Título original: Jésus le Christ

Dieu se donne un visage

INTRODUÇÃO

Tradução de: Manuel de Aguiar

Fotocomposição: SOTECLA. LDA.

ISBN 972-30-0447-X (edição original: ISBN 2-227-30137-6 Paris. França)

«Não nos cansamos de repetir frases feitas sobre Deus feito homem. Temos, porém, de reconhecer que ainda não tomámos perfeita consciência do que há de inaudi to na aproximação da palavra Deus à palavra homem, a propósito de Jesus de Nazaré». (1) Estas linhas exprimem bem qual o espírito das dili gências que nós faremos ao longo desta obra. Com efeito, quereríamos que aparecesse, ao longo destas páginas, o que efectivamente há de inaudito na fé cristã na apro ximação destas duas palavras Deus e homem. Que Deus Se tenha feito homem, que Ele tenha tomado cafne hu piana eis o grande problema dos nossos contemporâ neos. Pelo que não é possível, hoje em dia, prender-se a fórmulas já gastas. No mundo em que nós vivemos, que perdeu as suas raízes cristãs, a fé dos cristãos em Jesus de Nazaré é, se não aberrante, ao menos vazia. Pelo que é necessário encontrar-lhe o conteúdo. Afé dos cristãos pode resumir-se no subtítulo desta pequena obra: emJesus de Nazaré, «Deus assume um rosto». Para ii1Er exprimir o que tem de inesperado iimaial afirmação, podem fazer-se testes, aliás fáceis e úteis: basta considerar a forma como se fala de Jesus,

© Éditions du Centurion, 1988, Paris

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1990. EDIÇÕES PAULISTAS Rua Dom Pedro de Cristo, 10

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Tel. 80 52 73 1700 LISBOA

(1) Claude Geffré. L’historicité de Dieu ou le vrai scandale de la foi’, Catéchèse, n.° 76, Julho de 1979, p. 31.

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quer à nossa volta, no falar espontâneo das pessoas, quer nas próprias expressões mais elaboradas da literatura e do cinema. O problema que se poderia pôr, a pergunta que se poderia fazer já foi feita por Cristo: «quem di zem os homens que Eu sou?» (Mc 8,27). Os estudos e os inquéritos, susceptíveis de dar resposta contemporâ nea a esta pergunta estão aí e são muitos. Contentemo -nos com indicar algumas pistas. Quem dizem os homens que Eu sou? Há muito pouco tempo, surgiu uma nova colecção «Jesus depois de Jesus» (2), cuja ambição é delinear, em vinte volumes, os retratos de Jesus através da história. Ao longo dos vinte séculos que nos separam do nasci mento de Jesus multiplicaram-se os retratos. Assim e para não falar senão do século XIX surgiu-nos um Jesus romântico, um Jesus revolucionário e violento, coum Jesus oscilante entre «a doçrae a munista até dor») Cada época nos deixou os seus próprios retra • Jesus. E tão diferentes uns dos outros ue nos oderemos justamente perguntar se tiveram ou não diante dos olhos o mesmo. moeo. os retratos se afastaram bastantes vezes da fé cristã. Um outro teste pode ser o cinema. O «rosto de Cris ) 4 to»( do cinema é pelo menos tão variado como o da literatura. Umas vezes, animado por uma vontade im piedosa de desmistificar a figura de Jesus, outras vezes, desejoso de apresentar ou, pelo menos, de fazer pres


(2) Colecção Jesus depois de Jesus»’, Cerf. 1987. Anunciados, vinte volumes. Ver igualmente a colecção .»Jesus e Jesus Cristo’. dirigida por J. Doré, Paris, Desclée, colecção em que os colaboradores são não só teólogos corno também representantes de outras religiões e até agnósti cos. Afinal apareceram mais de trinta volumes. (3) Frank Paul Bowman. Le Christ des barricades. 1789-1848, Pa ris, Cerf, 1987. (4) Henri Agel. Le visage du chrisr à 1 ‘écran. Paris, Desclée. 1985.

sentir o Seu mistério, o cinema é de facto uma lingua gem muito difícil. Entre o Jesus Superestrela dos filmes do Oeste, contado pelo cinema americano, e o «Mes sias» visto pelo italiano Rosselini, há a imensa distância do oceano. O cineasta italiano, com a sua evocação da simplicidade do Jesus que trabalha a madeira, e vive pró ximo dos Seus pela Sua humilde condição de carpintei ro, faz-nos pensar em Jesus numa outra dimensão, a dimensão do mistério, que um Jesus superestrela não po de deixar de escamotear. O Jesus do cinema, as mais das vezes, é a expressão da sensibilidade de uma época. Mas, numa civilização da imagem, como é a nossa, o cinema é, talvez, um dos meios pelos quais os nossos contemporâneos podem mais frequentemente entrar em contacto com Jesus. E é por isso que o cristão consciente não tem outra alternativa senão estar atento àquilo que aparece no cinema. Um dos testes mais significativos poderia ser to de Jesus pintado pelas seitas, um Jesus à margem da Igreja, um Jesus com todas as cores do arco-íris. Estu dando a «nova religiosidade» (5) que se manifesta nestas seitas, J. Vernette notou que a figura de Jesus sofre em tudo isto uma distorção em função dos dois pólos em volta dos quais estas seitas se podem classificar. que bebem na mística orien, designam Jesus como Cristo, crístico, iniciado, Mestre, instrutor, guia. Jesus, que ocupa um lugar ao lado de outros mestres da sabedoria, não tem qualquer identidade divina. Outras teorias religiosas, próximas do fundo judeo-cristão, con sideram Jesus como Salvador, Filho de Deus, Messias, etc. E correm o risco de esguecepor seu lado, a Sua Eiiuianidade. Ora estas seitas revelam bem uma tendên ia que nos ameaça a todos: a de fragmentar a figura
(5) Jean Vernette, Jésus dans Ia nouvelle religiosité, col. Jésus et Jésus-Christ, núm. 29, Paris, Desclée, 1987.

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apresenta Jesus como a figura do Mes sias. E. pois diz respei to a Jesus. que inauguram o Evangelho. Jesus não passa de um sábio ou de um super-sábio. aquele que Israel esperava. palavra esta que. o qual lhe ia permitir realizariiTa 9 E vós. quer dizer «ungido» e. ps Concflioseos testemunhos que nos ficaram. izer de Jesus que é Cristo sig nitica dizer que toi reconhecidomo o Desejado. O que eles criam acerca d’Ele_foi-nos_transi do pe1in. gerações de homens e de mulheres reconheceram neste homem o Filho de Deus. um profeta. que ensina um código de moralidade. só que esta imagem é muito — — daquilo de que são feitas as vias da cristologia e da ma neira como foram. considerado o mais antigo de todos. Jesus tem sem dúvida e ao contrário do que acontece com a Igreja uma boa «imagem de marca». não podemos recusar a Sua condi ção humana. as pessoas acerca daqui o em que elas crêem. Esta Boa-Nova tem. uma dimensão histórica. o derradeiro teste: as sonda ens. que Deus envia para salvar o Seu povo e estabelecer no mundo o Seu Reino. rapidamente nos damos conta de que a sua fé é bastante incerta. que tem um nome ju deu. publi cada em Le Monde de 1 de Outubro de 1986 e no número 2144 de La Vie. Para alguns. um Homem situado. 1 a 7 de Outubro de 1986. cujos pais são conhecidos. exprimem o carácter inesperado deste acon tecimento. que evoca a unção com azeite recebida pe los reis de Israel. 8 . a salvífica e a ontológica. te nome de Jesus Cristo só por si. «messias».ge1hq. aqui. mas ainda menos limitar a ela o nosso olhar. E caminhando que nós nos damos conta (6) Sondagem efectuada em Setembro de 1986 pelo Sofres. porém. Desde que um «certo Jesus» surgiu na história dos homens. As perguntas que fazemos a n6 próprios acerca de Jesus não encontrarão.1) Este simples enunciado contém o essencial acerca da fé cri’tã. ao passo que 11 % dizem que não é e 17 % não sabem que responder. um programa. em grego. traçadas ao lon go da história. sugerimos que comecemos por ler as primeiras palavras do Evan gelho de Marcos.de Jesus. finalmente. etc. uma res posta teórica. Marcos leva-nos imediatamente à fonte do testemunho apostólico pelo simples título do seu Evangelho: «BOA-NOVA DE JESUS CRISTO FILHO DE DEUS» (Mc 1. em hebraico. mas admira mais que. Uma sondagem (6) efectuada em Setembro de 1986 revelou que 64 % dos franceses acre ditam em Cristo como Filho de Deus. somente 72 % reconheçam que Jesus é Filho de Deus.. quem dizeis que Eu sou? Aquilo que dissemos sobre a imagem de Jesus e que é expressão da opinião pública pode servir-nos de pon to de partida para a descoberta daquilo que sobre Jesus afirma o discurso cristão. entre aqueles que se dizem explicitamente católi cos. o Evangelho de Marcos acrescenta ao nome de Jesus o título de «Cristo». Ao falar mos deste Homem. Podemos descobrir nelas três dimensões: a histórica. prega a palavra de Deus. antes de mais. o da Sua hurna ndade&io da Sua divindade. Este nome. Para descobrirmos as etapas que vão organizar este percurso e dar dele a primeira visão global. progressivamente. Quando interrogamos. reter dela apenas um aspecto.. Boa-Nova: estas palavras. Ela já não sealimenta unicamente dos ensinamentos da Igreja pelo que a imagem de Jesus se torna pouco nftida. o filho do carpinteiro. A fé vai mais longe! Com efeito. e que viveu num lugar e momento precisos da história dos homens.

Ficará sempre a pergunta. começaremos por recolher os testemu nhos que estes deram de Jesus. à caminhada da fé dos cristãos através dos séculos. dimensões ao mesmo tempo que se mantém fiel. que nos obriga a dar mais um passo. Será o momento de aprofundar o sentido que tem para nós esta Boa Nova da salvação. Ãó dizer deste Jesus que é Filho de Deus. estas três. veremos como os primei ros cristãos descobriram a dimensão ontológica de Je sus. Uma vez que a fé dos cristãos se apoia na fé dos Apóstolos. para falarmos como os teólogbs.T. Para o fazer. 2. como dirá S. e manter-nos fiéis ao sentido da figura do crucifica do. Ela ronhece que. conforme estão consig nados nos escritos apostólicos (N. Por outras palavras. perante um verdadeiro caso de es pantar. loucura para os pagãos» (iCor 1. Numa segunda etapa. Pre cisaremos então de clarificar. que tanto marcou a cultura ociden tal. o mais possível. tre estava de novo vivo? É esta experiência que consti tui a matriz do cristianismo. ou se ja.. da dimensão salvífica. um alcance salvífico ou. enquanto Filho. de pois. Pelo que é muito importante que. isto é.enuncia alguma õia sobro serde Jesus Cristo identificado. «escândalo para os judeus.).15). A nossa terceira etapa ocupar-se-á da obra da sal vação. Por que vias chegaram os discípulos à afirmação de que o seu Mes lo. passa pela morte na cruz. quereríamos que o nos so percurso fosse mostrando. soteriológico. que lhes revelou o papel único e decisivo de Jesus no desígnio de Deus. estejamos atentos à experiên çia pascal dos discípulos. progressivamente.23). é o pr6jio Deus que Se insere na nossa história. Foi esta expe riência que guiou os Padres da Igreja. Eis-me. que guiou. que não se pode iludir: quem é esse Deus que Se revela numa morte destas? li . Como é possível que a história de um Homem possa trazer ai dãhumanidade a salvação de Deus? A resposta cristã éuma resposta de fé. resumida na seguinte fórmula: a pes soa de Jesus é em si mesma a «imagem do Deus invisí vel» (Cl 1. porém. as grandes testemunhas da tradição teológica até aos nossos dias. Estas três dimensões são inseparáveis. mas cada uma delas oferece um ponto de vista particular. A Páscoa fez com que os discípulos vivessem uma es perança de salvação. mas também com o dom que Deus nos faz de Si mesmo. afirmamos a propósito do homem Je sus não somente que Ele é o enviado de Deus para sal var. com precisão. Mas pareceu-nos prefe rível seguir o caminho escolhido por Deus. ficar-nos-emos pela dimensão histórica. Todos dão conta da mesma fé. a misteriosa identidade de Jesus. no rosto do seu Mestre ressuscitado. Eles reconheceram n ‘Ele o Filho Eterno de Deus. O que quer dizer qiie toda a palavra sobre Jesus Ciito tem igualmente uma dimensão ontológica no sentido de que. numa primeira parte. Na primeira etapa. Paulo. anunciar o nome de Deus a todas as na que quer dizer que o nome de Jesus Cristo é uma boa nova para o mundo e tem por isso uma dimen são salvadora. Tratá-las-emos pela ordem seguinte: 1. mas que ele próprio é Deus. não somente com o dom da salvação que Deus nos concede n’Ele. a ideia de redenção. neste Homem Jesus. levada a cabo por Deus em Jesus Cristo. 3. que é um caminho paradoxal: sendo um caminho de vida. a qual os levou a reconhecer. sempre que procuraram mostrar. ter-nos-ia sido possível partir das nossas próprias indagações humanas. de uma forma especial. dizemos qual quer coisa que pertençe à própria essência de Cristo._ Entre os itinerários possíveis.vocação. a glória de Deus.

1 «NÓS VIMOS À SUA GLÓRIA» A experiência pascal dos Apóstolos o Verbo Se fez carne e habitou entre nós e nós vimos a Sua glória» Jo 1.14 .

«Quem é, para mim, Jesus Cristo?» Antes de aceitar o percurso que propomos, poderá o leitor aceitar o ris co de responder a esta pergunta à sua própria custa. Dis porá, assim, de uma primeira confissão de fé, que poderá ir ampliando e corrigindo à medida que for realizando a sua progressão (Ver Anexo 1). O itinerário que lhe é proposto aqui não parte, porém, desta experiência pes soal. Caminhando através das Escrituras, estará sempre atento aos discípulos de Jesus para poder acolher o seu testemunho acerca do Ressuscitado bem como a leitura que eles próprios fizeram da sua experiência de Jesus de• Nazaré, cujos passos e vida decidiram seguir. A nossa fé nasceu na Páscoa com um grito de ale gria: Cristo ressuscitou! Que terá acontecido para que os discípulos do Pro feta de Nazaré se tenham posto a proclamar que o seu Mestre estava vivo, viveria para sempre e n’Ele todas as promessas de Deus haviam de ser cumpridas? «Cris to ressuscitou !» E escutando este anúncio pascal e deixando-nos guiar pela sua força organizadora que po deremos compreender como nasceu a fé dos Apóstolos. As raízes desta fé mergulham na história de Israel. Te mos de o demonstrar. Mas temos, sobretudo, de dar con ta, neste livro, dos grandes momentos que viveram com 15

Jesus e recolher a sua mensagem destinada ‘s cristãos de todos os tempos. O anúncio da ressurreição de Jesus exprime-se, no Novo Testamento, de diversas maneiras: confissões de fé, relatos de aparições, exposições bem documentadas, como iCor 15. Uma das formas mais desenvolvidas deste anúncio é o discurso missionário, também chamado «que rigma». termo de uso profano. que designava a procla mação oficial das novidades nas cidades gregas. Nos Actos dos Apóstolos, podem ler-se seis destes discur sos. Cinco são de Pedro (1,14-39; 3.13-26; 4,9-12; 5,30-32; 10,34-43). e um de Paulo (13,16-41). Lucas apresenta-os sob a forma de esquemas cuja estrutura se pode ver muito facilmente no esboço da página seguinte: No coração da mensagem, há o anúncio da res surreição d’Aquele que foi crucificadó. Em torno deste anúncio fundamental (círculo central do desenho) estão dispostos certos traços do ministério de Jesus, assim co mo os sinais que acompanharam a Sua ressurreição (cír culo intermédio). Este acto de Deus, que, em Jesus, sai vitorioso da morte, ocupa lugar numa história da salvação: men ção do desígnio de Deus, recordação dos textos da Es critura que apresentam a Páscoa como a realização deste desígnio e a inauguração dos últimos tempos, os tem pos do Espírito. Desta maneira, o acontecimento pas cal, alargado ao conjunto da vida de Jesus, faz parte de um círculo muito mais amplo, para manifestar que este acontecimento se situa no desígnio criador e salvador de Deus. Esta primeira leitura do esboço, de acordo com o eixo horizontal, que mostra a dimensão histórica, deve ser completada com uma leitura vertical de cima a baixo, ao longo do esboço (A-B-C), a qual manifesta a dimen são trinitária do acontecimento. A partir deste primeiro
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Estrutura do anúncio pascal

DEUS

A

ANTES

1’
4,
DEPOIS

JESUS SENHOR B

ESPÍRITO

C

A: O desígnio de Deus ((Os profetas dão testemunho de Jesus» B: O 1. 2. 3. “facto Jesus» Começo, na Galileia Condenação à morte: Eles eliminaram-n’O» Ressurreição: ((Deus ressuscitou-O» ((Deus designou-O Juiz e Salvador)> 4. Testemunho: «E nós somos testemunhas disso» «Nós comemos e bebemos com Ele, após a ressurreição»

C: Iniciou-se o tempo do Espírito O perdão foi concedido em nome de Jesus o Espírito derramou-Se
Coordenar os discursos dos Actos dos Apóstolos com os capítulos 2, 10 e 13.

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olhar sobre a estrutura da confissão pascal é possível in dicar o itinerário que vamos seguir. 1. O tempo das promessas. Na Páscoa, Jesus é pro clamado Cristo porque n’Ele se realizam as promessas de Deus feitas ao Seu povo, O que quer dizer que a fé pascal radica numa esperança geral, culminada, aliás, na esperança específica da ressurreição dos mortos. Es ta esperança tomou corpo de uma forma literal na pes soa de Jesus. Só nos resta perguntar de onde vem esta esperança. 2. O tempo de Jesus. A fé pascal refere-se à obra realizada por Jésus de Nazaré, reconhecido como Aquele pelo qual veio a Boa-Nova da Paz (Act 10,36). Os dis cípulos, que viveram com o Mestre durante meses, fi caram marcados profundamente, como o prova muito bem o seu desapontamento no dia a seguir à morte de Jesus (Lc 24,19-24). O lugar dos relatos evangélicos na vida da Igreja testemunha a importância desta referên cia à vida de Jesus para se compreender verdadeiramente quem era o Ressuscitado.
3. Reconhecer o Crucificado. A esperanças que vi via no coração dos discípulos e que, como filhos de Is rael, eles partilhavam com o seu povo, bem como o encontro que tiveram com Jesus na Sua vida terrestre, permitir-lhes-ão compreender melhor as dimensões ‘es senciais da experiência pascal.

1. O tempo das promessas
Se quisermos recapitular a totalidade do tempo das promessas, temos de evocar todo o Antigo Testamento. Obrigados a escolher, fixaremos a nossa atenção sobre três dados essenciais: as traves mestras da fé de Israel, a fé na ressurreição dos mortos e a situação do Povo deDeus na época deJesus. 1. Escuta, Israel! Estas duas palavras «escuta, Israel!» constituem o começo de uma oração que o Judeu piedoso recitava vá rias vezes por dia, e que se chamava o «shemá» (Dt 6,4-9; 11,13-21; Nm 15,37-41). A alma do Povo eleito expri mia-se inteiramente nesta oração, Um povo que tinha a consciência de ser um povo escolhido e, por isso mes mo, chamado por Deus. Israel nasceu da Aliança que Deus fez com ele, ao tirá-lo da servidão do Egipto para fazer dele um povo de filhos. A este povo deu Deus a Sua Palavra (a Lei), na qual devia discernir a vontade divina, uma Terra que era preciso pôr a dar fruto, um Templo no qual esse povo podia encontrar-se com Deus. Toda a esperança de Israel nasceu desta iniciativa divi na e desta história de amor (Os 2), sem que as outras nações sejam por isso postas de parte. Para correspon der à sua vocação, Israel deve, com efeito, «escutar o seu Deus», mas igualmente testemunhar diante de todos os outros povos o amor que Deus lhe tem (Gn 12,2-3). O que quer dizer que a história de Israel está em ten são para o pleno cumprimento. No entanto, esta espe rança foi, ao longo dos séculos, evoluindo sempre. No reino de Judá, no Sul, foi a dinastia real que se tornou instrumento de Deus para realizar o Seu desígnio. Só que a infidelidade dos reis, a destruição do país, a deporta19

4. A mensagem pascal. Após a análise desta expe riência dos discípulos, estaremos em condições de per ceber o alcance da mensagem pascal, mensagem sem a qual, no dizer de S. Paulo, «a nossa fé não teria conteú do e a nossa pregação seria vã» (1 Cor 15,14). 18

No tempo de Jesus. o hõrizon te da vida com Deus limitou-se. 2. o rei Ezequias (7 16-687) exclamava: «Não mais verei a Deus na terra dos vivos !» (Is 38. algo de muito importante. VI a. sem rei nem templo. «Deus reclama a Tua vida na tumba» (Salmo 103. O que quer dizer que. Ocupada pelos Romanos. foi por causa desta Aliança com Deus: sendo Deus vivo e justo. os Saduceus. no termo da história. com aquela a sobreviver à desaparição deste. á que a salvação não podia nascer deste vale de lágrimas. até por volta do ano 200 antes de Cristo. que nos ajuda a compreender o testemunho dado pelos discípu los acerca da ressurreição de Jesus. assim. Assim surgiu a ideia de que o justo devia voltar a viver após a morte. Por esta razão se esperava em Israel que. foi a experiência colectiva do regresso do exflio (séc. partido de chefes religiosos. que o próprio Deus mandaria. Para o israelita.11).ção das populações levaram à esperança num Messias. da relação pre sente e viva com Deus já neste mundo. pode restituir a vida àqueles que enfrentaram o martírio.C. baseada em Deus como parceiro da Aliança. Deus (1) Cadernos Évangiie. em todo o caso. A fé na ressurreição alimenta-se. a qual realizaria a profecia feita por Moisés: «Será um profeta como eu que o teu Deus suscitará no meio de ti de entre os teus ir mãos» (Dt 18. Então. No limiar da morte. há toda a conveniência em procurar descobrir como esta fé apa rece(’). Os semitas não consi déram o homem como um composto de alma e corpo. Um tempo de crise Na época de Jesus. separado de Deus definitivamente (2Mc 7 e Dn 12. Se chega ram ao ponto de acreditar na ressurreição. foi a experiência das perseguições no tem po dos Macabeus. Israel es tava. então. Esta ressurrei ção é mais do que uma vitória sobre a morte: é a vitória sobre a injustiça. na essência. exilado.4) Só muito tardiamente o povo de Deus chegou à fé na ressurreição dos mortos. Eis um aspecto importante. Deus Se revelasse e manifes tasse a Sua glória. Uma vez que a fé na ressurreição é.° 3: uma excelente apresentação dos con tributos bíblicos para o esclarecimento dos textos referentes à ressur reição de Cristo. ainda não tinham aderido à fé na ressurreição. 3. para Jesus e para os. afastado da sua terra. os judeus não acreditavam numa ressurreição pessoal dos mortos. fez um povo ressuscitado.2). Duas experiências fundamentais levaram os crentes a esta conclusão: • primeiro. Também se esperava uma última testemunha de Deus. no século II antes de Cristo. n. que regressa à sua terra para aí adorar o seu Deus e viver segundo as Suas leis. disperso. depois. Come çou. Tes temunho desta fé é a extraordinária visão de Ezequiel dos ossos ressequidos (Ez 37) que voltam à vida pelo sopro de Deus. a parecer impossível que o justo que morria mártir por causa da sua fidelidade a Deus ficasse. e num outro mundo. Esta lei é. semelhante a Moisés e as Profetas.): De um povo morto. pela morte. O ardor 21 20 .cristãos. em plena efervescência. parecia que os céus estavam fe chados: há muito tempo que os profetas se tinham cala do e o Espírito de Deus já Se não manifestava. Era na Escritura (a Torah) e na prática dos mandamentos que os Judeus piedosos redescobriam Deus e viviam com Ele a sua relação filial. o Espírito seria dado ao povo e infundido no coração de cada um.15). por muito tempo. à vi da terrena.

