde paramos, se depender de mim não saímos desse quarto tão
cedo.

Estou louco por essa mulher, depois que parei de tentar bloquear o que

sinto por ela o meu desejo aumenta a cada segundo.

— Nada disso, Leãozinho. Temos um encontro, esqueceu?

— Com você bonita desse jeito, nem sei se quero sair mais. — Acaricio
a lateral do seu rosto, tem a boca tão pequena e um contorno delicado que dá
vontade de não parar de beijar.

— Nada disso, eu me arrumei toda e quero ter o meu encontro. —


Empina a bunda para mim e retoca o batom fazendo biquinho para o espelho,
não resisto e dou um tapa.

— Para, Léo, sossega! — Me empurra para fora do quarto.

Tudo estava perfeito até chegarmos na sala e Dani começar a explicar


para o Marcelo que nós iremos sair, ele começa a chorar querendo ir também.
Percebo que a mãe dele fica com o coração partido. Antes que ela desista de
sair, me abaixo e tenho uma conversa com o garoto de homem para homem.

— Agora chega de birra, filho. Para de chorar e olha para o seu pai,
porque não vou falar de novo. — Sou firme, contudo, fico com pena quando
engole o choro.

No entanto, não posso passar a mão na cabeça dele o tempo todo. Não
depois da aula sobre mães que a Paula me deu, Marcelo precisa entender que
às vezes a mãe precisa ter um tempinho só para ela.

— Sua mãe tem trabalhado muito para te dar uma vida boa, não é?

— Sim, ela sempre chega do trabalho cansada. Mesmo assim brinca


comigo, me dá banho, faz o jantar e ainda lê uma história para mim antes de
eu dormir. Às vezes ela dorme antes de chegar no final, mas tudo bem — fala
e engole o choro ao mesmo tempo, mas as lágrimas continuam caindo.

Olho para Dani, pasmo, de onde essa mulher tira tanta força para dar
conta de fazer isso tudo para o filho depois de um dia pesado de trabalho? O
amor de mãe é algo intenso demais. Como descobrir forças que você achava
que não tinha e lidar com medos que você achava que não existiam?

— Então, Marcelo, não acha que ela merece sair às vezes para se

divertir um pouquinho quando não está trabalhando tanto ou cuidando de


você? — Limpo suas lágrimas.

Ele olha para a mãe e depois para mim, pensa por alguns segundos
antes de responder.

— Tudo bem, papai, eu deixo você sair com a mamãe para ela se
divertir sem mim, mas só um pouquinho — autoriza, mas com uma tromba
enorme.

— Muito obrigado, filho, você é muito legal. Prometo cuidar bem da


sua mãe. — Beijo sua testa e o abraço.

— Se comporte e não durma muito tarde, eu amo você, querido. —


Enche o filho de beijos.

— Eu também te amo, mamãe. — Enfim solta um sorriso.

Marcelo pegou alguns brinquedos e o pijaminha dele e o levamos para


a casa da Paula, a babá dela atende. Nana é uma boa mulher. Cuida da Maria
desde que esta nasceu.

— Podem ir passear tranquilos, vou cuidar bem do menino de vocês. —


Pega a mão do Marcelo, confio muito nela, sempre demonstra seu amor pelas
crianças.
— Obrigada, Nana, minha rainha, você sempre quebrando o meu galho
e o da Paula. — Beijo a sua mão, tenho um carinho especial por ela.

Além de babá da Maria, faz faxinas semanais na minha casa.

— Eu estou aqui para isso, menino. Sabe disso. E pare com esses seus
galanteios — brinca.

— E os netinhos, como estão? — pergunto.

—Estão ótimos e felizes com o presente que mandou para eles de


aniversário. Agora, vai levar essa moça linda para sair. — Dá uma risadinha.

— Espera um minuto, Nana. — Marcelo chama a mãe com o dedinho,


ela se abaixa e esfrega o nariz num gesto de puro afeto e cumplicidade.

Os dois entram e Dani e eu enfim vamos para o nosso encontro, não


podemos chegar atrasados.

— Você tem muito jeito com crianças, sabia? Meu filho te adora —

comenta enquanto descemos as escadas do prédio de mãos dadas. Fico calado


e de cara fechada.

— Eu não gosto quando você usa o termo “meu filho” para se referir ao
Marcelo, prefiro quando diz “nosso filho.” — Sou possessivo, eu sei.

Marcelo conquistou mesmo um espaço no meu coração, quero assumir


de verdade o papel de pai na sua vida.
— Desculpa, eu quis dizer “nosso filho” — corrige-se e minha feição
suaviza.

— Pronta para uma aventura daquelas de ficar marcada na história,


Boneca? — Pego o capacete sobre o banco da minha moto estacionada em
frente ao prédio e lhe entrego, ela se atrapalha toda para encaixar a tirinha da
parte de baixo.

— Deixa te ajudar com isso. — Ajeito em um segundo e ela resmunga,


acho que nunca andou em uma moto dessa antes.

Coloco o meu capacete e subo primeiro, ela pula na garupa, segura


forte na minha cintura e deita a cabeça nas minhas costas. Piloto com
maestria pelas ruas do Rio de Janeiro até o ponto de encontro combinado com
o grupo de “motoqueiros noturnos” do qual faço parte, são mais de cem
integrantes.

— Caramba! Eu nunca vi tantas motos juntas. — Daniele fica

impressionada quando paro no final de uma fila enorme de motos, todas


ligadas e prontas para sair.

Toda última quinta-feira do mês, participo de um passeio noturno de


motoqueiros cujo objetivo principal é reunir os amigos, curtir as
motocicletas, paisagens, cidades visitadas, a temperatura e a brisa noturnas.

Na frente, puxando o bando, Fernando, que fundou o grupo há mais de


trinta anos, porta uma bandeira grande com o nosso símbolo presa na traseira
da sua moto. O cara tem quase dois metros de altura e o corpo parrudão,

cabeludo e uma barba ruiva que vai no seu peito.

— Daqui para a frente você pilota, Boneca, é só seguir os outros


motociclistas. — Desço para trocar de lugar com ela.

— Sério? Eu amaria, mas não sei se é uma boa ideia. Eu aprendi a

pilotar na autoescola quanto tirei minha habilitação e nunca mais pilotei. —


Dá para ver em seus olhos que quer tentar, mas está insegura.

— Eu confio em você, Daniele. Percebi que aprende rápido e quando


quer algo é teimosa pra caralho. — Jogo as chaves para ela.

—Você é mesmo maluco, Leãozinho, não tem medo de morrer? —


Assume o lugar do piloto, subo na sua garupa e a observo girar a chave e o
ronco do motor fazer o tanque tremer.

A motocicleta é muito grande e pesada, mas Daniele consegue dar a

partida sem fazer feio. Contudo, mantém uma velocidade segura. Para falar a
verdade, devagar quase parando.

— Acelera fundo, Boneca — sussurro no seu ouvido e agarro a sua


cintura firmemente, encorajando-a.

Ela faz o que eu peço, saímos do final da passeata e entramos no meio


do grupo indo para a fileira da frente. O pessoal conversa entre si e buzina
para todo mundo que passa por nós, Daniele faz o mesmo, entrando no clima
da festa.

— Eu nunca me senti tão livre, a sensação que tenho é que posso fazer
qualquer coisa! — grita Daniele, tomada pela euforia.

Sei bem como é essa sensação de liberdade que é pilotar, por muito
tempo essa foi a única válvula de escape para esquecer um pouco da

depressão do luto sem fim pela perda da minha família.

Porque, quando a gente dirige um carro, você vê a paisagem. De moto


você faz parte dela.

— E você pode, Daniele Flores, basta acreditar — afirmo, muitas vezes


disse coisas para ela que a colocaram para baixo, por isso faço questão de
deixar claro o quanto acredito nela.

Saímos do centro e fomos para um bar beira de estrada que eu adoro,


meu preferido em toda a cidade. A passeata sempre começa em um lugar

diferente, mas sempre termina nesse lugar, onde o grupo enche a cara e dança
ao som de uma banda de rock até o raiar do dia.

De longe já é possível avistar a placa iluminada do lado de fora do bar,


escrito “Clube dos motoqueiros noturnos”, aqui era uma pousada antiga para
caminhoneiros que foi comprada e reformada pelo Fernando. Ele e a sua
esposa a transformaram em um lugar especial para pessoas que têm o mesmo
amor que eles por motocicletas e cerveja boa.

— Ai, que luxo participar desse evento, nem tenho palavras para dizer

o quanto gostei. — Estaciona e gira o corpo sobre a moto, ficando de frente


para mim, suas pupilas dilatadas devido à euforia.

O vento faz uma bagunça com o seu cabelo balançando para todos os
lados, deixando-a ainda mais linda.

— Eu sabia que você ia gostar do passeio, pode vir comigo sempre que
quiser. — Inclino e nossos lábios se tocam.

— Muito obrigada por esse encontro maravilhoso, eu amei cada


segundo que passei com você. — Enlaça o meu pescoço, é tão fácil fazê-la
feliz.

— Não agradeça ainda, Boneca, nosso encontro está apenas


começando. — Desço da moto e a pego no colo, colocando-a no chão.

— Eu sabia que você era um motoqueiro de raiz, Leãozinho.

— Sou mesmo, herdei esse amor por motos do meu avô. — Agarra o
meu braço e caminhamos para a entrada do bar.

— Esse estilo combina muito com você, ooh, se combina. — Pisca e


segura o lábio inferior com os dentes de um jeito sexy pra caramba, filha da
mãe!

Dentro do bar, Daniele fica encantada com o lugar. Todo mundo que
vem aqui tem a mesma reação, a decoração foi inspirada nos famosos pubs
irlandeses com direito a papel de parede com estampa de mandala

fluorescente, shows ao vivo e cerveja servida direto no copo. O público daqui


é a melhor parte, só gente boa cheia de estilo e simplicidade de sobra. Os
homens na grande maioria se resumem em cabelo comprido, barba e
tatuagens.

As mulheres são mais ousadas, gostam de inovar sempre com coloração


e cortes de cabelo de todos os modelos imagináveis. Quando o assunto é a
escolha dos seus looks, também optam pela diversidade e criatividade.

— E aí, curtiu o lugar? — chamo sua atenção com um beijo no rosto.

— Muito! É tão autêntico e inovador. — Sorri docemente.

— Vem, quero que prove minha cerveja favorita. — Vamos até o bar,
as melhores cervejas do Rio de Janeiro estão nesse lugar.

Logo a bargirl, Joana, a esposa de Fernando, vem nos atender com o

mesmo sorriso receptivo que me recebeu da primeira vez que vim no bar, há
muitos anos.

— Eu não acredito que vivi para ver o misterioso Léo trazendo uma
garota para apresentar para o seu bando, ela deve ser muito especial para você
— seu comentário faz Dani ficar corada, ela deita a cabeça no meu braço e
sorri tímida.
Sim, Daniele é a primeira garota que trago aqui. E pelo andar da
carruagem, vai ser a primeira em muitas coisas na minha vida.

— Ela é diferente de todas as outras, Joana. — Pego o banquinho mais


alto para Daniele sentar, arrasto outro e sento colado nela, quero manter
contato físico o tempo todo.

Não consigo mais tirar minhas mãos dessa mulher, simples assim.

— Dá para perceber pela forma que você olha para ela, rapaz. —
Trocamos olhares e, porra! Joana está certa, tem certas coisas que não dá para
disfarçar.

Está visível no olhar, na maneira que nos tocamos ou falamos. Todos


os nossos sentidos estão ligados de maneira surreal.

— Eu sou a Dani, prazer. — Estica a mão para cumprimentá-la, mas


como Joana é afetuosa demais para se contentar só com isso, joga seu corpo
farto em curvas e tatuagens sobre o balcão e puxa Dani para um abraço.

— O prazer é todo meu, sou Joana. Bem-vinda à família, espero que se


sinta à vontade no meu bar. Daqui a pouco teremos apresentação de uma
banda de rock muito boa. — Aponta para o fundo onde os técnicos de som
montam os instrumentos, daqui a pouco esse lugar vai encher pra caralho,
nem vai dar pra andar direito.

— Muito obrigada, eu amei a decoração do bar. É autêntica e linda.


Assim como a dona — elogia sincera, de fato Joana é uma mulher linda.

Sempre digo para o Fernando que tem sorte de ter se casado com essa

mulher tão forte e de atitude, e muito bem resolvida com o seu tamanho plus
size, ama usar blusas decotadas e saia justa. O cabelo mantém descolorido em
um corte curtíssimo, tem vários piercings e alargadores nas orelhas.

— Já gostei da sua namorada, Léo. — Aperta minha bochecha.

— Agora chega, Joana, traz o de sempre para nós dois — despacho-a,


ou essa conversa vai longe.

— Como você aguenta esse chato, hein, Dani? — Faz uma careta para
mim.

— Nem me fale, Joana, às vezes tenho vontade de torcer o pescoço


dele. — Viro alvo de deboche das duas, só depois de muitas risadas a criatura
vai pegar as nossas bebidas.

— Você também não é nada fácil às vezes, mocinha — provoco.

— Eu sei, às vezes nem eu me suporto. — Sorri divertida e eu perco a


cabeça.

— Vem cá. — Tentado, sou obrigado a me aproximar à procura dos


seus lábios.

O beijo acontece, lento e bem gostoso. Tinha que ser ela, e todas as
partes de mim sabem disso. Quando eu a seguro, sinto como se tivesse o
mundo todo em meus braços.

— Não sei se gosto mais do seu beijo ou do seu abraço, acho que dá

empate — sussurra com os nossos rostos colados e faz um carinho gostoso na


minha barba; beijo-a novamente.

Tento me conter, mas é só me afastar um pouco que a sua boca me


chama.

— Eu simplesmente não consigo tirar minhas mãos de você, Boneca.


— Passo a língua pelos seus lábios e ela se arrepia todinha, entregue a esse
fogo ardente que nos consome por completo.

— Aqui estão as bebidas de vocês, vamos com calma aí com essa


agarração porque não quero chocar os outros clientes — implica Joana, com a
nossa calorosa demonstração de afeto.

— Desculpa! — Se tivesse um buraco aqui, Dani teria se enfiado nele


de tanta vergonha.

— Que nada, menina, eu estou brincando! Eu com um homem desse


daí faria muito pior. — Agora eu que fico constrangido.

— Muito obrigado pela parte que me toca, Joana, mas deixa o


Fernando saber que está me cantando na cara dura — brinco.

— Oi, galerinha, eu ouvi o meu nome aqui? — Fernando chega e


abraça a esposa por trás.
— Eu só estava dizendo o quanto venero você por criar esse lugar, cara
— salvo Joana da saia justa.

— Que isso, cara, sem vocês esse bar não seria nada — é modesto.

Conversamos mais um pouco, apresento Dani e eles se dão super bem.


Depois Fernando precisa sair para reabastecer os freezers e a esposa vai
atender outros clientes.

— Então, o que achou da cerveja? — Fito-a de soslaio.

Ela pega o copo, prova só um pouquinho e faz uma careta engraçada.

— Muito forte, mas é boa. — Dá de ombros e sorve um gole maior,


fico surpreso, pensei que iria odiar devido ao gosto amargo.

— Sempre que venho aqui peço essa cerveja, seu nome é Guinness
Draught. Gosto tanto que pesquisei sobre ela e descobri que sua origem é de
St James’s Gate 8, em Dublin, na Irlanda, eu viajei para lá há dois anos e

conheci a fábrica pessoalmente.

— Uau, que máximo! E aí, conheceu alguma irlandesa ruiva


encantadora por lá? — tenta parecer engraçada, mas seu tom agudo passa um
certo sarcasmo por trás.

Ou ciúmes, talvez?

— Não, na verdade eu prefiro as brasileiras — malicio e sua boca se


curva em sorriso.
— Eu tenho mais uma pergunta, Léo. Mas não tem nada a ver com a
sua viagem.

— Qual?

— Como conhece tão bem o meu apartamento e consegue entrar


quando quer? — muda de assunto drasticamente.

— Tem uma chave-reserva em um buraco na parede atrás do extintor


de incêndio no corredor, fui eu mesmo que deixei lá quando morei no seu
apartamento quando a Maria ainda era um bebezinho. — Sorrio ao lembrar
dessa época, me senti tão orgulhoso quando Paula me chamou para ser
padrinho daquele pedacinho de chocolate sorridente.

Além de colegas de trabalho, eu e Paula já fomos vizinhos por um


tempo enquanto o meu apartamento atual estava em reforma.

— Agora entendo o porquê a Maria não sente falta de uma presença


paternal em sua vida, porque ela sempre teve você — constata.

— Pode ser, faço de tudo para cumprir bem o meu papel de padrinho.
— Sorvo um gole da minha cerveja, a dela já está quase no final. — Mas
vamos mudar de assunto. Me fala mais de você, Boneca — peço.

— Não tenho nada de muito interessante para dizer sobre mim, sou
uma jovem de vinte e cinco anos, vegetariana, recém-formada em direito que
nunca precisou se esforçar para ter nada. Nasci em um berço de ouro, mas
cresci rodeada de mentiras. — Uma linha aparece entre suas sobrancelhas,
não parece à vontade em falar de si mesma.

— Por que rodeada de mentiras? — pergunto, mesmo sabendo a


resposta.

Mas quero ouvir da sua boca e ver nas suas feições o quanto as
merdas que o pai fez com ela a quebraram, para saber o grau de estrago que

vou deixar na cara desse filho da puta quando me encontrar com ele.

Porque, cedo ou tarde, nossos caminhos vão se cruzar.

— Fui deserdada pelo meu pai recentemente, sendo sincera, a melhor


coisa que poderia ter me acontecido. Amadureci mais nas últimas semanas do
que em toda a minha vida, um brinde a isso. — Bate o copo no meu e vira o
resto da sua cerveja em um gole só, se for nesse ritmo vai ter que ser levada
daqui carregada.

— Então eu estou tendo um encontro com uma advogada? Minha

nossa! Estou lisonjeado. — E estou mesmo, mais uma vez ela me provando
que nunca foi uma patricinha fútil.

E de burra não tem nada. Dra. Daniele Flores, hein? Quem diria.

— Já chega, seu bobo. E pode parar de fingir porque a Paula me


confessou que te contou algumas coisas sobre mim, só não disse quais.

— Ela não contou essa parte que você é uma mulher da Lei, mas disse
a merda que o seu pai fez com você e o Marcelinho. — A expressão que ela
faz é como se eu tivesse enfiado a mão inteira na sua ferida, pega o cardápio

sobre a mesa e finge estar lendo.

— Não quero falar mais sobre esse homem. Vamos pedir mais uma
cerveja? — encerra o assunto visivelmente abalada.

Porra, eu sou um idiota mesmo, não devia ter falado do pai dela. Espero

que isso não tire o clima bom do nosso encontro.

— Claro que sim, eu não posso abusar, pois preciso te levar inteira de
volta para o nosso filho — explico.

Fico só na primeira cerveja, já Daniele desce o caneco, pede um drink


atrás do outro.

— Vem, vamos lá ver o show, a banda vai começar a tocar. — Me


obriga a ficar de pé, toda animadinha.

— Ei, Joana, pode ficar com o troco. — Tiro algumas notas da carteira
e deixo sobre o balcão para pagar as nossas bebidas, Dani agarra a gola da
minha camisa e sai puxando até a frente do palanque.

A banda é anunciada, todas as luzes do bar se apagam e a fumaça


artificial começa a subir, dando um ar de mistério ao ambiente. Os integrantes
da banda fazem uma entrada triunfal ao som de três guitarras tocando ao
mesmo tempo, pensei que Daniele não gostasse desse tipo de música, mas ela
fecha os olhos e ergue os braços mexendo a cintura com uma malemolência
que me deixa de pau duro. Passo a mão na nuca e engulo em seco admirando-

a mais detalhadamente.

A forma como movimenta o corpo, por mais simples que seja, me


hipnotiza, e não só a mim. Percebo que os homens ao nosso redor e algumas
mulheres que gostam de meninas também não conseguem tirar os olhos de

Daniele, tem a beleza de uma fada e o charme de uma deusa da sedução. Isso
faz dela desejável aos olhos de qualquer um. Irresistível, na verdade.

E foi nessa que eu bobeei e me ferrei bonitinho. Quando me dei conta,


eu, o garoto de programa que nunca se apaixona, estava de quatro pela
patricinha da zona sul.
Dani

Depois de um show maravilhoso da banda de rock, chega a hora de ir


embora. No meio do caminho para casa, Léo desvia da rota, entra em uma
estrada de terra e vamos para o alto de uma montanha.

— Já que gosta de admirar as estrelas, aqui é o lugar certo. —


Deitamos de barriga para cima sobre a grama fresca pelo sereno da noite e
observamos o céu, todo iluminado pela lua cheia e tomado por um lençol de
estrelas.

— Parece que estamos tão perto das estrelas, que a impressão que eu

tenho é que, se eu esticar o meu braço, consigo tocá-las. — Ergo minha mão
e mexo a ponta dos dedos, dá para sentir a magia desse lugar.

— Se tentarmos juntos, talvez consigamos alcançá-las. — Junta as


nossas mãos.

Como se fosse um sinal, acontece um fenômeno da natureza que eu


nem sabia que era possível. Cai uma estrela cadente atrás da outra vinda de
lados diferentes, mas seus caminhos se cruzam e formam um único rastro de
luz.

— Você também viu aquilo? — Ele assente, pensei que fosse

alucinação da minha cabeça. Devia fazer dois pedidos, não é todo dia que se
vê duas estrelas cadentes na mesma noite. — Viro o rosto para olhar melhor
para ele, parece tão relaxado.

— As duas coisas que eu poderia desejar, uma está bem na minha

frente. E a outra, bem, espero que a uma hora dessas dormindo na casa da sua
vizinha. — Sou tomada por uma forte emoção, tenho até vontade de chorar
depois de uma declaração linda dessa.

Giro o meu corpo e me deito sobre o seu peito, passa o braço em volta
de mim e acaricia minhas costas.

— Eu esperei a vida toda por um príncipe encantado que viesse me


resgatar em um cavalo branco, mas então apareceu um motoqueiro rabugento
que tem roubado cada batida do meu coração. — Pego sua mão e coloco

sobre o lado esquerdo do meu peito, trocamos olhares e sorrisos.

— E você roubou as batidas do meu. — Pega a minha mão e coloca


sobre o seu peito, sua respiração está acelerada.

Me jogar de cabeça nessa relação com esse homem que tanto já foi
ferido e que um dia me feriu com o seu jeito frio, pode ser o maior erro da
minha vida. Contudo, gosto de pensar que se a gente faz o que manda o
coração, lá na frente tudo se explica. Por isso, vou tentar a sorte dando uma
chance ao que sinto.

— Não importa o que aconteça ou quanto tempo passe, eu sempre vou


me lembrar desse som. Palavras mentem, mas as batidas do coração não —
praticamente juro.

Léo me envolve em um abraço e toma toda a minha fragilidade para si,

afaga o meu cabelo e me aconchego nos seus braços.

— Você é tão linda que me assusta, não consigo parar de te admirar. —


Contorna o meu lábio com o polegar, calmamente.

— Não exagera, vai, eu tenho pouco mais de um metro e meio de altura


e o corpo equivalente ao de uma pré-adolescente. — Ou seja, reta, sem peito
ou bunda.

Penso comigo, porque seria humilhante demais dizer em voz alta.

— Você é perfeita para mim, Daniele, o meu ponto fraco. — Aproxima


o rosto do meu como se fosse me beijar, mas não beija de fato.

—Por que parou? — lamento.

— Você está tremendo de frio, vou te levar para a sua casa. — Tira a
jaqueta e coloca em volta do meu corpo.

— Eu não quero ir para a minha casa, Léo, por que não vamos para a
sua? — peço com medo de parecer atirada demais, mas eu quero muito ficar
sozinha com ele entre quatro paredes.

— Tem certeza disso, Daniele?

— Nunca tive tanta certeza de nada na minha vida. — Ele apenas sorri.

Pegamos a estrada novamente, um trajeto bem diferente do que viemos.


Entramos em um bairro de classe média, Léo estaciona a moto na garagem de

um prédio novo envidraçado, moderno e acredito que caro para se morar.


Entramos no elevador e ele aperta o botão referente ao terceiro andar.

— Você é a primeira garota que trago para conhecer a minha casa,


nunca tive um encontro sem interesse financeiro por trás. — Pigarreia. Com o
maxilar frouxo, mantém o olhar no monitor.

— E que tipo de interesse você tem por trás do nosso encontro?

— Amoroso. — Me encara fixamente pelo reflexo do espelho e eu


engulo em seco, apoio as costas no fundo do elevador, minhas pernas estão

bambas.

— Que bom, porque o mesmo se procede da minha parte — assumo


contorcendo as mãos, ele apenas assente.

Entramos no seu apartamento calados, é maior do que eu imaginei.


Limpo e organizado até demais para um homem que não planejava receber
visita. A decoração é um pouco fria em tons de preto e cinza, janelas de vidro
gigantes com vista para a piscina nos fundos do prédio.
O que mais me chama a atenção é um quadro com uma moldura
dourada bonita, pendurado em destaque no centro da parede da sala, o único

objeto com cores fortes deste cômodo. Me aproximo mais de perto para
admirar a pintura.

— Espero que não me julgue por isso, Boneca! — Ele sorri


amplamente.

Os meus dedos contornam cuidadosamente os traços fortes do desenho


de um homem alto debaixo de um céu azulado e um sol vibrante, cabelo preto
sobre os ombros e a barba farta. Com as costas apoiadas na moto e as mãos
enfiadas no bolso da jaqueta de couro escuro, apesar da calça jeans pintada
em diferentes tons de azul, a obra toda em si ficou perfeita.

Ainda mais porque foi feita por um artista que eu conheço muito bem,
afinal, sou a mãe dele e posso provar. Na parte de baixo da folha de fundo
branco, tem uma assinatura com lápis de cor laranja em um misto de letras

maiúsculas e minúsculas.

“FeLiz DiAs dOs PaIs. CoM amoR, Seu filhO, MarcElo Flores.”

— Então foi por isso que no dia da festinha de dia dos pais eu não achei
o desenho do Marcelo colado na parede da escola junto com os das outras
crianças, você pegou ele para você, seu danado. — Pulo no seu pescoço, Léo
tem me surpreendido muito e de maneira positiva.
— O desenho do moleque ficou muito maneiro, quando vi não resisti.
Peguei, dobrei e coloquei no bolso. Resolvi emoldurar e colocar nessa

parede, toda vez que passo pela sala e olho para ele me sinto melhor. Sei lá,
não sei explicar. — Olha para o desenho e sorri sereno, com a mesma
emoção como se estivesse vendo-o pela primeira vez.

— Isso se chama amor de pai, Leônidas Rafael. — Nos abraçamos e

ficamos assim por um bom tempo, deito minha cabeça no seu peito.

— Quer alguma coisa para beber? Já vou logo avisando que não tenho
os seus sucos detox — não perde a oportunidade de implicar comigo.

— Não, obrigada! A única coisa que eu quero agora é você. — Não sei
se é o álcool de mais cedo agindo no meu sangue só agora, mas estou
disposta a tudo para seduzir esse homem.

Sempre fui recatada e discreta em relação aos meus desejos, precisava


bancar a boa menina. Mas que se dane tudo! Sou uma mulher independente

agora, forte e corajosa. Se desejo algo eu luto por isso. Então, Leônidas
Rafael, se prepare porque vou usar todas as minhas armas para conseguir o
que quero.

— Vem, vamos para o meu quarto. — Entrelaça nossas mãos e me leva


até o seu quarto, fechando a porta, tão nervoso quanto eu.

Parece não saber como agir, essa situação toda de romance e entrega é
tão nova para mim quanto para ele.

— Você não precisa fazer isso se não estiver pronta, Daniele. — De

frente um para o outro, Léo engole em seco ao me observar deslizar uma alça
do meu vestido para baixo do meu ombro, depois a outra.

A peça vai ao chão, fico apenas com um conjunto de lingerie rosa de


renda de duas peças. Preciso renovar minha coleção de roupa íntima, são

todas nessa cor.

— Cacete! — Solta um palavrão, depois passa a mão na nuca,


arrependido. — Desculpa os modos, mas o seu corpo é… intrigante —
pondera o que queria de fato dizer.

— Intrigante? — indago.

— Demais! Sensual e ao mesmo tempo tão gracioso, simplesmente


perfeito. Eu quero muito tocá-lo, mas tenho medo. — Dá um passo para trás.

— Não tenha! — Pego sua mão e coloco sobre o meu seio, olha para
mim como se eu fosse uma santa puritana.

— Nunca desejei tanto uma mulher antes, como eu te desejo. Mas estou
assustado, Dani, não sei como agir. Essa é a primeira vez que faço amor.
Com as outras foi só sexo.

— Hoje também será a minha primeira vez, Léo. Eu nunca estive com
outro homem assim antes, sou virgem. — A cor fugiu-lhe do rosto.
Sei que no mundo em que vivemos hoje parece estranho eu ter me
guardado por tanto tempo, mas cresci assistindo aos filmes da Disney e pus

na minha cabeça que minha virgindade seria entregue ao príncipe encantado


que apareceria na minha vida num passe de mágica e mudaria tudo. No
entanto, como minhas amigas Julia e Yudiana disseram:

“Homens perfeitos não existem”

No momento eu não quis aceitar, mas depois que deixei aflorar o que
sinto pelo Léo, ciente de todas as suas feridas, enfim percebi que um casal
perfeito é aquele em que, após conhecidos os defeitos das partes envolvidas,
existe compreensão, respeito e, com muito trabalho de equipe e sorte, o amor
sincero que dura por uma vida inteira.

— Por que quer dividir um momento tão especial da sua vida com
alguém como eu? Isso me parece uma tremenda loucura, acho melhor
pararmos por aqui. — Ele recua ainda mais de mim.

— Porque eu acho que estou apaixonada por você, temos um filho


lindo e não consigo mais imaginar nossas vidas sem você — declaro e ele
cerra os dentes, parece lutar contra si mesmo.

— Eu também não consigo mais imaginar minha vida sem vocês, nem
a porra de um maldito dia — assume por fim.

— Então me faça sua e não vá mais embora, eu quero ser a primeira a


fazer amor com você — peço e ele vem até mim, segura as minhas mãos e
beija cada uma delas.

Nesse momento eu percebi que não tinha mais volta, depois dessa noite
Léo ficará marcado na minha vida para sempre.
Dani

Sinto o meu corpo estremecer quando Léo desliza os dedos pela minha
pele em um toque mais íntimo, enquanto me beija suavemente. Só consigo
pensar em como valeu tanto a pena esperar. Solto um suspiro quando sua
mão quente e forte aperta o meu seio de leve, mas forte o suficiente para me
fazer gemer.

— Quero te provar dos pés à cabeça, marcar cada pedacinho com meu
corpo. — Passa a língua molhada no meu pescoço e morde o nódulo da
minha orelha e puxa, me arrepiando toda.

Com cuidado, Léo me pega no colo, leva-me até a cama e me deita


sobre ela de costas. Inicia um rastro de beijos no meu pé e sobe em
reverência ao meu corpo, como prometeu que faria.

— Adoro a sensação da sua boca na minha pele… é tão quente. —


Minhas mãos agarram o lençol com força, à medida que beija o calor do meu
corpo aumenta e torna-se quase febril.

— Você me enlouquece, sabia? — Léo respira fundo enquanto


desabotoa o meu sutiã e joga a peça em qualquer lugar do quarto para
abocanhar o meu seio desnudo, e eu arfo a cada sugada vigorosa.

Prendo o seu cabelo entre minhas mãos e puxo, me esfregando mais


nele, desavergonhadamente. Quero todo o prazer que esse homem possa me
proporcionar.

Com os olhos grudados aos meus, Léo lubrifica os dedos com a língua

de um jeito muito excitante e desliza para debaixo da minha calcinha para me


tocar. Arfo quando massageia o meu clitóris e me leva ao céu. Ele me olha
com veneração enquanto me contorço de prazer em suas mãos.

— Isso, Léo! Assim… — Não consigo segurar um gemido quando


aumenta o ritmo, ele sabe muito bem trabalhar com as mãos.

Mas isso não é nada perto do que ele sabe fazer com a boca, de repente
Léo arranca a calcinha do meu corpo e troca os dedos pela língua e começa a
me lamber e chupar incansavelmente.

— Minha nossa! — Jogo a cabeça para trás e agarro o lençol com mais
força.

— Você tem um gosto especial, já estou viciado! — rosna com a voz


abafada, olho para baixo e vejo um homem enfiado no meio das minhas
pernas me olhando de baixo para cima, com a boca avermelhada a me chupar
freneticamente e o cabelo colado sobre o rosto pelo suor.
Esse foi o meu fim!

— Ahhh! — mergulho em uma explosão de sentimentos, primeiro me

sinto imbatível, depois meu corpo amolece em pequenos espasmos.

Chego ao orgasmo, intenso e muito gostoso.

— Você fica linda quando goza, Boneca. — Sorri de canto e fica de pé

próximo à cama.

Enquanto minha respiração normaliza, me delicio com a cena do Léo


tirando sua roupa. Primeiro a camisa, depois a calça jeans, ficando só de
cueca boxer branca. Devo dizer que o volume debaixo dela é impressionante.

— Adoro o seu corpo — digo ainda ofegante, com o lábio inferior


preso entre os dentes.

Léo não é o tipo bombadão, mas tem o físico em dia. Ombros largos,
peito cheio de montes bem definidos, pernas longas e a bunda linda. Tudo

perfeito na medida certa para fazer as mulheres perderem a cabeça só de


olhar para ele.

As tatuagens espalhadas pelo seu corpo são só a cereja do bolo, debaixo


da roupa esconde um arsenal de diferentes desenhos sombrios em diversas
partes do seu corpo.

— Vai gostar ainda mais, Boneca. — Desce a cueca e sua ereção


gigantesca e grossa pula para fora curvada para cima, faz questão de pegar
uma camisinha na gaveta da cômoda e colocar olhando no fundo dos meus
olhos.

Meu coração acelera quando Léo volta para a cama, chegou o grande
momento! Percebendo o meu nervosismo, me beija docemente.

— Prometo que vou tentar ser gentil, quero que seja especial para você.
— Coloca o meu cabelo atrás da orelha.

Sorrio para ele.

— Quero que seja especial para você também, Léo. — Acaricio a


lateral do seu rosto.

— Já está sendo, meu anjo. — Me beija novamente enquanto se ajeita


entre as minhas pernas e me toma como sua.

Sinto uma ardência tremenda conforme ele vai me preenchendo aos


poucos, ele é muito grande e está se segurando para me causar o menos de

dor possível.

— Você é tão apertadinha, porra! — Entra por completo, mas


permanece imóvel até que eu me acostume com o seu tamanho.

Mas fazer isso não está sendo fácil para ele, está literalmente suando
para se segurar ao máximo para não me possuir como quer.

— Estou pronta, Léo, meu corpo é todo seu — digo baixinho no seu
ouvido, dando-lhe carta branca.
Léo remete a primeira estocada, arfo com a sensação de prazer
misturado com dor. Ele abocanha o meu seio distraindo-me e continua a me

penetrar uma vez atrás da outra, cravo minhas unhas nas suas costas e
arranho.

— Mais rápido! — peço em gemido, a essa altura só sinto um prazer


indescritível.

— Você é tão gostosa que me dá calafrios. — Aumenta o ritmo das


investidas, levando-me à loucura.

— Isso… — Sorrio extasiada, minha primeira vez está sendo melhor de


todas as diversas versões que imaginei um dia.

— Goza para mim, Boneca. — A voz grossa do Léo faz o comando e


eu obedeço, em um gemido alto.

— Leônidas! — grito o seu verdadeiro nome, afinal, quem fez amor


comigo foi ele e não o Léo garoto de programa.

E assim chego ao clímax, ele não aguenta segurar muito e vem logo
depois de mim em um urro que ecoa pelo quarto.

— Foi bom para você? Porque para mim foi incrível! — Desaba na
cama ofegante e me puxa para perto dele, deito a cabeça sobre o seu peito.

— Foi perfeito para mim também! — Ergo a cabeça e beijo a sua boca,
o primeiro depois dele me fazer mulher.
— Que bom, porque estamos apenas começando, Boneca. — Dá um
tapa na minha bunda, ele já está excitado novamente.

E eu também…

Agora que provei o que é estar nos braços desse homem, não quero sair
tão cedo.
Dani

Acordo com o som de risadas altas vindas da cozinha, ergo os braços


acima da cabeça e espreguiço e bocejo ao mesmo tempo. Uso o banheiro do
Léo para tomar um banho, pego uma camisa branca emprestada no seu
guarda-roupa, que para mim fica igual a um vestido.

Sigo o som das risadas, pisando descalça no chão frio e esfregando os


olhos. Ainda estou com um pouco de sono.

— Bom dia, mamãe, eu e o papai estamos fazendo o seu café da


manhã. — Esfrego os olhos com mais força, não acredito que o meu filho

está mesmo aqui.

Sentadinho em cima da mesa ainda com o seu pijaminha azul e


agarrado com um boneco do Incrível Hulk quase maior do que ele, coisa do
Léo, com certeza. Falando nele, está todo à vontade só com uma calça de
moletom cinza e um avental sobre o peito desnudo, concentrado em montar
uma bandeja maravilhosa de café da manhã.

— Olá, meu amor, bom dia! Como chegou até aqui? — Marcelo aponta
para o pai.

— Bom dia, dorminhoca, enquanto você dormia eu busquei o nosso

filho na casa da Paula para que ele estivesse aqui quando você acordasse. —
Pega Marcelo no colo e vem me dar um beijo na boca, é a primeira vez que
faz essa demonstração de carinho na frente do nosso filho.

Parece mais confiante depois da noite maravilhosa que passamos juntos

ontem, e eu também estou.

— Vocês estão namolando? — Olha para a cara do pai, depois para a


minha em busca de uma resposta, Léo se adianta e responde:

— Sim, nós estamos, filho — afirma sem rodeios.

—Ah, nós estamos, é?

— Sim, senhora, pensei que tivesse deixado isso bem claro durante
toda essa noite. — Minhas bochechas queimam, Léo não saiu de cima de

mim essa noite, quando eu começava a dormir, ele me atiçava com suas mãos
habilidosas querendo mais.

— Depois conversamos melhor sobre isso, Léo. — Antes de falar em


namoro, temos que resolver algumas pendências.

Não estou disposta a dividi-lo com mais ninguém, ele vai ter que
escolher entre o trabalho dele ou eu.

— Então vocês vão se casar quando? Eu quero segurar as alianças.


Mamãe, você vai ter um bebê? Posso escolher o nome dele? Eu gosto de Blue
— faz uma pergunta atrás da outra.

— Por que Blue, onde ouviu essa palavra? —indago.

— Na escola, minha professora disse que é azul em inglês. Essa é a


minha cor favorita porque é a cor da minha casa — comenta enquanto enrola
o dedo em uma mecha do meu cabelo, distraído.

— Mas a nossa casa não é azul, Marcelo. É branca e rosa.

— Não estou falando dessa casa, mamãe, é da minha outra casa.

— Que casa, filho? — Léo ingressa no assunto.

— Aquela, papai. — Aponta o dedinho para a janela de vidro sobre a


pia, onde é possível ver um pedaço do céu azul profundo. — Quando eu
morrer eu vou voltar para lá, mas o meu corpo será diferente. — Sinto frio na
barriga, Léo segura a minha mão.

— Como o seu corpo vai ser, meu amor? — Seguro o choro.

— Sem câncer… e eu nunca vou ficar doente! — responde animado.

Fico chocada! Eu não imaginava que Marcelo sabe sobre o câncer, eu


nunca disse ou ouvi ele dizendo essa palavra antes. Sempre que se sente mal
diz que está dodói.

— Quem vive com você no céu, Marcelo? — especula Léo.


— Muuuuitas pessoas, a maioria delas anjos. Às vezes eles vêm me
visitar. Sabe o que eu mais gosto no céu? É que Deus está sempre comigo. —

Cubro a mão com a boca, de fato já peguei Marcelo falando sozinho várias
vezes, mas pensei que fosse um amigo imaginário.

— Bem, acho melhor comermos o nosso café da manhã antes que esfrie
— vendo como estou abalada, Léo desconversa.

— Eba, vamos comer! — comemora Marcelo, eu não consigo parar de


olhar para ele sem pensar em tudo o que falou sobre sua outra casa.

— Tem mais alguém com saudade de você, mamãe. — Léo dá um


assobio e Walter chega correndo na cozinha, sentindo-se em casa.

— Ah, meu bebezinho lindo, quem é o cãozinho lindo da mamãe? —


Tento pegá-lo, mas Walter corre à minha volta, todo serelepe.

Como eu amo essa bola de pelo, minha vontade é apertar de tão


lindinho.

— Desculpa, amor, ele estava latindo no seu apartamento, então entrei


e peguei esse cão pulguento e trouxe com a gente. — Revira os olhos.

Não sei o que é mais fofo, sua atitude fofa ou ele me chamando de
amor.

— Eu adorei a surpresa, muito obrigada, seu lindo. — Vou até ele e


beijo sua boca.
— De nada, agora vamos voltar para a cama. — Pega a bandeja,
Marcelo vai na frente com o seu boneco do Hulk.

— Ei, Walter, comporte-se na cama do seu papai. — Pego meu


pinscher no colo, ele balança a cabeça como se entendesse o que eu disse.

Léo me olha feio.

— Oi? Que história é essa de papai desse cão metido? — resmunga.

— Desculpa, meu amor, mas lá em casa somos o pacote completo. Mãe


e os dois filhos, é pegar ou largar. — Faço biquinho, Walter faz a sua parte
olhando para ele com cara de cão sem dono.

— Eu mereço! — resmunga, mas com expressão de divertimento.

— Viu, Walter? Nossa família está completa agora — comemoro ao


chegarmos no quarto, junta-se ao Marcelo pulando em cima da cama do pai.

— Não, mamãe, falta a Blue. Minha irmãzinha. — Eu e o Léo nos

entreolhamos, ele não vai esquecer fácil disso.

Não mesmo.
Léo

Nós três, quer dizer, quatro porque não posso esquecer que agora sou
pai também de um cão pulguento. Santo Deus! Enfim, nós passamos uma
ótima manhã juntos na minha casa, eu não acreditava que seria possível ser
tão feliz novamente. Me sentir parte de uma família como quando os meus
pais e a minha irmã eram vivos, sem câncer ou falta de grana e suicídio. Uma
família normal como qualquer outra.

Quando a tarde chega tenho a ideia de levar o Marcelo para conhecer o


mar, convido mãe e filho para aproveitarmos o resto do nosso domingo na
praia. Como Felipe está passando o final de semana em Parati com o novo

namorado, pego o carro dele na garagem emprestado. Antes passamos na


casa da Dani para que eles troquem de roupa, vou ao apartamento da Paula
para pegar minha afilhada para ir ao passeio conosco.

Nunca vi ninguém gostar tanto de praia igual à Maria, parece um


peixinho dentro da água. Sua mãe a leva à praia desde bem pequena.

— Nós vamos onde, padrinho? — pergunta ansiosa.


— Não posso dizer ainda, docinho. Você não é muito boa em guardar
segredos, não é mesmo? — Faço cosquinha nela e ela ri alto, como Marcelo

não conhece o mar ainda, quero fazer surpresa.

Para ganhar tempo, enquanto a mãe arruma a mochila da Maria para


levarmos eu ajeito o cabelo dela. Antes do cabelo da minha irmã cair com a
quimioterapia, era sempre eu que fazia um penteado diferente todas as

manhãs no hospital, então tenho prática de sobra.

— Você e a mãe do Marcelo vão casar?

— Não sei, querida, por quê?

— Por que aí eu e o Marcelo seremos primos, não é? Vai ser tão legal.
— Sua constatação inocente me faz sorrir, ela é uma menina muito amorosa.

— Sua mochila está pronta, filha. — Entrega para a filha, um minuto


depois termino de prender os seus cachinhos em uma trança de cada lado.

— Tchau, mãe, te amo. — Dá um selinho na mãe e vai na frente para o


apartamento da Dani, é uma garotinha independente.

—Tchau, filhota, aproveita o passeio.

— Vão levar alguma coisa para comer, Leozito?

— A Dani está preparando uma cesta para levarmos, vamos deixar sua
filha bem alimentada. Não se preocupe, mamãe paranoica.
— Você disse que pegou o carro do babaca do Lipe emprestado, mas e
as cadeirinhas para criança? — o interrogatório continua, Paula é meia

exagerada quando o assunto é a segurança da filha.

— Eu aluguei duas no caminho até aqui, mulher, vai se arrumar para o


seu encontro romântico em paz. Dani disse que você pode dispensar a babá
hoje à noite, ela vai fazer uma festa do pijama com as crianças.

— Diz para a sua namorada que eu a amo, Leozinho! Estou tão feliz
que os meus melhores amigos estão juntos. — Enlaça o meu pescoço e beija
a minha bochecha.

— Já chega de melação, mulher, me solta — resmungo.

— Torce por mim, amigo, assim como você, eu também quero


encontrar o amor da minha vida. — Agarra o meu braço e suspira toda
melosa.

— Mulheres! — bufo.

Ela me dá um tapa na nuca e me acompanha até a porta, beijo a sua


testa e desejo-lhe boa sorte.

— Divirta-se e cuidem da minha menina! — grita antes de fechar a


porta.

Colocamos as bolsas no porta-malas do carro e seguimos para a praia


da Joatinga, um lugar não muito procurado pelos turistas. É mais frequentada
pelos moradores locais.

— Já posso olhar agora, papai? — Marcelo tenta a todo custo ver

alguma coisa entre as frestas dos meus dedos cobrindo o seu rosto, quero que
os seus pés toquem a água antes que veja o mar de fato.

— Ainda não, filho, só mais alguns passos. — Espero que a onda seja
recolhida pelo mar e deixo Marcelo no lugar certo para que quando ela volte,

o receba de braços abertos.

— O chão está molhado, papai. — Esfrega o pezinho na areia molhada


já achando o máximo, imagina quando vir o mar.

Olho para trás e sou agraciado com o sorriso lindo da Dani e da


Maria de mãos dadas, tão ansiosas quanto eu para ver a reação do Marcelo
quando descobrir onde estamos.

— Vai ficar ainda melhor, Marcelo, consegue contar até três? —


Assente e começa a contagem.

— Um… dois… três! — A onda vem com força e nos acerta, ele solta
um grito de euforia.

— Surpresa! — Descubro os seus olhos e o moleque fica maluco diante


da imensidão de água azulzinha sem fim, lindo demais mesmo.

— Você me trouxe para o mar, papai, obrigado! — Abraça minha


cintura, é gratificante poder proporcionar e fazer parte desse momento
mágico na vida do Marcelo.

— De nada, filho, agora aproveita. — Aponto para a próxima onda

vindo.

Sem um pingo de medo, Marcelo vai de encontro com o mar. O


moleque é corajoso.

— Espera aí, rapazinho, vai com calma. — Vou atrás e o seguro pelo
braço para trazê-lo mais para a borda.

É emocionante ver sua alegria rolando na areia. Brinca com a água


jogando-a para cima e rindo sem parar. Essa é a sensação de descobrir…
sentir algo pela primeira vez, ter uma emoção nunca experimentada. É algo
fascinante para quem vive e para quem assiste.

— Bem, acho que o nosso filho gostou da surpresa, papai. — Dani


segura o meu braço.

— E não foi só ele, Boneca. — Maria se junta ao coleguinha, agora a


festa está completa.

— Acho que esses dois não vão mais sair da água — ela suspira.

— Marcelo teve a quem puxar o gosto pela água, afinal o pai dele é
nadador profissional — ironizo e a mulher solta uma gargalhada.

— Desculpa, Leãozinho, mas essa foi a primeira profissão que veio à


minha mente — confessa ainda rindo.
— É mesmo, Boneca? Agora vai pagar por isso. — Pego-a no colo e
pulo no mar com ela ainda de roupa de praia e tudo, as crianças acham a

maior graça.

Brincamos os quatro de guerra de água e de fato ficamos um tempão


dentro do mar, depois de algumas horas as crianças ficam cansadas e vão
brincar de fazer castelo na areia.

— Esse sol está uma delícia, poderia ficar deitada aqui o dia todo. —
Ajeita a cabeça sobre o meu peito, sonolenta, enquanto aliso suas costas.

Esse biquíni laranja cavado dela está me deixando doido, sendo


sincero, qualquer coisa que ela usa me tira do eixo.

— Eu também, me sinto tão relaxado quando estou com você. — Ergo


a cabeça para dar uma olhada nas crianças brincando próximo a nós, não
param nem um segundo quietas.

— Acho bom relaxar agora mesmo, porque não vou te deixar dormir à

noite — insinua e eu fico de pau duro, que maravilha!

— Você está me saindo uma safada e tanto, sabia? — Discreto, esfrego


minha excitação nela para que saiba a situação em que me deixou.

Não vou ser tão gentil com ela hoje como fui ontem à noite, quero
pegar essa mulher de jeito.

— Eu estou aprendendo com o melhor, meu amor. — Morde o meu


lábio e puxa, seduzindo-me a diaba.

— Mamãe, eu estou com fome e a Maria também, podemos comer o

bolo de cenoura com cobertura de chocolate que a senhora fez ontem de


manhã?

— Claro que sim, filho, tem refrigerante também. — Paciente, pega a


garrafa d´água na bolsa e lava as mãos das crianças, seca com um guardanapo

de papel que tira da bolsa e ainda passa álcool em gel para só então servi-los,
cheia de sorrisos.

Uma mãe e tanto!

— Obrigada, tia.

— Obrigado, mãe.

— De nada, meus amores, depois que terminarem de comer venham


passar mais protetor solar. — As crianças assentem de boca cheia.

— O que foi? — questiona ao me ver admirando-a fixamente.

— Fez bolo de cenoura com cobertura de chocolate, mamãe? — Puxo-a


para perto de mim, estou orgulhoso dela estar aprendendo a cozinhar coisas
novas.

— Eu tenho aprendido pelo menos uma receita nova do livro que você
me deu por dia, para o nosso jantar hoje à noite farei uma lasanha de
berinjela.
— Hum, que delícia, estou ansioso para provar.

— E eu ansiosa para cozinhar para você hoje à noite, o que gostaria de

sobremesa? — pergunta sem maldade.

— Você! — respondo cheio de maldade.

Ela vira o meu rosto e beija a minha boca, hoje ela está querendo me

enlouquecer de vez.

— Socorro, o Marcelinho está passando mal! — Maria grita em


desespero.

Dani e eu nos levantamos em um pulo e vamos até ele, Marcelo está


agachado no chão depois de colocar para fora tudo o que acabou de comer.
Está pálido e com dificuldade de respirar.

— Vem aqui, filho, o que você tem? — Daniele se desespera.

Em meio ao choro, Marcelo começa a se engasgar com o próprio

vômito. Sua pele começa a ganhar um tom arroxeado.

— Me dá ele, vai ficar tudo bem. — Sento e coloco Marcelo deitado no


meu peito de barriga para baixo e dou alguns tapinhas de leve nas suas costas,
depois de algumas tossidas expele o que prendia o ar de entrar nos seus
pulmões.

— Isso, respira, já passou. — Fico de pé e o embalo como se fosse um


bebê, ele deita a cabeça no meu ombro e a crise vai passando.
— Minha barriguinha dói, papai. Quero ir para a casa — diz bem
baixinho.

— Tudo bem, campeão, nós já estamos indo. — Afago seus cabelos


ainda embalando-o.

— Não devíamos levá-lo para o hospital, Léo? — pergunta Dani, ainda


assustada.

Mas não adianta se desesperar agora, Daniele não sabe o que a espera
daqui para frente. Precisa ser forte. Esses são os sinais do começo do fim e
vão ficar cada vez piores. Esse maldito câncer derruba a pessoa que tem a
doença e todos em volta dela.

— Não tem o que fazer no hospital, Dani. Ele só precisa descansar e


dormir um pouco. — Pelo meu olhar e a minha calma, ela sabe que eu já
passei por isso tantas vezes que sei muito bem o que estou dizendo.

— Por favor, Maria, ajuda a tia a pegar as coisas e levar para o carro.

— As duas começam a catar as coisas pela areia.

Vou andando na frente com o Marcelo para o carro, esse sol está
escaldante. Destranco o carro e o coloco na cadeirinha, ele está quase
dormindo. Assim que fecho a porta e me viro, levo um susto.

— Rafaela? — Dou de cara com uma mulher que conheço muito bem.

Rafaela é uma morena linda dos olhos azuis, solteira e feminista. Ou


seja, com um gênio do cão. Como está sempre trabalhando e estudando, não
tem tempo para namorico. Por isso recorre a mim para suprir suas

necessidades carnais, e não tem medo de gastar para quando o assunto é


alimentar seu desejo sexual. Já houve semana em que agendou programa
comigo todos os dias.

— Ei, Léo, que coincidência te encontrar por aqui. Eu te enviei um

monte de mensagens ontem, mas você não me respondeu. — Se aproxima no


susto e dá um selinho nos meus lábios, a empurro imediatamente para bem
longe de mim.

O fato de ser uma cliente de mais de três anos não lhe dá o direito de
me tocar quando bem entender.

— Eu estava ocupado, tchau! E não me toque mais sem a minha


permissão. — Tento ir embora antes que a Dani chegue, mas a mulher me
agarra pelo braço.

— Vai estar livre no final da terça? Estou com saudades das nossas
fodas selvagens, ando precisando trepar ou vou surtar. — Desliza o dedo pelo
meu peito.

— O que é uma foda selvagem, tia Dani? — pergunta Maria, inocente.

A expressão fechada da Dani atrás de Rafaela me deixa sem resposta,


que droga, nosso dia estava sendo tão maravilhoso e de repente virou um
pesadelo.

— Nada de importante, querida, coisa do trabalho do seu padrinho. —

Entra no carro com a Maria e bate a porta.

— Desculpa por isso, Léo, não vi a garotinha chegando com a sua


amiga. — Fica vermelha.

— Ela não é amiga. É namorada — corrijo-a. — Eu não faço mais


programa, Rafaela, então não me procure mais. Adeus! — Corto o mal pela
raiz e entro no carro.

— Dani, eu sinto muito por isso — peço enquanto coloco o cinto.

— Só dirige — sibila do banco de trás com as crianças, sem olhar para


mim.

Quando chegamos em casa, Daniele leva Marcelo direto para o banho.


Eu e a Maria ficamos esperando no sofá e a coitadinha acabou dormindo do

meu colo, não quis contar para a mãe dela o que houve ou acabaria desistindo
do seu encontro.

— Como ele está? — pergunto assim que Dani retorna com o


semblante sério, ajeito o corpo da Maria no sofá e vou até ela.

— Depois do banho o coloquei na cama e ele dormiu novamente,


quando acordar vai estar bem melhor — diz friamente e cruza os braços sobre
o peito, emburrada.
— A próxima crise vai ser bem pior, você precisa estar preparada e
tentar manter a calma caso esteja sozinha — explico, tentando me aproximar

dela aos poucos.

— Eu nunca vou estar preparada para ver o meu filho morrendo aos
poucos bem diante dos meus olhos, Léo — desmorona bem na minha frente.

Eu não sei se estou preparado para perder o Marcelinho, mas a única

certeza que tenho é que eu permanecerei ao seu lado quando o fim chegar.
Dessa vez eu não vou errar.

