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INTELIGêNCIA

ANO XViII • Nº 71 • OUTUBRO/NOVEMBRO/DEZEmbro de 2015

ANO XViII • Nº 71 • OUTUBRO/NOVEMBRO/DEZEmbro de 2015 issn 1517-6940

JUBILEU
INTELIGÊNCIA

DOS SANTOS Candido Mendes • Christian Edward Cyril Lynch • Adalberto Cardoso •
Mário Brockmann Machado • Charles Pessanha • José Murilo de Carvalho (pág. 98)
RECADO
Lembrai-vos de 30: • “Consolidação das normas administrativas, com
o intuito de simplificar a confusa e complicada
Ideias centrais do programa de reconstrução legislação vigorante, bem como de refundir os
nacional anunciadas pelo Exmo. Sr. Presidente da quadros do funcionalismo, que deverá ser reduzido
República, Getúlio Vargas, no discurso pronunciado ao indispensável, suprimindo-se os adidos e
por ocasião de sua posse como chefe do governo excedentes”;
provisório da República (3 de novembro de 1930).
• “Manutenção de uma administração de rigorosa
• “Saneamento moral e físico, extirpando ou economia, cortando todas as despesas improdutivas
inutilizando os agentes de corrupção, por todos os e suntuárias – único meio eficiente de restaurar as
meios adequados a uma campanha sistemática de nossas finanças e conseguir saldos orçamentários
defesa social e educação sanitária”; reais”;

• “Instituição de um Conselho Consultivo, composto • “Intensificar a produção pela policultura e


de individualidades eminentes e, sinceramente adotar uma política internacional de aproximação
integradas na corrente das ideias novas”; econômico, facilitando o escoamento das nossas
sobras exportáveis”;
• “Reforma do sistema eleitoral, tendo em vista,
precisamente, a garantia do voto”; • “Rever o sistema tributário, de modo a amparar a
produção nacional, abandonando o protecionismo
dispensado às indústrias artificiais, que não utilizam
matéria prima do país e mais contribuem para
encarecer a vida e fomentar o contrabando”.
I N S I G H T INTELIGÊNCIA

CONSELHO EDITORIAL DÉCIO CLEMENTE


ISSN 1517-6940
ALEXANDRE FALCÃO EDSON VAZ MUSA
DIRETOR
LUIZ CESAR FARO
ANTÔNIO DIAS LEITE JÚNIOR EDUARDO KARRER
CORIOLANO GATTO ELIEZER BATISTA
EDITOR
C H R I S T I A N E D W A R D C Y R I L LY N C H EDSON NUNES ELOÍ CALAGE
EMIR SADER EUGÊNIO STAUB
EDITOR EXECUTIVO
CLAUDIO FERNANDEZ JOÃO SAYAD GILVAN COUCEIRO D’AMORIM
JOAQUIM FALCÃO HÉLIO PORTOCARRERO
PROJETO GRÁFICO
ANTÔNIO CALEGARI JOSÉ LUÍS FIORI HENRIQUE LUZ
LUCIA HIPPOLITO HENRIQUE NEVES
PRODUÇÃO GRÁFICA
RUY SARAIVA LUIZ CESAR TELLES FARO JACQUES BERLINER

ARTE
LUIZ ORENSTEIN JOÃO LUIZ MASCOLO
PAULA BARRENNE DE ARTAGÃO LUIZ ROBERTO CUNHA JOÃO PAULO DOS REIS VELLOSO

REVISÃO MARCO ANTONIO BOLOGNA JOEL KORN


GERALDO RODRIGUES PEREIRA MÁRIO MACHADO JORGE OSCAR DE MELLO FLÔRES =
P A U LO B A R R O S
MÁRIO POSSAS JOSÉ LUIZ BULHÕES PEDREIRA =
REDAÇÃO E PUBLICIDADE NÉLSON EIZIRIK JOSÉ DE FREITAS MASCARENHAS
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RUA DO MERCADO, 11 / 12º ANDAR
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WANDERLEY GUILHERME DOS SANTOS LUIZ GONZAGA BELLUZZO
www.insightnet.com.br LUIS OCTÁVIO DA MOTTA VEIGA
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ALOÍSIO ARAÚJO MARIA DA CONCEIÇÃO TAVARES
PUBLICAÇÃO TRIMESTRAL ANTÔNIO BARROS DE CASTRO = MARIA SILVIA BASTOS MARQUES
OUT/NOV/DEZ 2015
COPYRIGHT BY INSIGHT ANTÔNIO CARLOS PORTO GONÇALVES MAURÍCIO DIAS

Todos os ensaios editados nesta publicação poderão ser ANTONIO DELFIM NETTO MAURO SALLES
livremente transcritos desde que seja citada a fonte das ARMANDO GUERRA MIGUEL ETHEL
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Impressão: Stamppa CELINA BORGES TORREALBA CARPI ROBERTO CAMPOS =
CELSO CASTRO ROBERTO CASTELLO BRANCO
CÉSAR MAIA ROBERTO PAULO CEZAR DE ANDRADE
CEZAR MEDEIROS ROBERTO DO VALLE
DANIEL DANTAS SÉRGIO RIBEIRO DA COSTA WERLANG
ACORDO DE COOPERAÇÃO

FSC
BRICS Policy Center Centro de Estudos e Pesquisas - BRICS

4 EXPEDIENTE
Frida Kahlo ausente. Seus aposentos vistos de cima. Suas pinturas
somente na imaginação. Essa é a proposta pictórica da artista plástica
Rosa Maria Unda Souki. Seus quadros estão expostos na galeria de
Insight-Inteligência e podem ser vistos nas páginas a seguir. Nossos
parceiros acompanham a visitação pela intimidade dos quartos.

Báilame (Dance para mim). Da Série “Esquina de Londres e Allende”. Óleo sobre linho, 100 x 70cm, 2015
El Juicio (O Julgamento). Da Série “Esquina de Londres e Allende”. Óleo sobre linho, 100 x 70cm, 2015
En cualquier momento (A qualquer momento). Da Série “Esquina de Londres e Allende”. Óleo sobre linho, 100 x 70cm, 2015
No dejes de cantar (Não deixe de cantar). Da Série “Esquina de Londres e Allende”.
Óleo sobre linho, 100 x 70cm, 2015
Nada más (Nada além). Da Série “Esquina de Londres e Allende”.
Óleo sobre linho, 100 x 70cm, 2015
Ahora solo me quedan las manos (Agora só me restam as mãos). Da Série “Esquina de Londres e Allende”. Óleo sobre linho, 100 x 70cm, 2015
Se rompieron las horas (As horas se quebraram). Da Série “Esquina de Londres e Allende”. Óleo sobre linho, 100 x 70cm, 2015
A tu regreso (Quando você voltar). Da Série “Esquina de Londres e Allende”. Óleo sobre linho, 100 x 70cm, 2015
En buena compañía (Em boa companhia). Da Série “Esquina de Londres e Allende”. Óleo sobre linho, 100 x 70cm, 2015
CARTA AOS
UM PARAFUSO A DESCRENTES
MENOS NO CAPITAL
Maria da Conceição
& TRABALHO
Tavares
Anna Cecilia Faro Bonan Em busca de um
Pior que o emprego, só o consenso político
desemprego!

18 34

TACHISMO
Felipe Cattapan
Sangue sem poesia

42

TRINCA DE ASES
José Almino de Alencar
Rui, Nabuco e Rio Branco
em Haia

44

PORQUE HOJE É
SABATO
Cecilia Nahra
Microcosmo de um Nobel

62

SUMÁRIO
14 SUMÁRIO
I N S I G H T

INTELIGÊNCIA
nº 71 outubro/novembro/dezembro 2015

ALISTAMENTO CIVIL
PARA A EDUCAÇÃO JÁ!
Antonio Freitas e
Ana Tereza Spinola
Marcha bacharel, cabeça
de papel

74
CIBERTERRORISMO:
O CAVALEIRO DO
INFOAPOCALIPSE
Louise Marie Hurel Silva Dias
A ORDEM NATURAL DAS O terror não é virtual
COISAS: 360 GRAUS DE ROUBO
A. C. Porto Gonçalves 84
Um conto em três assaltos

94

WGS 80: SUPERLATIVO!


80 anos de Wanderley Guilherme dos Santos

98

WANDERLEY E A CONSCIÊNCIA CRÍTICA


Candido Mendes

O INTÉRPRETE DO PENSAMENTO NACIONAL


Christian Edward Cyril Lynch

UM FUNDADOR (BEM SUCEDIDO) DE INSTITUIÇÕES


Adalberto Cardoso

UM REALISTA IDEALISTA
Mario Brockmann Machado

WGS ENTRE A ACADEMIA E A POLÍTICA


Charles Pessanha

DUAS OU TRÊS COISAS QUE EU SEI


SOBRE WANDERLEY
José Murilo de Carvalho

OUTUBRO • NOVEMBRO • DEZEMBRO 2015 15


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uM fuso
para
a menos
no capital
&trabalho
ilia Faro Bonan
Anna Cec Advogada

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I N S I G H T INTELIGÊNCIA

O
problema da depressão é compreen- cando somente atrás da categoria “Lesões, envenena-
dido atualmente como uma espécie de mentos e algumas outras consequências de causas ex-
epidemia silenciosa, e a sua incidên- ternas” (capítulo XIX do CID-10) e da categoria “Doenças
cia expansiva é tão preocupante que a no sistema Osteomuscular e Tecido Conjuntivo” (capítu-
doença é considerada, por estudiosos lo VIII do CID-10). Quando analisamos somente a con-
de diferentes áreas, o mal do século XXI, atingindo toda cessão de benefícios auxílios-doença acidentários, isto
a coletividade devido o seu impacto sobre a economia. é, aqueles em que há reconhecida relação com o traba-
São múltiplas as teorias que tentaram propor a ver- lho, a psicopatologia segue em terceiro lugar nas cau-
dadeira causa do acometimento da “epidemia depressi- sas verificadas, porém decai para 4% das concessões.
va”, propondo explicações variadas pautadas: I) na socie- No entanto, os episódios depressivos (F32 do CID-10)
dade de consumo; II) no supereu do imperativo do gozo; correspondem a 28% e o transtorno depressivo recor-
III) na vivência da temporalidade acelerada; IV) na medi- rente (F33 do CID-10) a 7% do total de benefícios conce-
calização da sociedade; V) na hegemonia da psiquiatria didos em razão de transtornos mentais e comportamen-
diagnóstica; VI) nas mudanças dos padrões normativos1, tais decorrentes do trabalho. Ademais, segundo dados
entre outros fatores. De fato, compreender a causa de disponibilizados pelo Ministério da Previdência Social, no
um mal-estar decorrente da composição da subjetivi- ano de 2014 ocorreu a primeira aparição dos episódios
dade do ser não é tarefa fácil ou que proponha resulta- depressivos no ranking dos CIDs mais incidentes relati-
dos precisos. Os seres humanos são multifacetários e vos à Espécie Auxílio-Doença Acidentários, o único pro-
suas estruturas psíquicas recebem influência de todas blema de saúde mental constante no mesmo.
as faces da vida social. É bem verdade que os dados da Previdência não nos
No entanto, algo preocupante é perceptível em uma permitem ter uma visão da totalidade de trabalhadores
breve análise dos dados e de uma historiografia das acometidos pelo mal da depressão, isso porque nem toda
doenças: se de um lado a depressão acarreta ausências depressão leva o indivíduo ao afastamento da atividade
(ausentismo ou absenteísmo) e baixo rendimento (pre- laboral, e nem todo afastamento enseja benefício. Porém,
sentismo) no trabalho, o que claramente afeta a produ- na escassez de dados precisos no país, as tabelas de
tividade e o capital, em contrapartida aumentam as de- concessão de benefícios auxílio-doença abrem uma nes-
pressões decorrentes da atividade laboral. A relação é ga de luz para compreender o impacto da depressão no
complexa, não se sabe bem ao certo se é o capital que universo do trabalho. Estaríamos diante de um quebra-
adoece o trabalhador ou se é o trabalhador depressi- -cabeça com peças faltantes, mas que nos permite vis-
vo que adoece o capital. A resposta mais provável é de lumbrar sua imagem.
que haja certa mutualidade na relação, ainda que seja Alegar que a depressão causa custos socioeconômi-
evidente a vulnerabilidade do trabalhador ao capital. cos é uma platitude. Obviamente indivíduos em estado de-
Algumas “fotografias” que nos dão indícios do qua- pressivo possuem maior dificuldade de interação social
dro problemático: De modo geral, a categoria de doen- e menor participação nos atos de cidadania. Pesquisado-
ças mentais (constantes no capítulo V do CID-102) ocu- res de saúde mental, médicos e juristas que participaram
pa um papel expressivo nas causas de afastamento do dos Grandes Desafios em Saúde Mental Global reconhece-
trabalho. Dados da Previdência Social demonstram que ram a grande complexidade da frequente cronicidade de
os transtornos mentais e comportamentais correspon- transtornos mentais e sua interação com outras doenças,
dem a 9% das causas que ensejam afastamento e con- ressaltando a urgente necessidade de redesenhar os sis-
cessão de auxílios-doença previdenciários e acidentá- temas de saúde para integrar os cuidados dos transtor-
rios, somando 221.721 benefícios dessa natureza, e fi- nos mentais e comportamentais com outros cuidados de

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doenças crônicas, de criar paridade entre doença mental


e física quanto ao investimento em investigação, forma-
ção, tratamento, prevenção e inserção social3, de identi-
ficar os custos de cuidados integrados nos sistemas de
saúde de alto e baixo rendimentos e de buscar a expan-
são de um conjunto de “best buys” para a saúde mental.
Se, por um lado, o problema é gritante, por outro cha-
ma a atenção a escassez de estudos quanto aos custos
econômicos e previdenciários gerados pela expansiva de-
pressão no trabalho no Brasil. Isto porque a depressão
onera o Estado, reduz a produtividade das empresas, am-
plia os custos da produção – causando arrefecimento da
rentabilidade e competitividade das empresas –, produz
diminuição em rendas familiares – impactando as rela-
ções de consumo4 – e pode gerar ainda danos indeniza-
tórios para o empregador se demonstrada alguma culpa
na gestão do trabalho provocador/agravador da doença.
Ainda em 1951, Winslow publicou uma pesquisa, rea-
lizada com apoio da Organização Mundial da Saúde, de-
monstrando as implicações econômicas do binômio saú-
de-doença e impulsionando um movimento internacional
de maior atenção ao problema5. Em 1959 o trabalho de
Fein6, referente às repercussões econômicas das enfer-
midades mentais, instituiu metodologias para avaliar os
custos diretos e indiretos das doenças que serviram de
parâmetro para os trabalhos ulteriores. Teóricos como
Weisbrod7, Rice8, Klarman9, e Kuhner10 também trouxe-
ram importantes contribuições a essa área de estudo.
A mensagem dos estudos que dissecam a relação entre
a economia e a saúde mental desde então demonstram
que a “saúde” da primeira depende da segunda.
A European Association for National Productivity Cen-
tres emitiu um memorando em 2005, The High Road of
Wealth, olhando para a produtividade a partir da pers-
pectiva da criação de valor, e constatou que entre os fa-
tores de maior impacto nessa criação estava presente a
saúde do trabalhador11. O relatório The Global Economic
Burden of Non-communicable Diseases, do Fórum Eco-
nômico Mundial, conclui que é ilógico e irresponsável se
preocupar com o crescimento econômico e simultanea-
mente ignorar as doenças não transmissíveis que produ-

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zem incapacidade laboral, e avisa que intervenções nes-


ta área serão inegavelmente caras, mas é provável que
a inação seja muito mais dispendiosa12. A mesma orga-
nização constatou que a saúde mental I) corresponde
ao maior condutor individual de carga econômica entre
as doenças não transmissíveis; II) representam mais de
metade da carga econômica total entre as doenças não
transmissíveis projetada para as próximas duas décadas,
III) equivale a 35% da produção perdida global. Logo, tor-
na-se essencial criar uma agenda de pesquisa em saú-
de mental e economia, com o foco de realizar diagnósti-
cos precisos dos impactos das doenças mentais no ca-
pital e no trabalho de acordo com regiões e outras espe-
cificidades, como categorias mais afetadas, causas mais
prováveis e recomendações para os setores do trabalho.

E
m 2001, a Organização Mundial da Saúde es-
timou que a prevalência de episódios depres-
sivos ao longo da vida, na população em ge-
ral, situa-se em torno de 15%, e que, sem um
tratamento adequado, a depressão incide em um curso
crônico e recorrente. Afirmou também que a depressão
ocupa a quarta posição entre todas as causas que con-
tribuem para a carga global de doenças, de acordo com
o “Global Burden of Diseases Project” da mesma organi-
zação, correspondendo a 4,4% dos anos de vida vividos
com incapacitação para a população geral e 8,6% para
os indivíduos que estão na faixa etária entre 15 e 44
anos13. A Organização Mundial da Saúde estimou tam-
bém que em 2030 a taxa populacional afetada pela de-
pressão chegaria a 9,8%, no entanto alcançamos essa
taxa duas décadas antes do previsto. Levando em con-
sideração esse crescimento não previsto, que as doen-
ças psicóticas mantiveram um número de incidência es-
tável, que em 2011 os transtornos mentais e comporta-
mentais já eram responsáveis por 37% dos anos de vida
debilitados a nível mundial14, a taxa de incapacitação de-
corrente da depressão hoje é certamente mais elevada.
A OMS estimou o custo global da doença mental em
quase US$ 2,5 trilhões (dois terços dos custos indiretos)
em 2010, com um aumento projetado de mais de US$ 6

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trilhões até 2030. Thomas Insel adverte a grandeza des-


se valor: “Toda a despesa com a saúde global em 2009 foi
de US$ 5,1 trilhões. O PIB anual para os países de baixa
renda é inferior a US$ 1 trilhão. Toda a ajuda ao desen-
volvimento ao longo dos últimos 20 anos é de menos de
US$ 2 trilhões.”15 Segundo Kofi Annan, ex-secretário da
Organização das Nações Unidas, a depressão atinge hoje
quase 7% da população mundial, cerca de 400 milhões
de pessoas, e em 2010 os custos diretos e indiretos com
a depressão estavam estimados em US$ 800 bilhões16.
Os transtornos depressivos, por exemplo, representam
um dos mais comuns problemas de saúde de adultos no
mercado de trabalho dos Estados Unidos e contabilizam
um gasto nacional de US$ 30 bilhões a US$ 40 bilhões de
dólares17. Em um exercício hipotético, multiplicando-se o
número de trabalhadores afastados pelo total de faltas,
teríamos um total de 200 milhões de dias de trabalho per-
didos anualmente. Já no Reino Unido, este número seria
de aproximadamente 80 milhões de dias perdidos todos
os anos devido à depressão, gerando um custo aos em-
pregadores de um a dois bilhões de libras anuais18.
Alerta-se a necessidade de buscar as cifras no Bra-
sil, já que em 2011 a revista BMC medicine publicou uma
pesquisa acerca da depressão em 18 países e o Brasil
representou a maior taxa populacional portadora de de-
pressão, sendo esta de 10,4% da população19. Corrobo-
rando com a urgência de análise dos custos indiretos,
pesquisa divulgada pela Folha de S. Paulo apontou que
em média pessoas com depressão perdem cerca de oito
dias de trabalho por mês contra dois dias de pessoas
consideradas “saudáveis”, além de destacar que 37%
dos indivíduos que sofrem com a depressão estão/são
economicamente inativos.
Por outro lado a depressão vem onerando ainda mais
o orçamento da Previdência Social, que, já sabemos, cor-
responde a um dos maiores fatores de desequilíbrio fiscal.
Há mais de 10 anos que os gastos da Previdência cres-
cem acima da média do orçamento da União, somando
atualmente o valor de R$ 402,1 bilhões e representan-
do 22,7% de tudo que o governo gasta. Juntas, as ver-
bas de Saúde, Educação, Defesa e Relações Exteriores

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somam 70% do que gasta a Previdência sozinha. Despi- causalidade. Em termos processuais, a norma tem um
do por uma bruta queda de receitas, analistas preveem impacto relevante, vez que inverte o ônus da prova ao
que o déficit da Previdência deve subir 70% neste ano empregador, que deverá demonstrar a inexistência do
e mais 40% em 2016, alcançando o valor de R$ 120 bi- nexo causal. O resultado imediato da lei foi um aumen-
lhões, ou 2,7% do PIB, o que representa o triplo do défi- to de 970% na concessão de benefícios auxílios-doença
cit de 2013. Como se não bastasse lidar com o envelhe- acidentários do ano de 2006 para o ano de 2007, e de
cimento populacional e o consequente aumento com o 95% do ano de 2007 para o ano de 2008, quando esta
número e a duração das aposentadorias, a pasta da pre- variação se estabilizou. No entanto, a depressão fruto
vidência precisa gerenciar essa “epidemia depressiva”. do trabalho por si seguiu o seu crescimento20.

A
A categoria benefício auxílio-doença acidentário exi-
ge um laudo técnico comprovando o nexo causal entre o s doenças relacionadas ao trabalho se dis-
trabalho e a psicopatologia, porém tal diagnóstico nem tribuem em três grupos, de acordo com a
sempre é preciso. O reconhecimento deste vínculo exige classificação de Schilling, adotada no Bra-
uma compreensão do ser humano nas suas múltiplas di- sil. No grupo I, estariam aquelas doenças
mensões, vez que o trabalho se constitui como parte da classificadas normativamente como decorrentes do tra-
identidade do ser e mediador de integração social, tanto balho. No grupo II, o trabalho representa um fator con-
pela subsistência, como pelo seu caráter simbólico-cul- tributivo, mas não a causa necessária e, no grupo III, o
tural. Os transtornos mentais e comportamentais rela- trabalho é encarado como um fator desencadeador de
cionados ao trabalho resultam de contextos de trabalho um distúrbio oculto ou agravador de doença já estabe-
em interação com o corpo e aparato psíquico dos traba- lecida21. Os episódios depressivos podem se enquadrar
lhadores, incluindo fatores específicos das atividades e em qualquer um desses grupos.
fatores complexos relativos à organização do trabalho. A depressão possui uma etiologia multicausal em que
O decreto presidencial 3.048/99 ampliou o rol de conjuntos de diversos fatores interagem de modo com-
doenças ocupacionais, isto é, aquelas em que há um nexo plexo, o que dificulta muitas vezes a análise do nexo cau-
técnico profissional ou do trabalho, abalizado nas asso- sal técnico nas hipóteses de doenças mentais dos gru-
ciações entre as enfermidades e as exposições ocupa- pos II e III. No entanto, a jurisprudência do Tribunal Su-
cionais segundo a atividade laboral, incorporando doen- perior do Trabalho é farta no sentido de aceitar o prin-
ças que tradicionalmente eram relegadas pelos médi- cípio da concausalidade para determinar a relação en-
cos do trabalho. O mesmo decreto também reconheceu tre problemas de saúde mental e o trabalho.
a hipótese de doença acidentária quando o trabalho se Se as taxas de incidência de depressão associadas
apresenta como fator contributivo, desencadeador ou ao trabalho possuem um crescimento considerável, é
agravante de problemas com a saúde mental, regula- preciso compreender a sua relação com o trabalho a
mentando um nexo técnico por doença equiparada a aci- fim de não só diagnosticar uma situação problema, mas
dente de trabalho ou nexo técnico individual. Ademais, também incentivar estudos que permitam estabelecer
o advento da Lei 11.430/2006 introduziu na ordem le- programas de prevenção a partir do conhecimento de
gislativa pátria o nexo técnico epidemiológico previden- suas possíveis causas. Nessa tarefa o registro do pas-
ciário, reconhecendo a causalidade de certas catego- sado é o maior alicerce.
rias econômicas, considerando que a própria peculia- Ao longo da história a segurança do trabalho recebeu
ridade de certas atividades e seus fatores específicos, maior atenção que a Saúde do Trabalho, por uma moti-
como contatos com agentes químicos, físicos ou bioló- vação óbvia: os meios de produção da indústria a partir
gicos nocivos, implicam em uma presunção relativa de da Primeira e Segunda Revolução Industrial se consoli-

OUTUBRO • NOVEMBRO • DEZEMBRO 2015 25


I N S I G H T INTELIGÊNCIA

daram através das máquinas, o que, apesar de dirimir o


trabalho “manual”, ainda repercutia em uma larga escala
de acidentes de trabalho na integração homem (opera-
dor) e máquina, mais especificamente corpo e máquina.
No que tange à saúde do trabalho, a preocupação
geral voltou-se às doenças físicas, podendo ser estas
ocupacionais ou não. Problemas de saúde mental eram
considerados decorrentes de fatores biológicos, como
a herança genética, aspectos orgânicos e história fami-
liar e afetiva do paciente. O trabalho foi desconsiderado
por muito tempo como fator influente na constituição da
subjetividade e do sofrimento psíquico dos indivíduos, de
modo que a ignorância quanto ao nexo causal trabalho
x saúde/doença mental excluiu, ou ao menos minimizou,
os esforços da Saúde do Trabalho neste campo.
Os séculos XVII, XVIII e XIX são cenários da supremacia
da racionalidade cartesiana, e neles as ciências médicas
condenam a loucura à segregação e ao confinamento em
espaços cada vez mais exclusivos quanto aos outros “as-
sociais”. Época de ampla internação em hospícios, gran-
des alienistas22, patologização, descrição e classificação
das doenças mentais. Os transtornos mentais e comporta-
mentais são então considerados um mal a ser expurgado
e compreendidos de forma dissociada as relações entre
os indivíduos. No fim do século XIX e início do século XX o
surgimento e a consolidação da psicanálise introduzem
as relações objetais na etiologia das doenças mentais,
porém a visão psicanalítica pouco contribui para o estu-
do do desenvolvimento da psicopatologia do trabalho23.
O século XX foi marcado por um intenso processo
de industrialização, um acelerado boom tecnológico e o
surgimento de novos modelos de gestão dos processos
produtivos. O modelo taylorista-fordista e seu enfoque
na produção começam a visibilizar o impacto do trabalho
na saúde mental do trabalhador, em especial de proble-
mas ligados a fadiga mental. A expansão do capitalismo
cria marcas profundas no trabalho: a laborização está
vinculada diretamente à sobrevivência imediata do tra-
balhador, que, portanto, se submete a uma atividade na
qual não domina o processo e nem detém o produto24.
A partir do fim da Segunda Guerra Mundial inicia-se

26 SÓ BLUE
I N S I G H T INTELIGÊNCIA

um processo reconhecido como a Terceira Revolução


Industrial, com notáveis incrementos da informática e
da robótica, ocasionando a automação das indústrias.
O resultado é uma integração distinta entre o homem e
a máquina. Esta última cada vez torna-se mais indepen-
dente e a força de trabalho é liberada para os outros se-
tores, interferindo diretamente na organização, gestão e
controle do trabalho, criando um novo cenário produti-
vo e dando força ao chamado trabalho “intelectual”. Por
outro lado o avanço da tecnologia implica também em
uma reconstrução da temporalidade e consagra uma
velocidade constantemente crescente.