Jésus de Nazareth. através da solicitude de Deus (3) Cf. Os milagres não pretendem provar nada: são sinais do Reino de Deus. por via das interdições que a lei fazia pesar sobre eles.4-8). Miracles de Jésus et théologie du mi racle. ter saúde. depois de ter baptizado du rante brevíssimo tempo. E foi neste clima de expectativa e de crise que Jesus apareceu. que vai em busca daqueles que se perdem. No entanto. 1983. para a ilustrar concretamente (Mc 2fi). Anunciam. Cerf.religioso de certos estratos da população era atiçado pela aspiração à liberdade: Deus havia de vir! • Um Messias Rei. reintegra na comunidade aqueles a quem a doença afas tou. ou talvez dois. Deus re1iãas pro messas que fez. radicalmente novo.2-6) e precisou que Cristo o esclarecesse. II. havia de surgir. Enquanto João levava as pessoas para fora das cidades na direcção do deserto Jesus andava de cidade pregando a vinda de Deus para rnuitob 1. Jesus fez-lhe com preender que as promessas feitas aos profetas se tinham tornado realidade (Lc 4. fariseus e baptistas. socorre os pobres. na sua essência. etc. 22 23 . que Se ocupa dos pobres e mar ginalizados. 130. em vez degar um Deus terrível. Jesus a uncia a ma stS sgie. O reino de Deus está no meio de vós Exactamente como João Baptista. Desclée. A originalidade dos Seus milagres (3) está em que eles são.16-2 1): os cegos vêem._io sim. Testemunha da vinda do Deus da Aliança e da recõnciliação. P. Deus em pessoa purificaria a Sua própria terra. surge na órbita de João Baptista. Jesus vai mudar o Seu compor tamento. Essé nios. que atrai as multidões com o anúncio do A mensagem de João é o mais simples possível: procla ma um baptismo para a remissão dos pecados (Mc 1. Ou então. Beaude. Os milagres de Jesus Os milagres de Jesus np ervç prja Isagem. o tempo de Jesuséum tempo novo. mais fácil: Jean-Pierre Charlier. A salvação que o milagre manifesta respeita a ne cessidades fundamentais como comer. os pre sos são libertados. M. Cerf/Bellarmin. Opõe-se a tudo aquilo que separa os homens de Deus e os homens uns dos outros. sem exigir 05 Custosos sacrifícios do Templo. o. 1987. dos que não têm esperança. ParisfMontréal. E este o sentido da Sua mensagem como o demonstram os milagres que faz e o modo como vive. faz com que as pessoaidescubram (2) um Deus misericordioso. jiLais do Reino de Deus em Com Jesus e através d’Ele. O tempo de Jesus (2) Jesus vem da de Jerusalém por causa dos resíduos de presença pagã que ali continuavam. René Latourefle. Jesus quer preparar os corações para acolherem a Boa-Nova. liberta os doentes. Paris. No fundo da sua prisão. E tocante verificar que os Seus adversá rios chegam a censurá-l’O por não fazer milagres sufi cientemente convincentes. Mas Jesus recusa o espec táculo. 1986. cada um deles desenvolvia esta esperança de acordo com o seu próprio guião ou argu mento preferido. Jesus apa rece neste contexto onde está bem viva a esperança do fim dos tempos. Les Miracles dans I’évan gile. Filho de Israel. Neste sentido. viver. p. João Baptista sentiu-se confuso (Mt 11. Signes etprodiges.

nesse tempo. Tiago e João. Mateus (os publicanos eram. Filipe. mas dar-lhe cumpri25 . através do Seu comportamento. um judeu pie doso. de vistas deiasiado cur mas deve. o que era contrário aos costu mes da época. Não veio aboli-la. originário de uma cidade fronteiriça. Jesus aparece ciio uma ameia para a ordem da salvação con !da pelos homens religiosos da época. Natanael. há um fiel cumpridor da Lei. O modo de viver de Jesus Como os milagres. E não só pede que O sigam como exige também que deixem tudo para o poderem fazer. para não falarmos de Judas e de Pedro. mas suscitam também a oposição de fariseus e chefes religiosos. Simão. testemunha. um helenista. pelo £dão. partidários da violência. o Templo. etc. Jesus dá uma ideia do perdão de Deus. escolhe os Seus discípulos por Si mesmo e. Nada chama va estes discípulos a viver em comum a não ser a escolha -convite de Jesus. a pre tensão invulgar de ser. Mesmo com o risco de passar por «glutão e bebedor» (Mt 11.19). O problema põe-se com toda a crueza. As pretensões de Jesus A mensagem de Jesus. entre os homens. etc. Pressentem. Nesta época. Entre os Seus discípulos. suscitam entusiasmo. Quem é Jesus para ligar desta forma a vinda de Deus e a concessão do Seu perdão à simples presença da Sua pessoa? Uma tal pretensão lança a confusão em todas as representa ções religiosas. ao contrário. • A relação entre Jesus e a Lei Torah o modesprezo. um mundo «onde deixará de haver morte. claro. as refeições eram lugar e tempo de divisão: as regras de pureza ritual não permitiam aos membros de certas seitas comer à mesma mesa com aqueles que eram considerados impuros. Três debates essenciais o demonstram: A relação de Jesus com os pecadores Fariseus e sábios. por exemplo. Esta opção de Jesus poderia também ser ilustrada ob servando como Jesus escolhe os Seus discípulos. Mc 8. A maneira de agir de Jesus torna cadu cas todas as mediações instimídas para assegurar a ão entre o homem e Deus no mundo judeu: a To rah. às pretensões inaudi tas que eles vislubravam nos propósitos e gestos do profeta de Nazaré. O próprio Jesus não deixa que subsistam quaisquer dúvidas sobre esse assunto: Quem não é por Ele é con tra Deus. o Zeloso. uma mesa aberta a todos. 24 2. Ao comer com os pecadores.38). algumas mulheres.ue Jesus vi senteeéde Deus tudo aquilo que rnamfD aueseti-atrata. ficam escandalizados com as Suas compa nhias. Os homens serão julgados em função da atitude que tiverem a Seu respeito (cf. que os abandonados se transformaram em hóspedes de Deus.pelos abandonados. gritos e lágrimas» (Ap 21. essencialmente. sem qualquer ideia de voltar atrás. que. Um grupo com elementos tão diferentes não podia deixar de ser um sinal vivo de re conciliação. que consideram Jesus um homem justo e recto. Ora a mesa de Jesus deixou de ser a mesa da separação para ser a mesa da reconcilia ção. De onde virá esta hostilidade? Vem. Jesus. Em tudo aquilo . quem O contesta contesta a Deus.4). ao comer com os pecadores. Nesse tempo. um pu blicano. os Seus milagres. con siderados como •pecadores). o Seu mo do de vida. entre esses discípu los. quem O aco lhe acolhe a Deus. Se reconcilia com os pecado res. o modo de viver de Jesus incar na a Sua mensgm. a presença de Deus. os que se dedicavam ao estudo da Torah é que escolhiam os seus mestres.

Mas a atitude de Jesus vai mais longe. A menção da autoridade de Jesus não aparece como uma nota temperamental. também criticavam este sacerdócio. Basta reler a parábola do «Bom Samaritano» (Lc 10) em que os levitas e os sacerdotes não são lá muito exemplares! Ou o episódio dos nego ciantes expulsos do Templo: as palavras que Jesus pro nuncia nesta ocasião serão o pretexto principal para Ele ser preso e condenado à morte (Mc 14. o (4) W. O sentido do epi sódioé claro: Jesus detém o processo do culto sarifi cial. «a Sua consciência do reino soberano de Deus em Si e através de Si» (4). torna o Templo inútil. ultrapassar Moisés. ora Jesus fala da Sua própria auto ridade. pp.46-49). 19. Para um Judeu. Seuil. Ora Jesus situa as Suas palavras ao nível desta «tradição dos antigos» e mes mo acima dela. com esta liberdade. Pour comprendre Je serrnon de Ia montagne.. D. é intolerável. cla ro está. 1979.mento em todos os seus aspectos. Jésus et I’histoire.. daí para diante.53-65). que transcende aquestãoda loca çolo Templo (Jo 4. Objecto quer dizer material do culto.16). ensina nos seus átrios. dá as suas referências.27-30). E portanto n’Ele que se deve acreditar. 147. Jesus faz compreender à Samarita na que. igualmente atribuída a Moisés. Com esta crítica. p. mas enun cia a Lei e exige aos que O ouvem que sejam Seus dis cípulos porque aSua autoridade foi-Lhe dada por Deus (Mt 11. Jesus não Se situa entre Deus e o povo. duas formas: a Torah escrita (identificada com os cinco primeiros Livros da Bíblia) e a Torah_oral. Eu. para os Judeus. a verdade e a vida»! Jesus manifesta. a Ele que se deve seguir.. Paris. o que quer dizer que Ele pretende. Jesus sente-Se no Templo como em Sua casa (Lc 2. Jesus toma o lugar do Templo e apresenta-Se a Si próprio como aquele que abre cami nho para Deus e manifesta o Seu perdão.. o que quer dizer que Se substitui à tradição oral. Paris. quando fala. enunciando em Seu próprio nome a vontade de Deus. Davies. a Sua presença. 26 27 .70.21-21).29). o que. como intérprete da Lei. trans mitida pelos sábios e qualificada de «tradiçâõ dos anti gos». nessa época. Só que Jesus. 155 e ss. Não Se con tenta com criticar o sacerdócio de Jerusalém. E neste sentido que se deve ler o episódio dos negociantes ex pulsos do Templo: «Jesus não permitia a ninguém trans portar um objecto através do Templo» (Mc 11. Outros. os pri meiros cristãos compreenderiam que Jesus era por Si o (5) Charles Perrot. mas assume uma atitude de relativo distanciamento em relação ao Templo e ao Sa cerdócio que o serve. E neste sentido que devemos ler textos como aquele em que Ele afirma: «Ouvistes o que foi dito aos antigos. Quando reliam estes episódios. Considera-se acima das regras. como os Essénios. centro das peregrinações que celebram os feitos notá veis de Deus na história de Israel.» as sim como todos os textos que sublinham a Sua autori dade (Mt 7. E neste senti do que devemos ler os episódios que põem em cena os Samaritanos opostos aos Judeus precisamente no que diz respeito ao Templo. isto tem um significado muito preciso: um mestre. A Torah revestia. pura e simplesmente acaba com ele. Desclée. • Jesus e o Templo O comportamento de Jesus em relação ao Templo vai no mesmo sentido: o Templo é op o lugar no qual se oferecem os sacrifícios pelo perdão dos pecados. Jesus frequenta o Tem plo. «Facilmente se compreendem a emoção e as con sequências que irão seguir-se» (5). porém. digo-vos. suspendendo o culto. porque Ele é «o caminho.

nós temos alguém que é «mais que Salo mão». Uma tal irrupção de Deus não responde de imediato às expectativas das multidões. O que quer dizer que os discípulos estão divididos sobre o assunto. M. Por isso se compreende bem que Jesus tenha sido incompreendido e rejeitado. Perrot. Jesus é Aquele pelo qual Deus torna presente o Seu perdão. cap.14. Para o uso evangélico do título de Filho do homem». con siderando uma blasfémia a pretensão de Jesus de Se si tuar entre Deus e a Lei. Mais que testemunha de Deus. 10. Um deles atraiçoa-O. no essen cial. e Ch. cap. deve tornar-se o próximo (Lc 10. que se arriscava a irritar o ocupante romano que lhes dava protecção. surge como o nome que Ele deu a Si próprio. 1984. 7. seja ele quem for. Beaude. entusiasmavam-se por uns momentos. Cla ro que Pedro. mas o espaço quo tidiano dos homens. Então quem é Jesus? As pretensões de Jesus mostram que se trata de fac to da vinda de Deus. «Eu sou o Filho do Homem». Se o re ferirmos a outros modelos preexistentes. essa personagem misteriosa que aparece no li vro de Daniel (7.32-33. quando o Seu destino se confirmar»( Mas porquê estas reticências de Jesus. Um dos tftulos que melhor O revelam é sem dúvida o do «Filho do Ho mem)>. como o espaço da Lei. reconhecia em Jesus o Messias prometido: a Sua acção traz a assinatura di vina que liberta aqueles que vivem na servidão (Mc 28 8. como «Mestre» e «Profeta».) Com Ele. Ao fim e ao cabo.29-37). mas.15). Alguns separam-se d’Ele (Jo 6. o certo é que Jesus não diz em parte alguma de maneira peremptória «Eu sou o Messias».naire des Religions. como outros. Mas. «Eu sou o Filho de Deus».novo Templo. ver P. cumprindo muito embora as promessas. 3. ). quem é Jesus? Que diz Ele de Si mesmo? Jesus não Se pregou a Si próprio nem declinou a Sua própria identidade. A Sua famiia.13-14) e à qual é confiado o julgamento dos homens. O espaço do culto. Doré. Os fariseus rugiam. As multidões. 853. onde Jesus Se situa (Mt 5. posto sistematicamente pelos evangelistas nos lábios de Jesus. ao apresentar-Se como mensageiro decisivo de Deus. Diction. 29 . inquietava-se. Jesus não re cusou certos títulos. Mas Pedro ainda não sabe a quem ou a quê deu a sua palavra. Recusa o caminho do sofrimento.25-37). mas de uma vinda que. 6 (6) J. que garantia a permanência de Deus en tre os homens (Jo 1.14. Pregou o Reino de Deus e deu-Se a conhecer pelas obras que fez (Jo 5. o Templo vivo de Deus. Mas o que as Suas obras deixam pressentir é de tal modo inau dito que a maior parte fecha-se na recusa. alargou-se ao outro. Os chefes viam n’Ele um pertur bador. cit.42). anunciado em (Dt 18. O espaço onde o per dão é concedido não é o do Templo.36. Os Saduceus tinham medo d’Ele. no artigo «Jésus-Christ”. etc. correremos o risco de «passar à margem daquilo que Ele é. uma vez que julga indigno do Messias o caminho que Jesus escolheu (Mc 8. é mais do que um profeta. 12. aliás. depois. numa palavra. na verdade. deixa pressentir que é o Profeta esperado dos úl timos tempos. as subverte e ultrapassa. Nem os discípulos se mantêm unânimes. sem excepção.27-29). afastavam-se d’Ele. que era a fonte dos proventos deles. Jesus pôs contra Si a opinião pública.. op.. Este título.66-72). que se abre diante de Cristo e vai renegar o Mestre. Paris.23-24). Puf. no essencial porque aquilo que Ele é não se revela rá plenamente senão mais tarde. pensando que Ele perdera o juízo. Não Se identifica com nenhum modelo do passado. que construiu o Templo de Jerusalém (Mt 12. p. que esperavam uma libertação política. porque o outro.66). op. Seja como for. ao mes mo tempo. e. já que Jesus punha em causa o Templo. cit. Ef 2.

203-209. recita a oração do justo perseguido (Salmo 22). aparentemente abandonado por Pedro. Nessa noite escura em que a morte O submerge. nu ma atitude de fé. político: pretendeu ser rei no império de Cé sar. Pelo modo de viver a relação com o Pai. como o testemunham as pala vras e os gestos da Ultima Ceia. que é o triunfo dos Seus inimigos e mostra que Jesus é o Justo fiel até áo fim. rejeitado por todos. estudo exegético. 1987. (7) Ver J. Esse caminho vai desembocar na ressurreição. Sch}osser. Na hora da morte. As razões dadas para a Sua morte são reveladoras. E. depois de ter sido condenado como um agitador. esperando que. gravado no letreiro da cruz.1) este radical serviço de Deus e dos homens. a Sua obra venha a sobreviver. se entrega a Deus e d’Ele tudo espera. 30 31 . por isso. como o justo que. as «nar rativas das aparições» em que são 4adas as dimensões essenciais da experiência pascal. recapitulando assim toda a esperança do Antigo Testamento. no decurso de um processo desonesto. mas foi crucificado fora da ci dade. pela qual Jesus entra na gló ria do Pai. Como foi recebida esta boa-nova da Páscoa? Está no cerne de que experiência? Para responder a es tas perguntas. é entregue à autoridade romana como se fosse um agitador. ou seja. A morte de Jesus parece uma vitória dos Seus inimi gos. Ao grito de Jesus moribundo responde Deus com a ressurreição. antes de mais. Mas no próprio fracasso da Sua missão. Queria morrer em Jerusalém. Morreu. 4. E terá de o viver na fé e na esperança. morreu como um escravo entre dois malfeitores. o percurso de Jesus não pára na Sua mor te. Jesus é todo Ele uma ofe renda ao Pai. e condenado ao suplício da cruz. e pela relação de serviço que mantém com todos. Apesar do fracasso. o motivo oficial da Sua condenação. é preciso examinar. Jesus dá testemunho de um Deus de Amor. a quem chama «Pai» de uma maneira única (ab ba) (Mc 14. no entanto. pp. onde o direito judaico nem sequer é respei tado. O Sinédrio julga que Ele merece a pena capital porque ousou falar con tra o Templo e fazerSe igual a Deus. A esperança de Jesus Jesus viverá «até às últimas consequências» (Jo 13. desta maneira. a esperança de Jesus nunca será desmentida. é. à maneira dos justos que investiram em Deus toda a sua vida. A Sua morte revela um homem que viveu até ao fim o abandàno de Deus. cujo Reino anunciava (7). Preso e interrogado. mau grado o si lêncio que O cerca. Le Dieu de Jésus. Mas a revelação não fica por aqui. é porque Se quer totalmente transparente a um outro. abandonado de todos. Deve igualmente levantar-se o problema da historicidade dos factos que nos são relatados. nestas difíceis condi ções. Pa ris. no dia em que Deus há-de ressusci tar todos os justos.quando se trata de Se definir? Se Ele não Se define. na confiança e na esperança. Reconhecer o Crucificado De facto. O tempo de Jesus termina com um fracasso. na oração. E teve de viver a esperança. Jesus é despojado até do sentido da Sua própria morte. Esperará pela Sua ressurreição «no ter ceiro dia». Cerf. desta maneira. Jesus conserva a Sua esperança em Deus. co- mo um profeta que era para dar testemunho de Deus. a Deus.36). entre gue por um dos Seus. ifi.

211. mas o sentido profundo.13. Já não estamos perante o mesmo tipo de relato que fala de Jesus ao longo dos ca minhos da Galileia. o que é sublinhado pelos si iEempiulhes aparece: os vestígios dos cravos. 32 . Jo 20.to davia. o fundamental.4. S. As narrativas sublinham este aspecto de muitas e variadas maneiras. No fim dos Evangelhos. Euma maneira de dizer que o próprio Deus ratifica a obra de Jesus.16). a Sua assinatura: Deus manifesta-Se na glória (divindade) «no facto de Se identificar com ). mas de meditações sobre uma experiência.4). como é o caso de Tomé. 26. o que é uma maneira de dizer que a iniciativa do encontro nada tem a ver com os discípulos. habitado pela glória de Deus (Rm 6. diferente d’Aquele que eles conheceram e.3-8. trazendo-O da morte à vida»( O Res suscitado fica. mesmo nessa altura. Mc 16. pág. Mt 28. 21. Várias vezes se diz que Ele «Se mostrou» (em grego. ofté: iCor 15. As componentes da experiência pascal As narrativas das aparições do Ressuscitado são bem diversas. 1976. Quando re cordamos acontecimentos que nos marcaram a vida.34. algu mas vezes.17. os olhos vêem. continua o mesmo. 33 W. po demos enganar-nos sobre os pormenores. ratificada por Deus. com o tempo. que é uma alusão às teofa nias (manifestações) de Deus no Antigo Testamento.31. conserva-se sempre e.16. Ora este vocábulo. a fracção do pão. Jésus le Christ.6). • Uma tarefa da fé A ressurreição de Jesus não foi imposta aos discípu 1os. Através da sua diversidade. e que se ocupam do esseniil. ainda mais se aprofunda. Act 9. A partir de então. As sim acontece com as narrativas das aparições de Cristo. no fim e ao cabo. A comunicação do Ressuscitado com os Seus situa-se a um nível radi calmente novo. a dúvida permanece. Lc 24. é necessária a adesão do coração (Lc 24. temos várias narrativas. podemos distinguir quatro aspectos fundamentais: • Uma revelação divina Todas as narrativas sublinham o carácter inesp1do do encontro com Jesus Ressuscitãdo. tra zem. mas não reconhecem imediatamen te. 16-17. ao mesmo tempo. Estes pormenores não só que rem estabelecer uma relação de identidade entre Aque le que morreu e Aquele que Se mostra vivo. foi algo que se ofereceu à sua livre decisão. E toda a existência de Jesus que é. como pretendem sublinhar que Aquele que ressuscitou é exac tamente O que foi rejeitado por todos e como tal conde nado à morte. nada se opõe a esta comunicação: nem o temor. Cerf. Ressuscitando-ÓDis revê o processo que O condnou.11-14). garantindo a vitória de Jesus não só sobre a morte como sobre a injustiça da Sua condenação. quer dar a entender que as manifestações do Ressuscitado têm uma íntima relação com uma manifestação de Deus. (8) - Um reconhecimento Este Jesus que aparece aos discípulos é.24-29. Paris. nem as portas fecha das. mas parte de Jesus: aparece quando «todas as portas estão fechadas» ou vem juntar-Se inesperadamente a dois discípulos no caminho de Emaús. Paulo evoca uma aparição «a mais de qui nhentos irmãos ao mesmo tempo» (iCor 15. Não se trata de relatos jornalísticos. Mas também nada os obriga a ela: ela acontece na fé. Kasper. digam irn. E mesmo quando são dados si nais.1. a partir de então. Eles reconheceram-n’O com os olhos da fé. 8 o Crucificado.

que testemunhou que Jesus tinha de facto ressuscitado. Act 1. como um sinal no qual a fé reconhece. ao mundo de Deus. Este regres so acontece por obra e graça da ressurreição do Mestre. vestígios esses que podem ser udos e decifrados pelos histo riadores. sepultada com Cristo. este mundo de Deus. Só que esta relação só com a fé se pode apreender. os quais «viram» o Ressuscitado? Haverá porven tura um «vestígio histórico» do acontecimento? O Res suscitado manifestou-Se aos discípulos. como podemos ver pelas narrativas de aparições. — — 34 35 . está morto. é elevado à glória de Deus). radicalmente diferente daquela que era a Sua neste mundo). que não se rege pelas leis do nosso mundo. Mas não se pode dizer que seja um aconte cimento histórico no sentido de que. antes e após a morte (é a mesma pessoa que morreu e agora está viva). E que o historiador não podé tar senão aquilo que é Imanente ao nosso mundo.17. na Sua nova con é acessível que transcende a história dição através dos vestígios deixados na História. No entanto. A ressurreição de Cristo é sem dúvida um acon tecimento real e. como acontece. O nimulo vazio não é uma prova em favor da ressurreição.8).49. O verdadeiro vestí gio histórico é o grupo dos discípulos. está em relação com ele. O único vestígio histórico é este: a existência de uma comunidade que testemunha que Ele está vivo.Uma experiência missionária Os textos que se referem ao encontro com o Ressus citado são muito sóbrios. neste sentido. En quanto a primeira destas linguagens sublinha a Iden tidade da pessoa de Jesus. que faz apelo ao esquema antes/depois (antes. A missão é o sinal de que Jesus está vivo. não usam o estilo das teofa nias. — Será a ressurreição de Jesus um acontecimento histórico? mundo de Deus. Para exprimir esta transcendência do Ressusci tado em relação ao mundo em que vivemos.19-22). por exemplo com a narrativa da Transfiguração.7. ao juntá-los de no vo e ao arrancá-los às garras do desespero.15. depois. entendi do. que acreditaram n’Ele. a Sua pre sença no mundo. que recorre ao esquema em baixo/no alto (Jesus é exaltado. mas surgem como gestos de quem en via outrem em missão (Mc 16. Lc 24. E assim os discípulos podem verificar que a Palavra de Jesus. o Novo Testamento utiliza uma dupla linguagem: a da ressur reição. mas também ao da exal tação. desde então. está vivo). mas não Se manifestou ao mundo. Pertencendo. Podemos explicitá-lo do seguinte modo: Este acontecimento dá aos discípulos uma nova vida.18. esta escapa à condição de aconte Se a Ressurreição de Jesus é a Sua entrada no cimento histórico. Mt 28. é um facto histórico. 2. a posteriori. isso sim. o facto pascal. por assim dizer. foi. Vestígios históricos do Ressuscitado Poderemos ir além do testemunho dos discípulos de Jesus. E este o facto que se pode assinalar. pois diz respeito ao destino do homem histórico de Nazaré. Com toda a razão dirá Paulo que a Igreja é o Corpo de Cristo.21-23. Jo 20. retrospectivamente. a se gunda sublinha a passagem a uma vida que não pode ser medida pelos mesmos parâmetros com que me dimos a vida que se deixou (a Sua vida de ressusci tado é outra. ressuscita-os. que «não vol tará a vê-l’O» (Jo 14. Aos discípulos compete ressuscitar-Lhe a palavrã e anunciá-la ao mundo. deve surgir de novo com um testemunho autónomo.7. no qual se ins creve de uma maneira visível a acção de Deus que res suscita Jesus. a Ressurreição escapa à ciência histórica e só é acessível por uma relação estabelecida através da fé.

