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DADOS

DE ODINRIGHT
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O TEATRO DO
GRAND GUIGNOL

Terror, Suspense e Loucura


na Paris do Início do Século XX
“Antes da guerra, todos tinham a sensação de que o que
acontecia em cima do palco era algo impossível. Agora sabemos
que essas coisas, e outras ainda piores, são uma realidade
possível”
Charles Nonon,
último diretor do Théâtre du Grand-Guignol
“Boa noite, senhoras e senhores, bem vindos ao
Grand Guignol, o espétaculo já vai começar…”
TEXTOS

Le Théâtre du Grand-Guignol{1}

Quando se pensa na noite parisiense do século XIX, a primeira coisa que vem à
cabeça da maior parte do público é o célebre Moulin Rouge, o tradicional cabaré
francês que até hoje alegra as noites dos turistas com grandes espetáculos.
Poucos sabem, no entanto, alguns anos após a inauguração desta tão famosa casa,
um outro local fora inaugurado na região de Pigalle, também na França: Le
Théâtre du Grand-Guignol.
O Grand-Guignol (pronuncia-se “gran Guiniol”) se tornou infame por apresentar
o que era conhecido como “horror naturalista”. Em outras palavras, apresentava
peças grotescas de horror com cenas explícitas de decapitação, desmembramento,
esquartejamento, evisceração e outras práticas de imolação corporal – o que, para
a época, era um grande feito, considerando as limitações do teatro em
comparação com, por exemplo, o cinema de hoje.
O teatro iniciou suas atividades em 1897 – 8 anos após a inauguração do Moulin
Rouge –, no lugar que outrora havia sido uma igreja. Nada mais oportuno, já que
a velha arquitetura católica acabava dando uma atmosfera macabra para o lugar,
com antigos confessionários transformados em camarotes.
André de Lorde foi o principal dramaturgo do Grand-Guignol, escrevendo pelo
menos uma centena de peças curtas entre 1901 e 1926, especializando-se em
narrativas sobre loucura e demência, contando com a colaboração do psicólogo
experimental Alfred Binet.
O Grand-Guignol oferecia uma grande variedade de peças no estilo de horror
naturalista, quase sempre tratando de personagens das camadas mais baixas da
sociedade francesa, como criminosos e prostitutas.
Cada sessão era composta por cinco ou seis peças curtas, nem todas de horror,
mas obviamente foram as apresentações deste gênero que fizeram a fama do
teatro. Os efeitos especiais chocantes e os finais fatalmente sanguinolentos
fascinavam e criavam repúdio na plateia, garantindo a fama do Grand-Guignol
também ao redor do mundo.
A intenção principal do seu fundador, Oscar Méténier, era que o espaço fosse
uma extensão do movimento naturalista. O naturalismo era, na época, uma forma
narrativa em que se buscava a ilusão perfeita de realidade nas cenas através de
diversas estratégias dramáticas e teatrais, com sets tridimensionais, discurso do
cotidiano (como prosa ao invés da poesia), uma visão de mundo secular (sem
espíritos, fantasmas, ou deuses interferindo na ação humana), foco exclusivo em
assuntos contemporâneos, sem narrativas exóticas ou em localizações fantásticas,
nem históricas ou míticas, e tentando ser uma extensão da difusão social da
população da época, ou seja, evitando os aristocratas do drama tradicional, com
protagonistas geralmente burgueses ou trabalhadores.
Em outras palavras, o teatro naturalista era uma forma de proporcionar ao público
em geral uma forma de teatro no qual eles pudessem se identificar, onde a
intenção principal era que o público visse aquilo como um vislumbre de como
seria aquela situação se ela acontecesse de verdade. Visto por este ponto de vista,
fica fácil entender por que o horror naturalista do Teatro do Grand Guignol
impressionava tanto os espectadores, muitas vezes positivamente – e outras
negaetivamente.
O estilo de horror explícito do teatro francês naturalmente foi absorvido pelo
cinema, desde Dr. Gogol, o Médico Louco (1935) e Olho Diabólico (1960) até os
exageros de artistas tão díspares quanto Herschell Gordon Lewis e Dario
Argento. É claro que inúmeros outros poderiam ser citados aqui, mas fica para
outro momento.
A decadência do Grand-Guignol teve início depois do final da Segunda Guerra
Mundial, o que acabou acarretando no seu fechamento definitivo em 1962.
Portanto, a partir de agora, sempre que você ver um filme ou HQ de terror sobre
temas mundanos e com bastante violência gráfica, saiba que existe um termo para
se referir a estas narrativas: Filmes/Hqs estilo “Grand Guignol”. E, se um dia
você for à França, lembre-se que, na época do Moulin Rouge, também existia
espaço para o Terror na noite francesa.
Quem que saber mais sobre o Grand Guignol, especialmente sobre o estilo de
horror naturalista, pode acessar o Grandguignol.com (em inglês), que é um banco
de dados bem completo sobre o tema, não só com a história do teatro e do estilo,
mas também com exemplos de filmes, livros e peças de teatro neste subgênero.
Recomendo.
Agradecimentos especiais à Angélica Hellish, do Cine Masmorra, que me passou
o texto sobre o Grand Guignol do blog Cine Monstro, e que serviu parcialmente
como fonte para este texto.
Curiosidades

O estilo de teatro naturalista foi promovido explicitamente por Émile Zola,
em 1880 num ensaio chamado “Naturalism on Stage” (Naturalismo no
Palco), e é diretamente influenciado pela Teoria da Evolução por Seleção
Natural, de Charles Darwin. A partir das ideias de Darwin, os naturalistas
acreditavam que o ser humano tinha características hereditárias, mas que
era determinado pelo seu contexto social, aspecto que é uma das bases do
teatro naturalista;
O nome do Teatro vem de Guignol, uma marionete, personagem de um
teatro de fantoches criado no século XIX em Lyon, na França, cujas
apresentações misturavam comentários políticos com o estilo de teatro de
marionetes onde os personagens acabavam sempre em algum momento
socando um ao outro;
As peças de horror apresentadas no Teatro eram tão realistas e
impressionantes para a época que, não raro, algumas
pessoas desmaiavam ou vomitavam durante as sessões;
Se você acompanha o Madrugada Macabra há um tempo já deve saber,
mas a companhia de teatro Vigor Mortis, de Curitiba, que também se
aventura pelo cinema e mais recentemente nos quadrinhos, com a Vigor
Mortis Comics (que tem desenhos do amigo José Aguiar), é diretamente
inspirada no Théâtre du Grand-Guignol.
Teatro de Sangue
Os assustadores espetáculos do Grand
Guignol de Paris{2}
Seis noites por semana e todo domingo à tarde, frequentadores do cenário teatral
de Paris recebiam sua parcela de sangue, decapitação, desmembramento e torura.
As cenas apresentadas no palco eram tão explícitas e realistas que médicos
contratados pelo teatro ficavam à postos, prontos para administrar primeiros
socorros com sais de cheiro e uma dose de brandy revigorante para os que
desmaiavam.
Aqueles que sentavam nas primeiras filas recebiam respingos de sangue
cenográfico (na maioria das vezes, embora sangue de animais também fosse
usado) e sentiam a angústia de testemunhar quase que em primeira mão as mais
grotescas torturas acontecendo a poucos metros de distância.
Haviam salas especiais abaixo das coxias onde os espectadores podiam se retirar,
se eles ficassem muito chocados com os horrores apresentados. Não é exagero
afirmar que desmaios e pessoas passando mal, literalmente urinando nas calças
ou vomitando, era algo corriqueiro durante a apresentação. Dizem que mesmo o
veterano militar americano, o General George Patton, que compareceu a uma
performance durante a ocupação americana de Paris nos últimos dias da Segunda
Guerra, admitiu sentir um tremendo incômodo diante do espetáculo. Pode ou não
ser algo significante mencionar queHerman Goering, um dos arquitetos do
regime nazista foi um grande entusiasta desse tipo de show.
Estamos falando do Grand Guignol.
O Grand Guignol (pronuncia-se guinô) surgiu em 1894 criado por Oscar
Méténier. As performances ocorriam em um pequeno teatro de Paris, chamado
Grand Guignol. Construído no início do século XIX, o prédio era originalmente
uma capela. Um famoso padre parisiense chamado Didion, conhecido por seus
discursos beirando o fantatismo e descrições do inferno e do suplício das almas,
usava o púlpito de forma teatral atraindo um rebanho impressionado pela sua
verborragia, isso até o dia em que a igreja pegou fogo. Alguns anos depois,
o lugar em ruínas foi arrendado pelo artista Georges Rochegrasse, um pintor, cuja
obra mais importante - a infame tela "Rape of the Sabine Women" (O Estupro das
Sabines) - causou sensação em uma exposição, em face das imagens gráficas de
extrema brutalidade.
Méténier comprou o local depois que Rochegrasse partiu afirmando que as ruínas
eram assombradas. O agente teatral espalhou o boato e aproveitou a pesada
arquitetura gótica para acentuar dramaticamente as estórias que já eram
conhecidas em Paris. Ele tomou emprestado o nome “Guignol” de um crítico
teatral popular na época, famoso por destruir a reputação de montagens
teatrais. Desde o início o objetivo de Méténier era chocar e conseguir
repercussão. Sua primeira produção foi levada ao público parisiense em 1896 e
terminou com correria, pessoas passando mal e a polícia sendo chamada. Na
peça, havia uma cena com a execução na guilhotina. A decapitação era
reproduzida nos mínimos detalhes e com tanto realismo que parecia realmente ter
acontecido diante de todos. Os espectadores, pegos de surpresa acharam que o
ator havia sido grotescamente decapitado e a peça foi interrompida.
O teatro foi fechado temporariamente e Métérier multado, mas a repercussão já
ganhava as ruas e todos queriam assistir a peça. Quando o Grand Guignol abriu
novamente, as filas faziam volta na esquina. Sabendo que havia encontrado um
filão rentável, Méténier passou a apresentar semanalmente novos espetáculos,
tentando sempre superar o banho de sangue, horror e choque da peça anterior.
Em 1898, Métérier vendeu o teatro Grand Guignol para Max Maureyresponsável
por transformar o teatro em uma verdadeira Casa dos Horrores. Dizem que
Maurey media o sucesso de uma apresentação com base na quantidade de pessoas
que desmaiavam durante a performance.
As peças, às vezes eram livres adaptações de autores clássicos do horror
como Edgar Allan Poe. Outras eram escritas especificamente para o Grand
Guignol. "A Marca da Besta", uma das mais conhecidas apresentava a tortura de
um leproso com tochas, "O Horrível Experimento" tinha em seu ápice uma
cirurgia cerebral, em "O Guardião do Farol", um homem enforcava seu filho
acometido pela raiva. Outras peças tratavam de temas grotescos como necrofilia,
lepra, sífilis. Horríveis torturas praticadas por sádicos eram o ponto alto de várias
peças. Maurey havia adquirido instrumentos de tortura medievais originais e
outros tantos haviam sido construídos com base em modelos que realmente
existiram. Essas medonhas ferramentas eram empregadas nas
apresentações acrescidas de truques de cena que passavam a sensação de absoluto
realismo.

