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ÉTICA NO COTIDIANO

Rodrigo Sousa Fialho


Rodrigofialho28@gmail.com

Primeiramente é importante ter a consciência de que iniciaremos o estudo de


um assunto filosófico. Isso mesmo! Ética é um assunto filosófico, pois a filosofia se
interessa pelos problemas mais complexos da vida humana e a ética é precisamente a
investigação das normas que pautam as ações dos indivíduos em sociedade, normas
estas que, como veremos, são intimamente aceitas como obrigatórias.
Antes de adentrarmos o conteúdo da nossa aula, é importante cada aluno ter
sempre ao alcance da mão um dicionário da língua portuguesa, um dicionário etimológico,
que pode ser acessado no link: http://www.dicionarioetimologico.com.br/, um dicionário de
filosofia. Indico o de José Ferráter Mora, disponível no link: http://pt.scribd.com/
doc/3235155/Dicionario-de-Filosofia-Jose-Ferrater-Mora e, se possível, um bom livro de
História da Filosofia (no Curso de Filosofia utilizamos muito a História da Filosofia do
Giovanni Reale, disponível na biblioteca da Universidade). Todos esses livros são livros
de consulta e são de extrema importância para a devida compreensão de qualquer
estudioso de um assunto filosófico.
Você deve está se perguntando por que todos esses livros são necessários
para o estudo da ética? Como disse, a Ética é um assunto filosófico e todo assunto dessa
natureza é de certa complexidade, cujo estudo, na maioria das vezes, não permite a
assimilação imediata devido ao uso de termos específicos da filosofia e as referências
históricas que todo texto filosófico faz. Por isso, para facilitar o nosso trabalho é
importante termos sempre ao alcance da mão todos os livros indicados.
Caso haja dificuldade de leitura dos textos filosóficos, sugiro a leitura do livro A
Arte de Ler do norte-americano Mortimer Jerome Adler, disponível no link:
http://pt.scribd.com/doc/55141972/A-Arte-de-Ler-Mortimer-j-Adler. É importante ler com a
máxima atenção possível a segunda parte do livro. Caso tenha dificuldade de organizar
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sua vida estudos, leia o artigo Dicas de estudo, disponível no link:
http://www.olavodecarvalho.org/semana/040905zh.htm.

O comportamento prático moral

O nosso dia a dia é repleto de situações que exigem de nós a tomada de uma
decisão e a execução de um ato. Tais situações abrangem um julgamento moral tanto da
nossa parte, quanto da parte dos outros. Alguns dos nossos atos recebem o status de
moral. Uma ação pode ser justa, boa, solidária, caridosa, positiva etc. pode também, ao
contrário, ser injusta, má, egoísta, negativa etc. Em geral quando nos indagamos sobre a
origem de certos comportamentos temos a impressão que as pessoas sempre se
comportaram exatamente da maneira que nos acostumamos a ver.
Mas será fácil dizer se uma ação é moral ou não? Embora no prazo de uma
vida seja impossível para uma pessoa viver todas as situações humanas possíveis, todos
nós vivenciamos diversas situações em que somos interpelados a agir. Vejamos alguns
exemplos de situações que todos nós podemos vivenciar cotidianamente:

1. Constantemente, caminhando pelo centro da cidade somo parados por pessoas


famintas e maltrapilhas que nos pedem ajuda. Nessa situação praticamos caridade se
lhe damos algumas moedas ou seria melhor ajudar-lhe a conseguir emprego?

2. Se ontem prometemos algo a um de nossos melhores amigos e hoje percebemos que


teremos prejuízos caso cumpramos a promessa, devemos cumpri-la mesmo assim?

3. Somos bons religiosos se semanalmente frequentamos uma Igreja, rezamos,


praticamos boas obras, mas ao chegarmos em casa exploramos e maltratamos a
secretária ou um funcionário qualquer?

4. Na posição de governantes devemos garantir boas condições de trabalho a toda a


parcela da população economicamente ativa, como férias remuneradas, segundo
desemprego etc., ou devemos implantar o estado mínimo deixando que a iniciativa
privada que segue a lei da oferta e da procura melhore, sem a intervenção do Estado,
as condições de trabalho?

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5. Na posição de militares que serve um país de regime autoritário ou totalitário
podemos ser moralmente condenados se, cumprindo ordens, atiramos na nuca de
nossos concidadãos e, em seguida, os jogamos em valas comuns?

6. Devemos dizer sempre a verdade ou há ocasiões em que o melhor a fazer é contar


uma mentirinha?