sem dúvida. Só relacionando todos os fac tos da Escritura é que podemos descobrir.19-23). li bertador do Seu povo: descobrem n’Ele o Deus salva dor já actuante na existência pré-pascal de Jesus. preferindo obedecer a Deus a obedecer aos homens (Act 5. do temor ao testemunho. Os discípulos passam do desespero à espe rança. o Deus da Aliança.9-10). N’Ele Deus «deu-nos a conhecer o mistério da Sua von tade. (Mt 28. cuja aventura prossegue neles e por eles. no entanto. partir o pão (Act 2.32).22). O acontecimento pascal é uma experiência do per dão de Deus. de uma vez por todas. a imagem da su bida aos céus tem um duplo alcance teológico.° dia. o «primeiro de uma humanidade acabada» (Cl 1. em bora tenha entrado nesse mundo. Estamos agora em condições de iden tificar o último elemento desta pregação: com a Páscoa inaugurou-se um tempo novo. Que espécie de tempo? Os sinais indicadores essenciais são-nos dados por três afirmações do Credo: mos que evocavam o fim do mundo: o 3.16). A ressur reição de Jesus fá-los passar da dúvida ao espanto e do espanto à fé. Encontramos aqui um dos aspectos importantes da experiência pascal: a ressurreição de Jesus manifesta-se na vida de um grupo ressuscitado. Quem Se lhes manifesta é.45-50). o mais velho de uma multidão de irmãos». finalmente. do medo ao júbilo. já que a missão de les consiste em fazer aquilo que Ele fez: curar os doen tes (Act 3.27 e 44). ICor 15. Subiu aos céus Nos escritos do Novo Testamento. segundo o beneplácito que n’Ele de antemão esta belecera para ser realizado ao completarem-se os tempos: reunir sob a chefia de Cristo todas as coisas no céu e na terra» (Ef 1. investido na Sua qualida de de «Filho de Deus em poder» (Rm 1 . com os Seus discípulos até ao fim dos tempos. A mensagem pascal Os discípulos proclamam aquilo que experimentaram na Páscoa.18. que tinham abandonado Jesus. O acontecimento pascal é. fonte de libertação. As apa rições não são apenas uma identificação de Jesus. A Sua ressurreição inaugura a ressur reição dos mortos.4) diz respeito a toda a humanidade. Jesus é o «primogénito». Vi mos que a esperança de Jesus se tinha exprimido em ter36 2. continua. Rm 8. 37 . Se Jesus ressuscitou. «Príncipe da vida» recebeu o Es pírito. O terceiro dia ou o tempo do Espírito Jesus ressuscitou porque chegou o «30 dia» ou seja.A aventura de Jesus ressurge nas suas vidas. mas para d’Ele fazer os outros participarem (Jo 20.20-27. des cobrem que estão reconciliados com Ele e tornam-se testemunhas da Sua misericórdia (Jo 20. porque começou a ressurreição geral dos mortos. — — 1. convidar à comunhão.18-20). para os fazer entrar neste mundo de Deus. foi porque a força do Espírito surgiu no mun do para o levar ao seu termo. Jësus.6-8).24. ensinar. De onde se conclui que em Jesus se cumprem as Es crituras (Lc 24. Eles. — — IV. mas a experiência na própria vida deste perdão que caracte rizava Jesus na Sua atitude para com os pecadores. Eis a razão pela qual ela é o aconte cimento salvador por excelência.42). O que é atribuído a Jesus. o que quer dizer que há na ressurreição de Jesus um duplo movimento: Ele passa com todo o Seu ser movimento para o Pai ao mundo de Deus e movimento para os Seus irmãos. que «tudo fora criado para Ele» (Co! 1.

p. «A vinda do Senhor». completar-se-ão os acontecimentos iniciados no Exodo: Cristo virá buscar o Seu povo e levá-lo-á ao Pai. «Assim estaremos sempre com o Senhor» (lTs 4. O mo delo bíblico implícito é o da manifestação da glória de Deus no Sinai (Ex 19). 9 ja.Por um lado. em que o profeta Elias diz ao seu discípulo Ehseu: se tu me vires quando eu for separado de ti. seja qual for a aflição em que se encontrem. que devem permitir que O reconheçam (Act 2. 3. O tempo que se segue à Páscoa não é um tempo vazio: é um tempo em que. até que ponto a Sua ressurreição foi vitoriosa»( Nenhuma das potestades que pretendem dominar o uni verso resiste ao Seu avanço vitorioso. em Le Retour du Christ. entre a Ressurreição e a As censão. propõe sem impor. como a partilha e a fracção do pão. 38-39. nada poderá «separar-nos do amor de Deus manifestado em Cristo Jesus. A lição é evidente: uma vez que viram Jesus partir têmo sinal anunciador de que receberão o Seu Espírito. recusa qualquer actuação espectacular. pp. a subida aos céus inaugura o tem po da Igreja. Doré. se constrói a história colectiva da salvação dos homens.6. No fim dos tempos. cit. Bruxelas. Há-de vir julgar os vivos e os mortos A Páscoa acontece no silêncio e inaugura entre os primeiros cristãos uma espera. apesar do silêncio e das não evidências de Deus. Rm 10. refugiando-Se por assim dizer. Por outro lado. exprime a ideia de uma vitória total de Cristo sobre todas as forças que se opõem a Deus Esta ideia anda ligada à da descida aos infernos: na Sua morte. o mundo continue por mudar? A narrativa da Ascensão esclarece esta pergunta.18-20). lPd 3. 17-50. os Actos que rem responder a uma pergunta essencial dos cristãos: como pode explicar-se que. depois. (9) 38 39 . um lapso de tempo de quarenta dias. apesar da vitória de Jesus. — J. Ef 4.42). terás o meu espfrito e a minha força para prosseguires a mi nha missão.24. A Páscoa inaugura um tempo novo e contém uma promessa de salvação. E por isso que não convém limi tar a salvação à dimensão individual. Esta vinda (não se trata de um «regresso»!) ou esta «parusia» (ter mo profano que designava a visita de um rei a uma das suas cidades) é evocada de variadas maneiras (lo).. apoiada na promessa de uma vinda do Senhor. «A descida aos infernos convida a reconhecer até que pon to Jesus Cristo desceu nas profundezas da morte. o abando no mais absoluto. ou se ). Cristo traz a salvação a todos os ho mens. A salvação tem uma dimensão colectiva. são os gestos evangélicos dos cristãos. mas Lucas menciona três vezes que eles O vêem. op. obra colectiva. por vezes ímpaciente. manifesta-Se como servo. isto realça um outro aspecto do mistério pascal: a — discrição. Perrot. Saint-Louis. Os infernos representam o destino mais trágico.8-9. 393. Act 2. Jesus venceu até ao fim a condição mortal. conserva exactamente a mesma discrição: não confunde aqueles que O conde naram à morte. Demorando. durante os quais Jesus instruiu os Seus discípulos. Morte e ressurreição são coi sas inseparáveis. no artigo «Descida aos infernos» do Dictionnaire des Religions. 9-12. E o tempo da Igreja que se inaugura. O mesmo acontece com a Ascensão: Jesus deixa os Seus.17). na co munidade. Há uma profunda unidade no comportamen to de Jesus antes e depois da Páscoa: antes. Publicação das Fac. E preciso lê-la à luz de 2Rs 2. Nosso Senhor» (Rm 8. 1983. E verdade que a Parusia realizará o desígnio do Cria (lO) Ver Ch.

foi sendo explicitada até re conhecer em Jesus o Filho eterno do Pai (dimensão ontológica).21-46: a pa rábola chamada do juízo final exprime a identidade entre a causa do homem e a causa do Messias de Deus. Segundo S. João. que elaboraram a tradição dogmática da mesma. Teremos de prosseguir a nossa refle xão em duas direcções. Duquoc. se acendam no mun do a luz da Sua vida e a verdade da Sua vitória. A primeira etapa põe-nos. (12) Ibidem. 40 41 . Ao passo que a terceira nos fará descobrir a teologia medieval e da época da Re forma e conduzir-nos-á até aos nossos dias. 281-317. a omnipotên cia de Deus? (11) Há duas perspectivas. Mas outros textos situam-no no fim dos tempos. p. 1972. Le Messie. fazemos uma opção pedagógica: (li) Ver Ch. Filho de Deus. finalmente. Por um lado. 317. No começo desta busca. A segunda situar-nos-á mais ao nível da Igreja dos Padres. Christologie Ii. um juízo. Cerf. Estas duas posições não são contraditórias: a Parusia revelará a verdade do juí zo já em acção desde agora.19) na recusa ou na aceitação da luz de Cristo. Releia-se Mt 5. A primeira parte deste percurso situou-nos na fonte da fé em Jesus Cris to. perguntar como foi com preendida a dimensão soteriológica deste acontecimen to. isto é. fizemos notar que toda e qualquer reflexão cristológica devia ter três dimensões: histórica. nascida historicamente da experiên cia pascal dos discípulos. pp. perguntar como é que a fé em Jesus. Escolhen do a ordem inversa. o juízo da História faz-se desde já (Jo 3. soteriológica e ontológica. sobretudo. Paris. no fim de tudo. que manifeste de uma forma clara.dor mas também se requer que a Promessa inaugurada com a Ressurreição de Jesus se verificou à escala do mundo criado para que. a percepção de Jesus como Salvador do mundo. A lógica exigirá que a reflexão sobre Jesus Salvador precedesse a outra sobre Jesus Filho de Deus. Por outro lado. (12) * * * atravessar a Tradição viva segundo uma ordem crono lógica. em con tacto estreito com a Escritura. Teremos mesmo de imaginar.

II IMAGEM (OU ÍCONE) DO DEUS INVISIVEL A fé em Cristo. 2Cor 4. que se reflecte na face de Cristo. Filho de Deus Deus que disse que das trevas resplandecesse a luz.6 . é que brilhou nos nossos corações para que irradiássemos o conhecimento da glória de Deus.

transmitida de geração em ge ração. Retere mos dois momentos importantes desta contestação: a Re forma e o Racionalismo. que nos fará atraves sar toda a história do Cristianismo. e co mo esta confissão de fé.No decurso desta nova etapa. tentare mos discernir os caminhos actuais da cristologia. Seu Pai. 2. cuja influência ainda hoje se exerce no Ocidente. Uma tradição contestada: A expressão eclesial da fé foi sendo contestada no decurso dos séculos. A fé da Igreja: A Igreja elaborou a sua fé na di vindade de Jesus de uma maneira. tentaremos perce ber como foi descoberta e expressa a identidade de Jesus. esta elaboração tem as suas raí zes nessa mesma experiência e culmina nas definições dos primeiros Concílios ecuménicos e será comentada pela teologia medieval. confessado como Filho Eterno de Deus. Esta segunda parte vai dividir-se em três secções: 1. 3. 45 . as formas que reveste hoje o testemunho eclesial a respeito de Jesus. chegou até nós. Aberturas actuais: Numa última secção.progressiva. as suas aberturas a novas posições. Filho de Deus. Apoiada na experiência pascal.

por exemplo no Pró logo do seu Evangelho (Jo 1.Esta retrospectiva. Paulo. por isso. E indispensável recuperar esta memória da Igreja. Fresco sugestivo dos primeiros movimentos cristãos é o que se (1) propõe em F. 1. no Novo Testamento. por S. deve existir alguma correspondência. de rosto descoberto. A preexistência exprime a transcendncia de Jesus em relação à História. João. «em quem por quem e para quem» todas as coisas foram criadas (Cl 1.. «fazer história». sem pre em ligação com a vida da Igreja e a sua missão. Se em Jesus se realiza o desígnio de Deus. Só que a memória não basta. A segunda secção mostrará como a aparição de desafios novos. edit. A preexistência 1. Esta noção sublinha a ideia de que Jesus não tem a Sua única fonte de existência na his tória. conforme dissemos já. Foi-se afeiçoando a partir da meditação das Escrituras. quando afirma de Jesus que Ele é «o Filho bem-amado do Pai». A fé da Igreja Desde os começos da Igreja(’) que a reflexão sobre o mistério de Cristo se foi fazendo em referência às tra dições culturais e religiosas das diferentes comunidades que a compunham. Não queremos apresentar o desenvol vimento integral que levou da fé pascal inicial à fé trinitária.13-20). como pelo facto da Sua nature za. Esta preexistência é afirmada de várias maneiras. de clarificar: a preexistência de Jesus e a Sua designa ção como Filho de Deus. muito cedo. Quando os pagãos. mas será muito útil propor alguns pontos in dicadores. De Jerusalém a Niceia A — O TESTEMUNHO APOSTÓLICO O testemunho apostólico. em que se põem em jogo pessoas e culturas. A 1 ‘aube du christianisme. «Preexistir» significa. por exemplo. Entre os dados que permitiram chegar a estas prodi giosas afirmações. que sempre tentou e tenta recolher daquela a riqueza de que vive e que comunica aos outros. mas preparar-nos para compreender certas interrogações contempo râneas que nos são feitas por esta história. não é porque Ele Se encontra em pessoa na origem deste desígnio? Entre começar e acabar. existir antes. não pode ser evitada.1-18). algumas vezes. então. está. O nosso propósito não é. Descobriremos. a Imagem ou Icone do Deus invisível. e num diálogo cons tante entre a Palavra de Deus e a inteligência humana. du Moulin. mas uma realidade ela borada na confrontação. Mas não queremos deixar de evocar dois pontos que a Igreja precisou. une surprenante di versité. conforme a situação das comu nidades. mas também por S. parecerá ár dua. depois. a experiência pas cal. que. adorado47 46 . que não se podem reduzir a um só. inéditos na época do racionalismo. que a fé não é um sistema de ideias anónimas. 1986. obrigou a fé a novos esforços de inteligência. Não queremos ser exaustivos. é de tudo isto a ilus tração mais clara. Aubonne. que nos leve de Jerusalém a Niceia e. Vouga. antes de mais. mas que a transcende não só pelo facto de ter sido elevado à direita do Pai. Esta experiência é a experiência da salvação. de Niceia a Calcedónia. tendo como referência a vida de Jesus. entre o alfa e o omega. que sejam a garantia de um percurso balisa do. as sumiu formas diversas. A existência de quatro Evangelhos. etimologi camente. Suíça.

como representante do Deus único que perdoa. um último dado. identidade divina.1) e ao rei que incarna o mistério deste povo.22. lhes revela que também eles participam desta relação radicalmente nova. na da «Sabedoria» apresentada nos grandes Textos Sapienciais como uma personagem que goza da intimidade de Deus e preside aos destinos do mundo. «Santo» e «Justo» (3. este título aplicado a Jesus ressus citado aparece en simultâneo com outros títulos igual mente prestigiantes: «Senhor» (2. que permitia aos dis cípulos chegar à ideia da preexistência: o Antigo Testa mento. As narra tivas evangélicas são. Um outro dado é a vida de Jesus. Pensemos na figura do «Filho do Homem» e.36. depois. Jesus nunca reivindicou para Si este título. exi gia.31). Act 9. em João. Ele não é somente o justo e exaltado à direita de Deus. nessa altura. os Evangelhos. Finalmente. aos anjos e. 145. Ao reler esta vida de Jesus à luz da Páscoa.15). Rm 8.res que eram dos poderes celestes. até ao cerne da Sua pregação. coisa que nenhum ju deu piedoso ousaria fazer.32) e notam como algo de muito singular Jesus cha mar a Deus «Abba» (meu Pai !). Os 11. vive a própria vida de Deus. de mediadores para chegarem a Deus. compreendem que este Jesus está acima dos seres invisíveis que eles adoravam e que lhes serviam. Paris.15. Esta particularidade da filiação de Jesus enriqueceu-se no decurso do acompanhamento dos discípulos pelo seu Mestre. ensinando-os a chamar por Deus nos mesmos termos em que Ele O chama. Morin.10. o próprio mistério de Jesus na Sua relação com Deus. sem ambiguidades: situam Jesus muito claramente entre os anjos e o Pai (Mc 13. Já não se trata de qualquer reino terrestre» (2). Lembremos.25-27: os discípulos percebem que existe entre Deus e Jesus uma relação úni ca. descobrem em Jesus o caminho para Deus. Seria preciso reler também a bênção de Mt 11. a ponto de poder designar. dão ao título «Filho de Deus» uma importância considerável.36). mas é o Filho que.22). A meditação do Antigo Testamento permitiu-lhes descobrir uma linguagem apropriada para expri mir esta transcendência de Jesus. naturalmente. A filiação divina Como se chegou à designação de Jesus como Filho de Deus? Nos Actos. sobretudo. a qualidade de Filho de Deus é reconhecida.5. «Profe ta» (3. neste ponto. desde toda a eternidade. p.23). «Salvador» (5. Cerf. e este título de Fi lho. O estudo dos dois pontos que acabamos de esboçar mostra como os discípulos chegaram à confissão do ca rácter único e transcendente da relação de Jesus com Deus. os discípulos compreenderam que a Sua pretensão de Se situar acima da Lei e do Tem plo.7. e que.13.14). L ‘événement Jésus. pelo contrá rio e. antes de mais.6. A autoridade de Jesus antes da Páscoa manifesta que já então actuava n’Ele o poder de Deus.20 e 22). Os discípulos não tiveram grande dificuldade em identificar Jesus com estas figuras e em compreendê-l’O a partir delas. que este título não é re 48 servado a Jesus. 49 . ao povo de Israel (Ex 4. depois. por vezes. No Antigo Testamento. Mas não podemos deixar de ser tocados pela afinidade que existe entre o anúncio do «Reino» de Deus. «Príncipe da Vida» (3. cuja vida lhes testemunhava em todos os por menores uma relação privilegiada com Deus. Têm tal consciência desta oração que a atribuem ao Espírito Santo (GI 4. ao Mes sias (Sl2. Paulo. Faltava compreender que o Rei Messias é «Filho» num sentido diferente dos outros reis porque o reino cujo centro Ele ocupa se identifica com o reino decisivo de Deus. 1978. sobretudo. até então.31 . Mais que o representante do povo (2) E.

Para a sabedoria grega. tal qual a concebe o Judaísmo. O patripassionismo entende que não teria sido Jesus mas o Pai a sofrer a Paixão na cruz. os cristãos dos séculos II e III terão de argu mentar numa dupla frente (a do judaísmo e a do hele nismo). Paris. tornando-Se semelhante aos homens» (FI 2. de inspiração grega. nascido de uma mulher» (GI 4. Mais afastados da sensibilidade bíblica. Noção filosófica. que se chama Lógos. os Profetas. os dois meios em que se desenvolvem as jovens Igrejas. O adopcionis mo concebe Jesus como um homem adoptado por Deus. já que repousa so bre uma experiência privilegiada e intransmissível. será largamente usada a partir do Evan gelho de João. Ao está dio da pregação pura sucede-se o da «argumentação e mesmo da demonstração: Ele foi visto e nós podemos acreditar porque. o Grego. «Na plenitu de do tempo. Razão do Universo e a Palavra de Deus. mas despojou-Se a Si mesmo assumindo a condição de ser vo. As cristologias patrísticas e conciliares». E muito cedo aparecerão os desvios. ao contrário. 50 . os cristãos de cultura grega lançarão’ mão de outras esquemas de explicação para exprimirem a unidade de Jesus com Deus. Será neste contexto que aparecerão alguns desvios. inaugura-se o tempo daqueles que não viram. . uma Palavra que conduz a História até incarnar nela. usada pelos pensadores gregos. Moisés. tem uma concepção dualis ta do mundo (oposição ente matéria-má e espfrito-bom). que concebe a intervenção de Deus na História de maneira concreta através de in termediários que Deus escolheu (os Patriarcas. E neste contexto grego que se desenvolve um esforço novo para pensar a unidade de Jesus com Deus. Contacto com o judaísmo Uma primeira confrontação foi a que se produziu en tre cristãos que tinham vindo do judaísmo e cristãos oriundos do mundo pagão. Precisamos de medir bem toda a distância que existe entre este Lógos grego. a incarnação é uma coisa difícil de conceber. p. 51 CULTURA JUDAICA E CULTURA GREGA O testemunho apostólico é único. A partir de então. O moda lismo. tomo 2. etc. Que significado tem esta referência? Os que vêm do judaísmo tentarão inter pretar o mistério do Ressuscitado a partir de figuras e mediações bíblicas. Ele é o próprio dom de Deus ao Seu povo e à humanidade. Deus enviou o Seu Filho.). 194. o modalismo e o patripassionismo. grande polémica pelo facto de as comunidades cristãs continua rem a viver segundo a Lei judaica. O gnosti cismo. Doré. em Initia tion à la pratique dela théologie. » (3). Para testemunharem o mistério cristão. Com o período dos «Padres da Igreja». vê em Jesus uma simples forma na qual o Pai Se manifesta: Jesus não passaria de um modo de ser do Pai. que tem uma concepção hie rarquizada do mundo (o mundo material é uma emana ção degradada do mundo imaterial e invisível). 1982. B — Contentar-nos-emos com apontar três: o adopcionis mo. ninguém po derá contentar-se com proclamar a mensagem. que concebe a carne como a prisão da alma. Confrontação com o helenismo Uma segunda confrontação vai produzir-se no con tacto com o helenismo pagão e terá uma dureza invul gar. (3) J. Levantou-se. Cerf.eleito e da humanidade diante de Deus.4).6-7). «Ele que era de condição divina não reivindicou o direito de ser equiparado a Deus. estabelece uma nítida diferença por uma figura mais abstracta. Ao contrário do Judeu. no baptismo ou aquando da Sua Ressurreição. de facto. .

João. tornar-se-á um ardente defensor da fé de Niceia con tra os erros de Ano. dirigida ao imperador romano em defe sa dos cristãos. Vai ser o animador do concílio de Efeso. procurando ligar a doutrina do Lógos à doutrina do Jesus Incarnado. LEÃO MAGNO (+ 461). Procurou conciliar a filosofia pagã e o cristianismo. Nascido em Cartago. vai defender com toda a ener gia a fé católica contra Nestório. é o primeiro escritor cristão de língua latina.Algumas grandes figuras da cristologia antiga INÁCIO DE ANTIOQUIA. o que levou a que a sua posição fosse qualificada de docetismo. cujos partidários conseguirão. — «Homem-Deus» (teantropos). através des te. Policarpo e. Bispo de Roma (Papa) a partir de 440. desempenhou um papel decisivo nas controvérsias cristológicas. Se Cristo não assumiu uma carne verda deira. de quem nos ficaram Cartas. o próprio S. de uma maneira espe culativa. A gnose encontrará um adversário terrível em S. Inácio. nos tempos que se segui ram ao Concílio de Efeso. na terminologia teológica. Originário da Ásia Menor. nós não fomos salvos. Originá rio de Alexandria. consagrou a vida ao estudo cientí fico da Escritura. Cristo ter-Se-ia limi tado a assumir a aparência de carne. tenta descobrir. IRENEU (por volta de 130-202). Desenvolveu uma teoria completa sobre a preexistência da alma hu mana de Cristo. foi. JUSTINO (por volta de 100-164/165). bem como uma du pla Apologia. Um pensamento destes contraria frontalmente a salvação cristã. ATANÁSIO (298-373). Patriarca de Alexandria. por cinco vezes. que quer dizer ensinar ou parecer. a realidade da humanidade de Cristo. no qual a sua teologia triunfará. Para os gnósticos. Ire neu de Lião. Condenado às feras no reinado de Trajano (98-117). porque só foi salvo o que foi assumido por Ele. para isso. exilar o patriarca. do verbo latino «docere». face ao judaísmo. Bispo de Lião. insistiu na novida de cristã. Bispo de Antio quia. Filósofo ori ginário da Palestina. pa triarca de Constantinopla. CIRILO DE ALEXANDRIA (por volta de 380-444). Escreveu numerosas obras contra toda a espécie de adversá rios. Na sua cristologia. Foi o primeiro a utilizar a expressão Trata-se de um movimento religioso que propõe a sal vação através do conhecimento: para se salvar é preci so evadir-se deste mundo mau. afirmando. dá realce especial e isto contra os docetas ao carácter real e verdadeiro da carne humana de Cristo e da ressurreição do corpo resgatado por Cristo. — ORÍGENES (por volta de 185-252/253). inaugurada pela vinda de Deus na carne e que se completa na ressurrei ção do corpo. como expressão autêntica da fé ca tólica. expressão que irá manter-se. A sua Carta a Flaviano. este apologista deixou um Diálogo com Trifão. TERTULIANO (155-220). que tem como interlocutores os Judeus. ou seja. «O Verbo de Deus fez-Se o que 53 52 . foi aceite como norma de fé (449). onde conheceu S. Patriarca de Alexandria. afirmando. Nele. a verdadeira relação entre o Filho e o Pai e apresenta o Filho como Aquele que recapitula toda a criação (Ver Anexo II). mas domiciliado em Roma. mais tarde. O seu Adversus haereses é dirigido contra os Gnós ticos. que o Logos di vino só na pessoa de Cristo apareceu plenamente.