A peça intitulada "Um Crime na Casa de Loucos" obteve enorme notoriedade e


foi um sucesso de público. Encenada inúmeras vezes, durante o auge do Grand
Guinol entre os anos 1930 e 1940, o roteiro foi escrito por André de Lorde, um
dramaturgo descoberto por Maurey e apelidado "O Príncipe do Terror", que
assinou mais de 100 obras. Ambientada em um manicômio, a peça contava a
estória de uma adolescente que foi aprisionada na casa erroneamente e estava
prestes a ser libertada. A notícia de que ela seria solta causa uma rebelião entre
os internos, muitos deles maníacos com horríveis deformidades, que não querem
permitir que a jovem, chamada Esperança, os abandone. Furiosos com a tentativa
de fuga, eles a levam para as profundezas de uma masmorra nos porões do
hospício onde encontram inúmeros instrumentos de tortura. Em uma das cenas
mais terríveis, um dos internos, um demente que acredita que um pássaro
vive dentro da cabeça da jovem tenta libertar o animal com um martelo e
cinzel.
A peça era tão grotesca que ao longo das duas horas de apresentação, registrou-se
certa noite um recorde de 38 desmaios entre os espectadores. Isso de um
público com pouco mais de 80 pessoas.
Os sinistros efeitos especiais eram um segredo guardado a sete chaves. Um
delegado de polícia apenas concedeu ao Grand Guignol alvará para
funcionamento depois de ser informado como funcionavam alguns dos truques de
cena. Isso para ter certeza de que ninguém era de fato morto. Mesmo o sangue
artificial tinha uma fórmula secreta. Um dos cartazes do teatro alertava: "Nosso
sangue é sempre fresco e os clientes que não quiserem levá-lo para casa em suas
roupas, devem evitar os assentos próximos do palco". O aviso nem sempre era
levado em consideração: por vezes quem estava atrás também se sujava, não que
isso fosse um problema para muitos espectadores. Ser salpicado pelo sangue no
Grand Guinol era considerado uma honra.
Camille Choisy foi diretor do teatro entre 1914 e 1930, contribuindo com seu
conhecimento de causa já que havia cursado a faculdade de medicina e conhecia
muito de anatomia. Ele foi sucedido por Jack Jouvin, que suavizou um bocado as
apresentações e diminuiu o choque de algumas peças depois que um
espectador sofreu um ataque cardíaco fulminante. Durante a Segunda Guerra, o
diretor passou a ser o cineasta britânico Alexander Dundas radicado em Paris e
sua esposa, a comediante anglo-francesa Eva Berkson, que segundo o marido
"era uma ótima vítima para as torturas, pois gritava como nenhuma outra atriz".
A dupla esteve a frente do teatro no decorrer da ocupação nazista. Em 1943, uma
das peças apresentou soldados alemães conduzindo sessões de tortura a civis, o
que irritou as autoridades e obrigou o casal a fugir. Os nazistas substituíram o
casal por outro diretor e o teatro continuou em funcionamento, atraindo multidões
de curiosos. Após a guerra o casal retornaria ao teatro de forma triunfante.
Dentre as atrizes a se apresentar no Grand Guignol, Paula Maxa talvez tenha sido
a mais popular. Especialista em personificar vítimas ela ganhou fama como "a
mulher mais assassinada do mundo". Em vinte anos de trabalho, estreando em
1917, ela esteve em cena mais de 10,000 vezes, sendo "assassinada" de 60
maneiras diferentes e "estuprada" pelo menos 3,000 vezes. Ela foi alvejada,
torturada, estrangulada, esfaqueada, estripada, desmembrada, guilhotinada,
massacrada, crucificada, queimada, envenenada e até devorada viva em cena. Em
uma peça muito famosa, sobre a Inquisição Espanhola, Maxa foi "torturada" ao
longo de uma apresentação especial que durou 8 horas.
Surpreendentemente, nenhum ator do Grand Guignol jamais sofreu um acidente
em cena ou se feriu durante as apresentações. Para todos os efeitos os membros
aceitos na companhia se consideravam uma grande família.

O Teatro Grand Guignol fechou as suas portas em 1962.


A audiência começou a diminuir após o fim da Segunda Guerra Mundial.
Segundo o diretor teatral Charles Nonon, na época à frente da casa: "Nós nunca
conseguiríamos igualar os horrores de Buchenwald ou Auchwitz em nossas
peças. De certa forma, tudo o que fazíamos para chocar havia sido amplificado
no mundo real". Ademais, as pessoas pareciam estar enjoadas de sangue e horror,
tendo presenciado muito daquilo nos anos mais medonhos da Guerra.
É claro, esse estilo de espetáculo foi copiado e encenado em vários países,
obtendo sucesso e sendo considerado algo decadente e absurdo em vários cantos
do planeta. Em alguns países espetáculos de grand Guinol ainda são proibidos
por força de lei. A polêmica sempre seguiu o Grand Guignol onde quer que ele
fosse apresentado.
O prédio do antigo teatro ainda existe em Paris, mas atualmente hospeda
o International Visual Theatre, que apresenta peças para deficientes audio-
visuais.
ATORES

PEÇAS


AO TELEFONE

André de Lorde{3}
(escrita com a colaboração de Charles Foley)

Introdução

O público se prepara para mais uma sessão no instigante Teatro do Grand


Guignol. A tensão e a expectativa tomam conta do lugar. O local? Rua Chaptal,
Paris. A época? Final do século XIX. O Grand Guignol é o nome de um teatro
parisiense inaugurado em 1897 e que funcionou até o ano de 1963. Sua
especialidade eram os espetáculos que se caracterizavam pelo tom macabro e
pela violência. O sucesso alcançado foi tanto que se espalhou por vários países da
Europa e foi uma das grandes inspirações do cinema de horror britânico,
americano e do cinema expressionista alemão. O nome “Guignol” é oriundo de
um boneco criado na França no final do século XIII e que se popularizou por
fazer sátiras políticas.
O teatro da Rua Chaptal era o local das experimentações do seu primeiro diretor,
Oscar Métenier. Métenier defendia a abolição dos limites impostos pelas
convenções cênicas da época, em que a frontalidade para com o público estava
em voga. Ele buscava uma maior autenticidade na ficção. Seu principal objetivo
era a concepção de um espaço teatral baseado na reorganização da realidade das
cenas. Os atores poderiam então se desvincular da imposição de se postar
”teatralmente” e agir como se estivessem em suas próprias casas (entrar e sair de
cena queria dizer entrar e sair de um quarto ou sala, e não mais de uma
cenografia que ”representava” o lugar). Paralelamente às inovações estruturais da
direção recém-surgida, mudavam também os próprios conteúdos das
representações, influenciados pela poética do teatro e da literatura realistas, de
autores como Edgar Alan Poe e André de Lorde.
Estas audazes experiências começaram a ser metabolizadas – ainda que não
compreendidas – por um público burguês e em pouco tempo atingiu um enorme
sucesso de público. Métenier aproveitou para ousar ainda mais; buscou explorar
ao máximo as emoções suscitadas nos espectadores por situações escabrosas de
dramas realistas, exageradas ao extremo.
Surge a partir disto a dramaturgia do Grand Guignol: involuntariamente,
Métenier havia inventado um novo gênero. Essa dramaturgia nasce, portanto, das
premissas da poética realista. Era muito carregada, com situações levadas às
extremas conseqüências e pontuada como representação exasperada de uma
suposta degeneração moral e material de classes sociais pobres.
O texto aqui apresentado é representante da primeira fase do Grand Guignol, a
fase realista. Ao telefone (Au Téléphone), é a peça mais famosa de André de
Lorde. Foi escrita em 1922. De Lorde nasceu na França em 1871 e foi o mais
notável dramaturgo da Escola do Grand Guignol. Ele se devotou, em mais de
uma centena de peças, quase que exclusivamente à exploração de temas ligados
ao terror.
Personagens

ANDRÉ MAREX – 45 anos

MARTHA MAREX – sua esposa, 30 anos

BLAISE – um velho empregado, 60 anos

NANETTE – uma velha empregada, 60 anos

O PEQUENO PIERRE MAREX – 6 anos

UM MENDIGO – por volta de 20 anos

RIVOIRE – um amigo de Marex, 50 anos

JUSTIN – um empregado, 30 anos

LUCIENNE RIVOIRE – esposa de Rivoire, 30 anos

A ação ocorre no Château de la Chesnaye e na casa de Rivoire, em 1890


Cena 1

Uma casa de campo. Uma grande sala de estar no térreo. Uma janela
francesa ao fundo, com vista para um parque. Janelas menores, uma de
cada lado da janela francesa; portas à direita e à esquerda. À esquerda,
uma lareira acesa. Entre a lareira e o proscênio, um aparelho de telefone
sobre uma bancada. À direita, mesa, cadeiras, poltronas e uma
escrivaninha no canto.
Quando a cortina sobe, a velha criada NANETTE está sentada perto da
lareira com o pequeno PIERRE em seu colo. Ele está folheando as páginas
de um livro ilustrado. MAREX, em trajes de viagem, está arrumando alguns
papéis na escrivaninha. MARTHA, sua esposa, está embrulhando alguns
pequenos objetos e colocando-os em uma bolsa que está sobre a mesa.
MAREX – (parando e ouvindo). É uma carruagem?

MARTHA – (indo até a janela). Eh! Não, não é.

MAREX – Ele não está atrasado?

MARTHA – Ele é muito pontual. Essa é uma de suas regras.

MAREX – De onde você pediu a carruagem?

MARTHA – Da casa Perrin como de costume. (Retornando à mesa). Foi Nanette


quem pediu?

NANETTE – Eu fui pessoalmente. Eu vi a ordem sendo escrita.

MARTHA – (olha o relógio). Você tem muito tempo.

MAREX – (olha seu relógio de pulso). Eu já poderia ter saído.

MARTHA – Até a estação são apenas vinte minutos.

MAREX – É melhor eu começar a pé. (Indo até a janela.)

NANETTE – Oh, não, Patrão, ainda há bastante tempo. É um cavalo rápido.

MAREX – Se ele não estiver aqui em um ou dois minutos, é melhor eu desistir


de todos os meus planos de partir.

MARTHA – É certo que virão.

MAREX – Se eu perder o trem, estarei em maus lençóis. Se eu não estiver


amanhã em Paris para encontrar Müller, o negócio pode cair… e seria uma perda
terrível … dez mil francos.
MARTHA – Então esse negócio vale muito?

MAREX – Sim, e quem sabe um pouco mais, eu espero.

MARTHA – De fato é importante. Ah! (Olhando pela janela). Eu pensei que era
a carruagem. (Ansiosamente). Se ao menos eles tivessem um telefone no
estábulo, nós poderíamos descobrir se eles já saíram.

MAREX – Caso não tenham saído ainda, será tarde demais, e além do mais, eles
não têm telefone; ninguém tem telefone em Servon… Meu Deus! Isto aqui é um
fim de mundo! Um telefone! Eles nem sabem o que é tal coisa.

MARTHA – (olhando para o relógio da lareira). Seis horas.

MAREX – Ah! Se pelo menos esse cocheiro estivesse aqui! Escutem. Eu vou
começar a pé. Blaise pode carregar minha mala… Estarei lá antes da carruagem
chegar aqui. (A chuva e o vento aumentam.)

NANETTE – Mas, meu senhor, escute! Está chovendo muito.

MARTHA – Está um tempo horrível.

MAREX – Sim, está caindo o céu… que belo tempo esse de setembro! Nós
viemos para o campo para respirar ar puro, sair para longas caminhadas e há três
semanas não conseguimos botar nossos narizes para fora de casa. Que lugar
detestável. Eu vim pra cá para passar raiva.

MARTHA – (fecha a mala). Não voltaremos aqui em nossas próximas férias.

MAREX – De fato prefiro não vir. E é tão inconveniente, também! Úmido, sem
graça. A cidade está suja e não possui meios de comunicação.

NANETTE – E aqui é tão afastado de tudo! Se quisermos comprar alguma coisa


ou se alguém ficar doente à noite, pode-se até morrer antes de aparecer alguma
viva alma que possa nos ajudar.
MARTHA – Você poderia sair e chamar os vizinhos.

NANETTE – Vizinhos! Estão todos muito distantes.

MAREX – É verdade. Aqui é muito isolado.

MARTHA – Não seria tão ruim se possuíssemos um cavalo e uma carruagem


própria.

MAREX – E, além do mais, é tudo tão grande; são necessários cinco ou seis
empregados para manter esse lugar em ordem. E todos esses bosques? Sete
hectares… uma pequena floresta; o que há de bom nisso? Eu não me arriscaria a
atravessá-lo… quem faria isso?

NANETTE – Não, obrigada… cheio de mendigos horríveis. Eu encontrei um


outro dia. Cruzes!

