Você está na página 1de 488

TEOLOGIA E

COSMOVISÃO
REFORMADA

Professor Dr. Hermisten Maia Pereira da Costa


Revisora Técnica: Me. Hellyery Agda Gonçalves da Silva

GRADUAÇÃO

Unicesumar
Reitor
Wilson de Matos Silva
Vice-Reitor
Wilson de Matos Silva Filho
Pró-Reitor Executivo de EAD
William Victor Kendrick de Matos Silva
Pró-Reitor de Ensino de EAD
Janes Fidélis Tomelin
Presidente da Mantenedora
Cláudio Ferdinandi
NEAD - Núcleo de Educação a Distância
Diretoria Executiva
Chrystiano Mincoff
James Prestes
Tiago Stachon
Diretoria de Graduação
Kátia Coelho
Diretoria de Pós-graduação
Bruno do Val Jorge
Diretoria de Permanência
Leonardo Spaine
Diretoria de Design Educacional
Débora Leite
Head de Curadoria e Inovação
Tania Cristiane Yoshie Fukushima
Gerência de Processos Acadêmicos
Taessa Penha Shiraishi Vieira
Gerência de Curadoria
Carolina Abdalla Normann de Freitas
Gerência de de Contratos e Operações
Jislaine Cristina da Silva
Gerência de Produção de Conteúdo
Diogo Ribeiro Garcia
Gerência de Projetos Especiais
Daniel Fuverki Hey
Supervisora de Projetos Especiais
Yasminn Talyta Tavares Zagonel
Coordenador de Conteúdo
Roney de Carvalho Luiz
Designer Educacional
C397CENTRO UNIVERSITÁRIO DE MARINGÁ. Núcleo de Educação a Lilian Vespa da Silva
Distância; COSTA, Hermisten M. P.. Projeto Gráfico
Jaime de Marchi Junior
Teologia e Cosmovisão Reformada. Hermisten M. P. Costa. José Jhonny Coelho
Maringá-Pr.: UniCesumar, 2018. Reimpressão, 2020.
488 p. Arte Capa
“Graduação - EaD”. Arthur Cantareli Silva
1. Teologia. 2. Cosmovisão . 3. Reformada 4. EaD. I. Título. Ilustração Capa
Bruno Pardinho
ISBN 978-85-459-1230-9
CDD - 22 ed. 207 Editoração
CIP - NBR 12899 - AACR/2 Robson Yuiti Saito
Qualidade Textual
Felipe Veiga da Fonseca
Ilustração
Robson Yuiti Saito
Ficha catalográfica elaborada pelo bibliotecário
João Vivaldo de Souza - CRB-8 - 6828
Impresso por:
Em um mundo global e dinâmico, nós trabalhamos
com princípios éticos e profissionalismo, não somen-
te para oferecer uma educação de qualidade, mas,
acima de tudo, para gerar uma conversão integral
das pessoas ao conhecimento. Baseamo-nos em 4 pi-
lares: intelectual, profissional, emocional e espiritual.
Iniciamos a Unicesumar em 1990, com dois cursos
de graduação e 180 alunos. Hoje, temos mais de
100 mil estudantes espalhados em todo o Brasil:
nos quatro campi presenciais (Maringá, Curitiba,
Ponta Grossa e Londrina) e em mais de 300 polos
EAD no país, com dezenas de cursos de graduação e
pós-graduação. Produzimos e revisamos 500 livros
e distribuímos mais de 500 mil exemplares por
ano. Somos reconhecidos pelo MEC como uma
instituição de excelência, com IGC 4 em 7 anos
consecutivos. Estamos entre os 10 maiores grupos
educacionais do Brasil.
A rapidez do mundo moderno exige dos educa-
dores soluções inteligentes para as necessidades
de todos. Para continuar relevante, a instituição
de educação precisa ter pelo menos três virtudes:
inovação, coragem e compromisso com a quali-
dade. Por isso, desenvolvemos, para os cursos de
Engenharia, metodologias ativas, as quais visam
reunir o melhor do ensino presencial e a distância.
Tudo isso para honrarmos a nossa missão que é
promover a educação de qualidade nas diferentes
áreas do conhecimento, formando profissionais
cidadãos que contribuam para o desenvolvimento
de uma sociedade justa e solidária.
Vamos juntos!
Seja bem-vindo(a), caro(a) acadêmico(a)! Você está
iniciando um processo de transformação, pois quando
investimos em nossa formação, seja ela pessoal ou
profissional, nos transformamos e, consequentemente,
transformamos também a sociedade na qual estamos
inseridos. De que forma o fazemos? Criando oportu-
nidades e/ou estabelecendo mudanças capazes de
alcançar um nível de desenvolvimento compatível com
os desafios que surgem no mundo contemporâneo.
O Centro Universitário Cesumar mediante o Núcleo de
Educação a Distância, o(a) acompanhará durante todo
este processo, pois conforme Freire (1996): “Os homens
se educam juntos, na transformação do mundo”.
Os materiais produzidos oferecem linguagem dialógica
e encontram-se integrados à proposta pedagógica, con-
tribuindo no processo educacional, complementando
sua formação profissional, desenvolvendo competên-
cias e habilidades, e aplicando conceitos teóricos em
situação de realidade, de maneira a inseri-lo no mercado
de trabalho. Ou seja, estes materiais têm como principal
objetivo “provocar uma aproximação entre você e o
conteúdo”, desta forma possibilita o desenvolvimento
da autonomia em busca dos conhecimentos necessá-
rios para a sua formação pessoal e profissional.
Portanto, nossa distância nesse processo de cresci-
mento e construção do conhecimento deve ser apenas
geográfica. Utilize os diversos recursos pedagógicos
que o Centro Universitário Cesumar lhe possibilita.
Ou seja, acesse regularmente o Studeo, que é o seu
Ambiente Virtual de Aprendizagem, interaja nos fóruns
e enquetes, assista às aulas ao vivo e participe das dis-
cussões. Além disso, lembre-se que existe uma equipe
de professores e tutores que se encontra disponível para
sanar suas dúvidas e auxiliá-lo(a) em seu processo de
aprendizagem, possibilitando-lhe trilhar com tranqui-
lidade e segurança sua trajetória acadêmica.
CURRÍCULO

Professor Dr. Hermisten Maia Pereira da Costa


Doutor em Ciências da Religião pela Universidade Metodista de São
Paulo (UMESP/2003); Mestre em Ciências da Religião pela Universidade
Metodista de São Paulo (UMESP/1999); Especialista em Educação (1994);
Didática do Ensino Superior (1993); Administração com Ênfase em Recursos
Humanos (1993); Estudos de Problemas Brasileiros (1992) pela Universidade
Presbiteriana Mackenzie. Especialização em História do Século XX no Brasil
pela FAI (1995). É graduado em Pedagogia pela Universidade Presbiteriana
Mackenzie (1993), em Filosofia pela Pontifícia Universidade Católica de Minas
Gerais (PUC/1983) e em Teologia pelo Seminário Presbiteriano do Sul (1979).
Atualmente, leciona em várias instituições de ensino do Brasil (Maringá, Belo
Horizonte, Recife, Teresina, São José dos Campos, Goiânia, entre outras) e em
alguns países da América do Sul, como o Chile. Tem experiência na área de
Teologia Sistemática e História da Reforma Protestante. Faz parte de diversos
Conselhos Editorias de Revistas de Teologia e de Ciências da Religião. Tem
mais de 800 artigos publicados em diversos periódicos e sites. Tem 34 livros
publicados, alguns reeditados ou reimpressos, 13 capítulos de livros, vários
prefácios e endossos de livros, diversos textos e apostilas e slides que circulam
nos seus cursos e conferências.

Para informações mais detalhadas sobre sua atuação profissional, pesquisas


e publicações, acesse seu currículo disponível no seguinte endereço: <http://
buscatextual.cnpq.br/buscatextual/visualizacv.do?id=K4759433E4>.
APRESENTAÇÃO

TEOLOGIA E COSMOVISÃO REFORMADA

SEJA BEM-VINDO(A)!
Caro(a) aluno(a), seja bem-vindo(a) à disciplina Teologia e Cosmovisão Reformada. Antes
de entrarmos no conteúdo, peço que reflita na ilustração: “Não devem os filhos entesou-
rar para os pais, mas os pais, para os filhos” (2Co 12,14). Paulo entendia que como pai na
fé dos crentes coríntios (1Co 4, 14-15; 2Co 6,13; 1Co 3,6.10; 9,1) deveria alimentá-los e
fortalecê-los em sua fé. Esta analogia fala-nos da responsabilidade do pastor em buscar
o suprimento necessário, por intermédio da Palavra, para o progresso espiritual de seu
rebanho. Por isso que a infidelidade ou negligência de um pastor é fatal à Igreja.
O designativo “Pais” foi aplicado aos bispos da Igreja no segundo século. A obra anônima,
O Martírio de Policarpo, escrita por uma testemunha ocular do ocorrido, por volta do ano
155 A.D., relata que “a turba pagã e judia desejando matar Policarpo, por ser cristão, voci-
ferou: ‘Eis o doutor da Ásia, o pai dos cristãos, o destruidor dos deuses, que com seu ensi-
no, afasta os homens dos sacrifícios e da adoração’”. Isto indica que na época era comum
referir-se aos bispos cristãos como “Pais” (no sentido acima descrito, tinha uma conotação
pejorativa, como “pai de uma heresia” ou “pai dos hereges”). O emprego dessa expressão
disseminou-se de tal forma que, no quarto século, todos os pastores e mestres, que ha-
viam participado do Concílio de Nicéia (325), eram chamados de “Pais da Igreja”.
Entre os cristãos, a expressão aplicada aos bispos assume uma conotação carinhosa, indi-
cando também a sua responsabilidade. Etienne Gilson (1884-1978), seguindo uma com-
preensão clássica, diz que um “Pai” deveria apresentar quatro características: “ortodoxia
doutrinal, santidade de vida, aprovação da Igreja, relativa Antiguidade” (até fins do século
III, aproximadamente). Curiosamente, na única carta escrita por Calvino a Lutero (em 25 de
janeiro de 1545), a qual este, ao que parece, jamais recebeu, Calvino se dirige a Lutero como
“meu respeitadíssimo pai”, “respeitadíssimo pai no Senhor” e “meu pai sempre honorável”.
Os documentos da Igreja que recebemos não são infalíveis (nem mesmo naquilo que é
consensual), nem jamais pretenderam isso; contudo, são os tesouros históricos e teoló-
gicos que nos foram legados. A sua autoridade é relativa. No entanto, a Igreja não pode
sobreviver sem a consciência de seu passado, de suas lutas, dificuldades, fracassos e,
certamente, por graça, de suas vitórias. Esta consciência deve gerar em nós um espírito
de gratidão, humildade e desafio diante da magnitude da Revelação de Deus. Tais do-
cumentos ajudam-nos a compreender melhor quem somos como igreja e qual o nosso
papel na sociedade. E é exatamente isso que vamos discutir ao longo deste livro, na
Unidade I, verificaremos algumas questões relacionadas aos principais pressupostos e
percepções da Cosmovisão, bem como da Teologia Sistemática. Adiante, veremos sobre
as manifestações de Deus, por meio de suas revelações.
A história de nossos pais pode ser fonte de grande estímulo, consolo e alerta para nós.
Por meio da história de sua vida e testemunho podemos descobrir – às vezes para ver-
gonha nossa –, o quanto nossos irmãos do passado lutaram bravamente pela fé que
uma vez por todas foi entregue aos santos e da qual somos herdeiros. O nosso presente
tende a assumir dentro de alguns contextos o caráter de onipresença, como se fosse um
presente contínuo, assim, pensamos estar sozinhos em nossa empreitada, nos esque-
APRESENTAÇÃO

cendo da ação abençoadora e preservadora de Deus ao longo da história, que hoje


cabe ser escrita por nós. Crer no Deus Triúno é uma declaração de que não estamos
sozinhos; o Pai, o Filho e o Espírito Santo estão conosco; Deus veio a nós criando a
nossa fé. E mais: todos estamos irmanados pela mesma fé ao longo da história. O
Deus em quem cremos é o meu Deus e o Deus de muitíssimos irmãos que ao longo
da história têm vivenciado e testemunhado a mesma fé.
Na Unidade II discutiremos como se deu a criação do homem à imagem e semelhan-
ça de Deus, além de estudarmos sobre o pecado. Adiante, veremos também que na
Reforma Protestante do século XVI, o uso de Catecismos e Confissões, foi de grande
valia para a educação dos crentes, partindo sempre do princípio da necessidade
da fé explícita, de que todos os cristãos devem conhecer a sua fé, sabendo no que
creem e porque creem.
Mergulharemos na Unidade III, na história da Reforma Protestante e problematiza-
remos algumas questões relacionadas a: trabalho, vocação, comportamento, cosmo-
visão, arte, entre outros. Hoje, em nome de um suposto “pluralismo” pretensamente
acadêmico, o que podemos perceber, é um enfraquecimento desta ênfase, mesmo
nos Seminários ditos Reformados, acarretando um desfiguramento doutrinário por
parte de muitos de seus pastores e consequentemente, dos membros da igreja. Por
trás de todo pluralismo há o mito da neutralidade acadêmica, como se fosse possível
alguém ensinar sem seus pressupostos que conduzem a sua perspectiva da realidade.
A epistemologia antecede à lógica e esta, por mais coerente que seja, se partir de
uma premissa equivocada, nos conduzirá a conclusões erradas e, portanto, a uma
ética com fundamentos duvidosos e inconsistentes. Deve ser dito que toda verdade
é lógica, no entanto, por algo nos parecer lógico, não significa que seja verdadeiro.
Portanto, a questão epistemológica antecede a práxis e em grande parte a determi-
na. Contudo, como nos aprofundar no campo intelectual se abandonamos as ques-
tões epistemológicas?
As palavras de Machen (1881-1937), no início do século XX, não se tornam ainda
mais eloquentes nos dias de hoje? “A igreja está hoje perecendo por falta de pensa-
mento, não por excesso do mesmo”. Tendo isso em vista, na Unidade IV, abordare-
mos o direito e o dever de cada cristão e entraremos na questão do reconhecimento
da autoridade das escrituras.
Por fim, abordaremos a verdade nos textos bíblicos, alguns pensamentos contem-
porâneos e alguns aspectos importantes da Teologia Reformada. Ao iniciar este
estudo, caro(a) aluno(a), devemos fazê-lo com espírito de gratidão, tendo como
desafio nos apropriar das contribuições de nossos pais (tradição) e, em submissão
ao mesmo Espírito, partindo das Escrituras e deste patrimônio riquíssimo buscar
respostas para as indagações e questionamentos contemporâneos. Bons estudos!
09
SUMÁRIO

UNIDADE I

COSMOVISÃO CRISTÃ

15 Introdução

16 Pressupostos e Percepções

24 Teologia Sistemática

31 Cosmovisão

36 Todos os Homens e um Desejo - A Contracultura Cristã

48 O Deus Que se Revela

69 Considerações Finais

75 Referências

80 Gabarito

UNIDADE II

HOMEM: IMAGEM E SEMELHANÇA DE DEUS

83 Introdução

84 A Narrativa Bíblica

112 O Homem Caído: A Imagem Desfigurada

133 Considerações Finais

139 Referências

146 Gabarito
10
SUMÁRIO

UNIDADE III

A REFORMA PROTESTANTE: HISTÓRIA E PRESSUPOSTOS TEÓRICOS

149 Introdução

150 A Reforma Protestante

184 A Reforma: Trabalho e Vocação

194 O Homem e o Trabalho

211 O Comportamento Cristão na Riqueza e na Pobreza

223 Cosmovisão e Arte

234 Culto Espiritual, com Arte, Inteligência e Submissão

260 Considerações Finais

267 Referências

274 Gabarito

UNIDADE IV

REFORMA, EDUCAÇÃO, EVANGELHO E OBEDIÊNCIA

277 Introdução

278 A Reforma e a Educação

299 A Ciência e sua Suposta Neutralidade Pressuposicional

327 A Mente Cativa

347 Considerações Finais

360 Gabarito
11
SUMÁRIO

UNIDADE V

A QUESTÃO DA VERDADE E O PENSAMENTO CONTEMPORÂNEO

363 Introdução

364 Defendendo a Verdade em um Mundo Relativista

367 O Pensamento Contemporâneo e a Teologia

392 A Verdade do Deus Verdadeiro em um Mundo de Mentiras

447 Teologia Reformada – Pontos Importantes

473 Considerações Finais

479 Referências

486 Gabarito

487 Conclusão
Professor Dr. Hermisten M. P. Costa

I
UNIDADE
COSMOVISÃO CRISTÃ

Objetivos de Aprendizagem
■ Discutir os principais pressupostos e percepções acerca da
Cosmovisão.
■ Abordar as principais ideias da Teologia Sistemática.
■ Compreender as principais ideias relacionadas à Cosmovisão.
■ Estudar os principais desejos do homem e o modo como a Bíblia
aborda questões relacionadas à autossuficiência, felicidade, pobreza
e perdão.
■ Verificar as diferentes manifestações de Deus, por meio de revelações
e conhecimentos.

Plano de Estudo
A seguir, apresentam-se os tópicos que você estudará nesta unidade:
■ Pressupostos e percepções
■ Teologia Sistemática
■ Cosmovisão
■ Todos os homens e um desejo – a contracultura cristã
■ O Deus que se revela
15

INTRODUÇÃO

Caro(a) aluno(a), seja bem-vindo(a) à primeira unidade da disciplina “Teologia e


Cosmovisão Reformada”. Neste primeiro encontro, estudaremos alguns tópicos muito
importantes para a sua formação: Pressupostos e percepções; Teologia Sistemática;
Cosmovisão; Todos os homens e um desejo e, por fim, O Deus que se revela.
Em Pressupostos e percepções você verá que nossa percepção e ação fundamen-
tam-se em nossos pressupostos, os quais são reforçados, transformados, lapidados
ou abandonados em prol de outros, conforme a nossa percepção dos fatos.
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

Já em Teologia Sistemática verificará que se trata de um estudo sistemático da


Revelação Especial de Deus, conforme exposto na Bíblia, cujo intuito é a glorifi-
cação de Deus por meio de conhecimento, aplicação e obediência a sua Palavra.
Em Cosmovisão descobriremos que há um sistema de ideias e valores sus-
tentados por nós, conscientes ou não, que se conecta ao nosso coração e permite
que vejamos o mundo e possamos dar significados a ele. Verificaremos, também,
que a nossa cosmovisão é constituída por um conjunto de crenças que estabele-
cem essencialmente a sua distinção de outras cosmovisões – Deus, Metafísica,
Epistemologia, Ética, Antropologia e História – ainda que haja no cerne de cada
cosmovisão diferenças importantes, porém, que não são excludentes.
Já no tópico Todos os homens e um desejo – a contracultura cristã, estudare-
mos como questões relacionadas à autossuficiência, felicidade, pobreza e perdão
são discutidos nas escrituras sagradas.
Espero que pare para refletir a cada tópico lido, tire proveito do conteúdo
e que cada um seja fundamental para a sua vida profissional e pessoal também.
Desejo-lhe bons estudos.

Introdução
16 UNIDADE I

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
PRESSUPOSTOS E PERCEPÇÕES

Caro(a) aluno(a), qual é a matriz de nosso pensamento? Queiramos ou não, gos-


temos ou não, temos matrizes que conferem determinado sentido à realidade por
ela ser percebida como tal. A realidade é o que é; no entanto, nós a percebemos
mediante contornos conferidos e mediados por nossa experiência. O nosso lugar
social privilegia a nossa percepção. O que nos privilegia também nos delimita.
Não somos oniscientes. Portanto, no que acreditamos, de certa forma, determina
a construção de nossa identidade. Isto é válido dentro de uma perspectiva cul-
tural como individual. Cada época é caracterizada por determinadas crenças as
quais moldam a sua visão de mundo (MCGRATH, 2005, p. 19).
Todos nós temos a nossa filosofia, adequada ou não, de vida. Esta filosofia é
a nossa cosmovisão. É esta cosmovisão que nos permite ser como somos, forne-
cendo elementos de padronização para a nossa cultura. Schaeffer (2010, p. 258)
está correto ao declarar que “as ideias nunca são neutras ou abstratas. Têm conse-
quências na maneira como vivemos e agimos em nossa vida pessoal e na cultura

COSMOVISÃO CRISTÃ
17

como um todo”. Cosmovisão é algo inescapável ao ser humano. Todos a temos. Por
sua vez, toda cosmovisão, consciente ou não, tem uma matriz ontológica que traz
consequências epistemológicas que são determinantes para a nossa vida e conduta.

Uma cosmovisão é uma série de crenças, um sistema de pensamentos, so-


bre as questões mais importantes da vida. A cosmovisão de uma pessoa é
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

sua filosofia.
(Crampton, Bacon)

A nossa forma de aproximação do objeto já indica onde estamos. Em certa ocasião


vi parte de um filme no qual o criminoso foi fotografado enquanto assassinava
sua vítima. Quando o fotógrafo o procurou com a foto, o assassino disse para
ele em qual prédio e andar ele estava no momento do clique; isto apenas pelo
ângulo da foto. Digamos assim: vemos o que vemos e como vemos pelo andar
e janela na qual nos encontramos. A partir daí, podemos até dizer em que tipo
de construção intelectual estamos abrigados.
Todo conhecimento parte de um pré-conhecimento que é nos fornecido
pela nossa condição ontologicamente finita e pelas circunstâncias temporais,
geográficas, intelectuais e sociais dentro das quais construímos as nossas estru-
turas de conhecimento. Afinal, a humanidade atesta a sua humanidade; a criatura
demonstra a sua condição. Não existe neutralidade existencial porque, de fato,
não há neutralidade ontológica (ROOKMAAKER, 2010). Esta realidade pré-jul-
gadora, na maioria das vezes, nos é imperceptível. O que pensamos determina a
nossa visão e compreensão do objeto. Numa relação de conhecimento, o cérebro
influencia mais o olho do que o olho ao cérebro. É por isso que a visão que tenho,
ainda que tenha um forte elemento referente, é minha, com suas particularidades.

Pressupostos e Percepções
18 UNIDADE I

Você não precisa acreditar em tudo o que pensa, e a razão é simples: nós ve-
mos o que queremos ver. (...) O nervo óptico, o único nervo com ligação direta
com o cérebro, na verdade transmite mais impulsos do cérebro para o olho do
que vice-versa. Isto significa que se o cérebro determina o que o olho vê, cocê
já está pré-condicionado. É por isso que, se quatro pessoas presenciarem um
acidente, cada uma vai relatar algo diferente. Precisamos nos lembrar, e ensi-
nar aos outros, que não devemos acreditar em tudo o que pensamos.

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
Fonte: Waren (2013, p. 27).

Só existe possibilidade de conhecimento porque, entre outras coisas, antes de


nós percebermos, há um objeto referente que, por existir, possibilita o conhe-
cer. Deste modo, o ser antecede ao sujeito que conhece e, portanto, ao próprio
conhecer. Somente em Deus há a perfeita harmonia e coexistência entre o ser e
o conhecer. Em nossa finitude, a essência precede à experiência. E esta modela
a nossa cosmovisão. Fazer uma inversão aqui seria algo avassalador para a nossa
epistemologia e, consequentemente para a nossa práxis.
Somos, em muitos sentidos, parte de um produto cultural, filhos de uma
geração com uma série de valores que determinam em grande parte as nossas
pré-compreensões. Valendo-se de uma figura de Aristóteles (384-322 a.C.), R.
Albert Mohler Jr. faz uma aplicação interessante e elucidativa:
A última criatura a quem você deveria perguntar como é se sentir molha-
do é a um peixe, porque ele não faz ideia de que esteja molhado. Uma vez
que nunca esteve seco, ele não tem um ponto de referência. Assim somos
nós, quando se trata de cultura. Somos como peixes no sentido de que não
temos sequer a capacidade de reconhecer onde a nossa cultura nos influen-
cia. Desde a época em que estávamos no berço, a cultura tem formado
nossas esperanças, perspectivas, sistemas de significado e interpretação, e
até mesmo nossos instrumentos intelectuais (MOHLER JR., 2010, p. 66).

Portanto, a realidade se mostra a nós com contornos próprios delineados não


simplesmente pelo que ela é, mas, também, pelos nossos olhos que a enxergam
e pinçam fragmentos desta realidade conferindo-lhes novas configurações com
cores mais ou menos vivas, atribuindo-lhes valores muitas vezes bastante distintos

COSMOVISÃO CRISTÃ
19

dos reais. Essas escolhas e interpretações passam por condicionantes culturais,


obviamente entre outros, tão naturais que nós não os discernimos e, por isso, não
o definimos, visto que nem sequer são percebidos. Voltamos à figura do peixe
que não sabe que esteja molhado:
Adentrar a nossa própria cultura exige que demos um passo para trás
e analisemos com cuidado como as pessoas pensam, identifiquemos as
regras, os princípios e as visões do mundo que compõem os sistemas de
pensamento que nos cercam (MOHLER JR., 2013, p. 45).

As nossas ênfases revelam não simplesmente os nossos pensamentos e valores como


Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

também, aspectos da realidade como os percebemos. A concatenação de nossas


ideias e a estruturação de prioridades, dentro da fluidez histórica, assumem aspectos
relativos. Deste modo, por exemplo, quando lemos um autor devemos entender tam-
bém o seu tempo, a sua forma de pensar e os pontos que visava destruir, consolidar
ou mesmo transformar. Toda obra é, de certa forma, dialogal, explícita ou implici-
tamente. Portanto, ninguém pode se ufanar de passar incólume por este processo.
Cada época nos diz algo de seus atores e cada ator histórico nos fala direta
ou indiretamente do cenário que o inspira, dentro do qual ele foi criado e, de
certa forma, delimita a sua própria percepção da realidade.
Quando não percebemos estes aspectos, tendemos a ser extremamente rigorosos
em nossos julgamentos ou facilmente somos conduzidos a cometer anacronismos
injustificados. Isto se dá, especialmente, quando lemos autores de séculos anteriores
ao nosso que, além da distância temporal,
viveram em outro continente, com valores
próprios, percepções delimitadas pela sua
época, tendo que se deparar com desafios
gigantescos, alguns dos quais são quase
que imperceptíveis em nossa época. Aí
surge o nosso problema: é impossível ter
todas as visões; a nossa, além de vários
condicionantes, é feita a partir de nossa
época, sob o feitiço de nossos valores e
concepções, os quais por si só já produ-
zem um pré-conhecimento.

Pressupostos e Percepções
20 UNIDADE I

O anacronismo condenatório é fácil de ser praticado e extremamente difícil


de ser percebido por quem o exerce. Deste modo, a consciência destas questões
deve produzir em nós um salutar sentido de limitação e, portanto, de maior pru-
dência em nossos juízos, reconhecendo que a nossa época, dentro da qual estamos
inseridos e mais cativos do que imaginamos, tem as suas paixões e feitiços – plena-
mente justificados, diga-se de passagem, pelos seus cidadãos bem socializados, ou
seja; aculturados –, assim como a de nossos personagens analisados. O que torna
a nossa visão melhor do que a deles? Talvez seja a própria história que constante-
mente nos fornece um leque mais amplo e ilustrativo de fracassos da humanidade.

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
Como sabemos, todos trabalham com os seus pressupostos, explícitos ou
não, consistentes ou não, plenamente conscientes deles ou apenas parcialmente.
Como as raízes de nosso pensamento estão fundadas em nosso coração, o cen-
tro vital do ser humano, nem sempre temos clareza intelectual quanto à direção
que seguimos visto que o nosso perceber é influenciado pelo nosso sentir sem
que este indique de forma objetiva a sua presença. Cosmovisão é algo mais ou
menos profundo, contudo, sempre passa pelo nosso coração! O que alimenta e
satisfaz o coração determina a nossa compreensão e ação.

Nenhum homem, seja ele um cientista ou não, consegue trabalhar sem


pressuposições.
(Henry H, Van Til)

Os pressupostos, com toda a complexidade inerente, se constituem na janela (qua-


dro de referência) por meio da qual vejo a realidade; o difícil é identificar a nossa
janela, ainda que sem ela nada enxerguemos. Conforme Johnson (2006, p. 11),
Seria atenuar os fatos dizer que a cosmovisão ou visão de mundo é um
tópico importante. Diria que compreender como são formadas as cos-
movisões e como guiam ou limitam o pensamento é o passo essencial
para entender tudo o mais. Compreender isso é algo como tentar ver o
cristalino do próprio olho. Em geral, não vemos nossa própria cosmovi-
são, mas vemos tudo olhando por ela. Em outras palavras, é a janela pela

COSMOVISÃO CRISTÃ
21

qual percebemos o mundo e determinamos, quase sempre subconscien-


temente, o que é real e importante, ou irreal e sem importância.

Assim, falar sobre a nossa cosmovisão, além de ser difícil verbalizá-la, é para-
doxalmente desnecessário. Parece que há um pacto involuntário de silêncio o
qual aponta para um suposto conhecimento comum: todos “sabemos” a nossa
cosmovisão. Deste modo, só falamos, se falamos e quando falamos de nossa cos-
movisão, é para os outros, os estranhos, não iniciados em nossa forma de pensar.
James W. Sire resume bem isso:
Uma cosmovisão é composta de um conjunto de pressuposições bási-
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

cas, mais ou menos consistentes umas com as outras, mais ou menos


verdadeiras. Em geral, não costumam ser questionadas por nós mes-
mos, raramente ou nunca são mencionadas por nossos amigos, e são
apenas lembradas quando somos desafiados por um estrangeiro de ou-
tro universo ideológico (SIRE, 2004, p. 21-22).

Em outra de suas obras, Sire refina a definição anterior:


Cosmovisão é um compromisso, uma orientação fundamental do co-
ração que pode ser expresso como uma estória ou num conjunto de
pressuposições (suposições que podem ser verdadeiras, parcialmente
verdadeiras ou totalmente falsas) que sustentamos (consciente ou sub-
conscientemente, consistente ou inconsistentemente) sobre a constitui-
ção básica da realidade, e que fornece o fundamento no qual vivemos,
nos movemos e existimos (SIRE, 2002, p. 179).

O conhecimento, seja em que nível for, não ocorre num vácuo asséptico concei-
tual quer seja religioso, quer filosófico, quer cultural. A nossa percepção e ação
fundamentam-se em nossos pressupostos os quais são reforçados, transforma-
dos, lapidados ou abandonados em prol de outros, conforme a nossa percepção
dos “fatos”. A questão epistemológica antecede à práxis. Contudo, como nos
aprofundar no campo intelectual se abandonamos as questões epistemológicas?
As palavras de J.G. Machen (1881-1937), no início do século XX, não se tornam
ainda mais eloquentes na atualidade? “A igreja está hoje perecendo por falta de
pensamento, não por excesso do mesmo” (MACHEN, 1974, p. 19).
Há sempre o perigo de nos tornarmos cativos de nossa perspectiva e, portanto,
da nossa percepção. Como obviamente não conseguimos ter “todas as visões”, perma-
necemos, de certo modo, cativos de nossa perspectiva, em outros termos: prisioneiro
de sua percepção. Daí a importância básica de conhecer e avaliar outras percepções.

Pressupostos e Percepções
22 UNIDADE I

“Até mesmo uma boa compreensão de uma árvore exige que andemos ao redor dela
e a observemos de vários ângulos”, alerta-nos Frame (2013, p. 13). A assimilação de
outras perspectivas, limitadas, sem dúvida como a nossa, certamente nos fornecerá
uma visão mais abrangente e completa, ainda que limitada, da realidade.
Nem sempre é fácil submeter os nossos valores ao rigor daquilo que cremos.
Como o cientista tem dificuldade em revisitar os seus paradigmas, nós também temos
dificuldade em rever a nossa cosmovisão. É muito difícil – talvez por ser doloroso
demais –, aplicar e avaliar em nosso próprio sistema as implicações do que sustenta-
mos. Podemos, sem nos darmos conta, nos ferir com as nossas próprias armas, que

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
julgávamos serem bisturis. Aliás, o mau uso do bisturi pode ser fatal, assim como o
“fogo amigo” nas guerras. O antidogmatismo pode se constituir num dogma.
A nossa cosmovisão não deve servir apenas – aliás, um “apenas” injustificá-
vel em si mesmo –, para um exibicionismo pretensamente acadêmico, ufanismo
ignorante ou mesmo como demarcação de terreno no qual nada se sucede,
exceto a presunção compartilhada e demarcada por outras cosmovisões. A nossa
cosmovisão consciente deve estar comprometida com a busca de coerência per-
ceptiva e existencial.
Isto nós chamamos de integridade, o não esfacelamento condescendente e
excludente daquilo que cremos, falamos e fazemos. Ainda que não haja a ideia
de orgulho meritório na fé, ela é responsável pelo nosso agir e pensar. “A fé não
concerne a um setor particular da vida denominado religioso, ela se aplica à exis-
tência em sua totalidade” (BARTH, 2006, p. 24). Contudo, a genuína fé não pode
ser autorreferente. Ela parte da Palavra e para lá se direciona.

Todo indivíduo tem uma visão de mundo. Esta dá respostas às quatro per-
guntas essenciais, que dizem respeito à origem, ao sentido, à moralidade e
à esperança que garante um destino. Essas respostas devem ser verdadeiras
e coerentes como um todo.
(Ravi Zacharias).

COSMOVISÃO CRISTÃ
23

Por buscarmos a coerência do crê e viver ‒ daí a extrema importância de uma fé


Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

inquiridora ‒, há compromissos sérios entre o que cremos e como agimos. Um


distanciamento consciente e docemente acalentado e justificado entre o crer e o
fazer, produz uma esquizofrenia intelectual, emocional e espiritual, cuja solução
definitiva envolverá um destes caminhos: ou mudar a nossa crença ou abandonar
a nossa práxis. Para o cristão, cosmovisão é compromisso de fé e prática. E, como
diz Lloyd-Jones (1984, p. 89): “a fé cristã não é algo que se manifeste à superfí-
cie da vida de um homem, não é meramente uma espécie de camada de verniz.
Não, mas é algo que está sucedendo no âmago mesmo de sua personalidade”.
Como temos insistido, somos o que cremos; pelo menos, esta deve ser a nossa
atitude cotidiana; esforçar-nos por viver conforme aprendemos nas Escrituras. A
nossa fé tem implicações decisivas e fundamentais em nossa existência a come-
çar aqui e agora. Fé cristã é crer de tal modo que buscamos transformar a nossa
vida num reflexo daquilo que acreditamos.
O caminho para sermos íntegros ‒ inteiros e não fragmentados ‒, é buscar a
instrução na Palavra perfeita do Senhor. Devemos buscar o caminho da perfei-
ção. A vida cristã envolve necessária e essencialmente integridade. Integridade
significa busca da verdade, compreensão e vida. Nenhum de nós é absoluta-
mente íntegro, contudo, é impossível ser cristão sem esta busca de todo coração.
Segundo Colson e Fickett (2008, p. 174), “para se viver com significado, é
necessário descobrir a verdade, descobrir a realidade; uma vez descoberta, temos
de viver em fidelidade para com a verdade. A integridade e a busca da verdade
andam de mãos dadas”. Contudo, cabe aqui uma observação. Podemos ser ínte-
gros para com aquilo que não tem integridade. Em outras palavras, podemos ser
totalmente sinceros em relação ao erro por não percebermos o nosso equívoco.

Pressupostos e Percepções
24 UNIDADE I

Ainda que seja altamente recomendável a nossa integridade, quando ela está depo-
sitada em algo de consistência frágil, movediça e enganosa, traz grande frustração.
Pense no ardor do jovem Saulo em perseguir a Igreja de Deus pensando
justamente estar prestando um serviço que glorificasse a Este mesmo Deus.
Quanta dor e sofrimento ele causou a inúmeros cristãos sinceros e a ele mesmo
quando, por graça, descobriu o seu equívoco e, convertido ao Senhor, passa a
pregar com fidelidade e inteireza de coração a Palavra, ensinando ser Jesus o
Cristo e Senhor (At 9, 22.26; 1Co 15,9).
O fato é que todos nós construímos, conscientemente ou não a nossa casa, a

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
nossa vida, sobre pressuposições, sobre nossas crenças. A questão é se estas crenças
suportarão as intempéries próprias da existência. A nossa chave epistemológica
é a Escritura, portanto, a nossa cosmovisão partindo de uma perspectiva assim,
nos conduzirá naturalmente de volta a Deus. A Educação Cristã, por exemplo,
fundamentando-se nas Escrituras oferece-nos um escopo do que Deus deseja de
nós e, nos fala de qual o propósito de nossa existência em todas as suas esferas.

TEOLOGIA SISTEMÁTICA

DEFINIÇÃO

Podemos definir operacionalmente a Teologia como o estudo sistemático da


Revelação Especial de Deus, conforme registrada na Escritura Sagrada, tendo
como fim último o glorificar a Deus por intermédio do seu conhecimento, apli-
cação e obediência a sua Palavra. “O tema e o conteúdo da teologia é a Revelação
de Deus” (MACKAY, 1946, p. 28). O fundamento é a Palavra, o foco é Jesus
Cristo, o Deus encarnado. Desta concepção, subentende-se, seguindo a linha
de Kuyper (1980, p. 257):

COSMOVISÃO CRISTÃ
25
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

a. A Teologia nunca é “arquetípica”, mas “éctipica”1; ela não é gerada pelo esforço
de nossa observação de Deus, mas sim o resultado da revelação soberana e
pessoal de Deus. Uma “Teologia Arquetípica” – se é que podemos falar deste
modo – pertence somente a Deus, porque somente ele se conhece perfei-
tamente tendo, inclusive, ciência completa do seu conhecimento perfeito.
b. A Teologia não termina em conhecimento teórico e abstrato, antes se plenifica
no conhecimento prático e existencial de Deus por intermédio da sua Reve-
lação nas Escrituras Sagradas, mediante a iluminação do Espírito. Conhecer
a Deus é obedecer a seus mandamentos. “A boa teologia desloca-se da cabeça
até o coração e, finalmente, até a mão” (GRENZ; OLSON, s.d., p. 51). A genu-
ína cristã é compreensível, transformadora e operante. Ela reflete a nossa
confissão, nos conduz à reflexão, e tem implicações direta em nossa ética.
Quando falamos de Teologia Reformada, estamos nos referindo à Teologia prove-
niente da Reforma (Calvinista) em distinção à Teologia Luterana. O designativo
Reformada é preferível ao Calvinista, ainda que a empreguemos indistintamente,
considerando o fato de que a Teologia Reformada não é estritamente proveniente
de João Calvino (1509-1564).

1
Éctipo é uma palavra de derivação grega, “e)/ktupoj” (cópia de um modelo ou reflexo de um arquétipo),
passando pelo latim “ectypus” (feito em relevo, saliente).

Teologia Sistemática
26 UNIDADE I

A expressão “Calvinismo” foi introduzida em 1552 pelo polemista luterano


Joacquim Westphal (c. 1510-1574), pastor em Hamburgo, para referir-se em
especial aos conceitos teológicos de Calvino. No entanto, usamos o termo
no sentido que permanece até os nossos dias, como designativo da teologia
Reformada em contraste com a Luterana.
Fonte: o autor.

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
TEOLOGIA, PRESSUPOSTOS E MÉTODO

Nenhuma ciência vive sem pressupostos e a elaboração de um sistema que seja


considerado como uma consequência lógica de sua definição prévia. Hodge
(2001, p. 12) acertadamente afirma que “o verdadeiro método da teologia é, pois,
o indutivo, o qual presume que a Bíblia contém todos os fatos ou verdades que
formam o conteúdo da teologia, justamente como os fatos da natureza formam
o conteúdo das ciências naturais”.
Como fica atestado, a teologia traz consigo alguns pressupostos dos quais
dependem a sua existência. Retomando a definição de teologia como sendo o
estudo da Revelação Pessoal de Deus conforme registrada nas Escrituras Sagradas,
em forma de esboço, podemos indicar os seguintes pressupostos:
1) A existência de um Deus que se relaciona com a sua Criação; Deus infi-
nito e pessoal: transcendente que se revela nas Escrituras.
2) A realidade da suficiência de sua revelação registrada nas Escrituras:
Deus por ele mesmo; Sujeito e Conteúdo da Revelação. “A comunicação
divina é a base fundamental da fé cristã” (LLOYD-JONES, 1991, p. 24).
A revelação de Deus é um exercício de sua graça na qual ele se revela
como Senhor e Servo sofredor que resgata o seu povo.
3) A racionalidade humana, que se compatibiliza com a revelação condes-
cendente de Deus, pois Deus criou o homem com a possibilidade de
conhecimento real, ainda que não exaustivo:

COSMOVISÃO CRISTÃ
27

Não podemos compreender plenamente a Deus em toda a sua grande-


za, mas que há certos limites dentro dos quais os homens devem man-
ter-se embora Deus acomode à nossa tacanha capacidade toda decla-
ração que faz de si mesmo. Portanto, somente os estultos é que buscam
conhecer a essência de Deus (CALVINO, 1997, p. 64).

4) A possibilidade do nosso conhecimento está determinada pela própria


revelação. O limite de nosso conhecimento está delimitado pela Pala-
vra. João Calvino, como ninguém, explorou este aspecto. Aconselha-nos:
[...] que esta seja a nossa regra sacra: não procurar saber nada mais
senão o que a Escritura nos ensina. Onde o Senhor fecha seus próprios
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

lábios, que nós igualmente impeçamos nossas mentes de avançar se-


quer um passo a mais (CALVINO, 1997, p. 330).

5) A capacitação espiritual do homem regenerado para compreender as ver-


dades espirituais da Revelação (Sl 119,18; 1Co 2,14-15) por meio da fé:
A fé não é apenas uma espécie, mas a mais elevada espécie de conheci-
mento. Ela nos fornece uma compreensão de realidades que para os sen-
tidos apenas são inacessíveis, a saber, a existência de Deus, e pelo menos
algumas das relações entre Deus e sua criação (STRONG, 2013, p. 4).

Insistimos no fato de que todos trabalham com os seus pressupostos, explícitos


ou não, plenamente conscientes deles ou apenas parcialmente.

A diferença real entre o liberalismo e o cristianismo bíblico não é uma ques-


tão de pesquisa acadêmica, mas de pressuposições.
(Francis A. Schaeffer)

Francis A. Schaeffer (1912-1984) coloca a questão nestes termos:


Todas as pessoas têm seus pressupostos, e elas vão viver de modo mais
coerente possível com estes pressupostos, mais até do que elas mesmas
possam se dar conta. Por pressupostos entendemos a estrutura básica
de como a pessoa encara a vida, a sua cosmovisão básica, o filtro atra-
vés do qual ela enxerga o mundo. Os pressupostos apoiam-se naquilo
que a pessoa considera verdade acerca do que existe. Os pressupostos

Teologia Sistemática
28 UNIDADE I

das pessoas funcionam como um filtro por onde passa tudo o que elas
lançam ao mundo exterior. Os seus pressupostos fornecem ainda a base
para seus valores e, em consequência disto, a base para suas decisões
(SCHAEFFER, 2003, p. 11).

Moisés Silva (2002) argumenta com precisão que:


Quer tenhamos ou não a intenção de fazê-lo, quer gostemos ou não,
todos lemos o texto conforme interpretado por nossas pressuposições
teológicas. Aliás, o argumento mais sério contra a ideia de que a exege-
se deve ser feita independente da teologia sistemática é que tal ponto de
vista é irremediavelmente ingênuo. A mera possibilidade de entender
qualquer coisa depende de nossas estruturas anteriores de interpreta-
ção. Se observarmos um fato que faz sentido para nós, é simplesmente

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
porque conseguimos encaixá-lo dentro de um conjunto complexo de
ideias que assimilamos anteriormente (SILVA, 2002, p. 255).

René Descartes (1596-1650), após dizer que “o bom senso é a coisa do mundo
melhor partilhada”, admite que “não é suficiente ter o espírito bom, o principal é
aplicá-lo bem” (DESCARTES, 1973, p. 37). De fato, bom senso, a boa maneira de
conduzir o pensamento na avaliação dos fatos, é indispensável, contudo, se ele for
provido de um bom método, a possibilidade de obter êxito é bem maior. Mas, o
que é um método? Este termo é uma transliteração do grego mšqodoj, palavra for-
mada por meta/ (“no meio de”, “no centro de”) e o dÒj (“caminho”). Em Aristóteles
(384-322) a palavra tinha o sentido de “investigação”, sendo por vezes usada como
sinônimo de “teoria” (qewr…a) e “ciência” (špist»mh). Etimologicamente, portanto,
método é o emprego de um caminho, andar dentro e por meio dele.
Podemos definir operacionalmente método, como o conjunto de elemen-
tos e processos necessários a se obter determinado objetivo. É o caminho para a
consecução de um objetivo proposto. André Lalande (1867-1963) acentua que
etimologicamente a palavra significa demanda e, “por consequência, esforço para
atingir um fim, investigação, estudo” (LALANDE, 1993, p. 678).
Charles Hodge com simplicidade e clareza afirma que: “Se uma pessoa adota
um falso método, ela é semelhante a alguém que toma uma estrada errada que
jamais a levará a seu destino” (HODGE, 2001, p. 2). Obviamente a Teologia,
como todas as demais ciências, também tem os seus métodos. E isto é funda-
mental. Não existe neutralidade metodológica. Todo método carrega consigo
seus pressupostos. Portanto, os pressupostos, como também em qualquer outra
ciência, são fatores determinantes em sua pesquisa, na aproximação dos fatos.

COSMOVISÃO CRISTÃ
29
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

Nash (2008, p. 14), com uma ênfase diversa, nos alerta: “a obtenção de maior
consciência de nossa cosmovisão pessoal é uma das coisas mais importantes que
podemos fazer, e compreender a cosmovisão de outros é algo essencial para o
entendimento que os torna distintos”.
A nossa chave epistemológica é a Escritura, portanto, a nossa cosmovisão
partindo de uma perspectiva assim, nos conduzirá naturalmente de volta a Deus.
A teologia sistemática parte de cima, fundamentando-se na Escritura oferece-nos
um escopo do que Deus deseja de nós e nos fala do propósito de nossa existên-
cia em todas as suas esferas.
A experiência humana, as contribuições científicas e o ensino da igreja são
avaliados à luz da Escritura que unicamente é a nossa regra de fé e, portanto, o
fundamento de toda teologia.

A cosmovisão cristã tem coisas importantes a dizer sobre a totalidade da


vida humana.
(Ronald H. Nash).

Teologia Sistemática
30 UNIDADE I

A Teologia Reformada entende a Bíblia como de fato é: a inerrante e autêntica


Palavra de Deus, reconhece ser Ela a causa eficiente e instrumental da Teologia,
sendo Deus o seu autor, a causa final. A teologia busca sempre a glória de Deus,
como objetivo máximo e final, e este objetivo é alcançado sempre em sua fide-
lidade à Revelação. Portanto, embora admitindo a infalibilidade da Revelação
Geral, só consideramos a Revelação Especial como fonte da Teologia. Desta forma,
a tentativa de reconhecer a Revelação Geral como fonte secundária da Teologia
está fora de cogitação, visto que, para que isso aconteça, teríamos de interpre-
tá-la à luz das Escrituras, e podemos observar também, que, qualquer tentativa

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
de se criar uma fonte secundária, ou terciária de teologia (Os Catecismos, por
exemplo), implica em admitir que a Bíblia precisa de um complemento, logo é
incompleta ou insuficiente.
A Revelação Geral tem o seu valor ilustrativo, contudo em nada acrescenta à
Revelação Especial e, aquela só pode ser entendida corretamente, por aquele que
mediante a iluminação do Espírito Santo entende a Revelação Especial. Para este
homem, a Revelação Geral se constitui numa republicação, ainda que não cro-
nológica, das verdades contidas nas Escrituras. Contudo, esta republicação não
é complementar nem transforma vida. E, o que a natureza trata de forma estrita
e apenas indicativa, a Escritura fala de forma ampla e demonstrativa.
Edwin Palmer acentua:
Somente através da revelação o homem alcança o verdadeiro entendi-
mento das coisas. Pela revelação, Deus se manifesta ao homem e tam-
bém revela a verdadeira natureza dos seres que povoam o mundo, tanto a
dos homens como a dos objetos naturais. [...] É interessante advertir que
inclusive a primeira revelação, a revelação geral, não se pode captar bem
sem conhecer a revelação especial e sem o poder iluminador do Espírito na
mente do homem. Isto se deve ao fato de que o homem é espiritualmente
cego devido ao seu próprio pecado (PALMER, s.d., p. 47, 50).

A Teologia Reformada entende que deve glorificar a Deus em todas as coisas,


sabendo que as demais coisas, necessárias, relevantes e úteis, lhes serão acres-
centadas (Mt 6,33; Ef 1,11-12). Infelizmente, ao longo da história as “teologias”
que deveriam ser relativas à Revelação, têm sido relativas ao homem, tornando-
-se assim, antropológicas.

COSMOVISÃO CRISTÃ
31

O Iluminismo, que gerou o “Liberalismo Teológico” – e este pode ser defi-


nido como o esforço de interpretar, reformular e explicar a fé cristã dentro de
uma perspectiva iluminista – foi o grande fomentador desta nova abordagem.
Dentro desta perspectiva, o que se pode considerar genuíno, o “credo” que se
ajuste aos critérios racionais vigentes (COSTA, 2004). A chamada “Teologia da
Libertação” – apoteótica na década de 80, e hoje já moribunda – a rigor, nunca
foi Teologia, pois não partia da Palavra. Ela se constitui em um bom exemplo de
uma antropologia, que pretende ter o status de Teologia (COSTA, 1986).
Para nós reformados, entretanto, é a Palavra de Deus que deve dirigir toda
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

a nossa abordagem e interpretação teológica, bem como de toda a realidade: o


Espírito por intermédio da Palavra é quem deve nos guiar à correta interpreta-
ção da Revelação. Na Escritura, temos o nosso padrão e apelo final.

COSMOVISÃO

A palavra que normalmente é traduzida por cosmovisão vem do alemão Weltanschauung,


usada, ao que parece, primeiramente por Kant (1724-1804). Podemos empregá-la
com o sentido de “visão de mundo” e “mundividência”. A cosmovisão está asso-
ciada ao sistema de ideias e valores que sustentamos, conscientes ou não, mas que,
de alguma forma – mais intensa ou menos intensa. De modo mais elaborado ou
menos elaborado – está arraigada em nosso coração, nos permitindo ver o mundo
por meio dessas lentes, e privilegia aspectos da realidade, conferindo-lhes significa-
dos que, direta ou indiretamente, direcionam a nossa percepção e comportamento,
constituindo-se assim, em um “sistema de vida”. Voltaremos a tratar desse assunto.
Nas páginas que se seguem, veremos alguns dos pontos sustentados pela
Teologia Reformada ou são decorrentes de sua perspectiva bíblica, segundo com-
preende o autor deste ensaio.
De início quero destacar a sensível e verdadeira compreensão de John Piper
(2006, p. 460-461):

Cosmovisão
32 UNIDADE I

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
Teologia ruim machuca as pessoas. Mais cedo ou mais tarde, um pen-
samento errado sobre Deus leva a uma crença errada. E uma crença
errada leva ao enfraquecimento da vida moral espiritual e, por fim,
à condenação. A maioria dos cristãos vê intuitivamente que negar a
presciência de Deus quanto às ações livres mostrará uma tendência de
enfraquecer a confiança da igreja de que Deus pode guiar pessoas e
nações, que ele pode responder a orações acerca daqueles que estão
perdidos e no erro, que ele pode predizer o futuro, que ele pode ga-
rantir o triunfo final e que age em todas as coisas para o bem daqueles
que o amam e dos que foram chamados de acordo com seu propósito.
Alguma geração pagará o preço desse pensamento errado sobre Deus.
Quanto mais perto os pensamentos errados atingirem a centralidade
da doutrina de Deus, sua perfeição pessoal e seus caminhos salvadores,
mais cedo e doloroso será o pagamento. Coisas eternas estão em jogo
na negação da presciência plena e definitiva de Deus.

Como sabemos, há uma relação indissolúvel entre comportamento e o que você


crê. Quando sabemos no que cremos, as decisões tornam-se mais fáceis. No
entanto, uma das questões difíceis de responder é: no que você crê? A resposta
a esta questão revelará uma série de pressupostos – conceitos implícitos em sua
fala – muitos dos quais talvez jamais tenham ocorrido, pelo menos de forma
teórica, ao entrevistado. É possível que, sem percebermos, o nosso pensamento
revele uma série de inconsistências e, até mesmo, excludências.
O fato é que nossos conceitos, explícitos ou não, terminarão por se juntar a
outros e, deste modo, sem consciência e mesmo consistência, vamos aos pou-
cos formando uma maneira de ver o mundo e, conseguintemente, de avaliá-lo.

COSMOVISÃO CRISTÃ
33

Cheung escreve que:


De fato, se pensarmos profundamente o suficiente, perceberemos que
cada proposição simples que falamos ou cada ação que realizamos
pressupõe uma série de princípios últimos inter-relacionados pelos
quais percebemos e respondemos à realidade. Essa é nossa cosmovisão
(CHEUNG, 2008, p. 61).

Esta percepção determinará, de forma intensa, o nosso comportamento na socie-


dade em que vivemos, tendo implicações em todas as esferas de nossa existência. A
epistemologia antecede à lógica e esta, por mais coerente que seja, se partir de uma
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

premissa equivocada nos conduzirá a conclusões erradas e, portanto, a uma ética


com fundamentos duvidosos e inconsistentes. Indo um pouco além, porém, signi-
ficativamente longe, devemos afirmar com Sire (2002), que a ontologia antecede à
epistemologia. Antes do conhecer, há o ser. Se houver um conhecimento universal,
porém, equivocado, isso não mudará a essência da coisa. Se todos negassem a exis-
tência de Deus, isso não mudaria o fato de Deus ser o que é. O meu conhecimento,
certo ou errado, muda a minha relação com o real, porém, não a essência da coisa.
Deve ser dito também, que toda verdade é lógica, no entanto, por algo nos
parecer lógico, não significa que seja verdadeiro. Portanto, a questão epistemo-
lógica antecede à práxis e em grande parte a determina.
Uma cosmovisão contém as respostas de uma dada pessoa às questões
principais da vida, quase todas com significante conteúdo filosófico. É a
infraestrutura conceitual, padrões ou arranjos das crenças dessa pessoa
(NASH, 2008, p. 13).

Cosmovisão é o modo pelo qual a pessoa vê ou interpreta a realidade. [...] é


a estrutura por meio da qual a pessoa entende os dados da vida. Uma cos-
movisão influencia muito a maneira em que a pessoa vê Deus, origens, mal,
natureza humana, valores e destino.
Fonte: Geisler (2002, p. 188).

Cosmovisão
34 UNIDADE I

Ainda que não pretendamos ser exaustivos, podemos, inspirando-nos em Nash


(2008), dizer que a nossa cosmovisão é constituída por um conjunto de crenças
que estabelecem essencialmente a sua distinção de outras cosmovisões ainda
que haja no cerne de cada cosmovisão diferenças importantes, porém, que não
são excludentes. Vejamos algumas dessas crenças:
a. Deus: ainda que o nome de Deus nem sempre apareça em nossas dis-
cussões, a fé em Deus envolvendo, obviamente, o conceito que temos
dele é ponto capital em qualquer cosmovisão. Deus existe? Ele se con-
funde com a matéria? Há um só Deus? Ele age? É soberano? É um ser

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
pessoal? As respostas que dermos a estas questões são cruciais para
identificar a nossa cosmovisão.
b. Metafísica: trata da existência, da natureza e a qualidade daquilo que é
conhecido. A nossa cosmovisão determinará um tipo de compreensão de
questões tais como: todos os homens têm a mesma essência? Todo evento
deve ter uma causa? Há realidade além daquilo que podemos ver? Existe
um mundo espiritual? Há um propósito para o universo? Qual a relação
entre Deus e o universo?
c. Epistemologia: é o estudo das questões relacionadas aos problemas filosó-
ficos do conhecimento. O seu objetivo é conhecer, interpretar e descrever,
filosoficamente, os princípios essenciais que conduzem ao conhecimento
científico ou, em outras palavras, “estudar a gênese e a estrutura dos
conhecimentos científicos” (JAPIASSU, 1979, p. 38). A Epistemologia
trata de questões tais como: como conhecemos alguma coisa? É possível
um conhecimento certo a respeito de alguma coisa? Os sentidos nos dão
um conhecimento certo a respeito dos objetos sensíveis? Nossas percep-
ções dos objetos sensíveis são idênticas a esses objetos? Qual a relação
entre o intelecto e a matéria? Qual a relação entre a razão e a fé? Pode-
mos conhecer algo sobre Deus? É o método científico o melhor método
para o conhecimento?

COSMOVISÃO CRISTÃ
35

d. Ética: Lalande (1993, p. 705), interpretando determinada compreensão,


define ética como o “conjunto das regras de conduta admitidas numa
época ou por um grupo social”. A Ética filosófica analisa a vida virtuosa
no seu valor último, e a propriedade de certas ações e estilos de vida. Ela
se refere à conduta humana, às normas e princípios a que todo o homem
deve ajustar seu comportamento nas relações com seus semelhantes
e consigo mesmo. O filósofo moral não é apenas um cientista teórico
envolvido em especulações abstratas, ele é alguém comprometido com
a realidade, buscando soluções para os problemas práticos que nos cer-
cam e que deram origem à pesquisa. A sua preocupação também, não
se limita à ação certa, mas, também, ao princípio que a justifica. Pergun-
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

tas comuns a esta disciplina: é justo falsificar a declaração de imposto de


renda? O aborto é correto? E financiar instituições que em suas pesquisas
contemplem a prática do aborto? É viável a pena de morte? A eutanásia?
Há um padrão absoluto de moral ou ele é relativo a épocas, culturas e
pessoas? A moralidade transcende ao lugar, época e cultura? Como dis-
tinguir o bem do mal?
e. Antropologia: o conceito que temos a respeito do homem revela aspectos
de nossa cosmovisão. O ser humano é apenas matéria? De que forma a
morte determina o fim de nossa existência? Existe algum tipo de recom-
pensa ou punição após a morte? A alma é imortal? O homem é um ser
livre ou determinado por forças deterministas? Qual o propósito da vida?
f. História: “a Filosofia da história é a reflexão crítica acerca da ciência histó-
rica e inclui tanto elementos analíticos quanto especulativos” (GEISLER;
FEIBERG, 1983, p. 27). Ela parte do princípio de que o homem é uma
síntese entre o passado e o presente, tendo as suas decisões atuais rela-
ção direta com as suas experiências pretéritas, daí algumas perguntas: o
alvo da explicação histórica é predição ou, meramente, entendimento?
Visto que escrever a história envolve seleção de material pelo historia-
dor, um documento histórico pode ser considerado objetivo? A História
é linear ou cíclica? Existe alguma finalidade, ou um padrão que confira
sentido à História?

Cosmovisão
36 UNIDADE I

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
TODOS OS HOMENS E UM DESEJO - A
CONTRACULTURA CRISTÃ

Um desejo comum a todos os seres humanos, ainda que disfarçado sob outros
nomes, é o de autossuficiência; de bastar-se a si mesmo. Este desejo está vin-
culado à busca pela felicidade. Daí a associação natural entre autossuficiência
e felicidade. Queremos ser felizes, não abstratamente, antes, eu quero ser feliz
pessoalmente (MARÍAS, 1989).
O desejo pela minha felicidade é algo que marca profundamente a minha
individualidade. Podemos ter dúvidas quanto ao caminho a seguir, no entanto,
estamos convictos do que queremos. Este desejo revela aspectos essenciais da
Criação e da Queda. Fomos criados para a felicidade plena em comunhão com
Deus e com o nosso semelhante. O pecado nos tirou isto. Agora revelamos a nossa
carência, o desejo ansioso de termos o para que fomos criados (SPROUL, 1998).
Aí está o nosso dilema. A felicidade que se origina essencialmente em Deus não
pode ser concedida por Deus fora Dele. Deste modo, ser feliz sem Deus é uma
contradição de termos (LEWIS, 1979).
Geralmente, colocamos a nossa felicidade na concretização de determinados
objetivos. No entanto, realizá-los pode revelar os nossos equívocos. Concretizamos
nossos propósitos. No entanto, nem por isso nos sentimos felizes. A rotina do prazer,
em geral, se torna enfadonha. Isto não é felicidade. As nossas escolhas envolve-
rão sempre as exclusões. Como dizer sim, sem dizer não? E, como contingentes
que somos, precisamos acertar em nossas seleções. Isso nos causa angústia e dor.

COSMOVISÃO CRISTÃ
37

Parte da cruel ironia da existência humana parece ser que as coisas que, em
nossa opinião, iriam nos fazer felizes, deixam de fazê-lo.
(Alister E. McGrath)

Queremos ser felizes e a felicidade envolve perpetuidade. Na mensuração temporal,


a cronologia da felicidade costuma ser tão rápida que, por vezes, temos a impres-
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

são de que nunca o fomos suficientemente. A intensidade parece se submeter ao


tempo de sua duração. Contudo, fizemos e voltamos a fazer as escolhas certas?
Parece-me correto Nicholi Jr. ao dizer que “nenhum aspecto da vida é mais desejá-
vel, mais esquivo e mais espantoso do que a felicidade” (NICHOLI JR., 2005, p. 109).
Agostinho (354-430) discorreu sobre isso com humor e maestria falando do
nosso desejo pela felicidade e, ao mesmo tempo, das respostas incoerentes e con-
tradizentes. “Todos, na verdade, desejam a felicidade, mas a maioria desconhece
a maneira de a obter (...). De fato, ser feliz é um bem tão grande que o desejam
bons e maus. Não é de admirar que para serem felizes os bons sejam bons; mas é
espantoso que por isso os maus sejam maus” (AGOSTINHO, 1998, p. 369-370).
No entanto, João Calvino (1509-1564), sem ignorar a importância da busca
da felicidade, com discernimento bíblico, afirma:
Tudo quanto os filósofos têm inquirido sobre o summum bonum revela
estupidez e tem sido infrutífero, visto que se limitam ao homem em seu
ser intrínseco, quando é necessário que busquemos felicidade fora de
nós mesmos. O supremo bem humano, portanto, se acha simplesmente
na união com Deus. Nós o alcançamos quando levamos em conta a
conformidade com sua semelhança (CALVINO, 1997, p. 105).

As bem-aventuranças (Mt 5,3-12) fazem parte do chamado Sermão do Monte


(Mt 5-7), conforme expressão empregada primeiramente por Agostinho (354-
430) no seu comentário exegético De Sermone Domini in monte (393-394) e
depois inserida na Bíblia de Coverdale (1535). Neste sermão, temos uma virada
metafísica. Enquanto os homens buscam intensamente a sua felicidade nas coisas
materiais, ou se valem do transcendente materializando-o em suas conquistas,
Jesus Cristo, por meio de paradoxos relativos à nossa percepção, nestes “oráculos

Todos os Homens e um Desejo - A Contracultura Cristã


38 UNIDADE I

de bênçãos”, demonstra que a verdadeira felicidade está numa relação correta


com Deus, consigo mesmo e com os homens. Portanto, tudo isso parte do res-
tabelecimento de nossa comunhão com Deus.
Agostinho (1992), não sem razão, afirma que, no Sermão da Montanha,
temos “um programa perfeito de vida cristã destinado à direção dos costumes”.
Jesus Cristo nos desafia a não simplesmente criticarmos a cultura que reflete e
reforça determinada cosmovisão, mas a criar a cultura a partir da obediência à
Palavra, apresentando uma nova cosmovisão. Fomos redimidos pelo Senhor para
agir de forma renovadora no meio de uma cultura que agoniza.

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
TENTAÇÃO DA AUTOSSUFICIÊNCIA

No Paraíso, Satanás tentou os nossos primeiros pais por meio do desejo que, de
alguma forma, cultivavam de serem iguais a Deus. Eles se esqueceram de todo
o histórico de sua relação com o Deus fiel, amoroso, justo e sábio; o seu desejo
já em si mesmo, pecaminoso, falou mais alto aos seus corações.

O pecado original foi o pecado de esquecer Deus. Adão e Eva deram as cos-
tas a ele – daí os problemas.
(David Martyn Lloyd-Jones)

Paulo interpretando o acontecimento histórico registrado em Gênesis, diz: “Mas


receio que assim como a serpente enganou (šcapat£w = desviou, seduziu, desen-
caminhou) a Eva com a sua astúcia (panourg…a = “ardil”, “truque”, “maquinação”,
“trapaça”), assim também sejam corrompidas as vossas mentes, e se apartem da
simplicidade e pureza devidas a Cristo” (2Co 11,3). Novamente: “A mulher, sendo
enganada (™capat£w) caiu em transgressão” (1Tm 2,14).

COSMOVISÃO CRISTÃ
39
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

O verbo grego tem o sentido de enganar completamente, conseguindo totalmente


o seu objetivo. Deste modo, Eva, segundo o texto nos diz, foi completamente enga-
nada por Satanás. Ao ceder à tentação, ela está plenamente convencida de que
o que fez é certo dentro de seus objetivos duvidosos. Daqui, podemos concluir
que a certeza subjetiva não significa necessariamente a correta interpretação dos
fatos. Não devemos nos esquecer de dois aspectos fundamentais: a limitação de
nossa compreensão - somos seres finitos, ainda que com aspirações infinitas; e a
realidade do pecado - enquanto elemento que permeia a nossa existência e, por
isso mesmo, nossa perspectiva e, decorrentemente, nossa epistemologia e lógica.
Na realidade, Adão e Eva desejaram a autonomia. Ter um conhecimento
independentemente de Deus. Ser iguais a Deus. Autossuficientes. Satanás lhes
ofereceu uma cosmovisão concorrente onde o ponto de referência não era mais
Deus, mas o desejo pessoal deles (WRIGHT, 1998).
O pecado é enganoso. Dá-nos a impressão, num primeiro momento, de
pleno e completo gozo. Ele tende a satisfazer os nossos desejos mais imediatos,
muitos deles até legítimos – ainda que nem sempre. No entanto, fornece-nos
caminhos que conflitam com a Palavra de Deus, que nos conduzem ao fracasso,
ou à perda da oportunidade de nosso amadurecimento, da lapidação do nosso
caráter e vida espiritual.