54 . todo-poderoso. a transcendência de Deus em relação ao mundo. segundo a qual era impossível que Cristo fosse Deus.. O esforço de Ano pode ser considerado como uma ten tativa de helenizar o cristianismo: Deus. senão de esquecer. C — A FÉ DE NICEIA (325) Duas posições contrárias sobre o Mistério de Cristo Mas Santo Ireneu não trava sozinho esta luta da fé. V. sobretudo no século IV. lugar de residência de Verão do Imperador Constantino. Jesus Cristo. põe-se a tónica na humanidade de Jesus. — — A crise rebentou em Alexandria. criador de todas as coisas. o debate cristológico vai conhecer ainda outros progressos. um sacerdo te de Alexandria. Como é possível afirmar. Eis o referido texto: Cremos em um só Deus-Pai. Vão surgir então duas posições contrárias sobre o conhecimento do mistério de Cristo. tal qual acontece pelo Verbo fei to carne? E a crise ariana que vai obrigar a Igreja a pre cisar a sua linguagem a fim de salvaguardar uma fé ameaçada pelo racionalismo grego.. da substância do Pai. não está suficientemente preparada para dar conta da Sua união com Deus e da Sua divindade. não pode comunicar-Se ao mundo de uma forma autên tica. Em Antioquia. segundo ele. Uma tal concepção põe em causa de uma for ma radical a salvação cristã. único gerado do Pai. A sua argumentação será retomada constantemente pe los Padres da Igreja. Deus verdadeiro de Dus verdadeiro. Mas. considera-se o mistério de Cristo a partir da Sua origem divina. uma em Alexandria e outra em Antioquia. Esta cristologia do «Homem-Verbo». visíveis e invisíveis. ao longo das controvérsias. gerado não criado.nós somos. escreve ele no seu Tratado contra as here sias. ao qual acrescentaram algumas fórmulas des tinadas a suprimir a ambiguidade que surgira. Por isso mesmo o Filho não pode ser considerado como Deus que toma carne humana. desde o momento em que é criada. criada por Deus. O Filho nem sempre foi Filho (. depois de Ireneu e para além dele. Reunidos em Niceia. Ário. posições essas que se vão desenvolver. Deus de Deus. depois é que Se tornou Pai. embora se corra o risco de atenuar. que. e a Sua imanênciana história. a um tempo.) O próprio Verbo de Deus foi criado do nada». Em Alexandria. o Verbo. que privilegia a autenticidade humana de Je sus. para que nós fôssemos o que Ele próprio é» (Con tra as Heresias. Adoptaram esse credo. não passa de uma substância criada. E em um só Senhor. luz de luz. E uma criatura hu mana. pelo contrário. isto é. a Sua realidade humana (perspectiva «Verbo-carne»). 318 Bispos orientais vão res ponder ao desafio ariano e propor uma definição da fé elaborada a partir de um credo já existente. Por isso Ano afirma que «houve um tempo em que Deus ainda não era Pai. Filho de Deus. para apresentar a unidade de Cris to com Deus. ligada a certas passagens bíblicas. propõe uma doutrina bastante simples. consubstancial ao Pai (também se pode traduzir a palavra grega homoús sios por «da mesma natureza») 55 O problema fundamental posto por estas duas posi ções contrárias é o da vinda de Deus à história dos ho mens para partilhar plenamente a condição carnal da humanidade. Prólogo).

novo Patriarca de Constantinopla. vai nas cer uma outra posição radical por volta dos anos 428-429. Sublinham. e subiu aos céus. recusando. Mas nem por isso ela deixa de ser essen cial. Jésus-Christ dans Ia tradition de 1 ‘Église. uma intensa reflexão sobre Deus e o conhecimento que podemos ter d’Ele. mas mantendo. 2. em 377. pp. sem se exclufrem. • Os Padres do Concilio completaram a linguagem descritiva da Escritura acrescentando-lhe a linguagem ontológica. de onde virá julgar os vivos e os mortos. por isso. Desta maneira se salvaguarda a trans cendência de Deus em relação à história. Fixaram e basearam o que Deus fez por nós por e em Jesus Cristo naquilo que Ele é em Si mesmo. com Nestório. Os Concilios cristológicos Não se deve limitar o trabalho de Niceia à questão cristológica. na «relação ontológica» que liga o Pai com o Filho. o que é expresso pela palavra «con substancial». CONCÍLIO DE ÉFESO (431) Da tendência de Antioquia (homem/Verbo). achamos importante reter alguns pontos fun damentais: A linguagem da Escritura. • Os Padres conciliares quiseram. em todo o caso. Sem pretendermos separar do resto o contributo deste Concilio. 97-98. Na sequência do Concilio. os homens. Apolinário de Laodiceia assume a defesa da úni dade de Cristo. a transcendência (4) CÍ. afirmar. (362) e conde nado pelo Papa Dâmaso. proclamará ele. por nós e pela nossa salvação. etc. de uma vez por todas. conforme vimos atrás. como salvaguardar integralmen te a Sua humanidade? • Como se conjugam n’Ele. Pa ris. que re 57 56 . sobre o estatuto trinitário do Es pírito Santo. a compatibilidade desta transcendência com a sua comunicação absoluta aos homens em Jesus Cristo. Irá ser denunciado por San to Atanásio. porém. Por outras palavras. que por nós. no Concilio de Alexandria. ressuscitou ao terceiro dia. absoluta de Deus em relação ao mundo. que Jesus. faz parte do próprio ser de. déste modo. desenvolveu-se. 1982. Antioquia e Alexandria tinham visões diferentes. e pela nossa salvação desceu e Se fez carne. Sesboüé. restavam em suspenso. de integrar vocábu los técnicos pedidos de empréstimos à cultura grega e explicitar-se através de um «ou sei a» (4). Teve. E no Espfrito Santo. que exprime a salvação cristã sob a forma de relato das intervenções de Deus na história dos homens revela-se insuficiente para ex primir o dom da fé. na Igre ja. Por causa desta diferença de perspectiva irá ressurgir a questão cristo lógica.Deus. sofreu. de forma clara. que Ele tenha urna alma humana: «A natureza incarnada do Verbo Divino é uma só». Desclée. esse Homem que sofreu sob o poder de Pôn cios Pilatos. dois pontos importantes: • Se Jesus é Deus.por quem todas as coisas foram feitas no céu e na terra.B. depois de Niceia. tornou-Se homem. face à ameaça ariana. a rea lidade divina e a realidade humana do Seu ser? Sobre estas questões. Sobre a pessoa de Cristo.

como Ele próprio. mas. sem discernimento. não é o Verbo que assume o homem. mas é o Verbo em pessoa que é ho mem. O problema que se pu nha era real: Se Jesus é Deus. condenando e depondo Nestório.cusa dar a Maria o título de «Mãe de Deus» (teotókos). Jesus Crlsto. Nosso Senhor Jesus Cristo 2 o mesmo 3 perfeito em dMndade 5 verdadeiramente Deus o mesmo e o mesmo 4 perfeito em humanidade 6 verdadeiramente homem (constituido) por uma alma raclonai e um corpo consubstancial a nós 7 consubstanclal ao Pai segundo a divindade o mesmo 8 segundo a humanidade. deve ser então uma pessoa humana. Monogénlo ( = Único) reconhecido em duas naturezas 12 sem confusão nem mudança 14 não sendo a diferença das naturezas suprimida pela união. para nós e para a nossa salvação gerado da Virgem Maria. reunido para acabar com estas discus sões que ameaçavam a unidade do império. encarregada de «negociar» esta unidade. Antioquenos e Alexandrinos continuaram a opor-se entre si. Por volta de 448-449. Nestório introduz um terceiro ele mento. com a sua autoridade. 59 . segundo a humanidade 11 um só e mesmo Criato Filho. Senhor. após a união da humanidade com a divindade. como pretender que Ele seja ainda um homem autêntico? Se Lhe reduzimos a humanidade. por isso. Deus. em tudo semelhante a nós. e Deus aproximou-Se autenticamente dos homens. uma graça particular. é o próprio Deus que é encontrado. certas fórmulas de Cirilo e começou a defender que. Reforçou. isto é. Senhor. é mais propriamente mãe de Cristo. face a Nes tório. excepto rio pecado 9 gerado do Pai antes de todos os séculos. não pode. Verbo. comprometemos toda a mensagem cristã: 58 Definição de Calcedónia (Ler o texto segundo a ordem dos números) Segundo os ensinamentos dos Padres da Igreja. ser uma pessoa divina: a Sua humanidade é posta em relação com o Verbo por uma graça particular. não produ ziu nenhuma nova definição. retomou. certos escritos de Cirilo. O Concilio de Efeso (431). Será Cirilo de Alexandria que se tornará. Monógeno. ou seja. pelo contrário. segundo a divindade 10 mas nos últimos dias. Não chegando a pensar na unidade da humanidade e da di vindade em Cristo. o paladino da fé: em Cristo. o Verbo tornou-Se verdadeiramente ho mem. mãe do homem em quem Deus habita». no-lo ensinou. apenas se man tém em Jesus a natureza divina. como o simbolo dos Padres da Igreja no-lo deu a conhecer. CONCÍLIO DE CALCEDÓNIA (451) Apesar do pacto de unidáde assinado pelas duas par tes. um monge mais teimoso. nem mãe de Deus. Jesus Cristo como os profetas. o ser de Cristo não é verdadeiramente uno: se Ele é ho mem. outrora. no-lo disseram acerca d’Ele. Eutiques. não (um ser) partido ou dividido em duas pessoas 16 mas um só e mesmo Filho. Para ele. confessamos e ensinamos unanimemente 1 um só e mesmo Filho. Foi o triunfo da teologia de Alexan dria: em Jesus. Maria não é «nem mãe apenas do homem. Para Nestório. porém. ficando salvaguardadas cada uma das duas naturezas 13 sem divisão nem separação 15 e juntando-se numa só pessoa e numa só hipostase.

a natureza divina: é o monofisismo.( ) 5 SEGUNDO CONCÍLIO DE CONSTANTINOPLA (553) Com o Concilio de Calcedónia. fruto da acção de Deus. incluindo a Sua morte. Este Concilio reafirma com vigor a unidade das naturezas na pessoa concreta de Je sus: o Filho eterno de Deus e o homem Jesus são uma (5) W. a vontade divina: é o monotelismo. à comunicação com o ho mem: Ele é verdadeiramente Deus e autenticamente ho 61 60 . Faltava garantir a estabilidade. isto. como se pode notar pela disposição do texto que acrescentamos em local próprio. ao recusar a Cristo a vontade divina. patriarca de Constantinopla. quem morre é realmente «um da Trindade» (Unus de trinitatepassus est. é levada a cabo na liberdade humana de Jesus e através dela. TERCEIRO CONCÍLIO DE CONSTANTINOPLA (680-68 1) As querelas. Que é que está em jogo em todos estes debates? Os Concílios sempre tiveram a preocupação de definir com exactidão a identidade de Jesus: Ele é verdadeiramente Filho eterno de Deus (Niceia) e por Ele Deus tornou-Se autenticamente «Deus connosco» (Efeso). o Papa Leão escreveu a famo sa Carta a Flaviano. ao insistir «exclusivamente na constituição íntima do sujeito divino-humano». Nele se afirma cla ramente a unidade de Cristo («um só e mesmo»). a todo o preço. Convocou-se um Concflio. Na cruz. só e mesma pessoa. Com efeito. Por espfrito reconciliador. O que quer dizer que a incarnação de Deus não foi representação. perto de Cons tantinopla. Se há alguma diferença radical a manter entre Deus e a humanidade. Ephèse et Chal cédoine. de facto. estes últimos punham em causa a autenticidade humana de Jesus. A definição de Calcedónia é um modelo de equilíbrio. mas alargando-o até às vontades. reduzida a um instru mento passivo da Sua natureza divina. Jésus le C’hrist. certos teólogos orientais puseram-se então a proclamar que em Cristo só havia uma von tade. para dar uma interpretação autori zada das formulações de 451. à católica e à protestante. tem por agen te o Filho Eterno. reunido em 680-68 1 (Constantinopla 111). e em particular da relação que Ele tem com o «Seu Pai». 1976. ele «separa este problema de todo o conjunto do destino e da história de Jesus». Camelot. Th. Para o texto da carta de Flaviano. Um novo Concí lio ecuménico. 356-357. conforme afir mam os monges chitas dessa época). Cerf. Ao afirmar a liberdade hu mana de Jesus. ou se ja. que procuravam. mas insiste-se igualmente na distinção das naturezas. Orante. Em 451. na qual reafirma os grandes dados da cristologia. amea çada pelos Alexandrinos. Mas. 1962. ela não se opõe. pp. «O mesmo e único Cristo tem uma vontade divina e humana. em Deus. ver P.da humanidade de Cris to. em 553 (Constantinopla II).Deus não é realmente o «Deus connosco». a cristologia dogmá tica atinge o auge. certos limites. Paris. alguns recusaram os Concílios precedentes e começaram a professar que em Cristo não havia senão uma natureza. Por outras palavras. Kasper. reafirma o dado de Calcedónia. reúne-se um novo concilio. conforme escreve W. para realçar um novo enun ciado da fé. porém. Kasper. conciliar a definição de Calcedónia com as fór mulas de Cirilo. 216-223. apesar de ter. Em Ale xandria. não tinham acabado. toda a história humana de Jesus. Este texto continua a ser uma referência fundamental para todas as Igrejas. Para salva guardar a unidade da fé. o Concílio quer sublinhar que a nossa salvação. em Calcedónia. desde a ortodoxa. que concorre em conjunto para a sal vação do género humano». Paris. pp. na autentidade da divindade e.

para eles. só pela fé o pode conseguir. A sua busca. Olivier. As duas contestações não são. Quanto ao Século das Luzes. idênticas. En quanto pecador. é. Dá-se conta. o facto Jesus Cristo. cap. 1. témoin de Jésus-Christ. sobretudo. Desta maneira se torna presente. uma viva consciência da sua condição de pecador. da total incapacidae do homem para alcançar por si próprio a salvação. 5. A Tradição contestada Não é propósito deste nosso livro expor toda a his tória da fiem Jesus. II. Todavia. oferecido por Deus nesta singular figura de Jesus de Nazaré. A Reforma. 1973. no entanto. era de natureza soteriológica: o que não foi assumido não ficou salvo. foi sempre guiada pelo acolhimento do dado fundamen tal da fé: tratou-se. Em nome da Escritura: Lutero (1483-1546) Lutero não é um contestatário da tradição cristoló gica. * * * Estes debates mostram até que ponto os Padres da Igreja tiveram o cuidado de exprimir a fé utilizando ex pressões da sua própria cultura. Lienhard. já que um dos argumentos mais fre quentes. porém. ao mesmo tempo. nos quais lança raízes o nosso século. A teologia de Lutero não aceita ou tras fontes para além da Escritura: sola scriptura. quis apenas renová-la. em comparação com as três dimensões re feridas (ontológica. Paris. porém. Paris. nunca rejeitou a fé cristã. La foi de Luther. a dimensão ontológica que sai honrada. envolve também e ple namente a sua liberdade humana (Constantinopla III). Antes de abordar os 62 63 . Lutero colhe na Escritura um acutilante sentido da transcendência e da glória de Deus e. porém. Percorrendo estes dois séculos. o cuidado especial de não esquecer que o argumento da salvação foi o apoio cons tante desta busca. a sua teologia tem uma tonalidade no va. Para situar correctamente o seu contributo. Les étapes et les thèrnes dela christologie du Réformateur. 1978. Teremos. Luther.mem (Calcedónia). Se quiser ser salvo. Ninguém pode consegui-la pelas obras. bem como D. debates contemporâneos. Cerf. a começar pela autoridade da fé. por exemplo. a dimensão histó rica. pela (6) Ver M. Beauchesne. Estas contestações vão inaugurar os tempos modernos. o homem só merece a cólera divina. de comunicar o dom da salvação. é Deus em pessoa que actua (Constantinopla II) e a salvação que nos é oferecida n’Ele e por Ele. Homem profundamente religioso (). precisamos de evocar ainda dois momentos que marcaram de forma decisiva a con frontação sobre o mistério de Cristo: a Reforma e o sé culo das Luzes. convém recordar algumas traves mes tras da sua teologia. Na vida ena morte de Jesus. podere mos medir todo o esforço que uma verdadeira compreen são da fé exige do crente. que ressoa ainda muito fortemente na teologia protestante dos nossos tempos. mas proporcionar aos cristãos dos nossos tempos a assunção da fé como coisa própria. que nós distinguimos. «crucificado por nós sob Pôncio Pilatos». soteriológica e histórica). de forma implícita. deste modo.. nestes debates. Pa ra isso. é muito importante que entendamos o que está em jogo nos momentos essenciais em que se foi cons truindo a regra da fé das Igrejas. La cause de l’Evangile dans I’EgIi se. contes tou toda e qualquer autoridade que não fosse a sua.

a redenção que Ele ga rante à humanidade. chamado. já que toma sobre Si esta mesma cólera para também dela libertar os homens. que ocupa um lugar cen tral na sua teologia. o qual. para não falarmos das guerras de Religião. ao mesmo tempo. é. entrega o Seu Filho. da piedade. como Feuerbach. Em relação ao Mundo Antigo. reflexo de um mundo imaterial e imutável. Deus não é necessariamente rejeitado neste mundo que tem o homem por centro. assiste-se a uma verda deira subversão coperniciana. e daí em que é que isto me diz respeito?» O que Cristo é «em Si» pouco importa. o Universo era entendido como um cosmos organizado. Quanto a Jesus Cristo. sote riológica. que servem para desvalorizar a própria ideia de religião. que especula sobre o modo de incarnação e o modo da união das duas naturezas em Cristo. Como em S.18-31). protegido por um de sígnio de Deus. a que se dá relevo. o mundo moderno concebe-se como um mundo autónomo em que o mun do tira a sua consistência e as suas leis de si mesmo e depende única e simplesmente do homem. Acontece ainda que. mas na fraqueza. surgem então muitas e variadas rupturas cujos efeitos se fazem sentir até às problemáticas do século XX. Anexo 11). apesar da cólera contra o pecador. Aufkliirung. no mundo antigo.fé em um Deus que o declara justo sem que para isso haja qualquer mérito da sua parte. essencialmente. Esta filosofia nasce de várias fontes: o Renascimento e a Reforma. o século XVIII. se a existência de Deus não é negada como tal. Já não é al go para ser contemplado. o nascimento da ciência. o drama da cruz é de novo situado no coração da cristologia: Deus não Se re vela no poder. a soteriologia corre o risco de se evaporar por falta de fundamento. a consciência que Ele tem da Sua missão (cf. torna-se incompreensível para a própria razão. um Deus que já não está ao lado dos objectos mas na insondável profundidade humana. Como poderemos ca racterizar esta época filosófica? Emancipação da razão De modo geral. a sua contestação é. E um regresso aos problemas dos Padres da Igreja. sem prestar muita atenção à dimensão ontológica (o que Cristo é em Si). esta «idade da razão» identifica-se com o século das Luzes. ai64 guns aspectos indispensáveis para compreender as problemáticas cristológicas actuais. A teologia de Lutero é uma reacção contra a Esco lástica. na Alemanha. Apenas sobrevive o Deus do co ração. mas es quece a história concreta de Jesus e o Seu empenhamento na história dos homens. A partir de aqui são fáceis de compreender as orien tações cristológicas de Lutero. chegam mesmo a pensar que Ele não é mais que a projecção desta pro fundidade. Não rejeita as definições conciliares. e a expressão da solida riedade de Cristo com os pecadores. a propósito do século das Luzes. Paulo. alguns. 5 65 . no que diz respeito à vi são do mundo. A cruz. importa tudo o que Cristo é «para nós»: o Seu amor. as grandes desco bertas e o desenvolvimento do comércio. a expressão deste amor de Deus. E é a este tí tulo que pode tornar-se objecto de ciência. vamos contentar-nos com evocar. «Ele confunde a sabe doria dos inteligentes» (lCor 1. mas para ser transformado. da emoção. Lutero tem realmente em conta a humanidade de Cristo. Mas. a Sua realidade corporal e psi cológica. 2. Em nome da Razão (século XVffl-XIX) Dados os limites do nosso projecto. Enquanto. E conhecido o texto célebre: «Cristo tem duas naturezas.

e pretende emancipar-se da tutela do dogmatismo: a interpretação da Escritura não compete à autoridade eclesiástica. como se sabe. com Baruch Spinoza (1632-1677) e Richard Simon (1638-1712). no entanto. em Cem anos de Debates sobre Deus. Desclée. 1968. a história não passou. que é o resultado de uma ficção ou de — — — um devir. Com o racionalismo. particularmente o capítulo sobre Feuerbach. Dá-se então uma ruptura essencial: o mistério de Cristo é esvaziado do seu sentido. Chegará. Pensamos que basta referir três tentati vas neste sentido. Embora permitisse à razão pro gredir em direcção à verdade. Um outro divórcio aparece com Lessing (1729-1781) entre história e razão. L ‘essence du Christianisme.Um primeiro divórcio aparece logo no fim do sé culo XVII entre Escritura e Dogma. fá-lo-á através da reintrodução da di mensão histórica. sem. La christo logie idéaliste. prosseguido em nome da razão e à revelia de todo o dogmatismo. mas a discipli nas científicas. vai reagir a esta situação que socavava os alicerces da fé em Cristo. Schleiermacher (1768-1834): Schleiermacher con siderava o cristianismo como «a mais eminente religião do mundo». que a razão. pelo contrário. 1977. Cen trurion. a razão do sécu lo XVIII faz muito mais do que isso. com a intensidade e eminência da Sua «consciência de Deus». já que os factos contingentes da história não podem ser fonte de verdades necessárias. para isso. um sábio. um mestre de moral (Kant). este Cristo religioso. A especificidade de Jesus. por assim dizer. Para dar conta do facto cristão e da sua pretensão à universalidade. Nestas condições. toda ela. regressa à figura concreta de Jesus. no entanto. Maspero. contingente. 1968 e Marcel Neusch. A insistência unilateral de Lu tero na pessoa de Cristo «para nós» tinha como resulta do pensar o homem como determinado por Deus. Pensa reconduzir a ela a sua época e. Paris. Feuerbach. de um andaime. que é. Ver ainda: X. não passando mesmo de uma projec ção deste. escreve ele. Jesus é. Prefácio da segunda edição. pode ser salvador em benefício dos ou(7) L. na Alema nha. a resultados bastante contestáveis. 66 67 . por sua vez. «A especifici dade do cristianismo. sem nada negar das exigências da razão. Enquanto Lutero en fraquecia consideravelmente. Para quali ficativo deste esforço. a negar. a dimensão ontológica da fé em Cristo. A história deixou de ser um lugar de verdade. uma vez alcança da a sua própria maturidade. não tendo necessidade de salvação para Si mesmo. consiste inteiramen te no apego a Jesus de Nazaré e à salvação de que Ele é portador. mas mostro que este ser supra-humano não passa de um produto e um objecto dos sentimentos sobrenaturais do homem». aceito. pode dispensar. a teologia protestante. deve mes mo fazê-lo. Aux sources de I’athéisme contemporain. é Deus que é pensado como determina do pelo homem. (7) Revalorização da história No século XIX. O estudo científico da Bíblia aparece. Tilliette. não pode tornar-se o lugar de nenhuma verdade sobre Deus. no máximo. Tal é a tese de Feuerbach (1804-1872). De onde re sulta que a vida de Jesus. Paris. e. na Sua essência. Jesus foi salvo. por isso. o qual escreveu: «Não me pergunto o que foi ou o que pode ser por ventura o Cristo real e natural oposto a este outro Cris to sobrenatural. Estando em comunhão total e constante com Deus. tem a ver. vai revalorizar a histó ria. faz desaparecer a dimensão soteriológica. um ser necessário. como toda e qual quer vida humana. vai falar-se de «teo logia liberal».

