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Resumo

Política de informação em saúde


ambiental É imprescindível uma política de informa-
ção em saúde ambiental capaz de monitorar
as políticas públicas, os processos produti-
vos e todas as atividades econômicas, bem
Information policy in environmental como as ações de intervenção que visem
melhorar as condições ambientais e de saú-
health de das populações. Este artigo busca discu-
tir os princípios norteadores de uma política
de informação em saúde ambiental que per-
mite monitorar o desenvolvimento susten-
tável. Para tal as autoras partem de uma re-
visão bibliográfica referente às questões
conceituais e controversas do desenvolvi-
mento sustentável e às perspectivas meto-
dológicas para o desenvolvimento de uma
política de informação em saúde ambiental.
Para as autoras, além da necessidade de se
criar sistemas e serviços de informação e
comunicação que proporcionem o alerta e
o suporte indispensáveis às políticas inter-
setoriais, é fundamental que estas incorpo-
rem os elementos das ações sociais e da par-
ticipação das comunidades na definição dos
indicadores voltados para o monitoramento
do desenvolvimento humano.

Palavras-chave
Palavras-chave: Política de informação.
Saúde ambiental. Desenvolvimento susten-
tável. Indicadores.

Lia Giraldo da Silva Augusto


Núcleo de Estudos em Saúde Coletiva-NESC
Centro de Pesquisas Aggeu Magalhães-CPqAM
Fundação Oswaldo Cruz-FIOCRUZ
Rua Ministro Nelson Hungria 266 apto. 201
Recife, PE CEP 51020-100
giraldo@cpqam.fiocruz.br

Alice Branco
Núcleo de Estudos em Saúde Coletiva-NESC
Centro de Pesquisas Aggeu Magalhães-CPqAM
Fundação Oswaldo Cruz-FIOCRUZ

Rev. Bras. Epidemiol.


Vol. 6, Nº 2, 2003
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Abstract Introdução

It is essential to have an information policy A legislação brasileira hoje em vigor apre-


in environmental health capable of moni- senta aspectos importantes para o planeja-
toring public policies, the productive pro- mento, a avaliação e o controle de condi-
cesses and all the economic activities, as well ções nocivas no âmbito dos processos eco-
as intervention actions that aim to improve nômicos, sociais, do desenvolvimento téc-
environmental conditions and the health of nico-científico e do ambiente físico. Tais ins-
populations. This article seeks to discuss the trumentos legais deveriam ser utilizados no
key principles of an information policy for sentido de favorecer sistemas de gerencia-
environmental health that allows monitoring mento da qualidade de vida e da saúde.
sustainable development. To this end, the au- Muito se fala em desenvolvimento sus-
thors reviewed references related to the con- tentável e o discurso não é homogêneo; ele
ceptual questions and controversies of sus- está marcado e é diferenciado em função
tainable development and the methodologi- dos interesses ambientais de diversos seto-
cal perspectives for the development of an res, grupos e atores sociais envolvidos no
information policy for environmental health. processo de desenvolvimento.
According to the authors, in addition to cre- Mais que um conjunto de metas bem
ating information and communication sys- específicas, é um processo que implica em
tems and services that provide attentive and modificações econômicas e sociais. Uma
indispensable support to intersectorial poli- “estratégia para promover a sustentabilidade
cies, it is crucial that these policies include é a importância da participação local e a re-
the elements of social actions and the par- visão da forma como as pessoas vivem e tra-
ticipation of the communities in the defini- balham”1.
tion of pointers oriented towards monitoring Para fins deste artigo vamos conservar a
human development. definição de desenvolvimento sustentável
dada pela Agenda 21: “... trata do desenvol-
Key words
words: Information policies. Environ- vimento humano que conjuga e harmoniza
mental health. Sustainable development. In- o desenvolvimento social e econômico com
dicators. democracia, liberdade e preservação dos
recursos naturais disponíveis para a huma-
nidade como um todo e para as futuras ge-
rações”2.
Embora, este conceito pareça bastante
amplo e consensual, a Agenda 21 vive a con-
tradição dada pelo processo de globalização,
entendida em geral como um processo de
internacionalização e integração do capital.
Com a revolução científico-tecnológica
dos meios de informação, comunicação e
dos processos produtivos, há também pro-
fundas transformações políticas, sociais e
culturais entre os povos, criando novas arti-
culações entre o local e o global, configu-
rando uma nova geopolítica mundial. Esse
processo vem se dando como um movimen-
to paradoxal de fragmentação territorial e
de desintegração política3.
A “globalização” que hoje orquestra a
economia do mundo, num processo de in-