— Calma, vou fazer uma água com açúcar para você. — A levo até a
cozinha.

— Eu não quero porra de água com açúcar nenhuma, quero saber o que
respondeu para aquela mulher na praia! Porque, se combinou algum tipo de
programa com ela, pode ir embora da minha vida agora mesmo. — Enfia o
dedo na minha cara adentro, se falou um palavrão é porque está mesmo muito

zangada comigo.

— Eu disse para aquela ex-cliente que você é a minha namorada, Dani.


E que não faço mais programa. Direi a mesma coisa para todas as outras que
me procurarem. — Seus ombros relaxam.

Preciso arrumar outro emprego urgente, até porque, mesmo que eu


quisesse continuar nessa profissão eu não teria mais sucesso. Meu pau traidor
agora não quer mais subir para outra garota que não seja a Dani, essa filha da
mãe me pegou de jeito.

— Acho bom mesmo, Leônidas Rafael. — Me enfrenta cheia de


valentia. — Porque não estou disposta a dividir você com ninguém, não sabe
o quanto fiquei furiosa te vendo de conversa com aquela oferecida —
esbraveja com as mãos na cintura.

— Agora você sabe como me senti quando te vi entrando na Ferrari do


doutor Amor, Daniele Flores. — Sorrio irônico, já que ela quer colocar tudo
às claras, ótimo. — Quero esse cara longe de você, entendeu bem? — me
exalto.

— É justo para mim, trato feito. — Apertamos as mãos e enfim a


mulher amansa.

Num piscar de olhos já estamos nos agarrando cozinha afora, espero


que todas as nossas brigas terminem dessa forma, conosco juntos e cheios de

paixão.
Dani

Acordo no meio da noite e Léo não está na cama, pego o meu celular
sobre o móvel próximo à cama e vejo que já passa das duas horas da manhã.
Visto o meu robe branco peludo e vou procurá-lo, o encontro no quarto do
Marcelo dormindo sentado em uma poltrona próxima à janela como um
guardião do sono das crianças. Passo com cuidado por cima da cama
improvisada que fiz para a Maria com um colchão extra que tenho, a
florzinha dorme serenamente, assim como o meu filho.

Me aproximo do meu “namorado”, vejo algo no seu colo que logo


identifico como Walter Flores, dormindo junto com o papai todo enroladinho

feito um rolo de lã preto e marrom. Cão abusado! Agora ele também não quer
saber de mim quando o Léo está aqui, só quer saber de ficar atrás dele para
todo canto.

— Vem, Léo, volta para a cama. Não pode passar a noite toda aqui
sentado. — Tiro Walter do seu colo, ele vai correndo para a caminha dele na
sala.
— Não, eu tive um pesadelo terrível com as crianças, por isso vim ver
como estavam. Vou ficar aqui até elas acordarem e eu ter certeza de que estão

bem — insiste com a voz sonolenta, alonga o pescoço de um lado para o


outro e volta a fechar os olhos.

— As crianças ainda vão estar aqui quando acordarmos amanhã, eu


prometo. Confie em mim.

— Eu confio. — Consigo puxá-lo pelo braço e fazer com que fique de


pé para levá-lo de volta para o meu quarto, ele tira a calça e deita só de
camisa e cueca.

Me abraça bem forte, como se eu fosse seu porto seguro, e adormece.


Eu não sei o quanto deve ser difícil para o Léo perder para o câncer mais
alguém importante na sua vida, como se fosse a minha dor somada por três,
mais o trauma do suicídio do pai. Não sei se suportaria tanta dor no lugar
dele, por isso às vezes me sinto culpada por tê-lo trazido para as nossas vidas.

Perdida em meus pensamentos, começo a cochilar aos poucos quando


ouço batidas desesperadas na porta. Fico receosa, quem viria tão cedo?
Levanto pisando de leve e vou atender.

— Ele só queria sexo, como todos os outros. — Paula me abraça aos


prantos, fico sem entender nada, estava tão ansiosa para sair com esse cara.

Seu vestido preto deslumbrante de uma manga só que levamos horas


para escolher, está todo amassado como se tivesse saído fugida de onde quer
que tenha vindo.

— Como assim, amiga? Me explica melhor o que aconteceu. — Ela


não fala nada, só chora.

Trago-a para dentro, sento com ela no sofá e deixo que chore até que se
sinta à vontade para desabafar, só depois de um bom tempo enfim começa a

falar.

— Nosso encontro foi lindo no começo, ele me levou ao cinema. Foi


um verdadeiro cavalheiro comigo.

— Então o que deu de errado, amiga?

— Tudo, Daniele! Ele disse que queria me levar para jantar em um


lugar bacana que adorava, mas estava sem dinheiro porque perdeu o emprego
no mês passado. — Semicerro os olhos, não estou gostando do rumo dessa
história.

— O que aconteceu depois?

— Eu, uma idiota, o convidei para ir ao tal restaurante porque pagaria a


conta, só queria passar mais um tempo com ele. Contudo, na hora de fazer o
pedido ele só escolheu as coisas mais caras.

— Mas que folgado! — solto sem querer.

— A coisa fica ainda pior, amiga. Depois que paguei a conta sem
reclamar, me senti lisonjeada quando me convidou para conhecer a casa dele,
quando chegamos já me levou para o quarto e me pressionou para fazermos

sexo e eu acabei cedendo e foi horrível. — Volta a chorar e eu a abraço.

— Você não merecia ter passado por isso, amiga. Foi praticamente um
estrupo — me exalto.

— Depois que ele conseguiu o que queria, me mandou embora de

maneira rude, me deixando sozinha no meio da madrugada — completa entre


os soluços, meu sangue ferve de raiva.

— Ah, mas essa história não vai ficar assim mesmo! Nós vamos lá
agora, ninguém humilha uma amiga minha dessa forma e sai impune. —
Pego um casaco qualquer e coloco sobre o meu robe, não vou ter paz até dar
na cara desse filho da puta.

— Você ficou louca, Dani? Eu nem sei se lembro do endereço.

— Ah, você vai sim! Vamos pegar o carro do amigo do Léo

emprestado, temos que voltar antes que ele e as crianças acordem. — Pego as
chaves do carro em cima da estante e saio pisando firme com as minhas
pantufas do ursinho Pooh, ela vem atrás de mim correndo.

— Você é maluquinha, sabia? — Em vez de chorar, agora a situação


está lhe arrancando gargalhadas.

— Me chame como quiser. Podem bater na minha cara, mas com os


meus amigos ninguém mexe. — Não mesmo, amizade é coisa séria para
mim.

— Por isso eu te amo! — comemora antes de entrarmos do carro.

Por sorte, Paula havia pedido um Uber quando veio da casa do macho
escroto e o endereço de partida ficou salvo. Fomos direto para lá e fico
bastante surpresa pela casa bonita que o cara mora, fora o Jaguar estacionado

na entrada. É obvio que ele tem grana e se fez de bobo para a minha amiga
pagar a conta.

Pilantra!

Tocamos a campainha até o príncipe das trevas vir atender só de cueca


azul samba-canção, seus olhos confusos se arregalam quando nos vê ambas
com as mãos na cintura e o nariz espetado no ar.

— O que vocês estão fazendo aqui? Já disse que foi só uma noite de
diversão, gata, não me procura mais. — Olha com deboche para a Paula,

tenta fechar a porta na nossa cara, mas o impeço com o pé.

— Isso é para você aprender a nunca mais se aproveitar de um coração


esperançoso de uma mulher, seu idiota! — Dou um soco com toda a força no
seu olho esquerdo, eu disse para a minha mãe que os anos de muay thai que
fiz não eram capricho da minha parte e um dia seriam muito úteis.

Hoje é esse dia.


— E isso é por me obrigar a fazer sexo com você contra a minha
vontade, covarde! — Me surpreendo com o chute caprichado que dá no meio

das pernas do cara, bem em cima das partes íntimas.

— Ai, meu pau! — geme e cai de joelhos com as mãos segurando sua
genitália, agora vai pensar duas vezes antes de mexer com uma mulher.

Sexo frágil é o caralho! Oh, meu Deus, quando que os meus

pensamentos ficaram com esse vocabulário sujo?

Enfim…

— Nós não acabamos ainda, querido! — Pego a chave na parte de


dentro da fechadura e tranco a porta pelo lado de fora, agora vem a melhor
parte.

— O que você vai fazer, Dani?

— Eu não, você vai, Paula. Tem que cobrar o que essa cara te deve. —

Pego uma barra de ferro jogada no quintal e a entrego, ela sabe o que fazer.

Primeiro, quebra o vidro da frente do carro dele, arranca os retrovisores


e depois amassa o capô. Usa a ponta fina para furar as quatros rodas, foi
melhor do que eu esperava.

— Agora chega, amiga, vamos fugir daqui antes que alguém chame a
polícia. — Saímos correndo e rindo feito duas malucas, ver toda a confiança
e força de volta às suas feições é algo revigorante.
— Isso foi incrível, Dani! — comemora assim que entramos no carro e
damos o fora dali.

— É, eu sei, e insano também. — Rimos mais ainda, foi muito


divertido fazer isso com ela.

Paula é uma mulher incrível, e por carência de afeto não deve deixar
ninguém se aproveitar dela. Tenho certeza de que quando o cara certo chegar,

ele não vai se importar com nada além de fazê-la feliz e cuidar dela. Sem se
importar com o seu passado, apenas com o futuro juntos.

Assim que chegamos, Paula vai direto para a sua casa tomar um banho
e tirar qualquer vestígio daquele traste do seu corpo. Entro no meu
apartamento em passos leves, tiro o meu casaco e levanto o lençol para me
deitar na mesma posição que estava antes de sair. Léo está dormindo virado
para o canto, então eu me aproximo e apoio meu queixo no seu ombro e
passo o meu braço em volta do seu corpo. Fecho os olhos, mas não consigo

dormir.

A adrenalina no meu sangue pelo acerto de contas ainda corre quente e


forte pelas minhas veias, toda essa sensação de perigo é excitante.
Vagarosamente, acaricio o peito de Léo e deslizo minhas mãos para debaixo
da sua sunga. Estou insegura do que fazer, mas continuo assim mesmo.
Agarro seu membro pré-ereto só de sentir o meu toque e, sem experiência
nenhuma, começo a tocá-lo.

Não sei se estou fazendo certo, mas pelo jeito que a sua ereção vai

ficando cada vez mais dura, acho que estou no caminho certo.

— Minha nossa, que delícia — geme Léo, sonolento.

— Você gosta disso, Leãozinho? — Aumento a velocidade dos

movimentos, seus músculos enrijecem.

— Muito! — urra.

Proporcionar esse desejo para alguém tão experiente só com as minhas


mãos é tão prazeroso para ele quanto para mim, tanto que quero ir mais além.

— Porra, Daniele, o que deu em você? — Viro o seu corpo de maneira


que fique deitado de barriga para cima, ele fica sem entender nada.

— Cala a boca, Léo, e aproveita. — Sem que ele esperasse, troco o


toque com a mão pela minha boca.

— Puta que pariu! — Contém um gemido, trinca o maxilar tentando


não fazer tanto barulho.

A princípio fico um pouco insegura por nunca ter feito isso antes,
contudo, ganho confiança quando Léo prende o meu cabelo em um rabo de
cavalo entre suas mãos e comanda a velocidade dos movimentos.

— Devagar, Boneca… — instrui com a voz rouca tomada pelo prazer,


afasta o quadril, tira o seu membro da minha boca e em seguida enfia por

completo até chegar na garganta.

Repete o mesmo processo algumas vezes. Olho para cima e os nossos


olhares se encontram, seus olhos escuros nunca estiveram tão selvagens. O
provoco fazendo cara de safada, ele perde a cabeça de vez e aumenta o ritmo
de entra e sai gemendo o meu nome. Segundos depois, sinto seu líquido

grosso encher a minha boca.

— Bom dia, Leãozinho! — Engatei sobre o seu corpo limpando a borda


da minha boca, ele me beija sentindo o seu próprio gosto nos meus lábios.

— Bom dia, Boneca. — Em um movimento rápido, muda de posição e


eu fico deitada na cama de barriga para cima e ele cobre o meu corpo com o
dele. — Onde aprendeu isso? — Abocanha o meu peito.

— Eu era virgem, não santa. Gosto de assistir uns vídeos quentes às


vezes — revelo e ele me fita pasmo.

— Certo! Sua vez de se divertir agora, Boneca. Como você quer que eu
te coma? — Sua mandíbula afrouxa e me agracia com um sorriso devasso.

— Eu sou toda sua, Léo, faça o que quiser comigo. — Me entrego sem
reservas, ele tira a roupa depressa.

Usa o joelho para abrir minhas pernas e me possui em uma estocada


profunda, deliciosamente.
— Nunca foi tão gostoso como é com você — declara e penetra
incontáveis vezes.

— Ahh… você me deixa louca — gemo e arranho as suas costas.

— Você fica ainda mais gostosa quando geme, Boneca. — Dá um tapa


na minha bunda.

Isso é o fim para mim, chego ao clímax e ele vem logo em seguida. Seu
corpo desaba sobre mim, exausto, permanecemos assim, saciados, enquanto
nossas respirações normalizam.
Léo

— Papai… papaiiiii, acorda! — Sinto uma mãozinha pequena dando


tapinhas no meu rosto repetidamente.

Abro os olhos meio sonolento e a primeira coisa que vejo são dois
olhinhos verdes vibrantes e um sorriso de quem acordou no pique para fazer
bagunça, meu dia vai ser longo...

— Oi, filho, bom dia! Cadê a Maria? — Sento e esfrego os olhos, o cão
pulguento está dormindo enrolado no edredom aos pés da cama, quase em um
coma canino.

Não acordou nem quando a chefe da Daniele ligou e pediu para ela ir
trabalhar mais cedo. Eu vesti minhas roupas e a acompanhei até a porta. Ela
me deu um beijo e pediu para levar as crianças para a escola hoje caso o
Marcelo estivesse sentindo-se melhor quando acordasse.

No entanto, como ainda estava muito cedo voltei para a cama, acabei
dormindo novamente e perdi a hora.

— A Maria acordou com saudades da sua mamãe, então eu segurei a


mão dela e a levei em casa — explica igual a um homenzinho, leva jeito com
as mulheres.

— Mandou bem, Marcelo. — Batemos nossas mãos. — Está com


fome, campeão? — Assente.

— Muitaaa fome, pai.

— Então está na hora de comer! — Jogo ele no meu ombro e o levo


para a cozinha, faço leite quente e panquecas com cobertura de chantili e
amoras vermelhas.

E ainda comemos mais algumas besteiras que encontramos na


geladeira, ele realmente está com fome. Graças a Deus dessa vez não colocou
tudo para fora como na praia, comeu tudo o que coloquei no prato e ainda
pediu mais.

— Você vai me levar para a escola hoje, papai?

— Não, filho, vamos a outro lugar. — Ajeito o seu casaco.

— Onde vamos, então? — questiona curioso quando o coloco na


cadeirinha no banco de trás do carro, decidi que hoje vamos passar o dia
fazendo coisas legais de pai e filho.

Felipe vai ficar puto de eu não entregar o carro dele hoje como prometi,
mas depois me entendo com ele. Só não posso esquecer de mandar uma
mensagem para Daniele avisando onde estamos indo, mas acredito que
devemos voltar para casa antes de ela chegar do trabalho.

— Vou te levar para conhecer uma fazenda cheia de animais, já foi em

uma antes?

— Não, papai, que legal! — Se anima batendo as mãozinhas.

Levo Marcelo para uma fazenda interiorana aberta ao público, com

cavalos, vacas, porcos e vários tipos de aves e lagos para pescar. Nunca fui
neste local antes, no entanto, pelas fotos que vi ao pesquisar na internet mais
cedo, parece ser um lugar bem bacana.

Quero que esse moleque experimente um pouco de como foi a minha


infância crescendo em meio à natureza, correndo descalço para todo o canto
atrás dos animais da fazenda do meu pai.

— Olha, papai, que cavalo bonitinho, posso andar nele? — Fica


deslumbrado logo na entrada do local vendo o grande estábulo, e mal
passamos a porteira ainda.

— Hoje o dia é seu, filho, pode fazer o que quiser. —Estaciono o carro
no estacionamento, e então a aventura começa.

Começamos andando de cavalo juntos, como tenho prática de sobra em


montaria não precisamos da ajuda de um instrutor. Deixo que Marcelo
escolha o animal para o nosso passeio, pegamos uma trilha curta que
atravessa o pasto.
— Você gosta mais da sua moto ou de andar de cavalo, papai?

— Eu gosto dos dois, mas de maneiras diferentes. — Deixo que segure

a cela sozinho, aprendeu rápido como conduzir o cavalo.

— Então podemos ter um cavalo? — pergunta inocente, como se fosse


possível manter um animal desse porte na cidade grande em um apartamento
de cinco cômodos.

— Eu acho que a sua mãe não iria gostar da ideia, Marcelo.

— Meninas são tão complicadas às vezes, não gostam de ideia legais.


— Faz um barulho engraçado com a boca.

— Concordo plenamente, filho. — Rimos.

Depois do passeio a cavalo, ensino Marcelo a tirar leite das vacas.


Alimentamos os porcos, jogamos milho para as galinhas e demos mamadeiras
para os bezerros que perderam suas mães durante o parto. À tarde almoçamos

no restaurante da fazenda com a comida feito no fogão a lenha no estilo


mineiro. Pelo estilo diferenciado de cuidar tão bem dos animais nesse lugar,
sabia que o dono só poderia ser de Minas Gerais mesmo.

Depois do almoço, pegamos o equipamento de pesca e vamos para a


volta no lago. Menos de cinco minutos depois que o Marcelo joga a linha na
água, começa a puxar dando sinal que sua isca fisgou algo.

— Eu acho que peguei um peixe, papai. — Prendo o meu anzol no


chão e vou ajudá-lo a puxar.

— Você pegou um peixão, Marcelo. Parabéns! — Tiro o peixe branco

e alaranjado do seu anzol com cuidado para não machucá-lo, vamos colocar o
bichinho de volta no lago depois.

— Podemos mandar uma foto para a mamãe?

— Claro, filho, faz uma pose bonita! — Segura o peixe, sorridente,


vestido a caráter com os apetrechos que vêm no equipamento de pesca.

Camisa xadrez em vermelho e branco com o slogan da fazenda, botas


de plástico azul de cano longo e chapéu de palha.

— Pronto, campeão, agora vamos tirar uma foto juntos. — Me abaixo e


o ajudo a segurar o peixe, tiramos uma self divertida fazendo careta.

— Como ficou a foto, papai, posso ver?

— Ficou da hora, campeão. — Mostro para ele, pelo seu entusiasmo ao

passar o dedinho sobre a imagem deve ter ficado do seu agrado.

— Eu gostei muito, mas agora vamos colocar o peixe na água? Se ele


morrer, o papai e a mamãe dele vão ficar tristes.

—Vão sim, filho, vão sentir a falta dele todos os dias — digo de
coração apertado referindo-me a ele, não ao peixinho.

Uso o meu celular para gravar o momento em que Marcelo coloca o


peixinho de volta no lago, que imediatamente nada para longe e some na

parte mais funda.

— Tchau, amiguinho. — Acena para a água.

— Ei, Marcelo, diz oi para a mamãe — peço, então ele olha para o
celular na minha mão e abre um sorriso tímido quando percebe que estou
filmando-o.

— Oi, mamãe, eu te amo muitão assim, ohhh! — Estica os braços o


máximo que pode como se fosse abraçar o mundo, depois beija a mão e joga
na direção da câmera.

Marcelo se despede com um aceno e pega a sua vara e volta a pescar,


cantarolando alguma música infantil. Envio o vídeo e as fotos que tiramos
para a Dani, ela responde imediatamente com um emoji de coração no final
da mensagem.

“Que lindo ver os meus meninos se divertindo juntos, eu também amo


vocês.”

Declara e, antes que eu possa controlar os meus dedos, disco a seguinte


mensagem de volta:
“Nós também amamos você, mamãe.”

Ela envia outra mensagem dizendo que precisa voltar ao trabalho e


finaliza com várias fileiras de corações, quando dou por mim estou sorrindo
feito um idiota. Porra! Eu virei um marica mesmo.

Me junto ao Marcelo de volta à pesca e nem vemos o tempo passar,


vamos embora quando o sol começa a se esconder atrás das montanhas. Faço
uma parada no meu apartamento para entregar o carro do Felipe antes que ele
tenha um infarto, também preciso pegar algumas mudas de roupa para levar
para a casa da Dani.

— Enfim chegou a margarida, espero que tenha cuidado bem do meu


possante, Léo. Seu filho da puta do caralho! — esbraveja Felipe assim que
chego, mas fica de queixo literalmente caído quando percebe que não estou
sozinho.

Marcelo se assusta com o grito do babaca do Felipe e se esconde atrás


das minhas pernas, deve achar que a minha casa foi invadida por um doido
varrido.

— Oi para você também, Felipe. Esse é o Marcelinho, o meu filho. —


O queixo do meu amigo cai mais ainda.

— E a regra de não trazer trabalho para a casa, Léo? — Cruza os


braços e balança o pescoço feito uma cobra cascavel.

— Deixou de ser trabalho há muito tempo, cara, agora a coisa virou

afetiva tanto em relação ao filho quanto à mãe — assumo, não tenho por que
esconder o que sinto nem para ele e nem para ninguém.

— Cacete! — solta o paspalho, fecho a cara para ele. — Desculpa,


garoto, o tio Lipe disse mais uma palavra feia. — Sorri sem graça, mas eu

continuo sério.

— Ele é mesmo meu tio, papai? — Puxa a ponta da minha camisa para
chamar a minha atenção, a princípio penso em dizer que não.

Mas então olho para uma criança muito confusa à espera de uma
resposta positiva, depois para um amigo com um sorriso de orelha a orelha,
filho único, que nunca terá a oportunidade de realizar o seu sonho de ser tio e
acabo dizendo o que ambos querem ouvir.

— Sim, filho, esse é o seu tio Felipe. — Respiro fundo, espero não me

arrepender disso mais tarde.

Contudo, acredito que não, Felipe pode ter muitos defeitos, e coloca
muitos nisso! Mas adora crianças de verdade, e vai ser bom para o Marcelo
ter um tio palhaço feito o Lipe.

— Isso! — Lipe dá um soco no ar e faz a dança da alegria girando o


corpo de um jeito estranho, balançando os braços para cima e para baixo.
— Você é engraçado, tio Felipe — Gargalha.

— Você ainda não viu nada, sobrinho, já ouviu a piada do boi manco?

— Nega com a cabeça, seu olhar é pura curiosidade.

— Vem aqui então que vou te contar, já aviso que de onde vem essa
tem um monte de ótimas piadas que o meu avô contava para mim quando eu
tinha a sua idade. — Marcelo senta no sofá, pronto para assistir ao show.

Felipe não só começa a contar a piada, como atua fazendo caras e bocas
entre pulos pela sala. Essa conversa vai longe! Agora meu amigo está feito,
achou alguém para ouvir as suas piadas sem graça.

— Eu vou pegar algumas roupas para levar para a casa da sua mãe,
Marcelo. Volto em um minuto. — O moleque nem me escuta, está se
contorcendo em gargalhadas.

Pego tudo o que preciso no meu quarto e coloco em uma mochila, na


hora de chamar o Marcelo para ir embora é uma briga grande. Ele quer ficar e

ouvir mais histórias malucas do Tio Lipe. Mas acabo consigo convencê-lo,
sua mãe deve estar se descabelando porque ainda não chegamos.

— Eu já conheci o meu sobrinho, Léo, agora só falta a cunhadona —


dá o ultimato, encarnando mesmo o papel de tio do menino.

— Não enche o saco, Lipe, te vejo amanhã.

— Vai dormir na casa do mozão, não é, garanhão? — ouço o seu grito


atrás de mim, levanto o dedo do meio sem olhar para trás.

Chegamos na casa e Dani está terminando de fazer o jantar, de banho

tomado com o cabelo ainda molhado e um blusão amarelo claro e havaianas


brancas nos pés.

Sexy demais! Já estou de pau duro só de olhar para ela.

— Oi, meninos, que bom que chegaram. Acabei de tirar a lasanha de


berinjela do forno.

— Oi, Boneca, como foi no trabalho? — Abraço sua cintura por trás
enquanto mexe alguma coisa no fogo e beijo o seu rosto.

— Foi corrido, aquele restaurante parece cada dia mais lotado de


clientes. E o dia de vocês, como foi?

— Incrível, mãe, eu andei de cavalo e vi um monte de animais


diferentes. Mas a minha parte favorita foi pescar com o papai — conta entre

sorrisos.

— Que bom que você e o seu pai se divertiram, meu amor. Agora vai
tomar banho porque teremos visita.

— Sim, mãe, o Walter pode tomar banho comigo?

— Pergunta para ele antes, filho, sabe como esse cão é, só faz o que ele
quer e quando quer. — Assente e vai atrás do cão.
Giro os olhos, eles falam dessa bola de pelo como se estivessem
falando de uma pessoa. Sendo sincero, estou começando a me apegar a esse

cão.

— Visita, é? — Beijo a curva do seu pescoço.

— Sim, minha mãe quer conhecer a minha casa. Vou aproveitar e


apresentar o meu namorado para ela também. — Começo a suar frio, nosso

relacionamento é tão recente e eu já terei que enfrentar a sogra.

Eu não sei se é verdade, mas todo cara que conheço que tem uma sogra
diz que é o diabo de saia ou no mínimo o cão chupando manga. Mas se
participar desse jantar vai deixar Daniele feliz, tudo bem, estou disposto a
enfrentar a fera.

— Mas ela sabe que o Marcelo pensa que sou pai dele?

— Sim, eu contei toda a história para ela. Não gosto de mentiras, isso
para mim é imperdoável — coloca bastante ênfase na sua afirmação.

— Entendo! Mas algumas pessoas mentem, depois se arrependem e


fariam de tudo para voltar atrás e fazer tudo certo — tento argumentar.

Ela vira de frente para mim e eu desvio o olhar.

— Mentira é mentira, Léo, para mim não tem perdão e ponto final. —
Ajo por impulso e a abraço bem apertado, só para aproveitar ao máximo essa
sensação mágica que é tê-la nos meus braços.
— Então quer dizer que você quer me apresentar para a sua mãe,
Boneca? — Faço cócegas nela, mudando de assunto.

Saber que Daniele, mesmo conhecendo o meu passado trágico e a


minha carreira na prostituição, quer me apresentar para a sua mãe ricaça é
algo revigorante, ela não tem vergonha de mim e está disposta a assumir o
nosso relacionamento para o mundo.

— Sim, e acho bom você se comportar direitinho, Leônidas Rafael. —


Aponta a colher de pau suja de molho de tomate para mim, cheia de risos.

— Pode deixar, como você sabe eu levo muito jeito com as mulheres
— provoco.

— Ah, mas é claro que eu sei, seu sem-vergonha, mas já vou logo
dizendo que você não chega nem perto do homem que dona Vera idealizou
para mim, então se prepara para receber uma mulher no início da menopausa
e quatro pedras na mão — me deixa ainda mais nervoso de propósito.

— Você é muito má, sabia? — Roubo um beijo.

— Agora chega, Léo, para de graça e vai ajudar o seu filho e o Walter a
se arrumarem e só apareçam na minha frente lindos e cheirosos. — Me
expulsa da cozinha na base dos tapas, ela fica ainda mais linda assim, toda
bravinha.

— Sim, senhora, você manda. — Pisco para ela e vou ajudar o Marcelo
e o Walter com o banho, também preciso me arrumar.

Porra! Tomara que essa Vera não seja uma megera que vai pegar no

meu pé por não ser o que ela espera para a sua filhinha linda que criou para se
casar com um cara perfeito, porque de príncipe encantado não tenho nada.
Dani

O clima não podia ser mais tenso nessa mesa, minha mãe com a cara
azeda de um lado, Léo constrangido do outro e Marcelinho tagarelando o
tempo todo vendo um vídeo no meu celular, sentado à minha frente. Esperto
foi o Walter que deu o fora daqui, foi para o sofá brincar com o seu osso de
plástico.

— Eu não acredito que essa lasanha divina de berinjela foi você que
fez, filha, estou muito orgulhosa de você. Vou até sair da minha dieta de
massas e comer mais um pedaço. — Sou agraciada pelo elogio da mulher
mais exigente do planeta, por incrível que pareça acho que foi sincero.

— Está mesmo ótima, parabéns. — Léo e eu trocamos sorrisos, inclino


e beijo o seu rosto.

— Muito obrigada aos dois, eu descobri que amo cozinhar. — Respiro


orgulhosa com a mesa caprichada que montei em tempo recorde.

Além da lasanha de berinjela, fiz arroz de forno e salada de espinafre.


Para dar uma cor, recheei alguns pimentões vermelhos com queijo e presunto.
— Minha mãe também amava cozinhar, Daniele, tenho certeza de que
ela amaria conhecer você. — Aperto a mão do meu amor debaixo da mesa,

eu amaria ter tido a honra de conhecer a mãe dele.

— Tem certeza de que não nos conhecemos de algum lugar, rapaz? —


pergunta dona Vera pela quarta vez, mudando de assunto bruscamente,
enquanto joga o cabelo recém-platinado para o lado e encara Léo.

Ela está cismada que já o viu em algum lugar, só não consegue se


lembrar de onde. Na minha opinião não passa de pura implicância da parte da
minha mãe. Quase morri de vergonha da cara enojada que fez quando chegou
na minha casa reparando tudo de cima do seu salto quinze exclusivo da
Chanel, acho que nunca entrou em um lugar tão humilde antes. Está evitando
ao máximo tocar em qualquer coisa com medo de sujar o seu terninho
branco. Parece uma árvore de natal toda enfeitada com os brincos em formato
de bolas douradas, colar de pérolas e várias pulseiras finas no pulso esquerdo.

No entanto, essa não foi a pior parte. Quando Léo foi cumprimentá-la,
minha querida mãe segurou nas pontinhas dos dedos dele examinando-o da
cabeça aos pés. Olhou suas tatuagens horrorizada, parece até que nunca viu
um homem tatuado antes.

— Tenho sim, senhora, se tivéssemos nos encontrado alguma vez, eu


me lembraria com certeza — afirma sem paciência e com o maxilar trincado,
e eu acredito nele.

A excentricidade da minha mãe é algo inconfundível, se alguém coloca

os olhos nela uma vez não esquece mais.

— Certo! Mas por que não me fala mais sobre você, Léo, vai trabalhar
com o que agora que abandonou o seu ramo? — pergunta ela evasivamente.

Léo se engasga com a comida, tosse várias vezes com o rosto tomado
por uma cor avermelhada.

Minha cara vai ao chão de vergonha.

— Pelo amor de Deus, mãe! — me zango com ela, pego um copo de


água e dou para o Léo, dando tapinhas nas suas costas.

— O que foi, Daniele? Não vejo mal nenhum em querer saber mais
sobre o namorado da minha filhinha, Léo precisa achar outro trabalho
decente. Não quero você e essa criança morando nessa espelunca para

sempre. Se não fosse tão orgulhosa, aceitaria a ajuda financeira que te ofereci
— solta o que está preso na sua garganta desde que chegou, minha mãe não
facilitará as coisas para nós.

— Por que o papai não pode mais trabalhar como atleta olímpicio?
Pensei que ele gostasse de ser um nadador. — Marcelo faz bico.

— Tudo bem, querido, não foi isso que a vovó Vera quis dizer. Quer
mais um pouquinho de suco?
— Sim… sim, mãe. — Encho seu copo de suco de laranja, com os
meus olhos fervorosos sobre a minha mãe.

Já disse a ela mil vezes que não quero o seu dinheiro, apenas que faça
parte da minha vida e do Marcelo. Contudo, a única coisa que exijo é que
respeite minhas condições financeiras; não é nada luxuoso, mas conquistado
com o meu próprio esforço.

— Desculpa, filha, só queria ajudar — diz magoada e eu me sinto mal,


acredito que suas intenções são boas, mas precisa aprender a respeitar o meu
espaço e escolhas.

Não pode mais me controlar com o seu amor sufocante, nem ela nem
ninguém.

— Mas a senhora pode me ajudar, mãe, não me dando dinheiro, e sim


me ajudando a fazer dinheiro.

— Como assim, filha?

— Estou pensando em montar um bazar de luxo com a maioria das


minhas roupas, sapatos e joias caras que mal usei. Muitas ainda estão com a
etiqueta — digo e o horror toma suas feições.

— Você só pode ter ficado louca, Daniele. Gastei uma fortuna para
montar o seu guarda-roupas, não quero que se desfaça dele a preço de banana
— esbraveja.
— Mas é por uma boa causa, mãe, estou juntando dinheiro para fazer
uma viagem com o Marcelo e uma festa de aniversário para alguém muito

especial. — Faço sinal discretamente na direção do meu menino, ele nunca


teve uma festa de aniversário e está na hora de ganhar uma. — Além do mais,
nem tenho aqui espaço para guardar esse monte de coisas. — Dou de ombros.

Mesmo faltando vários meses para o dia que Marcelo nasceu de fato,

terei que adiantar sua festa de aniversário. Farei o mesmo com natal, ano
novo, dia das mães, entre outros. Não quero que o meu filho morra sem ter a
chance de comemorar cada uma dessas datas especais pelo menos uma vez.

— Entendo seu desejo, Daniele. Mas concordo com a sua mãe.


Também não quero que se desfaça das suas coisas, faço questão de pagar os
gastos da festa e ajudar na sua viagem com o Marcelo. Até porque eu ficaria
honrado em fazer parte dela, se você autorizar, é claro. — Me olha daquele
jeito que acaba comigo, como se não tivesse certeza de que eu quero que faça

parte de verdade da minha vida e da do Marcelo.

Não sabendo ele que não precisa de convite para estar ao meu lado.
Somos uma família agora.

— Eu e o Marcelo não iríamos a lugar nenhum sem você, não é, filho?


— praticamente juro.

— É, papai, quem iria cuidar de mim e da mamãe? — fala


ingenuamente.

— Verdade, filho. — Léo sorri para ele.

— Mas eu não quero que assuma os gastos com tudo, está


desempregado agora e não pode ficar gastando suas reservas conosco. Então
vou fazer o bazar com as minhas coisas e assunto encerrado.

— Não, senhora, já falei que eu pago tudo. Tenho um bom dinheiro


guardado, não se preocupe — insiste o teimoso.

— Sabe que estou começando a gostar de você, rapaz? — sibila minha


mãe, começando a se render ao charme do Léo. — Por que não fazem assim,
dividem as contas meio a meio? — sugere.

— Eu aceito, acho justo — digo.

— Tudo bem para mim também, são duas contra um — ele resmunga.

— Sobre o bazar, pensei melhor e vou te ajudar sim, filha. Sei que vai

fazer isso de qualquer jeito, então é melhor que eu esteja por perto para
garantir que ninguém te dê calote — minha mãe se anima com a ideia; não
admite, mas adora participar desse tipo de evento.

— Obrigada, mãe, sabia que podia contar com você. — Seguro a sua
mão.

Depois disso minha mãe não fala mais em outra coisa além desse bazar,
tem um monte de ideias. Léo fica mais relaxado. Com a mente ocupada
minha mãe para de pegar no pé dele. Até pede sua opinião em algumas
coisas.

Dona Vera vai fazer desse bazar um sucesso, tenho certeza!


Dani

Os dias vão passando e se transformando em semanas, tenho ajudado


minha mãe na organização do bazar durante minhas folgas do trabalho. Deu
mais trabalho do que esperávamos, tivemos que alugar um espaço para caber
todas as minhas coisas e arrumar uma por uma, de maneira que chamasse a
atenção das pessoas na vitrine. No entanto, todo o esforço valeu a pena. As
vendas foram um verdadeiro sucesso.

Logo de cara minha mãe conseguiu fazer três mil reais só com a venda
de uma bolsa da Gucci para a primeira cliente que apareceu. No final do dia
havíamos vendido praticamente tudo, quase caí para trás na hora de fazer a

contagem do caixa.

— Vai dar para fazer tudo o que quero só com uma pequena parte do
dinheiro arrecadado, quero investir um pouco e guardar o restante em uma
poupança para alguma emergência. — Jogo as notas para cima, eu e a minha
mãe dançamos em meio à chuva de dinheiro.

Volto para a casa feliz da vida, Léo estava me esperando lá com o meu
filho, ambos cheios de amor para dar. Ele praticamente se mudou para o meu
apartamento, passa mais tempo conosco do que na casa dele. Está cada vez

mais próximo de mim e do Marcelo, tem se esforçado muito para dar certo.
Essas últimas semanas que passamos juntos foram um verdadeiro sonho para
nós três.

Mas nem tudo são flores, Léo fez centenas de entrevistas de emprego e

não foi aceito em nenhum pelo fato de não ter o ensino médio completo. Fora
que não tem referências de trabalho além do mundo da prostituição.

— Eu não sei mais o que fazer, Dani, não aguento mais ficar parado. E
nem posso. — Afasta o jornal na página dos classificados para longe, está de
mau humor desde que recebeu uma ligação hoje bem cedo, não tínhamos nem
saído da cama ainda.

Léo levantou às pressas e foi atender no banheiro com a porta trancada,


seja o que fosse não queria que eu escutasse. Tentei não ficar insegura com

isso. Mas foi impossível quando ele voltou para a cama com uma expressão
fechada, só sorriu quando Marcelo entrou no quarto com o Walter e pulou na
nossa cama.

Nosso filho sempre faz isso todas as manhãs, depois vamos tomar café
juntos. Isso virou um ritual da nossa família.

— Calma, Léo, você vai achar alguma coisa. Eu vou te ajudar. — Sento
no seu colo.

Esse mês minhas duas folgas semanais caíram na terça e quinta, então

nesses dias, enquanto Marcelo está na escola, tenho o ajudado na procura de


emprego. Léo se sente culpado de eu estar trabalhando e ele não, também se
sente entediado de ficar em casa o dia todo.

Para mim, empregado ou não, estou muito orgulhosa desse homem.

Tem se saído um pai e um companheiro responsável. Na verdade, só o fato de


ter saído da prostituição já me deixa muito feliz, o resto a gente dá um jeito.

— Eu aceito a sua ajuda, mas não agora. Sabe que dia é hoje, Boneca?
— Abraça a minha cintura, puxa a gola da blusa com os dentes e passa a
língua no bico do meu seio.

— Claro que sim, Leãozinho! Estamos completando um mês juntos


desde o nosso primeiro encontro. — Ele abocanha o meu seio, solto um
gemido e enlaço os fios grossos do seu cabelo.

Espero que venham muito mais meses incríveis ao lado desse homem
irresistível, desde a nossa primeira vez não passamos uma noite sem fazer
amor várias vezes.

— Exatamente, precisamos sair para comemorar. O que acha? Na volta


podemos passar na escola e pegar o Marcelo.

— Com certeza! Já vou até me arrumar, querido. — Me levanto e saio


tirando a roupa na frente dele, tentando sensualizar. — Se quiser pode tomar
banho comigo, mas sem gracinhas, viu? — Jogo o sutiã na sua cara e saio

rebolando, já completamente nua.

— É claro que eu quero, Boneca. — Quase cai da cadeira ao se levantar


e vem correndo atrás de mim, tira a roupa em segundos e entra no box
comigo.

Fizemos amor debaixo do chuveiro, lento e bem gostoso. Léo me ergue


do chão e me imprensa contra o azulejo frio da parede, amando-me com
devoção enquanto a água cai sobre nossos corpos. Nosso sexo tem ficado
cada vez mais intenso.

Depois do banho, nos arrumamos e saímos sem rumo por aí. Não
queremos fazer nada de muito extravagante, só um passeio de casal mesmo.
Vamos ao cinema e vemos um filme romântico, mas nem me lembro direito
porque passamos a maior parte do tempo nos agarrando. Saímos de lá e

fomos direto para a escola do Marcelo; como ainda está um pouco cedo para
o final da aula paramos em um café próximo, um lugar pequeno, mas muito
confortável e acolhedor.

— Por que está me olhando assim? — Coloco o cabelo atrás da orelha,


tímida.

Léo está com o cotovelo apoiado sobre a mesa e a mão segurando o


queixo quadrado, olhando-me fixamente, ele me olha como se fosse me jogar
em cima dessa mesa redonda minúscula de dois lugares a qualquer momento

e fazer amor comigo aqui mesmo.

— Nada, só pensando em como você consegue ser tão linda. — Deixo


minha xícara de chá verde sobre o pires, me inclino e lhe dou um beijo casto.

— Digo o mesmo sobre você, bonitão. E antes que eu me esqueça, aqui

está o meu presente do nosso aniversário de um mês. — Tiro um saquinho


dourado de seda pura de dentro do bolso do meu macacão jeans e o entrego,
espero que ele goste.

— Você não está me pedindo em casamento, está? — Ergue a


sobrancelha e balança o saquinho perto do seu ouvido.

— Larga de ser bobo e abre logo, Léo. — Dou um tapa no seu braço e
ele ri.

Mas logo fica sério quando desfaz o laço do saquinho de seda e tira um

cordão banhado a ouro branco que mandei fazer com uma pulseira que eu
amava e tinha desde a minha adolescência. Pedi ao joalheiro que derretesse e
fizesse um pingente representando a nossa família. Com pai, mãe, um filho
lindo e um cãozinho marrento.

Quero que toda vez que Léo olhe para esse presente, entenda de uma
vez por todas que não está mais sozinho. Nós somos sua família agora.
— Não sei o que dizer, Dani. Esse é o melhor presente que eu já ganhei
na minha vida. Obrigado. — Beija minha mão.

— Deixa-me colocar em você, estou muito feliz que tenha gostado. —


Passo em volta do seu pescoço e fecho.

— Prometo nunca mais tirá-lo, assim, não importa onde eu vá, de


alguma forma levarei vocês comigo. — Aperta o pingente com força e

deposita um beijo. — E eu também tenho um presente para você, Boneca.


Preciso que fique de pé, feche os olhos e abra a mão. — Faço o que ele pede.

Permaneço parada esperando o meu presente e nada acontece, fico


frustrada. Quando abro os olhos vejo Léo ajoelhado à minha frente segurando
uma caixinha vermelha aveludada aberta, com um anel lindo dentro.

Dá para ver que se trata de uma joia antiga, a parte dourada está
levemente gasta, mas a florzinha de pétalas verde-água em cima está intacta e
muito brilhante.

— Ah, meu Deus! — solto um grito e levo as duas mãos sobre a boca.

— Quer namorar comigo oficialmente, Daniele Flores? Esse anel de


compromisso foi da minha mãe, meu pai deu a ela quando a pediu em
namoro em 1985. Porque tinha certeza de ter encontrado a mulher da sua
vida, assim como eu. E assim foi com o pai dele, tem passado pela geração
dos homens primogênitos da nossa família. — Entro em estado de choque,
Léo acabou de dizer que sou a mulher da sua vida.

— É claro que eu aceito, meu amor. — Ele fica de pé e coloca o anel

no meu dedo, nos beijamos debaixo de uma chuva de palmas dos outros
clientes e funcionários do café.

Extremamente felizes, terminamos o meu chá e Léo o seu café preto e,


de mãos dadas, oficialmente namorando, vamos caminhando na direção da

escola do nosso filho.

— Estou pensando em fazer a festa de aniversário do Marcelo no


próximo sábado, o que acha? Quero que seja surpresa. — Esperamos o sinal
abrir para atravessar a rua.

— Ele vai surtar de tanta alegria, já estou até vendo. — Alisa meu
braço.

— Tudo bem se eu convidar o meu amigo Felipe? Gostaria de


apresentar você para ele, acho que essa é uma ótima oportunidade — explica.

— Então você quer me apresentar para os seus amigos, Leãozinho? —


provoco.

— Fazer o que, né? Não tenho outra saída. — Mostro a língua.

— Vai ser um prazer conhecer o tal tio Lipe, Marcelo sempre fala de
como ele é engraçado. — Chegamos ao pátio da escola e nos juntamos aos
outros pais que, assim como nós, vieram buscar seus filhos.
— Falando no nosso garoto, lá está ele. — Marcelo abre um sorriso
enorme quando nos vê, vem correndo ao nosso encontro de braços abertos.

— Oi, papai, você e a mamãe vieram me buscar hoje! — grita enquanto


corre.

Léo vai ao encontro dele, pega nosso menino no colo e joga para cima
várias vezes, fazendo-o gargalhar. Cruzo os braços e fico observando como é

lindo ver esses dois juntos, tenho muita sorte em tê-los na minha vida.

É irônico saber que na procura de um pai de aluguel para o meu filho,


acabei encontrando também o homem da minha vida.
Léo

Enquanto a Dani e suas amigas decoram o apartamento para a festa de


aniversário antecipado do Marcelo, eu e os outros pais ficamos responsáveis
de sair juntos com as crianças e mantê-las distraídas o máximo de tempo
possível. Ou seja, terei que passar várias horas na companhia de um monte de
pirralhos bagunceiros, o Delegado maluco e o Juiz psicopata.

E que Deus me ajude!

— Cuida bem das crianças, Léo, não deixa o Marcelo e a Maria


subirem em lugares muito altos. — Minha namorada penteia o cabelo do

nosso filho com os dedos e se despede de mim com um beijo rápido.

— Se trouxer as crianças faltando um fio de cabelo, Léo, eu arranco os


seus dentes. — Paula se despede de mim com um tapa na nuca, essa mulher
anda muito agressiva.

— Relaxem, mamães, nós vamos nos divertir muito, não é, crianças?

— Simmm! — os dois respondem em uníssono.


Nos despedimos e saímos de mãos dadas andando rápido porque
estamos atrasados. No meio das escadas topamos com as amigas da Dani

cheias de sacolas.

— Bom dia, Léo, divirtam-se no passeio no parque. O pessoal está


esperando vocês no carro em frente ao prédio — cumprimenta a mais baixa,
grávida, ao passar por nós, acho que o nome dela é Julia.

A outra mais alta que tem um nome diferente que sempre esqueço
apenas sorri, ambas são muito bonitas e a Dani sempre fala muito bem delas.
Mas acho que não confiam em mim direito ainda, estão sempre me encarando
de canto de olho.

— Obrigado, vejo vocês mais tarde. — Aceno com a cabeça.

Encontro os seus maridos cada um no seu carro com seus respectivos


filhos, fico ressabiado ao me aproximar. Não vou com a cara desses dois, um
passo em falso e estou morto.

— Bom dia, Léo, tudo bom, cara? — cumprimenta o juiz após abaixar
o vidro, simpático até demais para o meu gosto.

— Tudo na paz, e você? — Trocamos aperto de mãos.

Sério mesmo? Que tipo de pessoa vai para um passeio no parque levar
os filhos para brincar ao ar livre de blusa social azul e calça preta? Só pode
ser coisa de gente rica andar arrumado sempre.
Fala sério!

— Ei, Marcelinho, senta aqui com a gente! — Os filhos dele acenam da

janela.

— Tenho vaga aqui para dois, uma das crianças pode ir no carro do
Ricardo. Ele e eu colocamos uma cadeirinha a mais. — Olho na direção do
veículo, delegado Avilar acena para mim e sorri.

Antes que eu diga quem vai no outro carro, Maria me olha com os
olhinhos lacrimejando e agarra a minha perna. Ela não tem muito costume
com essas pessoas, então está um pouco assustada e não vai sair de perto de
mim tão fácil.

— Tudo bem, Maria, pode ir com o meu papai. Eu deixo! Não precisa
chorar. — Segura o rosto da coleguinha entre as mãos e beija a bochecha
dela, o coração enorme desse garoto ainda é uma incógnita para mim.

— Obrigado, filho, a gente se vê quando chegarmos no parque. —

Assente e vai para o carro do delegado, os filhos dele fazem a maior festa
quando Marcelo entra no veículo.

É realmente muito amado por todos.

Coloco Maria na cadeirinha no banco de trás com os filhos do juiz e me


sento na frente com ele, meu plano é falar o mínimo possível. Porém, o cara
não para de puxar assunto. No começo só dava respostas monossílabas,
contudo, quando chegamos no tal parquinho, não sei como, já estávamos
rindo e falando sobre várias coisas. Ele é um cara meio estranho, mas legal.

Como Ricardo tem gêmeos pequenos, o coitado precisou de ajuda para


tirar os carrinhos de bebê do porta-malas e carregar o monte de bolsas
pesadas pra cacete.

— Então, crianças, podem atacar! — anuncia o delegado e a pirralhada

invade os brinquedos feito uma boiada solta, sentamos nós três em um banco
de madeira de frente para onde nossos filhos estão brincando junto com
várias outras crianças.

O lugar está lotado, e pelo que parece nós somos os únicos pais
presentes. Devido a isso, algumas mães sentadas nos outros banquinhos não
param de cochichar e olhar para nós cheias de sorrisinhos. Apenas
ignoramos, se elas não respeitam seus homens, nós respeitamos nossas
mulheres.

— O que você carrega dentro dessas bolsas, hein, delegado, um arsenal


de mamadeiras? — Coloco a bolsa na parte de baixo do carrinho dos gêmeos
estacionado próximo a nós; por sorte, apesar de acordados os gêmeos estão
quietinhos.

— Não, parceiro, melhor do que isso. — Agacha e abre a bolsa olhando


para um lado e para o outro e tira três copos infantis com estampa de
bichinhos, entrega um para mim e outro para o juiz.

— Isso não é o que eu estou pensando, é? — Junto as sobrancelhas

rindo.

— É sim. Mas não tem muito álcool, afinal estamos dirigindo. As


crianças se divertem do jeito delas e nós do nosso, mas isso é segredo entre
os pais, porque se nossas mulheres ficam sabendo a casa cai. — O juiz bate o

seu copo cor-de-rosa com estampa de ursinhos no do delegado da mesma cor,


só que com estampa de cavalinhos, depois brindam com o meu ao mesmo
tempo.

Curiosamente, o meu copo tem a estampa de leãozinho. Não disse que


os com cara de santinhos são os piores? Mas devo admitir que contrabandear
cerveja em copo de crianças é um golpe de mestre, tiro o meu chapéu para
eles.

— Vocês dois não existem! — Balanço a cabeça rindo e sorvo um gole

da minha cerveja quase sem álcool, mas é da boa.

— Não ri não, parceiro, agora você é um dos nossos. Ser pai não é
fácil, marido então nem se fala. Sorte a sua que é solteiro. — O juiz revira os
olhos.

— E ainda trabalha fodendo um monte de mulheres, mas é muito


sortudo mesmo esse filho da puta. — Ganho um tapa nas costas do delegado.
— Sinto muito informar, rapazes, mas eu não estou mais solteiro e não
faço mais programa — revelo e os dois trocam olhares.

— Você e a Dani estão juntos? Eu sabia! Pode passar minha grana pra
cá, Thompson. — Estende a mão, o juiz tira algumas notas de cem reais da
carteira e entrega para o delegado.

Não acredito que eles apostaram que eu e a Dani estamos juntos, mas

que filhos da mãe!

— Não quero nem saber, quero uma porcentagem disso aí! — Cato
uma nota de cem do delegado e enfio no bolso.

Nós três temos um ataque de riso, eles são gente boa demais. Fácil de
conversar. Não dá mesmo para julgar as pessoas logo no primeiro encontro,
sinto que ganhei dois amigos.

— Então, Léo, conta para nós como está sendo a vida de homem
compromissado? — pergunta o juiz.

— Então, é perfeita na maior parte do tempo. Mas às vezes parece que


aquela mulher vai me deixar maluco, fala várias coisas ao mesmo tempo e
está sempre certa. — Respiro profundamente.

— Bem-vindo ao nosso mundo, parceiro. — O delegado bagunça o


meu cabelo em gargalhadas.

Enquanto bebemos, conversamos sobre várias coisas, a maior parte


delas sobre as nossas mulheres. Me contaram sobre como conheceram suas
esposas e de como passaram uma barra pesada até conseguirem ter a vida

perfeita que têm hoje, com uma família linda e muito unida.

Esses caras são um exemplo de que nunca devemos desistir da nossa


felicidade, porque no final todo sofrimento sempre vale a pena.
Dani

O resultado final da decoração da festa ficou fantástico, usamos como


tema todos os super-heróis da Marvel. Como o Capital América é o super-
herói preferido do Marcelo, demos uma atenção especial para ele focando nas
cores do seu traje. Montamos um arco de bexigas intercalando entres as cores
azuis, vermelhas e brancas para combinar com o bolo de três andares, cada
um com uma dessas cores. Também fizemos molho para o cachorro-quente,
docinhos de todo o tipo, balas e salgadinhos.

Depois de deixar tudo pronto, Paula foi para a casa dela se arrumar.
Minhas amigas e eu fizemos o mesmo, tivemos que revezar para tomar banho

e dividir o meu quarto para trocar de roupa e se maquiar. Daqui a pouco os


convidados vão começar a chegar e precisamos estar prontas para recebê-los,
convidei os alunos da sala do Marcelo e a professora dele.

— Amiga, você está ficando com o corpo mais cheio, olha esse quadril
largo e essa bundona. — Yudiana dá um tapa na minha bunda, ela e a Julia
não param de me zoar desde que contei que eu e o Léo estamos juntos. —
Seu boy vai ficar doido quando te vir nesse vestido branco coladinho, hoje à
noite tem! — a abusada continua com o deboche.

Mas de fato esse vestido ficou bem atraente, totalmente diferente da


última vez que usei ainda no ano passado. É seminovo. Eu ando ganhando
peso abruptamente, mas também não paro de cozinhar pratos maravilhosos.
Agora o resultado está aí, até os meus peitos estão maiores, quase explodindo

no decote.

— Olha quem está falando, Yudiana. O juiz Thompson vai pirar


quando colocar os olhos em você dentro desse macacão preto. — Aperto a
sua bochecha, essa mulher ficaria um arraso mesmo dentro de uma capa de
bujão de gás.

— Pois o meu marido vai ter um ataque de risos quando me vir nesse
vestido verde, estou parecendo uma melancia com essa barriga enorme.
Ainda bem que só falta uma semana para esse bebê nascer — resmunga Julia,

virando de um lado para o outro na frente do espelho da minha penteadeira.

Yudiana e eu não conseguimos conter o riso da maneira engraçada que


ela falou, a própria Julia também não.

— Seu delegado é louco por você de qualquer jeito, amiga. Então


relaxa! — a tranquilizo.

— Então, meninas, precisamos nos apressar porque os convidados já


vão começar a chegar.

— Verdade, Yudi, tomara que tudo dê certo. Sei lá, estou com uma

sensação estranha. — Sento na borda da cama e levo a mão sobre o peito,


desde que acordei essa manhã que estou com um mau pressentimento.

— Você só está ansiosa, mulher, então pode parar de pensar besteira.


— Julia senta do meu lado e me abraça, Yudiana senta do outro e faz o

mesmo.

— Verdade! Vai ser uma festa linda e o meu filho vai se divertir muito,
tenho certeza. — Penso positivo, mas ainda com aquele friozinho estranho na
barriga.

Tento não pensar nisso, me concentro em recepcionar os convidados


que vão chegando aos poucos. Menos o amigo que o Léo disse que
convidaria, ele não veio. Não sei por que, mas festa que segue.

Permanecemos todos a postos com as luzes apagadas quando Léo envia

uma mensagem avisando que chegaram, meu coração acelera quando a porta
vai se abrindo aos poucos.

