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ADVOCACIA-GERAL DA UNIÃO

PROCURADORIA-GERAL DA UNIÃO

PROCURADORIA-REGIONAL DA UNIÃO DA 2ª REGIÃO

NÚCLEO ESTRATÉGICO (PRU2R/CORESP/NUEST)

 
EXCELENTÍSSIMO(A) SENHOR(A) PRESIDENTE DO EGRÉGIO TRIBUNAL REGIONAL FEDERAL DA
2A REGIÃO
 
 
 
 
 
 
NÚMERO: 5098897-71.2021.4.02.5101
AGRAVANTE(S): UNIÃO
AGRAVADO(S): SOCIEDADE DE APOIO AOS DIREITOS HUMANOS
 
 
 
 
UNIÃO, pessoa jurídica de direito público, representado(a) pelo membro da Advocacia-Geral da União
infra assinado(a), vem, respeitosamente, à presença de Vossa Excelência, interpor
 
AGRAVO DE INSTRUMENTO
 
contra decisão proferida pelo juízo federal da 27ª Vara Federal do Rio de Janeiro  que deferiu tutela
provisória de urgência com o seguintes teor:
 
Ante o exposto, por evidenciada a urgência contemporânea à propositura da ação, aliado ao perigo
de dano e risco ao resultado útil do processo, defiro a tutela de urgência para determinar que a
União Federal, e quem a  represente a qualquer título,  abstenha-se  de praticar qualquer ato
institucional atentatório a dignidade  do Professor Paulo Freire na condição de  Patrono da
Educação Brasileira, como reconhecido pela Lei º 12.612/12.
 
 
Em atendimento ao disposto no art. 1.016, IV, do Código de Processo Civil, informa que a Agravante é
representada judicialmente perante esse Tribunal pelo  Advogado  da União  João Paulo Lawall Valle  com endereço
profissional na rua México, 74, centro, Rio de Janeiro/RJ, CEP 20.031-140.
 
Informa, ainda, que a parte agravada  representada pelo advogado Carlos Nicodemos, OAB/RJ 75.208,
com endereço profissional na Av Beira Mar, nº 406, Grupo nº 1.205, Centro, Rio de Janeiro, RJ, CEP 20021-900.
 
Com suporte no art. 1.017, §5º, do CPC/2015, tendo em vista os autos eletrônicos do processo, a
União informa estar dispensada da apresentação das peças referidas nos incisos I e II, do caput, do art. 1.017, do
CPC/2015, juntando documentos que servem para comprovação das teses invocadas neste recurso.
 
Isto posto, requer seja recebido, conhecido e provido o presente recurso, nos termos das inclusas razões
da agravante, sendo de logo concedido efeito suspensivo à decisão agravada.
 

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Rio de Janeiro, 06 de outubro de 2021.
 
 
JOÃO PAULO LAWALL VALLE
Advogado da União
 
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AGRAVO DE INSTRUMENTO
 
 
NÚMERO: 5098897-71.2021.4.02.5101
AGRAVANTE(S): UNIÃO
AGRAVADO(S): SOCIEDADE DE APOIO AOS DIREITOS HUMANOS
 
 
RAZÕES DA AGRAVANTE
 
EGRÉGIO TRIBUNAL REGIONAL FEDERAL DA 2ª REGIÃO
COLENDA TURMA JULGADORA
ÍNCLITOS DESEMBARGADORES FEDERAIS
 
 
 
1. DO CABIMENTO DO PRESENTE AGRAVO DE INSTRUMENTO
 
O Código de Processo Civil traz o rol de decisões interlocutórias contra as quais é cabível o manejo do
recurso de Agravo de Instrumento, cabendo destacar o inciso I do art. 1.015:
 
Art. 1.015. Cabe agravo de instrumento contra as decisões interlocutórias que versarem sobre:
I - tutelas provisórias;
 
No caso dos autos, a decisão agravada determinou providência, classificável  como tutela  provisória  de
urgência, destacando os seguintes pontos que afetam diretamente a UNIÃO:
 
Ante o exposto, por evidenciada a urgência contemporânea à propositura da ação, aliado ao perigo
de dano e risco ao resultado útil do processo, defiro a tutela de urgência para determinar que a
União Federal, e quem a  represente a qualquer título,  abstenha-se  de praticar qualquer ato
institucional atentatório a dignidade  do Professor Paulo Freire na condição de  Patrono da
Educação Brasileira, como reconhecido pela Lei º 12.612/12.
 