7. Se na calada da noite percebemos que um estranho se aproxima de forma suspeita e


desconfiamos que seremos atacados, devemos agredi-lo antes que ele nos agrida
para evitar o risco de sermos agredidos, aproveitando que ninguém descobrirá o que
fizemos?

8. Se mesmo procurando fazer o bem, as consequências de nossas ações acabam


prejudicando aqueles que queríamos favorecer, porque lhes causam mais danos que
benefícios, devemos julgar que agimos moralmente, quaisquer que tenha sido os
efeitos de nossos atos?

9. Se nosso país está numa guerra de invasão, e sabemos que um de nossos melhores
amigos está colaborando com o inimigo, devido à amizade, devemos denuncia-lo
como traidor ou devemos encobrir o seu crime?

10. Se na posição de pais de família vemos nossos filhos com muita fome e para
alimentá-los roubamos um supermercado, devemos ser punidos já que agimos
movidos pelo desespero? Ou é mais correta a posição do dono do supermercado que
exige a nossa prisão ou ainda, sermos mantidos presos por falta de dinheiro para
pagar fiança?

As situações acima nos permite refletir acerca da moral.

1. No primeiro exemplo nos deparamos com uma situação em que podemos agir
guiados pela nossa consciência, tendo em vista a obtenção de um fim e acabar
obtendo outra finalidade, completamente diferente da desejada. Podemos ser
moralmente condenados por uma ação cuja consequência não somos capazes de
prever?

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2. O segundo caso nos desperta a seguinte questão: vale mais o cumprimento da
promessa ou bem do amigo? As circunstancias podem mudar de um dia pro outro
e, por isso, ás vezes a promessa feita ontem com a intenção de fazer o bem, hoje
pode ter uma consequência perniciosa para a pessoa a quem foi feita a promessa.

3. Na terceira situação, vemos que podemos nos comportar de diferentes maneiras


em diferentes ocasiões. As ações morais dependem de cada pessoa
individualmente e de cada circunstancia específica?

4. A quarta situação nos remete à situação de governante com poder para diminuir o
sofrimento dos cidadãos facilitando-lhes a vida com boas condições de trabalho.
Nessa situação nossas ações possuem um peso social mais elevado. Dessa
forma, por terem uma dimensão social, teriam maior peso moral? Ou será que a
cobrança moral não tem nada a ver com a posição social de onde tomamos nossas
decisões?

5. O quinto caso no insere numa situação que nos remete a uma questão
fundamentalmente moral: a liberdade. Se agirmos a mando de um superior,
podendo sofrer sanções caso desobedeçamos as ordens, podemos ser
moralmente responsáveis pelo que fizemos?

6. A situação do sexto exemplo nos indaga acerca da moralidade do ato de narrar


certos fatos ou passar certas informações. Nesses casos, vemos que, de fato, há
ocasiões em que mentir pode ser necessário para, por exemplo, salvaguardar a
integridade física de uma pessoa. Imaginemos a vida de indivíduos que fazem
oposição política num país de regime totalitário e corrupto. Um oposicionista está
se escondendo do governo e sabemos onde ele está. Sabemos também que, caso
a polícia o encontre, este oposicionista pode ser morto. Se as autoridades nos
procurar pedindo informações, o que devemos fazer? Contar a verdade e por em
risco a vida da pessoa ou garantir a segurança desta omitindo a informação? Esta
é uma situação bastante dramática que nos exige uma tomada de decisão.

7. O sétimo caso mostra um drama moral muito interessante. Existe o ato moral e
existe o julgamento moral dos outros. No caso em questão, nos vemos livres dos
julgamentos de muitos. Se a decisão for agredir o estranho que se aproxima,
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apenas nós e ele saberemos do ocorrido. Mesmo se esse estranho sair contando o
fato por aí, podemos negar sem que mais ninguém possa nos desmentir. Mas o ato
moral depende do que fazemos ou depende do que fazemos e do julgamento dos
outros? O certo só é certo diante de testemunhas?

8. O oitavo exemplo nos coloca diante da seguinte questão: para um ato ser moral
basta que nossa intenção seja boa ou é necessário que as consequências do ato
sejam positivas?

9. O nono exemplo nos põe a questão: devemos proteger nosso amigo, mesmo
sabendo que, colaborando com o inimigo da pátria, ele coloca em risco a vida dos
nossos concidadãos e talvez até a liberdade da nossa pátria? Neste caso, o que
tem mais importância, o amor pátrio ou uma amizade? Uma amizade vale mais que
a liberdade de uma nação inteira e a vida de indivíduos? Esta situação nos convida
a medir as consequências de nossas ações?

10. O último caso nos conduz às questões: Podemos praticar uma ação condenável,
mesmo com a intenção de fazer o bem para outros? Podemos relativizar os
conceitos de certo e errado, bem e mal?

