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Para

você
Sumário
Parte I
Parte II
Parte III
Parte IV
Deixai vir a mim as crianças, e não as impeçais.
Lucas 18,16
PARTE I
Mel

Não é culpa minha. Então não podem me censurar. Eu não fiz nada e não
faço ideia de como aconteceu. Não levou mais de uma hora depois que tiraram
a criança do meio das minhas pernas pra perceberem que tinha alguma coisa
errada. Muito errada. Ela era tão preta que me assustou. Preto meia-noite, preto
Sudão. Eu tenho a pele clara, o cabelo bom, o que chamam de pele oliva, e o
pai da Lula Ann também. Não tem ninguém na minha família com uma cor
daquela. Alcatrão é o que chega mais perto, só que o cabelo dela não combina
com a pele. É diferente: liso mas ondulado, igual ao daquelas tribos nuas da
Austrália. Dá pra pensar que ela é uma regressão, mas regressão pra quê? Vocês
tinham que ver a minha avó; ela passava por branca e nunca trocou nem uma
palavra com filho nenhum. Qualquer carta que recebia da minha mãe ou das
minhas tias ela devolvia sem abrir. Até que acabaram entendendo o recado de
nenhum recado e deixaram ela pra lá. Quase todo mulato e quadrarão naquela
época fazia isso, quer dizer, se tinha o cabelo certo. Já imaginaram quanto
branco tem sangue negro correndo escondido nas veias? Adivinhe. Vinte por
cento, me disseram. Minha mãe mesmo, Lula Mae, podia passar fácil, mas
achou melhor não. Ela me contou o preço que pagou por essa decisão. Quando
ela e o meu pai foram casar no fórum, tinha duas Bíblias e eles tiveram de pôr a
mão na que era reservada pra negro. A outra era pra mão de branco. A Bíblia!
Dá pra ser pior? A minha mãe era empregada de um casal rico. Eles comiam
toda comida que ela fazia, insistiam pra ela esfregar as costas deles quando
estavam dentro da banheira e Deus sabe quantas coisas íntimas além disso
obrigavam ela a fazer, mas não podia tocar a mesma Bíblia.
Alguns de vocês podem achar que é uma coisa ruim a gente se agrupar de
acordo com a cor da pele — quanto mais clara, melhor — em clubes, bairros,
igrejas, repúblicas, até escolas negras. Mas de que outro jeito a gente pode ter
um mínimo de dignidade? De que outro jeito a gente evita levar uma cuspida
numa lanchonete, cotoveladas no ponto de ônibus, andar na sarjeta pra deixar a
calçada inteira pros brancos, pagar cinco centavos por um saco de papel que é
grátis pra comprador branco? Sem falar nos nomes todos que chamam a gente.
Eu ouvi isso tudo e mais, muito mais. Mas por causa da cor da pele da minha
mãe, não proibiam que ela experimentasse chapéu na loja de departamentos
nem que usasse o banheiro das mulheres. E o meu pai podia experimentar
sapato na parte da frente da loja, não na sala dos fundos. Nenhum dos dois
aceitava beber num bebedouro “só pra negros” nem que estivessem morrendo
de sede.
Detesto dizer isso, mas desde o comecinho, no berçário, a bebê, a Lula Ann,
me dava vergonha. A pele de nascença dela era clara como a de todo bebê,
mesmo os africanos, mas mudou depressa. Eu quase fiquei louca enquanto ela
ia ficando preto-azulada bem na minha frente. Eu sei que enlouqueci por um
minuto porque uma vez — só por uns segundos — botei um cobertor na cara
dela e apertei. Mas não consegui fazer aquilo, por mais que eu quisesse que ela
não tivesse nascido daquela cor terrível. Cheguei a pensar em dar a menina pra
um orfanato em algum lugar. E fiquei com medo de ser uma daquelas mães que
largam o bebê no degrau da igreja. Outro dia, ouvi falar de um casal na
Alemanha, os dois brancos feito neve, que teve um filho de pele escura que
ninguém conseguiu explicar. Gêmeos, eu acho — um branco, um preto. Mas
não sei se é verdade. O que eu sei é que dar de mamar pra ela era como botar
uma macaquinha chupando minha teta. Passei pra mamadeira assim que
cheguei em casa.
O meu marido, o Louis, é cabineiro de trem e quando voltou da ferrovia
olhou pra mim como se eu fosse louca mesmo e olhou pra ela como se fosse do
planeta Júpiter. Ele não era de praguejar, mas quando falou “Minha nossa! Que
diabo é isso aí?”, eu sabia que a gente ia ter problema. Foi isso que provocou
tudo — que provocou as brigas entre eu e ele. Acabou com o nosso casamento.
Nós passamos três bons anos juntos, mas quando ela nasceu, ele pôs a culpa em
mim e tratava a Lula Ann como se ela fosse uma estranha — mais que isso, uma
inimiga.
Não tocava nela nunca. Tentei convencer o meu marido que eu nunca,
nunca tinha andado com outro homem. Ele tinha toda a certeza de que eu
estava mentindo. A gente discutiu e discutiu até que eu disse pra ele que o
pretume dela devia ser da família dele, não da minha. Foi aí que piorou, porque
ele simplesmente levantou e foi embora e eu tive que procurar outro lugar mais
barato pra viver. Eu sabia que não podia levar a menina quando ia falar com os
donos das casas, então deixava ela com uma prima adolescente pra tomar conta.
Eu fiz o melhor que pude e não saía muito com ela porque, quando empurrava
o carrinho de bebê, amigos e estranhos se abaixavam pra espiar e dizer alguma
coisa boa, mas aí assustavam ou davam um pulo pra trás, fechavam a cara. Isso
doía. Eu podia ser a babá se a cor das nossas peles fosse invertida. Já era bem
difícil ser uma mulher de cor — mesmo só cor de oliva — quando tentava
alugar numa parte boa da cidade. Nos anos 90, quando a Lula Ann nasceu, a lei
proibia discriminar pra quem se alugava, mas nem todo proprietário obedecia.
Inventavam razões pra te evitar. Mas eu tive sorte com o sr. Leigh. Eu sei que
ele aumentou sete dólares o aluguel anunciado e tem um ataque se o dinheiro
atrasa um minuto.
Falei pra ela me chamar de “Mel” em vez de “mãe” ou “mamãe”. Era mais
seguro. Preta daquele jeito, e com lábio grosso demais pra me chamar de
“mamãe”, ia confundir as pessoas. Além disso, ela tem uma cor de olho
esquisita, preto feito graúna com um tom azulado, uma coisa meio enfeitiçada
também.
Então era só nós duas durante um bom tempo e nem preciso dizer o quanto é
difícil ser uma esposa abandonada. Eu acho que o Louis ficou um pouco mal
depois que deixou a gente daquele jeito porque uns meses depois ele descobriu
pra onde eu tinha mudado e começou a mandar dinheiro uma vez por mês, se
bem que eu não pedi nunca e nem fui na justiça pra conseguir isso. Com as
remessas de cinquenta dólares dele e o meu trabalho noturno no hospital, a
Lula Ann e eu ficamos longe da assistência social. O que era uma coisa boa. Eu
gostaria que eles parassem de chamar de assistência social e voltassem pro nome
que usavam quando a minha mãe era moça. Naquela época, chamavam de
“apoio”. É muito melhor, como se fosse um respiro temporário enquanto você
se acerta. Além disso, aqueles funcionários da assistência social são umas pestes
de mesquinhos. Quando eu finalmente arrumei um emprego, não precisei mais
deles, ganhava mais dinheiro do que eles nunca ganharam. Acho que a
mesquinharia é que preenchia os cheques magrinhos deles, por isso que eles
tratavam a gente feito mendigo. Mais ainda quando olhavam pra Lula Ann e
depois pra mim: como se eu estivesse trapaceando, alguma coisa assim. As coisas
melhoraram, mas eu ainda tinha que tomar cuidado. Muito cuidado no jeito de
criar a menina. Tinha que ser firme, muito firme. A Lula Ann precisava
aprender a se comportar, a baixar a cabeça e não criar problema. A cor dela é
uma cruz que ela vai carregar pra sempre. Mas não é minha culpa. Não é
minha culpa. Não é minha culpa. Não é.
Bride

Estou com medo. Está acontecendo uma coisa ruim comigo. Sinto que estou
derretendo. Não sei explicar, mas sei bem quando começou. Começou quando
ele disse: “Você não é a mulher que eu quero”.
“Nem eu.”
Ainda não entendi por que eu disse aquilo. Simplesmente saiu da minha
boca. Mas quando ele ouviu a minha resposta petulante, me deu um olhar de
ódio antes de vestir a calça jeans. Aí pegou as botas e a camiseta e, quando eu
ouvi a porta bater, por um segundo pensei se ele estava só botando um fim na
nossa discussão boba ou botando um fim na gente, na nossa relação. Não podia
ser. A qualquer momento eu ia ouvir a chave girar, a porta abrir e fechar. Mas
não ouvi nada a noite inteira. Nada de nada. O quê? Eu não sou excitante? Não
sou bonita? Não posso pensar com a minha cabeça? Fazer coisas que ele não
aprova? De manhã, assim que eu levantei, estava furiosa. Contente dele ter ido
embora porque claro que ele só estava me usando porque eu tinha dinheiro e
uma xota. Fiquei com tanta raiva que, se você visse, ia pensar que eu tinha
passado seis meses com ele trancada numa cela sem acusação nem advogado e
de repente o juiz encerrou a coisa toda, arquivou o caso ou não quis ouvir mais
nada. De qualquer forma, me recusei a lamentar, choramingar ou acusar. Ele
falou uma coisa; eu concordei. Ele que se foda. Além disso, o nosso caso não era
assim tão espetacular, nem mesmo aquele sexo ligeiramente perigoso que eu
me permitia gostar. Bom, não tinha nada a ver com aquelas páginas duplas das
revistas de moda, sabe, um casal de pé seminu à beira-mar, com um ar tão feroz,
ruim mesmo, a sexualidade deles feito um raio e o céu escuro pra mostrar o
brilho da pele deles. Eu adoro esses anúncios. Mas o nosso caso não chegava
nem perto de uma velha música R&B, uma melodia com um ritmo inventado
pra provocar febre. Não era nem aquela letra piegas de um blues dos anos 30:
“Baby, baby, por que você me trata assim? Faço tudo o que quiser, vou aonde
me mandar”. Não sei dizer por que eu ficava comparando a gente com
anúncios de revista e músicas, mas eu ficava arrepiada quando ouvia “I Wanna
Dance with Somebody”.
No dia seguinte estava chovendo. Barulhos de tiro na janela e depois riscos
de água cristalina. Eu evitei a tentação de olhar, pela vidraça, a calçada lá
embaixo do condomínio. Além disso, eu sabia o que tinha lá: umas palmeiras
horrendas beirando a rua, bancos no parquinho enlameado, algum pedestre,
uma fatia de mar lá longe. Lutei contra qualquer vontade de que ele voltasse.
Quando um pinguinho de saudade vinha à tona, eu reagia. Por volta do meio-
dia, abri uma garrafa de Pinot Grigio e afundei no sofá, a camurça do
estofamento e a seda das almofadas confortáveis igual a qualquer abraço. Quase.
Pois eu tenho que admitir que ele é um homem bonito, perfeito mesmo, a não
ser por uma cicatriz pequena no lábio superior e uma feia no ombro: uma bolha
vermelho-alaranjada com um rabicho. Fora isso, da cabeça aos pés, ele é um
homem deslumbrante. Eu também não sou nada má, então imagino que casal a
gente formava. Depois de uns dois copos de vinho, eu estava meio tonta e
resolvi telefonar pra minha amiga Brooklyn e contar pra ela. Como ele tinha me
batido mais forte que um soco, com oito palavras: “Você não é a mulher que eu
quero”. Como isso tinha me abalado tanto que eu concordei. Que idiota. Mas
aí mudei de ideia sobre o telefonema. Sabe como é. Nada de novo. Ele
simplesmente foi embora e eu não sei por quê. Além disso, estava acontecendo
muita coisa no escritório pra eu preocupar a minha melhor amiga e colega com
a fofoca de mais um rompimento. Principalmente agora. Eu agora sou gerente
regional e isso é igual a ser um capitão, então tenho que manter o
relacionamento certo com a tripulação. A nossa companhia, a Sylvia, Inc., é
uma pequena empresa de cosméticos, mas está começando a dar frutos, a
aparecer, finalmente, e a se livrar de um passado deselegante. Era Sylph
Corpetes para Mulheres Exigentes nos anos 1940, mas mudou de nome e de
dona: Sylvia Indumentária, depois Sylvia, Inc., antes de entrar na moda de
repente com seis boas linhas de cosméticos, uma delas a minha. Pus o nome de
YOU, GIRL: Cosméticos para o Seu Milênio Pessoal. É pra moças e mulheres de
todas as cores, de ébano a limonada e a leite. E é minha, toda minha: a ideia, a
marca, a campanha.
Remexendo os dedos dos pés debaixo da almofada de seda, não consegui
deixar de sorrir pro sorriso de batom do meu cálice de vinho, e pensei: “Que tal,
Lula Ann? Você algum dia imaginou que ia crescer e ficar bacana assim, ou ter
tanto sucesso?”. Talvez ela fosse a mulher que ele queria. Mas Lula Ann
Bridewell não está mais disponível e nunca foi uma mulher. Lula Ann era eu
aos dezesseis anos quando joguei fora esse nome cafona, assim que saí do ensino
médio. Eu fui Ann Bride durante dois anos, até fazer a entrevista pra uma vaga
de vendedora na Sylvia, Inc., e tive um palpite e abreviei o meu nome pra
Bride, sem nada que ninguém precise falar antes ou depois dessa palavra
memorável. Os clientes e representantes gostaram, mas ele ignorou. Me
chamava de baby quase sempre. “Ei, baby.” “Ah, baby.” E às vezes de “minha
menina”, reforçando o “minha”. A única vez que ele falou “mulher” foi no dia
que rompeu.
Quanto mais vinho branco, mais eu achava que era bom ter me livrado.
Chega de brincadeira com um homem misterioso sem nenhum meio de vida
conhecido. Um ex-bandido, sem dúvida, se bem que ele dava risada quando eu
brincava com ele querendo saber o que fazia enquanto eu estava no escritório:
vagabundeava? Saía por aí? Ou se encontrava com alguém? Ele dizia que
quando ia à cidade sábado à tarde não era pra se apresentar a nenhum oficial de
condicional ou conselheiro de reabilitação de drogas. Mas nunca me contou
aonde ia. Eu contava absolutamente tudo de mim pra ele; ele não entregava
nada, então eu inventava coisas com roteiros de televisão: ele era um
informante com nova identidade, um advogado que perdeu a licença. Qualquer
coisa. Não importava.
Na verdade, a hora que ele foi embora foi perfeita pra mim. Com ele fora da
minha vida e do meu apartamento, eu podia me concentrar no lançamento da
YOU, GIRL e, tão importante quanto, cumprir a promessa que eu tinha feito a
mim mesma muito antes da gente se conhecer: nós brigamos por causa disso na
noite que ele falou “Você não é a mulher…”. Segundo o
prisoninfo.org/paroleboard/calendar, tinha chegado a hora. Eu estava
planejando essa viagem fazia um ano, resolvendo com todo cuidado o que
alguém em liberdade condicional podia precisar: economizei cinco mil dólares
em dinheiro ao longo dos anos e comprei um vale presente de três mil dólares
da Continental Airlines. Pus uma caixa promocional da YOU, GIRL numa sacola
de compras novinha da Louis Vuitton, tudo que pudesse levar aquela mulher a
qualquer lugar. De todo modo, confortar; ajudar a esquecer e tirar o peso da má
sorte, da desesperança e do tédio. Bom, talvez tédio não, nenhuma prisão é um
convento. Ele não entendeu por que eu estava tão decidida a ir e, na noite em
que nós brigamos por causa da minha promessa, ele fugiu. Acho que eu
ameacei o ego dele fazendo uma coisa de bom samaritano não dirigida a ele.
Egoísta filho da puta. Eu que pagava o aluguel, não ele, e a empregada
também. Quando a gente ia a boates e concertos, ia no meu lindo Jaguar ou em
carros que eu alugava. Comprei camisas bonitas pra ele, que ele nunca usava, e
eu fazia todas as compras. Além disso, promessa é promessa, principalmente se é
consigo mesmo.
Foi quando eu me vesti pra viagem que notei a primeira coisa esquisita.
Todos os meus pelos púbicos tinham sumido. Não sumido de raspado ou
depilado, mas apagado mesmo, como se nunca tivessem existido. Me assustou,
então passei a mão no cabelo pra ver se estava caindo, mas estava tão farto e liso
como sempre. Alergia? Doença de pele, talvez? Fiquei preocupada, mas não
dava tempo pra nada além de ficar ansiosa e não esquecer de ir a um
dermatologista. Eu tinha que pegar a estrada pra chegar na hora.
Talvez algumas pessoas gostem da paisagem que beira essa estrada, mas são
tantas pistas, saídas, estradas paralelas, viadutos, placas de alerta e sinalização
que é como ser forçado a ler um jornal enquanto se está dirigindo. Irritante. Ao
lado dos alertas cor de âmbar, estavam brotando alguns prateados e dourados.
Eu fiquei na pista da direita e reduzi a marcha, porque de outras viagens pra cá
eu sabia que a saída de Norristown era fácil de perder e a prisão não tem nem
sinal de existência no mundo até uns dois quilômetros depois da pista de saída.
Acho que não queriam que os turistas soubessem que uma parte do deserto
recuperado da Califórnia é famosa por guardar mulheres más. O Centro
Correcional para Mulheres Decagon, logo nos arredores de Norristown,
propriedade de uma companhia particular, era venerado pelos moradores locais
por causa dos empregos que fornecia: atendimento de visitantes, guardas,
funcionários da igreja, trabalhadores de lanchonete, pessoal de atendimento de
saúde e, acima de tudo, operários de construção que consertam a estrada e as
cercas, acrescentando alas e mais alas pra abrigar a onda crescente de mulheres
violentas e pecaminosas que cometem sangrentos crimes femininos. Pra sorte
do estado, o crime compensa.
Nas duas vezes que eu estive no Decagon antes, nunca tentei entrar, por uma
razão ou outra. Naquela época, eu só queria ver onde a Lady Monstra — era
assim que ela era chamada — tinha sido presa por quinze anos da sua sentença
de vinte e cinco a perpétua. Dessa vez era diferente. Ela tinha recebido
liberdade condicional e, segundo o noticiário legal, Sofia Huxley ia passar de
cabeça erguida pelas grades pra trás das quais eu empurrei essa mulher.
Era de se imaginar que, com tudo ali no Decagon girando em torno de
dinheiro corporativo, um Jaguar não fosse chamar atenção. Mas atrás dos ônibus
estacionados, dos Toyotas velhos e caminhões de segunda mão, meu carro,
brilhante, cinza-rato, com placa personalizada, parecia uma arma. Mas não tão
sinistro quanto as limusines brancas que já vi estacionadas lá: motores roncando,
motoristas apoiados nos para-lamas brilhantes. Me diga, quem precisa de um
motorista correndo pra abrir a porta e escapar depressa? Uma grande madame
impaciente pra voltar aos lençóis de grife no seu requintado bordel de alta
classe? Ou talvez alguma vagabundinha adolescente louca pra voltar pra pista
de alguma boate exclusiva, suntuosa e degenerada onde poderia comemorar sua
libertação entre amigos rasgando a roupa de baixo fornecida pela prisão. Nada
de produtos da Sylvia, Inc. pra ela. A nossa linha de produtos é bem sexy, mas
não cara o suficiente. Como todo lixo sexual, a vagabundinha devia pensar que,
quanto mais alto o preço, melhor a qualidade. Se ela soubesse. Mesmo assim,
ela era capaz de comprar alguma sombra cintilante ou brilho labial com flocos
dourados da YOU, GIRL.
Nada de limusines hoje, a menos que se possa levar em conta o sedã Lincoln.
A maior parte era de Toyotas usados e velhos Chevrolets, adultos silenciosos e
crianças agitadas. Um velho sentado no ponto de ônibus está caçando dentro de
uma caixa de salgadinhos Cheerios, tentando encontrar o último círculo de
farelo de aveia doce. Está com sapatos tipo Oxford, antigos, e calça jeans nova
em folha. O boné de beisebol, o colete marrom por cima da camisa branca
gritando que são da loja do Exército da Salvação, mas a atitude dele é altiva,
afetada até. De pernas cruzadas, examina o pedacinho de cereal seco como se
fosse uma uva selecionada colhida especialmente pra ele por agricultores do
reino.
Quatro horas; não falta muito agora. Huxley, Sofia, também conhecida como
0071140, não vai ser posta em liberdade durante o horário de visita. Às quatro e
meia em ponto só resta o sedã, provavelmente propriedade de um advogado
com pasta de crocodilo cheia de papéis, dinheiro e cigarros. Os cigarros pra seu
cliente, o dinheiro pras testemunhas, os papéis pra parecer que ele está
trabalhando.
“Tudo bem, Lula Ann?” A voz da promotora era macia, animadora, mas eu
mal consegui ouvir. “Não tem do que ter medo. Ela não pode te machucar.”
Não, não pode e, droga, ali está ela. Número 0071140. Mesmo depois de
quinze anos, ela era inconfundível pra mim simplesmente por causa da
estatura, no mínimo um metro e oitenta. Nada encolheu a gigante que eu
lembro que era mais alta que o meirinho, que o juiz, que os advogados e quase
tão alta quanto os policiais. Só aquele outro monstro do marido dela combinava
com essa estatura. Ninguém duvidava que ela fosse a imensa aberração que os
pais, tremendo de raiva, diziam que era. “Olhe os olhos dela”, eles sussurravam.
Por todo o tribunal, no banheiro das mulheres, nos bancos encostados na
parede, sussurravam: “Fria feito uma cobra, ela”. “Vinte anos? Como alguém de
vinte anos de idade pode fazer aquelas coisas com crianças?” “Está brincando?
Basta olhar nos olhos dela. Mais velhos que a terra.” “O meu menino nunca vai
superar.” “Demônia.” “Vaca.”
Agora aqueles olhos mais parecem de coelho que de cobra, mas a estatura é a
mesma. Todo o resto mudou. Está magra como uma vareta. Calça tamanho P;
sutiã 38, se é que usa. E ela bem que precisava de um GlamGlo. Antirrugas
Formalize e Bronze Picante dariam um pouco de cor àquela pele leitosa.
Ao descer do Jaguar, não me preocupa nem me importa saber se ela me
reconhece. Só vou até ela e pergunto: “Quer uma carona?”.
Ela me dá um olhar rápido, desinteressado, e desvia os olhos pra estrada.
“Não precisa, não.”
A boca está trêmula. Costumava ser dura, uma navalha reta e afiada pra
cortar um menino. Um pouco de botox e um toque de Tango-Matte, sem
glitter, teriam amaciado aqueles lábios e talvez influenciado o júri a favor dela,
só que não existia YOU, GIRL naquela época.
“Alguém vem te buscar?”, sorrio.
“Táxi”, ela responde.
Engraçado, ela está respondendo educadamente a uma estranha como se
estivesse acostumada a isso. Não “o que você tem com isso?” nem “quem é
você, pô?”, mas continua e explica: “Chamei um táxi. Quer dizer, a portaria
chamou”.
Quando chego perto e estendo a mão pra tocar o seu braço, o táxi aparece e
depressa como uma bala ela pega o fecho, joga pra dentro a malinha de viagem
e bate a porta. Eu esmurro o vidro, grito “Espere! Espere!”. Tarde demais. O
motorista faz a curva em U como um profissional da NASCAR.
Corro pro Jaguar. Não é difícil seguir o táxi. Chego até a ultrapassar o carro
pra disfarçar o fato de estar indo atrás dela. Isso acaba sendo um erro. No
momento em que estou pra entrar na rampa de saída, vejo o táxi se afastar de
mim na direção de Norristown. O cascalho crepita debaixo das rodas quando
freio, dou ré e vou atrás deles. A estrada de Norristown tem casas boas,
uniformes, construídas nos anos 50, e repetidas, multiplicadas — uma varanda
lateral fechada, garagem ampliada pra dois carros, quintal. A estrada parece um
desenho de jardim da infância de casas azul-claro, brancas e amarelas com
portas verde-pinho ou vermelho-beterraba, instaladas altivamente em amplos
gramados. Só falta um sol de panqueca com raios espetados em torno dele todo.
Além das casas, perto de um shopping pálido e triste como cerveja “light”, uma
placa anuncia o começo da cidade. Ao lado dela, uma placa maior do Motel e
Restaurante Eva Dean. O táxi vira e para na entrada. Ela desce e paga o
motorista. Eu vou atrás e estaciono bem longe, perto do restaurante. Só um
outro carro no estacionamento — um utilitário esportivo preto. Tenho certeza
que ela vai se encontrar com alguém, mas depois de uns minutos na frente do
balcão da recepção, ela entra direto no restaurante e senta perto da janela.
Observo com toda clareza enquanto ela estuda o menu feito alguém que corrige
um texto ou uma estudante de inglês como segunda língua — mexendo os
lábios ao ler, acompanhando as linhas com o dedo. Que mudança. Essa é a
professora que fazia os alunos do jardim de infância cortarem anéis de maçãs
pra fazer a forma do O, distribuía pretzels como Bs, esculpia pedaços de melão
em forma de Y. Tudo pra soletrar BOY — dos quais ela gostava mais, segundo as
fofoqueiras diante das pias no banheiro das mulheres. Fruta como isca foi uma
parte importante dos testemunhos do julgamento.
Olhe como ela come. A garçonete serve prato após prato na frente dela. Faz
sentido, de certa forma, essa primeira refeição fora da prisão. Ela devora tudo
como uma refugiada, como alguém que ficou boiando no mar sem comida nem
água durante semanas e estava a ponto de se perguntar que mal faria ao
companheiro que estava morrendo experimentar a carne dele antes que
murchasse. Ela não tira os olhos da comida, espeta, corta, catando dos pratos
todos. Não toma água, não passa manteiga no pão, como se nada devesse atrasar
a corrida alimentícia. A coisa toda termina em dez, doze minutos. Então ela
paga, sai e vai depressa pela calçada. E agora? Chave na mão, sacola no ombro,
ela para e vira num espaço entre duas paredes de estuque. Saio do carro e ando
depressa atrás dela até ouvir o som de golfadas de vômito. Então me escondo
atrás do utilitário esportivo até ela sair.
Na porta que ela destranca está pintado 3-A. Estou pronta. Cuido pras
minhas batidas soarem firmes, fortes, mas não ameaçadoras.
“Pois não.” A voz dela é trêmula, o som humilde de alguém treinado a
obediência automática.
“Sra. Huxley. Abra a porta, por favor.”
Há um silêncio e depois: “Eu, hã… estou passando um pouco mal”.
“Eu sei”, digo, com um traço de censura na voz, na esperança de que ela
pense que se trata do mal que ela deixou na calçada. “Abra a porta.”
Ela abre e fica ali parada, descalça, com uma toalha na mão. Enxuga a boca.
“Pois não.”
“Precisamos ter uma conversa.”
“Conversa?” Ela pisca depressa, mas não faz a pergunta real: “Quem é
você?”.
Passo por ela, a sacola Louis Vuitton na frente. “Você é a Sofia Huxley,
certo?”
Ela faz que sim. Um pequeno brilho de medo nos olhos. Eu sou negra como
a noite e estou vestida toda de branco, então ela talvez ache que é um uniforme
e que sou algum tipo de autoridade. “Vamos sentar. Tenho uma coisa pra você.”
Ela não olha nem a bolsa nem o meu rosto; olha os meus sapatos com os saltos
altos letais e a ponta fina perigosa.
“O que a senhora quer comigo?”, ela pergunta.
Uma voz tão macia e receptiva. Que sabe que, depois de quinze anos atrás
das grades, nada é de graça. Ninguém dá nada sem preço pra quem recebe. Seja
o que for — cigarros, revistas, absorventes, selos, barras de chocolate ou um pote
de manteiga de amendoim —, tudo vem com fios, igual a uma vara de pescar.
“Nada. Não quero nada de você.”
Agora os olhos dela sobem do meu sapato pro meu rosto, olhos opacos, sem
questionamento. Então respondo à pergunta que uma pessoa normal teria feito.
“Vi você sair do Decagon. Não tinha ninguém te esperando. Ofereci uma
carona.”
“Era a senhora?” Ela franze a testa.
“Eu, sim.”
“Eu conheço a senhora?”
“O meu nome é Bride.”
Ela aperta os olhos. “Será que eu estou esquecendo alguma coisa?”
“Não”, digo, e sorrio. “Olhe o que eu trouxe pra você.” Não resisto e ponho a
bolsa em cima da cama. Tiro o que tem dentro e, em cima do pacote de brindes
da YOU, GIRL, ponho dois envelopes — o mais magro com o vale da companhia
aérea e o mais gordo com cinco mil dólares. Cerca de duzentos dólares pra cada
ano, se ela tivesse cumprido a pena toda.
Sofia fica olhando aquilo como se as coisas estivessem contaminadas. “Por
que tudo isso?”
Eu me pergunto se a prisão fez algum mal pra cabeça dela. “Tudo bem”,
digo. “Só umas coisas pra te ajudar.”
“Ajudar como?”
“Um bom começo. Sabe? Na sua vida.”
“Minha vida?” Algo está errado. Ela fala como se precisasse ser apresentada
ao mundo.
“É”, ainda estou sorrindo. “A sua nova vida.”
“Por quê? Quem mandou a senhora?” Ela agora parece interessada, não
temerosa.
“Acho que você não lembra de mim.” Encolho os ombros. “Por que
lembraria? Lula Ann. Lula Ann Bridewell. No julgamento? Eu fui uma das
crianças que…”
Procuro com a língua no meio do sangue. Os meus dentes estão todos no
lugar, mas parece que não consigo levantar. Sinto a pálpebra esquerda fechando
e o braço direito amortecido. A porta se abre e ela atira em cima de mim todos
os presentes que eu trouxe, um a um, inclusive a sacola Vuitton. A porta bate,
depois abre de novo. O meu sapato preto de salto agulha aterrissa nas minhas
costas e rola até o braço esquerdo. Estendo a mão e fico aliviada quando vejo
que, ao contrário do direito, esse eu consigo mexer. Tento gritar “socorro”, mas
a minha boca não é mais minha. Avanço uns metros, de quatro, tento levantar.
As minhas pernas funcionam, então recolho os presentes, ponho dentro da
sacola e com um pé do sapato calçado, outro perdido, vou mancando até o
carro. Não sinto nada. Não penso nada. Até ver o meu rosto no espelhinho
lateral. A minha boca parece que foi recheada com fígado cru; toda a lateral do
meu rosto com a pele raspada; meu olho direito é um cogumelo. Tudo o que eu
quero é sair dali — nada de 911; demora demais e não quero nenhum gerente
de motel ignorante olhando pra mim. Polícia. Esta cidade deve ter. Ligar o
carro, engatar a marcha, exige concentração dirigir com a mão esquerda, a
outra morta em cima da coxa. Toda concentração. Então só quando entro mais
em Norristown e vejo uma placa com uma seta apontando a delegacia é que me
ocorre: os policiais vão fazer um boletim de ocorrência, interrogar a acusada e
tirar uma foto do meu rosto destruído como prova. E se o jornal local fizer uma
matéria com a minha foto? A vergonha não ia ser nada perto das piadas com a
YOU, GIRL. De YOU, GIRL pra BUUUU, GIRL.
Com as marteladas de dor é difícil pegar o celular e ligar pra Brooklyn, a
única pessoa em quem eu confio. Totalmente.
Brooklyn