P
or volta da década de 70, surge o modelo
toyotista, porém esse não exerce uma supe-
ração ou substituição completa do modelo de
gestão anterior. Como consequência há uma
fusão entre tais modelos, os trabalhadores continuam
inseridos na lógica de cisão entre planejamento e exe-
cução, entre o saber e o fazer, típicos do modelo taylo-
rista-fordista de produção, enquanto que, teoricamen-
te, lidam com a recomposição das tarefas do modelo do
toyotismo25. Essa mudança provoca também transfor-
mações quanto às exigências, às pressões, ao ambien-
te de trabalho, à rotina, à rotatividade, às relações so-
ciais e outros fatores importantes na formação subje-
tiva do trabalhador.
Ademais, observa-se que neste mesmo período insti-
tui-se a ideia central de que o homem é proprietário de si
mesmo, e sua meta, a autogestão, a escolha do seu pró-
prio destino. Essa nova visão do homem modifica também
as normas de conduta, que deixam de serem pautadas
pela disciplina e pela culpa, e passam a ser abalizadas pe-
las noções de responsabilidade e iniciativa. Associada às
metas de “busca pelo sucesso”, “gozo permanente” e “li-
quidez moderna”26 o homem sofre uma drástica transfor-
mação na concepção de seu valor próprio, pois depende
dele construir o ser, gerando uma “insegurança identitá-
ria crônica” ou mesmo uma “personalidade depressiva”27.
Diante desse quadro a psicologia e a psiquiatria in-
tensificam seus estudos no campo da saúde mental no

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I N S I G H T INTELIGÊNCIA

28
I N S I G H T INTELIGÊNCIA

trabalho, com contribuições de Fromm28, Le Guillant29, monotonia, tarefas sem sentido, tarefas desagradáveis
Sivadon30, entre outros. No Brasil trabalhos como os de e repugnantes, insegurança no trabalho, baixas pers-
Codo31, Jacques32 e Spink33 também demonstram uma pectivas ou pouca possibilidade de promoção, traba-
preocupação crítica com as psicopatologias do trabalho. lho de baixo valor social, pagamento por produtividade,
Para Robert Castel, por exemplo, “o trabalho permanece sistemas de avaliação de desempenho pouco claros ou
como referência dominante não apenas economicamente injustos, qualificação incompatível com o trabalho, am-
como também psicologicamente, culturalmente e biguidade de papéis e papéis conflitantes, responsabi-
simbolicamente, fato que se comprova pelas reações lidade por terceiros, baixo apoio social nas relações in-
daqueles que não o têm”34. terpessoais, má comunicação, falta de liderança e difi-
Já o sofrimento advindo da atividade laboral se apre- culdades na interface trabalho-casa.
senta como uma reação à alienação no trabalho, tecla já • Condições de saúde: autopercepção de saúde ruim.
batida muitas vezes por Marx. O sofrimento, que excede O levantamento demonstra que são muitas as condi-
uma mera melancolia, surge na medida em que o sujeito ções do trabalho que podem acarretar um adoecimen-
é privado de condições mínimas para a sua autonomia, to do paciente, sendo essencial a introdução de proce-
e só se instala por completo quando não encontra espa- dimentos de vigilância a partir dos conhecimentos mé-
ço para ser elaborado e ressignificado. Paradoxalmente, dico-clínicos, epidemiológicos, de higiene ocupacional,
o sofrimento depressivo é uma forma de resistência do toxicologia, ergonomia, psicologia, entre outras disci-
sujeito diante das características alienantes e, por ve- plinas, como o reconhecimento prévio das atividades e
zes, violentas da organização do trabalho, ou seja, uma locais de trabalho onde existam substâncias químicas,
estratégia de defesa do ser que já não suporta as car- agentes físicos e/ou biológicos e os fatores de risco de-
gas de ameaças do trabalho35. correntes da organização do trabalho potencialmente
João Silvério da Silva Júnior elenca os seguintes fa- causadores de doença, a identificação dos problemas
tores como passíveis de serem associados ao afasta- ou danos potenciais para a saúde, decorrentes da ex-
mento do trabalho por transtornos mentais e compor- posição aos fatores de risco identificados, a identifica-
tamentais, entre eles a depressão36: ção e proposição de medidas que devem ser adotadas
• Aspectos sociodemográficos: sexo feminino, idade para a eliminação ou controle da exposição aos fatores
avançada, ser solteiro, baixo nível de educação e baixo de risco e para proteção dos trabalhadores e a educa-
padrão socieconômico. ção e informação aos trabalhadores e empregadores.
• Hábitos e estilos de vida: consumo de álcool, tabagis- Com todas as ressalvas políticas, mas fazendo jus à
mo e índice de massa corporal acima do padrão eutrófico. sua impressionante expressão literária, emprestemo-
• Fatores adversos externos ao trabalho: dificulda- -nos da metáfora de Winston Churchill para descrever
des financeiras e pouco apoio social doméstico. suas infernais noites de depressão. O trabalho nos tem-
• Condições de trabalho: trabalho em turnos vesper- pos modernos vem acompanhado de uma enorme mati-
tino-noturno e noturno, pouca flexibilidade nos horários, lha de “Black Dogs”, que abocanham os trabalhadores,
longa jornada, horários imprevisíveis, má distribuição de o Capital e o Estado. Tratar as feridas abertas e domes-
turnos, tipo de emprego e tempo na função, mais de um ticar a fera é o único caminho prudente.
vínculo de trabalho, ter vínculo de trabalho como servi-
dor público, trabalho com carga física extenuante, ritmo A autora é mestranda em Direito Constitucional na Universidade Fe-
acelerado de trabalho, condições ambientais desfavorá- deral Fluminense, integrante do Laboratório de Estudos Interdiscipli-
nares em Direito Constitucional Latino-Americano e avaliadora da Re-
veis, e fatores psicossociais como baixo controle sobre vista de Direito dos Monitores da Universidade Federal Fluminense.
o ritmo, variabilidade e uso de habilidades no trabalho, acbonan@gmail.com

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I N S I G H T INTELIGÊNCIA

NOTAS DE RODAPÉ

1. PEREIRA, L. O trabalho em causa na “epidemia depressiva”. Tempo 18. UK Department of Health. Mental illness: key area handbook. The
Social, São Paulo, v. 23, n. 1, p. 67- 95, jun. 2011. health of the nation. London, 1993:11-24.

2. O CID-10 é um documento que compõe a Classificação Internacio- 19. 1 Department of Psychiatry, State University of New York at Stony
nal de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde, publicado pela Or- Brook, Cross-national epidemiology of DSM-IV major depressive ep-
ganização Mundial de Saúde (OMS), a fim de padronizar a codificação isode, 2011. Disponível em http://www.biomedcentral.com/content/
de doenças e outros problemas relacionados à saúde. pdf/1741-7015-9-90.pdf

3. COLLINS, P. Y., PATEL, V., JOESTL, S. S., MARCH, D., INSEL, T. R., DAAR, 20. Fonte: Ministério da Previdência Social, Dados Abertos.
A., On behalf of the Grand Challenges in Global Mental Health Scientific
Advisory Board and Executive Committee. Grand Challenges in Global 21. Ministério da Saúde. Doenças relacionadas ao trabalho: Ma-
Mental Health. Nature. 2011 July 7. nual de procedimentos para os serviços de saúde. Brasília, DF: MS,
2001.
4. Por exemplo, O Department for International Development do Reino
Unido, analisando dados de pesquisa da Tanzânia demonstrou que os 22. Esquirol, Pinel, entre outros.
núcleos familiares que possuem membros com alguma incapacida-
de têm um consumo médio inferior a 60% do que aqueles grupos em 23. DEJOURS, C. A loucura do trabalho: Estudo de psicopatologia do
que todos os membros são ativos, o que levou os autores da pesquisa trabalho (3. ed.). São Paulo, SP: Cortez-Oboré, 1998.
concluírem que a incapacidade é um fator oculto da pobreza. As doen-
ças mentais se impõem, então, como um fator de exclusão social e es- 24. ARENDT, H. A condição humana. Rio de Janeiro, RJ: Forense Uni-
tigmatização não só do trabalhador, mas também da família, afetando versitária, 2001.
diretamente seus recursos econômicos.
25. ANTUNES, R. Adeus ao trabalho? – Ensaio sobre as metamor-
5. WINSLOW, C.E. A. – The cost of sickness and the price of health. Ge- foses e a centralidade do mundo do trabalho. São Paulo, SP: Cor-
neva, World Health Organization, 1951. tez, 1995.

6. FEIN, R. – Economics of mental illness. New York. Basic Books Inc., 1958. 26. BAUMAN, Z. O mal-estar da pós-modernidade. Rio de Janeiro: Jor-
ge Zahar Editor, 1998.
7. WEISBROD, B. A. – Economics or public health. Philadelphia, Univer-
sity of Pennsylvania Press, 1961. 27. EHRENBERG, A. La fatigue d’être soi. Dépression et Societé. Par-
is: Òdile Jacob, 1998.
8. RICE, D.P. – Letter to the editor. Amer. J. publ. Hlth., 56:564-5, 1966.
28. FROMM, E. Psicoanálisis de la sociedad contemporánea. México:
9. KLARMAN, H.E. – Letter to the editor. Amer. J. pitbl. Hlth., 56:565-6, 1966. Fondo de Cultura Economica, 1956.

10. KUHNER, A. – The impact of public health programs on econom- 29. LIMA, M. E. Escritos de Louis Le Guillant: Da ergoterapia à psico-
ic development. Report of a study of malaria in Thailand. Int. J. Hlth. patologia do trabalho. Petrópolis, RJ: Vozes, 2006.
Serv. 1:285-92, 1971.
30. LIMA, M. E. Esboço de uma crítica à especulação no campo da saú-
11. European Association for National Productivity Centres, The Finn- de mental e trabalho. In M. G. Jacques & W. Codo (Eds.), Saúde mental
ish Work Environment Fud, 2005. Disponível em www.eanpc.org & trabalho: Leituras (pp. 50-81). Petrópolis, RJ: Vozes, 2002.

12. BLOOM, D. E., CAFIERO, E. T., JANÉ-LLOPIS, E., ABRAHAMS-GES- 31. CODO, W. Por uma psicologia do trabalho: Ensaios recolhidos. São
SEL, S., BLOOM, L. R., FATHIMA, S., FEIGL, A. B., GAZIANO, T., MOWAFI, Paulo, SP: Casa do Psicólogo, 2006.
M., PANDYA, A., PRETTNER, K., ROSENBERG, L., SELIGMAN, B., STEIN,
A., WEINSTEIN, C. (2011). The Global Economic Burden of Non-commu- 32. JACQUES, M. G. O contexto histórico como produtor e produto do
nicable Diseases. Geneva: World Economic Forum conhecimento: A trajetória da psicologia do trabalho. Psicologia: Re-
flexão e Crítica, 4(1/2), 1998:64-70.
13. World Health Organization, Global Burden of Diseases Project, 2001,
http://www.who.int/topics/global_burden_of_disease/en/ 33. SPINK, P. Organização como fenômeno psicossocial: Notas para
uma redefinição da psicologia do trabalho. Psicologia & Sociedade,
14. World Health Organization. (WHO 2011a). Global status report on 8(1), 1999:174-192. 
non-communicable diseases 2010. Geneva: WHO
34. CASTEL, Robert, A metamorfose da questão social. Petrópolis, Vo-
15. INSEL, T. Director’s Blog: The Global Cost of Mental Illness. Na- zes, 1998.
tional Institute os Mental Health. September 28, 2011. Disponível em
http://www.nimh.nih.gov/about/director/2011/the-global-cost-of- 35. PEREIRA, Luciano. O trabalho em causa na “epidemia depressiva”.
-mental-illness.shtml Tempo Social, revista de sociologia da USP, v. 23, n. 1, 2011.

16. LUCENA, Rodolfo, VERSOLATO, Mariana. Depressão já é a doença mais 36. SILVA JÚNIOR, J. S. Afastamento do trabalho por transtornos men-
incapacitante, afirma a OMS. [17/12/2014] Folha de São Paulo, 2014. tais e fatores associados: um estudo caso-controle entre trabalhado-
res segurados da Previdência Social. 2012. 127 f. Dissertação (Mes-
17. CONTI, D. J., BURTON, W. H. The economic impact of depression in trado em Saúde Pública). Faculdade de Saúde Pública. Universidade
a workplace. Journal of Occupational Medicine, 1994, 36:983-988. de São Paulo. 2012.

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I N S I G H T INTELIGÊNCIA

Carta aos
descrentes ção TaEv ares
da Concei
Maria co n om ista

e
abater. Sei qu
ra es ti m u lá -los a não se
s pa
rijo-me a você cansaço. As
Meus caros, di a frustração e o
o d es al en to ,
e sobra para do,
há motivos d tes do nosso la
E os ac on te cimentos tris
ins.
ruins, bem ru orrido. Mas
coisas andam is to s e n ão podiam ter oc
eram prev
ossa gente , não uar,
do lado da n Temos que at
qu e se r n a esperança .
aposta te m enfrentar
paciência! A u la çã o em condições de
ova artic
buscar uma n
arregimentar, s conquistas.
e bu sc am el iminar nossa
raso, qu
as forças do at

alianças. Não
pl ia n do o leque de
ançar, m as am de esquerda .
Temos que av n si d er aç ão uma frente só
ra de co
ortanto, está fo cia , só uma
alternativa. P . N a at ual circunstân
opon en te
fortaleceria o rmínio, ao
Radicalizar só ao ód io , ao desejo de exte
contrapor
edade pode se de das
frente da soci st it u íd os e à capacida
d er es in
e alguns dos po
descontrole d
iniosos.
iç õe s d e ge ra r fatos ignom
opos
ibuísse para
am pl a qu e também contr
frente
ra é por uma do nosso lado
. Estou
Minha bandei fo ra m cometidos
oc os qu e
erros, os equív setor social ,
purgar nossos n di ca is e d e entidades do
eranças si
presários, lid s parlamenta
res.
falando de em in iã o e alguns pouco
es d e op
de , formador Não é a luta
de
a universida
s qu e tê m es pírito público.
, só os raro edade atravé
s da
Destes últimos an if es tação da soci
m as a m
um partido,
um grupo ou

34 RESISTIR É PRECISO
I N S I G H T INTELIGÊNCIA

construç
ão de con
sensos. É
para a co no interi
nstrução or dessa
de um p frente qu
acto por e vislum
fora das bro cond
instituiç ições
Para a p ões conve
artida pr n c ionais.
ecisamos
criar ess de um n
e embriã úcleo. E
o. Acredi o govern
to que a reto o tem co
de Desen ndições d
volvimen mada em e
to Econô outro mo
forma su mico e S ld e d o Conselho
a forma ocial (CD
original ES) seria
, o CDES nã e ss e r e i nício. Na
determin o funcion
ada e nã ou, pois
o se busc a
o espaço ava o con agenda n
para a co senso. A ão era
nstrução proposta
d é q u e e ss
projetos; e acordo e foro seja
que possa s em torn
nos valer o de idei
como arm as, progr
a e escud amas e
o político
Hoje , o C .
DES está
totalmen
com ele . te parali
Pois, nós sado. Fic
precisam aram sem
instância o s relançá- saber o q
importan lo. Ele po ue fazer
te da luta de torna
a coisa v política . r - se uma
ai ficar a Se não a
inda ma brirmos
dif ícil a is feia . O o leque d
guentar o u vamos as alianç
pela via as,
tranco. da socied
ade , ou
será
Os menin
os que ora e
stão me le
econômi ndo deve
ca . Não sa m achar
bem nad que a cri
se compa a . Temos se maior
re com o problema éa
utras cri s nessa á
É uma n se s que atra r e a , mas na
ação com vessamos. da que
graves pr Ninguém
aspectos, oblemas amassa e
inclusiv conjuntu sse país.
e cambia rais, mas
pegava p lm ente , qu r i c a sob todos
elo pé . P e era a fr os
ois hoje agilidad
disso me somos cre e que semp
nos do qu dores líq re nos
e se devi uidos em
a. moeda fo
rte e fala
-se
A nossa h
istória tr
adiciona
custa lem lmente fo
brar que i a de re
o II Plan mar con
à crise in o Nacion tra a ma
a l d e ré . Não
ternacio D e se n volvimen
nal . À ép to foi fei
todos de oca , a id to em me
cócoras. eia que se io
Não estáv espalhav
cantilen a mos coisí a é que est
a. ssima ne ávamos
nhuma .
Agora , re
pete-se a

OUTUBRO • NOVEMBRO • DEZEMBRO 2015 35


I N S I G H T INTELIGÊNCIA

O
importações.
íd a pe la su bstituição de
sa
e temos uma elhores: o que
se
Parece-me qu r co n di ções ainda m
eg u ra
ite e deverá ass ez seja o caso
câmbio já perm pr odutivas. Talv
as ca d ei as
vestimento n ulo, fazer
precisa é de in da r u m pequeno estím
públ ic o,
nanciamento os países
de , além de fi É u m a po lí ti ca que todos
sfarçada .
ão tarifária di m motivo, a
alguma proteç ai or gr it ar ia sem nenhu
oca a m
que aqui prov dem melhorar
adotam, mas rt aç ões também po
. A s ex po
ero ideológico o mercado
não ser o exag o n os so co ntinente , pois
te pa ra
ho, notadamen
um pouquin
muito ruim.
mundial está
s assim.
o qu e n ão es tamos tão ruin
ção, verã
prestarem aten e você veja
Mas, se vocês n ão d ev emos perder –
eu di ss e ,
al , conforme eles não são bu
rros do
Do lado cambi m d e vi r, e
s não para
imentos direto lido. Pelo lado
que os invest si st em a financeiro é só
não , o
siness também mercado inte
rno,
lado do agrobu se nta riscos, e o
n ão ap re
astecimento e expansão. É
endógeno, o ab r a pr incipal via d
o, d ev e se
mestre Furtad que vem vindo
por aí
como já dizia d es em pr eg o
mento de
cupam um au alta não acre
dita ,
claro que preo ri o mínimo. A m
o sa lá
de surrupiarem mundo é séri
o.
e a tentativa va economia do
l se r a oi ta
io de o Brasi
mas esse negóc
fiscal ao
o do E st ad o, e aí entram do
a questã
e atemoriza é o mal . É prec
iso
O que mais m bi to a coisa vai muit
Ness e âm
ntido amplo. ão, pois se ten
tarmos
político em se u m a pa ct u aç
so exige
Estado, mas is dar em nada.
reconstruir o ás si ca s isso não vai
enta çõ es cl
as pelas repres ovas formas d
e
intervir apen , que exige n
in u si ta da
ma situação através de
O país vive u r. O u va mos caminhar
av an ça
política para
representação os a lugar nen
hum.
, ou n ão va m
sociedade
uma frente da

o precipício.
es tã o se n do empurradas n
federativas e
As unidades que está ai qu
é co m ess e tipo de ajuste
não
décadas que
dizíamos há

36 RESISTIR É PRECISO
I N S I G H T INTELIGÊNCIA

vamos ar
rumar a parte fi
públicas scal . Ima
com uma gine-se q
uerer arr
política umar as
pancada m onetária contas
nos juros, às avessa
colocam s. Veja só
querem r a taxa n , dão um
eduzir a o espaço a
dívida b si d eral , em
o Estado r u ta fazendo 1 4 ,2 5% e
inteiro e cortes de
não cheg gastos. Vã
Com essa arão ao su o ter que
receita , o perávit p cortar
ajuste é i ermanen
nviável . te que de
fendem.
Os ortodo
xos enlou
queceram
a inflaçã com os ju
o fosse de ros, e disp
demanda araram a
suposto r . Você de s taxas c
emédio é strói a ec omo se
um vene o n o mia e pi
de a meta no, da pi ora o fisc
de inflaç or espécie al . O
ão ser pr . E ainda
draconia a ticamente te m essa fixa
no perseg para o cu ção
uir uma rtíssimo
as polític i n fl a ção mais p r a z o . Ora , é
as altern baixa sem
ativas. C te m p o
velocida o mo não é p ara efetu
de , tome possível ar
de recess reduzi-la
ão. com tam
anha
É preciso
mexer pr
ofundam
ataque d ente ness
estrutivo as polític
. Para co as e prot
salário r n se rtar o fisc eger o Est
eal , prod al sem si ado desse
uzir as m mplesme
nossa ba aiores re nte deton
se de dese cessões da ar o
nvolvime história
n to e seu cap e d iz i m ar toda a
BNDES, ital simb
etc . – pr
ecisamos ólico – P
das medi construi etrobras,
das é qu r os conse
e vai em nsos por
purrá-la fo ra . A pa
Congresso s para qu ctuação
, que nã e elas seja
o é mais m aprov
um facili adas pelo
tador fisc
al .
Confesso
que nun
ca vi um
minha v “antidese
ida , qua nvolvime
nto neste ntismo”
n o ss o tão grand
criados n tempo. T e em
o interio odos os i
r do Esta nstrumen
sendo an d o para ala tos que fo
iquilado vancar o ram
s. E pare desenvolv
isso acon ce haver imento e
teça . A v um praz stão
erdade é er sádico
q u e aqui e e m fa z er com q
seguiram no resto d ue
a reboqu o mundo
e do inv os empre
deu as d estimento sários
iretrizes público,
e o finan que const
ciamento ruiu a p
dos proje auta ,
tos. Será
que pensa
m que os

OUTUBRO • NOVEMBRO • DEZEMBRO 2015 37


I N S I G H T INTELIGÊNCIA

u os bancos
senvolvimen to nacional? O
vã o se r a va nguarda do de
chineses
rnacionais?
piranhas inte
rtância
et ro br as , qu e , além da impo
es é a P
mas mais grav que o Pré-sal
. Ela
Um dos proble bó lica maior do
en ta çã o si m
m uma repres asileiro, e
econômica, te pr ob le m a do Estado br
bras é um
mada. A Petro ná-la e dizer
que
está sendo dizi é ac eitável abando
ta do . N ão
que ser enfren ue uma
como tal tem ta m in or itário. A té porq
do acio n is
lema per si ou a economia .
ela é um prob di fe re nça para toda
a br u ta l
alecida faz um
Petrobras fort
lvanizar a
br as se ja um a forma de ga
ro
iança pró-Pet m foco, sem
Talvez uma al o fo i pa ra as ruas, mas se
em ju n h
sa mesma que Um programa
de
juventude , es sl ogans simples.
ec is am de
anifestações pr ez possa fazer.
organização. M es ta çã o. A Petrobras talv
a man if
z acontecer um
governo não fa
tribuir para
e n ov o m od elo, possa con
ES, ness
ditar que o CD nça sob a form
a de
Eu quero acre um a nova lidera
co n st it u a
e organizada telectual etc. M
as
que a sociedad di ca li st a, mulher, in
io , si n
tudo, empresár discutir
pactos. Ele tem fa ze r um a pa uta fechada,
s, tem que
escolher pessoa endem só a
não adianta só , m es m o importantes, at
estões qu e
s e sair das qu
as prioridade
cíficas.
demandas espe
nfrontar os
te tã o ru im . O que pode co
camen
tempo ideologi ebrar a inérci
a
Eu nunca vi um m íd ia horrorosa e qu
paço n es sa
resse , abrir es haram as dele
s.
grupos de inte pr ot ofascistas já ac
ra is e os
a. Os neolibe sa via tem de
é essa outra vi h o in st it ucional . A nos
do ap ar el
param dentro e cedermos
Inclusive acam bu sc ar m os a saída unidos
so. Se não
ção do consen
vir da constru la na cabeça .
m o é m el h or colocar uma ba
ao pessimis

é onde der.
resistência, at
Eu prossigo na

38 RESISTIR É PRECISO
I N S I G H T INTELIGÊNCIA

OUTUBRO • NOVEMBRO • DEZEMBRO 2015 39


I N S I G H T INTELIGÊNCIA

TACHISMO FELIPE CATTAPAN


MÚSICO

Algum autor
algum dia
em algum livro escreveu
que para se escrever poesia
basta cortar os pulsos sem agonia
e ver o sangue verter sem pudor

meu sangue vertido


correndo, escorreu
recorrendo, discorreu
convertido no vértice
desta folha de papel:
não vi poema, não virei poeta
só vejo aqui este borrão sem meta

Algum leitor
algum dia
talvez trace com fantasia
o esboço de um sentido
para o impulso irrefletido
deste meu nada desmanchado

Entretido
omito a minha dor borrada
revendo meu borrão sem estética
evitando rever a cor
do maior dos borrões sem métrica:
este branco latente no papel
permanente na sua ausência de ética;
inerente às cores de qualquer pincel
e onipresente em sua abstrata geometria;
indiferente à nossa mancha assimétrica
e ao nada de qualquer poesia.

O autor é regente de orquestra e professor do Departamento


de Música da Universidade de Artes de Berna, Suíça.
felipe.cattapan@gmail.com

42 O VERMELHO E O BRANCO
I N S I G H T INTELIGÊNCIA

OUTUBRO • NOVEMBRO • DEZEMBRO 2015 43


A l m i n o
José

c a
n c ar

n
e

s
l

i
A
r
d e

T
s e
eta
social, po
Cientista literário
e crítico

A
de

44 TRIO MARAVILHA
E
m primeiro lugar, escla- apenas dois estiveram presentes: os delas tinha um objetivo de preven-
reça-se: a “nossa” Confe- Estados Unidos e o México; o Brasil, ção: a I Convenção para a Solução
rência de Haia foi a Segun- convidado, não compareceu. Pacífica dos Conflitos Internacio-
da. A Primeira Conferên- Originalmente tinha por objetivo nais, que incluía a criação de um
cia da Paz de Haia ocorreu entre 18 discutir dois temas correlatos: o Tribunal de Arbitragem. As duas
de junho e 29 de julho de 1899. Fora armamentismo e formas pacíficas demais Convenções e as três De-
convocada pelo czar Nicolau II, sob o para contornar os conflitos entre clarações lidavam com controle
patrocínio da rainha Guilhermina da os Estados. Naquela ocasião, en- de armas e a proteção das popu-
Holanda, e contou com a participação tre as três Convenções e três De- lações civis, dos territórios ocu-
de vinte e seis países. Das Américas, clarações adotadas, somente uma pados ou de feridos.

