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Uma introdução à Bíblia
Período Grego
E
Vida de Jesus

V olume 6

lido Bohn Gass (Org.)

Digitalizado por: Jolosa

São Leopoldo/RS

PiJLlUÍ

2005
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Elaboração: Udo Bohn Gass

Revisão: Franciso Orofino, José Edmilson Schinelo, Monika


Ottermann e Sebastião Armando Gameleira Soares

Capa: Jair de O. Carlos

Editoração: Rafael Tarcísio Forneck

Reimpressões: 2011, 2012

ISBN: 978-85-7733-131-4
Sumário

Apresentação.............................................................................................. 6
Parte I: É poca d a dom inação g re g a ............................................. 7
Introdução.................................................................................................. 7
Império Grego de 332 a 301 a.C.......................................................... 9
Dominação dos Ptolomeus (301-198 a.C.)....................................... 18
Literatura de resistência na época dos Ptolomeus......................... 21
Ester: uma mulher exige que o poder cumpra a justiça........... 22
Eclesiastes: felicidade é usufruir do próprio trabalho.............. 29
Zacarias 9-14: esperança num rei justo e pobre.......................... 34
Tobias: Deus é fiel à fidelidade do justo........................................ 36
Dominação dos Selêucidas (198-142 a.C.)........................................ 41
Literatura na época dos Selêucidas..................................................... 45
Eclesiástico: defesa da identidade de um po vo ........................... 46
Revolta dos macabeus (167-142 a.C .)............................................ 51
Teologia apocalíptica........................................................................... 59
Daniel: a luta contra o im perialismo.............................................. 64
Judite: Deus age pela mão de uma m ulher................................... 68
2 Macabeus: resistência contra a imposição do Helenismo..... 74
Independência sob os hasmoneus (142-63 a.C .)............................ 77
Últimos escritos do Primeiro Testamento........................................ 81
Livro de Ester —o texto grego.......................................................... 81
1 Macabeus: a luta pela libertação.................................................... 83
Baruc: arrependimento e conversão................................................ 86
Sabedoria: ser sábio é ser justo.......................................................... 88
Conclusão da Ia parte................................................................................ 92
Para orar e aprofundar............................................................................ 96
Sugestões de leitura.................................................................................. 96
Parte II: V id a e p regação de J e s u s ................................................ 97
Introdução................................................................................................... 97
1 Jesus de N azaré...................................................................................... 99
1.1 A vida de Jesus de N azaré........................................................... 99
1.2 A vida pública de Je su s................................................................ 102
1.3 Testemunhos de historiadores................................................... 104
2 Três poderes na Palestina.................................................................... 105
2.1 O poder de Rom a.......................................................................... 109
Poder político, militar e econôm ico........................................ 109
Roma e os cultos............................................................................ 115
Mudanças na vida do povo...................................................... . 116
Conseqüências na vida do povo................................................ 116
Jesus e os rom anos........................................................................ 117
A proposta política de Je su s....................................................... 119
2.2 O poder dos H erodes................................................................... 121
2.3 O poder do sinédrio...................................................................... 124
Jesus e o sinédrio............................................................................ 125
O templo e o sinédrio................................................................... 126
Jerusalém e o tem plo.................................................................... 128
As festas de peregrinação............................................................ 128
Jesus e o templo.............................................................................. 131
A lei e o tem plo.............................................................................. 136
Jesus e a lei........................................................................................ 137
Jesus desmascara a opressão da religião................................. 139
3 Divisão política da Palestina.............................................................. 141
3.1 Idumeia, Judeia e Samaria............................................................ 143
3.2 Galileia e Pereia............................................................................... 144
Jesus e Herodes Antipas.............................................................. 145
3.3 D ecápole........................................................................................... 145
3.4 Itureia, Bataneia eTraconítide................................................... 145
3.5 A bilene............................................................................................... 146
4 Galileia, Samaria e Ju d eia.................................................................... 146
4.1 Galileia................................................................................................ 146
Jesus e a G alileia............................................................................. 148
4
4.2 Sam aria.............................................................................................. 148
Jesus e o povo samaritano........................................................... 149
4.3 Ju d eia.................................................................................................. 151
Jesus e a Judeia................................................................................ 154
5 A sociedade judaica............................................................................... 155
5.1 Saduceus............................................................................................ 155
Jesus e os saduceus........................................................................ 157
5.2 H erodianos....................................................................................... 157
Jesus e os herodianos.................................................................... 158
A proposta econômica de Je su s................................................ 158
5.3 Fariseus.............................................................................................. 160
Jesus e os fariseus.......................................................................... 163
A sinagoga........................................................................................ 165
Jesus e a sinagoga.......................................................................... 165
5.4 Zelotas............................................................................................... 166
Jesus e os zelotas........................................................................... 168
5.5 Essênios............................................................................................. 169
Jesus e os apocalípticos............................................................... 169
5.6 Batistas............................................................................................... 171
Jesus e os batistas......................................................................... 173
Jesus e as expectativas messiânicas......................................... 174
5.7 Os mais pobres............................................................................... 176
Jesus e as mulheres....................................................................... 178
Jesus e os doentes......................................................................... 181
As curas e a f é ................................................................................. 183
Continuar a atividade curativa d e je s u s ................................. 184
6 Paixão, morte e ressurreição.............................................................. 187
A prisão..................................................................................................... 188
O julgam ento.......................................................................................... 188
A crucificação......................................................................................... 191
A ressurreição......................................................................................... 192
Conclusão da 2a p arte............................................................................. 194
Para orar e aprofundar............................................................................ 196
Sugestões de leitura.................................................................................. 196

5
Apresentação

Com este livro, Uma introdução à Bíblia chega ao volume 6, que


está dividido em duas partes.
A primeira é uma introdução à história de Israel no período de
dominação do Império Grego (332 a 142 a.C.) e dos reis hasmoneus
(142 a 63 a.C.). Ao mesmo tempo, situa os últimos livros do Primeiro
Testamento surgidos naquela época.
A segunda parte é dedicada a uma introdução à vida e pregação
de Jesus de Nazaré no contexto do Judaísmo e do Império Romano,
que impõe seu poderio na Palestina a partir de 63 a.C.

6
Parte I:
r

Epoca da dominação grega

Introdução

No volume anterior, estudamos a vida de Israel sob a dominação


dos babilônios e dos persas. Vimos também a literatura bíblica que sur­
giu naquele período.
Na primeira parte deste volume, estudaremos a época de domina­
ção dos gregos (332-142 a.C.) e o período de independência desde 142 até
63 a.C., ano em que os romanos passaram a dominar sobre a Palestina.
Num primeiro momento, depois de algumas informações sobre
a conquista do Império Persa pelo macedônio Alexandre Magno, vere­
mos o domínio dos gregos sobre a Palestina a partir do Egito (301-198
a.C.). Eles são conhecidos por Ptolomeus. É a ocasião para olharmos
mais de perto os livros bíblicos dessa época, isto é, Ester, Eclesiastes, Za­
carias 9-14 e Tobias.
Em seguida, abordaremos o domínio dos gregos sobre a Palesti­
na a partir da Síria, conhecidos por Selêucidas (198-142 a.C.). Veremos
a imposição à força da cultura grega sobre os judeus, bem como a resis­
tência dos macabeus contra essa imposição. Analisaremos ainda as divi­
sões dos judeus em diferentes grupos no processo revolucionário,
como os fariseus e os essênios. Desse período, são os seguintes livros:
Eclesiástico, Daniel, Judite e 2 Macabeus.
Por fim, estudaremos a época de independência dos judeus desde
142 a 63 a.C., período conhecido como dinastia dos hasmoneus. Sur­
gem os últimos Livros do Primeiro Testamento: U vro de E ster—o texto gre­
go, 1 Macabeus, Baruc e Sabedoria.

7
De saída, lembramos que sete dos onze livros que estudaremos
nesta parte não se encontram nas traduções usadas pelas igrejas evangéli­
cas. São eles: Tobias, Eclesiástico, Judite, 1-2 Macabeus, Baruc e Sabedo­
ria. São os livros deuterocanônicos para os católicos romanos e apócrifos
para os protestantes. Além disso, os livros de Ester e Daniel têm partes
que só constam nas traduções católicas, como ainda veremos.
Império Grego de 332 a 301 a.C.

336-323 a.C.: o macedônio Alexandre Magno conquista a Ásia Menor


e a Síria (333 a.C.), Tiro, Gaza e o Egito (332 a.C.), a Pér­
sia (331 a.C.) e chega até o vale do rio Indo (330-326 a.C.).
323 a.C.: Morte de Alexandre Magno. A partir dessa data até 301 a.C.,
há uma disputa entre os seus sucessores a respeito da divisão
do império.

Uma conquista avassaladora

Ao norte da Grécia, Filipe II (359-336 a.C.) era rei da Macedô-


nia, cuja capital era Pela. Sua formação era grega e tinha como projeto
conquistar a Grécia a fim de ter mais acesso ao comércio marítimo.
Explora as rivalidades entre as cidades gregas, como Atenas, Esparta,
Corinto e Tebas, apresentando-se como alternativa para a solução dos
seus conflitos.
Seu filho se chamava Alexandre. Dos 13 aos 16 anos, estudou
com o filósofo Aristóteles. Quando seu pai foi assassinado (336 a.C.), ti­
nha 21 anos. Na ocasião, já era chefe do exército de seu pai. Controlou e
unificou a Grécia. Alexandre Magno, como é conhecido, tinha uma am­
bição. Estava disposto a enfrentar o grande império dos persas, senho­
res absolutos de todo o Oriente Médio desde 539 a.C. De fato, em
somente 12 anos, Alexandre conquistou todo o império que antes per­
tencia aos persas. E foi mais longe. Chegou até o atual Paquistão, con­
trolando inclusive o vale do Rio Indo.
Segundo o historiador judeu Flávio Josefo, ao conquistar a Pales­
tina, Alexandre tomou as seguintes medidas em relação aos judeus a pe­
dido do sumo sacerdote:

9
• podiam viver livremente segundo suas leis;
• estavam isentos de impostos a cada sete anos;
• também os judeus da diáspora podiam viver segundo suas pró­
prias leis.
Porém, aos poucos, essa situação privilegiada foi mudando. No
princípio, lentamente e depois, de forma violenta, como veremos.
Além de alcançar suas ambições políticas, Alexandre também es­
tava interessado em difundir a cultura grega ou helénica. Mas, acima de
tudo, a finalidade de suas conquistas era comercial (lM c 1,3a.4b).
Alexandre tinha planos para
"A terra se calou diante dele.
estabelecer a capital de seu im ­
Ele se exaltou e seu coração
pério na Babilônia, onde morreu
se encheu de orgulho...
de malária em 323 a.C., aos 33
multiplicando os males
sobre toda a terra." anos de idade. Não deixe de ler
(cf. IM c 1,3)
IMc 1,1-9!
Como não havia ninguém
que tivesse condições de assumir o controle de todo o império, ele foi
dividido entre os oficiais de seu exército. Seus sucessores disputavam
entre si pelo controle das diferentes regiões. Essa disputa durou mais de
20 anos. Nesse período, a Palestina serve de corredor de passagem para
os exércitos dos generais gregos em luta, em pelo menos oito ocasiões.
Isso representa desgraça para o povo, que sofre pilhagens, deportações
e violências de toda ordem. Somente a partir de 301 a.C., alguns gene­
rais se impuseram, apropriando-se das maiores regiões do vasto impé­
rio, como você pode conferir no mapa abaixo. A partir de Alexandria
no Egito, o general Ptolomeu governa também sobre a Líbia, a Fenícia e
a Palestina.
Em 300 a.C., o general Seleuco funda a cidade de Antioquia da Sí­
ria para ser a capital de seu reino. Tinha também uma residência oficial
na Babilônia.
Antes dos gregos, os impérios que controlavam as terras de Israel
eram do Oriente. Os últimos foram os persas. Antes deles, os babilônios.
Com a dominação dos gregos, não há somente uma troca de donos so­
bre Israel. Há outra mudança significativa. Os gregos impõem outro

10
modo de vida, outra cultura, conhecida por Helenismo. A cultura helc-
nica trouxe profundas mudanças para a vida dos judeus, como veremos.

A cultura helênica

A palavra “helênica” vem de “helen” que significa “grego”. A


Grécia Antiga era chamada de Hélade (lMc 1,1), termo correspondente
ao hebraico “Javã” (Is 66,19).
Ao falarmos de cultura helênica, estamos pensando no modo de
vida que se difundiu no Oriente Médio a partir da dominação dos gre­
gos: seus valores e contravalores, sua economia e organização social,
sua visão de mundo, das pessoas e das divindades, enfim sua cultura.
Destaquemos, agora, algumas das características da civilização grega.
1. Antes de mais nada, é preciso destacar que, diferentemente da
posse coletiva da terra em Israel, a economia grega estava organizada a
partir da propriedade particular e individual da terra. Grandes extensões
de terra pertenciam a uma única pessoa. Em conseqüência, havia traba­
lho escravo. O sistema escravocrata definia a estrutura social grega.
2. Três eram as camadas sociais na estrutura escravocrata da Grécia:
• Os “livres” formavam a classe dominante. Só eles se conside­
ravam cidadãos. Seu ideal era viver tranquilamente, dedicando-se às ar­
tes, às atividades liberais, ao "Os escravos devem ser escravos,
esporte e ao trabalho inte­ porque não são homens.
lectual. As suas mulheres ti­ E bom para o escravo ser escravo,
nham funções importantes porque, sem governante,
na administração dos lati­ não sabe se governar.
fúndios de seus maridos. Sua única virtude
No entanto, não tinham é não faltar ao trabalho."
participação nos assuntos (Aristóteles)
públicos. Os cidadãos gre­
gos se consideravam o povo mais civilizado. A introdução do escravis-
mo na Palestina aumentou os contrastes sociais. A alta sociedade, a
classe dirigente e os funcionários a serviço dos gregos se enriqueceram,
desviando tributos e aceitando subornos.

11
12
• Os “libertos” eram antigos escravos que haviam obtido a
liberdade.
• Os “escravos” eram em torno de dois terços da civilização gre­
ga. A eles e aos diaristas era reservado, segundo a opinião dos cidadãos,
o trabalho inferior, isto é, o trabalho manual. Não tinham direito à pro­
priedade de terra. Ainda conforme os gregos livres, os libertos e os es­
cravos não eram considerados cidadãos com plenos direitos políticos.
Por isso, não tinham o direito de participar da “democracia” da cidade
grega. Havia escravos domésticos e outros que trabalhavam na produ­
ção, além de outros que trabalhavam em diversas atividades. Tanto os
agricultores como os pequenos comerciantes se tornavam cada vez
mais pobres. Muitos israelitas foram escravizados (IM c 3,41).
3. O Helenismo era uma cultura essencialmente urbana. Diferente­
mente da cultura rural palestinense, a cidade (pólis) era o foco de irradiação
da cultura grega. Da palavra pólis vem a palavra “político”, isto é, cidadão, ou
morador da cidade. Dela deriva também “política”, isto é, cidadania, que é a
organização da cidade para o bem-estar de quem nela vive. O modelo padrão
da cidade grega consistia na praça, nas avenidas com colunas, nos templos,
no teatro e no ginásio de esportes. Além disso, nas cidades helênicas, que
fundavam nas colônias conquistadas, havia destacamentos militares.
4. Através da dominação que exerciam sobre outros povos, os
gregos difundiam seu modo de vida. Impunham sua cultura através de
diferentes meios:
• Seu estilo de vida.
• A organização e a administração das cidades.
• A cobrança de impostos e taxas.
• O comércio e a moeda.
• Nova organização da agricultura.
• As escolas filosóficas e a literatura grega.
• A língua grega que se tornou a língua internacional do comércio.
• A religião com suas divindades e seus mitos.
• As artes, em especial a arquitetura e a escultura.
• Os esportes e as diversões em escolas, ginásios, teatros e praçis
que construíam em cada cidade. O ginásio era o centro político

13
mais importante de reprodução do modo de vida grego. Nele
estudavam os jovens varões. Ali se exaltavam as virtudes mili­
tares e as práticas esportivas, com vistas à preparação do corpo
e da mente para a gu erra.
• As colônias militares, o exército, a estratégia militar e as armas.
5. Diferentemente do Judaísmo, que estava estruturado sobre a
família patriarcal e a vida comunitária fortemente disciplinada pela lei, a
cultura helênica estava mais centrada no indivíduo que buscava a afir­
mação de sua liberdade e a satisfação de seus sentidos.
6. Em oposição à religião judaica, que era monoteísta e tinha
princípios éticos que exigiam práticas coerentes no comportamento co­
tidiano dos judeus, a religião dos gregos era politeísta e não tinha inter­
ferência direta na vida diária das pessoas helenizadas. Um aspecto
central da religião e dos mitos gregos é que eram fatalistas. Sua mensa­
gem era no sentido de legitimar a situação existente, sem possibilidade
de mudança. Para o judeu, a medida das coisas é Deus. Para o grego, é o
próprio homem.

Quem não seguisse o modo de vida dos gregos era taxado de


atrasado, fora de moda, retrógrado. De outro lado, era considerado mo­
derno aquele que assumia a cultura grega. Divulgando seus costumes,
os gregos acabavam destruindo as tradições dos povos conquistados,
garantindo, dessa forma, seu domínio.

Hoje em dia, a ideologia hegemônica ainda continua acusan­


do de atrasados e contrários ao progresso aqueles que lutam por um
mundo de justiça, de oportunidades iguais para todas as pessoas.
Também é assim acusado quem busca construir um Estado de par­
ticipação popular e de inversão de prioridades, de valorização da
educação, da saúde, enfim, uma sociedade que coloca em primeiro
lugar a vida das pessoas.
Por outro lado, a mesma ideologia considera moderno quem
defende a cultura neoliberal, as privatizações, o Estado mínimo, o
livre mercado, o direito irrestrito à propriedade para quem tem

14
poder econômico, enfim, um mundo que globaliza a miséria, en­
quanto coloca acima da vida os interesses econômicos, o absoluto
domínio do livre mercado financeiro.
E importante termos presente que cada cultura traz consigo
valores de vida e antivalores. Importa termos o discernimento para
distinguir qual é o modo de vida, o projeto de sociedade que cada ideo­
logia defende, e qual deles se aproxima mais da vontade de Deus.
Por que o mundo inteiro se vê obrigado a aprender a língua
inglesa? Por que há tantas músicas em inglês e tantas camisetas com
letreiros na língua dos Estados Unidos? Por que há tanto espaço no
noticiário para o que acontece ao norte do México?

A política agrícola dos gregos

A agricultura era de importância fundamental na organização


econômica dos gregos. Sua função principal era sustentar as cidades e
fornecer os produtos para incrementar o comércio.
Para garantir a produção, organizavam uma política agrícola que
privilegiava a formação de latifúndios. Neles, havia emprego massivo
de trabalho escravo. Em torno das cidades, as terras pertenciam ao rei.
Em muitos casos, sua administração era feita diretamente por funcioná­
rios nomeados pelos gregos. Em outros, vastas extensões de terra eram
presenteadas aos amigos do rei. As melhores terras da Palestina, como a
costa do Mediterrâneo, o vale de Jezrael, o vale do Jordão e parte da
Transjordânia, assim foram distribuídas.
Esse modo grego de organização da agricultura acabava com o
tradicional sistema das aldeias na Palestina, fazendo com que elas per­
dessem sua autonomia política. Muitos camponeses perdiam suas ter­
ras, seus direitos, sua liberdade, passando a trabalhar como diaristas
contratados pelos grandes proprietários.
Mais do que se preocupar com a sobrevivência das aldeias,
dava-se prioridade à produção em vista do comércio nas cidades e para
a exportação. A imposição do modo de vida dos gregos levou a popula­
ção a um empobrecimento crescente. Por isso, muitos judeus se viram
obrigados a migrar para cidades gregas na diáspora.
15
Desde a época dos persas, já não era mais o clã, isto é, um agrupa­
mento de famílias aparentadas, a unidade básica da sociedade israelita
tradicional. Cada vez mais, a família vai se tornando a unidade econômi­
ca fundamental, deixando o clã em segundo plano.

Palestina, um lugar estratégico em disputa

Em meio ao vasto império de Alexandre Magno, a Palestina não


passava de um pequeno pedaço de terra. Embora estivesse perdida den­
tro do grande império, ela continuava ocupando um lugar estratégico
entre o Egito e a Síria.
No início, porém, a situação do povo não mudou muito, uma vez
que a imposição da cultura grega foi um processo progressivo. Os ju­
deus passaram da opressão persa para o domínio dos gregos, os novos
senhores do mundo. Em meio às lutas entre os grandes, mais uma vez
Israel trocou de dono.
Do período de disputas entre os generais de Alexandre (323-301
a.C.), pouco sabemos a respeito da vida na Judeia. Porém, é provável
que a vida da comunidade judaica continuava em torno de um governo
formado por uma assembleia de anciãos.
Quando o general Ptolomeu 1(323-282 a.C.) se apoderou de J e ­
rusalém, deportou para o Egito muitos judeus. Provavelmente os tratou
desse jeito porque devem ter apoiado o general Seleuco na disputa pelo
controle sobre a Palestina. Zc 14,1-3 deve ser uma referência a esse
exílio. Confira!
No Egito, os judeus fixaram-se de modo especial em Alexandria,
capital da dinastia dos Ptolomeus, cidade fundada por Alexandre em
332 a.C. Alexandria está localizada a oeste do delta do Rio Nilo, pró­
ximo ao Mar Mediterrâneo.

Uma mudança importante em relação à dominação persa

Na época dos persas, como vimos no volume anterior, constata­


mos que havia na Judeia especialmente duas forças sociais em forte
tensionamento.

16
Por um lado, havia a comunidade judaica em torno da obser­
vância rigorosa da lei, comandada pelo 2o templo. Como tinha liberda­
de e até apoio do império para essa observância ortodoxa, ela não se
opunha muito à opressão persa. Até fàzia críticas. Veja, por exemplo,
q u ejl 1,6-7; 2,20 e Ne 9,36-37 constatam a opressão do império do nor­
te. Porém, era ainda uma tímida resistência.
Por outro lado, os pobres da terra, mais que se oporem direta­
mente à opressão estrangeira, resistiram contra a exploração e a imposi­
ção do rigor da lei pelas elites locais, aliadas aos persas. Foi o caso dos
livros de Rute,Jonas, Jó e Cânticos dos Cânticos. Porém, lutar contra as
elites locais e sua ideologia era uma forma indireta de lutar também con­
tra o império, uma vez que elas estavam a serviço de sua dominação.
A partir da opressão dos gregos, muda a situação. De agora em
diante, a cultura helênica vai entrando, primeiro aos poucos e depois à
força, na vida de todo o povo.
Diante disso, a comunidade judaica fiel ao rigor da lei, seja em
torno de Sião seja na diáspora, dividiu-se. Veremos adiante como a clas­
se dirigente apoiou a helenização da cultura judaica, enquanto grupos de
resistência foram surgindo em meio aos judeus piedosos e fiéis obser-
vantes da lei.
Nesse sentido, os movimentos de resistência contra a opressão e
a literatura em defesa da identidade judaica têm fundamentalmente sua
origem em duas tendências.
De um lado, temos a reação contra a helenização do Judaísmo, for­
çada ou não, vinda em defesa da fidelidade à tradição judaica, seja na Pales­
tina como na dispersão. Portanto, os autores que estão por trás da maioria
dos livros bíblicos do período grego são grupos de judeus fiéis à lei, à tradi­
ção, à cultura da comunidade judaica. E o caso dos livros de Ester, Zacarias
12-14, Tobias, Eclesiástico, 2 Macabeus, Sabedoria e Baruc.
Já os pobres da terra devem ter apoiado a luta pela independência
frente à dominação dos gregos, comandada pelos piedosos macabeus.
Círculos de levitas do interior ligados aos macabeus são autores de Za­
carias 9-11,1 Macabeus, Daniel, Judite e da versão grega de Ester. Suas
preocupações principais são a defesa da lei de Moisés e da aliança, bem
como a libertação da opressão econômica e política dos gregos.
17
O Livro do Eclesiastes se diferencia das duas tendências anteriores.
Como a segunda tendência, é crítica à cultura e à opressão gregas. Por ou­
tro lado, questiona a tradição sapiencial conservadora do Judaísmo.

Dominação dos Ptolomeus


(301-198 a.C.)

Depois das lutas entre os generais de Alexandre Magno, a domi­


nação dos gregos sobre a Palestina pode ser dividida em dois grandes
períodos. Num primeiro momento, isto é, de 301 a 198 a.C., a Palestina
ficou sob o domínio da dinastia do general Ptolomeu a partir de Alexan­
dria no Egito. Depois de 198 a.C., porém, os Selêucidas, como ficaram
conhecidos os sucessores do general Seleuco, conquistaram a Palestina
dos Ptolomeus e passaram a dominar Israel desde a Antioquia da Síria, a
capital de seu império.

Em torno de 350 a.C., edição hebraica do Livro de Ester.


301-198 a.C.: Durante um século, a Palestina ficou sob o domínio dos
Ptolomeus.
301-282 a.C.: Ptolomeu I.
282-246 a.C.: Ptolomeu II. Durante seu reinado é feita a tradução da
Bíblia hebraica para o grego, a Septuaginta. Por volta de
250 a.C., edição de Zc 9-14 e do Livro de Eclesiastes.
246-221 a.C.: Ptolomeu III.
221-204 a.C.: Ptolomeu IV.
204-180 a.C.: Ptolomeu V. Em torno de 200 a.C., Livro de Tobias.

A dinastia dos Ptolomeus é assim chamada porque o nome do


primeiro rei dessa dinastia foi Ptolomeu. Como seu pai se chamava La­
gos, também é conhecida como a dinastia dos lágidas.

18
O século de domínio por parte dos Ptolomeus foi um período
em que houve várias tentativas dos Selêucidas se apoderar da Palestina,
promovendo sucessivos ataques.
Do ponto de vista econô­ "Deus concede a uma pessoa
mico, foi uma época de muita ex­ riquezas, fazendas e honras,
ploração. Os gregos estabelecidos sem lhe faltar nada de tudo
no Egito organizaram um estado que possa desejar. Deus,
burocratizado e fortemente cen­ porém, não lhe concede
tralizado. Em todas as regiões desfrutá-los, mas um
onde dominavam, estabeleciam estrangeiro os desfruta.
oficiais, tropas militares e encarre­ Isso é passageiro e cruel
gados das finanças e do recolhi­ sofrimento." (Ecl 6,2)
mento dos impostos. Estes eram
permanentemente vigiados. Os Ptolomeus tinham medo de dar auto­
nomia às regiões que dominavam. E que temiam perder seu poder.
Cerca de um terço da produção era arrecadado em forma de tri­
buto. Os Ptolomeus arrendavam a famílias ricas o direito de recolher os
impostos, dando-lhes liberdade no processo de arrecadação. Com isso,
conseguiam lucros financeiros e maior influência política.
O auge do poder dos lágidas foi no reinado de Ptolomeu II
(282-246 a.C.).

Os judeus da diáspora

Os judeus dispersos pelas cidades helenizadas viviam mergulha­


dos na cultura grega. Embora inicialmente pudessem, tal como os judeus
da Palestina, viver livremente sua fé em YHWH, aos poucos, foram
sendo influenciados pela cultura helênica. No entanto, eles não opu­
nham tanta resistência contra o Helenismo. Especialmente em Alexan­
dria, iniciaram um processo de inculturação, conservando porém a
observância da lei e o culto na sinagoga. Foi lá, durante o reinado de
Ptolomeu II, que traduziram a Bíblia hebraica para o grego, conhecida
por Septuaginta ou Setenta. E foi lá também que, mais tarde, escreve­
ram o Livro da Sabedoria.

19
Os judeus da Palestina

Diante do Helenismo, os judeus da Palestina se dividiram. De um


lado, a classe dirigente e, de outro, os setores mais pobres e fiéis à lei de
Moisés.
A classe dirigente, composta pelos chefes dos sacerdotes e por seto­
res da aristocracia, a fim de garantir seus interesses econômicos, apoiou
a introdução do modo de vida dos gregos no Judaísmo. Esses grupos
eram os liberais da cidade. O sumo sacerdote dos judeus continuava
desfrutando de pleno poder. Assim também as famílias ricas, como a
dos Tobíadas, residentes na Transjordânia.
A respeito dessa família, nós já vimos na página 125 do volume 5.
Confira! Em 2 Macabeus 3,11, temos uma nova referência a essa família.
Dessa vez, fala-se de Hircano, filho de Tobias, que tinha muito dinheiro
depositado no templo de Jerusalém, sinal de que o templo funcionava ao
mesmo tempo como banco. Os Tobíadas eram, possivelmente, a família
mais rica da província. O historiador Flávio Josefo nos informa que, na
época dos Ptolomeus, os Tobíadas continuaram tendo muita influência
na região e eram responsáveis pela coleta de impostos para os gregos.
Isso nos revela que as principais famílias judaicas estavam plenamente in­
tegradas no mundo helênico. Mais tarde, quando os Selêucidas venceram
os Ptolomeus, elas apoiaram o rei Antíoco III contra Ptolomeu V.

O sumo sacerdote passa a ser também o governador

A presença dos gregos trouxe outra mudança significativa. A par­


tir de agora não há mais um governador civil ao lado do sumo sacerdo­
te, como no período persá. O próprio sumo sacerdote passa a exercer
também o poder civil. A administração não era mais feita por um gover­
nador, mas por um conselho de anciãos, composto de sacerdotes e leigos,
presidido pelo sumo sacerdote (lM c 12,6; 2Mc 1,10; 11,27). Mais tarde,
na época dos Macabeus, esse conselho seria chamado de Sinédrio.
Com isso, aumentou ainda mais o poder do sumo sacerdote.
Além de desempenhar as'funções no templo, passou a exercer tarefas

20
políticas, como representante político da comunidade judaica. No en­
tanto, embora tivesse poder para administrar as questões internas do Ju ­
daísmo, ele tinha pouca autonomia administrativa.

A resistência contra os gregos e os judeus helenistas

Por outro lado, houve resistência do povo da terra contra a ex­


ploração econômica e política dos gregos. Para a comunidade judaica
fiel à observância da lei e ao culto no templo de Jerusalém, o mais im­
portante de tudo era garantir a pureza de sua identidade, de sua tradição.
Por isso, reagiu fortemente contra a helenização dos costumes judaicos.
Quando mais tarde os Selêucidas impuseram na marra a cultura
grega, o povo resistiu bravamente ao processo de desintegração de sua
identidade. E o que veremos adiante quando estudarmos a vigorosa re­
sistência que deu origem à luta dos macabeus.
E importante ainda lembrar que os lágidas não impuseram à for­
ça seu modo de vida, sua cultura. Porém, criaram as condições para que
o Helenismo fosse mudando aos poucos a mentalidade e os costumes
judaicos.

Literatura de resistência na época


dos Ptolomeus

Agora, passemos ao estudo da literatura que surge durante a pas­


sagem do poder persa para o grego, bem como no decorrer do período
dos Ptolomeus. Veremos os livros de Ester, do Eclesiastes, os capítulos
9-14 de Zacarias e o Livro de Tobias.

21
Ester: uma mulher exige que o poder
cumpra a justiça

concede-me a vida: eis o meu pedido!


E a vida do meu povo: eis o meu desejo!” (Est 7,3)

Data

Há duas versões do Livro de Ester. Uma em hebraico e outra


mais recente em grego.
A versão hebraica foi editada em torno de 350 a.C., no final da
época persa, poucos anos antes de os gregos destruírem a grande potên­
cia. As razões para essa datação do texto hebraico são fundamental­
mente duas:
• Nele há referências detalhadas a respeito da estrutura do
Império Persa;
• E ainda não há menção ao domínio dos gregos e ao seu modo
de vida.
A versão grega, por sua vez, foi editada entre 114 e 112 a.C., du­
rante o governo de João Hircano sobre a Judeia, de acordo com as in­
formações de 10,3a ou F ,ll.

Na Bíblia traduzida por Almeida, os acréscimos da versão grega


estão ausentes.
Nas traduções católicas da Bíblia, as citações dos acréscimos
gregos têm a seguinte forma:
Na “Bíblia dejerusalém ” da Paulus e em outras traduções, é ci­
tado o capítulo da tradução do original hebraico para o grego, no qual
foi inserido o acréscimo, seguido das letras do alfabeto, que correspon­
dem aos versículos. Ex.: l , l a-li.
Na “Bíblia Sagrada” da Vozes, a letra alfabética corresponde ao
capítulo, e os números, aos versículos. A citação anterior fica da se­
guinte forma: A ,1-10.

22
Convém que se diga duas coisas da versão grega. Primeiro, ela
não é somente uma tradução do texto hebraico para o grego. Os tradu­
tores fazem adaptações à nova realidade em que se encontram em torno
de 113 a.C. Segundo, são feitos acréscimos significativos, como vere­
mos adiante.
Nas traduções católicas, o texto grego está inserido na versão he­
braica e normalmente está em itálico. A Tradução Ecumênica da Bíblia
traz cada versão separadamente. Primeiro, o texto traduzido do hebrai­
co. E, mais adiante, a tradução da versão grega, isto é, o texto hebraico
traduzido para o grego mais os acréscimos.

Ester, uma novela bíblica

Embora o Livro de Ester revele que seu autor conhecia bem a


geografia da cidade de Susa e do Império Persa, bem como tinha co­
nhecimento do funcionamento da máquina administrativa do palácio, o
livro não é historiografia.
Se fosse descrição dos fatos, Mardoqueu teria mais de 100 anos,
por ocasião dos fatos relatados. Mesmo que tivesse sido deportado ain­
da recém-nascido em 597 a.C. (2Rs 25,8-21; Est 2,5-6), ele teria 111
anos no primeiro ano de reinado de Assuero (1,1). E Ester não ficaria
muito atrás de seu primo. Com essa idade, como entender sua escolha
para rainha e ainda com um “corpo bonito e de agradável aparência”
(2,7)? Além do mais, não há nenhum registro histórico de que houvesse
rainhas persas de nome Vasti ou Ester.
De outro lado, também não é possível entender que os judeus te­
nham matado 75 mil homens (9,16), sem que isso esteja registrado em
algum documento persa. Vimos no volume anterior que os persas sem­
pre tiveram uma política favorável aos judeus. Por isso, também é difícil
entender que o rei persa tenha autorizado o extermínio do povo judeu.
Por tudo isso, podemos perceber que a narrativa é muito mais
uma novela do que uma história real. Embora seja uma novela, o texto
se refere à vida concreta dos judeus e quer ser uma injeção de ânimo
para as comunidades espalhadas em todo o império. Quer ajudá-las a

23
serem fiéis à história de seu povo, não se deixando iludir pelo modo de
vida do império. Quer devolver-lhes a esperança para continuarem fiéis
aos seus costumes, apesar das dificuldades em meio a povos que, muitas
vezes, as humilhavam.

Destinatários da versão hebraica

No Livro de Ester, Mardoqueu é símbolo dos descendentes dos


deportados, dos judeus da diáspora, isto é, da dispersão (2,5-6). Estes, e
de modo especial os descendentes dos judeus deportados que não vol­
taram para a Palestina no final do exílio babilônico, são os primeiros
destinatários do Livro de Ester. São pequenas comunidades sem maior
significado político em meio a uma potência imperial. Esses grupos não
têm nenhuma chance de mudar a situação de dominação. A melhor saí­
da parece ser o conselho de Jeremias: “Procurai ao bem-estar da cidade
para onde eu vos deportei.” (Jr 29,7).
Os judeus dispersos procuram se adaptar ao império e conviver
com o sistema, tornando-se confiáveis e até colaboradores, porém, pro­
curando preservar sua identidade cultural, como grupos separados
(3,8). Relacionam-se com todos. Porém, casam somente entre si. Vivem
dispersos. Mas cultivam um nacionalismo muito forte.
E interessante notar que chegaram a se conformar com sua con­
dição de escravos (7,4). Já não visam mais a transformação de uma socie­
dade injusta e opressora. Defendem o rei diante de um complô contra
ele (2,22). Seu desejo parece chegar perto do poder (8,1-2; 10,1-3).
Numa situação em que concretizar a justiça proposta pela profe­
cia em Israel era algo fora do alcance, há uma mudança significativa na
vida de fé dos judeus dispersos. Mais que “fazer a justiça”, buscam “ser
justos”. E como se é justo? Observando a Lei de Deus expressa na
Torá, especialmente a prática do sábado, da circuncisão, das obras de
piedade, como o jejum, a oração e a esmola. Enquanto isso, o justo ju­
deu preserva sua identidade sem questionar as estruturas de opressão e
espera pelo dia em que Deus viria libertá-lo.

24
Ester, a mulher que enfrentou o palácio

E importante destacar aqui que, assim como nos livros de Rute e


Cantares, que já vimos, mais uma vez uma mulher é a protagonista na li­
bertação de seu povo. Assim também será no Livro de Judite e na histó­
ria de Susana em Dn 13. Como veremos, é preciso também juntar o
Livro de Eclesiastes ao esforço de questionar a cultura patriarcal que
ainda está presente com força no Livro do Eclesiástico.
Isso significa que as mulheres continuavam tendo um papel sig­
nificativo no resgate de sua dignidade e de sua participação nas lutas li­
bertárias de seu povo, em meio a um contexto fortemente patriarcal,
como já vimos no volume anterior. Conspiram contra a ideologia ma­
chista do templo de Jerusalém.
Ester salva seu povo do extermínio. Judite o liberta dos opresso­
res e Susana resiste contra o legalismo do Judaísmo, desmascarando os
juizes que a condenavam injustamente.
Além disso, são fiéis ao Deus do Exodo, a YHWH libertador dos
pobres, a quem defendem. Lutam pela liberdade, por terra, pela vida,
dispostas a morrer pela causa da justiça.

A festa dos Purim, das Sortes

Leia Ester 9,20-32!


Um dos principais objetivos do Livro de Ester é servir como fun­
damentação teológica para a festa judaica das Sortes. Quer explicar a
origem da festa das Sortes. Nesse sentido, o conto sapiencial é uma etio-
logia, isto é, busca a causa primeira que deu origem à festa. A festa dos
Purim, também chamada de “dia de Mardoqueu” (2Mc 15,36), era uma
festa bem popular, com banquetes, bebidas, música e uso de máscaras.
Era um tipo de carnaval.
E provável que essa festa tenha origem entre os judeus da diáspo-
ra na época dos persas ou até antes, na época dos babilônios. E que várias
de suas características vêm das festas populares babilônias e persas, das
quais certamente os judeus participavam. Porém, sem se deixar conta­
minar com a ideologia de opressão que era passada nessas festas, muito
ligadas ao naturalismo e a magias. Ao mesmo tempo em que participa­
25
vam dessas festas, os judeus permaneciam fiéis ao conteúdo da Páscoa,
sua festa que celebrava o Deus que liberta. Substituíam, portanto, o cul­
to a divindades manipuladas em favor de sistemas de opressão pela fé
em YHWH. Na verdade, a história de Ester e de Mardoqueu é uma
reedição da experiência libertadora do Êxodo dirigida às comunidades
judaicas da dispersão.
Nesse sentido, os judeus da diáspora já faziam o que fariam mais
tarde as nações africanas para preservar sua fé diante da imposição do
catolicismo europeu. Negros e negras escravizados foram, por exem­
plo, obrigados a cultuar os santos católicos. Na verdade, porém, para os
fiéis dos cultos africanos, as imagens representavam seus orixás. É o
caso de Maria que simbolizava Iemanjá, orixá feminino, a mãe das
águas, a rainha do mar.
Vejamos alguns elementos babilônios e persas que certamente
influíram na festa judaica dos Purim e no Livro de Ester, fundamento
teológico dessa festa.
• Os nomes dos atores centrais têm sua origem nas divindades
Marduc, Deus solar, e Ishtar, Deusa astral. Mardoqueu e Ester derivam
dos nomes dessas divindades babilônias.
• A prática de lançar as sortes através de seus sacerdotes era
uma das ações de Marduc, na festa do ano novo.
• A data da festa dos Purim coincide com a festa persa para os
mortos.
• A festa persa que celebrava as vitórias do rei Dario I (521-486
a.C.) era o carnaval dos persas. Há semelhanças entre essa festa e a dos
Purim.

E significativo perceber que festas de um povo estrangeiro sejam


assumidas pelo Judaísmo, porém, despidas de seu conteúdo mítico e
mágico e adaptadas à fé de Israel, à memória do Deus que liberta. É o
mesmo processo feito com o mito do dilúvio.
Propomos que você leia agora a novela de Ester seguindo a pro­
posta de divisão da versão hebraica, como segue, incluindo os acrésci­
mos da versão grega.

26
Versão hebraica
A versão hebraica de Ester pode ser assim dividida:
• 1,1-2,18: A dominação de Assuero. Segundo o texto hebrai­
co, a história de Ester se passa na cidade de Susa, uma das capitais dos
persas, durante o reinado de Assuero, isto é, do rei Xerxes I (486-464
a.C.). A rainha Vasti é destituída de seu cargo porque ousou desobede­
cer à ordem de seu marido (1,1-22). E importante ver neste seu gesto
também uma forma de resistência à estrutura patriarcal. Mas dessa for­
ma, estava aberto o caminho para que Ester, uma órfa judia, pudesse
tornar-se rainha em seu lugar (2,1-18). Essa primeira parte começa com
três banquetes (1,3.5.9) e, no final, acontece mais um (2,18). São os ban­
quetes do sistema de opressão do império.
• 2,19-4,17: O conflito entre Amã e Mardoqueu. Depois de
uma conspiração de dois eunucos contra o rei (2,19-23), surge um con­
flito entre o primeiro ministro Amã e Mardoqueu, primo e tutor de
Ester (3,1-6). Amã consegue que o rei decrete perseguição não só a
Mardoqueu, mas também a todo o povo judeu disperso pelo império
(3,7-13). Mardoqueu e Ester se articulam para impedir o massacre de
seu povo (4,1-17).
• 5,1-7,6: Os banquetes de Ester. Ester intervém corajosa­
mente junto ao rei em favor dos judeus, desmascarando o plano de Amã
(5,1-7,6). Essa parte, que é o centro do livro, inicia com um banquete
(5,1-5) e termina com outro (7,1-6). São os banquetes de Ester.
• 7,7-8,14: O destino de Amã e de Mardoqueu. O rei muda
de posição e decreta a morte de Amã (7,7-10), bem como a liberdade do
povo judeu em todas as cidades do império. Mardoqueu passa a ocupar
o lugar de Amã e recebe autorização para aniquilar quem viesse a perse­
guir os judeus (8,1-14).
• 8,15-9,19: A festa da libertação. O povo judeu se alegra
(8,15-17). Mardoqueu coloca seu poder de primeiro ministro a serviço
da vida de seu povo, arrasando quem planejava destruir os judeus
(9,1-19). Se a primeira parte do Livro de Ester (1,1-2,18) apresenta os
banquetes dos poderosos e a terceira (5,1-7,6), os banquetes de Ester,
esta parte apresenta os banquetes do povo que celebra a libertação
(8,15-17; 9,17-19).
27
• 9,20-10,3: Apêndices. Por último, a versão hebraica do Livro
de Ester apresenta, de um lado, a instituição da festa dos Purim, isto é,
das “Sortes”, celebrada ainda hoje pelas comunidades judaicas
(9,20-32). De outro lado, há elogios a Mardoqueu que governa a serviço
da felicidade de seu povo (10,1-3). Na tradição judaica, o Livro de Ester
é lido por ocasião da festa dos Purim.
Nas nossas traduções da Bíblia, a parte que corresponde à versão
hebraica de Ester é feita diretamente do texto em hebraico.

Nos dias de hoje, como se manifesta em nossa realidade o


poder dos donos do mundo, das suas estruturas de morte? E possí­
vel enfrentá-las? Através de que meios? Por que são acusados de
terroristas ou inimigos da liberdade aqueles que não dobram o joe­
lho diante do império? Que tipo de ameaça representam? Por que
existem atos terroristas? Será que não é resposta desesperada à
opressão?
Que tipos de banquetes existem hoje? Todos têm acesso a
eles?
Quem fica excluído? Qual seu significado?
Como preservar os valores e a diversidade da cultura popu­
lar, diante da imposição de um pensamento único que favorece a
poucos? Como manter as raízes culturais em meio a tantas migra­
ções a que o povo se vê obrigado?
De que modo Deus continua agindo na nossa história, pro­
movendo a vida e a libertação?
Como transformar as estruturas de poder em serviço ao
povo?
Ainda há quem governa para os amigos em primeiro lugar?
Qual o papel da mulher na transformação do poder a serviço da
justiça e da vida do povo?

28
Eclesiastes: felicidade é usufruir
do próprio trabalho

‘E is que a felicidade da pessoa é comer e beber,


desfrutando do fruto do seu trabalho. ” (Ecl 2,24)

Data e autoria

O Livro do Eclesiastes foi escrito em torno de 250 a.C., sob o


auge da dominação dos Ptolomeus.
Ele também é conhecido como o Livro de Coélet, uma palavra
que está na forma feminina. Em hebraico, isso significa “a pessoa que
reúne, fala ou lê na assembleia”.
Coélet representa os sábios que questionam, que fazem refletir.
Sua filosofia, porém, é diferente da sabedoria dos filósofos gre­
gos. São, como dizemos hoje, intelectuais orgânicos que colocam seu
saber a serviço do povo. Leia a conclusão do livro em 12,8-14 e repare
especialmente os w . 9-10!

Coélet e a cultura helênica

Por um lado, Coélet questiona a sabedoria tradicional judaica e,


por outro, critica o modo de vida dos gregos.
O Helenismo valorizava o corpo, o prazer, o individualismo, o
acúmulo de riquezas, o poder e o conhecimento. Coélet avalia que em
tudo isso não está o verdadeiro sentido da vida, a felicidade. Somente é
possível usufruir desse modo de vida proposto pelas elites gregas,
vivendo às custas da exploração do trabalho alheio. Por isso, afirma ca­
tegoricamente que tudo isso é fugaz, passageiro, transitório. Repete a
palavra “fuga cidade/transitoriedade/relatividade/ilusão/vaidade” nada
menos que 38 vezes. Somente em 1,2 ela aparece 5 vezes. Ecl 1,2 e 12,8
formam a moldura do livro. Confira!

Veja, agora, como Coélet analisa os valores do modo de vida dos


gregos e compare com os valores neoliberais de hoje:

29
• Poder do conhecimento, da sabedoria que tem resposta para
tudo (1,12-18; 2,12-17).
• Prazer (2,1-3). Havia uma corrente filosófica na Grécia chama­
da epicurismo, que colocava o prazer como bem supremo.
• Poder econômico e político (2,4-11; 4,13-16; 5,9-15; 6,1-2).
• Trabalho competitivo e ganância de lucro para enriquecer
(2,18-23; 4,4).
• Individualismo (4,7-12).

Eclesiastes é um livro da Bíblia que resiste contra a política de he-


lenização. É uma voz contrária à opressão dos gregos. Para que traba­
lhar tanto, para que plantar e colher se é outro quem vai comer? Leia Ecl
1,3; 3,9; 6,2!
É importante lembrar que Eclesiastes é o primeiro livro bíblico a
criticar o feitiço do dinheiro, sua artificialidade e, ao mesmo tempo, sua
falsidade. Ele não tem poder sobrenatural. Por isso, prestar-lhe culto é
pura idolatria e não traz felicidade para quem faz dele seu ídolo.
Leia ainda 3,16; 4,1; 5,7-8; 8,4; 9,14-16; 10,16-20 e perceba a si­
tuação dos pobres diante do poder do rei e da estrutura estatal para con­
trolar o povo!

Coélet e a cultura tradicional judaica

Coélet questiona também a cultura tradicional judaica.


Um dos questionamentos se dirige àqueles que orientam sua vida
pelo dogma da retribuição. Leia 2,26 e perceba como Coélet considera a
doutrina da retribuição uma ilusão e frustração.
Há um longo texto em que continua questionando a sabedoria
tradicional do Judaísmo, voltando mais vezes à doutrina da retribuição.
Esse texto corresponde a 6,11-9,6. Confira!
Em vários casos, Coélet cita primeiro a posição tradicional para
depois rebatê-la, dando sua opinião. Propomos que você leia alguns
versículos que representam a visão tradicional, acompanhando, em se­
guida, os questionamentos levantados por Coélet, conforme segue:

30
Sabedoria tradicional Posição de Coélet
7,26: cultura patriarcal. 7,27-29: o machismo é constru­
ção cultural da humanidade. Não
foi assim desde as origens (Gn
1,26-27; 2,21-24).

8,1: parece ser uma referência ao 8,2-4: o conselheiro que assesso­


funcionário do rei que, com sua ra o rei, a quem jurou fidelidade,
sabedoria, poderia influir nas de­ deve se submeter a seu soberano,
cisões do seu soberano. que faz como bem lhe aprouver.

8,5: a obediência à lei sempre é 8,6-12a: Coélet não concorda


premiada a seu tempo. com essa doutrina da retribuição.
8,12b-13: o temor de Deus tem 8,14-9,6: mais uma vez, Coélet dis­
como recompensa a felicidade. corda, uma vez que a realidade des­
mente o dogma da retribuição.