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tensificação histórica da internacionalização não é e não deve ser o objeto central da dis-
dos mercados, tem obstaculizado o movi- cussão: o foco das atenções precisa estar
mento na direção da diversidade4. Os pode- voltado para as condições reais de vida de
rosos grupos econômicos têm feito o possí- pessoas e grupos que, de um lado, pelo ex-
vel para romper com as iniciativas individu- cesso e, de outro, pela carência absoluta,
ais, locais e regionais, buscando modelar- produzem uma sociedade em que a humi-
nos dentro de grupos sociais mais homogê- lhação, o ressentimento, a arrogância e a falta
neos e controláveis, do ponto de vista dos de solidariedade levam a situações extremas
padrões de consumo, e, para tal, buscam de violência e de degradação da condição
influenciar nosso estilo de vida e interferir humana8 e do meio ambiente.
no ambiente entendido como dinâmico (his- A garantia do desenvolvimento susten-
tórico) e que é socialmente construído5. tável em área de intervenção produtiva, de
A questão do desenvolvimento susten- tecnologias sofisticadas e de alto risco
tável é, pois, controversa. Hoje há duas cor- ambiental, requer dos investidores e dos
rentes de pensamento, uma que defende o governos práticas de planejamento estraté-
processo de globalização e outra que busca gico, utilizando-se metodologias que dêem
resistir a ele. Fato curioso é que, recente- conta da complexidade dos sistemas e
mente, esses movimentos manifestaram subsistemas neles envolvidos, direta ou in-
seus pensamentos em paralelo. Para o diretamente.
Fórum Econômico Mundial, a globalização Nesse sentido, torna-se imprescindível
é um processo irreversível e ignora comple- uma política de informação em saúde
tamente a natureza e a dinâmica do proces- ambiental capaz de monitorar as políticas
so gerador de desigualdades sociais. A outra públicas, os processos produtivos e todas as
tendência, expressa no Fórum Social Mun- atividades econômicas, bem como as ações
dial6, é de resistência e aposta na huma- de intervenção que visem melhorar as con-
nização do sistema, que deve evoluir em di- dições ambientais e de saúde das popula-
reção ao que Amartya Sen chama de “de- ções.
senvolvimento com liberdade”, muito além Da mesma forma, a participação das co-
do mero crescimento econômico7. munidades e das organizações da sociedade
A Agenda 21, para ser efetivamente um civil é condição necessária para imprimir a
produto de consenso entre os diversos seto- esse processo um caráter de sustentabilidade.
res da sociedade, precisa tornar evidente Esse artigo busca discutir os princípios
para o conjunto da sociedade a sua inserção norteadores de uma política de informação
no contexto das temáticas do dia-a-dia das em saúde ambiental que permita monitorar
populações, seja nos centros urbanos, seja o desenvolvimento sustentável.
no campo. Da mesma forma, torna-se igual-
mente necessária à ampliação dos canais da A perspectiva sistêmica
participação popular e de controle social,
para que a implantação da Agenda 21 no ní- Na compreensão da Saúde Coletiva, o
vel local seja legitimada como política diagnóstico de uma determinada situação
intersetorial. deve estar centrado na identificação de pro-
Essa luta pela inserção implica em se cessos e mecanismos que estão integrados
considerar as condições de dignidade no numa cadeia de eventos interdefiníveis e que
habitar, na atenção à saúde, na educação, são historicamente determinados. O que
no abastecimento de água, no esgotamento acontecerá no futuro e o que acontece hoje
sanitário, no transporte, no acesso à alimen- é mais bem interpretado em termos da his-
tação adequada, nas adequadas relações de tória e o diagnóstico situacional implica di-
trabalho, no lazer, na atividade política, en- versos níveis de processos:
fim, nos espaços de desenvolvimento huma- • No primeiro nível estão as modificações
no. Entretanto, o nível “ideal” de dignidade que afetam o meio ambiente físico, as

