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N.Cham. B823.3 S6l9u4. ed.

/2009
Autor: Sire, James W.
Título: O universo ao lado : um catálo

582944
Pv 1 fPIV/l I I P M . F Ç T
Sumário

PREFÁCIO À 4 EDIÇÃO
a
5

1. TO D A A DIFERENÇA DO MUNDO: introdução 11


2. U M UNIVERSO PERMEADO

DA GRANDEZA DE O I I S: teísmo cristão 23


3. A PRECISÃO DO UNIVERSO: deísmo 55
4. O SILÊNCIO DO ESPAÇO FINITO: naturalismo 73
5. MARCO ZERO: niilismo 109
6. ALÉM DO NIILISMO: existencialismo 141
7. JORNADA RUMO AO ORIENTE:

Monismo panteísta oriental 179


8. U M UNIVERSO SEPARADO: a Nova Era 207
9. O HORIZONTE DESVANECIDO: pós-modernismo 263
10. A VIDA EXAMINADA: conclusão 301
NOTAS 315

ÍNDEX 373
Prefácio à 4 a
edição

M UITO S ANOS SE PASSARAM desde a publicação da primeira


edição deste livro, em 1976. Nesse ínterim, inúmeros
acontecimentos ocorreram, seja no desenvolvimento das
cosmovisões no Ocidente, seja na maneira como eu e muitos
outros passamos a compreender a noção de cosmovisão.
Em 1976, a cosmovisão da Nova Era estava apenas se
formando e nem nome tinha ainda. Eu a chamei de "a nova
consciência". Ao mesmo tempo, o termo pós-moderno estava
restrito apenas aos círculos académicos e ainda necessitava
de ser reconhecido como uma mudança intelectual signifi-
cante. Agora, no século X X I , a Nova Era já completou mais
de trinta anos, sendo adolescente apenas no caráter, não em
anos. Enquanto isso, o pós-modernismo tem penetrado em
cada área da vida intelectual, o suficiente para despertar, pelo
menos, uma modesta reação. O pluralismo e o relativismo
que o acompanham têm emudecido a distinta voz de todos
os pontos de vista. Embora a terceira edição desta obra tenha
O u n ive r s o ao lad o

observado isso, há mais hoje sobre as histórias tanto da Nova


Era quanto do pós-modernismo. Portanto, eu atualizei o
capítulo sobre a Nova Era e revisei, de maneira substancial,
o capítulo sobre o pós-modernismo. Igualmente, atualizei as
notas de rodapé ao longo do livro, mencionando publicações
recentes que podem ser frutíferas para os que, porventura,
estejam realizando uma pesquisa sobre cosmovisões ou as-
suntos de caráter específico.
Hoje em dia, há uma importante cosmovisão afetando
0 Ocidente que não foi abordada em nenhumas das edições
anteriores, incluindo-se esta. Desde 11 de setembro de
2001, o Islã tornou-se o principal fator da vida não apenas
no Oriente Médio, África e Ásia, mas também na Europa e
América do Norte. A cosmovisão islâmica (ou talvez, cos-
movisões), exerce sua influência sobre as vidas das pessoas
em todo o mundo. Além disso, o termo cosmovisão aparece
comumente nos jornais, quando jornalistas tentam com-
puvnder e explicar o que está incentivando os chocantes
eventos dos últimos anos. Infelizmente, não estou preparado
no presente para abordar a cosmovisão islâmica da maneira
que ela merece. Como tenho dito aos meus amigos coreanos
que têm me questionado porque não discuti as cosmovisões
dl onfúcio e a xamanista, isso deve ser feito por aqueles
(

• 111<- detém uma melhor compreensão do que eu. Qualquer


que enfrente esse desafio tem a minha bênção.
I ntretanto, eu mesmo tenho reavaliado toda a noção de cos-
movisío, O que é isso na realidade? Tem havido contestações
1 dl l i n u . i o que elaborei em 1976 (a qual mantive inalte-
i ul.i nas edições posteriores). Não é ela muito intelectual?
Prefácio à 4 a
edição

A cosmovisão não é mais inconsciente que consciente? Por


que ela principia com ontologia abstrata (a noção de ser) em
vez de com a questão mais pessoal da epistemologia (como
nós sabemos)? Não precisamos primeiro de ter o nosso co-
nhecimento justificado para, então, começarmos a fazer
afirmações sobre a natureza ou a suprema realidade? Minha
definição de cosmovisão não é dependente do idealismo
germânico do século X I X ou, talvez, da verdade da própria
cosmovisão cristã? E quanto ao papel do comportamento na
formação, avaliação ou mesmo identificação da cosmovisão
da pessoa? O pós-modernismo não enfraquece a própria no-
ção de cosmovisão?
Trago esses desafios no coração, e o resultado é duplica-
do. O primeiro é um livro que está sendo publicado pela
InterVarsity Press ao mesmo tempo que esta edição. Nes-
sa obra, intitulada Naming the Elephant: Worldview as a
Concept [Dando nome ao elefante: cosmovisão como um con-
ceito] , abordo uma série de assuntos em torno do conceito
de cosmovisão. Leitores interessados na ferramenta inte-
lectual que está sendo utilizada neste livro irão encontrá-la
em maior profundidade lá. Fui grandemente auxiliado
nesta obra pelo trabalho de David Naugle, professor de
filosofia da Universidade Batista de Dallas. Em sua obra,
Worldview: The History ofa Concept [Cosmovisão: a história
de um conceito], ele pesquisa a origem, o desenvolvimen-
to e as várias versões do conceito desde Immanuel Kant a
Arthur Holmes; além disso, apresenta sua própria defini-
ção da cosmovisão cristã. Sua identificação da cosmovisão
com a noção bíblica do coração é que tem fundamentado

• 7 •
O u n ive r s o ao lad o

a minha própria definição revisada que aparece no capítulo


primeiro do presente livro.
Leitores de qualquer uma das edições anteriores notarão
que a nova definição faz três coisas. Primeiro, ela muda o foco
de uma cosmovisão como "um conjunto de pressuposições"
para um "compromisso, uma orientação fundamental do co-
ração", concedendo uma ênfase maior às raízes pré-teóricas
do intelecto. Segundo, expande a forma pela qual as cosmovi-
sões são expressas, adicionando ao conjunto de pressuposições
uma noção de história. Terceiro, torna mais explícito que a raiz
mais profunda de uma cosmovisão é seu comprometimento
e compreensão da "realidade real". Quarto, ela reconhece o
papel do comportamento em avaliar o que a cosmovisão de
uma pessoa realmente é.
Não obstante, as análises empreendidas nas três edições
anteriores, em sua maioria, permanecem as mesmas. Apenas
mudanças ocasionais foram feitas na apresentação e análise
das seis primeiras, dentre as oito cosmovisões examinadas.
A minha esperança é que o refino de minha definição, aliado
i essas modestas revisões, possa tornar mais evidente a natu-
reza poderosa de cada uma das cosmovisões.
* I renovado interesse que este livro tem despertado so-
bn OS leitores, entretanto, continua a me surpreender e a
iii, satisfazer. Esta obra foi traduzida para quinze diferentes
idiomas, e a cada ano que passa ela encontra o seu caminho
p< las mãos de muitos estudantes, indicada por seus professo-
!• em < ursos tão abrangentes quanto diferentes, tais como
tpologética, história, literatura inglesa, introdução à reli-
trodução à filosofia e até mesmo sobre as dimensões

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Prefácio à 4
a
edição

humanas da ciência. Tal diversidade de interesses sugere que


uma das suposições sobre a qual o livro se baseia é, de fato,
verdadeira: os assuntos mais fundamentais que nós, como
seres humanos, precisamos de considerar, não possuem li-
mites departamentais. Qual é a realidade primária? Deus ou
o cosmo? O que o ser humano é? Que acontece na morte?
Como devemos, então, viver? Tais questões são igualmente
relevantes seja para a psicologia, religião ou ciência.
Pelo menos em um tópico eu permaneço constante: estou
convencido de que para qualquer um de nós ser plenamen-
te consciente, intelectualmente falando, seria necessário não
apenas ser capaz de detectar as cosmovisões dos outros, como
também ter consciência da nossa própria - porque é nossa e
porque à luz de tantas outras opções, cremos ser a verdadeira.
Apenas posso esperar que este livro torne-se uma pedra firme
e sólida, da qual cada leitor possa rumar em direção ao desen-
volvimento e justificação de sua autoconsciência sobre a sua
própria cosmovisão.
Somando-se aos muitos reconhecimentos expressados
nas notas de rodapé, gostaria, em especial, de agradecer a
C. Stephen Board, que muitos anos atrás me convidou a
apresentar muito deste material sob a forma de palestras, na
Christian Study Project, com o devido apoio da Inter Varsity
Christian Fellowship, ministradas no Cedar Campus, em
Michigan. Ele e Thomas Trevethan, igualmente presente
naquele programa, me forneceram conselhos excelentes no
desenvolvimento do material e no contínuo questionamento
crítico de meu pensamento sobre cosmovisão desde a
primeira publicação desta obra.
O u n i ve r s o ao lad o

Outros amigos leram o manuscrito e me ajudaram a po-


lir algumas arestas ásperas, como C. Stephen Evans, com
sua contribuição sobre o marxismo, Os Guinness, Charles
Hamptom, Keith Yandell, Douglas Groothuis, Richard H .
Bube, Rodney Clapp e Gary Deddo. Meu reconhecimento
dirige-se também a David Naugle, sem o qual minha defini-
ção de cosmovisão permaneceria inalterada. A eles e ao editor,
James Hoover, a minha mais sincera estima. Finalmente, gos-
taria de mencionar os comentários de muitos estudantes que
discutiram o material em minhas aulas e palestras.
Assumo total responsabilidade pelas contínuas falhas e
erros que, porventura, sejam encontrados neste livro.

10
Capítulo um

TODA A DIFERENÇA DO MUNDO

Int r o d ução

Muitas vezes, nas ruas mais agitadas deste mundo,


Muitas vezes, em meio à confusão da luta,
Surge um desejo inexprimível
De conhecer nossa vida encoberta:
Uma ânsia de consumir nossa chama e força impetuosa
Para encontrar a pista do nosso curso original;
Um desejo de investigar
Os mistérios deste coração que bate
Tão louco, tão profundo dentro de nós - para conhecer
De onde nossas vidas vêm e para onde elas vão."

Ma t t h e w Ar n o ld , The Buried Life [A vida encoberta]

J XIX, Stephen Crane havia aprendido


Á N O FINAL D O SÉCULO
a condição com que nós, no início do século X X I , encara-
mos o universo.
O u n i v e r s o a o la d o

Certo homem disse ao universo:


"Senhor, eu existo."
"Entretanto", replicou o universo, "o fato não criou em
mim um senso de obrigação." 1

Quão diferentes são as palavras do antigo salmista, que


olhou para si mesmo e para Deus e expressou:

"Senhor, Senhor nosso, como é majestoso o teu nome em


toda a terra! Tu, cuja glória é cantada nos céus. Dos lá-
bios das crianças e dos recém-nascidos firmaste o teu nome
como fortaleza, por causa dos teus adversários, para silen-
ciar o inimigo que busca vingança. Quando contemplo os
teus céus, obras dos teus dedos, a lua e as estrelas que ali
firmaste, pergunto: Que é o homem para que com ele te
importes? E ofilhodo homem para que com ele te preocu-
pes? Tu ofizesteum pouco menor do que os seres celestiais
e o coroaste de glória e de honra. Tu ofizestedominar sobre
as obras das tuas mãos; sob os seus pés tudo puseste: Todos
os rebanhos e manadas, e até os animais selvagens, as aves
do céu, os peixes do mar e tudo o que percorre as veredas
dos mares. Senhor, Senhor nosso, como é majestoso o teu
nome em toda a terra!" (Salmo 8)

Há toda a diferença do mundo entre as cosmovisões pre-


sentes nesses dois poemas. De fato, eles propõem universos
alternativos. Não obstante, ambos os poemas reverberam na
mente e alma das pessoas hoje em dia. Muitos que se postam
ao lado de Stephen Crane possuem mais que uma lembrança
da grande e gloriosa afirmação do salmista sobre a mão de
Deus no cosmo e seu amor pelas pessoas. Elas anseiam por
algo que não podem mais verdadeiramente aceitar. O vazio
deixado pela perda do centro da vida é como o abismo no

• 12 •
Toda a diferença do m undo

coração de uma criança que perdeu seu pai. Como aqueles


que não crêem mais em Deus desejam preencher esse vazio!
E muitos que, apesar de estarem do lado do salmista e
cuja fé no Senhor Deus Jeová é vital e plena, ainda sentem a
luta do poema de Crane. Sim, é exatamente isso o que sig-
nifica perder a Deus. Sim, é isso o que aqueles que não têm
fé no Senhor pessoal e infinito, Criador do universo devem
sentir, qual seja, alienação, solidão e mesmo desespero.
Lembramo-nos das lutas com a fé enfrentadas por nossos
antepassados do século X I X e sabemos que para muitos a fé
perdeu. Como Alfred, Lorde Tennyson, escreveu em respos-
ta à morte de seu grande amigo,

Perceba que não sabemos nada;


Posso apenas esperar que o bem falhe
Porfim- distante - porfim,a todos
E todo inverno se transforme em primavera.
Assim caminham os meus sonhos; mas o que sou eu?
Uma criança que chora na noite;
Uma criança que chora pela luz;
Que não consegue falar, apenas chorar." 2

No caso de Tennyson, a fé, no devido tempo, venceu,


mas a sua luta levou anos para ser concluída.
A luta em descobrir a nossa própria fé, nossa própria
cosmovisão, nossas crenças sobre a realidade é o assunto so-
bre o qual discorre este livro. Formalmente estabelecidos, os
propósitos desta obra são: 1) esboçar as cosmovisões básicas
que estão por trás da maneira como nós, no mundo ociden-
tal, pensamos sobre nós mesmos, outras pessoas, o mundo
natural e Deus ou a realidade suprema; 2) historicamente,

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O u n ive r s o ao la d o

traçar como tais cosmovisões se desenvolveram a partir


de uma ruptura na cosmovisão teísta, resultando, por seu
turno, no deísmo, no naturalismo, no niilismo, no existen-
cialismo, no misticismo oriental e na nova consciência do
movimento Nova Era; 3) mostrar como o pós-modernismo
deu um nó nessas cosmovisões; e 4) encorajar a todos nós a
pensar em termos de cosmovisões, isto é, com uma consci-
ência não apenas de nossa própria maneira de pensar, mas
também com as das demais pessoas, de modo que possamos
primeiramente compreender e, então, nos comunicarmos
de forma genuína com os outros, na sociedade pluralista
em que vivemos.
Essa é uma ordem abrangente. De fato, ela soa muito
similarmente ao projeto de toda uma vida. Minha esperança
é que assim seja para muitos que leiam este livro e levem a
sério as suas implicações. O que se encontra aqui escrito é
somente uma introdução do que pode muito bem se trans-
formar em um modo de viver.
Na confecção deste livro achei especialmente difícil defi-
nir o que incluir e o que deixar de fora, porém, pelo fato de
considerar todo o livro como uma introdução, procurei ser
rigorosamente breve, de modo a chegar ao âmago de cada
cosmovisão, sugerir seus pontos fortes e fracos e passar ao
próximo. Entretanto, fiz concessões ao meu próprio inte-
resse, incluindo notas de rodapé que, creio eu, levarão os
leitores a níveis de profundidade maiores que o abordado no
respectivo capítulo. Aqueles cujo interesse primário seja o
de apenas obter o que considero como o coração da questão
podem ignorá-las com segurança. Porém, os que desejam

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Toda a diferença do m undo

ir mais fundo por conta própria (que sejam uma legião!),


podem achar as notas de rodapé extremamente úteis na su-
gestão de leituras adicionais e novos objetos de investigação.

O q ue é u m a co sm o vi são ?

Apesar de nomes de filósofos como Platão, Aristóteles,


Sartre, Carnus e Nietzsche serem mencionados em suas
páginas, este livro não constitui um trabalho de filosofia
profissional. Igualmente, embora faça referências, de quan-
do em quando, a conceitos celebrizados por homens como
o apóstolo Paulo, Agostinho, Aquino e Calvino, esta obra
tampouco é de cunho teológico. Pelo contrário, é uma obra
de cosmovisões - apresentadas de uma forma mais básica e
fundamental que os estudos formais, sejam dafilosofiasejam
da teologia. Expressando de outra maneira, esta é uma obra
3

de universos moldados por palavras e conceitos que traba-


lham juntos, visando prover uma estrutura mais ou menos
coerente de referência para todo o pensamento e ação. 4

Poucas pessoas possuem algo que se aproxime a uma fi-


losofia articulada - pelo menos, como demonstrado pelos
grandes filósofos. Menos pessoas ainda, suspeito, possuem
uma teologia cuidadosamente construída, porém, todas pos-
suem uma cosmovisão. Sempre que refletimos sobre alguma
coisa, desde um pensamento casual (Onde será que deixei o
meu relógio?) até uma questão profunda (Quem sou eu?),
estamos operando dentro de uma estrutura. De fato, somen-
te a hipótese de uma cosmovisão, ainda que seja básica ou
simples, é que nos permite pensar.

15
O u n i v e r s o ao la d o

O que, então, é essa coisa chamada de cosmovisão, tão im-


portante a todos nós? Se jamais ouvi falar de cosmovisão, como
posso ter uma? Essa pode muito bem ser a indagação de mui-
tas pessoas. Um exemplo pode ser encontrado em monsieur
Jourdain, personagem da peça de Jean Baptiste Molière, O
Burguês Fidalgo, que repentinamente descobriu falar em prosa
durante quarenta anos, sem jamais tê-la conhecido. No en-
tanto, conhecer a sua própria cosmovisão é algo muito mais
valioso. Na verdade, é um importante passo rumo à autocons-
ciência, ao autoconhecimento e ao autoentendimento.
Então, o que é cosmovisão? Em essência, é isto:

Uma cosmovisão é um comprometimento, uma orientação fun-


damental do coração, que pode ser expressa como uma história
ou um conjunto de pressuposições (hipóteses que podem ser total
ou parcialmente verdadeiras ou totalmente falsas), que detemos
(consciente ou subconscientemente, consistente ou inconsistent
mente) sobre a constituição básica da realidade e que fornece o
alicerce sobre o qual vivemos, movemos e possuímos nosso ser.

Essa definição sucinta precisa ser esmiuçada. Cada frase


representa uma característica específica que merece um co-
mentário mais elaborado. 5

Cosmovisão como um comprometimento. A essência de


uma cosmovisão repousa nos mais profundos e íntimos re-
cônditos do eu humano. Uma cosmovisão envolve a mente;
porém, é, acima de tudo, um compromisso, uma questão de
alma. É uma orientação espiritual mais que uma questão de
mente apenas.
Cosmovisões são, na verdade, uma questão do cora-
ção. Essa noção seria fácil de entender se a palavra coração

• 16 -
Toda a diferença do m undo

carregasse, no mundo de hoje, o mesmo peso que ostenta


nas Escrituras. O conceito bíblico inclui as noções de sa-
bedoria (Pv 2.10), de emoção (Êx 4.14; Jo 14.1), desejo e
vontade (lCrs 29.18), espiritualidade (At 8.21) e intelecto
(Rm 1.21). Em suma, em termos bíblicos, o coração é "o
6

elemento definidor central da pessoa humana". Portanto,


7

uma cosmovisão está localizada no eu - o compartimento


central de operação de todo o ser humano. É desse coração
que procedem todos pensamentos e açÕes.
Expressa como uma história ou um conjunto de pressuposi-
ções. Uma cosmovisão não é uma história ou um conjunto
de pressuposições, mas pode ser expressa dessa maneira.
Quando reflito a respeito de onde eu e toda a raça humana
viemos ou para onde minha vida ou a própria humanidade
está indo, minha cosmovisão está sendo expressa como uma
história. Uma história contada pela ciência principia com o
Big Bang e prossegue pela evolução do cosmo, a formação
das galáxias, estrelas e planetas, o surgimento da vida na ter-
ra e sobre o seu desaparecimento à medida que o universo
se desvanece. Os cristãos contam a história da criação, da
queda, da redenção, da glorificação - uma história na qual
o nascimento, a morte e a ressurreição de Jesus Cristo consti-
tuem o fundamento central. Os cristãos enxergam a sua vida
e a das demais pessoas como minúsculos capítulos inseridos
na história principal. O significado dessas pequenas histó-
rias não pode ser divorciado da principal, e alguns desses
significados são proposicionais. Quando, por exemplo, per-
gunto-me o que estou realmente presumindo sobre Deus,
os seres humanos e o universo, o resultado é um conjunto

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O u n i v e r s o ao la d o

de pressuposições que posso expressar sob forma proposi-


cional.
Quando expressas dessa forma, elas respondem a uma
série de questões básicas sobre a natureza da realidade fun-
damental. Listarei e examinarei essas questões rapidamente;
mas considere primeiro a natureza de tais pressuposições.
Pressuposições que sejam verdadeiras, conscientes e consisten-
tes. As pressuposições que expressam o comprometimento da
pessoa podem ser plena ou parcialmente verdadeiras ou to-
talmente falsas. Há, claro, o modo como as coisas são, mas, em
geral, equivocamo-nos quanto a isso. Em outras palavras, a
realidade não é infinitamente plástica. Uma cadeira continua
sendo uma cadeira quer a reconheça como tal ou não. Igual-
mente, ou há um Deus infinitamente pessoal quer não. No
entanto, as pessoas discordam quanto ao que é verdadeiro.
Alguns presumem uma coisa, enquanto outros, uma distinta.
Segundo, algumas vezes nós temos consciência dos nos-
sos comprometimentos, outras não. Suspeito que a maioria
das pessoas não pensa, de maneira consciente, em seus se-
melhantes como máquinas orgânicas, embora as que não
acreditam em nenhum tipo de Deus, na verdade, estão assu-
mindo, conscientemente ou não, que é isso o que elas são.
Ou elas presumem que realmente possuem algum tipo de
alma imaterial e tratam as pessoas dessa maneira e, portanto,
simplesmente não possuem consciência de sua cosmovisão.
Algumas pessoas que não crêem em nada que seja sobre-
natural, se questionam quanto a sua reencarnação. Assim,
terceiro, algumas vezes, nossas cosmovisões carecem de con-
sistência.

• 18 •
Toda a diferença do m undo

O alicerce sobre o qual vivemos. É importante observar que


nossa própria cosmovisão pode não ser o que pensamos que
seja. Via de regra, ela é o que demonstramos por meio de
nossas palavras e ações. Em geral, nossa cosmovisão repou-
sa tão profundamente entremeada em nosso subconsciente
que, a não ser que tenhamos refletido longa e arduamente,
não temos consciência do que ela é. Mesmo quando acha-
mos que sabemos o que seja e a expomos claramente em
proposições ordenadas e histórias claras, é possível que este-
jamos equivocados. Nossas próprias ações podem desmentir
nosso autoentendimento.
Pelo fato deste livro focar os principais sistemas de cos-
movisão sustentados por um grande contingente de pessoas,
a análise desse elemento privado de cosmovisão não será alvo
de maiores comentários. No entanto, se desejamos obter um
esclarecimento mais detalhado sobre a nossa própria cosmo-
visão, devemos refletir e considerar profundamente sobre
como realmente nos comportamos.

Set e q u est õ es b ási cas

Se uma cosmovisão pode ser expressa sob a forma de propo-


sições, quais seriam elas? Em essência, são as nossas respostas
mais íntimas às seguintes perguntas:

1. O que é a realidade primordial, qual seja, o que é real-


mente verdadeiro? A essa questão, podemos responder
Deus, os deuses ou o cosmo material. Nossa resposta
aqui é a mais fundamental de todas. Ela estabelece
8

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O u n i v e r s o ao la d o

os limites para as respostas que podem ser, consisten-


temente, dadas para todas as demais questões. Isso se
tornará mais claro à medida que avançarmos de uma
cosmovisão a outra nos capítulos que se seguem.
Qual a natureza da realidade externa, isto é, o mundo
que nos rodeia?Aqui nossas respostas indicam se enxer-
gamos o mundo como criado ou autónomo, caótico
ou organizado, como matéria ou espírito ou se enfati-
zamos o nosso relacionamento pessoal subjetivo com o
mundo ou sua objetividade à parte de nós.
O que o ser humano é? A essa pergunta podemos res-
ponder: uma máquina altamente complexa, um deus
adormecido, uma pessoa feita à imagem de Deus, um
símio nu.
O que acontece a uma pessoa quando ela morre? Aqui
podemos replicar: extinção pessoal, ou transformação
para um estado mais elevado, ou reencarnação, ou pas-
sagem para uma existência sombria do "outro lado".
Por que é possível conhecer alguma coisa? As respostas
incluem a ideia de que fomos feitos à imagem de um
Deus onisciente ou que a consciência e a racionalidade
se desenvolveram sob as contingências da sobrevivên-
cia ao longo do processo evolutivo.
Como sabemos o que é certo e errado? Novamente, tal-
vez tenhamos sido criados à imagem de um Deus cujo
caráter é bom, ou talvez o certo e o errado sejam de-
terminados apenas pela escolha humana ou talvez pelo
que nos faz sentir bem, ou as noções se desenvolveram

20
Toda a diferença do m undo

simplesmente sob um ímpeto direcionado à sobrevi-


vência cultural ou física.
7. Qual é o significado da história humana? K essa questão
podemos responder: para compreender os propósitos
de Deus ou dos deuses, para fazer da terra um paraíso,
preparar as pessoas de modo a viverem em comunida-
de com um Deus amoroso e santo e assim por diante.
Dentre as variadas e distintas cosmovisões básicas, em geral,
surgem outras questões. Por exemplo: quem está no comando
deste mundo - Deus, os seres humanos ou ninguém, afinal?
Como seres humanos, somos limitados ou livres? Apenas nós
é que determinamos os valores? Deus é realmente bom? Deus
é pessoal ou impessoal? Afinal de contas, Deus existe?
Quando colocadas nessa sequência, tais questões dão um
nó na mente. Das duas uma: ou as respostas são tão óbvias
para nós que nos perguntamos por que alguém teria o tra-
balho de fazê-las ou nos questionamos sobre como qualquer
uma delas pode ser respondida com alguma certeza. Se achar-
mos que as respostas são óbvias demais para considerá-las,
então, possuímos uma cosmovisão, mas não fazemos ideia
de que muitos não compartilham do mesmo pensamento.
Deveríamos compreender que vivemos em meio a um mun-
do pluralista. O que nos parece óbvio pode ser uma "mentira
dos infernos" para o nosso vizinho. Se não reconhecermos
isso, decerto somos ingénuos e provincianos e temos muito
ainda por aprender sobre a vida no presente mundo. Por ou-
tro lado, se acharmos que nenhuma das perguntas pode ser
respondida sem cometer enganos ou suicídio intelectual, na
realidade, adotamos um tipo de cosmovisão - uma forma de
ceticismo que, em sua forma extrema, leva ao niilismo.

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O u n ive r s o ao la d o

O fato é que não conseguimos evitar assumir algumas


respostas para tais questões. Ou adotamos um ponto de vista
ou outro. A recusa em se adotar uma cosmovisão explícita,
mostrará ser, em si mesma, uma cosmovisão ou, pelo menos,
uma posição filosófica. Em resumo, estamos em um beco
sem saída. Assim, enquanto durar nossa vida, nós a vive-
remos refletida ou irrefletidamente. A pressuposição deste
livro é de que a primeira situação é a melhor.
Portanto, os capítulos seguintes - cada qual examinando
uma cosmovisão importante - são designados para esclare-
cer as possibilidades. Deveremos analisar as respostas que
cada cosmovisão fornece a essas sete questões básicas. Isso
nos concederá uma abordagem consistente de cada uma,
auxiliar-nos-á a enxergar as similaridades e diferenças entre
elas, sugerindo como cada uma delas deve ser avaliada den-
tro de sua própria estrutura de referência, bem como a partir
do ponto de vista das demais cosmovisões concorrentes.
A cosmovisão que adotei será detectada logo no princípio
da exposição do argumento. Porém, para evitar qualquer adi-
vinhação, eu a declararei agora, pois é o assunto do próximo
capítulo. O livro, contudo, não é uma revelação da minha
cosmovisão, mas uma exposição crítica das opções existen-
tes. Se no decurso desse exame, os leitores descobrirem,
modificarem ou tornarem mais explícita sua cosmovisão, o
principal alvo desta obra terá sido alcançado. Existem mui-
tos universos verbais ou conceituais, alguns há muito tempo,
enquanto outros acabaram de ser desenvolvidos. Qual é o
seu universo? Quais são os universos ao lado?

• 22 •
Capítulo dois

UM UNIVERSO PERMEADO DA
GRANDEZA DE DEUS

Teísm o cr i st ão

A grandeza de Deus, o mundo inteiro admira,


Em ouro ou ouropel faísca o seu fulgor;
Grandiosa em cada grão, qual limo em óleo
Amortecido. Mas por que não temem a sua ira?

Gerard M anley Hopkins, God's Grandeur


[A grandeza de Deus]

A TÉ O FIM DO SÉCULO X V I I , a cosmovisão teísta era


claramente dominante no m u n d o ocidental. O s de-
bates intelectuais — e havia tantas quantos há hoje — eram,
notadamente, contendas familiares. O s dominicanos po-
d i a m discordar dos jesuítas, estes dos anglicanos que, por
seu turno, discordavam dos presbiterianos, ad infinitum,
O u n i v e r so ao l ad o

porém todos eles estavam circunscritos ao mesmo conjunto


de pressuposições. O D e u s bíblico, pessoal e trino existia; ele
se revelara a nós e poderia ser conhecido; o universo era sua
criação; os seres humanos constituíam sua criação especial.
Se batalhas eram levadas a efeito, os seus limites eram esta-
belecidos dentro do círculo do teísmo.
Por exemplo, como nós conhecemos a Deus? Por meio
da razão, da revelação, da fé, pela contemplação, por procu-
ração, pelo acesso direto? Essa batalha foi travada em muitas
frentes durante dezenas de séculos e permanece sendo u m a
questão entre os remanescentes no campo teísta. O u con-
sidere u m outro ponto: o componente básico do universo
é somente matéria, apenas f o r m a o u u m a combinação das
duas. O s teístas também divergem sobre isso. Q u e papel a
liberdade h u m a n a desempenha em u m universo onde Deu s
reina soberano? U m a vez mais, u m debate, por assim dizer,
familiar.
Durante o período compreendido entre a Idade Média e o
fim do século X V I I , poucos desafiavam a existência de Deus,
o u defendiam que a realidade suprema era impessoal ou que
a morte significava a extinção individual. A razão é óbvia. O
cristianismo havia impregnado o mundo ocidental de tal for-
m a que, quer as pessoas acreditassem em Cristo quer agissem
como deveriam os cristãos, todos viviam sob u m contexto de
ideias transmitidas e influenciadas pela fé cristã. Mesmo os
que rejeitavam a fé, em geral, viviam sob o estigma do medo
do inferno ou das aflições do purgatório. Pessoas más podiam
rejeitar a bondade cristã, mas elas reconheciam ser más, basi-
camente, com referência aos padrões cristãos — grosseiramente

• 24 •
Um universo permeado da grandeza de Deus

compreendidos, sem dúvida, mas cristãos em essência. A s


pressuposições teístas que jaziam por trás de seus valores, já
v i n h a m com o leite materno.
Claramente, isso não é mais verdade. H o j e em dia, nas-
cer na parte ocidental do m u n d o não garante mais nada. A s
cosmovisões proliferaram. C a m i n h e pelas ruas de qualquer
cidade importante da E u r o p a ou dos Estados U n i d o s e a
próxima pessoa que encontrar pela frente pode aderir a qual-
quer u m dos inúmeros padrões distintamente diferentes de
compreensão da vida. Quase nada é bizarro para nós, o que
apenas torna cada vez mais difícil a missão dos apresentado-
res de programas de entrevistas e m sua tentativa de alavancar
a audiência de seus programas com declarações bombásticas
e chocantes de seus entrevistados.
Considere o problema de crescer nos dias de hoje. Jane,
como qualquer criança nascida no final do século X X e co-
meço do século X X I , no m u n d o ocidental, em geral, percebe
a realidade definida sob óticas completamente distintas - a
da sua mãe e de seu pai. Então, a família se rompe, e a corte
de justiça pode entrar c o m u m a terceira definição da reali-
dade h u m a n a . T a l situação coloca u m problema distinto de
como decidir qual a forma real do m u n d o .
E m contrapartida, João , u m a criança do século X V I I , foi
embalada em u m consenso cultural que lhe concedia u m
sentido de lugar. O m u n d o ao redor estava realmente lá -
criado por D e u s para estar lá. C o m o vice-regente de D e u s,
o j o v e m João sentia que ele e os outros seres humanos ha-
v i a m recebido o domínio sobre o m u n d o . Dele requeria-se o
culto a Deus , mas ele, eminentemente era digno desse
O u n i v e r so ao l ad o

louvor. D e igual sorte, dele exigia-se obediência a Deus, mas,


então, obedecer a Deus constituía a verdadeira liberdade, u m a
vez que era para isso que as pessoas foram criadas. Além disso,
o jugo de Deus era fácil e seu fardo leve. Igualmente, as regras
divinas eram vistas como primariamente morais, e as pessoas
eram livres para ser criativas sobre o universo exterior, para
aprender seus segredos, para moldá-lo e adaptá-lo como mor-
domos de Deus, cultivando o jardim de Deus e oferecendo
seu trabalho como verdadeiro culto diante de u m Deus que
honra sua criação com liberdade e dignidade.
H a v i a u m alicerce tanto para o propósito quanto para a
moralidade e também para a questão da identidade. O s após-
tolos do absurdo ainda estavam por chegar. Mesmo a obra
de Shakespeare, Rei Lear (talvez o herói renascentista inglês
mais "perturbado"), não termina em total desespero. E as suas
peças subsequentes sugerem que ele mesmo havia superado o
momento de desespero, encontrando significado no mundo.
E adequado, pois, iniciarmos o estudo sobre as cosmo-
visões c o m o teísmo, pois é a visão fundamental, da qual
derivam todas as demais que foram desenvolvidas entre os
séculos X V I I e X X . Seria possível retornar ao classicismo
greco-romano, que precedeu o teísmo, porém mesmo esse,
quando renasceu n a Renascença, era visto quase que u n i c a -
mente dentro da estrutura teísta. 1

O t eísm o cr i st ão b ási co

C o m o o princípio de cada capítulo, tentarei expressar


a essência de cada cosmovisão por meio de u m número
Um universo permeado da grandeza de Deus

m í n i m o de proposições sucintas. C a d a cosmovisão considera


as seguintes questões básicas: a natureza e o caráter de Deus
ou suprema realidade, a natureza do universo, a natureza da
humanidade, a questão quanto ao que ocorre a u m a pessoa
quando ela morre, a base do conhecimento h u m a n o , a base
da ética e o significado da história. N o caso do teísmo, a
2

proposição primária concerne à natureza de D e u s.


Por essa primeira proposição ser revestida de grande
importância, deter-me-ei nela por mais tempo que nas de-
mais.

1. Deus é infinito e pessoal (trino), transcendente e imanente,


onisciente, soberano e bom. 3

Separemos as várias afirmações:


Deus é infinito. Isso significa que ele está além de limites,
de medidas, no tocante a nós. N e n h u m outro ser no u n i -
verso pode desafiar a D e u s e m sua natureza. T u d o o mais
é secundário. D e u s não possui semelhante, mas apenas ele
é o ser-total e o fim-total da existência. D e fato, Deus é o
único ser autoexistente. C o m o ele mesmo falou a Moisés
4

na sarça ardente: " E u Sou o que S o u " ( E x 3 . 1 4 ) . E l e é de


u m a forma como ninguém mais. A s s i m como Moisés pro-
clamou: " O u ç a , ó Israel: O Senhor, o nosso D e u s , é o único
Senhor" ( D t 6.4). D e u s é a única existência primordial, a
única realidade suprema e, como abordaremos detidamente
mais adiante, a única fonte de toda a realidade.
Deus é pessoal. Essa afirmação significa que D e u s não é
u m a mera força, o u energia o u "substância" existente. E l e é
pessoal, e personalidade requer duas características básicas:

• 27 •
O u n i v e r so ao l ad o

autorreflexão e autodeterminação. E m outras palavras, Deu s


é pessoal no sentido de que ele sabe quem é ( D e us é auto-
consciente) e possui as características de autodeterminação,
ou seja, ele "pensa" e "age".
U m a implicação da personalidade de D e u s é que ele é
como nós. T a l afirmação, de certo modo, coloca a carroça
na frente dos bois. O correto é afirmar que somos como ele,
porém, será conveniente colocar ao contrário, pelo menos,
para u m breve comentário. A s s i m , ele é como nós, o que
significa que há alguém supremo que existe para alicerçar
nossas mais elevadas aspirações, a nossa mais preciosa pos-
sessão, qual seja, a personalidade. Porém, há mais sobre isso
na proposição 3 .
O u t r a implicação da personalidade de Deus é que ele não
é u m a simples unidade, u m número inteiro, pois Deu s pos-
sui atributos, características. S i m , ele é u m a unidade, porém,
u m a unidade de complexidade.
N a verdade, no teísmo cristão (não no judaísmo o u isla-
mismo) Deus não é somente pessoal, mas trino. Isto é, "dentro
de u m a mesma essência da D i v i n d a d e , temos de distinguir
três 'pessoas' que, se por u m lado não são três deuses, por
outro também não são três divisões o u modos de D e u s , mas
coiguais e coeternos em D e u s " . Certamente, a Trindade
5

constitui u m grande mistério e, no momento, não sou capaz


n e m mesmo de começar a elucidá-lo. O mais importante
aqui é observar que a Trindade confirma a natureza "pessoal"
e comunitária do supremo ser. Deus não está apenas lá — u m
ser existente real; ele é pessoal e podemos nos relacionar com
ele de u m a forma pessoal. Logo, conhecer a D e u s significa

• 28
Um universo permeado da grandeza de Deus

ir além do simples reconhecimento de que ele existe, ou seja,


conhecê-lo como conhecemos u m irmão, ou melhor, o nos-
so próprio pai.
Deus é transcendente. Isso significa que D e u s está além de
nós e nosso m u n d o . E l e é diferente. Veja u m a pedra: Deus
não é ela, mas é m u i t o além dela. Veja u m h o m e m : D e u s
não é ele, mas é muit o além dele. D e u s , entretanto, não está
tão além assim de modo a não permitir qualquer relacio-
namento conosco e nosso m u n d o . É igualmente verdadeiro
que D e u s é imanente, o que significa que ele está conosco.
Veja u m a pedra: Deus está presente. Veja u m h o m e m : ele
está presente. Então, temos u m a contradição? O teísmo não
faz sentido nesse ponto? A c h o que não.
A m i n h a filha, C a r o l , me ensinou m u i t o , quando tinha
apenas cinco anos. A m i n h a esposa e ela conversavam na
cozinha sobre Deus estar em todo o lugar. Então, C a r o l per-
guntou:

"Deus está na sala?"


"Sim", respondeu sua mãe.
"Ele está na cozinha?"
"Sim", minha esposa confirmou.
"Estou pisando Deus?"

M i n h a esposa ficou sem saber o que responder. Mas pres-


te atenção no ponto que foi levantado. Deus está aqui da
mesma forma que u m a pedra, u m a cadeira o u u m a cozinha?
É claro que não, pois ele é imanente, aqui, em todo o lugar,
em u m sentido totalmente alinhado c o m a sua transcendên-
cia. Deus não é matéria como eu e você somos, mas Espírito.
E , não obstante, ele está aqui. N o N o v o Testamento lemos

29 •
O u n i v e r so ao l ad o

que Jesus está "sustentando todas as coisas por sua palavra


poderosa" ( H b 1.3). Isto é, Deus está além de tudo, ainda
que em tudo e sustentando tudo.
Deus é onisciente. O significado dessa afirmação é que
D e u s conhece tudo. E l e é o alfa e o ômega e conhece o p r i n -
cípio desde o fim ( A p 2 2 . 1 3 ) . E l e é a fonte suprema de todo
o conhecimento e de toda a inteligência. É aquele que sabe.
O autor do salmo 139 expressa c o m extrema beleza a sua
perplexidade por D e u s estar e m todos os lugares, preenchen-
do-o c o m sua presença - conhecendo-o ainda quando ele
estava sendo formado no ventre de sua mãe.
Deus ésoberano. N a verdade, essa é u m a ramificação adicio-
nal da infinitude de Deus, porém, expressa mais plenamente
seu interesse em governar e cuidar de todas as açÕes de seu
universo. Essa afirmação revela o fato de que nada está além
do supremo interesse, controle e autoridade de Deus.
Deus é bom. Essa é a declaração primordial sobre o caráter
de D e u s . D e l a derivam todas as outras. Ser b o m significa
6

ser b o m . Deu s é bondade, ou seja, o que ele é, é b o m . Não


há n e n h u m sentido no qual a bondade ultrapasse D e u s o u
vice-versa. D a mesma f o r m a que o ser é a essência de sua
natureza, a bondade é a essência de seu caráter.
A bondade de D e u s é expressa de duas maneiras: por
meio da santidade e do amor. A primeira enfatiza a sua ab-
soluta justiça, que não suporta n e n h u m a sombra do m a l .
C o m o escreveu o apóstolo João: " D e u s é luz; nele não há
treva alguma" ( l j o 1.5). A santidade de D e u s é sua sepa-
ração de tudo o que apresenta qualquer vestígio do m a l .
Porém, a bondade de D e u s também é expressa em amor.

. 30 •
Um universo permeado da grandeza de Deus

D e fato, João afirma: " D e u s é amor" ( l j o 4 . 1 6 ) , e isso leva


D e u s ao autossacrifício e à plena expressão de seu favor ao
seu povo, chamado nas Escrituras como "rebanho do seu
pastoreio" (SI 100.3).
A bondade divina significa, então, que há u m padrão
absoluto de justiça (encontrado no caráter de Deus) e, se-
gundo, que há esperança para a humanidade (porque Deus é
amor e não abandonará a sua criação). A combinação dessas
afirmações tornar-se-á especialmente significante ao investi-
garmos os resultados de se rejeitar a cosmovisão teísta.

2. Deus criou o cosmos ex-nihilo para operar com uma


uniformidade de causa e efeito em um sistema aberto.

Deus criou o cosmos ex-nihilo. Deus é aquele que é, e,


portanto, ele é a fonte de tudo o mais. É ainda importante
compreender que Deus não criou o universo de si mesmo.
E m vez disso, ele o chamou à existência. O universo veio a
existir por meio de sua palavra: "Disse Deus: ' H a j a luz', e h o u -
ve l u z " ( G n 1.3). Assim, os teólogos dizem que Deus "criou"
( G n 1.1) o cosmo ex-nihilo — do nada, e não de si mesmo ou
de algum caos pré-existente (pois se fosse "pré-existente" teria
de ser eterno como D e u s ) .
E m segundo lugar, D e u s criou o universo como uma uni-
formidade de causa e efeito em um sistema aberto. Essa frase
é u m resumo útil para duas concepções-chave. 7
Primeira,
significa que o cosmo não foi criado para ser caótico. Isaías
afirma essa verdade de modo magnífico:

"Pois assim diz o Senhor, que criou os céus, ele é Deus; que
moldou a terra e a fez, ele fundou-a; não a criou para estar

• 31
O u n i v e r so ao l ad o

vazia, mas a formou para ser habitada; ele diz: ' E u sou o
Senhor, e não há nenhum outro. Não falei secretamente,
de algum lugar numa terra de trevas; eu não disse aos des-
cendentes de Jacó: Procurem-me à toa. E u , o Senhor, falo a
verdade; eu anuncio o que é certo." (Is 45.18,19)

O universo é ordenado, e Deus não o apresenta a nós


e m confusão, mas em claridade. A natureza do universo de
D e u s e o caráter divino estão, portanto, intimamente rela-
cionados. O m u n d o é como é em parte porque Deus é como
é. M a i s adiante, veremos como a queda do h o m e m qualifica
essa observação. N o momento, é suficiente observar que há
u m a regularidade, u m a metodologia, no universo. Podemos
esperar que a terra gire e m torno de seu próprio eixo, de
modo que o sol "se levante" a cada novo amanhecer.
Todavia, u m a outra noção importante encontra-se e m -
butida nessa sucinta frase. O sistema é aberto, o que significa
que ele não é programado. D e u s está constantemente envol-
vido no patente padrão da contínua operação do universo.
E assim também estamos nós, seres humanos! O curso da
operação do m u n d o é aberto ao reordenamento tanto por
D e u s quanto pelos seres humanos. Desse modo, o encon-
tramos dramaticamente reordenado por ocasião da queda.
Adão e E v a fizeram u m a escolha que se revelou de extrema
importância. D e u s, porém, fez u m a outra escolha ao redimir
as pessoas por intermédio de Jesus Cristo.
A operação do m u n d o é igualmente reordenada por nos-
sa contínua atividade após a queda. T o d a e qualquer ação
realizada por cada u m de nós, cada decisão e m perseguir u m
curso em detrimento de outro, altera o u , melhor, "produz" o

32
Um universo permeado da grandeza de Deus

futuro. Por meio de despejos de poluentes clandestinos em rios


cristalinos, impedimos a vida dos peixes e alteramos a maneira
Como [iodemos nos alimentar nos anos vindouros. A o "des-
poluirmos" nossos rios, novamente alteramos o nosso futuro.
Sc 0 universo não fosse ordenado, nossas decisões não teriam
efeito algum. Se o curso dos eventos fosse determinado, nos-
sas decisões não teriam importância alguma. Assim, o teísmo
declara que o universo é ordenado, porém, não determinado.
As implicações disso se tornarão mais claras ao considerarmos
0 I ngai ocupado pela humanidade no cosmos.

3. Os seres humanos são criados à imagem de Deus e,


portanto, possuem personalidade, autotranscendência,
inteligência, moralidade, senso gregário e criatividade.

A frase-chave aqui é " à imagem de D e u s " , u m a concep-


ção sublinhada pelo fato de ocorrer três vezes em u m curto
espaço de dois versículos, no livro de Génesis:

"Então disse Deus: 'Façamos o homem à nossa imagem,


lonlorme a nossa semelhança. Domine ele sobre os peixes
do mar, sobre as aves do céu, sobre os grandes animais de
toda a terra e sobre os pequenos animais que se movem ren-
te ao chão. Criou Deus o homem à sua imagem, à imagem
de Deus o criou; homem e mulher os criou." ( G n 1.26,27;
compare com G n 5.3; 9.6).

O fato de as pessoas serem feitas à imagem de Deus signi-


fica que somos como Deus. J á observamos anteriormente que
1 )eus é como nós, porém, as Escrituras, na verdade, afirmam
isso de outra forma: "Nós somos como Deus", coloca a ênfase
no devido lugar, qual seja, n a primazia de Deus.

33 •
O u n i v e r so ao l ad o

Somos seres pessoais porque Deus é pessoal, isto é, reconhe-


cemos a nossa existência (somos autoconscientes) e tomamos
decisões livremente (possuímos autodeterminação). Somos
capazes de agir por conta própria. Não apenas reagimos ao
nosso ambiente, mas podemos agir conforme nosso próprio
caráter e nossa própria natureza.
N ã o existem duas pessoas iguais, dizemos. Isso ocorre
não apenas porque duas pessoas não compartilharam exa-
tamente a mesma hereditariedade e meio ambiente, mas
porque cada u m de nós possui u m único caráter, do qual se
originam nossos pensamentos, desejos, nossa avaliação das
consequências ou nossa recusa em avaliá-las, o perdão ou a
recusa em perdoar - e m suma, escolhemos agir.
Nisso cada ser h u m a n o reflete, como u m a imagem, a
transcendência de D e u s sobre seu universo. Deus não está
limitado, de forma alguma, pelo seu ambiente. E l e está l i m i -
tado (podemos dizer) apenas por seu caráter, pois ele, sendo
b o m , não pode mentir, ser enganado, agir c o m má intenção
e assim por diante. N o entanto, nada externo a D e u s pode
restringi-lo. Se ele decidir restaurar u m universo arruinado,
é porque ele "quer" fazer isso, porque, por exemplo, D e u s
ama o universo e deseja sempre o melhor para ele. Mas ele é
livre para agir conforme a sua vontade que, por sua vez, está
em consonância com seu caráter {quem ele é).
Dessa forma, agimos parcialmente e m u m a transcendên-
cia sobre nosso meio ambiente. Exceto e m condições críticas
de existência — u m a enfermidade ou privação física (inani -
ção extrema o u ficar aprisionado durante dias sem-fim na
escuridão total, por exemplo) — u m a pessoa não é forçada a
n e n h u m a reação necessária.

34
Um universo permeado da grandeza de Deus

Se, por acidente, levo u m pisão no dedinho do pé. Sou


obrigado a xingar? E u posso. Sou obrigado a perdoar? E u
posso. Sou obrigado a gritar? E u posso. S o u obrigado a sor-
rir? E u posso. A m i n h a reação refletirá o m e u caráter, mas
sou " e u " que decido agir daquela forma, e não apenas reagir
como u m a campainha, quando o botão é acionado.
E m suma, as pessoas possuem personalidade, sendo ca-
pazes de transcender o cosmo no qual estão, no sentido de
que podem conhecer algo sobre aquele cosmo onde se en-
contram e agir de maneira significativa de modo a alterar o
curso tanto dos eventos humanos quanto cósmicos. Essa é
u m a outra forma de dizer que o sistema cósmico criado por
D e u s está aberto à reorganização pelos seres humanos.
A personalidade é a principal característica no tocante
aos seres humanos, assim como, acho justo dizer, é a carac-
terística principal sobre D e u s , que é infinito tanto n a sua
personalidade como e m seu ser. Nossa personalidade está
fundamentada n a personalidade de Deus. Isto é, encontra-
mos nossa verdadeira morada em D e u s e por meio de u m
íntimo relacionamento c o m ele. " N o coração de todo ho-
m e m há u m vazio c o m o formato de D e u s " , escreveu Pascal.
"Nossos corações não descansam até encontrarem repouso
e m T i " , escreveu Agostinho.
C o m o Deus satisfaz nosso desejo supremo? E l e o faz de
diversas maneiras: sendo o encaixe perfeito para a nossa
própria natureza ao satisfazer nossos anseios por u m rela-
cionamento interpessoal, ao ser, e m sua onisciência, o fim
de nossa busca por conhecimento, ao ser, e m seu infinito
ser, o refúgio para todos os nossos medos, ao ser, em sua

35
O u n i v e r so ao l ad o

santidade, o alicerce justo de nossa busca por justiça, ao ser,


em seu infinito amor, a causa da esperança da nossa salvação,
ao ser, e m sua infinita criatividade, tanto a fonte de nossa
criativa imaginação quanto a suprema beleza que buscamos
refletir quando criamos algo.
Podemos resumir esse conceito da humanidade criada à
imagem de D e u s , afirmando que, como D e u s , possuímos
personalidade, autotranscendência,
inteligência (a capacidade
da razão e do conhecimento), moralidade (a capacidade de
reconhecer e compreender o bem e o m a l ) , senso gregário o u
capacidade social (nossa característica, anseio fundamental e
necessidade por companheirismo h u m a n o , de comunidade,
em especial representado pelo aspecto "macho" e "fêmea")
e criatividade (a capacidade de imaginar coisas novas ou de
conferir u m novo significado a coisas antigas).
M a i s adiante, consideraremos a raiz da inteligência h u -
m a n a , porém, agora, quero comentar sobre a criatividade
humana - u m a característica, e m geral, desconsiderada
no teísmo popular. A criatividade do h o m e m nasce como
um reflexo da infinita criatividade do próprio Deus.
Sir P h i l i p Sidney ( 1 5 5 4 - 1 5 8 6 ) , certa feita, escreveu sobre
o poeta que "foi elevado c o m o vigor de sua própria i n -
venção que, c o m efeito, cresceu e m u m a outra natureza,
tornando as coisas o u melhores que a própria natureza
criada o u totalmente novas, formas tais jamais encontradas
na natureza, [...] variando livremente dentro do zodíaco
de sua própria sagacidade". H o n r a r a criatividade h u m a n a ,
afirmava Sidney, é honrar a D e u s , pois ele é "o C r i a d o r
celestial daquele c r i a d o r " . 8

• 36 •
Um universo permeado da grandeza de Deus

A atividade artística dentro da cosmovisão teísta tem u m a


sólida base para a sua expressão. N a d a é mais libertador para
os artistas do que compreender que, pelo fato de setem cria-
dos à semelhança de D e u s , eles podem realmente inventar.
A inventividade artística é u m reflexo da ilimitada capacida-
de divina de criar.
N o teísmo cristão, os seres humanos são, de fato, dignifi-
cados. Nas palavras do salmista, eles são " u m pouco menor do
que os seres celestiais", pois o próprio Deu s os criou daquela
forma e os coroou "de glória e de honra" (SI 8.5). A digni-
dade h u m a n a, em certo sentido, não é nossa; contrariando
Protágoras, a humanidade não é a medida. A dignidade do
h o m e m deriva de D e u s , porém, embora derivada, as pesso-
as a possuem, mesmo se como u m d o m . H e l m u t T h i e l i c k e
afirma c o m propriedade: " S u a [da humanidade] grandeza
repousa apenas e tão somente no fato de que D e u s , em sua
incompreensível bondade, concedeu seu amor ao h o m e m .
D e u s não nos ama porque somos valiosos; somos valiosos
porque Deus nos a m a " . 9

Portanto, a dignidade h u m a n a tem dois lados. C o m o seres


humanos, somos dignificados, mas não devemos nos orgu-
lhar disso, pois a nossa dignidade é gerada como u m reflexo
da dignidade suprema. Mas ela ainda / u m reflexo. Assim,
as pessoas que são teístas, veem a si mesmas como u m a es-
pécie de ponto central - acima do restante da criação (por
Deus lhes ter concedido o domínio sobre ela - Gn 1.28-30;
SI 8.6-8) e abaixo de Deus (por não serem pessoas autónomas,
por conta própria).

• 37 •
O u n i v e r so ao l ad o

Esse é, então, o equilíbrio ideal da condição humana.


O s nossos problemas surgiram em função de nossa falha
em permanecer nessa condição de equilíbrio, e a história de
como tudo aconteceu constitui, em grande parte, o teísmo
cristão. Porém, antes de considerarmos o que alterou o estado
de equilíbrio da humanidade, precisamos compreender u m a
implicação adicional de sermos criados à imagem de Deus.

4. Os seres humanos podem conhecer tanto o mundo que os


cerca quanto o próprio Deus, porque ele colocou neles essa
capacidade e porque ele desempenha um papel ativo na
comunicação com eles.

A base do conhecimento humano é o caráter de Deus


como Criador. Somos criados à sua imagem ( G n 1.27). Por
ele ser o onisciente conhecedor de todas as coisas, algumas
vezes, podemos ser hábeis especialistas em algumas coisas.
O evangelho de João expressa esse conceito desta forma:

"No princípio era aquele que é a Palavra. Ele estava com


Deus, e era Deus. Ele estava com Deus no princípio. Todas
as coisas foram feitas por intermédio dele; sem ele, nada do
que existe teria sido feito. Nele estava a vida, e esta era a luz
dos homens" (Jo 1.1-4).

A Palavra (em grego, logos, da qual se origina a pala-


v r a lógica, e m português) é eterna, u m aspecto do próprio
Deus. 10
E m suma, a lógica, a inteligência, a racionalidade
e o significado são todos inerentes em D e u s . Dessa inteli-
gência é que o m u n d o , o universo veio a existir e, pottanto,
e m virtude dessa fonte é que o universo possui estrutura,
ordem e significado.

38
Um universo permeado da grandeza de Deus

Além disso, n a Palavra — essa inteligência inerente — está


a " l u z dos homens", luz essa que no livro de João é u m sím-
bolo tanto de capacidade m o r a l quanto de inteligência. O
versículo 9 acrescenta que a Palavra é "a verdadeira luz, que
i l u m i n a todos os homens". A própria inteligência de D e u s é,
portanto, a base da inteligência h u m a n a . O conhecimento é
possível porque há algo a ser conhecido ( D e u s e sua criação)
e alguém para conhecer (o D e u s onisciente e os seres h u m a -
nos, criados à sua i m a g e m ) . 11

É óbvio que D e u s está tão além de nós que não podemos


ter u m a total compreensão dele. N a verdade, se Deu s assim
desejasse, poderia permanecer para sempre escondido, mas
ele quer que o conheçamos e toma iniciativa nessa transfe-
rência de conhecimento.
E m termos teológicos, essa iniciativa d i v i n a é chamada
de revelação. Deus se revela ou expõe a si mesmo a nós de
duas maneiras básicas: por meio da revelação geral e por
u m a revelação especial. N a primeira forma, D e u s fala atra-
vés da ordem criada do universo. O apóstolo Paulo escreveu:
"Pois o que de Deus se pode conhecer é manifesto entre eles,
porque D e u s lhes manifestou. Pois desde a criação do m u n -
do os atributos invisíveis de Deus , seu eterno poder e sua
natureza divina, têm sido vistos claramente, sendo compre-
endidos por meio das coisas criadas" ( R m L I 9 , 2 0 ) . Séculos
antes, o salmista escreveu:

"Os céus declaram a glória de Deus; o firmamento pro-


clama a obra das suas mãos. U m dia fala disso a outro dia;
uma noite o revela a outra noite" (SI 19.1,2).
O u n i v e r so ao l ad o

E m outras palavras, a existência de D e u s , bem como sua


natureza como C r i a d o r e poderoso mantenedor do universo,
são reveladas por meio "das obras de Suas mãos", qual seja, o
universo. A o contemplarmos a sua magnitude - sua ordem
e beleza - m u i t o podemos aprender sobre D e u s . Q u a n d o
mudamos a nossa visão do imenso universo para focar a
humanidade, vemos algo mais, pois os seres humanos acres-
centam a dimensão de personalidade. D e u s , portanto, deve
ser, pelo menos, tão pessoal quanto nós.
A s s i m , por mais que a revelação geral nos forneça da-
dos sobre D e u s , ainda é pouco. C o m o a f i r m o u Tomás de
A q u i n o , nós podemos saber que D e u s existe por meio da
revelação geral, mas jamais saberíamos que ele é trino exceto
por u m a revelação especial.
A revelação especial é Deus se manifestando de formas
sobrenaturais. E l e não só se revelou ao aparecer de formas
espetaculares como a sarça ardente que não era consumida,
como também falou às pessoas em suas próprias línguas.
A Moisés ele se definiu como " E u sou o que Sou", identifican-
do-se como o mesmo Deus que havia agido anteriormente
em favor do povo hebreu. C h a m o u a si mesmo de o Deus de
Abraão, Isaque e Jacó (Êx 3.1-17). D e fato, Deus manteve
u m diálogo com Moisés no qual u m a genuína conversação de
mão dupla se estabeleceu. Esse foi u m dos episódios em que a
revelação especial ocorreu.
M a i s tarde, D e u s d e u a Moisés as tábuas contendo os D e z
M a n d a m e n t o s e revelou u m extenso código de leis às quais
os hebreus deveriam se submeter. M a i s adiante ainda, D e u s
se revelou aos profetas e m inúmeras situações diferentes.