Ao passo que. perpetua as problemáticas centradas sobre o modo de união da divindade e da humanidade do Verbo Incarnado. Em boa verdade. como iria demonstrar Alberto Schweitzer. Com os tempos modernos. a cristologia foi sendo despojada. então. que a reli gião tem por função servir». por isso. à margem das interpretações doutrinais já propostas no Novo Testa mento. verificar e fundamen tar o seu apego à personalidade de Jesus. quer História/Senso (fé). as mais das vezes. Deixa de haver cristologia no sentido estrito. depois. Aparece uma dupla bipolarização. O catolicismo. o protestantismo entra de rompante na problemática moderna. como também ar quétipo (Urbild). Puf. a dualidade inerente a todo o dis curso sobre Jesus Cristo muda de lugar. artigo Schleiermaeher no Dictionnaire des Religions. que acumula69 68 . sob a forma de oposições: E a história ou a fé. No decurso desta travessia da modei ni dade. Não via. p. deste modo. concluir que Cristo não passa de uma Ideia. (8) • As Vidas de Jesus: Numerosos autores tentaram reencontrar. (8) J. Já Lutero deslocara a tónica para o homem e a sua salvação. Fracassaram. * ** No decurso do período em que se elabora a tradição dogmática da Igreja. uma vez que a Pa lavra de Deus foi despojada de toda a autoridade. na perspectiva anterior. como uma experiência salvadora. porém. era o autor a projectar a sua ideia sobre Jesus. • Um mito concreto: D. recusando o divórcio en tre a fé e a razão. o homem torna-se senhor do próprio mundo e toma consciência de si e das suas próprias possibilidades. A quem aceitar seguir a via religiosa por Ele aberta. na sequência de outros. através do estudo. Estas novas bipolari zações exprimem-se. subli nha o afastamento que há entre o Jesus histórico e o Cris to da fé. Jesus revela como e porquê a essência humana se realiza nesta unidade com Deus. soteriológica e histórica. e a tarefa da história consiste em reencontrar. porém. Doré. de todas as suas dimensões: ontológica. obra da comunidade cristã. No século das Luzes. porém. os alicerces mais fun dos do cristianismo e. Esta tarefa será assumida sobretudo pelo protestan tismo. na sua História da pesquisa sobre as vidas de Jesus (1913). um mito criado pelas comunidades. as reivin dicações de uma razão que se pretende autónoma e re cusa toda e qualquer autoridade exterior. Vêm. mas sem.tros: não somente imagem ( Vorbild). sucessivamen te. Deus não passa de uma palavra que recusa o homem. portador da Ideia. 1547. A escola da História das formas (Formgeschichtschule) virá confirmar esta toma da de posição pelas comunidades na elaboração dos evan gelhos. Estes trabalhos trouxeram para o primeiro pia no a dimensão histórica rejeitada por Lessing. é a comunidade crente que se projecta. os Padres tentaram exprimir o mis tério começando por acolhê-lo como uma revelação e vivendo-o. que opõe quer História (Jesus)/Ideia (Deus). tentando assumir a no va cultura dominada pela Razão. a situação desta comunidade. Strauss (1800-1874) te ve o cuidado. A cristologia contemporânea irá esforçar-se por recompor este conjunto. isto é. Paris. pelo contrário. cada autor criava pa ra si um rosto de Jesus. F. Puseram-se então a estudar cientificamente. agora. o Jesus da História ou o Cristo da fé. 1984. A partir de então. de regressar à his tória. nos Evangelhos senão a con cretização da ideia. através da história. Só que a sua fé continuava viva e submissa à Palavra de Deus. Enquanto o catolicismo.

depois. in Dictionnaire des Re ligions. Hegel).ra atrasos sobre atrasos. à Sua cons ciência e à Sua liberdade. críticos. Marchasson. Pesquisas contemporâneas Como haveremos de assumir. e as descobertas das ciências auxiliares da História. E que eles puseram em relevo alguns aspectos. ao Seu agir filial. hoje em dia. fundado res do Idealismo alemão (Fichte. (Extracto de Y. do aparecimento das ciências bíblicas. e a dos seus sucessores. discípulos e intérpretes. Corte. que vinha da Idade Média. p. teólogos) impressionados com a fi losofia alemã. Estes «cortes». a teologia católica entra em diálogo permanente com a teologia protestante. que.. sobretudo a de Kant. Schopenhauer. das vias actuais da cristologia. alimentados também pela tradição neoplatónica. entre o Jesus da história. face ao progresso da ciência. e o Cristo da fé. Modernisme. que levam a pôr em causa o conteúdo his tórico dos Livros Sagrados. também eles impressionados com os grandes textos místicos da India antiga. homens (histo riadores.. de algum modo deslocada. Puf. sempre se posicionaram de uma forma re lativamente autónoma. duas propostas. ifi. uma respeitante ao ser filial de Jesus. Corte entre uma Revelação em que Deus Se dá por e em Jesus Cristo e uma procura humana que não aceita outra autoridade senão a sua e que tem tendência para reduzir Deus a uma projecção que o homem faz de si mesmo. Trataremos. As vias da cristologia A crise modernista O cerne do Modernismo consiste no seguinte: homens inquietos. 1. no entanto e em primeiro lugar. A partir dos anos 60. homens muito ao corrente dos esforços do positivismo. marcada pelo debate da teo logia liberal ao menos no Ocidente. que tem uma significação universal e actual. mais tarde. com os atrasos acumulados pela Igreja. segundo a qual já não é possível atingir a ordem metafísica. 1984. art. Estes homens perguntam-se a si mesmos se o sobrenatural não teria sido excluído pela filosofia e escorraçado pela história. numa palavra. Os debates da cristologia do século XX foram suscitados pelas exigências da modernidade. que não ad mite senão os factos da experiência e afasta a busca das causas. finalmente. Podem assi nalar-se vários cortes mortais: Corte entre o estudo bíblico e o estudo cristológi co. Shel ling. 1123.. e outra relativa ao conhecimento de Cristo. Faremos. con forme vimos. Deus-connosco e fonte de salvação. que nenhuma cristologia pode ignorar. a cristologia estava. a confis são de fé em Jesus. que era resultado de uma certa hegemonia da reflexão metafísica e. Filho de Deus? Será possível con tinuarmos fiéis à tradição dos grandes Concflios cris tológicos. Pannenberg e ou tros) não têm cessado de a influenciar. Nos começos do século XX. porém. não devem ser interpretados apenas num sentido negativo. sofre o verdadeiro choque da modernidade no começo deste século com a crise mo dernista. e os gran des teólogos protestantes (Bultmann. Desenvol — — — 70 71 . desde que apareceram. apesar da diferença cultural que nos separa deles? Estas perguntas devem merecer toda a nossa aten ção.

separá-la das reresen tações demasiado ligadas a uma visão pré-científica do mundo: é !quilo a que ele chama a «desmitologização». e Paris. Só temos uma res posta: Jesus Cristo. 72 (1984). embora viesse a ser preparada de longa data. a Sua natureza ou até a Sua história concreta. Por ocasião da celebração do 15. pondo-se do lado do sujeito. acha que é preciso prestar uma enorme atenção às condições da compreensão: o homem só po de acolher a Palavra de Deus a partir da compreensão que tem da sua própria existência. não o Cris to em Si. Une Aufkhirung à Ia lumière de I’Evangile: K. Recherches de Science Reiigieuse.0 centenário do Concilio de Calcedónia. Bultmann. Bultmann (1884-1976) põe em muito maior relevo a dimensão antropológica da fé. Estamos em presença de um esforço teológico que faz lembrar Lutero. Karl Barth. 1984. Genebra. 72 73 . pelas renovações missionária e litúrgica. e a Igreja. no terreno. faz esta pergunta: é possível ao homem do século XX crer nesta Palavra? Este cuidado de apresentar a Palavra de Deus de tal maneira que possa ser compreendida pelos nossos con temporâneos leva Bultmann a fazer uma dupla opera ção: por um lado. em terreno protestante. Da mesma maneira não podemos compreender a relação entre a criação.» (10) A busca do homem (Rudolf Bultmann) Enquanto Barth encara com alguma negligência as vias humanas que nos conduzem a Deus. mas. Esquisse d’une dogniatique. só partindo da relação que a pessoa de Jesus Cristo exprime o pode mos conseguir. um sentido. E sobre o horizonte de uma vida confrontada com a morte e o absurdo que a Palavra de Deus podé ter. atingiram também o mundo ca tólico. partindo da história das religiões. primeiro. que sublinha a objectividade da Pala vra de Deus. Cerf. diferente mente de Barth. Assim se proclama uma teologia que recusa todo o compromisso com o mundo ou com a razão hu mana.veram-se. E verdadeiramente Deus que retoma a Palavra. Corset. A oferta de Deus (Karl Barth) Pode ser considerado pioneiro desta renovação o teó logo Karl Barth (1886-1968). A Aufldirung nascida da razão opõe ele a Aufklãrung do Evangelho( A fé em Deus ). em 1951. julga ele que é preciso interpretar a Escritura com novos cuidados. 495. (9) P. A tal ponto que não faltou quem o acusasse de regresso à teologia liberal e racionalizante do século XIX. a busca humana é de si incapaz de se apoderar da fé. a renovação da cris tologia católica demonstrou estar em plena vitalidade. Labor et Fides. R. opondo «a determinação teológica irreversí vel do homem por Deus à determinação filosófica libe ral de Deus pelo homem». tanto em Bultmann como em Barth. Eo homem que interessa. quando abordamos o grande problema que não deixa nunca de nos espantar e que nós não pode mos formular sem correr os mais graves riscos de erro da relação entre Deus e o homem. Só que. sobretudo pela renovação dos estudos bíblicos e patrísticos e. incluindo o per curso histórico de Jesus. p. 9 tem outro fundamento que não seja a Palavra do mes não mo Deus. 101. por um lado. por — — outro. a criatura e a exis tência. a redenção e Deus. 483-526. para o homem. (10) Cf. Logo a seguir à Primeira Guerra Mundial. começou a expurgar as pesquisas da teologia liberal e a trazer para primeiro plano a Palavra de Deus. ouvinte desta Palavra. Mas. por outro lado. p. a partir da década de cinquenta. pp. Karl Barth escreve: «E a partir de Jesus Cristo e só d’Ele que podemos tentar ver e compreender aquilo de que se trata na ópti ca cristã. Barth».

A figura de Jesus Faltava reintroduzir no cerne mesmo da reflexão cris tológica a história de Jesus. neste homem». por fim. Do lado católico poderia encontrar-se um ensaio com parável na cristologia de Karl Rahner (1904-1984). se manifesta em Cristo». Só que o que está em jogo é uma mudança de sensibilidade e de cul (12) W.mas o «Cristo para mim». elimina. KarI Rahner também se preocupa. 26. Deus oferece-Se em silêncio como o absoluto. O aprofundamento da existência concreta da figura de Jesus. Aujourd’hui Dieu. E possível resumir deste modo a mais notável das suas in tuições: «Antes de Se revelar na figura histórica de Je sus. (12) A análise exaustiva do facto históri co Jesus Cristo deveria. Entre a história e a mensagem opera-se um divórcio. já sublinhá mos que elas integram pouco a ordem do devir e a ex periência de Jesus de Nazaré. 2. 85-88. enquanto tal. naturalmente. Rahner introduz uma ideia forte. O ser filial de Jesus Ao apresentar as definições conciliares. que constitui preocupação da terceira perspec tiva (de Pannenberg). Paris. que a segunda (a de Rahner) tem ten dência para atenuar. em última análise. Censuraram a Pannenberg ter atin gido a gratuidade da fé e a sua liberdade. quando ela. de algum mo do. 74 75 . E que é no contacto com a figura concreta de Jesus Cristo que o desejo desperta e Deus Se revela. ainda que em contexto muito diferente. 1987. o empenhamento de Deus na história. que o homem pode reconhecer em Jesus o dom ou oferta de Deus. pelo menos ao nível da expressão. com o homem e a sua sal vação e interroga-se sobre as condições que preparam o homem. na medida em que parece pôr a fé na dependência da investigação históri ca. Estas duas dimensões são insepa ráveis. Pannenberg. E necessário que cada uma destas perspectivas con tinue aberta às outras. que é a razão de ser da sua existência. Desclée de Brou wer. A primeirã (Karl Barth) tem o mérito de sublinhar a gratuidade e a liberdade absoluta da oferta de Deus. já inscreveu nele o desejo de conhe cer o Rosto divino. é o teólogo que mais fez neste sentido. Marcel Neusch. que pode resumir-se nestas palavras: Deus revelou-Se (‘‘) Cf. Mas a pesquisa teológica dá-lhe a sólida arti culação entre aquilo que Jesus viveu e o que viveu a co munidade apostólica. quando falarmos do ser filiar de Jesus. a única que interessa realmente ao homem. Só nos falta mostrá-lo. na medida em que sublinha que Deus. Paris. pp. mesmo tendo em conta que foi demasiado longe. também é muito importante. ao criar o homem. Por isso se realça uma oposi ção já descoberta no século XIX entre o Jesus da histó ria e o Cristo da fé. E esta presença silenciosa de Deus no homem que permite ao mesmo homem perceber a men sagem última ou definitiva sobre a existência. Pannenberg. permitir o acesso directo à fé. Esquisse d’une christologie. Em compensação. protestan te. W. para acolher esta salvação. a dimensão ontológica (o que Cristo é em Si) e a dimensão histórica (o que Cristo fez e viveu em concreto). E por causa desta busca de sentido. «a tarefa da cristologia é apoiar na história de Jesus o verdadeiro conhecimento da sua significação. o mistério sagrado. atenuando. (11) Teremos oca sião de reencontrar Karl Rahner. Não se trata de um defeito. A dimensão salvífica. Cert 1971. assim. p. Para ele. E com toda a razão.

Permite exprimir. cujo estatuto no seio da Igreja romana é mais que oficial. Eis o ter tornado homem essencial.pp. na Incarnação. ibidem. Ch. e. Embora este Outro esteja dependente d’Aquele que o criou. Este nosso propósito su põe que entendemos o discurso actual acerca da «passibilidade» de Deus. honrando assim a busca de uma leitura contem porânea de Calcedónia. número 1844. seja de que modo for. per manece todavia autónomo. 76 77 . chris tologie. Desclée. Todas es tas expressões são tiradas de um documento da Comis são teológica internacional. criação e incarnação. a qual estabelece uma correspon — — (14) CI. tal qual Jesus o pô de viver concretamente. de uma forma real. Centurion. p. Cerf. pp. Deus constitui o outro a criatura como radicalmente distin. tal qual o expri me a teologia contemporânea. L honlInc Jéus. pp. a cria ção. deste modo. Voltando a ligar. Rahner abriu um caminho que nos leva a uma melhor compreensão do devir de Deus e da Sua «passibilidade». Aquele que em Si mesmo é imutável. Tem a possibili dade de sair de Si mesmo. Foi neste sentido que Karl Rahner tentou si tuar a incarnação do Filho na economia criadora e salvadora de Deus. não apa rece lá muito bem na sua teologia é a união concreta do Filho ao Pai. vista no seu conjunto. 282: «Jesus homem é Deus porque é Filho: existe divinamente sobre o modo filial. Deus. no entanto.to d’Ele. Deus é o Absoluto. 1959.14 («o Verbo fez-Se carne») e vendo a incarnação como o ponto mais alto da criação Karl Rahner toma muito a sério o facto de Deus Se tira daí as consequências. 81-101: Traité fondamental dela foi. sobretudo: Ecrits théologiques 1. tem a capacidade de «Se tornar». pp. Esta perspectiva. humilhar-Se e sofrer. Jesus define-Se por referência a Alguém que Ele chama Seu Pai’. pro ximidade radical já que Jesus é Deus. (14) So bre este ponto precisamos de aprofundar a sua reflexão. demasiado presos à expressão da nião na pes soa de Jesus do divino e do humano. de 16 de Janeiro de 1983. e isto por amor e com toda a liberdade. 1985. Paris. Paris. como é o caso do homem criado à imagem e semelhança d’Ele. ou seja. mais a criatura é autónoma e livre. 1968. Com a Incarnação. Deus constitui o que é distinto d’Ele (o ho mem) como sendo algo de Seu (Jesus homem é Deus). Criando. «sofrer». que nem vislumbrada foi pelos Padres da Igreja. (13) Partindo de João 1. estabelecendo o outro com a Sua própria realidade. Deus constitui aqui lo que é distinto d’Ele como a Sua própria realidade. 121. é admi tir que Ele pode. DescléedeBrouwer. atingimos o ponto mais alto da obra criadora: temos. que Ele pode ser «afectado» no Seu empenhamento na his tória humana no que ela tem de mais íntimo. porém. tal qual a evocam os Evangelhos. 1983. 241-258: Ai nier Jésus. Quanto mais radical é a de pendência em relação a Deus. in Doc. Duquoc. dado que Jesus é um homem livre que fala em Seu próprio nome: «Eu. Paris. anthropologie».tura. Ver. p. porém. Falar de passibilidade. Por um acto de livre despoja mento de Si. que algo de novo Lhe pode ainda acontecer. digo-vos !» Desta maneira. Para exprimir o ser filial de Jesus. Karl Rahner foi neste senti do. Para evocar o mistério do Filho. Esta maneira de compreender as coisas torna-se clara à luz da criação. podemos partir de uma intui ção de Karl Rahner. Pelo que nos resta dizer de outro modo a mesma verdade. tem o mérito de reunir o que a teologia clássica separava. partiremos do empenhamento de Deus na história. a incarnação e a salvação. o que. 40-54. ver: Thologie. ao mesmo tempo. o «sofrer» de Deus bem como o Seu envol vimento na história da salvação. mas é um Absoluto que pode sujeitar-Se. au tonomia não menos radical. 1963. Paris. 148-161: II. em suma. a propósito de Deus. Catholique. a que convém regressarmos ainda. (‘hristologie 1. — — (13) Para o documento da comissão teológica.

isso sim.. Pelo simples facto de que Jesus era de natureza divina logo O dotavam de um saber perfei to e atribuíam-Lhe. Jésus savait-iI qu’iI était Dieu? Paris. (15) sério a humanidade de Jesus. para Deus. Incarnar. muito mais modesta.7-10. impli citamente. Paris. a relação com o Cria dor manifesta-se na condição de criatura. temos de basear-nos no testemunho evangélico. Paris. Nasce de tudo isto uma visão dinâmica da Incarnação. o impasse sobre os limites da Sua humanidade. docetas. no decurso da Sua vida. já que não existe uma «natureza humana» per feita. . Para um homem.. que Ele vai exprimir a Sua relação eter na com o Pai. que deve distinguir-se do problema do co nhecimento de Jesus. que traz inscrito em Si. entrar no tempo hu mano e participar no seu devir. que só pela morte atingirá a sua plenitude. mas reconhecendo esta origem. a caminho da realização efectiva do Seu ser de Filho. Os evangelhos mencionam claramente esta ignorância de Jesus (Mt 24. pp. D. excepto no pecado» (Hb 4.10. pp. 106-1 15. A consciência de Jesus 3. Se alguma perfeição se pode procurar na huma nidade de Jesus. 1984. Do mes mo modo que ser filho é receber-se de um Pai como ser autónomo. A teologia moderna. 78 79 . há dois problemas que merecem atenção: a consciência de Jesus e a Sua liberdade. pensa que. em Mysreriurn saluris. de honrar as novas tentativas contemporâneas dando razão à história e à experiência de Jesus. Wiederkehr. 1975. pois não tomaram inteiramente a (15) Este problema da consciência de Jesus é um proble ma moderno. E nesta relação que Jesus vive como homem. XI. Ser homem é receber-se do Criador como um ser diferente e autónomo.5-11. Jesus também está. na perfeita obediência ao Pai. Embora seja o Filho. Hb 5. supe rior aos anjos. «Como todo e qualquer homem. A Sua perfeição está ao nível da Sua santidade. a visão dos bem-aventurados. já que muitos cristãos continuam. Cerf. «a hora da vinda do Reino». Cerf. bem como as narrativas da agonia). assim. 1981. Ora dos Evangelhos podem tirar-se dois dados: A ignorância de Jesus. 2. O agir filial de Jesus As reflexões precedentes são um bom começo para abordarmos a questão relativa ao agir filial de Jesus. Apenas este último interessou à teologia clássica. criando. (16) Deduzia ela a psicologia de Jesus da união hipostática. como pensavam os es colásticos.) sobre o assunto da revelação da Sua missão. O que Jesus é como Fi lho eterno revela-se e realiza-se na Sua história de ho mem e é na Páscoa que se manifesta definitivamente e em plenitude o Seu ser-filho. Não introduzimos estas perspectivas por pretender mos procurar a novidade a qualquer preço. E deve pôr-Se nas mãos de Deus numa obediência total (Fi 2. Ser criatura é assumir a relação de origem procedente do Criador. desde este mundo. Se este (16) Distinção que falta na obra de F. se queremos falar da consciência e do conhecimento de Cristo. Ora a Escritura diz-nos que Ele é «em tudo igual a nós. Jesus não sabe tudo. é assumir uma história.dência entre o facto de ser homem e o de ser filho. a saber. Cerf. Ver a posição do Autor em Jésus-Christ chemin de notre foi. perfeito só Deus.Esquisse d’une théologie systématique. A este respeito. Trata-se.15).36 e par. não é somente atingir a humanidade em determi nado ponto. pro blema difícil. O ser-Filho de Jesus devia ter o carácter de tornar-se-Filho». essa perfeição não está certamente ao nível da Sua «natureza humana». 123-125. Dreyfus.

