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Condeixa

Paisagem
Memória
História

ÍTULO:CONDEIXA - PAISAGEM, MEMÓRIA E HISTÓRIA

AUTORES: ARTUR MENDONÇA


JOSÉ MAGALHÃES CASTELA
CÂNDIDO PEREIRA
JOAQUIM FILIPE SOARES
REBELO
PAULO MARQUES DA SILVA
JOSÉ AMADO

EDITOR
E
DISTRIBUIDOR: PARÓQUIA DE CONDEIXA-A-
NOVA

IMPRESSÃO: G.C. - GRÁFICA DE COIMBRA, Lda


producao@graficadecoimbra.pt

CAPA: ARQUITECTO FLÓRIO

DEPÓSITO LEGAL: XXXXX

FOTOS: Condeixa Antiga:


Fotos cedidas por António Costa Pinto

Condeixa Actual :
Albano Leandro, Carlos Eduardo, Luis
Borges

Toda a reprodução desta obra, por


fotocópia ou outro
qualquer processo, sem prévia
autorização escrita do
Editor, é ilícita e passível de
procedimento judicial
contra o infractor.
Índice

Prefácio ................................................................................................ 9
D. Albino Mamede Cleto

Monumentos e Palácios de Condeixa ............................................. 11


Artur Mendonça

Condeixa ao Pé da Porta ................................................................... 49


José Magalhães Castela

Imagens de Condeixa ........................................................................ 67


Cândido Pereira

Ecos da guerra.
Condeixa-a-Nova durante a II Guerra Mundial ............................ 109
Joaquim Filipe Soares Rebelo
«Estórias» da Oposição em Condeixa ............................................. 157
Paulo Marques da Silva

As Irmãs Hospitaleiras do Sagrado Coração de Jesus


em Condeixa ....................................................................................... 193

Dados biográficos dos Autores ....................................................... 221


Os Monumentos e Palácios de
Condeixa

Artur Ângelo Barracosa Mendonça


São antiquíssimas as referências a Condeixa. Os
vestígios de ocupação humana da paisagem também
são visíveis, em Conímbriga e em outros locais deste
concelho. Porém, o objectivo do presente trabalho
deve focalizar-nos no núcleo urbano de Condeixa-a-
Nova e em alguns elementos do seu património
edificado. Certamente será uma escolha discutível,
porque colocamos uns e omitimos outros, mas
razões ponderosas nos obrigam a isso. Em relação
aos monumentos mais importantes faremos
pequenos esquiços sobre a história do monumento, o
que se diz e o que conseguimos saber acerca dele, das
linhas gerais da sua construção e de alguns episódios
mais marcantes que nele se tenham passado.
Os monumentos seleccionados foram o Palácio
Sotto Mayor, o dos Almadas, o dos Figueiredos, o
dos Sás e a Igreja Matriz de Condeixa, ou Igreja de
Santa Cristina.

Palácio Sotto Mayor


Palácio dos Lemos Ramalho ou Sotto Mayor

O Palácio Sotto Mayor é um dos edifícios mais


importantes do património arquitectónico de
Condeixa. Porquanto tenha sido erigido no século
XVII, foi já na época pombalina que sofreu as
reestruturações que lhe conferiram a sua fisionomia
actual.
Em 20 de Junho de 1732, foi criado o morgadio
de Nossa Senhora da Piedade por José Rodrigues
Ramalho e sua mulher D. Úrsula de Oliveira Catana,
onde já existia um antigo solar que lhe dava o nome.
Este palácio foi também conhecido como o Palácio
dos Ramalhos, de Condeixa, em homenagem aos
seus primeiros proprietários. Na construção original,
a entrada principal era feita lateralmente. Em 1737,
foi construída uma nova capela, para onde foi
mudada a escultura em pedra de Nossa Senhora da
Conceição pertencente à capela velha.
Durante o período pombalino a construção foi
ampliada e a fachada foi duplicada. Construiu-se
também uma entrada central, com escadaria dupla
que levaria ao andar superior, onde se situava o
espaço mais nobre do edifício.
Durante os séculos XVIII, XIX e XX, e à
semelhança de outros solares, recebia com
regularidade visitas régias ou potentados políticos. O
palácio foi uma das residências particulares mais
distintas do país, hospedando figuras destacadas da
história nacional: D. João VI, então, príncipe regente;
D. Miguel I, D. Maria II, D. Pedro V e até o escritor
Alexandre Herculano. Já no início do século XX,
visitaram-na D. Carlos e o príncipe D. Luís Filipe,
conforme o relato na imprensa da época.
Na fase final da Monarquia, em 1904, o palácio
acolheu o rei D. Carlos. Dizia-se nessa ocasião que o
proprietário do palácio, Manuel Pereira Ramalho,
destacado membro do Partido Regenerador Liberal,
liderado por João Franco, já se tinha filiado «no
constitucionalismo por afeição pessoal a S. M. el-rei
Senhor D. Carlos»1, já que, antes, a família estava
ligada à corrente legitimista. Conta-se mesmo que,
quando a Rainha D. Maria II esteve hospedada no
palácio, o proprietário teria afirmado ao recebê-la:
«Entrego nas mãos da sobrinha do meu Rei as chaves
do meu palácio»2, mostrando desta forma algum
descontentamento com a situação.
Anos depois, em 1910, a revista Ilustração
Portuguesa dedica um extenso artigo ao palácio. Ao
longo de quatro páginas, bastante ilustradas, revelam-
se alguns aspectos do Palácio Sotto Mayor, da sua
história e dos seus proprietários. Um dos aspectos
curiosos que se destaca do artigo é a riqueza
iconográfica, com imagens de como era o aspecto
exterior do palácio, bem como os jardins, para além
de imagens de alguns dos seus proprietários ao longo
do tempo. Por outro lado, retira-se da parte final do
artigo o seguinte «Dos vários solares que existem por
todo o País é este dos Lemos dos mais belos, não na
sua forma exterior, igual à maioria, mas pelas riquezas
que encerra, pelas preciosidades que alberga e onde
deve ser agradável evocar essa nobilíssima figura d’
outra época, o conde de Condeixa, por graça de um
rei destronado»3.
A construção do edifício, razoavelmente
conhecida, apesar de não se ter conseguido ainda
determinar quem foi o responsável pela obra, é
marcada pela imponência. A estrutura foi construída
utilizando alvenaria rebocada e como elementos
decorativos as cantarias trabalhadas. É aquilo que se
pode considerar um típico palácio de província, com
carácter austero, influenciado pelo estilo barroco e
vocacionado para uso residencial. Tem três corpos
principais, com uma longa fachada de dois pisos,
onde se destacam dois grandes torreões quadrados,
encimada pelos brasões das famílias ilustres -
Ramalho e Lemos - a que pertenceu. O edifício
demonstra apenas na zona central da fachada alguma
preocupação na resolução formal e elementos
compositivos e decorativos.
Observam-se ainda um conjunto de dezanove
janelas com varandas, uma porta principal
rectangular, com colunas coríntias a suportar a
varanda que se ergue sobre a entrada, com janelas e
molduras em forma de volutas. O corpo central
termina em empena triangular com brasão. Na
restante fachada, vislumbram-se aberturas
rectangulares no piso térreo e janelas de sacada no
piso nobre.
Anexa ao palácio, em perpendicular, do lado
direito, encontra-se a capela dedicada a Nossa
Senhora da Piedade, onde é possível ver, na capela-
mor, um retábulo de madeira policromado, datado do
século XVIII. A capela é decorada em azulejos,
recortados, de meados do século XVIII, de fabrico
coimbrão. Os azulejos formam composições
decorativas, com cenas de reduzida dimensão, onde
sobressai a Virgem Maria. Encontra-se, também feito
em azulejo, o brasão dos Ramalhos. Existe ainda uma
imagem de madeira, da autoria do escultor espanhol
José Planas, construída em 1922.
Em 1920, o palácio e a quinta foram adquiridos
pelo banqueiro Dr. Cândido Sotto Mayor4, que na
altura fez importantes melhoramentos no palácio.
Por fim, em 1950, por falecimento de Cândido Sotto
Mayor, o palácio passou para a posse do comandante
José Correia Mattoso, seu genro. Actualmente, o
palácio encontra-se na propriedade dos descendentes
do comandante Correia Mattoso.
Um dos episódios mais marcantes da história
deste edifício prende-se com as invasões francesas e,
muito particularmente, com o episódio do incêndio
ateado pelas tropas napoleónicas em Condeixa. A
polémica surgiu porque o edifício escapou
praticamente incólume à devastação de que grande
parte da vila foi alvo. Surgiram especulações e
avolumaram-se suspeitas quanto à fidelidade do seu
proprietário, Manuel Pereira Ramos de Azeredo
Coutinho Ramalho, à causa nacional. Sugeriu-se
mesmo uma possível aliança estratégica ou acordo
secreto com o quartel de Massena como a causa
provável para a conservação do palácio.
Para além da estrutura do edifício, o palácio
também era reconhecido como um dos mais
luxuosos do País. Numa paisagem que o enquadrava
e que lhe realçava o aspecto, os jardins, a vegetação
ou o lago serviram para o tornar ainda mais belo.
Outro dos aspectos que se destacava neste palácio era
a riqueza e sumptuosidade do seu recheio. Eram
nove grandes salões onde era possível encontrar
mobiliário Luís XIV, louças ricamente decoradas da
China ou do Japão, os quadros, onde se destacavam
dois quadros do pintor Guilherme Filipe intitulados
Cristo Negro e Salomé5, as esculturas e tantas outras
coisas que o tempo e as partilhas familiares
conduziram ao gradual desaparecimento.
O edifício do Palácio Sotto Mayor encontra-se
protegido pelo Decreto n.º 735/74, publicado no
Diário do Governo de 21 de Dezembro.
Palácio dos Almadas
Pousada de Santa Cristina ou Antigo Palácio dos Almadas

O Palácio dos Almadas é, presentemente, uma


pousada integrada na rede Pousadas de Portugal,
tendo sido desta forma resgatado da desoladora ruína
para que caminhava. Este palácio foi construído no
século XIV e pertencia à família dos Almadas, que
conquistaram grande reputação por terem sido dos
conjurados que prepararam a Restauração em 1640.
Porém, como eram parentes dos Távoras acabaram
por perder grande parte da sua importância com o
processo que lhes moveu o Marquês de Pombal no
século XVIII.
A família Almada ganhou notoriedade por
receber, ao longo dos anos, diversas individualidades
da mais distinta nobreza e realeza europeias.
Apontam-se entre os visitantes personalidades como
D. Manuel, em 1500; D. Catarina, em 1704, após a
morte de Carlos II da Inglaterra; finalmente, também
visitou este palácio D. Carlos, irmão de D. Fernando
VII, de Espanha, em18336.
Este palácio tinha uma capela dedicada a S. João,
passando depois a ter como patrono o Senhor da
Agonia. Esta capela foi demolida em 1940. No seu
interior existia uma escultura representando um papa
e em cada lado um bispo e por cima da porta o
brasão de armas dos Lopes Quaresmas. O edifício
tinha na sua frontaria o brasão com as armas dos
Almadas.
Tudo indica que os seus primeiros proprietários terão sido
D. Lourenço de Almada e D. Antão Vaz de Almada. O
primeiro terá tomado parte na expedição de Alcácer Quibir e
foi feito prisioneiro; quando regressou, veio viver para
Pombalinho e, mais tarde, para Condeixa-a-Nova.
Já na primeira metade do séc. XIX foi
transformado em hospedaria, porque se situava perto
da estrada de passagem e do ponto de muda da mala-
posta. Em Abril de 1853, o palácio foi vendido ao
conselheiro Dr. António Egípcio Quaresma Lopes de
Vasconcelos, que o mandou reconstruir de acordo
com a traça antiga.
Em 1937, o edifício foi adquirido pelo Dr.
Cândido Sotto Mayor, com o objectivo de ali instalar
um lar para idosos. Porém, a morte prematura e
inesperada, do adquirente, inviabilizou o projecto.
A partir de 1993 este palácio passou a funcionar como
pousada. Assim, o Palácio dos Almadas parece manter uma
vocação para a actividade de hospedagem, pelo que a sua
transformação na Pousada de Santa Cristina não só permitiu a
sua conservação, enquanto edifício, como perpetuou esta
vertente, restituindo-lhe algum do antigo esplendor.

Palácio dos Figueiredos da Guerra


Palácio dos Figueiredos da Guerra, actualmente Câmara Municipal
de Condeixa-a-Nova (perspectiva frontal)
Este palácio, também denominado Palácio dos
Figueiredos da Guerra, ou dos Condes de Portalegre,
situa-se no actual Largo Artur Barreto; foi construído
no segundo terço do séc. XVII e, apesar de ter sido
destruído aquando das Invasões Francesas,
conservou uma imponente fachada.
É um edifício dividido em três corpos por meio
de pilastras, com um pátio interior de onde se elevam
duas escadarias que dão acesso ao andar superior,
ligadas entre si por uma varanda. Catorze janelas
rasgam a sua frontaria, onde se destaca, em relevo, o
brasão de armas dos Figueiredos.
O palácio teria no seu interior grandes salões onde
era possível apreciar trabalhos em madeira de
castanho, em talha trabalhada e azulejos de que, hoje,
nada resta7. O edifício é marcado por uma
arquitectura simples e rural, com acesso para um
quintalão murado que actualmente já não existe
porque, entretanto, foi construído o centro cívico e o
novo edifício do tribunal, existindo agora um espaço
ajardinado e calcetado, para além de um parque de
estacionamento subterrâneo que fez desaparecer o
antigo quintalão.
Foi proprietário do edifício Martim Gomes de
Figueiredo, que era superintendente das coudelarias
da comarca de Coimbra. Ainda durante o século
XVII, o palácio foi restaurado por João Rodrigues
Figueiredo. Após estas obras de remodelação, o
edifício passou a ser designado por paço dos
Figueiredos de Condeixa ou Paço do Capitão-mór. Já
no século XVIII, parte do edifício fica na posse de
João Cabral da Silva, fidalgo da Casa Real, que era
casado com D. Francisca de Vasconcelos e Sousa.
Palácio dos Figueiredos da Guerra actualmente
Câmara Municipal de Condeixa-a-Nova

Em 1811, o palácio foi queimado e saqueado pelo


exército francês quando passou em Condeixa e
provocou as destruições que as populações de
Condeixa ainda recordam. Ainda no século XIX, o
edifício passou a pertencer a José Joaquim de
Figueiredo da Guerra de Carvalho e Melo e, em 16
de Julho de 1857, parte do palácio foi adquirida por
Albino Justiniano de Carvalho, vindo este também a
comprar a outra parte, a um herdeiro da Família
Cabral da Silva e tendo, depois, reconstruído o
palácio. Com a sua morte, o palácio passou para
Abílio Roque de Sá Barreto, seu irmão, que por
herança o legou a Artur da Conceição Barreto. Este
benemérito e presidente da Câmara de Condeixa fez
a doação do palácio à Fundação Dona Ana de
Laboreiro d’Eça.
No edifício funcionaram diversos serviços
públicos e privados, como tribunal, casa de comércio,
oficina, armazém, consultório médico, biblioteca
pública, sede da Junta de Freguesia de Condeixa-a-
Nova, entre outras utilizações8. Em 1986, iniciou-se
um processo de recuperação do edifício, que viria a
ser inaugurado como sede dos Paços do Concelho
em 30 de Junho de 1990, na presença do então
Presidente da República, Mário Soares, utilização que
mantém actualmente.

Palácio dos Condes de Podentes


Jardim e Palácio do Conde de Podentes

Este palácio que também era conhecido como


Hospício, era um local onde se «agasalham os pobres
e peregrinos com muita caridade»9, como refere o
Padre Carvalho da Costa.
A construção original terá acontecido no séc.
XVIII, mas foi reconstruída no século XIX. O
hospício dos frades antoninos-franciscanos, que
existia em Condeixa, foi uma das propriedades das
ordens religiosas que foram abrangidas pela Carta de
Lei de 30 de Maio de 1834. Esta lei, publicada pelos
liberais, extinguia os conventos e incorporava os seus
bens nos próprios nacionais.
O responsável pela reconstrução do edifício e seu
proprietário durante o século XIX foi o bacharel em
medicina, Jerónimo Dias de Azevedo Vasques de
Almeida e Vasconcelos, que em 1842 procedeu à sua
aquisição e transformação.
Jerónimo Dias de Azevedo Vasques de Almeida e Vasconcelos
Jerónimo de Almeida e Vasconcelos nasceu em
Podentes (Penela), em 7 de Dezembro de 1805. Era
filho de João Pedro Dias de Azevedo Vasques de
Almeida, proprietário, e Teodora Joaquina Henriques
de Azevedo. Casou em 18 de Junho de 1837 com
Maria Liberata da Costa Mendes. Matriculou-se em
Medicina e, em 1826, integrou o Batalhão
Académico, formado por estudantes liberais que
foram combater as forças de D. Miguel durante o
pronunciamento na Beira. Em 1828, alcançou o grau
de bacharel em Medicina e, nesse ano, foi um dos
destacados líderes do movimento liberal na cidade de
Coimbra, «aliciando pessoalmente os comandantes
das forças militares da região a aderirem ao
movimento»10. Alistou-se no Batalhão de Caçadores
n.º 12, participou na campanha militar entre liberais e
absolutistas, organizou uma guerrilha com os irmãos,
a qual actuou durante algum tempo na região da
Beira, mas acabou por ser preso, perto de Leiria, em
29 de Junho de 1828. Foi julgado e condenado à
morte, mas comutaram-lhe a pena para degredo
perpétuo em Benguela e perda de todos os bens11.
Em 1830, foi transferido para o forte de S. Julião da
Barra, onde surgem indicações de que passou a
prestar serviços médicos aos presos, tanto liberais
como absolutistas. Na sequência desta acção ter-lhe-á
sido concedido um eventual perdão de pena.
Finalizada a guerra, Jerónimo de Almeida e
Vasconcelos foi libertado e conduzido a Lisboa, onde
viu reconhecidos os seus serviços. Foi, então,
nomeado Guarda-mor da Saúde e Provedor da Saúde
do porto de Belém. Desempenhou ainda as funções
de Governador Civil de Coimbra entre 3 e 25 de
Junho de 1843; mais tarde exerceu também idênticas
funções em Viseu (1851) e no Porto (1852).
Foi adepto do governo de Costa Cabral, mas
gradualmente afastou-se dos cabralistas. Em 1844,
publicou dois opúsculos da sua autoria, onde se
destacam: Breves considerações sobre o estado da fazenda
pública e Reflexões sobre o decreto de 30 de Junho próximo
passado em que se determinou a arrematação do contrato do
tabaco, onde criticava a política financeira de Costa
Cabral.
Em 1846, integrou a Junta Revolucionária da
Beira Alta, de Viseu. Em 1855, dirigiu o jornal de
Viseu, O Viriato.
Recebeu em 8 de Outubro de 1851 a nomeação
por carta régia com o título de visconde, e mais tarde,
por decreto de Novembro de 1868, o título de
conde12. Foi eleito deputado em três legislaturas:
1838-1840, 1840-1842 e 1842-1845. Em 18 de
Fevereiro de 1852, foi nomeado Par do Reino, por
carta régia, tendo feito o juramento e tomado posse
em 20 de Fevereiro de 185213.
Enquanto parlamentar, integrou diversas
comissões e participou de forma activa em muitas
sessões14. A sua participação na vida política é
recheada de polémicas e surge descrito em algumas
publicações como bastante inconstante e volúvel,
pois nos corredores do Parlamento dizia as coisas de
uma maneira, mas quando discursava no interior do
mesmo já dizia outra.
Sobre esta personalidade conta-se, entre alguns
vestígios de testemunhos orais que ainda persistem
na região de Podentes, que ele era rico e emprestava
dinheiro às pessoas. Porém, se não lhe pagassem no
prazo estabelecido, ficava-lhes com as terras.
Algumas pessoas não lhe pagavam porque não
podiam, mas outras queriam pagar. Como o conde
era esperto, quando lhe iam para pagar, mandava
dizer pela esposa que não estava em casa. Depois,
como o prazo tivesse acabado, as pessoas ficavam
sem as suas terras e o Conde cada vez mais rico.
A 19 de Novembro de 1863, o rei, D. Pedro V,
chegou a Condeixa pelas nove horas da noite;
segundo o relato na imprensa da época «ali estavam
duas colunas, uma de cada lado da estrada, sobre que
se achavam colocadas duas inocentes crianças, que
lançaram muitas flores sobre as carruagens. Desde
aquele ponto até ao real aposento havia alguns arcos
e colunas de louro e murta sobre que assentavam
lanternas de várias cores»15. Ainda de acordo com a
descrição feita, «sobretudo realçava era a iluminação
da casa do exmo. visconde», todo o jardim e largo da
casa do visconde estava «coberto de povo», e, este,
«rompeu em estrondosos vivas quando Suas
Majestades se dignaram chegar a uma das janelas»16.
A família real pernoitou uma noite no palácio
dirigindo-se a Coimbra no dia seguinte.
O Conde de Podentes faleceu na referida
localidade em 19 de Agosto de 188517.
Alguns autores referem que terá sido neste palácio
que D. Pedro V, em Novembro de 186318, decidiu
abolir o denominado Exame Privado da Universidade
de Coimbra, que tão criticado era na segunda metade
do século XIX. Este exame, que servia para se aceder
aos graus superiores de licenciado e doutor, devia ser
feito com todo o rigor19 e à porta fechada. A prova
revestia-se de um carácter intimidatório e obedecia ao
que tinha sido estabelecido nos Estatutos da
Universidade de 1772.
O Hospício, como é vulgarmente designado em
Condeixa, era até há pouco tempo propriedade de D.
Margarida Relvas Navarro de Azevedo Albuquerque,
descendente de Carlos Relvas e José Relvas,
importantes proprietários no Ribatejo (Golegã),
tendo o último desempenhado papel de destaque
durante a 1ª República. Actualmente, está na posse
dos descendentes.

Palácio dos Sás

A 13 de Março de 1811, os clarões das chamas


ateadas pelas tropas de Massena iluminavam o horror
e a destruição da vila de Condeixa. O Palácio dos Sás,
que até esse momento se erguia imponentemente a
todo o comprimento da actual Praça da República,
foi devorado pelo incêndio. Aparece referenciado,
em documentação, como sendo um dos maiores do
país, com uma fachada rasgada por 23 janelas e
ostentando, ao centro, as armas dos Sás.
Foi proprietário do palácio, Manuel de Sá Pereira
que faleceu em 176420. Este tornou-se fidalgo da Casa
Real e morgado do Sobreiro. Casou com D. Maria
Plácida de Meneses.. Deste casamento nasceu D.
Maria Antónia Sá Pereira, que se casou com Aires de
Sá e Melo e teve como descendentes João Rodrigues
de Sá e Melo, que viria a ser 1º Conde de Anadia;
João António de Sá Pereira e Meneses, 2º Conde de
Anadia e 1º visconde de Alverca; e de João António
de Sá Pereira que se tornaria 1º barão de Alverca.
Herda o título de Condessa de Anadia a Sra. D. Maria
Luísa de Sá Pereira de Meneses e Melo Souto Mayor,
que casou com Manuel Pais de Sá do Amaral de
Almeida e Vasconcelos Quifel Barbarino.
No jornal O Conimbricense, de 1858, assinalava-se
que o referido palácio se encontrava ainda em ruínas,
causando perigo aos transeuntes que por ali
passavam, ainda para mais quando tinha sido
construída uma estrada que passava logo ao lado.
Num comunicado enviado para o jornal, apesar de
não se identificar o remetente, afirmava-se:
«Condeixa apresenta ainda algumas casas em mau
estado, e por isso vamos pedir providências às
autoridades daquela vila, para que sejam reparadas as
ruínas do palácio da Condessa de Anadia»21. Segundo
se dizia na época, alguns dos edifícios em Condeixa
que tinham sido destruídos pelas invasões francesas
já tinham sido recuperados mesmo sem ajuda,
enquanto o palácio da Condessa de Anadia «recebeu
uma indemnização pelo prejuízo que sofreu no
palácio, em vez de reedificar como devia destruiu
ainda mais mandando até tirar as grades de ferro das
janelas, para ficar aquele esqueleto mais medonho»22.
O objectivo deste comunicado era conseguir uma
melhoria das condições existentes para a mala posta
que se situava em edifício localizado ao lado, pois
tornava-se importante ou demolir o edifício ou
reedificá-lo. Segundo estas indicações, o mercado
semanal realizava-se duas vezes por semana, tal como
nos nossos dias, e a ruína avançada do palácio
colocava em perigo todos os que frequentavam o
mercado, assim como os comerciantes que tinham as
suas lojas no interior do palácio e, ainda, as pessoas
que entravam nessas lojas para fazerem as suas
compras. Era importante encontrar uma solução para
o edifício que permitisse embelezar o espaço
envolvente e sobretudo que garantisse maior
segurança para o trânsito que passava pelas
imediações das ruínas.
Curiosamente, na obra de Augusto Mendes
Simões de Castro23, publicada uma década depois,
refere-se «o aspecto lastimoso, que apresentava
Condeixa por tão grande desolação, tem
desaparecido quase de todo em virtude de sucessivas
reedificações, e presentemente só se vêem em ruínas
cinco casas, sendo uma delas o antigo Palácio dos
Sás, hoje do sr. Conde de Anadia»24. Por
consequência podemos concluir que desde os inícios
do século XIX não houve qualquer tentativa de
restauro do palácio, que era até ali um dos principais
símbolos da pequena vila.
A família dos Sás sempre se envolveu na
vida política e religiosa de Condeixa. Muitos
dos representantes desta família eram
influentes locais do Partido Progressista,
enquanto os Lemos Ramalho eram defensores
do Partido Regenerador. Esta divisão política
das importantes famílias locais provocou
alguns momentos de tensão e mes mo de
confronto físico, criando alguns episódios de
clara discussão acerca da influência política
que ambas tinham, procuravam manter e
aumentar no meio circundante. A presença
dos representantes da família Sá, nos órgãos
da confraria do Santíssimo Sacrame nto, foi
uma constante que bem observaram os
autores dos Subsídios para a História de
Condeixa.
O palácio ocupava todo o espaço desde a sua
localização actual, e estendia-se até à igreja de Santa
Cristina, dispondo mesmo de uma entrada privada
que entretanto acabou por dar lugar a uma capela
particular no interior da referida igreja. Era o maior
palácio de toda a vila, já que a sua fachada se situaria
a meio da actual Praça da República25 e a sua
destruição representa uma perda importante para a
arquitectura do concelho.
Actualmente existe um edifício de planta
longitudinal, rectangular, com dois pisos, formando
um T. Possui fachadas rebocadas e pintadas de
branco e ornamentada com obras em cantaria.
A memória dos mais velhos conserva ainda a
imagem da grandeza deste edifício, que se manteve
em ruínas por mais de um século lembrando, todos
os dias, o trágico episódio que tanto tempo levou a
esquecer. Em 1930, as necessidades de reestruturação
urbanística ditaram a sua demolição, para proceder ao
alargamento da Praça de República e à abertura de
novas ruas, entre elas, a Avenida Visconde de
Alverca. Deste palácio sobreviveram até aos nossos
dias alguns elementos significativos como o brasão
dos Sás. O edifício actual é bastante mais pequeno e
foi construído pela mesma família que o mantém até
à actualidade.
Igreja Matriz de Condeixa
Igreja de Santa Cristina

A Igreja Matriz de Condeixa foi mandada


construir no tempo de D. Manuel I, quando o rei, na
sua peregrinação a Santiago de Compostela, teve que
passar pela povoação.
Na descrição que nos chegou através do Padre
António Carvalho da Costa afirmava-se que a Igreja,
aos olhos do tempo (1706) «de uma só nave, muito
comprida, e larga na sua proporção, muito alegre pelo
rasgado das frestas»26. Actualmente, e devido ao forte
crescimento demográfico que se tem registado em
Condeixa, o edifício torna-se muitas vezes pequeno,
em particular, nas ocasiões festivas.
Afirmava, ainda, o Pe. Carvalho da Costa que a
decoração era em pedra de Ançã, com as paredes
cobertas de cima abaixo com azulejos dourados27. A
capela tinha duas sacristias e várias capelas decoradas
com retábulos dourados.
A igreja tinha três capelas particulares que eram de
D. Lourenço de Almada, outra de João de Sá Pereira
e outra ainda da invocação de Jesus, onde estava
sepultado o morgado de Morais Botelho.
O edifício tem planta longitudinal composta de nave,
capela-mor, sacristia, capelas laterais e anexos. Verifica-se algum
contraste entre o exterior e o interior. Porque o interior assenta
numa disposição horizontal do corpo do edifico, enquanto no
exterior se nota a verticalidade da torre.
Interior da Igreja de Santa Cristina

