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CRÍTICA

ENTRE INSTITUCIONALISMO nismo jurídico" — expressão que para Macedo Jr.


E DECISIONISMO "está irremediável e definitivamente ligada ao pen-
samento jurídico de Carl Schmitt" (p. 39) — e todo
Carl Schmitt e a fundamentação do direito, de o seu desenvolvimento na obra schmittiana, desde
Ronaldo Porto Macedo Jr. São Paulo: Max Limonad, as idéias de "ditadura comissária" e "ditadura sobe-
2001, 228 pp. rana" (Die Diktatur: von den Anfängen des moder-
nen Souveränitätsgedankens bis zum proletarischen
Gilberto Bercovici Klassenkampf, de 1922), passando pela crítica ao
parlamentarismo e à Constituição de Weimar (Die
Originariamente dissertação de mestrado de- geistesgeschichtliche Lage des heutigen Parlamenta-
fendida pelo autor na FFLCH-USP, este livro pode rismus, de 1923, e Verfassungslehre, de 1928), até a
ser incluído entre os melhores trabalhos da recente dicotomia amigo/inimigo do conceito do político
e vasta bibliografia internacional sobre a polêmica (Der Begriff des Politischen, de 1932).
figura de Carl Schmitt1. Dentre os vários estudiosos O terceiro capítulo examina as teorias institucio-
que hoje analisam a obra schmittiana, Ronaldo Porto nalistas do direito, capitaneadas pelas obras de Mau-
Macedo Jr. destaca-se por centrar seu trabalho na rice Hauriou (especialmente o ensaio "La théorie de
influência das teorias institucionalistas do direito no l'institution et de la fondation: essai de vitalisme
pensamento de Schmitt na década de 1930. social", de 1925, incluído na coletânea Aux sources
O primeiro capítulo busca contextualizar a du droit: le pouvoir, l'ordre et la liberté, de 1933) e de
atuação de Schmitt entre os anos 1920 e 1940, ou Santi Romano (L'ordinamento giuridico, de 1918).
seja, entre a crise e queda do regime democrático de Finalmente, o quarto capítulo e a Conclusão tratam
Weimar e a ascensão e consolidação do nazismo. É mais propriamente da influência das teorias institu-
destacado o oportunismo de Schmitt — muito maior cionalistas sobre o pensamento de Schmitt, que na
do que sua convicção — na adesão ao regime década de 1930 — mais especificamente com o
totalitário, seguindo-se a interpretação dos norte- ensaio Sobre os três tipos do pensamento jurídico, de
americanos George Schwab e Joseph Bendersky2 19343, e a idéia de "ordenamento concreto" (konkre-
(pp. 29-37). O segundo capítulo aborda o "decisio- tes Ordnungsdenken) — teria, segundo Macedo Jr.,
mitigado o decisionismo, tornando-o uma espécie de
"decisionismo institucionalista" (p. 133).
(1) Cf., além dos títulos citados adiante, Caldwell, Peter C.
Popular sovereignty and the crisis of German constitutional Em nossa opinião, porém, há muito mais con-
law. Durham/Londres: Duke Univ. Press, 1997; Cristi, Renato. tinuidade do que ruptura no pensamento de Carl
Carl Schmitt and authoritarian Liberalism. Cardiff: Univ. of
Wales Press, 1998; Dyzenhaus, David. Legality and legitimacy:
Schmitt na década de 1930. A influência instituciona-
Carl Schmitt, Hans Kelsen and Hermann Heller in Weimar. lista na obra de Schmitt vem ao menos desde 1928,
Nova York: Oxford Univ. Press, 1999; McCormick, John P. Carl quando foi publicada sua Teoria da Constituição
Schmitt's critique of Liberalism. Cambridge: Cambridge Univ.
Press, 1999; Scheuerman, William E. Carl Schmitt: the end of (Verfassungslehre), em que pela primeira vez são
law. Nova York: Rowman & Littlefield, 1999. Araújo, José mencionadas as "garantias institucionais" (institutio-
Antonio E. La crisis del Estado de Derecho: Schmitt en Weimar.
Barcelona: Ariel, 1990; Galli, Cario. Genealogia della politica: nelle Garantien). Em um texto de 1931, Freiheitsre-
Carl Schmitt e la crisi del pensiero político moderno. Bolonha: chte und institionelle Garantien der Reichsverfas-
Il Mulino, 1996; Kervégan, Jean François. Hegel, Carl Schmitt:
le politique entre spéculation et positivité. Paris: PUF, 1992;
sung, ele aprofundou essa conceituação, diferenci-
Beaud, Olivier. Les derniers jours de Weimar. Carl Schmitt face ando tais garantias, reservadas às instituições de
à l'avènement du nazisme. Paris: Descartes & Cie., 1997; "Carl direito público (Igreja, exército, a autonomia orgâni-
Schmitt ou le juriste engagé". In: Schmitt, Carl. Théorie de la
Constitution. Paris: PUF, 1993; Maus, Ingeborg. Bürgerliche ca local etc.), das chamadas "garantias de instituto"
Rechtstheorie und Faschismus. 2 a ed. Munique: W. Fink, 1980; (Institutsgarantien), destinadas às instituições de
Mehring, Reinhard. Pathetisches Denken — Carl Schmitts
Denkweg am Leitfaden Hegels. Berlim: Duncker & Humbolt, direito privado (casamento, propriedade etc.). O
1989; Meier, Heinrich. Carl Schmitt, Leo Strauss und der Begriff conceito de garantias institucionais foi elaborado em
des Politischens: Zu einem Dialog unter Abwesenden. Stuttgart:
Metzler, 1998.
(3) Esse texto (Über die drei Arten des rechtswissenschaftlichen
(2) Cf. Schwab, George. The challenge of the exception. 2ª ed. Denkens) e O Führer protege o direito (Der Führer schutz das
Nova York: Greenwood Press, 1989; Bendersky, Joseph W. Recht), também de 1934, são reproduzidos no livro em
Carl Schmitt: theorist for the Reich. Princeton: Princeton Univ. tradução inédita de Peter Naumann, o q u e constitui mais uma
Press, 1983. importante contribuição de Macedo Jr.

