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(IHS) Doutrina Católica - Novíssimos Sonho de São João Bosco sobre o Céu - p. 1
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SONHO DE SÃO JOÃO BOSCO SOBRE O CÉU


Vestíbulo do Céu

Fonte: São João Bosco. Aparição de São Domingos Sávio (1876)

Sonhei. Talvez vos pareçam coisas muito estranhas. Mas vós sabeis que com meus
filhos não tenho segredos; abro-lhes todo o meu coração. Pensai do sonho o que quiserdes.
Mas, como diz São Paulo, quod bonum est tenete, se encontrais alguma coisa nele que seja
proveitoso para vossa alma, sabei tirar fruto dela. O que não quiser acreditar, não me creia; mas
ninguém ponha nunca em ridículo as coisas que vou dizer.
Desejaria, além disso, que não o conteis nem comuniqueis por escrito aos que não sejam
da casa. Aos sonhos pode-se dar a importância que merecem como sonhos; e os que não
conhecem nossa intimidade poderiam formar juízos errôneos, designando as coisas com um
nome diferente do que têm na realidade. Não sabem que vós sois meus filhos, e que sempre vos
digo tudo o que sei, e algumas vezes até o que não sei. (Risos gerais). Mas o que um pai
manifesta a seus filhos para o bem destes, deve ficar entre o pai e os filhos, e não sair daí.
E ainda por outra razão. Em geral, ao contar estas coisas fora, ou se desfiguram os fatos
ou somente se conta uma parte, e essa é mal entendida; o que seria prejudicial, pois o mundo
desprezaria o que não deve ser desprezado.
Convém saberdes que ordinariamente os sonhos se têm dormindo. Ora, na noite de 6 de
Dezembro, enquanto estava no meu quarto, não me recordo bem se lendo ou passeando por ele,
ou se já me havia deitado, comecei a sonhar.
De repente pareceu encontrar-me sobre um pequeno monte ou colina, ao bordo de uma
imensa planície, cujos confins se perdiam de vista na imensidade; era azulada como o mar em
calma, se bem que o que eu visse não fosse água; parecia um cristal puro e luzidio. Sob meus
pés, atrás de mim e aos lados via uma região à maneira de um litoral às margens do Oceano.
Largos e gigantescos passeios dividiam a planície em vastíssimos jardins de inenarrável
beleza, todos divididos em pequenos bosques, prados e canteiros de flores, de formas e cores
diversas. Nenhuma de nossas plantas pode dar-nos uma idéia daquelas, se bem que tenham
alguma semelhança.
As ervas, as flores, as árvores, as frutas, eram vistosíssimas e de belíssimo aspecto. As
folhas eram de ouro; os troncos e ramos, de diamante, correspondendo o resto a essa riqueza.
Era impossível contar as diferentes espécies; e cada espécie e cada flor resplandecia com
uma luz especial. Em meio aqueles jardins e em toda a extensão da planície eu contemplava
inúmeros edifícios de uma ordem, beleza, harmonia, magnificência e proporções tão
extraordinárias, que para a construção de um só deles parecia que não bastariam todos os
tesouros da terra.
Eu dizia para mim mesmo: ASe meus filhos tivessem uma só destas casas, como
gozariam, que felizes seriam e com quanto gosto viveriam nela!@ E pensava isto quando podia
ver esses palácios apenas por fora. Qual não seria sua magnificência interna!
Enquanto contemplava extasiado tão estupendas maravilhas como as que adornavam
aqueles jardins, chegou aos meus ouvidos uma música dulcíssima e de tão grata harmonia, que
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não posso dar-vos uma idéia adequada dela. Eram cem mil instrumentos, que produziam cada
um um som diverso do outro, enquanto todos os sons possíveis difundiam pelo ar suas ondas
sonoras. A estes uniam-se os coros dos cantores.
Vi então uma multidão de gente que se encontrava naqueles jardins e se regozijava
alegre e contente. Cada voz, cada nota, tinha o efeito de mil instrumentos reunidos, todos
diferentes uns dos outros. Ao mesmo tempo ouviam-se os diversos graus da escala harmônica,