Ela está mentindo. Estamos nessa espelunca dessa clínica depois que eu
passei duas horas dirigindo pra encontrar essa cidade caipira e localizei o carro
dela estacionado nos fundos de uma delegacia fechada. Claro que está fechada;
é domingo, só as igrejas e o Walmart ficam abertos. Ela estava histérica quando
eu cheguei, ensanguentada e chorando por um olho só, o outro inchado demais
pra lacrimejar. Coitada. Alguém estragou um daqueles olhos, olhos que
assustavam todo mundo com a sua estranheza — grandes, amendoados,
ligeiramente velados e de uma cor estranha, considerando o quanto a pele dela
é preta. Olhos de alienígena, eu falo, mas os caras acham deslumbrantes, claro.
Bom, quando encontro essa pequena clínica de emergência na frente do
estacionamento do shopping, tenho que ajudar pra ela conseguir andar. Ela
manca, com um sapato só. Finalmente conseguimos chamar a atenção de uma
enfermeira de olho esbugalhado. Ela se assusta com nós duas: uma moça
branca com dreads loiros, outra muito negra com cachos sedosos. Leva uma
eternidade pra assinar coisas e mostrar cartões do seguro. Aí a gente senta e
espera o médico plantonista que mora, sei lá, longe em alguma outra cidade
vagabunda. A Bride não diz nem uma palavra enquanto eu dirijo até aqui, mas
na sala de espera ela começa a mentira.
“Estou acabada”, ela sussurra.
Eu digo: “Não está, não. Dá um tempo. Lembra como a Grace ficou quando
ela se esticou?”.
“A pessoa que mexeu com a cara dela era cirurgião”, Bride responde. “A que
mexeu com a minha é maluca.”
Eu insisto. “Então, me conte. O que aconteceu, Bride? Quem era ele?”
“Quem era quem?” Ela toca o nariz delicadamente, respirando pela boca.
“O cara que te bateu até quase te matar.”
Ela tosse um pouco, dou pra ela um lenço de papel. “Eu falei que foi um
cara? Não lembro de ter falado que foi um cara.”
“Vai me dizer que foi uma mulher que fez isso aí?”
“Não”, ela diz. “Foi um cara.”
“Ele tentou te estuprar?”
“Acho que sim. Mas se assustou com alguém, acho. Me bateu e se mandou.”
Entende o que eu digo? Nem ao menos uma mentira boa. Eu forço um
pouco mais. “Ele não levou a sua bolsa, carteira, nada?”
Ela resmunga: “Escoteiro, acho”. Está com os lábios inchados e a língua não
consegue pronunciar consoantes, mas ela tenta sorrir da própria piada idiota.
“E por que a pessoa que assustou o cara não ficou e ajudou você?”
“Não sei! Não sei! Não sei!”
Ela está gritando e fingindo que chora, então eu recuo. O único olho aberto
dela não aguenta isso e a boca deve doer demais pra continuar. Durante cinco
minutos eu não digo nem uma palavra, só folheio as páginas de uma revista
Seleções: aí, tento fazer a minha voz soar o mais normal e conversadeira
possível. Resolvo não perguntar por que me chamou em vez de chamar o
amante dela.
“O que você estava fazendo aqui, afinal?”
“Vim ver uma pessoa amiga.” Ela se curva, como sentisse dor no estômago.
“Em Norristown? Mora aqui?”
“Não. Aqui perto.”
“E encontrou com ele?”
“Ela. Não. Não consegui encontrar com ela.”
“Quem é?”
“Uma pessoa de muito tempo atrás. Ela não estava. Já deve ter morrido.”
Ela sabe que eu sei que está mentindo. Por que um agressor não levaria o
dinheiro? Alguém sacudiu os miolos dela, senão por que ela haveria de me
contar essas mentiras fodidas? Acho que ela não está nem aí pro que eu penso.
Quando enfiei a sainha branca e o top na sacola de compras, encontrei
cinquenta notas de cem dólares amarradas com elástico, um vale passagem
aérea e amostras da YOU, GIRL que ainda nem foram lançadas. O.k.? Nenhum
estuprador ia querer Brilho Nude Skin, mas dinheiro vivo? Resolvo deixar pra lá
e esperar até ela ser examinada pelo médico.
Depois, quando a Bride ergue o espelho do meu pó compacto até o rosto, sei
que o que ela vê vai partir o seu coração. Um quarto do rosto dela está bom; o
resto está esburacado. Pontos pretos feios, olho inchado, a testa enfaixada, os
lábios tão ubangi que ela não consegue nem pronunciar o v de carne viva, que é
como está a pele dela — toda vermelha e roxa. O pior de tudo é o nariz — as
narinas largas como de um orangotango debaixo de um curativo do tamanho de
um bagel. O lindo olho que não está machucado parece baixar, congestionado,
praticamente morto.
Eu não devia estar pensando assim. Mas o posto dela na Sylvia, Inc. pode ir
pro espaço. Como ela pode convencer as mulheres a melhorar de aparência
com os produtos que não melhoram a dela? Não existe base YOU, GIRL suficiente
no mundo pra esconder a cicatriz dos olhos, o nariz quebrado nem a pele
raspada até a hipoderme cor-de-rosa. Supondo que grande parte dos danos
desapareça, ela ainda vai precisar de cirurgia plástica, o que quer dizer semanas
e semanas parada, escondida atrás de óculos e chapéus de aba mole. Pode ser
que me peçam pra assumir. Provisoriamente, claro.
“Não consigo comer. Não consigo andar. Não consigo pensar.”
A voz dela está chorosa e ela treme.
Passo o braço em torno dela e sussurro: “Ô, minha amiga, nada de
choramingar. Vamos embora dessa espelunca. Eles não têm nem quarto
individual, aquela enfermeira estava com alface nos dentes e duvido que tenha
lavado a mão desde que se formou naquele curso de enfermagem que fez pela
internet”.
A Bride para de tremer, arruma a tipoia do braço direito e me pergunta:
“Acha que aquele médico fez tudo direito?”.
“Quem sabe?”, digo. “Nessa clínica de estacionamento de trailer? Vou te
levar pra um hospital de verdade — com privada e pia no quarto.”
“Eles não precisam me dar alta?” Ela parece uma menina de dez anos.
“Faça-me o favor. Nós vamos embora. Agora. Olhe o que eu trouxe enquanto
cuidavam de você. Doces e sandália de dedo. Nenhum hospital decente por
aqui, mas um Walmart muito respeitável. Vamos. Apoie em mim. Onde é que a
Florence Nightingale botou as suas coisas? A gente compra uns picolés ou uma
raspadinha de fruta pelo caminho. Ou um milk-shake. Talvez seja o melhor
remédio — ou suco de tomate, canja de galinha, quem sabe.”
Estou toda atrapalhada, mexendo com comprimidos e roupas enquanto ela
segura aquela feia camisola florida do hospital. “Ah, Bride”, eu digo, mas a
minha voz fraqueja, “não fique assim — vai dar tudo certo.”
Tenho que dirigir devagar; cada sacudida ou mudança de direção de repente
faz ela gemer ou grunhir. Tento fazer com que não pense na dor.
“Não sabia que você tinha vinte e três anos. Achei que tinha a minha idade,
vinte e um. Eu vi na sua carteira de motorista. Sabe, quando estava procurando
o seu cartão do seguro-saúde.”
A Bride não responde, então continuo tentando arrancar dela um sorriso.
“Mas o seu olho bom parece que tem vinte aninhos.”
Não funciona. Que diabo. Parecia que eu estava falando sozinha. Resolvi só
deixar ela em casa e acomodada. Vou cuidar de tudo no trabalho. A Bride vai
ficar de licença um bom tempo, alguém tem que assumir as responsabilidades
dela. E quem sabe no que pode dar isso.
Bride

Ela era uma monstra mesmo. A Sofia Huxley. A mudança rápida de ex-
presidiária obediente pra jacaré furioso. De fala mansa pra unhas e dentes. De
molenga pra violenta. Não vi sinal nenhum — nenhum brilho no olho, nem
contração do pescoço, nem ombro encolhido, nem lábio afastado mostrando os
dentes. Nada anunciou o ataque dela. Não vou esquecer nunca, e mesmo que
eu tentasse, as cicatrizes, sem falar da vergonha, não deixam esquecer.
A memória é a pior coisa enquanto a gente está sarando. Fico por aqui o dia
inteiro, sem nada urgente pra fazer. A Brooklyn se encarregou de explicar no
escritório: a tentativa de estupro, frustrada, blá, blá. Ela é amiga de verdade e
não me incomoda como aquelas falsas que vêm aqui só pra me olhar e ficar
com pena. Não consigo assistir televisão; é tão chato — quase só sangue, batom
e as ancas das âncoras. O que passa por notícia são ou fofocas ou uma
conferência de mentiras. Como eu posso levar a sério um filme de crime
quando as mulheres detetives perseguem assassinos com saltos Louboutin?
Quanto a leitura, as letras me deixam tonta, e por alguma razão não gosto mais
de ouvir música. Cantada, tanto as bonitas como as medíocres me deixam
deprimida, e instrumental é pior. Além disso, aconteceu alguma coisa com a
minha língua, porque as papilas desapareceram. Tudo tem gosto de limão —
menos limão, que tem gosto de sal. Vinho é um desperdício, já que o Vicodin
me dá um torpor mais pesado, mais confortável.
A vaca nem me escutou. Eu não fui a única testemunha que transformou a
Sofia Huxley na 0071140. Teve uma porção de outras testemunhas dos abusos
dela. Pelo menos mais quatro crianças testemunharam. Não ouvi o que elas
diziam porque estavam tremendo e chorando quando saíram do tribunal. A
assistente social e a psicóloga que orientavam a gente abraçaram todas elas,
sussurrando “Tudo bem. Você foi muito bem”. Nenhuma me abraçou, mas
sorriram pra mim. Parece que a Sofia Huxley não tem família. Bom, tem um
marido que está em outra prisão e ainda sem condicional depois de sete
tentativas. Não tinha ninguém lá esperando por ela. Ninguém. Então por que
não aceitou ajuda em vez de algum emprego de balconista ou faxineira que
podem ter arrumado pra ela? Ricos em liberdade condicional não acabam
lavando privada na lanchonete Wendy.
Eu tinha só oito anos, ainda era a pequena Lula Ann, quando ergui o braço e
apontei o dedo pra ela.
“A mulher que você viu se encontra nesta sala?” A advogada tem cheiro de
tabaco.
Faço que sim com a cabeça.
“Tem que falar, Lula. Diga ‘sim’ ou ‘não’.”
“Sim.”
“Pode mostrar onde ela está sentada?”
Fico com medo de derrubar o copo de água de papel que a advogada me
deu.
“Calma”, diz a promotora. “Não tenha pressa.”
E eu não me apressei. A minha mão era um punho fechado até o braço
esticar. Então desdobrei o indicador. Pou! Como um revólver de espoleta. A sra.
Huxley olhou pra mim e abriu a boca como se fosse dizer alguma coisa. Parecia
chocada, sem poder acreditar. Mas o meu dedo ainda apontava, apontou tanto
tempo que a promotora teve que tocar a minha mão e dizer “obrigada, Lula” pra
me fazer baixar o braço. Olhei pra Mel; ela estava sorrindo como eu nunca
tinha visto ela sorrir — com a boca e com os olhos. E isso não era tudo. Fora do
tribunal, todas as mães sorriram pra mim e duas chegaram a me tocar e abraçar.
Pais fizeram o gesto de polegar erguido pra mim. Mas a melhor foi a Mel.
Quando nós descemos a escadaria do tribunal, ela pegou a minha mão, a minha
mão. Nunca tinha feito isso antes e me surpreendeu, me deixou satisfeita ao
mesmo tempo porque eu sabia que ela não gostava de tocar em mim. Eu
percebia. A repulsa aparecia na cara dela toda quando eu era pequena e ela
tinha que me dar banho. Enxaguar, na verdade, depois de uma esfregadela de
qualquer jeito com uma toalha ensaboada. Eu rezava pra ela me dar uma
bofetada ou uma surra só pra sentir o toque. Fazia uns errinhos de propósito,
mas ela achava jeitos de me castigar sem ter que tocar a pele que ela odiava — ir
dormir sem jantar, me trancar no quarto — o pior era quando ela gritava
comigo. Quando impera o medo, obedecer é a única opção de sobrevivência. E
eu era boa nisso. Me comportava, comportava e comportava. Assustada como
eu estava de aparecer no tribunal, fiz o que os professores-psicólogos esperavam
de mim. Brilhantemente, eu sei, porque depois do julgamento a Mel ficou
maternal.
Não sei. Talvez eu esteja mais brava comigo mesma do que com a sra.
Huxley. Voltei a ser aquela Lula Ann que nunca reagia. Nunca. Só ficava lá
parada, enquanto ela batia até cansar. Eu podia ter morrido no chão daquele
quarto de motel se a cara dela não tivesse ficado vermelha de cansaço. Eu não
soltei nem um gemido, nem levantei a mão pra me proteger quando ela bateu
na minha cara, depois me esmurrou as costelas, antes de arrebentar o meu
queixo com um soco e dar uma cabeçada na minha testa. Ela estava ofegando
quando me arrastou e jogou pra fora da porta. Ainda sinto os dedos duros dela
agarrando o meu cabelo pela nuca, o pé dela no meu traseiro, e ainda escuto o
estalo dos ossos batendo no concreto. Cotovelo, queixo. Sinto os meus braços
escorregando, tentando me equilibrar. Depois a minha língua procurando no
meio do sangue se achava os dentes. Quando a porta bateu e depois abriu de
novo pra ela me jogar o sapato, eu saí rastejando como um cachorrinho
espancado, com medo até de gemer.
Talvez ele tenha razão. Eu não sou a mulher. Quando ele foi embora, eu dei
de ombros e fingi que não tinha importância.
A espuma que sai do aerossol fazia ele dar risada, então ele ensaboava o rosto
com sabão e um pincel, uma coisa linda de pelo de javali saindo de um cabo de
marfim. Acho que está no lixo, junto com a escova de dentes, o couro de afiar e
a navalha. As coisas que ele deixou são vivas demais. É hora de jogar tudo fora.
Ele deixou tudo: objetos de toalete, roupas e uma sacola de pano com dois
livros, um numa língua estrangeira, outro um livro de poemas. Eu joguei tudo,
depois catei do lixo e peguei o pincel de barba e a navalha com cabo de osso.
Pus as duas coisas no armarinho de remédios e quando fechei a porta vi a minha
cara no espelho.
“Você devia usar sempre branco, Bride. Só branco e tudo branco o tempo
inteiro.” O Jeri, que se dizia designer da “pessoa total”, insistia. Quando me
preparei pra segunda entrevista na Sylvia, Inc., fiz uma consulta com ele.
“Não só por causa do seu nome”, ele disse, “mas por causa do efeito com a
sua pele de alcaçuz”, ele disse. “E preto é o novo preto. Está entendendo? Olhe.
Você é mais xarope da Hershey’s do que alcaçuz. Faz as pessoas pensarem em
chantili com suflê de chocolate cada vez que te veem.”
Isso me fez dar risada. “Ou bolacha Oreo?”
“Nunca. Uma coisa de classe. Bombons. Feitos à mão.”
No começo, foi chato comprar só roupa branca, até eu aprender quantos tons
de branco existem: marfim, ostra, alabastro, branco-papel, neve, creme, cru,
champanhe, fantasma, osso. As compras ficaram ainda mais interessantes
quando comecei a escolher acessórios com cores.
Jeri me aconselhou, disse: “Escute, baby Bride. Se você precisa de um toque
de cor, limite-se a sapato e bolsa, mas eu ficaria com ambos pretos quando não
der mesmo pra ser branco. E não esqueça: nada de maquiagem. Nem batom,
nem delineador. Nada”.
Perguntei de joias. Ouro? Diamantes? Um broche de esmeralda?
“Não. Não.” Ele ergueu as mãos. “Nenhuma joia. Um brinco de pérola
solitária, quem sabe. Não. Nem isso. Só você, menina: you, girl. Toda zibelina e
gelo. Uma pantera na neve. E com o seu corpo? E esses olhos de carcaju? Faça-
me o favor!”
Segui o conselho dele e funcionou. Aonde quer que eu fosse, ganhava
sempre um segundo olhar, mas não como aqueles de ligeira aversão que recebia
quando era criança. Esses eram olhares de adoração, surpresos, mas famintos.
Além disso, sem que ele soubesse, o Jeri tinha me dado o nome pra uma linha
de produtos. YOU, GIRL.
Meu rosto parece quase novo no espelho. Os lábios voltaram ao normal;
assim como o nariz e o olho. Só a região das costelas ainda está dolorida, e, pra
minha surpresa, a pele esfolada do rosto foi a que cicatrizou mais depressa. Eu
estou quase bonita de novo, então por que ainda estou triste? Num impulso,
abro o armarinho do banheiro e pego o pincel de barba dele. Passo o dedo. O
pelo sedoso é ao mesmo tempo provocante e calmante. Levo o pincel ao queixo,
esfrego como ele fazia. Passo na parte debaixo do queixo, depois subo até os
lóbulos da orelha. Por alguma razão, fico tonta. Sabão. Preciso de espuma.
Rasgo uma caixa elegante que contém um tubo de espuma corporal “para a
pele que ele adora”. Espremo um pouco na saboneteira e molho o pincel. Ao
espalhar a espuma no rosto, fico sem ar. Ensaboo as bochechas, debaixo do
nariz. Eu sei que é uma loucura, mas olho o meu rosto. Os meus olhos parecem
maiores e brilhantes. O meu nariz não só cicatrizou como está perfeito, e os
meus lábios no meio da espuma branca parecem tão realmente beijáveis que
toco neles com a ponta do dedo mínimo. Não quero parar, mas preciso. Pego a
navalha. Como é que ele segurava? Um arranjo de dedos que não me lembro.
Vou ter que praticar. Por enquanto, uso o lado sem corte e abro trilhas de
chocolate escuro nas ondas de espuma branca. Jogo água e enxáguo o rosto. A
satisfação em seguida é tão doce.
Isso de trabalhar em casa não é tão ruim como eu pensei que fosse. Ainda
tenho autoridade, se bem que a Brooklyn se adianta e até contraria umas
decisões minhas. Eu não ligo. Sorte minha ela me dar uma força. Além disso,
quando fico deprimida, a cura está guardadinha num canto onde fica o
equipamento de barbear dele. Enquanto faço espuma com água morna, mal
posso esperar o pincel e depois a navalha, a combinação dos dois me excita e
acalma ao mesmo tempo. Me faz lembrar sem dor dos momentos em que
caçoaram de mim e me magoaram.
“Ela é meio bonitinha debaixo daquele pretume todo.” Os vizinhos e as filhas
concordavam. A Mel nunca ia em reunião de pais e mestres nem em jogos de
vôlei. Me estimularam a fazer cursos de administração e não tomar o rumo
acadêmico, faculdade comunitária em vez das universidades estaduais de quatro
anos. Não fiz nada disso. Depois de não sei quantas recusas, finalmente
consegui um trabalho em estoque — nunca vendas, onde os clientes me
veriam. Eu queria o balcão de cosméticos, mas não tinha coragem de pedir.
Consegui chegar a compradora só depois que moças brancas mais burras que
uma porta conseguiam promoções e se davam tão mal que aceitaram alguém
que realmente entendia de estoque. Até mesmo a entrevista na Sylvia, Inc.
começou mal. Questionaram o meu estilo, a minha roupa, mandaram voltar
mais tarde. Foi quando eu consultei o Jeri. Depois, andando pelo corredor até a
sala do entrevistador, eu vi o efeito que estava produzindo: olhos arregalados de
admiração, sorrisos, sussurros: “Nossa!”. “Oh, baby.” Não demorou nada e eu
disparei pra gerente regional. “Viu?”, o Jeri falou. “Preto vende. É a commodity
mais quente do mundo civilizado. Garotas brancas, até garotas escuras precisam
ficar peladas pra conseguir chamar essa atenção.”
Verdade ou não, isso me fez, me refez. Comecei a me mexer de outro jeito
— não empertigada, sem aquela pressa da pelve de quem está fugindo —, mas
um passo largo, lento, focado. Os homens pulavam em cima e eu deixava me
pegarem. Por algum tempo, pelo menos, até a minha vida sexual virar uma
espécie de Diet Coke — engana que é doce mas não alimenta. Mais como um
jogo de PlayStation imitando a alegria segura da violência virtual e tão breve
quanto. Todos os meus namorados eram tipos: pretendentes a ator, rappers,
atletas profissionais, jogadores atrás da minha xoxota ou do meu talão de
cheques como uma mesada; outros, já tendo conseguido, me tratavam como
uma medalha, uma prova calada e brilhante da potência deles. Nenhum deles
era generoso, atencioso — nenhum interessado no que eu pensava, só na minha
aparência. Brincando ou falando comigo como criancinha no que eu acreditava
ser uma conversa séria antes deles encontrarem mais enfeite pros seus egos em
outro lugar. Me lembro bem de um certo encontro, um estudante de medicina
que me convenceu a ir com ele visitar a casa dos pais no Norte. Assim que ele
me apresentou, ficou claro que ele queria assustar a família, um jeito de
ameaçar aquele velho casal branco e bondoso.
“Ela não é linda?”, ele ficava repetindo. “Olhe só pra ela! Mãe? Pai?” Os
olhos brilhando de malícia.
Mas eles tiveram muito mais classe do que ele, com o seu acolhimento —
por mais falso que fosse — e gentileza. Óbvio que ele ficou decepcionado, a
raiva mal reprimida. Os pais chegaram a me levar de carro até a estação de
trem, provavelmente pra eu não ter que aguentar a fracassada piada racista dele
com os velhos. Eu fiquei aliviada, mesmo sabendo o que a mãe fez com a xícara
de chá que eu usei.
Esse era o panorama quanto aos homens.
Depois ele. Booker. Booker Starbern.
Não quero pensar nele agora. Nem no quanto tudo agora parece trivial e sem
vida. Não quero lembrar o quanto ele é bonito, perfeito, a não ser pela cicatriz
feia de queimadura no ombro. Eu acariciava cada centímetro daquela pele
dourada, chupava os lóbulos das orelhas. Sei como são os pelos da axila dele;
passava o dedo na covinha do lábio superior; despejava vinho tinto no umbigo e
bebia o que escorria. Não tem nenhum lugar do meu corpo que a boca dele
não tenha transformado em raios de tempestade. Ah, meu Deus. Tenho que
parar de reviver o jeito que a gente fazia amor. Tenho que esquecer como
parecia novo toda vez, ao mesmo tempo cheio de frescor e eterno. Eu sou
desafinada, mas trepar com ele me fazia cantar e então, e então do nada: “Você
não é a mulher…”, antes de desaparecer feito um fantasma.
Dispensada.
Apagada.
Até a Sofia Huxley, até ela me apagou. Uma presidiária. Uma presidiária! Ela
podia ter dito “Não, obrigada” ou até “Fora daqui!”. Não. Ela partiu pra
violência. Talvez briga de soco seja a língua falada na prisão. Em vez de
palavras, a conversa de presidiária é osso quebrado e sangue derramado. Não sei
o que é pior, ser jogada no lixo ou espancada feito escrava.
Nós almoçamos no meu escritório na véspera da separação — salada de
lagosta, água aromatizada, fatias de pêssego ao conhaque. Ah, pare. Não posso
ficar pensando nele. E estou ficando maluca rodando por estas salas. Luz
demais, espaço demais, solidão demais. Tenho que pôr uma roupa e sair daqui.
Fazer o que a Brooklyn vive insistindo comigo: esquecer óculos escuros, chapéu
de aba mole, me mostrar, viver a vida como a vida é de verdade. Ela deve saber;
está tomando posse da Sylvia, Inc.
Escolho com cuidado: short branco-osso e top, sandália anabela de corda e
palha, sacola bege de lona onde jogo o pincel de barba, no caso de precisar.
Revista Elle e óculos escuros também. A Brooklyn bem que aprovaria, apesar de
eu só estar indo a dois quarteirões, até um parque usado principalmente por
gente que passeia com cachorro e velhos a essa hora do dia. Mais tarde, vêm os
corredores e skatistas, mas nada de mães e crianças num sábado. O fim de
semana delas é visita pra brincar, brinquedoteca, parquinho, restaurante
infantil, tudo bem guardado por adoráveis babás com sotaques deliciosos.
Escolho um banco perto de um lago artificial onde nadam patos de verdade.
E apesar de eu logo bloquear a lembrança dele descrevendo a diferença entre
marrecos selvagens e em cativeiro, os meus músculos lembram da massagem
daqueles dedos frescos dele. Viro as páginas da Elle, examino as fotos dos jovens
e comestíveis, e escuto passos no cascalho. Ergo os olhos. Os passos são de um
casal grisalho passeando, em silêncio, de mãos dadas. As barriguinhas dos dois
são exatamente do mesmo tamanho, se bem que a dele seja mais baixa. Os dois
com calça esportiva sem cor e camisetas soltas com frases desbotadas sobre a
paz, no peito e nas costas. Os adolescentes passeando cachorros caçoam e
puxam as guias sem nenhuma razão além, talvez, da inveja por uma longa vida
de intimidade. O casal segue com cuidado, como num sonho. No mesmo
passo, olhando em frente como pessoas convocadas por uma nave espacial onde
uma porta desliza, se abre e uma língua de tapete vermelho rola pra fora. Eles
vão subir, mão na mão, até os braços da benevolente Presença. Vão ouvir uma
música tão linda que trará lágrimas aos nossos olhos.
É o que basta. O casal de mãos dadas, a música silenciosa. Não consigo mais
parar — estou de volta ao estádio lotado. A plateia gritando não rivaliza com a
música louca, sexy. Multidões dançam nos corredores; pessoas de pé nas
cadeiras, batendo palmas no ritmo. Estou com os braços levantados, balançando
com a música. O meu quadril e a minha cabeça balançam sozinhos. Antes que
eu veja o rosto dele, está com os braços em volta da minha cintura, as minhas
costas no peito dele, seu queixo no meu cabelo. Então as mãos dele estão na
minha barriga e eu desço as minhas e seguro as dele enquanto a gente dança de
trás pra frente. Quando a música para, eu giro e olho pra ele. Ele sorri. Estou
molhada e tremendo.
Antes de sair do parque, passo os dedos pelo pincel de barba. Os pelos são
macios e quentes.
Mel

Ah, claro, às vezes me sinto mal por causa do jeito que eu tratava a Lula Ann
quando era pequena. Mas você tem que entender: eu tinha que proteger a
minha filha. Ela não conhecia o mundo. Não valia a pena ser dura ou atrevida
mesmo se estivesse com a razão. Não num mundo em que a pessoa podia ser
mandada pro reformatório porque respondeu ou reagiu na escola, um mundo
em que ela ia ser a última a ser contratada e a primeira a ser despedida. Ela não
tinha como saber disso tudo ou saber como aquela pele negra ia assustar os
brancos ou fazer darem risada e caçoarem dela. Uma vez, vi uma menina que
não chegava nem perto do negrume da Lula Ann e que não devia ter mais de
dez anos levar uma rasteira de um menino branco de um grupo, e quando ela
caiu e tentou levantar, outro pôs o pé no traseiro dela e fez ela cair de novo. Os
meninos tiveram que segurar a barriga e se dobraram de tanto rir. Muito depois
que ela foi embora, eles ainda estavam rindo, muito satisfeitos consigo mesmos.
Se eu não estivesse vendo isso da janela do ônibus, tinha ido ajudar a menina,
afastava dela aquele lixo branco. Sabe, se eu não tivesse treinado direito a Lula
Ann, ela não ia saber que devia sempre atravessar a rua e evitar os meninos
brancos. Mas as lições que eu dei compensaram, porque ela acabou me
deixando mais orgulhosa que um pavão. Foi naquele caso com o bando de
professores pervertidos — três deles, um homem e duas mulheres — que ela
desbaratou. Novinha como era, ela se comportou feito gente grande no banco
de testemunhas — tão calma e segura. Ajeitar o cabelo rebelde dela era sempre
um desafio, mas eu trancei ele todo bem apertado pra ela aparecer no tribunal e
comprei um vestido marinheiro azul e branco. Eu estava nervosa, achando que
ela ia tropeçar pra subir no tablado, ou gaguejar, ou esquecer o que as
psicólogas disseram e me envergonhar. Mas não, graças a Deus, pode-se dizer
que ela pôs a corda no pescoço de pelo menos uma daquelas professoras
pecadoras. Acusadas de umas coisas que dava vontade de vomitar. Pegavam as
criancinhas pra fazer umas coisas horríveis. Saiu no jornal e na televisão.
Durante semanas, multidões que tinham e não tinham filhos na escola gritavam
na frente do tribunal. Uns cartazes feitos em casa diziam MATEM OS MONSTROS
ou SEM PERDÃO PARA OS DIABOS.
Eu assisti quase todos os dias do julgamento, não todos, só os dias em que a
Lula Ann tinha que aparecer, porque muitas testemunhas foram adiadas ou não
apareceram nunca. Ficaram doentes ou mudaram de ideia. Ela parecia
apavorada, mas ficou quietinha, não como as outras crianças que
testemunharam irrequietas, choramingando. Algumas até choraram. Depois do
que a Lula Ann fez naquele tribunal, no banco das testemunhas, eu fiquei com
tanto orgulho dela que a gente atravessou a rua de mãos dadas. Não é sempre
que se vê uma menininha negra entregar uns brancos ruins. Eu queria que ela
soubesse o quanto eu estava satisfeita, então mandei furar as orelhas dela e
comprei um par de brincos — umas argolinhas de ouro. Até o senhorio sorriu
quando viu a gente. Nada de fotos no jornal por causa das leis de privacidade
infantil, mas a notícia correu. O dono da lanchonete, que sempre torcia a boca
pra baixo quando via a gente juntas, deu pra Lula Ann uma barra de Clark
quando ficou sabendo da coragem dela.
Eu não fui uma mãe ruim, você precisa saber disso, mas posso ter feito
alguma coisa dolorosa pra minha única filha porque tinha que proteger a
menina. Tinha. Tudo por causa de privilégios da cor de pele. No começo, eu
não conseguia enxergar dentro de todo aquele negrume e saber quem ela era e
simplesmente dar amor. Mas eu amo. Amo mesmo. Acho que ela entende isso
agora. Eu acho.
As últimas duas vezes que a gente se viu, ela estava, bom, de chamar atenção.
Assim ousada e segura. Cada vez que ela vinha, eu esquecia o quanto ela era
realmente preta porque ela tirava vantagem disso, só usava roupa branca bonita.
Me ensinou uma lição que eu devia ter sabido desde sempre. O que se faz
com os filhos é importante. E eles podem não esquecer nunca. Ela conseguiu
um empregão na Califórnia, mas não telefona nem vem visitar mais. Me manda
dinheiro e coisas de vez em quando, mas nem sei quanto tempo faz que a gente
não se vê.
Bride