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contraposição à clássica noção liberal de direito democrata exilado nos Estados Unidos, analisa a
subjetivo público, ou seja, direitos individuais opo- estrutura do Estado totalitário nazista).
níveis ao Estado. Com o livro Staat-Bewegung-Volk: die Dreigli-
Antiliberais e antiindividualistas na concepção ederung der politischen Einheit (Estado-Movimen-
schmittiana, as garantias institucionais protegem os to-Povo: a tripartição da unidade política), de 1933,
indivíduos desde que estes pertençam a alguma a adesão de Schmitt ao nazismo se consuma. Ele
instituição, e não porque eles possuam direitos separa ali a unidade política em três esferas: o
subjetivos fundamentais: a proteção está ligada à Estado (basicamente o exército e a burocracia), a es-
instituição, não à pessoa. Nas palavras de Schmitt, "a fera estática; o Povo, a esfera apolítica; e o Movi-
liberdade não é uma instituição jurídica", ou seja, os mento (consolidado no partido nazista), a esfera di-
direitos de liberdade só podem ser garantidos se nâmica, que penetra e dirige as outras promovendo
ligados a alguma instituição jurídica, prevalecendo sua síntese, a homogeneidade (inclusive racial)
assim a garantia institucional sobre a garantia das entre governantes e governados, por meio do Führer,
liberdades. Ao separar os direitos fundamentais em que era o chefe do partido, o chefe do Estado e o
três categorias (direitos de liberdade, garantias insti- chefe do povo. Esse livro pode ser considerado
tucionais e garantias de instituto), fazendo prevale- complementar a Sobre os três tipos do pensamento
cer as duas últimas sobre a primeira, Schmitt deixa jurídico, que consolidaria, segundo Macedo Jr., a
muito claro o que ele considera objeto de proteção mudança do pensamento de Schmitt do decisionis-
na Constituição de Weimar: as instituições mais mo puro para o "decisionismo institucionalista". A
tradicionais e conservadoras do sistema jurídico- divisão dos tipos de pensamento jurídico entre
político, em detrimento dos direitos fundamentais Norma, Decisão e Ordenamento, bem como a con-
propriamente ditos. solidação do conceito de "ordenamento concreto",
Pouco depois da publicação desse texto, o servem para justificar a visão de Schmitt acerca da
"hamletismo político" de Weimar foi resolvido pela "nova ordem" nacional-socialista. A "decisão" já
nomeação de Adolf Hitler como chanceler pelo havia sido tomada, encerrando a hesitação da demo-
presidente Hindenburg e a conseqüente implanta- cracia parlamentar de Weimar e superando o nor-
ção do Estado totalitário. Em 30 de janeiro de 1933, mativismo positivista. O que prevalecia, em sua
a "decisão", o grande problema da democracia opinião, era uma dualidade entre o Ordenamento,
republicana, está tomada. Na realidade, ao contrário mais estático, e as formações dinâmicas do Movi-
do que afirmam muitos autores, particularmente mento (Bewegung), síntese, como vimos, do Estado
Schwab e Bendersky, a adesão de Carl Schmitt ao e do Povo, conduzido pelo Führer. Dessa forma, o
nazismo não se limita a mero oportunismo político. "institucionalismo" de Carl Schmitt foi uma tentativa
Tal visão estaria baseada na versão do próprio de achar lugar para as instituições tradicionais ale-
Schmitt, elaborada após ter caído em desgraça junto mãs (família, exército, Igreja, propriedade) dentro
aos poderosos do nazismo, em 1936, e foi por ele da "nova ordem", conduzindo assim o Movimento
utilizada, inclusive, para sua defesa perante o Tribu- por formas jurídicas, constituindo o "ordenamento
nal de Nuremberg. concreto"4.
A sua hostilidade constante em relação à Re- Não há propriamente uma ruptura de Schmitt
pública, à Constituição de Weimar e ao Tratado de com o decisionismo — a despeito da aparente
Versalhes, bem como seu conceito de político (em mitigação deste sob a forma do assim denominado
que o inimigo pode ser facilmente visualizado no "decisionismo institucionalista" — e com a idéia de
"estrangeiro"), tornariam possível, por si sós, a sua "ordenamento concreto". Como muito bem salien-
tomada de posição sob o nazismo, embora não a tou Hasso Hofmann, a ditadura decisionista aparece
fizessem necessária. Schmitt não foi, realmente, o como conseqüência inevitável do pensamento do
grande teórico do Estado totalitário nazista, como "ordenamento concreto", pois a condição necessária
bem afirma Macedo Jr. (pp. 135-137), mas sua para que este exista como assegurador da unidade
afinidade teórica com o nazismo não pode ser
reduzida à contribuição para a teorização do "Estado (4) Cf. Stolleis, Michael. Geschichte des öffentlichen Rechts in
Deutschland, vol. III: Staats- und Verwaltungsrechtswissens-
dual" alemão (Der Doppelstaat, título do livro de
chaft in Republik und Diktatur, 1914-45. Munique: C. H.
Ernst Fraenkel de 1941, em que o autor, social- Beck, 1999, p p . 324-325.