desde os mais baixos até aos mais altos que se possa imaginar, mas todos em perfeita
harmonia. Ah! para descrever esta harmonia não bastam comparações humanas.
Via-se, pelo rosto daqueles felizes habitantes do jardim, que os cantores não só sentiam
um extraordinário prazer em cantar, mas ao mesmo tempo sentiam uma imensa felicidade ao
ouvir cantar os demais.
E quanto mais um cantava, mais se lhe acendia o desejo de cantar, e quanto mais
escutava, mais desejava escutar.
Seu canto era este: Salus, honor, gloria Deo Patri omnipotenti!... Auctor saeculi, qui
erat, qui est, qui venturus est judicare vivos et mortuos in saecula saeculorum.
Enquanto escutava atônito estas celestes harmonias, vi aparecer uma multidão de jovens,
muitos dos quais tinham estado no Oratório e em outros colégios; a muitos, por conseguinte,
conhecia, sendo-me, não obstante, a maior parte desconhecida. Aquela multidão interminável
dirigia-se para mim. À sua cabeça ia Domingos Savio, e atrás dele D. Alasonatti, D. Chiala, D.
Giulitto e muitos, muitos sacerdotes e clérigos, cada um guiando um grupo de meninos.
Perguntei-me a mim mesmo: ADurmo ou estou acordado?@ E batia palmas e tocava o
peito para certificar-me de que era realidade tudo quanto via.
Chegada aquela multidão diante de mim, parou à distância de oito ou dez passos. Então
brilhou um relâmpago da mais viva luz; cessou a música e seguiu-se um profundo silêncio.
Aqueles jovens estavam possuídos de uma grandíssima alegria, que se refletia em seus olhos, e
em seus rostos se via a paz de uma felicidade perfeita. Olhavam-me com um doce sorriso nos
lábios e parecia que queriam falar, mas não falavam.
Adiantou-se Domingos Sávio só e se manteve perto de mim. Não dizia nada e
olhava-me sorrindo. Como estava formoso! Seu vestido era realmente singular. Caía-lhe até aos
pés uma túnica alvíssima coalhada de diamantes e toda tecida de ouro. Cingia a sua cintura
uma larga faixa vermelha recamada de tantas pedras preciosas que tocavam uma na outra,
entrelaçando-se num desenho maravilhoso, oferecendo tanta beleza de colorido, que eu, ao
vê-lo, sentia-me fora de mim pela admiração.
Pendia-lhe ao pescoço um colar de flores muito perfeitas; parecia que as folhas eram de
diamantes unidos entre si sobre talos de ouro; e assim tudo o resto. Estas flores refulgiam com
luz sobre-humana mais viva que a do sol, que naquele instante brilhava com todo o esplendor
de uma manhã de primavera, refletindo seus raios sobre aquele rosto cândido e rubicundo de
maneira indescritível, iluminando-o de tal forma, que não se podiam distinguir bem os seus
diversos traços.
Levava sobre a cabeça uma coroa de rosas; caía-lhe sobre os ombros em ondulantes
cachos a formosa cabeleira, dando-lhe um ar tão belo, tão afetuoso, tão encantador, que
parecia.. que parecia um serafim!
Não menos resplandecentes de luz estavam os que o acompanhavam. Estavam todos
vestidos de diversas maneiras, mas sempre belíssima; uns mais, outros menos; em um
dominava uma cor; em outro, outra; e cada um daqueles vestidos tinha um significado que
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ninguém saberia compreender. Mas todos tinham a cintura cingida por um faixa vermelha
igual, recamada de pedrarias.
Eu continuava contemplando absorto, e pensava: AQue significa isto?... Como vim parar
a este lugar?@ E não sabia onde me encontrava. Fora de mim, todo trémulo pela reverência que
ele me inspirava, não me atrevia a dizer palavra. Também os demais permaneciam silenciosos.
Finalmente, Domingos Savio abriu os lábios.
C Porque estais aí mudo e como que aniquilado? Não és o homem que em outros
tempos de nada se amedrontava, que arrostava intrépido as calúnias, as perseguições, os
inimigos e as angúsitas e perigos de toda sorte? Onde está o teu valor? Porque não falas?

Eu respondi a duras penas, balbuciando:

C Não sei o que dizer... Mas tu não és Domingos Savio?

C Sim, sou; já não me reconheces?