A Brooklyn escolhe o restaurante. Chama-se Pirate, é semichique, ex-da


moda, agora mal se sustentando como um lugar de turistas e decididamente não
elegante. A noite está fresca demais pro vestido branco sem mangas que estou
usando, mas quero impressionar a Brooklyn com meu progresso, as cicatrizes
quase invisíveis. Ela está me arrancando do que ela diz que é a clássica
depressão pós-estupro. O tratamento é esse restaurante superdecorado onde a
atração são os garçons de suspensórios vermelhos enfatizando os peitos nus. É
uma boa amiga. Sem pressão, ela diz, só um jantar tranquilo num restaurante
quase sempre vazio com carne à mostra, bonita, mas inofensiva. Eu sei por que
ela gosta desse lugar; ela adora se exibir no meio dos homens. Há muito tempo,
antes da gente se conhecer, ela fez dreadlocks no cabelo loiro e, linda como é,
os dreads dão um charme a mais que ela não teria sem eles. Pelo menos os
negros com quem ela sai acham isso.
Trocamos fofocas do escritório nos aperitivos, mas as risadas param quando
chega o dourado-do-mar. É a receita exagerada de sempre, nadando em leite de
coco, polvilhada com gengibre, gergelim, alho e flocos de cebolinha verde.
Aborrecida com o esforço do chef em tornar emocionante um peixe insípido,
raspo tudo do filé e deixo escapar: “Eu quero férias, ir pra algum lugar. Num
cruzeiro”.
A Brooklyn sorri. “Ôôôô. Onde? Enfim uma boa notícia.”
“Mas sem crianças”, digo.
“Isso é fácil. Fiji, quem sabe?”
“E sem festas. Quero ficar com gente assentada, barrigudinha. E jogar
shuffleboard num convés. E bingo também.”
“Bride, você está me assustando.” Ela passa o guardanapo num canto da boca
e arregala os olhos.
Pouso o garfo. “Não, de verdade. Bastante sossego. Nada mais barulhento que
as ondas batendo ou o gelo derretendo em copos de cristal.”
A Brooklyn apoia o cotovelo na mesa e cobre a minha mão com a dela. “Ah,
menina, você ainda está em choque. Não vou deixar você fazer plano nenhum
até esgotar essa história do estupro. Até lá, você não vai saber o que quer.
Acredite em mim, o.k.?”
Estou tão cansada disso. Ela logo vai insistir pra eu consultar um terapeuta
especialista em estupro ou frequentar reuniões de vítimas. Estou realmente
cheia disso porque tenho que poder conversar com franqueza com a minha
amiga mais íntima. Mordo a ponta de um aspargo, depois, devagar, cruzo o
garfo e a faca.
“Olhe, eu menti pra você.” Empurro o prato com tanta força que ele derruba
o que restava do meu martíni de maçã. Enxugo cuidadosamente com o
guardanapo, tentando me controlar e fazer o que vou dizer soar normal.
“Menti, minha amiga. Eu menti pra você. Ninguém tentou me estuprar e foi
uma mulher que me bateu até cansar. Alguém que eu estava tentando ajudar,
pelo amor de Deus. Tentei ajudar e ela teria me matado se pudesse.”
A Brooklyn olha pra mim de boca aberta, depois aperta os olhos. “Uma
mulher? Que mulher? Quem?”
“Você não conhece.”
“Evidentemente você também não.”
“Conheci um dia.”
“Bride, não conte só migalhas. Me dê o prato completo, por favor.” Ela põe
os dreads atrás das orelhas e me olha com intensidade.
Levou talvez três minutos pra eu contar. Como, quando eu era uma
menininha da segunda série, a professora do prédio do jardim de infância
vizinho do prédio principal fazia coisas feias com os alunos.
“Não posso escutar isso”, a Brooklyn disse. Fechou os olhos como uma freira
diante de pornografia.
“Você pediu o prato completo”, eu disse.
“Tudo bem, tudo bem.”
“Bom, ela foi pega, processada e presa.”
“Levou. Então, qual o problema?”
“Eu fui testemunha contra ela.”
“Melhor ainda. E aí?”
“Eu apontei. Sentei no banco das testemunhas e apontei pra ela. Contei que
vi o que ela fazia.”
“E?”
“Mandaram a mulher pra prisão. Com uma sentença de vinte e cinco anos.”
“Bom. Fim da história, não?”
“Bom, não, não de fato.” Estou agitada, arrumo a gola da roupa e o meu
rosto. “De quando em quando eu pensava nela, sabe?”
“Hã-hã, conte.”
“Bom, ela tinha só vinte anos.”
“As meninas do Manson também.”
“Daqui a poucos anos ela vai ter quarenta e achei que provavelmente não
tem nenhum amigo.”
“Coitadinha. Nenhuma criança pra estuprar na espelunca. Que difícil.”
“Você não está ouvindo.”
“Tem toda razão, não estou ouvindo.” A Brooklyn dá um tapa na mesa. “Você
está maluca? Quem é essa jacaré fêmea, além de chorume, eu quero dizer. Ela
é sua parente? O quê?”
“Não.”
“Então?”
“Achei que ela ia estar triste, solitária depois de todos esses anos.”
“Ela está respirando. Não basta pra ela?”
Isso aqui não vai dar em nada. O que eu posso fazer pra ela entender?
Chamo o garçom. “Outro”, digo e aponto o copo vazio.
O garçom ergue as sobrancelhas e olha pra Brooklyn. “Pra mim não,
benzinho. Preciso ficar sóbria.”
Ele dá um sorriso de matar, cheio de dentes brilhantes e bem tratados.
“Olhe, Brooklyn, não sei por que eu fiquei assim. O que sei é que estava
sempre pensando nela. Todos esses anos no Decagon.”
“Você escreve pra ela? Visita?”
“Não. Só vi essa mulher duas vezes. Uma no tribunal e depois quando
aconteceu isso aqui.” Aponto o meu rosto.
“Sua cretina!” Ela parece realmente enojada comigo. “Você pôs a mulher
atrás das grades! Claro que ela quer acabar com você.”
“Ela não era assim antes. Era delicada, engraçada até, e boa.”
“Antes? Antes do quê? Você disse que só viu essa mulher duas vezes — no
julgamento e quando ela te arrebentou. Mas e quando você viu ela bulindo
com as criancinhas? Você disse que…”
O garçom se inclina com o meu drinque.
“Tudo bem.” Estou irritada e isso transparece. “Três vezes.”
Brooklyn passa a língua no canto da boca. “Fale, Bride, ela molestou você
também? Pode me contar.”
Nossa. O que ela está pensando? Que eu sou uma lésbica enrustida? Numa
empresa praticamente conduzida por bis, héteros, trans, gays e todo mundo que
leva a sério a própria aparência. Que sentido faz o armário hoje em dia?
“Ah, menina, não seja boba.” Dou a ela o olhar que a Mel sempre me dava
quando eu derramava o Kool-Aid ou tropeçava no tapete.
“Tudo bem, tudo bem.” Ela abana a mão. “Garçom, querido, mudei de ideia.
Um Belvedere. On the rocks. Duplo.”
O garçom dá uma piscada. “É pra já”, ele diz, marcando o “já” com um tom
que deve ter lhe valido uma promessa de número de telefone em South Dakota.
“Olhe pra mim, minha amiga. Pense um pouco. O que fez você sentir tanta
pena dela? De verdade mesmo.”
“Não sei.” Sacudo a cabeça. “Acho que eu queria me sentir bem comigo
mesma. Não tão descartável. Sofia Huxley — é o nome dela — só nela que eu
conseguia pensar, alguém que ia gostar de um pouco de… de amizade sem
compromisso.”
“Agora entendi.” Ela parece aliviada e sorri pra mim.
“Entendeu? Mesmo?”
“Totalmente. O cara se manda, você se sente feito bosta de vaca, tenta
recuperar o charme, mas se ferra, certo?”
“Certo. Mais ou menos. Talvez.”
“Então a gente dá um jeito.”
“Como?” Se existe alguém que sabe fazer isso, é a Brooklyn. Cair de cara no
chão exige uma escolha, ela sempre diz — ficar no chão ou levantar. “Como a
gente resolve?”
“Bom, jogando bingo é que não.” Ela está animada.
“Como então?”
“Blingo!”, ela grita.*
“Chamou?”, o garçom pergunta.

Duas semanas depois, conforme o prometido, a Brooklyn organiza uma


comemoração — uma festa de pré-lançamento em que eu sou a atração
principal, a pessoa que inventou a YOU, GIRL e ajudou a criar toda a agitação em
torno da marca. O local é um hotel chique, acho. Não, um museu de gente
metida. Tem uma multidão esperando e uma limusine também. O meu cabelo
e o meu vestido estão perfeitos: joias iguais a diamantes rebrilham na renda do
meu vestido, que é justo acima do babado que vai até o tornozelo. É
transparente em pontos interessantes, mas velado em outros — mamilos e o
triângulo nu bem abaixo do umbigo.
Só falta escolher os brincos. Perdi as minhas pérolas solitárias, então escolho
diamantes de um quilate. Discretos, nada chamativos, nada que traia o que o
Jeri chama de minha paleta café preto com chantili. Uma pantera na neve.
Nossa. E agora? Os brincos. Não entram. A haste de platina fica escorregando
do lóbulo da orelha. Examino os brincos — nada de errado. Olho de perto os
meus lóbulos e descubro que os furinhos sumiram. Ridículo. Tenho orelha
furada desde os oito anos. A Mel me deu duas argolinhas de ouro falso de
presente depois que eu fui testemunha contra a Monstra. Desde então nunca
usei brinco de pressão. Nunca. Pérolas solitárias, no geral, ignorando o meu
designer de “pessoa total” e, às vezes, como agora, diamantes. Espere aí. É
impossível. Depois de todos esses anos, estou com lóbulos de orelha virgens,
intocados por agulha, lisos como um polegar de bebê? Talvez seja por causa da
cirurgia plástica ou efeito colateral dos antibióticos? Mas isso foi semanas atrás.
Estou tremendo. Preciso do pincel de barba. O telefone está tocando. Me deixa
tonta. O telefone continua tocando. Tudo bem, sem joias, sem brincos. Atendo
o telefone.
“Srta. Bride, seu motorista está aqui.”

Se eu fingir que estou dormindo, talvez ele simplesmente se mande daqui.


Seja quem for, não vou aguentar bater papo ou fingir carinho depois do sexo,
principalmente porque não lembro de nada. Ele beija o meu ombro de leve,
depois alisa o meu cabelo. Murmuro como se estivesse sonhando. Sorrio, mas
mantenho os olhos fechados. Ele afasta as cobertas e vai ao banheiro. Eu arrisco
um toque nas orelhas. Lisas. Ainda lisas. Sou elogiada constantemente na festa
— que linda, que bonita, tão gostosa, tão graciosa, todo mundo diz, mas
ninguém questiona a ausência de brincos. Acho estranho, ao longo dos
discursos, da apresentação dos prêmios, do jantar, do baile, as minhas orelhas de
polegar de bebê ficam na minha cabeça a tal ponto que não consigo me
concentrar. Então faço um discurso de agradecimento incoerente, rio demais
das piadas sujas, tropeço nas conversas com colegas de trabalho, bebo três,
quatro vezes mais do que consigo aguentar com elegância. Faço um estilo
solteira, depois flerto como uma pivete de colegial em campanha pra ser a
rainha do baile de fim de ano, e foi assim que deixei seja lá quem for entrar na
minha cama. Sinto o gosto da língua e espero que a secreção seja só minha.
Meu Deus. Obrigada. Nada de algemas penduradas na cabeceira da cama.
Ele terminou a ducha e chama o meu nome enquanto veste de volta o
smoking. Eu não respondo; não olho; simplesmente cubro a cabeça com o
travesseiro. Ele acha divertido e ouço o seu riso. Escuto barulho na cozinha
enquanto ele faz café. Não, não café; eu sentiria o cheiro. Ele está servindo
alguma coisa — suco de laranja, suco de vegetais V8, champanhe choca? É só
isso que tem na geladeira. Silêncio, depois passos. Por favor, por favor,
simplesmente vá embora. Escuto um tique na mesa de cabeceira seguido pelo
som da minha porta da rua abrindo e fechando. Então espio por debaixo do
travesseiro e vejo um quadrado de papel dobrado junto ao relógio. Número de
telefone. FABULOSO. Depois o nome dele. Engulo em seco, aliviada. Ele não é
um dos funcionários.
Corro ao banheiro e olho o cesto de lixo. Graças a Deus. Uma camisinha
usada. Traços de vapor no vidro do chuveiro ao lado do armarinho da pia cujo
espelho está limpo, brilhando, me mostrando o que eu vi na noite anterior —
lóbulos de orelha tão castos como no dia em que nasci. Então a loucura é isso.
Não um comportamento de pateta, mas ver uma súbita mudança no mundo
que você conhecia. Preciso do pincel de barba, do sabão. Não tenho um único
pelo na axila, mas ensaboo mesmo assim. Agora a outra. A espuma, o raspar, me
acalmam e fico tão agradecida que começo a pensar em outros lugares que
poderiam precisar desse pequeno deleite. As minhas partes pudendas, talvez. Já
não têm pelos. Será muito complicado usar a navalha ali embaixo?
Complicado. Sim.
Tranquilizada, volto pra cama e deslizo debaixo do lençol. Minutos depois a
minha cabeça explode, latejando de dor. Levanto e encontro dois Vicodins pra
engolir. À espera do efeito dos comprimidos, não tenho nada a fazer além de
deixar os pensamentos vagarem, viajarem e se morderem.
O que está acontecendo comigo?
A minha vida está desmoronando. Estou indo pra cama com homens que
nem sei como chamam e não lembro de nada. O que está acontecendo? Eu sou
jovem; sou bem-sucedida e bonita. Bonita de verdade, então! Mel. Então por
que estou tão arrasada? Porque ele me deixou? Tenho o que eu trabalhei pra
conquistar e sou boa nisso. Tenho orgulho de mim mesma, tenho mesmo, mas
é o Vicodin e a ressaca que me fazem ficar lembrando a porcaria não tão
orgulhosa do passado. Superei aquilo tudo e segui em frente. Até o Booker
achou isso, não achou? Eu me abri inteira com ele, contei tudo: cada medo,
cada mágoa, cada conquista, por menor que fosse. Falando com ele, algumas
coisas que eu tinha enterrado vieram à tona tão novas como se eu visse aquilo
pela primeira vez — como o quarto da Mel sempre parecia sem luz. Abro a
janela do lado da cômoda dela. As coisas de adulta atulham a penteadeira:
pinça, bolas de algodão, aquela caixa redonda de pó de arroz Lucky Lady, o
frasco azul de perfume Midnight in Paris, grampos num pires pequeno, lenços
de papel, lápis de sobrancelha, rímel Maybelline, batom Tabu. É vermelho-
escuro e eu experimento. Não é de admirar que eu esteja no ramo de
cosméticos. Deve ter sido a descrição de tudo aquilo na penteadeira da Mel que
me levou a contar pra ele aquela outra coisa. Falar tudo. Eu ouvindo o miado
de um gato pela janela aberta, como soava dolorido, assustado mesmo. Olhei.
Lá embaixo, na parte murada que levava até o porão do prédio, eu vi não um
gato, mas um homem. Ele estava curvado sobre as pernas curtas e grossas de
um menino entre as suas coxas brancas peludas. As mãozinhas do menino
abrindo e fechando. O choro dele mansinho, gemido, cheio de dor. A calça do
homem estava nos tornozelos. Eu debrucei no peitoril e fiquei olhando. O
homem tinha o mesmo cabelo vermelho do sr. Leigh, o senhorio, mas eu sabia
que não podia ser ele porque ele era bravo, mas não sujo. Exigia que o aluguel
fosse pago em dinheiro antes do meio-dia no primeiro do mês e cobrava uma
multa se batessem na porta dele com cinco minutos de atraso. A Mel tinha
tanto medo dele que fazia questão que eu levasse o dinheiro logo de manhã.
Agora eu sei o que não sabia na época — que enfrentar o sr. Leigh significava
ter que procurar outro apartamento. E que seria difícil encontrar outro local
num bairro seguro, quer dizer, misto. Então, quando contei pra Mel o que eu
tinha visto, ela ficou furiosa. Não por causa do menininho chorando, mas por
causa da história se espalhar. Ela não estava interessada nos punhos
pequenininhos nem nas coxas peludas; estava interessada em conservar o nosso
apartamento. Ela disse: “Você não fale nem uma palavra disso aí. Pra ninguém,
ouviu bem, Lula? Esqueça. Nem uma palavra”. Então fiquei com medo de
contar o resto — que mesmo sem eu ter soltado um som, só me debruçado na
janela e olhado, alguma coisa fez o homem olhar pra cima. E era o sr. Leigh.
Ele estava subindo o zíper da calça enquanto o menino chorava entre as suas
botas. A expressão dele me deu medo, mas não consegui me mexer. Foi quando
ouvi ele gritar: “Ô, negrinha babaca! Feche essa janela e vá se foder longe
daqui!”.
Quando contei isso pro Booker eu ri no começo, fingindo que a coisa toda
era só uma bobagem. Depois senti os olhos queimando. Mesmo antes que as
lágrimas rolassem, ele segurou a minha cabeça na dobra do braço e apertou o
queixo no meu cabelo.
“Você nunca contou pra ninguém?”, ele me perguntou.
“Nunca”, falei. “Só pra você.”
“Agora cinco pessoas sabem. O menino, o monstro, a sua mãe, você e agora
eu. Cinco é melhor que dois, mas deviam ser cinco mil.”
Ele ergueu o meu rosto e me beijou. “Você nunca mais viu o menino?”
Eu disse que achava que não, que ele estava no chão e não dava pra ver o
rosto. “Só sei que era um menino branco com cabelo castanho.” E então,
lembrando como os dedinhos dele se abriam e depois fechavam, se abriam
muito e depois fechavam de novo com força, não consegui deixar de chorar.
“Chega disso, baby, você não é responsável pelo mal dos outros.”
“Eu sei, mas…”
“Sem mas. Corrija o que puder; aprenda com o que não puder.”
“Eu nem sempre sei o que corrigir.”
“Sabe, sim. Pense. Por mais que a gente tente ignorar, a mente sempre sabe a
verdade e deseja a clareza.”
Essa foi uma das melhores conversas que a gente teve. Eu fiquei tão aliviada.
Não. Mais que isso. Me senti lavada, segura, querida.
Não como agora, virando e revirando entre os lençóis de algodão mais caros
do mundo. Com dor, querendo outro Vicodin pra animar, aflita no meu quarto
maravilhoso, sem conseguir evitar pensamentos assustadores. Verdade. Clareza.
E se fosse o senhorio que eu estivesse realmente apontando naquele tribunal?
Aquela professora era acusada de uma coisa parecida com a que o sr. Leigh fez.
Será que eu estava apontando a ideia dele? A maldade dele e como me xingou?
Eu tinha seis anos e nunca tinha ouvido as palavras “babaca” e “foder”, mas o
ódio e a repulsa que havia nelas não precisavam de definição. Como na escola,
mais tarde, quando gritavam pra mim ou cochichavam outros xingamentos —
com definições misteriosas, mas sentidos claros. Corvo. Tição. Cabelo duro.
Zamba. Uga buga. Sons de macaco, gesto de coçar as costelas, imitando os
macacos do zoológico. Um dia, uma menina e três meninos fizeram uma pilha
de bananas na minha carteira e imitaram macacos. Me tratavam como um
monstro, estranho, como um pingo de tinta que sujava o papel branco. Eu não
reclamava com a professora pela mesma razão que a Mel tinha me alertado a
respeito do sr. Leigh — podia ser suspensa ou até expulsa. Então deixava aqueles
nomes e o bullying viajarem como vírus mortais pelas minhas veias, sem
nenhum antibiótico disponível. O que, na verdade, foi uma coisa boa, pensando
bem, porque desenvolvi uma imunidade tão forte que não ser uma “neguinha”
era tudo o que eu precisava pra vencer. Me transformei numa beldade de um
negro profundo que não precisa de botox pra ter lábios beijáveis, nem de spas de
bronzeamento pra esconder uma palidez mortal. E não preciso de silicone na
minha bunda. Eu vendia minha elegante negritude a todos aqueles fantasmas
da infância e agora me pagavam por isso. Tenho que dizer: forçar os meus
atormentadores — os verdadeiros e outros como eles — a babar de inveja
quando me veem é mais que uma desforra. É a glória.
Hoje é segunda-feira ou terça? De qualquer forma, eu estou deitando e
levantando da cama faz dois dias. Parei de me preocupar com as orelhas; é só
mandar furar de novo. A Brooklyn telefona e me mantém informada das coisas
do escritório. Eu pedi e me deram um prolongamento da licença. Ela está
“fazendo o papel” de gerente regional agora. Bom pra ela. Ela merece, só por
ter me tirado daquela catástrofe do Decagon, por cuidar de mim vários dias,
providenciar a devolução do meu Jaguar, contratar uma equipe de limpeza,
escolher o cirurgião plástico. Ela até despediu a Rose, minha empregada,
quando eu não conseguia mais olhar pra cara dela — gorda, peitos de melão e
traseiro de melancia. Eu não teria sarado sem a Brooklyn. Mas as visitas dela são
cada vez mais raras.

* Lingo em inglês é jargão, dialeto. Blingo é usado por afro-americanos com o sentido de “fala de negro”:
black-lingo. (N. T.)
Brooklyn

Achei que ele era um predador. Não importa o quanto a pista de dança esteja
cheia, você não vai simplesmente agarrando alguém por trás daquele jeito, a
menos que conheça a pessoa. Mas ela não ligou nem um pouco. Deixou ele
apertar, se esfregar nela, e não sabia absolutamente nada sobre ele, ainda não
sabe. Mas eu sei. Cruzei com ele no meio de um bando de vagabundos
esfarrapados na entrada do metrô. Mendigando, pelo amor de Deus. E uma vez,
tenho quase certeza de que era ele, esticado na escada da biblioteca, fingindo
que lia um livro pros guardas não mandarem ele sair dali. Uma outra vez,
encontrei com ele sentado na mesa de um café escrevendo num caderno,
tentando parecer sério, como se estivesse fazendo alguma coisa importante.
Com certeza foi ele que eu vi andando sem rumo em bairros distantes do
apartamento da Bride. O que ele estava fazendo lá? Encontrando outra mulher?
A Bride nunca contou o que ele faz, que emprego tem, se é que tem. Disse que
gostava de mistério. Mentirosa. Ela gostava é do sexo. Viciada em sexo, e pode
crer que eu sei. Quando a gente estava os três juntos, ela era diferente de
alguma forma. Segura, não tão carente, nem pedindo abertamente elogios
constantes. Na companhia dele, ela ficava tremulando, mas de um jeito
tranquilo. Não sei. Ele era, sim, um homem bonito. Mas e daí? O que mais ele
oferecia além de um cio entre lençóis? Ele não tinha um tostão.
Eu podia ter avisado. Não me surpreende nada que ele tenha deixado a
Bride, igual um gambá deixa um cheiro. Se ela soubesse o que eu sei, teria dado
um chute nele. Um dia, só de brincadeira, flertei com ele, tentei seduzir. No
quarto dela, imagine. Eu estava levando pra Bride uns protótipos de
embalagem. Tenho a chave, então simplesmente destranquei e abri a porta.
Quando chamei o nome dela, ele respondeu: “Ela não está”. Entrei no quarto
— ele estava lá deitado na cama, lendo. E nu, debaixo de um lençol que ia até a
cintura. Por impulso, e realmente foi impulso, deixei cair o pacote, chutei fora
os sapatos e aí, igual a um vídeo pornô, o resto da minha roupa foi saindo. Ele
ficou olhando, atento, enquanto eu me despia, mas não disse uma palavra,
então entendi que queria que eu ficasse. Eu nunca uso roupa de baixo, então
quando baixei o zíper da calça jeans e chutei pra longe, estava simplesmente
nua feito um recém-nascido. Ele olhando, mas só pro meu rosto, e tão intenso
que eu pisquei. Passei os dedos pelo cabelo e deitei do lado dele: escorreguei
debaixo do lençol; passei o braço pelo peito dele e dei uns beijos de leve ali. Ele
afastou o livro.
Entre um beijo e outro, eu sussurrei: “Não quer outra flor no seu jardim?”.
Ele disse: “Tem certeza que sabe o que faz um jardim crescer?”.
“Claro que tenho”, eu disse. “Ternura.”
“E esterco”, ele respondeu.
Eu me apoiei no cotovelo e olhei pra ele. Filho da puta. Ele não estava
sorrindo, mas também não me empurrou. Pulei da cama, peguei a minha roupa
o mais depressa que pude. Ele nem olhou eu me vestir, babaca. Voltou a ler o
livro. Se eu quisesse, podia ter obrigado ele a fazer amor comigo. Podia mesmo.
Talvez eu não devesse ter começado tão de repente. Talvez se eu tivesse feito ele
relaxar um pouco, mais lenta. Com calma.
Bom, seja como for, a Bride não sabe absolutamente nada sobre o ex dela.
Mas eu sei.
Bride

Não entendo. Que diabo de homem é esse? A mochila dele, que estou
decidida a jogar no lixo como a outra, está cheia de mais livros, um em alemão,
dois livros de poesia, um de alguém chamado Hass e uns livros de capa mole de
muitos autores de que eu nunca ouvi falar.
Nossa. Achei que conhecia ele. Sei que tem diploma de alguma universidade.
Tem camisetas que dizem isso, mas nunca pensei nessa parte da vida dele
porque o importante na nossa relação, além de fazer amor e do entendimento
total que ele tinha de mim, era o quanto a gente se divertia. Dançar em clubes
noturnos, outros casais olhando a gente com inveja, passeios de barco com
amigos, ficar na praia. Encontrar esses livros confirma o pouco que eu sei dele,
que ele era uma outra pessoa, alguém que pensava em coisas que nunca falava.
Verdade, as nossas conversas eram principalmente sobre mim, mas não eram
cheias de piadas sarcásticas como eu sempre tinha com outros homens. Com
eles, qualquer coisa além do namoro ou das suas opiniões levava a desavença,
discussão, rompimento. Nunca consegui falar com eles da minha infância como
com o Booker. Bom, às vezes ele falava comigo por muito tempo, mas nada
íntimo — era mais como uma palestra. Uma vez, quando a gente estava na
praia, estendidos nas espreguiçadeiras, ele começou a me falar sobre a história
da água na Califórnia. Um pouco cansativo, sim, e eu até que estava
interessada. Mas dormi.
Eu não tinha ideia do que ele fazia enquanto eu estava no escritório, e nunca
perguntei. Achava que ele gostava de mim principalmente porque eu nunca
cutucava, nem incomodava nem perguntava do passado dele. Deixava a vida
privada dele por sua conta. Achava que isso mostrava o quanto eu confiava nele
— que era por ele que eu sentia atração, não pelo que ele fazia. Toda moça que
eu conheço apresenta o namorado como advogado, pintor, dono de boate,
corretor, sei lá. O emprego, não o cara, é o que as amigas adoram. “Bride, venha
conhecer o Steve. Ele é advogado na…” “Estou saindo com um produtor de
cinema incrível…” “O Joey é diretor financeiro da…” “O meu namorado
conseguiu um papel naquele programa de TV…”
Eu não devia… ter confiado nele, sabe. Abri o meu coração pra ele; ele não
me contou nada dele. Eu falava; ele ouvia. Depois ele rompeu, sem uma
palavra. Tirou sarro de mim, acabou comigo exatamente como a Sofia Huxley
fez. Nenhum dos dois tinha falado em casamento, mas eu realmente achei que
tinha encontrado o meu homem. “Você não é a mulher” é a última coisa que
eu esperava ouvir.
Dias, semanas de correspondência no cesto da mesa perto da porta. Depois
de procurar na geladeira alguma coisa pra lambiscar, resolvo examinar a pilha
— jogo fora os pedidos de contribuição de todas as instituições de caridade do
mundo, as promessas de presentes de bancos, lojas e empresas falindo. Só duas
cartas de primeira classe. Uma da Mel. “Oi, querida”, uma porção de coisa
sobre os conselhos do médico e o pedido de dinheiro de sempre. A outra é
endereçada a Booker Starbern da parte de Salvatore Ponti na rua Setenta. Abro
e encontro uma duplicata. Com multa de atraso, sessenta e oito dólares. Não sei
se jogo a duplicata no lixo ou se vou ver o que o sr. Ponti fez por sessenta e oito
dólares. Antes que eu consiga decidir, o telefone toca.
“Oi, como foi? Ontem à noite. Fantástico, hein? Você estava um arraso como
sempre.” A Brooklyn está bebendo alguma coisa entre as palavras. Alguma coisa
sem calorias, de alta energia, diet, aromatizada artificialmente, cremosa,
colorida com corante. “Aquele pós-festa não foi um estouro?”
“Foi”, respondo.
“Você não parece ter muita certeza. Aquele cara com quem você saiu acabou
se revelando Mr. Rogers ou Super-Homem? Quem é ele afinal?”
Vou até a mesa de cabeceira e olho o bilhete outra vez. “Phil alguma coisa.”
“Como ele é? Eu fui ao Rocco com o Billy e nós…”
“Brooklyn, eu tenho que sair daqui. Ir pra algum lugar.”
“Como? Agora, você diz?”
“Nós não falamos de um cruzeiro pra algum lugar?” A minha voz está
chorosa, eu sei.
“Falamos, claro, mas depois que a YOU, GIRL começar a ser distribuída. As
sacolas de amostras chegaram e os caras da publicidade estão com várias ideias
muito boas…”
Ela tagarela até eu interromper. “Olhe, eu ligo depois. Estou com um pouco
de ressaca.”
“Não diga”, a Brooklyn ri.
Quando desligo, já resolvi ir conferir quem é o sr. Ponti.
Sofia