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relações sócio-econômicas e a popula- mente importante para impor limites ao pro-
ção da área de abrangência e suas condi- cesso de espoliação ambiental e da saúde
ções de vida. Em geral, estão relaciona- das populações.
das com modificações no sistema pro- Evidentemente, os gestores necessitam
dutivo da região. de informação confiável e pertinente sobre
• No segundo nível estão as modificações a gravidade dos problemas ambientais e suas
introduzidas pelos processos de indus- relações com a saúde humana. Por conse-
trialização e de pólos de desenvolvimen- guinte, têm sido feitos muitos esforços para
to que resultam em processos signifi- estabelecer indicadores que sirvam de base
cantes do primeiro nível. para as medidas normativas e gerenciais. Mas
• No terceiro nível estão, entre outros: as existe sempre o perigo de que sejam alimen-
modificações nas políticas de desenvol- tadas expectativas demasiadas sobre o que
vimento nacional, os mercados, os flu- se pode esperar de um sistema de informa-
xos de capital, que por sua vez determi- ção, e por isto é preciso deixar claro que a
nam modificações no segundo nível. informação não é uma panacéia.
Cada um desses três níveis tem sua pró- Trata-se de um recurso cuja gestão obe-
pria dinâmica e, conseqüentemente, requer dece, inevitavelmente, ao conjunto de inte-
dados e escalas específicos para sua análise. resses predominantes em cada setor especí-
A produção de informação em saúde fico de atuação, subordinada à política vi-
ambiental deve ter como objetivo a análise gente para o mesmo.
de possíveis cenários e ser complementada Desta forma, para minimizar os aspec-
por avaliações das tecnologias em execução tos da desigualdade de poder na definição
e das possibilidades de mudanças, adapta- das políticas convém instituir um processo
ções e inovações para adequá-las aos pro- amplo de negociação para que os diversos
blemas específicos a serem resolvidos, a par- interesses se explicitem e seja possível um
tir dos recursos existentes no meio físico, sistema que ao menos sirva aos propósitos
social, econômico e dos interesses locais e constitucionais definidos para o Sistema
nacionais que podem ser favorecidos ou afe- Nacional de Saúde.
tados negativamente, bem como das possi- A política de informação pode ser defi-
bilidades oriundas do contexto internacio- nida como o conjunto de leis, regulamentos,
nal. decisões, ações e interesses que orientam a
Diagnósticos baseados exclusivamente geração, circulação, tratamento, armazena-
na verificação de certos parâmetros, num mento e uso da informação.
dado momento, são insuficientes para afir- Como política pública, assenta-se sobre
mar a “sustentabilidade” do sistema produ- interesses e metas políticas e burocráticas,
tivo ou a garantia da qualidade de vida. não necessariamente congruentes, manifes-
tando-se para além do aparato governamen-
Fundamentos para uma política tal. Expressa-se não apenas no campo for-
de informação em saúde mal das leis e regulamentos, mas também
ambiental no informalismo das práticas e ações. Afi-
nal, como qualquer política, é sempre
A informação em saúde ambiental pode exercida num contexto em que se misturam
contribuir para melhorar a gestão e as polí- pessoas, instituições e interesses, cujas ma-
ticas “sanitárias” em todos os países do mun- nifestações nem sempre se revelam por
do, mas é particularmente valiosa para os mecanismos formais9,10.
países onde a questão da degradação É nesse sentido que a política de infor-
ambiental tem ocupado um lugar secundá- mação deve ser exercida como “arte de com-
rio frente às exigências do desenvolvimento promisso”, ou seja, como capacidade de es-
econômico, imposto de fora pela globali- tabelecer compromissos entre interesses
zação e pelas políticas neoliberais. É certa- contraditórios e por vezes antagônicos, não

