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Único Amor

Série
Paixões Gregas

Livro 10

~ Mônica Cristina ~
Copyright © 2019 - Mônica Cristina
Revisão: Margareth Antequera
Diagramação: Margareth Antequera
Capa: Rafhael Viana
Esta é uma obra de ficção. Nomes, personagens, lugares e
acontecimentos descritos são produtos da imaginação do autor.
Qualquer semelhança com nomes, datas e acontecimentos reais é
mera coincidência.
Qualquer outra obra semelhante, após essa, será considerada plágio;
como previsto na lei.
Esta obra segue as regras da Nova Ortografia da Língua Portuguesa.
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reprodução de qualquer parte dessa obra, através de quaisquer meios –
tangível ou intangível – sem o consentimento escrito do autor.
A violação dos direitos autorais é crime estabelecido na lei n°.
9.610/98 e punido pelo artigo 184 do Código Penal.
Índice

Capítulo 1
Capítulo 2
Capítulo 3
Capítulo 4
Capítulo 5
Capítulo 6
Capítulo 7
Capítulo 8
Capítulo 9
Capítulo 10
Capítulo 11
Capítulo 12
Capítulo 13
Capítulo 14
Capítulo 15
Capítulo 16
Capítulo 17
Capítulo 18
Capítulo 19
Capítulo 20
Capítulo 21
Capítulo 22
Capítulo 23
Capítulo 24
Capítulo 25
Capítulo 26
Capítulo 1
Harry

Essa é realmente uma grande família, quatro irmãos que vieram da


Grécia, em uma louca e triste história que se transformou em algo bom e
grande, quatro irmãos, quatro esposas, muitos filhos, uma grande família
agora vivendo em Nova York. Nasci inglês, mãe inglesa e pai grego, vivi em
Londres por algum tempo e agora estamos aqui, reunidos com uma boa parte
da família.
Apenas tio Leon se mantém firme na Grécia, Kirus é no final das
contas o berço dos Stefanos e o refúgio de todos nós, a pequena ilha de casas
brancas e portas azuis a se confundirem com o oceano que a cerca.
Bárbara parece um minibolo dentro do vestido de aniversário de um
ano. A garotinha chegou faz pouco tempo, mas já conquistou todo mundo,
principalmente o tio Nick.
A família está toda reunida para a festa, depois do que Tyler aprontou
tomando aquele porre e dizendo bobagens, escondido sei lá onde, nem
acredito que tudo está bem de novo. Passo por tio Nick, ele está explicando a
tia Lissa porque o bolo não é de chocolate.
Emma ajeita os óculos quando paro a seu lado. Imagino que ela
adoraria estar no quarto lendo, minha irmã ama se isolar para ler. Acho que
puxou tio Nick, é o que dizem.
Por isso adora conversar com o Josh sobre coisas inteligentes. Eu já
sou mais esportista, quando for à faculdade quero fazer parte do time de
futebol. Meu professor até acha que posso receber convites de universidades
quando chegar a hora, mas quero mesmo ir para Harvard como parece ser a
nova tradição dos Stefanos.
Se Lizzie conseguiu eu também consigo, até a July vai para Harvard.
Esse último ano Tyler tem a ajudado com os estudos, quem sabe Emma me
ajuda? Ela é mais nova, mas deve saber muito mais do que eu, sempre com a
cara enfiada nos livros.
Ryan e Gigi estão conversando no sofá, lutando por um jogo de mão
que não sei a quem pertence, os dois são unha e carne, acho engraçado como
vivem se implicando, mas não se desgrudam. Primos gêmeos.
— Olha a cara do papai? – Emma diz rindo. – Ele não se conforma
que o tio Nick o alcançou, é capaz da mamãe aparecer grávida de novo.
— Duvido, ela jura que o Danny é o último, mas pode ser que um
novo cachorro apareça, porque isso animaria muito o papai. – Emma afirma
enquanto rimos juntos.
July caminha em nossa direção com sua amiga, não sei direito o nome
dela, nos vimos umas duas vezes, elas são amigas há algum tempo, mas
nunca nos falamos.
— Oi, gente. – July sorri impecável como sempre. – Se lembram da
Dulce? – A garota está bem bonita, temos a mesma idade, ela é um pouco
mais nova que a July, sei porque já as ouvi conversando.
— Claro, tudo bem, Dulce? – Emma é a mais simpática e as duas
trocam sorrisos, eu fico meio confuso. Ela tem longos cabelos negros, que
brilham muito e, esse jeito latino a deixa muito bonita e o corpo dela é cheio
de curvas para uma menina de 15 anos.
— Oi. – Cumprimento e trocamos um sorriso.
— Oi. – ela responde meio sem graça, desviamos os olhos, não quero
que ela fique pensando que estou de olho nela.
— Dulce, esses são Harry e a Emma, são os filhos do tio Heitor.
— O seu tio que nos ajuda a salvar os animais com contribuições
gordas. – Ela sorri, sim, ela e July se conheceram assim, com isso de abrigar
animais.
— Meu pai ama cachorros, ama bichos, mas cachorros em especial. –
conto a ela feliz por achar um assunto. – Estão com algum animal no
momento?
— Gatinhos. – ela diz junto com um sorriso, fica bem mais bonita
quando dá um sorriso.
— Gosto de gatos, mas nunca tivemos. – conto a ela.
— Vou ver meu namorado. Harry, faz companhia para a Dulce. – July
pede cheia de sorrisos antes de se afastar e ficamos eu, Dulce e Emma, minha
irmã me cutuca. Até ela com isso de tentar formar casal? Que vergonha.
— Também vou. – Emma avisa. – Não com meu namorado, que não
tenho, vou... vou... com o papai. – Ela some quase correndo. Fico ali com
Dulce parado olhando a festa, sem saber o que dizer.
— Quer um docinho? – pergunto tentando puxar assunto de novo e
ser legal, ela dá de ombros meio pensativa.
— Pode ser.
— Vamos lá pegar? – Toco em seu braço num gesto de convite,
depois tiro rápido a mão e vamos caminhando por entre as pessoas até a mesa
onde tem todo tipo de doces e ela fica lá um tempo escolhendo.
Eu pego o primeiro que vejo e enfio na boca. Nem sei direito o que é,
meio nervoso com isso de ficar sozinho com ela.
— Olha o Harry! – Luka passa do nosso lado. – Tá querendo virar
cabeleireiro é? Muito novinho!
Queria morrer um pouco, não muito, só até o fim da festa. Dulce não
entende e bem que agradeço. Luka ri, olha o cabelo longo dela depois faz
uma graça pelas costas da garota e enfio dois doces na boca sem nem saber o
que estou fazendo.
— Luka! – Josh chama e agradeço. – O seu pai está te procurando.
— Não está não, só quer salvar o Harry do constrangimento de ser
meu primo. Aposto que no final só vou sobrar eu e todas as lindas garotas
solteiras que o mundo ainda vai me apresentar. Harry, você vai ter que ser
bom nisso de cabelo, porque os dela são tipo os da minha mãe, longos e
escorridos.
Luka nos deixa e Dulce me olha confusa. Eu com a boca cheia de
doces, sem conseguir nem mesmo sorrir para disfarçar. Faço uma careta de
desespero e ela sorri tomando um gole de refrigerante, está rindo comigo ou
de mim? Nunca vou saber.
— Dulce, você me ajuda aqui. – Ryan surge do nada.
— O quê? – ela pergunta a ele que carrega a nova irmã no colo.
— O sapatinho dela caiu. – Ele entrega o sapato e Dulce coloca no pé
da garotinha. Ela conhece bem o Ryan, porque é amiga da July. – Obrigado,
Dulce. Sabia que ela já sabe que sou irmão dela?
— Que legal, Ryan. Ela tem sorte.
— Eu também. Estou ensinando um monte de coisas para ela. Não é
Bárbara?
— Papa... – Ela vê meu tio passar e estende os braços. Ryan faz
careta.
— É que ela está muito apegada com meu pai, mas gosta muito de
mim também. Vou lá com ele. – Ryan nos deixa depois de se explicar. Foi
bom, deu tempo de engolir o monte de doces que enfiei na boca de nervoso.
— Ele é tão bonitinho. – ela diz sorrindo, enquanto observa Ryan se
afastar com a irmã no colo. – Queria ter irmãos.
— Não tem nenhum? – Deve ser parecido com o paraíso.
— Não. Somos apenas eu e minha mãe. – Sinto que ela fica um pouco
triste.
— Tenho três. – Potter se atira no meu peito, como se quisesse me
lembrar de sua existência. Acaricio os pelos amarelos. – Desculpe cara, não
esqueci de você. Já ia contar. – Olho para Dulce que é só sorrisos alisando os
pelos dele.
— Ele é lindo. – Ela beija o focinho, o safado me deixa para pular
nela, achando graça em ser acarinhado. Fica se abanando todo e recebe
carinho e muitos beijos. Os cabelos dela são escuros e escorrem por ela e se
misturam a Potter, enquanto os dois brincam. A cor escura contrasta com os
pelos amarelos e é bonito de ver.
— Não tem irmãos humanos, mas deve ter os gatinhos e cachorros. –
Ela se afasta de Potter e me olha.
— Queria, mas eles entram e saem o tempo todo. – Dulce explica
ainda um tanto triste.
— Ah, não se apega. É um jeito, não conseguiria. – Assistimos Potter
correr para perto do meu pai, em algum momento de nossa distração ele
atacou a mesa e roubou uns canapés – Olha que grande bagunceiro. Se minha
mãe vê isso. Ele é esperto. Corre para perto do meu pai.
— Hora do bolo! – Minha tia Annie anuncia e nos reunimos para
assistir o momento de assoprar velinhas. Tyler com eles perto do bolo
morrendo de vergonha. Ryan orgulhoso assim como tio Nick e tia Annie.
Logo tem os parabéns, assoprar velinhas que Ryan ajuda e, Bárbara
mergulha a mão no bolo e depois faz carinho em Ryan e lá está ela orgulhosa
e ele lambuzado e sem graça.
Dulce me deixa um pouco e vai conversar com July e Tyler, fico
olhando de longe como ela é bonita. Além de bonita ela é bem legal.
Tem o coração mole como o da July, ajudando animais e ela não tem
o dinheiro que a July tem. Vive no Harlem, numa vida simples, pelo menos é
o que sei sobre ela.
Sinto vontade de saber mais, de conhecer Dulce melhor e de beijá-la
também. Tenho que admitir.
Dou um jeito de voltar para perto dela e fico ouvindo quando, ela e
July, contam uma aventura juntas resgatando um cachorro bravo num terreno
abandonado.
Não sei se acho legal ou perigoso, mas Tyler acha perigoso e briga
com as duas, elas não parecem levar a sério e sei só de olhar para Dulce que
vão fazer de novo.
— Acho melhor eu ir. Minha mãe chega tarde do trabalho e meus
gatinhos estão sozinhos há muito tempo. – Dulce me explica com o rosto
corado.
— Eu te acompanho de táxi, não pode ir sozinha. – Ofereço-me
apressado.
— Acho que alguém me leva. O Josh, ele nunca me deixa ir embora
sozinha. – Não quero tirar você da festa. – O rosto dela fica todo vermelho,
ela sempre consegue ficar ainda mais bonita.
— É a festa da irmã dele, a gente pega um táxi aqui na porta e depois
eu volto sozinho. Vou avisar meu pai. – Não dou chance de ela recusar, deixo
Dulce para correr até meu pai.
— Papai, eu vou de táxi levar a Dulce. – aviso um tanto ansioso.
— Não Harry, eu levo a menina, dez minutos, não custa nada.
— Papai, quero ir. – Tento mandar uma mensagem com os olhos e
acho que ele entende, porque dá um sorriso engraçado.
— Ah! Entendi. Quer... ficar sozinho com ela? – Balanço a cabeça.
Melhor confessar logo ainda que morra de vergonha.
— Mas depois não vai para Alpine de táxi, fica aqui na sua irmã,
amanhã eu venho cedo. – Devíamos morar aqui perto como o resto da
família, mas eu não me importo em dormir na casa da Lizzie e do Josh, com
tanto que consiga levar Dulce em casa.
— Pode ser, papai. Agora me dá dinheiro. – Ele me sorri enquanto me
estende umas notas que tira do bolso.
— Qualquer problema me liga, não é para ficar namorando até tarde.
— Pai! – Eles são tão... nem sei. Intrometidos. – É só...
— O.k., entendi. Seja um bom menino. Nada de aprontar. Dulce é
amiga da sua prima, uma menina...
— Pai, só vou acompanhar a garota em casa. – ele suspira. Balança a
cabeça concordando. – Avisa a mamãe, se eu for falar com ela vou ter que
ouvir tudo de novo.
— Aviso. Harry, entendeu a parte que não é para ficar até tarde?
— Entendi.
— Está com seu celular?
— Sim. Não fica me ligando, papai, ela vai pensar que eu sou um
menininho.
— Nunca, nem pensar. Você um menininho? De jeito nenhum.
Dou as costas a ele, antes que me envergonhe mais. Dulce está se
despedindo de July e depois me sorri.
— Harry, espera, eu levo a Dulce. – Josh oferece e meus olhos fixam
nos dele cheios de avisos. – ... Ou você leva. Cuidado os dois, não fiquem
pela rua. Dulce, liga quando chegar.
— Obrigada, Josh! – Ela acena e de novo toco seu braço para irmos
logo para o elevador antes que mais algum Stefanos se ofereça para deixá-la
em casa.
Quando a porta do elevador se fecha e começamos a descer fico
aliviado. Que confusão para levar a garota para casa, eles nunca conseguem
ser discretos.
Sentamo-nos os dois, lado a lado no táxi. É Nova York, táxi não é tão
fácil quanto parece, mas demos sorte. Ela dá o endereço e ficamos um longo
momento em silêncio, cada um olhando pela sua janela. “Pensa em alguma
coisa, Harry”. Digo a mim mesmo angustiado por ser tão sem assunto.
— Vai ser o que quando cres... quando ficar mais velha, no que quer
trabalhar? – Pode ser mais idiota? Duvido. Eu ia mesmo perguntar o que ela
queria ser quando crescer? Qual meu problema?
— Veterinária, não sei se vou conseguir, é caro ir para faculdade, mas
se puder é isso que quero. – Ela vai. Com certeza, meu tio Nick nunca que vai
assistir a melhor amiga de July não se formar por falta de dinheiro. Uma
graduação é importante. – E você?
— Vou seguir os passos do meu pai, eu acho, ou jogar futebol, gosto
muito também. – Dulce sorri.
— Acho que vai ser como seu pai. Executivo. Não sei direito o que
ele faz, mas sei que se parece com ele. Tem o jeito dele.
— É simples, meu tio Nick é o advogado, tem uma equipe com ele,
meu tio Leon e o tio Ulisses mexem com o mercado financeiro, compram,
vendem, investem, essa coisa toda é com eles, o papai é o executivo que
cuida da empresa, dos departamentos, dos funcionários, do andamento de
tudo.
— Legal. E o Josh?
— Josh é o tio Leon e o tio Ulisses junto. Fico pensando que um dia
vamos ser eu, ele e a Lizzie, o restante parece que não gosta muito.
— Então que bom que você gosta. – ela diz e afirmo. O táxi atravessa
a ponte, cruza o Harlem todo, enquanto vou contando sobre o que quero fazer
e ela conta um pouco sobre ela e seus sonhos de trabalho.
Descemos juntos e pago o táxi, ela fica surpresa. Acho que eu não
devia ter dispensado o táxi antes de perguntar a ela.
— Quer entrar e ver os gatinhos? – ela convida. Aceito, era mesmo o
que eu queria. Já posso amar esses gatinhos por ser a desculpa perfeita.
É uma casinha bem pequena e simples, tudo arrumadinho, não tem
ninguém e fico pensando que a vida dela e da mãe é um pouco difícil.
Os gatinhos estão pela sala e correm para nos receber, sento-me no
chão ao lado dela, acaricio os pelos pensando que July é muito teimosa
mesmo. Podia ter morrido com isso de salvar gatos.
— São lindos apesar de quase terem matado a minha prima July. Já
arrumou donos?
— Dizemos tutores, ainda não. É complicado, porque tem que ser
gente disposta a cuidar direitinho. Dá uma pena. – ela me conta com um deles
no colo. – Um dia, vou ter uma clínica veterinária para cuidar dos animais de
rua e de quem não pode pagar. Não vai ser fácil, mas é meu sonho.
— Vai dar certo. Quando se formar pode montar uma. – Ela sorri
meio triste. – Eu sei, tem esse negócio de dinheiro, mas a July te ajuda.
— Já paguei o táxi para July ir para casa umas duas vezes,
normalmente ela é bem mais pobre que eu.
— Eu sei, ela é meio descontrolada. – Solto o gatinho que tenho nos
braços. – Quando formos para Kirus, pode ir junto. O que acha?
— Quem sabe? – Ela sorri.
— Tem namorado?
— Não. – Ela fica vermelha, é estranho que uma menina linda assim
não tenha namorado, mas é bom.
— Você tem? – Ela devolve a pergunta olhando para os gatos.
— Não. Eu tive uma, ela era legal, namoramos três semanas, lá do
meu colégio, daí terminamos. Não tenho namorada.
— Minha mãe chega logo, acho que precisa ir, mesmo você sendo um
Stefanos ela pode achar ruim. Mamãe gosta muito de todos da família, mas
não gosta que fique sozinha com meninos. – Dulce muda de assunto e fico
pensando se ela não quer falar sobre isso ou só está com vergonha.
— Ela tem razão.
— Só o Tyler mesmo, porque ela conhece... conhecia, a avó dele e eu
ajudo... ajudava a cuidar da Bárbara.
— Quer ir ao cinema um dia desses? – Melhor convidar assim do
nada do que sair daqui sem a chance de vê-la de novo. – Pode ir a minha casa
também. Tem uns jogos legais, podemos... sei lá. Se quiser. – Não sei bem
como fazer isso, Dulce é diferente das garotas da escola, algo nela deixa meu
coração e minha cabeça em alerta.
— Pode ser. – ela responde e fico feliz. Será que devo beijá-la agora?
Será que pergunto ou beijo? – Quer meu telefone? – afirmo feliz que ela
tenha oferecido. Pego meu celular e anoto o número. Agora é só ligar e
convidar e saímos. Se meus pais deixarem. Acho que quando eu tiver 16 anos
não vou ter que ficar pedindo essas coisas. Não sei, meu pai quer saber de
tudo.
— Já vou então. – Fico de pé, ela também. Vamos até o portão. É
noite. Uma noite bonita. A rua está calma. Nada de táxi na rua tranquila de
Dulce.
— Vamos ficar aqui no portão até passar um táxi, não é bom andar
por aí sozinho. – ela me avisa e concordo adorando seu plano. Os cabelos
dela são bonitos, ela alisa os fios e desejo fazer o mesmo.
— Tem cabelos bonitos. – Dulce sorri envergonhada. – Olhos bonitos
também.
— Obrigada, Harry. – Dou um passo em sua direção. Não vem
ninguém, quem sabe o que vai acontecer se a beijar? Pode ser que ela goste,
ela não foge e acho que é melhor não perguntar e só tentar beijar mesmo.
Minha boca toca a dela e nada dela fugir então eu a abraço e ela abre
um pouco os lábios e nos beijamos de verdade, não só beijo de escola. Um
beijão de verdade e depois me afasto.
— Você beija muito bem. – Decido elogiar, assim ela também pensa
que ando beijando muitas por aí e sei o que estou falando.
— Você também. – ela diz muito envergonhada, as bochechas
vermelhas e lindas. – Um táxi. – ela aponta o fim da rua. Que droga, logo
agora?
— Eu ligo e vamos ao cinema. – Dulce concorda. Aceno para o táxi. –
Tchau.
— Tchau, Harry. – Entro no carro querendo não ir, mas a mãe dela
vai chegar e vamos é ficar bem encrencados. Se ela liga para minha mãe eu
me dou mal, ferro-me mais que a Gigi e ainda perco a chance de sair de novo
com ela.
Vou para casa sorrindo. Beijei a Dulce, ela é legal, bonita e muito...
legal. Não sei direito o que mais, ainda vou descobrir. Só que agora é melhor
eu não ficar falando do beijo.
Essa família já vai ficar querendo saber das coisas. Talvez eu conte
para a Emma, sim, a Emma eu conto, por que ela guarda segredo. Emma
sempre guarda segredo, ela é cheia de segredos.
Quando chego à casa de Lizzie ainda não tem ninguém, eles devem
estar no tio Nick e pego o celular. Primeiro aviso o papai que já estou de
volta. Felizmente ele está ao volante, dirigindo de volta para casa, melhor
assim, já imagino as mil perguntas. Agora vou ligar para a Dulce. Ela pode
ter ficado preocupada, afinal eu voltei sozinho para casa e ela sabe que os
Stefanos são muito protetores.
— Boa desculpa. Eu digo isso e daí dou boa noite. “Oi Dulce, só
liguei para dizer que cheguei. Estou na minha irmã. Gostei do beijo” será que
digo isso? – digo em voz alta para ver como soa.
— Outro beijoqueiro na família? – Lizzie brinca deixando claro que
me ouviu, Josh ri enquanto fecha a porta. Não acredito nisso, minha irmã
ainda ri quando se senta no sofá, com dificuldade por causa da barriga
gigante.
— Lizzie, não vai ficar falando para todo mundo. – peço a ela que
concorda acariciando a barriga. Josh também está rindo. – É sério. Os dois.
— Não vamos contar, mas todo mundo vai saber. – Josh me avisa.
— É só ficarem de boca fechada que ninguém fica sabendo. – Eu os
lembro cruzando os braços.
— Harry, a vida é bem simples. Dulce vai contar para a melhor amiga
que é a July, que namora o Tyler e vai contar a ele e então o céu é o limite,
ele não sabe guardar segredo. – Josh me explica de modo natural, como se
não fosse nada demais essa rede de fofocas Stefanos.
Tinha me esquecido disso. Suspiro. Não vou pedir à Dulce para não
contar à July, ela vai pensar que sou um idiota que faz garotas de bobas. O
jeito é esperar as piadas.
— Está namorando, irmãozinho? – Lizzie pergunta e nego. – Olha lá,
é a melhor amiga da July. – Parece que ser a melhor amiga da July começa a
ser um problema, todo mundo me alertando disso o tempo todo.
— Eu sei. – Que chatice isso.
— Vou arrumar um quarto para você. Me ajuda a levantar,
geniozinho. – Ela pede e o Josh corre para ajudá-la. – Meus pés estão
inchados, mas adorei a festa. Amo quando meu tio Nick fica assim feliz.
Lembro quando você chegou. – ela diz quando Josh a envolve a cintura assim
que consegue colocá-la de pé. Ele beija seus lábios e eles trocam sorrisos. –
Te amo.
— Também, bailarina. Vem, beijoqueiro. Vamos todos dormir. – Josh
me provoca.
Ele podia ser só o marido da Lizzie, aí eu podia ter implicância com
ele, mas é meu primo e eu gosto muito dele como primo, porque Josh é quem
chamamos quando tudo dá errado.
O quarto de hóspedes está pronto, os dois acenam antes de me
deixarem sozinho, sorriem cheios de malícia, Lizzie faz bico fingindo beijos,
devolvo com uma careta e fecho a porta seguindo para cama, ainda escuto as
risadas dos dois até a porta do quarto deles fechar.
Quando o silêncio me alcança, já na cama, penso no beijo dela, no
beijo e nos cabelos. São lindos. Os cabelos mais bonitos que já vi, longos e
macios cabelos, muito perfumados, parece que ela tem um perfume todo
diferente. Dulce é uma garota muito especial e acho que eu não estou sendo
tão esperto em gostar dela assim, linda como é, deve ter um monte de
meninos querendo namorá-la.
Capítulo 2
Dulce

Eu não acredito que fiz isso, beijei Harry Stefanos, sempre o achei tão
bonito, inteligente e sério, mas beijar? Beijar nunca passou pela minha
cabeça.
Stefanos são ótimas pessoas, mas são tão ricos, não achei que ele se
interessaria por uma menina como eu. Pobre, que vive no Harlem,
descendente de mexicanos.
Eles não ligam, eu não posso pensar coisas como essas, July namora o
Tyler, estão apaixonados e a família aceitou tão bem, ele também vem do
Harlem, também tem descendência mexicana e é pobre, pior ainda, Tyler se
envolveu com as gangs, mas os Stefanos não só aceitaram o Tyler, como o
ajudam. Definitivamente, esse não seria o motivo para não poder beijar Harry
Stefanos.
Fico na cama com um sorriso bobo no rosto. Adoro o sotaque inglês
dele. É diferente da July falando, ele viveu muito tempo em Londres com os
pais e irmãos, não fala como nós e adoro isso.
Meu coração dispara e parece que vai sair pela boca. Fecho os olhos
com um sorriso que não me deixa. Será que ele liga? Podia ligar, eu adoraria
ouvir a voz dele, se me convidar eu aceito, não quero nem me animar demais.
Os gatinhos miam em torno da cama. Não posso ficar aqui deitada
sonhando, mamãe logo chega do trabalho, os bichinhos precisam ser
alimentados.
Quando penso que July se meteu em uma grande encrenca por conta
deles. Asma é mesmo uma doença horrível para os apaixonados por animais
como ela. Resgatar os bichinhos e esconder até eu voltar de Jersey foi
péssimo, ficou doente e acabou no hospital.
— Danadinhos. – digo deixando a cama e correndo para cozinha.
Minha mãe merece um bom jantar, depois do dia duro que teve. Abro a
geladeira com os bichinhos miando em torno. – Já vão comer.
Adoraria dar nome a eles, mas não posso fazer isso, esses filhotinhos
precisam de um lar, de protetores que possam ser mais presentes e dar tudo
que precisam.
Minha geladeira não está grande coisa. Suspiro pensando no que
fazer, tem um pouco de carne, ovos, um pacote de salada e algumas batatas.
Um purê de batatas com um pouco de carne cozida, deixo o resto para
comermos amanhã e depois, sei que ela não vai ter dinheiro por esses dias.
Minha mãe fica tão triste quando falta as coisas em casa, se ao menos ela me
deixasse arrumar um trabalho.
Depois de alimentar os gatinhos e colocar as batatas para cozinhar
meu telefone toca. Atendo tremendo.
— Oi, Dulce, sou eu, o Harry, “só Harry”. – ele brinca rindo do outro
lado da linha, sei que é sobre o filme, Stefanos amam esses filmes e livros,
toda vez que vou à casa da July tem alguém assistindo, ou um dos livros
jogado pela casa, deixando claro que está sendo lido por um Stefanos.
— Oi.
— Liguei para dizer que cheguei. Está tudo bem.
— Só agora? Demorou demais, deu tudo certo?
— Ah, não, cheguei tem um tempo, mas minha irmã chegou em
seguida, esperei eles irem dormir para te ligar, estou no quarto de hóspedes.
— Entendi. – Acho que ele não quer que eles saibam. Isso me deixa
um pouquinho triste, mas não vou reclamar, nem foi nada demais, só um
beijo.
— Que está fazendo?
— O jantar da minha mãe. Ela chega muito cansada do trabalho.
— Fica muito sozinha, não é?
— Um pouco, por isso ela não se importa que eu receba os animais
aqui, eles me fazem companhia.
— Acho que sim. Era só... isso. Liguei para dar boa-noite é... e dizer
que gostei de beijar você. – Meu coração dispara de novo, aperto o telefone e
sorrio, é muito estranho sentir essas coisas, escutava July contar, mas não
tinha sentido.
— Também gostei. – digo a ele sem saber o que mais dizer.
— Boa noite. – Ele se despede.
— Boa noite, Harry. – Desligo o telefone só depois que ele desliga,
com um sorriso no rosto que só vai embora quando mamãe abre a porta e
vem me encontrar na cozinha.
— Boa noite, mamãe. – Ela me beija o rosto e depois se abaixa para
um carinho nos gatinhos.
— Boa noite, filha. Tudo bem por aqui? – ela pergunta deixando a
bolsa sobre a cadeira.
— Sim, estou preparando seu jantar. Quinze minutos.
— Vou tomar um banho, estou cansada, amanhã pego o primeiro
turno da fábrica, 6h da manhã. – Mamãe deixa a cozinha sem um sorriso, ela
não anda sorrindo muito, sempre tão cansada.
Deixo Harry guardado em um canto da mente para me concentrar em
preparar seu jantar e arrumar a mesa, os gatinhos ficam brincando enquanto
escalam meu jeans, se enroscam em meus cabelos, pulam um no outro,
filhotinhos sempre são um presente especial.
Quando minha mãe retorna a comida está sobre a mesa, ela se
acomoda e logo tem um dos gatinhos no colo, ela o afaga, serve o prato e
toma um gole de água.
— Só isso, mamãe. Come mais um pouco.
— Obrigada, mas estou sem fome, e você, não vai jantar?
— Comi demais no aniversário da Bárbara.
— Como foi? – ela pergunta antes de começar a comer.
— Lindo, mamãe. Como é que pode ela já ter se acostumado tanto
com eles, não larga o Ryan. – Minha mãe sorri. – É louca pelo Nick e pela
Annie também. Está feliz e bem cuidada como era de se esperar.
— Sim, acho que a avó está tranquila de onde estiver, com certeza foi
ela a mexer os pauzinhos lá em cima para Tyler e Bárbara terem essa chance.
— Tyler está bem. – conto a mamãe. – Ainda tímido, mas muito feliz.
— July é um anjo, gosto muito dela e da amizade de vocês.
Sim, minha melhor amiga é mesmo especial, quando nos unimos para
salvar um cãozinho abandonado eu não pensei que um dia seríamos amigas,
ela é tão diferente de mim, mas acho que isso é o que mais ajuda nossa
amizade.
— Vou sentir tanta falta dela quando se mudar para Harvard. – Minha
mãe baixa mais os olhos, sabemos que não vou ter chance de frequentar uma
universidade, é tão caro que não me atrevo nem mesmo a sonhar com isso e
mamãe nunca me deu esperanças. – Pensei em arrumar um trabalho depois da
aula, mamãe.
— Não. – ela diz um tanto irritada, minha mãe não mudava assim de
humor antes, mas agora, vai do riso às lágrimas sem que eu entenda bem
como.
— Ajudaria em casa.
— Já disse que não, você não vai à universidade, nós duas sabemos
disso, ninguém fica feliz com isso e sinto muito não ter conseguido cuidar de
você como devia, mas ainda posso manter a casa enquanto estuda.
— Mãe, você não tem culpa, se esforça demais, tem três empregos...
— Dois. – Ela deixa o garfo sobre o prato pela metade. – Acabei de
ser mandada embora.
— Sinto muito, mãe.
— Eles não queriam mudar minha escala, então eu tive que decidir. –
Ela está mais decepcionada que brava. – Mas não quero que se preocupe, já
conversei com uma amiga, ela vai me conseguir uma vaga com ela, faxina
noturna, um prédio de escritórios, três vezes na semana, para ganhar o mesmo
que ganhava, quer dizer, trabalhar menos, ter noites de folga, se der certo vai
ser muito bom.
— Bem, então não perdeu, ganhou. – Ela me olha um momento.
— Se der certo. – avisa-me empurrando o prato e colocando o gatinho
no chão. – Mas fico feliz que seja assim otimista.
— Temos que ser, mamãe.
— Os Stefanos trouxeram você em casa? – mamãe pergunta antes de
se levantar e pegar o prato.
— Eu lavo, mamãe, vá descansar. Sim, os Stefanos me trouxeram. –
Não é mentira, deixo que pense que foi Nick, ou Josh, mas não é mentira de
todo modo, um Stefanos me acompanhou.
— Boa noite, arrume um canto para esses gatos ficarem logo, Dulce,
eles estão ficando apegados a você.
— Eu sei, mamãe, vão para uma instituição até o próximo fim de
semana senão acharmos ninguém.
— Vá logo para cama, amanhã você tem muito que limpar.
— Eu sei. – Dia de faxina, posso ter quantos bichos quiser, ela não
liga, em troca, sou a responsável pela faxina.
Minha mãe vai para cama, eu faço o mesmo, mas não é o mesmo que
dormir, fico rolando de um lado para outro, pensando em Harry, na vida, no
beijo incrível, nas nossas diferenças, nas lindas garotas do seu colégio caro.
Tolice imaginar que temos uma chance, meu mundo e o mundo dele
são opostos, não opostos como July e Tyler, ele mergulhou no mundo dela,
ele agora pertence ao mundo da July, eu não, eu sempre vou estar desse lado
da cidade, com uma mãe que tem três empregos, como eu vou acabar tento
algum dia.
Em uma mistura de ansiosa e feliz, adormeço, o relógio me desperta e
quando deixo a cama, minha mãe já foi, os gatos miam famintos e a casa
precisa de uma limpeza.
Faço o que é preciso, distraio-me toda a manhã, pela hora do almoço,
como as sobras do jantar da minha mãe, desejo de todo coração que ela
consiga o emprego, precisamos do dinheiro, meu telefone toca e levo um
susto, podia ser ele, mas é July.
— Me conta como foi isso?
— Isso o quê? Nem me cumprimenta, July! – digo rindo.
— Oi, Dulce, me conta como foi isso do Harry te levar para casa
ontem.
— Nos beijamos. – Eu não consigo evitar, ainda que sua risada e os
gritinhos do outro lado da ligação me deixem corada.
— Conta tudo!
— Ele é tão lindo! – digo em um suspiro e escuto sua risada.
— Tyler, eles ficaram, não conta para ninguém. – July é muito
indiscreta. – Dulce, só estamos eu e o Ty, não se preocupa, é segredo, no caso
de querer segredo, a menos que estejam namorando, estão?
— Não. Claro que não, foi só um beijo. Ele... bem, ele é tão legal, nós
conversamos aí na sua casa, quando disse que precisava ir embora ele se
ofereceu e veio até aqui, por sorte minha mãe não estava.
— Espertinha! – July me provoca. – Dulce beijoqueira, só sei disso.
— Para, July! – Cubro o rosto. – Ele entrou para conhecer os gatos.
— Claro, os gatos, muito boa essa.
— Estávamos brincando com os gatos e ele me beijou, mas foi só
isso, ele não tentou nada, mesmo eu estando sozinha.
— Claro que não tentou nada, ele preza pelas orelhas dele, se algum
Stefanos descobre algo assim, esmaga o Harry.
— Adorei beijar ele. – conto à July.
— Que lindos! Quero que entre para a família, Dulce.
— Bobagem, July foi só um beijo, depois eu pedi que ele fosse
embora, minha mãe é que me matava se ele estivesse aqui quando ela
chegasse.
— Anita sabe ser brava quando quer. Sangue quente, parece com ela,
você sabe.
— Pareço, mas sei lá, eu... eu gostei, mas sei que não vai ser nada
além disso, o Harry deve conhecer as meninas mais bonitas de Nova York.
— Sim, e você é uma delas, a outra sou eu, que sou prima dele.
— Mas só uma é convencida. – brinco com ela. – Deixa eu contar.
— Tem mais? Ty, tem mais. – ela diz ao namorado.
— Ele ligou para avisar que chegou, ele dormiu aí, na casa da irmã
dele e do Josh.
— Vou lá no Josh, quero saber disso, me conta, ficaram conversando
até o dia amanhecer?
— Não July, foi só... sei lá, uns minutos, nem isso, só trocamos umas
palavras e desligamos.
— Ah! Mas marcaram algo?
— Não.
— Tem que se encontrarem de novo, só sei disso, quero ver vocês
juntos. Dulce podemos ser primas, já pensou que especial? Minha melhor
amiga e prima.
— Acho que não, ele é diferente demais de mim e não falou mais
nada sobre outro encontro.
— Eu tenho o telefone dele, quer? Liga para ele e marca você.
— Acha que eu faria uma coisa assim? – Nunca teria coragem de
tomar a iniciativa, eu sou bem decidida, mas ainda não sei fazer algo assim,
nem quero aprender, se ele quiser sair, ele que convide.
— É, não faria, nem eu faria. Tyler está dizendo que se precisar de
algo é para falar para ele e, que não é para ficar sozinha com o Harry que ele
vai se sentir na obrigação de contar a Anita.
— E eu vou me sentir na obrigação de cortar a língua do seu
namorado. – digo a July que ri com gosto.
— Eu estou rindo, mas estou do lado dele, não gosto nada disso de
cortar a língua dele. Eu uso.
— July, você é maluca.
— Um pouquinho, mas só perto de você e dele, me fala dos gatinhos?
— Aqui. O que a gente faz? A ração dura mais uns dois dias.
— Vou pedir a alguém, eu levo aí.
— E eu vou ligar de novo no Santuário do Gatos, é a ONG que mais
nos ajuda, quem sabe eles aceitam a família?
— Tomara. – July suspira. – Agora tenho que desligar, me conta se o
Harry ligar, promete?
— E para quem mais eu contaria?
— Exatamente. – Ela ri. – Tchau.
— Tchau.
Desligo pensando em Harry, ele tem a vida dele, duvido que vá ligar e
eu tenho a minha, inclusive tenho um monte de dever para fazer e amanhã
tem aula, melhor é ir para o meu canto focar nos estudos, isso que importa.
As coisas são como previ que seriam, encontro um protetor para a
gatinha fêmea, os outros conseguem vaga no abrigo. Minha mãe tem sorte e
consegue o emprego e Harry realmente não telefona, duas semanas do beijo e
nada acontece.
Meus dias são divididos em estudar, cuidar da casa e preparar o jantar
para minha mãe, encontro July duas vezes, ela está se preparando para
Harvard, seu tempo está mais curto, Josh e Lizzie vão ter um bebê e, claro
que isso a deixa mais tempo em casa fazendo companhia para Lizzie.
Nenhum animalzinho novo surge em minha casa, sinto falta da
companhia deles, sem eles e com minha mãe o tempo todo no trabalho, a vida
fica bem chata.
Mamãe não tem mais folga nem aos domingos, como tinha uns meses
atrás, está cansada e triste, tão triste, eu nem sabia que alguém podia ser
assim triste e cansada, ela só trabalha e em casa, apenas dorme, nem ficamos
mais tanto tempo assistindo a televisão juntas, ela amava assistir as novelas
mexicanas, contava-me histórias de sua infância e uma pequena parte da
família que ainda vive lá, mas que sabemos que nunca vou encontrar.
O sábado vai seguindo sem novidades, faço meu dever, ajeito a casa e
escuto música, deixo o jantar da minha mãe pronto, antes mesmo do almoço,
quem sabe pego um cinema no meio da tarde, sozinha mesmo, o que tem
demais? Será que July não quer ir? Penso em Harry, sou uma boba que ainda
pensa no beijo dele, aposto que ele já está beijando outra garota, que se dane,
ele que beije quem ele quiser, não vou ficar aqui chorando por causa disso.
Meu telefone toca justo quando me decido a não chorar mais, é July e
já atendo sorrindo, resgatar um cãozinho salvaria meu dia.
— Oi, Dulce.
— July, que bom falar com você, estou aqui sem nada para fazer.
— Ótimo, vai sair comigo hoje.
— Sair?
— Sim, meus primos, Alana e Luka estão na cidade, vamos todos sair
juntos, quero que venha.
— Ah! Eu não posso, eu não tenho dinheiro.
— Então somos duas. – July me avisa rindo. – Tyler disse que hoje
ele paga.
— Onde quer ir?
— Dulce, sabemos que eu e você e boa parte dos Stefanos é menor de
idade, então não vamos fazer nada que seja proibido, vamos ao Dave and
Busters. Eu sei, os meninos que escolheram, mas a gente pode ficar comendo
hambúrgueres enquanto eles jogam, depois você dorme aqui em casa.
— Quem vai? – Quero saber se Harry vai, mas não tenho coragem de
perguntar.
— Harry vai também. – Ela é direta. – Não vai deixar de ir só por
causa disso.
— July...
— O Josh vai te apanhar às 6h.
— Tenho que pedir a minha mãe.
— Ela vai deixar, quer que a minha mãe fale com ela?
— Minha mãe deixa se ela pedir, mas depois me amassa o nariz. –
conto a ela. – Vai dizer que não posso colocá-la nessa situação de não poder
dizer não.
— Então pede, você vai, só sei disso.
— Já te ligo. – Ela desliga e eu conheço July sei que é um plano para
eu encontrar o Harry, só não sei direito se ele sabe disso, se concorda. July é
minha amiga e não vou deixar de sair com ela por causa dele.
Convencida disso, ligo para mamãe, no fundo, mesmo que não
admita, eu quero ver o Harry.
— O que aconteceu, Dulce? – Ela atende nervosa. – Você está bem?
— Sim, desculpe ligar, mãe, é que a July me convidou para dormir na
casa dela, quero saber se você me deixa ir.
— Dulce, não podia esperar eu chegar? – Ela está brava.
— É que eu... se você deixar, o Josh vem me pegar. Posso ir? –
Silêncio, ela está pensando sobre isso, demora um minuto.
— Nunca posso levá-la para fazer nada, fico feliz que tenha a July, ao
menos se diverte um pouco. Tem dez dólares na bolsinha sob minha
camisola, na primeira gaveta. Leva para uma emergência.
— Não precisa, mamãe, eu não vou usar e tenho minhas economias.
— Economias que vão virar comida de cachorro ou consulta
veterinária.
Provavelmente vão mesmo, mas não digo nada, ela até gosta disso,
mamãe também gosta de animais e dizia que tinha dois cachorros na infância.
— Obrigada, mamãe. Eu venho amanhã, depois do almoço.
— Tranque bem a casa, divirta-se e me ligue se precisar.
— Te amo, mãe.
— Eu sei, tenho que ir, já estou me atrasando. – Ela desliga e encaro o
aparelho de telefone. O que eu vou vestir? É a primeira coisa que penso antes
de telefonar a July. Quero estar bem bonita para... ele.
Capítulo 3
Harry

— Papai, o Danny nem alcança nas máquinas.


— Alcanço sim. – Danny rebate.
— Harry, não é justo deixar seus irmãos, vão todos, eles querem ir,
nunca se importou de cuidar deles, não entendi ainda o problema. – Meu pai
constata já na porta de casa.
— O problema é que a Dulce vai e ele não quer parecer o rapazinho
que tem que ficar de olhos abertos nos irmãos. – Mamãe que é sempre mais
esperta anuncia. Eu sabia que Tyler acabaria contando do beijo e agora todo
mundo sabe que beijei a Dulce e tem tantos avisos que nas últimas duas
semanas nem quis chegar perto dela.
— Eu e o Danny cuidamos um do outro, Harry. A Gigi e o Ryan vão
também, o Luka, a Alana estão lá e você pode ficar mais... livre. – Emma me
avisa ajeitando os óculos.
— Nem estamos discutindo isso. – minha mãe diz firme. – Tenho
reunião com o papai no trabalho, melhor entrarem logo no carro ou vão
passar o dia em casa. Isso sim.
— Seria até bom, assim o Potter e a Lily não ficam sozinhos. — Meu
pai olha para os cães cheio de pena de deixá-los. – Lily é nova na família, não
está acostumada ainda.
— Ela aprende, amor, um cuida do outro. Temos que ir. – Mamãe
decide indo em direção ao carro. – Deixamos vocês e voltam de táxi. Todos
juntos.
Mamãe diz entrando no carro. Ela dirige, minha mãe é assim, dona da
vida dela, sabe o que faz, como faz, quando faz. Uma executiva que entende
muito da empresa e trabalha em todas as negociações com estrangeiros
porque fala meia dúzia de idiomas. Lizzie e Emma puxaram mamãe, como
ela, as duas estão sempre aprendendo uma língua nova, eu e Danny somos
gratos por sabermos falar Grego além da língua natal, Danny ainda arranha
uma coisa ou outra, já eu sou a cópia do meu pai e não sei nada.
Simplesmente não tenho jeito para isso, ela insiste nas aulas, mas não consigo
mesmo.
Sentamo-nos os três, lado a lado no banco de trás, Danny vai no meio,
ele é o mais novo e por isso sempre fica no meio, eu e Emma brigamos pelas
janelas.
O percurso é feito como sempre, conversas e riso, provocações, papai
e mamãe trocando sorrisos no banco da frente, Emma apertando um livro na
mão, louca para mergulhar nele e Danny com seu bloco de desenhos.
— Papai, o Harry está virando o príncipe do colégio, vai ser capitão
do time de futebol. – Emma conta a ele que vira a cabeça para me sorrir.
— Eu não sei como foi que acabou gostando disso, você é grego.
— E inglês. – Mamãe completa.
— Bom, aqui é o que todos jogam, quando chegamos a Nova York
para ficar, eu achei bem estranho jogar futebol com as mãos, jogava com o
tio Nick nas férias, mas era mais brincadeira, aqui na escola aprendi melhor
as regras e descobri que levo jeito, ninguém gosta muito do nosso modo de
jogar e então achei que podia jogar do jeito deles.
— E tem talento. – Danny comenta.
— Obrigado, caçula. – Papai ri.
— Parece o Ulisses falando. – Ele me lembra.
Distraio-me olhando a vista da cidade, mamãe ao volante e meu pai
conversando com meus irmãos. Dulce vai estar lá, linda com aqueles cabelos
longos e brilhantes, eles parecem a noite se derramando, uma noite estrelada
e eu estou parecendo um poeta bobo. Faço uma careta de constrangimento
com meus pensamentos.
Ela não é para mim, por mais que goste dela, que seja linda, o tempo
todo tem alguém me lembrando que é a melhor amiga da July, como é que
posso namorar com ela assim? Sabendo que qualquer coisa que aconteça vai
ser um problema envolvendo toda família?
Manhattan está brilhante e movimentada, cheia de luzes e cores, com
gente indo e vindo, não nego sentir falta do cinza tranquilo e elegante de
Londres, dos prédios antigos, os ônibus vermelhos, a gravata do uniforme
escolar, que me fazia sentir o papai. Estou descobrindo Nova York,
descobrindo as vantagens de viver no centro do mundo, ainda não me decidi
sobre gostar ou não, tenho todos que amo em torno de mim, mas ainda me
lembro de como era bom viver na casa em que nasci e onde Dobby descansa
sob uma árvore.
— Acorda! – Danny me empurra querendo descer.
— Desce filho. Emma, desce pelo lado do Harry, não vai pela rua. –
Papai exige enquanto desperto abrindo a porta do carro e descendo meio
cambaleante com os empurrões dos meus irmãos, tropeço no cadarço do
tênis, seguro em Danny e ele é tão leve que quase cai comigo.
— Papai olha o Harry aqui me puxando.
— Desculpe. – peço ficando de pé e ajeitando a camiseta. Só para
perceber que Dulce está na calçada com todos os meus primos rindo de mim.
Chegada triunfal, Harry, assim que se chama atenção de uma garota. Reclamo
tentando sorrir e fingir que nada aconteceu.
Finjo não ouvir as humilhantes recomendações dos meus pais, dar a
mão aos irmãos, não andar sozinho, voltar de táxi, ser gentil, não brigar, não
comer muito doce, chegar a casa às 10h.
Aceno me juntando ao grupo enquanto finjo não notar papai e mamãe,
ser adolescente é um pouco assim.
— Ouviu Harry, 10h em casa. – Luka não perde a chance, ele é
incrivelmente divertido e inconveniente. – Por isso gosto de morar em Kirus,
nunca ouvi nada assim por lá. Chegamos a hora que queremos chegar.
— Para Luka, está deixando o Harry com vergonha na frente da
Dulce.
— Desculpe, gêmea do mal. Estamos todos aqui? – Luka pergunta
olhando em torno, meus olhos encontram os dela, trocamos um sorriso, devia
ter telefonado, passado por cima das cobranças de todos, mas não fiz e agora
não sei bem como agir com ela.
— Mamãe me deu 50 dólares. – Danny balança o dinheiro.
— Me empresta metade, Danny, preciso comprar ração. – July pede
sem qualquer constrangimento para uma criança de oito anos.
— Te empresto tudo, July. – Danny oferece e ela tem intenção de
pegar, mas Tyler não deixa.
— Eu dou, July, não vai pegar dinheiro do menino.
— Pior que ela demora a pagar. – Ryan avisa e July faz a velha cara
de coitada de sempre.
— Tentei, Dulce. – ela diz a amiga que dá de ombros resignada.
— Podemos entrar? – Alana pede.
— Cadê a Gigi? – Ryan dá o alerta. Olhamos todos para July.
— Eu? Eu não vi, o Ryan que é o responsável por ela, não eu.
— Eu sabia que não podia soltar a mão dela. – Ryan que tem a mesma
idade que Gigi, mas parece seu pai quando reclama com a mão na cintura,
dez anos, dois bebês e ele tão diferente dela.
— Ninguém gasta o dinheiro, vamos ter que usar na fuga se não
encontrarmos a Gigi! – Luka avisa olhando em torno.
— Vamos ter que viver fugindo? Eu não vou ver mais meu pai? –
Danny ameaça chorar.
— Claro que não, Danny, é só brincadeira do Luka.
— É. Só o Ryan que vai precisar deixar o país. – Ele completa
enquanto Ryan ainda está olhando em volta.
— Ali! – ele aponta aliviado. Olhamos na direção apontada e o que
vemos é um grupo de pessoas fantasiadas de super-heróis. Agora aqui na
Times Square é comum.
— Não vi a Gigi. – July força a visão.
— Não importa, eu sei que ela está por ali, Gigi deve ter ido até eles.
Vamos. – Seguimos Ryan, ele a conhece bem, não demora e Gigi aparece em
seu jeans, tênis e uma máscara do Homem-Aranha fingindo soltar teias em
nossa direção.
— Vem, Gigi! – Ele a chama. Ela tenta puxar a máscara, faz força, se
contorce.
— Me ferrei! – ela grita. – Alguém me tira daqui. O Homem-Aranha
encarnou em mim.
— Deixa a Gigi assim, gente, por favor. – Luka se dobra de rir, se
alguém como Dulce tem escolha, por que diabos anda com a gente? – Espera
Gigi, vou fotografar com o meu celular para os seus pais.
— É que eu não tô respirando. Ryan, me salva. – Gigi geme.
— Ajuda a menina! – Ryan pede enquanto Dulce e July se
aproximam dela para ajudar. Os heróis continuam a chamar atenção de quem
passa, o Homem-Aranha, ou alguém com a outra parte da fantasia se
aproxima com uma garrafa de água na mão.
— Moço, como é que tira isso? – Dulce pergunta. Ele parece surpreso
com a confusão, se aproxima, abre um pequeno fecho na altura da nuca e a
máscara sai, Gigi está descabelada, suando e rindo.
— Pensei que tinha que entrar para a Marvel agora. – Gigi acena para
o Homem-Aranha e caminhamos de volta para onde deveríamos estar há
algum tempo.
— Ninguém nunca te disse para não pegar máscaras de estranhos
Gigi? – Luka pergunta fazendo cócegas nela que foge dele. – Vou mandar as
fotos para os seus pais. Sabe o que vai acontecer agora?
— Sei, eles vão rir de mim até o Natal.
O lugar é bem interessante, um restaurante com todo tipo de
sanduíches, tudo da culinária americana e um salão cheio de máquinas, é bem
colorido, cheio de luzes, barulho de jogos, dá para passar o dia todo jogando
sem cansar, são tantos jogos.
Tyler e Luka parece que regridem, um minuto e já estão agindo como
crianças, se provocando e fazendo apostas. Alana, July e Dulce se sentam em
torno de uma mesa no restaurante, o resto do grupo se espalha nos jogos,
preferia sentar com elas, mas não sei como fazer isso e escolho uma máquina
para jogar.
Fico de propósito de frente para a mesa, perder todas as fichas em um
jogo vergonhoso, parece ser a sina de quem não consegue nem mesmo olhar
para a máquina.
— Devia ir até lá, você nem está falando direito com a menina. –
Luka avisa.
— Não, ela... todo mundo diz que ela é amiga da July, parece...
— Eu sei, escuto todo dia que não posso ficar com as meninas da ilha,
papai me ameaça toda vez, nada de magoar ou brincar com os sentimentos
das meninas, se não der certo, blá, blá, blá.
— Mesma coisa comigo. O que você faz?
— Fico com as meninas! – Luka dá de ombros. – Ninguém precisa
saber, sou discreto. Olha para mim, Harry, eu sou bem bonito, as meninas...
me querem. E me dá suas fichas, está só passando vergonha, vai lá se sentar,
aposto que está com muita sede e precisa beber alguma coisa, olha lá elas, se
sentaram de maneira a sobrar um lugar para você ao lado da Dulce.
— Acha?
— Além de genial, futuro rei do Vale do Silício, eu entendo tudo de
garotas, já posso ver esse momento histórico no meu filme, quando eu era
jovem e desconhecido, mas dava ótimos conselhos amorosos.
— Você me dá medo. – digo entregando meia dúzia de fichas que tiro
do bolso e tomando coragem para me juntar as meninas. Eu me sento ao lado
de Dulce, elas se calam no mesmo instante. Tão sutis. – Estou com sede,
vou... beber alguma coisa. Alguém quer?
— Nós vamos jogar, pede para você e a Dulce. Vem Alana. – July
arrasta a prima e sobramos eu e Dulce. Ela está desconfortável, assim como
eu, não sabe o que fazer com as mãos e se remexe na cadeira. Hora de fazer
algo. Encaro Dulce, de perto ela é ainda mais bonita, os olhos negros, os
cabelos a brilharem, a boca desenhada, deve ser a garota mais bonita que já
vi.
— Acho que vou com elas. – Dulce avisa, não está nada feliz comigo,
não sei se é arrependimento, ou se isso é porque não telefonei.
— Queria ligar.
— Mas se enrolou com as garotas da sua escola e esqueceu. – Dulce
está com ciúme, é algo estranho de ver, porque eu não sabia que alguém
podia sentir algo assim por mim.
— Todo tempo alguém me avisa que você é a melhor amiga da July e
que se não der certo, se eu fizer alguma burrada, então isso vai estragar a
amizade de vocês.
— Ah! Entendo. – Ela parece relaxar um pouco, olha para o salão
onde July está abraçada com Tyler fingindo que presta atenção no jogo, mas
eu sei que está de olho aqui na mesa. – July e eu somos amigas, ela nunca
brigaria comigo para te defender, nem eu ficaria contra ela por sua causa. Isso
não seria amizade, acho que as pessoas não duvidam de você e sim da minha
amizade com ela.
— Isso foi bem inteligente, se eu tivesse pensado nisso. – Podia
argumentar.
— Entendo você, somos de mundos diferentes, vivo no Harlem.
— Agora você duvida do meu caráter. – Dessa vez fico magoado. –
Meu pai veio da rua, ele e os irmãos dormiam no Central Park na infância.
— Desculpe, é que... eu tenho que pensar nessas coisas.
— Eu sei. – digo depois de um suspiro. – Por que não damos uma
volta por aí? Eles vão passar o resto do dia nessas máquinas, voltamos mais
tarde para irmos embora todos juntos.
Dulce me olha por um longo momento, fica decidindo se quer ir ou
não, por dentro, rezo para ela aceitar, olho para o grupo reunido, perdido em
máquinas, Luka já está com duas garotas, todo animado, ele é rápido e
mortal, não pode ver uma menina que já mergulha.
— Vou avisar a July. – ela diz com um meio sorriso e já estou com o
coração acelerado, Dulce é alguém que posso gostar muito. Tenho medo de
ser como os Stefanos, de encontrar alguém e ser ela, ser ela para sempre, ser
ela e não dar certo, aí seria uma droga, com eles foi assim, os quatro irmãos,
amaram para sempre uma só vez.
Deixamos o lugar lado a lado, só procuro sua mão quando estamos na
calçada, olho em volta sem saber onde ir, eu não conheço muito do lugar, são
só lojas e mais lojas, bares e restaurantes.
— Vamos ali no Bryant parque, logo ali atrás da biblioteca nacional.
– Ela convida e aceito, Dulce indica o caminho e seguimos de mãos dadas.
— O que fez essas duas semanas?
— O de sempre, estudei, fiz uns trabalhos na Associação, achei um
lugar para os gatinhos, levei ração para uns cães, que moram com um
mendigo na esquina do Central Park, ele tem cinco cães, estão sempre
querendo levar os cães, ele some por um tempo, ama seus amigos, não os
deixa, cuida bem na medida do possível.
— Isso me parece meio perigoso.
— É um bom homem, só vou de dia, já oferecemos a ele pedir ajuda
na Associação, ele não quer. Então só doamos ração e umas roupas para ele.
É o que dá para fazer.
— Você é feita do mesmo material que a July. – Dulce sorri.
— Acho que não. July faz tudo isso porque é boa, ela tem tudo,
dinheiro, amor, amigos, uma vida linda e ainda encontra espaço para ajudar.
— Você não?
— Solidão. – ela explica quando viramos a rua e Dulce indica o
caminho, paramos para atravessar, enquanto esperamos a luz verde, olho para
ela preocupado. – É que minha mãe trabalha demais, cuidar dos animais é
como... eu não me sinto tão sozinha, fico sozinha em casa desde os nove
anos, minha mãe saía cedo, deixava o almoço e o jantar nos pratos dentro da
geladeira, deixava-me na escola às 7h da manhã, eu ficava no corredor até a
hora da aula, depois caminhava para casa, esquentava meu almoço, fazia o
dever e assistia televisão. Esquentava o jantar quando anoitecia, não abria
nunca a porta a ninguém.
— Muito difícil isso. – constato. Nossas diferenças, enquanto sempre
tive espaço, cuidados e toda atenção, Dulce conheceu o outro lado, um lado
de solidão e tristeza.
— Minha mãe tinha que trabalhar bastante, ainda tem, mas ela era
muito risonha, animada, quando chegava me dava toda atenção, um dia
trouxe um gatinho que encontrou na rua vindo do trabalho de noite, estava
frio, ela sentiu pena, cuidamos dele, encontramos um lar e isso me fez tão
feliz que nunca mais parei.
Sorrio pensando que ela pode até achar que não faz nada demais, mas
eu sei que faz.
— Sua mãe é admirável.
— É. – Ela balança a cabeça confirmando. – Ali! Tem uns quiosques,
umas mesinhas discretas. – Ela convida e entramos no lugar, sentamo-nos em
uma mesinha ao ar livre, em meio a um belo jardim, podia me sentar de
frente para ela, mas me sento ao seu lado. – Agora ela está tão triste. Muito
triste, um tipo de tristeza que parece que não passa, se está em casa, só
dorme.
— Está cansada.
— Acho que sim, deve ser isso. – ela brinca com uma pulseirinha de
prata que tem no pulso e penso em minha mãe e sua pulseira de pingentes
especiais. Dulce parece ficar ainda mais bonita.
— Gosto de você. – digo a ela, simples assim, ela ergue os olhos. –
Gosto muito, moramos longe, estudamos longe, tem sua amizade com a July,
somos muito jovens, ao menos é o que dizem e mesmo assim, eu gosto muito
de você. Fico pensando naquele beijo, querendo repetir.
— Gosto de você também, e acho que estou sendo burra, porque você
é bonito e todo... forte, rico, jogador do time da sua escola, deve ter um
monte de meninas atrás de você.
— Você me vê melhor do que sou. – digo a ela. – Não tem um monte
de garotas atrás de mim. Nem sou bom com elas, tenho... vergonha eu acho.
— Não pareceu aquele dia, do nada me beijou.
— Eu queria muito. – Como agora, não consigo parar de olhar para a
boca dela, tem um desenho todo especial, tem um charme. Acho que Dulce
percebe, ela passa a língua pelos lábios, coloca uma mecha dos cabelos atrás
da orelha, não adianta nada, são tão lisos que escorrem de volta no rosto e em
um impulso, eu toco nos fios.
Aproximo-me mais dela, meu braço passa por seu ombro em um
convite, ela não recusa, até se junta mais a mim e então volto a beijar Dulce.
É tão bom como da primeira vez é ainda melhor, porque posso repetir e faço
isso assim que nos separamos e depois de novo e mais uma vez.
Ficamos nos beijando no cantinho, sem sermos vistos, trocando
carinhos, olhares e sorrisos, nem conversamos muito, só beijamos.
— Harry, já está tarde, é melhor voltarmos. – ela diz com as duas
mãos em meu peito.
— Acha?
— Acho.
— Acha mesmo? – insisto, ela sorri, beija-me os lábios e faz um
carinho em meu rosto.
— Acho sim.
— Quando te vejo de novo?
— Não sei. – Ela meneia a cabeça em um dar de ombros que parece
mais uma dúvida do que uma indiferença.
— Saio do colégio às 4h amanhã, podemos ir ao cinema.
— Acho que minha mãe... pode ser, mas podemos não contar a minha
mãe?
— Bom, eu não conheço sua mãe. – aviso a ela. – Se alguém contar,
será você.
— É que ela não gosta que eu saia muito depois que anoitece e, vou
acabar voltando à noite.
— Mas vou te deixar em casa. De táxi, ainda não dirijo, vai demorar
um pouco para podermos sair de carro.
Tem um cintilar em seus olhos, reconheço no segundo que acontece,
como se já conhecesse Dulce um pouco.
— Estou pensando que a gente pode ir se conhecendo, deixando
acontecer e depois namorar, daqui umas semanas, o que acha?
Dulce começa a rir, eu fico tentando entender o motivo, será que disse
alguma bobagem?
— Desculpe, é que nunca vi alguém marcar dia assim para pedir em
namoro, vai pedir?
— Acho que eu vou, deve ser certo, os Stefanos não fazem isso, meu
pai e principalmente meu tio Ulisses, que diz que não é assim, que Stefanos
não namoram, casam direto, mas a July namora e o Josh e a Lizzie
namoraram e somos jovens demais, a gente tem que namorar até terminar a
faculdade, só depois podemos casar.
— Estou com medo de já marcar a data. – ela brinca e ganha um
beijo.
— Pode ser que a gente se goste para sempre, Dulce. – Ela volta a
tocar meu rosto e penso se um dia vou ter barba. – Acha que eu podia ter
barba?
— Gosto mais assim, barba pinica.
— Como que sabe? – É ruim pensar que ela já beijou alguém com
barba.
— Todo mundo sabe, sei lá, só acho.
— Já beijou alguém barbudo?
— Não. Só... beijo no rosto, pessoas... sei lá, Harry, que bobagem. Só
beijei um menino e nem foi de língua mesmo, foi meio beijo, na porta da
escola, já faz seis meses, eu tinha 14 anos ainda. Você já até namorou.
— É, tem razão, desculpe, então vamos fazer isso? Se conhecer e
começar a namorar daqui duas semanas?
— Pode ser.
— Melhor a gente não ficar falando disso com todo mundo.
— Tá bom, mas não vou esconder da July, só da minha mãe, porque
ela pode não gostar.
— Tudo bem, mas a July vai falar para o Tyler, ele é bem fofoqueiro.
— Tyler é meu amigo, não vai contar para minha mãe, só para a sua.
– ela diz rindo.
— Mamãe vai ficar feliz, um beijo antes de voltarmos, vou te levar
em casa de táxi, mas meus irmãos têm que ir junto.
— O Tyler está de carro, está todo feliz com o carrão do Nick, ele me
leva.
— Então amanhã pego você em casa?
— Me encontra no cinema, o que acha? Na porta, saio da escola e vou
andando, te espero lá na porta, aquele cinema perto da sua escola, sempre vou
lá com a July.
— Pode ser, 4h15 estarei lá, que horas chega?
— Mesma hora, é perto de metrô.
— Vamos beijar de novo, depois não posso mais ficar beijando você.
Ela balança a cabeça em um sim, envolve meu pescoço e beijar Dulce
deve ser a melhor coisa que existe no mundo todo, quero ficar fazendo isso o
tempo todo, tomara que o filme amanhã seja bem ruim, assim ficamos só
beijando.
Voltamos de mãos dadas, trocando sorrisos, conversando sobre tudo
que é coisa, ela é tão legal, feliz, esperta, devia ter uma ótima vida, todo
mundo devia, mas Dulce em especial, devia.
Quando entramos de volta, estão todos em torno da mesa, cheia de
hambúrgueres e batata frita, refrigerantes e milk-shake, sorvetes, é uma festa.
— Os dois estão com a boca inchada de tanto beijar. Aqui pode beijar
também, não precisavam fugir.
— Cala a boca, Luka! – reclamo, nos sentamos lado a lado.
— Pedi para vocês. – Emma me sorri, sorrio de volta para minha
irmã. Começamos a comer com o grupo e a ouvir as histórias, os grandes
campeões, os perdedores, parece que Gigi é algum tipo de mestre, pelo que
entendi, ganhou de todos, mas sendo filha da tia Sophia, só podia ser muito
boa no videogame.
Dulce e eu olhamos um para o outro, toco seu braço, ela me sorri,
queria beijá-la agora mesmo, mas acabo dando mesmo é uma mordida no
sanduíche enquanto penso em amanhã.
Capítulo 4
Dulce