Todos os Homens e um Desejo - A Contracultura Cristã


40 UNIDADE I

O pecado também nos indispõe contra a Palavra de Deus. Torna-nos insen-


síveis aos ensinamentos dela, avessos às advertências divinas. Faz-nos, com
frequência, arrogantes. Julga-nos autossuficientes. Contenta-nos com os praze-
res passageiros desta vida. Distancia-nos de Deus e da sua Lei. Daí o escritor de
Hebreus orientar a Igreja: “exortai-vos mutuamente cada dia, durante o tempo
que se chama Hoje, a fim de que nenhum de vós seja endurecido pelo engano
(ap£th = fascinação, sutileza, mistificação) do pecado” (Hb 3,13).
O Humanismo renascentista, que durou aproximadamente quatro séculos
(XIII – XVI), veio na esteira do pensamento grego cujos valores foram herda-

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
dos pelo Iluminismo (Sécs. XVII – XIX). Teve o seu clímax nos humanistas
seculares modernos (COSTA, 2004). O trágico de todos estes movimentos é
que o homem longe de Deus tentou de todas as formas encontrar a sua auto-
nomia e, por isso mesmo, não alcançou a compreensão de que toda a vida é
relacional. Deste modo, se a Idade Média foi pretensamente o tempo de Deus,
o Renascimento foi o tempo do homem, o Iluminismo o tempo da razão, o
século XX, o da ciência e da técnica.
Hoje não temos mais referências, o homem já não é o centro de todas as
coisas, visto que já não há mais centro (VEITH JR., 1999). Estamos “perdidos
no espaço”, ainda buscando a nossa satisfação. Sem absolutos, não sabemos ao
certo o valor do homem e o seu papel no universo. Sem princípios universais,
não existem absolutos; sem absolutos, tudo é possível. Deste modo, sem o con-
ceito de verdade, a felicidade ficou circunscrita ao conceito de prazer de cada um,
independentemente, de princípios e valores divinos universais. Como escreve
Ravi Zacharias (2011, p. 13), um ex-ateu: “a realidade é que o vazio resultante
da perda do transcendente é absoluto e devastador, tanto no sentido filosófico
quanto existencial”.

Nenhuma filosofia acerca de um mundo sem Deus traz esperança.


(Ravi Zacharias)

COSMOVISÃO CRISTÃ
41

O problema da existência é uma questão basicamente metafísica. Aliás, o homem


é um ser metafísico. A negação prática dessa realidade acarreta uma percepção
errada e tristemente limitante da natureza humana. Por isso, o homem “pós-mo-
derno” dispõe diante de si de todas as saídas possíveis, porém nenhuma delas
conduz ao “fim” necessário.
Os seus pressupostos descartam o único caminho real do significado da vida
e do ser: o Deus transcendente e pessoal – o Deus que se revela como tal con-
ferindo sentido a todo o real e à nossa existência. Ao mesmo tempo, o homem,
em seu pretenso humanismo autônomo, não consegue encontrar um ponto de
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

integração que confira sentido à realidade. Daí o sentimento constante de insa-


tisfação e frustração, como descrito por McGrath (2007, p. 68):
Deixar de relacionar-se com Deus é deixar de ser completamente hu-
mano. Ser realizado é ser plenificado por Deus. Nada transitório pode
preencher esta necessidade. Nada que não seja o próprio Deus pode es-
perar tomar o lugar de Deus. Assim mesmo, por causa da decadência da
natureza humana, há hoje a tendência natural de se tentar fazer com que
outras coisas preencham essa necessidade. O pecado nos afasta de Deus
e nos leva a pôr outras coisas em seu lugar. Essas vêm para substituir
Deus. Elas, porém, não satisfazem. E, como a criança que experimenta e
expressa insatisfação quando o pino quadrado não se encaixa no orifício
redondo, passamos a experimentar um sentimento de insatisfação. De
alguma forma, permanece em nós a sensação de necessidade de algo in-
definível de que a natureza humana nada sabe, só sabe que não o possui.

A FELICIDADE HUMANA E A BEM-AVENTURANÇA DIVINA

João Calvino (1999, p. 51) comenta que:


[...] enquanto todos os homens naturalmente desejam e correm após
a felicidade, vemos com quanta determinação se entregam a seus pe-
cados; sim, todos aqueles que se afastam ao máximo da justiça, procu-
rando satisfazer suas imundas concupiscências, se julgam felizes em
virtude de alcançarem os desejos de seu coração.

A palavra traduzida por “bem-aventurado” (rva) (‘esher), no Salmo 1, quer dizer:


“quão feliz é”. Para os gregos, a ideia de bem-aventurança (mak£rioj) estava, geral-
mente, associada a algum bem terreno: saúde, bem-estar, filhos e riquezas, ainda

Todos os Homens e um Desejo - A Contracultura Cristã


42 UNIDADE I

que não exclusivamente, podendo se referir ao conhecimento e à paz interior. A


palavra grega carrega consigo o sentido de beleza e harmonia (BARCLAY, 1973).
Era uma expressão comum nos epitáfios para descrever a vida feliz. Em
sua origem, a palavra era empregada de forma preponderante (Homero) para
se referir à bem-aventurança dos deuses. No entanto, nas bem-aventuranças, o
aspecto preponderante não é o material, antes, se referem à vida espiritual e à
comunhão com Deus.
O Antigo Testamento contém muitas advertências contra o julgamento pura-
mente externo, de modo que a verdadeira bem-aventurança, especialmente nos

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
Salmos, está associada à confiança em Deus (Sl 40,4; 84,12);2 refugiar-se em Deus
(Sl 2,12; 34,8);3 ser disciplinado e educado por Deus (Sl 94,12);4 andar na Lei do
Senhor (Sl 119,1-2);5 ter a Deus por auxílio, esperança (Sl 146,5)6 e povo do Senhor
(Sl 33,12; 144,15);7 ser escolhido de Deus (Sl 65,4);8 ter os pecados perdoados (Sl
32,1);9 temer a Deus e andar nos seus caminhos (Sl 128,1).10 Sproul resume: “ser
abençoado, na mentalidade hebraica, significa ter a alma cheia da capacidade de
experimentar o encanto, a excelência e a doçura do próprio Deus”.
Nas bem-aventuranças (Mt 5,3-12), Jesus Cristo, em suas “exclamações
enfáticas”, começa por dizer: “Bem-aventurados os humildes (ptwxÒj) de espí-
rito, porque deles é o reino dos céus” (Mt 5,3). A bem-aventurança não está na
pobreza, mas na consciência da pobreza espiritual e de sua total carência de Deus.

2
“Bem-aventurado o homem que põe no Senhor a sua confiança e não pende para os arrogantes, nem para
os afeiçoados à mentira” (Sl 40,4). “Ó Senhor dos Exércitos, feliz o homem que em ti confia” (Sl 84,12).
3
“Bem-aventurados todos os que nele se refugiam” (Sl 2,12). “Oh! Provai e vede que o Senhor é bom; bem-
aventurado o homem que nele se refugia” (Sl 34,8).
4
“Bem-aventurado o homem, Senhor, a quem tu repreendes, a quem ensinas a tua lei” (Sl 94.12).
5
“Bem-aventurados os irrepreensíveis no seu caminho, que andam na lei do Senhor. Bem-aventurados os
que guardam as suas prescrições e o buscam de todo o coração” (Sl 119,1-2).
6
“Bem-aventurado aquele que tem o Deus de Jacó por seu auxílio, cuja esperança está no Senhor, seu Deus”
(Sl 146,5).
7
“Feliz a nação cujo Deus é o Senhor, e o povo que ele escolheu para sua herança” (Sl 33,12); “Bem-
aventurado o povo a quem assim sucede! Sim, bem-aventurado é o povo cujo Deus é o Senhor” (Sl 144,15).
8
“Bem-aventurado aquele a quem escolhes e aproximas de ti, para que assista nos teus átrios; ficaremos
satisfeitos com a bondade de tua casa -- o teu santo templo” (Sl 65,4).
9
“Bem-aventurado aquele cuja iniqüidade é perdoada, cujo pecado é coberto” (Sl 32,1).
10
“Bem-aventurado aquele que teme ao Senhor e anda nos seus caminhos!” (Sl 128,1). Seguir fielmente o
caminho do Senhor nos torna irrepreensíveis (Sl 119,1).

COSMOVISÃO CRISTÃ
43

O Sentido Da Palavra “Pobreza”

Sem pretender supervalorizar a ênfase, devemos acentuar que a palavra empregada


por Jesus Cristo para pobreza indica, geralmente, não simplesmente a situação de
um “assalariado”, mas de um homem em total indigência financeira; mais propria-
mente um mendigo11 que depende da boa vontade de terceiros para sobreviver.

A nossa pobreza: desconstrução e reconstrução


Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

Jesus Cristo apresenta um conceito totalmente oposto aos nossos valores que
falam de poder, saber, status, cultura e dinheiro. Ele diz que bem-aventurado é o
homem indigente espiritualmente, que sabe que nada tem para oferecer a Deus,
mas depende totalmente de sua graça. Aqui nosso Senhor ataca frontalmente o
desejo humano tão arraigado no coração de ter uma visão bastante otimista a
seu respeito, considerando-se acima dos demais.
Esta tentação é tão comum e, até mesmo, tão aceitável socialmente den-
tro de determinadas condições, que nem sequer paramos para pensar nela.
Costumeiramente, há uma contradição entre a nossa compreensão intelectual
deste assunto e o nosso comportamento, ainda que, com alguns disfarces, ávido
por evidenciar alguma forma de poder, mesmo que seja de uma humildade
superlativa. No fundo, diz Calvino, todos em sua prosperidade gostam de ter os
“holofotes” em sua direção (2008, p. 37).

A humildade é a primeira letra no alfabeto do Cristianismo. Para se construir


um edifício é necessário começar pelos alicerces.
(J.C. Ryle).

11
“Havia também certo mendigo (ptwxo\j), chamado Lázaro, coberto de chagas, que jazia à porta daquele”
(Lc 16,20).

Todos os Homens e um Desejo - A Contracultura Cristã


44 UNIDADE I

É por isso que o nosso primeiro contato com o Evangelho, com frequên-
cia, antes de trazer paz espiritual, provoca uma espécie de guerra interior, uma
“crise”. O Evangelho desestabiliza a nossa estrutura de pensamento e, por vezes,
a tão bem arrumada concepção de vida e valores que sustentamos – ainda que
nem sempre conscientemente – e divulgamos alguns de seus aspectos mais evi-
dentes em nossa compreensão. Este conflito, portanto, como é previsível, dói e,
por vezes, dói muito. Contudo, o Evangelho nos desafia, transforma e concede,
pelo novo nascimento espiritual, uma dimensão nova da vida, do tempo e da
eternidade, mostrando-nos o quanto estávamos equivocados em nossa forma

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
de nos ver, interpretar e nos posicionar em relação à realidade. O Evangelho evi-
dencia de modo contundente o quanto somos carentes de Deus e da sua graça.
Enquanto os homens querem ter coisas para serem felizes, Jesus Cristo
começa mostrando a necessidade que temos de nos esvaziar. A construção da
verdadeira felicidade começa pela desconstrução de nosso eu, nossa pretensa
riqueza, referência e escala de valores. Percebam o drama: eu que, durante toda
a vida, desde o nascimento, tenho como referência de valores o eu, agora sou
redirecionado para uma esfera totalmente distinta, passando a ter Deus como
referência e centro. Mudei de uma visão “egorreferente” para outra, oposta, “teor-
referente”. Por isso é que a primeira bem-aventurança aponta para a nossa total
incapacidade. Quando nos sentirmos assim, poderemos ser reconstruídos, res-
taurados pelo Senhor Jesus. A graça, como a verdade, sempre nos surpreende.
Maravilhosa graça!

A Lei de Deus e a nossa miséria

A Lei de Deus é boa. Ela nos foi dada para o nosso bem. Ela se tornou maldição
para nós devido ao nosso pecado. A quebra da Lei fez com que merecêssemos
o justo castigo. Aliás, a Lei precisa ser enfatizada para que o homem, por graça,
se disponha a ouvir o Evangelho. Sem a Lei, a impressão que fica é que temos
uma vida correta e satisfatória, de nada precisamos, muito menos, de salvação.
A Lei de Deus, como que por um espelho, reflete a nossa miséria espiritual
resultante de nossa total incapacidade de cumprir as exigências divinas. O con-
fronto com a Lei de Deus é algo profundamente angustiante e destruidor de

COSMOVISÃO CRISTÃ
45

alguma presunção orgulhosamente autônoma. A Lei de Deus não afaga as nossas


pretensões entusiasticamente egocêntricas, antes, revela as nossas imperfeições.
Via-nos saciados e ricos, com trajes finos e elegantes.
A Lei vem nos mostrar que estamos famintos, carentes e nus. As nossas ves-
tes autônomas – com todos seus valores agregados por marcas, etiquetas e nomes
exóticos – só servem para certificar de forma eloquente a nossa nudez. Não pas-
sam de folhas arrancadas às pressas de um jardim já corrompido pelo pecado.
Evidenciam, às vezes, de modo abrupto, as nossas imperfeições. Como tratar
consciente e eficazmente de um mal não percebido? A Lei coloca em destaque a
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

nossa condição de pecador, revelando de forma contundente os nossos pecados.


A pobreza de espírito, em geral, está associada a um confronto honesto com
a Lei de Deus por meio do qual vemos como de fato somos, não mais por meio da
benevolência criada por nós mesmos em nosso autoexame bastante comprometido.
Paulo diz que “Cristo nos resgatou da maldição da lei” (Gl 3,13). Ele satisfez
perfeitamente todas as exigências dela. Por isso, ele pode nos libertar definiti-
vamente do seu aspecto condenatório, restaurando-nos à comunhão com Deus
por meio de sua obra sacrificial, fazendo-se maldito em nosso lugar.
19
Ora, sabemos que tudo o que a lei diz, aos que vivem na lei o diz para
que se cale toda boca, e todo o mundo seja culpável perante Deus, 20
visto que ninguém será justificado diante dele por obras da lei, em ra-
zão de que pela lei vem o pleno conhecimento do pecado. 21 Mas agora,
sem lei, se manifestou a justiça de Deus testemunhada pela lei e pelos
profetas; 22 justiça de Deus mediante a fé em Jesus Cristo, para todos e
sobre todos os que creem; porque não há distinção, 23 pois todos peca-
ram e carecem da glória de Deus, 24 sendo justificados gratuitamente,
por sua graça, mediante a redenção que há em Cristo Jesus, 25 a quem
Deus propôs, no seu sangue, como propiciação, mediante a fé, para ma-
nifestar a sua justiça, por ter Deus, na sua tolerância, deixado impunes
os pecados anteriormente cometidos; 26 tendo em vista a manifestação
da sua justiça no tempo presente, para ele mesmo ser justo e o justifica-
dor daquele que tem fé em Jesus. 27 Onde, pois, a jactância? Foi de todo
excluída. Por que lei? Das obras? Não; pelo contrário, pela lei da fé. 28
Concluímos, pois, que o homem é justificado pela fé, independente-
mente das obras da lei. 29 É, porventura, Deus somente dos judeus? Não
o é também dos gentios? Sim, também dos gentios, 30 visto que Deus
é um só, o qual justificará, por fé, o circunciso e, mediante a fé, o in-
circunciso. 31 Anulamos, pois, a lei pela fé? Não, de maneira nenhuma!
Antes, confirmamos a lei (Rm 3,19-31).

Todos os Homens e um Desejo - A Contracultura Cristã


46 UNIDADE I

A Lei, portanto, no seu aspecto moral, não foi abolida:


A lei moral de Deus é a verdadeira e perpétua regra de justiça, orde-
nada a todos os homens, de todo e qualquer país e de toda e qualquer
época em que vivam, se é que pretendem reger a sua vida segundo a
vontade de Deus. Porque esta é a vontade eterna e imutável de Deus:
que Ele seja honrado por todos nós, e que todos nós nos amemos uns
aos outros (CALVINO, 2006, p. 160).

A Lei não nos salva. Contudo, nos mostra a necessidade que temos do perdão e
da purificação efetuada por Deus. “A regra de nossa santidade é a lei de Deus”
(PACKER, 2005, p. 155). O anúncio do Evangelho envolve a Lei, a mesma que evi-

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
denciou o nosso pecado, apontou para a necessidade de salvação, se concretizando
em Cristo Jesus: “o Evangelho e a Lei não devem ser separados, constituem uma
única entidade no interior da qual o Evangelho é a coisa primordial e a Lei per-
manece contida na Boa Nova” (BARTH, 2006, p. 22). Sem Lei não há Evangelho.
Por intermédio de Cristo, somos libertos da tentativa insana de tentar ser
salvo pelo cumprimento da Lei, o que é impossível. Diante a Lei restam-nos
hipoteticamente duas opções honestas: cumprir as suas exigências, o que nos é
impossível, arcando, assim, com o reto juízo condenatório de Deus, ou buscar
refúgio na misericórdia de Deus por meio de Jesus Cristo.
Na Lei de Deus nos é apresentado um padrão perfeito de toda a justiça
que pode, com razão, ser chamada de vontade eterna do Senhor. Deus
condensou completa e claramente nas duas tábuas tudo o que ele requer
de nós. Na primeira tábua, com uns poucos mandamentos, ele prescreve
qual é o culto agradável à sua majestade. Na segunda tábua, ele nos diz
quais são os ofícios de caridade devidos ao nosso próximo. Ouçamos a
Lei, portanto, e veremos que ensinamentos devemos tirar dele e, similar-
mente, que frutos devemos colher dela (CALVINO, 2003, p. 21).

Contudo, o que a Lei exige, ela não nos capacita a cumprir, deixando-nos sozinhos.
Esta capacitação é somente pela graça que, se envolve a Lei, não se restringe a ela.

A lei deixa o homem entregue às suas próprias forças e o desafia a empregá-las


ao máximo; o Evangelho, porém, coloca o homem diante do dom de Deus e lhe
pede que faça deste dom inefável o verdadeiro fundamento de sua vida.
(J. Jeremias).

COSMOVISÃO CRISTÃ
47

Desprezar a Lei de Deus é um ato de insanidade pecaminosa. Na Lei de Deus,


temos o princípio de sabedoria que deve nortear a nossa vida.
Pela lei Deus exige o que lhe é devido, todavia não concede nenhum
poder para cumpri-la. Entretanto, por meio do Evangelho os homens
são regenerados e reconciliados com Deus através da graciosa remissão
de seus pecados, de modo que ele é o ministério da justiça e da vida
(CALVINO, 1995, p. 70).

Devemos, portanto, nos aplicar no estudo da Lei, visto que “a Escritura outra
coisa não é senão a exposição da lei”.
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

“Perdoa-nos as nossas dívidas” (Mt 6,12)

Nesta petição, entre outras coisas, estamos confessando que não temos condi-
ções de pagar a nossa dívida (Lc 7,41-42; Mt 18,25-27)12. A Lei já nos ensinou
isto. Estamos inadimplentes espiritualmente. Temos consciência de que a nossa
dívida cada vez aumenta mais:
[...] porque, ainda que vivendo como cristãos, vamos aumentando sem
cessar nossa dívida e agravando a embrulhada da nossa situação. A dí-
vida cresce de dia em dia. E imagino que à medida que envelhecemos,
mais conta nos damos de que não temos possibilidade alguma de can-
celar essa dívida. As coisas vão de mal a pior (BARTH, 1968, p. 76).

Por isso, só nos resta suplicar o perdão. “A súplica por perdão subentende que
o suplicante reconhece que não existe outro método pelo qual sua dívida seja
cancelada. Portanto, é uma súplica por graça” (HENDRIKSEN, 2001, p. 470).
Diria mais: é impossível uma autêntica vida cristã sem esta consciência - de ser-
mos pecadores e da necessidade do perdão de Deus (Lloyd-Jones, 1997, p. 53).
Enquanto não admitirmos isso, estamos, na realidade, sustentando algum
tipo de autossuficiência. A escravidão está na pretensa autossuficiência que,

12“41 Certo credor tinha dois devedores: um lhe devia quinhentos denários, e o outro, cinquenta. 42Não
tendo nenhum dos dois com que pagar, perdoou-lhes a ambos. Qual deles, portanto, o amará mais?” (Lc
7.41-42). “25 Não tendo ele, porém, com que pagar, ordenou o senhor que fosse vendido ele, a mulher, os
filhos e tudo quanto possuía e que a dívida fosse paga. 26Então, o servo, prostrando-se reverente, rogou: Sê
paciente comigo, e tudo te pagarei. 27 E o senhor daquele servo, compadecendo-se, mandou-o embora e
perdoou-lhe a dívida” (Mt 18.25-27).

Todos os Homens e um Desejo - A Contracultura Cristã


48 UNIDADE I

para dar-nos esta sensação cobra um preço muito elevado, envolvendo poder,
dinheiro, fama, títulos, distinções e coisas semelhantes que enchem os nossos
olhos e, em geral os nossos parceiros sociais.
A misericórdia de Deus é o único caminho da remissão. E, todas as vezes que
confessamos a Deus os nossos pecados, arrependidos de tê-los cometidos, desejosos
de não mais praticá-los, podemos ter a certeza que Deus, por sua graça, nos perdoa.

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
Humildes são aqueles que estão convencidos dos seus pecados e não pro-
curam ocultá-los a Deus.
(J.C. Ryle).

Os humildes em espírito são bem-aventurados, porque reconhecem a sua total


falência espiritual confessando diante de Deus a sua indignidade e absoluta
dependência de sua misericórdia. Somos totalmente dependentes da graça de
Deus. Nesta consciência sincera, somos bem-aventurados.

O DEUS QUE SE REVELA

A Bíblia parte do pressuposto da existência de Deus. “Antes que os montes nas-


cessem e se formassem a terra e o mundo, de eternidade a eternidade, tu és Deus”,
escreveu Moisés (Sl 90,2). Moisés por revelação direta de Deus, registra de forma
inspirada (2Pe 1,20-21), narrando os atos criadores de Deus, sem se preocupar em
falar com mais detalhes a respeito Daquele, que mediante a Sua Palavra, faz com
que do nada surja a vida, criando o universo, estabelecendo suas leis próprias e,
avaliando a Sua criação como boa. Moisés apenas apresenta o Deus Todo-Poderoso
exercitando o Seu poder de forma criadora, segundo o Seu eterno propósito.

COSMOVISÃO CRISTÃ
49
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

Deus existe; este é o fato pressuposto em toda a narrativa da Criação. Deus cria
segundo a Sua Palavra e isto nos enche de admiração e reverente temor: a Palavra
de Deus é o verbo criador que manifesta a determinação e o poder de Deus (Gn
1,1.26-27; Sl 33,6.9; Jo 1,1-3; Hb 11,3), o qual criou as coisas com sabedoria (Pv 3,19).

DEUS COMO AUTOR DE TODO CONHECIMENTO

Deus como fonte de todo conhecimento tem, naturalmente, a consciência total da


perfeição e amplitude do Seu conhecimento. Ele se conhece perfeitamente, tendo
ciência de toda a Sua perfeição: “em si mesmo Ele é sujeito e objeto de todo conhe-
cimento” (HOEKSEMA, 1976, p. 15). Somente Deus possui um conhecimento
perfeito, arquetípico de si mesmo. Qualquer tipo de conhecimento parte de Deus,
que é a sua fonte inesgotável; portanto, podemos concluir daí algumas coisas:
1. Deus é o principium essendi de todo conhecimento, inclusive o científico.
2. Toda verdade é proveniente de Deus, porque “todas as coisas procedem
de Deus” (CALVINO, 1998, p. 318). Portanto, não pode haver contradi-
ção em Deus mesmo.
3. A ciência e a fé não se contradizem; o mesmo doador da fé (Ef 2.8) é o
criador das verdades científicas; logo quando ambas parecem contradi-
tórias, é porque ou há uma compreensão errada da fé ou, a ciência não é
ciência; está laborando em erro.

O Deus Que se Revela


50 UNIDADE I

Por isso é preciso que haja humildade de ambas as partes: do teólogo na interpreta-
ção da Palavra de Deus, sempre em submissão ao Espírito de Deus, sem cair num
dogmatismo ingênuo nem num relativismo dogmático, que corre sempre atrás dos
modismos científicos e filosóficos para adaptar a Teologia. É preciso que nós teólo-
gos entendamos que trabalhar com a teologia não significa dizer sempre coisas novas;
embora reconheçamos “as situações novas que ameaçam a salvação dos homens”
(BERKOUWER, 1964, p. 72), para as quais devemos buscar na Palavra a resposta.
Por outro lado, precisamos entender, que a Palavra de Deus é mais rica do que
qualquer dogma; portanto, o nosso sistema doutrinário, por melhor que seja – e

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
eu estou convencido de que é –, não pode ser mais rico do que a Palavra de Deus,
como bem observou Berkouwer (1903-1996): “porventura a Escritura não é mais
rica do que qualquer pronunciamento eclesiástico, por mais excelente e atento ao
Verbo divino que este possa ser?”. Por isso, o critério último de análise, será sempre
“o Espírito Santo falando na Escritura” (CONFISSÃO DE WESTMINSTER, I.10.).
O mundo do conhecimento pertence a Deus. Ele é o seu autor e revelador;
logo, todo e qualquer conhecimento quer empírico, quer científico, quer teológico
que o homem tenha é parte do conhecimento de Deus expresso na sua Criação.
Desta forma, podemos dizer que não existe conhecimento fora de Deus.
A realidade pertence a Deus, quem a criou, e lhe confere sentido. Quando,
então nos referimos ao conhecimento que podemos ter do próprio Deus, do seu
caráter e majestade, temos de reafirmar a verdade bíblica de que este conheci-
mento provém do próprio Deus. Portanto, Deus só pode ser conhecido por ele
mesmo. Daí a necessidade de revelação para que possamos conhecê-lo, e nos
relacionarmos com ele (BAVINCK, 2012, p. 287). Este conhecimento resultante
da graça é único, singular e pessoal.

Conhecer a Deus é uma coisa completamente única, singular, visto que


Deus é único, é singular.
(John M. Frame)

COSMOVISÃO CRISTÃ
51

Devemos entender também, que o nosso conhecimento a respeito de Deus é


um “conhecimento-de-servo” delimitado pelo próprio Senhor, considerando,
inclusive, o pecado humano. Em outras palavras: “é um conhecimento acerca de
Deus como Senhor, e um conhecimento que está sujeito a Deus como Senhor”
(FRAME, 2010, p. 56). O nosso conhecimento nunca é autorreferente com vali-
dade própria e por iniciativa nossa: “visto que somos seres finitos e não podemos
enxergar o todo da realidade de uma vez, nossa perspectiva da realidade é neces-
sariamente limitada por nossa finitude” (GEISLER; BOCCHINO, 2003, p. 50).
Poder conhecer a Deus é sempre uma iniciativa da graça divina. O nosso conhe-
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

cimento é um ato de fé; e esta é procedente da graça. Mais: nunca somos ou seremos o
padrão de verdade, antes, precisamos sempre validar o nosso pensamento na Palavra,
que é a verdade (Jo 17,17). Só pensamos verdadeiramente quando pensamos à luz
da Palavra. Por isso, é que conhecer a Deus é algo singular, porque somente Deus é
soberano e, somente a partir dele podemos conhecê-lo. E tudo isso, por meio de Jesus
Cristo, o Deus encarnado. Conhecer a Deus em sua soberania, portanto, é um dom
da graça do soberano Deus. Este conhecimento, por sua vez, nos liberta para que
possamos conhecer a nós mesmos e as demais coisas da realidade (COSTA, 2016).
O teólogo sabe que a Teologia é uma busca humana por compreender e siste-
matizar a revelação; e como humanos que somos, podemos nos enganar. A teologia,
portanto, de certa forma, está sempre a caminho, em busca de uma compreensão
mais exaustiva das Escrituras. Entretanto, como em todas as demais ciências, nós
Reformados, temos nossos pressupostos; o nosso é que a Bíblia é o registro inspirado
e inerrante da Palavra de Deus. Disto não abrimos mão. Estamos convencidos que
uma visão relapsa da Palavra determina o fracasso teológico e espiritual da Igreja.

A CRIAÇÃO COMO REVELAÇÃO DE DEUS

No Salmo 19, o salmista, à semelhança do Salmo 8, mesmo exultante na contem-


plação da Criação, não se detêm na Natureza, antes, reconhece a Deus como o
Criador de todas estas maravilhas. Aliás, é terrível quando confundimos o meio
com o fim. Podemos ficar tão encantados com a estrada que nos esquecemos de
fato para onde queremos ir.

O Deus Que se Revela


52 UNIDADE I

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
Costumo dizer que o aroma do café, o cheiro do arroz enquanto é refogado
e do frango assado, é mais precioso do que o sabor em si destes alimentos.
Pessoalmente, aprecio um bom café com pouco tempo de existência, arroz quente
preferencialmente não solidário por tempo demasiado e, da mesma forma, o
frango assado. Todavia confesso, eles prometem o que não podem cumprir ao
meu paladar. Diria que quase fazem propaganda enganosa ao meu olfato que
insiste em determinar previamente o meu paladar. Contudo, salvo exceções,
quem se contentaria com o cheiro destas iguarias?
Deus em sua revelação nunca vai além do que ele mesmo quer nos mos-
trar. Ele nunca nos promete aquilo que não vai suprir perfeitamente. Aliás,
como diz Paulo de forma exultante em oração: “ora, àquele que é poderoso para
fazer infinitamente mais do que tudo quanto pedimos ou pensamos, conforme o
seu poder que opera em nó” (Ef 3,20). Por isso, nos deter na Revelação, por mais
maravilhosa que ela seja é ignorar o propósito de Deus e deixar de usufruir algo
infinitamente mais maravilhoso, glorioso e majestoso, que é conhecer o Senhor,
Criador, Preservador e Salvador.

COSMOVISÃO CRISTÃ
53

Nas coisas que Ele criou, Deus, portanto, mantém diante de nós nítido espelho
de sua esplendorosa sabedoria. Em resultado, qualquer indivíduo que desfru-
te de pelo menos uma minúscula fagulha de bom senso, e atenta para a terra
e outras obras divinas, se vê aturdido por candente admiração por Deus. Se os
homens chegassem a um genuíno conhecimento de Deus, pela observação
de suas obras, certamente que viriam a conhecer a Deus de uma forma sábia,
ou daquela forma de adquirir sabedoria que lhes é natural e apropriada.
Fonte: João Calvino (1996, p. 60).
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

A glória da revelação é falar a respeito de seu Senhor e Criador. Ela cumpre o


seu papel em nós quando pelo Espírito, podemos dizer como o salmista: “os céus
proclamam a glória de Deus, e o firmamento anuncia as obras das suas mãos” (Sl
19,1). Por isso mesmo, ao meditar sobre a Revelação de Deus o salmista inspi-
rado por ele nos indica alguns aspectos do caráter de Deus e de seus atos.

1) Glorioso Senhor

“Os céus proclamam a glória de Deus, e o firmamento anuncia as obras das suas
mãos” (Sl 19,1).
O salmista reconhece na Criação que Deus é o glorioso Senhor. Ele não
deifica a criação, antes canta a glória de Deus (BOICE, 1994). Quando no verso
primeiro nos diz que os céus proclamam a glória de Deus, ele se refere a Deus
como (lae) (‘el), o nome mais simples e genérico empregado para Deus do
qual outros são derivados. Com muita frequência ele é apresentado na Escritura
com adjetivos e epítetos. Assim, por exemplo, temos: “Deus dos céus” (Sl 136,26);
“Deus lá de cima” (Jó 31,28); “Deus da verdade” (Sl 31,5).
Ele tem um relacionamento íntimo com o seu povo, daí ser chamado de “Deus
da minha vida” (Sl 42,8); “Deus, minha rocha” (Sl 42,9); “Deus, que é a minha
grande alegria” (Sl 43,4); “Meu Deus e a rocha da minha salvação” (Sl 89,26).
É o único Deus Criador: “Não temos nós todos o mesmo Pai? Não nos criou
o mesmo Deus?” (Ml 2,10).

O Deus Que se Revela


54 UNIDADE I

Não devemos nos esquecer de que este é o primeiro nome de Deus que apa-
rece nas Escrituras, sendo empregado de forma plural na Criação, indicando o
seu eterno poder soberano e majestade Triúna: “No princípio, criou Deus (yhil£)
(‘elohiym) os céus e a terra” (Gn 1,1).
No Salmo 19, o salmista destaca que a Criação de Deus realça a sua glória.
Se observarmos a Criação veremos e ouviremos uma sinfonia sem som por meio
de imagens grandiosas e de variada magnificência a respeito da glória de Deus.
Todo o Universo foi feito para revelar, ainda que de forma limitada, aspectos da
gloriosa majestade de Deus, e nós, fomos criados para vê-la, prová-la e glorifi-

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
car o nome de Deus (PIPER, 2005).
A criação, ainda que manchada pelo pecado, revela quem é o seu Criador,
majestoso e glorioso, digno de toda honra e louvor: “os céus proclamam a glória
(dAbK’) (kabod) de Deus, e o firmamento anuncia as obras das suas mãos” (Sl 19,1).

2) Criador

“Os céus proclamam a glória (dAb) (kabod) de Deus, e o firmamento anuncia as


obras (hf,[]m) (ma`aseh) das suas mãos” (Sl 19,1).
A Criação não é produto do acaso ou de uma enorme coincidência de mis-
tura de gases, antes foi produzida pelas mãos de Deus. No Salmo 8, o salmista
também contempla extasiado a Criação: “quando contemplo os teus céus, obra
(hf,[]m) (ma`aseh) dos teus dedos, e a lua e as estrelas que estabeleceste” (Sl 8.3).
Em outro lugar: “em tempos remotos, lançaste os fundamentos da terra; e os
céus são obra (hf,[]m) (ma`aseh) das tuas mãos” (Sl 102,25). O profeta reconhece
que somos produto da vontade de Deus: “mas agora, ó SENHOR, tu és nosso Pai,
nós somos o barro, e tu, o nosso oleiro; e todos nós, obra (hf,[]m) (ma`aseh) das
tuas mãos” (Is 64,8).
“Não há entre os deuses semelhante a ti, Senhor; e nada existe que se compare
às tuas obras (hf,[]m) (ma`aseh)” (Sl 86,8).
“Graças te dou, visto que por modo assombrosamente maravilhoso me for-
maste; as tuas obras (hf,[]m) (ma`aseh) são admiráveis, e a minha alma o sabe
muito bem” (Sl 139,14).

COSMOVISÃO CRISTÃ
55

“Grandes são as obras (hf,[]m) (ma`aseh) do SENHOR, consideradas por todos


os que nelas se comprazem” (Sl 111.2).
“Pois me alegraste, SENHOR, com os teus feitos; exultarei nas obras (hf,[]m)
(ma`aseh) das tuas mãos. 5Quão grandes, SENHOR, são as tuas obras (hf,[]m)
(ma`aseh)! Os teus pensamentos, que profundos!” (Sl 92.4-5).
“Que variedade, SENHOR, nas tuas obras (hf,[]m) (ma`aseh)! Todas com sabe-
doria as fizeste; cheia está a terra das tuas riquezas” (Sl 104.24).
Nas obras de Deus podemos perceber a sua justiça, bondade e misericórdia:
“O SENHOR é bom para todos, e as suas ternas misericórdias permeiam todas
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

as suas obras (hf,[]m) (ma`aseh)” (Sl 145.9). “Justo é o SENHOR em todos os seus
caminhos, benigno em todas as suas obras (hf,[]m) (ma`aseh)” (Sl 145.17).
Há um hino composto por Sarah Kalley, - hino n. 22, “Os Céus Proclamam”,
Hinário Novo Cântico da Igreja Presbiteriana do Brasil - inspirado no Salmo 19,
cuja primeira estrofe nos diz:

“Altamente os céus proclamam


Seu divino Criador!
Anuncia o firmamento
Tuas obras, ó Senhor!
Incessantes, noite e dia,
Dão sinais do teu poder;
Sem palavras, proclamando
Deus excelso no saber!”

“A criação não pode conter-se em si mesma, mas dia e noite proclama a glória
de Deus” (HARMAN, 2011, p. 121). Na criação podemos perceber aspectos da
bondade de Deus que nos aliviam em nossas dores e limitações, nos concedendo
a visão da harmoniosa variedade e beleza daquilo que criou. Nesta visão, somos
conduzidos a admirar e a glorificar a Deus por Sua manifestação de sabedoria,
bondade e graça para conosco.

O Deus Que se Revela


56 UNIDADE I

3) Preserva com ordem a Criação

“2Um dia discursa a outro dia, e uma noite revela conhecimento a outra noite. 3 Não
há linguagem, nem há palavras, e deles não se ouve nenhum som; 4 no entanto, por
toda a terra se faz ouvir a sua voz, e as suas palavras, até aos confins do mundo.
Aí, pôs uma tenda para o sol, 5 o qual, como noivo que sai dos seus aposentos, se
regozija como herói, a percorrer o seu caminho. 6 Principia numa extremidade
dos céus, e até à outra vai o seu percurso; e nada refoge ao seu calor” (Sl 19,2-6).
O salmista ainda que não saiba explicar a ordem da Criação, sabe que o Deus

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
Criador, o majestoso Senhor estabeleceu uma ordem que se sucede, porque foi
assim que ele a fez. Deste modo, o escritor sagrado pode falar da sucessão de dia
e dia; noite e noite (2) e o sol que, percebido fenomenologicamente, percorre um
caminho pré-estabelecido de uma extremidade a outra do céu mantendo o seu
calor: há um testemunho constante e permanente (4-6).
A compreensão cristã de ordem na criação foi de fundamental importância para
o desenvolvimento da ciência. Como sabemos, os pressupostos dos cientistas são
de grande relevância na elaboração científica. Tentar negar a existência de pressu-
postos em nome de uma suposta “neutralidade” seria uma postura pueril e inútil.
Francis A. Schaeffer (1912-1984), por exemplo, nos chama a atenção para
o fato de que “a ciência moderna em seus primórdios foi o produto daqueles
que viveram no consenso e cenário do Cristianismo” (SCHAEFFER, 1974, p.
29). À frente, acrescenta: “a mentalidade bíblica é que deu origem à ciência”
(SCHAEFFER, 1974, p. 29). De fato, independentemente da fé professada pelo
cientista, a sua formação, consciente ou não, era cristã, as suas pressuposições
teístas – que obviamente orientavam as suas pesquisas – “já vinham no leite
materno” (SIRE, 2004, p. 28).
O pressuposto da criação divina foi um incremento fundamental à ciência
moderna (KLAAREN, 1977). Hooykaas (1988, p.196) conclui o seu brilhante
livro usando uma metáfora: “Podemos dizer (...) que, embora os ingredientes
corporais da ciência possam ter sido gregos, suas vitaminas e hormônios foram
bíblicos”. Entre os Puritanos, por exemplo, o estudo científico, juntamente com
o teológico e literário era amplamente estimulado. “Os Puritanos abraçaram o
estudo das artes tão completamente como o da ciência” (RYKEN, 1992).

COSMOVISÃO CRISTÃ
57

O fato é que o princípio cristão de coerência da realidade resultante de sua


compreensão de que toda ela parte de um Deus infinito e pessoal que não se
confunde com a Criação e, que se revela, trazia como pressuposto a busca de
compreensão dos fenômenos naturais visto que o mundo é possível de com-
preensibilidade. Estes elementos contribuíram para a busca de compreensão e
sistematização dos fenômenos naturais. “A ciência moderna não poderia ter sur-
gido sem a Bíblia” (VEITH JR., 2006).
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

A ciência moderna surgiu dentro de uma cultura impregnada pela fé cristã.


Esse fato histórico, por si só, já é sugestivo. Foi a Europa cristianizada – e ne-
nhum outro lugar – que se tornou o berço da ciência moderna.
Fonte: Pearcey e Thaxton (2005).

Kuyper (2002, p. 123) resume isso:


Somente quando há fé na conexão orgânica do Universo, haverá tam-
bém a possibilidade para a ciência subir da investigação empírica dos
fenômenos especiais para o geral, e do geral para a lei que governa aci-
ma dele, e desta lei para o princípio que domina sobre tudo.

O fato é que a Ciência Moderna, que teve a sua gênese no século XVII em “toda
a Europa” (ROSSI, 2001, p. 9), não estava em princípio dissociada da fé cristã.
Francis Bacon (1561-1626) combatendo o método dedutivo de Aristóteles (384-
322 a.C.) - a quem considerava uma espécie de Anticristo - e o pensamento
escolástico - que contribuiu no processo de distanciamento do homem em relação
a Deus e às Escrituras (ROSSI,1992, p. 66-69) - sustentou que a única esperança
da ciência estava na indução (BACON, 1973). No frontispício da primeira edi-
ção do Novum Organum, Bacon colocou as palavras do texto bíblico de Daniel
12,4: “Muitos o esquadrinharão, e o saber se multiplicará”. Portanto, o Deus das
Escrituras não é um Deus distante, indiferente, ou obra do gênio inventivo do
homem. Antes, é um Deus que se revela, dando-se a conhecer.

O Deus Que se Revela


58 UNIDADE I

Ao mesmo tempo em que as Escrituras nos falam de um Deus transcendente,


anterior à Criação, aquele de quem tudo provém, ensina-nos também que este
Deus se dá a conhecer possibilitando-nos um relacionamento com ele. A revela-
ção de Deus começa pela criação de todas as coisas. “Ao criar o mundo por sua
palavra e dar-lhe vida através de seu Espírito, Deus delineou os contornos bási-
cos de toda a revelação subsequente” (BAVINCK, 2012, p. 308).
Deus como causa primeira de todo o conhecimento, proporciona ao homem
por meio da Sua criação, a Natureza, a oportunidade e responsabilidade de
conhecer a realidade do mundo físico. Contudo, é bom que se diga que este

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
conhecimento não é completo nem absolutamente claro, visto que o pecado pôs
seu selo sobre a Criação, obscurecendo o entendimento do homem e, a própria
Natureza perdeu parte da sua eloquência primava.
Contudo, ainda hoje a natureza, é um espelho no qual se refletem as glórias
de Deus. Sem embargo, por causa do pecado, pode-se dizer que este espelho
está deformado. Como é bem sabido, um espelho côncavo reflete as coisas de
uma forma grotesca e distinta de como realmente são (MEETER, s.d., p. 28).

Todavia, a História, a Natureza e o homem, como parte desta, refletem algo do


Seu Criador; “o homem, por haver sido criado à imagem de Deus, nos revela
muito sobre o ser do Criador” (MEETER, s.d., p. 26) (Sl 139.14). Por isso, os
homens são indesculpáveis (Rm 1,19-20).
Deus expressa o Seu pensamento e a Sua vontade no mundo, na Criação,
envolvendo o homem com a manifestação visível da Sua glória, a qual é pro-
clamada, apesar do pecado, de forma facunda nas obras da Criação (Sl 19,1; At
14,17; Rm 1,19-20). Calvino (1509-1564) acentua que:
A aparência do céu e da terra compele até mesmo os ímpios a reconhecerem
que algum criador existe (...). Certamente que a religião nem sempre teria
florescido entre todos os povos, se porventura as mentes humanas não se
persuadissem de que Deus é o Criador do mundo (CALVINO, 1997, p. 299).

Deus, o mundo e o homem são as três realidades com as quais toda a ciência e toda
filosofia se ocupam (BAVINCK, 1909). Pois bem, se Deus não tivesse primeira-
mente, de forma livre e soberana se revelado (Sl 115,3; Rm 11,33-36) – concedendo
ao homem o universo como meio externo de conhecimento, o qual funciona com
as suas leis próprias e regulares –, toda e qualquer ciência seria impossível.

COSMOVISÃO CRISTÃ
59

O mundo, inclusive o homem, é o grande laboratório de todas as ciências.


Só que, quem “construiu” este laboratório foi Deus, deixando ao homem a res-
ponsabilidade de estudá-lo, descobrindo os “enigmas” que estão por trás das leis
que funcionam de acordo com as prescrições do Seu Criador. Não pensemos,
contudo, que Deus criou o mundo apenas para satisfazer a curiosidade humana;
Deus o fez como testemunho da Sua glória: “a grande finalidade da criação foi
à manifestação da glória de Deus” (PINK, 1977, p. 84).
Deus ainda hoje não deixou de dar testemunho da Sua existência e bon-
doso cuidado para com o homem (At 14,17). Deus está ativo, preservando a
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

Sua criação para o fim proposto por Ele mesmo. “Deus não é mero espectador
do universo que Ele criou; Ele está presente e ativo em todas as partes, como
o fundamento que sustenta tudo e o poder que governa tudo o que existe”
(BOETTNER, s.d., p. 33). A Bíblia atesta este fato amplamente (Vejam-se:
Ne 9,6; At 17,28; Ef 4,6; Cl 1,17; Hb 1,3). Deus faz todas as coisas “conforme
o conselho da Sua vontade” (Ef 1,11; Sl 115,3).
O homem natural pode não saber disso, pode não aceitar e até combater tal
“absurdo”; entretanto, o que o homem pode fazer contra a verdade? (2Co 13,8).
O que são os argumentos que tentam negar a existência de Deus, senão fruto de
uma falsa interpretação da Revelação Geral de Deus?! Calvino (1509-1564), dis-
correndo sobre a revelação de Deus na Natureza, diz: “em toda a arquitetura de
seu universo, Deus nos imprimiu uma clara evidência de sua eterna sabedoria,
munificência e poder; e embora em sua própria natureza nos seja ele invisível,
em certa medida se nos faz visível em suas obras”.
O mundo, portanto, é com razão chamado o espelho da divindade, não porque
haja nele suficiente clareza para que os homens alcancem perfeito conhecimento de
Deus, só pela contemplação do mundo, mas porque ele se faz conhecer os incré-
dulos de tal maneira que tira deles qualquer chance de justificarem sua ignorância.
Para João Calvino (1997, p. 300-301), “mundo foi fundado com esse pro-
pósito, a saber: para que servisse de palco à glória divina”. “[...] este mundo é
semelhante a um teatro no qual o Senhor exibe diante de nós um surpreendente
espetáculo de sua glória” (CALVINO, 1996, p. 63). Ele entende que “o princípio
da religião” que é implantado nos homens é uma das evidências da sua “pree-
minente e celestial sabedoria” (CALVINO, 1999, p. 167).

O Deus Que se Revela


60 UNIDADE I

Em outro lugar, observando que “no coração de todos jaz gravado o senso
da divindade” argumenta que a tentativa humana de negar a Deus nada mais é
do que uma revelação do “senso de divindade que, tão ardentemente, deseja-
riam extinto” (CALVINO, As Institutas, I. 3.1.) Conclui que é impossível haver
verdadeiro ateísmo.
Sem a ação primeira de Deus, não haveria ciência. Graças a Deus, porque Ele
registrou de forma mui santa e sábia as Suas leis (físicas, químicas, termodinâmi-
cas etc.) “no grande livro do mundo” (DESCARTES, 1973). É preciso, contudo,
que não nos detenhamos apenas aí, para que não fiquemos com a menor parte;

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
pois, o que disse Blaise Pascal (1623-1662), apesar do exagero de ênfase, tem o
seu lugar: “o Deus dos cristãos não consiste num Deus simplesmente autor de
verdades geométricas e da ordem dos elementos; essa é a porção dos pagãos e
dos epicuristas” (PASCAL, 1973, p. 178).
Dentro de tudo o que foi colocado, surge de forma natural a pergunta: E o
homem, pode entender esta revelação? Pode o homem, como intérprete que é
reconhecer a mensagem unívoca do grande “locutor”, que é Deus?... Creio que a
Ciência nos seus avanços e retrocessos – diferentemente da concepção de Comte
a respeito da ciência – com conexões aqui e ali, tem respondido a estas questões.
Passemos agora, à resposta formal destas indagações.

4) A Compatibilidade da revelação com a razão humana

Partindo do princípio de que a Revelação de Deus tem por objetivo mostrar o


Seu Autor: Deus é o substantivo da Sua Revelação –, não teria nenhum valor a
Revelação objetiva de Deus, se não houvesse concomitantemente uma poten-
cialidade de recepção subjetiva para ela, pois, assim, seria uma revelação que
não se descobriria, não se tornaria acessível. Seria o equivalente a um intérprete
verter para o inglês as palavras de um orador alemão para um auditório que só
entende o português.
Perguntaríamos: o interprete traduziu o que o orador disse? Responderia o
interlocutor: Sim. Voltaríamos à questão: Então ele revelou o conteúdo da men-
sagem?! A resposta seria óbvia: Não. Ele traduziu, mas ninguém o entendeu, pois
o seu idioma não é o nosso nem temos condições de aprendê-lo agora.

COSMOVISÃO CRISTÃ
61

Deus se revela sabendo que há a possibilidade de ser entendido, pois, Ele


mesmo criou o homem e o dotou desta capacidade. Entretanto, a não com-
preensão do homem não inutiliza o valor da Revelação de Deus. Ela é o que é
independentemente da apreensão humana. O pecado corrompeu o intelecto,
à vontade e a faculdade moral do ser humano; ele está morto espiritualmente,
sendo escravo do pecado (Gn 6,5; 8,21; Jo 8,34.43-44; Rm 3,23; 6.6.23; Ef 2,1;
Cl 1,13; 2,13). A depravação total é justamente isto: a contaminação de todas as
nossas faculdades pelo pecado. O homem é extensivamente mau; todo o seu ser
está contaminado pelo pecado. Como decorrência disso, o homem tornou-se
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

positivamente mau (Gn 6,5; 8,21; Mt 7,11). Ainda assim, o pecado não destruiu
a possibilidade da percepção.
O conhecimento humano consiste sempre em uma relação lógica entre sujeito
e objeto; visto que o sujeito só é sujeito para o objeto e, por sua vez, o objeto só
o é para um sujeito, assim, a revelação objetiva reclama alguém e, este alguém
(objeto) só o é, enquanto recebe de forma adequada a revelação.
A razão, como parte da criação divina, é o instrumento de que dispomos,
pela graça de Deus, para descobrir a Sabedoria divina no mundo que nos rodeia
e, portanto, é o principium cognoscendi internum da ciência. Entendemos que o
conhecimento também se dá pela experiência, contudo, cremos que o espírito
humano traz consigo certas categorias que lhe são inerentes, as quais não podem
ser apreendidas pela experiência. A experiência pode ser a fonte de quase todo
o conhecimento, mas não é necessariamente do conhecimento todo.
Concluindo este tópico, reafirmamos que: Deus criou o homem à Sua ima-
gem e semelhança (Gn 1,27), dotando-o de capacidade para receber e interpretar
as impressões da Sua revelação que são demonstradas por meio do universo, da
Sua Criação (Sl 19,1; At 14,17). Toda a Criação de Deus foi realizada de forma
sábia e soberana (Sl 115,3; Pv 3,19: Ef 1,11).

5) A Revelação Especial de Deus

O conhecimento que Deus deseja que tenhamos Dele está revelado nas Escrituras.
Originalmente, Deus se revelou na Criação. Criação é sinônimo de Revelação:

O Deus Que se Revela


62 UNIDADE I

No Éden só havia um livro - o livro da Natureza. Todavia, com o pe-


cado, a Natureza também sofreu as consequências. Ficou obscurecida.
Perdeu parte da sua eloquência primava em apontar para o seu Criador
(Gn 3.17-19). E como parte do castigo pelo pecado, o homem perdeu o
discernimento espiritual para ver a glória de Deus manifesta na Cria-
ção (Sl 19.1; Rm 1.18-23). A Revelação Geral que fora adequada para
as necessidades do homem no Éden – embora saibamos que ali tam-
bém se deu a Revelação Especial (Gn 2.15-17,19,22; 3.8ss.) – tornou-se,
agora, incompleta e ineficiente para conduzi-lo a um relacionamento
pessoal e consciente com Deus (COSTA, 1988, p. 22-24).

A Bíblia ou Revelação Especial tornou-se necessária por causa do pecado. Através

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
da História, Deus separou e preparou homens para que registrassem de forma
exata e infalível os Seus desígnios, sendo a Palavra de Deus escrita, dentre outras
coisas, “o corretivo às ideias disformes que pode dar-nos a natureza em seu estado
caído” (MEETER, s.d., p. 28). Por isso, só se considera adequada à revelação de
Deus contida na Bíblia; somente por meio das Escrituras o homem pode ter um
conhecimento de Deus livre de superstições.

Gerard Van Groningen pontua que: “o Senhor soberano julgou necessário


revelar explicitamente a natureza de sua relação pactual com a humanida-
de. Ele fez isto antes do homem cair em pecado. Depois da queda, isto se
tornou ainda mais necessário devido aos efeitos do pecado”.
Fonte: Groningen (1995, p. 63).

A Bíblia como Palavra inspirada e inerrante de Deus, dá ao homem a resposta


adequada às necessidades espirituais de que tanto carece, apontando para Jesus
Cristo (Jo 5,39) e para o poder de Deus. Nas Escrituras encontramos a esperança
da vida preparada, realizada e consumada pelo Deus Triúno (Rm 15,4; 1; Jo 5,13).
A constatação da Revelação de Deus gera em nós dois sentimentos: humil-
dade e alegria. Humildade por sabermos que tudo o que temos e sabemos provém
de Deus (Jo 15,5; 1Co 4,7; 2Co 3,5). Alegria, por ter acesso à Revelação de Deus
que é a verdade. Tais sentimentos, acompanhados do estudo da Palavra, devem

COSMOVISÃO CRISTÃ
63

conduzir-nos à adoração (Mt 4,10; Hb 13,15; 1Pe 2,9). A Bíblia foi-nos confiada
a fim de que, mediante a iluminação do Espírito Santo, sejamos conduzidos a
Jesus Cristo (Jo 5,39; Lc 24,27.44), sendo Ele mesmo Quem nos leva ao Pai (Jo
14,6-15; 1Tm 2,5; 1Pe 3,18) e nos dá vida abundante (Jo 10,10; Cl 3,4).
A Bíblia foi registrada para que cumpramos os seus preceitos, dados pelo pró-
prio Deus (Dt 29,29; Js 1,8; 2Tm 3,15, 16; Tg 1,22); ela foi-nos concedida para que
conheçamos o Seu Autor e, conhecendo-O, O adoremos e, adorando-O, mais O
conheçamos (Os 6,3; 2Pe 3,18). Por isso, “ao estudarmos Deus, devemos procu-
rar ser conduzidos a Ele. A revelação nos foi dada com esse propósito e devemos
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

usá-la com essa finalidade” (PACKER, 2005, p. 63-64).


A Igreja como resultado da ação de Deus por meio da Palavra, manifesta tais
comportamentos, tendo ciência de que a meditação que faz na Palavra, guiada
pelo Espírito, é uma tentativa de interpretá-la, a fim de proclamar e ensinar
numa linguagem humana a verdade que ela tem recebido pela graça de Deus
(BRUNNER, 1946). “A verdade é idêntica à graça” (Jo 1,17).
Kuyper (1837-1920) chama a atenção para o fato de que não devemos conside-
rar a Revelação Especial ou a Escritura como fonte da Teologia (“fons theologiae”),
tendo em vista que o termo “fonte” no estudo científico tem um significado mui
definido. Em geral denota uma área de estudo sobre a qual, o homem como
agente ativo, faz uma triagem para a sua pesquisa, como na Botânica, Zoologia
e História; neste caso, o objeto de estudo é passivo; o homem é quem é ativo,
debruçando-se sobre o fenômeno para extrair do objeto o conhecimento dese-
jado. Assim sendo, usando o termo neste sentido, tem-se a impressão, de que o
homem como agente ativo, pode se colocar sobre as Escrituras, para descobrir
ou tirar dela o conhecimento de Deus, que ali está passivamente esperando o
seu descobridor. Sabemos que isto não é verdade! Deus se revela ao homem e
mais uma vez, ativamente fornece os meios para a compreensão desta revelação:
o Espírito Santo. A Teologia é sempre o efeito da ação reveladora, inspiradora e
iluminadora de Deus por meio do Espírito.
Deus não se deixa invadir pela razão humana ou mesmo pela fé; Ele se dá a
conhecer livre, fidedigna e explicitamente; Deus se revela a Si mesmo como Senhor
e, “Senhorio significa liberdade” (BARTH, 1960, p. 306). “Quanto mais conhece-
mos Deus, mais compreendemos e sentimos que Seu ministério é inescrutável”

O Deus Que se Revela


64 UNIDADE I

(BRUNNER, 1946, p. 156). A “douta ignorância” faz parte essencial da genuína


teologia bíblica. O conhecimento de nossa limitação não é inato; antes é precedido
pela revelação. Sem a revelação de Deus não há teísmo, ateísmo nem agnosticismo.
É no encontro com Deus que tomamos conhecimento de nossas limitações.
Sem a revelação, o homem passaria toda a sua vida e estaria na eternidade
sem o menor conhecimento de Deus; por mais engenhosos que fossem os seus
métodos, por mais sistemáticas que fossem as suas pesquisas; por mais que evo-
luísse a ciência. O homem nunca conseguiria chegar a Deus ou mesmo à sua
ideia: Ignoraria eternamente a própria ignorância! Entretanto Deus continuaria

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
sendo o que sempre foi: O Senhor. Todavia graças a Deus, Ele soberanamente Se
Revelou a Si mesmo, para que possamos conhecê-Lo e render-Lhe toda a glória
que somente a Ele é devida. Em Cristo nós somos confrontados com o clímax e
plenitude da revelação de Deus (Jo 14,9-11; 10,30; Cl 1,19; 2,9; Hb 1,1-4). “No
Filho temos a revelação última de Deus. Da mesma forma como é verdade que
quem viu o Filho viu o Pai, também é verdade que quem não viu o Filho, não
viu o Pai” (HENDRIKSEN, 2004, p. 657). Jesus Cristo é a medida da revelação!
Para nós Reformados, entretanto, é a Palavra de Deus que deve dirigir toda
a nossa abordagem e interpretação teológica, bem como de toda a realidade: O
Espírito por meio da Palavra é Quem deve nos guiar à correta interpretação da
Revelação. Na Escritura temos o nosso padrão e apelo final.

6) A Fé como Conhecimento

A razão mesmo estigmatizada pelo pecado, que se mostra tão eficaz nas coisas
naturais, perde-se diante do mistério de Deus revelado em Cristo e, também
diante da Revelação geral na Natureza. As suas pressuposições, ainda que pos-
sam ter algo de verdadeiro, se perdem diante da complexidade do mundo real:
“As mentes humanas são cegas a essa luz, a qual resplandece em todas as coisas
criadas, até que sejam iluminadas pelo Espírito de Deus e comecem a compre-
ender, pela fé, que jamais poderão entendê-lo de outra forma” (CALVINO, 1997,
p. 299). A graça, portanto, antecede à fé e ao conhecimento.
A graça de Deus é eminentemente socializante; isto porque não há um homem
sequer que dela não necessite e, mesmo sem saber, dela não participe. Todos sem

COSMOVISÃO CRISTÃ
65

exceção, somos devedores à graça de Deus – aquele favor imerecido da parte de


Deus para com os pecadores. O nosso Deus é “O Deus de toda graça” (1Pe 5,10).
Bem-aventurados são todos aqueles que vivem como súditos do Reino da Graça
de Deus. A graça de Deus é a tônica da Sua relação com o Seu povo. Tudo que
temos, somos e seremos, é pela graça (1Co 15,10). A riqueza da graça de Deus
se manifesta de modo superabundante em nós (2Co 9,14; Ef 1,7; 2,7); todavia
ela não foi manifestada em toda a sua plenitude; por isso, aguardamos o regresso
triunfante de Jesus Cristo, quando Ele mesmo revelará a graça de forma mais
completa (1Pe 1,13), concluindo a nossa salvação (Fp 1,6; 1Pe 1,3-5).
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

Estou inteiramente de acordo com Packer, quando ele diz que “conhecer a
Deus é uma questão de graça” (PACKER, 2005, p. 33). O conteúdo do conheci-
mento como a sua possibilidade estão em Deus, que livre e soberanamente Se
revela e oferece a nós pecadores, de forma graciosa por meio da Sua Palavra.
Somente pela graça da autorrevelação de Deus é que podemos nos relacionar com
Deus. O “conhecimento” intelectual e abstrato de um Deus distante, se possível
fosse fora da Revelação Geral, o que não é, não redundaria em relacionamento
afetivo e de confiança. Nós podemos conhecer a Deus subjetivamente porque
Ele Se deu a conhecer objetivamente em Sua Palavra e, plenamente, dentro do
Seu propósito, em Cristo Jesus, o Deus encarnado (Cl 1,19; 2,9).
A Revelação de Deus não indica necessariamente a apreensão subjetiva por
parte do homem; contudo, para que haja uma satisfação em termos de obje-
tivo, faz-se necessário que o homem, a quem Deus dirige especialmente a Sua
revelação, tenha, ao menos potencialmente, condições de apreendê-la. A reve-
lação de Deus exige uma resposta. Como poderá o homem captar esta revelação
e responder de forma satisfatória? Em outras palavras: qual seria o principium
cognoscendi internum?
O nome cristão, aprendido na Bíblia para esta resposta é fé. Assim como a
revelação, a fé é resultado da graça salvadora de Deus (At 15,11; 18,27; Ef 2,8;
Fp 1,29); por isso, a totalidade do conhecimento que podemos ter, repousa na
graça de Deus. Daí que, por melhores que sejam os argumentos que possamos
alinhar para explicar a nossa fé, não conseguimos o nosso intento.
Não que a fé seja irracional, como sugeriram Kierkegaard (1813-1855) e
Miguel de Unamuno (1864-1936), entre tantos outros; o que ocorre, é que a fé

O Deus Que se Revela


66 UNIDADE I

não pode ser limitada pelos cânones da razão; ela é suprarracional; apesar de
caminhar durante algum tempo lado a lado com a razão, ela, agora, acompa-
nhada da esperança, lança-se ao infinito (1Co 15,19; Hb 1,1). A fé não é irracional;
ela respalda-se em Deus e na Sua promessa. Foi isto que fez Abraão, conforme
escreve Paulo: “não duvidou da promessa de Deus, por incredulidade; mas, pela
fé, se fortaleceu, dando glória a Deus, estando plenamente convicto de que ele
era poderoso para cumprir o que prometera” (Rm 4,20.21).
A fé exige conhecimento da Palavra de Deus. A fé é uma relação de confiança;
como acreditar em alguém que não conhecemos? A fé consiste no conhecimento do

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
Pai e do Filho pelo testemunho do Espírito (Jo 17,3; Jo 15,26; 16,13-14). “A fé não
consiste na ignorância, mas no conhecimento; e este conhecimento há de ser não
somente de Deus, mas também de Sua divina vontade” (CALVINO, As Institutas, III.
2.2.). É impossível crer e nos relacionar pessoalmente com um Deus desconhecido.
A fé é gerada em nós pelo Espírito por intermédio da Palavra (Rm 10,17);
ela é a boa obra do Espírito Santo em nós, que age fundamentado numa reali-
dade histórica irrefutável: a obra de Cristo no Calvário. “A fé verdadeira é aquela
que ouve a Palavra de Deus e descansa em Sua promessa” (CALVINO, 1997, p.
318). A Palavra e a fé só poderão ser entendidas mediante a aceitação da graça
de Deus, onde tudo começa.
Temos a graça pela obra de Cristo, para que pela graça possamos conhecer
a Deus e, assim, possamos saber “qual a esperança do seu chamamento, qual a
riqueza do seu poder para com os que cremos, segundo a eficácia do seu poder; o
qual exerceu ele em Cristo, ressuscitando-o dentre os mortos, e fazendo-o sentar à
sua direita nos lugares celestiais” (Ef 1,18-20), vivendo, a partir daí, pela graça e
para a glória de Deus (1Co 10,31).
É somente pela graça, mediante a fé que podemos nos apropriar da Revelação
com atos e palavras feita por Deus. Somente a fé, como efeito da graça, nos faz
perceber a Revelação, abrindo os nossos olhos para a Palavra de Deus (Sl 119,18;
Ef 1,15-18). Deste modo, Deus nos ilumina para que possamos entender a Sua
Revelação nas Escrituras.
A Revelação antecede à fé (Rm 10,17; Gl 3,3.5); e, pela Revelação, mediante a
iluminação do Espírito, o homem é subjugado por Deus, respondendo positiva-
mente com fé. A resposta do homem é apenas uma evidência da eleição de Deus (Jo

COSMOVISÃO CRISTÃ
67

15,16; At 3,16; 15,11; 16,14; 18,27; Ef 2,8; Fp 2,12.13); Deus Se revela, fala por meio
da Palavra regenerando o pecador, concedendo-lhe fé para que, agora, salvo pela
graça, ande nas boas obras preparadas por Deus de antemão, para nós (Cf. Ef. 2,10).
Entretanto, no nosso relacionamento com Deus, deparamo-nos com um
paradoxo: Quanto mais conhecemos a Deus, temos, por um lado, um maior
discernimento de nossa pecaminosidade e, por outro, uma maior consciência
da insondabilidade e infinitude de Deus. Paulo, escrevendo aos romanos, após
falar de um assunto difícil, exulta:
Ó profundidade da riqueza, tanto da sabedoria, como do conhecimento
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

de Deus! Quão insondáveis são os seus juízos e quão inescrutáveis os


seus caminhos! Quem, pois, conheceu a mente do Senhor? ou quem foi
o seu conselheiro? Ou quem primeiro lhe deu a ele para que lhe venha
a ser restituído? Porque dele e por meio dele e para ele são todas as
cousas. A ele pois, a glória eternamente. Amém. (Rm 11.33-36).

É importante ressaltar que não conhecemos tudo a respeito de Deus e da Sua


Palavra; mas devemos ter por certo, que o limite da fé está circunscrito pelos parâ-
metros das Escrituras (Dt 29,29). Ou seja: não podemos crer além do que Deus nos
revelou na Bíblia; fazer isto, não é ter fé, mas sim, especular sobre os mistérios de
Deus. A Palavra deve ser sempre o guia da nossa fé. “Nossa fé não tem que estar
fundamentada no que nós tenhamos pensado por nós mesmos, senão no que foi
prometido por Deus” (CALVINO, 1988, p. 156). Por isso, devemos estar atentos à
Palavra de Deus, para entendê-la e praticá-la (Js 1,8; Sl 119,97; Fp 3,15; Tg 1,22-25).
Por outro lado, devemos enfatizar que pelo fato do nosso conhecimento a
respeito de Deus ser limitado, isto não significa que o que conhecemos aqui será
corrigido pelo que conheceremos na eternidade, como se a revelação de Deus
contida na Palavra fosse imprecisa. Não. Entendemos que, o pouco que podemos
conhecer do Deus infinito é fidedigno, pois o nosso conhecimento respalda-se
na Sua Palavra e, cremos que a Bíblia é o registro infalível e inerrante da Palavra
de Deus (2Tm 3,16; 2Pe 1,20-21). Assim, apesar de não podermos conhecer tudo
a respeito de Deus – o finito não pode conter o infinito –, o que conhecemos
por meio da Palavra é a verdade; não toda a verdade, mas parte da verdade que
está em harmonia com o todo. Fazendo uma analogia, podemos dizer que pelo
fato de colocarmos a água do mar num recipiente, ela não deixa de ser do mar;
entretanto o perigo está em dizer que ali, dentro do recipiente está todo o mar.

O Deus Que se Revela


68 UNIDADE I

Portanto, reafirmamos: o que a Bíblia diz é uma verdade essencial a respeito de


Deus, nela temos tudo o que Deus deseja que saibamos nesta vida a Seu respeito.
No entanto, precisamos avaliar sempre o nosso conhecimento para que não cor-
ramos o risco de tornar a nossa “percepção da verdade”, toda e única verdade.
Todos nós, por melhor que seja a nossa percepção espiritual e teológica, temos
ainda, uma “nuvenzinha de ignorância”. Ainda vemos obscuramente (1Co 13,12).
Cito aqui as penetrantes considerações de Francis Schaeffer (1912-1984):
A comunicação que Deus tem com o homem é verdadeira, mas isto não
significa que seja exaustiva. Esta é uma distinção importante que pre-

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
cisamos sempre ter em mente. Para conhecer qualquer coisa exaustiva-
mente, precisaríamos ser infinitos, como Deus. Mesmo na vida eterna
não seremos assim (SCHAEFFER, 1981, p. 143).