Coélet ainda questiona a prática tradicional da religião, centrada


no oferecimento de sacrifícios no altar do templo e em observâncias le­
gais. Coélet insiste na escuta de Deus no silêncio em lugar de muitas pa­
lavras vãs. Insiste na coerência, pois isso é temer a Deus. Confira
4,17-5,6!

O valor que gera felicidade

Se a felicidade não está na sabedoria, no prazer, na riqueza, no in­


dividualismo e no poder político, onde, então, podemos encontrá-la?
A resposta de Coélet está presente ao longo de todo o texto. Ao
contrário da vida luxuosa, conseguida através do trabalho escravo ou da ex­
ploração de outros, Coélet defende um projeto diferente de relações na
produção. A felicidade consiste em viver com simplicidade do fruto do seu
próprio trabalho. Aí está a chave da felicidade. Sua proposta é para quem
trabalha e não para quem vive do trabalho alheio. Trabalhar para que ou­
tros aproveitem o fruto do trabalho não gera felicidade (1,3; 2,18; 3,9).

31
Ao ler o Livro de Eclesiastes, convém que você preste atenção à
quantidade de vezes em que aparecem as palavras “trabalho” (25x) e
“trabalhador” (2x).
Não deixe de ler as citações que seguem e que são como que um
refrão que perpassa todo o livro: 2,10.24; 3,13.22; 5,17-19; 8,15; 9,7-9!
Compare agora a proposta de Coélet com a do 3o Isaías em Is 65,17-25!

O caminho para alcançar a felicidade

Vejamos agora alguns caminhos propostos por Coélet para se


chegar à verdadeira felicidade, em que se possa trabalhar tranquilamen­
te e usufruir do próprio trabalho.
1. Coélet propõe relativizar tudo aquilo que não dignifica a vida.
Os valores que questiona, você já leu nos itens acima sobre
“Coélet e a cultura helênica” bem como “Coélet e a cultura tradicional
judaica”. Coélet relativiza tudo. Tudo é efêmero, passageiro. Somente
Deus não passa. Só Ele explica o mistério da vida e é o único Senhor ab­
soluto da história (8,17). A vida é um dom que dele recebemos (2,24;
3,13; 5,17-19; 7,29; 8,15; 9,7-9).
2. Outro caminho é o do temor de Deus. Veja como Coélet insis­
te no “temor”: 3,14; 5,6; 7,18; 8,12-13; 12,13!
Temer a Deus é reconhecer que só Ele é soberano. Se é assim,
então todos somos criaturas suas. Portanto, não é a nenhuma pessoa
que devemos temor, como exigiam os reis, mas somente a Deus. O te­
mor de Deus liberta da absolutização dos reis como representantes das
divindades na terra. Cria uma nova consciência que resgata a dignidade,
o direito à plena realização de todas as pessoas.
Por outro lado, temer a Deus quer dizer
"A corda tripla
devotar-lhe respeito, fidelidade. E seguir seu ca­
não se arrebenta
minho de amor e de justiça. O temor a Deus é o
facilmente."
critério fundamental da verdadeira religião.
(Ecl 4,12b)
3. Um terceiro c
dade para resistir (4,7-12) e para promover a partilha (11,1-2). Não dei­
xe de conferir as citações!

32
4. Por fim, não podemos deixar de citar a sabedoria dos pobres
como mais um caminho para se chegar à felicidade. Vimos que Coélet é
crítico à sabedoria tradicional (1,16-18; 6,11-9,6; 12,12). Contudo, nos
apresenta uma outra sabedoria, a sabedoria dos pobres (4,13; 9,15-16), a
sabedoria que gera vida e que vale mais que o dinheiro (7,12), a sabedo­
ria com humildade (7,16-18), a sabedoria sem o poder das autoridades e
das armas (7,19; 9,13-18).

O livro
Propomos a seguinte divisão para o Livro de Eclesiastes:
• 1,1: Título
• 1,2-11: Introdução
• 1,12-6,10: Fugacidade da vida
• 6,11-9,6: Revisão da sabedoria tradicional
• 9,7-12,8: Conselhos e sentenças diversos
• 12,9-14: Conclusão do redator.

Em nossos dias, em que valores as pessoas procuram sua fe­


licidade? O que a propaganda oferece como sentido da vida para a
humanidade? Quais são as necessidades mínimas, contudo, sufi­
cientes para uma vida digna? Quais são as necessidades artificiais
criadas pela mídia, mas que não geram felicidade? Como não dei­
xar se enganar por esse bombardeio da propaganda?
O que Coélet tem a dizer para o mundo neoliberal globalizado?
Para as minorias que vivem da exploração dos pobres? Quem
são os que vivem do trabalho de outros? Como fica quem está sem
emprego, porém, gostaria de trabalhar? Quando um trabalho se
transforma em uma fadiga inútil e quando ele é um dom de Deus?
O que vale mais: o conhecimento de alguém a serviço do
projeto dos donos do mundo ou a sabedoria de um pobre a serviço
da coletividade, da solidariedade? Que projeto nós apoiamos?
Como a religião pode ser um instrumento de estabilidade ou
de transformação do sistema vigente? O que significa temer a
Deus em nosso cotidiano?

33
Zacarias 9-14: esperança num rei
justo e pobre

“Eis que o teu rei vem a ti. Ele é justo,


vitorioso e pobre, montado sobre um jumento,
sobre um jum entinho,filho da jumenta. ” (Zc 9,9)

Data

Já vimos, nas páginas 92 a 95 do volume 5, que Zacarias 1-8 é


profecia que corresponde à atuação histórica do profeta Zacarias entre
os anos 520 e 515 a.C., durante a construção do 2o templo.
Já Zacarias 9-14 são escritos de profetas anônimos que acrescen­
taram seus textos ao Livro do profeta Zacarias e que já existia.
Os capítulos 9-14 de Zacarias correspondem à época dos gregos.
Confira como 9,1-8 se refere às campanhas militares de Alexandre
Magno. Portanto, as profecias do 2o Zacarias se encontram sob o impac­
to das conquistas de Alexandre e devem ser datadas entre 300 e 250 a.C.
Zc 9-14: duas partes bem distintas

A partir do gênero literário, podemos dividir Zc 9-14 em duas


partes bem distintas.
A primeira é Zc 9-11. E um texto quase todo escrito em poesia.
Os autores devem ser levitas defensores dos pobres. São críticos
ao imperialismo dos Ptolomeus. Sua mensagem central é a libertação do
povo (9,1-11,3) e o julgamento dos maus pastores (11,4-17).
A segunda parte é Zc 12-14. E um texto quase todo escrito em
prosa. A origem dessas profecias está ligada a Jerusalém. Há uma preo­
cupação com a restauração do culto no templo e das festas (14,16.20).
Seus autores estão ligados ao ritual do templo e aos sacerdotes.
Retomam a teologia cronista no sentido de que Israel é a união de
todas as tribos ao redor de Davi, do culto no templo de Jerusalém. Seus
destinatários são os moradores da Judeia, de Jerusalém da descendência
de Davi. A eles é anunciado um novo futuro, enquanto se espera a ma­
nifestação da realeza de Deus.

34
Na visão dos autores de Zc 12-14, a libertação vem da Judeia
(13), através da vinda do Dia de YHWH (14). Será o julgamento de sal­
vação no qual Deus vem para renovar a aliança, manifestando-se como
o único rei universal (12,7; 14,9).
No entanto, seus autores parecem ser críticos aos sacerdotes do
templo que se diziam os verdadeiros representantes da profecia. Nesse
sentido, Zc 13,2-6 registra a crítica aos que haviam roubado a memória
de resistência dos pobres, a memória de luta dos verdadeiros profetas.
Você já leu, mas vale a pena conferir de novo!
São favoráveis também às comunidades do interior da Judeia, às aldeias
do campo, em detrimento dejerusalém. Seus autores, portanto, embora in­
cluam os moradores de Sião no plano de salvação centrado em Jerusalém,
colocam na frente deles aqueles que os piedosos cumpridores da lei tanto
desprezavam como ignorantes e impuros. Não deixe de ler 12,7!

A esperança na vinda de um Messias


Um tema comum às duas partes é a esperança na vinda de um
Messias. E que o povo vivia numa realidade de dura opressão sob os
Ptolomeus, sem perspectivas, a curto prazo, de alcançar a libertação.
Por isso, olha para o futuro e espera por um Messias pobre, bom pastor
c da linhagem de Davi.
Na primeira parte (9-11), merece destaque a referência à vinda
de um rei messiânico pobre, montando um jumentinho. Seu projeto é
acabar com a força das armas e estabelecer uma era de paz em todo o
planeta (9,9-10). E o messianismo que vai na linha dos antigos profetas.
Leia também Mt 21,4-9 e perceba como a comunidade cristã viu a reali­
zação dessa profecia em Jesus de Nazaré!
Outra característica do Messias é que ele é apresentado como o
bom pastor em oposição aos maus pastores. Leia 11,4-17! Compare
esse texto com Ez 37,15-28!
Na segunda parte (12-14), a figura do Messias volta a ser ligada
com a descendência de Davi (12,8). E o messianismo centrado em Jeru­
salém, onde o culto e o templo, vinculados à lei, são as mediações privi­
legiadas entre Deus e o povo.

35
Nessa segunda parte, a esperança na libertação está organizada
em torno de três figuras-chave da história passada de Israel. São elas:
Davi, Elias e Josias. E um texto de esperança dirigido parajerusa
lém, para a Judeia e para os descendentes de Davi (12,8).
Em Zc 12, a referência ao “traspassado” (12,10) é uma provável
lembrança do assassinato do rei Josias da dinastia de Davi, em 609 a.C.,
para compreender o sentido do sofrimento pelo qual o povo estava
agora passando sob o peso da opressão dos Ptolomeus. O sofrimento
tinha um sentido purificador e transformador na vida do povo. Os pri­
meiros cristãos aplicaram essa passagem a Jesus ao 19,37; Ap 1,7).
Em Zc 13, o acento principal é a luta contra a idolatria. E o per­
sonagem principal da história de Israel que serviu de modelo na luta
pela libertação dos ídolos é o profeta Elias (lR s 18-19). A libertação ple­
na para o povo somente será possível no momento em que forem ven­
cidos os falsos profetas junto com os ídolos que legitimam sistemas de
opressão. Somente então o Deus libertador terá seu nome santificado.
Zc 14 celebra a manifestação da realeza de YHWH, que será o úni­
co rei do mundo (14,9). Serão vencidos todos que se opuserem a Jerusa­
lém, que habitará em segurança. Então todos os povos virão a Jerusalém
para celebrar, no templo de YHWH, a festa das Tendas (14,16-21).

Tobias: Deus é fiel à fidelidade do justo

“Se você vê um pobre, não desvie o rosto,


e Deus não afastará seu rosto de você. ” (Tb 4,7)

Data, destinatários e gênero literário

O Livro de Tobias foi redigido em grego e é um dos sete livros


que não estão na Bíblia hebraica. Consequentemente, também não se
encontra na Bíblia usada pelas igrejas protestantes.
Foi escrito em tomo de 200 a.C. Embora situe os acontecimen­
tos no século 8 a.C., de fato, o Livro de Tobias se refere aos judeus da

36
diáspora durante o período dos gregos. O modo de vida da grande po­
tência era uma tentação para os judeus. Em vez de resistir, muitos prefe­
riram o caminho mais fácil, aderindo à cultura helênica, que sustentava
ideologicamente o sistema de opressão do império.
Tal como o Livro de Ester, também seus destinatários são as co­
munidades judaicas dispersas pelas cidades do império. Os acontecimen­
tos narrados em Tobias igualmente são localizados fora da Palestina.
Tobit, o pai de Tobias, é do Reino do Norte, da tribo de Neftali (1,1). E
um sinal de que o livro se dirige para qualquer israelita na dispersão.
O Livro de Tobias não faz parte do gênero literário histórico,
mas sapiencial. E uma espécie de novela, como o Livro de Ester.

Tema e objetivo do livro

Diante da perda da identidade cultural judaica em meio a um am­


biente hostil, o Livro de Tobias quer incentivar os judeus dispersos a
manterem sua identidade original, seus costumes, sua cultura, suas leis,
sua religião. Tobias quer estimular os judeus da diáspora a permanece­
rem fiéis à fé de Israel, mesmo que tivessem que falar o grego e viver a
partir das categorias do modo de vida dos gregos, de sua visão do mun­
do. O Livro de Tobias nos apresenta uma família judaica como modelo
de fidelidade na dispersão.
A novela de Tobias propõe uma vida totalmente de acordo com a
vontade de Deus. Para o judeu, isso quer dizer uma vida conforme a lei,
que expressa a vontade de Deus. Viver a lei, ser fiel a Deus é “ser justo”.
A fidelidade a Deus traz a plena realização aos fiéis. Deus mesmo provi­
dencia tudo o que é preciso para alcançar o sentido da vida.
Deus oferece gratuitamente seus dons. Da mesma forma, Ele
quer que as pessoas também ajam com gratuidade e não de forma inte-
resseira. O nome de Tobias quer dizer “YHWH é bom”. Com isso, o
autor da novela quer mostrar que Deus é fiel ao justo, àquele que cum­
pre sua vontade, sua lei. Nesse sentido, podemos perceber a presença
do dogma da retribuição. Apesar de todas as provações por que passa
Tobit, pai de Tobias, ele é fiel a Deus que, por sua vez, o abençoa com

37
uma idade avançada, com a honra, com descendência e com prosperi­
dade (14,2-3).
Os autores do Livro de Tobias representam a visão nacionalista
da comunidade judaica pós-exílica. São fiéis à rigorosa observância da
lei (1,8). Representam, portanto, a tradição ortodoxa do Judaísmo
pós-exílico na diáspora.

O livro
O Livro de Tobias tem quatro partes bem delimitadas.
1,3-3,17: Prólogo: são vários acontecimentos a respeito da
vida de Tobit, pai de Tobias, e de sua família. Apesar de se encontrar no
exílio em meio a um contexto multicultural, Tobit se manteve fiel à lei e
às tradições dos judeus. Exalta as virtudes de Tobit (1,3-22), descreve
sua cegueira e sua oração (2,1-3,6) e se refere às provações e à oração de
Sara, futura esposa de Tobias (3,7-15).
• 4-9: Viagem de Tobias a Ecbátana para resgatar um di­
nheiro. Depois das orientações de Tobit a seu filho (4,lss), Tobias arru­
ma um acompanhante (5,lss) e captura um peixe durante a viagem (6,1-9).
Já próximo a Ecbátana, o acompanhante Rafael ou Azarias propõe a To­
bias que se case com Sara (6,10-19). De fato, Tobias se apaixona por ela
(7,lss), expulsa dela o demônio Asmodeu ao incinerar as vísceras do peixe
(8,lss), resgata o dinheiro de seu pai e se casa com ela (9,lss).
• 10-13: A volta para casa. Tobias volta com Sara e Rafael para
Nínive (10,lss) e se reencontra com o pai, curando sua cegueira com o
óleo do peixe (ll,lss). Rafael, que protegera Tobias do peixe, curara Sara
e Tobit, revela sua identidade de anjo e segue para junto de Deus
(12,lss). Diante disso, Tobit entoa um hino de louvor (13,lss).
• 14: Epílogo: Por sua fidelidade a Deus, de acordo com a
doutrina da retribuição, também Deus foi fiel a Tobit, permitindo que
morresse com idade avançada, com honra, com descendência e com
prosperidade. Antes de morrer, Tobit recomenda a seu filho que viva
de acordo com a justiça, isto é, de acordo com a lei. Depois da morte
dos pais, Tobias vai morar junto com seu sogro Ragüel em Ecbátana,
onde morre.

38
O Helenismo e a crença em demônios

Sobre a influência da demonologia persa na crença israelita


em demônios, você já leu no quadro sobre Satanás nas páginas 171a
174 do volume 5.
Porém, como Asmodeu, o demônio persa, da ira e da violência,
exerce um papel importante no Livro de Tobias (3,7-8; 6,8-19; 8,1-3), e
como a expulsão de demônios terá um importante significado na práti­
ca libertadora dejesus, convém que voltemos a esse assunto.
A ideia de Platão (429-347 a.C.) a respeito dos demônios é a
base da crença dos gregos nessas entidades. Entre os principais as­
pectos da crença em demônios no mundo grego, destacamos os
seguintes:
• Tinham a ideia de que, entre o mundo das pessoas e o
Olimpo, o monte das divindades, havia uma série de demônios,
exercendo a função de guardiães dos templos.
• Acreditavam que o mundo estava também cheio de demônios.
• Achavam que os demônios eram o elemento unificador do
universo.
• Imaginavam os demônios como seres intermediários entre
as divindades e as pessoas.
• Tanto podiam ser bons como maus. Enquanto os bons
serviam como guardas das pessoas, os malignos causavam pestes,
guerras, desordens, etc.
• Pensavam que eram imortais como as divindades, de um
lado, e, de outro, sujeitos a paixões como a humanidade.
• Sua habitação natural seria o ar.
• Julgavam que os demônios tinham influência sobre as pes­
soas, por isso elas precisavam recorrer à magia e à bruxaria para
agradá-los ou neutralizar seus ataques.
• Por fim, criam que a alma de quem morria podia vir a ser
um demônio.
Essas crenças dos gregos influenciaram também a concepção
judaica a respeito dos demônios nos dois séculos que antecederam
o movimento d ejesus de Nazaré.

39
Especialmente a partir da época altamente conflitiva dos Selêu­
cidas, que veremos logo adiante, os judeus piedosos passaram a inter­
pretar, cada vez mais, a realidade como uma grande batalha cósmica.
De um lado, estava guerreando Deus com seus anjos, isto é,
os judeus que lhe haviam ficado fiéis. De outro, guerreava Satanás
com seus anjos, isto é, os exércitos dos Selêucidas e os judeus que
aderiram ao Helenismo.
E importante destacar que, para os judeus piedosos, a figura
de Satanás foi cada vez sendo mais personificada. Sua ação acontece
nas pessoas inimigas dos fiéis judeus. Ainda mais que os governan­
tes gregos diziam que eram descendentes das divindades, da sua
união com mulheres humanas. Não é difícil entender que os judeus
fiéis também demonizassem as classes altas dos judeus, bem como
os sumos sacerdotes, responsáveis pela intermediação entre Deus e
o povo, quando estes promoveram a helenização do Judaísmo.
Não será por acaso que Jesus verá nos escribas, representantes
da ideologia da sinagoga e do templo (cf. Mc 3,22-30), a ação dos de­
mônios que precisam ser “amarrados”, tal como o fez o anjo Rafael
com Asmodeu no Livro de Tobias. Compare Tb 8,3 com Mc 3,27!
Leia agora Mc 5,1-20 e perceba que também não será por aca­
so que Jesus verá na dominação romana a ação demoníaca que pre­
cisa ser afogada no mar, tal como já acontecera com faraó e seus
exércitos junto ao Mar dos Juncos (Ex 14,15-31).
E provável que na adesão de judeus ao modo de vida dos gre­
gos, esteja a origem do mito dos anjos decaídos como se pode ler no
primeiro livro apócrifo de Enoque.

Para atualizar o Livro de Tobias para nossa realidade, pode­


ríamos fazer as mesmas perguntas que fizemos acima para o Livro
de Ester.
Poderíamos ainda perguntar: que ensinamentos as orienta­
ções de Tobit para Tobias têm a nos dizer para a educação dos fi­
lhos, para a relação entre pais e filhos? Qual o papel da família na
vida das pessoas? Como a família pode educar no sentido de trans­
mitir os valores da vida de geração em geração?
40
Dominação dos Selêucidas
(198-142 a.C.)
“Destes reis brotou uma rai\ iníqua,
Antíoco Epífanes, filho do rei Antíoco. ” (IMc 1,10)

223-187 a.C.: Antíoco III. Depois de muitas batalhas contra os Pto­


lomeus, o rei selêucida Antíoco III conquista a Pales­
tina em 198 a.C.
198-142 a.C.: A Palestina sob o domínio dos Selêucidas. Em torno
de 180 a.C., edição do Livro do Eclesiástico.
196-175 a.C.: Sumo sacerdote Onias III, filho do sumo sacerdote Si­
mão II, que é elogiado em Eclo 50,1-21 por sua fideli­
dade à lei. Onias foi o último sumo sacerdote da
linhagem de Sadoc que exerceu seu sacerdócio por su­
cessão hereditária.
188 a.C.: Paz de Apameia. Roma se impõe como a maior potência no
Oriente Médio.
187-175 a.C.: Seleuco IV, filho de Antíoco III.
175-163 a.C.: Antíoco IV Epífanes, outro filho de Antíoco III.
174-172 a.C.: Sumo sacerdote Jasão, irmão de Onias III, corrompeu
Antíoco IV para conseguir o cargo, prometendo au­
mentar a oferta de impostos e a helenização da comu­
nidade cultuai dejerusalém (2Mc 4,7-9).
172-163 a.C.: O sumo sacerdote Menelau também é favorável à he­
lenização do Judaísmo. Disputando o cargo de sumo
sacerdote com Jasão, também comprou o cargo, cor­
rompendo os Selêucidas com uma soma ainda maior
de dinheiro (2Mc 4,23-26). Mandou assassinar Onias
III em 170 a.C. (Dn 9,25-26; 11,22; 2Mc 4,30-31).
169 a.C.: Antíoco IV Epífanes, ao voltar de uma campanha militar
contra os Ptolomeus no Egito, saqueou o templo de
Jerusalém com a cumplicidade do sumo sacerdote
Menelau (IMc 1,16-28). Em 167 a.C., impõe a ferro e
41
fogo a cultura grega aos judeus. Transformajerusalém
em pólis grega (lMc 1,29-35) e exige o oferecimento
de sacrifícios a Zeus, divindade suprema do panteão
grego, no templo de Jerusalém (lM c 1,54-59; 2Mc
6.1-2; Dn 11,31). É provável que tenha colocado no
templo de YHWH a estátua de Zeus, a pedido dos sa­
cerdotes helenizantes (2Mc 6,2). Ordenou que fossem
erigidos altares em todas as partes, exigindo dos judeus
o culto a Zeus. Proíbe os costumes judaicos e a obser­
vância da lei.
167-142 a.C.: Revolta dos macabeus, iniciada pelo levita Matatias,
contra a política de Antíoco IV; bem como contra a
corrupção que havia em Jerusalém. Livros de Daniel,
Judite e 2 Macabeus.
166-160 a.C.: Judas Macabeu, filho de Matatias, chefe dos judeus (lM c
3.1-9,22).
164 a.C.: Purificação do templo e restauração do culto.
163-162 a.C.: Antíoco V é rei. No entanto, Lísias exerce o poder.
163-160 a.C.: O levita Alcimo é sumo sacerdote no lugar de Menelau
(lM c 7,5-25). Aliado dos gregos, era inimigo dos
macabeus.
161-150 a.C.: Demétrio I, filho de Seleuco IV, assume como rei, de­
pois de mandar matar Antíoco V e Lísias.
160-143 a.C.: Jônatas, filho mais novo de Matatias, chefe dos judeus
(lM c 9,23-12,53).
152 a.C.: Jônatas é nomeado sumo sacerdote (lM c 10,20s).
143-134 a.C.: Simão, outro filho de Matatias, sumo sacerdote e go­
vernador dos judeus (lM c 13-16).
142 a.C.: Fim da ocupação selêucida na Palestina.

O reinado do Selêucida Antíoco III (223-187 a.C.) foi o período


em que os gregos chegaram ao auge de seu poder no Oriente Médio. Foi
também o início de sua decadência. Antíoco III tentou avançar sobre a
Europa. Porém, foi rechaçado pelos romanos. Estes impuseram-lhe
uma paz humilhante e exigiram que entregasse parte de seu império.
42
Além de cobrar pesadas indenizações, os romanos tomaram seu filho
como refém (IMc 8,6-7). Foi nessa época que Roma começou a se des­
tacar como uma nova potência que estava surgindo no horizonte. Dn
11,18 refere-se à derrota de Antíoco III para Roma.
Em 198 a.C., Antíoco III, depois de muitas batalhas com os Pto­
lomeus do Egito, foi vitorioso, tomando posse da Síria, da Fenícia e da
Palestina. Eclo 10,8 faz referência a essas batalhas. Antíoco III conce­
deu regalias ao sumo sacerdote, bem como ao pessoal do templo. Logo
passou a receber o apoio das famílias ricas, como a dos Tobíadas.
Antíoco III seguiu a mesma política dos Ptolomeus, não impon­
do à força o Helenismo. Permitiu que os judeus continuassem a seguir a
sua própria lei. Mesmo assim, a cultura grega cada vez mais se fazia sen­
tir na Palestina. E nessa época, pelo ano 180 a.C., que foi escrito o Livro
do Eclesiástico. Seu objetivo principal foi reavivar o modo de vida dos
judeus diante da influência da cultura grega, como veremos adiante.
Quando Antíoco III foi morto, seu filho S eleu colV (187-175 a.C.)
o sucedeu. Para poder pagar as dívidas a Roma, tentou saquear o templo
dejerusalém . 2Mc 3 e Dn 11,20 referem-se a esse episódio. Quando
foi morto por seu ministro, seu irmão assumiu o trono.
A situação dos pobres se agravava por causa da ganância dos ri­
cos e do seu amor ao lucro. Confira a situação de pobreza na Palestina
em Eclo 3,30-4,10; 5,1-8; 13,1-24 e 27,1!
Diferentemente de seu irmão, "Mandou-o também
Andoco IV Epífanes (175-163 a.C.) quis profanar o santuário
impor o Helenismo à força na Palestina. de Jerusalém e dedicá-lo
O título que assumiu (Epífanes) já indi­ a Júpiter Olím pico."
ca sua pretensão de ser a “manifestação (2Mc 6,2)
de Deus”, de Zeus.
Sua nova política foi a imposição da cultura grega, sua religião e
seus costumes sobre os judeus. Sua intenção era humilhar a comunida­
de judaica, proibindo a circuncisão, a observância do sábado e exigindo
sacrifícios para divindades gregas. Chegou a construir em Jerusalém
uma cidadela fortificada (IMc 1,33-35).
Dessa forma, Jerusalém ficou dividida. Por um lado, havia os ju­
deus favoráveis ao Helenismo, instalados na cidadela dentro da cidade
43
santa, onde construíram um ginásio de esportes, bem como um templo
consagrado a Júpiter ou Zeus. Eles tinham o apoio dos Selêucidas que
tinham uma guarnição militar na fortaleza. Por outro lado, havia na Pa­
lestina os “hassideus” ou judeus “piedosos” que resistiam em defesa da
tradição judaica, fechando-se cada vez mais dentro dos limites estabele­
cidos pela lei.
Além de sentir a opressão política e econômica, os judeus passa­
ram a sofrer também uma forte dominação cultural. Da mesma forma
como, em séculos antes, reinava a dominação dos impérios, simboliza­
dos pela cidade de Babel, mais uma vez “toda a terra usava uma só lín­
gua e as mesmas palavras” (Gn 11,1). Certamente, a narrativa sobre a
cidade de Babel em Gn 11,1-9 se tornou atual como nunca nesse novo
contexto.

Diante da helenização da tradição de Israel, os judeus se dividem

Diante disso, o Judaísmo da Palestina se dividiu. Por um lado, es­


tava a classe dirigente. De outro, estavam os grupos de resistência, que
veremos logo adiante.
A classe dirigente aceitou passivamente a influência do Helenismo.
Até mesmo colaborava na sua implementação. Com a conivência do
sumo sacerdote Jasão, que corrompeu o rei selêucida para obter o cargo
(2Mc 4,7 -9), o Helenismo entrou inclusive em Jerusalém. Repare que Ja ­
são bem como Menelau, seu sucessor, têm nomes gregos. Com a nomea­
ção de Jasão para o sumo sacerdócio no lugar de Onias III, foi quebrada a
sucessão hereditária dos sadoquitas no cargo de sumo sacerdote.
Os moradores de Jerusalém que aderiram ao Helenismo recebe­
ram inclusive o título de “cidadãos antioquenos”. Antes de continuar
seu estudo neste volume, leia lM c 1,10-64!
Como você pôde perceber, até um ginásio para atletismo foi
construído na cidadela dentro de Jerusalém (lM c 1,14-15; leia ainda
2Mc 4,7-20!).
Pior que tudo isso, foi introduzir no próprio templo o culto a Zeus
Olímpico, correspondente a Júpiter dos romanos, bem como proibir a ob­
servância do sábado, da circuncisão, etc. Não deixe de ler 2Mc 6,1-11!

44
Em Dn 11,31 e 12,11, a instalação do culto dejúp iter no templo d e je ­
rusalém é chamado de “abominação da desolação”. Confira!

Os saduceus
Os saduceus eram um grupo organizado, formado pela classe di­
rigente. Organizaram-se para defender seus interesses e privilégios.
Eram da aristocracia sacerdotal, bem como dos setores leigos e ricos.
Eram a elite ligada aos interesses econômicos do governo, do latifún­
dio, do templo e do grande comércio. Durante a dominação dos gregos,
sua posição política era favorável à adoção da cultura helênica e à alian­
ça estratégica com os Selêucidas, que lhes garantia uma situação econô­
mica privilegiada.
Além de serem conservadores, viviam em torno do templo, con­
trolando o poder e o comércio. Os saduceus mantinham sua influência
sobre o povo através das alianças com quem detinham o poder.
Eles não tinham mentalidade apocalíptica. Consequentemente,
não esperavam por um Messias, nem acreditavam na ressurreição. So­
bre a teologia apocalíptica, trataremos adiante.
Mais tarde, apoiariam os reis hasmoneus abertos à helenização da
cultura judaica, como ainda veremos. Alexandre Janeu (103-76 a.C.),
por exemplo, apoiou-se neles, quando lutou contra os fariseus. Porém,
Salomé Alexandra, sua esposa, que o sucedeu no trono (76-67 a.C.), ad­
mitiu novamente os fariseus no Sinédrio. A partir de então, começou
um conflito entre os dois grupos no grande conselho, em que os sadu­
ceus continuaram sendo a maioria.

Literatura na época dos Selêucidas

O primeiro a reagir diante das provocações de Antíoco IV foi


Matatias, levita (IMc 2,1; lC r 24,7) da aldeia de Modin situada a noroes­
te dejerusalém . Ali, matou o representante do rei, bem como um judeu
que sacrificava às divindades gregas sobre o altar sob a ordem dos gre­

45
gos (lM c 2,24-25). Assim começou a luta contra os judeus que aderiram
ao modo de vida helênica e contra a opressão dos Selêucidas.
Durante o exílio babilônico, o 2° Isaías havia iniciado uma aber­
tura de Israel para o mundo, como vimos no volume 5. Esdras e Neemias,
ao contrário, impuseram um Judaísmo exclusivista. Contra eles reagi­
ram os livros de Rute e de Jonas. Os judeus de Alexandria retomaram o
universalismo do 2° Isaías. Nesse sentido, o Helenismo foi um desa­
fio para Israel na retomada da sua missão de ser “luz para as nações”
(Is 42,6; 49,6). Porém, os hassideus insistiram no Judaísmo legalista e
preso a suas tradições. Em boa parte, a literatura bíblica nos dois últi­
mos séculos a.C. reflete, com diferentes ênfases e tendências, esse Judaís­
mo fechado e que decidiria, mais tarde, o assassinato de Jesus, bem
como a expulsão dos cristãos de origem judaica de suas sinagogas.
Agora, passemos ao estudo da literatura que surge durante o pe­
ríodo dos Selêucidas. Inicialmente, veremos o Livro do Eclesiástico. De­
pois, analisaremos a revolta dos macabeus, bem como o surgimento dos
fariseus e dos essênios a partir dos hassideus. Como o gênero literário do
Livro de Daniel é a forma de apocalipse, passaremos então a algumas
informações sobre a apocalíptica e, em seguida, ao estudo do U vro de Da­
niel. Depois, será a vez do U vro de Judite e do segundo U vro dos Macabeus.

Eclesiástico: defesa da identidade


de um povo

“Toda sabedoria é temor do Senhor;


em toda sabedoria está a prática da lei. ” (Eclo 19,20)

O Livro do Eclesiástico, assim chamado por seu uso freqüente


na catequese da Igreja, também é conhecido pelo nome de Sirácida. E
que seu autor chama-se “Jesus, filho de Sirac” (50,27). Eclesiástico é
mais um livro que somente consta nas traduções católicas da Bíblia.
A literatura em defesa da identidade cultural do Judaísmo neste
primeiro momento da dominação dos Selêucidas pode ser encontrada
no Livro do Eclesiástico.

46
A época de redação desse livro deve ser em torno de 180 a.C. É
posterior ao sumo sacerdote Simão II (220-196 a.C.), pois fala dele em
50,1-21. Ainda não há referências à
"É por causa das injustiças,
imposição forçada do Helenismo a das violências e do dinheiro
partir de 167 a.C. Nem à revolta
que a soberania passa
posterior dos macabeus. Porém, já
de um povo para outro."
faz referência à luta pela hegemo­
(Eclo 10,8)
nia no contexto internacional.
Eclo 10,8 é uma provável referência à guerra entre os Ptolomeus e Se­
lêucidas na luta pelo controle da Palestina. Por isso, pode-se situar com
segurança a edição desse livro em torno de 180 a.C.
Além disso, a crença na ressurreição ainda não está presente nes­
te livro. Seu autor acredita na retribuição nesta vida e não na vida futura
(49,1-11), como será fortemente afirmado na época dos macabeus (2Mc
7,7-14; Dn 12,1-3).

Autor

Jesus, filho de Sirac, é um judeu fiel à tradição do Judaísmo


pós-exílico. Provavelmente, era um escriba dejerusalém que tinha sua
própria escola (51,23). Desde sua juventude, dedicou-se ao estudo e en­
sino da lei (24,34; 33,18; 51,13-30). Chega a identificar a sabedoria com
a lei dos judeus (15,1; 19,20; 24,23-29).
O autor está fortemente marcado pela tradição de Israel. Tinha
uma preocupação especial pelo templo, pelo sacerdócio e pelo culto em
Jerusalém (7,29-31; 50,1-21). Para ele, a sabedoria encontrou sua casa nas
assembleias, no culto (24,23). Ao exaltar os sacerdotes e escribas, consi­
dera sua atividade intelectual superior ao trabalho manual (38,24-39,11).
Como boa parte da comunidade judaica, também nutria um sen­
timento antissamaritano e de discriminação de outros povos (50,25-26).
Era adepto da doutrina da retribuição, pois acreditava que Deus retribu­
ía o bem com vida longa, muitos filhos e riqueza, enquanto castigava o
mal com vida breve, esterilidade e pobreza (2,10; 11,14-28). Como seus
correligionários, o autor do Eclesiástico considerava Israel como uma
herança especial de Deus (17,17; 24,12).

47
Por tudo isso, podemos perceber que essa obra representa a re­
flexão sobre a sabedoria feita pelos escribas, levitas e sacerdotes em tor­
no do templo de Jerusalém. Representa o Judaísmo fechado à missão
universal de Israel.

Objetivo
O livro dejesus, filho de Sirac, quer defender a cultura da comuni­
dade judaica. Diante da ameaça da helenização do Judaísmo, o autor de
Eclesiástico reafirma a tradição cultural de seu povo (2,12-14). Luta pela
"Tudo isto (o sabedoria) preservação da identidade do povo judeu.
é o livro da aliança do
Põe em evidência os principais elementos
Deus Altíssimo, a Lei do Judaísmo, tais como a fé, a lei, a sabe­
que Moisés promulgou." doria e a ética, que entraram em confron­
(Eclo 24,23)
to com o modo de vida dos gregos.
Eclesiástico é um livro que se
opõe aos que queriam adaptar o Judaísmo ao Helenismo, embora assu­
ma elementos da civilização grega. Busca reavivar a memória e a cons­
ciência históricas do povo numa perspectiva sapiencial. Diante da
sabedoria dos gregos, voltada para o conhecimento, para a especulação,
o autor identifica a lei judaica como sendo a verdadeira sabedoria
(24,23-29). Ser sábio, portanto, não é tanto buscar o conhecimento, tal
como fazia a filosofia grega (“filosofia” significa “amigo da sabedoria”).
Ser sábio é viver de acordo com a lei na vida diária. Sabedoria é uma
questão de ética, que tem a ver com a vivência, o comportamento.
Diante dos heróis gregos, o filho de Sirac afirma que herói é
quem preserva sua fé e sua identidade. Para contrapor aos heróis helêni-
cos, faz uma lista de heróis do passado glorioso de seu povo (44-49).
Segundo as informações do prólogo (w . 1-35), foi o neto d e je ­
sus, filho de Sirac, quem traduziu para o grego o texto do original hebrai­
co em 132 a.C. Ao traduzir a obra de seu avô, o tradutor anuncia sua
intenção: “Tive em vista especialmente os que, vivendo em terra estra­
nha, desejam aprender e estão predispostos, por seus costumes, a viver
em conformidade com a lei.” (prólogo, w . 34-45). Portanto, a tradução
para o grego quer preservar os costumes dos judeus da diáspora.

48
O temor a Deus
O temor a Deus é um tema central no Eclesiástico (1,11-21).
Temer a Deus é ser fiel a Ele, cumprir sua vontade que, segundo
o Judaísmo, se expressa na lei. Por isso, o temor a Deus se manifesta na
fidelidade à lei (1,26; 6,37). E o estudo da lei que leva à sabedoria. A sa­
bedoria está na prática da lei (19,20). E a libertação do povo virá pela
prática da lei.
Diante da diversidade de divindades no Helenismo, o Eclesiásti­
co reafirma a eternidade do único Deus (18,1; 36,4; 42,21). Diante da sa­
bedoria dos filósofos gregos, opõe o Deus que tudo conhece
(42,18-25), que tudo é (43,27). Diante do orgulho dos gregos que se
consideravam a civilização mais evoluída e com um sistema de adminis­
tração justo, Eclesiástico apresenta YHWH como aquele que governa o
universo com justiça e providência (16,17-23).

O temor a Deus leva ao compromisso com a vida dos pobres


Temer a Deus é comprometer-se com o Deus do Êxodo, que
está junto com seu povo para libertá-lo. Nesse sentido, Eclo resgata a
teologia da justiça em favor dos pobres da terra. Não deixe de ler
3,30-4,10; 13,1-24!
Resgata também a verdadeira religião, na mesma perspectiva dos
antigos profetas. Compare, por exemplo, Am 5,21-24 com Eclo 34,18-
35,18 (Bíblia Sagrada, Vozes = 34,21-35,22)!

Eclesiástico e relações de gênero


No que diz respeito às relações de gênero, Eclesiástico é um livro
conservador, que segue a linha dos rabinos, fortemente influenciados
por Esdras e Neemias.
O autor reconhece que a mulher também pode adquirir sabedo­
ria (7,19). Porém, sua postura em relação a ela é de desconfiança. Mes­
mo que elogie a boa esposa, o faz a partir do ponto de vista patriarcal.
Lembre das posições de Cantares a respeito das relações de gêne­
ro e compare com o machismo presente em Eclo 7,26; 9,1-9; 25,
13-26,27; 36,26-31; 42,9-14!

49
C) tlllu. ilc Sirac considera que “a maldade do homem é preferível
à bondade de uma mulher” (42,14). O que você acha dessa opinião?
Talvez a afirmação mais grave a respeito da mulher esteja em
25,24. Confira! E verdade que o autor está lembrando a narrativa de Gn
3,1-6 e faz dela uma interpretação literal. Porém, que digam as mulheres
quanto mal causou a elas a interpretação fundamentalista de Gn 3 e esse
versículo d ejesu s, filho de Sirac! Quanto peso nas suas consciências!
Quanta culpa! Quanta submissão e sofrimento nas mãos dos homens!
E interessante observar que Paulo, embora também se refira à culpa da
mulher (2Cor 11,3), dá maior ênfase na culpa do homem (Rm 5,12; ICor
15,21-22). Nesse sentido, resgata a intenção original da narrativa do Li­
vro de Gênesis.

Limites do Eclesiástico
Por um lado, o Eclesiástico tem muitas riquezas. Procura, por
exemplo, preservar a identidade cultural e religiosa de um povo diante
do imperialismo cultural dos gregos. Reaviva também a memória e a
consciência que os israelitas têm a respeito da ação do Deus da vida na
sua história.
Por outro lado, no entanto, convém anotar alguns limites presen­
tes nas teses que o filho de Sirac defende.
• Apesar da luta das mulheres para desconstruir a cultura patriar­
cal e reconstruir uma nova forma de conceber as relações de gênero em
Israel, Jesus, filho de Sirac, reforça a visão patriarcal e misógina, isto é, de
desprezo às mulheres. Você já leu os textos ao estudar o item anterior.
• Não questiona a escravidão difundida com força nas relações de
trabalho pela civilização grega. Somente recomenda que se trate bem os es­
cravos, sem violar a legislação israelita a seu respeito. Enquanto isso, a es­
cravidão continuava sendo um modelo social que afrontava a dignidade
humana e seu criador (Eclo 33,25-33; Ex 21,1-6; Lv 25,46; Dt 15,12-18).
• Identifica a lei com a sabedoria de Deus (24,23-29).
• Considera o trabalho manual inferior às atividades intelectuais
(38,24-39,11). Assume dos gregos a importância maior da atividade in­
telectual em detrimento do trabalho braçal, considerado trabalho escra­
vo. E interessante notar aqui que o apóstolo Paulo, dois séculos e meio

50
depois, faria questão de trabalhar para, entre outras razões, resgatar a
dignidade de quem exerce trabalho manual.
• Diante das autoridades, chama à submissão (4,7).
• A doutrina da retribuição determina sua imagem de Deus
(2,10; 11,14-28).
• Propõe uma educação para os filhos demasiado severa
(30,113; 42,9-14).
O fato de haver limites na Bíblia não deve nos estranhar, pois ela
é a busca da fidelidade a Deus de pessoas bem concretas. Os livros da
Bíblia estão encarnados em seu tempo e espaço, sofrendo também os
condicionamentos de seus autores.

O livro
Além do prólogo e do epílogo, o Eclesiástico pode ser dividido
em duas partes bem delimitadas.
• w . 1-35: Prólogo do tradutor para o grego.
• 1,1-42,14: Coleções diversas de sentenças de sabedoria para a
vida diária na família e na sociedade, no relacionamento consigo mes­
mo, com as pessoas e com Deus.
• 42,15-50,29: Em forma de hino de louvor, revelação da sabe­
doria de Deus: —na criação (42,15-43,33);
—na história de Israel (44-50).
• 51: Epílogo.

Revolta dos macabeus (167-142 a.C.)

“Quem tiver amor pela lei e conserva a aliança,


venha e siga-me! ” (Matatias —IMc 2,27)

A partir de 167 a.C., o domínio dos Selêucidas sobre a Palestina já


não era algo pacífico e consolidado. Tiveram que enfrentar 25 anos de
resistência liderada pela família do levita Matatias. Em 142 a.C., os Se­
lêucidas foram definitivamente expulsos dejerusalém .

51
A reação à imposição dos costumes gregos com o apoio dos su­
mos sacerdotes veio com a guerra dos macabeus. Assim é chamada a fa­
mília do levita Matatias. E que Judas, um de seus filhos, era chamado
Macabeu, que quer dizer “martelo”. A família de Matatias também é co­
nhecida por hasmoneus. Segundo uma tradição, um suposto antepassado
de Matatias se chamava Hasmon. Sempre que nos referimos aos hasmo­
neus, estamos falando da dinastia que os descendentes dos macabeus ins­
tituíram depois que se libertaram dos Selêucidas em 142 a.C.
Os macabeus tinham como um de seus objetivos restaurar a reli­
gião de YHWH através das armas, integrando à força as cidades que ha­
viam sido helenizadas pelos Selêucidas. Sua luta estava inspirada na
fidelidade à aliança, à lei (lM c 2,20-21.27.50).
Outro objetivo importante era libertar a terra da opressão dos Se­
lêucidas. Tinham, portanto, em vista também a libertação política e
econômica.
Um detalhe importante que não podemos esquecer é perceber
que a revolta dos macabeus começa, na verdade, como luta dentro do
próprio povo judeu. E um enfrentamento entre as elites defensoras da
helenização das tradições judaicas, de um lado, e, de outro, os partidários
da defesa das tradições do Judaísmo. Por isso, no começo da revolta, a
luta não se dirige contra os Selêucidas. Porém, na medida em que eles
ajudam os judeus helenistas, a revolta se transforma numa guerra contra
o império opressor.
Apesar de os macabeus serem numericamente inferiores, conse­
guiram vitórias importantes contra os Selêucidas, recuperando o domí­
nio sobre o território palestinense. Convém lembrar que fazia mais de 4
séculos, desde a dominação dos babilônios, que os judeus não tinham
poder sobre as terras da Judeia. As vitórias sobre os gregos do norte fo­
ram tão longe que os macabeus libertaram um território tão grande
como as antigas dimensões do Império Davídico.
Essas vitórias se devem fundamentalmente às seguintes razões:
• tinham a seu favor o entusiasmo religioso dos judeus;
• as condições geográficas lhes eram favoráveis, permitin­
do-lhes articular estratégias de combate de guerrilha;

52
• as contínuas competições entre as dinastias ptolomaica e se-
lêucida, bem como as lutas internas dentro da classe dirigente selêucida;
e as alianças com os romanos (IMc 8).
Os principais momentos da insurreição macabeia
• 167 a.C. —Matatias, um levita do interior, reage e mata um ju­
deu infiel. Com seu grupo, destruiu altares onde se sacrificava para ou­
tras divindades. Matou judeus que seguiam o culto imposto pelos
gregos. Além disso, circuncidou crianças judias à força. Incentivava o
povo a se rebelar contra os adeptos da
"Agora, meus filhos, sede
helenização que estavam em Jerusalém
zelosos pela Lei e dai a
sob a proteção dos Selêucidas.
vida pela aliança de nos­
No ano seguinte, Matatias mor­
sos pais."
reu com idade já bastante avançada.
(IM c 2,50)
Leia agora a respeito da rebelião de Ma­
tatias em IMc 2,1-70! Repare como, no episódio do sábado (w . 29-41),
foi relativizada a lei em função da defesa da vida.
Repare ainda o apoio dos hassideus aos macabeus (v. 42), grupo
de judeus piedosos que, posteriormente, deu origem aos fariseus e aos
essênios, como veremos adiante. Os hassideus eram um movimento re­
ligioso, fortemente apegado à lei, presente no campo e na cidade. Os
hassideus do campo se juntaram à luta de Matatias (cf. 2Mc 8,1; 14,6).
O objetivo dos hassideus, ao apoiar a luta dos macabeus, era lutar
pela liberdade de culto, de vivência da lei. Diferentemente dos maca­
beus, não visavam a luta pela libertação da terra. Podemos encontrar
sua visão da guerrilha dos macabeus em 2Mc. Sua principal preocupa­
ção é a defesa do Judaísmo (2Mc 2,21).
Além dos hassideus, juntaram-se ainda a Matatias “todos os que
fugiam dos males”, isto é, da exploração e da violência (IMc 2,43).

• 166-160 a.C. —Judas, chamado Macabeu (“martelo”), era o ter­


ceiro filho de Matatias (IMc 2,4). Ele continuou e aprofundou a luta inicia­
da por seu pai. Diante da tentativa de os Selêucidas restabelecerem a ordem
na Palestina, Judas lhes aplicou uma humilhante derrota em Bet-Horon
(IMc 3,24). Em 165 a.C., derrotou outra tentativa dos Selêucidas em Betsur

53
na fronteira sul da Judeia (lM c 4,26-35). No ano seguinte, em 164 a.C., Ju­
das tomou Jerusalém, apesar de os Selêucidas continuarem controlando a
cidadela dentro da cidade santa. Merecem destaque a purificação do tem­
plo e a restauração do culto naquele ano (lM c 4,36-61).
Aqui, é interessante observarmos que, além do apoio dos hassi­
deus e de “todos os que fugiam dos males”, os macabeus, ou levitas do
interior, também tinham apoio dos “sacerdotes sem mancha”: isto é,
dos sacerdotes observantes da lei e que não haviam apoiado o projeto
helenizante (lM c 4,42).
Temos, portanto, quatro grupos envolvidos na revolta, com mo­
tivações diferentes. Os hassideus e os sacerdotes zelosos se contenta­
vam com a conquista da liberdade de culto, com a defesa do Judaísmo.
Os levitas do interior e o povo pobre da terra queriam ir mais longe. Lu­
tavam também pela libertação política e econômica.
Por isso, mais tarde, o grupo se desmanchou. Quando a guerrilha
conquistou a liberdade religiosa (lM c 6,59), os hassideus se retiraram da
luta (lM c 7,12-13). E quando reconquistou o controle sobre o templo e a
liberdade do culto, também os sacerdotes sem mancha se afastaram da luta
e se deram por satisfeitos, servindo o rei e rezando por ele (lM c 7,33).
No entanto, depois de libertar o templo e o culto do controle dos
gregos, os macabeus continuaram sua luta contra a helenização na Pa­
lestina e pela libertação política e econômica, com o apoio do povo da
terra. Em 163 a.C., fizeram incursões na Galileia e Galaad, destruindo
várias cidades helênicas. Você pode ler a respeito em lM c 5,9ss!
Mas nem todos os empreendimentos eram bem-sucedidos. Em
Bet-Zacarias, aldeia a uns 20 km a sudoeste de Jerusalém, os macabeus
foram derrotados (lM c 6,32ss). Então os Selêucidas ofereceram a paz
aos judeus, propondo que voltassem a “viver de acordo com suas leis,
como dantes. Pois é por causa de suas leis, que quisemos abolir, que eles
se exasperaram e fizeram tudo isso” (cf. lM c 6,59). Os judeus piedosos
aceitaram a proposta, uma vez que seu objetivo de viverem livremente
suas leis já estava alcançado (w . 60-61). Eles renunciaram à luta armada
pois já podiam novamente viver com liberdade sua religião. Contenta-
vam-se em levar uma vida rigorosamente fiel à observância da lei. No
entanto, o rei não cumpriu o acordo (v. 62).
54
E hoje, é possível confiar nas propostas de paz que vêm do
império? São confiáveis as saídas que propõe para solucionar a
fome de três quartos da humanidade? Dá para acreditar que sua
proposta de criação de uma área de livre comércio seja para favore­
cer nossas indústrias e nossa agricultura? Que vantagens temos ao
aceitar acordos com nações poderosas? É possível alterar a correla­
ção de forças existente entre os povos? De que forma?