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Cinco anos após, em 21 de outu- de enorme volume de investimentos das periódicas crises sucessórias,
bro de 1904, durante a presidência internacionais – quando ocorreram atravessava o segundo ano do qua-
de Theodore Roosevelt, quando este aumentos consideráveis e rápidos da triênio de Afonso Pena, seu quarto
está prestes a realizar o seu papel de produção e da ocupação territorial, presidente civil. O país procurava se
mediador na guerra russo-japonesa ajudados ainda por um grande flu- afinar com as transformações eco-
em curso, os Estados Unidos enviam xo de imigrantes da Europa e da Ásia nômicas e políticas que mobilizavam
carta circular a todos os signatários para a América. As potências mun- as sociedades europeias mais avan-
das Convenções e Declarações de diais engajavam-se na colonização de çadas e dos Estados Unidos. E as reu-
1899 afirmando a necessidade de vastas porções dos continentes afri- niões e foros multilaterais começa-
um novo encontro internacional que canos e asiáticos em busca de ma- vam a fazer parte integrante das re-
levasse adiante os avanços consoli- téria-prima para alimentar o desen- lações internacionais.
dados em Haia. Os americanos pro- volvimento industrial e o consumo de Os principais personagens bra-
puseram também uma ampliação do uma população crescente; ou, sim- sileiros na II Conferência de Haia –
número de participantes e criaram plesmente, impulsionadas pelo âni- o barão de Rio Branco, Rui Barbosa
condições para uma presença mas- mo concorrencial interimperialista. e Joaquim Nabuco – de certa forma
siva de delegações latino-americanas. A afirmação de novos e importan- simbolizavam o processo de coopta-
Da Segunda Conferência da Paz tes atores no cenário mundial – os ção e os arranjos entre grupamen-
de Haia, o senso comum reteve a Estados Unidos, o Japão e a Alema- tos políticos diversos, que caracte-
imagem de uma participação im- nha – e a multiplicação dos interes- rizavam o regime desde o estabele-
portante do Brasil na política inter- ses comerciais e financeiros decor- cimento da política dos governado-
nacional, quando a delegação bra- rentes aumentavam as possibilidades res por Campos Sales.
sileira chefiada por Rui Barbosa te- de confrontos de todo tipo. Ao mesmo Em 1899, Nabuco aceitara o con-
ria enfrentado as representações tempo, mudava-se a escala do pode- vite do governo para defender a po-
das grandes potências na defesa da rio político e militar, e as inovações sição brasileira na questão de limi-
igualdade jurídica entre as nações. tecnológicas tornavam possível um tes com a Guiana Inglesa; questão,
Na maioria das vezes, desconhece- arsenal bélico mais destrutivo, que aliás, da qual o Brasil sairia derro-
-se o seu propósito, o quadro histó- poderia vir a compensar ou a rede- tado, cinco anos mais tarde. Cria-
rico em que se desenvolveu, assim finir as diferenças convencionais en- da a Embaixada do Brasil em Wa-
como se ignoram as suas eventuais tre os exércitos nacionais. Em uma shington, durante o governo de Ro-
repercussões futuras. ordem mundial plena de fricções, drigues Alves, ele é nomeado em-
de tensões e disputas, surgem en- baixador do Brasil. Em 1907, ocu-
O CONTEXTO INTERNACIONAL tão as Conferências de Paz de Haia, pava, portanto, um lugar privilegia-
E NACIONAL. que podem ser consideradas como do junto a um dos países-chave na
A crise financeira de 1873, que as primeiras iniciativas diplomáticas II Conferência.
desencadeou uma profunda depres- para desenvolver e codificar algu- O advento da República surpreen-
são nas economias européias e nos mas normas gerais de direito inter- deria o monarquista e conservador
Estados Unidos até o fim da década, nacional, visando a prevenir, conter Rio Branco no posto de cônsul-ge-
deu lugar a uma concentração das ou mitigar os resultados dos confli- ral do Brasil em Liverpool, onde se
organizações produtivas e das ins- tos entre nações1. encontrava desde 1876 e, no qual,
tituições financeiras, própria dos ci- No Brasil, dezoito anos após a sua poupado pelo novo regime, ficará
clos de crescimento: foi um período proclamação, a República, apesar até 1896. Em 1893, no governo de

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Floriano Peixoto é mandado a Wa- Reaproximando-se do situacionis-


shington para as negociações de li- mo, durante os dois quatriênios se-
mites com a Argentina, que seriam guintes, o de Afonso Pena e o de Ro-
mediadas pelo presidente americano drigues Alves, Rui Barbosa talvez te-
Glover Cleveland e terminariam aos nha então conhecido o seu mais longo
cinco de fevereiro de 1895, com de- período como governista. Em janeiro
cisão beneficiando o lado brasileiro. de 1906 é reeleito senador pela Ba-
De volta à Europa, passa a asses- hia e eleito vice-presidente do Sena-
sorar o então ministro do Exterior, do. Em 1907 é nomeado pelo Governo
Gabriel de Piza, nas discussões di- para representar o Brasil em Haia.
retas com o Governo francês sobre
os limites com a Guiana Francesa. A CONFERÊNCIA E OS TELEGRAMAS
O caso veio a ser submetido ao ar- Por ocasião da Segunda Confe-
bitramento do presidente da Confe- rência Internacional da Paz de Haia,
deração Helvética, em abril de 1897; inaugurada no dia 15 de junho 1907
e, para conduzir a apresentação do e encerrada em 18 de outubro do
caso, Rio Branco é então nomeado mesmo ano, Rui Barbosa e Rio Bran-
enviado extraordinário e ministro co mantiveram uma correspondên-
plenipotenciário em missão espe- cia telegráfica intensiva, ordenada
Os principais personagens
cial em Berna, na Suíça. Em primei- de maneira a permitir a identificação brasileiros na II Conferência
ro de dezembro 1900, a decisão veio rápida dos tópicos e das referências de Haia – o barão de
inteiramente a favor do Brasil. Dois surgidos durante o desenrolar dos Rio Branco, Rui Barbosa
anos após, ele é nomeado ministro trabalhos. O conjunto dessa corres-
e Joaquim Nabuco – de
das Relações Exteriores por Rodri- pondência – na sua forma original
gues Alves. ou em cópias – pode ser encontrado
certa forma simbolizavam o
Liberal durante o segundo rei- na Fundação Casa de Rui Barbosa. processo de cooptação e os
nado e republicano de última hora, Ao todo, foram 367 telegramas: arranjos entre grupamentos
Rui Barbosa será reconhecido pela 194 expedidos por Rio Branco e 173 políticos diversos
República como um aliado, tendo um enviados por Rui, entre nove de ju-
papel, como é sabido, dos mais im- nho de 1907, data da primeira men-
portantes na implantação do regime, sagem do Barão, e 13 de dezembro
do qual foi ministro da Justiça e da do mesmo ano, quando Rui Barbo-
Fazenda, além de vir a ser o principal sa remete o seu último telegrama,
redator da sua constituição. Rompi- pouco antes de viajar de volta para
do com o florianismo, refugia-se na o Brasil, onde desembarcará no Rio
Inglaterra em meados de 1894. Re- de Janeiro, em 31 de dezembro de
torna ao Brasil em julho de 1895 e 1907; perfazia-se, assim, uma média
retoma a sua cadeira do Senado e de 3,3 telegramas por dia durante
militância como jornalista no início os debates e de 2,3 telegramas por
do governo de Prudente de Moraes, dia para todo o período da estadia
o primeiro presidente civil. de Rui na Europa. A frequência dos

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telegramas, a agilidade nas respos- Joaquim Nabuco licencia-se para e decisões7. No conjunto de telegra-
tas e a presença de espírito revela- “tratamento de saúde” na Europa. Rio mas trocados entre Rui Barbosa e
das nas mensagens revestem o diá- Branco convida-o a transformar a Rio Branco, a colaboração de Joa-
logo entre os dois homens públicos viagem em missão de trabalho e pe- quim Nabuco, com documentos e su-
de uma estrutura dramatizada, vi- de-lhe que se empenhe em ajudar a gestões, é invocada com frequência.
vaz, por si só interessante e que vem criar um ambiente favorável à dele- A oito de junho de 1907, Rui Bar-
acentuar certos traços expressivos gação brasileira em Haia. No dia 13 bosa com a sua família e comitiva
na elaboração da posição da dele- de junho, Nabuco envia de Paris um chega a Paris. Ainda na capital fran-
gação brasileira naquela Conferên- documento a Rui Barbosa, Notas Con- cesa (só chegaria a Haia no dia 13),
cia, a primeira reunião multilateral fidenciais, onde traça perfis dos de- recebe telegramas de Rio Branco
da qual o País participou2. legados à Conferência e faz comen- nos quais se delineiam a agenda, o
Forte na sua atuação na Conferên- tários sobre as tendências entre as conteúdo e o escopo das discussões
cia Pan-Americana3, o nome de Joa- delegações, em um relato quase in- que serão realizadas durante a Con-
quim Nabuco havia sido o primeiro a formal, entre amigos, escrito em pa- ferência. Vale sublinhar que as ins-
ser cogitado para conduzir a delega- pel de carta do Hotel La Pérouse. O truções para a delegação norte-ame-
ção brasileira. Em dado momento, Rio fragmento abaixo ilustra o tom geral ricana junto à II Conferência da Paz
Branco convidou a Joaquim Nabuco e da mensagem: em Haia – obtidas por Nabuco em
a Rui Barbosa, como delegados pleni- Washington – servem de referência
potenciários. Rui era vice-presidente O Esteva [Gonzalo A. Esteva] Primeiro para a organização dos tópicos le-
do Senado, portanto, o segundo na li- Delegado do México, é muito polido, mas vantados pelo ministro:
nha de sucessão presidencial4, o que frio e muito susceptível e exigente em
lhe daria a prerrogativa de ser o pri- questões de forma. Ele foi meu colega 09/06/07 De Rio de Janeiro a Haia
meiro delegado. Nabuco era embai- em Roma e é meu amigo. [...] O México No telegrama seguinte, número 3, apre-
xador e parece ter declinado do con- é o rival da Argentina na América Es- sento resumo das instruções do gover-
vite ao constatar que nenhuma outra panhola e politicamente mais impor- no americano segundo telegrama de
delegação americana enviaria um tante pela proximidade dos Estados Nabuco 30 maio. Assuntos são nume-
embaixador em posição secundária5. Unidos, o que o torna um agente des- rosos para que nós possamos referir
No entanto, ambos se empenha- te para as nações da mesma língua. O depois a cada um.
ram em desfazer qualquer possível México procurou muito tempo fugir a Rio Branco
desentendimento. Em 1° de abril de essa aproximação, mas hoje compre-
1907, Rui dirige-se a Rio Branco acei- ende melhor o seu interesse e os Esta- Essas instruções, divididas em
tando a posição oferecida e logo em dos Unidos lhe estão insuflando o seu onze itens, foram enumeradas em
seguida, no dia 2 de abril, telegrafa espírito pouco a pouco. Entre o Méxi- dois outros telegramas:
a Nabuco: Aceitei Haia contando sua co e a Argentina não tenho dúvida de
companhia. Abraços. Rui. Ao que o que eles prefeririam elevar o México 11/06/07 Rio – Haia
outro responde no mesmo dia: Saú- tanto na Haia como em qualquer ou- 1. Conveniência prazo periódico futu-
de obriga-me declinar, mas estarei tra ocasião .
6
ras conferências.
em pensamento seu lado, orgulho- 2. Não se envolver negócios políticos
so ver Brasil assim representado A partir de então, segue-se, en- europeus, mas havendo probabilida-
entre nações. Muitos muitos para- tre os dois, uma série de comunica- de resultado, apoiem proposta limita-
béns. Nabuco. dos sobre o desenrolar dos debates ção armamentos.

48 TRIO MARAVILHA
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3. Arbitramento deve ser sujeito aos O “pensamento [do] presidente” é Entretanto, sem que Inglaterra, França,
termos dos Tratados já celebrados transmitido nos dias 18 e 19 de junho, Alemanha, Itália concordem em desis-
pelos Estados Unidos, excetuando ca- através de três longos telegramas10. tir da cobrança militar em certos ca-
sos de interesses vitais, independên- O governo brasileiro basicamente se sos qualquer acordo entre países de-
cia e honra e estabelecendo que cada alinha à maioria das posições dos vedores seria infrutífero11.
compromisso fique sujeito à aprova- Estados Unidos, fazendo, no entanto,
ção Senado. restrições quanto a duas questões, Acrescenta Rio Branco, em dois
4. Favorecer criação [de] um Tribunal a da “limitação de armamentos” e a telegramas do dia 19, que também
Arbitral permanente composto de juízes “cobrança das dívidas”, como se vê não seria conveniente antagonizar os
bem pagos. Resto deste despacho ex- neste trecho de um dos telegramas: países hispano-americanos, simpáti-
pedirei dentro pouco. (ass. Rio Branco). cos à doutrina Drago, além de acre-
Rio 12/06/07 Reservado 18/06/07 ditar ser inócua qualquer propos-
Continuação do número 3 de 11[/06] Cumprindo ordens Presidente, tenho a ta sobre o assunto que não tenha o
ao Senador Barbosa. honra de indicar seu pensamento so- apoio dos credores. Finalmente, no
5. Imunidade no mar da propriedade par- bre questões principais que aí vão ser que diz respeito à arbitragem, ma-
ticular inofensiva em tempo de guerra. ventiladas. nifesta-se firmemente contra qual-
6. Procurar obter prazo que preceda Para brevidade e clareza, refiro-me quer medida que a torne obrigató-
começo operações de guerra. parágrafos meu telegrama Nº. 3 de 11 ria em qualquer circunstância. A li-
7. Propor Código Naval Americano como do corr[ente]. mitação de armamentos não chegou
base para regras a formular as maté- Sobre § 1,5,7,8,9,10 ele está de pleno a tomar importância durante os de-
rias que ele abrange. acordo instruções delegado america- bates. A delegação brasileira atuará
8. Não convém adotar regras para mi- no. Também concorda primeira parte e terá posição de destaque, quando
tigar males da guerra com prejuízo dos § 2. Questão indicada ultima parte § 2 a conferência vem a considerar as
direitos dos neutros, nem regras quan- parece será levantada, mas ela só in- duas últimas questões: a cobrança
to aos direitos dos neutros que facili- teressa grandes potências militares coercitiva da dívida de países e o ar-
tem as guerras. europeias, Japão, Estados Unidos. Não bitramento.
9. Reduzir quanto possível listas dos estamos em situação limitar nossos
artigos de contrabandos de guerra. armamentos e não convém aceitemos A QUESTÃO DRAGO
10. Fim da Conferência é verificar e equivalência naval em qualquer acor- Embora as três décadas que an-
pactuar aquilo em que nações estejam do sobre limitação armamentos com tecederam à primeira guerra mun-
unânimes e não coagir nenhuma a as- Argentina como esta desejaria, ten- dial tenham sido de expansão das
sentir no que não aprove. Todavia, es- do litoral e território menos extensos exportações sul americanas, du-
tando diversas acordes num princípio que Brasil. rante o período alguns países fo-
poderão finalizar convenções abertas [Sobre] § 11pensa o presidente que se- ram afetados por crises derivadas
à adesão das demais. ria impolítico contrariássemos governo desses desequilíbrios e tiveram de
11. Fórmula sobre a questão Drago militar americano na questão da cobrança de enfrentar os problemas resultan-
por dívidas que Vossência já conhece8. dívidas e nos separássemos de quase tes de um crescimento descontro-
Pensamento Presidente sobre ponto
9
toda a Hispano-America, convindo-lhe lado de seus débitos. No Brasil, sa-
essenciais será telegrafado hoje. saiba confidencialmente que, só para bemos que, frente a uma forte des-
(ass) lhe ser agradável, Brasil o acompanha- valorização da moeda e ao aumento
Rio Branco rá até onde for possível nesse terreno. considerável de sua dívida externa,

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I N S I G H T INTELIGÊNCIA

a presidência Campos Sales (1898- caibo em mensagem ao Secretário


1902) entrou em um acordo com os de Estado norte-americano John Hay:
bancos credores ingleses, conheci-
do como “funding loan” 12, ao mesmo El cobro militar de los empréstitos su-
tempo em que empreendia um gran- pone la ocupación territorial para ha-
de programa de estabilização finan- cerlo efectivo y la ocupación territorial
ceira e fiscal. significa la supresión o subordinación
Diferentemente do Brasil, países de los gobiernos locales en los países
com economias menos desenvolvidas a que se extiende. Tal situación apare-
– frequentemente mal geridos – fra- ce contrariando visiblemente los prin-
gilizadas pela insolvência e sem cre- cipios muchas veces proclamados por
dibilidade junto ao mercado credor las naciones de América y muy parti-
para renegociar os seus débitos vi- cularmente la Doctrina de Monroe con
ram-se compelidos à moratória uni- tanto celo sostenida y defendida en todo
lateral. Foi o que aconteceu com a Ve- tiempo por los Estados Unidos, doctrina
nezuela, quatro anos depois do acor- a que la República Argentina ha adhe-
do brasileiro com a banca londrina. rido antes de ahora13.
As principais potências credoras
Diferentemente do exigem o pagamento imediato de seus A resposta de Hay ao governo da
Brasil, países com créditos, ajuntando-se pedidos de Argentina deixa claro que a concep-
economias menos indenização para os seus nacionais ção americana sobre a solidariedade
desenvolvidas viram-se por prejuízos incorridos durante os pan-americana é bastante divergente:
vários levantes armados. Em dezem-
compelidos à moratória
bro de 1902, Alemanha, Inglaterra e The President declared in his messa-
unilateral. Foi o Itália bloqueiam a costa Venezuela- ge to Congress, December 3, 1901, that
que aconteceu com a na e, logo a seguir, França, Holanda, by the Monroe doctrine ‘we do not gua-
Venezuela, quatro anos Bélgica, Estados Unidos, Espanha e rantee any State against punishment

depois do acordo brasileiro México apresentam suas cobran- if it misconducts itself, provided that
ças para que também fossem con-
com a banca londrina punishment does not take the form of
sideradas. A mediação americana the acquisition of territory by any non-
deu lugar à suspensão do bloqueio -American power’. 14
(que durou três meses) e à elabora-
ção de um acordo de escalonamen- Manifestando-se apenas contra
to da dívida, assinado em fevereiro a ocupação territorial, ela reduzia
de 1903 em Washington. em muito as pretensões do minis-
Em 29 de dezembro de 1902, em tro argentino. A questão foi levada
meio à repercussão provocada pela à Terceira Conferência Pan-ameri-
agressão à Venezuela, Luis Maria cana em 1906, no Rio de Janeiro.
Drago, então chanceler argentino, Decidiu-se na ocasião encaminhá-
denuncia o bombardeio dos portos -la para a II Conferência da Paz,
de Guayra, Puerto Cabello e Mara- ocasião em que estariam presen-

50 TRIO MARAVILHA
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tes tanto países credores, inclusi- circunstâncias políticas. Submeto, po- Ao que Rio Branco responde ime-
ve as nações agressoras da Vene- rém, meu juízo ainda dependente re- diatamente:
zuela, quanto devedores. flexão [e] opinião governo, Vossência.
Em Haia, após seus primeiros [...] Rui Barbosa. 14/7/07. Se, como afirma Buchanan, to-
contatos com o delegado dos Esta- das as potências apóiam proposta que
dos Unidos, Rui envia o seguinte te- No dia seguinte, Rio Branco sim- V.Exa. me comunicou no seu Nº 3, entre
legrama sobre a questão: plesmente reafirma a posição do pre- elas devem estar as credoras. Haveria,
sidente Afonso Pena: Seria impolíti- sem dúvida, vantagens em mostrar de
Staats 3/7/07 Exteriores. Rio [de] Janeiro co contrariássemos governo ame- passagem na exposição a diferença
[A]mericanos insistem atitude ques- ricano nessa questão. Rio Branco ( entre essa proposta que aceitamos e
tão suscitada pela nota Drago. Bucha- 4/7/07) Resumidamente, a proposta a primeira indicação argentina. Certo
nan acaba comunicar-me confiden-
15 norte-americana não excluía o em- é, porém, que argentinos hão de se ir-
cialmente proposta vão apresentar. prego da força na cobrança, apenas ritar embora V.Exa o faça com toda a
Eis termos fielmente resumidos. In- limitava o seu uso aos casos em que delicadeza guardando para com eles
tuito evitar nações conflitos armados não fossem aceitos processos de ar- todas as deferências. [...] V.Exa., que
origem puramente pecuniária, deriva- bitragem ou quando as decisões re- conhece como não podemos conhecer
dos dívidas contratuais de governos sultantes de tais processos não fos- de longe o meio em que está operando,
a estrangeiros impedindo tais dividas, sem observadas. Além disso, referia- procederá como lhe parecer melhor
não liquidadas meio amigável via di- -se a toda e qualquer dívida contra- votando silêncio somente neste caso
plomática, deixem de passar por ar- tual e não somente às dívidas públi- ou executando o plano que nos comu-
bitragem, se estipulará não recorrer cas. Dez dias depois, Rui volta a co- nicou no seu [telegrama do 3/7]. [...]
medida envolva emprego forças mi- municar o resultado de seus conta- Rio Branco
litares cobrança essas dívidas, sem tos com Buchnan:
que primeiro credor proponha arbi- No dia 18 de julho, Luis Drago faz
tragem, recusando ou calando o de- Staats 14/7/07 Exteriores Rio [de] Janeiro um pronunciamento na primeira co-
vedor, ou feita arbitragem estado de- Conversa hoje Buchanan. Disse-me pro- missão reiterando as suas teses e
vedor desobedeça sentença. Outros- posta americana [...]terá apoio todas criticando a proposta americana:
sim, que arbitragem seguirá proces- potências. Pediu-me não executasse
so capitulo terceiro, primeira conven- meu plano exposição aprovado Vos- Aceitando [...] a proposta dos Estados
ção Haia 1899, determinando justiça sência. Consideram irritante [e] im- Unidos, que apoia o uso da força para
e importância, débito, tempo, modo, político; acentuou divergência entre executar sentenças de arbitramento
pagamento e garantia, quando caiba essa proposta e argentina. Submeto que tenham sido ignoradas, dar-se-ia
caso mora. Esta proposta admite legi- assunto opinião Vossência. Todo caso um grande passo para trás ; seria re-
timidade cobrança guerra que Drago parece não devemos votar silenciosa- conhecerr a guerra como um recurso
condenava absoluto. Peço suas instru- mente. Talvez cumpra subordinar nos- ordinário do direito [...] 16.
ções assunto. Creio poderíamos aderir, sa adesão ao assentimento todas as
manifestando conferência exposição nações credoras. Sinto-me constran- Rui Barbosa notifica ao Brasil e
nossos escrúpulos opinião brasileira gido nesta questão. Peço resposta ur- anuncia em telegrama do dia 20/7:
contrária doutrina Drago, mostrando gente. Leitura jornais Rio, vejo opinião Farei exposição anti-Drago. Falarei
diferença entre esta e argentina, acei- ai desconhece estado assunto. Convi- Mercadier17 transmissão resumo.
tando aquela como transação, dadas ria esclarecê-la [e] prepará-la [...]. Rui O discurso Rui Barbosa em 23 de

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julho distinguiu-se de todos outros não desejaríamos expor aos estragos reabertura de questões de fronteiras
pronunciamentos sobre o assunto18: da malevolência, tão alerta sempre nas com países latinos americanos vizi-
relações entre as nações, como nas en- nhos que haviam recentemente sido
Se se trata de abolir a guerra, muito tre os indivíduos. Éramos, somos de- negociadas sob a sua liderança. De
bem. [...] Mas, se o que se pretende é, vedores, e poderíamos ainda precisar todo modo, as instruções do barão
admitindo como legítimos outros casos recorrer aos mercados estrangeiros. eram para se opor a toda tentativa
de guerra, criar uma categoria jurídica Não queremos, pois, arriscar-nos a in- de se criar uma corte permanente
de imunidade absoluta para este, então correr na desconfiança dos que tan- a qual fossemos obrigados subme-
convém examinar se os vossos argu- tas vezes temos encontrado prontos a ter – como está no telegrama acima
mentos de direito são em verdade ir- concorrerem para o desenvolvimento – quaisquer questões que surjam.
refragáveis19 [...] A guerra não é injus- da nossa propriedade, pois Deus nos Ora, as grandes potências euro-
ta porque o patrimônio de uma sobe- poupou de conhecer a usura, de nos peias e os Estados Unidos já haviam
rania seja inacessível à apreensão mi- defrontar com essa ferocidade do ca- formado consenso diverso24: atribuir
litar. O que torna injustas as guerras é pital, contra a qual é preciso armar-se. poderes de uma corte de justiça ao
a injustiça de seus motivos20. [...] Aqui, Nossos credores têm sido colaborado- Tribunal de Arbitragem criado na I
portanto, importaria saber se a viola- res inteligentes e razoáveis da nossa Conferência da Paz, com um corpo
ção de um direito, praticado quando a prosperidade23. de juízes permanentes e cujas deci-
nação não paga suas dívidas, autori- sões tivessem o caráter obrigató-
za internacionalmente o uso da força Poucos dias depois, Rui telegra- rio. Seriam indicados pelos 44 paí-
contra ela. fa anunciando a aprovação da pro- ses presentes, mas segundo crité-
posta dos Estados Unidos, com algu- rio em que os países mais importan-
O empréstimo de Estado é uma mas poucas abstenções, entre elas a tes teriam juízes permanentes, en-
convenção jurídica e não um ato de da Venezuela, único país americano quanto os outros – os países euro-
confiança. É ato de direito civil, como a tomar tal posição.Os Estados Uni- peus mais fracos, digamos assim, e
outros contratos pecuniários, e não dos consolidam assim a sua lideran- os latino-americanos – escolheriam
cabem na esfera da soberania; ou, ça vis-à-vis os países latino america- juízes rotativos25.
se constituem atos de soberania, não nos, na verdade os únicos que se inte- Desde o inicio da Conferência,
são contratos21. Christiane Laidler22 ressavam diretamente pela questão. Rui Barbosa declarou em plenário
observa que nem as delegações das Na II Conferência a proposta passou que, se aprovado pela Conferência o
potências defenderam o direito à co- a ser denominada de proposta ame- princípio da arbitragem obrigatória,
brança por meio da força como fez ricana, dissociando-a assim daque- o Governo brasileiro não o aplicaria
Rui Barbosa. Ao argumento jurídico, le que estava na origem do debate: às questões e litígios pendentes26.
Rui adiciona razão de política finan- Luis M. Drago. No Comitê A, criado para lidar com
ceira: a proteção do crédito interna- o assunto, ele apresenta um proje-
cional do Brasil, princípio aliás que O RECURSO AO ARBITRAMENTO to em que o principio da arbitragem
fora uma das suas preocupaçoes pri- Ao votar com a proposta ameri- é submetido a inúmeras ressalvas:
meiras, quando ministro da Fazenda cana, o Brasil cedeu à arbitragem
do primeiro gabinete republicano: obrigatória pelo menos no que diz às 1. Em questões em que não se alcan-
questões de dívida. No entanto, Rio ce entendimento por meios diplomáti-
O nosso crédito, sempre ileso, é uma Branco temia que a generalização cos, bons ofícios ou mediação, se tais
obra cuidadosamente edificada, que deste princípio pudesse estimular a questões não afetam a independência,

52 TRIO MARAVILHA
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a integridade territorial ou os interes- legado brasileiro à questão de sua niões plenárias do tribunal, cada país
ses essenciais das partes, suas insti- organização. No dia 3 de agosto, Rui terá somente um voto ainda que tenha
tuições e leis internas ou os interesses recebe as primeiras indicações de mais de um arbitro. Os países que não
de terceiras potências, as partes con- como seria a composição da Corte: quiserem ou puderem ter permanen-
tratantes comprometem-se a recorrer temente um arbitro ou representante
à arbitragem da Corte Permanente de Acabo ter notícia grave, americanos no tribunal em Haia, poderão escolher
Haia, ou se o preferirem à designação guardam segredo absoluto sobre or- livremente como seu arbitro ou repre-
de árbitros de sua escolha. ganização Corte permanente. Mas, por sentante no tribunal o de outra poten-
2. Fica entendido que as partes contra- amigo comum, tive confidência comple- cia. Poderão também reunir-se dois ou
tantes sempre se reservam o direito de ta: Tribunal terá dezessete membros mais países, designando e mantendo
não recorrer à arbitragem até esgota- base população. França, Inglaterra, um arbitro comum.
dos os bons ofícios e a mediação, se se Alemanha, Áustria, Itália, Rússia, Esta- Há grande diferença nesse agrupa-
dispuserem a recorrer a tais métodos dos Unidos, Japão, Holanda cada uma mento voluntario e no que se preten-
inicialmente. um membro. Os mais por grupos, se- de agora impor e que nenhuma nação
3. Em dissídios relacionados a terri- guinte modo: Espanha e Portugal; Bél- zelosa de sua dignidade e dos seus di-
tórios habitados, não se fará recurso gica, Suíça e Luxemburgo; Turquia e reitos poderá aceitar [...]
à arbitragem, exceto mediante prévio Pérsia, China e Sião; Suécia, Noruega Talvez convenha V.Exa. converse com
consentimento das populações atingi- e Dinamarca; Bálcãs.Nosso continen- Buchanan sobre assunto. Rio Branco
das pela decisão. te, México e America Central um, Amé-
4. Cada parte interessada decidirá fi- rica do Sul um. Vossência verá se por Rui envia um segundo telegrama
nalmente se a questão diz respeito à meio Washington, nos poupam tama- enfatizando novamente a gravidade
independência, integridade territo- nha e amarga humilhação. Verificada da situação, reiterando a questão de
rial, interesses vitais ou instituições .
27
ela, não compreendo Brasil possa dig- princípio, como se não antecipasse
namente continuar conferência. Rui acordo algum:
Este projeto recebeu uma forte
oposição. O representante russo, Rio Branco tem reação similar, Staats 4/8/07 Exteriores Rio [de] Janeiro
por exemplo, argumentou que a re- embora mais moderada e ainda es- Quanto assunto particular meu tele-
dação do art. 1º é tão restritiva que pecula sobre formas aceitáveis da grama ontem que, advertido de cer-
excluiria a maioria das questões que organização do tribunal: tas circunstancias muito custo conse-
foram objeto dos cinquenta e cinco gui descobrir, considero essencial se
laudos arbitrais do século XIX. E o 4/8/07 for apresentada proposta americana
presidente do Comitê, face ao con- O projeto da Delegação como [está] se- declarar imediatamente que não pode-
senso negativo que se formara, re- ria humilhação para Brasil e outros po- remos firmar convenção arbitramento
cusa-o, declarando que temia a na- vos americanos e destruiria todo efeito se ela reduzir pequenos estados, par-
tureza vaga da proposta brasileira, origem Root. No tribunal criado 1899, ticularmente America Latina a esta
especialmente o art. 4º, que poderia todos países representados primei- condição subalterna frações políticas
dar margem a uma interpretação ou ra conferência tinham árbitros. Assim porquanto em matéria natureza políti-
ampla demais ou muito limitada28. deve ser no novo tribunal que se vai ca como organização tribunal perma-
Derrotado quanto ao mérito, ou organizar, ficando a cada pais direito nente, Estados não podem comparecer
seja, quanto ao escopo e poderes da nomear um ou mais árbitros que fo- senão sobre si, cada um como um todo
Corte Arbitral, volta-se agora o de- rem fixados pela conferência. Nas reu- independente como uma unidade sobe-