Portanto, ainda que não possamos compreender a Deus exaustiva e plenamente,


podemos conhecê-lo verdadeira e genuinamente (CHESTER, 2016, p. 20). As
tentativas humanas por encontrar Deus aparte de Jesus Cristo conforme nos é
dado conhecer nas Escrituras, terminam em naturalismo, ateísmo ou deísmo,
que nada mais são do que formas de paganismo.
A religiosidade descompromissada como resultado da carência de Deus, não
direcionada pela Palavra, termina em superstição e idolatria que, entre outros
males, pode, em determinadas circunstâncias, dar a sensação de satisfação para a
angustiante carência de Deus. No entanto, este remendo humano torna a situação
do homem ainda pior porque na realidade ele consciente ou inconscientemente
está se enganando e, deste modo, enquanto adota um paliativo espiritual, aban-
dona a procura sincera pela verdade e torna-se, geralmente, imune à genuína
proclamação do Evangelho de Cristo.
Somente o genuíno conhecimento de Cristo nos conduz a Deus e nos liberta
das cadeias do pecado. “Como as trevas são dispersas pelos raios furtivos do sol,
assim todas as invenções e erros perversivos se desvanecem diante desse conhe-
cimento de Deus” (CALVINO, 2002, p. 684).
A fé, portanto, é precedida de conhecimento. O conhecimento, por graça,
produz fé. Conhecimento e fé são inseparáveis. Esse conhecimento por fé nos
conduz a amar a Deus. O amor a Deus nos leva a mais querer conhecê-lo.

COSMOVISÃO CRISTÃ
69

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Estimado(a) acadêmico(a), chegamos ao fim de nossa primeira unidade. Quanto


conhecimento adquirimos, não é mesmo? No primeiro tópico, estudamos que uma
cosmovisão é composta de um conjunto de pressuposições básicas, mais ou menos
consistentes umas com as outras, mais ou menos verdadeiras (SIRE, 2004, p. 21-22).
Discutimos também a respeito de pressupostos e percepções. Eu tenho os meus pres-
supostos, você tem os seus. Compartilhamos do pensamento de Ravi Zacharias (2011)
de que todo indivíduo tem uma visão de mundo, a qual nos dá respostas a alguns ques-
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

tionamentos: origem, sentido, moralidade e esperança, os quais garantem um destino.


No segundo tópico, reconhecemos a Teologia como um estudo sistemático
da Revelação de Deus, conforme consta nas escrituras. A teologia traz consigo
alguns pressupostos dos quais dependem a sua existência, por exemplo: a exis-
tência de Deus; o registro nas escrituras; a possibilidade do homem conhecer
a palavra etc. Estudamos também que a teologia sistemática se fundamenta na
Escritura e oferece ao homem um escopo do que Deus nos deseja falar acerca
do propósito de nossa existência em todas as suas esferas.
No terceiro tópico, compreendemos a cosmovisão que, conforme expõe Nash
(2008), contém as respostas de uma dada pessoa às questões principais da vida,
trata-se da infraestrutura conceitual, padrões ou arranjos das crenças do indiví-
duo, como: a existência de Deus, questões metafísicas, epistemológicas e éticas,
a antropologia e a história.
No quarto tópico, comentamos sobre os anseios do homem: a busca pela feli-
cidade, a autossuficiência, a bem-aventurança, uma vida sem pecado, o perdão,
entre outros. A construção da verdadeira felicidade começa pela desconstrução
de nosso eu, nossa pretensa riqueza, referência e escala de valores. Por fim, che-
gamos à conclusão que é somente na Lei de Deus que teremos o princípio de
sabedoria, a qual norteará a nossa vida.
No quinto e último tópico, abordamos a criação como revelação de Deus. No
livro de Salmos, verificamos que reconhecemos a grandeza da criação a glória de
Deus. Espero que essas reflexões contribuam na construção dos seus conheci-
mentos acadêmicos, bem como contribuam para o seu conhecimento espiritual.
Te espero em um próximo encontro!

Considerações Finais
70

OS PRINCÍPIOS EDUCACIONAIS DE JOÃO CALVINO NO CONTEXTO DO SÉCULO XVI


Para compreender os princípios educacionais de Calvino, deve-se observar a relação da
teologia com a educação, pois é em função do seu pensamento teológico que esse re-
formador estabelece seus ideais educacionais. Além disso, torna-se imprescindível ana-
lisar quais as diretrizes para formar um “homem educado” capaz de desenvolver plena-
mente as suas potencialidades. E, finalmente, observar como na Academia de Genebra
essa realidade se materializou.
Não se pode falar de educação em Calvino sem tratar da sua teologia, pois ele foi um teólo-
go e não um filósofo da educação. Nesta seção, serão destacados alguns desses princípios
teológicos em sua interface com a educação. Isso se faz necessário porque, na concepção
de Calvino (2006a, p. 47-48), por meio da teologia é possível ao homem conhecer a Deus,
e pelo conhecimento de Deus é possível conhecer-se a si mesmo e as coisas que o cercam.
Esse conhecimento de Deus, o homem obtém pelo conhecimento das Escrituras, é o
que pode ser lido na afirmação de Calvino (1968, p. 28):
Porque, se considerarmos quão frágil é o entendimento humano, quão
propenso e a olvidar-se de Deus, quão propenso a cair em toda sorte de
erros, e como é seu apetite e desejo de inventar a cada passo novas e
desconhecidas religiões, se poderá ver claramente quão necessário foi
que Deus tivesse seus registros autênticos através dos quais conservasse
toda a verdade, a fim de que não se perdesse ou se desvanecesse por
erro e descuido ou se comprometesse por atrevimento dos homens.
Ao comentar Calvino, Costa (1999, p. 172) afirma que, sem as Escrituras, o homem jamais
terá um conhecimento verdadeiro de si mesmo, sobre o mundo e sobre o próprio Deus. A
convicção da importância e da centralidade das Escrituras leva o reformador a defender o
ensino da Palavra e a necessidade da escola desde a infância. Segundo Campos (2000, p. 3),
Calvino possuía um propósito muito bem definido em sua filosofia educa-
cional: ele queria que as crianças de Genebra viessem a ser úteis à sociedade
e que suas mentes fossem formadas pelos Ensinos das Santas Escrituras.
Por causa de sua compreensão sobre a graça comum, Calvino entendia que o homem
tem capacidade de aprender, pois foi criado à imagem e semelhança de Deus e que
nem mesmo a queda roubou ao homem essa possibilidade (COSTA, 2008, p. 35). Nesse
sentido, Campos (2000, p. 4) afirma:
Em sua teologia sobre a imagem de Deus no homem, Calvino viu o ser
humano como um ser que aprende inerentemente. Deus depositou no
ser humano a semente da religião e também o deixou exposto à estrutu-
ra total do universo criado e à influência das Escrituras. Por causa dessas
coisas, qualquer homem pode aprender desde o mais simples campo-
nês ao indivíduo mais instruído nas artes liberais.
Ao destacar o papel que deve ser exercido pela Igreja, Calvino pontuava como uma de
suas atribuições preparar seus adeptos para discernir a verdade evangélica. Para ele,
toda espécie de ignorância era fruto da ignorância espiritual, e um sistema educacional
que não observasse a tutela da verdadeira religião não poderia ser considerado um sis-
tema ideal para formar o homem completo. Quando Calvino, interpretando Paulo, diz
que a lei nos serviu de aio (Gálatas 3:24-25), deixa expresso seu pensamento de que a
educação conduz o homem à sua formação plena.
71

É certo que Calvino (1998, p. 112) ressalta o ensino bíblico de que “toda lei, em suma, outra
coisa não era senão uma multiforme variedade de exercícios nos quais os adoradores eram
guiados, pela mão, a Cristo”. Contudo, é possível identificar aqui que ele jamais dissociou o
papel da educação na formação do homem completo como instrumento para conduzi-lo
a estágios mais excelentes. [...] Jong (1967, p. 173) afirma que, para tanto, “Calvino entendia
como indispensável um ‘catecismo definido’ ou manual de instruções”. Nem os pais e nem os
pastores deveriam instruir segundo suas próprias intuições ou ao seu bel-prazer.
Além da relação entre a teologia de Calvino e seus ideais educacionais, é possível per-
ceber quais as diretrizes estabelecidas pelo reformador para formar o homem educado,
capaz de desenvolver suas potencialidades. O homem, em sua visão, deveria ser letrado.
[...] O modelo de cultura que o movimento da Reforma utiliza para organizar as suas esco-
las é o humanístico, baseado na prioridade das línguas, com centro na educação gramati-
cal. Seguindo a linha dos reformadores, Calvino está convencido de que a educação:
Está ligada a uma cosmovisão que prega a salvação por meio de uma fé
nas Escrituras como forma inevitável de se conhecer a Deus e ao homem.
Não se tratava mais de uma fé em uma Igreja que tomou para si um po-
der que só o Evangelho possuiria, mas da fé concebida como o poder
de intermediação entre o homem e o seu criador (TOLEDO, 2006, p. 2).
[...] O papel da educação para Calvino se alia à etimologia da palavra educação, do latim edu-
cere. Dessa forma, educar significava tirar de dentro para fora, ou seja, “desenvolver as poten-
cialidades internas do homem” (TOLEDO, 2006, p. 5). Calvino via a educação como o modo
de tirar o conhecimento das coisas que dormitavam na alma do homem, conhecimento que
lhe foi inferido por ser o homem imagem e semelhança de Deus, mas que foi obscurecido
pelo pecado. Ou nas palavras do próprio Calvino (2006a, p. 14): “[...] assim de mui excelente
razão nos compele a confessar que o princípio lhe é ingênito no entendimento humano”.
O fim da educação seria, pelo estudo dos textos sagrados, ensinar ao homem a sua essência
divina e sua relação com Deus, o principal objeto de Estudo (TOLEDO, 2006, p. 5). A queda fez
que o homem deixasse de reconhecer sua semelhança com o Criador, e a educação, confor-
me Toledo (2006, p. 5), serviria para reascender no homem esse conhecimento:
As Escrituras revelam aquilo que é necessário ao homem conhecer sobre o Criador e a
natureza. Por isso, quando se fala em educação, para Calvino, fala-se de uma educação
voltada para resgatar na alma sua essência divina; ela serve, de certa forma, para auxiliar
a despertar no homem a sua verdadeira natureza. Isso o conduzirá à prática da piedade
e ao temor sincero a Deus.
Como Calvino não escreveu textos que fossem diretamente voltados para a educação,
os objetivos educacionais para ele partem de sua proposta teológica do ser humano,
que, devidamente iluminado pelo Espírito Santo, poderia chegar a ser um homem edu-
cado. É bom lembrar, como salienta Toledo (2006, p. 6), que “a iluminação do Espírito
Santo não poderia chegar àqueles que estavam desviados da Palavra ou que eram igno-
rantes a ela, mas apenas aos verdadeiros crentes”. João Calvino reconhecia que, na Bíblia,
Deus se revelou de modo único e especial, por isso era imprescindível a todo cristão o
conhecimento adequado do seu conteúdo. Não apenas isso: o homem educado deveria
também conhecer a natureza, “já que por meio dela Deus se revelava a todos indistinta-
mente” (TOLEDO, 2006, p. 7). [...].
Fonte: LOPES (2009, p. 35-44, on-line)1.
72

1. Vimos que Sire (2002, p. 179) define Cosmovisão como “um compromisso, uma
orientação fundamental do coração, que pode ser expresso como uma estória
ou um conjunto de pressuposições (suposições que podem ser verdadeiras,
parcialmente verdadeiras ou totalmente falsas) que sustentamos (consciente
ou subconscientemente, consistente ou inconsistentemente) sobre a consti-
tuição básica da realidade, e que fornece o fundamento no qual vivemos, nos
movemos e existimos”. A respeito disso, é correto afirmar que:
I. Uma cosmovisão é composta de um conjunto de pressuposições básicas,
mais ou menos consistentes umas com as outras, mais ou menos verdadeiras.
II. Cosmovisão é compromisso de fé e prática para os cristãos.
III. A Cosmovisão é inerente ao homem. Todos nós temos. No entanto, a cos-
movisão, consciente ou não, tem uma matriz ontológica que traz consequ-
ências epistemológicas, que são determinantes para a nossa vida e conduta.
IV. Cosmovisão é um conjunto de suposições e crenças que o homem utiliza
para interpretar e formar opiniões acerca da sua humanidade, propósito de
vida, deveres no mundo, questões sociais, entre outros.
Assinale a alternativa correta:
a) I e II, apenas.
b) II e III, apenas.
c) I, II, III e IV.
d) I, III, IV, apenas.
e) III e IV.

2. Estudamos que pressuposto, conforme Schaeffer (2003, p. 11), diz respeito à


estrutura básica de como a pessoa encara a vida, a sua cosmovisão básica, o
filtro por meio do qual ela enxerga o mundo. Os seus pressupostos fornecem
ainda a base para seus valores e, em consequência disto, a base para suas. So-
bre este assunto, marque V para Verdadeiro e F para Falso.
( ) Todas as pessoas têm seus pressupostos.
( ) Todo método traz consigo seus pressupostos, os quais são fatores deter-
minantes em sua pesquisa e na aproximação dos fatos.
( ) Podemos considerar como pressuposto o conjunto de elementos e pro-
cessos necessários a se obter determinada meta.
( ) A teologia traz consigo alguns pressupostos dos quais dependem a sua
existência.
( ) Toda e qualquer ciência é suficiente, isso quer dizer que não necessita de
pressuposto, apenas de método.
73

Assinale a alternativa correta:


a) V; V; F; V; F.
b) F; V; F; V; F.
c) V; V; V; V; V.
d) F; F; F; F; F.
e) V; V; V; F; V.
3. Conforme o ponto de vista de Nash (2008), a cosmovisão constitui-se por meio
de um conjunto de crenças que estabelecem essencialmente a sua distinção
de outras cosmovisões, ainda que haja no cerne de cada cosmovisão diferen-
ças importantes, porém, que não são excludentes. Com base no que estuda-
mos até aqui, o que é cosmovisão para você? Discorra sobre isso.

4. Consideremos a seguinte passagem de 1 João 3,4: “Todo aquele que pratica o


pecado transgride a Lei; de fato, o pecado é a transgressão da Lei”. Com base no
exposto e nas discussões realizadas ao longo da disciplina, é correto afirmar que:
I. É preciso repensar a lei de Deus no século XXI, de modo a alterá-la.
II. Por meio da lei de Deus, os nossos pecados ficam em evidência.
III. A lei de Deus conduz o homem por um caminho de sabedoria.
IV. Sem lei não há evangelho.
Assinale a alternativa correta:
a) I e II, apenas.
b) II e III, apenas.
c) I, II, IV, apenas.
d) II, III, IV, apenas.
e) III e IV.

5. Consideremos o Salmo 19,1: “Os céus proclamam a glória de Deus, e o firma-


mento anuncia as obras das suas mãos” (Sl 19,1). Estudamos que a glória da
revelação é falar a respeito de Deus. Quando meditamos sobre a revelação de
Deus, por intermédio dos Salmos, percebemos alguns aspectos do seu caráter
e de seus atos. Disserte sobre isso.
MATERIAL COMPLEMENTAR

Introdução à Cosmovisão Cristã


Michael Goheen e Craig Bartholomew
Editora: Vida Nova
Sinopse: Introdução à Cosmovisão Cristã apresenta um breve resumo da
narrativa bíblica e das crenças mais fundamentais das Escrituras, seguidos
de uma apresentação da narrativa da cultura ocidental desde o período
clássico até a pós-modernidade. Os autores analisam como os cristãos
vivenciam a tensão que existe na intersecção das narrativas bíblica e
cultural e procuram esmiuçar as implicações para áreas importantes da
vida, como educação, mundo acadêmico, economia, política e igreja. O
resultado é um livro que leva a uma reflexão acessível, sem deixar de ser
profundo, alicerçado sobre a rica tradição do pensamento reformado e
contextualizando-o para um cenário pós-moderno.

Introdução à Teologia Sistemática


Millard Erickson
Editora: Vida Nova
Sinopse: uma introdução abrangente substancial e essencial à teologia
sistemática. A teologia nunca deve ser difícil ou abstrata demais
pois a doutrina cristã é simplesmente a declaração das crenças mais
fundamentais do cristianismo. Esta é a filosofia por trás desta introdução
à teologia sistemática. Trata-se de uma obra concisa e profunda. Além de
apresentar uma excelente introdução ao assunto o autor aborda temas
como a revelação a doutrina de Deus a criação a providência o pecado
a doutrina de Cristo o Espírito Santo a expiação a salvação a igreja e a
escatologia.
75
REFERÊNCIAS

AGOSTINHO. O Sermão do Monte. São Paulo: Paulinas, 1992.


______. Comentário aos Salmos. v. 3. São Paulo: Paulus, 1998, Sl. 118.
BACON, Francis. Novum Organum. São Paulo: Abril Cultural, 1973.
BARCLAY, William. El Nuevo Testamento Comentado. Buenos Aires: La Aurora,
1973 (Mt 5.3).
BARTH, K. Church Dogmatics. Edinburgh: T. & T. Clark, 1960, I/1.
______. Esboço de uma Dogmática. São Paulo: Fonte Editorial, 2006.
______. La Oración. Buenos Aires: La Aurora, 1968.
BAVINCK, Herman. Dogmática Reformada: Prolegômena. São Paulo: Cultura Cristã,
2012.
______. The Philosophy of Revelation. New York: Longmans, Green, and Company,
1909.
BERKOUWER, G. C. A Pessoa de Cristo. São Paulo: ASTE. 1964.
BOETTNER, L. La Predestinación, Grand Rapids, Michigan: TELL. (s.d.).
BOICE, James M. Psalms: an expositional commentary. Grand Rapids, MI.: Baker
Book House, 1994 (Sl 19).
BRUNNER, Emil. Revelation and Reason. Philadephia: The Westminster Press, 1946.
CALVINO, João. As Institutas da Religião Cristã: edição especial com notas para
estudo e pesquisa, v. 4. São Paulo: Cultura Cristã, 2006 (IV.16).
______. Institución de La Religión Cristiana. Barcelona: Fundación Editorial de Li-
tertura Reformada, 1968.
______. 1 Coríntios. São Paulo: Edições Paracletos, 1996.
______. As Pastorais. São Paulo: Paracletos, 1998.
______. Beatitudes: sermões sobre as bem-aventuranças. São Paulo: Fonte Editorial,
2008.
______. Cartas de João Calvino. São Paulo: Cultura Cristã, 2009.
______. Exposição de Hebreus. São Paulo: Paracletos, 1997.
______. Exposição de Romanos (Rm 9.14), 1997.
______. Exposição de 1 Coríntios. São Paulo: Paracletos, 1996, (1Co 3.9).
______. Exposição de Segundo Coríntios. São Paulo: Paracletos, 1995, (2Co 3.7).
______. Instrução na Fé. Goiânia, GO: Logos Editora, 2003, Cap. 8.
______. O Livro dos Salmos. São Paulo: Paracletos, 1999 (Sl 1.1).
REFERÊNCIAS

______. O Livro dos Salmos. v. 3. São Paulo: Paracletos, 2002 (Sl 106.21),
______. Sermones Sobre a La Obra Salvadora de Cristo. Jenison, Michigan: TELL,
1988
CHESTER, Tim. Conhecendo o Deus Trino: porque Pai, Filho e Espírito Santo são
boas novas. São José dos Campos: Fiel, 2016.
CHEUNG, Vincent. Reflexões sobre as Questões Últimas da Vida. São Paulo: Arte
Editorial, 2008.
COLSON, Charles; FICKETT, Harold. Uma boa vida. São Paulo: Cultura Cristã, 2008.
COSTA, Hermisten M. P. A necessidade e a importância da Teologia Sistemática. In:
Franklin Ferreira. A Glória da Graça de Deus: ensaios em honra a J. Richard Denham
Jr, São José dos Campos: Editora Fiel, 2010.
______. João Calvino: o humanista subordinado ao Deus da Palavra. Fides Reforma-
ta, São Paulo, v. 4, n. 2, p. 155-182, jul./dez. 1999.
______. A Inspiração e Inerrância das Escrituras: Uma perspectiva Reformada. 2.
ed. São Paulo: Cultura Cristã, 2008.
______. Antropologia Teológica: Uma Visão Bíblica do Homem. São Paulo: 1988.
______. A Soberania de Deus e a responsabilidade humana. Goiânia: Editora Cruz,
2016.
______. As Questões Sociais e a Teologia Contemporânea. São Paulo: 1986.
______. Raízes da Teologia Contemporânea. São Paulo: Editora Cultura Cristã,
2004.
CRAMPTON, W. Gary; BACON, Richard E. Em Direção a uma Cosmovisão Cristã.
Brasília: Monergismo, 2010.
DESCARTES, R. Discurso do Método. São Paulo: Abril Cultural, 1973.
FERREIRA, Franklin; MYATT, Alan. Teologia Sistemática. São Paulo: Vida Nova, 2007.
FRAME, John M. A Doutrina do conhecimento de Deus. São Paulo: Cultura Cristã, 2010.
FRAME, John M. A Doutrina de Deus. São Paulo: Cultura Cristã, 2013.
GEISLER, Norman. Enciclopédia de Apologética: respostas aos críticos da fé cristã.
São Paulo: Vida, 2002.
GEISLER, Norman; BOCCHINO, Peter. Fundamentos Inabaláveis: resposta aos maio-
res questionamentos contemporâneos sobre a fé cristã. São Paulo: Vida Nova, 2003.
GEISLER, N. L.; FEIBERG, P. D. Introdução à Filosofia. São Paulo: Vida Nova, 1983.
GRENZ, Stanley J.; OLSON, Roger E. Quem Precisa de Teologia? Um convite ao es-
tudo sobre Deus e sua relação com o ser humano. s/d.
77
REFERÊNCIAS

GRONINGEN, G. V. Revelação Messiânica no Velho Testamento. Campinas: Luz


para o Caminho, 1995.
HARMAN, Allan. Comentário do Antigo Testamento ‒ Salmos. São Paulo: Cultura
Cristã, 2011, (Sl 19.1).
HENDRIKSEN, William. Mateus. São Paulo: Cultura Cristã, 2001, v. 1.
______. O Evangelho de João. São Paulo: Cultura Cristã, 2004, (Jo 14.9).
HODGE, Charles. Teologia Sistemática. São Paulo: Hagnos, 2001.
HOEKSEMA, H. Reformed Dogmatics. 3. ed. Grand Rapids, Michigan: Reformed Free
Publishing Association, 1976.
HOOYKAAS, R. A Religião e o Desenvolvimento da Ciência Moderna. Brasília: Uni-
versidade de Brasília, 1988.
JAPIASSU, Hilton F. Introdução ao Pensamento Epistemológico. 3. ed. rev. e amp.
Rio de Janeiro: Livraria Francisco Alves, 1979.
JEREMIAS, J. O Sermão do Monte. 4. ed. São Paulo: Paulinas, 1980.
JOHNSON, Phillip E. In: Nancy Pearcey. Prefácio. A Verdade Absoluta: Libertando o
Cristianismo de Seu Cativeiro Cultural. Rio de Janeiro: Casa Publicadora das Assem-
bleias de Deus, 2006.
KLAAREN, Eugene M. Religious Origins of Modern Science. Grand Rapids, Michi-
gan: Eerdmans, 1977.
KUYPER, A. Calvinismo. São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2002.
______. Principles of Sacred Theology. Grand Rapids, Michigan: Baker Book House,
1980.
LALANDE, A. Vocabulário Técnico e Crítico da Filosofia. São Paulo: Martins Fontes, 1993.
LLOYD-JONES, David M. Estudos no Sermão do Monte. São Paulo: Editora Fiel, 1984.
______. O Clamor de um Desviado: Estudos sobre o Salmo 51, São Paulo: Publica-
ções Evangélicas Selecionadas, 1997.
______. O Combate Cristão. São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas, 1991.
______. Uma Nação sob a Ira de Deus: estudos em Isaías 5. 2. ed. Rio de Janeiro:
Textus, 2004.
LEWIS, C.S. A essência do Cristianismo. São Paulo: ABU Editora, 1979.
MACHEN, J. G. Cristianismo y Cultura. Barcelona: Asociación Cultural de Estudios
de la Literatura Reformada, 1974.
MACKAY, John. Prefacio a la Teologia Cristiana. México; Buenos Aires: Casa Unida
de Publicaciones; La Aurora, 1946.
MARÍAS, Julías. A Felicidade Humana. São Paulo: Duas Cidades, 1989.
REFERÊNCIAS

MCGRATH, Alister E. Fundamentos do Diálogo entre Ciência e Religião. São Paulo:


Loyola, 2005.
______. O Deus Desconhecido: Em Busca da Realização Espiritual. São Paulo: Loyo-
la, 2001.
______. Paixão pela Verdade: a coerência intelectual do Evangelicalismo. São Pau-
lo: Shedd Publicações, 2007.
MEETER, H. H. La Iglesia y Estado. 3. ed. Grand Rapids, Michigan: TELL., [s.d.].
MOHLER JR., Albert R. Pregar com a cultura em mente: In: Mark Dever. A Pregação
da Cruz, São Paulo: Cultura Cristã, 2010.
______. O modo como o mundo pensa: Um encontro com a mente natural no es-
pelho e no mercado. In: John Piper; David Mathis, orgs. Pensar – Amar – Fazer. São
Paulo: Cultura Cristã, 2013.
MORELAND, J. P.; CRAIG, William L. Filosofia e Cosmovisão Cristã. São Paulo: Vida
Nova, 2005.
NASH, Ronald H. Questões Últimas da Vida: uma introdução à Filosofia. São Paulo:
Cultura Cristã, 2008.
NICHOLI JR., Armand M. Deus em questão: C.S. Lewis e Sigmund Freud debatem
Deus, amor, sexo e o sentido da vida. Viçosa: Ultimato, 2005.
PACKER, J.I. Evangelização e Soberania de Deus. 2. ed. São Paulo: Vida Nova, 1990.
_______. O Conhecimento de Deus. São Paulo: Mundo Cristão, 1980.
_______. O Plano de Deus para Você. 2. ed. Rio de Janeiro: Casa Publicadora das
Assembleias de Deus, 2005.
PALMER, E. H. El Espiritu Santo. Edinburgh: El Estandarte de la Verdad, s/d.
PASCAL, B. Pensamentos. São Paulo: Abril Cultural, 1973.
PEARCEY, Nancy R. Verdade Absoluta: libertando o cristianismo de seu cativeiro
cultural. Rio de Janeiro: Casa Publicadora das Assembleias de Deus, 2006.
PEARCEY, Nancy R.; THAXTON, Charles B. A Alma da Ciência. São Paulo: Cultura Cristã,
2005.
PINK, A. W. Deus é Soberano. São Paulo: Fiel, 1977.
PIPER, John et al. Teísmo Aberto: uma teologia além dos limites bíblicos. São Paulo:
Vida, 2006.
PIPER, John. Um homem chamado Jesus Cristo. São Paulo: Vida, 2005.
ROOKMAAKER, H. R. A Arte não precisa de justificativa. Viçosa: Ultimato, 2010.
ROSSI, Paolo. A Ciência e a Filosofia dos Modernos: aspectos da Revolução Cien-
tífica. São Paulo: Editora da Universidade Estadual Paulista, 1992.
79
REFERÊNCIAS

______. O Nascimento da Ciência Moderna na Europa. Bauru: EDUSC, 2001.


RYKEN, Leland. Santos no Mundo. São José dos Campos: FIEL, 1992.
RYLE, J. C. Comentário Expositivo do Evangelho Segundo Mateus. São Paulo: Im-
prensa Metodista, 1959.
SCHAEFFER, Francis A. A Morte da Razão. São Paulo: ABU/FIEL, 1974.
______. Como Viveremos? São Paulo: Cultura Cristã, 2003.
______. O Deus que Intervém. São Paulo: Refúgio; ABU, 1981.
______. O Grande Desastre Evangélico. In: Francis A. Schaeffer. A Igreja no Século
21. São Paulo: Cultura Cristã, 2010.
SILVA, Moisés. Em Favor da Hermenêutica de Calvino: In: Walter C. Kaiser Jr.; Moisés
Silva. Introdução à Hermenêutica Bíblica. São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2002.
SIRE, James W. Dando nome ao elefante: cosmovisão como um conceito. Brasília:
Monergismo, 2002.
______. O Universo ao Lado. 4. ed. São Paulo: Hagnos, 2004.
SPROUL, R.C. A Alma em Busca de Deus: Satisfazendo a fome espiritual pela comu-
nhão com Deus, São Paulo: Eclesia, 1998.
SPROUL, R.C. O que é a teologia reformada. São Paulo: Cultura Cristã, 2009.
STOTT, John R. W. A Mensagem do Sermão do Monte. 3. ed. Paulo: ABU., 1985.
STRONG, A.H. Teologia Sistemática. São Paulo: Hagnos, 2003, 2v.
VAN TIL, Henry H. O Conceito Calvinista de Cultura. São Paulo: Cultura Cristã, 2010.
VEITH, JR., Gene Edward. De Todo o Teu Entendimento. São Paulo: Cultura Cristã, 2006.
______. Tempos Pós-Modernos. São Paulo: Editora Cultura Cristã, 1999.
WAREN, Rick. A batalha pela sua mente. In: John Piper; David Mathis, orgs. Pensar
– Amar – Fazer, São Paulo: Cultura Cristã, 2013.
WRIGHT, R. K. Mc Gregor. A Soberania Banida. São Paulo: Cultura Cristã, 1998.
ZACHARIAS, Ravi. A Morte da Razão: uma resposta aos neoateus. São Paulo: Vida,
2011.

Referência On-Line

1
Em: < http://www.mackenzie.com.br/fileadmin/Graduacao/EST/Publicacoes_-_ar-
tigos/Os_principios_educacionais_de_Joao_Calvino_no_contexto_do_Seculo_
XVI.pdf>. Acesso em: 28 jun. 2018.
GABARITO

1. C.
2. A.
3. Orientação de resposta: Etimologicamente, cosmovisão refere-se a um ponto
de vista de alguém sobre algo. Na teologia, diz respeito à “estrutura abrangente
das crenças básicas de alguém sobre coisas”. Trata-se de “um conjunto de pre-
missas que orientam a interpretação de toda a experiência com Deus, comigo
e com o próximo”. Então, a cosmovisão, para o homem, age como um guia,
pois é por meio dela que avaliamos determinados assuntos, eventos, temas e
estruturas de nosso tempo e civilização. O homem tem a necessidade de uma
perspectiva condutora.
4. D.
5. Orientação de resposta: muitos atributos do caráter de Deus, em especial os mo-
rais, assemelham-se às qualidades do homem, uma vez que fomos feitos “à ima-
gem e semelhança” do criador. Todavia, os atributos de Deus são infinitamente
superiores aos nossos, uma vez que Deus é perfeição. Isso quer dizer que temos
a Sua semelhança, no entanto, Ele não possui a nossa. Podemos, por meio dos
Salmos, ter uma ideia do caráter e da benignidade de Deus:
“1- Louvai ao Senhor, porque ele é bom, porque a sua benignidade dura para
sempre” (Salmos 107:1).
“4 - Porque tu não és um Deus que tenha prazer na iniquidade, nem contigo ha-
bitará o mal. 5 - Os loucos não pararão à tua vista; odeias a todos os que praticam
a maldade” (Salmos 5:4-5).
“4 - Porque a palavra do Senhor é reta, e todas as suas obras são fiéis. 5 - Ele ama
a justiça e o juízo; a terra está cheia da bondade do Senhor” (Salmos 33: 4-5).
Sabemos que o caráter de alguém tem que ver com sua palavra. O caráter divino,
por sua vez, manifesta-se nas Escrituras. Assim, por meio dos Salmos, aprende-
mos mais de Deus e de Seus atributos.
Professor Dr. Hermisten M. P. Costa

HOMEM: IMAGEM E

II
UNIDADE
SEMELHANÇA DE DEUS

Objetivos de Aprendizagem
■ Entender como se deu a criação do homem à imagem e semelhança
de Deus e reconhecer a igualdade entre o homem e a mulher.
■ Conceituar pecado; reconhecer os motivos da interrupção da
comunhão com Deus a partir do pecado e entender os motivos que
leva o homem à restauração pela graça de Cristo.

Plano de Estudo
A seguir, apresentam-se os tópicos que você estudará nesta unidade:
■ A Narrativa Bíblica
■ O Homem Caído: a imagem desfigurada
83

INTRODUÇÃO

Olá caro(a) aluno(a), seja bem-vindo(a) à segunda unidade do material didá-


tico intitulado Teologia da Cosmovisão Reformada, em que veremos que a
Bíblia parte do pressuposto da existência de Deus. “Antes que os montes nas-
cessem e se formassem a terra e o mundo, de eternidade a eternidade, tu és
Deus”, escreveu Moisés (Sl 90,2).
Moisés, por revelação direta de Deus, registra de forma inspirada (2 Pe 1,20-
21), narrando os atos criadores de Deus, sem se preocupar em falar com mais
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

detalhes a respeito Daquele que, mediante a Sua Palavra, faz com que do nada
surja a vida, cria o universo, estabelece suas leis próprias e avalia a Sua criação
como boa. Moisés apenas apresenta o Deus Todo-Poderoso, exercitando o Seu
poder de forma criadora, segundo o Seu eterno propósito.
Deus existe; este é o fato pressuposto em toda a narrativa da Criação. Deus
cria segundo a Sua Palavra, e isto nos enche de admiração e reverente temor: a
Palavra de Deus é o verbo criador que manifesta a determinação e o poder de
Deus (Gn 1,1.26,27; Sl 33,6-9; Jo 1,1-3; Hb 11,3), o Qual criou as coisas com
sabedoria (Pv 3,19).
Sendo assim, convido você, caro(a) aluno(a), a uma leitura atenta acerca dos
conceitos que serão apresentados.
Boa leitura!

Introdução
84 UNIDADE II

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
A NARRATIVA BÍBLICA

Kuyper (1837-1920) nos chama a atenção para um ponto que costumeiramente


é esquecido:
Quando Deus criou Adão, Ele nos criou: na natureza de Adão ele fez
surgir a natureza na qual nós agora vivemos. Os capítulos de Gênesis 1
e 2 não são registros de alienígenas, mas o nosso próprio registro – refe-
rente à carne e sangue que carregamos conosco, à natureza humana na
qual nos sentamos pra ler a Palavra de Deus (KUYPER, 2010).

Assim sendo, tratar da criação do homem significa falar de nós mesmos, de


nossa origem, da nossa história por meio de nossos primeiros pais. É impossível
fazer isso de forma indiferente. À frente, Kuyper continua: “Quando Deus for-
mou Adão, do pó, Ele também nos formou. (...) A queda de Adão foi também a
nossa. Numa palavra, a primeira página de Gênesis relata a nossa própria histó-
ria real, e não a de um estranho” (KUYPER, 2010).
A doutrina da Criação e da Queda é fundamental à teologia e fé cristãs. Daí,
em especial, o caráter decisivo da historicidade dos três primeiros capítulos de
Gênesis. Deus age no tempo que Ele mesmo cria e preserva. Ele é senhor do
tempo. Deus cria o homem e a mulher e por meio deles, toda a humanidade. O
pecado, resultado da desobediência, ocorreu na história. Daí todo o desenvol-
vimento da história em consonância com a promessa de Deus da vinda daquele
que esmagaria a cabeça da serpente (Gn 3,15).

HOMEM: IMAGEM E SEMELHANÇA DE DEUS


85

A encarnação ocorreu na história, assim como a morte e ressurreição de


Jesus Cristo. Desprezar a doutrina da Criação significa uma falta de compreensão
bíblica do propósito de Deus que faz todas as coisas conforme a sua determina-
ção e graça. Sem a Criação não teria sentido a encarnação, morte e ressurreição
de Jesus Cristo, o eterno Filho de Deus.
A doutrina da Criação nos fala do poder todo suficiente de Deus e de nossa
total dependência daquele que nos criou e preserva. Somente Deus, pelo seu
poder, pode do nada tudo criar (BAVINCK, 2012). A concepção cristã da cria-
ção do homem encontra a sua base e fundamento na Palavra de Deus, por isso,
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

é essencial à nossa consideração, o que o Espírito Santo fez registrar no Livro de


Hebreus: “Pela fé entendemos que o universo foi formado pela palavra de Deus,
de maneira que o visível veio a existir das coisas que não aparecem” (Hb 11,3).
Nesta passagem bíblica, subjazem algumas verdades que devem ser destacadas.
Deus é o Ser eterno que antecede a toda criação. A fé é que deve dirigir a nossa com-
preensão a respeito da criação. Calvino (1509-1564), conclui: “É tão somente pela
fé que chegamos a entender que o mundo foi criado por Deus” (CALVINO, 1997).
“A criação é um ato livre da vontade soberana de Deus. Não há pressões
externas ou necessidades internas que o impulsionem a criar. Deus fez o que fez,
quando fez, e como fez, por sua livre determinação” (MOLTMANN, 1993). “A
criação do mundo não foi um ato arbitrário, senão que serviu para fins elevados
e dignos, e estes fins estiveram de acordo com a bondade e sabedoria infinitas
do Criador” (MACHEN, 1969, p. 82).
Nada pode existir sem que tenha sido criado por Deus (Jo 1.3); os Céus e
a Terra são obras de Deus. Não há independência fora de Deus. A Palavra de
Deus é o verbo criador.
A criação primária foi gerada do nada (creatio ex-nihilo) (BAVINCK, 2012).
A possibilidade de algo vir a existir fora de Deus elimina a Deus como Deus. Não
há dualismo nem sinergismo na criação. Deus criou do nada o que veio a existir.
Aqui temos a confissão de um mistério, não a sua explicação (PARCKER, 1999).
Tudo o que porventura possa ter existido anterior à criação descrita em Gn 1,
deve ser compreendido dentro da esfera da criação como todo, porque somente
Deus tem poder para chamar “.... à existência as coisas que não existem” (Rm 4.17)
(TURRETINI, 2011).

A Narrativa Bíblica
86 UNIDADE II

A criação se distingue de Deus, não sendo sua emanação ou extensão, mas,


o resultado de sua vontade e poder. Algumas dessas verdades se depreendem
também, das narrativas da Criação, registradas em Gn 1.1-2.25 e de outros tex-
tos bíblicos, tais como:
– Neemias 9,6: Só tu és SENHOR, tu fizeste o céu, o céu dos céus e todo
o seu exército, a terra e tudo quanto nela há, os mares e tudo quanto há
neles; e tu os preservas a todos com vida, e o exército dos céus te adora.
– Jó 26,7: Ele estende o norte sobre o vazio e faz pairar a terra sobre o nada.

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
– Salmo 90,2: Antes que os montes nascessem e se formassem a terra e o
mundo, de eternidade a eternidade, tu és Deus.
– Salmo 102,25: Em tempos remotos, lançaste os fundamentos da terra; e
os céus são obra das tuas mãos.
– Salmo 148,1-5: Aleluia! Louvai ao SENHOR do alto dos céus, louvai-o
nas alturas. Louvai-o, todos os seus anjos; louvai-o, todas as suas legiões
celestes. Louvai-o, sol e lua; louvai-o, todas as estrelas luzentes. Louvai-o,
céus dos céus e as águas que estão acima do firmamento. Louvem o nome
do SENHOR, pois mandou ele, e foram criados.
– Mateus 19,4-5: Então, respondeu ele: Não tendes lido que o Criador,
desde o princípio, os fez homem e mulher e que disse: Por esta causa
deixará o homem pai e mãe e se unirá a sua mulher, tornando-se os dois
uma só carne?
– Lucas 3,38: Cainã, filho de Enos, Enos, filho de Sete, e este, filho de Adão,
filho de Deus.
– João 1,1-5: No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo
era Deus. Ele estava no princípio com Deus. Todas as coisas foram feitas
por intermédio dele, e, sem ele, nada do que foi feito se fez. A vida estava
nele e a vida era a luz dos homens. A luz resplandece nas trevas, e as tre-
vas não prevaleceram contra ela.
– Romanos 1,20,25: Porque os atributos invisíveis de Deus, assim o seu
eterno poder, como também a sua própria divindade, claramente se reco-
nhecem, desde o princípio do mundo, sendo percebidos por meio das

HOMEM: IMAGEM E SEMELHANÇA DE DEUS


87

coisas que foram criadas. Tais homens são, por isso, indesculpáveis (...)
pois eles mudaram a verdade de Deus em mentira, adorando e servindo
a criatura em lugar do Criador, o qual é bendito eternamente. Amém!
– Colossenses: 1,16-17: pois, nele, foram criadas todas as coisas, nos céus
e sobre a terra, as visíveis e as invisíveis, sejam tronos, sejam soberanias,
quer principados, quer potestades. Tudo foi criado por meio dele e para
ele. Ele é antes de todas as coisas. Nele, tudo subsiste.
– Hebreus 1,1-2: Havendo Deus, outrora, falado, muitas vezes e de muitas
maneiras, aos pais, pelos profetas, nestes últimos dias, nos falou pelo Filho, a
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

quem constituiu herdeiro de todas as coisas, pelo qual também fez o universo.
– Apocalipse 4,11: Tu és digno, Senhor e Deus nosso, de receber a glória, a
honra e o poder, porque todas as coisas tu criaste, sim, por causa da tua
vontade vieram a existir e foram criadas.

As Confissões e Catecismos Reformados, sensíveis aos ensinamentos bíblicos,


pelo Espírito, confessam tal verdade. O Catecismo de Heidelberg (1563), à per-
gunta 26, “Que é que crês, quando dizes: ‘Creio em Deus Pai, Todo-Poderoso,
Criador do Céu e da Terra’?”, responde: “Que o eterno Pai de nosso Senhor Jesus
Cristo, que do nada criou o céu e a terra com tudo que neles há, que também os
sustenta e governa pelo seu Filho – meu Deus e meu Pai. Confio nele tão com-
pletamente que não tenho nenhuma dúvida de que Ele proverá de todas as coisas
necessárias ao corpo e à alma...”.
A Segunda Confissão Helvética (BULLINGER, 1562-1566, on-line)1, no
capítulo VII, declara:
Este Deus bom e onipotente criou todas as coisas, visíveis e invisíveis,
pela sua Palavra co-eterna, e as preserva pelo seu Espírito co-eterno,
como Davi testificou, quando disse: ‘Os céus por sua palavra se fizeram,
e pelo sopro de sua boca o exército deles’ (Sl 33.6).

Do mesmo modo ensina A Confissão de Westminster (1647, on-line)2.


Ao princípio aprouve a Deus o Pai, o Filho e o Espírito santo, para a
manifestação da glória do seu eterno poder, sabedoria e bondade, criar
ou fazer do nada, no espaço de seis dias, e tudo muito bom, o mundo e
tudo o que nele há, visíveis ou invisíveis (IV.1)

A Narrativa Bíblica
88 UNIDADE II

A Escritura Sagrada foi nos dada com propósitos específicos. Dentro destes pro-
pósitos ela é suficiente e eficaz. Sabemos, por exemplo, que a Bíblia não tem a
pretensão de fazer ciência. Ela não é um manual científico que pretenda ensinar-
-nos a respeito de Química, Física, Biologia, Botânica, Astronomia etc. Entretanto,
cremos que o que ela diz no campo científico. E ela o diz sempre dentro de seu
propósito existencial-redentor-escatólico – como em qualquer outro, é a ver-
dade do ponto de vista fenomenológico, não havendo divergência real entre a
genuína ciência e a correta interpretação da Bíblia, já que Deus é o Senhor de
toda a verdade.

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
O próprio Calvino (1981) destacou isso quando comentando, Gênesis 1,14,
disse: “É necessário relembrar, que Moisés não fala com agudez filosófica sobre
os mistérios ocultos, porém relata aquelas coisas que em toda parte observou, e
que igualmente são comuns aos homens simples” (CALVINO, 1981, p. 84). Ou
seja, Moisés, inspirado por Deus, escreveu do ponto de vista de como os fenô-
menos são percebidos, sem a preocupação – já que este não era o seu objetivo
– de registrar com terminologia científica os fatos. Acrescentaríamos: na hipó-
tese de Moisés ter escrito conforme os padrões científicos de sua época – o que de
fato não fez, sendo isso extremamente impressionante se considerarmos que ele
teve uma formação primorosa dentro dos moldes egípcios e conseguiu romper
com ela – certamente o que dissesse seria ridicularizado hoje por ser conside-
rado fruto de uma concepção pré-científica.
Por outro lado, se redigisse o relato da Criação de forma científica abso-
luta, que certamente não era a dos egípcios e, também, não é a nossa, pergunto:
entenderíamos hoje o que ele teria dito? A resposta é não. As Escrituras conti-
nuariam sendo ridicularizadas, nesse caso, simplesmente pela nossa ignorância
científica. A linguagem descritiva dos fatos conforme se apresentam à nossa per-
cepção, é o melhor modo de tornar algo compreensível a todas as épocas. Assim,
Deus designou-se fazer e o fez.

HOMEM: IMAGEM E SEMELHANÇA DE DEUS


89

Curiosamente Tomás de Aquino (1225-1274) havia usado argumento se-


melhante ainda que com propósitos diferentes, referindo-se aos leitores
de Moisés como “ignorantes”, daí a sua condescendência. Após tratar de Gn
1,6, acrescenta: “Deveríamos antes considerar que Moisés estava a falar para
gente ignorante, e que condescendendo à sua fraqueza só lhes apresentou
coisas tais que fossem aparentes aos sentidos. Ora, mesmo os menos instru-
ídos podem perceber pelos seus sentidos que a Terra e a água são corpóre-
as, embora não seja evidente para todos que o ar também é corpóreo (...)
Moisés, então, embora mencionasse expressamente a água e o ar, não faz
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

qualquer menção explícita do ar pelo nome, para evitar apresentar a pesso-


as ignorantes algo que estava para além do seu conhecimento”.
Fonte: adaptado de Aquino (2000).

Em outro lugar, Calvino (2006) continua:


Moisés registra que foi acabada a terra e acabados os céus, com todo o
exército deles (Gn 2.1). Que vale ansiosamente indagar em que dia, à
parte das estrelas e dos planetas, hajam também começado a existir os
demais exércitos celestes mais recônditos, quais sejam os anjos? Para não
alongar-me em demasia, lembremo-nos neste ponto, como em toda a
doutrina da religião, de que se deve manter a só norma de modéstia e so-
briedade, de sorte que, em se tratando de cousas obscuras, não falemos,
ou sintamos, ou sequer almejemos saber, outra cousa que aquilo que nos
haja sido ensinado na Palavra de Deus. Ademais, impõe-se, ainda, que
no exame da Escritura nos atenhamos a buscar e meditar continuamente
aquelas cousas que dizem respeito à edificação, nem cedamos à curiosi-
dade, ou à investigação de cousas inúteis. E, porque o Senhor nos quis
instruir não em questões frívolas, mas na sólida piedade, no temor do
Seu nome, na verdadeira confiança, nos deveres da santidade, contente-
mo-nos com este conhecimento (CALVINO, 2006).

Acreditamos na coerência de toda a realidade, considerando, inclusive, o pecado


humano conforme registrado nas Escrituras, por isso, a ciência genuína nunca nos
afastará de Deus, antes ela só encontrará o seu sentido pleno naquele que é o seu
Senhor e para onde todo o real converge e encontra o seu verdadeiro significado.

A Narrativa Bíblica
90 UNIDADE II

Aliás, como bem acentuou Bavinck (1854-1921):


Qualquer ciência, filosofia ou conhecimento que suponha poder fir-
mar-se em suas próprias pressuposições, deixando Deus de fora de suas
considerações, transforma-se em seu próprio opositor e desilude a to-
dos que constroem suas expectativas nisto (BAVINCK, 1984).

Portanto, nós não temos medo dos fatos porque sabemos que os fatos são de
Deus. Nem temos medo de pensar, porque sabemos que toda verdade é verdade
de Deus. A razão corretamente conduzida e o exercício da genuína ciência não
oferecem perigo à fé, antes, são suas aliadas.

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
Charles Hodge (1797-1878), um dos grandes teólogos norte-americanos do
século XIX, escreveu:
Ele [Deus] não ensinou astronomia ou química aos homens, porém Ele
deu-lhes os fatos externos sobre os quais aquelas ciências são constru-
ídas. Tampouco ensinou-nos teologia sistemática, porém Ele deu-nos
na Bíblia as verdades que, propriamente compreendidas e organizadas,
constituem a ciência da Teologia (HODGE, 1986, p. 3).

Desse modo, a nossa compreensão bíblica é determinada pela própria Revelação


de Deus contida na Bíblia. Não interpretamos a Bíblia simplesmente à luz da
história, ou de seus condicionantes políticos, sociais, econômicos e cultu-
rais, antes, olhamos a história a partir da perspectiva das promessas divinas
(LLOYD-JONES, 1985).

A CRIAÇÃO DO HOMEM FOI CONFORME O SÁBIO CONSELHO


DA TRINDADE

“A questão: quem é homem? Contém um mistério que não pode ser explicado
pelo próprio homem” (DOOYEWEERD, 2010, p. 11).
O Salmo 8 exalta a majestade do nome de Deus manifesta na Criação. Aliás,
a majestade de Deus e o seu nome são, aqui, poeticamente, sinônimos (Sl 8,1).
É um hino que de forma analítica, por meio da Criação e do homem em espe-
cial, dignifica a majestade de Deus. Este salmo em sua brevidade e simplicidade
lírica é como se fosse, ao Deus criador, hino de glória.

HOMEM: IMAGEM E SEMELHANÇA DE DEUS


91

É possível que Davi tenha composto este Salmo na juventude, quando era
apenas um pastor de ovelhas, quando as suas lutas eram bastante complexas na sim-
plicidade de sua vida. Nesta fase, ele certamente passava muitas noites dormindo
ao relento, contemplando as estrelas no firmamento e refletindo sobre o poder de
Deus. Esta mesma fé amadurecida pelas experiências com o Senhor o acompanhará.
Numa outra circunstância, já mais maduro, ungido pelo rei, Davi foge por-
que Saul deseja matá-lo. Nessa ocasião pode, mesmo angustiado, experimentar
a sensação de ver diante de seus olhos a imensidão do firmamento diante dos
seus olhos e refletir sobre ele. “Ó SENHOR, Senhor nosso, quão magnífico em
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

toda a terra é o teu nome! Pois expuseste nos céus a tua majestade. (...) Quando
contemplo os teus céus, obra dos teus dedos, e a lua e as estrelas que estabele-
ceste” (Sl 8,1.3). O salmista, à noite, tendo o céu estrelado diante de si, contempla
parte da criação e exulta demonstrando que em toda a terra o nome de Deus é
exaltado. Ele ultrapassa a visão apenas local de Israel, para reconhecer que o tes-
temunho de Deus na Criação se estende a toda a terra (Sl 8,1).
O salmista admite que reconhecimento da grandeza de Deus só se deu por
causa da revelação de Deus na Criação: “Pois expuseste nos céus a tua majestade” (Sl
8,1). Argumentando de forma espacialmente dedutiva, faz uma pergunta retórica:
“Que é o homem, que dele te lembres? E o filho do homem, que o visites?” (Sl 8,4).
Davi parte de um princípio óbvio para nós cristãos: Deus é o Criador do universo
e também do homem. Esta dimensão jamais alcançada pela filosofia grega oferece-
-nos uma cosmovisão diferente: O homem criado por Deus não é um mero detalhe
fruto de um processo cósmico-evolutivo, antes é uma criação especial de Deus.
Assim mesmo, a sensação é de pequenez diante do vasto universo, do qual
posso contemplar, ainda hoje, uma minúscula parte. O sistema solar é apenas
um pequeno ponto no universo do qual apenas conhecemos limitadamente. E,
mesmo assim, a Terra, o minúsculo planeta onde vivemos, é o centro significa-
tivo do universo, como acentua Bavinck (2012):
A Escritura nos fala pouco sobre a criação dos céus e dos anjos, limitando-
-se primariamente à Terra. Em um sentido astronômico a Terra pode ser
pequena e insignificante. Em matéria de massa e peso ela pode ser excedi-
da por centenas de planetas, sóis e estrelas. Mas em um sentido religioso e
moral ela é o centro do universo. A Terra e somente a Terra foi escolhida
para ser a morada do homem. Ela foi escolhida para ser a arena na qual a

A Narrativa Bíblica
92 UNIDADE II

grande batalha será travada contra as forças do mal. Ela foi escolhida para
ser o lugar do estabelecimento do reino dos céus (BAVINCK, 2012).

No entanto, até onde a ciência pôde ir, não há nada mais complexo do que o
cérebro humano, ainda que este não seja o aspecto mais amplo e completo do
ser humano criado à imagem de Deus. Barth (2010), com propriedade, escreveu
a respeito do homem, dizendo que “ele não seria homem se não fosse a imagem
de Deus. Ele é a imagem de Deus pelo fato de que ele é homem” (BARTH, 2010).
O homem revela mais sobre Deus do que toda a criação.
Bavinck (2012) expressa esse conceito de forma quase poética, porém, ampla-

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
mente bíblica:
A essência da natureza humana é seu ser [criado] à imagem de Deus.
Todo o mundo é uma revelação de Deus, um espelho de seus atributos
e perfeições. Toda criatura, ao seu próprio modo e grau, é a incorpo-
ração de um pensamento divino. Mas, entre as criaturas, apenas o ser
humano é a imagem de Deus, a mais exaltada e mais rica autorrevela-
ção de Deus e, consequentemente, a cabeça e a coroa de toda a criação,
a imago Dei e o epítome da natureza. Embora todas as criaturas exibam
vestígios de Deus, somente o ser humano é a imagem de Deus. Ele in-
teiro é essa imagem, alma e corpo, em suas faculdades e capacidades,
em todas as condições e relações. O ser humano é a imagem de Deus
porque, e na medida em que, é verdadeiramente humano; e é verdadei-
ro e essencialmente humano porque, e na medida em que, é a imagem
de Deus (BAVINCK, 2012, p. 564).

Aqui vemos de forma refletida o paradoxo da existência humana: grandeza e limi-


tação; finitude e transcendência; prodigialidade e animalidade. A ciência esbarra
sempre na questão enfatizada por Blaise Pascal, detectada por Bavinck: “A ciência
não pode explicar essa contradição no homem. Ela reconhece apenas sua gran-
deza e não sua miséria, ou apenas sua miséria e não sua grandeza” (BAVINCK,
2012, p. 564). Sem a Palavra de Deus nenhuma ciência ou mesmo a arte, nem
mesmo a junção de todas as ciências e o idealismo da arte conseguem apresen-
tar um quadro completo do significado do homem e da vida. Somente por meio
da revelação de Deus, o nosso Criador, podemos ter uma visão clara e abran-
gente do significado da vida, do homem, do tempo e da eternidade. Somente a
cosmovisão cristã tem algo a dizer de forma compreensiva e significativa a res-
peito da totalidade da vida.

HOMEM: IMAGEM E SEMELHANÇA DE DEUS


93

Séculos depois de Davi, encontramos admiração semelhante entre os gregos.


Todavia, a admiração dos gregos ao contemplar o universo, os conduziu em outra
direção. Eles diziam que a admiração conduz o homem à filosofia. Platão (427-
347 a.C.) e Aristóteles (384-322 a.C.) estão acordes neste ponto. Platão escreveu
que a verdadeira característica de um filósofo é a sua admiração e que a origem
da é esta (PLATÃO, 1973). Aristóteles, na mesma linha:
Foi, com efeito, pela admiração que os homens, assim hoje como no
começo, foram levados a filosofar, sendo primeiramente abalados pelas
dificuldades mais óbvias, e progredindo em seguida pouco a pouco até
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

resolverem problemas maiores: por exemplo, as mudanças da Lua, as


do Sol e dos astros e a gênese do universo (ARISTÓTELES, 1973, p.
214).

Nestas reflexões surgem as explicações a respeito da origem da vida:


a) Tales de Mileto (c. 640-547 a.C.): por meio do estudo doxográfico, sabe-
mos que Tales, considerando a necessidade da água para a sobrevivência
de tudo, afirmava ser a água a origem de todas as coisas (por rarefação e
condensação), e a Terra flutuava como um navio sobre as águas. Os ter-
remotos são explicados pelo movimento das águas (Dox., 1). Deus criou
todas as coisas da água (Dox., 9). Plutarco atribuiu esta concepção aos
egípcios. No que talvez ele tenha razão.
b) Anaximandro (c. 610-547 a.C.): foi o primeiro a usar a palavra “princí-
pio” (¢rx»). (Dox., 1). O princípio (¢rx») de todas as coisas é o “Ápeiron”
(¥peiron = “sem fim”, “ilimitado”, “indeterminado”, “indefinido”). (Dox.,
1,2,6).
c) Anaxímenes (c. 585-528/525 a.C.): o Ar é o princípio de todas as coi-
sas (Dox., 1-2); inclusive dos deuses e das coisas divinas; sendo o ar um
deus (Dox., 3). O homem é ar, bem como a sua alma; esta nos sustenta e
governa (Frag., 1; Dox., 5-6).
d) Heráclito de Éfeso (c. 540-480 a.C.): todas as coisas provêm do fogo –
que é eterno – e para lá retornarão (Frags., 30,31,90, Dox., 2).

Diferentemente, a admiração de Davi o conduziu a glorificar a Deus e, em um ato


subsequente, a indagar sobre o homem nesta vastidão da Criação. A sua pergunta
assume também, uma conotação metafísica, não podendo ser respondida apenas a

A Narrativa Bíblica
94 UNIDADE II

partir de uma referência material. “O homem é um enigma cuja solução só pode ser
encontrada em Deus” (BAVINCK, 2001, p. 24). Deus revelou de forma magnífica
o homem ao homem. Se a antropologia pode ser definida como a “autocompreen-
são do homem”, devemos entender que esta “autocompreensão” é um dom da graça
que começa pelo conhecimento do Deus que se revela e nos capacita a conhecê-lo.
Sem a consideração da Queda e de suas implicações, como as Escrituras nos apre-
sentam, não há como obtermos um conhecimento adequado do homem.
O salmista reverentemente admira-se do fato de Deus se lembrar de nós
(Sl 8,4). Tendo o sentido de “prestar atenção”, sustentar, cuidar, manifestar a

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
sua graça ou juízo. Admira-se também de Deus nos visitar. A palavra pode ter
o sentido de passar em revista, observar (Ex 3,16), supervisionar, vir ao encon-
tro. O significado no texto é de uma visita providente, abençoadora e salvadora
(Gn 21,1; 50,24-25/Ex 13,19; Ex 4,31; Sl 17,3; 65,9; 80,15; 106,4). Jó também, de
forma poética, mas, com sentimentos confusos, indaga: “Que é o homem, para
que tanto o estimes, e ponhas nele o teu cuidado (ble) (leb), 18 e cada manhã o
visites (dq;P)’ (paqad), e cada momento o ponhas à prova?” (Jó 7.17-18). Deus
considera tanto o homem que tem o seu coração nele, cuidando, protegendo e
guardando. Ainda que na intensidade da angústia de Jó isso o incomode cir-
cunstancialmente − visto que o cuidado, dentro desta perspectiva soa como uma
“inspeção” − o fato é que Deus cuida atentamente de seu povo (Sl 144,3.4.15).
Retornando ao Salmo 8, inclino-me a pensar em duas direções:
a) Entre os versos 4 e 5, ainda que o salmista não diga isso explicitamente, está
em questão o problema do pecado. O lembrar de e visitar de Deus (verso
4) não é algo tão admirável considerando a posição do homem descrita no
verso 5. Contudo, ela é espantosa se levarmos em conta o pecado humano
e a consequente alienação de Deus. “Fizeste-o, no entanto, por um pouco,
menor do que Deus (H;Ala)/ e de glória e de honra o coroaste” (Sl 8,5).
Mais do que a imensidão do universo, o que realmente conta é o valor e a
dignidade atribuída ao homem: Deus o criou à sua imagem. Ele tem carac-
terísticas espirituais, intelectuais e morais semelhantes às de Deus, apenas
em grau adequado à criatura finita. No pequenino homem em relação à
imensidão do universo, temos mais de Deus no que em toda a Criação.
Somente o homem foi criado à imagem de seu Criador. No entanto, isto se

HOMEM: IMAGEM E SEMELHANÇA DE DEUS


95

torna mais difícil de perceber devido ao pecado que ainda que não tenha
aniquilado esta imagem, deformou-a gravemente. O nome aplicado a Deus
(H;Ala/) pode referir-se, conforme muitos documentos antigos e interpre-
tação de Hebreus, aos seres angelicais (Hb 2.6-8). “Por um pouco” (j[;m.)
(me`at)(5) pode significar “por pouco tempo” (KISTEMAKER, 2003, p.
94-95) ainda que não necessariamente.
A ideia básica então, conforme interpreto, é que o homem foi criado, em
certos aspectos pouco abaixo dos anjos. O pecado, no entanto, trouxe a
inversão sugerida no verso 4. Contudo, em Jesus Cristo temos a verda-
deira restauração de nossa humanidade e, segundo creio, aperfeiçoada na
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

eternidade, em nosso estado definitivo de glória quando não haverá mais


a possibilidade da queda. Em Jesus, o idealismo do Salmo torna-se real.
Na ressurreição teremos novamente a imortalidade (Mt 22.30); partici-
paremos efetivamente do juízo final (Mt 12,41-42; 19,28; 1Co 6,2-3; Ap
20,4). Estaremos para sempre com o Senhor, os anjos terão cumprido o
seu papel (Hb 1,14). Todas as coisas recriadas estarão plenamente sujei-
tas ao Senhor (1Co 15,26-28).
b) O segundo caminho interpretativo, é que no verso 4 temos um diálogo simu-
lado. Como se perguntasse a Deus por intermédio do salmista, digamos,
liturgicamente: considerando a imensidão da glória de Deus revelada no
universo, “que é o homem, que dele te lembres? E o filho do homem, que o
visites?” (Sl 8,4). Ele então responde se dirigindo a Deus professando a sua
fé, mostrando que no homem vemos de forma ainda mais eloquente do
que em toda a Criação a manifestação da Glória de Deus (Sl 8,5-8), sendo
o verso 9 uma síntese exultante da revelação de Deus em toda a Criação.
As duas interpretações não alteram em nada a nossa compreensão teoló-
gica das Escrituras, apenas realçam aspectos do texto que podem sugerir
caminhos diferentes, contudo, ambos fazem parte do ensino sistemático
delas. A Bíblia atesta que Deus faz todas as coisas conforme o conselho
da sua vontade (Ef 1,11), conforme o seu santo prazer e deliberação (Sl
115,3; 135,6). Todos os seus atos, livres como são, constituem-se em mani-
festações do seu soberano poder e da sua infinita sabedoria (Pv 3,19; Rm
11,33). Jeremias escreve: “O Senhor fez a terra pelo seu poder; estabele-
ceu o mundo por sua sabedoria, e com a sua inteligência estendeu os céus”
(Jr 10,12). No livro de Jó lemos: “Eis que Deus se mostra grande em Seu
poder!” (Jó 36,22). A Criação é resultado da vontade e do poder criador de

A Narrativa Bíblica
96 UNIDADE II

Deus, revelando aspectos da grandeza de Deus. (Gn 1,1.26.27; Sl. 148,5;


Is 44,24; Jr 32,17; Rm 1,20; 4,17; 2Co 4,6; Hb 11,3; Ap 4,11).
No relato da criação do homem, encontramos o registro inspirado:
“Também disse Deus: Façamos o homem à nossa imagem, conforme a
nossa semelhança...” (Gn 1,26). Deus se aconselha consigo mesmo e deli-
bera de forma verbal. Aqui podemos ver a singularidade da criação do
homem, em nenhum outro relato encontramos esta forma relacional.
Conforme acentua Bavinck (1984, P. 184):
Ao chamar à existência as outras criaturas, nós lemos simplesmente
que Deus falou e essa fala de Deus trouxe-as à existência. Mas quando

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
Deus está prestes a criar o homem Ele primeiro conferencia consigo
mesmo e decide fazer o homem à Sua imagem e semelhança. Isso indi-
ca que especialmente a criação do homem repousa sobre a deliberação,
sobre a sabedoria, bondade e onipotência de Deus. (...) O conselho e a
decisão de Deus são mais claramente manifestos na criação do homem
do que na criação de todas as outras criaturas.

Diante dessa afirmação temos o decreto Trinitário que antecede o tempo e, que
agora, se executa historicamente conforme o eternamente planejado. O “Façamos”
de Deus, conforme usado em Gênesis 1,26, (he&A(an) (na’aseh), o qual, imperfeito,
indica que o homem foi criado ou será criado após deliberação ou consulta,
como explica Calvino: “Até aqui Deus foi introduzido simplesmente a ordenar;
agora, quando se aproxima da mais excelente de suas obras, ele passa à consulta”
(CALVINO, 1996, p. 91). Calvino diz que Deus poderia ter criado o homem orde-
nando pela sua simples palavra, o que desejasse que fosse feito, “porém prefere
comunicar este atributo à excelência do homem: que ele, de certa maneira, faz
uma consulta concernente à criação” (CALVINO, 1996, p. 91). “A que ou quem
Deus consulta?”, perguntaríamos. Deus consulta a si mesmo:
Mas desde que o Senhor não necessita de conselheiro, não há dúvida de que
ele consultou a si mesmo. (...) Deus não convoca conselheiro alheio; daí nós
inferimos que ele acha em si mesmo alguma coisa distinta; como, na verda-
de, sua eterna sabedoria e poder residem nele (CALVINO, 1996, p. 92).

O fato de Deus ter criado o homem após deliberação, tem dois objetivos na con-
cepção de Calvino: 1) nos ensinar que o próprio Deus se encarregou de fazer
algo grande e maravilhoso; 2) dirigir a nossa atenção para a dignidade de nossa
natureza. Assim, ele conclui:

HOMEM: IMAGEM E SEMELHANÇA DE DEUS


97

Na verdade, há muitas coisas nesta natureza corrompida que poderiam indu-


zir ao desdém; mas, se o leitor pesar corretamente todas as circunstâncias, o
homem é, entre outras criaturas, certo espécime preeminente da sabedoria, jus-
tiça e bondade divinas, de modo que ele é merecidamente chamado pelos antigos
mikri/kosmoj, “um mundo em miniatura” (CALVINO, 1996, p. 92).
Comentando Gênesis 5,1, Calvino diz que Moisés repetiu o que ele havia
dito antes porque
[...] a excelência e dignidade deste favor não podiam ser suficientemente
celebradas. Já era uma grande coisa que se desse ao homem um lugar pri-
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

mordial entre as criaturas; mas é uma nobreza muito mais exaltada que ele
portasse semelhança com seu Criador, como um filho com seu pai. Deve-
ras não era possível que Deus agisse mais liberalmente para com o homem
senão lhe imprimindo sua própria glória, assim fazendo-o, por assim dizer,
uma imagem viva da sabedoria e justiça divinas (CALVINO, 2006, p. 160).

