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A PAISAGEM EM PESSOA: INTERVALO E INTERSECÇÃO NA

REPRESENTAÇÃO DO ESPAÇO

LA PAISAJE EN PESSOA: INTERVALO Y INTERSECCIÓN EN LA


REPRESENTACIÓN DEL ESPACIO.

Edir Augusto Dias Pereira


Universidade Federal do Pará – Campus de Cametá
edirdias@ufpa.br

RESUMO: A paisagem é uma das categorias estruturantes da poética de Fernando Pessoa. No presente
texto se analisa o modo como o escritor português define e usa a paisagem em seus textos literários,
em diálogo com as mais recentes contribuições conceituais a respeito da paisagem na geografia.

PALAVRAS-CHAVE: Paisagem; Fernando Pessoa; Modernidade.

RESUMEN: El paisaje es una de las categorías de la estructura poética de Fernando Pessoa. En este
trabajo se analiza cómo el escritor portugués define y utiliza el paisaje en sus textos literarios en
diálogo con las últimas aportaciones conceptuales sobre el paisaje en la geografía.

1. Abrindo uma janela e entrando na paisagem

Esta paisagem? Não existe. Existe espaço


vacante, a semear
de paisagem retrospectiva.
A paisagem vai ser.
(Carlos Drummond de Andrade)

Abro uma janela, apenas uma janela. O olhar se estende pelas amplas, sutis e
complexas paisagens de um texto, de uma obra, de um discurso que nos desafia sem cessar. A
janela que abro, abro-a para a paisagem desse texto. Abro-a sobre a paisagem. É uma janela
de leitura. É uma janela de análise, é uma janela que se abre da casa da Geografia, está ciência
da paisagem. Diante dessa janela aberta desfilam (e desfiam-se) paisagens que a escrita de
Fernando Pessoa traçou, enredou, versou, tramou... Escrever, disso Pessoa já sabia, é uma arte
de tecelagem. Tecer paisagens e tecer a paisagem é uma arte que o tecelão Pessoa, como
ninguém, realizou no tear da literatura. Antes da análise, um caminho sempre acidentado e por
vezes árido e monótono, portanto um processo que exige de nós um esforço disciplinado,
atenção rigorosa e tensa; o que se impõe na leitura de um texto literário – seja qual for a janela
da qual o vemos – é o sentir, o imaginar, o sonhar, o fruir livremente sua multiplicidade, suas
linhas de fuga (DELEUZE e GUATTARI, 1995). Por isso, como o Pessoa, fiz esta análise
sonhando. Como em Pessoa, o que pensou em mim estava sentindo.
Abro a janela, uma pequena janela. Mas, a paisagem não se entrega de pronto, ao
primeiro golpe de vista. Não há paisagem à primeira vista. É preciso um segundo, um
terceiro, um quarto olhar, muitos olhares (escutar, tatear, lembrar, imaginar, desejar, sentir,
etc.) para que a paisagem seja, para que se veja a paisagem. Por isso a pergunta poética de
Drummond (1973) a nos desafiar: paisagem existe? E sua resposta categórica a nos interpelar:
não existe, vai ser. A paisagem não é só presente, é devir1, é vir-a-ser.
Ao contrário de qualquer janela, a nossa não é fixa, como de uma casa; não segue em
trilho invariável, como de um trem; nem se move no percurso de uma estrada. Nem é como a
janela de um avião: ora sobrevoando mais baixo, ora mais alto a paisagem do texto. Porque
não existe paisagem de sobrevoo, dizia Merleau-Ponty (BESSE, 2006). Também não é como
a janela de uma televisão que nos mostra paisagens para além da paisagem que vemos. Somos
nós que movemos a nossa janela em todos os sentidos e direções, e emprestando-lhe vidraças
que são como lentes que aproximam e afastam, colorem e descolorem, distorcem e
recompõem. Quando vou abrindo essa janela sobre a paisagem de Pessoa, porque ela não se
abre de uma vez, mas pouco a pouco, passo a passo, não estou certo da paisagem que
encontro, diante de qual me encontro. Mas, não perco de vista a paisagem. Tento não perder
de vista a paisagem.

2. Protocolo de leitura
Derrida diz, em uma entrevista, que toda leitura não se opera de qualquer maneira,
pois exige sempre um protocolo para se abordar determinado autor (NASCIMENTO, 2001:
19). Portanto, essa leitura da paisagem em Pessoa pretende ser uma interpretação geográfica.
Ler a paisagem nos textos de Pessoa a partir da Geografia (uma localização epistêmica)
implica uma abordagem específica, que visa articular dialogicamente dois modos distintos de
representação, leitura e escrita do espaço através da paisagem: o literário e o geográfico.
Não pinçamos simplesmente o termo paisagem dos textos de Pessoa, mas procuramos
compreendê-la como uma categoria estruturante do processo/procedimento de criação poética,
como categoria moderno-colonial2 de representação do espaço, da diferença sócio-espacial.
Assim, não importa apenas analisar o que Pessoa escreveu sobre a paisagem, mas apreender

1
Devir no sentido com que Deleuze e Guattari (1995) empregam/impregnam o termo.
2
O termo moderno-colonial é usado por Mignolo (2003, 2005) para designar o imaginário e o espaço/tempo que
se constitui no mundo a partir do século XIX com a conquista da América, caracterizando assim a condição geo-
histórica atual.
como esta funciona e é usada na estruturação de sua poética, de suas temáticas e
problemáticas, da relação do sujeito moderno com o espaço, da linguagem literária com o
espaço. Esta leitura não pretende ser exaustiva, mas tão somente uma leitura intensiva, como
dizia Deleuze (1994). Por isso selecionamos os seguintes textos: O guardador de rebanhos,
assinado por Alberto Caeiro, em que a paisagem tem um papel no questionamento que Pessoa
faz da representação metafísica do mundo; os textos assinados pelo próprio Fernando Pessoa,
em que há definições e reflexões sobre a paisagem (seja no uso do termo, seja pelas
descrições de ambientes); e principalmente os textos do Livro do Desassossego, atribuído ao
semi-heterônimo Bernardo Soares, onde a paisagem cumpre um papel para além de plano de
fundo das reflexões e narrativas.