Data vênia  ao entendimento judicial, as providências determinadas por sua Excelência não podem ser
mantidas, conforme se verificará nas razões que seguem.
 
  Desta forma, é claro o interesse recursal da União, para que este  TRF2  suspenda
imediatamente a ordem judicial acima transcrita proferida no bojo da Ação Civil Pública nº 5098897-71.2021.4.02.5101.
 
2. SÍNTESE DA DEMANDA
 
 
Trata-se de ação pelo procedimento comum ajuizada pelo MOVIMENTO NACIONAL DE DIREITOS
HUMANOS - MNDH  em face da  UNIÃO FEDERAL  em que objetiva “Seja determinado, LIMINARMENTE, que o
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Governo Federal (União) se abstenha de praticar qualquer ato institucional atentatório a dignidade intelectual da
condição do Professor Paulo Freire como Patrono da Educação Brasileira, considerando os termos da Lei 12.612/12,
estendendo-se referida decisão a todos os servidores públicos, autoridades ou membros do Governo Federal, sob pena de
incorrer em multa diária de R$ 50.000,00 (cinquenta mil reais).” (Evento1, pág.18)
 
Alega que o contexto que envolve a presente Ação se apoia em movimentos desqualificadores dos
agentes do Governo Federal contra Paulo Freire, educador e filósofo brasileiro, com falas ofensivas e em contraposição
ao pedagogo ser Patrono da Educação brasileira.
 
Esclarece que Paulo Freire foi declarado patrono da educação brasileira em 2012, por meio da Lei Federal
nº 12.612, mas recebe ofensivas e injustificadas críticas do governo federal e que tais manifestações não só se opõe à
figura de Paulo Freire enquanto educador e patrono da educação, como aos projetos e programações a ele vinculados.
 
Afirma que em 2019, a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal do Nível Superior (Capes) alterou a
plataforma criada para os professores buscarem cursos de aperfeiçoamento profissional e retirou a homenagem ao
educador Paulo Freire do nome – a "Plataforma Freire" passou a se chamar "Plataforma da Educação Básica".
 
Aduz que o Presidente da República também já defendeu, em seu plano de governo, "expurgar a filosofia
freiriana das escolas" e o mentor intelectual do presidente, o ideólogo de direita Olavo de Carvalho, também ataca o
legado de Freire.
 
Relata que a metodologia de Paulo Freire vem sendo criticada por integrantes do governo federal, que
atribuem a ela o baixo desempenho escolar do país em detrimento a maiores investimentos no setor e na formação
continuada de professores.
 
Alega que nessa conjuntura, o governo federal vem afirmando arbitrária e publicamente que irá mudar o
patrono da Educação brasileira, título conferido a Paulo Freire pela Lei Federal nº 12.612/2012 sancionada pela então
Presidente Dilma Rousseff e vigente até os dias atuais.
 
Acrescenta que as manifestações são dadas por pessoas que desconhecem por completo a obra e o legado
de Paulo Freire e se articulam para retirar-lhe o título de Patrono da Educação Brasileira, por meio de medida revogatória
no Congresso Nacional, apesar da proximidade do centenário de Paulo Freire e todo seu legado deixado.
 
Sustenta que negar direitos como memória, cultura e educação é nocivo para o desenvolvimento do
princípio democrático e da igualdade. Igualmente é negar as figuras e símbolos que esses o representam, e, para tal, não
há exemplo ou paradigma melhor que Paulo Freire, razão pela qual ajuizou a presente demanda.
 
Ao analisar o pedido de tutela provisória foi proferida a seguinte decisão:
 
Ante o exposto, por evidenciada a urgência contemporânea à propositura da ação, aliado ao perigo
de dano e risco ao resultado útil do processo, defiro a tutela de urgência para determinar que a
União Federal, e quem a  represente a qualquer título,  abstenha-se  de praticar qualquer ato
institucional atentatório a dignidade  do Professor Paulo Freire na condição de  Patrono da
Educação Brasileira, como reconhecido pela Lei º 12.612/12.
 