3. Sempre Se apresenta como O repre sentante de Deus. implicam uma autoridade que ultrapassa a dos antigos profetas e que Lhe vem de Deus e de mais ninguém. que são as do «Servo» perfei to. Anjos). homem de fé. A este título Jesus não recebe a Sua autoridade de nenhum me dianeiro humano. Tinha consciência de ser o Filho único de Deus e. 4. cuja única in terpretação possível. Templo. portanto. coabitar perfeitamente com a consciência muito viva da Sua missão. também há nessa vida uma consciência segura de estar acima de todas as mediações da Antiga Aliança (lei. a qual apenas será constituída definitivamente aquando dos acontecimen tos da Páscoa e Pentecostes. Sendo Pessoa divina. é verdadeiramente um «Eu» divino que Se exprime. tomada a coisa no seu conjun to. quando diz «Eu». Este primeiro dado sobre a ignorância e o fracasso de Jesus deve conjugar-se com outra atitude do mesmo Jesus: a Sua extraordinária au toridade. Jesus tirava esta autoridade incomparável da Sua singular relação com Deus. devem também fazer-nos descobrir o verda deiro rosto de Deus: um Deus-Amor. A vida de Jesus é testemunha da consciência da Sua relação filial com o Pai. Foi em vista deste desígnio que Jesus realizou acções concretas. Com o objectivo de realizar a Sua missão salví fica. que prejudicam as nossas ideias acerca de Deus. Apesar do fracasso e no fracasso. Como Filho. Para ter uma cons ciência bem apurada dessa missão. se queremos prestar justiça ao mistério de Jesus. O portador da sua Palavra. que teve de enfrentar o fracasso: Ele próprio declara não poder efectuar certos milagres (Mc 6. é a preparação da Igreja. não se opõem. Aceitou livremente a vontade do Pai e deu a vida pela salvação dos homens. 2.5) ou não poder reunir os filhos de Jerusalém (Mt 23. mesmo assim. Se há momentos de ignorância na vida de Je sus. não escapa aos condicionalismos do conhecimento e do querer huma — Quatro proposições da comissão teológica internacional sobre a consciência que Cristo tinha de Si mesmo (Dezembro de 1985) 1. Jesus quis juntar os homens em vista do Reino e reuni-los à Sua volta. nos Seus actos. neste caso. Jesus não tem ne cessidade ser dotado de um conhecimento sobre-humano. A consciência que Cristo tem de ter sido en viado pelo Pai com o objectivo de salvar o mundo e — 80 81 .abaixamento de Cristo e a Sua morte na cruz são para nós um escândalo. tinha consciên cia de que o Pai O enviara para servir a multidão e por ela dar a vida (cf. a quem pertence o Reino e de quem depende e de mais ninguém o desígnio criador e salvador. O privile giado da Sua intimidade (abba). Mc 14.24). nas Suas palá vras. mesmo na angústia e na noite (Get sémani e Calvário). Estes dois aspectos contrastantes (ignorância e au toridade). Ele assume-Se como procedente do Pai.37). Jesus é umho mem verdadeiro. A autoridade de Jesus. A ausência de conhe cimento pode. E preciso considerá-los em conjunto. Mas este «Eu» divino incarnou de verdade. E isto porque Ele é o Filho. Jesus conhecia o objectivo da Sua missão: anunciar o Reino de Deus e torná-lo presente desde logo na Sua pessoa. de modo que o mundo se reconcilie com Deus e se renove. O Seu comportamen to e as Suas palavras. a quem chama «Meu Pai». respeitando a condição de homem dependente de Deus. de ser Ele próprio Déus. permaneceu fiel. Seu Pai. Pelo que se impõe a afirmação clara de que Jesus teve intenção de fun dar a Igreja.

a saber. em que os deuses ina cessíveis comunicam com a humanidade através de in termediários. E tendência dos homens transformar o inau dito no muito bem conhecido. Lisboa.20). com tudo aquilo que significa não só de possibili dades como também de obscuridade.convocar todos os homens na formação do povo de Deus implica. Como poderemos ad mitir um tal paradoxo? Que o Deus invisível. (17) E no entanto esta extrema liberdade não faz com que Jesus hesite entre múltiplas escolhas possíveis. E desta maneira que Jesus é o modelo acabado da salvação. ou seja. de 19 de Outubro. ao mesmo tem po. n. por outro lado. Lucas diz-nos que Ele «crescia em sabedoria e em estatura» (2. pp. realiza plenamente a vocação de Adão. porém. goza também de plena e inteira liberdade. Para o cristão. 916-921. Este aparente para doxo mostra o que os Padres da Igreja tinham intuído já no Concílio de Constantinopla ifi: verdadeiro Filho. E. no seu conjunto. Todas as nações são chamadas a reconhecer n’Ele a imagem do Deus invisível. na liberdade e no reconhecimento d’Aquele que Lhe deu a vida. 2. este é. no qual todo o homem pode ler o que Deus espera de cada um. para os Gregos. (o Documento é. homem autêntico. nos. De tal maneira que é possível dizer que «o Filho de Deus amou-me e entregou-Se à morte por mim» (GI 2. a vocação de todo o homem. de modo misterioso. é preciso actualizar nos factos e nos gestos. Enrai zado na vontade do Pai. uma loucura. Cristian Duquoc. pô de apresentar uma cristologia com o título de «Jesus. de tal modo está presente n’Ele a Palavra que (17) Edições Paulistas. na Sua vida. é um mistério que é preciso acolher. um comentário a cada uma destas proposições).° 1926. apesar do desmen tido dos factos. o amor pelos ho mens. ho mem livre». E do maior interesse realçar que a extrema sub missão de Jesus a Deus harmonizou-se. Os discípulos acolheram-no e entregaram-lhe a vi da. o Seu querer «recebe-se» totalmente do querer do Pai. fonte e fim de todas as coisas. e. tanto que um teólogo. meio homens. Por um lado. quer se trate de regressar à representação do mundo grego. Se mostre neste homem de uma forma imediata. vive apenas da vontade do Pai. nunca hesita diante do caminho a tomar. a inteligência cris tã conseguiu «defini-lo». fala como se Ele próprio decretasse a lei. Deus assume um rosto na pessoa de Jesus.52). que seja a imagem deste Filho para «receber» a Sua plena humanidade. devotadamente. Documentation Cathollque. E este ros to é o de um judeu no qual se realiza a vocação do povo de Israel. com uma soberana liberdade. eis o que não po dia deixar de ser. o verdadeiro escândalo para os Judeus. mas para fixar as regras da linguagem destinadas a respeitá-lo e a salvaguardar a unidade da fé das diver sas Igrejas. neste homem que viveu e morreu du rante o governo de Pôncio Pilatos. Prescrutando-o. não para o encerrar numa compreensão pretensamente exaustiva e irreformável. mas. de facto. 1979. Jesus não procura o apoio de outras autoridades para sobre elas assentar a Sua. Jesus não conheceu o pecado. Sempre atento ao Pai e em comu nhão com Ele.. quer da 83 82 . estatu ra esta que não tem a ver apenas com o corpo. Ele é o homem total mente filho.a cd. * * * A liberdade de Jesus Jesus é um homem plenamentê livre nas Suas deci sões. Ele é o homem diante de Deus. meio deuses.

Aquilo que é fraqueza de Deus é mais forte que os homens. é consti tuído fonte de salvação. para a qual só o verificível é verdadeiro. O ícone do Deus invisível é o rosto de Jesus: o rosto de um homem autêntico. mas um ídolo. iCor 1. III O MESSIAS CRUCIFICADO Deus salva-nos em Jesus Cristo Nós pregamos um Messias crucificado. E este rosto que precisamos de contemplar. porque foi rosto de cru cificado. apenas temos um deus à imagem dos homens: não um ícone.23-25 84 . na Sua própria morte. Tanto num caso como no outro. no qual Se reflecte a ternura de Deus. que. como muito bem presentiu Lutero. mas rosto desfigurado.representação racionalista. o rosto do Salvador.

os quais exprimem a salvação: re conciliação. a nossa reflexão vai desenvolver-se à volta de três termos-chave. Reconciliação O cristianismo propõe-se. Por isso a nossa atenção se vai agora concentrar num aspecto essencial. que marca a diferença cristã. Esta linguagem é «escândalo para os Judeus. como aliás acontece com outras religiões. 1. Com o dom do Es pírito.A experiência pascal é. na sua es sência. loucura para os pagãos». 87 . uma esperiência de salvação.A dimensão da salvação. que continua a ser o melhor instrumento re gulador de pesquisa da Igreja. fazer um percurso de salvação. a fé cristã pretende que a salvação veio para todos os homens através da morte de Cristo. o principal apoio. temos a garantia de que aquilo que Cristo levou a cabo.8. para os Santos Padres. há-de desenvolver-se em todos aqueles que O acolherem na realização do Reino de Deus. isto é. Vimos. já estava presente desde o princípio do nosso per curso. iCor 1. que o argumento da salvação era. Com efei to. mas. com efeito. para os cristãos. sempre que tentavam definir a identi dade de Jesus na Sua relação com Deus. Preocupados com dar conta desta fé. como nosso irmão mais velho. A Igreja nasceu desta ex periência. redenção e revelação (Anexo II). igualmente. abordada nesta última eta pa. expressão da sua mais profunda fé: «Cristo morreu por nós quando ainda éramos pecadores» (Rm 5.18-25).

porém. a Sua aliança. Através deste povo escolhi do. Ao criar o homem.um outro. os Padres da Igreja quiseram dar conta da salvação como um encontro com Deus em pessoa. livres de ambiguidade: um homem pode sonhar-se como um «ser pleno». antes de mais. Deus dá-Se livremente e por amor a um com parsa. A salvação evoca. começa no próprio Deus. a Sua Palavra (Ver bo). Escolhe um povo determinado. dá-lhe uma terra e um rei. a aspiração irreprimível à trans cendência e à plenitude pode ser compreendida como sinal gravado no homem pelo acto criador de Deus de uma «vocação» à comunhão com Aquele cuja imagem ficou gravada no coração do ser humano (Gn 1. caminho de Deus para a humanidade Na revlaçãojqdeo-cristã. sem duvida. neste ser de carne. Jesus é. chamada a partici par da Sua vida divina. A salvação salvação no singular porque é apreendida como uma realidade absoluta e inultrapas sável traz em si o desejo de uma plenitude tal que o homem não a pode alcançar por si mesmo: donde o apelo a . Estas ambiguidades de vem ser reconhecidas no exacto momento em que pro curamos definir o lugar essencial que Cristo ocupa lá bem no cerne da interrogação humana. recusando a sua condição de «ser inacaba do». que o ateísmo contemporâneo não cessa de denunciar como uma ilusão. marcado pela finitude e pela morte. cujo nome significa «Deus salva». como um Templo e uma Lei. Jesus. o caminho da salvação não parte do homem. a libertação de ai uma coi sa. mas. p1. Estas aspirações humanas não estão. Aquele que recebe totalmente do Pai. Jesus de Nazaré. ao mesmo tempo. que o homem pretenderia manipular. porveze. por pura escolha divina. con cretamente. cujo percurso histórico o Antigo Testamento nos relata. Por outro lado. so re o. que Ele convida a selar com Ele a Aliança que lhe propõe.27-28). para a vinda do Messias. cujadinastia se dirige.. já que Ele é o dom de Deus. seja qual for a sua raça ou nação. Eimportan 88 te sublinhar isto. a Sua comunicação sem reservas. N’Ele se completam e se ãbam todas as mediações. Emanuel (Deus connosco). Deus quer fazer aliança com todos os homens. mas não pode renunciar a essa pleni tude sem se renegar a si próprio como ser de desejo e de ultrapassagem. face à suspeita dos que vêem na ideia iãiima projecção dos sonhos humanos. Ao definir a au tenticidade da divindade e da humanidade de Jesus. — — — — 1. Supõe também a ipiejveçãp de um outro. a uma espécie de ídolo. homem da nossa raça. com as quais exprime.dar uma resposta às aspirações humanas mais fundamen tais. o recurso a um outro para se completar mesmo que pelo recurso à alteridade de Deus comporta o risco de reduzir o outro a um ser «utilitário». numa palavra. a noção de salvaçao cristã não se limita ao rimeiras Imp ica. mira culosa. Quem fala de salva ão fala mente da ui lquesa va como d’Aquele que salva. Desde logo. Só que o encontro entre Deus e os homens não é ai de automáfiëõPara que ele aconteça e préiiqiie gp sejam suprimidos diniausejpëcãEffihiïgarsco — —- 89 . A salvação que ele espera pode depender deste sonho insensato.Para Se unir a esta humanidade. intervenção essa considejpda. Deus abre um caminho para Si próprio. a 1 ertação através de Alguém. «Deus recebido» e «Deus co municado». a libertaçãoe um perigo grave. Neste povo particular Deus abre um caminho para chegar a todos os povos. o Seu Filho. Confia-lhe instituições. No entanto. Esta oferta de Deus à humanidade vai «tomar cor po»ffnitivameniiiste homem Jesus de Nazaré.

mas é seu advogado diante de Deus. no seu náme ro 18 de Dezembro de 1983. Paris. E é p6r isso que o dom da salvação é ao mesmo tempo liberta ção das escravidões e das cadeias que a humanidade pôs nos próprios pulsos. e que vai do homem para Deus. no seio de um mundo que recusa a imagem de Deus proposta por Jesus. de que o hino da Carta aos Filipenses (2. Jesus. coisa que a teologia irá exprimir com o termo «Kênose».29). Aquele que nos reconcilia Estas duas vias. (2) As principais noções que moldaram a linguagem da salvação cristã são apresentadas de forma sistemática por B. O êxodo do povo judeu. enquanto «filho mais velho de uma multidão de irmãos (Rm 8. iluminação. da salvação que Cristo trouxe à humanidade. divi nização. Abaixando-Se. este dom da salvação também to ma forma: a forma de uma luta contra as alienações. Na tradição. mérito. (2) 3. o Verbo de Deus torna-Se história. qe Deus arrancaàservidão do Egpp. 91 . Até na renúncia e no despojamento mais absoluto Ele é solidário dos homens. E aqui que surge a outra linha da salvação. Les tentations ei le ehoix de Jésus. é a figura priiordjld todas as libertações. este as pecto da salvação aparece em variadas noções tais co mo libertação. ascendente e descendente. também esicial. Deus «esvaziou-Se de Si próprio». Rey. e será isso que O levará à cruz. que morreu por nós e em nosso nome. Vivendo num mundo que recusa Deus. exprime-se em noções como sacrifício. manifestando. que não se quer dessolidari zar dos homens. já que a sua me mória está carregada de más interpretações. 1986.17). Efectiva e completa a salvação na medida em que realiza em ple nitude a vocação de Adão: n’Ele se revela uma humani dade totalmente filia]. Quan do Se faz carne. a resposta de Jesus não será possível sem combate. Assim se traça uma Drimeira linha. percopçjp aminho que o próprio Deus abriu. Document Episcopal. Isto explica que a morte de Cristo já se anuncia de algum modo nestes textos. esta última é particularmente cara à tradição oriental. Na vida de Jesus. aliás fundamen tal. como diz o hino. perdão. Toda a Sua vida é modelada pela Sua relação com o Pai que d’Ele 90 e n’Ele recebe a resposta que espera da humanidade: urna resposta livre de um Homem que nada reserva para Si.5-11) é uma das mais belas expressões. (1) O Seu sim a Deus contrasta com o não dos homens em favor dos quais Ele veio ao mundo e pelos quais oferece a Sua vi da. via «descendente». um caminho de abaixamento. representação. expiação. Sesboüé. por isso mesmo. Estes termos são particularmente frequentes na tradição ocidental e deverão ser esclarecidos. pelo perdão que concede. Cerf. pôr a Sua complacência (Mt 3. A ilustração des ta luta em que teve de envolver-Se e que O levará ao Calvário é dada na narrativa das tentações. exprimem orTstério de Cristo verdadeiro Deus e verdadeiro ho mem e no qual se efectua a reconciliação de Deus e da (1) Ver B.lher Deus. satisfação. mo mento decisivo da nossa história humana. em Notes sur Ia théologie de Ia Rédemption. justificação. caminho da humanidade para Deus O encontro entre Deus e a humanidade atinge o seu ponto culminante na existência de Jesus de Nazaré. levadas a cabo or Deus em favor do homem e em vista e uma comunhão perfeita com Ele. E verdadeiramente homem se gundo o coração de Deus e no qual Deus pode. Na tradição. 2. A escolha de Jesus é a escolha do Pai. a humanidade pode recusá-l’O ou escolher outras salvações diferentes da que Deus oferece. esta Viã «ascendente» no seguimento de Cristo.

Por isso a Sua morte não pode continuar a ser encarada como um acidente. Torna-os novamente irmãos no seio de uma criação li bertada. N.19-2 1). quan do os discípulos compreendem que esta morte eÏiína Tõgica da existência de Jesus.1) e que entra «livremente na Sua paixão». 1.18-25).30). Em Cristo. um laço de causa a efeito entre a morte e a ressurreição. sem dúvida Aquele pelo qual o Reino de Deus vem. Perdoando aos homens os seus pecados. que significa a mesma coisa que salvação ou libertação em linguagem bíblica. à criação. sobretudo.36. mas de ve ser integrada no desígnio de Deus. Redenção «Redenção» é um termo medieval. para que entre eles possa ser restaurada a reconciliação. A. 2. é preciso começar por lembrar a forma como foi compreendida pelas pri meiras comunidades cristãs a significação da morte de Cristo. 1985. é porque dá razão à Sua mensagem e à Sua acção. se Deus justifica Jesus desta maneira. na sua sede de poder. • Numa segunda etapa. 5. Deus livra-os também das escravidões. que ama «até ao extremo» (Jo 13.24. uma liberdade tomada filial. animada pelo Espírito do Filho. Como é que os discípulos conseguiram ultrpassar o escând?jo da cruz e compreender que era obra de salvação? Na peugada de J. Deus concede ao homem o &m de ir ao Seu encontro com uma liberdade renovada pelo Seu perdão. Besançon( po ). Salmo 22) são anúncios antecipados do Cruçificado. 93 iZui II. E o que faz Jesus no caminho de Emaús (Lc 24. ohia to entre a morte ea ressurreição. Foi-se. antes de mais. • Um derradeiro avanço seproduz. lhe descobrir o significado exacto. N. dominante na tradição latina. que os homens. à ressurreição de Cristo. 3 demos distinguir três etapas. • Numprimeiro tempo. mas o resultado das escolhas de Jesus. «Não era pre ciso que o Cristo padecesse e que entrasse na Sua gló ria?» A ressurreição deixa de ser uma coisa oposta (mas) para estar associada (e) à morte de Jesus. Morto pelos nossos pecados Se as primeiras comunidades prestaram atenção. por isso Deus O exaltou» (Fl 2. cruz scânda lo. (3) O autor inspira-se. pouco a pouco.19). Dieu sauve. Basta pensar nas armas nucleares. reedição. é vivida como um fracasso do desígnio de Deus (Lc 24. A expressão «por isso» une num todo o que o «e» da fór mula precedente se contentara com justapor. sublinham. também é verdade que muito cedo começaram a interrogar-se acerca da Sua nçii. de facto. A redenção diz respeito. «Humilhou-se a Si mesmo tornando-Se obediente até à morte de cruz. pois é a morte de um inocente. im pregnou profundamente a nossa cultura religiosa. em J. Vai-se assim criando. para esta passagem. Para. que apanhasse Deus desprevenido. não cessam de pilhar e degradar. Bezançon. entretanto. «Este Homem.27 e 44). a morte é integrada no de sínide Deus. uma fa iiade. pouco a pouco. que os discípulos não compreendem. Deus ressuscitou-O» (Act 2. compreenden do que. Não é. os Profetas (o Servo sofredor) ou os Salmos (o justo perseguido. Face a es ta morte. Este termo. a redenção reencontra o seu destino original .8-9).humanidade (2Cor 5. igualmente. 13. a ressur reição surge como um protesto de Deus contra a injustiça. Paris. cap. 92 . Jesus é. 1987. Desclée de Brouwer. mostrando co mo as grandes figuras da Torah. que vós entregastes e eliminastes.

2. como a morte de um herói: uma morte como outras ou o «fim de um coração generoso». compreendidas como uma única fonte de salvação. as quais. é uma árvore de vida de que o Espfrito brota (Jo 19.Morte e ressurreição. que as sume como Seus os pecados do mundo. a morte de Jesus não voltará a repetir-se: «Morrendo. então. Correríamos. O escândalo da cruz começa a ser vencido a partir do momento em que a morte de Jesus é assim inserida num sistema explicativo. Cerf. tendo em conta a Sua vida. a reflexão sobre a morte de Cristo deve tirar dela o seu sentido universal. E o papel de Deus na história lá se es fumava pura e simplesmente. já que não dava a devida importância às circunstâncias históricas nas quais ela aconteceu. compreendido como o Cordeiro. tal qual aparece enunciada no Credo: «crucificado por nós sob Pôncio Pilatos».10). E assim se compreende que o Novo Testamento veja na cruz a mais sublime expressão da salvação hu mana. iniciando-nos no conhecimento do Pai. Paulo e os outros Evangelistas fazem dela o substituto do Templo.27. insiste menos na acção dos homens do que na acção de Cristo.34-37). para S. o lu gar em que o próprio Deus nos garante a Sua presença. etc. • Uma outra figura da salvação é a de C’risto vítima. na peugada de ) 4 H. mantém os olhos fixos no que foi historicamente a vida e a morte de Jesus. foi o pecado que Ele matou de uma vez por todas» (Rm 6. Turner. Jésus le sauveur. ao passo que o «sob Pôncio Pilatos» chama a atenção para a particularidade desta morte. assim associadas. co mo mestre de sabedoria que é. Insistir exclusivamente na história de Jesus leva a que consideremos a Sua morte. que é convidado a acolher a salvação. 9. Turner. 10.12. Como pode um destino particular dizer respei to a toda a humanidade? Aqui temos nós um dado que desenha os contornos de toda a soteriologia cristã. pura e simplesmente. podem resumir-se a quatro( A primeira é a de Cristo luz: Cristo salva-nos. Esta orienta ção. Na era patrística. Essai sur Ia doctrine patristique de la Ródempdon. sem que esta realidade fosse nomeada. mantendo-se o mais possível perto dos motivos que O levaram à condenação. que é um aconteci mento datado e situado historicamente. Insistir exclusivamente no alcan ce universal da morte de Cristo seria outro exagero: fa 94 ria dessa morte algo de abstracto. destinado a reconduzir a Deus o coração endurecido do homem. mostrando-nos o cami nho. Os primeiros cristãos tinham conse guido conservar este equilíbrio. como dizia Bultmann. formulou-se a salvação alcançada por Cristo em dife rentes proposições teológicas. Inspira-se em noções pedidas de empréstimo sobretudo a domínios como o do culto (sacrifício) e do direito (satisfação). o risco de apresen tar o combate de Cristo-como um gigantesco drama em que lutariam Deus e o pecado. são. no entanto. aqui. o qual. com preendendo aquele «por nós» na sua dimensão univer sal. a par tir de então. muito realçada na teologia latina. A cruz. Só que o seu alcance atinge todos os homens e todas as épocas. (4) H. A morte na cruz aparece aqui co mo o supremo acto de amor. Houve quem vis se nisto uma teologia de inspiração joanina. por outras palavras. 95 . Paris. Esta perspectiva siblinha claramente o papel de Deus na sal vação do homem e o papel do homem. Hb 7.10. Cristo é. 1965. De uma vez por todas A teologia da redenção tenta explicar o carácter sal vífico da morte de Jesus. Enquanto acon tecimento particular. Para evitar estes dois extremos. João.

E. cioso dos Seus direitos. na vitória sobre os demónios. consti tuintes indispensáveis de uma teologia da redenção. por Aquele que Se fez. mas não confere. então. Uma vez que os homens não podiam pagar. em que aparecem. foi para pagar. através desta teologia da redenção. tem o mérito de sublinhar que a salvação é alcançada através de um combate. que assume. o véu do Templo pode rasgar-se de alto a baixo. O sacrifício de Cristo salva-nos. A teologia me dieval. Aquele a quem o sacrifício se destina. Quando Cris to morre. Vulgarizada de forma desajeitada.• Outro tema é este: o Cristo vitorioso sobre os po deres do mal. sentiu grande atracção por esta maneira de encarar o proble ma. adquirido pelo esforço do homem. estabeleceu um rigoroso laço entre a incarnação e a redenção: se o Filho veio para o meio dos homens. próximo do homem. essa comunhão. foi um sa crifício. aliás. ço exorbitante. de facto. Ele «esvaziou-Se» e fez-Se servo. que só pode vir do Outro. Comparado com os temas precedentes. E neste sentido que se deve ler a parábola do bom Samaritano. que pensou a salvação como redenção. este tem a vantagem de orientar o olhar para a perspectiva da sal vação. sem pactuar com quaisquer desvios. o qual retomando a história de toda a humanidade. mérito e satisfação. que reclama que se faça justiça a um pre — — • Sacrifício: O sacrifício. entendido como uma oferenda expiató ria. Toda a vida de Jesus foi uma ofe renda absoluta de Si aô Pai e. 3. em si mesmo. nessa altura. que transfigura o homem pecador com o sopro recriador do Espírito. em todo o Seu ser. sem 97 96 . o serviço do Templo e o serviço da caridade (Lc 10e também Rm 12). que supõe o dom radical por parte de quem o faz. a dívida que eles tinham contraído. por vezes. verter toda a seiva evangélica. Em nosso nome A tradição latina valorizou sobretudo a segunda pers pectiva. Esta figuração. Este. as noções tradicionais da teologia da redenção ficam falseadas: o sacrifício de Cristo é. com o ob jectivode nos tornarmos filhos. com a insistência. exigida. opostos. o mérito ape receria como um direito. a partir daí. o da Sua própria vida. isto é. que é a nos sa poderia resultar numa verdadeira caricatura de Deus. como muito bem viram Santo Agostinho e S. em Seu nome e em Seu lugar. pois faria d’Ele um monarca ciumento. a «re capitula» para a salvar (Santo Ireneu). Ora estes desvios não podem fazer com que esque çamos o essencial. por um Deus irritado. porque o lugar da comunicação entre o céu e a terra passa. o Fi lho ocupou o lugar deles. que põe a tónica nos méritos de Cristo. não reivindicando a Sua igualdade com Deus. To más de Aquino. • Uma última forma de exprimir a salvação é a divi nização. E na sua peugada que nós devemos reexaminar as três noções-chave de sacrifício. e a satisfação não passaria do apaziguamento reclamado pela ira de um Deus vingador. para a libertação da escravidão. pelo pe cado. certo ar mitológico. o dom que Cristo fez aos homens. esta teoria que marcou profundamente a cultura ocidental. Ainda hoje lhe é sensível a teologia da libertação. Esta vida de filhos é uma vida natural com Deus. dizendo um último «sim» a Seu Pai. parti cularmente sob a influência de Santo Anselmo (1033-1109). por exemplo. Grandes teólogos sou beram. neste sentido. a saber. é sempre orientado para o ou tro. porque a Sua exis tência abre na história dos homens um espaço em que Deus é reconhecido como Deus de maneira absoluta.