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podendo ser classificada a priori como boa uma ética social. Mais do que se preocupar
ou má11. Uma vez que se assenta sobre o com as respostas que a informação poderá
permanente conflito entre atores, objetivos, gerar propõe-se inverter a lógica e refazer
metas, interesses, planos e ações, que não as perguntas; formular os problemas para
pode ser completamente resolvido em fa- além do próprio campo de atuação, identifi-
vor de qualquer pólo envolvido, mas que cando os processos e mecanismos que a eles
reflete claramente a quê (ou a quem) serve, conduziram.
sendo este um aspecto a ser reconhecido e Piaget & García12 já demonstraram que o
refletido criticamente, para permitir avan- conhecimento científico tem progredido
ços, em especial se o objetivo é o desenvol- mais pela contribuição daqueles que foram
vimento humano, e nesse sentido a questão capazes de formular novas perguntas para
ética deve ser ressaltada. antigos problemas do que por encontrar
Trata-se, pois, de um processo dinâmi- novas respostas para velhas perguntas.
co, flexível e responsivo à mudança de cir- É claro que os dados disponíveis nos di-
cunstâncias e cenários, sendo difícil prever ferentes setores governamentais podem ser
seu resultado ou impacto, e obriga a lidar usados para análises relacionais sobre a saú-
com os limites impostos por essa incerteza. de ambiental, mas somente a ampliação do
No caso brasileiro, a pouca articulação marco epistêmico, político e social sobre o
entre as distintas esferas de atuação do Esta- qual repousa essa produção de informações
do, particularmente na área social, tem ge- poderá gerar uma política de informação
rado uma política de informação pouco inclusiva.
integradora. O que se verifica são políticas Uma pergunta implícita em nosso obje-
setoriais de informação que desvinculam tivo é se uma política de informação para o
temas como saúde, educação, trabalho e projeto de desenvolvimento sustentável te-
meio ambiente, dentre outros. ria como objetivos apoiar as ações de con-
Empobrecida pela visão compartimen- trole para deter ou reverter a deterioração
talizada, a informação produzida pelas ba- do ambiente; para desenvolver a qualidade
ses de dados e sistemas de informação des- de vida da população ou para estabelecer
sas áreas dificulta sua utilização como sub- condições de estabilidade social, econômica
sídio, quer para a tomada de decisão, quer e ambiental.
para a ação social. As interfaces entre os pro- O que se pode dizer é que esses objetivos
blemas que se originam nesses diferentes não se referem a um estado do sistema, mas
setores não são explicitadas pela informa- a processos, que são sucessões temporais de
ção assim gerada. eventos inter-relacionados, em seqüências
Isso porque cada uma dessas bases e sis- causais e de eventos não-observáveis, posto
temas é estruturada segundo esquemas que os processos não são observáveis, são
interpretativos próprios, arbitrados segun- resultado das interferências dos observáveis.
do o que se deseja informar. São estabeleci- Assim, as relações que determinam os
dos limites para o registro de eventos, que processos constituem uma estrutura sistê-
vão desde grupos populacionais até áreas mica formada pela situação social, econô-
geográficas, recortando ainda mais o que, mica e ambiental que apresenta problemas
em essência, é indivisível: os fatos e seu con- que estão ligados às propriedades estrutu-
texto. rais do sistema (fragilidade, vulnerabilidade
A justificativa para tanto costuma ser a e resistência)13.
de que é impossível abarcar a totalidade de Os períodos críticos na evolução de um
relações ou de condições de um dado fenô- sistema apresentam-se quando os proces-
meno, o que obriga a selecionar alguns as- sos de deterioração excedem a resistência
pectos do entorno. Contudo, tal seleção pode da estrutura ou quando o sistema está
se dar mediante critérios mais integradores desestabilizado por fortes flutuações. A
e contextualizadores, fundamentados por vulnerabilidade de um sistema não é distri-