— SURPRESA! — gritamos juntos, Marcelo fica de boca aberta


quando vê todas as pessoas que tanto o amam.

Antes ele só tinha uma mãe aproveitadora e um pai que tinha vergonha
de assumi-lo, agora tem uma família grande e vários amigos de verdade.
— Essa festa é mesmo para mim, mamãe? — pergunta entusiasmado
vendo nossa casa cheia, até a minha mãe veio e trouxe um presente enorme

para ele.

— É sim, Marcelo, feliz aniversário, filho! — Me abaixo e o abraço


bem forte, seu sorriso é aquele que ilumina o mundo todo.

Léo está de mãos dadas com ele, também sorrindo lindamente. O

delegado e o juiz acenam para mim, mexo os lábios dizendo obrigada por
ajudarem a distrair o Marcelo no parque.

— Obrigado, mamãe, estou tão feliz! Essa é a minha primeira festa de


aniversário. — Os convidados soltam quase de forma unânime:

“Ahh, que fofo.”

Todos os adultos se emocionam ao ouvir uma criança de cinco anos


dizer que nunca ninguém comemorou o dia que Deus o enviou ao mundo,
acredito que nem feliz aniversario já ouviu algum dia.

— Mas hoje a festa é sua, Marcelo. Então divirta-se. — Meus lábios


tremem, proporcionar coisas que o Marcelo nunca teve antes me faz tão feliz
quanto a ele, um sentimento inexplicável.

— Que maneiro, obrigado pela surpresa, mamãe! — Abraça o meu


pescoço.

— Por que não vamos lá para você cumprimentar os seus coleguinhas?


Eles trouxeram uma pilha de presentes para você. — Assente várias vezes de
boca aberta, Léo segura a minha mão e nos acompanha.

— Você está uma delícia com esse vestido, Boneca, vamos nos divertir
muito esta noite — sussurra ao pé do meu ouvido, sedutoramente.

— Digo o mesmo, Leãozinho — sussurro de volta.

Tudo corre muito bem durante a festa, Marcelo se diverte mais a cada
segundo. No momento dos parabéns e de assoprar as velas, o coloco de pé
sobre uma cadeira em frente à mesa. Ele fecha os olhos e faz um pedido em
voz alta.

— Por favor, Deus, eu não quero voltar para a casa antes de conhecer a
minha irmãzinha Blue. — Todos ficam em silêncio sem entender de que casa
ou irmã Marcelo se refere, mas Léo e eu sabemos.

No entanto, infelizmente é impossível que eu realize esse desejo do


meu filho. Não estou grávida, e mesmo se estivesse o bebê poderia ser um

menino e de toda forma não nasceria a tempo de o Marcelo conhecê-lo.

— Bem, chegou a hora de cortar o bolo. — Sabendo disso, minha mãe


distrai a atenção das pessoas, dando continuidade à festa. É ótima em distrair
as pessoas.

Como esperado, as crianças gritam animadas quando dona Vera corta o


primeiro pedaço e entrega ao Marcelo. Ele, assim como os coleguinhas,
estava namorando esse bolo desde o começo da festa.

— Então, querido, para quem vai o primeiro pedaço? — pergunta

Paula, o silêncio toma conta da sala, todos curiosos para saber quem será o
felizardo.

Com o prato na mão, Marcelo divide o olhar entre mim e o pai.


Pensativo. Contudo, qualquer um de nós que escolher para mim está ótimo.

— O primeiro pedaço vai para a pessoa que mais amo no mundo todo e
sempre me faz sorrir, mesmo quando estou com dor ou triste. — Começo a
chorar quando me entrega o prato, é nesses momentos que tenho certeza de
que todo esforço que tenho feito por essa criança valeu a pena.

— Obrigada, filho, você é a melhor coisa que aconteceu na minha vida.


— Beijo o seu rosto.

Os convidados batem palmas, então chega o momento do segundo


pedaço de bolo.

— O segundo pedaço vai para o meu pai, ele é o meu herói. Eu te amo,
papai! — se declara, e os olhos do Léo se enchem de lágrimas.

— Eu também te amo, filho. Não importa o que aconteça ou te digam


sobre mim, nunca duvide disso nem por um segundo — fala com a voz
embargada e abraça Marcelo de um jeito muito estranho, é a primeira vez que
diz que o ama.
Percebo que Léo aproveita o alvoroço da distribuição do bolo para os
convidados para sair de fininho na direção do meu quarto. Sinto aquela

sensação estranha de mais cedo ficar mais forte, sigo os meus instintos e vou
atrás dele e o encontro sentado no chão com as mãos na cabeça, todo
encolhido.

— O que está acontecendo, Léo? Você ficou estranho depois que o

Marcelo disse que te ama. — Me aproximo dele, mas sem tocá-lo.

Não sei o que está se passando pela cabeça dele, então não quero que se
sinta pressionado a me contar.

— Eu não mereço o amor do seu filho, Daniele. — Ergue o olhar cheio


de dor e me encara, intensamente. — Não mereço você, nunca devia ter
cruzado o seu caminho. — Uma lágrima dolorosa desliza pelo seu rosto,
cheia de dor e desespero.

— Pensei que preferisse se referir ao Marcelo como nosso filho, o que

mudou de repente? — Me sento no chão ao seu lado e seguro a sua mão,


quero resolver isso juntos.

— Eu não consigo mais fazer isso, preciso te contar que…

— O guardanapo de papel acabou, Dani, você tem algum pacote extra


guardado na cozinha? — Julia aparece na porta, Léo vira o rosto para o lado
para que ela não perceba que ele está chorando.
— Tem sim, amiga, mas eu não lembro onde guardei, preciso procurar.
Mas agora não posso, vou em cinco minutos. — Ela assente, sem graça por

perceber que interrompeu uma conversa importante.

— Tudo bem, Daniele, pode ir. Não quero estragar a festa do garoto,
depois a gente conversa direito — diz em um tom frio ainda com o rosto
virado.

— Como você quiser, Léo. — Solto sua mão e levanto aborrecida com
a maneira fria dele falar comigo, não entendo como alguém pode mudar
completamente de um segundo para o outro.

Volto para a festa, pego os guardanapos e vou ajudar as minhas amigas


a servir os convidados. Depois de uns dez minutos Léo volta para a sala, no
entanto, se mantém calado e afastado de todos. Ricardo e John até tentam
puxar assunto com ele, mas não obtêm sucesso. Ainda bem que o Marcelo
está entretido com os coleguinhas da escola, não quero que perceba como o

pai está agindo de forma estranha.

Quase me ajoelho no chão e agradeço a Deus quando a festa termina,


estou uma pilha de nervos.

— Muito obrigada pela recepção carinhosa, Dani, mas preciso ir agora


— se despede a professora Solange, deslumbrante em uma calça boca de sino
com estampa de oncinha e uma blusinha básica de alça fina branca.
— Muito obrigada por ter vindo, meu filho te adora.

— Eu também adoro o Marcelo, eu me diverti muito essa noite. Tenho

certeza que essa festa será o assunto das crianças durante toda a semana na
escola — brinca.

Sorrio para ela um pouco sem graça, não consigo disfarçar a minha
preocupação com os últimos acontecimentos.

— Sinta-se à vontade para voltar à minha casa quando quiser, será um


prazer te receber.

— Você não se lembra de mim mesmo, não é, mulher? Quando nos


encontramos há um bom tempo atrás na boate do Joe, pai de criação da Yudi.

— Caramba! Nem me lembre desse dia. — Cubro o rosto com as mãos


de vergonha. — Quando te vi na escola pela primeira vez logo te reconheci,
mas não falei nada porque não queria te constranger. Digamos que já estava
meio alegre no dia. — Minha cara vai no chão, agora que ela falou eu me

lembro dela nessa boate.

Eu tinha ido naquele lugar com a Yudiana, fiquei tão bêbada que o
guarda-costas do juiz Thompson teve que me levar para casa.

— Meu Deus, que vergonha, Solange! Eu realmente não me lembrava


desse dia, desculpa.

— Tudo bem, Dani, só toquei nesse assunto para que você saiba que
desde a primeira vez que te vi, soube que era uma pessoa do bem. Agora,
vendo o que está fazendo pelo Marcelo, tenho a certeza disso. — Olha

sorridente para o meu filho correndo pela sala atrás das outras crianças com o
rostinho todo sujo de glacê do bolo, a ponto de explodir de tanta alegria.

— Eu sinto o mesmo em relação a você, Sol. Sua presença transmite


uma energia positiva. — Nos abraçamos, depois ela vai embora.

Os outros convidados também vão se despedindo e indo embora logo


em seguida, até restarem apenas meu filho, minha mãe, Léo e eu. Marcelo
praticamente desmaia no sofá de tão cansado, cubro-o com um cobertor e
beijo a sua testa.

Como está tarde, convido minha mãe para passar a noite conosco. Dona
Vera aceita a contragosto. Enquanto arrumo a cama do Marcelo para ela,
percebo que está calada demais, sentada na poltrona de canto com as pernas
cruzadas e a mão no queixo. Pensativa.

— Acho que me lembrei onde vi o seu namorado, filha, sabia que o seu
rosto não me era estranho! — Solto o lençol sobre a cama e me viro para
encará-la quase que em câmera lenta, posso até ouvir as batidas lentas do meu
coração.

— E onde foi, mãe? — Cruzo os braços, fingindo falsa calma.

— No meu banco, ele estava descontando um cheque especial altíssimo


direto com o gerente. Eu estava sentada na sala de espera, mas a porta estava
entreaberta e eu consegui ouvir um pouco da conversa entre eles. — Minha

respiração fica densa.

— Há quanto tempo foi isso, mãe?

— Assim que eu saí da clínica de repouso, não me lembro direito da


data, mas sei que faz mais de um mês.

— O Léo chegou a ver a senhora? — indago.

— Não! Ele saiu disparado da sala do gerente com dois pacotes cheios
de dinheiro, parecia tenso. Mas consegui olhar bem no seu rosto.

— Tudo bem, mãe. Não deve ser nada de mais. — Forço um sorriso e
termino de arrumar a cama. — Depois converso com o Léo e esclareço essa
história, agora vá dormir. Boa noite. — Saio do quarto roendo todas a minhas
unhas, preciso resolver isso logo ou vou ficar sem dedos.

Vou direto à procura do Léo e o encontro deitado na cama, virado para


o canto. Coloco uma camisola, me deito ao seu lado e passo o meu braço em
volta do seu corpo.

— Quer conversar agora? — Ele apenas nega com a cabeça.

Não insisto, preciso confiar nele. Com certeza deve ter uma explicação
para o que minha mãe viu. Talvez o dinheiro nem fosse dele.

— Boa noite, Léo, durma com os anjos. — Não obtenho resposta.


Viro para o outro lado e durmo, rezando para que tudo se resolva logo.
Não sei o que fiz de errado para ele estar tão distante de mim.

Acordo de manhã com o Léo falando com alguém baixinho no celular,


marcando um encontro. Finjo que estou dormindo. Antes de sair ele se senta
na cama e alisa o meu rosto, com a ternura de um adeus que eu quase choro.

— Eu sinto muito por tudo, Boneca, prometo resolver toda essa merda
agora mesmo. Espero que possa me perdoar um dia. — Beija os meus lábios
bem de leve, a impressão que tenho é que será a última vez.

Com um certo pesar, Léo afaga o meu cabelo por alguns segundos.
Levanta e coloca a sua jaqueta de couro, pega a chave da sua moto e sai do
quarto. Pulo da cama e coloco a primeira roupa que encontro na minha frente,
corro até o quarto do Marcelo e pego as chaves do carro da minha mãe dentro
da bolsa dela, sem fazer barulho para não acordá-la. Consigo descer as

escadas correndo e ver quando sobe na moto e sai disparado. Parto atrás dele.

Depois de pilotar por volta de trinta minutos, estaciona em frente a uma


construção abandonada onde tem um homem de moletom preto e capuz na
cabeça com uma mochila nas costas o esperando. Eles se cumprimentam e
conversam um pouco, Léo entrega a chave da moto e o cara estranho passa a
mochila para ele, que abre e confere vários maços de dinheiro dentro dela.
Fico pasma, não acredito que vendeu a moto que tanto ama.

Léo segue o seu caminho andando com a mochila nas costas. Para não

levantar suspeitas, estaciono o carro e continuo atrás dele a pé. Pouco adiante
entra em um prédio comercial e vai direto para uma sala no primeiro andar
mesmo. Conforme me aproximo devagar, escuto sua voz grossa alterada
ecoar por toda parte.

— Eu já disse que não quero mais fazer isso, porra! Enfim consegui
juntar o seu maldito dinheiro de volta. Aqui está essa merda! — esbraveja
Léo, irado.

— Você não pode quebrar o nosso acordo, dinheiro não é problema, se


quiser te pago o dobro do prometido. — Soa uma outra voz, fria e cruel, mas
em um tom calmo.

Chega a subir um calafrio pela minha espinha, não por medo, mas sim,
por conhecer o dono dessa voz maldita muito bem.

— Pai? — Entro na sala e olho para o homem que eu admirava mais


que qualquer outra pessoa no mundo, que imaginava ser um exemplo de
honestidade e bondade.

Léo fica pálido quando me vê.

— Oi, filha, que saudade de ouvir você me chamando de pai — profere


o cínico, dando uma de pai abandonado.
No entanto, não passa de um mentiroso covarde. Pode ser um homem
de ótima aparência para alguém da sua idade, mas por dentro é podre. Não

vale o ar que respira. E ainda continua com a mesma expressão de


superioridade da última vez que o vi, como se fosse um Deus intocável livre
de qualquer culpa ou pecado.

Como de costume, não poderia estar mais elegante. Todo alinhado com

o seu terno italiano cinza, eu estava junto quando minha mãe comprou para
ele.

— Dani, eu posso explicar tudo, por favor, me perdoe — implora Léo,


seu rosto é uma mistura confusa de medo e surpresa por me ver aqui.

Jamais passou pela sua cabeça que estava sendo seguido por uma “loira
burra”, como ele mesmo disse quando me conheceu, incapaz de ir atrás da
verdade onde quer que ela esteja.

— Explicar o quê, rapaz? Que topou fazê-la se apaixonar por você para

depois quebrar o coração dela em troca de muita grana? — Meu pai solta
uma gargalhada maquiavélica, dou um passo para trás sem acreditar que mais
uma vez caí num dos golpes do Léo.

— Como você pode me enganar dessa forma, Léo? Te levei para dentro
da minha casa, para as nossas vidas. — Aperto os olhos.

Dessa vez Léo foi longe demais, receber dinheiro do meu pai para me
seduzir é tão cruel que nem existe nome para expressar o tamanho da ferida
que ele abriu no meu coração.

Isso só pode ser um pesadelo! Só quero acordar logo e voltar para a


vida perfeita que tive nas últimas semanas.

— Isso não é verdade, Dani, pelo menos não do jeito que o seu pai
contou. Ele mentiu para mim sobre você, mentiu sobre tudo. Nós dois fomos

enganados.

— E por que eu deveria acreditar em você depois de todas as vezes que


me enganou e feriu?

— Porque me apaixonei por você de verdade, Daniele, não importava


quantas vezes te magoava com as minhas grosserias. Podia estar furiosa
comigo que o seu olhar era o mesmo, esperançoso que eu não fosse um caso
perdido. — Sorri triste, sinto que está se controlando para não me tocar e
sentir na pele a minha rejeição.

Por mim, ele não me toca nunca mais.

— Mas pelo visto você provou que eu estava errada, não é mesmo? De
complô com o meu pai pelas minhas costas.

— Se eu soubesse da verdade, jamais teria participado dessa merda. Eu


te juro! Juiz Flores me fez acreditar mesmo que a sua filha rebelde merecia
uma lição, e ainda iria me pagar muito bem para isso — tenta explicar o
inexplicável.

Arrisca uma aproximação, mas o impeço.

— Não ouse, Leônidas Rafael! Se é que esse é mesmo o seu nome. —


Sorrio irônica.

Com os dentes trincados, Léo recua.

— Isso mesmo, filha, fica longe desse cara que ele não é homem para
você. Não te criei em berço de ouro para se relacionar com um vagabundo
desse. Sabia que, além de garoto de programa, é um viciado em drogas? O
dinheiro que eu dei a ele foi para pagar uma dívida antiga de drogas com um
traficante. — Olho para o Léo, estupefata.

Poderia imaginar qualquer coisa, menos um viciado em drogas. Apesar


de alguns indícios, ele soube disfarçar muito bem.

— Cala essa maldita boca, pai. Sendo sincera, não sei qual de vocês

dois é pior. O cara que ganha dinheiro para partir o coração de alguém, ou
aquele que o pagou para fazer isso. Só não entendo o que ganharia com isso,
juiz Flores.

— Minha família perfeita de volta, o trato era ele te deixar assim que a
criança morresse. O luto mais um coração partido fariam você voltar
correndo para os braços do papai, como sempre fazia quando estava em
apuros. Quanto à sua mãe, é só oferecer um anel de diamante e prometer uma
segunda lua de mel em Paris que ela aceita se casar comigo de novo num
estalar de dedos — conta o seu plano maquiavélico, como se fosse a coisa

mais natural no mundo passar por cima das dores das pessoas à sua volta para
conseguir o que quer.

— Eu não entendo, como conseguiu armar isso tudo se foi a Paula que
indicou o Léo para se passar por pai do Marcelo? — Ando pelo lugar com as

mãos na cabeça, tentando juntar as peças desse quebra-cabeça. — Meu Deus,


ela também está envolvida nisso. Como pude ser tão idiota? — Desabo em
lágrimas, destruída por dentro.

Descobrir que foi traída pelo homem que ama e por uma amiga no
mesmo dia é a mesma coisa que levar um tiro de espingarda na testa.

— Não coloca a Paula no meio disso, Dani, ela não sabe de nada. —
Sinto-me mais aliviada.

— Então como conheceu o meu pai?

— No dia em que a Paula me chamou para ir à casa dela falar sobre um


trabalho novo, eu fui sem fazer ideia do que seria. Fiquei muito puto com a
proposta de vocês de ser pai de aluguel, mas acabei aceitando. Achei que o
fato de a criança ter o mesmo tipo de câncer que a minha mãe e a minha irmã
fosse um sinal. — Então ele foi contratado depois que aceitou o trabalho, só
não entendo como o meu pai entrou nessa história.
— O que aconteceu depois disso? — questiono.

— Tudo tomou um rumo diferente quando estava saindo do prédio e fui

abordado por dois homens que colocaram um saco preto na minha cabeça e
me jogaram dentro de um carro preto, eram dois seguranças do seu pai que
ele colocou para te vigiar vinte e quatro horas. — Fico bem surpresa em saber
disso, em momento algum senti estar sendo vigiada.

— Isso não é verdade, filha, não escute o que esse homem está dizendo.

— Cala a maldita boca, pai, eu quero ouvir o que o Léo tem para dizer!
— berro.

— Os seguranças me levaram até o juiz Flores, ele me ofereceu muita


grana para contar que tipo de envolvimento eu tinha com você e o garoto. Eu,
interesseiro e com uma dívida enorme, contei tudo sobre fingir ser pai do
garoto. Ele me contou um monte de mentiras, disse o quanto você era uma
pessoa horrível e mimada que só pensava em gastar e festas. Que nem sabia

quem era o pai biológico do seu filho, e agora que descobriu que a criança
está doente resolveu tomar o neto dele e brincar de casinha bancando a boa
mãe. — Minha vista fica turva e a cabeça tonta como se eu estivesse em um
barco à deriva. Sou obrigada a me apoiar na parede para aguentar o baque, a
ânsia de vômito é quase insuportável.

Como uma pessoa pode ser tão má e manipuladora? Eu odeio esse


velho maldito, quero vê-lo morto.

— Você que deveria estar morrendo, pai, não o Marcelo — despejo

cheia de ódio.

— Ainda bem que o destino não é a gente que escolhe, não é, filhinha?
Porque em breve o seu protegido vai morrer, e eu, bem, ainda vou viver por
muitos anos — gaba-se o maldito.

— Cuidado com o que diz, juiz Flores, às vezes o destino engana a


gente e a morte vem e te busca antes do Marcelo — Léo fala de um jeito
estranho, labaredas de puro ódio queimam nos seus olhos.

— Isso foi uma ameaça, rapaz?

— Entenda como o senhor quiser, se não fosse a minha amiga Paula, eu


nunca teria descoberto a verdade sobre a sua filha. Então percebi o grande
erro que cometi e fui atrás dela no restaurante aquele dia para pedir o seu
perdão de joelhos se fosse preciso — revela.

— Você havia se drogado naquele dia, não foi? — pergunto lembrando


dos seus olhos vermelhos, também estava agindo de modo muito estranho.

Ele vira o rosto e fica mudo. Como dizem por aí, quem cala consente.

— A única coisa que eu posso dizer é que nunca mais cheguei nem
perto de nenhuma droga desde o nosso primeiro encontro no bar. Toda vez
que eu sentia vontade de usar, fechava os olhos e ouvia o som das batidas do
seu coração e o desejo passava. Estou limpo há mais de um mês.

— Quanta palhaçada! Não vai cair nessa história, não é, filha? Ele só

quer você por causa do seu dinheiro, sabe que é a minha única herdeira. Tudo
que sai da boca desse cara ambicioso não passa de mentira — meu pai se
exalta, perde a compostura.

Um mentiroso tentando desmascarar o outro, chega a ser cômico.

— Não, Daniele, nem tudo foi mentira. Eu me apaixonei de verdade


por você e o Marcelo. — Léo começa a chorar, mas suas lágrimas de
crocodilo não me comovem mais.

— Bem feito se você se apaixonou de verdade por nós, porque esse


será o seu castigo. Nunca mais vai conseguir me enganar com as suas
mentiras, Léo. Eu te odeio! — digo cheia de ódio ao encará-lo nos olhos.

— Dani, por favor, não faz assim — implora mais uma vez.

— Para mim e o Marcelo, a partir de hoje você está morto e enterrado


debaixo de sete palmos de terra. Te conhecer foi o maior erro da minha vida
— digo com as palavras escolhidas com o intuito de feri-lo, a Dani boazinha
que conheceu não existe mais.

Ele criou um monstro com sede de vingança.

— Quanto a você, juiz Flores, eu não vou parar até te destruir. Quero te
ver no fundo do poço, vou te mostrar o que uma mulher com o coração ferido
é capaz. Vou passar por cima de você igual a um trator, me aguarde! Porque
em breve terá notícias minhas. — De cabeça erguida, vou embora limpando

qualquer vestígio de lágrima do meu rosto.

Um dia acreditei que o amor sempre vencia. Hoje já nem sei se acredito
mais no amor. Mas quem errou fui eu, quando coloquei bons sentimentos em
pessoas que não mereciam nada. Agora terei que pagar o preço, mas eu não

serei a única a sofrer.

O lado bom de estar com o coração ferido é que a dor nos torna mais
fortes. Essa história não termina por aqui, está apenas começando…
Paula

Já faz dez minutos que estou batendo na porta do apartamento da Dani,


mas ela não me atende. Não sei mais o que fazer para que saia e diga o que
está acontecendo, foi trabalhar ontem de manhã e não deu mais notícias. Ela
anda muito estranha depois que descobriu a merda que o filho da puta do Léo
estava fazendo, de complô com o pai dela, eu mesma fiquei arrasada quando
descobri. Me sinto culpada, afinal, fui eu que arrastei esse traste para a vida
dela e do filho. Nunca mais falei com ele e nem quero, estou furiosa.

Se eu soubesse que conseguiu pagar a sua dívida enorme de drogas


com o traficante desse jeito, eu o teria impedido. Quando conheci Léo ele já

era viciado, mas com o tempo a coisa foi piorando. Só se prostituir não dava
conta de bancar o seu vício, então começou a pegar dinheiro emprestado com
agiotas, até que virou uma bola de neve com os juros absurdos que essa gente
coloca em cima.

Sem saída, na virada do ano passado Léo tentou se matar com uma
overdose injetando uma grande quantidade de heroína na veia. Por sorte
passei na casa dele e o encontrei desmaiado na cama, quase morto, espuma
branca escorrendo no canto da sua boca. Chamei uma ambulância e

conseguiram salvá-lo, eu não saí de perto dele. Quando acordou, me viu tão
apavorada que prometeu nunca mais tentar tirar a própria vida.

Nessa época, morava sozinho. Léo não sabe até hoje, mas fui eu que
pedi para Felipe ir morar com ele para poder vigiá-lo de perto.

— Por que não foi buscar o Marcelo ontem à noite depois do trabalho
lá em casa? Estou preocupada. — Bato na porta com mais força, ela vai ter
que abrir ou eu vou derrubar à força.

— Para que todo esse desespero, Paula? — Levo um susto quando a


mulher abre a porta de repente, com uma cara horrível.

Ainda usa o uniforme do trabalho, nem os sapatos tirou. Isso tudo é


muito estranho, Dani sempre manda uma mensagem avisando que vai chegar
atrasada para não me deixar preocupada.

— Por que não atendeu às minhas ligações, Dani? Eu estava a ponto de


chamar a polícia. — Tento ajeitar os fios loiros arrepiados do seu cabelo
caindo sobre o rosto, parece que não vê pente há dias.

Percebo que a parte em volta dos seus olhos está escura, acho que não
dormiu quase nada essa noite.

— Até você começou a controlar a minha vida agora, Paula? Mas que
droga! Já sou bem grandinha — diz amarga.

Na verdade, além de amarga, Dani agora tem um desejo de vingança

contra o pai que pretende começar a colocar em prática em breve.


Começando por desmoralizá-lo perante a sociedade. Enfim as pessoas
saberão quem é o verdadeiro juiz Flores, pela voz da própria filha.

— Desculpa, eu não quero controlar a sua vida. Só estou preocupada

com você. O Marcelinho ainda está dormindo. Tome um banho e descanse


um pouco. Pode buscá-lo só mais tarde se quiser. — Me viro para entrar no
meu apartamento.

Estou com muita pena dessa criança, sempre pergunta quando o pai vai
voltar. Pensa que Léo o abandonou.

— Eu que peço desculpas, amiga. Descobri uma coisa e não sei o que
fazer, estou com medo. — Me abraça toda trêmula.

— O que foi, Dani? Seja o que for eu te ajudo — prometo.

Respirando fundo, ela joga as costas na parede do corredor. Enfia a


mão dentro do bolso da frente do uniforme e tira um teste de gravidez
marcado como positivo e me entrega. Agora entendo o seu desespero.

— Eu estou grávida de quatro semanas daquele desgraçado, agora estou


ligada ao Léo pelo resto da minha vida. — Alisa a barriga em lágrimas.

Não sei se fico feliz ou triste por ela com a notícia. Dani não é mais a
garota doce que eu conheci um dia, sempre feliz e inocente. Ela perdeu o seu
brilho, na verdade, a maldade das pessoas arrancou dela.

— Por experiência própria, amiga, não importam as circunstâncias, um


filho é sempre uma benção. Pensa em como o Marcelinho vai ficar feliz em
saber que vai ter um irmãozinho! — digo e se anima um pouco, os cantos da
sua boca se transformam em um sorriso não tão grande quanto eu queria.

Mas já é alguma coisa. Aposto que essa gestação será ótima para ela,
trará o seu brilho de volta aos poucos.

— Tenho certeza de que o meu filho vai ficar muito feliz com a notícia,
ainda mais porque já tenho certeza de que será uma menina. Mas saber que
ele não vai viver tempo suficiente para conhecê-la parte o meu coração —
desmorona.

— Não pensa nisso agora, só aproveita o momento dando a notícia para


o Marcelo. — Ela assente, mais animada.

— Vai dar tudo certo, no final sempre dá! Vou criar essa criança
sozinha — diz confiante e eu a abraço, essa é a minha garota.

Mas criar um bebê sozinha não é tão fácil quanto parece, eu sei bem
disso. E alguma coisa me diz que o Léo não vai desistir tão fácil dessa
mulher. Apesar de todas as mentiras que contou, se apaixonou de verdade por
ela. Vai ficar maluco quando descobrir que tem uma sementinha sua
crescendo dentro dela. Confesso que quero assistir de camarote esse babaca
correndo atrás da Dani, porque, ferida como está, não vai perdoá-lo tão fácil.

Muitas emoções ainda estão por vir. Sendo sincera, estou ansiosa para
saber qual será o final dessa história.

Continua em breve…
Para quem não sabe, essa fala do Marcelo citada abaixo é baseada em
uma história real que aconteceu em 2013 com um garotinho de quatro anos.
Foi através dela que tive a ideia deste livro, por isso fiz essa singela

homenagem. Quem quiser ler a matéria e se emocionar assim como eu, vou
deixar aqui o link. <3

https://noticias.gospelmais.com.br/video-antes-morrer-menino-
depoimento-ceu-deus-comigo-55380.html

“— Quando eu morrer eu vou voltar para lá, mas o meu corpo será

diferente. — Sinto frio na barriga, Léo segura a minha mão.

— Como o seu corpo vai ser, meu amor? — Seguro o choro.

— Sem câncer… e eu nunca vou ficar doente! — responde


animado.”
Muito obrigada a todas as minhas lindonas que tanto amo do grupo no

WhatsApp “Amoras da Mari” e do grupo do Facebook Romances — Mari


Sillva, que fazem os meus dias mais felizes.

Aos meus amados leitores do Wattpad, onde tudo começou, e estão


firmes e fortes comigo até hoje. Obrigada, amo vocês!

À equipe responsável pela produção deste livro para que ele chegasse
lindão até vocês: o talentosa capista LA design decapas, o revisor Fabiano
Jucá, d´O Ponto e A Vírgula, e a diagramadora Denilia Carneiro.

E, ACIMA DE TUDO E DE TODOS, A DEUS, QUE FOI A MINHA

BASE PARA CHEGAR ATÉ AQUI!


CORAÇÃO VALENTE

MARI SILLVA
Copyright © 2020 – Mari Sillva

Capa: LA Capas
Revisão: Fabiano Jucá
Diagramação: Denilia Carneiro

1ª Edição

Esta é uma obra de ficção. Nomes, personagens, lugares e acontecimentos


descritos são produtos da imaginação da autora. Qualquer semelhança com
nomes, datas e acontecimentos reais é mera coincidência.

Esta obra segue as regras da Nova Ortografia da Língua Portuguesa.

Todos os direitos reservados.

São proibidos o armazenamento e / ou a reprodução de qualquer parte dessa


obra, através de quaisquer meios ─ tangível ou intangível ─ sem o
consentimento escrito da autora.

A violação dos direitos autorais é crime estabelecido na lei nº. 9.610/98 e


punido pelo artigo 184 do Código Penal.
No final do livro 1 “Coração ferido”, houve um erro

de digitação quando a Daniele conta para a amiga Paula


que descobriu que estava grávida do Léo de quatro meses,
no entanto, são quatro SEMANAS. Mas o erro já foi

corrigido, peço desculpas a todos.

Grata pela atenção!


“Amar pode curar

Amar pode remendar sua alma


E é a única coisa que eu sei.
Eu juro que fica mais fácil,
lembre-se disso em cada pedaço seu.

E é a única coisa que levamos conosco quando partimos…

Nós mantemos este amor numa fotografia.


Nós fizemos estas memórias para nós mesmos
Onde nossos olhos nunca fecham,
nossos corações nunca estiveram partidos.
E o tempo está congelado, para sempre…”

(Photograph, Ed Sheeran)
Dani

Sou ovacionada por uma chuva de flashs vindos de todos os lados,

quase não conseguindo enxergar a multidão alvoroçada à minha frente; eram


tantas vozes falando ao mesmo tempo que fiquei um pouco tonta. O fato de
estarmos no ponto alto do verão me fez derreter dentro daquele terninho preto
que a minha mãe me obrigou a vestir, disse que passaria boa impressão.
Falando na dona Vera, ela ficou ao meu lado segurando a minha mão trêmula
o tempo todo.

A impressão que eu tenho é que vomitarei a qualquer momento.


Acordei nervosa hoje e mal comi no café da manhã.

— Força, filha, eu estou aqui com você. — Minha mãe sorri para mim
daquele jeito que diz que tudo vai ficar bem, então resolvi acreditar nela.

Apertei os olhos com força e sorvi uma longa lufada de ar, nada e
nem ninguém seria capaz de me parar. Estava decidida e precisava me manter
forte. A verdade tinha que vir à tona e através da minha voz.

— Boa tarde, senhoras e senhores, meu nome é Daniele. Convoquei


essa coletiva de imprensa para contar ao vivo para todo o Brasil quem é o
meu pai de verdade, homem conhecido por vocês como o renomado Juiz

Flores. — Um silêncio se faz presente, não se ouve ao menos a respiração


dos repórteres.

Vieram representantes da imprensa de todos os estados do país, desde


pequenas emissoras de rádio e TV, até as mais conhecidas. Se o meu pai

queria fama, bom, agora ele vai ter.

— Vai fundo, garota! — grita Yudiana na primeira fileira, ela e o


marido vieram me dar apoio.

Assim como a Julia e o Delegado Avilar, que segura o bebê recém-


nascido deles nos braços. Minha mãe também está presente, Paula e até
mesmo Michelle. As crianças ficaram em casa com a babá, quero protegê-las
desse escândalo.

— Eu tinha uma vida perfeita, roupas e sapatos caros. Frequentei

viagens ao redor do mundo. Cresci sendo amada pelas pessoas apenas pelo
fato de carregar o sobrenome Flores. Me orgulhava muito disso antes, mas
depois que descobri sobre a existência do filho de cincos anos que o meu pai
tinha com a amante, o meu mundo ruiu. — Trinco os dentes, a sensação que
tenho no momento é a de tirar um peso enorme das minhas costas.

Então sorri, serenamente.


Contei um… dois… três e voltei a falar. Escolhendo as palavras para
ser a mais direta e clara possível.

— A pior parte dessa história é que o meu meio-irmão tem uma


doença terminal. Os vários médicos que procurei deixaram bem claro que, se
os responsáveis pela criança na época tivessem a levado ao médico em uma
simples consulta de rotina, o câncer poderia ter sido descoberto mais cedo e

hoje teria cura. — Senti uma dor forte como se tivessem arrancado um
membro do meu corpo, não importa quanto tempo passe, sempre que eu
lembrar disso a dor será a mesma.

O amigo da minha mãe, dono de um jornal conhecido do Rio de


Janeiro, que me ajudou a montar esse evento, tira um lenço do bolso e me
oferece para limpar as lágrimas. Nem tenho tempo para me recompor direito,
as perguntas começam a surgir uma atrás da outra.

— O garoto está aos cuidados de quem agora? — questiona um

homem de chapéu preto e casaco comprido bege, com um caderninho de


notas em mãos, mastigando um palitinho no canto esquerdo da boca.

— Ele mora comigo desde que descobri a sua existência. Decidi


cuidar e amá-lo até o último segundo que lhe resta — respondo firme.

— Como o Juiz Flores reagiu quando tomou essa decisão?

— Meu pai surtou, me expulsou de casa sem um centavo no bolso.


Tive que mudar para um bairro humilde e trabalhar feito uma maluca como
garçonete para cuidar do meu irmão.

— Percebi que você nunca fala o nome do seu irmão. Por quê?

— Para preservá-lo, espero que vocês colaborem comigo nisso. Essa


criança já sofreu o suficiente. — Encaro-os nos olhos, não quero repórteres
vigiando a vida do meu filho e a minha, vinte e quatro horas por dia.

Essa guerra é entre mim e o meu pai, mas o Marcelo não vai ficar no
meio do fogo cruzado.

— Quanto tempo o seu irmãozinho tem? — Olho para a repórter loira


com o cabelo em um corte Chanel na altura do queixo, ela está tão comovida
que não consegue conter suas lágrimas.

— Em poucos meses, o Céu vai receber o garotinho mais lindo e doce


do mundo. — Mais choro do que falo, toda vez que penso que cada minuto
que passa é um a menos com o Marcelo, fico destruída.

— Tenho uma pergunta para a sua mãe, como ela reagiu quando
soube que você renuncia a tudo pelo filho que o marido dela teve com a
amante? — Como em toda entrevista coletiva, sempre tem aquele repórter
que faz uma pergunta inconveniente.

De nariz em pé, minha mãe dá um passo à frente e toma a palavra


com toda a sua elegância e ar de superioridade.
— Boa tarde a todos! Respondendo à pergunta do caro colega, a
verdade é que fiquei destruída quando soube da traição do meu ex-marido.

Ainda mais quando minha filha me disse que iria se responsabilizar pela
criança que o pai teve com a amante. Me senti traída por ela também. —
Minha mãe se vira para a câmera número 2, que dá close no seu rosto muito
bem maquiado e modelado pelo novo corte Chanel perfeito.

Então ela sorri charmosa e continua a falar, levando a situação com


maestria.

— Porém, tudo mudou quando conheci o garotinho. Me apaixonei por


ele que, hoje, carinhosamente, me chama de vovó Vera. — Sorri serena, ela e
o Marcelo se dão muito bem. — Sendo honesta, não sei como alguém pode
negligenciar um ser tão indefeso e amoroso. Pensar nisso me faz desprezar
ainda mais o meu ex-marido — finaliza debaixo de uma salva de palmas,
dona Vera sempre levou jeito para falar com público.

De fato, a sua postura diante da situação merece todas as palmas do


mundo, amar o fruto da traição do marido não é para qualquer mulher. Eu
sempre vou admirar minha mãe por isso.

Depois de responder mais algumas perguntas, finalizo a coletiva de


imprensa com um sorriso no rosto e o coração leve. Meu pai está
desmoralizado em todo o país, mas isso é só o começo, Juiz Flores. Vou fuçar
a sua vida até encontrar uma falha boa o suficiente para fazê-lo perder o posto

de juiz e qualquer prestígio ou respeito que alguém teve por ele algum dia.

— Olha, mamãe, você e a vovó Vera estão na TV. — Marcelo abre os


olhos meio sonolento e aponta para a tela, ele acabou dormindo deitado em
uma das cadeiras do aeroporto internacional do Galeão, com a cabeça sobre o
meu colo.

Nós estamos indo para a Disney! A tão desejada viagem dos sonhos
de mãe e filho. Resolvi adiantar a data por motivo óbvio. Será melhor tirar o
Marcelo do país até a poeira abaixar um pouco.

— Viu? A mamãe está famosa, filho — brinco ao acariciar o seu


rostinho lindo.

Ainda bem que ele acordou apenas no final da reprise da minha


coletiva no jornal do canal da CNN Brasil, é o assunto mais comentado em
todos os canais. Lembro de acordar cedo no dia seguinte e sair andando pelas

ruas e passar em todos os lugares que pudesse encontrar o rosto do meu pai
impresso em diferentes jornais e revistas, com a seguinte legenda em negrito:

“LOBO EM PELE DE CORDEIRO. QUE MAIS SUJEIRAS O


PODEROSO JUIZ FLORES ESCONDE DEBAIXO DOS PANOS?”

Voltei para a casa sorrindo sozinha, corri até o diário dentro do


guarda-roupa e abri na folha em que listei as três coisas que farei o meu pai
pagar pelo que fez ao Marcelo, à minha mãe e a mim:

— Primeiro item da lista feito com sucesso! Agora faltam só mais

dois. — Sorrio vitoriosa.

1 - Desmoralizá-lo perante a sociedade (Feito)

2 - Perda do cargo de Juiz ( )

3 - Preso pelos seus crimes ( )

Eu havia ganhado a primeira batalha e isso era animador, mas sabia


que a guerra estava apenas começando, meu pai não vai deixar isso barato e
vai contra-atacar em breve.

No entanto, não estou preocupada com isso. Eu me sinto preparada


para enfrentá-lo.

— Atenção, passageiros, embarque em cinco minutos para o voo de


número 1307FA para Orlando — avisa no alto-falante.

— Vem, filho, é o nosso voo. — Ajudo meu bebê a colocar sua


mochilinha nas costas, ele está muito animado.

Também estou feliz, mas triste ao mesmo tempo por saber que essa
será a primeira e única viagem que faremos juntos.

— Estou tão feliz, mamãe, ainda não acredito que vou conhecer o
Mickey. Será que ele vai gostar de nós? — sua pergunta inocente me faz
sorrir; me inclino e beijo o topo da sua cabeça.

Ultimamente, só o Marcelo tem conseguido arrancar sorrisos de mim.

Se não fosse por ele, não sei se ainda estaria de pé.

— Tenho certeza de que sim, querido, você é o garoto mais legal que
conheço. — Jogo uma piscadela para ele, sua confiança logo se restabelece.

— E você, a mamãe mais valente que conheço, por isso eu te amo


tanto — solta uma de suas pérolas e eu me derreto de amor por essa
criaturinha linda. Eu o abraço e o encho de beijos.

— Obrigada, meu amor, eu também te amo. — Seguro sua mão e


vamos para a fila de embarque, depois de tudo de ruim que aconteceu.

Estou feliz em passar esse momento longe de tudo e todos com o meu
filho, quer dizer, meus filhos. Não posso esquecer do novo membro da
família crescendo dentro da minha barriga, já muito amado por todos nós.
Minha mãe e minhas amigas surtaram quando dei a notícia.

— Que a aventura comece, mamãe! — Marcelo grita com os


bracinhos erguidos assim que entramos no avião, os outros passageiros
acham graça da euforia dele.

Vou fazer de tudo para que a viagem para a Disney seja incrível para
ele, não viremos embora enquanto não irmos em todos os brinquedos do
parque que o meu filho quiser.
Um mês depois…

Dani

Foram quinze dias maravilhosos que passamos na Disney, valendo


cada centavo que gastamos, desde o confortável voo até o magnífico hotel em
que ficamos hospedados em Orlando, próximo aos parques, onde era uma
aventura diferente a cada dia. O melhor investimento que eu poderia ter feito
com o dinheiro que ganhei no bazar das minhas roupas. Marcelo conheceu o
Mickey, que foi super simpático conosco e ainda soltou algumas palavras em

português quando eu disse que viemos do Brasil. Conhecemos os cenários de


vários filmes e fomos em centenas de brinquedos, momentos incríveis que
ficaram guardados para sempre no meu coração e me trarão um sorriso no
rosto toda vez que eu recordá-los.

No entanto, como tudo que é bom tem fim, chegou a hora do meu
filho e eu voltarmos para a casa e à nossa rotina normal de trabalho e escola.
Bem, não tão normal assim. Nas duas semanas que se passaram desde que
voltamos para o Brasil, Marcelo tem reclamado com frequência de exaustão
excessiva e um pouco de dificuldade para respirar. Seguindo a orientação do

médico dele, o levei para o hospital para ser colocado no oxigênio por
algumas horas e aliviar a pressão nos seus pulmões. Agora Marcelo está
estável, até voltou a ir para a escola.

Tudo está se estabilizando depois da passagem do furacão Leônidas

Rafael por nossas vidas, mas não posso dizer o mesmo sobre a do meu pai. A
coisa não está boa para o lado dele; além de desmoralizado na sociedade, tem
aparecido muita sujeira envolvendo o nome do Juiz Flores. Vai de corrupção
até acordo com chefe do tráfico, foi afastado do cargo e um processo será
aberto contra ele. Agora não tem pra onde correr.

No entanto, o mais estranho é que o meu pai até o presente momento


não deu nenhum pronunciamento ao público sobre a coletiva de imprensa ou
as outras acusações. Isso não é bom sinal.

— Agora faltam quantos dias para a Blue nascer, mamãe? —


pergunta o meu filhote preguiçosamente, deitado na minha cama em meio a
uma bagunça de lençóis brancos.

Observando, me atento a fazer um X vermelho sobre a data de hoje,


como tenho feito em todas as manhãs. Baseado nos vários exames que fiz a
pedido do meu médico particular, montei um cronograma na parede do meu
quarto para acompanhar a minha gestação, contando cada minuto para o

nascimento do meu baby.

— Agora faltam apenas seis meses e duas semanas, filho. — Minha


entonação faz parecer pouco tempo, mas não é.

Na verdade, o tempo está contra nós. Todas as noites, antes de dormir,


rezo e imploro a Deus para que dê a chance ao meu filho de realizar o sonho

de conhecer a irmãzinha. Porque Marcelo e eu temos total certeza de que será


uma menina a qual darei o nome de Blue Marcely, em homenagem ao seu
irmão mais velho.

— Mas e o papai, quando ele vai voltar? Acho que ele foi embora
porque não gosta mais de mim, não fui um bom menino. — Faz beicinho
com vontade de chorar, sentindo-se culpado pelo sumiço daquele homem. No
fundo Marcelo sabe que nunca mais ele vai voltar.

— Seu pai teve que se mudar para outra cidade bem longe por causa

do trabalho dele, Marcelo. Já te expliquei mil vezes. — Olho para o quadro


de girassol na parede próximo à janela ao mentir, odeio fazer isso, mas não
tenho outra saída.

No dia em que descobri toda a verdade sobre o Léo ter aceitado


dinheiro para partir o meu coração, cheguei em casa furiosa e disposta a
revelar toda a verdade ao Marcelinho. Que o homem que tanto ama não é o
seu pai de verdade e não passa de um trapaceiro ganancioso que nos vendeu
na primeira oportunidade que teve. Porém, com o jeito que o meu menino me

olhava tão inocente quando nos sentamos no sofá para conversar, acabei
desistindo e apenas o abracei bem forte.

Já basta o meu coração ferido.

No entanto, mesmo tentando preservar o Marcelo ao máximo do

sofrimento, meu filho não é mais a mesma criança alegre de antes. Chora por
qualquer coisa e tem dado ataques de raiva do nada. Virou rotina para ele
ficar deitado sobre o tapete da sala por horas olhando para a porta, à espera
que o pai passe por ela a qualquer momento.

— Então é só a gente comprar um avião e ir até o papai, ué, ele vai


ficar tão feliz — insiste ingênuo, bons argumentos sempre brotam de sua
mente como água da fonte.

— Boa ideia, querido, uma pena que mulheres com bebê na barriga

não podem entrar em aviões. — Torço a boca em uma falsa tristeza, espero
que cole.

— Poxa, mãe, que pena. Ele foi embora e nem quis se despedir de
mim. — Gira o corpo e fica de barriga para baixo, apoiando o rostinho com
as duas mãos, desapontado.

— Eu sinto muito, querido, somos só eu e você agora, como antes —


tento animá-lo.

— Sem o papai nunca mais será a mesma coisa — suspira

profundamente, está mesmo convencido que o pai foi embora por causa dele.

A verdade é que o Léo tentou de todas as formas possíveis falar


comigo, ligou um milhão de vezes e mandou centenas de mensagens
implorando para que eu deixasse que ele pelo menos se despedisse do

Marcelo. Não queria que pensasse que o tinha abandonado. Contudo, o meu
ódio era tão grande que jamais deixaria que se aproximasse do meu filho.

Por isso, deixei a raiva controlar a situação e escrevi uma mensagem


com as mãos trêmulas, que dizia:

“Não se preocupe com o meu filho, Léo, porque contei para o


Marcelo que você não é o pai dele. Marcelo não quer mais te ver ou falar
contigo nunca mais. Você não significa mais nada para nós. Se nos amou de
verdade, como disse um dia, prove isso e desapareça das nossas vidas para

sempre. Eu e o meu filho merecemos coisa melhor do que alguém que


valoriza mais o dinheiro do que os sentimentos das pessoas. Sendo franca,
para mim, Leônidas Rafael, você não passa de um caso perdido. ADEUS!”

Fui cruel no uso das palavras, eu sei, mas só queria feri-lo na mesma
proporção como me feriu e nos deixasse em paz de uma vez por todas. E
funcionou. Porque depois disso Léo simplesmente desapareceu como se
nunca tivesse existido. Nem ouvi mais falar no nome dele desde então.

No entanto, apesar de ser o que eu queria, meu coração quebrou ainda

mais. É complicado explicar. É difícil demais amar alguém e odiar ao mesmo


tempo, não tem um bendito dia que não pense ou sinta saudades desse
homem. Ao invés do tempo diminuir a dor, só aumenta.

— Eu sei que as coisas estão difíceis, meu amor, mas vamos dar um

jeito — prometo.

Ofereço a minha mão e ele segura firme. Vamos para a cozinha. Ergo
Marcelo do chão e coloco na cadeira, não vou levá-lo para a escola hoje.
Tenho outros planos para nós hoje.

— Ei, Marcelo, a mamãe tem uma surpresa para você.

— Qual? — Seus olhos brilham.

— Hoje é o meu último dia de trabalho no restaurante, e a minha

chefe me autorizou a te levar comigo para o restaurante. — Sua boca se abre


em formato de “o”, sempre quis conhecer onde trabalho.

Me corta o coração sair do restaurante, mas há uma semana apareceu


uma oportunidade incrível de trabalho na minha área como advogada Junior
em uma nova, mas já muito respeitada, empresa de assistência jurídica que o
melhor amigo do Juiz Thompson acabou de abrir, com uma equipe formada
por mais de cinquentas advogados, só os melhores dos melhores.
O advogado, Alejandro Gonzales, deixou o emprego de assessor do
Juiz Thompson para dar total atenção à presidência de sua empresa. Além de

me dar uma oportunidade de fazer parte da sua equipe de advogados, sabendo


da condição delicada do meu filho, deu carta branca para tirar o dia de folga
quando precisar cuidar do Marcelo.

Ainda acrescentou que eu não preciso me preocupar, porque não será

descontado um centavo do meu salário. É esse tipo de atitude que não me


deixa perder a fé na humanidade.

— Sério que vai me levar para o seu trabalho? — Fica de pé na


cadeira.

— Sim, Marcelo, e pode pedir o que quiser para comer.

— Então eu posso comer só sobremesa? Eba! —comemora dando


uma reboladinha engraçada.

— Claro que não, espertinho. — Seguro seus braços e giro o seu

corpo no ar pela cozinha, Marcelo ri alto.

— Issooo, faz de novo, mamãe — pede ainda rindo.

Repito a brincadeira, mas não exagero na velocidade, pois não quero


deixá-lo tonto.

— Ei, Walter, hora do café da manhã — chamo, mas nem sinal do cão
vacilão.
Sei bem onde esse danadinho está. Agora que a nossa vizinha, a bruxa
do 115, arrumou uma poodle tão metida quanto a dona, o meu Walter não sai

mais de lá e eu tenho quase certeza que fará dessa cadela a minha nora. Está
apaixonado. Não adianta, ele tem uma queda por essa raça.

— Walter não vem, mamãe, está namorando agora — afirma


Marcelo.

Num disse? Até o Marcelo já sabe do envolvimento do meu cão com


aquela poodle oferecida. Reviro os olhos.

— Depois eu me entendo com aquele pinscher sem-vergonha. Agora


termina o seu cereal.

— A senhora não vai comer nada, mamãe?

— Só um iogurte, filho, sua irmã está sem fome hoje — bufo, esse
meu baby quando não quer comer eu nem insisto, ou volta tudo para fora no
mesmo instante.

— Terminei, mãe, posso me arrumar agora?

— Claro, meu amor, bora para o chuveiro tomar um banho gostoso.


Vou te arrumar bem bonito e cheiroso para que os meus colegas de trabalho
vejam como o meu filhote é lindo. — Bate a mão na minha.

Antes de sair, me chamou com o dedinho e esfregou o nariz no meu.


Fofo demais. Tenho certeza de que o pessoal do restaurante vai ficar feliz em
conhecê-lo.

— Então, mãe, estou bonito? — Coloca a mão na cintura e dá uma

voltinha lenta; quando termina, para com um sorriso de orelha a orelha.

— Bonito é pouco, Marcelo, você está um espetáculo com essa roupa


social que a vovó Vera te deu de presente no seu aniversário. — Ajeito a gola
da camisa branca debaixo do paletó azul combinando com o tom da calça

jeans, quebrando a seriedade dos sapatos sociais bege bem clarinho.

Pego minha bolsa e as chaves e enfim saímos de casa, só o que me


faltava é chegar atrasada no meu último dia de trabalho.

— Esse carrão é mesmo seu, mamãe? — Marcelo desliza o dedo pela


pintura vermelha do Palio de segunda mão, mas muito conservado, que
comprei em várias parcelas.

Agora que vou ganhar bem no meu novo trabalho, posso dar um
pouco de conforto para o meu filho. Chega de sair quase duas horas mais

cedo para pegarmos o ônibus para a escola.

— É sim, meu amor, gostou? Eu comprei ontem enquanto você estava


na escola, a tia Paula me ajudou a escolher tanto o carro quanto a sua
cadeirinha.

— Eu gosto da cor vermelha, é a cor do amor — fala de um jeito


muito maduro, eu fico encantada toda vez que solta um de suas pérolas.
— Está feliz de passar o dia com a mamãe? — Olho pelo retrovisor e
vejo o meu filhote fazendo biquinho de peixe para mim, faço de volta para

ele.

— Estou sim, mamãe, muito. — Sorri, porém não tão animado quanto
eu queria. Sua felicidade nunca será completa sem a presença do pai.

Chegamos no restaurante, com o Marcelinho no colo e mexendo na

minha bolsa ao mesmo tempo. O bom de ser garçonete é que aprendemos a


equilibrar várias coisas ao mesmo tempo.

— Dani é uma boa companheira… Dani é uma boa companheira,


ninguém pode negar! — meus colegas de trabalho nos recebem cantando em
um coral lindo, fico emocionada.

Debaixo de uma salva de palmas, Marcelo e eu passamos por um


corredor humano pelo pessoal do restaurante, por onde a minha chefe me
espera no final dele com um buquê de flores. O teto está coberto por balões

de gás e na parede tem uma faixa gigante, escrito:

“A sua força e a do seu filho é uma inspiração para a humanidade,


nós temos orgulho de ter trabalhado com alguém tão especial como você,
Daniele.”

— Ehh, mamãe, eles fizeram uma festa para nós! — Marcelo bate
uma mãozinha na outra, com um sorriso lindo.
— Sim, querido, diz oi para os amigos da mamãe. — Pego-o no colo.

— Oi, amigos da mamãe, eu sou o Marcelinho — se apresenta, cheio

de fofura.

— Oi, Marcelinho, seja bem-vindo — dizem juntos, todos olhando


para o meu filho, cheios de afeto.

— Olá, meu docinho de leite, vem aqui na tia Michelle. — Nem


precisa dizer duas vezes, Marcelo solta a minha mão e vai correndo até ela.

Agora entendo por que a Michelle apareceu na minha casa com a


desculpa de tomar um chá juntas e deu a ideia de trazer o Marcelo no meu
último dia de trabalho, já estava tudo planejado. Eu nem desconfiei porque,
depois que tudo aquilo aconteceu, minha amiga tem me visitado com
frequência para passar força.

Meu filho ama a Michelle, disse que é uma das meninas mais legais
que ele conhece e sabe jogar bola muito bem.

— Não acredito que fizeram isso tudo para mim, gente — digo e eles
gritam o meu nome, assoviando e fazendo a maior farra enquanto as lágrimas
deslizam pelo meu rosto, lágrimas de alegria.

Passo pelo corredor e cumprimento um por um antes de chegar até a


minha chefe, essas pessoas se tornaram minha segunda família.

— Eu vou sentir muitas saudades, Barbie. — Pablo me abraça, esse


menino tem um coração de ouro.

Pessoas como ele, que têm o dom de fazer as outras pessoas rirem,

merecem ter o mundo aos seus pés.