MARTHA – (rindo). Nanette, sua velha tola.

MAREX – Devia ser algum pedinte.

NANETTE – Ele tinha uma cara tão feia, ele era tão….

MAREX – Uma cara feia! É só isso? Bem, o fato é que no ano que vem iremos a
outro lugar para tirar férias.

NANETTE – Uma boa idéia. Eu não conseguiria viver aqui se tivesse que ficar o
tempo todo sozinha, mas felizmente há o senhor e Blaise.

MAREX – Meu Deus, eu estava esquecendo! (ele vai ao telefone e disca).

MARTHA – O que você está fazendo?

MAREX – Eu estou telefonando para Rivoire. (ele fala ao telefone). Alô!!


Ligue-me com Vitré, 27632… o mais rápido possível, por favor. Obrigado. (para
Martha) Vou dizer a eles que eu chegarei hoje por volta das oito da noite.

MARTHA – E em que trem você retornará?

MAREX – No expresso de dez e quarenta. Eu estarei em Paris amanhã cedo às


cinco e quinze. Caso você queira falar comigo antes disso, você pode telefonar
para a casa dos Rivoire esta noite até as nove horas.

MARTHA – E em Paris?

MAREX – Hotel Terminus… quarto 16. (O telefone toca. Falando no telefone).


Alô! É você meu velho amigo? Sim, sim, mas eu tive que colocar um telefone.
De fato é caro e como não há centrais telefônicas em Servon, eu utilizo a de
Luxeuil – a linha mais cara de todas; mas era uma necessidade para os meus
negócios. Sim. Eu estou ligando para avisar que estou indo para tomar café
contigo esta noite. Eu vou de Paris Express. Negócios urgentes. Não, somente
café. Já terei jantado. Estarei com vocês por volta das oito horas. Espero não
incomodá-los.

MARTHA – (sussurrando para MAREX). Diga que mando lembranças e mande


meu carinho a Lucienne.

MAREX – (falando novamente ao telefone). Sim… ela está aqui. Mandando


todos os tipos de boas mensagens a você e a Lucienne.

MARTHA – (para seu marido). O quê! Será que ele consegue me ouvir?

MAREX – (ainda ao telefone). Obrigado. Vejo vocês esta noite. (Desliga).

MARTHA – Ele ouviu a minha voz?

MAREX – Você estava próxima de mim. Nunca confie em um telefone, se você


estiver falando um segredo.

MARTHA – Isso não é maravilhoso?


NANETTE – (ouvindo). Eu ouço barulho de rodas.

MARTHA – Sim, desta vez é a carruagem. (ouve-se um chamado.)

NANETTE – Está vindo pelo bosque.

MAREX – Graças a Deus. Já não era sem tempo.

PIERRE – (correndo em direção a seu pai). Papai!

MAREX – Sim, meu garoto.

PIERRE – Papai! Eu quero que você me traga um presente quando voltar.

MAREX – Está certo, meu caro. (Para Martha). Alcance a minha mala. Onde
está o Blaise?

MARTHA – Na sala de jantar. Eu vou chamá-lo – Blaise! Blaise!

NANETTE – (olhando pela janela). Aqui está a carruagem finalmente.

(Entra BLAISE).

BLAISE – Sim, Madame?

MAREX – Oh! Blaise, aqui está o meu mundo, meu querido mundinho; eu vou
deixá-los a seus cuidados. Eu sei que posso confiar em você enquanto estiver
fora.

BLAISE – O senhor pode confiar em mim.

MAREX – Coloque minha mala na carruagem. (BLAISE executa a ordem e sai).

MAREX – (beija o filho). Adeus meu querido; comporte-se ou eu me esquecerei


daquele presente.
PIERRE – Sim, Papai, eu serei um bom garoto.

MAREX – O que você gostaria que lhe trouxesse?

PIERRE – Oh, Papai! Traga-me uma irmãzinha.

MAREX – Meu Deus, mas isso é muito caro.

PIERRE – Mas, Papai, eu quero uma mesmo assim.

MAREX – Bem, veremos.

PIERRE – Se uma nova for muito caro, me compre uma de segunda mão.

MAREX – (ri e beija a criança). Uma de segunda mão! Muito bem meu
querido. (beija a esposa). Adeus Nanette, não pense mais sobre aquelas coisas
tolas… você não deve se assustar. (BLAISE entra). Blaise está aqui. Ah, antes
que eu me esqueça. Veja, Blaise… (Vai até a mesa e abre a gaveta). Nunca se
sabe… é melhor estar preparado… para amedrontar os rostos feios, é como
Nanette os chama. Aqui, veja. Nessa gaveta, você verá um revólver carregado.
(Tenta fechar a gaveta.) Não poderei estar aqui hoje a noite. Você deve manter
esta gaveta fechada e ser muito cuidadoso, não deixe a criança chegar a ela.
Adeus. Adeus, meu caro. Faço isso para protegê-los. (Martha, Nanette e Pierre
saem com ele.)

MARTHA – Adeus.

MAREX – (parando MARTHA). Não saia, você poderá se resfriar. (Ele sai e
então ouvimos) Então, cocheiro, vá o mais rápido que puder, ou nós vamos
perder o trem. Não esqueça, Blaise, lembre-se daquilo que lhe disse – eu deixo
tudo sob seu comando. (Bate a porta).

PIERRE – (indo repentinamente até a porta) Adeus Papai… não se esqueça da


minha irmãzinha. (Em seguida ele entra com NANETTE).
NANETTE – Sim, Papai não vai esquecer. Venha, vamos olhar as figuras do seu
livro. (Ela coloca a criança em seu colo e ele gradualmente adormece).

MARTHA – (na janela). Lá vai ele, no final da avenida. Espero que consiga
chegar a tempo. Que tempo…um nevoeiro e tanto… mal se pode ver as luzes, a
carruagem está passando pelo bosque… já não consigo mais vê-lo, e esta chuva
está pior do que nunca. Como está escuro. Esta parte do país é muito sem graça.
Nanette!

NANETTE – Xiii. Ele está dormindo.

MARTHA – Ah! Coloque gentilmente no sofá, traga a lamparina e deixe-a


acesa. Já está muito escuro. (BLAISE entra novamente). Silêncio! A criança está
dormindo. (Ela sai)

NANETTE – (coloca a criança no sofá e sai para buscar a lamparina).

BLAISE – (em voz baixa). O senhor está em boas mãos agora; ele tem excelentes
cavalos.

MARTHA – Blaise, você pode fechar as persianas da sala de jantar. E trancar o


portão externo.

BLAISE – Muito bem, e não seria melhor deixar os cães soltos, também?

MARTHA – Sim, ah, Blaise!

BLAISE – Madame?

MARTHA – Isto aqui me parece muito solitário agora que meu marido se foi. Eu
te pergunto… Você se importaria de dormir aqui neste andar esta noite? Você
poderia fazer uma cama aqui.

BLAISE – Certamente, Madame. Se isso fizer com que a senhora se sinta mais
segura…
MARTHA – Obrigado, Blaise, eu ficarei mais confiante…

(NANETTE volta com um lamparina em suas mãos e trazendo um livro.


BLAISE sai. MARTHA diz para NANETTE)

MARTHA – Eu pedi a Blaise para que ele fizesse sua cama aqui na sala, você se
sentirá mais confortável.

NANETTE – (em voz baixa) Muito mais. Nós não devíamos estar tão nervosas.
(Coloca a lamparina na mesa).

MARTHA – “Nós?” Porque você está falando por mim, minha boa Nanette?

NANETTE – Bem, eu vou me sentir mais segura. Eu não tenho a intenção de ser
corajosa.

MARTHA – Eu finjo, mas eu também não sou corajosa.

NANETTE – Ah, bem, eu sou uma mulher idosa. Não importa! Três dias passam
rápido, o patrão voltará na quarta-feira o mais tardar, não? Se ele se preocupasse
certamente não sairia, eu sei.

MARTHA – Quando formos para o andar de cima colocar a criança na cama,


Blaise poderá fazer sua cama.

NANETTE – Sim. Olhe ele. Ele não está lindo? Ele dorme como um anjinho. A
senhora vai ter tempo para ver a contabilidade, madame, antes de nós colocarmos
Pierre na cama?

MARTHA – Ele parece dormir profundamente. Sim, isso não vai levar mais do
que dez minutos, não é?

NANETTE – Ah, nem cinco.

MARTHA – (sentando a esquerda da mesa e abrindo um livro contábil, olha o


livro).

NANETTE – Eu lhe dei vinte francos ontem…

NANETTE – Sim, senhora.

MARTHA – Bom. (fazendo os cálculos) Você pagou o padeiro?

NANETTE – Sim, senhora… seis francos e dez centavos.

MARTHA – Seis francos e dez centavos… E você pagou o açougueiro, também?

NANETTE – Sim, está aqui no seu livro. (O vento sopra e a chuva aumenta).

MARTHA – Como o vento está ruidoso. (Levanta-se). Feche as persianas. O


som do vento parece tão triste à noite. (Vai para a esquerda).

NANETTE – (abre a janela para fechar as persianas). Sim. (volta-se


rapidamente). Ah!

MARTHA – Qual é o problema?

NANETTE – Tem alguém em frente a janela.

MARTHA – (virando-se) O quê? Ah, não diga bobagens! É apenas o reflexo da


lamparina.

NANETTE – (assustada e aterrorizada). Não!

MARTHA – (vai até ela) Nanette, seus nervos…

NANETTE – (volta-se para a outra) Oh, Madame, meu coração disparou!


Blaise deve fechá-las. Eu não posso. Eu estou muito assustada.

MARTHA – Mas que covarde! Isto está indo um pouco longe demais. Quem
você acha que pode estar lá? Agora venha, deixe-me olhar. (Abre a porta dos
fundos e em seguida, recua de repente, soltando um grito abafado. Ela vê um
mendigo com o boné na mão. O MENDIGO entra, deixando a porta entreaberta.)

MENDIGO – Perdão, madame…

MARTHA – Quem é você? O que você quer?

MENDIGO – (olha ao redor rapidamente). Eu tenho uma carta. (Apalpa o seu


bolso).

MARTHA – Uma carta! De onde você vem?

MENDIGO – (apalpa o outro bolso). Eu estou vindo da vila.

MARTHA – (agitada). Como você conseguiu entrar? Porque você não tocou a
campainha na porta da frente?

MENDIGO – (olha em volta). Eu não sei onde é a porta da frente. Eu peguei um


atalho, vim através do bosque. (tira uma carta esfarrapada do bolso e entrega a
MARTHA)

MARTHA – Para quem é a carta? Quem deu isso a você?

MENDIGO – É para Blaise, seu empregado; a mãe dele está morrendo.

MARTHA – (com grande emoção). A mãe dele está morrendo! Nanette, vá


chamar Blaise de uma vez.

NANETTE – Sim, Madame. (Ela sai) Coitado! Oh, coitado!

MARTHA – Vá depressa! Se apresse! (para o MENDIGO). Quem lhe deu essa


carta?

MENDIGO – Alguém que eu não conheço… ele me disse onde eu deveria


entregar… disse e desapareceu rapidamente, isso é tudo.

MARTHA – Aguarde um pouco, deve haver uma resposta.

(O pequeno Pierre, em seu sono, derruba um livro ilustrado que estava


próximo a um braço de cadeira. MARTHA olha para o garoto).

MARTHA – Você está dormindo, querido? (Vai até o sofá em que a criança está
deitada e tenta ajeitá-lo para deixá-lo mais confortável e diz sem se virar).
Sente-se. Blaise está vindo e você poderá explicar a ele.

(O Mendigo está sentado a alguma distância da mesa. Seus olhos recaem


sobre a gaveta aberta. Ele vê o revólver, olha em volta para ver se ele é
observado, então se aproxima da gaveta, pega o revólver, vai na ponta dos
pés em direção à porta entreaberta e rapidamente desaparece.)

PIERRE – (sonhando) Nanette!