O cãozinho está magrinho, felizmente a veterinária garantiu que


alimentação e vitaminas são o bastante, temos que levá-lo para uma nova
avaliação em vinte dias.
Afago seus pelos agora perfumados depois do banho, deu pena dar
banho nele e ver o corpo tão debilitado. Há pessoas que são apenas más,
minha mãe acha que sou jovem demais para me dar conta disso, melhor
assim, cuidar de animais me mostrou que o mundo não é fantasia e dar de
cara com a realidade me faz mais forte. Somos só nós duas, melhor que eu
não seja uma tola sonhadora, melhor que eu seja alguém com os pés fincados
no chão.
— Josh está chegando. – July ergue os olhos do celular. – Eu o
convenci a passar no Pet Shop. Toda vez que ele vem me buscar aqui o
convenço, só sei disso.
— Um alívio. Será que ele vai trazer as vitaminas também? – July
sorri vitoriosa.
— Claro que sim, mandei uma foto dele. – ela diz afagando seus
pelos. – Como é que ele vai dizer não a essa cena triste. – July beija o cão.
— July, está com sua bombinha, aí? – ela nega se afastando e
puxando o ar.
— Esqueci na outra bolsa, vamos lá fora um pouco? – Ela convida e
deixamos a casa, nos sentamos na porta, lado a lado, ela respira fundo. – Josh
vai ficar bravo.
— Com razão. – digo a ela que faz um ar abatido. – Harry quer vir
conhecer minha mãe, eu suspeito que seja o pedido de namoro. – conto a ela,
ficamos correndo com o cachorro, primeiro o resgate dramático com direito a
nosso ataque de choro e o homem furioso nos entregando o cachorrinho
raquítico, depois a corrida ao veterinário, banho, dinheiro para consulta, nem
pudemos conversar.
— Vai dizer sim, não é? Quero que seja minha prima.
— Vou. Eu estou apaixonada por ele, têm sido duas semanas muito
lindas. – digo suspirando. – Ele é tão gentil.
— Stefanos são assim. – July comenta. – O que tem medo?
— Sei lá, a mamãe anda triste demais, cansada, quieta, é um pouco de
vergonha, dele não ser muito bem recebido, também um pouco de medo de
tudo ser diferente depois que ela souber que estou namorando, tenho medo de
que ela não confie em mim.
— Vai confiar sim. Você vai perder a virgindade com ele? – July me
faz rir e corar.
— Eu não sei, July, tenho 15 anos, não sei se estou pronta.
— Está prestes a fazer 16. – Ela me lembra. – Estou aliviada que
ainda vou estar aqui, mas eu viria de Harvard de qualquer modo.
— Sei que sim.
— Sobre transar com ele, espere até se sentir pronta, para isso não ser
um começo ruim, é o que eu acho.
— Também acho, mas ele é educado sobre isso, não tem... bem... –
Me lembro da mão dele entrando por dentro da minha blusa ontem e
alcançando meu seio. July tem um ataque de riso. – Para July.
— Eu acho lindo vocês dois juntos, acho que vão ficar juntos para
sempre.
— Sua opinião não conta. – digo a ela que me dá um pequeno
empurrão no ombro.
— Por que não?
— Porque você shippa todo mundo. – ela suspira com olhos
apaixonados.
— Sou romântica e estou apaixonada, eu e o Ty estamos no melhor
momento das nossas vidas, então eu acho que todo mundo em volta se ama e
vai dar certo. Só sei disso.
— Eu não tenho essa certeza. – conto à July. – Acha que ele se
comporta lá na escola?
— Harry é um bom menino, meus tios o educaram para ser honesto,
ele tinha umas garotas quando eu estudava lá, mas é normal, não era o seu
namorado ainda.
— É que penso que essas garotas, são mais do mundo dele, elas
passam mais tempo com ele do que eu.
— Isso não importa, só importa o coração de vocês dois. Queria
espalhar por aí que estão em pré-namoro.
— Ele não gosta muito que conte, diz que sua família o pressiona para
não errar comigo.
— Arranco aquele nariz lindo dele se fizer isso. – July me faz rir, não
consigo imaginar minha doce amiga fazendo algo assim. – Eu sei, é mais
provável que você faça isso enquanto choro no ombro do papai.
— Acho que sim.
— Quando ele vem?
— Amanhã. – Meu coração acelera só de pensar. – Fico nervosa, hoje
tenho que falar com a mamãe, ela tem folga amanhã à noite, então ele vem
jantar, é o que planejamos, aí ele me pede em namoro para ela.
— Luka nem pode saber disso. – July ri. – Nem meu tio Ulisses. Ele é
o melhor tio do mundo, o mais charmoso e lindo, mas ele respeita as
tradições e saber que um Stefanos fez pedido oficial de namoro e não de
casamento logo de uma vez... – Ela ri. – Minha família é cheia de tradições.
— Que nem funcionam. O Nick e a Annie namoraram. – July
concorda. – E o Josh e a Lizzie e você e o Tyler.
— Já tentaram convencer meu tio Ulisses disso, mas ele é implicante.
O que importa é que vai namorar o Harry. Ele deve te levar na casa dele, para
conhecer os pais. – July ri. – Tão engraçado isso, você já conhece todo
mundo, mas agora vai conhecer de novo, só que de modo formal.
— Se acontecer eu não sei como vai ser com você em Harvard. – digo
assustada com a ideia.
— Vou sentir tanto a sua falta. – July me envolve em um abraço.
— E eu a sua. Quem vai resgatar animais comigo e me ajudar com as
despesas?
— Eu vou continuar te dando dinheiro para os animais e pedindo
também, vamos nos falar toda hora pelo celular e... eu venho sempre, tem o
avião.
— Acho tão engraçado pensar que minha melhor amiga tem um avião
enquanto não tenho nem bicicleta.
— Se a gente vendesse alimentava sei lá quantos cãezinhos, por isso
que não está no meu nome. Stefanos são espertos, sabem o que eu faria.
O carro de Josh encosta na porta e sorrimos enquanto choramos, nem
imagino como vai ser a despedida.
— Você é muito boba Dulce, está chorando à toa.
— Você também. – Nós duas rimos por entre as lágrimas.
— O que aconteceu? Se meteram em problemas? – Josh pergunta
carregando dois sacos de ração e uma sacola com as vitaminas.
— Nada, só estamos pensando em como vai ser triste quando eu me
mudar para Harvard. – Ele sorri orgulhoso.
— Logo Dulce vai também, vão mergulhar de cabeça nos estudos e
nem vão ter tempo para saudade. – Eu e July nos olhamos incrédulas, nós
duas mergulhadas nos estudos, ele só pode estar nos confundindo. Rimos
porque nos comunicamos com o olhar. – Vocês beberam? Estavam chorando,
agora rindo.
— Quer entrar e conhecer o cachorrinho? – Convido Josh. Ele estreita
os olhos, cruza os braços depois de deixar os pacotes no chão.
— Acha que não sei que isso é uma armadilha? – pergunta-me e sim,
era, mas acho que não deu certo. – Sabe que entro aí e vejo um pobre
cãozinho precisando de lar... Vamos July, antes que seja tarde demais.
Josh me beija o rosto, eu e July nos abraçamos enquanto ele vai
seguindo para o carro.
— Amanhã te ligo, agora vou correr para casa, logo o papai chega
com meu namorado. Harry um dia vai trabalhar lá também! – ela diz
acenando da porta do carro, espero que o carro se afaste e então entro
carregando os sacos de ração, um de cada vez porque são pesados, dá até para
dividir com algum cão necessitado, esse pequeno não dá conta de tudo isso.
Pego as vitaminas, a veterinária acha que ele tem por volta de cinco anos,
mas pode ser menos, a desnutrição engana um pouco.
Preparo uma sopa para o jantar, às 8h faço um prato e aproveito para
assistir alguns episódios da minha série favorita, perto das 10h escuto minha
mãe chegando, ela abre a porta com seu ar cansado de sempre.
— Oi mamãe, está bem?
— Cansada. Ainda bem que amanhã só trabalho pela manhã, estou
precisando de umas horas de sono. – Ela passa por mim e eu a abraço, ela
corresponde sem muito esforço para retribuir. – Quem é esse? – Mamãe diz
quando o pequeno cãozinho fica a nos olhar do sofá onde esteve enrolado por
mais de uma hora.
— Eu e July o resgatamos hoje. Um homem vivia com ele sozinho,
um homem meio bêbado e os vizinhos denunciaram e como nós estávamos
mais perto...
— Dulce! – Meu nome soa como um alerta.
— Foi tudo bem, mamãe, um vizinho nos acompanhou, ele não queria
entregar o pobrezinho, ficou bravo, disse que era dele e ele fazia o que
quisesse com ele. – Eu a acompanho pela casa enquanto ela vai deixando
suas coisas pelo caminho, bolsa no sofá, sacola na cozinha, sapatos ao lado
de sua cama.
— Idiota. Como o convenceram?
— Choramos, dissemos que choraríamos na porta dele até ele
entregar, levou uns dois minutos.
— Entendi. – Ela se estica na cama, respira fundo, sento-me ao seu
lado.
— Fiz sopa, mamãe, vem comer um pouco.
— Acho que eu só quero dormir.
— Trago aqui, você come assistindo sua novela, têm muitos capítulos
atrasados. – Ela me olha com atenção, acho que a primeira vez que presta
atenção em mim nesta semana.
— Vamos para cozinha, eu como enquanto me conta o que quer me
contar, tenho certeza de que está querendo me contar alguma coisa.
Aceito o convite com um sorriso, corro na frente para aquecer a sopa,
enquanto ela toma banho e coloca seu pijama. Quando nos sentamos para
comer eu fico nervosa.
— Não vai comer? – mamãe pergunta enquanto leva uma segunda
colherada à boca.
— Estou... esperando esfriar.
— Ótimo, assim você diz logo o que quer dizer. – Ela segue levando
outra colherada à boca.
— Gosta dos Stefanos, não é mamãe?
— Sim, Nick e Annie são ótimos, já nos ajudaram muito, a
Associação foi importante para você.
— Sim. Ano passado eu frequentei aulas de reforço, se lembra?
— Porque estava focada nos animais e esqueceu a escola, não vai me
dizer que suas notas...
— Estão ótimas. Nunca estive tão bem na escola. – Ela parece mesmo
aliviada.
— Não importa que não possa frequentar uma faculdade, tem que se
formar no colégio.
— Eu sei, mamãe. Não é sobre isso.
— Bem, então sobre o que é?
— Acha que sou muito nova para namorar? – Ela deixa a colher e me
olha nos olhos, torço as mãos um tanto nervosa.
— Parece que não importa muito agora, já está namorando.
— Eu... não... eu...
— Se chegamos ao assunto namoro, é porque já tem um namorado. –
Ela leva mais uma colherada a boca.
— Eu gosto do Harry Stefanos. – Ela deixa a colher sobre o prato e
me olha atenta.
— E ele?
— Gosta de mim. – conto a mamãe. – Ele quer vir aqui, falar com a
senhora, quer pedir permissão.
Minha mãe ri, parece completamente despreparada para meu aviso,
logo se recupera, fica séria de novo.
— Ele quer... pedir a mim para namorar com você? – Minha mãe acha
tão estranho que acaba me divertindo um pouco. – Ele não devia pedir a
você?
— Mãe, eu sou muito amiga da July e os Stefanos estão sendo muito
cuidadosos com isso.
— Entendo, eles são ótimas pessoas, não acho que Harry seja
diferente. Ele é filho de quem? Leon?
— Não, ele é filho do Heitor, aquele que morava em Londres e que se
mudou para Nova York há pouco tempo, por causa da Lizzie que é a filha
dele e se casou com o Josh.
— Já entendi, eu acho.
— Mãe, você vai permitir?
— Gosta mesmo dele? – Eu balanço a cabeça afirmando. – Sabe que
são de mundos diferentes? Que isso pode não dar certo?
— Sei.
— Já parou para pensar que ele deve ir à universidade em breve?
— Harvard, ano que vem.
— E você fica, acha que conseguem viver com isso?
— Falta uma eternidade para isso acontecer, um ano, mãe. Já vou ter
quase 17 anos quando ele for.
Minha mãe me olha um momento, não sei mais se triste ou cansada,
não entendo muito bem o que está acontecendo com ela. O cãozinho se
enrosca em suas pernas, ela se curva para acariciá-lo.
— Tão fraquinho. Eu fico orgulhosa de você ser essa pessoa que
enfrenta estranhos para salvar um cãozinho.
— Um dia vou ser veterinária, não agora, eu sei que não podemos,
mas um dia. – aviso antes que ela se sinta mal, é tarde, seus olhos marejam
pelas lágrimas. – Mãe, você não tem culpa, se esforça tanto.
— A terra das oportunidades. – ela suspira secando as lágrimas que
insistem em correr. – Harry pode vir, preparamos o jantar e recebemos o
rapaz.
— Obrigada, mamãe. – Fico sem saber o que fazer, abraço minha
mãe, ela sorri e fazia tanto tempo que não sorria assim, com vontade.
— Mas eu vou impor regras, espero poder confiar em você, Dulce.
— Totalmente.
— Não temos dinheiro para um jantar muito chique.
— Harry é simples, ele é inglês, mamãe, eles comem... mal. – Minha
mãe aperta meu nariz. – É brincadeira, só estava aqui brincando com a má
fama da culinária inglesa, mas eles amam peixe com fritas.
— Harry é meio inglês e meio grego e a culinária grega é incrível. –
afirmo, já provei muitas vezes com a July. – Mas nós somos mexicanas e ele
vai comer a nossa comida, o que acha de apresentar um prato mexicano ao
Harry? Carne com chilli, o que acha?
— Bom, carne, feijão, molho de tomate e pouca pimenta, mamãe,
Harry não está acostumado.
— Ótimo. Compro tudo amanhã, agora me deixe descansar, vá dormir
também, você e seu novo amigo, ele precisa de carinho.
— Pode deixar, vou só lavar os pratos.
— Não tocou na sopa, coma antes de ir dormir. Quanto tempo ele
fica? – mamãe pergunta quando o cachorro se enrosca de novo nela querendo
carinho.
— É que eu não sei se consigo alguém responsável para deixá-lo
saudável, mamãe então, acho que só quando ele ganhar peso e acabar as
vitaminas, uns dois meses?
— Está certo, não se apegue demais, depois fica chorando. – Nós duas
ficamos, ou ficávamos quando ela dava mais atenção aos bichinhos.
— Prometo, boa noite, mamãe. Amo você.
— Também. – Ela sorri antes de me deixar, a vida fez minha mãe
mais dura, sei do seu amor, ela morre de trabalhar e isso é o amor mais real
que existe, mas mamãe não é de abraços e beijos.
Nem consigo dormir direito, não sei mais o que pensar, fico
organizando tudo na cabeça, arrumar a casa, vestir uma roupa bonita, dar um
jeito na nossa louça, não tem uma louça bonita como a dos Stefanos, não tem
conjuntos, nem copos altos e elegantes, mas posso ajeitar e ficar bonito, não
que o Harry se importe, eu sei que ele não vai reparar nisso, mas quero que
mamãe fique feliz.
Ele se animou, achou que eu não teria coragem de pedir a minha mãe,
mas eu tive, acho que ela reagiu bem, nem me questionou se ele andou
frequentando a casa, ainda bem, eu detesto mentir e acho que ela não ia
gostar de saber que ele vem pelo menos duas ou três vezes na semana e que
ficamos namorando na sala até às 7h da noite, quando ele pega um táxi para
casa dele.
Adormeço quando o dia está amanhecendo e saio correndo para o
colégio depois de perder a hora, é o dia mais longo de aulas da minha vida,
tanto que tenho que fazer e eu aqui, ouvindo os professores falarem sobre
Pitágoras, Newton e sei lá mais quem.
Corro para casa, nem me despeço dos amigos, apresso meu passo, em
casa, mamãe está na cozinha, fico feliz e ao mesmo tempo com vergonha, é
sua folga e geralmente ela passa o dia de pijama em frente a televisão, mas
hoje está ocupada.
Ergo o cachorro no colo, vou beijando o pequeno até a cozinha, já
sinto diferença, um dia e o pequeno cãozinho já está mais forte, ele é tão
carinhoso, eles sempre são gratos, eu e July sempre choramos quando
pensamos sobre isso.
— Oi, mamãe.
— Nunca chegou tão cedo. – Ela constata.
— Vou dar uma arrumadinha na casa, ajeitar a cozinha e me arrumar.
— Arruma a casa toda vez que ele vem? – Ela me pega de surpresa,
meu silêncio me denuncia, mamãe se volta com a colher de pau na mão e um
olhar vitorioso de quem me pegou no “pulo”.
— Ficamos só conversando. – digo engolindo em seco com medo de
que isso seja algo que vá nos impedir de namorar.
— Então não é o caso de namorarem, são só amigos.
— E beijando um pouco. – Completo. Ela ergue a sobrancelha e me
sorri.
— Ainda aí parada? Vá cuidar de arrumar a casa.
— Como sabe?
— Bons vizinhos, que sabem que minha filha fica sozinha tempo
demais e precisa de olhos atentos. – Fofoqueiros, ela quer dizer, sorrio dando
as costas a ela e seguindo para o quarto, sento-me na cama depois de colocar
o cachorro no chão e pego o telefone, Harry também já deve ter saído do
colégio, ele vai para a empresa do pai dele fazer hora até poder vir, porque
Alpine é meio longe.
— Alô.
— Oi, mexicana linda.
— Oi. Você vem mesmo, mamãe está cozinhando.
— Claro que sim, nem dormi direito, estou ensaiando um discurso.
— Ela sabe que vem aqui de vez em quando. Melhor admitir se ela
perguntar, assim não somos pegos na mentira.
— Tá bom, já estava pronto para fingir que era a primeira vez que
entro na sua casa. Ia até elogiar a decoração. – Como se minha casa tivesse
uma decoração, são só móveis usados espalhados para nossa necessidade.
— Não faça isso, não repara em nada, só... sei lá, fala da vida, não das
coisas daqui.
— Minha mãe quer que você venha no fim de semana, domingo, só
nós, sem todos os Stefanos, só meus pais e meus irmãos, o que já é uma
multidão, eu sei.
— Combinamos depois, vamos nos concentrar na minha mãe, ela
disse que teremos regras.
— Ah! Eu... eu imaginei.
— Não debatemos, só dizemos “sim” para tudo e depois... depois...
— Quebramos as regras.
— Isso. Te vejo mais tarde, vou arrumar a casa. Tchau.
— Tchau. – suspiro feliz quando desligo o telefone, o cachorro me
olha com seus olhos negros e carinhosos.
— Está na hora da vitamina seu malandrinho de olhos carentes. –
Beijo o bichinho meia dúzia de vezes e então o deixo sobre a cama para
começar meu trabalho.
Capítulo 5
Harry

O movimento no escritório sempre me deixa sonhador, ver meu pai e


os tios trabalhando me anima, andando apressados pelos corredores em ternos
elegantes, falando ao telefone, saindo de uma reunião e entrando em outra,
agitados, ferozes, são ótimas pessoas, mas sabem o que fazer para ganhar
dinheiro, não se curvam, eu os admiro por isso.
Meu pai tem um jeito gentil de tratar os funcionários e tomar
decisões, dirigir todos, deixar seus irmãos livres para os grandes negócios,
enquanto todo o resto funciona com perfeição, porque ele é incansável.
— Heitor, eu queria... – Tio Ulisses ergue os olhos do celular
invadindo a sala do meu pai, sorri quando me vê. – Você fica bem bonitão
sentado aí na cadeira do papai.
— Valeu, tio.
— Cadê ele?
— Tinha uma reunião com um departamento, mas não ouvi direito
qual.
— Está treinando? – Tio Ulisses deixa o telefone no bolso e se senta
na cadeira em frente a mesa.
— Um dia, quem sabe, tio. Só vim fazer hora aqui, tenho umas coisas
para fazer e não queria ir para Alpine e depois voltar.
— Estou sabendo, vai jantar na casa da Dulce. – Ele ri se espalhando
na cadeira. Foi tolice achar que seria algo discreto. – Você é novinho demais
para casar.
— Não vou me casar, tio, só namorar.
— Mais um que não sabe respeitar tradição, pelo menos eu sei que
quando estragar tudo vai ser grande.
— Puxa, tio Ulisses, obrigado pela confiança.
— É um Stefanos, está na cara que vai estragar tudo. Sempre
estragamos.
— Eu vou tentar ser diferente. – aviso a ele que balança a cabeça em
um “sim” sem convicção. – É sério, tio.
— Dulce é uma boa menina, eu a conheço bem, ela está sempre com a
July, e a July está sempre fazendo alguma tolice que precisa do tio Ulisses,
então...
— Esse negócio de salvar animais. – eu conto a ele.
— Ainda vão acabar levando uma mordida, isso é o que vai
acontecer, já contei que fui mordido uma vez? – Ele não deixa responder,
apenas repete sua história. – Pulei o muro da casa de uma garota, ela garantiu
que o cachorro ficaria preso, o pai dela soltou o cachorro, não deu outra,
pegou minha perna. Tenho a cicatriz, não fosse seu pai e o seu tio Leon ainda
tinha acabado preso. Eu tinha a sua idade. Por isso, Harry, meu conselho é,
certifique-se que os cachorros estão presos.
— Bom conselho, tio Ulisses.
— Sou bom em tudo que faço, além de mais bonito que os outros. –
ele me avisa. – Seu pai já conversou com você sobre sexo? Porque eu digo a
você, Leon devia ter me deixado falar sobre isso com o caçula, mas não, ele
achou que era o papai, traumatizou o menino e não ensinou nada direito, a
prova disso é o Ryan, esqueceram a camisinha, amamos o Ryan, então tudo
bem.
— Eu conheço essa parte da fisiologia humana. – Meu tio faz uma
careta engraçada, olha em torno.
— Fisiologia humana? Quem falou sobre isso com você foi o tio
Nick? Porque eu acho que seu pai nem deve saber o que é isso.
— Temos educação sexual na escola, tio Ulisses. – Ele é
inacreditável.
— Ah! Tem? Vou ter que falar com a Gigi antes que ensinem a ela
coisas como... fisiologia humana.
— Ainda falta muito para Gigi ouvir sobre isso. – Ele parece aliviado
e me faz rir.
— Bem, vou voltar ao trabalho, já que vai à casa da Dulce fazer o
pedido, um outro conselho, diga tudo que a mãe dela quer ouvir, elogie a
comida e pareça um bom rapaz. Você odeia sair, é estudioso e sonha em se
formar. Essas coisas fofas. – Ele fica de pé. – Minta se for preciso. Até mais,
Harry.
— Tchau, tio. – digo quando ele deixa a sala, meu pai entra um
minuto depois.
— Seja lá o que ele disse, faça ao contrário. – papai avisa quando me
levanto de sua cadeira para ele se sentar. Acomodo-me onde antes estava meu
tio Ulisses.
— Muito trabalho, papai?
— Nada demais, é assim que serão seus dias. – Sorrio com a ideia. –
Se for mesmo isso que quer, sei que anda apaixonado pelo futebol.
— Gosto de ser bom em algo, e eu sou bom nesse jogo.
— Eu era bom em esportes, não como o Ulisses, ele sempre teve
energia demais, mas eu até que me dava bem em nossas brincadeiras de
criança, escalava os rochedos de Kirus com Leon, ele ficava preocupado,
porque eu era menor, mas eu sempre chegava lá em cima primeiro. – Ele se
lembra com saudade, orgulho, acho que pode mesmo sentir o perfume da ilha
e o azul de suas águas. – Os reis da ilha, dois pequenos conquistadores. Às
vezes me arrependo de não ter criado vocês lá.
— Fomos bem felizes em nossa casa, conquistamos aquele jardim,
escalamos árvores, vivemos muito bem.
— Que bom, filho. Me conta, está nervoso com o encontro?
— É meio estranho, eu disse que ia conhecer a mãe dela muito porque
ela é amiga da July e os tios conhecem a mãe dela bem, achei que era certo,
para não dar problema de família, mas é esquisito ir conhecer a mãe dela e
pedir para namorar.
— Antiquado talvez, mas não esquisito.
— O que acha que devo fazer, pai? – Meu pai me observa com um
sorriso tranquilo no rosto, posso ver seu orgulho se refletir nos olhos
carinhosos.
— É um rapaz tão inteligente, tenho certeza de que sabe o que fazer.
Seja completamente honesto, não prometa nada que não possa cumprir,
mostre que é um homem de bem, que tem um futuro pela frente e que
realmente está apaixonado por Dulce.
— Tem certeza de que não posso seguir os conselhos do tio Ulisses? –
pergunto sem esconder o desapontamento, ele me pede demais, tenho medo
de não ser capaz de ser essa pessoa que ele espera que eu seja.
— É uma das poucas certezas que tenho na vida. – meu pai diz
abrindo uma pasta enquanto encaro o celular, 5h da tarde, ainda falta duas
horas, esperar é mesmo uma grande droga. Procuro algo para ver, corro os
olhos por minha rede social e como isso me toma tempo, meia hora corre sem
que note. Dulce postou uma foto do seu novo cachorrinho, abraçada a ele
pedindo para alguém o adotar, ela é tão linda, tem tantas curtidas, não resisto
a olhar as curtidas, só duas meninas, July e outra que não conheço.
— Pai.
— Sim. – Ele me olha atento.
— Dulce estuda em outra escola e tem amigos diferentes, também
trabalha com isso de salvar cães e está sempre... falando com meninos.
— E não quer que ela fale com eles? – meu pai pergunta me dando
total atenção.
— E se ela... se envolver com algum? – Ele deixa seu queixo cair, é
tão ciumento, não sei por que esse espanto.
— É sério? Está indo pedir em namoro uma garota que não confia?
— Estou indo pedir uma garota que gosto, a única garota que gosto.
— Entendi. – ele me observa calado como se buscasse uma maneira
de me explicar.
— Pai, você é ciumento, não diga que não é.
— Eu sou, eu amo a sua mãe e eu morro de medo de perdê-la, mas eu
jamais duvidei dela, nunca achei que ela se envolveria com alguém. – ele me
conta e eu não sei bem como entender tudo isso. – Meu medo é uma
insegurança minha, sou eu que lido com isso, não ela. Sua mãe tem vida,
amigos, trabalho, almoça com homens, se reúne com eles e eu me corroo de
ciúme feito um bobo, mas porque acho que a quero o tempo todo comigo,
porque a acho incrível demais e fico pensando se sou bom o bastante para
alguém como Liv, que admiro e respeito.
— Era tão mais fácil se só me dissesse o que fazer.
— Só quero que pense a respeito de tudo isso, que aprenda com os
meus erros e com os seus. Isso basta.
— É bem complicado, ainda não sei direito como falar com a mãe
dela. – Cruzo os braços. – Faço discurso?
— Só se me deixar ir a esse jantar. – papai diz rindo. – Não esquece
de convidar as duas para o fim de semana.
— Anita trabalha muito, pai, mas a Dulce disse que vai.
— Certo, vamos pedir a Lizzie e Josh que apanhem sua namorada no
caminho para Alpine, ela se sente bem com eles.
— Muito. – digo olhando de novo o relógio. – Vai me levar?
— Agora mesmo, depois vou para casa. – Ele fecha seu computador,
arruma sua mesa, separa papéis, no fim, quando entramos no carro estamos
em cima da hora. Papai dirige sem precisar de indicação, já foi mais de uma
vez oferecer ajuda a July e Dulce. Ele é um apaixonado por animais como
elas, eu amo cachorros, ao menos amo os meus irmãos de patas, nem conheço
a vida sem eles.
Na porta dela, papai sorri, me abraça e deseja sorte, fica me olhando
com aquela cara de pai que está vendo o filho crescer, depois que deixo seu
carro espera que cruze o portão e bata à porta, só quando Dulce abre é que ele
acena e vai embora, como se eu tivesse cinco anos.
Ela está linda e um tanto nervosa a minha espera. Beijo seu rosto
depois de ver a sombra de sua mãe na sala, Dulce me dá passagem.
— Cheguei atrasado?
— Não, está na hora certa. – ela avisa procurando minha mão, sua
mãe se ergue do sofá, Dulce toda nervosa e eu levemente apavorado, mas
Anita tem um sorriso razoável, não sei se honesto, mas me estende a mão.
— Boa noite, senhora...
— Anita, Harry, só Anita está ótimo.
— Claro, é tão jovem. – digo tentando ser gentil. Ficamos todos de
pé, eu sem saber se já é a hora de fazer o pedido, Dulce a espera que um dos
dois reaja e Anita acho que está só se divertindo as nossas custas.
— O jantar é bem típico do México. – Dulce me conta buscando um
assunto. – Já comeu comida mexicana? – Sim, um monte de vezes, é Nova
York, tem todo tipo de culinária por aqui.
— Não. Vou adorar provar. – Ela me sorri e depois encara a mãe.
— Mãe, acho que podemos jantar, o que acha?
— Vamos. – Anita passa na frente, a cozinha delas é bem pequena,
mas muito arrumadinha, nos sentamos, tem refrigerante e tacos com carne e
aposto que estão cheias de chilli, melhor eu ir com calma.
— Esses são tacos. – Dulce me explica e presto atenção como se
nunca tivesse visto. – São tortilhas de milho, essa carne é bem temperada,
com feijão vermelho, pimenta, tomate, cebola, essas coisas, você coloca um
pouco de carne no taco e saboreia, fizemos com pouca pimenta.
— Ah, que bom. – digo sorrindo enquanto sou servido, provo assim
que todos se servem, não está mesmo muito apimentado, o sabor é mesmo
incrível, talvez meio forte demais para o meu paladar, parece quente e a
comida me lembra Dulce, ela é assim, como a culinária mexicana, cheia de
força e personalidade. Acho que a culinária diz muito sobre o povo.
É uma luta ficar procurando assunto, Anita não faz a menor questão,
vai comendo um pouco em silêncio, enquanto eu e Dulce lutamos por
assuntos triviais até o final da refeição.
— Estava uma delícia, mas eu realmente parei. – digo depois de dois
tacos e um copo infinito de refrigerante gelado que minha mãe não precisa
saber que tomei em um dia de semana.
— Acertou, mamãe. – Dulce diz a mãe que dá um leve sorriso
desanimado. – Minha mãe disse que seria boa ideia apresentar nossa culinária
a você, eu queria fazer um prato inglês, peixe com fritas como você disse que
comem muito em Londres.
— Obrigado, Anita, a ideia foi ótima, adorei provar a comida.
— Que bom, Harry. – ela suspira. – Que acha de irmos para sala? –
Anita convida e fico de pé erguendo meu prato.
— Ajudo a Dulce com a louça. – Ofereço-me, se fosse um jantar
Stefanos eu acabaria fazendo isso, mas depois dos protestos.
— Mais tarde. – Anita diz e entendo que está chegando a hora,
seguimos para sala, a televisão está ligada em um canal mexicano, gosto do
modo como pronunciam as palavras, da melodia, mamãe fala um espanhol
diferente, acho que mais parecido com o que se fala na Espanha. – Harry, eu
saio bem cedo amanhã, que acha de me dizer o que veio dizer, aí vou
descansar e vocês arrumam a cozinha. – Anita comenta sem nenhum tom
severo, fica até engraçado, ou ficaria se não estivesse em um tipo de transe
que me emudece.
— Harry. – Dulce me cutuca.
— Eu e a Dulce estamos namorando, vamos namorar, queremos
namorar se a senhora deixar. – Sai tudo de uma vez, confuso, sem sentido,
beleza ou determinação, tudo que ensaiei fica esquecido.
— Veio pedir? – ela pergunta e balanço a cabeça em um sim
veemente, definitivamente tio Ulisses tem razão.
— Sim senhora, como mãe, tenho certeza de que sabe o que é melhor
para Dulce e meus pais jamais permitiriam que eu namorasse com ela sem
sua autorização, sou um bom filho e obedeço aos dois, quero me formar e ter
um bom emprego e nunca saio muito de casa.
— Praticamente um lord inglês. – Anita diz de um jeito engraçado. –
Vocês têm minha permissão. – Só então encaro Dulce. Estamos os dois
aliviados.
— Obrigado senhora... Anita. Muito obrigado, acho que vamos lavar
a louça agora.
— Antes temos umas regras.
— Eu sabia que teríamos, só achei que tinha chance de ela esquecer
isso.
— Pode dizer, mamãe.
— Não pode atrapalhar os estudos. – Balançamos a cabeça. – Não
quero que venha aqui todos os dias. Não precisam disso, pode vir aos fins de
semana, durante a semana, uma vez no máximo. Não quero que fiquem
enfiados aqui dentro sozinhos, chego perto das 10h da noite do trabalho,
Dulce tem que estar com o jantar pronto, a casa arrumada e o dever feito,
então é bom que quando vier vá embora antes de escurecer, é seguro para os
dois.
Já esqueci metade das regras, mas vou balançando a cabeça para tudo.
Dulce também, nenhum dos dois dispostos a retrucar.
— Sejam respeitosos um com o outro. Respeitosos com nossas
famílias. Acho que é só isso, se tivermos problemas eu resolvo ligando para
seu pai e pedindo que o proíba de vir e coloco a Dulce de castigo pela
eternidade.
— Nós vamos... obedecer. – digo sem saber bem o que responder,
Dulce balança a cabeça em um sim mudo e Anita sorri, fico pensando se esse
é um truque para nos testar, porque é claro que vamos escorregar e ela não
parece ser uma mãe tão severa assim.
— Ótimo, espero que tudo de certo, é um ótimo rapaz, Harry, sua
família é maravilhosa e todos vocês são sempre bem-vindos aqui, mas precisa
entender que Dulce só tem a mim e preciso cuidar da minha filha.
— Entendo, Anita, agradeço a confiança. – Ela se levanta, tem um
sorriso no rosto, beija a filha e afaga meus cabelos. Eu e Dulce nos
levantamos sem saber como agir.
— Boa sorte, meninos. Vou me deitar. Dez horas é sua deixa para
partir, apenas porque estou em casa.
Ficamos sozinhos na sala, de pé e nos olhando sem respirar, foi um
turbilhão, aos poucos vamos sorrindo, a porta do quarto está fechada,
tecnicamente estamos sozinhos e puxo Dulce para meus braços, ela me
envolve o pescoço, trocamos um sorriso aliviados.
— Está namorando comigo. – digo a ela que afirma com um sorriso
bobo no rosto, igualzinho ao meu.
— E não me lembro de nenhuma regra. – ela sussurra quando se cola
mais a mim.
— Mas me lembro da ameaça de ligar para o papai. – digo tremendo
de medo, porque ele me faria obedecer se a mãe dela exigisse, jamais me
permitiria desrespeitar uma ordem de Anita.
— Sim. Dá até tremedeira. – Dulce me beija ou talvez eu beije Dulce,
o que importa é que é um longo beijo e quando nos afastamos meu coração
está fora do ritmo. – Eu estou apaixonada. – ela conta, balanço a cabeça em
um sim enquanto fecho meus olhos e volto a beijá-la.
Nós nos separamos por puro receio de sermos pegos, toco os longos
cabelos que são um pouco da razão da minha paixão, eu não resisto aos fios
grossos, lisos e escuros que escorrem até sua cintura em uma linda cascata
brilhante.
— Sou bem apaixonado por você, Dulce. – digo a ela que se encosta
em mim, ficamos calados um momento.
— Vamos arrumar a cozinha, Harry. – ela diz baixinho.
Ajudo com a louça, ela se impressiona com meu talento, sou um
Stefanos, essa deve ser a primeira coisa que aprendemos, não importa como,
sempre acabamos na cozinha, Gigi tem razão quando diz que eles têm os
filhos apenas para não fazerem mais serviços domésticos.
— Terminamos, ainda são 9h. – Dulce diz animada, mas meu pai me
manda mensagem bem quando nos acomodamos no sofá prontos para a
sessão beijos em frente a novela mexicana.
“Chame um táxi e venha para casa, amanhã tem aula e a mãe da
Dulce precisa descansar. Te amo.”
Mostro a mensagem para Dulce e sua decepção não é menor que a
minha, trocamos meia dúzia de beijos enquanto esperamos o táxi, ela fica da
porta me acenando até eu partir e me encosto no vidro pensando em como
gosto dela e como fico feliz e ansioso perto de Dulce, vamos tentar seguir
regras, tentar namorar direitinho, para ninguém nos afastar, vou respeitar
Dulce, sua casa e sua mãe, não vou envergonhar meus pais.
Seguir regras não é tão simples, e elas não demoram a serem
quebradas, ao menos algumas. Gosto de ficar com ela, sinto saudade e fugir
para tardes com ela se tornam mais frequentes, claro que os estudos vêm em
primeiro lugar, mas ela tem uma mesa ótima e podemos sempre a dividir com
livros e estudos.
Os dias vão correndo, mentimos, às vezes, como quando nos
encontramos durante a semana e fico na casa dela sempre mais tempo do que
sua mãe permitiria, tem cinema, teatro, passeios no Central Park, mas não
tem nada melhor que namorar no sofá, com a televisão ligada e o coração a
mil.
Seis meses de namoro, preciso pensar em algo, quem sabe saímos
para um lugar legal, dou um presente a ela, sem perguntar o que ela quer ou
ela reverte tudo em ração e contas de veterinário.
No momento, divido o carinho de Dulce com dois cachorros filhotes e
um gato adulto que tem dificuldades em se afastar dela e está sempre saltando
entre nós nas horas mais românticas.
Decidimos ver televisão no seu quarto, assim podemos fechar a porta
e namorar sem gato entre nós, só deitar junto, sem planos, ela sabe que pode
confiar em mim e eu sei que posso confiar em nós dois. Eu acho.
Está frio demais, Dulce não tem uma central de aquecedor como lá
em casa, usamos um edredom para nos aquecer, ela coloca mais um capítulo
da novela mexicana, no começo eu achava insuportável, mas tenho que
admitir que agora quero saber o final, a mocinha sofreu tanto e agora que
descobriu que a malvada é na verdade sua irmã, quero saber como é que
resolvem isso.
Era plano até Dulce espalhar os cabelos sobre o travesseiro e ficar tão
linda que só penso em beijá-la. A novela perde a importância, as regras
perdem a importância, só Dulce importa e o sabor dos seus beijos, suas mãos
a percorrerem minhas costas, seu cheiro doce e intenso, os olhos vibrantes em
busca dos meus. Só o que sentimos importa.
Capítulo 6
Dulce

Cada dia que passa as coisas ficam mais íntimas e intensas e Harry me
faz corajosa, me faz sentir segura, eu confio no que ele sente por mim e eu
por ele, gosto de tudo nele e durante seis meses, fomos avançando aos
poucos, ele é tão especial, me faz tão feliz, foi sempre tão carinhoso que eu
me sinto bem, dividir a cama com ele e um edredom não parece errado, nada
que fazemos parece errado, é sempre tão bom estar em seus braços.
— Não estamos vendo a novela. – digo a ele quando nos separamos
um instante para respirar.
— Que bom que tem a tecla voltar. – ele diz com um sorriso que me
aquece, puxo Harry para mim, quero beijá-lo de novo, minhas mãos não
parecem ter medo de arriscar e mergulham por baixo da sua camisa, enquanto
sua boca deixa a minha e escorrega para o meu pescoço.
A pele dele é quente, macia, ele tem músculos, eu adoro tocá-los,
adoro e fico tensa, meio cega, completamente boba.
Sua mão imita a minha e entra por dentro da minha blusa, quando ele
toca meu seio o coração dança, a respiração altera, meu corpo se cola ao dele,
não sou eu a comandar minhas ações, é qualquer outra coisa em mim.
— Está calor aqui. – ele diz com a respiração tão intensa quanto a
minha, deitamos cheios de frio, mas agora está mesmo.
— Tira a blusa. – Eu acho que não devia dizer, mas disse e ele
apenas afirma, se afasta um pouco de mim e arranca a camisa e como é
bonito, pele bronzeada, passou uns dias em Kirus.
Eu deslizo meus dedos em seu peito, ele é tão bonito, não entendo
bem por que gosto tanto de tocá-lo, porque estou sempre curiosa sobre ele,
seu corpo, meu corpo, é diferente de tudo que li, de tudo que aprendi ou ouvi
July contar.
Minha boca e a dele se unem em um novo beijo, desta vez eu me sinto
queimar, um calor no baixo-ventre, um arrepio a me mudar, eu não me
importo com mais nada, quando ele desce beijando minha pele a partir do
pescoço eu só quero deixar o caminho livre e tiro a camiseta.
— Dulce... – Harry me olha com uma interrogação divertida no olhar,
ganha um sorriso em resposta.
— Shiu! – digo puxando Harry para mim, ele não luta contra sua boca
encontra a minha, depois corre por minha pele e encontra meu seio e não
existe medo, vergonha ou consciência, só tem ele e eu, esse desejo todo que
eu não quero acalmar.
Ele se força contra mim, quero mais disso, mais de nós dois, fecho
meus olhos, deixo que a emoção me guie, que os instintos tomem conta,
quando abro os olhos e encontro os dele, tem tanto amor, é tão bom estar
aqui, tão certo.
— Quer mesmo isso? – ele me pergunta, nem consigo conter a
respiração, meu coração bate tanto que parece só ter uma maneira de tudo
isso se acalmar e balanço a cabeça em um sim. – Ainda podemos voltar,
sempre podemos voltar.
— Não quero voltar. – Harry balança a cabeça em um sim, o sorriso
dele se abre e morre suave em minha boca, em um longo beijo e as peças de
roupas vão sendo atiradas ao longe, um tanto sem charme, diferente de como
é nos filmes, meio enroscados, eu não sei direito o que é certo ou errado, nem
ele sabe, nunca nenhum dos dois viveu isso, somos dois jovens descobrindo o
prazer e me faz feliz descobrirmos juntos.
— Está pronta? – ele sussurra em meu ouvido, agora posso sentir todo
seu corpo, toda a beleza dele se misturar a minha, só balanço a cabeça. – Te
amo, Dulce. – seu sussurrar em meu ouvido me faz ter ainda mais certeza, é a
primeira vez que ele diz, tinha que ser assim, quando pela primeira vez,
escolhemos juntos fazer amor.
— Te amo, Harry. – digo procurando sua boca para um novo beijo,
minhas mãos correm por ele, as dele descansam em minha cintura, apertam-
me.
— Tem que me dizer se está indo bem, se quer que pare. – ele pede e
balanço a cabeça concordando, sinto sua boca sobre a minha, não um beijo,
apenas nos colocamos enquanto seu corpo vai buscando espaço no meu.
Primeiro incomoda, depois dói, não uma dor ruim, eu quero que
continue, eu mostro a ele com meus olhos, com minha pele a buscar a sua,
envolvendo Harry e então fechando os olhos para me entregar.
A dor vai embora depois de uns minutos, abro os olhos, toco seu
rosto, vejo um novo Harry, como se ele fosse tão diferente, tão mais meu,
apaixonado, feliz, nos movemos, achamos juntos uma maneira, rimos,
fechamos os olhos, nos beijamos, minha boca corre seu pescoço, ele geme, eu
digo seu nome com a voz entrecortada, mordo o lábio, deixo o corpo reagir,
se entregar, até que não sei bem como, mas tudo deixa de existir, é como voar
ao céu e depois mergulhar em queda livre e então descanso, leveza, silêncio
do corpo, da alma, do coração.
Ficamos imóveis, silenciosos e nos olhando, ele me sorri um instante
depois, me beija os lábios e se acomoda rolando para o meu lado, encaro o
teto, feliz, apaixonada, sem acreditar que perdemos a cabeça.
— Está arrependida? – ele me pergunta e viro a cabeça para olhar
para ele, sorrio.
— Não. Foi lindo. – conto sem medo, vejo seu alívio, os olhos
brilham quando toco seu rosto. – Você disse que me ama, disse só porque...
— Porque é o que eu sinto. – ele responde cheio de determinação.
— Também te amo, Harry. Muito. – Ele me beija, estranhamente
sinto alguma vergonha de estar nua e me acomodo em seu abraço com o rosto
queimando. – Estou meio com vergonha.
— De mim?
— Eu não vou sair debaixo da coberta se não fechar os olhos. – Harry
ri de mim, uma longa gargalhada, cubro meu rosto.
— Aposto que sai, basta sua mãe apontar no portão. – Meu coração
dispara de medo, arregalo os olhos.
— Deus nos livre de uma coisa dessas. – Harry me beija os lábios.
— Digo que te amo e quero me casar com você.
— Temos 16 anos, Harry. – Ele parece se dar conta que ninguém nos
deixaria casar, faz uma careta e me abraça. – Não quero que ela saiba, você
viu como ela está, mamãe é só tristeza e cansaço.
— Não entendo por que não pode aceitar ajuda, eu tenho uma mesada
mensal que... ela podia ter um emprego a menos, já seria melhor.
— Harry, mamãe nunca aceitaria, ela se ofenderia e com razão. Não é
certo, você e sua família têm a vida que tem porque se esforçam, deram sorte,
eu não sei, nem importa. O que importa é que eu e minha mãe que devemos
cuidar da gente. – Ele corre os dedos por meus cabelos como sempre faz.
Parece triste. – Eu sei que só quer ajudar, não temos que falar disso, não
agora.
— Nunca pensei que podia ser tão bom assim, não sei como vai ser
agora. – ele diz com olhos de malícia.
— Nem eu, vai ser uma avalanche de regras quebradas. – Nós dois
rimos, ele me beija, depois volto a me acomodar em seus braços e ficamos
quentinhos nos braços um do outro, sem pensar muito, seus dedos a correr
por meus cabelos.
Encaro o relógio, 5h30, sei que está perto da hora de ele ir embora,
seu pai está sempre preocupado com suas notas e exige que ele chegue antes
das 7h em casa.
— Vai ter que ir. – digo já com saudade.
— Venho amanhã.
— Vou estar a sua espera. – Nós nos olhamos.
— Acha que dá tempo de repetir?
— Amanhã? – pergunto a ele pensando que por mim repetia todo
tempo.
— Agora! – Ele se move, fica de frente para mim, toco seu peito,
sorrio pensando que não sei como recusar sentir de novo tudo aquilo.
— Podemos tentar. – Colo-me a ele sentindo a mão de Harry me
percorrer e sua boca quente tocar a minha.
Eu não sabia que era tão rápido, que uns minutos nos braços dele e o
desejo se acenderia mais uma vez.
Deixamos o corpo escolher o caminho, os lábios brincarem, as mãos,
cada pequena célula do corpo e acho que será sempre assim, não tem meios
de não sermos felizes juntos. Amo Harry para sempre.
Acontece igualzinho, começa a esquentar, o sangue começa a jorrar,
depois ficamos meio zonzos, deixando o corpo agir e então é de novo uma
explosão e calmaria que a sucede.
Quando me sinto refeita, abro os olhos e ele está me observando.
Olhos bonitos, rosto bonito. Harry sabe que tem que ir e já sentimos saudade.
— É nosso segredo, Harry. – Ele balança a cabeça em um sim.
— É você que conta tudo a July e ela espalha com ajuda do namorado
fofoqueiro.
— Vou pedir que não conte a ele, ela está em Harvard, tão envolvida
com as aulas, atrapalhada com a dificuldade do curso, mal nos falamos!
— Josh diz que logo ela se acostuma. – Harry me consola e concordo.
— Agora vamos nos levantar. Quer ir primeiro e fecho os olhos?
— Me acha uma boba? – pergunto e ele nega.
— Te acho linda, mas se não quer que veja de novo... – Cubro o rosto
com vergonha, de novo, ele disse, já viu tudo, tocou, sentiu. Sorrio quando
ele afasta minhas mãos. – É linda, mas vou fechar os olhos.
Ele fecha e me visto apressada, rindo da minha bobagem, junto as
roupas dele no pé da cama, algumas misturadas ao edredom.
— Pronto, vou te esperar lá na sala. – digo correndo para sala com o
riso dele em minhas costas.
Ele chega uns minutos depois, vem rindo, suave, animado, me
envolve a cintura.
— Eu te amo. – ele diz com orgulho. – Queria dizer há uns dias, vi
você me esperando na porta do cinema, se lembra? Semana passada, não me
viu, estava tão bonita, virou, os cabelos balançaram e eu entendi que amo
você, aí guardei para mim.
— Lembra quando me ajudou a dar banho naquele gato, ele estava
arisco e você o acalmou e conseguiu dar banho nele, na hora que estava
esfregando o bichinho tinha um olhar tão bonito para ele, aí eu sabia que te
amava. – Harry me beija, depois se afasta. – tenho que ir, se me atraso não
posso voltar amanhã, não é difícil dobrar o papai, mas a mamãe... é do jeito
dela ou de jeito nenhum.
Esperamos o táxi na calçada, abraçados e tremendo de frio, o inverno
está em seus piores dias, deve nevar em breve, dá medo de isso nos afastar,
vamos ficar quem sabe uns dias sem nos vermos.
Aceno quando ele entra no táxi e corro para dentro, direto para o
quarto, limpo tudo, troco lençóis, lavo, ajeito a cama, tomo banho, preparo
sanduíches com as sobras de ontem, economiza e vai mais rápido, mamãe
não vai achar nada demais, espalho meus livros na mesa da sala, corro para o
espelho e me olho com atenção.
Não tem como ela saber, viro de um lado para o outro, estou igual, ao
menos pareço igual, só fingir que tudo está como sempre.
Eu me sento diante dos livros, começo meu dever, já devia estar
pronto, quando ela abre a porta, está com os mesmos olhos tristes, nem tenta
mais sorrir, só se senta tirando os sapatos.
— Tudo bem, mamãe?
— Tudo. – Tolice achar que ela perceberia algo, minha mãe não
notaria nem que eu tivesse escrito na testa.
— Vamos jantar? – ela nega, se encosta no sofá, fecha os olhos e
chora, deixo meu lugar, abraço minha mãe, não sei o que fazer, porque ela
está chorando. – Mamãe, o que foi?
— Nada. – ela diz sem me olhar. – Só... não é nada, apenas me deu
vontade de chorar.
— Está cansada demais, eu vou arrumar um emprego, mamãe.
— Não. – Ela seca as lágrimas.
— Mãe, eu posso ajudar, não é nada demais, não vai atrapalhar os
estudos, prometo.
— Vai sim, está começando o último ano, vai terminar os estudos.
Depois... aí infelizmente, eu não consigo te ajudar, filha, vai ter que trabalhar,
quem sabe procura algum curso noturno, não sei, pode ser que se especialize
em alguma coisa. Só para ganhar um pouco melhor.
— Não ligo, mamãe. – eu garanto. Ela me abraça, chora mais algum
tempo, meu coração antes tão feliz se aperta ainda mais.
— Chega, sabe o que preciso? – Ela tenta sorrir, me olha de modo
carinhoso, como se chorar tivesse aliviado sua dor, parece quase feliz. –
Preciso de um bom banho, depois um chocolate quente, me acompanha?
— Faço o chocolate. – Ofereço-me feliz. – Se quiser eu coloco aquela
gotinha de conhaque que você gosta no seu.
— Muito bom, quando estiver terminando te aviso. – Ela me abraça,
beija meu rosto e se afasta, volta quando vê os livros abertos sobre a mesa. –
Isso não tinha que estar pronto?
— Os professores arrancaram nosso couro, mamãe. – Minha mãe
sorri sem muita fé e segue para o banho, arrumo sua cama, ligo a televisão,
ajeito os travesseiros, corro para a cozinha quando ela desliga o chuveiro,
tranco a casa, apago tudo e quando chego ao quarto ela está deitada e
enrolada, entrego sua caneca e me ajeito sob as cobertas. – Quer ver a
novela? – ela afirma, queria contar que Harry se viciou, que agora está
sempre querendo saber o que vai acontecer, mas não posso, não sem admitir
que ele vem quando não devia vir.
— Está com uma carinha boa. – ela diz afastando meus cabelos. – Os
fios cresceram. Quer cortar?
— Não. O Harry adora. – Ela me sorri, parece um sorriso simples, não
tem tristeza nem alegria. – Estou mais apaixonada ainda, mamãe.
— Ele também, não é?
— Sim. Muito. Já tem seis meses.
— Fico feliz, Harry Stefanos é um ótimo rapaz, ele já falou sobre
quando vai? Se vai para Harvard?
— É o sonho dele. – digo tomando um gole do chocolate. – Ele vai,
mas ainda temos uns seis meses até ele começar a ver isso, então... só não
ficamos falando toda hora.
— Evitando o sofrimento. – ela diz tomando mais um longo gole do
chocolate. – Tem mais que uma gota de conhaque aqui.
— Umas quatro gotas. – Dou de ombros. – Assim relaxa e dorme
bem.
— Obrigada. Estou precisando.
— Está triste, mamãe, estamos com problemas? Dinheiro, eu digo.
— Não, ao menos não mais do que o normal, eu não sei, deve ser o
inverno, ele me chateia, só isso, nunca gostei do frio, cansaço normal.
— Está certo. Se quiser conversar comigo, eu escuto, mamãe.
— Eu sei. – Ela toma o último gole de chocolate, encara a televisão. –
Não sei onde essa novela vai, esse casal mais briga do que se entende.
— Amor é complicado. – Ela sorri.
Mamãe me entrega a caneca vazia uns minutos depois, procura minha
mão, prende a sua e não demora nem cinco minutos, está dormindo
profundamente, desligo a televisão, ajeito suas cobertas, beijo seu rosto,
apago tudo como ela gosta, sempre bem escuro e vou para sala terminar o
dever.
— Boa noite. – Harry diz ao telefone quando finalmente telefono
pronta para dormir.
— Boa noite. – respondo sentindo saudade dele. – Estou com
saudade. – ele suspira.
— Eu também. Estou muito triste e feliz, foi incrível, mas queria
dormir aí com você.
— Acho que isso vai demorar.
— Eu sei, boa noite, mexicana.
— Boa noite. – Desligo, queria ficar conversando até adormecer, às
vezes fazemos isso, mas hoje estou cansada.
Minha mãe não está em casa quando acordo, saiu cedo, eu tomo
banho, junto meus livros, fecho a mochila, quando abro a geladeira, descubro
que não temos leite, gastei tudo ontem. Preparo um chá quente e doce, sento-
me no sofá e penso em Harry, na noite linda, nos beijos dele.
Foi tudo lindo, sem planejar, sem marcar hora, local, só aconteceu
bem natural, foi romântico mesmo sem flores, música, eu achava que seria
diferente, que seria planejado, Harry gosta de planejar, ele é organizado, mas
só aconteceu, sem preparativos.
Uma nuvem nubla minha visão, meu coração para de bater para voltar
acelerado um instante depois, sinto a cor fugir quando o sangue parece
congelar em minhas veias. Sem preparativos, sem preservativos. Abro e
fecho a boca, meus olhos se enchem de lágrimas, não usamos nenhuma
proteção, não era para acontecer, ninguém planejou nada, só deixamos a
emoção nos guiar e agora eu sei que foi um risco.
Posso estar grávida, aos 16 anos, grávida, um bebê a essa altura,
ninguém acharia bom, minha mãe ficaria arrasada, os pais do Harry
decepcionados, nossa vida... cubro o rosto com as mãos, deixo o choro me
invadir, nem consigo me mover de tanto desespero.
Quando meia hora depois consigo controlar um pouco o choro, e
resisto a dor, eu decido ligar para ele, minha mão treme quando procuro o
celular na mochila.
Atiro tudo ao chão quando não o encontro, ele cai sobre os livros e
cadernos, enfio tudo de volta na mochila. Eu posso ter um bebê em mim.
Mais lágrimas e desespero. Harry precisa saber, só tem ele, só ele pode me
ajudar, só o Harry vai estar comigo agora.
Nem consigo pensar em ir à escola, vão telefonar a ela, mas eu não
posso ir, não consigo fazer nada se não tremer de medo.
— Bom dia, mexicana mais linda do universo! – Harry diz do outro
lado da ligação e seu jeito carinhoso não ajuda, apenas desato a chorar sem
forças para nada. – Dulce! – Sua voz soa urgente.
— Harry! – digo seu nome, como é que posso dizer uma coisa assim
por telefone? Como é que posso não dizer.
— O que foi? Dulce, já está na escola?
— Não. Eu estou em casa.
— Se machucou?
— Não, Harry. – Meus soluços me impedem de falar, mesmo
sentindo a urgência e preocupação em sua voz.
— Por favor, Dulce, o que aconteceu?
— Está sozinho? – pergunto com medo de ele deixar alguém ouvir.
— Sim, espera. – Fico esperando enquanto encaro o chão e tremo
tentando pensar na maneira de dizer isso. – Pronto, estava com a Emma, ela
já foi se reunir aos amigos dela. Sua mãe descobriu, é isso?
— Não. Eu estive pensando, essa manhã, acordei tão feliz, eu amo
você, Harry e foi tudo lindo.
— Ah! É por isso que está chorando? – ele questiona.
— Não. Acho que nos enfiamos em uma enrascada, Harry, não
pensamos direito.
— Se arrependeu? – ele pergunta tão triste. – Amo você, Dulce, não
vamos mudar.
— Talvez mude tudo, Harry, nós perdemos a cabeça, não tomamos
cuidado, nenhum cuidado, entende?
Silêncio, queria ver a cara dele, ver se está me odiando agora, se está
bravo, triste ou com medo. Mais lágrimas correm, mais medo.
— Dulce, eu... eu estou indo aí, vou dar um jeito, não está sozinha,
vamos... vamos pensar juntos, está bem? Não chora, não é assim tão ruim.
Depois que eles matarem a gente, vão ajudar, eu... nossa, meu pai amaria,
mas a mamãe me arrancaria a alma, eu... eu estou te assustando, não podemos
nos desesperar, nem sabemos se aconteceu. Ainda está chorando?
— Sim.
— Então tenta não chorar até eu chegar.
— Vem logo. – peço a ele. – Tchau.
— Tchau. Dulce!
— Sim.
— Ainda é a mexicana mais linda do mundo e eu ainda te amo.
— Eu também. – Desligo e me encolho no sofá. Esperando por ele,
juntos podemos cuidar um do outro, é como tem que ser.
Capítulo 7
Harry

Eu sabia, eles tinham razão, Stefanos não é mesmo? Claro que eu


faria algo bem estúpido. Não que esteja arrependido, eu não estou, nem um
pouco, acho que até gosto da ideia.
Meu pai gostaria, escondido da minha mãe, porque ela me arrancaria
a alma, coço a cabeça pensando que agora tenho algo urgente, e pensar se
fico feliz ou não, agora só me atrasa. Como é que saio dessa escola agora?
Dulce precisa de mim, eu imagino que está prestes a ter um surto,
claro que estamos enrascados até o pescoço, nem imagino como podemos
resolver isso, ela precisa que chegue e não posso simplesmente pedir para
sair, vão ligar para os meus pais e óbvio que até a hora do almoço já estarão
todos os Stefanos reunidos esperando meu tio Leon que vai estar voando da
Grécia e imagino todo tipo de discussão e conversas e conselhos e a mãe da
Dulce nos proibindo de ficarmos juntos e o caos. Simplesmente o caos.
Gigi é o nome da minha fuga, corro os olhos pelo pátio, o sinal vai
bater, os portões já se fecharam, preciso ser rápido, aquela pirralha sabe como
sair dessa prisão, essas muralhas nunca foram problema para ela.
— Gigi! – grito por ela quando a vejo em uma roda de garotos que
riem de qualquer coisa que ela diz enquanto Ryan cora de vergonha. Essa
dupla é mesmo perfeita. Minha prima se aproxima risonha, os cabelos longos
espalhados, a camiseta para fora um tanto torta pelo peso da mochila.
— Você está com cara de quem se ferrou, Harry. – é o que diz assim
que se aproxima.
— Meio que isso. – digo olhando em torno. – Se alguém quer fugir da
escola, como ela faz isso?
— Talvez eu saiba algo sobre isso. – ela diz olhando em torno. –
Estamos só... no terreno da imaginação, não é mesmo?
— No terreno da imaginação, se eu tiver que fazer isso agora, como
é?
— Talvez eu conheça uma maneira ou duas. – Gigi diz com seu ar de
cinismo que me faria rir se não estivesse tão apavorado.
— Gigi, eu preciso de ajuda, vamos logo com isso. – Chega de
brincadeiras, ela olha em torno.
— O segredo é a alma do negócio, vá pelo corredor da secretaria,
pegue a primeira saída em direção ao jardim dos fundos eu te encontro lá.
— Por que não vamos juntos?
— Acredite, é para sua segurança, ser visto caminhando ao meu lado
em direção ao jardim dos fundos vai colocá-lo em encrenca.
Reviro os olhos, estou nas mãos da pirralha, não resta escolha, faço o
que me pede, sigo pelo caminho que me indicou e chego ao local ao mesmo
tempo que ela, o jardim da escola é repleto de árvores, pinheiros e outros
tipos de plantas, cercam todo o muro e a grama bem cuidada é proibida para
os alunos, de que adianta um espaço verde tão bonito se não podemos nos
aproximar?
— Pronto, o que eu faço? – Ela sorri.
— Vem. – Seguimos entre as árvores, até o muro alto, encaro a altura
e olho para ela, como essa garotinha faz isso? – Escala usando essa árvore,
vai por aquele galho, ele é bem forte, aí vai estar no muro.
— Gigi é muito alto para saltar do outro lado.
— Que grande atleta. – Ela ri. – Não precisa saltar, vai ver nessa
direção certinho uma placa enorme da escola, pisa que ela é bem firme, dá
para descer por ela e o salto para o chão é bem pequeno.
— Obrigado, não preciso dizer que é segredo, preciso?
— Não, segredo é meu nome do meio, depois de encrenca e antes de
me ferrei. – Com um sorriso culpado no rosto, desses que não deviam surgir
diante de tamanha crise, eu escalo a árvore e consigo passar para o muro –
Harry! Harry. – ela sussurra. Olho para baixo. – Tira o celular da mochila
antes de a jogar lá embaixo, vai quebrar, já esqueci uma vez.
— Gigi, você é a pior aluna dessa escola.
— Obrigada, eu tento, só quero deixar o papai orgulhoso. – ela
responde cheia de si. Aceno antes de saltar para a placa e depois descer
escorregando até o chão, um casal passa de mãos dadas, os dois me olham
agachado no chão e finjo amarrar os sapatos.
— Tudo bem? – o homem pergunta encarando o muro. Eu dou um
falso e brilhante sorriso.
— Sim. – Coloco a mochila nas costas. – Estou atrasado para a
escola, bom dia. – Passo por eles lentamente e assim que cruzo com o casal,
ponho-me a correr como se o diretor estivesse em meu encalço. Sou péssimo
em ser mau aluno, não tenho talento, só paro de correr dez minutos depois a
quilômetros da escola, pego um táxi para casa de Dulce.
Espero que meus pais não descubram, nem os professores, nem a
direção, eu não sei bem o que estou fazendo, mas é melhor estar com ela
agora.
Grávida, será que é mesmo possível? Idiota, como é que não nos
protegemos? Simples, não era o plano. Nem eu, nem ela sabíamos que iria
acontecer.
Pago o homem e arrasto a mochila para fora do táxi, quando me
aproximo da entrada ela abre a porta, está chorando e isso me parte o coração,
talvez eu devesse sentir culpa.
Acolho Dulce e acho que meu abraço só provoca mais suas lágrimas,
ela soluça e eu a consolo com meu carinho, devia dizer algo, mas não tenho
ideia do que dizer.
Quando ela controla o choro, se afasta, fecha a porta e aproveito para
deixar a mochila no chão.
Com olhos esgotados e inchados de tanto chorar, Dulce me encara e
não sei o que fazer, puxo sua mão, nos sentamos abraçados, eu tão perdido
quanto ela, talvez mais, acho que já ouvi tantas vezes minhas tias e a mamãe
falarem sobre ser mulher, sobre o corpo feminino e seus direitos, então eu
não sei o que é certo dizer.
— Sinto muito, Dulce, se for mesmo uma gravidez, prometo cuidar de
tudo. Eu acho que podemos nos casar, somos jovens, mas não tem problema,
casamos e pronto. Eu amo você.
— Harry... – Ela se encosta em mim. – Tem minha mãe, seu futuro,
não é só se casar. Sabe disso.
— Eu sei, desculpe. Talvez seja culpa minha.
— Nossa, eu e você agimos sem pensar.
— Não estou arrependido. – digo para tranquilizá-la, Dulce não diz o
mesmo, apenas fica encostada em mim, silenciosa e triste.
— Pulou o muro como a July? – ela me pergunta um tempo depois.
— Sim, a Gigi me ajudou. Eles são muito rígidos por lá. Não
conseguiria sair sem meu pai saber de algum modo.
— Ainda bem que minha mãe já tinha saído, fiquei tão assustada,
acha que estou sendo exagerada?
— Não sei, é certo que o risco existe, estudamos tanto sobre isso, meu
pai conversou tantas vezes comigo, eu tinha certeza de que nunca faria uma
tolice dessas, até meu tio Ulisses deu conselhos sobre isso.
— Também sempre achei que não seria assim, morro de medo por
causa da minha mãe, mas eu só... quis ser feliz e não pensar.
— Conseguimos. – digo sorrindo, ela me olha surpresa. – Não estou
feliz, eu juro. – Ela continua a me olhar desconfiada. – Estou feliz. Quer
dizer... estou como quiser que esteja. – Decido agradá-la, Dulce está muito
nervosa, se digo que não ligo, ela se chateia, se digo que estou arrasado, ela
pensa que não quero nada sério com ela, melhor me manter neutro.
— Estou preocupada. Se eu estiver grávida, o que a gente faz?
— Conta para o meu pai, aí ele resolve.
— Acho que sim. Só não sei como ele resolve. – Ela volta a chorar e
abraço mais forte Dulce.
— Fazendo o melhor para nós dois. Tenho certeza. – Dulce balança a
cabeça em um sim cheio de soluços.
— Minha mãe vai ficar tão decepcionada, ela tinha confiança em
mim, está tão triste e aí eu faço algo estúpido assim.
— Não tem culpa, eu que tenho.
— Harry, não faz isso, não é culpado de nada, nós dois somos, eu
podia ter dito não, eu que comecei, se formos honestos, você nunca teria dado
esse passo.
— Realmente não teria, não sem ter certeza de que você queria, mas
podia ter lembrado de proteção.
— Eu também podia. – Ela não me deixa assumir a culpa e esse
companheirismo me emociona. – Acho que discutirmos isso não leva a nada.
— Acho que não. – concordo com ela. – Como... quando é sua
próxima menstruação? – Acho que o melhor é ser prático e pensar em
soluções. – Quando vier vamos ter mais certeza, não é?
— Sim. Falta dez dias.
— Tudo isso?
— Nem sei direito como vou aguentar até lá.
— Você tem uma médica? – pergunto a ela. Minhas irmãs têm, vão
sempre. Mamãe diz que é importante. – Ela pode fazer um exame e não
precisamos esperar tudo isso.
— Minha médica é da Associação, com toda certeza Annie ficaria
sabendo.
— E levaria dez minutos, se tanto, para todos os Stefanos saberem. –
Meus dedos deslizam por entre os fios de seus cabelos enquanto ela brinca
com a barra da minha camiseta encostada em mim.
— E diriam que minha mãe tem que saber, então seria um desastre.
— Eu ganharia um desses grupos que eles fazem com toda família,
me deixariam fora e falariam de mim sem qualquer pudor.
— Vamos assistir a novela? – ela me convida e olho surpreso. – Só
não pensar muito nisso por umas horas.
— Sim, ficamos juntos, Dulce, isso é tudo que importa, estando ou
não estando, felizes ou tristes, estamos juntos.
— Juntos. – Ela me olha, ainda está claro que chorou, mas já posso
ver um sorriso surgir. – Amo você, Harry.
Beijo Dulce, um longo beijo, não sei como vamos fazer para esperar
dez dias e depois, como serão os dias seguintes. Mas não importa o quanto
demore, vou estar ao lado dela. Não importa o que a gente passe, vamos fazer
isso juntos.
A novela é ruim, todos concordamos, os argumentos são péssimos a
atuação vergonhosa, mas é tão divertido, tão dramático que me lembra um
pouco Dulce, nesse tempo de namoro já notei que ela é assim, tudo sempre
grande.
Fico pensando se esse momento também, não vou pensar assim, ela
tem toda razão, não usamos proteção, é simples, pode ter acontecido, isso é
um fato, se não aconteceu é apenas por sorte, só isso. Espero que a gente
tenha sorte porque além do meu pai e essa fixação por bebês, não acho que
mais alguém vá ficar feliz com isso.
Na hora de ir embora, depois de longos beijos e algumas lágrimas,
Dulce me sorri preocupada.
— Eu não consigo desligar, eu penso nisso o tempo todo. – ela diz
torcendo os dedos.
— Também penso, finjo que não, mas o tempo todo eu fico com uma
parte do cérebro pensando nisso.
— Harry, se eu estiver... – Os olhos marejam.
— Dulce, eu não sei, sei que vamos resolver juntos. – digo a ela. – Sei
que amo você e que se não se controlar, quando sua mãe chegar, ela vai
descobrir na hora.
— Vai, não... não vai, acho que ela nem me olha mais nos olhos,
sempre tão dentro de si mesma. – Dulce suspira. – Mesmo assim, prometo me
controlar, vamos só... torcer?
— Sim. Isso, vamos só... torcer. – digo olhando para ela.
— Torcer muito. – Ela me abraça, tento passar em um abraço todo
meu sentimento, acho que ela sente, quando se afasta, está mais calma.
O táxi estaciona, é quase 6h, ainda não consigo pensar direito em
como chegar a casa e fingir que não tem nada errado.
Potter e Lily me recebem cheios de alegria, saltando e exigindo
carinho, beijo os pelos, abraço, deixo a mochila no chão e me envolvo com
eles, um pouco de carinho e riso para por um segundo, não pensar.
— Harry! – A voz da minha mãe vem dos fundos. – Mamãe está
cozinhando? – pergunto aos cães. – Vamos lá, acham que pareço bem?
— Parece normal. – Danny responde. Ergo os olhos e ele me encara
um tanto surpreso. – Não era comigo?
— Não, era com... eles. – Danny balança a cabeça em um sim
distante.
— Vem ajudar. Demorou, papai disse que já ia te ligar, perguntou o
que você fez depois da aula. – Danny se aproxima, olha em direção a
cozinha, uns cômodos depois da sala principal. – Falamos que ia na casa da
Dulce.
— Eu fui Danny. – digo fingindo naturalidade.
— Dissemos que foi depois da aula, entende? Eu e a Emma... a gente
não contou que não esteve na aula hoje.
— Estive sim, Danny. – sussurro.
— Não esteve não. – ele diz revirando os olhos. – Foram te procurar,
fizemos como a Gigi falou, contamos sobre a sua dor de barriga, os vômitos e
a dor de cabeça. Que estava indo ao médico, mas que amanhã, talvez
estivesse melhor.
— Ótimo! – suspiro aliviado sabendo que devo mais essa àquele
monstrinho que é a Gigi.
— Harry! – Mamãe chama de novo e seguimos eu e o Danny para
cozinha.
Meu pai está diante do fogão, manga da camisa dobrada, calça social,
o relógio no pulso, mamãe a lavar a louça, Emma a secar, olho para ele e
quero isso, quero a vida dele, trabalhar na corporação, voltar para uma casa
bonita, com uma família, cozinhar antes mesmo de tirar a camisa do trabalho,
enquanto sorrio para uma esposa e as crianças, animado e cercado de
cachorros.
— Oi, gente. – digo indo direto para a pia lavar as mãos.
— O que aconteceu? – meu pai pergunta e mamãe até para de lavar a
louça.
— Nada, por quê? – Não é possível que já perceberam.
— As mãos. – meu pai aponta enquanto continuo a lavá-las.
— O que tem minhas mãos? – pergunto sem entender.
— Está lavando as mãos sem que ninguém mande.
— Ah! Isso, que susto. Eu... cresci, mamãe. – Os dois trocam um
olhar desconfiado. – Coloco a mesa.
— Heitor, ele vai ficar doente. – Meu pai deixa o fogão para tocar
minha testa. Depois bagunça meus cabelos e pisca risonho.
— Coloca a mesa, filho. Depois do jantar levamos os meninos para
uma volta.
— Tenho muito dever, papai, se não fizer eu... eu não jogo. Você
sabe.
— O Danny vai comigo, então e a Emma. Não é princesa?
— Vou sim, papai. – Emma ajeita os óculos.
— Amanhã depois da aula vou apanhar vocês três. – minha mãe diz
para meu desespero. – Oftalmologista. Emma precisa de um novo par de
óculos.
— Por que temos que ir? – pergunto agoniado.
— Para saber se não precisam também, não custa.
— Tenho jogo depois da aula. – Minto, terminando de colocar a mesa.
– Treino, tenho treino, vou ficar na escola, nem vou ver a Dulce.
— Até porque não é dia de ir à Dulce, não é mesmo, Harry? – Meu
pai me lembra e balanço a cabeça em um sim descontrolado.
Durante o jantar, eu evito falar, está na cara que eles são mais espertos
que eu e logo vão descobrir.
Corro para o quarto na primeira oportunidade, decidido a me esconder
e curioso para saber se Dulce conseguiu evitar a mãe, espero que ela tenha
tido mais sorte que eu, fui muito mal.
— Como foi? – pergunto assim que ela atende.
— Fingi que estava com dor de cabeça, ela entendeu, me deu um
comprimido e me mandou ir mais cedo para cama. – Sabia que ela era mais
esperta que eu. – Estou deitada, fingindo dormir. Ela também já foi para o
quarto dela, mas amanhã não posso faltar na escola ou vão ligar para ela.
— Eu também. Depois da aula nos encontramos?
— Sim. Amanhã saio mais cedo, ainda bem, não consigo nem pensar
em passar o dia todo fingindo que tudo está bem.
— Nem me fale, eu te encontro na sua casa. Boa noite, tenta dormir.
— Vou tentar. Boa noite, Harry, apesar de tudo isso... eu... eu sei que
vamos dar um jeito e foi muito bom.
— Muito.
Não é como se eu dormisse tranquilo, mas consigo dormir e pela
manhã, quando meu pai nos deixa na porta da escola, eu me sinto bem.
— Harry. – Papai chama quando meus irmãos correm para dentro da
escola. – Amo você. Estou aqui e sempre vou estar.
— Obrigado, papai. Está tudo bem. – Ele me sorri e como meus
irmãos corro para dentro.
Agora faltam apenas nove dias. Isso não parece o melhor jeito de
resolver. Quanto tempo até poder comprar um teste de farmácia? Se ao
menos eu tivesse aula de biologia hoje. Nunca perguntaria, seria como assinar
um documento de confissão.
— Deu certo? – Gigi pergunta assim que entro.
— Sim. Obrigado por tudo, Gigi.
— De nada. – Ryan me olha um momento, ao lado de Gigi, o
garotinho parece curioso e preocupado.
— Não é nada demais, Ryan. Só queria ver a Dulce. – Ele balança a
cabeça em um sim sem qualquer confiança.
— As coisas que a gente não pode contar para o papai, a gente conta
para o Josh. – ele diz antes de se afastar ao primeiro soar do sinal de entrada.
Josh, é claro, eu sei que ele é de confiança, Josh é o primo que resolve
as coisas, de vidraça quebrada a notas ruins, brigas no colégio, ele é a melhor
escolha.
Vou procurar meu primo depois da aula, Dulce pode esperar um
pouco, é o melhor a fazer.
As horas demoram a passar, mas assim que a aula acaba, eu corro
para a empresa. Aperto o botão do elevador pensando em como é que falo
para ele, mas não consigo pensar em nada, esperar nove dias é muito e Dulce
vai ter uma coisa antes disso.
— Faltou no treino? – meu pai me pergunta quando a porta do
elevador se abre e dou de cara com ele.
— Eu... cancelaram.
— Tudo bem, vai ficar por aqui? Devia ligar para mamãe, acho que
ainda dá tempo de passar no oftalmologista.
— Sério, papai? – Meu olhar de pobre infeliz o convence.
— Tudo bem, vai outro dia, eu tenho que descer no departamento
pessoal e depois... fica por aí, te vejo depois.
— Tá bom, vou dar um oi para os tios. – Ele sorri e entra no elevador,
eu me apresso para sala de Josh. Ele ergue os olhos quando me vê entrando.
— Oi.
— Oi.
— Algo errado? – nego me sentando.
— Que bom. Veio só estagiar? – Josh ri.
— É... meio isso. E o bebê?
— Thiago é um anjo, não vejo a hora de ir para casa, estou louco para
ver meu bebê. Lizzie tem sorte de poder passar mais tempo com ele.
— Eu sei. Mamãe diz o mesmo. Quanto tempo até o teste de farmácia
poder ser usado? – Josh se encosta na cadeira, cruza os braços e dá um longo
suspiro.
— Você está de brincadeira? Não estou acreditando. Harry, a Dulce
tem 16 anos.
— O quê? Foi só curiosidade!
— Harry! – ele diz firme.
— Foi a primeira vez dos dois, esquecemos de pensar nisso, não sabia
que ia acontecer e nem ela, aí... bom, acho que esperar os nove dias até a
menstruação não vai dar. Quer dizer e se não vier?
— Quando foi isso?
— Dois dias. – digo desesperado. – O que eu faço, Josh!
— Começa fechando a porta. – ele pede e corro para obedecer. Volto
e me sento aliviado de ter o primo Josh para salvar tudo. – Dulce precisa de
um ginecologista, se ainda for possível, ela toma uma pílula do dia seguinte,
que devia saber que existe.
— Ninguém explicou isso na escola e o papai nunca falou sobre isso.
— Por que não é brincadeira, não é para esquecer o preservativo, é em
um caso realmente especial, Harry...
— Eu sei, eu... não vai mais acontecer, eu acho que nunca mais na
vida vamos fazer sexo.
— Aposto que vão. – Josh ri. – Aposto todas as fichas nisso. – Sorrio.
Ele tem razão, não conheço nada melhor que isso.
— Ela vai na médica da Associação, a tia Annie vai saber e aí...
— Não, mamãe não pode saber, acho que a médica não contaria, ela
teria o lance da ética, mas mamãe é perspicaz, vamos na médica da Lizzie,
ela é legal, eu levo vocês amanhã, depois da aula. Não! Vamos... – Ele olha
para o relógio. – Agora. Dulce está em casa?
— Me esperando.
— Ótimo, vamos dizer que vou ver o meu filho e vai comigo, seu pai
pega você lá, ele vai adorar a ideia, arruma todo tipo de desculpa para ver o
neto, inclusive tenta ir embora com ele, como se estivéssemos distraídos e
não fossemos notar.
— É, meu pai dá esses vexames às vezes.
— Vamos, Harry, por que diabos demorou tanto?
— Não sei, estive... com medo, eu acho.
— Eu devia comprar uma caixa dessas pílulas e deixar em casa,
parece que vai virar tradição Stefanos.
— Quem mais usou isso? – Ele faz careta.
— Ninguém, Harry, ninguém. Segredos de ofício de primo mais
velho.
— Luka?
— Não.
— Alana?
— Não. – ele responde.
— Então foi a July, só pode ser. Os outros...
— Vamos logo, Harry. – No corredor encontramos tio Ulisses
brincando com a secretária, ele está sempre fazendo isso.
— Onde vão?
— Ver o Thiago, tio. Até amanhã.
— Você era o cara que ia me substituir, agora fica com essa. Quando
vou ter férias permanentes se fica saindo toda hora?
— Nunca, tio. – Josh diz rindo. – Precisamos de você aqui.
Quando ficamos sozinhos no elevador e a porta está realmente
fechada ele me encara sério.
— Liga para a Dulce, peça que fique pronta. – Balanço a cabeça
afirmando. – Ela está muito assustada?
— Muito. Acha que a culpa é minha?
— Dos dois, mas acho que é bom fingir que é sua e tomar conta da
situação.
— Por que eu sou homem?
— Não. Porque tem privilégios e oportunidades, porque está em
melhor situação que ela nesse sentido, então é bom que assuma as
responsabilidades, só por isso.
— Obrigado, Josh.
— De nada. Primos são para isso, eu acho. – ele diz apontando o
carro.
— Um dia vai trocar de carro?
— Não. Minha esposa tem um carro lindo, deixe eu aproveitar do
meu velho companheiro. – Dou de ombros, logo vou estar dirigindo, mas não
pretendo ter o mesmo carro para sempre. Não mesmo.
— Josh, e se eu for pai?
— Meu Deus! Só de ouvir já fico arrepiado, vai ser o maior
acontecimento. As senhoras Stefanos vão enlouquecer.
— Acha que vão me matar?
— Só um pouco. – É isso não ajuda muito. Encosto a cabeça no vidro
quando ele dá partida e pego meu telefone para avisar Dulce. Melhor
começar a rezar também. Quem sabe ajuda.
Capítulo 8
Dulce