C E como te encontras aqui? C acrescentei confuso.

Domingos disse então afetuosamente:

C Vim para falar-vos. Quantas vezes conversamos na terra! Não te recordas quanto me
amavas, quantas provas de estima e quantas mostras de amor me destes? E eu não correspondi
porventura a teus desvelos? Era tão grande a minha confiança em ti! Porque temes pois?
Vamos! pergunta-me alguma coisa.

Então, ganhando ânimo, disse-lhe:

C É que não sei onde me encontro; por isto tremo.

C Estás em um lugar de felicidade C respondeu Savio C onde se gozam todas as


venturas e delícias.

C É este, então, o prêmio dos justos?

C Não, por certo. Aqui não se gozam os bens eternos, mas somente, se bem que em
abundância, os temporais...

C Então, todas estas coisas são naturais?

C Sim, se bem que embelezadas pelo poder de Deus.

C E a mim isto me parecia o paraíso! C exclamei.

C Não, não, já vos disse que não!


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C São sons naturais?

C Sim, são sons naturais, aperfeiçoados pela omnipotência de Deus.

C E esta luz que sobrepuja a luz do sol, é luz sobrenatural? É luz do paraíso?

C É luz natural, se bem que reavivada e aperfeiçoada pela omnipotência de Deus.

C E não se poderia ver um pouco da luz sobrenatural?

C Ninguém pode ver enquanto não chegue a ver a Deus sicut est. O menor raio dessa
luz tiraria imediatamente a vida a um homem, porque não há forças humanas que o possam
suportar.
C E pode haver uma luz natural mais formosa que esta?

C Se soubesseis! Se visseis somente um raio de luz natural levada a um grau superior a


este, ficaríeis fora de ti... O que ides ver... Olhai! Vede ali no fundo deste mar de cristal.

Levantei a vista, e ao mesmo tempo apareceu de repente no céu, a uma distância imensa,
uma centelha instantânea de luz, sutilíssima como um fio, mas tão brilhante, tão penetrante,
que lancei um grito, que acordou D. Lemoyne que dormia em um quarto próximo. Aquela
réstia de luz era cem milhões de vezes mais clara que o sol, e seu fulgor bastaria para iluminar
o universo inteiro.

C Isto é um raio divino? C perguntei-lhe apenas recomposto.

Sávio contestou:

C Não é luz sobrenatural, se bem que, comparada com a luz terrestre, a supere em
fulgor. Não esta não é senão luz natural, tornada desta maneira mais viva pelo poder de Deus.
E, ainda que imaginásseis uma imensa zona de luz semelhante à pequena centelha que acabais
de ver no fundo rodeando todo o mundo, nem assim formaríeis uma idéia dos esplendores do
Paraíso.

C E vós, que gozais no Paraíso?

C Ah! Dizer-vos é impossível; o que se goza no Paraíso não há mortal algum que possa
sabê-lo enquanto não deixe esta vida e se reúna a seu Criador. O que quer dizer que se goza de
Deus.

Entretanto, recobrado já pelenamente de meu primeiro aturdimento, contemplava


absorto a extraordinária formosura de Domingos Sávio, e com franquesa lhe perguntei:
C E esta tua veste tão alva e delicada?

Calou-se Domingos Sávio. Continuou então o coro suas harmonias e cantou


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acompanhado de todos os instrumetos:

Ipsi habuerunt lumbos praecinctos et dealbaverunt stolas suas in sanguine Agni.

Quando cessou o canto, voltei a perguntar:

C E esta faixa com que te cinges?

Tampouco desta vez Sávio quis responder.

E então D. Alasonatti cantou o solo:

Virgines enim sunt, et sequuntur Agnum quocumque ierit.

Compreendi então que a faixa encarnada, cor de sangue, era o símbolo dos grandes
sacrifícios feitos, dos violentos esforços e do quase martírio sofrido para conservar a virtude da
pureza; e que, para manter-se casto na presença do Senhor, houvera estado pronto a dar a vida,
se as circunstâncias assim o houvessem requerido. E também que era símbolo das penitências,
que limpam a alma da culpa. A brancura e o esplendor da túnica significavam a inocência
batismal conservada.