E mais. Os Selêucidas nomearam para sumo sacerdote o levita


Alcimo, em substituição a Menelau que morrera. Alcimo também era
favorável à helenização do Judaísmo. Por isso, foi considerado inimigo
e traidor pelos macabeus (IM c 7,5-10). Além de oferecer sacrifícios
pelo rei (IMc 7,33), várias vezes instigou os Selêucidas a enfrentarem
Judas Macabeu (IMc 7,20-25).
O movimento de resistência ficou dividido. Por um lado, os pie­
dosos romperam com os macabeus. Porém, mais uma vez foram traí­
dos pelos Selêucidas com apoio do sumo sacerdote Alcimo (IMc
7,11-22).
Por outro lado, Judas e seus companheiros se mantiveram em pé
de guerra (w . 23-25). E que seu projeto ia além da simples liberdade de
culto. Lutavam também pela independência política em relação aos Se­
lêucidas, pela libertação da terra, para não pagarem mais tributos e não se­
rem escravizados. Nessa luta, certamente tiveram apoio popular. Seu
objetivo era a restauração de Israel. Foram vitoriosos em alguns comba­
tes. Alcimo teve que fugir e Judas foi morto em meio a uma derrota de
seu exército em 160 a.C. Tudo isso você pode conferir em IMc 7,39-9,22.
• 160-143 a.C. —No lugar de Judas Macabeu, seu irmão Jônatas
assumiu a luta para libertar a Palestina e restaurar o Judaísmo em torno
de Sião e da observância da lei. Em 152 a.C., Jônatas assume também a
função de sumo sacerdote (IMc 10,18-21). Essa atitude não foi aceita
pelos judeus piedosos, uma vez que Jônatas não era sadoquita.
Por isso, essa atitude de Jônatas provocou mais uma divisão no
Judaísmo. Possivelmente foi nesse momento que surgiu o movimento
dos essênios. Muitos se retiraram para regiões desérticas, onde viviam

55
em mosteiros. Ali cultivavam uma intensa vida de comunidade, dedi­
cando-se ao trabalho e ao estudo da Bíblia, especialmente aos livros
proféticos. Seu líder espiritual era chamado de “Mestre da Justiça”. Cul­
tivavam uma mentalidade fortemente apocalíptica, voltada para os “úl­
timos dias”. Aguardavam a restauração do sacerdócio dos sadoquitas
em Jerusalém.
Com a nomeação de Jônatas para sumo sacerdote, também o po­
der religioso passou para as mãos dos macabeus. Essa situação durou
até 63 a.C., quando os romanos invadiram a Palestina.
Todas as lutas, alianças e vitórias de Jônatas você encontra em
lM c 9,23-12,53. Quando, por fim, foi preso pelos Selêucidas, seu irmão
Simão assumiu a continuidade da luta de libertação.
• 143-134 a.C. —Como seu irmão, também Simão se torno
sumo sacerdote, general e chefe dos judeus (lM c 13,42; 14,47). Em 142 a.C.,
libertou definitivamente dos Selêucidas a cidadela em Jerusalém, inau­
gurando uma nova época (lM c 13,43-53). Dessa forma, estavam alcan­
çados os objetivos a que os macabeus haviam se proposto. A respeito
das alianças feitas por Simão, das suas lutas e da ampliação do território
do seu reino, você pode ler em lM c 13-16.
A luta dos Macabeus é testemunha da resistência heróica de um
setor considerável do Judaísmo contra a helenização forçada de sua tra­
dição cultural, contra a proibição da vivência de sua lei e pela libertação
política de sua nação.
No entanto, a dinastia dos hasmoneus (142-63 a.C.), que segue o
período revolucionário nos macabeus, transformou-se num reinado
opressor igual à dominação dos Selêucidas. Para o povo, na verdade, a
nova etapa da história de Israel não trouxe liberdade. Continuou trazen­
do sofrimento e morte, como veremos adiante.

Os hassideus ou piedosos

Você já leu lM c 2,42. Ali faz referência aos hassideus. Esses ju­
deus piedosos eram o grupo de judeus que mais se esforçava em viver
rigorosamente a lei israelita.

56
No início da insurreição macabeia, eles foram um apoio impor­
tante na luta dos macabeus. Certamente, eles já vinham resistindo con­
tra a influência do modo de vida helênico desde antes da revolta de
Matatias. Nas lutas de Judas Macabeu, serviram de tropa de choque
(2Mc 14,6). No entanto, como já vimos, cansados da guerra e tendo al­
cançado seu objetivo que era a liberdade de culto, os piedosos judeus se
afastaram, não se submetendo à política dos macabeus IMc 7,12-13.
Como veremos adiante, os hassideus são os autores de 2Mc, en­
quanto os redatores de IMc provêm de círculos ligados aos macabeus.
Por volta de 150 a.C., os hassideus se dividiram em dois grupos:
os fariseus e os essênios.

Os fariseus ou separados

Como já vimos, os fariseus ou “separados” afastaram-se dos ma­


cabeus quando viram já alcançado seu objetivo de viver livremente o
culto judaico. Politicamente, no entan­
"Reuniu-se a eles o
to, não continuavam mais diretamente
grupo dos hassideus,
engajados, uma vez que esperavam a li­
israelitas valorosos, cada
bertação como ato direto de Deus.
um deles sinceramente
Estavam fortemente marcados
devotado à Lei."
pela mentalidade apocalíptica que vere­
(IMc 2,42)
mos adiante. E importante ressaltar que a
origem dos fariseus deve ser situada nesse ambiente apocalíptico de fideli­
dade à lei, como reação contra a imposição forçada dos costumes gregos.
Sua origem social era de diversas classes sociais, especialmente de
artesãos e trabalhadores livres. Viviam em confrarias ou irmandades
nos vários povoados da Palestina.
Deve-se a eles o surgimento de sinagogas em praticamente todos
os povoados. As sinagogas eram, ao mesmo tempo, casas de reunião
para as confrarias, casas de oração e casas de estudo da lei. Ali, os fari­
seus instruíam as comunidades na observância da lei, ajudando o povo a
manter sua identidade e alimentando a esperança na chegada iminente
do Messias e do Reino de Deus. Graças a isso, eles conseguiram uma
grande liderança entre os judeus.

57
Como ainda veremos, mais tarde, no reinado de João Hircano I,
os fariseus se opuseram aos reis hasmoneus de tendência helênica e fo­
ram violentamente perseguidos por eles. Diferentemente dos saduceus,
eram fortemente contrários à helenização dos costumes judaicos.
Seu zelo na observância da lei era uma de suas marcas principais.
Desse zelo dos fariseus, sairiam mais tarde os zelotas, os mais ri­
gorosos adeptos da ação violenta contra os impérios estrangeiros e seus
colaboradores judeus.

Os essênios

Já vimos acima que os essênios surgiram a partir do momento em


que Jônatas, que não era descendente de Sadoc, assumiu o sumo sacer­
dócio. Muitos se retiraram para regiões desérticas a noroeste do Mar
Morto. Descobertas arqueológicas recentes confirmam a existência de
centros comunitários dos essênios na região. Ali viveram entre 150 a.C.
e 70 d.C., quando os romanos destruíram o convento da comunidade de
Qumran. Dedicavam-se à vida comunitária, ao trabalho e ao estudo das
Escrituras, enquanto aguardavam o juízo final para breve. A maioria de­
les era da linhagem dos sacerdotes sadoquitas. Consideravam-se o ver­
dadeiro Israel em oposição ao restante dos israelitas que consideravam
corrompidos.
Em relação aos fariseus, a quem criticavam por sua incoerência,
os essênios vivem de forma ainda mais rigorosa o cumprimento da lei.
As principais normas da comunidade dos essênios eram:
• Viver rigorosamente de acordo com as exigências da comuni­
dade em obediência à hierarquia.
• Procurar a Deus de toda alma e de todo coração.
• Praticar o que é bom e justo perante Deus, conforme a lei e os
profetas.
• Manter-se distante do mal e praticar boas obras.
• Amar os filhos da luz (os essênios) e odiar os filhos das trevas.
• Ter 2 anos de experiência para ser admitido na comunidade.
• Praticar comunhão de bens.
• Fazer ritos de purificação com banhos diários de submersão.

58
• Dividir o dia em períodos de oração, de trabalho e de leitura da
Bíblia.
• Manter segredo sobre a doutrina da comunidade.
• Participar de refeições cultuais comunitárias.

Em seu tempo, os essênios tinham várias razões para se oporem


ao sacerdócio de Jerusalém, separando-se do culto oficial praticado no
templo. Citemos as principais:
• Acusavam os sumos sacerdotes de terem se rebelado contra a lei.
• Criticavam os subornos que houve na luta pelo cargo de sumo
sacerdote, como foram os casos de Jasão, Menelau e Alcimo.
• Condenavam também a helenização promovida por esses sumos
sacerdotes, permitindo também o culto às divindades gregas.
• Como a partir do sadoquita Onias III foi quebrada a sucessão
hereditária no cargo de sumo sacerdote, os essênios se opu­
nham também à falta de legitimidade dos sumos sacerdotes
posteriores. A situação piorou ainda mais quando Jônatas as­
sume o sumo sacerdócio em 152 a.C. Eles aguardavam a res­
tauração do sacerdócio sadoquita em Jerusalém.

Havia também essênios que viviam em comunidades urbanas es­


palhadas na Palestina. Estes tinham uma maneira um pouco diferente
de viver sua adesão ao movimento. Há uma hipótese que defende a tese
de que eles influenciaram João Batista.
Passaremos, agora, a estudar os livros bíblicos que surgiram du­
rante a revolta dos macabeus. São eles: Daniel, Judite e 2 Macabeus.
Mas antes, faremos uma introdução à teologia apocalíptica.

Teologia apocalíptica
A razão por que fazemos essa introdução à teologia apocalíptica
é que o Livro de Daniel foi escrito dentro dessa visão da história e da
presença de Deus em meio à luta contra o império.
Quando se fala em apocalíptica, logo pensamos no Livro do pro­
feta Daniel ou no Livro do Apocalipse (“revelação”) de João no Segun­
59
do Testamento. No entanto, além desses livros, são ainda literatura
apocalíptica na Bíblia: Mt 24-25; Mc 13; Lc 21 e lTs.
Além desses textos que podemos encontrar na Bíblia, ainda há
muitos textos apócrifos que também são apocalipses. E o caso dos livros
de Enoc, dos Testamentos dos Do^e Patriarcas, dos Oráculos Sibilinos, da
Assunção de Moisés, da Ascensão de Isaías, dos Livros de Baruc, de 3-4Esdras,
do A pocalipse de Pedro, de Paulo e de Tomê. Como você pôde perceber, os
livros apocalípticos geralmente são atribuídos a algum personagem im­
portante do passado, a fim de dar importância à revelação.
Há ainda outras partes da Bíblia que têm elementos da linguagem
apocalíptica. Porém, preferimos chamar esses textos de pré-apocalípticos.
Enquanto os profetas pré-exílicos, exílicos e os que atuaram nas
primeiras décadas do pós-exílio se referem a nações bem concretas, os
textos pré-apocalípticos falam da terra toda, do mundo ou da cidade
sem alguma identificação precisa. Visam, portanto, a transformação das
estruturas deste mundo, sob o julgamento de Deus. E o caso de Is 24-27;
34-35; Ez 38-39; J1 3-4 e Zc 14. Nessa mesma perspectiva, devemos in­
cluir a teologia que está por trás do Dia de YHWH, como já vimos no
volume anterior. Os textos pré-apocalípticos fornecem muitos elemen­
tos para a literatura apocalíptica, como o uso de imagens e números.
As novelas bíblicas, embora falem da vida real, da história con­
creta do povo, são livros de ficção, no sentido de não serem historiogra­
fia. Usam uma linguagem romanceada para falar do cotidiano. Nesse
sentido, os textos apocalípticos, embora sejam de gênero literário dife­
rente das novelas, são semelhantes, uma vez que também são livros de
ficção. Usam uma série de recursos literários, como sonhos e visões,
para falar da realidade histórica.

A teologia apocalíptica nasceu sob a dominação imperialista


Na verdade, o movimento apocalíptico em Israel nasceu na resis­
tência durante a dominação dos gregos, especialmente do rei selêucida
Antíoco IV Epífanes. Mais precisamente, a apocalíptica tem seu berço
entre os levitas piedosos que estavam preocupados em resgatar as anti­
gas tradições de liberdade e da religião de YHWH, bem como em
defender a identidade cultural da comunidade judaica. Esse movimento

60
apocalíptico continuará durante a dominação romana, prolongando-se
até em torno de 200 d.C.
Nesse sentido, é
fundamental entender­ "Eis que surgiu um quarto animal:
mos adiante o movi­ era terrível, medonho e extremamente
mento d ejesus de Na­ forte. Tinha dentuças potentes de ferro,
zaré como parte do com as quais devorava e triturava,
movimento apocalípti­ pisoteando aos pés o que sobrava."
co de seu tempo. ________________ (Dn 7,7)________________
A apocalíptica
em Israel nasceu entre os grupos que resistiram contra a helenização
forçada do Judaísmo e a opressão do Império Grego que “devorava e
triturava” o povo. A literatura apocalíptica quer incentivar seus destina­
tários na luta pela preservação dos costumes, da fé e da liberdade. Quer
transmitir a esperança de que Deus interviria a fim de libertar os judeus
da dominação selêucida.
Não é difícil concluir que a linguagem apocalíptica nasce em épo­
ca de forte perseguição por parte de potências estrangeiras. Os apoca­
lipses nascem em tempos difíceis de opressão política, econômica e
ideológica. Nesse contexto, querem estimular as pessoas para que resis­
tam com coragem e esperança. Querem despertar nos dominados uma
consciência crítica que leva à resistência e à luta contra o imperialismo.
E, portanto, uma literatura subversiva, que quer incentivar seus destina­
tários à lealdade e à fidelidade na luta contra o “reino do império”, em
busca de uma alternativa, o “Reino de Deus”, uma forma de vida
fraterna e de partilha.
Seu projeto é anunciar a transformação deste mundo. Nessa mu­
dança dos rumos da história, a ação de Deus, ao lado dos oprimidos,
será fundamental para alcançar a liberdade, derrotando os opressores.
Na análise de conjuntura que os apocalípticos fazem, o poder do impé­
rio é tão forte que não visualizam uma vitória que dependesse unica­
mente das mãos humanas. Por isso, acreditam que a vitória somente
será possível com uma intervenção de Deus ao lado da ação humana.
Diferentemente da profecia clássica de Israel, os apocalípticos
têm uma visão mais pessimista da vida, do mundo. Também acreditam
em transformações, porém, mais radicais, somente possíveis com auxí­
lio divino. A apocalíptica é a esperança que brota da angústia de grupos
fortemente oprimidos em meio a impérios tiranos. O gênero apocalípti­
co, surgido nessas situações-limite, foi então a maneira como se formu­
lou a profecia. Ou seja, a “profecia” não se opõe à “apocalíptica”, mas
esta é um novo gênero literário para formular a profecia.

E interessante notar que, em nossos dias, essa mentalidade


volta a crescer. Fenômenos da natureza, como terremotos e tragé­
dias humanas, como a violência, são interpretados como sinais de
uma iminente transformação deste mundo. Os atentados suicidas
também devem ser lidos a partir da mentalidade apocalíptica,
como única reação possível, do ponto de vista de grupos oprimi­
dos, contra um império com poder sem limites.

Características da apocalíptica judaica

• A origem da apocalíptica, de um lado, está na profecia, da qual


herda sua visão crítica da história nacional e internacional. Herda mui­
tos elementos de sua linguagem, do novo modo de escrever, especial­
mente do profeta Ezequiel. De outro lado, a origem da literatura
apocalíptica está também na sabedoria, preocupada com a formação da
consciência crítica, do discernimento da história, no cotidiano e com a
presença de Deus na vida.
• Divisão da história em diferentes etapas já conhecidas por
Deus e sob seu controle. Deus conduz a história para seu rumo certo.
Na etapa final da história, Deus agirá diretamente para realizar seu
plano.
• O período atual de sofrimento e de domínio do mal é apenas
uma etapa passageira. A violenta perseguição já é um sinal da vitória dos
perseguidos, que se aproxima.
• É também sinal da iminente irrupção do Reino de Deus, dife­
rente de todos os outros reinos. Tanto pode ser aqui na terra como num
reino celestial. Será a vitória final sobre todo mal.

62
• Nasce em épocas de forte opressão econômica, política e ideo­
lógica de potências estrangeiras.
• Compreende Deus com poderes superiores em combate vito­
rioso contra as potências do mal, isto é, as estruturas mundiais de
dominação.
• A profecia pré-exílica em Israel tinha um projeto de transfor­
mação das estruturas monárquicas de opressão nacional. Seu gênero co­
mum para se expressar eram os oráculos. Porém, diante das relações
internacionais de opressão do imperialismo dos Selêucidas, o gênero,
pelo qual o movimento profético se expressa, é a apocalíptica.
• Espera a transformação do mundo, num futuro próximo,
acompanhado de um juízo definitivo.
• O conflito entre oprimidos e opressores é apresentado de for­
ma simbólica como o conflito entre Deus e Satanás. As potências
opressoras são inimigas de Deus e devem ser derrotadas. Seu orgulho
deve dar lugar ao reconhecimento da exclusiva soberania de Deus.
• Divisão do mundo em três partes. A de cima é a morada das
divindades e o destino dos fiéis. A de baixo é o lugar dos demônios e o
destino dos ímpios. E a do meio é o espaço em que vive a humanidade.
Nesse sentido, a referência à abertura do céu é uma forma para se colo­
car em contato a humanidade com Deus.
• Simbolismo das cores, dos animais e dos números. Especula­
ção através de cálculos.
• A mensagem é transmitida através de visões e sonhos.
• Linguagem alegórica, figurada, em códigos.
• Dualismo entre este mundo e o vindouro, entre luz e trevas, en­
tre bons e maus, entre Deus e Satanás, entre os anjos do bem e os do mal.
• Desenvolvida doutrina a respeito de espíritos bons, os anjos, e
maus, os demônios.
• Esperança na vinda de um Messias, o ungido de Deus.
• Crença na ressurreição dos justos. De um lado, ressuscitam
para a vida com Deus. De outro, ressuscitam na memória do povo,
como quem lutou pela justiça (cf. Sb 4,1b; 8,13). Sua ressurreição é a me­
mória subversiva de quem deu sua vida em defesa da justiça. Nesse sen­
tido, “a memória do justo é para sempre” (SI 112,6). Não é por acaso,
63
como já vimos, que é nessa época em que aparece pela primeira vez uma
formulação clara da fé na ressurreição (2Mc 7,7-14; Dn 12,1-3).
• A teologia apocalíptica tem marcas da doutrina da retribuiçã
A diferença é que projeta a bênção de Deus para um futuro próximo.
Os apocalípticos esperavam a recompensa de Deus, isto é, sua liberta­
ção, como prêmio por sua fidelidade durante o período de repressão
que sofriam. Essa esperança os ajudava a resistir diante do perigo. Acre­
ditavam que a intervenção de Deus se daria milagrosamente.

Risco da teologia apocalíptica

O maior problema da teologia apocalíptica parece ser sua visão


determinista da história. Tudo parece estar determinado por Deus, que
castiga os injustos e recompensa os justos com a ressurreição.
Nesse sentido, corre-se o risco de pensar que a história depende
somente de Deus. Nesse caso, nós não somos sujeitos históricos. Pode­
mos aguardar por sua intervenção mágica na história. E quantos ainda
hoje esperam por um Deus que intervenha de forma mágica na história?
Convém lembrar aqui que podemos perceber em Judite uma crí­
tica a essa teologia. Enquanto os sacerdotes do templo esperavam pela
intervenção de Deus para salvar Betúlia, Judite resgata a teologia do
Êxodo e diz: “O Senhor virá em socorro de Israel por meu intermédio”
(Jt 8,33). É ação de Deus na história através de pessoas que assumem a
luta pela justiça, pela libertação. Não é por acaso que lemos em Ex 3,10:
“Vai, eu te envio a faraó, e liberta o meu povo, os israelitas”

Daniel: a luta contra o imperialismo


“A s pessoas que ensinam ajustiça
brilharão para sempre como as estrelas. ” (Dn 12,3)

Como o Livro de Ester, também o de Daniel (“Deus é meu juiz”)


tem uma parte que foi escrita em hebraico (1,1-2,4a; 8-12) e outra que
foi escrita em grego. Os acréscimos gregos só estão nas traduções cató­

64
licas e podem ser encontradas em letra itálica no capítulo 3 entre os ver­
sículos 23 e 24 (Cântico de Azarias na fornalha —3,24-90), bem como
nos capítulos 13 (História de Susana) e 14 (Daniel desmascara o culto a
Bel e Daniel na cova dos leões). Além do hebraico e do grego, boa parte
de Daniel é escrita em aramaico (2,4b-7,28).
Convém notar também que, na Bíblia hebraica, o Livro de Daniel
não está entre os livros proféticos, mas se encontra em meio aos livros
chamados pela Bíblia hebraica de Escritos.

Autor, época e mensagem

E provável que os hassideus das aldeias tiveram importante parti­


cipação na redação do Livro de Daniel. Portanto, tal como Jt e mais tar­
de lM c e a versão grega de Ester, também Daniel representa a
resistência do campo, do povo da terra.
Embora o texto nos remeta ao tempo do exílio babilônico, na
verdade, ele se refere ao período de perseguição de Antíoco IV Epífa­
nes (175-163 a.C.). Deve ter sido editado em torno de 165 a.C.
As contradições presentes no texto nos fazem facilmente perce­
ber que o livro é uma ficção que joga para o passado a análise da realida­
de do momento presente. Um exemplo de contradição é que não
confere o que diz em 9,1-2. Dario não foi filho de Xerxes, mas pai dele.
Era persa e não medo. Além disso, não reinou sobre os caldeus ou babi­
lônios, mas reinou entre 522 e 486 a.C.
Ao falar de Nabucodonosor, de Baltazar e de Dario, o Livro de
Daniel se refere à opressão vivida pelo povo na época de Antíoco IV
Epífanes (Dn 11). Quer ser uma mensagem de consolo e conforto. Em
Dn 1-6, apresenta Daniel e seus companheiros como exemplos de judeus
que foram fiéis à lei e à religião de seu povo, sendo por isso recompen­
sados por Deus.
Em Dn 7-12, encoraja os judeus perseguidos a perseverarem na
resistência, anunciando a proximidade do fim da perseguição e do per­
seguidor, momento em que Deus estabelecerá seu Reino definitivo
(2,44; 3,33; 6,27; 7,14). A vitória final não será do rei, mas de Deus que
liberta os que lhe são fiéis (3,24-25; 6,20-21; 13,42-44; 14,40-41).

65
Por um lado, a linguagem apocalíptica de Dn atribui a libertação
exclusivamente a YHWH e a seu anjo (12,1). Nesse sentido, parece que
seus autores representam um grupo dissidente dos macabeus, abando­
nando a luta armada e esperando a salvação do céu.
Por outro lado, no entanto, a linguagem apocalíptica parece mais
estimular um grupo que acredita que a vitória só será alcançada na medi­
da em que haja engajamento na luta. Embora a libertação seja somente
possível com a intervenção de Deus, os apocalípticos acreditam na ação
de Deus através de quem lhe é fiel, através da luta contra as potências
deste mundo.

O livro
Entre outras questões, como as contradições presentes no texto,
o fato de o livro ter três línguas na redação final, nos leva a crer que é
uma costura de várias histórias. E provável que o editor final já conhe­
cesse os capítulos 1-6. Ao acrescentar os capítulos 7-12, certamente terá
introduzido adaptações em 1-6. Os textos em grego devem ser acrésci­
mos posteriores.
Como o temos hoje, podemos dividir o livro em três partes. Pro­
pomos que você leia o Livro de Daniel, seguindo esta proposta de
divisão:
• 1-6: Os primeiros 6 capítulos contam a história de Daniel e
de seus companheiros na corte babilônica em estilo narrativo.
Esses capítulos têm por cenário a cidade de Babilônia. Na verda­
de, a cidade é símbolo dos Selêucidas. No Apocalipse do Segundo Tes­
tamento, ela será símbolo do Império Romano (Ap 18). Daniel e seus
companheiros representam os judeus fiéis que mantêm sua identidade.
Eles saem vitoriosos das provações, resistindo heroicamente contra os
ídolos do império e contra o imperador divinizado. Dessa forma, Deus
julga, condena e destrói o reino deste mundo. Reino que se baseia, de
um lado, em seu orgulho, tornando-o um sistema absoluto e usurpando
o lugar de Deus. De outro lado, reino que é injusto e massacra a fé, a
vida e a cultura dos povos. Diante do poder do Reino de Deus, só resta
aos pagãos reconhecer e glorificar o Deus que liberta.

66
• 7-12: As quatro visões apocalípticas (7; 8; 9-10; 11-12), refe­
rem-se ao conflito entre a comunidade judaica fiel às tradições e à hele­
nização forçada do Judaísmo na época dos Selêucidas.
As quatro visões referem-se aos grandes impérios da época, espe­
cialmente ao dos Selêucidas, os grandes perseguidores dos judeus na­
quele momento. Cada visão é interpretada por um anjo, de modo
especial o anjo Gabriel (“Deus é forte” —8,16; 9,21). No Livro de Daniel
também aparece o anjo Miguel (“Quem é como Deus?” —10,13.21; 12,1).
O simbolismo dos animais vorazes do capítulo 7 é o seguinte:
cada animal representa um império que dominou sobre o Oriente Mé­
dio desde o século 7 até o século 2 a.C. O leão simboliza o império da
Babilônia (7,4). O urso é figura dos Medos (7,5). O leopardo é símbolo
da Pérsia (7,6), e o animal com 10 chifres é metáfora do império dos gre­
gos (7,7-28). O chifre pequeno é Antíoco IV Epífanes (7,8). Os três pri­
meiros animais simbolizam o passado. O quarto animal se refere ao
presente sob os Selêucidas.
Em 7,13, aparece a figura do “filho do homem” a quem foi dada a
realeza (v. 14). E uma figura coletiva que se refere ao reino humano dos
“santos”, isto é, aos israelitas fiéis, em oposição ao reino voraz dos im­
périos representados pelos animais. Confira w . 18.22.27!
Os capítulos 8-12 são, na verdade, uma retomada de forma mais
esmiuçada do que já foi dito no capítulo 7, especialmente a respeito da
perseguição selêucida.
• 13-14: Estes dois capítulos são apêndices escritos em grego,
acrescentados pelo editor final do livro. Por um lado, Deus liberta os
justos inocentes. E o caso de Susana (13) e Daniel (14,23-42). Por outro,
os cultos idolátricos são ridicularizados (14,1-22). O tema central desses
capítulos também é a luta contra o imperialismo de Antíoco IV Epífa­
nes e seu sistema de injustiça.

67
Hoje em dia, como resistem os povos do Terceiro Mundo
diante das grandes potências? Você conhece grupos e movimentos
que resistem, mesmo que isso lhes custe perseguição? Que elemen­
tos da mentalidade apocalíptica você percebe em sua região?
O espírito imperialista tem profundas raízes em nós. Como
ele se manifesta? Como desconstruí-lo e reconstruir, aos poucos, o
espírito do Reino? Há sinais de que o espírito do Reino está derro­
tando o espírito do império? Quais?
Por que o imperialismo se apresenta como divindade, como
o bem em luta contra o mal? Por que demoniza a quem ousa ques­
tionar sua arrogância, sua violência, seu totalitarismo?

Para você continuar a reflexão


Leia Dn 2! a) Qual o significado da grande e terrível estátua (w .
31-45)? b) Qual o significado e a função da pedra? c) O que significa
hoje dizer que os impérios têm pés de barro? O que significa hoje a pe­
dra que reduziu a pó os pés dos impérios?

Judite: Deus age pela mão de uma mulher

“Senhor o matou pela mão


de uma mulher. ” (Jt 13,15)

Como os livros de Tobias e Eclesiástico, também o d ejud ite (“a


judia”) não consta na tradução do Almeida.

Data e autor

A data mais provável de redação do Livro d ejud ite deve ser em


torno de 165 a.C., durante as guerras dos macabeus. A razão principal
para situar a edição do livro nessa época é que ele visa, tal como Daniel,
encorajar os judeus piedosos a permanecerem fiéis à lei e aos costumes

68
de Israel, quando ainda se encontravam traumatizados pela grande per­
seguição de Antíoco IV Epífanes.
Os autores, provavelmente da Palestina, querem renovar a fé de
seus contemporâneos em Deus presente na vida de quem o teme. Ele
continua salvando seus fiéis. Os autores devem ser dos mesmos grupos
que editaram o Livro de Daniel e que, mais
"Deus, o nosso Deus,
tarde, produziram lM c e a versão grega de
está conosco para
Ester. Devemos situá-los entre os levitas
manifestar ainda a
do interior, em meio ao povo da terra fiel
sua força em Israel
às tradições do Êxodo. Eram, portanto,
e seu poder contra
colaboradores dos macabeus e lutavam
os inimigos..."
junto com eles pela libertação das elites
(Jt 13,11)
locais aliadas aos Selêucidas.
E bom destacar aqui o importante papel das mulheres nesses gru­
pos de resistência que se organizaram a partir das casas. Não é por acaso
que é uma mulher a protagonista central da narração. Na mesma pers­
pectiva, deve-se considerar a forte presença de mulheres no movimento
de resistência que está por trás da edição dos livros de Rute, de Ester, do
Eclesiastes e de Cantares.
O Livro de Judite carrega uma força revolucionária capaz de
transformar relações discriminatórias no que diz respeito ao gênero.
Diante daquela cultura patriarcal, Judite, uma mulher viúva e sem fi­
lhos, cumpre um papel público que era reservado a homens. Ela é líder,
sobrepondo-se aos chefes da cidade, inclusive sobre o sumo sacerdote.
O que o exemplo de Judite tem a nos dizer hoje?

Mais uma novela bíblica

Tal como os livros de Ester, dejonas e de Rute, também o de Ju ­


dite tem o mesmo gênero literário. São memórias populares com fundo
histórico. Fazem uma reflexão teológica da história, da ação de Deus na
vida cotidiana em todos os tempos. A tal ponto o autor não está interes­
sado em fatos históricos, que chega a apresentar Nabucodonosor como
rei dos assírios na cidade de Nínive (1,1.7.11; 4,1). Ora, Nabucodonosor
foi rei dos babilônios (605-562 a.C.) e não dos assírios.

69
Em seu tempo, o Império Assírio já tinha sido derrotado e sua
capital já nem existia mais desde 612 a.C.
Com essa novela, apresentando a corajosa viúva libertando seu
povo, o autor quis encorajar os judeus contemporâneos a resistirem fir­
memente nos momentos de forte opressão, como foi o período de
Antíoco IV Epífanes.
A atriz principal dessa novela é Judite,
"Ai das nações que uma viúva bonita e piedosa. Ela simboliza a
se levantam contra luta em defesa da tradição religiosa do Judaís­
meu povo." mo diante da opressão dos impérios. Judite é
(Jt 1 6 , 1 7 ) fiel à lei, temente a Deus e de conduta irrepre­
ensível. L e ia jt 8,2-8!
A justiça divina, que age na história através de Judite, mais uma
vez se manifesta em favor do povo ameaçado.
No livro, o rei Nabucodonosor e seu general Holofernes são sím­
bolo das grandes potências de todos os tempos. Na época da redação
do livro, eles personificavam Antíoco IV Epífanes e seus generais.
Holofernes, general do império inimigo, cercou Betúlia, que quer
dizer “casa de YHWH”. Era uma pequena cidade situada na região da
Samaria entre a cidade de Dotain e o vale de Esdrelon, também chama­
do de Jezrael (Jt 4,6). A intenção de Holofernes era destruir a cidade,
junto com seus moradores que eram, em sua maioria, de origem judaica.
Como evitar esse massacre? Aí é que entra em cena a corajosa Ju ­
dite, que seduz o general opressor para defender sua terra e seu povo.
Após o banquete que Holofernes lhe ofereceu, Judite aproveita a em­
briaguez do general, matando-o com a espada dele. O exército inimigo
se dispersa, e o povo é liberto.
O livro quer mostrar que Deus age concretamente na história em
defesa da vida, através de pessoas que assumem seu projeto com deter­
minação e muita fé. Judite resgata a teologia do Êxodo e diz: “O Senhor
virá em socorro de Israel por meu intermédio” (Jt 8,33). E ação de Deus
na história através de pessoas que assumem a luta pela justiça, pela
libertação.

70
Judite é uma resposta a conflitos concretos

São dois os conflitos principais sobre os quais o Livro de Judite


quer projetar luzes em vista de sua superação.
Um primeiro conflito, o
"Teu poder não está no grande
mais grave de todos, é a opres­
número, nem a tua autoridade
são religiosa, econômica, polí­
entre os guerreiros.
tica e militar dos Selêucidas.
Es o Deus dos humildes,
Nabucodonosor é símbolo de
socorro dos oprimidos,
Antíoco IV Epífanes. E figura
o amparo dos fracos,
do império. Tal como Nabu­
o protetor dos abandonados,
codonosor (2,5; 6,2), também
o libertador dos desesperados."
Antíoco IV se apresentava
(Jt 9,11)
como “senhor de toda a ter­
ra”, como “manifestação de Deus” (Epífanes). Holofernes simboliza o
poderio militar dos Selêucidas, seus generais.
O poder dos pobres, porém, vem de YHWH. Com sua força, eles
têm condições de vencer os senhores do mundo. “Cortar a cabeça do
opressor” quer dizer, por um lado, que é preciso cortar a ideologia do
império e todos os seus mecanismos de opressão. Por outro, é um con­
vite a construirmos a ideologia do Reino de Deus com novas relações
de poder em todos os níveis da vida.
O outro conflito é com o poder dos sacerdotes que controlam o
poder sagrado em Jerusalém. O sistema de sacrifícios e de penitências
do templo não foi capaz de alcançar o favor de Deus para salvar o povo
de Betúlia.
Junto ao sinédrio, o sumo sacerdote reconheceu a ação de Deus
em Judite, longe de seu controle oficial (15,8-13). A partir de então e até
o final da narrativa, nunca mais volta a falar do sumo sacerdote. E Judite
assume a liderança. Primeiro, entoa um cântico de ação de graças
(15,14-16,17). Depois de liderar a peregrinação ao templo, é o próprio
povo quem oferece holocaustos no altar. E é Judite quem consagra no
templo os objetos do general. E só festa (16,18-20). Por fim, Judite rea­
liza o ano jubilar, repartindo a terra, os bens e libertando escravos
(16,21-25). Não deixe de conferir as citações!

71
Abertura missionária do Judaísmo

Não podemos deixar de assinalar que o Livro de Judite, tal como


os livros de Jonas e de Rute, é simpático aos estrangeiros. Diferente­
mente de Esdras e de Neemias, ele é crítico ao fechamento da comuni­
dade judaica, que excluía outras culturas. E interessante ver que o
resumo da história dos israelitas está na boca de Aquior, um amonita,
povo tradicionalmente inimigo de Israel. Confira 5,5-21! De fato, tal
como Rute (Rt 1,16-17), o estrangeiro Aquior também passa a prestar
culto ao Deus que os israelitas veneravam (Jt 14,5-10).
Admitir um amonita na comunidade cultuai de Israel era proibi­
do pela lei (Dt 23,3-4). Portanto, esse fato demonstra a abertura do Ju ­
daísmo a outros povos, já nos últimos séculos antes dejesus de Nazaré.
Contudo, aquelas pessoas que aderiam ao mesmo culto dos judeus, de­
viam também se submeter à lei de Israel. Veja que Aquior “submeteu-se
à circuncisão e foi admitido na casa de Israel até o dia de hoje” (Jt 14,10).
Mas o elemento mais importante para resgatar o universalismo
da missão de Israel (Is 42,6) e para criticar o preconceito dos judeus em
relação aos samaritanos (Eclo 50,25-26) é o fato de Judite ser samarita-
na. Betúlia era uma cidade samaritana. A própria Judite é símbolo dos
samaritanos. E é a eles que Deus oferece sua salvação “pelas mãos de
uma mulher”. E interessante constatar que os sacerdotes de Jerusalém
pouco ou nada esperavam de mulheres, do povo da terra e dos samari­
tanos. E Judite era mulher do interior, do povo da terra, e era de uma
cidade samaritana.
Podemos, portanto, concluir que seus autores estão em continui­
dade ao movimento de resistência contra o Judaísmo oficial desde a
época de Esdras e de Neemias que excluía sem dó os estrangeiros. Con­
tudo, mais do que ser crítico ao projeto do templo, Judite conspira con­
tra o domínio do império selêucida.

O Livro de Judite
Podemos dividir o Livro de Judite nas seguintes partes:
• 1-3: A grande potência conquista o Oriente (1) e o Ocidente (2-3).
• 4-7: O império ataca, e Israel resiste.
72
- angústia e resistência na Judeia (4)
- o amonita Aquior depõe em defesa dos judeus (5)
- Aquior é entregue aos judeus (6)
- Betúlia resiste e é cercada pelo exército inimigo (7)
• 8-16: Judite derrota os opressores. E o caminho da libertação.
- Intervenção corajosa da bela e piedosa viúva (8)
- Jejum e oração de Judite (9)
- Judite vai ao acampamento assírio, fingindo querer en­
tregar a cidade (10)
- A bela, astuta e hábil viúva engambela o general do
exército inimigo (11)
- Judite zela por sua pureza ritual e jejua antes de libertar
seu povo (12,1-9)
- O banquete que levou à morte o general inimigo.
(12,10-13,10)
- Judite retoma vitoriosa para a cidade, o povo louva a
Deus e Judite dá as diretrizes para o ataque final contra
o exército de Holofernes (13,11-14,4)
- Conversão do amonita Aquior (14,5-10)
- Derrota do exército da grande potência (14,11-15,7)
- Ação de graças em Jerusalém (15,8-13; 16,18-20) e ora­
ção dejud ite (15,14-16,17)
- Conclusão (16,21-25)

Judite e nós hoje. O que tem a nos dizer a luta dejudite, uma viú­
va, símbolo da mulher fraca? Onde estão os homens na luta pela justiça?
De que forma se manifestam as ambições imperialistas hoje?
Quais são suas armas ideológicas de morte? Que meios os impé­
rios usam para amedrontar pessoas e povos para garantir seus interesses
econômicos?
Diante da força das armas imperiais, que estratégias os povos
oprimidos podem usar para minar seu poder?
Que mensagem tem para nós a novela d ejud ite que, através de
uma história fictícia, consegue estimular a consciência crítica de resis-

73
tcncia em relação ao poder dos impérios e da presença de Deus na his­
tória? Como nós podemos hoje exercer o papel libertador de Judite?

Para você continuar a reflexão

Leia Jt 12,10-13,10! Se a cabeça do opressor é a ideologia do im­


pério que sustenta um sistema de opressão, quais são hoje as cabeças do
império que o sustentam no mundo? Como cortá-las?

2 Macabeus: resistência contra a imposição


do Helenismo

"... lutaram zelosamente em defesa


do judaísmo. ” (cf. 2Mc 2,21)

Você também só encontrará os dois livros dos Macabeus nas tra­


duções católicas da Bíblia.

Os dois livros dos Macabeus têm autores e


perspectivas diferentes

lM c, que veremos adiante, nos apresenta uma descrição das lutas


da família do levita Matatias contra os judeus que eram favoráveis à he-
lenização da cultura judaica, de um lado, e, de outro, contra os reis se­
lêucidas. Lutavam pela liberdade religiosa, econômica e política. Queriam
viver livremente sua fé no único Deus e lutavam pela libertação da terra
diante da opressão dos gregos e das elites locais aliadas a eles.
Essa luta nos faz perceber que os autores de lM c têm sua origem
entre os levitas do interior, em meio ao povo da terra fiel às tradições do
Exodo. lM c faz teologia da história a partir da ótica do campo, da roça.
2Mc, porém, descreve somente a luta de Judas Macabeu contra
Antíoco IV Epífanes e a libertação do templo. A forma como relata essa
luta é mais triunfalista, mostrando somente as vitórias e os acertos da
luta de Judas. A luta é somente pela libertação religiosa, pela liberdade
de culto.

74
Isso se deve ao fato de os autores de 2Mc pertencerem a outro
grupo e terem outro projeto. Sua origem é da cidade e de quem vive em
torno dejerusalém . Sua perspectiva é a do templo. 2Mc foi elaborado
por círculos cuja origem está entre os hassideus, bem como entre os sa­
cerdotes que não haviam debandado para o lado dos que aderiram à cul­
tura helênica (lM c 4,42).
Enquanto para lM c o mal começou com Alexandre Magno, com
a opressão do Império Grego e com a influência de seu modo de vida
(lM c 1,1-9), para 2Mc tudo começou com Antíoco IV Epífanes.
Enquanto para 2Mc o mal termina com a libertação e a dedicação
do templo (10,1-8; 15,34), para lM c o mal estará completamente derro­
tado somente quando a terra estiver libertada (lM c 14,8-15).
Como você pôde ver, os autores dos dois livros dos Macabeus
têm origens e projetos distintos.

Época e conteúdo de 2Mc


2Mc narra os fatos desde 180 a.C. e que levaram à revolta de Ma-
tatias, bem como os atos dejudas Macabeu entre 166 e 161 a.C. O livro
inicia, narrando fatos do tempo do sumo sacerdote Onias III (196-175
a.C) e de Antíoco IV Epífanes (175-163 a.C.). E termina, narrando acon­
tecimentos pouco antes da morte de Judas Macabeu, o grande herói
desse livro. Nesse sentido, 2Mc não é continuação de lM c. Na verdade,
é uma narrativa paralela aos sete primeiros capítulos de lM c. Porém,
como vimos, sua ótica, sua maneira de ver a realidade é bem diferente.
Conforme 2Mc 2,19-32, esse livro é um resumo de cinco volu­
mes escritos por Jasão de Cirene. Como não há referências à morte de
Judas Macabeu, podemos supor que a obra de Jasão Cirene, que foi per­
dida, deve ter sido escrita antes de lM c, em torno do ano 160 a.C. A in­
tenção de Jasão era encorajar os judeus piedosos a resistirem
tenazmente contra a imposição da cultura grega sobre a tradição
judaica. O resumo dos cinco volumes em um só livro (2Mc) deve ter
sido feito em torno de 124 a.C., uma vez que essa é a data da primeira
carta (cf. 1,9-10).

75
Ao ler 2Mc 1,10a, você percebeu que a data não é 124, mas
| í? !M . Por que essa diferença? E que os autores dos livros dos Maca-
btu* ligu em uma cronologia crescente da era dos Selêucidas. A
fjitiç io que nós seguimos é conforme a cronologia da era cristã,
que faz uma contagem decrescente até o início da era cristã.

A partir das duas cartas (l,l-1 0 a e l,10b-2, 18) e do prólogo


(2,19-32), podemos deduzir que o resumo foi composto em Alexandria
para fiéis seguidores das tradições judaicas. As cartas fazem um convite
às comunidades judaicas no Egito para que participem na festa da dedi­
cação do templo (2,16-18). 2Mc 3-15 narra as lutas de Judas Macabeu
que purificou o templo em 164 a.C. (10,1-8) depois que Antíoco IV
Epífanes o havia profanado em 167 a.C. (6,1-5). Portanto, um dos obje­
tivos de 2Mc é descrever a origem da festa da dedicação do templo.
Os autores de 2Mc revelam seu forte apego à causa judaica, à tra­
dição de Israel, à lei. Do início ao fim, o conteúdo de 2Mc relata o con­
fronto entre dois modos de vida. Narra a helenização forçada do
Judaísmo e a luta de resistência dos judeus fiéis à lei para preservar sua
t radição, sua doutrina.
Convém aqui lembrar que, além de temas tradicionais, aparecem
em 2Mc algumas novidades. E bom lembrá-las, porque terão importân­
cia no Segundo Testamento. Os temas mais recentes são:
• A crença na ressurreição dos justos (7; 12,43-45; 14,46). Foi
com os hassideus que começou a crescer a fé na ressurreição como for­
ma de resistência contra a opressão.
• A criação do mundo a partir do nada (7,28).
• A oração por pessoas vivas (3,31-36) ou falecidas (12,38-45),
bem como a intercessão dos santos no céu pelos vivos (15,11-16).

76
O livro
2Mc pode ser divido em três partes.
• 1-7: intrigas entre os sumos sacerdotes e os reis Selêucidas
(13), imposição forçada do Helenismo e a perseguição feita por Antíoco
IV Epífanes (4,1-6,17), martírio do escriba Eleazar e da mãe com seus
sete filhos (6,18-7,42).
• 8,1-10,9: Guerrilha liderada por Judas Macabeu (8), morte de
Antíoco IV Epífanes (9) e purificação do templo (10,1-8).
• 10,10-15,39: Continuação da guerrilha de Judas contra os su­
cessores de Antíoco IV (10,10-15,36) e epílogo (15,37-39).

Independência sob os hasmoneus


(142-63 a.C.)
“Israel se viu livre do ju go
dos pagãos. ” (lM c 13,41)

143-134 a.C.: Simão, segundo filho de Matatias, é sumo sacerdote,


general e líder dos judeus.
142-63 a.C.: Reino dos hasmoneus. Livro de Baruc.
134-104 a.C.: João Hircano I, filho de Simão, assume os mesmos títu­
los de seu pai. Edição grega do Livro de Ester. 104-103
a.C.: Aristóbulo, filho de João Hircano, governa.
103-76 a.C.: Alexandre Janeu, outro filho dejoão Hircano, declara-se
sumo sacerdote e rei. Edição final de 1 Macabeus.
76-67 a.C.: Alexandra Salomé, viúva de Alexandre Ja ­
neu, é rainha e seu filho Hircano II, sumo sacerdote.
67-63 a.C.: Aristóbulo II, filho de Alexandre e Salomé, se declara rei
e sumo sacerdote.
65 a.C.: A Síria é declarada província romana.
64 a.C.: O general Pompeu impõe o domínio romano no Oriente Médio.
Fim do Império Grego no Oriente. Livro da Sabedoria.

77
63 a.C.: Pompeu conquista Jerusalém. Restabelece Hircano II como
sumo sacerdote e nomeia o idumeu Antípater como
administrador civil.