Torço os dedos na porta de casa, não tenho a menor ideia de como


vou olhar na cara do Josh, eu acho que nunca senti tanta vergonha. Meu rosto
queima quando o carro estaciona, engulo em seco pensando se ele vai ser
muito rigoroso, se vai contar a seus pais e quem sabe a minha mãe.
Não quero chorar, mas quando os dois descem meus olhos marejam e
engulo a agonia para olhar de um para o outro tentando parecer natural.
Josh me sorri e sinto um pouco de calma, é como se um pouco do
peso saísse de minhas costas, Harry me beija os lábios, passa o braço por
minha cintura e olhamos os dois para Josh.
— Que acha de ir até lá em casa ver meu bebê, Dulce? Está
acostumada a cuidar da Bárbara, aposto que pode se dar bem com ele.
— Josh... – Minha voz embarga e estou a ponto de cair em lágrimas,
ele me sorri, beija meu rosto.
— Nós dois sabemos que não é a primeira a passar por isso. – ele
sussurra no meu ouvido me fazendo lembrar de July e tudo que ela passou e
como ele ajudou e não contou a ninguém, mas ela é sua irmã, já eu... mesmo
assim o alívio agora me invade por completo. – Vamos?
Harry parece nos olhar curioso, não sei se feliz ou apenas tranquilo
porque estamos com Josh e ele vai nos ajudar.
Acomodo-me no banco de trás, os dois vão na frente, assim que o
carro se coloca em movimento, Josh me olha pelo retrovisor.
— A médica vai conversar com você, Dulce, tirar todas as suas
dúvidas, vamos esperar do lado de fora, precisa ir aí pensando em tudo que
quer saber, esse pequeno contratempo será resolvido, realmente acho que não
será nada, mas se for, somos família e famílias resolvem as coisas juntos.
— Obrigada, Josh, eu nem sei o que dizer.
— Não precisa dizer nada. – Ele sorri e volta a se concentrar no
caminho, Harry me olha a cada minuto, sem ele não sei como seria.
A clínica é bem elegante, uma jovem de uniforme e sorriso nos lábios
nos recebe e indica as cadeiras confortáveis, Josh nos deixa sentados e vai até
o balcão, Harry procura minha mão.
— Quer que eu entre com você? – Balanço a cabeça em negação. –
Tem certeza?
— Acho que prefiro conversar sozinha, ela deve pedir exames, essas
coisas.
— Talvez, mas não se preocupe com nada, nós... vamos dar um jeito.
De quem o Josh estava falando?
— Da July. – sussurro e ele abre e fecha a boca surpreso. – Josh
ajudou os dois. Eu nem me lembrei disso, se tivesse lembrado..., mas no fim
é isso, as coisas são como são. Acho que vai ser melhor assim, conversar com
uma médica, perguntar tudo.
— Verdade, pergunta se a gente pode... você sabe. Continuar, mas
com segurança.
— Shiu! – Eu fico vermelha, olhando em torno, claro que vou
perguntar isso, mas se alguém escuta. – Acha que sabem o que vim fazer
aqui? – sussurro preocupada.
— Acho que ninguém se importa.
— É, acho que não. Ainda não contei à July, ela é minha amiga e eu a
amo, mas vou ter que implorar para ela não espalhar isso.
— Ela só não pode contar ao Tyler.
— Acho que não vou contar nada à July. – Ele balança a cabeça
afirmando, encosto-me em seu ombro. – Josh é um cara maravilhoso. – Harry
balança a cabeça. – Ele está sempre me ajudando, todos eles, gosto muito de
todos.
— Eu sei. Conseguiu dormir? – nego em silêncio, ele pretende dizer
algo, mas Josh está de volta, se senta ao nosso lado.
— Ela já vai chamar, Dulce, mas eu quero avisá-los que vou contar à
Lizzie, ela é minha esposa, não posso e não quero mentir, além disso, Harry,
ela é sua irmã.
— Eu sei, só pede segredo, já sei que ela vai me puxar a orelha,
Lizzie acha que é...
— Sua irmã mais velha que quer o seu bem. Quando chegarmos vai
trocar umas fraldas, acho que isso deve ajudá-lo a se lembrar e nunca mais
fazer tolices.
— Nem pensar.
— Vai sim, garoto, vai trocar fraldas. – Josh ameaça Harry que faz
uma careta desesperada me pedindo ajuda.
— Não tenho nada com isso. – digo sorrindo, ainda nervosa, mas
sorrindo porque quero muito ver isso.
— Senhorita Garcia? – A enfermeira me chama, meu coração dispara
quando deixo os dois para segui-la. Ela me conduz até a sala da médica, é
uma bela sala, limpa, clara, discreta, mas dá para ver que tudo é muito
elegante.
— Dulce? – Ela se ergue, ganho um abraço reconfortante, como se
fossemos amigas e isso soa estranho e bom. – Sente-se.
— Obrigada, doutora.
— Como vai? – Sua pergunta é difícil de responder, do ponto de vista
clínico acho que vou bem.
— Bem. — Decido-me por não entrar em detalhes.
— Primeira consulta?
— Aqui sim, eu já estive duas vezes em uma ginecologista, uma aos
13 anos quando menstruei e outra uns meses atrás, só... rotina.
— Ótimo. Hoje é só rotina? – nego começando a ficar nervosa.
— Eu e o meu namorado... nós tivemos nossa primeira vez e não nos
protegemos e eu estou apavorada. – Solto tudo de uma vez. Ela não se abala.
— Quando foi?
— Dois dias.
— Está com medo de ter ficado grávida?
— Não, estou apavorada. – Ela me sorri.
— A pílula de emergência ainda pode ser tomada, são 72 horas, com
menos efeito, mas ainda eficaz na maior parte das vezes, você pode tomar.
Acho que tenho aqui. – Ela abre a gaveta, tira uma cartela com dois
comprimidos e deixa sobre a mesa.
— Acha que adianta?
— Provavelmente. Tem casos de trombose na sua família? Já teve
algum problema de circulação?
— Não senhora.
— Algum problema no fígado? Problemas hepáticos?
— Nunca. – Começo a ficar com medo e se eu tiver alguma
contraindicação?
— Nesse caso pode tomar. Dulce, ela não é um contraceptivo, o nome
já diz, emergência, é como se tomasse meia cartela de anticoncepcional de
uma só vez, não pode usá-la sempre, aconselho uma ao ano, apenas em caso
de uma real emergência.
— Estou envergonhada, doutora.
— Não fique, sou sua médica, não faço julgamentos, estou aqui
apenas preocupada com seu bem-estar.
— Doutora, ela... como ela funciona?
— Impedindo a fecundação, ela altera o ambiente do útero e dificulta
o espermatozoide de chegar ao óvulo, também funciona impedindo a
ovulação, entende, ela age antes da fecundação.
É um alívio, sempre tive medo de ser abortiva, eu não faria, nunca,
mamãe ficaria ainda mais triste comigo e eu mesma... nem gosto de pensar.
— Depois que eu tomar... como eu sei se deu certo?
— Vai sentir algum desconforto, não todas, mas algumas mulheres
sentem, dor de cabeça, náuseas, não vá se desesperar achando que é gravidez,
já aconteceu de uma moça chegar aqui apavorada e era apenas o efeito da
pílula.
— Obrigada por avisar.
— Vamos fazer alguns exames clínicos, vai tomar a pílula, esperar a
menstruação e depois começar um método contraceptivo, agora que tem uma
vida sexual ativa, é preciso todos os cuidados, deve vir ao menos uma vez ao
ano, também quero que usem o preservativo combinado com as pílulas, você
é jovem, pode esquecer de tomar, além disso, sabe que não é só sobre
gravidez, não é mesmo? Tem que se proteger de doenças também.
— Mesmo namorando? – Ela me olha um longo momento.
— Vamos tentar assim por um ano? Depois, mais madura, se
realmente confiar no seu parceiro e depois de realizarem exames vocês
decidem juntos. O que acha?
— Vou fazer tudo certinho, prometo. Esse susto, eu nunca mais vou
esquecer.
— Seu namorado está com você?
— Lá fora. – aviso feliz por poder dizer que ele não me deixou
sozinha em um momento como esse.
— Muito bom. Vamos para a outra sala? A enfermeira vai ajudar e
vamos fazer alguns exames clínicos, depois um de sangue, você toma um
comprimido agora, o outro em doze horas, está bem? Qualquer problema
deve voltar aqui.
É a primeira vez que faço exames tão invasivos, é desconfortável, fico
me sentindo uma traidora, minha mãe devia estar aqui, mas não está, o jeito é
enfrentar tudo e nunca mais cometer tolices.
No fim da consulta, depois de todos os exames feitos a médica me
receita um contraceptivo, devo voltar em algumas semanas e vamos ver se
estou me dando bem com ele.
— O retorno não é cobrado, Dulce, então não deixe de vir. – ela me
avisa. Estava mesmo pensando sobre isso. – Sei que está vindo às escondidas,
e adolescentes nem sempre tem dinheiro, mas não quero que deixe de vir,
está bem?
— Eu venho, prometo.
— Ótimo, aproveite a vida, não pense mais sobre isso, se preocupar
assim vai apenas causar ansiedade, está tudo bem com você e a pílula vai
cuidar do resto.
Dessa vez sou eu a abraçá-la, nunca mais vou esquecer de sua
delicadeza, dos comprimidos, dos alertas. Quem sabe, um dia, depois de
muito planejar, eu possa escolher quando e como ter um filho.
Josh está ao telefone quando saio da sala, mas Harry anda de um lado
para outro e seus olhos assustados me recebem. Vejo seu alívio ao me
estudar.
Nós nos abraçamos é um momento de alívio e felicidade, tem muita
coisa que quero dizer, mas não aqui.
— Ela me deu a pílula, disse que vai funcionar. – Resumo a conversa
na frente de Josh, depois explico apenas ao Harry.
— Que alívio. – concordo com ele, Josh sorri também tranquilo.
— Vamos meninos, Lizzie avisou que o Thiago precisa de fraldas
limpas. – Harry me olha apavorado e eu rio. – Eu disse a ela que o tio Harry
está chegando.
Não conversamos muito no carro, a distância é tão pequena, eu
mergulho em pensamentos, preocupações que acho que Harry jamais vai ter,
a saúde da minha mãe, trabalho, dinheiro, futuro.
Ele não tem culpa, nem eu tenho, apenas somos diferentes, não muda
o que sentimos. O prédio dos Stefanos é o mais bonito que já vi, os vidros
refletem toda Manhattan, do lado de dentro, é repleto de amor, mais do que
beleza, o que sinto quando chego aqui é o carinho dessa família imensa.
Eu deixo o carro e logo sinto a mão de Harry se prender a minha, no
elevador, sorrimos, Josh está tão ansioso que eu acho até engraçado.
As portas se abrem e ele passa por nós apressado, Lizzie sorri assim
que nos vê, linda e elegante mesmo tento acabado de ter um bebê, uma
bailarina em todos os momentos.
O bebê está em um carrinho elegante e confortável, Lizzie ganha um
beijo nos lábios, um rápido beijo e Josh se dobra sobre o carrinho
completamente apaixonado.
Ganhamos o olhar de Lizzie, Josh já contou, está claro, ela leva as
mãos a cintura, Harry geme.
— Lizzie, você não vai contar, não é? Pense na Dulce.
— Não vou falar nada. – Ela me abraça. – Está tudo bem, Dulce, não
fique preocupada, mas por favor, confie em mim. Está bem? – Eu afirmo com
o rosto queimando de vergonha, nunca mais na vida vou passar por isso.
— Obrigada, Lizzie, minha mãe anda muito nervosa, eu não quero
preocupá-la, já resolvemos, graças ao Josh.
— Meu geniozinho está sempre socorrendo os jovens Stefanos. – ela
diz orgulhosa e apaixonada.
— Bailarina, acho que ele precisa mesmo de fraldas limpas.
— Vamos lá, tio Harry, trocar fraldas.
Lizzie arrasta o irmão, no quarto, ela o ensina enquanto fico rindo ao
lado de Josh, rindo da agonia de Harry, ele não é muito talentoso, mas dá
para entender, Thiago é ainda muito pequeno, molinho, delicado, Harry está
apavorado com medo de machucá-lo, vejo como os olhos suavizam toda vez
que encara o garotinho, ele adora crianças, não tem muito jeito ainda, mas sei
que vai ter um dia.
Fico pensando se vamos ter filhos um dia, se Harry é a pessoa com
quem vou dividir a vida, às vezes temo a distância, não falamos, ainda não
falamos sobre futuro, mas eu sei, ele vai embora, vai para Harvard, mergulhar
em estudos, jogos, lindo, inteligente, rico, eu aqui, mergulhada em trabalho,
sem um futuro muito promissor, como é que isso é possível?
Como vamos construir algo juntos sem que me sinta menor que ele?
Balanço a cabeça tentando não pensar nisso. Foi um dia difícil, importante,
não é hora de pensar no futuro.
— Já está limpo, Lizzie! – Harry reclama quando ela entrega a
pomada a ele.
— Isso não é para limpar, é para proteger a pele. Vá em frente. –
Harry geme, Josh ri e o bebê começa a chorar.
— Eu já aprendi a lição. – Harry reclama fazendo cara de nojo, mas
obedece a irmã. – Calma aí pequeno, esse negócio já vai acabar, eles me
punem e punem você junto, acostume-se, são os seus pais, já sabe como vai
ser.
— Olha lá! Não jogue meu filho contra mim, posso resolver te ensinar
a dar banho e limpar o quarto dele. Sabe que tem que higienizar tudo?
— Lizzie, você é má. – Harry começa a colocar a fralda, Lizzie vai
indicando o que precisa ser feito e logo o pequeno está vestido, não está
muito seguro, mas ao menos não está sujo.
— Acabou! – Harry comemora pegando o sobrinho no colo que ainda
chora. – Pronto, bebê, estou aqui.
— Agora me dá meu filho, fiquei o dia todo longe dele. – Josh toma a
criança das mãos de Harry seguindo para sala, nem chegamos todos e a porta
se abre e Heitor tem olhos ávidos.
— Boa noite. Cadê o bebezinho do vovô? Vem pequeno, que saudade
você sentiu. – Josh entrega a criança desanimado, eu e Harry trocamos um
sorriso divertido, nos sentamos lado a lado enquanto assistimos Heitor se
encantar e conversar com o recém-nascido.
— Ele não cabe em si. Eu lembro do Danny, ele era assim, não
lembro da Emma bebê, mas o Danny, o papai fica louco com bebês.
— Vamos ganhar de todos os Stefanos, ando empatando com o Nick,
mas eu sei que com quatro filhos, posso vencer essa disputa, a droga é que o
Josh conta dos dois lados.
— Papai... – Lizzie parece chocada.
— Não é nada demais. Não é Josh?
— Está tudo bem, tio. – Josh sorri. – Vão jantar?
— Sim, Liv está vindo com os meninos. Harry se livrou do
oftalmologista e ainda conseguiu uns momentos com Dulce. – Ele só agora
me dá alguma atenção. – Daqui muitos e muitos anos, depois da formatura
vocês comecem a pensar em casamento e bebês.
— Muitos e muitos anos. – Harry diz apertando minha mão.
— Pai, cuida do bebê, eu e o Josh vamos começar o jantar, não será
nada demais.
— Tudo bem, eu cuido dele. – Heitor deixa a sala, vai ficar no quarto
com ele, ninando e conversando, eu e Harry tocamos os lábios.
— Quero saber tudo que conversaram lá na sala. – ele sussurra.
— Perguntei. – conto a ele. – ela disse que tudo bem, mas usando
proteção e tomando comprimidos, já me receitou.
— Eu compro, vou na farmácia depois da aula e compro tudo.
— Melhor, eu não quero nem pensar em minha mãe descobrindo,
tenho que guardar direito isso.
— Vamos contar um dia? – ele me pergunta, estamos aos sussurros na
sala, mas que outra chance vamos ter?
— Para minha mãe? – Harry afirma. – Sim, eu vou contar, já
namoramos há seis meses, quero contar, só que eu não sei como.
— Acha que somos jovens demais?
— Acho. – admito sem medo. – O que posso fazer se eu te amo? Não
sabia que amaria.
— Nem eu. Acha que posso contar para o meu pai? Não que nos
metemos em encrenca, mas que aconteceu, me sinto mal em esconder dele,
somos tão amigos.
— Acho que deve contar, se confia nele, eu vou contar também, daqui
uns meses.
— Semana que vem é seu aniversário. O que vamos fazer? – ele
pergunta e eu dou de ombros.
— Minha mãe vai trabalhar, então acho que podemos pedir uma
pizza.
— Não. Merece mais. Vou pensar em algo. – A porta volta a se abrir,
mais Stefanos chegam, Liv, Emma, Danny, Nick e Annie, fica uma pequena
confusão. Logo Ryan chega arrastando a mochila com Gigi, Ulisses e Sophia.
Eles transformam tudo em festa, pedem comida para completar a
refeição porque são muitos, comemos todos juntos, rindo, conversando,
depois lavo a louça com Harry, Gigi e Ryan secam, Emma e Danny guardam
e logo está tudo limpo.
— Vamos, meninos. – Heitor nos convida. – Deixamos você, Dulce.
Não me demoro em despedidas, Josh e Lizzie ganham o maior abraço,
no estacionamento, Ulisses nos convida para passar o próximo sábado em sua
casa, jogando videogame e comendo bobagens, é meu aniversário e pode ser
divertido.
Acho que foi um pedido do Harry, é muita coincidência ele convidar
bem no meu aniversário.
Minha mãe está no sofá, assistindo televisão enquanto come as sobras
do almoço, me sorri indicando um lugar ao seu lado.
— Nem vou perguntar se está com fome. Veio dos Stefanos.
— Você está bem, mamãe?
— Sim. Estou só... cansada. Foi um dia longo.
— Mamãe, está lembrando que meu aniversário de 16 anos é sábado?
— Já fala para todo mundo que tem 16 anos, finalmente o dia chegou.
Tentei mudar meu horário, não consegui, então acho que se não ficar muito
triste, podemos almoçar, fica muito triste?
— Não. – Ela me puxa para um abraço.
— Vou comprar um tênis novo para você, então podemos nos
encontrar no almoço, comer juntas, comprar o tênis, depois tenho certeza de
que o Harry vai inventar algo.
— Ulisses convidou para dormir todos na casa dele, campeonato de
videogame, essas coisas.
— Acho que vai se divertir muito. – Mamãe sorri.
— Não se importa?
— Pelo contrário, ficaria triste se passasse o seu aniversário sozinha.
Queria tirar uma folga, podíamos ir a Nova Jersey ver sua tia, mas não vai ser
possível.
— Entendo. Mãe, agora que realmente tenho 16 anos, eu estive
pensando... posso arrumar emprego, vou para o último ano da escola...
— Quando terminar, eu sei que muitos jovens arrumam empregos de
verão, eu respeito isso, mas quero que termine porque depois... não vai a
faculdade como os outros, vai trabalhar, Dulce, então aproveite esse tempo.
— Tudo bem.
— Harry já está preparando as cartas dele? Está acabando a escola,
não é? – Balanço a cabeça em um sim.
— Tem uns meses ainda. – Não gosto de pensar, mas sei que não vou
conseguir esperar sem morrer de medo e ciúme. Eu não tenho a menor ideia
do que vamos fazer.
— Está certo. – Ela dá um tapinha em meu joelho. – Vá descansar.
Fico com vergonha de ver minha mãe gastando tanto com um par de
tênis novos, mas ela parece feliz e ela não parece feliz quase nunca.
Almoçamos em um restaurante barato perto do trabalho. Queria pedir que ela
fosse ao médico, não consigo entender por que ela está sempre triste, com dor
de cabeça, cansada, sem forças e vontade. Posso ver o esforço anormal que
faz para me fazer companhia.
Depois do almoço com ela, pego o metrô para casa, July veio passar o
fim de semana e vai estar conosco na casa do Ulisses.
Harry chega às 7h para me buscar, meu coração dispara só de vê-lo.
Ainda não tivemos coragem de tentar nada, acho que vamos esperar um
momento especial, uns dias até tudo isso passar.
— Feliz aniversário! – ele diz me beijando, é um beijo especial, não
sei bem como começa, mas nem conseguimos terminar um beijo e já
começamos outro, quando nos separamos estou até meio tonta, meu corpo
parece já sentir falta dele. – Presente.
Abro a caixinha ansiosa, queria dizer alguma coisa, mas estou
emocionada, feliz, primeira vez que ganho um presente de aniversário de um
namorado.
É um colar lindo, delicado e com um pingente simples em forma de
coração.
— É lindo, Harry.
— Deixa-me colocar? – faço que sim afastando os cabelos. – Amo
esses cabelos. – Ele ama mesmo, está sempre dizendo isso, quando o colar
toca minha pele eu me emociono, toco o delicado presente, solto meus
cabelos, volto-me para mostrar a ele. – Está linda. Minha mexicana linda.
— Obrigada. Eu adorei.
— Pronta? Já estão todos lá. Só os primos, e os tios. – ele avisa e o
táxi na porta a nossa espera nos apressa.
July é a primeira a me abraçar assim que chegamos, tem bolo, não
esperava, mas é uma festinha, docinhos, bolo, balões, chapéu, é difícil não
chorar, todos eles aqui, minha amiga que veio de longe só para me ver, Harry
todo carinhoso.
— Quando for seu aniversário de 17 anos, vamos estar perto de
completar um ano. – conto a ele. Harry afirma, o sorriso vai murchando.
— Vai ser perto de partir. – ele diz e concordo. – Pouco tempo, não é?
Você consegue uma vaga, Dulce, eu sei que sim, é tão inteligente, no ano
seguinte vai estar comigo em Harvard. – nego, ele precisa tirar isso da
cabeça. Não tenho como ir para Harvard, ainda que fosse mesmo inteligente,
como ele quer que acredite, apesar das minhas notas medianas, eu não teria
como pagar.
— Depois vocês namoram. – July me separa dele. – Faz tempo que
não vejo a Dulce, a gente tem que conversar. Só sei disso.
Capítulo 9
Harry

Dez dias, mesmo com o comprimido e a quase certeza da doutora,


ainda estamos com medo, engulo em seco só de pensar, Dulce está muito
assustada, eu também, mas ela está realmente com medo.
Eu a encontro na porta do cinema, ela está com olhos tristes, está na
época da sua menstruação, deve ser entre hoje e amanhã, é o que ela diz,
embora possa ocorrer alterações por conta da pílula, foi o que a médica disse
e Lizzie confirmou, então não devemos nos desesperar.
— Oi, minha mexicana linda! – Tento ser carinhoso e presente, nesses
dez dias, já pulei os muros meia dúzia de vezes, meus irmãos não sabem mais
como me ajudar a esconder isso dos meus pais, mas se descobrirem que seja,
aguento as consequências.
— Oi. – Ela me abraça, beijo seus lábios, trocamos um sorriso, quero
perguntar, mas estamos em público e meu olhar parece ser o bastante para ela
entender a pergunta. – Ainda não.
— Caso com você, Dulce, é isso, vou pedir sua mão a sua mãe,
arrumo um trabalho e sustento meu filho. Vamos alugar uma casa e contar
tudo aos meus pais.
— Mais uns dias, Harry. – ela diz com os olhos marejados. –
Estraguei sua vida. Minha mãe cheia daquela tristeza, você com um futuro
pela frente. Eu destruí tudo.
— Ninguém destruiu nada. – digo a ela enquanto a envolvo. – Amo
você.
— Não conseguiria se não estivesse aqui. – Dulce me olha nos olhos,
é tão linda, tão especial, curvo-me para beijá-la, se não estivesse na porta do
cinema seria um beijo mais apaixonado, mas nos separamos rápido.
— Quer entrar no cinema? – Ela encara a bilheteria, nenhum dos dois
anda com cabeça para isso e Dulce nega.
— Então vamos comer alguma coisa e caminhar até sua casa. – ela
concorda. Nós nos sentamos em uma lanchonete e pedimos hambúrgueres e
refrigerante, estou mais esfomeado que o normal e não sei se é nervoso ou o
futebol me consumindo as energias.
— Como estão as coisas com a sua mãe?
— Indo. Ela está lá daquele jeito dela, ora triste, ora feliz, ora só
dorme, ora só chora. Não me conta nada, não sei se é trabalho, se é falta de
dinheiro.
— Notou diferença nas coisas de dinheiro? – Dulce nega.
— Não, tudo indo como sempre, sei lá, vamos na minha tia esse fim
de semana. Nem sei como ficar lá na casa dela sem deixar transparecer.
— New Jersey é aqui do lado, se precisar liga e vou buscá-la. – Dulce
me sorri, toca meus cabelos carinhosa, beijo seus lábios, ela me oferece uma
batata frita na boca, aceito e depois mais um beijo, somos felizes,
apavorados, mas felizes, se não amasse Dulce seria outra coisa, mas amo e se
tivermos um filho vou amar e proteger.
Desde que tivemos a primeira vez nada mais aconteceu, não tivemos a
segunda, não conseguimos nem pensar nisso, acho que vai demorar para
estarmos prontos, ela vai tomar os remédios e nunca mais vou deixar de ter
um preservativo comigo.
— July ligou hoje. – Dulce me conta. – Ela está feliz, eles estão.
Pensei que ela viria mais, mas a faculdade toma todo seu tempo.
— Eu sei, era o mesmo com Lizzie, ela foi diminuindo as vindas, é
puxado demais.
— Imagino. Uma das mais importantes universidades, eu nem sei
como é que minha amiga foi parar lá. – Dulce ri, mas seu sorriso morre. –
Um dia e está chegando perto, será sua vez.
— Queria que tivéssemos exatamente a mesma idade, para irmos
juntos.
— Vai conhecer muita gente nova, Harry, muitas garotas que vão
pensar como você, ter os mesmos sonhos, os mesmos problemas, lindas
garotas com quem vai conviver.
— E só uma que vou amar, você, Dulce. Meu único amor.
Ela me sorri, afirma, beijo seus lábios e ela se encosta em meu ombro,
terminamos de comer em silêncio, então saímos de mãos dadas para sua casa,
é longe para caminhar, mas faz bem, vamos conversando, apreciando o
movimento da cidade, trocando sorrisos, até podemos esquecer um pouco o
medo. Josh e Lizzie estão tranquilos, eles têm certeza que tudo está bem, falo
com eles todos os dias, acho que somos jovens demais, que não devíamos ter
feito daquele jeito, mas não consigo me arrepender, eu a amo e foi lindo e
natural, sem planejar, mas sem deixar de ser romântico.
Quando chegamos a esquina de sua casa Dulce me olha diferente,
parece levemente tensa, entre feliz, ansiosa, preocupada.
— Vamos rápido, Harry.
— Que foi?
— Vem. – Ela deixa de caminhar apressada para correr para casa e
assim que destranca a porta corre para o banheiro me deixando na sala com
cara de tonto. Será que o sanduíche não caiu bem?
Deixo a mochila no chão, ando pela sala enquanto ela não chega,
pensando se ofereço ajuda o finjo que não tem nada errado, leva uns dez
minutos para ela sair, mas o sorriso que vem com ela é de me deixar sem
direção.
— O que foi? – pergunto com olhos esbugalhados de confusão, seu
sorriso só se amplia quando os olhos marejam de felicidade.
— Minha menstruação, Harry. Minha menstruação chegou. – Ela me
abraça chorando e eu a envolvo, devo confessar que junto com o alívio vem
uma pitada de decepção, amo Dulce e eu gostaria de ter um filho dela. Com
toda certeza que sim. – Está feliz?
— Sim, eu estou... aliviado. – Ela balança a cabeça animada, seus
lábios procuram o meu, beijar essa Dulce cheia de alívio e leveza é diferente,
romântico, bom e diferente. Quando nos afastamos ela está exultante.
— Nem acredito, vou dormir Harry, sonhar de novo, vou... nós vamos
começar tudo de novo, agora sem esse peso.
— Sim, eu... estou feliz. – Decido-me por fim, ainda vamos ter uma
família, acredito nisso, mas ela tem razão, não assim, e não tão jovens, no
tempo certo, com toda certeza, no tempo certo.
— Amo muito você, Harry. Obrigada, eu amava você e amei mais
ainda quando ficou do meu lado, me apoiou, só suportei porque tinha você e
a certeza que estaria aqui. Obrigada.
— Onde mais estaria, Dulce?
— Onde mais? – Ela brinca me abraçando, está tão feliz que me
contagia e giro Dulce em meus braços, suspiramos juntos, rimos um para o
outro e ficamos prontos para voltar a sonhar.
Os dias vão seguindo, a euforia da certeza de não termos um bebê a
caminho vai diminuindo, comemoramos meu aniversário, nos divertimos
juntos, passamos as férias de inverno com saudade a cada pequena viagem
minha para Grécia, sempre três ou quatro dias, mas ainda assim sinto falta
dela e quando o tempo corre e sei que preciso enviar a carta para Harvard ela
torce por mim, lê e relê meus papéis, me dá força e elogia, mas tem uma
melancolia em nós dois, porque o dia da resposta está chegando, porque a
vida está mudando e tem um mundo de coisas surgindo entre nós, um mundo
de medos a vencer.
Voltamos a ser um casal de beijos, acho que nenhum dos dois está
pronto para uma nova crise de medo, sinto que vai ser como da primeira vez,
em um dia qualquer, sem planos.
Quando pego o envelope de Harvard por acaso nas correspondências,
meu coração fica indeciso entre feliz e triste, um pouco de medo da resposta
negativa, um pouco de medo da resposta positiva.
Volto para casa no fim do dia, sem ver Dulce, depois de um longo
treino para os jogos finais, sigo para meu quarto depois de balbuciar algo
sobre estar cansado, acho que só não quero pensar muito em nada, só quero
ficar sozinho um pouco.
A bola gira entre as palmas das minhas mãos, enquanto encaro o teto
deitado sobre a cama em um perturbador silêncio, sobre o móvel, minha carta
que não abri ainda e já não sei se quero abrir.
Não enviei pedidos a nenhuma outra universidade, nem mesmo as que
me enviaram convites depois do sucesso no futebol.
Uma leve e ritmada batida na porta e sei que é Emma, somos muito
ligados, ela tem uma batida típica, sempre sei quando é ela.
— Entra, Emma.
— Oi. – Ela caminha em minha direção, toda delicadinha como
sempre, um vestidinho de tecido xadrez em cinza e preto, com um lacinho no
pescoço, mangas longas e sapatilhas pretas. Os cabelos em um rabo de cavalo
e os óculos grossos. Lizzie acha que ela os escolhe sempre assim para
esconder a beleza, já eu, acho que é apenas o seu senso de moda apurado,
Emma é clássica e elegante, ao menos eu sempre achei.
— Oi. – Dou espaço para ela se sentar ao meu lado. Emma se senta e
me observa, atiro a bola para longe, fecho os olhos em uma careta quando a
escuto acertar a estante e derrubar algo. – Maluco. – Emma ri. – Não quebrou
nada, só derrubou o seu livro de química, coitado.
— Emma, como jovens, temos obrigação cívica de odiar o livro de
química. – Ela faz uma careta engraçada, Emma é delicada até para isso. –
Não me envergonhe.
— Eu amo química. – Ela dá de ombros.
— Você é esquisita, meio que se parece com o Josh.
— É bom conversar com ele, acho que é o único que me entende.
— Entendo você, Emma, se um dia quiser falar. – Sei que tem algo
nela, algo que guarda para si, até desconfio do que seja, mas é direito de ela
não contar, talvez ela apenas não tenha certeza ainda. Seu rosto queima de
vergonha e isso só a entrega.
— Falo com Josh de ciência, só isso. – ela diz desviando os olhos,
Emma se ergue, vai até o livro caído no chão, o recolhe e deixa sobre a
estante, eu me ergo, ajeito as costas nos travesseiros quando ela caminha de
volta.
— O papai já chegou?
— Não, mamãe está preparando o jantar, vai contar no jantar? – ela
diz olhando a carta. Dou de ombros.
— Não sei, eu... eu não abri.
— Tinha impressão de que ficaria louco quando chegasse, correria
com ela na mão, comemorando como um louco.
— Não é como se fosse a carta de Hogwarts. – Emma sorri.
— Depois que Lizzie não recebeu eu perdi as esperanças, se ela não é
bruxa, nós é que não seríamos.
— É pode ser. – Encaro o envelope.
— É um bom envelope, quer dizer, uma resposta negativa não
precisaria de tanto papel.
— Acho que sim.
— Não entendo, Harry, só podia ser Harvard, nada mais, nem mesmo
quis enviar pedidos a outras, não aceitou os convites que recebeu de outros
Campus, só servia Harvard.
— Ainda é assim.
— Sabe o que mais admiro em você? – ela diz se acomodando melhor
ao meu lado, ajeita os óculos e me sorri.
— O que, senhorita Emma?
— Você sempre quis substituir o papai, mais do que tudo, esse é seu
sonho e só por ser quem é, já teria aquela cadeira, papai faria acontecer, os
tios concordariam, ainda que não tivesse talento, mas não se contenta com
isso, mais do que substituir o papai, você quer merecer isso.
— Não aceitaria de outro modo.
— Eu sei. Por isso não entendo como não abriu ainda essa carta,
porque ela é o passaporte para merecer seu lugar na empresa, lá você vai se
preparar para isso, como o papai não pôde ou os tios.
— Menos tio Nick, ele conseguiu, foi o primeiro a se formar.
— E hoje é brilhante. – Nós dois sorrimos de orgulho. – Por que não
abre logo, não corre pela casa feliz?
— Dulce. – digo de modo simples, porque ela sabe disso, quer ouvir
da minha boca, mas sabe a razão.
— Vamos ficar um ano longe, ela ainda tem mais um ano de escola.
— Harvard não é tão longe, pode vir sempre. Não é como se nunca
mais fossem se ver. Um ano longe é exagero. – Emma diz com um sorriso no
rosto, acho que me vê como um bobo agora, mas Emma não se apaixonou
ainda, não imagina como é duro ficar longe.
— Lizzie começou achando que viria sempre, não aparecia nunca.
— Morávamos em Londres, Harry, não dá para comparar.
— Talvez. – Olho de novo para a carta, depois para minha irmã. –
July e Tyler é a mesma coisa, no começo vinham todo fim de semana, depois
os estudos foram consumindo os dois, ora um está em prova, ora o outro tem
um trabalho em grupo, acaba que ficam semanas sem vir a Nova York.
— Dulce não vai ficar feliz se desistir e um dia vai culpá-la, sabe
disso.
— Calma, Emma, não estou desistindo de nada, aliás, imagine a
mamãe? Consegue imaginar o que ela faria se eu simplesmente dissesse que
desisti de ir à faculdade?
— Consigo imaginar você sem a pele. – Emma brinca me fazendo rir.
– Papai vai chegar, você vai ter que descer e encará-los, só pode contar que a
carta chegou e ler o resultado ou mentir que ainda não recebeu e mentir para
eles não é nada fácil, nem certo, eles torcem por você.
— Papai morreria de orgulho, não é? – Olho de novo para o envelope
emocionado.
— Lizzie escolheu seguir os passos do tio Nick, mas você quer ser
como o papai, ele não cabe em si de orgulho, ele está ansioso por essa
correspondência.
— Você é bem esperta, Emma. Como sabia? Peguei as
correspondências logo cedo, guardei com medo de alguém ver.
— Sou sua irmã e te conheço e, você não a escondeu exatamente. –
ela aponta o móvel onde está a carta.
— Sabia que era você, se fosse outra pessoa teria guardado. – eu a
aviso, ela sorri, arruma os óculos mais uma vez.
— Por que seus óculos estão sempre caindo? – Acho graça que
mamãe está sempre mandando fazer modelos novos e ela os está sempre
ajeitando.
— Acho que é mania. – Emma dá de ombros antes de ficar de pé em
um longo suspiro. – Vou te deixar sozinho para pensar no que quer fazer, tem
até o jantar para decidir, mas irmão, Lizzie está vindo jantar, mamãe está
cozinhado e o papai está trazendo a sobremesa.
— E o que acha que significa?
— Que eu não sou a única que sabe da carta. – Emma tem razão, eles
são tão perspicazes. Já devem ter desconfiado.
— Obrigado, Emma. Acho que tem razão.
— Te vejo lá em baixo. – Ela deixa o quarto e encaro o envelope.
Harvard é meu sonho, mas Dulce é minha vida, como vamos viver separados
um ano todo? Eu sei que ela consegue entrar em Harvard, tio Nick conhece o
reitor, Josh e Lizzie estudaram lá, July está lá com Tyler e o Ty é a estrela da
universidade, eu vou estar lá e vou me esforçar tanto e ser tão bom no futebol
que também vou ser um bom exemplo, então eu sei que vão aceitá-la, mas até
lá não sei como ficar tanto tempo sem ela.
Vamos dar um jeito, que escolha temos? Não posso recusar o convite,
não posso ficar aqui sem fazer nada por um ano até que ela esteja pronta.
Dulce nem parece animada, sempre diz que não vai quando digo que consigo
o dinheiro ela apenas nega, vai ser duro convencê-la.
Fico de pé, preciso abrir essa carta e enfrentar a situação, uma coisa
de cada vez, primeiro saber se entrei, depois contar a minha família,
comemorar com eles, amanhã contar para Dulce e juntos resolver essa coisa
da distância.
Pego o envelope, se fosse mais confiante, abriria no meio deles, mas a
ideia de ser uma recusa me impede, eu odiaria que no meio de todos, tivesse
que ler que a universidade agradece meu interesse, mas não tem espaço para
mim agora.
Levo um longo momento encarando o envelope, Emma tem razão, há
um ano estaria correndo pela casa, gritando como se fosse mesmo uma carta
do próprio Alvo Dumbledore. Um ano atrás não estava louco de amor por
Dulce. Um ano atrás ela não era minha luz.
Abro o envelope em um rompante de coragem, os dedos tremem um
pouco quando separo alguns panfletos em busca da carta em si e lá está em
letras elegantes. “Aceito”, orgulho me define, eu consegui, sou um membro
do corpo discente e, como minha irmã e primos vou viver naqueles muros,
nos jardins e na biblioteca de centenas de anos, vou orgulhar meus pais,
voltar formado e trabalhar na corporação, vou aprender com o melhor e
seguir seus passos até ser como ele e daqui muitos anos, quando ele estiver
cansado e eu pronto, então vou ser o seu sucessor e ele vai saber que fiz o
melhor em nome dele.
Dulce me volta à mente, eu sei que ela vai ficar feliz, só não sei como
viver longe dela, tão linda, cercada de convites, de admiradores, sem me ver
todo dia, com o amor que sente por mim morrendo todo dia um pouco.
— Não sabe se vai ser assim, Harry! – digo a mim mesmo em voz alta
para tentar acreditar. A porta se abre sem aviso ou batida. Danny entra logo
depois dos cachorros. Potter salta sobre mim, Lily se abana toda e me sinto
culpado por ignorá-los o dia todo.
— Para de falar sozinho e vem jantar, o papai chegou com o Thiago,
ele está muito bonitinho já quase se sentando sozinho, sei lá o que isso quer
dizer, mas todo mundo está comemorando.
Danny da meia-volta e corre para a sala, eu sorrio ficando de pé com a
carta na mão, acho que vamos ter mais de uma comemoração hoje.
Emma é a primeira a me olhar quando desço as escadas, vê a carta na
minha mão e sorri, ganho todos os olhares quando chego ao fim dos infinitos
degraus.
— Tenho uma coisa a dizer. – Começo aproveitando todos os pares de
olhos. Ninguém diz nada, mas papai entrega Thiago nos braços de Josh e o
papai nunca entrega um bebê nos braços de ninguém, então eu sei que ele já
sabe e está se preparando para meu abraço.
— Vai logo Harry, estou com fome e tenho que terminar meu
desenho. – Danny está em seu mundo, ele não sabe o que se passa, só vive no
mundo da imaginação.
— Recebi a carta de Harvard. – conto já sorrindo. – Fui aceito, papai.
Ele abre um sorriso lindo, mamãe se emociona e os dois caminham
para me abraçar, papai é mais rápido e ganho meu primeiro abraço de
comemoração.
— Sabia que conseguiria, estou muito orgulhoso, Harry. Parabéns.
— Parabéns! – Mamãe me abraça junto com o papai. – Meu bebê vai
morar longe, estou com saudade! – Ela choraminga ainda me abraçando.
Ganho muitos beijos dos dois, depois Emma me abraça e Josh e Lizzie, todos
me dão parabéns e Danny se aproxima fazendo o mesmo, acho que só porque
todo mundo está fazendo, ele não parece muito ciente do que se passa.
— Temos que comemorar, vamos ligar para todos. Contar da
novidade, estou orgulhoso, sabia que seria “sim”, mas agora que recebeu a
carta.
— Deixe me tirar uma foto da carta, Harry, vou enviar para as
garotas. – Mamãe pede depois de mais um abraço.
Todos começam a falar ao mesmo tempo, fazendo planos,
comemorando, algumas ligações ao mesmo tempo enquanto olho para tudo
como se fosse sobre outra pessoa, feliz, mas confuso, falta Dulce.
Capítulo 10
Dulce

A Associação está naquela bagunça de sempre, é hora do lanche da


tarde, os idosos se misturam às crianças, a grande mesa está repleta de
guloseimas.
Adoro estar aqui nesse horário, quando as crianças correm em
gritinhos de alegria fazendo os olhos dos idosos brilharem, essa ideia de
misturá-los é a coisa mais linda que existe, os pequenos enchem a vida dos
idosos de alegria, já as crianças, ganham o carinho que muitas vezes falta em
casa e também aprendem, Annie é uma das pessoas que mais admiro, tão rica
e bonita, podendo estar em qualquer parte do mundo, fazendo qualquer coisa
que queira e está aqui, todos os dias logo pela manhã, trocando fraldas de
idosos, dando seus remédios e os fazendo rir.
Carrego a bandeja com as garrafas de chá quente para a mesa, deixo
no centro dela e ajudo um garotinho a se acomodar no colo de uma idosa que
está numa cadeira de rodas, ela logo oferece um biscoito a ele, junto um beijo
na bochecha, ele adora o biscoito e sorri para o beijo.
Annie vem caminhando ao lado de um idoso que se apoia em seu
ombro, passos lentos e pacientes, bonito de ver, ela o acomoda em uma
cadeira, enche uma xícara de chá e fica a apontar os pratos até ele escolher
uma fatia de bolo que ela serve em louça bonita, ela se preocupa com tudo, a
louça aqui é da melhor qualidade, tudo combinando, igual a louça da sua
própria casa, porque ela não consegue enxergar qualquer diferença entre um
lugar e outro.
Um garoto corre em sua direção, balança uma folha orgulhoso, ela
sorri e se curva aceitando o papel.
— Ah, você conseguiu! – Annie se abaixa para abraçá-lo. – Parabéns,
sua mãe vai ficar muito orgulhosa.
— Já falei para ela, minha mãe ficou muito feliz, eu disse que vou
para Harvard também, como o Josh e a July, ela disse que não temos
dinheiro, mas eu disse que ela não precisa se preocupar, o Nick me falou que
eu posso estudar onde eu quiser, em qualquer parte do mundo todinho.
— E você pode, pode conseguir realizar todos os seus sonhos, basta
ser assim, um menino bem dedicado. – Annie beija seu rosto. – Agora vá
comer alguma coisa.
Quando ela se ergue me sorri e vem até mim, ficamos o olhando ir de
idoso em idoso mostrar suas notas.
— Chegou aqui rebelde, com péssimas notas, a mãe estava para ser
despejada e estava muito nervosa, descontava nele, tem uns seis meses, agora
está cheio de sonhos.
— Graças a você e o Nick!
— Graças a todo mundo que ajuda, senhorita Dulce, nem que seja
trazendo a bandeja de chá. – Annie passa seu braço pelo meu. – Muito bom te
ver aqui, estava com saudade.
— Eu também estava, quando venho aqui sinto menos falta da July. –
Annie afirma com olhos marejados.
— Esse deve ser o lugar preferido dela. – Annie sorri olhando a mesa
alegre. – Sinto falta dela pequena, nessas horas estaria de colo em colo, só sei
disso.
Eu e Annie trocamos um sorriso, July faz muita falta, sinto não ter
alguém de confiança para conversar sobre Harry, os problemas na minha
casa, alguém para dividir a falta de dinheiro para cuidar dos animais, agora
são quatro lá em casa, uma gata grávida e três cães, um deles separado
porque não gosta de gatos e preciso me dividir para cuidar de tudo.
— Bárbara não veio hoje?
— Sophi levou minha garotinha às compras, Ryan e Gigi foram
também, vai ser uma bagunça, Ulisses vai buscá-los depois e já sei que eles
chegam cheios de presentes fora de hora, porque Ulisses quer sempre garantir
que o Papai Noel fique em desvantagem.
— Adoro essa família. – digo rindo.
— Já faz parte dela, eu já consigo pensar até no casamento, Liv
também, estamos sempre combinando como vai ser. – Annie passa seu braço
pelo meu. – Vem, vamos lá na sala do meu príncipe, ele está aqui hoje e estou
achando você muito tristinha.
Não tenho coragem de negar, também não admito, apenas acompanho
Annie pelo pátio até o corredor das salas e então estamos entrando sem aviso
na sala de Nick, ele ergue os olhos dos papéis, sorri quando nos vê.
— Boa tarde, Dulce, faz tempo que não aparece por aqui.
— Estava com saudade de ajudar, mas estou com três cachorros e um
gato, quase não consigo sair. – Annie indica uma cadeira na frente da mesa,
dá a volta e depois de beijar Nick se senta ao seu lado, ela se apoia nele e me
sorri.
— Tem dinheiro para os animaizinhos? – Nick me pergunta e nego.
— Nunca tenho o bastante, mas a mesada da July está chegando. –
digo sorrindo, somos parceiras de toda a vida, o dinheiro da mesada dela é
sempre destinado primeiro aos animais.
— Quando ela termina de pagar as “dívidas” não sobra nem para o
lanche. – Annie diz rindo. – Minha filha está sempre no vermelho.
— Vou até aquele Pet Shop parceiro de vocês e faço umas compras. –
Nick promete e sorrio, nunca recuso esse tipo de ajuda.
— Obrigada.
— Agora diga por que veio. – Nick pede, e suspiro, dando de ombros.
— Só matar a saudade. – Minto um pouco envergonhada.
— Tem quatro animais em casa, que não pode deixar e veio matar a
saudade? – Nick sempre parece enxergar à frente, eu encaro a barra da blusa,
brinco com ela sem saber o que dizer. – Vamos Dulce, se não contar July vai
ter que pegar um avião e vir, e você sabe quanto de combustível fóssil isso
vai custar?
— Nenhum de nós quer isso. – Annie continua e olho para eles. –
Brigou com o Harry? – balanço a cabeça negando.
— Minha mãe. – Começo a falar, não conheço mais ninguém que
possa ajudá-la, mamãe adora os dois, confia neles, meus tios em Jersey são
pessoas tão simples e vivem com muita dificuldade, não poderiam ajudar
mesmo que quisessem.
— O que tem Anita? – Annie pergunta preocupada.
— Esse que é o problema, eu não sei. Ela anda muito, muito triste, só
quer dormir, às vezes está chorando, escondida, ou mesmo na minha frente,
do nada, essa semana ela fez uma coisa que nunca tinha feito, ela
simplesmente não foi trabalhar e ficou na cama o dia todo, não comeu, eu
entrava no quarto e ela fingia dormir. – Uma lágrima escorre, Annie se curva
sobre a mesa para segurar minha mão. – No dia seguinte se levantou e foi
para o trabalho, não sei o que ela tem, se estamos com problemas financeiros,
se ela está doente, eu não sei o que faço, como ajudar.
— Está faltando alguma coisa, Dulce? – Annie se preocupa.
— Não. Ela pagou todas as contas, vi os pagamentos na pasta que ela
guarda tudo. Me dá dinheiro quando preciso, parece tudo como sempre, eu
sei que ela trabalha demais, mas ela sempre trabalhou demais.
— Gatinha, acho que pode ser depressão, quem sabe uma estafa, mas
é possível que seja depressão.
Os dois me olham, já ouvi falar sobre isso, nunca entendi bem, não sei
se é doença, se é só tristeza, se trata ou apenas espera passar, nunca pensei
que podia acontecer com gente como nós, de vida simples.
— É eu não sei direito o que é isso, as vezes é só coisa de quem tem
tudo e aí...
— Não, Dulce, qualquer um pode ter, talvez pessoas em melhor
situação financeira tenham mais facilidade para diagnosticar. Só isso. – Nick
me explica.
— Dulce, vamos conversar com a psicólogo aqui da Associação, vou
ligar para sua mãe, pedir que venha, ela faz uma consulta com ela e com o
clínico, o que acha?
— Annie, ela só vem se for você ou o Nick a pedir, mamãe nunca
acha tempo para essas coisas.
— Bem, então vou ligar para ela e pedir, precisamos descartar as
opções, de outro modo como vamos ajudar sem saber qual o problema?
— Nem sei como agradecer. – digo aliviada, simplesmente sei que
eles podem ajudar, que vão fazer isso, Nick e Annie são assim, estão sempre
ajudando e eu e mamãe já precisamos de ajuda, mais de uma vez, eles nunca
nos faltaram.
— Não precisa. – Nick me sorri. – Como vai o namoro?
— Bem. – Não entro em detalhes, não conto das coisas que me
preocupam, apenas deixo que pensem que estamos indo bem, quando na
verdade eu temo que acabe. – Vamos fazer um ano de namoro essa semana.
— Uhm! – Annie diz animada. – O que vão fazer para comemorar?
— Ainda não sei.
— Que pena, eu podia ter uma notícia fresquinha para o grupo de
senhoras Stefanos. – Annie brinca, ou não, elas estão sempre fofocando essa
é a verdade.
— E os estudos, Dulce? – Nick nunca deixa de perguntar e eu sempre
fui muito mediana.
— Está indo, Harry até me ajuda um pouco, minhas notas
melhoraram. – Ele ajuda mesmo, na verdade, seu esforço é pensando em
Harvard, não importa o quanto ele sonhe, eu sei que não tem nada que possa
mudar o fato de que não vou.
— Vai vê-lo hoje?
— Não, ele está treinando e eu tenho prova amanhã. – Só vim porque
eu não sabia mais o que fazer e a July sempre tinha ótimas ideias, mas agora
está longe.
— Sinto até medo das ótimas ideias da minha princesa. – Nick brinca
e fico de pé.
— Acho que vou para casa. – Nick olha pela janela, se fosse noite,
não me deixaria ir sozinha.
— Amanhã mando entregar as coisas do Pet Shop, está bem?
Passamos lá na saída e eles te entregam amanhã.
— Obrigada, Nick. – Eles vêm até mim, os dois me abraçam, sempre
carinhosos comigo.
— Vá direto para casa e tome cuidado. – Nick pede.
— Vou ligar para sua mãe agora mesmo, marcar com ela para vir
amanhã pela manhã, ela vai aceitar o convite, tenho certeza de que vamos
resolver isso.
— Se for isso, se minha mãe tiver depressão, o que acontece?
— Ela se trata, você a apoia, ela cuida da saúde, toma remédio se for
o caso, vai ser do jeito que for melhor para ela.
— Ela pode ficar bem de novo, não é?
— Claro que sim. – Nick garante, Annie me abraça mais uma vez e
deixo o escritório com muita esperança.
Caminho pensativa, acho que tem algo errado com Harry, ele podia
ter vindo hoje, mas foi direto para casa depois do treino, eu simplesmente sei
que a carta chegou, não entendo bem como vai ser agora, mas de uma coisa
não tenho dúvida, não será nada fácil.
Quando penso nele na faculdade eu me encho de dúvidas, não quero
ser enganada, não quero ser posta de lado, esquecida, é tão complicado, como
é que posso competir com a vida tranquila das suas futuras colegas de
universidade?
Não tem como dar certo, sei disso, só ficamos os dois tentando adiar o
que sabemos que será inevitável.
Sinto saudade dele, de nós dois, daquela primeira vez tão perfeita e
que nunca mais se repetiu, foi há seis meses, July diz que estou sendo boba,
que eu estou tomando os remédios, que tudo está bem que ele usando o
preservativo não corremos mais riscos, mas ainda não aconteceu.
Minha casa está silenciosa quando entro, corro por ela toda, alimentar
os animais, limpar a sujeira, trocar os potes de água e brincar um pouco com
eles, tem uma ONG que vai ajudar com os cães, mas a gata vai dar à luz a
cinco gatinhos e eu não sei como manter todos aqui.
Quando termino de preparar o jantar e meu dever está finalmente
concluído, mamãe abre a porta, primeiro um longo suspiro, depois um
instante de olhar perdido e finalmente um meio sorriso forçado.
— Oi, mamãe. Fiz nosso jantar. – Ela balança a cabeça afirmando
enquanto se dobra para tirar os sapatos e deixar a bolsa sobre o móvel.
— Vai fazer frio, uma frente fria foi o que ouvi no metrô, já arrumou
um lugar aqui dentro para esse monte de bichos?
— Sim. Já arrumei.
— Se lembra que conversamos sobre você não trazer tantos de uma só
vez? – ela pergunta enquanto a sigo para cozinha.
— Mãe, não achamos mais ninguém, todos os protetores que conheço
estão com a casa cheia, mas não vai demorar.
— Sempre a mesma desculpa. – ela diz destampando a panela. –
Inspirada hoje?
— Nada demais. Fiz só o que gosta, anda tão cansada.
— Muito. Annie me convidou para um café da manhã com ela na
Associação, apesar de cansada não posso recusar, então vou sair uns
minutinhos mais cedo amanhã.
— Annie e Nick se preocupam muito conosco.
— E somos gratas. – Ela pega um prato. – Vai jantar também?
— Vou.
— Vou jantar, tomar um banho e dormir. – ela diz se sentando
enquanto me sirvo. – Harry veio aqui?
— Não, ele está treinando. Tem um jogo no fim de semana. Posso ir?
— Pode, desde que...
— Eu sei, cuido de tudo e chego cedo. – Ela leva uma garfada à boca.
– Está com apetite hoje?
— Sim. Foi um dia tão longo, as horas são intermináveis.
— Se eu arrumar um emprego você consegue descansar um pouco,
pode ficar mais tempo em casa, não seria ruim. Meio período, depois das
aulas.
— O que faria, Dulce?
— Consigo algo, mamãe. Sei que consigo.
— Me dê mais um tempo, tem menos de um ano para terminar o
colégio. Aí é o que espera você, posso aguentar esse ano, aguentei até agora,
então arruma um emprego em um escritório ou algo assim, tem um pouco
mais de estudos que eu, vai ganhar melhor, então dispenso um dos empregos,
aí fica tudo bem.
— Promete, mamãe?
— Prometo. – Ela desvia os olhos, sei que não é verdade. – Me conte,
Harry já recebeu algo sobre a faculdade? – nego. – Quando ele parte?
— Nem recebeu nada, mamãe.
— Quando receber será bem rápido. Quinze dias no máximo e estará
de mudança e estou preocupada. O que vocês têm em mente?
— Nada. – Dou de ombros. – Ele vai, eu fico, continuo estudando e
ele vem às vezes, quando puder. Acho que é isso.
— Estou aqui, as coisas não parecem bem agora, mas estou aqui,
então se precisar conversar. – Minha mãe não acredita que vá dar certo, como
eu, ela conhece o abismo que existe entre nossas vidas.
— Obrigada, mamãe. – Voltamos a comer, mamãe me ajuda com a
louça, depois vai para cama e rezo para que aceite ajuda dos Stefanos ao
menos para saber o que tem.
Harry não telefona antes de dormir, acho que é uma surpresa sobre
nós dois, ele anda muito calado, com toda certeza está preparando alguma
surpresa para comemorar um ano, sorrio fechando os olhos, um ano juntos,
nunca mais na vida vou gostar de alguém como gosto dele.
Mamãe sai bem cedo para ver Annie, e espero que não fique brava
comigo, mas se ficar não tem problema, eu só quis o seu bem.
Quando chego da escola são quase 3h da tarde, vou direto para o
banho, Harry vai chegar às 4h, foi a mensagem que me mandou.
Meus cabelos já estão secos quando ele bate à porta às 4h30, abro
ansiosa. Ele tem olhos tão tristes que eu sei o que significam.
Ganho um beijo nos lábios, depois dou espaço para que entre e ele
sorri de modo forçado, até parece a mamãe.
— Oi, mexicana linda.
— O que você tem? – Agora o sorriso é honesto, ele me puxa pela
mão para seu abraço.
— Me conhece. – Harry diz ainda um tanto triste.
— A carta chegou e foi aprovado.
— Sim. Como sabe?
— Está triste, mas não tão triste como estaria se fosse recusado, quer
que seu pai se orgulhe de você.
— Quero. – Harry alisa meus cabelos, os olhos parecem brilhar, mas
eu já nem sei mais o que pensar. – Quero que minha mãe se orgulhe e você
também.
— Eu me orgulho, Harry, muito.
— Vamos ficar um ano só separados, depois você vai para Harvard
e...
— Não, Harry, eu não vou.
— Dulce... – Afasto-me dele, é tão difícil dele entender, não sou
como ele, não sou Stefanos.
— Eu não vou para Harvard, precisa aceitar isso.
— Posso pagar Dulce, não exatamente eu, mas os meus pais, eles vão
ficar muito felizes em ajudar. Não pode ser assim tão cabeça dura.
— Fica repetindo isso o tempo todo como se não fosse capaz de me
ouvir. – Ando pela sala. – Não consegue mesmo ver?
— O que Dulce?
— Somos diferentes, não é só uma bolsa de estudos que vai resolver
meu problema, tenho minha mãe, eu preciso trabalhar para ajudá-la, não dá
para simplesmente dar as costas a ela e ir embora, deixar as dívidas, o
trabalho pesado.
— Consigo o dinheiro para manter sua mãe também. – É tão simples
para ele, Harry não consegue mesmo ver nada, ele nasceu rico, não sabe de
outra vida, nem mesmo cresceu como July e Josh, entre as pessoas carentes
da Associação, Harry não vai nunca entender.
— Ela não aceitaria, minha mãe trabalha, Harry. Ela tem dignidade,
não aceitaria viver às custas de vocês. Nem seria certo.
Harry me olha cheio de surpresa, ao menos para ele eu posso ser
totalmente honesta, tenho que dizer a verdade, ele precisa me ouvir, entender
e parar com esse sonho bobo.
— Eu não acho que seria indigno lutar pelo seu futuro.
— Minha mãe tem três empregos, Harry, acho que isso é lutar
dignamente pelo meu futuro.
— Estamos brigando? – ele me questiona e me sento cansada, levo as
mãos ao rosto, eu nem sei, não sei de mais nada, só o que sei é que estou
cansada, com medo e triste, ao mesmo tempo que estou feliz.
— Não. Não é uma briga. – Harry se senta ao meu lado, passa seu
braço por meu ombro. – Ela pode estar doente, foi essa manhã falar com a
Annie, quem sabe ver um médico e um psicólogo, descobrir como está e se
está doente. Annie acha que pode ser depressão.
— Sinto muito, eu não sabia. – Balanço a cabeça em um sim
cansado, encosto-me em seu ombro, vamos fracassar, eu sei e ele sabe,
estamos acabando aos poucos porque não temos coragem de colocar um final
em tudo isso. – Se precisar de alguma coisa, sabe que sempre pode contar
comigo.
— Eu sei. Obrigada. Talvez seja só esgotamento. – Olho para ele,
toco seu rosto, ele é tão especial, não quero perdê-lo, não quero que seja
infeliz. – Temos que comemorar. – digo sorrindo para mostrar que estou
feliz. – Vai para Harvard e sempre sonhou com isso.
— Temos muito que comemorar, vamos completar um ano de
namoro. – Balanço a cabeça afirmando.
— O que tem em mente? – pergunto a ele.
— Meus pais vão passar o fim de semana em Kirus, eu consegui
convencê-los a me deixar ficar, não foi fácil, mas quando disse que é nosso
aniversário de namoro eles aceitaram, pode dormir lá em casa no sábado,
fazemos o jantar, um jantar romântico, ficamos namorando.
— Se convenceu seus pais, posso convencer minha mãe. – Ele sorri
animado, tem um fundo de tristeza, Harry ainda não desistiu, mas precisa. Eu
não vou para Harvard, tenho sonhos e vou buscá-los, ainda vou ser
veterinária, sei que sim, mas não deixando minha mãe doente, isso nunca.
Capítulo 11
Harry