OUTUBRO • NOVEMBRO • DEZEMBRO 2015 53


I N S I G H T INTELIGÊNCIA

rana, e nunca como quantidades fra- nas, algumas das quais já pesam tanto ses, dando um, um árbitro de ano num
cionárias amalgamadas, segundo ár- no mundo quanto algumas europeias. período de 10 anos e o outro no seguin-
bitros outros estados. [...] Rui Acha preferível inexistência semelhan- te período. Só entrariam na rotação os
te tribunal. Rio Branco países que se declarassem prontos
Ao mesmo tempo que endossa a pagar ao seu arbitro os vencimentos
posição do representante brasileiro No entanto, Rio Branco ainda in- fixados pela conferência e depositas-
em Haia, Rio Branco instrui o encar- siste em propor um projeto próprio sem adiantadamente em Haia a soma
regado de negócios em Washington, de composição do tribunal que sal- precisa para o pagamento de um ano.
Gurgel Amaral29, como relata em tele- vaguardasse a posição brasileira: Queira sem perda de tempo entregar
grama do 4/8, para que conferencie copia traduzida parte essencial deste
com Elliot Root e onde solicita que seja 15/8/07 Dirigi nossa embaixada Wa- despacho. [...]Rio Branco
relembrado prévio pronunciamento shington seguinte despacho: Sábado
do Secretário de Estado Americano: trata se em Haia organização tribunal Ao que Rui Barbosa responde
arbitral. Convém falar Departament State pessimista, no dia 16:
Secretário Estado, no seu memorável para que telegrafe a Root e Presidente Devemo-nos preparar hipótese prová-
discurso 31 Julho 1906, Conferência ver se concordam [...], como transação, vel recusarmos assinatura convenção,
Panamericana Rio de Janeiro disse: “We poderia ser adotado seguinte: Tribunal visto estarem americanos aferrados
deem the independence and equal ri- teria 21 membros em vez de dezesse- seu plano que delegação portuguesa
ghts of the smallest and weakest mem- te. 15 lugares seriam reservados aos garante-me absolutamente ser obra
ber of the family of nations entitled to países representantes Haia cuja po- e questão Root. Entretanto, vou apre-
as much respect as those of the grea- pulação exceda de 10 milhões de ha- sentar americanos ideias esboçadas
test Empire”. O projeto da Delegação bitantes incluindo população suas co- Vossência [...]
como seria humilhação para Brasil e lônias. São eles: Estados Unidos Amé-
outros povos americanos e destruiria rica, Brasil, México, Alemanha, Áustria, No dia seguinte (17/08), concluindo
todo efeito origem Root. Espanha, França, Inglaterra, Itália, Ho- o telegrama da véspera, Rui escreve:
landa, Portugal, Rússia, Turquia, China,
Três dias (7/8) depois, Rio Branco Japão. Os outros cinco lugares seriam Opino cingirmo-nos soluções que man-
informa sobre a posição americana: ocupados pelos demais países segun- tenham princípio igualdade todos os Es-
do o sistema rotatório adotado para o tados. Fora daí, incorreremos censura
Root acha Brasil deve ser representa- tribunal de presas. Em cada período interesseiros e agravaremos indispo-
do por árbitro próprio, mas pensa difí- de dez anos Bélgica e Pérsia dariam sição pequenos estados americanos
cil nove restantes republicas também juízes oito anos. Suécia, România, Ar- nosso respeito, enfraquecendo nossa
cada uma seu. [...]Acrescenta dificul- gentina, Suíça, Chile cinco anos. Peru, autoridade moral. Consequência seria
dades suscitam proposta não seriam Colômbia, Dinamarca, Grécia, Sérvia, talvez ficarmos fora convenção relati-
limitadas América, dar- se iam também Bulgária três ou quatro anos. Venezue- va tribunal permanente. Mas com isso
Europa, pois improvável Portugal, Espa- la, Guatemala, Bolívia, Cuba, Salvador, pouco poderíamos, porque assinaría-
nha desfrutem árbitro, Turquia e Pér- Equador, Uruguai, Paraguai um ano. De- mos convenção arbitramento obriga-
sia, Suíça e Bélgica, Suécia, Noruega. mais repúblicas americanas se reuni- tório e para este teríamos corte atual,
Diz mais que também ruim constitui- ram para nomear um árbitro por ano. além faculdade plena já reconhecida
ção tribunal produzirá ressentimen- Do mesmo modo Luxemburgo e Monte- conferência de recorrer outros árbi-
tos, além desprestígio nações america- negro ou alternando-se estes dois paí- tros. Assim, sairíamos nobremente,

54 TRIO MARAVILHA
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satisfazendo nossa consciência e opi- delegação que ai anda ligada às gran- cando a população como princípio
nião publica. Vossência engana-se atri- des potências militares, sem dar impor- geral satisfatório, levamos em con-
buindo culpa principal desta invenção tância alguma aos países da América ta ao mesmo tempo os interesses da
[aos] Estados europeus. Responsabili- Latina. Não tendo havido intervenção indústria e do comércio, e conscien-
dade capital pertence americanos, se- eficaz, só nos resta agora tomar a po- temente nos afastamos do princípio
guidos Alemanha [...]. Rui sição que a nossa dignidade nos impõe. de modo a fazer justiça a vários ou-
Já é tarde para sugerir outros alvitres tros interesses. O projeto, dizia ele,
E, no dia 18, como que confirman- e a rejeição do tribunal arbitral é o úni- respeita a igualdade jurídica de todos
do a sua apreciação negativa sobre co partido que nos resta. A parte prin- os estados, embora reconheça a su-
a atitude dos americanos: cipal nessa campanha deve pertencer perioridade da maior população, in-
ao Brasil e aos demais países latinos dústria e comércio desses Estados
Anteontem, Buchanan procurou-me da América, mas o concurso da Bélgi- que lhes dá direito a uma participa-
dizendo-me vagamente haverem re- ca, Suíça, Portugal e outros países da ção mais intensa na corte33.
cebido alguma coisa Washington nos- Europa será precioso para nós30. Em contrapartida, o Brasil apre-
so respeito e perguntando-me que al- senta um projeto de resolução per-
vitres sugeríamos. Respondi-lhe dan- Rui recebe a decisão com entu- mitindo a cada país a indicação de
do escrito confidencial, resumo pensa- siasmo: um juiz para o futuro Tribunal. Se-
mento governo brasileiro. Procurando- gue-se uma série de telegramas de
-me ontem novamente agradeceu-me Staats 19/8/07 Exteriores Rio [de] Ja- ambas as partes – Rui e o Barão –
comunicação, mas absteve-se discuti- neiro. Estou satisfeitíssimo firmeza nos- anunciando a simpatia ou a adesão
-la. Apenas disse como indicação políti- so presidente e linguagem Vossência. de vários países à tese brasileira.
ca, sugeria-me que se projeto houves- Extrema importância caso aconselha- Por exemplo, no dia 20/08, de Rui
se ser despedaçado como talvez seria -me telegrafar íntegra nossa propos- para Rio Branco:
conveniente, deixá-lo matar mãos Bél- ta escrevi correndo esta manhã para
gica, Suíça, Espanha, outros europeus apresentar amanhã tarde Comitê, de- Acaba sair aqui Beldiman34 da Româ-
não Estados Americanos. De noite ban- senvolvendo-a exposição oral. Despe- nia, um dos membros mais distintos da
quete inglês, de onde voltamos nosso sas telegramas crescem imensamen- Conferência Posemo-nos de acordo. Te-
automóvel, repetiu-me insinuação so- te, mas impossível evitá-las. mos mais já certos Bélgica, Suíça, Gré-
bre que Vossência refletirá. Parece- cia, Dinamarca, Sérvia, talvez Noruega.
-me difícil atendê-lo considerando te- Poder-se-ia dizer que este mo-
remos sempre manifestarmo-nos so- mento marca a reviravolta da delega- E, no mesmo dia, de Rio Branco
bre situação reservada projeto Esta- ção brasileira e sua adesão à da de- para Rui:
dos Americanos. fesa intransigente da igualdade jurí-
dica de todos os Estados, o que leva Suíça pleno acordo conosco, telegrafou
Rio Branco reage prontamente: Rui Barbosa a desenvolver esforços ontem Carlin35 entender-se com V.Exa.
para construir um sólido bloco polí-
19/8/07Sobre observação de Bucha- tico em torno deste princípio. A opor- Ou ainda, também no dia 20/08:
nan: Em Washington, procurei persua- tunidade surge quando da apresenta-
dir governo conveniência modificar no ção da proposta americana31, por um Fui colega de Beldiman Berlim36, sei foi
interesse da sua influencia política nes- seu delegado, James Scott Brown32 bom combatente Haia 1899. V.Exa. me
te continente, a inábil proposta de sua que argumentava: conquanto apli- obrigará, manifestando-lhe meu con-

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I N S I G H T INTELIGÊNCIA

tentamento, saber estamos acordo. E, neste, de 23/08: Sentimen- Staats 25/8/07 Exteriores Rio [de] Ja-
Creio não será impossível Rússia, Áus- to Bourgeois sobre desnecessida- neiro. Continuando refletir sugestão
tria, Itália nosso lado. Ansioso noticias de nova corte, semelhantes nossos. Choate, começo ver-lhe objeções. Pri-
sessão de hoje, mas convencido bons Ao se aperceber da dificulda- meiro. Suponho extravagante absurdo
resultado antecipo V.Exa. parabéns. de de aprovar o projeto da delega- estabelecer código de uma instituição
ção americana, Choate procura Rui ainda não organizada. Segundo. Co-
O Barão contabiliza os votos (20/08): Barbosa propondo-lhe um acordo nhecida vontade firme potências esta-
que recebe a simpatia do delegado belecer organização corte permanente
Com Bélgica, Dinamarca, Grécia, Româ- brasileiro: base desigualdade Estados, seria tal-
nia, Sérvia, Suíça, mais dezesseis ame- vez receado na ausência conferência
ricanas republica Argentina, Cuba, Pa- Staats 23/8/07 Exteriores Rio [de] Ja- pressão potências sobre países fra-
namá, teremos vinte e três votos, que neiro.Acaba sair daqui Choate, ten- cos para induzi-los aceder. Até agora
fazem maioria absoluta. do-me mandado pedir conferência nenhum representante quatro gover-
por Scott. Veio tratar possibilidades nos americanos Vossência indicados
E mais: acordo conosco, recusado por mim me tocou sobre ordens recebidas. Rui
alguns alvitres, sugeriu este. Projeto
24/8/07. Chile, Uruguai, Bolívia tele- organização corte permanente seria Diante das dificuldades crescen-
grafaram ontem suas delegações para aprovado, exceto ponto concernente tes em fazer passar o seu projeto
que apóiem proposta brasileira sobre composição tribunal, o qual por esti- os norte-americanos buscaram al-
tribunal arbitral. Recebido 67. Opinião pulação expressa, convenção ficaria gumas fórmulas alternativas. Uma
aqui cada vez mais acentuada favor reservado futuro ou acordo ulterior delas consistia em fazer o plenário
proposta de 20. Rio Branco potências. Prometi consultar governo. da Conferência eleger os juízes que
Tal sugestão dependeria ainda assen- compusessem o Tribunal. Ao lançar
Rui aproxima-se de Léon Bour- timento outros Estados com quem en- a proposta, o representante dos Es-
geois37, delegado francês que presidia tender-se-á. Mas a verificar-se talvez tados Unidos dizia – como se insi-
o Comitê A, que como ele não estava fosse boa transação. Projeto outros nuasse uma vasta cooptação – que
convencido da necessidade do novo respeitos, excelente trabalho jurídico ali mesmo na Conferência havia ho-
Tribunal, além de pensar que os ca- e anuindo americanos abrir mão ago- mens absolutamente competentes e
sos de arbitragem obrigatória deviam ra, princípio por nós impugnado pen- preparados para serem juízes por um
ser bem estudados38. Em pelo menos so teríamos notável triunfo, sendo isso período fixo ou até a próxima confe-
dois telegramas ele faz alusão a esta devido nossa iniciativa e perseveran- rência; e citou 30 delegados presen-
identificação entre a posição brasilei- ça de resistência. Sujeito porém mi- tes, excluindo o nome de Rui, que co-
ra e a posição francesa: nha opinião dependente ainda reflexão munica o incidente ao barão nos se-
ao juízo Vossência. Creio transigindo guintes termos:
Staats 20/8/07 Exteriores Rio [de] Janei- sem sacrifício, nosso principio sobre
ro. D’Estournelles ouviu-me simpatia
39
o qual ficaria adiada decisão sairía- Staats 5/9/07 Exteriores Rio [de] Janei-
resumo idéias nosso projeto, animan- mos airosamente sem desvantagens ro. Para execução deste plano, declarou
do-me defendê-las e descobrindo-me rompimento. Rui Choate haver conferência elementos
serem semelhantes às de Bourgeois, magníficos, citando Lammasch40, Beer-
que não simpatiza duplicação corte Porém, dois dias depois muda naert41, Descamps42, Matson, Bourgeois,
permanente. Rui de ideia: D’Estournelles43, Renault44, Zorn45, Von

56 TRIO MARAVILHA
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Bar46, Marschal47l, Kriege48, Fry, Sa- que propunha recomendar governos


tow , Streit , Tornielli , Denison , As-
49 50 51 52
organizarem Corte sujeita ao regime do
ser , Lohman , Hagerup , Martens ,
53 54 55 56
projeto aprovado com reserva dois ar-
Lou , Tsudzuki , Hamarskjold , La Bar-
57 58 59
tigos concernentes composição Corte,
ra60, Esteva61, Reay62, Saenz Peña63, Dra- logo que chegassem acordo sistema de
go, Larreta , Ordõnez . Assim, só ex-
64 65
resolve-la. Mostrei absurdo grosseiro
cluindo o Brasil. Não preciso outro ar- desse alvitre perigoso e conclui respon-
gumento, além desta injuriosa exclusão dendo balela geral sobre necessidade
para responder Choate, mostrando-lhe criarmos qualquer modo nova Corte
inaceitabilidade sistema eleição. Dele e para não desapontar opinião publica.
seus companheiros, dizia-me hoje Pro-
zor [Maurice, delegado russo]: Ce sout Por essa época, o barão ainda
des incapacités de tout premier ordre. nutria esperança de que pelo me-
nos alguns elementos da proposta
Diante do impasse, no de 5 de se- brasileira pudessem ser adotados:
tembro, organizou-se uma comissão
de sete chefes de delegação: Mars- 21/9/07
chall, da Alemanha, Kapos-Mere, da [...] Aceite V.Exa. as minhas felicitações.
Áustria, Tornielli, da Itália, Nélidow, Quanto ao projetado novo tribunal, tal-
Ao lançar a proposta, o
da Rússia, Rui Barbosa, Choate, dos vez não seja impossível que na reunião representante dos Estados
Estados Unidos, e Bourgeois, da Fran- geral da 1ª comissão prevaleçam ain- Unidos dizia que ali mesmo
ça, denominada pelo jornalista William da as duas indicações na nossa pro- na Conferência havia homens
Stead66 de comissão dos “sete sábios”. posta de 20 de Agosto: Nomeação de
absolutamente competentes e
Reunida, a comissão eliminou logo o um árbitro pago por cada estado e li-
projeto americano que passara a se vre escolha de 3, 15 ou mais juízes pe-
preparados para serem juízes
chamar de anônimo para poupar os las partes litigantes. por um período fixo ou até a
Estados Unidos. Ao mesmo tempo, de- próxima conferência
clarava que o princípio de igualdade Mas, Rui Barbosa à essa altura
entre estados era inviolável e rejei- já tinha, por assim dizer, o controle
tava o sistema rotativo para eleição do plenário e estava em situação de
de juízes67. A discussão mantinha- julgar melhor a relação de força que
-se bloqueada no que diz respeito à lá se estabelecera:
composição do Tribunal. Como me-
dida conciliatória, o delegado inglês Staats 21/9/07 Exteriores Rio [de] Ja-
propõe que se aprove a existência neiro. Peço não insistir renovação nos-
de uma Corte de Arbitragem, cuja so projeto comissão. Para que passar-
organização se faria quando acor- mos de vencedores a vencidos? Tenho
do houvesse. Rui Barbosa se opõe: consultado e sondado sobre essa ten-
tativa. Estou absolutamente certo re-
Staats 19/9/07 Exteriores Rio [de] Ja- vés. Nossos apoiadores miravam unica-
neiro. [Ontem] combati sugestão Fry68, mente salvar igualdade Estados, agora

OUTUBRO • NOVEMBRO • DEZEMBRO 2015 57


I N S I G H T INTELIGÊNCIA

vencedora. [...]Impressão geral é idéia Aliás, continuarei manter instruções julgamento pequenos, defendi estes im-
nova corte ainda imatura. Espíritos fa- recebidas, falando e votando mesmo putação terem causado naufrágio con-
tigados, sôfregos termos conferência, sentido. Telegramas última quinzena ferência, mostrei responsabilidade não
receiam qualquer renovação debate importaram 14.692 florins. Rui solução questões, cabe exclusivamente
capaz retardar conclusão. Recebê-lo- grandes estados, historiei acentuei im-
-iam como impertinência. Nossa pro- E Rio Branco, em nome de Afonso portância papel internacional Brasil, evi-
posta seria infalivelmente sacrificada. Pena, sanciona o acordo: denciei consequências fatais insistir-se
erro convencer Estados ser força militar
A Conferência aproximava-se do 9/10/07 Fica autorizado pelo presi- único critério distinção entre nações, fiz
fim e haveria ainda uma reviravol- dente à proceder amanhã como lhe ver rápido crescimento países america-
ta: os norte-americanos, procuran- parecer melhor: Aceitando a transa- nos, acidentalidade classificação entre
do uma saída honrosa e conciliató- ção, mas afirmando que não aceita- grandes pequenos Estados, discuti pre-
ria, propõem um acordo em torno da remos sistema que não seja o ado- tensão substituírem-se conferências por
emenda Fry, acenando com o apoio tado em 1899, pelo reconhecimen- Congressos grandes potências, susten-
dos países sul-americanos69: to da igualdade dos estados sobera- tei conquista conferência hoje irrevogá-
nos, que não aceitaremos o sistema vel e inevitabilidade conferência futura.
Staats 8/10/07 Exteriores Rio [de] Ja- de juízes periódicos meio de rotação, Dizem nenhum discurso foi aqui ainda
neiro. Acabam sair daqui novamente, nem de juízes escolhidos por eleito- ouvido tanta atenção manifestação re-
Gana, Matte mostrara-me cópia te-
70 res estrangeiros. Rio Branco cebidas foram gerais e extraordinárias,
legrama seu governo comunicando- sinto não poder resumi-lo, seria impos-
-lhe passo por ele dado, junto Vos- No mesmo dia, Rui Barbosa faz o sível só transmitindo todo caso Vossên-
sência, favor transação, apoio voto seu último discurso na sessão da Co- cia determinasse. Rui
Fry. Opinião deles tal resolução fica- missão A em nove de outubro. Nele,
rá letra morta, não acreditando faça traça um perfil da Conferência, ca- EPÍLOGO
nada governo americano sem concur- racteriza suas principais divergên- O Tribunal de Arbitragem é en-
so acorde Brasil, Chile, Argentina pelo cias, põe em relevo o papel dos pe- tão aprovado, com as reservas in-
que cedendo agora teríamos, sem quenos países nas questões inter- cluídas na proposta de Sir Edward
risco algum, vantagem não indispor- nacionais. E apoia a proposta de Fry. Fry. A grande vitória de Rui Barbosa
mos Estados Unidos, reproduzo leal- Segundo ele próprio, foi o seu melhor consistiu, portanto, em conseguir le-
mente considerações expostas para desempenho: var a Conferência a um impasse, le-
apreciação Vossência, não desejan- vantando uma maioria contra a posi-
do minha opinião pessoal nem meu Staats 9/10/07 Exteriores Rio [de] Janei- ção das grandes potências, o que por
voto anterior dado de acordo instru- ro.Sete horas meia, acabo chegar ses- sua vez produziu uma decisão rela-
ções Vossência sejam obstáculo re- são primeira comissão começada qua- tivamente anódina: mantinha-se um
consideração, caso governo a julgue tro horas. Aceitei voto Fry, falando cerca princípio, o da criação do Tribunal,
aconselhada por interesses superiores uma hora. Foi o meu trabalho mais im- ao mesmo tempo em que se adiava
nosso país. Não tenho amor próprio portante e meu melhor dia nesta confe- a sua execução.
em assuntos desta natureza, desejo rência. Expliquei nossa posição durante E, no entanto, não foi um resulta-
governo obre livremente atendendo ela, defendi nossa atitude corte perma- do trivial. Tem o mérito, por exemplo,
só conveniência nacional. Resposta nente, corte presas, respondi acusações de haver levantado uma questão até
dever chegar-me ate amanhã manhã. pretendermos sujeitar grandes estados hoje não resolvida em todos os es-

58 TRIO MARAVILHA
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forços para desenhar mecanismos sul-americanos na questão da dívida la o nosso voto com as suas duas re-
internacionais, assembleias de na- externa, evitando se identificar com publiquetas. Eu sei que V. pensa como
ções ou instituições multigoverna- uma posição que pudesse alienar os eu. A nossa política na Haia foi toda de
mentais: a questão da igualdade en- países credores, ou melhor, que o ocasião, em defesa própria, para evitar
tre as nações. Basta lembrar (é um mostrasse afastado das regras do- que nos amesquinhassem, mas desde
óbvio exemplo) a formação e o fun- minantes no mercado internacional que pensam em engrandecer-nos não
cionamento do Conselho de Seguran- do crédito. Além disso, tenta por al- devemos dizer que não entramos onde
ça das Nações Unidas, com os seus gum tempo, obter dentro do sistema não entram também S. Domingos e Hai-
membros permanentes e rotativos, de representação que era proposto ti. Tudo que devemos apurar da Con-
os primeiros com o poder de veto, uma posição que salvaguardasse o ferência, e de que nos devemos orgu-
fórmula quase análoga à que havia princípio da “honra e da dignidade lhar, é a reputação de alta cultura que
sido proposta para o Tribunal de ar- nacional”. V. criou para o Brasil. Esse é o grande
bitragem. A bandeira da igualdade entre as resultado dela para nós e por ele se-
Quanto à arbitragem obrigatória, nações que abrigou uma frente de rão poucas todas as manifestações que
além de receber os votos contrários países animados pela posição bra- lhe fizerem os Brasileiros. Demais na
da Alemanha e da Áustria, as reser- sileira só aparece em reação à pro- sua atitude, na sua veemência, no seu
vas quanto aos casos eram tantas posta de organização do Tribunal de gesto, V. mostrou bem que se sentia o
que nada seria possível além da de- Arbitragem das grandes potências. representante de uma grande nação e
claração geral de princípios71. A esse propósito, vale citar, a título que queria que a tratassem como tal.
No desenrolar da Conferência, os de conclusão, esta carta de Joaquim Essa alma é incompatível com o princí-
telegramas nos trazem quase ao vivo Nabuco a Rui, quatro dias após o en- pio de que não há diferenças.
à dinâmica do processo de tomada cerramento da Conferência72: Não me consolarei se não for ao menos
decisões da delegação brasileira, o por um dia a Roma. Creia que seria um
que inclui as concepções estratégi- Washington, out. 22, 1907 dia único em sua vida. Quando fui a pri-
cas do barão, o rigor jurídico de Rui, Meu caro Rui, meira vez à Itália passei um dia somente
seus conhecimentos das assembleias Recebo o seu telegrama73 que muito em Roma na ida para Nápoles, de volta
e jogos parlamentares, além do senso agradeço. Felicito-o por ter atravessa- demorei-me um mês, creio, mas aquele
de improvisação e de oportunidade do esses longos meses da Haia sempre dia não se me apaga da memória. Fica
de ambos. O Brasil começa firman- fresco e pronto para a luta. V. é extra- sendo único e completo.
do limites negativos, do que não se- ordinário. Deus o conserve. Meus respeitos a Mme. Rui Barbosa e
ria aceitável, rejeitando, por exem- Escrevi ontem longa carta ao Rio Bran- felicitações pela sua brilhante estréia
plo, o arbitramento obrigatório, em co. Meu desejo é que o recebam pelo e por ter sustentado até ao fim com o
defesa da soberania nacional, mas, brilho e culminância intelectual que V. peso daquela grande campanha. De-
sobretudo, montado nas suas expe- deu à representação do Brasil entre as sejo-lhes a mais feliz viagem.
riências de negociações internacio- nações, mas que o não queiram identi-
nais mais recentes: a de fixação de ficar, encarnando-o em V., com o princí- Do seu Velho Amigo
suas fronteiras que não queria ver pio da igualdade absoluta de todos os Joaquim Nabuco
comprometida por solicitações de Estados nas fundações internacionais.
arbitramento. Quase não tenho coragem por causa
O autor é pesquisador da Fundação Casa de
A delegação brasileira rejeita no dele de ir ao nosso Bureau74 onde a ilha Rui Barbosa (FCRB);
inicio a aliança com os outros países de Haiti vale mais do que o Brasil, anu- almino@rb.gov.br