Desde a morte do rei Josias (609 a.C.), a Judeia não experim en­
tava mais a independência política. Prim eiro, foi dom inada durante 5
anos pelos egípcios (609-605 a.C.). Depois, pelos babilônios (604-539
a.C.). Em seguida, pelos persas (539-332 a.C.). Por fim, pelos gregos
(332-142 a.C.). Somente a guerrilha dos Macabeus contra a dom ina­
ção dos Selêucidas, desencadeada a partir de 167 a.C. e concluída em
142 a.C., é que levou a um pequeno período de independência entre
142 e 63 a.C. Foram quase 80 anos em que Israel formava um estado
soberano e autônomo. Não estava submisso a nenhum império
estrangeiro.
O reino dos hasmoneus está em
"Cada um podia ficar
continuidade dos macabeus que lutaram
sentado debaixo de sua
durante 25 anos pela libertação. Formava
vinha e de sua figueira,
uma verdadeira dinastia real e, ao mesmo
e não havia quem lhes
tempo, sacerdotal. Além de reis e generais,
causasse medo."
a partir dejônatas, (152 a.C.) os macabeus
(1 Mc 14,12)
também eram sumos sacerdotes.
Na medida em que alcançaram seus objetivos religiosos e políti­
cos, os hasmoneus passaram a lutar entre si pelo poder. Nessa luta pelo
poder, a situação do povo não melhorou. O governo asmoneu foi, na
verdade, muito parecido com a opressão selêucida. Já não tinha mais
nada a ver com o projeto dos guerrilheiros macabeus. Além da opressão
sobre o povo, o governo asmoneu implantou os costumes gregos, con­
tra os quais a família de Matatias havia tanto lutado. Para isso, aliou-se
aos saduceus que sempre estiveram aliados aos gregos. É essa a razão
por que os fariseus romperam com os hasmoneus.
Além das brigas pela sucessão, da exploração dos pobres e da in­
trodução dos costumes gregos, os hasmoneus tiveram ainda uma políti­
ca expansionista. Anexaram várias regiões da vizinhança. Com tudo

78
isso, podemos facilmente perceber que os hasmoneus traíram os ideais
de libertação da família de Matatias.
João Hircano I (134-104 a.C.) assumiu no lugar de seu pai Simão,
quando este foi assassinado por seu genro (lM c 16,11-24). Além de
destruir o templo dos samaritanos sobre o monte Garizim em 128 a.C.,
ampliou também territorialmente seu reino. No reino dos hasmoneus,
o território sob seu domínio quase alcançou as dimensões do antigo im­
pério de Davi e Salomão. Isso somente foi possível porque o poder dos
Selêucidas estava em declínio e porque os romanos ainda não haviam
deitado suas mãos sobre o Oriente. Confira no mapa que segue!
Como era politicamente ambicioso e devido ao cunho profano
de seu governo, os fariseus romperam com ele. Ao morrer, João Hirca­
no I, assume seu filho Aristóbulo I (104-103 a.C.). Ele era ambicioso e
cruel. Mas morre repentinamente.
Seu irmão Alexandre Janeu (103-76 a.C.) ampliou ainda mais o
território sob seu controle, submetendo toda a Transjordânia a leste e
chegando até a Fenícia ao norte. Internamente, enfrentou conflitos es­
pecialmente com os fariseus, o partido de oposição, a quem perseguiu
violentamente. Teve o apoio dos saduceus, também favoráveis ao
modo de vida dos gregos. Como era tirânico, bem como indiferente
quanto à questão religiosa, Alexandre não tinha boa aceitação por parte
dos piedosos moradores de Jerusalém.
Quando morre Alexandre Janeu, sua esposa Alexandra Salomé
assume como rainha (76-67 a.C.), enquanto Hircano II, filho de Salomé
com seu primeiro marido, assume como sumo sacerdote.
No tempo de Salomé, hasmoneus e fariseus voltam a se recon­
ciliar. Salomé manteve boas relações com os partidários dos fariseus. A
partir de então, os saduceus passaram a dividir com eles o poder no con­
selho de anciãos, o Sinédrio. Salomé governou sem promover guerras.
Foram alguns anos de paz na Judeia.
Quando Alexandra Salomé morreu, seu filho Hircano II assumiu
o poder por pouco tempo (67 a.C.). E que seu irmão Aristóbulo II tam­
bém tinha a pretensão de governar. Teve o apoio dos saduceus e foi fa­
vorecido pelos romanos, depois de lhes pedir ajuda.

79
“ TERRITÓRIOS CONQUISTADOS
- PELOS MACABEUS E HASMONEUS-
® AJudeia no período de
Matatias e Judas (167-160 a.C.)
ÜConquistas de Jônatas
(160-143 a.C.) — -----------

(^Conquistas de Simão —
(143-134 a.C.) —

80
Nos anos 67 a 63 a.C., os últimos anos antes da dominação roma­
na, Aristóbulo II, filho de Alexandre e Salomé, foi o último rei e sumo
sacerdote do reino hasmoneu livre.
Aristóbulo II foi vencido pelo general romano Pompeu em 63
a.C. e levado como prisioneiro de guerra para Roma. A partir dessa data,
Roma passa a dominar toda a região. Não só nomeava os governadores
da província, mas também os sumos sacerdotes. Mais uma vez, os ju­
deus tiveram que se submeter a um império estrangeiro e pagar pesados
tributos.
Pompeu acabou com o reino dos hasmoneus, reduzindo a Judeia
a uma pequena parte da província romana da Síria. Para administrá-la,
designou o hasmoneu Hircano II sumo sacerdote e etnarca, isto é, go­
vernador da província. Mas o poder de fato estava com Antípater, no­
bre idumeu da família dos Herodes, nomeado procurador por Pompeu.
Com o governo de Hircano II, a dinastia hasmoneia continuou, na ver­
dade, até 40 a.C. sob a concessão dos romanos. Em 37 a.C., Herodes, fi­
lho de Antípater, assume o reinado com o título de “rei sócio e amigo
do povo romano”.
Houve muitos subornos e assassinatos no interior da família has­
moneia. Ambição e corrupção marcaram o reino hasmoneu. Enquanto
isso, o povo continuava sendo oprimido e perseguido. Sabedoria
2,10-24 parece ser uma referência a essa situação. Confira!

Últimos escritos do Primeiro Testamento

Os últimos escritos do Primeiro Testamento devem ser situados


no período dos hasmoneus. São a versão grega de Ester, o primeiro livro dos
Macabeus, bem como os livros de Baruc e da Sabedoria.

Livro de Ester —o texto grego

Acima, já nos referimos à versão grega de Ester, ao estudarmos o


texto hebraico do livro.
Em torno do ano 113 a.C., surgiu a versão grega de Ester. É a tra­
dução do texto hebraico para o grego e mais alguns acréscimos. Toda a
versão grega do Livro de Ester, você pode encontrar na Tradução Ecu­
mênica da Bíblia.
Nas traduções católicas, os acréscimos feitos à versão hebraica
são os seguintes: o sonho de Mardoqueu (colocado antes do primeiro
capítulo), a carta de condenação dos judeus (depois de Est 3,13), as ora­
ções de Mardoqueu e de Ester (depois de Est 4,17), a visita de Ester ao
rei (depois de Est 5,2), a carta de reabilitação dos judeus (depois de Est
8,12), bem como a interpretação do sonho de Mardoqueu (depois de
Est 10,3).
A versão grega de Ester deve ser interpretada a partir do novo
contexto de perseguição dos reis Selêucidas contra os judeus da Palesti­
na. Ela é uma releitura da luta dos macabeus pela liberdade contra os
reis gregos a partir de Antíoco IV Epífanes (175-163 a.C.).
Na releitura que fazem da novela de Ester, Amã é, na verdade,
uma referência a Antíoco IV; e Mardoqueu, à luta dos macabeus. Che­
gam a transformar a nacionalidade de Amã. De agagita na versão hebraica
(3,1; 9,24) fazem dele um macedônio num dos acréscimos gregos, tal
como os reis selêucidas (8,12k—Bíblia dejerusalém ; 8,12i —Edição Pas­
toral; ou E,10 —Bíblia Sagrada da Vozes).
Gostaríamos de acrescentar aqui mais uma chave de leitura im­
portante para a compreensão da versão grega de Ester num novo con­
texto. E a interpretação apocalíptica do texto grego.
O sonho de Mardoqueu (1,1 M i ou A,4-10), que está no início do
primeiro acréscimo grego, é redigido em estilo tipicamente apocalípti­
co. Não deixe de ler o sonho de Mardoqueu e perceba a linguagem apo­
calíptica. Em 10,3a-3k ou F ,l-10 está a interpretação histórica do sonho.
Amã representa os Selêucidas, e Mardoqueu, os macabeus que liberta­
ram a Palestina das mãos dos gregos.
Os responsáveis pela edição final do Livro de Ester, portanto,
nos propuseram que lêssemos todo o livro em chave apocalíptica e refe-
rindo-se à libertação da opressão de Antíoco IV Epífanes.

82
1 Macabeus: a luta pela libertação

“Lutamos em defesa de nossas vidas


e de nossas leis. ” (lM c 3,21)

Data

O último fato narrado em lM c é a morte de Simão Macabeu, o


último dos filhos de Matatias, em 134 a.C., bem como a ascensão de seu
filho João Hircano. Por isso, podemos situar a redação filial dessa obra
alguns anos depois, possivelmente entre 104 e 63 a.C.
Como vimos acima, diferentemente de 2Mc, que somente relata
a imposição da cultura grega por Antíoco IV Epífanes e a luta de resis­
tência de Judas Macabeu, lM c narra toda a luta da família de Matatias
pela libertação da Palestina diante da opressão dos Selêucidas. Se 2Mc
se refere a fatos entre 180 e 161 a.C., lM c trata de um período bem mais
abrangente. Inicia narrando os mesmos fatos e vai até o ano de 134 a.C.
Inicialmente, lM c foi escrito em hebraico. Posteriormente, foi
traduzido para o grego. O texto hebraico foi perdido.

Objetivo e autores do livro

Já vimos acima que lM c nos apresenta uma descrição das lutas da


família do levita Matatias contra as elites judaicas favoráveis à heleniza-
ção das tradições de Israel, de um lado, e, de outro, contra a opressão
dos reis selêucidas. Lutavam pela liberdade religiosa, econômica e polí­
tica. Queriam viver livremente sua fé no único Deus e lutavam pela li­
bertação da terra diante da opressão dos gregos e das elites locais aliadas
a eles.
Essa luta nos faz perceber que os autores de lM c têm sua origem
entre os levitas do interior, em meio ao povo da terra fiel às tradições do
Êxodo. Eram, portanto, ligados a círculos próximos dos macabeus. Ha­
viam lutado junto com eles pela libertação das elites locais aliadas aos
Selêucidas.
No momento em que releram sua luta à luz da fé, estavam decep­
cionados com a opressão dos dinastas hasmoneus. Nesse sentido, lM c

83
laz teologia da história a partir da ótica do campo, da roça, da resistên­
cia. Ao fazer sua reflexão sobre o processo revolucionário dos macabeus,
os autores de lM c, na verdade, são críticos aos reis hasmoneus, traido­
res da causa libertária de Matadas. A opressão de sua dinastia é fruto da
ambição de pessoas da própria família dos macabeus. O livro termina,
narrando o assassinato de Simão por Ptolomeu, seu próprio genro, que
“exaltou o seu coração” (16,13), da mesma forma como Alexandre
Magno, aquele que deu início a todos “os males sobre a terra” (1,3.9).
Os macabeus se ergueram contra a dominação local e contra o
imperialismo grego, lutando durante 25 anos. Mas a guerrilha não teve o
êxito esperado. Com a dinastia dos hasmoneus, na verdade, tudo conti­
nuou igual, tanto a helenização do Judaísmo, como a opressão política e
econômica. Apenas trocaram os donos estrangeiros por reis locais.
Os autores de lM c querem, portanto, manter vivos os ideais de
liberdade defendidos com tanta garra pelos macabeus.
Fundamentalmente, os autores querem incentivar o povo a ser
fiel ao Deus da aliança e manter acordada a memória do Êxodo, a fim de
permanentemente resistir e lutar pela libertação da terra para todos.
lM c nos ensina que a fidelidade à lei supõe a rejeição dos costu­
mes alheios à tradição judaica. Costumes que reforçavam a sociedade
escravocrata e injusta dos gregos. A resposta de Deus a essa fidelidade à
aliança foi sua intervenção em favor dos fiéis e contra seus inimigos,
através da luta dos macabeus. A vitória contra os Selêucidas c os judeus
que aderiram à sua cultura foi possível graças à intervenção de Deus na
história como no tempo de Moisés.

Destaques

• A luta dos macabeus é narrada nos moldes da guerra santa.


• Deus intervém, através da luta dos fiéis, para salvar Israel. Os
guerreiros invocam a Deus antes das batalhas (4,10.30-33; 5,33; 7,40-42;
9,46; 11,71) e têm confiança em sua ajuda (3,19).
• A partir do exílio, aos poucos, os judeus passaram a evitar a
pronúncia do nome de seu Deus (YHWH), como atitude de respeito
àquele que é totalmente outro e três vezes santo. Já falamos a respeito

84
nas páginas 42 a 44 do volume 2. Em lM c, passaram a referir-se a Deus
com expressões como “Salvador de Israel” (4,30) e “Céu” (3,18.19.50.60).
• Embora considere, tal como a doutrina da retribuição, as des­
graças do povo como castigo de Deus por causa de sua infidelidade, os
autores de lM c encorajam para a confiança no Deus (3,19-22) que não
abandona seus fiéis (2,61; 3,18; 4,10).

O livro

• 1,1-9: O prólogo é uma referência ao imperialismo grego, a


Alexandre Magno e seus sucessores.
• 1,10-2,70: Depois de narrar a tentativa de Antíoco IV Epífa­
nes, que impôs à força os costumes gregos na Judeia, bem como sua
opressão econômica, política e ideológica (1,10-64), são apresentados
Matatias e sua luta de resistência contra a helenização forçada dos cos­
tumes dos judeus e contra a opressão selêucida.
• 3,1-9,22: Judas Macabeu leva adiante a luta de libertação inicia­
da por seu pai, como comandante e pastor do povo oprimido.
• 9,23-12,53: Jônatas substitui seu irmão Judas na direção da
guerrilha. Como comandante, Jônatas retoma o espírito guerreiro e luta
contra as nações ímpias (9,23-73). Como sacerdote, ele deixa o campo e
passa a residir em Jerusalém. A partir daí, Jônatas não luta mais contra
as nações. Pelo contrário, busca nelas um apoio para seu projeto pessoal
( 10- 12).
13-16: Seu irmão Simão assume a direção da luta e conquista a li­
bertação para a Judeia. Simão é comandante, sumo sacerdote e governa­
dor. O livro termina, narrando o assassinato de Simão e a ascensão de
João Hircano.

85
Baruc: arrependimento e conversão

“Cobre-te com o manto da justiça que vem de Deus


ep õ e na cabeça o diadema da glória
do Eterno.” (Br 5,2)

Baruc é mais um livro que não está na tradução do Almeida. Nas


traduções católicas, o Livro de Baruc se localiza logo após o Livro das
Lamentações. Na Tradução Ecumênica da Bíblia, Baruc e a Carta de Je ­
remias encontram-se no final do Primeiro Testamento.
Os tradutores católicos o colocam im ediatam ente após La­
mentações, uma vez que antigamente ambos os livros foram atribuí­
dos a Jerem ias. E que a genealogia do seu secretário Baruc é
retomada em Br 1,1. No entanto, hoje já se tem claro na pesquisa bí­
blica que o Livro de Baruc foi escrito em grego durante o século II a.C.
na época dos hasmoneus.
Certamente, o autor não é o secretário de Jeremias, embora sua
genealogia nos leve a essa conclusão. Compare Jr 32,12 com Br 1,1!
E provável que a intenção dos autores de Br foi se dirigir aos ju­
deus da diáspora no século II a.C., para que seu escrito servisse como li­
teratura de esperança na restau­
"É ela (a sabedoria) o livro ração de Israel para as comunida­
dos preceitos de Deus, a des judaicas que permaneciam
Lei que subsiste para sempre; dispersas.
todos os que a ela se A atribuição desse texto a
agarram terão a vida, Baruc se deve ao fato de serem se­
e os que a abandonarem melhantes as duas situações, seja a
perecerão." (Br 4,1) do exílio babilônico no século VI
a.C. seja a imposição da cultura
grega pelos Selêucidas durante o século II a.C. Tanto num quanto nou­
tro contexto, a identidade e a tradição judaicas estavam ameaçadas.
Os autores de Br veem a situação de sofrimento do povo como
conseqüência de sua infidelidade à Lei de Deus (3,9-12). A lei é apresen­

86
tada como caminho da Sabedoria (3,12-13). Voltando à fidelidade à lei,
pode-se restaurar também a liberdade, a vida e a paz.
De um lado, é possível concluir que eles estão na mesma perspec­
tiva dos autores do Livro do Eclesiástico. Devem ser dos mesmos cír­
culos sapienciais fiéis à lei e às tradições do Judaísmo em torno do
templo de Jerusalém. Compare, por exemplo, Br 3,27 com Eclo
24,8.10s e Br 4,1 com Eclo 24,23!
De outro lado, Br tem a mesma perspectiva do Livro de Tobias.
Dirige-se igualmente para os judeus da diáspora, a fim de se man­
terem fiéis ao Deus cultuado por Israel. Convida-os ao arrependimento
e à conversão, bem como a viverem unidos a seu povo na esperança da
restauração em Jerusalém.

Duas partes distintas


O Livro de Baruc comporta dois escritos bem distintos. O pri­
meiro, que corresponde aos capítulos 1 a 5, é o Livro de Baruc propria­
mente dito. O segundo é a Carta de Jeremias que você pode encontrar
no capítulo 6.

O Livro de Baruc (caps. 1-5)


A composição literário de Baruc é complexa. O livro pode ser as­
sim dividido:
• 1,1-14: Introdução histórica.
• 1,15-3,8: Uma confissão de pecados (1,15-2,10) e uma súplica
(2,11-3,8).
• 3,9-5,9: Uma exortação sapiencial (3,9-4,4) e um oráculo de
restauração (4,5-5,9).

A Carta de Jeremias (c. 6)

Por um lado, Br 6 está inspirado na carta do profeta Jeremias ao


primeiro grupo de exilados em 597 a.C. (Jr 29,4-23). Por outro, repro­
duz o conteúdo de seu oráculo contra os ídolos (Jr 10,1-16).

87
Br 6 aborda o tema dos ídolos sem vida, presente no SI 115 e tam­
bém em Is 44,9-20 e 46,1-8. Confira!
Os autores devem ser os mesmos, dos primeiros 5 capítulos e se
dirigem para os judeus dispersos, ajudando-os a se preservarem da
idolatria.

Sabedoria: ser sábio é ser justo

“A justiça é imortal. ’’ (Sb 1,15)

Antes de mais nada, convém que se diga que na compreensão dos


autores dos últimos escritos do Primeiro Testamento, como os livros da
Sabedoria, do Eclesiástico, de Judite e de Baruc, “Sabedoria”, “Lei” e
“Justiça” são praticamente sinônimos. A justiça é a vontade de Deus
que se expressa na Lei e na Sabedoria. E seu projeto de vida. Ser justo é
fazer coincidir nossos pensamentos e nossa prática com a vontade divi­
na. Ser sábio é saber discernir o caminho de Deus no cotidiano. Buscar
a sabedoria é buscar a força que nos liberta no caminho desta vida.
Convém lembrar aqui que, neste livro, a figura feminina da sabe­
doria recupera imagens e aspectos femininos do divino, juntando-os à
religião de YHWH. Dessa forma, resgata elementos das divindades fe­
mininas que as sociedades patriarcais haviam excluído.

Data e autor

O Livro da Sabedoria é o último livro do Primeiro Testamento a


ser editado. A época de redação dessa obra deve ser situada em torno do
ano 60 a.C.
Embora o livro seja atribuído a Salomão (9,7-8.12), patrono da
sabedoria em Israel (1,1), o autor é um judeu do último século a.C. De
um lado, conhecia profundamente as escrituras e a tradição de Israel.
De outro, era profundo conhecedor da língua, da filosofia e dos costu­
mes gregos.
Local e contexto

Isso nos leva a situá-lo no contexto da diáspora. Mais precisa­


mente na cidade de Alexandria no Egito. E que o autor critica forte­
mente o Egito do tempo da opressão dos faraós sobre os hebreus.
Porém, sua crítica se dirige contra o Egito de seu tempo, dominado pela
civilização grega. Além disso, critica a adoração de divindades represen­
tadas por animais, característica forte das religiões egípcias.
Alexandria era um importante centro do Helenismo. Era uma ci­
dade grande com cerca de 500 mil habitantes. Moravam ali em torno de
200 mil judeus fiéis às tradições de Israel. Em Alexandria, os judeus so-
friam especialmente duas ameaças que dificultavam a fidelidade à
cultura judaica.
• A primeira era o modo de vida dos gregos, com suas filosofias,
seus costumes, seus cultos religiosos.
• A segunda ameaça era a hostilidade e, às vezes, até a persegui­
ção por parte dos gregos.
Diante disso, muitos judeus aderiam ao Helenismo, baseado em
relações escravocratas e em religiões que legitimavam aquela sociedade.
Por isso, suas divindades eram consideradas ídolos por parte dos judeus
fiéis à lei. Outros judeus, no entanto, abandonaram sua fé a tal ponto de
perderem sua identidade.

Objetivo

O Livro da Sabedoria é uma resposta a essa situação. Tem como


objetivo fundamental manter a identidade dos judeus num ambiente
que lhes era desfavorável. Procura reforçar a fé e acordar a esperança
adormecida das comunidades judaicas de Alexandria. Por isso, desperta
a memória do patrimônio histórico e religioso de Israel. Em oposição à
sabedoria difundida pelos filósofos gregos, os autores do Livro da Sabe­
doria querem revelar a verdadeira sabedoria. Essa é dom de Deus e não
conquista de filósofos ou dom de ídolos. A sabedoria que vem de Deus
ajuda a discernir sua justiça, que é imortal (1,15). Deus guiou a história
de Israel através de sua sabedoria, de sua lei. E ela quem conduz a uma
vida justa e feliz, opondo-se à injustiça e às divindades que a legitimam.
89
O livro

Propomos agora que você leia o Livro da Sabedoria, seguindo a


seguinte proposta de divisão:
• 1,1-15: E a introdução do livro que convida a amar a sabedo­
ria ou a justiça, pois ela é imortal (w . 1.15). A sabedoria é apresentada
como o espírito divino de discernimento que leva à prática da justiça, à
busca da vida que é imortal. O justo e a justiça permanecem, se eterni­
zam. O injusto não tem nada a eternizar, pois a injustiça leva à morte.
• 1,16-5,23: A sabedoria dá sentido à vida e é fonte de felici­
dade e de imortalidade. O destino dos justos e dos injustos.
- 1,16-2,24: Faz um retrato dos injustos.
- 3,1-4,19: Desenha um retrato dos justos.
- 4,20-5,23: Descreve o julgamento dos injustos e a recompensa
dos justos.
• 6-9: A natureza da sabedoria.
- 6,1-11: Recomenda aos governantes que busquem a sabedoria
para governar conforme a vontade de Deus.
- 6,12-21: O desejo e o amor pela sabedoria são condições para
adquiri-la.
- 6,22-7,14: A sabedoria se revela para todos.
- 7,15-21: Ela gera a harmonia de todas as coisas.
- 7,22-8,1: A essência da sabedoria.
- 8,2-16: A sabedoria como companheira ideal, como uma mu­
lher que se deixa encontrar c amar, trazendo a felicidade.
- 8,17-9,18: A oração dos governantes.
• 10-19: A sabedoria de Deus age na história
O tema da parte final do livro é o agir da justiça de Deus na con­
dução da história. O autor faz uma revisão da história de Israel desde
Adão até o Êxodo. Se, em seu tempo, os judeus de Alexandria no Egito
estavam sob a opressão da civilização grega, eles esperam uma nova li­
bertação como a do Êxodo no passado, quando “pela sabedoria foram
libertos” (9,18).
- 10,1-14: A ação da sabedoria desde Adão até José.

90
- 10,15-12,27: A memória da ação da sabedoria de Deus na liber­
tação dos justos e no castigo dos injustos. A partir daqui até o final do li­
vro, temos uma grande reflexão sobre o Êxodo. Ele é o ponto de
partida para o estabelecimento de uma sociedade fraterna que supera
todas as formas de idolatria e se volta para a vida, fundada na justiça.
- 13-15: O julgamento da idolatria, caminho oposto da sabedo­
ria. Tanto no tempo de Moisés como no tempo do autor, os tementes
de YHWH eram continuamente tentados a seguir divindades que ser­
viam de ideologia para manipular o povo e legitimar estruturas de
opressão política e econômica (14,2; 15,12-14).
- 16,1-19,12: A sabedoria de Deus age na natureza em favor da
libertação, servindo os justos e castigando os injustos.
- 19,13-21: O Livro da Sabedoria termina, afirmando que o Egi­
to foi castigado porque traiu sua hospitalidade. Primeiro, recebeu bem a
família de Jacó. Depois, passou a atormentá-la com duros trabalhos
(19,13-17). Além disso, acentua a participação ativa da nature 2a na li­
bertação dos que praticam a justiça, retomando 16,17 e 19,6, “pois o
universo combate em favor dos justos” (19,18-21).
- 19,22: Do ponto de vista cronológico, a conclusão é a última
frase, não só do Livro da Sabedoria, mas também do Primeiro Testa­
mento. É uma confissão de fé e de confiança na sabedoria de Deus que
agiu na história de Israel e que continua, em todos os tempos, em Ale­
xandria e ainda hoje, promovendo a vida e a liberdade de quem é excluí­
do. Nesse sentido, o Evangelho de Mateus está em continuidade ao
Livro da Sabedoria, pois apresenta Jesus de Nazaré abrindo um novo
êxodo e cumprindo toda a justiça.

O que tem a nos dizer hoje o Livro da Sabedoria? Por que a


justiça continua imortal e leva tantas pessoas a se doarem em defesa
da vida que é eterna?
Fazemos da sabedoria nossa companheira ideal no dia-a-dia?
Como permitimos que aja em nós e transforme nossa vida?
Por que o Êxodo é tão importante na Bíblia?

91
Qual é o lugar que damos para os ídolos em nossa vida? Quais
são os ídolos mais adorados em nossos dias? Como eles legitimam
as relações de opressão? Qual é a relação que há entre a sabedoria e
os ídolos, de um lado, e, de outro, o que Jesus diria mais tarde: “Não
podeis servir a Deus e ao dinheiro.”? (Lc 16,13b)
Como nos relacionamos com a natureza? De que modo nela
se revela a sabedoria de Deus? “O universo é aliado dos justos.” E
nós somos aliados da natureza? Como tratamos o planeta, nossa
casa, da qual dependemos?

Para você continuar a reflexão


Leia Sb 8,2-16! Que benefícios nos traz a sabedoria quando a te­
mos como companheira ideal?

Conclusão da Ia parte

Na Ia parte deste volume, depois de analisar a vitória de Alexan­


dre Magno sobre o Império Persa (333-323 a.C.) e depois de olhar a dis­
puta de seus generais por um pedaço do novo império (323-301 a.C.),
vimos a dominação dos Ptolomeus sobre a Palestina a partir de Alexan­
dria no Egito (301-198 a.C.). Passamos, então, a estudar os livros que
foram editados nessa época.
No período de transição entre os persas e os gregos, devemos si­
tuar a edição do texto hebraico de Ester. E um livro que foi escrito para
encorajar os judeus da diáspora a se manterem fiéis às suas tradições em
meio a povos multiculturais. Em estilo novelístico, o livro mostra como
Ester e Mardoqueu conseguiram colocar as estruturas do poder im pe­
rial a serviço da libertação de seu povo.
Já na época de dominação dos Ptolomeus, o Livro de Eclesiastes é
crítico tanto ao modo de vida dos gregos, quanto à sabedoria tradicional
de Israel. Para Coélet, o trabalho escravo, a sabedoria, o poder, a riqueza,

92
o prazer e o individualismo não realizam ninguém. A felicidade está em
viver do fruto do próprio trabalho, na solidariedade e no temor a Deus.
Zc 9-14 são acréscimos ao Livro do profeta Zacarias. Os capítu­
los 9 a 11 são profecias que, diante da opressão sob os Ptolomeus, ex­
pressam a esperança na vinda de um Messias justo e pobre, que resgate
o projeto de paz e de fraternidade. Os capítulos 12 a 14 devem ser de
outros autores e representam a esperança da comunidade judaica, em
torno do culto no templo de Jerusalém, na vinda do Dia de YHWH.
Da mesma forma como o Livro de Ester, o Livro de Tobias tam­
bém é uma novela bíblica que quer estimular as famílias de judeus dis­
persos pelo império, para que mantenham piedosamente as tradições de
seus pais, pois Deus continua fiel a seu povo.
Passamos, então, a analisar o período de dominação dos Selêuci­
das a partir de Antioquia da Síria (198-142 a.C.). Foi uma época de mui­
ta violência contra os judeus da Palestina. Violência contra as tradições
de Israel, bem como opressão econômica e política.
Durante o domínio dos Selêucidas, o Livro do Eclesiástico foi o
primeiro a ser editado. Diante da helenização do Judaísmo, Eclo é um
livro que vem em defesa da sabedoria tradicional de Israel em torno do
templo de Jerusalém, controlado por sacerdotes e escribas. Diante da
sabedoria e dos heróis gregos, Eclo destaca a fé, a lei, a sabedoria e os
heróis de Israel.
Depois de algumas informações sobre a guerrilha da família de
Matatias, bem como sobre a origem dos fariseus e dos essênios, passa­
mos a estudar os livros que foram editados durante a revolta dos
macabeus: Dn, Jt e 2Mc.
Depois da introdução à teologia apocalíptica, estudamos o Livro
de Daniel, como literatura de resistência do campesinato fiel contra o
imperialismo selêucida, usando uma linguagem em códigos, repleta de
sonhos e visões.
Como os livros de Ester e de Tobias, também o Livro de Judite é
uma novela bíblica com fundo histórico. Seus autores são levitas próxi­
mos ao povo da terra. Eles querem encorajar os judeus a resistirem con­
tra a opressão dos Selêucidas e a permanecerem fiéis à lei, confiando na
presença de Deus na luta de libertação. Além desse objetivo principal,
93
os autores de Jt também reivindicam o direito de cidadania plena para as
mulheres, questionando a lei do puro e do impuro. Propõem também a
superação da discriminação dos estrangeiros, criticando a lei de pureza
étnica. Por fim, questionam o monopólio dos sacerdotes no templo.
O Segundo Livro dos Macabeus não é continuidade de lM c.
K uma narrativa paralela de lM c 1-7. Reflete sobre a imposição forçada
do 1lelenismo por Antíoco IV Epífanes, bem como sobre a resistência
heróica de Judas Macabeu, que liberta novamente o templo para o cul­
to. Seus autores devem ser buscados entre os hassideus e os sacerdotes
fiéis à lei. O livro quer descrever a origem da festa da dedicação do
templo.
No período da dinastia dos hasmoneus, surgiram os últimos livro
do Primeiro Testamento.
O texto grego de Ester relê a versão hebraica, aplicando-a à
opressão de Antíoco IV Epífanes e à luta de resistência dos macabeus.
O Primeiro Livro dos Macabeus descreve toda a guerrilha co­
mandada pelos irmãos macabeus e não somente a de Judas, como em
2Mc. No tempo de opressão da dinastia hasmoneia, lM c faz, na verda­
de, uma crítica à traição dos ideais de Matatias. Seus autores têm sua ori­
gem entre os levitas do interior em meio ao povo da terra. Querem fazer
memória do ideal libertário dos macabeus para animar o povo da terra a
resistir contra a dominação dos hasmoneus.
O Livro de Baruc convida ao arrependimento, à conversão e à
fidelidade dos judeus dispersos, na esperança de uma restauração em
torno de Jerusalém.
Por fim, o Livro da Sabedoria quer ajudar as comunidades ju­
daicas de Alexandria a preservarem sua identidade num ambiente que
lhes era hostil. Para alcançar esse objetivo, propõe a busca da sabedo­
ria como companheira ideal que dá sentido e imortalidade à nossa
vida. Além disso, desperta a memória da ação da justiça imortal de
Deus na natureza e na história de Israel, especialmente no Êxodo, li­
bertando dos ídolos e das estruturas de morte. Essa memória motiva a
busca de um êxodo permanente em todos os tempos e lugares, inclusi­
ve em nossos dias.

94
Chegando ao final do Primeiro Testamento, concluímos nossa
caminhada pela história de Israel e da literatura bíblica que surgiu em
cada período de sua trajetória, desde as origens até o início da
dominação romana.
Vimos que há dois protagonistas fundamentais em toda a cami­
nhada de Israel. De um lado, está YHWH, o Deus da vida, revelando
seu projeto de amor e de liberdade. De outro, está um povo que buscou
viver em comunhão com esse Deus. Assim se formou Israel. Assim
nasceu a sociedade fraterna do tribalismo. Foi uma experiência alterna­
tiva às estruturas de opressão dos reinados da época. Israel procurou ser
fiel à aliança com YHWH. Mas nem sempre conseguiu. No entanto, fez
a experiência de um Deus presente na história, caminhando à sua frente,
conduzindo, chamando à conversão, libertando, gerando vida.
E quando foi instituída a monarquia, o movimento profético foi
quem continuou na luta pela volta ao projeto de Deus, denunciando a
opressão do reinado sobre os pobres e a manipulação da religião de
YHWH pelo estado. Mesmo depois da destruição da monarquia em
Israel, diferentes movimentos continuaram buscando em YHWH as
energias necessárias para resistir diante de impérios e das classes diri­
gentes dejerusalém . Acreditavam na presença de Deus na sua história
como força capaz de transformar pessoas e estruturas, com vistas à
reconstrução de um mundo de paz e de justiça.
O Judaísmo oficial no pós-exílio colocou a religião de YHWH
numa camisa de força, isto é, estabeleceu leis rígidas que impediam a li­
vre ação do espírito de Deus. Houve movimentos de resistência contra
o nacionalismo legalista, porém, sem força suficiente para se impor e
voltar a fazer da religião oficial uma experiência permanente de vida
digna, de liberdade, onde o amor é o critério fundamental que rege
todas as relações humanas.
O movimento dejesus de Nazaré deve ser situado nessa corrente
de resistência que propôs à sua religião a volta às origens, resgatando o
projeto do Deus libertador do Exodo. Mas aí já estamos no Segundo
Testamento. Este será nosso assunto da segunda parte deste volume.

95
Para orar e aprofundar

Tb 13,1-18
Jt 9,1-14
J t 16,1-17
Est 4,17a-17z
Sb 9,1-18
Eclo 36,1-22
Dn 3, 24-45
Dn 3,52-90

Sugestões de leitura

GALLAZZI, Sandro; RUBEAUX, Francisco. Primeiro livro dos Aíacabeus Autocrí­


tica de um guerrilheiro. Petrópolis: Vozes, São Leopoldo: Sinodal.


STORNIOLO, Ivo. Como ler o Uvro de Ester. São Paulo: Paulus.
STORNIOLO, Ivo; BALANCIN, Euclides. Como ler o U vro do Eclesiastes. São
Paulo: Paulus.
STORNIOLO, Ivo; BORTOLINI, José. Como ler o Uvro de Tobias. São Paulo:
Paulus.
STORNIOLO, Ivo. Como ler o Uvro do Eclesiástico. São Paulo: Paulus.
STORNIOLO, Ivo. Como ler o Uvro de Judite. São Paulo: Paulus.
STORNIOLO, Ivo. Como ler o Uvro de Daniel. São Paulo: Paulus.
STORNIOLO, Ivo. Como ler o Uvro da Sabedoria. São Paulo: Paulus.
ROBLES, Maria Engracia; BREMER, Margot. Ensaio sobre Judite. A Palavra na
Vida, n. 25, São Leopoldo: CEBI-Nacional.

96
Parte II:
Vida e pregação de Jesus

Introdução

A partir de agora, você está começando o estudo do Segundo


Testamento.
Convidamos você a continuar sua caminhada junto com os pro­
tagonistas de um novo momento histórico para a humanidade, o kayrós,
um tempo especial. São eles: Jesus de Nazaré e seu grupo de discípulos e
discípulas, que organizaram as primeiras comunidades.
Para nós, que confessamos a fé em Jesus, é importante conhecer­
mos melhor o testemunho que seus discípulos nos deixaram. Ao regis­
trar por escrito sua compreensão do evento Jesus de Nazaré, as
primeiras gerações cristãs querem nos ajudar hoje a vivermos cada vez
mais o compromisso com seu projeto de vida. Querem alimentar em
nós a esperança de que a manifestação do Reino de Deus é possível.
Querem nos motivar a viver sempre mais em profunda intimidade com
a mesma força divina que movia Jesus de Nazaré. Querem, por fim,
despertar em nós a mesma fé d ejesus que é capaz de liberar dentro de
nós um poder que está além de nós. E a ação da graça divina que é capaz
de fazer em nós coisas impossíveis, transformando-nos a tal ponto de
sermos sal na terra e luz no mundo (Mt 5,13-16).
Nosso desejo é que o estudo do Segundo Testamento seja para
você uma oportunidade de crescimento no conhecimento e na adesão a
Jesus de Nazaré que, ainda hoje, continua transformando corações e
mentes, revelando o verdadeiro sentido da vida e engajando pessoas em
favor da promoção de vida digna para todo ser humano.

97
Mais uma vez, convidamos você a aproximar-se da Bíblia com os
pés bem firmes no chão da realidade e da comunidade, com espírito
aberto à Palavra que armou sua tenda entre nós. Palavra que é vida e luz
para toda a humanidade (Jo 1,1-4). Essa luz só brilha em nós na medida
cm que tivermos nosso coração e nossa mente abertos à ação do Espíri­
to, deixando-nos iluminar e transformar em suas testemunhas.
Como no estudo do Primeiro Testamento, continuaremos a si­
tuar os textos bíblicos e a prática de Jesus e das primeiras comunidades
cm seu contexto. Acreditamos que, sem um conhecimento da realidade
econômica, social, política e religiosa da época, não é possível alcançar
toda a riqueza contida nos evangelhos e no restante da literatura da Bí­
blia. Portanto, para compreendermos com mais profundidade as pala­
vras, a vida e a ação de Jesus, é fundamental que situemos sua prática
dentro da história e das relações sociais de seu tempo.
Ao buscarmos uma aproximação ao Jesus histórico, temos que
ter presentes alguns cuidados. Não é tão simples chegar ao que de fato
aconteceu no tempo de Jesus. É que os evangelhos foram escritos algu­
mas décadas depois de sua morte. Não querem ser filmagem do que dis­
se e fez. São, na verdade, uma reflexão e interpretação teológica sobre a
vida de Jesus em função da vida das comunidades em anos posteriores.
Mesmo assim, procuraremos fazer um esforço para entender como foi
o movimento itinerante de Jesus.
Mais que estudar seu Evangelho, certamente Jesus gostaria que o
vivêssemos em todas as nossas relações. Mas também é verdade que,
para bem entender sua boa-nova, é preciso estudá-la. E o que nos pro­
pomos está nessa perspectiva. Quer ser uma ajuda a quem busca melhor
compreender Jesus e seu projeto para vivê-lo no seu dia-a-dia.

98
1 Jesus de Nazaré

“Muitas ve%es e de modos diversos,


falou Deus, outrora, aos pais pelos profetas.
Agora, nestes dias que são os últimos,
falou-nos p o r meio de seu Filho... ” (Hb 1,1)

Antes de iniciar o estudo, convidamos você a fazer uma memória


sobre o significado dejesus de Nazaré em sua caminhada de fé e para a
humanidade. Procure refletir sobre as seguintes questões: Quando Je ­
sus passou a fazer parte de sua vida? Quem é ele para você? O que mais
lembra dele? De sua boa-nova, que aspecto mais transformou sua vida?
O que é central no seu Evangelho? Qual a missão cristã no mundo hoje?
Em que medida, o Cristianismo está ajudando na construção de novas
relações com vistas a um mundo mais humano?

1.1 A vida de Jesus de Nazaré

A data mais provável para o nascimento d ejesus de Nazaré é o


ano 6 a.C. Segundo os evangelhos, Herodes Magno ainda estava vivo
quando Jesus nasceu. Como o rei morreu em 4 a.C., devemos situar o
nascimento d ejesus antes dessa data. A antecipação do Natal dejesus
em alguns anos se deve ao fato de o monge Dionízio, o Pequeno, ter co­
metido um erro de cálculo, quando fez as contas para definir o ano 1 do
calendário cristão no 6o século.
Quanto a 25 de dezembro como data do nascimento d ejesus, é
preciso dizer que foi somente a partir de meados do 4o século que a
Igreja Cristã em Roma passou a celebrar o Natal d ejesus nesse dia. A
razão é que, nessa data, se celebrava a festa ao Deus Sol no Império Ro­
mano. Como, nesse tempo, é inverno no hemisfério norte, o dia 25 de
dezembro é o mais curto do ano, correspondendo ao nosso 24 de ju-

99
nhn. ( delirava-sc a vitória da luz sobre as trevas, uma vez que, a partir
dessa data, cada dia ia aumentando, enquanto as noites iam encurtando.
Para as comunidades cristãs, não é o sol divinizado, mas é Jesus o verda­
deiro “sol da justiça” (Ml 3,20), o “astro das alturas” (Lc 1,78-79), para
ser “luz que ilumina todos os povos” (Lc 2,32).
Seu nascimento é situado em Belém, aldeia natal de Davi, a 8 km
ao sul de Jerusalém. Assim se cumpre a esperança da profecia (Mq 5,1).
Situando o nascimento dejesus em Belém, Mt 2,1-12 e Lc 2,1-7 têm in­
teresse teológico. Querem buscar luzes, no Primeiro Testamento, que
ajudem a iluminar o evento Jesus de Nazaré, para fortalecer especial­
mente pessoas de origem judaica na sua adesão ao Evangelho. Para ju­
deus aderirem a Jesus, era fundamental apresentá-lo como aquele que
veio cumprir a esperança profética.
Jesus se criou em Nazaré, uma aldeia camponesa do interior da
Cíalileia. Era conhecido como o nazareno (Mc 1,24; 10,47; 14,67; 16,6).
Sua pátria era Nazaré (Mc 6,1; Jo 1,45-46). E Jo 7,40-44 nos informa
que muitas autoridades não creram em Jesus, uma vez que esperavam
por um Messias que nascesse em Belém.
Desde cedo, via seu povo resistindo contra a opressão dos roma­
nos e da dinastia de Herodes. Não só ouviu falar, mas também viu de
perto a terrível perseguição que sofria
sua gente. Portanto, viu a opressão de "E Jesus crescia em
seu povo na Galileia, ouviu seus gri­ sabedoria, em estatura e
tos de dor contra seus opressores e em graça, diante de Deus
tomou pleno conhecimento da sua si­ e diante dos homens."
tuação de penúria, de fome e de vio­ (Lc 2,52)
lência (Mt 2). Jesus foi sendo tomado
por uma profunda indignação diante dessa realidade (Mc 3,5; 10,14).
Seu coração se encheu de compaixão diante da fome e das doenças do
povo, e isso o levou à grande opção de sua vida, a opção pelo povo
oprimido (Mc 1,41; 6,34; 8,2).
Desde a sua infância, Jesus teve vários espaços de formação. O
primeiro foi o seu lar, sua família. Na casa de José e Maria, aprendeu a
religião de seu povo, o ritmo diário da vida, bem como as lidas da roça e
o trabalho artesanal de carpinteiro (Mc 6,3).
100
O segundo espaço de formação foi a sinagoga da aldeia. Junto com
sua família, ali se reunia com a comunidade semanalmente para orar, para
escutar a Palavra e para falar sobre os problemas da comunidade.
Em sua casa e na sinagoga, aprendeu a olhar a história do povo
com profunda fé na presença do Deus libertador e doador de vida com
liberdade. Um Deus que tem compaixão de seu povo e com ele se soli­
dariza (Lc 4,16-21).
E possível que o templo, com sacerdotes e escribas, tenha sido
mais um espaço de aprendizagem para Jesus (Lc 2,41-50). No entanto,
não frequentou a escola superior dos escribas, os mestres nas Escrituras.
Porém, o grande espaço de aprendizado de Jesus foi o movimen­
to popular de seu tempo. A maneira de falar e ensinar mostra que seu
aprendizado foi no meio do povo e não na escola acadêmica. Antes de
assumir seu ministério, participou do movimento de João Batista.
Jesus era leigo. Não era sacerdote nem levita. Não fazia parte dos
quadros dos doutores da lei nem dos fariseus.
Como todas as crianças e todos os jovens de seu tempo, Jesus
participava da vida de seus conterrâneos. No dia-a-dia, trabalhava com
sua família, seguindo a profissão de seu pai, como era o costume. Como
trabalhador na fabricação de ferramentas, de carroças, de estruturas de
madeira na construção civil, provavelmente era ambulante. Além de
carpinteiro, terá sido agricultor. As inúmeras referências à vida no cam­
po são testemunhos da familiaridade que tinha com a agricultura. Veja
alguns exemplos:

• Plantio (Mt 13,4-9.24-30; • Animais (Mt 6,26; 8,20; 9,36;


Mc 4,26-29); 10,16; 18,12-24; 23,33);
• Colheita de cereais (Mt 12,1); • Videiras e vinho (Mt 9,17;
• Hortaliças (Mt 13,31-32); 21,28.33; Jo 15,1-4);
• Flores do campo (Mt 6,28-30); • Figueiras (Mt 24,32);
• Fermento (Mt 13,33); • Instrumentos de trabalho (Lc 9,62);
• Trabalho na roça (Mt 20,1-16); • Temperos (Mt 23,23).

Para a opção de Jesus em favor do campesinato sofrido da Gali­


leia, foi fundamental sua convivência com o povo, enquanto criança e

101
jovem, nas aldeias. Foi convivendo com sua dura realidade que decidiu
dedicar integralmente sua vida em defesa da dignidade de toda aquela
gente. Acima de tudo, sua luta pelo Reino tinha em vista acabar com o
sofrimento do povo da terra, para revelar o amor de Deus.

1.2 A vida pública de Jesus


A idade dejesus, ao iniciar a vida pública, é incerta. E que a ex­
pressão “mais ou menos 30 anos” (Lc 3,23) não é uma referência quan­
titativa. Os “30 anos” se referem à idade em que as pessoas tinham
posse da plenitude das forças, isto é, a idade adequada para iniciar uma
missão importante. Em igual perspectiva, o mesmo foi dito a respeito
de Davi em 2Sm 5,4: “Davi começou a reinar quando tinha 30 anos”.
Jesus fez uma segunda opção importante em sua vida. Decidiu
por integrar-se no movimento de João Batista, aderindo, de um lado,
ao batismo de conversão, de mudança de vida e de mentalidade. De
outro lado, aderindo ao anúncio profético do juízo no Dia de YHWH
(Mt 3,1-17). Optar pelo movimento batista era, ao mesmo tempo, mos­
trar que estava descontente com o Judaísmo e com a sociedade de sua
época e que discordava dos caminhos propostos por outros grupos de
seu tempo, como os zelotas ou fariseus.
Depois de um certo tempo, Jesus abandonou a prática do batis­
mo de João, optando por caminho próprio, criando seu próprio movi­
mento (Jo 3,22-30; 4,1-2).
E possível cjue, depois do conflito com a sinagoga de Nazaré
(Lc 4,28-31), tenha se mudado para Cafarnaum. Conforme Mateus, no
entanto ao ouvir que João tinha sido preso, foi morar em Cafarnaum, ci­
dade importante num entroncamento de estradas comerciais internacio­
nais (Mt 4,12-13). A cidade ficava na margem norte do lago da Galileia.
Ali morava Pedro com sua esposa, que também participava do movi­
mento missionário (ICor 9,5). Com eles também moravam a sogra e o
irmão de Pedro. Este se chamava André (Mc 1,21.29). E provável que
Jesus tenha morado na casa deles.
Uma das primeiras coisas que fez foi organizar uma comunidade
para trabalhar com ele. Escolheu pessoas que eram consideradas
102
pecadoras, como pescadores (Mc 1,16-20), cobradores de impostos
(Mc 2,13-14) e zelotas (Mc 3,18-19). Seu grupo era constituído de gente
pobre, até Mateus ou Levi, que era cobrador de impostos, devia ser um
simples agente de cobrança a serviço de pessoa mais rica que tinha a
concessão dos tributos. Jesus os chamou enquanto estavam trabalhan­
do em seus ofícios. As pessoas de sua equipe eram mulheres e homens
da Galileia (Mc 14,70; Lc 8,1-3). Eram pessoas simples e não muito ape­
gadas às leis, pelo menos em seus detalhes. Sinal disso, é o fato de come­
rem sem lavar as mãos (Mc 7,2), de não jejuarem (Mc 2,18) e de não
cumprirem a lei oral quanto ao sábado (Mc 2,23).
As primeiras comunidades entenderam seu
"Enviou-os a
movimento missionário como de pessoas enviadas
proclamar o
(apóstolas) para anunciar a boa-nova do Reino e a
Reino de Deus
promover curas. Os textos dos evangelhos que
e a cura."
mais se aproximam dessa forma de evangelização
(Lc 9,2)
você encontra no Sermão da Montanha (Mt 5-7 e Lc
6,20-49) e no discurso do envio (Mc 6,7-13; Lc 9,1-6; 10,1-12; Mt 10).
Estes são os textos básicos para compreender como o movimento das
primeiras comunidades cristãs levou adiante o anúncio do Evangelho.
A missão do movimento de Jesus consiste, de um lado, em anun­
ciar, em pequenos grupos, a proximidade do Reino e, de outro, em ser­
vir as comunidades, curando a enfermidades.
As principais características do movimento de Jesus foram:
• a opção pelos excluídos, privilegiando o povo pobre como elei­
to de Deus;
• a decisão de propor à sua religião, o Judaísmo, a volta à função
de promover e defender a vida, resgatando as origens da fé em
YHWH, bem como do movimento profético;
• o anúncio do Reino do amor e da não violência, colocando a
prática da solidariedade e da misericórdia acima da prática da
lei, inclusive como chaves de interpretação da lei;
• a atuação preferencialmente nas aldeias camponesas e não tan­
to nas cidades, integrando principalmente pessoas jovens.
Em sua prática, Jesus não só denunciou firmemente os promoto­
res da opressão sobre o povo, como ainda veremos, mas também teve
103
compaixão das vítimas da pobreza, buscando sempre amenizar seu so­
frimento. Jesus solidarizou-se com quem:
• passava fome e sede (Mc 8,1-2; Mt 25,35; Lc 6,21; 15,14);
• não tinha teto para morar ou não tinha roupa para se vestir (Mt
25,35-36);
• era doente ou prisioneiro (Mt 25,36; Mc 1,32-34);
• estava cansado (Mt 11,28-30);
• sofria violências (Lc 10,30);
• estava abandonado como ovelha sem pastor (Mc 6,34);
• era discriminado: crianças (Mt 19,13-15), mulheres (Lc
7,36-50), publicanos e pecadores (Mt 9,10), samaritanos (Lc
9,51-56; 10,28-37; 17,11-19) e idosos (Mt 15,1-6; 19,19).