• 40 •
Um universo permeado da grandeza de Deus

S u a palavra chegou a eles que, por seu t u r n o , as registraram


para a posteridade. O escritor neotestamentário da carta
aos H e b r e u s assim r e s u m i u : " H á m u i t o tempo D e u s falou
muitas vezes e de várias maneiras aos nossos antepassados
por meio dos profetas" ( H b 1.1). E m todo caso, as revelações
feitas a Moisés, D a v i e os diversos profetas f o r a m , pela o r d e m
de D e u s , escritas e mantidas para ser lidas e relidas ao povo
( D t 6 . 4 - 8 , S I 1 1 9 ) . O s crescentes textos se t r a n s f o r m a r a m
no A n t i g o Testamento, que foi c o n f i r m a d o pelo próprio
Jesus c o m o u m a revelação precisa e autorizada de D e u s . 1 2

O escritor da carta aos Hebreus não terminou c o m o re-


sumo sobre a revelação divina no passado, mas prosseguiu,
afirmando: " M a s nestes últimos dias falou-nos por meio do
F i l h o , a quem constituiu herdeiro de todas as coisas e por
meio de quem fez o universo. O F i l h o é o resplendor da
glória de Deu s e a expressão exata do seu ser" ( H b 1.2,3).
Jesus C r i s to é a revelação especial suprema de Deus porque
é verdadeiramente Deus e nos mostrou como D e u s é mais
plenamente que qualquer outra forma de revelação poderia
revelar. Pelo fato de Jesus também ser totalmente h u m a n o ,
falou-nos mais claramente do que qualquer outro tipo de
revelação falaria.
U m a vez mais, a abertura do evangelho de João é de ex-
trema relevância: "Aquele que é a Palavra tornou-se carne e
viveu entre nós [...] cheio de graça e de verdade" (Jo 1.14).
Isto é, a Palavra é Jesus C r i s t o . " V i m o s a sua glória, gló-
ria como do Unigénito v i n d o do P a i " . Jesus tornou Deus
conhecido entre nós em termos realmente carnais.
O ponto mais importante para nós é que o teísmo declara
que Deu s pode e tem claramente se comunicado conosco.

41
O u n i v e r so ao l ad o

Por causa disso, podemos conhecer m u i to sobre quem D e u s


é e o que deseja para nós. Isso é verdadeiro para pessoas de
todas as épocas e lugares, porém, era especialmente verda-
deiro antes da queda, para a qual voltamos nossa atenção
agora.

5. Os seres humanos foram criados bons, porém, devido à


queda a imagem de Deus tornou-se desfigurada, embora
não tão destruída de modo a não ser mais passível de
restauração; através da obra de Cristo, Deus redimiu a
humanidade e começou o processo de restauraras pessoas
à bondade, muito embora qualquer pessoa possa escolher
rejeitar essa redenção.

A "história" h u m a n a pode ser sumarizada em quatro


palavras - criação, queda, redenção e glorificação. Nós já
abordamos as características humanas essenciais. A elas de-
vemos acrescentar que os seres humanos e todo o restante
da criação foram originalmente criados bons. C o m o o l i -
vro de Génesis registra: " E D e u s v i u tudo o que havia feito,
e tudo havia ficado m u i t o b o m " ( 1 . 3 1 ) . Porque D e u s , por
seu caráter, estabeleceu os padrões de justiça, a bondade
h u m a n a consistia e m ser o que D e u s desejava que as pesso-
as fossem - seres criados à sua imagem e agindo conforme
aquela natureza em sua vida diária. A tragédia é que nós não
permanecemos como fomos criados.
C o m o vimos, os seres humanos foram criados c o m a
capacidade da autodeterminação. D e u s deu ao h o m e m
a liberdade de permanecer ou não e m u m relacionamen-
to íntimo da imagem c o m o original. C o m o o capítulo 3

42
Um universo permeado da grandeza de Deus

de Génesis registra, o casal original, Adão e E v a , escolheu


desobedecer a ordem de seu C r i a d o r no único ponto em que
ele lhes impôs restrições. Esta é a essência da histótia sobre a
queda. Adão e E v a escolheram comer do fruto que Deus lhes
havia proibido comer e, assim, violaram o relacionamento
pessoal que eles t i n h a m c o m o Criador.
Dessa forma, pessoas de todas as eras têm buscado e m vão
estabelecer a si mesmos como seres autónomos, árbitros de
suas próprias vidas. Elas têm escolhido agir como se tivessem
u m a vida independente de D e u s . Porém, isso é exatamente
o que elas não têm, pois devem tudo - tanto sua origem
quanto a continuidade de sua existência — a D e u s .
O resultado desse ato de rebelião foi a morte para Adão e
Eva, o que gerou para as gerações subsequentes longos séculos
de desordem pessoal, social e natural. R e s u m i n d o , podemos
dizer que a imagem de D e u s na humanidade tornou-se des-
figurada e m muitos aspectos. N o tocante à personalidade,
perdemos a nossa capacidade de nos autoconhecermos c o m
precisão e de estabelecer livremente o nosso próprio curso de
ação em resposta à nossa inteligência.
Nossa autotranscendência foi prejudicada pela alienação
ae Deus, pois quando Adão e E v a deram as costas para Deus,
éle os deixou ir. E , como nós, humanidade, esquivamo-nos de
um relacionamento íntimo c o m aquele cuja transcendência
c suprema, igualmente perdemos a nossa capacidade de nos
posicionarmos diante do universo exterior, compreendê-lo,
julgá-lo com precisão e, assim, tomar decisões verdadeira-
mente "livres". Pelo contrário, a humanidade tornou-se mais
um servo da natureza do que de D e u s. E nossa condição de

• 43
O u n i v e r so ao l ad o

vice-regentes de D e u s sobre a natureza ( u m aspecto da i m a -


gem de Deus) foi revertida.
D e igual sorte, a inteligência h u m a n a foi debilitada.
Agora não podemos mais obter u m conhecimento pleno e
preciso do m u n d o que nos rodeia, tampouco somos capazes
de raciocinar sem constantemente cair no erro. Moralmente,
tornamo-nos menos capazes de discernir c o m clareza entte
o bem e o m a l . Socialmente, começamos a explorar as outras
pessoas. Criativamente, nossa imaginação passou a ser alie-
nada da realidade, tornou-se ilusão, e os artistas que criaram
deuses à sua própria imagem conduziram a humanidade cada
vez para mais distante da sua origem. O vazio existencial em
cada alma h u m a n a, resultante dessa série de consequências
é, de fato, nefasto. ( A mais completa expressão dessas ideias
pode ser encontrada nos dois primeiros capítulos do livro de
Romanos).

O s teólogos têm resumido desta forma: nós nos tornamos


alienados de D e u s , dos outros, da natureza e de nós mesmos.
Essa é a essência da humanidade decaída. 10

A humanidade, porém, é passível de remissão e, na verdade,


tem sido redimida. A história da criação e da queda é relatada
em apenas três capítulos de Génesis, sendo que a história da
redenção ocupa todo o restante das Escrituras. A Bíblia regis-
tra o amor de Deus nos buscando, encontrando-nos em nossa
perdida e alienada condição e nos redimindo por intermédio
do sacrifício de seu próprio Filho, Jesus Cristo, a segunda
pessoa da Trindade. Deus, em u m ato de imerecido favor e
grande graça, assegura-nos a possibilidade de u m a nova vida,

• 44 •
Um universo permeado da grandeza de Deus

que envolve cura substancial de nossas alienações e restauração


de nossa comunhão com Deus.
O fato de D e u s haver criado u m a saída para nós não
significa em absoluto significa que não precisamos desem-
penhar papel algum. Adão e E v a não foram forçados a
desobedecer, assim, também não somos obrigados a retor-
nar. E m b o r a o propósito dessa descrição de teísmo não seja
o de tomar partido em u m a famosa contenda familiar den-
tro do teísmo cristão (predestinação versus livre arbítrio), é
necessário observar que os cristãos discordam em relação ao
papel desempenhado por Deus e o papel que ele deixa para
nós desempenharmos. A i n d a assim, a maioria concorda que
Deus, na salvação do h o m e m , é o agente primário. Nosso
papel é responder por meio do arrependimento de nossas
atitudes e ações erradas, da aceitação quanto às provisões
divinas e de seguir a C r i s t o como nosso Senhor e Salvador.

Humanidade redimida é a humanidade no processo de


restauração da imagem desfigurada de D e u s . E m outras pa-
lavras, é u m a substancial cura em todas as áreas de nosso
ser - personalidade, autotranscendência, inteligência, mora-
lidade, capacidade social e criatividade. E m contrapartida, a
humanidade glorificada é a humanidade plenamente restau-
rada e em paz c o m D e u s e indivíduos e m paz c o m os seus
semelhantes e consigo mesmo. Porém, isso apenas ocorre no
outro lado da morte e n a ressurreição corpórea, cuja impor-
tância é enfatizada por Paulo em I C o 15. Individualmente
falando, as pessoas são tão importantes que elas retêm singu-
laridade — u m a existência individual e pessoal - para todo o

45
O u n i v e r so ao l ad o

sempre. A humanidade glorificada é a humanidade transfor-


mada e m u m a personalidade purificada e m comunhão com
D e u s e seu povo. E m suma, no teísmo, os seres humanos
são vistos como significativos porque são, em essência, seme-
lhantes a Deu s e, embora decaídos, podem ser restaurados à
sua dignidade original.

6. Para cada ser humano a morte representa tanto o portão


para a vida com Deus e seu povo quanto o portão para a
separação eterna da única coisa que pode satisfazer as
aspirações humanas definitivamente.

O significado da morte é, n a verdade, parte da proposi-


ção anterior, porém, é destacado aqui porque atitudes no
tocante à morte são extremamente importantes e m cada
cosmovisão. O que acontece quando u m a pessoa morre?
V a m o s expressar isso pessoalmente, pois esse aspecto n a
cosmovisão de cada u m é, de fato, predominantemente
pessoal. Desaparecemos - extinção pessoal? N ó s hiberna -
mos e retornamos e m u m a f o r m a diferente - reencarnação?
E u c o n t i n u o em u m a existência transformada no céu o u no
inferno?
Claramente, o teísmo cristão ensina a última dessas ques-
tões. N a morte, as pessoas são transformadas. O u elas entram
em u m a existência com Deus e seu povo - u m a existência
glorificada - ou entram em u m a existência de sepatação
eterna de D e u s , mantendo a sua singularidade em terrível
solidão e isolados exatamente do que as preencheria.
Essa é a essência do inferno. G . K . Chesterton, certa
vez, observou que o inferno é u m monumento à libetdade

46
Um universo permeado da grandeza de Deus

humana — e, podemos acrescentar, à dignidade humana. O


inferno é u m tributo de Deus para a liberdade que ele nos
concedeu de escolhermos a quem servir; é u m reconhecimen-
to de que as nossas decisões trazem em si u m significado que
se estende muito além, atingindo a eternidade. 14

Entretanto, os que respondem à oferta de salvação d i -


vina, habitam as planícies da eternidade como criatutas
gloriosas de D e u s , completas, satisfeitas, mas não saciadas
e participantes da alegria eterna da comunhão dos santos.
As Escrituras nos fornecem poucos detalhes sobre essa exis-
tência, mas os vislumbres do céu presentes, por exemplo, no
livro de Apocalipse, capítulos 4, 5 e 2 1 , c r i a m u m anseio
que os cristãos esperam que seja satisfeito além de suas mais
arraigadas expectativas.

7. A ética é transcendente e alicerçada no caráter de Deus


como bom (santo e amoroso).

Essa proposição já tem sido considerada como u m a impli -


cação da proposição 1 . Deus é a fonte do m u n d o moral, bem
como do mundo físico. Deus é o bem e expressa essa verdade
nas leis e princípios morais que revela nas Escrituras.
Criados à imagem de D e u s , somos, em essência, seres m o -
rais e, portanto, não podemos nos recusar a usar categorias
morais para sustentar as nossas açÕes. Evidentemente, nossa
noção de moralidade tem sido corrompida como resultado
da queda e agora emitimos apenas pálidos reflexos do ver-
dadeiro bem. Não obstante, mesmo em nossa relatividade
moral, não podemos fugir da noção de que algumas coisas
são "corretas" o u naturais" e outras não.

• 47 •
O u n i v e r so ao l ad o

Por anos, a homossexualidade foi considerada imoral para


a maioria da sociedade. H o j e em dia, u m número cada vez
maior de pessoas desafia essa posição. Porém, elas assim agem
não c o m base n a inexistência de qualquer categoria moral,
mas que essa área específica da homossexualidade deveria
realmente estar no outro lado da linha que divide o moral do
imoral. E m geral, os homossexuais não perdoam o incesto!
A s s i m , o fato de as pessoas diferirem em seus julgamentos
morais em nada altera a verdade de que continuamos a fazer
julgamentos morais, a viver por meio deles e a violá-los. O
universo e m que todos nós vivemos é moral, e todos — se
refletirem nisso - não terão outra alternativa senão reconhe-
cer essa verdade.

O teísmo, no entanto, ensina que não somente há u m


universo moral, como também há u m padrão absoluto pelo
qual todos os julgamentos morais são feitos. O próprio Deu s
- seu caráter de bondade (santidade e amor) - é esse padrão.
Além disso, os cristãos e judeus defendem que D e u s tem
revelado o seu padrão em várias leis e princípios expressos no
texto bíblico. O s D e z Mandamentos, o sermão do monte, o
ensino ético do apóstolo Paulo - por meio dessas e muitas
outtas maneiras, D e u s tem revelado o seu caráter. Há, por-
tanto, u m padrão de certo e etrado, e todos os que desejam
conhecê-lo o conseguem.
A mais completa personificação do bem, entretanto, é
Jesus Cristo. E l e é a humanidade, o h o m e m completo, como
D e u s planejou que fosse. Paulo chama a Jesus de o segundo
Adão ( I C o 15.45-49). E , em Jesus vemos a genuína vida

48
Um universo permeado da grandeza de Deus

encarnada, que foi supremamente revelada em sua mor-


te - u m ato de infinito amor, pois, como escreveu Paulo:
" D i f i c i l m e n t e haverá alguém que morr a por u m justo. [...]
Mas D e u s demonstra seu amor por nós: C r i s t o morreu e m
nosso favor quando ainda éramos pecadores" ( R m 5.7,8).
E o apóstolo João ecoou: " N i s t o consiste o amor; não e m
que nós tenhamos amado a D e u s , mas em que ele nos a m o u
e enviou seu Filho como propiciação pelos nossos pecados"
(IJo 4.10).
Desse modo, a ética, embora u m domínio e m grande
parte humano é, no fim das contas, u m assunto de D e u s.
Não somos a medida de moralidade; Deu s é.

8. A história é linear, uma sequência de eventos significativos,


que levam ao cumprimento dos propósitos de Deus para a
humanidade.

A f i r m a r que "a história é linear" significa que as ações das


pessoas - por mais confusas e caóticas que pareçam - são
parte de u m a sequência importante que possui u m começo,
meio e fim. A história não é reversível, reproduzível, cíclica,
tampouco ela é sem significado. Pelo contrário, a história é
teleológica, dotada de direção, rumando para u m fim co-
nhecido. O Deus que conhece o fim desde o começo está
consciente e no controle das ações da humanidade.
Inúmeros momentos de transformação no curso da his-
tória recebem u m a especial atenção por parte dos escritores
bíblicos, e eles formam o pano de fundo para a compreensão
teísta dos seres humanos no tempo. Esses momentos históri-
cos críticos incluem a criação, a queda no pecado, a revelação

• 49 •
O u n i v e r so ao l ad o

de Deus aos hebreus (o que abrange o chamado de Abrão,


da terra de U r para Canaã, o êxodo do Egito, a concessão
da lei, o testemunho dos profetas), a encarnação, a vida de
Jesus, a crucificação e ressurreição, o evento de Pentecostes,
a propagação das boas novas, a segunda vinda de Cristo e o
julgamento final. Essa é u m a lista mais detalhada dos eventos
paralelos ao padrão da vida humana: criação, queda, redenção
e glorificação.
V i s t a sob essa ótica, a história em si mesma é u m a forma
de revelação, o u seja, não apenas Deus revelou a si mesmo na
história {aqui, lá e depois), mas a própria sequência de even-
tos é revelação. Pode-se dizer, portanto, que a história (em
especial quando concentrada no povo judeu) é o registro do
envolvimento e preocupação de Deus nos eventos humanos.
A história é o propósito divino de Deus na forma concreta.
O padrão, é claro, depende da tradição cristã. A princípio,
ela não parece levar em conta outtas pessoas, além de judeus
e cristãos. N ã o obstante, o Antigo Testamento tem m u i t o a
dizer sobre as nações ao redor de Israel e sobre os consagra-
dos a Deus (não judeus que adotaram as crenças judaicas,
sendo considerados como parte da promessa de D e u s ) . T a l
dimensão internacional dos propósitos de D e u s e de seu rei-
no é ainda mais enfatizada pelo N o v o Testamento.
A revelação do plano de Deus ocorreu, primeiramente,
por meio de u m povo, os judeus. E , embora possamos repe-
tir as palavras de W i l l i a m E w e r : " Q u ã o estranho / D a parte
de Deus / Escolher / O s judeus", não precisamos pensar que
essa escolha indique u m favoritismo da parte de D e u s . Pedro,

• 50 •
Um universo permeado da grandeza de Deus

certa feita, afirmou : "Agora percebo verdadeiramente que


Deus não trata as pessoas c o m parcialidade, mas de todas
as nações aceita todo aquele que o teme e faz o que é justo"
(At 1 0 . 3 4 , 3 5 ) .
O teísmo olha à frente, portanto, para a história sendo
encerrada pelo julgamento e por u m a nova era a ser inaugu-
rada além do tempo. Porém, antes dessa nova era, o tempo é
irreversível e a história é localizada no espaço. Essa concepção
necessita ser enfatizada, u m a vez que difere dramaticamen-
te da típica noção oriental. Para grande parte do Oriente,
o tempo é u m a ilusão; a história é eternamente cíclica. A
reencarnação traz a alma de volta ao tempo repetidas vezes;
o progresso n a jornada da alma é u m processo longo, árduo
e, talvez, eterno. N o entanto, no teísmo cristão, "o h o m e m
está destinado a morrer u m a só vez e depois disso enfrentar o
juízo" ( H b 9 . 2 7 ) . A s escolhas individuais fazem sentido para
a pessoa que as faz, para os outros e para D e u s . A história é o
resultado de tais escolhas que, debaixo da soberania divina,
leva aos propósitos de D e u s para este m u n d o .

E m resumo, o aspecto mais importante do conceito teísta


sobre a história é que ela tem significado porque Deus - o L o -
gos, o próprio significado - está por trás de todos os eventos,
não apenas "sustentando todas as coisas por sua palavra pode-
rosa" ( H b 1.3), mas, igualmente, agindo, "em todas as coisas
para o bem daqueles que o amam, dos que foram chamados
de acordo com o seu propósito" ( R m 8.28). Por detrás do
aparente caos de eventos está o Deus amoroso que é suficiente
para tudo.

• 51 •
O u n i v e r so ao l ad o

A g r an d eza de Deus

Por ora, já deveria ser óbvio que o teísmo cristão é, p r i m a -


riamente, dependente de seu conceito sobre D e u s, pois o
teísmo sustenta que todas as coisas provêm dele. N a d a é a n -
terior a Deus o u igual a ele. E l e é aquele que é. Portanto,
o teísmo possui u m a base para a metafísica. U m a vez que
aquele que é possui u m caráter digno, sendo, assim aquele
que é digno, o teísmo possui u m a base para a ética. U m a
vez que aquele que é também é aquele que conhece, o teísmo
possui u m a base para a epistemologia. E m outras palavras, o
teísmo é u m a cosmovisão completa.
A s s i m a grandeza de D e u s é o princípio central do
teísmo cristão. Q u a n d o u m a pessoa reconhece isso e, cons-
cientemente, aceita e age e m conformidade c o m isso, tal
conceito central passa a ser a rocha, o ponto de referência
transcendente, que dá significado à v i d a , tornando as ale-
grias e tristezas da existência cotidiana no planeta T e r r a e m
momentos significativos no desenrolar do d r a m a no qual
se espera participar para sempre não apenas c o m decepções
e tristezas, mas, algum d i a , somente c o m júbilo. M e s m o
agora, no entanto, o m u n d o está, c o m o escreveu G e r a r d
M a n l e y H o p k i n s , "permeado c o m a grandeza de D e u s " . 1 5

O fato de haver "vislumbres de D e u s e m muitas formas


do d i a a d i a " sinaliza que D e u s não está apenas nos céus,
mas conosco, sustentando-nos, amando-nos e cuidando
de n ó s . 16
N o entanto, teístas cristãos extremamente c o m -
petentes não apenas crêem, mas p r o c l a m a m essa verdade
c o m o verdadeira. O p r i m e i r o ato deles é direcionado a

• 52 •
Um universo permeado da grandeza de Deus

D e u s - u m a resposta de amor, obediência e louvor ao Se-


nhor do universo, o C r i a d o r , Sustentador e, por meio de
Jesus C r i s t o , o Redentor e amigo.

53
Capít ulo t rês

A PRECISÃO DO UNIVERSO

Deísmo

D eu s nas altu ras ou o h o m e m abaixo n a terra,


O qu e p od em os co n clu ir além d aq u ilo qu e sabem os?
O qu e vem os d o h o m em além d a su a existên cia terren a
D a q u a l p erscru ta o u se qu estion a?
Através d a vastid ão d e m u n d o s, em bor a D eu s seja con h ecid o,
Está em n ós a in icia t iv a p or d escobrí-lo.

Alexan d er Pope, Essay on Man [Ensaio sobre o homem]

S E O TEÍSMO SO BREVIVEU PO R TANTO TEM P O , O q u e p o d e r ia

ter a co n t e cid o d e m o d o a d eb ilit á -lo ? Se ele r esp o n d ia


sa t isfa t o r ia m en t e a tod as as n ossas q u est ões bá sica s, p r o -
v id e n cia v a u m r efú g io p a r a os n ossos tem or es e esp er a n ça
q u a n t o ao n osso fu t u r o , p o r q u e s u r g ir a m o u t r a s a lt e r n a t i-
vas? Resp osta s a essas p er g u n t a s p o d e m ser d a d as e m vários
O u n iv e r s o ao la d o

n ív eis. A v er d a d e é q u e m u it a s for ça s co n s p ir a r a m p a r a r a -
ch a r a u n id a d e in t e le ct u a l d o O ci d e n t e .
O d e ís m o d esen v o lv eu -se, a lg u n s d i z e m , co m o u m a
t e n t a t iv a d e r est a u r a r a u n id a d e d e u m caos d e d iscu ssã o
t eo ló g ica e filosófica q u e, n o sécu lo X V I I , v iu -s e a t o la d o e m
d ebates in t er m in á v eis sobr e o q u e co m e ço u a se d elin ea r ,
m e s m o p a r a os co n t e n d o r e s, co m o q u est õ es t r iv ia is . Ta lv e z
Jo h n M i l t o n tiv esse tais q u est ões e m m e n t e q u a n d o v i s u a -
liz o u os a n jos ca íd os d is p u t a n d o u m jo g o é p ico d e t eo lo g ia
filosófica:

Algu n s se isolaram em d escanso n u m a colin a


E m p ensam entos e razão su blim es
D e Provid ência, Presciência, Von tad e e D est in o ,
Pred estin ação, Livre-arbítrio, Presciência absolu ta,
E n en h u m fim en con traram , em confu sões errantes se p er-
d eram . 1

A p ó s d écad as d e ext en u a n t es d iscu ssões, eclesiá sticos


lu t e r a n o s , p u r it a n o s e a n g lica n o s p o d e r ia m m u i t o b e m ter
o lh a d o n o v a m e n t e p a r a os p o n t o s d e co n co r d â n cia . D e cer -
t a fo r m a , o d e ís m o é a r esp osta p a r a isso, ap esar d e o r u m o
q u e t a l co n co r d â n cia t o m o u t e n h a lev a d o o d e ís m o a lém d os
lim it e s d o cr is t ia n is m o t r a d icio n a l.
O u t r o fa t o r n o d e s e n v o lv im e n t o d o d e ís m o fo i u m a m u -
d a n ça n a loca liz a çã o d a a u t o r id a d e p elo co n h e cim e n t o sob r e
o d i v i n o , q u e p a sso u d a r ev elação esp ecia l e n co n t r a d a n a
Es cr i t u r a p a r a a p r esen ça d a razão, "a lu z d e D e u s ", n a m e n t e
h u m a n a o u p a r a a in t u içã o , "a lu z in t e r io r ". P o r q u e o co r r e u
ta l m u d a n ça d e a u t o r id a d e?

• 56 •
A precisão do univ erso

U m a d as razões é esp ecia lm en t e ir ó n ica , p o is está r e la cio -


n a d a a u m a im p lica çã o d o t eísm o q u e, q u a n d o d esco b er t a ,
foi e xt r e m a m e n t e b e m -s u ce d id a e m seu d e s e n v o lv im e n t o .
I )u r a n t e a Id a d e M é d ia , e m p a r t e graças à t e o r ia p la t ó n ica
d e co n h e cim e n t o q u e esta v a e m v o g a , a a t e n çã o d os e r u d it o s
íeis tas e in t elect u a is fo i d ir e cio n a d a a D e u s . A id e ia er a d e
q u e os co n h eced o r es e m a l g u m sen t id o tornavam-se o q u e
eles co n h e ci a m . E , d esd e q u e o in d iv íd u o d e v e r ia se t o r n a r ,
d e a l g u m m o d o , b o m e sa n t o , ele d e v e r ia est u d a r a D e u s .
A t eo lo g ia fo i, p o r t a n t o , co n s id e r a d a a r a i n h a d as ciências
(o q u e n a q u e la é p o ca s ig n ifica v a s im p le s m e n t e co n h e ci m e n -
t o ), p o is a teolog ia er a a ciê n cia d e D e u s .
Se as p essoas e s t u d a v a m a n im a is o u p la n t a s o u m in e r a is
(z o o lo g ia , b io lo g ia , q u ím ica e física ), e n t ã o est a v a m r e b a i-
xa n d o a si m e s m a s . Es s a v isão h ier á r q u ica d a r ea lid a d e é, n a
v er d a d e, m a is p la t ó n ica q u e teísta o u cr istã , p o r q u e em p r es-
ta d e P la t ã o a n o çã o d e q u e a m a t ér ia é, d e a l g u m m o d o , se
n ã o m a l i g n a , p elo m e n o s ir r a cio n a l e cer t a m en t e n ã o b o a .
A m a t é r ia é algo p a r a ser t r a n s ce n d id a , n ã o co m p r e e n d id a .
Q u a n d o , t o d a v ia , m en t es m a is b ib lica m e n t e o r ien t a d a s
co m e ça r a m a r eco n h ecer q u e se t r a t a d o m u n d o d e D e u s
e q u e, e m b o r a seja u m m u n d o d eca íd o , ele fo i cr ia d o p o r
D e u s e p o s s u i v a lor . Lo g o , v a le a p e n a o b t er co m p r e e n s ã o e
co n h e cim e n t o sobr e ele. A lé m d isso , D e u s é u m D e u s r a cio -
n a l, e seu u n iv e r s o é, co n s e q u e n t e m e n t e, r a cio n a l, o r d en a d o
e co n h e cív e l. A t u a n d o sob te essa base, os cien t ist a s p assa-
r a m a in v e s t ig a i a forma d o u n iv e r s o . U m q u a d r o d o m u n d o
d e D e u s co m e ço u a s u r g ir ; ele p a ssou a ser v is t o co m o u m
im en so e b e m -o r d e n a d o m e ca n i s m o , u m r elóg io g ig a n tesco,

• 57 •
O u n i v e r s o ao la d o

cu ja s en g r en a g en s e a la v a n ca s r e la cio n a v a m -s e c o m p e r fe i-
t a p r ecisã o m e câ n ica . T a l r et r a t o p a r eceu t a n t o su r g ir d a
in v estig a çã o cien t ífica q u a n t o lev a r a m a is q u e s t io n a m e n t o s
e e s t im u la r n ov a s d escober ta s sobr e a fo r m a çã o d o u n iv e r s o .
E m o u t r a s p a la v r a s, a ciê n cia co m o a co n h e ce m o s h o je , n a s-
cia d essa fo r m a e er a in cr iv e lm e n t e b e m -s u ce d id a .
N a s p a la v r a s d e Ba c o n , o co n h e cim e n t o t o r n o u -s e p od er ,
p o d er p a r a m a n i p u l a r e tr a z er a cr ia çã o m a is p le n a m e n t e
sob o d o m ín io d o h o m e m . Es s a v isão é ecoa d a n a l i n g u a -
g e m m o d e r n a d e J . Br o n o w s k i : " E u d e fin o ciê n cia co m o a
o r g a n iz a çã o d e n osso co n h e cim e n t o , d e m o d o a a u m e n t a r o
seu d o m ín io sobr e o p o t e n cia l la t en t e n a n a t u r e z a ". Se t a l
2

fo r m a d e o b t e n çã o d e co n h e cim e n t o sobr e o u n iv e r s o er a
tã o b e m s u ce d id a , p o r q u e n ã o a p lica r o m e s m o m é t o d o
p a r a o b t er co n h e cim e n t o sobr e D e u s ?
N o t eísm o cr ist ã o , ce r t a m e n t e , t a l m é t o d o já d esem p e-
n h a v a o seu p a p e l, p o is D e u s a fi r m o u r ev ela r a si m e s m o p o r
m e io d a n a t u r e z a . N o e n t a n t o , a p r o fu n d id a d e d e co n t e ú d o
q u e er a t r a n s m it id a p o r essa r ev ela çã o g er a l er a co n s id e r a -
d a l i m i t a d a ; m u i t o m a is fo i d a d o a co n h e ce r sobr e D e u s n a
r ev elação esp ecia l. N ã o o b st a n t e, o d e ís m o n ega q u e D e u s
p od e ser co n h e cid o p e la r ev ela çã o, p o r atos esp eciais d a a u -
t o exp r essã o , p o r e xe m p lo , n a E s c r i t u r a o u n a e n ca r n a çã o .
H a v e n d o exclu íd o A r ist ó t eles co m o u m a a u t o r id a d e e m as-
su n t o s t ela t iv os à ciê n cia , o d eísm o a g ota e xclu i a Es cr i t u r a
co m o a u t o r id a d e e m t eo lo g ia , p e t m i t i n d o ap en as a a p li-
ca çã o d a tazão "h u m a n a ". C o m o Petet M e d a w a r a fi r m o u :
"A d o u t r i n a d o sécu lo X V I I q u a n t o à necessidade d a razão
esta v a , p o u co a p o u co , d a n d o lu g a r à cr e n ça d a suficiência

58
A precisão do univ erso

d a r a z ã o ". D e s s a fo r m a , o d e ís m o p assa a v e r D e u s ap en as
3

n a "n a t u r e z a ", t e r m o p elo q u a l se e n t e n d ia co m o o sist em a


d o u n iv e r s o . E , u m a v e z q u e o sist em a d o u n iv e r s o er a v is t o
co m o o m e ca n is m o d e u m im e n s o r eló g io, D e u s p assa a ser
v isto co m o o r elo jo eir o .
D e ce r t a m a n e ir a , p o d e m o s a fir m a r q u e r e s t r in g ir o co -
n h e cim e n t o sobr e D e u s ap en as à rev elação g er a l é co m o
d esco b r ir q u e co m e r ov os n o ca fé d a m a n h ã faz b e m e, p o r
isso, co m e r ap en as ov os n o d e s je ju m (e ta lv ez n o a lm o ço e
n o ja n t a r t a m b é m ) p elo r esto d a v i d a (q u e a g or a , i m p e r -
ce p t iv e lm e n t e , t o r n o u -s e d ev er as r e d u z id a ). P a r a ter cer t ez a ,
o t eísm o a ssu m e q u e p o d e m o s co n h ecer algo sobr e D e u s a
p a r t ir d a n a t u r e z a . P o r é m , ao m e s m o t e m p o , isso t a m b é m
su sten ta q u e h á muito mais a se conhecer d o q u e p od e ser
co n h e cid o d a q u ela m a n e i r a e q u e h á outras maneiras d e obter
conhecimento.

Deísm o b ási co

C o m o Fr e d r i ck C o p l e s t o n e xp lica , h is t o r ica m e n t e o d eísm o


n ã o é r ea lm en t e u m a "escola " d e p e n s a m e n t o . N o fin a l d o
sécu lo X V I I e n o X V I I I , m a is d o q u e u n s p o u co s p en sa d or es
v ie r a m a ser ch a m a d o s d e d eístas o u a s s im se a u t o d e n o -
m i n a r a m . Esses h o m e n s d e fe n d e r a m u m a série d e n o çõ e s
in t e r -r e la cio n a d a s , p o r é m , n e m tod os a p o ia t a m tod as as
d o u t t in a s e m c o m u m . Jo h n L o c k e , p o r e xe m p lo , n ã o r e-
je it o u a id e ia d a r ev ela çã o, p o r é m , in s is t iu e m q u e a razão
h u m a n a d ev er ia ser u sa d a p a r a ju lg á -la . C e r t o s d eísta s, co m o
4

Vo lt a ir e , e r a m h o st is ao cr is t ia n is m o ; a lg u n s, co m o Lo ck e ,

• 59 •
O u n i v e r s o ao la d o

n ã o . U n s a cr e d it a v a m n a im o r t a lid a d e d a a l m a ; o u t r o s , n ã o .
A i n d a a lg u n s c r i a m q u e D e u s a b a n d o n o u a s u a cr ia çã o p a r a
fu n cio n a r p o r co n t a p r ó p r ia ; o u t r o s , p o r é m , a cr e d it a v a m n a
p r o v id ên cia . P o r fim , h a v ia os q u e a cr e d it a v a m e m u m D e u s
p essoa l; o u t r o s , n ã o . P o r t a n t o , os d eístas e r a m m u i t o m e n o s
u n id o s e m r ela çã o a q u est õ es básicas d o q u e os t eíst a s. 5

T a m b é m é ú til p en sa r n o t e ís m o co m o u m sist em a e
exp r essá -lo e m u m a f o r m a r e la t iv a m e n t e e xt r e m a , p o is d essa
m a n e ir a s , ser em os cap azes d e co m p r e e n d e r as im p lica çõ es
sob r e as várias "r ed u çõ es" d e t eísm o q u e co m e ça v a m a se d e-
lin e a r n o sécu lo X V I I I . C o m o v e r e m o s , o n a t u r a lis m o lev a
as im p lica çõ es a i n d a m a is a d ia n t e .

Deus t ranscendent e, como primeira causa, criou


o univ erso, mas, ent ão, o deixou funcionar por cont a
própria. Deus é, port ant o, não imanent e, não t ot alment e
pessoal, não soberano sobre os assunt os humanos e não
prov idencial.

C o m o n o t e ís m o , a m a is im p o r t a n t e p r o p o siçã o refere-se
à exist ên cia e ao ca r á ter d e D e u s .
E m essên cia , o d e ís m o r ed u z o n ú m e r o d e ca r a cter ística s
q u e D e u s r e v e lo u . E l e é u m a fo r ça o u en er g ia t r a n s ce n d e n -
te, u m p r i m e i r o a cio n a d o r o u p r i m e i r a ca u sa , u m p r in cíp io
p a r a o q u e, d e o u t r a sor te, ser ia o regresso i n fi n i t o d e cau sas
p assad as. P o r é m , ele n ã o é r ea lm en t e u m ele, e m b o r a o p r o -
n o m e p essoal p e r m a n e ça n a lin g u a g e m u t iliz a d a sobre ele.
C e r t a m e n t e , ele n ã o se i m p o r t a c o m a s u a cr ia çã o ; ele n ã o
a a m a , t a m p o u co p o s s u i u m a r elação "p esso a l" c o m o q u e
cr i o u .

• 60 •
A precisão do univ erso

Um t ip o m od ern o de d eísta , Bu c k m i n s t e r Fu lle r ,


exp r esso u a su a fé d essa fo r m a : " E u t e n h o fé n a in t eg r id a d e
d a sa b ed o r ia in t e le ct u a l p r e v e n t iv a , q u e p o d e m o s ch a m a r
' D e u s ' ". M a s o D e u s d e Fu l l e r n ã o é u m ser p essoal a ser
6

a d o r a d o , e s i m ap en as u m in t elect o o u fo r ça a ser r e co n h e-
cid a .
P a r a o d eísta , e n t ã o , D e u s é d ist a n t e, a lh e io , a lie n a d o .
Kn t r e t a n t o , a solitá r ia co n d içã o n a q u a l essa n o çã o la n ça a
h u m a n id a d e , a p a r en t em en t e n ã o fo i p e r ce b id a p elos p r i -
m eir os d eísta s. Q u a s e d o is sécu los se p a ssa r a m an tes d essa
im p lica çã o ser esgotad a n o ca m p o d as e m o çõ e s h u m a n a s .

2. O cosmo criado por Deus é det erminado, pois foi criado


como uma uniformidade de causa e efeit o em um sist ema
fechado; nenhum milagre é possív el.

O sist em a d o u n iv e r s o é fech a d o e m d o is sen t id o s . P r i -


m e ir o , é fech a d o ao r e o r d e n a m e n t o p o r p a r t e d e D e u s , p o r
ele n ã o estar "in t er essa d o " e m fa z ê-lo. D e u s m e r a m e n t e o
fez su t g ir . P o r t a n t o , m ila g r es o u ev en tos q u e r e v e le m q u a l-
q u er in ter esse esp ecia l d e D e u s n ã o são p ossív eis. Q u a l q u e r
a lter a çã o o u a p a r en te a lt er a çã o n o m e ca n is m o d o u n iv e r s o
p o d er ia su g er ir q u e D e u s co m e t e u u m er r o n o p la n o o r ig i-
n a l o q u e n ã o est a r ia à a lt u r a d a d ig n id a d e d e u m a d iv in d a d e
o n ip o t e n t e .
Se g u n d o , o u n iv e r s o é fech a d o ao r e o r d e n a m e n t o h u -
m a n o p o r q u e é sem elh a n t e ao m e ca n is m o fech a d o d e u m
r elóg io. P a r a ser ca p a z d e r eo r d en á -lo , q u a lq u e r ser h u m a -
n o, iso la d a m en t e o u e m co m p a n h i a d e o u t r o s, t er ia d e ser
ca p a z d e t r a n s ce n d ê -lo , s a in d o d a ca d eia d e ca u sa e efeito.

• 61 •
O u n iv e r s o ao la d o

P o r é m , isso n ã o n os é p ossív el fazer. D e v e r ía m o s ob ser v a r , n o


e n t a n t o , q u e essa seg u n d a im p lica çã o n ã o é m u i t o e n fa t iz a d a
p elos d eístas. A m a i o r i a d eles p r ossegu e p a r a a ssu m ir , co m o
tod os n ó s fa z em os à p a r t e d a r eflexã o, q u e n ã o p o d e m o s a g ir
p a r a m o d ifica r o n osso m e io a m b ie n t e .

3. O s seres humanos, embora pessoais, faz em part e do


mecanismo do univ erso.

P a r a ser exa t o , os d eístas n ã o n eg a m q u e os seres h u m a n o s


s e ja m seres p essoais. C a d a u m d e n ós p o ssu i a u t o co n s ciê n cia
e, p elo m e n o s à p r i m e i r a v is t a , a u t o d e t e r m in a çã o . P o r é m ,
essas ca r a cter ística s d e v e m ser v ista s à lu z a p en as d as d i m e n -
sões h u m a n a s . Is t o é, co m o seres h u m a n o s n ó s n ã o t em o s
q u a lq u e r r ela ção essen cia l c o m D e u s - co m o im a g e m d o
o r ig in a l - e, p o r q u a n t o , n ã o h á co m o t r a n s ce n d e r m o s o sis-
t e m a n o q u a l n os e n co n t r a m o s .
O bisp o Fr a n çois Fé n e lo n ( 1 6 5 1 - 1 7 1 5 ) , ao cr it ica r os
d eístas d e su a ép o ca , escr ev eu : "Ele s cr e d it a m a si m esm o s o
co n h e cim e n t o d e D e u s co m o o cr ia d o r cu ja sa bed or ia é e v i-
d en te e m su as obras; m a s, segu n d o eles, D e u s n ã o ser ia n e m
b o m , t a m p o u co sábio se tivesse d a d o ao h o m e m o liv r e-a r -
b ít r io - isto é, o p o d er d e p ecar, d e d esv iar -se d o a lv o final,
d e r ev er ter a o r d e m e ficar p er d id o p a r a s e m p r e ". 7
Fé n e lo n
co lo co u o seu d ed o sobre o m a io r p r o b le m a p resen te n o d e-
ísm o : os seres h u m a n o s p er d er a m a su a ca p a cid a d e d e agir
co m sig n ifica d o . Se n ã o p od em os "r ev er ter a o r d e m ", en t ã o
n ã o p od em os ser sig n ifica n tes, m a s ap en as n os cabe ser co m o
m a r ion et es. Se u m in d iv íd u o p ossu i p er son a lid a d e, d ev e ser
d o t ip o qu e n ã o in clu i o elem en t o d a a u t o d et er m in a çã o .

• 62
A precisão da univ erso

1'. cla r o q u e os d eístas r e co n h e ce m q u e os seres h u m a n o s


..10 d ota d os d e in t elig ên cia (se m d ú v id a , eles e n fa t iz a m a
I.I/ .IO h u m a n a ) , d e u m sen so d e m o r a lid a d e (os d eístas são
m u it o in ter essa d os p o r é t ica ), d e u m a ca p a cid a d e c o m u n i -
i.íria e d e cr ia r . P o r é m , tod a s essas ca r a ct er íst ica s, e m b o r a
e m b u t id a s e m n ós co m o seres cr ia d o s , n ã o estã o alicer çad a s
n o ca r á t er d e D e u s . Ela s p o ssu em u m a esp écie d e n a t u r ez a
a u t ó n o m a a s s im co m o o r esta n te d o m a t e r ia l d o u n iv e r s o .
( ) s seres h u m a n o s são o q u e sã o: eles p o s s u e m p a r ca s esp e-
ran ças d e se t o r n a r algo d ifer en t e o u m a io r .

4. O cosmo, est e mundo, é compreendido como est ando


em seu est ado normal; ele não é decaído ou anormal.
Podemos conhecer o univ erso e por meio de seu est udo
det erminar como Deus é.

Pelo fa to d e o m u n d o estar essen cia lm en t e co m o D e u s


o c r i o u e as p essoas p o ssu ír em a ca p a cid a d e in t e le ct u a l d e
co m p r e e n d e r o m u n d o q u e as cer ca , elas p o d e m a p r en d er
sobr e D e u s a p a r t ir d o est u d o d o u n iv e r s o . C o m o v i m o s
a n t e r io r m e n t e , as Es cr i t u r a s n os fo r n e ce m u m a base p a r a
isso, p o is o s a lm is t a escr ev eu : "O s céu s d e cla r a m a glór ia
de Deu s; o firm am ento p r o cl a m a a o b r a d as su as m ã o s "
(SI 19.1). E cer t o q u e os teístas ig u a lm e n t e s u s t e n t a m q u e
D e u s t e m tev ela d o a s i m e s m o p o r m e io d a n a t u r e z a . P o r é m ,
p a r a u m teísta , D e u s t a m b é m t e m se r ev ela d o e m p a la v r a s
— n a r ev elação p r o p o s icio n a l r ev ela d a aos seu s p r ofeta s e
aos v ár ios escr itor es b íb lico s . O s teístas d e fe n d e m a in d a
q u e D e u s se r ev elo u através d e Se u F i l h o , Jesu s - "a P a la -
v r a t o r n o u -s e ca r n e " (Jo 1.14). N o e n t a n t o , p a r a os d eístas,

• 63 •
O u n i v e r s o ao la d o

D e u s n ã o se c o m u n i c a co m as p essoas. N e n h u m a r ev elação é
n ecessá r ia e, a s s im , n e n h u m a o co r r e u .
Emile Br éh ier , u m h is t o r ia d o r d a filosofia, r esu m e co m
excelên cia a d ifer en ça en t r e o d e ís m o e o t e ís m o :

Vem os claram en te qu e u m a n ov a con cep ção d e h o m em ,


totalm en te in com p atível com a fé cristã, foi in tr od u z id a :
D eu s, o arqu iteto qu e p r od u z iu e m an teve u m a ord em
m aravilh osa n o u n iv er so, foi d escoberto n a n atu reza, e n ão
há m ais lu gar p ara o D eu s d o d r am a cristão, o D eu s qu e
con ced eu a Ad ão o "p od er d e p ecar e reverter a ordem".
D eu s estava n a n atu reza e não m ais n a h istória; ele estava
p resente nas m aravilh as analisad as p or n atu ralistas e biólo-
gos e não m ais n a con sciên cia h u m a n a , com sen tim en tos
de p ecad o, d esgraça ou graça qu e acom p an h av am a su a
p resença; ele d eixou o h om em n o com an d o de seu p róp rio
d estin o. 8

O D e u s q u e h a v ia sid o d esco b er t o p elos d eístas er a u m


a r q u it e t o , p o r é m , d e m o d o a lg u m a m o r o s o , ju i z o u p essoa l.
E l e n ã o er a o ú n ico a agir n a h ist ó r ia . Sim p le s m e n t e , ele
a b a n d o n o u o m u n d o à p r ó p r ia sor t e. P o r é m , a h u m a n i d a d e
e m b o r a e m cer t o sen t id o n o co n t r o le d e seu p r ó p r io d est in o
en co n t r a v a -se, n ã o o b st a n t e, e m u m s is t e m a fech a d o . A li-
b er d a d e h u m a n a d e D e u s n ã o ser v ia p a r a n a d a ; d e fa t o , n ãc
er a lib er d a d e co isa a lg u m a .
C e r t a t en sã o n o t e ís m o p o d e ser e n co n t r a d a n a a b er t u r ;
d a o b r a d e A le xa n d e r Pop e, Essay on Man [Ensaio sobre t
homem] ( 1 7 3 2 - 1 7 3 4 ) . E l e escr ev eu :

Deu s nas altu ras ou o h om em abaixo n a terra,


O qu e p od em os con clu ir além d aqu ilo qu e sabem os?

64
A precisão do univ erso

l ) qu e vem os d o h om em além d a su a existên cia terren a


I ).i qu al p erscru ta ou se qu estiona?
Ai raves d a vastidão de m u n d os, em bora Deu s seja conhecid o,
Está em nós a in iciativ a p or d escobri-lo. 9

I ssa estrofe d e seis lin h a s a fi r m a q u e p o d e m o s co n h e ce r


i I >eus ap en as est u d a n d o o m u n d o ao n osso r ed or . Es s a é
i r efer ên cia d o d eísm o ao e m p i r i s m o . A p r e n d e m o s a p a r t ir
di d .id os e p r o sseg u im o s d o esp ecífico p a r a o g er a l, n a d a
u n s é r ev elad o à p a r t e d o q u e e xp e r im e n t a m o s . A s s i m Pop e
I l • 111 in u a :

Ele que através d a vasta imensidão pode penetrar,


Ver m u nd o sobre m u nd os com p ond o u m u niverso,
( Mxservar com o sistemas d entro de sistemas interagem ,
Q u e outros planetas orbitam outros sóis,
Qu ão diferentes seres habitam as estrelas,
Pode d izer por que os céus nos fizeram com o somos.
Mas dessa estru tu ra de sustentações e liam es,
fortes conexões, belas d epend ências,
Apenas u m p ou co d o tod o tem a sua alm a perscrutad ora
Vislu m brad o? O u p od e u m a p arte conter o tod o? " 1

A q u i Pop e p r e s u m e u m co n h e cim e n t o d e D e u s e d a n a -
i II reza q u e n ã o é ca p az d e ser o b t id o p o r m e io d a exp er iên cia .
I le a té m e s m o a d m it e isso, q u a n d o d esa fia a n ó s , leit or es,
M le a lm e n t e tem os "in v e s t ig a d o " o u n iv e r s o e v is t o o seu
m e c a n i s m o . P o r ém , se n ã o o t em o s v is t o , e n t ã o , p r e s u m iv e l-
m en t e, t a m p o u co ele o v i u . C o m o , e n t ã o , Pop e o r eco n h ece
I o r n o u m im e n s o e b e m -o r d e n a d o r elógio?
N ã o é p ossív el t r ilh a r d o is ca m in h o s . O u (1) t o d o o
< o n h e cim e n t o é p r o v e n ie n t e d a exp er iên cia e n ó s , sen d o

65
O u n i v e r s o ao la d o

finitos, n ã o p o d e m o s co n h ecer o s is t e m a co m o u m t o d o ,
o u (2) o co n h e cim e n t o é p r o v e n ie n t e d e o u t r a fo n t e - p o r
e xe m p lo , d e id eia s in a t a s co n ceb id a s e m n osso in t e r io r o u
a p a r t ir d e u m a r ev elação d o ext et io t . N o e n t a n t o , P o p e,
co m o a m a i o r i a d os d eísta s, d esco n sid er a a r ev ela çã o. E , p elo
m e n o s n esse "e n s a io ", ele ja m a is a fi r m a o u su gere a p o s s ib i-
lid a d e d e id eia s in a t a s.
A s s i m v e m o s q u e h á u m a t en sã o n a e p is t e m o lo g ia d e
P o p e. P r e cis a m e n t e, fo r a m tais ten sões q u e p a t e n t e a r a m a
in s t a b ilid a d e d o d e ís m o co m o co sm o v isã o .

5. A ét ica é rest rit a à rev elação geral; pelo fat o de o univ erso
ser normal, ele rev ela o que é cert o.

U m a o u t r a im p lica çã o d e se v e r a D e u s ap en as e m u m
m u n d o n a t u t a l, n o r m a l e n ã o d e ca íd o , é q u e D e u s , sen d o o
C r i a d o r o n ip o t e n t e , t o r n a -se r esp on sáv el p o r tod as as coisas
co m o elas são. Es t e m u n d o , e n t ã o , d ev e r eflet ir o u o q u e
D e u s d eseja o u co m o ele é. Isso lev a e t ica m e n t e à p osiçã o
exp r essa p o r P o p e:

Tod a a n atu r eza não passa de arte d esconhecid a a t i;


Tod o acaso, d ireção que tu não podes ver;
Tod a d iscórd ia, h arm on ia não com p reend id a;
Tod o m al p arcial, bem u niversal;
E , apesar d o orgu lho e dos erros d a razão,
U m a verdade é clara: SEJA O Q U E F O R , É C E R T O . 11

Es s a p o siçã o , n a r ea lid a d e, t e r m i n a p o r d e s t r u ir a ét ica .


Se t u d o o q u e for , é cer t o , e n t ã o n ã o existe m a l . N ã o h á
d ist in çã o en t t e o b e m e o m a l . C o m o C h a r l e s Ba u d e la ir e
a fi r m o u : "Se D e u s exist e, ele d ev e ser o d ia b o ". O u , p io r

• 66 •
A precisão do univ erso

l i n d a , n ã o d ev e h a v e r bem a l g u m . Pois s e m a ca p a cid a d e d e


d is t in g u ir en t r e o b e m e o m a l , n ã o p od e h a v er n e m u m n e m
OUtro, n e m b e m n e m m a l . A ét ica d esap ar ece.
A p esa r d isso , co m o v i m o s , n ó s , seres h u m a n o s , co n t i n u a -
m o s a fazer d ist in çõ es ét ica s. E m a lg u m m o m e n t o , ca d a u m
i l e n ós d is t in g u e o b e m do m a l , o cer t o do e r r a d o . A ét ica
deísta n ã o se e n ca ixa e m n ossas d im e n s õ es h u m a n a s r ea is.
Nesse p o n t o , o d e ís m o p a ssa a set u m a co sm o v isã o i m p r a t i -
i ável, p ois n in g u é m con seg u e v iv e r p o r ela .
É a b solu ta m en te n ecessário en fatiza r q u e n e m tod os os d e-
isus r econ h ecer a m (ou r econ h ecem agora) q u e su as h ip óteses
I .1n eg a m as con clu sões d e Pop e. N a v er d ad e, a lg u n s p ercebe-
i.iin qu e os en sin a m en to s éticos d e Jesu s e r a m , n a r ealid ad e,
li i s n atu r ais exp ressas e m p alav r as. E , co m certeza, o ser m ã o do
m on te n ã o co n t é m n e n h u m a afir m ação sem elh a n te à p r o p o -
lição "Seja o qu e for, é cer to"! U m estu d o m a is p r o fu n d o p or
p arte d os d eístas ter ia lev a d o, cr eio e u , à con clu sã o d e qu e s i m -
pli sm en te eles er a m in con sisten tes, e n ã o r eco n h ecia m isso.
O p r ó p r io A l e x a n d e r P o p e é in co n s is t e n t e , p o is e m b o r a
defenda a n o çã o d e q u e seja o q u e fo r é cer t o , t a m b é m t e -
preende a h u m a n i d a d e p o r ca u sa d o o r g u lh o (o q u a l, seja o
que for, é ce r t o ).

E m orgu lh o, em elu cu brações de orgu lh o nosso erro se en -


raíza;
Iod os aband onam seus afazeres e se apressam p ara os céu s.
O orgu lh o ain d a alm eja os lu gares aben çoad os;
H om en s d esejam ser an jos, anjos d esejam ser d eu ses...
E qu em não d eseja in verter as leis
Q u e nos m an têm em p ecad o con tra a Cau sa Et e r n a . 12
O u n i v e r s o ao la d o

P o is u m a p essoa co n s id e r a r a s i m e s m o s u p e r io r ao q u e
d e v e r ia , er a o r g u lh o . T a l s e n t im e n t o er a e r r a d o , a té m e s m o
um pecado. N ã o o b st a n t e, o b ser v e: u m p eca d o n ã o co n t r a
u m D e u s p essoa l, m a s co n t r a a "C a u s a E t e r n a ", co n t t a u m a
a b st r a çã o filosófica. A t é m e s m o o t e r m o pecado a ssu m e u m
n o v o co lo r id o e m t a l co n t e xt o . A i n d a m a is i m p o r t a n t e , n o
e n t a n t o , é q u e t o d a a n o çã o d e p eca d o d esa p a r ece se a lg u ém
s u s t e n t a , sobr e o u t r o s fu n d a m e n t o s , q u e seja o q u e fo r é
cer t o .
P o r m a is in ter essa d os q u e os a n t ig os d eístas estiv essem
e m p t eser v a r o co n t e ú d o é t ico d o cr is t ia n is m o , eles fo r a m
in ca p a z es d e e n co n t r a r u m a base a d eq u a d a p a r a ele. D e v i d o
a ten sões e in co n sist ên cia s co m o essa é q u e o d eísm o g o z o u
d e u m a v i d a t e la t iv a m e n t e cu r t a co m o co sm o v isã o r elev a n t e,
e m b o r a a in d a e xis t a m m u it o s h o je q u e são essen cia lm en t e
d eísta s, q u er r e i v i n d i q u e m isso q u er n ã o .

6. A hist ória é linear, pois o curso do cosmo foi det erminado


na criação.

O s p r ó p r io s d eístas p a r ecem estar p o u co in ter essa d os


e m h ist ó r ia , p o r q u e , co m o Br é h ie r i n d i co u , eles b u s ca v a m
p elo co n h e cim e n t o d e D e u s , p r i m a r i a m e n t e , n a n a t u r e z a .
O cu r so d a h ist ó r ia d os ju d e u s co m o r eg istr a d o n a Bíb lia é
m a is ú til n ã o co m o u m r eg istr o d as in t er v en çõ es d e D e u s n a
h ist ó r ia , m a s co m o ilu str a ções d a lei d i v i n a d a q u a l p r in cí-
p ios ét ico s p o d e m ser ext r a íd os. Jo h n T o l a n d ( 1 6 7 0 - 1 7 2 2 ) ,
p o r e xe m p lo , a r g u m e n t o u q u e o cr is t ia n is m o er a t ã o a n t i -
go q u a n t o a cr ia çã o ; o ev a n g elh o er a u m a "r e p u b lica çã o "
d a r eligião d a n a t u r e z a . C o m u m a v isão co m o essa, os atos

68
A precisão do univ erso

esp ecíficos d a h ist ó r ia n ã o são m u i t o im p o r t a n t e s . A ên fa se


resid e n as regras g er a is. C o m o d isse P o p e: " A P r i m e i r a C a u s a
o n ip o t e n t e / N ã o age p o r leis p a r cia is , m a s g e r a is ". 13
Deu s
não está n e m u m p o u co in ter essa d o e m h o m e n s e m u l h e -
res, co m o in d iv íd u o s, t a m p o u co e m tod as as p essoas. A lé m
d isso, o u n iv e r s o é fe ch a d o , d e m o d o a l g u m a b er t o ao seu
r eo r d en a m en t o .

Um co m p o n en t e i n st ável

O d e ís m o n ã o p r o v o u ser u m a co sm o v isã o estáv el. H i s -


t o r ica m e n t e , ele exer ceu b r ev e d o m ín io sob r e o m u n d o
in t elect u a l d a Fr a n ça e In g la t e r r a , d o fim d o sécu lo X V I I a té
.1 p r im e ir a m et a d e d o sécu lo X V I I I . P r eced id o p elo t e ís m o ,
foi seg u id o p elo n a t u r a lis m o .
O q u e t o r n o u o d e ís m o u m a co sm o v isã o tã o efém er a? E u
| .i a b o r d ei as razões p r in cip a is : as in co n sist ên cia s d e n t r o d a
p r óp r ia co sm o v isã o e a im p r a t ica b ilid a d e d e a lg u n s d e seu s
p r in cíp io s. Ta is in co n g r u ê n cia s in t e r n a s , q u e log o se t o r n a -
r a m ób v ia s, i n c l u e m as seg u in tes:

1. N a ét ica , a su p o siçã o d e u m u n iv e r s o n o r m a l e n ã o d e-
ca íd o , co m o n as sem elh a n ça s d e A l e x a n d e r P o p e, p o r
e xe m p lo , t e n d ia a i m p l i ca r q u e seja o q u e fo r é cer t o .
Se isso fo r v e r d a d e , e n t ã o , n e n h u m esp a ço é d eixa d o
p a r a u m co n t e ú d o n ít id o d a ét ica . N ã o o b st a n t e, os
d eístas se m o s t r a v a m m u i t o in ter essa d os p ela ét ica ,
co n s t it u in d o essa a ú n ica d iv isão d o e n s in a m e n t o cr is -
tã o q u e lh es er a m a is a ceitá v el.