Todos os casos mencionados acima nos põem diante de situações humanas


possíveis, verdadeiros dramas humanos que envolvem a nossa vida, a vida de outros
indivíduos e grandes comunidades humanas (nações). Todas as mencionadas situações
exigem de nós a tomada de decisões que sejam orientadas por normas morais aceitas,
que estejam em vigor na sociedade em que vivemos e reconhecidas intimamente como
obrigatórias.

Moral, imoral e amoral

Tendo visto que o ato moral está relacionado a situações humanas possíveis,
ou seja, situações que podem acontecer com qualquer um de nós e que nos exigem a
tomada de uma decisão, seguido da execução de um ato que deve ser pautado por
normas aceitas coletivamente como significativas e intimamente reconhecidas como
obrigatórias, é mister que estudemos também qual a característica principal do ato e os
conceitos de imoral e amoral, ambos contrários a moral.
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A característica fundamental do pleno ato moral é a ação refletida. Isso quer
dizer que o ato moral não é puramente espontâneo e natural, mas um ato plenamente
consciente.
Por não ser um ato irrefletido o ato moral exige-nos total domínio dos meios e
fins desejados. Isto é, para que uma ação seja considerada moral, fins e meios devem ser
ajustados ao bem da coletividade.
Para que nossa ação seja moral é necessário termos a plena liberdade de
optarmos por uma ou mais possibilidades de ações e o poder de controlar nossos
impulsos e desejos, mediados pelo crivo da consciência.
Todavia, justamente por ser a liberdade a característica essencial do ato moral,
não somos obrigados a agir moralmente em todas as situações da vida. É perfeitamente
possível agirmos contrariamente a moral, ou seja, nossas ações podem ser imorais. Mas
o que exatamente significa a palavra imoral?
Imoral é tudo aquilo que consideramos egoísta, desonesto, libertino, maldoso,
contrário à moral, isto é, é toda conduta ou doutrina contrária à norma moral
coletivamente aceita e reconhecida intimamente numa determinada época e lugar.
Mas além de podermos agir conforme e norma moral ou contrário a esta,
podemos agir simplesmente sem levar em conta a norma moral. Portanto, sem contraria-
la, mas também sem que nossas ações sejam pautadas por elas. A este tipo de ação
damos o nome de amoral.
Amoral é tudo aquilo que é privado de qualificação moral, ou seja, não é
conforme nem contrário a moral. Assim, somos amorais se não temos o senso da moral e,
por isso, não levamos em conta as normas morais.

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PARA APRENDER MAIS
MORAL— Os termos _ética e _moral são usados, por vezes, indistintamente. Contudo, o
termo_moral tem usualmente uma significação mais ampla que o vocábulo _ética. Em algumas
línguas, e o português é uma delas, o moral opõe-se ao físico, e daí que as ciências morais
compreendam, em oposição às ciências naturais, tudo o que não é puramente físico no homem
(a história, a política, a arte, etc), isto é, tudo o que corresponde às produções do espírito
subjectivo e até o próprio espírito subjectivo. As ciências morais ou, como tradicionalmente são
chamadas, ciências morais e políticas, compreendem então os mesmos temas e objectos que
as ciências do espírito, sobretudo quando se entendem estas como ciências do espírito
objectivo e da sua relação com o subjectivo. Por vezes, opõe-se também o moral ao intelectual
para significar aquilo que corresponde ao sentimento e não à inteligência ou ao intelecto.
Finalmente, o moral opõe-se comummente ao imoral e ao amoral enquanto está inserido no
mundo ético que se opõe àquilo que se enfrenta com este mundo ou permanece indiferente
perante ele. A moral é, nesse caso, aquilo que se submete a um valor, enquanto imoral e o
amoral são, respectivamente, aquilo que se opõe a qualquer valor e aquilo que é indiferente ao
valor.

(RETIRADO do Dicionário de Filosofia do José Ferráter Mora)

EXERCÍCIOS

1) O que você faria nas dez situações humanas que expus acima? Antes de responder
procure imaginar-se em cada uma das situações e pregunte para si mesmo sobre o
que seria bom para você e para os outros em cada situação.

2) Defina o ato moral, o ato imoral e ato amoral e dê três exemplos para cada um desses
atos.

Referências bibliográficas:

RIBEIRO, Luís Távora Furtado. Ética em três dimensões/ Luís Távora Furtado, Marcelo
Santos Marques, Marco Aurélio de Patrício Ribeiro. 2. Ed. Fortaleza: Brasil Tropical, 2003.

SÁNCHEZ VÁZQUEZ, Adolfo. Ética. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2002.

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