 
Data máxima vênia  a decisão proferida restringe de maneira desproporcional o direito de liberdade de
expressão de todos os representantes da União, devendo ser suspensa pelo Exmo. Desembargador Federal relator e, ao
final, integralmente reformada pelo e. Colegiado competente para conhecer e julgar este recurso.
 
3. MÉRITO RECURSAL
 
3.1 DA LEI 12.612/2012
 
Estabelece a Lei nº 12.612 de 13 de abril de 2012 que o educador Paulo Freire é declarado Patrono da
Educação Brasileira, consoante a previsão do seu artigo 1º. Referida legislação é composta de apenas mais um artigo que
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determina a vigência da Lei, consubstanciada na data de sua publicação.


 
Observa-se, portanto, que a Lei nº 12.612/2012 limitou-se a homenagear Paulo Freire, instituindo-o como
patrono da educação brasileira, ou seja, como um protetor, não impondo qualquer obrigação de fazer ou não fazer  ao
Poder Público em favor do educador.
 
A qualificação do educador como patrono não pode ser, pois, entendida como a impossibilidade de que
lhe sejam direcionadas qualquer tipo de  crítica, nem mesmo como a necessidade de que lhe sejam deferidas qualquer
outro tipo de homenagens que não estejam previstas na legislação.
 
Como se vê inexiste qualquer  determinação legal para que  haja comemoração do centenário de Paulo
Freire e nem mesmo para que  plataforma da CAPES criada para os professores buscarem cursos de aperfeiçoamento
profissional receba seu nome. Desse modo, a ausência da comemoração, bem como a mudança de nome da plataforma,
não podem ser em qualquer hipótese entendidas como ofensa a legislação, tampouco críticas daqueles que não concordam
com os seus métodos ou formas de pensar.
 
3.2 DA LIBERDADE DE EXPRESSÃO
 
Na exordial a autora ampara ua pretensão em supostas falas de agentes públicos/políticos que, em tese,
desqualificariam o patrono da educação. Todavia, conforme acima evidenciado, o fato de ter sido homenageado como
patrono da educação  não torna o educador imune a eventuais críticas que, indubitavelmente, estão amparadas pela
garantia constitucional da liberdade de expressão.
 
A liberdade de expressão pode ser definida como o princípio sob o qual os indivíduos tem liberdade de
expressar seus pensamentos, ideias ou informações por meio de inúmeros meios de linguagem (oral, escrita, simbólica
etc.), em qualquer  plataforma. De igual forma,  compreende o direito de não se expressar, de se calar e de não se
informar. 
 
Na Constituição Federal brasileira, a regra geral é enunciada pela fórmula "é livre a manifestação do
pensamento, sendo vedado o anonimato" (Art. 5º, IV) e por diversos outros dispositivos a ela relacionados (como p.
ex. Arts. 5º, V, X, XIII e XIV; Art. 220).
 
A multicitada cláusula pétrea, enquanto gênero que é, compreende a livre manifestação do pensamento,
de opinião, liberdades religiosa, de consciência, liberdade de expressão artística, intelectual, de comunicação, dentre
várias outras que em sua maioria estão evidenciadas no art. 5º da CF/88:
 
Art. 5º Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos
brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à
igualdade, à segurança e à propriedade, nos termos seguintes:
(...)
IV - é livre a manifestação do pensamento, sendo vedado o anonimato; 
(...)
VI - é inviolável a liberdade de consciência e de crença, sendo assegurado o livre exercício dos
cultos religiosos e garantida, na forma da lei, a proteção aos locais de culto e a suas liturgias;  
VII - é assegurada, nos termos da lei, a prestação de assistência religiosa nas entidades civis e
militares de internação coletiva;  
VIII - ninguém será privado de direitos por motivo de crença religiosa ou de convicção filosófica
ou política, salvo se as invocar para eximir-se de obrigação legal a todos imposta e recusar-se a
cumprir prestação alternativa, fixada em lei;
(...)
IX - é livre a expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação,
independentemente de censura ou licença;
(...)
Art. 220. A manifestação do pensamento, a criação, a expressão e a informação, sob qualquer
forma, processo ou veículo não sofrerão qualquer restrição, observado o disposto nesta
Constituição.