3. Paisagem-ser em Pessoa
Fernando Pessoa (1888-1935) é considerado o poeta do Ser, mas o Ser de Pessoa (o
ser para/em Pessoa), o Ser poético, é um ser-estar-no-mundo, e este “mundo” configura-se,
em geral, como paisagem. A paisagem, nesse contexto, não é tão somente o mundo exterior,
onde o ser se situa e se move (existe), uma realidade perceptível. O mundo é um espaço
percebido, vivido, imaginado e representado em paisagem; uma paisagem-ser (MOREIRA,
2004), paisagem para si e em si, uma paisagem que é sempre para Pessoa a intersecção
poética e um intervalo indeterminado de interior e exterior, do subjetivo e objetivo, do pensar
e do sentir, do ver e tudo mais que o envolve – ouvir, cheirar, lembrar, sonhar, imaginar, etc.
O ser está nessa intersecção de paisagens subjetivadas com paisagens objetivadas - o habitus e
o habitat de Bourdieu (2011). O Ser poético de pessoa é sempre e fundamentalmente ser-
geográfico: sujeito de paisagem.
Essa geograficidade do Ser (do Eu, do Sujeito moderno) em Pessoa se acentua em
cada desdobramento de sua arte poética – em cada poema, texto e assinatura heterônima o ser
aflora como paisagem e a paisagem aflora no ser e como ser. A existência anuncia-se e
enuncia-se como problema geográfico do ser, nas múltiplas escrituras e assinaturas de Pessoa.
Mas, provavelmente seja Aberto Caeiro e Bernardo Soares os que apresentam para Pessoa
(com quem Pessoa apresenta) melhor essa geograficidade3 existencial, essa inscrição

3
A geograficidade é um termo inicialmente usado pelo geógrafo francês Eric Dardel (BESSE, 2006). Segundo
Holzer (2001, p. 111) o termo define a relação do ser-no-mundo, “refere-se à cumplicidade obrigatória entre a
Terra e o homem, que se apresenta à existência humana. Refere-se também a um espaço material, uma matéria
que não podemos descartar”. Para Dardel (2011) essas ligações existenciais do homem com a Terra dão-se como
paisagem. Para Moreira (2004) “a geograficidade é o combinado de ser-espaço-tempo (...), a determinação
contextual que organiza e define o mundo como o ser-estar-do-homem-no-mundo, a constituição geográfica
como modo de existência” (p. 193).
geográfica do ser. Uma inscrição problemática, tanto no sentido de representar uma questão
que se impõe à vida e ao pensamento, quanto no sentido do poeta formulá-la explicitamente,
colocar-se como questionamento a relação do ser com o mundo, do sujeito com a paisagem. A
subjetividade poética acentua-se como uma problemática de ordem geográfica em Pessoa à
medida que a relação do ser com o espaço (do sujeito poético com a paisagem), do mundo
interior com o mundo exterior se torna tensa, densa, intensa e complexa; se apresenta
poeticamente como ambivalência paisagística, uma ambivalência que se exprime como
tensão central e permanente. Definindo, assim, um espaço considerável à paisagem em sua
poética, não importa que assinatura esteja usando.
Pode parecer que a tese aqui defendida da transversalidade da paisagem na poética de
Pessoa, busque forçar uma interpretação geográfica. Mas, não se trata de conferir uma
centralidade e importância maior do que possui a paisagem em sua obra poética. A questão
não é temática. A paisagem não é um tema na obra de Pessoa, é de fato um enunciado
expressivo (DELEUZE e GUATTARI, 1995), um recorrente e eficaz dispositivo de sentido
literário espacial. A questão do ser (do sujeito moderno4), evidentemente, parece-nos central
(é um eixo estruturante), mas a paisagem atravessa-a e desestabiliza-a constantemente, e não
de forma tangencial. Pessoa usa o termo paisagem frequentemente e o define inclusive, em
prosa e verso. A paisagem também está implicitamente contida em sua poética, através de
descrições e referências espaciais, de lugares concretos ou imaginários. A paisagem em
Pessoa deixa de ser simples metáfora, para se converter numa categoria ou dispositivo poética
espacial, que verte por todos os poros sentidos que elucidam o ser-estar-no-mundo.
Os “estados de alma” que o levam a “se outrar” literariamente, constituem um
processo de despersonalização como espaçamento, ou seja, o sujeito torna-se para si mesmo
uma paisagem. “Cada grupo de estados de alma mais próximos insensivelmente se tornará
uma personagem, com estilo próprio, com sentimentos porventura diferentes, até opostos, aos
típicos do poeta na sua pessoa viva” (PESSOA, 2007: 199, itálico nosso). Nesse texto
bastante conhecido, onde Pessoa reflete sobre a relação paisagem e estados da alma, pode-se
ler: “Todo estado de alma é uma paisagem, não só porque é representável por uma paisagem,
mas porque constitui uma paisagem”. (PESSOA: 101, itálico nosso). No Livro do
Desassossego Pessoa, pela assinatura de Bernardo Soares, escreve:

4
Perrone-Mosiés (2001) analisa esta problemática do sujeito moderno no Livro do Desassossego.
Disse Amiel que uma paisagem é um estado de alma, mas a frase é uma
felicidade frouxa de sonhador débil. Desde que a paisagem é paisagem,
deixa de ser um estado de alma. Objectivar é criar, e ninguém diz que um
poema feito é um estado de estar pensando em fazê-lo. Ver é talvez sonhar,
mas se lhe chamamos ver em vez de lhe chamarmos sonhar, é que
distinguimos sonhar e ver. (PESSOA, 2006:102, negrito nosso).

Pessoa estabelece, então, que ainda que uma paisagem possa ser tida como um estado
de alma (metáfora), a paisagem não é um estado de alma – mas algo objetivado, externo,
criado, independente do sujeito. Portanto, uma paisagem não é exclusivamente um dado
subjetivo, ainda que a subjetividade se interponha sempre no que designamos/vivenciamos
como paisagem. “Mais certo era dizer que um estado de alma é uma paisagem; haveria na
frase a vantagem de não conter a mentira de uma teoria, mas tão somente a verdade de uma
metáfora” (PESSOA, 2006: 102, negrito nosso). A paisagem estar entre a teoria e a metáfora.
Nesse sentido, a paisagem é metáfora do ser, é paisagem-ser.
Pessoa define a paisagem simples e modernamente como “tudo que forma o mundo
exterior num determinado momento da nossa percepção” (PESSOA, 2007: 101). Mas,
também, como fica explícito, o ser, o eu, os estados de alma, enfim, o sujeito, percebe-se ou
existe como um mundo exterior, ou seja, como uma paisagem. E Pessoa deixa claro que isso
não se dar só por analogia ou comparação5, “todo estado de alma se pode representar por uma
paisagem”, porque interiorizamos a paisagem, nossos estados de alma afetam nosso modo de
percepção do espaço. Portanto, a cada momento: “Temos consciência de duas paisagens que
se fundem, interpenetram-se, de modo que o nosso estado de alma, seja ele qual for, sofre um
pouco da paisagem que estamos vendo [...] e, também, a paisagem exterior sofre do nosso
estado de alma” (PESSOA, 2007:101).
Há desse modo, uma intersecção entre estado de alma (sujeito) e paisagem (objeto).
Ora, a realidade não pode ser reduzida a paisagem como percepção de um mundo exterior,
nem a paisagem reduzida a estados de alma. A Arte, para Pessoa, consiste em apreender
conjuntamente essa conjunção de paisagens subjetiva e objetiva: “a arte que queira
representar bem a realidade terá de a dar através de uma representação simultânea da
paisagem interior e da paisagem exterior” (PESSOA, 2007:101), ou seja, da sua
“intersecção”. A paisagem, na Arte, funciona assim com um termo de mediação entre o
mundo subjetivo e o mundo objetivo na representação da realidade. Romper com esta