Não tenho permissão pra ficar perto de crianças. Cuidadora foi o meu
primeiro trabalho depois da condicional. Pra mim estava bom porque a senhora
de quem eu cuidava era boa. Agradecida, até, pela minha ajuda. E eu gostava
de estar longe de barulho e de muita gente. O Decagon é barulhento, cheio de
mulheres maltratadas e guardas durões. Na minha primeira semana no
Brookhaven, antes de me mudarem pro Decagon, vi uma presa levar uma
cintada na nuca só porque tinha derrubado no chão o prato de comida. O
guarda fez ela ficar de quatro e comer. Ela tentou, mas começou a vomitar,
então levaram pra enfermaria. A comida não era tão ruim — pudim de milho e
presuntada. Acho que ela devia estar com gripe ou coisa assim. O Decagon é
melhor que o Brookhaven, onde adoravam revistar a gente pelada toda entrada
e saída, ou quando bem entendiam. De qualquer forma, em segundo lugar
sempre tinha algum drama rolando entre guarda e presidiária e, quando não
tinha, quando a gente trabalhava no nosso serviço, o barulho, os bate-bocas, as
brigas, as risadas, os gritos continuavam sem parar. Mesmo quando apagavam a
luz, aquilo só diminuía de um rugido pra um latido. Pelo menos, eu achava. O
silêncio é a coisa que eu mais gosto sendo cuidadora. Mas depois de um mês,
tive que sair porque os netos da minha paciente vinham visitar ela nos fins de
semana. O oficial da condicional encontrou pra mim uma coisa parecida, mas
sem crianças — um asilo que não chamavam de asilo, mas que era o que era.
No começo, não gostei de ficar no meio de tantas pessoas em outra instituição,
principalmente as que eu tinha que obedecer. Mas me acostumei, já que os
meus superiores não me ameaçavam mesmo usando uniformes. Qualquer coisa
que parecesse ou lembrasse a prisão me deixava de má vontade.
De alguma forma, eu sobrevivi àqueles quinze anos. Se não fossem o jogo de
basquete de fim de semana e a Julie, minha colega de cela e única amiga, não
sei se eu teria aguentado. Nos primeiros dois anos, evitavam a gente no
refeitório, nós duas condenadas por abuso de crianças. Xingavam, cuspiam na
gente e os guardas reviravam a nossa cela de vez em quando. Depois de um
tempo, acabaram quase esquecendo de nós. A gente estava na camada mais
baixa do monte de assassinas, incendiárias, traficantes de drogas, revolucionárias
que jogavam bombas e doentes mentais. Machucar criancinha era o que elas
consideravam o mais baixo do mais baixo — o que era uma babaquice, uma vez
que as traficantes não estavam nem aí pra quem elas envenenavam, nem
quantos anos tinham, e as incendiárias não separavam as crianças das famílias
que elas queimavam. E as que atiravam bombas não são seletivas nem famosas
pela precisão. Se alguém duvidava do ódio por mim e pela Julie, era só olhar
como o amor pelas crianças estava pendurado em toda parte — as paredes das
celas cheias de fotos de bebês e crianças. Filho de qualquer um servia.
A Julie estava cumprindo pena porque sufocou a filha inválida. A foto da
menininha estava pregada na parede em cima da cama dela. Molly. Cabeça
grande, boca mole, os olhos azuis mais lindos do mundo. A Julie cochichava
com a foto da Molly à noite ou sempre que podia. Não pra pedir perdão, mas
sim contar histórias pra filha morta — contos de fadas, quase sempre, todos
sobre princesas. Eu nunca falei pra ela, mas eu também gostava daquelas
histórias — me ajudavam a dormir. A gente trabalhava as duas na oficina de
costura, fazendo uniformes pra uma companhia médica que pagava doze
centavos por hora. Quando eu fiquei com os dedos duros demais pra trabalhar
direito na máquina, me mudaram pra cozinha e lá eu derrubava toda comida
que não deixava queimar, então me mandaram de volta pras máquinas de
costura. Mas a Julie não estava lá. Ela estava na enfermaria depois que tentou se
enforcar. Ela não sabia como fazia. Algumas das presas mais cruéis se
ofereceram pra ensinar. Quando ela voltou pra população, estava diferente —
quieta, triste e não tão boa companhia. Acho que foi o estupro por um bando de
quatro mulheres, e depois a escravidão amorosa em que ficou com uma das
mulheres mais velhas — um marido chamado Lover com quem ninguém
mexia. Ninguém, nem guardas nem presas, gostava de mim a ponto de querer
mais que um contato passageiro. Eu era uma lutadora e muito alta, acho, quase
uma giganta naquele lugar. Bom, eu pensava — quanto menos lambeção,
melhor.
Em todos aqueles anos, recebi exatamente duas cartas do Jack, o meu
marido. A primeira foi uma carta de “Minha querida” que acabava com
reclamações como “eu estou sendo [palavra riscada] aqui”. Espancado? Fodido?
Torturado? Que outra palavra o censor da prisão ia proibir? A segunda carta
começava com “Que diabo você estava querendo, vaca?”. Sem nenhuma
palavra riscada. Eu não respondi. Os meus pais me mandavam pacotes no Natal
e no meu aniversário: barrinhas nutritivas, absorventes internos, panfletos
religiosos e meias. Mas nunca escreveram, nem telefonaram, nem visitaram.
Não foi surpresa pra mim. Eles sempre foram difíceis de agradar. A Bíblia da
família ficava num suporte ao lado do piano, onde a minha mãe tocava hinos
depois do jantar. Eles nunca disseram, mas eu desconfio que ficaram contentes
de se livrar de mim. No mundo de Deus e o Diabo em que eles viviam,
nenhuma pessoa inocente era condenada à prisão.
No geral, eu fazia o que mandavam. E lia bastante. Isso era uma coisa boa no
Decagon — a biblioteca. Quando as bibliotecas públicas não precisam ou não
querem mais livros, mandam pras prisões e asilos de velhos. Qualquer coisa que
não fosse tratado religioso e a Bíblia era proibida na casa da minha família.
Como professora, eu achava que era bem lida, se bem que na faculdade, como
estudante de educação, não exigissem que lesse literatura nenhuma. Antes de ir
pra prisão eu nunca tinha lido a Odisseia nem Jane Austen. Nada disso me
ensinou muita coisa, mas me concentrar em fugas, enganos e em quem casa
com quem era uma distração bem-vinda.
No táxi, no primeiro dia da minha condicional, eu me senti igual a uma
menininha vendo o mundo pela primeira vez — as casas no meio de gramados
tão verdes que doíam nos olhos. As flores pareciam pintadas porque eu não
lembrava de rosas daquela cor arroxeada, nem de girassóis tão ofuscantes de
coloridos. Tudo parecia não só reformado, mas novo em folha. Quando baixei o
vidro da janela pra respirar o ar fresco, o vento agitou o meu cabelo — batendo
pra trás e de lado. Foi quando eu entendi que estava livre. Vento. Vento
penteando, alisando, beijando o meu cabelo.
Naquele mesmo dia, uma das alunas que testemunharam contra mim —
todas crescidas agora — bateu na porta. Eu estava num quarto pobre de motel,
desesperada pra comer e dormir sozinha pra variar. Nenhuma discussão
mesquinha, nem gemidos de sexo, soluços altos ou rondas das celas próximas.
Acho que não tem muita gente que aprecia o silêncio ou que perceba que é o
mais perto da música que se pode chegar. O silêncio deixa algumas pessoas
aflitas ou muito solitárias. Depois de quinze anos de barulho, eu estava com
fome de silêncio, mais que de comida. Então engoli tudo, vomitei e estava a
ponto de conseguir uma solidão profunda quando ouvi baterem na porta.
Eu não sabia quem era ela, apesar de alguma coisa nos olhos parecer familiar.
Em outro mundo, a pele negra dela teria chamado a atenção, mas depois de
todos aqueles anos no Decagon, não. Depois de quinze anos usando sapatos
feios de salto baixo, eu estava mais interessada era no sapato chique dela —
crocodilo ou couro de cobra, bico fino e salto tão alto que era como as pernas
de pau dos palhaços de circo. Ela falou como se a gente fosse amigas, mas eu
não sabia do que ela estava falando, o que ela queria, até ela jogar o dinheiro em
mim. Ela era um dos alunos que tinham testemunhado contra mim, uma que
ajudou a me matar, a roubar a minha vida. Como ela podia pensar que dinheiro
era capaz de apagar quinze anos de morte em vida? A minha cabeça esvaziou.
Os meus punhos me dominaram como se eu estivesse lutando com o Diabo.
Exatamente aquele do qual a minha mãe sempre falava — sedutor, mas mau.
Assim que joguei ela pra fora e me livrei da fantasia de Satã dela, me enrolei
feito uma bola na cama e fiquei esperando a polícia. Esperei e esperei. Não veio
nada. Se arrombassem a porta iam ver uma mulher finalmente arrasada depois
de quinze anos sendo forte. Pela primeira vez em todos aqueles anos, eu chorei.
Chorei e chorei e chorei até dormir. Quando acordei, lembrei que a liberdade
nunca é grátis. Você tem que lutar por ela. Trabalhar por ela e garantir que é
capaz de lidar com ela.
Agora, pensando bem, aquela moça negra me fez mesmo um favor. Não
aquela bobagem que ela tinha em mente, nem o dinheiro que me ofereceu,
mas o presente que nenhuma de nós tinha planejado: as lágrimas contidas
durante quinze anos. Nada de repressão. Nada de sujeira. Agora eu estou limpa
e capaz.
PARTE II

Era preferível um táxi, porque estacionar um Jaguar naquele bairro seria uma
bobagem, além de arriscado. O fato de Booker frequentar aquela parte da
cidade surpreendeu Bride. Por que ali?, ela se perguntou. Havia lojas de música
em bairros não ameaçadores, lugares onde homens tatuados e garotas novinhas
vestidas de demônio não se escondiam pelos cantos nem se esparramavam na
calçada.
Assim que o motorista parou no endereço que ela deu e depois que ele disse
“Desculpe, dona, mas não posso esperar a senhora aqui”, Bride foi depressa até
a porta do Palácio dos Penhores e Reparos de Salvatore Ponti. Lá dentro, ficava
claro que a palavra “palácio” era menos um erro do que uma maluquice.
Debaixo dos balcões de vidro empoeirado, fileiras e fileiras de joias e relógios
encolhidos. Um homem, tão bonito como os velhos podem ser, veio beirando o
balcão até ela. Seus olhos de joalheiro varreram tudo o que podiam absorver de
sua cliente.
“Sr. Ponti?”
“Me chame de Sally, querida. Em que posso ser útil?”
Bride acenou com a duplicata vencida e explicou que tinha vindo acertar as
contas e recolher o que havia sido consertado. Sally examinou a duplicata. “Ah,
sei”, disse ele. “Anel de polegar. Bocal. Está nos fundos. Me acompanhe.”
Juntos foram para uma sala dos fundos onde havia violões e trompas
pendurados nas paredes e toda sorte de peças de metal cobrindo o pano de uma
mesa. O homem que trabalhava ali ergueu os olhos da lente de aumento para
examinar Bride e depois a duplicata. Foi até uma estante e pegou um trompete
enrolado em pano roxo.
“Ele não falou nada do anel de dedinho”, disse o reparador, “mas eu dei um
pra ele assim mesmo. Sujeito exigente, exigente mesmo.”
Bride pegou o trompete pensando que nem sabia que Booker tinha um
instrumento ou que o tocava. Se tivesse se interessado, teria descoberto que
aquilo é que provocara a covinha escura no lábio superior. Ela estendeu a Sally
o valor devido.
“Bom, sim, e chique pra um rapaz do interior”, disse o reparador.
“Do interior?” Bride franziu a testa. “Ele não é do interior. Mora aqui.”
“Ah, é? Disse que era de alguma cidade caipira lá do Norte”, Sally falou.
“Whiskey”, disse o reparador.
“Do que está falando?”, Bride perguntou.
“Engraçado, certo? Quem é que esquece uma cidade chamada Whiskey?
Ninguém, ninguém mesmo.”
Os homens irromperam numa risada e começaram a lembrar outros nomes
de cidade inesquecíveis: Intercourse, Pennsylvania; No Name, Colorado; Hell,
Michigan; Elephant Butte, Novo México; Pig, Kentucky; Tightwad, Missouri.
Finalmente exaustos de seu mútuo divertimento, voltaram a atenção de novo
para a cliente.
“Olhe aqui”, disse Sally. “Ele deixou outro endereço. Pra reenviar.”
Consultou a agenda rotativa. “Ah. Alguém chamado Olive. Q. Olive. Whiskey,
Califórnia.”
“Sem nome de rua?”
“Ô, meu bem. Quem disse que uma cidade chamada Whiskey tem ruas?”
Sally estava gostando de se divertir e ao mesmo tempo ter uma linda mulher
negra em sua loja. “Trilhas de veados, talvez”, acrescentou.
Bride saiu da loja depressa, mas se deu conta igualmente depressa de que não
havia táxis circulando. Foi obrigada a voltar e pedir a Sally que chamasse um
para ela.
Sofia