“Respeite a Dulce”;
“Não faça muita sujeira”;
“Ligue se precisar”;
“Mandamos um avião”;
“Durma bem, coma direito, meu bebê sozinho em casa!”
Foram tantas as recomendações e tantos os abraços, que jurei que eles
desistiriam de viajar. Finalmente Emma e Danny começaram a reclamar e
meus pais foram obrigados a partirem.
Não é divertido ficar sozinho, a sexta à noite sem ninguém, nessa casa
enorme, foi triste, papai como eu bem sabia, não deixaria os cachorros de
jeito nenhum.
“Potter vai ficar chateado achando que não gostamos dele”. Foi o que
ele disse.
A verdade é que ele pode me deixar ficar, mas nunca os cachorros.
Sorrio pensando em como nossa família vive presa ao amor. Todo tipo de
amor, é ele a nos mover a todo instante.
Como agora quando arrumo a mesa de jantar com todo capricho para
receber a minha namorada, um ano juntos, tem que ser bem especial.
Dulce merece todo meu carinho, sua mãe agora doente, a vida difícil e
cheia de coragem que ela leva. Minha vida é tão perfeita e fácil perto da dela,
Dulce me inspira.
Coloco um vaso de flores que eu mesmo roubei do jardim da minha
mãe, felizmente não são as flores da tia Lissa ou meu aniversário de namoro
terminaria em puxões de orelha.
Encaro a tela do celular, ela ainda não enviou mensagem, queria ir
buscar minha namorada, mas ainda não estou com a minha licença para
dirigir, uma semana e vou poder pegar o carro e buscar Dulce.
As flores parecem bem estranhas agora que estão por volta de duas
horas fora da terra, faço careta pensando que, se ela demorar demais as flores
vão morrer.
A comida vamos fazer juntos, eu queria pedir, mas também queria
estar com ela na cozinha, preparar algo ao seu lado, como vi meus pais
fazerem tantas vezes, é romântico, é divertido e espero que não demore
demais porque estou com muita fome.
Meu celular toca, corro para atender, ele escapa e o salvo antes da
queda com o coração acelerado, se Dulce liga e não atendo bem na hora que
ela está a caminho, capaz de não vir mais.
Minha alegria se vai quando percebo que é minha mãe, ela sabe que
estou esperando a Dulce.
— Mãe, não posso falar agora!
— Por quê? O que está fazendo? Harry Stefanos, eu pego um avião
para Nova York agora mesmo, seu tio é piloto.
— Meu tio nunca te traria, ele a enganaria e levaria para China. – digo
rindo.
— Com toda certeza, mas me diga o que está fazendo, Dulce já
chegou?
— Não. Por isso eu não posso ficar no telefone, mamãe.
— Entendi, me desculpe por te amar tanto e me preocupar. – Mães
são sempre dramáticas, ela me faz sorrir.
— Eu te amo, mamãe, estou bem, a casa está arrumadinha, eu e a
Dulce vamos cozinhar o jantar.
— Que lindo, o que vai dar a ela de presente de um ano?
— Comida para cachorro! – conto a ela. Minha mãe se engasga para
meu desespero.
— Ele vai dar comida para cachorro, meninas o que faço com ele?
— Mamãe! – Meu coração bate fora do ritmo. – O que tem demais?
— Suas tias estão prestes a pegarem um avião. Comida para
cachorro?
— Economizei três meses de mesada, tenho um vale ração de 500
dólares! – Parece muito bom, ela ama ração, está sempre pedindo às pessoas,
500 dólares de ração vão deixar Dulce tranquila uns dias.
— E você sem namorada. – mamãe me diz e me sento. – Filho, é
aniversário de namoro. Tem que ser algo para ela.
— E não podia ter dito antes? – Olho para as flores murchas sobre a
mesa, uma pequena parte de mim quer caçar um laço de cabelo no quarto da
Emma, amarrar as flores e dar a ela.
— Vá ao meu quarto, pegue uma pulseira que ganhei tem uns dias do
seu pai, ela é linda, mas não tem chance de tirar a minha pulseira para colocar
essa, então Dulce vai ficar linda nela e você salva seu namoro.
— Uma pulseira? É muito cara? Dulce não vai gostar se for.
— Não, é uma pulseira simples, de ouro, mas... Harry, é melhor correr
com isso, vá achar a pulseira e depois me conta.
— Obrigado, mamãe.
Eu desligo, corro para o quarto dela, minha mãe tem muitas joias, os
cães e os filhos estão sempre aprontando algo e, papai está sempre enrolado
em se desculpar por coisas que ele não fez e lá vai o joalheiro ficar rico com
as bobagens que fazemos.
Abro a gaveta com as joias dela, tudo arrumadinho nas caixas, vou
levar duas vidas para achar a certa. Pulseira simples de ouro.
Vou abrindo as caixas e deixando sobre o móvel, mas encontro uma
linda, simples mesmo, só um fio de ouro com um fecho delicado, tão sem
graça, faço careta, Dulce é uma linda mexicana de longos cabelos negros, um
brinco bonito seria bem melhor, continuo a remexer as joias da minha mãe,
tem um par de brincos delicado e brilhante, tomara que não tenha custado
uma fortuna.
Pego os brincos e tiro da caixa de veludo preta, coloco em um
saquinho de seda azul brilhante.
Dulce envia mensagem que o táxi está se aproximando da casa, corro
para a porta a tempo de abrir os portões e assisti-la deixar o carro e me
acenar, fecho os portões assim que ela atravessa a linha de entrada, depois
caminho para encontrá-la.
— Está linda. – Dulce sorri, os cabelos que tanto amo soltos a
escorrer pelos ombros, os olhos escuros a brilhar feito estrela, o sorriso a
encher meu coração.
— Você também. – Eu tentei, vesti a melhor roupa que tinha,
caprichei no perfume. Dobro-me para beijá-la, ela está tão perfumada, me
envolve o pescoço, um ano de amor, um pedacinho da vida que eu quero
dividir com ela, mesmo que todo mundo ache que somos jovens, eu sei que
só vou gostar dela, de mais ninguém, porque sou um Stefanos e só amamos
uma vez e para sempre.
Sua boca é sempre macia, quente e sempre consegue mexer com meus
nervos e emoções, quando nos afastamos ainda sorrimos um para o outro,
levo Dulce pela mão para dentro da casa, ela fica sempre incomodada com a
casa, também acho que é grande demais, mas somos muitos e aqui tem
espaço para todos.
— É estranho não ser recebida pelos cachorros. – Dulce brinca e
concordo, a casa fica sem graça sem as preocupações com eles.
— Estou sentindo falta deles, toda hora vou olhar pela janela achando
que os deixei escapar e estão nadando no lago.
— Sempre penso que seria incrível criar vários animais abandonados
aqui.
— O papai amaria, mas a mamãe nos expulsaria, com toda certeza. –
aponto o sofá com uma linda colcha sobre ele, um dos sofás preferidos dela.
– Aquela colcha ali é para esconder o buraco que o Potter fez essa semana,
mamãe ficou uma fera e não deu tempo de trocar, na volta ela vai comprar
um novo e vai ficar um mês brigando com todo mundo para ele não subir,
depois ela vai cansar e ele vai subir de qualquer modo, mas aí ela não vai
mais poder dizer que é novo.
— Minha mãe reclama também. – Dulce me conta para provar que as
mães são iguais.
— Vem ver a mesa de jantar que eu preparei. – Seguimos pela sala
principal até a sala de jantar, Dulce sorri para o vaso de flores agora
despedaçando, olha para o lustre sobre a mesa. – Elas... morreram, eu acho.
— Muito calor, devia ter colocado água no vaso. – Parece agora bem
certo, mas como eu iria saber que depois de arrancadas elas ainda bebem
água? – Está lindo.
— Obrigado. – digo orgulhoso. – Quer descansar? Beber alguma
coisa?
— Não, tudo bem. – ela me avisa deixando a bolsa sobre uma cadeira.
– Vamos mesmo cozinhar?
— Acho que sim. – Dou de ombros. – Mas posso ligar e pedir.
— Não. Estou sonhando com a cozinha da sua mãe. Adoro cozinhar
com a July na casa dela, Annie é péssima e a July sempre cozinha e quando
estou lá ajudo. – Dulce revira os olhos. – Mas você provavelmente sabe
disso, é sua tia.
— A fama da minha tia na cozinha atravessa gerações.
A cozinha está arrumada, até lavei os pratos que usei esses dias e
guardei. Dulce encara o ambiente com um sorriso largo.
— O que vamos cozinhar?
— O que quiser, eu não pensei nisso, mas mamãe deixou muita coisa
antes de viajar.
Dulce remexe armários e geladeira, eu a levo até a despensa para ver
o que quer e terminamos decidindo por uma pasta ao molho de tomate, é só
abrir o pacote de macarrão na água fervendo e uns potes de molho para
aquecer.
— Vai ficar uma delícia. – ela diz animada quando pica cebola e mais
tomates para jogar no molho pronto.
Vinte minutos entre beijos e carinhos e nosso jantar está pronto, eu
levo a travessa e ela os refrigerantes.
— Um dia vamos tomar vinho com o jantar, o que acha?
— Um dia, daqui muitos anos. – Dulce ri.
— Meus pais tem uns amigos que fazem vinho na Itália, é um vinho
muito bom, todo mundo diz, mas nunca provei, aqui é terminantemente
proibido.
— Minha mãe também não deixa. – Ajeitamos a mesa e encaramos
nosso trabalho com orgulho, puxo a cadeira para Dulce, ela demora a
entender, quase se senta na outra, mas vem para onde a espero, empurro
quando ela senta, aperto um pouco Dulce contra a mesa e quando me afasto
ela empurra a cadeira mais para longe, preciso treinar mais essas gentilezas,
papai sempre faz coisas assim, abre porta de carro, ajeita a cadeira, ele diz
que é romântico e educado.
Sento-me ao seu lado, devia ter ficado de frente para ela, mas agora já
arrumei nossos lugares lado a lado. É romântico jantarmos os dois, lado a
lado, trocando alguns beijos e sorrisos.
— Eu podia ter colocado música. – Lembro-me tarde demais, os
pratos estão quase vazios.
— Agora já acabamos. – ela comenta.
— Verdade. Lavamos os pratos amanhã. – aviso pensando que lavar
louça não é romântico. – Como está sua mãe?
Dulce suspira, deixa os talheres e me olha, movo-me para ficar de
frente e prestar atenção.
— Ela não me conta muito, mas disse que está com um quadro de
depressão, queria pesquisar, sobre isso, só que fiquei com um pouco de
medo, ela disse que precisa fazer tratamento, mas não quer agora, que vai se
cuidar e tentar ser mais feliz, mas não vai tomar remédios porque... eu não
sei. Ela só fica arrumando desculpas.
— Sinto muito. – Vejo sua tristeza, meu coração se aperta um pouco,
se fosse mais velho talvez pudesse fazer algo.
— Eu também.
— Posso falar com o meu pai e...
— Não, ela ficaria brava, me pediu para não falar disso com ninguém,
ela está envergonhada.
— Não precisa, o que tem demais? Doença é doença, ninguém
escolhe.
— Eu sei, ela não sabe, eu acho. – Dulce encara as flores agora
totalmente mortas. – Adorei a decoração, fico pensando que você roubou
essas flores e isso é fofo. – Dulce se volta um pouco mais para mim. – Não
quero falar de nada sério, Harry, não quero pensar na minha mãe, em
Harvard, não quero, é a primeira vez que posso vir e ficar, dormir aqui,
namorar sem olhar para o relógio e foi bem difícil conseguir isso.
— Você tem razão. – digo beijando os lábios dela. – Vem, vamos lá
para sala.
Ela leva sua bolsa, dormir juntos, nem acredito nisso, está tudo
pronto, não esqueci dos preservativos, estão no quarto e levei meia hora para
decidir onde guardá-los.
Estrategicamente tem um em cada canto, gaveta, travesseiro e closet,
nunca se sabe onde vamos estar no caso de precisarmos de um ou dois, ou
toda a meia dúzia que comprei, ela só vai embora amanhã, eu posso sonhar
alto.
— Te trouxe um presente. – ela me conta e eu não esperava, sei que a
vida dela é complicada financeiramente. – Economizei um pouco.
— Dulce, não precisava.
— Eu sei que já tem tudo, mas queria te dar algo porque vamos fazer
um ano juntos e entrou em Harvard então... – Ela remexe a bolsa, tira um
pacote pequeno embrulhado com cuidado.
Sorrio um tanto tenso e emocionado, rasgo o papel ansioso, uma
caixinha com cards dos Jets, todos os melhores jogadores dos últimos cinco
anos, sorrio pensando em como ela é delicada e foi buscar algo que gosto.
— Dulce... eu adorei. – Não resisto a abrir e olhar alguns emocionado.
— Daqui uns trinta anos deve valer alguma coisa. – ela brinca me
fazendo deixá-los de lado para envolvê-la.
— Já valem muito agora, são especiais e vou guardar para sempre. –
Beijo Dulce, queria beijá-la até amanhecer, mas me afasto dela. – Obrigado.
Também tem presentes.
— Harry, não precisava.
— Precisava sim. – Entrego a ela a caixinha e o envelope, ela me olha
surpresa, ansiosa também, primeiro abre o envelope.
— Harry, que louco! Tudo isso? Quinhentos dólares vão alimentar
meus cães por um ano e os da Associação que estou ajudando. – Os olhos
brilham tanto, ela sorri agradecida. – Eles vão amar. – Ela brinca e agora faz
sentido o que mamãe disse, “eles vão adorar” explica mesmo sem perceber
que no fim, não é exatamente um presente para ela. Acho que puxei minha
irmã. Lizzie tem fama de ser péssima com presentes. Dulce abre a caixinha e
agora sim os olhos realmente cintilam. “Obrigado, mamãe”, penso enquanto
ela encara os brincos emocionada.
— Vão combinar com você, pensei que ficariam lindos com os
cabelos soltos.
— Harry são maravilhosos, eu adorei, foi muito caro? Não é uma joia,
é? – nego sem palavras, eu não tenho a menor ideia, sorrio um tanto
constrangido. – Harry, acho que nem vou usar isso, está com cara de ser caro.
— São para usar. Dulce. Coloca! – Ela me sorri ainda emocionada,
coloca os brincos e realmente realçam sua beleza, enchem Dulce de luz e ela
procura um espelho para se olhar, está encantada quando vem para meus
braços.
— Amei e, também vou guardar para sempre. – Seus braços me
envolvem, o sorriso desaparece aos poucos, os olhos sorriem, mas também se
nublam e não é de tristeza, é outra emoção, uma que vi em seus olhos seis
meses atrás, quando perdemos a cabeça e nos amamos, foi especial,
apavorante depois, mas especial em sua plenitude. – Obrigada.
Meus dedos correm por seus cabelos, deslizam suaves, o perfume dos
fios se espalha mexendo com meus desejos. Desço meu rosto com lentidão,
querendo me demorar até encontrar sua boca, saudoso daquele primeiro dia
de amor, ansioso por mais.
Quando beijo Dulce, sinto sua permissão, sua entrega a me garantir
em um beijo que, como eu, ela está pronta para mais do que beijos.
Afastar-me é um suplício, mas quero que seja no quarto, com
cuidado, porque foi há muito tempo, porque não aconteceu quase nada depois
e vai ser como se fosse de novo a primeira vez.
— Quer subir? – convido Dulce que responde com um balançar de
cabeça e mais um beijo longo e cheio de uma nova maneira de paixão.
Levo Dulce pela mão pensando que meus tios diriam que estamos
andando de mãos dadas dentro de casa, que vamos nos casar, não tem como
escapar disso.
Levo Dulce até meu quarto, arrependo-me de ter colocado uma flor
do lado da cama, ela vai estar morta e Dulce vai rir de mim e, é o que
acontece quando entramos no quarto.
— Não ri Dulce!
— Cheio de planos de me seduzir! – ela diz em um ataque de riso. –
Eu devia ter sido mais difícil.
— Seis meses Dulce, você foi bem difícil! – digo puxando minha
namorada para meus braços.
— Trauma. – ela responde tentando conter o riso. – Não mexa mais
nas flores da sua mãe. – pede-me antes que tome seus lábios, vou acabar com
o riso dela com beijos.
Os beijos vão nos esquentando, minhas mãos vão ganhando coragem,
invadindo espaço, buscando brechas, meu coração vai batendo forte, meu
fôlego tão bom nos campos de futebol agora corta minha respiração em
espasmos.
Dulce se afasta um pouco, os olhos dela são quentes, escuros e cheios
de mensagens, desejo, paixão, fogo.
Ela caminha até o interruptor, apaga a luz principal, ficam as luzes
menores, com sua luz amarelada a nos dar um tom dourado e suave, fica
ainda mais íntimo.
Minha mexicana é cheia de fogo e coragem, toca sem medo a barra do
vestido, os olhos presos aos meus enquanto sobe o vestido e o tira por cima,
os cabelos descem como cascata suaves e soltos e meu coração descompassa,
não sei se tem algo que me deixe mais maluco que seus cabelos.
Ela fica imóvel, usando apenas calcinha, os cabelos a cobrirem seus
seios, os olhos corajosos a me enfrentar, convidar, tomo coragem para como
ela, me despir diante de seus olhos, Dulce ri quando me enrosco nos tênis e
gosta quando percorre meu corpo, o futebol me mudou, braços mais fortes,
peito desenhado. Gosto de ser assim, eu preciso ser por causa do esporte, mas
gosto e não ligo de admitir.
Sou eu a caminhar até ela, envolver Dulce e beijá-la mais uma vez
antes de irmos juntos até a cama, não arrisco carregá-la, não estou pronto
para acidentes e Dulce é toda cheia de curvas, não é levinha como minhas
irmãs bailarinas, sei lá se aguento sem perder a elegância.
— Dulce, você é a garota mais linda do mundo. – digo quando me
deito primeiro a seu lado e então meu corpo cobre o dela, sinto sua pele
quente, macia e não é preciso mais nada, eu não penso mais, sou só essa coisa
que me excita absolutamente.
— Tem preservativo? Temos que usar tudo, lembra que falei?
— Acho que tenho aqui na gaveta e... debaixo do travesseiro e no
closet e sei lá mais onde quiser procurar.
— Um só, Harry. – ela diz rindo enquanto corre os dedos por minha
pele. – Você é tão bonito, gosto dos músculos.
— São seus! – digo rindo.
— E do seu técnico. – Ela me provoca e beijo Dulce, primeiro os
lábios, depois o pescoço e então me perco em sua pele, dessa vez não é sem
querer, sei o que quero e ela também. Quero conhecer o corpo dela, cada
pedacinho dele, sentir o gosto, descobrir coisas sobre nós, sobre como é de
verdade.
Ela quer o mesmo, procura-me, descobre, saboreia como eu a ela,
nunca mais Dulce deixa minha cama, é com esse pensamento que vou dormir
e acordar todos os dias depois de hoje, com seu cheiro e sua pele em meus
lençóis.
Tateio sob o travesseiro, claro que o preservativo desaparece, não dá
para ser charmoso e discreto, tenho que me afastar dela e atirar o travesseiro
longe.
— Achei! – ela diz balançando o pacotinho como se fosse um troféu,
até sua voz deixa claro a ansiedade, trocamos um olhar cheio de riso, um ano
é mesmo um bom tempo juntos, a vergonha se foi, sinto-me livre perto dela,
sinto-me eu. – Não morde o pacote que fura, andei estudando sobre isso.
— Meu pai explicou! – conto a ela que me olha de um jeito tão
diferente, parece que crescemos essa noite, que a vida não nos quer mais
meninos, em meio ao desejo e a ansiedade, mesmo perdido na excitação de
ter Dulce de novo, ainda encontro espaço para sentir saudade das crianças
que fomos, ainda encontro espaço para o medo de crescer e com isso, perder
minha linda mexicana. – Amo você, Dulce. É meu único amor.
Capítulo 12
Harry

— Harry, não acredito que deu mesmo comida de cachorro de


presente de um ano. – Minha mãe surge com as mãos na cintura no meio da
sala. – Heitor, seu filho aprendeu a ser romântico com o Ulisses, só pode.
— Mamãe, foi há três semanas, não acredito que voltou nisso. –
Lizzie não consegue conter o riso e ganha uma careta. – Não dei só a ração.
— A pulseira está no lugar de sempre, Harry. – ela insiste.
— Achei sem graça, mamãe. – aviso me lembrando apenas agora que
não contei do par de brincos. – Eu... pensei melhor. Então eu... escolhi um
par de brincos, ficaram lindos nela. Dulce amou.
— Um par de brincos? – mamãe diz olhando para meu pai.
— Achou seus diamantes perdidos. – papai responde e o riso de
Lizzie se junta ao de Josh, Emma e Danny, até meu sobrinho riria se estivesse
acordado, mas é um bebê e dorme nos braços do meu pai. Engulo em seco
pronto para trabalhar três vidas para pagar.
— Diamantes?
— Dois, um para cada orelha. – Lizzie explica.
— Mamãe, a Dulce merece. – digo tentando não acabar sem orelhas.
— Claro que merece, só que não me lembro de ter autorizado, Harry
Stefanos.
— Amor, você disse que ele podia pegar a pulseira. – Papai me ajuda,
mamãe vai ganhar algo novo, já posso ver.
— Pulseira, dessas que usamos no pulso, alguém aqui usa pulseiras
nas orelhas? Emma, Lizzie?
— Eu usaria, se fosse... moda. – Emma me faz uma careta ao perceber
que não ajudou muito, é um leve pedido de desculpas, meus olhos agradecem
a tentativa.
— Eu pago, mamãe.
— Ele paga, vou dividir em prestações suaves na mesada que ele vai
receber para Harvard. – Mamãe olha primeiro para mim, depois para o papai
e ele aprendeu direitinho a fazer aquele olhar estilo Dobby que sempre
amolecia mamãe, ela vai sorrindo aos poucos, até sorrir por inteiro e fazer os
olhos dele brilharem, é bonito de assistir.
— Heitor, a sorte desses meninos é que eu te amo. – Papai caminha
até ela e beija seus lábios, cuidadoso para não acordar o bebê em seus braços.
— Te amo, amor. – Mamãe toca seu rosto, depois aproveita para
beijar a cabeça do bebê que ele nina.
— O piloto já está à espera de vocês. – Josh lembra a todos e suspiro
pensando em Dulce.
— É de longe o Stefanos mais desanimado para conhecer Harvard. –
Josh diz rindo de mim. – Até a July estava mais animada.
— Ela estava animada era com o Tyler, eu também estaria se a Dulce
fosse comigo.
— Uma coisa de cada vez, Harry. – papai diz tocando meu ombro.
— Primeiro as prestações suaves dos meus brincos. – mamãe brinca
me abraçando. – Amo você e tenho certeza de que ficaram lindos na Dulce,
era uma peça especial e gostei que está com ela. Não se preocupe, Dulce
merece muito.
— Pode não contar que são caros? – peço a mamãe que balança a
cabeça com um sorriso.
— Posso, mas ela vai acabar descobrindo. Agora vamos conhecer
Harvard.
— Já conheço, fomos visitar a Lizzie meia dúzia de vezes.
— É diferente, irmãozinho, vai conhecer estudantes, professores,
quando chegar para ficar não vai ser uma surpresa total.
— Eu sei, Lizzie. – digo levando minha mala na mão.
— Tchau, bebê, o vovô ainda vai levar você também, um dia. Eu e
não aquele seu outro avô que fica se gabando de ser o queridinho de Harvard.
— Papai, o tio Nick não se gaba. – Lizzie reclama recebendo o filho
nos braços.
— Josh, cuida dos meus meninos todos, estamos de volta ao
anoitecer. – papai pede quando deixamos a casa. Lizzie vai passar o dia aqui
com Danny e Emma, além do Potter e a Lily, já eu vou fingir que amo
conhecer Harvard.
A viagem é curta, o avião nos aguarda e July e Tyler seguem conosco,
vieram para o fim de semana, vou poder voltar todo fim de semana, é isso
que me mantém. Voltar todo fim de semana.
— Triste? – Tyler me pergunta se sentando ao meu lado quando
somos liberados para soltar os cintos de segurança.
— Só... preocupado, Dulce vai ficar.
— Eu sei, ela podia ter vindo conhecer, quem sabe se animava para o
próximo ano?
— Convidei, ela disse não. Eu não entendo por quê. – Encaro a janela.
– Vou perder a Dulce, Tyler.
— Claro que não.
— Ela é linda, vai me esquecer aos poucos, se apaixonar por outro.
— Não sei o que dizer, pode acontecer com você também, eu e July
tivemos sorte.
— Sorte de irem juntos. Porque sabe que seria ruim separados.
Morreria de ciúme, eu sei que sim.
— Acho que morreria mesmo. – Tyler olha para ela e sorri
apaixonado.
— Pior que vou atrapalhar vocês.
— Provavelmente. – Ele ri. – Mas já estávamos à espera, Emma vai
chegar em breve e atrapalhar você e talvez todos os outros. Ryan, Gigi,
Danny.
— Não vão ter o que atrapalhar se a Dulce não for. A mãe dela podia
não estar doente. – Faço careta. – Nem quer se tratar.
— Anita ama a filha, ainda vai cair em si e buscar ajuda, sabe que a
filha precisa disso, de uma vida e vai tentar.
— Talvez. Sei lá. Eu vou me acostumar, não posso parar minha vida,
queria, mas não posso.
— Não. Se precisar... bom, pode contar comigo e a July.
— Obrigado.
Fico sozinho, Tyler volta para perto de July e fico olhando a cidade lá
em baixo pensando em como vai ser o meu futuro.
A visita começa bem chata, primeiro passamos no apartamento, deixo
a mala, mamãe fica um tempo arrumando meu quarto enquanto reclama que
vou deixar tudo bagunçado, me dá mil dicas sobre lavar as roupas uma vez
por semana, manter as janelas abertas para arejar, comer bem, dormir cedo.
Meu pai mantém o sorriso divertido de quem me conhece o bastante
para saber que não vou fazer nada disso.
— Vocês querem ajuda? – July oferece. – Podemos levar vocês para
conhecer tudo, hoje não temos aula.
— Não querida, agendamos tudo, vamos encontrar alguém que vai
nos acompanhar, Harry vai conhecer o técnico do futebol e as dependências.
— Leva o carro, tio Heitor. – July entrega as chaves a ele e olho para
papai.
— Pode dirigir Harry, vamos comprar um carro simples para usar
aqui, July e Tyler já dividem um.
— Não dividimos nada, tio, o Ty que me leva para lá e para cá,
porque esqueço a bombinha e ele fica sempre preocupado, tem sempre carona
também, mas já falei que esse ano vou dirigir também. – July anuncia sua
independência.
— Gosto de dirigir. – Tyler dá de ombros. – Queria trocar de carro,
mas o Nick acha desnecessário.
— E o papai sempre convence o Ty, mas nisso eu concordo, porque
ele vai acabar amando mais o carro do que a mim.
— Essa garotinha está muito parecida com o tio Heitor. – Meu pai
brinca abraçando July. – Vamos Harry?
— Melhor.
Quero voltar logo para casa, aproveitar cada segundo com Dulce já
que semana que vem venho para ficar.
Depois de estacionar, seguimos até o prédio da biblioteca onde vamos
encontrar alguém para nos guiar. Esses trabalhos voluntários sempre dão
crédito aos alunos e alguns adoram.
Uma garota se aproxima com uma placa com meu nome, aceno um
tanto sem graça.
— Bem-vindos. – Ela sorri de saia jeans curta, olhos claros, cabelos
dourados, tão diferente da minha mexicana linda, não que seja feia, é uma
moça linda, mas não é a minha garota e eu queria que ela estivesse aqui. –
Sou a Trish.
— Harry. – digo meio idiota, a garota tem uma placa com meu nome.
— Estão prontos? – afirmamos, meus pais um passo atrás. – Eu
preparei uma lista de lugares para conhecer, já sei que tem um apartamento
aqui e não vai morar nos alojamentos de estudantes nem em repúblicas o que
já mostra que é um cara de sorte.
— Vou morar com primos. – explico.
— Nem tanta sorte assim. – ela brinca e me faz sorrir, aponta a
direção que devemos seguir. – Pode ir me perguntando o que quiser, cheguei
há seis meses, logo se acostuma com tudo.
— Espero que sim.
— Pelo que sei, é praticamente do time de futebol, isso já é meio
caminho. – ela me explica.
— Acha?
— Pode apostar, vai ter uma fila de amigos, todo mundo quer ser
amigo dos caras do futebol, todas as meninas querem namorar os caras do
futebol.
— Eu não penso muito nisso, só quero estudar, não me faltam amigos.
– ela sorri, olha para meus pais como se eu estivesse dizendo isso apenas para
agradá-los.
— Claro, está certo, eu também, só estou aqui pela formação. – Seu
tom é cínico, mas divertido, Trish parece boa pessoa. Acho que gosto do jeito
espaçoso dela.
Ao longo da visita vamos conversando sobre os prédios, as coisas que
posso fazer, os lugares melhores para estudar.
Meus pais andando sempre mais ao longe só participam um pouco da
conversa com o técnico que parece um sujeito firme, mas agradável. Depois
da conversa com ele, papai convida Trish para almoçar conosco e ela logo
aceita, vamos ao restaurante mais elegante, onde os ricos comem como ela
diz quando entramos.
Mamãe e papai ficam me constrangendo com fotos o tempo todo, não
consigo ficar bravo, sei do orgulho que estão sentindo.
— Sua família é conhecida aqui, pelos motivos certos é claro. – ela
diz antes de levar uma garfada à boca.
— Espere até minha prima Giovanna chegar. Aí tudo muda.
— Já gosto dela. – Trish me avisa deixando claro que ela não é o tipo
que veio para estudar. – Aposto que ela vai acabar como eu, aceitando todo
tipo de trabalho para conseguir nota, não estou reclamando de estar aqui,
vocês são ótimos, mas levei uma garota para a visita com os pais e um
irmãozinho de cinco anos que tentou destruir Harvard de todos os modos,
achei que ele tinha potencial para derrubar a biblioteca de mais de mil anos
que temos aqui.
— Ela não tem mil anos! – aviso achando graça. – Eu conheço bem
tudo aqui, minha irmã e alguns primos estudaram ou ainda estudam aqui.
— Sei lá quantos anos tem aquilo, mas sei que precisaria de uns dois
mil anos para ler todos aqueles livros. Os professores adoram livros por aqui.
— Talvez por que seja uma universidade? – Ela dá de ombros. Depois
do almoço, nos despedimos, ela me deixa seu telefone, gentil se oferece para
me ajudar no que eu precisar e aperta a mão dos meus pais, formalmente
antes de correr de volta para o prédio no exato lugar que nos encontramos.
— O que achou, Harry?
— Legal, achei tudo legal, nenhuma novidade, só o time de futebol.
— Ainda não entendo como é que foi se interessar por esse esporte. –
papai comenta.
— Só aconteceu, descobri que sou bom, gostava de jogar com o tio
Nick e a tia Annie em Kirus, quando tive chance, no colégio, descobri que era
bom, isso ajudou.
— Semana que vem as aulas começam para os calouros e sabe que
tem brincadeiras, provocações, filho, não faça nada que não queira para ser
aceito, não precisa disso.
— Fica tranquilo, papai. – aviso sentindo que vou tentar mergulhar
nos estudos e só isso.
— Ótimo. – Dirigir pelo Campus é algo que gosto, eu não sabia que
gostaria tanto da independência que um carro me dá, mas amo isso.
— Vou jantar com a Dulce na casa dela, tudo bem ir de carro? –
Aproveito o clima amistoso do retorno para pedir.
— Nem saímos de Harvard ainda e ele já pensa no jantar em casa. –
Papai ri de mim. – Stefanos apaixonados são um caso à parte.
July e Tyler estão arrumando espaço na sala quando voltamos,
decididos a me deixar lugar para fotos, livros, pretendo usar mesmo meu
quarto, instalar um bom videogame, televisão e só, tem a escrivaninha e os
livros ficam lá, é o bastante.
— Gostou Harry?
— Muito. – Tento parecer animado. Não dá muito certo, mas não nos
demoramos, logo nos despedimos depois de desejos de sucesso para os anos
que passarei aqui. Anos, é isso que mais me deixa angustiado. Anos.
Chegamos ao anoitecer, Emma está lendo, Lizzie e Josh cozinhando e
Danny desenhando, ele não faz outra coisa.
— Fez o dever, Danny.
— Metade, mamãe, estou aqui terminando esse desenho, já vou
terminar.
— Lizzie, seu irmão não terminou o dever. – Mamãe segue para
cozinha e eu olho para meu pai.
— Vá de uma vez, cuidado, não ultrapasse os limites de velocidade e
não volte tarde.
— Pode deixar, sempre venho embora antes da Anita chegar. – Meu
pai ergue uma sobrancelha. – Ela sabe que vou, papai.
— Melhor assim. – Beijo seu rosto e caminho para garagem enquanto
ele vai ajudar Danny com o dever. – Vamos, Danny, terminamos antes do
jantar e a mamãe fica feliz, depois continua a desenhar.
Dirijo ansioso, depois que voltamos a ter uma vida realmente
completa de namorados eu só consigo pensar em beijar Dulce, tocar seu
corpo, perder-me nela, estamos cada dia melhor, agora achamos que esperar
seis meses foi uma perda de tempo.
Dulce me recebe com um sorriso, não um verdadeiro, mas um sorriso
triste, fico triste também.
— Como foi, gostou? – ela pergunta entre um tocar de lábios e o
espaço para que eu entre.
— Muito, foi... legal. – aviso quando ela me segue até o sofá, um gato
com a pata enrolada em uma tala surge ao meu lado. – Novo?
— Sim, tive que pular um muro para resgatá-lo, ralei a perna, mas ele
estava preso em uma pedra, miou a noite toda coitado, ninguém fez nada, me
chamaram de manhã, me atrasei para o colégio porque tive que levá-lo ao
veterinário e agora mamãe está uma fera porque ligaram para ela.
— Precisa tomar cuidado, Dulce. – Sempre me preocupo. Para salvar
um animal, Dulce não vê perigo, não se protege, ela simplesmente arrisca
tudo. – Não tinha mais ninguém para fazer isso? Por que não me chamou?
Nunca me pede ajuda para esses resgates.
— Não estava aqui, Harry, não vai estar nos próximos, é como as
coisas são, isso é o que eu faço, resgato animais, recebo aqui animais
resgatados por outros, arrumo pessoas para protegê-los, cuido, alimento, trato
feridas, é o que eu faço.
— E deveria ir estudar veterinária em Harvard e fazer isso da maneira
certa. – ela suspira. Se acomoda no sofá e me acomodo a seu lado.
— Vai, me conta, falei com a July, ela disse que já organizou seu
quarto, que Liv cuidou de tudo. Está levando casacos quentes?
— Sim. – ela me faz rir. – Parece a mamãe falando.
— Preocupação. – Dulce me faz um carinho no rosto. – Que bom que
gostou. Como é lá?
— Mamãe tirou muitas fotos, vem ver. – Pego meu celular, coloco
nas fotos e entrego a ela. Dulce começa a passar as fotos, primeiro sorrindo,
mas o sorriso vai sumindo e ela começa a ficar tensa.
— Quem é essa moça que apareceu em várias fotos? Linda ela.
— Ela foi designada para fazer o tour conosco e ir mostrando tudo.
Trish.
— Trish! – Ela repete o nome cheia de desdém.
— Ela é legal. – Dou de ombros e agora uma de suas sobrancelhas se
ergue.
— Claro que é! O novo galã de Harvard, um Stefanos rico, bonito e
do time de futebol, eu tenho certeza de que ela caprichou em ser legal. –
Dulce me estende o celular.
— Estou indo estudar, Dulce, e não escolhi quem iria me
acompanhar, mas não posso negar que ela foi gentil. Meus pais estiveram o
tempo todo comigo.
Eu entendo seu ciúme, também sinto, mas não tenho escolha sobre ir,
ela que podia estar começando a se preparar para ir também e não está
fazendo nada.
— Não vai passar cinco ou seis anos lá só estudando, sabemos disso.
— Nem você vai ficar aqui cinco ou seis anos só cuidando da sua
mãe. – Arrependo-me, ela me olha magoada. – Vem também, podemos
pagar, aí não serão cinco ou seis anos separados, serão apenas alguns meses,
menos de um ano e vai estar lá comigo.
— Não posso deixar a minha mãe. Não tenho dinheiro para um curso
como esse. É caríssimo.
— Não é caro para minha família.
— Minha mãe, Harry. Ela só tem a mim.
— Contrato alguém para cuidar dela e você cuida da sua vida.
— Droga, Harry, ela é a minha vida. – Dulce sai do meu lado, anda
pela sala. – Sua vida é mais simples, que bom, fico feliz, mas a minha é essa,
sabia disso quando começamos, não escondi nada, se queria uma garota com
as mesmas chances que você, devia ter ido namorar alguém do seu colégio.
— Está brava porque quero o melhor para você?
— Quer a sua versão do melhor para mim. – Dulce é sempre
dramática, seu sangue sempre ferve rápido. – Eu não vou para Harvard,
entendeu? Não vou!
— Entendi! – respondo no mesmo tom. Fico de pé também e encaro
seus olhos negros e quentes. – Entendi que as coisas são sempre do seu jeito.
Eu vou para casa, não quer ir para Harvard, não vai, mas não pense que vou
deixar de ter amigos porque fica com ciúme, eu sei que vai ter amigos
homens também.
— Como se você não ligasse a mínima. – ela me acusa. – Está sempre
reclamando, perguntando quem é, de onde conheço, eu não me importo, não
fico na defensiva porque não tenho nada a esconder. Admita que gostou dela,
todas essas fotos cheio de sorrisos. Ela te engolindo com os olhos.
— Ah, não! Como é que pôde ter a enxergado me engolindo com os
olhos em simples fotos?
— Porque tenho um par de olhos! – Dulce diz brava e como é linda
brava.
— Acho que perdi a fome. – digo a ela que balança a cabeça em
concordância.
— Totalmente. – ela responde.
— Vou embora, nos vemos depois. – digo me aproximando dela para
um beijo de despedida. Dulce me abraça chorando.
— Como isso vai dar certo, Harry?
— Eu não sei. – respondo envolvendo Dulce. – Não quero acabar.
— Nem eu quero, mas eu não sei como vamos seguir sem acabar
machucados.
— Só consigo gostar de você, Dulce. – ela afirma sem se afastar,
ainda em meu abraço, com o rosto guardado em meu peito e eu sem saber o
que fazer, porque ela está certa, vamos machucar um ao outro.
— Eu também, mas tenho medo, vai acabar conhecendo alguém,
Harry, você vai amar outra pessoa e me dizer adeus. Eu sei que sim.
— E se for você? – Ela se afasta, os olhos úmidos.
— Não poderia. Amo você.
— Eu sei que ama e eu te amo também. Só isso explica as coisas que
sinto, mas eu não tenho escolha, eu preciso ir e você pode ir comigo, mas não
quer.
— Harry. – Dulce toca meu rosto, suas lágrimas correm grossas, sua
respiração pesada e os olhos tão escuros e angustiados que eu simplesmente
sei e talvez ela esteja certa. – Alguém tem que ser forte para tomar a decisão.
— Dulce... – A dor me aperta o peito. Nego sabendo que ela está
fazendo o que eu devia fazer, o que devíamos decidir juntos.
— Não consigo continuar com essa coisa entre nós.
— Por um tempo? O que acha? Até...
— Sim, só até minha mãe melhorar, você se encaixar, depois disso se
ainda me amar... – Ela me abraça e dessa vez, nós dois choramos porque
pessoas que se amam não terminam, elas ficam juntas e não conseguimos. –
Sinto muito.
— Eu também. Sinto que vamos ficar cada dia mais distantes e esse
amor vai morrer e eu não quero.
— Não deixamos morrer. O que acha? Não vamos ser inimigos,
nunca, eu sempre vou estar aqui e você sempre vai poder contar comigo.
— Vou estar aqui, Dulce, sempre que precisar, virei, não importa
nada, vou ligar às vezes, vou... – ela afirma, procuro sua boca, quero beijá-la
até não ter outra coisa a fazer se não ficarmos juntos, quero carregar sua pele,
seu cheiro e seu gosto comigo. É um beijo de despedida e não quero pensar
que não vou beijar Dulce outra vez.
Quando nos afastamos, os dois chorando, feito os tolos que somos, ela
cobre os olhos, não quer me ver partir.
— Vai Harry. – ela pede, balanço a cabeça em um sim que ela não vê,
afasto-me lento, com medo de ir e meu coração ficar, com medo de levar o
dela comigo e não poder protegê-lo como preciso.
— Amo você. – digo antes de correr para fora, correr feito um louco
porque é o único modo que conheço de deixá-la. Correndo do meu desejo de
ficar.
Capítulo 13
Dulce

A dor que me atinge é cortante, parece que minha alma e meu coração
se partiram. É como se eu não estivesse mais inteira, um buraco se forma em
meu peito e eu me entrego às lágrimas.
A cama ainda está com o cheiro dele, ao menos é o que sinto assim
que me encosto no travesseiro em uma crise de choro que não me lembro de
ter tido antes, choro por tantas coisas, não consigo segurar a dor, por ele, por
sua tristeza, por mim, pela minha angústia, choro por minha mãe e a sua
doença, choro até me esgotar e adormecer. A mão da minha mãe a me tocar a
testa me desperta, ela me olha preocupada.
— Está bem? Nunca dorme assim tão cedo.
Balanço a cabeça em um sim confuso, só consigo pensar nele e na
minha dor, contê-la para fingir sorrir me despedaça. Lembro-me que ainda
tenho que alimentar os animais, cuidar da pata do gato, ajudar minha mãe.
São quase 10h da noite, é o horário que mamãe chega e ela ainda está
com a bolsa pendurada no ombro.
— Não é nada. – Minto ficando de pé, ela balança a cabeça aceitando.
— Vou preparar algo para comermos. O que acha?
— Pode ser. – Queria ficar feliz, tem tanto tempo que ela não cozinha,
que não faz nada além de sair pela manhã para o trabalho e cair na cama no
final do dia.
Eu faço meu trabalho desesperada de dor, querendo ser forte e ao
mesmo tempo desejando ligar para ele e pedir socorro, dizer que não consigo.
Mamãe me convida a jantar com ela, eu me acomodo sem conseguir
olhar em seus olhos, preciso contar, mas as palavras não saem, parece que se
disser então tudo se torna real e finjo. Ela nunca puxa muito assunto mesmo,
então só comemos o prato quente e apimentado que ela preparou sem ânimo.
Talvez porque tenha notado que hoje, eu estou pior do que ela.
— Lavo os pratos. – aviso assim que terminamos. Minha mãe me
sorri, se existe um sorriso triste, esse é o de minha mãe. Sorrio de volta, o
meu não é só triste é também cheio de dor.
— Boa noite, querida. – Ela me beija a testa e me deixa sozinha, com
lágrimas correndo eu lavo os pratos, não quero me tornar minha mãe, mas
não sou mais do que dor e sinto que vamos ser parceiras na tristeza.
Enrolo-me nas cobertas, parece que o ar vai faltar e fico me
perguntando se não estou sendo uma tola, se amor pode mesmo machucar
assim, causar dor, medo, meu peito parece oprimido, sinto palpitação, o
quarto que sempre foi meu pedacinho pequeno de paraíso agora me assusta,
afasto as cobertas com um medo bobo de estar morrendo, deixo meu quarto e
sigo para o quarto dela. Minha mãe dorme encolhido no quarto escuro, sem
fazer barulho eu me enfio debaixo de suas cobertas, aperto-me a ela que me
abraça em silêncio, as lágrimas correm quentes por meu rosto, os soluços são
contidos a custo de muita dor.
— Vai ficar tudo bem. – ela diz me acolhendo, seus dedos a correr
meus cabelos e me lembrar dele, das mãos de Harry a adorarem os fios
longos dos cabelos que sempre senti pertencer mais a ele do que a mim. –
Brigaram?
— Terminamos. – É um explodir de dor, a verdade termina de
arrebentar meu coração e me mata um pouco.
— Ele terminou com você?
— Não. Sim, nós dois. Não sei bem quem começou, dói demais,
mamãe. – Ela me abraça mais a ela.
— Vai passar, “Corazón”. – Tanto tempo que não me chama assim,
só me causa mais lágrimas. – Vai esquecer o Harry, é assim com o primeiro
amor, mas passa.
— Não quero que passe, mamãe, quero amar o Harry para sempre, eu
não sei gostar de outra pessoa, não quero gostar de outra pessoa. Só dele.
— Sinto muito, eu estraguei tudo para você, não fui capaz de dar a
você a vida que merecia.
— Isso não é verdade, mãe. Fez tudo que pôde por nós.
— Às vezes eu penso que se não estivesse mais aqui... – Ela segura
meu rosto com as mãos, afasta minhas lágrimas. – Você simplesmente
seguiria sua vida com Harry.
— Mãe, não pode falar coisas assim, só tenho você, não pode pensar
que me deixar sozinha é melhor.
— Eu sei. – Ela me beija a testa, depois me abraça mais uma vez. –
Tente dormir. Eu estou aqui.
Leva tempo até que eu consiga pegar no sono, adormeço no abraço
dela. Encolhida e triste como nunca me senti, mas sei que não posso apenas
ficar triste, preciso de uma vida, Harry também precisa.
Dois dias sem ouvir a voz dele, ainda sinto como se ele fosse ligar a
qualquer momento, como se eu ainda estivesse à espera dele depois do
colégio, para um cinema ou quem sabe uma longa tarde de amor no meu
pequeno quarto.
O buraco ainda está aberto em meu peito e simplesmente acho que
não vai fechar, a dor me deixa fraca, sem energia, não consigo parar de sentir
essa dor, a escola é insuportável, o resto das horas em casa simplesmente me
consomem em tristeza.
Tenho medo de que a tristeza me leve para a mesma doença que
minha mãe, tenho medo de acabar desejando não existir, como ela deseja, não
posso me render, ela precisa de mim e eu preciso de mim.
No terceiro dia, quando deixo a escola no fim das aulas, vou em busca
de uma coisa que me preencha as horas, estou decidida e nada vai me
demover da ideia de viver e ser feliz, é o que desejo a ele e o que desejo a
mim.
Merecemos isso, por nosso amor, porque eu o amo e sei que sempre
vou amar Harry Stefanos, não importa para onde a vida me leve.
A Pet Shop estava ontem mesmo com uma placa oferecendo vaga,
sou mais do que qualificada, frequento aquele lugar quase todos os dias,
conheço todos, sei onde encontrar tudo, amo animais, posso trabalhar depois
das aulas e minha mãe precisa aceitar isso, se conseguir uma vaga ela vai ter
que permitir.
Paco está arrumando as prateleiras, os olhos sorriem ao me ver, ele é
sempre um cara legal e me lembro de Harry torcendo o nariz para ele toda
vez que me acompanhava. Paco trabalha aqui há dois anos, fez 18 anos há
dois meses, estudou na mesma escola que eu, não foi a faculdade como eu
não vou, vive a vida que vivo, sempre viveu, seu pai trabalha com minha mãe
na limpeza dos escritórios no centro.
— Mais plaquinhas de doação? – ele pergunta e nego. Sempre tiro
fotos dos animais que estão para doar e deixo com eles, as fotos ficam
espalhadas pela loja e sempre tem alguém que se interessa e venho tentar
doar.
— Não. Fabián está? – ele afirma. – Vim pela placa.
— Quer trabalhar aqui? – Paco deixa seus afazeres e se aproxima.
— Sim. Acha que tenho chance?
— Não sei, é para o banho. – Gosto da ideia, é um momento
divertido, tenso também, quando eles não gostam de banho.
— Pode ser, mas só posso depois da aula. – Ele torce o nariz. – O
quê?
— Acho que ele precisa para o dia todo. – Desanimo um pouco. –
Mas posso ajudar, faço isso pela manhã, mas o banho vai até às 6h e a loja
fica até às 8h, pode ficar no meu lugar depois das 6h, trabalhar até às 8h. O
que acha?
— Acho que eu devia opinar. – Fabián surge no corredor de ração
com as mãos na cintura.
— Boa tarde, Fabián, esperava uma chance, mas só posso depois das
aulas, pelo menos por dez meses, então eu termino o colégio e fico o dia
todo. – Encaro Fabián pronta para implorar.
— Não é um grande salário, Dulce. – ele explica. – Paco precisa de
ajuda, mas não posso pagar muito.
— Tudo bem.
— É cansativo, vai dar banho em cachorros, gatos, ajudar no balcão,
essas coisas. Um pouco de tudo, estou inaugurando uma loja nova do outro
lado da cidade, tenho saído muito, Paco não dá conta. – Paco faz outra careta.
— Ninguém conhece sua loja como eu. Ainda vou comprar aqui tudo
que preciso.
— Você não é boa pagadora, Dulce. – Ele ri. Realmente estou sempre
com uma dívida com ele, primeiro ele atende os cães, depois eu arrumo o
dinheiro. – Gosto muito mais quando um daqueles Stefanos entra por essa
porta.
Harry, meu coração descompassa, é ridículo sentir tanta dor, pior
ainda, fingir que não sinto.
— Eu sei, mas pago, mostra que sou honesta.
— Paco, vá tirar a placa da vitrine. — Fabián é mesmo um bom
homem, sorrio animada. – Você começa amanhã, sua mãe sabe disso? –
Minto afirmando com um movimento de cabeça. – Ótimo.
— Nem sei como agradecer.
— Faça um bom trabalho é já me sinto feliz. – Ele me dá as costas. –
Paco, ensine as coisas a ela.
Eu e Paco sorrimos um para o outro, ao menos podemos conversar,
ele é legal e, vai me fazer bem ocupar a mente com algo que não seja chorar
de saudade dele.
Chego a casa depois das 7h da noite, corro para cuidar de tudo, se
chegar todos os dias um pouco depois das 8h ainda consigo cuidar do jantar e
fazer o dever, cuido dos animais e vou para cama, é perfeito, minha cabeça
vai se ocupar o tempo todo.
Mamãe chega no horário de sempre, investiga-me cheia de perguntas
no olhar.
— Arrumei um emprego. – É assim que a recebo, com a verdade e
sem rodeios, antes mesmo de um boa-noite. – Tem que me deixar fazer isso
ou vou acabar louca. Por favor, mamãe.
— Já falamos tanto sobre isso. – ela diz deixando a bolsa no lugar de
sempre e se sentando para tirar os sapatos.
— Na loja de animais do Fabián, eu o conheço há tanto tempo, vou
fazer o que gosto, além disso, o Paco vai estar lá, é bom, não acha? Ter um
amigo como colega de trabalho?
— Não pode esperar até a formatura?
— Mãe... – Gemo começando a me desesperar. – Vou fazer o que
gosto, nem vai parecer trabalho. Por favor, mamãe.
— Uma experiência. – ela diz para meu alívio. Dá para sentir pena de
mim me agarrando a qualquer coisa para não me render à saudade e a dor.
— Obrigada, eu amo você, mãe.
— Sei disso. Agora vou tomar um banho e dormir, amanhã vou poder
dormir o dia todo, nem acredito que a folga finalmente chegou.
— Deixo tudo arrumado, cuido das notas e da casa, dos cachorros,
prometo que cuido de tudo.
Ela não responde, só dá um sorriso torto enquanto a persigo pela casa,
quando entra no banho eu me acomodo para terminar o dever e nessas horas,
também só consigo pensar nele a me ajudar, sempre tão inteligente, não em
tudo, Harry é péssimo em história e geografia, acho que pelo fato de ter feito
os primeiros anos na Inglaterra, mas ele se esforçou muito em me ajudar a
melhorar minhas notas e sei que fez isso pensando em Harvard.
Meu telefone toca e meu coração falta sair pela boca, não é ele, é July
e nem sei como vai ser conversar com ela agora, talvez July esteja ligando
para dizer que não podemos mais sermos amigas, isso terminaria de me
destruir.
— Alô! – digo com a voz trêmula.
— Adivinha que dia maravilhoso é hoje? – Busco na memória, não
consigo pensar em nada, nem mesmo entendo essa alegria toda. – Dulce?
— Desculpe, estou aqui. Não sei que dia é hoje.
— Dia em que minha mesada cai em minha conta sempre tão
deprimida. – Dou um meio sorriso sem expressar qualquer reação. – Que
desânimo! – ela reclama. – Vou depositar na sua conta o dinheiro do mês.
Para pagar nossa conta no veterinário, Ty teve que completar, porque eu
paguei meu irmão. Ryan ganha o mesmo que eu e isso é injusto, ele não tem
gasto nenhum, mas não reclamo, ele sempre me empresta.
— É bom ter irmão. – digo um tanto aérea sem entender bem por que
ela parece tão feliz quando deve saber que estou arrasada.
— Muito, só sei disso. Deposito o dinheiro e estive pensando, acha
que conseguimos uma campanha com aquela Associação que cuida dos
gorilas, eu estive lendo que lá os protetores estão correndo risco de vida.
— Eu não sei, July. – Minhas lágrimas começam a correr.
— O que você tem hoje, Dulce?
— Sinto falta dele. – Agora não consigo mais conter e choro.
— De quem, Dulce? O que aconteceu?
— Harry não contou que terminamos?
— Ah, meu Deus! Não, Dulce, ele não disse nada, eu não falo com
ele desde que veio conhecer a universidade. Sinto muito, mas... aposto que é
só uma briga boba. Vou ligar para ele, melhor, vou ligar para mamãe, ela
espalha para as tias e a minha tia Liv...
— Não, July, não quero que faça nada, não foi uma briga, apenas... eu
sabia o tempo todo, ele também sabia.
July fica muda ao telefone, eu chorando, sem saber mais o que dizer.
— Amanhã estou aí. Não chora, eu não sei por que colocar um fim se
vocês dois se gostam.
— Porque eu tenho ciúme, ele tem ciúme, porque eu quero viver de
um jeito, ele quer que eu viva de outro, porque... nem sempre adianta amar
alguém.
— Dulce, eu nem sei o que dizer, mas amanhã vou até aí, iria agora,
mas não consigo avisar o piloto agora, só mesmo amanhã.
— Queria dizer que não precisa, mas eu acho que precisa, porque
estou...
— Muito triste, é claro que está, Harry também deve estar, acho que
ele não contou a ninguém ou eu saberia.
Não sei, talvez ele tenha preferido não falar sobre isso, eu tentei, mas
acabei contando para a minha mãe, não consegui esconder a tristeza.
— Estou mesmo triste, eu até consegui um emprego, não quero ficar
em casa pensando nisso, nele, em nós. Trabalhar vai ocupar minha cabeça.
— Foi uma boa ideia.
— July, é melhor você ir descansar, eu vou tentar dormir. Obrigada
por vir.
— Ainda é minha melhor amiga, Dulce, mesmo que eu esteja longe e
não conversarmos como antes... sinto demais. Quero chorar, só sei disso.
Ty...
— Não chora, eu e ele vamos nos acostumar. – digo tentando consolar
July.
— Não me console, estou arrasada, mas eu sei que eu que tenho que
te consolar. Como é que aquele meu primo foi deixar a garota mais legal do
mundo escapar? Tenta dormir. Amanhã estou aí.
— Obrigada. Boa noite.
July não demora a chegar, falto na escola para vê-la, às 10h da manhã,
estamos sentadas na minha cama, ela com os olhos tristes, segurando minha
mão enquanto choro contando como tudo aconteceu.
— Depois que ele saiu não falamos mais. Eu sei que ainda vamos
conviver, que ele vai ter alguém, talvez eu tenha também, mas agora dói
muito.
— Não entendo, Dulce.
— Dois mundos diferentes.
— Tolice, meu mundo e do Ty era ainda mais diferente.
— Era, mudou no momento que se conheceram, Tyler mergulhou no
seu mundo July, sorte, talento, não sei, mas ele pertence ao seu mundo, acha
que daria certo se você estivesse em Harvard e ele fosse ainda o garoto do
Harlem que trabalha para a gangue dos mexicanos?
— Não, nós acabaríamos machucados e infelizes. – ela diz encarando
a colcha de desenhos infantis.
— Harry estava sempre rindo dessa colcha de bichinhos fofos.
— É linda, adoro ela. – July me olha ainda mais triste. – Ele está
sofrendo, eu meio que acabei contando, porque fui tentar descobrir se alguém
sabia e bem, agora sabem.
— July! – Ralho com ela.
— Minha tia estava desconfiada, ele mal saía do quarto, não explicou
nada, eles acharam que era só uma briguinha passageira.
— Não quero que ele sofra. Vamos ter que aprender.
— Vocês são muito dramáticos, não precisa terminar. Que acha de
irmos agora mesmo reatar esse namoro?
— Para terminar em algum outro momento em meio a uma briga? Me
conhece, July, sabe que eu tenho o sangue quente.
— Odeio final infeliz. Tinha certeza de que casaria com ele,
namorariam para sempre até casar.
— Não tenho certeza de mais nada, July. Só de que você está sem
bombinha e seu peito está chiando por causa do gato. – Ela me sorri triste. –
Vamos dar uma volta?
— Em Alpine? Na casa do Harry. O que acha?
— Na Pet Shop, pagamos nossa dívida e começo meu primeiro dia de
trabalho. – July me abraça, que bom que ainda vamos ser amigas. – Nada vai
mudar entre a gente.
— Nada, nunca. – Ela garante sem me soltar, sou eu a afastá-la.
— Vem, vamos sair daqui.
— Tempo. – ela diz tocando meus cabelos, agora qualquer um que
tocar meus cabelos vai me lembrar Harry. – O tempo, dizem que cura tudo,
não sei se mata o amor, mas acomoda.
— Isso já me basta. – Meus olhos marejam mais uma vez. – Não
quero chorar de novo, por que não conta um pouco da sua vida?
— O caminho para a Pet Shop. Adoro seu emprego. Um dia, quando
tivermos nossa clínica veterinária para animais carentes, vou te visitar todo
dia, nem que use máscara.
— Só sei disso! – brinco imitando seu jeito de falar.
— Os professores estão sempre reclamando do meu jeito de falar.
Dizem que uma profissional formada em Harvard não pode colocar “só sei
disso” em toda frase. Gente chata, só sei disso!
Capítulo 14
Harry

Uma leve batida na porta e torço o nariz, agora que começo a


entender melhor esses cálculos.
— Entra! – convido sem desviar os olhos do caderno.
— Não está pronto? – Tyler me pergunta. Ergo os olhos e faço careta.
– Não está pronto. – Ele mesmo constata.
— Acho que vou ficar estudando, não estou muito animado. – Tyler
suspira, deixa a soleira da porta e caminha até a cama, se senta cruzando os
braços, até que tem sido fácil dividir o apartamento com eles, passo todo
tempo que posso estudando, enquanto os dois ficam pela casa esfregando o
amor deles na minha cara, tirando isso, tem sido razoável.
— Seis meses, Harry. – ele diz me obrigando a encará-lo. – Tem seis
meses que terminaram, já devia ter superado.
— É, não superei. – Dou de ombros. – Não quero encontrar a Dulce,
ainda não quero e eu sei que ela vai estar lá.
— July vai ficar triste, é difícil para ela, quer dizer, ter que escolher
entre convidar a melhor amiga ou o primo para o aniversário não é nada fácil.
— Eu sei, fico aqui no Campus estudando. Eu não imaginei que seria
tão difícil.
— Muito tempo no campo treinando futebol, pouco tempo debruçado
em livros.
— Pode ser. – Fico calado a olhar para ele, não estou pronto para
encontrar Dulce e não quero que ela deixe de ir ao aniversário da July.
— Temos meia hora, o piloto já está indo para o... – July surge na
porta e se cala ao nos ver frente a frente. – Climão! – ela suspira, me olha de
cima a baixo. – Vai para o aeroporto assim?
— July...
— Harry, tira essa roupa de dormir, você inclusive dorme com essa
bermuda todo dia, falamos sobre lavar roupas, se lembra?
— July... – Tento de novo, ela nega em um movimento claro de quem
não está interessada em ouvir.
— Você vai, Harry, não tem escolha, todos os Stefanos estão
preocupados, pode escolher ir conosco ou pode ficar e ter a tropa toda
pegando um avião para vir aqui buscá-lo naquele drama Stefanos de sempre.
Tio Leon já chegou, sabe o que significa? – nego. – Que os quatro cavaleiros
virão.
— Bom, eles já foram atrás de mim e garanto que não é divertido. –
Tyler me lembra e posso mesmo imaginar os quatro chegando para uma
reunião comigo.
— Podem me deixar sozinho um minuto para vestir uma roupa? –
peço resignado. O casal fofo troca um sorriso vitorioso enquanto deixam o
quarto e me visto sem escolha.
Acomodo-me em um assento distante, quero ficar sozinho pelo pouco
tempo que dura a viagem até Nova York.
Quando deixamos o avião, July e Tyler caminham de mãos dadas, já
eu carrego a mochila com saudade de quando tinha Dulce ao meu lado. Não
duvido que tenha sido melhor assim, em seis meses, consegui ir para casa
uma vez em um feriado, chego ao fim do dia tão esgotado que quando
termino tudo que tenho a fazer, todas as mil páginas que tenho que ler e os
trabalhos, depois de horas de treino e aulas, só o que consigo é cair na cama
apagado.
Não sou brilhante como Tyler que passa pelas aulas com um sorriso
de quem compreende tudo e sabe onde está, nem tenho o jogo de cintura de
July que está sempre negociando notas e trabalhos extras, eu sou mais o tipo
camelo, eu me mato mesmo para acompanhar e eles juram que é só essa fase
de adaptação, mas eu sei que vai ser sempre assim, não vou desistir, meu pai
vai me ver receber meu diploma e se orgulhar, minha mãe vai me admirar e
mesmo Dulce eu sei que espera isso de mim e, é como vai ser.
Não teríamos tempo nem mesmo para dormir falando ao telefone,
simples assim, no final das contas, teria terminado ou estaria terminando aos
poucos, com muita dor e mágoas, sinto ciúme só de pensar que ela está
vivendo a vida, porque ainda a amo e isso nunca vai passar, mas entendo que
ela não pode assistir de longe minha vida mudando e não se mexer em busca
da felicidade, eu quero que seja feliz, dói, mas ela merece.
— Nos despedimos aqui, vou direto para Alpine, vejo vocês amanhã,
na festa de aniversário. July eu não vou te dar presente, não tenho tempo de
comprar.
— Que acha de esquecer aqueles cem dólares que te devo? É um bom
presente. – Ela sorri enquanto Tyler abre e fecha a boca surpreso.
— Pegou dinheiro emprestado com o Harry?
— Ty... foi uma emergência.
— Que tipo de emergência? – Tyler pergunta querendo rir, mas se
obrigando a ficar sério.
— Baleias. – O rosto dela é a expressão do cinismo.
— Bem, July, sua dívida está perdoada, eu vou pegar um táxi. Até
amanhã. – Beijo o rosto da minha prima e aperto a mão de Tyler. Não espero
por nada, apenas dou as costas a eles e caminho para a saída onde a fila de
táxi dobra a esquina.
O caminho para Alpine é longo no trânsito caótico de Nova York,
mas quando o bairro tranquilo de belas casas começa a surgir, o número de
carros começa a diminuir.
Minha casa surge como um bálsamo, só de olhar a mansão já me sinto
melhor, não é apenas saudade dos meus pais, ele foram me ver e nos falamos
sempre, é saudade da vida em casa, da leveza de ser seguido pelos cachorros,
de viver encobrindo suas lambanças, saudade da mesa do jantar e do riso,
saudade de ser um menino e não me preocupar com nada além da noite de
Natal e as surpresas do Papai Noel.
Deixo o táxi e caminho pelo gramado em direção à porta principal, ela
se abre antes que chegue a metade do jardim, Potter e Lily disparam em
minha direção, o grandalhão me desequilibra com seu salto, logo ele e Lily
estão sobre mim, lambendo, saltando e choramingando como se eu fosse um
soldado voltando da guerra.
Quando finalmente me ponho de pé, Emma e Danny estão na porta,
os dois sorrindo, sorrio de volta, meus irmãos que tanto cuidei, agora tão
crescidos e só mesmo o tempo fora para me mostrar isso.
— Mamãe acertou. – Emma diz me beijando o rosto, Danny me
abraça um longo tempo.
— Papai disse que você não vinha, mamãe disse que vinha e a mamãe
ganhou, você veio. – Danny completa.
— Mamãe sempre ganha. – digo enquanto caminhamos para dentro. –
Onde eles estão?
— Reunião com franceses, mamãe foi traduzir e sei lá, resolver as
coisas.
— Sozinhos?
— Harry, já tenho idade para ficar sozinha em casa. – Emma me avisa
e dou de ombros. Pode ser, eu nunca os vejo como adultos de qualquer modo.
— Queimaram alguma coisa? – questiono assim que chegamos a sala.
Os dois arregalam os olhos.
— Danny o forno! – Emma grita enquanto eles apostam corrida para
cozinha e eu os sigo, não restou muito da carne de carneiro assada, Emma
está desolada, já Danny aproveita para brincar com uma lasquinha do carvão
que virou a carne e faz uma carinha triste no fundo da forma.
— Acho que estragou mesmo. – Danny acha graça enquanto abro
portas e janelas para limpar um pouco o ar.
— Mamãe disse quarenta minutos no forno. – Emma reclama. – Seu
relógio não despertou, Danny, você colocou como pedi?
— Sim, ele deve ter despertado, relógios funcionam melhor que
pessoas.
— Então, por que a carne queimou, espertinho?
— Porque o relógio está lá no meu quarto. – Sorrio achando graça no
jeito Danny de ser.
— Por que deixou o relógio lá em cima a quilômetros de distância?
— Você não disse nada sobre andar com ele o tempo todo. – Danny
se explica.
— Danny, você vive no mundo da lua! – Emma choraminga.
— Você que vai ser cientista, Emma, devia ser capaz de assar uma
carne. É um pouco ciência, não acha Harry?
— Não me metam nessa briga, Emma, liga e pede a carne assada, eu
pago. – Os dois me seguem de volta à sala, abro a mochila e tiro o cartão
entregando a ela. – Liga, vou tomar banho.
— Mamãe vai saber que queimamos a carne, o papai vai passar mil
anos dizendo que não podemos ficar sozinhos em casa. Culpa sua, Danny! –
Emma reclama.
— Diz que foi culpa do Harry, ele ficou um tempão sem vir em casa,
não vão brigar com ele hoje. – Emma e Danny me olham risonhos e
malignos. Balanço a cabeça em negação, os olhos mudam de expressão para
um pedido mudo e desesperado.
— Tá bom, digam que esqueci a carne no forno, vou tomar banho. –
Ganho dois abraços apertados, liberto-me deles e subo as escadas com os
cães atrás de mim.
Meio de modo mecânico como nos últimos tempos, eu cuido de tudo,
banho, umas páginas do livro que tenho que ler até segunda-feira quando
retorno às aulas, uns exercícios físicos e o som do carro chegando me faz
descer as escadas para receber meus pais.
— Veio! – mamãe diz me abraçando, beijando mil vezes meu rosto,
então é a vez do meu pai, quando fico livre dos apertos, recebo olhares de
preocupação. – Tudo bem?
— Tudo ótimo, mãe, só muito estudo, é bem difícil acompanhar as
aulas.
— Teve uma ótima educação, sabemos que vai dar conta. – papai diz
tranquilo. – Está mais alto, não acha, amor?
— Mais largo eu diria. – Mamãe aperta meu braço. – Mais livros,
menos músculos, Harry.
— Mãe, eu preciso treinar para o campeonato, não é nada demais, não
atrapalha meus estudos. – Enquanto treino Dulce fica longe da minha mente,
só consigo me concentrar nos exercícios e na dor, é bom, tão bom que fico
cada dia mais tempo me exercitando.
— Queimaram a carne!
— Como é que sabe, mamãe? – Danny pergunta surpreso, minha mãe
e meu pai trocam um olhar desses cheios de amor.
— Elementar, meu caro, Daniel, a casa está cheirando a queimado. –
ela diz apertando seu nariz.
— Fui eu. – Denuncio-me para ajudá-los. – Emma me pediu para
cuidar da carne e eu... esqueci.
— Boa tentativa. – Mamãe não é fácil de ser enganada, eu nem sei
porque tentamos, eu queria ser assim brilhante. – Pedi à Emma que colocasse
a carne no forno às 4h, você chegou aqui às 5h, por isso eu sei que já chegou
com a carne queimada, Emma tem por hábito ser obediente e se eu disse às
4h... – Mamãe me beija o rosto. – Gosto que tente protegê-los.
Não consigo me concentrar muito no jantar, estou indeciso sobre
encontrar Dulce e só consigo pensar nisso, quando finalmente nos
despedimos depois da cozinha limpa eu corro para cama, devia ler, devia
terminar meus exercícios, ou ao menos começar a digitar o trabalho, mas me
atiro na cama e fico a pensar nela até adormecer sem nem mesmo tirar os
tênis.
Quando o dia amanhece é Potter a me despertar lambendo meu rosto e
me puxando pela camiseta, só quando deixo a cama é que ele parece feliz.
Justo hoje que eu podia dormir um pouco mais.
— Vamos dar uma volta grandão. – Afago seus pelos, a casa está
silenciosa quando deixo meu quarto, todos ainda a dormirem, mas Potter me
escolheu para a sua volta matinal e abro a porta dos fundos um tanto
distraído, assim que ele passa por ela eu me lembro. – Potter não!
É tarde, ele já está alucinado correndo em direção ao lago e eu já sei
que o resto da manhã vou passar cuidando de arrancá-lo da água, secar e
escovar assim como Lily que o segue saltitante.
Ele mergulha na água e nada até o meio do lago, eu acabo achando
divertido, atiro a bolinha e ele e Lily disparam para buscá-la, por uma hora eu
fico sentado na beira do lago assistindo os dois se divertirem até que suspiro
resignado sabendo que só tem uma maneira de tirá-los da água, indo buscá-
los pessoalmente.
— Droga, Potter, essa água deve estar gelada. – Mergulho depois de
tirar a camiseta e nado até eles. Não é uma negociação fácil, é preciso muito
esforço para conseguir sair com eles da água, ao menos meu pai não precisa
mergulhar, fica na beira do lago choramingando e eles vêm ao seu encontro
por pura pena.
— Lavanderia os dois. – aviso quando caminhamos os três de volta à
mansão. – Vou congelar e a culpa é de vocês. Meu estômago está roncando
de fome. Perdi o café da manhã em família, meses fora de casa, do que estão
rindo? – Os dois não têm sentimentos, correm e se balançam atirando água
por todo jardim e nem bem me seco já estou pingando de novo.
Impecáveis, é como eles têm que ficar para poder voltar para dentro e
não é fácil mantê-los fora do lago, já aconteceu de terminar e Potter correr de
volta, mas dessa vez fechei bem o portão da lavanderia e daqui só mesmo
para dentro de casa.
— Que manhã divertida, meninos. – Papai se curva para afagar Potter
e Lily. – É bom ter o irmão em casa. Aproveitaram bastante? Sim, não é
mesmo, muito divertido?
A pergunta é, divertido para quem? Meu pai ergue os olhos e me
encara risonho, sim, é bem divertido para mim também, eu amo esses
cachorros e o sorriso do meu pai. Vale a pena.
— Harry está molhando meu tapete! – mamãe diz passando por mim.
— Eu uso o secador em mim também. – papai sussurra me fazendo
rir.
— Vou subir e tomar um banho.
Quando dou por mim, são 6h da tarde e preciso me arrumar para o
aniversário de July. Será uma coisa simples em casa, ainda não podemos
frequentar bares, ela não quis fazer nada grande, só mesmo jantar e conversa
na casa do tio Nick, melhor assim, posso me esquivar de Dulce se for
dolorido demais.
Arrumo-me mais do que devia e meu coração bate descompassado
quando entro no carro ao lado dos meus irmãos.
— Está muito apertado. – papai reclama antes de dar a partida. –
Harry, vai em outro carro. – É isso mesmo? Estou sendo expulso?
— Seu pai tem razão, você pode querer ficar mais tempo ou quem
sabe decidem ir para outro lugar. – minha mãe concorda com ele. Olho para
meus irmãos.
— É isso garotos, não vão para faculdade, esse é meu conselho. –
digo deixando o carro e seguindo para o outro estacionado ao lado. Dirijo
acompanhando meu pai, esmagando os dedos de tanto que aperto o volante.
No elevador só consigo pensar se ela já chegou, se está tão linda
quanto sempre e como vai ser olhar de novo para Dulce.
É a primeira pessoa que vejo assim que as portas do elevador se
abrem, minha linda mexicana de longos e brilhantes cabelos negros, com
olhos escuros a me encarar, com um sorriso nervoso a me dirigir.
Ignoro tudo, só atravesso a sala até ela, meu coração batendo fora do
ritmo, ansioso por sua voz, seu perfume, seu toque.
Ela vem me encontrar no caminho, nos abraçamos, não brigamos, não
deixamos de amar, sentimos falta um do outro, por que não atender ao
coração e começar a noite com um abraço longo e mudo?
Quando nos afastamos meu coração parece em casa, finalmente
calmo, leve e sorrio feito idiota diante dela que como eu, não tem voz, mas
riso, outro abraço e seus dedos a tocar meu rosto e correr leves por meu
braço.
— Está lindo, forte! – ela comenta.
— Está exatamente igual. Perfeita. – Um faiscar de seus olhos me
enchem de esperança, tola esperança, somos outros agora, a vida nos
empurrou para longe e isso machuca.
Sinto o peso dos olhos Stefanos, eles nunca foram discretos e
simplesmente sei que assistem sem cerimônia, mas apenas ignoro tudo e
continuo a olhar para ela.
— Tanta coisa. – ela diz e concordo.
— Um mundo de coisas. – Nem sabemos por onde começar. – Dizer
“oi” a todos antes de tudo. – digo a ela que afirma e com um esforço inumano
eu me afasto dela para beijar rostos e sorrir para todos.
— Tenho sempre um helicóptero pronto para fugas apaixonadas. –
Tio Ulisses comenta. – Vá em frente, roube a garota.
— Quem dera, tio. – respondo quando Luka me toca o ombro.
— E aí garoto de Harvard, como estão as coisas por lá?
— Um pesadelo. – digo a ele em um suspiro, meus olhos procuram
Dulce que está conversando com Alana e July. – Devia tentar.
— A universidade de Atenas é ótima, eu amo morar lá, o problema é
minha avó chegando sem aviso, é cada uma que tenho que me livrar, já fugi
de helicóptero, já escondi garotas nuas no armário. Estou conversando com o
Tyler para criarmos um alarme de vó, toda vez que ela cruzar os portões de
Kirus ele apita e dá tempo de fugir em Atenas.
— Bom plano. Alana não fica brava de receber garotas lá?
— Ela recebe garotos também. – Ele dá de ombros. – July e Tyler
reclamam de receber...
— Não recebo ninguém, Luka. – aviso a ele, mas é mais um recado
para Dulce, que eu sei que está nos ouvindo. – Não tem ninguém, só livros e
treino.
— Puxa, eu sinto muito, sua vida é bem chata. Por isso sou adepto da
máxima, os Stefanos não se casam.
— Luka, não queria ser eu a te dizer isso, pode ser que doa, mas meio
que somos a prova viva que essa máxima não funciona.
— A primeira geração não soube aproveitar a chance. – Luka olha
para o pai. – Olha para o meu pai, vê como ele olha para minha mãe? –
Balanço a cabeça afirmando. – Não é assustador toda essa devoção?
— Acho bonito. – ele finge estremecer.
— É apavorante amar assim, nunca que caio nessa.
— Do que estão falando? – Gigi se aproxima com os cabelos verdes,
jurava que eram azuis.
— De amor. – respondo meio sem pensar para vê-los trocar uma
careta de nojo.
— Saída pela esquerda. – ela diz desviando em direção ao Ryan. – Ei
beijoqueiro, estão naquela rodinha falando de amor. – Gigi é espalhafatosa,
todos me olham, reviro os olhos. – Vai lá falar também, eu sei que está
apaixonado pela...
— Por ninguém, Gigi. Quer ser mais discreta, que vergonha. – Ryan
reclama.
— Está sim, somos gêmeos eu sinto tudo que você sente.
— Não somos gêmeos! – Ele determina e ela ri.
— Somos primos gêmeos. – Ela o segue pela sala e eu e Luka nos
separamos, volto para perto de Dulce, leva um segundo para Alana e July
saírem sem nem ao menos disfarçarem.
— Desculpe, não somos bons em ser discretos. – aviso à Dulce
envergonhado.
— Eu sei, está tudo bem. – ela avisa e caminhamos para nos sentar
lado a lado em um canto da sala.
— Como vai sua mãe? – Os olhos perdem a luz.
— Difícil. – ela responde encarando o copo. – Podemos não falar
sobre nada demais? Faculdade, trabalho, minha mãe, só...
Ficar mudos, do que mais vamos falar? Balanço a cabeça em um sim,
ela suspira e leva o copo aos lábios, toma um gole do refrigerante.
— Têm dois gatos lá em casa, um deles vai ter que ser sacrificado. –
Os olhos marejam. – Gosto de salvá-los, não sei lidar com isso ainda.
Ela me conta a história do gatinho, no final estou segurando sua mão
e ela está encostada em meu ombro, falamos sobre comida mexicana, futebol,
meus jogos, o treinador bravo que tenho, sobre filmes, sobre a lua a brilhar lá
fora e, como Nova York está a cada dia mais difícil por conta do trânsito e
falamos sobre Stefanos, rimos de Potter derrubando Emma e, Danny perdido
em seus desenhos como se não estivesse na festa, sobre July e o bolo rosa que
enfeita a mesa, tio Ulisses o melhor tio do mundo, falamos sobre tudo que
não nos machuca porque não podemos nos afastar e não sabemos o que dizer.
Na hora do bolo, July divide o primeiro pedaço com Tyler, tia Annie
seca lágrimas, tio Nick está orgulhoso e às 10h Dulce anuncia que precisa ir.
— Levo você. – Ofereço-me entendendo o porque meu pai insistiu
que viesse de carro, ela balança a cabeça aceitando e meu coração deixa de
bater por um longo segundo e quando retoma está alucinado.
As despedidas são rápidas, ninguém faz questão de pedir que ela fique
mais um pouco, como se partirmos fosse um favor, ainda bem que Dulce os
conhece bem e sabe a verdadeira intenção de todos, esses Stefanos não têm
qualquer limite.
Quando nos acomodamos no carro, apenas eu e Dulce, seu perfume e
a noite fria de Nova York, o meu coração ainda não se acalmou. Ela me olha
e posso notar que também está tensa.
— Foi uma festa legal. – ela diz quando coloco o carro em
movimento. – Sinto falta da July, vai com eles para Kirus? Soube que vão
semana que vem.
— Não sei. Estou mergulhado nos estudos.
— Alana está adorando o curso, Luka se divertindo.
— Aqueles gêmeos são muito parecidos. – digo dobrando a rua. – O
que vai fazer amanhã?
— Nada demais. Descansar, é minha folga, não abrimos aos
domingos e aproveito para descansar e cuidar da casa, mamãe não faz mais
nada. – ela diz olhando pela janela, ficamos em silêncio, Dulce liga o rádio,
fecha os olhos aproveitando a balada romântica, eu dirijo para o Harlem
querendo roubar Dulce para mim como disse meu tio.
— Tem que ir para casa? – Ela me olha, balança a cabeça negando,
parece triste, nervosa, não sei explicar.
— Há dias que não quero voltar para casa. – ela me conta.
— Posso me registrar em um hotel, como July e Tyler...
— Eu sei. – Ela me corta.
— Quer? – Dulce afirma e tudo em mim renasce, esqueço o que nos
separou, só existe ela, só existe nós dois, levo uns segundos organizando as
ideias. Tem um hotel a uma quadra daqui, é perto da empresa, lugar onde os
executivos de fora passam noites, eles não costumam gastar muito tempo
analisando quem se hospeda e não vão estranhar muito, sigo direto para o
estacionamento, Dulce fica no carro a minha espera, é levemente
constrangedor, mas que se dane, estou ansioso demais para pensar sobre isso.
Quando volto para a garagem ela está abraçada a bolsa, de pé ao lado
do carro e seu ar assustado se transforma em um sorriso confuso. Dulce não
está arrependida quando caminha em minha direção e entramos juntos no
elevador, meu corpo todo está tenso, ela tem a respiração alterada, ansiosa
como eu.
Não tinha planos, não pensei que aconteceria, nem mesmo sabia se
nos falaríamos e agora estamos aqui e queremos, é tudo que queremos e eu
não tenho ideia de como vai ser depois, nem me importo, só quero Dulce em
meu corpo, colada a mim, sua pele a me aquecer. Só isso faz sentido essa
noite.
Capítulo 15
Dulce