No interior do edifício observa-se uma


distribuição diferenciada do espaço, em que a nave é
iluminada sobretudo pelo janelão da frontaria. A
capela-mor é quadrada, com abóbada estrelada de
cinco chaves ornamentadas. Possui duas janelas
laterais com cabeceira de recorte mistilíneo, estando a
da esquerda entaipada. Assinala-se a existência de um
retábulo de talha dourada, com colunas torsas, que
lhe foi adaptado. Um arco de volta redonda, com
perfis cortados em S, separa a capela-mor da nave.
Colateralmente a esta, abrem-se várias capelas, todas
de arco redondo. No flanco esquerdo, a de São
Francisco é a maior, sendo completada ainda por
uma tribuna para a igreja. A que se lhe segue possui
abóbada formada por dois arcos cruzados. Sob a
torre, situa-se a capela baptismal, onde se guarda a
pia manuelina. Do lado oposto, em frente à capela de
São Francisco encontra-se a do Santíssimo
Sacramento, com arco muito simples, grade e
decoração de estuques oitocentistas. As que se lhe
seguem são obra revivalista contemporânea. A
última, tem na parede uma lápide com inscrição
alusiva ao restauro da igreja de 1964-1970. Na
sacristia, encontra-se ainda o túmulo setecentista do
bispo D. João Franco de Oliveira, anteriormente ao
fundo da igreja e que foi trasladado para esta nova
localização.
A Igreja de Santa Cristina, em Condeixa-a-Nova, é
um monumento peculiar; na sua configuração
heteróclita inscrevem-se as marcas de estilos e
sensibilidades distintas que os séculos atravessaram e
que vicissitudes históricas de diversa índole ajudam a
explicar.
Concluída muito possivelmente em 1543, a igreja
viria a ser saqueada e incendiada em 1811, a par de
diversos outros edifícios da vila, com as invasões
francesas; este nefasto episódio obrigou à sua
reconstrução que no entanto lhe alterou
profundamente o traçado, conferindo-lhe o recorte
neoclássico que presentemente exibe.
Erguida no século XVI por determinação de D.
Manuel I, aquando da sua passagem pela vila, esta
obra veio substituir uma velha igreja existente no
mesmo local, indo ao encontro das aspirações da
população, profundamente desagradada por ter de se
deslocar às igrejas do Sebal ou de Condeixa-a-Velha a
fim de ouvir as missas dominicais.
Em 1514, D. Manuel I, entregou-lhe foral, mudou,
como no-lo indicam registos históricos coevos, a
construção da matriz teria ficado em grande parte a
cargo do Mosteiro de Santa Cruz, cumprindo muito
embora à população, o provimento dos paramentos
que a ornamentação do edifício exigisse; o surto de
desenvolvimento da moagem e a riqueza agrícola da
região favoreceram largamente o financiamento da
obra.
Em 5 de Março de 1549, Frei Brás de Braga,
afirmava num carta enviada de Leiria para o Mosteiro
de Santa Cruz de Coimbra: O debuxo da Igreja de
Condeixa vos envio para o guardardes lá parece-me muito bem.
O das casas que queríamos fazer para El-Rei cuidei que o
tinha e não se achou e encomendo-vos que vejais se Frei
Acúrcio o tem e lhe mandes fazer um que mandes com
conhecimento de Manuel de Barros se o achastes ou seu
traslado quando para cá vier alguém (…)28. Verifica-se
portanto que existiu um desenho da Igreja de Santa
Cristina que foi enviado para o dito mosteiro, onde
se pedia para ser muito bem guardado, pois era
frequente existirem perdas de documentos
importantes e este seria um deles, pois atestava qual
era a configuração e o aspecto da igreja.
Surgiram também desentendimentos entre as
paróquias de Condeixa-a-Nova, relativamente recente
e Condeixa-a-Velha, bastante mais antiga, que Frei
Brás tentou solucionar, quando afirmava noutra
carta, datada de Maio de 1549: quanto à dúvida das
ofertas de Condeixa-a-Nova, meu parecer é que pois já essas
igrejas têm cada uma seu capelão, que cada um levasse as
ofertas e oferendas e mortuários, da que curar e não houvesse
diferenças entre elas, porque não é razão que o capelão de
Condeixa-a-Velha leve as ofertas e mortuários de Condeixa-a-
Nova onde ele ao presente não tem alguma cura nem trabalho
mas tudo faz outro capelão para a concórdia que agora
fazemos e porém uns dois cruzados que já dantes eu mandara
dar a Manuel Rebelo é bem que lhos dêem a ele somente, e não
fique em foro para os outros capelães que adiante vierem29.
Atesta-se que a divisão das paróquias não foi um
processo pacífico, porque foi necessário uma
intervenção conciliadora no sentido de não prejudicar
ninguém, mas estabelecer critérios que ficassem
estabelecidos e claros daí para diante.
Existem referências a alterações no edifício em
1560, quando se procedeu ao alteamento da capela-
mor, sendo responsável pelas obras realizadas
Jerónimo Afonso. Nos finais do século XVI, entre
1589 e 1594, efectuaram-se algumas remodelações
nas capelas laterais. Durante o século XVIII, em
170230, foi necessário proceder a obras no edifício
que introduziram novas alterações, principalmente na
frontaria. Curiosamente, no entanto, o terramoto de
1755 parece não ter provocado estragos de monta no
edifício. Segundo o cura de Condeixa-a-Nova,
Reverendo José Joaquim de Sousa e Torres, na
resposta ao questionário solicitado pelo Marquês de
Pombal após a terramoto de 1755, e enviada a todas
as paróquias do reino, referia que «o orago é o de
Santa Cristina que tem dez altares e não tem naves e
de uma parte estão os altares de S. Sebastião, da Sra.
da Conceição, da Sra. da Piedade, do Santíssimo
Sacramento e do Senhor Jesus e da outra os altares
das Almas, de S. Tiago, de S. Pedro de Alcântara, da
Sra. do Rosário, além do Altar-Mor. Tem três
irmandades: do Senhor, da Senhora do Rosário e das
Almas»31.
No recheio da igreja de Santa Cristina existiam
«duas lindas capelas renovadas segundo o estilo do
Renascimento, pelo escultor contemporâneo João
Machado»32. Outro dos elementos que fazem parte
do recheio da igreja é a pia baptismal, da época
manuelina, com molduras e ornamentação
naturalista33.
Para além disto a igreja conserva ainda do
primitivo traçado a abóbada da capela-mor, de
características manuelinas, e o arco da capela de S.
Francisco, a capela de Santa Teresa e a do Senhor
dos Passos, de inspiração renascentista; de setecentos
é, já, o retábulo. No frontispício, ostenta a igreja de
Santa Cristina, em baixo-relevo, o escudo e a coroa
usados no reinado de D. Maria I.
Ligadas à Igreja criaram-se duas confrarias que
desempenharam papel importante na vila: a Confraria
do Santíssimo e a Confraria das Almas, que passou,
depois, a denominar-se das Almas e Senhor dos
Passos (13 de Junho de 1885), que ainda hoje
continuam a existir. A Confraria das Almas foi criada
em 1682 e teve estatutos aprovados em 25 de Agosto
desse ano. Por seu lado, a Confraria do Santíssimo
teve estatutos aprovados em 1689. Por ambas
passaram importantes personalidades de Condeixa34.
Um dos trabalhos de destaque realizados pela
Confraria do Santíssimo Sacramento foi a construção
do retábulo da capela do Santíssimo, encomendada
ao entalhador João Ferreira Carneiro, bem como a
construção do cancelo com madeira de castanho e
pinho da Flandres. Para além disso, em 1872, a
mesma irmandade resolveu substituir o soalho de
madeira da Capela-mor e substituí-lo por pedra, para
ficar como antigamente35.
Nos tempos recentes, entre 1964 e 1970, a igreja
foi submetida a obras de remodelação, a cargo do
construtor civil local António dos Santos Ramos, que
gratuitamente supervisionou a realização das obras de
beneficiação.
Existem ainda em Condeixa-a-Nova outros
edifícios e monumentos dignos de menção a que não
podemos agora dedicar a devida atenção, mas não
podemos deixar de fazer referência às capelas, solares
e outros edifícios.
Entre as capelas existentes no concelho
não podemos deixar de referir as igrejas
paroquiais das diferentes sedes de Freguesia:
Anobra, Belide, Bendafé, Condeixa -a-Velha,
Ega, Furadouro, Sebal, Vila Seca e Zambujal.
A Igreja Paroquial de Anobra, data do século
XVIII, possui azulejaria típica desse período.
Dispunha de um núcleo de esculturas importantes,
algumas do período manuelino e um sacrário do
século XVI.
A sede da paróquia de Belide é um edifício
reconstruído no séc. XIX. As esculturas em pedra
são do século XVI. Tem por padroeira Nossa
Senhora da Saúde e a talha é do período barroco.
A Igreja Paroquial de Bendafé foi construída no
século XVIII, sendo dedicada a Nossa Senhora da
Ajuda.
O edifício da igreja paroquial de Condeixa-a-Velha
terá sido construído no século XVI, mas as
reparações e reconstruções foram desvirtuando o
monumento ao longo do tempo. Tem um retábulo
do século XVIII e azulejos dos séculos XVI e XVIII.
A Igreja Paroquial da Ega conheceu importantes
obras durante o século XVI. Possui elementos
manuelinos como o altar-mor e o arco-cruzeiro. Tem
capelas renascentistas revestidas com azulejos dos
séculos XVII e XVIII. Possui um tríptico de madeira,
atribuído a Gregório Lopes, dedicado a Nossa
Senhora da Graça, que data do século XVI.
A igreja paroquial do Furadouro foi reformada no
século XIX, mas tem elementos decorativos que
datam do século anterior. Possui algumas esculturas
de pedra do século XVII.
O edifício da igreja paroquial do Sebal, ainda
apresenta vestígios da reconstrução feita no século
XVI, mas tudo indica que a construção seja do século
XIV. Conheceu, também, ao longo do tempo várias
intervenções na estrutura construída, que lhe
alteraram alguma da sua beleza. No seu recheio
possui vários retábulos que datam dos séculos XVI e
XVII, bem como esculturas que datam do século
XV.
A igreja paroquial de Vila Seca, dedicada a S.
Pedro, mistura vários períodos construtivos. Destaca-
se no interior a talha e a azulejaria. O corpo da igreja
foi revestido com azulejos do século XVIII. Possui
um baptistério e várias esculturas de pedra e madeira.
Por fim, a igreja paroquial do Zambujal foi
reconstruída no século XVIII. Tem no seu interior
azulejaria e esculturas. Destacam-se as esculturas do
século XVI. Esta igreja é de construção muito antiga,
existindo referências à sua existência desde 1320.
Mas também são dignas de menção as capelas
dispersas pelo concelho, como a capela da Senhora
da Lapa, a da Senhora da Piedade, a de Santa Maria
de Alcabideque, a de Nossa Senhora da Piedade da
Eira Pedrinha, a de Santa Isabel, no Bom Velho, a da
Nossa Senhora do Rosário, a de São Fipo, a de S.
João, de Casével, a do Casmilo, da Senhora do
Círculo, a da Nossa Senhora da Conceição, a de São
José, e a capela da Serra de Janeanes.
Os solares mais importantes são o Solar do
Francos ou Quinta do Travaz, que pertencia ao
Morgadio do Travazm e tendo sido construído no
século XVII, actualmente, ainda se conserva em
razoável estado; o Morgadio da Lapa, onde viveu o
padre João Antunes, o padre-boi, figura importante em
Condeixa, onde fundou o órfeão que ainda preserva
o seu nome; Solar dos Cunhas, que se situava na
Lapinha; Solar João de Azevedo, actualmente
bastante alterado, mas que ainda dispõe de capela
particular dedicada a Nossa Senhora do Amparo, essa
sim existente, cuja construção data do século XVII.

Fontes e Bibliografia
Fontes de Arquivo (manuscritas)
Arquivo da Universidade de Coimbra - Fundo
Governo Civil de Coimbra
Concelho de Condeixa-a-Nova. Orçamentos dos anos
económicos de 1852-1853; 1853-1854; 1854-1855;
1855-1856; 1856-1857; 1857-1858; 1858-1859;
1861-1862; 1862-1863; 1863-1864,
AUC/GCC/TA/E4/T3/288.

Publicações Periódicas
Conimbricense, O, Coimbra;
Ilustração Portuguesa, Lisboa;
Tribuno Popular, O, Coimbra;

Bibliografia

CASTRO, Augusto Mendes Simões de, Guia Histórico


do Viajante em Coimbra e Arredores, Imprensa da
Universidade, Coimbra, 1867.
CONCEIÇÃO, Augusto dos Santos, Condeixa-a-
Nova, 2ª ed., Revista e Acrescentada por José
Maria Gaspar, Coimbra, 1983.
CORREIA, Vergílio, «As Cartas de Fr. Brás de Braga
para Sta. Cruz de Coimbra», Arte e Arqueologia,
Ano I, Nº 4, 1932, Coimbra.
COSTA, Pe. António Carvalho da, Corographia
Portugueza e Descriçam Topographica do famoso Reyno de
Portugal…, Tomo II, 2ª ed., Typ. Domingos
Gonçalves Gouvea, Braga, 1868.
GONÇALVES, António Nogueira, Inventário Artístico
de Portugal. Distrito de Coimbra, vol. IV, Academia
Nacional de Belas Artes, Lisboa, 1953.
LOPES, João Baptista da Silva, História do Cativeiro dos
Presos de Estado na Torre de S. Julião da Barra de
Lisboa …, Introd. E Notas de Neves Águas,
Publicações Europa-América, Lisboa, s. d.
PEREIRA, Zélia, «Vasconcelos, Jerónimo Dias de
Azevedo Vasques de Almeida e (1805-1885)»,
Dicionário Biográfico Parlamentar (1834-1910), vol.
III, coord. Maria Filomena Mónica, Col.
Parlamento, Imprensa de Ciências
Sociais/Assembleia da República, Lisboa, 2006.
PESSOA, Miguel e RODRIGO, Lino, «Palácio
Figueiredo da Guerra em Condeixa. Abordagem
urbanística, arquitectónica, funcional e simbólica»,
Munda, Maio de 2004, nº 47, Grupo de
Arqueologia e Arte do Centro (GAAC), Coimbra
PROENÇA, Raul (Dir.), Guia de Portugal – Beira I -
Beira Litoral, vol. III, Fundação Calouste
Gulbenkian, Lisboa, 1984.
Ruas e Lugares de Condeixa, coord. Rosário Grilo e
Fátima Bandeira, Coordenação Concelhia da
Extensão Educativa de Condeixa, Condeixa, 2002.
Subsídios para a História de Condeixa. Condeixa no Século
XVIII, nº 10, 1956, coord. Fernando de Sá Viana
Rebelo e Isaac Pinto, s.l. [Condeixa ?]

Condeixa ao pé da porta

José Magalhães Castela


Antigamente, quem vinha de Coimbra pela antiga
Estrada Nacional, entrava obrigatoriamente em
Condeixa pela Rua Francisco de Lemos, não sem antes
abordar o Paço.
No meio de paisagem verde, logo do lado
esquerdo encontrava a Casa da Criança, e mais à
frente, do lado direito, o tanque de água do Galaitas,
autêntica piscina olímpica onde os ases da natação da
Académica chegaram a treinar algumas vezes. E era
por essas bandas que se encontrava a estátua do
Quelhorras, sentinela alerta a quem entrava, a mijar
água cristalina vinte e quatro horas por dia, trezentos
e sessenta e cinco dias por ano, e onde as mulheres
do povo matavam a sede após fazerem o sinal da
cruz.
Figura masculina em pedra muito mal trabalhada,
mas pelos vistos com olhar malvado para as raparigas
solteiras, o Quelhoras foi substituído em 1853 pela
figura de um imponente Guarda Nacional,
cavalgando o cano de pedra por onde saía a água
cristalina. Autêntica instituição pública à entrada da
vila, este recauchutado Quelhoras, pelos vistos, nem
perdeu a maldade no olhar nem a santidade da bica
urinária.
(Procurei que me fartei e nunca ninguém me conseguiu
explicar porque razão as mulheres do povo se benziam perante
os dois Quelhoras que estavam sempre em função urinária.
Porventura, a única explicação poderia residir na água. Vinda
de Alcabideque, seria sem sombra de dúvida, cristalina.
Calcária quanto baste, como que a atestar uma personalidade
muito própria, mas reputadamente cristalina. Uma bênção,
portanto!)

E o Quelhorras, convenhamos, como cartão de


visita não seria lá muito famoso em termos de
monumentalidade e estética, logo de seguida e quase
em frente um do outro, os dois palácios, o do Lemos
Ramalho e o dos Almadas em permanente diálogo,
como se de pai e filho se tratassem, proporcionavam
ao visitante a nobreza da entrada em Condeixa.

(Disseram-me uma vez que havia um túnel secreto que


ligava o palácio dos Almadas à povoação da Barreira, para
proporcionar eventual fuga daquela família brasonada, assim
que chegassem os franceses. Pelos vistos, aquando da invasão
francesa do Junot, os militares gauleses aboletaram-se nos
domínios dos Almadas, comeram e beberam do bom e do
melhor e fizeram estragos. Foi então que o decano dos
Almadas resolveu prevenir-se a tempo. Na terceira invasão
francesa, a do Massena, e como pelos vistos já não havia mais
nada a roubar, os militares aproveitaram para deixar sementes
em barrigas alheias).

O visitante entrava assim na Rua Francisco Lemos a


olhar algo deslumbrado para os dois palácios e tinha
uma primeira percepção que Condeixa era mesmo
uma terra de gente nobre. Claro está que logo de
seguida, o cabo Alípio, comandante do posto da
Guarda Nacional Republicana, decididamente fazia
esquecer as monarquias e confirmava que estávamos
mesmo a viver numa República. E mesmo pegado às
tropas, o bom Padre Gomes sorria silenciosamente
perante esta manifesta afirmação republicana.

(O cabo Alípio da Guarda Nacional Republicana, fazia


esquecer que estávamos perante uma força de repressão. Merece
aqui um simpático apontamento porque nunca o vi a passar
uma multa ou a dar uma chapada em quem quer que fosse).

Mas regressemos à Rua Francisco Lemos. Mais


abaixo, e enquanto sob o olhar atento da Albertina
Boneca, o João Borrega vai fazendo lentamente a barba
ao Duarte electricista, a Rua Francisco Lemos, depois de
passar em frente da casa amarela do doutor João Ribeiro,
revolucionário por conta própria no tempo da outra
senhora, afundava-se no princípio da vila e só parava
junto à Câmara Municipal, mesmo em frente da tasca
do Zé David, onde a consorte Celeste, mulher de
tempero certo, fazia assar um cabrito no forno de
lenha. Era mesmo um cabrito de se lhe tirar o
chapéu, acondicionado com carinho no meio das
batatas assadas e dos grelos.

(Ai tanta coisa para dizer sobre estes personagens ! Vamos


por partes e começo pelo doutor João Ribeiro.
Uma vez, já depois da Revolução de Abril, um paciente foi
bater à porta do dr. João Ribeiro, para que ele lhe tirasse uma
dor de barriga. Quando entrou, já o douto clínico tinha jantado
e estava a fazer o quilo. Puxa daqui e puxa dali e a conversa
meteu-se pelos meandros espúrios da política. Pela parte do
dorido paciente só lhe interessava mesmo a injecção na parte
sobrejacente do fundo das costas para lhe tirar os ardores em
perfeita ebulição nos interiores da barriga. O doutor,
perfeitamente alheado das dores do paciente, lá ia discursando
sobre uma das teses de Lenine, nomeadamente a da luta contra
o revisionismo. Numa tentativa de fazer avançar o discurso,
disse o paciente ao doutor que o revisionismo sacrificava os
interesses fundamentais do proletariado e conformava-se com as
necessidades da burguesia. O clínico deu réplica e a discussão
alongou-se, com os ponteiros do relógio a cumprirem a sua
função horária. O mal estar abdominal do paciente foi
desaparecendo aos poucos, nunca se chegando a saber se foi por
causa de alguns pruridos ideológicos se foi por causa do cheiro
do cabrito assado da Celeste que emanava na altura da tasca
do Zé David.
Esta coisa de assar cabritos tem que se lhe diga, e muitos
diziam que o segredo estava indubitavelmente no tempero. Para
a massa utilizavam-se, e com fartura, dentes de alho esmagado
num almofariz, sal na quantidade suficiente para não
aumentar a tensão arterial, pimenta com decoro e alguma
prudência, e colorau e banha à discrição. O remate final com
uns fios de azeite era muito bem vindo nos lombos do
quadrúpede. Era assim a massa de tempero da Celeste do Zé
David. Por fim, e antes de ir ao calor do forno, as mãos da
Celeste pegavam na massa e barravam com carinho o corpo do
animal. As ondulações poéticas das mãos suaves da Celeste a
passarem a massa pelo corpo teso do cabrito, só tinham
paralelo com as mãos da Rosalinda quando desentortava um
calcanhar. Mas quanto a isso já lá vamos).

Na ruela que sai da Rua Francisco Lemos, mesmo ao


lado da casa do doutor João Ribeiro e que ia bordejar
a quinta do Palácio, vivia o Pincha.
(O Pincha tocava bombo na Banda Filarmónica Fina Flor
mas, aparte o bombo, tinha uma voz do caraças. Pelo Senhor
dos Passos, e quando os metetos cantavam o misérére junto das
capelinhas, um silêncio respeitoso e reverente se impunha para
se ouvir os agudos saídos dos gorgomilos do Pincha. Porque a
voz do Pincha tinha tido um mestre de canto de suprema
categoria : Nem mais, nem menos que o doutor padre João
Antunes).

A partir da Câmara Municipal, e sempre a direito, a


Rua Francisco Lemos mudava de nome e passava a
chamar-se Rua Lopo Vaz durante uma curta viagem.
Era aí que nos esperava a Conceição do Zé Velho
mesmo ao pé da alfaiataria do Miguel Carlos, depois de
termos passado pelas lojas do Zé Moca, da Carmo
Macia e também dos serviços oficiais do fisco. É
verdade, a Tesouraria da Fazenda Pública, também
conhecida pela Recebedoria era num rés-do-chão e a
Repartição de Finanças mesmo por cima, num primeiro
andar.

(Uma vez, o António Pessa estava parado no meio da


estrada a olhar para esse prédio. Meio grão na asa, gabardina
pelos ombros, embora fosse Verão e fizesse calor, eterno cigarro
sem filtro na ponta dos dedos da mão esquerda, exclamava
para quem o queria ouvir:
… cá em baixo esfolam-nos e lá em cima,
esquartejam-nos ! … .
Era a voz do povo a falar e com toda a razão !
E falar da Conceição do Zé Velho, é recordar os seus dois
filhos, o Ramiro e o Saúl, homens com a alma cheia de música.
O Saúl ensaiava na altura a banda filarmónica da Pocariça,
quando foi contratado para abrilhantar uma festa religiosa
para as bandas do Espinhal. Vai não vai, e como era cedo, e
talvez para aquecer os instrumentos, resolve o Saúl fazer uma
arruada com a banda da Pocariça, a meio caminho, em
Penela, onde também era dia de festa e cuja comissão
organizadora os recebeu a preceito com o foguetório que se
impunha. Aquecidos os instrumentos, gastos os foguetes e
bebidos alguns litros de tinto caseiro, retoma a filarmónica da
Pocariça o seu percurso em direcção ao Espinhal. Só que …e
nestas coisas de festas há sempre um senão… era a banda
filarmónica Fina Flor da nossa Condeixa que iria abrilhantar
as festas de Penela. Lá chegados, nem foguetes, nem vinho.
Nickles. Todos tinham pensado que a outra banda era a
legítima contratada, uma vez que o Saúl era de Condeixa.
Nesse mesmo dia à noite, regressada do Espinhal a
filarmónica da Pocariça, o nosso Saúl, como bom Condeixense,
resolve presentear os seus conterrâneos com uma arruada a
preceito. Mas foi na praça que tudo se descompôs, com uma
espera feita pela Fina Flor. Perante a cena de pancadaria que
se gerou entre os músicos, o mano Ramiro, homem calmo por
feitio e natureza só dizia
… coisas do meu irmão ! …).

Terminada a Rua Lopo Vaz começava a


Revolução. Pois é. Começava a Rua 25 de Abril.
Ainda me lembro de ver o Zé Torres e a Olinda Vicente
a atenderem a clientela sob o olhar atento do
Hermenegildo latoeiro. E depois apareciam os João
Semana cá da terra, o doutor Fortunato Bandeira e o
doutor Alfredo Pires Miranda.

E depois vinha a Praça da República.

(Para pensarmos Condeixa, indiscutivelmente temos que ir


à Praça. Era lá que se fazia o mercado, duas vezes por
semana, que os comediantes incertos faziam as suas actuações e
que na terça-feira de Carnaval se subtraiam os chapéus e
boinas dos seus legítimos proprietários para serem exibidos na
ponta de um cordel em sobe e desce accionados pela juventude
do momento. Era também na praça que se passeava de um
lado para o outro, percursos intermináveis que entravam noite
dentro. Mesmo de Inverno. A própria informação, os contos e
os ditos, era lá, na Praça, que estavam para quem os quisesse
ouvir. Mesmo descaracterizada e sem o chafariz no meio,
sempre que se lá passa, parece que ouvimos baixinho aquilo
que ela nos tem para dizer. É só olhar em volta e captar as
suas palavras).

A Praça da República era um momento de pausa


reconfortante nesta incursão do visitante pela urbe,
com a casa apalaçada do Visconde de Alverca a dominar
amplamente um dos lados. No lado contrário, o
Néné, que vivia por cima do café do Jaime e da loja de
fotografia do Isac Pinto, volta e meia convidava o
Manel Pena para o petisco na adega, ao mesmo tempo
que a Viúva Salazar, o Paula e o António Miro viviam
em absoluta convivência pacífica uns ao lado dos
outros. O doutor Júlio Rocha, esse, no seu recato, ia
fazendo uma pomada absolutamente eficaz para as
maleitas da pele.

(Alguns chamavam-lhe a pomada santa e ainda recordo o


cheiro intenso a desinfectante. Aplicada indiscriminadamente
num furúnculo, numa picadela de abelha, num corte profundo
ou num panarício, o resultado era sempre o mesmo: Cura
absoluta para tranquilidade do doente e publicidade ao autor.
É curioso, que nestas coisas de curas, a pomada santa do
doutor Júlio Rocha andava de braço dado com as mãos da Ti
Rosalina).

Um acontecimento sempre aguardado na Praça da


República era a passagem da procissão do Senhor dos
Passos. No Sábado à noite ouviam-se os metetos em
frente ao palácio do Visconde, para depois se assistir
à passagem do andor por cima do Rio do Cais. A fé
move montanhas e neste caso a água do Rio do Cais
ficava mesmo abençoada. E no Domingo, no meio
daquela gente toda, encontravam-se os amigos ao
som das palavras do Sermão do Encontro. É que os
amigos que estavam longe vinham sempre a
Condeixa pelos Passos, como se dizia então.

(O Senhor dos Passos, será porventura aquilo que resta de


Condeixa. Porque o resto foi desaparecendo aos poucos. Até o
copo e vela dez tostões sofreu com a inflação !).

Os Passos tinham que se lhe diga. Meio mundo


vinha a Condeixa. Filhos da terra e enteados por
acréscimo, conhecidos de todos e desconhecidos de
ninguém, muitos deles ao cheiro do cabrito e outros
tantos para a matança … das saudades. E depois
havia os devotos e os penitentes. Os que levavam o
copo e vela por dez tostões e as que iam de joelhos na
procissão aberta pelo Mário Galo e fechada pela banda
de música que tocava sempre a mesma marcha.
E depois a Praça era também a Igreja Matriz, onde
toda a gente entrava recém nascido para o baptismo,
aos dez anos para a comunhão, aos vintes para dar o

(e, convenhamos, onde todos nos vamos encontrando sem dia


marcado para nos despedirmos dos nossos amigos, o que é uma
tremenda e reputada chatice pois somos todos mortais.
Ninguém cá fica!).

Avizinhava-se de seguida, ao pé das ferragens do


Franklin, o largo Artur Barreto, a feira das galinhas de
antigamente, onde o palácio dos Figueiredos de Guerra era
rei e senhor. Estamos a ver o Artur Varela do
Armazém de Mercearias, a tomar apontamentos para o
seu livro « Cabeças de Barro «, de parceria com o
Fernando Namora e com o Carlos Oliveira, e em
perfeito condomínio com os barros do Melâneo, e sob a
complacência do Clube de Condeixa e do Tribunal
Judicial. Bom, a partir daí, e devagarinho, o visitante
tomava paulatinamente o caminho da Rua D. Elsa
Sotto Mayor, sempre a descer até á Faia, árvore
centenária, que marcava o início da viagem para
Lisboa, para uns, ou o caminho íngreme para a última
morada, para outros. A Faia, que assistia á
encomendação da alma de quem lá passava na
posição horizontal, sempre quis morrer de pé. Pelos
vistos, houve alguém que não deixou.

(Nos funerais, era certo e sabido que o padre mandava


parar o cortejo fúnebre ao pé da Faia, para uma incursão nas
Aves-Marias e nos Pais-Nossos, a favor da alma do falecido.
Encomendava-se a alma do defunto com um olho no café do
Cara Arranhada, onde, após o funeral, grupos certos paravam
para ir provar um tinto e mastigar um costal de bacalhau).

Tenho que fazer aqui uma pausa e retroceder á


Praça da República, pois o visitante podia muito bem
interromper este percurso e ir namorar a rua de
Condeixinha e depois a Rua da Assunção. Mas vamos
por partes.
Logo no princípio da Rua de Condeixinha, esta
fracturava do lado esquerdo, para dar lugar á Rua dos
Pelomes onde o António Capado e a Glória Rasteiro
viviam. E era essa mesma rua que assistia aos
aviamentos da Rosalina. Um osso fora do sítio ou um
ligamento avariado nas mãos da Rosalina iam ao sítio
a bem ou a mal.

(Onde é que a Rosalina aprendeu a arte de pôr os ossos no


sítio devido, nunca ninguém soube. Quiçá, nem ela própria.
Mas que os ossos, quando deslocados, iam para o sítio certo
após intervenção das mãos da Rosalina, isso era um facto.
Mulher recatada por natureza, mirava primeiro o calcanhar
fora do sítio como quem olha o belzebú. Muito devagarinho,
começava a massagem no pé, com um Pai-Nosso de permeio e a
meia voz, como que a ver o jeito a dar. Se o caso era difícil,
prolongamento da massagem e ataque forte com uma Salve
Rainha. Depois dos entretantos vinham os finalmentes.
Primeiro era um toque subtil no artelho e depois uma torcidela
no pé acompanhado por competente grito lancinante. A cura
produzia-se).

Mas se continuássemos pela Rua de Condeixinha


abaixo e depois seguíssemos pela Rua da Assunção, lá
íamos encontrando alguma gente conhecida: Por
exemplo, o Micaelo e o seu talho, em plena
concorrência com o do Fontes, o Carlos Pessa, e, mais
ao fundo, mesmo em frente da casa do António Braga,
a loja do Zé Curto. E a rua depois continuava, claro
está, em direcção ao Travaz e ao Casal da Estrada.
(Porque a história é melindrosa e um dos intervenientes
ainda é vivo, achou por bem o autor destas linhas alterar o
nome dos ditos cujos.
Eram uma vez dois vizinhos. Um era o Firmino, homem
mais velho, de poucas mas acertadas falas. Outro era o
Sebastião, rapaz mais novo e expansivo até dizer basta.
Embora sem grandes cumplicidades, os dois vizinhos davam-se
bem.
Certo dia, em reparações domésticas, o Firmino contratou
um pedreiro para verificar das razões dos entupimentos das
caleiras do telhado de sua casa
… ó senhor Firmino … as caleiras do telhado da
sua casa estão efectivamente todas entupidas. Se não
se deita mão ao esterco das caleiras, as águas do
próximo Inverno irão fazer das suas …
… entupidas como ? As caleiras até são novas ! …
… ó senhor Firmino … olhe bem para as caleiras
do seu telhado … está a ver as pombas do seu
vizinho Sebastião lá pousadas ? Pois as pombas
transformaram as caleiras do seu telhado em retrete !

Pensando na melhor ideia para resolver o entupimento das
caleiras de sua casa, o Firmino deliberou comprar, muito em
segredo, uma espingarda de pressão de ar. De posse da arma,
afinou-lhe a alça, praticou a pontaria e iniciou a caça.
E assim, todos os fins de tarde de um certo mês de Abril,
duas ou três pombas entregavam a alma ao criador e o corpo
aos saberes pantagruélicos da consorte do Firmino.
Não raro, o Sebastião lamentava-se perante o vizinho
Firmino.
… ó senhor Firmino … as minhas pombas
andam-me a fugir. Desaparecem-me ! …
… ó Sebastião. Ouve com atenção. É a Natureza.
As tuas pombas andam mas é a acasalar com pombos
de outro pombal ! …
… ó senhor Firmino. Pode lá ser. Então as
minhas pombas fogem e deixam os borrachos no
ninho ? …
… é porque são más mães, Sebastião. São mesmo
muito más mães, o raio das tuas pombas ! …
E o desbaste continuava sempre à razão de duas ou três
pombas ao dia. E a própria cara-metade do Firmino já se via
em papos de aranha a inventar receitas para variar a ementa.
Finou-se Abril e começou o Maio. E finou-se também, a
pouco e pouco, o abastecido pombal do Sebastião, com a
natureza bélica da espingarda de pressão de ar a repor o
equilíbrio natural das coisas, ou seja, a fazer sujeitar as
caleiras do telhado do Firmino à exclusiva função
encaminhadora do corrimento das águas pluviais para o sítio
certo.
Certo dia, bate à porta de casa do Firmino, o seu vizinho
Sebastião, com uma caixa de sapatos, furada de ambos os
lados. Lá dentro estava uma pomba branca.
… ó senhor Firmino… maldita a hora em que fiz
a criação das pombas. Estou triste de morrer. Criei-as
com tanto desvelo e elas fugiram-me. Ficou apenas
esta pomba, e ainda por cima manca de uma perna.
Tome. Ofereço-lha. Experimente o vizinho fazer
criação que pode ter mais sorte do que eu ! …
Firmino olhou para a pomba branca e lembrou-se do
desajuste da alça da mira da espingarda de pressão de ar que o
fez errar o último tiro. Afinal, em vez da cabeça, tinha
acertado no pé da criatura.
… ó Sebastião. Se o bicho que tiveste a gentileza
de me oferecer, sobreviver ao empeno da perna, o
que duvido, podes crer que me meto a fazer criação
de pombas ! …)

Estou a ser ingrato se não falar na Rua Venceslau


Martins de Carvalho, a nossa Rua Nova, tão intimista,
florida e envolvente. Assim que subíamos a rua, logo
do lado direito, não raro iríamos ouvir o senhor Rui a
dedilhar a sua eterna viola ao mesmo tempo que a
Eduarda do Joaquim Pedro regava os vasos que tinha à
porta. Do outro lado da rua, a Madame Quitton dizia
aos seus alunos: … allez, allez, mes enfants, parlons
seulement en français ! …. Continuávamos a subir a rua,
devagarinho, e depois da casa onde viveu o Augusto
Lapa apareciam os Cigarras comandados pelo patrono
Manel. Eram tantos que eu até os refiro no plural.
Praticamente depois do Atílio Paiva e da Maria
Bacalhoa continuávamos a subir a rua para só termos a
possibilidade de vislumbrar a Maria Cassaneta.

Mas voltemos à Praça e façamos uma incursão


naquela que era considerada a mais desenxovalhada
de todas, a avenida Visconde de Alverca, mas que de
avenida tinha pouco. Não tinha árvores e era
irremediavelmente torta.
Logo no princípio, do lado direito, a loja do Néné
e do Quinzinho faziam frente ao estabelecimento do
Justiniano. Depois vinha o nosso cinema Paraíso, o
Cine- Avenida a fazer ciúmes aos enchidos do João
Geraldo.

(No fim-de-semana das procissões do Senhor dos Passos, o


Cine-Avenida exibia sempre, no Sábado, o filme espanhol
Marcelino Pão e Vinho, com o Joselito, e no Domingo, a
Vida de Cristo. Se com o Marcelino, as Senhoras lá soltavam
meia dúzia de lágrimas, condoídas com as agruras do artista a
dada altura mordido na ponta do pé por um escorpião, na
Vida de Cristo as Madames entravam mudas e saíam
caladas. Já se sabia o fim da história.
Mas o Cine-Avenida, com o balcão, a plateia e a geral não
numerada, não deixava de ser, no final de Sábado à tarde e
durante escassos dez minutos, um pequeno mundo encantado
aberto a todos, quando o Néné e o mano Quim faziam a
Experimentação da película).

Subia-se a Avenida e aparecia a farmácia do


inconfundível Quim Bandeira, como inconfundível era
a dona Irene. Até havia um colégio, o Externato Infante
D. Pedro comandado com mão de ferro pelo doutor
Luís Vale e pela doutora Teresa. Depois da loja do
Castela e da Maria Cartolinha, os Correios Telégrafos e
Telecomunicações.

(O Chefe da Estação dos Correios, o Valentim, homem


sisudo e de poucas falas tinha um papagaio em cima do balcão.
Nas horas mornas e com a estação vazia de utentes, sempre
havia um ou outro, que a pretexto da compra de um selo,
tentava ensinar uma ou outra asneira ao papagaio. Mas o
papagaio era burro e só sabia dizer … dá cá o galho ! E o
Valentim, perante o despropósito do utente, mesmo sisudo,
afinava que se fartava).

A seguir aos CTT e de um lado, estava a casa do


Tenente Beato, a taberna do Leandro e o Grémio da
Lavoura. Do outro, os currais e armazéns do Visconde
d´Alverca, o armazém das urnas do Manel Pena e a casa
do João Raça. A primeira metade da Avenida, antes de
entortar ligeiramente á direita, estava feita. Entortava
no cruzamento para a Avenida Velha, mesmo antes da
Praça da Sardinha.

(Havia sempre sardinha e carapau na Praça. O peixe


vinha sempre da Figueira. Só quando rareava é que vinha da
Nazaré e de Matosinhos. Quando os pescadores não iam ao
mar e na falta de peixe fresco, o chicharro salgado, mesmo
amarelo, cumpria a sua missão assado na brasa. A Elvira
Caraolha, senhora minha avó, era a decana das peixeiras e
tinha a banca logo à entrada da Praça, no lado esquerdo.
Mordomias numa família de peixeiras que estavam quase
todas metidas no métier).