MARTHA – (vai até a criança e debruça-se sobre o sofá, de costas para a


mesa). Nanette está vindo em breve. Não importa, querido, vamos colocá-lo na
cama – lá, você vai dormir, vai dormir. Mamãe está com você. Ele está muito
longe da lareira. (Ela puxa a cadeira para perto da lareira). Além do mais, a
porta está aberta. Você fechou a porta? Você poderia… (vira-se) Onde está ele?
(Levanta-se). Se foi! Eu disse para ele ficar, acho que ele não entendeu. Talvez
ele esteja esperando lá fora! (olha para fora pela janela). Não, não há ninguém lá.
(fecha a janela e vai à direita.) Ele se foi, ele não deve ter compreendido. (Entra
NANETTE) E então?

NANETTE – Eu dei a carta a Blaise. Ele leu e o coitado chorou. E, onde está
aquele garoto? (olha ao redor)

MARTHA – Ele se foi. Ele não deve ter entendido que era para esperar por uma
resposta. Blaise! Oh, Blaise, eu sinto muito.

(BLAISE entra, enxugando os olhos).


BLAISE – Senhora, minha mãe está doente… morrendo, eles dizem. Ela quer
me ver, ela fica perguntando por mim.

MARTHA – Oh, meu pobre Blaise, ela escreveu para você?

BLAISE – Não, ela não poderia escrever essa carta. Um dos vizinhos escreveu
para ela. (lamentando-se)

NANETTE – Pobre Blaise! O que você vai fazer?

BLAISE – (indeciso). Eu não sei. O que eu posso fazer?

MARTHA – Nanette, Blaise deve ir de uma vez. A mãe dele está morrendo… ele
tem que ir vê-la.

BLAISE – A senhora pode me dispensar por algumas horas, senhora? Eu não me


demoro.

MARTHA – Vai de uma vez. (BLAISE avança até a porta).

NANETTE – Nós ficaremos sozinhas.

BLAISE – (vira-se e pára). Madame, eu não posso deixá-la as sós. O patrão


deixou-a sob meus cuidados.

NANETTE – Ele ficará muito zangado.

BLAISE – Eu acho melhor sair amanhã pela manhã… ao amanhecer. A senhora


não terá medo ao raiar do dia, madame?

MARTHA – (aproxima-se de Blaise e afasta-se um pouco). Eu não tenho


medo… o que há para se temer? Vamos trancar tudo cuidadosamente. Isso é mais
uma das besteiras de Nanette. Você vai, Blaise, deixe-nos. Vou explicar ao senhor
meu marido, vou dizer a ele que insisti. Vá. Você pode chegar a Servon em meia
hora.
BLAISE – Oh, em menos do que isso.

MARTHA – Você pode pegar um táxi para trazê-lo de volta. Você não estará
muito distante daqui.

BLAISE – A senhora tem a minha palavra a este respeito, eu não vou perder
tempo, Madame.

MARTHA – Feche bem as janelas antes que você vá. (Para NANETTE.) Não
devemos ser egoístas. Nós nunca iríamos nos perdoar se não permitíssemos que
ele visse sua mãe pela última vez. (Alto para BLAISE.) Está tudo bem. Agora, vá.

BLAISE – Você tem um coração amável, madame. A casa está toda fechada. Vou
caminhar o mais rápido possível. E estarei de volta. Quero ver minha mãe uma
última vez… (fala baixo). Não ficarei fora por mais de duas horas, eu prometo à
senhora, madame. Estarei de volta antes das nove.

NANETTE – (nervosamente). Oh, sim, antes das nove.

MARTHA – Está certo… Proteja-se, está chovendo. Eu trancarei a porta assim


que você sair, Nanette não tem coragem para fazer isso.

BLAISE – Obrigado, madame, obrigado. (ele sai, seguido por MARTHA).

NANETTE – Oh não, eu não tenho coragem! Essa casa grande e vazia me


aterroriza; podemos ser estranguladas antes que alguma ajuda possa vir. Eu li no
jornal de ontem que…

(A porta bate à direita. MARTHA reaparece).

MARTHA – Eu fechei a porta assim que ele saiu. Ficaremos bem. Bastante
seguras… Esperaremos aqui até que Blaise retorne; a criança ainda está
dormindo.

NANETTE – (indo para o sofá). Sim, ele adormeceu rapidamente, Deus o


abençoe. Vamos colocá-lo na cama?
MARTHA – Não, pode deixar. Nós o colocaremos na cama quando Blaise voltar.
(senta-se à mesa novamente). Vamos voltar as nossas contas. Onde eu parei?
(para NANETTE). Você tinha dito que pagou o açougueiro, certo?

NANETTE – Sim, madame.

MARTHA – Onde está o livro de contabilidade?

NANETTE – (procurando por ele desordenadamente) Aqui está.

MARTHA – Bom. Você deve pedir seis garrafas de Vichy amanhã. Não esqueça.

NANETTE – O de costume?

MARTHA – Sim, claro… Para o Patrão.

NANETTE – (rindo). E Blaise.

MARTHA – Como assim, Blaise?

NANETTE – Oh, ele pega uma taça de tempos em tempos.

MARTHA – (rindo) Ah, muito bem.

NANETTE – Mas não diga que eu lhe contei. (Para repentinamente) Madame, o
que é isso?

MARTHA – O quê? De novo?

NANETTE – Alguém assoviando.

MARTHA – (seca) Não é nada. É apenas o barulho do vento. (NANETTE segura


seu casaco). Você pagou a lavanderia?

NANETTE – (levanta-se, coloca seu casaco sobre a poltrona e cruza a porta).


Está lá de novo! Isso não é o vento. Você não escuta?

MARTHA – (indo até ela – ouvindo). Os cães… eles estão rosnando. E daí?

NANETTE – (a si mesma) Tem alguém nos jardins.

MARTHA – (impacientemente) Talvez Blaise tenha esquecido alguma coisa e


voltou para pegar.

NANETTE – Os cães conhecem ele… Eles estão latindo… Estão ao longe,


próximos à porta dos fundos.

MARTHA – (impacientemente) Deve ser alguém passando…

NANETTE – Ou um ladrão!

MARTHA – Eles geralmente latem assim. Você é muito medrosa!

NANETTE – Não deste jeito. Eles estão correndo atrás.

MARTHA – (ouvindo – começando a ficar nervosa) Sim.

NANETTE – Ah, Madame, estão chegando mais perto – eles estão perseguindo
alguém – eles estão muito próximos, agora mais longe. Ah, as pegadas estão
chegando mais perto! Eu posso ouvi-las sobre o cascalho.

MARTHA – Nanette! Nanette!

NANETTE – Está muito próximo – do outro lado da porta, talvez.

MARTHA – Nanette.

NANETTE – (para si mesma) Sim, está do outro lado; talvez eles estejam
tentando entrar – forçando as janelas.
MARTHA – (assustada) Fique quieta, Nanette. (estende a mão para Nanette).

NANETTE – (pega a mão de Martha) Ah, madame, você está amedrontada


também; sua mão está tremendo.

MARTHA – É você. Essas suas fantasias são tolices. Você vai acabar me
assustando.

NANETTE – Eu estou aterrorizada, madame. (cai sobre a cadeira).

MARTHA – (nervosamente com uma voz fraca). Venha, sua tola, se houvesse
ladrões aqui – na porta – os cachorros estariam latindo. E não estamos ouvindo
nada.

NANETTE – Isso é verdade – a não ser que… (elas se entreolham)

MARTHA – A não ser que…?

NANETTE – Eles não possam mais latir!

MARTHA – Quanta besteira! (uma pausa longa). Eu não ouço nada, apenas a
tempestade. Está vendo?

NANETTE – Sim.

MARTHA – (zombando dela) Vê, não era nada.

NANETTE – (recobrando a coragem). Esperamos que sim.

MARTHA – Vamos, acalme-se, Nanette.

NANETTE – Eu estou toda me trêmula. Você está pálida também, Madame.

MARTHA – Bom, está tudo acabado agora. Realmente, você me aborreceu


bastante por um momento. Aumente o fogo da lareira um pouco, ele está quase
apagando. (para ela, impaciente) São apenas oito horas! (tentando pensar em
outra coisa.) André já deve ter chegado na casa do Sr. Rivoire a esta altura. Eles
são gente boa, os Rivoire. Você se lembra deles, Nanette?

NANETTE – (tranquilizando-se) Ah, sim, o patrão já deve estar lá a essa hora, e


bem confortável.

MARTHA – Seria uma boa ideia telefonar e dizer-lhe que a mãe de Blaise está
muito doente.

NANETTE – (feliz). Sim, sim, faça isso, madame. Vai ser uma distração para
nós, – (apontando para o telefone) ouvir a voz dele na outra extremidade desse
fio, vai parecer como se ele estivesse aqui conosco. Você me deixa escutar,
Madame?

MARTHA – Sim, sim. (pega o aparelho e disca). Alô! Alô!

NANETTE – Oh, que invenção maravilhosa esta! O patrão está a muitos


quilômetros de distância – e podemos nos falar como se ele estivesse aqui bem
perto da gente nesta sala.

MARTHA – (ao telefone). Alô! Alô!

NANETTE – Tenho certeza de que vou me sentir melhor quando eu ouvir a voz
dele. Não vou mais ter medo. Vai ser como se o patrão estivesse aqui.

MARTHA – (ao telefone, enquanto a cortina cai) Ah! Pode me ligar com Vitré
27632? Rápido, rápido. Certo! Obrigada, eu vou aguardar na linha.

Cai a cortina
Cena 2

Um escritório. Cadeiras e poltronas. O telefone na mesa de centro. Quando


as cortinas sobem, o telefone toca, ao mesmo tempo a porta dos fundos se
abre e um MORDOMO entra e vai até o telefone.
SERVANT – (fala ao telefone) Pronto! Pronto! Madame… ah…Sr. Marex…
Quem gostaria? Oh, muito bem, Madame… Sim, ele está aqui com o Sr. E a Sra.
Rivoire na sala de jantar… Acabou de chegar. Eu vou chamá-lo… Sim,
madame… muito bem… se a senhora esperar na linha um instante, madame. (ele
repousa o fone e cruza a porta dos fundos. Neste instante a mesma porta se abre
e SR e SRA RIVOIRE e MAREX entram).

MADAME RIVOIRE – (para o MORDOMO). Justin, você pode servir o café


aqui.

SERVANT – Muito bem, Madame. (para MAREX). Alguém para o senhor no


telefone, Sr. Marex.

MAREX – Ah! (procura ao redor pelo telefone)

RIVOIRE – (apontando o telefone) Ali em cima da mesa.

(MORDOMO entra com uma bandeja)

RIVOIRE – (para o MORDOMO). Você pode trazer o conhaque antigo… você


sabe, aquele com o selo vermelho.

SERVANT– Muito bem, Sr. (ele sai)

MAREX – (ao telefone). Alô! Alô! Pronto! Pronto! (uma pausa)

RIVOIRE – Não consegue ouvir resposta?

MAREX – Não. (ao telefone novamente) É você? Alô! Alô!

MADAME RIVOIRE – Eles já desligaram. Eles sempre fazem esse tipo de


coisa!

RIVOIRE – (para MAREX) Sim, sempre – se não respondemos imediatamente.


MAREX – É a mesma coisa em todo o lugar. Bem, minha esposa deve ligar
novamente. (desliga o telefone)

MADAME RIVOIRE – (servindo café a MAREX). Açúcar?

MAREX – Não, obrigado.

RIVOIRE – (uma xícara na mão). Meu caro amigo, o telefone é uma invenção
muito boa – muito útil, mas está mal organizada – pelo menos na França.

MAREX – Realmente, mas é melhor que nada. Talvez seja minha culpa – esse
aparelho é uma das coisas mais impressionantes que já vi, mas se eu tivesse que
telefonar vinte vezes por dia, ainda assim, creio que nunca pegaria o jeito desta
bendita coisa, é demais pra mim – parece -me estranho e misterioso.