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§ 1º Nenhuma lei conterá dispositivo que possa constituir embaraço à plena liberdade de
informação jornalística em qualquer veículo de comunicação social, observado o disposto no art.
5º, IV, V, X, XIII e XIV.
§ 2º É vedada toda e qualquer censura de natureza política, ideológica e artística.
 
A mesma garantia também encontra assento na Declaração Universal dos Direitos Humanos:
 
Art. 19. Todo o indivíduo tem direito à liberdade de opinião e de expressão, o que implica o
direito de não ser inquietado pelas suas opiniões e o de procurar, receber e difundir, sem
consideração de fronteiras, informações e idéias por qualquer meio de expressão.
 
A liberdade de expressar opiniões envolve naturalmente o conflito entre ideias, exigindo dos
indivíduos o necessário respeito e tolerância para com pensamentos diversos do seu.
 
De acordo com Paulo Gustavo Gonet Branco:
(...)
A garantia da liberdade de expressão tutela, ao menos enquanto não houver colisão com outros
direitos fundamentais e com outros valores constitucionalmente estabelecidos, toda opinião,
convicção, comentário, avaliação ou julgamento sobre qualquer assunto ou sobre qualquer pessoa,
envolvendo tema de interesse público, ou não, de importância e de valor, ou não - até
porque "diferenciar entre opiniões valiosas ou sem valor é uma contradição num Estado baseado
na concepção de uma democracia livre e pluralista".
No direito de expressão cabe, segundo a visão generalizada, toda mensagem, tudo o que se pode
comunicar - juízos, propaganda de ideias e notícias sobre fatos.
(...)
A liberdade de expressão, enquanto direito fundamental, tem, sobretudo, um caráter de
pretensão a que o Estado não exerça censura.
Não é o Estado que deve estabelecer quais opiniões  que merecem ser tidas como válidas e
aceitáveis, essa tarefa cabe, antes, ao público a que essas manifestações se dirigem. Daí a
garantia do art. 220 da Constituição brasileira. Estamos, portanto, diante de um direito de
índole marcadamente defensiva - direito a uma abstenção pelo Estado de uma conduta que
interfira sobre a esfera de liberdade do indivíduo.
(grifou-se)
 
A esse respeito, o Supremo Tribunal Federal (STF) historicamente reconhece que o direito fundamental à
liberdade de expressão  não se direciona somente a proteger as opiniões supostamente verdadeiras, admiráveis ou
convencionais, mas também aquelas que são duvidosas, exageradas, condenáveis, satíricas, humorísticas, bem como as
não compartilhadas pelas maiorias.
 
Nesse sentido, convém destacar os seguintes trechos  do voto do Exmo. Ministro Alexandre de Morais
na ADPF nº548/DF, de Relatoria da Min. Carmen Lúcia, j. 15/05/2020, DJe 09/06/2020).
 