69
O u n i v e r s o ao l a d o

2. N a e p is t e m o lo g ia , a t e n t a t iv a d e a r g u m e n t a r d o p a r -
t icu la r p a t a o u n iv e r s a l r e d u n d o u e m fr a ca sso, p o is
ser ia p r eciso u m a m e n t e i n fi n i t a p a t a r eter os d eta lh es
n ecessá r ios a u m a g en et a liz a çã o p r ecisa . N e n h u m a
m e n t e é i n fi n i t a . P o r t a n t o , co m o o co n h e cim e n t o u n i -
v er sa l é im p o ssív el, e os p en sa d or es e r a m d eixa d o s c o m
u m r ela t iv o co n h e cim e n t o , eles a ch a r a m isso d e d ifícil
a ce it a çã o . 14

3. E m r ela çã o à n a t u r e z a h u m a n a , u m a p essoa n ã o p o d e
m a n t e r sig n ificâ n cia e p er so n a lid a d e d ia n t e d e u m
u n iv e r s o fech a d o ao r e o r d e n a m e n t o . A sig n ificâ n cia
h u m a n a e o d e t e r m in is m o m e câ n ico são p a r ceir o s i n -
co m p a t ív eis.

H o je e m d i a , p o d e r ía m o s e n co n t r a r a i n d a m a is a sp ec-
tos q u estion á v eis d o d e ís m o . O s cien t ist a s t ê m a b a n d o n a d o
t o t a lm e n t e a n o çã o d o u n iv e r s o co m o u m gigan tesco r eló-
g io . O s elét r on s (p a r a n ã o m e n cio n a r p a r t ícu la s s u b a t ô m ica s
a in d a m a is d esco n cer t a n t es) n ã o se co m p o r t a m co m o m i -
n ú scu lo s elem en t o s d e u m a m á q u in a . Se o u n iv e r s o é u m
m e ca n is m o , ele é m u i t o m a is co m p le xo d o q u e i m a g i n a -
d o n a é p o ca , e D e u s d ev e ser m u i t o d ifer en t e d e u m m e r o
"a r q u it e t o " o u "r e lo jo e ir o ". A lé m d isso , a p er so n a lid a d e h u -
m a n a é u m "fa t o " d o u n iv e r s o . Se fo i D e u s q u e a cr i o u , n ã o
ser ia ele p essoal?
D esse m o d o , h is t o r ica m e n t e o d e ís m o fo i u m a co s m o v i-
são t t a n sit ó r ia e, n ã o o b st a n t e, n ã o está m o r t a t a n t o sob as
fo r m a s p o p u la r es q u a n t o sob as m a is so fist ica d a s. N o n ív el
p o p u la r , in ú m er a s p essoas h o je a cr e d it a m n a exist ên cia d e
D e u s , m a s q u a n d o p er g u n t a d a s co m o ele é, elas se l i m i t a m

70
A precisão do univ erso

a exp r essões co m o En e r g i a , Fo r ça , P r i m e i r a C a u s a , a lg u m a
co isa ca p a z d e m a n t e r o u n iv e r s o e m fu n ci o n a m e n t o e, e m
g et a l, co n cl u e m d a n d o-lhe u m a a u r a d e d iv in d a d e . C o m o
diz Etienne G i l s o n : "P o r qu ase d ois sécu los [...] o fa n t a s m a
do D e u s cr istã o t e m sid o a t e n d id o p elo fa n t a s m a d a r eligião
cr istã : u m v a g o s e n t im e n t o d e r elig io sid a d e, u m t ip o d e co n -
fiante fa m ilia r id a d e c o m a lg u m ca m a r a d a b o m e s u p r e m o a
q u e m o u t r o s ca m a r a d a s p o d e m esp er a n ço sa m en t e r ecor r er
q u a n d o estã o e m a p u r o s ". 15

So b u m a fo r m a m a is so fist ica d a , o d eísm o sob r ev iv e e m


a lg u n s cien t ist a s e u n s p o u co s h u m a n is t a s n os cen t r o s a ca d é-
m ico s ao t ed o t d o m u n d o . C ie n t is t a s , co m o A l b e t t E i n s t e i n ,
q u e "v e e m " u m a fo r ça s u p e r io r e m a çã o n o u n iv e r s o o u p o r
trás d ele e d eseja m m a n t e r a tazão e m u m m u n d o cr ia d o ,
p o d e m ser co n sid er a d o s d eístas d e co t a çã o , e m b o r a , d ecer t o,
m u it o s n ã o d eseja r ia m a fir m a r algo q u e soasse tã o s e m e lh a n -
te a u m a filosofia d e v i d a . 16

O a str ofísico St e p h e n H a w k i n g ig u a lm e n t e d á a b e t t u t a
p a r a se d efen d er u m D e u s d eísta . E l e escr ev eu q u e as leis
fu n d a m e n t a is d o u n iv e r s o "p o d e m ter sid o o r ig in a lm e n t e
d et er m in a d a s p o r D e u s , m a s ao q u e p a r ece, d esd e e n t ã o ,
ele d e ix o u o u n iv e r s o d esen v olv er -se d e a co r d o c o m elas e
a g or a n ã o m a is in t er v ém n e l e ". 17
Su a rejeição a u m D e u s
teísta é m u i t o cla r a . C e r t a feit a , a a t r iz e líd er d a N o v a E r a ,
Sh ir le y M a c L a i n e , p e r g u n t o u a H a w k i n g se h a v ia u m D e u s
q u e "q u e cr i o u o u n iv e r s o e g u ia a s u a cr ia çã o ". "N ã o ", ele
r esp o n d eu s im p le s m e n t e e m su a v o z co m p u t a d o r i z a d a . 18

A fi n a l d e co n t a s, se o u n iv e r s o é "a u t o co n t id o , sem f r o n -
teir as o u lim it e s ", co m o H a w k i n g su sp eit a ser v e r d a d e ir o ,

• 71
O u n i v e r s o ao l a d o

e n t ã o n ã o h á n ecessid a d e d e u m C r i a d o r ; D e u s t o r n a -se
s u p é r flu o . 19
A s s i m sen d o , H a w k i n g u t iliz a "o t e r m o D e u s
co m o a in co r p o r a çã o d as leis d a fís ica ". 20

H a w k i n g n ã o está s o z in h o n essa p r o b le m á t ica d e o q u e


fazer co m D e u s . E m u m a co n v e t s a c o m Ro b e r t W r i g h t , o
físico E d w a r d F r i e d k i n p o d e r ia fa la r p o r m u i t o s cien t ist a s:

Para m i m é d ifícil acred itar que tu d o o qu e existe foi apenas


u m acid en te. [...] [C o n t u d o ], não ten h o n en h u m a crença
religiosa. E u não acred ito que há u m D eu s. N ão acred ito
n o cristian ism o, ju d aísm o ou qu alqu er coisa sem elh an te,
certo? N ão sou u m ateu . [...] N ã o sou u m agn óstico. [...]
Estou apenas em u m estad o sim p les. E u não sei o qu e há
ou pod e haver. [...] M a s, p or ou tro lad o, o qu e posso d izer é
qu e m e parece qu e este u n iverso p articu lar qu e tem os é u m a
con sequ ên cia de algo qu e eu ch am aria de in teligen te. ' 2

F r i e d k i n e H a w k i n g são d eístas o u n a t u r a list a s? O u


s im p le s m e n t e são a g n ó st ico s n o t o ca n t e a D e u s ? D e q u a l -
q u er m o d o , visões co m o as d eles en tr e os cien t ist a s n ã o são
i n co m u n s . O n a t u r a lis m o p u r o n ã o é a ssim tã o a m b iv a le n t e .
Es s a p o siçã o é q u e v er em o s a segu ir .

• 72 •
Capítulo quatro

O SILÊNCIO DO ESPAÇO FINITO

Nat uralismo

Sem aviso, Davi foi visitado por uma visão perfeita da morte:
um largo buraco no chão, não maior que seu corpo, no qual era
colocado, enquanto os rostos brancos se afastavam. Você tenta
alcançá-los, mas os seus braços estão atados. Pás jogam terra em
seu rosto. Lá você estará para sempre, em uma posição voltada para
cima, cego e silencioso, e com o passar do tempo ninguém mais
se lembrará de você, e você jamais será visitado. Como estratos do
deslocamento de rochas, seus dedos se alongam, e seus dentes são
distendidos para o lado em uma grande careta subterrânea indis-
tinguível da própria terra. E a terra se revolverá, o sol expirará, as
trevas reinam imutáveis onde antes havia estrelas.

John Updike, Pigeon Feat hers [Penas de pombo]

O entre dois grandes continentes -


DEÍSMO É U M I S T M O

teísmo e naturalismo. Para se mover do primeiro ao


O universo ao lado

segundo, o deísmo é a rota natural. É provável que, sem


o deísmo, o naturalismo não surgiria tão prontamente. O
deísmo desvaneceu precocemente, tornando-se a sua versão
do século X V I I I quase uma curiosidade intelectual. As suas
versões do século X X estão restritas a uns poucos cientistas
e intelectuais e aqueles que, embora afirmem que acreditam
em Deus, possuem apenas uma vaga noção do que isso possa
ser. Por outro lado, o naturalismo era e é um negócio sério.
Em termos intelectuais, a rota é esta: no teísmo, Deus
é o Criador pessoal e infinito, sustentador do cosmo. No
deísmo, Deus é reduzido; ele começa a perder a sua persona-
lidade, embora permaneça como Criador e (por implicação)
sustentador do cosmo. No naturalismo, Deus é ainda mais
reduzido, perdendo a sua própria existência.
Os personagens envolvidos nessa mudança do teísmo para
o naturalismo formam uma legião, em especial, no período
entre 1600 e 1750. René Descartes (1596-1650), teísta por
consciente confissão, estabelece o cenário ao conceber o uni-
verso como um gigantesco mecanismo de "matéria" que as
pessoas compreenderam como "mente". Ele, portanto, divi-
de a realidade em dois tipos de ser; desde então, o mundo
ocidental tem enfrentado dificuldades para ver a si mesmo
como um todo integrado. O naturalismo, seguindo uma
rota para a unificação, fez da mente uma subcategoria da
matéria mecanicista.
John Locke (1632-1714), um teísta para a maioria das
pessoas, acreditava em um Deus pessoal que se revelou a
nós; Locke pensou, entretanto, que a nossa razão concedi-
da por Deus é o juiz do que pode ser considerado como

74 •
O silêncio do espaço finit o

verdadeiro a partir da "revelação" bíblica. Dessa concepção,


os naturalistas removeram o "concedido por Deus" e fizeram
da "razão" o único critério para a verdade.
Uma das figuras mais importantes nessa mudança foi
Julien Offray de La Mettrie (1709-1751). Em sua própria
época, La Mettrie foi, em geral, considerado um ateu, mas
ele mesmo afirma: "Não que eu coloque em dúvida a exis-
tência de um ser supremo; pelo contrário, parece-me que o
mais elevado grau de probabilidade está a favor dessa cren-
ça". Não obstante, ele prossegue: "É uma verdade teórica
com pouco valor prático". A razão para ele concluir que a
1

existência de Deus possui um valor prático tão diminuto é


que o Deus que existe é apenas o criador do universo. Ele
não está interessado de modo pessoal nele, tampouco em
ser adorado por quem quer que esteja nesse universo. Assim
sendo, a existência de Deus pode ser efetivamente conside-
rada como de nenhuma importância. 2

É precisamente esse sentimento, essa conclusão que mar-


ca a transição para o naturalismo. La Mettrie foi um deísta
teórico, porém, um naturalista prático. Foi deveras fácil para
as gerações subsequentes tornar as suas teorias consistentes
com a prática de La Mettrie, de modo que o naturalismo foi
tanto crido quanto influenciado. 3

O comportamento realmente fomenta o desenvolvimen-


to intelectual. De fato, se levarmos a sério a última frase da
definição sobre cosmovisão, no primeiro capítulo ("sobre o
qual vivemos, movemos e possuímos nosso ser"), nós po-
deríamos acusar La Mettrie de sustentar uma cosmovisão
plenamente naturalista.

75
O universo ao lado

Nat uralismo básico


Isso nos leva, então, à primeira proposição definidora de na-
turalismo.

1. A matéria existe eternamente e é tudo o que há. Deus não


existe.

Como no teísmo e no deísmo, a proposição primária diz


respeito à natureza da existência básica. Nos dois anteriores, a
natureza de Deus é o fator chave. No naturalismo, a natureza
do cosmo é que é primária, pois, agora, com um Criador eter-
no fora de cena, o próprio cosmo se torna eterno - sempre lá,
porém, não necessariamente em sua forma atual; na verdade,
certamente não em sua presente forma. Carl Sagan, astrofísico
4

e popularizador da ciência, afirmou isso o mais alto possível:


"O cosmo é tudo o que é, foi ou será". 5

Nada vem do nada. Existe alguma coisa. Portanto, algu-


ma coisa sempre existiu. Porém, essa alguma coisa, dizem os
naturalistas, não é um Criador transcendente, mas matéria
do próprio cosmo. Em alguma forma, toda a matéria do
universo sempre existiu.
A palavra matéria deve ser entendida de forma generali-
zada, pois desde o século X V I I I , a ciência tem refinado a sua
compreensão. No século X V I I , os cientistas ainda estavam
por descobrir a complexidade da matéria e sua estreita relação
com a energia. Eles concebiam a realidade como constituída
de "unidades" irredutíveis, existentes em um relacionamen-
to mecânico e espacial umas com as outras, relacionamento
esse que estava sendo investigado e revelado pela Química
e I ísica, sendo expresso através de "leis" inexoráveis. Mais

• 76 •
O silêncio do espaço finito

tarde, descobriram que a natureza não era tão certinha ou,


pelo menos, tão simples. Parece não haver essas "unida-
des" irredutíveis como tal, e as leis físicas apenas contêm
expressões matemáticas. Físicos, como Stephen Hawking,
podem buscar por nada menos que uma "completa descri-
ção do universo" e mesmo nutrir esperanças de encontrá-la. 6

Porém, a certeza sobre o que a natureza é ou a probabilidade


de descobrir o que possa ser, praticamente desapareceu.
Ainda assim, a proposição expressa acima une os natura-
listas. O cosmo não é composto por duas coisas — matéria
e mente, ou matéria e espírito. Como afirmou La Mettrie:
"Em todo o universo nada mais há que uma única substância
com várias modificações". O cosmo é, em última instância,
7

uma única coisa sem qualquer relação com um ser transcen-


dental; não existe "deus", tampouco "criador".

2. O cosmo existe como uma uniformidade de causa e efeito


em um sistema fechado.

Essa proposição é similar à segunda proposição no de-


ísmo. A diferença reside em que o universo pode ou não
ser concebido como uma máquina ou relógio. Os cientistas
modernos têm descoberto que as relações entre os vários ele-
mentos da realidade são muito mais complexas, se não mais
misteriosas, que a imagem do relógio poderia expressar.
Não obstante, o universo é um sistema fechado. Ele não
está aberto ao reordenamento a partir do exterior — seja por
um ser transcendental (pois não existe nenhum) ou, como
discutiremos com mais profundidade posteriormente, por
seres humanos autotranscendentes ou autónomos (pois eles
O universo ao lado

são uma parte da uniformidade). Emile Bréhier, ao descrever


essa visão, disse: "A ordem na natureza nada mais é que um
arranjo rigorosamente necessário de suas partes, alicerçado
na essência das coisas; por exemplo, a bela regularidade das
estações não é o efeito de um plano divino, mas o resultado
da gravitação". 8

O Manifesto Humanista II (1973), que expressa as visões


dos que se autodenominam "humanistas seculares", colo-
ca isso desta forma: "Não descobrimos nenhuma evidência
suficiente para crer na existência do sobrenatural". Sem Deus
9

ou o sobrenatural, claro, nada pode acontecer, exceto dentro


do reino das próprias coisas. Escrevendo na The Columbia
History of the World, [A história do mundo de Columbia],
Rhodes W. Fairbridge afirmou claramente: "Nós rejeitamos o
miraculoso".' Tal afirmação, proveniente de um professor de
0

geologia da Universidade de Columbia, já era esperada.


O que surpreende é encontrar um professor de seminá-
rio, David Jobling, afirmando quase a mesma coisa: "Nós
[isto é, as pessoas modernas] vemos o universo como uma
continuidade de espaço, tempo e matéria, mantidos jun-
tos, como o eram, do interior. [...] Deus não está "fora"
do tempo e do espaço, nem permanece fora da matéria,
comunicando-se com a parte "espiritual" do homem. [...]
Precisamos encontrar alguma forma de enfrentar o fato de
que Jesus Cristo é produto do mesmo processo revolucio-
nário como o resto de nós". 11

Jobling está tentando compreender o cristianismo den-


tro da cosmovisão naturalista. Certamente, após Deus ter
sido colocado rigorosamente dentro do sistema - o sistema

78
O silêncio do espaço finito

uniforme e fechado de causa e efeito - a ele foi negada a


soberania e muito mais do que os cristãos tradicionalmente
têm crido ser verdadeiro a seu respeito. A questão aqui, en-
tretanto, é que o naturalismo é uma cosmovisão insinuante,
encontrada nos lugares mais improváveis.
Quais são as características centrais desse sistema fecha-
do? Deve primeiro parecer que os naturalistas, ao afirmar a
"continuidade de espaço, tempo e matéria, conservando-se
unidos, como o eram [...] do interior," seriam determinis-
tas, declarando que o sistema fechado mantém-se unido por
uma conexão inexorável e indestrutível de causa e efeito. A
maioria dos naturalistas é, de fato, determinista, embora
muitos argumentem que isso não retira o nosso senso de
livre-arbítrio ou a responsabilidade pelas nossas ações. Será
essa liberdade realmente consistente com a concepção de um
sistema fechado? Para responder a essa pergunta, precisamos
primeiro olhar mais detalhadamente a concepção naturalista
quanto aos seres humanos.

3. Os seres humanos são "máquinas" complexas; a perso-


nalidade é uma inter-relação de propriedades químicas e
físicas ainda não totalmente compreendidas.

Descartes, embora tenha reconhecido que os seres huma-


nos são em parte máquinas, também reconheceu que eles
são em parte mente; e mente era uma substância diferen-
te. No entanto, a grande maioria dos naturalistas concebe
a mente como uma função da máquina. La Mettrie foi um
dos primeiros a colocar asperamente: "Vamos concluir ou-
sadamente, então, que o homem é uma máquina, e que em

• 79 •
O universo ao lado

todo o universo há nada menos que uma única substância


com várias modificações". 12

Expressando-se de forma ainda mais enfática, Pierre Jean


Georges Cabanis (1757-1808) escreveu que "o cérebro se-
creta o pensamento assim como o fígado secreta a bílis". 13

William Barret, em uma fascinante história intelectual sobre


a perda gradual da noção da alma ou do eu no pensamento
do Ocidente, a partir de Descartes até o presente, escreve:

Dessa forma chegamos a La Mettrie [...] aquelas curiosas


ilustrações do corpo humano como um sistema de engrena-
gens, rodas dentadas e catracas. O homem, o microcosmo,
é apenas uma outra máquina dentro da máquina universal
que é o cosmo. Rimos ante tais ilustrações, julgando-as pi-
torescas e grosseiras, porém, em segredo, ainda podemos
alimentar a noção de que eles, afinal de contas, estão na di-
reção certa, embora um pouco prematura. Com o advento
do computador, no entanto, essa tentação concernente ao
mecanismo torna-se mais irresistível ainda, pois aqui nós
não mais temos uma máquina de rodas e polias, mas um
aparelho que parece capaz de reproduzir os processos da
mente humana. As máquinas podem pensar?, tornou-se
agora uma questão crucial para o nosso tempo. 14

De qualquer modo, o ponto é que nós, como seres hu-


manos, simplesmente somos uma parte do cosmo, onde há
uma única substância: matéria. Somos feitos a partir dela e
tão somente dela. As leis que se aplicam à matéria também se
aplicam a nós. De forma alguma, transcendemos o universo.
É óbvio que somos máquinas muito complexas, e nosso
mecanismo ainda está longe de ser totalmente compreendido.

• 80
O silêncio do espaço finito

Assim as pessoas continuam a nos surpreender e a frustrar as


nossas expectativas. Contudo, qualquer mistério que rodeie
a nossa compreensão é resultado não de um genuíno misté-
rio, mas de complexidade mecânica. 15

Pode-se concluir que a humanidade não é distinta de ou-


tros objetos no universo, constituindo apenas um tipo de
objeto entre muitos outros. Porém, os naturalistas insistem
que não é assim. Julian Huxley, por exemplo, afirma que
somos únicos entre os animais porque apenas nós somos
capazes de pensar conceitualmente, de articular a fala, de
deter uma tradição cumulativa (cultura) e possuir um mé-
todo singular de evolução. A esses argumentos a maioria
16

dos naturalistas acrescentaria a nossa capacidade moral,


um assunto que tratatemos em separado. Todas essas carac-
terísticas são abertas e, em geral, óbvias. Nenhuma delas
implica em algum poder transcendental ou exige qualquer
base extramaterial, afirmam os naturalistas.
Ernest Nagel indica a necessidade de não enfatizar a
"continuidade" humana com elementos não humanos de
nossa composição: "Sem negar que mesmo as mais distintas
características humanas são dependentes de elementos não
humanos, um naturalismo maduro esforça-se por avaliar a
natureza do homem à luz de suas ações e conquistas, suas as-
pirações e capacidades, suas limitações e falhas trágicas, bem
como de seus esplêndidos trabalhos de ingenuidade e ima-
ginação". Ao enfatizar nossa humanidade (nossa distinção
17

do restante do cosmo), um naturalista encontra uma base de


valor, pois isso sustenta que a inteligência, a sofisticação cul-
tural, o senso de certo e errado não são apenas características

81
O universo ao lado

humanas, mas o que nos torna valiosos. Esse tópico será


mais desenvolvido adiante, na proposição 6.
Finalmente, embora alguns naturalistas sejam ferrenhos
deterministas com respeito a todos os eventos no universo,
incluindo-se a ação humana, negando, portanto, qualquer
senso de livre-arbítrio, muitos naturalistas sustentam que so-
mos livres para moldar o nosso próprio destino, pelo menos
parcialmente. Alguns, por exemplo, defendem que embora
o conceito de um universo fechado implique em determi-
nismo, ele ainda é compatível com a liberdade humana ou,
pelo menos, com um sentido de liberdade. Podemos fazer
18

muitas coisas que desejamos; nem sempre somos obrigados


a agir contra os nossos desejos. Eu poderia, por exemplo,
parar de preparar uma nova edição deste livro se assim dese-
jasse, porém, não é isso o que eu quero.
Esse fato, muitos naturalistas defendem, deixa aberta a
possibilidade para ações humanas significativas, além de for-
necer uma base para a moralidade. Pois a não ser que sejamos
livres para agir como agimos, não podemos ser responsabi-
lizados pelo que fazemos. A coerência dessa visão tem sido
contestada, entretanto, constituindo uma pequena mancha
no sistema de pensamento naturalista, como veremos no
capítulo seguinte.

4. A morte é a extinção da personalidade e da individua-


lidade.
Talvez essa seja a proposição naturalista mais "difícil" de as
pessoas aceitarem, muito embora seja uma exigência absolu-
ta em função da concepção naturalista do universo. Homens
e mulheres são constituídos de matéria e nada mais. Quando

• 82 •
O silêncio do espaço finito

a matéria constituinte de um indivíduo é desorganizada na


morte, então, aquela pessoa desaparece.
O Manifesto Humanista II declara: "Até onde conhece-
mos, a personalidade total é uma função da transação do
organismo biológico em um contexto social e cultural.
Igualmente, não há nenhuma evidência crível de que a vida
sobreviva à morte do corpo". Bertrand Russel escreve:
19

"Nenhum fogo, heroísmo ou intensidade de pensamento


e sentimento podem preservar uma vida individual além-
túmulo". A. J . Ayer também afirma: "Tomo isso [...] como
20

fato de que a existência de uma pessoa termina na morte".21

Em um sentido mais geral, a humanidade é igualmente vista


como transitória. Nagel confessa: "O destino humano [é]
um episódio entre dois esquecimentos". 22

Tais afirmações são claras e desprovidas de qualquer


ambiguidade. O conceito pode desencadear problemas psi-
cológicos imensos, porém, sua precisão é inquestionável.
A única "imortalidade", como apresentada pelo Manifesto
Humanista II, é "a continuidade de nossa descendência e a
influência que nossas vidas exercem nas demais pessoas em
nossa cultura". Em sua breve obra, Pigeon Featbers [Penas
23

de pombo], John Updike confere a essa noção uma dimensão


lindamente humana quando retrata o jovem garoto David,
refletindo sobre a descrição de céu, feita pelo pastor, sendo
"semelhante à bondade de Abraham Lincoln sobrevivendo à
sua própria morte". Como o professor de seminário, David
24

Jobling, mencionado anteriormente, o pastor de David não


é mais um teísta, mas está simplesmente tentando dar um
conselho "espiritual", dentro da estrutura naturalista.

• 83 •
O universo ao lado

5. A história é uma corrente linear de eventos ligada por


causa e efeito, porém, sem uma proposta abrangente.

Primeiramente, a palavra história, como utilizada nessa


proposição, inclui tanto a história natural quanto a humana,
pois os naturalistas veem a ambas como uma continuidade.
A origem da família humana está na natureza. Surgimos dela
e, mais provavelmente, retornaremos a ela (não apenas indi-
vidualmente, mas como espécie).
A história natural principia com a origem do universo.
Algo ocorreu muito tempo atrás - um Big Bang ou um sur-
gimento súbito - que desencadeou a formação do universo
que agora habitamos e do qual temos consciência. Porém,
poucos se mostram dispostos a afirmar, exatamente, como
isso aconteceu. Lodewijk Woltjer, astrónomo da Universida-
de de Columbia, fala em nome de muitos: "A origem do que
existe - o homem, a terra, o universo - está encerrada em
um mistério que estamos tão distantes de elucidar quanto o
narrador do livro de Génesis". Inúmeras teorias têm sido
25

desenvolvidas para explicar o processo, mas nenhuma delas,


na realidade, com sucesso. Ainda, persiste entre os natura-
26

listas a premissa de que o processo se autodesencadeou; não


sendo colocado em ação por uma Primeira Causa, Deus ou
algo diferente.
Como os seres humanos surgiram é, em geral, consi-
derado mais certo que a origem do universo. A teoria da
evolução, desconsiderada pelos naturalistas por longo tem-
po, conseguiu sobressair-se pelo "mecanismo" que recebeu
de Darwin. E raro um texto de escola pública não proclamar
a teoria como um fato. Devemos ser cuidadosos, entretanto,

• 84 •
O silêncio do espaço finito

e não assumirmos que todas as formas de teoria evolucioná-


ria são estritamente naturalistas. Muitos teístas também são
evolucionistas. Na verdade, a evolução tornou-se um assun-
to muito mais polémico entre cristãos e naturalistas que na
época em que o livro foi lançado. 27

O teísta vê o Deus infinito e pessoal como responsável


por todos os processos naturais. Se a ordem biológica evo-
luiu, isso só ocorreu em conformidade com o desígnio de
Deus; isso é teleológico, onde tudo concorre para um fim
pessoalmente almejado por Deus. Por sua vez, o naturalista
vê o processo funcionando por si mesmo. George Gaylord
Simpson apresenta isso com tamanha felicidade que merece
essa longa menção:

A evolução orgânica é um processo totalmente materialis-


ta em sua origem e operação [...] A vida é materialista na
natureza, mas possui propriedades únicas que são ineren-
tes à sua organização, não em sua matéria ou mecânica. O
homem surgiu como o resultado da operação da evolução
orgânica, sendo seu ser e atividades igualmente materialis-
tas, mas a espécie humana possui propriedades únicas entre
todas as formas de vida, que se somam às propriedades úni-
cas à vida entre todas as formas de matéria e de ação. A
sua natureza intelectual, social e espiritual é excepcional em
comparação aos animais, porém, elas surgiram por meio da
evolução orgânica. 28

Essa passagem é importante devido à sua clara afirmação


tanto da continuidade humana com o restante do cosmo
quanto a sua especial singularidade. Entretanto, para não
concluirmos que tal singularidade, essa nossa posição como

• 85
O universo ao lado

a mais elevada criatura da natureza, foi planejada por al-


gum princípio operativo teleológico presente no universo,
Simpson acrescenta: "Por certo, o homem não era o obje-
tivo da evolução, que, por seu turno, evidentemente não
possuía objetivo algum". 29

De muitas maneiras, a teoria da evolução suscita tantas


questões quantas soluciona, pois embora ofereça uma expli-
cação sobre o que aconteceu no transcorrer desses extensos
períodos de tempo, ela não esclarece a causa. A noção de
um Planejador, dotado de propósito, não é permitida pelos
naturalistas. Pelo conttário, como afirma Jacques Monod, a
"humanidade surgiu como um número em uma roleta de
Monte Carlo", um lance de puro acaso. " Richard Dawkins,
3

um dos mais destacados defensores do recente evolucionis-


mo neo-darwinista, confirma essa ideia: "A seleção natural
é o relojoeiro cego, pois nada vê à frente, não planeja as
consequências, não possui nenhum propósito em vista". 31

Qualquer intencionalidade é descartada como possibilidade


desde o princípio.
De todo modo, os naturalistas insistem que com o alvore-
cer da humanidade, de súbito, a evolução assumiu uma nova
dimensão, pois os seres humanos são dotados de consciência
- provavelmente os únicos seres autoconscientes em todo o
universo. Além disso, como humanos, somos consciente-
32

mente livres para refletir, decidir e agir. Portanto, enquanto


a evolução, considerada estritamente no âmbito biológico,
continua sendo inconsciente e acidental, as ações humanas
não. Elas não são apenas parte do ambiente "natural". Elas
constituem a história humana.

• 86 •
O silêncio do espaço finito

Em outras palavras, quando o homem surgiu, a história


com significado, a história humana — os eventos realizados
por homens e mulheres autoconscientes e autodeterminados
- também surgiu. Mas, como a evolução, que não possui um
objetivo inerente, a história não possui um alvo inerente.
A história é o que fazemos acontecer. Os eventos humanos
apenas possuem o significado que as pessoas lhes dão, quan-
do elas os escolhem ou quando os rememoram.
A história prossegue em uma linha linear, como no teís-
mo (não ciclicamente como no panteísmo oriental), mas ela
não possui um alvo predeterminado. Em vez de culminar
na segunda vinda do Deus-homem, simplesmente a história
durará tanto quanto a consciência dos seres humanos perdu-
rar. Quando partirmos, a história humana desaparecerá, e a
história natural seguirá sozinha seu curso.

6. A ética está relacionada apenas os seres humanos.


Considerações éticas não desempenhavam um papel cen-
tral no advento do naturalismo, que, em vez disso, surgiu
como uma extensão lógica de certas noções metafísicas sobre
a natureza do mundo externo. A maioria dos primeiros na-
turalistas continuou a defender visões éticas em similaridade
àquelas presentes na cultura que os cercava, visões que, via
de regra, pouco se diferenciavam do cristianismo popular.
Havia respeito pela dignidade individual, uma afirmação de
amor, um compromisso pela verdade e honestidade básica.
Jesus Cristo era visto como um professor de elevados valores
éticos.

• 87
O universo ao lado

Embora seja cada vez mais raro em nossos dias, ainda


é verdadeiro em alguma medida. Com algumas mudanças
recentes como, por exemplo, uma atitude permissiva com
respeito ao sexo pré-conjugal e extraconjugal, uma reação
positiva quanto à eutanásia, o aborto e o direito individu-
al ao suicídio, as normas éticas do Manifesto Humanista II
(1973) são similares às da moralidade tradicional. Com fre-
quência, teístas e naturalistas podem conviver lado a lado
em comunal harmonia em relação à ética. As discordâncias
entre os dois grupos sempre existiram e, creio eu, se acir-
rarão à medida que o humanista se afaste cada vez mais da
memória de sua ética cristã. Porém, quaisquer que sejam os
33

desacordos (ou concordâncias) sobre as normas éticas, a base


para tais normas é radicalmente distinta.
Para o teísta, Deus é o alicerce de todos os valores, en-
quanto que para os naturalistas os valores são construídos
pelos seres humanos. A noção naturalista logicamente segue
as pressuposições anteriores. Se não havia consciência an-
tes da existência dos seres humanos, então não havia prévia
noção de certo e errado. E , se não havia capacidade de agir
de modo diferente, qualquer senso de certo e errado não
teria valor prático. Assim, para que a ética seja possível, deve
existir tanto a consciência quanto a autodeterminação. Em
suma, deve haver personalidade.
Os naturalistas dizem que a consciência e a autodetermi-
nação surgiram com o aparecimento dos seres humanos, tal
como a ética. Nenhum sistema ético pode ser derivado apenas
da natureza das "coisas" externas à consciência humana. Em
outras palavras, nenhuma lei natural está inscrita no cosmos.

88
O silêncio do espaço finito

Mesmo La Mettrie, que escreveu com uma nesga de ironia:


"A natureza nos criou a todos [homem e animais] unicamen-
te para sermos felizes", traindo as suas raízes deístas, foi um
convicto naturalista quanto à ética: "Você vê que a lei natural
é nada mais que um sentimento íntimo, pertencente à ima-
ginação, tal como todos os outros sentimentos, incluindo-se
o pensamento". La Mettrie concebia a imaginação de um
34

modo totalmente mecânico, de maneira que, para ele, a ética


tornou-se apenas em pessoas seguindo um padrão nelas in-
corporado como criaturas. Certamente, não há nada, seja lá
o que for, transcendente sobre a moralidade.
O Manifesto Humanista II afirma o local da ética natura-
lista em termos muito claros: "Nós afirmamos que os valores
morais possuem na experiência humana a sua fonte. A ética
é autónoma e situacional, não necessitando de qualquer san-
ção teleológica ou ideológica. A ética provém da necessidade
e interesse humanos. Negar isso é distorcer toda a base da
vida. A vida humana possui significado porque criamos e
desenvolvemos nosso futuro". A maioria dos naturalistas
35

conscientes concordaria com essa afirmação. Porém, exata-


Biente como o valor é criado fora da situação humana está
i.io distante de nosso alcance quanto o caminho a trilhar
para compreendermos a origem do universo.
A mais importante questão é: como o dever deriva do
ser!
A ética tradicional, ou seja, a ética do teísmo cristão, afir-
i i i .i .1 origem transcendente da ética e a posiciona na medida

Jo bem no Deus infinito e pessoal. Bom é o que Deus é,


C essa verdade tem sido revelada por inúmeras e distintas

89
O universo ao lado

maneiras, mais plenamente na vida, no ensino e na morte


de Jesus Cristo.
Os naturalistas, entretanto, não possuem esse apelo,
tampouco desejam fazê-lo. A ética constitui um domínio es-
tritamente humano. Assim a questão: como alguém vai do
fato da autoconsciência e autodeterminação na esfera do ser
e poder para a esfera do que deve ser ou deve ser feito?
Uma observação feita pelos naturalistas é que todas as
pessoas possuem uma noção de valores morais. Isso deriva,
conforme diz G . G . Simpson, da intuição ("o sentimento
de justiça sem uma investigação objetiva das razões para
esse sentimento e sem a possibilidade de testar a vetacidade
ou falsidade das premissas envolvidas" ), da autoridade e
36

da convenção. Ninguém cresce sem absorver os valores do


meio ambiente em que vive e, embora a pessoa possa rejei-
tar tais valores e pagar as consequências do ostracismo ou
martírio, raramente alguém é bem-sucedido em criar valores
totalmente divorciados de sua cultura.
E certo que os valotes diferem entre as diversas culturas,
e nenhum deles parece ser absolutamente universal. Desse
modo, Simpson argumenta em favor de uma ética baseada
em uma investigação objetiva e a encontra em um ajuste
harmonioso das pessoas, umas com as outras e com seus
respectivos meios ambientes. Tudo o que promove essa
37

harmonia é bom; o contrário é ruim. John Platt, em um


artigo que procura construir uma ética para o behaviorismo
de B. E Skinner, escreve:

Felicidade é ter reforços curtos congruentes com aqueles


médios e longos, e sabedoria é conhecer como alcançar

• 90
O silêncio do espaço finito

isso. Além disso, o comportamento ético surge quando os


reforços pessoais curtos são congruentes com os reforços
longos do grupo. Isso torna fácil 'ser bom' ou, mais precisa-
mente, "comportar-se bem". 38

O resultado disso é uma definição de boa ação como


aquela que recebe a aprovação do grupo e promove a sobrevi-
vência. Tanto Simpson como Platt optam pela continuidade
da vida humana como o valor acima de todos os outros. A
sobrevivência, portanto, é básica, porém, é a sobrevivência
humana que é afirmada como primária. 39

Ambos, Simpson e Platt, são cientistas conscientes da res-


ponsabilidade que possuem de serem plenamente humanos
e, portanto, de integrarem o conhecimento científico que
possuem e seus respectivos valores morais. Do lado das hu-
manidades, temos Walter Lippmann. Na obra, A Preface to
Morais [Um prefácio para moral](\929), Lippmann assume
a posição naturalista com respeito à origem e a ausência de
propósito do universo. Ele objetiva construir uma ética com
base no que assume ser o ponto de concordância central de
"todos os grandes mestres religiosos". Para Lippmann, o bem
sc revela como algo até agora reconhecido apenas pela elite,
uma "aristocracia voluntária do espírito". Ele argumenta
40

que essa ética elitista está agora se tornando mandatória para


iodas as pessoas, caso elas queiram sobreviver à crise de valo-
res dos nossos tempos.
O bem em si mesmo consiste no desinteresse - uma
forma de atenuar as "desordens e frustrações" do mundo
moderno, agora que os "ácidos da modernidade" têm corroí-
do a base tradicional para o comportamento ético. Torna-se

• 91 •
O universo ao lado

difícil sintetizar o conteúdo que Lippmann deposita na pa-


lavra desinteresse. A terça parte final de seu livro é dedicada a
isso. No entanto, é útil observar que a sua ética fundamenta-
se no compromisso pessoal de cada indivíduo de ser moral, e
que isso está totalmente divorciado do mundo dos fatos — da
natureza das coisas, em geral:

Uma religião que se fundamenta em conclusões particu-


lares nas áreas de astronomia, biologia e história, pode ser
fatalmente atingida pela descoberta de novas verdades.
Porém, a religião do espírito não depende de credos e das
cosmologias; não se reveste de interesse em nenhuma ver-
dade em particular. Não se preocupa com a organização da
matéria, mas com a qualidade do desejo humano. 41

A linguagem utilizada por Lippmann deve ser cuidadosa-


mente compreendida. Por religião, ele quer dizer moralidade
ou impulso moral. Por espírito, Lippmann quer significar a
faculdade moral presente nos seres humanos, que exalta as
pessoas acima dos animais e sobre outros, cuja "religião" é
meramente "popular". A linguagem do teísmo está sendo
empregada, porém, o seu conteúdo é puramente naturalista.
De todo modo, o que resta da ética é a afirmação de uma
elevada visão do certo, face a um universo que apenas existe
e não possui qualquer valor em si mesmo. Portanto, a éti-
ca é pessoal e escolhida. Que eu saiba, Lippmann não está
associado com os existencialistas, mas, como vetemos mais
adiante, no capítulo 6, sua versão da ética naturalista é, em
última análise, a deles.
Os naturalistas buscaram construir sistemas éticos em
uma ampla variedade de formas. Mesmo teístas cristãos
O silêncio do espaço finito

elevem admitir que muitas das reflexões éticas naturalistas


são válidas. Na realidade, os teístas não deveriam se mostrar
surpresos pelo fato de podermos aprender verdades morais
através da observação da natureza e do comportamento hu-
mano, pois se homens e mulheres foram feitos à imagem
de Deus, e se tal imagem não foi totalmente destruída pela
queda, então eles ainda deveriam refletir - ainda que vaga-
mente - algo da bondade de Deus.

Nat uralismo na prát ica: humanismo secular


Duas formas de naturalismo merecem uma atenção especial.
A primeira é o humanismo secular, um termo que passou a
ser usado e abusado tanto por adeptos quanto por críticos.
Por essa razão, algum esclarecimento quanto aos termos
se faz aqui necessário.
Primeiro, o humanismo secular, em geral, é uma forma
de humanismo, porém, não é a única. O humanismo em si é
a postura global de que os seres humanos possuem um valor
especial; seus anseios, pensamentos e aspirações são signi-
licantes. Igualmente, existe uma ênfase no valor da pessoa
como indivíduo.
Desde o movimento renascentista, pensadores de várias
convicções têm sido chamados, bem como se autodenomi-
nado, humanistas, havendo entre eles muitos cristãos. João
Calvino (1509-1564), Desidério Erasmo (1456-1536),
Edmund Spenser (1552?-1599), William Shakespeare
(1564-1616) e John Milton (1608-1674), os quais, sem
exceção, escreveram em uma cosmovisão teísta cristã, eram

93
O universo ao lado

humanistas, sendo, hoje em dia, algumas vezes, chamados


de humanistas cristãos. A razão para essa designação é pelo
fato de eles enfatizarem a dignidade humana, não contra
Deus, mas como derivada da imagem de Deus em cada
pessoa. Hoje, há muitos pensadores cristãos que desejam so-
bremaneira preservar a palavra humanismo de ser associada
às formas puramente seculares, que eles assinaram um ma-
nifesto humanista cristão (1982), declarando que os cristãos
sempre afirmaram o valor dos seres humanos. 42

Os princípios do humanismo secular estão bem expressos


no Manifesto Humanista II. O humanismo secular é uma
43

forma do humanismo que é totalmente estruturada dentro


da cosmovisão naturalista. É justo afirmar, creio eu, que
a maioria que se sente confortável dentro do rótulo "hu-
manista secular" encontrará suas visões retratadas nas seis
proposições anteriores. Em outras palavras, os humanistas
seculares são simplesmente naturalistas, embora nem todos
os naturalistas sejam humanistas seculares.

Nat uralismo na prát i ca: marxismo


A partir da última parte do século XIX, umas das formas
de naturalismo com maior relevância histórica tem sido o
matxismo. No entanto, a prosperidade do marxismo tem
44

decrescido ao longo dos anos; o colapso do comunismo no


leste europeu, bem como na antiga União Soviética, resultou
apenas em alguns poucos países "oficialmente" marxistas.
Não obstante, durante grande parte do século X X , uma
enorme área do globo foi dominada pelas ideias semeadas

• 94 •
O silêncio do espaço finito

pelo filósofo Karl Marx (1818-1883). Nos tempos atuais,


embora como ideologia, o comunismo aparente estar en-
fraquecido, inúmeras ideias de Marx se mantêm influentes
entre cientistas sociais e outros intelectuais no Ocidente.
Mesmo na Europa Oriental, os antigos comunistas, ainda
que comedidos e professando um compromisso com a de-
mocracia, parecem estar realizando um retorno ao cenário
político.
É difícil expressar com brevidade uma definição sobre o
marxismo, devido à existência de diferentes tipos de "mar-
xistas". Enormes distinções podem ser encontradas entre as
45

teorias marxistas de diversos tipos, variando desde pensado-


res humanistas e, de alguma forma, devotados à democracia,
até "stalinistas" do tipo linha-dura, que associam o marxis-
mo com o totalitarismo. Há outra grande diferença entre as
teorias marxistas de todos os tipos e a realidade da prática
marxista na antiga União Soviética, bem como em outros lu-
gares. Em teoria, supõe-se que o marxismo beneficie a classe
trabalhadora, capacitando-a a obter o controle económico
sobre a sua própria vida. Na realidade, porém, a rigidez bu-
rocrática da vida sob o comunismo levou a uma estagnação
económica, bem como à perda da liberdade pessoal.
Apesar de o marxismo reivindicar ser uma teoria cientí-
fica (tal como no nome "socialismo científico"), em geral,
essa reivindicação não tem sido aceita. De inúmeras ma-
neiras, é mais útil pensar no marxismo como um tipo de
humanismo, ainda que a maioria dos humanistas não seja,
claro, marxista. Embora o humanismo marxista possua
lemas caracteristicamente seus, o marxismo e o humanismo

95
O universo ao lado

secular, como formas de naturalismo, compartilham mui-


tas suposições.
Evidentemente, todas as formas de marxismo têm suas
origens concentradas nos escritos de Karl Marx. A questão
quanto aos "verdadeiros herdeiros" de Marx é acuradamen-
te disputada, porém, os marxistas mais humanistas podem,
decerto, referir-se a alguns temas importantes nos escritos
de Marx. Em um de seus primeiros ensaios, ele claramente
afirma que "o homem é o ser supremo para o homem". 46

Foi a partir desse tema humanista que Marx deduziu seu


imperativo revolucionário para a "destruição de todas aque-
las condições sob as quais o homem é um ser humilhado,
escravizado, abandonado e desprezível". 47

Karl Marx chegou ao seu humanismo por meio de um


encontro com dois importantes filósofos do século X I X :
Georg Wilhelm Friedrich Hegel (1770-1830) e Ludwig
Feuerbach (1804-1872). Afilosofiade Hegel era uma forma
de idealismo que ensinava a noção de que Deus ou "espí-
rito absoluto", não é um ser distinto do mundo, mas uma
realidade que se encontra em progressiva compreensão de si
mesmo no mundo concreto. Para Hegel, tal processo é dialé-
tico em sua natureza, isto é, ele progride através de conflitos
nos quais cada compreensão do espírito evoca seu próprio
"antagonista" ou "negação". Desse conflito, emerge uma
compreensão ainda mais elevada do espírito, que, por seu
turno, evoca sua negação e assim por diante. Em essência,
essafilosofiaé umafilosofiaaltamente especulativa da histó-
ria. Para o filósofo, o mais elevado veículo de expressão do
espírito era a sociedade humana, em particular, as modernas

• 96 •
O silêncio do espaço finito

sociedades quefloresciamnos estados capitalistas da Europa


Ocidental, no século X I X .
Já Feuerbach era um materialista que ficou famoso por
afirmar que os seres humanos "são o que comem", e que
a religião é uma invenção humana. Conforme sua visão,
Deus é uma projeção da potencialidade do homem, uma
expressão de nossos ideais inalcançáveis. A religião age de
maneira perniciosa, pois ao inventarmos Deus, nos devota-
mos a agradar essa nossa construção imaginária, ao invés de
trabalharmos para superar as deficiências que resultaram em
sua invenção, em primeiro lugar. Feuerbach estendeu a sua
crítica da religião ao idealismo filosófico de Hegel, enxer-
gando no conceito de "espírito" concebido por Hegel outra
projeção humana, ou seja, uma versão levemente seculariza-
da do Deus cristão.
Marx aceitou cabalmente a crítica de Feuerbach à religião,
resultando na presença do ateísmo na grande maioria das di-
versas formas de marxismo, até os dias atuais. Entretanto, ele
foi impactado pelo fato de que se as críticas de Feuerbach a
Hegel estivessem corretas, então a filosofia de Hegel ainda
poderia conter a verdade. Se o conceito de espírito de Hegel
é apenas uma projeção equivocada da nossa realidade huma-
na, então o processo dialético descrito por ele pode ser real,
tal como um filme que, ao ser projetado, pode fornecer um
retrato da realidade que foi filmada. É necessário apenas "vi-
rar Hegel ao contrário", convertendo a conversa idealista de
Hegel sobre espírito em conversa materialista de seres huma-
nos reais. Ao compreendermos que em Hegel estamos vendo
uma projeção, ou "filme", podemos interpretar essa visão de

97 •
O universo ao lado

um modo que a torne verdadeira. A história tem progredido


mediante o conflito no qual as partes envolvidas criam os
seus próprios antagonistas, e essa série de conflitos históricos
vai "para algum lugar". O alvo da história é uma sociedade
humana perfeita ou ideal, porém, é equivocado e confuso
chamar tal sociedade de "espírito".
Marx se autodenomina materialista e, de certo modo,
ele certamente o é. Apesat disso, Marx raramente fala sobre
matéria, e o seu materialismo é histórico e dialético. Prima-
riamente, é uma doutrina sobre a história humana, vendo
tal história como uma série de lutas dialéticas, onde fatores
económicos constituem os determinantes primários. Uma
vez que os seres humanos são materiais, suas vidas devem ser
compreendidas em termos da necessidade de trabalhar para
satisfazer as suas necessidades materiais.
Marx acreditava que a história humana tenha principia-
do com comunidades humanas relativamente diminutas,
organizadas em tribos familiares. A propriedade privada é
desconhecida; um tipo de comunismo primitivo ou natural
assegura a identificação dos indivíduos com a comunidade
como um todo, embora tais comunidades sejam pobres e
incapazes de fornecer condições para que seus integrantes
prosperem. A medida que as sociedades se desenvolvem
tecnologicamente, gradualmente ocorre uma divisão de
trabalho. Algumas pessoas na sociedade controlam as ferra-
mentas ou recursos dos quais a sociedade depende; isso lhes
propicia poder para explorar os demais. Portanto, as classes
sociais surgem, como resultado da divisão de trabalho e do
consequente controle sobre os meios de produção.

98 •
O silêncio do espaço finito

Para Marx, as classes sociais são os antagonistas dialéticos


gb liistória ao invés das realidades espirituais de Hegel. Para
lie, a história consiste na luta de classes. A partir do legado
(Us sociedades primitivas, o domínio das sociedades sempre
i' IH estado nas mãos dos que controlam os meios de pro-
dução. O processo pelo qual são criados os bens materiais
Que a sociedade demanda é a chave para compreendê-la. Tal
pro< esso é chamado por Marx como a "base" da sociedade.
Um sistema particular de produção de bens materiais, tal
Como uma agricultura feudal ou o capitalismo industrial,
produzirá uma estrutura de classe particular. Por seu turno,
iquela estrutura de classe depende do que Marx chamou de
u|)crestrutura" da sociedade: arte, religião, filosofia, mora-
lidade e, o mais importante, as instituições políticas.
As mudanças sociais acontecem quando um sistema de
I'indução "dialeticamente" promove o surgimento de um
Bovo sistema. A nova base económica "nasce" dentro do
VI IH te da superestrutura. As classes sociais dominantes da
H n iga ordem tentam manter o poder por mais tempo possí-
yeli valendo-se do estado para manter a sua posição. Pouco
,i pouco, entretanto, o novo sistema económico e a classe
I nu igente tornam-se cada vez mais poderosos. Como resul-
i .iclo, temos uma revolução na qual a antiga superestrutura
I iubstituída em favor de uma nova ordem política e social
Que melhor reflete a ordem económica subjacente.
A história do capitalismo claramente ilustra essas verdades,
•< l acordo com Marx. As sociedades feudais da Idade Média
ili 1.1111 lugar à moderna sociedade industrial, que constitui o
posto dialético. Por longo período, a aristocracia feudal
O universo ao lado

tentou preservar o seu poder, porém, na Revolução Francesa,


Marx viu o triunfo da nova classe média, que controlou os
meios de produção da sociedade capitalista. Não obstante,
algumas forças dialéticas que levaram ao capitalismo também
concorrerão para a sua destruição, pois o capitalismo deman-
da um grande contingente de trabalhadores sem propriedades,
o proletariado, para explorar. Conforme a compreensão de
Marx, as dinâmicas económicas do capitalismo, necessaria-
mente, conduzirão a uma sociedade na qual o proletariado
será cada vez mais numeroso e, por conseguinte, mais e mais
explorado. As sociedades capitalistas tornam-se crescentemen-
te mais produtivas, porém, a distribuição da riqueza é cada vez
menos abrangente. Com o passar do tempo, essa concentra-
ção de riqueza leva a uma sociedade na qual se produz mais do
que o poder de compra da população; a superprodução resulta
no desemprego e em mais sofrimento. Porfim,o proletariado
se vê forçado a promover uma revolta.
Para Marx, a revolta do proletariado será diferente de
qualquer outra revolução anterior. No passado, uma classe
social oprimida subjugava a classe opressora, tornando-se ela
o opressor. O proletariado, enttetanto, será a maioria, não
a minoria. Essa classe social não tem o interesse de manter
a antiga ordem de coisas, de modo que um de seus alvos é
abolir todo e qualquer sistema que inclua a opressão de clas-
ses. A abundância material criada pela tecnologia moderna
torna esse objetivo uma possibilidade real e concreta, pela
primeira vez na história da humanidade, uma vez que, sem
tal abundância, a luta, a competição e a opressão inevitavel-
mente reapareceriam sob novas formas.

100
O silêncio do espaço finito

A nova sociedade sem divisão de classes que emergirá


tornará possível o que os marxistas denominam de "o novo
indivíduo socialista". Supostamente, as pessoas serão me-
nos individualistas e competitivas, mais aptas a encontrar
satisfação no trabalho para favorecer a outros. A "alienação"
de todas as sociedades anteriores será superada, e uma nova
e superior forma de vida humana nascerá. Essa visão é, de
muitas maneiras, paralela à visão cristã da vinda do reino de
Deus e, portanto, torna-se fácil perceber por que alguns têm
caracterizado o marxismo como uma heresia cristã.
Pode-se facilmente ver por que essa visão de Marx atraiu
tantos por tanto tempo. Ele possuía uma profunda compre-
ensão da necessidade humana por uma genuína comunidade
e por satisfação no trabalho. Igualmente, era sensível não
apenas aos problemas da pobreza, mas à perda de dignida-
de que ocorre quando seres humanos são vistos meramente
como engrenagens de uma enorme máquina industtial. Ele
almejava uma sociedade na qual as pessoas podiam criati-
vamente expressar a si mesmas por meio do trabalho e ver
nele uma oportunidade de ajudar os outros, bem como a si
mesmas.
De maneira alguma é possível afirmar que, em determi-
nado momento, condições transformadoras não reacenderão
o interesse por Marx. Alguns teóricos, por exemplo, preocu-
pam-se pelo fato de haver, nos Estados Unidos, um crescente
vazio entre a elite económica e a grande massa de pessoas
que se encontram economicamente estagnadas, e que essa
crescente desigualdade possa tornar as teorias marxistas rele-
vantes novamente.

101
O universo ao lado

Por outro lado, existem também questões difíceis que


Marx não respondeu de maneira convincente. Claro que
um conjunto de questões cruciais lida com a realidade da
vida sob o comunismo. Como pode uma teoria que pare-
ce tão comprometida com a liberação humanista produzir a
desumanização e opressão vista no stalinismo? Certamente,
parte da resposta repousa nas mudanças que Vladimir Lênin
introduziu ao marxismo. Karl Marx previu que o socialismo
se desenvolveria nas sociedades mais avançadas economica-
mente, como Inglaterra e Estados Unidos; e ele depositava
pouca fé na possibilidade de o socialismo se estabelecer em
um país pouco desenvolvido como a Rússia. Lênin acredita-
va que se a sociedade fosse rigidamente controlada por um
partido comunista monolítico, isso compensaria o atraso
económico. Assim, muitos marxistas ocidentais se renderam
ao argumento do "socialismo democrático" de que o estilo
comunista-leninista era uma forma herética do marxismo e
que as próprias ideias de Marx jamais foram consideradas.
Não obstante, mesmo se alguém ignorar a realidade da
vida sob o controle comunista e os horrores do Gulag, há
muitos aspectos nos quais as ideias marxistas parecem vul-
neráveis. Uma preocupação crucial é sua crença de que a
história humana está se movendo rumo a uma sociedade ide-
al. Ao abandonar qualquer crença religiosa na providência,
bem como na crença de Hegel no espírito absoluto como
subjacente à história, Marx despiu-se de qualquer base real
para alimentar tal expectativa, fundamentando a sua própria
esperança no estudo empírico da história, em particular, em
sua análise das forças económicas. Entrementes, muitas das

102
O silêncio do espaço finito

predições de Marx, como a sua afirmação de que os traba-


lhadores em países capitalistas avançados tornar-se-iam cada
vez mais empobrecidos está longe de se concretizar. Pode
algum cientista social, marxista ou não, prever com exatidão
o futuro?
Um segundo problema para Marx diz respeito à nos-
sa motivação ao trabalho, visando a futura sociedade, em
especial, quando reconhecemos que essa sociedade é ab-
solutamente inevitável. Por que deveria trabalhar em prol
de uma sociedade melhor e tentar exterminar a exploração
social? Marx rejeita qualquer valor moral como base para
tal motivação. Como naturalista, ele entende a moralidade
apenas como um produto da cultura humana. Não há valo-
res transcendentais que possam ser usados como base para
avaliar a cultura de maneira crítica. Ainda assim, Marx vê a
si mesmo imbuído de indignação moral ao ver os excessos
do capitalismo. Que base Matx utiliza para condenar o ca-
pitalismo se tais noções morais como "justiça" e "igualdade"
são apenas invenções ideológicas?
Dois problemas finais graves para Marx repousam em
sua visão da natureza humana, bem como em sua análise
do problema fundamental do homem. Para ele, os seres hu-
manos são fundamentalmente auto-criativos; criamos a nós
mesmos por meio de nosso trabalho. Quando nossa labuta
ou atividade de vida é alienada, nós nos tornamos alienados,
porém, quando nosso trabalho torna-se verdadeiramente
humano, igualmente seremos humanos. A ganância, a com-
petição e a inveja emergirão em função das divisões sociais e
da pobreza; uma sociedade ideal exterminará esses males.

103 •
O universo ao lado

A questão é se a visão de Marx quanto à natureza hu-


mana e sua análise do problema do homem vão fundo o
suficiente. Realmente é plausível pensar que o egoísmo e a
ganância são apenas produtos da escassez e da divisão de
classes? É realmente possível tornar os seres humanos em
seres fundamentalmente bons se tivermos o meio ambiente
adequado para eles? Se olharmos tanto para as sociedades ca-
pitalistas quanto para as assumidamente socialistas, veremos
que a história parece nos ensinar que os seres humanos são
muito criativos em descobrir maneiras de manipular qual-
quer sistema em seu próprio e egoísta benefício. É possível
que o problema com a natureza humana esteja mais profun-
damente arraigado do que supôs Marx. E isso pode expor
outro problema com respeito à sua visão dos seres humanos:
somos seres puramente materiais?
Certamente, Marx estava correto em enfatizar o trabalho
e os fatores económicos como elementos crucialmente im-
portantes no processo de modelagem da sociedade humana,
mas a vida humana vai além da economia. Por certo, muitos
jovens nos países mais avançados economicamente lutam
para encontrar propósito e significado para suas vidas. O
marxismo, como todas as formas de naturalismo, enfrenta
um período difícil na tentativa de prover tal significado e
propósito para os seres humanos.