(o MORDOMO entra novamente com uma garrafa).

SERVANT – O conhaque senhor. (coloca-a na mesa e sai).

RIVOIRE – (para MAREX) Agora, olhe aqui, eu vou deixa você provar o meu
melhor e mais antigo – 1857.

MAREX – 1857?

RIVOIRE – Uma maravilha.

MADAME RIVOIRE – A importadora nos oferece a 50 francos a garrafa.

RIVOIRE – Não vamos falar sobre isso.

MAREX – (sorvendo lentamente) Oh, delicioso. Você estava certo, é


maravilhoso.

RIVOIRE – (oferecendo cigarros) Bem, você está confortável lá naquele seu


castelo, a umas cem milhas de distância de qualquer lugar?
MAREX – Confortável? Muito desconfortável, meu caro. Você não nos
encontrará lá no próximo verão.

MADAME RIVOIRE – Para onde vocês irão?

MAREX – Para Touraine… Não é muito distante de Paris e é mais alegre.

RIVOIRE – Mas você não pagará muito caro por um aluguel em La Chesnaye?

MAREX – Muito. E não foi só isso, é toda a situação em si. Estamos longe de
tudo, é muito inconveniente – temos de trocar de trem pelo menos três vezes para
chegar a Paris. É quase impossível para mim com o meu negócio para tocar. Eu
tive que gastar com um telefone e isso me custou um bom dinheiro!

MADAME RIVOIRE – Eu não estou surpresa. Entre Luseuil e Servon há um


trecho de estrada… (neste momento a campainha do telefone começa a soar)

MAREX – Sim… (vai ao telefone). Alô! Alô! Ah! É você querida? Sim, uma
viagem muito agradável. Seu amigos estão muito bem. Como está você? Ainda
não está na cama, Blaise não está aí?… A mãe dele?… Ah, pobre rapaz! Você
estava certa. Nanette estava errada. Pobre homem. Você disse a ele para retornar
o mais rápido possível?… Pra pegar uma carruagem?… Está certo… Eu não acho
que você esteja assustada. Está? Que coisa boa! Um barulho, agora? Os cães?
Isso acontece todas as noites. Você lembra o que aconteceu na última segunda-
feira?… Nanette é uma velha tola e covarde… Pior do que um bebê. E ele já está
na cama? Não? Vocês estão esperando por Blaise?… Sim, vai ser melhor
mesmo… Ah! Ele está dormindo… a campainha do telefone o acordou. Traga-o e
deixe ele me desejar boa noite… Boa noite, meu querido, você estava dormindo?
Se você se comportar bem até eu voltar… (vira-se pra os RIVOIRES sorrindo).
Ele não sabe como segurar o fone. (para o telefone). Diga a ele que talvez ele
ganhe a irmãzinha. Eu estive pensando sobre isso e acho que podemos
encomendar uma… (risadas). Podemos comprar uma para nós? Sim… uma
novinha em folha… hã? (pausa). Qual é o problema? Nanette ouviu alguma
coisa? Diga a ela para pegar o telefone e deixe me repreendê-la. É você, Nanette?
Você nunca vai mudar, não é mesmo? Barulhos é? Que tipo de barulhos? Você
está com medo de quê? Vocês estão bem trancadas aí dentro… Portanto em
segurança… Isso é bobagem. Agora vá dormir! Blaise deve retornar em no
máximo uma hora. Eu vou te proibir de continuar lendo aquelas histórias do Petit
Journal. Elas sempre te impressionam e você fica com isso na cabeça. Está certo.
Boa noite… Bons sonhos… Boa noite, minha querida esposa… Até amanhã.
Você não acha isso incrível? Você está bem perto de mim… Eu posso ouvir todas
as inflexões de sua voz… Posso perceber todos os seus movimentos… É como se
estivesse bem próximo, te observando… Sim, até daqui a pouco, esposinha
amada. Você sabe o que é. (beijá-a através do telefone)

MADAME RIVOIRE – Pode-se dizer que são dois pombinhos apaixonados.

RIVOIRE – Não se preocupe conosco.

MAREX – (para o telefone) Nossos amigos estão zombando de mim – mas eu


não me importo. Adeus, até amanhã. Sim, minha querida. Amanhã. (Deixa de
falar e desliga o fone)

RIVOIRE – Se não estivéssemos aqui…

MADAME RIVOIRE – O quão longe eles poderiam ter ido!

RIVOIRE – Felizmente os dois fones estavam bem distantes.

MAREX – (alegremente) Setenta quilômetros de uma boca para a outra.

RIVOIRE – Seu café esfriou.

MAREX – Ah, não tem problema. (bebe) Imaginem vocês, nós temos um velha
empregada que é muito dedicada, mas é incrivelmente nervosa… Qualquer
barulhinho é o suficiente para aborrecê-la. Ela sempre acha que são ladrões…
assassinos…

(RIVOIRE acende um cigarro).

RIVOIRE – Creio que o lugar seja bastante seguro, não?


MAREX – Ah, por Deus, sim, bastante seguro, eu acho – o mesmo que em
qualquer outro lugar. Estamos muito isolados, é verdade, mas Martha…

MADAME RIVOIRE – (interrompendo) Vocês têm um mordomo que dorme na


casa quando você não está por lá?

MAREX – Sim, Blaise, um bom homem, mas acontece que ele recebeu um
chamado repentino de sua mãe, que está muito enferma.

RIVOIRE – Ah, então elas estão sozinhas?

MAREX – Ah, apenas por uma hora ou duas. Eu devo confessar que estou um
pouco preocupado, mas não poderia dizer isso a Martha. Além disso, não há nada
que ela poderia fazer sob tais circunstâncias. Não há perigo – é muito ridículo
preocupar-se com coisas como essas.

MADAME RIVOIRE – Meu Deus! Se precaver nunca é demais. A gente lê um


monte de coisas assustadoras nos jornais.

MAREX – Porque você se deixa levar tanto quanto Nanette. (o telefone toca
novamente)

RIVOIRE – (indo ao telefone) Bem, qual é o problema agora? O quê … Ah!


(indo até MAREX). É sua esposa, meu caro. (estende o fone)

MAREX (levanta-se ansioso e pega o fone).É você? Como sua voz está
diferente! Qual o problema? Você ouviu passos… no jardim? Talvez seja Blaise.
Então… nesse caso vocês estão bem protegidas. Não seriam os cães caminhando
pelo cascalho na entrada? Uma espécie de ruído abafado… próximo à porta?
Preste atenção agora, eu te imploro, eu peço que você não perca a cabeça. Você
está me ouvindo? Sim, eu te peço. O bebê está chorando… eu ouço. Você está
assustando ele. Por favor, acalmem-se. A culpa é da Nanette… Foi ela quem te
amedrontou… Sim, você está com medo. Atrás da porta? Ainda? Ora, isso é
impossível. Escute, é muito fácil se certificar. Você sabe que o revólver está na
gaveta da mesa; eu o deixei lá… Carregado. Escute! Abra uma das janelas bem
lentamente. Você não se atreve? Por que? Eu não estou te reconhecendo… Você
sempre foi muito corajosa! Abra a janela, mas não a persiana, apenas a janela, e
dispare com o revólver uma vez. Não importa se você estragá-las… Isso irá
assustá-los — se realmente houve alguém aí; mas eu não acredito nisso … É
impossível. — Não é? Ah! Talvez seja algum animal… Uma raposa… Eu te
imploro, não trema assim. Faça o que eu digo… Atire; tome cuidado para não se
machucar. Avise a criança para que ele não se assuste. Faça o que eu digo. Estou
ouvindo… Você pode me contar…

RIVOIRE – (agita-se, vai até MAREX). Qual é o problema?

MAREX – (para Rivoire) Meu caro amigo, elas estão morrendo de medo… A
verdade é essa. Elas dizem que ouvem ruídos… passos… rangidos… todos os
tipos de coisas do outro lado da porta de entrada da casa. É tudo imaginação. No
entanto, se houvesse um trem que pudesse me levar de volta, eu iria…

RIVOIRE – Por que você não telefona para a aldeia?

MAREX – Não há nenhuma central telefônica por lá. Nós estamos em Luxeuil
central.

RIVOIRE – Ligue para Luxeuil então… Diga para eles mandarem alguém até lá.

MAREX – Mas é muito distante. Ah, eu estou começando a me assustar também


– eu estou – eu não sei qual é o problema comigo.

RIVOIRE– Está certo.

MAREX – Sim. Será que… Eu estou pensando… Blaise saiu logo após a minha
saída – esta coincidência…

RIVOIRE – Isso é bobagem. Venha, venha.

MAREX – Sim, isso é tolice. (Ao telefone). O que você quer dizer? O revólver
não está lá? Isso é impossível. Vá – procure rápido. Em todos os lugares? Na
gaveta? Na parte de trás? Nada? Onde você acha que pode estar? Tenho certeza
que o deixei lá. (Para a RIVOIRES). Ah, meus amigos!
RIVOIRE – Sim? (Ele e sua esposa se levantam rapidamente, aumentando a
emoção até o final da cena, eles estão de pé, acompanhando cada palavra e
movimento de MAREX).

MAREX – O quê? Nada? Como assim foi roubado?… Quem?… Blaise não faria
isso. Então quem?… Um mendigo! Ah, fale com mais clareza… Eu não consigo
ouvi-la… Há um chiado em meus ouvidos… O que você disse? Oh, Marta, não
tenham medo, por favor, eu imploro a você… Estou aqui… Estou aqui. Está
rachando! Sendo forçada! Impossível! As persianas são sólidas. Ah, eu ouço você
tremer! Pierre está chorando. Não façam barulho. Faça ele ficar quieto… Fique
quieto, meu filhinho, eu lhe peço, meu querido Pierre. Sim, pegue a lamparina.
Diga a Nanette… imediatamente… que caminhe com ela. Isso pode afastá-los,
talvez … não sei… eu… eu… Ah, meu Deus! Agora, por trás das persianas…
Você acha… várias pessoas… e também atrás da porta! Eles estão deslizando
algo por baixo… Ah!… Falem! Berrem!… Sim, para assustá-los!… Grite…
Chame por Socorro!… É medonho! Sim, você está certa. Não fique histérica.
Fuja e leve a criança. Sim, fugir… Correr pela cozinha. Corra! Ah! (solta um
grito agudo.) Ah! Quem foi esse que gritou! Martha! Martha! Foi você?
Resposta! Responda! Me diga! O que eles estão fazendo? O que eles estão
fazendo com você? Ah!… Elas estão sendo mortas! Elas estão sendo
estranguladas… Ah!… Socorro!… Assassino! Socorro! (Deixa o telefone e sai
correndo como um louco, enquanto o Sr. e a Sra. Rivoire tentam contê-lo)
Socorro! Assassino! Assassino! Socorro!

(Continua a gritar enquanto a cortina cai)

FIM

CRIME NO HOSPÍCIO

André de Lorde e Alfred Binet


{4}
Introdução

O Théâtre du Grand Guignol foi fundado em Paris em 1897 e esteve em atividade


por mais de meio século, encerrando suas atividades em 1963. O Grand Guignol
ficou conhecido mundialmente por celebrizar peças de terror, que contribuíram
para a fixação de um gênero próprio que tomou o nome do próprio teatro.
“Guignol” era o nome original de uma personagem de fantoche, de
comportamento violento e satírico, que se assumia como o protagonista de
espetáculos de fantoches na França do século XVIII. O Grand Guignol substituiu
os bonecos por atores de carne e osso e manteve os temas, especializando-se cada
vez mais na representação de enredos violentos, macabros e repletos de crimes
horrendos. As primeiras peças inspiravam-se em autores com Edgar Allan Poe,
entre outros e enquadravam-se bem no espírito decadentista que dominou a
literatura francesa do final do século XIX. O gênero parisiense influenciou
cineastas da escola expressionista alemã como Friedrich Wilhelm Murnau
(Nosferatu, uma sinfonia de horrores, 1922) e Fritz Lang (M, O vampiro de
Düsseldorf de 1931) entre outros.
O texto aqui traduzido, é representante da segunda fase do Grand Guignol.Crime
no hospício (Un crime dans une maison de fous), peça escrita por André de Lorde
contando com a colaboração do psicólogo e pedagogo Alfred Binet, em 1925. De
Lorde nasceu na França em 1871 e foi um dos principais dramaturgos do Grand-
Guignol. Escreveu ao longo de sua carreira mais de uma centena de peças curtas
entre 1901 e 1926, explorando, principalmente, temas ligados à loucura e à
demência.
Personagens

DOUTOR CALDWELL

FORDHAM, UM MÉDICO INTERNO

LOUISE

SRª HABLIN

SRª CRUICKSHANK

SRª CORNISH

FREIRA

A ação ocorre no Manicômio St. Perran em Cornwall, Inglaterra.