Eu entretanto, atraído por aqueles cantos e contemplando todas aquelas falanges de


jovens celestiais formados atrás de Domingos Sávio, lhe perguntei:

C E quem são estes que te rodeiam?

E, dirigindo-me aos demais, disse:

C Como é que todos vós estais tão refulgentes?

Sávio continuou calado, e todos aqueles jovens se puseram a cantar:

Hi sunt sicut Angeli Dei in caelo.

Entretanto dava-me conta de que Domingos parecia ter a preeminência sobre aquela
multidão, que a respeitosa distância se encontrava atrás dele a uns dez passos; então lhe disse:

C Dizei-me, Domingos: sendo tu o mais jovem de muitos dos que te seguem e dos que
morreram em nossas casas, por que vais adiante deles e os precedeis? Por que falas e eles
permanecem calados?

C Eu sou o mais velho de todos eles.

C Não! C repliquei; muitos te avantajam em anos.


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C Eu sou o mais antigo do Oratório C repetiu Domingos Sávio C, porque fui o primeiro
a deixar o mundo e a ir para a outra vida. Ademais, legatione Dei fungor.

C Esta reposta me indicava o motivo da visão. Era o embaixador de Deus.

C Então C disse-lhe C falemos do que neste instante mais nos importa.

C Sim, e pergunta-me logo o que desejas saber. As horas passam, e poderia acabar o
tempo que me foi concedido para falar-vos; e então não me poderíeis ver mais.

C Segundo me parece, tens algum assunto de suma importância a me comunicar?

C Que posso dizer-vos eu, mísera criatura? C disse humildemente Domingos. Do alto
recebi a missão de falar-vos, e por isso vim.

C Assim C exclamei C, fala-me do passado, do presente e do porvir de nosso Oratório.


Fala-me de meus queridos filhos, fala-me de minha Congregação.

C Com respeito a esta, teria muito que comunicar-vos.

C Conta-me, pois, o que sabes: o passado...

C O passado recai todo sobre vós.

C Cometi alguma falta?

C Quanto ao passado, digo-vos que vossa Congregação tem feito muito bem. Vedes lá
embaixo aquele número incontável de jovens?

C Vejo-os C contestei. Quantos são! Que felicidade se reflete em seu rosto!

C Vede o que está escrito na entrada do jardim.

C Posso lê-lo. Diz Jardim Salesiano.

C Pois bem C prosseguiu Domingos; todos eles foram salesianos, ou foram educados
por vós ou foram salvos por vós ou por vossos sacerdotes ou clérigos, ou por outros que
encaminhastes pela via de sua vocação. Conta-os, se puderes. Seu número, todavia, seria cem
milhões de vezes maior se maior tivesse sido vossa fé e confiança no Senhor.

Dei um suspiro, sem saber o que responder a tal reprovação; sem embargo, disse de mim
para comigo: De agora em diante procurarei ter esta fé e esta confiança. Depois disse:

C E o presente?
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Domingos me apresentou um magnífico Abouquet@ que tinha na mão. Havia nele rosas,
violetas, girassóis, gencianas, lírios, semprevivas e entre as flores, espigas de trigo.
Ofereceu-me e disse-me:

C Vede!

C Vejo, mas não entendo nada.

C Dai este ramalhete a vossos filhos para que possam oferecê-lo ao Senhor quando
chegue o momento; procurai que todos o tenham; a ninguém lhe falte nem o deixe tirar. Tende
a certeza de que com ele terão o bastante para serem felizes.

C Mas que significa este Abouquet@?

C Consultai a Teologia; ela vo-lo dirá e vos dará a explicação.

C A Teologia a tenho estudado, mas não saberia como tirar dela o significado do que me
apresentas.

C Pois tendes a estrita obrigação de saber tudo isto.

C Vamos, acalma a minha ansiedade, explica-me tu.

C Vedes estas flores? Representam as virtudes que mais agradam ao Senhor.

C Quais são?

C A rosa é símbolo da caridade; a violeta, da humildade; o girassol, da obediência; a


genciana, da penitência e da mortificação; as espigas, a comunhão freqüente; o lírio indica a
bela virtude da qual está escrito: Erunt sicut Angeli Dei in caelo: a castidade. E a sempreviva
significa que estas virtudes devem durar sempre, e simboliza a perseverança.