A persist ência do nat uralismo


Ao contrário do deísmo, o naturalismo tem apresentado um
grande poder de permanência. Concebido no século X V I I I ,

104
O silêncio do espaço finito

ele se desenvolveu no século X I X , chegando à maturidade no


século X X . Embora os sinais da idade estejam agora surgin-
do e os corneteiros pós-modernos sinalizem a morte da razão
do iluminismo, o naturalismo ainda está muito vivo, pois
domina as universidades, as faculdades e escolas secundárias.
Isso fornece o quadro para a maioria dos estudos científicos;
isso expõe o pano de fundo no qual a humanidade prossegue
em sua luta para obter o valor humano, enquanto escrito-
res, poetas, pintores e artistas, em geral, estremecem diante
de suas implicações. Ele é visto como o grande vilão da
48

vanguarda pós-moderna. Todavia, até o momento, nenhu-


ma cosmovisão rival tem sido capaz de fazer-lhe frente, em
que pese ser justo afirmar que o século X X forneceu algumas
opções poderosas e o teísmo esteja experimentando um tipo
de renascimento em todos os níveis da sociedade.
Mas, então, o que torna o naturalismo tão persistente?
Existem dois motivos básicos. Primeiro, ele dá a impres-
são de ser honesto e objetivo. A pessoa é solicitada a aceitar
apenas o que parece estar fundamentado em fatos e nos re-
sultados seguros da investigação científica ou da erudição.
Segundo, para um grande contingente de pessoas, o natura-
lismo parece coerente. Para elas, as implicações das premissas
naturalistas são extensamente trabalhadas e consideradas
aceitáveis. O naturalismo assume a inexistência de qualquer
deus, espírito ou vida além-túmulo, vendo os seres humanos
como formadores de valor. Muito embora tal noção não per-
mita que sejamos considerados como o centro do universo
por virtude de propósito, ela permite que nos coloquemos
no centro, fazendo de nós e para nós algo de valor. Como

105
O universo ao lado

afirma Simpson: "O homem é o animal mais elevado. O fato


de ele ser o único capaz de fazer tal julgamento é, por si só,
parte da evidência de que essa decisão é correta". Depende
4y

de nós, então, desenvolver as implicações da posição espe-


cial que ocupamos na natureza, controlando e alterando, o
quanto possível, a nossa própria evolução. 50

Tudo isso é deveras atraente. Se o naturalismo fosse re-


almente conforme é descrito, talvez devesse ser chamado
não apenas de atraente ou persistente, mas de verdadeiro.
Poderíamos, então, prosseguir em busca de suas virtudes e
transformar o argumento deste livro em um tratado de nos-
sos tempos.
Contudo, muito antes do término do século XX, racha-
duras começaram a surgir na estrutura. Os críticos teístas
sempre encontraram falhas nela, jamais abandonando as
suas convicções de que um Deus infinito e pessoal está por
detrás do universo. Suas críticas podem ser ignoradas por
serem consideradas pouco esclarecedoras ou meramente
conservadoras, como se estivessem com receio de se lança-
rem nas inexploradas águas da nova verdade, porém, havia
muito mais em ação além disso. Como veremos em detalhes
no próximo capítulo, bem como no capítulo nove sobre o
pós-modernismo, surgiram rumores de descontentamento
dentro do campo dos próprios naturalistas. Os fatos nos
quais o naturalismo foi fundamentado - a natureza do uni-
verso exterior, sua continuidade fechada de causa e efeito
- não estavam em questão. O problema era a coerência. Te-
ria o naturalismo nos fornecido uma razão adequada para
nos consideramos dotados de valor? Únicos, talvez, porém,

106
O silêncio do espaço finito

os gorilas também são singulares, tal como cada categoria da


natureza. O valor foi a primeira questão incómoda. Poderia
um ser surgido ao acaso ter dignidade?
Segundo, poderia um ser cujas origens eram tão "questio-
náveis" confiar em sua própria capacidade de conhecimento?
i iazendo a questão para o âmbito pessoal: se a minha mente
é adjacente ao meu cérebro, se "eu" sou apenas uma máqui-
na pensante, como posso confiar em meu pensamento? Se a
Consciência é um fenómeno consequente da matéria, talvez o
surgimento da liberdade humana que apresenta a base para a
moralidade seja um fenómeno resultante do acaso ou de uma
lei inexorável. Talvez o acaso ou a natureza das coisas tenha
apenas incutido em mim o "sentimento" de que sou livre, mas
na verdade eu não sou.
Essas e outras questões similares não surgiram fora da cos-
movisão naturalista, mas são inerentes a ela. Os receios que
tais questões alimentaram em algumas mentes levaram dire-
i a mente ao niilismo, que tentarei chamar de cosmovisão, mas
que na realidade é uma negação de todas as cosmovisões.

107
Capítulo cinco

MARCO ZERO

N i i l i sm o

Se me despojasse desse casaco esfarrapado


E seguisse livre ao poderoso céu ;
Se n ada encontrasse lá
Excet o u m vasto azul,
Silen cioso e ign oran te,
E en t ão?

St ephen Crane, The Black Riders


and O t hers Lines [O s cav aleiros negros e out ras linhas]

O NIILISMO É MAIS U M SEN TIM EN TO que p r op r iam e n t e u m a


filosofia. Sen do m ais pr eciso, o n i i l i sm o, de for m a
algu m a, é u m a filosofia, m as u m a n e gação dela, da possibi-
lidade de con h ecim en t o e de t u do aqu ilo que possui valor .
A o avan çar par a a absolu t a n e gaç ão de t u d o, o n iilism o nega
at é m esm o a r ealidade de su a p r ó p r i a exist ên cia. E m out r as
O u n i v e r so ao l ad o

palavr as, o n i i l i sm o é a n e ga ç ã o de t odas as coisas - con h e-


cim e n t o, ét ica, beleza, r ealidade. N o n i i l i sm o n e n h u m a
afir m ação possu i validade; n ad a t em sign ificado. An t e s, t u do
é gr at u it o, d isp e n sáve l, isto é, apen as exist e.
Aqu eles que p er m an ecem in sen síveis pelos sen t im en -
tos de desespero, an siedade e t é d io , associados ao n i i l i sm o ,
t alvez ach em difícil im agin ar qu e ele poder ia ser u m a "cos-
m o v i sã o " con sider ada c o m seriedade. M a s ele o é e m u i t o
b em por t odo aquele que deseja com pr een d er os sécu los X X
e X X I , a fim de exper im en t ar , ain d a que in d ir et am en t e, algo
do n i i l i sm o com o u m a post u r a an t e a exist ên cia h u m a n a .
A s galerias de arte m od e r n a est ão repletas de seus p r od u -
tos - com o se fosse possível falar de algo (objet os de ar t e)
pr oven ien t es do n ada (ar t ist as qu e, se exist em , n egam o v a-
lor su pr em o de su a p r ó p r i a exist ên cia). C o m o ver em os m ais
adian t e, n e n h u m a arte é, n o fim das con t as, n iilist a, p o r é m
algum as p r ocu r am in cor p or ar m u it as das car act er íst icas
n iilist as. O u r i n o l de por celan a c o m u m de M ar e e i D u c h a m p ,
en con t r ad o e m qu alqu er loja do gé n e r o , assin ado co m u m
n om e fictício e r ot u lado com o "A Fo n t e ", con st it u i u m b o m
pon t o de p ar t id a. A s p e ças de Sam u e l Beck et t , e m especial,
Fim de jogo e Esperando Godot, são exem plos expon en ciais n a
arte d r am át i c a . P o r é m , a arte n iilist a de Beck et t t alvez t en h a
al c an ç ad o o seu auge e m Breath (Su sp ir o), u m a p e ç a de t r i n -
t a e cin co segun dos que dispen sa atores h u m an os. O ce n ár io
é c o n st i t u í d o de u m a p i l h a de en t u lh o n o palco, i l u m i n a d a
por u m a lu z que c o m e ç a a d i m i n u i r de in t en sidade, par a
depois au m en t ar (m as jam ais plen am en t e) e, e n t ã o , regre-
d ir at é a t ot al e scu r i d ão . N ã o h á palavr as, apen as u m ch or o

110
Marco z ero

"gr avado" n a aber t u r a d a p e ça, u m a in sp ir ação e e xp ir ação ,


e o m esm o lam en t o i n i ci al , en cer r an do a ap r e se n t ação. P ar a
Beck et t , a v i d a é com o t al "su spir o".
Dou glas Ad a m s, e m seus r om an ces c ó sm i c o s de ficção
cien t ífica, r et r at a a sit u ação dos que b u scam n a ciên cia d a
c o m p u t a ç ã o u m a respost a ao sign ificado do h o m e m . E m
suas obr as, O guia do mochileiro das galáxias, O restaurante
do fim do universo, Vida, O universo e tudo o m ais, alé m de,
Até m ais, e Obrigado pelos peixes, Ad a m s n os con t a a h ist ór ia
do u n iver so a p ar t ir do p on t o de vist a de qu at r o viajan t es
do t em po que pegam car on a, in d o par a t r ás e par a fr en t e,
pelo t em po e e sp aço in t er galáct ico, d a cr iação n o Big Bang
à d e st r u ição do u n iver so. 1 N o decu r so d a h ist ór ia, u m a r aça
de seres p an d im en sion ais e h iper in t eligen t es (n a ver dade,
cam u n d on gos) desen volve u m com p u t ad or gigan t esco ("do
t am an h o de u m a pequ en a cid ad e"), par a r espon der "A ques-
t ão fu n d am e n t al d a vid a, do u n iver so e t u do o m ais". Esse
com pu t ad or , a q u e m d e n o m i n a m de P en sam en t o P r ofu n d o,
leva sete m i l h õ e s e m e io de an os n os cál cu l o s. 2

"P or sete m ilh ões e m eio de an os, Pen sador P r ofu n d o com -
p u t ou e calcu lou e, por fim, an u n ciou que a resposta de fato
era 4 2 - assim ou t r o com pu t ad or ain da m aior teve que ser
con st r u íd o par a descobr ir qu al era a per gu n t a afin al.
E esse com pu t ad or , que foi ch am ad o de Te r r a, er a t ão
gr an de que fr equ en t em en t e er a con fu n d id o c o m u m pla-
n et a — especialm en t e pelos est r an h os seres par ecidos com
macacos que p e r am b u lavam por su a su p er fície, t ot alm en t e
ign or an t es do fato de que sim plesm en t e faziam par t e de u m
gigan t esco p r ogr am a de com pu t ad or .

• 111 •
O u n i v e r so ao l ad o

O que é m u i t o est r an h o, pois sem o con h e cim e n t o desse


fato b ási co e r azoavelm en t e ó b v i o , n ad a do que acon t ecia n a
Te r r a pod er ia fazer o m e n o r sen t ido. In felizm en t e, p o r é m ,
pou co an tes do m o m e n t o cr ít ico da c o n c l u são do pr ogr am a
e leit u r a do r esu lt ado, a Te r r a foi in esper adam en t e d em olid a
pelos Vogon s par a dar lu gar — er a o qu e alegavam - a u m a
v i a expressa estelar, e assim qu alqu er e sp e r an ça de descober-
t a de u m sen t ido par a a v i d a se per deu par a sem pr e. O u era
o que p ar e cia."3
A o final d a segu n da ob r a, os viajan t es do t em po desco-
b r i r a m que a "q u e st ão e m si " ( A q u e st ão fu n d am en t al da
vid a, do u n iver so e t u do o m ais) é "Q u a l o r esult ado de seis
vezes n ove ". 4 Assi m , eles descobr em que t an t o a per gu n t a
qu an t o a respost a são fú t eis. N ã o apen as 4 2 é u m a respos-
t a sem sen t ido par a a q u e st ão do p on t o de vist a h u m a n o
(d a per spect iva de p r o p ó si t o e sign ificad o), com o t a m b é m
é m a t e m á t i c a das pior es. A m ais r acion al das d isciplin as
u n iver sit ár ias foi r ed u zid a ao absu r do.
Já n o final do t er ceir o v o l u m e , e n con t r am os u m a e xp l i -
c a ç ã o d a r azão p or qu e, p e r gu n t a e r espost a p ar ecem n ã o se
en caixar u m a à ou t r a. P r ak , o per son agem que se su p u n h a
con h ecer o sen t id o final, afir m a: " E u lam e n t o d izer - falou
p or fim - que a p e r gu n t a e a r espost a sã o m u t u a m e n t e
exclu sivas. P or l ó gi ca, o co n h e ci m e n t o de u m a im p e d e o
co n h e ci m e n t o d a o u t r a. É i m p o ssí v e l qu e am bas p ossam
ser con h ecid as n o m e sm o u n i v e r so ". 5 ( A q u i os est u dan t es
de física p od e m det ect ar u m jogo c o m o p r i n c í p i o d a i n -
cer t eza de H e ise n b e r g, e m qu e a p o si ç ã o e o m o m e n t o de
u m e lé t r on p od e m ser am b os con h ecid os, p o r é m n ã o c o m
p r e cisão ao m e sm o t e m p o ).

112
Marco z ero

P or t an t o, pod em os saber as respostas, com o 4 2 , que n ad a


sign ificam sem as q u e st õ e s. O u podem os ter as q u e st õ e s
(que d ã o d ir e ção à n ossa b u sca), p o r é m n ã o podem os ter
am bos. O u seja, n ã o podem os satisfazer n osso an seio pelo
sign ificado final.
Le r Sa m u e l Be ck e t t , Fr a n z Ka fk a , Eu ge n e I on esco,
Joseph H e lle r , Ku r t Vo n n e gu t Jr . e, m ais r ecen t em en t e,
Dou glas Ad a m s, é c o m e ç a r a sen t ir - se a l g u é m já n ã o se
se n t iu assim e m n ossa d e p r im e n t e er a - a a n gú st i a do vazio
h u m a n o , de u m a v i d a qu e é d espr ovid a de valor , de p r o p ó -
sit o, de sign ificad o. 6
M a s, com o a l gu é m sai do n at u r alism o par a o n iilism o?
N ã o era o n at u r alism o a leit u r a i l u m i n a d a dos r esult ados
gar an t idos d a ciên cia e in ve st igação in t elect u al aberta?
C o m o c o sm o v i sã o , n ã o con fer ia aos seres h u m an o s a sua
sin gu lar idade en t r e t odas as coisas n o cosmos? N ã o m ost r ava
a d ign id ad e e o valor h u m an o? C o m o o áp i ce d a cr iação, os
ú n icos seres au t ocon scien t es e au t odet er m in ados n o u n iver -
so, h om en s e m u lh er es d o m i n a m sobre t u d o, sã o livr es par a
valor izar o que desejam , livr es at é m esm o par a con t r olar o
fu t u r o de su a p r ó p r i a e volu ção. O que m ais a l gu é m poder ia
alm ejar ?
A m ai o r i a dos n at u r alist as se satisfaz e m finalizar a su a i n -
vest igação aqu i, pois, n a ver dade, n ã o qu er em ir al é m . P ar a
eles, n ã o h á r ot a par a o n iilism o.
N o en t an t o, par a u m gr an de n ú m e r o de pessoas, os re-
sult ados d a r azão n ão são t ão gar an t idos, o u n iver so fech ado
est á se r est r in gin d o, a n o ç ã o de m or t e com o e xt in ção é psi-
cologicam en t e per t u r bad or a, n ossa p o si ç ã o com o o ser m ais

113-
O u n i v e r so ao l ad o

elevado da cr iação é vist a ou com o u m a alien ação do u n i -


ver so ou com o u m a u n i ão c o m ele de m od o que n ão t em os
m aior valor que u m seixo n a pr aia. N a ver dade, os seixos "v i -
v e m " m ais! Q u e pon t es levam de u m n at u r alism o que afir m a
o valor da v i d a h u m a n a par a u m n at u r alism o que n ão o faz?
C o m o exat am en t e su r giu o n iilism o?
O n iilism o n ão su r giu por qu e os t eíst as e deíst as descon si-
der ar am o n at u r alism o, pois o n iilism o é filho n at u r al desse.

A p r i m ei r a p o n t e: n ecessi d ad e e acaso

A p r i m e i r a e m ais b ásica r azão par a o n iilism o pode ser en -


con t r ad a n as i m p l i caçõ e s dir et as e lógicas das p r o p o si ç õ e s
p r i m ár i as do n at u r alism o. Per ceba o que acon t ece ao con cei-
to da n at u r eza h u m a n a qu an d o a l gu é m con sider a ser iam en t e
as n o ç õ e s de que (1) a m at é r ia exist e et er n am en t e e é t u d o
o que h á, e que (2) o cosm o oper a c o m u m a u n ifor m id ad e
de cau sa e efeito e m u m sist em a fech ado. Isso sign ifica que
o ser h u m a n o é par t e de u m sist em a. M u i t o em b or a possam
n ão com pr een d er as i m p l i caçõ e s par a a liber dade h u m an a ,
os n at ur alist as con cor d am , com o vim os n a p r o p o si ç ã o 3 do
cap í t u l o qu at r o: Os seres humanos são máquinas complexas
cuja personalidade é uma inter-relação de propriedades quími-
cas e físicas ainda não totalmente compreendidas. Niet zsch e,
en t r et an t o, d á o b r aço a t or cer e r econ h ece a per da d a dig-
n idade h u m an a:

Se alguém fosse onisciente, seria capaz de calcular cada ação


in dividual [humana] antecipadamente, cada passo no pro-
gresso do conhecimento, cada erro, cada ato de malícia.

114
Marco z ero

Sem dúvida, o h omem atuante é surpreendido em sua ilusão


de vontade; se a roda do mun do tivesse que parar, ainda que
por u m momen to, e uma mente onisciente e calculista esti-
vesse lá para aproveitar-se dessa in terrupção, ela seria capaz
de relatar o futuro lon gín quo de cada ser e descrever cada
giro que a roda dará. O delírio do h omem sobre si mesmo,
sua suposição de que o livre-arbítrio existe, t am bém faz parte
do mecanismo de cálculo. 7

A i n d a assim , m u it os n at u r alist as t e n t am sust en t ar a


liber dade h u m a n a e m u m sist em a fech ado. O ar gu m en t o
deles segue essa lin h a. To d o even t o n o u n iver so é pr ovocado
por um estado an t er ior de at ividades, in clu in d o- se a
fo r m a ç ã o gen ét ica, a c o n d i ç ã o am b ie n t al de cada pessoa e
at é m esm o os seus an seios e von t ades pessoais. P o r é m , cada
pessoa é livr e par a expressar t ais desejos e von t ades. Se e u
t en h o von t ade de com er u m san d u í c h e e h á u m a lan ch on et e
logo al i , n a esqu in a, posso escolh er c o m ê - l o . Se o m e u desejo
é r ou b ar o san d u í c h e qu an d o o d on o n ã o est iver olh an d o,
posso fazê- lo. N a d a r est r in ge m i n h a escolh a. So u eu q u e m
d e t e r m in a as m in h as p r óp r ias ações.
P or t an t o, os seres h u m an o s que são ob viam en t e au t o-
- con scien t es e, ao que par ece, au t od et er m in ad os, p od em
agir de m od o sign ificat ivo e ser con sider ados r esp on sáveis
p or seus atos. Pelo r ou bo do san d u í ch e posso ser preso e
obr igado a c u m p r i r a p en a r espect iva.
M a s, as coisas são sim ples assim? M u i t o s pen sam que
n ã o . A q u e st ão da liber dade h u m a n a é m ais pr ofu n d a que
a visão dos n at u r alist as. P or cer t o, posso fazer t u d o aqu i-
lo qu e desejo, m as o que eu qu er o é r esult ado de sit u açõe s

115
O u n i v e r so ao l ad o

passadas, sobre as qu ais, n o fim das con t as, n ã o exer ço con -


t r ole algu m . E u n ã o escolh i livr em en t e a m i n h a fo r m a ç ão
ge n é t ica p ar t icu lar o u m e u am bien t e fam iliar or igin al. A o
t em po que in d agu ei se er a livr e par a agir con for m e desejasse,
já estava t ão m old ad o pela n at u r eza e pela m i n h a e d u c a ç ã o
que o p r ó p r i o fato de a q u e st ão ter su r gido e m m i n h a m e n -
te foi d et er m in ad o. Ist o é, o m e u eu foi d et er m in ad o por
for ças ext er n as. Posso, de fat o, fazer tais qu est ion am en t os,
eu posso agir de acor do c o m m in h as von t ades e desejos e
posso par ecer a m i m m esm o livr e, p o r é m isso é só ap ar ê n cia.
Niet zsch e est á cer t o: " O d elír io do h o m e m sobre si m esm o,
su a su p o si ç ão de que o livr e- ar bít r io exist e, t a m b é m faz par-
te do m ecan ism o de cálcu lo".
O pr oblem a é que se o u n iver so for ver dadeir am en t e
fech ado, en t ão a sua at ividade pode apen as ser gover n ada por
den t r o. Q u alqu er for ça que atue par a m odificar o cosm o, seja
e m que n ível for (m icr oscóp ico, h u m an o o u m acr o scó p i co ),
faz parte do p r óp r io cosm o. P or t an t o, par ecer ia h aver u m a
única explicação par a as m u d a n ç a s: o estado de coisas at u al
deve gover n ar o estado fu t u r o. E m out ras palavr as, o presen te
deve causar o fu t u r o que, por seu t u r n o, deve pr ovocar o p r ó-
xi m o fu t u r o, e assim por dian t e.
A o b je ç ã o de que e m u m u n iver so ein st en ian o de t em -
po- r elat ividade é im p ossí ve l defin ir a sim u lt an eid ad e, e que
ligações causais são im p ossíve is de pr ovar n ã o é o pon t o aqu i.
N ã o estamos falan do sobre com o os even t os est ão ligados
u n s aos ou t r os, apen as obser van do que eles est ão con ect a-
dos. Even t os ocor r e m e m c o n se q u ê n c i a de ou t r os even t os
ocot r idos an t es. To d a e qu alqu er at ividade n o u n ivet so est á

• 116-
Marco z ero

con ect ada dessa for m a. Talvez n ã o n os seja p ossível con h ecer
qu ais são essas co n e xõ e s, m as a pr em issa de u m u n iver so
fech ado n os for ça a con clu ir que elas t ê m de exist ir .
A l é m do m ais, h á e vid ê n cias de que tais co n e xõ e s r eal-
m en t e exist em , pois p a d r õ e s de even t os são p er cep t íveis,
sen do que algu n s even t os p od em ser pr evist os do pon t o de
vist a de t em po terrestre quase que c o m absolu t a p r ecisão.
Por exem p lo, é possível pr ever c o m e xat id ão qu an d o e on de
o p r ó x i m o eclipse ocor r er á. P ar a cada eclipse a ocor r er n os
p r ó x i m o s qu in ze sécu los é possível pr ever e rast rear a som -
br a exat a, n o t em po e e sp aço , sobre a su p er fície d a t er r a.
A m ai o r i a dos even t os n ão pode ser pr evist a, m as pres-
su p õ e - se que a im p r evisib ilid ad e existe apen as por qu e
todas as var iáveis e suas in t er - r elações n ã o são con h ecidas.
De t e r m in ad os even t os são m ais pr evisíveis que ou t r os, po-
r ém n e n h u m é incerto. C a d a even t o deve v i r a ser.
E m u m u n iver so fech ado, a possibilidade de algu m as coi-
sas n ecessit ar em n ã o ser, de m od o que out r as sejam p ossíveis,
n ão é possível. Pois a ú n i c a m an e ir a de ocor r er u m a m u d a n -
ça é por m eio de u m a for ça e m m o v im e n t o par a causar t al
m u d a n ç a , e a ú n i ca m an e ir a de essa for ça su r gir é se ela for
m o v i d a por ou t r a for ça, ad infinitum. N ã o h á r u pt u r as n essa
cadeia, d a et er n idade passada à et er n idade fu t u r a, par a t odo
o sem pr e, a m é m .
P ar a u m a pessoa c o m u m , o d e t e r m in ism o n ã o parece ser
p r ob lem a. E m ger al, per cebem o- n os com o agen tes livr es,
p o r é m a n ossa p e r c e p ç ão é u m a ilu são. Apen as n ã o sabemos
qu al a "cau sa" que n os le vou a decidir . Al go o fez, clar o, mas
sen t im os que foi n ossa liber dade de escolh a. Essa p e r ce p ção

• 117 •
O u n i v e r so ao l ad o

de liber dade - se a l gu é m n ã o pen sa m u i t o em suas im p lica-


ções - é su ficien t e, pelo m en os de acor do c o m algu n s. 8
E m out r as palavr as, e m u m u n iver so fech ado, a lib er d a-
de deve ser u m a determinável desconhecida, e par a os qu e
r eflet em sobre suas i m p l i caçõ e s, n ã o bast a apen as p e r m it ir
a a u t o d e t e r m i n a ç ã o o u a r espon sabilidade m or al . Se r ou bei
u m ban co, e m ú l t i m a an álise, isso ocor r eu d evid o à ação de
for ças in exor áveis (em b or a im p e r ce p t í ve is), in flu en cian d o as
m in h as d ecisões de t al m od o que eu n ã o poder ia con sider ar
tais d ecisões com o m i n h as. Se essas d ecisões n ã o são m i n h as,
n ão posso ser con sider ado r esp on sável p or elas. E esse ser ia o
caso c o m respeito a cada ação pessoal.
Assi m , u m ser h u m a n o é u m m er o elem en t o da m aq u i -
n ar ia, u m b r in qu ed o — m u i t o com p licad o e com p lexo, m as
u m b r in qu ed o de for ças có sm i cas im pessoais. A au t ocon sci-
ên cia da pessoa é apen as u m e p i fe n ô m e n o , apen as par t e d a
m aq u in ar ia olh an d o par a si m esm a. P o r é m , con sciê n cia é
apen as par t e do m e can ism o; n ão exist e o "e u " for a dela. N ã o
h á "ego" que possa se colocar con t r a o sist em a e m a n i p u l á - l o
con for m a su a von t ad e
A su a "von t ad e" é a von t ade do cosm o. Nesse qu ad r o,
a p r o p ó si t o , t emos u m a excelen t e d e scr ição dos seres h u -
m an os con for m e a visão do p si có l o go com p or t am e n t al B.
E Sk in n er . P ar a p r om over m u d a n ç a s n as pessoas, d iz ele,
m u d e o am b ien t e delas, as co n t i n gê n ci as sob as qu ais elas
agem , as for ças at uan t es sobre elas. A pessoa deve r espon der
n a m e sm a m oeda, pois, n a visão de Sk in n er , cada pessoa é
apen as reagen te: " U m a pessoa n ã o age n o m u n d o , m as o
m u n d o é qu e age sobr e ela". 9

118 •
Marco z ero

O s n iilist as seguem esse ar gu m en t o, que agor a pode ser


expresso br evem en t e: O s seres h u m an os são m á q u i n a s con s-
cien t es sem a capacidade de afetar os seus p r ó p r i o s dest in os
o u r ealizar algo sign ificat ivo; p or t an t o, os seres h u m an os
co m o seres de valor e st ão m or t os. A vid a deles é o "fô l e go"
da p e ça de Beck et t , n ão a v i d a que De u s "sop r ou " n o p r im e i-
ro h o m e m , n o ja r d i m do Ed e n (Gé n e sis 2 . 7 ) .
Talve z o cu r so de m e u ar gu m en t o t en h a sido m u it o r á-
pid o. Se r á que esqueci algu m a coisa? Al gu n s n at u r alist as
cer t am en t e d i r i am que si m . Eles d i r i am que m e equ ivoqu ei
qu an d o disse que a ú n ica e xp licação par a a m u d a n ç a é a con -
t in u id ad e de cau sa e efeit o. Por exem plo, Jacqu es M o n o d
at r ib u i todas as m u d a n ç a s b ásicas - cer t am en t e, o su r gim en -
to de algo gen u in am en t e n ovo, ao acaso. E os n at u r alist as
ad m i t e m que n ovas coisas v ê m a exist ir at r avés de in con t áveis
t r ilh ões: cada et apa n a escala e volu cion ár ia do h i d r o gé n i o ,
car b on o, oxigé n io , n i t r o gé n i o e assim por dian t e e m associa-
ção livr e at é a fo r m a ç ão de a m i n o á c i d o s com plexos e ou t t os
blocos b ásicos for m ador es de vid a. A cada ciclo, e isso foge
ao n osso cálcu lo - o acaso in t r o d u zi u a n ovidade. En t ã o , a
n ecessidade, ou o que M o n o d ch am a de "a m aq u in ar ia da
in var iân cia", en t r ou e m ação e d u p licou o p a d r ã o de acaso
p r od u zid o. P au lat in am en t e, ao lon go de m u it as eras e por
m eio d a c o o p e r aç ão en t r e o acaso e a n ecessidade, a vid a
celular , a vid a m u lt icelu lar , o r ein o veget al e an i m al e os se-
res h u m an os su r gi r am . 1 0 Logo, o acaso é ofer ecido com o o
gat ilh o que levou ao su r gim en t o da h u m an id ad e .

M a s, o que é o acaso? O u o acaso é a in exor ável p r op en -


são de a r ealidad e acon t ecer co m o acon t ece, ap ar en t an d o

119-
O u n i v e r so ao l ad o

ser ao acaso por qu e n ã o con h ecem os a r azão pelo qu e acon -


t ece (d an d o o n o m e de acaso à n ossa i gn o r â n c i a das for ças
do d e t e r m i n i sm o ), o u ele é ab solu t am en t e i r r a c i o n a l . " N o
p r i m e i r o caso, o acaso apen as é o d e t e r m i n i sm o desco-
n h e cid o e n ã o lib er d ad e de m a n e i r a algu m a. N a segu n d a
alt er n at iva, o acaso n ã o é u m a e xp l i c a ç ã o , m as a a u sê n c i a
d e l a . 1 2 U m even t o ocor r e. N e n h u m a cau sa pod e ser det er -
m i n a d a . Est e é u m even t o ao acaso. N ã o apen as t al even t o
p od e r ia n ã o t er acon t ecid o, co m o su a o c o r r ê n c i a p od er ia
jam ai s ser esper ada. A ssi m , e m b o r a o acaso p r o d u za a apa-
r ê n cia de lib er d ad e, n a r ealidade, ele i n t r o d u z o absu r d o.
O acaso é sem cau sa, sem p r o p ó si t o e sem d i r e ç ã o . 1 3 É u m
in esper ado gr at u it o — gr at u id ad e e n car n ad a e m t em p o e
e sp a ç o .
Tod avia, com o afir m a M o n o d , o acaso i n t r o d u z i u u m
e m p u r r ã o n o t em po e n o e sp aço e m u m a n ova d ir e ção. U m
even t o ao acaso n ã o possu i u m a causa, m as é, e m si m esm o,
u m a causa, sen do agor a u m a par t e in t egr al do u n iver so fe-
ch ado. O acaso abre o u n iver so n ã o par a a r azão, o sen t ido e
o p r o p ó si t o , m as ao absu r do. Re p e n t in am e n t e , n ã o sabemos
on de est amos, n ã o som os m ais u m a flor n o t ecido sem cos-
t u r a do u n iver so, m as u m a ver r u ga ocasion al n a pele lisa do
im pessoal.
O acaso, e n t ão , n ã o for n ece ao n at u r alist a o que é
n ecessár io par a u m a pessoa ser t an t o au t ocon scien t e qu an t o
livr e, p o r é m apen as p er m it e que a l gu é m seja au t ocon scien t e
e su jeit o ao cap r ich o. A ç ã o capr ich osa n ã o é u m a exp r essão
livr e de u m a pessoa c o m car át et . Sim p lesm en t e é gr at u it a,
sem u m a causa. P or d efin ição, a ação capr ich osa n ã o é u m a

120 •
Marco z ero

resposta à a u t o d e t e r m i n a ç ão e, por t an t o, isso ain d a n os deixa


sem u m a base par a a m or alid ad e . 1 4 T a l ação sim plesm en t e é.
E m su m a: a p r im e ir a r azão par a o n at u r alism o t or n ar -se
n iilism o é que o n at u r alism o n ã o for n ece u m a base sobre a
qu al a pessoa pode agir de m od o sign ificat ivo. A o con t r ár io,
ele n ega a possibilidade de u m ser au t odet er m in an t e que pode
escolh er sobre a base de u m car át er au t ocon scien t e in at o.
Som os m á q u i n a s - det er m in adas o u capr ich osas. N ã o somos
pessoas dotadas de au t ocon sciê n cia e au t o d e t e r m i n ação .

A seg u n d a p o n t e: a g r an d e n u vem d o d es-


co n h eci d o

A p r e ssu p o si çã o m et afísica de que o cosm o é u m sist em a


fech ado possu i i m p l i caçõ e s n ã o apen as m et afísicas, m as
t a m b é m e p i st e m o l ó gi cas. E m r esu m o, o ar gu m en t o é esse:
se qu alqu er pessoa é o r esult ado de for ças im pessoais, seja
su r gin do acid en t alm en t e o u por u m a lei in exor ável, essa
pessoa n ã o possu i m eios de saber se o que ela con h ece é ver -
dadeir o o u ilu sór io. Vejam os com o isso ocor r e.
O n at u r al i sm o su st en t a qu e a p e r c e p ç ã o e o co n h e ci -
m en t o são o u i d ê n t i co s ao cé r e b r o o u su b p r od u t os dele,
su r gin d o a p ar t ir do fu n ci o n am e n t o d a m a t é r i a . Se m esse
fu n ci o n am e n t o n ã o h ave r ia p en sam en t o. C o n t u d o , a m a -
t ér ia fu n c i o n a p or su a p r ó p r i a n at u r eza. N ã o h á r azão par a
se pen sar qu e a m a t é r i a possu i qu alqu er in t er esse e m levar
u m ser con scien t e à ver d ad eir a p e r c e p ç ã o o u a c o n c l u sõ e s
lógicas (ist o é, cor r et as) baseadas n a o b se r v a ç ã o acu r ada e
e m p r e ssu p o si ç õ e s ve r d ad e ir as. 1 5 O s ú n i c o s seres em t odo

• 121
O u n i v e r so ao l ad o

o u n iver so qu e se preocupam c o m t ais assu n t os são os h u -


m an o s. M as as pessoas e st ão r est r it as aos seus cor pos. A
su a c o n sc i ê n c i a su r ge de u m a c o m p l e xa in t e r - r e lação de
m a t é r i a alt am en t e "or d en ad a". M a s, p or qu e essa m at é r i a,
seja ela q u al for, t er ia c o n sc i ê n c i a de estar, de al gu m a for -
m a, r elacion ad a c o m o qu e r ealm en t e é o caso? Exi st e u m
teste par a se d ist in gu ir a ilu são d a r ealidade. O s n at u r a-
list as ap o n t am par a os m é t o d o s da i n v e st i gação cien t ífica,
dos testes p r a gm á t i c o s, e assim por d ian t e. P o r é m , t odos
eles u t i l i z a m o cé r e b r o qu e e st ão t est an do. C a d a teste pode
m u i t o b em ser u m exer cício in ú t il de p r olon gar a con sis-
t ê n cia de u m a i l u são .
P ar a o n at u r alism o n ad a exist e for a do p r ó p r i o sist em a.
N ã o h á De u s - en gan oso o u n ã o , per feit o ou im per feit o,
pessoal ou im pessoal. Som en t e exist e o cosm o, e os seres
h u m an os são os ú n i co s seres con scien t es. Eles são os retar-
d at ár ios. Eles "su r gir am ", mas h á qu an t o t em po? O s seres
h u m an os p od e m con fiar e m suas m en t es, e m su a r azão?
O p r ó p r i o Ch ar les D a r w i n afir m ou : "Sem p r e sur ge a
t errível d ú v i d a se as con vicçõe s da m en t e h u m an a, que se de-
sen volver am da m en t e de an im ais in fer ior es, possu em algu m
valor ou são con fiáveis afin al. A l gu é m con fiar ia n a co n v icção
da m en t e de u m m acaco, se é que h á qu alqu er co n v i cção e m
t al m e n t e ? 1 6 E m ou t r as palavr as, se o m e u cér eb r o n ad a m ais
é que o cér ebr o e v o l u í d o de u m m acaco, n ão posso n e m
m e sm o ter a cer t eza de que a m i n h a p r ó p r i a t eor ia qu an t o à
m i n h a or igem é con fiável.
A q u i est á u m caso cu r ioso: Se o n at u r alism o de D a r w i n
for ver dadeir o, n ão h á n e m m esm o com o estabelecer sua

122
Marco z ero

cr ed ibilid ad e, qu an t o m ais p r ová- la. A con fian ça n a lógica é


descar t ada. Assi m a p r ó p r i a t eor ia de D a r w i n sobre a or igem
do h o m e m deve ser aceit a p or u m ato de fé. A l gu é m deve
su st en t ar que u m cér eb r o, u m disposit ivo que su r giu at r a-
vés d a seleção n at u r al e pat r ocin ad o por m u t a ç õ e s ao acaso,
pode r ealm en t e saber a ver acidade de u m a p r o p o si ç ã o o u u m
con ju n t o delas.
C . S. Le w i s apr esen t a esse caso d a seguin t e for m a:

Se tudo o que existe é Natureza, o grande evento entrela-


çador sem pr opósit o, se nossas con vicções mais profundas
são apenas subprodutos de u m processo irracion al, en t ão,
claramente n ão existe o men or fundamento para supor que
nosso senso de apt idão e nossa consequente fé n a un ifor-
midade nos revelam algo sobre a realidade extern a a n ós
mesmos. Nossas con vicções são simplesmente um fato sobre
nós — como a cor de nossos cabelos. Se o n aturalismo é
verdadeiro, n ão temos razão para confiar em nossas con vic-
ções de que a Natureza é u n ifor m e. 1 7

O qu e n ecessit amos par a t al cer t eza é a exist ên cia de


algu m "Esp í r i t o Ra c i o n a l " ext er n o, t an t o a n ó s qu an t o à
n at u r eza, do qu al n ossa r acion alidad e poder ia der ivar . O te-
í sm o p r e ssu p õ e t al fu n d am en t o; o n at u r alism o n ão .
N ã o só est amos en caixot ados pelo passado - n ossa or i-
gem e m m at é r ia in con scien t e e i n an i m ad a - com o t a m b é m
est amos en caixot ados pela n ossa at u al sit u ação com o pen sa-
dor es. Di gam o s que acabei de com plet ar u m ar gu m en t o do
t ipo: "To d os os h om en s são m or t ais. Ar ist ót eles O n assis é
h o m e m ; Ar ist ót eles O n assis é m o r t a l ". Essa é u m a co n cl u são
d em on st r ad a, con cor da?

123 •
O u n i v e r so ao l ad o

Bem, como sabem os que a conclusão está certa? Sim p les. E u


obedeci às leis d a lógica. Que leis? Como sabem os que elas são
verdadeiras? Elas são au t oeviden t es. Afi n a l , qu alqu er pen sa-
m e n t o o u c o m u n i c a ç ã o ser ia possível sem elas? Não. En t ã o ,
elas n ã o são ver dadeir as? Não necessariam ente.
Q u alqu er ar gu m en t o c o n st r u í d o por n ó s i m p l i c a e m
tais leis - aquelas clássicas de iden t idade, n ã o co n t r ad i ção
e o m eio exclu d en t e. P o r é m , esse fato n ã o gar an t e a "ver a-
cid ad e" dessas leis n o sen t ido de que n ad a do que pen sam os
ou dizem os que obedecem- lh es n ecessar iam en t e se r elacio-
n a ao que é assim n o u n iver so objet ivo e ext er n o. A l é m do
m ais, qu alqu er ar gu m en t o par a ver ificar a validad e de u m
ar gu m en t o é, e m si m esm o, u m ar gu m en t o que pode ser
equ ivocado. Q u an d o c o m e ç a m o s a pen sar assim , n ã o esta-
m os lon ge de u m regresso in fin it o; n osso ar gu m en t o t en t a
alcan çar su a p r ó p r i a cau d a n os sem pr e r et r oat ivos cor r edor es
d a m en t e. O u par a m u d ar a im agem , desor ien t am o- n os e m
u m m ar de in fin id ad es.
M a s n ã o est amos n os desvian do ao ar gu m en t ar con t r a
a possibilidade de con h ecim en t o? Parecem os capazes de tes-
t ar n osso con h ecim en t o de u m a fo r m a qu e, e m ger al, n os
satisfaz. Algu m as coisas que pen sam os con h ecer p od e m se
revelar falsas o u , pelo m en os, m u i t o im p r ováve is com o, por
exem p lo, que m i c r ó b i o s são gerados espon t an eam en t e do
lodo t ot alm en t e i n o r gân i co . E t odos n ó s sabem os com o fer-
ver águ a, aliviar n ossas coceir as, r econ h ecer n ossos am igos e
dist in gu i- los den t r e a m u l t i d ã o .
P r at icam en t e, n i n gu é m é u m n iilist a e p i st e m o l ó gi c o ple-
n am en t e con vict o. N ã o obst an t e, o n at u r alism o n ã o per m it e

124
Marco z ero

a u m a pessoa ter u m a só l i d a r azão par a con fiar n a r azão


h u m a n a . Assi m , por t an t o, acabam os e m u m i r ó n i co par a-
doxo. O n at u r alism o, n ascido d u r an t e o I l u m i n i sm o , foi
l an ç ad o sobr e u m a só l i d a ace it ação d a capacidade h u m a n a
de con h ecer . Agor a, os n at u r alist as descobr em que n ã o po-
d e m deposit ar su a co n fi an ça e m seu con h e cim e n t o.
To d a a q u e st ã o en volven d o esse ar gu m en t o pode ser
assim su m ar izad a: o n at u r alism o n os coloca com o seres
h u m an o s e m u m a caixa. P o r é m , par a t er m os qu alqu er con -
fiança de que n osso con h ecim en t o sobre est ar mos den t r o de
u m a caixa é ver dadeir o, pr ecisam os n os posicion ar for a da
caixa o u receber essa i n fo r m a ç ã o de qu alqu er ou t r o ser for a
d a caixa (os t e ó l o go s c h a m a m a isso de "r e ve lação"). O co r r e
que n ã o h á n ada n e m n i n gu é m for a d a caixa par a n os for -
n ecer r evelação, e n ó s n ã o pod em os t r an scen der a caixa. P or
con segu in t e, n i i l i sm o e p i st e m o l ó gi c o .
O n at u r alist a que falh a e m per ceber isso é com o o h o-
m e m n o poem a de St eph en Cr a n e :

V i u m h omem perseguindo o h orizon te;


Voltas e mais voltas e n un ca se en con travam.
Isso me perturbava;
Abordei o h omem.
"Isso é fútil", disse,
"Você jamais con segu ir á."
"Você está enganado", ele gritou,
E con t in uou corren do. 1 8

N a est r u t u r a n at u r alist a, as pessoas per seguem u m co-


n h ecim en t o que sem pr e r ecu a dian t e delas. Jam ais podem os
conhecer.

125
O u n i v e r so ao l ad o

U m a das pior es c o n se q u ê n c i as de se levar a sér io o n iilis-


m o e p i st e m o l ó gi c o é que isso t e m levado algu n s a qu est ion ar
a p r ó p r i a fact icidade do u n i v e r so . 1 9 P ar a algu n s, n ada é r eal,
n e m eles m esm os. A s pessoas que ch egam n esse estado es-
t ão e m gran des apu r os, pois elas n ã o p od e m m ais fu n cion ar
com o seres h u m an os. O u , com o dizem os c o m fr equ ên cia,
elas su r t am .
N o r m a l m e n t e , n ã o r econ h ecem os essa si t u a ç ã o co m o
n i i l i sm o m e t afí si c o o u e p i st e m o l ó gi c o . A o c o n t r á r i o , n ó s a
ch am am o s de esqu izofr en ia, a l u c i n a ç ã o , fan t asia, d evan eio
o u vive r e m u m m u n d o ir r eal. E t r at am os a pessoa c o m o
u m "caso", e o p r o b l e m a co m o u m a "d o e n ç a ". N ã o t en h o
n e n h u m a o b je ç ã o , e m p ar t icu lar , c o m t al p r oce d im e n t o ,
pois r ealm en t e acr ed it o n a r ealidade de u m m u n d o ext er ior ,
que c o m p ar t i l h o c o m ou t r os e m m i n h a e st r u t u r a de t em p o
e e sp a ç o . O s qu e n ã o con segu em r econ h ecer esse fato e st ão
in cap acit ad os. P o r é m , en qu an t o p r i m ar i am e n t e pen sam os
n essa si t u a ç ã o e m t er m os p si c o l ó gi c o s e en qu an t o e n via-
m os t ais pessoas a i n st i t u i çõ e s on d e algu n s as m a n t e r ã o
vivas e ou t r os as a ju d a r ã o a r et or n ar de suas viagen s in t e-
r ior es e volt ar à r ealidade, d e v e r í a m o s com p r een d er qu e
algu n s desses casos ext r em os p od e m ser exem plos per feit os
do qu e acon t ece q u an d o u m a pessoa n ã o m ais con h ece n o
sen t id o c o m u m de co n h e ci m e n t o . É o est ado "ad equ ad o",
o r esu lt ado l ó gi c o , d o n i i l i sm o e p i st e m o l ó gi c o . Se e u n ã o
posso con h ecer , e n t ã o , qu alqu er p e r c e p ç ã o , son h o, i m a -
gem o u fan t asia t or n a- se igu alm en t e r eal o u ir r eal. A v i d a
n o m u n d o c o m u m é baseada e m n ossa capacidade de fazer
d i st i n ç õ e s. P er gu n t e ao h o m e m que acab ou de en golir u m

126
Marco z ero

l í q u i d o i n co l o r qu e ele p e n sou ser á gu a , m as qu e n a ver d a-


de er a m e t an o l .
A m ai o r i a de n ó s jam ais t e st e m u n h ou os "casos" ext r e-
m os. Ele s são r apid am en t e in t er n ad os. P o r é m , exist em , e
eu t en h o con h ecid o algu m as pessoas cu jas h ist ór ias são de
ar r epiar . A m aior ia dos n iilist as e p i st e m o l ó gi c o s con vict os,
en t r et an t o, r ecai n a classe descr it a por Rob e r t Far r ar Ca p o n ,
que sim plesm en t e n ão t em t em po a perder c o m tais t olices:

O cético n un ca é real. Lá ele permanece, coquetel em uma


das m ãos, br aço esquerdo languidamente apoiado sobre a
quin a da lareira, dizendo a você que n ão tem certeza de
coisa alguma, n em mesmo de sua pr ópr ia existên cia. E u
lhe revelarei o meu m ét od o secreto de acabar com o ceti-
cismo universal em quatro palavras. Sussurre para ele: 'Sua
braguilh a está aberta'. Se ele ach a o con h ecimen to t ão i m -
possível assim, por que ele sempre olh a?2 0

C o m o obser vado acim a, h á e vid ê n cias de sobr a de que o


con h ecim en t o é p ossível. O que pr ecisam os é de u m m od o
de explicar por qu e o p o ssu í m o s. Isso o n at u r alism o n ã o faz.
Assi m , aquele que per m an ece u m n at u r alist a con sist en t e
deve ser u m n iilist a.

A t er cei r a p o n t e: ser e d ever

M u i t o s n at u r alist as - a m aior ia, pelo que m e con st a - são


pessoas ext r em am en t e m or ais. Eles n ã o são lad r ões, n ã o t en -
d e m a ser lib er t in os. M u i t o s são fiéis e m seus casam en t os.
Algu n s ficam escan dalizados c o m a im or alid ad e p ú b l i ca e
pessoal de n ossos dias. O p r ob lem a n ão é qu e os valor es

127
O u n i v e r so ao l ad o

m or ais n ã o são r econ h ecidos, m as o fato de n ã o p o ssu í -


r e m fu n d am en t o algu m . Re su m i n d o a p o si ç ã o adot ada por
Niet zsch e e M a x W eber , A l l a n Bl o o m obser va: "A r azão n ã o
pode estabelecer valor es, e su a cr e n ça de que pode é a m ais
e st ú p i d a e per n iciosa de todas as i l u sõ e s". 2 1
Re le m b r an d o que par a u m n at u r alist a o m u n d o apen as
exist e, ele n ã o con cede u m sen t ido de ju st i ç a à h u m an id ad e,
mas som en t e é. En t r e t an t o, a ét ica ver sa sobr e o que deve ser,
seja si m seja n ã o . 2 2 O n d e , e n t ão , pode-se ir e m bu sca de u m a
base par a a m or alidade? O n d e a justiça é en con t r ad a.
C o m o obser vam os, todas as pessoas possu em valor es
m or ais. N ã o h á t r ibos sem t abu s, mas esses são m er am en t e
fatos de n at u r eza social, e os valor es esp ecíficos v ar i am gr an -
dem en t e. D e fat o, m u it os desses valor es con fiit am en t r e si.
P or t an t o, som os fo r çad o s a per gu n t ar : Q u e valor es são os
ver dadeir os, os m ais elevados?
An t r o p ó l o go s cu lt u r ais, r econ h ecen do que t al sit u ação
pr evalece, r espon dem clar am en t e: valor es m or ais são r ela-
t ivos à cu l t u r a d a pessoa. O que a t r ib o, n a ç ã o o u u n id ad e
social afir m ar é valioso. P o r é m , h á u m a sér ia falh a aqu i. Essa
é ou t r a m an e ir a de afir m ar que ser (o fato de u m valor es-
pecífico) equ ivale a dever (o qu e dever ia ser assim ). A l é m do
m ais, isso n ã o con sid er a a si t u ação dos rebeldes cu lt u r ais,
cu jos valor es m or ais n ã o são os m esm os dos seus vizin h os.
O ser do rebelde cu lt u r al n ã o é con sider ado dever. P or qu ê?
A resposta do r elat ivism o cu lt u r al é que os valor es m or ais
do rebelde n ã o p od e m ser per m it id os se eles p e r t u r b am a
co e são social, colocan do e m r isco a sob r e vivê n cia cu lt u r al.
Assi m , descobr im os que ser n ã o é dever, afin al de con t as.

• 128 •
Marco z ero

O r elat ivist a cu lt u r al r at ificou u m valor - a pr eser vação de


u m a cu lt u r a em seu estado at u al - com o m ais valioso que sua
d est r u ição o u t r an sfor m ação por u m o u m ais rebeldes den t r o
dela. U m a vez m ais, somos obrigados a per gun t ar por quê.
Di sso a d v é m que o r elat ivism o cu lt u r al n ã o é r elat ivo
par a sem pr e, m as r epou sa sobr e u m valor p r i m á r i o co n -
firmado pelos p r ó p r i o s r elat ivist as cu lt u r ais: qu e a cu l t u r a
deve ser pr eser vada. P or t an t o, o r elat ivism o cu lt u r al n ã o
con fia apen as n o ser, m as n o qu e seus adept os p en sam dever
ser o caso. O p r ob le m a aqu i é que algu n s a n t r o p ó l o go s n ã o
são r elat ivist as cu lt u r ais. Al gu n s p en sam qu e cer t os valor es
são t ão im por t an t es que as cu lt u r as qu e n ã o os r econ h ecem
deveriam r e c o n h e c ê - l o s. 2 3 Dessa for m a, os r elat ivist as cu l t u -
r ais d e ve m , se qu iser em con ven cer a seus colegas, m ost r ar
por qu e seus valor es são os ver d ad eir os. 2 4 N o v am e n t e , apr o-
xi m am o - n o s do in fin it o cor r ed or on de per segu im os n ossos
ar gu m en t os.
Co n t u d o , olh em os de n ovo. De ve m os n os assegurar de
ver o que est á in fer id o pelo fato de os valor es r ealm en t e n ã o
var iar em m u i t o . En t r e t r ibos vizin h as, os valor es são con -
flitantes. U m a t r ib o pode p r om over "guer r as r eligiosas"
par a d issem in ar os seus valor es. Tais guerras existem . Elas
deveriam exist ir ? Talvez, mas som en t e se h ou ver , de fato, u m
p a d r ã o n ã o r elat ivo por m eio do qu al se pode m e d ir os valo-
res e m con flit o. Tod avia, u m n at u r alist a n ã o d i sp õ e de m eios
par a d et er m in ar que valor es den t r e aqueles n a exist ên cia são
os b ásicos, os que d ã o sign ificado às var iações t r ibais espe-
cíficas. U m n at u r alist a pode apen as in d icar o fato de valor ,
jam ais u m p a d r ã o absolut o.

129
O u n i v e r so ao l ad o

Essa si t u ação n ã o ser á t ão cr ít ica en qu an t o h ou ver


e sp aç o su ficien t e separ an do as pessoas de valor es r ad ical-
m en t e difer en t es. P o r é m , n a com u n id ad e global do presen te
sé cu lo n ã o podem os m ais con t ar c o m isso. Som os fo r çad o s
a lid ar c o m valor es e m con flit o, e os n at u r alist as n ã o t ê m
qu alqu er p a d r ã o , n e n h u m a for m a de saber qu an d o a paz é
m ais im p or t an t e que pr eser var ou t r o valot . De ve m os abr ir
m ã o de n ossa pr opr iedade par a evit ar a v io l ê n ci a con t r a o
lad r ão. N o en t an t o, o que devem os dizer a racistas br an cos
que possu em pr opr iedades alugadas n a cidade? Q u e valores
d evem gover n ar as suas açõe s qu an d o u m a pessoa d a r aça
n egr a t en t a alugar u m a de suas pr opr iedades? Q u e m deve
dizer? C o m o devem os decidir ?
O ar gu m en t o pode n ovam en t e ser r esu m id o com o an t e-
t iot m en t e: O n at u r alism o n os coloca com o seres h u m an os
e m u m a caixa et icam en t e r elat iva. P ar a con h ecer m os que
valor es d en t r o daqu ela caixa são valor es reais, n ecessit amos
de u m a m e d id a a n ó s im p ost a de for a d a caixa; pr ecisam os
de u m p r u m o m o r al por m eio do q u al seja possível avaliar
os valor es m or ais con flit an t es que obser vam os e m n ó s e n as
dem ais pessoas. Co n t u d o , n ã o h á n ad a for a d a caixa; n ã o
exist e n e n h u m p r u m o m or al o u qu alqu er p a d r ã o de valor
im u t áve l e su pr em o. Logo: n i i l i sm o é t i c o 2 5
M a s, o n i i l i sm o é u m sen t im en t o, n ã o apen as u m a filoso-
fia. E , n o n ível d a p e r ce p ção h u m a n a , Fr an z Ka fk a capt a, e m
u m a breve p ar áb o l a, o sen t im en t o de v i d a e m u m u n iver so
sem u m a l i n h a de r efer ên cia, sem u m p r u m o m o r al .

Passei correndo a primeira sentinela. En t ão, fiquei h orrori-


zado, voltei novamente e disse à sentinela: "Passei por aqui

• 130
Marco z ero

enquanto você estava olhando para o outro lado". A senti-


nela ignorou a min h a presen ça e nada disse. "Supon h o que
realmente n ão deveria ter feito isso", disse. A sentinela ainda
permaneceu calada. " O seu silêncio significa permissão para
passar? .

Q u an d o as pessoas t i n h a m con sciê n cia de u m D e u s cu jo


car át er er a a lei m o r al , qu an d o suas con sciê n cias er am i n -
lor m adas por u m sen so de ju st iça, suas sen t in elas gr it ar iam
alt o, qu an d o elas t r an sgr ed iam a lei. Ago r a, as sen t in elas
est ão silen ciosas, n ão ser vem a n e n h u m r ei e n ã o pr ot egem
n e n h u m r ein o. O m u r o é u m fato despr ovido de sign ifica-
do. As pessoas o escalam , at r avessam - n o, qu eb r am - n o, mas
n e n h u m a sen t in ela sequer r eclam a. A pessoa é d eixada n ã o
com o fat o, m as c o m o sen t im en t o de c u l p a . 2 7
Em u m a se q u ê n cia assust ador a, n o filme de I n gm ar
Kcr gm an , Morangos silvestres, u m velh o professor é levado
a ju lgam en t o dian t e do t r ib u n al . Q u an d o ele per gu n t a do
que est á sen do acusado, o ju i z r espon de: "Vo c ê é cu lpado
d.i cu lp a".
"Isso é sé r io?", qu est ion a o professor.
"M u i t o sér io", afir m a o ju i z .
Co n t u d o , isso é t u do o que é dit o sobr e a q u e st ã o d a
<. u lpa. E m u m u n iver so on de De u s est á m o r t o , as pessoas
n.10 são cu lpadas de violar a lei m o r al ; apen as são cu lpadas
da cu lp a, e isso é m u i t o sér io, pois n ad a pode ser feit o a
respeito. Se a l gu é m pecou , pode h avet e xp iação . Se a l gu é m
i n l r i n gi u a lei, o legislador pode per doar o in fr a to r. M as se
al gu é m apen as for cu lpad o da cu lp a, n ão h á com o solu cio-
nar esse p r ob lem a ext r em am en t e pessoal. 2 "

131
O u n i v e r so ao l ad o

Esse é o caso de u m n iilist a, pois n i n gu é m pode evit ar


agir com o se valor es m or ais exist issem e com o se h ouvesse
algu m t r ib u n al de ju st i ça que avaliasse a cu lpab ilid ad e por
p ad r õ e s objet ivos. N o en t an t o, n ã o exist e n e n h u m t r ib u n al
de ju st i ça e som os deixados, n ã o e m pecado, mas e m cu lp a.
Dever as sér io, de fato.

A p er d a de si g n i f i cad o

O s fios do n iilism o e p ist e m ológico, m et afísico e ét ico se en -


t r elaçam par a for m ar u m a cor da lon ga e forte o suficien t e par a
en volver t oda u m a cu lt u r a. O n om e dessa cor da é per da de
sign ificado. Acab am os n o com plet o desespero de jam ais ver -
m os a n ós m esm os, o m u n d o e os out ros com o t ot alm en t e
in sign ifican t es. N ad a possui sign ificado, sen t ido.
Ku r t Von n e gu t Jr ., e m u m a p a r ó d i a do livr o de Gé n e si s,
capt a esse m od er n o d ile m a:

No pr in cípio Deus criou a terra e olh ou para ela em sua


solidão cósm ica. E Deus disse: "Façam os criaturas do bar-
ro, de modo que o barro possa ver o que n ós fizemos". E
Deus criou cada ser viven te que agora se move, e u m deles
era o h omem. O barro só podia falar como h omem. Deus
inclinou-se o mais pr óxim o possível, olh ou em derredor e
falou. O h omem piscou e polidamente perguntou:
"Qual é o pr opósit o de tudo isso?".
"Tu d o deve ter u m pr opósit o?", replicou Deus.
"Cer t amen t e", disse o h omem.
"En t ão, deixo para você pensar em u m pr opósit o para tudo
isso", disse Deus. E foi embor a. 2 9

• 132
Marco z ero

A p r i n cí p i o , isso pode par ecer u m a sát ir a à n o ç ã o do


t e í sm o qu an t o à or igem do u n iver so e dos seres h u m an os,
m as é exat am en t e o con t r ár io . Essa é u m a sát ir a d a visão
n at u r alist a, pois m ost r a o d ile m a que n ó s, seres h u m an os,
en fr en t am os. Fom os l an ç ad o s e m u m u n iver so im pessoal.
N o in st an t e qu e u m ser au t ocon scien t e e au t od et er m in ad o
surge e m cen a, aquele ser in daga a gr an de q u e st ã o : Q u al
é o sign ificado de t u d o isso? Q u al o p r o p ó si t o do cosmo?
P o r é m , o cr iad or d a pessoa - as for ças im pessoais de m at é r i a
r och osa - n ad a pode r espon der . Se o cosm o t iver u m p r o p ó -
sit o, e n t ão , t emos qu e d e scob r í- lo por n ó s m esm os.
C o m o b e m colocou St eph en Cr a n e n o poem a, m e n -
cion ad o n o p r i m e i r o cap í t u l o , a exist ên cia de pessoas n ã o
cr io u n o u n iver so u m "sen so de o b r i ga ç ã o ". P r ecisam en t e:
exist im os, e p on t o final. Nosso fabr ican t e é despr ovido de
qu alqu er senso de valor , de qu alqu er sen t ido de o b r i gação .
Cr i a m o s os valor es sozin h os. Sã o n ossos valor es valiosos? P or
qu al p ad r ão ? Som en t e o n osso p r ó p r i o . D e qu em ? D e cada
pessoa? C a d a u m de n ó s é o r ei e o bispo de n osso p r ó p r i o
r ein o, p o r é m n osso r ein o é t ão í n fim o qu an t o u m p on t o,
pois n o in st an t e e m qu e en con t r am os ou t r a pessoa, est uda-
m os ou t t o r ei e ou t r o bispo. N ã o h á m eios de ar bit r ar en t t e
dois pr odu t or es de valor livr es. N ã o h á r ei par a o qu al am -
bos d e vam pr est ar r ever ên cia. Exi st e m valor es, m as n e n h u m
valor . A sociedade é apen as u m a pen ca de m ô n a d a s i n c o m u -
n icáveis, u m a coleção de pon t os, n ão u m cor po o r gân i c o ,
obedecen do a u m a for m a su per ior , abr an gen t e, qu e ar bit r a
os valor es de seus b r aços, per n as, ver r ugas e rugas separada-
m en t e. A sociedade n ã o é, de m an e ir a algu m a, u m cor po,
mas som en t e u m aju n t am en t o.