(...)
No âmbito da Democracia, a garantia constitucional da liberdade de expressão não se
direciona somente à permissão de expressar as ideias e informações oficiais produzidas pelos
órgãos estatais ou a suposta verdade das maiorias, mas sim garante as diferentes
manifestações e defende todas as opiniões ou interpretações políticas conflitantes ou
oposicionistas, que podem ser expressadas e devem ser respeitadas, não porque
necessariamente sejam válidas, mas porque são extremamente relevantes para a garantia do
pluralismo democrático (cf. HARRY KALVEN JR. The New York Times Case: A note on the
central  meaning  of the  first  amendment  in  Constitutional  Law.  Second  Series. Ian D.  Loveland:
2000, capítulo 14, p. 435).
Todas as opiniões existentes são possíveis em discussões livres, uma vez que faz parte do
princípio democrático “debater assuntos públicos de forma irrestrita, robusta e aberta”
(Cantwell v. Connecticut, 310 U.S. 296, 310 (1940), quoted 376 U.S at 271-72).
O direito fundamental à liberdade de expressão, portanto, não se direciona somente a
proteger as opiniões supostamente verdadeiras, admiráveis ou convencionais, mas também
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aquelas que são duvidosas, exageradas, condenáveis, satíricas, humorísticas, bem como as
não compartilhadas pelas maiorias (Kingsley Pictures Corp. v. Regents, 360 U.S 684, 688-89,
1959).  Ressalte-se que mesmo as declarações errôneas estão sob a guarda dessa garantia
constitucional.
A Corte Europeia de Direitos Humanos afirma, em diversos julgados, que a liberdade de
expressão:
“constitui um dos pilares essenciais de qualquer sociedade democrática, uma das condições
primordiais do seu progresso e do desenvolvimento de cada um. Sem prejuízo do disposto no nº 2
do artigo 10º, ela vale não só para as «informações» ou «ideias» acolhidas com favor ou
consideradas como inofensivas ou indiferentes, mas também para aquelas que ferem, chocam ou
inquietam. Assim o exige o pluralismo, a tolerância e o espírito de abertura, sem os quais não
existe «sociedade democrática». Esta liberdade, tal como se encontra consagrada no artigo 10º da
Convenção, está submetida a excepções, as quais importa interpretar restritivamente, devendo a
necessidade de qualquer restrição estar estabelecida de modo convincente. A condição de
«necessário numa sociedade democrática» impõe ao Tribunal determinar se a ingerência litigiosa
corresponde a «uma necessidade social imperiosa” (ECHR, Caso Alves da Silva v. Portugal,
Queixa 41.665/2007, J. 20 de outubro de 2009)
A Democracia não existirá e a livre participação política não florescerá onde a liberdade de
expressão for ceifada, pois esta constitui condição essencial ao pluralismo de ideias, que por
sua vez é um valor estruturante para o salutar funcionamento do sistema democrático.
Essa estreita interdependência entre a liberdade de expressão e o livre exercício dos direitos
políticos, também, é salientada por JONATAS E. M. MACHADO, ao afirmar que:
“o exercício periódico do direito de sufrágio supõe a existência de uma opinião pública autônoma,
ao mesmo tempo que constitui um forte incentivo no sentido de que o poder político atenda às
preocupações, pretensões e reclamações formuladas pelos cidadãos. Nesse sentido, o exercício do
direito de oposição democrática, que inescapavelmente pressupõe a liberdade de expressão,
constitui um instrumento eficaz de crítica e de responsabilização política das instituições
governativas junto da opinião pública e de reformulação das políticas públicas... O princípio
democrático tem como corolário a formação da vontade política de baixo para cima, e não ao
contrário” (Liberdade de expressão. Dimensões constitucionais da esfera pública no sistema
social. Editora Coimbra: 2002, p. 80/81).
(grifou-se)
 
Destarte, a faceta  substantiva da liberdade de expressão determina que a liberdade de expressão é um
valor em si mesmo, pois o ser humano possui um intrínseco direito moral de se expressar como bem entende, dizer o que
pensa e de ouvir o que quiser, porquanto seja uma disseminação da dignidade da pessoa humana.  Neste particular,
a  liberdade de expressão é  um inafastável  privilégio  dos cidadãos em uma república fundada em bases democráticas,
sendo o  direito à livre manifestação do pensamento o núcleo de que se irradiam os direitos de crítica, de protesto, de
discordância e de livre circulação de ideias.
 
Imergindo especificamente na seara jurisprudencial, temos que de há muito a liberdade de expressão é
consagrada pelo Supremo Tribunal Federal - STF como direito medular do Estado Democrático de Direito (e.g.  ADPF
147, ADI 4815 e ADPF 187). Evidenciamos a ADI nº 4451/DF, na qual a Egrégia Corte assim decidiu:
 
Ementa
LIBERDADE  DE  EXPRESSÃO  – AGENTE POLÍTICO – HONRA DE TERCEIRO. Ante
conflito entre a liberdade de expressão de agente político, na defesa da coisa pública, e honra de
terceiro, há de prevalecer o interesse coletivo, da sociedade, não cabendo potencializar o
individual.
RE 685493; Tribunal Pleno, Relator: Ministro Marco Aurélio; Julgamento: 22/05/2020
 
Pela importância e brilhantismo do voto proferido pelo Sr. Ministro Marco Aurélio condutor do Acórdão
supracitado, peço vênia para destacar alguns trechos:
 
VOTO
O SENHOR MINISTRO MARCO AURÉLIO (RELATOR)
(...)