Em Adão, temos uma demonstração eloquente da justiça divina: “Adão foi inicial-
mente criado à imagem de Deus, para que pudesse refletir, como por um espelho,
a justiça divina” (CALVINO, 1998, p. 142). “Façamos”. “É a Trindade quem deli-
bera, sem qualquer intervenção ou consulta feita aos anjos” (KEVAN, 1976, p. 84)
é a execução autodeliberada de Deus em criar o homem. Deste modo, na criação
em geral e do homem em especial, encontramos a concretização precisa do decreto
eterno de Deus. O homem é o produto da vontade de Deus. “Tudo quanto aprouve
ao Senhor ele o fez, nos céus e na terra, no mar e em todos os abismos” (Sl 135,6).
Assim, o homem não foi criado por um insensível acaso, por uma catástrofe cós-
mica ou por uma complicada mistura de gases e matérias. O homem foi formado
por Deus de acordo com a Sua sábia e soberana vontade (Gn 2,7; Rm 11,33-36).
“Louvem o nome do Senhor, pois mandou ele, e foram criados” (Sl 148,5). O Poder
de Deus “é a primeira coisa evidente na história da criação” (Gn 1,1). E a criação
do nada nos fala de seu infinito e incompreensível poder.
Davi contemplando a majestosa criação de Deus escreveu: “Graças te dou,
visto que por modo assombrosamente maravilhoso me formaste; as suas obras
são admiráveis, e a minha alma o sabe muito bem” (Sl 139,14). Embora a Bíblia
não declare o método usado por Deus, à ideia de uma evolução teísta está fora
de questão. O texto de Gn 1,26-27 implica na criação do homem não a partir de
seres criados, nem como resultado de uma suposta evolução de seres inferiores.

A Narrativa Bíblica
98 UNIDADE II

O verbo (frfB), usado em Gn 1,26-27, no qual é sempre teológico, apresentando


Deus como o sujeito da ação, que do nada, pelo seu poder, faz vir à existência algo
novo, que antes não existia (Cf. Gn 1,1; 2,4; Sl 51,10;102,18; 148,5; Is 41,20; 48,6-
7; 65,17, Am 4,13 etc.), contrapondo-se também, aos deuses pagãos (Ez 28,13.15).
O homem como criação secundária (em termos de ordem, não de impor-
tância), foi formado com maestria e habilidade de matéria previamente criada
por Deus (Gn 3,19); entretanto, ele recebeu diretamente de Deus o fôlego da
vida (Gn 2,7), passando ao mesmo tempo a ter uma origem terrena e celestial.
Isso nos assegura que, por criação imediata, o homem recebeu a estampa

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
da imagem divina; que, na criação, cada uma das Pessoas divinas realizou uma
obra distinta; e, por fim, que a criação do homem com referência ao seu destino
mais elevado foi efetuada pela entrada do sopro de Deus (KUYPER, 2010, p. 73).
Agostinho (354-430), no final do 4º século (c. 395-398), extasiado com a
criação de Deus, escreveu de modo poético:
De que modo, porém, criastes o céu e a terra, e qual foi a máquina de
que Vos servistes para esta obra tão imensa, se não procedestes como
o artífice que forma um corpo doutro corpo, impondo-lhe, segundo a
concepção da sua mente vigorosa, a imagem que vê em si mesma, com
os olhos do espírito? Donde lhe viria este poder, se Vós lhe não tivésseis
criado a imaginação?
O artífice impõe a forma à matéria – a qual já existia e já a continha –
isto é, à terra, ou à pedra, ou à madeira ou ao ouro ou a qualquer coisa
material. Mas donde proviriam estes seres, se os não tivésseis criado?
(...). Mas de que modo as fazeis? Como fizestes, meu Deus, o céu e a
terra? Sem dúvida, não fizestes o céu e a terra no céu ou na terra, nem
no ar ou nas águas, porque também estes pertencem ao céu e à terra.
Nem criastes o Universo no Universo, porque, antes de o criardes, não
havia espaço, onde pudesse existir. Nem tínheis à mão matéria alguma
com que modelásseis o céu e a terra. Nesse caso, donde viria essa maté-
ria que Vós não criáreis e com a qual pudésseis fabricar alguma coisa?
Que criatura existe que não exija a vossa existência?

Portanto, é necessário concluir que falastes, e os seres foram criados (Sl


33.6,9). Vós os criastes pela vossa palavra!

Mas como é que falastes? (...). Efetivamente, qualquer que seja a


substância com que produzistes essa voz, de modo algum poderia
existir, se a não tivésseis criado. Mas que palavra pronunciastes
para dar ser à matéria com que havíeis de formar aquelas palavras?
(AGOSTINHO, p. 238-239).

HOMEM: IMAGEM E SEMELHANÇA DE DEUS


99

Charnock (1628-1680) observa que o fato da criação de Deus ter em si a capaci-


dade de se propagar conforme a ordem divina: “Sede fecundos, multiplicai-vos e
enchei as águas dos mares; e, na terra, se multipliquem as aves” (Gn 1,22) – revela
o Poder do Criador. Deus por sua Palavra cria o mundo e, segundo o exercício
deste mesmo poder, capacita as suas criaturas a se propagarem, tornando “o ser
humano como co-criador criado”. Como indicativo da posição elevada em que o
homem foi colocado, o Criador compartilha com ele – abençoando e capacitan-
do-o – do poder de nomear os animais – envolvendo neste processo inteligência
e não arbitrariedade – e também de dar nome à sua mulher (Gn 2,19.20.23; 3,20).
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

E mais: Deus delega-lhes poderes para cultivar (db;[‘) (‘abad) (lavrar, servir,
trabalhar o solo) e guardar (rm;v’) (shãmar) (proteger, vigiar, manter as coisas)
o jardim do Éden (Gn 2,15; Gn 2,5; 3,23), validando a sua relação de domínio,
não de exploração e destruição, antes, um cuidado consciente, responsável e pre-
servador da natureza: “Deste-lhe domínio sobre as obras da tua mão e sob seus
pés tudo lhe puseste: ovelhas e bois, todos, e também os animais do campo; as aves
do céu, e os peixes do mar, e tudo o que percorre as sendas dos mares” (Sl 8,6-8).
Aqui o primeiro casal, atendendo ao mandato cultural, em uma atividade
familiar exclusivamente humana, pode desenvolver e aprimorar a sua capacidade
e potencialidades, refletindo a sua condição de imagem e semelhança de Deus.
“Cabe-lhe desenvolver não somente a agricultura, a horticultura e a criação de
animais, mas também, a ciência, a tecnologia e a arte” (HOEKSEMA, 1999, p.
95). Na sequência, continua Hoeksema (1999, p. 95):
Mas o homem ‒ isto é nós mesmos ‒, deve dominar a natureza de tal
modo que seja também seu servo. Devemos preservar os recursos natu-
rais e fazer o melhor uso possível deles. Devemos evitar a erosão do solo,
a destruição temerária das florestas, o uso irresponsável da energia, a po-
luição dos rios e dos lagos e a poluição do ar que respiramos. Devemos
ser mordomos da terra e de tudo o que há nela e promover tudo o que
venha a preservar a sua utilidade e beleza para a glória de Deus.

Todas essas atividades, todavia, envolvem o trabalho compartilhado por Deus


com o ser humano. O nomear, procriar, dominar, guardar e cultivar refletem a
graça providente e capacitante de Deus. É neste particular – domínio – que o
homem foi bastante aproximado de Deus pelo poder que lhe foi outorgado. Ao
homem foi conferido o poder de ir além da matéria, podendo raciocinar, esta-
belecer conexão e visualizar o invisível.

A Narrativa Bíblica
100 UNIDADE II

O pensamento e o conhecimento do homem, apesar de serem extraídos


de seu cérebro, são, todavia, em sua essência uma atividade inteiramente
espiritual, pois transcendem aquilo que ele pode ver e tocar.
(Herman Bavinck)

Ao homem, sobretudo, foi concedido o privilégio responsabilizador de pensar,


analisar, escolher livremente o seu caminho de vida, verbalizar os seus pensa-

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
mentos e emoções, podendo, assim, dialogar com o seu próximo (Gn 3,6) e com
Deus (Gn 3,9-13). Ser entendido por ele e entender a vontade dele. Portanto,
desde o início estava constituída uma comunidade, já que: “Comunicar é uma
maneira de compreensão mútua” (MAY, 1974, p. 57).
Quando usamos adequadamente dos recursos que Deus nos confiou para
dominar a terra, estamos cumprindo o propósito da criação glorificando a Deus.
É necessário, portanto, que glorifiquemos a Deus em nosso trabalho pela forma
legítima como o executamos. Devemos estar atentos ao fato de que o nosso
domínio está sob o domínio de Deus. A Criação pertence a Deus por direito; a
nós por delegação de Deus (Sl 24,1; 50,10-11; 115,16). Ele mesmo compartilhou
conosco este poder, contudo, não abriu mão dele. Teremos de prestar-lhe contas.
Nesse sentido, ainda que o nosso domínio seja validado, especialmente pelo
avanço da ciência, novos desafios surgem. A plenitude desse domínio é encon-
trado em Cristo Jesus, verdadeiro Deus e verdadeiro homem. Algo admirável no
salmo 8 é que o salmista em seu hino começa referindo-se a Deus, glorificando
o nome de Jeová (hwhy), e conclui tornando a ele, testemunhando com júbilo a
magnificência de seu nome em toda a terra: “Ó SENHOR, Senhor nosso, quão
magnífico em toda a terra é o teu nome! Pois expuseste nos céus a tua majestade.
(...) Ó SENHOR, Senhor nosso, quão magnífico em toda a terra é o teu nome!”
(Sl 8,1.9). A Criação revela de forma majestosa o nome de Deus. No homem, de
modo especial, tal majestade é vista de forma ainda mais eloquente.

HOMEM: IMAGEM E SEMELHANÇA DE DEUS


101

O HOMEM FOI CRIADO À IMAGEM E SEMELHANÇA DO DEUS


TRIÚNO

Os seres criados por Deus (peixes, aves, animais domésticos, animais selváticos
etc.) o foram conforme as suas respectivas espécies. Por isso, toda a Criação revela
de algum modo, aspectos da glória de Deus, vestígios de seu Autor. O homem, dife-
rentemente, teve o seu modelo no próprio Deus Criador (Gn 1,26; Ef 4,24), sendo
distinto assim, de todo o resto da Criação, partilhando com Deus de uma identidade
desconhecida por todas as outras criaturas visto que somente o homem foi criado
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

“à imagem e semelhança de Deus”. Somente o homem pode partilhar de um rela-


cionamento pessoal, voluntário e consciente com Deus. Para Bavinck (2012, p. 564):
Embora todas as criaturas exibam vestígios de Deus, somente o ser hu-
mano é a imagem de Deus. Ele inteiro é essa imagem, alma e corpo, em
suas faculdades e capacidades, em todas as condições e relações. O ser
humano é a imagem de Deus porque, e na medida em que, é verdadei-
ramente humano; e é verdadeiro e essencialmente humano porque, e
na medida em que, é a imagem de Deus (BAVINCK).

No homem, como reflexo de seu Criador, Deus deve ser visto, quer em sua natureza
que expressa Deus, quer em seus atos uma vez que ele está comprometido com os inte-
resses de Deus. O seu propósito é glorificar a Deus a quem ama e obedece. Quando
se trata de encontrar uma companheira para o homem com quem ele possa se rela-
cionar de forma pessoal – já que não se encontra em todo o resto da criação uma à
altura - a solução foi uma nova criação. Não mais a partir do pó da terra, mas tirada
da costela de Adão, e transformada por Deus em uma auxiliadora idônea. Adão se
completará nela, passando a haver uma “fusão interpessoal”, “unidade essencial”, cons-
tituindo-se os dois uma só carne (Gn 2,20-24; Mc 10,8), unidos por Deus (Mt 19,6).
A constatação de Deus, é que não seria bom para o homem permanecer só. É
Deus mesmo quem percebe a necessidade ainda imperceptível ao homem. Tudo
na criação era bom, exceto a solidão do homem. “Deus pôs o dedo na única defi-
ciência existente no Paraíso” (WALTKE; FREDERICKS, 2010, p. 104). Os autores
acentuam que a declaração “é altamente enfática. Essencialmente, é ruim para
Adão viver sozinho” (WALTKE; FREDERICKS, 2010, p. 104).
Gênesis inicia-se com uma belíssima descrição do cuidado de Deus para
com suas criaturas:

A Narrativa Bíblica
102 UNIDADE II

As cenas da criação são pintadas como se um artista as visualizasse: Deus,


como o oleiro, formando o homem; como jardineiro, designando um jar-
dim de beleza e abundância; e como um edificador de templo, tomando
a mulher da costela do homem (WALTKE; FREDERICKS, 2010, p. 104).

O paraíso não era o céu. O homem ainda não havia percebido isso, no entanto,
Deus sabia que a solidão lhe faria mal. À carência vai se tornar evidente: Deus
passou diante de Adão todos os animais para que ele pudesse nominá-los, dis-
tinguir cada uma das espécies.
Nesse contexto, notamos de passagem a inteligência de Adão. Ele possuía
condições de discernir as espécies, exercitando a sua capacidade de julgar, atri-

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
buindo nomes que, certamente, estavam relacionados às características essenciais
do animal. Entre toda a Criação, não havia uma companheira à altura do homem.
Como ser sociável já em sua gênese, o homem necessitaria compartilhar conhe-
cimentos e afetos, amar e ser amado. O homem, de fato, foi criado por Deus para
viver em companhia de seus semelhantes, mantendo uma relação de ideias, valo-
res e sentimentos. Se permanecesse sozinho, os seus sentimentos mais profundos
permaneceriam guardados. Não havia para ele um ser igual, da mesma natu-
reza com quem pudesse compartilhar, amar, se emocionar, ensinar, aprender, se
divertir. O mesmo Deus que o criou, propõe-se, então, a criar uma companheira
para sua obra prima (Gn 2,21-22).
Deus como uma espécie de “pai da noiva” (“padrinho de casamento”), leva-a
até o noivo (Gn 2,22). Adão aprovou a nova criação de Deus. As primeiras pala-
vras do homem registradas nas Escrituras se configuram de forma poética: “Esta,
afinal, é osso dos meus ossos e carne da minha carne; chamar-se-á varoa, por-
quanto do varão foi tomada” (Gn 2,23). A partir daí, tornou-se possível uma
relação satisfatória para o homem e sua congênere. Ao mesmo tempo, eles pode-
rão, agora, se perpetuar por meio da procriação – como ato que reflete a sua
identidade de amor e complemento – encheriam a terra e sujeitando-a, conforme
a ordem divina (Gn 1,28). O Paraíso está pronto para se expandir.
Palmer Robertson comenta: “O ‘ser uma só carne’ descrito nas Escrituras
não se refere simplesmente aos vários momentos da consumação marital. Em
vez disto, esta unidade descreve a condição permanente de união alcançada pelo
casamento” (PIPER et al., 2006, p. 39).

HOMEM: IMAGEM E SEMELHANÇA DE DEUS


103

A Criação da Mulher, a companheira do homem (Gn 2,18)

Henry (2000, p. 58-59) afirma que a mulher:


Não foi feita da sua cabeça, como para ter domínio sobre ele, nem de
seus pés, como para não ser pisoteada por ele, senão de seu lado, para
ser igual a ele, de debaixo de seu braço para ser protegida, e de junto ao
coração para ser amada (HENRY).

A mulher foi criada para ser companheira do homem. Deste modo percebe-se
a ideia de complemento. O homem sozinho estaria no paraíso. Contudo per-
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

maneceria só, sem uma companheira. O paraíso sem a mulher seria um paraíso
incompleto, insatisfatório. No céu, seremos como os anjos, não iremos nos casar
(Mt 22,30). Adão, no seu estado terreno, ainda precisa do auxílio de uma esposa.
Visto que a mulher completaria o homem, ela se tornaria da mesma forma
incompleta se não cumprisse a missão a ela conferida. Vemos, então, aqui, que
somente os dois juntos, tornando-se uma só carne, encaminham-se para a ple-
nificação como imagem e semelhança de Deus por meio da geração de filhos, a
proliferação da raça humana, e o uso de seus talentos de forma criativa e constru-
tiva. O rabino Cassuto (1883-1951) colocou esse evento de forma poética: “Assim
como a costela se encontra no lado do homem e lhe é anexa, da mesma forma a
boa esposa, a costela de seu esposo, fica a seu lado para ser sua auxiliar-sósia, e
sua alma faz fronteira com a dele” (apud WALTKE; FREDERICKS, 2010, p. 105).

Auxiliadora idônea

“Far-lhe-ei uma auxiliadora (rz<[e)(‘ezer) que lhe seja idônea (dg<n<)(neged)” (Gn
2.18), é a solução encaminhada por Deus.
■ Auxiliadora (rz<[e) (‘ezer):
“Auxiliadora”, “ajudadora”. Esta palavra que nos tempos modernos é com
frequência olhada como se fosse uma diminuição da mulher, tem na reali-
dade, um tom extremamente significativo. Ela é empregada especialmente
para descrever a ação de Deus que vem em socorro do homem. Em sen-
tido lato, Deus mesmo é o ajudador dos pobres (Sl 72,12), dos órfãos (Sl
10,14; Jó 29,12); daqueles que não podem contar com mais ninguém (Sl

A Narrativa Bíblica
104 UNIDADE II

22.11). Por isso, podemos contar com ele nos momentos de enfermidade
(Sl 28.7); nas opressões de inimigos (Sl 54,4) e em períodos de grande
aflição (Sl 86,17). Aqueles que vivem fielmente, buscando seu amparo
nele podem ter a certeza do seu cuidado (Sl 37,40; Sl 89,21), sendo a sua
lei e as suas mãos os seus auxílios (Sl 119,173-175). Por isso, os servos
de Deus suplicam a sua ajuda na batalha e nas aflições (Dt 33,7; Sl 20,2;
30,10; 79,9; 109,26; 119,86).
O rei Uzias tornou-se famoso internacionalmente, porque por trás de
todos os seus empreendimentos, estava à maravilhosa ajuda de Deus
(2Cr 26,15). Por outro lado, quando Israel deixou de confiar no sustento

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
de Deus e buscou aliança com os egípcios para a sua proteção, Deus diz
que isso de nada adiantaria contra a Babilônia (Is 30,5.7; 31,3/Os 13,9).
Somos desafiados então, a confiar em Deus, porque Ele cuida de nós; é
o nosso amparo (Sl 33,20; 70,5; 72,12; 115,9-11; 124,8; Is 44,2): de Deus
vem o nosso socorro (Sl 121,1-2). Israel é feliz, porque tem a Deus como
aquele que o socorre (Dt 33,26.29). Felizes são todos aqueles que têm a
Deus por auxílio (Sl 146,5). Devido ao seu socorro, devemos entoar lou-
vores ao Seu nome (Sl 28,7). Dentro das profecias messiânicas de Isaías,
vemos a confiança do Ungido do Senhor. Certo do socorro do Senhor
sabe que não será envergonhado (Is 50,7.9).
Harriet e Gerard fazem uma bela e real aplicação: “Que papel importante
Deus dá a mulher. Ela se coloca ao lado do seu marido como auxilia-
dora, assim como Deus se coloca ao lado de seu povo” (GRONINGEN;
GRONINGEN, 1997, p. 99).

■ Idônea (dg<n<) (neged):


“Idônea”, tem o sentido de “correspondente a ele”, “conforme”, “aquilo
que corresponde“, “sua contrária”. Significa também, “estar em frente”,
“defronte” (Ex 19,2; Js 3,16; 6,5,20; Dn 6,11).
A mulher foi formada como uma “contraparte” do homem. É uma seme-
lhança perfeita dele, ainda que lhe seja oposta, no sentido de complemento.
O homem aprovou a criação de Deus, porque pôde perceber a mulher
“não como sua rival, mas como sua companheira, não como uma ameaça,
mas como a única capaz de realizar seus desejos íntimos” (ORTLUND
JR., 1996, p. 39).

HOMEM: IMAGEM E SEMELHANÇA DE DEUS


105

Robertson ( 1997, p. 69) analisa:


O propósito da existência do homem como ser criado não é ser um auxí-
lio para a mulher no casamento. Mas o propósito da existência da mulher
como ser criado é glorificar a Deus sendo um auxílio para o homem.

[...] A mulher deve ser, na verdade, uma auxiliadora do homem. Mas


deve ser auxiliadora ‘correspondente a ele’. O todo da criação de Deus
serviria de auxílio ao homem de uma ou outra maneira. Mas em par-
te alguma da criação poder-se-ia achar um auxiliar ‘correspondente’
ao homem” (Gn 2.20). Somente a mulher como ser criado do homem
correspondeu a ele de tal maneira que fez dela o auxílio adequado de
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

que ele necessitava. “Este traço distintivo da mulher indica que ela não
é menos significativa do que o homem com respeito à pessoa dela. De
maneira igual ao homem, ela traz em si mesma a imagem e semelhança
de Deus” (Gn 1.27). Somente como igual em pessoalidade podia a mu-
lher ‘corresponder’ ao homem (ROBERTSON).

A igualdade entre o homem e a mulher

Os textos também revelam a prioridade social e governamental do homem, não


a sua superioridade essencial (Ef 5,22; 1Co 11,3-12; 1Pe 3,6.7). É preciso que não
confundamos a primazia e liderança com o domínio tirânico.
A masculinidade e a feminilidade identificam seus respectivos papéis.
Conforme Deus determinou, o homem, em virtude de sua masculinidade,
é chamado a liderar; e a mulher, em virtude de sua feminilidade, é cha-
mada para ajudar. (...) Mas, observe: dominação masculina é uma falha
pessoal e moral, não uma doutrina bíblica (ORTLUND JR., 1996, p. 40).

Deus, ao criar a mulher, não à fez inferior. Ela também foi feita conforme a
imagem e semelhança de Deus (Gn 1,27). A ordem divina quanto ao povoar,
dominar, guardar e cultivar a terra é responsabilidade de ambos. Os dois par-
tilham dos deveres e responsabilidades conferidos por Deus. Sozinhos, ambos
são insuficientes para cumprirem o propósito de Deus em suas vidas. Harriet
e Gerard comentam:
A passagem [Gn 1.26-31] claramente indica que na sua origem a fêmea
foi criada da mesma substância do macho; ela não é inferior quanto
ao seu ser ou pessoa. Ela não é inferior como portadora da imagem,

A Narrativa Bíblica
106 UNIDADE II

representante ou espelho de Deus na vida diária. A mulher é uma pes-


soa tanto quanto o homem. Assim como o macho é, a fêmea é feita à
imagem e semelhança do Deus triúno e consequentemente tem o seu
próprio relacionamento pessoal e espiritual com Deus. Neste particular
ela é absolutamente igual ao homem. Ela também recebeu o mesmo
mandato que o seu marido recebeu. Ele deveria cultivar o jardim com
ele, dominar sobre ele e com o marido, ser frutífera e povoar a terra.
No capítulo 2 ela, juntamente com o seu marido, recebeu o mandato
espiritual de continuar a andar com Deus. Ela e o seu marido são proi-
bidos de comer do fruto da árvore. Ambos recebem o mandato social
de serem frutíferos (GRONINGEN, 2002, p. 86).

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
Significado dos termos: Imagem e Semelhança

Os termos imagem meelec (Tsëlëm) e semelhança tUm:D (Demüth) usados no


texto de Gênesis, são entendidos, ainda que não o sejam perfeitamente, como
sinônimos, sendo empregados para se referirem, de forma enfática, ao ser humano
como um todo, com todas as suas características essenciais; uma verdadeira
imagem. Calvino (1509-1564), após criticar aqueles que procuravam fazer uma
distinção inexistente entre palavras, diz:
Quando, pois, Deus decretou criar o homem à Sua imagem, porque
não era tão claro, explicitamente o repete nesta breve locução: à seme-
lhança, como se estivesse a dizer que iria fazer um homem no qual,
mediante insculpidas marcas de semelhança, se haveria de a Si Próprio
representar como em uma imagem. Por isso, referindo o mesmo pouco
depois, Moisés repete duas vezes a frase imagem de Deus, omitida a
menção de semelhança (CALVINO, 2006).

Do mesmo modo, Von Rad: “A segunda [palavra] interpreta a primeira, salien-


tando a noção de correspondência e de semelhança” (RAD, 1986, p. 156). Seguindo
Bavinck, talvez possamos dizer que imagem aponta para uma espécie de pro-
tótipo. A semelhança indica um ideal espiritual. Em geral, as duas palavras são
simplesmente explicativas uma da outra: uma define a outra, denotando uma
semelhança exata, correspondendo ao original divino. Por isso, imagem e seme-
lhança são usadas indistintamente nas Escrituras, referindo-se ao homem (Gn
5,1.3; 9,6; 1Co 11,7; Cl 3,10; Tg 3,9). Portanto, seja qual for a possível diferença
existente entre os termos, nada de essencial indica.

HOMEM: IMAGEM E SEMELHANÇA DE DEUS


107

A Imagem e Semelhança Criadas

Aqui, a título de advertência, devemos frisar que temos algumas pistas bíblicas
– suficientes, é verdade – para nos orientar quanto ao significado da imagem e
semelhança de Deus no homem. No entanto, estas indicações não são sistemáticas
ao ponto de possibilitar um estudo exaustivo e definitivo sobre o assunto. Calvino
afirma que existem alguns teólogos que procedem com um pouco mais de suti-
leza e dizem que a imagem de Deus não é corpórea, contudo, erram ao manterem
“que a imagem de Deus está no corpo do homem, porque sua admirável estrutura
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

brilha aí fulgurantemente” (CALVINO, 1948, p. 94). No entanto o homem não


foi feito de substância, mas sim pela graça e poder do Espírito, conforme a Deus.

A essência da natureza humana é seu ser [criado] à imagem de Deus.


(Herman Bavinck)

Assim sendo, o homem não foi feito da mesma substância de Deus, apenas foi-
-lhe concedido alguns de seus atributos. Continuando esta linha de raciocínio,
diz: “Contemplando a glória de Cristo, estamos sendo transformados, como pelo
Espírito do Senhor, Que, certamente, opera em nós, na mesma imagem Sua,
contudo, não assim que nos renda consubstanciais a Deus” (CALVINO, 2006).
O homem foi criado por Deus segundo o próprio modelo divino (Ef 4,24); isto
não significa que o homem seja fisicamente igual a Deus. Deus não tem forma, é
espírito (Jo 4,24), nem significa que seja da mesma essência uma vez que ela é inco-
municável. A imagem e semelhança refletem, em Adão, características próprias por
intermédio das quais ele poderia relacionar-se consigo mesmo, com o mundo e com
Deus. A imagem de Deus é uma precondição essencial para o seu relacionamento
com Deus, e expressa, também, a sua natureza essencial: o homem é o que é por ser a
imagem de Deus: não existiria humanidade senão pelo fato de ser a imagem de Deus.

A Narrativa Bíblica
108 UNIDADE II

Esta é a nossa existência autêntica e toda inclusiva. Barth (1886-1968), com


propriedade, escreveu: “Ele não seria homem se não fosse a imagem de Deus. Ele
é a imagem de Deus pelo fato de que ele é homem” (BARTH, 2010, p. 184). Deste
modo, “ser humano é ser a imagem de Deus. Portanto, imago Dei descreve nosso
estado normal. Não assinala algo que está dentro de nós, ou a algo acerca de nós,
senão a nossa humanidade” (SPYKMAN, 1994, p. 248-249). A imagem de Deus não
é algo colado ou anexado a nós, podendo ser tirado ou recolocado. Antes, é algo
essencial ao nosso ser. “A imagem de Deus é intrínseca à humanidade. Não sería-
mos humanos sem ela. De toda a criação, somente nós somos capazes de ter um

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
relacionamento pessoal consciente com o Criador e de reagir a Ele” (ERICKSON,
1997, p. 207). Por conseguinte, o homem não simplesmente possui a imagem de
Deus, como algo externo ou acessório, antes, ele é a própria imagem de Deus.
A Confissão de Westminster (1647), capítulo IX, seção 2, declara:
Depois de haver feito as outras criaturas, Deus criou o homem, macho
e fêmea, com almas racionais e imortais, e dotou-os de inteligência, re-
tidão e perfeita santidade, segundo a sua própria imagem, tendo a lei de
Deus escrita em seus corações e o poder de cumpri-la, mas com a pos-
sibilidade de transgredi-la, sendo deixados à liberdade de sua própria
vontade, que era mutável. Além dessa escrita em seus corações recebe-
ram o preceito de não comerem da árvore da ciência do bem e do mal;
enquanto obedeceram este preceito, foram felizes em sua comunhão
com Deus e tiveram domínio sobre as criaturas (CW, 1647, on-line)3.

Na sequência, estudaremos algumas características do homem como imagem


de Deus, dentro de uma perspectiva estrita:
→ Personalidade: o homem foi criado como um ser pessoal que tem consci-
ência e determinação própria. Diferentemente de todos os outros animais,
faz a distinção entre o eu, o mundo e Deus. Daí a capacidade de se relacio-
nar com Deus (Gn 3,8-14; Jr 29,13; Mt 11,28-30) e com o seu semelhante,
e pode entender (racionalmente) a vontade de Deus, fazer-se entender e
avaliar todas as coisas (Gn 1,28-30; 2,18,19).
→ Justiça e Santidade: o homem não foi criado como um ser neutro entre o
bem e o mal. Ele foi formado bom, santo, como Deus o é de forma abso-
luta. Daí que, segundo a própria avaliação do seu Autor, tudo “era muito
bom” (Gn 1,31). Ele foi formado em “retidão” e “verdadeira santidade” (Ec

HOMEM: IMAGEM E SEMELHANÇA DE DEUS


109

7,29; Ef 4,24; Cl 3,10). O homem tinha condições de entender a Palavra de


Deus, a sua lei. A santidade e retidão originais do homem não significavam
simplesmente inocência, mas, sim, o desejo inerente de ter maior comu-
nhão com Deus e agradar-lhe. Havia uma perfeita harmonia entre o seu
ser e a Lei Divina. O homem conhecia e tinha prazer na vontade divina.
A justiça e a santidade eram derivadas de Deus, dependiam fundamental-
mente desta sua comunhão com o Criador. Logo, ao mesmo tempo em que
não era impossível ao homem pecar, também não havia nele nada que o
constrangesse a fazê-lo. O homem é a “expressão mais nobre e sumamente
admirável de Sua justiça, e sabedoria e bondade” (CALVINO, 2006).
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

Calvino explica o que significa “retidão” e “verdadeira santidade”:


Portanto, por esta palavra se designa a perfeição de toda nossa nature-
za, como apareceu quando Adão foi dotado com um reto juízo, tinha os
afetos em harmonia com a razão, tinha todos os seus sentidos íntegros
e bem regulados e realmente excedia em tudo o que é bom (CALVINO,
1948, p. 94-95).

Em outro lugar: “Do quê concluímos que, de início, a imagem de Deus foi cons-
pícua na luz da mente, na retidão do coração e na saúde de todas as partes do
ser humano” (CALVINO, 1999, p. 579).
→ Liberdade: Adão e Eva dispunham de plena liberdade dentro do que lhe
foi permitido escolher, não havendo em sua natureza a semente do pecado
para influenciá-los à desobediência, ao uso inadequado desta liberdade.
C. S. Lewis, coloca a questão nestes termos:
Se uma coisa é livre para ser boa, também é livre para ser má. E o livre-
-arbítrio foi o que tornou possível o mal. Por que Deus deu então o livre
arbítrio? Porque o livre-arbítrio, apesar de tornar o mal possível, é tam-
bém a única coisa que faz com que todo amor, bondade ou alegria va-
lham a pena. Um mundo de autômatos, de criaturas que trabalhassem
como máquinas, não valeria a pena ser criado (LEWIS, 1979, p. 26).

Liberdade pressupõe responsabilidade. Deus criou o homem livre e responsável


pelos seus atos (Gn 2,16,17; 3,6-24). Aliás, seja qual for a escolha que ele faça, não
perderá a sua responsabilidade ainda que sua resposta seja a negação do uso das
capacidades que lhe foram conferidas, ou a negação do próprio Deus Criador.
Agostinho (354-430) coloca a questão em termos poéticos:

A Narrativa Bíblica
110 UNIDADE II

A pena me acompanha, porque me deste livre-arbítrio. Se, pois, não


me tivésseis dado o livre-arbítrio, e desta forma não me tivesses fei-
to melhor do que os animais, não sofreria justa condenação ao pecar.
Então, pelo livre-arbítrio me elevaste, e por justo juízo me derrubaste
(AGOSTINHO, 1998, p. 22).

→ Conhecimento Espiritual: Cl 3,10. Adão, antes de pecar, tinha uma com-


preensão genuína a respeito de Deus. No entanto, “após a sua rebelião,
ficou privado da verdadeira luz divina, na ausência da qual nada há senão
tremenda escuridão” (CALVINO, 1998, p. 137). O seu conhecimento
tornou-se totalmente nulo quanto à salvação. É bom lembrar que a com-
preensão não era exaustiva visto ser Deus infinito e inesgotável e, também,

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
que Adão ignorava, em seu primeiro estado, aspectos do ser de Deus, tais
como o seu amor redentor, o seu plano salvífico, a sua misericórdia etc.

A queda trouxe sérias consequências: a morte e a escravidão.


“Como a morte espiritual não é outra coisa senão o estado de alienação em
que a alma subsiste em relação a Deus, já nascemos todos mortos, bem como vive-
mos mortos até que nos tornamos participantes da vida de Cristo” (CALVINO,
2009, p. 51). O homem perdeu totalmente seu discernimento espiritual: ele está
morto! O pecado traz em outro estágio a idolatria visto que o homem sozinho
não consegue se relacionar com Deus, e até mesmo ignora o Deus verdadeiro
(At 17,22-29). João Amós Comênio (1592-1670) comenta:
É evidente que todo o homem nasce apto para adquirir conhecimento
das coisas: Primeiro, porque é imagem de Deus. Com efeito, a imagem,
se é perfeita, apresenta necessariamente os traços do seu arquetípico, ou
então não será uma imagem. Ora, uma vez que, entre os atributos de
Deus, se destaca a onisciência, necessariamente brilhará no homem algo
de semelhante a ela. (...) A tal ponto a mente do homem é de capacidade
inesgotável que, no conhecimento, se apresenta como um abismo...
[No entanto] após a queda, que o obscurece e confunde, é incapaz de
se libertar pelos seus próprios meios; e aqueles que deveriam ajudá-lo
não contribuem senão para aumentar o embaraço em que se encontra
(COMÉNIO, 1985, p. 102-103).

O Catecismo de Heidelberg (CH, 1563), à pergunta 6, responde:


Deus criou o homem bom e à sua imagem, isto é, em verdadeira justiça
e santidade, a fim de que ele conhecesse corretamente a Deus, seu Cria-
dor, o amasse de todo coração e vivesse com ele em eterna bem-aventu-
rança, louvando-o e glorificando-o (CH, 1563, on-line)4.

HOMEM: IMAGEM E SEMELHANÇA DE DEUS


111

→ Imortalidade: o homem foi criado para viver eternamente – corpo e alma


– ele teve princípio, mas não teria fim. Fomos criados para viver para
sempre em comunhão com Deus (Gn 2,17; 3,19; Rm 5,12; 6,23; 1Co 15,20-
21). Calvino sustenta que a consciência que discerne entre o bem e o mal
respondendo ao juízo de Deus é um sinal do senso de imortalidade do
homem. Vale enfatizar que a fonte de nossa vida não está em nós mesmos,
mas em Deus, o único que é eterno e possui a imortalidade (1Tm 6,16).
→ Espiritualidade: (Gn 2,7) o homem é uma unidade bipartite. Ele foi criado
e dotado de corpo e alma, com anseios espirituais que se concretizam na sua
comunhão com o Criador. O homem, como parte da criação, é tomado do
pó da terra, todavia como imagem de Deus, recebe dele uma alma eterna
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

e imortal que retornará ao seu Criador (Ec 12,7). Van Groningen (1921-
2014) amplia o conceito, dizendo que homem e mulher são
[...] extracósmicos no sentido de que não devem ser considerados só
como matéria que pode funcionar de uma maneira altamente desen-
volvida. Ser espiritual é ser capaz de se comunicar e exercer comunhão
íntima com Deus ‘que é Espírito’ (Jo 4.24) (GRONINGEN, 2002, p. 84).

→ Domínio sobre a Natureza: um dos aspectos da imagem de Deus no


homem é o seu domínio legítimo, pacífico e prazeroso sobre a Criação
(Gn 1,26-27; Sl 8,5-8). “Deus criou Adão e Eva e os colocou nele [reino
cósmico] para serem seus representantes e agentes. Ele os fez ser realeza;
Ele lhes deu um status real” (GRONINGEN, 2002, p. 71).

Desse modo, a Criação estava naturalmente sob o seu domínio. Deus atestou o poder
concedido ao homem, partilhou amorosamente com ele, conforme vimos, o direito
de dar nome (classificando as espécies, revelando um conhecimento das caracterís-
ticas distintivas de cada uma) aos animais (Gn 2,19-20). Por derivação da autoridade
divina, “ao homem competia refletir o governo de Deus mediante um governo real
exercido sobre a terra” (BRUNNER, 2006, p. 102). Consequentemente, o domínio
sobre a Criação não significa destruição e matança, antes o conhecimento e o interesse
próprio pelo que nos fora confiado e o desejo de preservá-lo para poder apresentar
a Deus o resultado de nosso trabalho, feito em obediência à sua vontade, e realizado
para a sua glória. O homem glorifica a Deus quando cumpre o propósito dele para
a sua Criação. Renunciar a esse governo ou transformá-lo em destruição significa
rejeitar algo de característico na sua natureza essencial de imagem de Deus.

A Narrativa Bíblica
112 UNIDADE II

→ Corporeidade: Deus não tem corpo, nem por isso, o corpo humano é
menos importante do que a sua alma. Deus é quem cria o espírito e a
matéria. É por meio de seu corpo que o homem reflete as maravilhas de
ter sido criado à imagem de Deus. Não há no homem uma espirituali-
zação em detrimento do corpo. O homem é um ser integral. A salvação
é integral, assim como será a nossa morada eterna após a nossa ressur-
reição final. Cremos que a imagem de Deus abrange o seu corpo. Jesus
Cristo se encarnou para salvar o homem todo.

Herman Bavinck, escreve:


O corpo não é uma prisão, mas uma peça de arte maravilhosa produzida

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
pela mão do Todo-Poderoso e tão constituinte da essência da humanidade
quanto a alma (Jó 10.8-10; Sl 8; 139.13-17; Ec 12.2-7; Is 64.8). Ele é nossa
morada terrena (2Co 5.1), nosso órgão ou instrumento de serviço, nossa
ferramenta (1Co 12.18-26; 2Co 4.7; 1Ts 4.4) e os membros do corpo são as
armas com as quais pelejamos na causa da justiça ou da injustiça (Rm 6.13).
Ele é tão integral e essencialmente parte de nossa humanidade que, embora
tenha sido violentamente arrancado da alma pelo pecado, será reunido com
ele na ressurreição dos mortos. (...) Ora, esse corpo, que está tão intima-
mente ligado à alma, também pertence à imagem de Deus. (...) O corpo
humano é uma parte da imagem de Deus em sua organização como ins-
trumento da alma, em sua perfeição moral, não em sua substância material
como carne. (...) A encarnação de Deus é prova de que os seres humanos,
e não os anjos, são criados à imagem de Deus e que o corpo humano é um
componente essencial dessa imagem (BAVINCK, 2012, p. 568-569).

Em essência, se queremos saber mais sobre a imagem e semelhança de Deus,


olhemos para Cristo, porque nele, temos de forma inconfundível e perfeita, “a
imagem do Deus invisível” (Cl 1,15).

O HOMEM CAÍDO: A IMAGEM DESFIGURADA

Na verdade, o que torna o pecado humano realmente grande é o fato de


que ele ainda é alguém que traz a imagem de Deus. O que faz o pecado
tão hediondo é que o homem está prostituindo dons tão esplêndidos.
Corruptio optimi pessima: a corrupção do que é ótimo é pior (HOEKE-
MA, 1999, p. 101-102).

HOMEM: IMAGEM E SEMELHANÇA DE DEUS


113

“O coração da rebelião de satanás e do


homem estava no desejo de ser autônomo”
(SCHAEFFER, 2012, p. 256).
“A natureza de Satanás consiste em
pensar, falar e agir em constante e mali-
ciosa oposição a Deus, o Criador, e, por
conseguinte, em oposição ao povo de Deus
também” (PACKER, 1994, p. 78).
Por que os nossos primeiros pais foram
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

levados ao pecado em uma atmosfera per-


feita? Talvez devido ao “interesse existencial”
do problema é que esta pergunta tem atra-
vessado os séculos. A resposta para mim é
simples e me contento com ela. Não pelo pra-
zer da ignorância, antes como uma confissão
de meu limite dentro da esfera do revelado
na Escritura: não sei. O meu não saber não invalida o fato, nem elimina a razão
de sua existência; apenas, resume uma ignorância pessoal. E mais: a ignorân-
cia nunca deve se servir de um artifício ardiloso, pretensamente humilde que
esconde a arrogância do saber o não-saber.
A Palavra relata que Adão e Eva, criados em perfeita retidão, tendo perfeita liber-
dade de escolha optaram por desobedecerem a Deus e comeram da árvore do bem
e do mal que lhes fora expressamente proibida por quem tinha poderes para fazê-lo
(Gn 2,15-17). No Paraíso, Satanás, que por sua própria existência é uma ironia de
toda lógica racional, tentou os nossos primeiros pais por meio do desejo, que certa-
mente de alguma forma cultivavam, de serem iguais a Deus. A própria existência de
Satanás é uma ironia de toda lógica humana. Eles se esqueceram de todo o histórico
de sua relação com o Deus fiel, amoroso, justo e sábio; o seu desejo falou mais alto
aos seus corações. O desejo ainda que por vezes momentâneas tende a eternizar-se na
brevidade de seu ardor. Aqui eles conceberam o que pode ser chamado de mal moral.
Paulo interpretando o acontecimento histórico registrado em Gênesis, diz:
“Mas receio que, assim como a serpente enganou (™xapat£w = desviou, sedu-
ziu, desencaminhou) a Eva com a sua astúcia (panourg…a = “ardil”, “truque”,

O Homem Caído: A Imagem Desfigurada


114 UNIDADE II

“maquinação”, “trapaça”), assim também sejam corrompidas as vossas mentes,


e se apartem da simplicidade e pureza devidas a Cristo” (2Co 11,3). Novamente:
“A mulher, sendo enganada, (˜xapat£w) caiu em transgressão” (1Tm 2,14).
Conforme estudamos, o verbo grego tem o sentido de enganar completa-
mente, conseguindo totalmente o seu objetivo. Deste modo, Eva, segundo o texto
nos diz, foi completamente enganada por Satanás. Ele se vale de várias estraté-
gias. Quando encontra resistência aqui, tentará por ali. Se ainda não der certo,
irá por lá. Não sendo bem-sucedido, combina os métodos e se vale de circuns-
tâncias. Assim, quando Eva cede à tentação, está plenamente convencida de que

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
o que faz é certo dentro de seus objetivos duvidosos.
Então, podemos concluir que a certeza subjetiva não significa, necessaria-
mente, a correta interpretação dos fatos. Satanás enganou Eva e Adão. Após isso,
fê-los crer que a mentira em que creram era a verdade. Satanás, que tem pretensões
divinas, fez com que Eva o seguisse e Adão seguisse a ela. Ninguém seguiu a Deus.
O caos se instalara. Nossos primeiros pais demonstraram que acompanharam um
novo senhor. As consequências viriam de forma intensamente perceptíveis. A pro-
ximidade de Satanás os afastaria cada vez mais de Deus, e, no tempo próprio, que
não demoraria, eles se esconderiam da presença do Senhor (Gn 3,8-10). A estada
abençoadora e alegre de Deus, no cair da tarde, tornou-se terrificante e assom-
brosa. Deus continuava a ser o mesmo. O homem, no entanto, não.
O pecado nos afasta de Deus, e rejeita a sua presença que, por si só, revela a nossa
condição de desobediência, e torna notória a nossa infelicidade conquistada auto-
nomamente. Na realidade, Eva e Adão desejaram ser independentes. Eles quiseram
ter um conhecimento autônomo, sem Deus. Outrossim, queriam ser iguais a Deus,
autossuficientes. O limite é, com frequência, o atrativo maior do desejado. Entretanto
ao mesmo tempo, o limite é o teste de nossa fidelidade e caminho de crescimento.
Na insinuação diabólica há sempre uma tentativa em apontar que o nosso
caminho, a nossa opção é a melhor. A sua proposta sempre se configurará como
a mais lógica e atraente. A desobediência a Deus de fato é, com frequência, o
caminho que nos parece mais objetivo e prático, além de encontrarmos uma incli-
nação natural para ele. No entanto, a vontade de Deus para nós é que resistamos
a estas tentações e continuemos crendo em Deus e na sua Palavra, seguindo a
rota proposta - o caminho de vida por ele traçado para nós.

HOMEM: IMAGEM E SEMELHANÇA DE DEUS


115

A heresia, normalmente, surge assim: Satanás, que cita a Palavra de Deus,


insinua que há algo mais profundo e rápido do que o árduo estudo das Escrituras.
Ele propicia “revelações especiais”, sonhos, “luz interior”. Ele nos diz que por inter-
médio destes meios podemos chegar a conhecer mais do que todos os homens.
Que finalmente descobrimos o “método” de Deus para o nosso “crescimento espi-
ritual”, para adquirir uma visão mais abrangente do mundo que nos circunda.
Satanás é o grande divulgador da “autoajuda”. Faça você mesmo sem necessi-
dade de Deus e da sua Palavra. Esta é a sua insinuação.
Satanás, furtivamente, se move sobre nós e gradualmente nos alicia por
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

meio de artifícios secretos, de modo tal que quando chegamos a extra-


viar-nos, não nos apercebemos de como o fizemos. Escorregamo-nos
gradualmente, até finalmente nos precipitarmos na ruína (CALVINO,
1999, p. 153-152).

O alvo constante de Satanás é a Palavra de Deus. Ele procura tirá-la de nós, ou,
senão, dar-nos uma visão distorcida do seu teor. No seu argumento, sempre há
algo de verdadeiro, contudo a sua dialética, que pode se valer das Escrituras, tem
um referencial totalmente excludente em que ele dilui muito bem a fim de nos
dar a impressão de que a sua conclusão é coerente com a Palavra. Como bem
disse Bonhoeffer (1906-1945), o diabo tenta fazer com que o homem acredite
que pode viver sem ouvir a palavra de Deus, o que é uma fraude.
Com este propósito ele também age por intermédio de falsos mestres, dizen-
do-nos que pode nos levar à verdade plena muito superior à que nos é proposta
pela Escritura. Foi isto que ocorreu na Igreja de Corinto: os falsos mestres usa-
dos por Satanás fizeram muitos crentes acreditarem que o apóstolo Paulo era
desprezível, portanto, não poderia dar-lhes ensinamento profundo. Nós, hoje,
sabemos quanto sofrimento o fato trouxe à Igreja e a Paulo, quanta dor e des-
vios doutrinários e, consequentemente, um distanciamento de Deus ocasionou.
Satanás sempre objetiva nos afastar de Deus e, quando creditamos as suas insi-
nuações, ele consegue o seu objetivo.
O pecado é enganoso, dá-nos a impressão, em um primeiro momento, de
plena e completa satisfação. Ele tende a satisfazer os nossos desejos mais ime-
diatos, muitos deles até legítimos em determinadas circunstâncias – ainda que
nem sempre – no entanto, fornece-nos caminhos que conflitam com a Palavra

O Homem Caído: A Imagem Desfigurada


116 UNIDADE II

de Deus, que nos conduzem ao fracasso ou à perda da oportunidade de nosso


amadurecimento, da lapidação do nosso caráter e vida espiritual.
Na narrativa bíblica da Criação, lemos: “Do solo fez o SENHOR Deus brotar
toda sorte de árvores agradáveis à vista e boas para alimento; e também a árvore da
vida no meio do jardim e a árvore do conhecimento do bem e do mal ([r;)(ra`)” (Gn
2,9). Lemos também a respeito da proibição divina aos nossos primeiros pais: “E o
SENHOR Deus lhe deu esta ordem (hw'c)' (tsavah): De toda árvore do jardim comerás
livremente, mas da árvore do conhecimento do bem e do mal ([r;)(ra`) não come-
rás; porque, no dia em que dela comeres, certamente morrerás” (Gn 2,16-17). Eles

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
desobedeceram. A chave da questão não está na árvore, antes, na desobediência à
ordem de Deus: “Perguntou-lhe Deus: Quem te fez saber que estavas nu? Comeste
da árvore de que te ordenei (hw'c)' (tsavah) que não comesses?” (Gn 3,11).
Observe a ênfase dada à ordem divina. Somente Deus tem autoridade para
estabelecer leis e critérios para a sua criação. Na realidade, pouco importaria para
Deus o que o homem comeria no Jardim do Éden, exceto pelo fato de ele estabe-
lecer a sua proibição como sinal de sua autoridade absoluta, demarcando o limite
que caracterizaria a obediência ou não do homem e da mulher, suas criaturas.
Apesar de o pecado ter comprometido, de forma gravíssima todas as faculda-
des originais do ser humano, o homem não deixou de ser a imagem e semelhança
de Deus – porque isto implicaria em deixar de ser homem. Nele “esses atribu-
tos ainda estão presentes em ‘pequenas reservas’ remanescentes da sua criação”
(BAVINCK, 2001, p. 18). Contudo, ele se tornou uma imagem desfigurada, per-
vertida, desfocalizada, mais propriamente uma “caricatura” do seu Criador. Em
outras palavras: continuamos sendo homens, ainda que em franca rebelião con-
tra Deus. Perdemos, assim, algo de nossa humanidade.
Agora, a sua maneira de perceber a realidade e responder a ela passou por
uma mudança drástica, sofreu uma virada antropológica. O homem deseja satis-
fazer unicamente seus interesses. A realidade tornou-se egorreferente. A condição
de pecador é a expressão negativa por livre escolha, de ser e existir criado à ima-
gem de Deus. A consciência da escolha torna-se real e relevante na condição de
pecador. Na obediência em amor, não ocorre à possibilidade da desobediência.
O pecado nos identifica como criados à imagem de Deus e, ao mesmo tempo,
como alguém que usou terrivelmente deste privilégio.

HOMEM: IMAGEM E SEMELHANÇA DE DEUS


117

Calvino (1509-1564), comentando esse assunto, disse que,


[...] quando de seu estado [original] decaiu Adão, não há mínima dúvi-
da de que por esta defecção se haja alienado de Deus. Pelo que, embora
concedamos não haja sido nele aniquilada e apagada de todo a imagem
de Deus, foi ela, todavia, corrompida a tal ponto que, o que quer que
resta, é horrenda deformidade (CALVINO, 2006).

O pecado como consequência da desobediência voluntária do homem (Gn 3,1-


6; Is 48,8; Rm 1,18-32), trouxe sobre ele efeitos danosos, tornando-o necessitado
de salvação que estava além de sua capacidade em obtê-la. Analisemos agora o
significado do pecado e as suas consequências.
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

O SIGNIFICADO DO PECADO

O Catecismo Menor de Westminster define bem a questão: “Pecado é qualquer falta


de conformidade com a lei de Deus, ou qualquer transgressão desta lei” (CMW,
on-line)5 (Vejam-se: Tg 2,10; 4,17; 1Jo 3,4). Pecar significa agir de maneira con-
trária aos princípios expressos por Deus em sua Palavra. No pecado de nossos
primeiros Pais, encontramos a expressão da falta de amor por Deus que já cul-
tivavam em seus corações.

O PECADO É UNIVERSAL

Todos pecaram. O homem além de não querer, nada pode fazer para deixar de pecar.
Após a queda, a natureza humana se corrompeu total e intensamente, e estendeu essa
contaminação a todas as áreas da sua vida. A transgressão trouxe um quadro de irre-
versibilidade pecaminosa que se perpetuou em todos os seres humanos. Ou seja: o
homem continuou nesta prática (Gn 6,5; 8,21; Is 64,6; Rm 3,9-12). A Escritura nos
fala que o pecado, comum a todos nós (Rm 3,23), nos fez cativos (Jo 8,34; Rm 6,20;
7,23), habitando em nós (Rm 7,17.20), mantendo-nos sob o seu domínio. Negar a
nossa condição de pecadores é negar a própria Palavra de Deus, que diz: “Se disser-
mos que não temos cometido pecado, fazemo-lo mentiroso e a sua palavra não está
em nós” (1Jo 1,10). “Não ser consciente de pecado algum é o pior pecado de todos”.

O Homem Caído: A Imagem Desfigurada


118 UNIDADE II

O pecado é o grande nivelador de toda a humanidade: todos pecaram. Logo,


não há lugar para arrogância ou supostas boas obras justificadoras (Rm 3,19-20).
Se todos pecaram, isso significa que nós também pecamos; se todos precisam de
salvação, significa que nós também precisamos. “Pecado não é algo peculiar a uns
poucos, senão que permeia o mundo inteiro” (CALVINO, 1998, p. 52). O pecado
nos impossibilita totalmente de nos salvar a nós mesmos. Na Oração do Senhor
temos um indicativo da universalidade do pecado. “O fato de Jesus ensinar a todas
as pessoas a fazerem esta oração demonstra a universalidade do pecado; e para
repetir esta oração se requer um sentido de pecado” (BARCLAY, 1985, p. 118).

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
A COMUNHÃO COM DEUS FOI INTERROMPIDA

O pecado gerou a separação entre o homem e o Deus Santo, Justo, Puro e Sublime
(Is 59,2). O homem encontra-se em um estado de rebelião contra Deus (Is 65,2).

O HOMEM ESTÁ MORTO

O pecado como algo universal, trouxe como justo pagamento, a morte de todos:
o salário do pecado é a morte (Rm 5,12; 6,23). “A sentença que foi imposta como
resultado do pecado de Adão inclui mais do que a mera decomposição do corpo.
A palavra ‘morte’, tal como é usada nas Escrituras com referência às consequ-
ências do pecado, inclui todas as formas de mal que são infligidas como castigo
desse pecado. (...) Significa, pois, a miséria eterna do inferno (...) juntamente
com o antegozo dessas misérias que são os males e penalidades que passamos
neste mundo” (BOETTNER, [s.d.], p. 20-21).
A Bíblia nos fala de três tipos de morte decorrentes do pecado:
Morte Física: separação da alma e corpo, pela qual todos os homens − com
exceção dos que estiverem vivos quando Cristo retornar em Glória − terão de
passar (Ec 12,7; 1Co 15,51-52; Hb 9,27). Adão e Eva ao desobedecerem a Deus,
tiveram a sua sentença de morte decretada. Eles morreram espiritualmente de
imediato, e ficaram separados de Deus. Todavia a morte física, que veio também

HOMEM: IMAGEM E SEMELHANÇA DE DEUS


119

como consequência do pecado (Gn 2,16-17; 3,11-24; Rm 5,12), não foi imedia-
tamente executada, porque Deus usou de sua graça comum, protelou, adiou a
plena execução da sua sentença (Gn 3,15-19), e concedeu oportunidade para o
arrependimento do homem (Textos que ilustram este princípio: Is 48,9; Jr 7,23-
25; Lc 13,6-9; Rm 2,4; 9,22; 2Pe 3,9). Entretanto, o seu juízo entrou em processo
de concretização, tornando a vida uma caminhada para a morte. A condenação
de Deus indica como Deus leva a sério o pecado.
O pecado passou a ser o selo de todas as suas obras: “Viu o SENHOR que
a maldade do homem se havia multiplicado na terra e que era continuamente
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

mau ([r;)(ra`) todo desígnio do seu coração” (Gn 6,5). Desde então, o pecado
sujeitou o homem ao juízo histórico e eterno (Mt 5,21-22; 12,36; Rm 5,16; 1Tm
5,24); por isso, parte deste juízo já é manifesto nesta vida (Jo 3,16-18), mas
não totalmente; daí a perplexidade de alguns servos de Deus em determinados
momentos da história, quando o mal parece oprimir e esmagar o bem (Sl 73,1-
14; Hc 1,1-17; Ml 3,14-15).
As consequências não foram simples e visivelmente imediatas. Elas ainda
apareceriam. A natureza humana foi corrompida. O juízo de Deus entrou em
processo de concretização, e tornou a vida uma caminhada para a morte. O
processo de morte entrou em cena na vida humana. A morte soa como algo
anormal, contrária ao nosso desejo de viver. O nosso desejo vislumbra a perpe-
tuidade da vida; os nossos esforços se concentram neste ideal, enquanto que o
nosso organismo caminha de forma cada vez mais célere para o fim. Esta é a ter-
rível geografia da humanidade. “O que distingue os humanos de todas as outras
criaturas é a autoconsciência. Sabemos que estamos vivos e que morreremos, e
não conseguimos deixar de questionar por que a vida é assim e qual é o seu sig-
nificado” (COLSON; FICKETT, 2008, p. 20).
Morte Espiritual: interrupção da comunhão com Deus. O pecado gerou a
quebra de nossa comunhão com Deus. Isto significa a nossa morte espiritual. A
vida está em Deus. Sem comunhão com ele estamos mortos (Is 59,2; Ef 2,1.5; Cl
2,13), expressando em nossa vida, paradoxalmente, as propriedades próprias de
um cadáver. “Uma vez que, de acordo com as Escrituras, o significado mais pro-
fundo da vida é a comunhão com Deus, o significado mais profundo da morte
tem de ser a separação de Deus”, conclui Hoeksema (1989, p. 108).

O Homem Caído: A Imagem Desfigurada


120 UNIDADE II

Morte Eterna: a interrupção eterna e definitiva da comunhão com Deus.


Os homens que morrem fisicamente e em estado de mortos espiritualmente,
estão mortos eternamente para Deus, e não têm mais oportunidade de arrepen-
dimento (Hb 9,27).
Em síntese, o pecado lançou o homem em uma disposição de miséria espi-
ritual contra o qual ele nada pode fazer (Mt 19,25.26; Gl 2,16; Ef 2,9). Isto torna
todos os homens dependentes, única e exclusivamente, da salvação de Deus
manifestada em Cristo.

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
DEPRAVAÇÃO TOTAL

Após a Queda, prolifera o pecado. Nossos pais, Adão e Eva geram filhos à sua
imagem caída: “Viveu Adão cento e trinta anos, e gerou um filho à sua semelhança,
conforme a sua imagem, e lhe chamou Sete” (Gn 5,3). E assim se sucedeu com
os filhos de seus filhos, até à nossa geração (Gn 8,21; Sl 50,5; 58,3). “Agora não
nascemos tais como Adão fora inicialmente criado, senão que somos a semente
adulterada do homem degenerado e pecaminoso” (CALVINO, 1998, p. 56). Em
outro lugar, Calvino comenta com maestria:
Ao dizer que Sete gerou um filho conforme sua própria imagem, em par-
te a referência é à primeira origem de nossa natureza; ao mesmo tempo
deve-se notar sua corrupção e poluição, as quais, sendo contraídas por
Adão, por sua queda, inundou toda sua posteridade. Se permanecesse
íntegro, teria transmitido a todos os seus filhos o que havia recebido; ago-
ra, porém, lemos que Sete, bem como os demais, foi maculado, porque
Adão, que decaíra de seu estado original, a ninguém podia gerar senão
seres semelhantes a ele próprio (CALVINO, 1998, p. 56).

O pecado atingiu a toda a humanidade e corrompeu o homem inteiro: o intelecto,


à vontade e a faculdade moral de toda a raça humana. Por isso, o homem está
morto espiritualmente, e em posição de escravo (Gn 6,5; 8,21; Is 59,2; Jo 8,34.43.44
Rm 3,9-12.23; Ef 2,1.5; Cl 1.13; 2.13) e, nada pode fazer – e na realidade nem
sequer deseja – para retornar à comunhão perdida. Como disse o Senhor Jesus
Cristo: “Em verdade, em verdade vos digo: todo o que comete pecado é escravo
do pecado” (Jo 8,34) (Vejam-se: Is 64,6; Rm 6,6). Agora “o homem peca com o
consentimento de uma vontade pronta e disposta”. A depravação total humana

HOMEM: IMAGEM E SEMELHANÇA DE DEUS


121

é justamente isto: a contaminação de todas as nossas faculdades pelo pecado.


Perdemos totalmente a nossa capacidade de percepção espiritual. As cousas de
Deus soam como loucura (1Co 1,18-21; 2,6-8; 12-16).
A nossa lógica tão hábil para desvendar os mistérios do saber e desmantelar
sofismas mostra-se totalmente inadequada e incapaz para perceber a realidade
da Palavra que nos fala de Deus e do que somos. O homem pelo seu próprio
conhecimento não pode conhecer a Deus. É por isso que a loucura de Deus, que
tanto humilha o homem em sua tentativa de autossuficiência, é o caminho esta-
belecido por Deus para conhecê-lo salvadoramente (1Co 1,21).
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

O intelecto do homem está de fato cegado, envolto em infinitos erros e sem-


pre contrário à sabedoria de Deus; a vontade, má e cheia de afeições corruptas,
odeia a justiça de Deus; e a força física, incapaz de boas obras, tende furiosa-
mente à iniquidade (CALVINO, 2003, p. 15).
Ainda que o homem não seja absolutamente mau − não é tão mau quanto
poderia − é extensivamente mau; todo o seu ser está contaminado pelo pecado.
O pecado nos domina completamente. Na linguagem do profeta Isaías, “toda a
cabeça está doente e todo o coração enfermo. Desde a planta do pé até à cabeça
não há nele cousa sã, são feridas, contusões e chagas inflamadas, umas e outras
não espremidas, nem atadas, nem amolecidas com óleo” (Is 1.5-6).
Não teremos uma ideia adequada do domínio do pecado, a menos que
nos convençamos dele como algo que se estende a cada parte da alma,
e reconheçamos que tanto a mente quanto o coração humanos se têm
tornado completamente corrompidos (CALVINO, 1999, p. 431).

Calvino, interpretando Rm 8,7, diz:


[...] nada, senão a morte, procede dos labores de nossa carne, visto que
os mesmos são hostis à vontade de Deus. Ora, a vontade de Deus é a
norma da justiça. Segue-se que tudo quanto seja contrário a ela é injus-
to; e se é injusto, também traz, ao mesmo tempo, a morte. Contempla-
mos a vida em vão, caso Deus nos seja contrário e hostil, pois a morte,
que é a vingança da ira divina, deve necessariamente seguir de imediato
a ira divina (CALVINO, 1999, p. 266-267).

O homem foi criado essencialmente como ser social. O pecado alienou-nos de


Deus, de nós mesmos, do nosso semelhante e da natureza. Com a queda o pecar
tornou-se “humano” e isso, biblicamente, é desumano. Assim, o pecado, de certa

O Homem Caído: A Imagem Desfigurada


122 UNIDADE II

forma, desumanizou-nos. A Queda trouxe consequências desastrosas à imagem de


Deus refletida no homem. Após a queda, mesmo o homem não regenerado conti-
nua sendo imagem e semelhança de Deus (aspecto metafísico): apesar de o pecado
ter sido devastador para o homem, Deus não apagou a sua “imagem”, ainda que a
tenha corrompida, alienando-o, assim, de sua identidade divina original. O pecado
trouxe como implicação a perda do aspecto ético da imagem de Deus. A nossa
vontade, como agente de nosso intelecto, agora, é oposta à vontade de Deus. O
propósito divino de santidade para nós foi contraposto pelo desejo pecaminoso do
homem de seguir seu próprio caminho à revelia de Deus e de seus mandamentos.

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
Observemos aqui que a vontade humana é em todos os aspectos oposta à
vontade divina, pois assim como há uma grande diferença entre nós e Deus,
também deve haver entre a depravação e a retidão. A imagem que agora
refletimos estampa mais propriamente o caráter de Satanás.
Fonte: Turretini (2011, p. 588).

O homem está eticamente sob o domínio dele. Calvino é enfático ao retratar a


depravação humana:
Portanto, que os homens reconheçam que, conquanto são nascidos de
Adão, são criaturas depravadas, e por isso só podem conceber pensa-
mentos pecaminosos, até que se tornem nova feitura de Cristo, e sejam
formados por seu Espírito para uma nova vida. E não se deve nutrir dúvi-
da de que o Senhor declara que a própria mente do homem é depravada
e totalmente infectada com pecado; de modo que todos os pensamentos
que procedem daí são maus. Se tal é o defeito na própria fonte, segue-se
que todos os afetos humanos são maus e suas obras cobertas com a mes-
ma poluição, visto que, necessariamente, têm laivos de seu original.

Porquanto Deus não diz meramente que os homens às vezes pensam


mal; mas a linguagem é sem fronteira, circunscrevendo a árvore com
seus frutos. (...) Pois visto que sua mente seja corrompida com descaso
de Deus, com orgulho, amor próprio, ambição, hipocrisia e fraude, ela
não pode proceder de outra forma, senão que todos os seus pensamen-
tos se acham contaminados com os mesmos vícios. Além disso, não

HOMEM: IMAGEM E SEMELHANÇA DE DEUS


123

podem tender para um fim correto; donde sucede devam ser julgados
como sendo o que realmente são: pervertidos e perversos. Pois tudo
quanto há em tais homens, que nos deleita sob o matiz de virtude, é
como o vinho deteriorado pelo odor do tonel. Porque (como já se dis-
se) as próprias afeições da natureza, que em si mesmas são louváveis,
contudo estão viciadas pelo pecado original, e, em razão de sua irre-
gularidade, têm se degenerado de sua natureza peculiar; tal é o amor
mútuo de pessoas casadas, o amor de pais para com seus filhos, e daí
por diante. E a cláusula adicionada, ‘desde sua mocidade’, declara mais
plenamente que os homens já nascem maus; a fim de mostrar que, tão
logo atingem a idade em que começam a formar pensamentos, já reve-
lam a corrupção radical da mente. (...)
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

Devemos, pois, aquiescer ao juízo de Deus, o qual pronuncia o homem


como estando tão escravizado pelo pecado, que não pode produzir
nada são e sincero. Todavia, ao mesmo tempo devemos recordar que
não se deve lançar nenhuma culpa sobre Deus por aquilo que tem sua
origem na defecção do primeiro homem, pela qual a ordem da criação
foi subvertida. E, além do mais, deve-se notar que os homens não são
isentados de culpa e condenação mediante o pretexto desta servidão;
porque, embora todos se apressem para o mal, contudo não são im-
pelidos por qualquer força extrínseca, e sim pela inclinação direta de
seus próprios corações; e, por fim, pecam não de outro modo, senão
voluntariamente (CALVINO, 1981, p. 284-286).