Cena 1

Um pequeno quarto em um manicômio. As paredes são brancas. Três


camas, cada com uma mesinha ao lado. Uma porta à direita do palco e
outra à esquerda do palco. Uma janela à esquerda do palco. Um fogão de
ferro fundido, entre a segunda e a terceira cama. Uma prateleira encostada
na parede e, acima dela, um grande crucifixo negro.
Louise, uma bela menina de dezoito anos, está sentada em sua cama
penteando o cabelo com o auxílio de um pequeno espelho. Assim que a
FREIRA entra, ela esconde o pente e o espelho sob seu travesseiro.
FREIRA – (entrando à esquerda e olhando Louise) Oh, é você. Eu ouvi que o
doutor em breve vai permitir que você nos deixe.

LOUISE – Sim, irmã, eu acho que sim.

FREIRA – Você deve se certificar de deixar os seus pertences arrumados.

LOUISE – Sim, irmã.

FREIRA – (para Louise) Ontem foi domingo, mas não conseguimos vê-la na
capela. Por que isso? (Pausa) Não havia nenhuma razão para isso, não é? Eu falei
com o capelão, e ele me disse: “Irmã, há apenas uma interna neste asilo inteiro
cuja confissão não tomei, e ela está sob sua responsabilidade!” Você acha que eu
fico feliz ao ouvir tais acusações?

LOUISE – Não, irmã.

FREIRA – Você esteve muito doente. Em duas ocasiões você escapou por pouco
da morte.

LOUISE – Sim.

FREIRA – Se você sofrer uma recaída, você pode não ter a mesma sorte
novamente. E quando a morte chega, e se a morte bater à sua porta pronta para
levá-la embora, você vai ter medo. Você vai querer fazer uma confissão, mas será
tarde demais, pobre criatura.

Ouve-se barulhos de sinos.

LOUISE – (arrepia-se ao ouvir os sinos) Ah, esses sinos! Eles são tão sombrios!

Entram a esquerda do palco o DOUTOR, Caldwell, e Fordham, um


MÉDICO INTERNO.
DOUTOR – (entrando) Que diabos de sino foi esse? Alguém morreu?

FREIRA – Sim, Doutor… Irmã Sulpice. Esta manhã às onze horas durante a
santa missa. A irmandade inteira estava reunida ao lado de sua cama.

DOUTOR – (ironicamente) E quem ficou tomando conta dos pacientes enquanto


isso estava acontecendo?

FREIRA – Nós não nos demoramos.

DOUTOR – Eu espero que seja verdade. Houve alguma alteração por aqui?

FREIRA – Não Doutor estava tudo muito calmo, como de costume.

DOUTOR – Sem febres, sem desmaios, sem convulsões?

FREIRA – Nada.

DOUTOR – Esplêndido. (para o MÉDICO INTERNO) você está acompanhando,


Fordham?

Ele se vira para sair.

LOUISE – Irmã!

FREIRA – O que você quer?

LOUISE – Eu gostaria de falar com o Doutor.

FREIRA – O Doutor está muito ocupado…

DOUTOR – (volta-se) De modo algum, irmã, de modo algum. Há alguma coisa


que você queira me perguntar, minha querida?

LOUISE – Oh! Sim, Doutor, sim.


MÉDICO INTERNO – (em voz baixa para o DOUTOR) Que coisinha mais
linda.

DOUTOR – (aparte para o MÉDICO INTERNO) Não é mesmo? (Fala alto)


Bem, minha querida, o que você quer? Irmã, você poderia nos trazer umas
cadeiras? Aqui, sente-se. Eu aposto que você quer falar sobre sua alta novamente.

LOUISE – Sim, Doutor.

DOUTOR – (sorrindo) Quanta ingratidão! Então, me diga, por que você quer
nos deixar?

LOUISE – Porque eu já estou curada. O senhor me curou.

DOUTOR – Possivelmente, sim. Você está muito melhor do que quando chegou
aqui. Seus olhos aparentam estar muito mais perspicazes agora, você não
concorda?

Ele se vira para o MÉDICO INTERNO.

MÉDICO INTERNO – Ela certamente parece me muito mais alerta.

DOUTOR – Veja você! Eu disse que o que ela tinha, é o que Kraepelin
caracterizou como psicose maníaco-depressiva, enquanto você…

MÉDICO INTERNO – Eu diagnostiquei como sendo um caso de demência


precoce.

DOUTOR – Mas se fosse isso ela não estaria no estado em que se encontra hoje.

MÉDICO INTERNO – Remissões não são incomuns.

DOUTOR – Mas tão abrangente quanto esta? Pouco provável.

FREIRA – E isso é tudo, Doutor? Eu creio que pode ter deixado o corpo.
DOUTOR – Sim, sim. (A FREIRA sai a esquerda assim que os sinos ressoam ao
longe) (para LOUISE) Então, você não está sentindo mais nenhum tipo de
ansiedade? Ou alucinações?

LOUISE – Eu?

DOUTOR – Você nem mesmo se lembra? Bom, de fato isso é muito melhor.

LOUISE – Não Doutor, eu estou bem, eu consigo sentir isso. Eu me sinto como
– como posso explicar isto – como se tivesse voltado à vida. Eu quero ir para
casa.

DOUTOR – Eu compreendo isso, mas devemos ser realistas. (para o MÉDICO


INTERNO) De onde ela vem?

MÉDICO INTERNO – De Pentire, eu acho.

LOUISE – Sim, meus pais vivem lá.

DOUTOR – E quando você passou mal, você estava vivendo com eles?

LOUISE – Oh! Não, eu estava trabalhando. Eu trabalho desde os dez anos. Eu


tenho um emprego.

DOUTOR – Então seu patrões estavam cientes de que você tinha um distúrbio?

LOUISE – Sim.

DOUTOR – E você realmente acredita que eles vão te aceitar de volta depois
disso?

LOUISE – Eu não sei.

DOUTOR – Todos daquela localidade saberão que você esteve em St. Perran.
Será difícil encontrar outro emprego. Veja, a vida pode ser bastante complicada
quando se deixa um hospício.

LOUISE – Isso é verdade, é realmente terrível. (Sem rodeios) Mas mesmo


assim, você não pode me manter aqui para sempre, ainda mais agora que estou
curada. Que tipo de vida é essa?

DOUTOR – Não, não, de fato, mas espere mais um pouquinho.

LOUISE – Esperar?

DOUTOR – Sim. Fique por aqui mais um tempo. Pode não ser muito divertido,
mas só lhe fará bem.

LOUISE – Não, o senhor não vê que eu tenho que sair?

DOUTOR – E para onde irá, se sair?

LOUISE – Vou para Londres.

DOUTOR – Para Londres!

LOUISE – É uma cidade grande. Lá sempre tem trabalho.

DOUTOR – E você conhece alguém por lá?

LOUISE – Não, mas não tem problema, eu resolverei isso.

DOUTOR – Você não sabe o que está dizendo. Londres! Londres! Minha
querida…. especialmente para alguém tão bonita como você… você pode se
destruir por lá. E com todos os revezes e desapontamentos que você pode vir a
sofrer, você rapidamente cairá novamente. Isso não será possível.

LOUISE – Doutor! Doutor!

DOUTOR – Não, não, nós temos que ser racionais.


LOUISE – Então você não quer me deixar sair!

DOUTOR – Eu quero, mas não ainda. Escute, de agora em diante eu tomarei


conta de você particularmente, começando hoje mesmo. (para o MÉDICO
INTERNO) Certifique-se para que eu não me esqueça. (para LOUISE) E assim
nós procuraremos um local apropriado para você…

LOUISE – Quando?

DOUTOR – Quando? Eu não sei. Talvez daqui a quinze dias, talvez em uma
semana.

LOUISE – (vigorosamente) Eu não quero!

DOUTOR – O quê?

LOUISE – Ficar outra semana aqui? Não! Eu não quero!

DOUTOR – Ora, vamos….

LOUISE – Eu estou dizendo que não quero ficar mais aqui, nem mais um
minuto. Eu quero sair. (abaixando a voz) Eu não quero ficar neste quarto…

DOUTOR – (estranhando a mudança em seu tom de voz) O que é isso? Há


alguma coisa, algo que você ainda não me disse. (olhando para LOUISE que
observa o quarto ao seu redor)

LOUISE – Quero me certificar de que a Irmã não esteja escutando.

DOUTOR – Ela está lhe causando algum problema? (LOUISE abaixa a sua
cabeça e não responde) Eu não posso dizer que estou surpreso com isso. O que
ela está fazendo com você? Te tratando com crueldade? Porque você não vai à
missa?

LOUISE – Sim, talvez, mas não é isso…


DOUTOR – Bem então, o que é? Você pode nos dizer. É algo que está
acontecendo durante o plantão?

LOUISE – Sim, neste quarto.

DOUTOR – Quando foi isso?

LOUISE – À noite, quando não havia mais ninguém aqui…

DOUTOR – O que você quer dizer com mais ninguém aqui? E as outras
pacientes?

LOUISE – Sim, mas as irmãs saíram, e então…

DOUTOR – Prossiga. Meu Deus, você está tremendo. Não precisa se assustar. (
Ele pega a sua mão paternalmente) Pronto, vá em frente.

LOUISE – Eu não sei como dizer isso… Até mesmo pensar sobre isso me
aborrece.

DOUTOR – Calma, acalme-se.

LOUISE – Bem… Quando as irmãs se vão, e as luzes se apagam… Se o senhor


simplesmente soubesse como as coisas aqui mudam…

DOUTOR – Como assim mudam?

LOUISE – Coisas acontecem, coisas que você não pode compreender… Aquela
porta ali, o senhor a vê?

Ela indica a porta à esquerda do palco.

DOUTOR – Sim?

LOUISE – A irmã a tranca quando ela sai. Na noite passada, no meio da noite,
ela estava aberta.

DOUTOR – Você viu alguém abrir aquela porta?

LOUISE – Ela se abriu sozinha. E então… foi como um sinal. As duas velhas
que dormem aqui – o senhor as conhece?

DOUTOR – Sim, prossiga.

LOUISE – Elas se levantaram.

DOUTOR – Como assim, elas se levantaram?

LOUISE – Não havia ninguém lá para impedi-las.

DOUTOR – Me desculpe, mas na noite anterior à noite passada eu coloquei uma


daquelas mulheres, a Sra. Cornish, em uma camisa-de-força.

LOUISE – Que diferença isso faz? A outra tirou.

DOUTOR – Ela precisaria ter uma chave.

LOUISE – Ela tinha uma chave. Ela tinha tudo o que era necessário para…

DOUTOR – Para o quê?

LOUISE – Por que você está me olhando deste jeito? Os dois!

DOUTOR – (para MÉDICO INTERNO) Eu temo que isso possa deixá-la ainda
mais agitada.

MÉDICO INTERNO – Certamente, parece ir por esse caminho.

LOUISE – Meu Deus! Vocês estão achando que estou mentindo? Ou que eu
ainda estou louca?
DOUTOR – Não, não, minha querida. Então, elas se levantaram, e o que elas
fizeram?