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I N S I G H T INTELIGÊNCIA

BIBLIOGRAFIA

1. Para uma apresentação mais abrangente 12. Nele estabelecia-se um plano de paga- 21. Idem. pp. 80-81.
deste momento histórico, assim como para mento da dívida brasileira em longo prazo
uma análise dos principais resultados das (de 63 anos), com juros fixos de 5% ao ano, 22. LAIDLER, Christiane Vieira. Op. cit., p.119.
duas Conferências, consulte-se o trabalho de depois de ter suspenso o pagamento de ju-
LAIDLER, Christiane Vieira. A Segunda Confe- ros por três anos e do principal por treze. 23. Discursos de Rui Barbosa em Haia. Op.cit.,
rência da Paz de Haia – 1907: o Brasil e o sis- Um empréstimo no valor de 10 milhões de pp. 82-83.
tema internacional no início do século XX. Rio libras esterlinas foi concedido para o paga-
de Janeiro, Edições Casa de Rui Barbosa, 2010. mento dos juros suspendidos e as rendas 24. Idem, p.139.
da alfândega do Rio de Janeiro, além de, em
2. Uma análise mais detalhada desses telegra- caso de necessidade, outras alfândegas ser- 25. Um critério análogo foi proposto duran-
mas pode ser encontrada em: ALENCAR, José viriam de penhora , a título de garantia para te a discussão (que decorria paralelamen-
Almino de. “Os telegramas de Haia”. In: Revista com os bancos credores. te) sobre a criação do Tribunal Internacio-
do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, nal de Presas. Na ocasião, Rio Branco aler-
ano 175, vol. 464, jul/set, 2014, pp. 145-198. 13. Texto da nota do chanceler argentino Luis tou para as possíveis consequências sobre
María Drago ao ministro plenipotenciário ar- a organização do Tribunal de Arbitragem em
3. Realizada em julho de 1906 no Rio de Janeiro gentino nos Estados Unidos, Martín García Me- telegrama de 14/08/1907: A questão impor-
rou. Datada de 29 de dezembro de 1902. Me- tante para nós é como V.Exa. diz, a da orga-
4. O vice- presidente da República presidia mória de Relaciones Exteriores y Culto presen- nização do Tribunal Permanente de arbitra-
o Senado tada al Congreso Nacional correspondiente al mentomas, como classificação nações para
año 1902-1903, Anexo I, Sucesos de Venezue- Tribunal [de Presas] pode influir classifica-
5. Telegrama de Joaquim Nabuco a Hilário de la. Buenos Aires, Taller Tipográfico de la Pe- ção [para o Tribunal] Arbitral creio não se-
Gouveia, de 04/03/1907: Fundação Joaquim nitenciaría Nacional, 1904, pp. 3-11. Disponí- ria inútil mostrar particularmente às dele-
Nabuco/telegramas/ 5926. vel em: http://www.argentina-rree.com/8/8- gações organizadoras do projeto que Brasil
020.htm. Acesso em: 28 de janeiro de 2014. deve ficar com países que dão por dois anos
6. ALENCAR, José Almino de; SANTOS, Ana um juiz e um suplente.
Maria Pessoa dos. (Org.). Meu caro Rui, meu 14. ‘Monroe doctrine’ and diplomatic clai-
caro Nabuco. (Orgs.). Edições Casa de Rui Bar- ms of European powers. Foreign Relations of 26. CUNHA, Pedro Penner da. Op. cit. p. 23.
bosa, 1999, p.51. the United States (FRUS), 1903, p.5. Disponí-
vel em: http://images.library.wisc.edu/FRUS/ 27. Idem, p.24.
7. Idem, pp. 54-71. EFacs/1903/reference/frus.frus1903.i0006.
pdf. Acesso em: 30 de janeiro de 2014. 28. Idem, p.25.
8. Trata-se do que ficou conhecido como a
“Doutri]na Drago”, referente a Luis Maria 15. William Insco Buchanan (Convington, Ohio, 29. 5/8/07 Gurgel Amaral partiu meia noi-
Drago, a qual afirmava que nenhuma potên- EEUU, 10/09/1852 – Londres, Inglaterra, te de Washington para New York, de onde se-
cia estrangeira pode usar a força contra uma 17/10/1909). Foi delegado plenipotenciário guiu para Clinton perto Utica, New York. Fala-
nação americana com a finalidade de cobrar dos Estados Unidos na Segunda Conferência rá Root. Meio dia telegrafarei. Gurgel Amaral
uma dívida. Luis Maria Drago, (06/05/1859 da Paz de Haia. substituía Joaquim Nabuco que ainda se en-
— 09/06/1921) fora Ministro das Relações contrava na Europa.
Exteriores da Argentina no governo de Julio 16. Disponível em: http://archive.org/stream/
Argentino Roca (1898-1904).Durante a Con- ladoctrinededra00moulgoog/ladoctrinede- 30. Rio Branco repetia os termos da posi-
ferência a delegação americana fará valer dra00moulgoog_djvu.txt. ção de Afonso Pena que ele havia transmiti-
uma variante à proposta argentina. do em telegrama anterior, ainda não comen-
17. Correspondente da agência de notícias tado por Rui:
9. Afonso Augusto Moreira Pena (30/11/1847 Havas na Conferência. 16/8/07 Volto do despacho. Presidente enten-
– 14/06/1909). de que se Brasil não tiver lugar permanente
18. Pronunciado na sétima sessão da Primei- no projetado tribunal, não deve assinar essa
10. ALENCAR, José Almino de. “Os telegra- ra Subcomissão da Primeira Comissão. Dis- convenção particular e que pouco antes en-
mas de Haia”. In: Revista do Instituto Históri- cursos de Rui Barbosa em Haia. Obras Com- cerramento devemos fazer essa declaração
co e Geográfico Brasileiro, ano 175, vol. 464, pletas de Rui Barbosa, Vol. XXXIV 1907, tomo manifestando nosso pesar não poder concor-
jul/set, 2014, pp. 157-163. II. Tradução de Estela Abreu e Artur Bomílcar. dar com as ideias que prevaleceram quanto
Rio de Janeiro, Edições Casa de Rui Barbosa, à constituição desse tribunal e a esperança
11. Por pitoresco, note-se aqui aplicado por 2007, pp. 74-88. de que na seguinte conferência possamos
um político mineiro como Afonso Pena esta ser mais felizes.
norma da politique politicienne: não se des- 19. Idem. P. 76. Entretanto, para resolução definitiva, precisa-
gastar em conflitos que serão resolvidos ou mos saber quais países terão representação
assumidos por terceiros. 20. Idem. P.79. permanente e quais europeus e americanos

60 TRIO MARAVILHA
I N S I G H T INTELIGÊNCIA

que aceitam representação periódica. Esti- 41. Auguste Marie François Beernaert (Os- (Tuna, Condado de Kalmar, Suécia, 04/02/1862
maríamos, sobretudo, conhecer disposição tende, Belgica, 26/07/1829 – Lucerna, – Estocolmo , Suécia, 12/10/1953). Profes-
em que estão Bélgica, Suíça, Portugal, Méxi- 06/10/1912). Foi primeiro-ministro da Bél- sor, parlamentar, foi primeiro-ministro da Sué-
co, Argentina, Chile, principais países hispa- gica entre 1184 e 1894. Recebeu o Prêmio cia. Na Segunda Conferência da Paz de Haia,
no-americanos. Rio Branco Nobel da Paz em 1909. foi primeiro delegado plenipotenciário sueco.

31. A proposta reunia também a Alemanha 42. Édouard Descamps, delegado plenipo- 60. Francisco León de la Barra y Quijano ,
e a Inglaterra. tenciário belga. terceiro delegado plenipotenciário mexicano.

32. James Brown Scott (Kincardine, Ontário 43. Estournelles de Constant, segundo dele- 61. Gonzalo Esteva, primeiro delegado pleni-
no Canadá, 03/06/1866 – Annapolis, Ma- gado plenipotenciário francês. potenciário mexicano.
ryland, Estados Unidos, 25/06/1943). Foi de-
legado técnico norte-americano na Segunda 44. Louis Renault, terceiro delegado plenipo- 62. Lord Reay – Donald James Machay, dele-
Conferência de Haia. tenciário francês. gado plenipotenciário britânico.

33. CUNHA, Pedro Penner da. Op.cit., p. 36. 45. Philipp Zorn, delegado científico alemão. 63. Roque Saenz Peña, delegado plenipoten-
ciário argentino.
34. Alexandre Beldiman, Primeiro Delega- 46. Ludwig von Bar (1836-1913), jurista alemão.
do romeno. 64. Carlos Rodrigues Larreta, delegado ple-
47. Baron Marschall von Bieberstein, primei- nipotenciário argentino.
35. Gaston Carlin – Delegado plenipotenciá- ro delegado plenipotenciário alemão.
rio suíço. 65. Jose Battle y Ordoñes, primeiro delega-
48. Segundo delegado plenipotenciário alemão. do uruguaio.
36. Missão Diplomática do Barão do Rio Bran-
co como Chefe da Legação Brasileira em Ber- 49. Ernest Satow, delegado plenipotenciá- 66. William Thomas Stead (Embleton, Inglater-
lim entre 15 de Abril de 1901 e 11 de Novem- rio britânico. ra 05/07/1849 – 15/04/1912). Jornalista e
bro de 1902. editor inglês. Era o correspondente da revista
50. Georges Streit, segundo delegado pleni- inglesa “Review of Reviews” na Segunda Con-
37. Léon Bourgeois. (Paris, França /05/1851 potenciário grego. ferência da Paz de Haia. Faleceu no naufrágio
- Château d’Oger, Marne, 29/09/1925). Foi do navio Titanic.
delegado plenipotenciário francês nas duas 51. Joseph Tornielli Brusati di Vergano, dele-
Conferências de Haia. Eminente homem pú- gado plenipotenciário italiano. 67. Christiane Vieira Laidler: A Segunda Con-
blico francês. Ocupou vários ministérios, foi ferência da Paz de Haia – 1907, op.cit. p. 158.
Presidente do Conselho de Ministros (1895). 52. Henry Willard Denison, delegado técni-
Foi o primeiro presidente da Liga das Nações co japonês. 68. Sir Edward Fry (1827 – 1918). Delegado
(1919) e, por isso, recebeu o prêmio Nobel da plenipotenciário britânico na Segunda Con-
Paz em 1920. 53. T. M. C. Asser, delegado plenipotenciá- ferência de Haia.
rio holandês.
38. LAIDLER, Christiane Vieira. Op. cit.,pp. 69. LAIDLER, Christiane Vieira. Op.cit., p.161.
154-155. 54. Savornin-Lohman (1837-1924), jurista e
homem público holandês. 70. Domingo Gana e Augusto Matte, delega-
39. Paul Henri Benjamin Balluet d’Estournelles dos plenipotenciários chilenos.
de Constant – Barão de Constant e de Rebe- 55. Frangis Hagerup, delegado plenipoten-
cque (La Flèche, França, 22/11/1852 – Pa- ciário norueguês. 71. LAIDLER, Christiane Vieira. Op.cit., p. 161.
ris, 15/05/1024). Delegado plenipotenciário
francês nas duas Conferências de Haia. Era 56. Friedrich Fromhold von Martens, delega- 72. ALENCAR, José Almino de; SANTOS, Ana
diplomata e político. Em 1909 recebeu o Prê- do plenipotenciário russo. Maria Pessoa dos. (Org.). Op. cit., pp. 72.
mio Nobel da Paz.
57. Lou Tseng-Tsiang, embaixador extraor- 73. La haye, 21/10/1907. Excellency Nabu-
40. Heinrich Lammasch – (Seitenstetten, dinário e delegado plenipotenciário da China. co, Washington (DC)
Áustria , 21/05/1853 – Salzburg, Áustria, Finda minha missão parto Paris. Abraço afe-
06/01/1920). Jurista, professor, ministro- 58. Keiroku Tsudzuki, embaixador extraordi- tuosamente caro amigo, agradeço lembran-
-presidente austro-húngaro. Foi delegado do nário e plenipotenciário e primeiro delegado ça livros.
Império Austro-Húngaro na Primeira e na Se- plenipotenciário do Japão. Rui
gunda Conferência da Paz de Haia.
59. Knut Hjalmar Leonard de Hammarsjöld 74. Bureau das Repúblicas Americanas.

OUTUBRO • NOVEMBRO • DEZEMBRO 2015 61


I N S I G H T INTELIGÊNCIA

PORQUE HOJE É

SABATO CECILIA NAHRA


Fotógrafa e analista do simbólico

O “Santo Lugar” de Sabato e Matilda. Langeri 3135, onde Ernesto Sabato


escreveu e viveu suas histórias desde 1945. Um escritor, um ensaísta, um
físico, um pintor, e um vizinho fraterno. Todos no bairro conheciam sua casa.
“Quiero que me recuerden como un vecino a veces cascarrabia pero en el
fondo buen tipo. Eso es todo lo que pido”.

62 BORGES
I N S I G H T INTELIGÊNCIA

Em homenagem a seu amigo Homero Manzi, o tango ganha letras de


Sabato. “Al Buenos Aires que se fue”, a nostalgia revelada na música.

“Cuando la dureza y el furor de Buenos Aires,


Hacen sentir más la soledad,
Salgo a caminar por esos barrios que tímidamente, con vergüenza,
Conservan algún minúsculo tesoro de un pasado menos duro,
Una maceta con malvones, alguna reja rezagada.”

OUTUBRO • NOVEMBRO • DEZEMBRO 2015 63


I N S I G H T INTELIGÊNCIA

Um homem fiel a seus hábitos. Sabato vestia


invariavelmente os mesmos trajes, o mesmo
chapéu, o mesmo tapado, os mesmos óculos.
Assim, era sempre reconhecido e não seria
avistado de outra maneira.

64 BORGES
I N S I G H T INTELIGÊNCIA

O escritor passeava por distintos lugares para imaginar suas novelas. Assim nasce, nos anos 70,
“Sobre héroes y tumbas”, uma história embriagada por incesto e morte, quiçá uma de suas obras
mais importantes. Foram anos de escritura e obsessão. A primeira cena do livro se passa no Parque
Lezama, na Zona Sul de Buenos Aires. Martin vê a estátua quando se sente observado por Alejandra.
Um primeiro encontro. “… tuve la sensación de que alguien estaba a mis espaldas, mirándome…
Hizo un gran esfuerzo por mantener la mirada sobre la estatua.”

OUTUBRO • NOVEMBRO • DEZEMBRO 2015 65


I N S I G H T INTELIGÊNCIA

Maltida e Sabato se conhecem em La Plata, em um curso sobre marxismo ministrado pelo próprio escritor.
Aos 17 anos, a jovem foge de casa ao encontro de Sabato. O caminho dos dois nunca mais se descolou.
A literatura de Sabato somente pôde ser lida em função de Matilda. Ele atirava em chamas todos os seus
escritos e ela se ocupava de resgatá-los e corrigi-los. Assim, ambos nos encheram de histórias.

66 BORGES
I N S I G H T INTELIGÊNCIA

El Túnel: “…en todo caso, había un solo


túnel, oscuro y solitario: el mío.” O trecho é
do primeiro romance que escreveu. A obra foi
recusada pelas editoras. Todas consideravam
que, por sua formação científica, Sabato não
podia escrever romances.

OUTUBRO • NOVEMBRO • DEZEMBRO 2015 67


I N S I G H T INTELIGÊNCIA

Levava uma vida bucólica. Era um homem do interior. As pessoas das


grandes cidades lhe pareciam alienadas, sem nome. Assim escolheu
Santos Lugares. Para ir a capital, gostava de utilizar o trem, mesmo
depois dos seus 80 anos. Ali era conhecido. Se adormecia na viagem,
o despertavam em sua estação. Sabato não queria mais do que isso.

68 BORGES
I N S I G H T INTELIGÊNCIA

Gostava de silêncio e aconchego para escrever. Sentava em seu escritório,


à frente da janela que mira para o jardim de Matilda. Ali, debruçava-se
sobre sua velha máquina de escrever. Nunca a trocou. Certa vez, ganhou
uma nova, não gostou e mandou devolver. Mantinha seus dedos nas teclas
quadradinhas que reproduziam a seiva da sua imaginação.

OUTUBRO • NOVEMBRO • DEZEMBRO 2015 69


I N S I G H T INTELIGÊNCIA

Sabato comandou a Comisión Nacional sobre la Desaparición de Personas entre os anos 1983 e 1984,
a pedidos do presidente da Argentina Raúl Alfonsín. As investigações realizadas em seu mando foram
eternizadas no livro “Nunca más” e abriram caminho para os juízos das juntas militares em 1985.

70 BORGES
I N S I G H T INTELIGÊNCIA

Vivia entre livros. Dono de uma gigante biblioteca, sua


obsessão não consistia apenas em ler todas as obras e
marcá-las, mas também em organizá-las. Tudo deveria estar
na exata ordem “sabatiana”. Muitas vezes, despertava à
noite e arrumava a biblioteca. O hábito o acalmava.

OUTUBRO • NOVEMBRO • DEZEMBRO 2015 71


I N S I G H T INTELIGÊNCIA

Quando começou a pintar sentiu que necessitava de um espaço novo. Sempre


muito organizado, construiu uma sala própria para o ofício. Ali mantinha
também os quadros que recebia de presente. Sabato era um grande apreciador
das artes plásticas, que expressavam as imagens do seu inconsciente.

72 BORGES
I N S I G H T INTELIGÊNCIA

Os óculos faziam parte da sua identidade. Eram suas outras digitais. Funcionavam como um divisor do seu
olhar para o universo exterior e para o seu eu profundo. Sabato via o mundo a partir dessas grossas lentes
embaçadas, um tanto grandes para seu rosto, na qual todos acreditavam residir sua magia em analisar as
profundidades do ser e a sua existência. As lentes tinham um componente trágico, pois emolduravam o
olhar triste de um homem que sabia demais sobre o inferno de nós mesmos.

OUTUBRO • NOVEMBRO • DEZEMBRO 2015 73


ANTONIO FREITAS
ENGENHEIRO

ANA TEREZA SPINOLA


ECONOMISTA

74 MADUREZA
ALISTAMENTO
CIVIL PARA

A EDU- O
CAÇÃ
JÁ!
O
artigo 205 da Constituição mas educacionais do país estão lon- programas educacionais eficientes.
Federal, de 1988, impõe: “A ge de uma solução significativa e de- O cenário é acentuado também pe-
educação, direito de todos e finitiva. Alheio à baixa qualidade dos las falhas de planejamento, métricas
dever do Estado e da família, será pro- ensinos básico, fundamental e médio, e de integração entre os governos.
movida e incentivada com a colabo- o lema “Brasil - Pátria Educadora” já Para agravar ainda mais a situa-
ração da sociedade, visando ao pleno caiu em descrédito no meio educacio- ção, em maio desse ano a presidente
desenvolvimento da pessoa, seu pre- nal e em grande parte da população. Dilma Rousseff deu à educação um
paro para o exercício da cidadania dos maiores cortes globais com o
e sua qualificação para o trabalho.” STATUS QUO anúncio do ajuste fiscal. Os números
No papel, o texto representa o ca- A educação brasileira vive hoje as são preocupantes. A redução inicial
minho certo para que o Brasil seja consequências dos problemas polí- para 2015 foi de R$ 9,4 bilhões. A ver-
verdadeiramente uma Pátria Educa- ticos e econômicos do país. Sofre, ba para as despesas com a folha de
dora, entretanto, o que vivenciamos é ainda, com a falta e a baixa remune- pagamento, por exemplo, caiu de R$
um cenário bem diferente. Os proble- ração dos docentes e a carência de 48,81 bilhões para R$ 39,38 bilhões

OUTUBRO • NOVEMBRO • DEZEMBRO 2015 75


I N S I G H T INTELIGÊNCIA

– valor similar ao gasto no ano pas- (Inep), da Organização para a Coo- na educação básica e os problemas
sado. Além disso, o Plano Nacional peração e Desenvolvimento Econô- sociais nas salas de aula estão entre
de Educação (PNE), aprovado no ano mico (OCDE) e do movimento Todos os fatores que tornam a docência cada
passado, não está sendo cumprido, Pela Educação (TPE). vez menos atraente. Nas regiões mais
não por falta de recursos, mas, sim, carentes, o cenário é ainda pior. Não

M
por falta de vontade gerencial. Para esmo com os recentes há sequer professores, em especial,
que o PNE viesse a ter efeito, o gover- cortes, o orçamento da das disciplinas fundamentais como
no federal deveria, continuamente, educação (R$ 39,38 bi- matemática, português, física, quími-
implementá-lo e acompanhá-lo jun- lhões) ainda é o terceiro maior en- ca e biologia. Essa escassez tem gra-
to aos estados, municípios e escolas. tre os ministérios, atrás apenas das ve implicação na qualidade dos ensi-
O grande problema do Brasil não pastas da Previdência e da Saúde. Os nos fundamental, médio, superior e
é apenas a falta de recursos, mas a investimentos contrastam, contudo, técnico; com isso, os entraves edu-
gestão dos mesmos. O PNE 2014-2024 com os fracos resultados obtidos nos cacionais se tornam cíclicos.
alocou 10% do PIB para a educação rankings mundiais e nacionais que A falta de infraestrutura nas es-
na próxima década, contudo, temos a avaliam o desempenho escolar dos colas públicas brasileiras também
sinalização de que esse montante não alunos brasileiros. A última edição chama a atenção. O último Censo
será atingido. O governo tem um ár- do Programa Internacional de Ava- Escolar mostrou que 65% dos colé-
duo caminho à frente. Além dos pro- liação de Estudantes (Pisa) colocou gios não têm biblioteca. Um trabalho
blemas educacionais, há inúmeros o Brasil no 60º lugar entre os 76 paí- realizado por pesquisadores da Uni-
desafios que também precisam ser ses avaliados. Enquanto o topo da lis- versidade Federal de Santa Catarina
equacionados nas áreas de saúde, ta ficou com os países asiáticos, as (UFSC) e da Universidade de Brasília
segurança, habitação, entre outras. últimas 15 posições foram ocupa- (UnB) apontou que 44% dos centros
O país amarga outros números: das pelos sul-americanos: Argenti- de ensino não têm TV ou computador.
há 3,8 milhões de brasileiros, entre na em 62º, Colômbia em 67º, e Peru Recentemente, em Pernambuco, es-
quatro e 17 anos, fora da escola; o com o 71º lugar. tudantes ficaram sem aula por falta
analfabetismo ainda alcança 13 mi- Outro ponto de preocupação é a de cadeiras. São obrigados a convi-
lhões de pessoas acima de 15 anos, atual carência de professores. Levan- ver também com goteiras, falta de
o que corresponde a 8,3% da popu- tamento publicado pelo MEC, em agos- material didático e até sem merenda.
lação; o governo investe metade do to deste ano, apontou que faltam 170 Além de todos os problemas apon-
recomendado para o ensino básico; mil docentes nos níveis fundamental tados, parte da explicação para o
e apenas 32,3% dos brasileiros, de e médio na rede pública brasileira. A cenário da educação brasileira é a
18 a 24 anos, cursam ou cursaram grande demanda também é mundial. atual estrutura de aprendizado do
o ensino superior. Outros dados alar- Segundo a Organização das Nações país, pautada nos mesmos modelos
mantes: um entre quatro professo- Unidas para a Educação, a Ciência e utilizados há dois séculos. A educa-
res da educação básica não tem di- a Cultura (Unesco), serão necessá- ção do século XXI exige métodos mais
ploma de ensino superior, e o índice rios 8,4 milhões de professores até dinâmicos e aderentes à realidade
de docentes do ensino médio sem 2030 para garantir as necessidades dos jovens. A matriz do ensino mé-
formação adequada chega a 40%. educacionais das crianças dos ensi- dio, por exemplo, não atende a maio-
Os dados são do Ministério da Edu- nos primário e secundário no mundo. ria dos estudantes, o que corrobora
cação (MEC), do Instituto Nacional de O baixo prestígio profissional, os – e muito – a evasão escolar. A siste-
Estudos e Pesquisas Educacionais salários pouco atrativos, em especial, mática de ensino é considerada rígi-

76 MADUREZA
I N S I G H T INTELIGÊNCIA

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OUTUBRO • NOVEMBRO • DEZEMBRO 2015 77


I N S I G H T INTELIGÊNCIA

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CO

78
I N S I G H T INTELIGÊNCIA

da e desatualizada, sem contar com dade. Enquanto o país investe mais rar tecnologias que aumentem a pro-
as numerosas matérias do currículo de R$ 40 mil por ano em cada deten- dutividade, o maior nível profissional
que não conversam entre si. to de um presídio federal, gasta uma e a ascensão social desses indivíduos.
média de R$ 15 mil anualmente com
ENSINO TÉCNICO cada aluno do ensino superior. Já na UM EXEMPLO INTERNACIONAL DE SUCESSO:
O ensino técnico também vem amar- comparação entre detentos de presí- TEACH FOR AMERICA
gando perdas. O governo federal ha- dios estaduais, onde está a maior par- Em um país afluente com frequên-
via assumido o compromisso de for- te da população carcerária, e alunos cia obrigatória na educação básica e
mar 12 milhões de jovens até 2019 por do ensino médio, a distância é ainda com ampla oferta de vagas na edu-
meio do Pronatec, porém esse núme- maior: são gastos, em média, R$ 21 cação superior, verificou-se que as
ro já foi reduzido para cinco milhões, mil por ano com cada preso – nove ve- escolas de ensino básico nas regiões
com tendência de baixa. O Ministério zes mais do que o investido por aluno mais carentes não tinham o mesmo
da Educação divulgou recentemente no ensino médio por ano, R$ 2,3 mil. desempenho do que aquelas nos lo-
uma nota na qual justifica os cortes O ensino tecnológico é uma es- cais mais ricos, não só por atraírem
com base na realidade econômica do pécie de ponte para o jovem sair da docentes menos preparados, como
país. Logo, o que vai acontecer será o pobreza e entrar no mercado de tra- também pelas mazelas da pobreza
fechamento das escolas que amplia- balho. Somente dessa forma, o Bra- vividas pelo corpo discente. Foi, en-
ram ou ajustaram suas ofertas; que sil conseguirá desenvolver políticas tão, criado, em 1990, nos Estados
investiram na formação de profes- inclusivas e mobilizar todos os cida- Unidos, sem fins lucrativos, o pro-
sores e na criação de laboratórios. dãos para participar efetivamente grama Teach for America (TFA), que
Para se ter uma ideia do ponto que da sociedade. recruta jovens das melhores univer-
o descalabro poderia ter atingido, o Os esforços que estavam sendo sidades para ensinar em escolas pú-
governo chegou a cogitar cortes no feitos em prol do desenvolvimento do blicas parceiras durante dois anos.
Sistema Indústria (CNI, SENAI, SESI ensino técnico no Brasil começaram O objetivo é mobilizar e desenvolver
e IEL) da ordem de R$ 4,1 bilhões, a perder força. E, o pior, estávamos, o maior número possível de líderes
em torno de 52% do seu orçamento. enfim, em um caminho promissor. A para crescer e fortalecer o movimen-
A redução dos recursos causaria o educação profissional cresceu 74,9% to pela igualdade e excelência edu-
fechamento de 1,8 milhão de vagas no Brasil entre 2002 e 2010, passan- cacional em todo o país.
em cursos profissionalizantes ofere- do de 652 mil matrículas para 1,14 O projeto começou com 2.500 vo-
cidos pelo SENAI por ano. Em todo o milhão no período. Dados do Censo luntários e, atualmente, há mais de
país, mais de 300 escolas profissio- Escolar da Educação Básica, do Inep, 20 mil jovens lecionando para cerca
nais do SENAI poderiam fechar as apontaram também que os cursos de de 750 mil crianças norte-america-
portas. Outros 735 mil alunos dei- maior procura são os de informáti- nas de 52 regiões urbanas e rurais.
xariam de estudar no ensino bási- ca, administração, agropecuária, en- A iniciativa reconhece que a primei-
co. Por sorte, tais números ficaram fermagem e segurança do trabalho. ra infância é uma fase crucial para
apenas na ameaça. Com isso, o Brasil compromete o desenvolvimento. É defendido que
Virar as costas para o ensino téc- o seu desenvolvimento tecnológico, todos os alunos, independentemen-
nico significa abrir um buraco para criando uma imensa falha para o de- te da capacidade e do nível social,
que muitos jovens que poderiam ala- cadente setor industrial. Em um país devem ter acesso a oportunidades
vancar o desenvolvimento nacional onde a maioria dos jovens é precaria- educacionais de alta qualidade que
acabem se perdendo na marginali- mente capacitada, fica difícil incorpo- promovam o desenvolvimento e se-