Para quem quisesse deixar a Avenida e virasse à


esquerda, entrava na Avenida Velha, cheia de histórias
e beijos roubados debaixo das nogueiras do Visconde.
E o Viseu da Avessada e o Manaia a não darem nunca
por nada !
Mas voltando à Praça da Sardinha e á Avenida Nova.
A partir daí ficávamos um pouco com a sensação
de que cada um vivia para si, cada um
fechado na sua concha. Era o Manuel Alcobaça do
carro de aluguer, também conhecido pelo Baixinho, o
inconfundível e inimitável António Pessa, sempre de
gabardina pelos ombros e cigarro na ponta dos
dedos, a mercearia do Zé Bacalhau, sportinguista da
pon-ta dos cabelos à sola dos pés, a tasca do Zé Luís e
a sapataria do Eduardo Sansoa, convenhamos,
sapataria de bestas, mulas e outras alimá- rias.

E se continuássemos até ao cimo da Avenida, é


verdade, encontrávamos a internacional Pensão Buraca,
um pouco antes de esbarrarmos de frente com a casa
do doutor Lencastre. Virávamos obrigatoriamente à
direita para tentar sair da vila e tínhamos que passar
pela oficina do Benjamim Ramos, por todos conhecido
pelo Fechaduras.

Regressemos ao centro de Condeixa e façamos


uma incursão no Outeiro, sempre a subir até às bandas
do Hospital, e que só terminava no Hospício, onde
estava o palácio dos condes de Podentes, que se despediam
do visitante até uma próxima visita. Esse Outeiro
sempre a subir com o Fernando Camões encostado ao
Armazém de Mercearias do Viseu e a piscar o olho à
Cadeia, um pouco antes do largo de São Geraldo
aparecer.

(A Escola dos Rapazes era em frente do Hospital. Nos


primeiros tempos pontuava o Professor Martins, pelos vistos
um grande pedagogo. Mais tarde veio o Professor Pita que era
mau como as cobras. Quatro anos de pancadaria diária com
uma cana de bambu e uma régua forte e feia eram os melhores
argumentos para se aprenderem as lições e tirar-se a 4.ª classe
a valer. Pancadaria à parte ( sem que ninguém ficasse
traumatizado ), a verdade é que a instrução primária era feita
com cabeça, tronco e membros.
E logo em frente era o Hospital, polivalente nos serviços,
com cirurgia, internamentos, Raios X e sala de autópsias nas
traseiras. O pior era mesmo brocar um dente, pois a broca era
movida por um aparelho adaptado e movido com os pedais de
uma bicicleta. E quando o doutor Quirino Sampaio queria
brocar um dente, uma freira assistente saltava para cima da
bicicleta e pedalava. A tortura durava um século. E quando o
dente estava muito cariado o clínico insistia sempre com a
freira: … Vamos lá Irmã, pedale agora com mais força ! …).
Ao pé do Hospital havia também o Armazém de
Mercearias Alcobaça, Pessa & Companhia Limitada. E
mais à frente, outra instituição de reputado mérito e
de clientela certa: O Café da Carminda.

E Condeixa era também a água. Sempre a nossa


água. Calcária que se fartava mas era nossa. A do
Caldeirão e a do Rio do Cais, quer uma, quer outra,
perfeitas conhecedoras dos segredos existentes nos
subterrâneos da vila. E as fontes. E os fontanários. E
as fontainhas. E os moinhos de água. E os regadios.
E as rigueiras. E os poços. E os simples charcos. E o
tanque do Galaitas. E o cano de pedra por onde saía a
água cristalina do Quelhoras.

(O Chafariz que estava no meio da Praça da República


era, simbolicamente, um pouco de toda essa água de
Condeixa. Metáfora engalanada sob a forma de um
harmonioso cesto de flores - o símbolo de Condeixa - o
Chafariz da Praça deu sempre de beber a todos os que tinham
sede).
Imagens de Condeixa

Cândido Pereira

Ao propor-me escrever as memórias da vila de


Condeixa dos anos 40/50 do século passado, tenho
como objectivo a preservação de factos passados
com pessoas que quase só sobrevivem na memória
de alguns. São descrições e episódios, aparentemente
vulgares, mas que consubstanciam a vivência de um
povo numa determinada época ou espaço físico.
Essa Condeixa já não existe. Foi tragada pelo
progresso, a «máquina» infernal que tudo destrói. E,
se encontra pelo caminho entidades responsáveis sem
um mínimo de sensibilidade, até devora a alma do
povo. José Cardoso Pires afirmava: «Um país sem
memória é um país incapaz de compreender a
própria história». Felizmente, sempre aparecem os
depreciativamente denominados «memorialistas»,
guardiões incansáveis de um tempo que tem de ser
transmitido a outras gerações.
Neste exercício de memória vou referir ruas. Mas
elas são, fundamentalmente, quem lá vive. Uma rua
sem gente é terra de ninguém. Na verdade, são os
moradores quem lhes dá vida e as faz ter histórias
para contar. Curiosamente, os dramas, mais que as
alegrias, têm o condão de agregar as pessoas em
torno dos atingidos pelo infortúnio, formando um
círculo solidário onde até se esquecem as «tricas das
comadres contando as verdades», coisas lançadas da
boca para fora, tantas vezes sem a intervenção do
coração!
Serei capaz de atingir os objectivos? Vou tentar!
Condeixa, apesar de ser hoje espartilhada por um
tenebroso IC2, um bastante menos concorrido IC3 e
uma circular interna de relativa eficiência, conseguiu
transbordar em termos geográficos e habitacionais.
No meu tempo, porém, estava quase limitada ao
Outeiro, Avenida, Condeixinha e Rua Nova, com a
Estrada Nacional a passar bem dentro do coração do
burgo. Para facilitar a narração, consideremos que a
entrada na vila se fazia pelo Paço e se despedia junto
à velha Faia, ao pé Café do Arranhado (hoje Rotunda
da Faia).
Logo a abrir, o Tanque do Galaitas, um enorme
reservatório de água construído para movimentar a
«Fábrica», interessante construção da época da
revolução industrial, um misto de fábrica de
descasque de arroz e lagar.
O Tanque serviu durante longos anos como
piscina popular, onde além dos normais exercícios de
natação, o povo tomava banho, no sentido de higiene
corporal. Aos domingos de manhã, jovens e adultos,
-do sexo masculino - pois o decoro da época impedia
meninas e senhoras de participar nessas práticas -
povoavam o Tanque do Galaitas. E apenas levavam a
toalha e o sabão azul, pois o sabonete só era
alcançável noutros estratos sociais.

O Nobre Paço dos Almadas

Depois, o Paço dos Almadas, que deu nome ao


local. Sólida construção com corpo central, alas,
jardim e comprido gradeamento em ferro fundido,
com artístico portão (este gradeamento é o mesmo
da Pousada de S. Cristina). Pertenceu na origem aos
Condes de Avranches. D. Lourenço de Almada,
combatente de Alcácer-Quibir, onde foi ferido e feito
prisioneiro, era o pai de Antão Vaz de Almada que,
da varanda do seu Palácio no Largo de S. Domingos,
em Lisboa, (actual Palácio da Independência),
aclamou D.João IV.
O Paço foi adquirido pela família Sotto Mayor,
tendo sido utilizado como celeiro e currais para gado.
Dos salões, três foram cedidos à Música Nova
(Filarmónica Fina-Flor) e os restantes serviam para as
festas particulares dos proprietários. O Paço dos
Almadas foi demolido para no seu local ser
construído de raiz o prédio da Pousada de Santa
Cristina.

Palácio dos Lemos Ramalho

Mas, a dominar todo o local, está o Palácio dos


Lemos Ramalho, de Condeixa. Antigo Solar da
Senhora da Piedade, foi mandado transformar pelo
Bispo D. Francisco de Lemos Ramalho de Azeredo
Coutinho, Reitor reformador da Universidade de
Coimbra, para receber o Rei D. José I, convidado a
vir a Coimbra inaugurar os Estudos Gerais. O
monarca não chegou a deslocar-se a Condeixa,
mandando em seu lugar o Marquês de Pombal,
amigo pessoal do Bispo.
De linda traça arquitectónica, o Palácio foi
adquirido, em 1920, pela família Sotto Mayor,
quando se encontrava bastante degradado, tendo sido
nessa altura sujeito a profundas obras de restauro.
Até ao final da década de 1950, o Palácio era uma
das maiores entidades empregadoras da vila. Para a
sua manutenção, assim como do Paço dos Almadas,
da Quinta da Ventosa e de outras propriedades, eram
necessárias dezenas de pessoas, entre criados,
profissionais de vários ofícios, jardineiros, motoristas
e jornaleiros. Inclusivamente, anos antes da
inauguração do abastecimento de energia eléctrica à
vila, já o Palácio possuía uma central privativa de
produção de electricidade.
Quase todos os anos a proprietária, D. Elsa
Franco da Cunha Sotto Mayor, realizava festas
populares. Estes eventos tinham uma singularidade:
as despesas eram suportadas pela promotora e um
simbólico pagamento de entrada, mas o apuro total
destinava-se ao Hospital, unidade de saúde
dependente do contributo de benfeitores.
Recordo a última festa lá realizada, no verão de
1947 (a D. Elsa faleceu subitamente em Novembro
de 1948, no dia em que festejava o 50º aniversário).
No grande pátio instalavam-se barracas de tiro ao
alvo, comidas e bebidas, quermesse e a roda gigante,
de apenas pouco mais de uma dezena de metros de
altura, mas enorme para os nossos olhos de criança.
Constituía o maior fascínio da garotada, com a lenta
subida nos compartimentos móveis e a súbita descida
a dar a sensação arrepiante de levar o estômago à
boca. Recordo uma cena demonstrativa desses
tempos. A D. Elsa era madrinha de imensas pessoas
da terra. Quando ela desceu ao terreiro, formou-se
extensa fila com o propósito de lhe beijar a mão, ao
que ela magnanimamente acedeu como se fosse
condescendente rainha. No dia seguinte, a festa
continuou com uma garraiada onde brilhou o jovem
bandarilheiro Manuel dos Santos, mais tarde grande
nome da tauromaquia portuguesa. Para finalizar,
ocorreu uma cena cómica, quando um espontâneo
saltou para a arena e a saiu com as calças rasgadas e a
esconder «as vergonhas».
O pátio do Palácio voltou a ser publicamente
utilizado em Agosto de 1954, quando o Clube de
Condeixa comemorou o 1º centenário da morte de
Almeida Garrett, realizando um evento cultural a que
chamou «Semana de Garrett». Iniciou a série de
espectáculos o Clube de Condeixa, com a
representação da peça «O Camões do Rossio», de
Garrett. Seguiu-se um recital de poesia por um crítico
teatral, Goulart Nogueira, uma palestra pelo Dr.
António José Saraiva e, a fechar a semana, uma
representação do drama de Garrett, «Frei Luís de
Sousa», pelo Grupo de Teatro Instrução
Tavaredense.
Em frente ao Palácio, a antiga Estrada dos
Loureiros, hoje R. Comandante Matoso, tinha apenas
três habitações: a de João Borrega, de seu tio António
e a de meus pais.
Na esquina, morava João Borrega (creio que o verdadeiro
apelido desta família, era Ramos). Barbeiro de profissão, exercia
o seu mister no compartimento da entrada, com pouca
iluminação e escasso mobiliário: a enorme cadeira de madeira
com encosto para a cabeça, o pequeno móvel onde colocava a
ferramenta de trabalho e bancos corridos de madeira,
encostados às paredes. Profissionalmente, era medíocre e a falta
de freguesia assim o atestava. Tinha outra alcunha, «Alemão»,
derivada do facto de ser fisicamente semelhante ao padrão
humano pretendido por Hitler e defender a ideologia política
do sanguinário ditador. Nesse tempo de guerra, toda a
propaganda nazi distribuída com o consentimento cúmplice do
governo português ia parar-lhe às mãos. Creio que, ao contrário
de muitas outras pessoas, até algumas figuras importantes da
vila que entendiam bem o sentido dessa política, a sua opinião
era mais resultante da única literatura a que tinha acesso.
Um pouco mais abaixo, morava José da Costa.
Em Condeixa foram comuns as alcunhas. Às vezes
designando uma pessoa, mas frequentemente
genéricas, abrangendo toda a família. Não é pois de
estranhar que José da Costa fosse mais conhecido
como «Zé Barbeiro». O título, herdado de família,
não tinha nada a ver com a profissão. Tratava-se de
excelente mecânico de automóveis, mas o trocadilho
ocasionou um episódio interessante. Certo dia
chegou a Condeixa um automóvel com séria avaria.
Quando o proprietário procurou um mecânico,
indicaram-lhe o Zé Barbeiro. O homem ficou
apreensivo, pensando tratar-se de algum rapa-queixos
com outras habilidades. Mas a necessidade obriga e lá
se resignou a procurar quem o «desenrascasse». É
claro que José da Costa, com a reconhecida
competência, rapidamente resolveu o caso. No fim,
depois de acertadas as contas, disse o automobilista:
«Porque é que o senhor, sabendo tanto de mecânica,
continua barbeiro?»
Logo a seguir, morava outro exemplo do que há pouco
disse sobre alcunhas. O António Torres era mais conhecido
por António Capado, da Ti Glória, para o distinguir de outros
Capados que pela vila existiam.
A Ti Glória, matriarca da família, embora
exercendo a modesta profissão de vendedeira de
sardinha e, suponho, possuir apenas a instrução
primária, tinha razoável grau de cultura, adquirido
pelo hábito de ler. Dizia-se até que ela lia o jornal
sentada no penico. No penico, sim senhor! Esse
objecto, hoje caído em desuso, foi fundamental
naquele tempo, quando uma simples retrete era um
luxo só permitido a quem vivia muito perto das
linhas de água. Então, se a vontade obrigava, faziam-
se as necessidades no «vaso» e, ou despejava-se o
malcheiroso conteúdo no rio ou sobre o monte de
estrume que depois ia adubar as terras.
Em frente aos antigos Paços do Concelho, estava
a loja do Zé David, misto de taberna e casa de pasto.
A esposa era óptima cozinheira e ficou célebre o seu
«cabrito assado com batatinhas porra». Parece
estranha a designação, mas eu explico. A Ti Celeste
confeccionava sempre, e bem, aquela especialidade
gastronómica, motivando até que de longe viesse
gente para se deliciar. Como era uma mulher brusca e
de resposta sempre na ponta da língua, para a ouvir
disparatar, os clientes perguntavam: «Ti Celeste,
como é hoje o cabrito?». À desnecessária pergunta,
respondia ela desabridamente: «Com batatinhas,
porra!».
Logo depois, o talho de António Vicente. Melhor,
da esposa, porque ele era comerciante de gado. Um
dia adoeceu gravemente. A mulher, prevendo
naturalmente o mau desfecho da doença,
encomendou um fato ao António Pita, alfaiate que
morava em frente. Como a roupa era para a cova,
não necessitava de forros e bolsos. Mas o Vicente, de
rija têmpera, deu um pontapé na morte, embora
ficando a sofrer de hidropisia, com uma enorme
barriga, a necessitar de frequentes idas ao hospital. O
pior foi quando descobriu a mortalha no fundo da
arca! «Caiu o Carmo e a Trindade!» Os impropérios
ouviram-se em Condeixa inteira. Rogou uma praga
para que a mulher e o alfaiate fossem «desta para
melhor» antes dele. E não é que isso sucedeu mesmo!
Mais adiante, ficava a latoaria de Hermenegildo
Pinho de Carvalho. A partir de uma simples folha-de-
flandres e recorrendo apenas a vulgares ferramentas,
surgiam todos os utensílios indispensáveis naquele
tempo: cântaros para a água, panelas e tachos,
almotolias, bacias e alguidares. Na época dos finados,
a produção destinava-se à pia homenagem aos
mortos queridos. Simples candeias com muito vidro e
pouca lata ou artísticas lanternas de folhas lavradas e
ramos retorcidos. Verdadeiras obras de arte! As mãos
que produziam tais objectos, eram do próprio
Hermenegildo de Carvalho, de seu filho Alberto e de
seu sobrinho Vital Preces.

Procissão na R. Lopo Vaz

Em frente, a mercearia da Carmo Macia, uma


pequena loja igual a muitas outras da vila, com uma
freguesia de «aponte aí, que depois pago». A
proprietária, viúva e com um filho para criar,
demonstrava poucas expressões de simpatia. Certo
dia, quando varria a loja, entrou-lhe pela porta um
caixeiro-viajante aperaltado, perguntando pelo senhor
Macio. Ora, aquela era uma alcunha de que ela não
gostava e, ainda por cima, o marido já tinha morrido.
Por isso, respondeu ríspida: «O senhor Macio está na
raiz da p… que o pariu!».
A casa onde está colocada a placa com o nome da Rua 25
de Abril, era a barbearia de António de Oliveira (António do
Zé Velho). Com seus filhos Ramiro de Oliveira e Maestro Saul
de Oliveira Vaio, compôs um trio responsável pela actividade
musical condeixense, com músicas e poemas difundidos por
agrupamentos folclóricos e, ainda hoje, escutadas com grande
prazer. A Barbearia Progresso, era a mais importante do
concelho, tendo muitos profissionais aprendido lá o ofício.
Antigamente havia uma forma de cortar o
cabelo, quando este não exigia intervenção
mais radical, apenas aparando um pouco na
nuca e sobre as orelhas. Chamava -se «dar um
caldo». Um dia entrou na barbearia um
forasteiro para fazer a barba. No fim, Mestre
António de Oliveira perguntou: «E agora,
quer um caldinho?» O freguês, desconhecendo
o termo, respondeu: «Muito obrigado, acabei
há pouco de almoçar!»
Quase a terminar a Rua 25 de Abril, localizava-se
o estabelecimento de José Júlio Bacalhau (Zé
Bacalhau), mercearia, taberna e, even-tualmente, casa
de pasto. Seu filho, o antigo Inspector Escolar Júlio
da Costa Bacalhau, contou-me um facto ocorrido na
loja de seus pais. A vila, porque ficava no eixo
rodoviário da estrada Lisboa-Porto, era ponto de
paragem das camionetas de mercadorias de longo
curso. Normalmente, estes veículos estacionavam
perto de habituais casas onde po-diam tomar as
refeições. O motorista de determinada empresa, ao
passar pela Mealhada, comprava leitão e o ajudante
só pedia que lhe colocassem um pouco de molho do
referido leitão, num frasco. Quando paravam em
Condeixa, o condutor pedia à esposa do Zé Bacalhau
para lhe aquecer o leitão, e comia acompanhando
com um copo de vinho, enquanto o ajudante só
queria que lhe aquecesse o molho do frasco,
vertendo-o depois sobre o pão. Consistia assim a
parca refeição que a sua capacidade financeira
permitia.
E chegamos à Praça da República!
Mesmo no tempo em que o Terreiro era limitado
pelo velho Palácio dos Sás, já ali se fazia o mercado
bissemanal, transferido para o Quintalão (actual
Praça do Município) na década de 1980.
A Praça era o verdadeiro centro cívico da vila. As
grandes tílias mandadas plantar pelo presidente Dr.
Madeira Lopes, em 1953, emolduravam um espaço
onde a «cama» do Rio do Cais, com a linda
«cabeceira» de azulejos policromados e o agradável
aroma das árvores em flor, despertavam a vontade de
passear nas cálidas noites.
Noutro tempo, em frente à casa do professor
Mateus (hoje Restaurante Madeira), havia um largo,
junção de duas ruas nascidas da foz da Avenida e que
formavam uma pequena praceta aproveitada, em
1947, para instalar um Parque Infantil. Todo murado,
tinha os necessários apetrechos e, coisa curiosa para a
época, possuía um armário com livros ao dispor das
crianças, livros infantis, é certo, mas livros! (A leitura
deve ser como os pepinos!) Quem tomava conta do
Parque, era a «menina Otília» (Otília Tavares Rosa).
Após muitos anos de utilização, o Parque
apresentava profundo aspecto de degradação e foi
encerrado, tendo sido demolido mais tarde, com as
obras de remodelação da Praça.
Ao domingo, a Praça assumia a verdadeira função
cívica. Famílias sentavam-se nos bancos, trocando
novidades ou mexericos. Senhores circunspectos
palmilhavam continuamente, de lá para cá, discutindo
«assuntos de relevante interesse». E as crianças
corriam por entre todos, jogando à «bola». De vez em
quando, o achatado objecto colidia com as pernas
dos presentes e aí vinha o chorrilho de imprecações.
Então, se as canetas eram do velho Abel Batata, as
pragas tinham conotação mais sinistra: «antigamente,
ainda vinham umas febres que levavam esta
canalhada toda…»
No atrás referido largo também se jogava à bola,
sempre com atenção à aparição da autoridade, avessa
a brincadeiras de crianças. Quando não era um certo
zeloso funcionário autárquico, inimigo figadal dos
jogos na via pública! Um dia, jogava-se com uma bola
de borracha, luxo só permitido quando algum
menino rico se juntava à plebe. No momento em que
o esférico escapou do controlo dos improvisados
futebolistas, surgiu da Rua Direita o esbirro
camarário. Pegou na bola, retirou do bolso um
canivete e, com requinte de malvadez, retalhou-a em
gomos, como se estivesse a descascar uma laranja,
alheio aos protestos e rogos da criançada que, assim,
via terminar tão aguerrido desafio.
Bem no meio da Praça erguia-se o Chafariz,
ladeado por candeeiros de ferro fundido. Dizia-se
que ele representava um cesto de flores, referência ao
brasão da Vila. Ideia errada porque vários outros
existem exactamente iguais, como o de Castanheira
de Pêra, e cesto de flores apenas o emblema da vila
de Condeixa possui. Hoje, o Chafariz está colocado
noutro local.
Quando, no final da década de 1920, a Praça foi
alargada e aberta a Avenida, vários prédios foram ali
construídos. Um deles, o Cine-Avenida, abriu as suas
portas apenas dois dias depois da inauguração da luz
eléctrica. O evento ocorreu no dia 1º de Dezembro
de 1932. O promotor de tão importante realização
foi Joaquim da Costa, um empreendedor comerciante
responsável por outras grandes iniciativas que
contribuíram para o desenvolvimento de Condeixa.

Cine-Avenida de Condeixa
Inicialmente concebido apenas para cinema,
rapidamente lhe foi acrescentado um palco, o que
permitiu apresentar espectáculos teatrais. Logo em
1933, o Grupo Cénico Dr. João Antunes, nessa altura
criado, representou cinco peças e, posteriormente,
mais três e uma revista musical local, chamada «Secas
e Picadas», que obteve enorme êxito.
Embora sendo muitas vezes utilizado para
variadas manifestações culturais, o Cine-Avenida foi,
principalmente, cinema. A sala, composta por Balcão,
Plateia e Geral, comportava cerca de 600 lugares. Era
ampla, com grande «pé direito», o que lhe conferia
óptima ventilação.
Quase desde o seu início, ao sábado à noite era
projectada uma breve sessão de cinema intitulada por
nós «experimentação», destinada supostamente a
verificar se a fita estaria apta para a exibição
dominical. Porém, segundo se dizia, Joaquim da
Costa fazia uso daquele método como forma de
incutir nas crianças o gosto de ver cinema.
Comentava-se até que, quando o questionavam a
propósito, respondia: «Estes vão ser os meus clientes
de amanhã!» Extraordinária forma de agir! Numa
época de profunda economia, sem qualquer tradição
publicitária, alguém se dispor a fazer despesas só para
adquirir futuros frequentadores do cinema, é deveras
digno de admiração.
No meu tempo, as crianças brincavam na Praça
com espadas e pistolas de madeira, imitando
peripécias de Tyrone Power, Errol Flynn ou Tom
Mix, actores que viam na tela.
Para a «experimentação» não tocava a campainha
que ao domingo, estridente e continuadamente
chamava os retardatários à função. Apenas se
acendiam os globos brancos por cima do portão,
sinal para a garotada, há muito com os olhos fitos na
porta vermelha. E, quando ela se abria, entrava de
roldão por ali dentro, sem o estorvo dos porteiros.
Mas, ao domingo, também era possível entrar sem
comprar ingressos. Estes estavam divididos por um
picotado. A parte mais larga ficava com os porteiros
e a mais estreita, com a indicação do nº de fila e
lugar, ficava na posse do espectador. No dia seguinte,
quem procedia à limpeza do cinema, despejava o lixo
para o Quintalão (actual Praça do Município). Com
esse lixo iam os inutilizados talões. Nós só tínhamos
de lá ir buscá-los e, com muito jeito, colar as duas
metades. Para a coisa parecer mais verdadeira, o
Tónio Galhardo (António Pequicho Moita), filho de
alfaiate, refazia o picotado na máquina de costura do
pai e passava a ferro os bilhetes obtidos. Pareciam
novos! Cada sessão de cinema tinha cor distinta nos
talões. Se possuíamos alguns com a cor certa, bastava
esperar que as luzes se apagassem para, na semi-
obscuridade, enganar os porteiros e entrar.
O Cine-Avenida, após mais de trinta anos de
actividade, terminou os seus dias como celeiro da
Cooperativa de Condeixa. Mas, ainda hoje, quando
vou a um cinema, não posso deixar de recordar o
grande candelabro de globos, lá no alto, o tango
«Rosas Vermelhas» invariavelmente tocado ao
intervalo e a «experimentação», parte integrante das
nossas actividades lúdicas.
Depois da Igreja, o edifício dos Paços do
Concelho, que foi mandado construir pelos Condes
de Portalegre mas é conhecido como Paço do
Capitão-Mor ou Palácio dos Figueiredos da Guerra,
da Quinta de S. Tomé. Efectivamente esta família foi
sua proprietária, mas a pedra-de-armas que está
colocada sobre o portão, é dos Cabrais, que
adquiriram o edifício. Mais tarde, através de heranças
de casamento, o prédio voltou à posse dos
Figueiredos da Guerra.
Após ler um texto da Monografia de Santos Conceição, fui
certo dia à arruinada capela da Quinta de S. Tomé e encontrei,
inserida numa parede quase a ruir, a velha pedra que
provavelmente esteve a encimar o portão atrás referido. Tem a
formato rectangular e é ladeada por duas volutas em pedra,
uma invertida da outra. Lavrada em pedra calcária (Ançã?) está
decorada com interessante bordado de folhas (acanto gótico?),
em relevo. No centro tem um escudo no qual estão cinco
folhas de figueira postas em sautor, duas em cima, duas em
baixo e uma no meio, esta ladeada pelas letras A, do lado
esquerdo e I do lado direito. Em timbre, um elmo com leão
coroado. Por cima desta pedra, um escudo mais pequeno em
tudo semelhante ao anterior mas sem leão sobre o elmo.
Prevendo a natural derrocada do restante corpo da
capela e consequente quebra dos símbolos heráldicos,
solicitei em 2005 ao Presidente da Câmara,
engenheiro Jorge Bento, que os mandasse retirar do
precário local, o que foi feito e, segundo me
informou, transportados para o estaleiro da Câmara,
junto ao cemitério. Não será certamente o melhor
sítio para os guardar, mas manda quem pode!
Em frente aos Paços do Município, a velha Feira
das Galinhas é hoje um bonito jardim que mais
destaca o Monumento aos Mortos da 1ª Grande
Guerra, o primeiro a ser erigido no País, exactamente
em 9 de Março de 1921. Quando o largo era um
simples terreiro, realizavam-se lá espectáculos de
saltimbancos, grupos de acrobatas que palmilhavam
o País, actuando nas pequenas localidades.
Voltando à Praça, há um edifício todo revestido
de pedra, único exemplar no concelho, no qual está
ainda instalada a Farmácia Rocha. O Dr. Júlio Pires
da Rocha, pai das actuais proprietárias, era licenciado
em Farmácia e inventor de vários medicamentos, que
manuseava no seu laboratório.