C Muito bem, querido Domingos: tu, que durante tua vida praticavas todas estas
virtudes, diz-me: que foi o que mais te consolou na hora da morte?

C Que pensais vós que possa ser? C respondeu Domingos.

C Foi talvez haver conservado a bela virtude da pureza?

C Não, não foi só isto.

C Alegrou-te talvez ter a consciência tranquila?

C Bem, é isto, mas não foi o melhor.


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C Acaso haverá sido teu consolo a esperança do paraíso?

C Tão-pouco.

C O que foi então? O haver acumulado muitas outras boas obras?

C Não, não!

C Então, qual foi teu consolo naquela última hora? C disse-lhe entre confuso e
suplicante, vendo que não lograva adivinhar.

C O que mais me confortou no transe da morte foi a assistência da poderosa e amável


Mãe do Salvador. Dizei-o a vossos filhos; e que não se esqueçam de invocá-la em todos os
momentos de sua vida. Mas... despertai-vos, se quereis que possa ainda responder-vos.

...A respeito do futuro, no próximo ano de 1877 tereis que sofrer uma grande dor; seis
daqueles que vos são mais queridos serão chamados por Deus para a eternidade. Mas
consolai-vos, pois serão transplantados do terreno inculto deste mundo para os jardins do
Paraíso. Serão coroados. Mas não temais. O Senhor vos ajudará e vos mandará outros filhos
igualmente bons.

C Paciência, e no que se refere à Congregação?

C No referente à Congregação, sabei que Deus vos prepara grandes acontecimentos. No


próximo ano surgirá para ela uma aurora de glória tão esplêndida, que iluminará, como o
relâmpago, os quatro cantos do orbe; do Oriente ao Ocaso, desde o Meio-dia ao Setentrião,
enorme glória lhe está reservada. Vós deveis procurar que o carro em que vai o Senhor não seja
afastado de suas guias, nem de sua via pelos vossos filhos. Se vossos sacerdotes o conduzem
bem e sabem fazer-se dignos da alta missão que se lhes confiou, esplêndido será o porvir, e
infinitas as pessoas que se salvarão, com a condição, contudo, de que vossos filhos sejam
devotos da Santíssima Virgem e de que todos os que vivam em vossa casa conservem a virtude
da castidade, que é tão grata aos olhos de Deus.

C Agora queria que me dissesses algo sobre a Igreja em geral.

C Os destinos da Igreja estão nas mãos do Criador. O que determinou em seus infinitos
decretos, não posso revelar. Tais arcanos Ele os reserva exclusivamente para Si, e deles não
participa nenhum dos espíritos criados.

C E Pio IX?

C O que posso dizer-vos é que o Pastor da Igreja terá que sustentar ainda grandes
batalhas sobre esta terra. Poucas são as que ainda lhe restam por vencer. Dentro em pouco será
arrebatado deste solo, e o Senhor lhe dará a merecida mercê. O mais já se sabe. A Igreja não
morre... Tendes ainda alguma coisa a perguntar?
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C E quanto a mim? C lhe disse.

C Oh! se soubésseis por quantas vicissitudes tereis ainda que passar!... Mas
apressai-vos, resta-me pouco tempo para falar convosco.

Então estendi com ardor as mãos para pegar aquele santo filho; mas suas mãos pareciam
de ar e nada pude tocar.

C Que fazeis? C disse-me Domingos sorrindo.

C Temo que te vás C exclamei. Pois não estás com teu corpo?

C Com meu corpo não. Recobrá-lo-ei no último dia.

C Que são, pois, estas linhas que fazem ver em ti a figura de Domingos Sávio?

C Vede; quando por divina permissão vos aparece alguma alma já separada do corpo,
apresenta a vossos olhos a forma exterior do corpo, a quem em vida animou, com todas as suas
formas exteriores, se bem que enormemente embelezadas, e assim os conserva enquanto a ela
não volte a reunir-se no dia do Juízo universal. Então o levará consigo para o Paraíso. Por isto
vos parece que tenho mãos, pés e cabeça; mas vós não podeis tocar-me, porque sou espírito
puro. Esta é só uma forma exterior pela qual me podeis conhecer.