Eu sabia que não resistiria a ele, que bastaria nos olharmos para
minha vida e meu amor acabarem em suas mãos, seis meses que só consigo
dormir pensando nele, seis meses que Harry me acorda com sua voz em meus
ouvidos e seu cheiro a impregnar meu quarto.
Quero estar de novo em seus braços, nem que seja para descobrir que
não é mais o mesmo, seria bom sentir isso, mas sei que não vai ser assim, sei
que vou sentir tudo de novo, que ainda o amo, como ele me ama.
Sei disso porque meu corpo diz o mesmo que o dele, não importa o
futuro, hoje eu quero ser a Dulce que pertence ao Harry, quero que ele seja o
Harry que pertence a Dulce e só isso.
Eu não sei onde começa, se antes ou depois da porta se abrir, não sei
se fechamos, quem fechou, nem mesmo consigo pensar em como as peças de
roupas foram ficando pelo caminho enquanto a cama parecia cada segundo
mais distante e seus beijos cada momento mais urgentes.
Sua pele quente a me tocar, as mãos passeando, a boca úmida a correr
por mim, enquanto faminta eu o procuro, arranho, agarro-me a ele, é mais do
que saudade do nosso amor, é angústia, tem sabor de desespero, suportamos
seis meses longe e agora parece que foi há mil anos tamanha nossa pressa.
— Harry... – Tem tanto que quero dizer, tanto que quero ouvir e as
palavras se perdem em mais um beijo, mais um abraço, finalmente a cama e
seu corpo sobre o meu e então o meu sobre o dele e a saudade e o amor a se
multiplicar no momento mais dolorido de todo tempo que passamos juntos.
Não estamos de volta, não é sobre isso, é sobre esse pequeno segundo, essa
janela que se abre para um pouco de luz a nos invadir a alma e simplesmente
aproveitamos com a dor a nos punir, com a saudade a nos consumir e o
desejo a nos guiar.
— Te amo. – ele sussurra em meu ouvido antes de seus lábios
descerem por minha pele saudosos, me queimando o corpo, a mente, a alma.
É um turbilhão de emoções, do desespero à plenitude e é tão rápido e
intenso que quando tudo se acalma eu sinto que acabamos de chegar. Um
silêncio sem nome nos toma, os olhos dele me buscam a alma e encontram
meu amor, isso não muda, todo o resto passeia com as mudanças do tempo,
da vida, as exigências do crescer, mas esse amor não, ele permanece.
Sem uma única palavra, apenas nos olhando, a plenitude dá novo
lugar a paixão, dessa vez suave, doce e gentil, cheia de amor, preguiça, sem
pressa, como se o tempo que há pouco correu em segundo de desespero,
agora parece distante para nos assistir, dedos leves a me percorrer, eu a
passear pelo novo Harry, conhecer de novo os músculos, antes discretos e
agora mais acentuados, decorar de novo o corpo que amo e não posso ter,
porque somos diferentes, porque a vida não nos quer juntos. Não, ainda.
— Nunca vou deixar de te amar, Harry. – conto a ele que procura
minha boca para um beijo de confissão, ele também não. Demoramos um no
outro, atrasamos o máximo o prazer, com medo do que vem depois, querendo
paralisar a vida e desobedecer ao destino, loucos para romper as barreiras,
enfrentar a distância e arriscar tudo.
Quando o paraíso de novo nos encontra vem em ondas de suavidade,
é amor, não é físico, não é corpo, é minha alma que vibra com a dele, deixo-
me desfalecer em seus braços, aquecida e protegida, cansada e saciada, assim
como ele. Imóveis e ainda mudos, porque as palavras nos separam e o
silêncio nos acolhe protetor.
A noite se aprofunda enquanto suas mãos correm meus cabelos e seus
lábios descansam nos meus, beijos suaves, olhos apaixonados, trocamos amor
enquanto nada importa ou existe, longos minutos de amor até que nos
afastamos porque a noite começa a perder força e o domingo se anuncia frio e
escuro, um céu sem estrelas, roubamos a luz da noite.
— Sinto sua falta todos os dias. – ele diz quando toco seu rosto,
afirmo apenas com um movimento de cabeça, beijo seus lábios, depois me
afasto, o dia vai amanhecer, mamãe passou a noite sozinha e me preocupo
com ela, com as horas sem mim, ela tem passado mais tempo deitada que
qualquer outra coisa, acaba de perder seu último emprego, primeiro parou de
trabalhar à noite, depois foi o emprego na empresa de faxina e agora na
escola em que fazia a limpeza duas vezes por semana, seus dias são na cama
e o que ganho mal paga o aluguel.
— Também sinto. O tempo todo. – Sento-me na cama, abraço os
joelhos e encaro seus olhos escuros, Harry se senta encosta na cabeceira da
cama larga e elegante de colchão macio e me lembro de nós dois na minha
pequena cama e o velho colchão cheio de buracos que ainda uso.
— O que você tem? O que está errado?
Deixo seus olhos para encarar as janelas largas, da para ver o céu
mudando de coloração, dou de ombros sem forças para mentir, sem coragem
de explicar.
— Conheço você, Dulce. – ele diz e enfrento seus olhos.
— Ela passa todo tempo na cama. Todos os dias me promete que vai
procurar um trabalho novo, todos os dias ela desiste.
— Sinto muito. – ele diz se aproximando. – Dulce, você ainda pode ir
para Harvard, pode internar sua mãe e ir estudar. Eu pago, meus pais quero
dizer, eles pagam uma clínica e você vem viver comigo em Harvard.
— Não posso, eu não posso internar minha mãe por cinco anos, como
é que não entende isso?
— Então contratamos alguém para cuidar dela em casa, uma
enfermeira, um apartamento melhor, uma enfermeira, você estuda. Vive um
pouco, é jovem demais para estar presa a isso.
— Somos diferentes, Harry, bem diferentes, as vezes você é só um
menino.
— Eu sinto por isso, sinto que não tenha uma vida difícil para
merecer você. – Magoa, engulo a dor. – Desculpe. – Ele se apressa ao
perceber. – Só digo tolices, quero salvar você, salvar nós dois e falo tolices.
— Eu sei que não vai entender isso nunca, vocês são muitos e tem
sempre alguém adulto para cuidar um do outro, mas nós somos apenas as
duas, se ela está fraca então eu preciso ser forte.
— Não é justo. – Ele tem razão, mas por que a vida seria justa?
— Nunca disse que era. – Levo os fios do cabelo para trás da orelha,
encaro minhas roupas espalhadas. Arrasto-me da cama sem vontade de deixar
esse pequeno momento em que não tenho problemas, só o amor de Harry.
Começo a juntar as peças de roupa e vestir, ele faz o mesmo, sei que
esperava que amanhecesse na cama quente, enquanto nos perdemos, mas
minha vida é mais do que seus braços.
— Harry... – Paro de me vestir, uso apenas o jeans e as peças íntimas,
ele está abotoando o jeans, o peito nu, os pés descalços me lembrando de
como já fomos íntimos. – Desculpe, eu sei que as vezes parece que desconto
em você, mas é que eu me sinto sozinha, eu me sinto cansada e explodir com
você parece sempre mais seguro, me protege do que sinto.
— Amadureceu, tem vezes que não parece ter 17 anos.
— Não tenho, tenho 50 anos, uma filha de cama em depressão, é
como me sinto na maior parte das vezes.
— Isso está totalmente errado, um dia a vida vai cobrar de você, tem
que estudar, namorar.
Balanço a cabeça, ele não entende que existe um abismo entre o que
eu deveria estar vivendo e a realidade.
Procuro pela blusa, está perto da porta, junto com um pé da bota,
recolho o resto enquanto ele veste a camiseta e a jaqueta e depois coloca os
tênis, os dois calados, quando termino eu tiro os cabelos presos pela blusa,
ele sorri.
— Amo quando faz isso. Solta os cabelos e eles escorrem.
— Não tem uma vez que eu os escove que não pense em você. –
conto a ele que sorri de modo triste. Sento-me na cama, Harry continua de pé,
eu não quero ir, ele não quer.
— Como está o trabalho?
— Não é grande coisa, mas gosto de estar com os animais, aprendo
um pouco com o doutor.
— E tem o Paco! – ele diz cheio de mágoa e desdém.
— Paco é meu amigo, apenas isso.
— O cara que te entende tão bem. – De novo o desdém em sua voz. –
Mesma realidade, não é mesmo?
— Meu amigo, Harry, não teve ninguém depois de você, aliás, não
teve ninguém antes.
— Eu sei. Vai ter algum dia. É inevitável. – Balanço a cabeça, encaro
a cama desfeita pelo nosso amor.
— Já aconteceu? Já...
— Não Dulce, eu mergulhei nos estudos, nos treinos, só isso, não tem
qualquer garota em minha vida.
— July... ela me disse que se tornou alguém triste. – Meus olhos
marejam, me sinto culpada, como se eu o estivesse prendendo em uma vida
que ele não precisa viver.
— É como eu sou. – Ele dá de ombros, se senta na poltrona ao lado da
cama, me olha de longe. – Consegue ser feliz?
— Não, eu nem sei se quero, é difícil, tem você, tem meus medos,
tem minha mãe e tem os sonhos que não vão se realizar, mas você... você tem
tudo para ser feliz, não estou na sua vida, Harry, não estou mais.
— Não pode decidir isso. – Ele passa os dedos pelos cabelos, é tão
sexy, faz o meu coração disparar mais uma vez, sempre faz.
— Eu sei, assim como eu sei que as mil garotas que o cercam vão
acabar te ajudando a não pensar mais em mim. Um amor cura o outro.
— Mil garotas. É o que acha? Que eu fico ou vou ficar com mil
garotas? – Dou de ombros.
— Por que não? É solteiro, saudável, jovem, vai acontecer.
— Assim como você e o Paco? Quer me liberar para poder ficar com
alguém sem se sentir culpada?
— É um bom jogo esse que você faz, colocando a culpa em mim e
então você se liberta.
— Nunca vamos chegar a parte alguma com isso,
— Não vamos chegar a parte alguma de qualquer modo. Você tem
uma vida, eu outra. Você tem seus objetivos e eu minhas obrigações, não
pode deixar os seus sonhos e eu não posso buscar os meus. Mundos
diferentes.
— Parece que nisso concordamos, embora eu ache que seus objetivos
seriam facilmente alcançados se não fosse tão teimosa.
— Chama de teimosia eu não estar disposta a deixar minha mãe
doente? Harry, você está sendo egoísta.
— Estou pensando em você! – ele diz irritado, não está, ele não faz
ideia do que me pede e eu não sinto força emocional para lutar por isso.
— Preciso ir, não posso deixar minha mãe sozinha tanto tempo. –
Fico de pé. Ele faz o mesmo.
— Levo você. Volto para Harvard amanhã. – Uma dor atravessa meu
peito, sinto medo de ficar sem vê-lo e sei que é apenas isso a nos libertar.
Distância.
— Vai ser bom. – ele concorda comigo e seguimos para saída, no
elevador Harry procura minha mão, quando entrelaçamos os dedos me
lembro do tempo lindo que vivemos esse amor, dá saudade e meu coração
pesa.
Acomodo-me no carro, lembro-me dele sonhando em dirigir. Harry
coloca o carro em movimento e quando deixamos a garagem no subsolo o dia
começa a surgir.
Estamos na metade do caminho e o resto do percurso fazemos em
silêncio, um silêncio triste, mas não tem sentimento ruim entre nós, mesmo
com o ciúme e a incerteza ainda não existe mágoas.
— Me procura se precisar. – ele pede quando estaciona diante de
minha casa. E quem mais eu procuraria?
— As vezes sinto que só tenho você, Harry.
— Sempre vai ter. – Ele me garante.
— Não está certo ser infeliz, Harry. – Dói dizer. Isso me mata um
pouco. – Não é justo ficar a minha espera, essa é a vida que eu tenho e eu sei
que vou lutar, porque eu não sou de desistir.
— Não é mesmo. – Ele me procura a mão, nos olhamos. – Ainda vai
ser uma veterinária e ter sua clínica para ajudar seus animais carentes.
— Eu não sei mais. – Uma lágrima surge e seco antes que ele veja. –
Mas eu sei que vai ser um executivo de sucesso e substituir seu pai, sei que
vai andar pelos corredores daquela empresa em um lindo terno e eu vou sentir
orgulho demais de você.
Seus dedos correm uma última vez pelos meus cabelos, fecho os
olhos aproveitando seu toque, por que eu o amo tanto? Não é como devia ser.
— Precisa tentar ser feliz. – peço a ele. – Precisa fazer isso. Nós dois
precisamos.
— É o Paco? Quer tentar a sorte com ele?
— Nunca vai ser o Paco, Harry. Nunca.
— Mas vai ser outro. Talvez...
— Faça algo por você, Harry, tente. Eu acho que é tudo que podemos
fazer, devemos fazer, eu vou mergulhar no trabalho e na recuperação da
minha mãe, mas vou deixar meu coração aberto, faça isso também.
— Se tentarmos... se tentarmos e mesmo assim esse amor não se
apagar... Porque dizem que Stefanos só amam uma vez.
— Nunca vou me magoar, nunca vou deixar que isso impeça um
futuro juntos.
— Estou cansado de ser infeliz. – ele desabafa. – Somos jovens
demais para sermos assim infelizes.
— Tem muita coisa que não sabemos, não conhecemos, talvez esse
amor nem seja assim tão forte. – ele concorda. – Só tem uma maneira de
descobrir.
— Você é mesmo a garota mais linda que existe, tem muitas garotas
em Harvard, mas ainda é a garota mais linda, eu admiro você e eu não sei se
vou admirar outra garota assim, mas eu vou... tentar.
— Eu também. – Aproximo-me dele, Harry me beija, um longo beijo,
um beijo que dói e ao mesmo tempo me faz feliz, guardo seu sabor e esse dia
em meu coração, é tudo que vai restar dele.
Deixo o carro sem olhar para trás, corro para dentro ouvindo o motor
arrancar, fecho a porta e quero chorar, mas não posso, eu não tenho esse
direito, porque minha mãe está dormindo no sofá, porque o aluguel vai
atrasar e eu ainda tenho que cuidar de tudo e amanhã levantar cedo para
trabalhar.
Corro para o banho, depois preparo café forte e toco o ombro da
minha mãe com uma xícara na mão.
— Mãe, café quente e quero conversar.
Ela se senta, eu a abraço, mamãe me envolve, quando me afasto
entrego a ela a xícara, ela toma um gole.
— Não dormiu em casa?
— Não. Eu passei a noite com o Harry. – Ela encara o chão.
— Te dei espaço para ser assim, livre, fico perdida em minhas dores e
esse cansaço e acabou se tornando dona da sua vida, nem sei o que dizer.
— Precisa ir ao psicólogo. Vou falar com o Nick e a Annie hoje e
você vai procurar a ajuda que eles ofereceram, mãe, você vai acabar doente
de verdade, vamos acabar despejadas. Não pode se entregar.
— Eu vou tentar, prometo.
Abraço minha mãe, ela me aperta em seus braços, mas logo me afasta
e não forço, deixo a xícara com ela e ainda assisto uma de suas lágrimas
correrem enquanto deixo a sala para cuidar dos animais e da faxina.
Entre chorar por Harry e fazer meu trabalho o dia corre e me vence,
ele sempre vence, o tempo curto, as horas corridas sempre vencem.
Pela manhã ela ainda está na cama, deixa o sofá e vai para cama,
deixa a cama e vai para o sofá, enquanto eu me esgoto por nós duas e tudo
bem, porque ela fez o mesmo, por anos, enquanto me criava sozinha.
Sei que Nick vai estar na Associação hoje e vou pedir mais uma vez o
apoio deles, ela tem que ir à terapia nem que seja a força ou vai fazer uma
bobagem.
O dia é cheio de uma dor que acho que nunca vai passar, eu queria ser
a pessoa que larga tudo e vai viver a vida e o amor, queria pensar só em mim
e nele e simplesmente fazer o que ele quer, mas então não seria eu e ele não
me amaria, porque Harry é um Stefanos, ele é bom, justo, honesto e leal
como todos eles são e ele não poderia admirar alguém que deixa a própria
mãe.
A Associação está como todos os dias, repleta de vida e riso, crianças
e velhos, médicos, funcionários, advogados, gente de bem que está disposta a
ajudar sem receber nada em troca.
Sigo direto para sala de Nick Stefanos, ele é o mais perto que tenho de
família, Nick, Annie e seus filhos são o porto seguro nas horas difíceis e só
isso me mantém.
— Dulce! Como foi o fim de semana com o Harry? – Annie me
recebe com a indiscrição de sempre.
— Foi só uma carona, ele tem a vida dele agora. – Minto e ela sabe,
mas não insiste, Nick deixa a mesa para vir me beijar o rosto, Annie me puxa
pela mão e me sento diante deles.
— O que faz aqui? Algo errado? – Nick questiona e balanço a cabeça
em um sim mudo porque no momento estou em busca de conter minhas
lágrimas.
— Ela não trabalha mais, eu não sei como tirá-la da cama, não sei
como pagar as contas e cuidar dela, eu não consigo resolver sozinha. –
desabafo antes de cobrir o rosto em uma crise de choro e sentir os braços de
Annie a me envolverem.
— Dulce, não está sozinha, não chore. – ela me consola e eu tento me
conter, mas ver Harry, ver o mundo que ele me acena e recusar, dar de cara
com minha realidade, é tudo muito grande e simplesmente continuo a chorar
até que as lágrimas desapareçam. – Está melhor?
— Sim, obrigada, desculpem, o plano não era chorar.
— Está entre amigos, mais que isso, família. – Nick me garante. –
Vamos cuidar disso, Dulce. Falar com sua mãe, ela vai ter que aceitar a
terapia e tomar os remédios.
— Obrigada, isso já ajuda demais.
— Você tem uma conta bancária, não é? Uma que a July deposita o
dinheiro dos gastos que vocês têm com animais.
— É o dinheiro deles, mal dá para atendê-los, não posso usar e nem
tem nada.
— Só o que quero é o número da conta, Dulce. – Nick avisa e nego. –
Vou ligar para July, não é o caso de estar te dando chance de recusar.
— Nick...
— Veio a Associação, é isso que fazemos aqui, ajudamos quem
precisa e você é mais do que uma pessoa em um momento ruim, é parte dessa
família, não porque namorou meu sobrinho, mas porque é amiga da minha
filha e do Tyler, porque passou dias e dias a cuidar do meu anjinho Bárbara, é
parte de nós, Dulce.
— Um dia eu vou pagar, Nick.
— Certo, um dia quando estiver formada e ganhando um bom
dinheiro investe na Associação e ajuda uma outra Dulce. Pode ser? – Eu
balanço a cabeça aceitando, não tenho outra escolha.
— Obrigada, não precisa ser muito, só o dinheiro dos aluguéis, são
dois, aí eu me ajeito.
— E os estudos? Está nas últimas semanas de aula, o que pensa em
fazer?
— Trabalhar.
— Pensei que queria ser veterinária. – Annie comenta e encaro o
chão. – Harry disse que ofereceu ajuda para...
— Ir para Harvard e deixar minha mãe. – Completo. – Como posso
fazer algo assim?
— Não pode. – Annie diz para meu alívio.
— Temos ótimas faculdades em Nova York.
— Não posso pagar Nick, ou trabalho e mantenho a casa ou...
— Dulce, eu não admito que desista da sua educação, que tipo de
amigo eu seria? – Nick não está disposto a discutir e temo desafiá-lo, mas não
abro mão da minha mãe e ergo o queixo.
— Eu não vou deixar minha mãe. Ela não me deixou e agora...
— É sua vez, vai trabalhar de dia e estudar à noite, fazer a faculdade
de veterinária e ficar de olho na sua mãe, acompanhar sua recuperação de
perto. – Ele completa.
— O príncipe está certo. É isso mesmo, estuda de noite, tanta gente
faz isso. Investir em sua educação é o melhor que podemos fazer por alguém
que amamos, sua mãe não pode e não vai ser contra ou se ofender, somos
nós, amigos de toda a vida e vai estudar e trabalhar, completamos o
orçamento.
— Eu não sei... – É irrecusável, é meu sonho, engulo a vergonha e o
orgulho, é diferente vindo deles, sorrio e Nick sorri de volta. – Não é
Harvard..., mas...
— Ei, Dulce, não diminua seus esforços, não importa onde estuda, se
for boa e se dedicar vai ser grande. Acha que aguenta? Trabalhar de dia e
estudar de noite? – Nick me desafia. – Não quero ver notas ruins.
— Josh é ótimo professor se precisar de ajuda. – Annie oferece e se
tiver a chance de estudar vou me dedicar tanto que nada no mundo vai me
impedir de vencer.
— Eu não sei bem como agradecer. – digo emocionada. – Eu nunca
quis recusar a oferta do Harry, é que eu não tinha escolha, ele me deu apenas
uma opção. Harvard.
— Harry é só um menino. Bem-intencionado, mas ainda assim, um
menino. – Nick me garante e eu sei, balanço a cabeça em um sim. Seco
algumas lágrimas. – Vou cuidar de tudo sobre a faculdade, sua mãe e os
aluguéis atrasados e você vai cuidar de ser uma grande veterinária e montar
uma clínica com a July de sócia e vão falir meia dúzia de vezes, mas eu sinto
que vão ser bem felizes.
— Mais do que pode entender. – digo sem saber como vou agradecê-
los.
— Vamos. – Ele fica de pé. – Não somos de deixar as coisas para
depois. Começamos por Anita. – Annie fica de pé também e faço o mesmo.
— Obrigada. Muito obrigada. – Nós nos abraçamos, Annie é tão
carinhosa e seu abraço me faz feliz e leve, como se subitamente um peso de
toneladas deixasse minhas costas, eles vão se orgulhar de mim, é minha
decisão.
Capítulo 16
Harry

É terrível ter que fazer isso, eu realmente achei que daria certo, mas
não dá e Amanda sabe disso. Não deu certo com Trish, não daria certo com
Amanda, não dá certo com ninguém e nunca vai dar.
Eu nem devia ter começado nada, como não devia ter começado com
Trish, ela me fez acreditar que podia esquecer Dulce, não a enganei, não
menti sobre meus sentimentos, mas seu jeito divertido me fez achar que era
possível, foi o que Dulce decidiu, que devíamos viver e eu tentei.
Trish colocou um fim seis meses depois, cansada das mil vezes em
que a chamei de Dulce, de todas as recordações na hora errada, das
comparações que fiz sem perceber. “Não está pronto para namorar, Harry, eu
sinto muito.” Foi o que Trish me disse e tudo que senti foi alívio, um grande
alívio por não ter mais que fingir.
Ainda nos falamos, às vezes, não com frequência, ela encontrou
alguém que a ama e está feliz e, isso me ajuda a não sentir tanta culpa por ter
roubado seis meses de sua vida.
Amanda foi diferente, eu não tinha que ter ficado sabendo que Dulce
arrumou um namorado, mas ouvi uma conversa de July com Tyler, um
colega do curso de veterinária. O curso que eu tanto quis que fizesse aqui e
ela não aceitou, mesmo tento currículo para duas faculdades boas, ela não
aceitou e o tio Nick paga seus estudos noturnos, lá ela conheceu o cara que
como ela, trabalha de dia e estuda de noite, eu não me lembro de ter ficado
pior, eu não me lembro de ter sentido dor como aquela e foi uma grande
tolice correr atrás da garota mais bonita do campus, um tipo de vingança
muda, Dulce nunca viu Amanda, nunca vai ver porque temos um acordo
mudo de não aparecer com possíveis parceiros na frente um do outro.
Tyler disse que um bom porre resolveria, mas eu quis arrumar uma
namorada e eu sou um fracasso, um total fracasso, simplesmente não sei
esconder meus sentimentos.
Fico aéreo, invento desculpas para não sairmos, ela quis ir a duas
festas em família e simplesmente inventei mentiras para não a levar, não
quero que ela conheça minha família, não posso apresentar ninguém que não
seja realmente especial, não é justo com ninguém. Neguei-me a passar um
feriado com seus pais, como posso conhecê-los se eu sei que não vai ser ela?
Já passou da hora de dar um fim a essa história, chega desse
relacionamento estéril que só machuca Amanda e me arrasa. Vou continuar a
focar nos estudos e no futebol, é para isso que sirvo e pronto, chega de
romances para mim.
Passo os dedos pelos cabelos para arrumá-los, é a primeira vez que
sou eu a terminar uma relação e eu não sei bem como se faz isso. Com Dulce
não foi nenhum dos dois, apenas tomamos consciência que não estávamos
prontos, Trish terminou comigo e quase a convidei para sairmos para
comemorar, agora é diferente, eu preciso dizer a garota que acabou e eu sei
que ela pensa que temos uma chance.
— Seu tio Ulisses tem razão, Harry, você envergonha a família, com
essa mania de não respeitar as tradições. – digo ao meu reflexo no espelho.
Pego as chaves do carro e deixo o apartamento às 8h, Emma ainda
não voltou, nenhum deles voltou do campus, todos mergulhados nos estudos
enquanto eu mergulho na incerteza como sempre.
Devia ter me aconselhado com as garotas, como terminar um namoro
sem partir um coração.
Amanda está na porta da república a minha espera, parece ter saído de
um filme desses de Team Leader, garota loira e atraente, cheia de amigas
bonitas e que namora o capitão do time, aquela que ganha a coroa de rainha
do baile. Só que eu não sou o cara certo, eu não me dobro de desejos por ela,
eu não me encanto com o que ela diz, faz ou pensa, não admiro Amanda, ela
é o oposto de Dulce e talvez por isso minha escolha, assim como Trish e
qualquer garota que tenha me envolvido depois de Dulce, elas são todas seu
oposto, é proposital eu diria.
Quando me vê, acena com um sorriso, se despede das amigas e vem
me encontrar, eu costumava ser o cara que abre portas de carros, sempre foi
assim com Dulce, mas Amanda não gosta disso, acha que as pessoas vão
comentar, que vão me achar um babaca e a verdade é que eu realmente sou
um babaca.
— Oi, capitão! – ela diz quando fecha a porta do carro e se aproxima
para um beijo nos lábios, seu perfume adocicado inunda o carro. Abro os
vidros e sorrio pensando onde ou como terminar o namoro.
— Oi, desculpe te fazer esperar. – Amanda revira os olhos.
— Eu fico pensando se é assim com os caras do time. Todo educado.
— Não, mas você não é um dos caras do time. – Ela sorri, os cabelos
se espalham quando coloco o carro em movimento, agora vai dizer para
fechar os vidros e ligar o ar, porque não quer estragar o penteado.
— Harry, fecha os vidros, vai acabar com meu cabelo. – obedeço,
sem tempo para discutir e sabendo que é a última vez que escuto algo como
isso.
— Pensei em jantar em algum lugar sossegado. – digo enquanto dirijo
para a saída do campus.
— Jantar? Harry, é a festa da Alfa, falamos disso uma dúzia de vezes,
as minhas amigas estão prontas. Não as viu na porta comigo?
— Por que não demos carona, então?
— Porque não queria chegar com um monte de gente no carro, não é
nada legal.
— Eu sou um cara que só conhece isso, minha família é uma multidão
e onde chegamos somos sempre muitos.
— Ainda está saindo. – ela diz quando se dá conta que não estou
voltando em direção à república Alfa.
— É que eu estou com fome. Nunca tem comida nessas festas, só
muita bebida e sabe que não bebo, além disso, tenho jogo semana que vem,
não posso dormir tarde.
— Todo time vai, todo time vai beber, só você não.
— Por isso eu sou o capitão. – digo sorrindo enquanto cruzo os
portões da universidade e dirijo em direção a um restaurante pequeno que
July e Tyler amam.
Quando estaciono ela me olha surpresa, Amanda gosta de ser vista e
este é o lugar para quem não quer ser visto ou notado, tudo aqui é discrição,
silêncio, pouca luz, mesas discretas cercadas por arranjos de plantas que dá às
mesas a impressão de isolamento.
— É sério? Por que não come um hambúrguer em algum lugar e
vamos para festa?
— Amanda, precisamos conversar, esse parece um bom lugar.
— Conversamos aqui mesmo. O que acha? Diga de uma vez, o que
quer conversar? Se alguém fez alguma fofoca com meu nome...
— Não. Ninguém fez fofoca, é sobre nós dois. – Que jeito, ela não me
dá alternativas, se quer ouvir aqui, então que seja. – Amanda, eu não amo
você.
Para minha total surpresa, Amanda ri, uma longa risada que me deixa
constrangido.
— É sério, Harry? – Balanço a cabeça afirmando, tento imprimir o
máximo de respeito em meu olhar, apesar da risada extravagante.
— Sinto muito.
— Harry, ainda estamos na faculdade, claro que não me ama e eu não
o amo, que ideia. Somos jovens demais para amor. – Ela parece me tratar
como se eu fosse um idiota que não sabe nada sobre o mundo e precisa ser
ensinado.
— Não quer dizer nada, meus primos...
— Já sei, vai falar sobre como os Stefanos são, eu sei, além de muito
ricos, são cheios de filhos e união, todo mundo fala disso. – ela comenta de
modo enfadonho.
— Não faz sentido ficarmos juntos sem amor. Amanda.
— Faz todo sentido para mim. – Ela ajeita os cabelos, se estica um
pouco para encarar o espelho retrovisor. – Somos um belo casal.
— Não, nós não somos, se puder parar um pouco de se arrumar. –
Amanda me olha.
— Não sou como a Trish. Eu nunca entendi porque namorou com ela,
claro, ela é bonita, admito, mas aquele jeito todo simples de viver só para
diversão, sem compromisso com nada, aquela garota não é do nosso mundo,
Harry.
— Por que estamos falando dela?
— Por que é apaixonado por ela, não? – Balanço a cabeça em
negação. – Harry, eu sei que ama alguém e que não sou eu, não sou boba,
como ela é sua ex-namorada eu achei...
— Trish é bem legal, mas eu não a amo. Nunca amei.
— Nesse caso, por que vamos terminar? É isso que você quer, não é
mesmo? – afirmo. – Entendi. Quer terminar porque acha que não sou boa o
bastante para...
— Pelo amor de Deus, Amanda, não é você. Sou eu. – Seu riso se
espalha novamente e dessa vez me irrita um pouco.
— Harry, é cada coisa, essa frase é tão batida, quer terminar? Diga de
uma vez.
— Amanda, eu sinto muito, nosso namoro não faz mais sentido para
mim e eu quero colocar um fim.
— Ótimo, está sendo tolo, mas não vou implorar, nem pensar que
faço isso, só não toma mais meu tempo. – Ela se acomoda no banco e encara
a janela.
— Eu sinto muito. – Sinto mesmo, é horrível ser a pessoa que
termina, é horrível pensar que talvez esteja magoando alguém. – Quer que
leve você de volta para casa?
— Não, Harry, tenho uma festa, se lembra? Quero ir para a Alfa e lá
eu vou dizer que eu terminei com você e até o final da noite vou ter um outro
namorado, porque acredite, eu não estou em busca de amor, o que eu quero é
diversão, como todo mundo que tem pouco mais de 20 anos e está na
faculdade.
— Eu... eu... que bom que não está triste. – digo por fim. Ela sorri,
procuro em seus olhos, no dobrar dos lábios, nenhum traço de tristeza,
definitivamente nunca seria Amanda.
No caminho de volta, Amanda conversa como se nada tivesse
acontecido, eu me sinto um imbecil, o que tem sido bem normal nos últimos
tempos.
Quando estaciono na frente da república a festa está animada, tem
muita gente na frente, copos de plástico pelo chão, casais e os caras do
futebol dando uma de bobos como sempre, o mais triste é que eles não são
assim, eu os conheço, são melhores que isso, mas diante do grupo, eles
realmente gostam de agir como idiotas.
Ela desce do carro, não se despede, mas dá a volta e me olha nos
olhos, sorri de modo gentil, ajeita os cabelos.
— Sinto muito, Harry, você vai se recuperar. – Ergo uma sobrancelha
e penso em retrucar, mas se isso é tão importante para ela, tudo bem.
— Não vai ser nada fácil. – digo depois de uma piscadela que a faz
sorrir ainda mais e, deixo a porta da república em uma arrancada que só
confirma sua versão.
Quando entro em nosso apartamento, Emma está com a cara enfiada
em um livro como de costume e o casal já está no quarto.
— Terminei com a Amanda. – aviso e ela me sorri aliviada. – Está
feliz?
— Ela não serve para você e nem você para ela. – Emma diz quando
me acomodo no sofá, ela fecha o livro e me encara atenta, ajeita seus óculos
como de costume. – Ainda pensa na Dulce o tempo todo?
— Acho que sim. – Emma parece se entristecer. – Não é como antes,
agora dói.
— Eu entendo.
— Entende? Está gostando de alguém? – Emma nega apressada.
Quero perguntar, ao mesmo tempo não sei como fazer isso, se não for como
penso ela vai se magoar com a pergunta, se for ela talvez não esteja pronta
para assumir, melhor continuar fingindo que não percebo nada.
— Gostando dos livros, só isso.
— Malas prontas? – pergunto a ela que abre seu melhor sorriso. –
Alemanha. Minha irmã é mesmo uma gênia[1].
— Claro que não, só me esforço mais que os outros.
— Uma gênia modesta.
— Uma garota animada com a ideia de me enfiar em um laboratório
para um curso por algumas semanas, apenas isso.
— Bom, eu vou dormir, que horas parte seu voo?
— Bem cedo, 8h. – Faço careta.
— Vou estar na aula, não posso te levar.
— Eu sei, já organizei tudo. Não vou partir sem me despedir.
Prometo. Se cuida e vê se não cai em outro namoro desses.
Deixo Emma com seu livro, ela vai passar a noite sentada ali, eu a
conheço, quando pega um livro que gosta ninguém consegue separá-la dele
antes do fim.
Tyler e July estão prontos para uma viagem a Nova York e eu
decidido a não sair do meu canto nunca mais.
Emma chegou bem na Alemanha, a família vai se reunir em Nova
York, Luka vai levar a garota que anda grudada nele e que ele jura que é só
uma amiga, mas aquele grude todo tem outro nome para mim.
— Já vão? – pergunto à July quando a encontro na cozinha.
— Não, vamos mais tarde um pouco, quero ver a Dulce, saber como
ela está depois da mordida.
— Que mordida? – pergunto alarmado.
— Ela não te contou?
— July, sabe que não estamos nos falando muito. Ela tem aquele
namorado idiota dela.
— Eles terminaram faz tempo. – Meu coração parece que vai sair pela
boca, travo o maxilar com medo, ela está sozinha, eu engulo em seco. –
Dulce foi resgatar um cão e ele... mordeu a perna dela.
— E como ela está?
— Bem, disse que está bem, está em casa, teve uns dias de folga no
trabalho por conta disso.
— Acho que vou com vocês para casa. – digo pensando em ir vê-la.
Dulce pode estar precisando de ajuda. Sei que ela não me pediria, não
enquanto não souber que terminei o namoro. – Agora que não estou mais
namorando.
— Que maravilha! – ela diz juntando as mãos. – Namorada chata
aquela sua. Só sei disso.
— Parece que ninguém gostava dela.
— Ninguém. Fica pronto. – ela diz deixando a cozinha com um pote
de geleia na mão.
— Ei, essa geleia é minha.
— Deixa de ser egoísta, Harry. – Odeio que eu sou o único que
frequenta o mercado, mas o que nunca encontra nada para comer.
Dulce foi mordida, quero saber se está muito machucada, se levou
pontos, saber se a mãe dela está cuidando dela, se está sozinha em casa, quero
ajudar, passar uns dias em casa e fazer companhia, espero que July não
esqueça de contar que não estou mais namorando.
Ela vai fazer isso, tenho certeza. Só esperar um ou dois dias e Dulce
vai saber que estou como ela, sozinho.
Será que ela está mesmo sozinha? July é tão fiel a essa amizade,
nunca me conta nada direito.
Ryan não parece nada animado com a viagem, é seu primeiro
semestre em Harvard, quase nem me lembro que está aqui, ele passa o tempo
todo trancado estudando ou na biblioteca do campus, não vai conosco e
partimos eu, Tyler e July, sinto inveja deles, últimos dias por aqui, estão
finalmente deixando o Campus, ainda tenho mais um tempo e depois,
trabalhar em Nova York com meu pai, do jeito que sonhei.
Meus pais não fazem perguntas quando chego do nada em casa, eles
sempre ficam felizes demais para perguntar as razões, mal consigo dormir
pensando em uma boa desculpa para ir ver Dulce.
Pela manhã, deixamos a casa para ir ao famoso almoço coletivo na
casa do tio Nick. Posso aproveitar a distração de todos, inventar que vou
passear com os cachorros e chegar na Dulce com eles.
A família está espalhada pela casa, aproveito para pensar na
estratégia, digo que vou passear com os meninos, depois saio e encontro
Dulce, tem muito tempo que não falo sobre ela com ninguém, eles ainda
pressionam e isso dói e os enche de esperanças, finjo que não temos nada,
que não nos vemos e que aquilo foi um bobo namoro de infância.
Melhor assim, não mágoa ninguém, não me faz sofrer e não
constrange Dulce. O casamento de July está chegando, sei que vamos nos
encontrar e é um alívio saber que ela não vai levar o namorado, isso estava
me matando.
— Pai vou levar o Potter e a Lily para passearem. – digo entrando na
cozinha, ganho todos os olhares, é bem estranho que um silêncio se forme na
cozinha.
— Vá de carro ver a Dulce, está frio para eles e hoje já pularam na
piscina. – Como é que ele sabe? Corro os olhos pela cozinha, Tyler está com
um pano de prato na mão e não precisa ser um gênio para saber que foi ele
que contou, não me dou ao trabalho de explicar, mentir ou confessar, nem
mesmo gasto tempo em brigar com Tyler, eu sei como eles fazem pressão,
apenas giro nos calcanhares e deixo a cozinha.
Pego o carro e dirijo para o Harlem, vou simplesmente bater na porta,
não somos inimigos, não brigamos, só nos afastamos, como quando namorei
Trish e ela deixou de me atender, ou quando ela começou a namorar o babaca
e eu deixei de atendê-la e logo fui arrumar uma namorada.
A cidade está gelada, esfrego as mãos assim que me acomodo no
carro, quem sabe Dulce está bem e saímos para tomar uma sopa juntos, ou
apenas ficamos largados no sofá comendo tolices e sem falar nada sério, eu
morro de saudade disso.
Saudade dela, de nós dois, estamos sempre enrolados, nunca foi
mesmo o fim, ao menos não completamente porque quando nos vemos
acabamos ficando juntos e isso já aconteceu tantas vezes ao longo dos anos,
nunca é fácil dizer adeus, mas uma parte de mim ainda acredita que só pode
ser ela enquanto outra parte morre de medo de um dia ouvi-la anunciar que
vai casar ou ter um filho, um arrepio percorre meu corpo, isso me mataria de
tristeza com toda certeza.
Deixo o carro em sua porta e caminho decidido, mais do que isso,
caminho desesperado e ansioso, preocupado, saudoso, tudo tão misturado.
Bato à porta com pressa, escuto um latido e sorrio, ela tinha que ter
um cachorro dela, alguém que a entendesse como Potter e Lily, que ela
pudesse amar sem medo. Isso me faz pensar em nós dois, em como nossa
história é um pouco como a dos cães que passam por aqui, que Dulce não
deixa entrar por completo em seu coração, porque sabe que vai ter que se
despedir, ela é mais preparada para isso, eu não, eu sou um Stefanos e como
todos eles só sei amar se for por inteiro.
— Harry. – ela diz surpresa assim que abre a porta, meus olhos
correm por seu corpo até encontrar a perna enrolada em uma faixa pouco
acima da canela.
— July me contou e eu... vim. – Dulce sorri e como é linda a sorrir,
me dá espaço mancando um pouco e entro enquanto ela fecha a porta, dois
cachorros estão deitados no tapete da sala, olhos dóceis e carentes, eu nunca
dou atenção a eles ou não poderia deixá-los.
— Ela passou aqui ontem assim que chegou, como não veio com ela
achei... que não viria.
— Preferi vir sozinho. – digo sem rodeios, corro os olhos pela casa. –
Onde está sua mãe?
— Trabalhando. – ela me conta sorrindo, aponta-me um lugar no sofá,
mas eu me aproximo dela para ajudá-la quando manca e faz careta depois de
um simples passo. Ergo Dulce nos braços e a coloco no sofá. – Obrigada.
— Está confortável?
— Sim. – ela suspira. – Oito pontos e meia dúzia de injeções.
— Eu sempre disse que era perigoso. Onde aconteceu?
— Aqui no Harlem, ele estava há dias sem comer, ninguém queria
entrar para ajudá-lo, preso em um quintal, a família foi embora e o deixou,
Harry ele iria morrer, eu tinha que entrar.
— Aquele seu grande amigo, Paco não podia ter ido junto?
— Sempre arruma um jeito de colocá-lo no assunto. Paco está fora,
foi ver a família no México, apresentar a noiva! – Ela enfatiza e se pensa que
me chateia está errada, eu sorrio aliviado. – Cara de pau. – ela reclama e dou
de ombros.
— Uma pena não ter conseguido resgatar o cachorro. – Dulce abre
um sorriso vitorioso. Encara os cães deitados tranquilos.
— Quem disse? É esse de mancha amarela nas costas. – Olho para ele
dócil e preguiçoso, depois encaro Dulce. – Ele não tem culpa, foi muito
maltratado, estava só se defendendo. Agora está bem.
— E você, como está? Dói?
— Bem menos agora, tenho mais dois dias em casa, depois volto ao
trabalho.
— Sua mãe está trabalhando, você disse?
— Em uma fase ótima, tomando a medicação e frequentando a
terapia, Nick arrumou uma vaga para ela como recepcionista em um
escritório de advocacia de um amigo, ela trabalha das 9h às 5h, então não fica
tão cansada e estressada, o salário é razoável, as coisas aqui melhoraram.
— Fico feliz. Ela... ela está bem mesmo, do tipo que você pode...
— Ficar exatamente aqui, lembrando da terapia e dos remédios. –
Dulce me corta.
— Entendi. – suspiro olhando em torno. – Comeu? Se quiser eu posso
preparar.
— Acho que pode fazer mais que isso futuro executivo, que acha de
pedir algo e só ficar aqui, me contando sobre Harvard e o time de futebol,
capitão?
— É, capitão, até que gosto, tem gente que aposta que vou seguir
carreira no futebol, mas quero mesmo ser como meu pai, quero o que sempre
quis, tudo que sempre quis, ainda quero o que queria aos 16 anos, Dulce.
— July me contou que terminou. Eu queria ligar, eu... eu queria que
viesse me ver e quase pedi, mas não sabia se ficaria bravo.
— Como é possível? Sabe que se precisar, seja o que for, estou aqui.
— Obrigada. – Ela toca meu rosto. – Cada dia mais bonito e mais
parecido com seu pai.
— Acha meu pai bonito? – Dulce me olha daquele jeito duro de me
repreender, dou de ombros. – Não é ciúme. É... é... um pouco de ciúme. –
admito para ver seu sorriso brilhar feito joia preciosa.
— Que acha de me beijar de uma vez?
— Foi atrás desse beijo que vim. – digo a ela antes de me aproximar
saudoso e apaixonado, como aos 16 anos.
Capítulo 17
Dulce

— O plano era só te visitar. – Harry diz calçando os sapatos enquanto


abotoo meu vestido, quando é que conseguimos?
— Eu sabia que acabaria assim. – Puxo os cabelos para trás e prendo
com um elástico que trago sempre comigo.
— Gosto mais deles soltos. – ele diz já pronto para partir, caminho até
seu abraço, eu também.
— Eu sei, mas a vida está tão corrida que tem sorte de eu não ter
cortado, já pensei em fazer isso uma dúzia de vezes.
— Vai ficar linda de qualquer modo. – Ele mente, diz o que é certo
dizer, o que aprendeu com a mãe, irmã e tias, mas no fundo, adoraria me
pedir para nunca cortar, porque ama os fios longos e é unicamente por isso
que nunca cortei, porque seu rosto me vem a mente toda vez que penso em
cortar.
— Não vou cortar. Gosto que você os ama. – Ele me beija os lábios,
seus dedos descem suaves por meu rosto e descansam em meu pescoço me
causando um arrepio. – Quando volta?
— Amanhã à noite, tenho um treino importante na segunda.
— Ah! Sabe quando vem a Nova York de novo?
— Posso tentar vir no fim de semana, o que acha? Venho passar o fim
de semana com você.
— Tenho que ir a Jersey esse fim de semana, minha família nos
espera para o casamento de um primo. Não posso faltar.
— Entendo. – Ele trava, eu sei que não entende, que acha que essa
minha família nunca me ajudou e tem razão, mas essas formalidades são
importantes para minha mãe e não quero deixá-la sozinha para enfrentá-los.
Mamãe sempre se sente um tanto pequena diante deles, porque me cria
sozinha, porque não tem um marido e tantas outras tolices. Ela está sempre se
cobrando demais.
— No outro fim de semana vou estar livre. – digo a ele.
— Tenho jogo, não posso deixar o campus. – ele me avisa e agora eu
fico triste, no fim a vida está sempre nos afastando. – No fim de semana
seguinte. O que acha?
— Acho que...
— Ah! Não vai dar, começam as provas.
— As minhas também. Fica tudo corrido, tenho aulas extras no
sábado, só resta os domingos para estudar.
— Posso mandar o avião te buscar para passar o fim de semana
comigo no campus.
— Deixar minha mãe agora que ela começa a dar sinais de melhora
me preocupa. – ele não diz nada, não consegue.
— Tudo bem, eu entendo. – Harry me beija, ainda temos o dia todo
amanhã. Podemos aproveitar juntos. Foi uma tarde especial, com amor,
desejo, mas eu sei que a vida vai de novo nos afastar, ela está sempre
brincando conosco.
— Se conseguir vir. – Dou de ombros. – Agora é melhor ir, minha
mãe já está chegando.
— O seu namorado, ele... ele frequentava a casa?
— Não, Harry, eu tenho tentado proteger minha mãe, não quero
nenhum tipo de estresse emocional.
— Por que terminou? – Harry tem esse ciúme que não é menor que o
meu, nenhum dos dois é bom em esconder, eu nem sei porque tentamos, uma
hora ou outra acabamos nos magoando.
— Adam ganhou uma bolsa no Colorado, ele sempre quis cuidar de
animais de grande porte, cavalos, bois.
— Que tolice achar que tinha terminado por mim. Foi só...
— Não pode me culpar por ter um namorado quando está por aí com
todo tipo de garotas, eu vi a loira, ela é linda, sua cara, aposto que eram a
sensação de Harvard.
— Foi ideia sua tentarmos com outras pessoas.
— Ideia que aprovou bem rapidinho. – Ele enruga a testa.
— É bem difícil te entender, Dulce.
— Eu sei, é difícil entender você também, tem um universo entre nós.
Quero ficar com você, mas agora ficamos pelo menos um mês sem poder nos
ver e eu só consigo pensar nas garotas que vão cercá-lo e me mata pensar
nelas. Meu sangue ferve.
— Não gosto de pensar em você com alguém, indo a festas,
recebendo elogios, eu também não aguento isso, não aguento pensar que é a
minha garota e está se divertindo com outras pessoas. Que não é comigo que
relaxa, que não sou eu a cuidar de você quando um cachorro maluco te ataca.
— Eu queria ser do seu mundo. – digo a ele.
— Eu queria ser do seu. – Ele rebate. – Mas seu mundo é muito
restrito. Você não me deixa entrar.
— Você está sempre querendo me arrancar dele, mas eu não posso
sair, não sem ser uma fuga dessas que se deixa tudo para trás. – Harry me
olha triste, eu o amo, ele me ama.
— Não tem nada para nós se não cada um viver em seu mundo, não
é?
— Sim. – Meus olhos marejam. – Não te vejo mais até o casamento
da July, não é? – ele afirma.
— Se cuida, Dulce, eu sei que ama sua mãe e faz o melhor por ela,
mas você existe, não esquece disso. Não esquece de você.
— Vou tentar, Harry, eu faço o que amo, cuido da minha mãe e dos
meus bichos, estudo, trabalho, eu vou só... seguindo.
— Me liga e corro ao menor sinal, sabe disso?
— Sei. Agora é melhor você ir. – Eu sempre decido por proteção,
talvez seja o medo de acabar como minha mãe, mergulhada em medo e
incertezas, depressiva e desejando morrer, por isso afastá-lo me salva, eu não
sei viver de outro modo, não sei namorar Harry a distância, amá-lo sem tê-lo,
ou estamos juntos, ou não estamos e isso protege minha alma do desespero e
machuca também, mas ainda machuca menos do que me corroer de ciúme.
Harry não discute, ele aceita meu pedido, ainda me olha um longo
momento, está magoado comigo, está bravo.
— Deve estar triste que o namoradinho ganhou uma bolsa e foi
embora, pode ficar tranquila, sua mãe não vai me ver aqui.
— Não terminei com ele por você, Harry, eu comecei com ele por
isso, para tirar você de mim e não deu certo, eu sei que não muda nada, mas é
como foi e não pode me jogar na cara um namorado depois de três anos
quando já namorou duas garotas e saiu com outras tantas. Agora eu quero que
vá embora.
— Eu também quero ir. – ele diz antes de sair batendo a porta e fico
de pé, imóvel a olhar a porta fechada, pensando em como foi que começamos
a brigar, alguém jogou na cara de alguém o fato de estarmos tentando a
felicidade e é sempre assim.
Não choro, não choro mais como antes, apenas sinto meu peito se
apertar e o buraco se abrir mais uma vez, é assim que é, e o tempo vai
acalmando as coisas, deixando a dor ser escondida pela rotina pesada de
sobreviver, eu já aprendi a lidar com meu amor por ele.
Tentei com Adam, depois dele simplesmente decidi não tentar com
mais ninguém, não até esse amor morrer dentro de mim, eu nunca beijei
Adam sem me lembrar de Harry, nem mesmo quando me deixava seduzir e
buscar o desejo físico ele saía da minha mente, Harry nunca deixou meu
coração, nunca saiu da minha mente e Adam sabia.
Menti muitas vezes, mas a parte que não o deixava invadir minha vida
era tão maior que ele sempre soube e brigamos algumas vezes por conta disso
e me senti errada, culpada, triste, porque ele estava certo por mais que eu
negasse e no fim, quando ele disse que iria deixar a cidade eu senti apenas
alívio, eu não posso amar mais ninguém, essa é a minha verdade e já consigo
aceitar isso.
Minha mãe continua sua rotina de recuperação, indo ao médico,
tomando seus remédios, tentando, ela é uma pessoa triste, isso é fato, não
posso mudar, ela tem poucos momentos de riso e leveza, mas não é mais a
pessoa que fica jogada na cama sem forças e já encaro sua resistência como a
maior de todas as vitórias e devo isso aos Stefanos, como devo minha chance
de estudar e as contas em dia. Nick e Annie nunca me esquecem, têm
telefonemas, visitas, convites, eu sempre estou na lista deles de pessoas
importantes e só posso ser grata a essa família que já sonhei tanto um dia ser
a minha também.
— Tem certeza de que vai ficar bem, mamãe? – aperto a alça da mala
com força enquanto ela me dá um sorriso.
— É o casamento da July, você tem que ir. Não invente desculpas
para fugir.
— July te convidou, tem espaço no avião, mamãe. Pode ir se quiser,
sabe que eles adorariam.
— Querida, adoro os Stefanos, sou grata a eles por cuidarem de você,
mas eu não estou pronta para “todos” eles. – Ela enfatiza. – É um fim de
semana de alegria, quero que se divirta, que comemore com a July e o Tyler,
ele merece muito esse momento. Vá sem medo, vou tomar os remédios,
encontrar com o grupo de terapia e cuidar dos animais para você, vou estar
bem, pode ligar quantas vezes quiser.
— Se eu precisar voltar eles me colocam em um voo na hora. – aviso
e ela me abraça.
— Pode ir, “Corazón”. Sem medo. – Ganho um beijo na testa e um
sorriso emocionado.
A batida na porta nos afasta, Tyler vem me pegar e sei que é ele.
Mamãe grita para ele entrar e quando a porta se abre ainda vejo o mesmo
Tyler que conheci na infância, que se apaixonou pela minha melhor amiga e
sinto certo orgulho de ter de algum modo unido esses dois.
— Prontas?
— Não vou, Tyler. – mamãe diz a ele abrindo os braços para um
abraço, ele aceita e nesse ponto, não é mais aquele garoto que conheci, aquele
era rebelde e triste, mergulhado em problemas e pobreza, esse agora é mais
receptivo, carinhoso, risonho, mais leve.
— Anita, devia ir, vocês são um pouco minha família. – Mamãe toca
seu rosto, beija Tyler e o encara orgulhosa.
— Sua avó deve estar tão feliz e orgulhosa, tenho certeza de que ela
vai estar lá com você e a Bárbara o tempo todo. Se tornou um homem muito
especial, se formou na faculdade, vai casar-se, ser feliz. Sinto orgulho de
você por mim e por sua avó.
— Obrigado, Anita, eu não sei o que teria feito sem a ajuda de vocês.
– Ele beija minha mãe no rosto, Tyler sempre tentou nos ajudar, quando
começou a ganhar dinheiro, nos ofereceu um apartamento, depois uma casa,
mas mamãe nunca quis aceitar, ela acha errado e eu entendo, talvez seja.
Nunca pensei muito sobre isso.
— Teria dado um jeito, agora cuida da minha filha, olho nela naquela
Grécia tão distante.
— Pode deixar. – Ele ri, beija minha mãe mais uma vez e ergue
minha mala. – Vamos Dulce, sua amiga está me colocando doido. Toda hora
uma coisa nova. – ele diz rindo e eu tenho visto como ela está nervosa com
essa coisa de se casar.
Meu último olhar para minha mãe é com um sorriso, ela está
emocionada, mas não triste e isso é tão bom de ver.
Tyler acomoda minha mala e eu me sento ao seu lado no carro
elegante, ele sorri um tanto nervoso, nem quero ver como vai estar ansioso na
hora do “sim”.
— Vamos voltar ao apartamento, pegar o resto da família e, só depois,
aeroporto, tudo bem?
— Claro, se precisarem de ajuda, estou pronta.
— Se conseguir tirar a July de casa já me ajuda, ela conferiu as malas
uma dúzia de vezes, mesmo sabendo que está tudo lá.
— O apartamento de vocês está lindo.
— Ela quase me leva a falência. – ele brinca me fazendo sorrir, Tyler
não se importa, ele gastaria tudo e ainda ficaria feliz só pelo sorriso dela, é
Nick a conter sua ânsia em agradá-la.
Estão todos prontos quando chego, Bárbara está mesmo linda e cada
dia mais parecida com Tyler. Ela me abre os braços feliz.
— Dulce, eu tenho um vestido lindo de casamento.
— Eu soube. – Beijo seu rostinho, cumprimento Nick e Annie que
estão arrumando malas na porta do elevador. July desce as escadas correndo.
— Não corre, filha. – Nick pede e é ignorado. Eu ganho um abraço
apertado dela.
— Queria que tivesse vindo ficar aqui desde ontem, teríamos
arrumado a mala juntas, aí sim eu estaria certa de que tenho tudo que preciso,
tem mala de casamento, mala de lua de mel, mala de maquiagem, mala de
sapatos.
— Mala de maquiagem poderia ser esquecida, vai ter tudo lá. – Annie
diz ajeitando o vestido de Bárbara.
— Não escutem a mamãe, em toda minha vida eu nunca consegui
fazê-la entender que cada pele usa um tipo de maquiagem e lá não vai ter a
base ideal para a minha.
Annie não se importa com isso, ela tem um jeito menina de ser, nunca
está calçada, nunca está muito penteada e só usa maquiagens em casamentos.
— Podemos ir? – Nick pede. – Ty, me ajuda aqui com essas malas,
vamos levar duas horas só para arrumar tudo isso, vocês vão em um carro e
eu vou em outro com a Bárbara e a Annie.
É uma confusão, só July e eu levamos malas, eles têm tudo que
precisam na ilha, July também, mas ela esquece isso toda vez.
Bárbara me exige toda atenção no caminho para o aeroporto e quando
me acomodo no avião estou achando o máximo a confusão deles.
Só quando o piloto começa a preparar para subir é que tudo se
acalma, Bárbara aplaude, Annie se encolhe abraçada ao marido, essa
cumplicidade, esse amor que dura toda uma vida é de emocionar.
July e Tyler se dão as mãos e trocam um olhar emocionado. A vida
deles passa por minha cabeça, os momentos tensos, os dias felizes, torço por
esse amor como torço por mim e Harry, com a diferença que eles estão juntos
e felizes e eu nem falo com Harry mais.
Fico nervosa só de pensar em encontrá-lo, não tenho ideia de como
agir, não nos falamos mais desde o dia em que ele esteve lá em casa depois
da mordida.
Vai ser estranho mais do que o normal, porque nunca ficamos
realmente brigados, sem nos falar ao menos de vez em quando, ou receber
notícias um do outro, mas essa separação tem ares de definitiva e me deixa
tensa.
São horas e horas em um avião, prefiro não pensar muito, assusta-me
um pouco me lembrar de como estamos alto. Jogo com July e Tyler, distraio
Bárbara e consigo até ler um pouco antes de fechar meus olhos e tentar
dormir.
Só penso em Harry, o que eu faço quando chegar, se cumprimento, se
ele vem falar comigo, se já chegou, ainda não tive coragem de perguntar dele,
os Stefanos não tocaram em seu nome e eu nem sei se por esquecimento da
nossa história ou por gentileza.
— Oi. – July se senta ao meu lado quando falta pouco menos de uma
hora para chegar. – Conseguiu dormir um pouco?
— Acho que sim. – Sorrio para ela. – Vai se casar. – digo rindo,
apertamos as mãos, damos pulinhos bobos e rimos feito meninas. – Vai
casar-se com Tyler.
— Vou. – Ela se encosta no assento, fecha os olhos e suspira. – Casar
com o homem que amo e trabalhar na Associação, como sonhei.
— Como sonhou. – July abre os olhos e me observa.
— Um dia, quando nós duas formos senhoras Stefanos...
— July, o Harry e eu nem estamos mais falando um com o outro.
— Bobagem, vai passar, ele ainda está em Harvard, mas chega logo,
estavam esperando o Ryan fazer uma prova, vão chegar depois da gente.
— Melhor. – ela concorda. – Assim eu ganho tempo antes de
encontrá-lo.
— Ele ama você, é o que todos dizem.
— Para nós nunca foi o bastante.
— São teimosos, por isso não ficam juntos, quer do seu jeito, ele do
dele, não pode dar certo, mas vai. – Ela se apressa.
— Vamos falar do seu casamento? – Ela se anima.
— Vamos! – Ficamos refazendo os planos até que soa o aviso de
apertar os cintos, July corre para o lado de Tyler e me acomodo.
Ulisses vem nos apanhar em Atenas, um helicóptero nos leva para
Kirus e ainda hoje eu me surpreendo com tanto luxo, quando estou com July
ou mesmo Harry, não penso muito nas diferenças de nossas vidas, em como
eles têm o mundo aos pés, mas quando viajo em um jato particular e vejo
Ulisses pilotando um helicóptero, para nos buscar em Atenas e levar para a
ilha que pertence a toda a família eu não consigo ignorar a diferença.
— Ele ainda não chegou. – Ulisses me avisa mesmo que não tenha
perguntado. – Mas vai chegar. – Ele pisca quando passo por ele e me
acomodo.
— Oi, tio Ulisses, você é mesmo muito lindo. – Bárbara diz abraçada
a seu pescoço. – O mais lindo tio Ulisses do mundo todo. Hoje minha irmã
vai casar com meu irmão.
— E você está adorando contar isso em tudo que é lugar, não é
mesmo? – ela afirma. – Meu conselho é... deixe no ar, não explique o resto da
história. Divirta-se com os olhares chocados.
— Ulisses, pode por favor, não incentivar isso? – Nick pede.
— Posso, mas não vou. Do jeito dela é bem mais divertido, caçula.
— Filha, você tem que dizer que Tyler e July não são irmãos, você é a
única que é irmã dos dois.
— Nick, aí ela vai ter que explicar que é adotada, você só quer
traumatizar minha sobrinha. – Ulisses provoca.
— Podemos ir? – Nick pede.
— Que saudade do papai Leon, vamos correr para Kirus!
Ele ri quando Nick revira os olhos de modo enfadonho, ficamos todos
prontos, Ulisses começa a ligar os instrumentos, eu sei que vou morrer de
medo, ele está sempre fazendo graça quando pilota, não resiste a pelo menos
um voo rasante.
— Tio, você vai bem rápido, bem rápido, até dar dor de barriga. –
Bárbara pede e eu devia saber que ele atenderia seu pedido. Annie briga com
Ulisses, ele adora assistir o medo dela, é um voo de menos de dez minutos,
mas é engraçado e tenso, quando ele pousa Cristus está a nossa espera, as
malas de July vêm de balsa, só mesmo minhas coisas que estão conosco e o
homem insiste em levar a mala, mas Nick não permite e toma a frente.
Leva uns bons minutos para cumprimentar todos e receber um abraço
bastante carinhoso de Liv e Heitor.
Acho que eles sabem dos meus sentimentos e são tão apaixonados
pelos filhos que podem amar qualquer um que ama seus filhos.
July me arrasta para seu quarto, Alana se junta a nós e ficamos
combinando as coisas do casamento, hora que vamos nos reunir, como será a
maquiagem, o buquê, tantas outras coisas que só volto a pensar em Harry
quando escuto o som do helicóptero.
— Tia Sophi foi buscar os meninos. – As duas me olham. – Sim, o
Harry. – Alana não disfarça. – Como estão?
— Não estamos. – aviso e elas se olham de novo.
— Casamentos são sempre boa hora para reconciliações.
— De onde tiraram isso? – pergunto a elas que dão de ombros.
— Inventamos. – July diz sem medo. – Vamos continuar a organizar
as coisas, temos muito que fazer, só sei disso.
Harry não vem falar comigo, pelo contrário, ele não aparece nem
mesmo para jantar e me sinto constrangida quando me acomodo e ele é o
único a não estar presente em torno da mesa de jantar.
— O Harry não vem. – Emma avisa quando se senta por último. –
Ele... ele... – Sua cabeça trabalha em busca de responder sem me magoar.
— Está fugindo da Dulce. – Lissa diz em um suspiro. – Dulce, ele é
um Stefanos, já avisamos faz tempo, não é? Eles fazem tolices.
— Não fazemos tolices, seguimos tradições. – Ulisses rebate. –
Menos o Harry, ele é uma vergonha. A essa altura, vocês já deviam estar
casados. Ele já fez a grande tolice?
— Harry é ótimo, ele nunca fez besteiras... nós... somos amigos. – As
mulheres riem.
— As amizades do século 21 são mesmo muito diferentes. – Sophia
brinca.
— Também somos amigos, não é Sophi?
— Acha Ulisses? O que acha de termos outros amigos?
— Nocaute, não dá para brincar com a Sophi. – Ulisses reclama.
Depois envolve seu pescoço e a aperta até que ela ri e o beija.
— Logo esse casal se entende. – Liv aperta minha mão. – Torço por
vocês.
— Todo mundo torce. – Annie concorda.
— Eu torço por netos, July casando já sei que o Nick vai passar na
frente, eu conheço a tática dele. Dulce, você é minha esperança.
— Heitor, eu não estou disputando filhos com você. – Nick avisa e
sempre assisto a essa briga achando graça.
— Não, mas só sossegou quando empatou, Bárbara foi uma jogada de
mestre. Agora partiu para os netos.
— Chama o papai agora, Nick! Quando o Heitor te provoca você não
fica chorando para o papai Leon.
— Leon! – Nick pede socorro, Leon desvia os olhos de Lissa.
— Ulisses, deixa o Nick em paz.
— Eu? O Heitor que está provocando! – Ulisses fica ofendido, só
consegue fazer todos rirem enquanto minha mente viaja para Harry, não
posso deixar as coisas assim, são pelo menos quatro dias juntos, melhor ir
atrás dele e quebrar o gelo, é isso que vou fazer assim que deixar a mesa de
jantar.
Capítulo 18
Harry