Mas para entender melhor essa prática de Jesus em relação aos


mais diferentes grupos de sua época, é preciso analisar a presença dos
romanos na Palestina, o poder da família de Herodes e suas conseqüên­
cias para a vida do povo. Além disso, é preciso ter claro quem eram os
saduceus, os fariseus, os escribas, os zelotas, bem como o que represen­
tava o templo, a sinagoga e a observância da lei em Israel. E o que passa­
remos a ver, sempre situando o movimento de Jesus nesse contexto.
Mas antes, vejamos dois testemunhos de historiadores contemporâ­
neos dejesus.

1.3 Testemunhos de historiadores


Em Antiguidades judaicas (XVI-II, 63-64), temos o testemunho de
Flávio Josefo, um chefe militar judeu que, depois dos anos 70 passou
para o lado dos romanos, tornando-se historiador, viveu entre os anos
37 e 103. E possível que suas palavras tenham sido retocadas por al­
guém do movimento cristão. Mas não se pode excluir, sem mais, que
haja um núcleo autêntico, que fale da existência histórica dejesus. Colo­
camos em itálico os possíveis retoques de escribas cristãos:

Nessa mesma ocasião, apareceu Jesus, um homem sábio, se é que se pode cha­
De fato, ele era alguém que fazia milagres e era mestre de
má-lo de homem.

104
pessoas que sentem alegria em ouvir a verdade. Atraiu a si muitos judeus e
muitos gregos. Ele era o Cristo. E mesmo quando, denunciado p or nossos chefes,
Pilatos o condenou à crucificação, aqueles que o amavam não deixaram de
amá-lo. Apareceu a eles ressuscitado três dias depois, uma ve que nossos divinosprofe­
^

tas tinham anunciado essefato e mil outrosprodígios a seu respeito. O grupo, que por
sua causa se chama de cristãos, ainda não desapareceu.
Tácito, historiador romano que viveu entre os anos 55 e 120,
quando escreveu sobre o incêndio que o imperador Nero provocou em
um bairro de Roma em 64, assim se referiu ao grupo cristão e ajesu s em
sua obra A nais (XV, 44):
Depois do incêndio de Roma, Nero aplicou tormentos refinados àqueles
cujos crimes suscitavam desprezo e que o povo chamava de cristãos. Esse
nome vem de Cristo, que, no reinado de Tibério, foi condenado ao suplício
pelo procurador Pòncio Pilatos.

2 Três poderes na Palestina


Chamamos a atenção para a importância de você estudar com
afinco o quadro cronológico que segue, lendo na Bíblia as citações que
aparecem e conferindo as localidades nos mapas que você encontra
adiante ou em sua Bíblia.

65 a.C.: A Síria é declarada província romana.


64 a.C.: O general Pompeu impõe o domínio romano no Oriente
Médio. Fim do Império Grego no Oriente. Nesta
época, provavelmente surgiu o 'Livro da Sabedoria, últi­
mo livro do Primeiro Testamento.
63 a.C.: Pompeu invade e ocupa a Palestina para resolver conflitos
na dinastia judaica dos hasmoneus. Restabelece Hir­
cano II como sumo sacerdote e nomeia o idumeu
Antípater (63-43 a.C.) como administrador de toda a
Palestina. Administrativamente, ela estava subordina­
da à província romana da Síria. Aumentam as desi­
gualdades sociais.

105
57 a.C.: Revoltas contra Roma, sobretudo na Galileia, comandadas
pelo hasmoneu Alexandre. Roma reprime violenta­
mente. Em 55 a.C., há mais rebeliões e mais massacres.
52- 48 a.C.: Pompeu governa sozinho a república de Roma.
48-44 a.C'.: Júlio César derrota Pompeu e se declara “ditador perpé­
tuo”, rompendo com a tradição republicana.
47 a.C. Em diante: Herodes Magno, isto é, o Grande, filho de Antí­
pater, comanda a Galileia.
44 a.C.: Assassinato de Júlio César.
43-32 a.C.: Marco Antônio domina no Oriente e Otaviano no Oci­
dente. Há guerras civis.
40-38 a.C.: Os partos, vindos da Pérsia, dominam sobre a Síria e a
Palestina. Em 38 a.C., foram expulsos pelos romanos
sob o comando de Herodes Magno.
37 -4 a.C.: Herodes Magno é proclamado, pelo imperador, rei dos ju­
deus de toda a Palestina (Lc 1,5; Mt 2,1-19).
31 a.C. —14 d.C.: Otaviano recebe o título de Augusto {sagrado, subli­
me —cf. Lc 2,1). Inicia o império, em substituição à
república.
22-10 a.C.: Construção de Cesareia marítima.
19 a.C.: Herodes inicia a restauração e ampliação do templo.
Entre 12 e 6 a.C.: Recenseamento de Lc 2,1-2, quando Quirino era
governador da província da Síria.
6 a.C.: Nascimento d ejesus de Nazaré.
4 a.C.: Morte de Herodes Magno, após dividir seu reino entre três fi­
lhos: Arquelau (etnarca da Idumeia, Judeia e Samaria
entre 4 a.C. e 6 d.C.), Herodes Filipe (tetrarca da Iture-
ia, Bataneia e Traconítide entre 4 a.C. e 34 d.C.) e He­
rodes Antipas (tetrarca da Galileia e Pereia).
4 a.C. —39 d.C.: Herodes Antipas, filho de Herodes Magno, tetrarca
da Galileia e da Pereia (Lc 3,1.19-20; 9,7-9; 13,31-32;
23,8). 6 d.C.: Arquelau é deposto e exilado.
6-41: Procuradores romanos passam a administrar diretamente a
Idumeia, a Judeia e a Samaria.
6-9: Copônio, procurador romano na Idumeia, Judeia e Samaria.
106
Entre 6 e 10: Nascimento de Paulo em Tarso. Aluno de Gamaliel
(At 22,3; cf. 5,34).
6-15: Anás, sumo sacerdote, foi nomeado pelos romanos (Lc 3,2;
Jo 18,13.24; At 4,6).
9-12: Ambívio, procurador.
12-15: Rufo, procurador.
14-37: Tibério César, imperador em Roma (Lc 3,1).
15-26: Valéria Grato, procurador.
18-36: Caifás, sumo sacerdote. Era genro de Anás. Seu sogro
exercia muita influência sobre suas decisões (Lc 3,2;
Jo 18,13.24; At 4,6).
26-36: Pôncio Pilatos, procurador na Judeia, Idumeia e na Samaria
(Lc 3,1; 13,1; 23,1-26).
Em torno de 27: Atividade de João Batista (Lc 3,2; Mc 1,1-8) e início
da vida pública d ejesus de Nazaré: anúncio da proxi­
midade do Reino de Deus (Mc 1,14-15).
Em torno de 30: Execução dejesus na cruz a mando de Pôncio Pila­
tos, sob o imperador Tibério César (Mc 15,1-15). A
Páscoa do ano 30 foi no dia 7 de abril.

Neste capítulo, daremos uma olhada nos três principais poderes


de opressão presentes na Palestina no tempo dejesus. São os poderes
romanos, da família dos Herodes e do sinédrio.

107
A PALESTINA NO
TEMPO DE HERODES
MAGNO (37 a 4 a.C.)

108
2.1 O poder de Roma
“Sabeis que aqueles que vemos
governar as nações as oprimem,
e os seus grandes as tirani^am. ” (Mc 10,42)

Poder político, militar e econômico

O Império Romano não apareceu de repente na Palestina. Ele foi


chegando de mansinho até conquistá-la. Em 148 a.C., conquistou a Ma-
cedônia ao norte da Grécia. Em 129 a.C., tomou conta da Ásia Menor
(centro-oeste da atual Turquia). Em 67 a.C., meteu a mão em Creta, no
Mediterrâneo, e em Cirene, no norte da África. Também transformou
em províncias romanas o Ponto e a Bitínia, no norte da atual Turquia
(65 a.C.), bem como a Síria (64 a.C.), chegando à Palestina em 63 a.C.
Já vimos, na primeira parte deste volume, que Aristóbulo II, filho
de Alexandre e Salomé, foi o último rei e sumo sacerdote do reino livre
dos hasmoneus, entre os anos 67 a 63 a.C., os últimos anos antes da
dominação romana.
Aristóbulo II foi vencido pelo general e cônsul romano Pompeu
em 63 a.C. e levado como prisioneiro de guerra para Roma. A partir
dessa data, Roma passa a dominar toda a região. Não só nomeava os go­
vernadores da província, mas também os sumos sacerdotes do templo
de Jerusalém. Depois de um período de independência sob a dinastia
hasmoneia, mais uma vez, os judeus tiveram que se submeter a um im ­
pério estrangeiro e pagar pesados tributos, tal como na época dos
babilônios, dos persas e dos gregos.
Pompeu acabou com o reino dos hasmoneus, reduzindo a Pales­
tina a uma pequena parte da província romana da Síria. Para adminis-
trá-la, confirmou o hasmoneu Hircano II, sumo sacerdote e etnarca,
isto é, governador da região. Mas o poder, de fato, estava com Antípa-
ter, nobre idumeu da família dos Herodes, nomeado procurador por
Pompeu.
Anos mais tarde, Otaviano, mais conhecido por Augusto César
(31 a.C. —14 d.C.), derrota Marco Antônio e também recebe o título de

109
imperador. Pnirtn, loi mais longe quejúlio César (48-44 a.C.). Reduziu
<>s vários poderes da República romana a funções meramente formais,
sem, no entanto, mexer em seus privilégios. Dessa forma, consegue seu
apoio.
No período anterior a Augusto, o governo da República Romana
era mais distribuído entre diferentes poderes, como segue.
• Dois cônsules formavam o poder executivo. Eram eleitos para
um mandato de dois anos.
• Alguém com o título de príncipe (primeiro cidadão) presidia o sena­
do, que era o poder legislativo.
• Era o senado quem delegava o poder militar a comandantes
para fiscalizar, administrar e manter a ordem nas províncias.
Cada comandante militar era chamado de legado. Essa delega­
ção era chamada de “imperium”.
• Os pontífices, isto é, os “construtores de pontes” entre as divin­
dades e seus fiéis, eram os responsáveis pelo poder religioso.
• Ospretores tinham em suas mãos o poder judiciário e as forças
policiais.
• O povo também tinha seu representante no poder. Era o tribu­
no da plebe.
Ao transformar esses espaços de poder em funções apenas for­
mais, Augusto César inaugura um novo período no domínio romano.
Antes dele, o sistema era republicano, no qual o senado tinha mais pode­
res. Com Augusto, começa o império, concentrando o poder nas mãos
do soberano. Ele exercia, ao mesmo tempo, todos os poderes, assumindo
o papel de cônsul, de príncipe, de imperador, de pontífice, de tribuno e depretor.
Augusto inicia a dinastia Júlio-Cláudia que, passando pelos impe­
radores Tibério César (14-37), Calígula (37-41) e Cláudio (41-54), termi­
nará com Nero (54-68).
Intensificou também a política do “pão e circo”, oferecendo, de
forma assistencialista, comida e diversão ao povo, a fim de desviar a
atenção do seu direito à terra e ao trabalho.
Aumentando a presença do efetivo militar nas colônias conquis­
tadas, Augusto também assegurava a chamada “paz romana” . A paz ro­

110
mana significava paz para Roma c opressão para os demais povos. O
respeito à ordem estabelecida era a base da paz romana. Significava a
eliminação sistemática de todos que se rebelavam contra o poder impe­
rial. Enquanto globalizava a fome, a escravidão, a exclusão, o ódio e a
violência, concentrava cada vez mais a riqueza (Ap 18,3.9-24). A pre­
sença ostensiva das forças armadas nas províncias impunha o medo e
garantia esse sistema.

Jesus de Nazaté e a “paz romana”

Em sua vida, Jesus se posicionou em relação a essa paz ofere­


cida pelos impérios de ontem e de hoje. Ele disse: “Eu vos deixo a
paz Eu vos dou a minha paz. Porém, não vô-la dou como a dá o
mundo.” (Jo 14,27). Ao fazer essa declaração, Jesus está dizendo que
a paz de Deus é diferente da paz oferecida pelos impérios. Os roma­
nos promoviam a guerra para garantir a paz. Jesus contesta o tipo de
paz proposta pelo império todo-poderoso. Sua paz é a que vem de
Deus. Seus fundamentos são a justiça, o respeito aos direitos funda­
mentais das pessoas e dos povos. Certamente, terá rezado muitas ve­
zes o Salmo 85 onde lia: “Justiça e paz se beijam” (v. 11b). Ou ainda,
terá lido algumas vezes em Isaías: “A paz é fruto da justiça” (32,17a).
Também não é por acaso que figura entre as bem-aventuran-
ças a declaração de que “felizes são os que promovem a paz porque
serão chamados filhos de Deus” (Mt 5,9). E são filhas e filhos de
Deus justamente porque, promovendo a paz e lutando contra a guer­
ra, seu agir é o mesmo agir de Deus, porque o Deus dejesus é o Deus
do amor e da paz (cf. 2Cor 13,11). Agir como Deus é tornar-se seu fi­
lho, sua filha. E tornar-se semelhante a Ele (Gn 1,26-27).
Aderir ao projeto do Reino e sua justiça é fazer uma opção. E
tomar partido. E colocar-se do lado das vítimas desse sistema impe­
rial que promove a ganância, o lucro, o acúmulo. Enquanto isso, do
outro lado, aumentam, a cada dia, os excluídos, multidões de pes­
soas sem vez e sem voz.
Aderir ao projeto d ejesus e lutar para que se torne realidade
significa contrariar interesses. E quem tem seus privilégios questio­

111
nados ou ameaçados gera violência contra quem luta por igualdade,
mesmo que seja alguém da própria parentela (Mt 10,35-37). Para Je ­
sus, porém, são “felizes os perseguidos por causa da justiça, porque
o reinado de Deus lhes pertence” (Mt 5,10).
É nesse sentido que é preciso entender Jesus quando diz que
“não vim trazer paz à terra, mas a espada” (Mt 10,34). Aderir ao pro­
jeto do Reino é lutar para que um dia a paz não seja mais conseqüên­
cia do medo dos povos diante do poder ilimitado dos impérios de
todos os tempos, mas seja, de fato, fruto da justiça, de novas relações
entre as nações. Essa é a paz que vem de Deus. E é tão diferente da
paz do império, sustentada pela força das armas. Na paz proposta
pelo movimento profético e por Jesus, “das espadas forjarão arados e
das lanças, podadeiras. Nenhum povo levantará a espada contra ou­
tro povo, e já não treinarão mais para a guerra” (Is 2,4; Mq 4,3).

Voltando à presença romana na Palestina, lembramos que, do


ano 6 a 41 d.C., a Idumeia, a Judeia e a Samaria são governadas direta­
mente por procuradores romanos. Estes eram nomeados pelo impera­
dor para regiões que representavam instabilidade para o império. Eles
tinham poderes civis, militares e judiciários.
No tempo de Jesus, o poder maior na Palestina se fazia sentir es­
pecialmente através de três formas, como segue.
1. A presença militar na região. A principal força do império era o seu
grande exército, que era bem organizado, coeso e disciplinado. Os des­
tacamentos militares eram chamados de “legiões”. E bom ter presente
essa palavra quando lemos, por exemplo, Mc 5,1 -20. Somente assim, en­
tenderemos melhor a qual “ocupação demoníaca” se refere aquele que se
autodenomina “Legião c meu nome, porque somos muitos” (Mc 5,9).
2. A presença de seus representantes na administração. Estes podiam
ser procuradores romanos, como foi o caso de Pôncio Pilatos, ou mes­
mo reis locais que juravam fidelidade a Roma. E o caso da rica família
idumeia dos Herodes. De qualquer forma, as decisões que eram toma­
das pelos representantes locais do império vinham do todo-poderoso e
divinizado imperador.

112
3. A cobrança de impostos. Esta era a opressão romana mais sentida
na vida do povo. O império exigia que os tributos fossem pagos em
moeda romana, mantendo, dessa forma, a hegemonia de sua moeda. E
parecido com a nossa realidade em que o império também impõe sua
moeda, sua língua e sua cultura, bem como seus interesses econômicos
e militares em todo o planeta. E aí de quem ousa não se submeter à car­
tilha neoliberal! E triste de quem se submete! Os resultados, nós os te­
mos experimentado em nossos países.

As moedas de maior uso na Palestina no tempo de Jesus


Eram de três tipos as moedas mais usadas na Palestina no
tempo de Jesus. Tanto eram cunhadas em ouro, quanto em prata,
bronze ou latão. As que tinham maior circulação eram as de prata.
• A moeda oficial romana era o denário e correspondia a um dia
de trabalho braçal (Mt 18,28; 20,2-13; 22,19; Mc 6,37; 12,15;
14,5; Lc 7,41; 10,35; 20,24; Jo 6,7; 12,5).
• A moeda grega era a dracma e tinha o mesmo valor do dená­
rio (Mt 17,24; Lc 15,8-9).
■• A moeda judaica era o shêk ele era equivalente a quatro dená-
rios ou a quatro dracmas.
Outras moedas que aparecem nos Evangelhos são:
• O talento, moeda de origem grega, podia aparecer como moe­
da de ouro ou prata e como unidade de peso (Mt 18,24;
25,14-30). Seu peso era de 34,272 kg. Enquanto moeda,
eqüivalia a 6 mil dracmas ou denário s.
• A mina, moeda fenícia, pesava 571 g. Portanto, eram neces­
sárias 60 minas para corresponder a um talento. Aparece em
Lc 19,11-27, quando narra a parábola de Mt 25,14-30, substi­
tuindo os talentos por minas.
• A libra, moeda de origem romana, era usada como medida de
peso. Eqüivalia a 320 g. Aparece em Jo 12,3 e 19,39.
O trabalho de pesar as moedas cabia aos cambistas ou ban­
queiros (Mc 11,15).

113
A cobrança dos impostos devidos a Roma era feita de várias formas.
• Na Galileia, a administração de Herodes Antipas cobrava direta­
mente do povo os tributos. Uma parte considerável, ele repassava
aos romanos. Estes exigiam a anona, uma contribuição anual para
sustentar os soldados das suas legiões estacionadas na região.
• Na Judeia, os impostos diretos, que correspondiam aos tributos
pessoais (de acordo com a renda de cada pessoa) e à tributação
da terra (20% a 25% da produção), eram cobrados por agentes
do fisco do império.
• Já os impostos indiretos eram cobrados sobre a compra e a ven­
da de todos os produtos. Em toda a região, sua cobrança era
feita nas alfândegas, em encruzilhadas de estradas importan­
tes, nas entradas das cidades, nas barreiras fiscais ou em mer­
cados públicos. Os responsáveis pela cobrança dos tributos
indiretos eram os publicanos oú cobradores de impostos, dis­
criminados pelos judeus mais ortodoxos (Mc 2,15-17; Lc
18,9-14). Pois esses achavam que os publicanos se contamina­
vam com o manuseio do impuro dinheiro estrangeiro. Consi­
deravam-nos colaboradores do império opressor, além de
haver ladrões entre eles. Zaqueu, por exemplo, era chefe de
publicanos suspeito de ter enriquecido por cobrar das pessoas
quantias maiores do que as estipuladas por Roma (Lc 19,1-10).
Veja ainda Mt 10,3; 11,19; 21,31-32! O “direito de cobrar im­
postos” em uma região era adquirido num leilão, onde só po­
diam participar pessoas que tivessem grandes propriedades.
Caso estes cobradores não cumprissem bem as suas tarefas, os
romanos, além de castigá-los exemplarmente, confiscavam as
suas propriedades.
Além desses tributos romanos, ainda havia os impostos para o
templo, como veremos adiante.
Como pudemos perceber, a dominação romana tinha seus alia­
dos na Palestina. Havia, portanto, uma dupla opressão. Uma exercida
pelo império estrangeiro e a outra, por famílias poderosas da região, que
dependiam do comércio internacional, dominado por Roma. Estas não

114
só oprimiam o povo em função do que deviam a César, mas também
para garantir seu luxo, seu comércio, seu prestígio.
Antes de seguir para o próximo item, convém ainda lembrar que,
no Império Romano, a grande maioria da população era constituída por
escravos. Eram eles que, com seu trabalho, sustentavam os nobres, os
homens livres e toda estrutura imperial. No entanto, na Palestina, a es­
cravidão era quase inexistente. As relações de trabalho se davam mais
sob a forma de arrendamento ou de assalariados.

Roma e os cultos
Da mesma forma como os egípcios, os mesopotâmicos e os gre­
gos, também os romanos cultuavam uma diversidade de divindades. No
Segundo Testamento, inclusive, temos referências a Júpiter, o Deus su­
premo que corresponde a Zeus dos gregos (At 14,12-13). Nesse mesmo
texto, fala do Deus grego Hermes, que corresponde a Mercúrio, divin­
dade romana. At 19,23ss faz referência à Deusa grega Ártemis, que
corresponde à Diana romana.
O império permitia que cada povo conquistado continuasse a
cultuar suas divindades. No entanto, exigia também o culto às divinda­
des imperiais. E o que é mais significativo do ponto de vista ideológico é
a exigência do culto ao império e ao imperador. A partir de Augusto Cé­
sar (31 a.C. -14 d.C.), os imperadores foram divinizados, exigindo culto
a eles. Como vimos, o título Augusto é título divino e significa
“sagrado”, “sublime”.
Na questão religiosa, porém, os judeus tiveram algumas concessões.
• Os romanos sabiam que era muito difícil mexer na religião mo-
noteísta dos judeus. Seria como que tocar a onça com vara curta.
Por isso, permitiram o Judaísmo como religião lícita, legal.
• A fim de evitar rebeliões, liberaram o povo judeu do culto ao
imperador e às demais divindades romanas. Contudo, exigi­
ram um sacrifício a YHWH em honra ao imperador todos os
dias no templo.
• Permitiram que os judeus tivessem seu próprio tribunal, o si-
nédrio, para julgar questões que lhes diziam respeito. Mas o

115
chefe desse tribunal era indicado por Roma. Nas cidades do
interior e nas aldeias, também podiam formar conselhos de an­
ciãos para resolver questões locais.

Mudanças na vida do povo

A seguir, assinalamos as principais mudanças na vida do povo


com a dominação romana.
O direito de herança, tão importante para os israelitas (Nm 36,7;
lR s 21,2-3), foi sendo substituído cada vez mais pela propriedade parti­
cular e de grande extensão.
• O direito de penhora, por 6 anos, dos bens ou da terra em caso
de dívidas, prazo no qual deveriam ser devolvidos (Dt
15,1-12), se transforma em direito do credor de incorporar, em
sua propriedade, os bens do devedor insolvente.
• Antes, o devedor podia trabalhar para pagar sua dívida. Agora,
vai para a cadeia (Mt 18,30).
• O valor da pessoa passou para um segundo plano. O que im­
porta é o capital, é o lucro (Mt 25,14-30). Na verdade, esse pas­
sou a ser o Deus dos gananciosos (Mt 6,24).

Conseqüências na vida do povo

As principais conseqüências dessa mudança na estrutura da so­


ciedade e dos clãs israelitas na Palestina são:
• Perde-se a solidariedade familiar em favor de um individualis­
mo crescente.
• Passa a reinar cada vez mais uma mentalidade mercantilista e
competitiva.
• Empobrecimento do campesinato.
• Perda da terra e aumento dos latifúndios que tomavam conta
das aldeias.
• Aumentam os sem-terra, os diaristas, os meeiros, os desem­
pregados, os servos e as migrações.

116
• Quem não queria se sujeitar ao sistema romano, articulava-se
em grupos rebeldes de resistência, mais tarde chamados de
zelotas.
• Confira alguns textos dos evangelhos que lembram esta situa­
ção: Mt 18,23-35; 20,1-16; 21,33-46; 25,14-30; Lc 12,16-21;
16,19-31.
Não só os hasmoneus resistiram contra a dominação romana.
Também os movimentos populares se radicalizaram já nos primeiros
anos da ocupação imperial. O historiador Flávio Josefo nos informa
que houve seis revoltas na Galileia, entre 57 e 37 a.C., isto é, num espaço
de somente 20 anos. A resistência vinha dos mais pobres, dos sem terra,
pois não tinham alternativa para sobreviver. Os pobres iam atrás de
qualquer líder que aparecesse e prometesse libertá-los do peso dos im­
postos devidos a Roma. Exemplos desses líderes populares de origem
camponesa foram Ptolau e Ezequias. Este último foi morto por Hero­
des Magno que já era comandante militar na Galileia naqueles anos. De­
pois da execução de Ezequias, seus filhos lideraram outras revoltas
contra Roma. Todas foram violentamente massacradas.

Jesus e os romanos

Já vimos acima que Jesus foi crítico à “paz romana”, propondo a


paz de Deus, fruto da justiça (cf. Jo 14,27).
Ainda sobre a presença militar de Roma, há um claro posiciona­
mento do Evangelho no texto sobre a expulsão da “legião” do possesso
na região dos gerasenos (Mc 5,1-20). Gerasa ficava a sudeste do lago da
Galileia. Era região helenizada, onde não moravam judeus. Antes de
continuar seu estudo, favor ler o texto em sua Bíblia!
Esse texto, entre outras mensagens que podemos nele encontrar,
quer nos apresentar uma releitura e atualização do processo libertador
junto às águas no Egito (Ex 14,15-31). Jesus traz o novo êxodo para os
oprimidos de seu tempo pelo novo faraó, o imperador romano. Vários
elementos nos permitem fazer essa leitura que afirma ser a presença do
império, através de seu exército, o “demônio que ocupa” aquele ho­
mem, tirando-lhe sua consciência de cidadania.

117
Para começar, lembramos que os instrumentos usados para imo­
bilizar o povo, aquele homem possuído, são os mesmos usados pelo
exército romano para acorrentar rebeldes e prisioneiros de guerra. O
texto fala em “correntes”, “grilhões” e “algemas” (w . 3-4). O demônio
é chamado de “espírito impuro” (v. 8). O Judaísmo oficial não conside­
rava impuros os estrangeiros? E qual é mesmo o nome do demônio? É
justamente como se chamava um destacamento militar romano naquela
época (w . 9.15). Onde vai parar aquela “legião”? Vai parar numa mana­
da de porcos (w . 11-13), um animal também impuro (Lv 11,7) e símbo­
lo da nação opressora (SI 80,14). E onde se afogam os impuros
romanos? Tal como o exército do faraó, a “legião” também se
precipitou no mar (v. 13), deixando o povo livre com plena consciência
de sua cidadania (v. 15).
Diante do exposto, podemos perceber que Jesus tinha bem claro
que o projeto da paz romana tinha muito pouco de paz. Era um milita­
rismo opressor que tiranizava as nações conquistadas, como você já leu
em Mc 10,42.
Ao mesmo tempo, Jesus se posiciona con­ "Dai a César o
tra a opressão econômica de Roma, simbolizada que é de César
pela presença de sua moeda na Palestina. Leia e a Deus o
Mc 12,13-17! que é de Deus!"
No tempo de Jesus, o que pertencia a César (Mc 12,17)
na Palestina eram seu exército, seus interventores
e sua moeda. Nela podia-se ler: “Tibério imperador, filho venerável do
venerável Deus”. A presença da moeda estrangeira garantia o pagamen­
to dos tributos em dinheiro. Ao mesmo tempo, difundia a religião do
império, divinizando o imperador.
Segundo a teologia de Israel, a terra pertence a Deus e, por exten­
são, a todas as suas criaturas que nela vivem (Lv 25,23; SI 24,1). Portan­
to, as terras da Palestina não são de César. Além da terra, o povo de
Israel também pertence a Deus (Ex 3,7.10; J r 31,33; 32,38). É sua he­
rança. O Império Romano, portanto, não tinha legitimidade para domi­
nar a terra de outros povos, muito menos para oprimir as pessoas, a
“vinha” de Deus (Mc 12,1-12).

118
Quando Jesus manda fariseus e herodianos devolverem a moeda
a César, entre outras coisas, quer dizer pelo menos três. Primeiro, des­
mascara os seus interlocutores por aceitarem a presença da moeda im­
perialista em seu território e serem coniventes (herodianos) ou omissos
(fariseus) em relação à apropriação da terra e do povo de Israel que Cé­
sar estava fazendo naquele momento. Segundo, deixa claro que seu pro­
jeto é anti-imperialista e quer que a opressão dos césares (a presença de
seu exército, de seus procuradores e de sua moeda) volte para casa e dei­
xe livres o povo e a terra. Por fim, Jesus também contesta o culto ao im­
perador como “filho venerado do venerável Deus”. Para o nazareno, o
poder do império não vem de Deus, mas é força de opressão que vem
do demônio, um espírito impuro (Mc 5,1-20). Jesus afirma claramente
que a opressão imperial, representada pela moeda, não está ligada ao
amor gratuito de Deus.
Diante do que já vimos sobre a posição dejesus em relação à do­
minação romana, podemos ver que ele se posiciona contra as três for­
mas mais visíveis de opressão dos impérios de todos os tempos. São
elas: o domínio pela força militar, o poderio bélico, a dominação econô­
mica, representada por sua moeda, e a opressão pela religião.
Por fim, não poderíamos deixar de fazer referência à cruz. A pena
de morte judaica era o apedrejamento (Lv 20,2.27; 24,14; Dt 22,22-24;
At 7,55-60) ou a fogueira (Lv 20,14; 21,9). Diferentemente, a crucifica­
ção era a pena máxima que o Império Romano aplicava às pessoas que
não tinham cidadania romana e que haviam liderado ou participado de
rebeliões de escravos ou revoltas políticas. Jesus sofreu essa forma de
execução. Foi eliminado pelo poder de Roma que, junto com autorida­
des judaicas, também tinha interesse em tirar do caminho aquele que ti­
nha compaixão do povo, pois este era “como ovelhas sem pastor” (Mc
6,34; Mt 9,36).

A proposta política de Jesus

A proposta dejesus, no que diz respeito às relações de poder, é


muito distinta daquela exercida tanto pelo imperador, quanto por seus
representantes na Palestina.

119
Jesus trabalha em equipe (Mc 1,16-20). Promove, portanto, um
poder participativo, partilhado, de modo que cada pessoa desenvolva
sua cidadania. E um poder exercido em comunidade (Mt 18,15-20) e su­
põe organização, da mesma forma como também Moisés já fizera na
época da formação de Israel. Compare Ex 18,21 com Mc 6,39-40!
A quem se coloca sob sua liderança, propõe um poder que serve,
capaz mesmo de dar a própria vida pelo povo (Mc 8,34-38; 10,43-45).
Não quer um poder que dê destaque a al­
"Se a/guém quiser
guém, como Tiago e João desejavam (Mc
ser o primeiro,
10,36-41). Nem quer um poder que crie privilé­
seja o último
gios em detrimento de outrem, tal como Pedro
e aquele que
deseja na cena do lava-pés (Jo 13,1-17).
serve a todos."
E para quem quer ser mais poderoso, Je­
(Mc 9,35)
sus apresenta a criança, símbolo de todos os
“pequeninos”, como modelo de poder, um poder sem ambições, um
poder transparente e autêntico (Mc 9,33-38). Além das crianças, Jesus
apresenta também escravos e mulheres como paradigmas de poder. É
que, numa sociedade escravocrata e patriarcal, o serviço de lavar os pés
dos senhores ou dos maridos era dos escravos e das mulheres (Jo
13.1-17). Quanto às relações escravocratas e patriarcais, Jesus tem outra
proposta, como ainda veremos.
E preciso lembrar ainda o projeto do “Reino de Deus” anuncia­
do por Jesus de Nazaré (Mc 1,15; Mt 4,17). Nesses dois evangelhos, o
anúncio do Reino é sua primeira fala em público. Por isso, ela assume
um significado particular. As primeiras comunidades cristãs deram uma
grande importância a essa proposta dejesus. Ele veio inaugurar o poder
do verdadeiro e único rei, fazendo memória da época das tribos no anti­
go Israel, no qual nenhum rei humano podia dominar (Jz 8,22-23).
Mas somente YHWH é o legítimo rei do mundo, governando-o com
justiça e julgando as nações com equidade (SI 9,9; 96,13). Coerente
com essa proposta, Jesus inaugura novas relações entre as pessoas. A
escolha dos 12 dentre os apóstolos faz memória das 12 tribos da socie­
dade igualitária.
A passagem conhecida como a entrada triunfal em Jerusalém (Mc
11.1-11) nos ensina que o Messias libertador não vem montado num ca­
120
valo. Naquele momento, o cavalo era o símbolo do exército poderoso
de Roma. Em vez de espadas, os ramos sinalizam um poder calcado na
paz. Também não vem sentado sobre uma mula, montaria própria dos
reis (cf. lR s 1,33.38). Mas vem montado em um jumento, montaria dos
pobres (cf. Zc 9,9-10). Seu poder não tem como base a força militar,
nem o poder dos reinos deste mundo. Mas é o poder popular, o po-
der-serviço, o poder dos pobres.
Por fim, ao lembrar a parábola do Bom Pastor, Jesus está fazendo
uma crítica aos maus “pastores”, como eram chamados os governantes.
A comunidade joanina apresenta Jesus como o verdadeiro pastor que
governa com justiça, de modo que todos tenham vida cidadã. Compare
Ez 34 com Jo 10,1-18 e com o SI 23!

2.2 O poder dos Herodes


“Ide di^er a esta raposa:
Eis que eu expulso demônios e realizo curas
hoje e amanhã. No terceiro dia, vou terminar! ”
(Lc 13,31)

Além do poder romano, um segundo poder presente na Palestina


no tempo de Jesus foi o da dinastia dos Herodes, sobrenome que, em
grego, significa heroico.
Para não confundir os vários Herodes que aparecem no Segundo
Testamento, fazemos aqui um quadro especial sobre eles. Todos são da
mesma dinastia, porém, em épocas diferentes. São idumeus (edomitas),
estrangeiros que governaram sobre os judeus a serviço dos romanos.
Segundo Gn 25,29-30 e Dt 23,8, os idumeus têm parentesco com os
judeus.

121
Antípater ou Antipas (63-43 a.C.), procurador romano na Palestina.
Herodes Magno, filho de Antípater: De 47-41 a.C., comanda a Ga­
lileia. De 37-4 a.C., é rei de toda a Palestina. Matou as
crianças de Belém (Mt 2,1-19; Lc 1,5). Divide seu rei­
no entre três filhos: Arquelau, Herodes Filipe e Hero­
des Antipas.
A rquelau (4 a.C. —6 d.C.), nascido de Maltace, etnarca da Idumeia,
Judeia e Samaria (Mt 2,22).
Herodes Filipe (4 a.C. —34 d.C.), nascido de Cleópatra, tetrarca da
Itureia, Bataneia e Traconítide (Lc 3,1; Mc 8,27).
Herodes Antipas (4 a.C. —39 d.C.), irmão de Arquelau, tetrarca da
Galileia e Pereia. Matou João Batista e participou da
condenação d ejesu s (Lc 3,1.19-20; 9,7-9; 13,31-32;
23,7-12).
Herodes Agripa I (41-44 d.C.), filho de Aristóbulo e neto de Hero­
des Magno, rei de toda a Palestina. Matou o apóstolo
Tiago (At 12,1-23).
Herodes Agripa II (48-92 d.C.), filho de Agripa I, reina sobre algu­
mas regiões no norte da Palestina e controla o templo
entre 48 e 70 (At 25,13-26,32).

De 47 a 41 a.C., Herodes Magno, filho de Antípater, comanda a


Galileia. Foge para Roma depois de o hasmoneu Antígono, vindo com
os partos, fazer uma incursão na Palestina, dominando na região entre
40 e 38 a.C. Em 38 a.C., Herodes Magno volta, vence Antígono e recon­
quista a Palestina para os romanos.
Em 37 a.C., ele é proclamado, por Roma, rei sobre toda a Palesti­
na com o título de “rei sócio e amigo do povo romano”.
Esse título nos mostra que Herodes representava, de fato, os in­
teresses do imperador na região. Era um rei vassalo de Roma. Seus prin­
cipais compromissos em relação aos romanos eram:
• Cobrar os impostos e remetê-los ao centro do império.

122
• Reprimir toda e qualquer resistência popular contra a presença
estrangeira, de modo que a “paz romana”, isto é, a segurança e
a estabilidade do império, fosse uma realidade.
• Exercer a justiça.
Herodes Magno construiu grandes obras como, por exemplo, a
cidade marítima de Cesareia, o palácio em Jerusalém, a fortaleza Antô-
nia junto ao templo, onde havia um destacamento militar romano. Mais
tarde, a fortaleza era também a residência dos procuradores romanos por
ocasião de sua estada em Jerusalém. Construiu também as fortalezas de
Massada no sul, Maqueronte a leste do Mar Morto, o Alexandreion e o
Herodium nas proximidades dejerusalém. E, para ganhar a simpatia dos
judeus, restaurou e ampliou o templo a partir de 19 a.C. Para os judeus,
esta última foi, sem dúvida, a mais importante obra de Herodes.
Ele usou todos os meios para aumentar sua riqueza e garantir seu
poder. Era homem violento e tinha mania de perseguição. Em 30 a.C.,
matou Hircano II, antigo governador da Judeia, e Mariana I, uma de
suas esposas. Em 7 a.C., mandou estrangular dois dos filhos que tivera
com Mariana I (Aristóbulo e Alexandre). Em 4 a.C., mandou executar
seu filho mais velho, Antípater.
Reprimiu os movimentos de rebelião contra Roma. Em 5 a.C.,
colocou, na fachada do templo, a águia, símbolo de Roma. Será mera
coincidência que ainda hoje a águia continue símbolo do império? Des­
sa forma, provocou a reação de dois rabinos, Judas e Matias, bem como
de seus alunos que derrubaram a águia. Herodes manda queimar os dois
mestres e mais quarenta de seus alunos. A repressão da sua polícia era
brutal. Impedia qualquer manifestação popular, qualquer oposição.
Instaurou um regime de muito terror. Ele era cruel. Sua crueldade está
registrada também em Mt 2,16-18.
Tinha o apoio dos ricos proprietários de terra. Junto com os que
trabalhavam em sua administração, eles formavam o grupo conhecido
por herodianos.
Desrespeitava a tradição judaica, nomeando e exonerando os su­
mos sacerdotes dejerusalém . Passou, inclusive, por cima do sinédrio,
desconsiderando a administração judaica da justiça.

123
Quando morreu Herodes Magno em 4 a.C., três dos seus filhos
assumiram o poder, ainda como concessão romana. Cada qual assumiu
na região que o pai lhe havia designado ainda em vida. Abaixo, no capí­
tulo “Divisão política da Palestina”, analisaremos os governos de
Arquelau, Herodes Antipas e Herodes Filipe.
Além do poder de Roma e da família dos Herodes, havia um ter­
ceiro poder na Palestina. Era o poder judaico exercido pelo sinédrio ou
grande conselho, autoridade máxima do Judaísmo naquele tempo.

2.3 O poder do sinédrio


“Então, os sumos sacerdotes e os fariseus
reuniram o sinédrio e disseram: Q ue farem os?
Esse homem realiza muitos sinais... E resolveram matá-lo. ”
(cf.Jo 11,47.53)

O sinédrio ou grande conselho era responsável pela administra­


ção da justiça em Israel. Era o supremo tribunal político, criminal e reli­
gioso. E esse tribunal que decidiu entregar Jesus aos romanos para que
fosse eliminado (Mc 14,55).
No entanto, convém dizer que nem todos os seus membros eram
favoráveis à condenação d ejesu s à morte. Veja o caso dos discípulos
José de Arimateia (Mc 15,42-43; Jo 19,38) e Nicodemos (Jo 3,1; 7,45-51;
19,39). Nicodemos também era fariseu importante e escriba em Israel
ao 3,1.10).
O sinédrio era composto por 71 homens e funcionava numa sala
junto ao templo. O chefe era o sumo sacerdote indicado pelo procura­
dor romano da ocasião. O grande sacerdote era o responsável não só
pelo sinédrio, mas também pelo culto no templo, pela segurança no
santuário, pelas finanças do templo e pelo comércio que aí se fazia.
Mc 14,53-55 nos informa quem eram os demais membros do su­
premo conselho. Não deixe de conferir!
Além dos sumos sacerdotes, faziam parte do supremo tribunal os
sacerdotes chefes das equipes semanais para o serviço no templo. Ainda
faziam parte do grande conselho muitos escribas, representantes do

124
partido dos fariseus, já que, na sua maioria, eram desse grupo. Os dou­
tores da lei conseguiram esse espaço no grande conselho por causa de
seu saber a respeito da lei. Esse saber lhes dava autoridade. Não é por
acaso que existe o provérbio “saber é poder”. E é por isso que compre­
endemos muito bem por que certos governos não estão interessados na
educação de seu povo. Portanto, a função dos escribas no sinédrio era
traduzir e interpretar as leis da Torá e administrar a justiça.
O grupo com maior influência no sinédrio era o dos saduceus.
De um lado, formavam esse grupo organizado os proprietários de vas­
tas extensões de terra e os grandes comerciantes, chamados anciãos.
De outro lado, estava a elite sacerdotal que controlava o templo. Mais
adiante, voltaremos a falar sobre os saduceus.
Por fim, lembramos que, durante o governo autoritário dos He­
rodes na Judeia (Herodes Magno —37-4 a.C.; Arquelau —4 a.C. a 6 d.C.;
e Herodes Agripa I —41-44 d.C.), o funcionamento do sinédrio como
tribunal foi quase nulo. Porém, durante o período dos procuradores ro­
manos (6-41 e 44-66), ele cumpriu o papel de supremo tribunal dos ju­
deus. Era encarregado de decidir todas as questões jurídicas referentes à
comunidade judaica.
Convém lembrar ainda que, além do sinédrio dejerusalém , nas
cidades do interior também havia tribunais locais, controlados inicial­
mente pelos anciãos e, mais tarde, pelos doutores da lei. Sua função era
decidir sobre questões da comunidade local, como, por exemplo, ques­
tões judiciais ou transgressão da lei. Também nas aldeias, podia-se
encontrar conselhos de anciãos para o mesmo fim.

Jesus e o sinédrio
Os quatro evangelhos são testemunhas de que foi o sinédrio quem
decidiu a morte de Jesus (Mc 14,55; 15,1; Mt 26,59; Lc 22,66; Jo 11,47).
Os evangelistas também identificam a presença dos sumos sacer­
dotes, de anciãos, de escribas e de fariseus naquela ocasião (Mt 26,57;
Mc 14,53; Jo 11,45-54).
Embora não haja um registro de alguma crítica direta de Jesus ao
sinédrio, veremos adiante que sua prática e sua mensagem incomodam

125
a todos os membros do grande conselho. Jesus os incomoda porque é
critico ;i lei que eles deíendiam, a seus privilégios, aos sacrifícios e ao co­
mercio c|ue praticavam no pátio do santuário, instalando uma verdadei­
ra idolatria dentro do próprio recinto do templo, servindo mais ao
dinheiro que a Deus (Lc 16,13).

O templo e o sinédrio

O grande conselho funcionava junto à principal instituição do Ju ­


daísmo, isto é, o templo de Jerusalém. É que, além do edifício do templo,
havia salas que serviam de dependência para o sinédrio e o sumo sacerdo­
te, bem como para o tesouro nacional, o depósito de lenha para os sacrifí­
cios, os reservatórios de água para as abluções e os sacrifícios, o depósito
de vinho, de farinha, de óleo, de perfumes e de incenso para o culto.
Em 19 a.C., Herodes Magno iniciou a ampliação e a reforma do
templo que, no tempo dejesus, ainda não estavam concluídas (Jo 2,20).
Somente em 64,6 anos antes de o santuário ser arrasado pelos romanos,
as obras terminaram. Suas imponentes pedras impressionaram os
discípulos d ejesus (Mc 13,1).
O templo era, ao mesmo tempo, um centro econômico, político,
judiciário e religioso.
Ele se tornou o tesouro nacional. Era um verdadeiro banco onde
os mais abastados guardavam suas riquezas, bem como a lista de seus
devedores. Para ele, convergia quase toda a economia do país.
O templo cobrava dízimos, impostos, taxas e ofertas (Mt
17,24-27). Vejamos.
• Dízimo (10%) sobre a colheita que devia ser entregue ao tem­
plo sob a forma de produtos ou o equivalente em dinheiro.
• O dízimo trienal para os necessitados.
• Um imposto para a manutenção do templo, dos sacrifícios,
das reformas, bem como para manter os encarregados pelo
culto.
• Muitos sacrifícios deviam ser oferecidos no altar do templo,
especialmente por ocasião das festas de peregrinação.

126
• Havia ainda as ofertas voluntárias que eram entregues aos
sacerdotes ou depositadas num cofre para coleta. Jesus valori­
za a oferta de uma pobre viúva (Mc 12,41-44).
Juntando os custos dos impostos a Roma com os do templo, pa­
gava-se em tributos em torno de 65% de toda a produção. De fato,
eram muito pesados. Até mesmo Jesus não pagava em dia o imposto
devido ao templo (Mt 17,24-27).
Para ter uma ideia da quantidade de sacrifícios públicos que se
ofereciam no templo, lembramos que eram consumidos, em apenas um
ano, 1.093 cordeiros ou cabritos, 113 touros e 32 bodes. Ofereciam-se
diariamente dois cordeiros de um ano como sacrifício perpétuo a
YHWH. Um pela manhã e outro pela tarde. Os romanos obrigaram a
oferecer, a cada dia, mais um em sacrifício a Deus pelas intenções do
imperador. Além disso, havia oferta diária de inúmeros sacrifícios
particulares.
Do ponto de vista político e jurídico, o templo era central, por­
que ali funcionava o supremo tribunal, centro do poder judaico.
Em nível ideológico, seu poder de influência sobre o povo era
grande. Por um lado, porque ali se ofereciam os sacrifícios, através dos
quais os sacerdotes realizavam a mediação entre Deus e o povo.
Além dos inúmeros sacerdotes, trabalhavam também no templo
os levitas. Eram os músicos e os porteiros. Os músicos eram os respon­
sáveis pela animação da liturgia com cânticos e instrumentos musicais.
Os porteiros eram os encarregados de guardar o templo e manter a or­
dem. Eram os policiais que controlavam os acessos a todos os recintos
do santuário. Podemos também encontrar os guardas do templo na pri­
são de Jesus junto com um grupo de soldados romanos (Jo 18,3; Lc
22,52).
Por outro lado, o poder de influência do templo sobre o povo era
grande por causa da sua força de controle sobre a vida das pessoas. E
que os sacerdotes determinavam os graus de pureza ou impureza, de
maior ou menor proximidade de Deus. Assim, justificavam toda a estra-
tifícação social a partir da religião do templo. Convidamos você a reler
as páginas 100-103 do volume 5, que tratam do significado do templo.

127
Je ru salé m e o tem plo

Sc o templo era o núcleo central do Judaísmo, convém lembrar


que, por extensão, a cidade de Jerusalém era o centro político e espiritual
d<) povo judeu. No tempo dejesus, tinha em tomo de 50 mil habitantes.
Mais de um terço deles dependia diretamente das atividades normais do
(cniplo e das obras de ampliação.
Nas grandes festas de peregrinação, a população de Jerusalém
chegava a triplicar. Era nessas ocasiões que o procurador romano na Ju ­
deia e na Samaria deixava sua residência em Cesareia marítima, para co­
mandar diretamente o controle de qualquer tumulto ou revolta em
Jerusalém. Os romanos sabiam que a expectativa popular da vinda de
um Messias era muito grande, especialmente por ocasião das festas. Daí
por que era importante reforçar as legiões de soldados na capital.
Sendo o centro político e religioso em Israel, Jerusalém se tomou
um importante símbolo teológico. É a cidade santa (Mt 4,5; 27,53). Di­
ziam que fora escolhida por Deus (lR s 11,13), para ali estabelecer sua
morada perpétua (lR s 8,11.13.29). Não é por acaso que o profeta Eze-
quiel lhe chama de “centro das nações” e “umbigo do mundo” (Ez 5,5;
38,12). Segundo Lc 19,41-44, Jesus compartilhava, com seus patriotas,
esse sentimento em relação a Jerusalém. Chorou sobre ela, porque havia
se afastado da mensagem de paz (Jerusalém significa “cidade da paz”) e
porque não reconheceu que foi visitada por Deus.
Deve ser por causa dessa importância teológica que as comunida­
des de Lucas colocaram Jerusalém como ponto de partida do anúncio
do Evangelho pelo primeiro grupo cristão (Lc 24,47; At 1,8).
Mas como esta cidade se tomara rebelde e opressora, desvian­
do-se dos valores do Reino e não reconhecendo a voz profética, Jesus é
duro em suas críticas contra ela. E como os antigos profetas, anuncia
sua destruição (Mq 3,12; Lc 19,41-44; 13,34-35).