C Compreendo C respondi; mas escuta. Ainda uma palavra. E meus rapazes estão todos
no reto caminho da salvação? Dizei-me alguma coisa para que possa dirigi-los bem.

C Os filhos que a divina Providência vos confiou podem dividir-se em três classes.
Vedes estas três listas?

E entregou-me uma.

C Olha-as!

Olhei a primeira; encabeçava-a a palavra invulnerati, e tinha o nome daqueles a quem o


demônio não pôde ferir, que não mancharam sua inocência com culpa alguma. Eram em grande
número, e vi-os todos. A muitos já os conhecia, outros era a primeira vez que os via, e
seguramente virão ao Oratório nos próximos anos. Iam direto por uma estreita senda, apesar de
serem alvo de flechas, pedradas e lançadas que por todas as partes lhes choviam. Estas armas
formavam como que uma sebe ao longo dos dois lados do caminho, e combatiam-nos e
molestavam sem feri-los.

Então Domingos deu-me a segunda lista, cujo título era Vulnerati, isto é, os que haviam
estado na desgraça de Deus; mas, uma vez postos de pé, já haviam curado suas feridas
arrependendo-se e confessando-se. Eram em maior número que os primeiros, e haviam sido
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feridos no caminho de sua vida pelos inimigos que lhes serviam de sebe durante a viagem. Li a
lista e os vi a todos. Muitos iam curvados e desalentados.

Domingos tinha ainda a terceira lista. Era sua epígrafe Lassati in via iniquitatis, e
continha os nomes dos que estavam na desgraça de Deus. Eu estava impaciente por conhecer o
segredo; pelo que estendi a mão; mas Domingos me interrompeu com presteza:

C Não; aguardai um momento e escutai. Se abrirdes esta folha sairá dela um fedor tal,
que nem vós nem eu poderemos resistir. Os anjos têm que retirar-se cheios de asco e
horrorizados, e o próprio Espírito Santo sente náuseas pela horrível hediondez do pecado.

C E como pode ser isto? C interrompi C, sendo Deus impassível?

C Sim; porque quanto melhores e mais puras são as criaturas, tanto mais se acercam aos
espíritos celestiais; e pelo contrário, quanto piores e mais desonestos e soezes são, tanto mais se
afastam de Deus e de seus anjos, os quais, por sua vez, se afastam delas, que se converteram
em objeto de náusea e de repulsa.

Então deu-me a terceira lista.

C Tomai-a C disse; abri-a e aproveitai-vos dela em benefício de teus filhos; mas não te
esqueças do Abouquet@ que te dei, que todos o tenham e conservem...

Dito isto, e depois de entregar-me a lista, retirou-se em meio a seus companheiros.


Abri então a lista; não vi nome algum, mas num instante me foram apresentados de
chofre todos os indivíduos nela inscritos, como se na realidade eu visse estas pessoas. Com
quanta amargura os contemplei! Na maior parte conhecia-os e permanecem no Oratório e em
outros colégios. Quantos destes parecem bons, e ainda melhores dentre os companheiros, e,
sem embargo, não o são!
Mas, enquanto abria a lista, espalhou-se ao redor um mau cheiro tão insuportável, que
no momento me vi assaltado de acerbíssimas dores de cabeça e de uma fadiga e náuseas tais,
que julgava que ia morrer. Obscureceu-se-me o ar; desapareceu a visão; zigzagueou um raio
que iluminou o local, e retumbou um trovão no espaço, tão forte e terrível, que me despertei
sobressaltado.
Aquele fedor penetrou nas paredes, infiltrando-se em minhas roupas, de tal maneira que
muitos dias depois ainda me parecia sentir aquela pestilência. Agora mesmo, só com
recordá-lo, me vêm náuseas, e me sinto sufocar e se me revolve o estômago.
Em Lanzo, onde me encontrava, comecei a perguntar, ora a um ora a outro; falei com
alguns jovens e pude certificar-me de que o sonho não me havia enganado. É, pois, uma graça
do Senhor, que me deu a conhecer o estado de alma de cada um de vocês; mas isto eu me
guardarei de nada dizer em público. Aproveitai, meus filhos, pois para vocês me envia o
Senhor estes sonhos.

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