Eu devia estar triste. O meu pai telefonou pro meu supervisor contando que
a mamãe morreu. Pedi um adiantamento pra comprar uma passagem de avião
pro funeral, achando que o meu oficial da condicional ia permitir. Me lembro
de cada centímetro da igreja onde o funeral ia ser celebrado. Os suportes de
Bíblia de madeira nas costas dos bancos, a luz esverdeada das janelas atrás da
cabeça do reverendo Walker. E o cheiro — perfume, tabaco e alguma outra
coisa. Religiosidade, talvez. Limpo, direito e muito bom pra você como o canto
da sala de jantar da casa da mamãe. Papel de parede azul e branco que vim a
conhecer melhor do que a minha própria cara. Rosas, lilases, clematites em
todos os tons de azul contra branco de neve. Eu ficava de pé ali, às vezes duas
horas; uma repreensão silenciosa, um castigo por algo que não me lembro
agora, nem na época. Molhei a calcinha? Brinquei de “luta” com o filho do
vizinho? Mal podia esperar sair da casa da mamãe e casar com o primeiro
homem que me pedisse. Dois anos com ele foram a mesma coisa — obediência,
silêncio, um canto azul e branco maior. Dar aula era o único prazer que eu
tinha.
Mas tenho de admitir que as regras da mamãe, aquela disciplina estrita, me
ajudaram a sobreviver no Decagon. Até o meu primeiro dia de liberdade, quero
dizer, quando eu explodi. Realmente explodi. Espanquei aquela moça negra
que testemunhou contra mim. Bater nela, chutar e socar me libertaram mais do
que a condicional. Senti que estava rasgando o papel azul e branco, devolvendo
tapas e expulsando da minha vida o diabo que a mamãe conhecia tão bem.
Eu me pergunto o que aconteceu com ela. Por que ela não chamou a polícia.
Os olhos dela, congelados de medo, me deram gosto na hora. Na manhã
seguinte, com o rosto inchado de horas de choro, abri a porta. Traços finos de
sangue na calçada e um brinco de pérola ali perto. Talvez fosse dela, talvez não.
De qualquer forma, guardei comigo. Ainda está na minha carteira como o quê?
Uma espécie de lembrança? Quando atendo os meus pacientes — ponho a
dentadura de volta na boca deles, esfrego os traseiros, as coxas, pra diminuir as
escaras de cama, ou quando lavo com esponja a pele rendilhada antes da loção
—, na minha cabeça estou consertando a moça negra, curando ela,
agradecendo. Pela liberação.
Desculpe, mamãe.
O sol e a lua compartilhavam o horizonte numa amizade distante,
impassíveis um ao outro. Bride não notou a luz que fazia do céu um carnaval.
O pincel de barba e a navalha estavam dentro do estojo do trompete guardado
no porta-malas. Ela pensou sobre as duas coisas até se distrair com a música do
rádio do Jaguar. Nina Simone era agressiva demais, fazia Bride pensar em outra
coisa que não ela mesma. Mudou para jazz suave, mais adequado ao interior de
couro do carro, assim como um ambiente mais sereno para a ansiedade que ela
precisava conter. Nunca tinha feito nada tão temerário. A razão daquele
deslocamento não era amor, ela sabia; era mais mágoa do que raiva que a fazia
rodar por território desconhecido para localizar a única pessoa em quem um dia
confiara, que a fizera se sentir segura, que de certa forma a colonizara. Sem ele
o mundo era mais que confuso — raso, frio, deliberadamente hostil. Como a
atmosfera na casa de sua mãe, onde ela nunca sabia o que era certo fazer ou
dizer, nem lembrar quais eram as regras. Deixar a colher na tigela de cereal ou
pôr ao lado da tigela; amarrar os cadarços do sapato com um laço ou com um
nó duplo; dobrar as meias ou puxá-las para cima até a panturrilha? Quais eram
as regras e quando elas mudavam? Quando ela sujou o lençol com seu primeiro
sangue menstrual, Mel lhe deu uma bofetada e depois a empurrou para dentro
de uma banheira de água fria. O que aliviou o choque foi a satisfação de ser
tocada, manipulada por uma mãe que evitava contato físico sempre que
possível.
Como ele teve coragem? Por que ele a deixaria desprovida de todo conforto,
de segurança emocional? Sim, sua rápida resposta à saída dele foi boba, idiota.
Como a provocação de um aluno de terceira série que não entende nada da
vida.
Ele era parte da dor — não um salvador, absolutamente, e agora a vida dela
estava destroçada por causa dele. Os retalhos da vida que ela havia remendado:
glamour pessoal, controle em uma profissão excitante, criativa até, liberdade
sexual e, acima de tudo, um escudo que a protegia de qualquer outro
sentimento intenso demais, fosse raiva, vergonha ou amor. Sua reação ao ataque
físico foi não menos covarde que a reação ao súbito e inexplicado rompimento.
O primeiro produziu lágrimas; o segundo, um “É? E daí?”. Apanhar de Sofia foi
como o tapa de Mel sem o prazer de ser tocada. Ambos confirmavam seu
desamparo diante da perturbadora crueldade.
Fraca demais, apavorada demais para enfrentar Mel, ou o senhorio, ou Sofia
Huxley, não lhe restava no mundo nada além de finalmente se pôr de pé
sozinha e confrontar o primeiro homem a quem havia desnudado sua alma,
sem saber que ele estava caçoando dela. Ia precisar de coragem porém, algo
que, sendo bem-sucedida na carreira, ela pensava ter bastante. Isso e beleza
exótica.
Segundo os homens na loja de Sally, ele era de um lugar chamado Whiskey.
Talvez tivesse voltado para lá. Talvez não. Ele podia estar vivendo com a srta. Q.
Olive, outra mulher que ele não queria, ou podia ter seguido em frente. Fosse
qual fosse o caso, Bride ia encontrá-lo, forçá-lo a explicar por que ela não
merecera um tratamento melhor da parte dele e, segundo, o que ele queria
dizer com “não é a mulher”. Quem? Essa mulher aqui? Essa aqui dirigindo um
Jaguar com um vestido de cashmere branco-ostra e botas de pele de coelho
penteada da cor da lua? A bela, segundo todo mundo dotado de dois olhos, que
dirige um departamento importante em uma empresa de bilhões de dólares?
Aquela que já estava imaginando novos produtos — cílios, por exemplo. Toda
mulher (do tipo dele ou não) queria, além de seios, cílios mais fartos, maiores.
Uma mulher podia ser magra como uma cobra e morrer de fome, mas se tinha
peitos de grapefruit e olhos de guaxinim, delirava de alegria. Certo. Ela ia partir
para isso depois dessa viagem.
A rodovia ficava menos e menos cheia à medida que ela seguia para leste e
depois para o norte. Ela imaginou que logo florestas estariam ladeando a estrada
a vigiá-la, como as árvores sempre faziam. Dentro de poucas horas, estaria em
campos do vale norte: acampamentos de lenhadores, povoados não mais velhos
que ela, estradas de terra velhas como as tribos. Como ainda estava numa
rodovia estadual, resolveu procurar um restaurante e se revigorar antes de entrar
em território esparso demais para conforto. Uma coleção de placas num único
outdoor anunciava uma marca de gasolina, quatro de comida, duas de
acomodações. Uns cinco quilômetros adiante, Bride saiu da rodovia e virou para
o pátio. O restaurante que escolheu era imaculado e vazio. O cheiro de cerveja
e tabaco não era recente, como também não o era a bandeira confederada na
moldura que aninhava a bandeira norte-americana oficial.
“Pois não?” Os olhos da garçonete ao balcão estavam bem abertos e
perscrutadores. Bride estava acostumada a esse olhar, assim como à boca aberta
que o acompanhava. Fazia lembrar como fora recebida nos primeiros dias de
escola. Choque, como se ela tivesse três olhos.
“Gostaria de um omelete branco, sem queijo.”
“Branco? Quer dizer, sem ovos?”
“Não. Sem gemas.”
Bride comeu o que conseguiu daquela versão caipira de comida digerível,
depois perguntou onde era o banheiro. Deixou uma nota de cinco dólares no
balcão para o caso de a garçonete achar que ela estava fugindo. No banheiro,
confirmou que ainda havia razão para se alarmar com a ausência de pelos nas
partes pudendas. Depois, parada na frente do espelho acima da pia, notou que o
decote do vestido de cashmere estava fora do lugar, a tal ponto que deixava nu o
ombro esquerdo. Ao arrumá-lo, viu que a deslizada ombro abaixo não se devia
nem a postura errada nem a uma falha de confecção. A parte de cima do vestido
estava larga, como se em vez de um 42 ela tivesse comprado um 44 e só agora
notasse a diferença. Mas o vestido lhe caía com perfeição ao começar a viagem.
Talvez, pensou, houvesse um defeito no tecido ou no corte; senão estava
perdendo peso — depressa. Sem problemas. Não existia algo como magra
demais em sua área de trabalho. Ela iria simplesmente escolher as roupas com
mais cuidado. Uma lembrança assustadora dos lóbulos das orelhas alterados a
abalou, mas ela não ousou ligar isso a outras alterações em seu corpo.
Enquanto recolhia o troco e decidia a gorjeta, Bride pediu orientações para
chegar a Whiskey.
“Não é tão longe”, disse a garçonete de olho esbugalhado e sorriso afetado.
“Uns cento e sessenta quilômetros, talvez duzentos e pouco. Dá pra chegar
antes de escurecer.”
É isso que a ralé da roça chama de “não tão longe”?, Bride se perguntou.
Mais de duzentos quilômetros? Abasteceu o carro, mandou conferir os pneus e
seguiu pela curva que saía do pátio e voltava para a rodovia. Ao contrário da
certeza da garçonete, estava muito escuro quando ela viu a saída marcada não
por um número, mas por um nome —Whiskey Road.
Pelo menos era pavimentada; estreita e cheia de curvas, mas pavimentada.
Talvez por isso tenha confiado nos faróis e acelerado. Ela nem percebeu o que
estava para acontecer. O carro derrapou numa curva fechada da estrada e bateu
no que devia ser a primeira e maior árvore do mundo, circundada por arbustos
que escondiam a parte de baixo do tronco. Bride lutou com o air bag,
movimentando-se tão depressa e com tamanho pânico que nem notou que seu
pé estava preso e torcido no espaço entre o pedal do freio e a porta amassada,
até que ao tentar libertar-se foi arrasada pela dor. Conseguiu soltar o cinto de
segurança, porém nada mais adiantava. Ficou ali sentada sem jeito no banco do
motorista, tentando tirar o pé da elegante bota de pele de coelho. Seus esforços
se mostraram ao mesmo tempo dolorosos e impossíveis. Esticando-se e
retorcendo-se, conseguiu pegar o celular, mas a tela estava vazia, a não ser pelo
aviso de “sem sinal”. A probabilidade de passar um carro era tênue no escuro,
mas possível, então ela apertou a buzina, desesperada para que o barulho fizesse
algo mais que assustar corujas. Não assustou porque não fez nenhum som. Ela
não podia fazer nada além de ficar ali pelo resto da noite, alternando medo,
raiva, dor, choro. A lua era um sorriso sem dentes e mesmo as estrelas, vistas
através do galho da árvore que caíra como um braço sufocante sobre o para-
brisa, a assustavam. O pedaço de céu que podia vislumbrar era um tapete
escuro com facas brilhantes apontadas para ela e loucas para se libertar. Sentia-
se magoada pelo mundo — uma consciência de forças malignas transformando-
a de corajosa aventureira em fugitiva.
O sol meramente se insinuou no levante, uma fatia cor de abricó brincando
no céu com uma promessa de se revelar inteiro. Bride, açoitada por cãibras e
dor na perna, sentiu um arrepio de esperança com o amanhecer. Um
motociclista sem capacete, um caminhão cheio de lenhadores, um estuprador
serial, um menino numa bicicleta, um caçador de ursos — não havia ninguém
para estender a mão? Enquanto imaginava quem ou o que poderia salvá-la, um
rostinho branco como osso apareceu na janela do passageiro. Uma menina,
muito nova, carregando um gatinho preto, olhou para ela com os olhos mais
verdes que Bride já tinha visto.
“Me ajude. Por favor. Me ajude.” Bride teria gritado, mas não tinha forças.
A menina ficou olhando por um longo, longo tempo, depois se virou e
desapareceu.
“Ah, meu Deus”, Bride sussurrou. Estava alucinando? Se não, com certeza a
menina devia ter ido buscar ajuda. Ninguém, nem um incapaz mental ou
geneticamente violento, a deixaria ali. Por que deixar? De repente, de um jeito
que não havia acontecido no escuro, as árvores em torno, tornando-se vivas no
amanhecer, realmente a assustaram e o silêncio era aterrorizador. Ela resolveu
experimentar a partida, mudar para ré e afastar o Jaguar da árvore — com pé ou
sem pé. Assim que girou a chave para o som desanimador de uma bateria
morta, um homem apareceu. Barbudo, cabelo loiro comprido e olhos pretos
amendoados. Estupro? Assassinato? Bride estremeceu, vendo que ele a
examinava, apertando os olhos. Aí ele foi embora. O que pareceram horas para
Bride foram apenas minutos até ele voltar com uma serra e um pé de cabra.
Engolindo em seco e dura de medo, ela assistiu enquanto ele serrava o galho do
capô, depois, tirou do bolso de trás uma alavanca, forçou e sacudiu a porta até
abrir. O grito de dor de Bride assustou a menina de olhos verdes que assistia de
pé à cena, com a boca aberta. Cuidadosamente, o homem soltou o pé de Bride
de debaixo do pedal de freio e da porta amassada do carro. O cabelo dele
pendeu para a frente quando ele a ergueu do banco do carro. Silenciosamente,
sem fazer perguntas nem oferecer consolo verbal, ele a acomodou nos braços.
Com a menina de olhos de esmeralda acompanhando, ele levou Bride quase
um quilômetro por uma trilha de areia que chegava a uma construção com
aspecto de depósito que poderia servir de casa a um assassino. Encolhida nos
braços dele e na dor incessante, ela dizia: “Não me machuque, por favor, não
me machuque” insistentemente até desmaiar.
“Por que a pele dela é tão preta?”
“Pela mesma razão que a sua é tão branca.”
“Ah. Igual o meu gatinho, é isso?”
“Certo. Nasceu assim.”
Bride aspirou entre dentes. Que conversa fácil entre mãe e filha. Ela fingia
dormir, ouvindo debaixo de um cobertor navajo, o tornozelo apoiado numa
almofada, latejando de dor dentro da bota de pele. O homem que a resgatou
levou Bride à sua casa improvisada e em vez de estuprá-la ou torturá-la pediu
que a esposa cuidasse dela enquanto ele pegava o caminhão. Ele não tinha
certeza, disse, mas talvez não fosse cedo demais para encontrar o único médico
da região. Achava que não devia ser só uma torção, disse o homem barbudo. O
tornozelo devia estar quebrado. Sem telefone, ele não tinha outra escolha senão
pegar seu caminhão e ir até a aldeia em busca do médico.
“Meu nome é Evelyn”, disse a mulher. “O do meu marido é Steve. E o seu?”
“Bride. Só Bride.” Pela primeira vez seu nome inventado não soou como algo
da moda. Soou como Hollywood, adolescente. “Bride, esta é a Raisin. Na
verdade, o nome dela é Rain, porque a gente encontrou a menina na chuva,
mas ela prefere que chamem de Raisin.”
“Obrigada, Raisin. Você salvou a minha vida. De verdade.” Bride, agradecida
por outro nome frívolo, deixou uma lágrima rolar pelo rosto. Depois de ajudá-la
a se despir, Evelyn lhe deu uma camisa xadrez de lenhador do marido.
“Quer que eu faça alguma coisa pra você comer? Um mingau de aveia?”, ela
perguntou. “Ou pão quente com manteiga. Você deve ter ficado presa lá a noite
inteira.”
Bride recusou, com delicadeza, esperava. Só queria dormir um pouco.
Evelyn ajeitou o cobertor em torno da hóspede, com cuidado, pela perna
erguida, e não se deu ao trabalho de cochichar a conversa sobre o gatinho preto
ou branco a caminho da pia. Era uma mulher alta com quadris deselegantes e
uma longa trança de cabelo castanho balançando às costas. Ela lembrava a
Bride alguém que tinha visto num filme, não recente, mas algo feito nos anos 40
ou 50, na época em que as estrelas de cinema tinham rostos característicos, ao
contrário de agora, quando só o penteado distingue uma estrela de outra. Mas
não conseguia dar nome à lembrança — atriz ou filme. A pequena Raisin, por
outro lado, não se parecia com ninguém que Bride tivesse visto na vida — pele
branca como leite, cabelo preto-ébano, olhos de néon, idade indeterminada. O
que Evelyn tinha dito? “Foi onde a gente encontrou a menina”? Na chuva.
A casa de Steve e Evelyn parecia um estúdio ou uma oficina remodelada: um
espaço amplo, contendo mesa, cadeiras, pia, fogão a lenha e o sofá áspero em
que Bride estava deitada. Junto a uma parede havia um tear com cestinhos de
fio ao redor. Acima, uma claraboia que estava pedindo uma boa limpeza. Por
toda a sala, a luz, sem ajuda de eletricidade, se deslocava como água — uma
sombra aqui podia sumir num instante, uma reverberação numa chaleira de
cobre podia levar minutos para se dissolver. Uma porta aberta nos fundos
revelava um quarto com duas camas, uma de corda, uma de ferro. Algum tipo
de carne, como um frango, estava assando no forno enquanto Evelyn e a
menina cortavam cogumelos e pimentões verdes na mesa rústica feita em casa.
Sem nenhum aviso, as duas começaram a cantar uma velha canção hippie
idiota.
“This land is your land, this land is my land…”
Bride riscou depressa uma viva lembrança de Mel cantarolando um blues
enquanto lavava uma meia-calça na pia e Lula Ann escutava escondida atrás da
porta. Que gostoso teria sido se mãe e filha pudessem ter cantado juntas.
Abraçando esse sonho, ela efetivamente caiu num sono profundo, sendo
acordada por volta do meio-dia por vigorosas vozes masculinas. Steve,
acompanhado por um médico amarrotado e muito velho, entrou pisando forte
na casa.
“Este é o Walt”, disse Steve. Ele parou ao lado do sofá, exibindo algo próximo
de um sorriso.
“Dr. Muskie”, disse o médico. “Walter Muskie, MD, ph.D., LLD, DDT, OMB.”
Steve riu. “Ele está brincando.”
“Oi”, Bride disse, olhando de seu pé para o rosto do doutor várias vezes.
“Espero que não seja muito grave.”
“Vamos ver”, respondeu o dr. Muskie.
Bride aspirou entre os dentes cerrados quando o médico cortou sua elegante
bota branca. Com habilidade e sem empatia, ele examinou seu tornozelo e
informou que estava no mínimo fraturado e impossível de tratar ali na casa de
Steve — ela precisava ir à clínica para fazer um raio X, engessar e tal. Tudo o
que ele podia fazer, ou faria, era limpar e enfaixar para que o inchaço não
piorasse.
Bride se recusou a ir. De repente, estava com tanta fome que ficou zangada.
Queria tomar banho e depois comer, mais que ser levada para outra clínica
rural pobre. Nesse meio-tempo, pediu analgésicos para o dr. Muskie.
“Não”, disse Steve. “De jeito nenhum. O importante em primeiro lugar.
Além disso, não temos o dia inteiro.”
Steve a carregou para o caminhão, apertou-a entre ele e o médico, e
partiram. Duas horas depois, quando os dois voltavam da clínica, ela foi forçada
a admitir que a tala aliviara a dor, assim como os comprimidos. A clínica de
Whiskey ficava na frente do correio, no primeiro andar de uma graciosa casa de
madeira azul-mar, que tinha também uma barbearia. As janelas do segundo
andar anunciavam roupas de segunda mão. Esquisito, Bride pensou, esperando
ser levada para uma sala de exames igualmente esquisita. Para sua surpresa, o
equipamento era tão atualizado quanto o de seu cirurgião plástico.
O dr. Muskie riu de sua surpresa. “Lenhadores são como soldados”, ele disse.
“Sofrem os piores ferimentos e precisam do mais rápido e melhor atendimento.”
Depois de examinar a imagem de uma ultrassonografia, o dr. Muskie disse a
ela que ia sobreviver, mas levaria pelo menos um mês para se recuperar —
talvez seis semanas. “Sindesmose”, ele disse à paciente, que não entendeu.
“Entre a fíbula e a tíbia. Talvez cirurgia — provavelmente não, se você fizer o
que eu mandar.”
Ele pôs uma tala em seu tornozelo, dizendo que engessaria quando o
inchaço diminuísse. E ela teria de voltar ao consultório para isso.
Uma hora depois, ela estava de volta ao caminhão, sentada ao lado de um
Steve silencioso, a perna esquerda tão esticada debaixo do painel quanto a tala
permitia. Depois de ser carregada de volta para a casa, Bride descobriu que a
fome anterior havia se dissipado quando a consciência de estar sem banho e
cheirando mal tomou conta dela.
“Eu gostaria de tomar um banho, por favor”, ela disse.
“Nós não temos banheiro”, disse Evelyn. “Posso dar um banho de esponja em
você agora. Quando o seu tornozelo melhorar, eu esquento água pra banheira.”
Penico, privada fora da casa, banheira de metal, sofá quebrado e áspero
durante um mês? Bride começou a chorar e a deixaram em paz, enquanto Rain
e Evelyn continuavam preparando a comida.
Mais tarde, depois que a família terminou de comer, Bride tentou vencer a
timidez e aceitou uma bacia de água fria para lavar o rosto e as axilas. Depois,
ergueu-se o suficiente para sorrir e pegar o prato que Evelyn segurava diante
dela. Era codorna, não frango, com um encorpado molho de cogumelos.
Depois da refeição, Bride se sentiu mais que tímida; estava envergonhada —
chorando a cada minuto, petulante, infantil, recusando-se a se ajudar ou a
aceitar com elegância a ajuda dos outros. Ali, estava entre pessoas que viviam a
vida mais crua, disponíveis para ela sem hesitação, sem pedir nada em troca. No
entanto, como acontecia tantas vezes, sua gratidão e timidez duraram pouco.
Eles a tratavam como um gato ou cachorro perdido com uma pata quebrada e
do qual sentiam pena. Emburrada e roendo as unhas, ela perguntou a Evelyn se
tinha uma lixa de unhas ou algum esmalte. Evelyn sorriu e ergueu as mãos sem
dizer nada. Entendido — as mãos de Evelyn serviam menos para segurar a haste
de um cálice de vinho e mais para cortar lenha e torcer o pescoço de frangos.
Quem são essas pessoas, Bride se perguntou, e de onde vieram? Eles não
tinham perguntado a ela de onde era ou para onde ia. Simplesmente cuidaram
dela, alimentaram, providenciaram que o carro fosse rebocado para a oficina.
Para ela, era duro demais, estranho demais entender o tipo de cuidado que
ofereciam — grátis, sem julgar e sem nem um interesse passageiro em quem ela
era e para onde estava indo. Ela chegou a pensar se estariam planejando
alguma coisa. Algo ruim. Mas os dias passaram com tédio inquebrantável. Steve
e Evelyn ficavam às vezes, depois do jantar, sentados fora da casa durante algum
tempo, cantando canções dos Beatles ou de Simon e Garfunkel — Steve ao
violão, Evelyn acompanhando com voz de soprano. O riso deles tilintava entre
versos errados e notas desafinadas.
Nas semanas seguintes, entre mais visitas à clínica, exercícios para a perna e a
espera de que o Jaguar fosse consertado, Bride ficou sabendo que seus anfitriões
estavam na casa dos cinquenta anos. Steve havia se formado no Reed College,
Evelyn na Ohio State. Em meio a constantes ataques de riso, descreveram
como haviam se conhecido. Primeiro na Índia (Bride viu a luz de lembranças
agradáveis brilhando nos olhares que trocavam), depois em Londres, de novo
em Berlim. Por fim, no México, concordaram em parar de se encontrar desse
jeito (Steve tocou a face de Evelyn com a mão fechada), então se casaram em
Tijuana e “mudaram pra Califórnia, pra viver uma vida de verdade”.
A inveja de Bride ao olhar para eles era infantil, mas ela não conseguia se
controlar. “‘De verdade’ quer dizer pobre?” Ela sorriu para esconder o próprio
desdém.
“O que quer dizer ‘pobre’? Não ter televisão?” Steve ergueu as sobrancelhas.
“Quer dizer não ter dinheiro”, Bride falou.
“Mesma coisa”, ele respondeu. “Sem dinheiro, sem televisão.”
“Quer dizer não ter máquina de lavar, não ter geladeira, não ter banheiro,
não ter dinheiro!”
“Dinheiro tira você daquele Jaguar? Dinheiro salva a sua pele?”
Bride piscou, mas teve o cuidado de não dizer nada. O que ela sabia, afinal,
sobre fazer o bem pelo bem, ou amor sem posses?
Ficou com eles durante seis semanas difíceis, esperando até poder andar e
seu carro estar pronto. Aparentemente, a única oficina mecânica teve de
mandar buscar dobradiças ou uma porta totalmente nova para o Jaguar. Dormir
numa casa com uma escuridão tão profunda quando a noite caía fazia Bride se
sentir num caixão de defunto. Lá fora o céu estava tomado por mais estrelas do
que ela jamais tinha visto. Mas do lado de dentro, debaixo de uma claraboia
imunda e sem eletricidade, Bride tinha dificuldade para dormir.
Finalmente, o dr. Muskie voltou para retirar o gesso e dar a ela um aparelho
removível para o tornozelo, de forma que pudesse mancar por ali. Ela olhou
com repulsa a pele que ficara escondida pelo gesso e estremeceu. Ainda melhor
que ter o gesso removido foi Evelyn, fiel à sua palavra, ter despejado baldes e
mais baldes de água quente na banheira de zinco. Ela então deu a Bride uma
esponja, uma toalha e um sabão marrom difícil de fazer espuma. Depois de
semanas de banhos de gato, Bride afundou na água com gratidão, prolongando
o banho até a água esfriar totalmente. Foi quando ela levantou para se enxugar
que descobriu que seu peito estava chato. Completamente chato, com apenas
os mamilos para provar que não eram suas costas. O choque foi tamanho que
ela caiu de volta na água suja, segurando a toalha contra o peito como um
escudo.
Devo estar doente, morrendo, ela pensou. Ela colou a toalha molhada no
lugar onde os seios um dia se anunciavam e se erguiam aos lábios de amantes a
gemer. Lutando contra o pânico, chamou Evelyn.
“Por favor, tem alguma coisa que eu possa vestir?”
“Claro”, disse Evelyn e depois de alguns minutos trouxe para Bride uma
camiseta e uma calça jeans velha. Não falou nada sobre o peito de Bride, nem
sobre a toalha molhada. Simplesmente deixou que ela se vestisse com
privacidade. Quando Bride a chamou de volta, para dizer que a calça era larga
demais e não parava nos quadris, Evelyn as trocou por uma de Rain, que serviu
perfeitamente em Bride. Quando foi que eu fiquei tão pequena?, ela se
perguntou.
Tencionava deitar só um minuto para aplacar o terror, firmar as ideias e
entender o que estava acontecendo com seu corpo que encolhia, mas, sem
nenhuma sonolência nem aviso, adormeceu. Daquele escuro vazio brotou um
sonho vívido, inteiramente sentido. A mão de Booker deslizava entre suas coxas,
e, quando os braços dela subiram e se fecharam nas costas dele, Booker tirou os
dedos e deslizou entre as pernas de Bride aquilo que chamavam de orgulho e
riqueza das nações. Ela começou a sussurrar ou gemer, mas os lábios dele
pressionavam os dela. Ela enrolou as pernas no quadril dele em movimento
como se para moderá-lo ou ajudá-lo ou mantê-lo ali. Bride acordou molhada e
cantarolando. No entanto, quando tocou o lugar onde ficavam seus seios, o
cantarolar se transformou em soluços. Foi quando ela entendeu que as
mudanças em seu corpo haviam começado não depois que ele foi embora, mas
porque ele foi embora.
Calma, ela pensou; seu cérebro estava cambaleante, mas ela ia endireitá-lo,
seguir em frente como se tudo estivesse normal. Ninguém precisa saber e
ninguém precisa ver. Sua conversa e atividade deviam ser rotineiras, como lavar
o cabelo depois do banho. Mancando até a pia da cozinha, ela despejou água
do balde numa bacia, ensaboou e enxaguou o cabelo. Quando estava
procurando em torno uma toalha seca, Evelyn entrou.
“Aah, Bride”, ela disse sorrindo. “Você tem cabelo demais pra um pano de
pratos. Venha, vamos sentar lá fora e o seu cabelo pode secar com o sol e o ar
fresco.”
“Tudo bem, claro”, disse Bride. Agir com naturalidade era importante,
pensou. Talvez até revertesse as mudanças corporais — ou as fizesse cessar. Ela
acompanhou Evelyn até um banco enferrujado no quintal banhado em
brilhante luz platinada. Ao lado dele, havia uma mesa com uma lata de
maconha e uma garrafa de bebida sem rótulo. Enxugando com a toalha o
cabelo de Bride, Evelyn conversou à típica maneira dos salões de beleza. Sobre
como era feliz de viver debaixo das estrelas com o homem perfeito, o quanto
havia aprendido nas viagens, os cuidados domésticos sem as amenidades
modernas, que ela chamava de porcaria pronta para o lixo uma vez que nada
durava, e como Rain havia enriquecido a vida deles.
Quando Bride perguntou quando e de onde Rain tinha vindo, Evelyn se
sentou e serviu-se da bebida.
“Levou algum tempo pra entender a história toda”, disse. Bride ouviu
atentamente. Qualquer coisa. Qualquer coisa servia, primeiro para afastar os
pensamentos de como seu corpo estava mudando e, segundo, de como ter
certeza de que ninguém notasse. Quando Evelyn lhe entregou a camiseta, ela
saindo da banheira, Evelyn não notou, ou não disse nem uma palavra. Bride
tinha seios espetaculares quando resgatada do Jaguar; tinha-os na clínica de
Whiskey. Agora, haviam sumido, como uma mastectomia malfeita que deixara
mamilos intactos. Nada doía; seus órgãos funcionavam como sempre, a não ser
por uma menstruação estranhamente atrasada. Então de que tipo de doença
estava sofrendo? Uma que era ao mesmo tempo visível e invisível. Ele, pensou
ela. A maldição dele.
“Quer um pouco?” Evelyn apontou a lata.
“Quero, sim.” Ela observou a habilidade de Evelyn e recebeu o resultado
com gratidão. Tossiu com a primeira tragada, mas não com as outras.
Ficaram fumando em silêncio durante algum tempo, até Bride dizer: “Me
conte o que você quis dizer com encontrar a menina na chuva”.
“Encontramos mesmo. O Steve e eu estávamos voltando de algum protesto,
não lembro qual, e vimos aquela menininha encharcada, num degrau de tijolos.
Na época, a gente tinha um Volkswagen velho e reduzimos a marcha, paramos.
Nós dois pensamos que ela estava perdida, ou que tinha perdido a chave da
porta. Ele estacionou, saiu e foi ver qual era o problema. Primeiro perguntou o
nome dela.”
“O que ela disse?”
“Nada. Nem uma palavra. Encharcada como estava, ela desviou o rosto
quando o Steve se agachou na frente dela, mas nossa! Quando ele tocou o
ombro da menina, ela deu um pulo e saiu correndo, espalhando água com os
tênis molhados. Então ele simplesmente entrou no carro e a gente continuou
voltando pra casa. Mas a chuva piorou muito — tanto que ficou difícil de
enxergar pelo para-brisa. Então desistimos e estacionamos perto de um
restaurante. Chamado Bruno. Aí, em vez de esperar no carro, a gente entrou,
mais pelo abrigo do que pelo café que nós pedimos.”
“Então perderam a menina?”
“Nessa hora, sim.” Tendo consumido o baseado, Evelyn tornou a encher o
copo e deu um gole.
“Ela voltou?”
“Não, mas quando a chuva passou e nós saímos do restaurante, eu vi que ela
estava agachada do lado de uma caçamba numa viela atrás do edifício.”
“Nossa”, Bride disse, estremecendo como se fosse ela própria na viela.
“Foi o Steve que resolveu não deixar ela lá. Eu não tinha tanta certeza de que
a gente devesse interferir, mas ele simplesmente foi até lá, agarrou a menina e
jogou em cima do ombro. Ela gritava ‘Sequestro! Sequestro!’, mas não muito
alto. Não acho que ela quisesse chamar atenção, principalmente dos meganhas,
quer dizer, os policiais. Nós empurramos a menina pro banco de trás, entramos
e travamos as portas.”
“Ela ficou quieta?”
“Ah, não. Gritava ‘me deixa sair’ e chutava as costas dos nossos bancos. Tentei
falar manso pra ela não sentir medo da gente. Falei: ‘Você está encharcada, meu
bem’. Ela falou: ‘Tá chovendo, sua vaca’. Perguntei se a mãe dela sabia que ela
estava sentada na chuva e ela falou: ‘Sabe, e daí?’. Eu não sabia o que fazer com
aquela resposta. Então, ela começou a xingar — palavrões horríveis que você
nem imagina na boca de uma criança.”
“É mesmo?”
“O Steve e eu olhamos um pro outro e sem falar nada resolvemos o que fazer
— enxugar a menina, limpar, alimentar, depois tentar descobrir de onde ela
era.”
“Você disse que ela tinha uns seis anos quando vocês a encontraram?”, Bride
perguntou.
“Eu acho. Não sei de fato. Ela nunca disse e duvido que saiba. Quando a
gente pegou a Rain, ela tinha perdido os dentes de leite. E até agora não
menstruou, tem o peito chato feito uma tábua.”
Bride se sobressaltou. A simples menção de peito chato a jogou de volta a seu
problema. Se o tornozelo não impedisse, ela teria saído correndo, voado para
longe da assustadora desconfiança de que estava se transformando em uma
menininha negra.
Uma noite e um dia depois, Bride havia se acalmado um pouco. Uma vez
que ninguém notara ou comentara as mudanças em seu corpo, a camiseta que
caía lisa no peito, os lóbulos das orelhas sem furos. Só ela sabia dos pelos não
raspados, mas ausentes das axilas e do sexo. Então, aquilo tudo podia ser uma
alucinação, como os sonhos vívidos que vinha tendo quando conseguia dormir.
Será? Duas vezes, à noite, ela acordara e encontrara Rain parada em cima dela
ou agachada perto — nada ameaçadora, só olhando. Mas quando falou com a
menina, ela pareceu sumir.
Desamparada, ociosa. Ficou claro para Bride por que tanto se combate o
tédio. Sem distração ou atividade física, a mente embaralhava lembranças
esparsas, sem sentido. Preocupação focada teria sido melhor que retalhos
desconexos de pensamentos. A não ser pela limitada coerência de um sonho,
sua mente vagava do estado de suas unhas àquela vez em que se chocara com
um poste, de avaliar o vestido de uma celebridade ao estado dos próprios dentes.
Estava atolada em um lugar tão primitivo que não tinha nem um rádio,
enquanto observava um casal cuidando de suas atividades diárias — plantar,
lavar, cozinhar, tecer, cortar grama, rachar lenha, preparar conservas. Não havia
ninguém com quem conversar, pelo menos não sobre as coisas que a
interessavam. Sua decidida recusa em pensar em Booker invariavelmente cedia.
E se não conseguisse encontrá-lo? E se ele não estiver com o sr. ou a srta. Olive?
Nada faria sentido se a caçada em que estava empenhada fracassasse. E se fosse
bem-sucedida, o que ela faria ou diria? A não ser pela Sylvia, Inc. e por
Brooklyn, sentia ter sido zombada e rejeitada por todo mundo a vida inteira.
Booker era a única pessoa que ela era capaz de confrontar — o que era a
mesma coisa que confrontar a si mesma, que se pôr em pé por si mesma. Ela
não valia alguma coisa? Nada?
Sentia falta de Brooklyn, que considerava sua única amiga verdadeira: leal,
engraçada, generosa. Quem mais iria rodar quilômetros para encontrá-la depois
daquele sangrento horror num motel barato e, em seguida, cuidar tão bem dela?
Não era justo, ela pensou, deixá-la no escuro quanto a seu destino. Claro que
não podia contar para a amiga a razão de sua fuga. Brooklyn teria tentado
dissuadi-la, ou, pior, teria gozado dela, dado risada. Tentado convencê-la de que
era uma ideia sem sentido e fora de propósito. Mesmo assim, o certo era entrar
em contato com ela.
Já que não tinha como telefonar, Bride resolveu mandar um recado. Quando
perguntou, Evelyn disse que não tinha nenhum papel de carta, mas ofereceu a
Bride uma folha do bloco de papel que usava para ensinar Rain a escrever.
Evelyn prometeu que faria Steve pôr no correio.
Bride era perita em memorandos da empresa, mas não em cartas pessoais. O
que devia dizer?
Estou bem, até agora…?
Desculpe ter viajado sem avisar…?
Tenho de fazer isso sozinha porque…?
Quando deixou o lápis de lado, examinou as unhas.
Na maioria das vezes, o som de Evelyn tecendo no tear a acalmava, mas
nesse dia o clique, toc, clique, toc da lançadeira e do pedal eram extremamente
irritantes. Qualquer que fosse o rumo que seus pensamentos tomassem, a
possibilidade de vergonha estava à espera no final. Suponhamos que Booker
não morasse numa cidade chamada Whiskey. E se morasse, e daí? E se estivesse
com outra mulher? O que ela tinha a dizer a ele de qualquer forma, além de
“Odeio você pelo que fez” ou “Por favor, volte pra mim”? Talvez ela pudesse
achar um jeito de magoá-lo, magoá-lo de verdade. Turvos como estavam seus
pensamentos, eles se aglutinavam em torno de uma imposição — a imperiosa
necessidade de confrontá-lo, apesar do resultado. Incomodada e irritada com os
“e se” e o som do tear de Evelyn, ela resolveu ir mancando até lá fora. Abriu a
porta e chamou: “Rain, Rain”.
A menina estava deitada na grama, observando uma trilha de formigas
empenhadas em seu trabalho civilizado.
“O que foi?” Rain ergueu a cabeça.
“Quer dar uma volta?”
“Por quê?” Pelo tom de sua voz, as formigas eram claramente mais
interessantes que a companhia de Bride.
“Não sei”, Bride respondeu.
Essa resposta pareceu agradar. Ela se pôs de pé num salto e esfregou a mão
no short. “Tudo bem, se você quer.”
O silêncio entre elas foi fácil de início, uma vez que ambas pareciam
profundamente imersas em seus pensamentos. Bride mancando, Rain saltitando
ou acompanhando o limiar entre os arbustos e a grama. Uns quinhentos metros
adiante, a voz rouca de Rain rompeu o silêncio.
“Eles me roubaram.”
“Quem? O Steve e a Evelyn, você diz?” Bride parou e olhou Rain, que
coçava a panturrilha. “Eles disseram que te encontraram sentada na chuva.”
“É.”
“Então por que você diz que ‘roubaram’?”
“Porque eu não pedi pra eles me levarem e eles não perguntaram se eu
queria ir.”
“Então por que você foi?”
“Eu estava molhada e morrendo de frio. A Evelyn me deu um cobertor e
uma caixa de passas pra comer.”
“Você acha ruim eles terem pegado você?” Acho que não, Bride pensou —
senão você teria fugido.
“Ah, não. Nunca. Este lugar aqui é o melhor. Além disso, não tem mais lugar
nenhum pra ir.” Rain bocejou e esfregou o nariz.
“Você quer dizer que não tem uma casa?”
“Eu tinha, mas a minha mãe mora lá.”
“Então você fugiu.”
“Não fugi. Ela me botou pra fora. Falou ‘Sai fora, porra’. Então eu saí.”
“Por quê? Por que ela faria isso?” Por que alguém faria isso com um filho?,
Bride se perguntou. Nem Mel, que durante anos não suportava olhar nem tocar
nela, jamais a botou para fora.
“Porque eu mordi ele.”
“Mordeu quem?”
“Um cara. Que vinha sempre. Um dos que ela deixava fazer aquilo comigo.
Ah, olhe. Mirtilos!” Rain saiu procurando entre os arbustos ao lado do caminho.
“Espere um pouco”, Bride disse. “Fazer o que com você?”
“Ele botou o negócio de fazer pipi dele na minha boca e eu mordi. Então ela
pediu desculpa pra ele, devolveu a nota de vinte dólares e me fez ficar lá fora.”
As frutas estavam amargas, não aquela doçura silvestre que ela esperava. “Ela
não deixou eu voltar pra dentro. Eu ficava batendo na porta. Ela abriu uma vez
pra jogar a minha malha.” Rain cuspiu o último pedaço de mirtilo na terra.
Ao imaginar a cena, Bride sentiu o estômago revirar. Como alguém podia
fazer uma coisa dessas com uma criança, qualquer criança, com a própria filha?
“Se você visse a sua mãe de novo, o que você diria pra ela?”
Rain sorriu. “Nada. Eu cortava fora a cabeça dela.”
“Ah, Rain. Você não ia fazer isso.”
“Ia, sim. Eu sempre pensava nisso. Como ela ia ficar — os olhos dela, a boca,
o sangue escorrendo do pescoço dela. Era gostoso ficar pensando nisso.”
Uma saliência de pedra lisa se projetava paralela ao caminho. Bride pegou a
mão de Rain e a levou delicadamente até a pedra. Sentaram-se. Nenhuma das
duas viu a corça e seu filhote parados entre as árvores do outro lado do
caminho. A corça observando a dupla humana era tão imóvel como a árvore a
seu lado. O filhote aninhado em seu flanco.
“Me conte”, Bride falou. “Me conte.”
Ao som da voz de Bride, mãe e filho fugiram.
“Então, Rain.” Bride pôs a mão no joelho de Rain. “Me conte.”
E ela contou, os olhos de esmeralda às vezes cintilando, abertos, outras vezes
apertados como fendas cor de oliva, enquanto ela descrevia as lembranças
astutas, perfeitas, a coragem necessária para viver na rua. Precisava descobrir
onde ficavam as privadas públicas, ela disse; como evitar serviços de assistência
à criança, a polícia, como escapar de bêbados, de maconheiros. Mas saber onde
era seguro dormir era a coisa mais importante. Levou tempo e ela teve de
aprender que tipo de gente daria dinheiro e para quê, e lembrar as portas dos
fundos de quais copas e restaurantes tinham funcionários mais bondosos e
generosos. O maior problema era encontrar comida e guardar para depois. Ela
deliberadamente não fez nenhum amigo — nem moços nem velhos, nem
malucos estáveis nem vagabundos. Qualquer um podia te entregar ou
machucar. As prostitutas de esquina eram as melhores, e a alertavam contra os
perigos de sua profissão — caras que não pagavam, guardas que pagavam antes
de prendê-las, homens que as feriam por prazer. Rain disse que nem precisava
lembrar porque uma vez, quando um cara bem velho a machucou tanto que ela
sangrou, a mãe o esbofeteou e gritou “Fora!”, depois a limpou com um pó
amarelo. Rain confessou que tinha medo de homens; lhe davam enjoo. Ela
estava em uns degraus esperando o caminhão do Exército da Salvação parar
quando começou a chover. Uma senhora no caminhão podia lhe dar um casaco
ou sapatos dessa vez, como outros dias em que havia lhe dado comida. Foi aí
que Evelyn e Steve apareceram e, quando ele a tocou, ela pensou nos homens
que iam à casa da mãe, então teve de fugir correndo, perder a mulher da
comida e se esconder.
Rain ria às vezes ao descrever sua vida na rua, saboreando as espertezas, as
escapadas, enquanto Bride lutava contra o perigo de chorar por outra pessoa
que não ela mesma. Ao ouvir aquela menininha valente que não perdia tempo
com autopiedade, ela sentiu um companheirismo surpreendentemente livre de
inveja. Como a proximidade de colegas de escola.
Rain

Ela foi embora, a minha dama negra. Aquela vez que eu vi ela presa no carro
eu primeiro me assustei com os olhos dela. O olho da minha gata, a Silky, é
daquele jeito. Mas não demorou nada pra eu começar a gostar muito dela. Ela é
tão bonita. Às vezes, eu ficava só olhando pra ela quando estava dormindo. Hoje
o carro dela voltou com a porta estragada de outra cor. Antes de sair, ela me deu
um pincel de barba. O Steve é barbudo e não quer, então eu uso ele pra escovar
o pelo da minha gata. Estou triste porque ela foi embora. Não sei com quem
conversar. A Evelyn é boa de verdade pra mim e o Steve também, mas eles
franzem a testa e olham pro outro lado quando eu conto como era na casa da
minha mãe ou se eu começo a contar pra eles como eu era esperta quando a
minha mãe me expulsou. Mas eu não quero matar eles dois como eu queria
quando cheguei aqui no começo. É que naquele tempo eu queria matar todo
mundo — até eles me darem uma gatinha. Ela agora é uma gata e eu conto
tudo pra ela. A minha dama negra ouve eu contar como era. O Steve não deixa
eu falar disso. Nem a Evelyn. Eles acham que eu sei ler, mas eu não sei, bom,
só um pouquinho — as placas e umas outras coisas. A Evelyn está tentando me
ensinar. Ela fala que é escola em casa. Eu acho que é bobagem em casa e
enrolação em casa. A gente é uma família de mentira — legal, mas de mentira.
A Evelyn é uma boa mãe substituta, mas eu preferia ter uma irmã igual à minha
dama negra. Eu não tenho pai, quer dizer, não sei quem ele é porque ele não
morava na casa da minha mãe, mas o Steve está sempre aqui a não ser quando
pega um dia de trabalho em algum lugar. A minha dama negra é legal, mas
dura também. Quando a gente começou a voltar pra casa depois que eu contei
tudo como era a minha vida antes da Evelyn e do Steve, passou um caminhão
com os meninos grandes. Um deles gritou: “Ô, Rain. Quem é a sua mamãe?”. A
minha dama negra nem virou a cabeça, mas eu mostrei a língua pra eles e
abanei a mão com o polegar no nariz. Um deles chama Regis, um menino que
eu conheço porque ele às vezes vem na nossa casa com o pai dele pra trazer
lenha ou uns cestos de milho. O motorista, um rapaz mais velho, fez uma curva
com o caminhão pra seguir a gente. O Regis apontou pra nós uma espingarda
igual à do Steve. A minha dama negra viu e esticou o braço na frente da minha
cara. Os chumbinhos acertaram a mão e o braço dela. Nós duas caímos, ela em
cima de mim. Eu vi o Regis abaixar quando o caminhão acelerou e foi embora.
O que eu podia fazer além de ajudar ela a levantar e segurar o braço dela
sangrando enquanto a gente voltava correndo pra casa o mais depressa que ela
conseguia por causa do tornozelo O Steve catou os chumbinhos da mão e do
braço dela e disse que ia falar com o pai do Regis. A Evelyn lavou o sangue da
pele da minha dama negra e passou iodo na mão dela toda. A minha dama
negra fez uma careta, mas não chorou. O meu coração estava batendo depressa
porque ninguém nunca tinha feito aquilo antes. Quer dizer, o Steve e a Evelyn
me pegaram e tudo, mas ninguém nunca se arriscou pra me proteger. Salvar a
minha vida. Mas foi isso que a minha dama negra fez sem nem pensar.
Ela foi embora agora, mas quem sabe um dia eu encontro ela de novo.
Sinto saudade da minha dama negra.
PARTE III

Ele estava com sangue nos nós dos dedos, que começaram a inchar. O
estranho em que estava batendo não se mexia mais, nem gemia, mas ele sabia
que era melhor ir embora depressa antes que algum estudante ou guarda do
campus achasse que era ele o bandido e não o homem caído na grama. Deixou
o homem espancado com a calça jeans aberta e o pênis exposto do jeito que o
tinha visto ao lado do parquinho do campus. Só havia alguns filhos dos
professores perto do escorregador e um estava no balanço. Aparentemente
nenhum deles notara o homem que lambia os lábios e sacudia o membrinho
branco para eles. Foi o fato de ele lamber os lábios que o incomodou — a
língua passando no lábio superior, a engolida antes de passar de novo. Claro
que a visão das crianças era tão prazerosa para o homem como tocá-las, porque
era evidente que em sua mente distorcida elas o estavam chamando e ele
reagindo a suas coxas grossas e pequenos traseiros firmes, exibindo os shorts ou
as calcinhas ao subirem no escorregador ou inflados de ar no balanço.
O punho de Booker estava na boca do homem antes que pudesse pensar. Um
ligeiro borrifo de sangue manchou seu moletom, e, quando o homem perdeu os
sentidos, Booker pegou sua bolsa de livros do chão e foi embora — não depressa
demais, mas depressa o suficiente para atravessar a rua, virar o moletom pelo
avesso e chegar na classe a tempo. Não conseguiu, mas havia alguns outros
entrando sorrateiramente na sala de palestras quando ele chegou. Os
retardatários ocupavam os lugares das últimas filas e punham mochilas, pastas
ou laptops nas carteiras. Só um deles pegou um caderno. Booker preferia lápis e
papel também, mas os dedos inchados dificultavam a escrita. Ele então ouviu
um pouco, divagou um pouco e tapou a boca para esconder os bocejos.
O professor falava sem parar sobre a obstinação de Adam Smith, como fazia
em quase toda aula, como se a história da economia tivesse apenas um teórico
digno de ser arrasado. O que dizer de Milton Friedman ou daquele camaleão
Karl Marx? A obsessão de Booker por Mammon era recente. Quatro anos antes,
como estudante de graduação, ele mordiscara cursos em vários currículos,
psicologia, ciência política, humanidades, e fizera múltiplos cursos em estudos
afro-americanos, nos quais os melhores professores eram brilhantes ao
descrever, mas não em responder satisfatoriamente a qualquer pergunta
começada com “por quê”. Ele desconfiava que a maioria das respostas reais
referentes a escravidão, linchamento, trabalho forçado, meeiros, racismo, a
reconstrução, Jim Crow, trabalho de prisioneiros, migração, direitos civis e os
movimentos revolucionários negros eram todas a respeito de dinheiro. Dinheiro
retido, dinheiro roubado, dinheiro como poder, como guerra. Onde estava a
palestra sobre como a escravidão sozinha catapultou todo o país da agricultura
para a era industrial em duas décadas? O ódio dos brancos, sua violência, foi a
gasolina que manteve o lucro dos motores rodando. Então, já formado, ele se
voltou para a economia — sua história, suas teorias — para aprender como o
dinheiro moldou cada uma das opressões do mundo e criou todos os impérios,
nações, colônias com Deus e seus inimigos usados para ceifar, depois velar, as
riquezas. Ele normalmente contrastava o espancado, pobre e seminu Rei dos
Judeus bradando traição numa cruz com o papa cheio de joias e roupa elegante
sussurrando homilias sobre a cúpula do Vaticano. A cruz e a cúpula, de Booker
Starbern. Esse seria o título de seu livro.
Não impressionado com a palestra, ele deixou os pensamentos deslizarem
para o homem caído e exposto perto do parquinho. Careca. De aspecto normal.
Provavelmente um homem bom no resto — sempre eram. O “melhor homem
do mundo”, os vizinhos sempre diziam. “Não fazia mal a uma mosca.” De onde
vinha esse lugar-comum? Por que não fazer mal a uma mosca? Queria dizer que
ele era terno demais para tirar a vida de um inseto portador de doenças, mas era
capaz de ceifar alegremente a vida de uma criança?
Booker tinha sido criado em uma família grande e unida sem nenhuma
televisão à vista. Quando calouro na faculdade, vivera cercado por um mundo
de televisão/internet onde tanto os métodos de comunicação de massa como a
substância da comunicação de massa lhe pareciam carregados de
entretenimento, mas no geral desprovidos de insight ou conhecimento. Os
canais do tempo eram as únicas fontes informativas, periféricas e quase sempre
histéricas. E os video games — hipnotizantes em sua inutilidade. Tendo
crescido numa família que lia livros e tinha apenas o rádio e os jornais para a
informação diária e discos de vinil para entretenimento, ele precisava imitar o
entusiasmo dos colegas pelos sons das telas de games ressoando em todo quarto
do alojamento, sala de repouso e bar de estudantes. Ele sabia que estava muito,
muito por fora — um luddista incapaz de participar do excitante mundo tech, e
isso o envergonhara quando calouro. Tinha sido moldado pela fala ao vivo e
pelo texto no papel. Todo sábado de manhã, a primeira coisa antes do café era a
reunião que seus pais faziam com os filhos exigindo que respondessem a duas
perguntas feitas a cada um: 1. O que você aprendeu que é verdade (e como sabe
que é)? 2. Quais são seus problemas? Ao longo dos anos, as respostas à primeira
pergunta iam de “minhocas não voam”, “gelo queima”, “este estado tem só três
condados” a “o peão é mais forte que a rainha”. Tópicos relevantes à segunda
pergunta podiam ser “uma garota me deu um tapa na cara”, “minha acne
voltou”, “álgebra”, “a conjugação dos verbos latinos”. Perguntas sobre
problemas pessoais instigavam soluções de todos à mesa, e depois de resolvidas
ou deixadas pendentes, os filhos recebiam ordem de tomar banho e se vestir —
os mais velhos ajudando os mais novos. Booker adorava essas reuniões de sábado
de manhã, recompensadas pelo destaque do fim de semana — os imensos
festins de café da manhã de sua mãe. Verdadeiros banquetes. Biscoitos quentes,
quebradiços e flocados; mingau de aveia, branco como a neve e quente de
queimar a língua; ovos batidos até virarem um creme cor de açafrão pálido;
hambúrgueres de linguiça chiando, tomates fatiados, geleia de morango, suco
de laranja espremido na hora, leite frio em vidros de boca larga. Parte da comida
ela guardava para esses festins de fim de semana porque durante o resto da
semana comiam frugalmente: mingau de aveia, frutas da estação, arroz, feijões
secos e a folha verde que estivesse disponível: couve crespa, espinafre, repolho,
couve galega, mostarda ou folhas de nabo. Esses menus de café da manhã dos
fins de semana eram deliberadamente suntuosos porque vinham depois de dias
de escassez.
Apenas durante os longos meses em que ninguém sabia onde estava Adam as
reuniões familiares e cafés da manhã suntuosos foram interrompidos. Durante
esses meses, o silêncio tiquetaqueava pela casa como uma bomba-relógio que
sempre explodia em discussões tolas e desnecessariamente mesquinhas.
“Mãe, ele está olhando pra mim!”
“Pare de olhar pra ela.”
“Ele está olhando de novo!”
“Pare de olhar de novo.”
“Mãe!”
Quando a polícia atendeu seu pedido de ajuda para procurar Adam, eles
imediatamente revistaram a casa dos Starbern — como se os pais ansiosos
pudessem ter alguma culpa. Conferiram se o pai tinha ficha na polícia. Não
tinha. “Bom, voltamos aqui”, disseram. E abandonaram a busca. Mais um
pretinho desaparecido. E daí?
O pai de Booker se recusava a tocar qualquer um de seus amados discos de
ragtime, old-time, jazz, alguns dos quais Booker dispensaria, mas nunca
Satchmo. Uma coisa era perder um irmão — isso partia seu coração —, mas o
mundo sem o trompete de Louis Armstrong desmoronava.
Então, no começo da primavera, quando as árvores do jardim começaram a
brotar, Adam foi encontrado. Numa galeria de água.