5
Pessoa estabelece essa analogia, nesses versos, por exemplo: “Se a gente se cansa/ Do mesmo lugar/ Do mesmo
ser/ Por que não se cansar?” (PESSOA, 2007: 546-7). Deve ser esse cansaço que o levou a se outrar como
mudamos de lugar ou inventamos lugares em que vivemos pela imaginação.
dicotomia, borrando a separação, parece ser a tarefa do artista. E a paisagem é o elo que une
na realidade à essas dimensões da existência6.

4. O guardador de paisagens

A questão do ver, do olhar e do visível, da visibilidade é fundamental para a


definição de paisagem. Na geografia a paisagem é muitas vezes definida como o “domínio do
visível” (SANTOS, 1997). Pessoa defendia que a única realidade, ou a única maneira de ter
acesso ao que julgamos como “realidade” é através das sensações. A paisagem não se dá
simplesmente por uma sensação visual – ainda que ele a tenha definido como um mundo
exterior dado à percepção. O ver é sempre mediado e determinado, contagiado e matizado por
outras sensações: pelo pensar, pelo sentir, pelo lembrar, pelo imaginar, pelo sonhar. Em
Alberto Caeiro ver e pensar se opõem e imbricam, ou pelo menos se definem de modo
problemático, um em relação a outro.
A questão do olhar na definição da paisagem diz respeito à percepção e
representação do espaço. Esta é a questão colocada por Pessoa através de Alberto Caeiro.
Caeiro se define como “um poeta objetivo” (PESSOA, 2007: 201), mas essa objetividade não
é uma qualidade do mundo ou fruto do trabalho do sujeito. A paisagem elíptica (pois a
palavra não aparece), nos poemas de O guardador de rebanhos é marcada pela visualidade
“pura”, ou, pelo menos, pela tentativa de conferir ao mundo sensível ou perceptível uma
realidade independente de qualquer interferência subjetiva ou idealista. Por isso a paisagem
campestre, a paisagem rural – no mais das vezes predominantemente natural -, se impõe
como esse lugar do ver puro. Para Caeiro a paisagem é paisagem e o ser é ser; não há
intersecção, não há confusão.
A paisagem é a natureza em si. O próprio olhar se naturaliza: “Meu olhar é nítido
como um girassol” (PESSOA, 2007; 204). A natureza como paisagem e a paisagem como
natureza constitui um dos aspectos marcantes da poética espacial de Caeiro, uma “Natureza
sem gente” (PESSOA, 2007: 203)7. Na apreensão dessa paisagem-natureza estabelece-se uma
tensão entre o olhar /ver e o saber/pensar, a favor do olhar/ver. O saber e o pensar são
desqualificados como mediação deturpadora do ver. “Pensar incomoda como andar a chuva”;
“Pensar é não compreender”; “[...] pensar nisso é fechar os olhos” (PESSOA, 2007: 203; 204;

6
Em nota atribuída a Ricardo Reis há uma crítica à poesia de Alberto Caeiro, que em determinado momento
teria realizado a “mistura do objetivo com o subjetivo que é o distintivo doentio do mais doentio dos modernos”
(PESSOA, 2007: 202).
7
A paisagem como natureza está na emergência da Geografia como ciência moderna (BESSE, 2006).
207). O olhar é sempre um “olhar inaugural”, pois “[...] o que eu vejo a cada momento/ É
aquilo que nunca antes eu tinha visto”, por isso o sujeito poético se sente “nascido a cada
momento/ Para a eterna novidade do mundo” (PESSOA, 2007: 204).
A paisagem se define pela oposição ou tensão entre ver e pensar. A paisagem
concerne ao olhar e não ao pensar. “O mundo não se faz para pensarmos nele/ (Pensar é estar
doente dos olhos)” (PESSOA, 2007: 205). O ver sem pensar define a “verdade” ou
“realidade” do mundo. A paisagem é o espaço visto, observado, visível, perceptível. A visão
tem proeminência sobre os demais sentidos: “Mesmo ouvir nunca foi para mim senão um
acompanhamento de ver” (PESSOA, 2007: 237). Caeiro recusa a definição, pois toda
definição é o em-si: a Natureza em si, o Mundo em si. Caeiro recusa a representação. O
mundo não é feito para ser representado: “O que penso eu do mundo? Sei lá o que penso eu
do mundo!” Deste modo, afirma: “O nome das coisas não são as coisas” (PESSOA, 2007:
206; 225).
Para Caeiro “a nossa única riqueza é ver” com um olhar que “não interroga nem se
espanta” (PESSOA, 2007: 208; 217). “O essencial é saber ver/ Saber ver sem estar a pensar”,
o que exige “Uma aprendizagem de desaprender” (PESSOA, 2007: 217). Essa pedagogia do
desaprender em que consistiria? Caeiro assim esclarece seu método: “Procuro despir-me do
que aprendi/ Procuro esquecer-me do modo de lembrar que me ensinaram,/ E raspar a tinta
com que me pintaram os olhos”. Ver não é só o oposto de pensar, é ver de outra maneira, para
ver “É preciso não ter também filosofia nenhuma” (PESSOA, 2007: 226; 231).
A única maneira de pensar é usar os sentidos, o corpo para Caeiro:

[...] os meus pensamentos são todos sensações.


Penso com os olhos e com os ouvidos
E com as mãos e com os pés
E com o nariz e a boca. (PESSOA, 2007: 212).