Para uma primeira documentação. Libérations humaines et salut en Jésus-Crist.°’ 7 e 8. já denunciado por Lutero. n. Tentemos. A noção do mérito é de muito difícil utilização em teologia. Deus Lhe fez. Desclée. em Théologies chré tiennes des tiers mondes. La ti chrétienne en con fronlation avec Nietzsche. que significa resgate. Traduz as palavras bíblicas de raiz he braica g’l e pdh. já que é uma ameaça que pode atingir a gratuitidade divina. E neste caminho que Cristo compromete os Seus discípulos: onde quer que o homem dê lugar ao outro. 1987. é ‘ resposta ao dom que.a menor recusa. Lembremo-nos do velho cântico «Só tenho uma alma. Recorrendo a esta noção de mérito para falar de salvação.. 101. suspeita. Centurion. à declaração que o fiel faz de ir por ele a Deus e de que. já que traz consigo conotações políticas. entre um acto determina do e um fim conseguido. tudo repousa sobre a gratuitidade soberana de ). e levar os fiéis a acumular méritos ou a fazer colheitas nos mé ritos dos Santos. que querem dizer tirar da servidão.3 1-46). abre um espaço para o Ou tro que é Deus (Mt 25. daríamos a entender que a salvação não passa de uma coisa pessoal e reduzir-se-ia a sal vação de Deus à salvação do indivíduo. por vezes. Hoje. à humanidade e à criação. Cf. com preendê-la de uma maneira correcta. Em 1974. Quando falamos de mérito. E neste sentido que lemos o «por isso» (FI 2.. que tam bém faz parte da constelação de uma teologia da reden ção. Redenção e Libertação Tem pouco sentido opor entre si as noções de re denção e libertação. ver: Le onardo e Clódovis Boff em Que é a Teologia da Li bertação? Para uma visão mais ampla de todos os continentes. que reo (5) P. p. sem o menor pecado. o sacrifício. «Desta maneira. sem cair na perspectiva mercantilista? Com este conceito corremos o risco de desenvolver um cristianis mo comercializado. prometida às multidões. mesmo sem o dizer. o sacrifício está ligado à confissão da alteridade divina. ver Bruno Chenu. Centurion. Jósus-chris ou Dionysos. Mas nem por isso podemos recusar o vocabu lário social e político. Preferir palavras aparentemente mais «neutras» não é menos «perigoso»: nessa altura.9). Que há de espantoso que as noções que exprimem tudo isto tenham sido tiradas do vocabulário social e político? Claro que a salvação cristã tem um âmbito mais vasto e é de uma natureza diferente da das libertações hu manas. 1979. Paris. 5 Deus( Do lado do discípulo. em Seu Filho. que é preciso salvar». Sig nifica muito simplesmente que a salvação tem uma dimensão colectiva: trata-se da salvação do povo eleito. E é tudo o que sabemos! Que uma noção de salvação traga consigo cono tações políticas é mais um sinal de boa saúde cristã. • Mérito: como entender a noção de mérito. Valadier. entendido no sentido de dom radical de si mesmo ao outro. a teologia da redenção sublinha que a salvação é fruto de uma ac tividade e de um combate humano travado por Jesus. Li bertação é. tan to a Ele como a todo o homem. 98 99 . os Bispos franceses propuseram esta as sunto à reflexão dos cristãos. estabelecemos um laço sobre a base de um contrato. O trabalhador merece o seu salário por causa do contrato entre ele e o empregador este contrato estabeleceu uma relação entre o valor do trabalho prestado e a remuneração devida. Paris. Paris. e os es tudos bíblicos aparecidos nos Cadernos «Evangile». Mas também está presente na re denção e nos seus antecedentes hebraicos. 1975. por isso. todavia. Redenção é um termo medieval. são os cristãos de outros continentes que dizem aos cristãos dos países ricos que descobriram o Deus salvador através da sua própria luta contra a injustiça.

•‘bérn ela. por si mesma. Dizer que Cristo deu a Sua vida em «res gate» quer dizer que Ele Se entregou livremente para nos salvar. pode particjpa construção do nosso ser . é. mas por arnor( ) 6 Dizendo que os cristãos devem «satisfazer» pela sua salvação. Deus estabelece um laço entre a nossa forma de viver hoje e a vida que Ele nos oferece em Cristo para sempre. Na existência cristã. compreendida como uma compensação que Deus exigi ria como contrapartida da salvação que nos oferece e que o Filho. • Satisfação: Esta terceira noção é. se cons 1 ui sem eus.45). Paris. na obra da salvação. concede-lhe o dom de inverter. E ainda: C’hemins bibliques dela non -violence. o facto de se de votar ao serviço dos outros não dá qualquer direito. Du quoc). Se teria oferecido em nosso lugar. em La Pâque du christ mystêre du Sa lur.nenhurnaten ratuitidade 7 taiti da salvação. radicalmente (sacrifíciol concede-lhe o dom de tomar parte no seu destino eterno a partir des mundo (mérfto). a grande quantia de dinheiro que era preciso pagar para que fosse poupada a vida a um condenado. E isto porquê? Por que Deus respeita o hrnm. substituição. Schenker «Substitulion du châtiment prix de la paix? Le don de la vie du Fils de I’homme en Mc 10. resgate e outras. 100 101 . Nãose co nete por isso. simplesmente. E sobre a base da solidariedade de Cristo connosco que nós cremos que a i5 liberda di.T. Pela satisfação. * * * Sacrifício. Cerf. Mas idoutrina católica fãIëfa iiFueus dá aos homens a possibilidade de ticipar na sua salvação. A satisfação. Chambray-Ies-Tours. mas do dom livremente consentido para que o outro viva. Uma tal interpretação precisa de ser rectificada. A sa tisfação sublinha o facto de que a salvação é onerosa e que é preciso «pôr-lhe um preço». des te modo. um fruto da graça e uma expressão do amor de Deus.». evoca. muitas vezes. Jesus faz iiexista um eS aço para Deus nesta nossa histó ria. não se sugere de forma nenhuma que Deus é Alguém que exige que Lhe paguemos as dívidas. satisfação. tomando parte na libertação alcançada por Cris to na cruz. portanto. não para aplacar a justiça vingadoura de Deus.O Deus da Aliança concede ao homem o dom de se voltar converter a Ele. Deus dá ao homem o poder de «inverter a história que Ele próprio criou» (Ch. E. por isso. Vê-se isso muito bem na Parábola do Juízo Final (Mt 25). Mas. no entanto. não da exigência de um juiz. O destino de finitivo de cada um está ligado à sua maneira de viver e de se dar aos outros. mas dá-lhe o poder de reconstruir oqe destruiu através da sua recusa. não é uma compra nem uma pa ga. ver A. por causa de Cristo. Se há uma relação entre as ac ções humanas e a recomp&i esta relação é estabelecida - mente por Deus. Trata-se. Deus respeita suficien temente o homem para o tratar como um ser respon vel. também ela um dom de Deus. satisfação três noções ititerli gadas no processo da redenção alcançada por Cristo.45 OU et par. Claro que nenhum homem tem direito à salvação. a noção de mérito não deve ser desjua1ificada apriori.nhece um laço semelhante entre a vitória da ressurrei ção e o preço pago para a conseguir. o «resgate» não designa o preço a pagar pela remissão dos pecados. CId. 75-90. mérito. à Ia Iumière de I’A. Ele não exige do ecador que adquira a sua salvação e o re o ço so re. No Antigo Tes tamento. quan o (6) Sobre este ponto.umano. 1987.e filhos de Deus. «oferecendo-Se em resgate pela multidão» (Mc 10. que. a histórdoeu pecado (satisfação). pp. Uma busca rigorosa sobre as noções de expiação. 1982.

que Se humilha até ao lugar onde Ele não habita. Pelo perdão e misericórdia. seu criador. na peugada de Lutero. vê o Pai» (Jo 14. os internos. ps Ju deus tragados pelos campos nazis (ou a choá) fazem com que o vejamos em toda a sua crueza. E é por isso que é uma prova para os que crêem emEus (lCor 1. i: atingido pelo mal. cego ou cruel. o Seu abandono. no trá 103 102 . a Sua oração confiante (Lc 23. E cá teríamos nós a expressão extrema do amor de Deus. É o dom de Deus feito ao homem em Jesus Cristo. que surge. Será este porventura o Deus anunciado por Jesus? A vida de Jesus revela um rosto de Deus bastante diferente. que torna possível o dom do homem a Deus. Jesus revela um Deus de uma extrema ternura. sendo sempre o inocente tortura do. Jesus retoma a prece de um justo perseguido.não contra Ele. a cruz não é so a «lingua em da salva ão dos homens». Seu Filho. Poderá Q Deus de Jesus. Os gestos e i vida Je Jesus fazem vislumbrar um Deus totalmente incapaz le abandonar o Seu Filho no exacto momento da Sua maior angústia. à citação de um salmo. o silêncio de Deus.46). Depois. E o eixo a partir do qual a história da huma nidade pode voltar para Deus.9). que sempre pra ticou. rejeitar o Seu Filho. «Quem Me vê. Mas será digno de fé o Deus que Se revela na cruz? Seja corno for. E há outras razões mais teológiças pinda. que Se põe à procura de quem se perdeu. E são de agora como de todos os tempos. tam ém reve a eus. abandonado por Deus. porque dá importância de nasiada. o Deus de Jesus Cristo. O Filho abandonado Tanto Mateus como Marcos sublinharam o facto de Jesus ter gritado. r Não achamos aceitável esta maneira de dramatizar. identificado com os pecadores. Mas porque é também a expressão por excelência do dom de Deus aos homens e o objectivo da incarnação. III. Revelação A cruz resulta do cruzamento de dois caminhos: o caminho de Deus para ÕTiomem e o caminho do hom para Deus. A mensagi da cruz não consiste apenas numa pa1vra sobre al ro do homem. que vem corrigir todas as palavras que os homens religiosos podem dizer acerca de Deus. deve ser entendida como uma pala viacerca de Deus. habitados pelos pecadores e os d perados.18-25). é um Deus embaraçoso. Vamos dividir a nossa tentativa em três questões diferentes: como é pos ísj que Deus tenha deixado morrer o Seu Filho? Por i frtjw’ que é que. Primeiro. nu e cru. em parte alguma Se iden tifica com o pecador. pelo caminho que Jesus abriu. sem razão aparente parajsso. Vários teólogos do nosso tempo. Se isso aconte cesse por Jesus ter assumido os pecados do mundo.$e calou no alto do Gólgota? Será que a cruz dá um sentido ao Seu sofrimento? Estas questões são me (Ivitáveis. exclusiva mesmo. porque o salmo em si não quer dizer isso. 1. que nos impedem de concluir gueJe qide facto. Deus não tem mais resposta que o silêncio? E o rnisté rio do sofriiiento. usando para isso as palavras do Salmo 22: lamentação do justo per seguido. es 4uecendo as outras palavras do Crucificado. Face a tanto sofri mento e a este mal. por exemplo. como. ante o mistério de Deus. era porque Deus continuava a ser o Deus do castigo. interpretam este grito no sentido literal: Je sus. na cruz. abandonado por todos. aceita o castigo que Deus lhes destinou e assume o silêncio dos condenados.ito é.

cap. 3. Paris. «Perante Deus e com Deus vivemos sem Deus. emJésus et Ia libération en Arnérique latine. A ciii e esus e.La mort de Jésus eL la libération de l’histoire»’. 275. Cerf. v. (8) Estar diante de Deus e com Deus e viver sem Deus sig nifica aceitar a nossa condição humana e não esperar que Deus ocupe o nosso lugar. ao silên cio de Deus no Monte Calvário. «O Deus que está connosco nos abandoni». fê-lo para não contradizer o testemunho de Seu Filho. Já em Belém Se mani festou num Menino pobre e recusado (Lc 2. Paris. executado pelos nazis em 1945. Então porque Se fecha num defensivo silêncio? Atingimos ás fronteiras do mistério. J. 162. Não o faz para que a Sua justiça ou a Sua honra seja salvaguardada. Desclée. reve lava um Deus que Se oferêce e entrega. Nada há mais desarmado que o amor. Cristo não nos ajuda pela Sua omnjp2ncii. Um Deus que interrompesse o silêncio do Calvá. Um teólogo protes (7) tante. escreve ainda Bonhoef fer. Se Deus guardou si lêncio no Calvário. o qual. porque o amor não po de deixar de se expor à liberdade daquele que se ama. 1963. 1976. Ao dizer isto. sem condições e sem nada exigir em troca. o seu me é amor. Leures de prison. por isso mesmo. face aos pecadores que condenaram o seu Filho. E que Deus manifesta-Se gratuitamente. Esta aparente fraqueza de Deus remete para a liber dade e responsabilidade do homem. Penser après Auschwitz. Para o Ju deu que viveu a experiência de Auschwitz( o Deus ). Bonhoeffer está a assumir a posição teológica de Lutero: a fraqueza do Crucificado é a con dição da Sua revelação. colect. .Ç.12).s 2. faih-nos omni tentWëinflexíveis. Deus habita o sofrimento O sofrimento é chocante e desde o princípio que os cristãos têm tentado dissipar-lhe a sombra. p. Um Deus fraco não corre o ris co de ser confundido com um Deus fabricado pela mão do homem. mas pe1iífiiqueza e pelos Seus sofrimentos». D. que em nac1se contunde com outrosdeuses. dá a dimensão exacta desta fraqueza. na cruz.rio deixaria de ser o Deus que Cristo manifestou. até no abandmais absoluto. os próprios discípu los se admiram com esta discrição. E nem após a ressurreição o Filho ensina aos Seus inimigos o que devem fazer. desta maneira. Ainda que isso lhe custe. amor que se faz próximo. Labor et Fides.gico momento em que Este não passa de um agonizante mergulhado em trevas? E uma perspectiva que se não pode aceitar. Bonhoeffer. Genebra. 7 de Jesus Cristo aparece. como um Deus silencioso. «deixa-nos viver no mundo sem termos a hipótese de Oencontrar». neste capítulo. dá testemunho da gratuitidade de Deus. cruz e o ugar em que Deus diz o Seu verdadeiro no me. bem revel4pçlopçhomens que que m chgáiwveus segumdo sem re as suas rs tivas.:. Quando os homens inventam deuses para si mesmos. (9) 3. O silêncio de Deus Partamos do princípio que Deus não podia abando nar o Seu Filho. E por isso mesmo o Pai não intervém.. Limitar-nos-emos. Sobriflo. (9) Cf. a Sua «temível força»? Deus não costuma proceder desta maneira. Deus-connosco. Ver E Fackenheim. 104 105 . E têm gasto (8) Résistance er soumission. Será que Deus podia desfazer esse silêncio e mostrar. Deus deixa que O epul sem do mundo e que O cravem numa cruz. 1986. Jesus. p. Deus éim potente e fraco no mundo e só assim está connosco e fiãs_ajuda. como nunca.

mas tenha a vida eterna» (Jo 3. justiceiro). como se Deus exigisse so frimento e morte para fazer deles brotar a vida. Uma perspectiva destas levará. pois o Seu no me é amor.16). Tem uma atitude prática e sente pressa de aliviar os que sofrem. Lc 13. pp. já que o Seu Pai é o Deus da vida. é inocente. que viam no castigo uma vingança de Deus. é uma mensagem de amor. às velhas explicações.1-4): pretende-se ex 0 plicar o sofrimento como castigo dos nossos pecados. Os que sustentam estas ideias e se exprimem nesta linguagem são precisamente os ini migos de Cristo. ficamos a saber que não há miséria humana que Deus não possa visitar e partilhar.2-6). Estas poucas linhas resumem toda a mensagem da Páscoa. O Filho. Conhecemos os discursos dos amigos de Job. Delumeau. Criando a hu manidade. Le péché et Ia peur. que morre na cruz. não é castigado por ser culpado de culpas pró prias ou das nossas culpas. A ressurreição não vem dar solução aos dramas que afligem a condição humana.somas enorme de sabedoria humana para o conseguir. para quem o homem está bem cotado. 331-338. Jesus. pela Sua graça. Se é esmagado. na cruz. pesa a cólera de Deus. 106 107 . mas exprime a recusa de participar no círculo infernal violência-repressão (violência do culpado-repressão do (lO) Ver J. deste modo. fez tu do o que pôde para o minorar. Tornando-Se homem. mais do que men sagem trágica. Assim se vê como é preciso afas tar a ideia de que sobre Ele. em vez de justificar o sofrimento. E. até à morte. O silên cio de Deus não é cumplicidade com a violência. que é a sua vida divina posta à dispo sição dos homens (ver Anexo IV. Deus fez-Se solidário com aquilo que estava perdido. Ela ma nifesta. Se sofre e morre. que ten tam justificar o sofrimento humano. descobre e denuncia uma asso ciação que se apossara da consciência humana: o sofri mento era o preço a pagar pela falta cometida. rasga para a humanidade um caminho de vida. Foi o que fez na Páscoa. Fayard. desesperado. Só o perdão de Jesus quebra o silêncio de Deus. (10) Ora Jesus. sim. não é certamente por cau sa dos Seus pecados. assume este risco. fatalmente. Pelo que a cruz. Enquanto ou tros procuram o culpado. o Crucificado. nota-se a mesma atitude (cf. Cristo não po dia consentir que o homem fosse desfigurado. que se tornaram um lugar-comum. Deus pode fazer com que nasça a vida e nasça com abundância. sempre se retomaram as mes mas explicações. A cruz rompe o cer co. sem con dições prévias nem outra qualquer razão. a partir de então. Paris. E. Cristo morto na cruz não sofre de facto a cólera de Deus. o «Deus connosco»: Deus que Se entrega aos homens. E. mas mostra um Deus que aceita sujeitar-Se ao sofrimento. La culpabilitó en Occi dent (séculos XIII-XVIII). é o homem sem pecado. é como vftima de uma violência que procede dos homens e não de Deus. este Deus. A cruz de Jesus bem como o perdão que Ele concede ao morrer são a clara denúncia desta violência. é o criador. Ele cura o doente (lo 9. J 9. 1983. o Deus de aliança correu o risco de apostar na liberdade humana: o risco da recusa. E. Solidário com todos. ao longo da história. A morte de Jesus naquele extremo despojamento não explica o mal nem o sofrimento. uma espécie de salário da culpabilidade. *** «Deus amou de tal maneira o mundo que lhe entre gou o Seu Filho único para que todo aquele que acredi ta n’Ele não mais pereça. E assim Jesus continua a ser. no evangelho. que onde houver sofrimento.

Conclusão CRISTO ESTÁ VIVO Como redescobri-1’O? .

como a vida. Uma vez que na tradição bíblica o número sete é o número per feito. «Jesus em pessoa aproximou-Se e seguiu com eles. afastando-Se dos nossos olhos carnais. que iam de longada até Emaús. a morte. ocupa e ocupará sempre um lugar central. Deus está ausente. que lhes dinamiza a vida. ainda é junto de Cristo que os cristãos procuram. vamos marcar as sete maneiras pelas quais Jesus Cristo.No termo deste percurso através de todas as épocas da história. E levanta se. a salvação. nós que não vimos nem ouvimos Jesus Cristo. como sempre procuraram e en contram a indispensável luz. Atentos à tradição. então. falavam um com o outro sobre os factos suce didos. um proble ma inevitável: como poderemos. Tem como base o testemu nho dos Apóstolos. só que ele não tem os olhos suficientemente abertos nem tem uma fé sufi cientemente forte para O reconhecer ao longo do cami nho. E esta a situação do crente. mas não está longe. A pre sença de Jesus Cristo não lhe falta. só que os olhos deles estavam impedidos de O reconhe cer» (Lc 24. dois discípulos. Quando se trata de esclarecer problemas essen ciais da condição humana. encontrarmo-nos com Ele? Certo dia. o sofrimento. para nos — — 111 . apren demos que a fé em Cristo. não é coisa que se invente. o amor. ficou bem claro que Jesus Cristo ocupou. na vida dos homens. 15-16). e cada geração a recebe da geração imediatamente anterior.

16).30-3 1). assumindo também a condição humana. não como espectador. levava consigo a Escri tura.22). pouco a pouco. No caminho de Damas co. S.18).. Paulo desenvolveu toda uma teol6gia da Igreja como «Corpo de Cristo»: Deus «constituiu-O acima de tudo como Cabeça de toda a Igreja. A acção de Deus no mundo ultrapassa os limites das folhas de um livro. Nela se conserva a memória das passa gens de Deus na história dos homens. estarei COflVOSCO todos 113 ‘1 112 . por meu lado.16). conforme sublinhámos em várias ocasiões. Esse foi que O revelou» (Jo 1. 4. o Filho único. 1. são um acto de «memória». O termo — «pregação». mas lia e não entendia. A pregação é algo de urgente: <(Ai de mim se não pregar o Evangelho!» (iCor 9. (<penso que o mun do não bastaria para conter os livros que se escreveriam» (Jo 21. «Saulo. englo ba. Não basta ter uma Bíbliá para descobrir a Cristo. «Fazei isto em memória de Mim» (Lc 22. Trata-se de uma última etapa do nosso percurso. e também os outros Sacramentos. há unia rea lidade sagrada. Aquele em que Deus assumiu rosto e pelo qual Se tornou visível. Jesus Cristo é o Sacramento fundamental. davam testemunho dessa mesma fé. 2. Logo a seguir a es ta experiência. Um corpo que tem a garantia da presen ça de Cristo: «Eu. Para bem compreender a Escritu ra.» (Rm 10. mas como actor. muito valorizado pelos Protestantes.25). Houve um tempo em que os cristãos liam pouco a Escritura. que não deve entender-se como sim ples recordação de uma lembrança conservada nos ar quivos de uma biblioteca. OS SACRAMENTOS. A PREGAÇÃO. Foi o diácono Filipe que o instruiu. ((Porventura compreendes de verdade o que lês? E como poderei compreender. na transmissão. continua a existir sob a forma de Sacramen to. mas como a re-actualização de uma presença viva. e o instrumento da pregação é a Palavra de Cris to.19).deixar entregues à nossa própria responsabilidade. é necessária a pregação da Igreja. que é o Seu Cor po» (Ef 1. e os Sacramentos que nós celebramos são outros tantos sinais que remetem para o Seu corpo de crucificado/res suscitado. já que ((nun ca ninguém viu a Deus. ga rante a Sua presença na vida do crente. Mas o livro que nós te mos diz-nos o essencial: a saber. E meditando na Escritura. por que Me persegues?» (Act 9. Ora a Escritura é a Pa lavra de Deus. O eunuco da rainha da Etiópia deixava Jerusalém e seguia para Gaza. Paulo compreendeu que Cristo constituía um só «corpo» com a comunidade daqueles que. aqui e ago ra. A Eucaristia. se ninguém no explica?» (Act 8. muito embora nem tudo ali venha relatado. da fé recebida dos Apóstolos: «Eu vos transmiti o que eu mesmo recebi» (iCor 15. A ESCRITURA. o anúncio de Cristo (Kerigma) e o en sino da doutrina (Didaké). subtraído ao nosso olhar após a Ascensão. que o nosso olhar se pode abrir. já que é a Igreja que faz nascer da letra o espírito e a verdade. 3. que é o corpo de Cristo. mis turado com ele na mesma história.. essencialmente. a um tempo. Consiste. crendo n’Ele. ao verdadeiro rosto de Deus. para nós essencial. que Deus está «com o homem». indivi dualmente ou em grupo. A iGREJA CORPO DE CRISTO.3). que está no seio do Pai. Ela conserva os vestígios dos feitos e gestas de Deus em favor da Sua criação. Paulo escreve: «A fé nasce da pre gação. se é que o Nome de Jesus continua a ser hoje a razão da nossa vida.4). Para o cristão. E um verdadeiro encontro com Cristo: «Quem vos escuta escuta-Me a Mim» (Lc 10. Mas esta rea lidade do Seu corpo. Pa ra tudo contar em miúdo pormenor.17). novo Templo.

