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UNIVERSIDADE FEDERAL FLUMINENSE

DISCENTES: CECÍLIA OLIVEIRA DE FREITAS,


DANIELA MILAGRES ZAGHI ALVES
DOCENTE: TÂMIS PARRON
DISCIPLINA: HISTÓRIA DO BRASIL II

A ELITE POLÍTICA IMPERIAL: O ETHOS DOS MAGISTRADOS E O


ÉROSi DOS ESCRAVOCRATAS
Resenha crítica do livro "A construção da ordem: a elite política imperial" de José
Murilo de Carvalho

NITERÓI
2021
CARVALHO, José Murilo de. A construção da ordem: a elite política imperial. Teatro
de Sombras: a política imperial. 14ª ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2020.

O historiador e cientista político José Murilo de Carvalho é mineiro e nasceu em 1939.


É bacharel em Sociologia e Política pela Universidade Federal de Minas Gerais, mestre em
Ciência Política pela Universidade de Stanford e Ph.D. pela mesma instituição. Suas
publicações exercem influência na historiografia nacional e também internacional,
principalmente no que se refere aos estudos sobre cidadania, o Império e a República Brasileira.
A construção da Ordem: a elite política imperial é a publicação, em editora, da primeira parte
de sua tese de doutorado, publicada pela primeira vez em português em 1980. Entretanto, sua
tese na íntegra foi publicada em inglês no ano de 1975. A edição de 2020 contém as duas partes
da tese, reforçando a ideia de que são complementares. A resenha trata somente do título "A
construção da ordem'', primeira parte da 14ª edição, que se divide entre Introdução, oito
capítulos argumentativos e Conclusão.
Ao iniciar o livro, José Murilo de Carvalho procura demonstrar os motivos pelos quais
a colônia portuguesa se diferenciava das demais espanholas, que se fragmentaram em seus
processos de independência. O autor cita algumas tentativas de explicação que ele considera
insatisfatórias e defende que a unificação do território brasileiro estava intrinsecamente ligada
à questão central da decisão política, que por sua vez, ligava-se ao agente detentor do poder
decisivo: a elite política. Desse modo, a solução monárquica adotada, a unidade territorial e o
governo civil estável são consequências da construção de uma elite treinada e socializada de
forma homogênea.
No primeiro capítulo, é apresentada a premissa teórica do texto, a qual fundamenta o
pensamento sobre a política imperial e singularidade brasileira frente às ex-colônias espanholas.
São trazidas à luz as teorias das elites de Mosca ii e Paretoiii, salientando a grande importância
dessa clássica interpretação. Todavia, Carvalho aponta que ambos não respondem propriamente
à questão do surgimento das elites, atacando a precisão de suas afirmações. Em seguida, o autor
apresenta exemplos de experiências de formação de Estados modernos e seus efeitos para a
formação das elites políticas e ressalta que para o caso de ex-colônias o processo foi mais
complexo. Em vista disso, o autor argumenta que a estrutura para a manutenção da unidade e
estabilidade da ex-colônia portuguesa foi construída a partir da herança burocrática da
metrópole. Essa herança se faz presente na centralidade da magistratura como ocupação e da
Universidade de Coimbra como fonte de educação e treinamento.
Dada a fundamentação teórica, José Murilo se empenha em definir a elite política à qual
se refere. O critério para a definição da elite baseava-se no poder ativo de tomada de decisões.
Logo, para José Murilo a elite política compreendia os Ministros, os Senadores, os Deputados
Gerais, e os Conselheiros de Estado. Após essa definição, o autor destina os três capítulos
seguintes a discutir os aspectos, no âmbito da educação, ocupação e carreira, determinantes para
o processo de unificação da elite. No que tange à educação, o autor argumenta que se tratava
de uma ilha de letrados, contrastando com o mar de analfabetos que compunham a população
geral. Salvo exceções, a elite era constituída por homens que cursaram ensino superior
(majoritariamente estudiosos de cânones e leis) na Universidade de Coimbra e nas escolas de
Direito de São Paulo e de Recifeiv.
Em vista disso, o autor justifica que um fator decisivo para as ex-colônias espanholas
não atingirem a unicidade e estabilidade, como a portuguesa, era a existência de Universidades
espalhadas por todo território colonial da Espanha possibilitando uma diversificada formação
intelectual das elites. Destaca-se que ao introduzir o livro o historiador afirma que busca
comparar ambas as trajetórias, a fim de compreender a construção da ordem essencialmente
brasileira. Contudo, é notável que essa comparação é muito limitada, pois mesmo o autor
reforçando ao longo do livro o contraste entre fragmentação e unificação nas colônias ibéricas,
ele não traz novas questões para o exercício comparativo, reduzindo assim, a complexidade e
importância dos processos vividos na América Hispânica.
Somado a isso, o autor evidencia a dominação dos magistrados como outra força de
coesão. Ele defende que a elite política, por ser construída em torno de uma só ocupação
(magistratura), confere aos seus membros uma unidade em muitos aspectos. Desse modo, com
o intuito de analisar dados referentes à ocupação na sociedade brasileira, o autor a divide em
três abrangentes grupos: Governo, Profissões e Economiav. Ao longo da análise, o autor
também examina uma gradual mudança de foco dos magistrados (a herança) para os
profissionais liberais (representantes da nacionalização da elite). Um dos desafios enfrentados
pelo autor nesse capítulo foi a frequência dos casos em que a ocupação da elite era múltipla,
implicando assim, em uma decisão acerca de que profissão apresentar em seus dados.
No quinto capítulo, José Murilo de Carvalho descreve como a carreira, em conjunto aos
aspectos da educação e ocupação, contribuíram para reforçar a unidade. A estabilidade da
ocupação política, o cultivo de experiência através de longas carreiras, a circulação tanto entre
postos de trabalho quanto entre as províncias do império foram fatores fundamentais. Nessa
parte do livro o autor estabelece um diálogo com Pareto, pensando na oscilação das elites,
fundamentando assim, seu argumento de unificação da elite política imperial. É interessante
notar que a circulação geográfica dos governantes pelo território brasileiro fazia com que a