Para Caeiro o ideal seria “Sentir como quem olha,/ Pensar como quem anda”
(PESSOA, 2007: 216). O ser-em-si do mundo independe de nossa racionalização ou
imaginação. A paisagem é em-si o que vemos. Não há um sentido oculto (mistério) por trás
das coisas que vemos, “a Natureza não tem dentro” (PESSOA, 2007: 219), que seria o mesmo
que dizer: a paisagem não tem dentro. Assim, “Os seres existem e mais nada,/ E por isso se
chama seres”; as coisas “simplesmente existem” (PESSOA, 2007: 210; 218). Por isso
compreende que: “É essa a nossa única missão no Mundo,/ Essa – existir claramente,/ E saber
fazê-lo sem pensar nisso”. Assim, Caeiro identifica uma “ausência de significação em todas
as coisas” [...], “porque ser uma coisa não é significar nada/ Ser uma coisa é não ser suscetível
de significação” (PESSOA, 2007: 221; 233).
Caeiro opõe o olhar ao pensar como se o pensar não nos permitisse ter acesso ao
mundo tal como ele é, na sua existência; como se pensar o vestisse de uma compreensão
enganosa, seja a mística ou religiosa, seja a filosófica metafísica e poética, que busca o
significado (oculto, misterioso) por trás das coisas visíveis, tangíveis e palpáveis. Esse pensar
desvaloriza a aparência, a experiência dos sentidos como ilusória: “Por que é que ver e ouvir
seria iludirmo-nos/ se ver e ouvir são ver e ouvir?” (PESSOA, 2007: 217). O pensar é tido
como uma especulação metafísica que nega a verdade à existência em razão da busca de uma
verdade para além da Natureza, das coisas que “simplesmente existem”.
O que Caeiro nega é essa modalidade de pensar metafísico, que se afasta e nega o
pensar “natural”, que é como usar os sentidos, o corpo e os movimentos do corpo, inclusive a
involuntária e vital respiração (PESSOA, 2007: 222). O pensamento metafísico, então é
antinatural, já que visa o “sentido oculto das coisas”, acusando a aparência e os sentidos de
enganosos. Para Caeiro “o único sentido oculto das coisas,/ É elas não terem sentido oculto
algum”. Assim, afirma a existência contra o sentido: “As coisas não tem significação: têm
existência” (PESSOA, 2007: 223). Mesmo a recordação, a lembrança, reveste-se desse valor
antinatural: “A recordação é uma traição à Natureza,/ Porque a Natureza de ontem não é
Natureza./ O que foi não é nada, e lembrar é não ver” (PESSOA, 2007: 225). A paisagem, na
geografia moderna, não seria também essa traição à Natureza?
Portanto, a aparência da paisagem não esconde de nós um significado que devemos
buscar para além ou por trás da aparência8. Caeiro afirma a positividade da aparência contra o
pensamento das causas primeiras e profundas. Mas, não quer afirmar com isso, com essa
recusa do pensar metafísico que põe mistérios nas coisas, que toda verdade é nos dada pelos
sentidos. Por que são “os sentidos, os doentes que vêem e ouvem” (PESSOA, 2007: 241).
Mesmo se denominando “um interprete da Natureza”, o “descobridor da Natureza” e
afirmando a Natureza contra todas suas falsificações metafísicas, Caeiro por fim precisa negá-
la: “Vi que não há Natureza,/ Que Natureza não existe” (PESSOA, 2007: 220; 226). Nega a
Natureza como um conjunto, uma ordem, uma totalidade que engloba todas as coisas
existentes. A Natureza é apenas uma ideia de todo. Por isso “A Natureza é partes sem um
todo” (PESSOA, 2007: 227). A paisagem, desse modo, seria uma recusa da totalidade. Esta

8
Esta oposição entre a aparência é essência está inscrita nas definições de paisagem desde sua emergência como
categoria/conceito da geografia moderna, e inclusive se reafirma com a concepção de paisagem tributária do
materialismo histórico.
concepção de Caeiro parece estar de acordo com, ir ao encontro da concepção
fenomenológica de paisagem (BESSE, 2006).
Podemos observar ainda que na Geografia também a paisagem surge como uma
descrição da Natureza, como em Humboldt (VITTE, 2008). E na literatura, desde o início,
paisagem era o modo de representar a natureza perceptível, visível (BESSE, 2006). Como
uma forma de representar a alteridade espacial, através do dispositivo de sentido da paisagem,
tanto a geografia quanto a literatura e a pintura modernas, transformam a natureza numa
externalidade, portanto, no “outro” do humano (SOUSA SANTOS, 2006). Mas, através deste
dispositivo revelam uma tensão, uma ambiguidade contra todas as dicotomias que
caracterizam o paradigma da modernidade. Nesse sentido, a poética de Pessoa, através da
paisagem, recorre à categoria moderna paisagem (problematização do olhar e da natureza),
porque esta permite, pelo menos, estabelecer uma tensão ou um questionamento das
separações que caracterizam a modernidade.