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buída uniformemente através de sua estru- tos/ Ação), que sistematiza as principais eta-
tura. Não ocorre instabilidade simultanea- pas do processo de geração, exposição e efei-
mente em todos os subsistemas. A ruptura tos dos riscos ambientais e das ações de con-
do sistema começa em áreas específicas. Aqui trole, prevenção e promoção referentes a
reside a importância de um sistema de in- cada etapa.
formação para a saúde ambiental voltada A Organização Mundial da Saúde (OMS)19
para a monitoração do desenvolvimento que apoiou-se nesse modelo, adaptando-o para
se quer sustentável. a saúde e indicando-o como um instrumen-
Uma política de informação para a to que facilita a compreensão das relações
sustentabilidade é fundamental. Se conside- entre saúde e ambiente, e como subsídio para
rarmos que os indicadores epidemiológicos, o desenvolvimento de ações e a tomada de
por exemplo, servem para indicar apenas decisão.
aspectos dessa ruptura, vemos claramente O Ministério da Saúde, por meio da Fun-
que a avaliação sistêmica de um projeto de dação Nacional de Saúde, entende que o
desenvolvimento sustentável deveria prio- modelo FPEEEA “... revela a necessidade de
rizar a análise da evolução dos processos que serem integradas as análises dos efeitos dos
estão ligados às suas propriedades estrutu- riscos ambientais para a saúde das popula-
rais. ções, com o desenvolvimento e imple-
Com base nesses pontos, é possível esta- mentação de processos decisórios, políticas
belecer que observações, medidas, análises públicas e práticas de gerenciamento de ris-
e informações serão necessárias para se in- cos”20.
ferir os processos que estão vinculados à O FPEEEA fundamenta-se em seis gran-
deterioração social, econômica e física do des categorias de análise:
ambiente, e aqueles que estabilizam ou • Forças Motrizes, que representam o
desestabilizam o sistema. Para essa monito- modelo de desenvolvimento adotado,
ração, tanto precisamos de estudos quanti- responsável pelas atividades e fontes de
tativos, que usam um sistema numérico de poluição e de degradação ambiental;
medidas, como de estudos qualitativos, que • Pressão, que corresponde às fontes de
usam sistemas lógicos de linguagem (sim- pressão sobre o ambiente e sobre as po-
bólicos). Os resultados desses estudos são pulações, estando subordinadas às for-
dados empíricos cuja interpretação origina ças motrizes;
os observáveis. Portanto, conclui-se que não • Estado, que diz respeito às condições
há observáveis “puros”; eles estão carrega- ambientais gerais submetidas às pressões
dos de subjetividade. Como apreender essa existentes;
subjetividade é uma tarefa de criatividade a • Exposição, que se refere aos riscos pro-
que alguns pesquisadores, em especial das duzidos à saúde ambiental e humana;
correntes de pensamento construtivista, têm • Efeitos, que são o resultado nocivo da
se proposto14-17. submissão à exposição; e
Nas últimas décadas tem crescido a pre- • Ações, que são as medidas de proteção e
ocupação com a busca de indicadores de promoção e proteção da saúde humana
qualidade de vida e saúde ambiental, dando e do ambiente.
origem a iniciativas de organização e siste- Os indicadores de saúde ambiental têm
matização de dados e informações sobre o sido incorporados às atividades de vários
tema. programas da OMS. A primeira reunião para
Em 1993, o conceito de indicador am- tratar especificamente do tema ocorreu em
biental foi definido pela Organization for 199219. Desde então, vêm sendo realizados
Economic Cooperation and Development vários encontros para debater o desenvolvi-
(OECD)18, que para tal propôs um modelo mento de indicadores, como por exemplo,
denominado em português FPEEEA (Forças os referentes ao projeto de análise sanitária
Motrizes/Pressão/Estado/Exposição/Efei- e ambiental para a tomada de decisões ou