— Eu também sentirei saudades, Pablito! — Beijo o seu rosto.

— Eu não vou nem me despedir de você, sua mocreia, ainda vai ter

que me aturar muito tempo porque eu serei madrinha dessa criança aí no seu
ventre. — Rio do bico enorme da Michelle, ela já se convidou para assumir o
posto de madrinha do meu baby e ai de quem diga o contrário.

A verdade é que, com a Michelle, já são quatro fortes candidatas para


a vaga de madrinha do meu baby. Tem a Julia, Yudiana e a Paula, que de vez
em quando jogam alguma piada a respeito. Vou ter que pensar em uma
solução com calma para não ter briga.

— Mas eu quero um abraço assim mesmo, Miche. Vem aqui. —


Abraço-a com o Marcelo no seu colo, o coitadinho fica espremido no meio de

nós duas.

— Quero me desculpar por todas as implicâncias sem motivo,


Daniele. Você sempre foi legal com todo mundo, eu tinha inveja da sua
simpatia e espontaneidade. Se não quiser se despedir de mim, tudo bem. —
Pela primeira vez a Vandinha Adams me chama pelo meu nome, e não por
algum apelido maldoso.
Ela, que sempre tem o olhar elevado, mantém a cabeça baixa,
envergonhada e sem coragem de me encarar. Mas eu não guardo mágoa,

estou feliz que está arrependida do ódio gratuito que espalhou sem me dar
uma única chance de aproximação.

— Tudo bem, Marta, já passou. Vem aqui. — A abraço, é só uma


menina assustada e confusa.

Enfim chego na minha chefe, estou nervosa para ouvir o que essa
mulher tem para dizer sobre mim.

— Você é uma das melhores garçonetes que passaram por esse lugar.
Atrapalhada, mas teimosa feito uma mula. Não desiste nunca, não importava
o quanto eu te desafiava, sempre fazia melhor do que eu mandava. — Torce a
boca fingindo estar zangada, seu look de hoje é um macacão roxo
fluorescente com as pernas boca de sino.

Antes eu achava o estilo exótico dela meio cafona. Mas hoje não, essa

é a marca registrada da Terezinha. Isso faz dela única. Moda é a gente que
faz, o importante é a gente se sentir bem.

— Porque o meu maior sonho era ganhar o seu respeito, mesmo que
só um pouquinho — revelo com a voz embargada, ela segura a minha mão.

— E você conseguiu, garota, estou muito orgulhosa de você. Tem


todo o meu respeito e admiração. — Me entrega o buquê de flores, a essa
altura estou em prantos.

Quando entrei nesse restaurante eu era só uma garota assustada e

perdida que não acreditava na própria capacidade, hoje estou saindo daqui
com o respeito e a admiração da mulher mais durona que conheço. Isso é
muito importante para mim, me esforcei muito para provar para todos que
não sou uma patricinha fútil e carrego muito mais coisas importantes na

cabeça do que os fios do meu cabelo loiro natural.

— Muito obrigada por todos os desafios que a senhora me deu, eles


contribuíram muito para que me tornasse a mulher forte que sou hoje. —
Limpo suas lágrimas, ela também está muito emocionada.

— Eu sei, querida. Desde que vi a sua entrevista no jornal, não


consigo nem expressar o quanto sou grata a Deus por ter a oportunidade de
abraçar você e o seu filho neste momento e dar o meu total apoio. — O seu
abraço me traz uma sensação boa.

Vim preparada para o meu último dia de trabalho e, ao invés de servir


as mesas, eu recebi uma homenagem linda dos meus colegas. A melhor mesa
do restaurante foi reservada para mim e o meu filho, livre para pedirmos o
que quisemos por conta da casa.

Com certeza, hoje é um dos dias mais felizes da minha vida. Todos
paparicando a mim e ao Marcelinho, pessoas tão queridas que levarei comigo
aonde for.
Dani

Depois de deixar as crianças na escola, Paula se oferece para me

acompanhar em uma consulta de rotina para mostrar os resultados dos


exames que fiz a pedido do meu médico. O problema é que, desde que
entramos na sala do doutor Caio, em vez de olhar para mim, que sou sua
paciente, enquanto fala, ele não tira os olhos da minissaia verde-limão da
minha amiga.

— Então, Daniele, seus exames estão ótimos! Em breve faremos uma


ultrassom para analisar como está o desenvolvimento do feto. Você poderá
ouvir as batidas do coraçãozinho do bebê — explica enquanto baba na jogada

de cabelo para o lado que a Paula acabou de protagonizar.

Cruza as pernas de um lado, depois para o outro. Com um nível


natural de sensualidade que é só dela, nenhum homem na face da terra
resistiria a isso.

— Sério, doutor? Ai, meu Deus, que emoção! — Abraço minha


amiga sem acreditar que vou escutar o coração do meu bebê pela primeira
vez, mas ela está tão entretida vendo algo no seu celular que nem retribui.

— Sim, Daniele, esse é um dos momentos mais mágicos para as mães

durante a gestação. Principalmente as de primeira viagem. — O homem olha


para mim só por alguns segundos e sorri simpático, depois volta os olhos
sobre a Paula.

Meu médico não é nenhum galã de novela mexicana, faz mais o estilo

nerd. Mas é um gato e foi muito bem recomendado por algumas mães dos
coleguinhas da sala do Marcelo. Em todas as minhas consultas ele sempre
está todo engomadinho. Hoje, por exemplo, veste blusa social azul e gravata
cinza com riscos debaixo do jaleco branco.

Usa óculos de grau e traz o cabelo todo jogado para trás com o auxílio
de gel, bem tipo Clark Kent mesmo. Só acho ele um pouco frio às vezes, não
faz nenhuma piada ou diz algo descontraído. Vai direto ao ponto, curto e
grosso, isso me incomoda às vezes.

— Muito obrigada, doutor, amanhã começo no trabalho novo, mas


prometo continuar tomando as vitaminas que passou, direitinho.

— Ótimo! Vejo vocês em breve. — Seguro o riso.

Não sei se o seu “vocês” inclui só eu e o meu bebê, ou espera que a


Paula me acompanhe na próxima consulta. Coitado, ele todo interessado e a
bobona nem sequer olhou para o cara desde que chegamos. Não para de
mexer nesse bendito celular enquanto masca chiclete ferozmente.

— Tenha um bom dia, doutor Caio. — Cato a Paula pela mão e saio

puxando-a para fora da sala, tomo o celular dela e enfio na minha bolsa.

— Por que fez isso, Dani? Me dá o meu celular de volta, por favor. —
A sua expressão agoniada me faz devolver o aparelho para ela, alguma coisa
não está certa.

— O que aconteceu, Paula? Você está estranha, nunca te vi tanto


tempo pendurada nesse celular.

— Hoje de manhã uma prostituta que trabalhava próximo ao meu


ponto foi encontrada morta, com as mãos e pés amarrados para trás. Ela foi
estuprada e torturada até a morte por algum maníaco. — Treme enquanto
fala, minha primeira reação é abraçá-la. Essa garota poderia ter sido ela.

Agora entendo por que Paula está tão agitada assim, e se esse cara for
algum psicopata e matar novamente? Não quero nem pensar nisso.

— Mais um motivo para eu ficar com o seu celular, não quero que
fique vendo notícias falsas sobre o caso na internet. A maioria dos sites só
mentem ou aumentam. — Tomo o seu celular novamente e enfio na minha
bolsa, já sei como conseguir informações direto da fonte sobre esse caso e
tranquilizar a minha amiga.

— Sério isso? — resmunga com as mãos na cintura.


— Olha, eu também estou preocupada, por isso vou mandar uma
mensagem para a Julia agora e pedir que converse com o marido sobre o caso

e nos deixe informadas de tudo. — Digito a mensagem na frente dela e envio.

— Como eu não pensei nisso, caramba, o marido da Julia é delegado


da polícia civil. — Bate a mão na testa.

— Pois é, bonitona, o cavalão já deve estar investigando quem fez

essa crueldade. Pode ficar tranquila que ele vai colocar esse cara da cadeia.
— Sua expressão se suaviza, espero ter boas notícias de que esse criminoso
foi detido.

— Muito obrigada, amiga, você é a melhor. — Agarra o meu braço,


andamos juntas pelos corredores do hospital.

— Relaxa, amiga. Agora, mudando de assunto, percebeu como o meu


médico ficou de olho em você?

— Não! Mas ele nem faz muito o meu tipo. Eu gosto daqueles boys

bem com cara de bandidinho, sabe? Com boné de aba quadrada e corrente de
ouro falso no pescoço, calça rasgada caindo e vocabulário sujo — diz entre
suspiros a maluca.

— Tipo aqueles caras que andam com um gingado estranho e os


braços abertos, cheios de marra? — Começo a imitar, abro os braços dando
pulinhos como se estivesse tendo leves espasmos e digo com a voz grossa:
— E aí, mano, firmeza?

Paula quase tem um ataque de tanto rir, e eu continuo andando igual

aos boys das quebradas que ela gosta.

— Daniele? — Ouço alguém me chamar, me viro e vejo o doutor


Amor.

Ops!

Quer dizer, o doutor Enrique. Não o vi mais desde que foi me buscar
durante a festinha de dia dos pais na escola do Marcelo. E olha que ele me
enviou centenas de mensagens e ligou depois disso me chamando para sair
novamente, mas ignorei suas investidas, estava deslumbrada demais com o
charme infalível do Léo, cega de amores por aquele cretino.

— Olá, doutor Enrique, quanto tempo! Essa é a minha amiga querida,


Paula — digo, vermelha de vergonha pelo seu sorriso divertido com os dentes
perfeitamente brancos e alinhados, me viu agindo feito uma idiota.

— Prazer em te conhecer, Paula. — Beija a mão dela, um perfeito


cavalheiro.

— O prazer é todo meu, doutor — suspira.

Por que não me apaixonei por esse homem lindo e maravilhoso, meu
Deus? Teria me evitado tanto sofrimento.

— E o Marcelo, como está? — Fico impressionada de ele não ter


esquecido o nome do meu filho.

— Ele está bem, doutor, na medida do possível. — Sorrio triste.

— Pensei que estava aqui por causa dele, espero que esteja tudo bem
com você. — Segura minha mão e beija preocupado, Paula dá uma risadinha
maliciosa com a ponta da língua para fora.

— Eu estou ótima, na verdade, não poderia estar melhor. Em breve


trarei mais uma vida ao mundo. — Passo a mão na barriga, orgulhosa do meu
baby.

— Uau! Nem sei o que dizer. — Coça a nuca, surpreso com a


revelação, acho que esperava que eu dissesse qualquer coisa, menos isso.

Obviamente se perguntando quem é o pai. Eu no lugar dele também


ficaria curiosa para saber.

— Parabéns, Dani, é um bom começo — brinco na tentativa de

diminuir o clima tenso.

— Deixa eu adivinhar, o pai por acaso não é aquele cara com cara de
bad boy todo tatuado que só me chama de “doutor Amor”? — Cruza os
braços sobre o peito largo, me encarando à espera de uma resposta.

— Sim. Mas ele não faz mais parte da minha vida — afirmo.

O sorriso do doutor Enrique logo se faz presente novamente, amplo e


esperançoso.
— Que ótimo saber disso, Dani. Você merece coisa melhor do que
aquilo. — Paula contorce o rosto, mesmo com raiva do Léo não gosta que

falem mal dele na frente dela.

Só ela pode fazer isso.

— Esse final de semana estou livre, gostaria de almoçar comigo? Nos


divertimos muito no nosso último encontro.

— Não sei, doutor Enrique, eu ando com os hormônios à flor da pele


devido à gravidez. Não serei uma boa companhia. — Sorrio sem graça.

Não acredito que me convidou para um encontro na frente da Paula,


mesmo sabendo que estou grávida de outro homem.

— Eu sou médico clínico geral, mas tenho especialização em


ginecologia e obstetrícia. Sei perfeitamente como lidar com grávidas, então,
sem desculpas. — Alisa o maxilar e morde o lábio grosso inferior, jogando
sujo, ele sabe bem o charme que tem e como usá-lo.

— Preciso pensar antes, qualquer coisa mando uma mensagem


confirmando. Mas não prometo nada.

— Combinado, princesa. A propósito, se você autorizar será uma


honra cuidar da sua gestação daqui para frente. Quero ser o homem que vai
trazer o seu filho ao mundo, tudo sem nenhum custo, é claro — propõe e eu
fico sem resposta.
— Ela aceita, sim, obrigada, doutor. De graça, até injeção na testa —
Paula se adianta e responde por mim, eu a fito de cenho franzido.

— Isso aí, adorei a sua amiga, Dani. — Pisca para ela, arrebatando-
lhe outro suspiro.

— Ligue para a minha secretária e marque a próxima consulta, este é


o meu cartão. — Tira o cartão feito de um material dourado brilhante e me

entrega.

Beija o meu rosto e vai embora, deixando o rastro do seu perfume 2.5
da Calvin Klein para trás.

— Que homem gostoso, puta merda! Como diria Alcione: Um negão


de tirar o chapéu — pontua Paula, abanando o rosto cheia de fogo.

— Cala a boca e vamos embora, sua sem-vergonha, temos um monte


de coisas para fazer e ainda pegar os nossos filhos na escola. — Saio
empurrando-a.

Primeiro almoçamos juntas, depois passamos no salão de beleza.


Fizemos o cabelo e as unhas, quero estar bonita para o meu primeiro dia de
trabalho. Em seguida vamos para a escola pegar as crianças. Enquanto
esperamos junto com os outros pais a saída das crianças, Paula não para de
tagarelar sobre como amou a cor do esmalte que pintou as unhas da mão.

Contudo, eu não presto atenção direito. Uma garota parada do outro


lado da rua, vestida com um moletom preto e capuz na cabeça, me chama a
atenção. Ela me olha fixamente, como se me conhecesse. Tem o cabelo

castanho comprido e a pele pálida como se não visse sol há dias, aparenta ter
no máximo vinte anos, mas o corpo é magro e frágil, como uma garota de
doze.

— Você já viu aquela garota por aqui antes, Paula? — Aponto na

direção dela.

— Que garota, Dani? — pergunta confusa, em uma questão de


segundos a garota misteriosa havia desaparecido.

— Para onde ela foi? — Olho para todos os lados e nem sinal dela,
que bizarro.

— Será que era um fantasma? Sai morte que eu estou forte. — Faz o
Pai-Nosso.

— Fantasma em plena luz do dia, Paula? — Reviro os olhos, essa

Paula não existe.

O sinal toca e as crianças saem feito uma manada, acabo esquecendo


o ocorrido. Ofereço uma carona para a Paula e a filha, mas elas acabaram
decidindo ir para o centro fazer compras.

— Tchau, meninas, vejo vocês à noite — me despeço delas, Maria


joga um beijo muito fofo.
Marcelo e eu acenamos para as duas.

— Por que não podemos ir com elas, mamãe?

— Porque hoje está muito quente, querido, não quero que fique com
falta de ar por causa do calor.

— Ah, mãe, nem está tão quente assim — resmunga.

— Está sim, mocinho, vou até pegar uma garrafinha de água na minha
bolsa para você, precisa se hidratar. Não se afaste da mamãe. — Assente.

Paro na calçada e solto sua mão apenas por um instante, mas foi
tempo o suficiente para ele sair correndo.

— Papai? — grita Marcelo e eu congelo.

Ergo o olhar quase em câmera lenta e lá está o homem cheio de


tatuagens e cabelo castanho na altura do ombro, passando do outro lado da
rua com as mãos nos bolsos da jeans. Realmente parece, mas não é o Léo.

— Aquele não é o seu pai, meu amor, é só alguém parecido. Sinto


muito, querido. — Corro atrás dele e agarro o seu braço antes que atravesse a
rua com vários carros em movimento.

— É o meu pai, sim! Por favor, me deixa falar com ele. — A súplica
na sua voz me faz querer que aquele homem fosse o Léo de verdade, mas que
bom que não é.
Não é justo o meu filho sofrer dessa forma por alguém que não
merece uma lágrima sua, muito menos o seu amor.

— Para de chorar e respira, meu amor. — Fico da sua altura, ele


obedece soluçando para engolir o choro. — Agora olha de novo para aquele
homem e me diz se é mesmo o seu pai. — Faz o que eu peço, depois olha
para mim com os olhinhos verdes cheios de lágrimas.

— Não é o meu pai. — Seus lábios tremem, abraça o meu pescoço e


chora tão doído que eu choro junto com ele.

— Vem, filho, vamos para casa. — Pego-o no colo e levo para o


carro.

Marcelo chora por todo o caminho, chegamos em casa e ele continua


chorando e chamando pelo pai. Nada que eu faça ou diga adianta, depois de
várias horas acaba dormindo, cansado de tanto chorar, sentado no meu colo
no sofá. Me sinto péssima, fui eu que trouxe o motivo de todo esse

sofrimento para as nossas vidas.

— Eu sinto muito por isso, meu amor, descanse. — Afago o seu


cabelo depois de colocá-lo na cama, puxo seu cobertor e cubro até o pescoço.

Pego um pacote de bolacha e me deito no sofá, esperançosa de que


quando o Marcelo acordar esteja calmo ou pelo menos não chore mais. Cada
lágrima sua é como uma espada atravessando o meu peito, não sei como fazer
o meu filho entender que o pai nunca mais vai voltar.

— Precisamos pensar em alguma coisa para animar o seu irmão, Blue

Marcely. Juntas nós vamos conseguir. — Viro de barriga para cima no sofá e
acaricio o minúsculo monte quase imperceptível, estou louca para que esse
bebê comece a mexer aqui dentro.

Com um sorriso no rosto, viro para o lado e adormeço. Vai dar tudo

certo, eu tenho certeza.


Dani

Sinto uma coisa molhada e quente no meu rosto, mas o sono está tão

gostoso que me aconchego no sofá e continuo dormindo. Até ouvir um latido


zumbindo no meu ouvido.

— Para de lamber o meu rosto, Walter. Me deixa dormir —


resmungo, mas o pinscher continua latindo e latindo.

Filho na flor da idade é assim mesmo, passou a noite farreando com a


namoradinha nova e agora voltou para a casa fazendo escândalo porque está
com fome.

— Tudo bem, seu sem-vergonha, você venceu. — Para de latir, puxa

os cantos da boca e mostra os dentes como se estivesse sorrindo, esse


danadinho.

Pego meu cão e levo para a cozinha, encho sua vasilha de ração e
troco a água. Ele come como se o mundo estivesse à beira do fim. Queria
voltar a dormir, mas agora o meu sono foi embora. Ainda mais que o dia não
poderia ter amanhecido mais lindo, céu azul e pássaros cantarolando.
Deixo Marcelo dormir mais um pouco enquanto tomo o meu banho
com calma e me arrumo para o meu primeiro dia no trabalho, estou com um

frio enorme na barriga. Como não quero fazer feio, decido vestir algo bem
formal. Blusa social branca, saia lápis cinza com uma abertura discreta atrás e
scarpins vermelhos nos pés.

Prendo o cabelo em um coque formal, faço a maquiagem em tons

nude. Mais que pronta para enfrentar qualquer coisa nessa nova fase da
minha vida.

— Você está bonita, mamãe. — Marcelo aparece na porta do meu


quarto esfregando os olhos ainda com sono, ele fica uma graça dentro desse
pijama, um macacão amarelo e azul dos Minions.

— Bom dia, meu amor, dormiu bem? — Inclino e beijo o seu rosto,
parece que acordou de bom humor.

Obrigada por isso, Senhor!

— Sim, eu sonhei com o papai e você, Blue. Bom dia, irmãzinha. —


Abraça a minha cintura e beija a minha barriga, conversando com o bebê.

Abro um sorriso, eu tenho certeza que ainda terei o prazer de ter os


meus dois filhos em meus braços juntos, mesmo que seja por uma única vez.

— E como foi esse sonho, Marcelo? — indago curiosa enquanto


ajeito minha bolsa.
— Do Céu, eu via o papai andando de cavalo com a Blue em um
lugar bonito, cheio de árvores de todas as cores — conta gesticulando como

se ainda estivesse sonhando, fico arrepiada toda vez que fala sobre o Céu.

— E como era a sua irmãzinha nesse sonho? — Sento ao seu lado e


passo o meu braço em volta do seu corpo, seus pezinhos balançam de um
lado para o outro.

— Blue era igualzinha a você mamãe, sério mesmo! O cabelo da


mesma cor e os olhos verdes, mas o sorriso é do papai. E quando ela sorri,
aparecem dois furinhos na bochecha dela — explica detalhadamente e a
imagem se forma na minha mente, é impossível conter o sorriso.

— Então as bochechas da Blue eram fofinhas iguais às suas? —


Aperto suas bochechas, ele acha graça e faz o mesmo com as minhas.

Jogo ele na cama e começo a fazer cócegas; depois de tanto choro


ontem, suas risadas são música para os meus ouvidos.

Deixo o Marcelo e a Maria na porta da sala de aula, me despeço dos


dois com um beijo no rosto e sigo o meu caminho para o trabalho. Não fico
surpresa pelo endereço da empresa ser em um dos bairros mais caros do Rio
de Janeiro. Logo no início da rua vejo o prédio em formato de triângulo, a
parte de fora é toda de aço e vidro espelhado, um verdadeiro luxo.
Deixo o meu carro no estacionamento para os funcionários, pego
minha maleta de couro marrom no banco de trás e faço uma breve oração

antes de sair do veículo para que Deus me dê sabedoria e discernimento na


atuação desse trabalho, para fazer valer a pena a oportunidade que me deram.

Contudo, assim que ergo a cabeça e levo a mão para abrir a porta para
sair, vejo a garota estranha que vi em frente à escola do Marcelo me

encarando do lado de fora do veículo. Fico apreensiva, mas não com medo.
Contudo, ela parece apavorada por algum motivo que desconheço. Só sei que
nunca vi olhos tão assustados antes.

— Por favor, Daniele, me ajude! — Aproxima o rosto do vidro e


mexe os lábios bem de leve, sinto uma coisa ruim que não sei explicar.

— Tem alguém querendo te machucar? — pergunto e ela assente


enquanto uma lágrima desliza pelo seu rosto cheio de sardas.

Decido destrancar a porta para conversar melhor com a garota, mas

um dos seguranças da entrada do prédio vem andando na nossa direção.


Assustada, a garota sai correndo e desaparece mais uma vez.

— Tudo bem, senhora? Não sei como aquela trombadinha conseguiu


entrar aqui. — O segurança toca o meu braço, preocupado com o meu estado
de paralisia momentânea.

Quem é essa garota? Como ela sabe o meu nome? Ela está mesmo em
perigo? E por que ela acha que eu posso ajudá-la? São tantas perguntas sem
respostas, estou preocupada com a segurança dela. Farei o possível para

encontrá-la e, se realmente tem alguém querendo feri-la, vai ter que passar
por cima de mim primeiro.

— Eu estou bem, obrigada. Não se preocupe. Se aquela garota


aparecer aqui, por favor, me avise imediatamente. — Escrevo o meu número

em um pedaço de papel e entrego para ele.

Tranco o carro e caminho até a entrada do prédio, onde alguém muito


importante está à minha espera.

— Buenos dias, seja bien-vinda à minha empresa de advocacia. —


Para a minha surpresa, sou muito bem-recepcionada pelo presidente da
empresa, Alejandro Gonzales, com seu sorriso galante e o terno azul-escuro
bem alinhado aos seus músculos.

Eu não entendo como esse espanhol consegue parecer ainda mais

lindo toda vez que o vejo, pelo que ouvi por aí esses olhos claros realçados
pela pele bronzeada fazem um sucesso tremendo entre as cariocas. De fato,
devo admitir que esse cabelo lisinho caindo sobre o rosto é muito charmoso.

Apesar de Gonzales ser o melhor amigo do marido da Yudiana, não


sei muita coisa sobre ele. Nunca passamos de um cumprimento formal
quando nos encontrávamos.
— Bom dia, senhor Alejandro Gonzales. — Estendo a mão para
cumprimentar o meu novo chefe, no mínimo vinte centímetros mais alto do

que eu.

Preciso inclinar a cabeça para trás para conseguir olhar no seu rosto
quadrado, e que rosto!

— No precisa dessa formalidade entre nós, Hermosa — me chama de

bonita em espanhol e beija as costas da minha mão olhando no fundo dos


meus olhos, todo sedutor.

Bem que a Yudi me alertou para ficar esperta com esse cara, ele é
conhecido como o maior cafajeste do Rio de Janeiro.

— Se não se importar, em forma de respeito eu prefiro chamar o meu


chefe de senhor. Agradeço a oportunidade de trabalho que me deu a pedido
do John, mas quero subir dentro desta entidade por mérito próprio — sou
curta e grossa, espero que não me demita logo de cara por conta disso.

Também fui informada que Alejandro Gonzales não aceita ser


afrontado por ninguém, principalmente por uma mulher, é um machista
assumido.

— Yo gostei de você, senhorita Mendonça. Primeiro empregado meu


que não tentou lamber o chão que piso em busca de algum benefício futuro.
— Revira os olhos.
Sorrio ao ouvir ele dizer o sobrenome da minha mãe. Com a ajuda do
John, que mexeu os pauzinhos para tirar o sobrenome do Juiz Flores do meu.

Não o considero como pai e não quero um centavo da herança dele, então não
tem por que usá-lo. Toda vez que escuto não sinto nada além de repulsa.

De agora em diante, Daniele Flores fica para trás. Daqui para frente
Daniele Mendonça começa uma vida nova. Não foi apenas o meu sobrenome

que mudou, mas o do Marcelo também. Minha mãe, gentil, me autorizou a


fazer a mesma troca com o registro do Marcelo. Quero que, quando deixe
esse mundo, não leve nada daquele homem com ele.

— Entendo, senhor. — Sorrio, acho que isso foi um elogio ao passa-


fora que dei nele.

— Me acompanhe, por favor, yo vou te levar até a sua nova sala. —


Fico boquiaberta, vou ter uma sala só para mim.

Dou um soco no ar sem que Gonzales perceba, não quero que pense

que sou louca.

— Obrigada, senhor. Me desculpe a curiosidade, mas eu gostaria de


saber se já tem algum caso em mente para mim? — Não seguro a curiosidade
ao entrarmos no elevador, estou ansiosa para saber qual será o meu primeiro
caso.

— No se preocupe, querida. Sua secretária, Ivone, irá te passar todos


os detalhes. No se assuste com a pilha de relatórios sobre a sua mesa, se tem
uma coisa que nunca falta nessa empresa é trabalho. — Desliza os dedos pelo

cabelo liso escuro.

Protagoniza um sorriso de canto estonteante para a morena bonitona


com um corpaço malhado, que segura uma pasta preta, ela já estava no
elevador quando entramos.

— Bom dia, chefinho — cumprimenta toda melosa e pisca para o


espanhol, oferecida, ignorando totalmente a minha presença.

— Buenos dias, Carol. — Pelo seu sorriso cafajeste segurando a parte


inferior dos lábios entre os dentes, eles são muito mais do que empregada e
chefe.

Contudo, isso não é da minha conta. Estou aqui para executar o meu
trabalho da melhor forma possível. Não para especular as transas paralelas do
meu chefe.

— Meu dia ficou melhor agora que te encontrei, Gonzales — manda


assim, na cara dura, empinando os seios siliconados.

Fico de boca aberta, a morena nem disfarça que quer ser comida por
ele aqui mesmo na minha frente, se puder, só falta abrir as pernas.

— Yo pensei mejor, senhorita Mendonça, mandei uma mensagem


para a Ivone e ela vai te mostrar a sua sala. Apareceu outro compromisso
urgente — diz com a voz rouca assim que as portas de aço se abrem no
oitavo andar, sei bem que compromisso é esse…

Se enfiar no meio das pernas dessa morena peituda assim que eu virar
as costas, mas que sem-vergonha, não respeita nem a própria empresa.

Que espanhol safado!

— Sem problemas, senhor, obrigada. — Me viro e saio, solto uma


gargalhada depois que me afasto alguns passos.

— Bom dia, senhorita Mendonça. Sou a Ivone, sua nova secretária.


Seja bem-vinda ao nosso grupo. — Me assusto com a mulher que surge do
nada, sorrindo de maneira educada.

Gosto da maneira retrô como se veste, vestido branco com bolinhas


pretas, muito bem-costurado. Cabelo descolorido na altura do queixo com a
franja trazida reta acima das sobrancelhas grossas, tem a pele lisa
maravilhosa em um tom de caramelo, e os lábios grossos enfeitados com

batom vermelho.

— Prazer, Ivone, e pode me chamar só de Dani. Formalidades aqui,


só com o chefão. — Aperto sua mão bem firme, uma aliança profissional se
forma entres nós.

— Tudo bem, Dani, eu amo o seu nome, é o mesmo da minha irmã.


Agora me acompanhe que temos muito trabalho hoje. — Sorri.
— Que coincidência, Ivone. Mande um beijo à sua irmã, conte a ela
que somos xarás — brinco.

— Com certeza. A propósito, eu amei o seu sapato — elogia sincera.

— E eu amei toda a sua roupa. E como minha amiga Michelle diria,


seu cabelo é um escândalo. — Agarro o braço dela, acho que eu e a Ivone
vamos nos dar muito bem trabalhando juntas.

Caramba! Eu tenho uma secretária, isso é o máximo. Comecei de


baixo lavando uma pia gigante de louça suja, para agora estar trabalhando na
minha área em uma empresa renomada. Não há coisa melhor do que sentir
orgulho de nós mesmas.

— Pronta para conhecer a sua sala, Dani? — Segura a maçaneta e faz


uma cara de suspense.

— Mais que pronta, Ivone! — Ela abre e o meu queixo cai,


literalmente.

A sala deve ser maior que o meu apartamento inteiro; diferente do


restante do prédio, com uma decoração opaca, tem as paredes pintadas em
cores alegres. Uma parede inteira de vidro com a vista para o Cristo
Redentor, o chão todo acarpetado e a minha mesa decorada com flores
naturais e uma caixa de chocolate, e portarretratos do Marcelo.

— Você não existe, Yudiana! — penso em voz alta com os olhos


cheios de lágrimas, só uma amiga de verdade saberia deixar essa sala assim
com a minha cara.

— Ela esteve aqui bem cedinho e arrumou tudo para quando você
chegasse, achei muito fofo da parte dela — conta Ivone, meus olhos ficam
molhados.

Vou ligar mais tarde para a minha amiga e agradecer o carinho, como

eu tenho sorte de tê-la em minha vida.

Em uma explicação objetiva e clara da Ivone de como as coisas


funcionam na empresa, aos poucos vou pegando o ritmo. O meu primeiro
trabalho não poderia ser mais emocionante, vou ser representante de algumas
famílias simples de uma cidadezinha no interior, em um processo contra uma
fábrica meia-boca de pintura de tecido que foi aberta lá há um ano e está
poluindo todos os rios, causando doenças nos animais da região. Só de pensar
nos pobres bichinhos morrendo fico furiosa, não vou sossegar até ganhar essa

causa e fechar essa fábrica, ou não me chamo Daniele.

Fico tão imersa na revisão da pilha de relatórios sobre o meu caso que
esqueço de fazer o horário de almoço, peço um lanche no meu escritório
mesmo. Mas no final da tarde consigo fechar tudo o que precisava ser
enviado para o cartório ainda hoje, aproveito o tempo livre para iniciar uma
investigação sobre a tal fábrica. Mando e-mail e ligo para vários lugares,
consegui uma ótima informação com o diretor do hospital da cidadezinha,

que confirmou as minhas suspeitas. No último ano os casos de pessoas com


câncer triplicaram, ou seja, a fábrica não está adoecendo apenas os animais,
mas os humanos também.

O caso que peguei é mais grave do que pensei, e se tem causado

câncer nas pessoas virou algo pessoal. Vou fazer o impossível para fechar
essa fábrica o quanto antes, quero evitar que essa doença terrível destrua mais
famílias inocentes.

— Acho que chega por hoje, Dani! — Fecho a tela do notebook da


empresa e jogo as costas na cadeira, exausta.

Fecho o meu escritório e vou embora faminta, ainda tenho que passar
no colégio para pegar o Marcelo e a Maria. Ao sair da empresa, olho para
todos os lados na esperança de encontrar a garota misteriosa, mas nem sinal

dela.

Entro no meu carro e jogo a minha maleta no banco do carona, chuto


os meus sapatos e vou embora.

— Acho que você não vai aguentar esperar a mamãe chegar em casa,
não é, meu amor? — Aliso a barriga enquanto espero o sinal abrir, com pena
do meu bebê.
Começo a procurar o supermercado mais próximo. Depois de quase
meia hora rodando sem rumo, enfim encontro um gigantesco. Era para pegar

apenas algumas barras de cereais e qualquer suco natural, mas acabo pegando
um carrinho e encho de porcarias com um monte de açúcar e gorduras.

Se continuar assim, vou chegar ao final dessa gestação com duzentos


quilos, no mínimo.

Que maravilha!

— Eita que a festa essa noite vai ser boa, hein, moça? — brinca a
senhora simpática do caixa enquanto passa os quatro pacotes de batata frita e
três de doritos, e ela nem viu ainda o pacote de bombom serenata de amor e o
engradado de refrigerante de laranja.

— Não me julgue, mulher, tive um dia difícil. — Ergo as mãos, rindo.

— Nossa, minha filha, é muita coisa para você carregar — constata


depois de alguns minutos passando as minhas coisas.

— Não tem problema, senhora, eu estou de carro. — Coloco o meu


cartão na máquina e digito a senha.

— De jeito nenhum, moça, vou chamar alguém para te ajudar a levar


suas comprar até o carro — insiste.

— Então está certo, muito obrigada! — me rendo à sua gentileza.

— Ei, bonitão, será que pode ajudar essa moça linda a levar as
compras até o carro? — pede para o rapaz que passa carregando uma caixa
pesada, tem as costas largas e braços fortes, ele usa a camisa de mangas

compridas e o boné virado para trás, ambos com o emblema do mercado,


igual aos outros funcionários.

— Claro que sim, dona Joana, a senhora manda, minha rainha. Me dê


só um minutinho. — Se vira na nossa direção e o seu sorriso morre

instantaneamente.

— Esse rapaz tem o coração de ouro, filha, muito trabalhador, faz


horas extras todos os dias. Não é mesmo, Leônidas? — comenta a senhora do
caixa, orgulhosa do colega de trabalho, eu nem pisco.

— Meu Deus! — digo em um fio de voz, sem acreditar no que estou


vendo, não acredito que está trabalhando nesse supermercado e usando o
nome verdadeiro.

Então ele não voltou para o mundo da prostituição? Estou chocada,

podia jurar que tinha sido a primeira coisa que ele tinha feito.

Minha nossa!

Léo está com o corpo mais musculoso, acho que começou a malhar
diariamente ou o serviço pesado está lhe fazendo muito bem. Cortou o cabelo
curto e deixou a barba rala, está um homem renovado. Pelo menos por fora,
não acredito que nenhuma mudança possa acontecer por dentro.
— Daniele, eu… — Deixa a caixa cair no chão e começa a falar, mas
de repente para e os seus olhos se enchem de lágrimas.

Assim como os meus.

Seu olhar é o mesmo que o da última vez que nos vimos, com o
coração partido como se doesse até para respirar. Minhas pernas perderam a
força, eu pensei que nunca mais voltaria a colocar os olhos nesse homem

novamente.

— Eu senti tantas saudades, Boneca — sibila com a voz trêmula e dá


um passo na minha direção.

— Não ouse! — Estico o braço entre nós e impeço que se aproxime


mais, estou com tanto ódio que se tentar me tocar sou capaz de matá-lo.

— Me perdoe, Daniele. Não sabe o quanto eu sinto muito por ter


estragado tudo. — Uma lágrima dolorosa passeia pelo seu rosto e se derrama
sobre os seus lábios, até hoje o gosto da sua boca está grudado na minha.

— Eu também sinto, Leônidas Rafael. Com certeza, muito mais do


que você. — Saio do mercado correndo, entro no meu carro e acelero
cantando pneu.

Fugindo do homem que me deixou com o coração ferido, a dor que


sinto agora é a mesma do momento em que descobri toda a verdade sobre ele.
Eu pensei que o tempo pudesse curar tudo, mas depois de reencontrá-lo vejo
que estou errada. Não dá para negar mais, amo esse desgraçado com todas as
minhas forças e ainda carrego um filho dele dentro de mim.

Não importa para onde eu fuja, Léo e eu estaremos ligados para


sempre.
Dani

Sentada na areia da praia de Ipanema, observo a briga feroz das ondas

entre si, em uma luta acirrada, como se quisessem provar qual é a mais forte
entre elas. Na borda, forma uma camada grossa de espuma. Hoje o mar está
revolto. Assim com os meus sentimentos depois do reencontro com o Léo,
tanto que nem tive condições psicológicas de pegar as crianças na escola.
Liguei para a Paula e pedi que faça isso por mim hoje; para não a preocupar,
tive que mentir que precisaria trabalhar até mais tarde.

Preciso de um tempo sozinha, não dá para ser forte o tempo todo. Por
isso deixo as lágrimas caírem enquanto como o pastel de queijo que comprei

no carrinho de um senhor muito engraçado, minha barriga não parava de


roncar. Tadinho do meu baby, cheio de fome e a idiota aqui fugiu do mercado
e deixou as compras já pagas para trás, vou dormir sonhando com aqueles
pacotes de doritos.

— Você é uma idiota mesmo, Daniele — digo com a boca cheia e


choro mais ainda, esses hormônios da gravidez são uma merda mesmo.
Termino de comer e lambo até os dedos, estava delicioso. Limpo a
boca cheia de gordura com o antebraço, com vontade de comer mais.

Contudo, pego os meus lindos scarpins jogados de qualquer jeito na areia e


volto para casa. Tomo um banho e visto o meu pijama mais confortável, de
seda indiana. Vou deixar para buscar o Marcelo mais tarde, não quero que me
veja nesse estado.

No entanto, é só eu deitar a minha cabeça no travesseiro para tentar


descansar um pouco, que a campainha toca. Levanto e coloco as minhas
havaianas e vou abrir a porta, resmungando.

— Parabéns pelo primeiro dia no trabalho novo, amiga. Gonzales


disse que gostou muito da sua presença de espírito, dando conta de analisar
em poucas horas relatórios que deveriam levar uma semana inteira. —
Yudiana ergue duas garrafas de vinho, uma em cada mão, e não está sozinha.

Está acompanhada de Julia segurando o bebê dormindo todo

enroladinho em uma mantilha azul, a coisa mais fofa do mundo. Paula trouxe
as taças e um sorriso pra lá de animado, nunca vi ninguém gostar mais de
uma festa do que ela.

— Ai, você trouxe o Junior, passa o meu pretinho lindo para mim. —
Passa o bebê mais lindo do mundo para o meu colo, acaricio sua bochecha
gorducha e a minha tristeza até vai embora.
Ricardo Junior pode ter o nome do pai, mas é a cara da mãe. Nada
mais justo, já que os gêmeos são idênticos ao pai.

— Estamos muito orgulhosas de você, Dani. Temos que comemorar


esse grande passo na sua vida. — Paula beija o meu rosto.

— Paula tem razão, bora beber para comemorar essa conquista! —


grita Yudi, em clima de festa.

— Entrem, meninas, tem gelo e alguns petiscos na geladeira. — Elas


me seguem até a cozinha, estou tão feliz que elas vieram.

— Mas e as crianças, onde estão? — Sento na mesa da cozinha com o


bebê mais lindinho do mundo no colo segurando forte o meu dedo dentro da
sua mãozinha, eu queria tanto que estivesse acordado para poder brincar com
ele.

Minha alma se alegra em saber que daqui a alguns meses estarei com
um serzinho lindo desses no colo, só meu, eu mal posso esperar por esse

momento.

— A Maria e o Marcelo estão com a minha babá, os filhos da Julia e


Yudiana ficaram em casa com os pais.

— Vocês pensaram em tudo mesmo, suas cadelas! — Rimos. —


Muito obrigada, meninas, amo vocês. — As três jogam beijos para mim,
debochadas, enquanto preparam os petiscos. O que tem para hoje é ovo de
codorna, queijo picadinho e azeitonas.

Uma pena que abandonei minhas compras, ou teríamos mais coisas

para degustar. Ainda não consigo tirar os pacotes de doritos da cabeça, eu


poderia até ter passado em outro mercado e comprado, mas o meu baby gosta
de fazer graça, quer o que tem no mercado que o pai dela trabalha.

É incrível mesmo, essa criança nem nasceu ainda e, assim como o

irmão, já está puxando para o lado do pai.

— Que olhinho inchado é esse, loira? — Esperta, Julia percebe que


andei chorando.

— Hormônios da gravidez. — Reviro os olhos.

— Sei, Dani… — Yudi estreita os olhos, desconfiada. — Agora me


dá o Juninho aqui, vou colocar essa coisinha fofa para dormir na sua cama.
Vamos revezar para ficar de olho nele, assim damos uma folga para a Julia.
— Assinto, nada mais que justo.

— Muito obrigada, Yudi, eu te amo! Essa criança está me dando mais


trabalho do que os gêmeos juntos na idade deles. Não tem só o nome do
Ricardo, veio com a personalidade também. — Enfia uma azeitona na boca
com uma cara gozada.

Depois que Yudi leva o Junior e o deixa dormindo na minha cama,


levamos as bebidas e a comida para a sala e colocamos uma música baixa.
— Engraçado, dona Julia, pensei que mãe amamentando não pudesse
ingerir álcool. Isso vale para as grávidas, por isso vou ficar só na água

mesmo. — Apresento um meio-sorriso implicante, recebo um olhar feio seu e


senta do meu lado no sofá enquanto a observo servir a primeira taça de vinho.

— Eu conversei com o meu médico e ele disse que sim, querida, mães
podem tomar um drinque ou dois eventualmente. Desde que com alguns

cuidados. Depois de doze horas, posso voltar a amamentar normalmente. Até


lá, Ricardo Junior segura as pontas com as mamadeiras — explica afrontosa.

Segura a taça toda elegante com o dedo mindinho, a ergue até a boca
e sorve um gole do líquido avermelhado, fazendo uma expressão de prazer
indescritível.

Julia Avilar não presta!

— Mas e quanto às grávidas? Acho melhor eu ligar para o meu


médico e perguntar também, não quero prejudicar o meu baby. — Pego o

celular, mas Paula toma o aparelho da minha mão e esconde no bolso da


jaqueta jeans dela do mesmo jeito que fiz com ela no hospital.

— Não precisa ligar para o doutor Amor, amiga. Eu fiz coisa muita
pior quando estava grávida da Maria, então, não se preocupe que só uma taça
de vinho não fará mal para o seu baby.

— Tudo bem, mas só meia taça. Depois vou ficar só no suco mesmo.
— Sirvo um pouco do vinho que não chegou nem na altura de dois dedos na
taça.

Não quero ser nenhuma mãe maluca que sempre mete o pé na jaca,
mas também não quero ser o tipo paranoica igual à minha que nunca me
deixou nem pisar descalça no chão de terra, com medo de eu pegar alguma
bactéria. Além do mais, depois do dia difícil que tive hoje, uma dose pequena

de vinho vai me fazer muito bem.

— E que história é essa de doutor Amor, hein? — Julia ergue a


sobrancelha em um aro perfeito.

— É só um amigo muito querido, meninas. Ele é médico e quer fazer


o acompanhamento do meu bebê sem cobrar nada — conto para as curiosas.

— E te chamou para sair no final de semana, mesmo sabendo que está


grávida de outro — fofoca Paula.

— Então ele está mesmo a fim de você, vai fundo, amiga. Coração

partido a gente cola com a porra de uma boa foda nova — aconselha a
maluca da Yudiana, esparramada no meu tapete peludo, passando a língua
pelos lábios enquanto aperta os seios gemendo como se estivesse tendo um
orgasmo.

— Credo, Yudi, deixa sua performance erótica para o seu maridão. —


Jogo uma almofada nela.
— Falando no meu marido, eu acho que ele está aprontando. —
Quase engasgo com a bebida.

— Por que você pensa isso, Yudi? Sendo sincera, não consigo
imaginar o Juiz Thompson te traindo — constato o óbvio.

— Eu também não, mas ele tem chegado tarde em casa do trabalho


toda quinta-feira.

— O quê? O Ricardo também, será que esses dois estão aprontando


alguma coisa juntos? — Julia começa a imaginar coisas também, agora
pronto.

— Eita, agora fodeu! — Paula coloca mais fogo na fogueira.

— Muita calma nessa hora, Yudiana e Julia, seja o que for, tenho
certeza de que não tem mulher no meio — tento acalmar os ânimos, mas não
dá muito certo.

As duas trocam olhares, não vão sossegar até tirar essa história a
limpo. Coitados dos maridos delas até tudo ser esclarecido, isso se chegarem
no final dessa história vivos.

— E se eles saírem de novo na próxima quinta-feira e nós seguirmos


os dois? Seja lá o que esses filhos da puta estão escondendo, Julia, eu e você
temos que descobrir — Yudiana faz a proposta insana.

— Eu já estou dentro, amiga. — Paula bate a mão na da Yudi, ambas


adoram ver o circo pegar fogo.

— Vou pedir para a babá das crianças ficar até mais tarde, não perco

essa investigação por nada! — Julia entra na parada.

— E você, loira? — Me encaram como se eu tivesse cometido um


crime grave, não tenho alternativa a não ser entrar nessa loucura.

— Está bem, suas malucas, só espero que não sejamos presas por
seguir um delegado civil e um juiz criminalista. — Respiro fundo; na
verdade, acho que isso vai ser bem divertido.

— Sabia que não ia deixar suas amigas na mão, Dani. — Fazemos um


brinde.

As próximas horas são incríveis ao lado das minhas amigas, bebemos


moderadamente, mas rimos muito. Jogamos baralho e fizemos outras
brincadeiras divertidas. Depois que elas foram embora, vou na casa da Paula
buscar o Marcelo, que já está caindo de sono, e o coloco na cama.

Após tomar uma ducha e colocar uma camisola branca fina por conta
desse calor infernal, durmo feito um anjo. No entanto, acordo no meio da
madrugada com alguns latidos do Walter vindos da cozinha, mas estou muito
sonolenta, então viro para o canto e volto a dormir pesadamente.

Tenho um sonho estranho com o Léo. Tão real que o meu coração
acelera quando sinto sua presença próximo a mim, sua mão acariciando o
meu rosto bem de leve.

— Como senti falta do seu toque, meu amor — murmuro em meio a

um sorriso.

— Eu também, Boneca — sussurra no meu ouvido, o calor da sua


respiração toca a minha pele. — Todos esses dias que estive longe de você.
— Beija a curva do meu pescoço, o calor da sua respiração me causa

calafrios.

Seu cheiro está impregnado em cada pedacinho do meu quarto, não


quero mais sair desse sonho.

— Acorda, mamãeee! — Abro os olhos assustada com duas


mãozinhas a chacoalhar o meu rosto, Marcelo está de pé em cima de mim, na
minha cama.

Eu mal dormi e o dia já amanheceu, droga! Eu queria terminar o meu


sonho.

— O que foi filho, você está bem? — falo e bocejo ao mesmo tempo,
ergo os braços acima da cabeça e me espreguiço.

— Estou ótimo, acredita que o meu pai veio me ver ontem à noite
enquanto eu estava dormindo? — conta alegre.

Pelo visto, eu não fui a única que sonhou com o Léo essa noite.

— Sabe que o seu pai não veio de verdade, não é? Foi só um sonho,
Marcelo. — Sorvo uma longa lufada de ar, cansada.

E o dia apenas está começando…

— Eu não sou mentiroso, meu pai veio sim. — Cruza os braços em


uma tromba enorme.

— Tudo bem, querido, se você está dizendo… — prefiro não cutucar

mais a caixa de abelha, esse quando põe uma coisa na cabeça é mais teimoso
do que eu.

— Você não acredita, não é? Tudo bem! Hoje vou fazer o meu café
da manhã sozinho, mamãe, estou de mal de você. — Vai para a cozinha
fazendo pirraça e eu fico rindo, não dou dois minutos para voltar pedindo a
minha ajuda.

Mas ele não volta, vou atrás do meu menino e o encontro sentado na
mesa, enfiado dentro de um grande pacote de doritos que desejei tanto comer
feito um ratinho faminto. Caramba! Todas as coisas que comprei ontem e

esqueci no mercado estão sobre o balcão da pia. Marcelo não mentiu quando
disse que o pai esteve aqui durante a noite.

— Aquele filho da… — Engulo a raiva antes de falar mais do que


devo na frente do Marcelo, não foi um sonho coisa nenhuma.

Léo invadiu a minha casa mais uma vez, mas como conseguiu se
troquei todas as fechaduras desse apartamento? Só dei uma cópia para a Paula
em caso de alguma emergência, assim como eu tenho uma do apartamento
dela. Tenho certeza de que minha amiga jamais autorizaria que aquele cretino

entrasse aqui sem o meu consentimento.

Ahh! Mas isso não vai ficar assim, não mesmo. Depois de eu comer
todas essas sacolas de doritos e deixar o Marcelo na escola, vou colocar um
ponto final nessa história de uma vez por todas.
Léo

Chego mais cedo no trabalho. Na verdade, nem dormi direito essa

noite. Estou traumatizado depois do encontro inesperado com a Daniele, esse


supermercado fica totalmente fora da sua rota social e a chance de ela
aparecer aqui é uma em um milhão. O que aconteceu ontem só pode ser coisa
do destino, não tem outra explicação.

— E que destino filho da puta! — resmungo ao fazer a contagem do


estoque de enlatados, nunca ninguém nasceu predestinado a viver uma vida
tão fodida quanto a minha.

Apesar que as coisas têm melhorado para mim, estou gostando muito

de trabalhar aqui, mesmo que o serviço seja pesado. Tenho me esforçado


muito para tomar jeito na vida. Me tornar uma pessoa do bem. Quero provar
para a Daniele que eu não sou um caso perdido como ela disse, apesar de isso
não significar nada para ela. Me odeia com todas as suas forças. Fui um filho
da puta ganancioso e nada justifica o que fiz, tirar proveito de uma mulher
inocente e uma criança doente faz de mim o pior monstro do mundo.
Só que, porra!

Eu não resisto ao charme daquela mulher. Ficar longe dela é a mesma

coisa que morrer todos os dias. Quando a vi ontem a primeira coisa que
pensei foi:

Por Deus! Como a minha Boneca está linda. Como eu a amo e faria
tudo para tê-la de volta.

Tem alguma coisa diferente na Dani, um brilho especial que não sei
explicar e me faz desejá-la ainda mais. Eu amo demais essa loira baixinha
metida a brava e serei eternamente fiel a esse sentimento puro, aja o que
houver. É esse amor que me mantém de pé. Devido a isso, voltar para o
mundo da prostituição está fora de cogitação para mim, até porque ela
estragou o meu pau para as outras mulheres. Não só isso, também destruiu o
meu coração quando me mandou aquela maldita mensagem dizendo que
havia contado a verdade para o filho que eu não era o pai dele.

Saber que o Marcelo não gosta mais de mim e não quer mais me ver é
uma dor tão grande que nunca vai passar, nem que passem mil anos, mas o
que acabou mesmo comigo foi o final da mensagem. Quando Daniele me
pediu para provar que os amo ficando longe deles. Então foi o que eu fiz. Por
amor, desisti da mulher da minha vida e do filho dela, que amo como se fosse
meu.
Fiquei trancado no meu quarto por dias no escuro, sem comer ou
beber nada. Chorando todo encolhido, jogado no chão feito um menino

assustado. A vontade de me drogar para esquecer o sofrimento foi quase


insuportável, chegava a doer, mas eu fechava os olhos e lembrava do sorriso
da Dani e a sensação boa que o abraço do Marcelo me proporcionava, e logo
esquecia das drogas.

Estou limpo há dois meses, pensei que nunca fosse me livrar dessa
maldição, mas estou me mantendo firme, apesar de às vezes ainda pensar nas
drogas. Por isso tenho buscado ajuda profissional e tenho recebido ajuda de
alguns amigos. Aos poucos as coisas foram se ajeitando. Consegui esse
trabalho de carteira assinada e estou indo muito bem, pela primeira vez na
minha vida posso dizer de peito aberto que estou orgulhoso de mim mesmo.

E, na boa? Mesmo não ganhando nem um quarto do que eu ganhava


como garoto de programa em uma semana, nunca estive tão satisfeito

comigo.

— Será que eu nunca vou conseguir me livrar de você, Léo? — Levo


um tremendo susto quando Dani se materializa na minha frente, uma fadinha
de um metro e meio cuspindo fogo pelas ventas.

Eu não sei o que fiz de errado dessa vez, mas sorrio de felicidade em
vê-la.
— Como você entrou aqui, Boneca? — Encho o peito de ar e tento
não demonstrar quão vulnerável a sua presença me deixa, ela é e sempre será

o meu ponto fraco.

Ainda mais gostosa desse jeito, com as mãos na cintura, vestida como
uma empresária de sucesso. Blusa social preta e saia também escura e justa
na altura do joelho, com uma fenda na frente; para acabar de vez comigo,

sapatos de salto alto vermelhos com o bico fino. Será que ela se maquiou tão
bem assim só para me ver? O cabelo está preso para cima em um nó falso
com o auxílio de uma caneta, é a primeira vez que a vejo com óculos de grau.

Sexy pra cacete!

— Eu passei aqui para te avisar que ontem foi a última vez que
invadiu a minha casa, ainda hoje vou dar entrada com uma medida protetiva
contra você. — Enfia o dedo na minha cara adentro, me enfrentando toda
cheia de valentia.

A primeira coisa que percebo é que não está usando o anel de


compromisso que foi da minha mãe e eu dei a ela com todo amor do mundo.

— Mas do que você está falando, Daniele? — A encaro nos olhos,


realmente não faço ideia do que está falando.

— Você realmente não cansa de mentir, não é mesmo, Léo? — Dá


uma risadinha irônica.
— Eu não estou mentindo dessa vez, Boneca — afirmo.

— Ah, não? Então como as minhas compras simplesmente

apareceram na mesa da minha cozinha hoje de manhã em um passe de


mágica, seu cínico? — Eleva a voz e bate a sola do sapato no chão várias
vezes, ainda fica nervosa quando está perto de mim.

Sorrio. Como eu sofri esse tempo longe dessa maluquinha. A única

coisa que consigo imaginar agora é esse corpo pequeno e frágil nu na minha
cama, Dani fica muito atraente quando está nervosa. Por mim eu a foderia por
dias sem parar.

— Então todo esse show é só porque pedi a um dos entregadores do


mercado para levar as suas compras hoje de manhã? Já que eu mesmo não
podia fazer isso porque você proibiu a minha entrada no prédio e na escola do
Marcelo — explico com calma, não tenho por que mentir.

A confusão toma as suas feições, não parece mais tão confiante das

suas acusações.

— Se isso é verdade, como o entregador conseguiu entrar no meu


apartamento para colocar as coisas?

— Ele me contou que bateu na sua porta, mas ninguém atendeu


porque era muito cedo e vocês provavelmente ainda estavam dormindo.
Então tentou a sorte e bateu na porta do apartamento da frente, Paula atendeu
e guardou as suas compras — explico da forma mais clara que posso.

Mesmo assim a teimosa não acredita em uma palavra do que eu disse,

continua com o olhar acusativo.

Que mulher difícil!