Por intermédio de Isaías, Deus faz uma analogia extremamente forte para ilus-
trar a nossa situação. Ele toma dois animais difíceis de trato: o boi e o jumento.
Mostra que a obtusidade, a teimosia e a dificuldade de condução destes animais
dão-se pela sua própria natureza. No entanto, assim mesmo, eles sabem reco-
nhecer os seus donos, aqueles que lhes alimentam. O homem, por sua vez, como
coroa da criação, cedendo ao pecado, perdeu totalmente o seu discernimento
espiritual. Já não reconhecemos nem mesmo o nosso Criador, antes lhe voltamos
as costas e prosseguimos em outra direção: “O boi conhece o seu possuidor, e o
jumento, o dono da sua manjedoura; mas Israel não tem conhecimento, o meu
povo não entende. Ai desta nação pecaminosa, povo carregado de iniquidade,
raça de malignos, filhos corruptores; abandonaram o SENHOR, blasfemaram
do Santo de Israel, voltaram para trás” (Is 1,3-4).
Com o pecado, o homem tornou-se positivamente mau (Gn 6,5; 8,21; Mt
7,11) e incapaz de:

O Homem Caído: A Imagem Desfigurada


124 UNIDADE II

Fazer o Bem: o homem é mau, por isso não pode produzir bons frutos (Jó
14,4; Jr 13,23; Mt 7,17-18; Jo 15,4-5; Rm 3,9-18). Diante do escrutínio per-
feito de Deus, os atos de “bondade” praticados pelo homem natural, são
frutos da Graça Comum de Deus que atua sobre todos indistintamente.
Entender o Bem: se Deus não iluminar o homem natural, ele jamais com-
preenderá a mensagem salvadora do Evangelho: nós um dia fomos salvos
porque Deus abriu os nossos olhos para a sua Palavra (Jo 1,11; 8,43-44;
At 16,14; 1Co 2,14; Sl 119,18; 1Jo 4,5-6). O conhecimento que Adão e Eva
passaram a ter após o pecado, foi virtualmente diferente (Gn 2,25; 3,7);
nada havia ali de um “conhecimento salvador”.

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
Calvino (1509-1564) resume:
No tocante ao reino de Deus e a tudo quanto se acha relacionado à vida
espiritual, a luz da razão humana difere pouquíssimo das trevas; pois,
antes de ser-lhe mostrado o caminho, ela é extinta; e sua perspicácia
não é mais digna que a cegueira, pois quando vai em busca do resulta-
do, ele não existe. Pois os princípios verdadeiros são como as centelhas;
essas, porém, são apagadas pela depravação da natureza antes que se-
jam postas em seu verdadeiro uso (CALVINO, 1998, p. 134-135).

Desejar o Bem: o homem natural, além de não fazer e não entender o


bem, nem sequer o deseja. A sua vontade está sob o domínio tirânico
do pecado e, por isso, quando o homem deseja a Cristo sinceramente, já
indica a ação primeira de Deus: a iniciativa é sempre de Deus (Mt 7.18;
Jo 3.3; 5.40; Jo 6.44,65; 8.43; 15.4-5). Hodge (1823-1886), diz:
Sua essência está na inabilidade da alma de conhecer, escolher e amar
o que é bom espiritualmente, e seu fundamento está nessa corrupção
moral da alma que a torna cega, insensível e totalmente adversa para
tudo quanto é bom espiritualmente (HODGE, 1895).

Desta forma, todas as escolhas “livres” do homem natural estão na realidade a


serviço do pecado, como escreveu Seaton: “Somos como Lázaro em seu túmulo,
mãos e pés amarrados; fomos tomados pela corrupção. Assim como não havia
qualquer lampejo de vida no corpo morto de Lázaro, assim também não há ‘cen-
telha interna receptiva’ em nossos corações” (SEATON, s.d., p. 8). No entanto
nos parece pertinente à constatação de Calvino:

HOMEM: IMAGEM E SEMELHANÇA DE DEUS


125

Deus, ao criar o homem, deu uma demonstração de sua graça infinita


e mais que amor paternal para com ele, o que deve oportunamente ex-
tasiar-nos com real espanto; e embora, mediante a queda do homem,
essa feliz condição tenha ficado quase que totalmente em ruína, não
obstante ainda há nele alguns vestígios da liberalidade divina então de-
monstrada para com ele, o que é suficiente para encher-nos de pasmo
(CALVINO, 1999, p. 173-174).

A NOSSA RESTAURAÇÃO POR GRAÇA EM CRISTO


Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

Um dos ensinamentos basilares do cristianismo é que Deus decidiu vir


onde estamos. Em vez de esperar que o encontremos, ele vem até nós.
Há quem pense que a religião é como subir uma escada para encontrar
Deus. Contudo, o cristianismo afirma que Deus resolveu descer aquela
escada para nos encontrar e depois nos levar para casa exultantes (MC-
GRATH, 2001, p. 58).

A liberdade é um dos atributos da soberania. Deus é soberano e, por isso mesmo,


é livre na manifestação da sua graça. Aliás, este conceito é fundamental à ideia
bíblica de graça, pois, se a graça não fosse livre, não seria graça. Graça que é obri-
gatória não é graça, é obrigação. Deus tem misericórdia de quem lhe aprouve
(Ex 33,19). “A graça é absolutamente livre de toda a nossa influência, ou então
não é graça de modo algum” (BOOTH, 1986, p. 14). Deus nos olha com graça,
porque assim o decidiu. O homem não pode exercer nenhuma influência sobre
tal deliberação, todavia, Deus é gracioso para com o homem, porque determi-
nou em si mesmo considerar a necessidade do seu povo manifestando esta sua
santa perfeição. Nesse contexto, o homem é totalmente passivo. Como morto,
está inerte, inerme e em estado de putrefação espiritual.
Packer, corretamente declarou:
A graça é livre, no sentido de ser autooriginada e de proceder de Al-
guém que podia ou não conceder graça. Somente quando se percebe
que o que decide o destino do homem é o fato de Deus resolver ou não
salvá-lo de seus pecados – sendo esta uma decisão que Ele não é obri-
gado a tomar em nenhum caso – é que se começa a apreender a ideia
bíblica da graça (PARCKER, 1989, p. 119).

O Homem Caído: A Imagem Desfigurada


126 UNIDADE II

Se Deus, soberana e livremente estabelecesse a Lei como sendo o caminho da graça -


embora saibamos que a doação da Lei é por si só uma manifestação da graça divina
- a graça continuaria sendo graça. Todavia não haveria salvação para o homem, já
que o padrão de Deus é a perfeição. A graça reina livremente justamente por ser
soberana: “A fim de que, como o pecado reinou pela morte, assim também reinasse
a graça pela justiça para a vida eterna, mediante Jesus Cristo, nosso Senhor” (Rm
5,21). “Acheguemo-nos, portanto, confiadamente, junto ao trono da graça, a fim
de recebermos misericórdia e acharmos graça para socorro em ocasião oportuna”
(Hb 4,16). (Vejam-se: 1Rs 8,23; Is 55,3; Jr 9,24; Rm 3,24; 9,15-18) (grifos meus).

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
Paralelas: a graça que se manifesta em obra

[...] na cruz de Cristo, como num magnificente teatro, a inestimável


bondade de Deus é exibida diante do mundo inteiro. Em todas as cria-
turas, de fato, tanto elevadas quanto humildes, a glória de Deus res-
plandece, porém em parte alguma ela resplandeceu mais gloriosamente
do que na cruz, no fato de que ali houve uma extraordinária mudança
de coisas, sendo ali manifesta a condenação de todos os homens, o pe-
cado sendo apagado, a salvação sendo restaurada nos homens; e, em
suma, o mundo inteiro foi renovado e cada coisa restaurada à boa or-
dem” (CALVINO, 1981, p. 73).

“Somente quando a soberania e a graça de Deus são mantidas em equilíbrio ade-


quado, a teologia reformada é fiel ao ensino da Escritura e aos seus melhores
instintos” (MCGOWAN apud LOGAN JR., 2015, p. 247). Jesus Cristo é a personi-
ficação da graça. Ele encarna a graça e a verdade. Nele encontramos o fundamento
do que é verdadeiro: Ele é a verdade eterna que valida o que é, desmistificando os
nossos padrões equivocados e, por isso mesmo, transitórios de verdade e, também,
cumpre as promessas de Deus em graça (Jo 1,17; 14,6). Ele é a causa, o conteúdo
e a manifestação da graça de Deus. Falar de Cristo é falar da graça.

HOMEM: IMAGEM E SEMELHANÇA DE DEUS


127

Os profetas do Antigo Testamento falavam de uma salvação futura que


ocorreria pela graça (1Pe 1,10). Jesus Cristo, a graça de Deus encarnada, veio
na plenitude do tempo (Gl 4,4), na plenitude da graça (2Tm 1,9; Jo 1,16; 1Co
1,4; Ef 1,6.7; 2Tm 2,1). A autoentrega de Jesus pelos pecados dos pecadores
eleitos foi um dom da graça que fora profetizada (1Pe 1,10-11; Rm 5,15; Hb
2,9). A pobreza assumida por Cristo revela a riqueza da sua graça (2Co 8.9).
Deste modo, somente ele nos dá acesso à graça (Hb 4,14-16), convidando-
-nos: “Vinde a mim” (Mt 11,28). Por isso, como vimos, Jesus Cristo se encar-
nou a fim de que Deus pudesse ser justo, e ao mesmo tempo o justificador
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

daqueles que confiam em Jesus para salvação (Rm 3,26). Ele se tornou para
os que creem em justiça, santificação e redenção (1Co 1,30). “O Cristianismo
se distinguiu unindo justiça e amor na cruz”.
Fonte: Bavinck (2012, p. 179).

Calvino resume bem a relação entre o Deus soberano e gracioso revelado de


forma plena em Seu Filho, Jesus Cristo:
Visto que todo homem é indigno de se dirigir a Deus e de se apresentar
diante de Sua face, a fim de nos livrar da vergonha que sentimos ou que
deveríamos sentir, o Pai celeste nos deu Seu Filho, o nosso Senhor Jesus
Cristo, para ser o nosso Mediador e Advogado para com Ele, para que,
por meio dele, pudéssemos aproximar-nos livremente dele (1Tm 2.5;
1Jo 2.1; Hb 8.6 e 9.15).
Com isso nos certificamos de que, tendo tal Intercessor, o qual não
pode ser recusado pelo Pai, também nada nos será negado de tudo o
que pedirmos em Seu nome (Hb 4.14-16). Seguros também de que o
trono de Deus não é somente trono de majestade, mas também de Sua
graça, podendo nós comparecer perante ele com toda a confiança e ou-
sadia, em nome do Mediador e Intercessor, para rogar misericórdia e
encontrar graça e ajuda, em toda necessidade que tivermos (CALVI-
NO, 2006, p.101-102).

A graça de Deus não é barata. Nós, muitas vezes, nos comportamos como filhos
que, amados e agraciados com presentes de seus pais, se esquecem de que se
aquilo que ganhamos foi “fácil”, “generoso”, sem mérito algum de nossa parte,
custou, muitas vezes, um alto preço para os pais: privação de adquirir outro bem
para si, filas, crediários, juros, economias etc. A graça de Deus tem outro lado,
que com frequência nos esquecemos: a obra sacrificial de Cristo.

O Homem Caído: A Imagem Desfigurada


128 UNIDADE II

É um erro lamentável julgar toda a verdade considerando apenas a parte que


nos compete do todo. A graça de Deus se evidencia nas obras da Trindade. O
Pacto da Graça, por meio do qual somos salvos, foi Pacto de Obras para Cristo.
A nossa salvação é muito cara, custou o precioso sangue de Cristo (1Pe 1,18-20/
At 20,28; 1Co 6,20). Como bem expressou Calvino:
Nós dizemos que [a Redenção] é gratuita para nós, mas não para Cris-
to, a quem custou altíssimo preço, uma vez que Ele pagou o resgate com
o seu santo e precioso sangue, porque não existe nenhum outro preço
que possa satisfazer à justiça de Deus (CALVINO, 2006, p. 237).

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
Isso, longe de apontar para o suposto valor inerente de nossas almas, revela o
amor gracioso de Deus que confere valor a nós. Deus não quebra a sua justiça por
amor, antes, cumpre a justiça em amor. A graça reina pela justiça (Rm 5,21). O
amor de Deus não desconsidera o pecado, antes o penaliza em Cristo, o Amado
(Ef 1,6-7), em quem temos a plenitude da graça do Deus Triúno. “De fato a graça
reina, mas uma graça reinante à parte da justiça não é apenas inverossímil, mas
também inconcebível” (MURRAY apud BAVINCK, 2012, p. 180-181). Abraham
Booth (1734-1806) escrevendo sobre este assunto, assim se expressou:
A graça de Deus está fundamentada na obediência perfeita e meritó-
ria de Cristo. Ainda que este perdão seja gratuito para os pecadores,
nunca devemos nos esquecer de que Cristo pagou um alto preço por
ele. Perdão para a menor das nossas ofensas só se tornou possível por-
que Cristo cumpriu as mais aflitivas condições – Sua encarnação, Sua
perfeita obediência à lei divina e Sua morte na cruz. O perdão que é
absolutamente gratuito ao pecador teve um alto custo para o Salvador.

A graça de Deus vem a nós não porque Deus revela o fato da Sua lei ser
quebrada por nós, mas porque a Sua lei foi plenamente satisfeita pelos
atos de justiça que Cristo fez a nosso favor. (...) Ele cumpriu perfeita-
mente a lei de Deus (BOOTH, 1986).

Causalidade amorosa: graça e paz

“Graça a vós outros e paz, da parte de Deus, nosso Pai, e do Senhor Jesus Cristo”
(Ef 1,2). Esta é uma saudação comum de Paulo em suas epístolas: “graça” (c
´árij) e “paz” (e'ir»nh). Sem dúvida não há início melhor. Começamos sempre

HOMEM: IMAGEM E SEMELHANÇA DE DEUS


129

pela graça. A paz com Deus só é possível pela graça. Aqui temos a essência do
Cristianismo. É impossível haver paz sem a consciência de nossa restauração à
comunhão com Deus, removendo assim toda a culpa do pecado e o medo da
punição divina. Watson (1620-1686) exulta: “A paz pode suavizar todas as nossas
aflições e transformar nosso fel em vinho. Quão feliz é uma pessoa justificada que
tem o poder de Deus para guardá-la e a paz de Deus para confortá-la” (WATSON,
2009, p. 268). Mas, o que significa graça? Graça pode ser definida como um favor
imerecido, manifestado livre e continuamente por Deus aos pecadores que se
encontravam em um estado de depravação e miséria espirituais, merecendo o
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

justo castigo pelos seus pecados (Rm 4,4/Rm 11,6; Ef 2,8,9).


Paulo destaca que a Graça é do Pai e do Senhor Jesus Cristo (Ef 1,2). O nosso
Deus é “O Deus de toda graça” (1Pe 5,10). A graça é uma das gloriosas perfei-
ções da Santíssima Trindade: Perfeição do Pai (Cl 1,2); Perfeição do Filho (Rm
16,20; Fm 25; Ap 22,21); Perfeição do Espírito Santo (Hb 10,29). A graça origi-
na-se em Deus mesmo, tornando-se a fonte de todas as suas bênçãos. Deus é
gracioso em si mesmo, independentemente de sua relação conosco. O que Deus
manifesta em sua relação com o seu povo, é a expressão exata daquilo que ele
é em si mesmo: a graça faz parte da essência de Deus. F. Baudraz está correto,
quando diz: “A graça divina não se separa de Deus, mas é uma relação pessoal
que Deus estabelece entre si mesmo e os homens: Ele os encara com favor e com
bondade” (BAUDRAZ apud VON ALLMEN, 1972, p. 157-158) (Vejam-se: Ex
34,6; Nm 14,18-19; 2Sm 7,15; Sl 31,16; 33,22; 42,8).
“A doçura da graça” de Deus é a tônica da sua relação com o seu povo. Tudo
que temos, somos e seremos, é pela graça (1Co 15,10). A riqueza da graça de Deus
se manifesta de modo superabundante em nós (2Co 9,14; Ef 1,7; 2,7). Todavia
ela não foi revelada em toda a sua plenitude, por isso, aguardamos o regresso
triunfante de Jesus Cristo, quando ele mesmo revelará a graça de forma mais
completa (1Pe 1,13), concluindo a nossa salvação (Fp 1,6/1Pe 1,3-5).
Tornando ao texto de Efésios, podemos observar que Paulo toma essas duas
palavras – Graça (= saúde), que era a saudação dos gregos e, Paz, saudação dos
judeus –, conferindo um sentido teológico: a paz é resultado da graça de Deus.
Notemos que nas saudações de Paulo, ele nunca inverte esta ordem: a paz com
Deus é resultado de sua própria graça. Devemos observar, contudo, que a paz

O Homem Caído: A Imagem Desfigurada


130 UNIDADE II

aqui, deve ser entendida como o equivalente hebraico, {Olf$ (shãlôm), “prospe-
ridade espiritual”. A paz como resultado da graça pressupõe um estado anterior
de inimizade. Conforme vimos, o pecado nos colocou em um estado de inimi-
zade, hostilidade e ódio para com Deus: estávamos separados de Deus (Is 59,2).
O homem encontrava-se em um estado de rebelião contra Deus (Is 65,2).
A graça de Deus concretiza-se em Cristo, por meio de seu sacrifício vicário.
Paulo diz que ele é a nossa paz:
Em Cristo Jesus, vós [gentios], que antes estáveis longe, fostes aproxi-
mados pelo sangue de Cristo. Porque ele é a nossa paz (e'ir»nh), o qual

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
de ambos fez um, e, tendo derribado a parede da separação que esta-
va no meio, a inimizade, aboliu, na sua carne, a lei dos mandamentos
na forma de ordenanças para que dos dois criasse, em si mesmo, um
novo homem, fazendo a paz (e'ir»nh), e reconciliasse ambos em um só
corpo com Deus, por intermédio da cruz, destruindo por ela a inimiza-
de. E, vindo, evangelizou paz (e'ir»nh) a vós outros que estáveis longe
[gentios] e paz (e'ir»nh) também aos que estavam perto [judeus]; por-
que, por ele, ambos temos acesso ao Pai em um Espírito (Ef 2.13-18).
(Ver: Cl 1.20-22).

Paulo ensina-nos que em Cristo passamos a ter paz com Deus e também com o
nosso próximo. Dentro do propósito imediato de Paulo, ele demonstra que os
gentios, distantes das promessas de Israel, e os judeus agora têm acesso livre a
Deus em Cristo, pelo mesmo e único Espírito. Notemos que em tudo isso a ini-
ciativa é de Deus. O Deus Triúno deseja a paz e providencia os meios para isso:
“Tudo provém de Deus, que nos reconciliou consigo mesmo por meio de Cristo
(...). Deus estava em Cristo reconciliando consigo o mundo...” (2Co 5.18,19). “A
cruz trouxe a paz, embora não houvesse paz na cruz. Foi uma cena caótica, mas a
cruz proporcionou a justiça que, por si só, traz a paz verdadeira” (MACARTHUR
JR., 2001, p. 57).
A graça que nos vem por Cristo Jesus propiciou de forma eficaz a nossa
reconciliação com Deus conduzindo-nos à paz. Agora, reconciliados com Deus,
vivemos em paz, confiando inteiramente em sua promessa. A paz da reconcilia-
ção conduz-nos à paz interior e, em todas as nossas relações:
Não há nenhuma paz genuína que seja desfrutada neste mundo senão
na atitude repousante nas promessas de Deus. Os que não lançam mão
delas podem ser bem sucedidos por algum tempo em abafar ou expul-

HOMEM: IMAGEM E SEMELHANÇA DE DEUS


131

sar os terrores da consciência, mas sempre deixarão de desfrutar do


genuíno conforto íntimo (CALVINO, 1999, p. 436).

A graça de Deus sempre antecede a paz. Fomos reconciliados com Deus por sua
graça. Somos, portanto, agraciados com a paz. “O primeiro e mais importante
aspecto desta paz com Deus não é a paz do nosso coração, mas o fato de que
Deus está em paz conosco” (SCHAEFFER, 2003, p. 123).

Dulcíssimo e eterno fruto: a graça e a salvação


Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

Lloyd-Jones (1996) expõe que:


A graça é o começo da nossa fé; a paz é o fim da nossa fé. A graça é o
manancial, a fonte, a origem. É aquele local particular da montanha do
qual o caudaloso rio que vocês veem rolando para o mar começa a sua
carreira; sem ela não haveria nada. A graça é a origem, a procedência e
a fonte de tudo o que há na vida cristã (LLOYD-JONES, 1996, p. 135).

Ao invés de ser um obstáculo para a evangelização, as doutrinas da graça


constituem uma explosiva motivação para o testemunho cristão de Jesus
Cristo.
(Steven J. Lawson)

Calvino, diz que a graça é um antídoto contra a corrupção de nossa natureza. Em


outro lugar: “O acesso à salvação a ninguém é vetado, por mais graves e ultrajan-
tes sejam seus pecados”. A nossa salvação é decorrente do Pacto da Graça, por
meio do qual Deus confiou o seu povo ao seu Filho para que ele viesse entre-
gar a sua vida por ele. Cristo deu a sua vida em favor de todos aqueles que o Pai
lhe confiara na eternidade (Is 42,6/2Tm 1,9; Jo 6,39; 17,1,6-26). Assim, todos os
homens – judeus e gentios – tanto no Antigo como no Novo Testamento foram
salvos pela graça. Assim, declara o Apóstolo Pedro: “Mas cremos que fomos
salvos pela graça do Senhor Jesus, como também aqueles o foram” (At 15,11).

O Homem Caído: A Imagem Desfigurada


132 UNIDADE II

Mérito e graça são conceitos que se excluem: “E, se é pela graça, já não é
pelas obras; do contrário, a graça já não é graça” (Rm 11,6). “A graça divina e o
mérito das obras humanas são tão opostos entre si que, se estabelecermos um,
destruiremos o outro”, conclui Calvino (1997, p. 138). Portanto, continua: “Que
se evapore, pois, o sonho daqueles que imaginam uma justiça mesclada de fé e
abras” (CALVINO, 2006). De fato, a graça tem sempre como pressuposto a indig-
nidade daquele que a recebe. A graça brilha nas trevas do pecado. Desta forma,
a ideia de merecimento está totalmente excluída da salvação por graça (Ef 2,8.9;
2Tm 1,9). Não há mérito humano na fé. É justamente aqui onde há certo incô-

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
modo para o ser humano. Apreciamos a graça. Contudo, ela vai de encontro ao
nosso orgulho e convencimento de merecimento. A salvação é pela graça. Esta
realidade reconhece, portanto, a glória como sendo de Deus, não do homem.
No nosso íntimo, estamos convencidos de que merecemos, nem que seja
a graça gratuita! Barth (1886-1968) coloca esta questão de forma elucidativa:
Nós não amamos viver pela graça; há sempre em nós alguma coisa que se
insurge violentamente contra a graça. Nós não amamos receber a graça,
nós amaríamos, no máximo, atribuí-la a nós mesmos. A vida humana
é feita desse vai e vem entre o orgulho e o desespero, que apenas a fé
pode eliminar. Se contar consigo mesmo, o homem não pode chegar a
ela, uma vez que não podemos, nós mesmos, nos libertar do orgulho e
da angústia. Se formos libertos é graças a uma ação que não depende de
nós (BARTH, 2006, p. 23).

A Palavra de Deus nos ensina que a nossa salvação é por Deus, porque é Ele quem faz
tudo; por isso, o homem não pode criar a graça, antes, ela lhe é outorgada, devendo
ser recebida sem torná-la vã em sua vida (2Co 6,1; 8,1-3/1Co 15,10). “Uma mani-
festação mais intensa da graça de Deus para conosco equivale um maior peso de
culpa sobre nós, se porventura viermos a desprezá-la” (CALVINO, 2006, p. 127).
A graça de Deus abre o nosso coração, fazendo-nos ver a necessidade da sal-
vação, passando a desejá-la ardentemente desde então; a graça de Deus promove
a paz em nosso coração por intermédio da nossa reconciliação com Deus (Rm
5,1; 2Co 5,18-21/Rm 1,7; 1Co 1,3; 2Co 1,2). Em paz com Deus, somos agencia-
dores desta paz por meio da proclamação do Evangelho (Sl 34,14; Mt 5,9; Rm
12,18; 2Co 13,11; Hb 12,14/2Co 5,20) e, também, por meio de nossa conduta.
Agora vivemos na esfera do Reino da graça, estando sob a graça, em um estado
de graça, em uma nova posição em Cristo (Rm 5,2; 6,14; Ef 1,20; 2,6; Cl 1,13).

HOMEM: IMAGEM E SEMELHANÇA DE DEUS


133

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Vimos, em nossos estudos, que Moisés, por revelação direta de Deus, narra os
atos criadores de Deus, sem se preocupar em falar com mais detalhes a respeito
Daquele que, mediante a Sua Palavra, faz com que do nada surja a vida. Deus
existe e, em toda narrativa da Criação isso é fato consumado. Tratar da criação
do homem é falar de nossa origem, da nossa história por meio de nossos pri-
meiros pais. É impossível fazer isso de forma indiferente.
A doutrina da Criação nos fala do poder de Deus e de nossa dependência,
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

única e exclusivamente, de quem nos criou e preserva. No homem, Deus quer


se ver em seus atos uma vez que o homem está comprometido com os interes-
ses de Deus. O seu propósito deve ser glorificar a Deus a quem ama e obedece. A
essência da natureza humana é seu ser [criado] à imagem de Deus. O homem e
a mulher, juntos, como uma só carne, encaminham-se para a plenificação como
imagem e semelhança de Deus gerando filhos para proliferar a raça humana e
fazem devem fazer uso de seus talentos de forma criativa e construtiva.
Vimos também que o pecado nos afasta de Deus, revelando a nossa condição
de desobediência, e torna notória a nossa infelicidade conquistada autonomamente.
Pecar significa agir de maneira contrária aos princípios expressos por Deus em sua
Palavra. O pecado separa o homem e o Deus Santo, Justo, Puro e Sublime. Por isso,
há morte física, espiritual e eterna, segundo a Bíblia, em decorrência do pecado.
A graça de Deus, no entanto, está fundamentada na obediência perfeita e
meritória de Cristo. Ainda que este perdão seja gratuito para os pecadores, nunca
devemos nos esquecer de que Cristo pagou um alto preço por ele. O perdão
para a menor das nossas ofensas só se tornou possível porque Cristo cumpriu
as mais aflitivas condições. Paulo ensina-nos que em Cristo passamos a ter paz
com Deus e também com o nosso próximo. A graça que nos vem por Cristo Jesus
propiciou a nossa reconciliação com Deus e nos conduziu à paz. Agora, recon-
ciliados com Deus, vivemos em paz, confiando inteiramente em sua promessa.
De coração aberto, vemos a necessidade da salvação e desejamos ardentemente.

Considerações Finais
134

Justificado, pois, pela Fé – Thomas Watson (1620 – 1686)


a) O que quer dizer justificação?
É uma palavra emprestada dos tribunais. Refere-se a uma pessoa acusada que é declara-
da justa e publicamente absolvida. Quando Deus justifica uma pessoa, declara a pessoa
justa e olha para ela como se não tivesse pecado.

b) Qual a fonte da justificação?


A causa, ou o motivo interior que a estimula ou a base da justificação é a livre graça de
Deus: “Sendo justificados livremente por sua graça”. Ambrósio, expondo sobre a justifi-
cação, diz que ela não é “da graça produzida internamente por nós, mas da livre graça de
Deus”. A primeira engrenagem que põe todo o restante em funcionamento é o amor e
o favor de Deus, assim como um rei livremente perdoa um delinquente. A justificação é
uma misericórdia provinda das entranhas da livre graça. Deus não nos justifica, porque
temos valor, mas ao nos justificar nos faz de grande valor.

c) Qual é o fundamento pelo qual o pecador é justificado?


O fundamento de nossa justificação é a satisfação que Cristo proporciona às exigências
de Deus Pai. Pode-se perguntar: “Como se relacionam a justiça e a santidade de Deus
quando ele nos declara inocentes visto que somos culpados?” A resposta é: “Quando
Cristo satisfez nossas faltas, Deus pôde, em equidade e em justiça, declarar-nos justos”.
É uma coisa justa um credor perdoar alguém que deve uma grande quantia quando ela
é paga por um fiador.

d) A satisfação obtida por Cristo tem mérito suficiente para justificar?


Sim, plenamente na natureza divina de Cristo. Como homem, Cristo sofreu, como Deus,
satisfez. Pela morte e pelos méritos de Cristo, a justiça de Deus foi mais abundantemente
satisfeita do que se tivéssemos sofrido as dores do inferno para sempre.

e) Qual é o método de nossa justificação?


Pela imputação da justiça de Cristo em nós: “Será este o seu nome, com que será cha-
mado: SENHOR, Justiça Nossa” (Jr 23,6). “Mas vós sois dele, em Cristo Jesus, o qual se nos
tornou, da parte de Deus, sabedoria, e justiça” (ICo 1,30). Essa justiça de Cristo, que nos
justifica, é melhor que a dos anjos, pois a justiça deles é das criaturas e essa é de Deus.
135

f) Qual é o meio ou instrumento de nossa justificação?


O instrumento é a fé. “Justificados... mediante a fé” (Rm 5,1). A dignidade não está na fé
como uma graça, mas de modo relativo, ao passo que se apega aos méritos de Cristo.
g) Qual é a causa eficiente de nossa justificação?
Toda a Trindade, visto que todas as pessoas da bendita Trindade participam da justifi-
cação de um pecador: Deus, o Pai, justifica: “É Deus quem os justifica” (Rm 8,33). Deus,
o Filho, justifica: “E, por meio dele, todo o que crê é justificado” (At 13.39). Deus, o Santo
Espírito, justifica: “Mas fostes justificados em o nome do Senhor Jesus Cristo e no Espírito
do nosso Deus” (ICo 6,11). Deus, o Pai, justifica ao nos declarar retos; Deus, o Filho, justi-
fica ao impor sobre nós sua justiça; e Deus, o Espírito Santo, justifica ao clarificar nossa
justificação e nos selar até o dia da redenção.

h) Qual é o propósito de nossa justificação?


I. A glorificação eterna de Deus
A finalidade é que Deus herde louvores: “Para louvor da glória de sua graça” (Ef 1,6).
Pela justificação, Deus levanta os eternos troféus de sua própria honra. Quanto o
pecador justificado proclamará o amor de Deus e levará os céus a ressoarem com
os louvores ao nome do Senhor.
II. A glorificação eterna do justificado. O fim de nossa justificação é que a pessoa justi-
ficada herde a glória. “Aos que chamou, a esses também justificou” (Rm 8,30). Deus,
quando justifica, não somente absolve a alma culpada, mas dignifica. Como José,
que não foi somente solto da prisão, mas feito senhor do reino, a justificação é co-
roada com a glorificação.
Fonte: Bessa ([2018], on-line)6.
136

1. Leia e analise as afirmativas a seguir, marcando V para verdadeiro e F para falso:


I. Deus se revela sabendo que há a possibilidade de ser entendido, pois, Ele mesmo
criou o homem e o dotou desta capacidade.
II. A emoção, como parte da criação divina, é o instrumento de que dispomos, pela gra-
ça de Deus, para descobrir a Sabedoria divina no mundo que nos rodeia.
III. Deus criou o homem à Sua imagem e semelhança (Gn 1,27), dotando-o de capacida-
de para receber e interpretar as impressões da Sua revelação que são demonstradas
por meio do universo, da Sua Criação.
IV. A Bíblia ou Revelação Especial tornou-se necessária por causa do pecado.
Assinale a sequência correta:
a) V- V - V - V.
b) V- F - V - V.
c) F- F - V - V.
d) V- V - F - F.
e) V- F - F - V.

2. Analise as afirmativas a seguir:


I. Segundo Bavinck, talvez possamos dizer que imagem aponta para uma espécie de
protótipo. A semelhança indica um ideal espiritual.
II. Deus, ao criar a mulher, não a fez inferior. Ela também foi feita conforme a imagem e
semelhança de Deus (Gn 1,27). A ordem divina quanto ao povoar, dominar, guardar e
cultivar a terra é responsabilidade de ambos.
III. O homem é uma unidade bipartite. Ele foi criado e dotado de corpo e alma, com an-
seios espirituais que se concretizam na sua comunhão com o Criador.
IV. A imagem de Deus é uma precondição essencial para o seu relacionamento com
Deus, e expressa, também, a sua natureza essencial: o homem é o que é por ser a
imagem de Deus: não existiria humanidade senão pelo fato de ser a imagem de Deus.
Assinale a resposta correta:
a) V- V - V - V.
b) V- F - V - V.
c) F- F - V - V.
d) V- V - F - F.
e) V- V - V - V.
137

3. “Somente Deus tem autoridade para estabelecer _______________ para a sua


criação. Na realidade, pouco importaria para Deus o que o homem comeria no
_______________, exceto pelo fato de ele estabelecer a sua proibição como
sinal de sua autoridade absoluta, demarcando o limite que caracterizaria a
______________ ou não do homem e da mulher, suas criaturas.
a) Leis e critérios - Jardim do Éden - obediência.
b) Leis e critérios - Jardim do Éden - proibição.
c) Proibição - Jardim do Éden - obediência.
d) Obediência - Jardim do Éden - satisfação.
e) Leis e critérios - Jardim do Éden - satisfação.

4. Segundo O Catecismo Menor de Westminster, o que é o pecado? Assinale a res-


posta correta:
a) É o grande nivelador de toda a humanidade: todos pecaram.
b) É uma única transgressão que trouxe quadro de irreversibilidade pecamino-
sa ao homem.
c) Qualquer falta de conformidade com a lei de Deus, ou qualquer transgres-
são desta lei.
d) É a própria existência de Satanás, é uma ironia de toda lógica humana.
e) Nenhuma das afirmativas anteriores está correta.

5. A consequência do pecado é a morte do homem. Com base na bíblia é possível


identificar diferentes tipos de morte. Sendo:
I. Morte física.
II. Morte íntima.
III. Morte espiritual.
IV. Morte imaginária.
V. Morte eterna.
Assinale a(s) alternativa(s) correta(s):
a) I, II.
b) I, IV, V.
c) II.
d) III, V.
e) I, III, V.
MATERIAL COMPLEMENTAR

Cinco pontos: Em direção a uma experiência mais profunda


da graça de Deus.
John Piper
Editora: Fiel
Sinopse: neste livro, John Piper fala sobre um tema fundamental do
cristianismo: a graça salvadora de Deus, ao abordar os mistérios da obra
redentora de Cristo, que comprou, ao preço de seu próprio sangue, o dom
da fé para os Filhos de Deus. Piper trata ainda dos mistérios da alma humana
e do Poder do Espírito de Deus, que conquista toda a nossa rebeldia,
transformando-nos em servos fiéis.
Comentário: no capítulo 2 do livro, John Piper expõe, de maneira clara e
objetiva, o primeiro ponto do Calvinismo, a depravação total. Recomendo a
leitura para aqueles que buscam aprender mais acerca do assunto.

Apresentação: No vídeo a seguir, o pastor Augustus Nicodemus faz um breve


apontamento acerca do que realmente significa quando dizemos que somos a imagem e
semelhança de Deus.
Acesse: <https://www.youtube.com/watch?v=WcXRKqlU-8Q&t=3s>.

Apresentação: Neste vídeo é explicado como funciona a Graça de Deus, retirando todo
e qualquer juízo de valor atribuído à salvação do homem.
Acesse: <https://www.youtube.com/watch?v=37gzy95aACg>.
139
REFERÊNCIAS

AGOSTINHO. A Trindade. São Paulo: Paulus, 1994.


______. Confissões. v. 6. São Paulo: Abril Cultural, 1973.
______. Comentário aos Salmos. v. 3. São Paulo: Paulus, 1998.
______. O Sermão do Monte. São Paulo: Paulinas, 1992.
AQUINA, T. Summa theologica. In: The Master Christian Library. Version 8.0 Alba-
ny, OR: Ages Sofware, 2000. v. 1. CD-ROM.
ARISTÓTELES. Metafísica. São Paulo: Abril Cultural, 1973.
BARCLAY, W. El Padrenuestro. Buenos Aires: La Aurora; ABAP, 1985.
BARTH, K. Church Dogmatics. Peabody, Massachusetts: Hendrickson Publishers, 2010.
_______. Esboço de uma Dogmática. São Paulo: Fonte Editorial, 2006.
______. La Oración. Buenos Aires: La Aurora, 1968.
______. Church Dogmatics. Edinburgh: T. & T. Clark, 1960.
BAUDRAZ, F. BAUDRAZ, G. In: VON ALLMEN, J. J. Vocabulário Bíblico. 2. ed. São Pau-
lo: ASTE, 1972.
BAVINCK, H. Dogmática Reformada: Prolegômena. v. 1. São Paulo: Cultura Cristã,
2012.
______. Our Reasonable Faith. 4. ed. Grand Rapids, Michigan: Baker Book House,
1984.
______. Teologia Sistemática. Santa Bárbara d’Oeste: SOCEP, 2001.
______. The Philosophy of Revelation. New York: Longmans, Green and Company,
1909.
BERKOUWER, G. C. A Pessoa de Cristo. São Paulo: ASTE, 1964.
BOETTNER, L. La Imortalidad. Grand Rapids. Michigan: TELL. (s.d).
______. La Predestinación. Grand Rapids, Michigan:TELL. (s.d.).
BOOTH, A. Somente pela Graça. São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas,
1986.
______. A. Somente pela Graça. In: PACKER, J. I. O Conhecimento de Deus. Ebook.
Editora Cultura Cristã, 2016.
BRUNNER, E. Dogmática: A Doutrina Cristã da Criação e da Redenção. v. 2. São Pau-
lo: Fonte Editorial, 2006.
CALVINO, J. As Institutas da Religião Cristã: edição especial com notas para estu-
do e pesquisa. v. 4. São Paulo: Cultura Cristã, 2006.
REFERÊNCIAS

______. As Pastorais. São Paulo: Paracletos, 1998.


______. Beatitudes: sermões sobre as bem-aventuranças. São Paulo: Fonte Edito-
rial, 2008.
______. Cartas de João Calvino. São Paulo: Cultura Cristã, 2009.
______. Commentaries on The First Book of Moses Called Genesis. v. 1, (Gn 1.26),
1948. Disponível em: <https://archive.org/details/commentariesonfi01calv>. Aces-
so em: 29 abr. 2018.
______. Commentaries on The First Book of Moses Called Genesis. v. 1Grand
Rapids, Michigan: Baker Book House, 1981.
______. Efésios. São Paulo: Paracletos, 1998.
______. Exposição de 1 Coríntios. São Paulo: Paracletos, 1996.
______. Exposição de Hebreus. São Paulo: Paracletos, 1997.
______. Exposição de Romanos. (Rm 9.14). São José dos Campos:
Editora Fiel, 1997.
______. Exposição de Segundo Coríntios. São Paulo: Paracletos, 1995.
______. Gálatas. São Paulo: Paracletos (Gl 4.9), 1998.
______. Instrução na Fé. Goiânia. GO: Logos Editora, 2003.
______. O Livro dos Salmos. São Paulo: Paracletos, 1999, v. 1, (Sl 8.5).
______. Sermones Sobre a La Obra Salvadora de Cristo. Jenison, Michigan: TELL,
1988 (Sermão nº 13).
______. Sermões em Efésios. Brasília, DF: Monergismo, 2009.
CARROL. L. A essência do Cristianismo. São Paulo: ABU, 1979.
CHARNOCK, S. Discourses Up Alan on The Existence and Attributes of God. Dis-
ponível em: <http://grace-ebooks.com/library/Stephen%20Charnock/SC-Discour-
ses-On-The-Existence-and-Attributes-of-God-Vol-2.pdf>. Acesso em: 25 abr. 2018.
COLSON, C.; FICKETT H. Uma boa vida. São Paulo: Cultura Cristã, 2008.
_____. Uma boa vida. São Paulo: Cultura Cristã, 2008.
COMÉNIO, J. A. Didáctica Magna. 3. ed. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian,
1985.
COSTA, H. M. P. A necessidade e a importância da Teologia Sistemática. In: FERREIRA,
F. A Glória da Graça de Deus: ensaios em honra a J. Richard Denham Jr. São José
dos Campos: Editora Fiel, 2010.
______. A Soberania de Deus e a responsabilidade humana. Goiânia, GO: Editora
141
REFERÊNCIAS

Cruz, 2016.
______. Raízes da Teologia Contemporânea. São Paulo: Cultura Cristã, 2004.
______. As Questões Sociais e a Teologia Contemporânea. São Paulo: 1986.
______. Antropologia Teológica: Uma Visão Bíblica do Homem. São Paulo: 1988.
CRAMPTON, W. G.; BACON, R. E. Em Direção a uma Cosmovisão Cristã. Brasília:
Monergismo, 2010.
DESCARTES, R. Discurso do Método. v. 16. São Paulo: Abril Cultural, 1973. (Os Pen-
sadores)
DOOYEWEERD, H. No Crepúsculo do Pensamento. São Paulo: Hagnos, 2010.
ERICKSON, Millard J. Introdução à Teologia Sistemática. São Paulo: Vida Nova,
1997.
FERREIRA, F.; MYATT, Alan. Teologia Sistemática. São Paulo: Vida Nova, 2007.
FEURBACH, L. A. A Essência do Cristianismo. Campinas, SP: Papirus, 1988.
FRAME, J. M. A Doutrina do conhecimento de Deus. São Paulo: Cultura Cristã, 2010.
GEISLER, N. Enciclopédia de Apologética: respostas aos críticos da fé cristã. São
Paulo: Vida, 2002.
GEISLER, N.; FEIBERG, P. D. Introdução à Filosofia. São Paulo: Vida Nova, 1983.
GEISLER, N.; BOCCHINO, P. Fundamentos Inabaláveis: resposta aos maiores ques-
tionamentos contemporâneos sobre a fé cristã. São Paulo: Vida Nova, 2003.
GRONINGEN, G. V. Revelação Messiânica no Velho Testamento. Campinas, SP: Luz
para o Caminho, 1995.
______. Criação e Consumação. v. 1. São Paulo: Cultura Cristã, 2002.
GRONINGEN, G. V.; GRONINGEN, H. A Família da Aliança. São Paulo: Editora Cultura
Cristã. São Paulo, 1997, 183p. Disponível em: <http://ipbfo.org.br/ebooks/A%20Fa-
milia%20da%20Alianca.pdf>. Acesso em: 29 abr. 2018.
HENDRIKSEN, W. O Evangelho de João. São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2004.
______. Mateus. v. 1. São Paulo: Cultura Cristã, 2001.
HENRY, M. Commentary on The Whole Bible. v. 1. The Master Christian Library. (CD-
-ROM) (Albany, OR: Ages Sofware, 2000).
HODGE, A. A. Esboços de Theologia. Lisboa: Barata & Sanches, 1895.
HODGE, C. Systematic Theology. v. 1. Grand Rapids, Michigan: Wm. Eerdmans Pub-
lishing Co. 1986.
HOEKSEMA, H. Reformed Dogmatics. 3. ed. Grand Rapids, Michigan: Reformed
REFERÊNCIAS

Free Publishing Association, 1976.


______. A Bíblia e o Futuro. São Paulo: Casa Editora Presbiteriana, 1989.
______. Criados à Imagem de Deus. São Paulo: Editora Cultura Cristã, 1999.
KEVAN, E. F. Gênesis. In: DAVIDSON, F. O Novo Comentário da Bíblia. 2. ed. São
Paulo: Vida Nova, 1976.
KISTEMAKER, S. Hebreus. São Paulo: Cultura Cristã, 2003.
KUYPER, A. Calvinismo. São Paulo: Cultura Cristã, 2002.
______. A Obra do Espírito Santo. São Paulo: Cultura Cristã, 2010.
______. Principles of Sacred Theology. Grand Rapids, Michigan: Baker Book House,
1980.
LALANDE, A. Vocabulário Técnico e Crítico da Filosofia. São Paulo: Martins Fontes,
1993.
LAWSON. S. J. Fundamentos da Graça: 1.400 a.C. - 100 d.C: longa linha de vultos
piedosos. São José dos Campos: Editora Fiel, 2012.
LEWIS, C.S. A essência do Cristianismo. São Paulo: ABU Editora, 1979.
LLOYD-JONES, David M. Do Temor à Fé. Miami, Florida: Vida, 1985.
LLOYD-JONES, D. M. Uma Nação sob a Ira de Deus: estudos em Isaías 5, 2. ed. Rio
de Janeiro: Textus, 2004.
______. O Clamor de um Desviado: Estudos sobre o Salmo 51. São Paulo: Publica-
ções Evangélicas Selecionadas, 1997.
______. O Combate Cristão. São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas, 1991.
______. O Supremo Propósito de Deus. São Paulo: Publicações Evangélicas Sele-
cionadas, 1996.
MACARTHUR JR., J. O Caminho da Felicidade. São Paulo: Cultura Cristã, 2001.
MACHEN, J. G. El Hombre: La Enseñanza Bíblica sobre el hombre. Lima: El Estandar-
te de la Verdad, 1969.
MACHEN, J. G. Cristianismo y Cultura. Barcelona: Asociación Cultural de Estudios
de la Literatura Reformada, 1974.
MACKAY, J. Prefacio a la Teologia Cristian. México; Buenos Aires: Casa Unida de
Publicaciones; La Aurora, 1946.
MARÍAS, J. A Felicidade Humana. São Paulo: Duas Cidades, 1989.
MATHIS, D. Pensar - Amar - Fazer. São Paulo: Cultura Cristã, 2013.
MAY, R. Poder e Inocência. Rio de Janeiro: Artenova, 1974.
143
REFERÊNCIAS

MCGRATH A. E. O Deus Desconhecido: Em Busca da Realização Espiritual, São Pau-


lo: Loyola, 2001.
______. Fundamentos do Diálogo entre Ciência e Religião. São Paulo: Loyola, 2005.
MCGOWAN, A. T. B. Uma teologia evangélica reformada e missional para o século
21. In: LOGAN JR., S. T. (Org.). Reformado quer dizer missional. São Paulo: Cultura
Cristã, 2015.
MCGREGOR, R. K. A Soberania Banida. São Paulo: Cultura Cristã, 1998.
MOHLER JR., ALBERT, R. O modo como o mundo pensa: Um encontro com a mente
natural no espelho e no mercado. In: PIPER, J.; MATHIS, D. (Orgs.). Pensar - Amar -
Fazer. São Paulo: Cultura Cristã, 2013.
______. Pregar com a cultura em mente: In: DEVER, M. ed. A Pregação da Cruz. São
Paulo: Cultura Cristã, 2010.
MOLTMANN, J. Doutrina Ecológica da Criação. Petrópolis: Vozes, 1993.
MORELAND J. P.; CRAIG, W. L. Filosofia e Cosmovisão Cristã. São Paulo: Vida Nova,
2005.
NASH, R. H. Questões Últimas da Vida: uma introdução à Filosofia. São Paulo: Cul-
tura Cristã, 2008.
NICHOLI, JR., ARMAND, M. Deus em questão: C. S. Lewis e Sigmund Freud debatem
Deus, amor, sexo e o sentido da vida. Viçosa: Ultimato, 2005.
ORTLUND JR., R. C. Igualdade Masculino-Feminina e Liderança Masculina. In: PIPER,
J.; GRUDEM, W. (Comp.). Homem e Mulher: seu papel bíblico no lar, na igreja e na
sociedade. São José dos Campos: Editora Fiel, 1996.
PACKER, J. I. Vocábulos de Deus. São José dos Campos: Editora Fiel, 1994.
______. O Conhecimento de Deus. São Paulo: Mundo Cristão, 1980.
PALMER, E. H. El Espiritu Santo. Edinburgh: El Estandarte de la Verdad, (s.d).
______. Evangelização e Soberania de Deus. 2. ed. São Paulo: Vida Nova, 1990.
PASCAL, B. Pensamentos. São Paulo: Abril Cultural, 1973. (Os Pensadores, XVI)
PEARCEY, N. R.; THAXTON, C. B. A Alma da Ciência. São Paulo: Cultura Cristã, 2005.
PEARCEY, N. R. Verdade Absoluta: libertando o cristianismo de seu cativeiro cultu-
ral. Rio de Janeiro: Casa Publicadora das Assembleias de Deus, 2006.
PIPER, J. Um homem chamado Jesus Cristo. São Paulo: Vida, 2005.
PIPER, J. et al. Teísmo Aberto: uma teologia além dos limites bíblicos. São Paulo:
Vida, 2006.
.
REFERÊNCIAS

PLATÃO. Diálogos: Teeteto - Crátilo. Tradução de Carlos Alberto Nunes. Belém:


UFPA, 1973. 194 p. (Coleção Amazônia. Série Farias Brito; 9). Disponível em: <http://
livroaberto.ufpa.br:8080/jspui/handle/prefix/101>. Acesso em: 24 abr. 2018.
RAD, G. V. Teologia do Antigo Testamento. São Paulo: ASTE, 1986,
RYKEN, L. Santos no Mundo. v. 1. São José dos Campos: FIEL, 1992.
RYLE, J. C. Comentário Expositivo do Evangelho Segundo Mateus. São Paulo: Im-
prensa Metodista, 1959.
ROBERTSON, O. P. Cristo dos Pactos. Trad. Américo J. Ribeiro. Campinas: Luz para a
vida, 1997.
ROSSI, P. O Nascimento da Ciência Moderna na Europa. Bauru: EDUSC, 2001.
______. A Ciência e a Filosofia dos Modernos: aspectos da Revolução Científica.
São Paulo: Universidade Estadual Paulista, 1992.
ROOKMAAKER, H. R. A Arte não precisa de justificativa. Viçosa: Ultimato, 2010.
SCHAEFFER, F. O Deus que Intervém. São Paulo: Refúgio; ABU, 1981.
______. O Grande Desastre Evangélico. In: SCHAEFFER, F. A. A Igreja no Século 21.
São Paulo: Cultura Cristã, 2010.
______. A Morte da Razão. São Paulo: ABU/FIEL, 1974.
______. A Obra Consumada de Cristo: A verdade de Romanos 1-8. São Paulo: Cul-
tura Cristã, 2003.
______. Como Viveremos? São Paulo: Cultura Cristã, 2003.
SCOTT, J. B. lh. In: HARRIS, R. L. et al. Dicionário Internacional de Teologia do Anti-
go Testamento. São Paulo: Vida Nova, 1998.
SEATON, W. J. Os Cinco Pontos do Calvinismo. São Paulo: Publicações Evangélicas
Selecionadas, (s.d).
SILVA, F. L. Teoria do Conhecimento: In: CHAUÍ, M., et al. Primeira Filosofia. 4. ed.
São Paulo: Brasiliense, 1984.
SILVA, M. Em Favor da Hermenêutica de Calvino: In: KAISER JR., W. C.; SILVA, M. Intro-
dução à Hermenêutica Bíblica. São Paulo: Cultura Cristã, 2002.
______. O Universo ao Lado. São Paulo: Hagnos, 2004.
______. O universo ao lado. 4. ed. São Paulo: Hagnos, 2009.
______. Dando nome ao elefante: Cosmovisão como um conceito. Brasília: Moner-
gismo, 2012.
SPYKMAN, G. J. Teología Reformacional: Un Nuevo Paradigma para Hacer la Dog-
mática. Jenison, Michigan: The Evangelical Literature League, 1994.
145
REFERÊNCIAS

SPROUL, R. C. A Alma em Busca de Deus: Satisfazendo a fome espiritual pela comu-


nhão com Deus. São Paulo: Eclesia, 1998.
______. O Que É a Teologia Reformada. São Paulo: Cultura Cristã, 2009.
STOTT, J. R. W. A Mensagem do Sermão do Monte. 3. ed. Paulo: ABU, 1985.
TURRETINI, F. Compêndio de Teologia Apologética. São Paulo: Cultura Cristã, 2011.
WALTKE, B. K.; FREDERICKS, C. J. Gênesis. São Paulo: Cultura Cristã, 2010.
WATSON, T. A Fé Cristã: estudos baseados no breve catecismo de Westminster, São
Paulo: Cultura Cristã, 2009.
VAN TIL, H. O Conceito Calvinista de Cultura. São Paulo: Cultura Cristã, 2010.
VEITH JR., G. E. De Todo o Teu Entendimento. São Paulo: Cultura Cristã, 2006.
ZACHARIAS, R. A Morte da Razão: uma resposta aos neo ateus. São Paulo: Vida, 2011.

Referências on-line

1
Em: <http://www.monergismo.com/textos/credos/cfw.htm>. Acesso em: 02 jun.
2019
2
Em: <http://www.monergismo.com/textos/credos/confissao_helvetica.htm>.
Acesso em: 02 jun. 2019
3
Em: <http://www.ipbahia.org.br/ipbahia/index.php?option=com_content&-
view=article&id=6&Itemid=9&limitstart=5>. Acesso em: 02 jun. 2019
4
Em: <http://www.oocities.org/textosreformados/credos/heidelberg.htm>.
Acesso em: 02 jun. 2019
5
Em: <http://www.monergismo.com/textos/catecismos/brevecatecismo_
westminster.htm>. 02 jun. 2019
6
Em: <http://www.josemarbessa.com/2011/12/justificado-pois-pela-fe-thom-
as-watson.html>. Acesso em: 02 jun. 2019
GABARITO

1. A.
2. E.
3. A.
4. C.
5. E.
Professor Dr. Hermisten M. P. Costa

III
A REFORMA PROTESTANTE:

UNIDADE
HISTÓRIA E PRESSUPOSTOS
TEÓRICOS

Objetivos de Aprendizagem
■ Abordar a história da Reforma Protestante.
■ Discutir dois apenas da Reforma Protestante: o trabalho e a vocação.
■ Problematizar a questão do Homem e do Trabalho na Bíblia.
■ Discutir o comportamento do cristão frente à riqueza e a pobreza.
■ Abordar a questão da cosmovisão e da arte na Teologia.
■ Apresentar os pressupostos do culto espiritual, tendo em vista arte,
inteligência e submissão.

Plano de Estudo
A seguir, apresentam-se os tópicos que você estudará nesta unidade:
■ A Reforma Protestante
■ A Reforma: Trabalho e Vocação
■ O Homem e o Trabalho
■ O Comportamento Cristão na Riqueza e na Pobreza
■ Cosmovisão e Arte
■ Culto espiritual, com arte, inteligência e submissão
149

INTRODUÇÃO

Estimado(a) aluno(a), iniciamos mais uma unidade “A reforma protestante: histó-


ria e pressupostos teóricos”, conforme ilustra o título, abordaremos o surgimento
da reforma, as principais ideias desenvolvidas e o legado deixado. Inicialmente,
veremos, com base em Mark Noll (2000, p. 16), que estudar a história do cris-
tianismo é lembrar continuamente o caráter histórico da fé cristã. Assim, no
primeiro tópico, discutiremos o que motivou a reforma, voltando-nos para o
contexto histórico: a Reforma Protestante foi um movimento reformista cristão
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

do século XVI, cujo líder foi Martinho Lutero.


Discutiremos também a questão do trabalho e da vocação, veremos o que as
Escrituras dizem a respeito do sábado, o trabalho como essencial ao ser humano,
algumas definições de trabalho e a perspectiva de Calvino a respeito da temá-
tica. Um tópico muito importante diz respeito ao comportamento cristão nas
situações de pobreza e riqueza, em que verificaremos que devemos dar graça e
contemplar o criador independente do que estamos vivendo.
Abordaremos sobre a Cosmovisão e a arte, em que, conforme João Calvino,
a arte e as demais coisas que são de uso comum e conforto desta vida são dons
de Deus, devendo, assim, glorificá-lo. Adiante, em Culto Espiritual, com Arte,
Inteligência e Submissão, compreenderemos a importância e os limites dos dons
e talentos dados por Deus e como devemos aproveitá-los com discernimento.
Estudaremos que a criatividade humana, que é um dos reflexos da imagem de
Deus em nós, deve estar submissa à instituição divina. A respeito do Culto veri-
ficaremos que se trata do modo de perceber a Palavra de Deus, uma vez que é lá
que respondemos com fé em adoração e gratidão a Deus.
O exposto até aqui é um resumo, breve, dos muitos conceitos importan-
tes que aprenderemos nesta Unidade. Portanto, não deixe de lê-la com atenção.
Bons estudos!

Introdução
150 UNIDADE III

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
A REFORMA PROTESTANTE

Devemos ter em mente que as fronteiras históricas são sempre difíceis de demarcar,
sendo de certo modo arbitrárias, visto que as transformações não ocorrem simples-
mente por decreto ou por decisão de um líder ou concílio; estes, sem dúvida, são
muitas vezes fundamentais para um processo, contudo, não estabelecem o limite.
Outro aspecto, é que normalmente aquilo que caracteriza um período, geral-
mente está ainda como que um sobrevivente – incômodo para o historiador,
diga-se de passagem –, no posterior e, por sua vez, os elementos saudados como
a grande marca de uma nova fase, já viviam ainda que embrionariamente e tan-
tas vezes anônimos, na anterior. Ou seja, ainda que nem sempre prontamente
percebido, os movimentos interagem e coexistem com outros movimentos e cul-
turas; há sempre um entrelaçamento dos tempos e dos movimentos.

O DIVINO E O HUMANO NO TEMPO E NA HISTÓRIA

A concepção cristã de tempo, mesmo com as suas variações, influenciou diretamente


todo o mundo ocidental. A compreensão de que o tempo tem um início, meio e fim
era totalmente estranha às culturas pagãs (VEITH JR., 2006, p. 22-23). A questão da
história e do tempo é fundamental para o Cristianismo pela sua própria constituição.

A REFORMA PROTESTANTE: HISTÓRIA E PRESSUPOSTOS TEÓRICOS


151

O Cristianismo é uma religião de história. Elimine, por exemplo, a historici-


dade dos 11 primeiros capítulos de Gênesis, e estaremos mutilando o sentido das
Escrituras e, por isso mesmo, os fundamentos da fé cristã. Pelo fato da Criação
ter ocorrido na história bem como a Queda, a promessa (Gn 3,15) e o Dilúvio,
é que tudo o mais faz sentido.
Se a Queda é apenas uma lenda, porque precisaríamos crer na encarnação,
morte e ressurreição de Cristo como fato histórico? Bastaria a criação de outra lenda
para, quem sabe, remediar o que fora inventado anteriormente. A revelação dá-se
na história. Qual o sentido de Deus falar e agir na história e, ao mesmo tempo, for-
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

necer por meio de Sua Palavra uma história mentirosa, cheia de equívocos e erros?
Grande parte dos ensinamentos doutrinários das Escrituras provém de fatos his-
tóricos não apenas de proposições doutrinárias (SCHAEFFER, 2017, p. 13-33).
O Cristianismo não se ampara em lendas, antes, em fatos os quais devem ser
testemunhados, visto que têm uma relação direta com a vida dos que creem. O
Cristianismo é uma religião de fatos, palavra e vida. Os fatos, corretamente com-
preendidos, têm uma relação direta com a nossa vida. A fé cristã fundamenta-se no
próprio Cristo: O Deus-Homem. Sem o Cristo Histórico não haveria Cristianismo.
A sua força e singularidade estão neste fato, melhor dizendo: na pessoa de Cristo,
não simplesmente nos seus ensinamentos (MCGRATH, 2007, p. 23).
O Cristianismo é o próprio Cristo. A encarnação é toda e inclusivamente mis-
sionária: o Verbo fez-se carne e habitou entre nós (Jo 1,14). É por isso também, que
o Cristianismo é uma religião de memória, relatando os feitos de Deus e desafiando
o povo a reafirmar a sua fé a partir do rememorar dos atos de Deus na história.

O cristianismo, como também a religião de Israel, da qual ele nasceu, se apre-


senta como uma religião histórica de forma absolutamente concreta, em com-
paração à qual nenhuma das outras religiões do mundo pode se equiparar
– nem mesmo o Islã, apesar de este se aproximar mais do cristianismo e do
judaísmo, nesse sentido, que qualquer outra religião.
Fonte: Dawson (2010, p. 343).

A Reforma Protestante
152 UNIDADE III

Bavinck (1854-1921), corretamente destaca a singularidade de Cristo para o


Cristianismo:
Ele ocupa um lugar completamente único no Cristianismo. Ele não foi o
fundador do Cristianismo em um sentido usual, ele é o Cristo, o que foi
enviado pelo Pai e que fundou Seu reino sobre a terra e agora expande-o
até o fim dos tempos. Cristo é o próprio Cristianismo. Ele não está fora, Ele
está dentro do Cristianismo. Sem Seu nome, pessoa e obra, não há Cristia-
nismo. Em outras palavras, Cristo não é aquele que aponta o caminho para
o Cristianismo, Ele mesmo é o caminho (BAVINCK, 2001, p. 311).

Se as reivindicações divinas e redentivas do Jesus Cristo histórico são verdadei-

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
ras como de fato são, a mensagem do Evangelho deve ser anunciada ao mundo
para que aqueles que crerem sejam salvos.

A essência do cristianismo é centralizada no Senhor Jesus Cristo. [...] A altura


da vida cristã é adorar a Cristo; a sua profundidade, amá-lo; a sua largura,
obedecer-lhe; e o seu cumprimento, segui-lo.
(Steven J. Lawson)

Noll (2000, p. 16) resume bem ao dizer que: “estudar a história do cristianismo
é lembrar continuamente o caráter histórico da fé cristã”. Sem o fato histórico
da encarnação, morte e ressurreição de Cristo, podemos falar até de experiência
religiosa, mas não de experiência cristã. A experiência cristã depende funda-
mentalmente destes eventos.
Quando focamos o nosso olhar na experiência, corremos o risco de per-
dermos a dimensão da essência, do referente, que é Deus. Neste processo, como
escreveu Barth (1886-1968), “a passagem da experiência do Senhor à experi-
ência de Baal é curta. O religioso e o sexual são extremamente semelhantes”
(BARTH, 2004, p. 217).
Jesus Cristo é o clímax da Revelação; é a Palavra Final de Deus. Nele
temos não uma metáfora ou um sinal, antes, temos o próprio Deus que Se
fez homem na história.

A REFORMA PROTESTANTE: HISTÓRIA E PRESSUPOSTOS TEÓRICOS


153

Jesus Cristo é a revelação final e especial de Deus. Porque Jesus Cristo era
verdadeiramente Deus Ele nos mostrou mais plenamente com quem Deus
era semelhante do que qualquer outra forma de revelação. Porque Jesus foi
também completamente homem, Ele falou mais claramente a nós do que
pode fazê-lo qualquer outra forma de revelação (SIRE, 2004, p. 40).

A História da Igreja, bem como da Teologia, tem um lado divino: Deus dirige a
História; e um lado humano: os fatos compartilhados por todos nós que a vivemos.
Os atos de Deus na História não são objeto de análise do historiador; não somos
Lucas, inspirados infalivelmente por Deus, apresentando uma interpretação inspirada.
A relação entre a história e a teologia é extremamente complexa e de difí-
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

cil interpretação (CERTEAU, 2002). Além disso, é preciso delimitar a esfera de


domínio do historiador e do teólogo. Somos homens comuns, que procuramos
estabelecer métodos, examinar documentos, fazer-lhes perguntas e interpretá-
-los a bem da melhor compreensão possível do que aconteceu.
Neste sentido, a História é uma ciência social “cujo objeto é o conhecimento
do processo de transformação da sociedade ao longo do tempo” (SODRÉ, 1962,
p. 3). Ela tem como pressuposto, a consciência de determinada ignorância – aliás,
a consciência da ignorância é um requisito fundamental para o historiador –,
para a qual buscaremos uma solução.
Contudo, não captamos o fato absolutamente; ele, como “conhecimento
autêntico e seguro”, sempre nos escapa; compreendemos sim as versões, as nos-
sas versões dos fatos que, julgamos serem coerentes com eles. No entanto, há
uma interação mutativa: as evidências interferem em nossa cosmovisão e esta,
por sua vez, fornece-nos novos cânones – provisórios é verdade –, de aproxima-
ção das mesmas evidências que, agora, podem já não ser consideradas evidências.

O homem sente necessidade absoluta de chegar ao conhecimento autên-


tico do que verdadeiramente aconteceu, ainda que tenha consciência da
pobreza dos meios de que para isso dispõe.
(Johan Huizinga).

A Reforma Protestante
154 UNIDADE III

O estudo do passado, se devidamente compreendido, ainda que não exaustiva-


mente, pode nos levar a reavaliar as nossas próprias suposições que, em muitos
casos, são “crenças correntes” (SKINNER, 1999, p. 90) já tão bem estabelecidas
que julgávamos acima de qualquer “suspeita”. O grande historiador contempo-
râneo Georges Duby (1919-1996) colocou isto de forma bela e ao mesmo tempo
angustiante: “todo historiador se extenua para conseguir a verdade; essa presa
escapa-lhe sempre” (DUBY, 1989, p. 110).
A história da Igreja, por exemplo, é uma ciência que não está atrelada a
nenhuma ciência em particular. Como ciência histórica, deve apresentar um

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
quadro histórico e cronológico dos principais fatos da vida da Igreja do perí-
odo analisado. Para que isso seja feito com clareza, tornam-se necessárias fontes
documentais, nas quais possamos nos basear para exaurir as informações de
cada época, a fim de formular um quadro interpretativo coerente com os docu-
mentos disponíveis.

A REFORMA: SUAS ORIGENS

Antes de adentrarmos a Reforma Protestante do Século XVI, enumeremos alguns


pontos que caracterizavam a igreja romana no início do século XVI; ei-los:
1. O papado era uma potência religiosa e política e, grande parte da vida
econômica girava em torno das igrejas paroquiais, ocasionando uma
insatisfação por parte das autoridades civis, devido à ingerência do papa
em seus negócios.
2. Havia uma corrupção política, econômica e moral generalizada na “igreja”
e no clero, contribuindo para um sentimento anticlerical, não necessa-
riamente contra a fé cristã (SENARCLENS, 1970).
3. Uma profunda carência espiritual que se manifestava também, na pro-
cura de leituras de obras que enfatizavam uma piedade pessoal: a igreja
tornara-se extremamente meticulosa no confessionário e, ao mesmo

A REFORMA PROTESTANTE: HISTÓRIA E PRESSUPOSTOS TEÓRICOS


155

tempo, induzia os fiéis a realizarem boas obras que, como não poderiam
deixar de ser, eram sempre insuficientes para eliminar o sentimento de
culpa latente. Tillich (1886-1965) resume:
Sob tais condições jamais alguém poderia saber se seria salvo, pois ja-
mais se pode fazer o suficiente; ninguém podia receber doses suficien-
tes do tipo mágico da graça, nem realizar número suficiente de méritos
e de obras de ascese. Como resultado desse estado de coisas havia mui-
ta ansiedade no final da Idade Média (TILLICH, 1988, p. 210).