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Cabe voltar os olhos à regra geral. O regime de direito comum, aplicável aos cidadãos, é de
liberdade quase absoluta de expressão, assegurada pelos artigos 5º, incisos IV e XIV, e 220,
cabeça e § 2º, da Carta de 1988. No sistema de liberdades públicas constitucional, a de expressão
possui espaço singular. Tem como único paralelo, em escala de importância, o princípio da
dignidade da pessoa humana, ao qual está relacionado.
Na linguagem da Suprema Corte dos Estados Unidos, se “existe uma estrela fixa em nossa
constelação constitucional, é que nenhuma autoridade, do patamar que seja, pode determinar o
que é ortodoxo em política, religião ou em outras matérias opináveis, nem pode forçar os cidadãos
a confessar, de palavra ou de fato, a sua fé nelas” (West Virginia Board of Education v. Barnette,
319 US 624, 1943). Tal direito é alicerce, a um só tempo, do sistema de direitos fundamentais e do
principio democrático, surgindo como genuíno pilar do Estado Democrático de Direito.
(...)
Ainda que seja possível a relativização de um princípio em certos contextos, é forçoso reconhecer
a prevalência da liberdade de expressão quando em confronto com outros valores constitucionais,
raciocínio que encontra diversos e cumulativos fundamentos. A doutrina da posição preferencial
da liberdade de expressão é adotada nos Estados Unidos, tendo origem na famosa Nota de Rodapé
nº 4 do voto proferido pelo juiz  Harlan  Fiske  Stone, no
caso United States v. Carolene Products Co., julgado em 25 de abril de 1938.
(...)
Sob o prisma do princípio democrático, a liberdade de expressão impede que o exercício do poder
político possa afastar certos temas da arena pública de debates. Daí a peremptória vedação à
censura estatal contida no artigo 220, § 2º, da Constituição Federal, tantas vezes esquecida.  O
funcionamento e a preservação do regime democrático pressupõem alto grau de proteção
aos juízos, opiniões e críticas, sem os quais não se pode falar em verdadeira democracia. Na
feliz expressão do professor Eduardo Mendonça, constante do artigo mencionado, a “livre
circulação de informações é elemento constitutivo da democracia”.
(...)
No mais, em uma democracia pluralista, o fechamento dos canais de discussão pode implicar o
alijamento de grupos minoritários. Observem existir um elemento epistêmico na defesa da
liberdade de expressão. A verdade ou a falsidade de determinadas ideias é resultado de uma
construção social, daí não ser legítimo excluir, de modo apriorístico, algum pensamento do debate
público. Vejam este exemplo: ao criminalizar a apologia ao crime, o Código Penal produz, como
efeito adverso, a restrição ao livre exercício democrático do direito de defender a abolição dos
tipos relacionados ao consumo de drogas. Afinal de contas, o Supremo teve que afirmar,
judicialmente, a constitucionalidade da “marcha da maconha”, a demonstrar o efeito perverso das
obstruções aos canais públicos de discussão. Foi o que ocorreu na já citada Arguição de
Descumprimento de Preceito Fundamental nº 187, relatada pelo ministro Celso de Mello.
Essas considerações objetivam reafirmar a liberdade de expressão como um direito de primeira
grandeza na ordem constitucional de 1988. Esse é o primeiro ponto a remarcar.
(...)
Por integrarem a cúpula do Estado e serem formadores de políticas públicas, (os agentes públicos)
devem gozar de proteção especial, o que é estabelecido pela própria Carta. Os integrantes do
Legislativo detêm imunidade praticamente absoluta (artigos 25, 29, inciso VIII, e 53, cabeça, do
Diploma Maior) pelas opiniões, palavras e votos que proferirem no recinto do parlamento, sendo
relativa quanto às opiniões reveladas fora daquele ambiente. Nesse último caso, somente haverá
imunidade se existir nexo de causalidade entre a opinião divulgada e o exercício do mandato. O
Supremo tem repetidamente reconhecido a importância da garantia para o regular funcionamento
do regime democrático. Vale transcrever passagem sobre o tema lançada pelo relator do Inquérito
nº 2.666, ministro Carlos Ayres Britto:
A Constituição Federal é especialmente cuidadosa no fazer da intocabilidade político-
administrativa, tanto quanto da civil e penal dos Deputados e Senadores, uma condição e ao
mesmo tempo uma garantia de exercício altivo dos correspondentes cargos. Uma poderosa
blindagem para que eles, representantes políticos do povo, tenham as mais facilitadas condições
de encarnar essa representação. Com independência pessoal e desassombro pessoal, portanto.
(...)
Os agentes políticos inseridos no Poder Executivo, embora não possuam imunidade absoluta
quando no exercício da função, devem também ser titulares de algum grau de proteção conferida
pela ordem jurídica constitucional. Defendo essa posição com apoio em dois argumentos. Explico.