— Ok. Vou ligar para a Paula agora e tirar essa história a limpo. —

Cruzo os braços e a observo discar os números no seu celular, ferozmente.

— Então, o que ela disse? — Seguro o riso, a cara dela de quem


acabou de cair do cavalo é excitante.

— Ela confirmou o que você disse, Léo — assume com as bochechas


coradas, minha vontade e imprensá-la na primeira parede que encontrar e
mostrar como é grande a saudade que estou dos seus lábios doces.

— É mesmo, Boneca? — provoco, ela fica mais vermelha ainda.

Mas agora de raiva.

— Se acha que vou te pedir desculpa, está muito enganado, meu bem.
E PARA DE ME CHAMAR DE BONECA, CARALHO! — solta um
palavrão aos gritos, logo ela, toda certinha, dona de um vocabulário culto.

— Como você quiser, Daniele. Mais alguma coisa? — pergunto


irônico.

— Quero que fique longe de mim e do meu filho, entendeu bem? Ou


vou mesmo entrar com um pedido de medida protetiva — ameaça.

— Eu não fui atrás de você, Daniele, nas duas vezes que nós nos

encontramos depois dessa merda toda foi você que veio até mim. — Perco a
paciência, sei que fiz muita besteira, mas dessa vez estava quieto no meu
canto.

— Olha aqui, Léo, eu só vim atrás de você para esclarecer essa

história e… — O celular dela toca, sua expressão muda assustadoramente


como que do dia para a noite.

Engolindo em seco, atende à ligação já ofegante.

— O que aconteceu, Dani? Você está pálida.

— Era a diretora do colégio do Marcelo, disse que ele fugiu da escola.


— Seu celular vai ao chão, Dani desmaia bem nos meus braços.

— Por favor, meu amor, fala comigo! — imploro em total desespero.

Ela pisca algumas vezes, seus sentidos voltam aos poucos.

— Como você se sente, amor? — Acaricio o seu rosto.

— Furiosa! Isso tudo é culpa sua. A Maria contou para a professora


que ele fugiu para ir atrás do pai dele. Se acontecer alguma coisa com o
Marcelo, eu te mato! — Esmurra o meu peito, mas não sinto nada, estou
petrificado de medo de que aconteça alguma coisa de ruim com o meu
garoto.
— Como assim ele foi atrás de mim, Daniele? Você disse na
mensagem que tinha contado para o seu filho que não sou pai dele. — A

seguro pelos braços, puto de raiva.

Ela não diz nada, quem cala, consente.

— Pelo visto, eu não sou o único mentiroso por aqui. — A resposta


que recebo é um tapa com toda a força no rosto, ela me olha com o mais puro

ódio que possa existir nesse mundo.

— Eu menti para proteger o meu filho, já você mentiu por dinheiro


sem se importar se quebraria o meu coração para sempre. — Sai correndo
mais uma vez, mas dessa vez não deixo que fuja de mim.

Vou atrás dela a passos largos, está muito nervosa e ainda um pouco
tonta devido à perda dos sentidos. Sua mão treme tanto que quando chega no
local que deixou o carro, não consegue abrir a porta. Parece que vai desmaiar
de novo a qualquer momento.

— Deixa que eu dirijo, Daniele. Seu filho vai precisar da mãe viva
quando o encontrarmos. — Tomo a chave da sua mão e a conduzo até o
banco do carona, graça a Deus ela não demonstra relutância.

Sabe que não é hora de bancar a orgulhosa, a vida do Marcelo está em


risco. Precisamos ser rápidos.

— Precisamos ir para a delegacia que o Ricardo trabalha, tenho


certeza de que ele e os seus homens farão de tudo para ajudar a encontrarmos
o Marcelo. — Assinto.

Ela coloca o endereço no GPS, dirijo o mais rápido que posso. Tento
parecer calmo, mas tem uma veia grossa saltando no meu pescoço. Seguro o
volante com força, gotas de suor deslizam do meu rosto até o pescoço e se
escondem por dentro da gola da minha camisa. Vou encontrar o meu filho,

nem que para isso precise virar o Rio de Janeiro de cabeça para baixo.
Dani

Não queria aceitar a ajuda do Léo de maneira nenhuma, mas eu não

estou em condições de dirigir agora. Já estou com um filho em perigo e não


sou louca de colocar o outro, provocando um acidente para acabar perdendo o
meu baby. Olho para o pai dele enquanto dirige com a postura ereta e
confiante, sem sequer imaginar que dentro de mim tem um pedacinho dele
crescendo a cada dia mais. O motivo pelo qual, por mais que eu queira, nunca
poderei colocar um ponto final na nossa história.

Blue Marcely representa o parágrafo de uma nova história, da qual o


Léo nunca fará parte. Ele não merece isso. Não merece nada, só o meu

desprezo. Mas eu não quero pensar nesse homem agora, não consigo tirar a
imagem do meu menino vagando pelas ruas, chorando e chamando por mim.
Rio de Janeiro é tão grande, meu Deus, com tantos perigos e pessoas
maldosas. Só peço que o mantenha a salvo até o encontrarmos.

— Por que você mentiu para mim que contou a verdade para o garoto,
Daniele? — Me olha de soslaio.
— Porque eu não queria que você nos procurasse mais, não é óbvio?
— Viro o rosto para a janela.

Espero que entenda isso como um sinal para me deixar quieta, não é
um bom momento para ficar me enchendo o saco, estou com os nervos à flor
da pele.

— Eu quase voltei a me drogar por causa disso, sabia? — Eleva um

pouco a voz, está se segurando para não gritar comigo.

— Não me importo — minto, na verdade eu me importo e muito.

Apesar de tudo, não desejo mal para o Léo. Não quero que volte a se
drogar nunca mais. E se não estivesse com tanto ódio dele, até ficaria feliz
por ter conseguido um emprego decente.

— Eu sei que não, mas deixa o Marcelo fora dessa merda toda. Seu
problema é comigo. — Um caroço se forma no seu pescoço enquanto dirige,
seus músculos estão tensos.

Eu o conheço bem, vai explodir a qualquer momento.

— Engraçado, não pensou em deixar o Marcelo de fora disso quando


nos vendeu para o meu pai. Não é mesmo? — ataco direto na ferida, não foi
uma boa ideia ter aceitado que dirigisse para mim.

— Eu já implorei pelo seu perdão, porra! E estou andando na linha. O


que mais você quer? — Soca o volante com força, em uma explosão de toda
a raiva que estava segurando.

Fico assustada.

— Tem coisas, Léo, que só pedir perdão não basta. Você só trouxe
desgraça para a minha vida e a do meu filho, não merecia nem uma gota da
tonelada de amor que te demos — digo e o silêncio enfim se faz presente, ele
não fala mais nada durante o caminho.

Quando chegamos na delegacia, saio do carro e entro aos gritos.


Temo que alguma coisa de ruim aconteça com o Marcelo, tenho medo de
nunca mais poder abraçá-lo, nem ao menos uma única vez.

— Meu filho de cinco anos doente fugiu da escola, por favor, eu


preciso de ajuda! Onde está o Delegado Avilar? — Bato a mão no balcão da
recepção.

— Calma, Dani, eu estou aqui e já estou ciente de tudo. Julia me ligou


agora há pouco. Ela e a Yudiana estão vindo para a delegacia te dar apoio —

fala comigo com o maxilar trincado, mas os seus olhos fervorosos estão sobre
o Léo ao meu lado.

Por um momento pensei que fosse tirar a arma da cintura e dar um


tiro nele aqui dentro da delegacia. Foi difícil para suas esposas conseguirem
segurar ele e o Juiz Thompson quando souberam o que o Léo fez comigo,
para que não saíssem e fizessem uma besteira das grandes.
— E já tem alguma pista de onde o Marcelo possa estar, delegado? —
Léo ousa perguntar, não tem medo de cara feia.

— Infelizmente não, mas assim que veio ao meu conhecimento a fuga


do Marcelinho, mandei um aviso com a foto dele para todas as viaturas
próximas da escola, tanto da polícia civil como da militar. E eu estou indo
agora mesmo ajudar a procurar, só volto quando o encontrarmos. — Alisa o

meu braço, estou toda trêmula.

— Eu também vou, Ricardo! Não quero ficar aqui de braços cruzados


enquanto o meu filho está por aí em algum lugar, perdido e assustado —
esbravejo.

— De jeito nenhum, Daniele. Você já está muito nervosa, melhor


ficar aqui e esperar suas amigas chegarem — aconselha Léo, como se tivesse
algum direito de dizer o que devo ou não fazer.

Olho para ele com os olhos estreitos, fora de mim de tanta raiva.

— Quem é você para dizer o que é melhor para mim, Leônidas


Rafael? — digo o seu verdadeiro nome e ele range os dentes, sua pele fica
muito vermelha e as mãos fecham em punho.

— Ele está certo, Dani. Você está muito nervosa, não vou deixar que
saia da delegacia nesse estado, pode piorar ainda mais as coisas — Ricardo
dá razão ao inimigo.
— Tudo bem, Ricardo, eu fico. Mas quero que liguem e me deixem
informada de tudo — ele concorda.

— Tudo bem se eu for com você, delegado? — pede Léo, mas o


Ricardo fecha a cara. — Por favor, quero muito ajudar a procurar o garoto. Se
acontecer alguma coisa com ele, eu… — Não consegue completar a frase,
leva as duas mãos na cabeça e desliza pelo rosto em desespero.

Léo parece mesmo preocupado com o Marcelo, ou pode ser só culpa,


talvez. Se é que pessoas assim sentem remorso.

— Tudo bem, cara, mas vê se não atrapalha o meu trabalho —


resmunga o Ricardo. — E você, Dani, pode ficar na minha sala enquanto
espera, é a segunda porta à direita.

— Muito obrigada, Ricardo. Por tudo! — Abraço o meu amigo.

Ele se despede com um aceno de cabeça e sai pisando duro,


visivelmente preocupado. Histórias de desaparecimentos na maioria das

vezes não terminam bem, e o Ricardo, como delegado, sabe disso melhor que
ninguém.

Mas preciso manter a fé, vai ficar tudo bem com o Marcelo. Tem que
ficar, ou não sei o que será de mim.

— Sei que não confia em mim, Daniele, mas vou trazer o seu filho de
volta para você. — Viro o rosto com vontade de chorar, mas Léo segura no
meu queixo e me obriga a encará-lo. — Não vou te decepcionar dessa vez.
Eu prometo. — Beija a minha testa sem o meu consentimento e se vai, fico

toda arrepiada apenas com esse simples toque.

Quero dizer para a razão ser mais forte que o coração, mas a carne é
fraca. Com a gravidez os meus sentimentos estão à flor da pele, estou carente
demais e me sentindo um lixo. E sem o meu filho aqui, minha vida parece

sem nenhum sentido.

Só tenho vontade de sentar em um canto e chorar e chorar, até minhas


lágrimas acabarem.
Léo

Eu ando o mais rápido que posso atrás do Delegado Avilar, mas não

sinto os meus pés tocarem o chão de fato. Nunca senti tanto medo antes,
agora entendo exatamente o que a minha mãe quis dizer quando me alertou
que algumas coisas eu só entenderia quando tivesse os meus filhos. Porque
podem dizer o que quiserem, mas o Marcelo sempre será o meu filho querido.
O meu garoto. Que me ensinou a amar novamente, a me sentir parte de uma
família, mesmo que tenha durado tão pouco por conta da minha idiotice.

Por isso não vou parar até encontrá-lo e o levar de volta para os
braços da mãe, como prometi a ela, não vou deixar que nada de mal aconteça

com o Marcelo.

— Você vem ou não, Leônidas? — pergunta o delegado, fazendo


questão de me chamar pelo meu nome verdadeiro.

Sabia que não ia deixar isso passar batido.

— Coloca o cinto, Leônidas — repete o meu nome com mais ênfase,


esse cara é zombeteiro.
— Sabia que não ia deixar o meu nome passar quieto, delegado. —
Um músculo se contrai na minha mandíbula.

— Não mesmo! Sabia que é o mesmo nome do meu avô? — provoca.

— Bullying é crime, você como delegado deveria saber disso — digo


fingindo estar zangado, se não estivesse tão tenso com a fuga do Marcelinho
até riria.

— Sério mesmo, Léo? Se fazendo de vítima a essa altura do


campeonato? — Gira a chave e coloca o veículo em movimento, me fitando
cheio de julgamento.

— Eu não quero mais arrumar problema com ninguém, cara, eu sei


que ferrei com tudo e estou pagando caro por isso. Perdi a Dani e agora o
meu filho está desaparecido porque fugiu para ir atrás de mim, se acontecer
alguma coisa com esse moleque por minha causa, será o fim para mim —
explodo, acho que ninguém pode me odiar mais do que estou me odiando

agora.

Fracassei como filho, irmão, namorado e pai.

— Se acalma, cara, nós vamos achar o Marcelinho. Desculpa a


maneira como falei com você, só fiquei nervoso quando te vi com a Dani.
Acha que ela percebeu alguma coisa? Porque se sim, cara, eu e o Thompson
estaremos perdidos. — Uma ruga grossa se forma na sua testa, nunca vi
nenhum marido ter tanto medo das suas esposas quanto esses dois caras.

— Pode ficar tranquilo, porque do jeito que você me olhou quando

me viu na delegacia, até eu pensei que fosse me dar um tiro. — Ele solta o ar,
mais tranquilo.

O rádio do veículo apita, um policial encontrou uma pista sobre o


Marcelo. Minhas mãos chegam a suar de nervoso antes mesmo de ouvir.

— Aqui é o policial Barreto, delegado. Temos uma pista sobre o caso


do garoto. Mostramos a foto dele para uma senhora que mora na área de
busca, que afirmou que o viu andando em uma rua a duas quadras da escola
no sentido oeste, ela contou que o abordou e perguntou onde estava indo
sozinho — explica.

— O que ele respondeu, Barreto? — pergunta o delegado, ansioso.

— O garoto respondeu que ia até alguém que o ajudaria a encontrar o


pai dele, a senhora, desconfiada, pegou o celular para ligar para a polícia.

Quando se virou para perguntar o nome da criança, ela havia desaparecido —


explica o policial. Fecho os olhos, sorrindo com as mãos sobre o rosto.

— Eu sei para onde o meu filho foi, delegado — afirmo confiante.

Depois que ele encerra a ligação, explico para o delegado onde fica o
lugar, é no mesmo bairro da escola. Ele acelera a mil por hora. Em menos de
vinte minutos, já estávamos em frente ao local.
— Então esse é o local? — Aponta para a extensa praça à nossa
frente, eu trouxe o Marcelo aqui uma vez.

A Dani não sabe, mas quando ainda estávamos juntos a professora me


ligou dizendo que o Marcelo estava chorando com saudades de mim, sendo
que eu tinha acabado de deixá-lo na escola. A mãe dele tinha ido trabalhar
mais cedo nesse dia, então fiquei com o compromisso de levar e buscar.

Sempre amei fazer isso, sempre conversávamos muito e brincávamos pelo


caminho.

Lembro de ter desligado o telefone na cara da professora e voltei


imediatamente para a escola, Marcelo me abraçou tão forte quando cheguei,
com o rostinho inchado e vermelho de tanto chorar.

— Por que está chorando, campeão? — Limpei suas lágrimas com a


manga da minha blusa.

— Porque eu senti saudades de você, papai. Fica aqui na sala de aula

comigo? — Puxa a minha mão me forçando a entrar.

— Eu tenho uma ideia melhor, o que acha de sair da escola mais


cedo hoje, filho? — Limpei as suas lágrimas.

— A mamãe não vai ficar brava? — ele perguntou entre os soluços.

— Claro que não, Marcelo, vamos em uma sorveteria que tem aqui
perto e vamos pedir um sorvete desse tamanho. — Abri os braços o máximo
que pude, ele ficou de boca aberta com a possibilidade de existir um sorvete
tão grande.

— Tá bom, papai, eu te amo. — Abraçou o meu pescoço, estava


emotivo; ponho ele no colo e pego a sua mochila.

— Eu também te amo, filho, muito — respondi, me sentindo naquele


momento o homem mais feliz do mundo.

Como Marcelo estava muito agitado e a sorveteria não ficava muito


longe, resolvi que iríamos conversando e caminhando de mãos dadas. Isso
sempre o acalmava. No entanto, quando passamos por essa praça ele viu
algo nela que chamou a sua atenção de um jeito quase celestial. O garoto
pediu tanto, que mudamos nossa rota e entramos no local e fomos até a
réplica em tamanho menor do Cristo Redentor, bem no meio do lugar.

— Olha, papai, eu conheço ele da minha outra casa. É Jesus Cristo,


meu amigo. — Abraçou os pés da estátua com tanto afeto como se estivesse

diante de um grande amigo de carne e osso.

— Que maneiro, filho, sabia que o seu amigo é mágico? Ele tem o
poder de fazer qualquer coisa se acreditar de verdade nele. — Sorriu
maravilhado.

— Sério mesmo, papai? Então toda vez que eu sentir saudades, eu


vou pedir para ele trazer você até mim — disse no seu tom inocente.
Ficamos mais um tempo na praça conversando sobre o Céu, ele tem
conhecimento demais sobre o assunto para uma criança da sua idade.

Depois seguimos nosso caminho para a sorveteria, ligamos para a mãe dele
e passamos um dia maravilhoso de pai e filho.

— Tem certeza de que o Marcelo está mesmo aqui, Léo? Porque, se


você estiver errado, perdemos um tempo significativo nas buscas — pergunta

Ricardo, correndo atrás de mim na praça, sem acreditar nas minhas palavras.

— Absoluta, delegado, o lugar fica mais à frente. — Aumento mais o


passo, tomado pelo desespero.

Uns cem metros adiante, vejo Marcelo sentado aos pés da réplica do
Cristo Redentor, com a mãozinha no queixo. Esperando por mim.

— Filho? — grito quase sem voz, tomado por um sentimento de


alívio e conforto que só Deus é capaz de proporcionar.

Marcelo fica de pé e sorri, dando pulos com os bracinhos erguidos

como se tivesse ganhado o melhor presente do mundo.

— Oi, papai, por que você demorou tanto? — Ele vem correndo com
os braços abertos até mim. — Eu sabia que Jesus Cristo iria te trazer até mim,
papai. — Vem correndo até mim, pego-o no colo e o jogo para cima,
abraçando-o bem forte.

— Nunca mais me assusta assim, filho. Pensei que nunca mais fosse
te ver. Eu te amo tanto. — Eu o abraço tão forte que o ergo do chão, eu tive
tanto medo de perdê-lo.

— Você está bravo comigo, papai? Desculpa. Eu também te amo. —


Alisa o meu rosto me olhando atentamente.

— Eu não estou bravo, filho, mas nunca mais saia sozinho dessa
forma. Promete? Pode ser perigoso. — Abraço-o novamente, por mim não

tirava os olhos dele nunca mais.

— Eu prometo, mas não precisa se preocupar porque nunca estou


sozinho. Deus está sempre comigo — suas palavras me fazem sorrir, assim
como ao delegado; eu tenho muita sorte de ter conhecido esse garotinho.

— Senti tantas saudades, papai. — Passa a mãozinha na minha barba


carinhosamente.

Sempre fazia isso antes, até dormir, enquanto eu lia uma história para
ele, a sensação que tenho é de estar de volta em casa.

— Eu também senti saudades, filho, todos os dias — admito, não


aguento e sento no chão com ele no meu colo e choro na frente dele as
lágrimas que venho segurando há muito tempo.

Nenhum homem fica enfraquecido por demonstrar sua sensibilidade,


aliás, isso só revela sua humanidade.

— Por que está chorando, papai? Você disse que homens não choram.
— Segura o meu rosto entre as suas mãozinhas e limpa as minhas lágrimas,
igual gente grande.

— Eu estava errado, filho, desculpa. Homem de verdade chora sim,


homem de verdade sente saudades, homem de verdade diz eu te amo, homem
de verdade sabe dar o devido valor a cada tipo de pessoa, homem de verdade
tem sentimentos. — Afago o seu cabelo, ele sorri como se eu fosse o seu

herói.

— Entendi, papai, podemos ir para a casa agora? — Passa o braço em


volta do meu pescoço e deita no meu ombro, parece cansado.

— Claro, campeão, vou te levar para a sua mãe.

Nossos caminhos não se cruzaram por acaso, foi coisa escrita por uma
força maior. Marcelo me transformou em outro homem, ele salvou a minha
vida e de várias pessoas que eu destruiria se continuasse no caminho que
estava.

Sei que querer ter o amor da mãe dele de volta é algo impossível. Não
vou me iludir quanto a isso, mas não importa o quanto eu precise implorar
para a Dani, quero fazer parte da vida desta criança até o último segundo que
lhe resta. Se ela não contou a verdade para o filho, é porque sabe que, por
mais que não queira admitir, não dá para quebrar o forte elo paternal que se
formou entre nós.
Dani

Não consigo me acalmar nem depois que recebi a ligação do Ricardo

avisando que eles haviam encontrado o meu filho, graças ao Léo. Não
consegui falar mais nada, soltei o telefone e apenas chorei, mas agora de
alegria. Só vou sossegar quando vir o Marcelo com os meus próprios olhos.
Ainda bem que as minhas amigas vieram ficar comigo aqui na delegacia, não
iria conseguir segurar essa barra sozinha.

Julia e Yudiana estão sempre comigo desde a época da faculdade, seja


nos bons ou maus momentos.

— Bebe isso, amiga, vai te fazer bem. — Julia me traz outro copo de

água com açúcar, já é o quarto.

— Muito obrigada, Julia, mas não quero. Estou com muito enjoo por
causa dessa situação tensa.

— Mas você não pode ficar sem comer nada, mulher, não esquece
que você está grávida e tem que se alimentar bem. Vou procurar algum lugar
para comprar algum lanche. — Yudiana beija o meu rosto, mas antes dela
sair os rapazes chegam.

Léo carrega Marcelo nos braços, eu não lembro de ver o meu filho tão

feliz assim desde que esse homem saiu de nossas vidas.

— Eu rezei tanto por você, meu filho! — Tento pegá-lo, mas ele
abraça Léo e esconde o rosto na curva do pescoço dele.

Abaixo a cabeça, magoada, Marcelo não quer nem vir no meu colo
mais. Parece até que não gosta mais de mim.

— Ei, Marcelo, não vai falar com a sua mãe? Você a deixou e a todos
nós aqui muito preocupados, então sabe o que tem que dizer — Léo conversa
com ele, paciente, e só então meu filho olha para mim.

— Desculpa, mamãe. Eu não vou sair mais sozinho. — Morde o


dedinho enquanto fala, envergonhado.

— Tudo bem, filho, vem aqui com a mamãe. — Abre os bracinhos e

vem para o meu colo, mas sem soltar a mão do Léo, está com medo de ele ir
embora de novo.

— Obrigada! — sussurro para o Léo por cima do ombro do Marcelo,


ele sorri.

Mesmo com raiva, tenho que admitir que pelo menos dessa vez ele
cumpriu a sua promessa de trazer o meu filho de volta, e serei eternamente
grata por isso.
— Bem, agora que o Marcelo foi encontrado, eu preciso voltar para o
meu trabalho antes que seja demitido, saí sem avisar e o meu chefe já me

ligou um milhão de vezes — diz Léo, sem graça, em um pigarreio baixo, todo
mundo aqui está olhando torto para ele.

Principalmente a Yudiana e a Julia, está bem óbvio que sua presença


não é bem-vinda aqui.

— Não vai embora, papai. Quero ficar com você. — Começa a


choradeira, Marcelo grita e esperneia no meu colo.

— Ei, rapazinho, o que eu te ensinei sobre fazer birra? — Léo fala


muito sério com ele.

— Que a mamãe fica triste quando faço isso, por isso devo sempre me
comportar para que ela não tire nunca do rosto o sorriso mais lindo do mundo
que é só dela — diz com a voz de choro, Léo e eu trocamos olhares por
alguns segundos, sem ódio ou rancor.

A maneira que ensinou para o Marcelo que não deve fazer pirraça não
poderia ser mais encantadora.

— Eu não posso ficar com você agora, precisa ficar com a sua mãe.
Tudo bem?

— Mas quando você vai voltar para a casa, pai? Eu tenho uma
novidade para contar, a minha mãe vai ter um be…
— Agora já chega, Marcelo! Vamos para a casa agora. Muito
obrigada a todos pela ajuda — interrompo Marcelo antes que fale mais do

que deve, tudo que não preciso agora é que Léo descubra sobre a gravidez.

Saio andando depressa, Julia e Yudiana me acompanham.

— Socorro, papai. Me ajuda! Não deixa ela me levar de você! —


Abre os bracinhos na direção do Léo, pedindo socorro.

Léo fecha os punhos com força e dá um passo na nossa direção,


contudo, o meu olhar feio o faz ficar onde está.

— Desculpa, filho, eu sinto muito — ele sussurra quase sem voz,


enquanto nos observa ir embora.

— Eu quero ficar com você, papai, por favor, não me abandona de


novo. Você não me ama mais? — implora.

A delegacia parou para ver a cena.

— É claro que eu te amo, Marcelo, você e a sua mãe são a minha


vida. Mas eu não mereço vocês — declara entre palavras entrecortadas, me
sinto mal ao ouvir isso, mas não posso me deixar cair nas suas redes de
mentiras.

Sou muito grata pelo que fez pelo Marcelo hoje, mas ainda quero que
Léo fique bem longe de nossas vidas. O difícil será convencer o meu filho
que isso é o melhor para nós.
— Eu quero o meu pai, eu quero o meu pai! — repete pela milésima
vez enquanto o arrasto pelo corredor do nosso apartamento.

Se estava sendo difícil fazer o meu filho esquecer esse homem antes,
agora que o reencontrou será praticamente impossível.

— Chega de falar do seu pai, Marcelo. Eu sou sua mãe e precisa me


obedecer, vá para o seu quarto agora e fique lá até se acalmar. — Elevo a voz

o balançando pelos ombros, não dá para manter a paciência, minha cabeça


está latejando de tanto ouvir os gritos dessa criança enquanto dirigia.

— Você quer afastar o meu pai de mim, eu te odeio, Daniele! — Me


chama pelo nome, fico tão magoada que nem consigo dizer mais nada.

Marcelo corre para o quarto dele e bate a porta com toda a força, meu
filho disse que me odeia. Nunca pensei que diria isso.

Deslizo as costas na parede e desabo com as mãos no rosto, meu filho


me odeia e tudo por culpa do Léo. Esse homem destruiu a minha vida em

todos os sentidos. Não sei como vou lidar com tudo isso, mas vou ser valente
e resolver as coisas.

— Uauuuu! — choraminga Walter ao se aproximar, odeia me ver


triste.

— Está tudo bem, bebezinho, vem aqui com a mamãe. — Chamo com
a mão, meu cão lindo vem e deita a cabeça sobre a minha perna e me olha
com os olhos lacrimejantes.

Acaricio os pelos do Walter por um longo tempo, sentada no mesmo

lugar, pensando. Quando a noite começa a chegar de mansinho, tomo uma


decisão. Se não posso vencer o inimigo, vou me juntar a ele. Pego o meu
celular e teclo os números, a pessoa do outro lado da linha atende logo no
primeiro toque.

— O que foi, Dani, aconteceu alguma coisa com o Marcelo? —


pergunta direto sem nem me deixar dizer nada.

— Não, Léo, ele está bem — sigo fria, não é fácil passar por cima do
meu orgulho.

Só uma mãe é capaz de fazer isso por um filho.

— Então por que me ligou? — Escuto sua respiração ofegante, cheia


de esperança.

— Vou pedir ao meu chefe para trabalhar em casa amanhã, não quero
que o Marcelo vá para a escola. Pensei em levar o Marcelo no circo que
chegou na cidade, gostaria de ir conosco depois de sair do trabalho? —
Afundo os dentes no meu lábio inferior, espero estar fazendo a coisa certa.

— Claro que eu quero, meu Deus! Muito obrigado pelo convite, Dani.
— Percebo que ele não consegue parar de sorrir.

— Eu estou fazendo isso pelo meu filho, Léo. Tenho medo dele fugir
de novo atrás de você e não termos a mesma sorte de encontrá-lo. Quanto a
mim, não crie esperanças, pois nunca vai voltar a tocar em mim novamente

— sou bastante clara.

— Eu sei, Daniele, não precisa dizer. Vejo vocês amanhã. —


Endurece a voz.

— Não pisa na bola dessa vez, Léo. Por favor — ofego.

— Eu não vou. Realmente amo o seu filho, Daniele. De maneira


nenhuma desperdiçaria a chance que você está me dando de participar da vida
dele, muito obrigado. — Posso sentir o seu sorriso, ele realmente se importa
com o Marcelo.

A maneira como Léo falou com ele hoje na delegacia, com toda
atenção, paciência e carinho. Não dá para encenar algo assim. Está no jeito de
olhar para ele, no tom da voz. No sorriso.

— Te vejo amanhã, Léo. — Aliso o braço ainda meio receosa, seja o

que Deus quiser.

— Boa noite, Daniele, diga para o Marcelo que mandei um abraço. —


Finaliza a ligação.

Deixo Walter dormindo na sua caminha e vou para a cozinha preparar


o prato preferido do Marcelo, batata frita com queijo derretido por cima.
Quero contar a novidade do passeio de amanhã com estilo. Logo o cheirinho
gostoso chama o meu filhote para a cozinha, com cara de poucos amigos.

— Você fez batata frita para o jantar, mamãe? — Senta na mesa com

a expressão fechada, bochechas infladas e os braços cruzados.

Mas pelo menos me chamou de mamãe e não de Daniele, como mais


cedo, espero que nunca mais faça isso novamente, porque me magoou muito.

— Sim, Marcelo, quer ketchup e maionese? — Coloco o prato na sua


frente sobre a mesa, em vez de entregar nas suas mãos e dar um beijo no topo
da sua cabeça como sempre faço.

Para que ele saiba que não estou feliz com a maneira como vem se
comportando. Sei que sente falta do pai, mas não pode continuar achando que
pode gritar comigo e fazer o que bem entende. Eu sou a adulta aqui, eu o amo
muito, porém tem que me respeitar.

— Quero sim, por favor. E, mamãe?

— Diga, querido, eu estou ouvindo — digo com a cara enfiada dentro


da geladeira.

— Desculpa pelo que eu disse mais cedo, não te odeio. Eu te amo


muitão. — Levanta e abraça a minha cintura, estou orgulhosa por ter tomado
a decisão de pedir desculpa sozinho.

— Eu também te amo, querido, por isso tenho uma novidade para


você. — Seu rosto se ilumina.
— Nós vamos para a Disney de novo, mamãe? — Tenta a sorte o
espertinho.

Eu acho graça, mas bem que eu adoraria voltar para Orlando com ele.

— Melhor do que isso, Marcelo, amanhã vamos em um passeio com o


papai — conto, por fim, e o menino parece que vai ter um troço, rindo e
chorando ao mesmo tempo.

— Obrigado, mãe, eu estou tão feliz.

— Eu estou vendo, meu amor, agora come as suas batatas fritas antes
que o queijo esfrie. — Beijo seu rosto.

Marcelo volta a sentar e come feliz da vida, é evidente que quanto


mais tento afastá-lo do pai, mais ele se afasta de mim também. Por isso, se
tenho que aturar a presença desse homem para ver o meu filho feliz, farei
mesmo sabendo que serei julgada por isso, principalmente pelos meus
amigos. Mas agora é diferente, sei exatamente com quem estou lidando e vou

ficar de olho nele a cada segundo.

Um passo em falso e eu acabo com a raça do Léo!

— Está gostoso, filho? — Sento próximo a ele e sorrio em admiração


enquanto come, está com bom apetite hoje.

— Muito! — fala de boca cheia enfiando uma batata frita atrás da


outra na boca, realmente está com fome.
— A senhora não gostou? — Aponta para o prato de salada que pedi
intacto, não comi nem uma folha de alface.

— Não é isso, meu amor, acho que a Blue não está com muita fome
hoje. — Ele faz uma careta engraçada.

— Espera, deixa eu conversar com ela. — Dá a volta na mesa e se


inclina para ficar na altura da minha barriga minúscula. Marcelo gosta de

conversar com o bebê desde que contei sobre a gravidez.

— Ei, Blue, você quer um pouquinho da minha batata frita? Você


precisa comer para crescer forte. — Encosta o ouvido na minha barriga para
ouvir a resposta dela.

— Então, filho, o que a sua irmã disse? — entro na brincadeira.

— Ela disse que está com fome agora, mãe. — Pega uma batata frita e
coloca na minha boca, mastigo e engulo mesmo sem vontade, apenas para
deixá-lo feliz.

— Então, Marcelo, você disse alguma coisa para o seu pai sobre o
bebê? — pergunto com jeitinho.

— Nossa, eu esqueci de contar para ele sobre a Blue, mas amanhã eu


falo. Papai vai ficar muito feliz. — Dá de ombros.

— Não! — solto um grito. — Acho melhor não contarmos para o


papai agora, quero fazer uma surpresa, será um segredo só nosso por
enquanto. Tudo bem pra você, meu amor? — Para de comer e me encara
meio confuso, depois abre um sorriso cúmplice.

— Podemos fazer uma festa surpresa igual do meu aniversário, com o


nome da Blue bem grande e um monte de bexigas azuis. — Seus olhinhos
têm o brilho da mais pura inocência, bate uma mãozinha na outra, animado.

Fico mais aliviada, Léo não pode saber de maneira nenhuma que

estou grávida. Vou tentar segurar essa informação o máximo de tempo que eu
puder.

— Ótima ideia, filho. Não podemos deixar o seu pai desconfiar de


nada ou estragaremos a surpresa, combinado? —Passo uma babata no
ketchup, faço aviãozinho e coloco na boca dele.

— Sim, combinado! — Apertamos nossas mãos.

Fico tão aliviada que o meu apetite até volta, como toda a minha
salada e a metade da batata frita do Marcelo. Ainda faço brigadeiro como

sobremesa, comemos os dois juntos de colher, direto da panela mesmo,


abraçados só vendo TV.

Enfim, a paz voltou a reinar nessa casa!


Léo

Depois que saio do trabalho, vou direto para a casa com um sorriso

enorme no rosto. Preciso tomar um banho e me arrumar para encontrar a


Dani e o Marcelo. Parece até que estou sonhando, saber que passarei um
tempo com eles faz de mim o homem mais feliz desse mundo.

— Não acredito que depois de tantas noites enfiado dentro desse


apartamento, enfim resolveu sair, irmão. Aonde vai? — Como de costume,
Felipe aparece no meu quarto para me atormentar.

— Não é da sua conta, Lipe. Mas quero o seu carro emprestado.

— Só se me disser que vai sair para afogar o ganso, porque a cada dia

sem transar o seu mau humor duplica. — Olho feio para ele.

— Vai me emprestar ou não, cara? — Ficar sem a minha moto é um


martírio, mas posso pegar transporte público de boa.

Não queria incomodar o Felipe pegando o carro dele emprestado, mas


eu devo voltar tarde do passeio e não quero ter que ficar horas esperando um
ônibus na volta, pois preciso trabalhar cedo.
— Claro que vou, seu cuzão. — Tira as chaves do bolso e joga na
minha direção.

— Obrigado, Felipe, você é um ótimo amigo. — Apesar do meu tom


irônico, sou sincero.

Felipe foi o primeiro que soube sobre o acordo que fiz com o pai da
Dani em troca de grana, não estava mais aguentando guardar esse segredo

terrível e precisava de um conselho para resolver as coisas. Então, no dia do


aniversário do Marcelo, contei tudo a ele, que ficou furioso a ponto de se
recusar a ir à festa e participar de toda aquela mentira. Prometeu ficar do meu
lado e me ajudou a arrecadar a grana para devolver ao Juiz Flores, comprando
esse apartamento e me deixando continuar morando aqui.

Segundo ele, eu estendi a mão para ele quando precisou. Agora era a
vez dele retribuir.

— Eu também te amo, Léo, sabe disso. — Aperta as minhas

bochechas.

— Para com isso, que saco! — Arranco sua mão do meu rosto.

— Tenta não aranhar o meu possante, por favor. — Aponta o dedo na


minha cara, trata esse carro como se fosse uma pessoa.

— Pode deixar comigo, Lipe, vou cuidar dele direitinho.

— Ótimo, irmão. Agora tenho que descer porque um cliente vai


passar aqui em frente ao nosso prédio para me pegar. Você saiu desse ramo,
mas eu não. A luta continua. — Se despede com um aceno.

— Eu também tenho que ir, não quero me atrasar para encontrar a


Dani e o Marcelo — comento.

— Oi? Repete que eu não escutei direito. — Felipe coloca as mãos na


cintura, dramatizando.

— A Dani autorizou que eu voltasse a me aproximar do garoto, só


isso. Quanto a nós, ela deixou bem claro que não é para criar esperanças. —
Franzo a testa, frustrado.

— Relaxa, irmão, não dou um mês para sua pica das galáxias estar
trabalhando na perseguida dela. — Dá um tapinha no meu ombro enquanto
entramos no elevador juntos, esse é o jeito gentil do Felipe de tranquilizar as
pessoas.

— Eu nem vou te responder nada, Felipe, não quero que vá trabalhar

com o olho roxo — brinco dando um soco no seu ombro.

— Nem ouse tocar nesse rostinho lindo, Léo. Esse é o meu ganha-
pão. — Alisa a cara limpa, faz a barba a cada sete dias.

— Lindo demais, nossa. Nem vou olhar muito para você ou vou me
apaixonar — debocho.

Mas fica sério de repente, não sei o que está pensando.


— Léo, eu tenho uma coisa muito importante para te dizer, o Gustavo
mandou um recado para você. — Coça a nuca.

— Que Gustavo? — Ergo as sobrancelhas.

— Lima — responde o cínico, rindo. — Ele pediu para te dizer que:


“Se quem te viu te visse hoje, não acreditaria que o raparigueiro virou
homem de família. Trocou a noite pelo dia”.

O filho da mãe dança arrocha dentro do elevador com uma mão


fechada sobre o rosto e a outra sobre o peito, cantando o refrão da música do
Gustavo Lima.

— Você não vale nada mesmo, Felipe. — As portas se abrem e eu


empurro o meu amigo engraçadinho para fora do elevador, nós dois rindo
como dois idiotas.

Nossa amizade está mais forte agora, meu humor melhorou bastante
sem o uso das drogas. Como gosto de cozinhar sempre chego do trabalho e

faço o jantar, comemos juntos tomando uma cerveja e falando abobrinhas


como agora.

— Será que agora que ela autorizou a sua aproximação do Marcelo, a


mãe vai deixar eu voltar a ser tio dele também? — pergunta antes de eu entrar
no carro, meu amigo se apegou mesmo ao moleque.

— Se eu voltei a ocupar o lugar de pai, você como meu irmão de


coração é o tio e ponto final. — Os cantos da sua boca se transformam em um
sorriso.

— Eu também te amo, irmão — faz um drama danado com voz de


choro, me abraça e dá um beijo meloso no meu rosto.

— Agora chega, Felipe, que nojo. — O empurro para longe de mim.

Damos um aperto de mão, e cada um segue o seu caminho. Faltando


uma quadra para chegar no apartamento da Dani, toda a minha confiança de
fazer esse passeio dar certo vai embora. Estaciono o carro e apoio a cabeça
sobre o volante para respirar fundo por alguns segundos. E se eu estragar
tudo de novo? Porra! Essa é a minha última chance, preciso fazer tudo certo.

— Se acalma, cara, vai ficar tudo bem. Você é um novo homem agora
— digo em voz alta e sigo em frente.

Paro na frente do prédio e envio uma mensagem para a Dani avisando


que já cheguei. Em cinco minutos ela e o Marcelo descem trazendo a

cadeirinha para criança e andam em direção ao carro. Minhas mãos


transpiram, seguro firme o volante.

— Oi, papai. — Marcelo acena de longe, com um sorriso do tamanho


do Rio de Janeiro inteiro.

Enquanto a mãe chega com a cara mais azeda do que limão. Saio do
carro para recebê-los.
— Ei, filhão, está bonitão, hein? — Pego o meu moleque e jogo para
o alto, todo estiloso com o cabelo arrepiado para cima com gel.

Suas risadas são contagiantes.

— Animado para ir ao circo, filho?

— Muito, papai, eu amo palhaços. — Bate uma mãozinha na outra.

— Ah! Com certeza você ama um palhaço, Marcelo — Dani pensa


alto, irônica, eu sei muito bem de qual palhaço ela está falando.

Olho para ele no espelho todas as manhãs.

— Olá, Daniele, boa noite. — Finjo que não recebi sua indireta.

— Oi, Léo, como vai? — cumprimenta seca.

É óbvio que ela está engolindo a minha presença à força e goela


abaixo por causa do filho, evita ao máximo olhar para mim.

— Precisa de ajuda aí? — ofereço uma mãozinha.

Ela está quebrando a cabeça para colocar a cadeirinha a ponto de


arrancar o banco de trás à força. Quando estamos estressados, até dobrar uma
folha de papel vira uma missão do FBI.

— Acho que esse troço está estragado, mas se quiser tentar… —


Cruza os braços com uma tromba enorme.

Abaixo próximo a ela para arrumar a cadeirinha, Dani prende a


respiração e sai de perto de mim como se eu estivesse fedendo.

Discretamente, cheiro debaixo do meu braço e o meu desodorante está em

dia. Tomei banho antes de sair de casa e ainda passei o perfume que sei que
ela mais gosta, pensei que pudesse trazer boas lembranças dos velhos tempos.

Mas pelo jeito a mulher pegou ranço até do meu cheiro, puta merda!
A coisa está mesmo feia para o meu lado.

Seguimos caminho, só eu e o Marcelo conversamos por todo o trajeto.


Dani se mantém calada. Na hora de entrar no circo é uma briga, a teimosa
não quer deixar eu pagar o ingresso deles.

— Então, senhor, é para passar no cartão três ingressos? — pergunta


o pobre rapaz do guichê com o meu cartão numa mão e a maquininha na
outra, com um sorriso falso, coagido pelo olhar ameaçador da Dani.

— Sim — respondo.

— Não — ela responde no mesmo instante.

— Aceita logo, mamãe, eu estou cansado, quero sentar. — Marcelo


puxa a mão da mãe e ela assente a contragosto.

— Graças a Deus! — grita uma senhora atrás de nós, faz dez minutos
que a fila não anda por causa da teimosia da Daniele.

Enfim conseguimos entrar, compramos pipocas, refrigerante e alguns


doces para o Marcelo. Sentamos no banco da quinta fileira, obviamente
Daniele colocou o filho entre nós. A apresentação começa com os
malabaristas, a impressão que dá é que vão cair a qualquer momento. Depois

vem o show dos palhaços, em poucos minutos a plateia inteira está chorando
de tanto rir das piadas deles.

Menos eu, estou seduzido pelo som das gargalhadas da Dani. Ela joga
a cabeça para trás e coloca as mãos sobre a barriga rindo compulsivamente,

seus olhos verde-esmeralda chegam a marejar. Com esse cabelo partido ao


meio em duas tranças e o vestido rodado com as cores do verão e tênis
brancos nos pés miúdos, parece uma adolescente recém-formada do ensino
médio, sem saber o que quer da vida e nem um pouco preocupada em
descobrir.

Só quer ser feliz e curtir o momento.

Nada mais do que isso.

— Por que você está olhando assim para a mamãe, papai? — Marcelo

me encara de baixo para cima com uma expressão engraçada, quase morro de
vergonha porque além dele a mãe também me encara à espera de uma
resposta coerente.

— Eu vou comprar mais pipoca, já volto — invento sem saber onde


enfiar a cara, um homem apaixonado é tão óbvio.

Não consegue esconder o que sente, ainda mais perto da mulher que
ama.

— Já temos um voluntário para a próxima brincadeira, se achegue

aqui, cabra da peste. — O palhaço aponta para mim assim que me levanto e
todo mundo olha para mim aos risos.

Cacete! Está para nascer cara mais fodido do que eu.

Vermelho feito um tomate, ando em direção ao picadeiro para


vivenciar a maior vergonha da minha vida. Posso ouvir Dani rindo de mim,
eu conheceria a sua risada em meio a uma multidão mil vezes maior do que
essa.

— Ei, loirinha abusada, só porque abusou do meu gatão tatuado aqui


vai participar da brincadeira também. — O palhaço desliza o dedo pelo meu
peito piscando os cílios enormes, flertando comigo.

Seguro o riso enquanto vejo Daniele vindo de mãos dadas com o


filho, da cor de um tomate, bem feito, Boneca!

Além de nós, o palhaço chama outro casal para participar e competir


conosco, a brincadeira não poderia ser mais constrangedora. Ele pega o
Marcelo no colo enquanto explica para as mulheres que elas têm que pegar
uma bexiga cheia dentro de uma rede, depois correr até nós e estourar
colocando sobre o colo dos homens sentados em uma cadeira, com venda nos
olhos. Quem estourar mais bexigas dentro do tempo de um minuto ganha um
prêmio.

Começo a suar frio quando o apito toca anunciando o começo da

brincadeira. Logo na primeira sentada da Dani no meu colo para estourar a


bendita bexiga, percebo que todo o meu autocontrole será posto à prova, meu
pau está latejando dentro da calça.

Respira fundo, Léo, são apenas sessenta segundos.

Repito na minha mente, mas logo na segunda sentada o meu amigo lá


debaixo fica pronto para combate. Dani está fazendo de propósito, vem
correndo e senta com tudo a filha da mãe. Não precisa disso tudo para
estourar uma bexiga, porra! Tudo o que eu queria agora era colocar essa
mulher de quatro em um lugar bem deserto e meter nela com gosto, aquela
estocada violenta de deixá-la sem conseguir andar no outro dia.

— O tempo acabou, o casal número um ganhou com quatro bexigas a


mais estouradas! — anuncia o palhaço.

Graças a Deus, penso comigo. Mais um segundo e gozaria aqui


mesmo. Levanto até torto tentando esconder a minha ereção. O prêmio é um
urso de pelúcia gigante. Marcelo, eufórico, agarra o bicho maior do que ele e
sai arrastando.

O moleque está se divertindo muito com essa bagunça toda!

— Ei, aonde você vai, Léo? — pergunta Dani ao perceber que tentei
sair de fininho na hora de voltar para os nossos lugares.

— Acho que esqueci a porta do carro destrancada, quando voltar

trago a pipoca — minto com as mãos cobrindo as minhas partes íntimas.

— Pode guardar o uso de pelúcia no banco de trás do carro, por


favor? Ele é muito grande para ficar carregando para todo lado — pede,
gentil até demais.

— Ah, não, mãe! — resmunga e agarra mais forte o urso.

— Marcelo… — adverte e o coitadinho me entrega de cara feia, saio


quase voando em seguida.

De fato, vou até o carro, mas por outro motivo. Me tranco dentro do
veículo, sentado no banco do motorista, e sou obrigado a tocar umazinha
rápida pensando naquela diaba. Não dá para ficar a noite toda com esse pau
duro assim.

— Você me paga, Daniele! — rosno.

Depois que termino, procuro a pia mais próxima e lavo as mãos,


compro a pipoca e me junto aos dois como se nada tivesse acontecido.
Assistimos a todas as apresentações, Dani está com o humor mais leve e até
conversou comigo. Mas não muito.

— Vocês se divertiram? — pergunto enquanto caminhamos para fora


do circo, como ainda está cedo pensei em convidá-los para fazer mais alguma
coisa juntos, mas não quero abusar da boa vontade da Dani.

— Eu me diverti muito, e você, mamãe? — pergunta Marcelo, com o

rosto enfiado dentro de um algodão doce azul.

— Foi bem legal, desde pequena que amo circos. — Dani sorri como
se em sua mente vagasse alguma boa lembrança da infância.

— Quando eu era pequeno não era muito fã de palhaços, achava meio


assustadores — comento.

— Alguns são mesmo, lembro que o palhaço que a minha mãe


contratou para o meu aniversário de dez anos tinha cheiro de cigarro, álcool e
os dentes afiados, muito estranho. — Nós dois rimos, então ela percebe que
está abrindo a guarda demais e se fecha novamente.

— Olha ali, tem aquelas máquinas de tirar fotos, sempre quis ir em


uma. — Sai puxando o Marcelo, eu os sigo com as mãos no bolso.

— Você não vai tirar foto com a gente, papai? — pergunta Marcelo
antes de entrarem na máquina.

— Melhor não, filho, vou ficar aqui fora esperando vocês. — Fico na
minha, não quero forçar a barra me enfiando na foto de família dos dois.

— Vem com a gente, Léo. Vai ser legal — Dani me convida para
entrar na máquina de fotos com eles, deixando-me surpreso.

Talvez para ela seja apenas um ato de pena não me deixar esperando
do lado de fora como um cachorrinho, mas para mim é uma grande vitória.

— Tudo que você quiser, Dani. — Sorrio todo bobo.

Gastamos até a nossa última moeda na máquina e tiramos fotos de


todas as poses possíveis. Uma verdadeira loucura, as caretas do Marcelo
foram a melhor parte. Foi muito legal, não me divertia assim há muito tempo.

— Tiramos fotos para o ano inteiro, meus bolsos estão cheios —


brinco enquanto caminhamos até o carro, mas Dani nem presta atenção.

Seus olhos estão brilhando sobre o carrinho de churros do outro lado


da rua, nem pisca.

— Você quer um churro? — pergunto.

— Sim, por favor, deu até água na boca. — Passa a língua pelos
lábios de um jeito muito sexy.

Tanto Marcelo como o dono do carrinho e eu ficamos pasmos em ver

essa mulher comer quatro churros em tempo recorde e ainda pedir dois para
levar para casa, que apetite todo é esse? Pensei que não era muito de comer
coisas muito doces, como vivia dizendo.

— Só um minuto, Daniele, sua boca está com um pouco de doce de


leite. — Limpo com o meu polegar e depois chupo olhando nos seus olhos,
ela engole seco com aquela cara que só faz quando está excitada.

Ponto para mim, Boneca!


— Obrigada — agradece desconcertada.

— Vou ir na frente, mãe, espero vocês no carro. — Marcelo ameaça

atravessar a rua sozinho.

— Marcelo, não! — Dani tenta puxá-lo pelo braço e acaba pisando


em falso e os dois caem no chão com tudo.

— Meu Deus, vocês estão bem? — Vou socorrê-los preocupado.

Ofereço a mão para ajudar Dani a se levantar, mas ela não aceita, é
claro.

— Eu estou bem, e você, Blue? Não precisa ficar assustada, o papai


está aqui com a gente agora. — Alisa a barriga da Daniele, depois deposita
um beijo.

Paro de respirar, parece que tudo passa em câmera lenta à minha


volta.

— Você está grávida, Daniele? — pergunto em estado de choque.

O rosto dela empalidece.

— Desculpa, mamãe, você disse que não era para contar para o papai
sobre o bebê — Marcelo diz inocente, com a voz cheia de culpa, e cobre a
boca com as suas mãozinhas logo em seguida.

— Ela está grávida! — digo em voz alta, ainda em estado total de


choque.

Porra, ela está grávida. Essa palavra não para de repetir na minha

cabeça feito um disco quebrado, meu cérebro entrou em pane. Não sei se
coloco as mãos na cabeça, sobre o rosto ou corto fora. Começo a andar de um
lado para o outro e diversas sensações começam a surgir: esperança, medo,
euforia, incerteza, êxito, ansiedade e mais uma porrada de sentimentos.

Mas o maior de todos eles com certeza é a felicidade. Tem um


pedacinho meu crescendo dentro da mulher que eu amo desesperadamente.
Agora tudo é diferente. A linhagem da minha família não vai terminar em
mim, meu Deus! Não estou mais sozinho no mundo.

Eu vou ter outro filho! Porque, para mim, Marcelo é o meu


primogênito.

Mas por que Dani não me contou isso antes? Eu tinha o direito de
saber que ela está grávida. Ela vai ter que me esclarecer isso direito. Me viro

para exigir uma explicação, mas não encontro nem sinal dela ou do Marcelo.

— Enquanto o senhor estava andando de um lado para o outro feito


um paspalho, a moça pegou o menino e fez sinal para o táxi que estava
passando e foi-se embora — o dono do carrinho de churros faz o favor de me
avisar, rindo da minha cara.

Quando essa mulher vai parar de fugir de mim? Porra! Pego o meu
carro e vou atrás da Dani, essa é a segunda vez que ela mente para mim sobre
um filho.
Léo

Bato na porta do apartamento da Dani insistentemente, segurando a

cadeirinha do Marcelo que ela esqueceu no banco de trás do carro e o urso


gigante que ganhamos no circo. Uma hora, ou ela abre ou chama a polícia.
Mas não arredo o pé daqui. Já fiz muitas merdas nessa vida, mas eu mudei.
Quero participar da vida dessa criança e vou até o inferno pelos meus direitos
de participar. Vou ser o melhor pai do mundo para ela, eu juro.

— O que deseja, rapaz? — Um homem negro alto e careca, com


vestido preto de lantejoulas, salto alto e brincos de argolas amarelas atende a
porta.

Umas das amigas carne e unha da Dani que não gosta de mim, que
maravilha!

— Oi, Michelle, chama a sua amiga porque não estou com muita
paciência hoje — sou curto e grosso.

— Ela não quer falar com você agora, Xuxu, por favor, volte outra
hora. — Tenta fechar a porta na minha cara, mas impeço com o pé.
— Manda um recado para a Dani, eu só não coloco essa porta abaixo
porque não quero assustar o Marcelinho. Ela não pode fugir de mim para

sempre. Agora que sei que vai ter um filho meu, me odiando ou não, vamos
ter que entrar em um acordo — enquanto falo, ouço os latidos do Walter
vindo de dentro do apartamento. Reconheceu a minha voz, a verdade é que
senti saudades até dessa bola de pelo.

— Mais alguma coisa, Xuxu? — Estica o braço na porta, debochada.

— Eu não vou desistir dessa criança, entendeu, Daniele? — deixo o


meu recado e praticamente jogo em cima dela a cadeirinha e o urso de
pelúcia.

Vou embora com o sangue fervendo nas veias. Mas a minha vontade é
voltar e obrigar a Dani a agir como um adulto de verdade, sentando comigo
para termos uma conversa franca. No entanto, quanto mais forçar a barra
nesse momento, mais ela vai se assustar, e como modo de defesa vai me

afastar dos meus dois filhos.

— Pensei que a sua entrada tinha sido proibida nesse prédio, Léo. —
Encontro Paula de mãos dadas com a Maria na calçada do prédio, estou tão
atordoado que nem percebi a presença dela.

Ela nunca mais falou comigo depois que descobriu a verdade, muito
menos autorizou que eu mantivesse algum tipo de contato com a minha
afilhada.

— Eu sinto muito, Paula, por tudo. Não devia ter mentido para você.

— Faz bico e vira o rosto para o lado.

— Eu sempre fiz de tudo por você, Léo, e é dessa maneira que você
retribui?

— Não estava pensando direito na época, foi mal. — Pisco para a


minha afilhada, continua com a mesma carinha de sapeca.

— Oi, padrinho, por que não veio me ver mais? — Solta a mão da
mãe e me abraça, pego-a no colo e a encho de beijos.

— Também senti, docinho, como você cresceu. — Ela abraça o meu


pescoço e deita a cabeça no meu ombro, fecho os olhos emocionado.

É como se esse abraço me trouxesse para a casa novamente. Sinto a


mão da Paula segurar a minha. Quando abro, vejo os olhos dela em lágrimas.