4. As tentativas reformistas eram cruelmente eliminadas pela Inquisição e,


algumas vezes, onde não se podiam achar culpados, queimavam-se os
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

inocentes.
5. O culto há muito que se tornara apenas num ritual meramente externo,
repleto de superstições, consistindo em grande parte na leitura da vida
dos santos.
Os deuses, deusas e semideuses do Paganismo, as suas imagens e estátuas
sagradas, transformaram os heróis do Cristianismo e as suas supostas efí-
gies, em objetos de culto idólatra, em padroeiros, protetores e medianei-
ros. O politeísmo e a idolatria inundaram a Igreja (PEREIRA, 1920, p. 16).

O nome protestantismo aplicado à Reforma surgiria alguns anos depois, tendo


sua origem na Segunda Dieta de Spira (1529), quando, cristãos imbuídos do
mesmo espírito de Lutero, declaram o seu protesto, reafirmando o seu apego à
Bíblia e à necessidade de pregá-la contínua e exclusivamente.
Nós protestamos, por meio dos presentes, diante de Deus, nosso único
Criador, Conservador, Redentor e Salvador, e que será, um dia, nosso juiz,
assim como diante de todos os homens e de todas as criaturas, que não
consentimos nem aderimos, de nenhuma maneira, nem quanto a nós
nem quanto aos nossos, ao decreto proposto em todas as coisas que são
contrárias a Deus, à sua santa Palavra, à nossa boa consciência, à salvação
de nossas almas e ao último decreto de Spira (BOISSET, 1971, p. 15).

Deste modo, mais do que um simples protesto, a palavra foi usada no sentido de
testemunho positivo a respeito da supremacia da Escritura. A ideia de protestar
é praticamente a mesma de confessar. “O ‘protesto’ era, ao mesmo tempo, uma
objeção, um apelo e uma afirmação” (WRIGHT, 1990, p. 194).

A Reforma Protestante
156 UNIDADE III

A REFORMA COMO MOVIMENTO RELIGIOSO E TEOLÓGICO

“Nos fins da Idade Média pesava na alma do povo uma tenebrosa melancolia”,
constata o holandês Huizinga (1872-1945). Os séculos anteriores à Reforma são
descritos como período de grande ansiedade (HUIZINGA, 1978, p. 31). Lutero
(1483-1546) e as suas famosas angústias espirituais espelhavam “a epítome dos
medos e das esperanças de sua época” (GEORGE, 2015, p. 183-184).
Calvino (1985, I.17.10) ainda que não fosse dominado por esse sentimento,
refletia uma constatação natural: a fragilidade humana. Sobre os perigos pró-

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
prios da vida, relaciona:
Incontáveis são os males que cercam a vida humana, males que outras tan-
tas mortes ameaçam. Para que não saiamos fora de nós mesmos: como
seja o corpo receptáculo de mil enfermidades e dentro de si, na verdade,
contenha inclusas e fomente as causas das doenças, o homem não pode a
si próprio mover sem que leve consigo muitas formas de sua própria des-
truição e, de certo modo, a vida arraste entrelaçada com a morte. Que ou-
tra coisa, pois hajas de dizer, quando nem se esfria, nem sua, sem perigo?
Agora, para onde quer que te voltes, as cousas todas que a teu derredor
estão não somente não se mostram dignas de confiança, mas até se afigu-
ram abertamente ameaçadoras e parecem intentar morte pronta. Embarca
em um navio: um passo distas da morte. Monta um cavalo: no tropeçar de
uma pata a tua vida periclita. Anda pelas ruas de uma cidade: quantas são
as telhas nos telhados, a tantos perigos estás exposto. Se um instrumen-
to cortante está em tua mão ou de um amigo, manifesto é o detrimento.
A quantos animais ferozes vês, armados estão-te à destruição. Ou que te
procures encerrar em bem cercado jardim, onde nada senão amenidade se
mostre, aí não raro se esconderá uma serpente. Tua casa, a incêndio cons-
tantemente sujeita, ameaça-te pobreza durante o dia, durante a noite até
mesmo sufocação. A tua terra de plantio, como esteja exposta ao granizo, à
geada, à seca e a outros flagelos, esterilidade te anuncia e, dela a resultar, a
fome. Deixo de referir envenenamentos, emboscadas, assaltos, a violência
manifesta, dos quais parte nos assedia em casa, parte nos acompanha ao
largo. Em meio a estas dificuldades, não se deve o homem, porventura,
sentir assaz miserável, como quem na vida apenas semivivo, sustenha de-
bilmente o sôfrego e lânguido alento, não menos que se tivesse uma espada
perpetuamente a impender-lhe sobre o pescoço? [...].

No entanto, Calvino não termina seu argumento em uma descrição “existencialista” da


vida, mas na certeza própria de um coração dominado pela Palavra de Deus. Assim,
ele conclui falando da “incalculável felicidade da mente piedosa” (CALVINO, 1985).

A REFORMA PROTESTANTE: HISTÓRIA E PRESSUPOSTOS TEÓRICOS


157

Quando, porém, essa luz da Divina Providência uma vez dealbou ao ho-
mem piedoso, já não só está aliviado e libertado da extrema ansiedade
e do temor de que era antes oprimido, mas ainda de toda preocupação.
Pois assim como, com razão, se arrepia de pavor da Sorte, também assim
ousa entregar-se a Deus com plena segurança (CALVINO, 1985, I.17.10).

Calvino admite que para qualquer lado que olharmos encontraremos sempre
desespero, até que tornemos para Deus, em Quem encontramos estabilidade no
meio de um mundo que se corrompe (CALVINO, 2002, p. 586).
A Reforma Protestante do século XVI foi um movimento eminentemente reli-
gioso e teológico (pelo menos em sua origem); estando ligada à insatisfação espiritual
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

de dezenas de pessoas – certamente expressavam o sentimento de milhares de outras


anônimas –, que através dos tempos não encontravam na igreja romana espaço para
a manifestação de sua fé nem alimento para as suas necessidades espirituais.
As insatisfações não visam criar uma nova igreja, mas tornar a existente mais
bíblica. Portanto, a Reforma deve ser vista não como um movimento externo, mas
como um movimento interno por parte de “católicos” piedosos (LÉONARD, 1981)
– que, diga-se de passagem, ao longo dos séculos tinham manifestado a sua insatisfa-
ção, quer por meio do misticismo, quer por meio de uma proposta mais ousada –, que
desejavam reformar a sua Igreja, revitalizando-a, transformando-a na Igreja dos fiéis.
Todavia não podemos nos esquecer de que as mudanças causadas pelo
Renascimento e Humanismo contribuíram para ela; afinal, a Reforma ocorreu
na história, dentro das categorias tempo e espaço, onde o homem está inserido.
Isto não diminui as causas e muito menos o valor intrínseco da Reforma; pelo
contrário, vem apenas demonstrar o que a Palavra de Deus ensina e no que cre-
ram os reformadores: Deus é o Senhor da história. De fato, o que é a história,
senão o palco onde Deus efetiva o Seu Reino?! “A chave da história do mundo é
o Reino de Deus” (LLOYD-JONES, 1985, p. 23).
Toda a relação “natural-histórico” não é casual nem cegamente determinada:
É dirigida por Deus, o Senhor da História (FARLEY, 1999, p. 74). O propósito
de Deus na história como realidade presente, faz parte da essência de nossa fé
(HOEKEMA, 1989, p. 39).
A concepção da Reforma como um movimento originariamente religioso
não implica na compreensão de que ela esteve restrita a apenas esta esfera da rea-
lidade; pelo contrário, entendemos que a Reforma foi um movimento de grande

A Reforma Protestante
158 UNIDADE III

alcance cultural (PEYREFITTE, 1999), institucional, social e político na histó-


ria da Europa e, posteriormente, em todo o Ocidente. A amplitude da influência
da Reforma em diversos setores da vida estava implícita em sua própria consti-
tuição: era impossível alguém abraçar a Reforma apenas no campo da religião
e continuar em tudo o mais a ser um homem de uma ética medieval, com a sua
perspectiva da realidade e prática intocáveis.
A Reforma em sua própria constituição era extremamente revolucionária:
“A Reforma ocupou, e deve continuar a ocupar, um legítimo e significativo lugar
na história das ideias” (MCGRATH, 2007, p. 4). Reconhecendo o aspecto reli-

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
gioso como força motriz da Reforma e de sua influência, continua McGrath: “A
relevância história da Reforma não é apenas inseparável das visões religiosas dos
principais reformadores, mas também, em grande parte, consequência das mes-
mas” (MCGRATH, 2007, p. 13).
Não deixa de ser significativo o testemunho de dois estudiosos católicos,
Abbagnano e Visalberghi (1990, p. 253), quando afirmam que, “contribuição
fundamental à formação da mentalidade moderna foi à reforma religiosa de
Lutero e Calvino”.

A REFORMA E O HUMANISMO-RENASCENTISTA

A Reforma surgiu em um contexto Humanista e Renascentista, tendo inclusive


alguns pontos em comum, como exemplo disso citamos o fato de que a ênfase
humanista no retorno às fontes primárias fez com que os humanistas cristãos
se despertassem para o estudo dos Originais da Bíblia, o que ocasionou a veri-
ficação de uma evidência cada vez mais forte: as diferenças existentes entre os
princípios do Novo Testamento e a religião romana (CAIRNS, 2008, p. 223).
Também, a Reforma sem dúvida pôde se valer das traduções e edições de obras,
inclusive cristãs, até então desconhecidas ou de pequeníssima circulação, feitas
pelos humanistas (KRISTELLER, 1995, p. 85-86).

A REFORMA PROTESTANTE: HISTÓRIA E PRESSUPOSTOS TEÓRICOS


159

A própria edição do Novo Testamento Grego feita por Erasmo (1516) se


constitui numa grande evidência do que estamos dizendo. Contudo, as dife-
renças são mais profundas do que as semelhanças (CASSIRER, 1992, p. 195) e
a Reforma também não foi sintética em termos dos valores cristãos e pagãos:
Lutero (1483-1546), e mais tarde todos os reformadores, não se deixaram limitar
por uma visão puramente humanista, antes, pelo contrário; Lutero (1483-1546),
Zuínglio (1484-1531) e Calvino (1509-1564), apesar das divergências de compre-
ensão, de ênfase e de estilo, estavam acordes quanto à centralidade da Palavra de
Deus; na Escritura como sendo a fonte, para se pensar acerca de Deus. “Ainda
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

que a Reforma e a Renascença tivessem coincidido na História e também tra-


tado dos mesmos problemas básicos, as suas respostas foram completamente
diferentes” (SCHAEFFER, 2003, p. 49).
Enquanto os humanistas partiam de uma perspectiva secular, o protestan-
tismo tinha uma perspectiva e caráter religioso. Os reformadores vão enfatizar
o estudo da Palavra, visto que este fora ofuscado pela preocupação filosófica: a
Razão havia tomado o lugar da Revelação.
Na Reforma, o ponto de partida não é o homem; ele não é considerado “a
medida de todas as coisas”; antes, a sua dignidade consiste em ter sido criado à
imagem de Deus. Portanto, a dissociação entre a Renascença e a Reforma teria
de ser como foi: inevitável.

A REFORMA E A PROPAGAÇÃO DAS ESCRITURAS

A Reforma teve como objetivo precípuo uma volta às Sagradas Escrituras, a fim
de reformar a Igreja que havia caído ao longo dos séculos, numa decadência teo-
lógica, moral e espiritual. A preocupação dos reformadores era principalmente a
reforma da vida, da adoração e da doutrina à luz da Palavra de Deus (BROWN,
1983). Desta forma, a partir da Palavra, passaram a pensar acerca de Deus, do
homem e do mundo! “A reforma foi acima de tudo uma proclamação positiva
do evangelho Cristão” (LEITH, 1997, p. 36).

A Reforma Protestante
160 UNIDADE III

A Reforma não trouxe perfeição social ou política, mas ela gradualmente


gerou um aperfeiçoamento vasto e único. O que o retorno da Reforma aos
ensinamentos bíblicos trouxe para a sociedade foi uma oportunidade para
o exercício de uma liberdade tremenda, sem recair no caos.
Fonte: Schaeffer (2003, p. 63).

O princípio protestante do “livre exame” caminhava na mesma direção do espírito

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
humanista de rejeição a qualquer autoridade externa: as coisas são o que são porque
são, não porque outros dizem que elas sejam. Isto é válido para as verdades cientí-
ficas, como para as verdades teológicas: não é a Igreja que autentica a Palavra por
sua interpretação “oficial”, mas, sim, é a Bíblia que se autentica a Si mesma como
Palavra autoritativa de Deus (CALVINO, 1997, p. 110) e, é Ele mesmo Quem nos
ilumina para que possamos interpretá-la corretamente. Na Reforma, “a Palavra de
Deus era a única autoridade, e a salvação tinha como base única a obra definitiva
do Senhor Jesus Cristo, consumada na cruz” (SCHAEFFER, 2003, p. 10).
A questão da interpretação bíblica sempre foi o ponto nevrálgico em toda a
história da teologia. Na Reforma deu-se uma mudança de quadro de referência.
Por isso, podemos falar deste movimento como tendo um de seus pilares fun-
damentais a questão hermenêutica, envolvendo em seu bojo a provisoriedade
de sua interpretação.

Um dos princípios fundamentais do protestantismo é sua insistência em


que todas as interpretações da Bíblia devem ser consideradas provisórias,
e não definitivas; parte da tarefa da igreja é reexaminar continuamente as
formas anteriores de interpretar a Escritura a fim de assegurar que elas não
desviem para modos sem critério, irrefletidos ou simplesmente errôneos de
interpretar esse texto essencial.
Fonte: Mcgrath (2012, p. 372).

A REFORMA PROTESTANTE: HISTÓRIA E PRESSUPOSTOS TEÓRICOS


161

O “eixo hermenêutico” desloca-se da tradição da igreja para a compreensão pes-


soal da Palavra, contudo, sem desprezar aquela, afinal, ninguém se aproxima da
Escritura como de tudo o mais, sem uma gama imensa de influências. Há aqui
uma mudança de critério de verdade que determina toda a diferença. No entanto,
conforme acentua Popkin (2000, p. 26), Lutero inicialmente confrontou a igreja
dentro da perspectiva da própria tradição da igreja, somente mais tarde é que ele:
[...] deu um passo crítico que foi negar a regra de fé da Igreja, apre-
sentando um critério de conhecimento religioso totalmente diferente.
Foi neste período que ele deixou de ser apenas mais um reformador
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

atacando os abusos e a corrupção de uma burocracia decadente, para


tornar-se o líder de uma revolta intelectual que viria a abalar os pró-
prios fundamentos da civilização ocidental.

Partindo desses princípios, a Reforma onde quer que chegue se preocupava em


colocar a Bíblia na língua do povo – e neste particular a tipografia foi fundamen-
tal para a Reforma –, a fim de que todos tivessem acesso à Sua leitura – sendo o
“reavivamento” da pregação da Palavra um dos marcos fundamentais da Reforma.
“A divulgação da Bíblia na língua vernácula dos povos foi o centro do movimento
em todos os países da Europa” (SCHALKWIJK, 1986, p. 22-23). Ela foi carac-
terizada pela “emergência de uma nova pregação” (LIENHARD, 1998, p. 97).
George (2015, p. 181) sumariza:
Os reformadores queriam que a Bíblia lançasse raízes profundas na vida das
pessoas que foram chamadas para servir. A Palavra de Deus não devia ser
apenas lida, estudada, traduzida, memorizada e usada para meditação; ela
também devia ser incorporada à vida e à adoração na igreja. A concretização
da Bíblia foi muito claramente expressa no ministério de pregação, que rece-
beu nova preeminência na adoração e na teologia das tradições da Reforma.

Os Reformadores pontuam que se as Escrituras estivessem numa língua acessí-


vel aos povos, todos os que quisessem poderiam ouvir a voz de Deus e, todos os
crentes teriam acesso à presença de Deus. Portanto, “para eles, as Escrituras eram
mais uma revelação pessoal que dogmática” (LINDSAY, 1985, p. 475).
Calvino, por exemplo, entendia que as Escrituras eram tão superiores aos
outros escritos que: “logo, se lhes volvemos olhos puros e sentidos íntegros, de
pronto se nos antolhará a majestade de Deus, que, subjugada nossa ousadia de
contraditá-la, nos compele a obedecer-lhe.” Contudo, os reformadores esbarra-
ram em um problema estrutural: o analfabetismo generalizado entre as massas.

A Reforma Protestante
162 UNIDADE III

A leitura era um privilégio de poucos; de livros, então, restringia-se a médicos,


nobres, ricos comerciantes e integrantes do clero (STEVEN, 2006, p. 205-206).
É digno de nota, que antes mesmo do humanista Erasmo de Roterdã (1466-
1536) editar o Novo Testamento Grego (1516) e de Lutero afixar as suas 95 teses
às portas da catedral de Wittenberg (31 de outubro de 1517), já se tornara visí-
vel o esforço por colocar a Bíblia no idioma nativo de cada povo.
John Wycliffe (c. 1320-1384), Nicholas de Hereford († c. 1420) e John Purvey
(c. 1353-1428) traduziram a Bíblia para o inglês em 1382-1384. Coube a Nicholas a
tradução da maior parte do Antigo Testamento. Esta tradução que incluía os apócri-

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
fos, foi feita diretamente da Vulgata, sem consultar os Originais Hebraicos e Gregos.
Outro ponto que deve ser realçado a esse respeito, é que quanto mais os tem-
pos se avizinhavam do século XVI, verifica-se um desejo mais intenso de ler as
Escrituras. Como reflexo disto, “de 1457 a 1517 são publicadas mais de quatro-
centas edições da Bíblia” (BIÉLER, 1990, p. 44).
Lutero traduziu a Bíblia para o alemão, concluindo o seu trabalho em outu-
bro de 1534. A sua tradução é uma obra primorosa, sendo considerada o marco
inicial da literatura alemã. “O resultado foi um frescor de linguagem que tornou
Jesus um contemporâneo do século XVI” (PELIKAN, 2000, p. 173).
Febvre (1878-1956) diz de forma poética, que o trabalho de Lutero consistiu:
[...] numa assombrosa ressurreição da Palavra. Estando o mais distante
possível de uma fria exposição, de um labor didático de um filólogo.
Também, é mais do que um ‘trabalho de artista’ em busca de um estilo
pessoal. É o esforço, sem dúvida dramático, feliz, de um pregador que
quer convencer; ou melhor, de um médico que quer curar, trazer aos
seus irmãos, os homens, todos os homens, o remédio milagroso que
acaba de curá-lo (FEBVRE, 1992, p. 187).

A ORIGEM, AUTORIDADE E SUFICIÊNCIA DAS ESCRITURAS

Visto que a igreja é o reino de Cristo, e que Cristo não reina senão por
Sua Palavra, ainda vamos continuar duvidando de que são mentirosas
as palavras daqueles que imaginam o reino de Cristo sem o Seu cetro,
quer dizer, sem a Sua santa Palavra? (João Calvino).

A REFORMA PROTESTANTE: HISTÓRIA E PRESSUPOSTOS TEÓRICOS


163

• A perfeita vontade de Deus


7
A lei do SENHOR é perfeita e restaura a alma; o testemunho do SE-
NHOR é fiel e dá sabedoria aos símplices.
8
Os preceitos do SENHOR são retos e alegram o coração; o mandamento
do SENHOR é puro e ilumina os olhos.
9
O temor do SENHOR é límpido e permanece para sempre; os juízos do
SENHOR são verdadeiros e todos igualmente, justos.
10
São mais desejáveis do que ouro, mais do que muito ouro depurado; e
são mais doces do que o mel e o destilar dos favos (Sl 19. 7-10).
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

A Lei do Senhor reflete a natureza do Senhor que Se manifesta na Criação com ordem
e beleza. Por isso, após descrever a sinfonia da Criação, o salmista afirma que: “a lei
do Senhor é perfeita (~ymiT)' (tamiym)1” (Sl 19,7). De fato, a Lei do Senhor é perfeita,
completa; abarca todas as nossas necessidades físicas e espirituais. Ela tem princípios
que sendo seguidos, instruem, previnem e corrigem os nossos caminhos.
No caminho de Deus não há ambiguidade. Por isso, as suas orientações são
completas, sem mistura: “O caminho de Deus é perfeito (~ymiT)' (tamiym); a palavra
do SENHOR é provada; ele é escudo para todos os que nele se refugiam” (Sl 18,30).
Assim como o insensato alimenta em seu coração a afirmação de que não há
Deus2, o salmista deseja profundamente algo oposto. Ele diz: “Seja o meu cora-
ção (ble)(ble) irrepreensível (~ymiT) (tamiym) nos teus decretos, para que eu não seja
envergonhado” (Sl 119,80). Quando assimilamos de coração a Palavra de Deus e
a adotamos com integridade, independentemente das consequências e dos juízos
dos outros, não teremos do que nos envergonhar. Não há vergonha em seguir a
Deus ainda que os padrões adotados pela maioria apontem nesta direção. Poderão,
sem dúvida, nos envergonhar, contudo, nunca nos sentiremos envergonhados.
Na integridade da Palavra não há contradição, antes, temos o absoluto de
Deus para todos os desafios próprios de nossa existência. Por isso, quem segue
a Palavra de Deus buscando praticá-la com integridade de coração será irrepre-
ensível em seu caminho, em todas as circunstâncias. Este será bem-aventurado.

1 A ideia da palavra traduzida por perfeita é de: integridade (Sl 15.2); aperfeiçoar (Sl 18.32); retidão (Sl
101.6); irrepreensível (Sl 119.1,80); inculpável (2Sm 22.24).
2 “Diz o insensato (lb'n') (nabal) no seu coração (ble)(leb): Não há Deus (~yhil{a/)(elohim)....” (Sl 14.1).

A Reforma Protestante
164 UNIDADE III

As Escrituras insistem neste ponto: “Bem-aventurado o homem que não anda (%lh; )’
(halak) no conselho dos ímpios, não se detém no caminho dos pecadores, nem se
assenta na roda dos escarnecedores” (Sl 1,1). “Bem-aventurados os irrepreensíveis
(~ymiT') (tamiym) no seu caminho, que andam (%l;h') (halak) na lei do SENHOR
2
Bem-aventurados os que guardam as suas prescrições e o buscam (vrd) (darash)
de todo o coração (ble)(leb); não praticam iniquidade e andam (%l;h') (halak) nos
seus caminhos” (Sl 119.1-3). “... Bem-aventurado aquele que teme ao SENHOR e
anda (%l;h) (halak) nos seus caminhos!” (Sl 128,1).
A vontade de Deus é idêntica a Ele mesmo, sendo eticamente perfeita e com-

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
pleta. Deus é perfeito; não muda, não se aperfeiçoa nem se deteriora (Mt 5,48; Hb
13,8; Tg 1,17). A perfeição não comporta ganho ou perda de qualidade. Deus é eter-
namente perfeito. Assim também é a Sua vontade. Não há um centímetro sequer
de toda a Criação que não seja abrangido pela totalidade da Sua vontade. Por isso
é que as Escrituras declaram que a “lei do Senhor é perfeita” (Sl 19,7; Tg 1,25). Ela
abrange de forma completa e absoluta todas as nossas necessidades; nada lhe escapa,
nada lhe é estranho. Na Lei de Deus temos os princípios fundamentais para todo o
nosso viver, seja em que época for, em que cultura for: a Lei do Senhor é perfeita!
McGrath (2007, p. 60) constata e faz uma advertência:
Como o surgimento do nazismo e stalinismo já têm tornado muitíssi-
mo claro, tendências culturais precisam ser criticadas. Não se pode per-
mitir que sejam normativas. E isso exige que o cristianismo baseie-se
em algo que transcenda particularidades culturais – especificamente, a
autorrevelação de Deus.

Esta compreensão só é possível por intermédio da Palavra. Por isso, mesmo


Deus nos convida a um exame de Sua Palavra. Nela, temos os Seus ensinamen-
tos e promessas que, de fato, podem iluminar os nossos olhos, apontando e nos
capacitando a seguir o Seu caminho. “Porque o mandamento é lâmpada, e a ins-
trução, luz (rAa) (‘ôr)” (Pv 6,23). Esta é a experiência do salmista: “Os preceitos
do SENHOR são retos e alegram o coração; o mandamento do SENHOR é puro e
ilumina (rAa) (‘ôr) os olhos” (Sl 19,8). “Lâmpada para os meus pés é a tua palavra
e, luz (rAa) (‘ôr) para os meus caminhos” (Sl 119,105).

A REFORMA PROTESTANTE: HISTÓRIA E PRESSUPOSTOS TEÓRICOS


165

Nas Escrituras, seguir a instrução de Deus é o mesmo que andar na luz:


“Irão muitas nações e dirão: Vinde, e subamos ao monte do SENHOR e à casa do
Deus de Jacó, para que nos ensine os seus caminhos, e andemos pelas suas ve-
redas; porque de Sião sairá a lei, e a palavra do SENHOR, de Jerusalém (...) Vinde,
ó casa de Jacó, e andemos na luz (rAa) (‘ôr) do SENHOR” (Is 2,3.5).
“Atendei-me, povo meu, e escutai-me, nação minha; porque de mim sairá a lei,
e estabelecerei o meu direito como luz (rAa) (‘ôr) dos povos” (Is 51,4).
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

Fonte: o autor.

A Palavra de Deus nos dá discernimento com clareza: “A revelação das tuas pala-
vras esclarece (rAa) (‘ôr) e dá entendimento (!yBi) (bîyn)3 aos simples (ytiP.) (pethiy)
(= ingênuo, tolo, mente aberta)” (Sl 119,130).
Deus concede este entendimento aos símplices, referindo-se às pessoas ingê-
nuas que por não terem desenvolvido uma mente discernidora, é aberta a qualquer
conceito4, não percebendo as armadilhas e contradições do seu inconsistente
mosaico de pensamento. A Palavra nos conduz à maturidade, ao discernimento
para que não mais tenhamos uma “mente aberta”, em que tudo passe sem fronteira,
sendo suscetível a todo tipo de sedução e engano. Deus deseja que exercitemos
o senso crítico (Pv 1,4; 14,15) deixando a paixão pela “necedade” (Pv 1,22)5.
Um indivíduo simples é como uma porta aberta – ele não tem dis-
cernimento sobre o que pode sair ou entrar. Tudo entra porque ele é
ignorante, inexperiente, ingênuo e não sabe discernir as coisas. Pode
ser até que tenha orgulho de ter uma ‘mente aberta’, apesar de ser ver-
dadeiramente um tolo (MACARTHUR, 2005, p. 39).

O escritor da Epístola aos Hebreus declara que “a Palavra de Deus é viva e eficaz” (Hb

3
O verbo (!yBi) (bîyn) e o substantivo (hn”yBi) (bîynâh) apresentam a ideia de um entendimento, fruto de
uma observação demorada, que nos permite discernir para interpretar com sabedoria e conduzir os nossos
atos.
4
“O simples (ytiP.) (pethiy) dá crédito a toda palavra, mas o prudente atenta (yBi) (biyn) para os seus passos”
(Pv 14.15).
5
“Até quando, ó néscios (ytiP) (pethiy), amareis a necedade (ytiP) (pethiy)? E vós, escarnecedores, desejareis o
escárnio? E vós, loucos, aborrecereis o conhecimento?” (Pv 1.22).

A Reforma Protestante
166 UNIDADE III

4.12). Ela não é uma verdade morta, que desperta curiosidade apenas por fazer parte
do ossuário, das relíquias, da arqueologia ou da historiografia, sendo estudada uni-
camente como um exercício de reflexão histórica para a nossa mera curiosidade, ou,
quem sabe, para entendermos como viviam os povos na Antiguidade. Não, a Palavra
de Deus é uma verdade viva, que tem a mesma vivacidade de quando foi revelada por
Deus aos seus servos, que a registraram inspirados pelo Espírito Santo. Ela continua
com a mesma eficácia para os questionamentos existenciais do homem moderno.
Muitas vezes, o problema de nós, homens do século XXI, – e até mesmo para
muitos de nós cristãos, e digo isso com pesar –, é que amiúde, sem perceber-

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
mos, trocamos os preceitos da Bíblia por conselhos de revistas, por modismos
veiculados pelos meios de comunicação, pelo modus vivendi e faciendi contem-
porâneos; substituímos a Bíblia pela psicologia, filosofia, sociologia, antropologia
e até mesmo, astrologia, colocando-as como o nosso parâmetro de comporta-
mento, em detrimento da inerrante, infalível Palavra de Deus, que é a verdade
verdadeira, viva e eficaz de Deus para nós. Isto tudo nós fazemos, em nome de
uma suposta “prática”, esquecendo-nos de que toda e cada parte do ensino bíblico
é urgente e necessariamente prática, relevante para nós.
Jesus Cristo, a Palavra encarnada, nos diz: “Eu sou a luz (fîj) do mundo; quem
me segue não andará nas trevas; pelo contrário, terá a luz (fîj) da vida” (Jo 8,12/
Is 49,6)6. Somente a Palavra de Deus pode transmitir a alegria real e duradoura ao
nosso coração. Ela dispersa as nuvens de incertezas e contradições de uma socie-
dade pervertida, nos mostrando os verdadeiros valores. No ato de seguir as veredas
de Deus, vamos descobrindo a sensatez e alegria da obediência: os nossos cami-
nhos vão se aclarando: “... a vereda dos justos é como a luz (rAa) (‘ôr) da aurora, que
vai brilhando (rAa)7 (‘ôr) mais e mais até ser dia perfeito” (Pv 4,18). Assim, grada-
tivamente, esta alegria vai se refletindo até mesmo em nosso semblante: “Quem é
como o sábio? E quem sabe a interpretação das coisas? A sabedoria do homem faz
reluzir o seu rosto (rAa) (‘ôr), e muda-se a dureza da sua face” (Ec 8,1).
Quando adotamos esta “prática” destoante das Escrituras, cometemos uma

6
“Sim, diz ele: Pouco é o seres meu servo, para restaurares as tribos de Jacó e tornares a trazer os remanescentes
de Israel; também te dei como luz (rAa) (‘ôr) para os gentios, para seres a minha salvação até à extremidade da
terra” (Is 49.6).
7
A grafia de “luz”, “ser luz”, “tornar-se luz” e “brilhar” é a mesma no hebraico.

A REFORMA PROTESTANTE: HISTÓRIA E PRESSUPOSTOS TEÓRICOS


167

total inversão de valores: assimilamos os conceitos humanos que, quando cor-


retos, nada acrescentam à Palavra, mas que, na realidade, na maioria das vezes,
estão totalmente equivocados, porque desconhecem a dimensão do eterno, os
valores celestiais para a nossa vida aqui e agora e, por isso mesmo, apresentam
ensinamentos mundanos, frutos de uma geração corrompida. Tais conceitos
assumem na vida da Igreja um papel orientador. A Igreja, ao contrário disso, é
chamada a ser uma antítese ativa contra os valores deste século; ela é convocada
a viver a Palavra, a considerá-la como de fato é, a Palavra infalivelmente viva e
eficaz para a nossa vida: a Palavra final de Deus para a nossa existência terrena.
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

A Lei de Deus continua sendo o princípio norteador de toda a vida cristã;


Deus continua ordenando que nós não adulteremos, não roubemos, não mate-
mos, que honremos os nossos pais, que O adoremos com exclusividade. Por isso
é que “entre todas as filosofias de vida, a única que nos orientará seguramente
para agradá-Lo tem de ser aquela ensinada na Bíblia” (SHEDD, 1990, p. 90).

• A autoridade das Escrituras

Inspiração e inerrância bíblica são verdades fundamentais da fé cristã, das quais


depende toda a nossa formulação teológica. Essas verdades permeiam toda a
História da Igreja. É pura ingenuidade supor que o ensino destas doutrinas seja
algo novo, posterior à Reforma, resultante da Ortodoxia do século XVII ou fruto
do “fundamentalismo” do século XX. Na realidade, Jesus Cristo e os apóstolos em
nenhum momento sugeriram qualquer “engano”, “equívoco” ou “contradição” nas
páginas do Antigo Testamento; os Pais da Igreja, os Reformadores e os cristãos
em geral – inclusive os Católicos até o Vaticano II (1962-1965) –, jamais atribuí-
ram à Bíblia qualquer tipo de erro. A inspiração e a inerrância das Escrituras, são
verdades que fazem parte do “Antigo Evangelho” proclamado por Jesus Cristo, os
apóstolos, os Reformadores, François Turretini (1623-1687), Archibald Alexander
(1772-1851); Charles Hodge (1797-1878); Archibald A. Hodge (1823-1886), B.B.
Warfield (1851-1921); J.G. Machen (1881-1937), Louis Berkhof (1873-1957),
David M. Lloyd-Jones (1899-1981), J.I. Packer, e tantos outros.

A Reforma Protestante
168 UNIDADE III

A crença na inspiração total das Escrituras, bem como as próprias Escrituras,


herdara-a a Igreja Apostólica do Judaísmo. Nos tempos do Novo Testamen-
to, tanto os judeus da Palestina como em geral os da diáspora achavam que
os Profetas e as Escrituras tinham aquela mesma autoridade incondicional
que em tempos anteriores somente se dava à Lei (...). Os escritores do Novo
Testamento pensavam, como os judeus em geral, nesse assunto da autori-
dade das Escrituras. Citavam a Bíblia grega, ou Septuaginta, como escritura
inspirada: Deus falara pelos seus profetas nas Santas Escrituras, e estas são
citadas como sendo a expressão direta do próprio Deus.

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
Fonte: Richardson (1978. p. 163-164).

Estamos convencidos de que um dos problemas fundamentais entre os cristãos


do século XXI está na aceitação teórica (confessional) e prática (vivencial) da
Bíblia como Palavra autoritativa, inerrante e infalível de Deus. Uma visão relapsa
deste ponto determina o fracasso teológico e espiritual da Igreja. “Uma com-
preensão certa da inspiração e da revelação é essencial para se distinguir entre a
voz de Deus e a voz do homem”, observa corretamente MacArthur (1981, p. 19).
É justamente devido ao fato de muitos cristãos terem negado de modo con-
fessional e/ou vivencial a inspiração e inerrância das Escrituras, que tem havido
tantas heresias em toda a história do Cristianismo. Esse desvio teológico, acerca
destas doutrinas, tem contribuído de forma acentuada, para que os homens não
mais discirnam a Palavra de Deus e, por isso, não possam gozar da Sua opera-
ção eficaz levada a efeito pelo Espírito (Cf. 1Ts 2,13/Jo 17,17), caindo assim, na
“rampa escorregadia” da negação de outras doutrinas.
Entendo ainda, que qualquer diálogo teológico produtivo deve começar tendo
a inerrância bíblica como um pressuposto essencial. Fora disso, sinceramente,
não creio que possa haver um colóquio satisfatório, edificante e esclarecedor;
comecemos pois, pela inspiração e inerrância das Escrituras, entendendo que a
inerrância e a infalibilidade da Bíblia são decorrentes da sua Inspiração.

A REFORMA PROTESTANTE: HISTÓRIA E PRESSUPOSTOS TEÓRICOS


169

• A origem Divina e humana das Escrituras

A Bíblia não é um livro qualquer; a sua origem está em Deus que falou por inter-
médio de homens que Ele mesmo separou para registrar a Sua Palavra. Sabemos
que a questão do caráter humano das Escrituras não é algo acidental ou perifé-
rico: os homens escolhidos por Deus para registrarem as Escrituras eram pessoas
de carne e osso como nós, com personalidades diferentes, que viveram em deter-
minado período histórico – num espaço de aproximadamente 1600 anos –,
enfrentando problemas específicos, dispondo de determinados conhecimentos,
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

etc. Aqui, sabemos, não há lugar para nenhum docetismo: os autores secundá-
rios tiveram um papel ativo e passivo.
No entanto, devemos também acentuar, e este é o nosso ponto neste texto,
que o Espírito chamou Seus servos, revelou-Se a Si mesmo e a Sua mensagem,
dirigiu, inspirou e preservou os registros feitos por esses homens.
O Espírito Santo habitou em certos homens, inspirou-os, e assim diri-
giu-os que eles, em plena consciência, expressaram-se na sua singular
maneira pessoal. O Espírito capacitou homens a conhecer e expressar
a verdade de Deus. Ele impediu-os de incluir qualquer coisa que fosse
contrária a essa verdade de Deus. Ele também impediu-os de escrever
coisas que não eram necessárias. Assim, homens escreveram como ho-
mens, mas, ao mesmo tempo, comunicaram a mensagem de Deus, não
a do homem (VAN GRONINGEN, 1995, p. 64-65).

Benjamin B. Warfield (1851-1921), comentando o texto de 2Tm 3.16, diz: numa


palavra, o que se declara nesta passagem fundamental é, simplesmente, que
as Escrituras são um produto divino, sem qualquer indicação da maneira como
Deus operou para as produzir. Não se poderia escolher nenhuma outra ex-
pressão que afirmasse, com maior saliência, a produção divina das Escrituras,
como esta o faz. Podemos definir a Inspiração como sendo a influência sobre-
natural do Espírito de Deus sobre os homens separados por Ele mesmo, a fim
de registrarem de forma inerrante e suficiente toda a vontade de Deus, cons-
tituindo este registro na única fonte e norma de todo o conhecimento cristão.
Fonte: Warfield (2000, p. 79).

A Reforma Protestante
170 UNIDADE III

Esta compreensão que nos advém da própria Escritura caracteriza distintamente o


Cristianismo: os profetas não falaram aleatoriamente o que pensavam; antes, “testi-
ficaram a verdade de que era a boca do Senhor que falava através deles” (CALVINO,
1998, p. 262). Ainda que Calvino não tenha detalhado este assunto no que se refere ao
processo de inspiração, um conceito fica claro em seus escritos: os autores secundários
das Escrituras não foram simplesmente autômatos; Deus se valeu livre e soberana-
mente de seus conhecimentos e personalidade. Contudo, tudo que foi escrito o foi
conforme a vontade de Deus. Os profetas e apóstolos tiveram em seus corações “gra-
vada a firme certeza da doutrina, de sorte que fossem persuadidos e compreendessem

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
que procedera de Deus o que haviam aprendido” (CALVINO, As Institutas, I.6.2.).
Em outro lugar:
Eis aqui o princípio que distingue nossa religião de todas as demais, ou
seja: sabemos que Deus nos falou e estamos plenamente convencidos
de que os profetas não falaram de si próprios, mas que, como órgãos
do Espírito Santo, pronunciaram somente aquilo para o qual foram do
céu comissionados a declarar. Todos quantos desejam beneficiar-se das
Escrituras devem antes aceitar isto como um princípio estabelecido, a
saber: que a lei e os profetas não são ensinos passados adiante ao bel-pra-
zer dos homens ou produzidos pelas mentes humanas como uma fonte,
senão que foram ditados pelo Espírito Santo (CALVINO, 1998, p. 262).

Argumentando em prol do conceito de Calvino concernente à participação


humana no registro das Escrituras, Puckett (1995, p. 27) resume:
Os comentários de Calvino, sobre o estilo literário do texto bíblico, refle-
tem sua crença que a mente dos autores humanos permaneciam ativas na
produção da escritura. Ele atribui variações de estilos pelo fato de que vá-
rios escritores são responsáveis por diferentes porções da Bíblia. Ele rejeita
a autoria Paulina da epístola de Hebreus porque ele encontra estilos dife-
rentes entre esta e as epístolas que ele crê serem genuinamente Paulinas.

Em uma linha semelhante, resume Crampton (1992, p. 23):


A visão que Calvino mantinha sobre os autores da Escritura é que o Es-
pírito Santo agiu neles em um caminho orgânico, em acordo com suas
próprias personalidades, caráter, temperamentos, dons e talentos. Cada
autor escreveu em seu próprio estilo, e todos eles foram movidos pelo
Espírito Santo para escreverem a verdade infalível. Realmente cada es-
tilo de autor foi nele mesmo produzido pela providência de Deus.

Nas Escrituras temos todos os Livros que Deus quis que fossem preservados
para a nossa edificação:

A REFORMA PROTESTANTE: HISTÓRIA E PRESSUPOSTOS TEÓRICOS


171

Aquelas [epístolas] que o Senhor quis que fossem indispensáveis à sua


Igreja, Ele as consagrou por sua providência para que fossem perene-
mente lembradas. Saibamos, pois, que o que foi deixado nos é suficien-
te, e que sua insignificância não é acidental; senão que o cânon das
Escritura, o qual se encontra em nosso poder, foi mantido sob controle
através do grandioso conselho de Deus (CALVINO, 1998, p. 86).

• A “insuficiência” das Escrituras?

Durante toda a história a Palavra de Deus foi alvo dos mais diversos ataques:
entre eles, o mais comum é a suposição de sua falibilidade. No entanto, um
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

ataque mais sutil que também permeou boa parte da história da Igreja é a con-
cepção, ainda que muitas vezes velada, de que as Escrituras não são suficientes
para nos dirigir e orientar.
Melanchthon (1497-1560) e Lutero (1483-1546) depararam-se explicita-
mente com esse problema bem no início da Reforma Protestante. Por volta de
1520, na pequena, porém, próspera e culta cidade alemã de Zwickau, surgiu um
grupo de homens “iluminados” – chamados por Lutero de “profetas de Zwickau”
–, que alegava ter revelações especiais vindas diretamente de Deus, entendendo
ter sido chamado por Deus para “completar a Reforma”.
A sua religião partia sempre de uma suposta revelação interior do Espírito.
Acreditavam que o fim dos tempos estava próximo – os ímpios seriam extermi-
nados –, e que por isso, não era necessário estudar teologia visto que o Espírito
estaria inspirando os pobres e ignorantes. Combatiam também o batismo infan-
til. Assim pensando, esses homens diziam:
De que vale aderir assim tão estritamente à Bíblia? A Bíblia! Sempre a
Bíblia! Poderá a Bíblia nos fazer sermão? Será suficiente para a nossa
instrução? Se Deus tivesse tencionado ensinar-nos, por meio de um
livro, não nos teria mandado do céu, uma Bíblia? Somente pelo Espírito
é que poderemos ser iluminados. O próprio Deus fala dentro de nós.
Deus em pessoa nos revela aquilo que devemos fazer e aquilo que de-
vemos pregar (D’AUBIGNÉ, s.d., p. 64).

Certo alfaiate, Nícolas Storck, escolheu doze apóstolos e setenta e dois discípulos,
declarando que finalmente tinham sido devolvidos à Igreja os profetas e apóstolos.
Ele, acompanhado de Marcos Stubner e Marcos Tomás foi a Wittenberg (27/12/1521)
– que já enfrentava tumultos liderados por Andreas B. von Carlstadt (c. 1477-1541)

A Reforma Protestante
172 UNIDADE III

e Gabriel Zwilling (c. 1487-1558) –, pregar o que considerava ser a verdadeira reli-
gião cristã, contribuindo grandemente para a agitação daquela cidade. Stubner,
antigo aluno de Wittenberg, justamente por ter melhor preparo, foi comissionado
a representá-los. Melanchthon que conversou com Stubner, interveio na questão,
ainda que timidamente. Storck, mais inquieto, logo partiu de Wittenberg; Stubner,
no entanto, permaneceu, realizando ali um intenso e eficaz trabalho proselitista;
“era um momento crítico na história do cristianismo” (ATKINSON, 1987, p. 254).
Comentando os problemas suscitados pelos “espiritualistas”, o historiador
D’aubigné (1794-1872) conclui: “a Reforma tinha visto surgir do seu próprio seio

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
um inimigo mais tremendo do que papas e imperadores. Ela estava à beira do abismo”
(D’AUBIGNÉ, s.d., p. 71). Daí ouvir-se em Wittenberg o clamor pelo auxílio de
Lutero. E Lutero, consciente da necessidade de sua volta, abandonou a segurança de
Warteburgo retornando à Wittenberg a fim de colocar a cidade em ordem (1522),
o que fez, com firmeza e espírito pastoral. Mais tarde, Lutero (1995, p. 334) escreve-
ria: “Onde, porém, não se anuncia a Palavra, ali a espiritualidade será deteriorada”.
Não nos iludamos, essa forma de misticismo ainda está presente na Igreja e,
tem sido extremamente perniciosa para o povo de Deus, acarretando um des-
vio espiritual e teológico, deslocando o “eixo hermenêutico” da Palavra para a
experiência mística, nos afastando assim, da Palavra e, consequentemente, do
Deus da Palavra. O trágico é que justamente aqueles que supõem desfrutarem
de maior “intimidade” com Deus, são os que patrocinam o distanciamento da
Palavra revelada de Deus. Davi enfatiza: “A intimidade do Senhor é para os que o
temem, aos quais ele dará a conhecer a sua aliança” (Sl 25.14). Portanto, a nossa
intimidade com Deus revela-se em nosso apego à Sua Palavra, à Sua aliança.
Nesse texto, Calvino faz uma aplicação bastante contextualizada:
[...] é uma ímpia e danosa invenção tentar privar o povo comum das
Santas Escrituras, sob o pretexto de serem elas um mistério oculto,
como se todos os que o temem de coração, seja qual for seu estado e
condição em outros aspectos, não fossem expressamente chamados ao
conhecimento da aliança de Deus (CALVINO, 1999, p. 558).

Nós somos herdeiros dos princípios bíblicos da Reforma; para nós, como para
os Reformadores, a Palavra de Deus é a fonte autoritativa de Deus para o nosso
pensar, crer, sentir e agir: a Palavra de Deus nos é suficiente.

A REFORMA PROTESTANTE: HISTÓRIA E PRESSUPOSTOS TEÓRICOS


173

• Tradição e escritura?
a) Novo eixo hermenêutico

Como vimos, na Reforma deu-se uma mudança de quadro de referência. O “eixo


hermenêutico” desloca-se da tradição da igreja para a compreensão pessoal da
Palavra sem, contudo, desconsiderar a tradição. Há aqui uma mudança de cri-
tério de verdade que determina toda a diferença. No entanto, conforme acentua
Popkin, Lutero inicialmente confrontou a igreja dentro da perspectiva da pró-
pria tradição da igreja, somente mais tarde é que ele
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

[...] deu um passo crítico que foi negar a regra de fé da Igreja, apresen-
tando um critério de conhecimento religioso totalmente diferente.
Foi neste período que ele deixou de ser apenas mais um reformador
atacando os abusos e a corrupção de uma burocracia decadente, para
tornar-se o líder de uma revolta intelectual que viria a abalar os pró-
prios fundamentos da civilização ocidental (POPKIN, 2000, p. 26).

A Reforma do século XVI foi baseada na autoridade da Bíblia e (...) colocou o


mundo em chamas.
Fonte: J. Gresham Machen.

b) “Sola Scriptura” x Tradição?

O Sola Scriptura foi considerado pelos reformadores como o princípio for-


mal que dá substância a tudo o mais. Portanto, a tradição nunca foi rejeitada
pelo simples fato de ser tradição. Na própria Escritura encontramos ênfase e
crítica à tradição [par£dosij] (2Ts 2,15). A questão básica é: a que tradição
estamos nos referindo? Como vimos, “Lutero e os reformadores não queriam
dizer por Sola Scriptura que a Bíblia é a única autoridade da igreja. Pelo contrá-
rio, queriam dizer que a Bíblia é a única autoridade infalível dentro da Igreja”
(SPROUL, 1982, p. 122).
A Reforma revoltou-se quanto à suposta autoridade da tradição independente
da Escritura e pretensamente nivelada com ela. “Os reformadores restauraram a

A Reforma Protestante
174 UNIDADE III

Bíblia como tradição cristã autoritária” (STANGER, 2007, p. 583). Deste modo,
a autoridade dos Credos (Apostólico, Nicéia, Calcedônia) era indiscutivelmente
considerada pelos reformadores – tendo inclusive Lutero [O Catecismo Maior
(1529) e O Catecismo Menor (1529)] e Calvino [Catecismo de Genebra (1536/37
e1541/2) e Confissão Gaulesa (1559)] elaborado Catecismos para a Igreja –; con-
tudo, somente as Escrituras são incondicionalmente autoritativas. Os dizeres da
Confissão Gaulesa (Capítulo 5) resumem bem o espírito que orientou a aceita-
ção dos Credos pelos Reformadores:
Concluímos que nem a antiguidade, nem os costumes, nem a maioria,

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
nem sabedoria humana, nem julgamentos, nem prisões, nem as leis, nem
decretos, nem os concílios, nem visões, nem milagres podem se opor a
esta santa Escritura, mas ao contrário, todas as coisas devem ser examina-
das, regulamentadas e reformadas por ela. Neste espírito, nós reconhece-
mos os três símbolos, a saber:O Credo dos Apóstolos, de Nicéia, e de Ata-
násio, porque eles estão de acordo com a Palavra de Deus” (Grife nosso).8

Wallace (2003, p. 11-12) acentua que Calvino:


[...] sempre insistiu que a tradição precisava ser constantemente cor-
rigida pelo ensino das Sagradas Escrituras e ser subordinada a elas.
Porém, ele sempre foi cuidadoso e criterioso em examinar minucio-
samente dentro da tradição o que devia ser rejeitado e o que devia ser
aceito. Ninguém foi mais obstinado em manter aquilo que ele tinha ex-
perimentado como algo bom, qualquer que fosse sua origem, contanto
que sua retenção não atrapalhasse a total sujeição de sua mente e de sua
vida à Palavra de Deus ou o desviasse de seguir a Cristo.

• Uma compreensão reformada das escrituras

Para podermos usufruir desta grandiosa bem-aventurança de ler a Palavra com


real proveito (Ap 1,3), precisamos compreender a mensagem de Deus, qual o seu
objetivo em cada parte da Escritura e em toda a Escritura. Mais do que um exer-
cício acadêmico, necessitamos da iluminação do Espírito Santo. Aqui, vamos nos
valer de alguns princípios interpretativos que certamente nos serão úteis nesta
tarefa de entender a mensagem bíblica. Só teremos de fato a mensagem bíblica

8
Esta Confissão, também conhecida como Confissão de Fé de La Rochelle encontra-se traduzida na íntegra
no site: <http://www.monergismo.com/textos/credos/Confissao_Franca_Rochelle.pdf>.

A REFORMA PROTESTANTE: HISTÓRIA E PRESSUPOSTOS TEÓRICOS


175

Interpretação significa, exatamente, enxergar como elas se aplicam. Os comen-


tários podem indicar-nos o que o texto significa como uma expressão da mente
do escritor para a audiência original, mas apenas o Espírito Santo pode mostrar-
-nos o que ele significa como Palavra de Deus para a direção de nossas vidas,
hoje. Somente por meio do Espírito a direção das Escrituras é uma realidade.
Fonte: J.I. Packer (2005, p. 113).
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

se entendermos fundamentalmente o que Deus disse em Sua Palavra.


A Confissão de Westminster (1647) – que juntamente com os Catecismos Maior
e Breve, normalmente constituem os Símbolos de Fé das Igrejas Presbiterianas
–, segundo nos parece, tem como pressuposto fundamental:
I. As Escrituras são inspiradas por Deus (CW., I,2.8) – Ele é o seu Autor
(CW., I.4);
II. Tendo Deus as concedido “para serem a regra de fé e de prática” (CW., I,1-2);
III. Ela é “indispensável” para a vida cristã (CW., I,1), devendo ser lida e estu-
dada “no temor de Deus” (CW., I,8). Por isso, a Igreja deve promover a
sua tradução para todos os idiomas, a fim de que o homem possa, pela
Palavra, conhecer a Deus, adorando-O de forma aceitável, bem como usu-
fruir das bênçãos espirituais decorrentes da compreensão das Escrituras
(CW., I,8). O objetivo do correto conhecimento de Deus não é a nossa
satisfação pessoal e, também, não tem valor em si mesmo, a menos que
nos conduza a honrar-Lhe (CALVINO, 1962, p. 30).

O significado das Escrituras é as Escrituras. Se você não interpretar a passa-


gem corretamente, então você não tem a Palavra de Deus, porque apenas o
significado verdadeiro é a Palavra de Deus.
Fonte: John F. MacArthur Jr.

A Reforma Protestante
176 UNIDADE III

a) Autoridade interna:
A autoridade da Escritura Sagrada, razão pela qual deve ser crida e obe-
decida, não depende do testemunho de qualquer homem ou igreja, mas
depende somente de Deus (a mesma verdade) que é o seu Autor; tem, por-
tanto, de ser recebida, porque é a palavra de Deus (CALVINO, 1998, s/p.).

A autoridade da Bíblia é derivada do fato de ser Ela a Palavra de Deus; portanto


o seu testemunho é interno e evidente, mesmo que os homens assim não creiam.
Ela não depende do nosso testemunho para ter autoridade; ela é o que é (1Ts
2,13; 2Tm 3,16; 2Pe 1,20-21/1Jo 5.9).

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
Anglada (1997, p. 124-125) resume bem este ponto, do seguinte modo:
[...] o testemunho do Espírito não é uma nova luz no coração, mas a sua
ação através da qual Ele abre os olhos de um pecador, permitindo-lhe
reconhecer a verdade que lá estava, mas não podia ser vista por causa
da sua cegueira espiritual.

Cabe a nós submeter o nosso juízo e entendimento à verdade de Deus conforme


testemunhada pelo Espírito. A Palavra de Deus direcionada ao homem, revela
a seriedade com que Deus nos trata: “Sempre que o Senhor se nos acerca com
sua Palavra, Ele está tratando conosco da forma mais séria, com o fim de mover
todos os nossos sentidos mais profundos. Portanto, não há parte de nossa alma
que não receba sua influência” (CALVINO, 1997, p. 108).

b) Autoridade hermenêutica

A Bíblia apresenta a melhor interpretação a respeito dos seus ensinamentos. Nós


não podemos criar uma suposta categoria científica a qual se torne a varinha
de condão para a interpretação da Palavra. Os princípios hermenêuticos devem
estar subordinados à esta verdade e, devem ser derivados, portanto, da própria
Palavra: a harmonia do seu todo e das suas partes estabelecem uma unidade har-
moniosa, por meio da qual, formulamos os princípios de interpretação, tendo
como mestres, os profetas – que interpretaram os acontecimentos passados e a
história dos seus dias –, Jesus Cristo e os apóstolos, os quais deram lições práticas
de hermenêutica, interpretando o Antigo e o Novo Testamentos (COSTA, 2007).

A REFORMA PROTESTANTE: HISTÓRIA E PRESSUPOSTOS TEÓRICOS


177

A regra infalível de interpretação da Escritura é a mesma Escritura; portan-


to, quando houver questão sobre o verdadeiro e pleno sentido de qualquer
texto da Escritura (sentido que não é múltiplo, mas único), esse texto pode
ser estudado e compreendido por outros textos que falem mais claramente.
(A Confissão de fé de Westminster, l.9).
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

Posteriormente li a advertência do Dr. David M. Lloyd-Jones (1899-1981):


Quão importante é dar-nos conta do perigo de começar com uma te-
oria e impô-la às Escrituras! (...). Temos que ser cuidadosos quando
estudamos as Escrituras para não suceder que elaboremos um sistema
de doutrina baseado num texto ou numa compreensão errônea de um
texto (LLOYD-JONES, 1992, p. 43).

Bruce (1910-1990) está correto ao afirmar que:


Os crentes possuem um padrão permanente e um modelo no uso que
nosso Senhor fez do Antigo Testamento, e uma parte do atual trabalho
do Espírito Santo no tocante aos crentes é abrir-lhes as Escrituras, con-
forme o Cristo ressurreto as abriu para os dois discípulos no caminho
para Emaús (Lc 24.25ss) (BRUCE, 1966, p. 753).

Quando nos aproximamos da Bíblia partimos do pressuposto de que ela é o regis-


tro fiel e inerrante da Revelação de Deus (Jo 10,35; 1Tm 1,15; 3,1; 4,9; 2Tm 3,16;
2Pe 1,20-21); por isso, podemos dizer como Paulo: “Fiel é a Palavra” (1Tm 3,1;
4,9). É por intermédio das Escrituras que aprendemos que o melhor intérprete
da Palavra é “o Espírito falando na Escritura” (Mt 22,29.31; At 4,24-26; 28,25;
1Co 2,10-16). Antes de buscarmos aplicar o texto temos de descobrir no texto
o seu sentido que nos foi dado pelo seu próprio autor.
O Senhor Jesus Cristo instrui aos seus discípulos:
Quando vier, porém, o Espírito da verdade, ele vos guiará a toda a
verdade; porque não falará por si mesmo, mas dirá tudo o que tiver
ouvido, e vos anunciará as cousas que hão de vir” (Jo 16.13). “Mas o
Consolador, o Espírito Santo, a quem o Pai enviará em meu nome, esse
vos ensinará todas as cousas e vos fará lembrar de tudo o que vos tenho
dito” (Jo 14,26/Jo 5,30; 14,6; 17,17).

A Reforma Protestante
178 UNIDADE III

A oração do exegeta cristão, que usa os meios científicos disponíveis, deve ser
como a do salmista: “Desvenda os meus olhos, para que eu contemple as maravi-
lhas da tua lei” (Sl 119,18/Lc 24,44-45; Ef 1,16-19).

c) Autoridade norteadora

Como bem sabemos, a Escritura é infalível não a nossa interpretação, portanto,


devemos buscar sempre nas Escrituras o sentido pleno da revelação. A Teologia é
uma reflexão interpretativa e sistematizada da Palavra de Deus. Não existe teologia
inspirada infalivelmente por Deus. A sua fidedignidade estará sempre no mesmo

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
nível da sua fidelidade à Escritura. A relevância de nossa formulação não depen-
derá de sua “beleza”, “popularidade” ou “significado para o homem moderno”, mas
sim na sua conformação às Escrituras. O mérito de toda teologia está no seu apego
incondicional e irrestrito à Revelação; a melhor interpretação é a que expressa o
sentido do texto à luz de toda a Escritura, ou seja, em conexão com toda a ver-
dade revelada. Não há nada mais edificante e prático do que a Verdade de Deus.

Sob o nome de Escritura Sagrada, ou Palavra de Deus escrita, incluem-se


agora todos os livros do Velho e do Novo Testamentos, todos dados por ins-
piração de Deus para serem a regra de fé e de prática.
(A confissão de fé de Westminster, I.2.)

Para Damião Berge (1969, p. 63),


[...] interpretar é apreender o sentido depositado nas palavras do autor;
é retirá-lo de sua reclusão e pô-lo, gradativamente, ao alcance do leitor,
processo esse que, em geral, culmina num ensaio de tradução tão ver-
bal como acessível.

A Teologia Reformada é uma reflexão baseada na Palavra em submissão ao Espírito,


buscando sempre uma compreensão exata do que Deus revelou e inspirou pelo
Espírito e, que agora, nos ilumina pelo mesmo Espírito (Ef 1,15-21/Sl 119,18).

A REFORMA PROTESTANTE: HISTÓRIA E PRESSUPOSTOS TEÓRICOS


179

É a partir desta compreensão que a Teologia Reformada passa a avaliar


tudo o mais, como bem expressou J.I. Packer (1986, p. 8): “o calvinismo é uma
maneira teocêntrica de pensar acerca da vida, sob a direção e controle da pró-
pria Palavra de Deus”. O calvinismo envolve uma nova cosmovisão, que afeta
obviamente todas as áreas de nossa existência, não havendo escaninhos do ser
e do saber aonde a perspectiva teocêntrica não se faça presente de forma deter-
minante em nossa epistemologia doutrinária e existencial.
A preocupação dos Reformadores era principalmente “a reforma da vida, da ado-
ração e da doutrina à luz da Palavra de Deus” (BROWN, 1989, p. 36). Desta forma, a
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

partir da Palavra, passaram a pensar acerca de Deus, do homem e do mundo.


A Teologia nunca é a causa primeira; sempre é o efeito da ação primeira de
Deus em revelar-se. “No princípio Deus...”, isto deve ser sempre considerado em
todo e qualquer enfoque que dermos à realidade (COSTA, 1987, p. 12-13). Deus
Se revela e Se interpreta por meio do Espírito; e é somente por intermédio dEle
que poderemos ter um genuíno conhecimento de Deus. “O Espírito Santo é a
chave para todo verdadeiro conhecimento” (PALMER, s.d., p. 50) . “Só quando
Deus irradia em nós a luz de seu Espírito é que a Palavra logra produzir algum
efeito. Daí a vocação interna, que só é eficaz no eleito e apropriada para ele, dis-
tingue-se da voz externa dos homens” (CALVINO, 1997, p. 374).
A teologia sempre é relativa: “relativa à revelação de Deus. Deus precede e
o homem acompanha. Este ato seguinte, este serviço, são pensamentos huma-
nos concernentes ao conhecimento de Deus” (BARTH, 1960, p. 27). Deus não
se deixa invadir pela razão humana ou mesmo pela fé; Ele se dá a conhecer livre,
fidedigna e explicitamente; Deus Se revela a Si mesmo como Senhor e, “Senhorio
significa liberdade” (BARTH, 1975, p. 306).
Sem a revelação, o homem passaria toda a sua vida e estaria na eternidade
sem o menor conhecimento de Deus ou de sua negação (não existiria “teísmo”
nem “ateísmo”); por mais engenhosos que fossem os seus métodos, por mais
sistemáticos que fossem as suas pesquisas; por mais que evoluísse a ciência. O
homem nunca conseguiria chegar a Deus ou mesmo à sua ideia: ignoraria eter-
namente a própria ignorância!
Entretanto, Deus continuaria sendo o que sempre foi: O Senhor! Todavia,
graças a Deus porque Ele soberanamente Se Revelou a Si mesmo, para que

A Reforma Protestante
180 UNIDADE III

O conhecimento de Deus não está posto em fria especulação, mas Lhe traz
consigo o culto.
(J. Calvino)

pudéssemos conhecer-Lhe e render-Lhe toda a glória que somente a Ele é devida.


Em Cristo nós somos confrontados com o clímax e plenitude da revelação de
Deus (Jo 14,9-11; 10,30; Cl 1,19; 2,9; Hb 1,1-4); “No Filho temos a revelação

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
última de Deus. Da mesma forma como é verdade que quem viu o Filho viu o
Pai, também é verdade que quem não viu o Filho, não viu o Pai” (HENDRIKSEN,
2004, p. 657). Jesus Cristo é a medida da revelação!
Lembremo-nos mais uma vez das palavras de A. Kuyper, de que o homem
não pode se colocar sobre a Bíblia para fazer uma investigação de Deus; Deus é
Quem se comunica, Quem se dá; Ele é sempre o Sujeito, nunca o objeto na rela-
ção do conhecimento. Somos o que se chamaria de “positivistas teológicos”, isto
porque, partimos sempre da revelação contida nas Escrituras, nunca da espe-
culação filosófica ou metafísica; e, é justamente isto que nos distingue de forma
marcante de outros sistemas teológicos.
A Teologia Reformada reconhece a centralidade real de Deus em todas as
coisas, tendo como alvo principal, não o tão decantado bem-estar humano – que
por certo tem a sua relevância –, mas a Glória de Deus, sabendo que as demais
coisas serão acrescentadas (Mt 6,33; Ef 1,11-12).
Para nós reformados, é a Palavra de Deus que deve dirigir toda a nossa abor-
dagem e interpretação teológica, bem como de toda a nossa compreensão do
real; a epistemologia cristã é determinada pelas “lentes” da Palavra. O Espírito
por meio da Palavra é Quem deve nos guiar à correta interpretação da Revelação.

d) Autoridade para nos Conduzir a Deus

Nós, reformados, entendemos que sem as Escrituras, não podemos ter um


conhecimento correto e salvador de Jesus Cristo (Jo 5,39/Rm 10.17), como bem
observou Calvino (1509-1564): “Ora, já que, em razão de sua obtusidade, de

A REFORMA PROTESTANTE: HISTÓRIA E PRESSUPOSTOS TEÓRICOS


181

Ainda que a luz da natureza e as obras da criação e da providência manifes-


tam de tal modo a bondade, a sabedoria e opoder de Deus, que os homens
ficam inescusáveis, todavia não são suficientes para dar aquele conheci-
mento de Deus e de sua vontade, necessário à salvação; por isso foi o Senhor
servido, em diversos tempos e diferentes modos, revelar-se e declarar à sua
Igreja aquela sua vontade (...) foi igualmente servido fazê-la escrever toda.
(A confissão de fé de Westminster, I.1.)
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

modo nenhum pode a mente humana chegar até Deus, salvo se assistida e sus-
tentada por Sua Sagrada Palavra” (CALVINO, As Institutas, I.6.4).
Todavia, também sabemos que este conhecimento não deve ter um fim em
si mesmo; a revelação foi-nos dada a fim de que fossemos conduzidos ao Deus
da revelação (Jo 5,39-40), adorando-O na liberdade do Espírito e nos parâmetros
da Palavra. Sem as Escrituras, Cristo não pode ser conhecido salvadoramente.
O conhecimento de Cristo deve implicar sempre na Sua adoração. “O culto é a
essência e o coroamento da atividade cristã” (MOULE, 1979, p. 45).

e) Autoridade para julgar a nossa teologia

Para nós, reformados, o valor da teologia estará sempre subordinado à sua fidelidade
bíblica. Por isso é que reafirmamos que, a Teologia ou é Bíblica ou não é Teologia.
Não julgamos a Bíblia; antes, é Ela que deve julgar a veracidade do nosso sistema:

O Velho Testamento em Hebraico (...) e o Novo Testamento em Grego (...)


sendo inspirados imediatamente por Deus, e pelo seu singular cuidado e
providência conservados puros em todos os séculos, são, por isso, autên-
ticos, e assim em todas as controvérsias religiosas a Igreja deve apelar para
eles como para um supremo tribunal.
(A confissão de fé de Westminster, I.8.)

A Reforma Protestante
182 UNIDADE III

O Espírito falando por meio da Palavra, é o fogo depurador da genuína Teologia.


A nossa doutrina estará de pé ou cairá à medida que for ou não bíblica. A viva-
cidade da Teologia Reformada está em sua preocupação em ser fiel às Escrituras.

f) Autoridade completa

“Todo o conselho de Deus concernente a todas as coisas necessárias para a gló-


ria dele e para a salvação, fé e vida do homem, ou é expressamente declarado na
Escritura ou pode ser lógica e claramente deduzido dela” (CW., I.6). A Escritura
é a revelação completa de Deus; tudo o que Deus quer que saibamos a respeito

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
da nossa salvação está registrado de forma explícita (CW. 1.7). As demais verda-
des reveladas, “que precisam ser obedecidas, cridas e observadas para a salvação”
podem ser compreendidas por intermédio de uma interpretação lógica, ampa-
rada no conjunto dos ensinamentos bíblicos (CW., I.6).

g) Autoridade escrita final

Entendemos que nos 66 livros canônicos encontra-se a Revelação Escrita de Deus,


registrada de forma inerrante. À Bíblia, não se fará nenhum acréscimo, corre-
ção ou eliminação (Dt 4,2; 12,32; Mt 5,18; Ap 22,18-19). Ela é a palavra final de
Deus, no que se refere à Sua vontade para nós: A Revelação é completa – atin-
gindo tudo o que Deus deseja –, e final: permanece para sempre.

À Escritura nada se acrescentará em tempo algum, nem por novas revelações


do Espírito, nem por tradições dos homens.
(A confissão de fé de Westminster, I.6.)