5. A paisagem em Pessoa
Também nas poesias em que há a assinatura de Pessoa aparece essa problemática do
olhar em relação à paisagem, mas é nesta especificamente que a paisagem figura como espaço
exterior e como modo privilegiado de representação do “outro” – que pode ser o próprio
sujeito poético. Para Pessoa o mundo não é da medida do nosso olhar, mas nós somos da
medida do que vemos: “eu sou do tamanho do que vejo” (PESSOA, 2007: 208). Por isso o ver
define a paisagem como um quadro – o enquadramento do espaço. A paisagem é o espaço em
moldura. “Paisagens, quero-as comigo./ Paisagens, quadros que são...” (PESSOA, 2007: 544),
remetendo à origem da paisagem na pintura.
A poesia de Pessoa se caracteriza por uma transfiguração da paisagem. Esta é um
recorte do espaço, cenários em enquadramentos sensoriais – ou seja, representados e
figurados em “quadros”. Os quadros podem ser representações de paisagens, mas são as
paisagens que para Pessoa constituem esses quadros (objetos de contemplação, devaneio e
localização), simulacros de janelas. Assim, temos paisagens: “Uma pela mão de Deus,/ Outras
pelas mãos das fadas,/ Outras por acasos meus,/ Outras por lembranças dadas” (PESSOA,
2007: 544). As paisagens não são simples dados materiais objetivos: são ao mesmo tempo
“naturais” e místicas (dadas por Deus), são sobrenaturais ou lendárias (fadas), ou seja,
imaginárias, dadas pela imaginação e, também, são resultados de experiências subjetivas não
determinadas ou previstas (acasos meus) e dadas pela memória (lembranças).
Toda paisagem é atravessada pela memória. Estamos sempre diante/dentro de
paisagens que vimos/vivemos por intermédio da memória. “Paisagens... Recordações,/ Porque
até o que se vê/ Com primeiras impressões/ Algures foi o que é,/ No ciclo das sensações”
(PESSOA, 2007: 544). Não há paisagem a primeira vista. Ela é o espaço em perspectiva
(SANTOS, 2009), ou como diz Drummond, não existe paisagem, existe espaço, ou seja, a
paisagem é o modo pelo qual nos damos uma determinada representação do espaço. Ela é
resultado de múltiplas mediações.
A paisagem, toda paisagem, apresenta-se ao o olhar sempre mediada por recordações
(o passado em nós contido), filtrada por esse tempo incorporado: o habitus (BOURDIEU,
2011). A relação de percepção imediata é apenas uma ilusão: “Ver é enganar-se” e “Pensar
um descaminho” (PESSOA, 2007: 161). A primeira vez que vemos e/ou entramos em contato
com uma paisagem, é já com um “olhar” marcado (mediado) por representações (presentes na
memória). O ver não é percepção direta, é perceber por meio de... através de... a partir de...
Paisagem é imagem e representação. Ver é um aprendizado; aprendemos um modo de ver, um
modo de olhar, observar, perceber, enxergar, distinguir. E aprender é reter na mente, com a
memória, uma representação. Por isso a paisagem não aparece sempre como um espaço
arrumado, bem definido. “Vê que, pela janela aberta,/ Há uma paisagem toda incerta”
(PESSOA, 2007: 546). A paisagem nunca é um espaço regular, ordenado, definido, como se
pensa.
Ver ou olhar também tem um sentido que ultrapassa o fato de uma imagem se nos
apresentar diretamente à visão. O olhar na modernidade é sinônimo de razão, desde o
Iluminismo. O olho que ver – percebe. E a razão é como o olhar. A razão ver. “Para além da
visão”, pois é “Olhar de conhecer”. Mas, o ver faz o mundo existir: “Ah, o mundo é quanto
nós trazemos./ Existe tudo porque existo./ Há porque vemos” (PESSOA, 2007: 160; 166). A
paisagem em Pessoa não é o que olhos veem, simplesmente. É uma paisagem sinestésica: o
cheiro de flores é música e a música um canteiro de flores, ou uma ausência presente por uma
lembrança (mesmo do que não houve) ou pela imaginação – o poeta sente com a imaginação,
e o que nele sente está pensando. E na audição, no ver, no olfato, “Intervêm sonhos e
memórias...” (PESSOA, 2007: 165).
A paisagem também é o modo como o sujeito se percebe a si mesmo. O eu é
percebido e definido como uma paisagem. Escreve Pessoa (2007: 526): “Vou-me fazendo
paisagem/ Para me desconhecer”, ou seja, nós nos damos uma representação de nós mesmos
como paisagem, alienando-nos ou nos afastando de nós mesmos: “Que paisagem quem se
ignora!” (PESSOA, 2007: 526). Todavia, se como paisagem nos ignoramos, também como
paisagem nos sabemos existir. “Éramos aquela paisagem esfumada em consciência de si
própria...”. Mas, da mesma forma, a própria paisagem se personaliza. A paisagem é revestida
de atributos que são humanos. “Ali aquela paisagem tinha os olhos rasos d’água, olhos
parados cheios de tédios inúmeros de ser...” (PESSOA, 2007: 438; 439).
A paisagem aparece também na relação tempo e espaço. E muitas vezes é o depósito
do tempo, onde o tempo torna-se inerte. “Ó tempo estagnado em espaço, tempo morto de
espaço”. A personalização da paisagem ocorre como sua temporalização: “[...] toda essa
paisagem nos sabia a sermos desse mundo, toda ela era úmida de um vago tédio, triste enorme
e perverso como a decadência de um império ignoto...” (PESSOA, 2007: 438). E nesse jogo é
que se fazem “séculos interiores de paisagem externa...”. Mas que tempo e espaço são esses
que a paisagem comporta? É “um tempo que não sabia decorrer, um espaço para que não
havia pensar em poder-se medi-lo” (PESSOA, 2007: 437). Um tempo que não passa, e um
espaço que não se mede: eis a paisagem.
A paisagem em Pessoa, no entanto, também se apresenta na ausência da visualidade,
interiorizando-se como um sentimento, um sentimento de paisagem. Assim, “[...] a paisagem
se nos torna toda para os ouvidos e se entristece em nós como uma pátria recordada”
(PESSOA, 2007: 437). A relação do sujeito poético pessoano com a paisagem transcende a
imediaticidade e torna a memória não algo que representa a paisagem em sua ausência, mas
algo que a define em presença. Por isso, escreve Pessoa: “E eu, que longe dessa paisagem
quase a esqueço, é ao tê-la que tenho saudades dela, e ao percorrê-la que a choro e a ela
aspiro...” (PESSOA, 2007: 436). Não há contradição nem um paradoxo pedindo explicação
nessa sentença. Nós nunca encontramos na realidade a paisagem tal qual nos recordamos dela,
porque a imaginação a transfigura continuamente, diante dela é impossível não lembrar dela.
Por isso podemos dizer: “[...] essa paisagem conheço-a há muito” (PESSOA, 2007: 435).
Nesse sentido, a paisagem em Pessoa tem um sentido metafórico ao dá-se como um
quadro, como uma representação do ser, com um espaço com atributos humanos e como a
mediação de tempo e espaço. Mas também o espaço é uma linguagem, uma escrita. “Esta
paisagem é um manuscrito com a frase mais bela cortada” (PESSOA, 2007:109). Escrita nem
sempre compreensível, mas cheia de borrões, rasuras, buracos, supressões, lacunas. Santos
(1997) afirma ser a paisagem um palimpsesto, uma escrita sobre a outra. A paisagem não é
uma superfície homogênea e completa. A paisagem também é o modo como representamos
os espaços outros, os espaços dos outros: “Vestir de alheamento as paisagens de todas as
terras” (PESSOA, 2007:110). Essa paisagem como outro espaço é muda, só existe em
silêncio, sem expressão. “A paisagem longínqua só existe/ Para haver nela um silêncio em
descida/ P’ro mistério, silêncio a que a hora assiste...” (PESSOA, 2007: 129).
Em Pessoa, a paisagem configura um espaço inexistente, algumas vezes. Por isso
escreve: “Há tão pouca gente que ame as paisagens que não existem!”. Por isso toda paisagem
é atravessada por sonhos, como os sonhos de viagem. “Atravessa esta paisagem o meu sonho
de um porto infinito” (PESSOA, 2007: 111; 113). E, muitas vezes, é como um
fato/acontecimento independente de nossa vontade. “Aconteceu-me esta paisagem”, um
acontecimento e uma condição de nossa existência. Ao mesmo tempo em que constituímos a
paisagem: “Fui com o mundo, parte da paisagem” (PESSOA, 2007: 123; 159). Todas estas
formas como a paisagem figura na poética pessoana recoloca a questão da relação do sujeito
com o espaço, o que importa ao conceito de paisagem em Geografia e na sua relação com a
literatura moderna (BROSSEAU, 2007).