Condeixinha
A Farmácia Rocha, até há poucos anos,
configurava-se como um característico
estabelecimento do século XIX. Armários pintados
de vermelho onde se alinhavam os medicamentos,
um pequeno balcão e no centro deste, a balança de
precisão encerrada em cofrezinho de madeira e vidro.
Embora a maior parte dos remédios fosse já de
venda corrente, ainda era possível adquirir linhaça
para fazer papas que, bem quentes, tanto davam para
amolecer um furúnculo como para curar uma
pneumonia, «pomada das infecções», negra como o
pez, vendida em pequenas caixas cilíndricas e «poses
p’ró estômago» (assim pedidos), soluções alcalinas
ou, simplesmente, bicarbonato de sódio. Até meados
do século XX, o passeio da Farmácia servia como
local de tertúlia onde, ao fim da tarde, se reuniam as
pessoas gradas da terra (médicos, juiz, pároco, etc.)
Ao lado, a entrada de Condeixinha, uma nesga
entre prédios quase a tocarem-se lá no alto.
Condeixinha é muito antiga. Santos Conceição, na
sua Monografia «Condeixa-a-Nova», refere nas
páginas 83/84 ter lá existido uma Gafaria, aquando
do surto de lepra que assolou a Europa no século
XII. Estaria instalada num prédio do Mosteiro de S.
Marcos, em frente a uma casa que tinha um nicho
com a imagem de Nossa Senhora da Assunção, a qual
veio a dar nome à rua. Mais tarde, esse nicho passou
a abrigar a imagem do Senhor dos Passos. Ora, Rua
da Assunção, só existe uma em Condeixa e,
curiosamente, com um nicho do Senhor dos Passos.
A ser verdade, colocaria o local coevo da formação
de Condeixa, da qual herdou o nome em diminutivo.
Seja como for, a Condeixinha não se pode dar o
redutivo nome de rua, pois ela é todo o conjunto de
casas com becos, vielas e travessas, a formar um
extenso aglomerado habitacional composto pela
própria rua, mais os Pelomes, Lapa, Entre-Moínhos,
Várzea e, antigamente, estendendo-se até ao Travaz.
Quando não tinha o indesejado estatuto de estrada
escoadora do trânsito que demanda o IC2, era uma
rua macadamizada (que raio de nome!), com as casas
encostadinhas umas às outras, lembrando a
necessidade medieval de protecção colectiva. No
inverno, a água corria por aquele caneiro natural,
formando sulcos na areia branca do solo batido.
Perto da cortada para a Lapa, onde uma súbita
corcova mais acentuava o desnível, era quase
impossível circular. Felizmente, nesse tempo as rodas
das carroças eram altas e os animais que as puxavam
sabiam onde colocar as patas, evitando os buracos do
caminho.
Os veículos utilizadores deste trajecto eram
maioritariamente carroças, por três razões
fundamentais: a oficina de ferrador, «mecânico» da
força de tracção das ditas carroças, a tanoaria, onde
se mantinham os rodados sempre funcionais e os
moleiros, residentes ou não, passando no caminho do
«carreto», a viagem levando a farinha e na volta
trazendo o grão para moer nos vários engenhos ali
existentes.
Automóveis, raros, a não ser o Austin 8 da Dr.ª
Maria José Bacelar ou o Vauxhall do Zé Curto.
Na velha Condeixinha, tal como a conheci,
palpitante na labuta diária mas, paradoxalmente,
modorrenta ao ritmo dos dias passados sem
novidades, como afinal no resto da vila, à noite os
moradores sentavam-se consoante o local onde
viviam, no passeio do Quintas, no balcão do «Cara de
Velha», junto à Casa dos Arcos ou lá em baixo, no
rebato do António Braga, frente às escadas de pedra,
em amena conversa, não tão amena assim, quando
era puxado um assunto que ofendia alguém presente.
Arrufos de vizinhos, depressa esquecidos.
E bailes? Ou não fosse o bairro morada de
instrumentistas da Música Nova ou da Música Velha,
com esta a ter lá a sua sede.
Mal rompiam as festas aos santos populares, por
todos os lados surgiam fogueiras iluminando a noite
e as sardinhas crepitavam nas brasas. O «palhinhas»
corria de boca em boca, tentando acalmar uma sede
nunca saciada. Um naco de broa e uma sardinha de
molho escorrente compunham a ceia, prolongada
noite dentro, e os rapazes aproveitavam para mostrar
a valentia, saltando as fogueiras de alterosas chamas.
Logo à entrada de Condeixinha, a marcar o cunho
operário do bairro, uma oficina de ferrador, arte
entretanto desaparecida, por falta de bestas que usem
ferraduras. A loja estava instalada num velho prédio,
profundo e escuro, com desconjuntado portão em
frente do qual estacionavam carroças e animais. A
urina e excrementos destes formavam forte e
pestilento cheiro, atraindo toda a espécie de
bicharada.
Lá dentro, o tronco, uma estrutura em madeira
onde se amarravam bois, cavalos e burros, para a
ferra. Um aprendiz de ferrador accionava o grande
fole de madeira e cabedal, a soprar as brasas que na
forja punham o ferro ao rubro para mais facilmente
ser batido na bigorna, até formar a ferradura. Com
ela ainda quente, aplicavam-na nas patas dos animais.
O fumo e o cheiro acre do casco ao ser queimado,
transbordavam para a rua.
Mesmo em frente, a casa da Ti Maria Barbeira,
sardinheira. O filho Octávio (Távio Barbeiro) exercia
a profissão de sapateiro no acanhado rés-do-chão.
Recordo dele a figura magra de paciente gástrico.
Para combater o mal que o levaria precocemente à
cova, colocava grandes quantidades de bicarbonato
de sódio na palma da mão e engolia mesmo sem
beber água.
O filho José (Zé Chorina), foi meu condiscípulo.
Das muitas aventuras partilhadas, recordo a mais
marcante. Naquele tempo era hábito a malta ir para
os campos caçar passarada, com os «elásticos» (fisgas)
e as «costelas», armações de arame e molas de aço.
Um dia, alguém teve a infeliz ideia de construir
espingardas artesanais. Compunham-se de um cano
de ferro galvanizado, tamponado num topo e com
um corte em V por cima, onde se colocava a pólvora
do rastilho, prendia-se o tubo numa rudimentar
coronha de madeira e, enquanto o atirador fazia
pontaria, um companheiro chegava fogo ao rastilho e
o tiro saía. Só que com o Zé, saiu também o tampão
atingindo-o num olho, que ficou bastante maltratado,
mas felizmente foi recuperado. Este quase drama
teve o condão de acabar com a estúpida ideia de
construir armas de fogo.
Ao lado, moravam as Patitas, simpáticas senhoras
com mãos de ouro para confeccionar bolos. Depois,
de porta em porta, visitavam fregueses certos
transportando os deliciosos pastéis em tabuleirinhos
de verga, cobertos com alvo pano.
Saltavam-me os olhos gulosos ao ver aquelas
delícias, especialmente as cornucópias recheadas com
creme de ovos! Eram estas adoráveis criaturas as
únicas pasteleiras da terra, num tempo em que os
estabelecimentos do ramo, os cafés, por sinal apenas
três, davam pouca importância à especialidade.
Do outro lado da rua, a casa da Requetinha
Rocha, um bonito prédio que tinha ao centro,
resguardado com portas de madeira, um nicho com o
Senhor dos Passos (seria o mesmo referido por
Santos Conceição?). O prédio, a ameaçar ruína, foi
demolido e no seu lugar construído um feio edifício,
também com nicho, sem portas de madeira mas sim
grades de ferro a aprisionar uma imagem só presente
nos dias de Passos.
Depois, o acesso aos Pelomes!
Pelomes ou Pelames, a etimologia é obscura! Há
quem diga terem ali existido pombais, nos quais se
aproveitavam os excrementos das pombas para curtir
peles. Daí o nome, Pelames, local de preparação de
peles, ligeiramente alterado através dos tempos.
Verdade ou não, certo é que este era um dos mais
populares sítios de Condeixinha! Logo de começo,
um rio a aparecer magicamente por debaixo de uma
parede, mas depressa a sumir-se, envergonhado da
ousadia, sob a casa do Dr. Juiz!
Na apertada curva do minguado caminho, o
quintal da Ti Rosalina. Hábil na ciência de tirar dores
musculares e endireitar ossos, com azeite e mãos
mágicas fazia desaparecer num piscar de olhos o
torcicolo mais persistente. Do muro, pendiam para a
rua os ramos de uma figueira, de figos estaladiços e a
pingar mel, verdadeira tentação para a garotada.
Dessa figueira ficou uma expressão ainda hoje
utilizada e que demonstra os difíceis tempos de
então. Nessa altura, quando a fome era companheira
de muitos lares, a caça de pequenas aves e a fruta
furtivamente apanhada nos quintais, se não
satisfaziam as necessidades alimentares, pelo menos
acalmavam no estômago o bichinho inquieto. Às
crianças rogantes de um pedaço de pão, respondiam
as mães resignadas com a miséria: «Vai ao figo da
Rosalina!».
Continuando o caminho, num desnível de terreno,
a Fonte da Costa, curiosa gruta orlada de fetos e
avencas, com o fundo de areia branca palpitante de
bolhas ansiosas por chegar à superfície.
Mas os Pelomes têm também a casa do Dr. Juiz!
Este belo solar do século XIX é hoje uma das poucas
casas antigas em perfeito estado de conservação,
graças ao proprietário, Fortunato Pires da Rocha.
Seu pai, o Dr. António Pires da Rocha, ilustre
condeixense, exerceu durante algumas décadas o
cargo de Juiz de 1ª classe, em várias Comarcas. Ainda
estudante e em plena monarquia, era acérrimo
defensor dos ideais republicanos. Em 5 de Outubro
de 1910, já licenciado, ocupou o cargo de
Administrador de Concelho e, em 1914, foi eleito
Presidente da Câmara.
De trato afável e integridade a toda a prova, o Dr.
Juiz era estimado e considerado por quantos o
conheciam. A sua porta, sempre aberta, recebia da
mesma forma os ilustres visitantes ou a mais humilde
pessoa buscando conselho jurídico ou até auxílio
monetário.
O solar fazia lembrar as casas senhoriais descritas por Eça,
Camilo ou Aquilino: portas franqueadas, mesa farta e pessoas
sempre a entrar e sair. Quando se subiam as escadas de boa
pedra de Condeixa-a-Velha, surgia a pesada porta a dar acesso
ao corredor. À esquerda, a cozinha, imensa, com uma lareira
sempre acesa. A esposa do Dr. Juiz, D. Floripes, afadigava-se
aturando e, muitas vezes, alimentando os muitos amigos dos
filhos. Apesar disso, ainda tinha tempo para cuidar do moinho
que, nos fundos da casa, transformava o grão em farinha, à
época indispensável, para mais numa casa de grande consumo
como a sua.
Além, no antigo beco do Seiça (Travessa Nunes
Vidal), havia a tasca do Loirinho, um homem
peculiar. Embora proprietário de estabelecimento,
vivia com muita pobreza. Não seria alheio o facto de
serem os próprios fregueses a servir-se dos produtos
em venda e a depositar a quantia numa ranhura do
balcão. Quando depositavam!
Solteirão, um dia resolveu deitar os olhos para uma vizinha.
Naturalmente tímido, pediu a ajuda de outra pessoa. Esta
lembrou-o que a senhora em questão era coxa. Resposta
pronta dele: « Mas eu não a quero para jogar futebol!». Pouco
amigo de trabalhar, já perto do final da vida, uma doença
tolheu-lhe as mãos. Quando lamentavam o facto, respondia
com aquele seu humor irónico: «Deixa lá, eu também nunca
precisei delas…».
E por falar em figuras curiosas, em Condeixinha vivia
também o Zé Caleiras, carpinteiro de móveis modestos. Nunca
recusava os pedidos da criançada para fazer rodas ou
transformar em carretas as caixas de sardinha rapinadas à Ti
Maria Barbeira. Com elas desciam, depois, os miúdos
vertiginosamente a ladeira. Conta-se que, um dia, o Zé Caleiras,
indo de bicicleta atropelou uma mulher. Em vez de socorrer a
pobre estatelada no chão, disse: « Ó Maria, calha bem porque
queria falar contigo!».
A irmã dele era especialista a «tirar o quebranto»,
uma prática que consiste na utilização de um prato
com água onde se vão vertendo gotas de azeite,
acompanhando o acto com rezas, a fim de exorcizar
pragas e mau-olhado.

Casa dos Arcos


Mais adiante, a Casa dos Arcos ou Casa das
Colunas, uma construção do século XVIII, com três
arcos de volta completa (dois estão fechados), terraço
e águas furtadas. Esta moradia está quase em total
ruína, de nada valendo a tentativa feita há alguns anos
para evitar a queda das paredes, que podem
desmoronar-se a qualquer momento.
A Câmara pretendeu adquiri-la mas uma questão
de valores monetários impediu em tempo próprio a
concretização da compra, com grave prejuízo para a
vila.
De facto, o Dr. Deniz Jacinto, ilustre condeixense,
pretendia, na altura, doar a Condeixa o vasto espólio
que possuía, composto por livros de sua autoria e de
outros escritores, diversos trabalhos sobre Gil
Vicente, de quem foi emérito estudioso, o guarda-
roupa da personagem «diabo», envergado nas peças
vicentinas em que participou e se notabilizou no
teatro universitário e, ainda, a Comenda da Ordem
do Infante D. Henrique com que foi agraciado pelo
Presidente da República.
A Casa dos Arcos foi o local escolhido para
instalar o Museu, mas a tal mesquinha questão da
compra do imóvel e a falta de interesse da Câmara
em proporcionar outro local, contribuíram para
impedir a sua resolução. O espólio acabou por ser
doado ao Museu Paulo Quintela, de Coimbra!
Em frente, no local actualmente de acesso aos
pavilhões da Santa Casa da Misericórdia, existiam
alguns prédios. Um deles era habitado pelo Américo
Pato, (Olho e Meio). Era um homem muito doente,
atingido pela tuberculose, esse terrível mal causador
de tantas mortes.
Impedido de trabalhar pela doença que o minava,
não tinha meios de prover a subsistência da família.
Resolveu, então, adquirir na oficina do Augusto
Braga uma bicicleta e fazer um sorteio, para o qual
vendeu as respectivas rifas. É claro que o lucro final
seria pequeno, mas ele tinha a esperança de o prémio
calhar a algum benfeitor que lhe permitisse fazer
novo sorteio. Infelizmente, isso não sucedeu! O
contemplado, insensível ao drama, exigiu o
velocípede! Tristes tempos, quando um operário,
após passar uma vida de duro trabalho, quando já
não tinha serventia, apenas lhe restava um pau e um
saco para se juntar à horda de pedintes famintos. E
não se pense que essa situação se passava em tempos
remotos! A parte substancial dos direitos e condições
sociais, infelizmente agora em risco, apenas foi
adquirida após a Revolução de Abril!
O Américo tinha dois filhos: o António e o
Américo, este só conhecido como Zé Cletra. O
António, quando era criança gostava de ir para a
Igreja ajudar no arranjo de andores e altares. Certa
vez, auxiliava Álvaro Pedro Augusto a decorar a
Capela de Nª Sª da Conceição, em cuja base está uma
imagem de S. António. Uma deficiente instalação
transportava a energia para iluminar a Virgem. Ao
tocar num fio e desconhecendo o efeito do choque
eléctrico, gritou: «Fuja senhor Alvarito, que o Santo
Antoninho está danado!»
Condeixinha tem três espaços distintos. Desde o
início e até à cortada para a Lapa é densamente
habitada, com as casas a sucederem-se numa linha
continua. Depois, até Entre-Moinhos, apenas
algumas casas dispersas e, a partir daí, novo
aglomerado a ser interrompido pela Estrada
Nacional.
Ao virar para a Lapa, a casa outrora acastelada da
Quinta da Lapinha, antigo solar dos Cunhas, possuía
uma linda gruta de tufo calcário juncada de densa
vegetação, com a água a formar pequena cascata. Nos
anos 40 do século vinte, chegou a ser atracção
turística de Condeixa. Que pena não continuar a
fazer parte de um roteiro da vila!
Do outro lado, a Quinta da Lapa, ou Morgadio da
Lapa. «…Manuel Sequeira Coutinho, fidalgo de
geração nascido em Tentúgal, era o senhor do
morgadio de N. Sª da Lapa… no princípio do século
XIX pertencia ao Bacharel João Paulo da Silva,
natural de Condeixa. Um século depois, a velha casa
apalaçada dos Coutinhos foi alugada ao Rev. Dr.
João Augusto Antunes que fez dela sua residência e
sede do Orfeão de Condeixa» (elementos retirados da
Monografia «Condeixa-a-Nova» de Santos
Conceição, 2ª edição, páginas 66/67)
O Padre Dr. João Antunes, grande vulto
intelectual, impulsionador da vida cultural de
Condeixa, criou em Condeixa o primeiro Orfeão
popular do País. Recorrendo a reputados mestres,
António Gonçalves, João Machado, Abel Manta,
Pedro Olaio, etc., fundou também uma Escola de
Artes e Ofícios, destinada a desenvolver nos
inúmeros artistas da terra, com conhecimentos
apenas empíricos, técnicas de desenho industrial,
noções de pintura, cerâmica, serralharia e modelação.
Da importância dessa Escola, nos dá conta o
romancista condeixense Fernando Namora:
«…entretanto a vila multiplicava-se em pintores de
domingo, marceneiros-artistas, ferreiros,
compositores populares…» Tanto os ensaios do
Orfeão como as aulas da Escola, tinham lugar no
grande solar. O prestígio do Dr. Antunes granjeou-
lhe a amizade de destacados vultos intelectuais da
época: o poeta Afonso Lopes Vieira, o pianista Rey-
Colaço e o musicólogo Ruy Coelho, eram visitas
assíduas da Quinta, tendo Ruy Coelho, encantado
com a paisagem desfrutada das janelas da casa,
composto uma bela melodia intitulada «Pôr-do-sol
em Condeixa».
Após a morte do Dr. Antunes, a quinta passou a
ser moradia do proprietário, Lino Pedro Augusto.
Seu filho Alvarito, um homem de rara sensibilidade
artística, ao longo da vida reuniu um valioso acervo
constituído por alfaias agrícolas, artesanato vário,
colecção numismática, pinturas e documentos
antigos. Este espólio pertence hoje a sua filha e seria
importante, para memória futura, a Câmara procurar
adquiri-lo.
Continuando a descer Condeixinha e ao cortar
para a Várzea, num ângulo formado com estrada do
Penedo, construiu o Zé Pato a casa quando foi
despejado da que habitava, na Senhora das Dores,
porque nesse local ia ser edificada a central elevatória
de água. José Rodrigues Pato, pedreiro, vivia com
grandes dificuldades porque tinha muitos filhos.
Quando um dia o Dr. Celso Franco, primeiro
dentista a montar consultório em Condeixa, lhe
perguntou porque continuava a fazer filhos, vivendo
tão mal, respondeu-lhe: «O que quer, senhor Dr., isto
é o arroz doce dos pobres!» Hoje existem outras
formas de passar o tempo. Por isso, as famílias são
tão pequenas!
Mesmo ao fundo da ladeira de Condeixinha, estão
as «Escadas do Zé Curto», antigamente assim
designadas, embora o estabelecimento deste fosse
mais adiante. O Zé Curto, perdão, os Zés porque a
loja era gerida por pai e filho, ambos com o mesmo
nome, faziam amiúde alarde da fortuna, afirmando
medirem o dinheiro que tinham, em alqueires de
moedas. No entanto, eram pessoas muito simpáticas.
O Curto pai costumava brincar comigo prometendo
emprestar-me a «cabeça da víbora», hipotético
amuleto infalível para conquistar raparigas. A loja,
uma mistura de adega, mercearia, venda de lenha para
queimar no forno, agência de seguros e «banco
particular», comercialmente dominava pelo menos
toda a baixa Condeixinha. Mas os lucros daí advindos
não seriam significativos. Muitas vezes, assisti a pequenas
compras de cinco ou dez tostões de açúcar, café ou arroz. É
certo que «grão a grão, enche a galinha o papo»; no entanto,
penso terem sido os lucros mais significativos obtidos através
do empréstimo de dinheiro com altos juros.
Já no fim da rua, perto do cruzamento com o IC2,
morava António Alves (Tónio Amâncio), pintor da
construção civil. Um artista! Dava gosto vê-lo pintar
os finíssimos traços nos quadros das bicicletas.
Profundamente supersticioso, muito dado a
acreditar em coisas do além, dos muitos episódios
que me contou, recordo dois.
Dizia a lenda que existia, junto à Capela da Lapa,
um tesouro escondido sob a terra. Como já tive
oportunidade de referir, aqueles eram tempos de
muitas dificuldades. Um tesouro despertava a cobiça
nas cabeças mais equilibradas.
Acompanhado pelo «Cavalo Ruço», foram tentar
descobrir o maná, munidos de pás e enxadas.
Dirigiram-se ao local e abriram um buraco no chão.
Quando a cova já estava suficientemente profunda
sem nada encontrarem, resolveram sair. Nesse
momento, alguém com voz profunda perguntou:
«Precisam de ajuda?».
A noite era negra, o local ermo e a consciência
pesada! Pensaram tratar-se do demónio que vinha
castigá-los por ousarem perturbar as profundezas.
No dia seguinte, nem se lembravam como tinham
chegado a casa! Quanto ao tesouro, ainda estará no
mesmo sítio, porque depois de conhecido o
sucedido, ninguém mais se atreveu a procurá-lo!
De outra vez, vinha da Eira da Caldeira, em frente
à cortada para o Travaz, onde « trazia uma terra
amanhada ao ano». Já era noite e o local nesse
momento não tinha iluminação nem vivalma. Parou
para levar um cigarro à boca e quando procurava os
fósforos no bolso, ouviu a seu lado dizer: «Precisa de
lume?». Olhou e viu uma figura toda vestida de preto.
Julgando que Lúcifer voltava para o punir pela
aventura da Lapa, desatou a correr direito a casa,
onde chegou certamente com as calças bastante
malcheirosas.
Estas histórias, contadas por quem as viveu, ou
imaginou, não davam vontade de rir, antes pelo
contrário. Muitas outras lhe ouvi e a minha mente
juvenil ficava sempre bastante impressionada!
Mas nem só a vila tinha locais de interesse.
Embora a Praça fosse o lugar preferido para
brincadeiras, não era contudo o único local de
diversão, principalmente durante o dia. Às vezes, até
nos aventurávamos a ir às Ruínas, nesse tempo sem
alguém que impedisse a livre entrada e onde
encontrávamos nos canais subterrâneos moedas que
depois vendíamos por meia-dúzia de tostões a um
comerciante da terra.
Outro sítio lindo era a Quinta de S. Tomé!
Ao olhar agora aquele edifício em derrocada, ninguém
imagina como era agradável o local. Tinha três majestosos
portões de ferro, um para cada acesso, que eram abertos de
manhã ao toque das Trindades, sinal público dos sinos da Igreja
dando início ao trabalho rural, e eram fechados às Trindades,
no final do dia solar. Dentro apenas ficavam a família Pintaíto,
que cuidava o melhor possível da manutenção da casa, e a
família Ameixoeiro, que porfiava para que o moinho se
mantivesse funcional. Todo o espaço envolvente da quinta se
multiplicava em sítios misteriosos. A causa de toda a beleza era
o rio que, vindo de Alcabideque, bordejava a quinta. Este rio,
lindo em toda a extensão, tinha para nós maior encanto após a
Atadoa, o Marachão, onde uma árvore, possivelmente
salgueiro, estendia os ramos formando trampolim baloiçante
para mergulhos. Mais perto, a necessidade de abertura do canal
que atravessava a quinta a fim de accionar o moínho, motivou a
formação de um espaço de terreno de forma triangular,
rodeado de água por todos os lados, embora na parte mais larga
o elemento divisor não passar de insignificante fio de água.
A este lugar, chamávamos «a ilha». Junto, um
alargamento do rio formou a «Baixeira» -Bajeira, na
gíria -, outro óptimo lugar para nadar e onde ainda
cheguei a ver pescar barbos e ruivacos (ao calcão),
quando o peixe abundava. Depois, na continuação da
passagem, loureiros e figueiras bravas quase cobriam
o rio. Não tanto que nos impedisse de nadar junto ao
«Olho».
Com tanta água por todo o lado, quem sentia
sede? « Água corrente não mata gente, nem de noite
nem de dia, nem à hora do meio-dia, Padre-Nosso,
Avé-Maria!» Afastavam-se as ervas, fazia-se o sinal da
cruz e bebia-se na concha da mão!
Quando vínhamos de nadar do Marachão ou da
Bajeira, sentávamo-nos à sombra dos eucaliptos da
ilha, a fumar cigarros de barbas-de-milho
embrulhadas em papel. Confesso não me recordar do
gosto desses improvisados paivantes, mas devia ser
horrível, misto de palha e papel queimado. No
entanto, dava-nos a agradável sensação de adultos, a
deitar fumo pela boca. O nariz não entrava nessas
funções porque fazia chegar as lágrimas aos olhos!
Depois, íamos para o jardim abandonado,
brincar na «árvore dos macacos», cujos ramos
(ou raízes?) formavam curioso entrelaçado,
permitindo-nos saltar de ramo em ramo,
imitando aventuras de Tarzan. Esta espécie
vegetal, parece que rara, foi abatida para
madeira, perante a indiferença de quem devia
ter a responsabilidade de a proteger!
Como já referi, a Quinta de S. Tomé está hoje em
completa ruína. A capela, parte integrante do edifício,
já não tem os valiosos azulejos e o telhado abateu.
Porém, no seu solo existe ainda o túmulo dos antigos
proprietários, pessoas que fizeram parte da história
de Condeixa.

A arruinada Quinta de S. Tomé


Por tudo quanto acabo de descrever, a Quinta de
S. Tomé faz parte do meu imaginário e é com grande
mágoa que tenho assistido à degradação daquele
simbólico edifício, quiçá a exploração agrícola mais
antiga de Condeixa.
Já tive ocasião de referir algumas figuras típicas de
Condeixa. No meu tempo, muitas outras existiam. O
Lisboa era um vagabundo, mas excelente pintor da
construção civil, que andava sempre embriagado.
Numa noite de chuva, estava ele caído junto a uma
valeta, perdido de bêbado. O padre Pimenta, pároco
da vila, vendo-o naquele estado, comentou: - «Que
miséria!» Ao que o Lisboa respondeu: - «Miséria não,
senhor Prior, fartura, fartura!» Referia-se certamente
à quantidade de álcool ingerida. Mas, na verdade,
havia miséria! Não só no facto de o Lisboa se
embriagar, o que seria suficiente.
Lembro-me de, durante a 2ª Guerra Mundial e
mesmo após esta, ver passar por Condeixa grupos de
homens sujos e rotos, que percorriam o país
procurando trabalho. Chamavam-lhes «estradeiros»,
nome ainda hoje considerado ultrajante quando
aplicado a alguém. Esses homens viviam do que
podiam, pedindo ou roubando. Por vezes, algum
ficava pelo caminho porque arranjava trabalho ou
por qualquer outra razão. Seria o caso do Lisboa, do
qual ninguém conhecia parentes. Ou do André, outra
figura típica. Dormia em qualquer buraco, de
preferência num terreno vago na Avenida. Comia o
que lhe davam, mas não pedia nada. Por sinal, muitas
vezes recusava rudemente as ofertas. Recordo um
episódio passado com a esposa do Dr. Rebelo,
veterinário municipal, quando ela lhe disse: «Ó
André, passa lá em casa para te dar umas calças do
senhor Dr.» O André, perguntou: «Então e o
casaco?», tendo ela respondido: «O casaco não, só as
calças!». Então ele, pondo aquele ar provocante,
disse: «Vá varda… com elas!».
Irreverente, rude e mal-educado, este André do qual os
garotos tinham um medo atroz, nem se atrevendo a colher os
belos figos da carregada árvore junto ao seu tugúrio, se era
suposto ele estar presente. Como andava sempre nauseabundo,
um dia as irmãs Cavaca, Soledade e Conceição, ajudadas por
outras raparigas de Condeixinha, resolveram dar-lhe banho e
vesti-lo decentemente. Só que o André adoeceu com gravidade.
Seria porque o esterco funcionava como antídoto contra
viroses?
No Outeiro vivia também uma figura excêntrica.
João Cavaca (João da Costa), era sapateiro. Teve
certo dia um acidente e ficou psicologicamente
afectado. Andava sempre muito direito, com ar
marcial. De repente parava, levantava os braços e
estalava os dedos, levantando uma perna. Depois,
seguia imperturbável o caminho. Um dia entrou
numa loja de ferragens que havia entre a Igreja e a
actual Câmara. A proprietária, D. Conceição Pires
Machado, estava ao balcão e ele pediu: «Ó
Conceição, quero cinco tostões de pregos». Ela,
estranhando o abusivo tratamento, disse: «Ó
Conceição, não! Dobre a língua!» Retorquiu ele: « Se
calhar quer que a trate por excelência?» Respondeu a
senhora: «Não sou, mas podia ser!» João Cavaca,
fazendo o característico gesto e desinteressando-se
dos pregos, saiu dizendo: «Também eu! Também eu!»
O Miguel Atílio, correeiro de profissão, aliás
muito habilidoso, tinha como defeito ser fiel devoto
do deus Baco. Infelizmente para quem precisava dos
seus serviços e, fundamentalmente, para ele próprio,
passava mais tempo a cozer as bebedeiras que a coser
os cabedais. Não obstante, era muito simpático. Dava
a ideia de possuir uma mentalidade de adolescente,
com toda a irreverência e irresponsabilidade da
juventude. O local do cemitério, nesse tempo
bastante ermo e escuro, num dia de finados brilhava
com as luzes de muitas velas sobre as campas. No
entanto, algumas pobres sepulturas mantinham-se
tristes e abandonadas, sem que alguém tivesse a
caridade de lhes colocar pelo menos uma flor.
Porquê? Não seriam os tristes despojos humanos
abrigados naqueles pedaços de terra, tão dignos
como os outros, do culto dos vivos? Para esta
questão, encontrou o Miguel Atílio resposta! Retirou
velas que estavam em profusão só nalgumas campas
e distribuiu-as pelas que nada tinham. Após este acto
equitativo, foi celebrar com boa quantidade de vinho,
indiferente à opinião de espíritos conservadores que
consideraram o acto como sacrilégio. Muitas vezes
também juntava um grupo de crianças com o qual ia
buscar canas para fazer arcos festivos. Depois,
percorriam a vila cantando e gritando como alegre e
barulhenta charanga. É claro que espírito tão livre e
indiferente às normas das pessoas sisudas, teria de
sofrer forçosamente a incompreensão das
autoridades ríspidas. Junto às grades da cadeia, lá
estavam, então, as suas amigas dilectas, as crianças,
conversando, rindo e gizando novas aventuras!

Procissão do Senhor dos Passos


Para terminar a minha maneira de retratar a
Condeixa do meu tempo, vou descrever a mais antiga
manifestação de fé realizada na vila, a Procissão do
Senhor dos Passos, acto religioso de grande
significado e que se apresenta sempre com a
solenidade própria da evocação da Paixão de Jesus
Cristo na longa caminhada para o Calvário.
Trata-se de um evento tradicional, embora até
hoje não tenha sido possível determinar a data da
origem. Sabe-se, no entanto, que este género de
procissões tal como chegaram ao nosso tempo, teve
começo no decorrer do século XVII.
O livreiro e atento estudioso da história de
Condeixa, Isaac de Oliveira Pinto, entre muitos
trabalhos de pesquisa, legou-nos um manuscrito
intitulado: «Irmandade das Almas e Senhor dos
Passos, da freguesia de Condeixa-a-Nova. 1682-
1953.» Deixando bem claro que não pretendo
apoderar-me do estudo cuidado e profundo do
mencionado historiador, passo a transcrever excertos
do referido manuscrito, também com a intenção de
esclarecer dúvidas que ainda hoje persistem:
«…a Confraria das Almas só em Julho de
1885 passou a chamar-se «das Almas e Senhor
dos Passos», mas numa acta de 25 de Ago sto
de 1799, li o seguinte: «logo pela manhã irá o
andador para a Igreja limpar a imagem e todos
os pertences…» Em 1799 pois, já a Procissão
se fazia. Mas é bem possível que venha pelo
menos do ano de 1752. Esta data está
marcada num painel de azulejos do Passo da
Rua Direita (actual Rua Dr. Fortunato de
Carvalho Bandeira. A designação de Passo,
refere-se a um nicho onde se encontra a
imagem sacra.)
Em 1910, reuniu a Mesa para adquirir nova
imagem do Senhor dos Passos. A que existia estava a
precisar de reparos e estes importavam grossa
maquia. Mas, mesmo que o trabalho fosse perfeito,
os mesários recearam que o povoléu acreditasse que a
imagem enviada para reparação não fosse a mesma
que depois viria. Muitas pessoas ainda hoje falam do
burburinho causado quando a imagem de Nossa
Senhora da Conceição voltou do Porto, restaurada.
Não acreditaram que fosse a mesma e isso deu
muitos aborrecimentos à Mesa (nota: quando o
exército de Massena incendiou a vila e,
consequentemente, a Igreja, em 13 de Março de
1811, um soldado francês levou consigo a imagem da
Sr.ª da Conceição, mas logo a abandonou, muito
danificada, junto à Fonte da Caraça, na Faia. Esse
facto motivou do povo ainda mais devoção à
Virgem). Decidiu-se, então, comprar uma nova
imagem. Parece que o Padre Dr. João Antunes ou
António Pena, conheciam a existência de uma
imagem num santeiro do Porto e a aquisição foi feita,
tendo a veneranda imagem entrado na nossa Igreja
no dia 18 de Janeiro de 1910, transportada em
caixote desde a casa de Abilino Augusto da
Conceição, um dos mais influentes da aquisição. A
imagem, pela sua perfeição escultural e
impressionante expressão, é considerada uma das
melhores do país. Alguém que por aqui tem passado
e a tem visto, é de opinião que ali andou a mão ou o
espírito da Teixeira Lopes (nota: o autor da imagem
da Rainha Santa). Com data de 2 de Fevereiro de
1910, vê-se o seguinte lançamento: «Pelo que
mandou pagar proveniente de uma imagem do
Senhor dos Passos, a António Almeida Estrela,
escultor do Porto, 63$000 (nota: sessenta e três mil
reis). Parece compreender-se que esta importância,
hoje insignificante, foi para o inteiro pagamento do
primoroso trabalho, pois jamais vi qualquer registo
ou lançamento de respeito. No ano de 1911, ao
terceiro sábado da Quaresma, saiu esta veneranda
imagem pela 1ª vez, da Igreja Matriz, em procissão
pelas habituais ruas da vila. Ia em camarim fechado
(nota: ainda hoje isso sucede; trata-se do início de
uma tradição?) e, por isso, só no domingo foi vista e
venerada por uma multidão de devotos, sendo olhada
com verdadeira admiração por pessoas daqui e de
Coimbra.»
«…a Procissão do Senhor dos Passos sempre se
fez ao sábado, da Igreja Paroquial para a Capela do
Senhor da Agonia, retirada além umas dúzias de
metros do Palácio Sotto Mayor (nota: o historiador
aqui elabora em erro, porque naquela altura o Palácio
ainda era dos Lemos Ramalho. A capela pertencia ao
Paço dos Almadas e estava localizada em frente à
actual Pousada de Santa Cristina). No percurso tinha
pequenas paragens junto a cada Passo e alguns
músicos executavam os «Motetos», uma composição
medieval polifónica, estacionando o Senhor dos
Passos durante um minuto sobre o Rio do Cais, para
os crentes colherem a água que consideravam
milagrosa. No dia seguinte, à tarde, saía a imagem da
Capela do Senhor da Agonia em procissão solene,
(nota: o andor de Nossa Senhora da Soledade ficava
de noite na Capela da Senhora da Piedade e o sermão
do Encontro era proferido da varanda do Palácio),
percorrendo as ruas da vila com a Verónica cantando
«Ó vós omnes qui transitis» diante de cada Passo. A
Capela do Senhor da Agonia foi demolida em 1940 e
os dois andores passaram a ficar na Capela da
Senhora da Piedade. – Condeixa, 1953 – Isaac de
Oliveira Pinto
Entendi que a melhor forma de falar sobre esta
antiga manifestação religiosa de Condeixa era
transcrever os escritos de uma das mais preclaras e
bem informadas figuras condeixenses. Felizmente,
não foi em vão que passou imensas horas
vasculhando papéis poeirentos.
A Procissão do Senhor dos Passos, embora
actualmente um pouco diferente de outrora, continua
a despertar nas pessoas um profundo sentimento
religioso, especialmente ao ver o sacrifício dos
penitentes que, no sábado à noite, cumprem de
joelhos as promessas feitas em momentos de aflição!
Está assim terminada a minha viagem pela velha
Condeixa. Decerto muitas outras «estórias» ficam por
contar e mais moradores mereceriam ser recordados.
Dei-me ao agradável trabalho de registar os factos
descritos porque sei que se vão dissipando, não
restando em breve quem ainda os recorde. Procurei
relatar apenas episódios onde a dignidade dos
protagonistas não fosse ofendida.
Gostaria que o meu trabalho pudesse um dia
contribuir para ser escrita a história desta Condeixa
que amo e onde vi a primeira vez a luz de uma pálida
e fria tarde de Dezembro, na velha Rua de S. Jorge
(Rua Dr. João Ribeiro), há…muitos anos!