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para a iniciativa de montagem de sistema de operar diversas variáveis e indicadores, mas
informação geográfico em saúde ambiental. na capacidade de triangulação dos dados,
Também a Organização das Nações Uni- tanto do ponto de vista quantitativo como
das (ONU)22 tem promovido e incentivado qualitativo, e levar em consideração tanto
uma série de ações internacionais no âmbi- sua verticalidade (hierarquia, ordenação)
to do Plano de Ação Global. Dentre os pro- como horizontalidade (redes, coordenação);
jetos que vêm sendo executados encontra- isto só é possível numa abordagem dialética26
se o Programa de Indicadores, iniciado em e dialógica27.
1994 e em desenvolvimento em cerca de 110 Os indicadores refletem valores coleti-
países. O objetivo é criar uma base única de vos e sua legitimação não se dá por ensaios
indicadores-chave globais de saúde am- técnicos, do tipo simulação virtual. Trata-se
biental e qualidade de vida que possa vir a de um processo vivo que propomos leve em
proporcionar informação consistente e consideração toda a subjetividade que, se-
comparável22. gundo Guattari 28, funciona como uma
A construção de indicadores tem sido um ecosofia, onde a estética, a ética e a subjeti-
desafio de importância fundamental, pois o vidade se apresentam como entes reais a
indicador faz parte da semântica da infor- serem considerados e reconhecidos na es-
mação e não pode ser apresentado como trutura técnica da informação para que os
um ente isolado. indicadores cumpram seu objetivo de co-
Na verdade, o indicador deve ser um municar.
revelador da complexidade do problema23.
A representação da realidade, no sentido da Conclusões
compreensão de um dado fenômeno a ela
pertencente exige que o “recorte do objeto” Para o Brasil, detentor de ricas e estraté-
ou o “objeto modelo”, do qual faz parte o gicas reservas naturais, a lógica do desen-
indicador, deve ter uma “pré-compreensão volvimento sustentável deve constituir refe-
modelizante”, que é a maneira como se pode rência básica para a política de informação
estudar a realidade e validá-lo. Como de al- ambiental do país. É sob a perspectiva da
guma outra forma já foi dito, os indicadores sustentabilidade ecológica e social que as
não devem ser apropriados como um valor técnicas, metodologias e tecnologias do
neutro. Um indicador deve compor uma in- campo da informação devem ser geridas, de
formação que precisará de uma linguagem forma a permitir melhor conhecer, diagnos-
capaz de comunicar. ticar e monitorar as condições ambientais,
Segundo Barcelos24, do ponto de vista dos sobretudo em função da extensão do terri-
sistemas de informação, as condições tório nacional, de sua biodiversidade, da di-
ambientais são atributos do lugar, enquanto versidade cultural e complexidade dos pro-
as condições de saúde são atributos das po- blemas ambientais, sociais e econômicos
pulações humanas. No entanto, estes pro- envolvidos.
cessos são interdefiníveis e por esta razão Cabe à política de informação ambiental
exigem uma abordagem integrada. criar sistemas e serviços de informação e
A triangulação metodológica constitui a comunicação que proporcionem o alerta e
chave para a análise dos problemas sócio- o suporte indispensáveis não apenas às polí-
ambientais, que são de natureza complexa, ticas públicas, mas também às ações sociais.
e para resolver a validação dos indicadores Com as novas mídias e redes eletrônicas cri-
compostos, uma vez que eles não estão re- am-se também condições mais favoráveis
lacionados às condições específicas e não para a informação e conscientização políti-
estão resumidos às operações de mensu- cas no que se refere ao meio ambiente e à
ração quantitativa25. educação ambiental, facilitando a implanta-
O problema dos sistemas de informação ção de um modelo mais sustentável de de-
não está, pois, limitado na competência de senvolvimento.

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Augusto, L.G.S. & Branco, A.
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