mentalidade desses se voltasse aos "interesses nacionais" e não à esfera local. Tendo isso em
vista, a criação de um ethos da elite foi o que impediu que o Brasil chegasse ao mesmo destino
fragmentado da américa hispânica.
José Murilo dedica o sexto capítulo ao estudo da burocracia estatal junto à elite política
imperial. Para isso, inicialmente é posto um debate acerca da literatura respectiva ao tema. O
autor contrapõe as perspectivas de Joaquim Nabuco vi e Raymundo Faorovii, ressaltando que
pretende com o estudo apresentar uma interpretação mais completa e menos dicotômica. Com
isso, Carvalho procura detalhar a estrutura burocrática imperial em sua divisão vertical (por
funções) e horizontal (por salário). A partir da análise empírica, ele infere que a burocracia não
constituía estamento, tal qual a visão de Faoro, e nem era vocação de todos, como argumentava
Nabuco. O autor ressalta que o serviço público era vocação daqueles que geralmente estavam
a escanteio no jogo dominado pelo sistema econômico escravista, e quando conseguiam se
inserir no governo, não poderiam mexer no time que estava ganhando. Ou seja, o aparato estatal
dependia do rendimento proveniente desse sistema e assim o defendiam, mesmo que, outrora
os excluísse de oportunidades. Desse modo, é articulada a noção da dialética da ambiguidade
de Guerreiro Ramosviii, destacando que ela não marcava apenas a burocracia, mas também o
centro das decisões do Império, a elite.
Feita a demonstração da tese da unicidade da elite política imperial nos capítulos
supracitados, o autor nota que as cisões internas, na verdade, são consequências dos processos
burocráticos ligados à elite. Desse modo, os dois últimos capítulos argumentativos são
dedicados a explorar as clivagens internas da elite brasileira. O sétimo capítulo trata do tripé
burocrático: o judiciário, o eclesiástico e o militar. Após sua análise, ele conclui que embora
divergentes, os setores burocráticos convergiam no ideal de comprometimento em fortalecer o
Estado, a visão nacional, objeção ao localismo, ao sobressaio de grupos ou setores de classe.
Para agregar às discussões dos capítulos anteriores, o autor considera relevante uma
análise dos partidos políticos, que segundo ele exemplificaria suas hipóteses sobre o
comportamento político, treinamento, socialização e origem. A partir de um diálogo
historiográfico o autor se propõe a retratar, brevemente, como estão dispostas as questões
ideológicas e quem pertence aos partidos políticos do período estudado. Ele afirma que, embora
os trabalhos historiográficos sobre o tema sejam relevantes e forneçam respostas interessantes,
os mesmos se dão a partir de deduções e se fundamentam em teorias equivocadas. Apoiado na
certeza de que o sistema de poder vigente residia na elite política imperial, o cientista político
finaliza o oitavo capítulo apontando que os partidos políticos, divergentes em composição e em
ideologia, revelam instrumentos interessantes para a compreensão das rachaduras dentro da
própria elite. Ilmar Rohloff de Mattos, em sua obra O tempo saquarema, apresenta uma crítica
pertinente à escrita deste capítulo, apontando que ao distinguir os partidos, Carvalho deixa de
lado o momento da consolidação monárquica, que é posto por Mattos como central para o
desenvolvimento de sua teseix.
Na conclusão, são retomados todos seus argumentos sobre a manutenção da unidade
nacional abordados ao longo do livro, bem como a questão da dialética da ambiguidade de
Guerreiro Ramos. Desse modo, o autor reforça que a elite política (em especial a maioria dos
magistrados) não era representante dos proprietários rurais, apesar de mencionar que se tratava
de uma sociedade cujo cerne estava no sistema econômico agroexportador escravista, com o
Estado dependente dos rendimentos desse setor e a escravidão fundamentando a construção
identitária e política. Um outro grande problema é que ao se deparar com o obstáculo da
ocupação múltipla, ele opta pela que possa ter maior influência sobre o funcionamento do
Estado, por exemplo, se um proprietário rural, concomitantemente, exercesse algum cargo
público, o autor consideraria o último, implicando diretamente na compreensão sobre a
representatividade da elite. Em vista disso, para compreender a unificação da elite, a
socialização foi o critério com maior peso em detrimento da origem de classe e o vínculo com
a propriedade rural.
Portanto, percebe-se que os esforços do autor em isolar a elite do contexto social
refletem em um problema de classificação em sua pesquisa de prosopografia da elite política
imperial brasileira. Conforme Lawrence Stone x ressalta, o prosopógrafo pode acabar falhando
em identificar algumas subdivisões importantes podendo tratar de forma conjunta sujeitos que
se distinguem de forma significativa, por exemplo o caso da ocupação múltipla. Além disso,
também pode falhar em relacionar os dados obtidos do grupo com a sociedade em geral, como
Carvalho ao ignorar o fato de que todo aquele que consente aos horrores da escravidão está, de
certa forma, ligado ao setor econômico, representando-o.
Em suma, é vital destacar, não obstante as considerações supracitadas, que a obra de
José Murilo de Carvalho é importante para a historiografia do Brasil Império. O autor quebra
uma cadeia de pensamento que centrava a ordem na figura do monarca, explicando essa
construção a partir da articulação da elite política imperial. A tese de José Murilo é um divisor
de águas para que gerações de historiadores pudessem vagar, a partir dela, durante esses 40
anos em direção à terra prometida de outras interpretações historiográficas sobre o Império
Brasileiro. Desse modo, a leitura faz-se essencial a todos que desejam compreender a gênese
da ordem e os processos políticos do século XIX no Brasil.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
CARVALHO, José Murilo de. A construção da ordem: a elite política imperial. Teatro de
Sombras: a política imperial. 14ª ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2020.
MATTOS, Ilmar Rohloff de. O tempo saquarema: a formação do Estado imperial. São
Paulo: Hucitec, 1987.
STONE, Lawrence. Prosopografia. Revista de Sociologia e Política, v. 19, n. 39, jun. 2011