O voo de Boston a Atenas é tranquilo. Nenhuma turbulência, silêncio


quase total. Apenas eu, Emma e Ryan. Os dois mergulhados em livros
enquanto aproveito para dormir um pouco.
Os músculos esgotados por conta do jogo oficial. Pelo menos
vencemos. Não sabia que me daria tão bem no futebol americano até
ingressar em Harvard. Como um meio inglês e meio grego, meu negócio
sempre foi futebol, mas em Harvard descobri que poderia ser um jogador
profissional, se eu quisesse, o que não quero. Meu desejo é assumir meu
lugar de braço direito do meu pai na companhia. Lizzie seguiu o caminho do
meu tio Nick, Emma está na área da ciência e Danny está claro que vai seguir
com seus desenhos.
Serei o único a trabalhar com meu pai e minha mãe. Gosto da ideia,
gosto do trabalho, do cheiro do escritório, do clima, sempre gostei de prestar
atenção nos meus pais conversando sobre trabalho enquanto preparavam o
jantar ou serviam a mesa. Desde muito pequeno me encantava. Lembro de
brincar de ser meu pai. Usar uma pasta velha dele e me sentir importante.
Estou perto disso.
Tia Sophia nos espera no helicóptero. Acena quando nos vê
chegando. A única senhora Stefanos a pilotar um helicóptero e sempre prefiro
que seja ela a nos buscar. Tio Ulisses e Luka adoram aprontar alguma e se for
Gigi no comando então é gritaria na certa.
― Todos tão lindos! — Ela beija um por um. Se demora mais em
Ryan. Ele tem a idade da Gigi e ela e Annie se dividiram para cuidar dos dois
muitas vezes. — A Gigi está chegando também. Os noivos chegaram faz
pouco. Dulce veio com eles. — Seus olhos repousam sobre mim indiscretos.
As senhoras Stefanos. Quem pode esperar qualquer outra coisa?
Na mansão, meus pais esperam na varanda. Tradição, eles dirão,
esperar os que chegam na varanda. Chamo de curiosidade, isso sim. O
negócio desses Stefanos é saber quem chega e como.
Corro meus olhos pelos presentes, não vejo Dulce entre eles. Deve
estar com July decidindo coisas do casamento. Pensei em ir para Nova York,
viajar com ela para Kirus, mas não encontrei nenhuma desculpa aceitável e
acabei vindo direto com os outros.
Nossa história não tem solução. Não combinamos. Gosto dela, como
não consigo gostar de nenhuma outra garota por mais que tente e eu tento.
Acontece que quando estamos juntos acabamos brigando e nos machucando,
pensamos diferente sobre a vida e não sei se um de nós está certo, acho
apenas que somos diferentes.
Depois dos abraços, sorrisos e conversas banais vou para meu quarto.
Ela deliberadamente não apareceu para me ver e não quero forçar isso. Nosso
último encontro não foi dos melhores.
Começou tão bem, ela foi mordida pelo cachorro e corri para vê-la,
uma linda tarde de amor como se ainda fossemos namorados, então a
conversa entrou naquele caminho perigoso que sempre acaba em uma nova
ferida e saí batendo a porta, mimado e bobo como ela deve estar pensando e
com toda razão.
Uso a desculpa de estar cansado para não me reunir a todos no jantar,
eu acho que não estou pronto para me sentar perto de Dulce e fingir que não a
amo. Emma me olha por de trás dos óculos.
― Não quer mesmo? Todo mundo está lá, Harry. – minha irmã insiste
para me reunir aos outros no jantar em família.
― O tio Leon construiu esse prédio para justamente termos liberdade
de não nos reunir com eles o tempo todo quando estamos na ilha. – digo a ela
sem qualquer convicção.
― Errado. O tio construiu isso porque não cabíamos mais todos na
mansão. Está evitando a Dulce. – Ela sabe, todo mundo sabe e é verdade, eu
estou fazendo isso e só eu sei como dói.
― Também. — admito parcialmente. — Cozinho qualquer coisa. —
Com a vida agitada dos nossos pais, todos nós aprendemos a cozinhar,
limpar, cuidar uns dos outros, além disso, os anos morando em Harvard me
ensinaram a preparar uma refeição razoável.
― Está certo. — Ela me abraça. — Irmãozinho complicado esse meu,
aviso o papai. Vem Potter, vem Lily. Potter se ergue animado para segui-la.
Já Lily se aproxima de mim pedindo um afago.
― Pode ir, Lily. Já encontro vocês. — Ganho uma lambida no rosto.
― Vamos garota — Emma incentiva. — Jantar.
Isso é o bastante para convencê-la. Vai se acomodar sobre os pés do
meu pai a espera de um agrado que ele vai dar porque não resiste aos olhos
amendoados dos meus irmãos quadrúpedes. Aprendemos com ele a amá-los e
dividir espaço e atenções. No fim, os cachorros nos uniram mais que
qualquer coisa.
Sempre adoramos sair para uma volta noturna, tardes no lago, manhãs
na piscina. Limpar tudo antes que mamãe veja. Quantas vezes não nos
metemos em encrencas para protegê-los?
Por isso posso entender o amor de Dulce aos animais, mas não
entendo as escolhas dela. Isso é mais difícil.
Quando fico sozinho vou para cozinha, abro a geladeira, não tem
muita coisa. A verdade é que muito raramente alguém cozinha nos
apartamentos em Kirus. Dois ovos e umas fatias de queijo devem resolver.
Quando termino de comer uma omelete simples e lavo os pratos meu
pai entra sozinho.
— Está bem? Ainda estão todos à mesa, dá tempo de se reunir com a
família. – ele diz se acomodando ao meu lado no sofá da sala.
— Estou bem, papai, é que...
— Você não quer encontrar a Dulce. – ele constata, melhor não
mentir, não é como se alguém nessa família fosse acreditar e dou de ombros
em um sim.
— Foi ruim assim? A última... briga de namorados, se é que posso
chamar isso que vivem, de namoro.
— Acho que foi. – Eu nem sei dizer com exatidão. – Dulce é muito
complicada.
— Nunca quis me intrometer, eu sempre achei que uma hora ou outro
se resolveria, mas é algo que não entendo, sei que gosta dela e acho que ela
gosta de você, então por que não estão juntos? O Ulisses tem certa razão
sobre as tradições Stefanos.
— Somos de mundos diferentes. – ele nega.
— Só existe um mundo, planeta Terra, e vocês dois vivem nele.
— Entendeu.
— Acho que não. – Ele se acomoda deixando claro que precisa
entender e que não vai me deixar até arrancar de mim toda a história.
— Sou o garoto rico que foi para Harvard, que não conhece pobreza e
dor, ela é a menina pobre que tem uma mãe doente e precisa trabalhar para
viver.
— Para mim isso parece mais unir do que separar, pode ajudar Dulce
e ela pode te ensinar sobre as dificuldades da vida, todos ganham, não faz
sentido de outro modo.
— Dulce jamais aceitou minha ajuda, papai, não gosto de pensar
muito nisso, mas acho que ela é orgulhosa demais para aceitar ajuda
financeira.
— Não sei, ela aceita do Nick, então não é bem orgulho. Talvez seja
diferente porque são namorados, é mais fácil aceitar ajuda do Nick, ele tem
um lado paternal com ela e como ela não tem um pai, pode ser isso.
— Pode ser. – Dou de ombros. – O que isso importa agora? Ela não
aceitou ir comigo para Harvard, passamos todos esses anos separados por
conta disso, eu ofereci ajuda financeira, disse que pagava o curso, estava me
referindo a você pagar.
— Eu faria. – ele diz de modo determinado e acredito.
— Ofereci internar a mãe dela, ou contratar uma enfermeira e ela se
mudaria comigo para Harvard.
— Que filho generoso! – Sinto a ironia, encaro meu pai um tanto
surpreso.
— Ela merecia a chance de ir buscar os sonhos dela, é jovem,
precisava pensar sobre isso, mas Dulce nunca nem cogitou aceitar e eu insisti
tantas vezes, brigamos tanto por isso.
— Ela só me faz gostar mais ainda dela. – Ele sorri. – É um pouco
como sua mãe. Liv não tinha recursos, estava sozinha com Lizzie, mas nunca
abandonou seu solzinho, ficou e lutou, adaptou seus sonhos a sua realidade,
não desistiu, mas não pôde viver como as garotas de sua idade.
— Sim, acho que elas têm histórias levemente parecidas, Dulce é
forte como minha mãe, determinada como ela, independente e brava como a
mamãe. – Ele volta a sorrir.
— Muito bom, porque você é como eu. Um Stefanos trocando os pés
pelas mãos.
— Mas eu não vejo um final feliz para nós, ela em Nova York, eu em
Boston, os dois perdidos em ciúme e bobagens sem sentido, se ela tivesse
aceitado meu convite seria diferente, mas nunca quis, nunca aceitou e isso
nos separou.
— É isso que faria, Harry? Olho para você e vejo o bom homem, o
cara capaz de cuidar e proteger a família em meu lugar e agora quando tem
tanta dificuldade de entender Dulce eu me pergunto se é isso que faria. Você
deixaria sua mãe se ela estivesse nas condições da mãe da Dulce para buscar
seus sonhos? Poderia dormir à noite com isso?
— Eu nunca deixaria a mamãe. – respondo indignado para em
seguida compreender tudo. É como um soco na boca do estômago, um tapa
forte e barulhento em meu rosto, a verdade do meu egoísmo me atinge em
cheio, como pude achar que ela tinha que aceitar isso.
— Acho que pode entender que não deu qualquer opção a ela, não é
mesmo?
— Sim papai, eu não fiz mesmo isso, só ofereci um sonho impossível,
me sinto mal. – Ele toca meu ombro. – Nunca pensei nela, no que ela
precisava, só pensei que eu precisava dela e como seria perfeito ter Dulce em
Harvard e não pensei em como seria desumano deixar a mãe e viver seu
sonho. Sinto-me um babaca, um monstro egoísta.
— Não se cobre tanto, era um menino, ainda é. Eu errei tanto com sua
mãe no começo, mas ela sempre foi durona e me mostrava o caminho certo.
— Sou ciumento, ela também, não ficamos juntos e ao mesmo tempo,
não dá certo com ninguém.
— Eu sinto ciúme, Harry e sei como é ruim e dolorido, mas isso é
algo meu, eu lido com esse sentimento, não pertence a sua mãe, eu confio
nela, nunca, nem por um segundo eu coloquei a integridade moral da sua mãe
em xeque, nunca duvidei dela, eu a amo e confio inteiramente nela, mas temo
perdê-la, temo que alguém enxergue como eu, como ela é incrível e tente
roubá-la de mim, mas lido com isso sozinho, não tiro nada dela, não exijo que
viva para mim, para aplacar meus medos, ela tem a própria vida e precisa,
assim como Dulce, então pode sentir ciúme, mas não pode e não é certo jogar
nas costas da Dulce esse sentimento.
— Está me abrindo os olhos para tantas coisas que nunca tinha
pensado, papai.
— Que bom, é o que precisa fazer sempre, se colocar no lugar dela,
pode até pensar que mesmo assim faria diferente, as pessoas não são iguais e
isso é natural, mas se fizer esse exercício, ainda que se decida por outro
caminho, vai ao menos poder entender as escolhas dela.
— Obrigado por essa conversa, papai. – Ele fica de pé e me abraça.
— Estou aqui, Harry, temos que discutir mais sobre tudo, pode se
abrir comigo, minha vida é perfeita agora, mas ainda me lembro de quando
não era e posso ajudá-lo a se entender, não tenha medo de me procurar, vou
deixá-lo pensando um pouco sobre isso, se quiser é só seguir o riso e vai nos
encontrar em torno da mesa de jantar. – Papai me abraça, beija meu rosto, dá
tapinhas na minha nuca e ombros, depois se afasta e fico sozinho.
Tenho vontade de respirar ar puro, deixo o apartamento nos fundos da
mansão e sigo para o jardim ouvindo as vozes do grupo ainda em torno da
mesa de jantar, são sempre longos os jantares em Kirus, repletos de riso e
amor. Eu me sento no muro de pedras olhando a noite estrelada. Dá para
ouvir o burburinho na sala de jantar e o riso fácil de todos.
― Oi. — A voz de Dulce chega aos meus ouvidos e me volto, ela tem
um sorriso melancólico no rosto. — Achei melhor vir quebrar o gelo de uma
vez. Serão três dias ao menos e não podemos nos evitar para sempre.
― Oi. — Gosto desse jeito independente dela, corajoso. Dulce está
sempre pronta a dar o primeiro passo e tomar as rédeas das coisas, gosto
mesmo sabendo que isso nos afasta mais do que une.
― Foi um jantar alegre. Todo mundo sentiu sua falta e acabei me
sentindo culpada. – Ela me explica sem parecer uma cobrança.
― Desculpe, Dulce. Não tinha intenção de deixá-la desconfortável.
Fizeram comentários? — É claro que sim. Ela nem precisa responder, seu
sorriso confirma.
― Sabe como gosto da sua família, Harry. Está tudo bem. – Dulce dá
um sorriso de confirmação.
― Que acha de sairmos um pouco? Tomar um drinque perto do cais.
– Convido com medo de que ela se vá e me deixe outra vez.
― Troco o drinque por uns momentos na praia. Está quente, molhar
os pés seria maravilhoso — afirmo mais que depressa, feliz por ganhar um
tempo com ela. — Podemos levar os três cachorros.
― Luna, Potter e Lily na praia? Só se quiser passar o resto da noite
dando banho e secando. Eles nunca resistiriam ao mar. Potter seria o primeiro
e elas o seguiriam. – Sei bem o que são férias em Kirus, é a velha guerra
entre tapar os buracos no jardim de tia Lissa e secá-los.
― Tem razão. Vamos os dois então. — Deixamos a mansão e
pegamos a ladeira de paralelepípedos descendo em silêncio. O perfume que
vem das plantas e se mistura à brisa marítima é típico de Kirus. Deixa o ar
adocicado, meus dedos procuram os dela. Dulce não recua minha mão, pelo
contrário, prende seus dedos aos meus.
Nós nos conhecemos desde muito jovens. No começo nos
encontrando em festas de aniversário da July, trocando um sorriso, um olhar,
algumas palavras, até que com o tempo fomos crescendo, acabamos nos
interessando mais um pelo outro e numa noite em que a levei para casa no
aniversário de um ano da Bárbara tudo realmente começou com um beijo de
despedida.
Depois começamos a sair às vezes, tentamos namorar e deu certo por
um tempo, mas aí começamos a nos desentender e quando vi tinha acabado.
Acontece que nunca acabou para sempre. Estamos sempre nos envolvendo,
indo e vindo. Dizendo adeus e olá mais do que seria saudável.
A praia está vazia a essa hora. A única iluminação são as estrelas.
Tem aquela linha branca de espumas feita pelas águas do mar se encontrando
com a areia e Dulce sorri quando deixa as ondas chegarem aos pés nas
sandálias.
Fico de longe assistindo, depois de uns minutos na água ela vem se
sentar ao meu lado na areia.
― Não quer molhar os sapatos, aposto — ela diz se apoiando no meu
joelho para se sentar ao meu lado. Balanço a cabeça concordando. Ela sorri
junto comigo.
― Dá trabalho tirar o tênis. – resmungo preguiçoso e sem conseguir
tirar meus olhos dela e de sua beleza.
― Isso que dá ter esse paraíso à sua disposição. Não dá seu devido
valor. – Ela me repreende com razão, por vezes eu me esqueço de admirar as
belezas desse pequeno pedaço do paraíso.
― Está certa. — Tiro o tênis e afundo meus pés na areia fria e úmida.
— Melhor assim?
― Muito melhor. – Ela sorri vitoriosa.
― Como está sua mãe? – Eu sei de seu amor, de seus cuidados e de
como a doença da mãe a afeta.
― Caminhando. Ainda aceitando tratamento. Tomando os remédios e
frequentando o psicólogo da Associação. O Nick e a Annie foram até lá
conversar com ela. Minha mãe nunca negaria nada a eles e está respondendo
ao tratamento. Como... quando esteve lá, tudo igual.
― Bom saber. Ela vem para o casamento?
― Não. Ainda não consegue estar assim num ambiente cercado de
gente e bagunça.
― Do tipo que sempre acontece quando minha família se reúne. —
Ela ri, talvez lembrando de algo relacionado a essa bagunça toda.
― Sempre fomos só eu e minha mãe. Então eu amo quando sua
família se reúne. Gosto desse ambiente cheio e alegre.
― Ela ficou sozinha?
― Sim, mas pedi a uma tia minha, em Nova Jersey que fosse visitá-la
discretamente, você a conhece.
― Sim. Eu a vi umas vezes. Agora que sua mãe aceita o tratamento...
― Sei o que vai dizer, Harry e não. Não vou contratar uma
acompanhante e não vou colocá-la numa clínica. Ou qualquer nome que
queira dar a um lugar como esse.
― Sempre tirando suas próprias conclusões. Já entendi que não vai
deixá-la. Acho mesmo que fui um estúpido propondo isso. Desculpe. Por
todas as vezes que insisti nesse ponto. – Ela está surpresa, posso notar o tom
ansioso e emocionado de Dulce.
― Entende que não é sobre seu dinheiro, Harry? Olha eu não teria
problemas em aceitar ajuda financeira se ela precisasse de uma internação.
Sabe que o Nick paga meus estudos há anos. Que vivo pedindo dinheiro para
meus animais. — Sorrio quando penso nela e July sempre envolvidas em
salvar algum bichinho e pedindo apoio financeiro aqui e ali.
― Também entendi isso. Foi bem simples, mas foi uma conversa com
meu pai, não posso dizer que entendi sozinho. Ele me pediu para me colocar
no seu lugar e me dei conta que está certa. Não me afastaria dele ou da minha
mãe se eles estivessem passando por isso e não podia exigir isso de você.
Mesmo que a intenção fosse boa.
― Que bom que se deu conta disso. Harry ela fez muito por mim.
Não é diferente de milhares de mães pelo mundo afora que criam seus filhos
sozinhas, mesmo assim sei o valor que devo dar a ela e seus esforços.
― Claro que sim. Está indo bem na faculdade? – Tento mudar de
assunto para não tornar a conversa pesada e dolorida.
― Muito. Tenho um convite de novo emprego, assistente de
veterinária numa clínica muito maior. Talvez um dia eu e July possamos abrir
nossa clínica para animais carentes como sempre sonhamos.
― Vão conseguir. Está fazendo sua parte se formando em veterinária,
pelas duas como combinaram. – Os olhos brilham em leves lágrimas, uma
amizade especial, elas sonham juntas e isso é bonito.
― Estou. Amo meu trabalho e os animais.
― Você e July são feitas de um material diferente. Admiro isso.
Dulce me sorri. Ficamos nos olhando em silêncio um momento até
que ela baixa seus olhos, brinca com a areia sob seus pés.
― Está namorando? — ela pergunta.
― Não. Nunca vai dar certo com ninguém. Acho que meio que desisti
de tentar. Stefanos não são feitos para muitos amores. Amam uma vez só.
Ela ergue os olhos, sabe que tem meu coração, eu sei que tenho o
dela, só que a vida nos afasta e isso nos machuca.
― Um dia essas coisas que nos separam vão desaparecer. — Dulce
me lembra.
― Sim. Todas elas, sua mãe vai se curar. Vamos nos formar e a
distância e o ciúme que vem com ela também vão acabar. Volto para Nova
York e se puder, assim como eu, desistir de tentar então...
― É você que está sempre tentando — ela diz um tanto chateada.
Está certa. Passei muito tempo tentando. Procurando, duvidando.
― Eu sei disso, mas não ficou exatamente me esperando.
― Não. Tem razão. Acho que foi bom para os dois. July nunca esteve
com mais ninguém além do Tyler e às vezes me pergunto de onde vem tanta
certeza que é ele.
― Eu não sei, mas acredito no amor deles. Vivi um tempo com eles
em Harvard e sei que são felizes juntos.
― Não me lembro de ter visto minha amiga mais feliz e o Tyler só é
feliz com ela. — Ela sorri com olhos brilhantes. Além dos meus primos acho
que não tenho um amigo assim. Tão próximo. Dulce coloca uma mecha do
cabelo atrás da orelha. Os longos cabelos escuros e lisos, sua ascendência
mexicana está refletida na aparência que tanto gosto. Sinto falta dela, dos
olhos escuros, de tocar sua pele e beijá-la.
Minha primeira garota. Vieram outras depois dela, mas descobrimos o
sexo juntos. Descobrimos muitas coisas juntos e sinto que tem muitas outras
coisas que virão no futuro.
― Sinto saudade, Dulce.
― Também sinto — ela confessa sem medo. Toco os fios lisos que
escorrem por seus ombros e descem até a cintura.
― Um dia vamos ser um casal de novo. Me espera voltar de Harvard?
― Espero. Espera minha vida se acertar, melhor, me deixa acertar
minha vida do meu jeito?
― É tolice lutar contra. Principalmente porque é um poste quando se
trata das suas convicções. Não arreda o pé.
― E gosta assim ― ela me lembra e afirmo. Depois me aproximo
dela e Dulce reage se aproximando mais de mim, nos beijamos. Não sei
explicar por que, mas seus beijos me fazem reagir de um modo diferente. É
uma outra parte minha que responde, uma parte que apenas Dulce tem acesso
e não consigo evitar de sonhar com um futuro com ela. Quando nos
afastamos um pouco, meus olhos ficam presos aos dela.
― Vai estar linda na cerimônia. Que acha de ir comigo?
― Harry...
― Enquanto esperamos o tempo ficar pronto para nós podemos ir
gastando-o juntos. Não vai ter mais ninguém. Prometo.
― Aceito o convite. Vamos juntos e aguentamos os comentários
Stefanos. Já me acostumei. — Balanço a cabeça concordando antes de beijá-
la mais uma vez.
Capítulo 19
Dulce

— Está linda. – July parece uma boneca de tão perfeita, Sophia e


Thaís dão os últimos retoques em sua maquiagem.
— E eu estou achando você muito sorridente. – ela comenta quando
Thaís fecha a caixinha de maquiagem.
— Tente não chorar, July, vou terminar de me arrumar e já volto. –
Sophia avisa.
— Vou também. – Thaís segue Sophia e July cruza os braços me
olhando.
— Ainda nem comecei a me vestir, acho melhor eu ir também.
— Primeiro conta. – ela pede e me sento na beira da cama, dou de
ombros. – É o Harry que eu sei, ficaram juntos ontem?
— Sim, eu fui atrás dele. Me acha meio vadia?
— Não. Eu te acho meio corajosa. Nunca iria, eu sou o tipo que fica
chorando na cama e tendo um ataque de asma. – July me faz rir. – Conta,
como foi?
— Amo o Harry, July, não tem jeito, eu nunca vou amar mais
ninguém, eu tentei, mas só pensava nele.
— Meu primo sofre por você, Dulce. Se abate por completo, eu vi no
tempo em que dividimos um apartamento.
— Eu também, mas a vida não me dá o direito nem mesmo de ficar
sofrendo, tenho que trabalhar, estudar, cuidar da casa e da minha mãe, tenho
que ser forte e seguir em frente, sem me render à dor, então eu sofro, mas
sigo em frente.
— Admiro tanto você, se entenderam? Porque só quando está com ele
seus olhos brilham assim.
— Decidimos parar de ficar tentando outras histórias, vamos esperar o
tempo passar e então... ainda não sei, mas sinto que ele está amadurecendo, já
não pensa como antes.
July vem até mim, abraça-me e penso em como eu quero que seja
feliz, ela merece muito.
— Quero que sejam muito felizes, July, você e o Tyler merecem.
Obrigada por tudo que fez por mim.
— Tanta coisa boa nos aconteceu, não é? – Os olhos dela marejam e
os meus também.
— Sim, mas não vamos falar disso, vai borrar a maquiagem. – ela
concorda e o quarto é invadido por senhoras Stefanos, aproveito a confusão
para ir me arrumar.
Annie me deu o vestido, fomos juntas comprar, eu fiquei
envergonhada, mas é o casamento da minha melhor amiga e eles têm razão,
um vestido não é nada demais.
Deixo os cabelos presos enquanto me visto e faço uma maquiagem
leve, só para dar um pouco de cor aos lábios e olhos, solto os cabelos, tinha
planos de ir com eles presos, é bem mais elegante e combinaria muito mais
com o modelo do vestido, mas Harry ama meus cabelos e quero que ele me
admire. Uma gota de perfume nos ombros e pescoço e estou pronta.
Basta colocar o perfume de volta na bancada e escuto a batida na
porta, meu coração parece bobo, são anos de vai e vem, ele nem devia se
emocionar assim com a chegada de Harry.
Harry sempre foi bonito, não tem como negar, para mim, um dos mais
bonitos exemplares da raça Stefanos, mas os anos em Harvard deram a ele
ainda mais beleza, força, masculinidade, ele perdeu o jeito menino, é um
homem e quando bate em minha porta vestindo um terno eu só quero pular
em seu pescoço e dizer mil vezes que o amo.
— Sabia que estaria linda, mas... está deslumbrante. – Sorrio
deixando a pele corar, ainda tenho essa parte que fica constrangida com seus
elogios.
— Você está lindo. – eu digo a ele quando Harry me estende a mão
em um convite.
Aceito sua mão e Harry me puxa para si, sinto seu perfume
masculino, agora o perfume combina mais com ele, antes, quando era só um
menino, mas usava esse mesmo perfume, eu sempre achava um exagero
divertido.
Minha mão livre descansa em seu peito, os músculos sempre
sobressaltados por debaixo do terno elegante. Sua boca procura a minha, não
sei o que somos, se algum dia deixamos de ser um casal, mas quando sua
boca toca a minha tudo sempre parece certo.
Ainda bem que não caprichei muito no batom, porque quando nos
afastamos, eu sei que não tem mais maquiagem nenhuma em mim, passo o
dedo por seus lábios. Ele me sorri.
— Vamos, Harry antes que eu tenha que voltar para me arrumar. – ele
suspira resignado e me aperta mais a mão presa a sua. Nos olhamos prontos
para as provocações Stefanos e descemos juntos as escadas, os irmãos estão
na sala, Bárbara está com eles a rodopiar com seu vestido de dama de honra.
— Olha que lindo par vocês fazem. – Nick comenta me fazendo
sorrir, eu sei que ele torce por mim.
— Onde vão, casal complicado? – Ulisses pergunta de pé já pronto.
— Para a igreja, tio, já está na hora, o Tyler não foi ainda?
— Heitor teve problemas em educar os filhos, claro que o Tyler não
foi, temos que esperar a Thaís nos expulsar. – Ulisses diz como se isso fosse
de algum modo essencial. – Aliás, o certo era a Dulce ir e você ficar aqui,
para quem vamos deixar as tradições?
— Tio... é que... bem, se a Thaís vai nos expulsar é mais prático já... –
Harry aponta a porta.
— Vai filho, ignora o Ulisses, ele fica sensível em casamentos. –
Heitor diz ao Harry.
— Sou um romântico incorrigível. – Ulisses diz para os irmãos
explodirem em gargalhadas.
— Todo mundo está feliz. Olha Dulce, como eu estou bem bonita. –
Bárbara me pede atenção.
— Linda demais. – digo a ela.
— Porque hoje é o casamento. Meu irmão vai casar com a minha
irmã. – ela diz em busca de me provocar, mas apenas sorrio. – Eu vou entrar
na frente, andando bem devagar, um pé, depois o outro, depois o outro, e
mais outro, bem chato, com os anéis. Tem que demorar bastante. Quando eu
casar eu que vou levar meu anel.
— Calma aí mocinha. Como foi que chegamos a esse momento? –
Nick pergunta enciumado.
— É tio, parece que já temos um casamento agendado. – Harry brinca
me puxando pela mão, os irmãos ficam a convencer Bárbara a não se casar,
os quatro se unem esquecidos das pequenas discussões em uma causa maior.
Aproveitamos para deixar a casa e caminhar de mãos dadas em
direção à igreja. Penso em mim, que talvez, um dia, eu seja a noiva, sonho
com isso, não posso negar, sonho com isso desde menina, me casar com
Harry, ser a sua senhora Stefanos, vivermos esse amor para sempre.
— Está um dia lindo. – digo a ele que balança a cabeça depois de
erguer os olhos para o céu azul mais limpo que já vi na vida, enquanto
descemos as ruas de paralelepípedos, o mar azul surge por entre as casas,
pedacinhos dele que vai se desenhando aqui e ali, sumindo e aparecendo por
entre paredes brancas e janelas azuis.
A igreja tem a mais bela vista do oceano em torno, o dia está incrível
e não existe dia feio aqui, mesmo quando o céu escurece em tempestade,
ainda é o paraíso de beleza infinita, eu viveria aqui para sempre e posso
entender porque Luka e Alana jamais saíram nem mesmo para estudar.
Parte da família já se acomoda nos bancos e nos sentamos com eles,
alguns apenas felizes, outros um tanto nervosos.
— Um mês e já vamos ter outro casamento, as senhoras Stefanos não
cabem em si de tanta alegria. Outro dia o Luka estava indo levar a amiga para
encontrar a irmã em Nova York, agora vai casar e ser pai de gêmeos.
— Harry, eu nunca vi o seu primo mais feliz e animado, e ele é
sempre feliz. – eu comento e ele concorda.
— Não pode me ver que faz questão de avisar que a ruiva não é ruiva,
Bia deve se divertir demais com esse maluco.
— Mas ela é ruiva mesmo. – conto a ele que balança a cabeça
concordando.
— Eu sei, todo mundo sabe, mas o Luka acha que se ela não for ruiva
mesmo, ninguém vai se interessar por ela.
— Bia é linda. – digo olhando para o altar enfeitado de modo
elegante.
— Eu prefiro uma mexicana de cabelos brilhantes e olhos escuros. –
Harry sussurra em meu ouvido me fazendo sentir um arrepio pelo corpo.
Logo a pequena igreja está cheia, amigos e parentes se acomodam,
Tyler está uma pilha de nervos a espera de July, até sinto pena, mas ao
mesmo tempo é bonito. Torço para ela ficar bem, com essas crises de asma
não é impossível ela passar mal no próprio casamento.
As portas se abrem, primeiro vem Bárbara adorando ser o centro das
atenções, acenando e sorrindo. July está incrível em seu vestido de princesa e
caminha cheia de emoção ao lado de Nick, dá para tocar no orgulho que vem
dele, peito estufado ao caminhar com a filha, entregá-la a Tyler e se
acomodar ao lado de sua gatinha. Ulisses filmando tudo enquanto vejo July
lutar para conter a emoção e noto a asma querendo ganhar espaço. Aperto a
mão de Harry ainda presa a minha.
É tudo tão lindo e repleto de amor, mesmo quando July ameaça uma
crise e Tyler precisa sacar um inalador do bolso e entregar a ela, acalmá-la do
jeito que só ele sabe fazer.
— Você me cura. – ela diz a ele já recuperada e é tão bonito e
emocionante, metade da igreja está chorando ou lutando para não chorar.
Eles trocam alianças, o padre convida ao beijo, os dois finalmente
casados, anos juntos, dividindo sonhos em Harvard e agora casados e eu aqui
boba e chorona, feliz demais para reagir. O casal também parece estar assim,
nenhum dos dois se move quando o padre termina a cerimônia, ficam ali a
dizer qualquer coisa um ao outro e trocar sorrisos.
— Acabou gente. – Ulisses avisa. – Já podem ir. Gravei o momento
dramático do inalador, já podemos ir para a festa.
O casal parece despertar e os seguimos para além da igreja, com
chuva de arroz e cumprimentos sem fim, felizes e emocionados, com
maquiagens borradas e um riso tolo, seguimos a pé de volta para a mansão.
— Foi lindo, deu tudo certo. Ela estava uma princesa. – comento com
Alana e Matt de mãos dadas a caminhar ao nosso lado.
— Foi perfeito. – Alana conta emocionada. – Não ligo muito para
isso, mas July sonhou com isso a vida toda.
— Ryan, me dá uma carona. – Gigi pede ao primo.
— Giovanna, eu não vou subir essa ladeira com você nas minhas
costas. – Ryan reclama, eu os vejo nessas pequenas birras desde pequenos.
— Queria vir de chinelo, ninguém deixou, olha o meu salto? Seu pé
deve estar doendo, Ryan, somos gêmeos, você sente tudo que eu sinto.
— Não tem nada em mim doendo. – Ryan avisa, mas apoia Gigi que
caminha abraçada a ele.
Quando entramos a música começa e com ela a festa, tem dança
grega, riso, valsas, abraços, soluços, uma infinidade de belos momentos que
eu e Harry dividimos com emoção. Nunca mais vou me esquecer que ele
esteve comigo, ao meu lado, com sua mão presa a minha enquanto assisti
July viver seu sonho de princesa.
— Buquê! – Alguém começa a convidar, fico constrangida, mas July
me acena convidando e Harry solta minha mão como se fosse um incentivo,
sem escolha, misturo-me as moças solteiras. Bernice empurra Alana, para
pegar o buquê, Gigi se esconde atrás do pai e July começa a contagem, o
buquê voa em minha direção, minuciosamente em minha direção e abro as
mãos sabendo que não foi acaso, ela sabia para onde atirar e tem boa mira, o
maço de flores bonito cai em meus braços e fico surpresa e emocionada, meu
rosto queima com a comemoração, as piadas.
— Harry já pode comprar o terno novo.
— Vamos congelar docinhos, tem casamento à vista.
— Finalmente um incentivo decente! – Eu nem sei onde me esconder
e Harry me sorri se juntando a mim também envergonhado no canto do
jardim assim que me sento.
— Sabíamos como seria. – Ele brinca e eu concordo. A festa dura
para além dos noivos e quando o dia quer amanhecer e os convidados se
foram, é hora de limpar, não tem como escapar, não tem como ignorar as
reclamações de cada Stefanos, Gigi descalça, recolhe copos e garrafas junto
com as outras moças, os rapazes carregam peso, gravatas jogadas, vestidos
erguidos, cabelos desarrumados, é tão divertido quanto a festa e apesar de
não admitirem, eles adoram.
É dia quando finalmente a limpeza acaba e começamos a nos
dispersar, eu e Harry ficamos no jardim, em um longo beijo que devia ser a
despedida, mas acaba nos levando discretos para o meu quarto de hóspedes.
Nunca deixei de tomar a pílula, acho que uma parte de mim sempre
esteve pronta para esses momentos com ele, sem me importar se somos ou
não um casal, quando estou com Harry eu sei que somos e só quero senti-lo
junto a mim, só quero amar Harry e ser amada.
Nós nos entendemos tão bem no sexo, ele simplesmente sabe o que
quero, não tem timidez, medos, atendemos nosso corpo, nos entregamos a
toda espécie de desejo, vivemos a paixão por completo, feito fogo a tomar o
feno, não há como parar, vamos ardendo juntos, perdidos na paixão que
nunca nos deixou desde a primeira vez.
Durmo em seus braços, o sol nos desperta, não quero deixar seu calor
e me encolho em seu peito enquanto seus dedos correm suaves por meus
cabelos.
— Vou cumprir Dulce, e não vai ser nada difícil para mim, porque só
quero você. – Ele me garante e meu coração rosna um tanto enciumado.
— Se não cumprir... quero saber.
— Só tem você em minha vida a partir de hoje. É uma promessa. –
Ergo meus olhos para olhar para ele. – Pode prometer o mesmo?
— Posso. Eu sei que ainda tem um tempo até estar de volta e eu me
formar, até tudo na nossa vida se acertar e termos uma chance, mas eu nunca
quis realmente mais ninguém.
Harry me beija, ouvimos agitação pela mansão, é hora de ele ir e sinto
saudade e medo, medo de Harry um dia me ligar dizendo que sente muito,
mas conheceu alguém, que esteve em uma festa, bebeu demais, que acordou
na cama de alguém. É tolice, mas eu penso nisso e sei que ele pensa também.
Porque somos jovens e a vida está sempre nos testando.
— Quer uma carona no meu avião?
— Não, está maluco? Gastar combustível assim? Vou no avião com
os Stefanos que vão para Nova York.
— Claro, eu me esqueci, é a melhor amiga da July, está sempre as
voltas com a missão de salvar o planeta. – Ele ri me beijando. – Um dia vou
ser assim.
— Vou torcer. – Beijo seus lábios e fico assistindo Harry se vestir.
— Saída discreta é missão impossível. – Ele brinca vindo me dar mais
um beijo. – Te vejo à mesa.
Passamos todo resto do fim de semana juntos, e seguimos até Atenas
no mesmo helicóptero, nos beijamos em despedida quando ele vai se reunir
aos primos para pegar o voo para Boston e eu para Nova York, dois pilotos,
dois aviões, essa família não tem mesmo noção do quão diferente é a vida
para além do dinheiro Stefanos.
Passo toda a viagem a pensar nele, quando chegamos, ainda no carro
que vai me levar para casa, com um motorista particular porque Nick
Stefanos não me deixaria ir de táxi, troco mensagem com Harry, ele está na
faculdade, acaba de chegar também.
Mamãe me recebe com um sorriso e isso me emociona, eu a abraço e
ela se emociona, como se não nos víssemos há meses.
— Que saudade! – digo a ela sentindo seu amor. – Como foi?
— Bem, sua tia acabou de sair, passou o fim de semana todinho
comigo fingindo que não era um plano seu e dela para não me deixar sozinha.
– Minha mãe me faz sorrir e dar de ombros.
— Aceitaria se eu tivesse pedido? – ela não responde, apenas me puxa
para me sentar com ela e eu me acomodo.
— Eu sei que é uma viagem longa, mas quero saber tudo. July estava
linda?
— Tão feliz, mamãe, precisava ter visto como os olhos brilhavam.
— E o Tyler, pensei tanto na avó dele, na vida dele antes e depois.
Sabia que ele tinha algum talento guardado dentro dele, mas foi o amor que
libertou aquele menino.
— Acho que sim. Ele estava nervoso, mas feliz demais, eu o vi tão
próximo de todos, em casa sabe? No começo, ele ficava constrangido, como
se estivesse no lugar errado, mas agora não, Tyler é um deles e está feliz com
isso.
— Bom saber, ele merece muito. Bárbara está bem? – ela me
pergunta e sorrio balançando a cabeça em um sim.
— Foi a daminha de honra, adorou, ela é toda exibida. – Nós duas
rimos. – Puxou a July e a Gigi, lembra da Gigi?
— Sim, ela está linda, Annie me mostrou umas fotos deles outro dia
na Associação. Harry também está muito bonito. – Eu desvio meus olhos,
nem sei se quero contar ou devo, não quero que ela crie expectativas.
— Está forte, ele adora isso. – Sorrio pensando em como ele é um
pouco vaidoso com sua aparência. – O futebol exige, mas ele gosta.
— E como foi com ele? – Ela procura minha mão, eu não consigo
evitar um sorriso. – Parece que foi bem.
— Sabe como me sinto sobre ele, não damos certo, mas eu o amo e
dessa vez... é que tinha coisas...
— Estou bem, filha, pode me contar. – É difícil, eu não quero
explicar, não quero que ela, talvez, crie mágoas sobre ele.
— Pensamos diferente, mamãe, em muitos pontos e eu... nunca dá
certo. Só isso.
— Você não é fácil. – Ela me lembra. – Sua obstinação por cuidar de
mim e de seus animais te prenderam, não é isso? Harry queria você perto dele
e você queria estar aqui e isso os afastou.
— Nunca pensei...
— Que eu soubesse? Eu sempre soube. Conheço a filha que tenho, sei
que nunca sairia de perto de mim e que só por isso não está morando em uma
dessas universidades caras por aí.
— Mãe...
— Nick e Annie fazem isso o tempo todo, ajudam jovens do Harlem a
irem para as melhores universidades, pensam em tudo, na família que fica,
nas férias, nas condições para o jovem viver longe de casa. Tyler já nos
ofereceu ajuda tantas e tantas vezes, o que mais a prenderia aqui senão eu?
Eles nunca deixariam, justo você, sem esse apoio. Te viram crescer, é a
melhor amiga da July.
— Eu não a deixaria e isso está certo. É como tem que ser.
— Talvez. – Mamãe fica triste. – Não a condeno, eu não teria
conseguido sem sua presença, ainda me sinto... nem gosto de falar.
— Pode falar qualquer coisa comigo, mamãe.
— Me sinto culpada, se não fosse por mim sua vida seria outra, às
vezes penso que morrer até ajudaria você.
É como ser mergulhada em um tonel, falta ar, luz, forças, é como
tentar submergir, mas ser engolida pela água.
— Dói, sabia? – Eu tenho sido tão paciente, é difícil ser a mãe e a
filha, viver e cuidar dela, abrir mão de tanto e ainda não saber se no fim ela
vai acabar com tudo em um segundo de distração minha. – Não pode nem
mesmo pensar nisso, mãe. Só tenho você, é você que me mostra quem eu sou,
eles são bons, eu sei que me amam, que me ajudam e cuidariam de mim se
fosse preciso, mas é você minha mãe, minha referência, com você aprendi
nossa língua, nossos costumes, somos mexicanas, ainda que eu tenha nascido
aqui, tudo que eu sou aprendi com você.
— Disse que eu podia dizer qualquer coisa.
— Eu sei, mãe, e pode, é que não pode me impedir de reagir, eu... eu
te amo e todos os dias eu temo que faça uma tolice sem volta.
— Não vou fazer, mesmo que seja um pouco meu desejo, tenho
resistido para te dar uma chance porque eu estraguei tudo para você. Harry te
ama, mas não ficam juntos e eu sei que um pouco é por mim.
— Não. É porque somos ciumentos, infantis, teimosos. Não tem nada
a ver com você e esse fim de semana foi bom para entendermos bem isso.
Não tem qualquer culpa.
— Está certo, mas precisa cuidar mais de você, dos seus sonhos. Não
pode querer tudo do seu jeito sempre, eu acho que ao menos as vezes, ele tem
razão.
— Eu também acho. – digo tentando sorrir e dominar minha angústia.
– Sou teimosa, mamãe, ele também, então dá nisso, não é sobre você, nunca
pense que é.
— Tudo bem, volte para sua vida. Tenho certeza de que quer um
banho e umas horas de sono, amanhã volta a trabalhar e estudar e foi uma
longa viagem.
Abraço minha mãe, sinto que enquanto estiver tomando a medicação
e frequentando a terapia, ela estará segura, quem sabe dizer o que disse hoje
seja de algum modo uma libertação.
Depois do banho e de um prato de sopa eu me acomodo, ela já está
dormindo, os remédios sempre a levam cedo para cama, ligo a televisão e
penso em ligar, não sei se ele está dormindo, amanhã tem aula e eu trabalho,
mas o que tem demais ligar para um boa noite?
Pego meu celular e no instante que toco na tela ele toca e o rosto de
Harry surge me deixando emocionada.
— Juro que ia te ligar neste segundo. – conto antes mesmo de um
“boa noite”.
— Saudade?
— Sim.
— Então vai comigo ao casamento do Luka. – Ele convida.
— Harry, ele... acha que ele me convidaria? É meio estranho, não
somos próximos.
— Luka é próximo de todo mundo, ele adoraria me ver feliz e se for
comigo é como vou me sentir.
— Aceito. – Nem quero ficar analisando muito, só quero estar de
novo com ele. – Vou com você.
— Me pegou desprevenido. – Harry responde rindo. – Achei que teria
que implorar.
— Quero ir com você. Aliás, quero que chegue logo.
— Eu também, vamos fazer assim, eu pego um voo para casa e
partimos juntos, a família vai toda, mas quero chegar lá com você.
— Vou me sentir melhor assim. Menos de um mês. Harry eu...
— Eu também. Agora vou te deixar dormir, eu sei que sai bem cedo.
Boa noite, mexicana linda.
— Boa noite. Até...
— Amanhã, te ligo amanhã.
— Eu espero. Boa noite. – Desligo sorrindo, é novo isso, nenhuma
briga ou acusação, só um momento suave e feliz. Fecho meus olhos
desejando acordar na hora de partir de volta para a Grécia, dessa vez ao lado
dele.
Capítulo 20
Harry

A igreja está luxuosa, a ilha toda está reunida, é mais do que um


casamento Stefanos, é como o casamento do príncipe, é como Luka é visto
aqui, um príncipe que ama e é amado por seu povo, um príncipe que se casa
com uma plebeia e com isso, realiza o sonho de toda ilha.
— Que lindo, eu nunca tinha visto nada assim nos outros casamentos,
todo mundo nas portas, em volta da igreja, não tem ninguém da ilha de fora
da comemoração.
— Dulce, Luka é muito amado por aqui. – conto em um sussurro, ela
está linda como todas as vezes, sentada ao meu lado, emocionada a observar
a igreja e os convidados. Ariana está no altar com Cristus e quanto orgulho se
pode ver nos olhos deles.
— Olha sua tia Lissa, ela deve ser mesmo a mulher mais linda da
Grécia. – Dulce sussurra e balanço a cabeça em uma afirmação. Tia Lissa é
mesmo linda e muito especial para todos por aqui.
— Sabia que foi a avó da Bia que fez o vestido de casamento da tia
Lissa? Dizem que a ilha não gostava muito da tia, e quando ela escolheu fazer
o vestido aqui e não vir de Paris, como todos acharam, as coisas começaram a
mudar, hoje não tem uma pessoa que não a ame profundamente.
Dulce sorri olhando para Luka ansioso no altar, ele está feliz como
um menino, Luka é um menino, um Peter Pan assumido que faz todos em
torno felizes, capaz de voar, Luka não teme nada, nem mesmo o amor.
— Vai começar. – Dulce diz ansiosa apertando mais minha mão, mais
ansiosa que esteve no casamento da melhor amiga, acho que o clima hoje é
assim, cheio de expectativa.
Bia surge linda, é um vestido com cara de noiva, muito branco, muita
saia, devia olhar para ela, mas os olhos de Dulce têm um brilho apaixonante e
por um momento, eu me concentro em seu calor e emoção e rezo silencioso
para um dia sermos nós.
— Que se dane. Sou Luka Stefanos e só faço o que quero! – É a frase
de Luka antes de deixar o altar e caminhar para ela. Dulce se emociona ainda
mais, todos se emocionam com o gesto, meu primo é mesmo um maluco
apaixonado e romântico.
Bia está tão nervosa que deixa cair o buquê e está Luka a recolher e
caminhar com ele na mão em direção ao altar.
Os noivos se posicionam, o padre começa a falar e tenho certeza de
que meu primo não está ouvindo uma só palavra. Envolvido demais com seu
próprio coração para ouvir algo além dele.
Dulce seca uma lágrima depois de ouvir as juras. Deixo sua mão para
envolver seu corpo, acho que nunca a vi tão emocionada. Realmente é um
amor bonito esse que meu primo vive e agora com gêmeos a caminho, nem o
imagino pai.
O casal deixa a igreja seguidos por todos nós, Dulce ainda secando
lágrimas junto com July e eu e Tyler apenas sem saber bem o que fazer com
elas.
Na mansão, as pessoas dispersam, Dulce e July vão retocar a
maquiagem e meu pai e os tios cercam Luka.
― Então agora o noivo leva o buquê? Que gracioso — tio Ulisses
brinca. — Vai para a lista dos melhores casamentos.
― Melhor foi a parte que eles não esperaram o padre declarar casados
e mandar beijar. O padre um dia ainda vai se recusar a casar Stefanos —
Papai continua enquanto eu e Tyler assistimos rindo dele. — A cara do Leon
foi ótima.
― Nada se compara àquela tentativa de enganar o padre sobre bebês
— tio Nick admite.
― Inesquecível mesmo foram as lágrimas. — Tyler ajuda a provocar.
— Tão sensível esse noivo.
— Eu não ligo para vocês, estou tão feliz, chorei mesmo, fiz
declaração, carreguei o buquê, minha dinossaura merece, além disso, eu nem
sei se o padre conseguiu encontrá-la dentro do vestido, eu tinha que fazer
algo.
Bia, não liga para as brincadeiras de Luka, tudo parece diverti-la, ela
se entrega a esse amor sem medo.
As garotas retornam do banheiro, Dulce estava linda quando foi, está
ainda mais linda agora. Ela procura minha mão, é bom ser procurado por ela,
sentir que de novo Dulce é meu par.
Luka tira do bolso o lenço de cetim, ele é grego por completo, cada
parte dele pertence a Grécia, está em seu sangue, alma, coração.
— Está na hora do Kalamatianos! – ele declara e no mesmo instante,
enquanto puxa a mão de Bia, a música típica começa e lá estão todos os
gregos a dançar.
Os Stefanos vão um a um se juntando à dança, unindo mãos em uma
dança típica que aprendi como por osmose.
— Vem, Dulce. – decido me juntar a todos, meio que no susto ela me
acompanha e eu me deixo ser feliz por inteiro, dançar e comemorar com os
meus, rir e me emocionar vendo todos nós, envolvidos em uma grande roda,
mãos dadas a dançar o Kalamatianos, como fazia tempo não dançávamos.
Quando voltamos a nos sentar Dulce está ofegante e feliz, os olhos
brilham, tem tanta gente misturada, tudo é tão mais alegre e vivo, com cada
pequena tradição grega sendo respeitada, vejo até Ariana passar com uma
colher de mel.
— Olha Dulce, ela vai dar mel aos noivos, para o amor ser doce entre
eles.
— Mais doce? – ela brinca me fazendo rir.
— Achei legal o Luka usar tudo, porque normalmente quase toda
família vive fora da Grécia e já não usamos tanto as tradições gregas, é tudo
sempre uma grande mistura de tradições, mas este é sem dúvida um
casamento grego.
No meio da festa, Luka começa a quebrar pratos, Dulce arregala os
olhos, beijo sua mão presa a minha.
— Vem, vamos quebrar também, é para trazer prosperidade e sorte.
— Minha mãe morreria se visse esses pratos lindos sendo
arremessados. – Ela fecha os olhos quando mais um prato é quebrado no
meio da pista. Atiro um prato, ela faz o mesmo. Tímida nem o quebra direito,
são muitos pratos e então a música retorna.
Por um tempo, separo-me de Dulce, ela se reúne às garotas, July quer
contar um pouco da lua de mel, Danny se junta a mim.
— O Potter estava roubando comida, quase não consigo impedi-lo de
mergulhar na piscina e a Lily se grudou com a bolsa brilhante de uma
convidada, por que a gente ainda vem nessas festas? Só passamos vergonha.
— Estranho é o tio não fechar o porto e o espaço aéreo da ilha cada
vez que nos aproximamos. – digo a ele que faz uma careta.
— Nunca vai saber como é duro ser o mais novo, Harry. – Ele olha
para o tio Nick que no momento tem Bárbara e Thiago no colo enquanto uma
parte dos convidados recolhe a louça quebrada. – Sinto que só mesmo o tio
Nick pode me entender.
— Que drama, Danny. – Rio do meu irmão. Ele puxa seu bloquinho
de desenho e um lápis. – Estou fazendo as ilustrações do livro da Bia, ela é
boa, vão publicar se ela deixar, vai ser bem legal.
— Parabéns, vai ser legal para você também, aproveita enquanto
pode, quando chegar à faculdade não vai ter tempo para desenhos. Pode
tentar um esporte, quem sabe?
Danny faz uma careta engraçada, ele não tem nenhum talento para
isso. É até engraçado, é o menos esportista de todos.
— Você e a Dulce voltaram?
— Não. Vamos com calma, para não estragar tudo de novo.
— Vocês são esquisitos, calma? Namora com ela a vida toda, toda
vez que acho que terminou ela reaparece.
— Somos Stefanos, só amamos uma vez, o que eu posso fazer?
— Quem sabe eu tenho mais o sangue da mamãe? Não quero me
apaixonar não.
— Mas vai, está escrito. – eu aviso a ele que dá de ombros.
— Acho que a Lily acaba de ir para baixo do vestido da Bia.
— Coitada, nunca mais vai ser encontrada. – Danny faz uma cara
engraçada de pavor.
— Vou atrás da Emma, eu que não vou mergulhar debaixo do vestido
da noiva para pegar o cachorro.
— Acho que não é boa ideia, Luka vai começar com aquela coisa do
lado esquerdo formigando.
— Verdade. Emma! – Danny grita pela irmã. – A mamãe, Harry,
distraí ela enquanto resolvo o problema.
Sempre temos que nos meter em encrenca por causa desses meninos,
devíamos ganhar prêmio de irmãos do ano.
— Oi, mamãe. Feliz?
— O que o Potter aprontou, Harry. – ela responde colocando as mãos
na cintura e reviro os olhos, algum dia vamos ser capazes de enganar Liv
Stefanos? Acho que não.
— Errou, foi a Lily! – Minha mãe suspira, mas quando corre os olhos
pela festa, Lily está no colo de Emma.
— Parece que já foi resolvido. Ah! – Ela se volta. – Estou muito feliz
e esperando quando é que eu vou ser a mãe do noivo!
— Pergunta para o Danny! – digo rindo, ela aponta Dulce que agora
conversa com Gigi.
— Gostei que a trouxe. – Minha mãe me beija o rosto. – Agora vá se
divertir.
Junto-me ao grupo na hora em que Luka anuncia o buquê. As garotas
sempre se divertem nessa hora, Gigi fugindo como sempre, mas dessa vez, é
Luka que pretende atirá-lo.
― Sai daí, Luka! — provoco Luka.
― É noivo. Pare de nos constranger! — Josh continua.
― Não sai, não. Espera eu ligar a câmera. — Meu tio Ulisses pega
seu celular.
― Quem carregou o buquê? — Ele nos provoca.
― Você! — gritamos.
― Então eu atiro o buquê e começamos uma nova tradição com
homens e mulheres tentando pegar o buquê.
Alguns apoiam, outros negam e tem quem apenas ria como eu e Dulce
sem saber bem como lidar com essa nova tradição.
― Isso vai dar azar. Acaba que quem pegar não casa! — Matt brinca
e Giovanna corre para se posicionar na frente de Luka.
― Para mim, Luka. Toda ajuda é bem-vinda! — Ela estica as mãos,
em torno dela um grupo de jovens e solteiros se aglomera.
― Eu já estive desse lado. Não adianta, uma hora ela ou ele surge e aí
é tarde! Você se casa com a pessoa e nem se importa se bem no dia do
casamento ela se parece com... – Luka provoca Bia.
― Luka! — Bia choraminga.
― Uma princesa eu ia dizer. Não ia pessoal?
― Não. — Um coro ressoa pela festa.
― Não adianta terem medo do buquê. Eu vi a Bia escrever o nome de
todas as solteiras na sola do sapato. Não foi, dinossaura?
― Comecei pela Giovanna. — Gigi arregala os olhos.
― Vou aí olhar! — ela ameaça.
― Eu escrevi o nome da Bia na sola do meu e olha aí! — A irmã da
Bia confessa para surpresa de Luka.
― Coloca a koufeta debaixo do travesseiro essa noite, Gigi, e vai
sonhar com seu futuro marido — Ariana avisa.
― Alguém molhou a Ariana? — Gigi responde. Depois corre até ela e
envolve seu pescoço, beija seu rosto e ganha um abraço.
― Chega de conversa, Luka. Atira logo esse buquê! — meu pai pede.
— Dulce presta atenção. Estou querendo uma nora. – Meu pai avisa sem
qualquer cerimônia e vejo o rosto de Dulce corar de vergonha.
― Um... — O buquê voa pelos ares quando menos esperamos. Ele
não conta nem o dois. O buquê vai direto para as mãos de Giovanna. Como
se o arranjo pegasse fogo ela o atira em outra direção e ele acaba nas mãos de
Ryan.
― Giovanna! — ele reclama bravo. Depois joga mais uma vez e
então cai nos meus braços. Não me atrevo a continuar com a dança do buquê,
fico com ele a queimar minhas mãos e meu rosto. Dulce, como eu, sem saber
o que fazer.
― Vem, Monte Everest! — Luka puxa Bia para longe enquanto
ganho os olhares.
A festa continua, eu com o buquê na mão sem saber direito como me
comportar, ela um tanto tímida acaba indo se sentar um pouco.
Eu me sento ao lado de Dulce, ainda carrego o buquê que deixo sobre
a mesa. Ela ri de mim, pega o arranjo na mão.
― É lindo. Inovando! — comenta num meio sorriso, depois deixa o
buquê de volta na mesa. — O noivo joga e um homem pega. Só nessa sua
família.
― Desculpe o constrangimento. Eles pressionam sem dó. — Dulce
suspira. Encara a pista de dança cheia de gente ainda. Acho que é o mais
animado casamento Stefanos.
Às vezes acho que meu lado inglês é mais forte. Não sou tão efusivo
como Luka ou mesmo os outros. Talvez quisesse um casamento mais
clássico, de qualquer modo para conseguir isso eu teria que nascer de novo
em outra família e estou longe de desejar isso. Amo cada um deles com tudo
que tenho.
― Estou acostumada, Harry. Sua mãe me dá indiretas em cada
pequeno momento que temos juntas. Isso quando não é bem clara e objetiva.
― Do tipo? — pergunto meio com medo da resposta.
― Quando você e Harry vão casar? Não aguento mais esperar. —
Ergo uma sobrancelha sem saber o que dizer. — Está tudo bem. — Ela toca
meu ombro como se tentando me animar.
― Ainda bem que é assim despreocupada. — Dulce ri, toma um gole
do vinho.
— Vem, vamos dançar. – convido feliz no fim das contas, quem sabe
é mesmo um presságio?
― Acho que nunca te vi dançar tanto, Harry.
― Na Grécia como os gregos. — brinco puxando sua mão. Dulce
vem comigo. — Andou treinando com a July? — pergunto me dando conta
do seu talento na dança típica.
― Na Grécia como os gregos — Ela diz em voz alta para ser ouvida.
Quando os noivos partem, metade da família já está na piscina. Dulce
me puxa pela mão e acabamos os dois na água como os outros.
Uma bola surge e a brincadeira e o riso se espalham. O céu começa a
clarear e as pessoas ainda estão rindo, brincando e bebendo.
― Acho que chega — Dulce diz se apoiando na borda da piscina. —
Que acha de vermos o sol nascer? — Beijo seu ombro úmido.
― Vem. Eu tenho o lugar perfeito para isso. — Deixo a piscina pego
uma toalha e entrego a ela. Dulce usa o vestido do casamento. Ele cola em
sua pele e ela consegue ficar ainda mais linda. Seca o rosto, os cabelos longos
e passa a toalha por sobre o vestido. Fico assistindo um pouco hipnotizado.
― Vamos? — ela convida.
― Onde? — Perco-me um pouco nos olhos escuros. O rosto bonito de
pele bronzeada.
― Ver o sol nascer, Harry! — Dulce ri. — Está com sono?
― Não é que eu só... você sabe. Está linda. — Ela abre um sorriso
grande dos que só mesmo Dulce sabe dar. Ilumina a minha vida.
Eu a puxo pela mão até os fundos da mansão, depois entro no prédio
que foi construído quando eu era quase um bebê para acomodar os Stefanos.
Subimos pela lateral até o terraço, deve ser uma das melhores vistas da ilha e
além do meu tio Ulisses, os membros na família não costumam frequentar
esse lugar.
― Nunca tinha subido aqui — Ela declara surpresa com o espaço
aberto. — É lindo.
― Sim. — Uma rajada de vento sopra e ela cruza os braços, deve ser
o horário menos quente na ilha. ― Com frio?
― Nada demais. É só a roupa molhada. — Passo meu braço por seus
ombros e a trago para perto de mim.
― Aqueço você. — Ficamos sentados no beiral, abraçados olhando a
noite sumir discretamente e o dia surgir naquele pedaço de paraíso.
― Foi um casamento tão bonito — Ela comenta com os olhos
perdidos na paisagem.
― Nunca pensei que veria o Luka assim. Perdido de amor, ele era
completamente contra casamentos.
― A Bia é encantadora, dá para entender. Quando ela fala, parece
mesmo o cristal que ele diz.
― Foi um casamento como todo mundo imaginou que seria. Luka
ama as tradições gregas. Acho que eu herdei mais o lado inglês.
Dulce se afasta um instante para me olhar desconfiada, depois volta a
se encostar.
― Que foi?
― Você é completamente grego, Harry. De inglês só tem o nome.
― Acha? – Fico surpreso com essa opinião inesperada.
― Barulhento, dramático, exagerado. – Ela enumera sem piedade
enquanto ri olhando o dia surgir.
― São críticas ou elogios? Estou meio na dúvida.
― Apenas fatos — Dulce constada sem parar de rir da minha
surpresa. — Se lembra da nossa primeira vez?
― Como se fosse hoje. — Ela se move e ficamos de frente um para o
outro, afasto os cabelos longos e úmidos. Dulce está com os olhos cheios de
recordações divertidas. — Às vezes acho que foi tão cedo. Fui muito
irresponsável.
― Eu tinha 15 anos, mas você tinha só 16 anos, então não foi mais
irresponsável que eu. A gente não sabia que ia acontecer até já estar
acontecendo.
― Eu e você sozinhos no quarto. Dois apaixonados em começo de
namoro. Fomos longe demais. – E foi especial mesmo assim.
― E sem proteção.
― Nossa você passou duas semanas chorando até a menstruação
chegar.
― É isso que queria lembrar. Como você se comportou. Se lembra?
Queria contar aos seus pais, casar comigo, alugar uma casa. — Ela ri e acabo
rindo também com as memórias divertidas do começo de namoro. — Pulou o
muro da escola uma dúzia de vezes, nesses dias, só para ficar comigo. Com
medo de algo me acontecer.
― A Giovanna me ensinou a pular, ensinou metade dos primos. —
Gigi sempre encrencada. ― No dia que sua menstruação chegou eu acho que
fiquei até um pouco decepcionado.
― Não duvido. Não estou reclamando. — Ela me garante
emocionada com as lembranças. — Se não tivesse se comportado daquele
jeito eu não teria suportado. É que eu sabia que não estava sozinha e isso me
ajudou a aguentar. Minha mãe já andava depressiva naquela época e eu
morria de medo dela.
― Sim. Eu me lembro, falamos como se tivesse acontecido há uma
década, nem faz tanto tempo assim.
― Dois garotos. Olhando agora foi o maior drama. Só foi acontecer
de novo seis meses depois. — Eu me lembro. Dessa vez estávamos
preparados e protegidos, começamos a namorar oficialmente e um ano depois
estávamos terminando.
― Olha aí seu lado grego — Dulce diz chegando mais perto. — O
lado dramático. Foi do começo do namoro direto para o término. Posso ver
pelo olhar.
― Me conhece. Além disso, sempre que tem um casamento eu penso
nisso, em nós dois. — Dulce me olha de um modo profundo. Com seus
grandes olhos negros expressivos.
― Eu consigo nos ver assim, Harry. Em algum momento no futuro,
nós dois sabemos que vai acontecer. – Sua voz soa emocionada e me toca a
alma.
― Um dia depois da formatura? — Ela sorri.
― Grego! – diz confirmando sua opinião sobre mim. — Não sei. As
coisas melhoraram nas últimas semanas. Estamos mais maduros. Nenhuma
discussão desde que estivemos aqui no casamento da July. Falamos todos os
dias e nada de brigas ou cobranças. Nenhuma insegurança minha. — Ou
ataque de ciúme. Ela gosta de chamar de insegurança, mas às vezes parece
meu pai. — Nem sua. Não olhe como se eu fosse a única ciumenta.
― Eu sei. Assim como sei que quando estivermos no mesmo estado
as coisas melhoram.
― Gostei que foi me buscar para o casamento do Luka.
― Achei que não viria.
― Estou perdendo aulas, mas queria estar aqui. Estar aqui com você.
Senti saudade.
― Também senti. — O céu agora está claro. O sol surgiu enquanto
nos distraímos um com o outro. Escuto risadas na piscina. Alguns ainda estão
lá e sei quem são mesmo sem vê-los. — Ainda estão se divertindo. Acho que
Luka contagiou a todos. Não me lembro de outra festa que não terminasse
com todo mundo trabalhando para limpar.
― Melhor irmos dormir. Daqui a pouco vamos ter que começar com a
arrumação. – ela diz passando a mão pelos braços nus, o vestido úmido não
há de fazer bem a ela.
― Pode apostar. — Ficamos de pé. Acompanho Dulce até seu quarto.
Normalmente ela fica na mansão. Num dos quartos de hóspedes, mas dessa
vez ficou com Emma. — Dorme comigo hoje? — Convido na porta do
quarto. Trago Dulce para meus braços. Ela toca meu rosto, se estica um
pouco para beijar meus lábios.
― É difícil resistir — ela confessa.
― Então vem, não resiste não. — Puxo de leve sua mão e Dulce
simplesmente me acompanha. Não é a primeira vez que dormimos juntos
aqui. Sempre somos discretos, os Stefanos adoram detalhes e para evitar,
nunca deixamos nos verem dormindo juntos, já estive no quarto de hóspedes
com ela e Dulce já esteve em meu quarto.
Fecho a porta depois que ela passa. O quarto está iluminado pelo dia
já claro, ela fica me olhando de pé ao lado da cama. O vestido ainda úmido,
os olhos vivos, meu coração acelera, sempre sinto falta dela.
Nunca me acostumei que acabou e quando temos esses momentos me
sinto vivo de novo.
Sem tirar os olhos de mim Dulce tira o vestido. A peça vai para o
chão revelando a beleza da pele bronzeada e suas curvas latinas. Minha
camisa segue o caminho do vestido. Meu corpo se cola ao dela e sinto a pele
suave se arrepiar assim como a minha.
A mão toca meu peito, desce por ele sentindo meus músculos e me
sinto inflamar. Nós dois sabemos onde ir quando estamos juntos.
Aprendemos tudo juntos. Cheios de curiosidade e desejo, agora o caminho é
conhecido e nem por isso sem graça.
― Sinto sua falta, Harry. Falta disso — Dulce confessa pouco antes
de meus lábios tomarem os seus. Depois nos perdemos mais uma vez. Quem
sabe para sempre.
Dessa vez vou ser cuidadoso, proteger nossa história, cuidar do nosso
amor até que estejamos prontos para uma família. Tudo tem seu tempo e o
nosso vai chegar.
Capítulo 21
Dulce