Booker foi com o pai identificar os restos mortais. Imundo, mordido por ratos,
com um único olho aberto. Os vermes, superalimentados e explodindo de
alegria, tinham ido embora, deixando ossos meticulosamente limpos debaixo
dos trapos da camiseta amarela com crostas de lama. O corpo estava sem calça
nem sapato. A mãe de Booker não conseguiu ir lá. Ela se recusou a ter gravada
na mente qualquer outra coisa que não a imagem da beleza jovem e
inacreditável de seu primogênito.
Booker achou que o funeral de caixão fechado parecia barato e solitário,
apesar da grande eloquência do pregador, da multidão de vizinhos presentes,
dos pratos e mais pratos de comida preparada cuidadosamente, levados à
cozinha da casa. O próprio excesso o tornava mais solitário. Era como se o
irmão mais velho, próximo como um gêmeo, estivesse sendo enterrado de novo,
sufocando debaixo de música, sermão, lágrimas, multidão e flores. Ele queria
redirecionar o luto — torná-lo privado, especial, e, acima de tudo, apenas seu.
Adam era o irmão que ele adorava, dois anos mais velho e doce como cana-de-
açúcar. Um substituto impecável para o irmão com quem havia se enrolado no
útero. Um irmão, diziam-lhe, que não respirou nem uma única vez. Booker
tinha três anos quando deixaram que soubesse que era gêmeo daquele que não
sobrevivera ao nascimento, mas de alguma forma ele sempre soubera — sentia
o vazio quente andando a seu lado, ou esperando no degrau da varanda
enquanto brincava no jardim. Uma presença que repartia a colcha de retalhos
debaixo da qual Booker dormia. Quando ficou mais velho, a forma do vazio se
desvaneceu, transferida para uma espécie de companhia interna, em cujas
reações e instintos ele confiava. Quando começou a primeira série e ia a pé para
a escola todo dia com Adam, a substituição ficou completa. Então, depois do
assassinato de Adam, Booker não tinha companheiro. Ambos estavam mortos.
A última vez que Booker viu Adam, ele estava andando de skate na calçada
ao anoitecer, a camiseta amarela fluorescente debaixo das árvores de freixos do
Norte. Era começo de setembro e nada em lugar nenhum começara a morrer.
As folhas de bordo se comportavam como se seu verde fosse imortal. Os freixos
ainda se erguiam para o céu sem nuvens. O sol começou a se tornar
agressivamente vivo ao se pôr. Pela calçada, entre cercas vivas e árvores altas,
Adam flutuava, uma mancha de ouro correndo por um túnel de sombras para a
boca de um sol vivo.
Adam era mais que um irmão para Booker, mais do que o “A” de pais que
haviam batizado os filhos alfabeticamente. Ele era aquele que sabia o que
Booker estava pensando, sentindo, cujo humor era ao mesmo tempo áspero e
instrutivo, mas nunca cruel, o mais inteligente, que amava todos os irmãos, mas
principalmente Booker.
Sem conseguir esquecer aquele brilho amarelo final deslizando pela rua,
Booker depositou uma única rosa amarela na tampa do caixão e outra, mais
tarde, ao lado do túmulo. Membros da família vieram de muito longe para
enterrar o morto e consolar os Starbern. Entre eles, estava o sr. Drew, o pai de
sua mãe. Ele era o bem-sucedido, o avô abertamente hostil a qualquer um que
não fosse rico como ele, aquele que até mesmo a filha chamava não de “papai”
ou “pai”, mas de “sr. Drew”. No entanto, o velho, que fizera sua fortuna como
um inflexível senhorio de cortiços, cuidou do que lhe restava de boas maneiras
e não demonstrou o desprezo que sentia por aquela família batalhadora.
Depois do funeral, a casa voltou, hesitante, à sua rotina, com os sons
estimulantes de Louis, Ella, Sidney Bechet, Jelly Roll, King Oliver e Bunk
Johnson flutuando no toca-discos ao fundo. E as reuniões e festins de fim de
semana voltaram, com Booker e os irmãos, Carole, Donovan, Ellie, Favor e
Goodman, todos tentando pensar respostas interessantes para as perguntas de
rotina. Com o tempo, toda a família se animou, como os bonecos de Vila
Sésamo, à espera de que a alegria, se trabalhada com empenho suficiente,
pudesse adoçar os vivos e aquietar os mortos. Booker achava as piadas forçadas e
os problemas inventados ao mesmo tempo desorientados e insultuosos. Durante
o funeral e por poucos dias depois, uma parente em visita, uma tia que
chamavam de Queen, era a exceção ao que Booker considerava uma tediosa
rotina. A tia possuía um sobrenome de que ninguém se lembrava, uma vez que
os rumores diziam que tivera muitos maridos — um mexicano, depois dois
brancos, quatro negros, um asiático, mas numa sequência que ninguém
recordava. Atarracada, com o cabelo vermelho-fogo, ela surpreendeu a família
enlutada vindo da Califórnia para comparecer ao funeral de Adam. Só ela
percebeu a tristeza misturada à raiva do sobrinho e puxou-o de lado.
“Não deixe ele ir embora”, ela disse. “Não antes dele estar pronto. Enquanto
isso, fique pendurado nele de unhas e dentes. O Adam vai te dizer quando for a
hora.”
Ela o confortou, fortaleceu e validou a injustiça que ele sentia da parte de sua
família.
Temendo outra crise que pudesse eliminar a música ampliadora da alma que
seu pai tocava, com a qual Booker contava para lubrificar e endireitar seus
sentimentos emaranhados, ele pediu ao pai para fazer aulas de trompete. Claro,
disse o sr. Starbern, contanto que seu filho ganhasse metade do preço do
professor. Booker encheu os vizinhos em busca de tarefas e conseguiu o
suficiente para escapar das reuniões de sábado para as lições de trompete que
abrandavam a nascente intolerância contra seus irmãos. Como eles podiam
fingir que estava tudo acabado? Como podiam esquecer e simplesmente seguir
em frente? Quem era e onde estava o assassino?
O professor de trompete, já ligeiramente bêbado logo de manhã, era, apesar
disso, um excelente músico e um instrutor ainda melhor.
“Você tem o pulmão e os dedos, agora precisa do lábio. Quando juntar essas
três coisas, pode esquecer delas e deixar a música sair.”
Coisa que, com persistência, ele conseguiu.
Seis anos mais tarde, quando Booker tinha catorze anos e era um trompetista
ligeiramente dotado, o melhor homem do mundo foi preso, julgado e
condenado pelo assassinato com motivação sexual de seus meninos, cujos
nomes, inclusive o de Adam, estavam tatuados nos ombros do melhor homem
do mundo. Boise. Lenny. Adam. Matthew. Kevin. Roland. Claramente um
assassino partidário da igualdade de condições; suas vítimas pareciam
representantes do clipe de “We Are the World”. O tatuador disse que achara
serem os nomes dos filhos do cliente, não de outras pessoas.
O melhor homem do mundo era um mecânico de automóveis aposentado
que oferecia serviços a domicílio. Era especialmente prestativo no conserto de
geladeiras velhas — as Philco e GE produzidas nos anos 50 para durar para
sempre, e antigos fogões e caldeiras a gás. “Sujeira”, ele dizia sempre. “A maior
parte das máquinas morre porque nunca é limpa.” Todo mundo que o
contratava lembrava desse conselho. Outro traço que alguns lembravam era seu
sorriso, como era receptivo, atraente até. Fora isso, era minucioso, competente
e… bom. A única outra coisa que as pessoas lembravam a respeito dele é que
sempre levava um cachorrinho encantador na van, um terrier que ele chamava
de “Boy”. A polícia reteve os detalhes que pôde, mas as famílias dos meninos
assassinados não podiam ser detidas nem silenciadas. Pesadelos sobre o que
podia ter sido feito com seus filhos não contrabalançavam os fatos. Seis anos de
dor e perguntas sem resposta conviviam com as lembranças do tempo passado
no necrotério, ofegando, chorando, rostos petrificados ou caídos de costas em
desmaios desamparados.
Não restava muito de Adam quando foi encontrado, mas os detalhes de
sequestros mais recentes eram góticos. Aparentemente, as crianças eram
mantidas amarradas ao serem molestadas, torturadas, e havia amputações. O
melhor homem do mundo deve ter usado seu pequeno terrier branco como
atração. Uma testemunha central, uma viúva idosa, lembrou ter visto uma
criança no banco de passageiros da van, rindo e levando o cachorrinho ao rosto.
Mais tarde, ao ver os cartazes de criança desaparecida em vitrines de lojas,
postes e árvores, ela achou que reconheceu um rosto como o do menino
risonho. Ela chamou a polícia. Claro que a polícia conhecia a van. Ela
anunciava sua promessa em letras vermelhas e azuis: PROBLEMA? RESOLVIDO! WM.
V. HUMBOLDT. CONSERTOS DOMÉSTICOS. Quando a casa do sr. Humboldt foi
revistada, encontraram no porão um colchão sujo com manchas de sangue seco
junto com uma lata de doces elaboradamente decorada que continha pedaços
de carne ressecada embrulhados com cuidado, os quais, sem exigir investigação
muito detalhada, se revelaram pequenos pênis.
As exigências públicas e os gritos por vingança disfarçada de justiça foram
exaltados e angustiosos. Cartazes, manifestações na frente do tribunal, editoriais
— tudo parecia impossível de aplacar a não ser pela decapitação do culpado.
Booker juntou-se ao coro, mas não ficou impressionado por uma solução tão
fácil. O que ele queria não era a morte do homem; queria sua vida, e gastava
horas inventando roteiros que envolviam dor e desespero sem fim. Não havia
uma tribo na África que amarrava o corpo do morto nas costas daquele que o
matara? Isso certamente seria justiça — carregar um corpo em decomposição
por toda parte como uma carga física além da vergonha e da danação públicas.
A raiva, o clamor público pela prisão do melhor homem do mundo o abalaram
quase tanto quanto a morte de Adam. O julgamento em si não foi prolongado,
mas as preliminares pareceram eternas para Booker. Em meio aos dias de
manchetes dos jornais, programas de rádio e fofocas de bairro, ele batalhou para
encontrar algum jeito de deter e individualizar seus sentimentos, de separá-los
da tristeza e da raiva enlouquecida de outras famílias. A calamidade de Adam,
ele pensou, não era um item público a ser confinado a uma linha em uma lista
de seis vítimas num jornal. Era particular, pertencente apenas aos dois irmãos.
Dois anos mais tarde, lhe ocorreu uma solução satisfatória e tranquilizadora.
Repetindo o gesto que tinha feito no funeral de Adam, ele mandara tatuar uma
rosa pequena no ombro esquerdo. Seria aquela a mesma cadeira em que sentara
o predador, a mesma agulha usada em sua pele branca como farinha? Ele não
perguntou. O tatuador não tinha o amarelo vivo da lembrança de Booker, então
ficaram com uma espécie de vermelho-alaranjado.
Ser aceito na faculdade forneceu algum alívio, e também distração, e ele logo
se encantou com a vida no campus — não as aulas, não os professores, mas seus
vivos e sabichões colegas de classe, um encantamento que não diminuiu
durante dois anos. Tudo o que ele fez do ano de calouro ao de segundanista foi
reagir — caçoar, rir, descartar, encontrar defeitos, diminuir —, uma versão
juvenil de pensamento crítico. Ele e seus colegas de alojamento classificavam
garotas segundo revistas masculinas e vídeos pornôs, as classificavam de acordo
com personagens de filmes de ação que tinham visto. Os inteligentes
deslizavam pelas aulas; os gênios pulavam fora. Foi no terceiro ano que seu
brando cinismo se metamorfoseou em depressão. As posições de seus colegas de
classe começaram a aborrecer e incomodar ao mesmo tempo, não só porque
eram previsíveis, mas também porque impediam questionamentos sérios. Ao
contrário de seu esforço para aperfeiçoar “Wild Cat Blues” no trompete,
nenhuma ideia nova ou criativa era exigida na sociedade de graduandos e
nenhuma penetrava a abençoada névoa da transgressão jovem. A agitação
estudantil em torno da Guerra do Iraque, que antes movimentara o campus,
havia aquietado. Agora o sarcasmo desfraldava sua bandeira triunfante e
risadinhas se transformavam em seu juramento; agora a dócil manipulação de
professores se tornara rotina. Então Booker repassou as perguntas lançadas por
seus pais durante aquelas reuniões de sábado na rua Decatur: 1. O que você
aprendeu que é verdade (e como sabe que é)? 2. Quais são seus problemas?
1. Até agora nada. 2. Desesperança.
Então, desejando aprender algo de valor e talvez encontrar um lugar
adequado para a desesperança, ele se inscreveu na pós-graduação. Lá focou em
rastrear a riqueza desde o escambo até as bombas. Para ele era uma estimulante
jornada intelectual que policiava sua raiva, a enjaulava e explicava tudo sobre
racismo, pobreza e guerra. O mundo político era anátema; seus ativistas, tanto
reacionários como progressistas, pareciam equivocados e sonhadores. Os
revolucionários, armados ou pacíficos, não tinham noção do que aconteceria
depois que “vencessem”. Quem governaria? O “povo”? Faça-me o favor. O que
isso queria dizer? O melhor efeito seria introduzir na população uma nova ideia
que um político talvez pudesse pôr em ação. O resto era teatro em busca de
uma plateia. Só a riqueza explicava o mal da humanidade e ele estava decidido
a viver sem deferência a ela. Sabia exatamente os assuntos e temas dos artigos e
livros que ia escrever e mantinha anotações de sua pesquisa. Além do estudo em
seu campo, ele lia um pouco de poesia e alguns jornais. Nenhum romance —
importante ou insignificante. Gostava de certos poemas porque tinham paralelo
com a música, de jornais porque sangravam a política em cultura. Foi durante a
pós-graduação que ele começou a escrever algo além dos esquemas de futuros
ensaios. Começou a tentar moldar frases sem pontuação em linguagem musical
que expressasse suas questões ou os resultados de suas ideias. A maior parte disso
ele jogou fora; umas poucas, guardou.
Tendo finalmente garantido seu mestrado, Booker foi para casa sozinho para
o jantar de comemoração que sua mãe organizara. Pensou em convidar Felicity,
sua namorada intermitente, para ir com ele, mas achou melhor não. Não queria
uma pessoa de fora julgando sua família. Essa era sua missão.
Foi tudo tranquilo e quase alegre na reunião familiar até que ele subiu a seu
velho quarto, que no passado dividira com Adam. Não tinha certeza do que
procurava. O quarto estava não apenas diferente; estava antagônico — uma
cama de casal em vez das duas camas, dele e de Adam, cortinas transparentes
em vez de persianas, um tapete engraçadinho debaixo de uma escrivaninha
minúscula. Pior de tudo, o armário que costumava estar cheio de seus jogos —
bastões, bolas de basquete, tabuleiros — continha agora as roupas de garota de
sua irmã Carole. Mas o ressentimento o sufocou quando descobriu que seu
velho skate, idêntico ao que desaparecera com Adam, não estava ali. Fraco de
tristeza, Booker desceu. Mas quando viu sua irmã, a pálida fraqueza se
transformou em seu ardente gêmeo — a fúria. Ele questionou Carole, ela
reagiu. A briga deles cresceu e perturbou a família inteira até o sr. Starbern pôr
um fim nela.
“Pare com isso, Booker! Você não é o único que está sofrendo. Cada um fica
de luto de um jeito.” A voz do pai era como o aço do fio de uma faca.
“É, claro.” O tom de Booker era hostil, temperado de desdém.
“Você está agindo como se fosse o único desta família que amava o Adam.
Ele não ia querer isso”, disse o pai.
“O senhor não sabe o que ele ia querer.” Booker conseguiu combater as
lágrimas.
O sr. Starbern levantou do sofá. “Bom, sei muito bem o que eu quero. Quero
você civilizado dentro desta casa ou fora dela.”
“Ah, não”, sussurrou a sra. Starbern. “Não diga isso.”
Pai e filho se olharam, os olhos travados em agressão militar. O sr. Starbern
venceu a batalha e Booker saiu da casa, fechando com firmeza a porta ao passar.
Era adequado, talvez, que depois de deixar o único lar que conhecera ele
saísse para um aguaceiro. A chuva o fez levantar a gola e abaixar a cabeça como
um intruso agradecido pela noite. De ombros erguidos, olhos apertados, ele
seguiu pela rua Decatur num estado de espírito que a tempestade
complementava. Antes de sua discussão com Carole, ele tentara convencer seus
pais a pensar em algum tipo de memorial por Adam — uma bolsa de estudos
modesta com seu nome, por exemplo. A mãe gostou da ideia, mas o pai franziu
a testa e foi decididamente contra.
“Nós não podemos esbanjar dinheiro assim e não podemos esbanjar tempo
tentando levantar esse dinheiro”, disse. “Além disso, as pessoas que admiravam o
Adam e lembram dele não precisam de memorial.”
Booker já sentia uma veia venenosa de reprovação não só da parte de Carole,
mas de seus irmãos mais novos também. Para Favor e Goodman, parecia que
Booker queria uma estátua para o irmão que morrera quando eles eram bebês.
O que Booker entendia como lealdade familiar os outros viam como
manipulação — como tentativa de controlá-los —, desmerecendo o pai deles.
Só porque tinha dois diplomas universitários, ele achava que podia dizer a todo
mundo o que fazer. Eles reviraram os olhos diante de sua arrogância.
Quando visitou o antigo quarto que dividia com Adam, o fio de reprovação
que sentira durante sua proposta de um memorial se transformou numa corda,
quando viu a selvagem ausência não só de Adam, mas dele próprio. Então, ao
fechar a porta de sua família e sair para a chuva, isso já era uma atitude tardia.

Felicity disse: “Claro, com certeza” quando Booker perguntou se podia


dormir na casa dela por algum tempo. Ele ficou grato pela resposta rápida, uma
vez que não tinha endereço próprio desde que saíra do alojamento da pós-
graduação. No ônibus de volta ao campus, a leitura da Daedalus que trouxera
com ele o distraiu da decepção com sua família. Mas ela veio à tona quando ele
voltou para o alojamento e começou a jogar em caixas o que restava de sua vida
universitária — textos, tênis de corrida, roupas disformes, cadernos, diários —
tudo, exceto seu adorado trompete. Quando parou de chafurdar na autopiedade
por ter sido abusivamente mal compreendido, telefonou para a namorada.
Felicity era professora substituta e o relacionamento deles durava dois anos,
primordialmente porque se sustentava em blocos de tempo em que não se viam.
As convocações dela, baseadas como eram na doença súbita de algum professor
permanente, eram irregulares e muitas vezes para distritos distantes. Então ele
se sentiu à vontade para perguntar se podia se mudar para a casa dela por algum
tempo, ambos sabendo que tinha tudo a ver com conveniência e nada a ver com
compromisso. Era verão, e como Felicity provavelmente não teria pedidos de
substituição, poderiam gozar a companhia um do outro sem horários: ir ao
cinema, comer fora, correr em trilhas — o que sentissem vontade de fazer.
Uma noite, Booker levou Felicity ao Pier 2, um decadente clube noturno de
jantar dançante que apresentava uma banda de jazz ao vivo. Diante do camarão
com arroz, Booker pensou, como sempre fazia, que o quarteto no pequeno
palco precisava de metais. Praticamente toda música popular estava saturada de
cordas: guitarras, baixos e teclados, ajudados por percussão. A não ser por
grandes estrelas da música como a E Street Band, ou a orquestra de Wynton
Marsalis, os grupos raramente apresentavam, ao fundo ou solo, um sax, uma
clarineta, um trombone ou trompete, e ele sentia intensamente esse vazio.
Então, naquela noite, no intervalo, ele foi até o estreito vestiário atrás do palco,
cheio de fumaça de maconha e músicos risonhos, para perguntar se podia
participar do grupo algum dia. Sem querer repartir seus ganhos com outro
músico, principalmente alguém que não conheciam, eles o dispensaram
depressa.
“Vá pro inferno, cara.”
“Quem deixou você entrar aqui?”
“Bom, vocês podiam ao menos me ouvir”, ele pediu. “Toco trompete e vocês
iam se dar bem com um metal.”
Os guitarristas reviraram os olhos, mas o baterista disse: “Traga o trompete na
sexta-feira. É o dia que não tem importância se você foder tudo”.
Ele não mencionou o futuro teste a Felicity. Ela não podia estar menos
interessada no trompete que ele tocava.
Booker aceitou a sugestão do baterista e experimentou com eles no camarim
o mais perto que conseguia chegar de um solo de Louis Armstrong. O baterista
concordou com a cabeça, o pianista sorriu e os dois guitarristas não fizeram
objeção. Daí em diante, durante o verão, Booker juntou-se ao grupo que se
chamava The Big Boys on Fridays, quando o lugar ficava tão lotado que os que
bebiam e comiam não prestavam atenção à música.
Em setembro, quando os Big Boys se separaram — o baterista mudou de
cidade; o pianista conseguiu um trabalho maior e melhor —, Booker e os
guitarristas, Michael e Freeman Chase, começaram a tocar em ruas pontilhadas
de veteranos sem-teto com fria fúria nos olhos. A raiva deles não abrandava pelo
fato de receberem donativos mais generosos por estarem cercados de música.
Foi a temporada mais suave da vida de Booker, mas não durou muito. No fim
do verão, seu relacionamento com Felicity se esfiapou a tal ponto que não dava
para remendar. Tinham gostado de ser amantes morando juntos durante todo o
verão, até cada um começar a incomodar o outro com hábitos aos quais antes
não haviam dado atenção. Felicity reclamava do ruído de seu treino com o
trompete e de sua recusa em participar toda noite dos encontros com os amigos
dela. Ele odiava a fumaça do cigarro dela, suas escolhas de comida delivery,
música e vinho. Além de insistir em visitas constantes de membros da família,
ela era enxerida, sempre investigando a vida dele. Acima de tudo, ele achava
que ela era insuportavelmente opiniática. De fato, Felicity o achava tão
desagradável e aborrecido como ele a ela. Ela achava que ia enlouquecer se
tivesse de ouvir mais uma vez Donald Byrd, Freddie Hubbard, Blue Mitchell ou
qualquer outro de seus músicos favoritos. Ela começou a considerá-lo um
derrotado misógino. Mesmo assim podiam ter continuado juntos, apesar da
mútua hostilidade que estava crescendo como mofo entre eles, a não ser por um
acontecimento: a prisão de Booker e a noite que passou em uma cela.
Ele passara por um casal que se alternava a fumar um cachimbo de crack,
estacionado perto de um terreno baldio. A visão dos dois não o interessou até ele
notar uma criança, talvez de dois anos, gritando e chorando, em pé no banco
de trás do Toyota dos dois noiados. Ele foi até o carro, escancarou a porta,
arrancou o homem de dentro, esmurrou a cara dele e chutou para longe o
cachimbo que tinha caído no chão. Então a mulher pulou para fora e correu a
ajudar seu parceiro. A briga a três era mais hilária que letal, mas durou o
suficiente e foi ruidosa o bastante para chamar a atenção primeiro de
compradores, depois da polícia. Os três foram presos e a menininha que gritava,
entregue ao serviço de atendimento a menores.
Felicity teve de pagar a fiança. O juiz foi tolerante com Booker porque os pais
drogados o repugnavam tanto quanto haviam repugnado Booker. Ele processou
o casal e emitiu uma repreensão por perturbação da paz para Booker. Todo o
incidente enraiveceu Felicity, que se perguntou em voz alta por que ele tinha
de se meter em coisas que não lhe diziam respeito.
“Quem você pensa que é? O Batman?”
Booker passou o dedo no molar direito para ver se estava mole ou quebrado.
A mulher tinha mais força do que o homem, que dançava loucamente, mas
nunca acertava um golpe. Foi o punho dela que entrou em contato com o
queixo dele.
“Tinha uma criancinha naquele carro. Um bebê!”, ele disse.
“Não era filho seu, nem assunto seu”, Felicity gritou.
Um pouquinho abalado, Booker concluiu, mas ia consultar um dentista de
qualquer forma.
No ônibus para casa, os dois sabiam que tinha acabado, sem dizer nada.
Felicity continuou reclamando durante mais de uma hora depois que chegaram
ao apartamento, mas diante do pesado silêncio de Booker ela desistiu e foi
tomar uma ducha. Ele não foi com ela, como costumavam fazer.
O histórico de trabalho de Booker era esparso — um semestre embaraçoso
repleto de desastres ensinando música numa escola secundária, única disciplina
de escola pública que ele podia ensinar uma vez que não tinha diploma, e foi
eliminado nos poucos testes musicais nos quais se inscreveu. Seu talento com o
trompete era satisfatório, mas não excepcional.
Sua sorte mudou no momento necessário, quando Carole o localizou para
encaminhar uma carta dirigida a ele por uma empresa de advogados. O sr.
Drew tinha morrido e, para surpresa de todos, incluíra os netos — mas não os
próprios filhos — em seu testamento. Booker ia repartir com os irmãos a fortuna
de que o velho se gabava constantemente. Ele se recusou a pensar na ganância
e criminalidade que geraram a fortuna do avô. Disse a si mesmo que a morte
limpou o dinheiro do senhorio de cortiços. Nada mau. Ele agora podia alugar
um local próprio, um quarto tranquilo num bairro tranquilo e continuar
tocando ou na rua ou em outros clubes noturnos decadentes. Como não tinham
acesso a nenhum estúdio, os homens tocavam nas esquinas. Não por dinheiro, o
que era uma pena, mas para praticar e experimentar juntos em público diante
de uma plateia que não pagava, portanto não era crítica nem exigente.
Então veio o dia que mudou a ele e a sua música.

Simplesmente estupefato com a beleza dela, Booker ficou olhando de boca


aberta uma mulher jovem negro-azulada parada na calçada, rindo. A roupa dela
era branca, o cabelo como um milhão de borboletas negras adormecidas em sua
cabeça. Conversava com outra mulher — branca como giz e com dreadlocks
loiros. Uma limusine estacionou junto à calçada e ambas esperaram o motorista
abrir a porta para elas. Mesmo que o deixasse triste ver a limusine ir embora,
Booker não parou de sorrir até chegar à entrada dos trens, onde tocava com os
dois guitarristas. Nenhum dos dois ainda estava lá, nem Michael nem Chase, e
só então ele notou a chuva — suave, constante. O sol ainda brilhava, de forma
que as gotas que caíam do céu azul-bebê eram como cristal se rompendo em
faíscas de luz na calçada. Ele resolveu tocar seu trompete mesmo sozinho na
chuva, sabendo que nenhum pedestre iria parar para ouvir; ao contrário, eles
fechavam o guarda-chuva quando desciam correndo a escada para os trens.
Ainda tomado pela pura beleza da moça que tinha visto, ele pôs o trompete nos
lábios. O que veio à tona foi uma música que ele nunca havia tocado antes.
Notas baixas, abafadas, se prolongavam, e muito, com a melodia flutuando
entre os pingos de chuva.
Booker não tinha palavras para descrever seus sentimentos. O que ele sabia
era que o ar encharcado de chuva tinha cheiro de lilás quando tocava
lembrando dela. As ruas cheias de lixo na sarjeta pareciam interessantes, não
sujas; bodegas, salões de beleza, restaurantes, lojas de bugigangas encostadas
umas às outras pareciam acolhedores, totalmente amigáveis. Cada vez que
imaginava os olhos dela brilhando para ele ou seus lábios abertos num sorriso
convidativo, solto, sentia não só uma pulsação de desejo, mas também uma
desintegração do assombro e da tristeza com que a morte de Adam o turvara
durante anos. Quando deu um passo através daquela nuvem e ficou tão
emocionalmente satisfeito como era antes de Adam ter rodado de skate para
dentro do crepúsculo — lá estava ela. Uma Galateia da meia-noite viva sempre
e já.
Poucas semanas depois dessa primeira visão dela à espera de uma limusine, lá
estava ela de novo, parada na fila do estádio onde os Black Gauchos se
apresentavam — uma banda fantástica, nova, em ascensão, tocando uma
mistura de música brasileira e jazz de New Orleans, apresentação única. A fila
era longa, ruidosa e agitada, mas quando as portas se abriram para o aperto da
multidão, ele conseguiu passar por quatro corpos atrás dela e então, quando a
multidão encontrou seus lugares nos bancos, ele estava parado em pé atrás dela.
No ar carregado de música, com normas corporais ausentes e a benevolência
sexual densa como creme, circundar a cintura dela com os braços pareceu um
gesto mais que natural; era inevitável. E juntos dançaram e dançaram. Quando
a música parou, sua Galateia virou para olhar para ele e entregar o sorriso solto
que ele sempre imaginara.
“Bride”, ela disse quando ele perguntou seu nome.
Minha nossa, ele sussurrou.