OUTUBRO • NOVEMBRO • DEZEMBRO 2015 79


I N S I G H T INTELIGÊNCIA

jam capazes de lançar as bases para UM EXEMPLO NACIONAL DE SUCESSO: ponsabilidade social. A atividade ex-
a escola. Dessa forma, estes estudan- PROJETO RONDON tensionista desempenha também um
tes estarão aptos para alcançar o re- O Brasil também experimentou, importante papel de aproximação e
conhecimento na vida profissional. de 1967 a 1989, iniciativas bem-su- de troca de experiências e boas prá-
Outro ponto positivo é que pes- cedidas em nível nacional, como é o ticas entre a universidade e a socie-
quisas de mercado mostraram que caso do Projeto Rondon, uma ação dade. Entre os participantes, é reco-
o programa é responsável por ala- conjunta dos Ministérios da Defesa nhecidamente dito que a participa-
vancar carreiras. Ter o selo Teach e da Educação. Apesar de não ser ção no projeto reforça ainda mais o
for America no currículo é um dife- obrigatório, era extremamente de- patriotismo e o engajamento de ser
rencial e tanto na busca de um bom mandado, pois oferecia aos parti- um Rondon, mesmo após o térmi-
emprego. De acordo com a revis- cipantes uma experiência ímpar de no da ação, buscando transformar
ta Business Week, a instituição já aprendizado, de prática profissio- e contribuir continuamente para o
é considerada pelos universitários nal e de conhecimento das diferen- desenvolvimento político e social da
como uma das principais portas de tes regiões do país. Em 2005, o pro- sociedade como um todo.
entrada para o mercado de traba- jeto foi relançado pelo governo fede-
lho. Não é à toa que na Universidade ral, a pedido da União Nacional dos SOLUÇÕES
Harvard, em geral, 18% de seus for- Estudantes (UNE) e, desde a sua re- Em um país com carência de pro-
mandos se candidatam a uma vaga tomada, já atendeu a cerca de 830 gramas educacionais competitivos e
no projeto e, em Princeton, a taxa de municípios, contando com a partici- baixa procura de jovens por cursos
adesão é de 16%. pação de quase 14 mil professores superiores nas áreas de educação
e estudantes universitários. e pedagogia, cria-se uma oportuni-

C
onsidera-se que o TFA trouxe O projeto visa à integração social, dade para buscar soluções inovado-
uma nova energia para o mo- envolvendo a participação voluntária ras, assemelhadas a programas que
vimento de reforma das es- de estudantes universitários na bus- já tiveram êxito no Brasil e no exte-
colas americanas. Além de doar ta- ca de soluções que auxiliem no de- rior. Concluímos, portanto, que nos
lento e energia aos centros de ensino senvolvimento sustentável de comu- moldes do Projeto Rondon e do Tea-
com baixo rendimento, o programa nidades carentes. São disseminados ch for America, seria recomendável
conecta a elite americana à popula- conhecimento, entretenimento, saú- se criar um Serviço Civil Obrigatório,
ção mais vulnerável. Até o ano pas- de, cultura e educação para municí- tanto para os jovens carentes como
sado, a iniciativa já havia recrutado pios extremamente carentes, sobre- para aqueles que têm o privilégio de
mais de 20 mil jovens talentos. Des- tudo, das regiões Norte e Nordeste. cursar o nível superior.
se total, 61% escolheram seguir na Atualmente, cerca de 1.500 rondonis- A favor dessa inciativa está o fato
área da educação e mais de 35% ain- tas das áreas de humanas, biomédi- dos estudantes terem demandado
da atuam como professores, mesmo cas e de cursos voltados para o meio a continuidade do Projeto Rondon.
após o período de dois anos. O que ambiente e gestão pública atuam em Ou seja, há, naturalmente, uma re-
reforça ainda mais a relevância do 110 instituições de 75 municípios de ceptividade de parte dos brasileiros
programa, uma vez que vai além da todo o Brasil. para a realização de um serviço ci-
missão de ampliar o conhecimen- Outro benefício da iniciativa é a vil. Já temos no Brasil o Serviço Mi-
to da parcela menos favorecida da formação do universitário como ci- litar Obrigatório que não consegue
população, mas gerar verdadeiros dadão, integrando-o ao processo de atender a todos os jovens, em fun-
líderes educacionais. desenvolvimento nacional e de res- ção das dimensões das nossas For-

80 MADUREZA
ODEBRECHT.
TRANSPARÊNCIA
E COMPROMISSO
COM A SOCIEDADE.
Sempre acreditamos que o nosso crescimento deve ser resultado de
projetos que deixam como legado o desenvolvimento para a sociedade.
Nos 21 países e mais de dez segmentos em que estamos presentes,
atuamos como empresa local, contribuindo para melhorar a qualidade
de vida de milhões de pessoas.

Pautamos o nosso trabalho na transparência e no espírito de servir,


para que cada projeto entregue seja o refl exo dos nossos valores
e, acima de tudo, esteja diretamente ligado à transformação
socioeconômica em diferentes partes do mundo.
Gerson Costa (azul), com sua esposa Catarina dos Santos
e o fi lho Edilton Costa: protagonistas do desenvolvimento
www.odebrecht.com de sua comunidade no Baixo Sul da Bahia. Família
apoiada por um dos programas da Fundação Odebrecht,
que em 2015 completa 50 anos.

Investimento próprio de Mais de Geração de Mais de Exportações

R$ 111,5 MILHÕES 1,2 MILHÃO 276 MIL 20 MILHÕES R$ 1,059 BILHÃO


em programas de pessoas empregos de usuários em geração
socioambientais beneficiadas diretos de serviços por dia, de divisas
e culturais em ações socioambientais e indiretos nas áreas de transporte para o Brasil por meio
e culturais, realizadas urbano, rodovias de exportações de bens
pelas empresas e pela e saneamento básico e serviços
Fundação Odebrecht
Números referentes a dez/14
I N S I G H T INTELIGÊNCIA

ças Armadas. Por simetria, o jovem poderiam ser preenchidas, de acor- vação da qualidade e da equidade nos
que não servir às Forças Armadas, do com a lei, oferecendo aos alunos resultados do aprendizado.
independentemente do gênero, deve- das escolas de engenharia, medici- Para se ter uma ideia, o PIB do
ria participar do Serviço Civil Obri- na e assemelhados uma autorização Brasil pode crescer 751% até 2095
gatório. O objetivo seria aprender e/ especial e temporária para lecionar se o país der um salto em educação.
ou ensinar e distribuir conhecimen- provisoriamente. O avanço, no caso, seria atingir a ma-
to em todo o território nacional. Des- Estamos vivendo um momento de- trícula universal no ensino médio e
sa forma, além de obedecer a Cons- mográfico especial, conhecido como um nível de “habilidades básicas” para
tituição brasileira, é uma oportuni- janela de oportunidade, isto é, temos todos os estudantes. Isso represen-
dade para colocar a educação, de- muito mais jovens do que idosos, po- taria US$ 23 trilhões a mais na eco-
finitivamente, nos trilhos para que rém a expectativa de vida no Brasil nomia brasileira durante o tempo de
ela percorra um caminho certeiro, aumenta progressivamente. Logo, vida dos que hoje estão com 15 anos,
do desenvolvimento, de que o Brasil todos os jovens dependem de opor- o que equivale a 7,5 vezes o tamanho
tanto precisa. tunidade de educação para que na atual da economia brasileira. Os da-
Para os jovens das camadas me- idade adulta tenham um aumento de dos são do relatório da OCDE.
nos afortunadas, o Serviço Civil Obri- produtividade, que trará elevação de Mais do que nunca, o olhar pela
gatório consistiria em aprender uma renda, empresas mais competitivas educação deve ser prioritário, tanto
profissão, de forma a incluí-los na nacional e internacionalmente, po- pelo governo, quanto pela socieda-
classe média. Eles poderão frequen- dendo o Brasil competir em igualdade de. Devemos acreditar que é possí-
tar um curso técnico de seu interes- com os países mais avançados. Caso vel, sim, mudar, e o Serviço Civil Obri-
se oferecido pelo Sistema S (SESI, os jovens não tenham, hoje, atenção gatório nos ajudará a dar o ponta-
SENAI, SENAC, SESC etc.), ou de ou- e um treinamento técnico adequado pé nesse processo transformador.
tros institutos tecnológicos e escolas que objetive este processo de desco- Ele terá condições de alavancar os
técnicas. Essa oportunidade de qua- brimento e de aumento da produti- investimentos, fazendo com que os
lificação técnica estaria aberta tam- vidade, o Brasil perderá sua grande recursos sejam aplicados de forma
bém aos alunos do ensino superior. oportunidade de avançar. mais eficiente e estratégica, onde os
Para aqueles alunos afortuna- jovens compartilhariam o seu tempo
dos, que frequentam o ensino su- CONCLUSÃO para melhorar o país, aumentando
perior, poderiam, durante as férias, Não podemos deixar os nossos jo- a produtividade, a competitividade
realizar atividades acadêmicas, bem vens, com aptidões e vontade de cres- das empresas e, por conseguinte, a
como na disciplina obrigatória “Ativi- cer, escondidos, à mercê da falta de renda da sociedade como um todo.
dades Complementares”, com cerca oportunidade. Investir cedo é crucial. A força do Brasil está nos jovens, e
de 200 horas, participando como tu- As escolas brasileiras de hoje serão o idealismo inerente a eles será vi-
tores, contribuindo para o tão deseja- a economia e a sociedade do Bra- tal para o desenvolvimento do país.
do ensino em tempo integral, pois as sil de amanhã. O conhecimento e as
tutorias ocorreriam em horários dife- aptidões dos estudantes de 15 anos, O autor é PhD North Carolina State University,
professor titular (aposentado) da UFF e mem-
rentes do horário regular das aulas. por exemplo, são altamente prediti- bro da Academia Brasileira de Educação (ABE).
Nas regiões carentes, por exemplo, vos das habilidades que os adultos antonio.freitas@fgv.br
há uma falta de 170 mil docentes; em têm ou que adquirirão mais tarde na
A autora é doutoranda da Universidade de
especial, nas disciplinas de ciências vida, conforme apontado pelo Pisa. E Rennes (França) e professora universitária.
físicas, biológicas e matemática, que o país tem muito a ganhar com a ele- ana.spinola@fgv.br

82 MADUREZA
w w w.fundabrinq.org.br
I N S I G H T INTELIGÊNCIA

Louise Marie Hurel Silva Dias


Especialista em relações internacionais

CIBER-
TERRO-
RISMO
O cavaleiro
do Infoapocalipse

84 MORTAL KOMBAT
I N S I G H T INTELIGÊNCIA

OUTUBRO • NOVEMBRO • DEZEMBRO 2015 85


I N S I G H T INTELIGÊNCIA

É nesse contexto
de conectividade
que não só a vida,
mas também a
economia, cultura,
política, defesa
e segurança se
“virtualizam”

O
solavanco de conectividade comunicações e na qualidade de ban-
após o boom da World Wide da larga alimentou, e foi alimentado,
Web (WWW) é cada vez mais pelo crescente número de usuários
evidente. Os antigos ruídos, dissonan- que começavam a entrar em conta-
tes e intermitentes, que pipocavam to com a Internet.
das caixas de som ao lado do gran- Atualmente, estima-se que 3,2 bi-
de monitor, já indicavam os primei- lhões de pessoas estejam conectadas
ros sinais de uma conectividade via à Internet, sendo que dois bilhões
web: as, agora consideradas jurás- são de países em desenvolvimento. O
sicas, redes dial-up. Gradualmente crescimento na taxa de penetração da
esses “ruídos” foram sendo substi- Internet é igualmente impactante; em
tuídos pelas redes de banda-larga, 2000, ela equivalia a 6,5%; hoje che-
cabos de fibra ótica e, pouco depois, ga aos 43% (ITU, 2015). Além disso, o
as redes de telefonia móvel (2G, 3G, gradual barateamento dos serviços
4G).1 Esse aprimoramento nas tele- de comunicação oferecidos pela In-
ternet também contribuiu para o for-
1. Tal avanço se refere a percepções pes-
talecimento de uma globalização idea-
soais das mudanças dos padrões de conec-
tividade, portanto, refletem contexto e local
lizada, em que as distâncias e espe-
específicos. cificidades geográficas já não eram

86 MORTAL KOMBAT
I N S I G H T INTELIGÊNCIA

mais barreiras, um mundo de aldeias létricas, redes de fornecimento de políticas (BORNE, CANABARRO e CE-
globais conectadas (SANTOS, 2000). energia elétrica, reatores nucleares PIK, 2014).
É nesse contexto de conectivida- etc), também contribuíram para um Ao longo dos anos a Internet se
de que não só a vida (o âmbito so- cenário de crescente interconectivi- tornou um canal para as mais diver-
cial), mas também a economia, cul- dade. Em relação às infraestruturas sas vozes. No início dos anos 90 John
tura, política, defesa e segurança críticas, vale ressaltar os sistemas Perry Barlow, uma das figuras cen-
se “virtualizam” (HUREL, 2014). A de Supervisory Control and Data trais do ciberlibertarianismo, decla-
qualidade de acesso e a quantidade Acquisition (SCADA) – ou seja, sis- rava “a independência do ciberespa-
de pessoas com acesso a Internet temas de controle para automação ço”. Barlow (1996) repudiava toda e
não foram os únicos fatores a au- industrial – ligados a grande parte qualquer presença de governos no
mentarem, cortando transversal- dessas infraestruturas. espaço cibernético, declarava o es-
mente o desenvolvimento de tecno- Observa-se: o aumento de pessoas tabelecimento de uma ordem que
logias (tanto software quanto har- com acesso a Internet em diferentes deslocava o marco vestfaliano, ou
dware), a ubiquidade da Internet, regiões geográficas, a interligação de seja, uma ordem que não aceitava
a convergência digital – tanto dos infraestruturas críticas com redes um modelo pautado na lógica de Es-
meios de comunicação quanto de de computadores e, por fim, a expan- tados soberanos como atores prin-
dispositivos/infraestruturas – e a são de temas relacionados ao espaço cipais. A transcendência do espaço
interligação de computadores com cibernético e Internet, tanto na vida territorial alimentava uma perspecti-
infraestruturas críticas (ex.: hidre- em sociedade, quanto nas agendas va romantizada de um “espaço social

OUTUBRO • NOVEMBRO • DEZEMBRO 2015 87


I N S I G H T INTELIGÊNCIA

global” igualitário, sem fronteiras, de cabos, bits e bytes (infraestru- A Internet permitiu o alargamento
sem noções de propriedade e posse tura), por outro, espaços para a ex- da gama de atores navegando e utili-
sobre fragmentos do ciberespaço, pressão, e antagonisticamente, a su- zando a web – desde empresas como
e resistentes à colonizações. “Deve- pressão da expressão (controle) de o Facebook, Yahoo e Google, ciberli-
mos declarar nosso ser virtual imu- vozes e opiniões. A Internet é am- bertários, hackers e terroristas até
ne a sua soberania” (BARLOW, 1996, bivalente (HUREL, 2015). os Estados. (BORNE, CANABARRO e
tradução nossa). CEPIK, 2014). É dentro desse contex-
Barlow via esse espaço como to que surge o segundo cavaleiro do
A Internet é um espaço político que uma oportunidade de disseminar um infoapocalipse cavalgando pela In-
agrega múltiplos atores, interesses, discurso político capaz de promover/ ternet: o ciberterrorismo.
opiniões. É um espaço de disputas, divulgar uma nova configuração de Esse breve texto visa pincelar
que se constrói constantemente poder – mais simétrica, horizontali- pelo menos três características do
(como muitos outros) como uma zada. Por mais que a total horizonta- cavaleiro. Primeiro, apresentar algumas
mistura subjetiva e concreta, abs- lização não esteja presente no atual definições de ciberterrorismo e os
trata e palpável. De um lado, fluxos cenário, existe uma difusão de poder atores envolvidos e/ou confundidos.
de informações trafegam, através (NYE, 2010). Segundo, o ciberterrorismo como

88
I N S I G H T INTELIGÊNCIA

objeto de segurança. Terceiro, ci- coisa que um hacker? Promover o de ciberterrorismo são: motivações
berterrorismo como hiperrealidade. ciberterror é a mesma coisa que realizar políticas; uso da violência (física e
um ciberataque, ou um ciberataque é psicológica); ataques organizados
(CIBER)TERRORISMO? só um dos recursos? Mas o que é um por grupos (TALIHÄRM, 2010; DINIZ,
A dificuldade de definir um de- ciberataque, afinal? Nesse momento, 2002). A grande diferença é que o ci-
terminado termo não é algo novo e você provavelmente já se perdeu com berterrorismo agrega a esfera virtual
tampouco se restringe ao terrorismo os múltiplos ciber-blablablas acima. e interconectada: ataques e amea-
(CRENSHAW, 1987; CUNNINGHAM et Pois bem, existe uma salada de pala- ças de ataques contra computado-
al, 2003). Dito isso, deve-se ter em vras com o prefixo ciber-, no caso do res, redes – e às informações guar-
mente que o desafio de entender o(s) ciber+terrorismo, pode-se compreen- dadas dentro deles – visando cau-
ciberterrorismo(s), os atores envolvi- der que os medos principais são: o sar danos, intimidar atores políticos,
dos, as dinâmicas e as práticas que desconhecimento ou desinformação principalmente governos e as suas
esse tipo de classificação envolve, é em relação ao uso de tecnologias e o respectivas populações (DENNING,
um esforço constante. Sendo assim, terrorismo (TALIHÄRM, 2010). 2001, tradução nossa). Tendo essa
o que é ciberterrorismo? Alguns elementos que se repetem definição em vista, o resultado do
Será que ciberterrorismo é a mesma tanto nas definições de terrorismo quanto ciberterrorismo é interpretado por

A Internet é um
espaço de disputas,
que se constrói
constantemente
como uma mistura
subjetiva e
concreta, abstrata
e palpável

OUTUBRO • NOVEMBRO • DEZEMBRO 2015 89


I N S I G H T INTELIGÊNCIA

muitos autores (DENNING, 2001; IN- de informação, contato entre outros te, na sua batalha contra o Cavalei-
GRAM, 2014; NYE, 2010; NYE, 2011; (TALIHÄRM, 2010). Um exemplo se- ro ciberapocalíptico.
WEIMANN, 2005) como a capacida- ria a articulação do ISIS através
de de causar resultados parecidos de redes sociais (principalmente o [À] medida que cresce a dependên-
aos do terrorismo (ex.: mortes, explo- Twitter), vídeos e revista on-line (Da- cia da sociedade em relação a sis-
sões) através da utilização de siste- quib). Essa instrumentalização do ci- temas informativos e computacio-
mas computadorizados (conectados) ber como meio permite a produção, nais, bem como se diversificam as
– isso inclui o medo de ataques con- reprodução e reinterpretação dos possibilidades de aplicação des-
tra infraestruturas críticas. conteúdos divulgados – alastramento tas tecnologias para fins lícitos e
O ciber é utilizado como arma – (INGRAM, 2014 ; WEIMANN, 2005). ilícitos, intensifica-se o debate em
ciberataques com consequências torno dos desafios que a era digi-
virtuais e/ou com consequências CIBERTERRORISMO COMO OBJETO tal apresenta à segurança nacio-
materiais – e como um meio. A ins- DE SEGURANÇA: “LUTANDO CONTRA nal e internacional (BORNE, CANA-
trumentalização do ciber como um O CAVALEIRO” BARRO e CEPIK, 2014).
meio se refere à utilização da Inter- Na dinâmica dicotômica de herói
net como instrumento para propa- e anti-herói, o Estado se coloca como Ciberterrorismo está constante-
ganda, recrutamento, disseminação Lancelot, o grande guerreiro valen- mente se redefinindo como objeto de

90 MORTAL KOMBAT
I N S I G H T INTELIGÊNCIA

Qualquer um pode
provocar danos no
ciberespaço, e como
o famoso cartoon do
New Yorker coloca,
“na Internet, ninguém
sabe que você é um
cachorro”

segurança. É um processo contínuo ckers) – mesmo não estando em pé ber” (o que inclui também a Internet)
de reafirmação desse espaço como de igualdade – podem causar danos como espaço de segurança e campo
algo que precisa “se tornar segu- e/ou utilizar esses espaços como veí- estratégico.
ro”. Esse processo se dá por meio culos de comunicação e propagan-
de uma espiral de discursos e ações. da, promovendo, portanto, o maior Qualquer um, desde o adolescente
O Estado, enquanto provedor (legíti- medo do Estado moderno: a insegu- hacker até o governo mais moder-
mo) “rousseauniano” da segurança e rança. Não é por menos que muitos no, pode provocar danos no cibe-
detentor do monopólio da violência, países vêm desenvolvendo estraté- respaço, e como o famoso cartoon
é desafiado pelo ambiente de poder gias cibernéticas, centros militariza- do New Yorker coloca, “na Internet,
difuso proporcionado pelo espaço ci- dos para combater ameaças vindas ninguém sabe que você é um ca-
bernético. Por mais que a distribui- ou conectadas ao virtual. O Brasil, chorro” […] (NYE, 2010).
ção de poder no on-line permaneça por exemplo, inaugurou em 2010 o
assimétrica, ela está mais horizon- Centro de Defesa Cibernética (CD- Não diferente do espaço off-line,
talizada (NYE, 2011), e esse processo Ciber) e em julho de 2015 lançou a as disputas de conceitos como gê-
de horizontalização significa que ou- primeira estratégia nacional de se- nero, democratização, liberdade de
tros atores, principalmente não es- gurança cibernética (ESTRATÉGIA, expressão e extraterritorialidade no
tatais (leia-se ciberterroristas e ha- 2015). Tais medidas reforçam o “ci- on-line permanecem em constan-

OUTUBRO • NOVEMBRO • DEZEMBRO 2015 91


I N S I G H T INTELIGÊNCIA

te atrito com os discursos de segu- manutenção do status quo da Inter- -segurança para que não se abra a
rança e defesa cibernética estatal. net, ou seja, mantê-lo como ponte e porta da securitização. Em outras
Além disso, o ato de nomear o ciber plataforma comunicacional, divul- palavras, deve-se evitar a centrali-
como problema de segurança dá ao gadora e propagandista dos ideais zação do ciberespaço como objeto
Estado um mandato transfronteiriço e motivações políticas. de segurança do Estado, impedindo a
(mesmo que com alguns obstáculos consequente legitimação de medidas
– interesses privados e legislações), [CONCLUSÃO] CIBERTERRORISMO abusivas – invasão de privacidade,
permitindo a utilização de medidas COMO HIPER-REALIDADE: “O CAVALEIRO vigilância em massa, fragmentação
excepcionais, tal como a articula- É O MANTRA” da Internet, cerceamento da liberda-
ção da Corte de Vigilância de Inte- A convergência digital, “fenômeno de de expressão – e a normalização
ligência Externa (FISA) no processo social complexo de integração de mí- da excepcionalidade, como ocorreu
de coleta de dados dos usuários do dias distintas em um único canal de no pós 11 de setembro.
Google, Facebook, Apple para o pro- transmissão” que continua a revolu- Falar sobre ciberterrorismo é
grama de vigilância em massa da cionar “instituições e o modo de pro- lidar com uma categoria deslocada.
NSA, o PRISM (GREENWALD, 2014), dução midiática do século XX” (BOR- Ela emerge como produto discursi-
big data entre outros recursos “ex- NE, CANABARRO e CEPIK, 2014) tem vo da legitimação do ciber como es-
cepcio-normalizados”. desenvolvido um papel central para paço de segurança, mas não apre-
Todavia, uma pergunta permane- a concretização do ciberterrorismo senta nada novo. É uma das ramifi-
ce: como atacar um inimigo “desco- como hiper-realidade. cações do terrorismo, ou melhor, é
nhecido”? Um dos grandes proble- Não há nenhum registro de ata- a utilização do espaço cibernético
mas que permeiam as discussões ques ciberterroristas (FRIEDMAN para produzir resultados esperados
sobre cibersegurança é o desafio e SINGER, 2014; TALIHÄRM, 2010; dentro das definições de terrorismo
da atribuição – saber quem atacou. WEIMANN, 2005). Isso não quer dizer (medo, insegurança, mudança no ce-
O uso da criptografia e recursos de que as preocupações relacionadas nário político, transmitir mensagens).
anonimização acabam dificultando o a possíveis ataques a infraestrutu- É como se o ciberterrorismo fos-
processo de identificação, mas, por ras críticas não devam ser levados se uma tela, e diversos pintores es-
outro lado, a dificuldade é utilizada em consideração. Em 2007, a Rús- tivessem lutando constantemente
como porta de entrada para maior sia promoveu um ataque cibernético por espaço e reconhecimento do seu
vigilantismo e controle. Em um cená- que foi capaz de desconectar o país retrato sempre fiel a uma realidade
rio imaginado, um ciberataque ter- da Internet. Em 2010, o vírus Stux- imaginada do terror. Sendo assim,
rorista a uma infraestrutura crítica net desconfigurou os sistemas ope- o cavaleiro ciberterrorista do infoa-
levaria a tentativas ainda mais inci- racionais das centrífugas no com- pocalipse surge como o retrato ex-
sivas de governos de tornar seguro plexo nuclear iraniano em Natanz pandido, a caricatura da percepção
o espaço cibernético, o que resul- (SHAKARIAN, 2011). Ambos regis- de ameaça.
taria no cerceamento da Internet tros ficaram marcados na recente
como um espaço livre e aberto vis- história dos ataques cibernéticos e A autora é pesquisadora da Escola de Guerra
-à-vis práticas de controle, defesa reforçam a importância de assegu- Naval - Geocorrente/Segurança Cibernética
e do Projeto Brasil Global, do Instituto de Re-
e segurança. Ao que parece, é mais rar infraestruturas. Entretanto, de- lações Internacionais da PUC-Rio
interessante, para os terroristas, a vem-se ponderar os discursos pró- louise.marie.hsd@gmail.com

92 MORTAL KOMBAT
I N S I G H T INTELIGÊNCIA

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OUTUBRO • NOVEMBRO • DEZEMBRO 2015 93


I N S I G H T INTELIGÊNCIA

94 COTIDIANO
I N S I G H T INTELIGÊNCIA

A ORDEM NATURAL
DAS COISAS:

360 graus
de Roubo
A. C. PORTO GONCALVES
ENGENHEIRO E ECONOMISTA

M
aria Odette embrulhou o bule com papel celofane, carinhosamente. Era de porce-
lana francesa, lindo, coisa fina, valiosa. Colocou-o na bolsa e pensou que precisava
ter cuidado, era uma peça delicada, qualquer pancada poderia quebrá-la. Depois
tirou as flores de um jarro, de cor parecida com a do bule, e jogou-o com força no chão da cozi-
nha. Deu um grito. “Ai meu Deus, desculpe, desculpe Dona Thereza! Como sou estabanada, es-
barrei no bule, caiu no chão! Estilhaçou!”
Dona Thereza, deitada no quarto, abriu seu único olho bom e sussurrou o mais alto que pôde:
“Odette, o que houve? Quebrou o bule de café, herança da minha avó?! Ai, ai, ai!” E começou a chorar.
Odette, a cuidadora de Thereza, desculpou-se mil vezes, abraçou e chorou com a velha
muito idosa, presa na cama havia dois anos. Mas pensava o tempo todo em como era esperta.
Logo, logo sairia de casa com o bule e ninguém daria pelo sumiço; afinal quebrou, e cacos de-
vem ser jogados fora. Odette poderia então curtir sua nova propriedade, servir café para as
amigas naquela peça fina, linda.