Cândido Pereira, Condeixa Julho de 2010

Ecos da Guerra
Condeixa-a-Nova durante a II
Guerra Mundial
Joaquim Filipe Soares Rebelo

Breve nota introdutória

A História regista a política de neutralidade


adoptada por Portugal no conflito opondo as
chamadas Potências do Eixo e os Aliados, que
deflagrou entre 1939 e 1945 e ficou conhecido
como a Segunda Guerra Mundial.
Como acompanharam os habitantes de Condeixa-
a-Nova a evolução dos acontecimentos, desde o
desencadear da Guerra até o respectivo termo? Quais
seriam os ecos do conflito, que se fariam sentir,
necessariamente, nesta terra?
Embora tenha sido produzida abundante
bibliografia respeitante a esse conturbado período,
abordando os mais variados aspectos relacionados
com as incidências a nível nacional dessa
Conflagração Mundial, desconhecemos a existência
de qualquer obra versando a temática focada no
âmbito local.
Por mero acaso, viemos a deparar com um
importante acervo de documentos no espólio de
Manuel Alves Ferreira (nascido no lugar de Valada,
freguesia de Condeixa-a-Velha, a 21 de Abril de 1920;
falecido a 16 de Julho de 2006), que ajudam a fazer
alguma luz sobre o período em apreço.
Manuel Ferreira, de saudosa memória para todos
os conterrâneos que tiveram oportunidade de com
ele contactar como amigo e comerciante localmente
estabelecido durante décadas, aliava à faceta de
cidadão exemplar uma extrema modéstia pessoal.
Ao longo dos muitos anos de convivência, nunca
aquele fez alarde da meritória actividade por si
desenvolvida durante a Segunda Guerra Mundial a
favor da causa dos Aliados, a qual foi, aliás, após o
termo do conflito, objecto do reconhecimento oficial,
em Julho de 1946, através de carta assinada pelo
Embaixador do Reino Unido em Lisboa, Sir Owen
St. Clair O’Malley36.
O tardio conhecimento dessa distinção, pela
família, não possibilitou a indagação pessoal, em
tempo, junto daquele, acerca das circunstâncias que
rodearam essa sua actuação.
Só após o falecimento do meu sogro, foram
encontrados alguns arquivadores contendo a
volumosa correspondência trocada entre aquele e os
Serviços de Imprensa das representações
diplomáticas dos Países Aliados37.
A revelação desse material, pelo seu inegável
interesse, não apenas do ponto de vista da
historiografia concelhia, mas também no contexto
nacional, impõe a exigência de não o deixar ficar no
olvido, lançando-nos o desafio de dar a conhecer a
acção de alguém que, com risco pessoal, participou
no esforço colectivo em prol do triunfo das Nações
Unidas.
Um tal projecto, pelo manancial de documentação
e bibliografia recolhidos, implicando um tratamento e
explanação mais desenvolvidos, ficará para mais
tarde.
No âmbito deste despretensioso
apontamento, procuraremos dar um relance
sobre a distribuição das propagandas dos
beligerantes em Portugal e a situação vivida à
época no concelho de Condeixa-a-Nova.
Não reclamamos a feitura de um acabado trabalho
de investigação, uma vez que para tal se reconhece
faltar-nos a apropriada formação académica, bem
como, ainda, o tempo necessário para as
indispensáveis pesquisas complementares nos
competentes Arquivos Nacionais portugueses e
outros38.
Procuramos, no entanto, proceder à recolha de
testemunhos de conterrâneos que viveram esses
difíceis tempos do século XX. Volvidos que estão
mais de 60 anos sobre a eclosão do conflito, a quase
totalidade das pessoas, que figuravam nas listas de
distribuição da propaganda aliada elaboradas por
Manuel Ferreira, já não é, infelizmente, viva,
enquanto algumas das remanescentes têm a memória
desses tempos já bastante afectada.
Aquelas que nos foi possível, ainda, contactar,
eram então muito novos, admitindo a sua
inexperiência, ao tempo, para poderem emitir uma
opinião consistente sobre o assunto.
Cumpre-nos, contudo, realçar os
depoimentos prestados pelas Sra. D. Isabel
Antunes e Sra. D. Otília Tavares Rosa, bem
como o Sr. Antero Simões Bernardes, e,
ainda, o Sr. Isac Pinto dos Santos, os quais
nos forneceram pistas para a compreensão do
ambiente social vivido, durante os anos da
guerra, em Condeixa, aqui ficando registados
os nossos agradecimentos pela prestimosa
colaboração dispensada 3 9 .
A Guerra das Propagandas em Portugal

Ao longo de 1939, a iminência da guerra tinha apenas


alguns ecos na imprensa portuguesa. Só nas edições de 2 de
Setembro de 1939, os jornais portugueses se referem com
grande destaque à eclosão da Segunda Guerra Mundial. Nesse
mesmo dia, publicaram a nota oficiosa do Governo
anunciando «Neutralidade Portuguesa no Conflito Europeu».
Com uma população com fraco poder de compra
e elevado índice de analfabetismo, não havia o culto
dos jornais.
Era difícil à imprensa portuguesa falar da guerra.
A neutralidade oficial declarada pelo País não
permitia resvalos à sua imprensa. A própria guerra
era, aliás, invocada como razão para o aperto do
cerco à liberdade de opinião e expressão. Dominada
pelas normas da censura e o zelo dos censores, a
crónica de guerra da imprensa portuguesa era
cinzenta, fraca, com pouco impacto. Os jornais, sem
correspondentes de guerra, limitavam-se a publicar os
telegramas das agências noticiosas internacionais,
filtrados pelos Serviços de Censura.
As notícias sobre a guerra tinham uma fonte
privilegiada – os adidos de imprensa – que eram
fundamentalmente adidos de propaganda40.
Nos Países Europeus não alinhados com o Eixo
ou os Aliados, que optaram pela neutralidade - v.g. o
caso de Portugal, Suécia, Eire, Suíça -, travou-se uma
feroz guerra secreta das espionagens e de
propaganda, esta última de molde a influenciar as
respectivas opiniões públicas nacionais a favor dos
contendores, na procura de apoios.
Apesar da neutralidade reafirmada pelo Governo
de Salazar através da nota oficiosa de 1 de Setembro
de 1939, após a invasão da Polónia pela Alemanha,
que desencadeou a declaração de guerra por parte da
Inglaterra e França contra aquela, foi sobretudo a
partir de 1940 que começou a travar-se a grande
batalha pela opinião pública portuguesa.
As propagandas dos beligerantes procuravam
construir um ambiente favorável à captação de
simpatias. Portugal, apesar do seu reduzido peso em
termos de população ou recursos económicos, era
importante. A aplicação do bloqueio económico, por
exemplo, gerou da parte de ingleses e alemães uma
larga actividade que procurou alargar apoios que
permitissem àqueles a sua maior efectivação e a estes
a sua ineficácia. O alargamento da guerra colocava,
por outro lado, a neutralidade perante o aumento das
exigências dos beligerantes, como o comprova o
crescente interesse dos Açores para os ingleses e do
volfrâmio para os alemães41.
Razão porque Alemães e Ingleses, numa primeira
fase, e Americanos, numa segunda, se lançaram na
propaganda no nosso país durante a Segunda Guerra.
Os alemães em primeiro lugar, e depois ingleses e
americanos, começam a saturar a população
portuguesa com jornais, revistas, panfletos, cartazes,
folhetos e livros, simultaneamente com os novos
meios técnicos como a rádio e o cinema, que
ultrapassam as fronteiras e chegam a Portugal. O
impacto dos noticiários estrangeiros em língua
portuguesa é especialmente importante, num país
ainda em grande parte analfabeto e com más
comunicações42.
A Alemanha ensaiou muitas das técnicas de
propaganda, depois utilizadas pelos beligerantes, em
Portugal. Nos primeiros meses de guerra, a
propaganda do Eixo pura e simplesmente eclipsa a
inglesa, quer em qualidade como em quantidade. Foi
a Alemanha a primeira a montar os centros de
propaganda regionais com funcionários permanentes,
a que estavam ligadas as redes de voluntários e uma
«máquina», mais tarde copiada pelos ingleses.
A criação do Centro Britânico de Informações
(CBI), no Porto, em 1940, é um passo importante
para organizar o grande apoio que os ingleses têm no
Norte. O CBI não tarda a criar uma vasta rede de
voluntários, os quais não só distribuem propaganda
nas Câmaras, centros recreativos, clubes, empresas e
departamentos do Estado, como procuram
convencer os comerciantes a afixar fotografias de
Churchill ou da Rainha da Inglaterra, enviando listas
dos anglófilos da zona a quem convém remeter
folhetos pelo correio43.
O principal veículo da propaganda era a imprensa.
Podem distinguir-se três tipos de órgãos: em
primeiro lugar, as revistas, folhetos e livros
publicados na Inglaterra, alguns em inglês vendidos
em poucas livrarias e quiosques das maiores cidades,
sendo, porém, em português o principal órgão, a
Guerra Ilustrada, tradução da revista inglesa, onde por
vezes se incluíam artigos sobre Portugal.
Em segundo lugar, as revistas e jornais feitos em
Portugal e com responsáveis portugueses, mas
claramente financiados pela Inglaterra e, por ela,
influenciados. A mais conhecida é O Mundo Gráfico,
que começou a ser publicada em Outubro de 1940 e,
desde 1942, recebeu dinheiro americano, passando a
incluir artigos sobre os EUA.
Em terceiro lugar, os órgãos da imprensa
portuguesa, que a propaganda inglesa procura
influenciar de diversas maneiras.
A maior parte da imprensa portuguesa favorecia a
Inglaterra, segundo a perspectiva da Censura e da
PVDE44. Em 1944, o MOI45, fazia a seguinte
classificação dos diários mais importantes: eram
«amigáveis» ou «muito amigáveis», o Século, Novidades,
Diário de Lisboa, República, Primeiro de Janeiro e Comércio
do Porto; eram «neutros», mas «melhoravam de tom», o
Diário de Notícias, o Diário da Manhã, ligado à UN46,
considerado pró-alemão até 1943 altura em que é
nomeado director Manuel Múrias, o Diário Popular e o
Jornal de Notícias; eram pró-alemães ou de «pouca
confiança», A Voz e semanários como a Acção47.
A propaganda americana só chega a Portugal
praticamente, a partir de 1942. Os EUA não
consideram Portugal um alvo importante para a sua
propaganda, pelo que não oferecem resistência
quando a Inglaterra sugere que se insiram na rede já
existente, alargando-a e aproveitan- do-a, mas sem
fazer um esforço autónomo. Como os EUA
empenham, desde 1943, substanciais recursos
financeiros, a Inglaterra diminui o seu esforço
próprio, mantendo no essencial o controle da
máquina de propaganda aliada e impedindo os EUA
de seguirem uma política própria. Um exemplo típico
é O Mundo Gráfico que, a partir de 1942, recebe o
apoio americano, passando a inserir reportagens
sobre os EUA e,sobretudo, sobre os portugueses nos
EUA48.
A rádio era uma novidade em Portugal. As
primeiras emissões regulares em onda média foram
efectuadas em 1925, mas só em 1935 se inaugurou a
Emissora Nacional.
A BBC (British Broadcasting Corporation) inicia as
transmissões em onda curta para Portugal a 14 de
Junho de 1939 mas, ao fim de pouco tempo torna-se
a estação estrangeira mais ouvida no país. Vários
jornalistas nacionais colaboram no seu departamento
português, dos quais o mais conhecido é Fernando
Pessa.
O interesse despertado pela guerra parece, aliás,
ter sido um dos grandes incentivos à difusão de
aparelhos receptores de telefonia em Portugal: os
89.000 registados em 1939, tinham-se já
transformado em 120.663 em 194249.
Com o início da II Guerra Mundial, Portugal toma, a 21 de
Setembro, a decisão, através do Decreto-Lei n.º 29. 937, de
suspender o funcionamento de todas as estações emissoras
particulares, devido à guerra. O mesmo diploma previa a
concessão de autorizações especiais. Das várias estações que
continuaram a emitir, destacavam-se a Emissora Nacional, que era
controlada pelo governo, o Rádio Clube Português, que pertencia a
Jorge Botelho Moniz e estava intimamente ligado ao Estado
Novo, e a Rádio Renascença, pertencente à Igreja Católica,
enquanto outras emissoras profissionais foram autorizados a
emitir após um requerimento de funcionamento. Os postos
amadores tiveram de encerrar50.

«O Estado Novo e, portanto, Salazar


pessoalmente, tentou, e conseguiu em alguns
casos, interferir na linha editorial da BBC de
várias formas». O caso «mais emblemático»
ocorre em 1941, com o despedimento de Armando
Cortesão, exilado em Londres e ao serviço da secção
portuguesa da BBC. Salazar insurge-se contra a
hipótese de aquele vir a chefiar a secção e ordena à
censura portuguesa que «corte todas as notícias» da
estação, «o que coloca a propaganda britânica
em Portugal quase ao nível zero»51.
O contrapeso alemão das emissões radiofónicas
da BBC era o Reichsrundfunk, também conhecido por
Emissora Europa, que irradiava em ondas curtas para
quase todos os países em vinte e cinco línguas, entre
as quais a portuguesa. Das 12:45 às 14:00 horas e
durante um quarto de hora, começaram por ser
emitidos noticiários em língua portuguesa e, a seguir,
o programa Hora Portuguesa. Das 19:45 às 00:45,
havia noticiários sucessivos, comentários aos temas
do dia e considerações sobre os sucessos militares
actuais. Em 1945, o tempo total diário das emissões
era de cinco horas e quinze minutos. A propaganda
do Reichsrundfunk era feita essencialmente com a
publicação dos programas em revistas de influência
alemã, como Sinal e A Esfera, ou em jornais
portugueses (p. ex., Diário de Notícias), subordinada ao
título A Alemanha Fala52.
A estação de Londres deveria superar em níveis de
audiência a própria E.N. e estava muito acima das
outras estrangeiras, designadamente a Rádio Berlim, a
estação mais anunciada na imprensa portuguesa da
altura, enquanto a popularidade de Fernando Pessa
excedia em muito a de qualquer figura da rádio
portuguesa. Os EUA mantinham também a sua
estação de rádio para Portugal, A Voz da América, que
nunca teve a popularidade da BBC, sendo o seu
principal locutor Jorge Alves53.
Depois da novidade técnica da radiodifusão, o
cinema é a segunda grande inovação técnica de
propaganda do século XX, tendo sido amplamente
utilizado por todos os beligerantes.
A Alemanha explorou o cinema na sua
propaganda para Portugal, sendo exibidos inúmeros
filmes no cinema Odeon e, em sessões especiais, no
Colégio Alemão, em Lisboa54. Nunca conseguiu
destronar o predomínio do filme americano e inglês
no circuito comercial normal e, com o decurso da
guerra, viu reduzida a sua quota do mercado.
Desde o início do conflito, que as distribuidoras anglo-
saxónicas dominavam o mercado nacional com filmes ingleses
e, sobretudo, americanos. A partir de 1941, começam a surgir
os filmes especificamente sobre a guerra, feitos com evidentes
intuitos de propaganda. Os Aliados distribuíam ainda pequenos
documentários que, em teoria, deviam ser exibidos antes dos
filmes, acompanhando os similares portugueses55.
Se a máquina alemã encontrava público,
principalmente, entre militares e para-militares
portugueses, a indústria cinematográfica norte-
americana ainda levava a melhor. Ambas as facções
faziam exibições privadas, tendo os aliados
conseguido, após alguma resistência dos exibidores,
que temiam confrontos entre o público, a exibição de
documentários antes dos filmes. Após o final da
guerra, numa curta fase de distensão do regime,
entram finalmente filmes como Casablanca, que esteve
dez semanas em cartaz56.

Manuel Alves Ferreira,


um natural de Condeixa que contribuiu para o triunfo
dos Aliados

Como em todas as outras localidades portuguesas,


a guerra embora distante era acompanhada com
interesse, mas também com apreensão. A formação
de apoios aos blocos beligerantes não tardou a
operar-se, com anglófilos57 de um lado, e do outro os
germanófilos, sendo desde logo clara a predominância
das simpatias para com a Grã-Bretanha.
Condeixa-a-Nova não permaneceu, naturalmente,
imune à guerra das propagandas desencadeada pelos
Países beligerantes.
Segundo o Censo de 1940, o concelho de
Condeixa-a-Nova com 4.135 fogos, tinha uma
população presente total de 13.591 habitantes, dos
quais 6.311 do sexo masculino, e 7.280 do sexo
feminino58.
A população presente de 20 ou mais anos de idade
totalizava 8.540 pessoas, sendo 3.717 homens e 4.823
mulheres. Sabiam ler 3.270 pessoas, das quais 2.234
eram homens e apenas 1.036 mulheres: possuíam o
grau de instrução primária 555 indivíduos, 376 do
sexo masculino e 179 do sexo feminino; possuíam
habilitação do ensino secundário 34 pessoas, 21
homens e 13 mulheres; com o ensino superior, havia
20 indivíduos, todos do sexo masculino.
Os varões activos (maiores de 10 anos) em
números absolutos eram 4.038, dos quais 71,1 por
cento ocupados na agricultura59.
A freguesia de Condeixa-a-Nova tinha 556 fogos,
sendo 1997 o total de habitantes, 884 homens e 1.113
mulheres. Sabiam ler e escrever 1.076 pessoas e 921
eram analfabetos.
Foi, neste quadro, que Franklim Pires Machado,
comerciante desta Vila, contactado para o efeito,
procedeu à indicação do nome de Manuel Alves
Ferreira, seu empregado, para se encarregar da
distribuição da propaganda britânica em Condeixa.
Oriundo do meio rural, de uma família de parcos recursos,
apesar de distinguido, no ano de 1932, como o melhor aluno
da 4.ª classe da Escola Primária da Atadoa, com o prémio
instituído pelo Dr. Alberto Martins de Carvalho60, mas sem
possibilidade de prosseguir os estudos, veio, muito novo,
trabalhar para a loja de ferragens de Franklin Machado.
Caldeado na difícil escola da vida, empregado de
balcão, autodidacta, com apenas 21 anos de idade,
prontifica-se aquele «gostosamente» a aceitar o encargo,
em carta ao Director do Centro Britânico de
Informações61 anexo ao Consulado Britânico no
Porto, juntando uma lista de pessoas «eventualmente
interessadas»62.
O material de propaganda, remetido pelo correio,
caminho-de-ferro ou pela camioneta da carreira
Porto-Lisboa, era constituído, sobretudo, pelas
revistas Guerra Ilustrada, Bandeira da Vitória e Neptuno;
pelo Boletim de Informações e por folhetos, sobre o
esforço de guerra, acerca dos vários ramos das forças
armadas britânicas63e as instituições inglesas64, ou,
ainda, de denúncia dos Países do Eixo65.
Havia, além disso, postais, na maioria de sátira aos líderes
alemães nazis e a Mussolini; estampas litografadas coloridas dos
Soberanos e da Família Real, de políticos como Churchill, e
prestigiados militares como Montgomery, Alexander,
Mountbatten e outros; quadros com fotografias e cartazes
destinados a serem exibidos em cafés, clubes ou outros espaços
públicos.
No final de cada ano e início dos anos seguintes,
eram também muito procurados os calendários
editados pela propaganda inglesa.
Em Dezembro de 1941, o CBI remetia, de acordo
com a lista de interessados, já aumentada por
iniciativa de Manuel Ferreira, 75 exemplares do n.º 12
da revista Guerra Ilustrada, a par de outro material de
propaganda66.
A distribuição deste material de propaganda, «por
não ser permitida a entrega casual a qualquer pessoa», era
feita, unicamente, a quem se encontrava inscrito nos
registos (listas e ficheiros) do CBI, sendo, nesse
sentido, dadas instruções muito precisas aos
distribuidores. Quaisquer novos interessados na
recepção da propaganda teriam de «estar previamente
inscritos» e, sem o cumprimento de tal formalidade,
não poderiam de forma alguma receber aquela.
Outrossim, se informava que a propaganda a
distribuir era apenas a enviada, «não devendo os envelopes
conter qualquer outra coisa»67.
Até mesmo quando os pedidos de pessoas
interessadas no recebimento da propaganda eram
dirigidos directamente ao CBI, procurava este junto
do encarregado da respectiva distribuição
confirmação sobre se deveriam ser inscritas, para
passar a ser-lhes enviada68.
Era dada especial atenção à propaganda
distribuída aos eclesiásticos, de início remetida
directamente aos mesmos, pela Embaixada em
Lisboa e, depois, expedida aos distribuidores da área
da respectiva residência. De entre as publicações
àqueles destinada em particular, contavam-se: Querem
destruir a Igreja de Deus, A Perseguição à Igreja Católica, A
Voz do Vaticano.
O Adido de Imprensa inglês mantinha contactos
regulares com a Censura, pela qual passavam os
artigos dos correspondentes locais e os cedidos aos
periódicos portugueses, sendo, no geral, tais relações
consideradas satisfatórias69.
Nesse contexto, afigura-se significativa a carta do
responsável do CBI, datada de 11 de Fevereiro de
194270: «Tendo a Repartição da Censura pedido à
Embaixada Britânica, em Lisboa, para sustar a distribuição
da nossa propaganda intitulada «TODOS COMO
CARNEIROS» e sendo sempre norma deste Centro orientar
os seus serviços dentro do espírito da mais estreita harmonia
com os desejos das autoridades Portuguesas, vimos rogar-lhe o
obséquio de nos devolver com a maior brevidade, em embrulho
devidamente registado quaisquer exemplares das referidas
brochuras que ainda tenha em seu poder ou que possa haver às
mãos o que agradecemos.»
Cremos que Manuel Ferreira não pôde dar
satisfação à solicitação feita, não existindo resposta
sua sobre a devolução: conhecendo-se a sua subtileza
de espírito, e a índole trocista dos condeixenses, fácil
seria adivinhar o «sucesso» alcançado pela dita
propaganda!
O CBI, considerando ter «muito interesse em organizar
uma estatística, tão completa quanto possível, acerca do
número, qualidade e condição social das pessoas que na
Província recebem a nossa propaganda», solicitou aos
distribuidores «uma relação da qual conste,
discriminadamente, esse número, subordinando-a aos títulos,
ou classes que a seguir indicamos: a) Militares; b) Padres; c)
Professores Primários; d) Advogados, Notários, Juízes,
Delegados, Escrivães e outros Bacharéis em Direito e Letras;
e) Proprietários; f) Industriais (de toda e qualquer natureza);
g) Capitalistas; h) Lavradores; i) Médicos; j) Engenheiros,
Agrónomos, Veterinários e Agentes Técnicos; k) Agricultores;
l) Operários sabendo ler e escrever; m) estudantes com mais de
16 anos; n) Analfabetos; o) Menores de 16 anos.»71
Na resposta à referida solicitação, Manuel Ferreira
juntava uma lista, agora com 152 inscrições (número
que mais do que duplica, em ano e meio, o do início
da sua actividade), com a indicação das profissões, a
saber: 1 advogado; 15 agricultores; 3 barbeiros; 4
carpinteiros; 24 comerciantes; 1 construtor civil; 2
electricistas; 15 empregados do comércio; 2
empregados dos correios; 2 empregados de mesa; 5
empregados de escritório; 3 enfermeiros; 9
estudantes; 2 farmacêuticos; 2 ferradores; 2 ferreiros;
3 funcionários das finanças; 3 funcionários judi-ciais;
11 funcionários públicos; 2 funileiros; 2 magistrados
judiciais; 5 marceneiros; 3 médicos; 4 motoristas; 1
notário; 2 oficiais do exército; 2 padeiros; 1 pedreiro;
1 pintor; 1 ponteadeira; 2 praticantes de farmácia; 3
professores primários; 2 proprietários; 1 relojoeiro; 6
sapateiros; 3 serralheiros. Na referida lista estão,
igualmente, incluídos os proprietários do «Café
Central» e do «Café Conímbriga», bem como, ainda, a
Direcção do Clube de Condeixa.
Na sua quase totalidade, os inscritos eram do sexo
masculino, apenas integrando a lista duas mulheres,
uma professora primária e uma ponteadeira.
Sendo a maioria residente na Vila de Condeixa-a-
Nova, aqueles distri-buiam-se, também, por outras
localidades do concelho: Alcabideque, Arrifana,
Atadôa, Barreira, Belide, Campizes, Casal Novo, Ega,
Eira Pedrinha, Traveira, Valada, Vila Sêca e
Zambujal72.
Em nota, acrescentava que «não há inscritos menores
de 10 anos, nem analfabetos»73.
Em Circular Confidencial para os distribuidores,
era dito que «o facto de ser quási ou totalmente analfabeto,
não impede que receba as nossas ilustrações, havendo revistas
especiais para as pessoas de educação elevada. Lembramos, até,
que os analfabetos merecem mais as revistas ilustradas do que
as pessoas de mais alta cultura».
«Confiamos absolutamente nos nossos dedicados
distribuidores em não se deixar influenciar nas distribuições
pelo facto de muitas vezes os recebedores serem inimigos
pessoais ou pessoas de outra política, etc. A distribuição deve
ser encarada debaixo de um ponto de vista completamente
imparcial. A nossa propaganda visa unicamente espalhar a
verdade sobre os acontecimentos que actualmente se estão
desenrolando»74.
O Grupo Nacional Portugal da AO [Organização
Estrangeira (Auslandsorganisation –AO)] do NSDAP
[Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores
Alemães (Nationalsozialistische Deutsche Arbeiterpartei).,
como todos os Grupos Nacionais dos países neutrais,
era a instância alemã preferida para observar e obter
meios propagandísticos inimigos. Para ocultar essa
actividade aos olhos do inimigo, era determinante a
colaboração de portugueses. Assim, a AO tinha
cobertura em Lisboa para envio de material de
propaganda de outros países para a Alemanha com
nomes portugueses. «Pelo menos a partir de meados de
1941, mas talvez desde o início da guerra, esses portugueses
facilitaram à Alemanha muitos nomes e endereço»75.
Entre outros incidentes, foram verificados casos de
«propaganda negra», como a distribuição de edições falsas de
órgãos de propaganda britânicos.
Assim, o CBI alertava, em circular de 3 de Agosto
de 1942: «Tendo aparecido em público um exemplar de «A
Grã-Bretanha de Hoje» com o nº.56 referente a Julho de
1942, vimos informar V. Exª. para fazer constar entre as
pessoas nossas amigas que semelhante número é apócrifo, não
tendo sido publicado pelo Instituto Britânico em Portugal visto
que o último publicado tem o número 51. Devem ser manobras
dos nossos inimigos».
Na circular de 11 de Janeiro de 1943, o CBI
voltava a denunciar a falsificação de um número da
revista Neptuno, comentando que «se a propaganda
alemã julga que os Portugueses são tão fáceis de iludir como
isso, fraquíssima opinião faz deles».
Manuel Ferreira comunicava ter a propaganda
italiana enviado para o cinema local alguns filmes,
motivo «porque achava interessante no caso de haver
disponível, enviar alguma propaganda inglesa», adiantando
que a propaganda alemã enviava todas as semanas
fotografias, razão porque esperava que «a propaganda
Inglesa se faça demonstrar com fotografias interessantes tal
qual têm sido enviadas para Coimbra»76.
O CBI esclarecia que os documentários
cinematográficos eram importados pela SONORO-
FILMS, de Lisboa, nada tendo a ver com isso,
podendo, no entanto, interferir junto da casa
distribuidora para que fizesse uns preços mais
convidativos, no caso do proprietário do Cinema
local estar interessado77.
Na resposta, Manuel Ferreira informa que a este
«não lhe interessam documentários a mais de dez escudos, que
é o preço por que lhe ficam os da Paramount e outros»78.
A importância dada ao cinema como novidade e
poderosa arma de propaganda, transparece dos
termos da Circular do CBI de 30 de Janeiro de 1943,
na qual era solicitado, com o fim de ser enviado ao
Adido da Imprensa, em Lisboa, o fornecimento,
mensalmente, de um relatório de todos os filmes,
documentários de guerra, etc., que fossem exibidos
no cinema dessa localidade, dando opinião sobre «se
caiu bem ou não no agrado do público» ou «se a plateia se
manifestou durante a exibição da película».
No mesmo ano, o Adido de Imprensa da
Embaixada Britânica, Michael Stewart, remeteu um
exemplar do folheto de apresentação do filme A
Vitória do Deserto, produzido pelos serviços
cinematográficos do Exército e da Real Força Aérea,
inspirado na campanha do Norte de África, desde
que o Exército Britânico se entrincheirou em El-
Alamein para impedir o avanço de Rommel para
Alexandria e o Cairo até à entrada triunfal em Tripoli,
informando ser a respectiva distribuição comercial
feita pela Vitória Filme, do Porto79.
Após ter contactado o gerente do Cine-Avenida
(inaugurado em 1932), Manuel Ferreira transmitiu
«existir bastante interesse por parte da mesma empresa em
exibir o filme, mas que o seu elevado custo, 300$00 pedidos
pela distribuidora Vitória Filme, a inibe de poder fazê-lo, pois
a frequência nessa altura era diminuta e, além disso, não havia
público para matinées, sendo, assim, a fita passada só uma vez
na aparelhagem. Nestas condições, para que não tenha
prejuízo não lhe convém a fita por preço superior a 150$00,
ou seja, o preço estabelecido pelo Grémio, motivo porque espero
que consiga da Vitória Filme o contrato isolado por este preço,
pois só assim se poderia exibir, dando satisfação a todas as
pessoas que se interessam pela Justa Causa Britânica»80.
Em resposta, o CBI referia haver um mal
entendido, pois o filme estava a ser distribuído
comercialmente como qualquer outro pela
Companhia Victoria Film, nada tendo a ver com os
contratos ou condições comerciais no respeitante à
sua exibição, acrescentando haver o mesmo tido «um
imenso sucesso, tendo esgotado as lotações dos cinemas por onde
tem passado», não parecendo haver razão para ser
oferecido um preço abaixo do normal81.
O CBI insistindo na exibição do filme A Vitória do
Deserto, dizia estarem «quási certos que ele esgotará a
lotação do cinema» e «não acharem o preço de 300$00 caro
para uma só exibição, que certamente deverá dar lucro»82.
Manuel Ferreira voltava a informar ter falado com
o gerente do cinema, o qual reiterou «não lhe convir
exibir o mesmo pelo preço indicado, ou seja 300$00, alegando
despesas de transportes, seguros, etc., que o inibe disso sem
prejuízo». Mencionava, ainda, que «muito embora
insistisse para demover da sua resolução o empresário, este só
aceita pelo preço de 200$00, o que me contraria bastante»83.
O CBI limitou-se a dizer ter ficado ciente do
informado acerca da exibição do filme A Vitória do
Deserto, lamentando «não poder fazer nada sobre o
assunto»84.
Algum tempo mais tarde, o CBI volta à carga,
dizendo ter «o prazer de informar que a Pátria Filmes
Lda., de Lisboa, contratou a película A Vitória do Deserto
para com o seu carro ambulante fazer a exibição da mesma,
por diversas povoações do país onde não exista cinema. Se
porventura na sua área estiverem interessados em que o filme aí
seja passado, devem fazer o respectivo pedido à casa
contratadoura (sic), pois que nada temos com a sua
distribuição nem com a parte comercial do mesmo»85.
No arquivo a que vimos fazendo referência,
apenas consta a mera recensão por parte de Manuel
Ferreira da correspondência recebida do CBSI de 1 a
12 do mês em decurso86.
Após novo processo de preparação, mediante o
envio de 150 exemplares de um folheto referente ao
filme Comando Costeiro - documentário de longa
metragem acerca do patrulhamento dos mares
totalmente desempenhado por aviadores da R.A.F.
(Royal Air Force) -, estreado com grande êxito no
Eden Teatro de Lisboa, foi aquele, finalmente,
exibido no cinema local, no dia 5 de Dezembro de
1943, «sendo apreciado com muito agrado por toda a
assistência, havendo manifestações de simpatia a favor dos
Aliados»87.
Como já foi referido, outro poderoso meio de
propaganda era a rádio. A BBC
(BritishBroadcastingCorporation) emitia diversos serviços
noticiosos para Portugal, inicialmente através das
ondas curtas, e, a partir de 19 de Dezembro de 1943,
também na onda média de 261 metros88 sendo os
respectivos horários dados a conhecer aos
encarregados locais da distribuição de propaganda
para ulterior divulgação ao público interessado.
Para além da grande audiência que tinha junto da
população portuguesa, contribuía para o seu
particular sucesso em Condeixa a popularidade de
Fernando Pessa, cuja infância decorreu no vizinho
concelho de Penela, o qual tinha familiares nesta Vila.
Colocado na secção portuguesa da BBC - a mais
avançada das emissoras do tempo - Fernando Pessa
fez a cobertura radiofónica da II Grande Guerra, de
Londres para Portugal. A sua voz cheia de
personalidade, os fados contra Hitler que escreveu e
interpretou, as suas descrições das batalhas aéreas
nos céus da Grã-Bretanha e dos bombardeamentos
das principais cidades inglesas, marcaram um tempo
e inscreveram-no na galeria dos maiores repórteres
radiofónicos da primeira metade do século XX89.
Entre 1944 e 1945, também na BBC era escutada
nos lares portugueses a voz de António Pedro, nas
crónicas de segunda-feira, dando conta do avanço
dos Aliados contra o Eixo90.
À semelhança do que se fazia pelo País fora,
também em Condeixa havia o costume de colocar
um copo de água em cima da telefonia, a fim de que
a PVDE não pudesse localizar o aparelho a
sintonizar a BBC, conforme testemunhos que
recolhemos.
A BBC remeteu, por intermédio da Secção de Imprensa da
Embaixada Britânica em Lisboa, aos distribuidores da
propaganda um questionário sobre as condições em que os
Portugueses ouviam as emissões, pretendendo, principalmente,
«saber se as transmissões para Portugal eram feitas a horas em que os seus
rádio-ouvintes dispunham de corrente eléctrica para poderem ligar os aparelhos
de telefonia»91,revelando a sua eficiente organização .
Outro instrumento da propaganda inglesa com
grande visibilidade era constituído pelos cartazes e
quadros contendo fotografias – 12 fotos pequenas e
2 grandes -, destinados a serem exibidos em montras
de cafés e de estabelecimentos comerciais, por um
prazo definido, a fim de permitir a sua rotatividade.
Ao tomar conhecimento de que alguns
estabelecimentos expunham, a par da britânica,
também a propaganda alemã, o CBI manifestava
«surpresa», afirmando não consentir tal coisa, e
solicitava a imediata retirada do seu material e
respectiva devolução92.
Na resposta, Manuel Ferreira informava que ao
fazer entrega das fotografias nas casas onde também
se expunha a propaganda alemã, era «para estabelecer o
confronto entre as falsidades daquela propaganda e a realidade
da inglesa», porém, em vista do pedido, procedeu,
imediatamente, à retirada das «nossas (sic) fotografias»,
tendo, no entanto, um dos visados pedido para
continuar com a exposição da propaganda inglesa,
«omprometendo-se a não expôr mais a propaganda alemã»93, o
que veio a ser aceite pelo CBI94.
Porque, certamente, após a entrada dos EUA no
conflito, haveria interessados na propaganda
americana, Manuel Ferreira, em meados de 1943,
solicitava ao CBI o envio de algum material «sempre
que seja possível»95.
Os primeiros exemplares da revista Em Guarda –
números 4, 7, 8, 9 e 10 -, de propaganda americana,
começaram a ser recebidos no decurso de 1944,
juntamente com postais do Presidente Roosevelt. A
sua expedição era feita pelo CBSI, o qual, para boa
regularidade dos serviços, solicitava o envio de listas
em separado com o nome das pessoas a quem iriam
ser entregues as revistas americanas, Em Guarda e
U.S.A.96.
Porém, no final desse mesmo ano, o CBI
comunicava por carta-circular, que a distribuição da
propaganda dos Estados Unidos da América passava
a ser feita directamente e não por intermédio daquele
Centro, motivo pelo qual qualquer pedido referente à
mesma deveria ser dirigido ao Adido de Imprensa
junto da Embaixada dos EUA, em Lisboa.
Igualmente, noutra circular, de 2 de Dezembro de
1944, o CBI transmitia que, a partir de então, «não
deveriam ser aceites novas inscrições para recepção da
propaganda, qualquer que fosse a razão», não podendo os
nomes eliminados serem substituídos por outros,
ressalvada qualquer mudança de domicílio, que nesse
caso deveria ser respeitada.
Por essa altura, o número de inscritos para
recepção da propaganda inglesa já atingia as 190
pessoas97, ou seja, Manuel Ferreira em três anos
conseguiu motivar para a causa Aliada, apesar do
nível de iliteracia e desinformação98 do concelho de
Condeixa-a-Nova, mais do dobro de interessados do
que quando assumiu a responsabilidade pela sua
distribuição.
Manuel Ferreira continuou a desenvolver
actividade durante os primeiros meses de 1945,
quando o desenrolar dos acontecimentos já
prenunciava a vitória dos Aliados. Assim, toma a
iniciativa de solicitar ao CBSI o envio de dois
exemplares do «Hino Inglês instrumentado para Banda»,
mencionando a existência de duas bandas de música
locais, «tendo interesse que no Dia da Vitória fosse executado
o hino pelas referidas bandas»99.
O pedido foi prontamente satisfeito, sendo
expedidos pelo correio, sob registo, e em separado, 2
exemplares do «Hino Inglês»100. Acabaram,
infelizmente, por não servir para o fim em vista, pois
aqueles «não estavam instrumentados para Banda»101.
A 29 de Abril, Adolf Hitler designa seu sucessor o
Almirante Dönitz, suicidando-se no dia imediato no
Bunker da Chancelaria, com os russos a atingirem o
Reichstag.
O CBI, por carta-circular, de 2 de Maio de 1945, chamava a
atenção dos distribuidores para o seguinte : «Como se aproxima o
dia da vitória das Nações Aliadas é não só perfeitamente natural mas até
justo, que os Portugueses, gente de uma Nação aliada secular da Inglaterra
manifestem o seu regozijo pelo terminar duma guerra, que há mais de cinco
anos vem flagelando a humanidade, o façam também no dia da Vitória.
Causar-nos-ia, porém, um grande desgosto que qualquer dos nossos
distribuidores, ou os amigos que temos nas terras onde eles fazem a
distribuição da nossa propaganda se envolvam em manifestações de carácter
puramente político, ou subversivo, que possam acarretar a intervenção das
autoridades locais, as quais, de resto, estamos persuadidos que desde que essas
manifestações se restrinjam a vivas aos países aliados, e à alegria natural
causada pela Vitória, não acharão motivo para intervir,nem para as coibir.
Rogamos, pois, a V. Exa., a fineza de avisar todos os nossos amigos dessa
terra para que evitem envolver-se em manifestações do carácter daquelas que
acima frisamos, e em alterações da ordem pública que tragam procedimento
coercivo da parte das autoridades, e com o que, evidentemente, não podemos
solidarizar-nos.»
No dia 3 de Maio, o Governo de Salazar decreta
luto oficial de três dias pela morte de Hitler.
A 7 de Maio, o General Jodl assinou o documento
da rendição incondicional de todas as forças alemãs,
no quartel-general de Eisenhower, em Reims.
Por seu lado, Churchill e Truman declararam o dia
8 de Maio como V.E. Day - o Dia da Vitória na
Europa.
Assim, a guerra acabou na Europa, após 5 anos, 8
meses e 5 dias.
Por carta de 9 de Maio, o CBI expressou sincero
reconhecimento pela recepção de um telegrama de Manuel
Ferreira, de felicitações pela Vitória alcançada pelos exércitos
das Nações Unidas, referindo ter o mesmo sido motivo de
grande satisfação e muito apreciada essa gentileza.
Não obstante o termo da guerra, quer na frente
europeia, quer com o acto de capitulação do Japão,
assinado pelo Ministro dos Negócios Estrangeiros
Togo, a 2 de Setembro, a bordo do couraçado dos
EUA Missouri fundeado na baía de Tóquio, a
distribuição da propaganda britânica prosseguiu até,
pelo menos, Maio de 1946.
No final do referido mês, o CBSI informou
Manuel Ferreira ter já encerrado definitivamente a
sua actividade, manifestando «sincera gratidão pela
valiosa e leal colaboração que nos prestou, cooperando na
distribuição da nossa propaganda, a qual mostrou o esforço
dispendido pela Grã-Bretanha em prol da Vitória das Nações
Unidas sobre o inimigo», anunciando que,
oportunamente, iria aquele receber directamente da
Embaixada Britânica uma comunicação oficial,
testemunhando igualmente o reconhecimento pela
óptima coadjuvação que deu à causa dos Aliados102.
Com efeito, em missiva endereçada a Manuel
Ferreira, subscrita pelo Adido de Imprensa G.M.F.
Stow, refere este haver sido incumbido pelo
Embaixador de Sua Magestade Britânica de lhe
remeter a Carta junta103, com a sua respectiva
tradução104, «em homenagem aos valiosos serviços prestados
por V. Exa. à Secção de Imprensa durante toda a guerra».
Mais acrescenta, aproveitar a oportunidade para
testemunhar o seu «profundo reconhecimento pessoal pela
sua leal cooperação e pela confiança indefectível na causa aliada
de que deu provas durante os longos e amargos dias de luta que
juntos tiveram de enfrentar», expressando a crença de que
«o seu apoio e amizade perdurarão na memória de quantos
dentre nós tiveram o privilégio de trabalhar com V.Exa.»105.
Com o savoir faire, de que sempre deu provas ao
longo da sua vida, Manuel Alves Ferreira, em breves
linhas, acusou a recepção da carta, agradecendo a
distinção conferida, rogando a subida fineza de
transmitir ao Embaixador de Sua Magestade Britânica
as suas cordiais saudações e reconhecimento pelas
atenções que sempre lhe foram dispensadas durante
o período em que «pela mesma causa lutámos»106.
À distância de quase sete décadas sobre estes
acontecimentos, não se pode deixar de sentir
admiração pela extraordinária actividade
desenvolvida por alguém que, ainda jovem adulto,
sem formação académica e desprovido de meios de
fortuna, soube assumir, com zelo e grande dignidade,
a pesada responsabilidade da distribuição da
propaganda aliada, num meio rural pobre, como era
ao tempo, o concelho de Condeixa-a-Nova.
Tarefa não isenta de riscos, desde logo face à
posição de «neutralidade» oficial declarada pelo
Governo de Salazar.
Dentro do Regime, não tardou, contudo, a operar-se a
formação de apoios aos beligerantes e, se se contavam
importantes simpatizantes da Inglaterra107, muitos dos
contornos ideológicos do Estado Novo deixaram marcas
profundas na formação política de outros, com poder e
influência nos Organismos que eram o seu sustentáculo, como
a P.V.D.E., a L.P., a M.P. , etc., cujas opções germanófilas eram
conhecidas108.
Por outro lado, embora a neutralidade se vá
manter até ao final do conflito, para a compreender é
preciso estudar a evolução da situação, fase por fase:
pode, assim, falar-se do período de supremacia do
Eixo109; ao qual se seguiu, o período do equilíbrio de
forças; e, por último, o período da supremacia
Aliada110.
Entre Junho de 1940 e Junho de 1941, abre-se o
período de maior perigo em relação à manutenção da
neutralidade portuguesa, fase em que a Alemanha
domina a Europa Ocidental, enquanto a guerra
alastra ao Sul da Europa, ao Mediterrâneo e ao norte
de África.
Sabe-se, hoje, que a operação «Félix», o planeado
ataque a Gibraltar a partir de Espanha, previa que se
manteriam na fronteira portuguesa (Cáceres e
Badajoz) uma divisão blindada e duas motorizadas
prontas a realizar um avanço fulgurante sobre Lisboa.
O exército espanhol estava preparado para apoiar
uma eventual ocupação de Portugal111.
A Grã-Bretanha criou, em Junho de 1940, o
Special Operations Executive (SOE), especializado
na formação de guerrilha e sabotagem na Europa.
Jack Gros Beevor, o representante do SOE em
Portugal, organiza em 1941, quando esteve iminente
a invasão do nosso País pelos alemães, um grupo de
trabalho para a estruturação da defesa e resistência no
Alentejo, sob a orientação e comando do Coronel
Rosado, irmão do Dr. Domingos Rosado, advogado
em Évora e líder local da Oposição.
A rede clandestina foi formada a partir da malha
de funcionários da empresa Shell em Portugal, tinha
como objectivos: a tentativa de criar os apoios
necessários às forças britânicas especializadas nas
sabotagens e destruições; a recolha de elementos
topográficos de determinadas regiões do País; a
criação de redes de comunicações; a criação de casas
de abrigo, podendo servir também de pontos de
passagem para refugiados de guerra; a organização da
resistência civil.
Além daqueles objectivos, havia o interesse em
tornar Portugal um centro difusor de propaganda
aliada, fazendo penetrar propaganda inglesa em
Espanha, e, através dela, na Alemanha e países
ocupados, utilizando os correios portugueses, para a
sua distribuição também no Norte de África112.
Acabou aquela por ser desmantelada pela PVDE,
em 1942, provavelmente a partir de informações
fornecidas pela Seguridad espanhola (que, por sua
vez, as recebera da Gestapo). Aquela polícia
informou Salazar de que «indivíduos de nacionalidade
portuguesa», cujos nomes denunciou, auxiliavam, em
vários pontos do país, a distribuição de boletins
noticiosos da Embaixada Britânica113. Obviamente,
muitos dos elementos detidos eram também os
responsáveis pela difusão da propaganda aliada em
Portugal114
Ante a incerteza do desfecho do conflito, o receio
de uma eventual invasão do País, a permanente
confrontação com as actividades da propaganda
alemã, para além da vigilância da polícia política, só
uma inabalável convicção na justeza da causa dos
Aliados e na certeza do seu triunfo explica a
dedicação e o empenho postos ao respectivo serviço
por parte de Manuel Ferreira, durante o conturbado
período de mais de um lustro.
Essa actuação permitiu, mesmo nos tempos mais
difíceis, manter acesa a esperança, que residia no
íntimo da maioria da população do concelho de
Condeixa-a-Nova, no triunfo das Nações Unidas.
Numa época em que tantos são laureados por
razões que nada têm a ver com o mérito pessoal ou a
dedicação à causa pública, seria da mais elementar
justiça não deixar cair no esquecimento o exemplo de
Manuel Alves Ferreira!
A isso nos propusemos.