Mudar de emprego não foi uma ideia muito boa, é bem mais longe de
casa e o último ano me deixou totalmente esgotada, é preciso sair bem mais
cedo para chegar ao trabalho, não dá mais tempo de ir até minha casa depois
do trabalho e corro para a faculdade, quando chego em casa, depois das 11h,
ainda tenho que mergulhar de cabeça nos estudos.
Ser assistente de um veterinário até que me ensina muito, mas ainda
me deixa longe da minha mãe, longe de mais, muito tempo para mim.
Vi Harry duas vezes nos últimos meses, foi perfeito, nenhuma briga,
cobrança, só lindos momentos juntos, mas é tão difícil achar tempo para nós
dois. Ele está finalmente se formando.
Foi uma semana intensa de provas, eu nem sei como consegui, uma
semana que quase nem dormi, mas acabou, correu tudo bem e agora tenho
uns dias livres, mais uns dois dias de aula e merecidas férias.
Harry vai estar de volta, de volta para sempre e isso me enche de
esperança. Logo minha vida também se ajeita e talvez a gente possa
finalmente dar certo.
Entro no metrô às 6h05 da tarde, pronta para mais uma noite de aulas,
vamos assistir uma cirurgia e eu me sinto animada.
O metrô está lotado, mas são apenas quatro estações até a faculdade,
fico de pé e quando meu celular toca eu penso em não atender, mas me
contorço para pegá-lo na bolsa, sempre pode ser minha mãe. Temos nos
falado quase nada essa semana, quando chego ela já está dormindo e tenho
saído antes que ela deixe o quarto para o trabalho.
O número é desconhecido e decido atender mesmo assim, levo o
celular ao ouvido curiosa.
— Boa noite. – Uma voz feminina me cumprimenta. – Aqui é do Ford
e Associados, sou a assistente do senhor Ford. – O escritório em que mamãe
trabalha, as portas do metrô abrem e decido descer, algo pode ter acontecido
com minha mãe.
— Minha mãe está bem?
— Esperava que você pudesse me dizer. – A mulher diz me deixando
confusa. – Anita não vem trabalhar há uma semana.
O chão parece escapar dos meus pés, apoio-me na parede, fecho os
olhos um instante, o trem ganha velocidade deixando a estação e não consigo
ouvir o que a mulher diz, tampo o ouvido livre.
— ... e pensamos que saberia nos dizer se ela está doente.
— Eu... eu... ela não telefonou?
— É como acabei de dizer, ela não nos avisou nada, tem faltado todos
os dias e pensamos que saberia nos dizer se está doente.
— Ela... – Mentir não serve de nada. – Ela está com depressão,
quando a contrataram ela contou. Ela está no meio de uma crise e eu sinto
não ter informado. – Eu não sabia. – Mas ela está se tratando, eu prometo que
assim que possível ela vai procurá-los, mas por enquanto...
— Nós compreendemos, eu vou comunicar o senhor Ford e tenho
certeza de que ele vai se solidarizar com essa situação.
— Obrigada, senhora. – A mulher desliga e fico assistindo outro trem
chegar, pessoas subirem e saltarem cheias de pressa, ocupando as escadas e a
passarela entre as estações e meu coração sangra, eu não vi acontecer,
mergulhei na minha vida, nos estudos, trabalho, no amor e não vi que ela não
estava bem.
Corro para casa, uma parte de mim com medo, e se ela fez uma tolice,
e se está prestes a fazer? Ela sempre diz coisas assim quando está em crise.
Pego um novo metrô, dessa vez em sentido contrário, atravesso
estações sem conseguir pensar, desesperada e se não fosse o trânsito infernal
que trava Nova York às 6h eu teria ido de táxi, salto do metro e corro pelas
ruas, atravesso avenidas e quando finalmente chego a casa meu coração está
batendo apressado.
A casa está silenciosa, a cadelinha de pelos amarelos me olha surpresa
e confusa, o chão está cheio de pedacinhos de espuma e não demoro a
descobrir que ela destruiu uma almofada, mas não tenho tempo para achar
graça.
Ando até a porta de minha mãe, semiaberta deixando a escuridão do
quarto me invadir, ontem à noite eu cheguei tarde, entrei, beijei seu rosto, vi
o vidro do remédio ao lado da cama, a bolsa sobre o móvel e pensei que ela
estava apenas cansada, tem sido assim a semana toda, a última vez que a vi
de pé, foi no último domingo, fiz o jantar, ela tentou comer comigo, mas
estava sem fome e preferiu um copo de leite antes de dormir.
Meu coração se aperta enquanto empurro a porta com medo do que
vou encontrar, está tudo exatamente como na noite anterior, a bolsa, o
remédio e minha mãe dormindo. Sento-me na cama, toco seu ombro, está
dormindo profundamente e preciso chacoalhar seu braço para que desperte.
— Mamãe! – Ela me olha. – Precisamos falar. Sente-se um pouco, por
favor.
— Filha... não pode ser amanhã, estou tão cansada. O dia foi corrido
no escritório hoje.
— Não foi, mamãe, você não foi, não vai há uma semana, mãe, por
favor, sente-se, converse comigo.
Imediatamente seus olhos marejam, eu deixo a cama, acendo a luz e
abro as janelas, uma lufada de vento morno entra no quarto, ela fecha os
olhos incomodada com a luz, está tão pálida e abatida. As lágrimas correndo.
— Eu estava sufocada, eu não conseguia mais ir àquele trabalho, eu
precisava de uns dias, só uns dias. – Vou até o vidro de remédio, está cheio,
poderia contar os comprimidos, não é preciso, ela não está tomando, posso
ver em seus olhos. – Tem me feito mal, Dulce eu estou esgotada, eu não
quero mais isso... não quero nada, o que pode ter de errado em alguém que
quer apenas se deitar e dormir?
— Foi a terapia? – ela nega.
— Fui na segunda, deixei a cama e fui, mesmo não indo trabalhar,
mas ontem... eu não queria ir, mas não quer dizer que não vá nunca mais, só
uma falta.
— Vem, vamos lá na sala, você deu água e comida para a pequena?
— Sim, Dulce, eu não sou um monstro, não deixaria a cachorra
morrer.
— Não pensei isso, mamãe. – Afasto suas cobertas, os cabelos estão
grudados na cabeça. Não quero chorar em sua frente. – Que acha de um
banho, eu preparo o jantar, não anda comendo, não é? Eu sei, eu pensei que
estava comendo fora, mas não... você não está se alimentando.
Tento puxá-la para ficar de pé, ela nega balançando a cabeça. Eu
insisto e ela me empurra e fica de pé, seu corpo enfraquece no mesmo
instante e a visão falha, sou eu a segurá-la antes que caía. É impossível não
chorar, é minha mãe.
— Não chora, estou bem, deixa eu deitar que a tontura passa.
Eu a ajudo a voltar para cama, ela puxa as cobertas sobre si, fecha os
olhos enquanto suas lágrimas correm, não dou conta dela sozinha, ela precisa
de ajuda profissional e tudo que queria era poder me encolher nos braços de
Harry e fingir que minha vida não é essa e sim a vida perfeita dele.
Pego o telefone sabendo que só Nick e Annie podem me ajudar agora,
porque ela os escuta e porque eles estão perto o bastante para virem
imediatamente.
— Annie... – Assim que escuto sua voz só consigo me derreter em
lágrimas. – Annie ela vai morrer, eu não sei mais como cuidar dela.
— Dulce... calma. Príncipe, temos que ir à casa da Dulce. – Eu sabia
que viriam. – Dulce, estamos indo, está bem? Só... fica calma. Bárbara, vá
ficar na casa do seu irmão.
— Qual? – A voz suave de Bárbara soa distante.
— Qualquer um, querida. Calça os sapatos, mamãe leva. Já estamos
chegando, Dulce.
— Obrigada. – Desligo e me dobro encolhida no sofá, uma crise de
choro me toma e eu estou tão cansada, tão cansada de tudo, eu não consigo
mais.
O casal chega em meia hora, assim que abro a porta e os vejo eu
ganho esperança, Nick é o primeiro a me abraçar, ele me acolhe gentil e me
faz sentir segura.
— Ela está aqui? – Annie pergunta.
— No quarto, não come, não toma os remédios, não vai ao trabalho,
eu acho que nem banho ela tomou. – Sinto vergonha de admitir que não vi
acontecer. – Foi semana de prova, eu agora vou do trabalho direto para aula,
saio muito cedo e chego muito tarde, eu não... eu não estive prestando
atenção. – admito por fim.
— Ei, não é hora para culpa, está bem? – Nick diz tranquilo. – Dulce,
nós viemos conversando. – Ele me faz olhar para ele, as mãos em meus
ombros. – Precisa cuidar de si, estudar, tem mais um ano pela frente, é um
ano importante. – Balanço a cabeça concordando. – Escute, não é errado
levar sua mãe para uma clínica, com assistência e terapia 24 horas por dia, ela
precisa disso, é perigoso deixá-la aqui, ela pode...
— Ela vai, eu sinto que vai fazer isso cedo ou tarde. – digo chorando
e Annie me abraça.
— Não vai, nós viemos prontos, já conversei com a terapeuta dela, ela
está conseguindo uma internação.
— Amanhã pela manhã levamos sua mãe, se concordar é claro.
— Nick, eu não sei se ela vai aceitar.
— Vai. – Annie é decidida. – Sua mãe é acima de tudo uma mãe e eu
vou mostrar a ela que é o melhor que ela pode fazer por você.
— Obrigada. Ela... ela não está muito apresentável. – digo quando
eles olham para a porta do quarto. – Está vestida, Nick. Pode ir junto. – Ele
me beija a testa. O casal entra e fico na sala, a cadelinha não tem a menor
ideia do que se passa, é tão linda, lembra Potter e isso só me dá mais saudade
de Harry.
Uma hora com eles dentro do quarto e então Nick sai com um sorriso.
Se acomoda ao meu lado.
— Annie está ajudando sua mãe a tomar banho, ela já fez a mala. –
Meu coração fica minúsculo. – Não se culpe. – Ele me pede e balanço a
cabeça em um sim mudo. – Pedi o jantar para vocês, Annie trocou os lençóis,
coma com ela e passe a noite com sua mãe. Amanhã bem cedo eu venho
buscá-la. Você fica, Dulce, não é algo que precise ver.
— Eu nunca vou poder agradecer. – ele nega.
— Minha gatinha é boa nisso, ela a convenceu.
— Sua gatinha é incrível.
— Estivemos nesse mundo de dor da sua mãe, Dulce, não é muito
difícil de compreender, sabemos um pouco como ela se sente, é talvez por
isso que ela fique à vontade para se abrir, não é escolha dela estar assim.
— Eu sei. – Nick olha para a cachorrinha e sorri.
— Me faz lembrar o Dobby, ela vai ficar bem grande. – ele diz com
olhos cheios de saudade. Foi em um Natal, eu e o Heitor tivemos um
trabalhão para enfiar o bichinho em uma caixa e Lizzie ficou tão feliz.
Obriguei meu irmão, tive que largar tudo e ir a Londres. Ele não sabia que
amava cachorros. Ele foi uma ótima babá para o Harry.
Que saudade dele, do seu abraço, suspiro secando lágrimas e Annie
deixa o quarto, as mangas de sua blusa úmidas, ela realmente precisou ajudar
minha mãe a tomar banho e isso me mata mais um pouco.
— Ela vai ficar bem, querida. – Assim que a comida chega eles me
deixam, mamãe está sentada na cama, a luz acesa e os cabelos úmidos, tem
olhos tristes e culpados, beijo seu rosto.
— Vamos comer na cama assistindo um filme? – ela concorda sem
dizer nada. – Posso dormir aqui com você?
— Vou gostar muito. – ela avisa já sonolenta. Não come muito, mas
como o bastante para não desmaiar. Encolho-me a seu lado querendo
aproveitar um pouco dela, amanhã ela vai se internar e eu não sei por quanto
tempo e nem como vou ficar aqui sozinha.
Minha mãe dorme pesado até às 6h da manhã, quando me acorda para
ficar me olhando um longo momento.
— Vou fazer isso por você, e enquanto estiver fora tente aproveitar
um pouco a vida, não é sua culpa, eu que fiz tudo errado e nos trouxe até
aqui, nessa vida...
— Boa mãe, para uma mulher que não pôde estudar e veio de outro
país. Uma vida feliz. – Ela me afaga os cabelos.
— Eles vêm me apanhar às 7h, você não vai junto, foi tudo que pedi.
Ela se veste sem deixar de chorar em silêncio, uma dor tão profunda e
muda, eu assisto calada, aproveitando mesmo suas lágrimas, porque por um
tempo, não vou ter nada dela.
Isso me dá tanto medo, medo de acabar assim, é tão difícil ficar sem
ele, quando Harry está comigo então tudo parece tão possível, mas sozinha eu
só sinto pena de mim e cansaço, tomar as decisões sozinha a vida toda cansa,
crescer sem ter direito de cometer erros, sem poder me aventurar com ele, eu
errei ou acertei? Acho que nunca vou saber.
— Deixa-me ir com você, por favor, mamãe. – Um desespero toma
conta de mim. – Até a porta, eu não entro, por favor. – Ela me abraça e
afirma sem dizer nada, ninguém recusa minha presença e passo o tempo todo
segurando sua mão.
Ela me abraça forte quando o carro de Nick estaciona na frente da
clínica, me dá um beijo no rosto e procuro parecer feliz e esperançosa,
aguento firme ela entrar na clínica enquanto fico no carro esperando, sorrio e
aceno como se ela estivesse indo para um passeio.
Depois da internação, quando ela é levada para um quarto, o casal me
leva para conhecer o lugar e depois para casa.
Cuido da pequena cachorrinha de pelos amarelos, arrumo a bagunça e
ligo no trabalho avisando que não tenho condições de ir hoje, não quero fazer
nada, só ficar encolhida em um canto, Annie me liga depois da internação,
por um tempo não vou poder vê-la, mas a clínica vai me dar notícias todos os
dias. O fim de semana está chegando, eu só penso que Harry poderia vir, seus
braços me fariam tão bem, eu preciso dele, do amor dele.
Aguentei quase o dia todo, não consigo mais. Eu preciso ao menos da
voz dele, nem que seja só uma conversa pelo telefone eu preciso dele.
Pego o telefone decidida a ser forte, falar com ele sem assustá-lo,
porque ele pode ter algo importante e se não puder vir eu preciso
compreender.
Harry

Minha última aula começa com meu professor abrindo uma discussão
sobre ética. Isso sempre gera polêmica. Abro a mochila enquanto escuto os
primeiros argumentos de Billy, Jessica logo contrapõe e sorrio achando
divertido aquela pequena disputa entre eles que sempre acaba com a vitória
esmagadora de Jessica.
Meu celular vibra e me apresso para desligá-lo. O rosto dela surge na
tela e não posso ignorar uma ligação de Dulce. Ainda não é nessa vida que
vou fazer isso.
Enfio os livros de volta na mochila apressado, pego o celular e a
mochila aberta e caminho em direção à saída. Aceno para o professor num
pedido de desculpas.
― Alô — digo antes mesmo de deixar a sala. Em resposta um soluço.
Dulce está chorando. — Dulce o que aconteceu? — Fecho a porta atrás de
mim tentando equilibrar, telefone, mochila e chave do carro.
― Oi, Harry. Está ocupado? Podemos falar?
― Sim. Eu estou... em casa. Não tive aula hoje. – Uma mentira nada
perigosa, ela precisa de mim.
― Ah! — ela suspira. Sento-me nas escadas do prédio.
― Está chorando?
― Estou. Não estava até você dizer alô. Aí não aguentei. Minha mãe
foi internada hoje cedo. — Sua voz ainda está embargada e meu coração se
aperta por estar tão longe.
― O que aconteceu?
― Ela estava indo bem. Com a medicação, o tratamento, estava tão
normal, rimos juntas, vimos filmes. Como quando ela não tinha essa doença.
Então eu entrei em época de provas. Com o trabalho, as provas, eu estava tão
tranquila. Não vi.
― Dulce. Não se culpe. O que não viu? — Passo a mão pelos cabelos.
Isso me deixa tão angustiado.
― Não vi quando ela parou de frequentar o psicólogo, nem que não
estava tomando a medicação. Harry, eu nem mesmo me dei conta que ela não
estava mais saindo de casa e nem se alimentando. Estava sempre correndo ou
fechada no quarto estudando.
Não sei o que dizer. Quero dizer que ela estava certa. Cuidando do
seu futuro. Que é muito para ela, mas sei que isso a magoa e apenas fico ali.
Com o telefone na mão. Buscando um jeito de acalmá-la.
― Ela tentou algo? — Sei que pessoas em depressão às vezes vão
fundo no objetivo de deixar de viver. É uma doença séria que eu demorei a
compreender, cheio de preconceito, mas que agora compreendo e respeito.
― Não. Ela só quase desmaiou ontem.
― Onde ela está?
― Numa clínica em Jersey. O Nick e a Annie levaram. Liguei para
eles. — Nem sei como agradecer aos meus tios por serem sempre tão
presentes na vida dela. — Fui junto. É uma clínica de recuperação. Só um
lugar com ajuda de psicólogos e repouso, lá ela vai tomar os remédios, fazer
terapias. Acho que logo fica bem.
― Claro que sim. Andei conversando com uns professores por aqui.
Falando dela. Especialistas. Parece que é uma disfunção química e que com
tratamento tudo fica bem.
― Sim. Demorei anos para entender que ela estava doente. — Ela
volta a chorar.
― Dulce, está tudo bem agora. Não tem culpa, era uma criança. Não
podia saber.
― Eu liguei porque... eu pensei que como amanhã é sexta você podia
vir depois das aulas e ficar comigo o fim de semana.
Já estava feliz só de receber sua ligação. Saber que ela me quer por
perto para dividir esse momento me deixa feliz.
― Eu vou, Dulce. Chego em duas horas.
― Harry, não quero atrapalhar suas aulas.
― A turma enforcou a semana. As provas acabaram ontem, então...
você sabe. Todo mundo quer descansar. — Minto sem medo, Dulce precisa
de mim e não tem meios de eu me concentrar agora que sei que está sofrendo.
― Que bom, Harry. Não posso ficar com a minha mãe. Os médicos
pediram para deixá-la se recuperar um pouco, sem pressão. Estou aqui
olhando para as paredes, angustiada. A July quer que vá ficar com ela e o
Tyler, mas... você vem?
― Estou indo. — Fico de pé. Atrapalhado mais uma vez com minhas
coisas indo em direção ao carro.
― Te espero. Obrigada.
― Fica bem. Chego o mais rápido que puder.
Desligo e aviso o piloto que estou indo para Nova York. Depois dirijo
para casa. Melhor fazer uma pequena mala. Não sei se a convenço ficar com
meus pais.
Ryan está sentado na sala perdido em seus livros. Ergue os olhos
quando me vê entrando atrapalhado quando devia estar na aula.
― Ryan, avisa a Emma que estou indo para Nova York.
― Hoje? – Ele faz um ar surpreso.
― Agora.
― Dulce? – Ryan como todos os outros sabe o que me tira do rumo,
Dulce e só ela.
― A mãe dela está internada com depressão, avisa a Emma. Vocês
vão precisar do avião?
― Não. Pelo menos eu não. Vou ficar aqui esse fim de semana e acho
que a Emma também. Qualquer coisa viajamos com um voo doméstico.
― Obrigado. — Entro em meu quarto. Jogo umas roupas na mochila,
depois volto e Ryan me olha atento. — O quê? É a Dulce, ela precisa de mim.
― Harry. Você é muito fácil. — Minha mão está no trinco, mas ouvir
isso me faz voltar e encará-lo.
― Como é?
― Odeio me intrometer, você sabe. Só que a gente está morando
junto e tenho reparado. Além disso eu conheço a Dulce desde pequeno.
Então...
― Então?
― Sabe o quê? — Ele deixa os livros e vem até mim. — Desculpa, só
acho que fica pensando que vai viver algo como nossos pais. Essa coisa de
senhoras Stefanos. Sabe, Harry? Não é sempre assim, a Dulce não pode
dispor de você quando ela precisa.
― Acha que ela faz isso?
― Acho que ela não sabe que faz isso, mas sim ela faz. Você não
pensa duas vezes. Larga seus sonhos por ela, mas ela não quer abrir mão de
nada nunca.
― Eu amo a Dulce.
― E ela ama você. Já ouvi com todas as letras. Ela disse para a July.
Não acredito que estou aqui fazendo fofoca — ele resmunga. — É que, sério,
não aguento ver isso, faz alguma coisa.
― Já fiz de tudo. O que quer que eu faça?
― Vou usar a linguagem da Gigi. Pegada. Entende? Garotas também
gostam disso. De um cara que sabe o que quer e vai pegar.
― Isso é estranho. Ontem você era um bebê. Agora... está certo de
que você tem seus talentos com garotas. Eu já vi você com meia dúzia de
garotas diferentes. – Fico pensativo, ele é bom nisso, sempre cercado, sempre
discreto, mas não precisa de muito para ter a garota que quiser.
― A gente não está falando de mim. — Ele sempre foi reservado
sobre tudo, detesta ser o assunto.
― Pegada? – Tento confirmar.
― Pegada.
― Vamos ver. Tchau, não esquece de avisar minha irmã.
Deixo o apartamento e dirijo para o aeroporto. Só nisso já se vai uma
hora. O voo é tranquilo e rápido, pego um táxi, mais tarde aviso meus pais.
Se ligar agora tenho que explicar e não quero.
Dulce me abre a porta com olhos tristes, me abraça e só de tê-la em
meus braços já me sinto bem. Deixo a mochila no chão.
― Como você está?
― Feliz que está aqui, mais aliviada. Preparei o jantar. Tacos e tortilla
de maçã. Sei que gosta. — Ela se afasta um momento. Pegada, Ryan disse e
sorrio. — O que foi?
― Nada. ― Apresso-me a responder. Não beijo Dulce, só estou aqui
como amigo, por enquanto, temos ido com calma, sem compromisso, sem dar
nome a nada. Vamos ver se Ryan tem razão. Afasto-me mais quando um
cachorrinho se aproxima cheirando meus sapatos e abanando o rabo. — Oi,
quem é você?
― Não tem nome ainda. É uma filhotinha de labrador. Chegou essa
semana. Estava tão maltratada. Ainda está magrinha. Não sei o que fazer com
ela. Não achei ninguém para adotá-la ainda.
A cachorrinha é tão linda e me lembra tanto Dobby. Sinto falta dele
ainda hoje. Foi difícil descobrir a vida sem meu anjo da guarda, companheiro
de todas as brincadeiras, crescemos juntos e perdê-lo foi de longe a maior dor
que já tive.
― Ela gostou de você.
― Claro que gostou, não é querida? — Ergo a cachorrinha nos
braços, os mesmos olhos castanhos e doces. Pedindo tão pouco. — Ei, você é
mesmo linda.
Eu a devolvo ao chão, mas ela me segue por todo canto. Comemos
com a cachorra nos meus pés enquanto Dulce me conta tudo que aconteceu.
Depois tomamos vinho na sala com ela dormindo sobre o tapete ao meu lado.
Não toco em Dulce. Mesmo que minha vontade seja envolvê-la em meus
braços e nunca mais me afastar. Faltam apenas algumas semanas para deixar
a faculdade e voltar para casa. Começar uma vida e está mesmo na hora de
decidir se Dulce vai estar nela ou não.
― Já estou de férias praticamente. Agora só no próximo ano.
Faculdade noturna é um pouco diferente.
― Sei disso. Mais um ano. — Fico de pé. Ando pela sala simples que
conheço tão bem. Sobre um móvel uma foto nossa, abraçados e sorrindo. Foi
há três anos no seu aniversário. Tia Sophia fotografou. — Uma noite especial
essa. — aponto a foto. Dulce vem até mim. Olha a foto ao meu lado.
― Foi mesmo. Nos divertimos até amanhecer na casa do seu tio
Ulisses.
― Lá é sempre assim. — Olho para ela. Está cansada. — Acho que
precisa dormir. Pode me emprestar uma manta e um travesseiro? Fico aqui no
sofá mesmo.
― Sofá? — Ela me olha surpresa. — Harry...
― Acho melhor.
― Por que veio? — ela me pergunta.
― Porque amo você. Sabe disso. Só que decidi dar um destino a
minha vida e ou fica comigo e sabe do que estou falando ou vamos ser bons
amigos.
― Não quero ser sua amiga. – ela responde cheia de surpresa e muita
confusão.
― Não. Você quer que eu esteja aqui, mas que esteja aqui apenas
quando for conveniente. Quero que seja sempre, quero me virar em mil para
te dar atenção e quero que faça o mesmo. Tem um travesseiro?
Ela balança a cabeça e some, volta com travesseiros e uma coberta.
Deixa no sofá e me olha um momento.
― Boa noite. Vem, querida. — A cachorra ignora seu chamado e se
junta a mim. Dulce me dá as costas. Forro o sofá e me deito, fico olhando o
teto um longo momento. Os olhos caramelo me assistindo curiosos.
― O quê? Eu sei. Pegada. Só que... Para de me olhar assim. Moro
com dois nerds psicóticos. Eles nos colocam na rua, eu não posso. — Ela
pula no sofá e se aninha no meu peito, suspira e se aconchega. Maldição. Vou
voltar sem namorada e com um cachorro. Acaricio seus pelos amarelos. É a
mesma textura. Eu não vou conseguir me despedir dela. — Quer ir para casa
comigo, senhorita Granger? — As orelhas se erguem atentas. — Quer? Está
certo. Agora me espera aqui. Vou buscar minha garota, sabe como é. Pegada.
Aquele médico nerd e adolescente tem jeito com garotas, sabe Deus por quê.
Vou tentar o jeito dele.
Ando até o quarto de Dulce. A porta está entreaberta. Dulce encara a
noite pela janela. Os olhos marejados, não me nota até que eu esteja a um
metro dela.
― Que susto. Descalço não te ouvi chegar — não respondo. Não com
palavras. Pego Dulce pela cintura, colo seu corpo ao meu e tomo seus lábios.
Um beijo que reflete todo meu desejo. Não meu amor. O desejo da carne.
Minhas mãos não pedem licença para mergulharem por dentro de suas roupas
e sentirem a pele quente.
Meus lábios descem por seu pescoço e ela vai aceitando tudo, também
me despindo. A respiração acelerada, o cheiro de sua pele me inebria quando
eu a ergo nos braços e a levo até a cama.
― É minha mulher, Dulce. Chega de distância. Acabou. Quando
deixar a faculdade vamos morar juntos.
Seus olhos estão fixos em mim. Ela balança a cabeça concordando.
― Harry...
― Vamos resolver as coisas juntos, agora. Sua mãe. A senhorita
Granger. Tudo junto. — Meus lábios voltam ao encontro dos seus, ela me
para quando tento beijá-la.
― Quem é senhorita Granger?
― Nossa cachorrinha. — Ela sorri. — Ela não está mais para adoção.
É nossa, vai morar com a gente. — Tomo seus lábios. Até agora nenhuma
recusa.
― Amo você, Harry. Tudo que quero é dividir a vida com você. Não
quero mais lutar contra isso. Não quero mais lutar sozinha.
― Não vai. — Meu corpo se mistura ao dela e nos entregamos ao
desejo, o garoto tinha razão. Pegada.
Capítulo 22
Harry

Acordo primeiro que ela, fico a olhar minha linda garota dormindo
tranquila, acho que o tempo todo o que faltava para nós era Dulce sentir
minha maturidade, minhas reais intenções, ela carrega muito, tem muitas
responsabilidades, passei tempo demais deixando que decidisse tudo sozinha.
Senhorita Granger fica tentando sem sucesso escalar a cama, afasto o
lençol evitando barulho e deixo o quarto, levo a pequena para o quintal nos
fundos, ela faz xixi, corre por ele toda animada enquanto fico assistindo cheio
de sono, está aí outra coisa que preciso, os anos em Harvard sempre
pareceram incompletos, era de uma companhia assim que eu precisava, da
responsabilidade que sempre tive com os animais de casa, alimentar, levar
para uma volta, limpar sua sujeira.
Melhor telefonar logo para meus pais, eles vão estranhar um pouco eu
simplesmente estar aqui.
— Papai! – Senhorita Granger cai sentada me fazendo sorrir, volta a
correr atrás da bolinha amarela e felpuda que está toda babada.
— Dulce está bem?
— Como... sim, tolice achar que não sabia que eu estava aqui.
— Grande tolice. – ele diz do outro lado da linha. – Emma avisou que
estava vindo e Nick me contou sobre a internação da Anita, eu sinto muito
pelas duas. Ela deve estar bem triste.
— Está, mas eu acho que está um pouco aliviada também, Agora
Anita vai ter um tratamento sério e tenho certeza de que quando voltar, vai
ser muito melhor.
— Com toda certeza, elas podem contar conosco, filho, sabe disso.
— Eu sei, papai, nós vamos almoçar aí com você, acho que Dulce
precisa relaxar um pouco, ela não vai trabalhar, o chefe dela deu três dias de
folga e amanhã já é sábado, então ela só volta a trabalhar na segunda-feira.
Fico com ela até lá.
— Esperamos vocês, estamos com saudade.
— Até daqui a pouco, papai, amo você.
Minha mexicana ainda dorme quando volto para o quarto com a
senhorita Granger já alimentada e feliz. Um banho vai me fazer despertar.
Deixo que Dulce durma, ela precisa de um pouco de descanso depois de ter
deixado sua própria mãe em uma clínica.
Quando volto para o quarto ela está sentada na cama afagando nossa
primeira garotinha, me faz sorrir com a imagem, é um jeito perfeito de
começar meu dia.
— Amo você, Harry Stefanos. – Um jeito perfeito de começar o dia,
vou até Dulce, beijo seus lábios e ela aspira meu perfume. – Vou tomar um
banho também.
— Esperamos você aqui. – aviso deitando de novo. Ela atira os
lençóis para o lado e segue para o banheiro enquanto sorrio mais apaixonado
do que sempre estive.
Dulce sai do chuveiro enrolada em uma toalha e então me olha
sorridente. Senhorita Granger, abanando o rabo animada enquanto afago seus
pelos, é uma bolinha de pelos amarela e doce. Minha linda e sensual
mexicana anda pelo quarto com os cabelos úmidos, adoro sua pele bronzeada,
os cabelos longos, gosto de tudo nela.
― Vamos almoçar com meus pais. — Ela balança a cabeça
concordando. — Vou levar a senhorita Granger para eles conhecerem.
― Senhorita Granger? – Ela ainda não acredita muito na escolha do
nome.
― Sim. Lizzie me mata se escolher algo diferente. — Ela vem até
mim, beija de leve meus lábios. Sinto o cheiro de sabonete e creme
hidratante, Dulce se afasta pegando um jeans e solta a toalha.
Fico assistindo enquanto se veste despreocupada, ela nunca foi muito
tímida sobre isso, mas o tempo é responsável pela liberdade total. Tantas
vezes estivemos juntos.
― Está se divertindo? — ela brinca abotoando o jeans.
― Um pouco — digo com olhos vidrados quando ela prende o sutiã e
depois tira os cabelos longos que se prendem a alça. Então me sorri antes de
pegar a camiseta branca e vestir.
— A festa acabou.
― Infelizmente. Quer comer qualquer coisa antes? — ela pergunta
pegando a escova de cabelo. Os longos cabelos que se espalham e me fazem
queimar por ela.
― Não. Já são 11h30. Almoçamos com meus pais e depois voltamos.
Pode ser?
― O.k. — Ela me olha um momento. Está estranhando que tenho
tomado todas as decisões desde a noite passada. Ryan tinha razão, faltava
tomar as rédeas das coisas.
― Antes de irmos, liga para saber da sua mãe na clínica. — Mais uma
vez ela só concorda. Calça o tênis e pega o telefone. Fala um momento e
quando desliga parece leve.
― Dormiu bem, comeu normalmente e está agora na terapia. Parece
que está indo muito bem.
― Ótimo. — Fico de pé com a senhorita Granger nos braços.
Caminho até Dulce e beijo seus lábios. — Vamos? Essa pequena vai adorar
os novos tios e avós.
― Vamos. — Ela me faz um carinho no rosto, depois afaga a
senhorita Granger. ― Vai sentir saudade dela?
― Ela vai comigo para Harvard. — Dulce me olha surpresa.
― Harry, eu não sei. Ela é muito bebê. Pode aprontar.
― Vai aprontar com certeza, mas o que tem demais? É minha, não
vou deixá-la aqui. São só umas semanas. E vamos voltar toda sexta-feira. —
Dulce aceita minha decisão, ela não tem tempo para se dedicar a senhorita
Granger, com Anita na clínica a pequena vai passar o dia todo sozinha.
Dulce tranca a casa, enquanto solto a cachorrinha no banco de trás.
Vamos ver se Dulce está mesmo disposta a começar uma vida
comigo. Dirijo para casa dos meus pais. No caminho vamos ouvindo música,
rindo da cachorra que se diverte tentando alcançar a janela. O bairro é
perfeito para começar uma vida.
A casa à venda duas quadras da que minha família mora parece ideal.
Tinha intenção de comprá-la, independentemente de Dulce, já que seria um
bom investimento. Além disso nunca pensei em morar no centro como meus
tios e primos.
Sempre vivi em casa. Com jardim, cachorro e tranquilidade. Viro o
quarteirão e estaciono em frente a placa de vende-se, Dulce me olha um tanto
surpresa.
É grande, tem um jardim imenso na frente, com árvores e grama,
senhorita Granger vai amar correr por ele.
― O que está fazendo? — Dulce questiona quando desço do carro e
abro a porta para a cachorrinha descer e correr pela grama. — Harry. — Ela
desce e olha de mim para a casa. — Por isso pediu ao motorista para deixar o
carro logo cedo? Já estava pensando em...
― Trazer você aqui desde que concordamos em ficar juntos. Vamos
comprar essa casa e começar aqui nossa vida. – digo decidido, é isso que
quero, é hora de começar a viver.
― É linda, mas... Harry, amo você. Quero uma vida ao seu lado. Só
que não assim, quer dizer... — Ela olha para a casa ao fundo do jardim.
Janelas altas, estilo inglês como todas as casas da rua. — É essa vida que
quero. Acho que sempre foi. Num lugar exatamente assim, só que, Harry, não
posso deixar minha mãe agora. Quando disse sim, estava pensando que com
o tempo...
― Agora, Dulce. Sua mãe vem com a gente, para sempre, até se
recuperar, não importa.
Ela me abraça, recosta em meu peito olhando a casa. Senhorita
Granger rola na grama, impressionada e feliz pelo espaço e as novidades.
― Começar uma vida com a sogra, Harry? É isso que quer? Está
preparado? – Entendo seu medo.
― Nunca fomos um conto de fadas, Dulce. A vida não finge ser
perfeita para nós dois. Somos reais, no mundo real a vida é cheia dessas
coisas. Essa é nossa realidade. Você tem uma mãe que precisa de você e não
pode ser deixada. Então, ela vem conosco.
― Amo você. — Dulce sorri com os lindos olhos marejados. — Tem
certeza?
― Absoluta. Eu, você, sua mãe e a senhorita Granger. Os cachorros e
gatos temporários que vai trazer às vezes e, que vão ter um canil confortável
nos fundos até ter a clínica que tanto sonhou.
― Mesmo? — Ela parece incrédula. — Parece tão bom. Parece tão
leve, ter você para dividir o peso, para dividir a vida, os sonhos.
― Você tem. Está decidido. – Mostro mais uma vez minha
determinação.
― Vai ficar longe da faculdade. Vai me buscar toda noite? Não vai
ser fácil. Com seu trabalho, a senhorita Granger. — Ela sorri para a bolinha
de pelos que tenta latir para uma pedra e cai desengonçada.
― Não, Dulce, não vou pegar você toda noite. Você vem de carro. É
uma mulher independente. Pode muito bem dirigir para casa depois das aulas.
― Isso está tão melhor. O que diabos deu em você? Está diferente,
mais... mais...
― Pegada? — Ela ri.
― É um jeito de definir. Com mais pegada! — Ela se cola a mim e eu
a beijo entre nosso riso.
― Tomei as rédeas da nossa vida. — conto a ela que parece aprovar.
— Vamos. Preciso falar com meu pai para fechar negócio e depois
começamos a organizar tudo. Quando terminar as aulas nos mudamos.
― Está certo. Vamos morar juntos então. — O sorriso é largo,
esperançoso. É isso. Por que aquele aprendiz de Don Juan não me disse
antes?
― Vamos, senhorita Granger — chamo abrindo a porta do carro. Ela
corre para dentro, obediente. Dulce ergue uma sobrancelha. — Pegada! — Eu
lembro, ela afirma tomando seu lugar ao meu lado.
Meus pais estão no jardim quando chegamos. Senhorita Granger vem
no meu colo. Potter é delicado como um rinoceronte e ama cachorros, vai
atropelar a coitada no primeiro segundo, Lily é mais tímida. Só quer mesmo
ficar ao redor do meu pai, seu salvador, veio da rua e ganhar casa, amor e um
pai a tornou fiel e grata.
― Nem pensar, Harry! — minha mãe diz assim que nos vê. Então
olha para os olhos caramelo quando se aproxima, abre um sorriso triste
quando toma a cachorra dos meus braços e beija seu focinho. — Ai, meu
Deus. Que saudade daquele grande trapalhão. — Seus olhos marejam como
os do meu pai e quase me arrependo de ter trazido memórias. — Olha, amor.
É igualzinho.
Meu pai toma a cachorra dos braços de minha mãe. Lily e Potter
saltam em torno dela curiosos. Papai acaricia os pelos, beija a cachorra e nem
parece que sentiram minha falta, ficamos esquecidos enquanto eles se
emocionam com o filhotinho nos braços. Troco um olhar com Dulce.
― Menina, mamãe. Senhorita Granger.
― Oi, querida. Seja bem-vinda — papai diz se abaixando para os cães
fazerem reconhecimento. — Olhem que linda, meninos? Sejam bonzinhos.
Ele a solta no chão e fica ali olhando para os três e posso ver as
memórias de Dobby invadirem sua mente num sorriso de saudade junto com
olhos distantes, minha mãe com a mão no seu ombro protetora.
― Ela veio visitar — aviso e os dois me olham. — É minha.
― Nossa! — Dulce corrige e agora os dois estão de pé e alerta.
― Vão casar? — Mamãe sorri exultante.
― Está grávida, Dulce? — Meu pai completa, prestes a abrir o
champanhe. — Isso é perfeito. Leon achando que me vencia com aqueles
netos gêmeos dele. Vamos empatar esse jogo e se Lizzie e Josh derem uma
ajudinha vencemos antes do fim do ano.
― Pessoal! — chamo a atenção deles. — Vamos com calma. Eu e a
Dulce vamos morar juntos quando terminar a faculdade. Não tem bebê e não
vai ter por um longo tempo.
― Quantas notícias ruins pode dar em um minuto, Harry? — Meu pai
questiona decepcionado. — A senhorita Granger não vai ficar, não vão casar
porque são moderninhos e não tem bebê. Isso é o que chamo de um banho de
água gelada.
― Vamos nos casar mais tarde. Quando a Dulce se formar. — Troco
um olhar com ela que apenas sorri, não chegamos a esses detalhes ainda. —
Depois disso vamos ter bebês. No plural para sua felicidade. — De novo
Dulce apenas sorri sem me desmentir. Isso é bom. — E a senhorita Granger
vai morar uma quadra daqui na casa que vamos comprar.
― Sério? — Minha mãe comemora. — Vi a placa. Estou morrendo
de felicidade. Amor, é perfeito, eles aqui pertinho. Tenho que contar para as
meninas. — Ela puxa o celular.
― Um abraço, parabéns e boa sorte cairiam bem antes da fofoca —
exijo, então sou envolvido e abraçado. Ganho muitos beijos e começo a me
arrepender, embora Dulce esteja adorando todo o carinho. Danny surge no
jardim, nos olha um momento e depois conta os cachorros.
― Temos três cachorros? — pergunta nos fazendo rir. Do jeito que
Danny é distraído e vive nesse mundo nerd de desenhos e heróis ele bem que
podia viver uma vida sem saber quantos cachorros têm na casa.
― Não. Essa é a senhorita Granger. Minha filha.
Ele aperta minha mão, beija Dulce no rosto e se senta no chão. Logo
está cercado de cachorros e rindo enquanto ganha lambidas.
― Eu e a Dulce vamos morar juntos, Danny. – conto a ele não muito
interessado em nada já que está sofrendo o melhor tipo de ataque que existe.
― Legal. Eu acho. É para ficar feliz?
― Sim.
― Então, tá. Ela é bem bonitinha. Não acham que parece o Dobby?
Lembro dele bem. – Danny continua a se divertir com os cães. – Não precisa
ter ciúme Potter, amo você.
― Harry, ela é só um bebê, acho melhor deixá-la comigo. Não acha,
amor? — meu pai diz e minha mãe o envolve.
― Heitor, eu te amo. E está certo. – Mamãe o viu emocionado e agora
ficaria com qualquer bichinho que o fizesse feliz. — Harry...
― Não, pessoal. Por que não fizeram o mesmo com a Luna? Mãe! –
eu reclamo.
― Tentamos, filho, Lizzie não deixou a gente cuidar da Luna para
ela. Vamos comer. Dulce, vem comigo. — As duas vão andando na frente. —
Não deixe o Harry te enrolar. Acho que devia exigir casamento. — Olho para
meu pai pedindo ajuda.
― Não me olhe assim. Eu concordo com ela. – Claro que concorda,
meu pai só quer mesmo vencer a disputa imaginária com os irmãos.
Senhorita Granger não precisa de muito para se integrar à equipe,
logo está aos tropeços pela casa, correndo com Lily e Potter, se escondendo
com eles embaixo da mesa para ganhar comida do meu dissimulado pai que
mantém o ar impassível enquanto contrabandeia pedaços de carne para eles.
Dulce acha graça, o plano era não dar nada à pequena, para ela não
aprender, mas meu pai simplesmente não tem forças para evitar e se ela se
parece com Dobby então é dona do mundo.
O assunto chega em Anita, vejo os olhos de Dulce se entristecerem e
procuro sua mão.
— Me vi tão apavorada que só pensei em pedir ajuda a Nick e Annie,
é difícil conciliar tudo, estudos, trabalho e ainda ficar de olhos abertos, eu
nem mesmo notei.
— Não se culpe, Dulce, o que importa é que agora ela está segura e
bem cuidada e vai voltar para casa com um novo fôlego.
— Pelo que entendi ela deve ficar uns seis meses. – Dulce conta
enquanto usa o garfo para brincar com a comida.
— Quando voltar vocês já vão ter mudado, Dulce, quem sabe ela não
se sente ainda mais confiante em um recomeço como esse?
— Quero acreditar nisso, Liv. Eu disse ao Harry, eu não posso deixá-
la, talvez pensem que não seja boa ideia começar a vida com a sogra, mas...
— Achamos ótima ideia. – Papai a interrompe. – Dulce, sua mãe é
uma ótima pessoa que está vivendo um momento difícil. Ela precisa de apoio
e viver com vocês pode ser muito bom. Leon vive com Ariana e Cristus e só
tem elogios, eles ajudaram meu irmão a vida toda, está tudo bem morar com
a família.
— Eu nem sei o que dizer, ainda estou atordoada com tudo que está
acontecendo. – Ela me olha, está feliz, posso ver em seus olhos. – Estou
emocionada também, eu não esperava por isso, eu sempre quis dividir a vida
com o Harry, eu nunca achei que pudesse ser outra pessoa. – Embora diga a
eles, seus olhos estão em mim. – Só que sempre teve um mundo de pequenas
coisas entre nós e agora... é como se o Harry as tivesse feito desaparecerem,
uma a uma. – Curvo-me para beijá-la.
— Ah, que lindos. Não se movam, quero mandar uma foto para as
meninas, elas estão arrasadas que não tem casamento, mas muito felizes.
Deixamos a casa dos meus pais no meio da tarde, a senhorita Granger
dorme esgotada no banco de trás, um bebezinho mesmo.
Dulce tem os olhos distantes, passo de novo na frente da nossa futura
casa, paro o carro e ela sorri olhando para a casa.
— Acha que aquelas janelas lá em cima são de um quarto? – Dulce
aponta me fazendo sorrir. – Quero que seja o nosso, vai ter uma vista linda e
tem varanda, podemos tomar café da manhã ali em dias... românticos.
— Podemos. – Dulce se volta para mim.
— Eu queria o conto de fadas, Harry, não é como se não quisesse.
— Eu também queria, Dulce, mas começamos cedo, a vida nos
engoliu, eu demorei a crescer, entender. Você nunca pôde olhar muito para si
mesma, somos quem somos, vamos ser felizes com o que temos. – Ela toca
meu rosto, os olhos cheios de emoção que a acompanhou por todo o dia.
— Harry, eu sei que sempre foi você a ceder muito mais que eu, não
quero que pense que eu não enxergo isso, porque não foi só minha mãe, não
posso colocar sobre ela toda responsabilidade, mas eu sempre tive muito
medo.
— De mim? – pergunto mergulhando meus dedos por entre sua nuca
e seus cabelos, ela da um meio sorriso que a deixa mais charmosa e doce.
— De querer o conto de fadas Stefanos, nunca deixou muito claro
como seria esse nosso futuro juntos, eu olhava sempre como se tivesse que
abrir mão de tudo, mas ontem e hoje, o modo como tem agido, não sempre,
mas as vezes eu preciso que alguém tome as rédeas das coisas, porque pesa
demais, e agora que esclarecemos tudo, que posso compreender de verdade
como se sente.
— Não somos mais dois garotos, logo eu vou estar trabalhando na
empresa, você vai se formar, sua mãe vai se recuperar, ainda dá tempo para
um pouquinho de conto de fadas. – Ela me sorri com tanta beleza, é minha
mexicana.
— Como é que vamos mobilhar essa casa toda? – Dulce brinca com
mais um olhar para nosso futuro.
— Sou o filhinho do papai. – digo rindo, curvo-me um pouco atrás do
volante para olhar a casa, é realmente muito grande. – Parece que ele vai
gastar uma fortuna. Vou trabalhar, tenho as aplicações que ele faz para mim
desde que nasci. Não começamos mal, meu amor, acredite.
— Meu amor, é? Que tal colocar esse carro em movimento? – Ela diz
me fazendo ferver.
— Agora mesmo, futura senhora Stefanos. – Dulce ri.
— Tudo bem que não somos um conto de fadas, mas podia ter feito
um pedido. O que acha? Ainda dá tempo.
— Tem razão, vou pensar sobre isso.
Ligo o carro e partimos com um último olhar para nossa casa. Ela
suspira ainda emocionada, se volta para olhar senhorita Granger dormindo
toda suja de grama e barro, alguém vai ter que dar um banho nela.
— Filho, é? – Ela apoia a mão em minha coxa enquanto dirijo.
— Ocupar o tempo de vovó Anita, o motivo é ótimo. – digo como
incentivo.
— Harry Stefanos, acha que não conheço seu pai? Se tivermos sorte
ele nos deixa ver o bebê uma vez por semana. – Minha risada explode
despertando a cachorra, mas ela está cansada demais e apenas volta a dormir.
Capítulo 23
Dulce

— Quando é que vocês Stefanos vão parar com essa coisa do faça
você mesmo? – pergunto a Harry que passou a última hora tentando montar a
mesa da sala de jantar com a tímida ajuda de Danny.
— A culpa é sua, Dulce. Era para ser uma mesa de jantar, eu pensei
que seria uma grande madeira retangular e quatro pernas, mas não, ela é toda
cheia de... curvas e não tem pés, tem essa coisa geométrica que fica embaixo
e não faz sentido.
— Nenhum sentido, Dulce. – Danny o apoia.
— Por isso existem profissionais para isso. Montadores de móveis. –
explico para receber pares de olhos em choque como se eu tivesse dito algo
horrível.
— Somos os Stefanos, nós fazemos essas coisas, montamos nossas
festas, desmontamos e montamos nossas casas também, já montamos várias
coisas em casa, não é Danny? Conta para ela que todos os sofás novos que a
mamãe compra de seis em seis meses, porque algum cachorro destruiu,
somos nós a montar.
— Já contou. – Danny fica de pé e deixa a mesa ou o que quer que
seja esse monte de madeira torta.
— Sofá é fácil, ele vem em blocos, só... ajeitar as almofadas sobre ele.
— Alguns tem pesinhos, Dulce, eu entendo de sofá.
— Harry, admita, talvez entenda de sofá, mas não entende nada de
mesa de jantar.
— Dulce, onde é que eu coloco esse vaso? – Emma entra na sala e
para olhando para a mesa torta. – Está meio... – Ela vira a cabeça de lado para
tentar encontrar uma maneira da mesa parecer reta. – Vai ser uma aventura,
ninguém pode negar.
— Desisto. Felizes? Vamos chamar alguém para resolver isso. –
Harry suspira desanimado.
— Talvez se apenas virar a parte de baixo. – Emma diz olhando o
desenho da montagem sobre a mesa. – Está de cabeça para baixo. – Os dois
irmãos trocam um olhar.
— Danny!
— Harry, eu faço desenhos, eu não... leio desenhos.
— Vai, Danny, desparafusa de um lado, eu desparafuso do outro e a
gente coloca do lado certo. Emma, já que está aqui, sabe para que serve esse
pedaço de madeira que sobrou?
— Não tem madeira sobrando, nunca tem. – Emma avisa.
— Eu disse, Harry, não tem essa de pedaços extra para o caso de
estragarmos algum. – Danny avisa já debaixo da mesa desparafusando.
— Eu ajudo vocês. – Emma diz depois de um suspiro de sabedoria. –
Dulce, o papai está te esperando no quarto do bebê.
— Que bebê? Não tem bebê e nem quarto do bebê! – Essa família vai
me deixar maluca, deve ser o plano deles.
— Eu sei, mas o papai achou um quarto ótimo, com uma luz perfeita
e como você sabe, ele gosta de se gabar que entende tudo de bebês, quer te
mostrar onde futuramente você poderá colocar o berço.
— Ajuda eles, Emma. Eu vou... ver o seu pai.
Cruzo com Lizzie no corredor do segundo andar, ela vem descendo as
escadas com Thiago no colo e um sorriso.
— Terceira porta a direita é o quarto dos futuros bebês. – Avisa-me
antes de começar a descer as escadas. Heitor me espera em um quarto vazio,
abre um sorriso ao me ver, está de pé exatamente sobre o reflexo do sol que
entra pelas janelas fazendo um quadrado no chão.
— Vê que boa luz? A mamada do fim de tarde, a luz da lua nas noites
claras, mil momentos especiais, é um bom quarto, pode ser o quarto dos
bebês, como era na minha casa, tínhamos o quarto do bebê, não mudávamos
o quarto quando ele crescia um pouco, mudávamos o bebê, então todos eles
estiveram no mesmo quarto de bebê, todos não, Lizzie... você sabe, mas
Harry, Emma e Danny, nasceram e ficaram no quarto de bebê, quando
cresciam um pouco davam lugar ao próximo bebê. Entendeu, Dulce?
— Claro... é... puxa, você é mesmo, incrível com bebês, nunca teria
pensado nisso.
— Experiente. – Ele me sorri. – Você e Harry serão os que vão ter
mais filhos, duvido que Lizzie tenha mais do que um e Emma e Danny, acho
que também não terão muitos filhos, mas vocês... são como eu e Liv. Eu
sinto.
— Acho que posso gostar disso. – admito para receber um sorriso de
satisfação.
O resto do dia é corrido, quando terminamos passa das 10h da noite e
estamos sentados em torno da mesa de jantar, que Emma montou, saboreando
comida chinesa que pedimos, cansados demais para cozinhar. Finalmente está
tudo pronto.
Eu nem sei como agradecer essa família, foi um tour de pessoas
entrando e saindo, todos os primos e irmãos, boa parte da família ajudando,
ao menos os que vivem em Nova York.
Perto da meia-noite sobramos apenas eu e Harry, de pé na porta com a
senhorita Granger nos braços dele acenando para o último carro que parte.
— Nossa casa está pronta. – digo me encostando em seu ombro, nem
acredito, não foi simples deixar a casa que vivi toda minha vida, no velho
Harlem que amei e ainda amo, onde um dia vou ter a clínica para meus cães
carentes, amo Harry, sua família e a vida que escolhemos ter, mas deixar o
passado foi melancólico.
Espero que minha mãe se acostume, ela está muito melhor, ainda não
está muito animada com a ideia, tem dificuldades em aceitar vir viver
conosco e eu não sei como resolver isso quando ela finalmente deixar a
clínica, mas decidi viver um dia de cada vez e hoje estou feliz aqui.
— Ela dormiu. – digo achando graça em nossa bebezinha apagada no
colo de Harry.
— Potter não para um segundo, ela quer acompanhar, acaba assim,
vamos, eu tranco a porta e vamos nos deitar, amanhã arrumamos a bagunça
do jantar.
— É estranho ser nossa decisão, não acha? – pergunto enquanto o
assisto trancar a porta. – Não é minha mãe ou a sua a dizer para recolher tudo
antes de deitar.
— Por isso fica tudo aqui, espalhado. – ele diz procurando a minha
mão. – Mãos dadas dentro de casa. – brinca quando atravessamos a casa em
direção ao nosso quarto. Senhorita Granger vai para sua caminha nos pés da
cama, nem acorda quando é colocada com suavidade sobre seu lençol macio.
— Que acha de dividirmos o chuveiro? – eu o convido. Ele ergue uma
sobrancelha, Harry está sempre disposto e eu nunca vi homem mais
insaciável, eu podia dizer não, o problema é que quando encaro o peito nu e
os olhos a queimarem, algo em mim sempre se acende também e nunca quero
dizer não.
Passamos todo tempo juntos desde que ele voltou finalmente de
Harvard, algumas noites no Harlem, outras na casa dos seus pais, fizemos
alguns tours por lojas de decoração para escolher os móveis, ganhamos
centenas de presentes, Liv foi incrível, me ajudou muito e finalmente nos
mudamos, quem sabe reunimos primos e amigos em algum jantar
comemorativo?
Não sei se estamos prontos para organizar uma festa sozinhos, mas
podemos tentar.
Não leva muito tempo para a água quente levar o cansaço embora,
menos tempo ainda leva para o desejo chegar e quando me dou conta,
estamos perdidos um no outro e terminamos estreando os novos lençóis com
um pouco do nosso amor.
Quando acordo, senhorita Granger está na cama, no meio de nós dois,
com a cabeça no peito de Harry, já cresceu o bastante para conseguir subir
sozinha na cama.
Harry me encara feliz, afagando os pelos dela e com olhos brilhantes.
Nossa primeira manhã na casa que vamos construir a vida, foi a melhor noite
que tive.
— Eu beijaria você agora se ela não estivesse dormindo sobre mim. –
O riso me toma, é bom ser assim, feliz, poder rir despreocupada em uma
manhã de domingo.
— Tudo bem, eu cuido disso. – Estico-me para beijar seus lábios, o
gesto acorda senhorita Granger que começa a mordiscar travesseiros e
lençóis. – Harry, acho que é boa hora para ensiná-la a dormir na caminha
dela.
— Coitadinha, Dulce, ela é tão boazinha, só quer nosso amor.
— Não. – digo a ela que se deita de novo no peito do pai roubando
meu lugar sem qualquer constrangimento. – Esperta.
— Acho melhor nos levantarmos, tenho planos.
— É senhor, pegada? Que planos são esses?
— Vamos visitar sua mãe, eu e você, depois almoçar em Manhattan
na casa do tio Nick, estão todos reunidos lá.
— Ótimo, plano aceito. – digo saltando da cama, quero contar a
mamãe que nos mudamos, que ela tem um lindo quarto e que será bem-vinda,
ela precisa ir se acostumando com a ideia, não quer ser um peso na nossa
vida, mas se não vier, então eu não terei sossego nunca.
Quero mamãe onde eu possa cuidar dela, é só assim que podemos ter
uma vida tranquila.
Tomamos café da manhã de pé na cozinha, diante do balcão, entre
beijos e sorrisos, com a senhorita Granger correndo por entre nossas pernas.
— Acha que ela fica bem sozinha? – Harry me pergunta e eu sei que
ele não vai ficar.
— Vamos deixá-la com seu pai, ela nos encontra na casa do seu tio. –
Harry me sorri.
— Eu te amo, sabe disso?
— Sei. Estou pronta. – Ele enfia o último pedaço de queijo na boca.
— Eu também. – diz com a boca cheia, ergue a cachorra e deixamos a
casa. Heitor fica feliz em receber senhorita Granger, o medo é ela não nos
querer de volta depois, acenamos e vejo pai e filho trocarem um sorriso e
uma piscadela.
Seguimos para a clínica onde mamãe se encontra há quatro meses, ela
deve sair em breve, mas ainda não se sente pronta, lá, com a terapia, os
remédios e as palestras, as conversas com outras pessoas, a segurança de uma
recuperação a deixa mais tranquila.
Somos recebidos com carinho pela terapeuta que vai nos
acompanhando até minha mãe, enquanto conta de sua recuperação, está nas
mãos da minha mãe sair, ela pode escolher quando se sentir pronta, já fizeram
tudo que podiam e agora a terapia só serve para ir preparando mamãe para a
vida em sociedade de novo.
— Acho que no momento, Dulce, tudo que impede sua mãe de ir para
casa é o medo de ser um peso na vida de vocês. – ela me explica e olho para
Harry preocupada.
Chegamos à sala onde mamãe lê sentada, próxima a uma janela com
vista para um jardim bonito. Ela fecha o livro quando nos vê, Harry não falta
a uma visita, isso é algo que me emociona, ele não assiste de longe, está
totalmente envolvido, somos realmente uma família e agora só falta mamãe
aceitar isso.
— Como estão bonitos e felizes. – mamãe diz assim que me abraça. –
Harry, como é bom ver você.
— Como vão as coisas Anita?
— Muito bem, querido. Me sinto muito bem. – ela conta nos
convidando a sentar.
— O que acham de nos sentarmos no jardim? – Harry convida e ela
aceita, nos acomodamos em dois bancos sob a sombra de uma árvore, é um
bonito lugar.
— Mamãe, terminamos a mudança ontem, hoje já acordamos na casa
nova. – digo animada e ela me olha emocionada. – Vai amar.
— Como está a cachorrinha? Gostou da casa?
— Amou, tem muito espaço para ela, o canil nos fundos ficou pronto,
tem um espaço para gatos também, o Harry construiu, não com as próprias
mãos graças a Deus. – Ele faz uma careta. – Foi bem rápido, mas é perfeito
para abrigar animais numa emergência.
— Que bom. E as aulas?
— Estou indo, mamãe, toda noite, como sempre. Harry acha que
posso deixar o emprego e terminar o curso pela manhã, estive pensando que
pode ser boa ideia, no próximo semestre, o que acha? Ficamos mais tempo
juntas.
— Sobre isso... eu acho que não é um bom plano, tenho pensado
muito, posso continuar morando no Harlem, conheço todos por lá e...
— Não tem essa opção Anita, seu quarto está pronto. – Harry insiste.
Pela primeira vez é ele a falar sobre isso com ela. – Anita, precisamos de
você, eu preciso. Dulce nunca vai parar de trabalhar, sabe disso, queremos
uma família grande, não damos conta sem você a nos ajudar, nem temos com
quem deixar a senhorita Granger e depois as crianças que queremos, ter você
conosco seria incrível.
— Vou me sentir... atrapalhando.
— Não será assim. – Ele garante. – Vai nos ajudar. Anita... eu escolhi
esse momento para fazer algo que já devia ter feito, decidimos casar depois,
mas não quer dizer que não vamos oficializar, com buquê, padre e reunir a
família, eu e Dulce... esperem, estou me atrapalhando todo. – Harry fica de
pé, depois, para minha surpresa, com uma caixinha na mão se ajoelha. –
Dulce, eu amo você, amo desde menino, sabe disso, erramos e acertamos,
mas agora nada disso importa, o que importa é o futuro juntos. Quer se casar
comigo, viver naquela casa, comigo, minha sogra, cães, gatos e crianças?
Passar o resto da vida ao meu lado e me ajudar a te fazer feliz?
Fico realmente surpresa, não tinha pensado mais em um pedido
formal, era como se já tivéssemos atravessado essa linha, é tão lindo e
emocionante que meus olhos se enchem de lágrimas, ele abre a caixinha e
tem um lindo anel.
— Harry...
— Foi uma aventura comprá-lo, os Stefanos foram comigo, pode
imaginar os palpites. – Ele olha para minha mãe. – Como vê, Anita, somos
assim, fazemos tudo juntos, não é nada demais vir viver conosco, é um
presente e uma sorte poder começar a vida com seu apoio.
— No caso de me deixar aceitar. – digo achando graça. Ele sorri.
— Estou aqui convencendo a mãe para garantir um sim. – Harry pisca
e compreendo.
— Então, mamãe. Posso aceitar? Vai comigo viver essa nova vida?
Me ajuda a ensinar o Harry a me fazer feliz? – Mamãe balança a cabeça.
— Também vou tentar ensinar você a fazê-lo feliz. – Eu e Harry
rimos.
— Ganhou a sogra, meu amor. – digo olhando para a linda joia. –
Aceito. – digo emocionada. – Sim. Finalmente sim. – Ele me beija antes de
colocar o anel em me dedo e ficar absolutamente perfeito. – Amo você.
— Te amo, mexicana linda. – Nós nos beijamos mais uma vez com
mamãe emocionada e feliz.
— É lindo, vai combinar com os brincos de diamantes que meu deu,
se lembra?
— Como sabe que são diamantes?
— Porque você é um Stefanos. – digo a ele que sorri achando graça,
não levou muito tempo para eu entender que aqueles brincos deviam custar
uma fortuna e deixá-los bem guardados com medo de perdê-los.
— Eu sou e amo como um, uma vez e por toda a vida. – Ele me diz
me emocionando mais uma vez.
— E é como vai ser amado, Harry, uma vez e por toda a vida. – Dessa
vez o beijo é mais demorado, cheio de nosso carinho e paixão, nos afastamos
e mamãe está secando lágrimas, o rosto leve, um sorriso verdadeiro, tão
melhor.
— Como é, Anita, quando vem para casa? Tem uma bolinha de pelos
amarela louca para conhecer a vovó.
— Eu... – ela suspira. – Quinze dias? O que acham? Podem viver
sozinhos por quinze dias?
— Eu não sei, mamãe, vamos tentar, mas é bem estranho não ter
ninguém nos mandando lavar a louça e tirar a mesa.
— Não vou viver no meio da bagunça, tratem de deixar tudo em
ordem. – ela brinca e fazia tanto tempo que não a via assim. Sei que sorrir e
brincar não quer dizer muito para quem tem depressão, aprendemos muito
sobre a doença, não importa se a pessoa pareça alegre, pareça bem, é tudo tão
silencioso e discreto, por dentro ela pode estar prestes a fazer uma loucura,
ainda que o sorriso pareça real, mas hoje tem qualquer coisa de brilho no seu
olhar que me enche de esperança e quando deixamos a clínica eu sei que vai
dar certo e vamos ser felizes.
Mamãe chega a casa em uma segunda-feira, é uma manhã tranquila e
comum, Harry me acompanha e juntos mostramos a casa e a senhorita
Granger que sabe como conquistar carinho e logo ganha o coração da minha
mãe.
Ela se encanta pela casa, pelo espaço, é novo para ela, diferente de
tudo que viveu, se convenceu que o melhor é não trabalhar mais, garanti que
vou precisar de ajuda na clínica, com os animais, os filhos algum dia, vamos
muito a Grécia, ela pode nos acompanhar, ou ficar e cuidar de tudo, de
qualquer modo mamãe está mais confiante.
Os dias viram paz e carinho, toda noite quando saio para a aula, ela e
Harry ficam sozinhos e se entendem, ele trabalha, cuida da senhorita Granger,
janta com ela, até jogam cartas e assistem ao noticiário e um ou outro
capítulo da novela mexicana dela. No fundo eu sei que ele bem que gosta, eu
os vejo comentar sobre o capítulo e é bem engraçado.
A formatura é o dia mais feliz da minha vida, a realização de um
sonho e mamãe, Harry, seus pais, irmãos, Nick, Annie e July estão lá para
assistirem. As pessoas que me apoiaram e me fizeram vencer.
Angariar fundos para a clínica é bem mais fácil do que achei que
seria. July é minha sócia, Tyler e Heitor dividem todos os custos, Heitor ama
animais, assim como eu e July e compreende a importância de um lugar
como esse, sei que ele não vai visitar muito ou voltaria com um cachorro
abandonado todos os dias, até Liv expulsá-lo, mas ele fica feliz em poder
ajudar.
Mamãe se torna uma boa ajudante, atendo tutores que podem pagar,
mas me concentro mesmo é nos que não podem, resgato animais nas ruas, eu
não consigo evitar parar o carro e recolhê-los, não consigo evitar me enfiar
em aventuras para resgatar cães em algum quintal ou mesmo enfrentar um
tutor incapacitado, é como sou, é para isso que estudei veterinária, tudo em
seu devido lugar, uma vida tranquila e feliz.
Nem todos os dias são incríveis para minha mãe, mas aprendemos a
compreendê-la, a lidar com ela, mamãe aprendeu e superamos, ela não está
sozinha, eu não estou, somos felizes. Somos completos e me sinto pronta para
o casamento, aquele que sonhamos tantas vezes em nosso quarto, com a
senhorita Granger a levar as alianças e eu com um lindo vestido e mantilha
para lembrar as tradições mexicanas.
Finalmente marcamos a data e não se pode ver senhoras Stefanos
mais felizes, é bom deixar tudo por conta delas, é um alvoroço de ideias e
planos, com Lissa a me explicar os benefícios de um bolo de noiva de
chocolate. Mamãe fica tão empolgada quanto elas, se no começo o dinheiro
dessa família a assustava e envergonhava, hoje ela já se sente à vontade em
dar palpites sem se preocupar com o valor das coisas.
Quando fecho a caixa com o vestido que ficou uns dias escondido no
quarto da minha mãe e sei que é hora de viajar a Grécia para casar eu ainda
não acredito em como chegamos aqui, a dor da adolescência é tão pequena
agora que quase não me lembro, quase não me lembro dos anos separados.
Porque o tempo juntos já superou, em alegria, toda a dor que vivemos.
— Pronta, mexicana linda? – Harry pergunta surgindo na porta do
quarto de minha mãe. – Sua mãe e sua filha já estão no carro, quer que leve o
vestido?
— Harry...
— Não vou olhar, lutei muito por esse final feliz, acha que vou
colocá-lo em risco por uma tola curiosidade? Quero a surpresa de te ver
entrando na igreja. – Meus olhos marejam.
— Nem posso ouvir isso e já quero chorar.
— Imagine o vexame que vou dar, meu tio Ulisses vai me filmar
chorando e me usar para sua diversão em reuniões chatas. Vem, hora de
irmos a Kirus dizer sim. Sabe que é isso que tem que dizer, não é? Sim.
— Minha preocupação é se você sabe, não vá fazer como seu pai.
— Prometo, nem de brincadeira eu faria.
— Ótimo, sabe que não sou como sua mãe. – digo em um alerta. –
Aquela recepcionista nova é bem bonita.
— Que recepcionista nova? Nem reparei. – ele diz já treinado, Harry
ergue a caixa. – Vamos, ninguém quer perder o voo do casamento. Não é
mesmo?
Capítulo 24
Harry