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Primeiro, existe evidente interesse público em que os agentes políticos mantenham os


administrados plenamente informados a respeito da condução dos negócios públicos. Trata-se de
exigência clara dos princípios democrático e republicano. Em outras palavras, quando se cuida de
agente político, há um dever de expressão relacionado aos assuntos públicos, alcançando não
apenas os fatos a respeito do funcionamento das instituições públicas, mas até mesmo os
prognósticos que eventualmente efetuem. Exemplos: quando o Presidente da República vem a
público afirmar que espera crescimento econômico para o ano seguinte; o delegado esclarece as
linhas de investigação utilizadas na averiguação de determinado crime ou o Secretário estadual
noticia as perspectivas favoráveis atinentes a determinada medida na área de segurança. Mesmo
que essas hipóteses não envolvam juízos de certeza, o público pode ter interesse em saber como
anda a condução da política econômica, a apuração de um crime ou quais os possíveis impactos
de uma nova política pública no campo da segurança.
Reconhecer a imunidade relativa no tocante aos agentes do Poder Executivo, tal como
ocorre com os membros do Poder Legislativo, no que tange às opiniões, palavras e juízos que
manifestam publicamente, é importante no sentido de fomentar o livre intercâmbio de
informações entre eles e a sociedade civil. É o que se diz, quanto à liberdade de imprensa, do
denominado efeito silenciador. O direito também pode ser entendido como uma política
pública e, como tal, tem o papel de fomentar o aperfeiçoamento do sistema político.
Interpretar o ordenamento jurídico de modo a restringir demasiadamente o grau de
liberdade de manifestação pública conferida aos agentes políticos serve ao propósito de criar
uma mordaça, ainda que sob a roupagem de proteção de outros direitos fundamentais.
Além disso, mostra-se necessária a existência de um ambiente de segurança jurídica para que
pessoas verdadeiramente comprometidas com o interesse público venham a ocupar os cargos
políticos. O risco de ser processado a todo tempo por grupos politicamente descontentes tem
como consequência uma atitude defensiva, a dificultar a prestação de contas à população, além de
desestimular que os indivíduos concorram a cargos públicos de cúpula.
O segundo argumento concerne à necessidade de reconhecer algum grau de simetria entre a
compressão que sofrem no direito à privacidade e o regime da liberdade de expressão. (...)
O argumento é singelo: aqueles que ocupam cargos públicos têm a esfera de privacidade
reduzida. Isso porque o regime democrático impõe que estejam mais abertos à crítica
popular. Em contrapartida, devem ter também a liberdade de discutir, comentar e
manifestar opiniões sobre os mais diversos assuntos com maior elasticidade que os agentes
privados, desde que, naturalmente, assim o façam no exercício e com relação ao cargo
público ocupado. (...)
Os argumentos podem ser tomados de empréstimo. É plausível, no contexto da Carta de 1988,
reconhecer aos servidores públicos um campo de imunidade relativa, vinculada ao direito à
liberdade de expressão, quando se pronunciam sobre fatos relacionados ao exercício da função
pública. Essa liberdade é tanto maior quanto mais elastecidas forem as atribuições políticas do
cargo que exercem. A proteção desse espaço, que não pode ser qualificado como imunidade
absoluta, relaciona-se à importância, para a coletividade, de esses servidores exprimirem a própria
visão e conhecimento sobre a condução dos negócios públicos.
A imunidade relativa dos agentes políticos está circunscrita aos casos em que puder ser
reconduzida, ainda que de modo tênue, ao exercício da função pública. Naturalmente, hão de ser
excluídos os casos de dolo manifesto, ou seja, o deliberado intento de prejudicar outrem. No mais,
as afirmações equivocadas, quando assim provadas, são inevitáveis em um debate livre e também
devem ser protegidas para que a liberdade de expressão tenha vez na ordem constitucional
brasileira.
 