OUTUBRO • NOVEMBRO • DEZEMBRO 2015 95


I N S I G H T INTELIGÊNCIA

Hiena puxou a arma, mas


não era para atirar, só
intimidar. Ninguém atira no
seu próprio ganha-pão

Dona Thereza nem tinha mais amigas, morreram to- mulher e a bolsa no chão. Ela começou a gritar e ele teve
das; e raros parentes iam visitá-la. Por que queria o bule? que correr. Se tivesse uma faca ia cortá-la. “Cachorra!
Só podia ser cobiça. Ela, Odette, cuidava pacientemente Tem que saber perder! Velhota gorda, agarrada à bol-
da velha, recebendo pagamento ínfimo, e sempre admi- sa, andando na rua sozinha, é para ser assaltada.” É a
rou e desejou o bule. Nada mais justo que ficasse com ordem natural das coisas.
ele. É a ordem natural das coisas. Espumou de raiva, a bolsa continha apenas cinco
Duas horas se passaram e Odette saiu da casa agar- retratos, dois reais, uma passagem de integração, uma
rada à bolsa valiosa, andando rapidamente. Pouco de- chave e um bule quebrado. Nem identidade que pudes-
pois, na rua, levou um encontrão violento, caiu no chão. se vender. “Deus do céu, porque aquela mulher se agar-
Trivela corria pelas ruas da Tijuca, olhando para trás rava à bolsa?! Devia ser proibido enganar os outros as-
e afastando-se rapidamente do local do crime. O pé alei- sim. O perigo, aquela correria toda, para nada, nada!”
jado, torto, lhe rendera o apelido de Trivela e prejudi- Não teve mais tempo de se lamentar. A freada brus-
cava sua velocidade. Seu nome verdadeiro era Joniuo- ca do carro de polícia fez com que pulasse o muro do
quer, escolhido pela mãe para homenagear o sonho de fundo do beco. Gostava do local porque havia essa rota
consumo do pai, alcoólatra, e fazê-lo aceitar o filho. Não de fuga, mas Hiena, o policial que saltou do carro, sabia
adiantou nada, fora surrado regularmente pelo pai que, disso e sempre o procurava naquele beco.
antes de abandonar a casa – e isto foi um grande alívio! Hiena puxou a arma, mas não era para atirar, só inti-
–, quebrou e entortou-lhe o pé com um pisão. midar. Ninguém atira no seu próprio ganha-pão. Depois
Após algum tempo achou que não estava mais sen- de assumir o cargo na delegacia, Hiena escolhera um
do seguido. Entrou num beco, tirou a camisa e vestiu-a grupo de assaltantes e os soltara da cadeia, com a con-
pelo avesso; outra cor, bom para despistar perseguido- dição de que lhe pagassem um dinheiro semanal, uma
res. Olhou a bolsa escondida sob a camisa, era de qua- participação nas suas atividades. Trivela entre eles, por
lidade. Arrancara de uma velhota gorda, derrubando a ser esperto e ousado. Mas não era um ladrão honesto.

96 COTIDIANO
I N S I G H T INTELIGÊNCIA

Havia três semanas que nada pagava. Como dizia Hie- to, atrás de umas pessoas. Achou que deveria sair do
na, “um absurdo, completamente surdo!” (às vezes ele estádio antes do fim do jogo, por prudência, mas aque-
se confundia com a estrutura das palavras). Soubera le empate indeciso o mantinha preso ao local, torcendo.
do assalto, parecia coisa do Trivela, e foi procurá-lo no Subitamente o mundo desabou. Nos descontos o Flumi-
beco. Não, não ia deixá-lo fugir, quando o pegasse iria nense desempatou e Trivela enlouqueceu. “Não vale! O
moê-lo de pancada, que ódio! Fred estava impedido, o gol foi de mão e a bola não en-
Trivela corria muito, sabia que Hiena estava atrás. De trou. Deus do céu, você não viu juiz, você não viu, anu-
repente, viu uma multidão chegando ao Maracanã, mui- la, anula! Não vai anular não? Como não?! Cego! Ladrão!
ta gente, muita gente, jogo do Flamengo. E sorriu ao per- Como pode um juiz ser ladrão! Deve ser coisa da CBF!”
ceber como escapar. Iria ao jogo na geral, e Hiena não Sim, é a ordem natural das coisas.
poderia encontrá-lo. Agulha no palheiro. Além do mais Trivela correu para a beira do campo, pulando e gritan-
era flamenguista, bom ver esse jogo. Só de pensar na do palavrões, histérico. Só parou quando levou a primei-
cara do polícia riu alegremente. ra cacetada, na cabeça. Saiu do estádio algemado, ainda
Hiena também viu a multidão e adivinhou que Trivela vociferando, arrastado pelo Hiena, que sorria como um
entraria no estádio. Difícil achá-lo, mas seu ódio se mul- predador do topo da cadeia alimentar. É a ordem natural
tiplicara. O desgraçado pensa que escapou. Não! Ia usar das coisas no Brasil, roubo de todos os lados, 360 graus.
o binóculo e esquadrinhar cada canto. “Vou encontrá-lo,
ele vai ver só, comigo não se brinca!”
O autor é professor da Fundação Getulio Vargas e da Universidade
O Fla-Flu já estava no final, 40 minutos do segun- Federal Fluminense (UFF).
do tempo, empatado. Trivela assistia quieto num can- antonio.porto@fgv.br

Soubera do assalto, parecia


coisa do Trivela, e foi
procurá-lo no beco. Não,
não ia deixá-lo fugir
OUTUBRO • NOVEMBRO • DEZEMBRO 2015 97
I N S I G H T INTELIGÊNCIA

98 LIRA DOS 80
I N S I G H T INTELIGÊNCIA

SUPERLATIVO!

OUTUBRO • NOVEMBRO • DEZEMBRO 2015 99


I N S I G H T INTELIGÊNCIA

WANDERLEY E A
CONSCIÊNCIA CRÍTICA
CANDIDO MENDES
CIENTISTA POLÍTICO

A
presença de Wanderley Gui- deu o estudo do contraponto entre a
lherme dos Santos em nos- consciência crítica e a consciência
sa vida de espírito tem uma ingênua, em nossa saída da depen-
dupla dimensão. Vamos lhe dever o dência colonial.
avanço do nosso pensamento críti- No desdobrar, a largo prazo, des-
co da modernidade, de par com o im- se empenho saído do marco isebia-
plante das ciências sociais na inser- no, perseguido pela ditadura militar,
ção do desenvolvimento brasileiro. É Wanderley passou à Universidade
a dimensão da relevância que o leva Candido Mendes, quando se fundou
à busca do sentido, na melhor dra- o Instituto Universitário de Pesqui-
mática prospectiva e na visão de todo sas do Rio de Janeiro (Iuperj), que o
o universo do poder. Não é outro o teve como seu primeiro diretor. Ten-
modo inquisitivo do texto Quem dará tamos manter o que o Iseb propuse-
o golpe no Brasil? ra, como a dimensão realmente pros-
Wanderley participou desse des- pectiva do nosso “quefazer”, na exi-
dobramento dos cânones didáticos gência do projeto de um Brasil “para
do nosso compreender em meados si”, de onde arrancou, em termos in-
do século passado e no que foi, en- discutivelmente fundadores, o nacio-
tão, o laboratório do Iseb, o Institu- nalismo dos anos 1950. O que mar-
to Superior de Estudos Brasileiros. ca, sempre, o pensamento de Wan-
Somou-se, nessa docência, a Álvaro derley é o largo reclamo de Erasmo
Vieira Pinto, como seu assistente, na de Roterdã, ao encontrar, sempre,
cadeira de História da Filosofia, na no nó das tensões sociais, o clamor
recém-criada faculdade (da mesma pelo universal e, na acepção que lhe
capacitação) na Universidade do Bra- presta Baudrillard, a efetiva fenome-
sil. Ao lado do titular, participou do nologia do evento. Demonstram-no
pioneirismo da nossa reflexão epis- os pontos cardeais das suas pesqui-
temológica, pelo que Vieira Pinto nos sas ao longo dessas décadas: com-

100 LIRA DOS 80


I N S I G H T INTELIGÊNCIA

petição eleitoral e renovação parla- E, nesse à vontade com a lógica de


mentar comparada; crise e sequên- situações limite, vai aos paradoxos
cias da organização política; globali- na leitura da organização sistêmi-
zação, definições, medidas e evidên- ca, dentro do nosso processo histó-
cias; custos do status quo e custos rico, e no enfoque de fenômenos so-
do fracasso de ações coletivas; de- ciais totais, como o do liberalismo e
mocracia natural e governabilidade. o marco, sempre não redutor, do de-
Não é outra a escala do discurso de bate das ideologias, assentadas na
textos como Décadas de espanto e plenitude de sua práxis.
uma apologia democrática ou O ex- Garantindo-se a sabedoria do pa-
-leviatã brasileiro. Wanderley asse- radoxo, o pensamento de Wanderley
gurou-se, sempre, da absoluta con- é, mais do que nunca, cobrado pela
temporaneidade de sua meditação, aceleração dos novos contrapontos
nos Estados Unidos, no doutoramen- contemporâneos trazidos pelo Isis,
to em Stanford e, depois, como pro- pela secularização, pelo cansaço ins-
fessor visitante em Madison e como titucional ou pelas novas configura-
titular da cadeira Edward Tinker em ções internacionais, medidas pela
Stanford. quebra das globalizações da moder-
O impacto permanente da sua nidade em emergência e o reclamo
mensagem nasce de uma heurísti- pelas diferenças na identidade cole-
ca, quase na tentação da parábola, tiva da pós-modernidade.
somada ao explicar. Nem por outra
razão, pode debruçar-se em concei- O articulista é reitor da Universidade Candi-
do Mendes e membro da Academia Brasilei-
tos como “inércia social”, “fracasso ra de Letras.
coletivo” ou o “cálculo do conflito”. cmendes@candidomendes.edu.br

O IMPACTO PERMANENTE DA SUA


MENSAGEM NASCE DE UMA HEURÍSTICA,
QUASE NA TENTAÇÃO DA PARÁBOLA,
SOMADA AO EXPLICAR
OUTUBRO • NOVEMBRO • DEZEMBRO 2015 101
I N S I G H T INTELIGÊNCIA

O INTÉRPRETE DO
PENSAMENTO NACIONAL
CHRISTIAN EDWARD CYRIL LYNCH
JURISTA E CIENTISTA POLÍTICO

O
primeiro interesse de Wan- Brasil no século XIX. Wanderley en-
derley Guilherme no campo tão começou seu processo de “con-
da ciência política decorreu versão” às ciências sociais, em detri-
de sua pesquisa sobre o pensamento mento da produção filosófica. Prova-
político brasileiro. Ela teve início em velmente vem também desse momento
1963, quando era chefe do Departa- seu desconforto com os modos então
mento de Filosofia do Instituto Supe- prevalecentes de tratamento do pen-
rior de Estudos Brasileiros, o ISEB. samento brasileiro, que, por diversos
Ela surgiu de uma solicitação de Ál- motivos, o consideravam nas ciências
varo Viera Pinto, seu antigo professor sociais como imprestável para produ-
da Faculdade Nacional de Filosofia e zir reflexão válida sobre a realidade
na época diretor do instituto, interes- nacional. Desde então, a afirmação
sado em alargar o cânone reconhe- de existência de uma elite intelectual
cido de obras representativas da fi- brasileira cujo pensamento deveria
losofia brasileira. Na companhia de ser estudado pelos que buscavam
Carlos Estevão Martins, Wanderley compreender os dilemas contempo-
Guilherme dedicou suas leituras de râneos do Brasil constituiu-se uma
obras do séc. XVIII e XIX na seção de tese e um horizonte da pesquisa de
livros raros na Biblioteca Nacional e Wanderley Guilherme sobre o pen-
na biblioteca do Serviço Social do Co- samento político brasileiro.
mércio (SESC). À medida que progres- A nova pesquisa deveria durar
sivamente se desinteressava pela te- dois anos. Com o golpe militar e o fe-
mática mais metafísica dessa litera- chamento do ISEB pelo novo regime,
tura, Wanderley descobria como que a pesquisa regular foi retomada no
causalmente obras de vários autores contexto da criação do antigo Insti-
listados como filósofos e outros não tuto Universitário de Pesquisa do Rio
incluídos nessa categoria, que versa- de Janeiro, Iuperj. Assistido por um
vam sobre a sociedade e a política do grupo de bolsistas, Wanderley bus-

102 LIRA DOS 80


I N S I G H T INTELIGÊNCIA

cou definir dentro do universo de 3 momentos da cronologia política


obras de autores brasileiros aque- da história brasileira (1870-1930;
les que podiam ser arrolados como 1931-1945; 1945-1965).
constitutivos do pensamento político- A pesquisa de Wanderley Gui-
-social brasileiro. A partir de pesqui- lherme dos Santos se encontra em
sa e livros periódicos, boletins biblio- artigos como: A imaginação político-
gráficos e arquivos de editoras, ele e -social brasileira (1967), Raízes da
sua equipe elaboraram uma ampla imaginação política brasileira (1970),
listagem de obras aparecidas entre Paradigma e História: a ordem bur-
1870 e 1965, o “Roteiro bibliográfico guesa na imaginação social brasilei-
do Pensamento Político Social Brasi- ra (1978) e A Práxis Liberal no Brasil:
leiro”. Foram excluídos do arrolamen- propostas para reflexão e pesquisa
to os textos dedicados a metodologia, (1978). Partindo dos trabalhos pio-
aqueles considerados estritamente neiros desenvolvidos por Guerreiro
historiográficos, antropológicos, eco- Ramos no ISEB, Wanderley afirmava
nômicos e de psicologia social além que a necessidade de reformar uma
de trabalhos dedicados a exposição realidade percebida como atrasada, a
ou crítica de pensamentos de de- fim de elevá-la ao patamar de demo-
terminados autores. Selecionados a cracia moderna e capitalista, cons-
partir de 45 volumes bibliográficos e tituiria o eixo temático principal do
23 coleções de periódicos e boletins, pensamento político brasileiro. Seu
a impressionante listagem de 3.000 autor mais importante teria sido Oli-
textos está organizada em duas se- veira Viana, que pusera em evidên-
ções. Na primeira são arrolados os cia o drama dos liberais que, interes-
artigos publicados em periódicos; na sados na ereção de uma sociedade
segunda, os livros. As duas listas são moderna no Brasil, num contexto so-
igualmente periodizadas a partir de ciopolítico adverso, se viam obriga-

A NECESSIDADE DE REFORMAR UMA


REALIDADE PERCEBIDA COMO ATRASADA
CONSTITUIRIA O EIXO TEMÁTICO PRINCIPAL
DO PENSAMENTO POLÍTICO BRASILEIRO
OUTUBRO • NOVEMBRO • DEZEMBRO 2015 103
I N S I G H T INTELIGÊNCIA

dos a lançar mão da autoridade do Em primeiro lugar, ela produziu um


Estado de modo instrumental para enquadramento disciplinar do obje-
alcançar aquele objetivo. Seguindo to. Sua perspectiva epistemológica
um critério nacionalista, Wanderley pragmático-moderada permitiu su-
afirmava haver duas principais li- perar os dilemas até então impostos
nhagens intelectuais no PPB, que di- pelas oposições resultantes, seja do
vergiriam acerca dos meios condu- hegelianismo filosófico predominante
centes à assunção da modernidade no ISEB, seja do positivismo científico
liberal democrática: os autoritários esposado pela sociologia da USP em
instrumentais e os liberais doutri- meados dos anos 1950, e que redun-
nários. Os primeiros entenderiam davam no desprezo do pensamento
que, no contexto de uma sociedade brasileiro como periférico ou inferior.
fragmentada e autoritária, o Estado Havia uma cultura política nacional;
era uma agência privilegiada para a o pensamento político brasileiro era
mudança social em sentido liberal, por excelência o seu produto intelec-
devendo-se, pois, fortalecê-lo a fim tual e não era possível compreender
de dotá-lo de meios para executar o acidentado processo político brasi-
aquela tarefa. Já os liberais doutri- leiro sem estudá-lo. Em segundo lu-
nários seguiriam de modo mais fiel gar, com a pesquisa surgiu uma de-
a cartilha liberal democrática euro- finição clara do seu estatuto e o seu
peia, acreditando que “a rotina insti- competente nome de batismo: trata-
tucional criaria os automatismos po- -se de estudar o “pensamento políti-
líticos e sociais ajustados ao funcio- co-social brasileiro” e, em particular,
namento normal da ordem liberal”. a “imaginação política” nele presente.
Essa pesquisa foi o grande mar- Em terceiro lugar, a pesquisa delimi-
co dos estudos do pensamento polí- tou o perímetro do pensamento polí-
tico brasileiro nas ciências sociais. tico brasileiro no âmbito das ciências

WANDERLEY SEMPRE SE RECUSOU


EM SUA OBRA A APLICAR
ACRITICAMENTE TEORIAS
EUROPEIAS OU NORTE-AMERICANAS
104 LIRA DOS 80
I N S I G H T INTELIGÊNCIA

sociais. Ao excluir deliberadamente fícia Universidade Católica (PUC-RJ),


da pesquisa “as obras estritamente a Universidade Federal do Rio de Ja-
históricas, antropológicas, psicoló- neiro (UFRJ), a Universidade Fede-
gicas, econômicas, metodológicas e ral Fluminense (UFF) e a Fundação
escolásticas”, Wanderley organizou Casa de Rui Barbosa (FCRB). A insti-
o campo de estudos do pensamento tuição que, sem dúvida, mais se des-
político-social brasileiro no âmbito tacou no estudo do pensamento po-
das ciências sociais. Em quarto lu- lítico brasileiro naquele período foi o
gar, da pesquisa resultava a carac- Centro de Pesquisa e Documentação
terização do pensamento político de História Contemporânea do Brasil
brasileiro como indissoluvelmente da Fundação Getúlio Vargas (CPDOC/
vinculado à prática. Ao contrário da FGV), cujas figuras de proa – Ângela
teoria sociológica ou da filosofia, a de Castro Gomes, Helena Bomeny e
teoria política está sempre vinculada Lúcia Lippi Oliveira – eram egressas
à prática e, por esse motivo, seu es- do antigo Iuperj.
tudo não pode ser eliminado a prio- Wanderley Guilherme sempre se
ri a pretexto de sua dimensão não- recusou em sua obra a aplicar acriti-
-científica ou ideológica. camente teorias europeias ou norte-
Paradigma e História e A Práxis Li- -americanas, ciente de que são pro-
beral no Brasil nasceram clássicos e dutos de circunstâncias particulares
foram usados nas décadas seguintes às sociedades onde forma produzi-
para os estudos sobre o pensamento das. Ao buscar generalizar e abs-
político brasileiro no âmbito de seus trair, com um olho naquelas teorias,
programas de mestrado e doutora- mas com o outro no lugar concre-
do do antigo Iuperj (hoje Iesp-Uerj). to de onde falava – o Brasil –, Wan-
As atividades deste instituto ganha- derley Guilherme procedeu como os
ram em 1978 o reforço de José Mu- grandes mestres dos países cêntri-
rilo de Carvalho, que encarregou-se cos. Agindo desta forma, sua obra
de ministrar cursos e orientar dis- pôde alcançar a verdadeira univer-
sertações e teses sobre o pensamen- salidade, ainda tão rara nesta terra,
to brasileiro, preservando a orienta- na qual o consumo de teorias com-
ção e a interpretação de Wanderley pradas prontas na alfândega ainda
Guilherme. No Rio de Janeiro, a pes- é símbolo de prestígio intelectual.
quisa também serviu de referências
naquelas instituições onde se insta- O autor é professor do Instituto de Estudos
Sociais e Políticos da Universidade do Estado
laram alguns mestres e doutores for- do Rio de Janeiro (Iesp-Uerj).
mados no antigo Iuperj, como a Ponti- clynch@iesp.uerj.br

OUTUBRO • NOVEMBRO • DEZEMBRO 2015 105


I N S I G H T INTELIGÊNCIA

UM FUNDADOR (BEM SUCEDIDO)


DE INSTITUIÇÕES
ADALBERTO CARDOSO
SOCIÓLOGO

A
celebração dos 80 anos de política produzida alhures, mas um
Wanderley Guilherme dos diálogo crítico, insubmisso.
Santos, completados no dia Florestan Fernandes dizia, de for-
13 de outubro de 2015, e de sua tra- ma nada weberiana, que, na América
jetória nas ciências sociais brasilei- Latina, só vê algo sociologicamente
ras é também a celebração do Iesp- quem quer algo socialmente. É o desejo
-Uerj. Ao celebrar a trajetória desse de intervir na realidade e influenciar
extraordinário intelectual, nós cele- na definição dos horizontes culturais
bramos também nossa herança. O mais gerais da sociedade que orien-
legado de Wanderley Guilherme dos ta a formulação de problemas rele-
Santos é o presente do Iesp-Uerj. vantes de pesquisa. Wanderley, com
Essa verdade incontestável exi- sua verve engajada e insubmissa, fez
ge, obviamente, adendos. Wanderley isso. Formulou e continua formulan-
é evidentemente ele mesmo, indiví- do problemas relevantes, produziu e
duo e autor de algumas das mais bri- continua produzindo uma obra ímpar,
lhantes interpretações sobre o Bra- que inquiriu e continua inquirindo as
sil moderno, inspirador de gerações entranhas da vida social e política na-
de cientistas sociais país afora. Mas cional ao mesmo tempo em que bus-
é também a figuração, ou melhor, a cou e continua buscando, nos silên-
encarnação de um projeto que em- cios da teoria política mundial, nossa
balou muitos dos intelectuais de sua particularidade. Não como esquisitice
geração, vários deles presentes na ou exótica manifestação de atavismos
fundação e consolidação do antigo tropicais, mas como manifestação, no
Iuperj. Um projeto ousado, sem dú- particular, do universal implícito nas
vida, de produzir uma ciência social teorias da democracia, da desigual-
e uma teoria social e política genui- dade, do comportamento político, do
namente nacionais. Em diálogo, por racionalismo ocidental, dos sistemas
inescapável, com a teoria social e políticos democráticos, da participa-

106 LIRA DOS 80


I N S I G H T INTELIGÊNCIA

ção, da deliberação, da ordem social, e atiquíssima norma de investiga-


da inércia social… A lista dos temas, ção científica, esses brasilianistas
teorias e conceitos que ele revisitou supõem que existam teorias váli-
e continua revisitando, para mudá- das para os países ricos, e outras
-los, é vasta. que se aplicariam aos países em
Com mais de 30 livros publicados, desenvolvimento e às nações po-
Wanderley investiga a fundo os dile- bres, atrasadas, estagnadas. Assim,
mas da construção social e política do busca-se uma teoria que explique o
Brasil. Faz isso de maneira engajada fenômeno da corrupção entre wa-
e apaixonada, mas ao mesmo tem- sps (anglo-saxões, brancos e pro-
po rigorosa no método, na lapidação testantes), obviamente distinta da-
conceitual, na tessitura da escrita e, quela que serve para reiterar a su-
sobretudo, na coerência do edifício posta tendência de pobres e mesti-
teórico resultante, sempre devotado ços à imoralidade pública. Já se a
ao projeto de construir uma teoria matéria é corporativismo, o susto
política geral, que dê conta não ape- causado pela descoberta de sua
nas do Brasil e seu lugar no mundo, incidência nos dolicocéfalos países
mas do próprio mundo visto, a partir nórdicos foi rapidamente debelado
do Brasil, como dotado de regularida- pela prestidigitação intelectual que
des de caráter geral. Ambição hercú- distingue conceitualmente um cer-
lea. O resultado, todos sabemos, está to ‘corporativismo societal’, próprio
à altura da ambição. da Escandinávia e Europa ociden-
Transcrevo um trecho longo, mas tal, de um certo ‘corporativismo de
seminal, de obra igualmente crucial Estado’, característico da Europa
para a compreensão do pensamen- ibérica e meridional e, é claro, da
to de Wanderley. América Latina (...)
“Uma boa teoria, se é uma teoria do
“O brasilianismo convencional pra- desenvolvimento, por exemplo, deve
ticado por norte-americanos, euro- ser compreensiva o suficiente para
peus e brasileiros padece de idio- esclarecer o desenvolvimento tan-
frenia terminal. Contrariando boa to quanto o não desenvolvimento. E

COM MAIS DE 30 LIVROS PUBLICADOS,


WANDERLEY INVESTIGA A FUNDO
OS DILEMAS DA CONSTRUÇÃO SOCIAL
E POLÍTICA DO BRASIL
OUTUBRO • NOVEMBRO • DEZEMBRO 2015 107
I N S I G H T INTELIGÊNCIA

isto pela mesma razão por que não legas. Algumas reuniões anuais da
existe uma lei da gravidade para cor- ANPOCS foram realizadas na mes-
pos redondos e outra para corpos ma sala onde celebramos a vida e a
retangulares. Esta obviedade, en- obra de Wanderley, no dia 19 de ou-
tretanto, é ignorada pelas teorias tubro de 2015, com mesas se suce-
etnocentricamente idiofrênicas.”1 dendo em debates acalorados. Não
por acaso, a sala de aula do Iesp-
Wanderley leu a fundo os intér- -Uerj se chama Olavo Brasil de Lima
pretes do Brasil, desencavou auto- Júnior. Olavo foi o primeiro secretá-
res esquecidos e também escritos rio executivo da ANPOCS, cargo que
esquecidos de autores improváveis exerceu por duas gestões consecuti-
(caso de José de Alencar). Colocou- vas (entre 1977 e 1980), sempre com
-se desde sempre como herdeiro dos apoio e engajamento de Wanderley. E
pensadores que, como dizia Oliveira mais. Wanderley presidiu a ANPOCS
Vianna, tinham o Brasil à vista. Wan- no biênio 1983-84, na mesma casa
derley sempre teve o Brasil à vista, que foi a sede do Iuperj, instituição
mesmo em seus trabalhos mais teó- de que Wanderley foi um dos funda-
ricos (como o seminal “Democracia dores e na qual formou gerações de
3D”), ou filosóficos (como o extraor- intelectuais e escreveu parte subs-
dinário “Discurso sobre o objeto”). O tancial de sua obra.
Brasil à vista. Wanderley é um apaixo- Reivindicamos a herança do an-
nado pelo Brasil, e um de seus gran- tigo Iuperj, por várias razões. Por
des intérpretes. termos entre nós Cesar Guimarães,
É preciso lembrar, ainda, que Wan- Maria Regina Soares de Lima, Renato
derley é um construtor de institui- Boschi, Nelson do Valle Silva, Luiz An-
ções. O Iesp-Uerj é seu legado mais tônio Machado da Silva, Glaucio Soa-
saliente, mas talvez nem todos saibam res, Argelina Figueiredo e o saudoso
que a Associação Nacional dos Pro- Marcus Figueiredo. Por continuar-
gramas de Pós-graduação em Ciên- mos editando a revista Dados, lega-
cias Sociais (ANPOCS) foi fundada na do de Wanderley e sua geração, que
casa da Rua da Matriz, número 82, teve em Charles Pessanha o veículo
sob o patrocínio de Wanderley e co- primordial e que está hoje sob a ba-

O IESP-UERJ É SEU LEGADO MAIS SALIENTE,


MAS TALVEZ NEM TODOS SAIBAM QUE A
ANPOCS FOI FUNDADA SOB SEU PATROCÍNIO
108 LIRA DOS 80
I N S I G H T INTELIGÊNCIA

tuta segura de Breno Bringel, quarta razão da ignorância, sua natureza


geração do mesmo legado. E reivin- e sua função epistemológica em
dicamos essa herança, sobretudo, assuntos humanos. É a partir dele
porque Wanderley a reconhece, isto que discurso, e discurso sobre tudo
é, porque ele se reconhece nas gera- que me pareça relevante na eluci-
ções que o sucederam e que mantêm dação do processo material e sim-
vivo seu legado. Obra que está imate- bólico pelo qual os seres humanos
rializada no mundo das ideias e ma- fabricam o mundo e o conhecem.
terializada na biblioteca do Iesp-Uerj, “É claro, também tenho um obje-
que é, oficialmente e para as futuras tivo malévolo: o de destruir toda
gerações, Biblioteca Wanderley Gui- e qualquer pretensão de que seja
lherme dos Santos, ato devidamente possível conhecer o mundo social
formalizado pelo Reitor da Uerj, Ri- assim como se decora que dois e
cardo Vieiralves de Castro em 2013. dois, ceteris paribus, são quatro.
Gostaria de encerrar transcre- Contra a arrogância dogmática,
vendo trecho de uma pequena e ma- oponho a simpatia cética; contra o
gistral obra de Wanderley. saber enclausurante, a subversão
libertária da ignorância.”2
“Conhecer Platão não significa co-
nhecer nada a respeito do mundo Vindo da pena de um erudito como
humano, além daquilo que consti- Wanderley, uma afirmação como essa
tui o pensamento de Platão. Subs- é um convite à parcimônia, mas não à
titua-se Platão por Santo Agosti- humildade acadêmica. A ignorância
nho, Maine de Biran, Marx ou Wit- só liberta os que têm ambições inte-
tgenstein, e nenhuma alteração se lectuais à altura dela, como é o caso
verifica na valência da proposição: de Wanderley Guilherme dos Santos.
conhecer a doutrina de x não sig-
nifica saber alguma coisa do mun- * Este texto foi adaptado do discurso de aber-
tura do seminário em homenagem aos 80 anos
do além da doutrina de x, que está
de Wanderley Guilherme dos Santos, ocorrido
neste mundo. Tenho compromisso
no dia 19 de outubro de 2015, no Iesp-Uerj.
existencial com o mundo e interes-
se estético em ideias.
“Penso haver descoberto algo: sim- O autor é professor do Instituto de Estudos
Sociais e Políticos da Universidade do esta-
ples e, ao mesmo tempo, devasta- do do Rio de Janeiro (Iesp-Uerj).
dor. Descobri, ou assim acredito, a acardoso@iesp.uerj.br

NOTAS DE RODAPÉ

1. Wanderley Guilherme dos Santos, Razões da desordem. Rio de Janeiro, Rocco (3ª edição), p. 9.

2. Wanderley Guilherme dos Santos, Discurso sobre o objeto. Uma poética do social. São Paulo,
Companhia das Letras, 1990.