— Eu também senti a sua falta, seu filho da puta! — Faz uma careta
feia.

— Iiiih, a mamãe falou um palavrão, padrinho. — Cobre a boca com


as mãozinhas.

— É. Ela disse, Maria. — Beijo a sua testa, nós três rimos.

— Vem, vamos comer aquele bolo de chocolate que você adora na


padaria da esquina — convida com a cara menos azeda. Paula se faz de

durona, mas não consegue ficar com raiva de ninguém por muito tempo.

— Obrigado por me dar outra chance, Paula. Não vou te decepcionar


dessa vez — prometo enquanto andamos até a padaria com a Maria no colo.

— Se eu tivesse vergonha na cara, Léo, nunca mais falava com você


— resmunga. — Mas, apesar de tudo, ainda é o meu amigo e padrinho da

minha filha. — Sorri por fim, estou feliz por ter a minha amiga de volta.

Chegamos na padaria e nos sentamos em uma mesinha redonda, onde


fazemos os pedidos.

— Quer ouvir música no celular do padrinho, Maria? — Coloco para


tocar a playlist infantil que fiz para o Marcelo e ainda não tive coragem de
apagar, às vezes coloco para tocar antes de dormir e me lembrar de quando
ouvíamos juntos.

— Obrigada, padrinho, eu amo as músicas da galinha pintadinha. —

Coloca os fones no ouvido, agora eu e a mãe dela podemos ter uma conversa
direta de adultos.

— Por que não me contou sobre a gravidez da Dani? Sei que pisei
feio na bola. Mas merecia saber que vou ser pai. — Paula se engasgou com o
café que acabou de levar à boca.

— Mas quem te contou sobre a gravidez?


— O Marcelinho contou sem querer, tadinho. — Sorrio feito um
idiota ao lembrar da cena.

— Porque quem tinha que te contar era a Dani e não eu, ao contrário
de você, sou uma amiga leal. Espero que agora que sabe que vai ser pai de
verdade, vire homem. — Me dá um puxão de orelha daqueles, merecido.

— Eu já estou tentando mudar, Paula. Parei de usar drogas, parei de

fazer programa definitivamente e até arrumei um emprego em um


supermercado.

— Só um minuto, você está trabalhando em supermercado? — Tem


um ataque de riso na minha cara a filha da mãe, sabia que ia me zoar quando
soubesse.

Foi a mesma coisa com o Felipe quando contei, ele ri até hoje quando
me vê com o uniforme.

— Eu tinha que começar em algum lugar, já que para a prostituição

não volto mais. Quero ser alguém na vida, subir um degrau de cada vez. —
Ela coloca a mão na lateral do meu rosto e sorri, orgulhosa de mim.

— Você pode ter mentido sobre muitas coisas, Léo, mas agora sei que
o seu amor pela Dani e o filho dela é verdadeiro. Porque só o amor
verdadeiro faria um vagabundo feito você andar na linha.

— Eu seria capaz de dar a minha vida por eles, Paula. Foram a melhor
coisa que poderia me acontecer, um presente de Deus. — Ela sorri e segura a
minha mão.

— Então por que não luta por eles, Léo? Errar é humano, o
importante é sacudir a poeira e correr atrás do prejuízo — filosofa coberta de
razão.

Antes eu havia perdido todas as esperanças de ter o amor da Daniele

de volta, contudo, com a descoberta desse bebê tudo mudou. Tenho um novo
motivo para lutar, quero criar essa criança ao lado da mãe dela, como uma
família feliz de verdade em um lar cheio de amor e felicidade.

— Você está certa, Paula. Eu vou usar todas as minhas armas para
fazer essa mulher voltar a confiar em mim novamente e, com muita sorte, se
apaixonar de novo — digo decidido.

— Como você é idiota, Léo, ela nunca deixou de ser apaixonada por
você. Só está com o coração ferido. — Sorve um gole do seu café, enchendo-

me ainda mais de esperança.

Eu me tornei tudo o que mais abominava, um bobo apaixonado sem


causa.

Conversamos mais um pouco enquanto como o meu pedaço de bolo,


depois volto para casa com a cabeça um pouco mais leve depois de fazer as
pazes com a Paula. Eu senti muita falta dessa doida varrida.
Chego em casa exausto, tudo o que quero é me jogar na cama e

relaxar depois do dia longo que tive. No entanto, é só ajeitar a cabeça no


travesseiro e fechar os olhos que o Felipe aparece para me incomodar. Entra
no meu quarto e puxa o meu pé, quase me derruba da cama, disposto a me
tirar do sério.

— O que você quer agora, cara? Que saco. Não estou com muita
paciência hoje.

— Eu preciso da sua ajuda para uma coisa, Léo. Anda, vamos sair. —
Viro para o outro lado e finjo que não escutei, ele me tira da cama à força.

Esse cara tirou a noite para me azucrinar, que porra!

— Eu agradeço o convite, mas não vou. — Tento expulsá-lo do meu


quarto, mas Felipe é teimoso feito uma mula.

— Ah, vai sim, meu irmão. — Me dá uma chave de pescoço e me


arrasta para o banheiro, jogando-me debaixo do chuveiro com roupa e tudo,
fecha a porta do boxe e fica pulando e rindo do lado de fora.

Mas que filho da puta!

— Não vai desistir fácil, né, seu cuzão?

—Você sabe que não, Léo. — Cruza os braços.


— Eu não quero voltar muito tarde, ok? Sabe que preciso acordar
cedo para trabalhar.

— Tudo bem, senhor homem de família, agora vou me arrumar. Essa


noite cabeças vão rolar. Trato feito, senhor funcionário do ano. — Sai do
banheiro dando uma risada macabra, estou até com medo de imaginar para
que o Felipe precisa da minha ajuda, esse cara não tem um pingo de juízo.

Ele, quando começa a se arrumar, leva pelo menos uma hora para
ficar pronto, por isso não vou correr no banho. Tiro minhas roupas molhadas
e jogo no chão, mudo o chuveiro para o frio e apoio as mãos no azulejo.
Preciso esfriar a cabeça, mas não sei se consigo. Não sei como as coisas vão
ficar daqui para frente. Eu sou cabeça-dura, só que a Dani se supera.

— Isso faz eu te amar ainda mais, Boneca. Minha baixinha valente.


— Sorrio debaixo do chuveiro, falando sozinho enquanto a água cai sobre o
meu rosto.

Termino o banho e caminho pelado e molhado até o guarda-roupa


para escolher qualquer coisa para vestir, pego uma calça jeans escura e uma
camisa preta. Arrumo o cabelo com gel para trás como nos velhos tempos de
GP. Aqueles foram bons tempos que não voltarão nunca mais.

Como disse o implicante do Felipe, agora Leônidas Rafael é um


homem de família.
— Bora, irmão? Eu já estou pronto. — Falando no capeta, ele aparece
no meu quarto todo alvoraçado.

Dentro de uma camisa rosa-choque, calça branca justinha e sapatos


lilás. Isso mesmo, ele conseguiu achar um sapato social nessa cor.

— Eu não saio desse apartamento até você me contar aonde estamos


indo, porque se for algo ilegal eu estou fora, Lipe.

— Vamos em uma boate gay, tenho certeza que o meu namorado está
me traindo com uma bicha rica. Eu quero pegá-lo no flagra. — Fecho a cara,
não acredito que me obrigou a sair de casa por conta disso.

— E para que eu preciso ir junto, criatura?

— Para me dar força moral, que amigo de verdade é para isso,


Leozito. — Vai andando na frente, com um argumento desses não tenho
como contestar.

Então vou com esse maluco, é até bom para evitar que faça alguma
besteira das grandes.

— Para que passou tanto perfume, cara? — Faço uma careta.

Parece que Felipe tomou dois banhos, um de água e um de perfume


forte para cacete.

— Ahh, é o novo perfume da Madonna, não é maravilhoso? — Nem


respondo nada.
Chegamos na boate gay e, sendo sincero, achei o lugar muito bacana e
bem acolhedor, a bebida é boa e a música também. Vale o valor absurdo do

ingresso, quase um mês do meu salário, ainda bem que o Felipe pagou. Está
mesmo investindo alto em descobrir se o namorado dele está pulando a cerca,
não tira os olhos da porta desde que chegamos.

— Por que não bebe um pouco, Lipe? Você está muito tenso. —

Ofereço o meu copo de uísque para ele, que nega com a cabeça.

— Não vim aqui para beber, quero estar sóbrio para quando o Bruno
chegar aqui com o seu amante. — Semicerra os olhos, ameaçadoramente.

— Você que sabe, Felipe. — Dou de ombros, viro de frente sentado


em um barquinho do balcão de vidro do bar e continuo degustando o meu
drink.

Passam-se duas horas e nada do namorado do Felipe chegar com o tal


amante, já perdi a conta de quantas bebidas tomei e não aguento mais levar

cantada de cara barbudo e ver essas apresentações de motoboys bombados só


de sunga fio dental.

Mas gostei muito dos shows de todas as drag queens, todas muito
bem maquiadas e vestidas caracterizadas conforme as cantoras das músicas
que dublaram. São bons em interagir com o público, fazem piadas engraçadas
e elegantes ao mesmo tempo.
— Tem certeza de que o seu namorado vem mesmo, cara?

— Claro que sim, Léo, eu recebi informações de fonte segura. —

Reviro os olhos.

— Ok. Mas mudando de assunto, tem uma coisa muito séria que eu
preciso te contar, Lipe — digo já sorrindo.

— Não matou alguém? — palpita com os olhos esbugalhados.

— Não, Felipe, pelo amor de Deus! Eu não tirei a vida de ninguém,


na verdade coloquei mais uma no mundo — conto, primeiro o queixo do meu
amigo cai, depois me puxa para um abraço.

— Parabéns, irmão, eu ganhei outro sobrinho. Nem acredito que


ganhei mais um sobrinho! — Pela primeira vez desde que chegamos nessa
boate, vejo o meu amigo sorrindo.

— Agora que a loira carne de pescoço está prenha, vocês se acertam

de vez. Já estou até vendo os dois subindo num altar. — Formo a imagem na
minha cabeça, ter a Dani como esposa seria a realização do meu maior sonho.

— É mais fácil ela passar com o carro dela em cima de mim do que
isso acontecer. Não sei qual está mais fodido nessa de amor, Felipe. Eu ou
você. Um levou um pé na bunda e o outro, chifre — constato, nós dois rimos.

Infelizmente, o seu sorriso é assassinado dos seus lábios quando o tal


filho da puta do namorado dele chega com um carinha estranho dentro de um
vestido curtinho com estampa de onça e uma peruca muito falsa, agarrado no
seu pescoço.

— Rá! Mas é agora que eu mato esse desgraçado e essa bichinha


escrota, nem tente me segurar, Léo. — Pega o meu drink e vai até os dois,
alguma coisa me diz que não é para beber.

Fico por perto de braços cruzados observando tudo, se alguém colocar

a mão no meu amigo vou sair dando porrada em todo mundo e que se foda o
resto.

— Felipe, o que você está fazendo aqui? — O namorado dele passa


de moreno para pálido, foi pego no flagra.

— Que bonito, hein, Bruno? Me traindo com essa cafona


desclassificada, que nojo de você. — Suas palavras são duras, mas o tom é
trêmulo.

— Não é nada que você está pensando, com ele é só sexo. Eu te amo

— o babaca tenta consertar o erro, porém piora ainda mais as coisas.

— Pega esse seu amor e enfia dentro do rabo do seu amante, talvez
assim compense o tamanho pequeno do seu pau. — Joga a bebida na cara
dele, sujando toda a sua camisa de seda branca.

— Bem que você disse que esse viado gosta de baixaria, Bruninho —
o acompanhante do namorado do Lipe fala com uma voz fina irritante, não
tem medo da morte.

Levo a mão no rosto, agora a coisa vai ficar feia.

— Baixaria é essa sua peruca falsa, querida. — Felipe arranca a


peruca dele e joga longe, todo mundo à nossa volta ri dos dois com cara de
idiotas no meio da balada. — Quer saber de uma coisa, Bruno? Vocês dois se
merecem. — Felipe dá o xeque-mate, saindo por cima.

Humilhados e descascados em público, não lhes resta alternativa a


não ser irem embora com o rabo entre as pernas.

— Espera aí, Felipe, quer ir embora? — Agarro o braço dele, ele saiu
andando sem rumo no meio das pessoas.

— Você pode ir, se quiser, irmão, mas a minha noite está apenas
começando. — Troca olhares com um homem na pista de dança, me deixa
falando sozinho e vai até ele; os dois começam a se beijar loucamente
enquanto dançam juntos.

— É. Pelo visto, a fila já andou. — Balanço a cabeça rindo, acho que


estou sobrando aqui.

Decido encerrar a minha noite por aqui e ir para casa, mas vou ao
banheiro antes. Quando me aproximo da porta, um homem loiro e alto sai
correndo com a mão e a roupa cheia de sangue. Passa por mim correndo, mas
tempo o suficiente para eu olhar bem no seu rosto.
— Mas que porra! — digo ao entrar no banheiro e me deparar com
um homem agonizando no chão em uma poça de sangue, foi tão espancado

que o seu rosto está deformado.

No entanto, reconheço o vestido preto de lantejoulas e os brincos de


argolas amarelos, esse é o cara que me atendeu quando estive no apartamento
da Dani hoje cedo.

— Calma que eu vou te ajudar, Michelle, eu vou pedir ajuda. — Me


abaixo para avaliar sua situação, de perto é ainda pior.

— Não me deixa sozinha, ele pode voltar — diz bem baixinho, com
muita dificuldade, e agarra a minha perna.

— Tudo bem, eu não vou a lugar nenhum. — Ligo para o hospital e


seguro a sua mão até a ambulância chegar, graças a Deus estavam por perto e
não demorou nem dez minutos para aparecerem.

Enquanto a acompanho para o hospital na ambulância, envio uma

mensagem para a Dani avisando o que houve com a sua amiga. Ela responde
na mesma hora perguntando para qual hospital está sendo levado, mando o
endereço e não tenho mais resposta, deve estar vindo voando para cá.

Também tento ligar para o Felipe, mas ele não atende e não responde,
a música na boate está muito alta. Como o amigo da Dani foi tirado pelo
paramédicos pela porta dos fundos na maca, os outros clientes nem ficaram
sabendo.

— Ele está tendo uma parada cardíaca, vou ter que reanimá-lo ou ele

irá morrer antes de chegarmos no hospital — diz um dos paramédicos já se


preparando para agir.

Um monte de aparelhos começa a apitar, fico encolhido em um canto


tentando não atrapalhar o trabalho deles. Torcendo para que tudo dê certo,

ninguém merece sair para se divertir e terminar a noite em uma ambulância,


entre a vida e a morte.
Dani

Lágrimas deslizam pelo meu rosto enquanto dirijo, não entendo como

alguém pode machucar alguém tão gentil quanto a Michelle. É a melhor


pessoa que eu conheço. Se eu soubesse que isso iria acontecer depois da
visita que fez na minha casa hoje, para entregar o sapatinho e o casaquinho de
tricô que fez para o meu bebê, com o maior amor do mundo... Até me
chamou para ir nessa casa noturna com ela para arejar a cabeça um pouco
depois da visita indesejada do Léo gritando os seus direitos de pai para quem
quisesse ouvir.

Michelle estava tão bonita, feliz. E preocupada de eu ficar sozinha em

casa, se despediu com o coração apertado. Nem imaginando que era ela que
estava em perigo.

— Tem certeza de que vai ficar bem sozinha, Bonequinha? —


perguntou Michelle ao se despedir depois de tomarmos um chá juntas.

— Vou ficar sim, amiga, desculpa ter pedido para você atender à
porta e mentir para o Léo por mim, não estou pronta para conversar com ele
sobre o bebê. — Fiquei sem graça de envolvê-la nesse rolo todo, mas se
alguém não fosse falar com o Léo, ele iria acabar colocando a porta abaixo.

— Tudo bem, amiga, faria coisa muito pior por um amigo meu. Além
do mais, sei que se algum dia precisar da sua ajuda, virá correndo. — Sorriu
com o olhar triste, como se pressentisse que algo ruim estava para
acontecer.

— Com certeza, Miche, já vou chegar na voadora! — Ergo os punhos


em posição de ataque, e minha amiga ri.

— Você não existe, Bonequinha! — Ela ri, mas logo seu semblante
fica sério.

— O que foi, Miche?

— Sabe que fugir do problema não vai resolver nada, Dani? Ainda
mais um problema de um metro e noventa apaixonado e cheio de
determinação; sei que ele errou feio, mas dá para ver nos olhos dele que está

arrependido.

— O que ele fez foi imperdoável, Michelle. Uma vez mentiroso,


sempre mentiroso. — Ela é obrigada a concordar comigo.

Agora que Léo sabe sobre a gravidez, deixou bem claro que não vai
desistir dos seus direitos como pai.

— Está certo, Dani, não vou mais tocar nesse assunto. Sabe o que é
melhor para você, só cuidado para não se ferir ainda mais com esse orgulho
todo. — Beija a minha testa.

— Que falta de vergonha, um homem desse tamanho de vestido —


alfinetou a bruxa do 115, dona Antônia, em um pigarreio nada discreto.

Veio do terraço com um cesto de roupa lavada maior do que ela. No


seu apartamento tem máquina de secar como em todos os outros, mas não

gosta de usar, diz que prefere o modo antigo, então o filho dela veio aqui e
fez um varal na varanda do terraço do prédio para ela.

— Boa tarde para a senhora também, precisa de ajuda, querida? —


Educada, Michelle ignorou o olhar preconceituoso da minha vizinha e tomou
o cesto da sua mão, agarrando o braço dela e a levando até a entrada do seu
apartamento.

Respondendo o preconceito com gentileza, minha amiga é um


exemplo de ser humano.

— Obrigada, meu filho, quer dizer, filha. Sei lá o que você é. — Girou
os olhos, que mulher antipática.

— O nome dela é Michelle, dona Antônia, minha amiga querida que


exijo ser tratada com respeito — dei o meu recado, ela contorce o rosto.

— Bonito, mas aposto que esse não foi o nome que a sua mãe lhe deu
— resmungou.
— Não mesmo, senhora, na verdade, foi o meu pai que escolheu
quando contei para ele e à minha mãe que queria mudar o nome da minha

certidão. Eles fizeram questão de me ajudar com os detalhes jurídicos, com


todo amor do mundo. — Soltei uma risada alta e com gosto, a bruxa poderia
ir dormir sem essa.

— Misericórdia! Esse mundo está perdido mesmo. — Pegou o seu

cesto de roupa e entrou no apartamento batendo a porta na nossa cara, a


mal-educada.

— Eu sinto muito por isso, Miche. Ninguém suporta essa bruxa no


prédio.

— Deu para perceber o porquê, mas acho de verdade que não seja
má pessoa. Só rabugenta mesmo. — Sorriu mexendo os ombros, ela sempre
tentando ver o lado bom das pessoas.

— Eu te amo, Michelle, mais uma vez obrigada pelo presente. —

Abracei minha amiga, bem forte.

— Também te amo, mulher, mas agora preciso ir. Tem certeza de que
não quer ir à boate comigo? — Fez biquinho com carinha de cachorro
largado na esquina.

— Não, amiga, estou sem ânimo para noitadas. Divirta-se!

— Obrigada, Bonequinha, se cuida e dá um beijo no Marcelinho por


mim, diz que na próxima vez jogo bola com ele no parque atrás do prédio. —
Ela sorriu lindamente.

Encostou a palma da mão aberta nos lábios com as unhas grandes


pintadas de vermelho e assoprou na minha direção, fingi guardar no bolso
da minha bermuda jeans.

Então ela foi embora, fiquei observando-a até sumir no final do

corredor.

— Como você é idiota, Daniele, poderia ter saído com a sua amiga e
talvez evitado essa tragédia! — brigo comigo ao chegar no hospital, encontro
Léo logo na entrada, sentado na sala de espera.

— Eu sinto pelo seu amigo, Daniele, ele teve uma parada cardíaca na
ambulância bem no meio do caminho e…

— Não! — grito antes que ele termine a frase, não posso acreditar que
a Michelle se foi.

Me sinto tonta como se o chão tivesse desaparecido debaixo dos meus


pés, minha vista fica turva e lágrimas brotam dos meus olhos feito um rio.

— Ei, meu amor, se acalme. — Léo me acolhe dentro dos seus braços
fortes, não resisto à sua aproximação. É tudo o que eu preciso agora.

— Isso não é justo, Michelle não merecia morrer. — Agarro as costas


da sua camisa, quero minha amiga de volta.
— Sua amiga não morreu, Daniele. Os médicos conseguiram
ressuscitá-la, chegamos aqui e tinha uma equipe de médicos, enfermeiros e

técnicos de enfermagem à nossa espera. Estão dando o suporte a ela nesse


momento, ela vai sair dessa. — As palavras de Léo são como música para os
meus ouvidos, o alívio é tanto que acho que a minha pressão foi a zero,
minhas pernas estão bambas.

— Você está suando frio, senta aqui, Boneca. Vou buscar um copo de
água para você. — Sai correndo atrás de um bebedouro, volta em segundos e
me entrega o copo.

Nossos dedos se tocam.

Viro todo o líquido de uma vez só, Léo pega o copo de plástico da
minha mão e joga no lixo.

— Se sente melhor agora? — Inclina a cabeça e nivela os nossos


olhos.

— Estou. Muito obrigada, Léo, por tudo. Você salvou a vida da


minha amiga. — Um canto da sua boca se eleva em um sorriso tímido,
incerto se está fazendo algo que não devia. Segura o meu rosto entre as mãos
e diz:

— Eu quero que o nosso bebê seja uma menina parecida com você,
linda e tão generosa. Sempre mais preocupada com os outros do que consigo
mesma. Por isso, mesmo que nunca fiquemos juntos, sempre será a mulher da
minha vida. — Limpa uma lágrima que cai pela minha face, assim como todo

ódio que venho cultivando por esse homem todos os dias cai por terra.

Primeiro, Léo beija a minha testa dando-me a chance de impedir o


que viria a seguir; como não me manifesto, dá outra chance beijando o meu
rosto de um lado e depois o outro. Continuo imóvel, não tenho mais forças

para pará-lo, nem se eu quisesse.

Então o nosso segundo primeiro beijo está a segundos de acontecer, já


que o primeiro para mim não conta porque fazia parte de uma grande mentira.
Nossos olhos se cruzam. Lentamente, nos aproximamos mais, até que numa
dose de doce paixão, nossos lábios se juntam e logo o meu corpo responde
em uma explosão de sentimentos que oprimi e fingi que nunca existiram, mas
eles estiveram sempre aqui. Dentro do meu coração.

— Eu senti tantas saudades dos seus lábios, Boneca, por favor, me

diga que isso não é um sonho — sussurra com a boca roçando a minha.

— Isso não é um sonho, Leãozinho — digo em modo mecânico,


hipnotizada.

Não tem como resistir a esse encontro de desejos, a verdade é que eu


quis beijá-lo desde que o vi naquele mercado.

— Vou te beijar de novo, só para ter certeza. — E estremeço quando


os dentes dele mordem o lóbulo da minha orelha.

— Léo… — solto um gemido.

As suas mãos descem para a minha cintura, enlaço o seu pescoço e


nos beijamos novamente, com mais fervor.
Léo

Sentir o doce sabor dos lábios de Daniele novamente é como estar no

paraíso, onde o amor e a paz reinam. Meu corpo rapidamente corresponde ao


seu toque como se nunca tivéssemos nos separado, o desejo entre nós
continua latente. Sim, ainda há esperança para nós dois. Sinto que toda a
minha energia se renovou. Minhas mãos estão suadas e o coração bate
descompassado, eu desejei tanto esse beijo.

Mas não desse jeito.

— Desculpa, Daniele, isso foi um erro. — Me afasto dela a uma


distância segura ou não vou ter forças para fazer o que é certo.

— Um erro? — repete as minhas palavras com os olhos molhados,


não dou nem sessenta segundos para começar a chorar.

— O erro mais desejado da minha vida, Daniele. — Acaricio o seu


queixo e ela se afasta do meu toque, com uma ruga de confusão no meio da
testa.

— Quanto mais tento, menos eu te entendo, o misterioso Leônidas


Rafael. — Sorri irônica.

— Beijar você nesse momento é um grande erro porque você está

fragilizada por conta da gravidez e o que aconteceu com a Michelle, seguir


com isso faria de mim um aproveitador. E eu jurei para mim mesmo que
nunca mais tiraria proveito de ninguém, principalmente das pessoas que amo
— sou o mais sincero que posso, ainda estou aprendendo isso de fazer o que

é certo.

Mas não é fácil, depois da Dani nunca mais tive outra mulher. Para
mim, que fazia sexo várias vezes todos os dias quando trabalhava como
garoto de programa, estou subindo as paredes. Mas se não for com ela eu não
quero, por isso até a sua respiração me deixa excitado. Imagina um beijo? É
demais para o meu psicológico olhar para esses lábios pequenos rosados
levemente inchados, a minha vontade é pular em cima dela e não sair nunca
mais.

Para conseguir interromper o nosso beijo tive que juntar todo o meu
autocontrole, silenciando o fogo da paixão ardente que me consome por
dentro nesse momento e implora insistentemente para que eu volte a beijá-la
e não pare até que toda a saudade que sinto seja consumida.

— Muito obrigada por isso, Léo. E por estar aqui comigo. — Deita a
cabeça no meu ombro.
— Eu estarei sempre aqui para você e os nossos filhos, Daniele.
Sempre — prometo.

Mas ela não escutou, acabou cochilando. Já passa de uma da manhã e


deve estar muito cansada. E eu também, tem acontecido uma loucura atrás da
outra desde que essa mulher reapareceu na minha vida.

— Bom dia, vocês dois são os acompanhantes da Michelle? — A

enfermeira toca o meu braço, eu acabei pegando no sono também e o dia já


clareou.

— Somos sim, aconteceu alguma coisa com ela? — Dani acorda


assustada esfregando os olhos.

— Calma, senhora, ela está bem. Já está no quarto e deve acordar a


qualquer momento, um de vocês pode ficar de acompanhante dela.

— Eu fico, moça, não saio de perto da minha amiga hoje de jeito


nenhum.

— Certo, querida, é só me acompanhar que te levarei até o quarto da


sua amiga. — Trocam sorrisos amigáveis.

— Se não for incomodar, Léo, poderia ligar para a Paula e explicar


melhor o que aconteceu? Ontem só pedi que cuidasse do meu filho porque a
Michelle precisava de mim e saí correndo para o hospital e deixei o meu
celular em casa.
— Não se preocupa com isso, hoje estou de folga e posso passar lá e
pegar o Marcelo e passar o dia com ele. Se você autorizar, é claro — peço

sem jeito, passar o dia com o garoto seria o máximo.

— Sem problemas, Léo. Ele vai ficar feliz. — Sorrio, não consigo
esconder minha satisfação com a sua autorização.

— Pode ficar com o meu celular para caso precise de alguma coisa,

está com internet e bastante crédito. — Tiro o aparelho do bolso e entrego


para ela.

— Muito obrigada, eu preciso mesmo fazer algumas ligações


importantes para o meu trabalho. Tem alguma senha de desbloqueio?

— Daniele. — Fico muito vermelho do seu olhar surpreso, até a


enfermeira percebe o clima constrangedor.

— O que foi, Léo?

— Você não entendeu, Daniele. A senha de desbloqueio é o seu


nome. — Ela engole em seco, fico mais vermelho ainda.

Porra! Eu não tenho memória boa para senhas, então coloquei a


palavra em que penso a cada segundo.

— Pode levar o meu carro e as chaves do meu apartamento, se vai sair


com o Marcelo precisa fazer ele tomar banho e colocar roupa nova. Não
esquece de levar um lanche, água e os…
— Remédios de dor de cabeça e enjoo, eu sei isso de cor. Você já
disse um milhão de vezes. — Trocamos sorrisos.

— Vocês dois já terminaram? Desculpa, mas não tenho o dia todo,


tenho que servir o café da manhã dos pacientes — a enfermeira corta o nosso
momento.

— Desculpa, enfermeira, só preciso de mais um minuto para pegar o

notebook da empresa que está no banco de trás antes de o Léo ir embora. —


A acompanho até o lugar onde estacionou o carro.

Não sabia que tinha mudado de emprego, estou feliz por ela. E por
mim mesmo, antes eu estava proibido de pisar na calçada do seu prédio e
agora recebo a chave do seu apartamento de suas próprias mãos. Na minha
opinião, é um grande avanço.

— Te vejo mais tarde, diz para o Marcelo que vou logo.

— Está bem, Daniele, se cuida. — Nos despedimos de maneira

cordial.

Vou embora satisfeito com essa pequena aproximação que se inicia


entre a minha Boneca e eu, pena que em um momento tão tenso. Por um
momento pensei que Michelle não ia sair dessa, mas tudo deu certo no final.
Não tudo de fato, ainda falta a polícia pegar o agressor que fez essa covardia
com ela.
Antes da Dani chegar no hospital, a polícia, acionada pela médica de
plantão, apareceu para averiguar os fatos. Dei o meu depoimento e a

descrição física do cara, dando o máximo de detalhes que pude sobre o que
aconteceu. Contudo, só saberemos a história na íntegra quando ela acordar.

— Eu vou passar todo o meu dia de folga com o meu filhão, que
maravilha! — digo bem alto, animado.

Vou direto para a casa da Paula pegar o meu garoto, quero aproveitar
cada segundo com ele para compensar o tempo que passamos longe um do
outro.

— Isso é hora de acordar as pessoas, Léo? — Paula atende a porta


com uma touca de meia-calça na cabeça, praticamente dormindo em pé.

— Bom dia, vim buscar o Marcelo. A Dani vai ficar no hospital com
a amiga e me autorizou a passar o dia com o garoto.

— As crianças estão dormindo, seu babaca, mas entra aí, já que me

acordou mesmo. — Abre espaço para eu passar.

— Você é doce feito um coice de mula, Paula.

— Vai se foder, cara! E como a Miche está? — pergunta em um


longo bocejo.

— Eu vou fazer um café para nós e te conto tudo, Paula. Acho que
ainda sei como me virar na sua cozinha.
— Eu já disse hoje como eu te amo, Leozinho? — Agarra o meu
braço a interesseira, odeia cozinhar.

Conto tudo para ela, que se acaba de rir na parte em que o Felipe
arrancou a peruca do cara e jogou longe.

— Que noite foi essa, hein? Meu Deus! Felipe e os rolos dele. — Gira
os olhos. — Ainda bem que a Michelle sobreviveu a esse ataque brutal —

comenta.

— Mas você pode não ter a mesma sorte, Paula. Eu vi a reportagem


no jornal sobre a prostituta encontrada morta e estou muito preocupado
porque o cara ainda não foi preso. — Joga a xícara de café sobre a mesa e
massageia as têmporas, respirando pesadamente.

— Vira essa boca pra lá, Léo. Tenho andado com uma faca na bolsa e
spray de pimenta para me proteger. — Dá de ombros a teimosa.

— Isso não é o suficiente, mulher, devia dar um tempo do calçadão

pelo menos até esse cara ser pego — aconselho.

Mas como a madame não aceita opinião de ninguém, solta os


cachorros em cima de mim.

— Não posso me dar ao luxo de ficar à toa dentro de casa com as


pernas para cima, meu amor. Tenho uma filha pequena para criar —
esbraveja.
— Eu posso te ajudar a arrumar um emprego no supermercado onde
eu trabalho, Paula. Não é muito, mas dá para ter uma vida digna. — Contorce

o rosto como se eu tivesse lhe ofendido.

— Eu admiro muito a sua coragem de começar do zero, meu amigo,


mas não tenho a mesma força. Minha vida não tem mais jeito, mas da Maria
sim. Quero dar a ela tudo o que não tive e para isso tenho que continuar no

calçadão. — A teimosa bate o pé, irredutível.

— E se acontecer alguma coisa com você, o que vai ser da sua filha?

— Você vai cuidar dela por mim, Léo. Viu a Maria nascer e crescer.
Foi o pai que ela não teve. Por isso, se eu vier a faltar, tem que me prometer
que vai criá-la para ser uma pessoa do bem. — Me olha de um jeito estranho
que não me agrada nadinha, sempre foi meio sensitiva.

Prevê as coisas antes que elas aconteçam, parece até bruxaria. Sempre
foi assim desde que a conheci.

— Vamos parar por aqui com essa conversa, Paula, porque eu não
estou gostando do rumo dela. Não vai acontecer nada de ruim com você,
então relaxa. — Tento me levantar da mesa, mas ela não deixa.

Segura as minhas mãos sobre a mesa e olha dentro dos meus olhos,
ela não vai sossegar até eu ouvir o que quer.

— Por favor, Léo. Só prometa! — Seu tom é trêmulo, quase


chorando.

— Tudo bem, Paula, eu prometo. Está feliz agora? Porra! —

resmungo puto com ela por me fazer prometer uma coisa dessas, eu quero
sim participar da criação da minha afilhada, mas não dessa maneira.

Quero que a Paula veja a filha crescer, estudar e arrumar um emprego


bacana. Talvez casar e lhe dar netos.

— Muito obrigada, amigo. — Se joga por cima da mesa e me abraça.

— Agora já chega, mulher, tive uma noite de cão. — Bocejo, meu


corpo está todo dolorido de dormir sentado.

— Está com uma cara horrível mesmo, Léo. E fedendo. Precisa de


banho e cama. Eu tenho um moletom grande, talvez sirva em você — fala
com a boca cheia de manteiga de amendoim com sorvete de creme direto do
vidro, começa a comer porcaria logo cedo.

Não sei como Paula mantém o corpo em dia com esse monte de
porcaria que come e não passa nem perto da academia, muitas mulheres se
matariam para ter a sua boa genética física.

— Na verdade, como a Dani deixou as chaves do apartamento dela


comigo, pensei em dar uma olhada no guarda-roupa. Com muita sorte,
encontro alguma roupa minha que ela esqueceu de jogar no lixo.

— Hummm, ela deixou a chave do apartamento com você, Léo? —


implica.

Levanta e faz cócegas em mim.

— É muito bom voltar a fazer parte da vida deles. Esse garoto é meu
filho! E dane-se quem diga o contrário — afirmo.

— E em breve vem mais um filhote para esse ninho, está feliz, meu

amigo?

— Demais, Paula, eu não sabia que era possível sentir tanta alegria
assim, tanto que às vezes parece que o meu coração vai explodir.

— Oh, que fofinho! — Minha amiga me abraça.

Desde que descobri sobre a gravidez, não consigo parar de pensar em


como vai ser o rostinho do nosso bebê. Quero participar de tudo, cada
consulta e exame. No dia do parto, quero acompanhar cada minuto e ser um
dos primeiros a pegar o meu filho no colo.

— E eu estou feliz por você, Tigrão. Agora vai tentar descansar, mas
não tenha muita esperança de encontrar alguma coisa sua no apartamento
dela — implica.

— Me avisa quando as crianças acordarem, Paula — peço.

Assim que abro a porta do apartamento da Dani me sinto em casa


novamente, tudo está do mesmo jeitinho que eu me lembrava. Limpo e
organizado. Como se eu nunca tivesse ficado fora por tanto tempo. Só estou
achando quieto demais.

— Bola de pelo? — Solto um assobio.

Em um segundo:

— Uau… Uauuu… — Walter chega batido, pulando e latindo em


volta de mim.

— Isso tudo é saudade de mim, carinha? — Pego o pinscher no colo e


aliso a sua pelagem preta e brilhante, ele me olha com as orelhas em pé como
se entendesse o que eu digo.

— Eu também senti sua falta, Walter. — Balança o rabinho


mostrando os dentes pontiagudos, empolgado.

Cacete! Agora até eu comecei a falar com esse bicho como se fosse
uma pessoa de verdade. Mas essa bola de pelo me conquistou de um jeito que
para mim é como se fosse. Juntos vamos até o quarto da dona dele, esse

cômodo da casa em especial me traz ótimas lembranças.

Passei deliciosos momentos com a Dani dentro dessas quatros paredes


e é bem possível que o nosso bebê tenha sido feito sobre essa cama.

— Minha nossa! — Fico impressionado com o cronograma que a


Dani montou na parede de frente para a cama, organizado por datas,
consultas e resultados de exames.

Sorrio. Para quem não sabia nem fritar um ovo quando a conheci, está
se saindo uma mãezona.

— Espera um pouquinho aqui, parceiro. — Deixo Walter sobre a

cama e abro o guarda-roupa para dar uma olhada. Para minha total surpresa,
Daniele não jogou nada meu fora.

O lado que ela separou para mim no seu guarda-roupa está todo
exatamente do jeito que deixei, dobrado e organizado. Pego uma calça jeans

escura e uma camisa branca e tomo um banho, em seguida me deito na cama


de Daniele para descansar um pouco. Porra! Como é bom estar de volta e
reviver tantas memórias boas, memórias de quando eu era imensamente feliz
e não sabia.

— Que saudade! — Agarro o travesseiro, o cheiro de Daniele está


impregnado nele.

Deixo todos os músculos do meu corpo relaxarem e durmo


serenamente, com um sorriso no rosto.

— Papai, você está dormindo? Acorda! — Marcelo pula em cima da


cama como se fosse um trampolim, é bom acordar como nos velhos tempos.

— Oi, filhão, bom dia! — Esfrego os olhos na tentativa de espantar o


sono, não faço ideia de quanto tempo dormi, mas foi pouco comparado ao
meu cansaço.

— Bom dia, papai, a tia Paula me disse que vamos passar o dia juntos,
é verdade?

— Sim, campeão, animado?

— Muitão! — Se joga sobre mim e me abraça, Walter aparece latindo


e se junta a nós.

— Eu também, filho.

— Quer jogar bola comigo, papai?

— Bora se arrumar, Marcelo? Eu tive uma ideia de um rolê da hora.


Se formos rápido, conseguiremos chegar a tempo de comprar os ingressos. —
Batemos nossas mãos.

Ajudo Marcelo no banho, ele escolhe uma camisa branca e calça


jeans, como as roupas que estou usando. Fico orgulhoso dele querer se vestir
parecido comigo.

Saímos de casa correndo, mas conseguimos chegar a tempo para

comprar os ingressos do jogo do meu time do coração, Flamengo, contra o


Vasco no Maracanã, em uma partida amistosa como entretenimento para
arrecadar dinheiro para as vítimas do desastre em Brumadinho. Eu até chamei
o Felipe para vir comigo, já que hoje estaria de folga. Mas ele tinha outro
compromisso importante, então acabei desistindo de ir sozinho.

— Podemos comprar uma camisa do time, papai? — Marcelo aponta


para o vendedor ambulante.
— Claro, filho, mas precisamos ser rápidos — aviso.

— Então, vocês querem camisa de qual time?

— Flamengo — digo cheio de orgulho.

— Eu quero do Vasco, moço. É o meu time favorito. — Marcelo


levanta o dedinho, animado.

— Que história é essa, filho? Você nunca me disse que torce para esse
time de mer… — Paro antes de falar uma palavra feia, engolindo a
implicância que nós flamenguistas temos com os vascaínos.

Eu sempre soube que o Marcelo ama futebol, por isso o trouxe no


estádio. Mas que o Vasco é o seu time favorito é novidade para mim.

— Você nunca me perguntou, ué. — Dá de ombros.

— Você decide, papai — o vendedor diz com deboche.

Olho para as camisas do Flamengo e do Vasco e a decisão não é

difícil, não precisei nem pensar muito para responder.

— Duas do Vasco, por favor. — Engulo em seco, os ossos do meu pai


devem estar revirando dentro do caixão nesse momento.

Como os do meu avô e bisavô, todos eram flamenguistas doentes.


Assim como eu. No entanto, se o meu filho quer ter uma camisa do Vasco,
ele vai ter uma e ainda vamos sentar do lado da torcida preto e branca.
— Boa escolha, rapaz, ser pai é fazer sacríficos — diz o vendedor
ainda rindo.

— Nem me fale, cara. — Pago as camisas e vamos para a fila


comprar os ingressos, está bem mais barato comparado a uma partida de
campeonato.

Passo por cima do meu orgulho rubro-negro e sento na arquibancada

vascaína, vai ser uma experiência peculiar. O que importa mesmo é que o
meu moleque está em êxtase em poder assistir a um jogo de perto.

— Sabe, papai, toda vez que eu assistia um jogo eu fingia que estava
dentro da TV com a camisa do time e sentado na arquibancada com você.
Meu melhor amigo no mundo todo. — Abraça a minha cintura e afago os
seus cabelos, grato por poder proporcionar essa alegria ao Marcelo.

— Olha, filho, os jogadores estão entrando. — Bate palmas.

— Agora eles vão cantar o hino nacional, filho, um dos momentos

mais bonitos. — Coloca a mão direita sobre o peito e canta o hino nacional
junto com um coral gigante formado pela torcida, enquanto eu mal sei a letra.

O juiz apita e a bola começa a rolar, a alegria do Marcelo é maior a


cada minuto. Ele ri e chora de felicidade sem acreditar que está mesmo
vivenciando esse momento épico que só quem é apaixonado por futebol
entende. E eu sou um deles, tanto que nos quarenta e cinco minutos do
primeiro tempo o atacante do Flamengo avança para cima do gol e um grito
de torcedor fica preso na minha garganta.

Seguro até onde posso, mas quando o jogador chuta e faz aquele gol
bonito, daqueles de fazer o coração parar, a euforia é mais forte do que eu.

— Vai, Mengão! — Fico de pé com os braços erguidos e solto um


grito vigoroso, cheio de orgulho do meu timão.

Mas então volto a mim rapidamente e engulo em seco. Olho para os


lados e vejo pelo menos uma centena de vascaínos muito raivosos à minha
volta, prestes a me partir em pedacinhos.

Olho para baixo e vejo Marcelo sentado me olhando de cima para


baixo, confuso, já que eu sou o único de pé comemorando o gol do time
adversário.

— Quero dizer, vai, Vascão! Ainda dá tempo de virar esse jogo, nós
acreditamos em você. — Dou um sorriso amarelo e me sento totalmente sem

graça com os ombros encolhidos, essa foi por um triz.

— É isso aí, papai, nós vamos ganhar. Vasco… Vasco… Vasco. —


Marcelo sobe em cima do banco e anima os torcedores à nossa volta em um
grito de guerra, em segundos toda a torcida está gritando o nome do Vasco.

Esse é o meu garoto!

O placar final do jogo foi 3x2 para o Vasco, fico muito satisfeito só
pelo prazer de colocar o Marcelo sobre os meus ombros e comemorarmos
juntos a vitória do time do meu filho. Até que não foi tão ruim assim ser

vascaíno por um dia, mas se depender de mim não vai se repetir tão cedo.

— Isso foi tão maneiro! Podemos vir de novo amanhã ver o Vasco
jogar, papai? — pergunta enquanto saímos do estádio.

— Amanhã não tem jogo, filho, talvez outro dia.

— Que pena, aonde vamos agora?

— É surpresa, filho. — Junta as sobrancelhas em uma careta muito


engraçada, depois solta uma risada divertida.

Estou ansioso para ver qual será a reação dele quando chegarmos na
loja, vai ter um surto de alegria.

— Caramba, pai! — diz de boca aberta.

Não sabe para onde olhar dentro da loja de bicicletas personalizadas

inspiradas em motocicletas de todos os modelos e cores para crianças, tendo


como público-alvo os filhos de casais que amam motos.

— Pode escolher a que quiser, Marcelo. — Seus olhos brilham iguais


a um farol, sem acreditar no que eu disse.

Esse moleque precisa conhecer a sensação de liberdade que é andar de


bicicleta pela primeira vez, lembro o momento mágico que foi quando o meu
pai me levou para comprar a minha quando tinha a mesma idade do Marcelo.
Hoje, poder proporcionar a mesma emoção que senti no dia para um filho
meu é algo gratificante.

— Eu quero aquela, pai. — Aponta para a bicicleta inspirada no


modelo da minha antiga moto, nas cores preta e prateada.

Sorrio internamente. Estava torcendo para que escolhesse essa, tenho


fé que algum dia ainda vou recuperar a minha motocicleta.

— Boa escolha, garoto, é um dos melhores modelos que temos —


comenta o dono da loja, muito receptivo.

— Também quero o capacete e todos os itens de proteção para


iniciantes, por favor — peço e o vendedor ri da minha cara.

— Deixa eu adivinhar, pai paranoico com segurança de primeira


viagem, não é? — brinca.

— Adivinhou, mas por pouco tempo. Tem outro moleque ou moleca a

caminho — conto meio abobalhado, ainda não consigo acreditar que é


verdade.

— Meus parabéns, cara. — Aperta a minha mão.

Marcelo sai da loja já empurrando a bicicleta, tão feliz que não para
de agradecer pelo presente, tomara que a mãe não se zangue por isso.
Comprei com dinheiro limpo, recebi o meu primeiro salário e nada é mais
gratificante do que poder gastar para fazer a alegria do meu filho.
Hoje está sendo um dia incrível e vai ficar ainda melhor, vou ensinar
o Marcelo a andar de bicicleta. Vai ser incrível vivenciar esse momento de

pai e filho.
Daniele

Toco os meus lábios e sorrio. Merda! Beijar o Léo foi como voltar aos

velhos tempos, quando éramos felizes. A verdade é que, se ele não tivesse
interrompido o beijo e respeitado a minha fragilidade, acho que teria
entregado os pontos de vez. Fiquei surpresa com a sua atitude, nem em mil
anos poderia imaginar essa postura dele. Ainda não acredito que usa o meu
nome como senha do celular, e não é só isso. A foto de fundo de tela é uma
que ele tirou em uma manhã chuvosa de domingo na minha cama, com o
Marcelo deitado entre mim e ele, com um sorriso gigante, assim como nós.

— Estávamos tão felizes nesse dia — sussurro para mim mesma e

passo o dedo sobre a tela, sentindo uma dor aguda.

Uma pena que tudo teve um fim, destruído como um castelo de areia
ao vento. Confesso que estou tentada a abrir as mensagens do Léo e descobrir
se tem mantido contato com as suas clientes, mas não faço isso. Não é certo.
Muito menos é da minha conta.

Aproveito que Michelle está em um sono profundo para abrir o


notebook da empresa e começo a trabalhar, dando continuidade à
investigação sobre o meu caso. Faço centenas de ligações e anoto tudo que

descubro em um relatório para mostrar ao Gonzales, quero ter algo bem


sólido até o dia do julgamento.

— Boa tarde, trouxe o almoço de vocês. Com direito a sobremesa e


tudo. — A enfermeira entra com duas bandejas recheadas, veio na hora certa

porque o meu bebê já está com fome.

Estou com um apetite desenfreado hoje.

— Muito obrigada, enfermeira Flavia, está com uma cara ótima. —


Meus olhos vão direto na gelatina de abacaxi, chego a morder os lábios com
desejo.

Depressa, arrasto o notebook sobre a pequena mesa de canto onde


montei meu local de trabalho provisório para que ela coloque a bandeja.

— De nada, querida, se precisar é só chamar. Bom apetite. — Pisca

para mim e se vai depois de um sorriso gentil.

Troco a ordem e como a sobremesa antes do almoço, se não comer


essa gelatina logo vou ter um troço. Não deixo nada no prato, além do bife de
carne de boi. Não coloquei mais carne na boca desde criança. Quando
descobri que os animais tinham que morrer para nos alimentarmos deles,
chorei por pelo menos uma semana, inconformada por conta disso.
Mesmo ainda com fome, não toco no prato de sopa da Michelle. Ela
pode acordar a qualquer momento e estar com fome.

— Hum, mas será que ela vai se zangar se eu comer só um pouquinho


da sua gelatina? — Minha gula sem fim diz que não, decido pegar só uma
colherzinha minúscula.

— Deus está vendo você roubar a minha gelatina, Bonequinha. —

Escuto a voz de Michelle bem franca, quase inaudível.

Graças a Deus, depois de várias horas ao seu lado, enfim minha amiga
acordou com o seu bom humor de sempre. Isso é um ótimo sinal.

— Você me deu um susto danado, criatura. — Inclino e beijo o seu


rosto.

— Eles já pegaram o cara que fez isso com o meu rostinho lindo? —
Passa as pontas dos dedos sobre as ataduras no seu rosto, o estrago foi feio.

Mas o médico disse que em algumas semanas não ficará nenhuma


cicatriz desse ataque brutal. Pelo menos não externas.

— Já sim, amiga, um policial esteve aqui não tem nem dez minutos
para avisar que o agressor foi pego, graças às descrições detalhadas que o
Léo deu no seu depoimento. — Sorrio para a minha amiga.

— Graças a Deus! — murmura aliviada.

— Você o conhece?
— Nunca tinha visto na vida. Eu estava de boa no banheiro da boate
retocando a minha maquiagem quando esse homem pareceu do nada e

começou a me agredir, parecia possuído pelo diabo. Se ele não tivesse ouvido
os passos do Léo chegando, teria me matado. Devo minha vida ao seu boy,
amiga. — Sinto um aperto no peito ao imaginar a cena; eu, no lugar da
Michelle, teria ficado apavorada.

— Ele não é mais o meu boy. Michelle. Na verdade, nunca foi. —


Reviro os olhos.

— Sei… — debocha.

Até tenta soltar uma das suas risadas escandalosas, mas a dor não
deixa.

— Mas o fato é que devo a minha vida ao Léo, preciso agradecê-lo


pessoalmente por isso — completa.

— Eu tenho certeza de que o Léo vem te visitar, amiga, não se

preocupe.

— Tomara, é um ótimo rapaz. Deveria dar outra chance para ele.

— Oi? Até ontem você queria arrastar a cara dele no asfalto por tudo
o que ele me fez, sua traidora! — brinco levando as mãos na cintura e
fingindo estar brava.

— Quando eu disse isso, Dani? Que difamação. — Se faz de boba.


Nós duas rimos.

— Fiquei com tanto medo de te perder, amiga. A culpa é toda minha.

Devia ter aceitado o seu convite e ido nessa bendita boate com você, não teria
deixado ninguém te machucar — afirmo e ela me olha pelo canto dos olhos.

— Graças a Deus que não foi, Dani. Poderia ter perdido o seu bebê,
não quero nem pensar nisso. — Me deito do lado da minha amiga na cama,

grande o suficiente para nós duas, não sei o que seria de mim sem ela.

— Tudo está bem agora, Miche. — Entrelaço nossos dedos.

— Você pode pegar o meu celular na minha bolsa, amiga? Preciso


avisar os meus pais e no meu trabalho o que houve.

— Espero que não se zangue comigo, mas eu já fiz isso. Seu telefone
não parava de tocar, intercalando entre ligações dos seus pais e da Terezinha.
Eu atendi e contei o que houve. Todos estão a caminho, devem chegar em
breve. — Faço carinho na sua careca.

— Eu nunca ficaria zangada por você cuidar de mim, Dani. É uma


ótima amiga, me ama do jeito que sou.

— Como assim alguém como você? — pergunto tomada pela


confusão, Michelle é uma das pessoas mais incríveis que tive a sorte de
cruzar o meu caminho.

— Uma transexual, muita gente tem até nojo de mim. Tento fingir
que isso não me afeta, mas não é tão fácil assim. Enquanto me agredia, esse
homem repetia que odiava todos da minha corja. Entrou na boate decidido a

extravasar o seu ódio. — Aperta os olhos.

— Sinto muito, Miche, não por você, mas sim por esse homem. Deve
ser horrível carregar tanto ódio no coração, a ponto de sair disposto a ferir o
outro para defender a sua falsa verdade sobre o certo e o errado.

— Esse tipo de pessoa tem aos montes por aí, quando não usam a mão
para bater recorrem às palavras. Pode acreditar, Dani, essas feridas externas
não são nada comparadas às que carrego no coração. Tudo o que mais sonho
é que a sociedade me veja como eu me vejo — conclui tristemente.

— E como você se vê, Michelle? — indago.

— Uma mulher normal. Que luta para viver a vida de maneira digna,
sem fazer mal a ninguém — assume por fim, mostrando um lado frágil seu
que eu particularmente não conhecia.

— Sinceramente, Michelle, não consigo te ver como uma mulher


normal. Para mim você é muito mais do que isso. É uma guerreira, uma ótima
amiga e…

— Ótima filha também… — diz um senhor negro e alto com os olhos


marejados, de braços dados com a esposa, os dois são um misto dos traços
faciais de Michelle.
O sorriso da mãe é idêntico ao da minha amiga, os olhos também.

— Só assim para esses dois saírem de casa e virem me visitar,

Daniele. — Tira sarro da cara dos pais.

Pulo de cima da cama, morta de vergonha de ter invadido o leito da


filha deles, não quero que pensem que sou folgada.

— Menos drama, filhota da mamãe, nós vamos te visitar toda semana,


não é, querido? — Se aproxima da cama e beija a careca da filha
carinhosamente.

— E mesmo assim essa menina ainda continua se metendo em


confusão, ainda bem que dessa vez o estrago não foi tão feio, querida. — O
pai deposita um beijo no mesmo lugar que a esposa, com a mesma
intensidade de afeto e cuidado.

O carinho deles com ela, como se ainda fosse uma criança, é tocante,
Michelle tem sorte por ter nascido em uma família tão amorosa. Meus olhos

estão em lágrimas.

Então essa não é a primeira vez que eles vêm visitar a filha em uma
cama de hospital depois de ser agredida? Meu Deus, que triste isso.

— Graças ao boy da minha amiga ali, oh, ele salvou a minha vida e
ela veio cuidar de mim. — Fico tímida.

Com certeza minhas bochechas estão avermelhadas.


— Então essa é a famosa Dani? Bem que você disse que ela parece
uma bonequinha, filha — elogia a mãe.

Fico mais vermelha ainda, com as mãos unidas em frente ao corpo.

— Muito obrigada pelo que você e o seu boy fizeram pela nossa filha
e por nos deixar a par da situação, eu e o meu marido seremos eternamente
gratos por isso — conclui a mãe.

Os dois me abraçam, despejando sobre mim uma chuva de amor e


gratidão paternal. Depois de algumas horas de uma boa conversa, percebo
que, além de gentis, os pais de Michelle são tão divertidos quanto a filha.
Agora sei de onde minha amiga herdou todo esse bom humor.

Tanto que passamos horas conversando sobre as coisas que a minha


amiga aprontava quando criança, a mais hilária de todas foi quando a mãe da
Michelle a pegou aos quatro anos vestindo as suas roupas e desfilando pela
casa com os sapatos alto preferidos dela e uma camisa do pai na cabeça,

fingindo ser cabelo longo. Segundo ela, foi nesse momento que viu que era
mãe de uma menina e não um menino. Chorei de tanto que ri, tem um jeito
engraçado de contar histórias.

— Vocês são uma família linda, é uma enorme alegria conhecê-los —


digo em um cochicho, cansada e sem dormir direito.

— Por que não vai para casa e descansa um pouco, filha? Nós
cuidaremos da Michelle agora. — Dona Bete acaricia o meu rosto.

— E eu faço questão de levar você em casa, mocinha, é o mínimo que

posso fazer por cuidar da nossa Michelle — oferece o senhor Valério, e eu


aceito, é claro.