O amor que faziam, desde o comecinho, era sereno, elaborado e de longa


duração, tão necessário a Booker que ele deliberadamente se continha noites
seguidas para fazer a volta à cama dela parecer totalmente nova. O
relacionamento dos dois era impecável. Ele gostava especialmente da falta de
interesse dela por sua vida pessoal. Ao contrário de Felicity, não havia
investigação. Bride era linda de matar, calma, tinha algo a fazer todos os dias e
não precisava da presença dele a cada minuto. O amor por si mesma era
coerente com seu ambiente da companhia de cosméticos e espelhava a obsessão
dele por ela. Então, se ela ficava falando de colegas de trabalho, produtos e
mercado, ele olhava seus olhos hipnóticos, tão profundamente expressivos que
diziam muito mais do que podia a mera linguagem. Olhos que falam, ele
pensava, acompanhando a música de sua voz. Cada traço — a saliência dos
malares, a boca convidativa, o nariz, a testa, o queixo, assim como aqueles olhos
— era mais belo, mais esteticamente agradável por causa da pele de meia-noite-
obsidiana. Quer estivesse deitado debaixo do corpo dela, com ela pairando
acima dele ou entre seus braços, aquela negritude o emocionava. Ele então
tinha certeza de que não apenas abraçava a noite, mas que era dono dela, e se a
noite que tinha entre os braços não fosse suficiente, ele podia sempre ver a luz
das estrelas nos olhos dela. Seu senso de humor inocente e abandonado o
deliciava. Quando ela, que não usava maquiagem nenhuma e trabalhava em
uma empresa que era toda sobre cosméticos, lhe pediu ajuda para escolher a cor
de brilho labial mais atraente, ele gargalhou. A insistência dela em roupas
sempre brancas o divertia. Avesso a reparti-la com o público, ele raramente
sentia vontade de ir a um clube noturno. Mas dançar com ela na penumbra de
clubes que não eram da moda, ao som de fitas da voz de soprano de Michael
Jackson ou dos gritos de James Brown, era irresistível. Apertar-se contra ela em
bares de rap lotados enfeitiçava ambos. Ele não lhe recusava nada, exceto
acompanhá-la em expedições de compras.
De vez em quando ela abandonava a fachada de controle total da mulher
moderna, profissional sensacionalmente bem-sucedida e confessava algum
defeito ou lembrança dolorosa da infância. E ele, sabendo tudo sobre como
feridas de infância infeccionam e nunca cicatrizam, a consolava e escondia a
raiva que sentia com a ideia de alguém magoá-la.
O complicado relacionamento de Bride com a mãe e com o pai repulsivo
significava que, assim como ele, ela era livre de laços familiares. Eram só os dois
e, com exceção de sua abominável pseudoamiga Brooklyn, havia cada vez
menos interrupções dos colegas dela. Ele ainda tocava com Chase e Michael
aos fins de semana, algumas tardes, mas havia gloriosas manhãs de sol na praia,
noites frescas de mãos dadas no parque, na expectativa da coreografia sexual que
iam desempenhar em cada canto do apartamento. Sóbrios como padres,
criativos como diabos, eles inventaram o sexo. Assim acreditavam.
Quando Bride estava no escritório, Booker gozava a solidão de ensaiar
trompete, rabiscava notas para enviar por correio à sua tia favorita, Queen, e
como não havia livro nenhum no apartamento de Bride — apenas revistas de
moda e fofocas —, ele sempre visitava a biblioteca para ler ou reler livros que
havia ignorado ou entendido mal quando estava na universidade. O nome da
rosa, por exemplo, e Gerações de cativeiro, uma coletânea que o comoveu a
ponto de compor música medíocre, sentimental, para comemorar as narrativas.
Leu Twain, fruindo a crueldade de seu humor. Leu Walter Benjamin,
impressionado com a beleza da tradução, releu a autobiografia de Frederick
Douglass, deliciando-se pela primeira vez com a eloquência que ao mesmo
tempo escondia e expunha seu ódio. Leu Herman Melville e deixou Pip partir
seu coração, fazendo-o lembrar de Adam sozinho, abandonado, engolido por
ondas de perversidade casual.
Seis meses depois da plenitude de sexo comestível, música freestyle, livros
exigentes e a companhia de uma fácil e pouco exigente Bride, o castelo de
conto de fadas ruiu na lama e areia em que sua vaidade estava construída. E
Booker fugiu.
PARTE IV
Brooklyn

Nada. Um telefonema pro nosso diretor de pessoal pedindo extensão da


licença. Reabilitação. Reabilitação emocional — seja o que for. Mas nada sobre
onde foi ou por quê, até hoje. Um recado rabiscado num pedaço de papel de
bloco amarelo pautado. Nossa. Eu nem precisei ler pra saber o que dizia.
“Desculpe, eu fugi. Tive que. A não ser por você, tudo estava desmoronando,
blá, blá, blá…”
A linda vaca burra. Nada sobre onde foi ou quanto tempo vai ficar fora. Uma
coisa que eu sei com certeza é que ela está atrás daquele cara. Eu consigo ler os
pensamentos dela feito uma manchete correndo na parte de baixo da tela da TV.
É um dom que eu tenho desde pequena. Como aquela vez que a senhoria
roubou o dinheiro de cima da nossa mesa de jantar e disse que o aluguel estava
atrasado. Ou quando o meu tio começou a pensar em pôr os dedos no meio das
minhas pernas de novo, antes de ele mesmo saber o que estava planejando. Eu
me escondi, ou corri, ou gritei com uma falsa dor de estômago, de forma que a
minha mãe acordou do cochilo da bebedeira pra me atender. Pode crer.
Sempre senti o que as pessoas querem e como agradar os outros. Ou não. Só
uma vez eu li errado — com o amante da Bride.
Eu também fugi, Bride, mas eu tinha catorze anos e não havia ninguém
além de mim pra cuidar de mim, então eu me inventei, me endureci. Achei
que você também, a não ser com namorados. Eu percebi na hora que o último
— um vigarista como eu nunca vi — ia transformar você na garotinha medrosa
que você era. Uma briga com um maluco de um malandro e você se entrega,
idiota a ponto de largar o melhor emprego do mundo.
Eu comecei varrendo um salão de cabeleireiro e depois fui garçonete até
conseguir o emprego na lanchonete. Muito antes da Sylvia Inc., eu precisei
lutar feito o diabo por todo emprego que tive e nunca deixei nada, nada, me
deter.
Mas pra você é “Blá, blá, tive que fugir…”. Pra onde? Pra algum lugar onde
não tem nem papel de carta de verdade, nem um cartão-postal?
Bride, faça-me o favor.

Uma garota da cidade se cansa depressa do tédio de papelão das cidadezinhas


rurais. Seja qual for o tempo, sol brilhante feito aço ou chuva que perfura, a
impressão de caixas usadas escondendo moradores indolentes parece minar até
o olhar mais atento. Uma coisa é ex-hippies viverem seus ideais anticapitalistas
perto da margem de uma estrada de campo usada raramente. Evelyn e Steve
tinham vivido vidas excitantes, arriscadas e cheias de propósito em seus passados
aventureiros. Mas o que dizer dos sujeitos normais, comuns, que nasceram
nesses lugares e nunca saíram? Bride não estava se sentindo superior à fileira de
casinhas melancólicas e casas móveis de cada lado da rua, só intrigada. O que
faria Booker escolher aquele lugar? E quem diabos é Q. Olive?
Ela havia dirigido duzentos e setenta quilômetros, entrando e saindo de
estradas de terra, algumas das quais deviam ter sido criadas originalmente por
pés calçados com mocassins e matilhas de lobos. Caminhoneiros podiam
navegar por elas, mas um Jaguar consertado com a porta de outro modelo tinha
sérios problemas. Bride dirigia com cuidado, espreitando obstáculos à frente,
vivos ou não. Quando viu uma placa pregada no tronco de um pinheiro, seu
cansaço silenciou uma crescente sensação de alarme. Embora não tivesse
ocorrido nenhum outro desaparecimento físico, ela estava perturbada pelo fato
de não ter menstruação havia pelo menos dois meses, talvez três. De peito
chato, sem pelos pubianos ou debaixo dos braços, sem furo nas orelhas e com
peso estável, ela tentou, mas não conseguiu esquecer o que acreditava ser sua
louca transformação de volta a uma apavorada menininha negra.
Whiskey acabou se revelando uma meia dúzia de casas de ambos os lados de
uma estrada de cascalho que levava a uma grande extensão de trailers e casas
móveis. Paralelo à estrada, mais além de uma fileira de árvores de aspecto
tristonho, corria um rio profundo, mas estreito. As casas não tinham endereço,
mas algumas casas móveis traziam nomes pintados em sólidas caixas de correio.
Debaixo de olhares que desconfiavam de carros estranhos e visitantes ainda
mais estranhos, Bride rodou devagar até ver QUEEN OLIVE pintado numa caixa
de correio à frente de uma casa sobre rodas amarelo-pálido. Ela estacionou,
desceu e estava indo para a porta quando sentiu cheiro de gasolina e fogo que
parecia vir de trás da casa. Ao se esgueirar para o quintal, viu uma mulher
atarracada, de cabelo vermelho, espirrando gasolina num estrado de molas,
observando cuidadosamente onde as chamas precisavam ser alimentadas.
Bride correu de volta para o carro e esperou. Duas crianças apareceram,
atraídas talvez pelo automóvel elegante, mas se distraíram com a mulher
sentada à direção. Ambas ficaram olhando pelo que pareceu minutos, com os
olhos fixos de assombro. Bride ignorou as crianças perplexas. Ela sabia bem o
que era entrar numa sala e ver a troca de olhares entre estranhos brancos. Os
olhares eram negligenciáveis porque, quase todas as vezes, a surpresa que sua
negritude provocava era invariavelmente seguida pela inveja que sua beleza
produzia. Embora, com a ajuda de Jeri, ela capitalizasse sua pele negra,
enfatizando e glamorizando sua cor, lembrava-se de uma conversa que tivera
com Booker um dia. Ao reclamar de sua mãe, ela contara a ele que Mel a
detestava por causa da pele negra.
“É só uma cor”, Booker dissera. “Um traço genético — não uma falha, não
uma maldição, nem bênção, nem pecado.”
“Mas outras pessoas acham que a raça…”, ela replicou.
Booker interrompeu. “Cientificamente raça é uma coisa que não existe,
Bride, portanto racismo sem raça é uma escolha. Ensinada, é claro, por aqueles
que precisam disso, mas sempre uma escolha. As pessoas que praticam racismo
não seriam nada sem ele.”
As palavras dele eram racionais e, na época, tranquilizadoras, mas tinham
pouco a ver com a experiência do dia a dia — como sentar num carro sob o
olhar perplexo de crianças brancas pequenas, tão fascinadas como se estivessem
num museu de dinossauros. Mesmo assim, ela com toda firmeza se recusou a
perder o rumo de sua missão simplesmente porque estava fora da zona de
conforto de ruas pavimentadas, gramados planos cercados por pessoas de raças
diversas que podiam não ajudar, mas não lhe faziam dano. Decidida a descobrir
qual era sua natureza — de aço ou algodão —, não tinha como fugir, como
recuar.
Passou-se meia hora; as crianças tinham ido embora e um sol niquelado no
alto do céu aquecia o interior do carro. Bride respirou fundo, foi até a porta
amarela e bateu. Quando a incendiária apareceu, ela disse: “Olá, desculpe.
Estou procurando Booker Starbern. Este é o endereço dele que eu tenho”.
“Isso explica então”, disse a mulher. “Eu recebo uma porção de
correspondência dele — revistas, catálogos, coisas que ele mesmo escreve.”
“Ele está?” Bride estava fascinada com os brincos da mulher, discos dourados
do tamanho de vieiras.
“Ãh-ãh.” A mulher sacudiu a cabeça enquanto perfurava os olhos de Bride.
“Mas está perto.”
“Está? Perto quanto?” Aliviada por Q. Olive não ser uma jovem rival, Bride
suspirou e pediu o endereço.
“Dá pra ir a pé, mas entre. O Booker não vai a lugar nenhum. Está de
resguardo — quebrou o braço. Vamos entrando. Você está parecendo alguma
coisa que um guaxinim encontrou e não quis comer.”
Bride engoliu em seco. Durante os últimos três anos, ela só tinha ouvido que
era exótica, deslumbrante — em toda parte, de quase todo mundo —, incrível,
um sonho, gostosa, nossa! Agora, aquela velha com cabelo vermelho lanoso e
olhos perscrutadores apagara todo o vocabulário de elogios com um risco só.
Mais uma vez ela era a menininha feia, preta demais, da casa de sua mãe.
Queen chamou com o dedo. “Entre aqui, menina. Está precisando comer.”
“Olhe, srta. Olive…”
“Queen, meu bem. E é Ol-li-vei. Entre aqui. Eu nunca recebo visita e sei o
que é fome quando vejo.”
Bem, é verdade, Bride pensou. A ansiedade durante a longa viagem havia
mascarado os gritos de fome de seu estômago. Ela obedeceu a Queen e ficou
agradavelmente surpresa com a ordem, o conforto e o charme da sala. Durante
um segundo, havia imaginado se estava sendo atraída ao antro de uma bruxa.
Evidentemente, Queen costurava, tricotava, crochetava e fazia renda. Cortinas,
capas, almofadas, guardanapos bordados eram elegantemente feitos à mão. A
colcha na cabeceira de uma cama vazia, cujas molas aparentemente estavam
esfriando lá fora, era montada em cores suaves, como todo o resto, habilmente
contrastantes. Pequenas antiguidades, como molduras de quadros e mesinhas
laterais, estavam estranhamente deslocadas. Uma parede estava toda coberta
com fotografias de crianças. No fogão de duas bocas, uma panela fervia. Como
não tinha o costume de ser contrariada, Queen pôs duas tigelas de porcelana
em toalhinhas de linho, com guardanapos combinando e colheres de sopa de
prata com cabos filigranados.
Bride sentou-se a uma mesa estreita numa cadeira com almofada decorativa e
observou Queen servir a sopa grossa nas tigelas. Pedaços de frango flutuavam
entre ervilhas, batatas, grãos de milho, tomate, salsão, pimentões verdes,
espinafre e umas poucas conchinhas de macarrão. Bride não conseguiu
identificar o tempero forte — curry? Cardamomo? Alho? Caiena? Pimentas
preta e vermelha? Mas o resultado era um maná. Queen acrescentou uma cesta
de pão chato aquecido, sentou-se ao lado da convidada e abençoou a comida.
Nenhuma das duas falou durante longos minutos, enquanto comiam. Por fim,
Bride ergueu os olhos da tigela, enxugou os lábios, suspirou e perguntou à sua
anfitriã: “Por que você estava queimando as molas da cama? Eu te vi lá atrás”.
“Percevejos”, Queen respondeu. “Todo ano eu queimo antes de eclodirem os
ovos.”
“Ah. Nunca tinha ouvido falar.” Então, sentindo-se mais à vontade com a
mulher, perguntou: “Que tipo de coisa o Booker te manda? Você disse que ele
manda uns escritos”.
“Hã-hã. Manda. De vez em quando.”
“Sobre o quê?”
“Não sei. Te mostro alguns, se quiser. Me diga uma coisa, por que está
procurando o Booker? Ele te deve dinheiro? Você com certeza não pode ser
mulher dele. Você parece que não conhece ele muito bem.”
“Não conheço, mas achei que conhecia.” Ela não disse, mas de repente lhe
ocorreu que bom sexo não era conhecimento. Era simples informação.
Bride tocou os lábios com o guardanapo outra vez. “A gente estava morando
juntos, aí ele me abandonou. Assim, do nada.” Bride estalou os dedos. “Foi
embora sem uma palavra.”
Queen riu. “Ah, ele é dos que abandona mesmo. Deixou a própria família.
Todo mundo, menos eu.”
“É mesmo? Por quê?” Bride não gostou de ser incluída na família de Booker,
mas a notícia a surpreendeu.
“O irmão mais velho dele foi assassinado quando eles eram crianças e ele não
gostou da reação dos pais.”
“Ahhhh”, Bride murmurou. “Isso é triste.” Ela fez um som aceitável de
interesse, mas estava chocada por não saber nada a respeito.
“Mais do que triste. Quase acabou com a família.”
“O que eles fizeram que fez ele ir embora?”
“Eles seguiram em frente. Começaram a viver a vida como a vida era. Ele
queria que eles fizessem um memorial, uma fundação ou alguma coisa em
nome do irmão. Não interessou pra eles. Nem um pouco. Eu tenho que
assumir uma certa responsabilidade pelo rompimento. Falei pra ele ficar com o
irmão perto, de luto por ele até quando precisasse. Não contava com o que ele
ia tirar do que eu falei. De algum jeito, a morte do Adam virou a própria vida
dele. Acho que a única vida dele.” Queen olhou a tigela de sopa de Bride.
“Mais?”
“Não, obrigada, estava uma delícia. Não me lembro de ter comido nunca
nada tão bom.”
Queen sorriu. “É a minha receita Nações Unidas com comida de todas as
cidades natais dos meus maridos. Sete, de Deli a Dakar, do Texas à Austrália e
mais umas pelo meio.” Ela riu, os ombros sacudindo. “Tantos homens e todos
iguais no que conta de verdade.”
“O que conta de verdade?”
“Posse.”
Todos aqueles maridos e ainda completamente sozinha, Bride pensou. “Não
tem filhos?” Evidentemente tinha; as fotografias deles estavam por toda parte.
“Muitos. Dois moram com os pais e as esposas novas; dois na vida militar —
um na Marinha, um na Força Aérea; mais uma, a última, na escola de
medicina. É a filha dos meus sonhos. A penúltima é podre de rica em algum
lugar da cidade de Nova York. A maioria me manda dinheiro, então não
precisam me ver. Mas eu vejo eles.” Ela indicou as fotografias olhando das
molduras chiques. “E eu sei como e o que eles pensam. Mas o Booker está
sempre em contato comigo. Veja, vou mostrar pra você como e o que ele
pensa.” Queen foi até um gabinete onde havia material de costura bem
pendurado ou empilhado. Do chão, ela ergueu uma caixa de pão das antigas.
Depois de mexer no conteúdo, tirou uma pilha fina de papéis presos com um
clipe e entregou à sua hóspede.
Que letra linda, Bride pensou, se dando conta, de repente, de que nunca
tinha visto nada que Booker escrevia — nem o nome dele. Havia sete folhas.
Uma para cada mês que passaram juntos, e mais uma. Ela leu a primeira página
devagar, acompanhando as linhas com o dedo, porque havia pouca ou
nenhuma pontuação:

Ei menina o que tem dentro da sua cabeça cacheada além de salas escuras com
homens escuros dançando colados demais para consolar a boca faminta de
mais daquilo que com certeza existe em algum lugar por aí à espera apenas de
uma língua e algum fôlego para acariciar dentes que mordem a noite e
engolem inteiro o que o mundo te negou então se livre desses sonhos
enfumaçados e deite na praia e nos meus braços enquanto eu te cubro com
areia branca de praias que você nunca viu lambidas por água tão cristalina e
azul que faz você derramar lágrimas de felicidade e te leva a saber que você faz
parte sim do planeta em que nasceu e agora pode se juntar ao mundo lá fora
na paz profunda de um violoncelo.

Bride leu as palavras duas vezes, entendendo pouco, quase nada. A segunda
página é que a deixou incomodada.

A imaginação dela é impecável no jeito como corta e raspa o osso sem nunca
tocar a medula onde aquele sentimento sujo ressoa como um violino por medo
de que sua cordas quebrem e guinchem a perda da melodia uma vez que sua
permanente ignorância é tão melhor que o pulsar da vida.

Queen terminou de lavar os pratos e ofereceu à hóspede um gole de uísque.


Bride recusou.
Ao ler a terceira página, ela pensou lembrar de uma conversa que tivera com
Booker que podia ter provocado o que ele escreveu, aquela em que descrevera o
senhorio e detalhes de sua infância.
Você aceitou como um burro de carga a chicotada da maldição de um estranho
e a ameaça impensada que traz ao lado da cicatriz que deixa como uma
definição você passou a vida refutando embora aquele mundo odioso seja a
fina linha riscada numa praia e depressa dissolvida num mundo marítimo a
qualquer momento em que uma onda igualmente impensada a acaricia como o
toque acidental de um dedo numa tecla de clarineta que o músico converte em
silêncio a fim de deixar que a nota verdadeira soe bem alto.

Bride leu mais três páginas em rápida sucessão.

Tentar entender a malignidade racista só a alimenta, a infla como um balão


voando alto lá em cima temendo afundar para a terra onde uma folha de
grama poderia furá-lo deixando suas fezes líquidas sujarem a plateia em transe
assim como o mofo arruína as teclas de um piano tanto brancas como pretas,
bemóis ou sustenidos para produzir uma elegia da sua decadência.

Me recuso a ter vergonha da minha vergonha, sabe, a que atribuíram a mim


que combina baixa prioridade com a degradada moralidade daqueles que
insistem nesse que é o mais fácil dos sentimentos humanos de inferioridade e
falha simplesmente para disfarçar a própria covardia fingindo que é idêntica à
pureza de um banjo.

Obrigado. Você me mostrou raiva, fragilidade e hostil indiferença e


preocupação preocupação preocupação salpicada com lascas de luz e amor tão
intransigentes que parecia uma bondade a fim de conseguir deixar você e não
me dobrar numa tristeza tão profunda que me partiria não o coração mas a
mente que conhece o guincho do oboé e a maneira como se rompe em trapos de
silêncio para expor sua beleza estonteante demais para conter e que transforma
sua melodia na graça de um espaço vivível.

Intrigada, Bride ergueu os olhos da página para Queen, que disse:


“Interessante, não é?”.
“Muito”, Bride respondeu. “Mas estranho também. Imagino com quem ele
estava falando.”
“Com ele mesmo”, disse Queen. “Aposto que é tudo sobre ele. Você não
acha, não?”
“Não”, Bride murmurou. “Estas são sobre mim, sobre o tempo que nós
passamos juntos.” Então leu a última página.

Você devia levar a sério um coração partido por qualquer razão com a coragem
de deixá-lo acender e queimar como a estrela pulsante que não consegue ou
não quer ser abrandada em patética autoculpa porque seu brilho explosivo soa
justificadamente forte como o ressoar de tímpanos.

Bride deixou de lado os papéis e cobriu os olhos.


“Vá encontrar com ele”, disse Queen, a voz baixa. “Ele está no fim da rua,
última casa do lado do rio. Vá, levante, lave o rosto e vá.”
“Não sei se devo, agora”, Bride sacudiu a cabeça. Ela contara com sua
aparência durante tanto tempo — o quanto a beleza funcionava. Não
conhecera sua baixeza ou a própria covardia — a lição vital ensinada por Mel e
pregada à sua coluna, para curvá-la.
“Qual é o problema com você?” Queen parecia aborrecida. “Você vem até
essa lonjura e vai virar as costas e ir embora?” Então começou a cantar,
imitando a voz de um bebê:

Don’t know why


There’s no sun up in the sky…
Can’t go on.
Everything I had is gone,
Stormy weather…

“Droga!” Bride deu um tapa na mesa. “Você está absolutamente certa!


Totalmente certa! Isso tem a ver comigo, não com ele. Comigo!”

* * *

“Você? Fora!” Booker levantou da cama estreita e apontou para Bride, que
estava parada na porta do trailer.
“Vá se foder! Não vou embora enquanto você…”
“Eu disse fora! Agora!” Os olhos de Booker estavam ao mesmo tempo mortos
e vivos de raiva. O braço sem gesso apontava a porta. Bride deu nove passos
rápidos à frente e esbofeteou o rosto de Booker com toda força. Ele bateu de
volta com força suficiente apenas para derrubá-la. Ela se pôs de pé com
dificuldade, pegou uma garrafa de cerveja Michelob de cima de um balcão e
quebrou na cabeça dele. Booker caiu de costas na cama, imóvel. Segurando
apertado o gargalo da garrafa quebrada, Bride viu o sangue escorrer para dentro
da orelha esquerda dele. Segundos depois, ele voltou a si, apoiou-se no cotovelo
e com olhos apertados, sem foco, olhou para ela.
“Você me largou”, ela gritou. “Sem uma palavra! Nada! Agora eu quero essa
palavra. Seja qual for, eu quero ouvir. Agora!”
Limpando o sangue da face esquerda com a mão direita, Booker rosnou:
“Não tenho que te dizer merda nenhuma!”.
“Ah, tem, sim.” Ela levantou a garrafa quebrada.
“Você saia da minha casa antes que aconteça alguma coisa ruim.”
“Cale a boca e responda!”
“Nossa, mulher!”
“Por quê? Eu tenho que saber, Booker.”
“Primeiro conte por que você comprou presentes pra uma molestadora de
crianças — e que foi presa por isso, pelo amor de Deus. Me conte por que foi
puxar o saco de um monstro.”
“Eu menti! Eu menti! Eu menti! Ela era inocente. Ajudei a fazer ela ser
condenada, mas ela não fez nada daquilo. Eu queria me retratar, mas ela
arrebentou comigo e eu mereci.”
A temperatura do quarto não subiu, mas Bride estava suando; a testa, acima
do lábio superior, até as axilas estavam molhadas.
“Você mentiu? Por quê, porra?”
“Pra minha mãe segurar na minha mão!”
“O quê?”
“E olhar pra mim com orgulho pela primeira vez.”
“E ela fez isso?”
“Fez. Ela até gostou de mim.”
“Então, você quer me dizer que…”
“Cale a boca e fale! Por que você largou de mim?”
“Ah, meu Deus.” Booker enxugou mais sangue do rosto. “Olhe. Bom, veja. O
meu irmão, ele foi assassinado por um monstro, um predador como aquela que
eu achei que você estava perdoando e…”
“Não interessa! Não fui eu que fiz isso. Não fui eu que matei o seu irmão.”
“Tudo bem! Tudo bem! Eu entendo, mas…”
“Mas nada! Eu estava tentando compensar alguém que eu arrasei. Você
simplesmente saiu culpando todo mundo. Filho da puta. Tome, enxugue essa
porra desse sangue.” Bride jogou um pano de pratos para ele e largou o que
restava da garrafa. Depois de enxugar as mãos na calça jeans e afastar o cabelo
da testa molhada, ela olhou firme para Booker. “Você não tem que me amar,
mas tem, sim, que me respeitar.” Ela sentou numa cadeira ao lado da mesa e
cruzou as pernas.
Durante um longo silêncio, marcado apenas pelo som da respiração deles,
olhavam não um para o outro, mas para o chão, para as próprias mãos, pela
janela. Passaram-se minutos.
Por fim, Booker sentiu que tinha algo definitivo e vital para dizer, para
explicar, mas quando abriu a boca sua língua se imobilizou — as palavras não
estavam ali. Não era de admirar. Bride havia adormecido na cadeira, o queixo
pendendo para o peito, as longas pernas estendidas.

Queen não bateu; simplesmente abriu a porta do trailer de Booker e entrou.


Quando viu Bride esparramada na cadeira, adormecida, e o ferimento acima do
olho de Booker, perguntou: “Meu Deus. O que aconteceu?”.
“Uma briga”, Booker disse.
“Ela está bem?”
“Está. Apagou, dormiu.”
“Uma ‘briga’ e tanto. Ela veio até aqui pra bater em você? Por quê? Amor ou
sofrimento?”
“As duas coisas, provavelmente.”
“Bom, vamos tirar ela da cadeira e botar na cama”, disse Queen.
“Certo.” Booker se levantou. Com a ajuda de Queen e seu braço bom,
puseram-na na cama estreita, desarrumada. Bride gemeu, mas não acordou.
Queen sentou-se à mesa. “O que você vai fazer com ela?”
“Não sei”, Booker respondeu. “Durante um tempo, foi perfeito, nós dois
juntos.”
“Por que separaram?”
“Mentiras. Silêncio. Só não dizer o que era verdade e o porquê.”
“Sobre o quê?”
“Sobre a gente em criança, coisas que aconteceram, porque nós fizemos
coisas, pensamos coisas, tomamos atitudes que eram realmente sobre o que
aconteceu quando a gente era criança.”
“O Adam, no seu caso?”
“O Adam, no meu caso.”
“E no dela?”
“Uma grande mentira que ela contou quando era criança que ajudou a botar
uma mulher inocente na prisão. Uma sentença longa por estupro de crianças
que a mulher nunca cometeu. Eu fui embora depois que a gente brigou por
causa do estranho afeto da Bride por essa mulher. Pelo menos na hora pareceu
estranho. Eu não queria nem ficar perto dela depois disso.”
“Por que ela mentiu?”
“Pra conseguir um pouco de amor — da mãe dela.”
“Nossa! Que confusão. E você pensou no Adam — de novo. Sempre o
Adam.”
“É.”
Queen cruzou os pulsos e apoiou-se na mesa. “Até quando ele vai mandar
em você?”
“Não posso evitar, Queen.”
“Não? Ela contou a verdade dela. Qual é a sua?”
Booker não respondeu. Ficaram os dois sentados em silêncio, com o leve
ressonar de Bride, até Queen falar: “Você precisa de uma razão nobre pra
fracassar, não é? Ou alguma razão profunda de verdade pra se sentir superior”.
“Ah, não, Queen. Eu não sou assim! Não mesmo!”
“Bom, então? Você pendura o Adam no seu ombro pra ele poder encher a
sua cabeça dia e noite. Não acha que ele está cansado? Deve estar esgotado de
ter que morrer e não poder descansar porque precisa controlar a vida dos
outros.”
“O Adam não está me controlando.”
“Não. Você está controlando ele. Nunca se sentiu livre dele? Nunca?”
“Bom.” Booker se reviu debaixo da chuva, como a música mudara logo
depois de ver Bride entrando numa limusine, como a melancolia em que vivia
se dissipara. Pensou em seus braços em torno da cintura dela enquanto
dançavam e no sorriso dela quando se voltou. “Bom”, ele repetiu, “durante um
tempo foi bom, bom de verdade ficar com ela.” Ele não conseguia esconder o
prazer em seus olhos.
“Acho que bom não basta pra você, então você chamou o Adam de volta e
fez o assassinato dele transformar a sua cabeça num cadáver e o sangue do seu
coração em formol.”
Booker e Queen olharam um para o outro durante um longo tempo, até ela
se levantar e, sem se dar ao trabalho de disfarçar a decepção, dizer: “Idiota”, e
deixá-lo caído na cadeira.