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política é a decisão política incontestável5. E para posições em relação à turbulenta conjuntura históri-
Schmitt, desde Teologia política (Politische Theolo- ca e política da Alemanha do século XX. Isso sem
gie), de 1922, "soberano é aquele que decide sobre esquecer que, como jurista, Carl Schmitt era voltado
a situação de exceção". A "decisão" referida em também para a solução de problemas concretos e
Sobre os três tipos do pensamento jurídico, ansiada conjunturais, não podendo ter sua obra compreen-
pelo autor em todo o período weimariano, foi dida isoladamente da sua atuação política e pessoal
tomada em 1933. O fim da República de Weimar foi no decorrer de sua vida.
o fator que deu origem ao "ordenamento concreto" Esse mérito o livro de Ronaldo Porto Macedo Jr.
defendido por Schmitt em 1934. também tem, pois não tenta, artificialmente, separar
Autor sempre influente na Espanha e Itália, Carl o autor da obra. Separar a obra de Carl Schmitt de
Schmitt tem sido alvo de grande interesse em vários sua vida apenas serviria para fundamentar concep-
países, como Estados Unidos, Canadá e França. Hoje ções equivocadas ou distorcidas, como a adaptação
é visto por muitos, inclusive por setores do pensa- indevida de conceitos por ele elaborados para de-
mento de esquerda, como um grande crítico do fender a instituição do chamado "Estado total" em
liberalismo e das falhas da democracia representati- contextos históricos e políticos absolutamente dis-
va. O grande problema dessa "recepção" de Schmitt tintos. Um autor conservador e tradicionalista, que
é a tendência em amenizar ou ignorar sua atividade pensou toda a sua obra com o objetivo de combater
política anterior e, especialmente, em meio ao nazis- a democracia, a república e o pluralismo, não pode
mo. Não se pode ignorar o fato de que sua obra foi ser ignorado, mas também não pode ter seus concei-
toda elaborada visando justificar certas correntes tos utilizados inadvertidamente, sem a cautela de
político-ideológicas, bem como as suas próprias serem contextualizados da forma devida. Democra-
cia e Carl Schmitt — decisionista ou institucionalista
(5) Hofmann, Hasso. Legitimität gegen Legalität: Der Weg der
— decididamente não combinam.
politischen Philosophie Carl Schmitts. 3ª ed. Berlim: Duncker&
Humblot, 1995, cap. IV. Este livro, cuja primeira edição é de
1964, foi o pioneiro na análise aprofundada da obra de Gilberto Bercovici é doutor em Direito do Estado pela
Schmitt. Faculdade de Direito da USP.

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