133 •
O u n i v e r so ao l ad o

P or t an t o, o n at u r alism o leva ao n iilism o. Se con si-


der ar m os ser iam en t e as i m p l i c aç õ e s d a m or t e de D e u s, o
desapar ecim en t o do t r an scen den t e, o h er m et ism o do u n i -
ver so, acabam os exat am en t e lá.
P or qu e, e n t ã o , a m a i o r i a dos n at u r alist as n ã o é n iilist a.
A t espost a m ais ó b v i a é a m e l h o r : a m a i o r i a dos n at u r alist as
n ã o leva seu n at u r al i sm o a sér io. Ele s sã o in con sist en t es.
O s n at u r alist as a fi r m a m u m c o n ju n t o de valor es, possu em
am igos qu e assever am u m c o n ju n t o sim ilar . Ele s apar en -
t a m saber e n ã o q u e st ion am co m o eles sabem qu e sabem .
P ar ecem capazes de escolh er e n ã o p er gu n t ar a si m esm os
se a apar en t e liber d ad e d a q u al gozam é r ealm en t e u m ca-
p r i ch o o u d e t e r m i n i sm o . Só c r a t e s disse qu e u m a v i d a n ã o
e xam i n ad a n ã o é d ign a de viver , m as, p ar a u m n at u r alist a,
ele e st á er r ad o. P ar a ele, a v i d a e xam i n ad a é qu e n ã o vale a
p en a viver .

Tensõ es i n t er n as no n i i l i sm o

O pr oblem a é que n i n g u é m con segue viver u m a v i d a e xam i-


n ada, se esse exam e levar ao n i i l i sm o , pois n ã o é p ossível se
viver u m a v i d a con sist en t e c o m ele. A cada passo, a cada in s-
t an t e, os n iilist as pen sam , im agin an d o que seu pen sam en t o
possu i su b st ân c i a e, assim , l u d i b r i a m su a p r ó p r i a filosofia.
Exi st e m , cr eio eu , pelo m en os cin co r azões pelas qu ais o
n iilism o im p ossib ilit a a vid a.
A p r i m e i r a é que n ad a pr ocede d a falt a de sign ificado, o u
m elh or , qu alqu er coisa pr ocede. Se o u n iver so é sem pr o-
p ó si t o , a pessoa n ão pode con h ecer e n ada é im or al , e n t ão ,

134
Marco z ero

qu alqu er cu r so de ação é possível. Pode-se r espon der à falt a


de sen t ido por qu alqu er ato qu e seja, pois n e n h u m é m ais ou
m en os apr opr iado. O su icí d io é u m at o, m as n ã o "pr ocede"
com o m ais apr opr iad o do que ir ao cin e m a, assist ir a u m
filme d a Disn e y .
N ã o obst an t e, sem pr e que n os l a n ç a m o s a u m a ação , co-
locan d o u m p é à fr en t e do ou t r o, a esm o, est amos d efin in d o
u m objet ivo, afir m an d o o valor de u m cu r so de ação , m esm o
qu e seja par a n i n gu é m m ais a n ã o ser n ó s m esm os. P or t an -
t o, n ã o estamos viven d o pelo n iilism o, m as cr ian d o valor
pela escolh a. Desse t ipo de ar gu m en t o pr ocede a t en t at iva de
Al b e r t Car n u s de i r al é m do n iilism o par a o exist en cialism o,
qu e con sider ar em os n o p r ó x i m o c a p í t u l o . 3 0
Segu n da, t oda vez que os n iilist as pen sam e con fiam e m
seu pen sam en t o, eles est ão sen do in con sist en t es, pois t ê m
n egado que aquele pen sam en t o possu i valor o u que pode le-
var ao con h ecim en t o. P o r é m , n o â m a g o d a afi r m ação de u m
n iilist a r epousa u m a a u t o c o n t r a d i ç ã o . Não existe significado
no universo, gr it am os n iilist as. Isso quer dizer que a p r ó p r i a
afir m ação deles é despr ovida de sen t ido, pois se sign ificasse
algu m a coisa, isso ser ia falso. 3 1 O s n iilist as e st ão, de fat o,
en caixot ados, n ã o p od e m ch egar a lu gar algu m . Sim ples-
m en t e eles sã o , apen as p en sam ; e n ad a disso t em qu alqu er
sign ificado. Exce t o por aqueles cujas ações os colocam e m
in st it u içõe s, n i n gu é m par ece levar a sér io seu n iilism o. O s
que o fazem n ó s t r at am os com o pacien t es.
Ter ceir a, em bor a u m lim it ad o t ipo de n iilism o pr át ico
seja possível por u m t em po, u m lim it e é, finalmente, alcan -
çad o . A c o m é d i a Ardil22 r epousa exat amen t e nessa pr emissa.

135 •
O u n i v e r so ao l ad o

O cap it ão Yossar ian est á t r avan do u m a arrasadora d iscu ssão


t eológica c o m a esposa do ten en te Sch eisskopf, qu an do Deu s
é en volvido e m u m a boa dose de con t r ovér sia. Yossar ian est á
falan do:

"[Deu s] n ão está operando de forma alguma. Ele está se


divertin do. Se n ão, ele esqueceu tudo sobre n ós. Este é o
tipo de Deus que vocês estão falando - u m matuto caipira,
u m desajeitado, in ábil, desmiolado, con ven cido, u m cam-
pon ês rude".
Bo m Deus, quan ta reverência pode-se ter por u m Ser Su -
premo que ach a n ecessário in cluir tais fen óm en os como
catarro e queda de dentes em seu sistema de cr iação?3 2
Após in úmer as tentativas infrutíferas de lidar com parci-
m ôn ia o ataque verbal de Yossarian, a esposa do tenente
Sch eisskopf reage com violên cia.
"Pare com isso! Pare!", gritou repentinamente a esposa do
tenente Scheisskopf, batendo a sua pr ópr ia cabeça com os
dois pun h os, in ut ilmen t e. "Pare com isso!".
"Por que diabos você está ficando t ão perturbada?", pergun-
t ou o espantado capit ão, em u m tom de con trito deleite.
"Pensei que você n ão acreditava em Deu s".
"E u n ão acredito", soluçou ela, irrompen do violentamente
em lágrimas. "Mas o Deus em que n ão acredito é bom, u m
Deus justo e misericordioso. Ele n ão é esse Deus malvado
e est ú pido que você está retratan do". 3 3

A q u i est á ou t r o par adoxo: par a se n egar a D e u s é pr eciso


h aver u m D e u s par a ser n egado. A fim de ser u m n iilist a
praticante, deve h aver algo con t r a o qu al bat alh ar . T a l n iilist a
pr at ican t e é u m par asit a e m sign ificado. El e fica sem en er gia
qu an d o n ã o se h á m ais n ada a ser n egado. O cín ico sai d a
d iscu ssão qu an d o é o ú l t i m o a sobrar.

• 136 •
Marco z ero

A qu ar t a r azão é que o n iilism o sign ifica a m or t e d a ar t e.


A q u i t a m b é m en con t r am os u m par adoxo, pois m u i t o da
art e m od e r n a - lit er at u r a, p i n t u r a, t eat r o, c i n e m a — possu i o
n iilism o com o seu â m a g o i d e o l ó gi co . E m u i t o dessa lit er at u -
r a é excelen t e p e l o sc â n o n e s t r ad icion ais d a ar t e. Fim de jogo,
de Sam u e l Beck et t , Luz de inverno, de I n gm ar Be r gm an ,
O julgam ento, de Fr an z Ka fk a , b e m com o vár ias cab e ças de
papas de Fr an cis Ba c o n , v ê m im ed iat am en t e à m en t e. O n ó
d a q u e st ão é esse: t an t o m ais tais obras de art e e xib e m a i m -
p licação h u m a n a de u m a c o sm o v i sã o n iilist a, t an t o m en os
elas são n iilist as; t an t o m ais tais obras de ar t e são despr ovidas
de sign ificado, t an t o m en os são obr as de ar t e.
A ar t e n ad a é se n ão fo r m al , isto é, dot ada de u m a est r u t u -
ra pelo ar t ist a. M as a est r u t u r a por si só i m p l i ca sign ificado.
Assi m , se u m t r abalh o ar t íst ico for dot ado de est r u t u r a, ele
possui sign ificado e, p or t an t o, n ã o é n iilist a. U m m on t e de
fer r o- velh o, o lixo e m u m m on t e de en t u lh o, u m a m on t a-
n h a de pedr as, que acabar am de ser d in am it ad as e m u m a
pedt eir a, n ã o possu i est r u t u r a. Elas n ã o são ar t e.
Al gu m as artes c o n t e m p o r â n e a s t en t am ser an t iar t e sen do
aleat ór ias. M u i t o da m ú si c a de Jo h n Cage é d esen volvida ao
com plet o acaso, r an d om icam e n t e. P o r é m , isso é t an t o ob t u -
so qu an t o d e sagr ad áve l, e poucas pessoas con segu em ou vi- la.
En t ã o , h á "H u n ge r ar t ist " [ar t ist a fa m i n t o ], de Fr an z Ka fk a ,
u m a b r ilh an t e, em b or a dolor osa h ist ór ia sobre u m ar t ist a
que t en t a fazer ar t e u t ilizan do- se d a ab st in ê n ci a p ú b l i ca,
ou seja, do n ada. P o r é m , n i n gu é m olh a par a ele; t odos pas-
sam por su a m ost r a n o cir co, in teressadas e m ver u m jovem
leopardo m ar ch an d o e m su a jau la. At é m esm o a "n at u r eza"

137
O u n i v e r so ao l ad o

do leopar do é m ais in t er essan t e que a "ar t e" do n iilist a.


Igu alm en t e, a p e ç a Breath [sopr o], por m ais m i n i m al i st a que
seja, apr esen t a u m a est r u t u r a e sign ifica algo. M e sm o que
sign ifiqu e apen as que os seres h u m an os n ã o t ê m sign ificado
algu m , ela p ar t icip a n o par adoxo que e xam in e i an t es. E m
su m a, a arte i m p l i ca e m sign ificado e, em ú l t i m a an álise, n ã o
pode ser n iilist a, apesar d a ir ón ica t en t at iva destes e m exib ir
seus pr odu t os por m e io dela.
Q u i n t a e ú l t i m a r azão, o n iilism o apr esen t a severos p r o-
blem as p si co l ó gi co s. A s pessoas n ã o con segu em viver c o m
isso por qu e o n i i l i sm o n ega o fato de que cada fibra de seu
ser desper t o clam a por sen t ido, valor , sign ificân cia, d ign i-
dade, valia. Bl o o m escreve: "Nie t zsch e su b st it u i o at e í sm o
in d olen t e o u au t ogr at ifican t e por u m at e í sm o agon izan t e,
sofr en do as c o n se q u ê n c i as h u m an as in er en t es. O an seio e m
crer, e m con ju n t o c o m a in t r an sigen t e r ecu sa de satisfazer t al
an seio, segun do ele, é a p r ofu n d a resposta de t oda a n ossa
c o n d i ç ã o e sp i r i t u al ". 3 4
Niet zsch e t e r m i n o u seus dias e m um asilo. Er n e st
H e m i n gw a y c o n fi r m o u u m "est ilo de v i d a " e, por fi m , co-
m e t e u su icíd io. Be ck e t t dedica-se a escrever c o m é d i a s de
h u m o r n egr o. Von egu t t e Ad a m s d esvair am e m bizar r ices.
E Ka fk a , t alvez o m aior ar t ist a den t r e t odos eles, vive u u m a
v i d a quase im p ossíve l de t é d io, escr even do r om an ces e h ist ó-
rias que t e r m in avam e m u m pr olon gado clam or : "D e u s est á
m or t o! D e u s est á m or t o! N ã o est á? Q u er o dizer , cer t am en t e
que est á, n ão? D e u s est á m or t o. O h , com o e u gost ar ia que
n ão estivesse".
Assi m é que o n iilism o for m a o pon t o cr ít ico par a as pessoas
m oder n as. N i n g u é m que n ão t en h a in vest igado o desespero

138 •
Marco z ero

dos n iilist as, ou vid o suas palavr as, sen t ido o que eles sen t ir am
- m esm o vicar iam en t e, por m eio de su a arte - con segue en -
ten der o sécu lo passado. O n iilism o é aquele vale pr ofu n d o e
en evoado pelo qu al as pessoas m oder n as d evem atravessar se
quer em os con st r u ir u m a vid a n a cu lt u r a ocid en t al. N ã o exis-
t em respostas fáceis aos n ossos qu est ion am en t os, e n e n h u m a
dessas respostas é de algu m a valia, exceto se con sider ar c o m
seriedade os pr oblem as suscit ados pela possibilidade de n ã o
exist ir algo de valor , seja lá o qu e for.

139 •
Capítulo seis

ALÉM DO NIILISMO

Exi st enci al i sm o

Tudo o que existe nasce sem razão, prolonga sua existência, ape-
sar da fragilidade, e morre por acaso. Reclinei-me e fechei meus
olhos. As imagens, pressentidas, imediatamente saltaram e enche-
ram meus olhos fechados com existências: existência é a plenitude
que o homem jamais pode abandonar... Eu sabia que isso era o
Mundo, o Mundo nu subitamente, revelando-se a si mesmo, e eu,
calçado com raiva diante desse ser rude e absurdo.

Jean Paul Sar t r e, Náusea

N UM ENSAIO, PUBLICADO EM 1950, Albert Carnus escreveu:


"A literatura do desespero é uma contradição em termos.
[...] Nas trevas mais profundas do nosso niilismo, eu apenas
buscava transcendê-lo". Aqui a essência do objetivo mais
1

importante do existencialismo é resumida em uma única


frase: transcender o niilismo. De fato, todas as cosmovisões
O u n ive r s o ao la d o

importantes, surgidas desde o começo do século X X ,


têm esse mesmo objetivo principal. Pois o niilismo,
surgindo como surgiu, diretamente de uma cosmovisão
culturalmente penetrante, é o problema de nossa era. Uma
cosmovisão que ignore esse fato tem chances diminutas de
provar sua relevância às pessoas de pensamento moderno.
O existencialismo, especialmente em sua forma secular, não
apenas leva a sério o niilismo, mas é uma resposta a ele.
Logo de início, é importante reconhecer que o existen-
cialismo assume duas formas básicas, dependendo de sua
relação com as cosmovisões anteriores, porque o existen-
cialismo não é uma cosmovisão totalmente amadurecida.
O existencialismo ateísta é um parasita do naturalismo,
enquanto o existencialismo teísta é um parasita do teísmo. 2

Historicamente, temos uma situação estranha. De um


lado, o existencialismo ateísta se desenvolveu para solucio-
nar o problema do naturalismo que leva ao niilismo, porém
ele não aparece em sua plenitude até o século X X , a menos
que contemos um tema principal em Nietzsche, que rapida-
mente foi distorcido. Do outro lado, o existencialista teísta
3

nasceu na metade do século X I X , quando Soren Kierkegaard


reagiu à ortodoxia morta do luteranismo dinamarquês. N ã o
obstante, somente após a Primeira Guerra Mundial é que
uma das formas de existencialismo tornou-se culturalmente
importante, pois foi apenas então que o niilismo finalmente
chamou a atenção do mundo intelectual e começou a afetar
as vidas e atitudes de homens e mulheres comuns. 4

A Primeira Grande Guerra não tornou o mundo um


lugar seguro para a democracia. A geração das melindrosas

142
Além do niilismo

e das bebidas ilegais, resultado da excessiva violação de uma


absurda lei seca, a quixotesca bolsa de valores que tanto pro-
metia - tais acontecimentos precederam o grande período de
secas e tempestades de areia que caracterizaram os Estados
Unidos na década de 1930. Com a ascensão do nacional-so-
cialismo, na Alemanha, e sua incrível caricatura de dignidade
humana, estudantes e intelectuais do mundo afora estavam
prontos a concluir que a vida é absurda e que os seres huma-
nos não tinham qualquer propósito. No solo de tal frustração
e desencanto cultural, o existencialismo em sua forma ateísta
fincou suas raízes culturais. Ele floresceu como uma impor-
tante cosmovisão na década de 1950.
Até certo ponto, todas as cosmovisões possuem sutis
variações, e o existencialismo não constitui uma exceção.
Carnus e Sartre, ambos existencialistas e outrora amigos, ti-
veram uma desavença por causa de importantes diferenças,
e o existencialismo de Martin Heidegger é deveras distinto
do de Sartre. Porém, como fizemos com outras cosmovi-
sões, nós nos deteremos em suas características principais e
tendências gerais. A linguagem da maioria das proposições
listadas abaixo deriva ou de Sartre ou de Carnus. Isso é inten-
cional, porque é a forma na qual tem sido mais bem digerida
pela classe intelectual de nossos dias, e por seus trabalhos
literários muitos mais que por seus tratados filosóficos. Para
muitas pessoas modernas, as proposições do existencialismo
aparentam ser tão óbvias que elas "não sabem o que estão
aceitando porque nenhum outro meio de expressar aquilo
lhes ocorreu". 5

143 •
O u n i v e r s o ao la d o

Exi st en ci al i sm o at eíst a b ási co


O existencialismo ateísta principia com a aceitação de to-
das as proposições do naturalismo a seguir mencionadas:
A matéria existe para sempre; Deus não existe. O cosmo existe
como uma uniformidade de causa e efeito, em um sistema
fechado. A história é uma corrente linear de eventos conectados
por causa e efeito, mas sem um propósito abrangente. A ética
é relacionada apenas a seres humanos. E m outras palavras,
o existencialismo ateísta confirma todas as proposições do
naturalismo, exceto aquelas relacionadas à natureza huma-
na e nosso relacionamento com o cosmo. De fato, o maior
interesse do existencialismo está em nossa humanidade e
como podemos ser significantes em um, por outro lado,
insignificante mundo.

1. 0 universo é composto apenas de matéria, porém para


o ser humano a realidade se apresenta em duas formas -
subjetiva e objetiva.

Assume-se que o mundo existia muito antes de o homem


entrar em cena. É estruturado ou caótico, determinado pela
lei inexorável ou sujeito a mudanças. Qualquer coisa que seja
não faz a menor diferença. O mundo simplesmente existe.
Então, surgiu algo diferente, seres conscientes - aqueles
que distinguiam ele e ela do isto, que pareciam determinados
a determinar o seu próprio destino, a questionar, a pon-
derar, a maravilhar-se, a buscar sentido, a dotar o mundo
exterior com um valor especial, a criar deuses. E m suma,
então, surgiram os seres humanos. Agora vemos, ninguém
sabe por que razão, dois tipos de ser no universo, aquele que

144
Além do niilismo

aparentemente expulsou o outro para fora de si mesmo e se


lançou a uma existência separada.
O primeiro tipo de ser é o mundo objetivo - o mundo
das coisas materiais, da lei inexorável, da causa e efeito, do
tempo cronológico, do fluxo, do mecanismo. O maquinário
do universo - elétrons giratórios, galáxias em espiral, corpos
que caem, gases que se elevam e águas que fluem - cada
qual realizando sua função, eternamente inconscientes, para
sempre apenas existente. Aqui, afirmam os existencialis-
tas, a ciência e a lógica mostram sua utilidade. As pessoas
conhecem o mundo objetivo e exterior pela virtude de uma
observação atenta, registrando, levantando hipóteses e verifi-
cando-as por meio de experimentos, sempre refinando teorias
e comprovando conjecturas sobre o mundo em que vive-
mos.
O segundo tipo de ser é o mundo subjetivo — o mun-
do da mente, da consciência, da percepção, da liberdade,
da estabilidade. Aqui a percepção interior da mente é uma
consciência presente, um agora constante. O tempo não tem
significado algum, pois para si mesmo o assunto está sempre
presente, nunca passado ou futuro. A ciência e a lógica não
penetram esse domínio; nada tem a dizer sobre subjetivida-
de, pois ela é a compreensão do eu pelo não eu; subjetividade
é fazer do não eu parte de si mesmo. O sujeito absorve o
conhecimento não como a garrafa armazena o líquido, mas
como um organismo ingere o seu alimento. O conhecimento
se transforma no conhecedor.
O naturalismo enfatizou a unidade dos dois mundos, con-
siderando o mundo objetivo como real e o mundo subjetivo

• 145 •
O u n ive r s o ao la d o

como a sua sombra. Como afirmou Pierre Jean Georges


Cabanis: "A mente secreta pensamento como o fígado
secreta bílis". O real é o objetivo. Sartre disse: " O efeito de
todo o materialismo é tratar a todos os homens, incluindo os
que filosofam, como objetos, ou seja, como um conjunto de
reaçÕes determinadas, de maneira alguma distintas do con-
junto de qualidades e fenómenos que constituem uma mesa,
cadeira ou uma pedra". Nessa rota, como vimos, caminha o
6

niilismo. Os existencialistas tomaram outra rota.


O existencialismo enfatiza a desunião desses dois mun-
dos e opta, vigorosamente, em favor do mundo subjetivo, o
que Sartre denomina como "um conjunto de valores distin-
tos do reino material". Pois pessoas são os seres subjetivos.
7

Exceto se existirem seres extraterrestres, uma possibilidade


que a maioria dos existencialistas nem mesmo considera,
nós somos os únicos seres dotados de autoconsciência e au-
todeterminação em todo o universo. A razão porque nos
tornamos assim é inescrutável. Porém, o fato é que nos per-
cebemos conscientes e determinados e, assim, nos valemos
dessas dádivas.
A ciência e a lógica não penetram a nossa subjetivida-
de, mas não há problema porque o valor, o propósito e
a significância não estão conectados à ciência e à lógica.
Nós podemos ter significado; possuir valor, ou melhor, nós
podemos ter significado e valor. Nossa significância não
depende dos fatos do mundo objetivo sobre os quais não
temos controle algum, mas da consciência do mundo
subjetivo sobre os quais possuímos controle total.

146 •
Além do niilismo

2 . Para os seres humanos a existência precede a essência; as


pessoas fazem de si mesmas o que são.

Essa frase, proveniente de Sartre, é a mais famosa defini-


ção do âmago do existencialismo. Expressando nas palavras
de Sartre: "Se Deus não existe, há pelo menos um ser no
qual a existência precede a essência, um ser que existe antes
que possa ser definido por qualquer conceito, e... tal ser é o
homem". Sartre prossegue: "Antes de tudo, o homem existe,
cresce, surge em cena e, somente depois, é que se define". 8

Perceba novamente a distinção entre os mundos objeti-


vo e subjetivo. O primeiro é um mundo de essências. Tudo
surge trazendo a sua natureza. Sal é sal; árvores são árvores;
e formigas são formigas. Apenas os seres humanos não são
humanos antes de se fazerem assim. Cada um de nós faz a
si mesmo por aquilo que fazemos com a nossa autoconsci-
ência e autodeterminação. Voltando a Sartre: "No início o
homem não é nada. Apenas mais tarde será alguma coisa, e
ele será o que tiver feito de si mesmo". O mundo subjetivo
9

é totalmente subserviente de todo ser subjetivo, isto é, de


toda a pessoa.
Como isso funciona na prática? Digamos que John, um
soldado, teme ser covarde. Ele é covarde? Somente se agir
como covarde, e suas ações procederão não de uma natureza
definida de antemão, mas de suas escolhas, quando as balas
começarem voar de todos os lados. Podemos chamá-lo de
covarde se, e somente se, ele cometer atos covardes, e tais
atos serão suas escolhas. Portanto, se John receia ser covarde,
mas não deseja ser um, que ele aja com bravura quando tais
ações se fizerem necessárias. 10

147 •
O u n ive r s o ao la d o

3. Cada pessoa é totalmente livre com respeito à sua natureza


e ao destino.

D a segunda proposição, segue que cada pessoa é totalmen-


te livre. Cada um de nós não é coagido, mas radicalmente
capaz de fazer tudo que for imaginável com nossa subjeti-
vidade. Podemos pensar, desejar, imaginar, sonhar, projetar
visões, considerar, ponderar, inventar. Cada um de nós é so-
berano de nosso próprio mundo subjetivo.
Encontramos tal compreensão da liberdade humana na
defesa que John Platt faz do behaviorismo naturalista de
B . E Skinner:

O mundo objetivo, o mundo de experimentos isolados


e controlados, é o mundo da física; o mundo subjetivo,
o mundo do conhecimento, valores, decisões e atos — de
propósitos os quais esses experimentos são, na verdade,
designados a servir — é o mundo da cibernética, de nosso
próprio comportamento orientado a um objetivo. Deter-
minismo ou indeterminismo repousam daquele lado da
fronteira, enquanto que a ideia usual de "livre arbítrio" per-
manece deste lado. Eles pertencem a universos diferentes, e
nenhuma afirmação sobre um exerce qualquer influência
no outro. 11

Assim somos livres interiormente e, portanto, podemos


criar o nosso próprio valor pela afirmação de nosso mérito.
N ã o somos restringidos pelo mundo objetivo dos tique-
-taques de relógios, de quedas d'água e de elétrons giratórios.
O valor é interno, e o interior pertence a cada pessoa.

148
Além do niilismo

4. O altamente elaborado e firmemente organizado mundo


objetivo se coloca contra os seres humanos e parece
absurdo.

O mundo objetivo considerado em si mesmo é como


disse o naturalista: um mundo de lei e ordem, talvez levado a
novas estruturas pelo acaso. Esse é o mundo da existência.
Para nós, entretanto, a existência dura, fria e calcada em
fatos do mundo, aparenta ser hostil. Como formamos a nós
mesmos, moldando nossa subjetividade, vemos o mundo
objetivo como absurdo. Ele não tem lugar para nós. Nossos
sonhos, visões, desejos, todo nosso mundo interior de valor
colide em cheio contra um universo que é impenetrável aos
nossos desejos. Pense o dia todo que você é capaz de escalar
um edifício de dez andares e depois flutuar em segurança até
o chão. Então, tente fazer isso.
O mundo objetivo é regido por leis; os corpos caem se não
forem apoiados. O mundo subjetivo não conhece nenhuma
regra. O que é presente a ele, o que está aqui e agora, é.
Assim somos todos estrangeiros em uma terra estranha,
e quanto mais cedo aprendermos a aceitar esse fato, tanto
mais cedo transcendemos nossa alienação e superamos o de-
sespero.
O fato mais difícil a ser superado é o absurdo final - a
morte. Somos livres enquanto permanecermos como sujei-
tos. Ao morrermos, cada um de nós é apenas um objeto entre
outros objetos. Portanto, diz Carnus, devemos sempre viver
lace ao absurdo. N ã o devemos esquecer a nossa tendência à
não existência, mas viver fora da tensão entre o amor pela
vida e a certeza da morte.

149 •
O u n i v e r s o ao la d o

5. No pleno reconhecimento e contra o absurdo do mundo


objetivo, a pessoa autêntica deve revoltar-se e criar valores.

Aqui está como um existencialista vai além do niilismo.


Nada possui valor no mundo objetivo no qual nos tornamos
conscientes, mas enquanto somos conscientes, criamos va-
lor. A pessoa que vive uma autêntica existência é aquela que
se mantém cônscia da condição absurda do cosmo, mas que
se rebela contra essa condição, criando significado.
O "homem subterrâneo", de Fyodor Dostoievski, é um
paradigma do rebelde sem uma causa aparentemente razoá-
vel. Na história, o homem subterrâneo é desafiado:

Dois e dois são quatro. A natureza não pede o seu conselho.


Ela não está interessada em suas preferências, ou se aprova
ou não as suas leis. Você deve aceitar a natureza como ela é,
com todas as consequências que isso implica. Desse modo,
uma parede é uma parede, etc, etc.

As paredes mencionadas no texto são as "leis da natu-


reza", "as conclusões das ciências naturais, da matemática".
Porém, o homem subterrâneo é semelhante ao desafio.

Mas, bom senhor, por que devo me importar com as leis


da natureza e aritmética se tenho minhas razões para não
gostar delas, incluindo aquela sobre dois e dois perfazerem
quatro! Claro, não serei capaz de romper essa parede se mi-
nha cabeça não for forte o suficiente. Porém, eu não tenho
de aceitar uma parede de pedras apenas porque está lá e não
possuo força suficiente para rompê-la. 12

Portanto, não basta contrapor o mundo objetivo ao


subjetivo e apontar para sua arma definitiva, a morte.

150
Além do niilismo

A pessoa autêntica não é impressionada. Ser uma engre-


nagem no maquinário cósmico é muito pior que a morte.
Como o homem subterrâneo diz: " O significado da vida de
um homem consiste em provar todo o tempo a si mesmo
que ele é um homem, e não uma tecla de piano". 13

A ética, ou seja, um sistema de compreensão do que é


bom, está simplesmente solucionada para um existencialis-
ta. A boa ação é aquela conscientemente escolhida. Sartre:
"Escolher ser isto ou aquilo é afirmar, ao mesmo tempo, o
valor do que escolhemos, porque jamais podemos escolher
o mal. Sempre escolhemos o bem". Assim, o bem é tudo
14

o que uma pessoa escolhe; o bem é parte da subjetividade;


não é aferida por um padrão fora da dimensão individual
humana.
Essa posição duplica o problema. Primeiro, a subjetivida-
de leva ao solipsismo, ou seja, a afirmação de que cada pessoa
isoladamente é o determinador de valor e que, portanto, há
tantos centros de valor quantas pessoas existentes no cosmo
a qualquer tempo. Sartre reconhece essa objeção e reage, in-
sistindo que cada pessoa ao encontrar outras encontra um
centro reconhecível de subjetividade. Portanto, vemos que
15

outros, como nós, devem estar envolvidos em fazer sentido


para si mesmos. Estamos todos juntos nesse mundo absurdo,
nossas ações afetam uns aos outros de tal forma que "nada
pode ser bom para nós sem que seja bom para todos". Além16

do mais, quando ajo, penso e afeto a minha subjetividade,


estou envolvido em uma atividade social: "Estou criando
uma certa imagem de homem de minha própria escolha,
estou escolhendo a mim mesmo, eu escolho o homem". 17
O u n ive r s o ao la d o

Conforme Sartre, portanto, as pessoas que vivem vidas


autênticas criam valor não apenas para si mesmas, mas para
as demais também.
A segunda objeção, Sartre não aborda, e isso parece ainda
mais revelador. Se, como Sartre afirma, criamos valor simples-
mente pela escolha e, portanto, "jamais podemos escolher o
mal", o bem faz algum sentido? A primeira resposta é sim,
pois o mal é a "não escolha". E m outras palavras, o mal é a
passividade, viver na direção dos outros, ser soprado a esmo
pela sociedade de outrem, não reconhecendo o absurdo do
universo, isto é, não mantendo o absurdo vivo. Se o bem está
na escolha, então escolha. Certa vez, Sartre aconselhou um
jovem rapaz que buscou seu conselho: "Você é livre, escolha,
isto é, invente". 18

Essa definição satisfaz a nossa sensibilidade moral hu-


mana? O bem é meramente qualquer ação passionalmente
escolhida? Muitos podem se lembrar de ações aparentemen-
te escolhidas de olhos bem abertos, mas que se mostraram
totalmente equivocadas. E m que estado de espírito os
massacres dos russos contra os judeus foram ordenados
e executados? E os bombardeios nas vilas vietnamitas, a
explosão de um edifício do governo em Oklahoma ou os
alvos do Unabomber? E quanto ao atentado terrorista con-
tra o World Trade Center, no trágico 11 de setembro de
2001? O próprio Sartre abraçou causas que aparentam ser
morais em bases que muitos moralistas tradicionais acei-
tam. Porém, nem todo existencialista tem agido como
Sartre, e o sistema parece deixar aberta a possibilidade de
o Unabomber vir a reivindicar imunidade ética por seus

152
Além do niilismo

assassinatos ou para os responsáveis pelos eventos de 11 de


setembro se gloriarem na nobreza de sua causa.
Posicionar o lugar da moralidade em cada subjetividade
individual leva à incapacidade de distinguir o ato moral do
imoral em bases que satisfaçam nosso senso de certo e errado
inato, a noção que diz que os outros possuem os mesmos
direitos que eu. Minha escolha não pode ser a escolha dese-
jada pelos outros, visto que estou escolhendo pelos outros,
como afirma Sartre. Algum padrão externo aos "sujeitos"
envolvidos se faz necessário para moldar verdadeiramente as
ações e relacionamentos entre os "sujeitos".
Ainda, antes de abandonarmos o existencialismo sob a
acusação de solipsismo e um relativismo que fracassa em
prover um fundamento para a ética, deveríamos dar mais do
que o reconhecimento à nobre tentativa de Albert Carnus
em mostrar como uma boa vida pode ser definida e vivencia-
da. Essa, parece-me, é a tarefa que Carnus atribui a si mesmo
em A peste.

Um san t o sem Deus

Na obra Os irmãos Karamazov (1880), Dostoievski faz


Ivan Karamazov dizer que se Deus está morto, então tudo
é permitido. E m outras palavras, se não existe um padrão
transcendente do bem, então, não há meios de se fazer dis-
tinção entre o certo e o errado, o bem e o mal, e não poderá
haver santos ou pecadotes, tampouco pessoas boas ou más.
Se Deus está morto, a ética torna-se impossível.

• 153
O u n iv e r s o ao la d o

Albert Carnus encara esse desafio em A peste (1947), que


relata a história de Oran, uma cidade localizada na África
do Norte, na qual uma doença infecciosa mortal se alastra.
A cidade fecha seus portões ao tráfego, portanto, torna-se
um símbolo do universo fechado, um universo sem Deus.
A enfermidade, por outro lado, vem a simbolizar o absurdo
desse universo. A peste é arbitrária; é impossível prever-se
quem será contaminado e quem permanecerá ileso. N ã o
é "uma coisa feita para a medida do homem". A doença
19

é terrível em seus efeitos - dolorosa física e mentalmen-


te. Suas origens são desconhecidas, não obstante, torna-se
tão familiar quanto o pãozinho de todas as manhãs. Na há
como evitá-la. Portanto, a peste passa a representar a própria
morte, pois tal como a morte, a doença é inevitável, e seus
efeitos, terminais. A peste ajuda as pessoas em Oran a viver
uma existência autêntica, porque ela torna a todos conscien-
tes do absurdo que é o mundo no qual habitam. Isso aponta
para o fato de que as pessoas nascem com o amor pela vida,
mas vivem em um referencial da certeza da morte.
A história principia quando ratos começam a sair de seus
esconderijos, morrendo nas ruas, e termina um ano depois,
quando a peste desaparece, e a vida na cidade retoma a nor-
malidade. Durante os meses de intervenção, a vida em Oran
torna-se viver diante do absurdo total. A genialidade de
Carnus está em utilizar isso como pano de fundo, a fim de
mostrar as reações de um elenco de personagens, cada qual
representando, de algum modo, uma atitude filosófica.
Monsieur Michel, por exemplo, é o porteiro de um prédio
de apartamentos. Ele se sente indignado pelo fato de os ratos

• 154 •
Além do niilismo

estarem abandonando suas tocas e morrerem no seu edifício.


A princípio, ele nega que haja ratos em seu prédio, mas, com
o tempo, vê-se forçado a admitir essa realidade. M . Michel
morre logo no começo do romance, amaldiçoando os ratos.
Esse personagem representa o homem que se recusa a reco-
nhecer o absurdo do universo. Quando é forçado a admitir
isso, ele morre, pois não consegue viver diante do absurdo.
Ele representa aqueles que são capazes de viver apenas vidas
sem autenticidade.
O velho espanhol reage de uma forma totalmente diferen-
te. Ele aposentou-se com a idade de 50 anos e foi diretamente
para a cama. Então, ele mensurou o tempo, dia após dia,
transferindo ervilhas de um recipiente ao outro. Ele disse:
"a cada quinze ervilhas, é tempo de comer. O que poderia
ser mais simples?". O velho espanhol jamais se levanta da
20

cama, mas sente um sádico prazer nos ratos, no calor e na


peste, que ele chama de "vida". 21
Ele é o niilista na visão de
Carnus. Nada em sua vida — interior ou exterior, mundo
subjetivo ou objetivo — possui valor. Assim ele experimenta
uma existência totalmente desprovida de significado.
Monsieur Cottard representa uma terceira posição. Antes
de a peste atingir a cidade, ele está nervoso, pois é um cri-
minoso e sujeito a ser preso se identificado. Porém, quando
a peste se torna severa, todos os empregados da cidade estão
ocupados em aliviar aquele sofrimento, e Cottard se vê livre
para fazer tudo o que deseja. E tudo o que ele mais quer é
se aproveitar da peste. Quanto mais a situação piora, tanto
mais rico, feliz e amigo se torna. Ele diz: "Piorando a cada
dia', não é? Bem, de qualquer modo, todos nós estamos no

155 •
O u n ive r s o ao la d o

mesmo barco". Jean Tarrou, um dos personagens principais


no romance, explica a felicidade de Cottard da seguinte ma-
neira: "Ele está sob risco de vida como todos os demais, mas
esse é exatamente o ponto: ele está nisso com os outros"P
Quando a peste começa a ceder, Cottard perde o seu sen-
timento de comunidade porque novamente passa a ser um
homem procurado. Ele perde o autocontrole, aterroriza toda
uma rua e é levado à força em custódia. Ao longo de todo
o período da doença, as suas ações foram criminosas. Ao
invés de aliviar o sofrimento do próximo, ele se aproveitou
dele. Ele é o pecador de Carnus em um universo sem Deus —
prova, se assim desejar, em forma romanceada, de que o mal
é possível em um universo fechado.
Se o mal é possível em um cosmo fechado, então tal-
vez o bem igualmente seja possível. Através de dois dos
principais personagens, Jean Tarrou e dr. Rieux, Carnus de-
senvolve esse tema. Jean Tarrou foi inserido na companhia
de niilistas ao visitar seu pai no trabalho, ouví-lo reivindicar,
como advogado de acusação, a morte de um criminoso, para
então ver uma execução. Essa experiência produziu um pro-
fundo efeito em seu interior. Como ele mesmo expressou:
"Aprendi que tinha uma participação indireta nas mortes
de milhares de pessoas... Todos nós contraímos a peste". 24

Assim ele perdeu sua paz.


A partir dessa experiência, Jean Tarrou fez de sua vida
uma busca por algum caminho que o tornasse "um santo sem
Deus". Carnus dá a entender que Tarrou obtém sucesso em
25

sua busca. Seu método repousa na compreensão, simpatia e,


por fim, questões de ordem prática. 26
Ele é o que sugere a

156
Além do niilismo

formação de um grupo de voluntários para combater a praga


e confortar suas vítimas. Tarrou trabalha ininterruptamente
com toda a sua capacidade. N ã o obstante, ainda permanece
um traço de desespero em seu estilo de vida: "vencer a parti-
da" significa para ele viver "apenas com o que se conhece e se
lembra, eliminando aquilo que se espera!" Dessa forma, es-
creve o dr. Rieux, o narrador da história, Tarrou "constatou
a gélida esterilidade de um vida sem ilusões". 27

O próprio dr. Rieux é outro estudo de caso referente a


um bom homem em meio a um mundo absurdo. Desde
o princípio, ele se dispõe a lutar contra a peste com todas
as suas forças - a se rebelar contra o absurdo. No início,
sua atitude é desapaixonada, distante e indiferente. Mais
tarde, quando sua vida é tocada profundamente pelas v i -
das e mortes das outras pessoas, ele se comove, tornando-se
compassivo. Filosoficamente, ele vem a compreender o que
está fazendo. Ele é totalmente incapaz de aceitar a ideia
de que um bom Deus poderia estar no controle de tudo.
Como afirmou Baudelaire, isso faria de Deus o mal. Antes, o
dr. Rieux assume como tarefa sua "lutar contra a criação à
medida que a descobre". Ele diz: "Uma vez que a ordem do
28

mundo é moldada pela morte, não poderia ser melhor para


Deus se nos recusássemos a crer nele e lutássemos com todas
as forças contra a morte, sem elevar nosso olhar para os céus,
onde ele está sentado em silêncio?" 29

O dr. Rieux faz exatamente isso: ele luta contra a morte.


E a história que ele relata é um registro do "que tinha de ser
feito, e o que certamente teria de ser feito novamente na
luta interminável contra o terror e seus inexoráveis ataques,

• 157
O u n ive r s o ao la d o

apesar de suas aflições pessoais, por todos aqueles que, em-


bora incapazes de ser santos, mas se recusando a curvar
diante das pestilências, esforçam-se ao máximo para ser os
curadores". 30

Tenho me detido longamente em A peste (embora não


tenha, de modo algum, esgotado suas riquezas seja como
arte seja como lição de vida) porque não conheço qualquer
31

outro romance ou trabalho sobre filosofia existencial que


tome mais atraente um caso sobre a possibilidade de viver
uma vida boa em um mundo onde Deus jaz morto e os
valores não são alicerçados em uma estrutura moral que
transcende a estrutura humana. Essa obra é, para mim, quase
convincente, mas não totalmente, pois ocorrem as mesmas
questões dentro de sua estrutura intelectual, como dentro
do sistema da obra de Sartre, "existencialismo".
Por que a afirmação de vida, conforme a visão do
dr. Rieux e Jean Tarrou, deveria ser boa, e a vantagem que
Cottard tirou da peste ser má? Por que a reação niilista do
velho espanhol deveria ser menos correta que a ação posi-
tiva do dr. Rieux? É bem verdade que a nossa sensibilidade
humana tende a ficar do lado de Rieux e Tarrou, porém
reconhecemos que o velho espanhol não está sozinho em
seu julgamento. Quem, então, está certo? Os que se alinha-
rem ao lado do velho espanhol não serão convencidos por
Carnus ou qualquer leitor que se posicionar com Rieux,
pois sem uma moral de referência externa não há uma
base comum para discussão. O que existe é uma convicção
contra a outra. A obra, A peste, é atrativa àqueles cujos
valores morais são tradicionais, não porque Carnus oferece

158
Além do niilismo

uma base para tais valores, mas pelo fato de ele continuar a
afirmá-los, mesmo que não haja base para eles. Infelizmen-
te, a afirmação não é suficiente. E l a pode ser combatida
com uma afirmação oposta.
Pode ser que nos dois últimos anos de sua vida, Carnus
tenha reconhecido sua falha em ir além do niilismo. Howard
Mumma, o pastor de verão da Igreja Americana em Paris,
relata conversas privadas travadas com Carnus durante esses
dois anos nos quais o autor, pouco a pouco, veio a sentir
que a explicação cristã era verdadeira. Ele perguntou a
Mumma o que significava "nascer novamente" e se o pastor
o batizaria. O batismo não aconteceu, primeiro, porque
Mumma considerou o batismo de infância de Carnus válido
e, segundo, porque Carnus não estava pronto para exibição
pública de sua conversão. A questão permaneceu sem solução,
quando Mumma deixou Paris, ao fim do verão, esperando
rever Carnus no verão seguinte. Carnus faleceu em um
acidente automobilístico em fevereiro do ano seguinte. 32

Qu an t o al ém do n i i l i sm o ?
O existencialismo ateísta transcende o niilismo? Certamente
unta isso - com paixão e convicção. N ã o obstante, falha
em prover uma referência para uma moralidade que vá além
de cada indivíduo. Ao fundamentar a significância huma-
na na subjetividade, ele a coloca em um plano divorciado
(U realidade. O mundo objetivo mantém-se penetrante: a
morte, a sempre presente possibilidade e a derradeira certeza,
coloca um paradeiro em qualquer outro significado que, caso

159 •
O u n ive r s o ao la d o

contrário, pudesse ser possível. Ele força um existencialista a


afirmar, afirmar e afirmar; quando a afirmação cessa, assim
também cessa a autêntica existência.
Considerando precisamente essa objeção à possibilidade
de valor humano, H . J . Blackham concorda com os ter-
mos do argumento. A morte, de fato, põe um fim em tudo.
Porém, toda vida humana é mais que si mesma, pois descen-
de de uma humanidade passada e influencia o futuro dessa
humanidade. Além do mais, "existe um céu e um inferno
na economia de toda a imaginação humana". 33
Isto é, diz
Blackham, sou o autor de minha própria experiência". Após 34

todas as objeções terem sido levantadas, Blackham retrocede


ao solipsismo. Isso me parece o fim de todas as tentativas éti-
cas do ponto de vista do existencialismo ateísta.
O existencialismo ateísta vai além do niilismo apenas para
alcançar o solipsismo, o eu solitário que existe por 87 anos
(se não contrair a peste mais cedo), então cessa de existir.
Muitos diriam que isso não é, de forma alguma, ir além do
niilismo; significa apenas vestir uma máscara chamada valor,
uma máscara despida pela morte.

Exi st en ci al i sm o t eíst a b ási co

Como indicado acima, o existencialismo teísta surgiu de


raízes filosóficas e teológicas muito distintas daquelas que
deram origem à sua contrapartida ateísta. Ele foi a resposta
de S0ren Kierkegaard ao desafio de um niilismo teológico
- a ottodoxia morta de uma igreja idem. Como os temas
de Kierkegaard foram recuperados duas gerações após

160
Além do niilismo

a sua morte, eles foram a resposta a um cristianismo que


havia perdido totalmente a sua teologia e estabelecido um
evangelho diluído de moralidade e de boas obras. Deus
havia sido reduzido a Jesus que, por sua vez, foi reduzido
a um homem puro e simples. A morte de Deus na teologia
liberal não produziu entre os liberais o mesmo desespero de
Kafka, mas o otimismo de um bispo inglês que, em 1905,
quando instado sobre o que imaginava ser capaz de prevenir
a humanidade de alcançar uma perfeita união social, nada
conseguiu responder.
Mais tarde, na segunda metade do século X X , entretanto,
Karl Barth, na Alemanha, vislumbrou o que poderia acon-
tecer quando a teologia se transformasse em antropologia,
respondendo com a reforma do cristianismo por meio de
linhas existenciais. O que ele e os teólogos subsequentes,
como E m i l Brunner e Reinhold Niebuhr, afirmaram pas-
sou a ser chamado de neo-ortodoxia, que por um pouco foi
significantemente distinta da ortodoxia, e colocava Deus em
um plano secundário. N ã o é meu objetivo abordar especi-
35

ficamente uma forma de neo-ortodoxia, mas, ao contrário,


procurarei identificar proposições que sejam comuns à posi-
ção existencial teísta.
O existencialismo teísta começa com a aceitação das
seguintes pressuposições do teísmo: Deus é infinito e pessoal
(trino), é transcendente, imanente, onisciente, soberano e bom.
I )eus criou o cosmo ex nihilo para operar com uma uniformida-
de de causa e efeito em um sistema aberto. Os seres humanos são
criados à imagem de Deus, assim podem conhecer algo de Deus e
ilo cosmo epodem agir com significado. Deus pode e se comunica

161
O u n iv e r s o ao la d o

conosco. Nós fomos criados bons, mas agora somos decaídos e


precisamos ser restaurados por Deus por meio de Cristo. Para os
seres humanos, a morte é ou o portão para a vida com Deus e
seu povo ou para a vida para sempre separada de Deus. A ética é
transcendente e baseada no caráter de Deus.
Se compararmos a lista anterior com aquela mencionada
no capítulo 2 sobre o próprio teísmo, podemos nos ques-
tionar o que torna o existencialismo teísta especial. Já não
temos o teísmo? Sou tentado a dizer que isso é o que temos,
mas isso seria uma injustiça para com as variações e as ên-
fases especiais dentro do existencialismo. O teísmo em sua
versão existencial é muito mais um conjunto particular de
ênfases dentro do teísmo que propriamente uma cosmovisão
distinta. Ainda, devido ao seu impacto na teologia do século
X X e sua confusa relação com o existencialismo ateísta, ele
merece um tratamento especial. Além do mais, algumas ten-
dências dentro da versão existencial de teísmo colocam-no
em desacordo com o teísmo tradicional. Tais tendências se-
rão enfatizadas à medida que forem surgindo na discussão.
Tal como o existencialismo ateísta, os elementos mais ca-
racterísticos do existencialismo teísta estão relacionados não
com a natureza do cosmo ou Deus, mas com a natureza hu-
mana e nossa relação com o cosmo e Deus.

1. Os seres humanos são seres pessoais que, quando chegam


à plena consciência, descobrem-se em um universo hostil;
se Deus existe ou não é uma questão difícil a ser resolvida,
não pela razão, mas por meio da fé.

O existencialismo teísta não começa com Deus, sen-


do essa a mais importante variação em relação ao teísmo.

162
Além do niilismo

Com o teísmo, assume-se certamente que Deus está pre-


sente e dotado de determinado caráter; então, as pessoas
são definidas em relacionamento com Deus. O existen-
cialismo teísta chega à mesma conclusão, mas começa em
outro lugar.
O existencialismo teísta enfatiza o lugar no qual os seres
humanos descobrem a si mesmos, quando, pela primei-
ra vez, alcançam a autoconsciência. Autorreflexão por um
momento. Sua certeza quanto a própria existência, sua
própria consciência e autodeterminação - esses são os seus
pontos de partida. Quando você olha em derredor, analisa
seus desejos em relação à realidade que encontra e busca
por um sentido para â sua existência, não é abençoado com
respostas certeiras. O que você descobre é um universo
no qual você não se encaixa, uma ordem social que esfre-
ga onde não está coçando e falha em esfregar onde coça.
E, pior ainda, você não percebe Deus imediatamente.
A situação humana é ambivalente, pois a evidência de
ordem no universo é ambígua. Algumas coisas parecem ex-
plicáveis pelas leis que parecem governar os eventos; outras
coisas não. A realidade do amor e da compaixão fornece
evidência para uma deidade benevolente; a realidade do
amor e da violência, além desse universo impessoal aponta
na direção contrária.
E aqui que o padre Paneloux, em A peste, simboliza para
nós uma posição existencial cristã. O dr. Rieux, como v i -
mos, recusa-se a aceitar a "ordem criada" porque constituía
"um esquema de coisas na qual crianças eram levadas à tor-
tura". Por outro lado, o padre Paneloux diz: "Mas, talvez
36

163
O u n ive r s o ao la d o

devêssemos amar aquilo que não compreendemos". 37


Ele
deu um "salto" em fé e amor pela existência de um Deus
bom, ainda que a evidência imediata apontasse para outra
direção. E m lugar de relacionar o absurdo do universo à
queda, como faria um teísta cristão, padre Paneloux assume
que Deus é imediatamente responsável por este universo ab-
surdo; portanto, ele conclui que deve acreditar em Deus a
despeito desse absurdo.
Carnus, em outro lugar, chama tal fé de "suicídio inte-
lectual", e estou inclinado a concordar com ele. Porém, a
questão é que, embora a razão possa nos levar ao ateísmo,
sempre nos será possível recusar as conclusões da razão e dar
um salto rumo à fé.
Na verdade, se o Deus judaico-cristão realmente existe,
seria melhor reconhecer tal fato, porque, nesse caso, nosso
destino eterno depende disso. Porém, dizem os existencia-
listas, a informação não está completa e jamais estará e,
assim, toda a pessoa que deseja ser teísta deve dar um passo
à frente e escolher crer. Deus jamais revelará a si mesmo de
uma forma que não seja ambígua. Por conseguinte, cada
pessoa, na solidão de sua própria subjetividade, envolta
muito mais em trevas que em luz, deve escolher. E essa
escolha deve ser um ato radical de fé. Quando a pessoa
realmente escolhe crer, todo um panorama se descortina
para ela. A maioria das proposições do teísmo tradicional
aflora. Ainda, a base subjetiva e centrada na escolha pela
cosmovisão colore o estilo de cada postura do existencia-
lista cristão, dentro do teísmo.

164
Além do niilismo

2. O pessoal é que possui valor.

Como no existencialismo ateísta, o existencialismo teísta


enfatiza a disjunção entre os mundos objetivo e subjetivo.
Martin Buber, um existencialista judeu, possui os termos
Eu-Tu e Eu-Isso para distinguir entre as duas maneiras de
uma pessoa relacionar-se com a realidade. No relacionamen-
to Eu-Isso, o ser humano é um objetivador.

Agora, com a lente de aumento da observação meticu-


losa, ele se inclina sobre particularidades e as transforma
em objetivos, ou com o binóculo para inspeção remota
ele as objetiva e torna em cenário, isolando-as em obser-
vação, sem qualquer sentimento de sua exclusividade, ou
as entretece em um esquema de observação sem qualquer
sentimento de universalidade. 38

Esse é o campo da ciência e da lógica, do espaço e tem-


po, de mensurabilidade. Como afirma Buber: "Sem o Isso, o
homem não pode viver. Porém, se ele vive apenas por Isso ele
não é um homem". O Tu é necessário.
39

No relacionamento Eu-Tu, um sujeito encontra outro


sujeito: "Quando o Tu é verbalizado [Buber quer dizer v i -
venciado], o que verbaliza não tem nada para seu objeto". 40

Ao contrário, os que verbalizam têm um sujeito como eles


mesmos com os quais podem compartilhar uma vida mútua.
Nas palavras de Buber: "Todo viver real é um encontro". 41

A afirmação de Buber sobre a primazia da relação


Eu-Tu, pessoa a pessoa, é agora reconhecida como clássica.
Nenhum resumo simples lhe fará justiça, por isso, encorajo
os leitores a lidar consigo mesmos na leitura daquele livro.

165
O u n i v e r s o ao la d o

Por ora, devemos nos contentar com mais uma menção so-
bre o relacionamento pessoal que Buber considera possível
entre Deus e as pessoas:

Os homens não descobrem Deus se permanecerem no mun-


do. Eles não O encontrarão se não deixarem este mundo.
Aquele que sai com todo o seu ser a encontrar o seu Tu,
carregando todo o ser que está no mundo, encontrará aque-
le que não pode ser buscado. Claro, Deus é "Totalmente
Outro"; porém ele também é o totalmente Mesmo, o To-
talmente Presente . Por certo, ele é o Mysterium Tremendum
que aparece e desaparece; mas também é o mistério do auto-
evidente, mais próximo a mim que meu Eu. 42

Portanto, os existencialistas teístas enfatizam o pessoal


como valor primário. O impessoal está lá; é importante, mas
é para ser elevado a Deus, elevado ao Tu que está acima de
todos os outros. Agir assim satisfaz o Eu e serve para erra-
dicar a alienação tão fortemente vivenciada pelas pessoas,
quando elas se concentram em relações Eu-Isso com a natu-
reza e, infelizmente, com outras pessoas também.
Essa discussão parece pouco abstrata aos cristãos cuja fé
em Deus é uma realidade diária na qual vivem, ao invés de
refletirem sobre ela. Talvez o quadro seguinte, comparando
duas maneiras de olhar para alguns elementos básicos do
cristianismo, possa deixar as ideias mais claras. Esse quadro
foi adaptado de uma palestra proferida pelo teólogo Harold
Englund, na Universidade de Wisconsin, no início da década
de 60. Imagine na coluna da esquerda a descrição de uma
ortodoxia morta em contraste com a coluna da direita, que
descreve um existencialismo teísta vivo.

166
Além do niilismo

De s p e r s o n a liza d o Pe r s o n a liza d o

Pecado Qu e b r a r u m a r egr a Tr air u m r e la cion a m e n t o

Tr ist eza q u a n t o à t r a içã o


Arrependimento Ad m it ir a cu lp a
pessoal

Perdão Su sp en d er a p en alid ad e Re n ova r a a m iza d e

Cr e r e m u m co n ju n t o de Com p r om et er -se com u m a



p r o p o s içõ e s pessoa

Agr a d a r ao Senhor , u m a
Vida cristã Ob e d e ce r às r egr as
pessoa

Quando colocada dessa forma, a versão existencial é,


nitidamente, mais atraente. Claro que os teístas tradicionais
podem reagir de duas maneiras: primeira, a segunda colu-
na demanda ou implica na existência da primeira coluna
e, segunda, o teísmo sempre incluiu a segunda coluna em
seu sistema. Ambas as respostas são bem fundamentadas.
0 problema é que a cosmovisão total do teísmo nem sem-
pre é bem compreendida e as igrejas apresentam a tendência
de se concentrarem na primeira coluna. Isso levou o exis-
tencialismo a resgatar muitos teístas com respeito ao pleno
u conhecimento da riqueza de seu próprio sistema.

3. 0 conhecimento é subjetividade; a verdade total é com


frequência, paradoxal.

A ênfase existencialista na personalidade e integridade


leva a uma igual ênfase na subjetividade do genuíno conhe-
1 i mento humano. O conhecimento sobre objetos envolve
n-Licionamentos do tipo Eu-Isso; eles são necessários, po-
rém insuficientes. O conhecimento pleno é caracterizado
por uma inter-relação íntima, envolvendo o Eu-Tu, e está

167
O u n i v e r s o a o la d o

firmemente conectada à autêntica vida do conhecedor. E m


1835, quando Kierkegaard foi confrontado com a decisão
sobre qual seria o trabalho de sua esposa, ele escreveu:

O que realmente necessito é tornar mais claro em minha


própria mente o que devo ser, não o que devo conhecer
- exceto até o ponto em que o conhecimento deve prece-
der a açao. O importante é compreender para o que sou
destinado, perceber o que a divindade quer que eu faça; o
ponto é descobrir a verdade para mim, encontrar aquela
ideia pela qual estou pronto a viver e morrer. Que bem
me faria descobrir a assim chamada verdade objetiva, ain-
da que precisasse abrir meu caminho por entre os sistemas
dos filósofos e fosse capaz, se necessário, de passá-los em
revisão?43

Alguns de seus leitores entenderam que Kierkegaard


abandonou totalmente o conceito de verdade objetiva;
certamente alguns existencialistas fizeram exatamente isso,
desunindo o objetivo e o subjetivo tão completamente que
um não tem qualquer relação com o outro. 44
Isso foi espe-
cialmente verdadeiro com respeito a existencialistas como
John Platt. N ã o é que os fatos sejam insignificantes, mas
45

que eles devem ser fatos para alguém, fatos para mim. E
isso muda o caráter deles e faz com que o conhecimento
(orne-se o conhecedor. A verdade em sua dimensão pessoal é
subjetividade; é verdade diferida e vivenciada nos terminais
nervosos da vida humana.
Quando o conhecimento se torna tão intimamente
conectado com o conhecedor, há uma ponta de paixão, de
simpatia e a tendência é ser difícil separá-lo logicamente

168 •
Além do niilismo

do próprio conhecedor. Buber descreve a situação de uma


pessoa diante de Deus: "A situação religiosa do homem, seu
ser lá na Presença, é caracterizada por sua essencial e indis-
solúvel antinomia". O que é a relação de uma pessoa com
1 )eus quanto à liberdade ou necessidade? Kant, afirma Buber,
resolveu o problema ao designar a necessidade ao domínio
cias aparências e a liberdade ao domínio do ser.