LOUISE – Elas vieram até a minha cama, sem fazer barulho. Elas se inclinaram
sobre mim…Elas me olhavam… olhavam fixamente… como se elas quisessem
me machucar.

MÉDICO INTERNO – Machucar você?

LOUISE – Mas elas não ousaram… elas ficaram prestando atenção à porta;
então elas chacoalharam a cabeça, como se temessem algo. Elas pareciam estar
esperando por alguém. E de fato havia alguém.

DOUTOR – Quem?

LOUISE – A Caolha! Ela estava fazendo sinais para as outras duas.

DOUTOR – O quê?

LOUISE – Eu sei que era ela! Ela tinha aquele tapa-olho preto por sobre o olho.
Ela estava fazendo sinais.

DOUTOR – Impossível!

LOUISE – Doutor, eu a vi.

DOUTOR – Estou dizendo que isso é completamente impossível. As outras


duas…talvez. Elas pelo menos podem andar. Mas a Sra. Hablin – você realmente
não deveria chamá-la de Caolha, você sabe, isso é muito cruel – ela tem as pernas
paralisadas desde que tinha a sua idade, ela está inteiramente confinada a uma
cama. Mal consegue tirar a cabeça do travesseiro, o que dirá levantar-se.

LOUISE – Mas eu a vi, Doutor. Ela estava lá, na porta, de pé!

DOUTOR – Você vê, minha querida, você não está ainda inteiramente curada.
LOUISE – Eu estou curada! Eu sei o que eu vi!

DOUTOR – Não. Porque o que você está dizendo é impossível.

LOUISE – Eu não sei como vou convencê-lo, mas eu a vi. Eu não estava
dormindo, meu olhos estavam bem abertos. Eu a vi. Os sinais que ela estava
fazendo para as outras… Elas não queriam…Elas estavam com medo… Eu vi.

MÉDICO INTERNO – (para o DOUTOR) Ela sofreu alucinações no passado.

DOUTOR – Estava pensando justamente nisto.

MÉDICO INTERNO – É possível que o que ela esteja descrevendo…

DOUTOR – É um sintoma prévio para outro ataque. Pobre criança!

LOUISE – (assustada) Não, Doutor… (para o MÉDICO INTERNO) Sr.


Fordham, não… eu estou dizendo que que eu vi…

DOUTOR – Sim, claro, você viu… eu acredito que você tenha visto… Mas…
(em voz baixa, para o MÉDICO INTERNO) Eu estou convencido.

MÉDICO INTERNO – Eu também.

DOUTOR – As alucinações dela voltaram.

MÉDICO INTERNO – O procedimento de lobotomia do Dr. Moniz para


separar os lobos frontais alcançou resultados notáveis em tais situações….

DOUTOR – Sim, eu sei. Me parece um tanto quanto radical, mas pode ser que
nós… (eles olham fixamente para LOUISE)

LOUISE – Não me olhem deste jeito! Doutor, eu não estou mais louca!
Seguramente o senhor pode perceber que eu estou certa de minhas faculdades
mentais?
DOUTOR – Por favor não se aborreça!

LOUISE – Eu estou chateada, mas eu não sou louca. Não estou inventando
coisas. (para o MÉDICO INTERNO) você não acha que eu estou inventando
coisa, não é, Sr. Fordham? Acredite em mim, eu te imploro…

DOUTOR – (calmamente) Está certo, eu acredito em você. Mas eu preciso


mantê-la aqui sob observação por mais uns dias.

LOUISE – Mais uns dias? E se acontecer novamente?

DOUTOR – Então você vai me avisar.

LOUISE – Mas você não vai me deixar aqui, vai? Se você não me deixa sair de
uma vez, pelo menos me transfira para um outro quarto.

DOUTOR – Todos os leitos estão ocupados.

LOUISE – Eu te imploro…

DOUTOR – Está certo. Amanhã, nós iremos mudar você de quarto, eu prometo.

LOUISE – Sim, mas esta noite… eu estou tão assustada, tão assustada!

MÉDICO INTERNO – Ela está muito alterada!

DOUTOR – Esta noite, a irmã não vai deixá-la sozinha.

LOUISE – Ela nunca vai ficar.

DOUTOR – Ela vai ficar. Vou mandar ela ficar.

LOUISE – Ela vai sair.

DOUTOR – Eu gostaria de vê-la tentar.


LOUISE – Ela sairá daqui tão logo o senhor parta.

DOUTOR – (bruscamente) Chega! Se você continuar se comportando desta


maneira histérica, vai ser prova o suficiente de que você não está curada e eu
serei forçado a manter você aqui no hospício por um bom período de tempo.

LOUISE – Meu Deus!

Entra pela esquerda do palco a FREIRA.

DOUTOR – (chamando) Ah, irmã.

FREIRA – Doutor.

DOUTOR – Essa menina está agora sob os meus cuidados: e ela não está sendo
razoável. Ela ainda está muito perturbada, tendo medos irracionais. Dito isso, ela
está claramente sofrendo e sofrimento desnecessário deve ser evitado. Esta noite,
você vai cuidar dela.

FREIRA – Mas Doutor…

DOUTOR – Eu insisto para que você cuide dela. Ela não terá pesadelos se você
estiver aqui.

FREIRA – Que diferença vai fazer se ela tiver pesadelos?

DOUTOR – O suficiente para nós podermos tomar nota.

FREIRA – Se ela está tão agitada, nós podemos dar-lhe duas colheres de hidrato
de cloral.

DOUTOR – Não, eu preferiria que você ficasse com ela.

FREIRA – Isso vai ser difícil, especialmente esta noite.


DOUTOR – Por quê?

FREIRA – Haverá uma cerimônia.

DOUTOR – Que cerimônia?

FREIRA – Para a Irmã Sulpice.

DOUTOR – Ah, sim.

FREIRA – Haverá uma vigília sobre o corpo durante a noite. Hinos serão
cantados. Todas as irmãs estarão presentes.

DOUTOR – Você vai ter que encontrar alguém para te substituir.

FREIRA – (sem graça) Isso não será possível.

DOUTOR – Seria perfeitamente possível se demonstrasse um pouco de boa


vontade.

FREIRA – A Madre Superiora não permite que a gente falte a uma cerimônia na
capela.

DOUTOR – Preciso lembrá-la, irmã, que há questões de decência humana em


jogo aqui, que são mais importantes que uma cerimônia na capela.

FREIRA – Eu não sei. Isto dependeria do seu ponto de vista.

DOUTOR – Me surpreende a sua hesitação quando eu digo que a sua obrigação


é permanecer aqui.

FREIRA – Minha obrigação é obedecer a Madre Superiora.

DOUTOR – Uma vigília por um morto é muito correta, mas não pode prevalecer
sobre os cuidados adequados para com os vivos.
FREIRA – (insiste) Minha obrigação é com a Madre Superiora.

DOUTOR – Sua obrigação é me obedecer. A Madre Superiora não está no


comando deste hospício, o médico é quem está. E eu sou esse médico. Você
compreende?

FREIRA – (sem expressão) Sim, Doutor.

DOUTOR – Eu estou ordenando que você passe a noite, a noite inteira neste
quarto. Você vai me obedecer ou não?

FREIRA – Eu sou uma mera empregada. Minha obrigação é obedecer.

Ela resmunga algumas palavras em voz baixa.

DOUTOR – O que foi isso?

FREIRA – Nada, Doutor, nada. Eu não tenho nada a dizer.

DOUTOR – (severamente) Bom. (para LOUISE, com afeição) Eu espero que


você se sinta melhor agora? (LOUISE não responde) Boa noite, minha querida,
boa noite. (Para o MÉDICO INTERNO) Oh, meu caro, essas freiras! Essas
freiras! (Saindo) Elas possuem muitas qualidades – elas são discretas, elas são
sérias, elas são dedicadas… Mas, por Deus, elas são muito teimosas quando se
trata de algum procedimento religioso.

Eles saem à direita. A FREIRA os segue, deixando LOUISE sozinha no


palco. Ela se senta na cama.

LOUISE – Eles não acreditaram em mim. (Choramingando) Oh Deus! Oh Deus!

CORNISH e CRUICKSHANK entram pela esquerda, o público mal percebe


quando elas fazem isso, a noite está caindo. Suavemente, elas rastejam até
LOUISE que, ao ouvi-las, vira-se e grita de medo.
CORNISH – Não precisa se assustar, queridinha.

CRUICKSHANK – Fazendo tanto barullho e nós nem ao mesmo tocamos em


você.

CORNISH – Espere um pouquinho.

CRUICKSHANK – Um pouco mais.

CORNISH – É uma noite longa.

CRUICKSHANK – Eu amo a noite.

LOUISE – Porque vocês estão me olhando assim?

CORNISH – Porque não deveríamos olhar pra você?

CRUICKSHANK – Você é muito bonita.

CORNISH – Você tem uns olhos tão bonitos.

CRUICKSHANK – Eles não seu seus.

CORNISH – É claro que não.

CRUICKSHANK – A velha disse que há uma coruja aí.

CORNISH – E um dia, ela vai voar.

CRUICKSHANK – (imitando vôo) Pffftttt! Pftttt!

LOUISE – Saiam daqui! Se afaste de mim! (Chamando) Irmã!

CORNISH – E nós não vamos conseguir alcançá-la.


Elas riem e se aproximam de LOUISE. A FREIRA reaparece na porta à
direita do palco, e as velhas silenciosamente retornam à suas camas.

FREIRA – O que está acontecendo? Alguém me chamou? Oh, é você de novo.

LOUISE – (ainda muito agitada) Sim, irmã.

FREIRA – Eu não ligo para os pacientes que estão sempre reclamando. O que
foi agora?

LOUISE – (indicando as velhas) Elas estão aqui.

FREIRA – É claro que elas estão aqui, elas dormem aqui. Vão dormir, vocês
três. Rápido. (Ela risca um fósforo e acende uma lamparina. O quarto se ilumina.
Ela olha o ambiente ao redor. Vozes podem ser ouvidas nos quartos vizinhos). E
agora isso. (Ela pega a lamparina, abre a porta à esquerda e olha através.)
Silencio! Sem barulho agora! Já está na hora de dormir, vocês me ouviram?

O sons gradualmente vão morrendo até o silêncio total. Ela se aproxima da


porta e a tranca. As duas velhas, ao lado de suas camas, e se preparam
para dormir. LOUISE permanece sentada em sua cama, em silêncio. A
FREIRA coloca a lamparina na mesinha, então ajoelha-se diante do
cruxifixo e sussura uma prece.

CORNISH e CRUICKSHANK – (murmurando orações indistintas nas quais


ocasionalmente palavras são ditas) Ave Maria…. até a hora de nossa morte….
amém…

FREIRA – Amém. (Ela se levanta, permanece parada. Os sinos soam à


distância, cada vez mais alto. Ela escuta, hesita por um momento, e então,
tomando sua decisão, e lentamente se movimenta e se aproxima da cama de
LOUISE, que ainda permanece sentada, congelada. Suavemente) Louise?

LOUISE – Irmã.

FREIRA – Bem? Você não vai dormir, minha criança?


LOUISE FREIRA – (com alguma hesitação) Sim, irmã.

FREIRA – Você não está mais assustada, eu espero? Está tudo em paz, como
você pode ver. Você vai ter uma boa noite de sono, não vai?

LOUISE – Sim, irmã.

O sino soa novamente.

FREIRA – Você ouve o sino me chamando? Eu tenho que ir cumprir com minha
obrigação para com os mortos.

LOUISE – Mas, irmã…

FREIRA – Você sabe muito bem que eu não posso ficar aqui. Você não é uma
garota egoísta, você é uma pessoa de bem. Você sabe que os mortos precisam de
nossas preces. Os mortos devem vir antes dos vivos.