6. A paisagem do Desassossego.
Perrone-Moisés (2001:224), escrevendo a respeito do Livro do Desassossego, afirma
que o objetivo de seu autor “não é registrar estados da alma, por auto-análise ou projeção em
paisagens, como se pode crer numa leitura ingênua”. Certamente esta seria uma leitura
ingênua da paisagem, nesse livro, como projeção de estados da alma. A referida autora pensa
que no livro tudo é pretexto para uma busca da linguagem. Como lembra Foucault (2001:
167), apesar de muito tempo se acreditar que a linguagem tinha um profundo parentesco com
o tempo, a linguagem não é tempo, mas espaço. E este espaço da linguagem literária tem na
paisagem seu dispositivo de sentido. Como pontua Foucault (2001: 169) “há valores espaciais
inscritos em configurações culturais complexas e que espacializam qualquer linguagem e
qualquer obra que apareça nessa cultura”. Mas, “há também uma espacialidade interior à
própria obra que não é exatamente sua composição [...], mas o espaço profundo de onde vêm
e onde circulam as figuras da obra” (FOUCAULT, 2001: 169). A paisagem é uma dessas
figuras de espaço da obra de Pessoa, mais que simples figura de linguagem. Além de haver a
espacialidade da própria linguagem da obra, “espaço ao mesmo tempo esticado e liso, fechado
e dobrado sobre si mesmo” (FOUCAULT, 2001: 171).
No Livro do Desassossego a paisagem é metáfora e símbolo, como também cenário e
cena em que se situa a narrativa, os objetos, os seres e as reflexões. No primeiro caso temos o
uso da palavra e sua definição, no segundo descrições de ambientes e lugares. Neste livro a
presença da paisagem é constante, insinuante e insistente. Tem também um significado bem
particular, pois em um dos projetos do livro deveria haver uma secção chamada “paisagem de
chuva”. A paisagem é uma noção estruturante para várias questões que envolvem a
subjetividade. Tanto que Zenith (2006: 13) escreve que Pessoa começa escrevendo “textos
que tentam elucidar um estado psíquico através de descrições do tempo e de paisagens
irreais”. A paisagem tem vários usos e sentidos nesse procedimento de elucidação
psicológica, ao ponto de Pessoa rasurar a distinção entre paisagem real e irreal, convertendo
uma na outra.
Segundo Zenith (2006: 27) “as várias ‘Paisagens de Chuva’, com ou sem título, são
ilustrações de como sentir minuciosamente e excessivamente o tempo e, por extensão, toda
natureza e a vida que nos rodeia”. A paisagem em Pessoa quase sempre se estabelece nesse
jogo emblemático e problemático (ambíguo) com o tempo, a natureza e a exterioridade da
existência (do ser). Afirma ainda Zenith (2006: 28) que Bernardo Soares (Pessoa) “Conta,
relata, o seu próprio ser, porque é a paisagem mais próxima, mais sua, mais real.”. Portanto, a
paisagem não é apenas um contexto exterior e um elemento a mais nesse relato/narrativa:
constituiria o próprio modo de realização e apreensão (representação) do sujeito em relação ao
espaço, um sujeito situado, posicionado paisagisticamente. Pessoa explica qual a função da
paisagem que irrompe em meio a reflexões subjetivas e abstratas, relacionado-a ao
ato/processo de criação literária:

A razão por que tantas vezes interrompo um pensamento com um trecho de


paisagem, que de algum modo se integra no esquema, real ou suposto, das
minhas impressões, é que essa paisagem é uma porta por onde fujo ao
conhecimento da minha impotência criadora. (PESSOA, 2006: 170).

A paisagem desenha uma linha de fuga na escrita de Pessoa (DELEUZE e


GUATTARI, 1995). Mas, seria apenas esta válvula de escape, esta janela de fuga (no sentido
de evasão) a paisagem, para o sujeito criador? É mais que isso: é um recurso literário de
criação – por isso se integra no esquema. E cada vez que Pessoa recorre à paisagem está
usando um dispositivo de representação da espacialidade que é constitutiva da existência e da
linguagem, um dispositivo constitutivo da representação moderna do espaço. Pessoa, assim,
joga com seus significados. E estas cenas e cenários – trechos de paisagem - descritos em
meio a pensamentos abstratos é seu modo de ligar (interseccionar) o interior e o exterior, o
real e o imaginário, a presença e ausência, o ver e o lembrar, o sentir e o pensar.
A paisagem, portanto, está nessa interseccionalidade entre o ser e o espaço, entre o
sujeito e a realidade. O que define a realidade do mundo para o sujeito? O mundo é tal como o
vemos? Como o pensamos? Como o imaginamos? A nossa existência no mundo, como a
percebemos e compreendemos? Talvez sejam estas, entre outras, as questões que demarcam
os sentidos da paisagem em Pessoa. Pessoa explora várias dimensões ou sentidos da
paisagem: a) a paisagem como visualidade ou o visível - a paisagem do olhar; b) a paisagem
como jogo do mundo exterior e interior; c) a paisagem como natureza e artifício; d) a
paisagem como o real e o imaginado (irreal); e) a paisagem com sentir e pensar (conhecer); f)
a paisagem como expressão do tempo e do ser; g) a paisagem como corpo e alma (espírito).
A paisagem é o que nos é dado aos sentidos, com mediação e/ou sem mediação.
“Sento-me à porta e embebo meus olhos e ouvidos nas cores e nos sons da paisagem...”
(PESSOA, 2006: 42). Mas, Pessoa reconhece que a visão não é o modo privilegiado de
“perceber” a paisagem: “narramos quando vemos, porque ver é complexo como tudo”
(PESSOA, 2006: 60). Ver é sempre rever. Portanto, toda paisagem não se nos dá como uma
realidade à percepção direta. Percebemos lembrando, comparando, sentido, evocando outras
imagens que as paisagens vistas nos sugerem, nos remetem ou não. Por isso ver é complexo.
A paisagem se constitui de sons, cores, cheiros, movimentos... Nesse sentido de
visualidade e percepção sensorial do espaço a paisagem é sempre um contexto definido no
texto. Lisboa é muitas vezes a paisagem externamente/internamente vivida/vista por Pessoa
(Bernardo Soares), desdobrando-se em ruas e casas, lugares frequentados, marcos referenciais
ou identificadores, pessoas comuns, tipos urbanos.