Todavida, se considerar a necessidade e a liberdade não em


mundos de pensamento, mas na realidade de estar dian-
te de Deus, se eu sei que "estou entregue à alienação" e,
ao mesmo tempo, sei que "isso depende de mim mesmo",
então não posso escapar do paradoxo que deve ser vivido,
atribuindo proposições irreconciliáveis a dois domínios
distintos de validade; tampouco não há como evitar uma
reconciliação ideal por qualquer dispositivo teológico: mas
sou compelido a tomar ambos para mim, para serem vivi-
dos em conjunto e, ao viver assim, eles se tornam um. 46

A verdade plena reside no paradoxo, não em Uma asserção


de apenas um dos lados da questão. Presumivelmente, esse pa-
radoxo está solucionado na mente de Deus, mas não na mente
humana. Ele é para ser vivenciado: "Deus, confio totalmente
cm ti; faça a tua vontade. Estou me dispondo a agir".
A força de expressar a nossa compreensão quanto a nos-
sa posição diante de Deus em tal paradoxo é, pelo menos
em parte, resultado da incapacidade que a maioria de nós
tem em expressar nossa posição de forma não paradoxal.
A maioria das declarações desse tipo termina por negar tanto
a soberania de Deus quanto à significação humana, isto é,
elas tendem ou ao pelagianismo ou ao hipercalvinismo.

• 169 •
O u n iv e r s o ao la d o

A fraqueza em se conformar, no paradoxo, reside na


dificuldade de reconhecer onde parar. Que conjuntos de
afirmações aparentemente contraditórias devem ser vividos
como verdade? Decerto nem todos. "Ame o seu próximo;
odeie o seu próximo". Faça o bem aos que o perseguem.
Reúna seus amigos e os faça seus inimigos". N ã o cometa
adultério. Tenha todas as relações sexuais ilícitas que pu-
der".
Dessa forma, além de paradoxal, pareceria dever exis-
tir alguma proposição não contraditória, governando os
paradoxos que tentamos vivenciar. Na forma cristã de exis-
tencialismo, a Bíblia, considerada como revelação especial
de Deus, tem estabelecido os limites. Ela proíbe muitos pa-
radoxos e parece encorajar outros. A doutrina da Trindade,
por exemplo, pode ser um paradoxo insolúvel, porém faz
justiça aos dados bíblicos. 47

Entre aqueles que não possuem autoridade externa obje-


tiva a delimitar as fronteiras, o paradoxo tende a correr solto.
Marjorie Grene tece comentários a respeito de Kierkegaard:
"Muitos dos escritos de Kietkegaard aparentam ser moti-
vados não tanto por uma reflexão sobre as conveniências
religiosas ou filosóficas do paradoxo quanto a um problema
peculiar, porém mais pelo puro deleite intelectual no absur-
do por seu próprio interesse". Portanto, esse aspecto do
48

existencialismo teísta surgiu sob críticas intensas por parte


dos que sustentam a cosmovisão teísta tradicional. A men-
te humana é feita à imagem de Deus e, assim, a despeito
de ser finita e incapaz de abranger a totalidade do conhe-
( [mento, ainda assim é capaz de discernir alguma verdade.

170
Além do niilismo

< orno expressou Francis A . Schaeffer, podemos obter uma


lubstancial verdade, mas não toda ela, e podemos discernir
i verdade da tolice por meio do uso do princípio da não
• IH ii i adição. 49

4. A história como registro de eventos é incerta, sem


importância, mas a história como modelo, tipo ou mito a
serfeito presente e vivenciado é de suprema importância.

O existencialismo teísta deu dois passos à frente do te-


jimo tradicional. O primeiro foi começar a desconfiar da
precisão da história registrada. O segundo foi perder o in-
11 i sse em sua facticidade e enfatizar a sua implicação ou
.i] ,iiificado religioso.
( ) primeiro passo está associado ao maior criticismo a
partir da metade do século X I X . E m vez de assumir os re-
inos bíblicos como verazes, aceitando os milagres e tudo
<> mais, os críticos mais contumazes, como D . F. Strauss e
I i ncst Renan, partiram da pressuposição naturalista de que
milagres não podem acontecer. Portanto, seus relatos devem
lei lalsos, não necessariamente inventados pelos escritores
I <>m o propósito de enganar, mas apresentados por pessoas
i rédulas dotadas de mentes primitivas.
Essa posição, claro, tendeu a enfraquecer a autoridade
ilos relatos bíblicos, mesmo que não estivessem envolven-
do eventos miraculosos. Outros críticos, mais notadamente
lulius Wellhausen, também voltaram sua atenção para a
unidade interna do Antigo Testamento e descobriram, as-
i i n estavam convictos, que o Pentateuco não foi escrito pot
Moisés. De fato, os textos mostraram que inúmeras mãos

171
O u n ive r s o ao la d o

foram utilizadas, ao longo de vários séculos. Isso enfraque-


ceu o que a Bíblia afirma de si mesma e, portanto, colocou
em dúvida a verdade de toda a mensagem nela contida. 50

E m lugar de mudar suas pressuposições naturalísticas,


compatibilizando-as com os dados bíblicos, eles concluíram
que a Bíblia era historicamente indigna de confiança. Isso
poderia ter resultado em um abandono da fé cristã em sua
totalidade. Mas, ao contrário, isso levou ao segundo passo
- uma radical mudança de ênfase. Os fatos registrados no
texto bíblico não eram importantes, mas os seus exemplos
de um bom viver e suas imortais verdades morais é que o
eram.
E m 1875, Matthew Arnold escreveu que o cristianismo
"viverá, porque depende de uma ideia verdadeira e incan-
savelmente frutífera, a ideia da morte e ressurreição como
concebida e executada por Jesus... A importância da fé dos
discípulos na ressurreição do Mestre reside em sua convicção
de que ela realmente ocorreu, embora a tenham materializa-
do. Jesus havia morrido e se levantado novamente, mas em
seu próprio sentido, não no dos discípulos". A história, ou
51

seja, os eventos ocorridos no tempo e espaço, não eram im-


portantes, mas a crença é que o era. E a doutrina da morte e
ressurreição surgiu não para a expiação da humanidade pelo
Deus-homem Jesus Cristo, mas para dar o exemplo de uma
"nova vida" de serviço e sacrifício humano em benefício de
outros. O grande mistério da invasão do tempo e espaço pot
Deus foi alterado do fato para o mito, um mito poderoso,
claro, que podia transformar pessoas comuns em gigantes
morais.

172
Além do niilismo

Tais passos ocorreram muito antes de o niilismo de


Nietzsche ou do desespero de Kafka. Eles foram reações aos
"resultados assegurados do conhecimento" (os quais, como
os que agora perseguem o materialismo descobrirão, não são
tão garantidos assim). Se a verdade objetiva não puder ser
encontrada, não importa. A verdade real está poeticamente
contida na "história", a narrativa.
É interessante observar o que logo aconteceu com
Matthew Arnold. E m 1875, ele afirmava que deveríamos ler
a Bíblia como poesia; se assim fizéssemos, ela nos ensinaria a
boa vida. Cinco anos depois, ele deu o próximo passo e pas-
sou a advogar que nós tratamos a poesia da mesma forma com
q u e costumávamos tratar a Bíblia: "Mais e mais a humanida-
de descobrirá que temos nos voltado à poesia para interpretar
,i vida para nós, para nos consolar, para nos sustentar...
A maioria do que agora nos transmitem como religião e fi-
losofia será substituída pela poesia". Para Arnold, a poesia
52

em geral, havia se tornado Escritura.


De todo modo, quando os existencialistas teístas (Karl
Barth, Reinhold Niebuhr, Rudolf Bultmann e outros de
eus colegas) começaram a surgir no cenário teológico, eles
tinham uma solução já pronta para o problema apresenta-
do pelos ortodoxos à alta crítica. Assim, a história bíblica
passou a ser alvo de suspeitas. Que importa? Os relatos são
K ligiosamente" (isto é, poeticamente) verdadeiros. Assim,
• ni|uanto a doutrina dos neo-ortodoxos se parece mais com a
I il mdoxia de Calvino do que com o liberalismo de Matthew
\ i nold, a base histórica para as doutrinas foi reduzida, e as
próprias doutrinas começaram a ser removidas da história.

173
O u n iv e r s o ao la d o

Dizia-se sobre a queda que ela não teria ocorrido lá atrás,


no tempo e espaço, mas cada pessoa reproduz essa histó-
ria em sua própria vida. Cada um entra no mundo como
Adão, sem pecado; cada um se rebela contra Deus. A queda
é existencial - uma proposição aqui e agora - Edward John
Carnell resume a visão existencial da queda como "uma des-
crição mitológica de uma experiência universal da raça". 53

D a mesma forma, a ressurreição de Jesus pode ou não


ter ocorrido no tempo e espaço. Barth acredita que ocorreu,
mas, por outro lado, Bultmann afirma: " U m fato histórico
que envolve uma ressurreição dos mortos é totalmente in-
concebível!" Novamente isso não importa. A realidade por
54

trás da ressurreição é a nova vida em Cristo vivenciada por


seus discípulos. O "espírito" de Jesus vivia neles; a vida foi
transformada. De fato, eles estavam vivendo o "estilo de vida
cruciforme". 55

Outras doutrinas sobrenaturais são, igualmente, "demi-


tologizadas", entre elas, a criação, a redenção, a ressurreição
do corpo, a segunda vinda, o anticristo. Cada uma expressa
como um símbolo de importação "religiosa". Seja conside-
rando-as de forma literal ou não, o significado delas não está
em sua facticidade, mas naquilo que indicam sobre a nature-
za humana e nosso relacionamento com Deus. 56

É aqui, na compreensão da história e da doutrina, que os


teístas mais encontram falhas em suas contrapartes existen-
ciais. A acusação é dupla. Primeiro, os teístas afirmam que
os existencialistas partem de duas pressuposições falsas ou,
pelo menos, altamente suspeitas: (1) que milagres são im-
possíveis (aqui Bultmann, mas não Barth) e (2) que a Bíblia

174
Além do niilismo

não é confiável historicamente. Na esfera das pressuposições,


Bultmann simplesmente empresta a noção naturalista do
universo fechado; Bultmann, embora normalmente as-
sociado com os teólogos neo-ortodoxos, não é, portanto,
realmente um existencialista "teísta", afinal. Muito do co-
nhecimento recente avançou um longo caminho à frente,
icsiaurando a confiança no Antigo Testamento como um re-
gistro preciso de eventos, porém teólogos existenciais ignoram
esse conhecimento ou desconsideram a importância de seus
resultados. E isso nos leva à segunda maior crítica teísta.
Os teístas acusam os existencialistas de edificar uma
teologia sobre a areia movediça do mito e do símbolo. Como
um comentarista disse sobre Resurrection: A Symbol ofHope
| Ressurreição: um símbolo de esperança], de Lloyd Geering,
uma obra existencial: "Como pode um não evento [a ressur-
reição que não aconteceu] ser considerado um símbolo de
esperança ou, na verdade, de qualquer outra coisa? Se algo
.uontece, tentamos ver o que significa. Se não aconteceu, a
questão não pode ser suscitada. Somos levados de volta para
.1 necessidade de um evento Pascal". 57

Deve haver um evento para se haver propósito. Se Jesus


[eyantou dentre os mortos no modo tradicional em que esse
evento é compreendido, então nós temos um evento com
um significado. Se Jesus permaneceu na tumba ou se o cotpo
foi transportado para outro lugar, temos um outro evento
e, assim, ele deve ter um outro significado qualquer. Dessa
forma, um teísta se recusa a desistir da base histórica para a
le e desafia o existencialista a considerar com maior serieda-
d e as implicações de abandonar a facticidade histórica como

175
O u n iv e r s o ao la d o

religiosamente importante. Tal abandono deve levar à dúvi-


da e à perda da fé. Pelo contrário, isso tem levado a um salto
de fé. O significado é criado no mundo subjetivo, porém
não possui referência objetiva.
Nessa área o existencialismo teísta se aproxima do existen-
cialismo ateísta. Talvez, quando os existencialistas abandonam
a facticidade como base de significado, eles deveriam ser enco-
rajados a dar o próximo passo e abandonar completamente o
significado. Isso os colocaria de volta nos desperdícios apaga-
dos do niilismo, e eles deveriam buscar outra saída.

A p er si st ên ci a d o exi st en ci al i sm o

As duas formas de existencialismo são interessantes para


estudo, pois formam um par de cosmovisões que sustentam
um relacionamento fraternal, porém são filhos de pais dife-
rentes. O existencialismo teísta surgiu com Kierkegaard como
uma resposta ao teísmo morto e a uma ortodoxia morta, e
com Karl Barth, como uma resposta à redução do cristianis-
mo a uma mera moralidade. Isso deu lugar ao subjetivismo,
elevou a religião da história e concentrou sua atenção no
significado interior. O existencialismo ateísta veio à tona
com Jean Paul Sartre e Albert Carnus, como uma reação ao
niilismo e a redução das pessoas a insignificantes engrena-
gens dentro do maquinário cósmico. Isso levou a uma volta
subjetivista, elevou a filosofia da objetividade e ctiou signifi-
cado a partir da afirmação humana.
Irmãos em estilo, porém diferentes em conteúdo, essas
duas formas de existencialismo ainda atraem a atenção e

176
Além do niilismo

angariam partidários. Enquanto aqueles que seriam crentes


em Deus ansiarem por uma fé que não demanda muita crença
no sobrenatural ou na precisão da Bíblia, o existencialismo
teísta será uma opção viva. Enquanto os naturalistas, que
não podem (ou se recusam) a crer em Deus, buscarem por
um caminho, visando encontrar significado em sua vida, o
existencialismo ateísta terá a sua serventia. Prevejo que as
duas formas - provavelmente em versões sempre novas e
variáveis - estarão conosco por um longo tempo.

• 177 •
C a p í t u l o s et e

JO RN A D A R U M O A O O RI EN TE

M o ni sm o p ant eíst a o ri ent al

E tod as as vozes, tod os os objetivos, tod os os an seios, tod as as


tristezas, tod os os p razeres, tod o o bem e tod o m a l... A gran d e
can ção co m m ilh ares de vozes con sistia d e u m a ú n ica p alav ra:
O M - p erfeição.

H er m a n H esse, Sidart a

N O CURSO DO PENSAM ENTO OCIDEN TAL, n ó s , p or


ch eg a m o s a u m im p a sse. O n a t u r a lis m o lev a ao n iilis -
m o , e este, p o r s u a v e z , é d ifícil d e t r a n scen d er n os t er m o s
fim ,

Que o m u n d o o cid e n t a l, p e r m e a d o p elo n a t u r a lis m o , d eseja


u t it a r . O e xis t e n cia lis m o a teísta , co m o v i m o s , é u m a t e n t a -
n v.i , m a s ele a p r esen t a a lg u n s p r o b lem a s sér ios. O t eísm o é
Um a o p çã o , m a s , p a r a u m n a t u r a lis t a , n ã o é a t r a en t e. C o m o
Dod e u m n a t u r a lis t a a ceit a r a exist ên cia d e u m D e u s t r a n s -
I en d en t e, i n fi n i t o e p essoal? P o r q u ase u m sécu lo essa q u est ã o
O u n iv e r s o ao la d o

a p r esen tou -se co m o u m sério o b s t á cu lo . M u i t a s p essoas h o je


p r efer e m a g a r r a r -se ao seu n a t u r a lis m o , p o is ele a in d a p a r e-
ce ser u m a v a n ço d ecisiv o sobr e a fa b u lo s a r elig ião q u e ele
m e s m o r e je it o u . A lé m d o m a is , a cr is t a n d a d e m o d e r n a , c o m
su as igr ejas h ip ó cr it a s e su a fa lt a d e co m p a ixã o , co n s t it u i
u m p o b r e t e s t e m u n h o q u a n t o à v ia b ilid a d e d o t e ís m o . N ã o ,
m u it o s r eflet em , p o r esse ca m i n h o n ã o seg u ir em o s.
Ta lv e z d ev êssem os o lh a r n o v a m e n t e p a r a o n a t u r a lis m o .
O n d e fo i q u e er r a m os? Be m , d esco b r im o s q u e, ao seg u ir a
razão, n osso n a t u r a lis m o n os lev a ao n iilis m o . P o r é m , n ã o
p r ecisa m o s n ecessa r ia m en t e a b a n d o n a r o n osso n a t u r a lis m o ;
p o d em o s s im p le s m e n t e d iz er q u e a razão n ã o é con fiá v el. O
exist en cia lism o seg u iu essa r o t a p a r cia lm e n t e e, ta lv ez , e n t ã o ,
d ev êssem os seg u í-la a té o fim . Se g u n d o , u m a v ez q u e n ó s ,
o cid en t a is, t en d em o s a n os d eter e m d iscu ssões sobr e "d o u -
t r in a s ", id eias e a s s im p o r d ia n t e, d ecla r em o s u m a m o r a t ó r ia
n ã o ap en as sobre as d iscu ssões, m a s sobre t o d a e q u a lq u e r
d iscr im in a çã o in t e le ct u a l. Ta lv e z a lg u m a d o u t r i n a "ú t il" d e-
vesse ser co n sid er a d a co m o v er d a d eir a . Te r ce ir o , t o d o n osso
a t iv is m o e m p r o l d e gerar m u d a n ça s p o r m e io d a m a n i p u l a -
çã o d o sist em a d o u n iv er so p r o d u z p o lu içã o e n ossos esfor ços
q u a n t o a m elh o r ia s sociais n ã o se m o s t r a m r ecom p en sa d or es,
p o r qu e razão n ã o a b a n d o n a m o s t o d o esse a t iv ism o ? Va m o s
p a r a r d e ten ta r elev ar n ossa q u a lid a d e d e v i d a e ap en as ser.
Fin a lm e n t e , se as d iscu ssões d o O ci d e n t e a ca b a m r e d u n d a n -
d o e m co n flit o s a r m a d o s , p o r qu e n ã o b a t er m o s e m r et ir a d a
co m p let a m en t e? D e v e m o s segu ir e d eixa r a con t ecer : n o qu e
isso p od e ser p io r d o q u e t u d o o q u e tem os o b t id o até agora?
É p ossível q u e o O r i e n t e t e n h a u m ca m i n h o m elh o r ?

180 •
Jornada rumo ao orient e

C o n s i d e r a n d o e m t e r m o s s o cio ló g ico s, p o d e m o s r astr ear


0 in ter esse sobr e o O r i e n t e a p a r t ir d a r ejeiçã o d os v a lo r es d a
classe m é d ia p ela g er a çã o jo v e m d os a n os sessen ta. P r i m e i r o ,
a t ecn o lo g ia o cid e n t a l (ist o é, a razão e m s u a a p lica çã o p r á -
t ica ) t o r n o u p ossível a g u e r r a m o d e r n a . A G u e r r a d o Vie t n ã
(os jo v e n s a m e r ica n o s n u n c a h a v i a m v iv e n cia d o p e s s o a lm e n -
te os co n flit o s a n t er io r es) é o r esu lt a d o d a r a z ã o. P o r t a n t o ,
a b a n d o n e m o s a r azão. Se g u n d o , a e co n o m ia o cid e n t a l t e m
r esu lta d o e m g r a n d e d esig u a ld a d e so cia l e a op r essã o eco -
n ó m ica sobr e as m assas m a is ca r en tes. A s s i m , r ejeit em o s as
p r essu p osições a p a r t ir d as q u a is t a l sist em a fo i d e s e n v o lv i-
d o. Te r ce ir o , a r eligiã o o cid e n t a l p ar ece a p o ia r fo r t e m e n t e
.iqu eles e m co n t r o le d a t ecn o lo g ia e d o s is t e m a e co n ó m i co .
1 )essa fo r m a , n ã o v a m o s ca ir n essa a r m a d i l h a .
A m u d a n ça ao p e n s a m e n t o o r ie n t a l d esd e os an os ses-
le n t a é, p o r t a n t o , p r i m a r i a m e n t e u m a fu g a d o p e n s a m e n t o
o cid e n t a l. O O ci d e n t e a ca b a e m u m la b ir in t o d e co n t r a d i-
ções, atos d e su icíd io in t e le ct u a l e u m esp ectr o d e n i i l i s m o
q u e a s s o m b r a os ca n t o s escu r os d e t o d o o n osso p e n s a m e n -
t o. Exis t e a l g u m o u t r o ca m in h o ?
D e fa t o , h á - u m c a m i n h o m u i t o d ife r e n t e . C o m s e u
iM iir r a cio n a lism o , seu s i n cr e t i s m o , su a q u ie t u d e , su a
n isên cia d e t e cn o lo g ia , s e u est ilo d e v i d a s im p le s e d e s co m -
1' lu a d o , b e m co m o s u a e s t r u t u r a r e lig io s a r a d ica lm e n t e
d d cr e n t e , o O r i e n t e t o r n a -s e a lt a m e n t e a t r a en t e. A lé m d i s -
10, o O r i e n t e g o z a d e u m a t r a d içã o m u i t o m a is lo n g a q u e
O < )cid e n t e . Se n d o n ossos v i z i n h o s p o r s é cu lo s , o O r i e n t e
possui m é t o d o s d e co n ce b e r e en xer g a r o m u n d o diame-
t r a lm e n t e co n t r á r io aos n o sso s. Ta l v e z o O r i e n t e , a q u e la

181
O u n iv e r s o ao la d o

t e r r a d e g u r u s m e d it a t iv o s e v i d a s im p le s , t e n h a a r esp o st a
aos n ossos a n seios d e s ig n ificâ n cia e p r o p ó s it o .
P o r ce r ca d e u m s é cu lo , o p e n s a m e n t o o r ie n t a l v e m
flu ind o p a r a o O c i d e n t e . A s e s cr it u r a s h in d u ís t a s e b u d i s -
tas fo r a m t r a d u z id a s e c i r c u l a m a g o r a e m ed içõ es d e b o lso
d e b a ixo cu s t o . Já n o a n o d e 1 8 9 3 , n o p r i m e i r o P a r l a m e n t o
d e Re lig iõ e s M u n d i a i s , r e a liz a d o e m C h ica g o , Sw a m i
V i v e k a n a n d a c o m e ç o u a i n t r o d u z i r os e n s in a m e n t o s d e seu
g u r u p esso a l, Sr i R a m a k r i s h n a P a r a m a h a n s a . D . T . Su z u k i ,
d o Ja p ã o , i n t r o d u z i u o Z e n n a s p u b lica çõ e s o cid e n t a is . E
A l a n W a t t s , u m o ci d e n t a l , a b s o r v e u o Z e n e r e t o r n o u ao
O c i d e n t e p a r a p r o p a g a r ta is e n s in o s e n t r e seu s coleg a s o ci -
d e n t a is . N a d é ca d a d e 1960, est u d o s o r ie n t a is já t i n h a m
p e n e t r a d o n a s escola s d e e n s in o m é d i o . G u r u s in d ia n o s
c r u z a r a m , r ep et id a s v ez es, os Es t a d o s U n i d o s e E u r o p a , p o r
m u it a s d éca d a s. O co n h e ci m e n t o o r ie n t a l p a ssa a ser d e fá-
ci l o b t e n çã o , sen d o q u e , m a is e m a i s , s u a v isã o d e r ea lid a d e
t o r n a -s e u m a o p çã o d e v i d a n o O c i d e n t e . 1

M o n i sm o p an t eíst a o r i en t al b ási co

C l a r o q u e o O r i e n t e é tã o r ico e d ifícil d e r o t u la r e cate-


g o r iz a r q u a n t o o O ci d e n t e , co m o p o d er á ser fa cilm e n t e
co n st a t a d o p o r q u a lq u e r u m q u e ap en as fo lh ea r o su m á r io
d e u m est u d o , co m o os cin co v o lu m e s q u e f o r m a m a ob n i
History of Indian Philosophy [História da filosofia indiana],
d e Su r e n d r a n a t h D a s g u p t a . A seg u in te d escr içã o é r estr ita ;)
2

co sm o v isã o m a is p o p u la r n o O ci d e n t e : o m o n i s m o p a n teísta ,
Es s a é a co sm o v isã o r a iz q u e f o r m a a base d o sist em a h i n d u

182
Jornada rumo ao orient e

d e Sh a n k a r a (A d v a it a Ve d a n t a ), a m e d it a çã o t r a n s ce n d e n t a l
d e M a h a r i s h i M a h e s h Yo g i, m u i t o d os u p a n ixa d e s e v isões,
b ela m en t e ca p t u r a d a s p o r H e r m a n H esse e m se u r o m a n ce ,
Sidarta. O b u d is m o co m p a r t i l h a m u it a s ca r a cter ística s d o
h in d u ís m o , m a s d ifer e d ele e m u m p o n t o -ch a v e : a n a t u r e -
z a d a r ea lid a d e s u p r e m a . Se g u ir e i, p o r t a n t o , a a p r esen t a çã o
n a t u t a l c o m a d escr içã o d o Z e n , a fo r m a p r e d o m in a n t e d o
Bu d i s m o n o O ci d e n t e .
O m o n i s m o p a n t eíst a é d ife r e n cia d o d as d e m a is co s m o v i-
sões r ela cion a d a s co m o O r i e n t e p o r seu m o n i s m o , a n o çã o
d e q u e ap en as u m elem en t o im p esso a l co n s t it u i a r ea lid a d e.
H a r e K r i s h n a n ã o se e n q u a d r a n essa co sm o v isã o , p o is e m b o -
r a co m p a r t ilh e m u it a s ca r a cter ística s d o m o n i s m o p a n t eíst a
o r ie n t a l, d ecla r a q u e a r ea lid a d e, e m ú lt im a a n á lise, é p essoal
(e, p o r t a n t o , co m p a r t i l h a u m a s im ila r id a d e c o m o t e ís m o ,
t o t a lm en t e au sen te e m A d v a i t a Ve d a n t a ).
Es p e r a m o s q u e essas ob ser v a ções co d ifica d a s se t o r n e m
m a is cla r a s à m e d id a q u e p r o sseg u ir m o s . P o r é m , p r i m e i r o ,
n ós d ev em o s ser a i n d a m a is e n ig m á t ico s .

A tma é Brahma, isto é, a alma de cada um e de todo ser


humano é a alma do cosmo.

A t m a (a essên cia, a a lm a d e q u a lq u er p essoa) é Br a h m a


(a essên cia, a a lm a d e tod o o co s m o ). O q u e é u m ser h u m a n o ?
Isto é, o q u e está n o â m a g o d e ca d a u m d e n ós? C a d a p essoa
abran ge t o d o o u n iv er so . C a d a p essoa é D e u s (exp r essan d o d e
lo r m a ou sa d a , p o r ém p r ecisa , e m ter m os o r ien t a is).
M a s é p r eciso d e fin ir D e u s e m t er m o s p a n teísta s. D e u s
i a r ea lid a d e ú n ica , i n fi n i t a , im p esso a l e s u p r e m a . O u seja ,

• 183 •
O u n iv e r s o ao la d o

D e u s é o co s m o . D e u s está e m t u d o o q u e existe; n a d a existe


q u e n ã o seja D e u s . 3
Se q u a lq u e r co is a q u e n ã o seja D e u s
a p a r en te exist ir , isso é m aya, o u seja , ilu sã o , e n ã o existe
r e a lm e n t e . E m o u t r a s p a la v r a s, t u d o o q u e existe co m o u m
o b jet o d is t in t o e sep a r a d o - essa ca d e ir a , n ã o a q u ela o u t r a ;
essa r o ch a , n ã o a q u ela á r v or e; e u , n ã o v o cê - é u m a ilu sã o.
N ã o é a n ossa d ist in çã o q u e n o s co n ced e r ea lid a d e, m a s a
n ossa u n icid a d e , o fa to d e ser m os Br a h m a , e Br a h m a é u m .
S i m , Br a h m a é o u m .
A r ea lid a d e s u p r e m a está a lém d e d is t in çã o ; ap en as é. D e
fa t o , co m o v er em o s n a d iscu ssão sobr e e p is t e m o lo g ia , n ã o
p o d e m o s n os exp r essa r n a lin g u a g e m d a n a t u r e z a d essa u n i c i -
d a d e. N ó s p o d e m o s ap en as "co m p r e e n d ê -la ", t o r n a n d o -n o s
ela , a p o d er a n d o -se d e n ossa u n id a d e , n o ssa "d e id a d e " e a li
p er m a n ecer , a lém d e q u a lq u e r d ist in çã o o u o q u e q u er q u e
seja .
N ó s o cid en t a is n ã o estam os a co st u m a d o s a esse t ip o
d e sist em a . D i s t i n g u i r isso é p en sar . A s leis d o p e n s a m e n -
to d e m a n d a m d is t in çã o : A é A ; p o r é m A n ã o é o n ã o A .
C o n h e ce r a r ea lid a d e é d ife r e n cia r u m d o o u t r o , r o t u lá -lo ,
ca t a lo g á -lo , r eco n h ecer a su a s u t il r ela çã o c o m o u t r o s o b je-
tos n o co s m o . N o O r i e n t e , "co n h e ce r " a r ea lid a d e é ir além
d a d is t in çã o , "co m p r e e n d e r " a u n icid a d e d e t u d o sen d o u m
c o m tod os. Es s e t ip o d e co n ce it o — a té o p o n t o e m q u e n ossa
m e n t e é cap az d e co m p r e e n d e r - é m e l h o r exp r esso in d ir e -
tam en te.
O s u p a n ixa d e s são r icos e m t en t a t iv a s d e exp r essa r o
in exp r im ív el in d ir e t a m e n t e p o r m e io d e p a r á b o la s.

184 •
Jornada rumo ao orient e

"Tr aga-m e u m fru to dessa figu eira."


"A q u i está, p a i."
"Q u eb r e-o ."
"Está qu ebrad o, sen h or."
" O qu e você vê d en tro d ele?"
"Sem en tes m u ito p equ enas, sen h or."
"Q u eb r e u m a d elas, m eu filho."
"Está qu ebrad a, sen h or."
" O qu e você vê d en tro d ela?"
"Absolu tam en te n ad a, sen h or."

E n t ã o , seu p a i fa lo u -lh e : " M e u filho, d a p r ó p r ia essên cia


d a sem en t e q u e v o cê n ã o p o d e v er , su r g e e m v er d a d e esta
g r a n d e á r v o r e".

"Acred ite-m e, m eu filho, u m a invisível e su til essência é o


esp írito de tod o o u n iverso. Isso é realid ad e. Isso é A t m a .
T u és isso". 4

A s s i m o p a i, u m g u r u , e n s in a a seu filho, u m a p r e n d iz ,
q u e m e s m o u m a p r e n d iz é s u p r e m a r ea lid a d e. N ã o o b st a n t e,
tod os n ó s — o r ien t a is e o cid en t a is — p er ceb em o s d ist in çõ es.
N ó s n ã o "co m p r e e n d e m o s " n o ssa u n icid a d e . E isso n os lev a
á s e g u n d a p r o p o siçã o :

2. A lgumas coisas são mais únicas que outras.

A q u i p a r ecem os v e r a m u lt ip lica çã o d as ob ser v a ções e n ig -


m á tica s q u e le v a m a lu g a r n e n h u m . P o r é m , n ã o d ev em o s
en t r a r e m d esesp ero. O "p e n s a m e n t o " o r ie n t a l é a s s im .

"Algu m as coisas são m ais ú nicas qu e ou tras" con stitu i u m a


ou tra m an eir a d e exp ressar qu e a realid ad e é u m a h ierar-
qu ia de ap arências. Algu m as "coisas", algu m as ap arências

• 185
O u n iv e r s o ao la d o

ou ilu sões estão m ais p róxim as de ser u m com o u m . A


h ierarqu ia orien tal co m u m se parece com aqu ela qu e os
ocid en tais p od em con stru ir, m as p or u m a razão d iferen te.
A m atéria p u r a e sim p les (isto é, m in er al) o m esm o real;
en tão, segue-se a v id a vegetal, a v id a a n im a l e, p or fim , a
h u m an id ad e. Porém , a h u m an id ad e tam bém é h ierárqu i-
ca; algu m as pessoas estão m ais p róxim as d a u n id ad e qu e
ou tras. O m estre p erfeito, o ilu m in a d o, o gu r u são os seres
h u m an os m ais p róxim os d o ser p u r o.

E m p a r t e, a co n s ciê n cia a p a r en t a ser o p r in cíp io d e h ie -


r a r q u ia a q u i . "C o m p r e e n d e r " a u n icid a d e p a r ece i m p l i ca r
co n s ciê n cia . N o e n t a n t o , co m o v e r e m o s , q u a n d o a lg u ém é
u m c o m o u m , a co n s ciê n cia d esap ar ece p o r co m p le t o e a
p essoa p assa a ser s im p le s m e n t e u m Ser in fin it o -im p e s s o a l.
A co n s ciê n cia , t a l co m o as t écn ica s d e m e d it a çã o , é ap en as
m a is u m e le m e n t o a ser d esca r t a d o, q u a n d o su a u t ilid a d e
n ã o é m a is n ecessá r ia . A i n d a , a m a t é r ia p u r a está m u i t o
5

a lém d a co m p r e e n s ã o d e s u a u n icid a d e q u e a h u m a n i d a d e ,
e isso é o q u e co n t a .
O m a is l o n g í n q u o a lca n ce d a ilu s ã o , e n t ã o , é a m a t é r ia .
E m b o r a s u a essên cia seja A t m a , ela n ã o é. N ã o o b s t a n t e ,
d e v e r ia ser a s s im . D e v e m o s ser ca u t elo so s a q u i a fim d e
n ã o co n e ct a r q u a lq u e r n o çã o d e m o r a l i d a d e à n o s s a c o m -
p r een sã o d a e xig ê n cia d e q u e tod a s as coisa s s e ja m u m co m
o u m . A q u i isso a p en a s s ig n ifica q u e o p r ó p r io ser r eq u er
u n id a d e c o m o u m , a r ea lid a d e s u p r e m a , e t u d o o q u e n ã o
fo r o u m n ã o é r e a lm e n t e i m p o r t a n t e . N a v e r d a d e , n ã o
p o s s u i v a lo r a l g u m , p o r é m , m a is i m p o r t a n t e , isso n ã o p o s-
s u i ser a l g u m .

• 186 •
Jornada rumo ao orient e

P o r t a n t o , r e t o r n a m o s à p r o p o siçã o o r ig in a l: a lg u m a s
coisas sã o m a is ú n ica s, isto é, m a is reais q u e o u t r a s . A p r ó -
x i m a q u est ã o é ó b v ia : co m o u m in d iv íd u o , u m ser sep a r a d o
t or n a -se u m c o m o U m ?

3. M uitos (se não todos) caminhos levam ao um.

C h e g a r à u n id a d e co m o U m n ã o é u m a q u est ã o d e
e n co n t r a r o v er d a d eir o ca m i n h o . H á m u it o s ca m i n h o s d es-
d e o m aya a té a r ea lid a d e. Posso seg u ir u m c a m i n h o ; v o cê ,
o u t r o ; u m a m ig o , u m t er ceir o , ad infinitum. O o b je t iv o n ã o
é estar c o m o u t r a p essoa n o m e s m o ca m i n h o , m a s ser lev a d o
n a d ir eçã o co r r et a e m seu p r ó p r io ca m i n h o . Ist o é, d ev em os
ler o r ien t a d o s co r r et a m en t e.
Es s a o r ie n t a çã o n ã o é t a n t o u m a q u est ã o d e d o u t r i n a ,
p o r ém d e t é cn ica . N esse q u e s it o , o O r i e n t e é in flexív el. E m
til ti m a a n á lise, as id eias n ã o são im p o r t a n t e s . C o m o a fi r m o u
6

Sr i R a m a k r i s h n a : "N ã o d is cu t a sobr e d o u t r in a s e r elig iões.


I l.i so m en t e u m a . To d o s os r io s flu em p a r a o o cea n o . F l u a e
d eixe o u t r o s fluir t a m b é m !" 7

D e u m a p er sp ect iv a d o u t r in á r ia , v o cê e e u p o d em o s
ip e n a s o ca s io n a lm e n t e co n co r d a r sobr e o q u e é v er d a d e a
resp eito d e a lg u m a co isa - n ós m e s m o s , o m u n d o e xt e r n o ,
.1 religião. N ã o i m p o r t a . N o final, as religiões le v a m ao m es-
m o h m . C o m p r e e n d e r a u n id a d e co m o U m n ã o se t r a t a d e
Um a q u est ã o d e cr e n ça , m a s d e t é cn ica , e m e s m o as t écn ica s
\ ii ia m .

A lg u n s g u r u s , co m o M a h a r i s h i M a h e s h Yo g i, e n fa t iz a m
0 câ n t ico d e m a n t r a s , u m a p a la v r a e m sâ n scr it o a p a r en t e-
m e n t e s e m s ig n ifica d o , p o r v ez es, selecio n a d a p o r u m m estr e

187
O u n iv e r s o ao la d o

e s p ir it u a l e d a d o e m secr eto a u m in icia d o . O u t r o s r e co m e n -


d a m a m e d it a çã o sob r e u m a m a n d a l a , u m a b ela im a g e m
cir cu la r , a lt a m e n t e ela b o r a d a e, e m g er a l, fa s cin a n t e m e n t e
o r n a d a , s ím b o lo d a t o t a lid a d e d a r ea lid a d e. O u t r o s a in d a
e xig e m r ep etições in t er m in á v eis d e or a ções o u atos d e r ev e-
r ê n cia .
Q u a s e tod as essas t écn ica s, e n t r e t a n t o , e xig e m q u ie t u d e
e is o la m e n t o . Sã o m é t o d o s d e m e d it a çã o in t e le ct u a lm e n t e
s e m co n t e ú d o . U m a p essoa t en t a a t in g ir o n ív el d e v ib r a çã o
co m a r ea lid a d e p a r a lev a r su a a l m a a u m a h a r m o n i a c o m o
co s m o e, p o r fim , c o m o só lid o , n ã o h a r m ó n i co , n ã o d u a l , a
v ib r a çã o s u p r e m a — Br a h m a , o u m .
D e tod os os "ca m in h o s ", u m d os m a is co m u n s en v o lv e
en t oa r e m câ n t ico a p a la v r a Om o u u m a frase co n t e n d o essa
p a la v r a co m o , p o r e xe m p lo , " O m M a n i P a d m e H u m " . Ta n t o
a p a la v r a O M q u a n t o o r estan te d a frase são essen cia lm en -
te in tr ad u zív eis p o r q u e são in t elect u a lm en t e d esp r ov id os d e
co n t e ú d o . A l g u n s t ê m su g er id o p a r a o t e r m o Om a seg u in -
te t r a d u çã o : sim, perfeição, realidade suprem a, tudo, a palavra
eterna. M a h a r i s h i M a h e s h Yo g i d iz q u e Om é o "m a n t e n e d o r
d a v i d a ", "o p r in cíp io e o fim d e t o d a a cr ia çã o ", "aqu ele hum,
q u e é o p r im e ir o s o m silen cio so, a p r i m e i r a o n d a silen ciosa
q u e se in ici a d a q u ele silen cio so ocea n o d e v i d a n ã o m a n ife s-
t a ". C h t i s t m a s H u m p h r e y s co m e n t a q u e Om é "a p r im e ir a
8

sílaba d a fó r m u la t ib et a n a Om Mani Padme Hum, o sig n ifi-


ca d o ext er n o q u e é m e r a m e n t e : "Sa lv e ! Ó Jó i a d o Ló t u s ", e
seu sig n ifica d o in t e r n o , q u e é o sig n ifica d o d o u n iv e r s o ". 9

O b v ia m e n t e , o t er m o significado n ã o é u t iliz a d o nesse sis-


t e m a o r ien t a l d a m e s m a fo r m a qu e é u t iliz a d o n o teísm o ou

188 •
Jornada rumo ao orient e

n a t u r a lis m o . N ã o estam os d isco r r en d o a q u i sobr e co n t e ú d o


r a cio n a l, m a s u n iã o m eta física . Pod em os v er d a d eir a m en t e
"p r o n u n cia r " Om e "en t en d er " seu sig n ifica d o so m en t e q u a n -
d o fo r m o s u m co m o u m , q u a n d o : "A t m a é Br a h m a ", n ã o
for u m a d eclar açã o ep ist em o ló g ica , m a s u m a co m p r een sã o
o n t o ló g ica , isto é, "tor n a r -se r e a l".
O m u n d a k a u p a n ixa d e a fi r m a isso d a seg u in t e m a n e ir a :

O M . Essa p alavra etern a é tu d o; o qu e era, o qu e é e o qu e


há d e ser, e o qu e está além n a eternid ad e. Tu d o é O M .
Br a h m a é tu d o, e A t m a é Br a h m a . A t m a , o eu , p ossu i q u a-
tro estad os.
O p r im eir o estad o é a v id a vigilan te d a con sciên cia voltad a
p ara o extern o, d esfru tan d o os sete elem entos m ais exter-
nos e grosseiros.
O segu nd o estad o é a v id a son h ad ora d a con sciên cia v o l-
tad a p ara o in tetior, d esfru tan d o os sete elem entos m ais
in tern os e su tis em su a p róp ria lu z e solid ão.
O tetceiro estad o é a v id a ad orm ecid a d a con sciên cia silen -
ciosa, qu an d o a pessoa não p ossu i d esejos e não alim en ta
son h os. Essa con d ição d e sono p rofu n d o é a de u n id ad e,
u m a m assa de silen ciosa con sciên cia feita d e p az e d esfru -
tand o a p az.
Essa con sciên cia silen ciosa é on ip oten te, on iscien te, o go-
vern ad or in ter n o, a fon te de tu d o, o p tin cíp io e o fim de
tod os os seres.
O qu arto estado é A t m a em seu p róp rio estado p u ro: a vid a
d esp erta de su p rem a consciência. El a não é a consciência
exterior ou in terior, n em sem iconsciência ou consciência
ad orm ecid a, tam p ou co é consciência ou inconsciência. Ele é
Atm a, o p róp rio Esp írito, que não pode ser visto ou tocad o,

• 189 •
O u n i v e r s o ao la d o

que está acim a de tod a a d istinção, além d o p ensam ento e


inefável. N a u nião com ele resid e a su p rem a p rova d a su a
realid ad e. Ele é o fim d a evolu ção e d a não d u alid ad e. Ele é
paz e am or.
Esse A t m a é a p alavra eterna O M . Seu s três sons, A , U e
M , são os três p rim eiros estados d e con sciên cia, e esses três
estados con stitu em os três sons.
O p r im eir o som , A , é o p r im eir o estad o d a con sciên cia
vigilan te, co m u m a tod os os h om en s. É en con trad o nas
p alavras Apti (realizar) e Adimatvam, "send o p r im eir o".
Q u e m conhece isso realiza em verd ad e tod os os seus d ese-
jos, e, em tod as as coisas, torna-se o p r im eir o.
O segu nd o som , U , corresp ond e ao segu nd o estad o
d e con sciên cia son h ad ora. É en con trad o nas p alavras
Utkarsha, "elevação", e Ubhayatvam, "d u bied ad e". Aqu ele
qu e con h ece isso eleva a trad ição d o con h ecim en to e
alcança o equ ilíbrio. E m su a fam ília jam ais nasce algu ém
qu e não con h ece Br a h m a .
O terceiro som , M , é o terceiro estad o d e con sciên cia ad or-
m ecid a. Ta l som é en con trad o nas p alavras Miti, "m ed id a",
e n a raiz Mi "p ara o fim ", qu e fornece Apti, "fim d errad ei-
ro". Aqu ele qu e con h ece isso m ed e tod as as coisas com su a
m ente e alcança o O bjetiv o final.
A p alavra O M , com o u m som , é o qu atto estad o de con sci-
ên cia su p rem a. Está além d os sentid os e con stitu i o fim d a
evolu ção. É a não d u alid ad e e o am or. Ele v ai com seu eu
ao su p rem o E u , qu e con h ece isso . 10

M e n cio n e i esse u p a n ixa d e e m su a totalid ad e p or q u e ele


co n t é m in ú m er a s id eias-ch av e e m u m a p assagem r ela t iv a m en -
te cu r t a . N o m o m e n t o , estou m a is in teressad o n a p a la v r a O M

190 •
Jornada rumo ao orient e

c e m co m o ela rep resen ta a r ealid ad e su p r em a . D i z e r O M é n ã o


t r a n sm it ir co n t eú d o in t elect u a l. O M sig n ifica q u a lq u er coisa
B t u d o , p o r t a n t o , sen d o a lém d e d istin çã o, p od e d izer-se qu e
fcfio significa n a d a . D iz e r O M é, m a is p r o p r ia m en t e, tor n a r -se
ou ten tar tor n ar -se o qu e O M sim b o liz a .

4. Perceber a unidade com o cosmo é ir além da personali-


dade.

P o r u m in s t a n t e , v a m o s r et o r n a r à p r i m e i r a p r o p o siçã o e
ver o n d e isso n os lev a q u a n d o v o lt a m o s n ossa a t e n çã o aos se-
res h u m a n o s n este m u n d o . A t m a é Br a h m a . Br a h m a é u m e
im p esso a l. P o r t a n t o , A t m a é im p e s s o a l. O b s e r v e a co n clu sã o
n o v a m en t e: os seres h u m a n o s e m s u a essên cia - n o seu m a is
v er d a d eir o e co m p le t o ser - são im p esso a is.
Es s a n o çã o n o m o n i s m o p a n t eíst a é d ia m e t r a lm e n t e
co n t r á r ia ao t e ís m o . N o t e ís m o , a p er so n a lid a d e é a ca r a ct e-
i ist ica p r i n ci p a l sobr e D e u s , co m o t a m b é m sob r e as p essoas.
Sig n ifica q u e u m in d iv íd u o p o s s u i co m p le xid a d e n o â m a g o
d e seu ser. A p er so n a lid a d e d e m a n d a a u t o co n s ciê n cia e a u -
t o d e t e r m in a çã o , e a m b o s e n v o lv e m d u a lid a d e - o p en sa d o r
c a co isa p en sa d a . N o t e ís m o , t a n t o D e u s q u a n t o a h u m a n i -
d ad e são co m p le xo s .
N o p a n t e ís m o , a ca r a ct er íst ica p r i n ci p a l sobr e D e u s é a
U n id a d e , a b st r a t a , a b s o lu t a , in d ife r e n cia d a e n ã o d u a l u n i -
d a d e. Isso co lo ca D e u s a lém d a p er so n a lid a d e. E u m a v ez
qu e A t m a é Br a h m a , os seres h u m a n o s estã o, ig u a lm e n t e,
l l é m d a p er so n a lid a d e. P a r a q u a lq u e r u m d e n ós "co m p r e -
en d er " n osso ser é p r eciso a b a n d o n a r n ossa p er so n a lid a d e
l o in p le xa e en t r a r n o in d ife r e n cia d o U m .

191
O u n iv e r s o ao la d o

Va m o s agora r etor n a r a u m a seção d o m u n d a k a u p a n ixa d e,


m en cio n a d o a n t er io r m en t e. O texto p r o cla m a q u e A t m a p os-
su i "q u a tr o co n d içõ es": v id a v ig ila n t e, v id a so n h a d o r a , son o
p r o fu n d o e "v id a d esp erta d e p u r a con sciên cia ". A p rogressão é
im p o r t a n t e; a m a is elev ad a co n d içã o é a q u e m a is se a p r o xim a
d o tota l esq u ecim en to, p ois se v a i d a a tiv id a d e d a v id a co m u m
n o m u n d o exter ior p a r a a a tiv id a d e d e son h a r , e d este p a r a a
in a t iv id a d e, a in co n sciên cia , d e son o p r o fu n d o , cu lm in a n d o
e m u m a co n d içã o q u e e m su a d esign ação soa co m o o reverso
d os p r im eir o s três estad os - "p u r a co n sciên cia ".
En t ã o , n o t a m o s q u e "p u r a co n sciên cia " n a d a t e m q u e v er
co m q u a lq u er t ip o d e co n sciên cia q u e n os seja fa m ilia r . "P u r a
co n sciên cia " é, m a is p r o p r ia m e n t e, a a b so lu t a u n iã o c o m o
u m e a n ã o "co n sciên cia ", p ois isso d e m a n d a d u a lid a d e — u m
su jeito p a r a ser con scien te e u m ob jeto d o q u a l ser co n scien -
te. M e s m o a a u t o co n sciên cia i m p l i ca e m d u a lid a d e n o e u .
P o r ém , essa "p u r a co n sciên cia " n ã o é co n sciên cia ; é p u r o ser.
Es s a exp lica çã o ta lv ez n o s a u xilie a co m p r e e n d e r p o r q u e
o p en sa m en t o o r ie n t a l, e m g er a l, lev a à q u ie t u d e e à i n a t i v i-
d a d e. Ser n ã o é r ea liz a r . A m e d it a çã o é a r o t a p r i n ci p a l p a r a
o ser, e m e d it a çã o , q u a lq u e r q u e seja o est ilo , é u m estu d o d e
caso n a q u ie t u d e . U m s ím b o lo d isso é o g u r u h i n d u sen ta d o
e m p o siçã o d e lót u s e m u m lo ca l e r m o n o p ico d o H i m a l a i a
e m a b so lu t a co n t e m p la çã o .

5. Perceber a unidade de alguém com o cosmo é ir além do


conhecimento. 0 princípio da não contradição não se
aplica onde a suprema realidade está relacionada.

A p a r t ir d a a fir m a çã o d e q u e A t m a é Br a h m a , segu e-se,


ig u a lm e n t e , q u e os seres h u m a n o s e m s u a essên cia estã o além

192
jornada rumo ao orient e

d o co n h e cim e n t o . C o m o a p er so n a lid a d e, o co n h e cim e n t o


exige d u a lid a d e — u m co n h e ce d o r e u m o b jet o co n h e ci-
d o . P o r é m , o u m está a lém d a d u a lid a d e , p o is é u n id a d e
a b so lu t a . N o v a m e n t e , co m o a fi r m a a m a n d u k a u p a n ixa d e :
"E l e é A t m a , o p r ó p r io Es p ír it o ... q u e está a ci m a d e t o d a a
d ist in çã o , a lém d o p e n s a m e n t o e in efá v el". E m o u t r a s p a la -
v r a s, ser é n ã o co n h ecer .
E m Sidarta, p ossiv elm en t e o r o m a n ce m a is o r ien t a l já es-
cr ito p o r u m o cid e n t a l, H esse faz o ilu m in a d o Sidarta d iz er :

O con h ecim en to pod e ser com u n icad o, p orém a sabed oria


n ão... E m tod a a verd ad e o op osto é igu alm en te verd ad eiro.
Por exem p lo, u m a verd ad e som en te p od e ser exp ressa e en -
v olv id a em p alavras se for u n ilatetal. Tu d o o qu e é p ensad o
e exp resso em p alavras é u n ilater al, apenas m etad e d a ver-
d ad e, falta-lh e totalid ad e, in tegralid ad e, u n id a d e. 11

O a r g u m en t o é sim p les. A r ealid ad e é u m a ; a lin g u a g em


exige d u a lid a d e, n a v er d a d e, in ú m er a s d u a lid a d es (or a d or e
o u v in t e, su jeito e p r ed ica d o ); p o r con seg u in te, a lin g u a g em
n ão p od e t r a n s m it ir a v er d a d e sobre a r ea lid a d e. Ju a n M a sca r ó
exp lica o q u e isso sig n ifica p a r a a d o u t r in a d e D e u s :

Q u a n d o o sábio d e Upanixades é p ressionad o a d ar u m a


d efin ição de D eu s, ele p erm anece em silên cio, sign ifican d o
qu e D eu s é silên cio. Q u a n d o instad o n ovam en te a exp res-
sar D eu s em p alavras, ele d iz : "N e t i , n et i", "N ã o isso, não
isso", p orém qu an d o p ressionad o a d ar u m a exp licação
p ositiva, ele p r on u n cia as p alavras su blim es: " T A T T V A M
A S I " , ou seja, " T u és isso ". 12

C l a r o ! N ó s já v im o s isso n a p r op osição 3. A g o r a , v em os
m ais n it id a m en t e p or q u e o m o n is m o p an teísta or ien ta l é

193 •
O u n iv e r s o ao la d o

n ã o d ou tr in ár io. N e n h u m a d o u t r in a p od e ser v er d ad eir a.


E p ossível q u e algu m as sejam m a is ú teis q u e ou tras e m a u xilia r
algu ém a alcan çar a u n id a d e c o m o co sm o , p o r ém isso é d ife-
ren te. N a v er d ad e, u m a m e n t ir a p od e até m esm o ser m a is ú til.
C o n t u d o , d e s v ia m o -n o s u m a v ez m a is e v o lt a m o s a p e n -
sar co m o u m o cid e n t a l. Se n ã o p o d e h a v e r u m a a fir m a çã o
v e r d a d e ir a , t a m p o u co p o d e h a v er u m a m e n t i r a . E m o u t r a s
p a la v r a s, a v er d a d e d esap ar ece co m o u m a ca t eg o r ia , e a ú n i-
ca d ist in çã o r elev a n t e é i n ú t i l . 13
E m s u m a , retorn am os à
t é cn ica - o q u e a t r a i a a t e n çã o d o O r i e n t e .

6. Perceber a unidade com o cosmo é ir além do bem e do


mal; o cosmo é perfeito a todo o momento.

C h e g a m o s a q u i a u m a ssu n t o d os m a is sen sív eis. C o n s -


t i t u i u m d os p o n t o s m a is d elica d o s n o p a n t e ís m o o r ie n t a l,
p o r q u e as p essoas se r e cu s a m a n egar a m o r a lid a d e . Ela s co n -
t i n u a m a a g ir co m o se a lg u m a s a ções fo ssem cer ta s, e o u t r a s,
er r a d a s. A lé m d isso , o co n ce it o d e ca r m a é qu ase u n iv er sa l
n o p e n s a m e n t o o r ie n t a l.
C a r m a é a n o çã o d e q u e o p r esen te d est in o d e a lg u ém ,
p r a z er o u d o r , ser r e i, escr a v o o u u m m o s q u it o , é fr u t o d e
a ções p assad as, e m esp ecia l e m u m a exist ên cia a n t er io r . Isso
está, p o r t a n t o , co n ect a d o à n o çã o d e r een ca r n a çã o , q u e
p r o v ém d o p r in cíp io g er a l d e q u e n a d a q u e é r ea l (o u seja,
n e n h u m a a lm a ) ja m a is p er d e a co n s ciê n cia d a exist ên cia .
P o d e d e m o r a r sécu los e m a is sécu los p a r a e n co n t r a r s e u ca -
m i n h o d e v o lt a a o U m , p o r é m n e n h u m a a l m a d eixa r á d e ser.
T o d a a lm a é et er n a , p o is t o d a a l m a é essen cia lm en t e A l m a e,
p o r t a n t o , p a r a sem p r e o u m .

• 194 •
Jornada rumo ao orient e

E m s u a t r a jet ó r ia d e v o l t a ao U m , e n t r e t a n t o , ele p assa


p or seja q u a l fo r a sér ie d e fo r m a s ilu sórias q u e s u a a çã o
p assad a exige. C a r m a é a v ersão o r ie n t a l d o d it a d o "v o cê
i o l h e o q u e sem eia ". P o r é m , o ca r m a i m p l i c a e m u m a e s t r i-
I.I n ecessid ad e. Se v o cê "p e co u ", n ã o h á D e u s p a r a ca n cela r
lu a d ív id a e p er d oa r . A con fissã o p a r a n a d a se a p r o v eit a .
( ) p ecad o d eve ser r eso lv id o e o ser á. É cla r o q u e a p essoa
p od e escolh er seu s atos fu t u r o s e, p o r t a n t o , o ca r m a n ã o i m -
p lica e m d e t e r m in is m o o u fa t a l i s m o . 14

Isso p a r ece d ev er as s i m i l a r à d escr içã o d e u m u n iv e r s o


m o r a l. A s p essoas d e v e m fazer o b e m . Se n ã o o fa z e m , elas
I o lh er ã o as co n s e q u ê n cia s, se n ã o fo r n est a v i d a , o será n a
p r ó xim a , t a lv ez r e t o m a n d o co m o u m ser in fe r io r n a h ie r a r -
q u ia . C o m o p o p u la r m e n t e co n ce b id o , u m u n iv e r s o m o r a l é
0 q u e o O r i e n t e , d e fa t o , p o s s u i.
En t r e t a n t o , h á d u a s coisas q u e d e v e m ser obser v a d a s so -
bre esse s is t e m a . P r i m e i r a , o fu n d a m e n t o p a r a se p r a t ica r
0 b e m n ã o é p a r a q u e o b e m seja r ea liz a d o o u d e m o d o a
b en eficia r o u t r a p essoa. O ca r m a d e m a n d a q u e ca d a a l m a
lo fr a p o r seu s "p eca d os" p a ssa d os, n ã o h a v e n d o , a s s im , v a lo r
Cm a liv ia r o s o fr im e n t o . A a l m a q u e fo r a u xilia d a ter á q u e
lo fr er m a is t a r d e. P o r t a n t o , n ã o existe o a m o r á g a p e, o a m o r
d oad or , n e m q u a lq u e r o u t r o t ip o d e a m o r d ev e b en eficia r
I I i ecep tor . A p essoa d ev e p r a t ica r boas obr as a f i m d e o b t er
u n id a d e c o m o u m . Fa z er o b e m é p r i m e i r a e p r in cip a lm e n t e
u m m o d o d e v i d a d e a u t o a ju d a .
Se g u n d a , tod as as a çõ es s im p le s m e n t e fa z em p a r te d e
i o d o u m m u n d o d e ilu sã o. A ú n ica r ea lid a d e "r e a l" é a s u -
p r em a r ea lid a d e, q u e está a lém d e d is t in çã o , a lém d o b em


O u n iv e r s o ao la d o

e d o m a l . Br a h m a está a lém d o b e m e d o m a l . P o r t a n t o ,
Sid a r t a d iz , c o m e lo q u ê n cia :

O m u n d o , G o v in d a , não é im p etfeito n em evolu i vagaro-


sam ente em u m longo cam in h o r u m o à p erfeição. N ã o, ele
é p erfeito a cad a m om en to; tod o o p ecad o já carrega em
si a graça, tod as as crianças p equ enas são h om en s velh os
em p oten cial, tod as as crianças de p eito já trazem a m orte
d en tro d elas, tod as são agonizantes — v id a etern a... Por tan -
to, p arece-m e qu e tu d o o qu e existe é bom — a m orte, bem
com o a v id a, o p ecad o, bem com o a san tid ad e, a sabed oria,
bem com o a estu ltícia. 15

C o m o v er d a d eir o e fa lso , p o r f i m , a d ist in çã o en t r e b e m e


m a l se d esv a n ece. T u d o é b o m (o q u e , cla r o , é o m e s m o q u e
d iz er : "N a d a é b o m ", o u : "T u d o é m a l ") . O lad r ão é o sa n t o ;
e o la d r ã o , o sa n t o ...
O q u e, e n t ã o , d iz er sob r e t o d a a ev id ên cia d e q u e p essoas
d o O r i e n t e a g em co m o se su as a ções p u d essem ser co n s i-
d er a d a s cer tas o u errad as? P r i m e i r o , o O r i e n t e n ã o p o ssu i
m e n o s ad ep tos in g én u o s e in co n sist en t es q u e o O ci d e n t e .
Se g u n d o , d i r i a m os teísta s, seres h u m a n o s são seres h u m a -
n o s; eles d e v e m a g ir co m o se fossem seres m o r a is , p o is , n a
v er d a d e, é o q u e eles sã o. Te r ce ir o , su as a çõ es, a p a r en t em en t e
m o r a is , p o d e m ser p r a t ica d a s p o r razões p u r a m e n t e eg oísta s:
q u e m d eseja r et o r n a r co m o u m m o s q u it o o u u m a p ed r a?
C l a r o , e m u m sist em a a m o r a l , o e g o ís m o n ã o ser ia co n s id e -
rad o im or a l.
En t r e t a n t o , e m Sidarta, H esse fa z seu h er ó i a p a r e n t e m e n -
te d iz er , n u m sen t id o c o m u m , q u e "o a m o r é o q u e h á d e
m a is im p o r t a n t e n o m u n d o ". A m b o s , H esse e C h r i s t m a n s
16

196 •
jornada rumo ao orient e

H u m p h r e y s in t r o d u z e m u m a d ist in çã o d e v a lo r q u a n d o
a fi r m a m q u e é m e lh o r ser u m a p essoa i l u m i n a d a o u cu lt a
d o q u e ser u m a p essoa c o m u m . 17
Pa r ece, e n t ã o , q u e m e s m o
m u it o s d os ilu m in a d o s p o s s u e m u m a t e n d ê n cia a a g ir m o -
r a lm e n t e d o q u e v iv e r as im p lica çõ es d e seu p r ó p r io sist em a .
Ta lv e z essa seja u m a f o r m a d e d iz er q u e a lg u m a s p essoas são
"m e lh o r e s " q u e s u a co sm o v isã o co n scien t e p o d e r ia p e r m it ir .