LOUISE – Mas o Doutor…

FREIRA – O Doutor não vai ficar sabendo se você não contar nada a ele. Se
você contar a ele, você poderá me causar grandes problemas. E pense em toda a
confusão e chateação! Você sabe do que ele gosta. Ele sempre está fazendo
barulho por nada. Ele pode reclamar à administração, ele poderia me notificar. A
Madre Superiora não vai gostar disto. Não mesmo. E não devemos desapontar a
Madre Superiora. Quando menos esperarmos, ela estará no comando aqui. Você
compreende?

LOUISE – (resignada) Sim, irmã.

FREIRA – Muito bem, minha criança, seja razoável. Nós duas podemos ser boas
amigas. É para o seu bem, acredite em mim. Eu posso lhe assegurar que você terá
alta o mais rápido possível. Então, seja razoável. Boa noite.

Ela cruza a porta à direita do palco e as cortinas caem, o sino continua


soando à distância.
Cai a cortina
Cena 2

Mesmo cenário.
A escuridão engrossa. A lua emite uma luz esverdeada através das
vidraças, enquanto a lamparina serpenteia em seu vidro na prateleira. Um
longo silêncio. O relógio, ao longe, soa dez horas. Música de órgão e
orações cantadas são ouvidas intermitentemente durante o ato, vindo da
capela. De repente, Cornish e Cruickshank se agitam silenciosamente em
suas camas.
CORNISH – (a meia voz, depois uma pausa) Psst!

CRUICKSHANK – (da mesma forma, em resposta) O quê?

CORNISH – (sentando-se na cama) Ela já dormiu?

CRUICKSHANK – (fazendo o mesmo) Parece que sim.

CORNISH – Melhor se certificar.

CRUICKSHANK – Eu vou ver.

CORNISH – Espere! Eu acho que ouvi passos no corredor.

CRUICKSHANK – A irmã voltou?

CORNISH – Pode ser. (Elas se deitam novamente. O silêncio volta assim que os
sons se distanciam. Elas se sentam novamente) Elas não estão vindo aqui.

CRUICKSHANK – Não, desceram as escadas.

CORNISH – Certo.

Uma pausa.

CRUICKSHANK – Esta noite, então.

CORNISH – É isso o que ela quer.

CRUICKSHANK – Melhor fazer o que ela diz, porque senão…

CORNISH – Ela pode nos machucar.


CRUICKSHANK – Como a pequenina.

CORNISH – Você não se esqueceu do que ela pediu?

CRUICKSHANK – O quê?

CORNISH – Um pano.

CRUICKSHANK – Eu não tenho um pano.

CORNISH – Rasgue um pedaço do lençol com seus dentes.

CRUICKSHANK – Boa ideia. Ouvimos o barulho de tecido rasgando.

LOUISE – (sentando-se ainda meio sonolenta) O quê?

CRUICKSHANK – Ela está acordando.

CORNISH – Calma.

Elas permanecem imóveis. Silêncio.

LOUISE – Eu ouvi…. Eu sei que vem daqui…

Ela olha ao redor do quarto.

CRUICKSHANK – (que esconde um pedaço de pano sob seu travesseiro) Aqui


vamos nós.

CORNISH – Espere pelo sinal.

CRUICKSHANK – Espero.

Silêncio.
LOUISE – Alguém estava conversando. São elas… Elas não estavam dormindo!

Ela se ajeita para tentar ouvir melhor.

CRUICKSHANK – Ela está acordada!

CORNISH – Ela pode nos ouvir…

Elas se sentam em suas camas.

LOUISE – Por que elas estão sentadas ali daquele jeito? (Fala alto) O que está
acontecendo? O que vocês querem?

CORNISH – Não precisa se assustar, queridinha.

CRUICKSHANK – Claro que não.

CORNISH – Aquela coruja acordou você com seu piado?

CRUICKSHANK – Isso é sinal de morte.

Elas riem.

LOUISE – Parem! Fiquem quietas! É horrível estar presa aqui, com essas
lunáticas.

CORNISH – Você não está mais doidinha então?

CRUICKSHANK – (rindo) Ela acha que não é mais doidinha!

CORNISH – Ela pensa que vai sair em breve!

CRUICKSHANK – Você nunca vai sair.


CORNISH – E caso isso aconteça, os primeiros a sair serão os seus pés.

Elas riem.

LOUISE – Eu estou assustada. Eu não quero mais ficar aqui nem um minuto a
mais, sozinha, eu não quero!

CORNISH – Você não está sozinha.

CRUICKSHANK – Você está aqui conosco.

Elas saem de suas camas.

LOUISE – Se afastem de mim ou eu vou chamar… Se afastem… Se…

Neste momento, uma espécie de assobio prolongado é ouvido vindo do


quarto à esquerda. LOUISE, aterrorizada, pára. As duas velhas também
ouvem e também ficam paradas.

CORNISH – Fique quieta! É ela!

CRUICKSHANK – Sem barulho! Ela vai ouvir você.

CORNISH – E se ela ouvir você, ela pode se zangar.

CRUICKSHANK – E se ela se zangar, é melhor ter cuidado!

CORNISH – Melhor ter cuidado!

CRUICKSHANK – (como se recitasse uma prece) Tende piedade…

CORNISH – Tende piedade de nós…

CRUICKSHANK – Quando você sair…


CORNISH – Seus pés vão ser os primeiros.

CRUICKSHANK – (gesticulando para a porta à esquerda) Ela está vindo.


Olhe!

LOUISE – (que agora está de pé, se encostando contra a janela) A porta está se
abrindo! Socorro! Socorro!

Ela corre para a porta à direita para tentar escapar, mas uma das velhas
bloqueia seu caminho e a empurra de volta. Ela circula pelo quarto,
enlouquecida, como um animal preso em uma armadilha. Repentinamente,
uma forma sombria se levanta diante dela. É HABLIN, que entrou pela
porta à esquerda do palco. Ela se aproxima silenciosamente, e então
avança sobre LOUISE e força a menina a deitar em sua cama, sufocando
os gritos dela.

HABLIN – (segurando LOUISE, que se debate, em sua cama) Me traga a


lamparina. (CRUICKSHANK vai pegar a lamparina que está na mesinha)
Segure-a para que eu possa ver.

Ela aperta uma das mãos sobre a boca de LOUISE, para prevenir os gritos
da garota.

CRUICKSHANK – (trazendo a lamparina e segurando-a) Aqui!

CORNISH se aproxima. Elas se inclinam sobre LOUISE.

CORNISH – (para CRUICKSHANK) Ela está bem fixada.

CRUICKSHANK – É isso o que ela faz.

CORNISH – O que ela vai fazer com a garota?

CRUICKSHANK – Eu não sei… Ela tem alguma coisa em mente.


HABLIN – Trouxe o pano?

CORNISH – Aqui.

Ela traz o pedaço rasgado de lençol.

HABLIN – (para CORNISH) Matenha as mãos dela abaixadas. Eu preciso de um


grampo de cabelo ou de uma agulha, uma bem grande.

CRUICKSHANK – (procurando) Um grampo?

CORNISH – Bem, a irmã… a agulha de tricô dela.

CRUICKSHANK – (movendo-se naquela direção) Claro, na mesinha.

CORNISH – Pela Virgem.

CRUICKSHANK – Aqui.

Ela pega a agulha e passa para HABLIN.

HABLIN – Eu não consigo trabalhar sem enxergar.

CORNISH – De fato, fica difícil.

HABLIN – Traga a luz para mais perto.

CRUICKSHANK – Assim.

HABLIN – Mais perto.

CRUICKSHANK obedece.

CORNISH – (olhando para LOUISE) Eu poderia dizer que ela está morta, se eu
não a conhecesse muito bem.

HABLIN – Só preciso apertar seu pescocinho um pouco. E ela aparecerá.

LOUISE – (se debatendo) Ah!

HABLIN – Veja.

LOUISE – Onde eu estou?

HABLIN – Pare de se contorcer.

LOUISE – (olhando elas) Ah! O que vocês vão fazer comigo?

HABLIN – Não grite. Nós não vamos fazer nada com você, somente a estes dois
olhos aí.

LOUISE – Meu olhos!

HABLIN – Eles não são seus olhos.

CORNISH – Ela acha que esses olhos não são seus.

Ela e CRUICKSHANK riem.

HABLIN – (comandando) Quieta! Entenda isso, garota. Nós estamos fazendo


um favor a você. Você estava louca, não estava? Você se lembra?

CORNISH – Claro.

CRUICKSHANK – Ela não se lembra.

HABLIN – Enquanto você esteve louca, uma criatura se apossou de você… uma
coruja… Ela se escondeu dentro da sua cabeça, em seus olhos.
LOUISE – (se debatendo) Ah!

HABLIN – Se você não parar de gritar eu vou ter que te apertar… Escute o que
eu estou dizendo: eu vou tirá-la de dentro de você. Você vai ver. Essa criatura
tomou os seus olhos – e ela vai ser tirada através deles. Ela colocou os olhos dela
no lugar dos seus. Eu não quero vê-los nunca mais. Eles me queimam. E eu vou
tirá-los de você.

LOUISE – (enlouquecida e em pânico) Não! Por favor… por favor…

HABLIN – Você entendeu?

LOUISE – Eu imploro a você…

HABLIN – Isso é para o seu próprio bem.

LOUISE – Por favor! Eu não quero morrer…

HABLIN – Isso não vai te matar.

LOUISE – (se debatendo) Socorro! Me ajudem!

HABLIN – (colocando sua mão sobre a boca de LOUISE) Você vai ficar quieta!
(para as outras) Melhor nos apressarmos antes que ela faça mais barulho!

Ela sufoca a garota com o pano, que é grande o suficiente para cobrir seus
olhos e sua boca ao mesmo tempo.

LOUISE – (sufocando) Ha!

HABLIN – Segura. Vai ser rápido. Só precisamos sentir sair. Eu sei onde estão
os olhos, mas é mais complicado com o pano ali.

Ela apalpa os olhos com uma mão, então direciona a agulha ao local com
a outra.
LOUISE – (gritando em agonia) Ah!

HABLIN – Isso. Está feito. O sangue escorrendo pelas minhas mãos. Tão
quente. Tão bom. Como o sangue de outras crianças, tempos atrás.

Um barulho é ouvido à direita do palco.

CRUICKSHANK – Shush!!

CORNISH – Escute!

CRUICKSHANK – Está vindo alguém.

HABLIN se esconde atrás da cama. O quarto fica no mais absoluto


escuro. Somente a luz da lua pela janela ilumina o ambiente.

CORNISH – Lá estão eles, lá estão eles!

Elas correm para suas camas e deitam. Uma pausa. Ouve-se passos.

MÉDICO INTERNO – (da coxia) Eu estou dizendo a você irmã, eu ouvi


barulhos.

FREIRA – (entrando, com uma lanterna em sua mão) O que está acontecendo?
Alguém chamou?

Ela para na porta de entrada. Silêncio.

MÉDICO INTERNO – (entrando atrás dela) Mas… Eu tinha certeza absoluta.

FREIRA – (olhando ao redor, iluminando as camas nas quais estão CORNISH e


CRUICKSHANK deitadas) Tudo parece em ordem.

MÉDICO INTERNO – Eu acho que não era nada.


Saem. Um coro de vozes femininas é ouvido a distância cantando aleluias.

FREIRA - Nada de mais. Eu tenho que ir. A Madre Superiora não vai gostar da
minha ausência. Nós devemos rezar.

Ela sai e as cortinas caem lentamente.

FIM
CARTAZES


“… Senhoras e senhores, o dia já amanhece;
espero que tenham apreciado o espetáculo, e
tenham bons sonhos”
Texto originalmente publicado no site uarévaa(http://uarevaa.com/2013/06/le-
{1}

theatre-du-grand-guignol.html)
{2}
Texto retirado do site Mundo Tentacular
(http://mundotentacular.blogspot.com.br/2013/06/teatro-de-sangue-os-
assustadores.html)
{3}
Tradução de Raphael Cassou da peça de André de Lorde, dramaturgo da Escola do
Grand Guignol
{4}
Tradução da peça de André de Lorde e Alfred Binet, por Raphael Cassou

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