Sem nenhuma pressa, Queen voltou para casa. Sua atenção se dividia entre
divertimento e tristeza. Divertimento porque havia décadas que não via amantes
brigarem — não desde que vivera nos projetos de Cleveland, onde jovens casais
encenavam suas emoções violentas como representações teatrais, conscientes de
uma plateia visível ou invisível. Ela experimentara isso tudo com múltiplos
maridos, todos eles agora fundidos em nenhum. A não ser o primeiro, John
Loveday, de quem havia se divorciado — ou não? Difícil lembrar, porque ela
não se divorciara do seguinte também. Queen sorriu da lembrança seletiva com
que a idade a abençoara. Mas a tristeza cortou o sorriso. A raiva, a violência
manifestadas entre Bride e Booker eram inconfundíveis e típicas dos jovens.
Porém, depois de colocarem a moça adormecida na cama e ajeitá-la, Queen viu
Booker afastar da testa o emaranhado do cabelo de Bride. Com um rápido olhar
para o rosto dele, ela se surpreendeu com a ternura em seus olhos.
Eles vão acabar tudo, ela pensou. Cada um vai se apegar à sua triste
historinha de dor e mágoa — algum problema e dor antigos que a vida jogou
nas pessoas puras e inocentes que eram. E cada um vai ficar reescrevendo essa
história para sempre, sabendo a trama, adivinhando o tema, inventando o
sentido e descartando a origem. Que desperdício. Ela sabia por experiência
própria como era difícil amar, como era egoísta e fácil de romper. Conter o sexo
ou contar com ele, ignorar filhos ou devorá-los, redirecionar sentimentos
verdadeiros ou trancá-los para fora. Sendo a juventude a desculpa para aquele
amor de biscoito da sorte — até não ser mais, até se transformar em pura
burrice adulta.
Eu fui bonita um dia, ela pensou, bonita mesmo, e acreditei que isso bastava.
Bom, na verdade bastou até não bastar mais, até eu ter que ser uma pessoa de
verdade, quer dizer, um ser pensante. Inteligente a ponto de saber que excesso
de peso era um estado, não uma doença; inteligente a ponto de, hoje, ler na
hora os pensamentos de gente egoísta. Mas a inteligência veio tarde demais para
os filhos dela.
Cada “marido” arrancou um ou dois filhos dela, reclamou-os ou levou-os
consigo. Alguns sumiram com eles em seus países de origem; outro fez a
amante capturar dois; todos, menos um de seus maridos — o doce Johnny
Loveday —, tiveram boas razões para fingir amor: cidadania americana,
passaporte dos Estados Unidos, ajuda financeira, cuidados médicos ou morada
temporária. Queen não teve a oportunidade de criar um único filho além dos
doze anos. Levou algum tempo para entender os motivos para fingir amor —
dela e deles. Sobrevivência, quem sabe, literal e emocional. Queen atravessara
tudo e agora vivia sozinha no mato, tricotando e fazendo renda, agradecida
porque, finalmente, o Bom Jesus lhe dera um cobertor de esquecimento junto
com uma pequena pílula de sabedoria para confortá-la na velhice.

Inquieto e profundamente insatisfeito com o rumo dos acontecimentos,


principalmente a franca insatisfação de Queen com ele, Booker saiu e sentou
no degrau da porta. Logo ia anoitecer e aquela aldeia esparsa, sem iluminação
de rua, iria desaparecer no escuro. A música de uns poucos rádios seria tão
distante como as luzes tremulando nas televisões: velhas Zeniths e Pioneers. Ele
ficou olhando dois caminhões locais passarem e algumas motocicletas seguiram
logo depois. Os caminhoneiros usavam bonés; os motociclistas, cachecóis
amarrados na testa. Booker gostava da mansa anarquia do lugar, a indiferença
pelos residentes modificada pela presença de sua tia, única pessoa em quem
confiava. Ele encontrara algum trabalho intermitente com lenhadores, que lhe
bastou até despencar de um equipamento e deslocar o ombro. A cada
momento, cortando seus pensamentos sem rumo, estava a imagem da
encantadora mulher negra deitada em sua cama, exausta depois de gritar e
tentar no máximo matá-lo ou no mínimo espancá-lo. Ele realmente não sabia o
que a fizera rodar tão longe a não ser vingança ou indignação — ou seria amor?
A Queen tem razão, ele pensou. A não ser pelo Adam, eu não sei nada sobre
amor. O Adam não tinha defeitos, era inocente, puro, fácil de amar. Se tivesse
vivido, crescido para ter falhas, falhas humanas como dissimulação, tolice e
ignorância, teria sido tão fácil de adorar ou mesmo digno de adoração? Que tipo
de amor é esse que exige um anjo e só um anjo para compromisso?
Seguindo essa linha de raciocínio, Booker continuou a se castigar.
A Bride provavelmente sabe mais de amor do que eu. Pelo menos está
disposta a entender, a fazer alguma coisa, arriscar alguma coisa e avaliar suas
proporções. Eu não arrisco nada. Sento num trono e identifico sinais de
imperfeição nos outros. Me encantei com minha própria inteligência e com as
posições morais que assumi ao lado da insolência que vem com elas. Mas onde
estão a brilhante pesquisa, os livros esclarecedores, as obras-primas que eu
sonhava produzir? Em parte alguma. Em vez disso, escrevo anotações sobre as
limitações dos outros. Fácil. Tão fácil. E as minhas próprias? Eu gostava da
beleza dela, da trepada, de ela não exigir nada. No primeiro grande
desentendimento que tivemos, eu fui embora. Sendo o meu único juiz o Adam,
que, como diz a Queen, provavelmente está cansado de ser meu fardo e minha
cruz.
Na ponta dos pés, ele voltou para dentro do trailer e, ouvindo o leve ressonar
de Bride, pegou o caderno para uma vez mais pôr no papel palavras que não
conseguia dizer.

Não sinto mais sua falta adam mas sim a emoção que a sua morte produziu
um sentimento tão forte que me definiu enquanto apagava você deixando
apenas sua ausência para que eu vivesse nela como o silêncio do gongo japonês
que é mais emocionante que qualquer som que possa vir em seguida.
Peço desculpas por escravizar você a fim de me acorrentar à ilusão de controle
e à vulgar sedução de poder. Nenhum dono de escravos teria feito melhor.

Booker deixou de lado o caderno. O crepúsculo o envolveu e ele deixou o ar


cálido acalmá-lo enquanto esperava o amanhecer.

Bride acordou para o sol de um sono sem sonhos — mais pesado que
embriaguez, mais profundo do que ela jamais conhecera. Então, tendo dormido
tantas horas, sentia-se mais que descansada e livre de tensão; sentia-se forte. Não
se levantou de imediato; em vez disso, permaneceu na cama de Booker, olhos
fechados, fruindo a fresca vitalidade e a ofuscante claridade. Tendo confessado
os pecados de Lula Ann, ela se sentia renascida. Não mais forçada a reviver,
não, a superar o desdém de sua mãe ou o abandono do pai. Saindo da
divagação, ela se sentou e viu Booker tomando café na mesa desdobrável. Ele
parecia mais pensativo que hostil. Então sentou-se ao lado dele, pegou uma tira
de bacon de seu prato e comeu. Depois, deu uma mordida em sua torrada.
“Quer mais?”, Booker perguntou.
“Não. Não. obrigada.”
“Café? Suco?”
“Bom, café, talvez.”
“Claro.”
Bride esfregou as pálpebras tentando rever os momentos antes de adormecer.
O inchaço acima da têmpora esquerda de Booker ajudou. “Você me pôs na sua
cama com um braço só?”
“Me ajudaram”, disse Booker.
“Quem?”
“Queen.”
“Nossa. Ela deve achar que eu sou louca.”
“Duvido.” Booker pôs uma xícara de café na frente dela. “Ela é original. Não
reconhece loucura.”
Bride soprou a fumaça do café. “Ela me mostrou as coisas que você mandou
pelo correio. As páginas que você escreveu. Por que mandou pra ela?”
“Não sei. Talvez eu gostasse demais delas pra jogar no lixo, mas não o
suficiente pra levar comigo. Acho que queria que ficassem num lugar seguro. A
Queen guarda tudo.”
“Quando eu li, entendi que eram todas sobre mim — certo?”
“Ah, eram, sim.” Booker revirou os olhos e deu um suspiro teatral. “Tudo é
sobre você, a não ser o mundo inteiro e o universo em que ele flutua.”
“Podia parar de me gozar? Você sabe o que eu quero dizer. Você escreveu
aquilo quando a gente estava junto, certo?”
“São só ideias, Bride. Ideias sobre o que eu estava sentindo, ou temendo, ou,
quase sempre, no que eu acreditava de verdade — na época.”
“Você ainda acredita que um coração partido deve queimar como uma
estrela?”
“Acredito. Mas estrelas podem explodir, desaparecer. Além disso, o que a
gente vê quando olha pra elas pode não estar mais lá. Algumas podem ter
morrido milhares de anos atrás e só agora a luz delas chega aqui. Informação
velha parecendo nova. Por falar em informação, como você descobriu onde eu
estava?”
“Chegou uma carta pra você. Quer dizer, uma duplicata vencida de uma loja
de consertos de instrumentos musicais. O Palácio dos Penhores. Então, fui até
lá.”
“Por quê?”
“Pra pagar, idiota. Eles me contaram onde você podia estar: nessa espelunca
— e tinham um endereço pra encaminhar a correspondência pra uma tal de Q.
Olive.”
“Você pagou a minha conta e dirigiu esse caminho todo pra bater na minha
cara?”
“Talvez. Eu não planejava isso, mas tenho que admitir que foi bom. De
qualquer forma, eu trouxe o seu trompete. Tem mais café?”
“Está com você? O meu trompete?”
“Claro. E consertado.”
“Onde está? Na Queen?”
“No porta-malas do meu carro.”
O sorriso de Booker viajou de seus lábios para os olhos. A alegria em seu rosto
era infantil. “Eu te amo! Te amo!”, ele gritou e correu porta afora e pela estrada
até o Jaguar.

Começou devagar, delicadamente, como sempre: tímido, incerto de como


proceder, tateando seu rumo, se esgueirando hesitante a princípio, pois quem
sabe o que pode acontecer, depois ganhando confiança no êxtase de ar, de sol,
porque não havia nenhuma dessas duas coisas no mato onde havia se
enrodilhado.
Estava à espreita no quintal onde Queen Olive havia queimado as molas da
cama para destruir o ninho anual de percevejos. Agora viajava depressa,
relampejando de quando em quando numa fina língua de chama, depois
morrendo durante segundos antes de brotar de novo mais forte, mais grosso,
agora que o caminho e o objetivo estavam claros: um saboroso pedaço de pinho
apodrecido nos degraus de trás do trailer. Depois a porta, mais pinho, doce,
macio. Por fim, a delícia de sugar deliciosos tecidos bordados de renda, de seda,
de veludo.
Quando Bride e Booker chegaram, um pequeno grupo de pessoas estava
parado na frente da casa de Queen — desempregados, diversas crianças e
velhos. A fumaça se insinuava pela soleira e batentes da porta quando
arrombaram. Primeiro Booker, depois Bride logo atrás. Baixaram para o chão,
onde a fumaça era mais rala e engatinharam até o sofá onde Queen estava
imóvel, seduzida à inconsciência pelos sorrisos da fumaça sem calor. Com o
braço bom dele e os dois de Bride, os olhos lacrimejando e a garganta tossindo,
conseguiram puxar a mulher inconsciente para o chão e arrastá-la para o
minúsculo gramado da frente.
“Mais! Venham mais!”, gritou um dos homens parado ali. “O lugar todo pode
explodir.”
Booker estava concentrado demais em soprar ar na boca de Queen para
conseguir ouvi-lo. Por fim, à distância, as sirenes do carro de bombeiros e da
ambulância excitaram as crianças quase tanto quanto a beleza de desenho
animado do fogo a rugir. De repente, uma fagulha oculta no cabelo de Queen
pegou fogo, devorando num piscar de olhos o volume de cabelo vermelho —
apenas o tempo suficiente para Bride tirar a camiseta e usá-la para abafar as
chamas. Quando, com as mãos chamuscadas, picando, ela afastou a camiseta
agora cheia de fuligem e fumaça, fez uma careta ao ver os poucos tufos de
cabelo, difíceis de distinguir do couro cabeludo que rapidamente formava
bolhas. O tempo todo, Booker sussurrava: “Isso, isso. Vamos lá, meu amor,
vamos lá, vamos lá, minha lady”. Queen respirou — finalmente, tossindo e
cuspindo, sinais principais de vida. Quando a ambulância estacionou, a
multidão estava maior e alguns observadores pareciam em transe — mas não
com a paciente que gemia sendo levada de maca para a ambulância. Fixavam,
de olhos arregalados, os belos seios fartos de Bride. Por maior que fosse o prazer
dos espectadores, era zero comparado ao deleite de Bride. A tal ponto que ela
demorou a aceitar o cobertor que o paramédico lhe estendeu — até ver a
expressão do rosto de Booker. Mas era difícil suprimir sua alegria, embora
estivesse ligeiramente envergonhada por dividir a atenção entre a triste visão de
Queen sumindo na parte de trás da ambulância e o mágico retorno de seus seios
impecáveis.
Bride e Booker correram para o Jaguar e seguiram a ambulância.
Quando Queen foi internada, Bride passava os dias com ela, Booker as noites,
e três deles se passaram antes de Queen abrir os olhos. Com a cabeça enfaixada
e seu conteúdo dopado, ela não reconheceu nenhum de seus dois salvadores.
Tudo o que eles podiam fazer era observar os tubos ligados à paciente, um
transparente como vidro, enrolado como uma trepadeira de floresta, outros finos
como fios de telefone, todos secundários diante da flor de clematite branca que
cobria o suave gorgolejar dos lábios dela.
Traços de cores primárias atravessavam o monitor acima da cama do hospital.
Sacos transparentes do que parecia champanhe gotejavam numa gavinha que
alimentava o braço flácido de Queen. Incapaz de se erguer para usar uma
comadre, ela precisava ser lavada, hidratada e enfaixada de novo — coisas que
Bride, não confiando nas mãos indiferentes da enfermeira, fazia ela mesma com
a maior ternura possível. E a banhava, uma parte de cada vez, certificando-se de
que o corpo da senhora estivesse coberto em certas áreas antes e depois de
limpo. Deixava intocados os pés de Queen porque, quando Booker assumia seu
posto, ele insistia, como uma comunhão diária de Páscoa, no dever de assumir
esse ato de devoção. Ele cuidava das unhas, ensaboava e depois enxaguava os
pés de Queen e encerrava com uma massagem lenta, ritmada, usando uma
loção que cheirava a urzes. Fazia o mesmo com as mãos de Queen, o tempo
todo se censurando pela animosidade que sentira durante a última conversa
deles.
Nenhum dos dois falava durante essas abluções e, a não ser pelo ocasional
cantarolar de Bride, o silêncio servia como o bálsamo de que ambos precisavam.
Trabalhavam juntos como um casal de verdade, pensando não neles mesmos,
mas em ajudar outra pessoa. Era um suplício sentar entre pessoas numa sala de
espera de hospital sem nada para fazer a não ser se preocupar. Mas era tão ruim
quanto ficar olhando a paciente sem poder fazer nada, a observar cada
movimento, respiração ou mudança no corpo deitado. Depois de três dias de
espera, interrompidos apenas pelas atitude de conforto que podiam prover,
Queen falou, a voz um grasnido rouco, ininteligível através da máscara de
oxigênio. Depois, no fim de uma tarde, a máscara de oxigênio foi removida e
Queen sussurrou: “Eu vou ficar boa?”.
Booker sorriu.
“Sem dúvida. Sem dúvida nenhuma.” Ele se inclinou e beijou o nariz dela.
Queen passou a língua pelos lábios ressecados, fechou os olhos de novo e
começou a roncar.
Quando Bride voltou para substituí-lo e ele contou o que havia acontecido,
eles comemoraram tomando juntos o café da manhã na lanchonete do hospital.
Bride pediu mingau de aveia, Booker suco de laranja.
“E o seu trabalho?” Booker alçou as sobrancelhas.
“O que tem?”
“Estou só perguntando, Bride. Conversa de café da manhã, sabe?”
“Não sei do meu trabalho e não me importa. Eu consigo outro.”
“Ah, é?”
“É. E você? Lenhador pra sempre?”
“Talvez sim. Talvez não. Lenhadores mudam de lugar depois que destroem
uma floresta.”
“Bom, não se preocupe comigo.”
“Mas eu me preocupo.”
“Desde quando?”
“Desde que você quebrou uma garrafa de cerveja na minha cabeça.”
“Sinto muito.”
“Sem brincadeira. Eu também sinto.”
Os dois riram.
Longe da cama de hospital de Queen, aliviados com o progresso dela e num
estado de espírito quase relaxado, eles se divertiram com gozações como um
velho casal.
De repente, como se tivesse esquecido alguma coisa, Booker estalou os
dedos. Então pôs os dedos no bolso da camisa e tirou os brincos de ouro de
Queen. Tinham sido removidos para enfaixar a cabeça dela. Esse tempo todo
estavam guardados num saquinho plástico na gaveta da mesa de cabeceira.
“Fique com isso aqui”, ele disse. “Era importante pra Queen e ela vai gostar
se você usar enquanto ela se recupera.”
Bride tocou os lóbulos das orelhas, sentiu que os buraquinhos tinham voltado
e vieram-lhe lágrimas aos olhos quando sorriu.
“Deixe que eu ponho”, disse Booker. Cuidadosamente, ele inseriu as hastes
nas orelhas de Bride e disse: “Que bom que ela estava com eles quando a casa
pegou fogo, porque não sobrou nada. Nem cartas, agenda de endereços, nada.
Queimou tudo. Então liguei pra minha mãe e pedi que ela entrasse em contato
com os filhos da Queen.”
“Ela sabe onde eles estão?”, Bride perguntou, mexendo a cabeça de um lado
e de outro para sentir o prazer dos discos de ouro. Estava tudo voltando. Quase
tudo. Quase.
“Alguns”, Booker respondeu. “Uma filha no Texas, estudante de medicina.
Ela é fácil de encontrar.”
Bride remexeu o mingau, provou uma colherada, estava frio. “Ela me disse
que não vê nenhum deles, mas que mandam dinheiro.”
“Todos odeiam ela por uma razão ou outra. Eu sei que ela abandonou alguns
pra casar com outros. Uma porção de outros homens. E ela não podia ou não
conseguia levar os filhos com ela. Os pais não deixavam.”
“Mas acho que ela ama os filhos”, disse Bride. “Tinha fotos deles pela casa
inteira.”
“É, o filho da puta que matou o meu irmão tinha fotos de todas as vítimas na
porra do covil dele.”
“Não é a mesma coisa, Booker.”
“Não?” Ele olhou pela janela.
“Não. A Queen ama os filhos.”
“Eles acham que não.”
“Ah, pare com isso”, disse Bride. “Chega de discussão boba sobre quem ama
quem.” Ela empurrou a tigela de mingau para o centro da mesa e tomou um
gole do suco de laranja dele. “Vamos, horroroso. Vamos voltar e ver como ela
está.”
Parados um de cada lado da cama de Queen, ficaram extremamente felizes
de ouvi-la falando com toda clareza.
“Hannah? Hannah?” Queen estava olhando para Bride e respirando forte.
“Venha cá, baby. Hannah?”
“Quem é Hannah?”, Bride perguntou.
“A filha dela. A estudante de medicina.”
“Ela acha que eu sou a filha dela? Meu Deus, os remédios talvez. Ela está
confusa com essas drogas.”
“Ou lúcida”, disse Booker. Ele baixou a voz. “Tem uma história com a
Hannah. Dizem na família que Queen ignorou ou não deu ouvidos quando a
menina reclamou do pai — o asiático, acho, ou o texano. Não sei. De qualquer
forma, ela disse que ele abusou dela e a Queen não quis acreditar. As duas
nunca mais quebraram o gelo entre elas.”
“Ela ainda está com isso na cabeça.”
“Mais fundo que na cabeça.” Booker sentou numa cadeira aos pés da cama
de Queen ouvindo seu persistente chamado por Hannah — agora um sussurro.
“Pensando bem, isso explica por que ela me disse pra me apegar ao Adam, pra
ele estar sempre próximo.”
“Mas a Hannah não morreu.”
“De certa forma sim, pelo menos pra mãe. Você viu aquela exposição de fotos
na parede. Toma o espaço todo. Como uma lista de chamada. Mas a maioria
das fotos era da Hannah — em bebê, adolescente, se formando no ensino
médio, ganhando um prêmio. Mais um memorial do que uma galeria.”
Bride foi para trás da cadeira de Booker e começou a massagear seus ombros.
“Achei que aquelas fotos eram de todos os filhos dela”, disse.
“É, algumas são. Mas a Hannah domina.” Ele apoiou a cabeça no corpo de
Bride, deixou dissipar a tensão que não sabia que sentia.
Depois de alguns dias de inspiradora recuperação, Queen ainda estava
confusa, mas falava e comia. Era difícil de acompanhar o que dizia porque
parecia consistir em geografia — os lugares onde tinha vivido — e anedotas
dirigidas a Hannah.
Bride e Booker estavam satisfeitos com a avaliação do médico: “Ela está
muito melhor. Muito”. Os dois relaxaram e começaram a planejar o que fazer
quando Queen tivesse alta. Arrumar um lugar para os três ficarem juntos? Uma
grande casa sobre rodas? Pelo menos até Queen poder cuidar de si mesma, sem
pensar demais, eles concluíram que os três morariam juntos.
Pouco a pouco, os planos luminosos para o futuro imediato escureceram. O
carnaval de traços coloridos no monitor começou a se alterar e cair, a oscilação
pontuada pela música de toques de emergência. Booker e Bride ficavam sem
fôlego à medida que a contagem sanguínea de Queen caía e a temperatura
aumentava. Um forte vírus hospitalar, tão insidioso e mau quanto as chamas
que haviam destruído sua casa, estava atacando a paciente. Ela se debateu um
pouco, depois ergueu os braços muito alto, os dedos em garra, buscando e
buscando os degraus de uma escada que só ela enxergava. Depois tudo parou.
Doze horas depois, Queen estava morta. Um olho ainda estava aberto, então
Bride duvidou do fato. Foi Booker quem o fechou, e depois fechou os seus
próprios.

Durante os três dias à espera de que as cinzas de Queen estivessem prontas,


eles discutiram a escolha de uma urna. Bride queria algo elegante, de latão;
Booker preferia algo ecológico que pudesse ser enterrado e com o tempo
enriquecer o solo. Quando descobriram que não existia cemitério a menos de
sessenta quilômetros, ou um local adequado para um enterro no
estacionamento de trailers, decidiram-se por uma caixa de papelão para conter
as cinzas que seriam espalhadas no rio. Booker insistiu em realizar o rito
sozinho, enquanto Bride esperava no carro. Ela o observou com cuidado e
ansiedade enquanto descia para o rio, a caixa de cinzas no braço direito e o
trompete pendurado nos dedos da mão esquerda. Esses últimos dias, pensou
Bride enquanto resolviam o que fazer, tinham sido harmoniosos porque o foco
de ambos estava numa terceira pessoa que ambos amavam. O que aconteceria
agora, ela se perguntou, quando, ou se, só haveria os dois outra vez? Ela não
queria ficar sem ele, nunca, mas se tivesse que ficar, tinha certeza de que ficaria
bem. O futuro? Ela dava um jeito.
Embora celebrada de coração, a cerimônia de Booker em honra da querida
Queen foi desajeitada: as cinzas estavam encaroçadas, difíceis de espalhar, e seu
tributo musical, seu esforço com “Kind of Blue”, foi desafinado e sem
inspiração. Ele abreviou tudo e, com uma tristeza que não sentia desde a morte
de Adam, jogou o trompete na água cinzenta, como se o trompete tivesse
falhado com ele e não ele com o instrumento. Observou o trompete flutuar um
momento e depois sentou-se na grama, apoiando a testa na mão. Seus
pensamentos eram secos, esqueléticos. Nunca lhe ocorrera que Queen ia
morrer ou mesmo que podia morrer. A maior parte do tempo, enquanto cuidava
dos pés dela e ouvia sua respiração, estava pensando em sua própria
inquietação. Como se a vida tivesse ficado desorganizada agora que a tia que ele
adorava estava morta por seu próprio descuido — quem passa fogo no estrado
da cama hoje em dia? Como era aguda a situação em que se via com o súbito
retorno de uma mulher de que um dia gostara, que tinha mudado de uma
dimensão para três — exigente, perceptiva, ousada. E o que o fazia pensar que
era um tocador de trompete talentoso capaz de fazer justiça a um funeral ou
que a música pudesse ser sua linguagem da memória, da celebração ou do
deslocamento da perda? Há quanto tempo seu trauma de infância o afastava do
fluxo, da onda da vida? Seus olhos queimavam, mas ele não conseguia chorar.
Os restos de Queen, tocados por uma rara brisa bem-vinda, iam mais e mais
longe na correnteza. O céu, enfarruscado demais para manter sua promessa de
sol, mandou umidade em seu lugar. Sentindo uma insuportável solidão, assim
como um profundo pesar, Booker se levantou e foi ficar com Bride no Jaguar.

Dentro do carro, o silêncio era denso, brutal, provavelmente porque não


havia lágrimas, nem nada importante a dizer. A não ser por uma coisa, uma
única coisa.
Bride respirou fundo antes de romper o silêncio mortal. Agora ou nunca, ela
pensou.
“Estou grávida”, disse com voz clara, calma. Ficou olhando a estrada bem
pisada de terra e cascalho à frente.
“O que você disse?”, a voz de Booker falhou.
“Você ouviu. Estou grávida e é seu.”
Booker olhou para ela um longo tempo antes de desviar os olhos para o rio
onde uma mancha das cinzas de Queen ainda flutuava, mas o trompete
desaparecera. Uma pelo fogo, um pela água, tinham ido embora duas coisas
que ele amara intensamente, pensou. Não podia perder uma terceira. Com
apenas um vestígio de sorriso, ele se virou para olhar Bride de novo.
“Não”, disse. “É nosso.”
Então lhe estendeu a mão que ela desejara a vida inteira, a mão que não
precisava mentir para merecer, a mão de confiança e atenção — um conjunto
que alguns chamam de amor natural. Bride acariciou a palma da mão de
Booker, depois entrelaçou os dedos nos dele. Beijaram-se, de leve, antes de
recostar nos apoios de cabeça para suas colunas afundarem no couro macio dos
bancos. Olhando pelo para-brisa, cada um começou a imaginar como o futuro
certamente seria.
Nenhuma criança solitária com uma vara de pescar passou por ali e olhou os
adultos no empoeirado carro cinzento. Mas, se tivesse passado, ele ou ela teria
notado os pronunciados sorrisos do casal, os olhos tão sonhadores, mas não daria
nenhuma importância ao que causava aquele brilho de felicidade.
Um filho. Uma vida nova. Imune ao mal ou à doença, protegida de
sequestro, surras, estupro, racismo, insulto, mágoa, autodepreciação, abandono.
Livre de erros. Toda bondade. Sem raiva.
Assim acreditavam.
Mel

Prefiro este lugar — Winston House — do que aquelas casas de repouso


grandes, caras, fora da cidade. A minha é pequena, acolhedora, barata, com
enfermeiras vinte e quatro horas e um médico que vem uma vez por semana.
Tenho só sessenta e três anos — jovem demais pra ficar encostada —, mas me
apareceu uma doença dos ossos paralisante, então é essencial ter bons cuidados.
O tédio é pior que a fraqueza ou a dor, mas as enfermeiras são uns encantos.
Uma me deu um beijo no rosto antes de me cumprimentar quando eu contei
que ia ser avó. O sorriso e os elogios dela eram dignos de alguém que vai ser
coroado.
Eu tinha mostrado pra ela um recado em papel azul que recebi da Lula Ann
— bom, ela assinou como “Bride”, mas eu nunca dei a menor atenção. As
palavras dela pareciam bêbadas. “Adivinhe só, M., estou tão contente de dar esta
notícia. Eu vou ter um bebê. Estou muito, muito animada e espero que você
fique também.” Acho que a animação é pelo bebê, não pelo pai, porque ela não
falou nada dele. Imagino se ele é tão preto como ela. Se for, ela não vai precisar
se preocupar como eu. As coisas mudaram um pouquinho desde quando eu era
moça. Tem pretos-azulados por aí, na televisão, em revista de moda, comercial,
até trabalhando no cinema.
Não tem endereço de remetente no envelope. Então acho que eu ainda sou
uma mãe ruim castigada pra sempre até o dia que eu morrer pelo jeito bem-
intencionado e, de fato, necessário como criei essa menina. Sei que ela me
odeia. Assim que pôde ela me deixou sozinha naquele apartamento horrível. Foi
o mais longe possível de mim: se embonecou e conseguiu algum emprego
importante na Califórnia. A última vez que eu vi, ela estava tão linda que até
esqueci da cor dela. Mesmo assim, o relacionamento da gente se limita a ela me
mandar dinheiro. Devo confessar que fico agradecida pelo dinheiro porque não
tenho que mendigar os extras como alguns outros pacientes. Se quero o meu
baralho novinho pra jogar paciência, posso comprar e não preciso usar o
baralho sujo e gasto do salão. E posso comprar o meu creme de rosto especial.
Mas não sou nenhuma boba. Sei que o dinheiro que ela manda é um jeito de
manter a distância e aquietar o restinho de consciência que ela ainda tem.
Se eu pareço irritada, ingrata, parte disso é porque no fundo existe remorso.
Por todas as pequenas coisas que eu não fiz ou que fiz errado. Me lembro
quando ela teve a primeira menstruação e como eu reagi. Ou as vezes que eu
gritei quando ela tropeçou ou derrubou alguma coisa. Como eu gritei com ela
pra ela não denunciar o senhorio — o cachorro. Verdade. Eu fiquei muito
perturbada, senti até repulsa pela pele preta dela quando nasceu e no começo
pensei em… Não. Tenho que afastar essas lembranças — depressa. Não tem por
quê. Eu sei que fiz o melhor possível naquelas condições. Quando o meu
marido largou a gente, a Lula Ann foi um fardo. Pesado. Mas eu suportei bem.
É, eu era dura com ela. Sei que eu era. Quando ela chamou toda aquela
atenção depois do julgamento daqueles professores, a menina ficou difícil de
controlar. Quando estava com doze pra treze anos eu tive que ser ainda mais
dura. Ela retrucava, recusava a comida que eu fazia, mexia no cabelo. Se eu
trançava o cabelo, ela ia pra escola e destrançava. Eu não podia deixar ela dar
errado. Peguei pesado e alertei, contei os nomes todos que iam botar nela.
Mesmo assim, alguma coisa que eu ensinei deve ter surtido efeito. Viu o que ela
virou? Uma mulher de carreira, rica. Dá pra ser melhor?
Agora está grávida. Bom passo, Lula Ann. Se você acha que ser mãe é só
agrados, sapatinhos e fraldas, vai ter um grande choque. Grande. Você e o seu
namorado sem nome, marido, amante — seja lá o que for — imagine AAAH!
Um bebê! Tchu tchu tchu!
Escute o que eu digo. Você está pra descobrir como é a coisa, como é o
mundo, como ele funciona e como ele muda quando a gente é mãe.
Boa sorte e que Deus ajude essa criança.
TIMOTHY GREENFIELD-SANDERS


TONI MORRISON nasceu em 1931, em Ohio, nos Estados Unidos.
Formada em letras pela Universidade Howard, estreou como romancista
em 1970, com O olho mais azul. Em 1975, foi indicada para o National
Book Award por Sula, e dois anos depois venceu o National Book Critics
Circle com Song of Solomon. Amada lhe valeu o prêmio Pulitzer. Foi a
primeira escritora negra a receber o prêmio Nobel de literatura, em 1993.
Aposentou-se como professora de humanidades na Universidade de
Princeton, em 2006.
Copyright © 2015 by Toni Morrison

Proibida a venda em Portugal

Grafia atualizada segundo o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa de 1990, que entrou em vigor no Brasil
em 2009.

Título original
God Help the Child

Capa
Alceu Chiesorin Nunes

Imagem de capa
Excavated from the black Heart of Negress (detalhe), Kara Walker, 2002, recorte em papel 30 x 4 m.
Coleção da artista.

Preparação
Silvia Massimini Felix
Revisão

Adriana Moreira Pedro


Clara Diament

ISBN 978-85-545-1139-5





Todos os direitos desta edição reservados à
EDITORA SCHWARCZ S.A.
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