i Psicanálise: conjunto de pulsões de vida ETIMOLOGIA nom. do grego érōs,érōtos 'amor, paixão, desejo
ardente'. Oxford Languages and Google. Disponível em: https://languages.oup.com/google-dictionary-pt/ Acesso
em: agosto de 2021
ii Gaetano Mosca compreende uma lei social geral: que existem dois grupos ao longo da história, o dos governantes

e o dos governados. Sendo minoria, os governantes possuem uma maior homogeneidade ideológica e uma
unicidade de intenções., se dividindo em 4 grupos: militar, sacerdotal, econômico, intelectual. A formação da
classe política (governantes) está conectada a dois princípios de autoridade: o princípio autocrático (de cima para
baixo) e o princípio liberal (de baixo para cima). Esses se conectam com dois sentidos de formação: democrática
ou aristocrática.
iii

Vilfredo Pareto estuda o equilíbrio e a reprodução da vida social. Ele apresenta uma dicotomia entre a verdade e a
utilidade afirmando que, nem tudo que é cientificamente verdadeiro é útil para a organização social. As ações
socias são divididas entre lógicas e não lógicas; porém, são sempre subjetivas. Ele afirma que os seres humanos
são diferentes e são divididos entre elite e comandados. A primeira, por sua vez se divide em elite governante e
elite não governante. O equilíbrio social depende da circulação das elites dentro e entre os estratos. Isso, idealmente
equilibraria persuasão e força para a manutenção da ordem social.
iv CARVALHO, José Murilo de. A construção da ordem: a elite política imperial. Teatro de Sombras: a política

imperial. 14ª ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2020, p.74. Após a independência, o governo imperial
permitiu a fundação de instituições de ensino superior no Brasil.
v Ibidem, p. 100-101. Governo: pessoas que traçaram longa carreira política, magistrados. Profissões: uma elite
intelectual, profissionais liberais. Economia: proprietários, comerciantes, financistas.
vi NABUCO, Joaquim. O Abolicionismo. São Paulo: Ed, Nacional, 1938 (1ª ed. 1883) p. 164. Apud Ibidem

p.145.
vii FAORO, Raymundo. Os Donos do Poder: formação do patronato político brasileiro. Porto Alegre: Globo,

1958, p. 262. Apud Ibidem, p. 145.


viii RAMOS, Guerreiro. Administração Estratégica do Desenvolvimento. Rio de Janeiro: Fund. Getúlio Vargas,

1996, p. 184. Apud Ibidem p. 166.


ix MATTOS, Ilmar Rohloff de. O tempo saquarema: a formação do Estado imperial. São Paulo: Hucitec, 1987. p

131.
x STONE, Lawrence. Prosopografia. Revista de Sociologia e Política, v. 19, n. 39, jun. 2011, p. 125.