[...] o sossego da cidade baixa, e sobretudo aquele sossego que o contraste


acentua na parte que o dia mergulha em mais bulício. A Rua do Arsenal, a
Rua da Alfândega, o prolongamento das ruas tristes que se alastram para
leste desde que a da Alfândega cessa, toda a linha separada dos dois cais
quedos – tudo isso me conforta de tristeza, se me insiro, por essas tardes, na
solidão do seu conjunto. (PESSOA, 2006: 43)

Alma e paisagem são completamente permutáveis em Pessoa. A paisagem é sempre


subjetiva (alma), porque a alma (o ser) é sempre paisagem. Entre alma e paisagem há essa
necessária conversibilidade – são redutíveis uma à outra -, mas há também uma
interseccionalidade fundamental, ou seja, a paisagem estaria sempre na intersecção dessas
duas paisagens (a interior, da alma, e a exterior, do mundo observável, experimentável).
O próprio narrador tem uma visão de si mesmo como paisagem. O ser se converte
em paisagem – é lido como paisagem, é re-marcado como paisagem. “Como alguém, que de
muito alto, tente distinguir as vidas do vale, eu assim mesmo me contemplo de um cimo, e
sou, com tudo, uma paisagem indistinta e confusa” (PESSOA, 2006: 95). E paisagem é como
o ser se contempla e desconhece, prenhe dessa “negatividade insidiosa” de que fala Perrone-
Moisés (2001) como marca do livro.
A paisagem se confunde (funde-se) com o que o poeta sonha e/ou pensa – sonha
enquanto pensa e pensa sonhando. A paisagem explícita, como cena e cenários descritos,
constitui-se de objetos e pessoas as mais diversas, que são paisagem para o narrador que as
observa (coexistentes, coabitantes da cidade, raramente parte do convívio do poeta, mas tão
somente parte dele como parte que são da paisagem).
A paisagem, portanto, nesse livro aparece: a) como uma referência direta – o termo
paisagem compondo sua “reflexão”, seu texto ou narrativa; b) como um meio-externo (quase
sempre jogando com o interno) não nomeado de paisagem observado, vivido e descrito em
sua multiplicidade e variação espaçotemporal – paisagem elíptica, c) e como espaço
imaginado, sonhado, lembrado, idealizado, simbolizado. Diretamente referida a paisagem
vem a ser sempre uma “categoria elucidativa”, representa sempre um valor conceitual –
define algo e define-se no texto.
Como meio, cena ou cenário descrito a paisagem vem sempre composta de
elementos apreendidos de diferentes maneiras pelos sentidos, muitas vezes de forma
sinestésica, e convertida pelas sensações, emoções, imaginações e reflexões do poeta,
compreendendo um conjunto panorâmico em que o poeta está incluso/inscrito de corpo e
alma. Esse meio é composto por: natureza e artifício (cidade), objetos e pessoas, variando
com o tempo (horas do dia), os estados do clima, estações e estados da alma. Como espaço
imaginário a paisagem é um lugar indefinido, esfumado, transfigurado numa ambiência de
sonho e devaneio, composta por um jogo de metáforas e imagens fantásticas e
fantasmagóricas.
Estas paisagens imaginadas/sonhadas (irreais) tem sempre uma ligação com a
realidade. Como explica: “Mas as paisagens sonhadas são apenas fumos de paisagens
conhecidas e o tédio de as sonhar também é quase tão grande como o tédio de olharmos para
o mundo”. Mesmo assim, para Pessoa, “As figuras imaginárias têm mais relevo e verdade que
as figuras reais” (PESSOA, 2006: 380). Por isso: “[...] o imaginário vive quando se imagina”
(PESSOA, 2006: 349), já que a realidade não passa de um episódio da imaginação. De fato,
reconhece Pessoa que: “Não há problema senão da realidade, e esse é insolúvel e vivo”
(PESSOA, 2006: 229; 349). A paisagem nunca é a realidade tal como a vemos. Desse modo,
realista é “[...] um indivíduo para quem o mundo exterior é uma nação independente”
(PESSOA, 2006: 227).
Será por isso que a paisagem não é credível, por essa indistinção de real e imaginário
que a atravessa? “Não acredito na paisagem. Sim. [...] Digo-o porque não creio” (PESSOA,
2006: 322). Todas as paisagens de Pessoa “Eram reais e portanto incríveis”. Será por isso que
a paisagem real é impossível? “Falávamos das coisas impossíveis e toda a paisagem real era
impossível também” (PESSOA, 2006:: 180; 282). Mas, é esta impossibilidade das paisagens
reais que faz das paisagens impossíveis, que vemos interiormente, o impossível necessário. É
preciso sempre saber “[...] gozar a visão interior das paisagens que não existem. [...] Se
tivesse as paisagens impossíveis, que me restaria de impossível?”. Por isso afirma Pessoa:
“[...] amo as paisagens impossíveis...” (PESSOA, 2006: 160; 187).
Há uma passagem ilustrativa da centralidade que a paisagem adquire na
representação moderna dos outros (lugares e pessoas). É quando escreve Pessoa:

O mais que há no mundo é paisagem, molduras que enquadram sensações


nossas, encadernações do que pensamos. E é-o quer seja a paisagem
colorida das coisas e dos seres – os campos, as casas, os cartazes e os trajos
– quer seja a paisagem incolor das almas monótonas, subindo um momento
à superfície em palavras velhas e gestos, descendo outra vez ao fundo na
estupidez fundamental da expressão humana. (PESSOA, 2006: 176).