As festas de peregrinação
Conforme Ex 23,14-19, no antigo Israel, havia três grandes festas
de peregrinação ao templo de Jerusalém. Veja ainda Lv 23; Dt 16; 26!
São as festas da Páscoa, de Pentecostes e das Tendas. No pós-exílio, fo­
128
ram introduzidas as festas da Expiação (Lv 16), das Luzes ou Dedicação
do templo (2Mc 10,1-8) e dos Purim ou Sortes (Est 9,20-32 —sobre esta
festa, você já leu na primeira parte deste volume). Exceto a festa da
Expiação, todas eram festas muito alegres.
E verdade que também eram festas religiosas. Há, inclusive, uma
parte do saltério que se dedica exclusivamente a salmos de peregrina­
ção. Serviam como cânticos litúrgicos para as caminhadas de subida ao
templo (SI 120-134). Além disso, havia no templo a assembleia litúrgica.
Porém, é interessante notar que o texto insiste em que ninguém
compareça de mãos vazias diante do altar (Ex 23,15.19). Isso nos revela
também o objetivo econômico dessas festas. Por isso, as antigas festas
eram agrárias, pois estavam vinculadas às principais colheitas dos frutos
da terra.
1. Festa da Páscoa ou dos Adimos. Era celebrada na primeira lua cheia
do outono (hemisfério sul), entre março e abril. Era o início da colheita
da cevada (Rt 1,22). O fato histórico celebrado era a libertação do Egito.
Sobre a origem da festa da Páscoa, você já leu nas páginas 38, 44-45 e
56-57 do volume 2.
Jesus participou pelo menos algumas vezes com sua família desta
festa (Lc 2,41-50; 22,7-18; jo 2,13-25; ll,5 5ss).
As comunidades cristãs deram um novo significado aos símbolos
da Páscoa. No lugar do antigo cordeiro oferecido em sacrifício, agora é
Jesus o novo cordeiro de Deus 0o 1,29.36). O vinho passou a ser o san­
gue, isto é, a própria vida de Jesus doada em favor de muitos (Mc
14,23-24). E o pão repartido é Jesus, o pão vivo descido do céu, que se
torna presente (Mc 14,22; Jo 6,41). De uma vez por todas, Jesus nos de­
ixa claro, na última ceia, que seu projeto é a partilha. Lá onde este gesto
sublime acontece, é ele mesmo quem nele se revela.
Além de valorizar a Páscoa como evento libertador dos hebreus,
passando da opressão para a liberdade, os cristãos acrescentam mais um
significado a essa festa. Ela também é a vitória da vida sobre a morte. E
a memória da ressurreição dejesus. Além disso, celebra a nossa espe­
rança de que, na morte, a vida continue de outra forma.
2. Festa de Pentecostes, das Primíáas, da Colheita ou das Semanas. Era rea­
lizada 50 dias depois da Páscoa, entre maio e junho, no final da colheita
129
do trigo. Além do agradecimento a Deus pela colheita, a festa passou a
ser vinculada, no pós-exílio, à doação da lei no Sinai, à aliança de Deus
com seu povo.
Nos evangelhos, não há nenhuma referência direta a essa festa.
No entanto, muitos pesquisadores suspeitam de que a festa
anunciada em jo 5,1-18 seja a festa de Pentecostes. As razões para essa sus­
peita são convincentes, uma vez que o texto quer apresentar Jesus como
aquele que promove a vida dos pobres. Segundo a compreensão da épo­
ca, o cumprimento da lei era o caminho para a vida (SI 119,37.40). Além
do mais, a referência aos cinco pórticos remete aos cinco livros da lei, o
Pentateuco (Jo 5,2). A piscina e os cinco pórticos, como símbolos da lei,
já não promovem mais a vida dos pobres e doentes. Porém, Jesus vem
substituir o papel que antes a lei cumpria, fazendo novamente com que o
“povo paralítico” andasse com suas próprias pernas, sendo sujeito de sua
caminhada. Em Jesus, renova-se a aliança que gera vida plena.
Diferentemente das comunidades joaninas, que fazem coincidir a
doação do Espírito Santo com o dia da ressurreição (Jo 20,22), as comu­
nidades de Lucas fazem coincidir a vinda do Espírito com a festa de
Pentecostes (At 2,1-13). Uma vez Jesus ausente fisicamente, é seu Espí­
rito que, na verdade, continua sendo sua presença vivificadora como
luz, caminho, verdade e vida, atualizando permanentemente a aliança
de Deus com a humanidade toda. No lugar da lei, realiza-se a doação do
Espírito Santo, selando a nova aliança. Até os mesmos sinais da mani­
festação de Deus no Sinai estão presentes no Pentecostes cristão: o
fogo (Ex 3,2-3; 19,10; At 2,3) e o barulho (Ex 19,16.19; At 2,2). Será
mera coincidência?
3. Festa das Tendas, das Cabanas ou dos Tabemáculos. Era celebra
em setembro, no final da colheita da azeitona e da uva. Acampava-se em
tendas durante uma semana, para reviver o período da caminhada pelo
deserto e celebrar a presença de Deus nesse processo libertador. Agra­
decia-se pelo dom da colheita das frutas e se pedia, ao mesmo tempo,
que as chuvas não faltassem para a semeadura de cereais que estava pró­
xima. Por isso, se oferecia água no altar do templo. Era também a festa
das luzes, em que se esperava que, a qualquer momento, pudessem se
manifestar o Messias e o Reino de Deus.
130
Segundo a comunidade de João, Jesus esteve pelo menos em uma
das festas das Tendas em Jerusalém (Jo 7,1-10,21; cf. 7,1-14).
É impressionante como a comunidade joanina aplica ajesus tudo
o que se celebrava e esperava na festa que lembrava a caminhada liberta­
dora pelo deserto. Veja alguns exemplos. A água oferecida no altar é
substituída por Jesus que é a “água viva” (Jo 7,37-38), tal como a água
que brotara da rocha durante a caminhada pelo deserto (Ex 17,1-7). Je ­
sus é apresentado como o verdadeiro “messias” e “profeta” (Jo 7,40-41).
Além disso, ele é a verdadeira “luz do mundo”, a “luz da vida” (Jo 8,12;
9,5), assim como YHWH fora a luz na caminhada libertadora pelo de­
serto em direção à terra prometida (Ex 13,21). Foi no processo liberta­
dor do Êxodo que YHWH se revelou como “Eu sou” (Ex 3,14). E é
durante essa festa que, várias vezes, Jesus se autodenomina de “Eu sou”
(Jo 8,24.28.58) e faz referência à liberdade dos filhos e das filhas de
Deus (Jo 8,31-36).
Além dessas três festas de peregrinação, conforme a comunidade
de João, podemos encontrar Jesus na festa da Dedicação do templo (Jo
10,22ss). Como você já leu acim a, era a festa para lem brar a data
(164 a.C.) em que Judas Macabeu consagrara novamente a YHWH o
templo, depois de Antíoco IV Epífanes o haver profanado (lM c
4,36-59; 2Mc 1,9-18). ParaJoão, Jesus substitui o templo e é consagrado
pelo Pai no lugar dele (Jo 10,36).
Qual o espaço que existe hoje nas nossas comunidades para a fes­
ta? Qual seu sentido para a vida da comunidade? Como são as festas de
peregrinação a santuários? Que religião promovem? Seus objetivos são
os mesmos das festas promovidas pelo templo de Jerusalém? Ou conse­
guimos dar um novo significado a elas, tal como fizeram as comunida­
des cristãs no primeiro século?

Jesus e o templo
Como todo judeu piedoso, Jesus também tinha um sentimento
de apreço pelo templo. Terá se dirigido para lá pelo menos algumas ve­
zes, por ocasião das festas de peregrinação (Lc 2,41). Lc 2,41-50 relata
uma das subidas d ejesus com sua família a Jerusalém, quando tinha 12

131
.imok, Mateus, Marcos e Lucas ainda narram a subida ao templo em sua
i In t ;idri! ;i Páscoa (Mt 20,17-18; Mc 10,32-33; Lc 9,51-53). Em João, há
tcferèndas a quatro subidas de Jesus ao templo (Jo 2,13-22; 5,1; 10,22;
12,1.12 13).
No entanto, Jesus não deu ao templo a importância que o Judaís­
mo oficial lhe dava. Preferiu a casa em vez do templo. No lugar do altar,
escolheu a mesa. E em vez do sacerdócio, optou pela família, pela
comunidade.
Diante de tudo o que significava o templo na vida do povo, como
vimos acima, Jesus toma uma posição. Não fica neutro. E foi sua postu­
ra profética diante desse centro religioso, político e econômico a princi­
pal razão por que o sinédrio decidiu sua morte.
Jesus percebeu que o templo havia sido transformado em idola­
tria. A maioria das elites já não praticava o culto verdadeiro ao Deus da
vida. Mas o que ditava todo o funcionamento do templo eram seus inte­
resses econômicos. O culto do templo girava em torno do comércio. Já
não estava mais, em primeiro lugar, para o culto a Deus, mas para o ído­
lo dinheiro. E por isso que Jesus diz: “Ninguém pode servir a dois se­
nhores. Com efeito, ou odiará um e amará o outro, ou se apegará a um e
desprezará o outro. Não podeis servir a Deus e ao dinheiro” (Lc 16,13;
Mt 6,24). O dinheiro e Deus são incompatíveis. Um gera egoísmo, acú­
mulo e morte. O outro é a fonte do amor, da partilha e da vida. Jesus de­
nuncia a pior das formas de idolatria, que é colocar o Deus da vida a
serviço da opressão econômica e política. Jesus tinha claro que “a raiz
de todos os males é o amor ao dinheiro” (lT m 6,10).
Por isso, denuncia o templo
"A minha casa será
como instituição que não produz
chamada casa de oração
frutos de vida para seu povo, tal como
para todos os povos.
a figueira estéril (Mc 11,12-14).
Vós, porém , fizestes dela
Desmascara esse sistema idolá-
um covil de ladrões!"
trico, propondo eliminar a idolatria do
(Mc 11,17) . templo. Só então seria possível o ver­
dadeiro culto a Deus no santuário. Você pode conferir a investida de Je ­
sus contra o comércio no templo em Mc 11,15-19; Mt 21,12-17; Lc
19,45-48 e jo 2,13-22.
132
Segundo Mateus, Marcos e Lucas, esse gesto profético d ejesus
teria acontecido na sua última subida a Jerusalém. No entanto, ao colo­
car esse incidente do templo no início da vida pública de Jesus, João
pode estar mais próximo dos fatos históricos. O incidente pode ter sido
em torno de um ano antes de sua prisão. Foi essa atitude que pode tê-lo
tornado mais conhecido e provocado preocupações nas autoridades.
Teria sido um ato planejado pelo movimento dejesus, algo orga­
nizado. Pois seria impossível tomar tal atitude num templo com tama­
nha segurança. O fato de ninguém prender Jesus naquele momento é
sinal de que havia mais gente envolvida. No dia anterior ao acontecido,
segundo Marcos, Jesus esteve no templo avaliando as condições para o
ataque no dia seguinte (Mc 11,11-19).
Pode ter sido depois do episódio do templo, que Jesus teria vivi­
do na clandestinidade, pois era perigoso andar em público. As autorida­
des estavam decididas a eliminá-lo fisicamente. Naquela ocasião,
chegou, inclusive, a sair da Galileia, indo para a Decápole, a região de
Tiro e Sidônia e para Cesareia de Filipe (Mc 7,24.31; 8,22.27). Nas pro­
ximidades desta última cidade, avaliou a sua prática missionária junto a
seu movimento (Mc 8,27-31). Chegou a mudar de estratégia, preparan­
do seu grupo para o caminho da cruz (Mc 8,31). E o grupo teve dificul­
dades para entender o novo momento. E o que dá para perceber na fala
de Pedro (Mc 8,32-33). A respeito do Jesus fugitivo, confira algumas
das citações que seguem: Jo 7,1; 8,59; 10,39; 11,54; 12,36; Mc 9,30! E
quando ia ao templo, tomava precauções. Dormia, por exemplo, fora
de Jerusalém (Mc 11,11; 14,3).
Jesus não esperou por um templo totalmente purificado da idola­
tria para somente então nele vivenciar a verdadeira religião. Não perde
tempo e começa logo a agir. Relativiza o santuário com tudo o que nele
se fazia. Veja, por exemplo, a postura dejesus em relação aos sacrifícios.
Em Mc 12,28-34 (Mt 22,34-40; Lc 10,25-28), você pode ver como Jesus
reconhece a inteligência do escriba ao colocar o mandamento do amor
acima dos sacrifícios (w . 32-33). Nisso segue a linha dos grandes profe­
tas (ISm 15,22; Os 6,6; Am 5,21-24). Em Mt 9,13 e 12,7, o texto de
Oseias está na boca dejesus.

133
Aqui, é preciso ter presente que, na perspectiva da teologia da re­
tribuição, muitos sacrifícios oferecidos no altar do templo eram para
conseguir o perdão de Deus. Através desses ritos, os sacerdotes se apre­
sentavam como intermediários entre o fiel e a divindade, dificultando
uma relação direta. Além do mais, somente se conseguia o perdão, gas­
tando dinheiro na compra de um animal ou na viagem de quem vinha de
fora de Jerusalém. Como no tempo do profeta Oseias (Os 4,8), mais
uma vez, os sacerdotes do templo transformaram a reconciliação com
Deus em fonte de exploração econômica.
Diferentemente dos sacerdotes, Jesus não concorda com a dou­
trina da retribuição (Jo 9,1-3; Lc 13,1-5). Oferece o perdão gratuitamen­
te aos pobres e marginalizados, sem a intervenção dos sacerdotes, os
intermediários oficiais e longe do templo de Jerusalém, na periferia (Mc
2,1-12.15-17; Lc 7,47-50). Perdoando as pessoas, mostrava um Deus
que acolhia sem preconceitos. Tirava das consciências o peso da supos­
ta culpa imposto pelo sistema do templo. Oferecer o perdão foi uma
forma importante de libertar as pessoas da opressão da religião. Outra
forma de libertação foram as curas, como veremos adiante.
Jesus insiste também na necessidade do perdão fraterno, inclusi­
ve como condição para receber o perdão de Deus (Mc 11,25; Lc
6,27-38; 11,4; 15,4-10; 17,4). Inaugura uma nova relação entre as criatu­
ras com seu criador, permitindo o acesso direto. Nesse sentido, esvazia
a razão de ser dos sacrifícios e do próprio templo.
Como Jó se rebelara contra a teologia oficial do templo defendi­
da por Esdras e Neemias, da mesma forma Jesus procura resgatar a reli­
gião da gratuidade, que revela a compaixão de Deus, que coloca a vida
acima de qualquer outra instituição ou lei. Essa de­
"E o véu do
núncia vai até as raízes do sistema. Não fica na
santuário se
superfície.
rasjgou em duas
Jesus também não leva tão a sério o paga­
partes, de cima
mento dos impostos para o templo (Mt 17,24-27).
a baixo . "
Além disso, considera mais importante cuidar das
(Mc 15,38)
pessoas idosas do que dar ao templo ofertas que
desobrigariam o ofertante de cuidar de seus pais (Mc 7,9-13; M t 15,3-6).

134
Por fim, não podemos esquecer o anúncio profético da des
truição do templo, alinhando-se novamente aos antigos profetas (Mc
13,2; 14,58; 15,29).
D essa forma, Jesus liberta Deus aprisionado no templo pela re­
ligião oficial, “rompendo de alto a baixo” o véu que impedia o acesso
direto a ele (Mc 15,38; Mt 27,51). Desmascara a instituição mais impor­
tante em Israel, o templo. Desmascara todo o sistema que estava estru­
turado em seu redor, o sinédrio e o exercício da justiça, a religião com
seus sacerdotes e ritos, o comércio. A proposta de Jesus é eliminar o
ídolo dinheiro, para transformar a religião em gratuidade. Nessa pers­
pectiva, o templo passa a ser uma casa de oração para todos os povos e
deixa de ser um centro de exploração econômica e ideológica. Estabele­
ce-se um novo relacionamento com o sagrado. Todas as criaturas são fi­
lhas e filhos de Deus. Como filhos e filhas, podem entrar em relação
direta com seu criador e chamar-lhe de “papai querido” (Abba —Mc
14,36), tal como Jesus fazia.
Para as comunidades de Mateus e de João, Jesus mesmo passa a
ser o novo templo de Deus em seu meio (Mt 26,61; Jo 2,19-22). E mais.
A comunidade reunida se torna templo de Deus (Mt 18,20). E Jesus está
presente nas pessoas mais necessitadas (Mt 25,31-46).
Que papel cumprem nossas igrejas nos dias de hoje? Até que
ponto se dobram diante da tentação da idolatria? Em que perspectiva
promovem o verdadeiro culto à Fonte da Vida? Como nós vivemos a
nova relação com o Deus conosco, presente na vida, nas pessoas, espe­
cialmente nas que mais precisam de alguém que lhes seja próximo (Lc
10,36-37)?

Para você continuar a reflexão


Leia Mt 9,10-13: a) Diante da prática do templo de intermediar o
perdão de Deus através dos sacrifícios e sacerdotes, o que significa a ati­
tude de Jesus de se misturar com as pessoas pecadoras em suas casas? b)
Qual o significado para você do dito de Jesus: “Misericórdia é que eu
quero, e não sacrifícios”?

135
A lei e o templo

Sobre o significado e a importância da lei, você já leu nas páginas


123-134 do volume 5. Se achar necessário, propomos que releia aquelas
páginas.
Para o povo judeu, a lei era expressão da vontade de Deus. Para
agradar a Deus, portanto, seria necessário cumprir a lei. Daí por que ha­
via entre os judeus mais piedosos, como fariseus e escribas, uma preo­
cupação muito grande em cumprir toda a lei. Diziam que a lei era a luz
(SI 10,9; 119,105), a verdade (SI 119,30.138) e o caminho para a vida (SI
119,37.40; Pr 6,23).
Alguns escribas chegaram a fazer um levantamento de todas as
leis contidas no Pentateuco. Contaram 613. Dessas, 365 eram proibi­
ções, indicando o que não se devia fazer, e 248 eram ordens positivas,
indicando o que se devia fazer.
O templo, através do sinédrio, era o principal responsável pelo
cumprimento da lei. Portanto, questioná-la era, inevitavelmente, ques­
tionar também todo o sistema do templo. Mais tarde, quando Estêvão é
condenado à morte por apedrejamento, as acusações que lhe são feitas
confirmam nossa afirmação. Autoridades acusam Estêvão de blasfemar
contra Moisés e contra Deus. “Moisés” representa toda a Torá, o Penta­
teuco. Para elas, “Deus” mora no templo. Portanto, acusam Estêvão de
blasfemar contra a lei e contra o templo (cf. At 6,11.13).
Havia vários tipos de leis.
• As leis casuísticas eram referentes a casos bem concretos, espe­
cialmente para resolver problemas de convivência. Concen­
tram-se em Ex 20,22-23,19.
• As leis cúlticas ou rituais indicavam como deveria ser o compor­
tamento durante o culto e os sacrifícios. Encontram-se sobre­
tudo em Lv 17-26.
• As leis categóricas eram aquelas que deveriam ser observadas em
qualquer ocasião. São especialmente os mandamentos (Ex
20,2-17; Dt 5,6-21; 27,15-26).
• As leis orais ou a tradição dos anciãos (Mc 7,5) eram uma inter­
pretação das leis escritas feita especialmente por escribas.

136
Jesus e a lei

Ao falarmos da crítica de Jesus à lei, lembramos novamente que o


questionamento da lei vai muito além da própria lei. Criticá-la era, ao
mesmo tempo, questionar toda a estrutura religiosa e política da socieda­
de judaica. Por isso, Jesus foi tão perigoso para os grupos dominantes de
seu tempo. A crítica à lei foi uma das razões para que decidissem sua mor­
te. Nessa mesma perspectiva, ainda hoje, as elites vêm imediatamente em
defesa do “estado de direito”, quando veem ameaçada sua riqueza acu­
mulada, seja em forma de terras ou outras formas de patrimônio.
A maioria dos pobres não tinha con­ "A crítica de Jesus
dições de observar minuciosamente a lei. à lei revela sua
Por isso, eram discriminados pelos que se opção pelos
achavam os justos, isto é, os cumpridores da marginalizados."
lei (Jo 7,49). Jesus de Nazaré assumiu justa­ (Verner Hoefelm ann)
mente o lado dos mais fracos. Por isso, não
podia deixar de questionar esse sistema de leis, pois era uma das maiores
razões da exclusão. Sua crítica tem como objetivo permitir que quem
não tinha acesso ao sistema de pureza legal pudesse ter acesso direto ao
Deus que Jesus revelava.
Anos mais tarde, Paulo aplicaria a mesma lógica em relação aos
povos estrangeiros. Estes não conheciam a lei judaica. Consequente­
mente, não podiam cumpri-la. Paulo propõe a eles a salvação pela fé,
isto é, pela adesão a Jesus e seu projeto de vida, sem obrigá-los à obser­
vância da lei judaica (Rm 1,16-17). Se a salvação pela fé mostra a opção
de Paulo por abrir o Evangelho aos povos estrangeiros, a crítica de
Jesus à lei revela sua opção pelos mais pobres.
Diante da lei oral, Jesus se posiciona radicalmente contra. Veja al­
guns exemplos em Mc 2,23-28; 3,1-6; 7,1-13; Lc 13,10-17!
Nos textos que você leu, pôde perceber que Jesus desacredita leis
que impediam as pessoas de satisfazerem suas necessidades básicas
como alimentar-se dignamente e ter o direito à saúde. Leis assim não
podem ser expressão da vontade de Deus.
Quanto à lei escrita, Jesus revela sua compaixão em relação aos pe­
cadores e impuros. Na opinião dos justos fariseus e escribas, quem não

137
cumpriu ;i lei era considerado pecador. Entre os pecadores com quem
Jesus mais conviveu estavam:
• especialmente o povo pobre e doente (Mt 11,2-6; Lc 4,18-19;
6,20-22), que era considerado impuro (Mc 2,17; Lc 19,10);
• conforme a opinião dos “justos”, as pessoas que exerciam pro­
fissões indignas, pecaminosas (Publicanos: Mc 2,15-17; Lc
18,9-14; 19,1-10; Pastores: Lc 2,8-20; Pescadores: Mc 1,16-20;
Prostitutas: Lc 7,36-50; Mt 21,31-32);
• e pessoas estrangeiras (Mt 8,5-13; Mc 7,24-30;Jo 4,1-42).
E quanto a quem era considerado impuro, os fiéis cumpridores
da lei diziam que a impureza deles impedia o relacionamento com Deus.
Baseavam-se, de modo especial, nas leis de pureza do Levítico. Por isso,
os excluíam da comunidade, do culto. Consideravam de impureza ocasio­
nal, por exemplo, aquelas pessoas que tocavam em cadáveres, em estran­
geiros, em certos animais, em leprosos ou em mulheres menstruadas.
Mas havia ainda a impureza permanente, como de pessoas es­
trangeiras, dos leprosas, dos pobres, das prostitutas e das pessoas com
hemorragias prolongadas, já vimos como Jesus convivia com gente es­
trangeira e prostitutas. Veja, agora, textos sobre a postura de Jesus em
relação a leprosos (Mc 1,40-45), à mulher com hemorragia (Mc 5,25-34)
e a pessoas mortas (Mc 5,35-43; Lc 7,11-17), superando aideia tradicio­
nal de que o simples contato transmitiria a impureza. E mais. Para ele,
essas pessoas nem impuras eram, pois “o que torna o homem impuro é
o que sai da sua boca” (Mt 15,11).
Já não é mais a rigorosa observância da lei que é a luz, a verdade e
o caminho para a vida. Na linguagem da comunidade de João, Jesus
substitui a lei. Ele é a luz, o caminho, a verdade e a vida (Jo 8,12; 9,5;
14,6). O sistema do templo havia colocado a lei como critério central da
religião. Jesus percebeu o equívoco. Por isso, não disse buscai primeiro
o Reino de Deus e sua lei. Em vez disso, colocou como critério funda­
mental do Reino a sua justiça, isto é, a vontade de Deus (Mt 6,33). No
nosso encontro definitivo com o Pai, ele não nos perguntará se cumpri­
mos a lei em todos os seus pormenores. Porém, nos perguntará sobre o
que fizemos da nossa vida. Se fomos justos, se ajudamos a resolver o

138
problema de quem não tem o que comer, com que se vestir, onde mo­
rar, etc. (Mt 25,31-46). Como você pode ver, o julgamento de cada qual
não é jurídico, baseado em leis, mas ético, baseado na prática do amor e
da justiça.
Entre nós, qual é a compreensão que a maioria das pessoas têm a
respeito do julgamento? E na perspectiva legalista ou ética?
Para concluir este item, lembramos que Jesus não anulou todas as
leis do Primeiro Testamento. Valorizou sobremodo os mandamentos
(Mt 5,21.27; 15,1-9; 19,18-19). Porém, foi mais longe, radicalizando o
decálogo, como você pode ler em Mt 5,21-22.27-28. Jesus resumiu toda
lei no mandamento do amor (Mt 22,34-39; Jo 13,34).

Para você continuar a reflexão


Leia novamente Mt 5,20-48 e responda: Qual a diferença entre as
antigas leis lembradas por Jesus e a nova interpretação que delas faz?

Jesus desmascara a opressão da religião


Convém insistir, um pouco mais, na importância da crítica à reli­
gião, como ponto central nas denúncias de Jesus.
A novidade que Jesus representa nesse momento não é a crítica
à dominação romana. E sua denúncia profética da opressão exercida
pelas instituições religiosas de Israel sobre seu próprio povo. Desmas­
cara a religião oficial, que difundia sua teologia através do templo e das
sinagogas. Na verdade, o novo que Jesus representou em seu tempo
foi resgatar algo muito antigo. Foi perceber o que os antigos profetas,
especialmente Oseias, já haviam detectado. Mas nesse momento, já fa­
zia séculos que não havia mais profetas como Amós ou Oseias em
Israel.
Desde a época de Esdras e Neemias (445-398 a.C.), foi o templo
de Jerusalém , controlado pela casta sacerdotal, quem detinha o con­
trole sobre a vida religiosa da comunidade judaica. Como vimos nos
volumes anteriores, até houve resistência contra a hegemonia do tem­
plo. Lembra do protesto, nos livros de Cantares e de Rute, contra as

139
Icts de puitv.i que, cutu- uutros grupos, excluíam as mulheres? Recor­
da :i fesisièm i-,i t uun.i a lei da pureza étnica nos livros d ejo n as e Rute?
Ainda tem lembrança da luta em defesa dos direitos dos pobres em
Rute? Recorda o protesto de Jó contra a imposição da teologia da
retribuição?
Aos poucos, porém, a religião oficial conseguiu impor sua pro­
posta. Como que anestesiou no povo a capacidade de perceber que o
templo, mais do que promover a vida, justificava a discriminação, en­
volto em ares de santidade, de pureza, do sagrado. Em seu tempo, Jesus
foi um dos poucos que conseguiu perceber que a principal instituição de
sua religião se tornara um verdadeiro fetiche, isto é, um ídolo a quem se
atribuía um poder sobrenatural, mesmo que estivesse a serviço da
opressão do povo.
Que os romanos e os herodianos oprimiam, isso todo mundo via
e sabia. Mas nem todos percebiam tão claramente que uma outra opres­
são acontecia e estava em todo lugar. Era a opressão das elites locais
através da religião. Não era somente uma exploração econômica. Era
pior do que isso. Era fazer da religião uma ideologia e uma prática que
justificavam a opressão em nome de Deus. Deus mesmo era colocado a
serviço da exclusão, da discriminação e do lucro. Foi usado como ídolo.
O povo tinha apreço pelo templo. A maioria, porém, não con
guia ver em Jerusalém e no templo um lugar de opressão e de explora­
ção. Muito menos um lugar de legitimação religiosa e ideológica. Tudo
isso era fruto da doutrinação do templo e das famílias sacerdotais que
exerciam forte influência sobre a consciência popular. Faziam isso es­
pecialmente através de sua atividade religiosa no templo e por meio de
seu poder no tribunal de justiça judaico, o sinédrio.
Antes de tudo, Jesus percebeu que os principais inimigos do Rei­
no eram o templo e boa parte das sinagogas. Os responsáveis eram, res­
pectivamente, a aristocracia sacerdotal e parte da corrente dos fariseus
com seus escribas. Percebeu que a mais perigosa opressão não vinha
dos romanos, mas de autoridades religiosas judaicas. E o templo era o
símbolo máximo da religião do povo.
A partir dessa percepção, Jesus foi diretamente às causas que im ­
pediam a manifestação do Reino. Sua estratégia foi criar consciência nas
140
pessoas, desmistificando a religião e seus responsáveis. Deslegitimou
aqueles que haviam se colocado acima da vontade de Deus. Ajudou as
pessoas a compreenderem como o
"Eu te louvo, ó Pai,
templo estava sendo usado para mani­
porque ocultaste estas
pular a consciência do povo. E o povo
coisas aos sábios e
foi compreendendo que o projeto do
doutores e as revelaste
Pai estava se revelando na prática de Je ­
aos pequeninos.
sus de Nazaré, enquanto a maioria das
Sim, Pai, porque
autoridades iam se fechando cada vez
assim foi do teu agrado."
mais na dureza de seus corações (Mt
(Mt 1 1,25-26)
13,15).
No entanto, Jesus não fica apenas na denúncia. Parte para a ação.
Organiza uma pequena comunidade baseada em novas relações. Não
mais de discriminação e exclusão, mas de irmandade e serviço, inaugu­
rando desde já relações próprias do Reino de Deus. Dessa forma, quem
se comprometia com a comunidade de Jesus estava rompendo com a
sociedade baseada na riqueza. Tinha claro que não podia mudar a estru­
tura imperial. Mas sabia que podia mudar as relações a partir de si, em
seu entorno. E foi isso que fez.
Ao concluir esse item, lembramos que Jesus também é crítico ao im­
pério que oprime em nome de Deus, como vimos acima (Mc 12,13-17).

3 Divisão política da Palestina

Até aqui, damos uma olhada nos três grandes poderes presentes
na Palestina, isto é, o poder imperial, o poder dos Herodes e o poder do
sinédrio. Vimos também a relação dejesus com esses poderes e qual sua
proposta de poder, seja ele político ou religioso. Neste capítulo, olhare­
mos mais de perto a divisão política da Palestina nesse tempo.
Desde 63 a .C. e ainda no tempo d ejesu s, a Palestina estava su­
bordinada à província romana da Síria. Antes de seguir adiante, leia
atentamente Lc 3,1-2!

141
142
3.1 Idumeia, Judeia e Samaria

Depois da morte de Herodes Magno (4 a.C.), seu filho Arquelau,


nascido de Maltace, reinou sobre a Idumeia, a Judeia e a Samaria até o ano
6. Foi nomeado etnarca, isto é, governador de apenas uma parte da região.
Foram 10 anos de muita tirania. Na Páscoa de 4 a.C., Arquelau
reprime uma revolta em Jerusalém. Mandou massacrar 3 mil manifes­
tantes na praça do templo. Em conseqüência, várias revoltas pipocaram
pela Palestina. Seus líderes apresentavam-se como Messias. Na Galileia,
foijudas, um dos filhos de E 2equias, que Herodes Magno mandara exe­
cutar. Na Pereia, foi Simão, um escravo de Herodes. Na Judeia, foi
Atronges, um pastor. O povo os seguia em massa, uma vez que prega­
vam a recusa ao pagamento de tributos e a desobediência aos romanos.
Arquelau era um tirano como seu pai. Sua crueldade está registra­
da em Mt 2,22. Porém, não foi tão hábil como seu pai. Denunciado ao
imperador pelos próprios judeus, foi deposto e exilado.
Em seus 12 primeiros anos de vida, Jesus presenciou toda essa re­
pressão e experimentou na pele o sofrimento da opressão romana e da
família dos Herodes.
A partir de 6 até o ano 41, essas três regiões formavam uma pro­
curadoria, diretamente governada por interventores romanos. Era dife­
rente nas regiões periféricas, que continuavam sendo administradas
pela família dos Herodes. Em 41, Herodes Agripa I, neto de Herodes
Magno, foi nomeado rei de toda a Palestina. Foi o último rei da família
dos Herodes. A partir de sua morte em 44, a Palestina passa a ser gover­
nada novamente por procuradores romanos. Na Judeia e na Samaria,
houve procuradores até 66. A partir daí, toda a Palestina passou a ser
uma província diretamente ligada a Roma, sem mais depender da Síria.
No quadro nas páginas 105-107, você pode conferir quais foram
os procuradores romanos na Samaria e na Judeia entre 6 e 41.
No período da atividade evangeüzadora dejesus de Nazaré, Pôn-
cio Pilatos (26-36) era o procurador romano desde a Samaria até a Idu-
meia (Lc 3,1; 23,1-26). Era um homem duro e brutal. Hostilizava os
judeus. Quando protestavam contra sua tirania, os reprimia. Lc 13,1 faz
referência a um dos massacres de galileus que promoveu no templo. Con­

143
denou também Jesus de Nazaré à morte (Mt 15,1-15). Em 35, mandou
prender diversos samaritanos reunidos no monte Garizim, ordenando a
morte de alguns deles. Por isso, foi afastado pelas autoridades imperiais.
Nessa mesma época, os sumos sacerdotes do templo de Jerusa­
lém indicados pelos interventores romanos foram: Anás (6-15), que foi
deposto pelo procurador Valério Grato (15-26). Depois da passagem
rápida de três sumos sacerdotes pelo poder, Valério indica Caifás
(18-36), genro de Anás. Este exerceu muita influência sobre aquele, pois
tinha muito prestígio diante dos judeus (Lc 3,2). Os dois estão presentes
no processo que condenou Jesus à morte 0o 18,12-14.19-24).

3.2 Galileia e Pereia

A Galileia e a Pereia eram governadas por Herodes Antipas (4 a.C.


—39 d.C.), filho de Herodes Magno e de Maltace. Não recebeu o título
de rei, mas de tetrarca, isto é, governador de uma quarta parte da região.
Quando reivindicou o título de rei junto ao imperador Calígula, foi de­
portado junto com Herodíades.
Como Herodes Magno, Antipas também se apoia na elite rural,
os herodianos. Manteve-se no poder por mais de 40 anos, seguindo a
política de seu pai. Foi ele quem matou João Batista (Mc 6,14-29).
No início de seu governo, junto com os romanos, reprimiu vio­
lentamente a revolta de Judas, o galileu (At 5,37), e do fariseu Sadoc.
Eles pregavam a recusa da obediência e do pagamento de impostos aos
romanos, dando origem aos diferentes grupos de rebeldes, mais tarde
chamados de zelotas (cf. Mt 22,17). Sua forma de resistência era uma
espécie de desobediência civil.
Na perseguição aos revoltosos, Séforis foi destruída. Esta cidade
era a capital da Galileia, a 7 km a noroeste de Nazaré. Em torno de 2 mil
rebeldes foram crucificados naquele evante.
A época da infância e da juventude de Jesus foi marcada por mui­
ta violência contra o povo. Certamente, sua vida ficou profundamente
marcada com tudo isso. Via que a viclência gerava mais violência, mais
repressão. Não é por acaso que Jesus foi um grande pacifista.

144
Jesus c Herodes Antipas

Segundo Lc 3,19-20 c Mc 1,14, Jesus iniciou sua vida pública


numa ocasião muito conflitiva, logo depois que João Batista foi preso
por Herodes Antipas.
Quando João Batista foi morto pelo tetrarca (Mt 14,1-11; Mc
6,14-29), Jesus tomou medidas de precaução, procurando viver na clan­
destinidade. Fugia da tirania de Herodes que andava inquieto com a prá­
tica popular do Nazareno (Lc 9,7-9). Mesmo assim, o povo o descobria
e acorria a ele (Mt 14,13). De fato, Herodes ameaçava matá-lo da mes­
ma forma como já fizera com seu primo João (Lc 13,31). Mas Jesus não
se intimidava, chamando-lhe covarde e ladrão (raposa). Mandou um re­
cado a ele, dizendo que não se intimidaria com as ameaças (Lc 13,32).
Lucas é o único evangelista a relatar a presença de Herodes no
processo de condenação dejesus. Certamente quer indicar que, para eli­
minar um inimigo comum, os poderosos voltam a se unir (Lc 23,7-12).

3.3 Decápole
Decápole era um conjunto de “dez cidades helenistas” que fica­
vam ao sudeste do lago de Genesaré. Muitos de seus habitantes não
eram judeus. A Decápole (Mt 4,25; Mc 5,20; 7,31) estava diretamente
dependente da província da Síria.
As cidades dessa região, que aparecem no Segundo Testamento e
por onde Jesus andou, anunciando a boa-nova do Reino, são: Gadara
(Mt 8,28) e Gerasa (Mc 5,1).
Durante a guerra judaico-romana (66-73), muitos cristãos judeus
fugiram para Pela que ficava na Decápole.

3.4 Itureia, Bataneia e Traconítide


A Itureia, a Bataneia e a Traconítide localizavam-se a nordeste da
Gaüleia e ao sul de Damasco. A região era importante como passagem
em direção ao norte, abrindo caminho para a Síria, para a Ásia Menor e
para a Mesopotâmia. O que valorizava a região como estratégica eram
as importantes estradas comerciais que por aí passavam.

145
Fora dos limites tradicionais da Palestina, a região estava sob a
responsabilidade do tetrarca Herodes Filipe (4 a.C. - 34 d.C.), nascido
de Cleópatra.
Sua administração também foi pró-romana. Entre outras obras,
construiu uma cidade em homenagem a Augusto César. É Cesareia
de Filipe, aos pés dos montes do Líbano. Como já vimos, segundo
Mc 8,27-30, Jesus fugiu para esta região, a fim de fazer uma avaliação
de sua missão junto a seus discípulos e suas discípulas.
A cidade de Betsaida fazia parte dessa tetrarquia. Era a cidade na­
tal de Pedro, André e de Filipe (Jo 1,43-44). Mais de uma vez, Jesus an­
dou por lá (Mc 6,45; 8,22; Lc 9,10).
Herodes Filipe morreu em 34 sem deixar herdeiro. Então, Tibé-
rio César transfere o comando de sua tetrarquia diretamente para a
província da Síria.

3.5 Abilene
E mais ao norte, junto aos montes do Antilibano, Lisânias era te­
trarca de Abilene (Lc 3,1). Além dessa informação de Lucas, não há ou­
tras referências a Abilene. Nem há notícias se Jesus exerceu atividades
por lá.

4 Galileia, Samaria e Judeia

Vamos agora destacar três dessas regiões que mais nos ajudam a
situar a prática de Jesus: a Galileia, a Samaria e a judeia.

4.1 Galileia
^A^éma^orte de Herodes Magno (4 a.C.), a capital da Galileia era
/Séforis. Mais tarde, passou a ser Tiberíades, junto ao lago da Galileia.
xjsta cidade f<M construída, no estilo das cidades gregas, por Herodes
Antipas a partir do ano 17. Seu nome foi em homenagem a Tibério Cé­
sar, mostrando, dessa forma, sua submissão ao imperador. Desde 4 a.C. a

146
39 d.C., a administração da Gaüleia estava nas mãos de Herodes
Antipas.
As principais cidades e aldeias citadas nos Evangelhos são: Ca-
farnaum (Mt 4,13), Nazaré, a pátria d ejesus (Mc 6,1-6; Lc 2,39), Naim
(Lc 7,11), Corazim (Lc 10,13), Caná (Jo 2,l),Tiberíades, capital da Gali-
leia e residência de Herodes Antipas na época da vida pública dejesus
(Jo 6,23), Mágdala, cidade de Maria Madalena (Mc 16,9) e Ptolemaida,
nome grego da cidade portuária de Aco (At 21,7).
Cafarnaum é a cidade de Jesus durante sua vida pública. Ali,
passou a maior parte de tempo nos três anos de anúncio da boa-nova
(Mt 4,13; 8,5; 11,23; 17,24; Mc 1,21; 2,1; 9,33; Jo 2,12; 6,17.59). Como já
vimos, possivelmente morou com a família de Pedro, que aí residia
(Mc 1,21.29). A cidade era um centro de passagem das caravanas de Da­
masco, do Egito, bem como de todo o Antigo Oriente. Por isso, havia
importantes postos de recolhimento de tributos para os romanos. Prova­
velmente Levi, também chamado de Mateus, um dos apóstolos dejesus,
era publicano nesta cidade (Mc 2,1.13-14; Mt 9,9). Como era uma cidade
portuária junto ao lago da Galileia, moravam aí muitos pescadores.
A Galileia era uma região muito fértil. Havia grandes extensões
de terra para cultivo de cereais, além da criação de gado de grande porte.
Nesses latifúndios, trabalhavam meeiros, assalariados, diaristas, escravos e
pastores. Como vimos acima, Jesus conta algumas parábolas que refletem
essa realidade. Por outro lado, havia ainda muitos camponeses empobreci­
dos que viviam da agricultura familiar, morando em aldeias, produzindo es­
pecialmente trigo e cevada. Desses cereais era extraída a farinha para fazer
“o pão que reconforta o coração das pessoas” (SI 104,15c). Do trigo se
produzia farinha e pão da melhor qualidade. O alimento cotidiano dos
camponeses pobres era o pão de cevada (Jo 6,9).
Cultivavam-se também árvores frutíferas como oliveiras, parrei­
ras (Jo 15,1-4; Mt 20,1-2; 21,33), macieiras e figueiras (Lc 13,6-7; Jo
1,48.50). Entre as oleoginosas estavam a lentilha e a ervilha. Alface, chi­
cória e agrião faziam parte das verduras.
Junto ao lago de Genesaré, existia muita pesca. Pescava-se com
anzol ou com rede. Parte do pescado era vendida como peixe fresco e
parte era salgada na indústria de conservação de peixes para ser comer-
147
( lair/.uhi e ate exportada. Veja, por exemplo, Mc 1,16-20! Havia coope­
rativas de pescadores (Lc 5,5-7.10).
Desde a época da destruição de Israel, o Reino do Norte, as re­
giões da Galileia e da Samaria, sempre tiveram uma mistura de diferen-
irs povos, com seus costumes e seus cultos. Ao estudarmos o Primeiro
'IVslamento, já vimos que a avaliação dejudá, o Reino do Sul, a esse res­
peito foi muito negativa e discriminatória (2Rs 17). Pior ainda foi a pos-
i m a da comunidade judaica em torno do segundo templo, como vimos
ii<>volume 5. O fato é que, ainda no tempo de Jesus, muita gente da Ju ­
deia cultivava um grande desprezo pela população da Galileia e especial­
mente da Samaria (Eclo 50,25-26; Jo 4,9; 8,48; cf. Mt 10,5; Lc 9,51-55).
(:<insideravam que eram contaminadas de impureza.

Jesus e a Galileia

Jesus não começou nem viveu a maior parte da vida pública em Je ­


rusalém, a capital do país e centro de sua religião. Pelo contrário, iniciou
na periferia, que era conhecida como terra dos gentios (Mt 4,15), terra de
onde não se esperava coisa boa, muito menos profetas (Jo 1,46; 7,52).
“Jesus percorria toda a Galileia, ensinando nas sinagogas, pregan­
do o Evangelho do Reino e curando toda doença e enfermidade do
povo.” (Mt 4,23). E o povo galileu o acolhia (Jo 4,43-45).
A grande maioria do seu grupo era da Galileia. Os Doze eram to­
dos de lá.
Conforme as comunidades de Mateus e Marcos, a experiência
com Jesus ressuscitado foi na Galileia (Mc 14,28; 16,7; Mt 28,7.16).

4.2 Samaria

Situada ao sul da Galileia, a região da Samaria (Jo 4,4) fazia parte


dg^toçufãdtjria romana governada por Pôncio Pilatos (26-36). A resi-
/dência principiai dos procuradores ficava na cidade marítima de Cesa-
Sçia (At 18,22^ no território da Samaria. Foi construída por Herodes
Magno entre 22 e 10 a.C. Deu-lhe esse nome em homenagem a Augusto
César, como sinal de sua submissão a Roma. Segundo At 8,40, Filipe foi

148
até Cesareia para anunciar a boa-nova dejesus. Ainda conforme Atos,
foi lá que Pedro entrou na casa de Cornélio, o centurião de um destaca­
mento militar romano (At 10,1). Paulo desembarcou no porto dessa ci­
dade (At 18,22) e, mais tarde, ficou ali como prisioneiro durante 2 anos
(At 23,23-26,32).
Além de Cesareia marítima, o Segundo Testamento ainda cita as
cidades de Samaria (At 8,5) e Sicar (a antiga Siquém —Jo 4,5-6).
Nas terras da Samaria, eram cultivadas especialmente videiras
para a produção da uva que era consumida logo depois de colhida ou era
desidratada. Mas sobretudo era pisada no lagar ou em tinas para a fabrica­
ção de vinho. Esse licor, que “alegra o coração” (SI 104,15a), era a bebida
comum da época. Além disso, cultivavam-se também oliveiras e figueiras.
Tanto a videira (Is 5,1-7; Jo 15,1-5) como a figueira (Mt 21,18-20) torna-
ram-se símbolos importantes do povo de Israel.
A pesca no Mediterrâneo era uma importante fonte de alimenta­
ção e meio de sobrevivência para boa parte da população.
Já vimos, no item anterior, como na Judeia se desprezava esta re­
gião, considerando-a impura e herética.
Gostaríamos ainda de lembrar que, para os samaritanos, somente
o Pentateuco e, de modo especial, o Deuteronômio, era aceito como
texto sagrado. Observavam as prescrições contidas no Pentateuco,
como a circuncisão, o sábado, as festas, etc.
Acreditavam no Deus libertador do Êxodo e esperavam um
Messias não da descendência de Davi, que era da tribo de Judá, mas um
Messias que fosse filho da tribo de José. Ele seria um grande líder profé­
tico como Moisés.
Eram totalmente contra o templo de Jerusalém, seu sacerdócio e
seus sacrifícios. A partir de 128 a.C., seu ressentimento contra ajudeia au­
mentou, pois o hasmoneu João Hircano destruíra, naquele ano, seu tem­
plo em Garizim, o monte sagrado dos samaritanos (Dt 11,29; 27,12).

Jesus e o povo samaritano


Por um lado, ainda temos nos evangelhos resquícios da postura
judaica de exclusão em relação aos samaritanos.

149
Um dos casos é o de Mt 10,5-6. A comunidade de Mateus é majo-
ritariamcnte composta por pessoas com fortes marcas culturais do Ju ­
daísmo, apresentando Jesus ainda muito judeu, excluindo, em princípio,
samaritanos e outras culturas de sua missão. Justamente por ser uma co­
munidade ainda muito fechada, o Evangelho segundo Mateus quer aju­
da la a compreender a missão universal dejesus. É, por exemplo, o caso
dos magos estrangeiros que já o acolhem quando ainda era criança,
reconhecendo nele o rei dos judeus (Mt 2,1-12).
Certamente, Jesus não teve uma postura de rejeição em relação a
pessoas estrangeiras. Porém, é provável também que Jesus não tenha
entendido sua missão para além de Israel. Viveu intensamente sua reli­
gião. Foi judeu até o último momento de sua vida. Não criou uma nova
religião. Veio para renovar a sua religião, a religião judaica. Porque amava
sua religião, queria fazer com que voltasse a ser libertadora, pois para isso
fora fundada no tempo das tribos. Mas a religião oficial não aceitou dei­
xar seus privilégios e eliminou Jesus. Nesse sentido, está correto afirmar
com João: “Veio para o que era seu e os seus não o receberam” (1,11).
Por isso, é louvável que algumas comunidades cristãs logo te­
nham percebido que o projeto de libertação de seu mestre era para toda
gente oprimida do Império Romano, do mundo todo. Aqui, o destaque
fica para a comunidade cristã de Antioquia, base de lançamento das via­
gens missionárias das equipes de Paulo, como veremos no próximo
volume.
Veja ainda a postura d ejesu s em relação à mulher cananeia na
ótica de Mt 15,21-28! Compare este texto com Mc 7,24-30. Ali, em vez
de dizer que veio “exclusivamente” para as ovelhas de Israel (cf. Mt
15,24), Jesus diz que “primeiro” os filhos, isto é, os israelitas, devem se
saciar (cf. Mc 7,27). Na perspectiva de Marcos, Jesus não exclui os po­
vos estrangeiros. No entanto, privilegia Israel. A comunidade de Mateus
também aceita estrangeiros, desde que se convertam ao Judaísmo e ao
Me£siââ_j*í3ãitep. Marcos é bem mais aberto. Basta a adesão a Jesus.
/ É interet sante notar que, no Evangelho segundo Lucas, essa nar­
rativa foi omitida. Será por acaso? Não. É provável que a comunidade
de Lucas, devido à abertura a outras culturas, tenha deixado fora de pro­
pósito esse texto com postura restritiva.
150
Em Mateus, há outra passagem em que ainda transparece a visão
depreciativa em relação ao estrangeiro. Você leu em Mc 7,27 e Mt 15,27
que os povos gentios eram considerados impuros como cães. O mesmo
qualificativo aparece em Mt 7,6 junto com outro animal também consi­
derado impuro, o porco (cf. Lv 11,7).
Por outro lado, as comunidades de Lucas e de João são enfáticas
em proclamar a Samaria merecedora da boa-nova da mesma forma
como a Judeia. Apresentam Jesus vindo em sua defesa. Certamente,
esta postura reflete a realidade posterior das comunidades lucanas e joa-
ninas, quando já haviam universalizado a missão de Jesus.
Em Lucas, são narrados três episódios, que somente se encon­
tram nesse Evangelho, em que aparece a figura do samaritano. Num de­
les, Jesus defende o povo samaritano (Lc 9,51-55). Nos outros dois,
coloca-o como exemplo de solidariedade (Lc 10,29-37) e de gratidão
(Lc 17,11-19). Também no Livro de Atos, os mesmos autores de Lucas
destacam os samaritanos no anúncio do Evangelho, depois da persegui­
ção às comunidades dejerusalém (At 8,1-8). Confira!
Também a comunidade joanina nos apresenta um Jesus aberto aos
samaritanos. O poço era um lugar público. Aí o povo, especialmente as
mulheres, vinha buscar água. Em Jo 4,9.27, ao conversar em público com
uma mulher samaritana anônima, Jesus rompe, ao mesmo tempo, com os
preconceitos étnicos, de gênero, de religião e de moral. Segundo At 8,4-5,
é Filipe quem evangeliza a Samaria; para João, porém, é a mulher samari­
tana a protagonista desse processo (Jo 4,28-30.39-42)
Por fim, lembramos que, segundo João, na tentativa de desquali­
ficar Jesus, autoridades dejerusalém o acusam de ser samaritano e pos-
sesso por um espírito impuro (Jo 8,48). Certamente, esta é uma
acusação feita por judeus às comunidades joaninas que tinham pessoas
samaritanas em seu meio.