Os efeitos da Guerra em Condeixa

Portugal, embora sendo um País neutral, não


deixou de sentir os efeitos da Guerra à escala
planetária e, apesar do não envolvimento directo no
conflito, o Povo Português veio a sofrer os seus
efeitos colaterais, sobretudo as classes
economicamente mais desfavorecidas, como o
racionamento de bens essenciais, as consequentes
filas, o mercado negro, e, até mesmo, a fome.
Dada a estrutural dependência da economia
portuguesa relativamente ao exterior (o estrangeiro e
as colónias) em matérias-primas, bens intermediários
e outros bens de consumo essenciais – a sofrer os
efeitos conjugados do bloqueio económico naval
anglo-americano, da guerra submarina, e da
consequente rarefacção, insegurança e encarecimento
dos transportes marítimos –, apesar da posição de
neutralidade do País, tal implicou a adopção, ou o
reforço, de uma política económica que, em termos
estritos, em nada se distinguia das «economias de
guerra» dos países beligerantes europeus, salvo,
obviamente, no tocante a destruições materiais, à
perda de vidas humanas, à intensidade de certas
carências a que houve que responder, ou à
diversidade organizativa ou quantitativa de certas
soluções115.
As dificuldades provocadas pela guerra podem ser
também exemplarmente observadas através da
evolução dos preços tabelados, anualmente, pelas
câmaras municipais, em Agosto ou Setembro de cada
ano. Até 1942, os preços permaneceram estáveis,
com prejuízo para os produtores, situação
insustentável a partir desse ano, em que, para
responder ao mercado negro, e a uma maior carência
dos produtos, aqueles subiram em flecha.
Apesar de existirem na Vila diversos armazéns de
mercearia, o racionamento na venda de determinados
produtos é uma das recordações mais fortes de quem
viveu essa época. Cada família tinha de levantar as
senhas de racionamento necessárias, distribuídas pela
Comissão Reguladora do Comércio Local, controlada
pela Intendência Geral dos Abastecimentos116, a qual
funcionou na Avenida Visconde de Alverca.
Segundo vários testemunhos recolhidos, para se
conseguir um bem essencial como o pão, era
necessário ir para a fila de madrugada. Para a padaria
de Adelino Ferreira Guiné, localizada na Rua Dr.
Oliveira Salazar (actual Rua 25 de Abril), a fila atingia
as imediações da Farmácia Rocha, na Praça da
República, acontecendo, por vezes, que ao chegar a
vez do atendimento o pão já se encontrava esgotado.
A alternativa para se obter determinados produtos
era o recurso ao mercado negro, para quem
dispusesse de meios para tal.
O sabão era um dos produtos cuja falta se fazia
sentir. Havia mesmo quem o fabricasse em casa
artesanalmente, para consumo próprio. A matéria-
prima local eram as borras de azeite, que se
misturavam com água, potassa, soda cáustica e pez
louro, secando depois ao sol em caixas de madeira117.
Esses tempos difíceis, de crise generalizada,
afectando particularmente os estratos populacionais
de menores recursos, em que mais se acentuaram as
clivagens económicas da sociedade, obrigaram a
procura de soluções que pudessem acorrer às graves
situações de carência alimentar e, até mesmo, de
fome verificadas no concelho.
Em 18 de Fevereiro de 1940, a Assembleia Geral
da Santa Casa da Misericórdia de Condeixa-a-Nova
deliberou introduzir nos seus Estatutos, entre outras
alterações, uma disposição em que criava a Sopa dos
Pobres, «humanitária instituição para mitigar a fome a
pedintes, inválidos do trabalho e famílias de operários» e
«socorrer pequeninas criaturas sem pão»118.
A inauguração da Sopa dos Pobres ocorreu a 24
de Fevereiro de 1940, estando o refeitório instalado
em terrenos do Hospital D. Ana Laboreiro d’Eça,
licenciado pela Câmara Municipal de Condeixa-a-
Nova no mandato do Dr. Joaquim Simões de
Campos Júnior.
A respectiva Comissão era presidida por Fortunato
Pires da Rocha, sendo secretário Isac de Oliveira Pinto, e
vogais o P.e Augusto Neves Pimenta e Abílio Simões Pires
do Reis.
A 30 de Março de 1940, foi eleita a Mesa da Santa Casa da
Misericórdia de Condeixa-a-Nova, ficando a Mesa constituída
do modo seguinte: Dr. Cândido Sotto Mayor, Provedor;
Comandante Fortunato Pires da Rocha, Vice-Provedor; Abílio Simões
Pires dos Reis, 1.º Secretário; Isac de Oliveira Pinto, 2.º Secretário;
Padre Augusto das Neves Pimenta, Tesoureiro. Substitutos: Dr.
Sebastião Marques d’Almeida, António Simões Fernandes, Joaquim da
Costa, Joaquim Simões Cravo e Amadeu dos Santos Ferreira.
A Obra da Sopa dos Pobres era sustentada por
cerca de duas centenas de benfeitores subscritores
mensais, entre particulares de todos os estratos
sociais, e empresas, nomeadamente os armazéns de
mercearias locais, para além de donativos especiais,
em dinheiro e em géneros diversos, exercendo a
função de cobrador o Sr. Álvaro Pedro Augusto.
Presidia à Comissão Central das Senhoras
Protectoras da Obra, D. Maria Elsa Franco Sotto
Mayor, grande benfeitora da mesma.
A Sopa dos Pobres, com a qual colaboravam as
Irmãs a prestar serviço no Hospital D. Ana Laboreiro
d’Eça, recebeu, a 18 de Junho de 1940, a visita da
Madre Geral das Religiosas Hospitaleiras de Portugal,
D. Dolores Meireles.
Nos dez meses entre 24 de Fevereiro e 31 de
Dezembro de 1940, foram servidas na Sopa dos
Pobres 40.853 refeições, sendo a média diária de 149
utentes, entre adultos e crianças de ambos os sexos, a
quem era servida uma única refeição diária,
constituída apenas por sopa, salvo nos dias festivos,
como a Páscoa, em que era proporcionado um
repasto mais substancial, e o Natal, com uma
segunda refeição, ao jantar.
A média dos géneros gastos, mensalmente, no
primeiro ano de funcionamento, era de 278 quilos de
milho, 106 quilos de batata, 102 quilos de feijão, 79
quilos de arroz, 55 quilos de macarrão, 7 quilos de
grão de bico, 49 quilos de pão, 13 quilos de trigo, 31
quilos de carne, 13 litros de azeite, e 22 alguidares de
hortaliças.119
A sua actividade, segundo depoimentos
recolhidos, continuou mesmo para além do final do
conflito, no difícil período do Pós-Guerra, embora
não tivesse sido possível averiguar, concretamente,
quando cessou e as razões para o seu encerramento.
Perdurará, certamente, como um marco indelével
do espírito solidário, em tempos de crise, do Povo de
Condeixa!
Bibliografia

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Figura 1 – Manuel Alves Ferreira, em 1945

Figura 2 – Manuel Alves Ferreira, em 2006, ano do seu falecimento


Figura 3 – Carta do Embaixador do Reino Unido Sir Owen O’Malley
Figura 4 – Tradução que acompanhava a carta do Embaixador Britânico
Figura 5 - «A Guerra Ilustrada» P.W.P. 20, do ano de 1941
Figura 6 – Postal com a caricatura de Winston Churchill, reproduzida do
Daily Sketch
«Estórias» da oposição em
Condeixa
no tempo de Salazar

Paulo Marques da Silva

Foi quando me encontrava a fazer pesquisas para um


trabalho sobre Fernando Namora, no âmbito de um seminário
de licenciatura em História, que culminou com a publicação,
em Maio de 2009, do livro Fernando Namora por entre os dedos da
PIDE – a repressão e os escritores no Estado Novo, que encontrei
alguns documentos com referências à vila de Condeixa.
Sensivelmente pela mesma altura, quando efectuava diversas
leituras transversais a esse trabalho, li alguns livros de Alberto
Vilaça, com uma atenção particular para dois deles, onde o
autor disseca as aventuras e desventuras dos homens (sempre
com referência a muitos nomes) que fizeram a história do PCP
e do MUD Juvenil em Coimbra, existindo, também aqui,
algumas observações a reter sobre pessoas de Condeixa120.
Decidi então, findo o trabalho sobre Fernando
Namora, realizar uma pesquisa sobre a PIDE e a
oposição ao regime em Condeixa-a-Nova. O
resultado deste trabalho será convertido em novo
livro, caso se venha a revelar profícuo e se consigam
reunir outras boas vontades, sempre necessárias
quando se chega ao momento de uma publicação. O
que agora apresento aqui, são algumas notas soltas
dessa investigação (ainda em pleno decurso) que,
espero, mais tarde, se transforme em obra mais
aprofundada e completa.
Estas primeiras linhas contam-nos, genericamente,
algumas histórias avulsas com alguns ingredientes
típicos, quanto à forma de actuação da PIDE, e
como esta obtinha as suas informações sobre os
elementos «desafectos» ou sobre as actividades da
oposição, por mais incipientes que fossem,
nomeadamente, através das diversas denúncias e dos
informadores que faziam chegar as notícias à polícia
política, colmatando a carência de meios existentes
no terreno, particularmente nas décadas de 40 e 50.
Tentaremos, também, mostrar como a oposição se
organizava e qual o seu modo de actuação.
Um gráfico elaborado ou, pelo menos, transmitido
à PIDE pela Legião Portuguesa, em 1949, revela-nos
como a oposição ao regime estava organizada nas
localidades em torno da cidade de Coimbra.
Existindo sempre uma dependência a esta cidade, por
parte das outras localidades, segundo a informação da
Legião, ao observarmos a parte superior do gráfico,
vemos que o semicírculo representava aquelas
localidades que se supunha manterem entre si
ligações directas e, para além disso, com ligações
independentes a Coimbra, como são os casos da
Manuel Deniz Jacinto no seio da oposição, nas
regiões referidas, nomeadamente em Condeixa, onde
mantinha família, sendo ele, claramente, quem
exercia influência, contactos e ligações nesta vila.
Nascido em Condeixa, em 8 de Janeiro de 1915,
filho de famílias modestas, foi actor, encenador,
crítico de teatro, poeta e professor. Pertenceu à
denominada Geração de 40, sendo contemporâneo
de Egídio e Joaquim Namorado, João José Cochofel,
Carlos de Oliveira, Fernando Namora, Jofre Amaral
Nogueira ou Armando e Raul Castro, com quem
privou na universidade (e fora dela) e que foram
activos elementos do neo-realismo em Coimbra.
Pertenceu, igualmente, ao sector intelectual de
Coimbra do PCP, tendo sido preso, no ano de 1949,
na Figueira da Foz. Encerrado no Aljube e
transferido para Caxias no ano seguinte, esteve
proibido de receber visitas durante 45 dias por
«manifestações de indisciplina». Foi libertado em
Fevereiro de 1953, após cumprir a pena de prisão,
mais as famosas «medidas de segurança».
Um relatório de 21 de Agosto de 1946, existente
no processo da PIDE de Deniz Jacinto, dá conta de
alguns dos elementos oposicionistas organizados na
cidade de Coimbra e as suas ligações a Condeixa.
Vejamos uma parte dessa informação:

«Em Coimbra, fazem parte do Partido Comunista:


Dr. MÁRIO DA SILVA, Dr. MANUEL
DENIZ JACINTO, Dr. ÁLVARO CUNHA,
JOÃO JOSÉ DE MELO AIRES DE
CAMPOS COCHOFEL, FERNANDO
BATISTA, Dr. EDUARDO CORREIA, Dr.
PAULO QUINTELA, estudante
ARQUÍMEDES DA SILVA SANTOS,
FRANCISCO SALGADO ZENHA,
MANUEL BREDA SIMÕES, Dr.
ANTÓNIO RIBEIRO SIMÕES, Dr.
ACÚRCIO LOPES, JAIME AZEVEDO
REDONDO, ÁLVARO DE SEIÇA
NEVES, JOAQUIM MANUEL, Dr.
COIMBRA e NAMORADO.
[…] Em CONDEIXA, estiveram reunidos os Srs.
Dr. MANUEL DENIZ JACINTO e
NAMORADO, que veio de Portalegre a Condeixa,
com os seguintes elementos daquela localidade:
ALFREDO MIRANDA, JOÃO PIMENTEL
e EVARISTO PEREIRA MOREIRA e os
avançados: JÚLIO ROCHA, ANTÓNIO
MATEUS e JOAQUIM DA SILVA
BANDEIRA, na Livraria do Café Conímbriga,
entre os dias 10 e 17 do corrente.»122

Já um relatório de Fevereiro de 1948, elaborado


por um informador que conhecia muito bem o meio
coimbrão e, concretamente, os elementos da
oposição, até porque com eles convivia e se fazia
passar por um entre pares, comunica à PIDE quem
estava por detrás das organizações oposicionistas,
nomeadamente do MUD, que se preparava para as
eleições, existindo uma referência concreta a
Condeixa e a Manuel Deniz Jacinto. O informador dá
conhecimento do entusiasmo da oposição na criação
de comissões com o intuito, entre outras coisas, de
efectuar o recenseamento dos seus apoiantes para o
próximo acto eleitoral, ao mesmo tempo que crítica o
marasmo da União Nacional em termos de acção.
Transcreve-se um excerto dessa informação, que
tinha o título de «Manobras para o recenseamento
eleitoral»:

«Os mudistas DR. FERNANDO LOPES, LUÍS


BAETA DE CAMPOS, bem como o comunista
chefe DR. MANUEL DENIZ JACINTO, estão
a trabalhar activamente no recenseamento dos seus
adeptos para o acto eleitoral. Para isso, tem havido
umas bem simuladas reuniões no escritório do DR.
FERNANDO LOPES, na Rua Ferreira Borges e
no Colégio Portugal, propriedade do BAETA DE
CAMPOS. A tais reuniões tem assistido o
FRANCISCO ALVES CORREIA e algumas
vezes o DR. MÁRIO AUGUSTO DA SILVA.
Esta comissão está trabalhando com uma ordem e
método deveras interessante, que lhes deve dar bom
resultado e rendimento, pois não limitam a sua acção
só à cidade de Coimbra. Todo o Distrito é por eles bem
trabalhado e estão organizando comissões nas
principais vilas e sedes dos concelhos, para o trabalho
eleitoral. O fim destes indivíduos é ter o maior número
de adeptos inscritos nos seus livros para quando houver
o sinal de eleições terem assim já todo o trabalho feito
para não serem colhidos de surpresa. Tal prática,
segundo eles dizem, está a ser seguida habilmente por
todo o País.
O DR. DENIZ JACINTO já tem em Condeixa
um elemento seu a trabalhar, segundo declarou ontem.
Está também em ligação com o DR. RAÚL
MADEIRA, em Soure, e, na Figueira da Foz com o
ex-tenente RAFAEL DE SAMPAIO e JOSÉ
RIBEIRO. No Distrito de Aveiro, tem o MAIA
ALCOFORADO que agrega a si um respeitável
número de camaradas.»123

O relatório prossegue com várias outras


informações, destacando um encontro entre Deniz
Jacinto e o médico Fernando Valle que, segundo o
informador, organizava a comissão do concelho de
Arganil, bem como de outras importantes vilas
beirãs. Refiro este encontro, em virtude das ligações
familiares destes homens a Condeixa, que haverá de
ser referido numa denúncia de um condeixense à
PIDE, como veremos mais adiante.
No tocante à União Nacional, o informador revela
o que pensa a oposição, nomeadamente Baeta de
Campos, quanto à sua acção, corroborando da
opinião deste:
«Em simples conversa com o BAETA DE
CAMPOS, este referiu-se à União Nacional dizendo
que tal organismo já não oferece receio, pois, a sua
acção, presentemente nada vale e quando quiserem
acordar, já as comissões que estão a organizar devem
ter o trabalho todo feito.
O Padre JOSÉ DA CRUZ DINIZ tem vindo ao
Colégio Portugal falar com o BAETA DE
CAMPOS e está com ele para trabalhar.
Devo informar que no Distrito de Coimbra a U.N.
está muito mal organizada nada se fazendo. É uma
organização morta e até em alguns concelhos os
próprios componentes das comissões não se entendem
entre si e tudo corre sem qualquer acção que traga
benefícios ao Estado Novo. Política nacionalista não se
faz. Captação de adeptos é letra morta. Propaganda é
zero e tudo isto vem redundar em benefício dos anti-
situacionistas, que sabedores de tais factos, tiram disso
partido junto do povo.
Devo esclarecer que os mudistas e comunistas, tudo à
mistura, são muito mais trabalhadores pela sua causa
que os nacionalistas da U.N., pois estes revestem-se de
um comodismo pasmoso e não estão para se incomodar,
ao passo que os outros são ardentes na luta e
trabalham sempre.
Nada os detém, isto é o que eu vejo diariamente.»124

Uma denúncia do Presidente da Câmara


Municipal de Condeixa, Fernando de Sá Viana
Rebelo, ao director da PIDE, datada de 9 de Abril de
1948 (cerca de dois meses depois do relatório que
vimos antes) confirma, de alguma maneira, a opinião
do informador da polícia política, quanto à ineficácia
da União Nacional e às movimentações consequentes
dos opositores ao regime. Ele lamenta-se do facto de
os elementos ligados à oposição estarem a ocupar
cargos de direcção ou, simplesmente, a conseguir que
integrassem os quadros, de algumas das instituições
concelhias. Vejamos este relatório na íntegra:
«Com os meus respeitosos cumprimentos venho expor a
V. Ex.ª que, como me cumpre e é do meu inteiro
agrado, tenho prestado à PIDE todas as informações
que me têm sido pedidas acerca de indivíduos deste
concelho que pretendem lugares oficiais ou oficiosos.
No entanto, noto que para o Grémio da Lavoura de Condeixa,
têm sido nomeados directores e funcionários, desafectos à Situação
Política actual, elementos de perturbação na vida administrativa e
política de Condeixa, sem que esta Câmara ou, pelo menos, eu,
tenham sido ouvidos acerca da conveniência da nomeação ou
manutenção desses indivíduos para os cargos referidos.
Assim, à testa do Grémio da Lavoura tem estado o
Snr. FORTUNATO PIRES DA ROCHA,
capitão de fragata na Armada na situação de Reserva,
pessoa que, na minha frente, pediu para assinar uma
lista do MUD a seu primo e único amigo, em
Condeixa, DR. ALFREDO PIRES DE
MIRANDA, funcionário distinto, homem de
carácter, mas … o chefe da Comissão do MUD
condeixense. Este Sr. PIRES DA ROCHA,
elemento tão perturbador que acaba de, acobertado com
a farda que envergou, se queixar do actual Governador
Civil de Coimbra a Sua Exª. O Senhor Ministro do
Interior, irmão de um dos farmacêuticos de Condeixa,
o DR. JÚLIO PIRES DA ROCHA (também da
Comissão do MUD), mentor político do prof. primário
ANTÓNIO MATEUS (também da Comissão do
MUD); irmão do Dr. ANTÓNIO PIRES DA
ROCHA, velho evolucionista, padrinho do conhecido
mudista conimbricense DENIZ JACINTO, etc, etc,;
esteve, desde o início do Grémio da Lavoura à testa
dele e nele tem feito a política que lhe convém e
que…não convém à Câmara, por ser anti-
situacionista.
Instalou-se também na Presidência da Casa do Povo e
nela fez a mesma política até que, nas últimas eleições,
foi afastado pelos elementos do Estado Novo e,
felizmente, por larga maioria. Vendo que se
preparavam estes últimos para o afastarem também do
Grémio, demitiu-se porém…deu homem por si, seu
cunhado cap. ANTÓNIO PITA, elemento amorfo,
pelo menos politicamente, mas cego executor das ordens
do Snr. ROCHA.
Como gerente do Grémio, nomeou um tal
ANTÓNIO CORREIA, funcionário aposentado
dos Correios, crê-se que por motivos não estranhos à
política e que nas últimas eleições fez propaganda
contrária à lista apresentada pelo Governo.
O único funcionário legionário que ali havia, foi
despedido sob a acusação de, quási ladrão, acusação
que não se provou em tribunal, tendo o Sr. PIRES
DA ROCHA e a direcção sendo condenados a
pagarem-lhe uma indemnização de perto de
10.000$00.
Tendo a Comissão da U.N. deste concelho
enviado, recentemente, ao Grémio da Lavoura
uma lista para ser preenchida pelos
funcionários que quisessem – à semelhança do
que fez com as outras repartições – esse Snr.
ROCHA e o tal gerente, enviaram -na, creio
que «confidencialmente» para Lisboa,
acusando a Comissão da U.N. de «rasteira
política», etc, etc, etc.
Estamos num momento crítico em que é necessário ter
nos «pontos estratégicos» da política, elementos de toda
a confiança.
Ora o Grémio da Lavoura de Condeixa, com larga
projecção no concelho, está entregue a elementos que não
são de confiança e por isso, antes que seja tarde, eu peço
a V. Ex.ª se digne mandar informar-se a fim de que
uma instituição do Estado Novo não seja,
exactamente, o baluarte político do Estado Velho.
Creia-me V. Ex.ª com toda a consideração»125