OUTUBRO • NOVEMBRO • DEZEMBRO 2015 109


I N S I G H T INTELIGÊNCIA

UM REALISTA
IDEALISTA
MARIO BROCKMANN MACHADO
ADVOGADO

M
ais do que um colega de cia política, quando, ainda jovem,
profissão, sempre consi- frequentava o ISEB, Wanderley deu
derei Wanderley um mes- provas de sua argúcia política inata,
tre. Tanto em seus trabalhos teóricos, ao prever quem, afinal, daria o golpe
quanto em suas análises de conjun- no Brasil. Esse é um dom, que pou-
tura, Wanderley oferece ideias ori- cos cientistas políticos têm. De fato,
ginais e instigantes, tudo revestido há um grande número de profissio-
de argumentação e evidências con- nais que ou repetem as teorias que
sistentes. Seus textos não são para aprenderam nos livros, ou falam so-
serem apenas lidos, mas estudados. bre a conjuntura como se jornalistas
No meu Panteon intelectual, ele ocu- fossem, sempre dispostos a dar en-
pa posição de destaque, juntamente trevistas. Mas jornalistas sem fontes
com Bolivar Lamounier e Fábio Wan- originais de informação, apenas sin-
derley Reis. tetizando o que leram nos jornais do
Wanderley trouxe, para o seu tra- dia. Se Nelson Rodrigues fosse vivo,
balho científico, uma bagagem filosó- talvez ele adicionasse um novo tipo
fica adquirida na graduação da an- ao seu divertido elenco: o “cientista
tiga Universidade do Brasil. A isso, de televisão”. Wanderley, assim como
acrescentou as luzes acesas pela os dois outros colegas citados, são
“virada linguística”, ocorrida na fi- exceções admiráveis.
losofia ocidental no início de século Wanderley participou, direta e ati-
XX. Aliás, a curiosidade intelectual vamente, da construção de duas im-
dele é ilimitada, abrangendo diver- portantes instituições acadêmicas: o
sas áreas de conhecimento, além de antigo Instituto Universitário de Pes-
ser um criterioso leitor da boa ficção quisas do Rio de Janeiro, o Iuperj –
e ouvinte da boa música. hoje agregado à Uerj sob o título de
Mesmo antes de dedicar-se sis- Instituto de Estudos Políticos e So-
tematicamente ao estudo da ciên- ciais –, e a Associação Nacional de

110 LIRA DOS 80


I N S I G H T INTELIGÊNCIA

Pós-Graduação e Pesquisa em Ciên- da na USP, onde continuava sendo


cias Sociais, a ANPOCS. de rigueur participar de seminários
O Iuperj, no início da década de sobre O Capital... A revista Dados, do
70, congregou um grupo inovador de Iuperj, tão bem dirigida por Charles
cientistas políticos, todos com dou- Pessanha, era o meio principal de
torado nas melhores universidades divulgação dessas ideias, além, evi-
norte-americanas. Lembro-me de dentemente, dos cursos de mestrado
memória, entre outros, de Bolivar e doutorado em Sociologia e Política
Lamounier e Simon Schwartzman, do Instituto. Ideias que se distancia-
formados na Universidade da Cali- vam da interminável discussão her-
fórnia; de Amaury de Souza, no M.I.T.; menêutica dos grandes pensadores
de Sérgio Abranches, em Cornell; do e buscavam construir teorias empi-
próprio Wanderley, em Stamford; e ricamente consistentes, sem cair na
deste escriba, em Chicago. Em Minas armadilha do puro quantitativismo.
Gerais, no Departamento de Ciência De Wanderley, pode-se dizer que
Política da UFMG, Fábio Wanderley tem uma obra publicada, elegante na
Reis, com doutorado em Harvard, e escrita e sofisticada no pensamento.
Antônio Octávio Cintra, no M.I.T., tri- Eu não sei, com exatidão, quantos li-
lhavam, desde antes, o mesmo ca- vros (talvez cerca de trinta) e artigos
minho. Todos dedicados a uma nova (incontáveis) a compõem, tantos são.
ciência política, teoricamente aber- Mas sei que são fruto de muito ler,
ta e empiricamente rigorosa, livre muito pensar, muito trabalhar, que
do ranço tradicionalista da pratica- isso não se faz improvisadamente,

O IUPERJ CONGREGOU UM GRUPO


INOVADOR DE CIENTISTAS POLÍTICOS,
TODOS COM DOUTORADO NAS MELHORES
UNIVERSIDADES NORTE-AMERICANAS
OUTUBRO • NOVEMBRO • DEZEMBRO 2015 111
I N S I G H T INTELIGÊNCIA

nem sem enfrentar as limitações que dos os males da política nacional.


os problemas de saúde impõem. Ta- Consegue ser, a um só tempo, radi-
manho esforço há de ser estimula- cal e cauteloso. Defende, com con-
do, também, por uma esperançosa vicção, o debate aberto de valores
crença na influência que as ideias e interesses, ressaltando, assim, o
possam ter (até onde?) sobre a ação trabalho indispensável dos parla-
humana. Wanderley poderia ter fei- mentos. Talvez seu ideal seja o de
to carreira acadêmica de sucesso um socialismo democrático.
em qualquer das universidades de Com o rigor de sempre, estudou
grande prestígio internacional, mas as origens e a natureza do governo
seu compromisso com “o país a que autoritário inaugurado em 1964,
pertenço, por acaso de nascimento buscando saídas políticas estáveis,
e convicta adesão”, o fez aqui per- o que o fez refletir sobre uma teoria
manecer. Felizmente. positiva do Estado democrático, ca-
Na juventude, Wanderley teve paz de ir além do liberalismo (ou de
participação partidária intensa, mas algum liberalismo, pois os há tan-
logo tornou-se um pensador inde- tos) e juntar a defesa de liberdades
pendente, cioso de sua liberdade. individuais com a promoção de jus-
Seu compromisso com o Povo con- tiça social
tinua firme, mas não é dado a aven- Vez por outra, divergimos quan-
turas. Acredita nas regras do jogo to a algumas avaliações da política
democrático, e não poupa críticas brasileira, especialmente a partir de
aos que querem atribuir-lhes to- 2005. Mas Wanderley afirma, para

COM O RIGOR DE SEMPRE, ESTUDOU AS ORIGENS


E A NATUREZA DO GOVERNO AUTORITÁRIO
INAUGURADO EM 1964, BUSCANDO SAÍDAS
POLÍTICAS ESTÁVEIS
112 LIRA DOS 80
I N S I G H T INTELIGÊNCIA

não deixar dúvida, que a esquerda Não sou um admirador do chamado


não pode ser solidária nem hesitan- Homo sapiens, menos ainda da de-
te “em relação a bandidos”. Acredito sastrosa dominação que ele estabe-
que a amplitude e a profundidade da leceu sobre o nosso planeta. Nunca
corrupção estão a exigir tratamen- conversei sobre isso com Wander-
to drástico, caso ainda haja tempo. ley, mas quero crer que ele compar-
Wanderley orientou dezenas de tilhe esse pessimismo. Com sua inte-
alunos e colegas, formal e informal- ligência e seu realismo, dificilmente
mente. Embora de trato às vezes um poderá ser um otimista. Para os que
tanto difícil, sabe ser generoso, sabe assim pensam, a ciência social não
compartilhar sua bagagem cultural. oferece muitas alegrias. Mas, nave-
De início trepidante, nosso relaciona- gar é preciso. De alguma maneira,
mento pessoal gerou grande e dura- aqui e agora, cabe-nos fazer o que
doura amizade, consolidada, que me de melhor soubermos, ou movidos
dá imensa alegria. pelo convencimento racional, ou por
Seu prestígio há muito ultrapassou ordem de um imperativo ético ou re-
os limites da vida acadêmica, tendo ligioso ou ideológico, pelo que este
conquistado, exclusivamente por seus possa valer. Quanto a isso, Wander-
méritos, o status de um dos grandes ley nunca se omitiu. Continua bata-
intelectuais brasileiros da atualida- lhando aos 80 anos, mas já deixou
de, capaz de alertar, em seu papel de sua marca registrada na nossa so-
“fiel observador participante da vida ciedade. Valeu, Santos!
pública”, a elite política e econômica
pensante nacional. Mesmo quando *NR: Por motivos alheios à vontade do autor,
os mesmo teve um tempo exíguo para escre-
é polêmico, mesmo quando provoca
ver o texto, o que foi compensado brilhante-
mais do que convence, é lido, ouvido e
mente pelo seu talento.
respeitado. Entre outras razões, por-
que age de boa-fé, é honesto, e isso é O autor é professor da FGV Direito Rio.
raro em nosso lamacento país. mario.machado@fgv.br

OUTUBRO • NOVEMBRO • DEZEMBRO 2015 113


I N S I G H T INTELIGÊNCIA

WGS ENTRE A
ACADEMIA E A POLÍTICA
CHARLES PESSANHA
CIENTISTA POLÍTICO

O
regime autoritário brasilei- denciais de 1965. As eleições para os
ro não contou com um movi- governos estaduais foram mantidas,
mento de oposição significa- embora vários candidatos conside-
tivo de exilados ou instituições sedia- rados suspeitos pelo regime tenham
das no exterior. Ao longo de seus 21 sido afastados da disputa. Mesmo
anos, entretanto, instituições e indiví- assim, a vitória dos oposicionistas
duos no Brasil contestaram a ditadu- Israel Pinheiro, em Minas Gerais, e
ra. A estes denomino exilados inter- Negrão de Lima, no Rio de Janeiro,
nos e nomeio Wanderley Guilherme ensejou a emissão de um segundo
dos Santos um de seus principais re- Ato Institucional (AI-2).
presentantes no campo acadêmico. O AI-2 promoveu o aprofunda-
Há 50 anos o Golpe de 1964 ope- mento do arbítrio. Entre outras me-
rava sua segunda guinada institucio- didas, cancelou as eleições diretas
nal na direção do aprofundamento do para presidente, extinguiu os parti-
autoritarismo. O primeiro Ato Insti- dos políticos, operou modificações
tucional, emitido em abril de 1964, drásticas no processo legislativo;
prometera um prazo de seis meses subverteu o calendário eleitoral; in-
para a promoção das cassações e a troduziu a figura do decreto-lei, sem
suspensão de direitos políticos, e li- anuência do Legislativo, aumentou o
mitava sua vigência a 31 de janeiro número de ministros do Supremo Tri-
de 1966. Mantinha o calendário elei- bunal Federal (STF), de 11 para 16, a
toral, que incluía a eleição presiden- fim de garantir maioria favorável ao
cial e as eleições de governadores. governo; renovou a suspensão das
A prorrogação do mandato do ma- garantias constitucionais; reabriu
rechal Castelo Branco, em julho de as cassações e as perdas de direitos
1964, foi o primeiro ato de inflexão políticos; e excluiu as medidas oriun-
na direção do endurecimento e pra- das dos atos institucionais da apre-
ticamente liquidou as eleições presi- ciação judicial. O alcance dessas me-

114 LIRA DOS 80


I N S I G H T INTELIGÊNCIA

didas projeta-se para o futuro com A prudência não aconselhava,


a criação do recurso de “atos com- em hipótese alguma, a criação de
plementares” ao AI-2. O que se viu um instituto de pesquisa meio sé-
depois foi a sequência de atos insti- culo atrás, sobretudo na área das
tucionais (18 no total) e incontáveis ciências sociais. No entanto, ainda
atos complementares. em outubro de 1965, Candido Men-
Importantes instituições de pes- des convida Wanderley Guilherme
quisa sediadas no Rio de Janeiro, dos Santos e outros pesquisadores
como o Instituto Superior de Estudos para a criação do Instituto Universi-
Brasileiros (Iseb) – do qual Wander- tário de Pesquisas do Rio de Janei-
ley Guilherme fazia parte –, Centro ro (Iuperj). Tratava-se de uma ação
Latino-Americano de Pesquisas em temerária, mas a alternativa seria
Ciências Sociais (CLAPCS) e Institu- o apagão quase completo da refle-
to de Ciências Sociais (ICS), da então xão sobre o social no Rio de Janeiro.
Universidade do Brasil, foram fecha- Essa realidade não era ignorada pe-
das. Com elas desapareciam também los fundadores do Iuperj, conforme
vigorosas publicações acadêmicas, atesta o editorial do primeiro núme-
como Cadernos do Nosso Tempo, do ro da revista Dados: “Tem-se revela-
Iseb; América Latina, do CLAPCS; e do como historicamente inevitável a
Revista de Ciências Sociais, do ICS, correlação entre o enrijecimento das
da Universidade do Brasil, estreitan- estruturas de poder e a paralisia ou
do drasticamente o espaço de deba- torpor das ciências sociais”. Eis o ta-
te acadêmico. O panorama das ciên- manho do desafio a ser enfrentado
cias sociais no país e, particularmen- pelos pais fundadores do Iuperj há
te, no Rio de Janeiro era desolador. meio século. A melhor forma de re-

A PRUDÊNCIA NÃO ACONSELHAVA, EM HIPÓTESE


ALGUMA, A CRIAÇÃO DE UM INSTITUTO DE
PESQUISA MEIO SÉCULO ATRÁS, SOBRETUDO
NA ÁREA DAS CIÊNCIAS SOCIAIS
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I N S I G H T INTELIGÊNCIA

sistência ao regime autoritário era: As dificuldades apresentadas às


estudá-lo! A originalidade do pro- universidades públicas – por proibi-
grama do Iuperj foi a constituição ções diretas ou respeito obsequioso
de uma agenda intelectual centra- às autoridades – trouxe para os insti-
da basicamente no tema institucio- tutos de pesquisa isolados a respon-
nal, valorizando, em plena vigência sabilidade pela condução da política
do regime militar, a questão da de- acadêmico-científica. Por iniciativa de
mocracia política, suas instituições Wanderley Guilherme, o Iuperj sediou,
e procedimentos. Essa tarefa, pro- em 1977, o primeiro encontro dos
posta por esses “exilados internos” cursos de pós-graduação em antro-
liderados por Wanderley Guilherme, pologia, ciência política e sociologia,
desenvolveu-se em várias frentes. que teve como resultado a fundação
Originariamente um pequeno cen- da Associação Nacional de Pós-Gra-
tro de pesquisas, o Iuperj cresceu e duação e Pesquisa em Ciências So-
diversificou-se. A revista Dados tor- ciais (Anpocs). Suas duas primeiras
nou-se referência entre os periódicos secretarias executivas foram sedia-
científicos latino-americanos; foram das no Iuperj e, posteriormente, no
criados os cursos de mestrado em Centro de Estudos de Cultura Con-
ciência política, em sociologia, dou- temporânea (Cedec) e no Instituto de
torado em ciência política e em so- Estudos Econômicos, Sociais e Polí-
ciologia. Todos – revista e cursos – ticos de São Paulo (Idesp). Somente
contaram com avaliação máxima dos depois da queda do regime autoritá-
órgãos de fomento em pesquisa dos rio, uma universidade pública, a Uni-
Ministérios da Educação e da Ciên- versidade Federal do Rio de Janeiro
cia e Tecnologia. (UFRJ), hospedou a secretaria exe-

A ORIGINALIDADE DO PROGRAMA DO IUPERJ


FOI A CONSTITUIÇÃO DE UMA AGENDA
INTELECTUAL CENTRADA BASICAMENTE NO
TEMA INSTITUCIONAL
116 LIRA DOS 80
I N S I G H T INTELIGÊNCIA

cutiva da Anpocs, em 1989. Registro Debatendo, pesquisando, escre-


ainda o primeiro debate acadêmico vendo, ensinando, militando, Wander-
sobre conjuntura política, o famoso ley Guilherme dos Santos tornou-se
Seis e Meia – em alusão a um pro- um dos intelectuais mais importantes
grama de música popular brasilei- do Brasil contemporâneo. Em 1962,
ra apresentado “às 18h30”, no Rio publicou Quem dará o golpe no Bra-
de Janeiro, no final dos anos 1970 sil? – da famosa coleção Cadernos do
–, de iniciativa dos alunos do Iuperj, Povo Brasileiro, da editora Civilização
apoiados por Wanderley Guilherme, Brasileira. Desde então escreveu nu-
e que contou com a participação de merosos artigos em periódicos aca-
expoentes da luta contra o regime au- dêmicos e livros. Destaco Cidadania
toritário, como o próprio Wanderley e justiça, Razões da desordem, Para-
Guilherme na abertura, Alberto Pas- doxos do liberalismo, Sessenta e qua-
sos Guimarães (pai), Maria da Con- tro: anatomia da crise e O paradoxo
ceição Tavares, Fernando Henrique de Rousseau: uma interpretação de-
Cardoso, Délio Maranhão, Francis- mocrática da vontade geral. Contri-
co Weffort, Bresser Pereira, Bolívar buindo de forma decisiva para a re-
Lamounier, Luiz Alberto Bahia, entre novação do ensino da ciência políti-
outros. Por iniciativa ainda de Wan- ca no Brasil, orientou diversas teses
derley Guilherme, o Iuperj ofereceu (doutorado) e dissertações (mestra-
suas dependências para reuniões da do). Foi autor ainda de muitos artigos
regional Rio da Sociedade Brasileira jornalísticos, especialmente na coluna
para o Progresso da Ciência (SBPC), Brigada Ligeira, mantida por mais de
que se tornara instituição visada pe- cinco anos no jornal Valor Econômico.
las autoridades do regime, e de ou- A defesa do rigor acadêmico, da
tros movimentos do Rio de Janeiro. democracia e da participação irres-
A luta pela salvação do Iuperj e, trita na pólis pode ser considerada
posteriormente, a criação do Insti- um dos motivos condutores de sua
tuto de Estudos Sociais e Políticos obra e de sua intervenção no deba-
(Iesp) tiveram, mais uma vez, a con- te público.
tribuição de Wanderley Guilherme.
Após mais de uma década de crise *Este texto é baseado na minha participação
na mesa-redonda “Wanderley Guilherme dos
e incertezas, salvou-se o capital hu-
Santos e a construção do Iuperj/Iesp-Uerj”,
mano, com a criação do Iesp, mas
no Seminário Comemorativo dos 80 Anos do
perdeu-se praticamente todo acer- Professor Wanderley Guilherme dos Santos,
vo da biblioteca. Em um gesto de ge- realizado no Iesp, 19 de outubro de 2015.
nerosidade Wanderley Guilherme
doou sua biblioteca particular à nova O autor é professor de Ciência Política da UFRJ.
instituição. pessanhacf@terra.com.br

OUTUBRO • NOVEMBRO • DEZEMBRO 2015 117


I N S I G H T INTELIGÊNCIA

DUAS OU TRÊS COISAS QUE


EU SEI SOBRE WANDERLEY
JOSÉ MURILO DE CARVALHO
CIENTISTA POLÍTICO E HISTORIADOR

D
uas ou três coisas sobre Wan- prar um bom par de caneleiras. Mas,
derley. Nós nos conhecemos sobretudo, falávamos sobre o Bra-
em 1967, em Stanford, onde sil, sua história e seus pensadores,
fazíamos doutorado com bolsas da conversas que me traziam à memó-
Fundação Ford – ele pelo Iuperj, eu ria leituras que fizera de Guerreiro
pelo Departamento de Ciência Políti- Ramos. As conversas recuaram ao
ca da UFMG. Em Minas, na Faculda- século XIX, a seus políticos e pensa-
de de Ciências Econômicas, eu fora dores. Eu chegara a Stanford pen-
aluno de Júlio Barbosa, então chefe sando em fazer uma tese sobre o
do Departamento de Sociologia do poder local (local power struture,
Instituto Superior de Estudos Bra- como se dizia por lá), tema sobre o
sileiros (ISEB). Graças a sua inter- qual já publicara artigos na Revista
mediação, tivera contato com mem- Brasileira de Estudos Políticos, diri-
bros desse Instituto, sobretudo com gida por Orlando Carvalho. As con-
alguns dos fundadores, Hélio Jagua- versas com Wanderley levaram-me
ribe, Guerreiro Ramos, Álvaro Vieira a alterar tema e período histórico:
Pinto. De Wanderley, pesquisador do em vez de poder local, a elite política;
ISEB e ex-aluno de Álvaro Vieira Pin- em vez da atualidade, o século XIX.
to, conhecia o Quem dará o golpe no Daí saíram A Construção da Ordem
Brasil? (1961) e Reforma contra re- e Teatro de Sombras.
forma (1963). Paguei caro por isso. Naquela
Só nos conhecemos pessoalmen- época, falar sobre elite política era
te no curso de doutorado de Stan- muito incorreto. O incauto era xinga-
ford, onde ele chegou depois de mim, do, com direito a vários epítetos: we-
acompanhado de Sueli, Juliano, Fa- beriano, reacionário, direitista, filho
biano e Bernardo. Jogávamos muito da puta etc. Quando não era xinga-
futebol. Para a eventualidade de ter do, era desprezado. Ainda ouvi, anos
que jogar contra ele, tive que com- mais tarde, em reunião no CNPq, Ruth

118 LIRA DOS 80


I N S I G H T INTELIGÊNCIA

Cardoso dizer na minha frente: Ima- teoria política, esta graças ao contato
gina! quem lê José Murilo Carvalho? com autores norte-americanos como
O simples fato, aliás, de ter estudado Gabriel Almond, Heinz Eulau, Charles
nos Estados Unidos já dava margem Drekmeyer, em Stanford, além de Ro-
a xingamentos. Ao voltar, encontrei bert Dahl, Hayward Walker, Douglas
um antigo professor que me saudou Rae e outros. É prova disso sua tese
com a pergunta: “Aí, voltou ameri- de doutoramento, uma sofisticada
canhalhado?” O preço pago nem de análise teórica do golpe de 1964.
longe me fez lamentar a mudança do Uma prova de que era um filósofo,
tema. Graças ao contato com Wan- e dos clássicos, quando chegou a
derley, nacionalizei o escopo de meu Stanford, é o fato de ter comprado
trabalho e enveredei por uma temá- um carro que no dia seguinte ajudei
tica mais relevante, o papel de gru- a rebocar para o ferro velho...
pos de elite na formação de estados De volta, ambos dos Estados Uni-
nacionais. Minhas leituras abriram- dos, e passados alguns anos, Wander-
-se em várias direções intelectuais e ley convidou-me para vir trabalhar
ideológicas, de Mosca a Lênin, e na- aqui no que para mim será sempre
cionalizei, ou mesmo internacionali- o Iuperj. Quando cheguei, em 1978,
zei, meu campo de visão. o Instituto já estava consolidado.
No que se refere ao impacto do Faltava apenas implantar o curso
doutorado sobre Wanderley, arris- de doutorado, tarefa em que pude
co-me a dizer que talvez tenha con- contribuir como seu primeiro coor-
sistido em mudança de enfoque, ou denador. Aqui mantive a perspectiva
de ênfase, da filosofia, absorvida nas nacional, com ênfase agora na his-
aulas de Álvaro Vieira Pinto, para a tória do pensamento político brasi-

NAQUELA ÉPOCA, FALAR SOBRE ELITE POLÍTICA


ERA MUITO INCORRETO. O INCAUTO ERA XINGADO,
COM DIREITO A VÁRIOS EPÍTETOS: WEBERIANO,
REACIONÁRIO, DIREITISTA, FILHO DA PUTA ETC.
OUTUBRO • NOVEMBRO • DEZEMBRO 2015 119
I N S I G H T INTELIGÊNCIA

leiro, sempre lembrado nas conver- a diversidade. Uma vez ouvi Wander-
sas e artigos de Wanderley. ley dizer, inspirado por algumas do-
Outro ponto importante a des- ses de whisky: aqui no Rio, se a pes-
tacar da atuação de Wanderley diz soa é boa, tem que estar no Iuperj.
respeito ao tipo de instituição que O objetivo era atrair o que houves-
ele criou, eminentemente cosmopo- se de melhor. Esta política era faci-
lita. Já disse uma vez que o Iuperj litada pelo fato de ser o Iuperj uma
era uma encruzilhada, um ponto de instituição particular. Era possível
encontro de vários caminhos. Para procurar as pessoas onde estives-
cá vieram pesquisadores de várias sem e convidá-las. Este foi um dos
procedências. Para citar apenas al- segredos do êxito do Iuperj, ao que
guns, de Minas vieram Edmundo Cam- se ajuntou um ambiente de plena li-
pos, Simon Schwartzman, Amaury berdade de discussão e de intensa
de Sousa, Elisa Reis, Renato Boschi, dedicação ao trabalho. Por trás de
Olavo Brasil, eu mesmo e outros. Eli tudo isso sempre estiveram a visão
Diniz e Luís Werneck Vianna forma- e a iniciativa de Wanderley. Além de
ram-se na USP. Da Argentina, veio pensador do Brasil, ele sempre foi
Carlos Hasenbalg; da Colômbia, Fer- um exitoso construtor de institui-
nando Uricoechea. Tal amálgama só ções. Bem haja em seus 80 anos.
poderia ser operado no Rio de Janei-
ro, cidade ainda marcada pela longa
O autor é professor emérito da Universidade
história de capital do país. E não se Federal do Rio de Janeiro e membro da Aca-
tratava apenas de preocupação com demia Brasileira de Letras.

UMA VEZ OUVI WANDERLEY DIZER,


INSPIRADO POR ALGUMAS DOSES DE
WHISKY: AQUI NO RIO, SE A PESSOA É BOA,
TEM QUE ESTAR NO IUPERJ
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