7. A morte é ofim da existência pessoal, individual, mas não


altera nada de essencial na natureza do indivíduo.

E u já d is cu t i co m o a m o r t e se r e la cio n a c o m o ca r m a e a
r e e n ca r n a çã o . P o r é m , ela m er ece, co m o e m t o d a co sm o v isã o ,
u m t r a t a m e n t o d ife r e n cia d o . A m o r t e h u m a n a s in a liz a o f i m
d e u m a e n ca r n a çã o i n d i v i d u a l d e A t m a . Ig u a lm e n t e s in a liz a
o f i m d e u m a p essoa. M a s , a a lm a , A t m a , é in d est r u t ív el.
N o en t a n t o , ob ser v e: n e n h u m ser h u m a n o , n o sen t id o d e
in d iv íd u o o u p essoa, so b r ev iv e à m o r t e . A t m a so b r ev iv e, m a s
A t m a é im p esso a l. Q u a n d o A t m a é r een ca r n a d o , tor n a -se
o u t r a p essoa. En t ã o , o h in d u ís m o e n s in a a im o r t a lid a d e d a
a lm a ? S i m , m a s n ã o u m a im o r t a lid a d e p essoal e in d iv id u a l .
C l a r o q u e aos o lh o s d o O r i e n t e , o p essoa l e o i n d i v i d u -
a l são ilu sór ios d e q u a lq u e r m a n e i r a . So m e n t e A t m a p o ssu i
v a lor . P o r t a n t o , a m o r t e n ã o é g r a n d e co isa . N a d a d e v a lo r
p er ece, m a s t u d o d e v a lo r é et er n o . Isso p od e a ju d a r a e x p l i -
ca r a ob ser v a çã o q u e os o cid e n t a is , c o m fr e q u ê n cia , fa z em
sobr e o b a ixo v a lo r d a v i d a n o O r i e n t e . En ca r n a çõ e s i n d i v i -
d u a is d e v i d a - esse h o m e m o u a q u ela m u lh e r , v o cê , e u - são
d esp r o v id a s d e v a lo r . P o r é m , e m essên cia , elas p o ssu em u m
v a lo r i n fi n i t o , p ois e m essên cia elas são in fin it a s .

• 197
O u n iv e r s o ao la d o

A s r a m ifica çõ es d isso p a r a os o cid en t a is q u e r e co r r e m ao


O r i e n t e e m b u s ca d e sen t id o e sig n ificâ n cia n ã o d e v e r ia m ser
ig n o r a d a s. P a r a u m o cid e n t a l q u e v a lo r iz a a in d iv id u a lid a d e
e a p er so n a lid a d e - o v a lo r s in g u la r d e u m a v i d a h u m a n a
i n d i v i d u a l - o m o n i s m o p a n t eíst a o r ie n t a l d e m o n s t r a r á ser
u m gran d e d esap on tam en to.

8. Perceber a unidade com o um é ir além do tempo.


O tempo é irreal. A história é cíclica.

U m a d as im a g en s cen t r a is p r esen tes e m Sidarta é o r io .


C o m o r i o , ele a p r en d e m a is lições d o q u e c o m tod as as
t écn ica s d e Bu d a o u c o m tod os os co n t a t o s c o m s e u p a i es-
p i r i t u a l , Va s u d e v a . N o clím a x d o r o m a n ce , Sid a r t a se i n c l i n a
e, a t en t a m en t e , escu t a o r i o :

Sid arta ten tou ou vir m elh or. A im agem d e seu p a i, su a p ró-
p r ia im agem e a im agem de seu filh o, tod as flu íram u m a
d en tro d a ou tr a. A im agem d e Ka m a la tam bém su rgiu e
flu ía, e a im agem d e G o v in d a , além d e ou tras, em ergiram e
p assaram . Tod as se tor n ar am p arte d o r io. E r a o objetivo d e
tod as elas, an elan d o, d esejand o, sofren d o, e a voz d o rio era
rep leta d e anseio, d e angú stia p r ofu n d a, p len a d e d esejos
insaciáveis. O r io flu ía r u m o ao seu objetivo. Sid arta v i u
o r io se acelerar, form ad o p or si m esm o, p or seus p arentes
e p or tod as as pessoas qu e já tin h a v isto. Tod as as ond as e
águas se ap ressaram , sofren d o, r u m o a objetivos, m u ito d e-
les, p ara a qu ed a d 'águ a, p ara o m ar, p ara a corren teza, p ara
o ocean o, e tod os os objetivos for am alcançad os, e cad a
u m foi su ced id o p elo ou tro. A água se tor n ou em vap or e
su biu , torn ou -se ch u v a e p recip itou n ovam en te, torn ou -se
nascente, córrego e r io, tran sform ou -se e fluiu n ovam en te.

198 •
jornada rumo ao orient e

Tod a v ia , a voz anelante tin h a se alterad o. E l a ain d a ecoava


p esarosa e p erscru tad ora, m as ou tras vozes a acom p an h a-
v a m , vozes d e p razer e tristeza, vozes boas e m ás, sorrid entes
e m u r m u r ad or as, centenas, m ilh ares d e v oz es. 18

P o r fim , tod as as v o z es, im a g en s e faces se en t r ela ça r a m .


" E tod a s as v oz es, tod os os o b jet iv o s , t o d os os a n seios, tod as
as t r ist ez a s, t o d o b e m e t o d o m a l , tod os ju n t o s e r a m o m u n -
d o ... A g r a n d e ca n çã o d e m ilh a r e s d e v ozes co n s is t ia d e u m a
ú n ica p a la v r a OM — p e r fe içã o ". 19
N esse p o n t o é q u e Sid a r t a
a lca n ça u m a u n id a d e in t e r io r c o m o u m , e "a ser en id a d e d o
co n h e cim e n t o " b r i l h a e m seu r osto.
N e s s a lo n g a p a ssa g em , co m o e m t o d o o l i v r o , o r io t o r -
n a -se u m a im a g e m p a r a o co s m o . Q u a n d o o lh a m o s d e u m
p o n t o sit u a d o à s u a m a r g e m , o r io co r r e (o t e m p o e xis t e ),
p o r é m , q u a n d o o lh a m o s e m s u a t o t a lid a d e — d a n a scen t e,
p a ssa n d o p elo có r r e g o , p elo r io , p elo o cea n o , p elo v a p o r ,
p ela ch u v a a té a n a scen te — o r io n ã o flu i (o t e m p o n ã o
exist e). E l e é u m a ilu são p r o d u z id a p o r a lg u ém sit u a d o à
m a r g e m , e m v ez d e o lh a r p a r a o r io d os céu s. Si m i l a r m e n t e ,
o t e m p o é cíclico ; a h ist ó r ia é co n s t it u íd a d o q u e é p r o d u z i-
d o p elo flu ir d as á g u a s, p a ssa n d o p o r u m p o n t o n a m a r g e m .
Isso é ilu sór io . A h ist ó r ia , e n t ã o , n ã o p o ssu i sig n ifica d o e m
q u e a r ea lid a d e está r e la cio n a d a . D e fa t o , n o ssa ta r efa co m o
p essoas q u e p er ceb e m a p r ó p r ia d iv in d a d e é t r a n scen d er a
h ist ó r ia .
Isso d ev e e xp lica r p o r q u e os cr istãos o cid e n t a is , q u e
d e p o s it a m g r a n d e ên fa se n a h ist ó r ia , d esco b r em q u e su a
a p r esen t a çã o sobr e a base h ist ó r ica d o cr is t ia n is m o é p r a t i-
ca m en t e ig n o r a d a n o O r i e n t e . P a r a u m a m e n t e o cid e n t a l, é

• 199 •
O u n iv e r s o ao la d o

e xt r e m a m e n t e im p o r t a n t e se Jesu s r ea lm en t e e xis t iu o u n ã o ,
se r e a liz o u m ila g r e s , c u r o u e n fe r m o s , m o r r e u e r essu scit o u
d en t r e os m o r t o s . Se t u d o isso o co r r e u , d ev e h a v er u m sig -
n ifica d o v it a l p a r a esses ev en tos so b r en a t u r a is e est r a n h o s.
Ta lv e z exist a u m D e u s , a fin a l d e co n t a s.
Já p a r a u m a m e n t e o r ie n t a l, t o d o esse a r g u m e n t o é s u -
p ér flu o . O s fatos d o p assad o n ã o são s ig n ifica t iv o s e m si
m e s m o s . Ele s n ã o exer ce m in flu ê n cia e m m i m n o p r esen -
te, a n ã o ser q u e t e n h a m u m sen t id o im e d ia t o , t ip o a q u i e
a g o r a . C a s o p o s s u a m esse s ig n ifica d o , e n t ã o su a fa ct icid a d e
co m o h ist ó r ia n ã o t e m q u a lq u e r im p o r t â n cia . A s escr it u r a s
o r ien t a is são r ech ead as d e ep ig r a m a s, p a r á b o la s, fá b u la s, h is -
t ó r ia s, m it o s , ca n çõ e s , h a ica is , h in o s e ép ico s, p o r é m qu ase
n ã o h á h ist ó r ia e m t e r m o s d e r egistr os d e ev en t os, p o r q u e
eles o co r r e r a m e m u m co n t ext o d e t e m p o -e s p a ço im p ossív el
d e se r ep etir .
P r eo cu p a r -se c o m tais coisas ser ia co m o in v e r t e r t o d a a
o r d e m h ier á r q u ica . O ú n ico n ã o é o r e a l, m a s so m en t e o
a b so lu t o e t o t a lm e n t e a b r a n g en t e é r ea l. Se a h ist ó r ia p o s s u i
v a lo r , isso o co r r er á co m o m i t o e m i t o a p en a s, p o is o m i t o
n o s r em o v e d a p a r t icu la r id a d e e n os elev a à essên cia .
U m a d as im a g en s d a v i d a h u m a n a e d a b u sca p o r u n i -
d ad e co m o u m está i n t i m a m e n t e co n ect a d a às im a g en s d e
u m ciclo , a r o d a , a g r a n d e m a n d a la . Sid a r t a d iz : "P a r a o n d e
m e u ca m i n h o m e con d u z ir á ? Es s e ca m i n h o é est ú p id o , p ois
segu e e m esp ir a is, t a lv ez e m cír cu lo s, p o r é m n ã o i m p o r t a p a r a
o n d e ele v á, e u o s e g u i r e i ". 20
M a s ca r ó r ep ete: " O ca m i n h o
p a r a a v er d a d e p od e n ã o ser u m ca m i n h o d e lin h a s p a r a lela s,
m a s u m ca m i n h o q u e segu e u m cír cu lo : seja seg u in d o p a r a

200 •
jornada rumo ao orient e

a d ir e it a e s u b in d o o cír cu lo , seja in d o p a r a a esq u er d a e s u -


b i n d o , esta m os fa d a d os a a lca n ça r o t o p o , e m b o r a t e n h a m o s
co m e ça d o e m d ir eções a p a r en t em en t e co n t r a d it ó r ia s ". 21

Es s e s ím b o lo é t r a b a lh a d o n o r o m a n ce Sidarta; os ca -
m i n h o s d e Bu d a , Va s u d e v a , Sid a r t a e G o v i n d a cr u z a m -s e
in ú m er a s v ezes, p o r é m t o d os ch e g a m ao m e s m o lu g a r . P a r a
m u d a r a i m a g e m , H e s s e a m o s t r a n a exa t a id e n t id a d e d os
sor r isos n as faces r a d ia n t es d e Bu d a , Va s u d e v a e Si d a r t a . 22

To d a s as u n id a d es i l u m i n a d a s são u m a n o t o d o .

A d i f er en ça Zen

V i s t o d e fo r a , o b u d i s m o p o d e d a r a im p r essã o d e ser s im ila r


ao h in d u ís m o . A co sm o v isã o p o r trás d e a m b o s e n fa t iz a , p o r
e xe m p lo , a s in g u la r id a d e d a r ea lid a d e p r im á r ia . N o e n t a n t o ,
h á u m a d ifer en ça ch a v e. P a r a ob t er u m sen t id o d o q u e está
m a is co m u m e n t e e n v o lv id o , obser v e o co n t r a st e existen te
en t r e a d v a it a v e d a n t a (h in d u ís m o n ã o d u a lis t a ), q u e a ca b a -
m o s d e d is cu t ir , e o z en b u d i s m o . 23

O m on ism o h in d u d efen d e q u e a r ea lid a d e final é


Br a h m a , o ú n ico . E l e t e m , o u m e lh o r , é o p r ó p r io ser - o
final s in g u la r in d ife r e n cia d o "q u a lq u e r q u e seja ". Fa z s e n t i-
d o m e n ci o n a r Br a h m a o u fa la r d o ú n ico . C o m o u m b u lb o
d e lâ m p a d a , e m i t i n d o fó t o n s d e l u z ca d a v ez m a is d ist a n t e
d e n t r o d as tr ev a s, d isp er sa n d o seu s fó t o n s ca d a v ez m a is u n s
d os o u t r o s, d e Br a h m a (o ú n ico ) e m a n a o co s m o (os in ú -
m e r o s ).
O m o n i s m o z e n -b u d is t a su st en t a q u e a r ea lid a d e fin a l é
o v a z io. 24
Es s a r ea lid a d e n ã o é n a d a q u e p ossa ser n o m ea d o

201
O u n iv e r s o ao la d o

o u co m p r e e n d id o . D i z e r q u e é o n a d a é in co r r e t o , p o r é m
ig u a lm e n t e in co r r e t o é a fir m a r q u e é a lg o. Isso d eg r a d a r ia
su a essên cia , r e d u z in d o -a a u m a co isa en t r e o u t r a s coisa s.
O ú n ico h i n d u a i n d a é u m a co isa en t r e coisa s, e m b o r a seja a
p r i n ci p a l . O v a z io n ã o é u m a co isa d e m o d o a l g u m , m a s , ao
in v és d isso , é a o r ig e m d e tod as as coisa s.
A d ist in çã o t a m b é m lev a a u m a d ifer en t e co m p r e e n s ã o
d os seres h u m a n o s . P a r a u m h i n d u , a p essoa i n d i v i d u a l é
u m a a l m a (A t m a ) e, p o r t a n t o , é d o t a d a d e r ea lid a d e su b s-
t a n cia l (e s p ir it u a l, n ã o m a t e r ia l) p o r q u e é u m a e m a n a çã o d e
Br a h m a (a p r ó p r ia r e a lid a d e ). N a m o r t e , a a l m a i n d i v i d u a l
p er d e su a r esid ên cia co r p ó r e a , m a s é r e e n ca r n a d a e m o u t r o
in d iv íd u o - u m t ip o d e t r a n sm ig r a çã o d a a l m a .
P a r a u m b u d is t a , u m a p essoa i n d i v i d u a l é u m a n ã o a lm a .
N ã o h á n a t u r e z a q u e p ossa ser n o m e a d a n o â m a g o d e ca d a
p essoa . N a v er d a d e, ca d a p essoa é u m a s o m a d e p essoas a n -
t er io r es. In e x i s t e m t a n t o a t r a n sm ig r a çã o d a a l m a , co m o o
d esa p a r ecim en t o d e u m a p essoa n a m o r t e e a r eco n st it u içã o
d e o u t r a , a p a r t ir d e cin co agregad os o u "fa tor es d e exis-
t ê n cia : co r p o , s e n t im e n t o , p e r ce p çã o , fo r m a çõ e s m e n t a is e
co n s ci ê n ci a ". 25

Ig u a lm e n t e , h á d ifer en ça s e m r ela çã o à p r á t ica r elig iosa ,


b e m co m o às t écn ica s d e m e d it a çã o . E m g er a l, os h in d u s
r ep et em u m m a n t r a , co m o Om, e, p o r t a n t o , i n d u z a u m
êxtase o u estad o d e t r a n se q u e é co n s id e r a d a u m a a scen sã o
r u m o à d iv in d a d e . O z e n -b u d is m o p o d e , s im ila r m e n t e , r e-
p e t it u m m a n t r a , p o r é m seu o b jet iv o é a lca n ça r u m estad o
d e co m p r e e n s ã o d e s u a r a iz n o n ã o ser - a n ã o en t id a d e
d e s u a "fa ce an tes d e eles t er e m n a s cid o ", p o r e xe m p lo . '' 2

202
Jornada rumo ao orient e

Um m est r e z en p od e d esa fia r u m a p r e n d iz c o m koans,


ch a r a d a s o u q u est ões en ig m á t ica s co m o : "Ba t e n d o as d u a s
m ã o s u m a n a o u t r a t em o s u m s o m . Q u a l o s o m d e u m a
m ã o ? " ; o u : " O q u e é o co r p o d o dharm a d e Bu d a [isto é,
27

o q u e é r e a lid a d e ]?" . O u a in d a , o m est r e p o d e in s t r u ir o


28

a p r e n d iz a fazer zazen ("sen ta r -se n a p o siçã o d e ló t u s "). E m


q u a lq u e r sit u a çã o , a t e n t a t iv a é feit a p a r a esv a z ia r a m e n t e d e
tod o o p e n s a m e n t o , p o is a r ea lid a d e s u p r e m a n ã o é a p en a s
n ã o ser, m a s t a m b é m "n ã o m e n t e ".
A i n d a , co m essas e o u t r a s d ifer en ça s, o efeito d as d u a s
fo r m a s n ã o d u a list a s, o h in d u ís m o e o z e n -b u d i s m o , é co -
lo ca r u m a p essoa e m u m estad o e m q u e tod as as d ist in çõ es
d esa p a r ecem — a q u i e a l i , a g o r a e d ep o is, ilu são e r ea lid a d e,
v er d a d e e fa lsid a d e, b e m e m a l . A p e s a r d o n o b r e esfo r ço d e
m estr es z e n co m o D . T . Su z u k i e m in s is t ir q u e o z en n ã o é
n iilis t a , e m g er a l, é a s s im q u e se a p r esen t a aos leitor es o ci -
d en t a is. 29

Or i en t e e Oci d en t e: um p r o b l em a de
co m u n i cação

U m a h ist ó r ia cíclica , ca m i n h o s q u e se i n t e r cr u z a m , d o u -
t r in a s q u e d iv e r g e m , m a l q u e é b e m , co n h e cim e n t o q u e é
ig n o r â n cia , t e m p o q u e é et er n o , r ea lid a d e q u e é ir r ea l: t u d o
isso co n s t it u i as m á sca r a s m u t á v eis, p a r a d o xa is e m e s m o
co n t r a d it ó r ia s q u e co b r e m o Ú n i c o . O q u e os o cid en t a is
p o d e m d iz er ? Se eles a p o n t a m p a r a su a ir r a cio n a lid a d e , o
o r ie n t a l r ejeita a razão co m o u m a ca teg or ia . Se eles s a lie n -
l a m o d esa p a r ecim en t o d a m o r a lid a d e , o o r ie n t a l d esd en h a

• 203 •
O u n iv e r s o ao la d o

a d u a lid a d e q u e é r e q u e r id a p a r a a d is t in çã o . Se eles a leg a m


a in co n s is t ê n cia en t r e a a çã o m o r a l d os o r ie n t a is e a t eo r ia
a m o r a l, o o r ie n t a l d iz : " Be m , n ã o h á v i r t u d e n a co n sist ên cia
exceto p ela r a z ã o, q u e já r ejeit ei, e, a lém d isso , a i n d a n ã o
s o u p er feit o . Q u a n d o estiv er liv r e d essa ca r g a d o ca r m a , n ã o
m a is a g ir ei co m o se fosse m o r a l . N a v e r d a d e , n ã o m a is a g i-
r ei d e m o d o a l g u m , m a s ap en as m e d it a r e i". Se o o cid e n t a l
r ep lica r : "Se v o cê n ã o co m er , m o r r e r á ". A o q u e o o r ie n t a l
r esp o n d er á : " E d aí? A t m a é Br a h m a . Br a h m a é et er n o . U m a
m o r t e a se d eseja r !"
C r e i o q u e n ã o co n s t it u i su r p r esa o fa to d e m issio n á r io s
o cid en t a is o b t e r e m p o u co s p rogressos c o m b u d ist a s e h i n -
d u s co m p r o m e t id o s . Ele s n ã o fa la m a m e s m a lín g u a , p o is
qu ase n a d a s u s t e n t a m e m c o m u m . É d o lo r o s a m e n t e d ifícil
co m p r e e n d e r a co sm o v isã o o r ie n t a l, m e s m o q u a n d o se t e m
u m a n o çã o d e q u e isso d e m a n d a u m m o d o d e p en sa r d i s t i n -
to d o O ci d e n t e . A o s m u it o s q u e d e s e ja r ia m q u e o r ien t a is se
t o r n a ssem cr istã os (e, p o r t a n t o t eíst a s), p a r ece q u e os o r ie n -
tais p o s s u e m u m a d ificu ld a d e a i n d a m a i o r e m co m p r e e n d e r
q u e o cr is t ia n is m o é, d e a lg u m m o d o , sin g u la r , q u e a r essu r -
r eiçã o d e Jesu s C r i s t o n o e s p a ço -t e m p o está n o co r a çã o d as
boas n ov a s d e D e u s .
P a r ece-m e q u e , e m a m b o s os casos, o m e lh o r lu g a r p a r a
co m e ça r é co m p r e e n d e n d o q u e o O r i e n t e e o O ci d e n t e
o p e r a m e m d o is cen á r io s d ifer en t es d e p r essu p o siçõ es. P a r a
in icia r o d iá lo g o , p elo m e n o s u m d os la d os d ev e co n h e ce r o
q u ã o d ifer en t es su as p r essu p osições básicas p o d e m se t o r n a r ,
m a s , p a r a u m a v e r d a d e ir a co m u n ica çã o h u m a n a , a m b o s os
la d os d e v e m co n h e ce r essas d ifer en ça s an tes d e o d iá lo g o ir

204 •
Jornada rumo ao orient e

m u i t o a d ia n t e. A s s i m , t a lv ez , as d ificu ld a d e s n o p e n s a m e n t o
o r ie n t a l q u e p a r e ce m t ã o óbv ias p a r a os o cid e n t a is , p elo
m e n o s , co m e ça r ã o a ser r eco n h ecid a s p elos o r ie n t a is . Se u m
o r ie n t a l co n seg u ir v er q u e o co n h e cim e n t o , a m o r a lid a d e e
a r ea lid a d e são v ist a s, d ig a m o s , d o p o n t o d e v is t a d o t eísm o
o cid e n t a l, a a t r a t iv id a d e d o ca m i n h o d o O ci d e n t e p o d e ser
ó b v ia .
Ger a lm en t e, en tretan to, o qu e o O r ien t e vê d o O r ien t e
é m a is feio q u e Sh iv a , o p r ó p r io d eu s d a d est r u içã o . O s q u e
d e v e m co m u n i ca r a b elez a d a v er d a d e e m C r i s t o t ê m p e la
fr en t e u m a t a r efa d ifícil, p o is as n év oas d o h o r r e n d o i m p e -
r ia lis m o o cid e n t a l, b e m co m o d as g u er r a s, d a v io lê n cia e d a
g lu t o n a r ia sã o, d e fa t o , d en sa s.
O n d e , e n t ã o , t u d o isso le v a o o cid e n t a l q u e v a i ao
O r i e n t e e m b u s ca d e s e n t id o e s ig n ifica d o ? M u i t o s , cla r o ,
d e s is t e m ao lo n g o d o c a m i n h o , t e n t a m t o m a r u m a t a lh o
a té o n i r v a n a p o r m e i o d e d r og a s o u r e c u a m , v o l t a n d o
p a r a ca sa e a s s u m i n d o os n e g ó cio s d a fa m ília , d e ix a n d o
o O r i e n t e p a r a trás c o m p o u co m a is d o q u e a p en a s u m a
b a r b a p a r a e x i b i r s u a e xp e r iê n cia (q u e é a p a r a d a a n tes d a
p r i m e i r a r e u n iã o d o co n s e lh o e r e t ir a d a a n tes d a s e g u n -
d a ). O u t r o s p r o s s e g u e m n o c a m i n h o p a r a a v i d a , sen d o
q u e a lg u n s o u t r o s t a lv ez e n co n t r e m o n i r v a n a e p e r m a n e -
ça m ext a sia d o s e m co n t e m p l a çã o . P o r é m , s i m p l e s m e n t e ,
m u it o s m o r r e m p o r i n a n i çã o , d is e n t e r ia , ov er d oses e q u e m
sabe o q u e m a is . A l g u n s n a u fr a g a m n a s p r a ia s d e c o m u n i -
d ad es o cid e n t a is e, p o u co a p o u co , t o r n a m -s e b o n s p a r a a
n a v eg a çã o n o v a m e n t e c o m o a u xílio d e a m ig o s .

205
O u n iv e r s o ao la d o

P o r m u it a s d éca d a s, jo v en s e v elh o s t ê m sid o a r r e b a n h a -


d os p o r v ár ios g u r u s . A s liv r a r ia s estã o r ep letas d e liv r o s
q u e a p o n t a m p a r a o O r i e n t e , c o m as costas v o lt a d a s p a r a o
O ci d e n t e , é cla r o . A m e d it a çã o t r a n s ce n d e n t a l, b e m co m o
o u t r a s t écn ica s esp ir it u a is o r ie n t a is , t o r n a r a m -s e co m u n s ,
a ssim co m o t r a b a lh a d o r es e m m e d it a çã o n o ca m i n h o p a r a o
t t a b a lh o , e au la s sen d o ofer ecid a s e m g r a n d es co r p o r a çõ e s .
O s o cid en t a is c o n t i n u a m e m p er eg r in a çã o r u m o ao
O r i e n t e . E n q u a n t o o O r i e n t e a p r esen ta r su as p r om essa s - d e
p a z , d e sen t id o e d e s ig n ifica d o — as p essoas, m u i t o p r o v a -
v e lm e n t e , co n t in u a r ã o sen d o a tr a íd a s. O q u e elas r eceb er ã o?
N ã o ap en as u m cu r a t iv o o r ie n t a l p a r a u m a fe r id a o cid e n t a l,
m a s t o d a u m a n o v a co sm o v isã o e estilo d e v i d a .

206
Capítulo oito

UM UNIVERSO SEPARADO

A No v a Era

N ó s estamos crian do energia, m at ér ia e vida n a interface entre o


vazio e toda a criação con h ecida. Estamos dian te do un iverso co-
n h ecido, crian do-o, preen ch en do-o. [...] E u sou "u m dos garotos
n a casa das m áqu in as, bombean do a cr iação do vazio para den tro
do un iverso con h ecido; do desconh ecido para o con h ecido estou
bombean do.

Jo h n Lilly, The Center ofthe Cyclone [0 centro do ciclone]

O MISTICISMO ORIENTAL PROPÕE uma saíd a


pessoas ociden t ais apr ision adas n o d ilem a n iilist a do
par a

n at u r alism o. P or é m , o m ist icism o do O r ie n t e é estran geiro.


as

M e sm o u m a ver são d ilu íd a com o a m e d i t ação t r an scen den t al


exige u m a r adical e im ediat a r eor ien t ação do m odo n or m al de
com pr een der a realidade dos ociden t ais. T a l reorientação leva
a n ovos estados de con sciên cia e sen t imen t os de sign ificân cia,
O u n i v e r s o ao lado

com o vim os, p o r é m o cust o in t elect u al é elevado. É n ecessár io


m or r er par a o O cid en t e a fim de n ascer n o O r ien t e.
H á u m cam in h o m en os dolor oso e cu st oso par a se al can -
çar p r o p ó si t o e sign ificado? Por que n ão r ealizar u m a b u sca
por u m a n ova co n sci ê n ci a d en t r o de lin h as m ais ociden t ais?
Isso est á sen do efet uado pot u m gr an de n ú m e r o de e r u -
dit os, pr ofission ais da m e d icin a, p si c ó l o go s e explor ador es
r eligiosos. Exist e u m a van gu at d a e m i n ú m e r as d iscip lin as
acad é m i cas, abr an gen do desde a ár ea de h u m an as at é as c i -
ên cias exatas, e esse t r an sbor d ar sem lim it e n a cu lt u r a m ai s
par ece u m d ilú vio. Esclar ecen d o m elh or , est amos v i v e n c i a n -
do u m a c o sm o v i sã o n o fim de su a ad ole scê n cia.' Lo n ge de
estar t ot alm en t e for m ad a, a c o sm o v i sã o d a N o v a E r a a i n -
d a c o n t é m m u it as arestas por aparar, t e n sõe s in t er n as e at é
m e sm o co n t t ad i çõ e s eviden t es. D e v i d o a seu car át er i n e r e n -
t em en t e eclét ico, essa c o sm o v i são pode ter at in gid o, agot a,
u m a m at u r id ad e n u n ca an tes al can çad a. N o en t an t o, ela
ain d a est á e m fo r m a ç ã o , e podem os visu alizar t al c o n d i ç ã o
e m u m a sér ie de p r o p o si ç õ e s, com o fizemos e m r elação a
ou t r as co sm o v i sõ e s.

P or ocasião da p r i m e i r a p u b l i c aç ão deste l i v r o , h avia p o u -


cas t en t at ivas de con cen t r ar todas essas n o ç õ e s da N o v a E r a
e m u m m esm o lugar . O e sb o ç o que segue, n a o casião , er a
quase ú n i c o . 2 De sd e essa é p o ca, m u it as t en t at ivas t ê m sid o
pet pet r adas, n ot avelm en t e as de M a r i l y n Fer gu son e m The
Aquarian Conspiracy [A conspiração aquariana], Fr it jo t C a p r a
e m The TurningPoint [O ponto de guinada] e Ke n W ilber em
A BriefHistory of Everything [ Uma história sucinta de tudo].
A p r im e ir a obr a é a m ais en t u siast a e popu lar , sen do as ou t r as

208
Um universo separado

du as m ais com edidas e er u d it as. 3 Tod os os t r ês escrit ores


exer cer am u m gr an de im p act o n o p r ó p r i o m o v i m e n t o N o v a
E r a , con ceden do- lh e u m sen so de coe r ê n cia e foco que n ã o
h avia an t es. A l é m disso, Dou glas Gr o o t h u i s e m Unmasking
the New A ge [Desm ascarando a Nova Era] e Confronting the
New A ge [Confrontando a Nova Era] m u i t o t e m con t r ib u í -
do par a u m a d efin ição m ais clar a e abr an gen t e. 4 Jam es A .
H e r r i c k t em escavado ain d a m ais fu n do e m d ir eção às raí-
zes desse m ovim e n t o, ar gu m en t an do de for m a persuasiva
que tais raízes t ê m or igem n o an t igo gn ost icism o e pod em
ser vistas n os est ágios subsequen tes da civilização ociden -
t al, em er gin do n o que ele d e n om in a com o N o v a Sín t ese
Religiosa. Su a obr a, The Making of the New Espirituality
[A criação da nova espiritualidade], pelo m en os at é agora, é a
h ist ór ia defin it iva d a espir it ualidade d a N o v a E r a . 5

N o m e io d a d é c a d a de 1970, ar t igos e r epor t agen s de


capa n a r evist a Time, b e m com o e m out r as p u b l i caçõ e s de
p r e st ígio, cor r er am at r ás do crescen t e in teresse n o m ist er ioso
e a d m i r á v e l . 6 Já n a m et ade d a d é c a d a de 1980, o in teresse
e m fe n ó m e n o s p sí q u i co s t or n ou - se t ão d ifu n d id o que já n ã o
m ais pr ovocava o erguer sur pr eso de sobr an celh a. M u it as re-
vist as, com o Body and Soul, W hat Is Enlightenment, e Y oga
Journal pr opagavam as ideias d a N o v a E r a e se en con t r avam
d isp on í ve is e m todas as ban cas de jo r n ais. 7
Co n fo r m e o cale n d ár io m aia, u m a con ve r gê n cia h a r m ó -
n ica estava pr ogr am ada par a ocor r er e m agosto de 1987.
A dat a despeit ou gran de intetesse n a m íd ia, p o r é m , n en h u m a
evid ên cia jam ais su r giu dan do con t a que a Er a de Aq u ár i o ,
u m p e r í o d o de gr an de paz, teve in ício.

• 209
O u n i v e r s o ao lado

N o fim de 1987, a r evista Time, u m a vez m ais, deu at en ção


ao m ovim en t o da N o v a Er a , com sua capa exibin do Sh ir ley
M a c La i n e e u m a h ist ór ia abor dan do "cu r an deir os da fé, ca-
n alizadores, viajan t es do t em po e cristais e m a b u n d â n c i a ". 8
A par t ir de e n t ão, M a c La i n e parece assu m ir a p o si ção de m aior
expoen re da N o v a E r a . 9 E , por volt a da met ade da d é cad a de
1990, as h ist ór ias sobre a N o v a E r a d eixar am de frequen t ar
as pr im eir as p ágin as do n ot iciár io n ão por qu e o m ovim en t o
deixou de exist ir, mas por qu e t om ou - se cor r iqu eir o, n ão mais
est r an h o e atraen te aos leit or es. 1 0 Ce r ca de vin t e p u b licações
populares sobre a N o v a E r a são dispon ibilizadas e m m i n h a
livr ar ia local.

A t ransformação radical da natureza


h umana
Com suas e sp e r a n ç a s fu n d am en t ad as n o m od elo evo-
l u ci o n i st a - u m r em an escen t e do n at u r alism o ocid en t al
— i n ú m e r o s pen sador es de van gu ar da t ê m pr ofet izado a ch e-
gada de u m N o v o H o m e m e u m a N o v a E r a . E m 1 9 7 3 , Jean
H o u st o n , da Fu n d a ç ã o par a Pesquisa da M e n t e , e m P am on a,
N o v a Yor k , afir m ou que o que este m u n d o n ecessit a é de u m
"pr ogr am a psicon au t a par a colocar o p r im e ir o h o m e m n a
t er r a". P o r é m , se n ã o obt em os u m a con t r ap ar t id a p sí q u i c a
d a N A SA , n osso psicon au t a est á ch egan do: " É quase com o
se a espécie [a h u m an id ad e] estivesse d an d o u m salto espe-
t acu lar e m d ir e ção a u m t ot alm en t e in ovad or jeit o de se r "."
E l a co n cl u i que se apr en der m os a "at u ar sobr e o vast o espec-
t r o da co n sci ê n ci a, [...] t er emos acesso a u m a h u m an id ad e

210
Um universo separado

c o m t al pr ofu n d id ad e e r iqu eza jam ais dan t es con h ecidas


pelo m u n d o , de m od o que n ossos t at ar an et os n os ver ão
co m o n ean der t ais de t ão difer en t es que eles se r ã o ". 1 2
P or cer ca de t r in t a an os, H o u st o n t em pr opagado a mes-
m a m en sagem : os seres h u m an os evolu em e m d ir eção a u m a
con sciê n cia su per ior ; as sociedades e cu lt u r as evolu em r u m o
a u m a m aior ab r an gê n cia. N a d é cad a de 1990, ela disse que já
p o d e r í a m o s estar viven d o os p r i m ó r d i o s de u m a "civilização
de alt o n ível do t ipo I " , du r an t e a qu al "n ossos t at ar an et os"
est ar ão viajan d o par a ou t r os plan et as o u colón ias espaciais,
"cr ian d o p ar aísos, u m a ecologia viável e u m m u n d o on de n os
n u t r ir em os m u t u am en t e e que n os su p r ir á par a obt er m os o
m á x i m o de n ossas capacidades". A p ó s isso, vir ão "civilizações
de n ível t ipo I I , em que n os t or n ar em os r espon sáveis, ao n í-
vel sen sor ial, pela or q u e st r ação dos recursos do sist em a solar.
[...] E pr ovável que, m it icam en t e, estaremos n os ap r oxim an -
do de en car n ar , de algu m m od o, os ar q u é t ip os. Acabar em os
t or n an do- n os os deuses que t emos in vocad o". A seguir, sur -
gir ão as civilizações de n ível t ipo I I I , "em que n os u n ir em os
ao am bien t e galáct ico e n os t or n ar em os cr iador es de m u n -
dos, capazes de r ealizar o Gé n e si s". E , por ocasião do adven r o
do t er ceir o m ilé n io , ela passou a oferecer acon selh am en t o
sobre com o viver e pr om over "esse salt o", aqueles p er íod os de
t r an sição r u m o a estados m ais elevados do ser . 1 3

E m 2 0 0 3 , Ke n W i l b e r e A r t h u r Co h e n e sb o çar am u m a
escala de evolu ção ain d a m ais elabor ada (oir o n íveis), in ician -
do ce m m i l an os at r ás (o est ágio in st in t ivo de sob t evivên cia) e
ch egan do t r in t a an os at r ás, qu an do u m as poucas pessoas i n i -
ciar am - se n o est ágio h olíst ico. M ai s d a met ade da p o p u l a ç ão

211
O u n i v e r s o ao l a d o

m u n d i al , en t r et an t o, est á abaixo d a l i n h a m é d i a dessa esca-


d a evolu cion ár ia. N o en t an t o, qu an do u m a pessoa descobre
que "depen de de m i m ", a e volu ção prossegue. C o m o afir m a
W il b e r , r eflet in do sobre a t r an sição: "Si m , é cocr iação, por-
que b e m lá n a fr ívola, efervescen te, caót ica e emer gen t e pon t a
d a r evelação do espír it o jaz ela, a ação ct iat iva". 1 4 A evolu -
ção d a h u m an id ad e (cor po e alm a) depen de de cada pessoa.
P o r é m , est á ch egan do. W i l b e r diz: " M i l an os à fr en t e, as pes-
soas olh ar ão par a t u d o isso n o passado com o 'aquelas coisas
de ja r d i m d a in fân cia' que e st ávam o s r epelin do n a é p o c a ". 1 5
M u i t o em b or a o t em a de u m a e v o l u ção pessoal e cu lt u r al
t en h a estado pt esen t e n o p e r í o d o en t r e as d é cad as de 1970
at é o final do sé cu lo, a am bigu id ad e de su a ên fase por par t e
dos pr opagador es d a N o v a E r a par ece-me m u i t o m ais i m -
por t an t e agor a do qu e an t es. Isso é b e m p ossível, pois n os
ú l t i m o s vin t e an os n ad a t e m ocor r id o de m od o a m u d ar a
n ossa h u m an id ad e . Lon ge de u m a t r an sfo r m ação r ad ical, a
r aça h u m a n a c o n t i n u a viven d o u m a t r agé d ia san gr en t a ap ó s
ou t r a. Assi m , e sp e r an ço so s p ar t id ár io s d a N o v a E r a in t er -
pr et am os relatos m od er n os daqueles qu e alegam ter feito
u m a viagem à ou t r a d i m e n sã o . Eles in t er p r et am (o u m elh or ,
n ão in t er p r et am ) os an t igos líder es r eligiosos - Jesus, Bu d a ,
Zor oast r o - que ain d a gozam de cr ed ibilid ad e, ven d o neles
u m sin al do progresso que se aguar da par a t oda a h u m an i d a-
de, con clu in d o que u m a N o v a E r a se a p r o xi m a . 1 6
U m im por t an t e con t in gen t e de ot im ism o sobre a N o v a E r a
t or n ou-se, en t r et an t o, m ais em u decido que t t an sfor m ado. N o
in ício d a d é cad a de 1970, o m é d i c o An d r e w W e i l , pesquisa-
dor e t eór ico das drogas, ar gu m en t ou e m defesa de u m a n ova

212
Um universo separado

e m ais relaxada abor dagem sobre o uso de drogas psicod éli-


cas e de cam in h os alt ern at ivos par a se alcan çar n ovos estados
de con sciên cia. A t evolu ção das drogas, ele im agin ava, seria o
precursor de u m a N o v a E r a u m p e r í o d o n o qu al a h u m an id a-
de - por qu e far ia uso sáb io das drogas e de t écn icas m íst icas
- fin alm en t e alcan çar ia saú d e plen a. W e i l escreveu: " U m dia,
qu an do a t r an sfor m ação t iver acon t ecido, co m certeza, olh a-
remos par a t r ás sobre o pr oblem a das drogas da d é cad a de
1970 com o m ot ivo de riso e b alan çar e m os a cab eça, per gu n -
(an do- n os: com o n ão con segu im os ver o que realmen t e estava
acon t ecen do?"1 7 H o je essa o p ç ã o est á con ect ada co m o que
Dou glas Gr oot h u is ch am a de "t ecn oxam an ism o". P r om ovid a
por seguidores do falecido T i m o t h y Lear y, a gr an de esper an ça
agora é perder o "eu " n or m al e assumir poderes divin os n a
realidade vir t u al do cib e r e sp aço. 1 8

O p r ó p r i o W e i l t r ocou a ên fase n o uso seguro de drogas


que alt et am a con sciê n cia pela p r o m o ç ã o de u m a "m e d icin a
in t egr at iva", que Br a d Le m l e y descr eveu com o "u m m od e-
lo m é d i c o que ext r ai o m elh or dos sist emas t e r ap ê u t icos,
abr an gen do a alopat ia (o r egim e de drogas e cir u r gias dos
pr ofission ais am er ican os da ár ea de m e d icin a), h om eopat ia,
acu p u n t u r a, h er balism o, ciên cia n u t r icion al, h ipn ose e m u i -
tas ou t r as". 1 9

Uma visão panorâmica do pensamento


da Nova Era
Pelo que falei at é aqu i, dever ia ser ób vio que a cosm ovi-
são da N o v a E r a n ão est á con fin ad a a u m a estreita faixa da

213
O u n i v e r s o ao l a d o

h u m an id ad e . Te m os aqu i m ais do que u m a e fé m e r a m od a


passageira en t r e os in t elect u ais de N o v a Yo r k o u gu r u s da
Co st a O est e. A list a seguin t e de disciplin as e seus r espect ivos
r epr esen t an t es cor r ob or am esse fat o. Pelas pessoas aqu i m e n -
cion adas, o pen sam en t o d a N o v a E r a é t ão n at u r al qu an t o o
t e í sm o é par a os cr ist ãos.
N a psicologia, o p r im e ir o t eór ico a r econ h ecer a validad e
dos estados alt er ados de con sciê n cia foi W i l l i a m Jam es. M a i s
t ar de, ele foi seguido por C a r l Ju n g e A b r a h a m Maslow . H o je
podem os cit ar Al d o u s H u xl e y , r om an cist a e exper im en t ad or
de dr ogas; Rob e r t Mast er s e Jean H o u st o n , da F u n d a ç ã o
par a a Pesquisa d a M e n t e , St an islav Gr o f, do Ce n t r o de
Pesquisa P siq u iát r ica de M a r y l a n d , qu e for n ece L S D aos
pacien t es e m estado t e r m i n al c o m o p r o p ó si t o de au xiliá-
los a obt er u m sen t im en t o de u n id ad e c ó sm i c a e, por t an t o,
p t e p ar á- los par a a m or t e, e Jo h n Li l l y , cu jos t r abalh os i n i -
ciais e n v o l v i am golfin h os, mas que foi a l é m , passan do par a
exper im en t os c o m dr ogas, t en do a si m esm o com o su jeit o
p r i m á r i o . 2 0 A sín t ese t r an spessoal de Ke n W i l b e r , en volven -
do vár ias escolas de psicologia e filosofia t o r n a m sua obr a
in t eligen t em en t e at r aen t e e o coloca n a van gu ar da d a intelli-
gentsia d a N o v a Er a . Fi n al m e n t e , o p si c ó l o go Jo n Kl i m o t e m
pu b licad o u m am p lo est udo sobre can alização ( u m t er m o da
N o v a E r a par a m e d i u n i d ad e ). 2 1

Na sociologia e na história cultural t emos Th eod o-


re Roszak , especialm en t e e m W here the W asteland Ends
[Onde term ina a época estéril] e Unfinished Animal [Ani-
mal inacabado], bem com o W i l l i a m Irwin T h o m p so n ,
cujas obras A t the Edge of History [No limite da história] e

214
Um universo separado

Passages About Earth [Passagens sobre a terra], t r açam su a


p r ó p r ia jor n ad a in t elect u al, desde o cat olicism o, passan do
pelo n at u r alism o e c u l m i n a n d o e m u m a ve r são ocu lt a d a
Nova E r a . O t r abalh o de T h o m p s o n é n ot ável por qu e com o
ex-professor de h ist ór ia n o M I T e Yo r k Un i v e r si t y e det en t or
de bolsas de estudos de W o o d r o w W i l so n e O l d D o m i n i o n ,
ele foi r econ h ecido e apr ovado pelos in t elect u ais do establish-
m ent. Passages About Earth [Passagens sobre a terra], m ost r a
com o ele se r et ir ou t ot alm en t e dos cír cu los oficiais. 2 2
E m antropologia t em os Car l o s Cast an ed a, cu jos livr os
t êm sido best-sellers t an t o n os m eios u n iver sit ár ios qu an t o
nas livr ar ias e m ger al. A erva do diabo ( 1 9 6 8 ) est abeleceu
o c a m i n h o e foi r apid am en t e seguido por Um a estranha
realidade (1 9 7 1 ) e V iagem a Ixtlan ( 1 9 7 2 ) . P ost er ior m en t e,
ou t r os livr os for am l an ç ad o s, p o r é m , eles desper t ar am m en os
in teresse n o p ú b l i c o . Cast an ed a, que c o m e ç o u est u dan do os
eleit os de drogas p sicod é licas n a cu lt u r a i n d i an a (o u in d í ge -
n a), t or n ou - se apr en diz de D o n Ju a n , u m feit iceir o d a t r ib o
ile Yaq u i. A p ó s com plet ar os r it os de in iciação, depois de
Igun s an os, Cast an ed a t or n ou - se u m feit iceit o, cu ja alegada
exp er iên cia c o m vár ios t ipos de n ovas realidades e u n iver sos
separados t or n a sua leit u r a fascin an t e e, por vezes, assusta-
dor a. As obras de Cast an ed a t ê m se c o n st i t u í d o em u m a das
pr in cipais por t as de en t r ad a a u m a n ova c o n sc i ê n c i a . 2 '

M e sm o n a ár ea d a ciência natural, elem en t os do pen sa-


m en t o d a N o v a E r a p od e m ser en con r r ados.
Com fr e q u ê n c i a , pessoas p r ofission alm e n t e en volvi-
das e m física assu m e m a l i d e r a n ç a , t alvez p ot essa ár ea ser
m ais t e ó r i ca e esp ecu lat iva, m e n os p r op en sa, p or t an t o, à

• 215 •
O u n i v e r s o ao l a d o

falsificação pelo fat o. O ar gu m e n t o p ar a u m a r ein t er p r et a-


ç ã o d a física p ela N o v a E r a é m ais p o p u l ar m e n t e colocado
pelo físico F r i t j o f C a p r a e o escr it or de c i ê n c i a p op u lar
G a r y Z u k a v . 2 4 M a i s r eser vados e m seu apoio às ideias da
N o v a E r a sã o Le w i s T h o m a s e J . E . Lo v e l o c k . O p r i m e i r o
é b i ó l o g o e m é d i c o , cu jo l i v r o A s vidas de um a célula an ga-
r i o u u m a só l i d a p o si ç ã o n o cam p o d a l i t e r at u r a cien t ífica
p o p u l ar . 2 5 Lo v e l o c k é u m especialist a e m cr om at ogr afia
p or gá s, e seu l i v r o , Gaia: um novo olhar sobre a vida na
terra, é u m t r ab alh o o r i gi n al sobr e a m a n e i r a de se ver a
t et r a ( G a i a é a an t iga deu sa gr ega d a t er r a) co m o u m siste-
m a si m b i ó t i c o ú n i c o . 2 6
N o cam p o d a sa ú d e , o n ú m e r o de t er apias alt er n at ivas
pr opost as n o qu e veio a se ch am ar "m e d i c i n a h o l í st i ca"
é d ign o de n ot a. A c u p u n t u r a , m é t o d o Ro l fi n g, cu r a p sí-
q u ica, cin esiologia, t oqu e t e r a p ê u t i c o - essas são apen as
algu m as t é cn i cas usadas pelos pr ofission ais d a sa ú d e da
N o v a E r a 2 7 T a n t o dou t or es c o m o en fer m eir as t ê m sen t ido
os seus efeit os. A en fer m agem , de fat o, pod e ser con sider a-
d a a d i sc i p l i n a m ais afet ada pelas ideias e t é cn i cas d a N o v a
E r a . Sob o pr et ext o de "cu id ad os e sp i í i t u a i s", u m a am p la
var ied ad e de t é cn i cas t e t a p ê u t i c a s d a N o v a E r a esr ão sen do
en sin ados aos est u dan t es de e n fe r m age m . 2 8 W e i l , defen sor
d a "c u r a e sp o n t â n e a ", a fi r m o u que cer ca de 3 0 , en t r e 134
escolas de m e d i c i n a , ofer ecem al gu m a i n st r u ç ã o n a ár ea
de m e d i c i n a alt e r n at iva. At u a l m e n t e , ele d ir ige u m pr o-
gr am a de m e d i c i n a in t egr at iva ligado à Esc o l a de M e d i c i n a
d a Un i v e t si d ad e do A r i z o n a . 2 9 O m é d i c o D e e p ak C h o p r a ,
t a m b é m em er giu co m o u m p op u lar m est t e d a cu r a alt er -
n at iva da N o v a E r a . 3 0

• 216 •
Um universo separado

A ficção cien t ífica é u m gé n e r o am p lam en t e d om in ad o


por n at u r alist as cu ja e sp e r an ça par a o fu t u r o d a h u m an id ad e
repousa n a t ecn ologia. P o r é m , pou cos de seus escrit ores t ê m
sido p r ofé t icos. A r t h u r C . Cl a r k e , por exem plo, escr eveu dois
cen ár ios par a u m a t r an sfo r m aç ão h u m a n a r ad ical e m con so-
n ân cia c o m a l i n h a d a N o v a Er a . O fim da infância ( 1 9 5 3 ) é
u m a de suas obr as de i m a gi n a ç ã o m ais bem - su cedidas. Seu
r ot eir o par a 2 0 0 1 ( 1 9 6 8 ) , cu ja ver são par a o c i n e m a t em
m u it o m ais do dir et or St an ley Ku b r i c k que pr opr iam en t e
dele, t e r m i n a c o m o am an h ecer d a N o v a E r a e m u m a n ova
d i m e n sã o e c o m u m n ovo "h o m e m ", a cr ian ça- e st r e la. 3 1
E Um estranho num a terra estranha ( 1 9 6 1 ) , de Rob e r t A .
H e i n l e i n , a p r i n c í p i o u m clássico d a con t r acu lt u t a, t or n ou -
-se u m t r at ado par a a N o v a E r a . Vale n t in e M i c h a e l Sm i t h ,
que capta a r ealidade e m su a plen it u d e, é u m p r o t ó t i p o par a
a n ova h u m an i d ad e . 3 2 O s t r ês ú l t i m o s r om an ces de P h i l i p
K. D i c k (Valis, A invasão divina e The Transfiguration of
Timothy Archer [A tranfiguração de Timothy Archer}) são
esfor ços ficcion ais par a com pr een d er seu p r ó p r i o en con t r o
c o m "u m r aio de lu z r osa". 3 3
N a indústria cinem atográfica, u m dos m eios de c o m u n i -
cação m ais eficazes do m u n d o m od er n o, d ign o de dest aque
é o t t abalh o do dir et or St even Spielber g, em especial o fil-
m e Contatos im ediatos do terceiro grau, b em com o George
Lu cas, especialm en t e a sér ie Guerra nas estrelas. A for ça, o
poder d i v i n o que per m eia o m u n d o desses film es, é m u i -
to sem elh an t e ao deus h i n d u Br a h m a , in cor p or an d o t an t o
o b e m qu an t o o m al , e Yod a, o am áve l gu t u de O im pério
contra-ataca, expressa a p u r a m e t afí sica da N o v a Era. Entre
os filmes que tf azem e m seu bojo o pen sam en t o da Nova Era

217
O u n i v e r s o ao l a d o

est á o n ã o m en os im p or t an t e My Dinner with André [Meu


jantar com A ndré], u m a excu r são au t o b i o gr áfi ca ao in t er ior
da m en t e de A n d r é Gr e gor y . 3 4 O s filmes da d é c a d a de 1990 e
in ício do sécu lo X X I , que se aven t u r am e m r et r at ar cen ár ios
fu t u r ist as, t en d em a ser m ais p ó s- m o d e r n o s qu e est r it am en -
te N o v a E r a . Veja os filmes d a sér ie Matrix.
Pode-se facilm en t e r eplicar que aqueles, cu jos livr os e
ideias acabei de m en cion ar , est ão à m ar ge m d a sociedade
ocid en t al — u m a m ar gin alid ad e lu n át ica. Suas ideias n ã o re-
pr esen t am a p r in cip al cor r en t e. T a l afir m ação é, e m gr an de
par t e, ver az. Al gu n s dos m ais popu lar es aut or es d a N o v a E r a
são pr oven ien t es do jor n alism o sen sacion alist a e, por isso,
t or n a-se difícil levar suas ideias a sér io. A l é m disso, os cr ít i-
cos, revisores e in t elect u ais dos cír cu los oficiais - que e m su a
m aior ia são n at u r alist as cu jo n at u r alism o ain d a n ã o é pu r o
n iilism o - t ê m sido cr ít icos fer r en h os dos livr os d a N o v a
E r a , seja q u al for o t i p o . 3 5 P o r é m , n a r ealidade, t u d o isso
v e m a ser u m t r ib u t o ao poder qu e essas ideias c o m e ç a m a
possuir . As pessoas cu jas obr as cit ei an t er ior m en t e exer cem
u m a en or m e in flu ên cia, seja pela p o si ç ão que ocu p am em
u n iver sidades, h ospit ais e cen t r os de pesqu isa im por t an t es,
p or seu car ism a pessoal, por sua c o n d i ç ã o de celebr idades,
seja por t odas elas e m con ju n t o . E m r esu m o, u m a cosm ovi-
são in sin u an t e e de im en so im p act o cu lt u r al foi for m u lad a e
est á sen do p r om ovid a.

Relacionamento com outras cosmovisões


A c o sm o v i sã o d a N o v a E r a é alt am en t e sin cr é t ica e eclét ica,
t o m an d o em pr est ado de t odas as p r i n ci p ai s c o sm o v i sõ e s.

• 218 •
Um universo separado

Em b o r a suas m ist er iosas r am ificaçõe s e est r an h as d i m e n -


sões p ossu am r aízes n o p a n t e í sm o or ie n t al e n o an t igo
a n i m i sm o , sua c o n e xã o c o m o n at u r alism o for n ece u m a
m e lh or ch an ce de gan h ar n ovos adept os qu e o m ais p u r o
m i st i ci sm o or ie n t al.
C o m o o n at u r alism o, a n ova con sciên cia n ega a exist ên -
cia de u m Deu s t r an scen den t e. N ã o h á n e n h u m Sen h or do
un iver so exceto se ele for cada u m de n ós. Exist e somen t e o
un iver so fech ado. N a ver dade, esse un iver so é "povoado" por
seres de in crível in t eligên cia "pessoal" e poder, e a "con sciên cia
h u m an a n ão é en cer r ada pelo c r â n i o ". 3 6 P or é m , esses seres e
at é m esm o a con sciên cia do cosm o n ão são de for m a algu-
m a t ran scen den t es n o sen t ido im post o pelo t e ísm o. Al é m do
m ais, algu m a lin gu agem sobre os seres h u m an os r et êm a plen a
for ça do n at u r alism o. 3 7 Fr i t jo f Cap r a, G a r y Z u k a v e W i l l i a m
I r w i n T h o m p so n ap on t am par a os aparen tes cor olár ios en t r e
o fe n ó m e n o p síq u ico e a física do sécu lo X X . 3 8
Igu alm en t e em pr est ada do n at u r alism o, en con t r am os a
e sp e r an ça d a Tr an sfor m ação e volu cion ár ia par a a h u m a n i -
dade. Vi v e m o s n a i m i n ê n ci a do adven t o de u m n ovo ser.
A e v o l u ção se i n c u m b i r á dessa t r an sfo r m ação .
Sem elh an t em en t e ao t e ísm o e ao n at u r alism o, p or é m
diferen t e do m on ism o pan t eíst a or ien t al, a Nova Er a deposita
gr an de valor n a pessoa com o in d ivíd u o. O t eísm o fu n dam en -
ta esse valor n o fato de cada pessoa ter sido feita à imagem de
Deu s. O n at u r alism o, refletin do u m a m e m ó r i a de suas raízes
t eíst as, con t in u a a susten tar o valor dos in d ivíd u os, com base
n a n o ção de que todos os seres h u m an os são semelh an t es em
sua h u m an id ad e c o m u m . Se u m é valioso, rodos são.