A paisagem constitui o modo como traduzimos o mundo, como fazemos do mundo


um mundo passível de apropriação – pois na sua totalidade não podemos apreendê-lo. A
subjetividade da construção do espaço torna-se uma condição do ser-no-mundo. Portanto:
“Tudo para nós está em nosso conceito do mundo; modificar o nosso conceito do mundo é
modificar o mundo para nós, isto é, é modificar o mundo, pois ele nunca será, para nós, senão
o que é para nós” (PESSOA, 2006: 176). Este conceito que temos do mundo é sempre uma
interpretação. Desse modo: “As coisas não valem senão na interpretação delas. Uns, pois,
criam coisas para que os outros, tansmudando-as em significação, as torne vidas. Narrar é
criar, pois viver é apenas ser vivido” (PESSOA, 2006: 179).
Com frequência no livro a paisagem aparece associada à ideia de viagem. No
fragmento 451 (da edição com que trabalhamos) a viagem é a imagem e condição da própria
existência: “Para viajar basta existir”. Mas, viajar é ver paisagem, “sempre iguais e sempre
diferentes”. Por isso o sujeito do discurso literário de Pessoa não sente necessidade de
viagens, porque para ele imaginar é ver. “É em nós que as paisagens têm paisagens. Por isso,
se as imagino, as crio; se as crio, são; se são, vejo-as como às outras” (PESSOA, 2006: 409).
Apesar da recusa do sujeito em empreender viagens reais através das quais travaria
conhecimento com outros lugares, conheceria (de ver?) outras paisagens, a associação entre
paisagem e viagem não é gratuita. A paisagem, poderíamos dizer, é resultado da aventura do
olhar moderno ocidental, um olhar que viaja, um olhar viajante (BESSE, 2006). As paisagens
que as viagens proporcionariam a Bernardo Soares/Pessoa, este as encontra em si mesmo,
porque as imagina.
A associação entre paisagem e viagem não é uma mera questão de linguagem,
porque as palavras rimam. Essa homologia das palavras já nos diz alguma coisa. Só há
paisagem pela viagem e só há viagem pela paisagem. Ou seja, o mundo se torna um mundo
do ver quando este é um mundo viajado e viajável (apelo do espaço, abertura à viagem). O
mundo se torna paisagem quando deslocar-se nele se torna viagem (BESSE, 2006).
Justamente é este o fator de emergência da modernidade: as grandes navegações. Nota
Todorov (1993: 33) que os índios da América são identificados à natureza, desde Colombo:
“Colombo fala dos homens que vê unicamente porque estes, afinal, também fazem parte da
paisagem. Suas menções aos habitantes das ilhas aparecem sempre no meio de anotações
sobre a Natureza, em algum lugar entre os pássaros e as árvores”.
Portanto, não é por acaso que a viagem se torna a grande metáfora da vida e da
morte. São com as grandes viagens marítimas, a partir do século XIX, que se constitui e
funda uma outra experiência e representação de mundo e do outro, do espaço/tempo da
alteridade, tendo na paisagem um dispositivo de sentido. Ou seja, como a viagem tornou-se
metáfora da vida e da morte, a paisagem tornou-se o dispositivo da visão de mundo, do
regime de representação do espaço moderno/colonial eurocêntrico. Temos nesse processo
mais que a emergência de um paradigma, como também a constituição de um imaginário que
no início do século XX já é dominante: o imaginário moderno-colonial (MIGNOLO, 2005).

7. Fechar a janela e abrir a paisagem

Janela aberta, para onde


Campos de não haver são
(Fernando Pessoa)

O gesto é conhecido: fechar uma janela, fechar um livro. Mas, o propósito é abrir a
paisagem para outras leituras, para outras perspectivas. Cerrar as pálpebras da janela que
havia aberto para a paisagem em Pessoa. Sair do texto, sair da paisagem que há nele, que nele
se faz. E, que paisagem nos fica? Uma fotografia ou um quadro para colocarmos na parede da
ciência geográfica? Papel de parede para tela de computador? O que à paisagem geográfica
teria a contribuir o olhar que dirigimos à paisagem em Pessoa? Debrucei-me nessa janela
demoradamente e pelas paisagens dos textos viajei. Colhi citações e impressões, como se
colhem variações de nuvens e movimentos de rua, de luz e cores no horizonte.
Para a geografia colhi da paisagem em Pessoa a importância de uma categoria que
define a relação moderna do sujeito com o espaço, com os outros e as diferenças espaciais; a
tensão que pela paisagem se trava com as dicotomias modernas que a ciência e a metafísica
alimentam. Romper com estas, não por um mero mecanismo dialético, instaurando uma
dobradiça dialética entre os pares opostos, do sujeito e objeto, do real e imaginário, da
natureza e da cultura, do ver e do pensar, parecer se o que a linguagem literária permite.
Em Pessoa a paisagem é intervalo e intersecção. A paisagem não tem polos.
Paisagem circular. Pessoa coloca a paisagem nessa sobreposição, nessa fronteira indefinida
entre o sujeito moderno e o mundo moderno; coloca-a como um recurso da criação artística.
Por isso nos ensina que para chegarmos à paisagem é preciso superar a centralidade do olhar,
do ver, da visualidade, do visível. E também superarmos o preconceito contra a aparência e as
superfícies constitutiva do mundo e do nosso modo de ser no mundo. Nesse ponto a paisagem
em Pessoa tem muito a nos dizer e a fazer ver, a nós geógrafos.
Como um modo de representar os “outros”, de tornar a Natureza uma externalidade
em relação ao humano e à cultura, a paisagem tem sido um poderoso dispositivo de
saber/poder moderno-colonial, tanto no discurso literário quanto no geográfico. Mesmo
assim, pode ser deslocada e ressignificada para romper com essa perspectiva da modernidade,
ou pelo menos questionar seus pressupostos universais, demonstrar as fissuras de suas
dicotomias. Como o faz Pessoa, em certo sentido. Como consequência do rompimento com as
dicotomias moderno-coloniais através da paisagem irrompe a diversidade, os corpos, os
movimentos, sons, os cheiros, as texturas, as cores invisíveis, as formas improváveis... Sendo
que é preciso desafiar e deslocar o sentido da paisagem como domínio de um olhar
privilegiado, um olhar que nunca se deixa ver.
A paisagem se desloca do enquadramento do que nos é dado aos sentidos. Porque a
percepção é construída com reflexão, envolve sentimentos, imaginação, memória, sonhos...
Envolve, enfim, a construção de nossa subjetividade, do sujeito moderno-colonial. A
paisagem traduz uma radical experiência espacial na qual ser e mundo formam um todo
complexo e indeterminado.

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