O dia finalmente chegou, por vezes achei que não aconteceria, tinha
coisas entre nós, coisas que todos os casais passam, mas eu demorei a
entender, demorei a perceber que não seria como meus pais, ou tios, que as
vezes o amor é magia e encantamento, outras é vida real, gente comum, sem
qualquer traço marcante, só duas pessoas, errando, acertando, dois jovens se
moldando, aprendendo com erros, agora acho mesmo que minha história com
a Dulce é ainda mais bonita, porque é sobre como nos tornamos pessoas
melhores.
Deixo o quarto feliz por ser um cara comum, buscando nada mais que
uma vida comum com a mulher que ama, um entre tantos, mas feliz como
poucos.
Eu me olho no espelho da sala, arrumo a gravata mais uma vez,
depois os cabelos. Meu pai para ao meu lado.
― E então, papai?
― Está ótimo. — Ele me observa orgulhoso, quis tanto seu orgulho,
busquei por esse olhar, cheio de amor e, também respeito. — Sabe que a
senhorita Granger vai fazer lambança com essa coisa de levar as alianças?
— Não escuta ele, filha! ― Ela está deitada no piso frio se
refrescando, banho tomado e lacinhos nas orelhas, ergue as orelhas em sinal
de estar me ouvindo. ― Dulce que deu a ideia e amamos nossa menininha,
sabemos que ela vai se comportar.
― Bom. Você que sabe. ― Ele dá de ombros sem muita fé na
senhorita Granger e menos ainda em mim.
Meu tio Nick surge ajeitando o nó na gravata, um terno elegante como
o de todos os Stefanos, casamento é de longe a festa mais especial para essa
família.
― Como estou? ― ele pergunta sorrindo orgulhoso. Vai entrar com
Dulce e não podia ser outra pessoa. Tio Nick paga seus estudos há anos.
Apoia Dulce em tudo e ajudou na recuperação de Anita. Por razões que custei
a compreender, sempre foi muito mais fácil para ela aceitar a ajuda dele.
― Bonitão, príncipe ― Tia Annie diz antes de subir as escadas
apressada em direção ao quarto da noiva. Aperto a mão do meu tio.
― Obrigado por ter sempre cuidado de perto da Dulce, tio Nick. – Eu
estou sempre agradecendo, mas nunca acho o bastante, ele foi o pai que
Dulce não teve.
― Gosto muito dela, Harry. Sua mulher é muito determinada.
Aproveitou todas as oportunidades e isso é tudo que me importa. Dulce tem
força interior, determinação e dignidade, como se vê pouco nesse mundo
maluco.
— Sim. Ela é mesmo assim. Agora que está, finalmente, com sua
clínica, não cabe em si de alegria.
Todos os Stefanos colaboraram. Meu pai e Tyler mais que todos.
Tyler porque July é sócia, e meu pai apenas porque ama animais. Dulce pode
finalmente cuidar de cães perdidos e doentes como sempre fez sem precisar
ficar implorando.
― Pronto, rapazes. Dulce está a coisa mais linda que existe. Podem ir.
― Thaís surge na escada e nos arranca risos. ― Eu sei que já aprenderam.
Não quis acabar com a tradição de expulsar os Stefanos. Eu realmente gosto
do momento em que posso mandar em vocês.
― Sabemos disso, Thaís. ― meu tio Leon diz sentado no sofá
distraindo os gêmeos. Luka e Bia ainda não tiveram tempo de ter a menininha
que tanto sonham. Se não correrem alcanço eles e ultrapasso. Dulce já está
ciente disso e meu pai cheio de esperanças de que com minha ajuda nós
finalmente vencemos a tão antiga disputa imaginaria.
― Então por que ainda estão aí parados? ― Ela faz um gesto com as
mãos nos expulsando.
― Vamos, Stefanos. Antes que ela pegue a vassoura. ― Tio Ulisses
fica de pé. — Essa guerra foi perdida há anos, melhor aceitarmos.
— Você vai daqui há pouco com a mamãe, querida, se comporta, vou
levar o Potter e a Lily agora, para o caso de terem uma ideia ruim como quem
sabe um mergulho antes da cerimônia. Diga a mamãe que eu a amo. – Afago
os pelos dela, beijo o focinho e senhorita Granger fica preguiçosa deitada
ainda no piso frio.
— Ela vai fazer lambança e eu vou filmar tudo, não tem como um
casamento Stefanos não ter uma confusão. – Tio Ulisses se anima com a
ideia.
Seguimos para a igreja, eu e papai lado a lado descendo as ruas a pé,
trocando olhares de emoção e cumplicidade, ele com todos os mil
ensinamentos guardados na garganta.
— Pode dizer, papai.
— Não há mais nada, é o homem que achei que seria, vamos apenas
comemorar. – ele diz tocando meu ombro e me emociono.
— Já devo ligar a câmera? Se for chorar avisa, Harry, não quero
perder nada. – Meu tio Ulisses é isso, riso, sempre riso, leveza e diversão,
ainda que ele não saiba escolher bem a hora, o que na maior parte das vezes é
bom, nos tranquiliza, como agora que estou tão tenso.
O padre me aperta a mão, sorrindo de um jeito carinhoso. Trocamos
umas palavras e me acomodo no altar, ando de um lado para outro, não tinha
ideia que se ficava tão tenso em momentos assim. Papai se aproxima.
― Nunca vou entender por que ficamos tão nervosos ― ele diz na
tentativa de me acalmar. ― Ela vem. Não se preocupe. Só se concentra em
dizer “sim”.
― Pode deixar, papai. Tio Ulisses me mostrou, sei lá quantas vezes, o
vídeo do seu casamento. Não vou dar vexame.
― Como eu? ― Ele ri. ― Mamãe achou tudo bem romântico. — Ele
se defende achando ainda graça.
― Dulce me racha a cabeça. ― Ele ri mais ainda. ― Amo aquela
garota, que me desafia o tempo todo a ser mais adulto.
― Sim. Isso é tão bonito, você se tornou um homem para poder viver
esse amor. Já sabe, assim que voltarem da lua de mel. Netos.
― A “missão neto” está garantida, papai. Por isso estamos aqui.
― Eu sei. Essas modernidades de morar um tempo juntos para ter
certeza. Não gosto disso. – papai reclama como reclamou todos os dias desde
que ouviu que viveríamos um tempo juntos antes do casamento e filhos.
― Ainda pode ir em frente com a Emma e o Danny. – Gosto de
lembrá-lo que tem mais filhos, assim o peso não fica só sobre meus ombros,
ele suspira, conversar com ele me tranquiliza.
― Sua irmã nem sinal de romance. Acho que minha garotinha vai
ficar para sempre perto de mim.
― Sonha, papai. Não custa nada mesmo. ― Ele me abraça, vejo a
emoção em seu abraço, de novo o orgulho nos olhos escuros como os meus
enquanto arruma mais uma vez minha gravata.
― Se ajeita aí. Vou me posicionar. Se a senhorita Granger aprontar eu
preciso estar pronto para um plano B.
― Que é correr atrás dela com as alianças. Papai, se você controlar os
outros já fico feliz.
Potter, Lily e Luna estão deitados em frente ao primeiro banco. Luna
vai se comportar. Josh e Lizzie a educaram como se deve, ela é uma dama
perto dos outros, já os meus irmãos. Nem quero pensar. O padre olha para os
cachorros, não diz nada. Já está acostumado com as excentricidades dos
Stefanos, ao menos sobre isso.
— Ela está chegando. – Ryan me avisa quando se posiciona no altar.
– Boa sorte, primo.
— Obrigado, padrinho. – Quem mais poderia ser? Ryan me ajudou,
mostrou-me como ser mais firme e decidido, sem seu conselho não
estaríamos aqui.
A música toca e meu coração descompassa, acho que não estava
pronto, as mãos tremem. As portas da igreja se abrem lentamente me
deixando fraco de emoção.
Primeiro vem a senhorita Granger, com um laço no pescoço onde
carrega as alianças, parece muito concentrada em caminhar para mim. O
plano é que mantivesse meus olhos nela para a cachorra não se distrair e sair
do caminho. Era isso que devia fazer, mas não contava com Dulce tão
esplêndida em seu vestido de noiva.
A mantilha, como ela disse que chama o véu que usa, cobre todo o
vestido, tem desenhos nas barras, esconde um pouco os olhos
encantadoramente negros que sempre me hipnotizam. O vestido é longo,
elegante, nem muito cheio e nem tão justo, nas mãos um buquê de rosas
vermelhas.
Dulce me prometeu uma noiva latina. É tudo que sinto, aquele sangue
quente que ela tem traduzido no vestido e no buquê. Não consigo mais pensar
em nada, até percebo meu pai em seu burburinho e algum riso, mas não
consigo desgrudar meus olhos dela. Dulce sorri, seus olhos encontram os
meus por debaixo do véu. Eu a amo.
― Aqui, garota! ― papai sussurra. ― Potter feio. Deixa a daminha.
― Eu me obrigo a descobrir o que está se passando. Potter e a senhorita
Granger estão se cumprimentando no meio do corredor principal. No modo
canino, um cheirando o rabo do outro, ela por sua vez, decide correr para
Danny. Meu irmão na primeira fila balança a cabeça em negação. Minha filha
não é tão esperta para entender uma negativa tão sutil e corre para ele.
― Vai lá, Heitor. Vocês são terríveis mesmo. ― mamãe sussurra
atrás de mim.
Olho para Dulce em busca de sinal de reprovação, mas o que ganho é
um sorriso completo, dos que ela dá quando está plenamente feliz. Meu pai
pega os nossos garotos e os arrumam no altar. Senhorita Granger se senta
orgulhosa da peripécia.
Posso finalmente voltar, mais uma vez, meus olhos para ela. Minha
linda mexicana a caminhar suave, altiva, feliz, com meu tio emocionado a seu
lado e de novo aquela gratidão a me invadir e o amor a me tomar, o dia que
jamais será esquecido.
Finalmente ela está diante de mim, aperto a mão de meu tio Nick e ele
nos deixa. Meus olhos se fixam nos dela, ergo sua mão e beijo seus dedos.
― Eu disse que não ia dar muito certo. ― sussurro e ela sorri em um
leve sim com a cabeça.
― Deu certo. Sempre dá certo. ― Ela sussurra de volta e nos
ajoelhamos diante do altar. ― Te amo ― ela sussurra mais uma vez com os
dedos presos aos meus.
― Eu que te amo ainda mais.
― Estamos aqui reunidos essa tarde... ― Não consigo parar de rever
nossa vida. Desde a primeira vez que a vi em companhia de minha prima July
que hoje é sua madrinha, até nossa última noite juntos em nossa casa antes de
virmos para Kirus, casar.
Passo pelos problemas e agora eles parecem pequenos e tolos
problemas de dois meninos, que bom que não deu certo naquele tempo, que
pudemos viver e descobrir que esse era o único amor que valeria a pena
viver, foi bom errar, os meus erros, os dela, foram eles a nos moldar quem
somos, o quanto mudamos, crescemos, melhoramos.
Anita está bem e se livrando aos poucos da depressão e sempre ao
nosso lado, eu não conseguia entender Dulce até me colocar em seu lugar,
que amor pode ser mais do que o que se tem pela mãe? Como pude se quer
propor a ela deixar a mãe e mergulhar em um novo mundo? Um garoto
mesmo, era isso que eu era e que bom que era, que tive essa chance quando a
ela foi negado o privilégio de ser uma menina e viver para si mesma e seus
sonhos.
Realizamos nossos sonhos. O dia em que me disse sim, quando a
tomei nos braços e decidimos que morar juntos apenas não era mais o
bastante. Que podíamos ir além e casar como os Stefanos fazem, com Anita
por testemunha. Quando comprei o anel ao lado dos caras mais malucos me
enchendo de palpites idiotas. Uma longa história que atravessou anos e se
isso não é um amor forte eu não sei mais o que seria, navegamos tempestades
e calmarias, permanecemos e, é isso mais do que qualquer coisa que nos faz
um casal.
— Sim! – ela diz de modo claro, simples, verdadeiro, cheio da certeza
de uma vida de espera.
— Harry Stefanos, aceita Dulce...
— Sim. — digo alto, rápido e claro. Arranco risos. Não se pode
arriscar. Aquele “não” do meu pai não vai se repetir. ― Vem cá, garota. ―
Senhorita Granger suspira sentada ao lado de meu pai que a toca tentando ser
discreto. Com a ponta do sapato ele repete o movimento. ― Vem, querida,
com o papai. ― Ela não dá mostras de seu interesse em obedecer. ― Dulce!
― sussurro pedindo socorro. Minha linda noiva sorri emocionada demais
para se preocupar com esses contratempos.
― Vem com a mamãe. ― A cachorra salta contente e corre até nós,
pisa no vestido se abanando toda. Solto o laço pegando as alianças, meus
dedos tremem e só agora percebo. ― Vá com o vovô. ― De novo ela
obedece e meu pai aproveita para segurá-la com ele.
Olho para Dulce dividindo com ela a emoção. O padre abençoa as
joias que vão marcar nossa união, agora sagrada para todos os Stefanos.
Coloco a aliança em seu dedo.
— Sabia disso desde sempre. Que um dia você seria minha mulher.
— Ela também sabia. Não importava onde estivéssemos, sempre esteve claro
que em algum momento era aqui que estaríamos. Porque só podia ser ela.
— Sabia desde sempre, um dia, Harry Stefanos seria meu marido.
Ergo a mantilha que ela repetiu muitas vezes ser costume das noivas
mexicanas, os olhos agora ficam mais visíveis.
Ela está deslumbrante e meu coração descompassa.
— Feliz por poder realizar mais um casamento Stefanos e com as
bênçãos divinas eu os declaro marido e mulher, o noivo pode beijar a noiva.
Nossos olhos não conseguem se desconectar, esperamos toda uma
vida, as vezes pacientes e esperançosos, outras vezes carregados de medos,
minha linda e quente mexicana, minha namorada, minha companheira, agora,
minha mulher.
Não consigo que seja um beijo rápido e casto. É ela, e é sempre
quente e, deixamos a emoção nos tomar em um beijo de entrega.
Nós nos afastamos e seguro sua mão, nos olhamos longamente,
vamos ser felizes, é nossa única certeza e com ela deixamos a igreja.
Seguimos para a mansão, é lá que recebemos as dezenas de
cumprimentos, abraços, beijos e bênçãos. Por último vem Anita e meus pais.
Depois da fila de irmãos, tios, primos e amigos. Anita segura minhas mãos.
― Harry, eu amo você, tanto quanto amo Dulce. Por muito tempo
fomos apenas nós duas, mas desde que somos nós três me sinto finalmente
tranquila. Sei que a ama. Ama mesmo quando vocês dois têm esse ciúme
bobo. Vão ser felizes, eu sei. Parabéns.
― Obrigado, Anita, somos felizes. Obrigado por fazer parte disso.
Dessa família.
― Meu menino. Ando tão orgulhosa de você. ― Mamãe acaricia
meu rosto. ― Se tornou um homem muito forte. ― Ela segura as mãos de
Dulce. — Eu me vejo em você, Dulce. Já estive sozinha e precisando ser
forte, esquecer de mim para amar outro alguém, entendo tudo que viveu,
todas as escolhas difíceis que fez, me orgulho de você, muito.
— Obrigada, Liv, isso é muito importante para mim, sei que errei e
acertei, mas deu tudo certo. Chegamos aqui.
As duas trocam um longo abraço, família, é isso que somos e agora
Dulce se sente parte dessa família. Vai dar tudo certo, mamãe.
— Netos! – papai avisa. – Não se enganem, vestido, aliança, festa,
tudo isso tem só uma finalidade, bebês.
Não temos como responder a isso, apenas rimos, é o papai e ele tem
prioridades, vencer os irmãos e ter mais bebês que qualquer um. Ficamos
finalmente sozinhos, eu puxo Dulce para uma dança.
― Casou comigo. Disse que seria assim.
― Disse. – Os olhos dela estão tão bonitos.
— Pegada! ― Virou uma brincadeira nossa desde que contei a ela.
— Era um doce e gentil menino, disposto, me oferecendo o mundo,
eu cheia de peso, olhando para a vida perfeita que você tinha e pensando que
esse mundo todo que me oferecia era só ilusão, que não me cabia, que não
duraria, e você doce, presente e menino. Sempre um menino. – Ela passa seus
braços por meus ombros, envolvo mais sua cintura. – Então um dia tudo em
mim se esgotou, toda força, você veio, mas não era mais um menino. Veio
homem, veio cheio de certeza. Parou de oferecer as coisas do papai, veio
você, Harry, você, essa foi a “pegada”, Harry Stefanos, não me oferecendo as
coisas que seu pai podia pagar, mas a mão para enfrentar qualquer coisa
comigo.
— E tudo mudou. – Ela balança a cabeça, emocionada, uma lágrima
quer surgir e beijo seus lábios, depois passo meu nariz por seu pescoço.
― Adoro essa coisa que faz. ― Puxo-a para mais perto. Colo nossos
corpos, volto a passar meu nariz ao longo da pele em direção a orelha e ela
estremece. ― Harry! Calma. Tem o buquê, o bolo e a nossa viagem.
― E tem nosso quarto uns metros daqui. ― Ela sorri, empurrando-me
com gentileza. Nega com um sorriso sensual.
— E matamos as senhoras Stefanos que passaram semanas
organizando tudo.
— E o tio Ulisses que ama as tradições. Ele já me acha a vergonha da
família.
Dançamos mais, rimos, circulamos, me perco dela, reencontro depois,
tem sempre riso e lágrimas por toda festa.
Acho que já podemos cumprir as formalidades e partir. Em uma hora
estaremos em Creta. Luka comprou uma casa lá e é onde vamos passar nossa
noite de núpcias antes de levar Dulce para conhecer Londres. Sempre sonhei
em passar um tempo com ela na terra onde nasci.
Cortamos o bolo e ela sobe em uma cadeira para atirar o buquê. As
garotas se juntam em torno dela. Não tem mais muitas garotas Stefanos em
idade de se casar, no momento só Emma e Gigi. Nenhuma das duas disposta
a se posicionar sob os pés de Dulce e lutar pelo buquê.
A moda agora é provocar Gigi atirando sempre o buquê em sua
direção e com Dulce não é diferente. Gigi está distraída e despreocupada
conversando com July e lá se vai o buquê em suas mãos. Ela arregala os
olhos, chocada.
― Papai, me ferrei! ― ela reclama e ele ri como sempre faz quando
Gigi se encrenca. Gigi joga o buquê nas mãos de Emma que cora. ― Pronto.
Você é a próxima, priminha. Não importa em que mão ele caía, mas em que
mão termina, está decidido.
Puxo Dulce pela mão enquanto as pessoas se provocam sobre quem
será o próximo Stefanos a se casar.
― Vamos? O iate está a nossa espera. ― Dulce concorda, corre os
olhos em busca de sua mãe. Anita sorri ao lado de minha mãe, as duas
acenam. Em comum elas têm os olhos marejados. Dulce se emociona
acenando para Anita. Venceram uma grande batalha que as uniu mais do que
nunca.
― A senhorita Granger vai ficar bem? ― ela pergunta com a voz
embargada.
— Claro, meu amor. Com o meu pai até voltarmos, não sei se vai nos
querer de volta depois, mas vamos correr esse risco.
Dulce afirma, e nós dois saímos discretos pelos fundos e Cristus nos
leva até o iate. Abraço forte aquele homem que sempre foi o guardião dos
Stefanos.
― Boa viagem, garoto. Cuidado.
Ajudo Dulce a entrar no iate e deixamos o cais ganhando o oceano. A
noite está estrelada, o mar tranquilo e o futuro brilhante. Dulce me envolve o
pescoço, se recosta em mim enquanto guio o iate.
― Está linda.
― Você também.
Desligo os motores quando estamos em alto mar, volto-me para ela,
Dulce me envolve o pescoço e beijo seus lábios. Primeiro um beijo lento, só
um tocar de lábios que vai ganhando profundidade conforme vamos nos
envolvendo.
― Eu amo você, Dulce Stefanos. ― Ela sorri, ao ouvir pela primeira
vez seu novo nome. ― Gosta?
― Sim, eu o escrevi algumas vezes, eu e July fazíamos sempre isso,
ela ficava assinando senhora Bowen e eu senhora Stefanos. Te amo, Harry
Stefanos.
— E finalmente nos tornamos um conto de fadas. – Ela acena, antes
de me puxar mais para si e nos perdermos em amor, sob estrelas, no lento
balançar do mar Egeu, felizes.
Capítulo 25
Harry

― Acho que esse é um bom momento ― Dulce me diz no ouvido,


sorrio em resposta. Guardamos a novidade uns dias porque Ryan estava
desaparecido no meio do Sudão do Sul, felizmente ele está de volta e tudo
está bem, agora sim contar faz sentido, vamos poder desfrutar de uma alegria
completa.
― Quer contar? ― pergunto em um sussurro. Ela me sorri antes de
negar e beijar meus lábios.
― Não. Quero que seja você a contar ao seu psicótico pai. ― Balanço
a cabeça concordando.
― Eu estou decidido a ter um bebê meu. Se ninguém vai se mexer o
jeito será nós dois Liv. ― Papai está em sua velha ladainha sobre bebês e
começando a ficar desesperado com a ideia de que tio Nick vai ultrapassá-lo.
— É isso que você quer, papai? ― pergunto puxando Dulce pela mão
e parando na frente dele. ― Quer mais netos?
― Quero. ― ele diz em uma ponta de esperança.
— Quantos? Vamos. Diga um número. Um, dois? Quem sabe mais
dois para começar?
― Vai finalmente parar com esse negócio de evitar? – Ele me
pressiona já se animando.
― Não, papai. Não vou parar com nada.
― Sabia ― ele se decepciona.
― Já parei. ― Os olhos dele brilham. ― Eu e a Dulce também vamos
ter bebês. Quer saber do que mais? Pode se gabar. São gêmeos. – conto de
uma só vez.
Esperava uma festa. Até é isso que está acontecendo a nossa volta,
mas não ele. Papai está silencioso, imóvel, de olhos fixos em mim. Chocado
com a notícia, minha mãe passa seu braço pela cintura dele, tem os olhos
marejados.
― Gêmeos? ― ele quer confirmar. ― Não estão só brincando
comigo? Quer dizer. Dois bebês só para mim?
― Esperava que pudesse dividi-los comigo se não for pedir demais ―
brinco com ele que olha para minha mãe com um sorriso absoluto e beija
seus lábios ainda apaixonado como sempre foi. Solta minha mãe para um
abraço, um longo abraço mudo, um outro abraço mudo em Dulce e só então
ele parece começar a reagir.
― Então eu vou ter mais netos? Isso é... Estou tão feliz. Obrigado,
filho. É a coisa mais importante do mundo, uma família. Uma imensa família.
— Sim, papai, gêmeos para começar essa grande família que tanto
esperou.
― Essa família é muito boa em se reproduzir. Olha isso, Nick? Está
com inveja?
― Não ― tio Nick brinca abraçando o irmão.
― Mas ele está com ciúme que só você vai ter dois que nem o Leon.
Ele que queria puxar o papai.
― Vai começar, Ulisses? ― tio Nick reclama.
― Precisamos de uma festa ― tia Lissa diz contente. ― E torta de
chocolate. Nossa isso é... estou perdendo as contas de quantos somos.
― Concordo, Lissa ― tia Sophia diz sorrindo. ― Só nessa semana já
são mais quatro membros. Cinco, com a Aysha.
― Já estão sabendo? ― Ariana surge. ― Ai que bom. Estava muito
agoniada com esses segredos. De agora em diante eu vou sair falando e
pronto. Não quero mais essa brincadeira, não.
― Todos concordamos, Ariana. Nada de guardar segredos, conte e
pronto. ― Minha tia Lissa a abraça. ― Vem, vamos fazer torta.
― Quanto tempo sabem disso? ― mamãe nos pergunta.
― Com esse jeito papai de ser, nós preferimos fazer tudo em segredo
para não ter pressão.
― Eu pressiono? ― Ele tem a coragem de se indignar. Troco um
olhar com minha mãe, ela sorri.
― Minha mãe está bem. Então achamos que seria o momento ideal,
paramos o remédio tem cinco meses ― Dulce esclarece. ― Descobrimos
pouco antes de virmos. Com todo o drama do Ryan achamos melhor esperar.
Contaríamos hoje. No jantar.
― Aí o Ty e a July tentaram me passar a perna, mas fomos rápidos,
filho. É isso aí. Dois para começar, depois a gente pensa em novos números.
― Está bem, Dulce? — mamãe questiona tocando sua barriga.
― Sim. Fomos ao médico. Fizemos os exames. Tudo em ordem.
Doze semanas.
As duas se abraçam trocando sorrisos cúmplices, então Dulce é
roubada de mim, logo está junto com July cercada de atenção. Respondendo
perguntas, as duas amigas de anos, grávidas ao mesmo tempo. Tyler me sorri
assistindo a cena ao meu lado.
― Vai ser bom não passar por isso sozinho ― ele diz e afirmo. Meus
tios cercam meu pai que definitivamente não vai mais parar de se gabar dos
futuros gêmeos. Essa família parece mesmo boa em ter gêmeos. É como
dizem. Isso é genética.
Com dois pares na família um terceiro par estava quase garantido.
Ryan se aproxima, aperta minha mão, depois nos abraçamos. Sou grato a ele.
Foi seu conselho que me fez pensar e mudar minhas atitudes, desde aquela
nossa conversa que sou o cara mais feliz do mundo com minha mexicana
linda.
― Feliz?
― Muito. Obrigado, Ryan. Me abriu os olhos e desde então eu sou
feliz.
― Sim. Mas isso porque se amam, vai seguir os passos do tio Heitor?
― Não sei, vamos ver como será isso. Acho que posso gostar da
ideia. Dulce está muito interessada nisso. Ela é como a minha mãe. Toda
decidida.
― Que bom. ― Olho para Aysha sentada com Daren e conversando
com Gigi.
― E você? Casado mesmo?
― Tentando. É o que quero.
― Pegada, Ryan. ― Ryan revira os olhos rindo quando toca meu
ombro.
― Vou lá com ela. Sozinha com Gigi não é boa ideia. ― Ryan se
afasta e procuro Dulce, ela me olha. Os grandes olhos negros brilhando.
Decido ir buscá-la.
― O Harry está me chamando. ― ela avisa ficando de pé e
caminhando para mim, envolve o meu pescoço e aproveito para beijá-la. ―
Eu te amo. Estava aconselhando o jovem Ryan? ― Dulce brinca. ― Disse a
ele qualquer coisa sobre pegada?
― Alguém tem que ensinar o menino! ― eu brinco. ― Eles não
cabem em si de emoção.
― Amanhã voltamos para casa, Harry. Quero contar para a mamãe.
― Faço que sim.
― Anita vai ficar feliz. Gosto da família que temos. Do jeito que
vivemos, mas com dois bebês vai ter que contratar ajuda para a clínica.
― Isso é com meu marido. Entendo de bichos, ele que entende de
negócios. ― Beijo minha mulher, que me envolve o pescoço com os olhos
em mim. — Vencemos muitas coisas. Ciúme, distância, doença, construímos
uma família. Adaptamos. Nunca foi um conto de fadas, mas foram essas
coisas que nos tornaram tão unidos. Um casal de verdade.
É como somos, um casal de verdade que lutou para estar junto e poder
desfrutar finalmente da leveza de uma vida juntos. Deixamos a Grécia na
manhã seguinte sabendo que na próxima vez que pisarmos em solo grego
nossos filhos vão estar conosco, não podemos fazer longas viagens com
gêmeos a caminho.
Os meses vão passando suavemente e cheios de descobertas, Anita
nos enche de cuidados, papai é quase a sombra de Dulce, enquanto ela leva
nossos filhos dentro de si. Procuro dar a ela a paz e apoio que precisa. Dulce
nunca foi frágil e delicada, ela é forte e decidida, trabalha o máximo que
pode, divide experiências com July, mostra sua natureza de mãe a cada
manhã em que toca a barriga e, sorrir é a primeira coisa que faz, passamos
tanto tempo conversando com os bebês que realmente acho que a primeira
coisa que vão fazer quando se livrarem da barriga é pedir um tempo sozinhos.
Gêmeos exigem outro tipo de abordagem, é tudo marcado antes,
combinado em detalhes com o médico e saber que vamos ao hospital buscar
nossos filhos mexe com minhas emoções por dias. Pai, eu vou ser pai, já sou
um pouco, mas nunca vou me sentir tão pronto quanto o meu pai, ele sempre
sabe o que dizer, sempre tem um abraço protetor e um olhar cúmplice. Só
quero ser capaz de oferecer um pouco disso a eles e já me sentirei
maravilhoso.
Dulce me sorri quando termino de calçar seus sapatos. Ainda de
joelhos diante dela. De joelhos diante da mulher da minha vida. Dos meus
anjos prestes a virem ao mundo. Seu rosto está abatido. Tem sido dias muito
difíceis esses últimos.
― Sabia que te amo?
― Sim. ― Ela sorri. Acaricia meus cabelos. ― Nervoso?
― Muito. Podemos só pensar nisso quando chegarmos ao hospital?
― peço a ela que balança a cabeça concordando.
É um parto com hora marcada. Trinta e duas semanas, os gêmeos
estão saudáveis, mas muito grandes. Os médicos decidiram que estão em
condições de nascerem e marcamos para hoje.
― Cadê seus pais?
― Chegando ― aviso. Meu pai nem dormiu essa noite. Ligou meia
dúzia de vezes com alguma recomendação e nem são 8h da manhã. Vão nos
levar ao hospital. Onde o restante da família deve se reunir às 10h da manhã
para esperarem por notícias. Tio Leon veio da Grécia. Alana e Matt também.
Luka não pôde vir, mas já mandou mensagem. Ajudo Dulce a ficar de pé.
Pego a bolsa com suas coisas e as coisas dos gêmeos. Senhorita Granger
abanando o rabo ansiosa. Dê algum jeito ela sabe.
― Amanhã estamos de volta pequena. No máximo dois dias ― Dulce
diz a ela, que anda por entre nós dois. ― Minha mãe vai cuidar bem dela. Eu
sei, mas acho que ela vai morrer de saudade do papai.
― Não acho que saia amanhã, Dulce. Dois bebês. Acho que deve
levar uns três ou quatro dias.
― Tudo isso? ― Chegamos à sala. Dulce já cansada e acho que não
tinha mesmo como esperar mais tempo. Escuto o motor do carro dos meus
pais se aproximando.
― Senta-se um pouco, meu amor. Vou arrumar as coisas no carro.
A porta se abre quando ajudo Dulce a sentar. Meus pais entram e
posso ver a ansiedade disfarçada. Os dois sorriem.
― Bom dia! ― Papai beija Dulce. Investiga suas expressões.
― Bom dia. Estou ótima ― ela avisa. ― Só entupida.
― Uma boa definição ― mamãe brinca beijando Dulce também.
Depois toca a barriga. ― Dois monstrinhos. Como podem ter crescido tanto?
― Nem me fale. Nem sei quando foi que dormi pela última vez.
― Bom. Agora eles vão sair ― eu digo a ela.
― E vai continuar sem dormir mais uns meses ― mamãe diz rindo.
― Só que vai valer muito a pena. Cadê a Anita?
― Saiu cedo para a clínica. Foi dar as últimas ordens e vai direto para
o hospital. ― Anita tem ajudado muito. Se recuperou completamente e desde
que descobriu sobre os bebês tem sido carinhosa e presente. Ela nos ajuda
absurdamente. Não sei como seria sem ela.
― Prontos? ― papai pergunta e afirmo completamente apavorado.
Ele leva as malas enquanto eu apoio Dulce.
O percurso é feito lentamente, meu pai dirigindo e eu no banco de
trás segurando a mão dela. Uma conversa leve sobre bobagens que fazemos
questão de manter para não deixar Dulce nervosa.
― Vocês têm certeza de que estamos no horário? ― minha mãe
pergunta com medo de chegarmos tarde, sem Dulce, nada vai acontecer,
então tudo bem atrasarmos uns momentos.
― Sim, mamãe. O doutor acha que deve nascer pelas 10h da manhã.
― Estou aqui é pensando na senhorita Granger todo esse tempo sem
vocês. Será que não era melhor eu passar e levá-la para ficar com os meninos.
– meu pai me pergunta preocupado.
Dulce me sorri, ela e meu pai têm esse amor por animais em comum.
Todos nós amamos, mas nada que se compare a esses dois.
― Pode fazer isso, Heitor. Estava aqui muito preocupada com ela.
Mamãe vai ficar na correria esses dias e não vai poder cuidar dela direito.
― Ótimo. A senhorita Granger fica lá em casa ― meu pai diz
orgulhoso. Minha mãe revira os olhos porque sabe bem o que significa, muita
bagunça.
― Quando ela voltar vai estar mimada e mal-educada. Vai ver só o
que ela vai aprontar.
― Dulce põe ela na linha, mamãe ― eu brinco. ― E meus irmãos?
― Todos a caminho do hospital. Danny ficou tomando café, Emma
vai passar lá em casa para apanhá-lo com a Alyssa. O Josh e a Lizzie estão
indo também. July e Tyler vão ficar com a Bárbara e o Thiago.
― Quando penso que minha amiga ainda tem mais um mês pela
frente sinto até pena ― Dulce diz tentando se arrumar no banco.
― Estamos chegando, amor. ― Ela segura minha mão.
― Tão esquisito isso de ir para o hospital com hora marcada. Sem
aquela correria nervosa de costume. Sabem que estão estragando uma
tradição importante? ― meu pai comenta.
― Sabe que são dois bebês? ― mamãe diz rindo. ― Está ótimo
assim. Lissa e Bia é que se desorganizaram. Gêmeos precisam de um pouco
mais de atenção.
― Três pares. Acho que agora chega, né? ― eu digo a Dulce, ela
afirma.
― Estou até com medo. Já pensou se no próximo vem mais dois?
― Não tenho nada contra ― papai alerta chegando em frente ao
hospital. ― Desçam e já encontro vocês. Vou estacionar.
Ajudo Dulce enquanto minha mãe vai na frente e volta pouco depois
com uma cadeira de rodas, somos encaminhados direto para um quarto. Uma
enfermeira ajuda com os preparativos, Dulce se deita e começo a ficar tenso.
Até aquele segundo parecia tudo bem, agora que realmente está chegando a
hora eu me assusto, ficamos de mãos dadas.
― Harry.
― Fala meu amor.
― Tudo está bem, eu estou, foi razoavelmente fácil, mas pode
acontecer qualquer coisa.
― Não vai. ― Meu tom determinado não permite nem mesmo um
pensamento diferente.
― Deixa eu falar.
― Não deixo. – insisto, não quero nenhum pensamento negativo.
― Harry.
― Dulce, não é momento para pessimismo. Vai dar tudo certo.
Nossos bebês estão chegando. Amo você e vamos passar por esse momento
sem medo.
― Tem toda razão. Desculpe. ― Ela sorri, respira fundo buscando
suas forças.
Afasto os cabelos do seu rosto. Sinto falta dos longos cabelos negros
quase na cintura, mas entendo que neste momento eles precisavam ficar mais
curtos para serem mais práticos, ela os cortou na altura dos ombros e agora
ela parece ainda mais jovem. Sorrio com a constatação.
― Está parecendo uma menina.
― Te amo tanto. Desde o dia que dissemos sim não brigamos mais.
Viu que acabei de pedir desculpas?
― Sim. Eu vi, senhorita nervosinha. ― Ela me puxa para um beijo.
Anita entra para meu alívio, convivemos tanto que sua presença me traz
segurança.
― Cheguei. ― Ela beija a filha. ― Tudo vai dar certo. Estou muito
orgulhosa. Todos os Stefanos estão reunidos lá fora. Boa sorte, meu amor.
Vou me sentar bem pertinho do Ulisses. Assim não fico tão nervosa.
― Vai, mamãe. Assim que nascer o Harry vai te avisar.
― Nem nomes eles têm. ― Ela beija a barriga da filha. ― Harry
cuida da minha filha.
― Pode deixar. ― Ela me beija o rosto com os olhos úmidos, meus
pais se juntam a nós.
― Estou achando que está atrasado. ― digo um tanto ansioso.
― Falei com o médico agora. Ele está indo se preparar e logo a
enfermeira começa os procedimentos que eu não sei quais são, mas vou lá
perguntar ao Ryan.
― Por mim ele entrava junto, mas ele disse que não é ético. ―
suspiro. Minha mãe me abraça.
― Você tem um ótimo médico. Ele fez o parto do Ryan e da Gigi,
depois o do Thiago.
― Sim, mamãe, confiamos nele, mesmo assim ter um primo médico
na sala seria ótimo ― admito minha fraqueza. Olho para meu pai. Ele sorri
um tanto pensativo.
― É tão diferente agora. Quando penso em vocês chegando ao
mundo. Eu tinha tanto medo, me sentia sempre um menino. Sorte que a
mamãe parecia estar saindo para um passeio no parque.
― E agora está tudo bem? Não está nervoso?
― Tudo bem, meu filho. Agora estou confiante. Olho para você e
vejo o homem que se tornou e simplesmente sei que vai dar conta. Os dois
vão. Boa sorte. Por favor, não demorem a dar notícias.
Abraço meu pai, sinto sua força e seu carinho. Ele é especial de todos
os modos. Se amo a família que estou construindo é porque ele me ensinou.
― Pai... ― Um nó se forma na minha garganta. ― Tenho muito
orgulho de ser seu filho e prometo que vou me esforçar para ser capaz de
amar e educar meus filhos como você fez.
― Mães nessa família não têm a menor chance. Acostume-se, Dulce.
Um dia seu garotinho vai estar se declarando para o papai na sua frente. ―
minha mãe brinca secando uma lágrima. ― E você, querida, vai achar lindo.
― Amo você, mamãe.
― Ama, eu sei. ― Ela me abraça chorando. ― Sorte lá dentro. Fica
calmo para a Dulce ficar também.
Os três nos deixam e quando penso que vamos ter um tempinho vem a
enfermeira. Dulce aperta minha mão ficando tensa, a senhora de uniforme e
sorriso leve nos explica como vai ser.
Separo-me de Dulce apenas o tempo suficiente para me vestir e a
encontro na sala de parto. Tudo pronto para receber meus anjinhos. Não
escolhemos os nomes. Decidimos que seria quando olhássemos os rostinhos.
Tinha que ser algo que combinasse.
― Te amo. ― Eu me curvo para beijar seus lábios. Depois seguro sua
mão, firme. O médico chega sorrindo, está tranquilo, não deve ser grande
coisa para ele. Conversa um instante com Dulce, os dois muito mais calmos
do que posso ao menos entender.
Meu corpo parece todo amortecido, não sinto, não entendo, só espero
o melhor. Ser forte num momento como esse parece coisa para garotas e
médicos. Tem qualquer coisa em mim que me deixa completamente
emocionado e assustado. Não é só o nascimento. São dois filhos ... filhos que
precisam da minha força, filhos que dependem de mim.
Eu posso fazer, meu pai fez, mas não significa que não vou morrer de
medo a cada pequeno perigo, como agora. Quando tudo é tão delicado, Dulce
é anestesiada.
Ela tem um sorriso no rosto, os olhos brilham e as lágrimas correm. É
emocionante e perco a fala, concentro-me em olhar para ela, com medo de
assistir ao corte em seu ventre. O cheiro de medicamentos e o som dos
instrumentos mexe com meus instintos e vou ganhando força.
― Está indo bem, Dulce ― o médico diz. ― Muito bem. Já vou tirar
o primeiro bebê. Prontos?
― Sim, doutor ― ela responde por nós dois. ― Olha para ele, amor e
me diz como é.
Olhar? Não sei se é boa ideia. Definitivamente parece uma ideia ruim.
Balanço a cabeça afirmando, mas meus olhos continuam nela.
― Lá vem ― o médico brinca. ― Aqui está mamãe. ― Um choro
forte explode na sala e viro minha cabeça.
Lá está minha garotinha, sendo amparada por um pediatra. Linda.
Cheia de cabelos e enchendo seus pulmões de ar.
― Uma menina! – É tudo que consigo expressar.
― Harry. ― Dulce chora copiosamente e me curvo para beijá-la. Eu
também estou chorando, nossa menininha é trazida.
― Que linda. ― Quando ela é colocada ao lado do rosto de Dulce eu
só quero ficar ali. Olhando o doce momento entre mãe e filha. Beijo meu
bebê. Depois os lábios de Dulce.
― Ela é linda. Obrigada. ― Dulce chora e ri e eu como ela me
entrego a mesma emoção. ― Te amo, minha pequena. Muito. Olha, Harry.
Que linda. ― Ficamos um longo momento olhando para ela. ― Selena.
Selena Stefanos ― ela diz e afirmo.
― Lindo nome. Em homenagem às suas origens. Anita vai gostar.
― Selena. Nossa filha. Minha garotinha. Selena Stefanos. ― Oi, meu
amor. Eu amo você.
― Agora os papais têm que me deixar cuidar dela. ― O pediatra a
retira de nós e sinto falta dela. Beijo Dulce mais uma vez. Nossas lágrimas
misturadas. É o mais importante momento da minha vida.
― Agora lá vem ele. ― O médico nos tira do transe e aperto a mão de
Dulce. Meu menino está a caminho.
― Você escolhe, amor ― ela diz levando minha mão aos lábios para
beijar. ― Está tudo bem, doutor?
― Tudo. Você está indo muito bem, Dulce. Muito bem. Estou
orgulhoso. Vamos lá. Pronto, garotão.
Outra vez o choro, esse ainda mais forte e meus olhos encontram meu
filho. Ainda sujo sendo entregue ao médico. Enrolado em um lençol ele vem
para Dulce.
― Oi, filho, mamãe te ama. ― Ela chora, aos soluços de amor,
completamente mãe. ― Ele é lindo. Obrigada, Harry. Obrigada por esse lindo
presente. Nossos bebês chegaram.
― Sim. Oi, filho. ― Toco o rostinho que parece caçar o seio da mãe e
me arranca um sorriso. Ele espirra, meus olhos marejam. Um menino, o meu
menino. ― Te amo, pequeno. Henry Heitor Stefanos. ― Dulce me observa.
― O que acha, meu amor? Gosta?
― Amo. Seu pai merece esse presente. Henry Heitor Stefanos e
Selena Stefanos.
Meus lábios tocam os dela levemente. Dulce parece tão bem, nem dá
para imaginar que neste segundo está sendo costurada, enquanto só pensa
neles, nos nossos bebês.
― Pronto, papais. Agora ele precisa ir encontrar a irmã. ― Mais uma
vez ficamos sozinhos. Olhando de longe enquanto eles recebem os primeiros
atendimentos. Depois é uma questão de concentração e não tenho. Eles
terminam a cirurgia. Dulce adormece, os bebês vão para o berçário e sou
retirado da sala, sem saber se quero estar com ela ou com eles, sentindo-me
pequeno diante da grandeza dela, e gigante diante da necessidade deles.
― Pode ir anunciar à sua família. Eles podem ver os bebês no
berçário. Vão ficar lá umas horas para termos certeza de que tudo está bem.
Dulce vai dormir um pouco e preciso que mande sua família para casa. Tem
um pequeno batalhão lá fora, Harry.
― Desculpe, doutor. Vou cuidar disso, ela está mesmo bem? Quanto
tempo vai dormir?
― Só um pouco. Se refazer do parto, Dulce está ótima. Pode ir.
Obedeço porque estou completamente tonto, com os rostinhos dos
meus anjinhos a dançarem em minha retina.
Encontro os Stefanos na sala de espera. Todos ficam de pé e me
olham ansiosos.
― Vai, filho! ― Mamãe pede apertando a mão do meu pai. Meus
irmãos estão lá. Meus tios e tias. Como sempre é. Somos assim, Stefanos.
Preciso me concentrar em ensinar exatamente isso aos meus bebês.
Amarem a família, como papai me ensinou.
― Nasceram! ― aviso e assisto o alívio de todos em sorrisos e
lágrimas. ― Selena Stefanos e Henry Heitor Stefanos nasceram.
Meu pai se espanta um pouco. Sinto seu orgulho, sua emoção. Sim.
Eu tinha que agradecer, tinha que homenagear. Ninguém ama como ele.
― Jogo baixo. Viu isso, Josh? Ficou difícil para você e Lizzie.
Enquanto ficavam pensando no bruxinho olha aí o Harry ganhando pontos
com o papai ― tio Ulisses brinca.
― É sério, filho? ― Meu pai me abraça chorando como eu, talvez
não tanto quanto eu, tem um alívio absurdo em estar abraçado a ele que me
desmonta e talvez seja minha última chance de ser apenas filho, porque
agora, antes de tudo, eu serei sempre pai, antes das minhas angústias, dos
meus medos, os deles, dos meus bebês, como é com meus pais.
― Obrigado, papai. Só quero mostrar isso no nome do meu filho. A
coisinha mais linda que já vi. Os dois. ― Deixo mais uma lágrima cair. ―
São lindos.
― Como a Dulce está? ― Anita pergunta, tirando-me dos braços do
meu pai para me envolver carinhosa e me provocar mais lágrimas que se
misturam as dela.
― Bem, Anita. Já vamos poder ficar com ela. Está indo para o quarto,
se visse como foi forte e ficou tranquila. Venham ver meus bebês. ― Levo o
grupo para o vidro do berçário. Sinto orgulho de cada elogio. Até consigo rir
das provocações do meu tio sobre eles serem exatamente idênticos ao meu
joelho. Depois é o que sempre acontece. Felicitações. Abraços e partida.
Emma e Danny ficam junto com meus pais. Lizzie me abraça.
― Te amo, irmão. Conte comigo para cuidar dos gêmeos sempre que
precisar. ― Olhamos os dois para meu pai com o rosto colado no vidro ainda.
― E o papai deixar é claro.
― Já vou ficar grato se conseguir criar meus filhos ― brinco com ela.
― Colocar o nome dele não ajuda. ― Ela devolve a brincadeira.
― Vou buscar o Thiago e a Bárbara. Eles estão loucos para virem. —
Ela e Josh partem. Emma me abraça. Não para de chorar.
― Estou boba. São lindos demais. Harry quero morar com você.
― Pode ir. Serão bem-vindas ― digo olhando para Alyssa. As duas
ainda têm alguma reserva que vem caindo a cada dia.
― Vai desenhá-los? ― pergunto a Danny. ― Pelo que sei tem um tal
rosto proibido que anda desenhando muito. ― Ele revira os olhos. Dá um
sorriso que se torna uma careta.
― Não escute eles. Parabéns. São lindos. Vou ser um ótimo tio.
Prometo.
― Sei que sim. Comece aprendendo a trocar fraldas.
― Não tão bom assim ― ele brinca. Depois nos afastamos. ― Vai lá
com a Dulce. Dá um beijo nela por mim.
Finalmente eu a encontro, depois que boa parte da família vai embora
e me liberam a entrada. Dulce dorme tranquila. Olho seu rosto e não acredito
no que fez. Na grandiosidade de tudo isso. Dois bebês. Ela os carregou,
protegeu e amou e agora está tranquila. Dormindo.
Anita entra no quarto secando lágrimas, sorri para mim e aperta
minha mão, depois me abraça.
― Minha filha não podia ter companheiro melhor. Obrigada, Harry.
Por esse amor, por meus netos.
― Anita. Sou eu que tenho que agradecer. ― Ela me sorri. Ficamos
os dois olhando Dulce dormir. ― Eles são lindos, não são?
― São. Selena e Henry. Achei ela parecida com sua mãe.
― Achou? Mamãe vai ficar emocionada.
Dulce abre os olhos já sorrindo. A mulher mais linda de todo o
planeta.
― Onde eles estão?
― Já vem, descansa. Estão bem. – Anita abraça a filha chorando.
― Viu meus bebês, mãe? Não são lindos?
― Seus bebês são lindos. Parabéns minha filha. É o dia mais feliz da
minha vida. ― Ela beija a testa de Dulce, acaricia seu rosto cheia do seu
orgulho de mãe, emocionada, juntas chegaram aqui, Dulce nunca a deixou e
agora Anita é de algum modo, nosso porto seguro. ― Agora vou deixar vocês
dois descansarem. Volto mais tarde.
— Amo você mamãe. – Ela balança a cabeça secando lágrimas e
acenando até deixar o quatro.
Meus pais devem vir logo, agora estão perdidos de amor em frente a
uma vidraça e eu me sento na beira da cama, Dulce se acomoda sentando-se
melhor com minha ajuda.
― Será que alguém avisou a July? Não quero que ela fique nervosa.
― Com certeza o tio pensou nisso. Não se preocupe. Sua amiga está
bem. Logo vamos estar na sala de espera para receber a priminha dos nossos
bebês.
― Elas vão ser melhores amigas. Os três vão ― Dulce diz sorrindo o
tempo todo. ― Amo você. Achei que você desmaiaria umas duas vezes. ―
Ela ri. ― É sério. Se visse sua cara quando pedi que olhasse para vê-los
nascendo.
― Achei que estava indo bem em disfarçar.
― Nem um pouco, amor. Mesmo assim amei que estava fingindo só
para me deixar calma.
― Te amo, mexicana linda.
― Vamos ter mais. Vamos encher seu pai de netos. É isso, nesse
momento eu me sinto totalmente capaz de ter mais dois ― ela diz me
olhando e se for pensar, acho que eu também posso gostar disso.
― É isso, vamos começar uma nova disputa. Já empatamos com o
Luka. ― Vamos passá-lo. ― Ela ri e me curvo para beijá-la. Um longo beijo
de amor e gratidão.
Meus filhos entram no quarto, são colocados em seus braços. Um em
cada braço. Os braços de uma mãe sempre prontos.
Somos a família que sabíamos que íamos ser, mesmo quando mal
podíamos ficar juntos sem que tudo desse errado e acabássemos numa briga.
Sempre pertenci a Dulce e ela sempre foi minha.
Tudo aconteceu no tempo certo. Quando crescemos o bastante para
reconhecer nossos erros. Nunca fomos um conto de fadas, mas pela segunda
vez, olhando para ela, sorrindo com Selena e Henry nos braços é onde me
sinto, no mais belo conto de fadas.
Capítulo 26
Harry

— Tem certeza, papai? – questiono meu pai sentado atrás de minha


mesa com ele diante de mim a sorrir decidido.
— Sim, Harry, claro que tenho certeza, preciso de férias para curtir
meus netos, quero viajar com a mamãe também, uma lua de mel, não muito
longa, Anita vive com vocês, se me afastar demais das crianças elas vão
acabar gostando mais dela.
— Não tem com que se preocupar, é impossível, nem falamos seu
nome em voz alta, papai, ou eles se agitam querendo você.
É como sinos encantados em seus ouvidos, ele sorri cheio de si, ao
menos para Henry e Selena, ele é o único avô, não precisa dividir com o tio
Nick e nem mais ninguém e adora isso.
— Vê como preciso de férias com as crianças? Eu os apanho pela
manhã, passeamos, vamos à pracinha...
— Pracinha, papai? Já viu o tamanho do seu jardim?
— Me deixe sonhar, Harry, eu levo os meninos a praça, eles
socializam com outros bebês, eles precisam disso.
— Pai, temos muitos bebês na família, mais do que seria natural para
ser honesto.
— Continuando meus planos, não me interrompa, sou seu pai. Depois
eles passam o dia comigo e a mamãe, levo a senhorita Granger também, ela
pode se magoar se a deixarmos para trás, Potter e Lily adoram a presença
dela, serão dias alegres e você vai receber seus bebês tão cansados que vão
dormir sem nem dar boa-noite.
— O que será uma pena, já que amo meus filhos e adoraria ter um
tempo de qualidade com eles.
— Ainda estamos na parte em que não me interrompe, 15 dias, apenas
isso, depois pego sua mãe para uns dias em Londres, tem muito tempo que
não vamos para casa, ela adora nossa casa, temos lindas memórias de lá e o
Potter e a Lily amam o clima de Londres, é bem mais tranquilo passear com
eles e bem, enquanto isso, assume meu lugar.
— É a parte que me assusta um pouco.
— Bobagem, você está pronto, aliás, faz tempo que está pronto.
— Mas você está sempre por perto, papai.
— Escuta, seu primo Josh está aqui, ele conhece cada pequeno buraco
nessa empresa, ele é bom em tudo e se ficar preocupado ou inseguro, é só o
procurar.
— Um dia... pai, eu sei que um dia eu acabaria substituindo você,
pelo menos aos poucos, mas tão cedo?
— Um mês, Harry, não estou indo embora e não está tomando meu
lugar, eu sei que é isso que está pensando.
— Acho que estou. – admito e ele me sorri, fica de pé e faço o
mesmo.
— Meu lugar é seu, sabe disso, é como eu quero que seja, mas não
agora, porque eu sei que precisa de tempo para se sentir pronto e também
quer aproveitar a família, então não se prenda a isso, mas agora, por esses
dias, quero férias e quero que fique em meu lugar.
— Tá, bom. Te vejo à noite. Vocês vêm jantar em casa, não é?
— Sim, sua mãe combinou com a Anita, elas vão cozinhar juntas, ela
está muito bem, não é mesmo?
— Muito, papai. Ficamos de olhos abertos, sabemos que é uma
doença silenciosa, que ela ainda pode cair, é difícil distinguir o que é
depressão e o que é tristeza, então às vezes somos meio cansativos com
Anita, mas ela tenta entender nossos exageros e os bebês ajudam tanto, ela
está realizada em cuidar deles e eu feliz, porque Dulce está feliz.
— Isso é o que importa. Te vejo à noite, já sabe, acabo de entrar em
férias, sucesso. – Papai me abraça e deixa minha sala cheio de pressa.
Sinto-me meio sozinho quando me acomodo atrás da minha mesa e
respiro fundo buscando coragem, no fim foi para isso que estudei e foi com
isso que sonhei, mas não achei que sentiria tanto medo e saudade do papai
nos corredores.
Tolice, ele acaba de sair, estou exagerando, sou um Stefanos, isso é o
que fazemos de melhor. Exagerar.
— Nervoso? – Josh entra na minha sala depois de uma leve batida e
balanço a cabeça em uma afirmação. – Vai passar, eu ainda fico um pouco
ansioso quando eles me largam sozinho, ao menos agora não estou mais
sozinho, tenho você aqui.
— E minha irmã.
— Sim, mas a Lizzie não se envolve muito no que não é do ramo do
Direito, ela detesta o resto todo, meu pai também é como ela, não gosta
muito, mas ainda se envolve um pouco. Sua irmã, não.
— Vocês não têm planos de viajar por enquanto, não é?
— Não, mas o tio Ulisses está por aí e o papai também. – Josh me
tranquiliza. – Você é instintivo Harry, um bom chefe, as pessoas adoram
você. Não se preocupe.
— Já está de saída? – pergunto olhando o relógio.
— Sim, vou deixar a Lizzie no ballet e depois pegar minha mãe e o
meu filho na Associação, mas meu pai vai ficar mais um pouco, ele está
resolvendo qualquer coisa do Tyler, negócios novos daqueles dois
empreendedores milionários.
— E a cada dia, mais. – brinco e Josh concorda. – Vai para Kirus
também?
— Vou, eu prometi ao tio Leon, vamos na sexta e trabalhamos por lá
no começo da semana.
— Primeira vez que os gêmeos vão fazer essa viagem, eu estou com
medo do papai chorar. Ele não vê a hora de apresentar a ilha as crianças como
fez comigo.
— Sei como é. Passei por isso, mas o papai estava menos emocionado
que eu, meu pai é mais Nova-iorquino.
— Sim, eu sou como ele. – digo a Josh. – Dulce sempre ri quando
digo isso, mas eu me sinto mais inglês que grego.
— Pode ser, tem um jeito inglês de ser mesmo, já eu, sou totalmente
grego. – Josh comenta e eu concordo, ele nos ama, nos protege, ele é o mais
atento à família, ele ama a ilha, ele é o tio Leon. – Bom trabalho e boa sorte,
foi isso que vim dizer, se precisar estou aqui. Até, amanhã.
Josh deixa minha sala, é bom que nunca competimos, tem lugar para
todos aqui, isso foi sempre algo importante que nos explicaram, assim como
os quatro irmãos nunca competiram e sempre se ajudaram, é o mesmo
conosco. Nós nos respeitamos e aceitamos as diferenças, ajudamos um ao
outro e seguimos como eles, pensando no melhor para todos.
O resto do dia é bem tranquilo, quando deixo minha sala tio Ulisses
está saindo também, sorri me dando um meio abraço.
— Eu adoro ver vocês aqui, sinto que minhas férias eternas estão cada
dia mais perto. – ele brinca, mas sei que ama o que faz. – Como é substituir o
papai?
— Complicado, tio, dá medo, ele é bom.
— É mesmo, sempre foi. Como estão os bebês?
— Bem, lindos, aprendendo coisas novas todos os dias, já sabem
mandar beijo e dar tchau.
— Seu pai me disse, umas 70 vezes, inclusive. – Meu tio ri. – Te vejo
amanhã. Eu e a Sophi vamos sair para dançar e beber.
— Sabe viver não é, tio?
— Você também, do seu jeito, pai de família como seu pai. O que
importa é ser feliz.
Meu tio me dá tapinhas nas costas antes de caminhar para seu carro.
— Até, amanhã.
— Até. Pronta para uma longa noite, Brigith? – ele pergunta ao carro
esportivo e isso é o tipo de coisa que ele faz, dá nome aos carros e motos.
Senhorita Granger me recebe louca de saudade, não importa se fico
fora uma hora ou o dia todo, a recepção é sempre calorosa. Ela se contorce
em torno de mim, abana o rabo desesperada, abaixo-me para uns minutos de
carinho e boa conversa.
— Vamos ver seus irmãos? Mamãe está em casa? – Dulce tem saído
pouco, eles estão com oito meses, ela já está desmamando os dois, mas ainda
é difícil ficar muito tempo fora, vai à clínica pela manhã, fica por umas duas
horas e depois mais umas duas horas no começo da tarde, quando eles
dormem um pouco em companhia de Anita ou a mamãe.
Senhorita Granger corre na frente, ela está sempre a cuidar das
crianças. Horas, simplesmente deitada perto deles, dorme no quarto deles,
nos abandonou sem qualquer aviso no dia em que os gêmeos chegaram, não
que tenhamos deixado o quarto, passamos toda a noite a observá-los dormir.
Feito dois bobos sem conseguir desgrudar os olhos das crianças.
Meu coração se aquece quando os vejo juntos, no grande tapete
colorido no chão da sala, com Dulce a distraí-los com brincadeiras. Selena
apoiada em um monte de almofadas e Henry já mais durinho, ele é mais
firme, em compensação ela é mais alegre e sempre aprende tudo antes, Henry
imita a irmã e com isso aprende também. Os dois brigam também e ficamos
encantados da primeira vez que assistimos os dois a fazer cabo de guerra com
um brinquedo e só reagimos quando caíram os dois no choro e por fim, o
brinquedo não ficou com ninguém.
Senhorita Granger se deita no tapete enquanto fico assistindo as
crianças, é Selena a me notar primeiro, os olhos brilham, ela balança os
braços em uma alegria que me emociona.
— Papa! – Isso sim faz a vida toda valer a pena. “Papa”. Henry se
volta para me ver e como ela, se agita querendo atenção, tenta engatinhar até
mim enquanto tiro o terno e arregaço as mangas para me juntar a eles no
tapete.
— Papai chegou! – Dulce avisa me olhando cheia de vida, os cabelos
de novo crescendo, porque ela sente falta deles compridos, como eu sinto.
— Mexicana linda. – digo me dobrando para beijá-la antes mesmo
dos bebês, ela toca meu rosto, tento me afastar, mas ela me segura para mais
um beijo.
— Saudade. – Dulce me conta com olhos cheios de fome, da nossa
fome de amor. Sinto as crianças se segurarem em mim buscando atenção,
afasto-me de Dulce e consigo erguer os dois ao mesmo tempo, me acomodo
ao lado dela, pernas cruzadas, um bebê em cada coxa e senhorita Granger
diante de mim, meio querendo atenção, meio querendo protegê-los como se
apenas ela fosse capaz.
— Como foi o dia? – pergunto aos dois, só um enrolar de língua de
Selena e um aplaudir de Henry, então ficamos ali, distraídos um longo
momento, brincando de carrinho e boneca.
— Já em casa, Harry, por isso essa farra toda. – Anita surge na sala
com um pano de prato nas mãos.
— Oi, Anita, já soube que vai cozinhar com a minha mãe.
— Sim, combinamos de trocar receitas, ela vai me ensinar um peixe
que você gosta e vou ensinar a ela uma receita que a Dulce gosta.
— Que linda, mamãe. Assim você agrada ao Harry e a Liv me
agrada? – Anita sorri.
— Claro que não. Assim mostramos às crianças um pouco da cultura
da família. – Eu e Dulce trocamos um olhar.
— Ainda bem que temos um ao outro. – Dulce se encosta em meu
ombro enquanto rimos desolados.
— Papa. – Minha pequena quer atenção, eu balanço a boneca diante
dela.
— Olha o bebê da Selena. Faz o bebê “nanar”. – Entrego a ela e como
que imitando o que fazemos com ela, balança a boneca nos braços.
— Amanhã vamos almoçar com a July. Primeira vez que saio sozinha
com eles. Que acha de me encontrar lá?
— Quer que passe aqui? – pergunto e ela nega.
— Quero tentar, você já foi sozinho com eles até o seu pai, então eu
dou conta.
— Se o Harry consegue, todo mundo consegue. – brinco ganhando
um beijo. Henry fica de pé se segurando em mim. – Viu isso? Olha, amor,
Anita, olha o que ele está fazendo? Quer andar pequeno? Vá em frente, papai
está aqui. – Henry está começando a ganhar coragem, nem posso imaginar o
dia em que vai correr pela casa atrás do cachorro, gritando por mim com um
carrinho na mão. Eu amo isso, quero muito mais deles, eu não consigo pensar
em algo melhor do que essa família.
— Vem com a mamãe, filho! – Dulce convida se afastando um pouco.
Henry ameaça, mas logo se gruda a mim e me sinto um tipo de super-herói e
é como via meu pai, a rocha em que eu podia me apoiar sem medo.
— Papai está aqui, pequeno. – Selena se estica toda tocando meu
rosto. – Sim, para você também, bonequinha.
— Então me ajuda a dar banho neles antes dos seus pais chegarem.
Depois é impossível. – Dulce fica de pé e me ergo com os dois no colo. –
Inveja. – Ela ri. – Adoro meu marido ex-jogador.
— Até que sinto falta dos campos.
— Pois eu acho que fica lindo dentro do terno. – Ela me beija mais
uma vez.
— Alguém está me fazendo desejar que o jantar acabe mais cedo. –
digo a ela que balança a cabeça em um sim. Já tivemos noites de exaustão,
em que mal conseguíamos encostar a cabeça no travesseiro antes de apagar
esgotados para nos erguermos duas horas depois para mais fraldas e
mamadas, nos amamos nesse ponto também, mas agora que a vida se encaixa
tudo parece de novo em fogo e juntos somos gasolina e isqueiro.
No andar de cima, eu e Dulce temos uma rotina perfeita, aprendemos
a fazer tudo em linha de produção, dois bebês não é algo que seja fácil, eu
nem sei como faríamos sem Anita e meus pais, Luka e Bia faziam parecer
fácil, mas é Kirus e existe um batalhão de ajuda por lá.
Uma hora, mangas de camisa e peito molhados, calça social com as
pernas dobradas também e o chão do banheiro um tanto molhado.
Os meninos animados a brincar no berço, as vezes acho que eles
conversam em alguma língua alienígena, tenho certeza de que se entendem,
um dia vou perguntar ao Luka e Alana sobre isso, são o único par de gêmeos
em idade de responder.
Senhorita Granger simplesmente fica ansiosa e dispara escada abaixo,
eu sorrio pensando que o vovô chegou, só isso explica seu desespero.
— Vamos, Harry, o Heitor chegou. – É imediata a reação, brinquedos
são esquecidos e os bracinhos erguidos pedindo colo. – Não é deprimente? –
Dulce brinca. Eles não ficam felizes assim quando chegamos.
— Papai merece, ele lutou por eles. – Ela ri sabendo que foi isso
mesmo, meu pai fez campanha desde nossa adolescência.
Ela pega Henry e eu Selena, descemos as escadas e papai ainda está a
cumprimentar a senhorita Granger enquanto mamãe e Anita estão de
conversa sobre o jantar.
— Meus anjinhos! – mamãe avisa me tirando Selena e correndo para
Henry, não chega antes do papai e logo os dois estão envolvidos com os
meninos, até se lembram de nos dar um leve aceno de cumprimento.
Então vamos nos acomodar na sala, mamãe não demora a ir se juntar
a Anita e papai já está praticamente deitado no chão enquanto fico a me
lembrar de todas as brincadeiras que fazíamos juntos, sinto falta do Danny
assim bebê, com Dobby o empurrado no andador enquanto eu e Emma
tínhamos ataques de riso e Lizzie chamava o papai porque estávamos
aprontando.
— Como foi o resto do dia sem mim, filho?
— Tudo bem, papai.
— Fiquei orgulhosa. – Dulce me conta e passo meu braço por seu
ombro, ela se acomoda em meu peito, os bebês esmagam meu pai e a
cachorra se junta a eles, nós dois rimos. Ele volta a ser criança com eles.
— Tudo organizado para apresentar Kirus para os meninos? – papai
questiona.
— Tudo, minha mãe vai ficar aqui, ela quer cuidar da clínica e acho
que quer umas férias da gente. – Dulce conta. Anita não gosta muito de
longas viagens, mas ama cuidar da clínica e gerenciar tudo, então não
insistimos.
O jantar fica uma perfeita mistura, enquanto como a comida inglesa,
Dulce come comida mexicana e isso diz algo sobre nós, demoramos a
entender que não precisamos ser iguais, podemos ter independência, e ainda
assim, sermos felizes juntos.
A viagem para Grécia começa com uma grande bagunça na entrada
do avião. É também a primeira vez para Aurora e July está emocionada com
sua pequena princesa nos braços.
Tio Nick tendo pequenos infartos com três bebês a bordo, mais os
cachorros, que o tio Ulisses reclama que vão ferir as crianças, quando
finalmente todos nos acomodamos e o avião decola tudo vira uma bagunça
ainda maior.
Henry chora, Annie ensina a amamentá-lo por conta da pressão no
ouvido, mas logo Selena está chorando também e uso a mamadeira de apoio.
Aurora parece mesmo uma princesa, educada e quietinha, as horas de voo são
uma diversão, papai jogando na cara do meu tio Nick que vai ter mais netos
que ele, tio Nick sendo provocado também por meu tio Ulisses e eu adoro vê-
los juntos.
Os helicópteros estão prontos, vamos com tia Sophi. Tio Ulisses
pilota o outro helicóptero, meus pais estão conosco e papai pega os netos nos
braços quando sobrevoamos o mar Egeu em seu azul turquesa. A ilha de
Kirus surge imponente e no alto, a construção que lembra um templo Grego e
talvez seja, um templo de amor, respeito e união. Ele aponta a paisagem aos
gêmeos, não acho que se importem, ou mesmo cheguem perto de
compreender, mas lá está papai mostrando a eles de onde vieram, o berço da
civilização e, também dos meus pequenos.
— Essa é a verdadeira terra de vocês, meninos, aqui sempre vão
encontrar um lar, veem? Kirus, a nossa verdadeira casa. Quando tudo parecer
errado é para cá que devem vir e então tudo vai se acertar. Estão vendo como
é linda.
Dulce me olha emocionada, quando pisca uma lágrima corre por seu
rosto e seco com um leve beijo, toco seus lábios com os meus. Só podia ser
ela, só podia ser nós dois.
— Eu te amo, Harry, e amo a família que me deu e esse pedaço de
chão que pertence aos meus filhos, nossos filhos.
— Banhados pelo azul infinito. Infinito como o amor que sinto por
você, Dulce Stefanos.
— Infinito e único. – ela diz me emocionando. Sim, é único, só pude
amar Dulce toda minha vida.
— Único amor.
FIM
[1]N.R. – está em itálico, porque a palavra gênia, feminina de gênio não existe. Ela é usada
da mesma forma para ambos os gêneros.

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