Me despeço da minha amiga e de sua mãe, prometendo voltar em


breve. Pouco tempo depois fui deixada na porta do meu prédio. A primeira

coisa que vejo assim que saio do carro é o Léo ensinando o Marcelo a andar
de bicicleta, tendo como cenário um finalzinho de tarde alaranjada com o sol
se pondo timidamente ao fundo, daquelas coisas de fazer o meu estúpido
coração voltar a se derreter por esse homem.

Fico os observando sem que notem a minha presença, os dois são


como peças de um mesmo quebra-cabeça complexo que ninguém consegue
entender direito o significado, até que estejam juntas.

— Você não vai me soltar, não é, papai? — grita Marcelo sobre a

bicicleta nova, pedalando sem olhar para trás.

— Eu já soltei faz tempo, filho. — Sorri em um misto de orgulho e


emoção.

— Uhulll, papai… eu consegui! — comemora sem perder o controle


do guidão.

— Isso aí, passarinho. Voa! — Léo ergue os braços com as mãos


fechadas em punho sobre a cabeça, dando pulos no meio da rua,
comemorando junto a conquista.

Ele está usando uma camisa do Vasco? Que estranho, podia jurar que
era flamenguista doente. Sei lá, não entendo muito sobre futebol.

— Ei, mamãe, você chegou. Olha, eu sei andar de bicicleta! —


Marcelo nota a minha presença e vem até mim cambaleando um pouco, mas

para na minha frente sem cair.

— Eu estou vendo, meu amor, parabéns! — Beijo o seu rosto


redondinho.

— Olha a minha bicicleta nova, foi o meu pai que me deu. Não é
bonita?

— É sim, filho, já agradeceu o seu pai?

— Já sim, ele é o melhor pai de todas as galáxias. Me levou num

estádio de verdade, vimos o jogo do Vasco contra o Flamengo de pertinho. —


Aponta para a sua camisa nova do Vasco, é o seu time favorito.

Agora tudo faz sentido.

— Que legal, querido, agora vai aproveitar sua bicicleta nova. —


Limpo o canto da sua boca suja de sorvete, não vou nem perguntar o tanto de
porcaria que o Léo deve ter dado para essa criança comer hoje.

Falando no diabo…
Trocamos olhares de longe, por um bom tempo. Ele andou mexendo
no meu guarda-roupa porque está usando roupas que deixou aqui em casa, e

eu, idiota, não tive coragem de jogar no lixo. Na verdade, na época pensei em
colocar fogo, mas acabei esquecendo.

Droga, ele está vindo falar comigo!

Fico nervosa, não sei como agir depois do nosso beijo no hospital. Eu

nunca sei como agir na frente desse homem, ainda mais com esse sorriso de
canto de molhar calcinha.

— Desculpa por ter levado o Marcelo no estádio para assistir ao


primeiro jogo, tive a ideia no calor do momento. Também quero que saiba
que comprei a bicicleta com dinheiro limpo, ontem recebi o meu primeiro
salário trabalhando no supermercado. Estou muito orgulhoso de mim.

— Eu também estou — solto sem querer, tropeçou da minha boca


antes que eu pudesse agarrar e enfiar de volta goela adentro.

Você é uma idiota mesmo, Daniele!

— Sério? Não sabe o quanto é importante para mim saber disso, Dani.
— Beija o meu rosto no momento de euforia e sorri apaixonado, sem tirar os
olhos de mim enquanto repito na minha mente:

Ele é um mentiroso!

Ele vai te machucar de novo!


Fique longe!

— A Michelle acordou e quer te ver, se puder passar lá para visitá-la,

ela vai ficar muito feliz — mudo de assunto bruscamente, apertando o


notebook bem forte contra o peito em modo de defesa.

— Claro que irei, hoje à noite tenho um compromisso e não posso.


Mas amanhã dou uma passada no hospital antes de ir para o trabalho.

Um compromisso, é? Interessante, não duvido nada se tiver alguma


mulher no meio. Não estou nem aí, ele é um homem livre.

— A propósito, eu esqueci de perguntar. O que você estava fazendo


em uma boate gay quando encontrou Michelle? — não resisto, tinha que
perguntar.

— Sabia que cedo ou tarde você iria perguntar. Eu fui dar uma força
para o Felipe, longa história. — Gira os olhos.

— Entendo, Léo. Antes que eu me esqueça, aqui está o seu celular.


Obrigada. — Lhe dou um sorriso amarelo.

Me viro e aceno de longe para o Marcelo, que se diverte dando voltas


mais ousadas sozinho com a sua bike nova. Ele aprende rápido.

— E sobre nós, Daniele? Quando vamos ter a conversa sobre o nosso


outro filho? Estou tentando ser paciente, mas não consigo tirar isso da
cabeça.
— Eu ainda não estou pronta para ter essa conversa com você, Léo.
Nem sei se quero, ainda não decidi se vou deixar que faça parte da vida dessa

criança — digo sem travas na língua, não esqueci tudo o que ele fez comigo
só porque, pelo que parece, agora resolveu criar vergonha na cara e virar
homem.

Vai precisar de muito mais do que isso para conquistar minha

confiança de volta, Leônidas Rafael.

— Só que isso não é você quem decide isso, Boneca. É a justiça —


esbraveja com a voz elevada, seus olhos estão fumegantes sobre mim.

— Depois do monte de merda que fez, acha mesmo que algum juiz
vai autorizar que faça parte da vida dessa criança? Eu duvido muito. — Elevo
a voz, estava demorando para me tirar do sério.

— Então você está mesmo mais uma vez disposta a usar um filho meu
para me ferir? Porque eu não esqueci a mentira que contou sobre o Marcelo, e

não me venha falar que foi para protegê-lo de mim porque nós dois sabemos
que não é verdade. — Eleva a voz mais ainda.

Léo se inclina e aproxima o rosto a centímetros do meu, então


conclui:

— Fez isso de caso muito bem pensado, para me punir. O que não te
faz muito diferente de mim, não é mesmo, Boneca? Eu usei o Marcelo por
dinheiro, e você por vingança. — Ergo a mão para dar outro tapa no seu rosto
como da outra vez que ousou me comparar com ele, mas dessa vez Léo

segura a minha mão em um rosnado felino.

— Parem de brigar, vocês estão assustando a Blue. — Marcelo joga a


bicicleta no chão e se enfia entre nós, ao seu ver protegendo a irmã.

— Não estamos brigando, filho, só conversando. — Léo se abaixa

para ficar da altura dele. — Agora o pai precisa ir embora, foi ótimo passar o
dia com você, campeão. Eu te amo — se despede.

Marcelo agarra o pescoço dele.

— Eu também te amo muito, papai, mas não vai embora não. Por que
não fica para jantar com a gente? — Faz beicinho para chorar.

— Ele não pode, Marcelo, tem um encontro à noite. — Mais uma vez
minha língua fala mais do que deve, mas cruzo os braços com um bico
enorme e mantenho a pose. — Quer dizer, outros planos mais importantes —

sibilo em um tom venenoso.

— Não precisa ficar triste, campeão, assim que der eu volto correndo
para te ver. — Limpa as lágrimas do Marcelo com o polegar.

— Você promete mesmo, papai?

— Claro que sim, Marcelo, cuida bem da mamãe e do seu


irmãozinho. — Assente.
— Eu vou sim, você é o melhor pai do mundo — declara e por um
segundo pensei que o Léo fosse chorar.

— Pena que só você acha isso, filho. — Seu tom não poderia ser mais
doloroso.

Abraça Marcelo bem forte e vai, sem ao menos olhar para mim uma
última vez.

Foda-se!

— Pega a sua bicicleta e vamos para casa, Marcelo. O que acha de me


ajudar a preparar o jantar hoje?

— Ebaaa, podemos fazer aqueles bonequinhos legais de ovo cozido?

— Claro, meu amor, você manda! — Entramos no prédio


conversando, pensei que faria um escândalo como das outras vezes por causa
do pai, mas não.

Está se comportando como um homenzinho, espero que tenha


aprendido que não dá para conseguir tudo na base do choro e gritos. Nas
próximas horas tudo transcorre dentro da normalidade, Marcelo não para de
falar um segundo durante o jantar, sobre como foi incrível passar o dia com o
pai. Parece até mentira que o Léo sentou na arquibancada do Vasco, maior
inimigo do Flamengo, seu time do coração.

Tudo isso apenas para deixar o Marcelo feliz. Isso é realmente muito
lindo. Depois de lavar a louça e arrumar a cozinha, deixo Marcelo vendo TV
e vou tomar o meu banho e descansar um pouco. A primeira coisa que vejo

quanto entro no quarto é uma caixa de presente branca com um laço amarelo
muito bem feito, com um bilhete colado nela, que diz:

“Para o nosso bebê, não quero que fique com ciúmes porque só o

irmão ganhou presente. Com todo o amor do mundo…”

Léo.

Seguro o pedaço de papel com delicadeza e deslizo os dedos sobre as


letras compridas feitas à mão com caneta azul, ainda com o cheiro do Léo
impregnado nele. Emocionada, guardo o bilhete no meu bolso.

Sento na cama e coloco a caixa sobre o meu colo; pacientemente,

desfaço o laço e tiro a tampa.

— Ohhh, que coisa mais linda, meu Deus! — Ergo o macacão branco
com uma carinha de ursinho na frente, muito delicado e gracioso.

Aperto a peça contra o meu peito, como se estivesse de fato


abraçando o meu bebê de verdade. Eu fui tão rude com o Léo, e ele sendo tão
gentil com os meus filhos. Só não sei até quando isso vai durar, por isso
tenho tanto medo de envolver o meu bebê na montanha-russa que o Léo é e
sempre será na minha vida.
Dani

Depois de guardar o presente que o Léo comprou para o nosso baby,

tomo o meu banho com um sorriso no rosto e saio do banheiro com o meu
robe branco e toalha no cabelo, cantando a música da Marilia Mendonça,
minha xará de sobrenome. Naquela sofrência danada, usando a escova de
dentes como microfone.

“Iêê

Infiel

Eu quero ver você morar num motel

Estou te expulsando do meu coração

Assuma as consequências dessa traição

Iêê

Infiel

Agora ela vai fazer o meu papel


Daqui um tempo você vai se acostumar

E aí vai ser a ela quem vai enganar

Você não vai mudar.”

— Você ainda não está pronta para sair, ô Marilia Mendonça de

araque? — Uma voz ecoa no escuro do meu quarto.

— Meu Deus, que susto! — Acendo a luz até com a respiração


ofegante, não se pode nem cantar feito uma maluca dentro do próprio quarto
mais.

A bonita da Paula está sentada na minha cama, toda maravilhosa, com


uma regata laranja e shortinho curto ressaltando suas pernas grossas cruzadas.

— Susto coisa nenhuma. Daniele. Você, como sempre, está atrasada


— chama a minha atenção e eu nem faço ideia do que ela está falando.

— Atrasada para que, criatura? Aliás, a senhorita não foi trabalhar


hoje. Que milagre. — Pego o meu pijama no guarda-roupa, só quero me
enfiar dentro dele e desabar na cama depois de colocar o Marcelo para
dormir.

— Hoje é quinta-feira, esqueceu que combinamos de seguir os


maridos da Julia e da Yudiana para descobrir por que estão chegando tarde
em casa? Elas estão nos esperando lá embaixo no carro. — Passo a mão no
rosto, aconteceu tanta coisa essa semana que nem lembrei disso.

Mas, como promessa é dívida, e as minhas amigas estão comigo não

importa o problema, é claro que não vou ficar fora dessa, também estou
curiosa para saber o que o delegado e o juiz estão aprontando.

— Vou me trocar e já descemos, mulher. — Respiro frustrada.

— Ótimo! O Marcelo dormiu no sofá. Enquanto se arruma, vou levá-


lo para a minha casa e deixar com a babá da Maria.

— Está bem, Paula. Obrigada, fala para ela que vou lhe dar um extra
quando chegarmos. A coitada sempre cuida do Marcelo quando preciso. —
Assente, joga um beijo e se vai.

Visto um jeans e uma regata verde-água e coloco qualquer tênis,


depois descemos para encontrar as meninas. Nos dividimos em dois carros,
eu e a Julia fomos no meu carro para a delegacia para vigiar do lado de fora
quando o Delegado Avilar sair, para segui-lo. Yudiana e Paula montam o

plantão em frente ao fórum em que o Juiz Thompson trabalha.

— Será que só eu acho isso uma tremenda loucura, senhor? Devíamos


ter contratado um detetive particular, daria bem menos trabalho — digo em
um bochecho longo depois de esperar mais de uma hora do lado de fora da
delegacia.

Estacionamos o carro debaixo de uma árvore escura no final da rua


para não levantar suspeitas, estou caindo de sono.

— Acho melhor trocarmos de lugar, loira, deixa que eu dirijo.

Aproveita para tirar um cochilo e para de reclamar. — Aceito sem pensar


duas vezes.

Acordo assustada com a Julia me sacudindo pelos ombros, fazendo


um pequeno escândalo.

— Acorda, Dani, o filho da puta está saindo e não é para a casa. Me


mandou uma mensagem dizendo que vai trabalhar até tarde preenchendo uns
relatórios na delegacia. — Franze o cenho quando o marido entra no carro e
sai tranquilo, sem imaginar que a sua vida está em risco.

Porque se a Julia pegar o marido com outra mulher, o próximo caso


de homicídio a ser investigado vai ser o dele. O mesmo serve para o Juiz
Thompson.

Julia parte atrás do marido, com o farol baixo para não chamar muito

a atenção, mulher ciumenta é um perigo. Pensa nos mínimos detalhes para


provar que suas suspeitas estão certas. Envio uma mensagem no grupo que
montamos apenas para nós quatro no WhatsApp, dizendo que o lobo acabou
de sair da toca e estamos na sua cola.

Yudi responde no mesmo instante, o juiz também acabou de sair do


fórum. Ergo o celular e mostro para a Julia e ela faz uma careta muito brava.
— Sei que não é hora para perguntar isso, mas você descobriu alguma
coisa sobre o assassinato brutal da prostituta, como te pedi? — Percebo sua

postura endurecer enquanto dirige.

— Sim. Eu ia mesmo te procurar para falarmos sobre isso, a situação


é muito mais séria do que você pensa. — Sinto uma pontada estranha, não
gosto do tom da Julia.

— Sério quanto? — indago.

— Vamos por partes, Dani, primeiro vamos descobrir se estou


levando galhada na testa. Depois resolvemos o resto. —Apenas concordo,
está certíssima.

Vamos descascar um abacaxi por vez. Julia já está uma pilha de


nervos, ainda mais quando o delegado estaciona em frente a uma casa bonita
de dois andares, localizada num bairro mais antigo.

— Eu sabia que esse filho da mãe estava me traindo! Pode dizer adeus

às suas bolas, Delegado Avilar! — Estapeia o volante.

— Muita calma nessa hora, Julia, não tem nada provado ainda. Talvez
ele só esteja investigando algum caso secreto aqui nesse lugar — tento ser
compreensiva, mas ela gira o pescoço na minha direção igual à menina do
exorcista e me encara com os olhos enfurecidos.

— E o amiguinho dele veio ajudar, não é mesmo? — Aponta na


direção do juiz, chegando no seu carrão preto e estacionando do lado do
delegado, agora a coisa ficou feia mesmo.

— Putz! — Franzo a testa.

Eles apertam as mãos e trocam algumas palavras e risos, John tira as


chaves do bolso, abre a porta da frente da casa e os dois somem dentro dela.
Em segundos, Yudiana aparece do lado da minha janela e bate no vidro.

— Vamos logo, meninas, é agora que inicia a terceira guerra mundial.


— Yudi vai andando na frente com a Paula, pisando firme.

Julia e eu saímos do carro e partimos atrás das duas, estou com medo
do que vai acontecer daqui para a frente. Até então eu não acreditava na
possibilidade de seus maridos estarem as traindo, mas agora não sei de mais
nada.

— Os idiotas deixaram a porta destrancada, devem conhecer bem o


bairro e saber que é seguro — malicia Julia com a sua mente fértil.

Tiramos os sapatos e entramos pisando nas pontas dos pés sem fazer
barulho, a casa é antiga e tem móveis rústicos feitos com madeira de lei
escura. A luz baixa e confortável daquelas ótimas para tomar um vinho a
dois; na estante ao fundo da sala uma vitrola toca um disco de música
clássica em um volume baixo o suficiente para conseguirmos ouvir o som das
vozes vindo de uma porta no final do corredor.
— Pelas risadas altas, a conversa está boa lá dentro. — Paula cola a
orelha na porta, jogando mais lenha na fogueira, como se as nossas amigas já

não estivessem com os nervos à flor da pele com toda essa situação sinistra.

— Para mim já chega! Vou acabar com a festinha deles agora mesmo.
— Julia abre a porta em um rompante para chamar a atenção de todos dentro
da sala mesmo, ela odeia barraco, mas sabe fazer um melhor que ninguém.

— Fodeu! — Paula bate a mão no rosto.

— Posso saber o que está acontecendo aqui? — Julia solta um grito e


a minha cara vai ao chão, os rapazes de fato não estão sozinhos como
imaginávamos.

Aliás, estão muito bem acompanhados.

— Eu não tenho nada com isso, Julia. Foi tudo ideia do Thompson. —
Ricardo fica de pé com uma expressão de surpresa e medo, sabe muito bem o
gênio da mulher que tem.

— Vocês estão nos seguindo, Yudiana Thompson? — John cruza os


braços sobre o peito másculo, mantendo a pose.

Está sentado próximo ao quadro negro com algumas frases de


altruísmo escritas com giz branco, em letras maiúsculas e bem grandes.

— Boa noite, meninas, meu nome é Lilian. Entrem e se juntem à


nossa festinha. — Uma mulher de fala mansa e vestido florido vem nos
receber na porta, educadamente.

— Festinha?

Olho ao meu redor, deve ter no mínimo vinte pessoas aqui, entre
homens e mulheres de todas as idades, sentadas em círculo.

— Sim! Hoje o nosso grupo de apoio aos ex-dependentes químicos

está em festa porque um dos nossos companheiros está completando dez


semanas sem uso de drogas. — Aponta para o altar improvisado no fundo da
sala, onde um Léo muito tímido me olha com um microfone em mãos
trêmulas.

Coça a nuca, trocando o peso de um pé para o outro. Sorve o máximo


de ar que consegue e solta devagar. Lembro de ele uma vez me contar que
odeia falar em público. Talvez a minha presença inesperada só piore as
coisas. Vestido de maneira tão simples quanto o seu estado de espírito,
camisa preta com a estampa do Nirvana, jeans e as suas velhas botas de

couro.

— E… eu... — Tento dizer algo, mas não sai nada.

Nem em um milhão de anos imaginaria que a perseguição de dois


maridos suspeitos de traição terminaria dessa forma, em uma reunião de ex-
dependentes químicos. Isso não faz sentido algum.

— Por que você e as suas amigas não se sentam? Todas são muito
bem-vindas. — Até quatro malucas que arrombaram a porta quase matando
todos de susto, completo em minha mente.

— Vem, Dani, tem duas cadeiras vazias ali. — Paula me puxa pela
mão, Julia e Yudiana já estão sentadas ao lado de seus maridos em uma
discussão baixinha audível só entre eles.

— Agora que as nossas visitas estão acomodadas, pode dar início ao

seu discurso, Léo. Estamos ansiosos para ouvir o que tem a dizer. — Lilian
lhe oferece um sorriso de incentivo, acho que ela é a líder deste grupo.

Quando os meus olhos encontram os de Léo, tudo deixa de existir.


Somos só eu e ele, como nos velhos tempos. Sem mágoa ou ressentimento,
então nosso momento mágico acontece.

Trocamos olhares e sorrisos. Um pouco mais confiante, Léo começa a


falar.

— Boa noite a todos. Sei que ainda falta um longo caminho para eu

percorrer, mas vocês não sabem o quanto receber essa medalha de bronze
significa para mim. — Tira o objeto do bolso e ergue para que todos possam
ver, como se fosse um troféu. — Dois meses e meio limpo, e não é só essa
conquista que comemoro. Ontem recebi o meu primeiro salário com a carteira
assinada. Para quem não sabe, trabalhei como garoto de programa dos
dezessete anos até recentemente, quando conheci a mulher da minha vida. —
Olha no fundo dos meus olhos como se pudesse ler a minha alma e pisca para
mim. Chego a perder o ar.

Ele sorri de um jeito lindo, leve e cheio de paz. Somos agraciados por
uma comitiva de palmas e assobios, seus companheiros do grupo estão
orgulhosos dele, assim como eu.

— Uhuu! Isso aí, Léo! — grita Ricardo, ganhando uma cotovelada da

Julia.

Hoje na casa deles alguém vai dormir no sofá, tenho certeza.

— Mas essa vitória não é só minha, quero agradecer à Lilian por ter
me acolhido com tanto carinho neste grupo. Também tem aqueles dois caras
ali, que têm se mostrado amigos de verdade. — Aponta para o Ricardo e o
John, mesmo sob o olhar feio das minhas amigas. — Eu fiz muita coisa
errada. Mesmo assim, me deram uma chance de provar que estou disposto a
mudar de verdade e ainda me acompanham às reuniões para ter certeza de

que não terei nenhuma recaída. Sem o apoio deles e os puxões de orelha, não
teria conseguido. — Puxa uma salva de palmas e assobios para os amigos,
eles de fato merecem.

Espero de coração que a vitória dessa batalha seja a primeira de


muitas, que Léo se mantenha no caminho certo.

— Você ainda vai longe, cara, nós acreditamos em você —


Thompson acrescenta.

Yudiana e Julia trocam olhares raivosos, depois olham para os seus

respectivos maridos. Ameaçadoramente. Eles se fazem de bobos, continuam


a prestar atenção no discurso do Léo.

— Por muito tempo eu fui um homem sozinho, sem família, amor ou


amigos. Primeiro perdi a minha mãe, com leucemia estágio quatro, logo

depois minha irmãzinha, com o mesmo tipo de câncer. Meu pai não aguentou
a pressão e tirou a própria vida, e adivinha quem encontrou o corpo? —
Aponta para ele mesmo; antes de continuar a falar, limpa as lágrimas do
rosto.

O meu também está coberto por lágrimas. Sei como foi difícil para ele
contar a sua história quando estávamos apenas eu e ele no restaurante,
imagina para esse monte de pessoas? Devido a isso, espero pacientemente
que olhe na minha direção e sussurro:

— Você consegue, Leônidas Rafael — sussurro passando força.

Vai ser bom para ele se libertar de todo esse peso que carrega por
tantos anos. Precisa deixar o passado trágico de Léo para trás para que o
Leônidas Rafael possa criar um novo futuro.

— Eu não tinha mais ninguém, a dor era tão grande que recorri às
drogas. Comecei com a maconha, mas era fraca, depois então experimentei a
cocaína. Mas ainda não estava satisfeito, queria algo mais forte, então me
afundei no crack. Junto com ele vieram os desejos suicidas, minha amiga

Paula me salvou de uma overdose intencional. Lembro até hoje do seu olhar
de pavor quando voltei do coma, ela não conseguia parar de chorar, tipo
agora — faz piada e todos riem olhando para a coitada com o rosto vermelho
de tanto chorar, acredito que lembrando deste dia.

— Você me prometeu que nunca mais iria tentar tirar a sua vida, seu
filho da puta, acho bom que cumpra, Léo. Ou eu vou no inferno chutar a sua
bunda — Paula se zanga com ele, arrancando mais risadas das pessoas.

Com um sorriso estonteante de canto, Léo continua.

— Mas o crack não me trouxe apenas desejos suicidas, como também


dívidas absurdas com agiotas. E foi por conta dessas dívidas que cometi o
maior erro da minha vida. Em poucas palavras, vendi o meu filho e a mulher
mais incrível do mundo para o diabo. E eu nunca vou me perdoar por isso,

por ter perdido o amor e o respeito da mãe dos meus filhos por conta desse
maldito vício — desaba em um tom embargado.

Ajo por impulso e vou até o Léo para abraçá-lo bem forte, quero que
saiba que, independente de qualquer coisa, estou muito feliz pelas suas
conquistas. Por mais que eu queira ou tente, nunca conseguirei odiá-lo.

— Você perdeu o meu respeito, Léo, mas acabou de reconquistá-lo


hoje. Muitos cometem erros e caem durante o caminho, mas são poucos os
que têm a mesma coragem que a sua de levantar e recomeçar do zero. —

Sorrio sincera.

Léo me abraça novamente, aquele abraço de urso como se eu fosse


todo o seu mundo.

— Eu não sei como veio parar aqui, Daniele. Mas estou muito feliz

que veio. — Alisa a lateral do meu rosto, fecho os olhos lembrando de como
é boa a sensação do seu toque.

— Viva o nosso companheiro Léo! — alguém grita no fundo da sala,


então as pessoas fazem uma fila para cumprimentá-lo.

Os salgadinhos e refrigerantes começam a ser servidos, tem até bolo


com duas velinhas em cima. Tudo por conta do Ricardo e do John, eles
tiveram a ideia da festinha no grupo para comemorar as dez semanas que o
Léo está limpo.

Eu, é claro, começo a comer tudo que vejo pela frente, como se o
mundo fosse acabar amanhã.

— Quando chegarmos em casa, você vai ter que me explicar


direitinho essa história de ajudar o Léo pelas nossas costas, Delegado Avilar
— avisa Julia, com a boca cheia de bolo.

O marido dá de ombros.
— Mas essa explicação vai ficar para mais tarde, amor. Eu e o John
temos outro compromisso depois da festa.

— Que compromisso, John? Chega de surpresas por hoje. — Yudiana


enruga o nariz.

— Léo voltou a estudar, quer terminar o terceiro ano para depois


prestar vestibular e fazer faculdade. Então entrou para o projeto EJA. Mais

conhecido como supletivo, uma grande oportunidade criada pelo governo


para quem não conseguiu finalizar o colégio no período regular e busca
melhorias para a sua vida pessoal e profissional. Podendo, assim, concluir os
estudos em poucos meses. E eu e o Ricardo estamos dando uma forcinha a
ele nisso — explica Juiz Thompson, como sempre muito bem informado
sobre qualquer assunto.

Olho para o Léo de longe, conversando com a Paula e apresentando


seus colegas do grupo. Não sei o que estão falando, mas minha amiga está

muito emocionada. Ela também está muito feliz por essa conquista do amigo.

— Então vocês estão chegando tarde em casa todas as quintas-feiras


porque, além de acompanharem o Léo nas reuniões, o ajudam a estudar?

— Sim, Daniele, como Léo não tem condições de pagar um professor


particular para lhe dar um reforço em algumas matérias em que está tendo
dificuldade, e não aceita que nós contratemos uma para ele, Lilian nos
emprestou essa sala para ajudá-lo a estudar depois das reuniões — conclui
Ricardo. Fico estupefata.

Olho para ele sem acreditar no que ele acabou de dizer, a atitude dele
e do John não tem nem nome.

— Meu Deus! isso é tão…

— Absurdo! — berra Yudiana, completando a minha frase.

Na verdade, eu ia dizer humano. Gentil e extremamente bondoso.

— Eu penso a mesma coisa que a Yudiana, eu estou comovida com a


história do Léo. Mas como podem ajudar esse cara depois do que ele fez para
a nossa amiga e o Marcelinho? — esbraveja Julia.

— Óbvio que nós não esquecemos tudo o que o Léo aprontou, até
fomos atrás do cara para dar uma boa lição nele, mas quando vimos o estado
dele, sem tomar banho há dias ou comer, percebemos que estava mesmo

arrependido, então resolvemos ajudá-lo. Mas não contamos nada sobre a


gravidez da Dani. — Meu coração aperta ao ouvir isso, mas infelizmente
cada um colhe o que planta.

— Tanto faz, nada justifica vocês estarem ajudando esse cara.

— Ah, me poupe, Julia! Você e a Yudi seriam capazes de esconder


um corpo para proteger alguma amiga de vocês. Estou mentindo? — Um
silêncio se faz presente, então todos nós começamos a rir.
— E ainda iria fazer você sumir com as provas do crime, amor. —
Julia enlaça o pescoço do marido e o beija apaixonadamente.

Não conseguem ficar brigados por muito tempo, é incrível como o


amor entre eles só cresce a cada dia.

— E eu, Yudi, não ganho beijo? — John abre os braços para a esposa,
que faz um pouco de charme, mas acaba cedendo.

— Eu não sei se fico brava ou orgulhosa por você, Thompson. —


Enfim se beijam.

Com esses dois também não é diferente, são um casal modelo de pura
felicidade.

— Bem, acho que estou sobrando aqui. Vou procurar a Paula. — Saio
de fininho.

Não encontro minha amiga, mas vejo Léo no canto da sala, quieto,

observando a própria festa. Me aproximo dele sem graça. Ele sorri quando
me vê chegar, daquele jeito que sempre me faz sentir especial.

— Por que está escondido aqui, Léo?

— Só estou curtindo de boa o meu refrigerante de laranja, hoje foi um


dia cheio de grandes emoções. — Ergue o copo de plástico na minha direção,
todo brincalhão. — Além do mais, o olhar ameaçador das suas amigas está
me assustando, melhor ficar na minha. — Dá de ombros ainda rindo.
— Desculpa pelo jeito que falei com você hoje mais cedo, Marcelo
me contou o dia maravilhoso que vocês tiveram. Não acredito que sentou

junto com a torcida do Vasco.

— Nem eu! — Revira os olhos. — Mas o que importa é que o


moleque se divertiu muito, tinha que ver a expressão de felicidade dele
durante a partida.

— Eu já vi essa expressão de felicidade completa do Marcelo várias


vezes, e em todas elas, estava com você — digo e o seu rosto se ilumina todo.

Enquanto conversamos, passa uma mulher com uma bandeja com


bolinhas de queijo, meus olhos vão junto com ela.

— Gostaria que eu pegue alguma coisa para você comer, Daniele? —


pergunta gentil, fico com vergonha de não conseguir esconder a minha gula.

— Não precisa, Léo. Obrigada. Eu já comi a metade dos salgadinhos


da festa, nosso baby já está satisfeito. — Era para ser engraçado, mas nenhum

de nós dois sorri.

Essa foi a primeira vez que me referi ao bebê como nosso e o Léo
percebeu isso, tanto que não tira o sorriso bobo do rosto.

— Ele tem um apetite de leão igual ao do pai, não é, filho? —


Ameaça colocar a mão sobre a minha barriga, mas para no ar na metade do
caminho, como se me pedisse permissão com o olhar.
Eu faço melhor do que usar palavras.

— Não é ele. É ela. — Pego a sua mão e coloco sobre o meu ventre,

onde a nossa sementinha está crescendo. — A qual darei o nome de Blue


Marcely, em homenagem ao irmão e à tia. — Lágrimas sobem aos seus
olhos, sabe que estou falando da irmã dele, Marcela, que se foi tão cedo.

— Eu nem sei o que dizer, Daniele. Muito obrigado por isso. — Me

abraça e não solta, como senti saudades de ficar assim com ele.

Dentro dos seus braços me sinto segura, como se nada ou ninguém


pudesse me ferir novamente.

— Hora de ir embora, Dani, a babá ligou, disse que o Junior está com
cólicas. — Nos separamos rapidamente.

— Tudo bem, Julia, já estou indo em um segundo. — Ela assente.

— Tchau, Julia, melhoras para o Junior. — Léo tenta uma

aproximação, mas minhas amigas são osso duro de roer.

— Obrigada, Léo, estou feliz pelas suas conquistas. Mas ainda estou
de olho em você. Um deslize e nunca mais verá a luz do dia novamente.—
Sorri sem mostrar os dentes.

Joga os cachos volumosos para o lado e sai rebolando, essa mulher


não existe. Minhas amigas não vão dar um voto de confiança tão fácil ao Léo,
porque me amam e têm medo de que me magoe outra vez.
— Bem, eu preciso ir agora, mas boa aula para você e os rapazes. Eles
me contaram que você voltou a estudar. Meus parabéns.

— Muito obrigado, Dani, tenha uma ótima noite. — Beija o meu rosto
bem próximo à minha boca.

— Você também, Léo, bons sonhos.

— Eu tenho bons sonhos toda noite, com você — dá a última cartada,


fazendo-me suspirar.

Aceno para ele e vou embora o mais rápido que posso, antes que eu
me jogue nos braços desse homem enigmático e esqueça todo mundo lá fora.
Dani

Acordo no susto, pra lá de atrasada, meu despertador não tocou. Me

arrumo correndo para o trabalho e visto o Marcelo para a escola enquanto


preparo o lanche para ele levar, até que alguém bate na porta. Deve ser a
Paula, preocupada porque não passei para pegar a Maria, esqueci de enviar
uma mensagem avisando que acordei tarde.

— Atende a porta para a mãe, filho — peço enquanto termino de


fazer o sanduíche, meu menino vai correndo fazer o que eu pedi.

— Mamãeee, um moço mandou te entregar isso. — Marcelo aparece


com um envelope na mão, sem nada escrito do lado de fora.

— Obrigada, querido, por que não vai pegar a sua mochila no seu
quarto? Já estamos de saída. — Beijo a sua testa.

Abro o envelope com uma sensação ruim, dentro dele tem uma folha
dobrada com o seguinte aviso, bem claro:

“Se não desmentir em público tudo o que disse sobre mim naquela
coletiva de imprensa ridícula, Daniele, eu vou tirar o garoto de você. Você
escolhe, filhinha querida.”

Sinto o meu sangue ferver dentro das veias, que ódio desse homem.

Sabia que estava calado todo esse tempo tramando alguma coisa, mas não
imaginava que seria algo tão baixo. Se acha que me ameaçar dessa forma vai
me fazer recuar, está muito enganado. Vou fazer uma visita no gabinete do
Juiz Flores ainda hoje, e esclarecer algumas coisinhas.

Depois de deixar Marcelo e a Maria na escola, vou direto para o


fórum.

— Ei, Daniele, você não pode entrar no gabinete do seu pai assim,
sem ser anunciada. — A assessora do meu pai me segue pelo corredor, finjo
que nem escuto.

Não só entro no gabinete do Juiz Flores sem bater, como ainda fecho
a porta na cara dela, nunca gostei dessa metida mesmo.

— Nossa, você cedeu mais rápido do que pensei, Daniele Flores,

estou decepcionado. — Sorri debochado, sentado na sua cadeira de couro


preta, com a postura ereta como se fosse um imperador de Roma.

Entre os seus dedos, gira uma caneta de ouro que a idiota aqui deu
para ele no último dia dos pais feliz que passamos juntos. Naquela época, eu
não fazia a mínima ideia do monstro que é.

— Por que está tão calada assim, filha? Deixe-me adivinhar, está
escolhendo as palavras certas para pedir desculpas ao seu pai — sibila com o
queixo elevado, um sorriso vitorioso dança nos seus lábios.

Solto uma gargalhada na cara dele, ele realmente acredita que vim
aqui pedir desculpas.

— Eu vim aqui pessoalmente te mandar para os quintos dos infernos,


seu velho maldito, acha mesmo que pode ameaçar tirar o Marcelo de mim?

— Me aproximo da sua mesa sorrateiramente. — Pode vir quente que eu


estou fervendo, meu bem! — digo aos gritos, todo mundo nesse fórum deve
ter ouvido.

— Isso é uma ameaça, Daniele Flores?

— Em primeiro lugar, eu tirei o seu sobrenome legalmente. Segundo,


sim, isso é uma ameaça. Mexa com o meu filho e vou te mostrar o que uma
mãe é capaz de fazer por amor a um filho — sou curta e grossa.

— Seu filho? Não me faça rir, Daniele. Esse bastardinho moribundo

infelizmente é meu filho e eu tenho os meus direitos de pai e posso tirá-lo de


você quando eu quiser.

— Cala essa maldita boca, Juiz Flores. Nunca mais se refira ao


Marcelo dessa forma, seu monstro, ele é uma criança linda e inocente. —
Bato a mão com toda a força sobre a sua mesa, possuída por uma coragem
que não sei de onde vem.
— Baixe o tom comigo, mocinha, ainda sou o seu pai.

— Infelizmente! Você não faz ideia do significado dessa palavra. Para

ser pai precisa muito mais do que enfiar o pau no meio das pernas de uma
vagabunda interesseira, pai é aquele que cuida. Que ama incondicionalmente
a ponto de vestir a camisa do Vasco, mesmo sendo flamenguista, e sentar no
lado da torcida adversária só para agradar o filho.

Sorrio involuntariamente, imaginando a cena.

— Pai é aquele que fica feliz em gastar o primeiro salário ganhado


com muito esforço com os filhos e ainda se orgulhar disso, que ensina a andar
de bicicleta e comemora quando se equilibra sozinho sem as rodinhas. Que
volta para a escola depois de homem barbudo, porque quer dar aos filhos uma
vida melhor do que a que ele teve — finalizo com lágrimas nos olhos. Merda,
eu acabei de usar o Léo como exemplo do que é ser pai de verdade.

É isso que ele tem se mostrado, um pai e tanto. Antes eu pensei que

fosse fingimento, mas pensando bem agora, ele não tem mais motivo para
estar sendo tão presente e carinhoso com o Marcelo. Isso só pode ter uma
explicação:

Amor…

Só esse sentimento puro é capaz de fazer alguém como o Léo se


esforçar tanto para andar no caminho certo e não desistir, mesmo com tantas
pedras que encontra pelo caminho, porque no mundo de gente hipócrita em
que vivemos hoje, é preciso ter coragem para ser uma pessoa do bem e não

jogar baixo como esse homem desprezível à minha frente.

— Mas que monte de baboseira é essa, menina? Não estou nem aí


para isso, muito menos para a justiça. O que fala mais alto é o laço de sangue,
então, para o seu próprio bem, é bom voltar à frente das câmeras e desmentir

tudo o que disse sobre mim e voltar a usar o meu sobrenome — insiste com a
ameaça.

— Está mesmo me pedindo para procurar a imprensa e desmentir tudo


o que eu disse, Juiz Flores? Me poupe! As pessoas não são idiotas, vão sacar
que têm o seu dedo sujo nisso.

— Brasileiro é burro de natureza, minha filha, acredita em qualquer


coisa. Se for pobre então, falta pouco para lamber o pé de um homem
poderoso como eu. Só quero colocar um ponto final nessa história, apenas

você pode fazer isso. Se não fizer, já sabe quais serão as consequências. —
Alinha os ombros, cheio de falsa confiança.

— Está sentindo esse cheiro, Juiz Flores? — Puxo uma lufada


profunda de ar, com um sorriso irônico.

— Cheiro de que, garota? A cada dia está mais louca, igual à sua mãe.
— Trinca os dentes.
— De medo, Juiz Flores! — Ergo a sobrancelha, segura do que digo.
— Se quer tirar o foco da mídia de cima de você, é porque sabe que podem

chegar a algo muito mais podre que esconde debaixo dos panos, e pode ter
total certeza que eu não vou parar até descobrir e te colocar atrás das grades.
— Aponto o dedo na sua cara e ele engole em seco, o pavor tomou conta de
suas feições.

— Pois vá em frente, filhinha, não vai achar nada. Eu já fiz coisas que
até o próprio diabo duvidaria. Mas nunca ninguém nem desconfiou, sou uma
raposa velha astuta — gaba-se.

— É o que veremos, papai querido! — Dou um sorrisinho


provocador.

Viro as costas e vou embora, mas paro antes de passar pela porta e
finalizo:

— Sobre a ameaça que me fez, essa é a minha resposta. — Ergo as

duas mãos, mostro os dedos do meio para ele e saio rindo, agora o jogo vai
ficar interessante.

Nem por um minuto passou pela minha cabeça aceitar essa ameaça do
meu pai, meu caráter não é negociável.

— E aí, Gonzáles, gravou tudo? — Mexo discretamente no broche no


meu casaco quando entro no meu carro, comprei em uma loja de informática
no caminho até aqui.

Antes de vir no gabinete, liguei para o meu chefe e contei tudo sobre a

ameaça do meu pai; ele, como ótimo advogado, me orientou a vir com uma
câmera escondida e arrancar o máximo de informações do meu pai para usar
contra ele mesmo.

— Yo gravei sim, a imagem ficou ótima, pegou bem o rosto de tu

padre.

— O que faço agora, Gonzáles? — Sinto um friozinho na barriga.

— Nada, senhorita Mendonça, daqui yo assumo. Ninguém ameaça um


dos meus funcionários e fica por isso mesmo — garante.

— Muito obrigada, Gonzáles. Tem sido bom comigo desde que


comecei a trabalhar na sua empresa.

— No precisa agradecer, é uma ótima funcionária. — Me sinto

honrada com o seu elogio.

Finalizo a conversa e vou direto para o trabalho, onde tenho um dia


muito produtivo. Falta pouco para montar uma boa defesa contra a empresa.
Mas antes de mostrar tudo o que descobri, preciso conseguir só mais uma
coisa e talvez não seja algo tão fácil. Para não ter erro, preciso fazer eu
mesma e tem que ser rápido.

Depois de sair da empresa, passo na escola e pego as crianças. Ligo o


rádio e vamos os três cantarolando pelo caminho. Quando chegamos em casa,
Marcelo vai correndo ligar a TV e eu para a cozinha fazer um chá. Ligo o

fogão e coloco a água para esquentar. Sento no aparador da minha janela,


pego o meu celular e coloco uma música tranquila para relaxar. No entanto,
ao invés disso, de repente sinto algo estranho, como se estivesse sendo
observada.

Olho para baixo da janela e lá está ela, a menina misteriosa me


olhando do outro lado da rua. Fixamente. Com o seu moletom preto de capuz
e um skate debaixo do braço.

— Dessa vez você não me escapa, garota. — Desço as escadas


correndo para falar com ela, mas quando chego em frente ao prédio, ofegante,
ela havia desaparecido.

Caramba! Como essa garota sabe onde eu moro? E por que sempre
foge de mim? Isso é muito estranho.

— Onde você foi, mamãe? — Marcelo pergunta cabisbaixo, deitado


no sofá quando volto para o apartamento, até desligou a TV.

— Nenhum lugar importante, filho. Por que está tristinho assim?

— O papai disse que ia voltar logo para me ver, mas já passou um


tempão e ele não veio — choraminga.

— Seu pai deve estar muito ocupado com as coisas dele, filho, só
isso. O que acha de fazermos uma visita para ele agora? — ajo
impulsivamente.

Não quero mais adiar o momento da conversa com o Léo sobre o


futuro do nosso baby, ele tem me dado muitos motivos para lhe dar um voto
de confiança. Vou aproveitar para convidá-lo para a minha próxima consulta,
quero que esteja comigo quando ouvir o coração do nosso filho batendo pela

primeira vez.

— Simmmmm! Podemos levar o Walter?

— Vai chamar ele, filho. Não acredito que ele vai querer ir, agora não
larga mais aquela poodle. — Reviro os olhos, está difícil de engolir esse
relacionamento, ainda mais porque a poodle é da bruxa do 115.

— Está bem, mãe. — Viro para pegar as chaves do carro. —Vem,


Walter, vamos visitar o papai! — grita o Marcelo sem tirar o pé do lugar,
olho feio para ele, se fosse para gritar eu mesma tinha feito.

Foi só ouvir a palavra “visita”, que o pinscher sem-vergonha aparece


correndo. Não sei onde estava com a cabeça quando mandei adaptar essa
passagem para ele na porta, agora não para mais em casa.

— Agora que todos estão presentes, vamos, meninos. — Saímos e eu


ainda não tenho ideia se estou fazendo a coisa certa.

Quando chegamos em frente à porta do apartamento dele, então, aí


que a dúvida bateu mesmo. Minha vontade é voltar para casa correndo. Não
sei o que estou fazendo aqui.

— O que estamos esperando, mamãe? — Marcelo olha para mim


meio perdido, já faz alguns minutos que estamos aqui parados.

— Nada, querido, desculpa. — Quando ergo a mão para bater na


porta, ela se abre e não era quem eu esperava encontrar.

— Desculpa, moça, em que posso ajudá-la? — A mulher linda de


morrer me examina dos pés à cabeça, minuciosamente.

Fico sem graça diante de tamanha beleza e charme, é madura, na casa


dos trinta e cinco, no máximo quarenta, talvez. Alta e magra, tem olhos azuis
marcantes e uma postura atraente. Traja vestido verde-água de festa e, pelas
suas joias, a falta de grana não é problema para ela.

— A gente veio falar com o meu papai, o nome dele é Léo —


Marcelo diz inocente, já que eu não tenho condições de nem abrir a boca

nesse momento.

— Que criança mais fofa, mas o Léo não disse nada sobre ter um filho
em nenhum dos nossos encontros. Que estranho. — Fico tonta, preciso sumir
daqui antes que eu caia dura no chão.

— Vem, filho, nós precisamos ir embora. O papai está com visita,


desculpa, moça. Por favor, não comenta nada com o Léo que estivemos aqui.
— Sorrio sem graça e saio puxando o Marcelo pela mão.

Mas o Walter resolve fazer graça e pula do meu colo e ataca a mulher.

Quando penso que a coisa não pode ficar pior, Léo escuta os gritos
escandalosos da sua visita e aparece poderoso em um terno com gravata-
borboleta para socorrer a donzela em perigo das garras da fera que pesa
menos de um quilo.

— Pare com isso, Walter, menino mal — Léo fala uma vez só e o
meu cão paralisa com as orelhas murchas, enquanto eu, para que me obedeça,
preciso me descabelar todinha aos berros.

— Oi, papai, a gente veio visitar você. — Marcelo abraça as pernas


do Léo.

— Oi, filho, que surpresa boa. — Não tira os olhos de mim enquanto
fala com o Marcelo, tentando ler nas minhas feições o que está passando pela
minha cabeça nesse momento.

— Me desculpe por isso, gente, não queríamos estragar o encontro de


vocês. Já estamos de saída, vem, filho — digo morta de vergonha, minha
vontade é ter o poder de me transportar para outra dimensão.

Mas como não posso, cato o Walter no chão, saio empurrando o


Marcelo até o elevador e aperto o botão várias vezes, com tanta força que
quase furo um buraco no lugar.
— Você está tremendo, Daniele, respira. — Léo segura a minha mão,
estou vendo tudo embaçado.

— Eu estou bem, não se preocupe. Só preciso ir embora, não


devíamos ter vindo sem avisar. Desculpa. — Mantenho a cabeça baixa, sem
coragem de olhar para ele, tão lindo desse jeito para sair com outra mulher.

Léo se arrumou para outra, me dói saber que não sou mais a única

mulher que trouxe no seu apartamento. Ela deve ser mesmo importante para
ele mesmo, ou usa esse truque com todas.

— Eu não vou deixar que vão embora, não com você nesse estado no
volante, carregando um filho meu na barriga e o outro no banco de trás. —
Crio coragem e o encaro com sangue nos olhos, de jeito nenhum que vou
entrar na casa dele com essa mulher lá dentro.

— Eu sei me virar sozinha, não se preocupe. Já passei por coisa muito


pior — digo ferida.

Iniciamos uma briga de olhares, então as portas do elevador se abrem


e sai um homem bem afeiçoado de dentro dele.

— Não acredito que enfim vou conhecer a famosa Dani. — Me


abraça como se fôssemos amigos de infância. — Prazer, eu sou o Felipe.
Irmão de coração do Léo. — Sorri receptivo.

Parece com esses modelos de cueca de marca, moreno, alto e sensual


do cabelo cacheado e olhos claros.

— O prazer é todo meu, Felipe. — Ergo a mão para cumprimentá-lo,

ele aperta forte.

Tenta brincar com o Walter no meu colo, mas ele rosna puxando o
canto da boca.

— Oi, tio Lipe, conta uma piada? — Marcelo praticamente se joga no


colo do cara.

— Claro, amigão, vamos entrar porque essa cara de peido engarrafado


do seu pai está me assustando. — Léo estreita os olhos na direção do amigo,
do tipo:

Cala a boca e some da minha frente, agora!

— Na verdade, Felipe, nós já estamos de saída, não é, filho? — Olho


de um jeito para ele que nem perde o seu tempo fazendo pirraça, não estou

com paciência para isso agora.

— Tá bom, mãe — resmunga.

—Tchau, amigão, da próxima vez que vir aqui o tio Lipe vai contar
mil piadas. Só as melhores. — Bate a mão dele.

— Tchau, Felipe, a gente se vê por aí — tento ser simpática, apesar


do clima pesado no ar.
— Com certeza, cunhadinha. Parabéns pelo bebê, o Léo me contou.
— Beija o meu rosto.

Cumprimenta a mulher na porta com um sorriso simpático e entra em


casa, ela permanece no mesmo lugar, de braços cruzados na porta, de olho
em tudo com uma expressão enigmática.

— Tchau, papai, quando for lá em casa vou te mostrar as manobras

que aprendi hoje com a minha bicicleta. Você vai achar irado.

— Tchau, filhão, eu mal posso esperar para ver essas manobras. —


Eles se abraçam fortemente.

— Desejo uma boa noite para vocês dois, divirtam-se. Mais uma vez,
desculpa pela visita inesperada, Marcelo queria muito vir visitar o pai — digo
totalmente sem graça.

— Mas foi a senhora que disse para a gente vir visitar o papai, mãe —
Marcelo solta uma de suas preciosidades na hora errada, Léo prende o riso

para não me deixar ainda mais envergonhada.

Só consigo respirar melhor quando as portas do elevador se fecham, o


que acabou de acontecer aqui? Nunca me senti tão idiota na vida e eu nem
tenho o direito de ficar assim, afinal, era isso que eu queria. Que o Léo
seguisse a sua vida e me deixasse em paz, só não imaginaria que fosse doer
tanto.
Léo

— Tem certeza de que ainda quer sair comigo, Léo? Parece meio

abalado depois da visita da mãe dos seus filhos. —Andreza toca o meu braço.

Estamos no banco de trás do seu carro importado, o motorista


particular está nos levando para o teatro municipal.

— Estou bem, não se preocupe. Mas um pouco preocupado com o


que a teimosa da Daniele pode estar imaginando agora que te viu na minha
casa, ela tem cabecinha fértil. — Olho a paisagem lá fora através do vidro, a
noite está tão linda, com uma lua cheia cortando o céu, roteada por algumas
nuvens escuras.

Andreza é uma das minhas clientes mais antigas e muito especial.


Apesar de ser uma mulher ricaça da Zona Sul, é uma pessoa simples que já
passou por coisas difíceis. Nunca conseguiu superar o fim do casamento, sua
história de amor se transformou em um divórcio complicado onde traições e
mentiras vieram à tona. O ordinário a trocou por uma garota de dezoitos anos
e fez questão de engravidá-la logo, já que a esposa não pode ter filhos.
Andreza é estéril.

Isso acabou com ela, a fez sentir-se menos mulher. Foi assim que, por

uma indicação de uma amiga, Andreza resolveu me contratar apenas como


seu acompanhante de luxo. Não estava à procura de sexo ou nada do tipo, só
queria alguém para conversar e sair às vezes, para se divertir em diferentes
programas de amigos. Nada além disso, ainda ama o marido.

Quando decidi parar de fazer programa, liguei para ela para avisar. A
mulher começou a chorar e disse que eu era o único amigo e que, se eu a
deixasse também, iria acabar dando um fim na própria vida. Comovido com a
importância da minha presença na sua vida e por saber exatamente o que é se
sentir sozinho no mundo e ter desejos suicidas todos os dias, concordei em
continuarmos saindo às vezes, como amigos. No entanto, não aceito mais um
centavo dela.

Hoje vamos ao teatro ver uma peça clássica de ópera, e que Deus me

ajude. Andreza ama ir nesse tipo de lugar grã-fino, eu detesto. Ainda mais
porque ela me faz usar os ternos que eram do marido dela, o que eu detesto
mais ainda.

— Me conta mais sobre a mãe dos seus filhos, ela é muito linda, hein,
seu danado!? — brinca me dando uma cotovela.

— Eu amo aquela maluquinha, mais do que a minha própria vida. —


Sorrio amplamente, apaixonado.

— Agora eu sei por que saiu do mundo da prostituição depois de

tantos anos no ramo, Léo. Já virei fã dela por conseguir essa proeza, não pode
deixar essa moça escapar.

— Eu sei, Andreza, mas eu estraguei tudo com a Daniele. Se ela me


deixar participar da vida dos nossos filhos, já serei eternamente grato.

— Se estragou, então conserta, homem de Deus. Acorda bem cedo


amanhã e vai à luta — aconselha.

Esqueci de dizer que, apesar de não ter filhos, Andreza tem um jeito
maternal de dar conselhos. Ela me faz lembrar a minha mãe, sempre me
tratou como a um filho. Se tenho um trabalho de carteira assinada hoje, é por
causa dela, que me indicou para o dono, que é marido de uma prima sua.

— Bem, o não eu já tenho. Bora correr atrás do sim. — Mostro um


sorriso no rosto.

— Isso aí, garoto, quero ser a madrinha desse casamento. — Bate a


mão na minha.

— Agora vamos parar de falar sobre mim e aproveitar essa noite


bonita, assim como você, Andreza — elogio ao chegarmos no teatro, dou a
volta no carro e abro a porta para ela.

Nosso passeio foi bastante agradável, no caminho de volta para a casa


penso em tudo que a Andreza falou. Decido não perder mais tempo e
procurar a Dani no dia seguinte. Como meu chefe pediu para eu ir bem mais

cedo, vou passar no apartamento dela depois do trabalho para tentar termos
uma conversa adulta. Quero saber por que eles foram na minha casa ontem,
acho que queria me dizer alguma coisa importante.

No entanto, caio com os burros na água quando bato na porta da

Daniele no sábado à tarde e ninguém atende, resolvo perguntar à Paula se ela


sabe onde os dois possam estar.

— Mas que mania é essa de bater na minha porta tão cedo, Léo? Que
saco! — Abre a porta resmungona ao esfregar os olhos dentro de um roupão
todo torto.

— Cedo, Paula? Já são quase cinco horas da tarde — retruco.

— Fala logo o que quer e vaza, criatura. — Ajeita o tapa-olhos para


dormir no meio da testa.

— Faz ideia de onde a Daniele está? Preciso falar com ela e


aproveitar para brincar um pouco com o Marcelo.

— O Marcelo e a Maria estão no parque com a babá, agora a mãe dele


não posso contar. É assunto confidencial. — Tenta fechar a porta na minha
cara, mas não deixo.

— Eu não vou deixar você voltar a dormir até me contar onde a sua
amiga está, Paula. Estou sentindo cheiro de confusão no ar.

— Olha, eu só vou te contar porque também estou preocupada com a

minha amiga. Acho que ela pode estar se enfiando em uma encrenca das
grandes. — Fico ainda mais apreensivo.

— Meus Deus do céu, Paula. Fala logo, porra! — Perco o último fio
de esperança.

— A Dani está trabalhando no seu primeiro caso como advogada, por


isso, foi para uma cidadezinha do interior do Rio de Janeiro para pegar a
amostra dos resíduos que uma fábrica desova no rio para levar para um
químico de fora do Rio de Janeiro e de sua total confiança para analisar. Ela
acredita que a água está trazendo doenças mortais para os moradores locais e
os animais — explica.

— E por acaso ela tem um mandado para recolher esse material na


presença de um oficial da lei?

— Até parece que você não conhece essa baixinha valente, Léo. Ela
acredita que a polícia da cidadezinha está recebendo propina para fazer vista
grossa, assim como o pessoal da defesa sanitária e até mesmo juízes. —
Passo a mão pelo rosto, suando frio.

Essa história não vai terminar em coisa boa!