4.3 Judeia
Situada ao sul da Samaria, a Judeia fazia parte da mesma procura­
doria romana. Dentre suas cidades, localiza-se Jerusalém (Lc 13,34), a ca­
pital administrativa e religiosa do Judaísmo. Ali, se concentrava a elite

151
|u<laica formada pela aristocracia sacerdotal e pelos anciãos, os grandes
proprietários de terra e do comércio. Além dessa nobreza, havia ainda
muitos artesãos, bem como desempregados e mendigos.
Outras cidades e aldeias da Judeia são citadas nos Evangelhos e
em Atos dos Apóstolos: Jericó (Mc 10,46; Lc 19,1-2), Betânia, cidade de
Marta, Maria e Lázaro (Jo 11,1), Betfagé (Mc 11,1), Emaús (Lc 24,13),
Iklém (Jo 7,42), Arimateia (Jo 19,38), Gaza (At 8,26), Azoto (At 8,40),
I .ida (At 9,32) e Jope (Jafa - At 9,36).
Na Judeia, predominam as regiões montanhosas que não eram
próprias para a agricultura principalmente devido à falta de chuva. Sua
principal produção agrícola era o cultivo de árvores frutíferas e de ervas
v raízes. O cultivo das ervas e raízes tinha em vista a produção de
perfumes (Ct 1,3; Mc 16,1; Lc 7,37; Jo 12,3).
A azeitona era uma fruta nobre. Por um lado, era preparada com
salmoura e depois consumida. Por outro, era prensada para extrair o
óleo, que tinha várias utilidades. Era usado tanto para a iluminação (Mt
25,1-3), para o preparo de alimentos na cozinha, para a limpeza da pele
"Na mesma região, (SI 104,15b), para a unção de reis (ISm 10,1;
havia uns pastores 16,13) e sacerdotes (Ex 29,1-7), como para a
que estavam nos cura de doenças e feridas (Mc 6,13; Lc
campos, cuidando 10,34). Também era produto de exportação.
dos rebanhos." Entre as árvores frutíferas, além da vi­
____(cf Lc 2,8) deira (Mc 14,25) e da oliveira (Mc 13.3;
14,26), ainda eram comuns a figueira e a
romã. A figueira era importante e podia ser encontrada ao longo dos ca­
minhos (Mc 11,12-13), junto às casas e entre as vinhas (Lc 13,6). O sicô-
moro era outra espécie de figueira comum na região. Entre seus variados
trabalhos, o profeta Amós também cuidou de sicômoros (Am 7,14). E
Zaqueu, chefe de cobradores de impostos, subiu num sicômoro para ver
Jesus passar (Lc 19,4). Podia-se encontrar também tamareiras nas regiões
mais quentesxia Palestina, como Jericó, a cidade das palmeiras.
X As regiões montanhosas eram próprias para a pecuária. A criação
efe ovelhas e cabças (SI 104,18) exercia um papel econômico importante
na^vida das famílias. A lã das ovelhas (Gn 38,12; ls 53,7c) e a pele das ca­
bras eram usadas para a confecção de tecidos (Pr 31,13.19-22). Tanto as
152
cabras como as ovelhas eram as maiores fornecedoras de carne n,i re­
gião (Lc 15,29). Mais do que os bois, eram os animais oferecidos com
maior frequência no altar do templo, que era o principal consumidor de
carne. As peles das cabras eram usadas para confeccionar tendas, sandá
lias (Mc 1,7) e recipientes de couro para guardar cereais, água (Gn
21,14) e vinho (Js 9,4; Mc 2,22). Além disso, as cabras também forne­
ciam o leite (Ex 23,19; Pr 27,27). Havia muitos pastores que trabalha­
vam no cuidado desses rebanhos (Lc 2,8). Apesar do cuidado, ovelhas
se perdiam (Lc 15,4). O pastoreio era considerado uma profissão des­
prezível, especialmente porque os pastores conduziam, muitas vezes, os
rebanhos para pastar em terras alheias e praticavam roubos à noite (Ex
22,1). Ou ainda, porque eram suspeitos de matar e comer as ovelhas de
seu patrão. Por isso, quando alguma ovelha era morta por algum animal
selvagem, eles deviam apresentar os restos do animal morto para com­
provar que não haviam matado eles mesmos a ovelha (Ex 22,10-13; Am
3,12). Também o rebanho foi um símbolo importante para representar
a relação do povo com Deus (SI 23,1-2; Jr 23,1-4; Ez 34; Mc 6,34; Jo
10 , 1 - 21 ).
Gado bovino, além de ser criado na faixa litorânea, era também
criado na região de Basã (Am 4,1), a leste do lago de Genesaré. Somente
os mais ricos possuíam bois para arar a terra, especialmente na Galileia
(Lc 13,15; 14,5.19; Jo 2,14). Enquanto o cavalo era o animal somente de
nobres e exércitos, os burros e jumentos eram os animais de carga tanto
para ricos como para pobres (Mt 21,2-5). E que tinham andar firme e,
como as ovelhas e as cabras, eram capazes de se deslocar em terrenos
acidentados, bem como de se alimentar em lugares mesmo sem ricas
pastagens.
Entre os artesãos, destacamos os carpinteiros que se dedicavam à
construção e ao conserto de instrumentos agrícolas, bem como à cons­
trução de móveis essenciais para a casa (Mc 6,3). Havia também pedrei­
ros para preparar as pedras a serem usadas nas construções (2Sm 5,11).
Convém lembrar que muitos desses artesãos viviam somente de sua ati­
vidade artesanal. Porém, muitos camponeses também fabricavam seus
próprios instrumentos de trabalho e os móveis necessários para o lar.

153
Os olm os it,iii,,ili;ivam n argila, fazendo dela vasilhas para uso
doméstico, como p o t e s , jarros, bacias e vasos (Jo 13,5; Rm 9,21). Para
Israel, também a imagem do barro e do oleiro simboliza a relação entre
:i humanidade e seu criador (Gn 2,7; J r 18,1-6; Is 64,7).
Além de carpinteiros, pedreiros e oleiros, havia também o curti­
dor de peles de cabra (At 9,43). A profissão deste era considerada impu­
ra, nao só porque trabalhava em um serviço sujo e que causava mau
cheiro, mas especialmente porque lidava com restos de animais mortos.
A produção de tecidos, de vinho, de passas de figo e de uva, bem
o imo derivados de leite, estava mais ligada à atividade artesanal familiar.
Havia ainda ferreiros (Gn 4,22; Is 43,12), escultores em madeira
(Is 44,13-17; Sb 13,10-16), ourives (Is 41,7; Ml 3,2; At 19,23-24) e fabri­
cantes de tendas (At 18,3).
Muitos desses artesãos eram gaüleus que deixavam suas terras
para trabalhar na construção civil em Jerusalém (cf. Lc 13,4). Muitos es-
tavam a serviço das reformas e da ampliação do templo dejerusalém .

Jesus e a Judeia

Como já vimos, Jesus terá ido a Jerusalém na Judeia pelo menos


algumas vezes, por ocasião das grandes festas de peregrinação. No en­
tanto, os evangelhos são testemunho de que ele desenvolveu sua missão
preferencialmente na Galileia. É verdade que, enquanto se encontrava
em Jerusalem durante as festas, também anunciava a boa-nova de Deus
através de sinais e palavras. Tinha, inclusive, discípulos e discípulas na
Judeia. E o caso de Marta, Mana, Lázaro, José de Arimateia e dos
discípulos de Emaús (Lc 10,38-42; 24,13-35; Jo 11; 19,38).
Como vimos, foi numa dessas permanências na capital que en­
frentou o templo idolátrico, provocando a ira das autoridades.

Para você continuar a reflexão

, Leia as parábolas de Mt 20,1-15; 21,33-40; Lc 12,16-21: a) O que


e f produzido?\b) Quem produzia? c) Para quem produzia? d) Como
ei^m as relações dê trabalho?

154
5 A sociedade judaica

Havia vários grupos organizados na sociedade judaica. Uns se


posicionavam a favor de Roma. Outros eram contra. É o que passare­
mos a olhar com mais atenção neste capítulo.
Os grupos favoráveis eram os saduceus e os herodianos. Esses
dois grupos formavam a elite na Palestina. Os saduceus eram a elite eco­
nômica, política e religiosa em torno de Jerusalém. Os herodianos eram
a elite rural e política da Galileia.

5.1 Saduceus

Pegue sua Bíblia e leia Mc 12,18; Mt 3,7; 16,1; At 4,1; 5,17!


Sobre os saduceus você já leu na primeira parte deste volume. A
palavra saduceus vem de Sadoc, sacerdote do tempo de Davi e de Salo­
mão (2Sm 8,17; lR s 1,8; 2,35).
Eles não aceitavam a tradição oral, apegando-se somente à lei es­
crita no Pentateuco. Desprezavam as devoções populares apocalípticas.
Por isso, não acreditavam na ressurreição, na existência de anjos e de
demônios, nem no juízo final (Mc 12,18).
Pertencia aos saduceus a camada mais rica da Judeia. Tinha, por­
tanto, o poder econômico em suas mãos. Por um lado, esse grupo era
formado pelos grandes proprietários de terra e pe­
los donos do grande comércio. Eram chamados de "Cuidado,
anciãos (Mc 11,27). Formavam a elite leiga e rica acautelai-vos
que considerava sua riqueza sinal da bênção de do fermento
Deus. dos fariseus e
De outro lado, estava a elite sacerdotal (Mc dos saduceus!"
8,31; 15,1.31). Junto com os anciãos, a aristocracia (Mt 1 6,6)
sacerdotal controlava o comércio e as riquezas no
templo, que se tornou um verdadeiro banco de negócios. Considera­
vam-se os donos do templo, enriquecendo com o negócio dos sacrifícios
aí oferecidos.

155
<,<>m<>sc potlc ver, os saduceus tinham privilégios a defender, es­
pecialmente sua situação econômica, seus cargos e seu poder no tem­
plo. Essa era a principal razão por que procuravam manter as boas
relações com Roma. Colaboravam com os opressores, seguindo uma
estratégia de conciliação. Não se importavam com a opressão do povo,
m m quem eram intransigentes. Importava defender sua situação. Não
deixe de le rjo 11,45-50!
Mas não é somente o poder econômico que está sob seu domí­
nio. Controlam também a administração da justiça no sinédrio, o supre­
mo tribunal, que funcionava junto ao templo. E é sobre o templo que os
saduceus tinham muita influência. Estão intimamente ligados a ele e ao
grande conselho. Veja, por exemplo, At 4,1-6; 5,17-21; 23,1-3!
A influência sobre o tribunal de justiça e sobre o templo, lhes dava
acesso ao controle sobre o poder ideológico-religioso, através do sistema
do puro e do impuro. Difundiram amplamente a ideia de que o templo era
extremamente sagrado e que, para alcançar o perdão dos pecados, a única
maneira era o oferecimento de sacrifícios. Acreditavam que o Deus único,
santo, puro e perfeito estava restrito ao Santo dos Santos no templo.
Seu poder político não era pequeno, mas estava limitado pela do­
minação romana, que exercia forte vigilância sobre eles.
Os saduceus não alimentavam grandes esperanças a respeito da
vinda de um Messias. Até sonhavam com a possibilidade de restaurar a
monarquia davídica. Porém, o que interessava mesmo era manter seus
privilégios econômicos, políticos e religiosos. E isso eles tinham garan­
tido com sua política de conciliação com Roma. Não lhes interessava
nenhum messianismo, pois já estavam no poder que consideravam divi­
no. Por isso, combatiam todas as formas de esperança na vinda do Mes­
sias. Junto com os escribas, os saduceus ficaram indignados com o povo
quando este aclamou Jesus como Messias. E que viram seus privilégios
ameaçados. Leia Mt 21,9.15!
Durante a guerra judaica, os saduceus ficaram do lado dos roma­
nos. Com a tomada do templo pelos zelotas em 66, no início da guerra
contra Roma, eles foram praticamente eliminados pelos revoltos os que
saquearam suas propriedades e queimaram todos os registros de terras
mantidos no templo.
Jesus e os saduceus

João Batista considerava os saduceus, junto com os fariseus, uma


raça de víboras, isto é, espertos, traiçoeiros e perigosos ao mesmo tem­
po (Mt 3,7). Nisso Jesus concordava com seu primo. Também conside­
rava a ideologia, tanto de uns como de outros, nociva ao seu projeto.
Por isso, pediu a sua comunidade que tivesse cuidado com a doutrina
deles (Mt 16,6.12).
Os saduceus buscavam alguma incoerência no ensino de Jesus, a
fim de pegá-lo em contradição e assim podê-lo condenar à morte. Mas
Jesus os desmascarou (Mt 22,23-34).
Mesmo sem conseguir apanhar Jesus em alguma contradição,
eles foram os principais responsáveis pela decisão de matar o “senhor
da vida” (Mt 26,3-4).

5.2 Herodianos

Outro grupo que não se opunha à presença de Roma na Palestina


era o dos herodianos. Não era um grupo muito numeroso. Porém, era
forte. E que era composto pela corte de Herodes (no tempo dejesus, de
Herodes Antipas) e de todos os beneficiados pelo grupo palaciano. Ti­
nha o apoio dos grandes produtores rurais, a
"Os fariseus com
elite do campo, de iik >do especial da Galileia.
os herodianos
Portanto, junto com os saduceus, os hero­
imediatamente
dianos formavam a camada social mais rica
conspiraram contra
da Palestina.
ele sobre como
O reinado du íatnília de Herodes era
o matariam."
uma concessão do imperador. Por isso, era
(Mc 3,6)
natural que todos os que tiravam vantagens
da máquina do poder fossem favoráveis a Roma. Faziam de tudo para
garantir a estabilidade na região, a fim de que não lhes fosse tirada essa
concessão.
Por zelarem pela estabilidade social na região, os herodianos se
opunham a qualquer organização popular. Eram contra todas as lide­
ranças que articulavam grupos de resistência. Por essa razão, lutaram

157
t(ii U nu-nk' i <)ii(ni os que se rebelavam. Consideravam-nos agitadores e
terroristas.
Mas não combatiam somente os rebeldes. Qualquer Messias que
ameaçasse seu reinado, era eliminado sumariamente (Mt 2,1-19). Basta­
va reunir gente, e eles já ficavam desconfiando. Qualquer mobilização
popular era considerada subversiva. Por isso, perseguiram também o
movimento batista, executando João, seu líder (Mc 6,14-29). É que este
denunciou vigorosamente as más ações de Herodes Antipas (Lc 3,19-20).

Jesus e os herodianos

Acima já falamos um pouco da relação de João Batista e dejesus


com os Herodes. Mas vamos um pouco além, analisando a relação de
Jesus com os partidários de Herodes.
Da mesma forma como prevenira sua comunidade diante da ideo­
logia dos saduceus (Mt 16,5-12), Jesus também lhe pediu que cuidasse
da doutrina dos herodianos (Mc 8,15).
Não é por acaso que os herodianos já estão aliados aos fariseus na
primeira tentativa de matar Jesus de Nazaré (Mc 3,6). Mais uma vez es­
tão, lado a lado, para pegá-lo em alguma contradição, quando o assunto
é o pagamento de impostos ao império (Mc 12,13-17).
Os herodianos sabiam muito bem qual era a opinião d ejesu s a
respeito de Herodes (Lc 13,31-32). Isso está bem simbolizado no episó­
dio em que o tetrarca dá seu voto favorável para que Jesus seja elimina­
do, unindo-se a Pilatos, seu antigo mimigo (Lc 23,8-13). Certamente,
conyérda^am com as autoridades judaicas que consideravam Jesus um
/sd5versivo (Lc,23,2-6).

A proposta econômica de Jesus

Quando falamos do poder de Roma, já vimos a proposta de po­


der que Jesus anunciou e viveu. Quando falamos do templo, vimos qual
foi seu programa em relação à religião. Agora, depois de havermos re­
fletido sobre os saduceus, a elite econômica judaica, e sobre os herodia­
nos, a elite administrativa e rural da Galileia, apresentamos o projeto
econômico d ejesus de Nazaré.

158
Diante do sistema que acumulava tesouros sobre tesouros (Mt
6,19-21; Lc 12,13-32), Jesus tem outra proposta para distribuir os bens
necessários à vida. O critério é a necessidade diária de cada pessoa (Mt
6,11; 20,1-16).
Seu projeto é o dom da partilha. E o que podemos perceber nas
partilhas do pão e dos peixes que ele promove. Os quatro evangelhos
relatam o fato de Jesus se preocupar com a fome do povo e promover
a partilha da comida (Mt 14,13-21; Mc 6,30-44; Lc 9,10-17; Jo 6,1-13).
E de tão central que é a partilha no programa de Jesus, dois dos quatro
evangelhos narram uma segunda partilha (Mt 15,32-39; Mc 8,1-10). É
o mais importante sinal ou milagre operado por Jesus, segundo os
evangelhos.
Na primeira, fica claro que não é o dinheiro que resolverá a ques­
tão. Esta é a solução apresentada pelos discípulos (Mc 6,36-37). P araje-
sus, no entanto, a questão passa pela organização e pela partilha. Eles
tinham cinco pães e dois peixes. Já sabemos que os números na Bíblia
são simbólicos. A quantidade de comida que tinham é “sete”, número
da perfeição, da totalidade. O problema, por­
"Eu vim para que
tanto, não era a falta de comida, mas sua justa
todos tenham vida
distribuição. O que fazer para que se chegue à
e tenham vida
partilha? Primeiro organizar-se (Mc 6,40).
em abundância."
Como fruto da organização, a partilha se reali­
(Jo 10,10)
za. Quantos cestos de comida ainda sobraram?
Doze. Era o número que simboliza as doze tribos de que descende todo
o povo de Israel. A sobra, pois, indica que o plano de Deus é que não
falte nunca pão em nenhuma mesa do povo de Israel.
Na segunda partilha, exceto algumas diferenças, quase tudo se re­
pete. No entanto, a sobra diminuiu para sete cestos (Mc 8,8). Mas, na
simbologia numérica, o sete vale mais que o doze. Ele abrange todos os
povos e não apenas Israel. Também o número das pessoas que come­
ram (Mc 8,9) sugere universalismo. O sonho de Jesus é que também nas
mesas dos demais povos jamais falte pão. Como podemos ver, o “mila­
gre” não é magia, mas a partilha, fruto da organização.
A luta contra a fome é tão central em seu projeto, que Jesus in­
cluiu a questão do pão na oração que nos ensinou. Nela, resume seu
159
Evangelho (Mt 6,11; Lc 11,3). Nesse sentido, não é mera coincidência
que, na noite derradeira, deixasse como sinal de sua presença perpétua
entre nós a ceia pascal. Ceia que celebra a liberdade e a união do povo,
bem como sua comunhão com Deus. Ceia que é partilha do pão e do vi­
nho. No pão e no vinho repartidos, Jesus se faz presente como Emanuel,
Deus conosco. Participar dessa ceia é comprometer-se com Jesus e seu
projeto de partilha. As vezes, fico a pensar e me pergunto: até que ponto
levamos a sério o que celebramos na ceia eucarística?
Diante da riqueza que exclui, Jesus propõe comunhão e solidarie­
dade para com os mais pobres. Propõe esmola, isto é, gesto concreto de
“misericórdia” (Lc 12,33; Mt 6,1-4), generosidade nos empréstimos (Lc
6,35) —ajuda a quem passa fome, sede, ao sem-teto, a quem não tem
com que se vestir (Mt 25,35ss) —convites para refeições (Lc 14,12-14),
partilha dos bens (Mt 19,16-22; Lc 19,1-10).
No lugar do enriquecimento individual, propõe bem-estar coleti­
vo (Jo 10,10). E em vez do consumismo e do desperdício, sugere uma
vida moderada (Mc 6,43; 8,8).
Quanto às relações de trabalho, Jesus tem proposta diferente da
escravidão. Em seu projeto, já não cabem mais escravos, somente ami­
gos (Jo 15,14-15), pois todas as pessoas são livres como filhos e filhas
do mesmo Pai (Jo 8,33-36; cf. G1 5,1.13).

5.3 Fariseus

Os grupos contrários à dominação romana eram os fariseus, os


zelotas, os essênios e outros grupos populares como os batistas.
/" '\ E j a m movimentos de resistência. Ainda hoje, temos inúmeros
grupos que resistem, que lutam. Você conhece movimentos de resistên­
cia contra a ordem vigente na história brasileira? Quais? Que destino ti­
veram? Que^direitos conquistaram? O que sua luta representou para o
povo mais pobre? Que movimentos existem hoje em sua região, no
país e mesmo em nível mundial, lutando por um outro mundo possí­
vel? E nas Igrejas Cristãs, não há também diferentes formas de viver o
Cristianismo? Existem movimentos de diferentes tipos de espirituali­

160
dade e de compreensão da vida, do mundo. Como se manifestam em
sua comunidade?
Antes de passarmos para cada um desses grupos, pensamos ser
importante lembrar que havia, além das razões políticas e econômicas,
uma importante razão teológica para ser contra a presença de poderes
estrangeiros que se adonavam do povo e da terra.
Para Israel, sua terra é herança permanente, pois YHWH é o legí­
timo dono da terra (Js 13,6; 22,19; SI 24,1; Os 9,3). Foi dele que o povo a
recebeu (Nm 32,7). Nessa perspectiva, o direito de propriedade sobre a
terra não é absoluto, uma vez que o povo apenas é agregado do seu ver­
dadeiro dono (Lv 25,23). YHWH não é somente dono da terra de Israel.
Também o povo lhe pertence (Jr 31,33; Os 2,25).
Já vimos acima que, para entendermos a posição d ejesus contra
a presença imperialista na Palestina, é importante termos presente esses
elementos teológicos (Mc 12,13-17).
Sobre os fariseus, você já leu na primeira parte deste volume.
Propomos que leia novamente os itens “Os hassideus ou piedo­
sos” e “Os fariseus ou separados” .
Na sua maioria, o grupo dos fariseus era formado por pessoas lei­
gas. Sua origem era de todas as camadas sociais, mas, sobretudo, das ca­
madas médias. O maior número vinha dos pequenos proprietários
agrícolas, dos artesãos e dos profissionais independentes, dos médios e
pequenos comerciantes, dos escribas e do baixo clero. Diferentemente
da aristocracia sacerdotal, que pertencia aos saduceus, boa parte do
baixo clero se opunha aos sacerdotes ricos e se integrava aos fariseus.
Também a maior parte dos escribas, os especialistas nas Escrituras,
pertencia ao grupo dos fariseus. Por causa do seu saber bíblico, estes
eram as maiores lideranças nas sinagogas e das próprias comunidades
farisaicas. Eram os guias espirituais das comunidades. Seu conhecimen­
to das leis e do hebraico, como especialistas em direito, administração e
educação, também lhes assegurava lugares importantes no sinédrio,
como já vimos.
Entre os fariseus e escribas, havia várias tendências. Umas mais
abertas e outras mais ortodoxas. Seu ideal era chegar à santidade através
da observância da lei.
161
1)(.- uiu modo geral, os fariseus eram nacionalistas. Por isso, eram
conlra a presença de povos estrangeiros, considerando-os impuros (At
1(1,1 1-16).
I (',m 7-6 a.C., mais de 6 mil fariseus se recusaram a prestar ju
inenlo a Augusto César. Porém, como os romanos permitiam a prática
da religião judaica, os fariseus, embora fossem contra a opressão de
Roma, toleravam sua presença. Praticavam, portanto, uma resistência
passiva.
Sua esperança era de que, observando fielmente a lei, apressariam
a vinda do Messias que expulsaria os opressores. Os fariseus mais radi­
cais esperavam um Messias que viesse restaurar a lei a qualquer hora e
de forma instantânea. Sua vinda dependeria do rigor na prática da lei.
Consideravam a dominação romana um castigo de Deus por cau­
sa da falta de rigor na observância da lei. Por isso, discriminavam e hos­
tilizavam os grupos que não viviam a lei em seus mínimos detalhes.
Aliás, na opinião deles, estes retardavam a vinda do Reino.
A gente pobre que não conhecia a
"M as este povinho que lei era desprezada e considerada maldita
não conhece a lei, (Jo 7,45-49). Os publicanos ou cobradores
são uns malditos!" de impostos eram excluídos (Mc 2,15-17;
(Jo 7,49) Lc 18,9-14). Várias categorias ou pessoas
do povo eram tidas como pecadoras e acu­
sadas de não cumprir a lei (Lc 7,36-39) e por isso discriminadas.
Os fariseus não só eram rigorosos consigo mesmos na observân­
cia da lei escrita e oral. Queriam que também o povo assim fosse. O
poveroSs considerava seus guias espirituais e políticos. Eram os guar-
^ -d ia e s da fé de Israel. Devido ao exemplo que eles e seus escribas davam
I na observaheia da lei e por causa de sua liderança nas sinagogas, eram
muito admirados. Dessa forma, exerciam grande influência sobre o
povo, que os prestigiava cada vez mais.
Junto com os saduceus, tinham boa representação no sinédrio,
através dos seus escribas. Juntos também formavam o Judaísmo mais
ortodoxo.
Diferentemente do saduceus, o grupo dos fariseus tinha grande
aceitação junto ao povo, devido à sua origem popular, à sua piedade e
162
sua relativa independência frente aos romanos. A i h ih ,;i íut d< u i t i i t m d a
ressurreição, no juízo final e na existência de anjos e de demônioi, tam­
bém os diferenciava dos saduceus. Não deixe de ler At 23,6 -10!
Ao contrário dos saduceus, valorizavam a tradição oral dos ante
passados que seus escribas ensinavam (Mc 7,1-5).
Em 70, com a destruição de Jerusalém pelo general Tito na
guerra judaico-romana, também o templo foi arrasado. Com ele tam­
bém sumiram aqueles que nele exerciam o poder e dele usufruíam de
privilégios, os saduceus e a aristocracia sacerdotal. A partir desse mo­
mento, serão os fariseus com seus escribas que tomarão a liderança no
Judaísmo, rearticulando-o em torno da sinagoga, da Palavra, do livro da
lei, e não mais em função do sacrifício no templo. Dessa forma, eles se
tornaram o único guardião da tradição judaica. Deram-lhe as feições
que hoje conhecemos.

Jesus e os fariseus

Acima, você já leu sobre a postura de Jesus em relação à lei. Tudo


o que foi dito lá tem também a ver com os fariseus.
Jesus tinha muita liberdade diante da lei. Seu valor absoluto era a
defesa e a promoção da vida da gente pobre, das mulheres, das pessoas
consideradas pecadoras, das doentes. Consequentemente, relativizava
as leis que diminuíam a vida delas (Mc 2,23-3,6; Jo 8,1-13). Isso lhe cus­
tou muita oposição, especialmente por parte de quem absolutizava a lei
em detrimento da vida (Lc 13,10-17; 14,1-6).
Da mesma forma como prevenira sua comunidade diante da ideo­
logia dos saduceus (Mt 16,5-12) e dos herodianos (Mc 8,15), Jesus tam­
bém lhe pediu que cuidasse da doutrina e da hipocrisia dos fariseus (Lc
12,1). É importante percebermos que, ao criticar a ideologia especial­
mente dos saduceus e dos fariseus, Jesus está trabalhando em nível de
conscientização. Dessa forma, busca deslegitimar o sistema ideológico
do templo, controlado pelos saduceus, bem como o das sinagogas,
controladas pelos fariseus. Jesus puxa o tapete debaixo dos seus pés.
Deixa sua doutrina desmascarada. E o primeiro passo que o povo pre­
cisa dar, para poder ver as coisas com seus próprios olhos, dizer a sua

163
própria palavra, pensar com sua própria consciência e andar com suas
próprias pernas.
Além disso, Jesus acusa muitos dos fariseus de serem amigos do
dinheiro (Lc 16,14).
Em Mt 23,1-7, há críticas pesadas contra os fariseus e os escribas.
São acusados de amarrarem fardos pesados e colocá-los sobre os om­
bros das pessoas, quando eles mesmos nem com um dedo se dispõem a
movê-los (cf. v. 4). Logo adiante, nos w . 13-32 (Lc 11,39-48.52), estão
na boca d ejesus sete “ais” contra os mesmos grupos.
E verdade que a polêmica com os fariseus e escribas, especial­
mente em Mateus, reflete a situação das comunidades que estão por trás
desse evangelho. É que boa parte dos membros das comunidades mate-
anas eram judeus cristãos que foram expulsos das sinagogas em torno
do ano 85, justamente por escribas e fariseus. Daí seu ressentimento.
Historicamente, os maiores adversários dejesus não foram os fariseus,
mas terão sido os saduceus e os herodianos.
Jesus teve uma postura de acolhida em relação aos fariseus de
tendência mais aberta. Estes buscavam com sinceridade a comunhão
com Deus. Muitos deles não eram insensíveis à proposta d ejesus. Ele
foi convidado por fariseus para ir à casa deles (Lc 7,36-50; 11,37; 14,1).
Tinha, inclusive, um discípulo que era fariseu. É o caso de Nicodemos,
como você já viu acima. É provável que na comunidade de Mateus te­
nha havido escribas com posições de liderança (Mt 13,52; 23,34). A um
escriba, Jesus chega a dizer: “Tu não estás longe do Reino de Deus”
(Mc 12,28-34; cf. v. 34). Isso confirma que a polêmica com eles, tal
como está nos Evangelhos de Mateus e Lucas, mais do que espelhar a
realidade dejesus, reflete o contexto dos anos 80, quando estes foram
escritos. Mas deve-se reconhecer: no que dizem os evangelhos sobre os
fariseus reflete-se a percepção que Jesus tinha sobre eles, isto é, que sua
maneira de guiar o povo era perigosa porque, alienante e enganosa, não
libertava as consciências.

164
A sinagoga

Acima, quando falamos do sinédrio, fizemos menção ao templo


e seu significado. Vimos que os saduceus tinham o controle dessa insti­
tuição central para os judeus.
Já os fariseus controlavam uma outra instituição importante do
Judaísmo. Eram as sinagogas, isto é, as casas de “reunião”, de “assem-
bleia”, onde o povo se ajuntava para a oração, a escuta da Palavra, a ins­
trução religiosa dos fariseus e escribas. Além do culto, a Sinagoga era
também um espaço para a educação de jovens e crianças, funcionando
como escola, como casa de ensino. Ali, não se ofereciam sacrifícios.
Para os fariseus, as sinagogas tinham mais importância do que o templo.
Como os saduceus, os fariseus também defendiam que Deus mo­
rava no Santo dos Santos. Mas iam além. Para eles, Deus também mora­
va em todo o país. Por isso, se podia prestar culto a Ele em qualquer
lugar. E as sinagogas que existiam em todos os lugarejos eram um lugar
adequado para o serviço religioso.
Sobre as sinagogas, você já leu há pouco ao retomar a página so­
bre os fariseus. Que tal ler um pouco mais sobre a sinagoga, retomando
os parágrafos 7 e 8 do item “A formação do Judaísmo” no volume 5.

Jesus e a sinagoga

Nas cenas em que Jesus freqüenta as sinagogas, na maioria dos


casos, são os fariseus que o questionam. Os saduceus estão ausentes.
Veja, por exemplo, Mt 12,9-14; 23,1-7!
Segundo o Evangelho de Lucas, a primeira aparição pública de
Jesus é justamente numa sinagoga em Nazaré, sua pátria (Lc 4,14-30).
Ali anuncia seu programa: “O Espírito do Senhor está sobre mim,
porque ele me tingiu para anunciar a boa-nova aos pobres. Enviou-me
para proclamar a liberdade aos presos, e aos cegos a recuperação da
vista, para restituir a liberdade aos oprimidos e para proclamar um ano
de graça do Senhor.” (Lc 4,18-19; Is 61,1-2).
Segundo Lucas, o episódio acima ocorreu na primeira aparição
de Jesus na sinagoga de Nazaré, no início da vida pública. E, ao anunciar

165
sua boa-nova às pessoas pobres, logo essa instituição entra em conflito
com seu Evangelho, tentando eliminá-lo.
Podemos encontrar Jesus frequentemente ensinando e curando
nas sinagogas, enfrentando, inclusive os chefes (Mc 1,21.39; 3,1-6; 6,2;
Mt 9,35; Lc 4,16; 13,10-17). As curas nas sinagogas nos revelam o senti­
do quejesus espera dessa instituição. Sua função é promover a vida das
pessoas doentes, pobres, excluídas (Lc 4,16-19). Jesus cura também a fi­
lha de um chefe da sinagoga (Mc 5,21-24.35-42) e o servo do centurião
romano que havia construído uma sinagoga (Lc 7,1-5). Critica os escri­
bas e fariseus que gostam de ocupar os primeiros lugares nas sinagogas
e nos banquetes (Mc 12,39; Mt 23,1.6). Acusa os hipócritas que dão es­
mola e rezam nas sinagogas para promoção pessoal (Mt 6,2.5). Pediu
aos discípulos que ficassem de sobreaviso quando chegasse a persegui­
ção do sinédrio e também das sinagogas (Mc 13,9). Como vimos, sina­
goga e templo são símbolos do sistema. O conflito com Jesus expressa
justamente o conflito mais profundo e global com o sistema dominante
naquela sociedade.

Para você continuar a reflexão


Em Lc 4,16-19 e 13,10-17, Jesus revela sua missão na sinagoga,
através de palavras e curas, a) Em que consiste essa missão? b) Que lu­
zes lança sobre a missão de nossas comunidades?

5.4 Zelotas
Havia ainda grupos revoltosos contra Roma. Estes grupos de re­
beldes, que não chegavam a formar um movimento único, mais tarde
foram chamados de zelotas. São assim chamados por seu zelo pela lei,
por sua paixão pela liberdade. Os romanos lhes chamavam de bandidos
e agitadores (Mc 15,7).
Eles se constituíram a partir dos fariseus. São, na sua origem, fari­
seus militantes, radicais, extremamente nacionalistas.
Na Bíblia, há poucas referências a eles. Sabemos que um dos dis­
cípulos d ejesu s era das fileiras de um desses grupos de rebeldes. E o
caso do apóstolo Simão (Lc 6,15).

166
Certamente At 5,36-37 e 21,38 a eles se referem, Também Hiiii .i
bás era um deles (Lc 23,18-19). Como promovia agitações contra os to^
manos e seus colaboradores, as autoridades herodianas e judaicas o
consideraram um criminoso, um terrorista, um bandido (Jo 18,40). Je ­
sus foi condenado como um desses agitadores.
Não lhe parece que ainda hoje o império coloca sob o manto do
terrorismo todos aqueles que se opõem ao seu domínio? Com isso, jus­
tifica violências, guerras, desrespeito aos direitos fundamentais das pes­
soas e dos povos. Não lhe parece também que, tal como o Império
Romano, permite a liberdade religiosa, mas exige o culto ao estado e a
seus símbolos “sagrados”, isto é, a bandeira e a constituição?
Os zelotas lutavam contra os imperialistas idólatras, bem como
contra seus representantes na Palestina. Entre eles, havia quem pratica­
va ataques contra alvos romanos e colaboradores. Para matar, usavam
um pequeno punhal chamado sica. Por isso, são também conhecidos
por sicários (At 21,38).
Consideravam o pagamento de impostos e a submissão a Roma
uma traição em relação a Deus, o verdadeiro rei de Israel. Considera­
vam-se instrumentos da vingança de Deus contra os traidores da nação.
Como podemos deduzir, enquanto os fariseus praticavam uma
resistência passiva, os zelotas partiram para uma resistência ativa, a luta
armada. Nisso se assemelham ao movimento de resistência do velho
Matatias contra os Selêucidas, dando origem à revolta dos macabeus.
As motivações dos zelotas, da mesma forma como dos macabeus,
eram profundamente nacionalistas e religiosas. Queriam formar um es­
tado judeu livre de qualquer opressor idólatra, para instaurar um estado
teocrático, onde o poder de Deus fosse realidade. Eram capazes de dar
a vida em favor da defesa da santidade do templo e da terra prometida.
Esperavam por um Messias guerreiro, como fora antigamente Davi e,
mais recentemente, o movimento macabaico. Esperavam que o Messias
liderasse a guerra contra os impuros romanos, aguardando por uma po­
derosa intervenção de Deus em seu favor. Consideravam-se o braço ar­
mado de Deus em guerra santa contra Seus inimigos e de Seu povo,
para instaurar o Reino prometido.

167
Sua maior base social era o campesinato empobrecido da Galileia
que havia perdido suas terras, bem como as camadas mais massacradas
pelo cruel sistema de impostos exigidos por Roma. Portanto, a maioria
das pessoas que aderiam ao movimento dos zelotas pertencia à camada
social pobre, da qual faziam parte camponeses empobrecidos e endivi­
dados, assalariados, meeiros, diaristas, pastores, pescadores, emprega­
dos de artesãos, funcionários de baixo escalão, seja no templo como na
corte real, rachadores de lenha e carregadores de água.
Além de lutar contra o pagamento de impostos a Roma e contra a
idolatria do imperador, os zelotas lutavam pela justiça social, pela refor­
ma agrária, pela libertação de quem havia sido escravizado e pelo per­
dão das dívidas.
E possível que, no tempo de Jesus, o movimento zelota ainda
não fosse tão significativo e organizado como veio a ser em seguida. Fo­
ram eles que articularam a grande rebelião a partir de 66, quando os ro­
manos intervieram, iniciando a guerra judaico-romana (66-73).
Somente nessa época é que atuaram como movimento mais unificado e,
mesmo assim, com muita luta interna pelo poder.

Jesus e os zelotas
Vimos acima que o apóstolo Simão era de um dos grupos de re­
beldes (Lc 6,15). Provavelmente, Judas Iscariotes também era um deles.
Pelas características de Pedro, que andava armado (Jo 18,10), também
poderia ter simpatia pelos zelotas. É que boa parte deles andava armada.
A doutrina comum sobre a vinda iminente do Reino também
aproximava Jesus a eles.
Se no ataque ao templo Jesus se assemelha aos zelotas, em outras
posturas se afasta deles. Eles, por exemplo, consideravam impuros os
publicanos, pois colaboravam com os romanos. Jesus é amigo de cobra­
dores de impostos. Enquanto eles usavam a violência como meio para
eliminar soldados romanos e seus colaboradores, Jesus era um pacifista
que buscava uma reconciliação nacional. Por isso, entre os Doze, tinha
o publicano Mateus ao lado do zelota Simão. A não violência ativa, a in­
sistência no amor aos inimigos e no perdão mostram o quanto Jesus se
diferenciava dos zelotas nessa questão.

168
5.5 Essênios
Na Bíblia, não temos nenhuma informação a respeito dos essênios.
No entanto, descobertas arqueológicas de 1947, em Qumrã, revelaram
manuscritos com muitas informações sobre esse movimento. Qumrã,
junto ao extremo norte do Mar Morto, era uma das comunidades dos
essênios. Provavelmente a mais importante. As comunidades dispersas
pelas cidades procuravam viver o mesmo ideal da comunidade de
Qumrã.
Agora, convidamos você a reler, na página 55 e 66, o item sobre
Jônatas, bem como o item “os essênios” nas páginas 58 e 59.
Aqui, apenas destacamos que seu objetivo fundamental era a fi­
delidade ao Judaísmo tradicional, bem como à classe sacerdotal sado-
quita. Tinham aversão aos anciãos, uma vez que estes eram coniventes
com a dominação dos romanos, um povo mau. Cultivavam também
forte rejeição aos sacerdotes do templo, pois, em seu tempo, não eram
da linhagem de Sadoc, mas dos hasmoneus. Além disso, os sumos sa­
cerdotes eram nomeados por governantes impuros a quem eram
subservientes.
Eram rigorosos na observância da lei, especialmente nas normas
relacionadas à pureza.
Esperavam dois Messias. O Messias rei como Davi e o Messias
sacerdote como Aarão. Mas eles só viriam na medida em que se purifi­
casse a lei, o templo, o sacerdócio e a nação, que foram profanados pela
ocupação do império. Sua vida diária era fortemente marcada pela espe­
rança apocalíptica da intervenção extraordinária de Deus na história.
Por fim, é bom lembrar que é bem possível que João Batista te­
nha sido discípulo dos essênios ou que tivesse com eles alguns traços
em comum, próprios do movimento popular de oposição da época.

Jesus e os apocalípticos
Como os essênios comungavam com a maioria do povo a espe­
rança apocalíptica, cabem, aqui, algumas palavras sobre os apocalípticos
e Jesus de Nazaré.

169
Já falamos sobre a apocalíptica nas páginas 59 a 64. Aqui gostaría­
mos de comparar a prática de Jesus com o movimento popular apocalíp­
tico que era muito forte no Judaísmo do tempo de Jesus, especialmente
nos grupos pobres, inclusive em grupos organizados como os essênios,
zelotas e fariseus.
Por um lado, Jesus assume alguns elementos da apocalíptica, como:
• o dia do julgamento definitivo de Deus (Mt 25,31-46);
• a intervenção de Deus na história para transformar as estrutu­
ras deste mundo dominadas por impérios todo-poderosos (Mt
24-25; Mc 13;L c21);
• o anúncio da proximidade do Reino de Deus (Mt 4,17; Mc 1,15);
• a representação do conflito entre oprimidos e opressores na for­
ma de conflito entre Deus e os demônios (Mc 1,21-28; 3,22-30);
• a fé na ressurreição dos justos (Mc 12,18-27).
Por outro lado, ele se afasta de alguns enfoques desse movimen­
to. Os apocalípticos esperavam a vinda futura do Reino de Deus, espe­
cialmente como derrota do império opressor e vitória para o povo
judeu. Jesus, no entanto, anuncia um Reino que se diferencia, em vários
aspectos, da esperança apocalíptica.
• Ele está perto (Mc 1,15; Mt 4,17; Lc 10,9.11).
• Já chegou (Lc 10,9.11; 11,20).
• É dos pobres (Lc 6,20; Mt 5,3).
• O anuncia por parábolas (Lc 13,18-21; Mt 13,31-33).
• Está intimamente ligado à luta pela justiça (Mt 6,33).
Quanto à proximidade do Reino, é bom termos presente que é
possível que Jesus esperasse sua vinda enquanto sua geração ainda esti­
vesse viva. Não deixe de ler Mc 9,1; 13,30! A ideia de uma intervenção
divina não foi original de Jesus. Nisso concordava com os essênios, os
zelotas, os batistas e os apocalípticos. Durante a festa das Tendas, esses
grupos esperavam, a qualquer hora, a irrupção do Reino.
Essa esperança da vinda iminente do Reino continuou por déca­
das em meio às comunidades cristãs (lT s 4,13-5,11; ICor 15,23.51-52).
Anos mais tarde, como a vinda de Jesus e do seu Reino não se concreti­
zava na forma esperada, os cristãos foram adiando a sua chegada (2Ts
2,1-12). Voltaremos a esse assunto nos próximos volumes.
170
Havia também discordâncias de Jesus com os apocalípticos
quanto à compreensão a respeito do Messias. Os apocalípticos espera­
vam sua manifestação no futuro e de forma triunfante, vencedora e glo­
riosa. Diferentemente deles, Jesus entende sua missão como sendo o
filho do homem que veio subverter a ordem, servindo e dando sua pró­
pria vida pela causa da justiça do Reino (Mc 10,45). Em vez de triunfan­
te e gloriosa, Jesus vem como o filho do homem pobre (Lc 9,58; Mt
8,20). Além disso, em vez da glória, a perseguição é inevitável para
quem assume esse projeto (Mc 8,31.34s; Mt 5,10-12).

5.6 Batistas
João Batista está muito presente na vida do povo e das nossas co­
munidades. É só lembrar como são comemoradas as festas juninas. Ele
também é muito lembrado no Advento, de modo especial com sua mensa­
gem de conversão, com vistas à preparação da vinda do Messias no Natal.
Nos evangelhos, temos várias referências a João Batista:
• Anúncio do seu nascimento: Lc 1,5-25.
• O nascimento: Lc 1,57-66.
• Pregação e batismo: Mc 1,4-11; Mt 3,1-17; Lc 3,1-22.
• A prisão: Mc 1,14; 6,14-18; Mt 14,1-5.
• Envio de mensageiros a Jesus desde a prisão: Mt 11,1-6; Lc
7,18-23.
• Recomendado por Jesus: Mt 11,7-15; 21,28; Lc 18,24-35.
• Assassinado por Herodes: Mc 6,19-29; Mt 14,6-12.
• Testemunha dejesus: Jo 1,6-8.15.19-40; 5,33-36; 10,40-41.
• Reconhecido como profeta popular e confundido com Jesus:
Mc 8,28; 11,30-32; Mt 11,9; 14,5; 16,14; 21,25-26; Lc 9,19.
João Batista aparece em torno do ano 27. Organiza seu movi­
mento, dando importância a todo o Primeiro Testamento, de modo es­
pecial aos profetas. Anunciava a proximidade da vinda de um Messias,
que viria como salvador e juiz severo (Lc 3,9; Mt 3,7-12),
Os batistas eram abertos a quem tinha esperança no juízo final,
como publicanos e soldados (Lc 3,12.14).

171
Quanto ao templo com seu sistema de sacrifícios, João Batista ti­
nha uma postura muito crítica, pois esse não permitia o acesso às pessoas
mais pobres. Daí por que pregava a conversão na periferia, em regiões
desérticas (Mt 3,1).
Tal como Jesus, anunciava também a conversão e a proximidade
do Reino de Deus. Compare Mt 3,2 com 4,17! Porém seu batismo era
com água para a conversão dos pecados com vistas a um novo nasci­
mento e à espera da vinda de um Messias. Por sua vez, o batismo do
Messias esperado seria com o Espí­
"O tetrarca Herodes,
rito Santo (Mt 3,6.11). A conversão
a quem havia censurado
dos pecados devia produzir frutos
por causa de Herodíades,
de partilha e fraternidade (Lc
mulher de seu irmão, e
por causa de todas as más 3,10-14). Para João Batista, o peca­
do consistia essencialmente em ade­
ações que havia cometido,
rir à ordem injusta. Estar em pecado
acrescentou às demais
é fechar-se ao projeto de Deus.
ainda essa: Pôs
João na prisão." Suas críticas também se diri­
gem aos donos do templo, sacerdo­
(Lc 3,19-20)
tes e anciãos, que eram saduceus.
Deixa claro que eles não têm nenhum privilégio em relação ao povo.
Também eles precisam se converter. Igualmente os fariseus. Chama a
todos eles de raça de víboras” (Mt 3,7-8). E os convida a não terem
confiança demais na condição de filhos de Abraão (Mt 3,9).
Como reunia multidões, chamou a atenção das autoridades hero-
dianas. Então, foi preso pela força policial de Herodes. Historicamente,
sua prisão não teve como primeira causa as críticas a Herodes por ter se
casado com sua cunhada (Mc 6,17-18). As circunstâncias do banquete de
morte descritas por Marcos têm como finalidade um significado teológi­
co. Apresentando a perseguição de Herodíades, as comunidades cristãs
querem mostrar que João Batista é parecido com o grande profeta Elias,
que fora perseguido pela rainha Jezabel (lRs 19,1-3). A forma de se vestir
como Elias confirma essa intenção teológica (2Rs 1,8; Mt 3,4).
Porém, o motivo principal de seu assassinato é político, confor­
me o historiador judeu Flávio Josefo nos informa. E m Antiguidades Judai­
cas (XVIII, 117,119), ele escreveu o seguinte a respeito de João Batista:
Ele exortava os judeus u pnuu ;ii a virtude, a agir com justiça uns com os
outros e com piedade para om i 1)cus, para permanecerem unidos por um
batismo... Quando muitos .se uniram à multidão que, comovida e em mas­
sa, se reunia em torno dele para o escutar, Herodes começou a temer que a
grande influência de João sobre o povo levasse a uma rebelião, pois todos
pareciam comportar-se segunde >seus conselhos. Por isso, decidiu que seria
melhor prevenir e livrar-se de João, antes que sua obra provocasse uma
insurreição...