O que afirmamos, exclui obviamente, a aceitação dos apócrifos (CW. I,3), as


supostas revelações complementares, as interpretações “oficiais” (CW. I,4) e a
tradição verbal ou escrita (como no caso da igreja romana).

A REFORMA PROTESTANTE: HISTÓRIA E PRESSUPOSTOS TEÓRICOS


183

Daqui concluímos que o nosso sistema doutrinário deve permanecer sempre aberto
a uma volta, a um reestudo das Escrituras. O nosso sistema doutrinário, por melhor
que seja – e eu estou convencido de que é –, não pode ser mais rico do que a Palavra
de Deus, como bem observou Berkouwer (1903-1996): “Porventura a Escritura não
é mais rica do que qualquer pronunciamento eclesiástico, por mais excelente e atento
ao Verbo divino que este possa ser?” (BERKOUWER, 1964, p. 72). Por isso, o crité-
rio último de análise, será sempre “O Espírito Santo falando na Escritura” (CW. 1,10).

• A Igreja sob as escrituras


Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

Calvino (2006, p. 116) sempre manifestou um alto apreço pelas Escrituras; elas são
“A Palavra pura de Deus”, a “Sagrada Palavra de Deus”, “Santa Palavra”, “Palavra
da verdade”, “Palavra de Vida”, Infalível, que tem “segura credibilidade”: é ínte-
gra. Por isso ela é a “Norma da fé”, “Infalível norma de Sua sacra vontade”. Esta
Palavra, portanto, antecede à Igreja: “Se o fundamento da Igreja é a doutrina
profética e apostólica, impõe-se a esta haver assistido certeza própria antes que
aquela começasse a existir” (CALVINO, As Institutas, I.7.1.).
Portanto, como decorrência lógica, não é a Igreja que autentica a Palavra por
sua interpretação, como a igreja romana sustentou em diversas ocasiões; “um
testemunho humano falível (como o da igreja) não pode moldar o fundamento
da divina fé” (TURRETIN, s.d., p. 89).
É a Bíblia que se autentica a si mesma como Palavra autoritativa de Deus e, é
Ele mesmo quem nos ilumina para que possamos interpretá-la corretamente (Sl
119,18). “A carne não é capaz de tão alta sabedoria como é compreender a Deus
e o que a Deus pertence, sem ser iluminada pelo Espírito Santo” (CALVINO, As
Institutas, I. 7,1). Por isso, o Espírito não pode ser separado da Palavra.
Somente pela operação divina poderemos reconhecer a Sua origem divina bem como
compreendê-La salvadoramente. “A suprema prova da Escritura se estabelece reiteradamente
da pessoa de Deus nela a falar” (CALVINO, As Institutas, I. 7,1.). Portanto, a pretensão da
igreja de subordinar a autoridade da Bíblia ao seu arbítrio consiste numa “blasfêmia”: “É
chocante blasfêmia afirmar que a Palavra de Deus é falível até que obtenha da parte dos
homens uma certeza emprestada” (CALVINO, 1998, p. 98). Em outro lugar: “a Palavra do
Senhor é semente frutífera por sua própria natureza” (CALVINO, 1996, p. 103).

A Reforma Protestante
184 UNIDADE III

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
A REFORMA: TRABALHO E VOCAÇÃO

A Palavra de Deus parte do princípio da soberania de Deus sobre todas as coisas.


Deus é o Senhor! Na Sua relação conosco, Deus estabelece sinais dessa soberania
que servem para nós como indicativo do Seu poder, mantendo-nos sempre aten-
tos ao fato de que Deus é o Senhor a Quem devemos amar, honrar e obedecer.
Neste sentido, Deus concedeu o domínio aos nossos primeiros pais sobre todas
as coisas criadas reservando exclusividade apenas sobre uma árvore (Gn 2,16-17).
Deus que nos dá todas as coisas estabelece o dízimo como o sinal de que
tudo que temos Lhe pertence: Deus é o proprietário da terra e o originador de
todas as bênçãos (Lv 25,23; Sl 24,1; 100,3/1Cr 29,11,14/Sl 50,9-13). Portanto,
o melhor deve ser dado a Ele (1Sm 2.29; Ml 1.6-14). Quanto ao tempo, Deus
como Criador e Senhor do tempo nos concede o livre uso desse bem. Requer,
no entanto, a guarda do sábado, o dia de santo descanso (Ex 20,8-11).
Não pensemos com isso que Deus precise da árvore reservada, do nosso
dízimo e do nosso tempo; Deus de nada precisa. Deus estabeleceu estes limites
para o nosso bem, para a nossa educação e, o principal, para a nossa comunhão
com Ele, em Quem há vida abundante.
Visando à formação da cultura, o nosso desenvolvimento pessoal e social,
Deus concede habilidades ao ser humano a fim de que este, no legítimo uso des-
tes dons, possa, entre outras coisas, se realizar como pessoa glorificando a Deus
no progresso da sociedade, apresentando o fruto do seu trabalho como ato de
culto, reconhecendo em Deus o doador e mantenedor de todas as coisas.

A REFORMA PROTESTANTE: HISTÓRIA E PRESSUPOSTOS TEÓRICOS


185

Adão e Eva, que tinham todas as coisas diante de si, nem por isso foram priva-
dos de guardar e cultivar o jardim do Éden (Gn 2,15). Partindo desta perspectiva, a
grandeza de nosso trabalho não está simplesmente no que fazemos ‒ embora haja
atividades que sejam em si mesmas repulsivas ou que não deveriam fazer parte de
nossas expectativas por contribuírem para o prejuízo de nosso próximo ‒, mas, em
como o fazemos, implicando aí o seu objetivo último. Desta forma, a consagração
às nossas vocações revela a seriedade com que olhamos o nosso Senhor e a nossa
missão. Não há satisfação maior do que atender à vocação de Deus. Alegrar-nos
em Deus significa ter o prazer da sua comunhão em alegre obediência.
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

O SÁBADO DO SENHOR

a) Terminologia

O substantivo hebraico tfBa$ (Shabbãth), “sábado”, ao que parece, é derivado do


verbo tabf$ (Shãbbath), que significa, “cessar”, “desistir”, “descansar”, “deixar”,
“desaparecer”, “chegar ao fim” (Gn 2,2-3; 8,22; Jó 32,1; Is 13,11; 17,3; Jr 31,36)
e, conforme o contexto, “parar de trabalhar”. A ideia que a palavra sugere é a
de uma obra concluída. A correspondência das palavras é extraída de Gn 2,2-3,
quando diz que Deus depois de concluir a Sua obra, no sétimo dia “descansou”
(y[iybiv.) (shebiy`iy). No entanto, deve ser enfatizado que Gn 2 de forma alguma
trata do sábado como dia a ser guardado.
Shabbãth ocorre pela primeira vez em Ex 16,23: “Respondeu-lhes ele: Isto é o que
disse o SENHOR: Amanhã é repouso (!AtB'v); (shabbathon), o santo sábado (tB'v); (sha-
bbãth) do SENHOR; o que quiserdes cozer no forno, cozei-o, e o que quiserdes cozer em
água, cozei-o em água; e tudo o que sobrar separai, guardando para a manhã seguinte”.
Gerard Van Groningen (1921-2014) conclui que, “o termo deve ser enten-
dido como tendo um sentido geral de intervalo, um tempo entre outros, separado
para propósitos religiosos específicos. Em suma, sábado significa um dia santo”
(VAN GRONINGEN, 1998, p. 156).

A Reforma: Trabalho e Vocação


186 UNIDADE III

No grego, a palavra é apenas transliterada do hebraico, s£bbaton (Sábbaton),


preservando o mesmo sentido. Algumas vezes a palavra indica “semana” inteira
(Mc 16,2; Lc 18,12; Jo 20,1,19; At 20,7; 1Co 16,2), visto que os demais dias não
tinham nomes, sendo designados por números ordinais: 1º, 2º. O domingo era
o primeiro dia da semana (LOWERY, 1988, p. 460).
No Novo Testamento, encontramos a expressão kuriakÒj (kyriakos) (“do
Senhor”, “pertencente ao Senhor”), que é derivada do kÚrioj (kyrios), “Senhor”.
Kuriako/j só ocorre duas vezes no NT; em 1Co 11,20, “Ceia do Senhor”, indi-
cando a sua instituição ou posse do Senhor; e, Ap 1,10, quando especificamente

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
fala do “Dia do Senhor” (kuriakÁ ¹(mšra) (kyriakê hêmera).
Já o termo domingo é proveniente do latim, dies dominica, (dia do Senhor)
que traduz o grego (kuriakÁ ¹mšra) (kyriakê hêmera). A expressão latina teve
influência cristã visto que os romanos designavam originariamente esse dia de
dies solis (dia do sol) (LOWERY, 1988, p. 461).

b) A origem

As Escrituras registram que Deus após ter criado todas as coisas: nos céus e na
terra; no sétimo dia, descansou da obra da criação; Deus completou o que iniciou;
temos então, negativamente, a conclusão de Sua obra criativa e, positivamente,
a santificação do sétimo dia (Gn 2.2-3).

O termo em si [descansou] não significa ociosidade, inatividade completa.


Significa parar de fazer alguma coisa, ficar livre da mesma. Humanamente
falando, isso pode ser dito de Deus em relação à sua obra criadora.
Fonte: Van Groningen (1999, p. 133).

A palavra sábado não ocorre na narrativa de Gênesis, contudo, é nos dito posterior-
mente em linguagem antropomórfica: “Porque, em seis dias, fez o SENHOR os céus
e a terra, o mar e tudo o que neles há e, ao sétimo dia, descansou; por isso, o SENHOR

A REFORMA PROTESTANTE: HISTÓRIA E PRESSUPOSTOS TEÓRICOS


187

abençoou o dia de sábado (tB'v); (shabbãth) e o santificou” (Ex 20.11). Posteriormente,


isto é reafirmado, dizendo que nesta ocasião Deus “descansou, e tomou alento” (Ex
31,17). “Deus não descansa da fadiga, mas em contentamento pela realização com-
pletada” (DYKE, 1999, p. 86). Ele continuou preservando e sustentando a Sua obra,
como sempre o faz. Do mesmo modo, o povo de Deus, juntamente com todos os
seus, seguindo o Seu Criador, deve tomar alento nesse dia (Ex 23,12).
A admoestação de Deus sobre o povo na tentativa de recolhimento do maná
para o dia seguinte, ocorrendo isso antes da entrega da Lei, atesta a instrução
anterior de Deus ao povo quanto à necessidade de guardar este dia. Ou seja:
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

antes da prescrição dos Dez Mandamentos já havia o ensino de Deus quanto ao


sábado. Na Lei, temos assim, a sua “codificação”.
4
Então, disse o SENHOR a Moisés: Eis que vos farei chover do céu pão, e o
povo sairá e colherá diariamente a porção para cada dia, para que eu ponha
à prova se anda na minha lei ou não. 5 Dar-se-á que, ao sexto dia, prepararão
o que colherem; e será o dobro do que colhem cada dia. (...) 16 Eis o que o SE-
NHOR vos ordenou: Colhei disso cada um segundo o que pode comer, um
gômer por cabeça, segundo o número de vossas pessoas; cada um tomará
para os que se acharem na sua tenda. 17 Assim o fizeram os filhos de Israel; e
colheram, uns, mais, outros, menos. 18 Porém, medindo-o com o gômer, não
sobejava ao que colhera muito, nem faltava ao que colhera pouco, pois colhe-
ram cada um quanto podia comer. 19 Disse-lhes Moisés: Ninguém deixe dele
para a manhã seguinte. 20 Eles, porém, não deram ouvidos a Moisés, e alguns
deixaram do maná para a manhã seguinte; porém deu bichos e cheirava mal.
E Moisés se indignou contra eles. 21 Colhiam-no, pois, manhã após manhã,
cada um quanto podia comer; porque, em vindo o calor, se derretia. 22 Ao
sexto dia, colheram pão em dobro, dois gômeres para cada um; e os prin-
cipais da congregação vieram e contaram-no a Moisés. 23 Respondeu-lhes
ele: Isto é o que disse o SENHOR: Amanhã é repouso, o santo sábado do
SENHOR; o que quiserdes cozer no forno, cozei-o, e o que quiserdes cozer
em água, cozei-o em água; e tudo o que sobrar separai, guardando para a
manhã seguinte. 24 E guardaram-no até pela manhã seguinte, como Moisés
ordenara; e não cheirou mal, nem deu bichos. 25 Então, disse Moisés: Comei-
-o hoje, porquanto o sábado é do SENHOR; hoje, não o achareis no campo.
26
Seis dias o colhereis, mas o sétimo dia é o sábado; nele, não haverá. 27 Ao
sétimo dia, saíram alguns do povo para o colher, porém não o acharam. 28
Então, disse o SENHOR a Moisés: Até quando recusareis guardar os meus
mandamentos e as minhas leis? 29 Considerai que o SENHOR vos deu o sá-
bado; por isso, ele, no sexto dia, vos dá pão para dois dias; cada um fique
onde está, ninguém saia do seu lugar no sétimo dia. 30 Assim, descansou o
povo no sétimo dia (Ex 16,45;16-30).

A Reforma: Trabalho e Vocação


188 UNIDADE III

■ O Significado

O Antigo Testamento insiste no fato de que o sábado é do Senhor (Ex 16,23;


20,10; Lv 23,3), realçando, inclusive, a sua relevância para o povo. Nenhum
outro mandamento é tão fortemente enfatizado como este. Devemos destacar
que os preceitos divinos, que têm origem circunstancial, têm geralmente apli-
cação temporal; desaparecendo as circunstâncias, cessa a sua necessidade. Por
outro lado, quando a razão da Lei é de ordem permanente, a Lei permanece.
Portanto, devido a guarda do sábado estar contida no Decálogo – os princípios
que devem nortear nossas relações com Deus e com nosso próximo –, o preceito

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
divino permanece para todas as épocas.
“Os ‘Dez Mandamentos’ retêm um caráter tão obrigatório com relação ao
crente da nova aliança como o princípio da fé que formava a essência central da
fase abraâmica da aliança da redenção” (ROBERTSON, 1997, p. 67).

a) Significado Espiritual

O sábado foi abençoado (Gn 2,3; Ex 20,11) e santificado por Deus (Gn 2,3; Ex
20,8,11; 31,14; Dt 5,12); ele tornou-se um dia especial para o Seu povo, sendo
também um sinal da Aliança perpétua entre Deus e nós (Ex 31,16-17). Um sinal
de nossa santificação operada por Deus (Ez 20,12). O sábado, é que confere sen-
tido correto à nossa vida, trabalho e demais relações. É no descanso do Senhor
que encontramos o real sentido de nossa existência.
Quando olhamos o 4º mandamento – já conhecido e desobedecido, daí o
“lembra-te” (Ex 20,8) ‒ em relação aos outros, vemos que este é o mais extenso (Ex
20,8-11), sendo detalhado e relacionado com o descanso de Deus (Gn 2,2-3). É
digno de nota que Deus avaliou a sua criação como muito boa; no entanto, somente
o sábado foi santificado, dando talvez a entender que o clímax da criação não foi a
criação do homem, mas o dia de descanso, o sétimo dia ou, mais provavelmente,
significando que o sábado foi abençoado não como fim em si mesmo, mas como
um dia concedido por Deus para o homem; o homem foi criado primeiro. O sábado
foi criado por causa do homem e para ele, atendendo às suas necessidades (inclu-
sive metafísicas) dentro do propósito divino que inclui o homem em sua inteireza.

A REFORMA PROTESTANTE: HISTÓRIA E PRESSUPOSTOS TEÓRICOS


189

Jesus Cristo instrui: “O sábado foi estabelecido por causa (™gšneto) (“veio a
existir”, “foi feito”) do homem, e não o homem por causa do sábado” (Mc 2,27).
“Deus criou o Sábado porque ele era para o bem do homem e de toda a criação”
(ROBERTSON, 1997, p. 63). O sábado como bênção de Deus para o homem, man-
tém sempre viva nossa memória no fato de que Deus criou o mundo e tudo que nele
há (Gn 2,2-3; Ex 20,11) e, também, descreve uma situação histórica (a libertação
do Egito) prefigurando a libertação por vir; a obra recriadora de Deus (Dt 5,15).
Hendriksen comenta (2003, p. 144):
O sábado foi instituído para ser uma bênção para o homem: para man-
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

tê-lo saudável, útil, alegre e santo, dando-lhe condições de meditar cal-


mamente nas obras do seu Criador, podendo deleitar-se em Jeová (Is
58.13,14), e olhar adiante, com grande expectativa, para o ‘repouso que
resta para o povo de Deus’ (Hb 4.9).

b) O Significado Social

O sábado faz uma conexão oportuna e ilustrativa de nossas obrigações para com
Deus e para com o nosso próximo, daí a sua ênfase também social. Logo, longe
de se tornar um fardo, deveria ser um motivo de alegria.
Nele está embutido o conceito de igualdade entre os homens e a necessi-
dade que todos têm de descanso. O sábado não é para alguns, mas para todos;
ele tem um alcance mundial: homens, mulheres, crianças, cativos, animais e a
própria terra. Para os servos e aqueles que estão sob o domínio dos outros, há a
possibilidade de alívio de suas tarefas (Ex 20,8-11; Dt 5,12-15).
O sábado, além de uma ampla função social, tem também um sentido eco-
lógico; a terra deve descansar, além de semanalmente, em cada sete anos e,
finalmente, no quinquagésimo ano. A terra deve também usufruir o ano sabá-
tico (Lv 25,1-12). Para o judeu a contagem sabática era mais relevante do que a
década; boa parte de sua mensuração do tempo era feita por meio de sete dias,
meses e anos (Gn 7,4.10; 8,10.12; 29,18.20.27). Quanto à questão humanitária,
vemos a recordação ao povo de que eles foram escravos no passado; portanto,
sabiam o quão explorado foram e, como desejavam de forma mais imediata o des-
canso de suas pesadas cargas. O sábado servia para que todos tomassem alento
(Ex 20,10; 23,12; Dt 5,13-15). Calvino comenta que “embora o sábado tenha

A Reforma: Trabalho e Vocação


190 UNIDADE III

sido ab-rogado, ainda tem vigência entre nós (...) para que servos e trabalhado-
res tenham um descanso de seu labor” (CALVINO, 2003, p. 26).
Dando um salto histórico, no Novo Testamento, parece razoável associar o
recolhimento de oferta para as igrejas necessitadas de Jerusalém com o primeiro
dia da semana, o “sábado cristão” (1Co 16,1-2).

■ O Sábado como resultado do trabalho

O sábado tem um sentido objetivo e outro subjetivo. Considerando o sábado de


forma objetiva, vemos que Deus o criou para ser o dia santificado a Si e, tam-

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
bém, o nosso dia de descanso no qual tomamos alento na própria dedicação
litúrgica ao Senhor. De modo subjetivo, contudo, o sábado tem sentido de des-
canso. Portanto, dentro dessa perspectiva, o sábado só pode ser considerado por
aquele que trabalhou arduamente durante os outros dias, não necessariamente os
seis dias (nem que seja à procura de trabalho). O descanso segue naturalmente
a ordem de trabalho extenuante (Ex 34,21; Lv 23,3; Dt 5,13-14). O descanso
pressupõe uma obra completa, realizada dentro dos nossos recursos, inclusive
considerando o tempo disponível (Gn 2,2; Dt 5,13).

O TRABALHO COMO ALGO ESSENCIAL AO HOMEM

■ O Compartilhar de Deus

Mesmo não abrindo mão de Sua soberania, Deus compartilha com as Suas criatu-
ras o Seu poder. O nosso domínio está sob o domínio de Deus. O nosso domínio
concedido, é sobre as obras, todas elas de Deus. A criação é produto da vontade
poderosa de Deus; foi Ele quem a estabeleceu. Somente o Deus que é o proprie-
tário de tudo pode legitimamente delegar poderes.
Na contemplação meditativa da Criação podemos perceber aspectos da bon-
dade de Deus que nos aliviam em nossas dores e limitações, nos concedendo a
visão da harmoniosa variedade e beleza daquilo que criou. Nesta visão, somos
conduzidos a nos admirar e a glorificar a Deus por Sua manifestação de sabe-
doria, bondade e graça para conosco. O salmista demonstra isso:

A REFORMA PROTESTANTE: HISTÓRIA E PRESSUPOSTOS TEÓRICOS


191
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

“Que variedade, SENHOR, nas tuas obras (hf,[]m) (ma`aseh)! Todas com
sabedoria as fizeste; cheia está a terra das tuas riquezas” (Sl 104,24).
“O SENHOR é bom para todos, e as suas ternas misericórdias permeiam
todas as suas obras (hf,[]m) (ma`aseh)” (Sl 145,9).
“Justo é o SENHOR em todos os seus caminhos, benigno em todas as suas
obras (hf,[]m) (ma`aseh)” (Sl 145,17).

Surpreendentemente, desde a Criação o homem foi colocado numa posição acima


das outras criaturas, cabendo-lhe o domínio sobre os outros seres criados, sendo
abençoado por Deus com a capacidade de procriar-se (Gn 1,22).
Charnock (1628-1680) observa que o fato da Criação de Deus ter em si a
capacidade de se propagar conforme a ordem divina ‒“Sede fecundos, multipli-
cai-vos e enchei as águas dos mares; e, na terra, se multipliquem as aves” (Gn 1.22)
– revela o poder do Criador. Deus por Sua Palavra cria o mundo e, segundo o
exercício deste mesmo poder, capacita as suas criaturas a se propagarem, tor-
nando “o ser humano como co-criador criado” (HELFNER, 1990, p. 327).
Como indicativo da posição elevada em que o homem foi colocado, o Criador
compartilha com ele – abençoando e capacitando-o (VAN GRONINGEN, 1995) – do

A Reforma: Trabalho e Vocação


192 UNIDADE III

poder de nomear os animais – envolvendo neste processo inteligência e não arbitra-


riedade (ECO, 2002) –, e também de dar nome à sua mulher (Gn 2,19.20.23; 3,20).
E mais: Deus delega-lhes poderes para cultivar (db;[') (‘abad) (lavrar, servir,
trabalhar o solo) e guardar (rm;v') (shãmar) (proteger, vigiar, manter as coisas) o
jardim do Éden (Gn 2,15/Gn 2,5; 3,23), demonstrando a sua relação de domí-
nio, não de exploração e destruição, antes, um cuidado consciente, responsável
e preservador da natureza (Sl 8,6-8).
Todavia, todas estas atividades envolvem o trabalho compartilhado por Deus
com o ser humano. O nomear, procriar, dominar, guardar e cultivar refletem a

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
graça providente e capacitante de Deus. É neste particular – domínio –, que o
homem foi bastante aproximado de Deus pelo poder que lhe foi outorgado.
Ao homem foi conferido o poder de ir além da matéria, podendo raciocinar,
estabelecer conexão e visualizar o invisível. “O pensamento e o conhecimento do
homem, apesar de serem extraídos de seu cérebro, são, todavia, em sua essên-
cia uma atividade inteiramente espiritual, pois transcendem aquilo que ele pode
ver e tocar” (BAVINCK, 2001, p. 18).
Ao homem, portanto, foi concedido o privilégio responsabilizador de pensar,
analisar, escolher livremente o seu caminho de vida, verbalizar os seus pensa-
mentos e emoções, podendo, assim, dialogar com o seu próximo (Gn 3,6) e com
Deus (Gn 3,9-13), sendo entendido por Ele e entendendo a Sua vontade. Portanto,
desde o início estava constituída uma comunidade, já que: “Comunicar é uma
maneira de compreensão mútua” (MAY, 1974, p. 57-58).
Quando usamos adequadamente dos recursos que Deus nos confiou para
dominar a terra, estamos cumprindo o propósito da criação, glorificando a Deus.
É necessário, portanto, que glorifiquemos a Deus em nosso trabalho pela forma
legítima como o executamos. Devemos estar atentos ao fato de que o nosso
domínio está sob o domínio de Deus. A Criação pertence a Deus por direito; a
nós por delegação de Deus (Sl 24,1; 50,10-11; 115,16). Ele mesmo compartilhou
conosco este poder, contudo, não abriu mão dele. Teremos de Lhe prestar contas.

A REFORMA PROTESTANTE: HISTÓRIA E PRESSUPOSTOS TEÓRICOS


193

Por isso, ainda que o nosso domínio seja demonstrado, especialmente pelo
avanço da ciência, novos desafios surgem. A plenitude deste domínio, temos em
Cristo Jesus, verdadeiro Deus e verdadeiro homem.

■ Definição de Trabalho

Trabalho pode ser definido como o esforço físico ou intelectual, com vistas a um
determinado fim. O verbo “trabalhar” é proveniente do latim vulgar tripaliar tor-
turar com o tripallium. Este é derivado de tripalis, cujo nome é proveniente da
sua própria constituição gramatical: tres & palus (pau, madeira, lenho, estaca),
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

que significava o instrumento de tortura de três paus e que também servia para
“ferrar os animais rebeldes”.
O tripallium também era um instrumento de três paus aguçados que, algu-
mas vezes munidos de pontas de ferro, eram utilizados pelos agricultores para
bater o trigo, as espigas de milho e o linho para rasgá-los e esfiapá-los. A ideia
de tortura evoluiu, tomando o sentido de “esforçar-se”, “laborar”, “obrar”. Le Goff
nos chama a atenção para uma conexão interessante: a condenação de Adão –
que após a Queda obteria o alimento em “fadigas” – e Eva – que daria a luz “em
meio de dores”, dizendo: “A origem etimológica da palavra ‘trabalho’ aparece
com um sentido particular na locução ‘sala de trabalho’, designando ainda hoje
a sala de parto em uma maternidade” (LE GOFF, 2006, p. 66).
Etimologia à parte, devemos observar que o trabalho apresenta as seguintes
características (SCHRECKER, 1948):
a) Envolve o uso de energia ‒ “força em ação” ‒ destinada a vencer a resis-
tência oferecida pelo objeto que se quer transformar – intencionalidade.
b) O trabalho se propõe sempre a uma transformação ainda que pequena.
c) Todo o trabalho está ligado a uma necessidade pessoal e social.
d) Todo trabalho traz como pressuposto fundamental, o conceito de que o
objeto, sobre o qual trabalha, é de algum modo aperfeiçoável, mediante
o emprego de determinada energia contribuindo para o progresso socie-
dade – esforço e perseverança.

A Reforma: Trabalho e Vocação


194 UNIDADE III

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
O HOMEM E O TRABALHO

ALGUMAS PERSPECTIVAS HISTÓRICAS E FILOSÓFICAS

Aqui temos que ter cautela para não incorrermos no equívoco generalizante de
tomar um pensamento aqui e outro ali e presumir termos a amostragem caracterís-
tica do pensamento grego. Nem sempre, por exemplo, os pensamentos de Sócrates,
Platão e Aristóteles representam o modo habitual dos gregos verem a realidade.
Tomando o cuidado necessário, podemos observar que dentro do ideal
grego de reflexão e serenidade, não há espaço para um pensar em “traba-
lho braçal”. Daí a visão grega do trabalho ser extremamente negativa, sendo
considerado algo inferior. Assim, é fácil compreender a justificativa da escra-
vidão. Como a vida contemplativa é a mais valiosa, nos assemelhando aos
deuses, os homens livres poderiam ser aproximar deste modelo de contem-
plação divina (PENNINGS, 2012).
Mesmo Hesíodo (1996) reconhecendo que “o trabalho não é vergonha alguma,
mas a preguiça é!”, na descrição que faz da Idade de Ouro, os deuses viviam sob
o domínio de Cronos em perfeita paz, sem preocupações, alegrando-se nas fes-
tas, usufruindo dos bens produzidos espontânea e generosamente pela terra; ou
seja: na ociosidade celestial e terrena.

A REFORMA PROTESTANTE: HISTÓRIA E PRESSUPOSTOS TEÓRICOS


195

No mundo Romano, apesar de todo o seu empreendimento, filósofos como


Cícero (106-43 a.C.) e Sêneca (c. 4 a.C.-65 d.C.) e o historiador Tito Lívio (59 a.C.
– 17 d.C), exaltavam o ócio em detrimento do trabalho, olhando com desprezo
o trabalho do artesão. Na perspectiva judaica, o trabalho manual era altamente
estimado; sendo profundamente respeitados aqueles que o praticavam, visto ser
considerado este talento, uma dádiva de Deus.
Aliás, Deus é apresentado no primeiro verso de Gênesis, como trabalhando,
criando todas as coisas (Gn 1.1) e, nas páginas do Antigo Testamento, com fre-
quência, somos desafiados a contemplar a criação de Deus e maravilhar-nos (Jó
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

37,14-15; Sl 8,3.6; 19.1-6; 28,5; 86,8; 92,4-5; 104,24; 111,2; 139,14; 145,9,17 etc).
O trabalho não está associado ao pecado, antes, faz parte do propósito pri-
mevo de Deus para o homem e revela a sabedoria divina (Gn 1,28; 2,15; Ex 20,9;
Sl 104,23; Is 28,23-29). Os rabinos, como exemplo desta perspectiva, além do
estudo metódico da Lei, aplicavam-se ao trabalho manual para suprir às suas
necessidades (Vejam-se: Mc 6,3 (Mt 13,55); At 18,3).
Alfred Edersheim (1825-1889) comenta com propriedade:
Entre os judeus o desprezo pelo trabalho braçal, uma das características
dolorosas do paganismo, não existia. Pelo contrário, era considerado
obrigação religiosa, com frequência e muita seriedade insistia-se na
necessidade de se aprender algum ofício, desde que ele não levasse a
extravagâncias nem propiciasse um desvio da observância pessoal da
Lei (EDERSHEIM, 1981, p. 252).

Há um ditado atribuído ao Rabino Judá (2º século), que dizia: “Aquele que não
ensina o próprio ofício ao filho ensina-o a roubar” (BARCLAY, 1974, p. 145).
No entanto, com o passar dos anos, foi criada uma dicotomia entre o sagrado
e o profano. No Talmude, coleção de leis rabínicas, há uma oração (séc. 1º) feita
pela perspectiva do escriba, que diz o seguinte:
Eu te agradeço, Senhor, meu Deus, porque me deste parte junto daque-
les que se assentam na sinagoga, e não junto daqueles que se assentam
pelas esquinas das ruas; pois eu me levanto cedo, eles também se le-
vantam cedo; eu me levanto cedo para as palavras da Lei, e eles, para
as coisas fúteis. Eu me esforço, eles se esforçam: eu me esforço e recebo
a recompensa, eles se esforçam e não recebem recompensa. Eu corro e
eles correm: eu corro para a vida do mundo futuro, e eles, para a fossa
da perdição (JEREMIAS, 1980, p. 144).

O Homem e o Trabalho
196 UNIDADE III

No Novo Testamento encontramos uma perspectiva semelhante a do Antigo


Testamento, sendo o trabalho visto com naturalidade nas parábolas de Jesus (Mt
20,1.2.8; 21,28; 25,16; Mc 13,34), evidenciando ser o trabalho algo comum em
nossa vida cotidiana (Jo 6,27; Jo 9,4), inclusive instando com os seus discípulos no
sentido de orarem ao Pai, senhor da seara, por mais trabalhadores (Mt 9,37-38).
Em duas declarações lapidares de Jesus vemos a sua perspectiva teológica,
indicando, na primeira citação, o governo preservador e diretor de Deus sobre
todas as coisas criadas e também a Sua filiação única e prerrogativas divinas
(CARSON, 2015, p. 67-68): “Meu Pai trabalha até agora, e eu trabalho também”

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
(Jo 5,17). “As obras que o Pai me confiou para que eu as realizasse, essas que eu
faço testemunham a meu respeito de que o Pai me enviou” (Jo 5,136).
Há também outro grupo de palavras que realçam a visão cristã a respeito
do serviço. O termo “diácono” e suas variantes, provêm do grego di£konoj,
diakon…a e diakonšw, palavras que significam respectivamente, “servo”, “serviço”
e “servir”. Essas palavras apresentam três sentidos especiais, com uma pesada
conotação depreciativa: a) Servir à mesa; b) Cuidar da subsistência; c) Servir: No
sentido de “servir ao amo”.
Para os gregos, servir era algo indigno. Os Sofistas chegavam a afirmar que o
homem reto só deve servir aos seus próprios desejos, com coragem e prudência.
Partindo da compreensão grega de que nascemos para comandar, não para
servir, Platão (427-347 a.C.) e Demóstenes (384-322 a.C.), um pouco mais mode-
rados, admitiam que o serviço (diakon…a) só tinha algum valor quando prestado
ao Estado. Portanto, “a ideia de que existimos para servir a outrem não cabe, em
absoluto, na mente grega” (BEYER, 1965, p. 275).
Jesus Cristo deu uma grande lição aos seus ouvintes ao verbalizar a sua
missão. Ele apresenta um contraste evidente com o conceito grego e, ao mesmo
tempo, eleva de forma magnífica o pensamento judeu: “.... O Filho do homem, que
não veio para ser servido (diakonšw), mas para servir (diakonšw)....” (Mt 20,28).
Terminadas a série de tentações satânicas desferidas contra o Senhor Jesus, regis-
tra Mateus: “e eis que vieram anjos e o serviram (diakonšw)” (Mt 4,11/Hb 1,14).
Paulo demonstra que “O ministério (diakon…a) do Espírito” (2Co 3,8) que
opera de forma eficaz por meio do Evangelho é glorioso. Paulo se declara diácono
do Evangelho: “Se é que permaneceis na fé, alicerçados e firmes, não vos deixando

A REFORMA PROTESTANTE: HISTÓRIA E PRESSUPOSTOS TEÓRICOS


197

afastar da esperança do evangelho que ouvistes e que foi pregado a toda criatura
debaixo do céu, e do qual eu, Paulo, me tornei ministro (di£konoj)” (Cl 1,23).
Bem como, diácono da Igreja:
24
Agora, me regozijo nos meus sofrimentos por vós; e preencho o que
resta das aflições de Cristo, na minha carne, a favor do seu corpo, que
é a igreja; 25 da qual me tornei ministro (di£konoj) de acordo com a
dispensação da parte de Deus, que me foi confiada a vosso favor, para dar
pleno cumprimento à palavra de Deus (Cl 1.24-25).

É, como também Apolo, instrumento de Deus para que os homens creiam no


Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

Evangelho: “Quem é Apolo? E quem é Paulo? Servos (di£konoj) por meio de quem
crestes, e isto conforme o Senhor concedeu a cada um” (1Co 3.5).
Vemos, portanto, como o conceito de trabalho demonstrado por Jesus Cristo
e pelos apóstolos está longe de ser irrelevante ou humilhante, antes, tem uma
nova conotação que ultrapassa em muito a visão predominante. O Apóstolo
Paulo trabalhava como fazedor de tendas (At 18,3), não sendo o seu trabalho
fácil, quer nesta ou em outra atividade (1Co 4,12). Mesmo se valendo de uma
figura comum declarando que o trabalhador é digno de seu salário (Rm 4,4),
lutava para não ser pesado a ninguém ainda que isso não fosse ilegítimo como
pregador da Palavra (1Tm 5,17-18/Mt 10,10).
À igreja de Tessalônica onde, ao que parece, alguns por motivos pretensa-
mente escatológicos eram inclinados a abandonar o trabalho, Paulo insiste em
lembrar a estes “piedosos preguiçosos” o seu testemunho e ratificar seus ensi-
namentos: “8 Nem jamais comemos pão à custa de outrem; pelo contrário, em
labor (kÒpoj) e fadiga (mÒxqoj = um trabalho de difícil execução), de noite e
de dia, trabalhamos, a fim de não sermos pesados a nenhum de vós; 9 não porque
não tivéssemos esse direito, mas por termos em vista oferecer-vos exemplo em nós
mesmos, para nos imitardes. 10 Porque, quando ainda convosco, vos ordenamos
isto: se alguém não quer trabalhar (™rg£zomai), também não coma. 11 Pois, de
fato, estamos informados de que, entre vós, há pessoas que andam desordenada-
mente, não trabalhando (™rg£zomai); antes, se intrometem na vida alheia. 12 A
elas, porém, determinamos e exortamos, no Senhor Jesus Cristo, que, trabalhando
(™rg£zomai) tranquilamente, comam o seu próprio pão. 13 E vós, irmãos, não vos
canseis de fazer o bem” (2Ts 3.8-13). “Porque, vos recordais, irmãos, do nosso labor

O Homem e o Trabalho
198 UNIDADE III

(kÒpoj) e fadiga (mÒxqoj); e de como, noite e dia labutando (e)rga/zomai) para


não vivermos à custa de nenhum de vós, vos proclamamos o evangelho de Deus”
(1Ts 2.9). “E a diligenciardes por viver tranquilamente, cuidar do que é vosso e
trabalhar (™rg£zomai) com as próprias mãos, como vos ordenamos” (1Ts 4.11).
O cristão, justamente por ser cristão, deve ser um trabalhador exemplar. É
curioso que Paulo sempre desafiava os crentes que conviveram com ele a con-
siderarem o seu testemunho, o seu passado em sua companhia. Considerando
que ele tinha a Cristo como modelo supremo, procurava de forma coerente se
tornar o modelo (tÚpoj) daquilo que ele mesmo ensinava (2Ts 3,9/1Co 10,6; Fp

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
3,17). Sustentava que isso era uma característica indispensável aos mestres (1Tm
4,12; Tt 2,7). Do mesmo modo entendia Pedro (1Pe 5,3).
Certamente como reflexo desses ensinamentos, encontramos no segundo
século, o Didaquê (c. 120 A.D.), capítulo XII, instruindo:
1. Acolha todo aquele que vier em nome do Senhor. Depois, examine
para conhecê-lo, pois você tem discernimento para distinguir a es-
querda da direita.
2. Se o hóspede estiver de passagem, dê-lhe ajuda no que puder. Entre-
tanto, ele não deve permanecer com você mais que dois ou três dias,
se necessário.
3. Se quiser se estabelecer e tiver uma profissão, então que trabalhe
para se sustentar.
4. Porém, se ele não tiver profissão, proceda de acordo com a prudên-
cia, para que um cristão não viva ociosamente em seu meio.
5. Se ele não aceitar isso, trata-se de um comerciante de Cristo. Tenha
cuidado com essa gente!9

Retornando ao Novo Testamento, vemos Paulo instruindo àquele que no seu


antigo modo de vida, furtava, agora, convertido ao Senhor, deve, em novidade
de vida, se sustentar com o fruto de seu trabalho, tendo também uma preocupa-
ção social: “Aquele que furtava não furte mais; antes, trabalhe (kopi£w), fazendo
com as próprias mãos o que é bom, para que tenha com que acudir ao necessi-
tado” (Ef 4,28/At 20,34; 28,10; Rm 12,13; Fp 4,16). É curioso e emblemático que
Paulo use neste texto (Ef 4,28) o verbo kopia/w ordenando ao convertido, que

9
Texto completo em: <http://www.monergismo.com/textos/credos.didaque.htm>.

A REFORMA PROTESTANTE: HISTÓRIA E PRESSUPOSTOS TEÓRICOS


199

trabalhe árdua, intensa e exaustivamente para se manter e ainda ter como suprir
as necessidades eventuais de seus irmãos. Vejo aqui um princípio pedagógico. É
como se ele dissesse: aprenda na prática como é difícil obter licitamente o sus-
tento. Faça isso com perseverança. Ainda mais: você que subtraiu de outros no
passado o produto de seu trabalho, se esforce agora por ajudar os que necessitam.
Paulo dá uma dimensão teológica ao trabalho, mostrando que todo e qualquer
trabalho deve ser feito para a glória do Senhor (Cl 3,23). Timóteo deveria se esfor-
çar por se apresentar a Deus como obreiro aprovado que manejava bem a Palavra
da verdade: “Procura apresentar-te a Deus aprovado, como obreiro (™rgat»j) que
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

não tem de que se envergonhar, que maneja bem a palavra da verdade” (2Tm 2,15).
Contrastando a isso e, ao mesmo tempo, refletindo aspectos da compre-
ensão de seu tempo, no século XIII, o poeta francês Rutebeuf (c. 1245-1285),
formado na Universidade de Paris, proclama com orgulho: “Não sou trabalha-
dor manual” (LE GOFF, 2002, p. 570).
Na Idade Média – entre duas tradições antagônicas: a greco-romana que
desprestigia o trabalho e a cristã que o valoriza – há de certa forma, um retorno
à ideia grega, considerando o trabalho –, no sentido manual, (banaus…a), “arte
mecânica”, como sendo algo degradante para o ser humano, e inferior à (sxol»),
ao ócio, descanso, repouso, à vida contemplativa e ociosa (sxola/zw), por um
lado, e à atividade militar pelo outro. Aliás, é possível que esta perspectiva tenha
contribuído para que os gregos não tivessem desenvolvido uma ciência empírica.
Na visão de São Tomás de Aquino (1225-1274), o trabalho era, no máximo,
considerado “eticamente neutro” (WEBER, 1967, p. 52). Contudo, perpetuou a
sua preferência para com a vida contemplativa. Segundo a Igreja romana:
[...] a finalidade do trabalho não é enriquecer, mas conservar-se na con-
dição em que cada um nasceu, até que desta vida mortal, passe à vida
eterna. A renúncia do monge é o ideal a que toda a sociedade deve
aspirar. Procurar riqueza é cair no pecado da avareza. A pobreza é de
origem divina e de ordem providencial (PIRENNE, 1982, p. 19).

Ainda na Idade Média, especialmente a partir do século XI, a posição ocupada pelo
trabalho era regida pela divisão gradativa de importância social: Oradores (oratores)
(eclesiásticos), Defensores (bellatores) (guerreiros) e Trabalhadores (laboratores)
(agricultores, camponeses). Desta forma, os eclesiásticos, no seu ócio e abstrações
“teológicas” é que tinham a prioridade, ocupando um lugar proeminente.

O Homem e o Trabalho
200 UNIDADE III

Deste modo, a ordem social estava tão bem estabelecida – supostamente


amparada no modelo da sociedade celestial com seus arcanjos e anjos ‒ que, se
por um lado tentar ascender socialmente seria um sinal de orgulho; por outro,
decair socialmente era um pecado vergonhoso. Portanto, “o dever do homem
medieval era permanecer onde Deus o tinha colocado” (LE GOFF, 1989, p. 29).
O trabalho manual era imposto ao monge apenas como castigo e penitên-
cia. Mesmo para designar o trabalho, como acentuam Le Goff e Truong, há duas
palavras distintivas: Opus e Labor. Opus “é o trabalho criador, o vocábulo do
Gênesis que define o trabalho divino, o ato de criar o mundo e o homem à sua

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
imagem. Desse termo derivará operari (criar uma obra) operarius (aquele que
cria)”. Labor, por sua vez, refere-se ao trabalho laborioso, “está do lado do erro
e da penitência” (LE GOFF; TRUONG, 2006, p. 64-65).
Biéler (1999, p. 118) comenta:
O trabalho, especialmente o trabalho criador de bens e riqueza, o tra-
balho manual, se não decaíra mais até o nível do trabalho servil da
Antiguidade, foi, todavia, considerado como uma necessidade tempo-
ral desprezível com relação aos exercícios da piedade. E aqueles que
se dedicavam às atividades econômicas e financeiras, os negociantes e
banqueiros, eram particularmente desconsiderados.

No próprio currículo das universidades medievais era explícita a visão despri-


vilegiada do trabalho:
[...] as disciplinas ‘mecânicas’ ou ‘lucrativas’, vítimas do duplo precon-
ceito dos antigos contra o trabalho manual e do cristianismo contra o
dinheiro e a matéria, eram banidas da escola, deixadas para os leigos
pecadores e ‘iletrados’ (illiteratus quer dizer aquele que ignora o latim,
que não estudou as artes liberais) (VERGER, 2017, p. 574).

A PERSPECTIVA DE CALVINO

Não nos cabe aqui analisar a história da filosofia do trabalho, contudo, devemos
mencionar que a Reforma resgatou o conceito cristão de trabalho, fazendo uma
crítica fundamental à concepção monástica medieval, eliminando, por exemplo,
a distinção entre vida ativa representada por Marta e a vida contemplativa repre-
sentada por Maria (Lc 10.38-42), sendo este o modelo do caminho monástico.

A REFORMA PROTESTANTE: HISTÓRIA E PRESSUPOSTOS TEÓRICOS


201

Biéler (1990, p. 538-539) resume:


Calvino, fundamentando-se nas Escrituras, é um dos raros teólogos
a pôr em evidência, com tanta clareza, a participação do trabalho do
homem na obra de Deus. Dessarte, conferiu ele ao labor humano dig-
nidade e valor espirituais que jamais teve na Escolástica, nem, por mais
forte razão, na antiguidade. Este fato irá ter grandes repercussões no
desenvolvimento econômico das sociedades calvinistas.

Na ética do trabalho, Lutero (1483-1546) e Calvino (1509-1564) estavam acor-


des quanto à responsabilidade do homem de cumprir a sua vocação por meio
do trabalho. Não há lugar para ociosidade.ate q fim
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

Quando quis Deus, escreve Calvino, que o homem se aplicasse a cultivar


a terra, na pessoa do homem condenou Deus a ociosidade e a indolência.
Portanto, nada é mais contrária a ordem da natureza, que consumir a
vida comendo, bebendo e dormindo (CALVINO, 1996, p. 125).

Com isto, não se quer dizer que o homem deva ser um ativista, mas que o tra-
balho é uma “bênção de Deus”. Lutero teve uma influência decisiva, quando
traduziu para o alemão o Novo Testamento (1522), empregando a palavra
“beruf ” para trabalho, em lugar de “arbeit” (palavra derivada do latim arvus,
terreno arável). “Beruf ” – com toda a dificuldade de encontrar um equivalente
em nossa língua –, acentua mais o aspecto da vocação do que o do trabalho
propriamente dito. As traduções posteriores, inglesas e francesas, tenderam a
seguir o exemplo de Lutero. A ideia que se fortaleceu, é a de que o trabalho é
uma vocação divina.
Como vimos, Calvino afirma com firmeza: “Se seguirmos fielmente nosso
chamamento divino, receberemos o consolo de saber que não há trabalho insig-
nificante ou nojento que não seja verdadeiramente respeitado e importante ante
os olhos de Deus” (CALVINO, 2000, p. 77).
Em outro lugar, combatendo a interpretação clerical medieval que estimu-
lava à ociosidade e especulações inúteis, diz:
É um erro que aqueles que fogem dos afazeres do mundo e engajem-
se em contemplação estão vivendo uma vida angelical. (...) Sabemos
que os homens foram criados para ocuparem-se com o trabalho e que
nenhum sacrifício é mais agradável a Deus do que quando cada um
atende ao seu chamado e procura viver completamente em prol do bem
comum (CALVINO, 1981, p. 142-143).

O Homem e o Trabalho
202 UNIDADE III

O amor ao próximo faz com que o nosso honesto trabalho não se limite a
satisfazer as nossas necessidades, mas, também, a ajudar aos nossos irmãos: “O
amor nos leva a fazer muito mais. Ninguém pode viver exclusivamente para si
mesmo e negligenciar o próximo. Todos nós temos de devotar-nos à ação de
suprir as necessidades do próximo” (CALVINO, 1998, p. 146).
Entende que “a indolência e a inatividade são amaldiçoadas por Deus”
(CALVINO, 1996, p. 355). Em outro lugar:
Moisés acrescenta agora que a terra foi outorgada ao homem com esta
condição: que se ocupasse em cultivá-la, de onde se segue que foram

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
os homens criados para empregar-se em fazer alguma coisa e não para
estarem ociosos e indolentes. Verdade é que esse labor era bem alegre
e agradável, longe de todo aborrecimento e cansaço; todavia, quando
Deus quis que o homem se afizesse a cultivar a terra, na pessoa dele
condenou todo repouso indolente (CALVINO, 1996, p. 125).

Todavia, a graça de Deus atenua a severidade de punição, anexando ao labor


humano uma dose de satisfação que deveria caracterizar primariamente o tra-
balho. Além disso, o trabalho está relacionado com o progresso de toda a raça
humana, logo, a um crescimento sustentável:
Há modos diferentes de se trabalhar. Para quem ajuda a sociedade dos
homens pela indústria, ou regendo sua família, ou na administração
pública ou em negócios privados, ou aconselhando, ou ensinando ou
de qualquer outra maneira, não será considerado entre os inativos.
Paulo censura aqueles zangões preguiçosos que querem viver pelo suor
dos outros, não contribuindo assim com nenhum serviço em comum
para ajudar a raça humana (CALVINO, 1996, p. 355).

Pregando no Livro de Efésios, Calvino instrui aos pais. Podemos resumir assim:
Atente cada um com diligência para consigo, e os pais, querendo dirigir
os filhos a quaisquer empregos, não tenham esse costume a que se têm
habituado de dizer: qual profissão será a mais rendosa? Antes, estes
dois aspectos se conjuguem, isto é, quando houver considerado em que
é que meu filho poderá ganhar a vida e, quando estiver casado, como
proverá para si e sua família? Que sirva ao próximo e o uso de sua arte
e de sua profissão redunde no proveito comum de todos.

Assim, pois, por essa razão, impõe-nos ter sempre diante dos olhos que,
em qualquer estado que vivamos, é necessário que Deus marche adiante,
como se a si nos chamasse e nós seguíssemos o caminho que por sua
Palavra nos mostra. Certo é que jamais profissão alguma será dele apro-

A REFORMA PROTESTANTE: HISTÓRIA E PRESSUPOSTOS TEÓRICOS


203

vada se não for útil, e se o público não for dela servido, e se também não
redundar em proveito de todos (CALVINO, 1998, p. 447-460).

O ganho ilícito, por meio do qual o patrimônio de nosso próximo é dilapidado, é,


na realidade – independentemente do nome que se dê, já que o ser humano é pró-
digo em adjetivar a maldade com termos nobres –, não um sinal de inteligência, mas,
de iniquidade: é, portanto, uma forma de furto. Mais tarde, o grande teólogo gene-
brino Francis Turretini (1623-1687), interpretando o pensamento de Calvino diria
que receber salário por um trabalho mal feito é uma forma de roubo. Portanto, retor-
nando ao próprio Calvino, “não se deve fazer um uso pervertido dos labores que
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

outras pessoas empreendem em seu próprio benefício” (CALVINO, 1998, p. 149).


Ainda que o dinheiro emprestado a juros seja permitido ‒ prática tão comum
na Europa há muitos séculos antes de Calvino ‒, o trabalho honesto, fruto do
nosso labor é que deve ser a fonte de recursos para a manutenção de nossa famí-
lia. Não devemos nos aproveitar das necessidades alheias, vivendo simplesmente
de transações financeiras. Um princípio justo é que em todas as negociações, haja
benefícios para ambas às partes.
Fazendo uma digressão, observamos que no Salmo 15 o salmista faz uma
pergunta sobre habitar na Casa do Senhor e, antes mesmo que possamos ten-
tar esboçar uma resposta, ele apresenta uma série de requisitos. Aliás, deve ser
dito que a pergunta não se dirige a nós, mas, a Deus. A resposta mais completa
já fora dada pelo Senhor na Sua Lei. Portanto, a resposta é uma forma de des-
tacar aspectos da Lei a fim de serem atualizados em nossas mentes e corações.
Inclino-me a pensar que este Salmo, mais do que algo apenas litúrgico; um
preparativo para entrar no Santuário, descreve um solilóquio, tendo como pano
de fundo a Lei de Deus, no qual o salmista alegre e, ao mesmo tempo, compe-
netrado, indaga a respeito desta habitação, ou seja, desta comunhão com Deus
e, à luz da própria Lei de Deus, apresenta a resposta.
Os princípios éticos aqui descritos positiva e negativamente – longe de
serem completos ou meritórios ‒, são atinentes àqueles que já foram rege-
nerados, integrando à família da fé. Portanto, aqui não se está tratando da
doutrina da justificação.
Neste Salmo temos uma descrição de nossa impossibilidade de cumprir as
exigências divinas e, ao mesmo tempo, de nossa responsabilidade como filhos

O Homem e o Trabalho
204 UNIDADE III

da Aliança. Por isso, as instruções ao invés de serem apenas ritualísticas, deman-


dam um exame de consciência.
O primeiro fato que nos chama a atenção é que num cântico destinado
ao culto não se faz nenhuma menção de coisas cúlticas, como sacrifícios,
ofertas, ritos de purificação, mas só de exigências morais. Toda a ênfase
recai nesses requisitos. É da essência do culto da aliança que a ‘obediên-
cia’ é mais importante que os sacrifícios (WEISER, 1994, p. 118).

Especificando as exigências divinas, escreve o salmista: “O que não empresta o


seu dinheiro com usura (%v,n<)(neshek) (= interesse, morder, mastigar)” (Sl 15.5).
Aqui o que se tem em vista, ao que parece, é a cobrança extorsiva sobre o bem

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
emprestado. Ou, cobrar juros do que não deveria ser cobrado.
O empréstimo dentro da visão bíblica, não fazia parte simplesmente da
esfera financeira. O fator econômico não era o elemento determinante, nem
autônomo, antes, refletia valores teológicos e espirituais. Portanto, o emprés-
timo dentro do princípio teológico bíblico, envolvia também uma perspectiva
social: aliviar a pobreza.
Os que afirmam estar em uma relação de pacto com Deus têm a obri-
gação moral de evitar práticas exploratórias, refletindo a compaixão
divina, mostrando bondade para com os companheiros menos afortu-
nados e protegendo o direito do pobre quanto às necessidades básicas
da vida (WAKELY, 2001, p. 178).

O princípio estabelecido na Lei não obrigava o cidadão a emprestar seu dinheiro,


contudo, ao emprestar, havia condições básicas contra a usura, inclusive, no que
diz respeito à prática permitida do penhor: “Se emprestares dinheiro ao meu povo,
ao pobre que está contigo, não te haverás com ele como credor (hv’n”) (nashah) que
impõe juros (%v,n<)(neshek)” (Ex 22,25/Lv 25,36-37//Dt 24,6,10-13).
O princípio não se restringia ao dinheiro: “A teu irmão não emprestarás com
juros (%v,n<)(neshek), seja dinheiro, seja comida ou qualquer coisa que é costume se
emprestar com juros (%v,n<)(neshek)” (Dt 23,19).
Ao estrangeiro poderia ser emprestado com juros: “Ao estrangeiro empresta-
rás com juros (%v,n<)(neshek), porém a teu irmão não emprestarás com juros (%v,n<)
(neshek), para que o SENHOR, teu Deus, te abençoe em todos os teus empreen-
dimentos na terra a qual passas a possuir” (Dt 23,20). Se considerarmos que este
preceito visa a apenas equilibrar as relações comerciais, fica mais fácil entendê-lo.

A REFORMA PROTESTANTE: HISTÓRIA E PRESSUPOSTOS TEÓRICOS


205

O estrangeiro cobrava juros naturalmente. Desta forma, para que houvesse um


equilíbrio econômico, era permitido ao judeu cobrar juros de tais pessoas.
Não devemos nos esquecer de que a prática de juros era comum na Antiguidade
sendo que os juros praticados eram altíssimos, chegando a 50% ao ano. À luz do
Antigo Testamento, os juros cobrados aos estrangeiros certamente não seriam
extorsivos visto que isso quebraria os próprios princípios da Lei. Além disso, os
credores não deveriam cobrar juros adicionais no pagamento da dívida, o que
inviabilizaria a sua quitação. É possível que os juros praticados em Israel após o
cativeiro não passassem de 1% ao mês (Ne 5.11), contudo, temos dificuldades
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

com o texto e a sua melhor tradução.


Quando Deus fala sobre a responsabilidade de cada um perante Ele, ilustra
alguns comportamentos que deveriam ser rejeitados devido à pecaminosidade de
tais atos. O povo de Judá, por exemplo, estava colhendo os frutos no cativeiro, de
seus próprios pecados. Entre os preceitos de Deus que foram quebrados, lemos:
“Não dando o seu dinheiro à usura (%v,n<) (neshek), não recebendo juros (tyBir>T)
(tarbiyth) (= acréscimo, aumento), desviando a sua mão da injustiça e fazendo
verdadeiro juízo entre homem e homem” (Ez 18,8).
Mais à frente: “Emprestar com usura (%v,n<)(neshek) e receber juros (tyBir>T)
(tarbiyth), porventura, viverá? Não viverá. Todas estas abominações ele fez e será
morto; o seu sangue será sobre ele” (Ez 18,13).

No meio de ti, aceitam subornos (dx;v;) (shachad) para se derramar sangue;
usura (%v,n<)(neshek) e lucros (tyBir>T) (tarbiyth) (= acréscimo, aumento) tomaste,
extorquindo-o; exploraste o teu próximo com extorsão; mas de mim te esqueceste,
diz o SENHOR Deus” (Ez 2,12).
Quem tais coisas pratica não será abençoado por Deus. A sua riqueza será
agregada ao que acode misericordiosamente o necessitado: “O que aumenta os
seus bens com juros (%v,n<)(neshek) e ganância (tyBir>T) (tarbiyth) ajunta-os para o
que se compadece do pobre” (Pv 28,8). “Quem se compadece do pobre ao SENHOR
empresta, e este lhe paga o seu benefício” (Pv 19,17).
Há uma relação gramatical entre a atitude do agiota e o agir com impiedade e
falsamente. Fisher, seguindo Speiser, comenta que na prática antiga de empréstimos,
“descontavam-se os juros normais e que a ‘usura’ consistia numa segunda taxa de

O Homem e o Trabalho
206 UNIDADE III

juros cobrada depois que o devedor inadimplente era preso como escravo” (FISHER,
1998, p. 1008). Comentando o Sl 15,5, Calvino faz uma longa explanação sobre isso:
Neste versículo Davi prescreve aos santos a não oprimirem seu pró-
ximo com usura, nem a forçá-lo a aceitar suborno em favor de causas
injustas. (…) lembremo-nos, pois, de que toda e qualquer barganha em
que uma parte injustamente se empenha por angariar lucro em preju-
ízo da outra parte, seja que nome lhe damos, é aqui condenada. (…)
aconselharia a meus leitores a se precaverem de engenhosamente in-
ventar pretextos, pelos quais tirem proveito de seus semelhantes, e para
que não imaginem que qualquer coisa pode ser-lhes lícita, quando para
outros é grave e prejudicial.

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
Com respeito à usura, é raríssimo encontrar no mundo um usurário
que não seja ao mesmo tempo um extorquidor e viciado ao lucro ilíci-
to e desonroso. Consequentemente, Cato desde outrora corretamente
colocava a prática da usura e o homicídio na mesma categoria de cri-
minalidade, pois o objetivo dessa classe de pessoas é sugar o sangue
de outras pessoas. É também algo muito estranho e deprimente que,
enquanto todos os demais homens obtêm sua subsistência por meio do
trabalho, enquanto os cônjuges se fatigam em suas ocupações diárias
e os operários servem à comunidade com o suor de sua fronte, e os
mercadores não só se empenham em variados labores, mas também
se expõem a muitas inconveniências e perigos – os agiotas se deixam
levar por vida fácil sem fazer coisa alguma, recebendo tributo do labor
de todas as outras pessoas. Além disso, sabemos que, geralmente, não
são os ricos que são empobrecidos por sua usura, e, sim, os pobres,
precisamente quem deveria ser aliviado (CALVINO, s.d., p. 297-298).

■ Trabalho, Poupança e Frugalidade

Calvino defendeu três princípios éticos fundamentais: Trabalho, Poupança


e Frugalidade. Note-se que a poupança deveria ter sempre o sentido social.
Comentando 2Co 8,15, diz:
Moisés admoesta o povo que por algum tempo fora alimentado com o
maná, para que soubesse que o ser humano não é alimentado por meio
de sua própria indústria e labor, senão pela bênção de Deus. Assim,
no maná vemos claramente como se ele fosse, num espelho, a imagem
do pão ordinário que comemos. (...) O Senhor não nos prescreveu um
ômer ou qualquer outra medida para o alimento que temos cada dia,
mas ele nos recomendou a frugalidade e a temperança, e proibiu que o
homem exceda por causa da sua abundância. Por isso, aqueles que têm
riquezas, seja por herança ou por conquista de sua própria indústria e
labor, devem lembrar que o excedente não deve ser usado para intem-
perança ou luxúria, mas para aliviar as necessidades dos irmãos. (...)

A REFORMA PROTESTANTE: HISTÓRIA E PRESSUPOSTOS TEÓRICOS


207

Assim como o maná, que era acumulado como excesso de ganância


ou falta de fé, ficava imediatamente putrificado, assim também não de-
vemos alimentar dúvidas de que as riquezas que são acumuladas à ex-
pensa de nossos irmãos são malditas, e logo perecerão, e seu possuidor
será arruinado juntamente com elas, de modo que não conseguimos
imaginar que a forma de um rico crescer é fazendo provisões para um
futuro distante e defraudando os nossos irmãos pobres daquela ajuda
que a eles é devida (CALVINO, 1995, p. 177).

Calvino também nos adverte quanto ao perigo de transformarmos o nosso tra-


balho em objeto de avareza justamente pela falta de fé na provisão do Senhor:
O que nos torna mais avarentos do que deveríamos em relação ao
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

nosso dinheiro é o fato de sermos tão precavidos e enxergarmos tão


longe quanto possível os supostos perigos que nos podem sobrevir, e
assim nos tornamos demasiadamente cautelosos e ansiosos, e passa-
mos a trabalhar tão freneticamente como se devêssemos suprir de vez
as necessidades de todo o curso de nossa vida, e afigura-se-nos como
grande perda quando uma mínima parcela nos é tirada. Mas aquele que
depende da bênção do Senhor tem o seu espírito livre dessas preocu-
pações ridículas, enquanto que, ao mesmo tempo, tem suas mãos livres
para a prática da beneficência (CALVINO, s.d., p. 167-168).

■ Fundamentos da nossa ética

Quando há alguns anos fui consultado sobre a publicação de uma seleção das car-
tas de Calvino em português (CALVINO, 2009), entre outras ideias, sugeri que a
obra passasse por um trabalho de inserção de notas cruzando as suas cartas com
a sua teologia expressa especialmente nas Institutas e em seus comentários bíbli-
cos, à semelhança do que fora feito na edição das Institutas de 1541 publicada em
português em 2006 (CALVINO, 2006). Desta forma, teríamos uma aproximação
por via inversa: partiríamos de suas cartas para a sua teologia. Não obtive resposta.

Desde o princípio, a Reforma foi um movimento tanto religioso quanto ético.


(Herman Bavinck)

O Homem e o Trabalho
208 UNIDADE III

As cartas de Calvino bem como os seus sermões revelam uma preocupação


eminentemente pastoral bem como uma coerência de pensamento amparada
nas Escrituras. A sua fé e prática eram decorrentes de sua compreensão bíblica.
Não é de se estranhar de que próximo do final da vida, depois de um ministério
profícuo em Genebra (1536-1538; 1540-1564), no leito, tendo os ministros de
Genebra à sua volta, despede-se (28/04/1564), e lhes diga o que empiricamente
já sabiam por meio de seu convívio: “A respeito de minha doutrina, ensinei fiel-
mente e Deus me deu a graça de escrever. Fiz isso do modo mais fiel possível e
nunca corrompi uma só passagem das Escrituras, nem conscientemente as dis-

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
torci” (CALVINO, 1948, p. 42-43).
A ética de Calvino tem como um de seus fundamentos a doutrina da
Providência. Crê que é impossível uma vida cristã autêntica sem o descanso
proveniente da confiança subjetiva no cuidado de Deus:
Quem quer que não confie na providência divina, bem como não en-
comende sua vida à fiel diretriz dela, ainda não aprendeu corretamente
o que significa viver. Em contrapartida, aquele que confiar a guarda de
sua vida ao cuidado divino, não duvidará de sua segurança mesmo em
face da morte (CALVINO, 1999, p. 16).

Ele está convencido de que


[...] a regra que devemos observar, quando estamos em angústia e so-
frimento, é esta: que busquemos conforto e alívio só na providência
de Deus; porque em meio às nossas agitações, apertos e preocupações
devemos encher-nos da certeza de que sua função peculiar consiste em
prover alívio ao miserável e aflito (CALVINO, 1999, p. 205).

A doutrina da Providência propicia ao crente “o melhor e mais doce fruto”, resul-


tante da compreensão de que tudo está nas mãos de Deus. Nada acontece por
acaso: para o cristão não há lugar para o “azar”, “sorte” ou “acaso”. Deus dirige
todas as coisas de forma pessoal, sábia e amorosa! “A providência de Deus, qual
é ensinada na Escritura, é o oposto da sorte e dos acontecimentos atribuídos ao
acaso. (...) Todos e quaisquer eventos são governados pelo conselho secreto de
Deus” (CALVINO, As Institutas, I.16.2.).
A certeza do cuidado de Deus é suficiente para acalmar a nossa ansiedade
e a nos alegrar em Deus:

A REFORMA PROTESTANTE: HISTÓRIA E PRESSUPOSTOS TEÓRICOS


209

Não há outro método de aliviar nossas almas da ansiedade, senão re-


pousando sobre a providência do Senhor (...). Nossos desejos e petições
devem ser oferecidos com a devida confiança em sua providência, pois
quem há que ore com clamor de espírito e que, com inusitada ansieda-
de e vencido pela inquietação, parece resolvido a ditar termos ao Oni-
potente? Em oposição a isso, Davi a recomenda como sendo a devida
parte da modéstia em nossas súplicas para que transfiramos para Deus
o cuidado daquelas coisas que pedimos, e não pode haver dúvida de
que o único meio de refrear nossa excessiva impaciência é mediante a
absoluta submissão à divina vontade quanto às bênçãos que queremos
nos sejam concedidas (CALVINO, 1999, p. 488-489).

Daí a importância de mantermos nossa fé amparada em Deus, que cuida de nós,


Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

não nos sendo indiferente: “quando nada senão destruição se manifestar ante
nossos olhos, para qualquer lado que nos viremos, lembremo-nos de erguê-los
em direção do trono celestial, donde Deus vê tudo o que se faz aqui em baixo”
(CALVINO, 1999, p. 184).
Qual a implicação ética disso tudo? Indiferença? Não. Analisemos este ponto.
A compreensão de Calvino a respeito da direção de Deus sobre todas as coisas,
ao contrário do que poderia parecer, não o leva à ociosidade ou a um tipo de
perspectiva fatalista afirmando que nada podemos fazer a não ser nos contentar
com o que está previamente fixado por uma causa sobrenatural. Pelo contrário,
sua compreensão de providência de Deus inspira-o ao trabalho, consciente de
que somos instrumentos de Deus para a execução do Seu sábio e eterno propó-
sito. Esta doutrina tem, portanto, uma “urgência pragmática” para todo o povo
de Deus. O tempo é um recurso precioso que Deus nos concede para o progresso
em todas as esferas de nossa vida.
A ética de Calvino leva em questão duas necessidades básicas:
1) A consideração sobre o drama da existência humana, sujeita ao pecado
e à morte. O pecado afetou a integralidade do homem.
2) Explorar as implicações de nossa fé: responsabilidade humana. O pecado
tende a anestesiar a nossa consciência nos acomodando à paisagem de
miséria cotidiana nas diversas molduras de nossa existência. A Palavra,
no entanto, desperta as nossas consciências.