— E você deixou a sua amiga ir sozinha para esse covil de cobra,


Paula? Pelo amor de Deus!

— Ela jurou que não teria perigo, eu não podia ir com ela, porque

alguém tinha que ficar com as crianças até a babá chegar. — Linhas de
preocupação começam a brotar na sua testa, não parou para pensar como essa
situação é perigosa.

— Quando foi a última vez que falou com ela, Paula?

— Há algumas horas, parecia muito animada e segura. Contudo,


depois disso já tentei ligar várias vezes para ela e só cai na caixa-postal. —
Aperto os punhos, não posso perder mais tempo.

— Tem o endereço do lugar? Vou atrás dessa doida varrida agora


mesmo.

— Tenho, Léo, vou te mandar a localização e o nome da pousada


onde ela fez reserva para passar a noite. Por que não pega o carro dela? Dani
achou melhor ir de ônibus, achou perigoso ir dirigindo porque a previsão é de

possível forte chuva para essa noite e amanhã o dia todo.

— Ótima ideia, Paula. De carro vou chegar na metade do tempo. —


Abre o apartamento da amiga para eu pegar as chaves do veículo.

Saio praticamente voando e pego estrada atrás da irresponsável, quem


ela acha que é? A mulher-maravilha? Cacete! Ela está grávida, podia pelo
menos maneirar até o nosso bebê nascer.
Chego na tal cidadezinha interiorana no início da noite debaixo de

uma tempestade de chuva e ventos, minha preocupação só aumenta. Ainda


bem que a cidade é minúscula, não tem nem hotel, só uma pousada no final
da rua principal onde a Dani fez a reserva. Espero encontrá-la segura lá.
Como não tem estacionamento, procuro um lugar para deixar o carro.

— Porra! — Saio do carro e vou correndo até a recepção da pousada,


raios cortam o céu e o vento forte quase arranca as árvores.

Foi um pequeno percurso, mas o suficiente para me deixar


encharcado. Sou atendido por uma senhorinha gentil na casa dos seus oitenta
e pouco anos, fala baixa e serena.

— Boa noite, meu filho, como posso te ajudar? — pergunta,


atenciosa.

— Eu estou procurando a mãe dos meus filhos, ela saiu cedo e ainda

não deu notícias. O nome dela é Daniele Flores, loira baixinha e com uma
personalidade muito forte — descrevo o melhor que posso, mas pelo sorriso
divertido da senhora, sabe exatamente de quem estou falando.

— Nós temos uma hóspede com essas características, mas o nome


dela não é Daniele Flores. Na ficha de entrada, seu sobrenome está como
Mendonça. — Fico confuso, talvez Daniele tenha dado o nome falso.
Para ter certeza de que estamos falando da mesma pessoa, pego a
minha carteira no bolso de traz do jeans e tiro de dentro dela uma foto com a

Dani, Marcelo e eu, que tiramos juntos no dia em fomos no circo.

— Sim, é essa moça mesmo, por que ela usou um sobrenome


diferente? — Me olha por cima dos óculos de grau redondos, desconfiada.

— É o nome de solteira dela, acabamos de sair de um divórcio. —

Dou um sorriso amarelo, se Dani deu o nome falso deve ser para proteger sua
real identidade.

—Tudo bem, rapaz, vou ligar para o quarto dela e avisar que está
aqui. Qual o seu nome mesmo?

— É Leônidas, senhora.

— Ai, que coincidência, o mesmo nome do meu falecido marido, que


Deus o tenha no Céu — comenta enquanto tecla os números no telefone, mas
ninguém atende.

— Sinto muito, filho, mas ela saiu bem mais cedo e pelo visto ainda
não voltou. — Olha para a tempestade lá fora através do vidro, pensando o
mesmo que eu.

Onde essa irresponsável pode estar?

— Eu vou atrás dela, muito obrigado por tudo. — Saio tão rápido
quanto cheguei, mas não vou muito longe.
Dou de cara com a Daniele chegando toda suja de lama dos pés à
cabeça, tremendo de frio, os lábios chegam a estar cianóticos, com uma cor

azulada. Em suas mãos, segura firme um vidro cheio de um resíduo estranho


e esverdeado.

Ela veio para esse fim do mundo e conseguiu o que queria, essa
baixinha tem o coração valente. Isso não dá para negar.

— Mas o que você está fazendo aqui, Léo? — Semicerra os olhos,


parece não acreditar no que os seus olhos estão vendo.

— O que você está fazendo aqui, Daniele Flores? Ou devo dizer


Mendonça?

— É Mendonça, não uso mais o sobrenome do meu pai. Sobre o que


vim fazer aqui, não é da sua conta. Sua namorada bonitona sabe que veio
atrás de mim? — Eleva o nariz de um jeito irônico que não que faz parte do
seu feitio.

— Mas que namorada você está falando, Daniele? Aquela mulher que
viu na minha casa é só uma amiga.

— Ela me disse que era sua cliente há muito tempo, não se faça de
bobo. — Passa por mim e entra na pousada, preciso ser forte para não gritar
com ela.

Só um minuto, ela está com ciúmes?


Sorrio por dentro.

— Tem noção do perigo em que você colocou o meu filho, Daniele?

— Vou atrás dela, mas ela finge que não escuta enquanto pega a chave do seu
quarto.

— Tenha uma ótima noite, Margarida, vejo a senhora amanhã — se


despede da senhora da recepção.

— Boa noite, querida, você e o seu ex-marido vão ficar no mesmo


quarto? Porque não temos mais nenhuma vaga disponível.

— Ex-marido, é? — Daniele estreita os olhos na minha direção.

— Eu posso passar a noite acordado sem nenhum problema agora que


sei que você está bem, Daniele, o resto não importa — digo.

— Para de drama, Léo. Já que a fofoqueira da minha vizinha abriu a


boca e você está aqui agora, pode ficar no meu quarto.

— Muito obrigado, Daniele. Prometo não incomodar.

— Ok — responde apenas.

Sigo-a até o quarto no segundo andar, ambos calados e zangados. Ela,


porque está mordida de ciúmes sem razão nenhuma, fora que nem estamos
juntos. E eu, porque vim para esse fim de mundo atrás dessa diaba,
preocupado, e nem ganhei um obrigado. Porra! Vai ser um martírio passar a
noite toda com a Dani nessa pousada rústica do interior, com essa chuva
gostosa caindo lá fora.

Para o meu azar, o quarto não poderia ser mais charmoso, romântico,

grande e arejado. Uma janela panorâmica que dá vista para o centro da


cidade, o incenso aceso com aroma floral sobre o móvel de canto traz uma
sensação boa de paz. As paredes pintadas em tom claro como pano de fundo
para os vários quadros pendurados com pinturas ricas em cores, todos de

lindas paisagens locais, uma cama grande ao meio com dossel, envolta por
longas cortinas de véu branco. Também tem frigobar com variados tipos de
bebidas.

— Fique à vontade, vou tomar um banho e tirar toda essa lama fedida
de mim. — Faz uma careta de nojo.

Com muito cuidado, guarda o pote com o líquido estranho dentro da


sua mochila e vai para o banheiro tomar banho. Aproveito que estou sozinho
e mando uma mensagem para a Paula, avisando que encontrei a louca da

amiga dela e que está tudo bem agora, porque estou de olho nela.

— Eu esqueci de trazer a toalha. Pega para mim, por favor, Léo? —


grita Dani.

— Claro, só um segundo. — Respiro fundo, hoje a noite vai ser longa.

Pego a toalha dobrada sobre a cama e vou até o banheiro, engulo em


seco quando vejo a silhueta perfeita de Daniele através do vidro transparente
do box um pouco embaçado.

— Aqui está, Dani. — Ergo a toalha por cima do box, preciso sair

daqui logo ou ficarei doido com essa mulher nua tão perto de mim.

— Muito obrigada, Leônidas Rafael. — A filha da mãe abre a porta


do box para pegar a porra da toalha, apenas para me provocar.

E eu caio direitinho. Todo o meu autocontrole vai para o espaço,


desço os olhos seguindo o caminho da água caindo sobre o topo da sua
cabeça e deslizando pelos fios dourados do seu cabelo até encontrar a pele
macia, ofego quando chego aos dois montes redondos durinhos, agora bem
maiores por conta da gravidez. Chego a prender a respiração ao ir descendo
vagarosamente até…

— Pode me entregar a toalha, por favor? — ela interrompe a minha


análise minuciosa cobrindo a parte que eu mais desejava chegar de propósito.
Coloca o doce da minha boca e depois tira.

— Não brinque comigo, Daniele — advirto-a.

Tenta pegar a toalha da minha mão, mas não entrego.

— Menos, Léo, não tem nada aqui que você não tenha visto. — Dá
uma voltinha bem na minha frente, lentamente e de maneira provocante,
empinando a bunda.

Mas o que há de errado com essa mulher? Ela está jogando assim
comigo a troco de quê? Nunca fez o tipo sedutora, mas hoje está parecendo
uma profissional na arte da sedução.

— Não sei aonde quer chegar com isso, Daniele. Mas não coloque
fogo em mim se não pretende apagar depois. — Entro no box com ela e a
imprenso contra a parede, cobrindo o seu corpo com o meu, estou cansado de
ser paciente e passivo.

Daniele não está lidando com nenhum menino, mas com um homem
que sabe bem o que quer e não aceita ser feito de idiota. Ela tem o total
direito de não me querer mais na sua vida, porém, não admito que brinque
com os meus sentimentos dessa forma.

— Quem disse que eu não pretendo apagar? — Fica nas pontas dos
pés e passa a língua nos meus lábios, fico de pau duro na hora.

— Daniele… — ofego.

— Achou mesmo que eu ia deixar você passar a noite no meu quarto

de graça, querido? Mas não quero o seu dinheiro, vai pagar com outros
serviços. — Desliza o dedo pelo meu peito, atiçando os meus sentidos.

A tensão sexual está pairando no ar, minha vontade é virar essa


mulher de costas com as mãos apoiadas na parede e fodê-la até o sol brotar
por trás das montanhas. No entanto, farei melhor do que isso.

— Pelo visto, quem precisa ter o fogo apagado aqui é você, Boneca.
— Aproximo minha boca à dela, nossos lábios se tocam.

Ela fecha os olhos à espera do beijo, mas eu aproximo a boca ao pé do

seu ouvido e sussurro:

— Pena que eu saí do ramo da prostituição e não faço freelance, vai


ter que dormir na vontade. — Saio do box com um sorriso de canto e a deixo
na mão.

Contudo, Daniele é teimosa demais para desistir fácil do que quer,


vem atrás de mim nua a passos raivosos, consigo ouvir sua respiração tensa.

— O que foi, Léo, não sou boa o suficiente para ser sua cliente? —
provoca.

Para de andar e me viro de frente para ela, que me encara com os


braços cruzados. Que mulher irritante do caralho.

— Ao contrário, Daniele, é importante demais para isso. Eu não faço

programa com você. Faço amor. Ainda não entendeu isso? Porra! — perco a
paciência e elevo a voz.

— Mas hoje eu não quero que faça amor comigo, porque esse Léo eu
já conheço na cama. Quero que faça sexo sujo e barato, assim como fazia
com as suas clientes, quero ver esse seu lado garoto de programa que só as
suas clientes conhecem — insiste.

— Tudo bem, Daniele, se quer fazer um programa comigo vai ter que
pagar o meu preço depois, sem reclamar. — Abre um sorriso malicioso.

Que se dane tudo! Voltarei aos velhos tempos e farei o melhor

programa da minha vida, colocar para fora todo tesão que reprimi por essa
mulher. Quero chupar e lamber cada pedacinho do seu corpo, estocar com
jeito e bem gostoso.

Você pediu, Daniele, agora vai ter que aguentar!


Dani

Sentada na borda da cama, me delicio com a cena do Léo se despindo

vagarosamente bem na minha frente, com o olhar preso ao meu. Sedutor,


desliza a camisa sobre o peito largo, deixando à mostra os montes definidos,
e a passa pelos braços erguidos para jogá-la em qualquer canto do quarto.
Abre o botão da calça jeans, mas não chega a tirá-la. Caminha a passos lentos
na minha direção e para no meio das minhas pernas, apoia as mãos sobre a
cama, uma de cada lado do meu corpo, e inclina sobre mim.

Nossos rostos estão a menos de um centímetro de distância, o calor da


sua respiração causa cócegas na minha pele.

— É bom que saiba que o Léo garoto de programa não faz amor, ele
fode bem gostoso. — Passa a língua na lateral do meu rosto e sorri malicioso,
daquele jeito de molhar a calcinha. Se eu estivesse com uma já estaria
gotejando faz tempo.

Seus olhos não são os mesmos do homem de alguns minutos atrás,


eles estão escuros e perigosos. O sorriso não poderia ser mais hostil, voz
rouca e extremante sexy. É como se quando o Léo garoto de programa
entrasse em ação se tornasse outra pessoa, até a maneira de andar muda,

ganhando um certo ar de superioridade. Se torna um homem imbatível.

A razão da minha libido.

— Léo, eu…

— Shiiii, calada! — ordena ameaçador com a mão sobre a minha


boca. — Você já falou demais por hoje, eu assumo daqui para frente —
rosna.

Apenas engulo em seco e assinto, submissa a toda essa situação


envolvente. Estou muito excitada. No entanto, agora, vendo esse homem em
serviço, não sei se foi uma boa ideia atiçá-lo até conseguir o que eu queria.
Não sei o que deu em mim para agir daquela forma provocante, bem que
dizem que todos os sentidos de uma mulher ficam aguçados durante a
gravidez. Principalmente o sexual. Não tenho pensado em outra coisa a não

ser pular em cima do Léo desde o nosso reencontro no mercado. Por mim,
teria o agarrado na frente daquele monte de pessoas mesmo. Mas, por
orgulho, me contive.

E hoje, nesse quarto maravilhoso dessa pousada no meio do nada,


longe de tudo e de toda essa loucura que tem sido as nossas vidas nos últimos
tempos, somado com o meu ciúmes daquela mulher elegante que vi no
apartamento dele alegando que foi sua cliente há muito tempo, me deu
coragem e tive ousadia para pedir ao Léo o que sempre tive curiosidade.

Saber como é ter uma noite de sexo sujo com o Léo, o profissional do sexo.

— Abra as pernas! — ordena e eu obedeço sem pensar, parece até


feitiçaria.

Léo fica de joelhos, com um sorriso de canto e um olhar cafajeste do

tipo:

“Vou te comer a noite toda!”

Para me castigar, se abaixa e lambe a parte de dentro da minha coxa,


agarro o lençol e jogo a cabeça quando cai de boca em mim, me chupando
não como um homem normal faria, mas como um animal feroz faminto.

— Minha nossa, Léo! — Agarro os seus cabelos quase arrancando os


fios fora, meu corpo está em chamas.

Não sei o que é mais sexy, a maneira como me fode com a língua ou o
seu olhar devasso.

— Adoro sentir o seu corpo com a minha boca — sibila com a voz
rouca e crava os dedos na carne macia das minhas coxas, puxando-me para si
cada vez mais e mais.

Lambe e me chupa até me fazer gozar em um gemido alto e


libertador. Antes que eu pudesse me recuperar do orgasmo, Léo gira o meu
corpo sem nenhum tipo de gentileza e me coloca de costas para ele, curvada
com os cotovelos apoiados sobre a cama e a bunda bem empinada, à mercê

da sua vontade.

— Era isso o que queria, sua safada? Então toma! — Dá um tapa bem
forte na minha bunda e usa os joelhos para separar as minhas pernas, tudo em
menos de cinco segundos.

Arfo de prazer quando entra em uma estocada só, tão profundo que
me toma todo o ar. Já começa as estocadas em um ritmo surreal, inclina o
corpo sobre o meu e agarra os meus seios, alcançando uma penetração
profunda.

Gemo feito uma maluca, os outros hóspedes dessa pousada devem


estar horrorizados conosco.

— Isso, Léo, eu gosto assim… — Mordo o lábio virando os olhos,


como senti falta de senti-lo dentro de mim.

— Eu mandei ficar calada, vadia! — Sai de mim por completo como


castigo, e sem aviso prévio entra novamente até o talo, profundo e com força.

— Filho da puta! — grito em êxtase.

Novamente sou punida com outro tapa na bunda com mais força, Léo
volta a me possuir ferozmente. O quarto foi tomado pelo som dos nossos
corpos se chocando, me contraio dominada pelo mais puro e sujo prazer que
uma mulher possa sentir.

— Cacete! Você está me esmagando — rosna, não aguenta segurar

por muito tempo e goza, me preenchendo com a sua porra.

Então chego ao clímax, ainda mais intenso que o primeiro, minhas


pernas fraquejam e eu desabo de costas sobre a cama, exausta e saciada.

Léo é o melhor no que faz!

— Nós não terminamos ainda, madame. — Sua expressão não


poderia ser mais provocativa.

Ergo um pouco a cabeça e olho para o Léo por cima do ombro, ele
está de pé próximo à cama, de braços cruzados e uma ereção vigorosa. Em
seu rosto dança um sorriso vingativo. Como isso é possível? Ele acabou de
gozar por longos segundos. Esse homem não cansa nunca.

— Só preciso descansar por alguns segundos, você sugou todas as

minhas energias — digo com a respiração ofegante, viro de barriga para cima
e tento controlar a minha respiração.

Léo mal me deixa terminar de falar, vem engatinhando sobre mim na


cama, como um felino selvagem pronto para atacar a presa. Abocanha o meu
peito e ao mesmo tempo mete a mão no meio das minhas pernas e introduz
dois dedos de uma vez. Meu corpo fica em chamas em segundos, quando dou
por mim a cama já está rangendo a ponto de a cabeceira bater na parede.
— Você está tão molhada, muito gostosa! — geme no meu ouvido.

— Hoje eu sou toda sua, faz comigo o que você quiser — gemo de

volta e ele perde o controle de vez.

Seduzida pelo momento, tento beijá-lo durante o sexo, mas Léo vira o
rosto para o lado. Sinto uma sensação estranha, pois, mesmo com ele dentro
de mim nesse momento, nunca estivemos tão distantes.

— Desculpa, mas não costumo beijar as minhas clientes — diz com


frieza.

Mas sua performance sexual continua impecável. Acho que transamos


em cada pedacinho desse quarto, fomos parar já tarde da noite. Léo desabou
todo suado em um lado da cama e eu praticamente desmaiada do outro,
adormecemos sem mais nenhum contato físico. É a primeira vez que não
dormimos agarradinhos.

Acordo de manhã bem cedo e não vejo mais Léo na cama, mas logo o

encontro catando suas roupas pelo chão do quarto.

— Que você está fazendo, Léo? Ainda está muito cedo. — Sento na
cama e esfrego os olhos. — Ainda chove forte lá fora.

— Se vista, vamos pegar a estrada — diz indiferente ao terminar de


colocar as suas roupas.

— Mas ainda está chovendo muito, acho que devíamos esperar, talvez
cesse um pouco mais tarde.

— Se você quiser ficar, tudo bem, mas eu vou embora agora mesmo.

Aqui estão as chaves do seu carro. — Joga as chaves aos pés da cama.

— Veio até aqui para me deixar ir embora sozinha? Não entendo


você.

— Eu só quero ir embora daqui logo e não voltar nunca mais, quero


esquecer que estive aqui — diz com amargura.

— Por que está agindo assim comigo, Léo?

— Porque eu estou cansado, muito cansado. — Desvia o olhar para a


janela como se admirasse a beleza da chuva, então diz: — Por isso estou
desistindo de você, Daniele, para sempre — anuncia com a voz embargada.

Meu coração para de bater!

Léo está muito magoado comigo, também, esperava o que depois de

forçar o cara a transar com você, sua idiota? Obrigá-lo a voltar para o mundo
da prostituição que custou tanto para sair foi egoísta e cruel da minha parte,
agi feito uma patricinha mimada que não sossegou até ganhar o que queria.

Que vergonha!

Essa Daniele não sou eu.

— Oh, Léo, eu sinto muito pela maneira hostil que te tratei ontem.
— Tudo bem, só quero seguir minha vida em frente. Só peço que não
afaste os meus filhos de mim, porque foi a única coisa boa que restou da

nossa história. São tudo o que tenho agora — pede com a face embotada.

— Eu prometo que nunca mais vou tentar te afastar dos nossos filhos.
E me perdoe por ter te obrigado a fazer um programa comigo, Léo, deve ter
sido horrível para você fazer uma coisa que não queria. — Baixo a cabeça,

com vergonha de mim mesma.

— Não foi horrível, Daniele. Foi o melhor programa da minha vida.


Mas eu não queria que conhecesse esse lado meu, sujo e barato. — Balança a
cabeça inconformado, o homem confiante de ontem à noite não existe mais.

Jogo o lençol no chão, levanto nua e vou correndo até ele. Agarro a
sua cintura e deito a cabeça no seu peito bem em cima do seu coração, as
batidas nunca mentem.

De maneira nenhuma vou deixar que desmorone na minha frente, ele

tem lutado muito para se manter de pé.

— Não fale assim, por favor, está partindo o meu coração. — Começo
a chorar.

— Essa é a última vez que parto o seu coração, Boneca. Eu juro! Não
precisa chorar. Está tudo bem. — Alisa as minhas costas com carinho e beija
a minha cabeça. — Eu desejo de todo o meu coração que encontre alguém
especial, que seja bom para vocês e as crianças — deseja com a voz
embargada, sei que é de coração.

— Eu já encontrei, seu bobo, estou nos braços dele agora. Mas o meu
orgulho me cegou. — Ergo a cabeça e sorrio para ele.

— Não brinque comigo, Daniele, eu te amo demais e não quero criar


falsas expectativas. — Alisa o meu rosto com as costas da mão, um carinho

muito gostoso.

— Você foi um menino muito mal comigo, mas já passou. Isso ficou
no passado. Tem se mostrado arrependido de verdade, não desistiu nem com
todos os passa-foras que te dei. Além disso, eu nunca deixei de te amar, é um
pai incrível e… — fico na ponta dos pés e cochicho no seu ouvido — é ótimo
de cama. — Mordo o nódulo da sua orelha.

— Eu juro por Deus que nunca mais vou te decepcionar, meu amor,
vou fazer valer muito a pena essa chance que está me dando. Meu Deus! Não

acredito que estamos juntos de novo. — Espalha beijos por toda a extensão
do meu rosto e me aperta tanto que não consigo respirar, como eu senti
saudades desse homem.

— Nós sempre estivemos juntos, Léo, eram apenas os nossos corpos


que estavam separados — assumo por fim.

Então o beijo acontece com gosto de reconciliação, calmo e cheio de


amor verdadeiro.

— Não teve um dia que eu não pensei em você, meu amor, você é a

minha vida. Meu tudo! Eu te amo. — Me ergue do chão e rodopia pelo ar,
nossas risadas invadem o quarto.

— Eu estou ficando tonta, Léo, para com isso. — Caímos no chão e


rimos mais ainda, sempre nos divertimos muito juntos.

Estamos deitados lado a lado, nos encarando fixamente.

— O que foi, Daniele? Ficou séria de repente. — Nossas mãos se


tocam.

— Quero que saiba que, para mim, seja o Léo garoto de programa, o
Léo meu companheiro e pai dos meus filhos ou o enigmático Leônidas
Rafael. Tanto faz! Eu te amo em todas as suas versões, então não precisa se
envergonhar de nenhuma delas. Amei a noite que passamos juntos, mas
nunca mais me negue um beijo ou durma longe de mim — digo quase

deprimida, fiquei muito mal quando me rejeitou depois de fazermos sexo.

Léo pega a minha mão e coloca sobre o seu peito, como quando
observamos as estrelas no alto daquela montanha.

— Eu juro que a partir de hoje nunca mais estará sozinha, meu corpo
e a minha alma são seus. Seremos dois corpos em uma só alma. — Os cantos
da sua boca se erguem em um sorriso cúmplice, nada pode nos separar agora
que conhecemos as qualidades e defeitos um do outro.

Em um movimento rápido, Léo gira o corpo e fica por cima de mim.

Me beija com afeto como se fosse um vinho caro e quisesse degustar com
calma, mas logo a coisa esquenta. Fazemos amor bem gostoso no tapete, com
o som da chuva teimosa caindo lá fora como melodia para contemplar esse
momento romântico. Gotículas caem no vidro transparente da janela,

deixando um rastro de água. Depois nos amamos na cama e acabamos


pegando no sono novamente, abraçados tão forte como se fôssemos um só.

Não acredito como consegui ficar tanto tempo longe do Léo, só


quando estou com ele que me sinto completa dessa forma.

Desperto com o som do meu celular tocando insistentemente.


Sonolenta, ainda com os olhos fechados, estico o braço e pego o aparelho
sobre o móvel próximo à cama e cancelo a ligação. Dois segundos depois,

volta a tocar. Seja quem for, está disposto mesmo a falar comigo.

— Mas que droga! — resolvo atender antes que acorde o Léo.

Apesar que acho que seja muito difícil, ele está praticamente
desmaiado do meu lado de barriga para baixo, num sono profundo. O coitado
veio para cá ontem depois do trabalho, e eu fiz com que gastasse o resto da
sua energia que lhe restava comigo na cama. Mesmo assim, para não correr o
risco de acordá-lo, pego o celular e vou para o banheiro. Fecho a porta, me
sento sobre o vaso e atendo a ligação.

Na verdade, é uma chamada de vídeo compartilhada com a Yudiana,


Julia e Paula direto do nosso grupo do WhatsApp, cada uma em sua devida
residência.

— Olá, meninas, que bom ver o rostinho lindo de vocês. Aconteceu

alguma coisa? — digo entre um longo bocejo.

— Você conseguiu, Dani, parabéns! — gritam as três escandalosas no


mesmo instante.

— Consegui o que, meninas? — Encosto a cabeça na parede, quase


cochilando.

— O Gonzales saiu daqui de casa agora, ele e o John tiveram uma


reunião no escritório com o desembargador sobre o seu pai. — Fico de boca
aberta, literalmente!

Meu peito sobe e desce rapidamente, a adrenalina tomou posse de


todo o meu corpo. Então era isso que o Gonzales quis dizer quando falou que
era para eu deixar o vídeo com ele, que resolveria o resto. Se o
desembargador entrou na história é porque agora o meu pai está muito
encrencado mesmo, agora não tem para onde correr, Juiz Flores. Todos os
seus podres virão à tona.
Um desembargador ocupa um posto de alto escalão. Um cargo para
poucos: existem apenas menos de dois mil em todo o Brasil. É tipo um juiz

de segunda instância. Isso quer dizer que o que não foi solucionado pelos
juízes de primeira instância, como o meu pai ou o Thompson, vai parar nas
mãos dos desembargadores, para que ele resolva a questão.

— Como assim, Yudi? Explica melhor isso. O que eles disseram

sobre o meu pai?

— Eles mostraram o vídeo que você fez no gabinete com a confissão


do seu pai, mais alguns documentos que o John andou investigando sobre o
Juiz Flores em segredo, e tudo indica que está envolvido em corrupção e
acordos milionários com traficantes, entre vários outros crimes que estão
sendo averiguados.

Conta, e por incrível que pareça não fico nem um pouco surpresa.
Nada mais de ruim que venha do meu pai me surpreende.

— Por isso, depois do desembargador fazer algumas ligações, por


decisão vinda de peixes grandes o Juiz Flores foi afastado do cargo por tempo
indeterminado para uma investigação minuciosa sobre ele. — Deixo o celular
cair sobre o meu colo, fecho os olhos e sorrio.

Tomada por uma sensação tão boa que não sei como descrever. Algo
parecido com gratidão eterna, não tem nada a ver com vingança e ódio. Mas
sim com justiça feita, não dá para fazer tanto mal para as outras pessoas e
passar impune. Um dia a conta vem com juros e correção monetária.

Isso, Daniele! Segundo item da sua lista de acerto de contas realizado


com sucesso.

1 - Desmoralizá-lo perante a sociedade. (Feito)

2 - Perda do cargo de Juiz (Feito)

3 - Preso pelos seus crimes ( )

— Você ainda está aí, loira? — Ouço a voz preocupada da Paula e


volto do transe.

— Estou sim! E muito emocionada com mais essa nossa vitória contra
o homem mais arrogante e egoísta do mundo, chupa essa, Juiz Flores! —
solto um rugido feroz, meu pai sempre me tratou como se eu fosse um
cordeirinho indefeso.

Mas, na verdade, dentro de mim habita um leão feroz pronto para


enfrentar o que der e vier.

— Nós não conseguimos, Daniele. Você conseguiu com a sua


valentia em não ceder à chantagem absurda do seu pai, ainda foi ao gabinete
dele enfrentá-lo. Então, parabéns, amiga! — Julia joga um beijo para mim
com tanta ternura que a minha vontade é atravessar o celular e abraçar a
minha amiga.
— Isso mesmo, loira! Parabéns pela sua força, quando voltar
precisamos comemorar com champanhe mais essa batalha vencida.

— Isso mesmo, Paula, eu assino embaixo! Uhumm… — Yudiana


balança os peitões com um decote generoso na tela do celular.

— Vocês são malucas, meninas, mas eu super apoio a taça de


champanhe. Aliás, deveríamos sair para dançar, o que acham? — Pela

expressão de animação das minhas amigas, amaram a ideia.

Amam uma boa farra!

— Quem disse que precisamos sair para dançar, Dani? Vou até
colocar uma música. — Julia sai de frente da câmera e volta com uma
caixinha de som preta.

Como funkeira de raiz vinda do morro do Alemão, coloca um


pancadão para tocar e começa a rebolar virando a bunda grande para a
câmera, eu jogo a cabeça para trás, rindo.

— Estão esperando o que, meninas? Vamos comemorar a vitória da


Dani dançando — instiga Paula, entrando no clima envolvente da batida.

Ela rebola até o chão com o seu vestido curtinho colado com estampa
de oncinha, sensualizando. Logo Yudiana segue o bonde, sou péssima em
dançar, mas hoje é dia de festa. Ajeito o celular sobre a pia do banheiro e
começo a mexer o corpo feito uma minhoca desengonçada, pulo, bato cabelo
e canto a letra da música tudo errado. Mas me divertindo muito com as
minhas amigas e a nossa festa a distância.

Eu estava precisando disso, dançar como se ninguém estivesse


olhando.

Mas na verdade tem!

Eu esqueci a porta do banheiro aberta e o Léo está parado me olhando


com os braços cruzados e uma expressão de riso, fico sem saber onde enfiar a
cara de tanta vergonha.

— Não sabia que gostava de funk, Boneca. — Puxa o canto da boca


daquele jeito sedutor, seu tom é de puro divertimento.

— Como assim o Léo está aí com você? — Julia para a música e


aproxima o rosto bem próximo à tela do celular, com a sobrancelha erguida,
investigando-me.

No entanto, não me importo de minhas amigas descobrirem que eu e o


Léo nos reconciliamos. De toda forma, eu iria acabar contando para elas
assim que voltássemos para o Rio de Janeiro.

Para elas e o mundo! Quero que todos saibam que eu e o meu grande
amor estamos juntos novamente.

— Sim, eu o amo e quero passar o resto da vida com ele. — Olho


para o Léo toda derretida, ele sorri tímido.
— Sabia que essa sua pele corada não era só por conta do ar puro
interiorano, sua safada! —Yudiana tem um ataque de riso.

— Foi a primeira coisa que eu percebi, Yudi — completa Paula, falta


pouco a rolar no chão de rir da minha cara.

Fico mais envergonhada ainda, o Léo está parado no mesmo lugar


ouvindo todo o deboche delas.

— Oi para vocês também, meninas — ele cumprimenta brincalhão.

— Oi, Léo! — as três dizem juntas em meio a um coral de risadas


altas.

Viro a câmera para o Léo, ele acena para elas.

— Bem, meninas, a nossa festa a distância está muito boa, mas


preciso ir agora. Nos encontramos em breve para brindar com a taça de
champanhe. — Jogo beijos para elas.

Saio da chamada de vídeo antes que a sessão deboche continue,


apesar que tenho certeza de que elas continuaram com a chamada de vídeo a
três, rindo da minha cara.

Mocreias!

— Que história é essa de taça de champanhe, hein, Daniele


Mendonça? Você não pode consumir álcool durante a gravidez. — Léo para
no vão da porta do banheiro com aquele olhar de repreensão, chega a formar
rugas entre os olhos.

— Só uma taça não vai fazer mal, outro dia tomei uma de vinho com

as minhas amigas. — Dou de ombros.

Coloco a banheira para encher, tudo o que eu preciso agora é de um


banho relaxante e depois um completo café da manhã. Mas, pelo horário,
acho que só vão servir o almoço. O que não é nada mal, porque se o Léo

quiser me comer como sobremesa, melhor ainda.

Meu Deus, Daniele, que mente devassa. Se recomponha!

Diz a minha razão, mas é só olhar para o Léo de cueca boxe branca
cobrindo uma bagagem enorme semiereta que fico pegando fogo. Só consigo
me imaginar sentada no seu colo, cavalgando com as minhas unhas cravadas
nos seus braços musculosos cheios de tatuagens, quase solto um gemido
apenas imaginando a cena.

— Você só pode ter ficado maluca, Daniele. Já ouviu falar em

síndrome alcóolica fetal? — Sua voz levemente zangada me traz de volta da


minha fantasia sexual.

— Síndrome do quê? — Enrugo a testa, não faço ideia do que esse


homem está falando.

Então escolho alguns sais de banho com essência de pétalas de rosas


vermelhas e jogo na banheira, meu humor não poderia estar melhor hoje.
— É síndrome alcóolica fetal. Ingerir álcool durante a gravidez pode
ser muito perigoso. Os efeitos no organismo do bebê são extremamente

graves e severos. E como estudos sobre o assunto não foram capazes de


identificar qual é a quantidade “segura” que uma gestante pode ingerir, o
recomendado é que as grávidas não consumam nada alcoólico — explica
como se fosse perito no assunto, contenho um sorriso e vou até ele.

— É mesmo, Leãozinho? — Enlaço seu pescoço.

— Sim, senhora, estou falando muito sério — resmunga.

— E eu posso saber como você sabe disso? — Beijo seu rosto, ele
continua de braços cruzados fitando-me com o semblante fechado.

— No livro “Do pré-natal ao parto”, da Brenda Carvalho, comprei


assim que soube da sua gravidez e li em um dia. É ótimo! Se quiser eu te
empresto. Agora estou lendo a série de cinco livros “Pais e filhos”, do autor
Valter Hugo, e estou gostando muito também — explica compenetrado no

assunto, a coisa mais fofa do mundo!

Léo tem me surpreendido a cada dia mais, principalmente como pai.


Nem sabia que gostava de ler, muito menos sobre grávidas.

— Então não me resta alternativa a não ser pedir desculpas pela taça
de vinho que tomei, papai. Prometo não colocar mais nenhuma gota de álcool
durante a gravidez, feliz agora? — Seu semblante se abre como um nascer do
sol trazendo raios de luz para todo o rosto através de um sorriso satisfeito.

— Muito, mamãe, mas vou ficar ainda mais feliz se me deixar entrar

na banheira com você. — Cata a minha cintura e beija a minha boca, com o
fervor da paixão.

— Mas é o meu plano desde que eu entrei nesse banheiro, Leãozinho.


— Esfrego o meu nariz no dele.

— Eu estou com tanto medo de acordar na solidão do meu quarto e


perceber que isso tudo não passou de um lindo sonho, como em tantas outras
noites. — Coloca o meu cabelo atrás da orelha, apoio minha testa na sua.

— Isso não é um sonho, Léo. E eu posso provar — garanto.

Deslizo o meu corpo para baixo esfregando-me nele, fico de joelhos


na sua frente e baixo sua cueca boxe. Seguro sua ereção pulsante com as duas
mãos e, de leve, mordisco a pele mais fina na ponta olhando para cima, Léo
prende o lábio inferior entre os dentes com uma expressão de dor misturado

com prazer.

Agora ele sabe que isso não é um sonho!

— Puta que pariu, Daniele! — Urra e joga a cabeça para trás quando
o toco com a boca e engulo toda a sua extensão, seus músculos se contraem.

Inicio com sugadas mais leves, intercalando entre mordidas e


lambidas torturantes de baixo para cima passando pelas veias grossas.
— Isso, Boneca, chupa! — Léo agarra o meu cabelo em um rabo de
cavalo entre as duas mãos e impulsiona minha cabeça para frente e para trás,

ditando o ritmo de encontro ao seu quadril, estocando na minha boca com


vontade. Com um tesão tão grande que não consegue segurar por muito
tempo, gozando por longos segundos.

— Espero que não tenha ficado nenhuma dúvida que isso não é um

sonho, Leônidas Rafael. — Limpo a borda da boca com as pontas dos dedos
com cara de safada, sem perder o contato visual com ele.

— Eu não sei o que faço com você, sua diabinha. — Me puxa de volta
para cima e devora a minha boca, provando o seu próprio gosto impregnado
nos meus lábios.

Depois de um banho relaxante a dois na banheira, voltamos para a


cama nus e fazemos amor de maneira bem lenta e gostosa. Cheios de palavras
de afeto e carícias, enquanto a chuva ainda insiste em cair lá fora.
Dani

“Já estamos com saudades, mamãe.”

Sorrio ao ler a mensagem que o Léo enviou assim que entrei na minha
sala, anexado com uma foto dele com o Marcelo e a Maria deitados na minha
cama, com os rostos amassados de sono. Como tive que me levantar junto
com o sol para chegar bem cedo no trabalho, deixei os três dormindo, nem
viram quando eu saí.

“Eu também já estou com saudades, dá um beijo nas crianças por


mim.”

Não consigo parar de pensar no dia maravilho que eu e o Léo

passamos juntos ontem na cidadezinha do interior, ficamos a maior parte do


tempo na cama juntinhos como se nossos corpos fossem um só.
Aproveitamos que a chuva sessou à noite e pegamos estrada, chegamos um
pouco tarde em casa, mas o Marcelo e a Maria estavam acordados fazendo a
maior bagunça.

As crianças ficaram radiantes quando viram o Léo, tanto que


dispensamos a babá da Paula mais cedo e levamos os dois arteiros lá para
casa. Mesmo cansados da viagem, brincamos com eles um pouco, depois

dormimos os quatro na mesma cama. Por mim teria ficado em casa com eles,
mas tenho muito trabalho para fazer. No caminho até a empresa, passo em
um dos laboratórios mais respeitados do Brasil e de minha total confiança,
onde o meu tio, irmão mais novo da minha mãe, trabalha.

Entrego nas mãos dele o vidro contendo os resíduos químicos que a


indústria desova direto no rio para análise; o resultado, simples, ficou pronto
na hora.

— Isso é uma bomba química, Daniele! — foram as palavras do meu


tio, confirmando todas as minhas suspeitas.

Saio do laboratório rindo sozinha, estou ansiosa para mostrar para o


Gonzales tudo o que eu descobri. Chego na empresa radiante, confiante que
fiz um bom trabalho nesse caso.

“Então volta para a casa, Boneca.”

Léo envia outra mensagem, com uma foto só dele fazendo carinha de
triste.

“Tudo o que eu mais queria era estar aí com vocês, mas um dia
corrido de trabalho me espera.”

Tiro uma foto da pilha de documentos sobre a minha mesa, referente


ao processo do meu primeiro caso com todos os dados e detalhes da pesquisa
minuciosa que fiz sobre a fábrica de tinta, preciso organizar tudo isso para

mostrar para o Gonzales ainda hoje, junto com o resultado do laboratório.

“Depois de deixar o Marcelo na escola também vou para o trabalho,


depois que entro naquele mercado não tenho hora para sair.”

Coloca o emoji de uma carinha revirando os olhos no final da

mensagem, sorrio sem perceber. Mulher apaixonada é uma idiota mesmo,


acha graça em coisas bestas.

“Tenha um ótimo dia de trabalho, Leãozinho. Obrigada por levar o


Marcelo para a escola.”

Anexo um emoji com corações no lugar dos olhos.

“Bom dia de trabalho para você também, Boneca.”

O emoji que ele usa dessa vez é uma carinha jogando uma piscadela,

então finalizamos a conversa e o sorriso bobo ainda está grudado no meu


rosto.

— Bom dia, Daniele, trouxe um café fresquinho para a senhora. —


Ivone entra na minha sala com o seu bom humor matinal e uma xícara branca
em mãos, exalando uma fumacinha subindo com aquele aroma gostoso do
café.

— Muito obrigada, Ivone, você é a melhor secretária do mundo. —


Faço questão de levantar só para beijar o seu rosto, ela é o meu braço direito
nessa empresa.

— O senhor Gonzales já ligou duas vezes perguntando sobre os


documentos do seu caso, então acho melhor corrermos.

— Relaxa, mulher, nós daremos conta do recado. — Sorvo um gole


do meu café, está uma delícia.

Trabalho pesado na organização dos relatórios separados por ordem


alfabética e provas mais importantes, não esperava que desse tantas páginas.
Faço uma pausa para ligar para o hospital e saber como Michelle está, graças
a Deus ela está se recuperando rápido, já fica até em pé sozinha. Os médicos
estão esperançosos de poder dar alta em breve. Fiquei surpresa quando a mãe
dela me contou que o Léo passa lá para visitar a filha no hospital sempre que
pode, achei muito fofo da parte dele.

Voltei ao trabalho depois do intervalo de quinze minutos, à tarde

conseguimos deixar tudo pronto e eu fiz questão de levar pessoalmente na


sala do meu chefinho. Subo no elevador até a cobertura onde fica a sala dele,
mas não encontro a secretária na sua mesa para anunciar a minha entrada. Me
aproximo da porta entreaberta e escuto os gemidos escandalosos de uma
mulher vindos lá de dentro.

Olho de relance pela fresta e vejo uma mulher de aparência asiática e


cabelos curtos em um corte Chanel, sentada sobre a mesa do Gonzales, só de
sutiã e a saia erguida na cintura, suas pernas estão arreganhadas e o meu

chefe está enfiado no meio delas, mandando ver sem dó.

Esse Gonzales não perde tempo mesmo!

Saio de fininho antes que eles notem a minha presença, deixo os


relatórios sobre a mesa da secretária com um bilhete pedindo para entregar ao

presidente da empresa o mais rápido possível. Volto para a minha sala e


adianto uns outros documentos menos urgentes até vencer o meu horário, o
tempo voou, só dou conta que já é hora de ir embora quando a Ivone aparece
na minha sala para dizer tchau.

— Te vejo amanhã, Daniele. Bom descanso!

— Para você também, Ivone, ore por mim para que o nosso chefe
aprove a acusação que montei contra a fábrica. — Cruzo os dedos para dar
sorte.

— Vai dar tudo certo, querida, não se preocupe. — Seu sorriso é


confiante, jogo um beijo para ela antes de ir embora.

Saio logo atrás de Ivone. Ao caminhar até o meu carro, tenho uma
sensação desconfortável de estar sendo observada. No entanto, olho para
todos os lados e não vejo nada, deve ser só paranoia da minha cabeça por
causa daquela garota misteriosa me seguindo.
Passo na escola para pegar o Marcelo, a mãe da Maria avisou que iria
buscá-la mais cedo hoje para levá-la no médico para fazer alguns exames de

rotina. O sinal toca e as crianças saem correndo, menos o meu filho que vem
bem devagarzinho, quase parando. Puxa o ar com força, nem se anima
quando me vê, como de costume.

— Ei, meu amor, você está bem? — Vou ao seu encontro.

— Sim, mamãe, só quero ir para casa logo. — Abraça a minha


cintura, sua cabeça tomba sobre mim.

Eu sei que o Marcelo ama vir para a escola, mas não sei até quando
ele vai aguentar frequentar as aulas. Talvez seja o momento de passar mais
tempo com o meu filho, acho que depois da audiência contra a fábrica de
tinta vou pedir autorização ao Gonzales para trabalhar apenas em casa, por
tempo indeterminado.

— Está bem, querido, mas antes de ir para casa precisamos passar em

um lugar. — Pego-o no colo e o levo até o carro.

— Onde? — pergunta com a voz fraca e deita a cabeça no meu


ombro, tristonho.

— No trabalho do papai, pensei em darmos uma carona para dizer oi.


— Na verdade, eu quero ver o Léo porque não me aguento mais de saudades.

— Oba! Papai vai ficar feliz em ver a gente, não é? — Enfim consigo
arrancar um sorriso desta criança.

É só ouvir a palavra mágica “papai” que Marcelo se anima rapidinho,

nunca vi uma criança ser tão apaixonada pelo pai dessa forma.

Chegamos no mercado e encontramos Léo repondo alguns produtos


no corredor cinco, da sessão de enlatados, ele abre um sorriso surpreso
quando nos vê chegar.

— Mas que surpresa boa vocês por aqui! — Beija os meus lábios,
depois a minha barriga.

— Oi, papai! — Léo abaixa para ficar na altura do Marcelo que


imediatamente pula no colo dele, está carente hoje.

— Oi, filho, como foi a aula hoje? — Bagunça o cabelo dele.

— Foi chata, Maria foi embora cedo. Então fiquei sozinho, então o
Breno começou a… — Para de falar e esconde o rosto na curva do pescoço

do pai, eu e o Léo trocamos olhares por cima do ombro dele.

— Fazer o que, Marcelo? — pergunto já zangada, alguma coisa me


diz que não vou gostar nadinha do que vou ouvir.

— O Breno falou que a mãe dele disse para ele e os coleguinhas não
ficarem perto de mim porque eu estou doente e pode ser contagioso, então
ninguém gosta mais de mim agora. Só a Maria. — O meu sangue ferve nas
veias, nunca vou entender por que as pessoas precisam ser tão cruéis.
— Mas que filha da pu… — Léo aperta os lábios antes que fale
demais, tão puto quanto eu nessa história.

— Pode cuidar do Marcelo para mim, Léo? Prometo voltar rápido. —


Sorrio sem mostrar os dentes, não quero que o Marcelo perceba a minha
raiva.

— Sim, amor, mas aonde você pensa que vai? — Franze a testa.

— Ter uma conversinha com a mãe desse Breno agora mesmo, e nem
tente me impedir, ninguém humilha o meu filho e fica por isso mesmo. —
Beijo o rosto do Marcelo e o do Léo e saio raivosa pelos corredores do
mercado, não volto até tirar essa história a limpo.

Tem coisas que uma mãe precisa tirar a limpo ou não conseguirá
deitar a cabeça em um travesseiro e dormir depois de um dia cansativo de
trabalho, por isso vou achar essa mulher e vou dar uma boa lição nela para
aprender a não espalhar mentiras sobre uma criança inocente em uma

situação tão delicada.

Ligo para a Paula e pergunto se conhece a tal mãe do Breno, ela diz
que infelizmente sim, pois foi a mesma bruxa que a viu trabalhando no
calçadão e espalhou para toda a escola que uma das mães era uma prostituta.

Fico mais furiosa ainda!

Paula também me conta que o nome da víbora é Regina e tem um


salão de beleza conceituado na Lapa. Encerro a ligação e vou direto para lá.
Para a minha sorte o estabelecimento está lotado de clientes sendo atendidos,

assim como na sala de espera; quanto mais plateia para assistir ao show,
melhor.

— Boa tarde, senhorita, em que posso lhe ajudar hoje? —pergunta a


recepcionista com um sorriso longe de ser simpático.

Pelo meu semblante sério, está claro que não vim aqui por motivo
estético. Olhar para ela me faz lembrar da loira magricela vestida de rosa dos
pés à cabeça, a garota ingênua que fui um dia, que acreditava que o mundo é
feito de algodão-doce e os unicórnios existem de verdade. Que todas as
pessoas são boas e sinceras e o meu pai era um herói.

Naquela época, desde que eu estivesse com o cabelo e as unhas feitas


e uma bolsa da prata debaixo do braço, nada ou ninguém poderia me abalar.

— Quero falar com a proprietária deste salão, por favor — vou direto

ao ponto, em um tom bem alto para chamar a atenção de todos os presentes.

Observo o rosto da coitada sendo tomado por uma cor avermelhada,


sei que a culpa da minha raiva não é dela. Mas se não causar tumulto não vou
conseguir falar com a dona do salão.

— Se acalme, senhora, seja o que for nós resolveremos — tenta me


dobrar com a sua vozinha fina irritante.
— Chama a Regina agora ou vou colocar esse salão de quinta
categoria abaixo, entendeu bem, querida? — berro descontrolada.

Não passou nem dez segundos e chega uma mulher com a expressão
tão esnobe que logo percebo que estou frente a frente com a tal Regina,
vestida com um macacão listrado de muito mau gosto. Tem o nariz empinado
e o cabelo cor de beterraba, maquiagem pesada e unhas falsas gigantes

pintadas de azul púrpura.

— Posso saber o que está acontecendo aqui? — Me fita com desdém.

— Então é você que anda enchendo a cabeça do próprio filho de seis


anos com mentiras? Tenho pena do Breno por ter uma mãe como você.

— Mas do que você está falando, sua maluca? Nem te conheço — se


faz de desentendida, dando uma de sonsa na frente de suas clientes.

— Ah, não sabe? Mas falar para o Breno que ele e os coleguinhas
devem ficar longe do meu filho para não correr o risco de pegar a doença dele

você sabe, né? Sendo que até a pessoa mais ignorante do mundo sabe que o
câncer não é contagioso. — Ela arregala os olhos e engole em seco, mas logo
se recompõe.

— E… eu… — gagueja, mas logo recobra a postura e sibila: — Você


como mãe não deveria dar ouvidos às asneiras de uma criança, querida. Já
falei para o Breno parar de inventar histórias. — Tira o rabo dela fora, além
de preconceituosa é uma covarde jogando a culpa toda no próprio filho.

— Então quer dizer que contar para a escola inteira que a mãe de uma

das coleguinhas de sala do seu filho é garota de programa, só para


desmoralizá-la perante os outros pais, foi invenção do Breno também? — Seu
rosto se fecha.

Sentindo-se acuada, dá um passo para trás.

— Fui eu mesma, e daí? Eu não quero que uma mulher dessa laia
frequente o mesmo ambiente que o da minha família, sou crente e honesta.
Pronto, falei! — assume a mau-caráter, como se fosse a dona da razão.

— Falou a santa puritana, que usa progressiva falsificada para ganhar


em cima do cliente — acuso e as clientes ficam de boca aberta, cochichando
entre si.

— Mas isso é uma difamação, meus produtos são os melhores do


mercado — se defende.

— Se você está dizendo, ok! Só toma mais cuidado da próxima vez


que for falsificar a embalagem de uma marca famosa, verifique se pelo
menos o nome está escrito de maneira correta. É Fashion com i e não y. —
Reviro os olhos.

Ergo o vidro da progressiva para quem quiser ver, com gente


trapaceira é assim que se faz. Ainda usa o posto de crente para julgar os
outros.

— Vai embora do meu salão, sua vagabunda, ou eu…

— Ou eu o que, Regina? — Cravo as minhas unhas no braço dela, ela


é mais alta do que eu, mas não me intimido.

Então continuo:

— Pode chamar a polícia se quiser, é bom que eu, como advogada,


abrirei um processo contra você e esse salãozinho de merda por uso de
produto falsificado — ameaço.

— O que você quer de mim para ir embora e me deixar em paz,


garota?

— Que nunca mais ouse falar do meu filho ou da mãe garota de


programa, da qual eu tenho muito orgulho de dizer que é minha amiga. A
propósito, o nome dela é Paula, um ser humano muito melhor do que você —

sou bastante clara.

Nem conhecia esse meu lado justiceira.

— Ok. Já entendi o recado.

— Boa menina! — Me viro para ir embora, então a desgraçada


resmunga baixinho:

— Tudo isso por causa de uma criança moribunda, que absurdo. —


Encolho os ombros e paraliso.

Giro o corpo já com a mão fechada e lhe dou um soco bem dado no

olho esquerdo que a derruba no chão, é tão querida no seu próprio


estabelecimento que ninguém ousou vir socorrê-la.

— Espero que estejamos conversadas agora, Regina. Não me faça


voltar aqui e terminar o trabalho — dou o meu recado e vou embora

rebolando, com as suas clientes saindo logo atrás de mim, furiosas por
estarem sendo enganadas.

Eu tentei resolver a situação de maneira pacífica, mas a bruxa não


quis. Eu tanto falava sobre a Julia e Yudiana serem barraqueiras assumidas,
que acabei me tornando uma e com muito orgulho. Em mim ninguém pisa
mais.

De alma lavada, passo no mercado para pegar o Marcelo. Como o


turno do Léo terminava em cinco minutos, esperei para dar uma carona a ele,

para minha casa, é claro. Hoje esse homem não vai dormir em nenhum outro
lugar que não seja na minha cama, por mim já mudaria para o meu
apartamento.
Léo

— Eu não acredito que você socou a cara da mãe do Breno, amor.

Como eu queria estar lá para ver essa cena. — Abraço a sua cintura e beijo a
curva do seu pescoço enquanto ela pica alguns legumes sobre a tábua de
madeira na mesa, estamos fazendo o jantar juntos enquanto o Marcelo joga
videogame no quarto dele.

Nem acredito que Daniele e eu estamos juntos de novo, não consigo


tirar as minhas mãos dela. Estou vivendo um sonho. Dessa vez vou fazer tudo
certo, quero viver pelo resto da minha vida ao lado dessa mulher e ter uma
penca de filhos.

Por isso fiz questão de explicar para a Dani quem era a mulher que
viu no meu apartamento. Além de entender, ainda disse que gostaria de
conhecer a Mônica. Assim, além de mim, teria mais uma amiga e não se
sentiria mais tão sozinha.

Tem como não amar essa mulher? Seu coração é do tamanho do


mundo.
— Só não dei mais na cara dela porque não sou adepta à violência,
mas a vontade era grande, viu? — Sua gargalhada toma conta da cozinha, alta

e divertida.

— Essa é a minha garota! — Dou um tapa na sua bunda, fica uma


delicinha com essa bermuda jeans curtinha.

— Sossega, Leãozinho, antes que eu me confunda e corte o dedo ao

invés do tomate — enquanto ela adverte, mordo o nódulo de sua orelha e ela
se arrepia toda.

É incrível a energia sexual que existe entre nós, basta um olhar e a


chama do desejo se acende. Como fogo e pólvora, quando se tocam a
explosão acontece.

— Sorte a sua que eu preciso olhar o meu macarrão de forno, Boneca.


— Aperto o seu seio, espero que não esteja cansada, porque tenho muitos
planos para mais tarde.

— Nossa, meu amor, está com um cheiro ótimo, você realmente


cozinha muito bem. É um homem prendado. — Ela me olha por cima do
ombro com um sorriso sensual e pisca os cílios lentamente, seduzindo-me.

— Repete o que você disse? — peço.

— Você é um homem muito prendado, Leônidas Rafael. — Joga um


beijo para mim.
— Não essa parte, Boneca.

— Qual parte, então?

— Que você me chama de meu amor, como nos velhos tempos. Amo
quando me chama assim. — Encosto as costas no balcão da pia e cruzo os
braços, quero estar olhando bem para ela nesse momento.

Daniele deixa a faca sobre a mesa, vem até mim e coloca as mãos na
cintura. Olhar nos seus olhos é como estar diante de uma lagoa esverdeada
cristalina.

— Por mais que eu tentasse negar por todo esse tempo, eu amo você,
Léo. Amo o jeito como me olha ou quando sorri espontaneamente. Amo a sua
garra em se tornar uma pessoa melhor, mas acima de tudo, amo esse seu lado<