De facto, a oposição parece marcar pontos na sua


estratégia de ocupação de lugares considerados de
influência política, nomeadamente, como refere,
desiludido, Fernando Rebelo, nas instituições do
próprio Estado Novo, onde deveriam estar presentes
pessoas de confiança, que seriam garantes dos
objectivos eleitorais do regime de Salazar.
Revelam-se interessantes, por outro lado, os laços
familiares entre elementos, muito activos, da
oposição em Condeixa, com o seu contacto e ligação
à cidade de Coimbra, Manuel Deniz Jacinto. Este,
por sua vez, tem laços com o médico Fernando Valle,
conhecido opositor na região de Arganil. Mas é,
igualmente, genro de um homem do regime, o
tenente Beato, presidente da União Nacional e figura
de referência do regime em Condeixa. No entanto,
como veremos, os laços de família falarão alto e o
tenente Beato agirá, por vezes, de modo a criar
amargos de boca aos situacionistas de Condeixa.
Utilizando, até agora, apenas revelações que
chegam à PIDE através de denúncias e informadores
(refiro-me, no caso dos informadores, a pessoas que
trabalham para a PIDE, recebendo salário, isto para
fazer a distinção dos denunciantes, que acabam por
ser igualmente informadores mas, de forma ocasional
ou sem vínculos efectivos), relembro que, pelo
menos até ao início da década de 50, os efectivos da
polícia política eram muito escassos. Um estudo de
Maria da Conceição Ribeiro126 aponta para cerca de
400 elementos, no ano de 1945, segundo as
estimativas mais credíveis. Neste contexto, a
colaboração da PSP, da GNR, da Guarda Fiscal, da
Legião Portuguesa, dos Governadores Civis, dos
Presidentes de Câmara e de outros responsáveis
concelhios, era fundamental, face à deficiente
cobertura do território nacional por parte da PIDE.
Assim, em grande parte dos casos, são as autoridades
locais e a Legião Portuguesa, que fazem as denúncias
dos indivíduos considerados subversivos ou,
potencialmente subversivos, já que comunicavam à
polícia situações como a existência de conversas
suspeitas em locais públicos, hábitos como usar
vestuário vermelho ou não frequentar a missa, caindo
num nítido exagero. Mas, é um facto, conforme
vimos nos relatórios já referidos, como nos que
vamos ainda citar, que estas informações permitiram
à PIDE ter referenciados, praticamente, todos os
elementos da oposição ao regime, desde os mais
activos aos menos empenhados, podendo a polícia
política actuar contra aqueles quando assim
entendesse, como efectivamente o fez, conforme
veremos alguns exemplos.
Um dos nomes referidos na denúncia que
acabámos de ver é o do professor primário António
Mateus, nome ligado, desde sempre, à oposição ao
regime em Condeixa, sendo este, um bom exemplo
do que o regime podia fazer aos seus opositores.
António Augusto Mateus nasceu em Condeixa-a-
Nova, em 21 de Dezembro de 1910. Foi professor
primário durante cerca de 16 anos, tendo exercido na
Escola Masculina desta localidade. Muito estimado
em Condeixa, ainda hoje se realiza, anualmente, um
almoço-convívio entre os seus antigos alunos.
A consulta dos seus processos da PIDE permite
traçar algumas linhas sobre aspectos importantes da
sua vida como oposicionista ao regime, desde logo, a
interrupção da sua carreira como professor.
De facto, o seu apoio à candidatura do General
Norton de Matos, nas eleições para a Presidência da
República, veio a tornar-se um facto marcante na sua
vida, pois valeu-lhe o afastamento do ensino. Um
despacho do Conselho de Ministros, de 12 de
Setembro de 1949, publicado no Diário do Governo,
ainda nesse mês, ao abrigo do art.º 1.º do Decreto-
Lei n.º 25317, de 13 de Maio de 1935, formalizava a
situação.
Confrontado com esta realidade, em 22 de
Setembro de 1949, o Prof. Mateus apresenta uma
reclamação, acompanhada de um abaixo-assinado,
negando pertencer a qualquer núcleo de resistência
contra o Estado ou a autoria de qualquer acto que
pudesse perturbar o mesmo.127
Face a esta reclamação, em 11 de Outubro de
1949, o Serviço de Cadastro e Informativo da PIDE
instrui o chefe da delegação da PIDE de Coimbra,
para que procedesse a minuciosas averiguações sobre
a idoneidade moral e política do Prof. Mateus,
conforme o solicitado pela Secretaria da Presidência
do Conselho.
Ainda nesse dia, o responsável da Delegação de
Coimbra, incumbe um chefe de brigada de efectuar
diligências com vista ao cumprimento do solicitado.
No dia seguinte, pede igualmente ao Governador
Civil de Coimbra para que forneça todas as
informações que ali existam sobre o Prof. Mateus. O
Governo Civil dará nota da existência de dois
requerimentos, de finais de 1945, onde os signatários
(entre os quais o Prof. Mateus) solicitavam
autorização para efectuar uma reunião, cuja
organização pertencia à comissão concelhia do
MUD. Quanto ao chefe de brigada, não tem dúvidas
de que o Prof. Mateus é «elemento possuidor de
ideias avançadas, não pactuando, de maneira alguma,
com qualquer coisa que seja do Estado Novo»,
apontando-o como activo oposicionista na campanha
eleitoral do ano de 1945 e também no apoio à
campanha «nortista», em 1949.128
A reclamação não foi atendida.
Afastado do serviço veio a fixar residência em
Coimbra, na rua D. Manuel Bastos Pina, 15 – 1.º.
Aqui, concluiu o Curso dos Liceus e, posteriormente,
a licenciatura em Direito, em 1957.
Em Agosto de 1957, o Prof. Mateus vê-se na
necessidade de enviar nova exposição, para que fosse
revisto o processo de inquérito e lhe fosse dada a
possibilidade de cumprir o estágio legal, para poder
ser admitido a concurso de notário e conservador.
No seguimento da exposição, em 22 de Outubro
de 1957, a PIDE solicita ao Inspector-Adjunto José
Barreto Sachetti, que informe aquela Direcção sobre
o porte moral e político do Prof. Mateus. A resposta
segue a 12 de Novembro. Desta vez, o relatório
refere que não lhe são conhecidas actividades
políticas, quer durante o curso universitário, quer na
última campanha eleitoral, pelo que «é de admitir que
se tenha operado uma transformação política na sua
forma de pensar acerca das Instituições Vigentes».
Ainda na sequência do exigido no ofício da PIDE,
dirigido à Delegação de Coimbra em 27 desse mês, o
Prof. Mateus é chamado a prestar declarações
perante Sachetti, onde declara, no respectivo «Auto»,
«não ter quaisquer actividades políticas que
hostilizem as Instituições vigentes e que vive
absolutamente para os seus afazeres profissionais e
sua família». Assim, o Prof. Mateus efectuará o
estágio pretendido.129
Mas, no seu processo, podemos ainda encontrar,
em Julho de 1959, novas solicitações da PIDE para a
sua Delegação de Coimbra (mas com origem na
Direcção Geral dos Registos e Notariados) pedindo
que se averiguasse o seu porte moral e político, para
efeitos de admissão a Conservador (interino) do
Registo Civil de Oleiros. Desta feita, Sachetti, após
solicitar informação ao Presidente da Câmara
Municipal de Condeixa e de se socorrer, também, de
uma informação do célebre «Inácio» (informador da
PIDE em Coimbra), responde reiterando a validade
da informação já enviada em 1957, onde se dizia nada
constar em seu desabono, quanto ao seu porte moral
e político.130
Apesar de lhe ser permitido, superiormente, o acesso ao
estágio e concurso referidos e de, nas averiguações efectuadas
nada lhe ser apontado, a PIDE parece usar da máxima
«suspeito uma vez, suspeito sempre».
Assim, em 1960, uma informação da
Subdelegação da PIDE de Coimbra, após a
publicação no Diário do Governo da nomeação do
Prof. Mateus como Conservador do Registo Civil e
Predial de Condeixa-a-Nova, regista o regozijo dos
elementos da oposição de Condeixa com esta
nomeação e o facto de, sempre que o Prof. Mateus se
deslocava a Condeixa, ser «assaltado» imediatamente
pela falange da oposição aqui residente.131
Também, em 1962, uma outra informação desta
Subdelegação dá nota das «demoradas» conversas
«escolhendo locais menos movimentados» em
Coimbra, entre o Prof. Mateus e o Prof. Alexandrino
Ribeiro, após regressarem de Condeixa, onde ambos
trabalhavam.132
Vejamos: o simples apoio a um candidato da
oposição a eleições, que o regime dizia livres, numa
pequena vila de Portugal (sabendo-se que as
principais acções e a maior mobilização e visibilidade
da oposição, eram patentes apenas nas principais
cidades do país) podia ser o suficiente para valer a
demissão da função pública.
Lembremo-nos que os quadros que ingressavam
na função pública eram obrigados, sob juramento, a
repudiar formalmente o comunismo e à aceitação da
ordem social estabelecida pela Constituição Politica
de 1933, segundo o Decreto-Lei nº 27.003, de
Setembro de 1936. Era esta a formula que um
funcionário tinha que subscrever: «Declaro por
minha honra que estou integrado na ordem social
estabelecida pela Constituição Política de 1933, com
activo repúdio do comunismo e de todas as ideias
subversivas».
Mesmo os cidadãos que não eram comunistas,
mas eram considerados «desafectos» do regime ou,
tão só, suspeitos de o serem ou terem sido, podiam
ser punidos com a não contratação. Aliás, o Decreto-
Lei nº 25.317, de 13 de Maio de 1935, com base no
qual foi afastado do ensino o Prof. Mateus, dizia no
seu artigo primeiro: «Os funcionários ou empregados,
civis ou militares, que tenham revelado ou revelem
espírito de oposição aos princípios fundamentais da
Constituição Política, ou não dêem garantia de
cooperar na realização dos fins superiores do Estado,
serão aposentados ou reformados, se a isso tiverem
direito, ou demitidos em caso contrário».
Como se vê, ainda antes da utilização de duas das
instituições que foram pilares fundamentais do
Estado Novo e muito contribuíram para o longo
período de vigência deste, como são os casos da
PIDE, punindo quem ousava pôr em causa o regime,
ou da Censura, silenciando as opiniões discordantes,
já antes, por via administrativa, através das leis, se
conseguia dominar, de forma eficiente, a maior parte
do país.
Mas, vejamos também, o caso do condeixense António
Pocinho que, na campanha para as presidenciais, de 1949,
participou, juntamente com outros seis ou sete rapazes, na
colagem de cartazes do candidato apoiado pela oposição,
General Norton de Matos. Acontece que, durante a noite, os
cartazes afixados por Condeixa do candidato do regime, o
Marechal Carmona, apareceram todos sujos com excrementos.
Embora, António Pocinho afirme que não teve nada a ver
com o assunto133, a verdade é que foi chamado à GNR, pois
julgavam que ele era um dos responsáveis. Presente no Posto
esteve, também, o Presidente da Câmara de Condeixa,
Fernando Rebelo. Foi depois chamado à delegação da PIDE,
de Coimbra, onde foi interrogado pelo agente Eurico Geraldo,
que queria saber quem sujou os cartazes. António Pocinho
disse que não sabia. De facto, na nossa conversa, confirmou
ainda hoje não saber quem foram os autores daquele acto.
Enfim, depois de uma troca de palavras mais azedas com o
agente da PIDE, A. Pocinho teve coragem para dizer, entre
dentes, « e estamos nós no século vinte», o que lhe valeu um
soco na boca.
Certo é que, seis ou sete anos depois, por volta de
1955 ou 1956 (não consegue precisar), A. Pocinho
queria obter um trabalho que lhe desse mais e
melhores garantias, tendo-se candidatado a um
emprego nas Finanças. No entanto, foi excluído de
prestar provas, por motivos políticos, face ao seu
apoio à candidatura de Norton de Matos, conforme
informação vertida no Diário do Governo.
Fez, então, uma exposição a Salazar sobre o
assunto, tendo, posteriormente, recebido autorização
para prestar provas. Foi admitido em 1956, seguindo
para a Ilha Terceira, nos Açores, onde exerceu as
suas funções. A verdade é que, apenas conseguiu o
emprego, devido à acção do Tenente Beato,
Presidente da União Nacional, em Condeixa. Este,
sempre que ia fornecer-se de mantimentos à firma
Pinheiro & Viseu, armazém onde A. Pocinho
trabalhava, dizia-lhe para ele se filiar na União
Nacional., se quisesse obter um emprego público.
Nessa altura, A. Pocinho inscreveu-se. E, quando fez
a exposição a Salazar, alegou ser membro da União
Nacional., tendo o Tenente Beato emitido um
documento com a respectiva confirmação. Foi isso
que lhe valeu o trabalho nas Finanças, encontrando-
se, hoje, reformado deste serviço.
Outro habitante de Condeixa que sofreu na pele a
repressão do regime, foi o médico João Ribeiro. Sem
dúvida, o maior dinamizador da oposição ao regime
nesta vila, várias vezes preso pela PIDE, com
dezenas e dezenas de relatórios de informadores da
polícia política, homem sem medo, como já não se
usa, foi um nome transversal no tempo, em termos
de luta contra o regime em Condeixa.
Companheiro e amigo de Alberto Vilaça
(frequentaram ambos a Universidade de Coimbra) é
referenciado, por este, como um activo e irrequieto
elemento no meio universitário coimbrão, entre, pelo
menos, 1946 e 1953.
Membro do MUD Juvenil integra, desde 1949, os
órgãos directivos da Universidade, tendo estado
presente na reunião dos representantes das comissões
das três Academias (Lisboa, Porto e Coimbra),
realizada no dia 21 de Outubro de 1951, onde se
instituiu o Dia do Estudante.134
Durante a campanha presidencial do General
Norton de Matos, em 1949, os membros do MUD
Juvenil, incluindo João Ribeiro, tiveram importante
participação na propaganda eleitoral. Com dois
comícios realizados em Coimbra, em Janeiro e
Fevereiro, os elementos do MUD Juvenil cobriram as
paredes na cidade com a colagem de cartazes e
panfletos, frequentes vezes ao longo das noites, com
grande azáfama e aparato de baldes, cola, pincéis,
escadotes e maços de cartazes. João Ribeiro esteve,
igualmente, no comício de apoio ao general realizado
na Quinta da Fonte da Moura, no Porto.135
O MUD Juvenil já tinha, de resto, alguma tarimba
para este género de acções. Face à repressão do
Estado Novo e para além de recorrer a abaixo-
assinados ou à distribuição de documentos, era usual
a recorrência às inscrições murais a tinta de óleo e
nitrato de prata, visíveis não só em Coimbra, mas,
igualmente, em Condeixa e na Figueira da Foz, bem
como em outras zonas. Pela descrição de Alberto
Vilaça, um dos participantes nestas acções,
juntamente com João Ribeiro, o nitrato de prata
comprava-se «às escondidas» numa farmácia, diluía-se
em água e, seguidamente, as frases eram pintadas.
Estas ficavam ilegíveis, já que estas acções decorriam,
por norma, durante a noite e só pela manhã, com a
luz do dia, ocorria a reacção química que tornava as
letras bem visíveis.136
O MUD, por finais dos anos 40 e, mais
concretamente, entre 1950 e 1953, estava implantado
na Universidade de Coimbra e em alguns meios
trabalhadores e colectividades desta cidade, bem
como em meios operários do concelho da Figueira da
Foz, com ligações asseguradas por correio, comboio
e, mais localmente, por bicicleta. Mas, havia também
outros contactos, designadamente em Condeixa.
Ainda segundo Alberto Vilaça, as ligações a Condeixa
existiam já desde os primeiros anos do MUD, numa
rede que abrangia, para além de Coimbra (o elemento
central) e a Figueira da Foz, algumas localidades do
distrito de Viseu e Guarda.137
João Ribeiro era a figura central da oposição em
Condeixa. Quando se encontrava na vila era um
autêntico furacão mobilizador e agregador de
vontades contra o governo de Salazar. Se, em
Coimbra, como sabemos, os aderentes do MUD ou
da oposição, de um modo global, se juntavam nos
cafés da baixa da cidade, como o Café Brasileira, o
Café Montanha, o Café Nicola, entre outros vários
locais, onde se combinavam encontros e outras
actividades de índole diversa, em Condeixa, embora
haja nos processos da PIDE referências ao Café
Livraria Conímbriga, ao Café Imperial ou ao Café
Faia Bar, toda a gente sabe, ainda hoje, que as
reuniões da oposição ao regime se realizavam em
casa de João Ribeiro. De facto, podemos comprová-
lo, não só pelos abundantes testemunhos orais, como
pelos inúmeros documentos da PIDE que se
encontram na Torre do Tombo, nomeadamente pela
autêntica «marcação cerrada» do informador
«Morcego», que residia em Condeixa e que produziu
fartura de relatórios sobre o médico condeixense.
As entrevistas que venho realizando não deixam
dúvidas: oposição em Condeixa, sensibilização e
captação de jovens, reuniões, planeamento de acções,
organização, têm por detrás o médico João Ribeiro.
Por exemplo, Miguel Pessoa afirma que, quando
tinha 19 anos, passou a alinhar com a oposição,
sobretudo por influência de João Ribeiro,
participando em sessões clandestinas em Condeixa,
Coimbra, Arganil e Marinha Grande, lembrando-se
bem das reuniões em casa do médico, nomeadamente
no seu consultório.
António Pocinho confirma a grande influência de
João Ribeiro e relembra a formação de uma
biblioteca do MUD, em sua casa, quando tinha 20 ou
21 anos, após uma reunião com João Ribeiro, no seu
consultório, uma das várias em que participou. Os
livros, cerca de 200, ficaram em sua casa e de seus
pais, na Rua do Outeiro. Era no 1.º andar que
funcionava a biblioteca, onde se situava a sala de
jantar, existindo ainda um biombo que fazia uma
divisão, que servia de quarto para António Pocinho.
No rés-do-chão da casa, existia uma oficina de
marcenaria, que era propriedade do seu pai. António
Pocinho trabalhava mesmo em frente à sua casa, na
firma Pinheiro & Viseu, onde alguns rapazes iam ter
consigo para requisitar livros da biblioteca.
A acção do médico João Ribeiro, que vimos
referindo desde finais dos anos 40 e inícios da década
de 50, mantém-se na década de 60 e na década de 70.
Uma denúncia enviada ao director da PIDE por um
condeixense, datada de 19 de Novembro de 1962, é
bem elucidativa quanto à capacidade e dinâmica de
acção do médico João Ribeiro, ao mesmo tempo que
são reafirmadas as críticas à União Nacional, que já
vimos atrás, com as informações chegadas à PIDE
referentes ao ano de 1948, sendo, desta vez, uma
crítica mais específica, aludindo, em concreto, ao
presidente concelhio da União Nacional, o Tenente
José Pires Beato:

«Excelentíssimo Senhor Major e meu sempre querido


Director:
Ao tomar a liberdade de me dirigir a V. Ex.ª, com o
devido respeito peço o maior perdão.
Mas, sinto-me na obrigação de, com a mesma lealdade
de sempre, informar V. Ex.ª, o desgostoso, que reina
neste concelho, dos Nacionalistas com o Chefe Político
Snr. Tenente JOSÉ PIRES BEATO, Presidente da
Comissão Concelhia da União Nacional.
O cavalheiro em referência é um indivíduo que só tem
feito asneiras, sem escrúpulos, persegue os situacionistas
e defende os oposicionistas.
Além das várias asneiras que tem vindo a fazer,
acontece que no passado dia 14 de Novembro corrente,
desloca-se, muito em segredo, a Lisboa, na companhia
d‘alguns reviralhistas de Condeixa e Coimbra, para defender –
segundo dizem na instrução contraditória – no processo em
organização na Polícia Internacional contra o médico Dr. João
Ribeiro, que se encontra detido.
Ora, o Dr. JOÃO RIBEIRO, já é conhecido o
suficiente da Polícia e, sem dúvida, trata-se de um
adversário perigoso, que tem «minado» toda ou quasi
toda a mocidade deste concelho, grande propagandista
das suas ideias Políticas, desenvolve grande actividade a
quando das eleições, dificultando o trabalho, reúne-se
com os do seu Partido várias vezes, etc.
Por intermédio da imprensa viemos também a saber
que o Dr. J. RIBEIRO, estava ligado ao Partido
Comunista, o que mais revoltou os Nacionalistas.
E, com espanto geral, aparece o Tenente BEATO,
Presidente da União Nacional, que se desloca a
Lisboa com os reviralhistas, a defender tal
indivíduo.»138

Como se vê, causa estranheza aos situacionistas,


pelo menos aos mais fervorosos, algumas atitudes do
Tenente Beato. Já atrás, tínhamos dado breve nota,
em relação às ligações familiares, que podiam ainda
ser reforçadas com outros laços de amizade entre as pessoas de
Condeixa ou da região. O autor desta denúncia relembra aqui,
essas conexões familiares e as amizades existentes, que
poderiam, inclusivamente, face ao prestígio das pessoas em
questão, ser um factor inibidor para os apoiantes do regime em
Condeixa tomarem acções mais concretas e incisivas. Vejamos
mais um pequeno excerto desta informação enviada à PIDE:

« O Tenente BEATO é sogro dos Dr. MANUEL


JACINTO, que há tempos respondeu e ficou
condenado por actividades subversivas, e do Dr. LUÍS
VALE, Professor e marido da Directora do Colégio
nesta vila, e este é filho do médico em Arganil, Dr.
VALE, que há meses, segundo consta, também foi
detido pela Polícia. Quer o Dr. VALE ou o pai, são
elementos declaradamente da oposição.
Os situacionistas neste concelho já por várias vezes,
pensaram fazer um abaixo assinado para que o
Tenente BEATO fosse imediatamente demitido do
cargo de Presidente da U.N., mas têm receio das
represálias, pois é, protegido também do Professor Dr.
BYSSAIA BARRETO.
A propósito, tomo a liberdade de invocar o nome do
Exm.º Senhor Dr. FERNANDO REBELO, que
mais minuciosamente, poderá informar V. Ex.ª das
qualidades do Tenente BEATO.
É pelo exposto que me apresso a informar V. Ex.ª,
pois os Nacionalistas estão a desinteressar-se de tudo, e
de tal modo que não querem saber de nada, que se
relacione com os interesses da Nação, pois a maior
parte sente-se envergonhado com as atitudes que o
Tenente BEATO tem vindo a assumir e a
desenvolver.»139
Acrescente-se que, já um pouco antes de 1962, ano que data
este documento, mais concretamente em 17 de Julho de 1960,
uma informação do escriturário da PIDE, de nome Serrano,
sob o título «Informações policiais sobre Condeixa», a
propósito da nomeação de Antero Simões Bernardes para 1.º
Secretário do Clube de Condeixa, dava conta de que o cidadão
Antero Bernardes estava ligado à oposição e, se esta nomeação
havia sido sancionada, não seriam alheios a esta situação o
Presidente da Câmara, que era, neste período, Evaristo Cerveira
de Moura e, de novo, o Tenente Beato. Estes dois,
aparentemente, tentam defender-se sobre quem tinha dado
uma avaliação política favorável de Antero Bernardes,
indispensável para aceder ao cargo, empurrando ambos a
responsabilidade para cima do outro. Veja-se o referido
documento policial que parte, inicialmente, de uma notícia de
jornal:

«Para conhecimento de V. Ex.ª a seguir tenho a honra de


transcrever uma notícia publicada no jornal «Expansão», do qual é
colaborador o Capitão CONCEIÇÂO, indivíduo conhecido
como não afecto à actual Situação:
«Foi com muita satisfação que recebemos a notícia de
que o Sr. Ministro da Educação Nacional homologou
a eleição em que a Assembleia Geral do Clube de
Condeixa escolheu, por unanimidade, para o cargo de
seu 1.º secretário, o nosso prezado amigo Sr.
ANTERO SIMÕES BERNARDES, pessoa que
pelos seus dotes morais e de generosidade se tem sabido
impor à estima e consideração de todos os bons
condeixenses. Como não podia deixar de ser o Senhor
Ministro da Educação Nacional, ao homologar a
nomeação daquele nosso amigo corrigiu, e muito bem, o
erro que injustamente se havia cometido. Pelo facto,
está de parabéns não só o Sr. ANTERO SIMÕES
BERNARDES, mas também o concelho e o Club de
Condeixa.»
Cumpre-me dar conhecimento a V. Ex.ª que, o
ANTERO BERNARDES no ano findo, por
informação política, segundo creio, não foi sancionado
superiormente para os corpos gerentes daquele Club.
O BERNARDES na campanha eleitoral finda
desenvolveu franca actividade a favor da «oposição»,
quer em distribuição de propaganda, quer ainda
transportando no seu automóvel correligionários para
onde a sua presença se fazia sentir.
Mais uma vez a camada da oposição se regozijou com
a nomeação de tal indivíduo, o qual apregoa possuir
uma credencial de Sua Excelência o Ministro da
Educação Nacional.
Por último cumpre-me ainda levar ao conhecimento de V. Ex.ª, que o Sr. Presidente da
CâmaradeCondeixa,Dr.EVARISTOCERVEIRADEMOURA,
emplenaPraçadaRepública,daquelavila,acompanhacomosconhecidoselementosactivosde
combateaoEstadoNovo,ANTEROSIMÕESBERNARDES,LUÍS
SIMÕESDIASCARDOSODOVALE,ARTURVARELA,
JOÃO PIMENTEL DAS NEVES, ANTÓNIO POCINHO
CHITA (NICO), CARLOS PEÇA, CARLOS PRECES
JACINTOeFERNANDOPRECESJACINTO.
Consta que a informação política de ANTERO
SIMÕES BERNARDES para efeito do cargo que
agora vai desempenhar na direcção do Club de
Condeixa, foi fornecida pelo Sr. Tenente BEATO em
colaboração com a Câmara Municipal.
Sucede que, após terem conhecimento que o seu nome foi sancionado,
o Sr. Tenente BEATO diz que a informação foi prestada pelo Sr.
Presidente da Câmara Dr. CERVEIRA DE MOURA e,
este, por seu turno, diz que foi o Sr. Tenente BEATO quem
forneceu a informação.»140

São muito curiosas estas situações em que, figuras


com responsabilidades políticas em organismos
conotados com o governo, nomeadamente o partido
que o apoia, tem acções tendentes a ajudar elementos
desafectos do regime ou mesmo ligados à oposição a
este e, por outro lado, também, verificar as reacções
que se lhe sucedem, por parte dos adeptos do regime.
Se saltarmos no tempo, do início dos anos 60,
datas a que se vinculam estes dois últimos
documentos, para os anos 70, verificamos que é o
médico João Ribeiro que continua na linha da frente
da oposição ao regime em Condeixa. Um período
concreto, produziu bastante informação para a PIDE
sobre a oposição em Condeixa: as comemorações do
5 de Outubro, em 1973, já nas vésperas do final do
Estado Novo. Em relatório, produzido pelo
informador «Morcego», sobre este assunto, podemos
aferir do grau de pormenor das notícias que chegam
à sede da PIDE, em Lisboa, já que estas informações
serão dactilografadas pelo sub-inspector Sérgio
Avelino Pereira para o chefe da polícia política da
delegação de Coimbra, Armindo Ferreira da Silva141,
que, por sua vez, as remete para a sede. O nome das
pessoas presentes, o que disseram, quem e como
prepararam esta comemoração, todos os pequenos
pormenores, como por exemplo, onde se foi buscar
determinado material, quem o emprestou, quem lá
foi, etc, etc., está ali tudo e quase dispensa qualquer
investigação policial adicional. Aliás, refira-se que, em
mais de 100 processos por mim analisados, na
investigação realizada para o trabalho sobre
Fernando Namora, nunca vi um relatório efectuado
por uma brigada da PIDE que se assemelhasse aos
produzidos pelos informadores, no que respeita à
validade e ao pormenor da informação. Parece-me
normal, pois o informador, muitas vezes, como no
caso presente, estava infiltrado na própria
organização ou alinhava com a oposição nas suas
acções, sendo uma parte integrante e, muitas vezes,
activa da mesma.
Este relatório prossegue, para além do assunto das
comemorações do 5 de Outubro, com outras informações
avulsas, relacionadas ou não, com o assunto central.
Transcrevemos aqui, apenas, a primeira parte deste documento,
onde se faz referência à efeméride acima designada:
«Cópia de uma informação de Morcego de 21-10-
1973
Os meus cumprimentos
Em seguimento das nossas conversas, informa:
1.– 5 de Outubro: Na parte da tarde deste dia, o
BANDEIRA (funcionário dos CTT – guarda-fios,
natural do lugar do Sobreiro, residente em Condeixa,
casado 2.ª vez com uma mulher conhecida por
«CAVACA») acedeu ao pedido formulado pelo Dr.
João Ribeiro para nos conduzir no seu automóvel a
Soure. Nesta localidade, contactámos, na firma Roxo
& Cera, com José Silvestre, de Condeixa, que, na
própria oficina e imediatamente, desenhou três cartazes
com os dizeres seguintes:
«Amnistia»
«Viva o Povo Português Livre»
«Paz Sim, Guerra Não»
os quais foram colocados nas paredes do Café Faia-
Bar, em Condeixa, bem como a Bandeira Nacional
que o CARLOS PEÇA (pai) conseguiu arranjar.
O referido BANDEIRA emprestou, a meu pedido,
um pequeno aparelho de «Sasseti» [sic] onde gravaram
os discursos e intervenções feitas no final do jantar que
no Faia-Bar ali se realizou pelas 21 horas.
Presentes mais de 150 pessoas que iam aparecendo com
o pretexto de tomar a «bica». Destacava-se a presença
de JOSÉ MARTINS, JOAQUIM CORREIA,
ambos da Figueira da Foz; Dr. ORLANDO DE
CARVALHO, MISARELAS (Deputado pela
Oposição Democrática); JORGE (estudante), de
Coimbra; VILAR, (que gravou absolutamente tudo,
utilizando um aparelho de grandes dimensões), uma
filha do ROSA E. (proprietário de uma retrosaria
sita nas Escadas do Gato – frente à Casa Viriato) de
Coimbra.
De Condeixa: MARIA PENA, MANUEL
BRANQUINHO (seu namorado), CARLOS
PEÇAS (pai e filho), JOSÉ PESSOA,
ANTÓNIO MENDES DA CRUZ,
MANUEL FONTES, ANTÓNIO
CANICEIRO DA COSTA, JOÃO
POCINHO, JÚLIO DOS SANTOS, filho de
MANUEL DOS SANTOS OLIVEIRA (O
NICHA), CURTO (conhecido pelo filho do
PARENTE), funcionário da Secção de Finanças, do
lugar do Sebal Grande; JOAQUIM
GORGULHO, muitos jovens estudantes de ambos os
sexos, quer de Condeixa, quer de Coimbra.
O Dr. JOÃO RIBEIRO principiou por ler uma
mensagem de saudação do Movimento Democrático de
Coimbra; em seguida recordou os que, em 1910,
sacrificaram a própria vida por um Portugal Livre.
Depois usou da palavra JOSÉ MARTINS, da
Figueira da Foz, para dizer que já vai sendo tempo de
acabar com o «medo» imposto pelo fascismo. Procedeu-
se à votação sobre o assunto a debater e todos optaram
pelo da «Guerra no Ultramar». O Dr. RIBEIRO,
JOSÉ MARTINS, ORLANDO DE
CARVALHO, JOAQUIM CORREIA,
VILAR, um indivíduo também da Figueira da Foz
que cumpria o serviço militar na Guiné, CARLOS
PEÇA (pai), JORGE (falando em nome do
Movimento Estudantil) disseram que a Guerra no
Ultramar devia terminar imediatamente, mediante
negociações com os Movimentos de Libertação, pois a
guerra «destrói a nossa juventude em benefício dos
fascistas que acumulam riquezas e oprimem os povos».
O CURTO (funcionário das Finanças em Condeixa)
observou que, a ida às urnas, se obteria agora
confirmação se a guerra no Ultramar deve ou não
continuar. O Dr. JOÃO RIBEIRO e o Dr.
ORLANDO DE CARVALHO disseram que as
eleições são uma farsa, que a forma como os cadernos
eleitorais se encontram elaborados nunca o povo pode
testemunhar a sua vontade. Basta «sabermos que em
França se encontram 60 mil portugueses a ganhar o
seu pão, já que isso lhes é negado na sua Pátria».
O Dr. JOÃO RIBEIRO tem contactado de perto
com os indivíduos da Figueira da Foz, localidade onde
esteve nas noites dos dias 4 e 12 do corrente.
Encontra-se em seu poder a «casseti» (do gravador que
o BANDEIRA emprestou), a qual contém a
gravação de todas as intervenções mas, como tenho dito,
sempre que insisto para que ela me seja cedida, o Dr.
RIBEIRO diz «qualquer dia à noite, vamos ouvir,
pois está muito boa a gravação». Vejamos se consigo o
combinado.
[…]
Coimbra, 23 de Outubro de 1973"142.

Por agora, ficamos sem saber se, de facto, o


«Morcego» conseguiu ficar na posse do gravador para
fornecer à PIDE. Ficará para depois, a revelação de
muitas outras informações relativas a acções da
oposição, aos nomes das pessoas envolvidas e a
pequenas histórias da vila, por vezes ocorridas nos
cafés, como o de António Miro, e que se encontram
documentadas nos arquivos da PIDE/DGS.
Para concluir, saliente-se, como refere Miguel
Pessoa, que as acções da oposição em Condeixa,
aliás, à semelhança do que acontecia um pouco por
todo o país, resumiam-se, essencialmente, às épocas
de eleições ou aos períodos em que se comemorava
determinada efeméride, como vimos no caso das
comemorações do 5 de Outubro, em Condeixa.
Existindo actividades (e falamos das mais visíveis)
apenas em determinadas alturas, como os períodos
eleitorais, que justificavam maior mobilização de
pessoas e meios de acção, as iniciativas e a
participação das pessoas nas mesmas, tinham que ser
espaçadas no tempo, com longos hiatos e até, quando
a situação política o exigia e a Censura e a PIDE
aumentavam a repressão, resultavam numa quase
completa inacção.
Deve-se ter também a noção, quando nos
referimos à oposição, da elasticidade do conceito, no
tocante aos seus elementos. A noção não era muito
clara. O simpatizante implicava uma certa ligação e
alguma colaboração, com alguma regularidade,
distinguindo-se dos aderentes, mais solidamente
organizados ou dos meros apoiantes (que se podem
confundir com simpatizantes), que apenas
participavam em determinadas actividades específicas
e esporádicas. As fronteiras são ténues. Mas,
voltaremos ao assunto.
As Irmãs Hospitaleiras
do Sagrado Coração de Jesus em
Condeixa

José Amado
A Casa de Saúde Rainha Santa Isabel

A Vila de Condeixa acolhe no seu seio, há cerca de


cinquenta anos, uma Instituição que se orgulha de ser uma das
mais relevantes instituições de Saúde Mental do País: a Casa de
Saúde Rainha Santa Isabel (CSRSI).
Com efeito, remonta aos anos finais da década de cinquenta
do século passado a fundação desta Casa de Saúde, pertença do
Instituto das Irmãs Hospitaleiras do Sagrado Coração de Jesus,
e um dos 14 centros hospitaleiros que a referida Congregação
Religiosa possui em Portugal.
A presença da Congregação em Portugal data de
1894, ano em que foi fundada a primeira Casa na
Idanha, Belas, Concelho de Sintra. A constituição da
«Província Portuguesa de Nossa Senhora de Fátima»
ocorreu em 27 de Outubro de 1946 e tem a sua sede
social em Lisboa. Esta Província Hospitaleira é
constituída por 15 comunidades religiosas que
desenvolvem a sua acção em 14 Centros distribuídos
por Portugal Continental, Regiões Autónomas dos
Açores e Madeira e ainda o País Lusófono de
Moçambique.143
A missão hospitaleira que professam desenvolve-
se nas áreas da Saúde Mental: psiquiatria,
psicopedagogia, psicogeriatria, gerontopsiquiatria,
toxicodependência e reabilitação psicosocial.
Responde, ainda, a outras áreas da saúde segundo as
necessidades de cada tempo e lugar, dando
preferência aos mais pobres e desfavorecidos.
Procura conciliar os avanços técnico-científicos com
o critério da centralidade e dignidade incondicional
da pessoa, promovendo um modelo terapêutico
integral que contempla as áreas da prevenção à
reabilitação e reinserção sócio-profissional.
A sua missão é levada a cabo em Centros próprios
(dispõe, em Portugal, de um total de 2.800 camas de
internamento) e em colaboração com instituições
públicas ou da Igreja. A sua actividade orienta-se
pelos critérios do Evangelho e da ética cristã,
procurando oferecer o melhor que é possível à
pessoa que sofre, verdadeiro centro da sua Acção.
A Congregação das Irmãs Hospitaleiras do
Sagrado Coração de Jesus foi fundada em 1881 em
Ciempozuelos, próximo de Madrid e surgiu como
resposta à situação de exclusão social e abandono no
campo da saúde das doentes mentais da época. Os
seus fundadores Bento Menni144, Maria Josefa Récio e
Maria Angústias Giménez sentiram-se chamados por Deus
a criar uma instituição religiosa feminina que desse uma
resposta humana, técnica e espiritual a essa necessidade social.
A amplitude do problema fez com que os primeiros tempos
fossem particularmente difíceis. A falta de meios e de recursos
económicos e assistenciais foi mitigada com a entrega gratuita
das Irmãs e de numerosos colaboradores.
Desde a sua fundação, a Congregação sublinhou
entre os seus objectivos proporcionar aos doentes e
acolhidos nos seus Centros uma oferta de saúde
integral que inclui os aspectos físicos, psíquicos,
sociais, éticos e espirituais. Realçou neles o carácter
eminentemente humanista e enfatizou a sua
qualidade relacional e respeito pelos direitos da
pessoa.