Foi na oração que Jesus viveu mais intensamente a Sua relação com o Pai e era na oração que se podia ver no Seu rosto o resplendor da glória: «enquanto orava. Gosta de Se dar a conhe (Escritura e cer. vo-la «Se Me pedirdes alguma coisa em Meu nome. Paris. dá-o «em nome de Cristo». A ORAÇÃO.29-37. depois. (4) 6. A oração. OS MINISTÉRIOS. vimos alguém a sar demónios em Teu nome e quisemos impedir-lho. Eu te ordeno.34).5). Nem sequer na Igreja.30). Concilio Vaticano II. ora em segredo (Mt 5. mas para aqueles a quem servi mos a palavra e o sacramento do Senhor».24).1-17). apresentar horizon O eixo vertical da oração cruza-se com o eixo nunca está tal da relação sincera com os homens. «Bispos. o Concílio Va ticano II irá dizer: «Comunicando o Seu Espírito aos Seus irmãos. condição se fosse dissociada da vida. Está também pre no sente da mesma maneira junto daquele que. 562 e ss. TODO E QUALQUER ROSTO HUMANO. de porta fechada. Je sus Cristo vai curar-te!» (Act 9. o aspecto do Seu rosto mudou» (Lc Santo Agostinho. que prometeu: reunidos em Meu nome. mis ticamente.os dias até ao fim do mundo» (Mt 28. (2) De onde se conclui que o ministro nada tem a dar que seja próprio. A Ninguém se deixa encerrar em fronteiras muito estreitas. Ele. que reunira de todas as nações. Centurion. diz Santo Agostinho. Desenvolve-se no seio dela como um seviço.7. Cristo torna-Se visível não somente através de sinais. que não é conclusão. (3) De sacra liturgica n. presença de Cristo não preciso alargar os horizontes. do. Quandõ o ministro perdoa. vem. concederei» (Jo 14. fez deles.31-46). onde jazem todos os vir um da vida (Lc 10. «Vai. retirado seu quarto.54). não somos Bispos para nós próprios.29). 1984. (2) 5. Pedro diz: «Eneias. é Cristo que baptiza». mão. res O pode monopolizar. levanta-te! (Lc 8. Nem tringir a Sua acção a um espaço previameflte delimita discípulos. no caminho que fracção do pão). cit. «Se alguém (5) De sacra liturgica n.49). Contra Cresconium X. 114 115 .20)(). que é um serviço (Jo 13. tudo o que dá. Cristo veio exclui seja quem for. não é para colocar ao lado de Cris to. Ver ainda La foi des catholiques. «Mestre. mas. op.. Cristo põe uma que para que seja autêntica qualquer oração: o perdão ir se concede.° 7.9. (1) (2) a 9. reconciliar-te com o teu a tua oferenda» (Mt 5.° 7. É . Eu porém. entre o grupo dos espaço da Sua pre existiu tal tentação: querer delimitar o expul sença e da Sua acção. pois Cristo quis dar-Se-nos e estar connosco todo inteiro».13). O ministério eclesial. como também por meio de homens escolhidos para serem os ministros da Sua pre sença e a garantirem. todos os recusados. para porque não anda connosco» (Lc 9. primeiro. Sermão 341. Santo Agosti nho vai tirar daqui as suas conclusões: «A cabeça e o corpo constituem um só Cristo. (1) Explicitando esta identificação. Já noutros tempos. Cristo apenas num destes eixos. que foi crucificado fora dos muros da todos os ex santa. Eu do dois ou três estiverem estarei no meio deles» (Mt 18. O ministério ecle sial não mais pode ser colocado ao lado ou acima da comunidade eclesial. identifica-se de modo particular com cluídos. ibidem: é uma passagem que evoca várias presenças de Cristo das que a nossa conclusão indica. Lumen Gentium 7. antes feridos vai de Jerusalém a Jericó. (4) Santo Agostinho. o todo o ser humano e não cidade excluído. Cristo ressuscitado «está presente sempre que «quari Igreja ora e canta os Salmos». Enquanto Jesus age em Seu próprio nome («Jovem. não somente no caminho de Emaús de tudo. como que o Seu Corpo». seria falsa. 13. Mt 25. pp.. Ele.

17). Para sermos exaustivos. morto e ressuscitado. Quer o homem o saiba. Mas todas estas coisas só têm sentido a partir do centro. uma vez que o próprio Deus respeita esta li berdade mesmo naqueles que se fecham na recusa. Aí está o núcleo «indivisí vel». e devem. remeter para Ele. mas uma fidelidade que requer uma intensa atenção aos nossos contemporâneos. que é Jesus Cristo.às suas buscas de sentido e salvação. que são importan tes. «não há debaixo do céu outro nome dado aos homens pelo qual possamos ser salvos» (Act 4. pois Jesus Cristo continua a caminhar entre eles. como estará com ele o amor de Deus?» (iJo 3. A Sua Palavra é uma Palavra para todas as nações. Esta Palavra deve ser proclamada e já o é agora na cultura dos homens do nosso tempo. Os dados bibliográficos e outras pis tas de trabalho permitirão a cada um prosseguir o labor e progredir na compreensão da sua fé em Jesus Cristo.12). muitas mais páginas tería mos de escrever. uma Pala vra que questiona todo e qualquer homem. E esta a responsabilidade da Igreja e de todo o cristão. como os Sacramentos. Este último aspecto leva-nos ao que foi a nossa preo cupação constante ao longo deste percurso: uma fideli dade plena à Palavra de Deus. ANEXOS 116 . quer não. salvação oferecida a todo o homem. Jesus de Nazaré. de um modo ou de outro. O essencial daquilo que nos propusemos terá sido con duzir a fé cristã ao seu centro de gravidade. a Igreja ou o compromisso dos cristãos nas lides do mundo. Claro que há outros aspectos no cristianismo. Filho de Deus.irmão em necessidade e lhe fechar o seu coração. Mas esta responsabilidade deve ser acompanhada de um enorme respeito pela liberdade de cada ser. a chave da abóbada de todo o edifício. para que cada um possa desco brir nela a resposta mais ajustada .

primeiro.. Ele é o Seu Filho ánico. E. Jesus aparece-me como um homem que se alegra com este aconteci mento de fé e que o oferece a Deus. QUEM É JESUS CRISTO? Muitas confissões de fé redigiram e publicaram. esse Jesus que me taz viver. Procurar. é. Dizer a própria fé não é coisa fácil. Ele «morreu pelos nossos pecados». em que cren tes e não-crentes assumem o risco de dizer o que era para eles esse homem que os cristãos reconhecem como Filho de Deus. sobre quem é Jesus. e por aí adiante.» 119 . Exemplo: perante o centurião.. 3. por tanto. em relação a nós. a partir e com base em cada um desses episódios. decidirmos então: «para mim. Tentar.1 E PARA MIM. Acrescentar este termo. Talvez ajude o método progressivo a seguir enunciado: 1. razão da nossa esperança. Recordar as grandes afirmações do Credo referentes ao mistério de Cristo: em relação a Deus. etc. qualificar Jesus. Jesus. 2. depois de termos examinado e ruminado bem as propostas de trabalho sobre cada um dos três pontos supra. depois. Seu Pai. corrigir aqueloutro. mas escrevê-la é bem mais difícil. salvador. finalmente. os episódios evangélicos que consi deramos os mais significativos.

os teólogos aprofundaram de diferentes maneiras. Ireneu argumenta assim a favor da verdadeira incarna ção: se Cristo não incarnou realmente. du Cerf. «muitos se tornaram pecadores». isto é. que foi o primeiro. que explicita de modo perfeito o seu pensamento: «Era necessário que Aquele que devia matar o pecado e res gatar o homem. escrito contra os gnósticos.2 A HUMANIDADE DE CRISTO E A SALVAÇÃO Conforme sublinhámos na segunda parte deste nosso livro. ao longo da história. um de Ireneu e o outro de um teólogo contemporâneo. homem sujeito à escravidão do peca do e escravizado ao poder da morte. tiveram de insistir so bre a verdadeira humanidade de Cristo. da mesma maneira que. 1984). Da mos a seguir um trecho. o seu entendimento de Jesus Cristo. e 121 . Seleccionámos dois textos. ed. tanto um como o outro põem a tónica na natureza humana de Cristo. que merecia a morte. que negavam a real incarnação de Cristo.5). como no tempo da Reforma protestante. condição por excelên cia da salvação. Ireneu: Homem para nossa salvação No seu tratado Contra as heresias (cf. E o que se chama o argumento da salvação. o homem se libertasse da morte. desta maneira. intérprete de Lutero. «pela desobediência de um só Homem». E que. Marc Lienhard. para que o pecado fosse morto por um homem e. Se fizesse aquilo que o próprio homem era. então o homem não está salvo de facto. Já na antiguidade. modelado a partir de uma terra virgem (Gn 2.

que é o homem. instrumento da divindade. «Quem Me viu. E uma primeira perspectiva de Lutero. que recapitulava em Si mesmo esta antiga obra re modelada. deste modo. revela. Resumindo o pensamento de Lutero. Luther. a fim de revelar. Deus é perfeitamente livre e poderia. Fala também.9). o pecado. «muitos fossem justificados e recebessem a salvação». foi porque quis participar plenamente da his tória dos homens e permitir-lhes. ter salvo os homens de uma outra maneira que não a Incarna ção. já que resolveu fazer apelo à fé dos homens». o ser profundo de Deus. por isso. confrontado com a cólera do Pai. como os filósofos O tinham imaginado. nas 122 123 . ou seja.4). «Mas. deste modo. 387-388): «O Filho incarna para revelar o amor do Pai aos homens su jeitos à cólera de Deus.18. numa outra perspectiva.20. numa linguagem humana. «A glória de Deus é que o homem viva e a vida do homem é a visão de Deus. através de gestos e actos humanos. como poderia Ele triunfar da lei da morte. mas de um Deus que revela. ter sal vo os homens como os criou.perderam a vida. mas não foi esse o caminho que Deus quis seguir. viu o Pai» (Jn 14. que é também o Filho eterno tornado carne. Se incarnou. quanto mais a manifestação do Pai pelo Verbo não há-de conceder a vida àqueles que contemplam a Deus» (IV. apreender o verdadeiro rosto de Deus. a suportar o castigo merecido pela humanidade pecadora e reconciliando Deus com os homens. Cerf. Deus. 1973. Aqui. o amor eterno do Pai. sem dúvida. a Sua obra não teria si do perfeita. que subsiste mes mo quando a cólera de Deus submerge o Filho. o Seu ser eterno. que é o amor. ou seja. Mas Ele era realmente aquilo que parecia ser. numa outra perspectiva. témoin de Jésus-Christ. nascido da Vir gem. não de um Deus impassí vel.7). o que se encara é nem mais nem menos que o drama da salvação levado a cabo por Jesus. que é o primeiro. a que se poderia chamar joanina. sem participar da Sua con dição humana. se não Se tivesse tornado homem? Poderia. Lutero descreve Cristo. do combate glorioso travado por Cristo contra a lei. Lutero: Solidário com os homens para revelar o amor do Pai e reconciliar o homem com Ele Para Lutero. A humanidade é. Por isso o Verbo de Deus Se tornou homem desta maneira de acor do com aquilo que diz também Moisés: «A obra de Deus é per feita» (Dt 32. Se não se tivesse feito homem e apenas tivesse assumido a aparência da carne humana. através da história de Jesus.7). por isso mesmo é que as Suas obras eram ver dadeiras» (111. pp. condições de historicidade acima indicadas. sejá a revelação de Deus pela criação conce de a vida a todos os seres que vivem na terra. esses poderes que su jeitavam os homens por causa da cólera de Deus. Ora como po deria o Filho assumir de verdade o pecado dos homens e suportar assim a cólera de Deus. Marc Lienhard es creve (cf. «pela obe diência de um só homem». o diabo e a morte. assim também era conveniente que. O homem-Jesus. para matar e destruir a morte e dar vida ao homem. desta maneira. Filho de Deus. trinitário.

por imperfeito. de quê. Esta etapa. o te ma da salvação: Quais são essas palavras? Provocam ou não a vossa rejeição? Por que razões? Deixam-vos indiferentes? Porquê? Interpelam-vos ou entram em ressonância com a vossa expe riência? Em quê? 2.3 «DIZER» A SALVAÇÃO COM AS NOSSAS PALAVRAS Este exercício é mais para grupos. 1. Trata-se. para quê fostes vós (já) salvos ou desejais sê-lo? Trata-se. Através das experiências humanas fundamentais. a) que cada um escreva as coisas essenciais que quer dizer acerca das coisas da salvação e tendo em conta a sua experiência. que mar caram a vossa vida. agora e mais uma vez. agora. na verdade. passagem obrigatória. 125 . podereis dizer: • em que é que estas experiências vos ajudaram a ver mais claro o tema da salvação? • em que é que o tema da salvação tornou mais claras estas experiências? 3. de propor um caminho. que exprimam. E que este texto é o vosso compromisso numa obra comum. de quem. cujo ponto de chegada é exacta mente a elaboração de um texto. em que se trabalha sobre as palavras. é. por quê e por quem. Finalmente. Fazer um breve inventário de todas as palavras do campo vocabular da fé. incompleto e mal redigido que seja. directa ou indirectamente. de assumir o risco de produzir um texto.

Escreve Teilhard: «Se a análise precedente é exacta. redigir. mas que alcançaram o consenso do grupo. os elementos particulares deste ou da quele. 4 JESUS CRISTO UM SENTIDO PARA A NOSSA CAMINHADA — Em todas as épocas. as posições opostas ou as formulações diferntes de elementos que não estão em contradição. se a descrença mo derna é devida. através das quais a Igre ja exprimiu esta salvação e procurou torná-la crível. bem como os pontos de divergência. sobretudo. mesmo tendo em conta o facto de o seu «poder natural de adoração’> se ter desviado. A terceira Parte tentou pesquisar as diferentes linguagens. aos problemas existen ciais. Tei lhard descobriu a causa principal da descrença no divórcio exis tente entre «crer em Deus» e «crer no mundo». Teilhard de Chardin: Só Cristo pode marcar o ritmo da nossa caminhada Ao interrogar-se sobre a Incredulidade moderna (1933). tiveram os teólogos de exprimir a sal vação concedida ao homem em Jesus Cristo. isto é. acrescentando o tes temunho de um teólogo da teologia da libertação. formular as diver gências. c) Poderão.b) Confrontem todos estes textos pessoais. sensíveis. um texto que seja a expressão dos ele mentos comuns e das posições divergentes não contraditórias. poderão ainda. O «melhor» que os homens espe ram só pode vir de Cristo. o sentido que Cristo introduziu na nossa existência e na nossa condição humana. como parece certo. tentando desco brir os elementos comuns. se for caso disso. eventualmente. sobretudo. o meio de corrigir directamente o mal de que hoje sofremos surge com da 126 127 . a partir da proposta de um ou dois elementos. que aparece como uma réplica indirecta a Camus. retiveram. retocemos Teilhard dc Chardin (1881-1955) e Albert Carnus (1913-1960). Os nossos contemporâneos. Entre as figuras que queremos evocar. momentaneamente para o Universo e «aparecer co mo oposto ao Deus cristão». a uma espécie de ocultação do «Deus revelado». Depois. John Sobrifio. substituído pelo «Deus-mundo>. Mas este mundo não lhe parece «radicalmente descrente ou arreligioso».

Seuil 1965. a divindade.). 40. 259. Nem o mal morre. na verdade. de estabelecer que. longe de eclipsar o Deus cristão. Não temos continuado a ser. nestas trevas. que se manifesta na credível o poder de Deus. 128 129 . que elimine os falsos materialismos e os fal sos panteísmos. viveu até nando ostensivamente os Seus morte. E que a impotência de Deus é a expressão da participação no destino deabsoluta proximidade dos pobres. já que também Ele é dilacerado e história dos ho noite do Gólgota tem a importância que tem na abando mens exa. E mais uma vítima. a sombra da cruz. Trata-se. para o crente. inclusivamente.. Para operar esta transformação.reza. no estado actual das investigações. privilégios tradicionais. na nossa religião. e morte de cruz (FI 2.. a mais perigosa parte da descrença humana ficará desarmada até ao âmago». apenas está à espera de ser transfigurado e completado por Ele. Paris. p. os cristãos se mostrarem os pri meiros entre os Homens a espiritualizar os valores terrestres e a caminhar ao encontro do Futuro. a angústia da o «Lamá sabactani» e a dúvida atroz de Cristo Tentam explicar com a es na agonia. Quando. 1961. não a muda realmente.. 9. p. então. Olhando para o Crucifi mas. que só a realidade concreta de Cristo tem condições para as tornar fir mes.. sobretudo com o mista que a de Teilhard. centrá-las e salvá-las. Paris.. assume totalmente a Sua con na realidade. tristemente. um teólogo da Teologia da cruz de Jesus «A impotência de Deus. que que dição humana. que vai manifestar-se na (.ctamente porque. em vez do seu brilho?. na sua plenitude natural. Para que Deus sejam um que desespere». Obras de Pierre Teilhard de Char din. torna mais escandaloso «Cristo veio resolver dois problemas principais: o problema grandes do mal e o problema da morte. pela actividade construtiva da sua caridade. tomemos posse delas e cristianizemo-las. (2) (i) Extracto de Science et Christ. sed adimplere».. a alma religiosa do Mundo actual e vivê -la. As aspirações reli giosas do Humanismo moderno são. se pudesse contar homem é necessário perança eterna. para o ateu. O Deus-homem nem a morte Lhe pode ser imputável seja paciência. torna Sua ressurreição. Camus reconhece que não é possível acusar a Deus. Façamos. Gallimard. A sua solução sofre com em assumi-los como coisa própria.6-11). então. «Primeiro. 1974. «Consumar é cristianizar. 152-153. A nossa missão é voltar a vestir (induere). Esta seria muito ligeira. antes de mais. o nosso exa me de consciência. porque haveremos então de defender-nos dele? Não será o Evangelho um fermento que é preciso pôr lá muito dentro do coração do mundo?» Non veni sol vere. ao fim. demasiadas vezes. cado. se mantêm estranhas ao espírito da Hu manidade. verbo et exemplo. na aparência. pp. transportados pe la mesma força que. a cruz é mais um escândalo. nós próprios. as noções de pecado e de salvação individual»? Não é verdade que irradiamos. pela riqueza operante da sua renúncia. que temos obrigação de salvar? (. exactamente em virtude do seu Cristianismo. problemas dos revoltados. ainda o silêncio de Deus. que são precisamente os consistiu. Paris. o Universo. plena e sinceramente. Queremos que os Homens regressem a Deus.. pessoas que. com generosidade. A de que modo for. Le Dieu Crucifié. não pode bastar e sentimo-lo bem — uma crítica puramente inte lectual ou negativa. -Mame. a me lhor. A nós compete mostrar. na Libertação. apoclererno-nos delas. «Decerto que nem tudo é mau nesse sopro de optimismo con quistador que move a massa humana. os afasta d’Ele? Abramos. no plano cristão. parti ela revela um Deus que não seria credível se não tivesse humana até à morte. nós os cristãos. isto é. pelo arrojo confiante das suas perspectivas sobrenaturais. Cerf Ver o comentário de Jürgen Moltmann. A sua visão do mundo é menos Sentimo-lo chocado. sofrimento e com a morte do Inocente. John Sobrifio: Latina. (1) — Albert Camus: o divino Resignado opti Camus é um descrente. até ao desespero. a Extracto de L’homme révolté. nessa altura. aqui. lhado a condição América E isto mesmo que sublinha muito veementemente. o espírito e o coração às perspectivas e aspirações novas. para nós. vagas e ina cabadas. o Crucificado.) Não temos dei xado (e estou a citar) «hipertrofiarem-se. (2) Um Deus credível através da cruz Se.

A esperança de Jesus 130 . então a Sua acção na ressurreição é uma acção credível. se Ele conheceu dessa maneira os horrores da história. Escuta. quem dizeis que Eu sou 5 6 8 Primeira Parte VIMOS A SUA GLÓRIA» «NÓS A experiência pascal dos Apóstolos Estrutura do anúncio pascal 17 1. As pretensões de Jesus A relação de Jesus com os pecadores A relação entre Jesus e a Lei Jesus e o Templo (3) Extracto de . nada foi capaz de impedir que Deus Se aproximasse dos homens’. anunciada e tornada um facto por Jesus. Um tempo de crise II. O reino de Deus estó no meio de vós Os milagres de Jesus O modo de viver de Jesus 2. pp. Então quem é Jesus 4. em Jésus et Ia Iibtra tion en Amérique Ititine (Colectj. é que. 1986. iniciada na Incarna ção. Desclée. a apro ximação de Deus em relação aos homens.. Se Deus estava na cruz de Je sus. O TEMPO DE JESUS 1.4) 3. Israel’ 2. 298-299. consuma-se aqui. O silêncio de Deus na cruz.les até às últimas consequências. E se Ele estava. O tempo das promessas 1. O que a cruz diz em linguagem humana. ao longo de toda a Sua vida. 19 19 20 21 22 22 23 24 25 25 25 26 28 30 131 9 3. «Deus reclama a Tua vida na tumba» (Salmo 103. não é escandaloso para os crucificados porque o que interessa aos crucificados é saber se Deus estava ou não na cruz de Jesus. Lecture de la réssur rection de Jésus a partir des crucifiés du monde’. que escandaliza tanto a razão natural e a razão moderna. pelo menos para o crucificado. (3) Índice Introdução 7 Quem dizem os homens que Eu sou 9 E vós. Paris. na História.‘Le Ressuscité et le crucifié.

MENSAGEM PASCAL O terceiro dia ou o tempo do Espfrito Subiu aos céus Há-de vir julgar os vivos e os mortos 35 36 36 37 39 Segunda parte IMAGEM (OU ICONE) DO DEUS INVISIVEL A fé em Cristo. Os Conciios cristológicos Concilio de Efeso (431) Concilio de Calcedónia (451) 132 87 88 90 91 133 . Em nome da Escritura: Lutero (1483-1546) 2. Em nome da Razão (séc. 31 32 32 33 33 34 34 Definição de Calcedónia Segundo Concilio de Calcedónia (553) Terceiro Concilio de Constantinopla (680-681) II. Aquele que nos reconcilia 81 82 Algumas grandes figuras da cristologia antiga C — 2. caminho da humanidade para Deus 3. As vias da cristologia A oferta de Deus (Karl Barth) A busca do homem (Rudolf Bultmann) A figura de Jesus 2. Jesus. 3. PESQUISAS CONTEMPORÂNEAS 1. XVIJI-XIX) Emancipação da razão Revalorização da história Schleiermacher As Vidas de Jesus Um mito concreto A crise modernista ifi. caminho de Deus para a humanidade 2. De Jerusalém a Niccia o testemunho apostólico A A preexistência A filiação divina — 46 47 47 47 48 50 50 51 52 54 55 57 57 58 B — Cultura judaica e cultura grega Contacto com o judaísmo Confrontação com o helenismo Duas posições contrárias sobre o Misté rio de Cnsto A FÉ DE NICEIA (325) 3. 2. Vestígios históricos do Ressuscitado . RECONHECER O CRUCIFICADO 1.III.AFÉDAIGREJA 1. O agir filial de Jesus A consciência de Jesus Quatro proposições da Comissão Teológica inter nacional sobre a consciência que Cristo tinha de Si mesmo (Dezembro de 1985) A liberdade de Jesus Terceira parte O MESSIAS CRUCIFICADO Deus salva-nos em Jesus Cristo 1. Filho de Deus I. As componentes da experiência pascal Uma revelação divina Um reconhecimento Uma tarefa da fé Uma experiência missionária 2. A TRADIÇÃO CONTESTADA 1. O ser filial de Jesus 59 60 61 62 63 64 65 67 67 68 68 70 70 71 73 74 75 78 79 Será a ressurreição de Jesus um acontecimento histórico’ IV. Jesus. A 1. RECONCILIAÇÃO 1.

REDENÇÃO 1. 2. 4. A Escritura A pregação Os Sacramentos A Igreja Corpo de Cristo Os ministérios A oração Todo e qualquer rosto humano ANEXOS 1. 6. 2. 7 E para mim. 5. quem é Jesus Cristo A humanidade de Cristo e a salvação «Dizer» a salvação com as nossas palavras Jesus Cristo um sentido para a nossa cami nhada — 112 112 113 113 114 114 115 119 121 125 127 134 . O silêncio de Deus 3. O Filho abandonado 2. Deus habita o sofrimento 92 92 94 96 99 102 103 104 105 Conclusão CRISTO ESTÁ vivo Como redescobri-l’O? 1. 3. REVELAÇÃO 1. Em nosso nome Redenção e Libertação ifi. Morto pelos nossos pecados 2. 4.II. 3. 7. De uma vez por todas 3.

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