Verifica-se, assim, que as falas mencionadas  inserem-se no contexto de  livre manifestação do
pensamento ou o direito de crítica. Tais direitos são constitucionalmente assegurados, mesmo para agentes que
ocupam cargos públicos.
 
 
3.3 DO ELEVADO GRAU DE ABSTRAÇÃO DA DECISÃO JUDICIAL - RISCO A SEGURANÇA
JURÍDICA
 
Por último, nota-se que a decisão recorrida conforme lançada pela magistrada  a quo  possui grau de
abstração extremamente elevado, dificultando o seu exato cumprimento, como deve ocorrer com todas as decisões
judiciais.
https://sapiens.agu.gov.br/documento/740332610 8/9
06/10/2021 16:55 https://sapiens.agu.gov.br/documento/740332610

 
Vejamos trecho da LINDB que regula as decisões e seus respectivos conteúdos:
 
Art. 20.  Nas esferas administrativa, controladora e judicial, não se decidirá com base em valores
jurídicos abstratos sem que sejam consideradas as consequências práticas da decisão.                    
Parágrafo único. A motivação demonstrará a necessidade e a adequação da medida imposta ou da
invalidação de ato, contrato, ajuste, processo ou norma administrativa, inclusive em face das
possíveis alternativas.
 
Na decisão a juíza federal de piso impõe obrigação de não fazer para União e quem a represente a
qualquer título. Sem dificuldades nota-se quão abertos são os destinatários da decisão, ao mesmo tempo torna inviável o
exato cumprimento, visto que uma gama enorme de pessoas (re)presenta a União.
 
Desta maneira, a manutenção da referida decisão coloca em xeque a segurança jurídica, de forma a
comprometer seu fiel cumprimento, gerando risco elevado de eventual descumprimento e implicação de penalidades para
União.
 
Assim, pede-se a imediata suspensão da decisão recorrida e, ao final, a sua reforma.
 
4. DOS PEDIDOS
 
Assim, requer a União seja recebido e conhecido o presente agravo, atribuindo-lhe  efeito
suspensivo inaudita altera pars, e  concedendo a suspensão integral do cumprimento da decisão ora agravada, de
maneira a garantir o direito à liberdade de expressão dos agentes da União.
 
Ao final, quando do julgamento colegiado deste recurso, requer a integral reforma da decisão, no exato
sentido requerido acima.
 
Requer, por fim, a manifestação explícita (inclusive mencionando os dispositivos) deste Tribunal a
respeito das questões federais (legais e constitucionais) levantadas acima, para fins de prequestionamento, inclusive
quanto a eventual divergência com os entendimentos jurisprudenciais de outros Tribunais, acima abordados.
 
Nestes termos, pede deferimento.
 
 
Rio de Janeiro, 06 de outubro de 2021.
 
 
JOÃO PAULO LAWALL VALLE
Advogado da União
 
 
 

Documento assinado eletronicamente por JOAO PAULO LAWALL VALLE, de acordo com os normativos legais
aplicáveis.
A conferência da autenticidade do documento está disponível com o código 740332610 no endereço eletrônico
http://sapiens.agu.gov.br.
Informações adicionais:
Signatário (a): JOAO PAULO LAWALL VALLE.
Data e Hora: 06-10-
2021 17:04.
Número de Série: 17150853.
Emissor: Autoridade Certificadora SERPRORFBv5.

https://sapiens.agu.gov.br/documento/740332610 9/9

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