Jesus e os batistas

No texto dejosefo, nenhuma vez João Batista faz referência a Je ­


sus. Nesse sentido, é possível que foram as comunidades cristãs que
identificaram Jesus com o Messias anunciado pelo Batista. Em todo
caso, há muita proximidade entre as mensagens de João e d ejesus que
parecem fazer parte de um único grande movimento popular. Há tam­
bém diferenças entre eles como, por exemplo, a prática do jejum (Mc
2,18-20).
Segundo os relatos dos evangelhos, num primeiro momento, Je ­
sus adere ao movimento batista pelo batismo (Mt 3,13-17). No entanto,
acaba seguindo seu caminho, organizando seu próprio grupo. Ao mes­
mo tempo, o grupo de Batista continuava existindo paralelamente ao de
Jesus (Jo 3,22-26).
Há uma insistência, especialmente no Evangelho de João, em
mostrar João Batista sempre indicando para Jesus, dando testemunho
dele. Isso revela que, ainda no tempo em que foram escritos, o movi­
mento batista continuava forte. Veja alguns exemplos dessa tentativa
em Jo 1,6-8.15.20-21.26-34; 3,27-36; 10,40-41!
Nesses textos que leu, você pôde perceber muitas afirmações ne­
gativas em relação ao Batista: Ele não é a lu% não é o Messias, não é o esposo,
deve diminuir, nunca operou milagres, o Messias passou adiante dele e antes delejá
existia. Tudo isso nos parece revelar que os autores desses textos que­
rem diminuir o grande líder do movimento batista, convidando insis­
tentemente seus seguidores a aderirem às comunidades cristãs.
Há ainda outros indícios que mostram os dois movimentos
como independentes. Um é quando João está na prisão, e seus discípu­

173
los vão a Jesus para saber se ele era o Messias esperado (Mt 11,2-6; Lc
7,18-23).
Sobre o outro você pode ler em At 18,24-19,7. Priscila e Aquila,
um casal de discípulos cristãos, encontram Apoio, um discípulo de João
Batista em Efeso (18,25), e lhe expõem mais exatamente o Evangelho
dejesus (18,26). Na mesma cidade, Paulo conquista mais doze batistas
para a comunidade cristã (19,1-7).
As principais diferenças entre João Batista e Jesus podem assim
ser resumidas: João anunciava a conversão para poder receber o perdão
num julgamento futuro, enquanto para Jesus o perdão já era uma reali­
dade presente. Enquanto o Batista anunciava o juízo de Deus como ca­
tástrofe, Jesus anunciou a salvação como boa-nova do Reino de Deus.

Jesus e as expectativas messiânicas

Depois de fazermos algumas considerações sobre os diferentes


grupos da sociedade palestinense, convém confrontarmos suas expec­
tativas messiânicas com Jesus de Nazaré.
Jesus frustra a maioria das expectativas messiânicas de seu tempo:
• Não veio restaurar a monarquia davídica, como esperavam sa­
duceus, escribas e fariseus (Mc 12,35-37; Mt 22,41-45).
• Não veio exigir o rigoroso cumprimento da lei, como espera­
vam os fariseus e seus escribas. Pelo contrário, relativizou a lei,
resgatando a vida como valor absoluto.
• Não veio como um juiz severo, como esperava o movimento
batista.
• Não veio como um legislador, juiz e sacerdote, como espera­
vam os essênios.
• Não veio como um chefe militar que liderasse a guerra contra
os impuros romanos, como esperavam os zelotas.
Há um consenso na pesquisa de que todas as referências nos
evangelhos, indicando Jesus como sendo o Messias esperado, são pala­
vras posteriores, isto é, das primeiras comunidades. É que as comunida­
des cristãs estavam convencidas de que, de fato, ele era o Messias. Uma
das evidências de que Jesus não se referia a si mesmo como Messias é o

174
fato de que os próprios evangelhos resistem em colocar em sua boca a
afirmação de que fosse o Messias. Outra, é que ele proíbe insistente­
mente que as pessoas o aclamem como tal (Mc 1,24-25.34; 3,12; 8,30;
Lc 4,41). Aliás, Jesus se escondia para evitar que fosse aclamado como
rei em Israel (Jo 6,14-15). E mais. Reage diante da afirmação de Pedro
de que era o Messias, proibindo que falassem a seu respeito (Mc
8,29-30).
Pelo menos a partir do incidente do templo, Jesus tinha claro que
sua fidelidade ã missão de anunciar a boa-nova do Reino o indisporia
com as autoridades. Nesse sentido, a cruz seria inevitável.
Pedro o adverte por partilhar com seu grupo a perspectiva da
cruz. Jesus, por sua vez, repreende severamente a Pedro, afirmando que
sua advertência é obra do demônio (Mc 8,31-33).
Jesus rejeita todos os títulos. Para ele, só Deus é mestre, pai e guia
(cf. Mt 23,8-10). Certamente, foi a comunidade de Mateus quem acres­
centou, nesta citação, o título “Cristo”, fruto da reflexão das comunida­
des cristãs sobre Jesus depois da experiência da ressurreição. O único
título que Jesus parece reivindicar para si mesmo é o de “filho do homem”
(Mc 2,10.28; 9,9.12.31). No entanto, filho do homem não é título, pois é ex­
pressão usada no aramaico galileu para se referir indiretamente a si mesmo.
E sinônimo de pessoa, de homem. Nesse sentido, Jesus quer dizer: “O sá­
bado foi feito para o homem e não o homem para o sábado, de modo que
o ‘homem’ é senhor até do sábado” (Mc 2,27-28). Em Mt 9,6-8, isso fica
claro. Confira como “filho do homem” é sinônimo de “homem”!
Jesus não entendeu sua missão como cumprimento de nenhuma
das expectativas messiânicas de seu tempo. Porém, depois da experiên­
cia da ressurreição, as comunidades cristãs apresentam Jesus como o
Messias. Mas é um Messias diferente de todas as expectativas da época.
Para os primeiros cristãos, Jesus é o Messias, isto é, o Cristo, o ungido:
• que vence a tentação do messianismo mágico e assistencialista
que Satanás lhe propõe (Mt 4,3). Superando soluções imedia-
tistas, Jesus promove a partilha organizada e com participação,
sem magia e sem assistencialismo (Mc 6,30-44);
• que vence a tentação de seguir a prática do império e oferecer
espetáculo para divertir o povo, usando o poder de Deus (Mt
175
4,5-6). Jesus se opõe, portanto, à política romana de oferecer
“pão e circo” aos pobres;
• que se opõe ao messianismo que quer restaurar um reino po­
deroso, que trai seu povo e diviniza o poder político e econô­
mico, usufruindo dos seus privilégios (Mt 4,8-9). Jesus é fiel a
seu Deus (Mt 4,10), promovendo o serviço e a partilha;
• que vence a tentação do messianismo glorioso que Satanás lhe
apresenta na pessoa de Pedro (Mc 8,31-33). Seu messianismo
passa pelo sofrimento, pela cruz (Mc 8,31; 15,39);
• na perspectiva profética do Servo Sofredor (Mt 12,18; 20,28;
cf. Is 42,1-4; 49,4-9; 53,1-12), do rei justo, pobre e pacifista (Mt
21,5; cf. Zc 9,9-10), que tem compaixão de doentes e pobres,
libertando com a força do Espírito (Mt 11,2-5; cf. Is 26,19;
29,18-19; 35,5-6; 61,1-2). Não deixe de conferir as citações!
• cuja autoridade não era o saber acadêmico, que estava, muitas
vezes, distante da vida cotidiana do povo. Seu saber era o da
vida. Falava a língua do povo e sabia escutar seus interlocuto­
res. Valorizava seu saber. Por dizer o que vivia, por fazer o que
falava, Jesus tinha autoridade. A verdade era a expressão do
seu ser. Sua transparência e coerência lhe davam credibilidade.
A sua credibilidade também se deve ao fato dejesus se colocar
em continuidade com várias correntes teológicas do Primeiro
Testamento, especialmente da profecia.

5.7 Os mais pobres


Na base da pirâmide social da Palestina, encontrava-se a grande
maioria da população. Era gente pobre e excluída pelo sistema econô-
mico, político e religioso da época. Era a camada de escravos, migran­
tes, mendigos, bandidos, doentes mentais, endividados, prostitutas e
desempregados.
Esses grupos todos é que sofriam o maior peso da opressão ro­
mana e local, seja da família dos Herodes, seja dos saduceus. E mais.
Além da opressão dos romanos e de seus capachos na Palestina, tinham
que carregar outro peso. Como vimos, era o peso da religião judaica da

176
forma como as lideranças a impunham a partir do templo e da sinagoga
(Mt 23,1-4).
Além de sofrer tudo isso, tinham que suportar o desprezo da par­
te dos que se achavam os puros, os bons, os fiéis praticantes da religião
(Jo 7,49; Lc 18,9-14).
Em meio aos pobres, havia gente com fome e com sede, pois fal­
tava comida, e água não se encontrava (Mc 8,1-2; Mt 25,35). Pessoas
sem teto viviam como andarilhas (Mt 25,35). Outras nem roupa tinham
para se vestir (Mt 25,36). Podia-se encontrar doentes e pobres em toda
parte (Mt 8,16; ll,5 ;J o 5,1-4). Nas prisões (Mt 25,36), estavam especial­
mente pessoas endividadas (Mt 18,30) e presos políticos, como João
Batista (Mt 4,12; 11,2), Barrabás (Mt 27,15-16) e o próprio Jesus (Mt
26,48; Lc 22,33). O povo estava cansado, pois o fardo da opressão era
muito pesado (Mt 11,28-30). Havia muito desemprego (Mt 20,3.6). As
dívidas aumentavam (Mt 6,12; 18,24-28). A insegurança era muito gran­
de. Havia assaltos violentos (Lc 10,30). A massa pobre estava abando­
nada como ovelhas sem pastor (Mc 6,34), e a repressão era tão grande
que havia muito medo (Jo 7,13; 16,33).
Mas, apesar de tão sofrido, esse povo ainda tinha fé (Mc 9,24).
Esperava pela vinda do Messias, pela intervenção de Deus em favor dos
pequeninos. Muita gente esperava um Messias da linhagem de Davi que
trouxesse a libertação (Mt 21,9). Boa parte do povo aderia a grupos de zelo­
tas, ou ao movimento batista. Também Jesus se solidarizou com ele e orga­
nizou seu próprio movimento. A esperança começava a vencer o medo.
O jeito como Jesus se relacionava com o Deus da vida refletia-se
na forma como tratava o povo. Tudo o que fazia estava em função da
vida. Falava muito em parábolas (Mt 13). Por um lado, as imagens do
cotidiano ajudavam a compreender melhor seu recado. Por outro, esse
método de comunicação é bem coerente com toda a sua metodologia
de trabalho. Em tudo, ajuda as pessoas a serem sujeitos de sua própria
caminhada. As parábolas também indicam nessa direção. Querem levar
a quem as escuta à descoberta do seu sentido. Raras vezes, Jesus inter­
preta uma parábola. O ouvinte é o sujeito da interpretação. Deve desco­
brir por si mesmo. Por isso, muitas delas terminam com uma pergunta,

177
ou h;í perguntas nelas inseridas, para que o interlocutor reflita. Veja, por
exemplo, Lc 7,41-42; 10,29-37; 15,4-10; Mt 18,12-14; 20,1-16; 21,28-31!
As parábolas também servem para mostrar que o sagrado está na
vida cotidiana das pessoas e não nos espaços exclusivamente religiosos.
Jesus não falou do Reino, apontando para o templo, para os ritos, para a
oração. Mas fez as pessoas olharem e refletirem a partir das coisas do
seu dia-a-dia, como a pesca, a agricultura, o pastoreio, os serviços
caseiros. Acima de tudo, o sagrado está na vida.
No decorrer do nosso estudo, você já pôde ver como Jesus teve
compaixão especialmente de quem era mais pobre, resgatando sua dig­
nidade e libertando de tudo que oprimia. A seguir, olharemos um pouco
mais de perto apenas dois grupos dentre os mais excluídos do sistema
oficial da religião judaica. É o caso das mulheres e das pessoas doentes.

Jesus e as mulheres
A sociedade e a família eram patriarcais. Na casa, o pai era o cen­
tro de tudo. Tinha toda autoridade e todos os membros lhe deviam obe­
diência. A mulher, enquanto estava na casa paterna, pertencia ao pai.
Depois, ao marido. Em tudo era submissa. Enquanto esposa, sua fun­
ção era dar prazer ao marido, cumprir bem o papel de mãe e realizar os
afazeres do lar (Tt 2,4-5). Nas famílias pobres, também ajudava na roça.
Na sinagoga, ela tinha um lugar separado dos homens. Pelo menos
na Palestina, não podia estudar, nem ser discípula dos rabinos, os escribas.
Era excluída da vida pública na cidade e nas aldeias. Quando saía
de casa, tinha que se cobrir com um véu para manter seu anonimato e
esconder seus cabelos, pois eram tidos como sedutores. Ninguém podia
cumprimentá-la ou dirigir-lhe palavras em público. Jamais podia ser juí­
za e seu testemunho era colocado em dúvida. Não tinha direitos nem
podia herdar propriedades. Já as mulheres ricas usufruíam de certos pri­
vilégios. É verdade também que, nas aldeias do interior, tudo isso não
era levado tão a sério.
Diante dessa realidade, Jesus inaugura um novo modo de se rela­
cionar com as mulheres. Ao analisar sua nova prática em relação a elas,
percebemos o quanto rompeu com os tabus que lhes haviam sido im ­

178
postos. Dessa forma, Jesus levou adiante a luta das mulheres que ja vi
nham se rebelando contra a discriminação das mulheres promovida
pela religião do 2o templo, como foi o caso dos grupos que estão por
trás dos livros de Cantares, de Rute, de Ester e de Judite.
Para que você possa conferir o novo relacionamento e a restaura
ção da dignidade das mulheres, listamos a seguir as principais atitudes
dejesus em relação a elas e como as mulheres incidem na vida dejesus.
• Enfrenta a estrutura patriarcal: Mt 23,9; Mc 10,28-31.
• Resgata a radical igualdade entre homens e mulheres: Mt
5,31-32; 19,1-6.
• Admite-as em sua companhia como discípulas: Mc 15,41; Lc
8.1-3; 10,38-42.
• Tem amigas, hospedando-se em suas casas: Lc 10,38-42; Jo 11;
12.1-8.
• Promove sua cura: Mc 1,29-31; 5,21-43; 7,24-30; Lc 13,10-17.
• Defende-as diante de fariseus e escribas: Lc 7,36-50;Jo 8,2-11.
• Por causa delas, enfrenta as lideranças da sinagoga: Lc 13,10-17.
• Aprende delas, descobrindo o sentido universal de sua missão:
Mc 7,24-30.
• E solidário com a mãe enlutada: Lc 7,11-17.
• Perdoando a adúltera, desmascara a manipulação da lei: Jo
8, 1- 11.
• Supera a lei de impureza, deixando-se tocar por elas: Mc
1,29-31; 5,21-43.
• Antepõe as prostitutas aos fariseus: Mt 21,31.
• Admite ser ungido por mulheres: Mc 14,3-9; Mt 26,6-13; Lc
7,36-50; Jo 12,1-11.
• Apresenta a mulher como:
- Modelo de partilha: Mc 12,41-44.
- Modelo de discípula: Mc 15,40-41.
- Modelo de perseverança na oração: Lc 18,1-8.
- Símbolo do Reino: Mt 13,33.
- Símbolo do amor de Deus: Lc 15,8-10.

179
* N , m > | > i n h u > ( h i i s i -.i s :

no inu io ihi vicia pública de Jesus: Jo 2,1-12.


- na cvangelização do povo samaritano: Jo 4,1-42.
- na confissão de fé: Jo 11,27.
- na cruz: Jo 19,25-27; Mc 15,40-41.
- na sepultura: Mc 15,47.
- na ressurreição: Jo 20,1-20; Lc 24,1-8.
Ao analisar as diversas situações acima, você pôde perceber o im ­
portante papel das mulheres no movimento de Jesus. Cumprem fun­
ções de protagonismo na sua comunidade. É verdade que não estão
entre os 12 destacados dentre um grupo maior, conforme as comunida­
des que elaboraram os evangelhos. Porém, como já vimos, as comuni­
dades seguem o modelo dos patriarcas das 12 tribos de Israel. Portanto,
é natural que os seus 12 também sejam homens, tal como foram
aqueles.
^ . Mas não podemos esquecer que também havia mulheres “envia­
das”, isto é, “apóstolas”. É, por exemplo, o caso de Maria Madalena,
quando foi enviada para anunciar a boa-nova da ressurreição (Jo
20,17-18). Por isso, recebeu das primeiras comunidades o título de
apostola dos apóstolos”. As mulheres do movimento de Jesus estão
plenamente integradas no seu grupo. Os verbos “seguir”, “servir” e
“subir” sinalizam nessa direção (Mc 15,40-41; Mt 27,55). Aquelas que se
integraram no grupo de Jesus certamente foram mulheres que tinham
relativa autonomia em relação às restrições culturais de seu tempo.
Certamente terão sido menos do que os homens. Isso é de fácil
compreensão, quando nos situamos naquele contexto fortemente pa­
triarcal. Porém, não podemos esquecer que o apóstolo Paulo saúda Jú-
ma como apóstola proeminente, importante. Informa, inclusive, que ela
já se tornara apóstola antes dele (Rm 16,7). Júnia não é citada nos evan­
gelhos. Mas certamente somou forças com aquelas que já seguiam Jesus
antes de sua morte.
Além de sua prática em relação às mulheres, convém não esque­
cer um aspecto importante em relação à pessoa de Jesus. Ele vive de
forma equilibrada as assim chamadas características psicológicas

180
masculinas e femininas. Nele, j><>t exemplo, podemos encontrar tanto a
firmeza como a ternura. I )iietenieiuenie do modelo masculino na cul­
tura patriarcal, Jesus é pessoa sensível, que sabe amar e perdoar. Sente
compaixão pelas pessoas mais sofridas, consolando quem chora. Mas
ele sabe também chorar. Cultiva uma relação especial com as mulheres,
as crianças, os homens e com Deus.

Para você continuar a reflexão

Leia Lc 7,36-50: a) C) que o texto nos revela sobre a situação da


mulher naquele tempo? b) Qual o significado da atitude da mulher? c)
Qual a reação do fariseu Simão? d) Qual o significado da atitude d e je ­
sus em relação à mulher? e) O que o texto diz para a luta das mulheres
hoje?
A partir de Mc 14,3-9: a) O que significam as palavras d ejesus
pronunciadas no v. 9? b) Por que não foi lembrado o nome desta mu­
lher? c) Junto às mulheres de sua comunidade, procure descobrir o que
esse texto lhes fala!

Jesus e os doentes

As pessoas enfermas eram pobres por excelência (Mt 11,2-6).


Por isso, como já dizíamos acima, junto com o perdão oferecido gratui­
tamente, as curas eram uma outra forma importante de libertação. Isso
ainda fica mais claro, quando se sabe que doentes caíam sob a acusação
de estarem assim por merecerem a doença como retribuição pelos seus
pecados.
Nos evangelhos, são narrados 35 milagres ou sinais. Desses, 26
são curas de pessoas bem concretas, incluindo os exorcismos e as res­
surreições. Além delas, ainda são mencionadas curas feitas em massa
(Lc 4,40-41; 5,15; 6,18-19; 7,21-23; 9,11).
A seguir, vai um quadro dos milagres ou sinais narrados nos
evangelhos.

181
Milagres ou sinais de Jesus narrados nos evangelhos
Marcos Mateus Lucas João
Ju n to à n a tu reza
Tempestade acalmada 4,35-41 8,23-27 8,22-25
Primeira partilha dos pães 6,30-44 14,13-21 9,10-17 6,1-15
Caminhando sobre a água 6,45-52 14,22-33 6,16-21
Segunda partilha dos pães 8,1-10 15,32-39
Figueira infrutífera 11,12 -14 21,18-22
Moeda na boca do peixe 17,24-27
Pescaria no Evangelho de Lucas 5,4-11
Água e vinho em Caná 2,1-12
Pescaria no Evangelho de João 2 1,1-14

Ju n to a p essoas
Doente possesso de Cafarnaum 1,21-28 4,31-37
Sogra de Pedra 1,29-31 8,14-15 4,38-39
Leproso 1,40-45 8,2-4 5,12-16
Paralítico de Cafarnaum 2,1-12 9,1-8 5,17-26
Mão atrofiada 3,1-6 12,9-14 6,6-11
Doente mental possesso de Gerasa 5,1-20 8,28-34 8,26-39
Ressurreição da filha de Jairo 5,21-2 9,18-19 8,40-42
5,35-43 9,23-26 8,49-56
M ulher com hemorragia 5,25-34 9,20-22 8,43-48
Filha possessa da siro-fenícia 7,24-30 15,21-28
Surdo-mudo 7,31-37
Cego de Betsaida 8,22-2
pjpiléptico possesso 9,14-2 17,14-21 9,37-43
Cego de Jericó 10,46-5 20,29-34 18,35-43
Servo do centurião de Cafarnaum 8,5-13 7,1-10
Mudo possesso 9,32-34 11,14 -15
Dois cegos de Cafarnaum 9,27-31
Cego e mudo possesso 12,22-2
Ressurreição do filho da viúva de Naím 7,11-17
M ulher encurvada possessa 13,10-17
Hidrópico 14,1-6
Dez leprosos 17 ,11-19
Orelha do servo do sumo sacerdote 22,50-51
Filho do funcionário real 4,46-54
Paralítico da piscina de Betesda 5,1-15
Cego de nascença 9,1-41
Ressurreição de Lázaro 11,1-4 4

182
Os milagres são sinais da força do Reino de Deus e promovem a li
bertação das pessoas dos mais diversos males. Revelam a ação de Deus
em jesus de Nazaré e mostram que sua prática tinha em vista recuperar a
vida das pessoas, integrando-as novamente no convívio da comunidade.
Quais são os sinais do Reino que nós realizamos hoje? Diante
dos sinais realizados por Jesus, precisamos nos perguntar se nós esta­
mos provocando os mesmos efeitos na vida do povo. Jesus, por exem­
plo, repartiu o pão. Para nós, a pergunta deve ser: o que fazemos para
contribuir na superação da fome e da injustiça social hoje?

As curas e a fé

Por um lado, as curas sãc >sinais da presença amorosa e atuante de


Deus na vida. Revelam a presença misteriosa de Deus nos aconteci­
mentos da natureza e na vida das pessoas.
Mas não são apenas ação unilateral de Deus. São também fruto
da fé. Acreditar, por um lado, é ter a capacidade de despertar dentro de
si e em outrem o agir divino, a sua força que nos transforma. E um po­
der que está além de nós c* que é capaz dc realizar o impossível. De ou­
tro lado, crer é despertar a nossa própria energia vital. E superar o medo
e ativar nosso poder interior, ( iomo podemos ver, fé não é magia. Mas é
uma opção, uma reoricntaçâo de nossa vida.
Mais do que ter como objetivo a conversão das pessoas ao grupo
d ejesus, sua atividade curativa era antes fruto da fé das pessoas. Veja,
por exemplo, que Jesus, várifts vezes, exigia a força da fé antes da cura.
Ou dizia depois da cura que ela fora conseqüência da fé das pessoas.
Você pode conferir a importância da fé em alguns dos seguintes textos:
Mt 8,10.13.26; 9,2.22,28*29; 13,58; M,31; 15,28; 17,20; 21,21-22; Lc
7,50; 17,19; 18,42;Jo 14,12,
Essa visão sobre i l CUfli feitas por Jesus nos ajuda a superar a fé
mágica ainda muito prelffttt BO povo. Espera-se uma solução de Deus
como se ele fosse um májjifiti. O agir divino não produz magia. Ele ope­
ra em quem deixa que Süá t f l a p transforme. Exemplo disso, foi quan­
do Jesus se negou a triflifaflfltip cd ras em pão (Mt 4,1-4). Seu projeto é
outro. É partilhar o pio (M i 14*13-21).
Em Ap 3,20, o autor do Apocalipse partilha conosco sua espiri­
tualidade. Diz ele que Deus está à porta de nossa casa e bate. Se abrir­
mos, ele entra. Abrir nosso ser, para que Deus nele entre e o molde de
acordo com seus planos, é um sublime ato de fé. Jesus não vem dando
coices na porta para arrebentá-la. Apenas bate. Se o acolhemos, então
faz comunhão de vida conosco, ceia com a gente.

Continuar a atividade curativa de Jesus

Em sua comunidade, como está organizada a pastoral de saúde


alternativa? Há um movimento organizado com vistas a garantir um
atendimento digno no sistema de saúde pública?
Continuar a ação curativa dejesus em nossos dias é mais do que isso.
Entre outras coisas, certamente é ajudar as pessoas a serem sujei­
tos de sua própria cura, da luta para resolver as causas que as tornam do­
entes e dependentes.
Como Jesus, podemos valorizar cada pessoa, devolvendo-lhe sua
autoconfiança, sua autoestima. Jesus curava a “mudez” de pessoas que
foram emudecidas, de modo que passavam a dizer sua própria palavra,
muitas vezes trancada em seu peito há muito tempo. Já não mais fala­
vam as palavras que a ideologia dominante queria que reproduzissem. E
ao falarem sua palavra, passavam a ser outras pessoas. Melhor dito, pas­
savam a ser elas mesmas, porque antes é que eram outras, diziam a pala­
vra de outras. Até que ponto nós ajudamos ou permitimos às pessoas
dizerem sua palavra? Veja Mt 9,32-34; 12,22-24!
Jesus foi além. Não curava somente a mudez, mas também a
“surdez”. As pessoas não apenas passavam a ouvir, mas eram capazes
de escutar com seus próprios ouvidos. Passavam a escutar coisas que
antes lhes passavam despercebido. Como nós podemos curar a “sur­
dez” reinante em nosso meio? Não deixe de ler Mc 7,31-37!
E mais. Também a “cegueira” desaparecia. Uma vez curadas, as
pessoas passavam a não somente ver as coisas, mas enxergavam a vida
como ela é, sem máscaras, sem camuflagem. Passavam a enxergar cada
vez mais claramente, como num processo de tomada de consciência.
Viam com seus próprios olhos. Não mais sob a ótica do olhar hegemôni­

184
co de então. O que significa hoje abrir os olhos para a realidade, a fim dc
enxergar além do que a mídia nos mostra? Confira Mc 8,22-26; 10,46-52!
E como conseqüência desse novo falar, dessa nova maneira dc
escutar e desse novo jeito de enxergar, as pessoas passavam a discernir
com sua própria consciência. Passavam a ser donas de seu pensar. A
mentalidade que dominava suas mentes era “expulsa” e começavam a
fazer suas próprias escolhas conscientemente, como você já leu em Mc
5,1-20 (cf. v. 15).
Resultado disso tudo era que voltavam a caminhar com suas pró
prias pernas. Sua “paralisia” era curada e já não eram mais pessoas mani ­
puladas como fantoches ou marionetes, mas tornavam-se sujeitos do seu
próprio caminhar, da sua história. Agora, não eram mais carregadas ou te­
leguiadas, mas eram elas mesmas as donas de seu destino. Leia Mc 2,1-12
e perceba o importante papel da comunidade na cura do paralítico!
A atividade “exorcista” de Jesus, na verdade, é sua luta contra o
poder do antirreino que está instalado no coração, na consciência e no
corpo das pessoas, impedindo-as de serem elas mesmas, de pensarem
por si, de falarem sua palavra, de escutarem com seus ouvidos, de en­
xergarem com seus próprios olhos, por fim, de serem os sujeitos de sua
própria caminhada.

Atividade “exorcista” de Jesus

Nas páginas 171 a 174 do volume anterior, você já leu sobre a


origem da crença nos demônios em Israel. E sobre a demonologia
na época dos gregos, você leu nas páginas 39 e 40.
Devido à importância da prática “exorcista” na vida de Jesus
e em nossos dias, achamos conveniente voltar a esse assunto.
Em primeiro lugar, o que são demônios? Segundo a demono­
logia da época, são espíritos contrários a Deus com poder de apode-
rar-se das pessoas, tornando-as incapazes de entrar em comunhão
com o Espírito de Deus e produzindo malefícios em seus corpos e
sua vida. E uma crença pré-científica que atribui aos demônios to­
dos os males sem explicação. E o caso de enfermidades diversas
(Mc 1,32-34), das doenças mentais (Mc 5,1-20; cf. v.15), da epilepsia

185
(Mc 9. |.| 2')), da mudez (Mt 9,32-34), da cegueira (Mt 12,22-24), do
corpo encurvado (Lc 13,10-17). Essa crença era comum no tempo
dc Jesus. Para cada mal, imaginava-se um tipo de demônio. O chefe
de uma legião de demônios era chamado de Belzebu (Mc 3,22). E
seu poder era forte. Por isso, um aspecto importante da missão de
Jesus é “amarrar o forte” (Mc 3,27), de modo que possa ser, aos
poucos, vencido pelo poder do Reino.
Havia acusações mútuas entre chefes do Judaísmo e comuni­
dades cristãs. De um lado, escribas diziam que Jesus agia em nome
do diabo. De outro, segundo a comunidade joanina, Jesus acusa au­
toridades judaicas de fazer as obras do pai delas, isto é, o diabo, o pai
da mentira (Jo 8,41.44).
Conforme a crença, os demônios não só podem provocar
doenças físicas e mentais às pessoas, mas também podem movê-las
a se oporem ao projeto de Deus. Nesse sentido, ao se oporem ao
projeto de Deus em Jesus, Pedro e Judas são chamados de posses-
sos, personificando Satanás (Mt 16,23; Lc 22,3).
Essa mentalidade, comum na época, era tipicamente apoca­
líptica. Os apocalípticos acreditavam que a batalha final entre o
Messias com seus anjos e Belzebu com seus demônios já havia
chegado.
Confira, agora, os diferentes termos usados para chamar os
demônios nos evangelhos e no Apocalipse, bem como algumas ci­
tações correspondentes:
• Satanás (adversário, acusador): Mt 4,10; 12,26.
• Demônio: Mt 7,22; 8,31; 9,33-34.
• Diabo (que separa, que divide): Mt 4,1.5.8.11; 13,39.
• Espírito imundo ou impuro: Mt 10,1; 12,43; Mc 1,23.26-27.
• Serpente: Ap 12,9.14-15.
• Dragão: Ap 12,3-4.7.9.13.16-17.
A atividade “exorcista” dejesus quer mostrar que o poder do
Reino de Deus está vencendo o poder de Satanás que se apodera
das pessoas e as oprime, tirando-lhes a capacidade de escutar, de en­
xergar, de falar e de pensar, impedindo-as de serem sujeitos de sua
própria caminhada (Mt 12,28).
186
Para as comunidades de Marcos, o poder do Reino em Jesus
de Nazaré vai, aos poucos, vencendo o poder das forças do antirrei-
no, que se manifesta de várias formas. Primeiro, na lei, simbolizada
por escribas e pela sinagoga em Cafarnaum (Mc 1,21-28). Depois,
nas legiões romanas que ocupam a Palestina, oprimindo o povo
(Mc 5,1-20). Em seguida, na lei de pureza étnica em Tirò (Mc
7,24-30). Em quarto lugar, nas doenças (Mc 9,14-29). Depois, na
mentalidade oposta aos propósitos de Deus (Mc 8,32-33). Por fim,
no templo, onde Jesus expulsa “demônios” bem concretos (Mc
11,15-18). As forças do templo, como forças contra o Reino, tam­
bém estão presentes nos escribas enviados, por Jerusalém, para acu­
sar Jesus de possesso (Mc 3,22-30; cf. v. 22).
Como se manifesta em sua comunidade a crença na posses­
são demoníaca? O que fazer para contribuir na superação dessa
compreensão equivocada de possessão? Quem, de fato, são os de­
mônios fortes que dominam corações e mentes? O que significa ex­
pulsar espíritos impuros em nossos dias?

6 Paixão, morte e ressurreição

‘Tor que procurais entre os mortos


aquele que está vivo?”
(Lc 24,5)

Certamente, o significado da paixão, morte e ressurreição de Je ­


sus é um acontecimento único e de muita profundidade. Nosso objeti­
vo não é esgotar a questão. Propomo-nos a tão somente levantar
algumas pistas.
Jesus tinha consciência de que as mudanças não viriam sem ferir
interesses. A reação dos incomodados seria a perseguição, a calúnia. Por
isso, sabia que o ódio não tardaria. Não é por acaso que encontramos
várias referências nos evangelhos à questão da perseguição (Mt
5,10-12.44; 10,22-23; Jo 15,18-20). Confira!

187
A paixão de Jesus não foi sem motivos. Seu sofrimento foi con­
seqüência de uma vida comprometida com a causa da justiça, da compai­
xão por quem é desprezado. Por isso, sua morte tem sentido. Não foi
em vão. A cruz dá sentido ao sofrimento de quem ainda hoje sofre per­
seguição, desprezo e calúnias por amor à justiça do Reino (Mt 5,10-11).

A prisão
Antes de seguir sua leitura neste volume, pedimos-lhe o favor de
ler em sua Bíblia os relatos sobre a prisão dejesus, fazendo um levanta­
mento de quem foi prendê-lo e a mando de quem (Mt 26,47-57; Mc
14,43-52; Lc 22,47-53; Jo 18,2-11)!
Você pôde perceber que Jesus foi preso por um destacamento
militar romano e por guardas do templo, enviados pelos fariseus (Jo
18,3), sumos sacerdotes, escribas e anciãos (Mc 14,43). Estavam inte­
ressados em sua morte a maioria dos donos do poder econômico,
político e da religião.

O julgamento
Antes de prender Jesus, as elites de Jerusalém e todo o sistema do
templo já haviam procurado desacreditá-lo diante do povo. Acusa­
ram-no de glutão, de beberrão e amigo de pecadores (Mt 11,19), que an­
dava com publicanos (Lc 15,1-2), que não jejuava (Mc 2,18), que
enlouquecera (Mc 3,20-21), que estava possesso (Mc 3,22; Jo 10,20) e
que era samaritano (Jo 8,48). E ainda hoje também não se procura des­
moralizar ou demonizar as lideranças na luta pela terra ou outras
organizações populares?
Depois de preso, Jesus foi levado amarrado aos sumos sacerdo­
tes, maiores autoridades do templo (Jo 18,12-14).
Segundo os evangelhos, Jesus foi julgado por três tribunais: o si-
nédrio, o tribunal romano e o tribunal do rei Herodes Antipas.
O primeiro a condenar Jesus à morte foi o sinédrio, tribunal re
gioso e jurídico dos judeus.
Sobre a condenação no sinédrio, você pode ler em Mt 26,57-27,2;
Mc 14,53-15,1; Lc 22,66-23,1; Jo 18,12-14.
188
As principais acusações que os diferentes grupos fazem a Jesus
são:
• é uma ameaça ao templo (Mc 11,15-19; 14,58) e quer dcstruí-lo
(Mc 14,58);
• blasfema por se apresentar como Messias e filho de Deus (Mc
14,61-62; Lc 22,66-71; Jo 19,7);
• não cumpre a lei do sábado (Mc 2,23-28; 3,1-6; Lc 13,10-16);
• critica a lei escrita e oral (Mc 7,1-23);
• desmascara as autoridades (Mt 21,23.33-46; Jo 8,37-59);
• conscientiza e organiza o povo (Jo 11,45-54).
Muitas vezes, se inclui todo o povo naqueles que condenaram Je ­
sus à morte. Com facilidade se diz que o povo todo gritava “Crucifi-
ca-o!”. Aí precisamos esclarecer três questões. A primeira é que o pátio,
onde Pilatos apresentou Jesus e Barrabás ao povo, não era tão grande
assim, de modo que a multidão presente na festa da Páscoa pudesse
toda ela aí estar. Em segundo lugar, é preciso dizer que a maioria dos ju­
deus que ali estavam naquele momento eram daqueles que tinham inte­
resse na morte de Jesus. Já vimos que a grande maioria dos habitantes
dejerusalém vivia em função do templo. Dele dependia sua sobrevi­
vência. É natural, portanto, que a postura profética de Jesus em relação
ao santuário não tenha sido do agrado deles. Por último, é preciso dizer
que os presentes no local foram manipulados pelos saduceus (anciãos c
sacerdotes), como dão a entender os próprios evangelhos. Não deixe de
ler Mt 27,20 e Mc 15,11!
Depois desse julgamento pelo sinédrio, Jesus é julgado pelo tri­
bunal civil romano, representado pelo procurador Pôncio Pilatos. Os
textos que relatam esse julgamento você encontra em Mt 27,11-26; Mc
15,2-15; Lc 23,2-5.13-25; Jo 18,28-19,1.4-14.
Diante do representante do império, as autoridades judaicas acu­
sam Jesus de subversivo. Percebem que sua prática também tem conse­
qüências políticas. Quatro são as acusações:
• Ele é contra o pagamento de impostos a César (Lc 23,2; Mc
12,13-17).
• Quer ser Messias e rei (Mc 15,26; Lc 23,2; Jo 19,12).

189
• Ele é agitador que organiza o povo para se sublevar (Lc
23,5.14).
• É um malfeitor (J o 18,30).
Equivocadamente, tem-se dito que o Reino que Jesus anunciou e
somente para o céu, uma vez que se pode encontrar em Jo 18,36 a se­
guinte afirmação em sua boca: ‘“Meu Reino não é deste mundo... . Cer­
tamente, o Reino será pleno na vida
"Encontramos este homem futura. Mas ele já começa nesta vida.
a subverter nossa nação, Por isso, gostaríamos de deixar claro
impedindo que se pague que, ao assim falar, Jesus quer dizer
os impostos a César que a proposta do Reino de Deus não
e pretendendo ser é como os reinos de seu tempo. Nem
Messias rei." como o de Herodes, muito menos
l (Lc 23,2) como o do império. Seu Reino está
baseado em outros fundamentos, como o poder-serviço, a partilha a
justiça, a misericórdia e a fidelidade. Em Jo 17,14-16, fica claro que Je ­
sus e a sua comunidade estão no mundo, mas não sao deste mundo, isto
é sua proposta de vida não cabe nas estruturas injustas. E assim que de­
vemos compreender a afirmação de que “não se pode colocar vinho
novo em odres velhos” (Mc 2,22). Em outras palavras, para um novo
tipo de relações com Deus, com as pessoas e com a natureza, faz-se
também necessário que se construam novas estruturas religiosas, socia­
is políticas e econômicas.
Segundo o Evangelho de Lucas, há um terceiro julgamento. Quan­
do Pilatos soube que Jesus era galileu, transferiu-o para a jurisdição de
Herodes (Lc 23,6-7). Este o interroga, devolvendo-o a Pilatos (Lc
23 8-12) que pronuncia a sentença de morte (Lc 23,24). Lc 23,12 nos
inform aque, para eliminar um líder popular, Herodes e Pilatos volta­
ram a fazer as pazes.
Não parece, ainda hoje, ser essa a prática dos “Herodes e Pila-
los” ? Enquanto isso, não lhe parece que muitas organizações populares
dispersam suas energias, lutando de forma isolada e dividida? Como
você identifica essa situação em sua realidade?

190
A crucificação
Como já vimos, a morte humilhante na cruz cra a pena de morte
romana. A pena máxima judaica era o apedrejamento (Lv 20,2.27) ou a
fogueira (Lv 20,14). No Cristianismo iniciante, conhecemos o caso do
apedrejamento de Estêvão (At 7,55-60). Esse caso nos dá a entender
que o sinédrio tinha autonomia para aplicar a pena de morte sem sub­
meter a questão aos romanos. Nesse sentido, a morte na cruz vem con­
firmar o interesse que também o império tinha em liquidar com Jesus de
Nazaré e, consequentemente, com seu movimento.
Jesus experimentou em sua própria carne o pior que a humanida­
de pode produzir: sofrer a pena de morte injustamente. Experimentou a
covardia, a ambição e a traição. Experimentou a crueldade e a prepotên­
cia do ser humano.
Sua morte em favor da multidão, as pessoas sob o peso da cruz
neste mundo, foi uma denúncia da violência cometida por um sistema
que exclui e mata. Por isso, sua morte tem um sentido maior. E doação,
é compaixão, é serviço. Não é derrota. É vitória. Na fraqueza do crucifi­
cado, revela-se, na verdade, a grandeza do amor de Deus.
Jesus morre como um profeta, caminhando para a morte de for­
ma consciente e voluntária. Não morre por masoquismo, isto é, pelo
prazer de sofrer. Mas dá sua vida por uma causa que é de toda a humani­
dade, como expressão de solidariedade universal. Nesse sentido, ele doa
sua vida por todas as pessoas de seu tempo e de todos os tempos, por­
que lutou para que, em qualquer lugar e em qualquer época, todo ser hu­
mano tenha vida e vida em abundância.
Sua crucificação foi também conseqüência da obediência incon­
dicional ao Pai (F1 2,8). Foi fiel até o fim. Não fugiu nem recuou diante
da morte. Não traiu seu projeto de fidelidade aos “pecadores e publica-
nos”. E neles, manifestou sua solidariedade para com toda a humanida­
de. Por isso, sua morte não foi fruto de resignação ou submissão, mas
de fidelidade ao Pai e aos pobres.
Na cruz, Jesus pôde contar com o conforto e o apoio corajoso dc
sua mãe e de outras mulheres que faziam parte do movimento missio­
nário. Foram-lhe fiéis até o fim.

191
A ressurreição
Inicialmente, a comunidade de discípulos e discípulas experi­
mentou a morte d ejesus como fracasso, como o fim de todas as espe­
ranças (Lc 24,13-24).
Aos poucos, no entanto, vão percebendo sua presença viva na
comunidade que acolhe os forasteiros em sua casa e partilha com eles o
pão sobre a mesa (Lc 24,25-32). A partir dessa experiência com Jesus
vivo presente em seu meio, voltam a se encontrar, pois haviam se dis­
persado (Lc 24,33-35).
Com o assassinato dejesus, nem o poder da religião nem o poder
do império conseguiu matar seu projeto. Jesus continuou vivo nas co­
munidades que levaram adiante o anúncio e a vivência do Reino de
Deus. Jesus continuou presente através de seu espírito (Lc 24,49). Ele é
a “força” mesma de Deus que nos anima e conduz em direção ao Reino.
E assim nasceram as primeiras comunidades, animadas pelo
Espírito (Jo 20,22-23; At 2,1-12), anunciando
"Pois onde dois Jesus e vivendo seu Evangelho do Reino com
ou três estiverem coragem e alegria. A vida vencera a morte. A
reunidos em meu esperança vencera o medo da perseguição.
nome, ali estou eu Os evangelhos são unânimes em dizer
no meio deles." que foram as mulheres que primeiro experi­
(Mt 1 8,20) mentaram a presença d ejesu s ressuscitado em
suas vidas (Mt 28,1-8; Mc 16,1-8; Lc 24,1-8; Jo
20,11-18). Isso revela o quanto elas estavam comprometidas como dis­
cípulas no movimento dejesus. Já haviam sido elas que permaneceram
fiéis ajesu s até o fim, junto à cruz (Mt 27,55-56; Mc 15,40-41; Lc 23,49;
Jo 19,25). Não fugiram. Não foram covardes. E foram também elas que
primeiro perceberam que Jesus estava vivo, que seu Espírito continuava
animando as pessoas que permaneciam fiéis a promover ativamente os
ideais do Reino de Deus, da vida plena. Foi graças a essas mulheres que
o projeto do Reino de Deus, revelado em Jesus de Nazaré, não tenha
morrido na cruz. Transformaram a cruz que mata em cruz que gera
vida. De instrumento de opressão e de morte, transformaram a cruz de

192
Jesus em denúncia de todas as forças que destroem a vida. A cruz dc
jesus passa a significar vida e libertação.
Essa cruz ainda hoje nos engaja na luta pela superação de todas
as formas de sofrimento e de morte, a fim de que a vida transformada
de quem padece sob o peso da cruz neste mundo possa manifestar a
glória de Deus e revelar que Jesus e seu projeto continuam vivos no
meio de nós.
Conclusão da 2a parte

Na 2a parte deste volume, primeiro tentamos nos aproximar do


Jesus histórico em dois momentos de sua vida: em Nazaré, durante sua
infância e juventude, e em Cafarnaum, durante sua vida pública.
Depois ficamos conhecendo os três grandes poderes presentes
na Palestina, isto é, o poder imperial, o poder dos Herodes e o poder do
sinédrio. Ao mesmo tempo, vimos a relação de Jesus com eles e sua
proposta de poder participativo a serviço da vida, bem como do resgate
da verdadeira religião. Para Jesus, a verdadeira religião é aquela que li­
berta a pessoa de todas as opressões.
Em seguida, analisamos a divisão política da Palestina no tempo
dejesus de Nazaré. Dentro dessa realidade, situamos os diferentes gru­
pos da sociedade judaica e a posição dejesus diante das propostas de sa­
duceus, herodianos, fariseus e escribas, zelotas, essênios e batistas.
Vimos também seu programa econômico, bem como sua opção em de­
fesa da vida do povo mais pobre.
Por último, levantamos algumas pistas sobre sua paixão, morte e
ressurreição.
Como ponto central deste estudo, vimos que Jesus resgata a reli­
gião libertadora de Israel, desde a época de suas origens e como foi de­
senvolvida pela profecia durante a história.
Em primeiro lugar, Jesus de Nazaré resgata a teologia do Êxodo.
A religião de YHWH nasceu na experiência do Êxodo, na luta
pela liberdade em terra também liberta. Ao se posicionar contra a opres­
são da terra pelos romanos e ao anunciar o “ano da graça do Senhor”
(Lc 4,19), Jesus propõe uma nova partilha da terra. A bem-aventurança
para os sem-terra (Mt 5,5 —em algumas traduções é 5,4) assim reza no
original hebraico: “os pobres possuirão a terra” (SI 37,11). Além disso,
Jesus anuncia a liberdade dos filhos e das filhas de Deus a partir de sua
vivência em plena comunhão com o Deus do Êxodo (Jo 8,24.28.32-36).

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Em segando lugar, a teologia da criação também é central no
projeto de Jesus. Segundo a comunidade joanina, ele mesmo é a Palavra
criadora de Deus, é a luz da vida encarnada entre nós (Jo 1,1-4.14). Sua
preocupação em gerar, defender e promover a vida das pessoas é o cen­
tro de sua atividade missionária (Jo 10,10). Ele mesmo cria a nova cria­
tura a partir do barro e do sopro da vida (Compare Gn 2,7 com Jo 9,6 e
20 ,22).
O terceiro aspecto da religião de YHWH que Jesus retoma é a
teologia da aliança de Deus com seu povo. Como os antigos profetas
esperavam (Jr 31,31-34), Jesus vem renovar a aliança rompida, especial­
mente pela religião oficial que havia se afastado de suas origens (Jo
2,1-12). Coloca novamente o amor como a essência dos mandamentos
(Mc 12,28-31; Jo 13,34), valorizando ou descartando as demais leis so­
mente na medida em que convergem ou não para a promoção da vida
(Mc 2,23-3,1-6).
Em Jesus de Nazaré, a experiência do Deus de amor e de compai­
xão fez dele um homem totalmente livre e independente, corajoso e
destemido, autêntico e verdadeiro, misericordioso e solidário, homem
de fé e de esperança. Ele é o Emanuel. Nesse sentido, Jesus é único. E
mesmo pessoas que se tomaram exemplos de vida para a humanidade,
como Francisco de Assis e Gandhi, ainda ficam muito longe desse
nazareno singular, que continua encantando pessoas no mundo inteiro.

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Para orar e aprofundar

Propomos a você que leia e medite a partir de dois textos. O pri


meiro é o prólogo do Evangelho de João (Jo 1,1-18).
O segundo é o Sermão da Montanha em Mt 5 a 7. Nele, Jesus nos
propõe que revelemos o carinho de Deus a cada pessoa através do jeito
de nos relacionarmos. Gostaríamos que refletisse sobre essa nova for
ma de conviver em todas as dimensões de nossas relações. Confira a
relação com:
• o sagrado (Mt 6,5-15; 7,7-11.21-23);
• as pessoas mais necessitadas (Mt 6,1-4);
• as demais pessoas (Mt 5,21-26.38-49; 7,1-5.12);
• a família (Mt 5,27 -32);
• conosco mesmos (Mt 5,33-37; 6,16-19);
• com a natureza (Mt 6,19-34).

Sugestões de leitura

HOORNAERT, Eduardo. O Movimento de Jesus. São Paulo: FID.


MESTERS, Carlos. Círculos bíblicos. Entre nós está e não O conhecemos, Jesus nosso irmão.
São Leopoldo: CEBI, São Paulo: Paulus.
MESTE^RS, Carlos. Com Jesus na Contramão. São Paulo: Paulinas.
MORACHO, Félix. Como ler os Evangelhos. São Paulo: Paulus.
NOLAN, Albert. Jesus antes do Cristianismo. São Paulo: Paulus.
SCHOTTROF, Luise. Mulheres no Novo Testamento. São Paulo: Paulinas.
THEISSEN, Gerd. Sombra do Galileu. Pctrópolis: Vozes.

196
ISBN 978-85-7733-131-4