O Homem e o Trabalho
210 UNIDADE III

Portanto, a certeza do cuidado de Deus não nos deve conduzir à letargia, antes a
nos tornar agentes deste cuidado. Devemos ter em vista que o cuidado de Deus
envolve pessoas das quais Ele cuida e, ao mesmo tempo, pessoas por meio das
quais Ele assiste. Deste modo, somos agentes ordinários de Deus − ainda que
não tenhamos o discernimento constante deste fato em nossas ações − no Seu
socorro. Muitas vezes em nossas ações ordinárias estamos sendo agentes de Deus
em resposta a orações dos fiéis. Existe ética porque há um Deus providente.
A ética cristã é uma resposta à certeza do cuidado de Deus. Somos responsá-
veis diante de Deus por levar adiante o que nos compete, dentro de nossa esfera:

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
“Se o Senhor nos confiou a proteger a nossa vida, que a cerquemos de cuida-
dos; se oferece recursos, que os usemos; se nos previne de perigos, a eles não
nos arrojemos temerariamente; se fornece remédios, não os negligenciemos”
(CALVINO, As Institutas, I. 17. 4.).

Aquele que limitou a nossa vida, confiou-nos também a solicitude por ela, o
cuidado dela; deu-nos os meios para preservá-la; e nos habilitou a prever os
perigos, para que não nos surpreendam, dando-nos ao contrário remédios
para capacitar-nos a preveni-los. Agora se vê qual é o nosso dever. Se o Se-
nhor nos dá a nossa vida para que dela cuidemos, que a preservemos; se nos
dá os meios para fazê-lo, que os utilizemos; se Ele nos mostra os perigos, que
não nos atiremos loucamente e sem propósito; se Ele nos oferece remédios,
que não os menosprezemos.
Fonte: Calvino (2006).

A Lei de Deus revela o nosso pecado, evidenciando a sua gravidade e, aponta-nos


o caminho proposto por Deus. Conforme já citamos, a Lei Moral permanece:
A lei moral de Deus é a verdadeira e perpétua regra de justiça, orde-
nada a todos os homens, de todo e qualquer país e de toda e qualquer
época em que vivam, se é que pretendem reger a sua vida segundo a
vontade de Deus. Porque esta é a vontade eterna e imutável de Deus:
que Ele seja honrado por todos nós, e que todos nós nos amemos uns
aos outros (CALVINO, 2006, p. 160).

A REFORMA PROTESTANTE: HISTÓRIA E PRESSUPOSTOS TEÓRICOS


211

A Lei, portanto, nos conduz à graça que brilha de forma magnífica na face de
Cristo. A ética cristã é fortemente marcada pela certeza de que a nossa salvação
é por graça; pertence totalmente a Deus e, ao mesmo tempo, pela consciência
da necessidade de sermos obedientes à Lei de Deus: “Um cristão medirá todas
as suas ações por meio da lei de Deus, seus pensamentos secretos estarão sujei-
tos à sua divina vontade” (CALVINO, 2000, p. 31).
A salvação é totalmente pela graça, contudo, esta salvação, libertação do
domínio do pecado, não nos conduz a uma ética anomista (sem lei), antes a um
compromisso de fé, de busca de coerência entre o crer, fazer e ensinar, na certeza de
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

que somos agentes da providência de Deus, convictos de que temos a responsabi-


lidade de viver a altura de nossa fé no Senhor Jesus Cristo, moldando a nossa ética
pela Palavra de Deus. Em outras palavras: a santificação se reflete em nossa ética.

O COMPORTAMENTO CRISTÃO NA
RIQUEZA E NA POBREZA

João Calvino, interpretando Hb 13,16, entende que os benefícios que prestamos


aos homens se constituem parcialmente em culto a Deus, sendo isto uma grande
honra que Deus nos concede. Não amar ao nosso próximo constitui-se numa
ofensa a Deus e às pessoas. Por outro lado, o nosso auxílio recíproco revela a
unidade do Espírito em nós.
Embora Deus não possa receber de nós nenhum benefício, no entanto con-
sidera nosso ato de invocar seu Nome como Sacrifício; aliás, como o principal
dos sacrifícios, que supre a falta de todos os demais. Além disso, sejam quais
forem os benefícios que façamos pelos homens, Deus os considera como feitos
a Ele próprio, e lhes imprime o título de sacrifício, para que fique evidente que
os elementos da lei são agora não apenas supérfluos, mas até mesmo nocivos,
uma vez que nos desviam da genuína forma de sacrificar.
Em suma, o significado consiste em que, se porventura queremos ofere-
cer sacrifício a Deus, então devemos invocar seu Nome, fazer conhecida sua

O Comportamento Cristão na Riqueza e na Pobreza


212 UNIDADE III

munificência através de ações de graça e fazer o bem aos nossos irmãos. Esses são
os verdadeiros sacrifícios com os quais os verdadeiros cristãos devem comprome-
ter-se; e não sobra nem tempo nem lugar para qualquer outro (CALVINO, 1997).
Não é uma honra trivial o fato de Deus considerar o bem que fazemos
aos homens como sacrifício oferecido a Ele próprio, e o fato de valori-
zar tanto nossas obras, que as denomina de santas. Portanto, onde nosso
amor não se manifesta, não só despojamos as pessoas de seus direitos,
mas também a Deus mesmo, o qual solenemente dedicou a Si o que or-
denou fosse feito em favor dos homens (CALVINO, 1997, p. 394).
Repartir com os outros’ tem uma referência mais ampla do que fazer o

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
bem. Inclui todos os deveres pelos quais os homens se auxiliam reciproca-
mente; e é um genuíno distintivo do amor que os que se encontram unidos
pelo Espírito de Deus comunicam entre si (CALVINO, 1997, p. 394).

Seguem alguns princípios apresentados e vivenciados por Calvino, concernen-


tes ao uso dos bens concedidos por Deus. Pode-se perceber em suas orientações
a fundamentação teológica de sua prática.
Sobre a vida exemplar de Calvino, escreve André Biéler (1990, p. 229-230):
[...] a pregação do reformador é o prolongamento de sua ação. A modés-
tia em que vive com seus colegas é proverbial e toca as raias da pobreza.
Suas providências em favor dos deserdados são constantes. Importuna
persistentemente os conselheiros da cidade para que tomem medidas de
atendimento aos pobres. Depois da chacina dos protestantes em Proven-
ce, em 1545, organiza pessoalmente uma coleta geral, subindo as escada-
rias dos edifícios repletos de refugiados para recolher a esmola de todos.

Vejamos, agora, alguns dos princípios estabelecidos nas Institutas:

a) Em tudo devemos contemplar o Criador e dar-Lhe Graças

A ingratidão para com Deus é resultado, em parte, de nossa não consideração


de Seus feitos:
[...] a desconsideração quase universal leva os homens a negligencia-
rem os louvores a Deus. Por que é que tão cegamente olvidam as ope-
rações de sua mão, senão justamente porque nunca dirigem seriamen-
te sua atenção para elas? Precisamos ser despertados para este tema
(CALVINO, 1999, p. 624).

A REFORMA PROTESTANTE: HISTÓRIA E PRESSUPOSTOS TEÓRICOS


213

Portanto, devemos cultivar o tipo de sensibilidade espiritual que nos faça enxer-
gar com gratidão e louvor os atos de Deus em nossa existência, a fim de não
sermos injustos para com Ele:
Quando Deus, em qualquer tempo, nos socorre em nossa adversidade,
cometemos injustiça contra seu nome se porventura esquecermos de
celebrar nossos livramentos com solenes reconhecimentos (CALVINO,
1999, p. 630).

Deus é o autor de todo bem, segue-se que devemos receber tudo como
vindo de Sua mão, e com incessante ação de graças. Reconheçamos
igualmente que não haverá nenhuma boa maneira de fazer uso dos be-
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

nefícios que generosa e abundantemente Ele derrama sobre nós, se não


lhe estivermos dando constante louvor, com ações de graças (CALVI-
NO, 2006, p. 110).

A gratidão, portanto, é resultado da compreensão de que tudo que temos, foi criado
por Deus a fim de que reconhecêssemos o seu autor, rendendo-Lhe, assim, graças.
Às vezes pensamos que podemos alcançar facilmente as riquezas e as
honras com nossos próprios esforços, ou por meio do favor dos demais;
porém, tenhamos sempre presente que estas coisas não são nada em si
mesmas, e que não poderemos abrir caminho por nossos próprios meios,
a menos que o Senhor queira nos prosperar (CALVINO, 2000, p. 40-41).

Os recursos de que dispomos devem ser um estímulo a sermos agradecidos a


Deus por sua generosa bondade:
À luz desse fato aprendemos, também, que os que são responsáveis pelo
presunçoso uso da bondade divina, se aproveitam dela para orgulhar-
-se da excelência que possuem, como se a possuíssem por sua própria
habilidade, ou como se a possuíssem por seu próprio mérito; enquanto
que sua origem deveria, antes, lembrá-los de que ela tem sido gratuita-
mente conferida aos que são, ao contrário, criaturas vis e desprezíveis e
totalmente indignas de receber algum bem da parte de Deus. Qualquer
qualidade estimável, pois, que porventura virmos em nós mesmos, que
ela nos estimule a celebrarmos a soberana e imerecida bondade que a
Deus aprouve conceder-nos (CALVINO, 1999, p. 165-166).

b) Usemos deste mundo como se não usássemos dele

Devemos viver neste mundo com moderação, sem colocar o coração nos bens
materiais, pois, tais preocupações nos fazem esquecer a vida celestial e de “adornar

O Comportamento Cristão naRiqueza e na Pobreza


214 UNIDADE III

nossa alma com seus verdadeiros atavios” (CALVINO, 1967). Comentando o


Salmo 30,6 – quando Davi reflete a sua momentânea confiança no sucesso adqui-
rido –afirma: “Davi reconhece que havia sido justa e merecidamente punido por
sua estulta e precipitada confiança, ao esquecer-se de sua mortal e mutável con-
dição de ser humano, e ao pôr demasiadamente seu coração na prosperidade”.
Em outro lugar, fazendo menção da mesma passagem, escreve: “Davi afirma
que a prosperidade havia obnubilado de tal forma seus sentidos, que deixou de pôr
seus olhos na graça de Deus, da qual deveria depender continuamente. Em vez disso,
creu que poderia andar por suas próprias forças e imaginou que não cairia jamais”.

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
Portanto, devemos usar nossos bens com moderação:
[...] ainda que a liberdade dos fiéis com respeito às coisas externas não
deva ser limitada por regras ou preceitos, sem dúvida deve regular-se
pelo princípio de que deve regalar-se o mínimo possível; e, ao contrá-
rio, que temos que estar mui atentos para cortar toda superfluidade,
toda vã ostentação de abundância – devem estar longe da intemperan-
ça! –, e guardar-se diligentemente de converter em impedimentos as
coisas que se lhes há dado para que lhes sirvam de ajuda (Jo 15,19;
17,14; Fp 3,20; Cl 3,1-4; Hb 11,16; 1Jo 2,15).

Devido aos nossos desejos incontrolados, devemos rogar a Deus que nos dê
moderação, “pois a única forma de agir com moderação própria é quando Deus
governa e preside nossos afetos” (CALVINO, 2002, p. 678). Para que não nos
ensoberbeçamos, Deus que nos conhece perfeitamente, preventivamente, para
que não sejamos tentados, equilibra a abundância com a amargura:
Deus modera a doçura da riqueza com amargura; e não permite que a
mente de Seu servo fique encantada em demasia com isto. E sempre que
uma estimativa enganadora de riquezas nos impulsiona a desejá-la imode-
radamente, porque nós não percebemos os grandes prejuízos que trazem
junto com elas; deixa a lembrança desta história [Abraão e Ló] ajudar a
conter tal imoderada fixação. Além disso, tão frequentemente o rico ache
qualquer dificuldade que surja da sua riqueza; faz com que aprenda a puri-
ficar a sua mente por este medicamento, que eles não podem se tornar ex-
cessivamente devotados às coisas boas da presente vida. E verdadeiramen-
te, a menos que o Senhor ocasionalmente ponha rédea nos homens, a que
profundidades não cairiam quando abundassem em sua prosperidade?
Por outro lado, se nós somos oprimidos com pobreza, faz-nos saber, que,
por este método também, Deus corrige os males ocultos de nossa carne.
E por fim, permite que aqueles que têm abundância lembrem-se de que
estão rodeados de espinhos e tomem muito cuidado para não ser picados.

A REFORMA PROTESTANTE: HISTÓRIA E PRESSUPOSTOS TEÓRICOS


215

c) Suportemos a pobreza; usemos moderadamente da abundância

Seguindo o que Paulo disse aos Filipenses: “Tanto sei estar humilhado, como tam-
bém ser honrado” (Fp 4,12), comenta:
Quem sofre a pobreza com impaciência, mostra o vício contrário na
abundância. Quero dizer com isso que quem se envergonha de andar
pobremente vestido, se vangloriará de ver-se ricamente ataviado; que
quem não se contenta com a mesa frugal, se atormentará com o desejo
de outra mais rica e abundante (CALVINO, 1998, p. 182).
O pobre deveria aprender a ser paciente sob as privações, para não
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

se encontrar atormentado com uma excessiva paixão pelas riquezas


(CALVINO, 2000, p. 74).
Devemos aprender a superar a pobreza quieta e pacientemente, e des-
frutar da abundância com moderação (CALVINO, 2000, 73).
Para assegurarmos que a suficiência [divina] nos satisfaça, aprendamos
a controlar nossos desejos de modo a não querermos mais do que é
necessário para a manutenção de nossa vida (CALVINO, 2000, p. 169).

O nosso desejo incontrolado nos coloca em oposição direta à vontade de Deus:


“Todo aquele que se permite desejar mais do que lhe é necessário, francamente se
põe em direta oposição a Deus, visto que todas as luxúrias carnais se lhe opõem
diretamente” (CALVINO, 2002, p. 678).
A tendência é de nos envaidecermos com a abundância e nos deprimir com a
carência. Para muitos de nós, não se ensoberbecer com a riqueza pode ser mais difí-
cil do que não se desesperar com a pobreza. “Aquele que é impaciente sob a privação
manifestará vício oposto quando estiver no meio do luxo” (CALVINO, 2000, p. 74).
Paulo sabia, por experiência própria, agir de modo santo em ambas as cir-
cunstâncias. Em tudo Paulo era agradecido a Deus (1Ts 5,18), sabendo que em
Cristo poderia suportar e vencer qualquer situação. Calvino observa que temos
que usar moderadamente dos recursos que Deus nos deu, para que não caiamos
na torpeza do excesso, da vanglória e da arrogância (Rm 13,14).
Os bens terrenos à luz de nossa natural perversidade tendem a ofuscar
nossos olhos e a levar-nos ao esquecimento de Deus, e, portanto, deve-
mos ponderar, atentando-nos especialmente para esta doutrina: tudo
quanto possuímos, por mais que pareça digno da maior estima, não
devemos permitir que obscureça o conhecimento do poder e da graça
de Deus (CALVINO, 2000, p. 355-356).

O Comportamento Cristão naRiqueza e na Pobreza


216 UNIDADE III

Calvino insiste no ponto de que aqueles que não aprenderem a viver na pobreza,
quando ricos, revelarão a sua arrogância e orgulho. O apóstolo Paulo constitui-
-se num exemplo de simplicidade em qualquer situação (Fp 4,12). Ele também
entende que na pobreza é que tendemos a nos tornar mais humildes e fraternos.
Devemos aprender a repartir e, também, a ser assistidos pelos nossos irmãos:
Todas as pessoas desejam possuir o bastante que as poupe de depen-
der do auxílio de seus irmãos. Mas quando ninguém possui o suficiente
para suas necessidades pessoais, então surge um vínculo de comunhão e
solidariedade, pois que cada um se vê forçado a buscar empréstimo dos
outros. Admito, pois, que a comunhão dos santos só é possível quando

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
cada um se vê contente com sua própria medida, e ainda reparte com
seus irmãos as dádivas recebidas, e em contrapartida admite ser também
assistido pelas dádivas alheias (CALVINO, 1997, p. 430).

Aos pastores e aos crentes em geral, Calvino (1998, p. 181) apresenta uma
recomendação:
Os ministros devem viver contentes com uma mesa frugal, e devem
evitar o perigo do regalo e do fausto. Portanto, até onde suas necessi-
dades o requeiram, que os crentes considerem toda a sua propriedade
como à disposição dos piedosos e santos mestres.

d) Somos administradores dos bens de deus

Visto que nosso Pai celestial nos concede todas as coisas por sua livre graça,
devemos ser imitadores de sua graciosa benevolência, praticando também atos
de bondade em favor de outrem; e em razão de nossos recursos virem dele, não
somos mais que despenseiros dos dons de sua graça (CALVINO, 1998, p. 169).
■ Tudo Pertence a Deus

A Bíblia nos ensina que todas as coisas nos são dadas pela benignidade de Deus
e são destinadas ao nosso bem e proveito. Deste modo, tudo que temos cons-
titui-se em um depósito do que um dia teremos de dar conta. “Temos, pois, de
administrá-las como se de contínuo, ressoasse em nossos ouvidos aquela sen-
tença. ‘Dá conta de tua mordomia’” (Lc. 16,2).
Deus concede-nos bens para que o gerenciemos; Ele continua sendo o Senhor
de tudo:

A REFORMA PROTESTANTE: HISTÓRIA E PRESSUPOSTOS TEÓRICOS


217

Quando Deus nos envia riquezas não renuncia a sua titularidade,


nem deixa de ter senhorio sobre elas (como o deve ter) por ser o
Criador do mundo. (...) E ainda que os homens possuem uma sua
porção segundo Deus os há engrandecido mediante os bens deste
mundo, não obstante, Ele sempre continuará sendo Senhor e Dono
de tudo (CALVINO, 1988, p. 42).

Portanto,
[...] o uso legítimo de todas as graças é o liberal e generoso comparti-
lhar com os outros. Nenhuma, nem mais certa, regra, nem mais válida
exortação para mantê-la, se podia excogitar do que onde somos ensi-
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

nados que todos os dotes de que somos possuidores são consignações


de Deus, creditadas à nossa confiança com esta condição: que sejam
dispensadas em benefício do próximo (1Pe 4,10).

■ O Sentido da Riqueza
Os crentes gozam de genuína riqueza quando confiam na providência
divina que os mantém com suficiência e não se desvanecem em fazer
o bem por falta de fé. (...) ninguém é mais frustrado ou carente do que
aquele que vive sem fé, cuja preocupação com suas posses dilui toda a
sua paz (CALVINO, 1995, p. 193-194).

Para Calvino a riqueza residia em não desejar mais do que se tem e a pobreza,
o oposto. Por sua vez, também entendia que a prosperidade poderia ser uma
armadilha para a nossa vida espiritual:
“Nossa prosperidade é semelhante à embriaguez que adormece as almas”
(CALVINO, 1988, p. 227). “Aqueles que se aferram à aquisição de dinheiro e
que usam a piedade para granjearem lucros, tornam-se culpados de sacrilégio”
(CALVINO, 1998, p. 169).
Daí que, para o nosso bem, o Senhor nos ensina por meio de várias lições a
vaidade dessa existência. Os servos de Deus não podem ser reconhecidos simples-
mente pela sua riqueza. Esclarecendo uma interpretação errada de Ec 9,1, afirma:
Se alguém quiser julgar pelas coisas presentes quem Deus ama e quem
Deus odeia, trabalhará em vão, visto que a prosperidade e a adversida-
de são comuns ao justo e ao ímpio, ao que serve a Deus e ao que Lhe é
indiferente. De onde se infere que nem sempre Deus declara amor aos
que Ele faz prosperar temporalmente, como tampouco declara ódio aos
que Ele aflige (CALVINO, 2006, p. 26).

O Comportamento Cristão naRiqueza e na Pobreza


218 UNIDADE III

Comentando o Salmo 62,10, diz:


Pôr o coração nas riquezas significa mais que simplesmente cobiçar a
posse delas. Implica ser arrebatado por elas a nutrir uma falsa confian-
ça. (...) É invariavelmente observado que a prosperidade e a abundância
engendram um espírito altivo, levando prontamente os homens a nu-
trirem presunção em seu procedimento diante de Deus, e a se preci-
pitarem em lançar injúria contra seus semelhantes. Mas, na verdade o
pior efeito a ser temido de um espírito cego e desgovernado desse gêne-
ro é que, na intoxicação da grandeza externa, somos levados a ignorar
quão frágeis somos, e quão soberba e insolentemente nos exaltamos
contra Deus (CALVINO, 1999, p. 580).

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
Ele considera a cobiça de dinheiro uma “praga” que, conforme nos ensina Paulo
(1Tm 6,10), traz muitos males: “Os que sofrem dessa praga gradualmente se
degeneram até que renunciam completamente a fé” (CALVINO, 1998, p. 170).
Devemos em todas as coisas ser gratos a Deus, Quem nos confere tudo o
que temos, usando com prudência dos bens que Ele nos concede para o Seu ser-
viço. “Quanto mais liberalmente Deus trate alguém, mais prudentemente deve
ele vigiar para não ser preso em tais malhas” (CALVINO, 1998, p. 633).

Quando depositamos nossa confiança nas riquezas, na verdade estamos


transferindo para elas as prerrogativas que pertencem exclusivamente a
Deus (João Calvino)

A nossa riqueza está em Deus, Aquele que soberanamente nos abençoa. Portanto, “é
uma tentação muito grave, ou seja, avaliar alguém o amor e o favor divinos segundo
a medida da prosperidade terrena que ele alcança” (CALVINO, 1998, p. 346). Do
mesmo modo, as aflições não devem ser vistas de forma mística e supersticiosa:
É certamente um erro muitíssimo comum entre os homens olharem
eles para os que se acham oprimidos com angústias como se fossem
condenados e réprobos. Visto que, de um lado, a maioria dos homens,
julgando o favor divino pelo prisma de um estado incerto e transitório

A REFORMA PROTESTANTE: HISTÓRIA E PRESSUPOSTOS TEÓRICOS


219

de prosperidade, aplaudem os ricos e aqueles para quem, como dizem,


a fortuna sorri. E então, de outro lado, agem com desprezo em relação
aos que enfrentam infortúnio e miséria, e estultamente imaginam que
Deus os odeia por não exercer sobeja clemência para com eles como
o faz em favor dos réprobos. O erro do qual falamos, consiste em que
a atitude de se julgar injusta e impiamente é algo que tem prevalecido
em todas as eras do mundo. As Escrituras em muitas passagens clara
e distintamente afirmam que Deus, por várias razões, prova os fiéis
com adversidades, numa ocasião para exercitá-los à paciência, e noutra
para subjugar as inclinações pecaminosas da carne, e ainda noutra para
purificá-los dos resíduos que restam das paixões da carne, os quais
ainda persistem neles; às vezes para humilhá-los, às vezes para fazer
deles um exemplo para outros, e ainda outras vezes para instigá-los à
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

contemplação da vida celestial (CALVINO, 1998, p. 240-241).

Isto por que:


Riquezas e outros confortos mundanos devem ser vistos como que pro-
piciando alguma experiência do favor e benevolência divinos, mas não
se deduz daí que os pobres sejam objetos do desprazer divino; ter um
corpo saudável e boa saúde são bênçãos de Deus, porém não devemos
conceber que isso constitua prova de que a fraqueza e a enfermidade
devam ser consideradas com desaprovação (CALVINO, 1998, p. 458).

Quanto ao dinheiro, como tudo que temos provém de Deus, “o dinheiro em


minha mão é tido como meu credor, sendo eu, como de fato sou, seu devedor”
(CALVINO, 1998, p. 504). Somos sempre e integralmente dependentes de Deus:
“um verdadeiro cristão não deverá atribuir nenhuma prosperidade à sua pró-
pria diligência, trabalho ou boa sorte, mas antes ter sempre presente que Deus
é quem prospera e abençoa” (CALVINO, 1998, p. 42).
Jesus Cristo é quem nos pedirá conta. O mesmo Jesus, que em sua vida
terrena viveu de forma sóbria e modesta, combatendo todo excesso, soberba,
ostentação e vaidade.
Portanto, ao fazer o bem a nossos irmãos e mostrar-nos humanitários,
tenhamos em mente esta regra: que de tudo quanto o Senhor nos tem
dado, com o que podemos ajudar a nossos irmãos, somos despenseiros;
que estamos obrigados a dar conta de como o temos realizado; que não
há outra maneira de despensar devidamente o que Deus pôs em nossas
mãos, que ater-se à regra da caridade. Daí resultará que não somente
juntaremos ao cuidado de nossa própria utilidade a diligência em fazer
bem ao nosso próximo, senão que incluso, subordinaremos nosso pro-
veito aos demais (CALVINO, 1998, p. 72-74).

O Comportamento Cristão naRiqueza e na Pobreza


220 UNIDADE III

■ A justa graça de compartilhar com alegria

A grandeza de nosso trabalho não está simplesmente no que fazemos, mas como
e com qual objetivo o fazemos. É agradável a Deus que por meio de nosso tra-
balho a sociedade seja beneficiada (CALVINO, 1998, p. 444).
Calvino entende que o ato de repartir o que temos consiste em uma prá-
tica de justiça relacionada ao propósito de nossa existência: “Assim como não
nascemos unicamente para nós mesmos, também o cristão não deve viver uni-
camente para si mesmo, nem usar o que possui somente para os seus propósitos
particulares ou pessoais”. Continua: “Já que dar assistência às necessidades de

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
nosso próximo é uma parte da justiça – e de forma alguma é a menor parte –, os
que negligenciam esta parte de seu dever devem ser tidos no conta de injustos”
(CALVINO, 1995, p. 193). A nossa “riqueza”, ou seja, suficiência, como resul-
tado da bondade de Deus, tem um sentido social:
O Senhor administra em nosso favor tanto quanto nos é proveitoso, às
vezes mais e às vezes menos, mas sempre na medida em que ficamos
satisfeitos e que vale muito mais do que ter o mundo inteiro e sermos
consumidos. Dentro desta suficiência devemos ser ricos para o bem
de outrem. Porque Deus não nos faz o bem com o fim de cada um de
nós guardar para si mesmo o que recebe, mas para que haja mútua
participação entre nós, de acordo com os reclamos das necessidades
(CALVINO, 1995, p. 191).

A ajuda aos nossos irmãos só se torna possível quando nos despimos da pri-
mazia de nossos interesses pessoais; quando renunciamos ao nosso direito em
prol do outro.
Esta, portanto, nos seja a regra para a benevolência e beneficência:
tudo quanto a nós nos dispensou Deus com que possamos assistir ao
próximo, somos disso mordomos, mordomos que estamos obrigados a
prestar conta de nossa mordomia. Essa, afinal, é, após tudo, a reta mor-
domia: a que se amolda à norma do amor. Assim acontecerá que não só
o zelo pelo alheio proveito sempre com a preocupação de nosso próprio
benefício conjuguemos, mas até àquele subordinemos (CALVINO, As
Institutas, III. 7.5.).

Ajudar aos necessitados deve ser entendido não como a perda de algum bem,
antes, como um privilégio que nos é concedido pela graça de Deus, que nos capa-
cita a sermos generosos e a suportar com paciência as tribulações.

A REFORMA PROTESTANTE: HISTÓRIA E PRESSUPOSTOS TEÓRICOS


221

Os membros de Cristo têm o dever de ministrar uns aos outros, de


modo que, quando nos dispomos a socorrer nossos irmãos, não faze-
mos mais do que desempenhar o ministério que é também dever de-
les. Por outro lado, negligenciar os santos, quando necessitam de nosso
socorro, é algo mais do que apenas ausência de bondade; é usurpá-los
daquilo que lhes é devido (CALVINO, 1995, p. 186-187).

Em outro lugar,
[...] ainda que seja universalmente consensual que é uma virtude lou-
vável prestar ajuda ao necessitado, todavia nem todos os homens con-
sideram o dar como sendo uma vantagem, nem tampouco o atribuem à
graça de Deus. Ao contrário disso, acreditam que alguma coisa sua, ao
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

ser doada, perdeu-se. No entanto, Paulo declara que quando prestamos


auxílio aos nossos irmãos, devemos atribuí-lo à graça de Deus, e de-
vemos considerá-lo um extraordinário privilégio a ser ardorosamente
buscado. (...) Os homens rapidamente fracassam quando não são sus-
tentados pelo Espírito do Senhor, que é o Autor de toda consolação,
e uma inveterada carência de fé confiante nos permeia e nos mantém
afastados de todos os deveres de amor até que superemos tudo isso pela
graça do mesmo Espírito (CALVINO, 1995, p. 166).

Pregando em 30 de outubro de 1555, disse: “Deus mescla rico e pobre de um


modo que eles podem se reunir e manter comunhão um com o outro, de maneira
que o pobre recebe e o rico dá” (CALVINO, 2005, p. 342).
No entanto, esta ajuda não poderá ser com arrogância; antes deve ser prati-
cada com amor, prontidão, humildade, cortesia, simpatia e alegria. Aliás, somente
assim as nossas esmolas se constituem em sacrifício agradável a Deus:
A esmola é um sacrifício agradável a Deus. Pois quando diz que Deus
ama ao doador contente, ele deduz o contrário, ou seja: que Deus rejeita
o constrangimento e a coerção. Não é sua vontade dominar-nos como
tirano; Ele nos revela como Pai, portanto requer de nós a espontânea
obediência de filhos (CALVINO, 1995, p. 190).

Todavia, Calvino constata com tristeza:


Quase ninguém é capaz de dar uma miserável esmola sem uma atitu-
de de arrogância ou desdém. (...) ao praticar uma caridade, os cristãos
deveriam ter mais do que um rosto sorridente, uma expressão amável,
uma linguagem educada.

Em primeiro lugar, deveriam se colocar no lugar daquela pessoa que


necessita de ajuda, e simpatizarem-se com ela como se fossem eles mes-
mos que estivessem sofrendo. Seu dever é mostrar uma verdadeira hu-

O Comportamento Cristão naRiqueza e na Pobreza


222 UNIDADE III

manidade e misericórdia, oferecendo sua ajuda com espontaneidade e


rapidez como se fosse para si mesmos.

A piedade que surge do coração fará com que se desvaneça a arrogância


e o orgulho, e nos prevenirá de termos uma atitude de reprovação ou
desdém para com o pobre e o necessitado (CALVINO, 1995, p. 39).

Em nossa beneficência, nada devemos esperar em troca, ainda que seja uma prática
comum. Aliás, “quando damos nossas esmolas, nossa mão esquerda deve ignorar
o que a mão direita fez” (CALVINO, 1995, p. 196). Comentando o Salmo 68 enfa-
tiza que o Deus da glória é também o Deus misericordioso; em seguida observa a

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
atitude pecaminosa comum aos homens: “Geralmente distribuímos nossas aten-
ções onde esperamos nos sejam elas retribuídas. Damos preferência a posição e
esplendor, e desprezamos ou negligenciamos os pobres” (CALVINO, 1995, p. 645).
E quanto à ingratidão tão comum ao gênero humano? Bem, em nossa ajuda
aos nossos irmãos não devemos nos preocupar com isso, visto que “ainda que os
homens sejam ingratos, de modo que pareça termos perdido o que lhes damos,
devemos perseverar em fazer o bem” (CALVINO, 1999, p. 173). E mais: “não
dependemos da gratidão humana, e, sim, de Deus que Se coloca no lugar do
pobre como devedor, para que um dia venha restituir-nos cheio de solicitude,
tudo quanto distribuímos” (CALVINO, 1996, p. 500).

■ O Valor de cada um

As pessoas devem ser avaliadas não pelo seu dinheiro, mas por sua piedade. Os
piedosos aprendem a reverenciar e a imitar os genuínos servos de Deus:
Aprendamos, pois, a não avaliar uma pessoa pelo prisma de seu estado
ou seu dinheiro, nem pelo prisma de suas honras transitórias, mas ava-
liá-la pelo prisma de sua piedade ou de seu temor a Deus. E certamente
que ninguém jamais aplicará verdadeiramente seu intelecto ao estudo
da piedade que, ao mesmo tempo, também não reverencie os servos
de Deus; da mesma forma, por outro lado, o amor que nutrimos por
eles nos incita a imitá-los em sua santidade de vida (CALVINO, 1995,
p. 240-241).

A REFORMA PROTESTANTE: HISTÓRIA E PRESSUPOSTOS TEÓRICOS


223

e) Socorro e Oração

Da Oração do Senhor, Calvino extrai o princípio de que devemos nos preocupar


com todos os necessitados. Contudo, sabendo da impossibilidade de conhecer-
mos a todos e de termos recursos para ajudar a todos os que conhecemos, diz que
a ajuda não exclui a oração nem esta àquela. Portanto, devemos orar por todos:
O mandamento de Deus que nos compele a socorrer a indigência dos
pobres é mandamento geral. E, todavia, os que obedecem a esse manda-
mento e com este fim fazem misericórdia estendendo seus bens a todos
os que eles veem ou sabem que têm necessidade, não obstante não dão
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

ajuda a todos os que têm igual necessidade, ou por não poderem conhe-
cê-los a todos, ou porque não têm meios suficientes para supri-los. De
igual modo, não contrariam a vontade de Deus aqueles que, consideran-
do e tendo em mente a sociedade comum da igreja, a comunidade cristã,
fazem uso das orações particulares por meio das quais, com palavras par-
ticulares, mas com espírito amplo e afeto comum, encomendam a Deus a
si mesmos ou outros, cuja necessidade Ele lhes quis dar a conhecer mais
de perto. Se bem que nem tudo que diz respeito à oração é semelhante a
fazer caridade. Porque não podemos socorrer com os nossos bens senão
aqueles cuja pobreza conhecemos, mas podemos e devemos ajudar pela
oração mesmo aqueles dos quais não temos conhecimento, e que estão
distantes de nós por qualquer distância que haja no tempo ou no espa-
ço. Isso se faz por causa da amplitude geral das orações, amplitude que
abrange todos os filhos de Deus, no número dos quais eles também estão
incluídos (CALVINO, 2006, p. 121).

COSMOVISÃO E ARTE

Podemos definir arte como uma expressão intelectual ‒ consciente ou não ‒, subje-
tiva e sensível de nossa cosmovisão. Intelectual, porque é própria do homem como
ser pensante. Subjetiva porque é pessoal. Sensível porque não existe arte secreta
e, também, porque a arte precisa ser “manufaturada” para se tornar perceptível;
ela necessita ser experimentada. O próprio Deus antes de criar o homem, com-
partilha consigo mesmo a respeito deste grandioso empreendimento (Gn 1,27).

Cosmovisão e Arte
224 UNIDADE III

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
O nosso padrão de beleza será sempre limitado e subjetivo ainda que cada aspecto
da Criação tenha a sua beleza própria decorrente de sua natureza e propósito. A
nossa inspiração ao belo, independentemente de condicionantes culturais, sociais,
ideológicos e pessoais, tem dois condicionantes ontológicos: Somos criaturas
e como tais, estamos sujeitos a um delimitador existencial: pelo fato de todo o
nosso conhecimento ser mediado, portanto, parcial, é suscetível a ruídos e des-
virtuamentos tanto na percepção quanto na comunicação.
Outro ponto, mais significativo, é que com a Queda nos tornamos essencial-
mente pecadores, perdemos a nossa sensibilidade espiritual e, como vimos, todo
o nosso ser foi afetado pelo pecado, nada ficou imune a esta depravação. Além
disso, o que nos inspira, a Criação em todas as suas manifestações, tem também a
mancha do pecado. Portanto, como já dissemos, a Beleza absoluta está em Deus.
O usufruir da beleza e do senso de beleza, são dons da graça comum de Deus. A
Arte com “A” maiúsculo pertence somente a Ele, em Quem temos de forma plena e
perfeita o Belo e o padrão absoluto de Beleza. Somente Deus pode de forma absoluta
dizer que a Sua obra é boa e perfeita dentro dos objetivos por Ele santa e sabiamente
estabelecidos (Gn 1,31). A proximidade de Deus, Aquele que é belo em Sua santi-
dade (Sl 27,4; 96,9), nos aperfeiçoa, nos concedendo maior sensibilidade para com
a beleza expressa na Criação, nos feitos humanos e em nossas relações fraternas.
Calvino (1509-1564) entendia que a arte e as demais coisas que servem ao
uso comum e conforto desta vida são dons de Deus; portanto, devemos usá-las
de forma legítima a fim de que o Senhor seja glorificado. Quanto mais o homem
se aprofunda nas “artes liberais” e investiga a natureza, mais se aproxima “dos
segredos da divina sabedoria”.

A REFORMA PROTESTANTE: HISTÓRIA E PRESSUPOSTOS TEÓRICOS


225

Ainda que as artes não tenham poder redentivo, e, a bem da verdade, não é este
o seu propósito, elas, contribuem para temperar a nossa vida com mais encanto
e beleza, quer pelo que reproduz (o seu tema), quer pela forma de fazê-lo (habili-
dade). A beleza da arte não está simplesmente em sua temática, mas, também, na
qualidade daquilo que reproduz e reinventa a partir da natureza que a alimenta.
Analisemos alguns aspectos disso:
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

O princípio é que há liberdade para se fazer algo a partir da natureza, que seja
distinto dela e que possa ser levado à presença de Deus.
(Francis A. Schaeffer)

1. Boa qualidade com uma cosmovisão defeituosa

Devemos tomar cuidado para que não confundamos a cosmovisão do artista


expressa em sua arte com a qualidade com a qual ele a retrata. Posso apreciar
com entusiasmo a qualidade de uma obra sem, necessariamente, concordar com
a mensagem comunicada. Porque não concordo com a cosmovisão do artista
nem por isso a sua obra se torna, simplesmente, em algo de baixa qualidade.
Horton emprega figuras fortes, porém, ilustrativas. Depois de dizer que
considera “obras-primas” trabalhos dos ateus J.P. Sartre (1905-1980); A. Camus
(1913-1960) e Richard Wagner (1813-1883), ainda que não concordasse com a
visão deles, arremata: “E Wagner, compositor favorito de Hitler e um devoto do
niilismo ateísta de Nietzsche que produziu o Holocausto, hoje é ouvido em audi-
tório em Tel Aviv” (HORTON, 1998, p. 107).
Contudo, cabe aqui uma advertência. Não sejamos ingênuos. Uma obra da
qual discordo da cosmovisão de seu autor, porém foi bem elaborada, pode não
contar com minha aprovação, porque considero que apelou com cores por demais
exageradas e desnecessárias para enfatizar o seu ponto. Exemplifico: no intuito de
retratar a beleza do amor entre um homem e uma mulher, o diretor pode apelar
para cenas de nudez e sexo; para descrever as práticas religiosas idólatras e a sua

Cosmovisão e Arte
226 UNIDADE III

associação com a sensualidade, usar do mesmo expediente. Para falar de violên-


cia pode-se chegar a atos de extrema violência para impactar o seu público etc.
De certa forma, o meio é a mensagem. Os meios revelam os meus fins. A
minha cosmovisão pode ser vista, por vezes, no meu objetivo não declarado, ainda
que revelado. Vejam se não é isso que acontece em muitos de nossos comerciais,
programas de humor ou até mesmo em um quadro de determinado programa
que ajuda a mulheres, escolhidas alheatoriamente nas praias, a se “vestir” melhor
com roupas de banho, “valorizando” o seu tipo físico. Creio que tudo que existe
é digno de ser estudado, todavia, nem tudo que existe precisa ser retratado com

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
a mesma ênfase e com detalhes desnecessários.

2. Boa cosmovisão com baixa qualidade

De igual modo, posso apreciar o tema e a mensagem de uma obra, reconhecendo,


contudo, a baixa qualidade do que foi produzido. Em outras palavras: por que algo
foi feito supostamente para Deus, um dueto, por exemplo, não o torna agradável
ouvi-lo. Por eu ser um cristão sincero e desejar glorificar a Deus com minha arte,
não torna a qualidade de minha obra boa. Não podemos confundir as coisas sem
incorrer em falta grave. Isto me faz lembrar uma brincadeira muito comum entre
familiares e amigos: Achamos linda uma camisa ou um sapato na vitrine até que veja-
mos com alguma dificuldade na etiqueta meio escondida, o preço exorbitante (no
fundo já desconfiávamos. Em geral produtos baratos ou em “promoção” são os que
têm seus preços expostos). Os produtos passam imediatamente por uma transfor-
mação metafísica: “são muito feios”, declaramos com um misto de ironia e frustração.
Algo que pode contribuir para a baixa qualidade do que fazemos é a pressa em
pegarmos tendências e modismos, sem nos darmos conta de sua consistência e,
portanto, durabilidade. Dificilmente uma arte apressada poderá durar. Tudo que
fazemos é transitório, sabemos. Contudo, isso não significa que seja descartável. A
nossa obra deve primar por consistência de propósito (glorificar a Deus) e de com-
posição (qualidade), não por modismos circunstanciais. O que é, é. A excelência
no que fazemos deve caracterizar a nossa produção, ainda que nossos contempo-
râneos não reconheçam necessariamente a qualidade do que produzimos.

A REFORMA PROTESTANTE: HISTÓRIA E PRESSUPOSTOS TEÓRICOS


227

3. Cosmovisão e avaliação

A avaliação cristã de todas as coisas deverá ser crítica e construtiva. Como sabe-
mos, a cosmovisão do artista, por mais apaixonante e intensa que seja, não é
neutra, e, consequentemente, a sua obra também não é. Portanto, ela não pode
estar acima de uma avaliação. A crítica visa entre outras coisas, o refinamento
da arte e, em nosso caso, discernir a mensagem proposta dentro de um referen-
cial mais que emana das Escrituras.
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

Cosmovisão é um compromisso, uma orientação fundamental do coração


que pode ser expresso como uma estória ou num conjunto de pressuposi-
ções (suposições que podem ser verdadeiras, parcialmente verdadeiras ou
totalmente falsas) que sustentamos (consciente ou subconscientemente,
consistente ou inconsistentemente) sobre a constituição básica da realida-
de, e que fornece o fundamento no qual vivemos, nos movemos e existimos.
Fonte: Sire (2012, p. 179).

A obra do artista não é simplesmente produto de seu gênio autônomo, tão dese-
jado, porém, inexistente. Aliás, inclino-me a crer que o seu gênio é profundamente
modelado pelo “clima” ou “atmosfera” de sua época, pelas cores com as quais a reali-
dade é pintada e os acordes que dão o tom aos valores hodiernos, ainda que isso não
determine uma única forma de apreensão e expressão, como sublinha Wölfflin (1864-
1945). O artista, como todos nós, não pode ser separado da história e da sua história.
Como cremos que podemos conhecer a verdade – ainda que não exaustiva-
mente ‒, nenhuma cosmovisão está acima de uma avaliação bíblica. Os bereanos
se constituem em exemplo de uma avaliação criteriosa do que ouviram prima-
riamente com atenção e interesse, independentemente de quem lhes ensinava,
conforme narra Lucas: “Ora, estes de Beréia eram mais nobres que os de Tessalônica;
pois receberam a palavra com toda a avidez, examinando (¢nakr…zw) (“fazer uma
pesquisa cuidadosa”, um “exame criterioso”, “inquirir”) as Escrituras todos os dias
para ver se as coisas eram, de fato, assim” (At 17,11).

Cosmovisão e Arte
228 UNIDADE III

O nosso desejo de servir a Deus não nos deve tornar presas fáceis de qual-
quer ensinamento ou doutrina; precisamos cientificar-nos se aquilo que nos
é transmitido procede ou não de Deus. Para este exame, temos as Escrituras
Sagradas como fonte de todo conhecimento revelado a respeito de Deus e do
que Ele deseja de nós. O não investigar (Sl 10,4) é um mal em si mesmo. Um
bom princípio é examinar o que se nos apresenta como realidade dentro de suas
multifárias percepções, não nos deixando seduzir e guiar por nossas inclinações
ou pelas tendências massificantes. Em geral, quando nos faltam critérios obje-
tivos apelamos para o gosto como critério definitivo e solitário. Assim, somos

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
conduzidos simplesmente por princípios que nos agradam sem verificar a sua
veracidade. O fim disso pode ser trágico.
Assim sendo, por mais autoeloquentes que possam se configurar aspectos da
chamada realidade, precisamos examiná-los antes de os tomarmos como pressu-
postos para a aceitação de outras declarações também reivindicatórias. Quando
nos omitimos deste exame, deste juízo crítico, sem percebermos estamos con-
tribuindo para que os ensinamentos hoje aceitos inconsistentemente, amanhã se
tornem pressupostos que determinarão as nossas escolhas e avaliações.
As hipóteses de hoje poderão se tornar nas teorias de amanhã e as futuras leis
do pensamento e da moral. Neste caso, já estarão acima de qualquer suspeita e
discussão: tornaram-se verdade. A ciência é, com frequência, um refinamento
das observações cotidianas.
Como escreveu Pearcey (2006, p. 44): “a questão importante é o que aceitamos
como premissas básicas, pois são elas que moldam tudo o que vem depois”. Há o
perigo de, sem nos darmos conta, formar a nossa cosmovisão baseados em um
mosaico de peças promíscuas, contraditórias e excludentes. O homem não é medida
de todas as coisas como queria Protágoras (c. 480-410 a.C.) e os Renascentistas ao
revisitarem a sua frase. No entanto, isto não significa a admissão de falta de um
referencial, antes, na afirmação de que Jesus Cristo é a medida, o cânon da ver-
dade e, portanto, de toda avaliação que fizermos da realidade que nos circunda.
Os bereanos tinham um padrão de verdade. Eles criam na sua existência e aces-
sibilidade. Examinaram o que Paulo dizia à luz das Escrituras, ou seja: o Antigo
Testamento. Se não tivermos um referencial teórico claro, como poderemos ana-
lisar de modo coerente a realidade? Sem referências, tudo é possível dentro de

A REFORMA PROTESTANTE: HISTÓRIA E PRESSUPOSTOS TEÓRICOS


229

um quadro interpretativo forjado conforme as circunstâncias e meus interesses.


Todo absoluto envolve antíteses (Voltaremos a tratar desse assunto mais à frente).
Talvez, mesmo para nós cristãos, esteja faltando hoje, ainda que não de hoje,
um pensamento cristão; uma mente cativa a Cristo que nos propicie o desen-
volvimento de uma cosmovisão cristã. Rookmaaker (1922-1977), em sua obra
inacabada, é bastante enfático:
Hoje, se estudarmos os grandes artistas e seus feitos, não conseguire-
mos identificar qual era a força propulsora de sua vida, no que eles
criam, o que defendiam. Essas coisas, vistas como subjetivas, são deixa-
das de fora. Temos a impressão de que esses grandes nomes do passado
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

eram capazes de produzir suas obras de arte a partir de sua própria


genialidade e ideias, e que a religião tinha pouco a ver com isso. Pre-
cisamos nos atentar para esse fato para não cairmos nessa perversão
inerente, pois ela é fundamentalmente uma inverdade. Os estudiosos
modernos, os historiadores, os historiadores da arte e os filósofos (as-
sim como os artistas), fazem muito mais do que apenas seguir as ten-
dências. Eles operam a partir de uma perspectiva básica da vida e da
realidade. Essa perspectiva geralmente se configura como uma religião
irreligiosa (ROOKMAAKER, 2010, p. 16-17).

Sendo olhada pelo ângulo correto e abrangente, a arte descreve a nossa situação
de pecado e miséria, contudo, deve retratar também a nossa nova humanidade,
redimida por Cristo. Aqui não há nenhum idealismo, antes, um realismo bíblico:
somos chamados como sal da terra e luz do mundo, a apresentar a perspectiva
abrangente da realidade bíblica.
Assim, ela nos conduz a glorificar a Deus, o Senhor de toda Criação e, tam-
bém da Sua Recriação. O artista sem a cosmovisão cristã tenderá a cair em um
destes dois aspectos verdadeiros, porém, reducionistas: pessimismo niilista ou
otimismo romântico sem um fundamento sólido.
Somente o cristão com uma cosmovisão bíblica consistente pode, de fato,
retratar ambos os aspectos da realidade: pecado e restauração; separação e reconci-
liação, morte e ressurreição em Cristo Jesus, o Deus encarnado. Somente em Cristo
poderemos ter uma visão objetiva da beleza da realidade proveniente de Deus:
O mundo dos sons, o mundo das formas, o mundo das cores e o mun-
do das ideias poéticas não pode ter outra fonte senão Deus; e é nosso
privilégio, como portadores de sua imagem, ter uma percepção deste
mundo belo, para reproduzir artisticamente, para gozá-lo humana-
mente (KUYPER, 2002, p. 164).

Cosmovisão e Arte
230 UNIDADE III

Dentro desta perspectiva, o artista tenta reproduzir a sua percepção da natu-


reza, por mais crua que ela seja, ou a sua visão de como deveria ser. Ele molda
a natureza e esta o educa de forma retroativa, gradativa e cativante. A natureza
criada por Deus pode e deve ser valorizada a despeito do pecado e de sua man-
cha sobre toda a Criação; ela continua sendo uma manifestação da majestade e
bondade de Deus. Dentro da visão de Calvino, a arte deve ser vista como pro-
veniente de Deus que nos adornou com estes dons. Por isso mesmo, ela deve ter
um uso legítimo. A arte não tem um fim em si mesma, antes está a serviço do
homem com o fim de conduzi-lo a Deus. Portanto, a Revelação de Deus é o ele-

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
mento aferidor da natureza e do propósito da arte. Dentro desta perspectiva, a
arte, ainda que tratando de coisas materiais, com objetivos não especificamente
transcendentes, é sempre missionária, ainda que não no sentido redentivo, mas,
no sentido de que mesmo objetivando trazer frescor, descontração e estímulo,
refletirá sempre uma referência maior, valores transcendentes que referendam
até mesmo o meu lazer e as coisas aparentemente banais de meu cotidiano.
Bavinck (1854-1921) escreve de modo magistral, mostrando que a arte pro-
vém de Deus, tendo também um sentido confortador:
A arte também é um dom de Deus. Como o Senhor não é apenas ver-
dade e santidade, mas também glória, e expande a beleza de Seu nome
sobre todas as Suas obras, então é Ele, também, que, pelo Seu Espírito,
equipa os artistas com sabedoria e entendimento e conhecimento em
todo tipo de trabalhos manuais (Ex 31.3; 35.31). A arte é, portanto, em
primeiro lugar, uma evidência da habilidade humana para criar. Essa
habilidade é de caráter espiritual, e dá expressão aos seus profundos
anseios, aos seus altos ideais, ao seu insaciável anseio pela harmonia.
Além disso, a arte em todas as suas obras e formas projeta um mundo
ideal diante de nós, no qual as discórdias de nossa existência na terra
são substituídas por uma gratificante harmonia. Desta forma a beleza
revela o que neste mundo caído tem sido obscurecido à sabedoria mas
está descoberto aos olhos do artista. E por pintar diante de nós um
quadro de uma outra e mais elevada realidade, a arte é um conforto
para nossa vida, e levanta nossa alma da consternação, e enche nosso
coração de esperança e alegria (BAVINCK, 2001, p. 21-22).

Contudo, continua ele, a arte, como não poderia deixar de ser, tem seus limites.
Isto deve ser observado com atenção:
Mas apesar de tudo o que a arte pode realizar, é apenas na imaginação
que nós podemos desfrutar da beleza que ela revela. A arte não pode

A REFORMA PROTESTANTE: HISTÓRIA E PRESSUPOSTOS TEÓRICOS


231

fechar o abismo que existe entre o ideal e o real. Ela não pode trans-
formar o além de sua visão no aqui de nosso mundo presente. Ela nos
mostra a glória de Canaã à distância, mas não nos introduz nesse país
nem nos faz cidadãos dele. A arte é muito, mas não é tudo. (...) A arte
não pode perdoar pecados. Ela não pode nos limpar de nossa sujeira.
E ela não é capaz de enxugar nossas lágrimas nos fracassos da vida
(BAVINCK, 2001, p. 84).

As declarações de Bavinck revelam a sua cosmovisão cristã. Devemos então


entender que a chamada “arte cristã”, não deve ser caracterizada pelo seu tema
(assuntos bíblicos, os quais, obviamente têm a sua relevância própria ou temas
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

considerados religiosos). Temas bíblicos podem e de fato foram desenvolvidos


artisticamente por incrédulos retratando na realidade uma oposição à fé cristã.
Positivamente falando, a “arte cristã” deve ser avaliada pela sua qualidade
e pelo seu propósito tendo em vista o caráter cristão. Tomando as palavras de
Rookmaaker (2015, p. 242): “o que é cristão na arte não está no tema, mas no
espírito dela, em sua sabedoria e na compreensão da realidade que ela reflete”.
Não existe escola que ensine “arte cristã”. Podemos, quem sabe estudar, em
uma escola de arte, porém, não de arte cristã, como se esta fosse um tipo de arte.
O artista cristão revelará naturalmente em sua arte a sua fé.

A arte é realmente cristã quando a obra de arte satisfaz a norma artística no


mundo de Deus e tem um espírito de santidade que reconhece que nossa
existência como criaturas assediadas pelo pecado precisa ser reconciliada
com Deus mediante Jesus Cristo.
Fonte: Seerveld (1988-1990, p. 120-121).

Nem toda arte, que tem como temas assuntos bíblicos, é arte cristã. Por exem-
plo, pelo fato de eu elaborar uma música com tema “evangélico” ou reproduzir
na tela uma cena bíblica, não quer dizer que o meu produto seja necessaria-
mente “arte cristã”.

Cosmovisão e Arte
232 UNIDADE III

Na realidade posso apenas ter descoberto que esta é uma boa fatia do mer-
cado no qual devo aplicar o que julgo ser o meu talento e vocação. Ou, reproduzir
tais temas dentro de uma cosmovisão totalmente secular ‒ onde Deus existe, con-
tudo, em nada influencia ‒ que me domina ainda que não tenha percebido isso.
Por outro lado, podemos ter um escritor cristão que resolva escrever uma
obra de ficção, filosofia, educação ou de administração de empresas e, o faz com
competência, com amplo referencial cristão, tendo como meta glorificar a Deus
reconhecendo a Sua graça em sua vida e produção. Esta obra seria uma “arte
cristã”. Nesse caso particular, as obras pedagógicas de Comênio e os diversos

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
livros de ficção de C.S. Lewis (1898-1963) devem ser considerados como ilus-
trativos desse princípio.
A arte cristã, se é que podemos falar assim, deve ser avaliada a partir de sua
cosmovisão, qualidade e propósito. A arte cristã só é possível a partir de um cris-
tão. Devemos pedir a Deus que nos dê discernimento para que neste mundo
caído, possamos refletir em nossas obras, a obra de Deus em nós. Deste modo,
seria mais razoável dizer ao artista cristão que não faça “arte cristã”, mas que seja
um artista aplicado, coerente com a sua fé.
Em síntese: seja um cristão artista. Há sempre o perigo de nos apossarmos
de todo um modelo secular, colocar um verniz cristão e não percebermos as
incompatibilidades entre o conteúdo e a forma, nos esquecendo de que a forma
também não é neutra. Há o risco evidente de o meio superar a mensagem. É pre-
ciso ter cautela para não usarmos ferramentas nas quais estejam pressupostos
conceitos não-cristãos, nos tornando inocentes úteis de uma determinada cos-
movisão. Tais ferramentas tendem a moldar o seu usuário. São significativas as
observações de Colson (1931-2012) e Pearcey (2006, p. 291):
O perigo é que a cultura popular cristã possa imitar a cultura em voga,
mudando somente o conteúdo. (...) estamos criando uma cultura ge-
nuinamente cristã, ou estamos simplesmente criando uma cultura
paralela com uma aparência cristã? Estamos impondo um conteúdo
cristão a uma forma já existente? A forma e o estilo sempre transmitem
uma mensagem própria.

Rookmaaker (2010, p. 61), especificando a música, comenta:


Falar de música cristã não significa necessariamente falar de uma mú-
sica cuja letra transmita uma mensagem bíblica explícita ou expresse a

A REFORMA PROTESTANTE: HISTÓRIA E PRESSUPOSTOS TEÓRICOS


233

experiência de uma vida de fé e obediência piedosa. A obediência não


está restrita às questões de fé e ética. E aí entra a totalidade da vida. É
a mentalidade, o estilo de vida, que recebe forma e expressão artística.

Cosmovisão cristã não significa ter o mesmo senso estético ainda que o nosso
propósito seja o de glorificar a Deus. Como criados à imagem de Deus, temos
inteligência e sensibilidade, contudo, não somos uniformes.
O artista cristão é como um cristal que reflete a luz da revelação de forma
diversificada. A nossa unidade não significa uniformidade. Deus cria do nada.
Nós, do nada, nada criamos, contudo, remodelamos as formas atribuindo sen-
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

tido imaginativo e imitativo à Criação, fazendo o que nos é próprio na condição


de imagem. O nosso trabalho encontra o seu modelo em Deus, Aquele que o
inspira pelo Seu testemunho e ensino, colocando em nós o senso de beleza e o
apelo estético: “9Seis dias trabalharás e farás toda a tua obra. (...) 11 porque, em seis
dias, fez o SENHOR os céus e a terra, o mar e tudo o que neles há....” (Ex 20,9.11).
Assim, além de percepções variadas, há gostos e talentos diferentes, ainda que
com o mesmo propósito último: “Num sentido podemos nos regozijar porque, nos
artistas, divergências na recepção do testemunho do Santo Espírito conduzem a
formas diversas, apesar da analogia deste testemunho, e deve-se ver, na variedade
destas orientações, uma viva riqueza de realizações” (MUSCULUS, 1938, p. 192).
Portanto, isto não significa que toda obra de arte, independentemente de
sua técnica e beleza, seja agradável a Deus. Como temos insistido, a arte em
seu conjunto reflete a cosmovisão do artista. Esta deve ser avaliada a partir de
uma cosmovisão bíblica. Por sua vez, “a arte cristã é a expressão da vida inte-
gral da pessoa toda que é cristã. Aquilo que o artista cristão retrata em sua arte
é a totalidade da vida. A arte não deve ser apenas um veículo para um tipo de
evangelismo autoconsciente” (SCHAEFFER, 2010, p. 74).
Como princípio geral para a nossa criação e avaliação, deve permanecer a
instrução de Paulo aos filipenses, envolvendo o discernimento necessário em
todas as coisas, exercitando a mente de Cristo que está sendo formada em nós:
Finalmente, irmãos, tudo o que é verdadeiro, tudo o que é respeitável,
tudo o que é justo, tudo o que é puro, tudo o que é amável, tudo o que
é de boa fama, se alguma virtude há e se algum louvor existe, seja isso o
que ocupe o vosso pensamento (Fp 4.8).

Cosmovisão e Arte
234 UNIDADE III

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
CULTO ESPIRITUAL, COM ARTE, INTELIGÊNCIA E
SUBMISSÃO

“Quando Ele [Deus] nos concede talentos, incluindo o talento musical, Ele nos
concede, não para que se transforme em ídolo, mas para ser usado para Sua gló-
ria” (GAEBELEIN, 1986, p. 443).

■ Música: importância e limites

A música quer instrumental, quer vocal ou de ambas as formas, sempre esteve


presente em todas as expressões de cultura humana, estando, associada, pelo
menos em Israel, a todos os aspectos da vida. “Não há povo antigo no qual não
se encontrem manifestações musicais. (...) Não existe linguagem mais instintiva,
mais espontânea do que a música” (ALALEONA, 1984, p. 38).
Por sua vez, a música sempre fez parte dos cultos pagãos (Dn 3,4-7).
Entendia-se que os deuses gostavam de música, havendo, portanto, uma cone-
xão entre a adoração e a música. A flauta era um dos instrumentos populares,
inclusive nos cultos. Sendo facilmente confeccionada, a flauta estando associada,
em geral, à alegria (Jó 21,12; 30,31; Sl 149,3; 150,4; Is 30,29; Mt 11,17; Lc 7,32;
Ap 18,22), ainda que não especificamente (Mt 9,23).
Durante os quarenta dias em que Moisés e Josué estiveram no monte Horebe o
povo de Israel se corrompeu, financiando a confecção de um bezerro de ouro para

A REFORMA PROTESTANTE: HISTÓRIA E PRESSUPOSTOS TEÓRICOS


235

que se transformasse em seu deus; vemos aqui a tentativa humana, desesperada,


de criar os seus próprios deuses, atribuindo-lhes virtudes e poder (Ex 32,1-4).
Ainda que Arão tentasse impiamente associar a adoração pagã com a genu-
ína adoração ao Senhor, havia elementos distintos (Ex 32,5-8). Quando Moisés
e Josué descem do monte Horebe, ouvem cantos; ambos não souberam identifi-
car. Se Moisés não soube, muito menos Josué. Este até sugeriu tratar-se de alarido
de guerra, certamente que algum elemento no ritmo parecia como de guerra.
Moisés, porém, mais experiente, retrucou: não é cântico de vencedores nem de
vencidos; é alarido dos que cantam. O que exatamente era, eles não sabiam, mas
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

era algo diferente (Ex 32,17-20).


Notemos que a música por eles entoada não era algo que se harmonizasse
com o cântico religioso de Israel e mesmo com o cântico conhecido (Moisés
certamente conhecia bem os ritmos egípcios e judeus - At 7,22); havia algo de
estranho naquilo tudo. E quando eles chegaram ao local, o povo estava adorando
ao bezerro de ouro com muita alegria, leia-se: orgia (Ex 32,6.19.25; At 7,41).
Observemos que há uma diferença fundamental na forma como cantavam,
pois Moisés poderia falar: olhe, isso parece com música de Igreja – cometendo
aqui um anacronismo –, não dá para entender a letra por causa da distância, mas
é um cântico de Igreja. O cântico sacro é facilmente identificável. No entanto,
nada fora identificado por ambos. Josué até pensou tratar-se de canto de guerra.
Suponho que deveria ser algo alegre, ritmado, pois para guerra canta-se algo
que impulsione, estimule para uma batalha. Além disso, a descrição reflete uma
reunião festiva com comida, bebida, danças, gritos e diversão (Ex 32,6.17-19).
Recordo-me do testemunho do guitarrista Jimi Hendrix (1942-1970), na
década de 60, na revista Life (03/10/69), falando sobre o efeito hipnotizante do rock,
a batida era constante para que facultasse o sujeito ser hipnotizado por aquilo, e
quando ele é dominado por aquela batida fica mais fácil assimilar a mensagem; no
rock, a força está na batida. Repare, dentro da perspectiva Reformada, você evita
elementos externos estranhos ao culto para supostamente aplicar a mensagem. É
claro, você usa dos recursos bíblicos que Deus lhe dá, mas é o Espírito quem age.
Então, todo recurso para fixar a mensagem deve obedecer a padrões bíblicos
e estar adequadamente harmonizado ao culto. Emoção que não é produzida pela
Palavra, não se harmoniza com o culto, porque na realidade, não é produzida por Deus.

Culto Espiritual, com Arte, Inteligência e Submissão


236 UNIDADE III

No Novo Testamento, Estevão interpretando de modo inspirado a história


de seu povo, diz que Israel durante os quarenta anos no deserto jamais apren-
deu a adorar a Deus ainda que usasse o seu nome:
A quem nossos pais não quiseram obedecer; antes, o repeliram e, no
seu coração, voltaram para o Egito, dizendo a Arão: Faze-nos deuses
que vão adiante de nós; porque, quanto a este Moisés, que nos tirou da
terra do Egito, não sabemos o que lhe aconteceu. Naqueles dias, fize-
ram um bezerro e ofereceram sacrifício ao ídolo, alegrando-se com as
obras das suas mãos. Mas Deus se afastou e os entregou ao culto da mi-
lícia celestial, como está escrito no Livro dos Profetas: Ó casa de Israel,

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
porventura, me oferecestes vítimas e sacrifícios no deserto, pelo espaço
de quarenta anos, e, acaso, não levantastes o tabernáculo de Moloque e
a estrela do deus Renfã, figuras que fizestes para as adorar? Por isso, vos
desterrarei para além da Babilônia (At 7.39-43).

Agostinho (354-430), comentando de forma belíssima o salmo 148, diz:


Sabeis o que é hino? É um cântico com louvor a Deus. Se louvas a Deus
sem canto, não é hino. Se cantas e não louvas a Deus, não é hino; se
louvas outra coisa não pertencente ao louvor de Deus, apesar de canta-
res louvores, não é um hino. O hino, pois, consta de três coisas: canto
(canticum), louvor (laudem), de Deus. Portanto, louvor a Deus com
cântico chama-se hino (AGOSTINHO, 1998, p. 1142).

No culto a música deve ser entendida não simplesmente como meio de impres-
são – que age em nosso corpo, emoções e intelecto –, mas, principalmente, de
expressão, como veículo para o texto. Portanto, mais do que um agente de pre-
paração para o culto, ela é também uma oferta que deve ser apresentada com fé.

■ O espírito e o culto com integridade e discernimento

Paulo nos mostra que o cântico é uma expressão da adoração cristã marcada pela
plenitude do Espírito Santo. Mais: a genuína adoração é operada pelo Espírito
Santo em nós. O mesmo Espírito que falou por intermédio de Davi, inspiran-
do-o a escrever, é o que nos ilumina na adoração a Deus (At 4,25): “E não vos
embriagueis com vinho, no qual há dissolução, mas enchei-vos do Espírito, falando
entre vós com salmos (yalmÒj), entoando e louvando de coração ao Senhor, com
hinos (Ûmnoj) e cânticos (òdh/)espirituais” (Ef 5,18-19).
Essas três palavras empregadas também conjuntamente em Cl 3,16 é difí-
cil, senão impossível de se determinar com precisão a diferença entre elas e

A REFORMA PROTESTANTE: HISTÓRIA E PRESSUPOSTOS TEÓRICOS


237

estabelecer a sua distinção na adoração cristã, considerando inclusive que elas


também eram empregadas no culto pagão.
Segundo nos parece o que estabelece o contraste da adoração cristã neste
texto, é que esta é promovida pelo Espírito Santo, com coração sincero e, como
não poderia deixar de ser, de modo espiritual. Portanto, os três termos parecem
resumir a variedade e harmonia dos cânticos cristãos sob o impulso e direção
do Espírito em fidelidade à Palavra revelada de Deus.
Em Ef 5,18, Paulo faz um contraste entre a embriaguez, ainda que “reli-
giosa”– comportamento habitual entre os pagãos e ainda sobrevivente em
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

alguns círculos da Igreja (Cf. 1Co 11,21) –, que gera a dissolução de todos
os bons costumes, devassidão e libertinagem (¢swt…a), e o enchimento do
Espírito. Portanto, ao invés dos homens procurarem a excitação desenfreada
da bebida, ou a embriaguez como recurso para fugirem de seus problemas
por meio do entorpecimento de suas mentes, devem buscar o discernimento
do Espírito para compreender a vontade de Deus, que deve ser o grande obje-
tivo de nossa existência:
Vede prudentemente como andais, não como néscios, e, sim, como sá-
bios, remindo o tempo, porque os dias são maus. Por esta razão não vos
torneis insensatos, mas procurai compreender (Sun…hmi) qual a vonta-
de (Qe/lhma) do Senhor” (Ef 5.15-17