Trata-se de «curar» a pessoa na sua totalidade,


reinserindo-a na sociedade, integrando-a nas redes de
saúde e de recursos públicos e devolvendo-lhe a
dignidade a que tem direito.

A Missão apostólica das Irmãs Hospitaleiras


centra-se, assim, no acolhimento, assistência e
cuidado especializado de saúde integral dos doentes
mentais, deficientes físicos e psíquicos e doentes de
outras patologias, de acordo com o carisma
fundacional.
Para dar resposta a este Compromisso são necessárias
pessoas verdadeiramente comprometidas com quem sofre,
imbuídas de qualidades que as torne membros da Comunidade
Hospitaleira: respeito pela pessoa e defesa dos seus direitos; especial dedicação
aos que mais sofrem e estão mais limitados; mansidão e amor para com os
doentes; preparação e actualização profissional.
A Congregação de Irmãs Hospitaleiras do Sagrado
Coração de Jesus centra a sua espiritualidade no
«Cristo compassivo e misericordioso do Evangelho»,
nas preferências que manifesta pelos mais pobres e
na atenção com que privilegia os que mais sofrem:
Hospitalidade no sentido de Misericórdia e Amor para com as
pessoas concretas, que se manifesta através de profundas
atitudes de bondade, ternura, gratuidade, solidariedade, assim
como no serviço paciente, contínuo, abnegado e alegre.
Em pouco mais de dois séculos, o projecto
hospitaleiro concretiza-se num amplo conjunto de
serviços que constituem a Obra Hospitaleira que se
alarga já a 24 países, espalhados por quatro
Continentes145 e o seu desenvolvimento incorpora um
grande número de colaboradores que, juntamente
com as Irmãs, tomaram e continuam a tomar possível
a missão da Congregação:

Dispositivos de assistência psiquiátrica, adaptados às


necessidades das pessoas e às novas técnicas da ciência
médico-psiquiátrica.
Centros ou serviços psicopedagógicos que utilizam meios
e técnicas que possibilitam o máximo desenvolvimento
das capacidades das pessoas deficientes.
Centros ou serviços geriátricos e psicogeriátricos onde se
oferecem um acompanhamento e cuidado terapêuticos
adequados à situação do idoso e às suas possibilidades
de recuperação.
Hospitais gerais e estruturas extra-hospitalares:
ambulatórios, centros de saúde, etc, nos quais se atende
todo o tipo de doenças.
Resposta pontual a «situações de emergência» que se
apresentam nos diferentes países onde está implantada
a Obra Hospitaleira, especialmente no campo da
Saúde Mental.
A Congregação, respondendo às exigências das pessoas,
tempos e lugares, assim como às modernas orientações
de planificação da saúde, criou numerosas estruturas
extra-hospitalares, especialmente na área da saúde
mental, ao mesmo tempo que realiza uma progressiva
redefinição das suas tradicionais instituições
hospitalares.
A Obra Hospitaleira distingue-se, não tanto pela
quantidade de serviços que presta, particularmente em
alguns países, mas pela qualidade dos mesmos, devido
ao profundo sentido de solidariedade com a pessoa que
sofre e ao carisma que vê no doente a Cristo, «que
recebe como feito a si próprio quanto fazemos à pessoa
necessitada».

Para poder levar a cabo o projecto de «saúde


integral» que quer realizar, a Congregação
Hospitaleira objectiva a criação da Comunidades
Hospitaleiras em todos os seus Centros.
A Comunidade Hospitaleira é constituída por
doentes e seus familiares, colaboradores
(trabalhadores, voluntários, benfeitores, as pessoas
em formação e amigos) e Irmãs.

Os doentes são o centro e a razão de ser do Projecto


Hospitaleiro e a sua «cura» – mental, física, social e
espiritual – o principal objectivo.
Os familiares vivem com o doente e a problemática da
doença e fazem parte integrante do processo terapêutico.
Os trabalhadores dos centros contribuem com o seu
saber e o seu trabalho para a recuperação dos doentes,
partilhando a mesma cultura hospitaleira.
Os voluntários, os benfeitores e amigos, contribuem com
o valor da gratuidade, do compromisso e da
solidariedade com os mais necessitados.
As pessoas em formação também dão o seu contributo
ao Centro ao mesmo tempo que recebem dele, como
lugar docente, conhecimentos teórico-práticos.
As Irmãs, além do seu trabalho, constituem,
individualmente e como comunidade religiosa
hospitaleira, o núcleo histórico carismático inspirador
da Hospitalidade, sendo por isso uma referência da
Comunidade Hospitaleira.
A Comunidade Hospitaleira cultiva-se assumindo
a correspon-sabilidade no desenvolvimento da
instituição, valorizando as pessoas e o trabalho que
realizam, criando um clima de confiança e de
convivência entre os diferentes grupos, promovendo
encontros de reflexão sobre o carisma hospitaleiro,
sendo auto-críticos e respeitando os direitos das
pessoas.
A Comunidade Hospitaleira em Condeixa146
depois da abordagem global, sucinta e possível do
passado, presente e porvir da Obra das Irmãs
Hospitaleiras é tempo de nos focarmos na sua
presença nesta Vila de Condeixa, propósito último
deste nosso trabalho.
Reconhecendo a importância da acção das Irmãs
Hospitaleiras do Sagrado Coração de Jesus em
Condeixa, deliberou a Edilidade Condeixense atribuir
o nome do Santo fundador da Congregação de
Religiosas Hospitaleiras, à rua onde se localiza a Casa
de Saúde Rainha Santa Isabel bem como erigir na
rotunda ajardinada que a antecede, porta de entrada
Norte da Vila, uma imagem de S. Bento Menni.
Esta rotunda e a respectiva imagem foram
solenemente inauguradas pelo Bispo da Diocese de
Coimbra D. Albino Cleto e pelo Presidente da
Câmara Municipal Engº. Jorge Bento, no dia 21 de
Setembro de 1999, com a presença de muitas outras
autoridades e muito público que assim fez preito de
gratidão à acção das Irmãs Hospitaleiras do Sagrado
Coração de Jesus.
Também outras Instituições de âmbito local e
regional reconheceram, em devido tempo, com
gestos de homenagem a missão Hospitaleira da Casa
de Saúde Rainha Santa Isabel. Entre estas, a
Fundação Concelho de Condeixa, deliberou atribuir à
Instituição Hospitaleira a primeira edição do prémio
Fundação Concelho de Condeixa referente ao ano de
1996. No diploma que materializa este acto, pode ler-
se:

A Fundação Concelho de Condeixa agradece a Deus a


presença das Irmãs Hospitaleiras do Sagrado Coração
de Jesus entre as gentes do concelho, em memória do
que lhe atribui o prémio da Fundação 1996, ano da
sua primeira edição.
Deve-se, ainda, à Fundação Concelho de
Condeixa a dinamização e realização de um ciclo de
homenagem à Casa de Saúde Rainha Santa Isabel,
sob o lema O Coração da Hospitalidade, inserido no ano
comemorativo do Cinquentenário da fundação da
referida Casa de Saúde. O primeiro tempo ocorreu a
18 Abril 2009 no auditório do Museu de Conímbriga,
tendo como orador convidado o Presidente da
Cáritas Portuguesa Dr. Eugénio da Fonseca. O
segundo momento, também ele consignado à
hospitalidade para com os mais débeis, ocorreu a 23
de Maio, no mesmo local, tendo como orador
principal o Presidente da União das Misericórdias
portuguesas, Dr. Manuel de Lemos. O coroamento
deste ciclo comemorativo veio a ter lugar no
Santuário de Nossa Senhora do Círculo, no dia 21 de
Junho, com uma Eucaristia de Acção de Graças e
uma tarde de convívio e confraternização entre os
presentes.
Na mesma linha de reconhecimento, a Associação
dos Bombeiros Voluntários de Condeixa, em 2004,
atribui a sua medalha de ouro às Irmãs Hospitaleiras:
...Pela sua benevolência dedicada não só à Corporação
dos Bombeiros, mas também à população do Concelho
de Condeixa...

Para além de outros, também o Estado entendeu


reconhecer o mérito da acção da Congregação
Hospitaleira do Sagrado Coração de Jesus, atribuindo
a medalha de mérito do Ministério da Saúde à Casa
de Saúde Rainha Santa Isabel em cerimónia oficial do
Dia Mundial da Saúde, ocorrido a 07 de Abril de
2010.

A posse da Quinta dos Silvais e a evolução da


área construída

O dia 24 de Janeiro de 1959 é lembrado como o


da a tomada de posse efectiva da Quinta dos Silvais
com a ocupação da casa nela existente por um
pequeno número de Irmãs, verdadeiro núcleo do
actual Complexo Hospitaleiro que enobrece
Condeixa e a sua região. A função clínica e
assistencial, entendida como o internamento das
primeiras doentes, ocorre, cerca de dois anos mais
tarde, com o termo da construção do primeiro
pavilhão: o Sagrado Coração de Jesus.
O ritmo das construções nos anos subsequentes
foi marcado pela necessidade de aumentar a lotação,
mas muito em especial, na perspectiva de
proporcionar melhores condições às utentes, como
também aos diversos prestadores de cuidados
médicos, de enfermagem ou, simplesmente, de apoio.
Deu-se ainda cumprimento a necessidades tais como:
a construção da Clausura, da Capela (1967/69), do
Colégio Apostólico que funcionou entre os anos
1972/78147, e ainda, um pouco mais inserida na área
agrícola da quinta, a Residência das Irmãs Idosas.
A par de todas estas instalações hospitalares,
consideradas como do melhor que em Portugal se fazia
projectavam-se e construíam-se os mais variados
serviços de apoio a toda actividade assistencial, como
gabinetes de consulta e de meios auxiliares de
diagnóstico, salas de fisioterapia e de terapia
ocupacional, farmácia, etc. Construíram-se, também,
áreas de apoio administrativo e técnico, bem como as
mais diversas áreas de apoio geral: cozinhas,
armazéns, lavandaria, central térmica, oficinas,
parqueamentos, cabeleireiro, cafetaria, recepção e,
ainda, áreas de apoio especializado, como piscina,
ginásio e salão polivalente.
Contudo, a inauguração oficial, só vem a
acontecer no dia 1 de Fevereiro de 1964148, com a
entrada em funcionamento do Pavilhão de S. José, o
segundo pavilhão de internamentos a ser construído
e recentemente demolido para dar lugar a um dos
«mais modernos edifícios de tratamento hospitalar
para doentes do foro psiquiátrico» cuja inauguração
marcou o final do ano comemorativo do
cinquentenário.
Este novo edifício, no qual o Instituto das Irmãs
Hospitaleiras do Sagrado Coração de Jesus acabam
de investir quatro milhões de Euros, marcará, no
futuro, uma nova era no funcionamento e nos
cuidados de saúde prestados pela Casa de Saúde
Rainha Santa Isabel.

Estrutura que foi construída de raiz, substitui a velha


unidade assistencial e significa um aumento da
capacidade de alojar utentes em mais do dobro... A
nova legislação obrigou-nos a converter os espaços de
modo diferente, sobretudo a nível de alojamento de
utentes. Os quartos têm, no máximo, três camas...
Inclui áreas diversificadas como unidades de consultas,
internamento e terapia, ateliês quartos para os utentes,
salas de visita, refeitórios, gabinetes médicos, espaços de
enfermagem, arquivos e arrumação... É um edifício
com bastante luz, equipado com materiais simples, mas
resistentes. Tem energia solar e cinco unidades de saúde
independentes umas da outras ...

Estas palavras, dos responsáveis pela construção e


gestão futura, projectam-nos imagens de
Hospitalidade plasmadas no devir. É, por outras
palavras, confirmar o compromisso expresso sobre o
lema Olhando o Futuro no âmbito mais lato da breve
mas explícita identificação da sua Identidade e Missão:

A Congregação das Irmãs Hospitaleiras deu


testemunho, durante mais de um século, do seu
compromisso com os doentes mentais e pessoas afectadas
por outras patologias, desenvolveu um modelo de
instituição e de gestão, baseada na corresponsabilidade
e na entrega solidária de todos os seus recursos
humanos e económicos.
Valorizando positivamente o trabalho realizado pela
Comunidade Hospitaleira, ao longo de 125 anos de
existência, queremos estar abertos aos sinais dos
tempos através dos quais Deus nos fala e nos conduz,
para respondermos às necessidades actuais e
enfrentarmos com audácia os desafios do futuro.
A Congregação, fazendo seus a coragem, a fé e o
compromisso dos fundadores, olha para o passado com
gratidão, para o presente com responsabilidade e para o
futuro com esperança.
A Hospitalidade, que define o carisma hospitaleiro, é um valor –
humano, social, cristão – que transcende o tempo e que como
Comunidade Hospitaleira estamos empenhados em viver e
transmitir à sociedade do nosso tempo.

Nessa projecção insere-se também uma outra


concretização da Casa de Saúde Rainha Santa Isabel
nestes tempos de comemoração do Cinquentenário: a
quem visite a quinta dos Silvais será notória uma
pequena aldeia de casas pré-fabricadas em madeira,
onde nem falta o largo do pelourinho, cujas
residentes integram um cientificamente avançado
projecto terapêutico liderado pelos Psicólogos da
Instituição.

A Quinta Pedagógica das Romanzeiras é uma infra-


estrutura que comporta várias vertentes: reabilitação psicossocial,
psicopedagógica, residencial, ocupacional e de lazer. A infra-
estrutura é composta por quatro vivendas unifamiliares, fabricadas
em madeira tratada que formarão uma mini aldeia, servindo de
morada para vinte utentes da Casa de Saúde em processo de
reabilitação. Ao redor da mini aldeia existirá um circuito pedonal
que conduzirá os visitantes por áreas onde poderão observar e
interagir com animais e plantas de várias espécies, constituindo um
ecossistema terapêutico relaxante e promotor da Saúde Mental ... O
seu objectivo principal é a desinstitucionalização e refamiliarização
das utentes da Casa de Saúde, a sua introdução em redes sociais de
apoio, tal como preconizam as actuais leis de Saúde Mental...
Tentar-se-á que a interacção destas pessoas, sobretudo com grupos de
crianças e jovens das escolas circunvizinhas, possa contribuir para
esbater o estigma social da doença mental.

Esta constitui a primeira referência que


encontramos na imprensa escrita à Casa de Saúde
Rainha Santa Isabel. Trata-se da notícia do acto
inaugural num artigo assinado pelo, então,
correspondente local de vários órgãos da imprensa:
Sr. Ramiro de Oliveira. Este Condeixense, enquanto
Jornalista, acompanhou grande parte da vida da Casa
de Saúde e da sua pena saíram as mais finas análises e
elogiosas palavras à Instituição e à Nobre Missão da
Congregação Religiosa que a titula.
A notícia alonga-se com a publicação dos
discursos de vários convidados e considerações do
autor sobre a Instituição inaugurada. Tais
considerações repetem-se, ao longo de vários anos
em que o Jornalista Condeixense escreveu sobre a
Casa de Saúde dando-nos com a sua análise uma
perspectiva da sua evolução. Dessa análise se infere,
ainda, dos largos rumos que, desde logo, vaticinava à
inaugurada Instituição e que o futuro não desmentiu.
A Casa de Saúde Rainha Santa Isabel é, hoje, uma realidade
bem diferente da que era nesses já recuados tempos, ainda que
o Carisma Hospitaleiro que a rege, referência maior dos seus
fundadores, seja marca perene da sua identidade. É, no presente
e no dizer dos seus mais altos responsáveis, «Instituição de
referência na saúde mental, aberta à diferenciação de cuidados,
pondo em prática um modelo exemplar do cuidar».

Tem por finalidade essencial a prevenção, tratamento e


reabilitação de doentes em Saúde Mental e Psiquiatria,
numa visão integral da pessoa, segundo o carisma dos
fundadores S. Bento Menni, Maria Josefa Récio e
Maria Angústias Giménez.
No horizonte da centralidade da pessoa doente mental,
destinatária da missão hospitaleira, empenha-se a
Casa de Saúde Rainha Santa Isabel na prestação de
um serviço global, que se articule numa dinâmica
interdisciplinar abrangendo as dimensões Biológicas,
Psicológicas, Espirituais, Éticas e Sociais da Pessoa.

É nesta perspectiva que dispõe de várias


unidades149 vocacionadas para o internamento de
longa duração com capacidade para 327 doentes e,
ainda, cerca de 30 camas destinadas a internamentos
de curta duração (agudos), acolhendo, no seu todo,
cerca de três centenas e meia de utentes com
patologias do foro mental e psico-geriático. Nela
exercem funções, para além de um pequeno grupo de
Irmãs Hospitaleiras do Sagrado Coração de Jesus,
cerca de duas centenas de colaboradores distribuídos
por um diversificado leque de funções profissionais:
médicos, psicólogos, enfermeiros, terapeutas
ocupacionais, fisioterapeutas, técnicos de serviço
social, administrativos e auxiliares de várias áreas de
apoio, bem como também um considerável grupo de
voluntários, tudo enquadrado numa pirâmide
hierárquica em que pontificam a Direcção Gestora de
Recursos Financeiros e Humanos, a Direcção Clínica
e a Direcção de Enfermagem.

Numa dinâmica ponderada que leva à busca


permanente das melhores condições para o cabal
cumprimento da sua Missão, a Casa de Saúde Rainha
Santa Isabel integra os seguintes serviços:

- Serviços de Recepção e Admissão


- Serviços Administrativos
- Serviços Assistenciais:
Médicos
Enfermagem
Psicologia
Serviço Social
Terapia Ocupacional
Fisioterapia
Reabilitação
- Serviço Religioso:
Pastoral da Saúde
- Serviços Sócio-Terapêuticos:
Bar
Bazar
Biblioteca
Cabeleireiro
Salão Polivalente
Piscina
Salas de Terapia Ocupacional e Reabilitação
Campo Ludoterapático
- Unidades de Internamento
- Serviços de Apoio Geral

Nas Unidades de Internamento são diariamente


implementadas diversas actividades seleccionadas por
Psicólogos e Terapeutas consoante o grau de
capacidade e patologia das pessoas a que se destinam.
Todas estas actividades têm como objectivo a
ocupação das doentes numa perspectiva ergonómica
e terapêutica:

Alfabetização;
Trabalhos Manuais;
Actividades Lúdicas:
(Jogos Tradicionais e Didácticos, Leitura, Música,
Dança, Teatro, Cinema, Colaboração no Jornal
Interno «A Prenda», Passeios, Natação, Ginástica,
Atletismo, etc.);
Manutenção e Limpeza dos Espaços Verdes;
Apoio Psicológico e Estimulação Psicossocial;
Actividades na Área Agrícola;
Actividades de Culinária;
Actividades Religiosas.

As Utentes são, além disso, estimuladas a


participar activamente em todas as festas recreativas
da CSRSI, designadamente nos aniversários das
demais doentes, na comemoração de datas, épocas ou
factos importantes para a Instituição. Colaboram,
também, nos eventos ou organizações exteriores,
mormente nos promovidas pela Câmara Municipal
e/ou Escolas locais: Desfiles de Carnaval, Marchas
Populares, Festas Anuais, Dias da Família, etc.
Vimos já, quando enunciámos os vértices da Comunidade
Hospitaleira, como os familiares dos doentes se inserem no seu
objectivo: os familiares vivem com o doente e a problemática da doença e
fazem parte integrante do processo terapêutico. Os voluntários, os benfeitores e
amigos, contribuem com o valor da gratuidade, do compromisso e da
solidariedade com os mais necessitados.
Na prossecução deste objectivo, os responsáveis
pela Instituição envidaram esforços no sentido de
darem corpo a uma Associação de Familiares e
Amigos das Utentes da Casa de Saúde Rainha
Santa Isabel, que veio a designar-se por «Dar Voz»
A Associação «Dar Voz» é uma instituição de direito
privado, com funções sociais e sem fins lucrativos. Foi criada
em 1999 e tem a sua sede na Casa de Saúde Rainha Santa
Isabel. O seu objecto é ajudar as Irmãs Hospitaleiras,
oferecendo a colaboração dos familiares e amigos dos que
vivem na Casa de Saúde para a criação de condições que
permitam aos seus utentes um adequado e harmónico
desenvolvimento, no pleno respeito pela diferença que os
distinguem, diferenciam e enriquecem.
As actividades a que a «Dar Voz» se vota são de
carácter espiritual, cultural e social, privilegiando a
ligação das famílias dos utentes com a Direcção do
Instituto Hospitaleiro. Nesta perspectiva a «Dar Voz»
é uma presença habitual nas actividades da Casa de
Saúde, participando nos seus eventos bem como na
comemoração de datas e acontecimentos importantes
dinamizados no exterior, sempre que a Casa de Saúde
é a isso chamada.
Tem uma acção constante na sensibilização e
motivação dos familiares e amigos das doentes
internadas para que as visitem ou contactem sempre
que possível, principalmente em dias especiais como
o Natal, Páscoa, aniversários, festas de vária ordem
promovidas pela Casa de Saúde ou pela própria
Associação.
Tenta, ainda, sensibilizar a sociedade civil,
principalmente a comunidade onde está inserida, para
os problemas da saúde mental e para a realidade que
é a Casa de Saúde Rainha Santa Isabel, no contexto
geral e regional.
Desde logo reconhecendo que, na vertente da
promoção económico-social da área em que se
insere, a Casa de Saúde Rainha Santa Isabel
constituise como o maior empregador do Concelho
de Condeixa, facto que é assumido pelas entidades do
maior relevo concelhio, como são a Edilidade, o
Arciprestado, a Fundação de Condeixa, a Associação
dos Bombeiros Voluntários e outras instituições ou
meros particulares que, repetidamente, o
reconhecem.

Referências fundacionais: Tempo, Espaço e


Pessoas

No contexto de uma publicação, como esta, que


reúne uma pequena série de artigos sobre o passado e
o presente de Condeixa, temos como pertinente uma
breve referência aos tempos da fundação da Casa de
Saúde Rainha Santa Isabel, que mais não seja, como
preito de homenagem devida no seu recente
Cinquentenário.
Na década de cinquenta do século passado foi
Bispo da Diocese de Coimbra, o Senhor D. Ernesto
Sena de Oliveira150. D. Ernesto, na linha dos cuidados
vividos pelos prelados que o antecederam,
interessou-se por todas as instituições de
solidariedade da sua diocese, porém, manifestou
particular atenção pelo Refúgio Rainha Santa, atento
à faixa de população a que a sua acção se destinava:
jovens mulheres em risco de marginalização.
Desde a sua fundação, em meados dos anos trinta,
esta Obra Social vinha sendo patrocinado pelos
Prelados Coninbrigenses. Nesta linha não escapou ao
Senhor D. Ernesto a grande questão do Refúgio
Rainha Santa, que era o rumo a dar às utentes que,
por doença, eram incapazes de se integrar quer no
mundo do trabalho quer na família, escopo primeiro
da Instituição. De início, o número destas seria
pequeno, mas, com o decorrer dos anos, este número
começou a aumentar e as soluções esporadicamente
encontradas deixaram de ser viáveis.
Foi neste contexto que o Senhor Bispo e os seus
colaboradores consideraram a possibilidade do
recurso às Irmãs Hospitaleiras do Sagrado Coração
de Jesus, institucionalizando a ajuda esporádica que,
ao longo dos vários anos, prestaram ao Refúgio
Rainha Santa, aceitando nos seus centros de Lisboa
ou Braga algumas doentes desta Instituição.
Era, então, Superiora Provincial das Irmãs
Hospitaleiras a Madre Eloísa de Jesus Pires. Foi com
esta Responsável que a Diocese estabeleceu
contactos que culminaram com a compra da Quinta
dos Silvais e a instalação da Comunidade Hospitaleira
hoje existente.
A Condeixa, interessará conhecer também
algumas das razões ou acasos da sua escolha para
acolher a Hospitaleira Instituição:
Nas suas vindas a Coimbra, sempre que não
utilizava o comboio, a Provincial Hospitaleira passava
obrigatoriamente pelo centro de Condeixa. Não
escapava à sua atenção observadora a vetustez e
beleza dos seus palácios, o traçado das suas ruas a
enquadrar várias casas solarengas, a lhaneza das suas
gentes. Mas, o que mais sensibilizou a sua índole
prática e decisora, foi o verde dos muitos pomares,
os pequenos rios e ribeiros cujas águas fertilizavam as
hortas que, por todo o lado, despontavam.
Importante ainda reconhecer a sua inserção no
espaço geográfico local e regional: Condeixa, secular
encruzilhada de caminhos. De Norte para Sul, das
Beiras para o Litoral ou nos sentidos opostos, quem
quisesse cruzar o coração de Portugal, tinha que
passar por lá.
Teve a Superiora Hospitaleira conhecimento do
interesse, manifestado pelo mais recente proprietário
da Quinta dos Silvais, na sua venda. Não perdeu
tempo o espírito prático da responsável. Visitou o
espaço, sem aviso prévio, apenas na companhia da
sua secretária. Diríamos, «em missão secreta», utilizando
a expressão de quem nos deu esta informação.
Badalou a campainha do portão...esperou que lho
abrissem...apresentou-se vagamente curiosa e entrou
empurrando, sem esperar mesmo a autorização de
quem, desconfiadamente, lho abriu.
... ... ...Raio de vida... Agora entram-me por aqui adentro
duas freiras... Parece qu’isto já nem tem dono!...
Resmungava, para si, o Ti Manel Russo151, no pleno
dos seus trinta quarenta anos. Mas, a Irmã olhou
atentamente...Inteirou-se de alguns pormenores e
despediu-se num, até breve, que entristeceu o
Caseiro...Afinal trabalhava ali desde os dez
anos!...Fazia parte daquilo tudo!...Mudara de patrão
algumas vezes, mas nunca de emprego!
– Agora...Se me caiem aqui estas!...
Apontada a causa próxima da fundação da CSRSI
e acompanhada a dinâmica das vontades que o
possibilitaram, é tempo agora de caracterizarmos o
espaço onde a mesma foi implantada: uma velha e
pouco funcional residência numa quintinha, onde
predominavam um laranjal, uma horta e um pequeno
e tradicional lagar de azeite.
A quinta tinha, até então, apenas uma vocação
agrícola, a que, até hoje, deram continuidade as Irmãs
residentes. Contudo, a capacidade agrícola inicial tem
sido, pouco a pouco, reduzida para dar lugar às
sucessivas construções que, antes, referenciámos.
Também Condeixenses notáveis foram alguns dos
anteriores proprie-tário da Quinta dos Silvais. Por
isso, num escrito que aos Condeixenses se destina,
nos parece caber uma breve referência a alguns deles:
Os Silvais eram, à data da sua aquisição pelas
Irmãs Hospitaleiras, propriedade do Senhor Manuel
Luís Silva, comerciante residente em Coimbra, mas
natural de Bruscos, lugar da freguesia de Vila-Seca.152
Outro proprietário dos Silvais, normalmente o
mais identificado como tal, foi o Dr. Sebastião
Marques de Almeida, figura carismática da antiga
Condeixa, conhecido por «Dr. Sebastião das Barbas».
Coube-lhe a Quinta com outros bens no COncelho de
Condeixa, na legítima da esposa. O Dr. Sebastião,
numa tradição familiar, exerceu alguns cargos nas
instituições de benemerência local, nomeadamente o
de Provedor da Misericórdia153.
Fixada pela voz das mais antigas Irmãs residentes,
de alguns colaboradores doutros tempos, e de todos
os que tiveram qualquer contacto com os Silvais, nos
tempos em que ainda pertenciam ao Dr. Sebastião,
repete-se a lenda que pelos Silvais passaram, em
recreio, personalidades da vida intelectual e política
de tempos anteriores à sua venda. Não custa muito a
acreditar nesta tradição, tendo em vista que Condeixa
e os seus arredores foram percurso de desenfado de
várias gerações de académicos da Universidade
Coimbrã. Isso mesmo nos atesta o Poeta António
Nobre ao convidar o seu Amigo Manuel a visitar
Condeixa, entre outros arredores, «que vistos uma vez,
ah! Não se esquecem mais»154
A estrada que permitia o deslize fácil de uma
«charrete», o encanto das paisagens, a simpatia das
gentes, a beleza das raparigas, tudo concorreria para
que tal pudesse acontecer. Recuando um pouco mais
no tempo, algumas referências apontam para a vinda
do poeta António Feliciano de Castilho (1800-1875),
aos Silvais. Poeta Romântico, Pedagogo e Homem de
Letras, embora cego, não deixou de fruir, enquanto
estudante ou mesmo depois, de alguns dos
momentos de lazer ou de «estudantil estúrdia»,
própria do seu tempo e condição. Estudiosos da sua
obra tendem a identificar nela algumas referências
que apontam para a sua passagem pelos Silvais. A sua
presença, a ter-se como certa, arrastaria a de
condiscípulos e seguidores e não é difícil imaginar, na
sombra dos antigos laranjais, o eco de muitos dos
seus melhores poemas. De notar que, Condeixa era
extensão natural do percurso que o levou muitas
vezes à Quinta das Canas (Lapa dos Esteios), onde, aí
sim provadamente, reunia muitas vezes a tertúlia que
o Poeta liderava.
Mas, a presença que a tradição mais invoca não é a
de um poeta, mas a de um político. Todas as pessoas
que ainda conheceram o Dr. Sebastião das Barbas
recordam a «vaidade» com que referia a sua condição
de condiscípulo, amigo e hospedeiro do Doutor
Salazar. Por via dessa relação, sussurrava-se que o
todo-poderoso Presidente do Conselho visitava com
frequência os Silvais.
Não sei como acreditar!... Homem pouco dado a
bucolismos, Sua Excelência, se alguma vez sujou as
célebres botas na terra, foi na sua Quinta do Vimeiro.
Em Condeixa, só de passagem. Nos Silvais, talvez e
somente enquanto estudante; mesmo assim, sempre
com a sebenta debaixo do braço e pouco atento aos
versos que lhe cantavam.
Mais provável é que tudo não passe de uma lenda
que se fixou a partir do facto, não provado, de ambos
terem sido condiscípulas e o Dr. Sebastião disso fazer
gala junto dos seus conterrâneos.

Bibliografia e outras fontes

Manuscritos
Crónicas dos anos 1960 a 1986155
Meios de comunicação social (Imprensa, TV,
Rádio):
Gazeta de Coimbra: 1964, 02, 08/ 1972, 09 28.
Diário de Coimbra, 1983, 01, 22/ 1983, 03, 30/ 1984,
04,18/ 1984, 05, 11/ 1984, 10, 24/ 1984, 10, 29/
1985, 06, 20/ 2006, 06, 04/ 2008, 10, 11/ 2010,
01, 24.
Diário das Beiras: 2009, 04, 24.
Correio de Coimbra: 2006, 06, 01/ 2006,06, 08/
2006, 06, 22/ 2010, 04, 15.
RTP (País, País), 1983, 07, 28.
Rádio Comercial (Programa transmitido a partir da
CMC).

Publicações

Brochado, Costa, S. João de Deus, Portugália Editora,


Lisboa 1950.
Cárcel Orti, Vicente, História de La Congregación de
Hermanas Hospitalarias Del Sagrado Corazón de Jesus.
Volume I, El Beato Benito Menni y Las
Hospitalarias, Cidade do Vaticano, 1988.
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Soroldini, Mário, Santidade a Toda a Prova, Vida de
Bento Menni, Fundador das Irmãs Hospitaleiras do
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1984.
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Tradução de Delfim Janela, Livraria Apostolado da
Imprensa, Braga, 1987.

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