219
O u n i v e r s o ao l a d o

C o m o o m o n i sm o p an t e í st a or ien t al, a n ova con sciê n cia


t em o foco em u m a exp er iên cia m í st ica, n a qu al t em p o,
e sp aço e m or alid ad e são t r an scen didos. A l gu é m pod er ia
d efin ir n ova con sciê n ci a com o u m a ver são ociden t al do
m ist icism o or ien t al, n o qu al a ên fase m e t afísica do O r ie n t e
(su a afir m ação de qu e A t m a é Br ah m a) é su b st i t u í d a por
u m a ên fase n a epist em ologia (ver, exper im en t ar o u per ceber
a u n id ad e da r ealidade é t u d o e m que a v i d a con sist e). A l é m
disso, com o o O r i e n t e , a n ova con sciê n cia r ejeit a a r azão
(o que W e i l ch am a de "pen sam en t o r et o") com o u m gu ia
par a a r ealidade. O m u n d o é, n a r ealidade, ir r acion al o u
su per - r acion al, d em an d an d o n ovos m od os de p e r ce p ção
("pen sam en t o à base de dr ogas", por e xe m p l o ). 3 9
M as a n ova con sciên cia est á t a m b é m r elacion ada ao
an im ism o, u m a co sm o v isão que ain da n ão abor dei n este
livr o. An i m i sm o é a visão geral da vid a que se en con t r a
subjacen t e às r eligiões pr im ais ou ch am adas r eligiões p agãs.
Afir m ar que a cosm ovisão é p r im ai n ão quer dizer que ela é
sim ples. A s r eligiões p agãs são in teraçÕes alt am en t e com plexas
de ideias, r it u ais, lit ur gias, sistemas de sí m b o l o s, objetos
de cult o e assim por dian t e. N o en t an t o, as r eligiões p agãs
t en d em a reter certas n oçõe s e m c o m u m . En t r e tais n oçõe s, as
seguin tes são refletidas pela No va Er a : (1) o un iver so n at u r al
é h abit ado por in con t áveis seres espit it uais, com fr equ ên cia,
con cebidos e m u m a h ier ar qu ia tosca, n o t opo da qu al est á o
De u s- cé u (lem br an d o vagamen t e o De u s do t eísm o, p o r é m ,
despt ovido de qu alqu er interesse pelos seres h u m an os); (2)
assim , o un iver so possui u m a d i m e n são pessoal, mas n ão
u m Deu s- Cr iad or in fin it o e pessoal; (3) tais seres espirituais
var iam e m t em per am en t o, in do de m alévolo e sór d id o a

220 •
Um universo separado

c ó m i c o e ben evolen t e; (4) par a as pessoas obt er em sucesso n a


vid a, os maus espír it os n ecessit am ser apaziguados e os bon s
espír it os bajulados c o m presentes e oferen das, cer im ón ias
e en can t am en t os; (5) cu r an deir os, feiticeiros e xam ãs, por
in t e r m é d io de u m lon go e ár d u o t t ein am en t o, apr en dem a
con t r olar o m u n d o dos espír it os at é u m certo pon t o, e pessoas
com u n s lh es são m u it o gratas pelo poder que possuem de
expulsar espír it os de en fer midades, seca e assim por dian t e; (6)
n o fi m das con t as, h á u m a u n idade que per m eia t oda a vid a
- ist o é, o cosm o con sist e de u m a con t in u id ad e de espír it o e
m at é r ia; "an im ais p od e m ser an cest r ais de h om e n s, pessoas
p od e m se t r an sfor m ar e m an im ais, ár vor es, e pedr as p od e m
possu ir a l m a ". 4 0
A n ova con sciê n cia reflete cada aspecto do an i m i sm o ,
em b or a, e m ger al, dan do- lh e u m a c o n o t a ç ã o n at u r alist a o u
desm ist ifican do- o por m e io d a psicologia. O fat o de Roszak
ch am ar par a u m r et or n o à "velh a gn osis", b e m com o as
visões de W i l l i a m Blak e , al é m das de Cast an ed a passar em
por u m lon go processo de apr en dizado qu e, por fi m , t or -
n ou - o u m feit iceir o, t u do isso são in d icaçõe s de que aqueles
en volvid os c o m a N o v a E r a est ão b e m con scien t es de suas
raízes an im ist as. 4 1
Pode a N o v a E r a , possu in d o r aízes e m t r ês co sm o v i sõ e s
dist in t as, ser u m sist em a u n ificado? N ã o t ealm en t e. O u , pelo
m en os, n ão ain d a. N a ver dade, é m u i t o pr ovável que n ão .
N ã o obst an t e, em b or a n e m todas as p r o p o si ç õ e s listadas
adian t e se en caixem per feit am en t e, h á m u it os e m pratica-
m en t e todas as ár eas d a cu lt u r a que defen dem algo sim ilar a
esse m od o de se en car ar a r ealidade.

221
O u n i v e r s o ao l a d o

As doutrinas básicas da nova consciência


Recon h ecen d o a su t ileza deste con ju n t o de p r o p o si ç õ e s
com o u m a d e scr ição pr ecisa da c o sm o v i sã o da n ova con sci-
ên cia, podem os com e çar , a exem plo das ou t r as co sm o v i sõ e s,
c o m a n o ç ã o de r ealidade fu n d am en t al.

1. Qualquer que seja a natureza do ser (ideia ou mat é -


ria, energia ou partícula), o eu é o centro, a realidade
fundamental. Como os seres humanos crescem em sua
consciê ncia e c o m pre e n são desse fato, a raça humana
e stá no limiar de uma t ran sfo rmaç ão radical na nature-
za humana; mesmo agora vemos alguns precursores da
humanidade transformada e pro t ó t i po s da Nova Era.

Se o D e u s t r an scen den t e con st it u i a p r im e ir a r ealidade


fu n d am en t al n o t e í sm o e o u n iver so físico é a r ealidade fu n -
d am en t al n o n at u r alism o, e n t ão, essa r ealidade fu n d am en t al
n a N o v a E r a é o eu (a alm a, a essên cia cen t r al e in t egt ada de
cada pessoa).
A q u i , t orn a-se de gr an de valia u m a c o m p a r a ç ã o (e con -
t rast e) co m a p r o p o si ç ã o cen t r al do m o n i sm o p an t e íst a
or ien t al. E m essên cia, o O r ie n t e diz: "At m a é Br a h m a ", colo-
can d o a ên fase e m Br a h m a . Ist o é, n o O r i e n t e , perde-se o eu
n o t odo; a in d ivid u alid ad e de u m a got a d ' á gu a (sí m b o l o da
alm a) é per dida qu an d o ela cai d en t r o de u m balde d ' águ a
(sí m b o l o do t odo d a r ealidade). N a N o v a E r a , a m e sm a sen -
t e n ça é lid a ao co n t r ár io : "At m a é Br a h m a ". É a sin gu lar idade
do eu que se t or n a im p or t an t e. P or t an t o, vem os a in flu ên cia
do t e í sm o , n o qu al o i n d i v í d u o é im p or t an t e por ser feito
à im agem de D e u s. D e igual sor t e, vem os a in flu ên cia do

222
Um universo separado

n at u r alism o, e m especial do exist en cialism o n at u r alist a, n o


qu al os i n d i v í d u o s são im por t an t es por qu e são t u do o que
resta par a ser i m p o r t an t e . 4 2
O p r ob lem a reside n o que exat am en t e con st it u i esse eu?
Se r á u m a ideia, u m esp ír it o, u m "cam p o p si c o m a gn é t i c o "
ou ain d a a u n id ad e que p er m eia a diver sidade d a en er gia
có sm i ca? O s pr opon en t es d a N o v a E r a d iscor d am , p o r é m
,in sist em que o eu - o cen t r o de co n sci ê n ci a do ser h u m a n o
— de fat o, é o cen t r o do u n iver so. Seja o que for que exist a,
al é m do e u , se é que, n a ver dade, exist e algo - exist e par a o
eu. O u n iver so ext er n o exist e n ão par a ser m an ip u lad o do
lado de for a por u m D e u s t r an scen den t e, m as par a ser m a-
n ip u lad o do lado de den t r o pelo eu .
Jo h n Li l l y for n ece u m a lon ga d e scr ição do qu e sign ifica
com pr een d er que o eu , de fat o, est á n o con t r ole de t oda
a r ealidade. A seguir e st ão suas an o t açõ e s, registradas ap ó s
viven ciar o que ele acr edit a ser o m ais elevado estado de
co n sciê n cia p ossível:

Nó s [ele e outras personalidades] estamos ctian do energia,


mat ér ia e vida n a interface entre o vazio e toda a criação co-
n h ecida. Estamos diante do universo con h ecido, criando-o,
preenchendo-o. [...] Sin t o o poder da galáxia emanando
através de m im . [...] Sou o pr ópr io processo de criação, in -
crivelmen te forte e poderoso. [...] E u sou "u m dos rapazes
na casa das m áqu in as, bombeando a criação do vazio para
o un iverso con h ecido; do desconhecido para o con h ecido,
estou bombean do". 43

Q u an d o finalmente Li l l y at in ge o e sp a ç o in t er ior , ele


d e n o m i n a de "+3 " — a m ais p len a e p r ofu n d a p e n e t r a ç ã o

223
O u n i v e r s o ao l a d o

d a r ealidade - ele se t o r n a o p r ó p r i o "D e u s". Li l l y se t or -


n a, por assim dizer , t an t o o u n ive r so q u an t o o seu cr iad or .
E n t ã o , ele d iz: "P o r qu e n ã o d e sfr u t ai de en levo e ê xt ase ,
en qu an t o ai n d a u m passageir o n este cor p o, n est a espa-
çon ave ? D i t e as suas p r ó p r i a s regras co m o passageir o. A
em pr esa de t r an spor t es possu i algu m as pou cas regras, m as
pode ser qu e in ve n t e m os a em pr esa, b e m co m o suas regras.
[...] N ã o exist em m o n t an h as, n e m m o n t í c u l o s [...] apen as
u m n ú c l e o cen t r al de m i m e ê xt ase t r an sce n d e n t e ". 4 4 P ar a
Jo h n Li l l y , a i m a gi n a ç ã o é o m e sm o qu e r ealid ad e: " Tudo
e todas as coisas que alguém é capaz de im aginar existem"
P ar a ele, p or t an t o, o e u est á t r i u n fan t e m e n t e n o con t r o-
le. A m a i o r i a das pessoas descon h ece isso; faz-se n ecessár ia
u m a t é cn i ca de al gu m t ip o par a com p r e e n d e r esse fat o; po-
r é m , o eu , de fat o, é r e i .

Sh ir ley M a c La i n e especula sobre se, de fat o, ela t em cr ia-


do su a p r ó p r i a r ealidade (algo que ela m e n cio n a, repetidas
vezes, e m seus livr os). E l a escr eveu:

"Se eu criei a m in h a pr ópr ia realidade, en tão — em algum


nível e dim en são que eu n ão compreen di - criei tudo o que
vi, ouvi, toquei, ch eirei, provei; tudo que amei, odiei, res-
peitei, abomin ei; tudo o que respondi ou que responderam
a m im . En t ão, eu criei tudo o que con h eci. E u fu i, portan -
to, responsável por tudo o que houve em m in h a realidade.
Se isso foi verdadeiro, en t ão (sic) eu fui tudo, como os an ti-
gos textos h aviam ensinado. Aquilo t am bém sign ificou que
eu criei Deus e que criei a vida e a morte? Isso aconteceu
porque eu era tudo o que havia? [...]"
Assumir a responsabilidade pelo poder de alguém seria a
expressão suprema do que chamamos de Deus- for ça.

224
Seria isso o que significava a afirmação E U S O U O Q U E
SO U ? 4 6

E l a co n cl u i qu e por t odos os p r o p ó si t o s p r át icos, esse


er a o caso. P r esu m o que a m ai o r i a dos leit or es a c a b a r á por
descobr ir que t u d o isso c o n t é m m ais qu e u m t oqu e de m e-
galom an ia.
Já ou vim os a pr ofecia de Geor ge Le o n a r d e Je an H o u st o n
sobre a v i n d a de u m a N o v a E r a . E eles n ã o e st ão sozin h os.
A e sp e r an ç a — se n ão pr ofecia — en con t r a eco n as palavr as de
M a r i l y n Fer gu son , A n d r e w W e i l , O scar Ich azo e W i l l i a m
I r w i n T h o m p so n . Fer gu son en cer r a seu livr o , The Brain
Revolution [A revolução cerebral] ( 1 9 7 3 ) , c o m u m o t i m i sm o
t r iu n fan t e: "Est am o s apen as c o m e ç a n d o a com pr een d er que
podem os ver dadeir am en t e ab r ir as por t as d a p e r ce p çã o e sair
d a cav e r n a". 4 7 Su a m ais r ecen t e obr a, A conspiração aqua-
riana ( 1 9 8 0 ) , m apeia o pr ogr esso e co n t r i b u i pat a ele. Q u e
glor iosa N o v a E r a est á r om p e n d o: u m n ovo m u n d o h ab it a-
do p or seres sau d áve is, bem - aju st ados, per feit am en t e felizes,
e m absolu t o êxt ase — livr e de d o e n ç a s, guer r as, fom e, p o l u i -
ção , m as apen as alegr ia t r an scen den t e. O que m ais pod er ia
a l gu é m desejar?

Cr í t i c o s dessa eu for ia u t ó p i c a q u e r iam apen as u m a coisa:


algu m a gar an t ia objet iva e r azoável de que t al visão é m ais
do qu e u m son h o m o v i d o a ó p i o . P o r é m , d u r an t e os m o-
m en t os e m que o eu est á im er so n a cer t eza su bjet iva, n ão h á
n ecessidade de r azões, n e n h u m a objet ividad e é r equ er ida.
W i l b e r descreve essa au t ocer t eza qu an t o à igualdade c o m
in d o o qu e exist e:

• 225 •
O u n i v e r s o ao lado

Quan do você pisa totalmen te fora da escada, est á em que-


da livre n o vazio. Den t r o e fora, sujeito e objeto perdem
todo o significado final. Você n ão está mais "aqu i", olh an -
do para o m u n do "lá fora". Você n ão está olh an do para o
cosmo, mas você é o cosmo. O un iverso do sabor ú n ico
an un cia a si mesmo, brilh an te e óbvio, radiante e claro,
sem nada externo, nada in tern o, u m gesto incessante de
gtande perfeição, espontaneamente realizada. O pr ópr io
divin o cin tila em toda a visão, em todo o som, e você sim-
plesmente é isso. O sol dentro de seu cor ação. Tempo e
espaço dan çam como imagens bruxuleantes sobre a face
do radiante vazio, e todo o universo perde seu peso. Você é
capaz de engolir a Via- Láct ea de uma só vez, e colocar Gaia
n a palma de sua m ão, aben çoan do- a, e isso é a coisa mais
com u m n o mun do, e assim, você nada pensa disso. 48

E m v i r t u d e de sua absolu t a su bjet ividade, a p o si ç ã o do


eu - sou - Deu s o u eu - sou - o- cosm o per m an ece al é m de qu al-
qu er cr ít ica e xt e r n a. 4 9 É fácil o su ficien t e par a a l gu é m de for a
estar con ven cid o - e c o m base e m só l i d a e vid ê n cia - de que
M a c La i n e n ã o é o in fin it o E U S O U O Q U E S O U e que
W i l b e r n ã o en goliu o u n iver so. Tod avia, com o a l gu é m en t t a
n a p r ó p r i a con sciê n cia- d e u s?
Al d o u s H u x l e y sugere que t al r u p t u r a é p ossível. P ou co
an tes de sua m or t e, ele teve d ú v i d a s sobre a validade d a n ova
con sciê n cia. Lau r a , su a esposa, gr avou e m fita cassete m u it os
de seus der r adeir os pen sam en t os. Segue a t r an scr ição de sua
con vet sa, dois dias an tes de seu falecim en t o:

Isso [uma descoberta interior que ele acabara de fazer] mos-


tra [...] a natureza quase ilimitada da am bição do ego. E u

• 226
Um universo separado

sonhei, creio que duas noites atrás [...] que, de algum modo,
eu estava em uma posição para fazer u m absoluto [...] presente
cósmico para o mun do. [...] Algu m imenso ato de benevolên-
cia estava para ser realizado, no qual eu desempenharia o
papel de estrela. [...] De algum modo, isso era absolutamen-
te amedrontador, mostrando que quando alguém pensa que
superou a si m esm o, isso ainda não aconteceu.''0

A i n d a assim , H u x l e y n ã o ab an d on ou a su a bu sca. El e
m o r r e u du r an t e u m a "viagem ", pois su a esposa, at en den do
a u m pedido dele, ad m in ist r ou - lh e L S D , e m con for m id ad e
c o m o Livro tibetano dos m ortos, e falou ao seu esp ír it o par a
descan sar e m paz "do ou t r o lado".
O per igo do au t oen gan o - t eíst as, b em com o n at u r a-
listas acr escen t ar iam a certeza do au t oen gan o — é a gr an de
fr aqueza d a n ova co n sciê n cia nesse pon t o. N e n h u m t eíst a
ou n at u r alist a, de m od o algu m , pode n egar a "e xp e r iê n cia"
de perceber-se com o deus, u m esp ír it o, u m d e m ó n i o o u
u m a bar at a. M u i t as pessoas for n ecem tais r elat os. P o r é m ,
en qu an t o som en t e o eu é r ei, assim t a m b é m a i m a gi n a ç ã o
é pr essupost a com o r ealidade; en qu an t o o ver é ser, a fan -
tasia e a visão do ser p er m an ecem guar dados e m se gu r an ça
e m seu u n iver so p r ivad o — h á som en t e u m . En q u a n t o o eu
gostar do que im agin a e est iver ver dadeir am en t e n o con t r ole
do que im agin a, ou t r os "do lado de for a" n ã o t ê m n ada a
oferecer.

O p r ob lem a é que algu m as vezes o eu n ã o é o r ei, mas


escr avo. Essa é u m a q u e st ã o qu e abor dar em os n a p r o p o si ç ão
S, m ais adian t e.

227 •
O u n i v e r s o ao l a d o

2. O cosmo, embora unificado no eu, é manifesto em duas


dimensões mais: o universo visível, que é acessível por
meio da consciência comum, e o universo invisível (ou
mente expandida), acessível por estados alterados de
consciência.

En t ã o , n o qu adr o b ási c o do cosm o, o eu (n o cen t r o) est á,


p r im eir am en t e , cir cu n d ad o pelo u n iver so visível ao q u al ele
possu i acesso dir et o at r avés dos cin co sen t idos, obedecen -
do às "leis d a n at u r eza", descobertas pela ciê n cia n at u r al.
Segu n do, pelo u n iver so in visível ao qu al t e m acesso p or
i n t e r m é d i o de "por t as d a p e r c e p ç ão ", tais com o, dr ogas, m e-
d i t ação , t r an se, biofeedback, acu p u n t u r a, d a n ç a r it u alíst ica,
cer t os t ipos de m ú si c a e assim p or d ian t e.
T a l esqu em a m e t afí sico levou H u x l e y a descrever cada
gr u po h u m a n o co m o "u m a sociedade de u n iver sos- ilh a". 5 1
Ca d a eu é u m u n iver so flutuando e m u m m ar de u n iver sos,
mas pelo fato de cada u n iver so- ilh a ser u m pou co com o os
dem ais, a c o m u n i c a ç ã o en t r e eles pode acon t ecer . A l é m do
m ais, por qu e cada u n iver so é e m sua e ssê n cia (ist o é, seu
eu ) o cen t r o de t odos os u n iver sos, u m a ge n u í n a com pr een -
são é m ais do qu e m e r a possibilidade. M e n c i o n an d o C . D .
Br o ad , ele m esm o fu n d am en t ad o e m Bé r gso n , H u xl e y
escr eveu: "A fu n ção do cér eb r o, do sist em a n er voso e dos
ó r gão s dos sen t idos é n a m aior par t e e lim in at ór ia, e n ão pr o-
d u t iva. Ca d a pessoa é, a cada m o m e n t o , capaz de r elem br ar
t u do o que já lh e acon t eceu e de per ceber t u d o que est á
acon t ecen do e m t odos os lugares do u n i v e r so ". 5 2 N o en t an t o,
por essa p e r ce p ção poder n os sobr epu jar e par ecer caót ica, o
cér eb r o age com o u m a "válvu la r ed u t or a", filt r an d o o que n a-
quele m o m e n t o n ã o é ú t il. C o m o H u x l e y afir m a: "D e acor do

• 228 •
Um universo separado

c o m t al t eor ia, cada u m de n ó s é u m a m en t e exp an d id a, e m


p o t e n ci al ". 5 3 E m ou t r as palavr as, cada eu é pot en cialm en t e o
u n iver so; cada A t m a é pot en cialm en t e Br a h m a . O que passa
pela válvu la r ed u t or a, d iz H u xl e y , é "u m í n fi m o got ejar do
t ipo de co n sci ê n ci a que n os a ju d a r á a per m an ecer vivos n a
su p er fície deste plan et a p ar t i cu l ar ". 5 4
A c o sm o v i sã o d a N o v a E r a é O c i d e n t a l e m gr an de escala,
p o r é m , jam ais e m su a in sist ê n cia de que o u n iver so visível,
o m u n d o ext er n o c o m u m , r ealm en t e exist e. N ã o é ilu são e,
al é m do m ais, é u m u n iver so or den ado. El e obedece às leis
d a r ealidade, e essas leis p od e m ser con h ecidas, com u n icad as
e u t ilizadas. A m ai o r i a dos pr opon en t es d a n ova co n sci ê n -
cia possu i u m sau d áve l r espeit o pela ciên cia. Ke n W i l b e r ,
Ald ou s H u xl e y , Lau r e n ce Le Sh a n e W i l l i a m I r w i n T h o m p -
son sã o os m elh or es e xe m p los. 5 5 E m su m a, o u n iver so visível
est á su jeit o à u n ifor m id ad e de cau sa e efeit o, p o r é m , o sis-
t em a est á aber t o par a ser r eor den ado pelo e u (e m especial
qu an d o percebe sua u n id ad e c o m o u m ) , qu e, por fim, o
con t r ola, e por seres d a m en t e exp an d id a, os qu ais o eu pode
r ecr u t ar com o agen tes de m u d a n ç a .
A m en t e expan d id a é u m t ipo de u n iver so ao lado, a l -
t er n adam en t e ch am ad o de "co n sci ê n ci a exp an d id a" ou
"con sciê n cia alt er n at iva" ( M a c La i n e ) , "u m a r ealidade se-
par ada" (Cast an ed a), "r ealidade clar ivid en t e " (Le Sh a n ) ,
"ou t r os e sp a ç o s" ( Li l l y ) , "su p er m en t e" (Rose n fe ld ), "vazio/
face o r i gi n al " ( W i l b e r ) o u "m en t e u n ive r sal" ( Kl i m o ) . 5 6 Essa
m en t e exp an d id a n ã o obedece às leis do u n iver so visível.
A co n sci ê n ci a do eu pode viajar cen t en as de q u i l ó m e t r o s
pela su p er fície d a t er r a e fazê- lo n u m piscar de olh os. Te m p o

• 229 •
O u n i v e r s o ao l a d o

e e sp aço são elást icos; o u n iver so pode vir ar do avesso, o


t em po pode viajar par a t r á s. 5 7 Poder e en er gia e xt r aor d in á-
r ios p od e m su r gir at r avés de u m a pessoa e ser t r an sm it id os
a ou t r as, e se for m os in clu ir os pr at ican t es de m agia n egt a,
cu r as físicas p od em ser r ealizadas, os in im igos p od e m ser
afligidos física, m e n t al e em ocion alm en t e, levados à lou cu r a
ou at in gidos m or t alm en t e .
M a c La i n e descreve a m en t e exp an d id a dessa m an e ir a:
"Est a v a apr en den do a r econ h ecer a d i m e n sã o in visível e m
que n ão h á m edidas p ossíveis. D e fat o, essa é a d i m e n sã o e m
que n ã o h á alt u r a, lar gu r a, co m p r i m e n t o , m assa e, a b e m
d a ver dade, n ã o h á t em po. Essa é a d i m e n sã o do e sp í r i t o ". 5 8
A m en t e expan d id a, en t r et an t o, n ã o é t ot alm en t e caót ica,
m as apen as parece ser assim par a o eu , qu e oper a com o se
as leis do u n iver so in visível fossem as m esm as do u n iver so
visível. P o r é m , a m en t e exp an d id a possu i as suas p r ó p r i as re-
gras, sua p r ó p r i a or d em , e pode levar u m lon go t em po par a
u m a pessoa apr en der que or d em é essa. 5 9
De scob r ir que o p r ó p r i o eu , n a lin gu agem de Lilly , ela-
b or ou as regras que gover n am o jogo d a r ealidade pode
d em or ar algu m t e m p o . 6 0 P o r é m , qu an d o as pessoas desco-
b r e m isso, elas p od em con t in u ar a gerar qu alqu er or d em de
r ealidade e qu alqu er u n iver so que desejar em , o céu n ã o é o
lim it e : "N a p r o v í n ci a da m en t e, o que se acr edit a ser ver -
dadeir o é ver dadeir o o u assim se t or n a, den t r o de lim it es
a ser em en con t r ados viven cial e exp er im en t alm en t e. Tais
lim it es são ct e n ças ad icion ais a ser em t r an scen didas. N a
p r ovín cia da m en t e, n ã o h á l i m i t e s". 6 1 A obr a de Jo h n Lilly ,
Center of Cyclone [Centro do ciclone], é sua au t obiogr afia do

230 •
Um universo separado

e sp aço in t er ior . Lê- la é seguir e m jor n ad a at r avés d a geogra-


fia d a m en t e de Li l l y , qu an d o ele abre i n ú m e r a s "por t as de
p e r c e p ç ã o " e move-se de e sp aç o e m e sp aç o , de u n iver so e m
u n iver so.
O s qu e jam ais visit ar am esses e sp aç o s d evem con fiar n os
relatos dos que já r ealizar am tais visit as. Li l l y r egist r a u m
gr an de n ú m e r o delas, e seu livr o t or n a a leit u r a fascin an t e.
M u i t o s ou t r os, igu alm en t e, t ê m visit ado tais e sp aço s e seus
r elat ór ios são sim ilar es n o t ip o, em b or a, r ar am en t e qu an t o
a det alh es específicos. Ab or d ar e i os "sen t im en t os" associados
c o m a p e r c e p ç ã o d a m en t e expan d id a n a p r o p o si ç ã o 3, a
seguir. Aq u i , o aspecto m e t afí sico é o foco p r i m á r i o . Q u e
"coisas" apar ecem n á m en t e expan dida? E qu e car act er íst icas
essas "coisas" apr esen t am? O r elat ór io de H u x l e y con st it u i
u m clássico por qu e seu t est em u n h o est abeleceu o p a d r ã o
par a m u it os ou t r os. A p r i m e i r a car act et íst ica é sua cor e l u -
m in osid ad e:

T u d o o qu e é vist o por aqueles qu e v i si t am as m en t es an t í-


podas é b r ilh an t e m e n t e i l u m i n a d o , e o b r ilh o parece sair de
seu in t er ior . Tod as as cores são in t en sificadas a u m gr au m u i -
to a l é m de t u do o qu e é vist o n o est ado n o t m a l , sen do, ao
m e sm o t em p o, a capacidade da m en t e de r econ h ecer t é n u e s
d ist in çõe s de t on alidade e m at iz n ot avelm en t e elevad a/ ' 2

Q u e r as im agen s n a m en t e exp an d id a sejam de objet os


com u n s com o cadeir as, mesas, h om en s e m u lh er es, qu er se-
jam de seres especiais, com o fan t asm as, deuses o u esp ír it os, a
lu m in osid ad e é quase que u m a car act er íst ica u n iver sal. Lilly
afir m ou : " V i elem en t os cin t ilan t es n o ar com o bolh as de
ch am p an h e. A su jeir a n o c h ão se assemelh ava à poeir a de

231
O u n i v e r s o ao l a d o

o u r o ". 6 3 E m on ze de dezesseis relatos d ist in t os m en cion ad os


p or Fer gu son , especial m e n ç ã o é c o n st i t u í d a de cor es: "l u z
d ou r ad a", "lu zes b r ilh an t es", "in t e n sa lu z b r an ca", "cores u l -
t r am ist er iosas". 6 4 Cast an ed a descreve t er vist o u m h o m e m
cu ja c ab e ça er a p u r a lu z, e n o cu l m i n an t e even t o e m V iagem
a Ixtlan, ele dialoga c o m u m l u m i n o so coiot e e vê as "lin h as
do m u n d o ". 6 5
Essas exp er iên cias de lu m in osid ad e e cor em pr est am for -
ça ao sen t im en t o de qu e o que a pessoa est á per ceben do é
m ais r eal que qu alqu er ou t r a p e r c e p ç ã o n o u n iver so visível.
C o m o H u x l e y assim expr essa:

E u estava vendo o que Ad ão viu n a m an h ã de sua criação


— o milagre, momen to a momen to, da existên cia n ua [...]
htigkeit — n ão era essa a palavra que Meister Eckh ar t
apteciava usat? "Exist en cialidade" [...] u m a tran siên cia
que ain da n ão era eterna, u m perecer per pét u o que era,
ao mesmo tempo, puro ser, uma con cen t r ação de min utos
particulates nos quais, por algum impr on un ciável, por ém ,
ain da assim, autoevidente paradoxo, deveria ser vista a for-
ça divin a de toda a exist ên cia. 6 6

P ar a H u xl e y , a m en t e exp an d id a n ã o con sist ia t an t o e m


u m a r ealidade separ ada qu an t o à r ealidade c o m u m , vist a
com o ela r ealm en t e é. Co n t u d o , essa n ova p e r c e p ç ã o é t ão
d ist in t a que d á a i m p r e ssã o de ser algo in t eir am en t e n ovo,
par ecen do u m a coisa separ ada. 6 7
A segu n da car act er íst ica d ist in t iva d a m en t e expan d id a
é qu e seres especiais par ecem h abit ar esse r ein o. A l é m de
ver o que ela apr een de par a si m e sm a e par a os ou t r os e m
suas vidas passadas, M a c La i n e vê o seu e u su per ior : u m a

• 232 •
O u n i v e r s o ao lado

ouro". E m onze de dezesseis relatos distintos mencionados


63

por Ferguson, especial menção é constituída de cores: "luz


dourada", "luzes brilhantes", "intensa luz branca", "cores ul-
tramisteriosas". Castaneda descreve ter visto um homem
64

cuja cabeça era pura luz, e no culminante evento em Viagem


a Ixtlan, ele dialoga com um luminoso coiote e vê as "linhas
do mundo". 65

Essas experiências de luminosidade e cor emprestam for-


ça ao sentimento de que o que a pessoa está percebendo é
mais real que qualquer outra percepção no universo visível.
Como Huxley assim expressa:

Eu estava vendo o que Adão viu na manhã de sua criação


— o milagre, momento a momento, da existência nua [...]
Istigkeit — não era essa a palavra que Meister Eckhart
apreciava usar? "Existencialidade" [...] uma transiência
que ainda não era ererna, um perecer perpéruo que era,
ao mesmo tempo, puro ser, uma concentração de minutos
particulares nos quais, por algum impronunciável, porém,
ainda assim, autoevidente paradoxo, deveria ser vista a for-
ça divina de toda a existência. 66

Para Huxley, a mente expandida não consistia tanto em


uma realidade separada quanto à realidade comum, vista
como ela realmente é. Contudo, essa nova percepção é tão
distinta que dá a impressão de ser algo inteiramente novo,
parecendo uma coisa separada. 67

A segunda característica distintiva da mente expandida


é que seres especiais parecem habitar esse reino. Além de
ver o que ela apreende para si mesma e para os outros em
suas vidas passadas, MacLaine vê o seu eu superior: uma

232
Um universo separado

pessoa "na forma de um ser humano muito alto, poderosa-


mente confiante e quase andrógino". 68
Ele se torna seu guia
e intérprete da experiência que ela vivência. Castaneda en-
contra "aliados", "auxiliadores", "guardiões" e "entidades da
noite". Lilly, com frequência, m a n t é m encontros com dois
69

"guardiões" que o instruem sobre como obter o máximo de


sua vida. Semelhantemente, relato após relato, seres pesso-
70

ais - ou forças com uma dimensão pessoal — continuam a


surgir, chame-os como quiser, demónios, espíritos ou anjos.
Além do mais, alguns adeptos da nova consciência relatam
experiências de serem transformados em pássaro ou algum
animal, bem como de serem capazes de voar ou viajar em
grande velocidade, mesmo em viagens interplanetárias.
De fato, mente expandida é um lugar muito estranho.
Será que seus habitantes realmente existem? São eles i n -
venções da imaginação do eu, projeções de seus medos e
esperanças do subconsciente? A l g u é m realmente se trans-
lorma em pássaro ou é capaz de voar? N a cosmovisão da
nova consciência tais questões não são importantes. Ainda
assim, tanto para teístas quanto para naturalistas elas são as
questões óbvias. No entanto, lidarei com elas mais tarde, na
proposição 5.

3. A essência da experiência da Nova Era é a consciência


cósmica, na qual categorias comuns de espaço, tempo e
moralidade tendem a desaparecer.

Essa proposição é o outro lado epistemológico da moeda


metafísica discutida na proposição anterior. E m certo sentido,
.i terceira proposição não nos faz progredir muito em nossa

• 233 •
O u n i v e r s o ao lado

compreensão da Nova Era, porém, ela acrescenta uma pro-


fundidade necessária.
Subjacente à unidade que as proposições 2 e 3 comparti-
lham está a pressuposição discutida na proposição 1: que ver
(ou perceber) é ser; qualquer coisa vista, percebida, concebi-
da, imaginada, crida pelo eu, existe. Sua existência é devida
ao fato de que o eu está no comando de tudo o que é: "Creio,
logo existo". Filosoficamente, a nova consciência oferece
uma resposta simples e radical ao problema de discernir en-
tre aparência e realidade. Claramente, ela afirma que não há
distinção. Aparência é realidade. N ã o existe ilusão. 71

Claro que a percepção assume duas formas, uma para o


universo visível e outra para o invisível. A primeira é de-
nominada de consciência comum, consciência desperta ou
"pensamento reto". Essa é a maneira pela qual as pessoas co-
muns têm comumente visto a realidade prosaica. O espaço
é visto em três dimensões. Dois corpos não podem ocupar o
mesmo lugar no espaço ao mesmo tempo. O tempo é linear:
o ontem é passado; aqui estamos agora; o amanhã está a
caminho. Dois eventos incompatíveis não podem ocorrer a
uma mesma pessoa ao mesmo tempo; embora possa sentar
e pensar ao mesmo tempo, não me é possível sentar e per-
manecer de pé, ao mesmo tempo. N a consciência comum,
algumas ações parecem boas, outras menos positivas, ainda
outras, más, culminando com aquelas francamente malig
nas. E , claro, nós assumimos que elas realmente são como as
percebemos. Tudo isso nos soa deveras familiar.
O segundo estado de consciência não nos é tão fami
liar assim. De fato, a maioria de nós, do Ocidente, jamais

234 •
Um universo separado

o imaginou. Para complicar ainda mais a situação, esse se-


gundo estado de consciência é, na verdade, composto de
inúmeros e diferentes estados de consciência; uns dizem que
são três, outros, seis, e ainda outros, que são oito. Porém,
72

antes de abordarmos qualquer uma dessas várias subdivisões,


deveríamos compreender suas características gerais. Algumas
delas são sugeridas pelos vários cognomes dados à consciên-
cia cósmica. Eles somam uma legião: "êxtase eterno" (R. C .
Zaehner), "consciência superior" (Weil), "experiência de pico"
(Maslow), "nirvana" (budistas), "satori" (zen japonês), "cons-
ciência cósmica" (Wilber), "estados alterados de consciência"
ou E A C (Masters e Houston), "visão cósmica" (Keen).
Dois desses rótulos parecem mais adequados que os
demais, sendo um por razões teóricas, e outro por razões
históticas. Teoricamente, a expressão, estados alterados de
consciência, carrega em seu bojo a compreensão mais uni-
versalmente aceita do fenómeno. Os estados de consciência
envolvidos são, de fato, incomuns. O outro rótulo adequa-
do, consciência cósmica, com frequência, é utilizado porque é
um dos mais antigos na literatura moderna sobre o assunto.
Ele foi introduzido em 1901, pelo psiquiatra canadense, R .
M . Bucke, e se tornou popular por sua inclusão no estudo
clássico sobre misticismo de William James:

A característica primária da consciência cósmica é uma


consciência do cosmo, ou seja, da vida e da ordem do uni-
verso. Em conjunto com essa consciência do cosmo, ocorre
uma iluminação intelectual que, por si só, transportaria o
indivíduo para um novo plano de existência — o tornaria
um membro de uma nova espécie. [...] Com isso surge o

235 •
O u n i v e r s o ao lado

que pode ser chamado de um sentido de imortalidade, uma


consciência da vida eterna, não uma convicção de que ele
deve ter isso, mas a consciência de que ele já a possui.
73

O rótulo consciência cósmica surge trazendo em si uma


explicação metafísica relativa à experiência, largamente aceita
entre os proponentes da cosmovisão da nova consciência. A
questão é essa: quando o eu percebe a si mesmo sendo um
com o cosmo, torna-se um com ele. A autocompreensão, por-
tanto, é a percepção de que o eu e o cosmo não são apenas
parte de uma peça, mas a mesma peça. E m outras palavras, a
consciência cósmica é experimentar Atma como Brahma.
U m ponto central na consciência cósmica é a experiência
unitária: primeiro, a experiência de perceber a totalidade do
cosmo; segundo, a experiência de se tornar um com todo o
cosmo e, finalmente, a experiência de ir além daquela uni-
dade com o cosmo para reconhecer que o eu é o gerador de
toda a realidade e que, nesse sentido, tanto é o cosmo como
o seu criador. "Saiba que você é Deus; saiba que você é o
74

universo", afirma MacLaine. 75

Ainda, outras "coisas" aparecem sob os estados de cons-


ciência cósmica. Mesmo após ler incontáveis relatos de tais
experiências, o melhor que posso fazer é mencionar a exten-
sa lista de características de Ferguson:

Perda dos limites do ego e a repentina identificação com


toda a vida (uma fusão com o universo); luzes, percepção
alterada de cor; ttemores; sensações elétricas; sensação de
expandir como uma bolha ou saltar para cima; ausência de
medo, em particulat, do medo da morte; som estrondo-
so; vento; sentimento de set separado do eu físico; êxtase,

236 •
Um universo separado

consciência aguçada de padrões; uma sensação de liberta-


ção; mistura dos sentidos (sinestesia), como ouvir cores e
visões produzirem sensações auditivas; um sentimento de
amplitude; uma crença de alguém haver despertado; de
que a experiência é a única realidade e que a consciência
comum nada mais é que uma pobre sombra; bem como
um senso de transcender o tempo e o espaço. 76

Ferguson prossegue mencionando um sem-número de


interessantes relatos da consciência cósmica, cada um ilus-
trando muitas, senão todas essas características.
E m um aspecto da proposição 3, entretanto, há desacordo.
Nem todos os proponentes da nova consciência concordarão
que a moralidade desaparece. Teoricamente, isso deve ocor-
rer, pois a consciência cósmica implica a unidade de toda a
realidade, e essa deve ser uma unidade além de distinções
morais, bem como metafísicas, como demonstrado na aná-
lise do monismo panteísta oriental, no capítulo anterior. 77

MacLaine, por exemplo, argumenta vigorosamente em

I
lavor do desaparecimento da distinção entre o bem e o mal,
quando ela se vê em acaloradas discussões com Vassy, um de
seus amantes, que m a n t é m uma ligação emocional com a
ortodoxia russa. Bucke, Thompson e Wilber se oporiam a
78

isso, porém MacLaine, Lilly e Huxley concordariam. Não 79

obstante, como Sidarta, de Herman Hesse, e todas as pessoas


que permanecem, de forma perceptível, pessoas, MacLaine,
Huxley e Lilly falam como se fosse melhor ser iluminado —
ou seja, consciente cosmicamente — do que não iluminado,
melhor amar do que odiar e é melhor ajudar a promover a

I • *
Nova Era do que simplesmente assistir a antiga colapsar.
237
O u n i v e r s o ao lado

Finalmente, devemos observar que nem todo o estado


alterado de consciência é eufórico. Ingénuos proponentes da
cosmovisão da nova consciência, com frequência, perdem
de vista esse fato horrível, porém, relatos de viagens ruins
são prontamente disponíveis. O próprio Huxley conheceu
os terrores de uma "viagem fracassada":

Confrontado por uma cadeira que parecia o juízo final -


ou, para ser mais preciso, como um juízo final que, após
longo tempo e considerável dificuldade, reconheci como
uma cadeira - eu me descobri simultaneamente à beira do
pânico. De repenre, senti que a experiência estava indo lon-
ge demais. Muito longe, ainda que levando a uma beleza
mais intensa, a um significado mais profundo. O medo,
como o analisei em retrospectiva, era o de ser sobrepujado,
de ser desintegrado sob a pressão de uma realidade maior
que uma mente, acostumada a viver a maior parte do tem-
po em um mundo aconchegante de símbolos, seria capaz
de suportar. 80

Huxley, entretanto, estava convencido de que apenas os


que tinham tido "um caso recente de icterícia, ou que so-
friam com depressões periódicas ou uma ansiedade crónica"
é que precisavam temer a experiência com drogas alucinóge-
nas. Poucos, hoje, concordariam com isso.
81

Os vários ataques "demoníacos" de Lilly, em conjunto


com as experiências de Castaneda, documentam as profun-
dezas do "inferno". Mesmo a sempre otimista MacLaine
82

contendeu, pelo menos de início, com visões que não lhe


agradaram. 83
Para evitar as regiões do inferno interior,
Huxley, Lilly e Castaneda (assim como muitos outros),

238
Um universo separado

enfaticamente recomendam a presença de um guia duran-


te as tentativas iniciais de vivenciar a consciência cósmica. 84

Essa é a contrapartida da Nova E r a em relação a uma das


principais funções desempenhadas por um guru ou mestre
perfeito nas mais plenas formas de misticismo do Oriente.
H á , obviamente, uma gritante contradição aqui. Ver-se é
ser, e imaginação é realidade, uma experiência com o inferno
é a mais pura realidade. O u , expressando de outra forma, se
o eu é soberano, então, está no controle da criação e pode
criar o que bem entender. Se alguém passa por uma experi-
ência com o inferno, pode destruí-lo e criar o céu. Será que
Deus precisaria de um guia?
No entanto, como devotos do Oriente, os proponentes da
Nova Era podem responder que embora seja verdade que o
eu é "deus", nem sempre o eu possui essa compreensão. É um
deus adormecido que precisa despertar ou é um deus "caído"
que precisa se levantar. '' Nossa tatefa como seres humanos,
8

então, é reverter essa "queda". Tal visão se enquadra bem com


o tema evolucionário da Nova Era, mas isso não soluciona
a contradição básica. Se o eu realmente é Deus, como não
poderia se manifestar como tal? Ainda, existe aqui tanta con-
tradição quanto na versão do monismo panteísta oriental e,
mesmo assim, essa cosmovisão possui multidões de adeptos.

4. A morte física não é o fim do eu; sob a experiência da


consciência cósmica, o temor da morte é removido.

Uma vez mais, menciono essa característica em separado


porque a noção de morte é uma preocupação extremamen-
te crucial para todos nós. N ã o somos constituídos apenas

239
O u n i v e r s o ao lado

de corpo físico, afirma a Nova Era. Os seres humanos são


uma unidade além do corpo. Os estados de consciência cós-
mica confirmam tal fato inúmeras vezes, de tal forma que
Stanislav Grof realizou experiências com o L S D , dando essa
droga aos seus pacientes antes de eles morrerem para que
pudessem experimentar a unidade cósmica ao exalarem seu
último suspiro. 86

Talvez a mais conhecida estudiosa da morte, entretanto,


seja a psiquiatra Elisabeth Kúbler-Ross, cuja obra, Sobre a
morte e o morrer (1969), angariou merecida aclamação. Na
década de 1970, Kúbler-Ross estudou experiências fora do
corpo em pacientes à beira da morte, adquirindo os seus
próprios espíritos guias, que lhes asseguraram que a mor-
te é apenas uma transição para outro estágio da vida. O 87

interesse em experiências à beira da morte foi alimentado


pelo popular livro Vida depois da vida, escrito pelo médico
RaymondJ. M o o d y j r . 88

Outro testemunho a favor da noção de morte como


uma transição para outro estado é fornecido por m e m ó -
rias de vidas passadas, como as profusamente relatadas por
MacLaine em seus livros, notadamente Dançando na luz.
Por meio da técnica de acupuntura que dispara memórias
sobre vidas passadas e pela consulta a canais como Kevin
Ryerson - por meio do qual se expressam as vozes de Tom
McPherson (que afirma ter sido um batedor de carteiras
nos tempos elisabetanos) e de João, filho de Zebedeu (que
se identifica como o autor dos livros de Apocalipse e do
evangelho de João) — MacLaine afirma ter ou aprendido ou
"visto" a si mesma em encarnações anteriores. E l a afirma,

• 240 •
Um universo separado

por exemplo, ter vivido milhares de vidas antes, ter sido


uma dançarina em um harém, "um bebe espanhol usan-
do brincos de diamante, e em uma igreja, [...] um monge
meditando em uma caverna [...] uma dançarina de balé na
Rússia... uma jovem inca, no Peru". Ela t a m b é m se envol-
veu com "vodu" e, como "princesa dos elefantes", na í n d i a ,
certa feita, salvou todo um vilarejo da destruição e ensinado
sua gente um nível de moralidade superior. E m A vida é
89

um palco, ela tem uma visão de vasos crematórios, em cujo


interior, segundo relato de seu eu superior, h á "criança e
avô". Ela havia sido ambos. 90

A base definitiva para a crença de que a morte é apenas


uma transição para outra forma de vida é, no entanto, a no-
ção de que a "consciência" é mais do que a manifestação
física de uma pessoa. Se alguém é o todo ou o criador de
tudo, e se isso é "conhecido" intuitivamente, então a pessoa
certamente não precisa temer a morte. Lembranças de v i -
das passadas e a maioria dos relatos de quase morte, assim a
Nova Era sustenta, justificam essa ausência de medo. Existe,
entretanto, evidência negativa quanto a experiências fora do
corpo que é desconsiderada pelos proponentes da Nova Era,
e a ideia de reencarnação tem sido ponderada e, igualmente,
considerada insuficiente. 91

5. Três atitudes distintas são consideradas para a questão


metafísica da natureza da realidade sob o quadro geral
da Nova Era: (l)a versão oculta, na qual os seres e coisas
percebidos em estados alterados de consciência existem à
parte do ser que é consciente, (2) a versão psicodélica, na
qual essas coisas e seres são projeções do eu consciente e

• 241
O u n i v e r s o ao lado

(3) a versão relativista conceituai, na qual a consciência


cósmica é a atividade consciente de uma mente, utilizando
um dos muitos modelos incomuns para a realidade,
nenhum dos quais é "mais verdadeiro" do que qualquer
outro.

Esta é a proposição final da cosmovisão da nova cons-


ciência que suscita a questão que está implorando para ser
respondida desde o princípio: o que todas essas estranhas
experiências significam? Elas são reais? Nunca tive uma, ar-
gumentam alguns. Então, será que estou perdendo alguma
coisa?
Uma coisa deve ficar bem clara: não há qualquer utilidade
em se negar que as pessoas passaram pelas experiências rela-
tadas. Uma experiência é algo privado, Nenhum de nós pode
ter a experiência um do outro. Se uma pessoa reporta uma
experiência estranha, é possível que esteja mentindo, inter-
pretando mal o que lhe aconteceu, enfeitando o pavão ou o
que for, porém, jamais seremos capazes de tecer críticas ao re-
lato. Ainda que nos pareça ser intrinsecamente contraditótio,
podemos negar sua existência apenas a priori — que aquele
estado de coisas é inerentemente impossível. No entanto, se
a pessoa sustentar o seu relato, digamos, sob intenso interro-
gatório, então, pelo menos, para aquela pessoa, a experiência
permanece sendo o que foi ou o que é lembrado dela. Moni
torar o cérebro de uma pessoa com um dispositivo elétrico de
registro, não tem igualmente serventia alguma.
Ele pode nos mostrar se está ou não ocorrendo atividade
elétrica, mas não pode nos revelar nada sobre a natureza da
existência das coisas de que o eu está consciente.

242
Um universo separado

É possível concordarmos, creio, que estados alterados de


consciência possuem muitos detalhes gerais em comum —
luz, perda da noção de tempo, seres "mágicos" e assim por
diante. Dessa forma, enquanto cada eu possui um universo
privado ou um conjunto deles quando a consciência está
alterada, cada universo privado é, pelo menos, análogo a ou-
tros. A descrição de Huxley - "cada grupo humano é uma
sociedade de universos-ilha" - vem bem a calhar. 92

O resultado é que temos várias testemunhas do que apa-


renta set um universo ao lado, uma realidade separada. Os
mapas dessa realidade não estão bem delineados, mas se
fôssemos entrar nela, creio que saberíamos onde estivemos
- pelo menos, ao retornarmos, e presumindo que nos lem-
brássemos da experiência. Portanto, a questão é: onde fica
essa realidade separada?
A essa pergunta são fornecidas três respostas. A primei-
ra é também a mais antiga, porém, em geral, não aceita por
muitos proponentes modernos da Nova Era. Basicamente de-
tivada do animismo, essa visão é de que a consciência cósmica
permite que você veja, reaja, receba poder e talvez comece a
controlar os seres espirituais que residem em uma espécie de
quinta dimensão, paralela às nossas quatro (três relativas ao
espaço e uma ao tempo). Estados alterados de consciência nos
permitem perceber essa dimensão adicional.
A primeira resposta, denomino como versão oculta pot-
que é o quadro intelectual para a maioria, se não todos,
médiuns, feiticeiras, feiticeiros, magos, xamãs, curandeiros
| assim por diante. A suposição dos sempre presentes e,
cada vez mais, populares ocultistas é que por certos meios

243
O u n i v e r s o ao lado

— transes, bolas de cristal, cartas de taro, tábuas Ouija e ou-


tros objetos dotados de poderes ocultos — uma pessoa pode
consultar "o outro lado", solicitando auxílio. Porém, que os
principiantes tenham cuidado, alertam os ocultistas. Sem
a devida iniciação nos rituais e sistemas do oculto, os que
brincam com encantamentos e mesmo com tábuas Ouija
podem trazer sobre si mesmos a ira do mundo espiritual.
Quando isso acontece, as portas do inferno podem se abrir.
Essa versão oculta possui adeptos com mente moderna. O
entendimento de Huxley é claramente ocultista. Ele discorre
sobre portas de percepção abrindo-se na Mente Expandi-
da e descreve como ele a viu em sua natureza multicolorida
e multidimensional. Além disso, ele encerra As portas da
percepção: céu e inferno, com as seguintes palavras:

A minha própria opinião é de que o espiritualismo mo-


derno e as tradições antigas estão ambos corretos. Existe
um estado póstumo do tipo descrito no livro de Sir Oliver
Lodge, Raymond, mas existe também um céu de experiên-
cia visionária agradável; há também um inferno da mesma
espécie de experiência visionária aterrorizante que é expe-
rimentada aqui por esquizofrênicos e por alguns daqueles
que tomam mescalina; e existe também uma experiência,
além-tempo, de união com o Substrato divino. 93

Como observado anteriormente, Huxley e sua esposa,


Laura, aplicaram seus conhecimentos do Livro tibetano dos
mortos por ocasião da morte dele, enquanto ela lhe "falava
em paz do outro lado. D a mesma forma, MacLaine parece
aceitar essa dimensão oculta em suas teorias sobre a nova
consciência.

• 244 •
Um universo separado

Lilly se mostra mais atraído pelas explicações alternativas


discutidas adiante, mas ele considera a versão oculta uma
opção das mais sérias:

Em minhas próprias experiências incomuns no tanque de


isolamento com LSD e em minhas escaramuças íntimas
com a motte, vim a encontrar os dois guias. [...] Eles po-
dem ser entidades de outros espaços, outros universos que
nossa realidade consensual. [...] Podem ser representantes
de uma escola secreta de esoterismo [...]. Podem ser mem-
bros de uma civilização situada a centenas de milhates de
anos ou mais à frente da nossa. Podem ser uma sintoniza-
ção entre duas redes de comunicação de uma civilização
muito adiante de nós, que está irradiando informação por
toda a galáxia."
94

Assim, a versão oculta da nova consciência constitui uma


importante alternativa. Se estiver correta, ela se coloca em
contradição com a noção de que o eu tanto é o universo como
eu criador. Isso significa que há seres outros além do eu; há
utros centros de consciência que reivindicam sobre o próprio
u da pessoa. Vista menos como um desafio, contudo, a versão
culta pode ainda sustentar que o eu é soberano tanto quanto
e for possível, para, seja por qual meio for, obter o con-
ole sobre poderosos seres que habitam o universo separado,
dependência do oculto, via de regra, é um problema cons-
tante. Os que exercem o controle podem, eles mesmos, passar
a ser controlados, presos às garras de um demoníaco ardil cuja
lorça é como a força de dez, porque seu coração é maligno.
Chamo a segunda resposta de versãopsicodélica porque ela
relativamente recente e aponta para a origem da realidade

• 245
O u n i v e r s o ao lado

na psique da pessoa que a vivência. A versão psicodélica


apresenta muito mais consistência com a proposição 1 do
que a versão oculta, pois ela simplesmente afirma que a
realidade percebida sob estados alterados de consciência
é prolongada pelo eu. Essa realidade, em outras palavras,
é autoproduzida. Pode-se não somente abrir as portas da
percepção como t a m b é m criar uma nova realidade para se
perceber.
Até aqui havemos contemplado essa visão descrita de
várias maneitas, porém, a descrição de John Lilly sobre
sua própria malograda viagem é extremamente instrutiva.
Cedo em seu trabalho com as drogas, Lilly totnou-se tão
confiante de que poderia controlar sua experiência inte-
rior que tomou L S D sem os recomendados controles de
um guia externo e confiável. E m consequência disso, ele
foi acometido de uma reação retardada, sofrendo um co-
lapso dentro de um elevador que quase o levou à morte.
Ele atribuiu esse colapso a uma falha em controlar os seus
instintos agressivos. Sob o efeito de L S D , Lilly voltou-se
contra si mesmo e, à maneira do desejo de morrer de Freud,
t a m b é m desejou desaparecer. A morte de Lilly jamais se-
ria considerada como um ato de suicídio pelos médicos,
porém, pelo que se conhece de Lilly, essa era, de fato, sua
programação interna, que o colocou nesse apuro. Para ele,
tanto o céu quanto o inferno eram construções internas.
Se a pessoa é que vê a si mesma como descontrolados limi-
tes do universo (inferno) ou "como um dos rapazes na casa
de m á q u i n a s , bombeando criação do nada" (céu), então, o
eu da pessoa é o criador daquela visão.

• 246 •
Um universo separado

A terceira resposta à questão sobte a natureza da realidade


envolve relativismo conceituai. Essencialmente, essa é a visão
que apresenta uma radical disjunção entre realidade objetiva
(a realidade como ela é realmente) e a realidade percebida (a
forma como compreendemos aquela realidade em virtude
de nosso sistema de símbolos). Isto é, a realidade é o que é;
os símbolos que utilizamos para descrevê-la são arbitrários.
No capítulo seguinte, veremos essa noção como uma parte
principal da perspectiva pós-moderna. No entanto, ela deve
ser abordada também aqui.
U m exemplo do relativismo conceituai está na ordem.
E m nossa sociedade ocidental, geralmente concebemos o
tempo como "um fluir contínuo e suave no qual tudo no
universo progride a uma taxa igual, fora do futuro, por meio
do presente, dentro de um passado". 95
Os índios Hopi não
têm essa noção geral, pois sua língua não possui "qualquer
referência ao 'tempo', seja explícita seja implicitamente". 96

Não significa que a realidade seja realmente diferente, mas


ue nosso sistema de linguagem ocidental com seu revesti-
mento de concepções culturais não nos permite ver de outra
lorma. Isso levou Benjamim Whorf à hipótese de que, na
linguística, agora está associada ao seu nome: "A estrutura
de linguagem que alguém utiliza habitualmente influencia
a maneira através da qual ele compreende seu ambiente.
( ) retrato do universo se altera de língua para língua". 97

Como o relativismo conceituai funciona em uma situa-


ção prática? Robett Masters fornece uma ilustração: " H á
pessoas que vivem em lugares fechados, como uma densa
floresta e que, portanto, acreditam ser impossível enxergar

247
O u n i v e r s o ao lado

além de algumas centenas de metros. E se você as levar a


um campo aberto, elas ainda enxergarão aquelas centenas de
metros. No entanto, se você conseguir persuadi-las de que
há mais para ser visto, por que então as escalas desmoronam
e grandes vistas se abrem". Assim, Masters conclui: "Toda
percepção é um tipo de sistema simbólico. [...] Não existe de-
forma alguma uma consciência direta da realidade". 98

Na psicologia moderna, Ernst Cassirer descreve essa visão


cética sobre a linguagem e sua implicação como "a total dis-
solução de qualquer conteúdo de linguagem alegado como
verdadeiro, e a compreensão desse conteúdo nada mais é
que um tipo de fantasmagoria do espírito". E m tal sistema,
99

conceitos são criações do sistema de pensamento que "ao


invés de nos fornecer as verdadeiras formas dos objetos, an-
tes nos mostram as formas do próprio pensamento". Como
resultado, o "conhecimento, bem como o mito, a linguagem
e a arte, têm sido reduzidos a um tipo de ficção - a uma
ficção que recomenda a si mesmo por sua utilidade, mas nao
deve ser mensurada por nenhum padrão severo de verdade
para que não se desvaneça na inutilidade". 100
Por outro lado,
embora a verdade objetiva talvez seja inatingível, essa idei.i
possui uma contrapartida mais positiva: cada sistema de
símbolos "produz e posiciona um mundo próprio". 101
Pu i
ter um novo mundo, é preciso apenas ter um novo sistenu
de símbolos.
A essa altura, a relevância da nossa incursão à íilosoni
e análise da linguagem deveria ser óbvia. A versão ivl.ui
vista conceituai da cosmovisão da nova consciência a l u o u
que estados alterados de consciência permitem às pessoas i

• 248 •
Um universo separado

substituir um sistema de símbolos por outro, isto é, uma


visão de realidade por outra.
Por séculos, o sistema de símbolos do mundo ociden-
tal tem dominado a nossa visão e tem reivindicado ser não
apenas um sistema de símbolos, mas o sistema de símbolos
- aquele que leva à verdade objetiva, a verdade de correspon-
dência. O que uma proposição assegura é ou não verdadeiro,
corresponde à realidade ou não. O teísmo e o naturalismo
têm insistido que não existe outra forma de pensar. Assim,
a consciência cósmica - enxergar o mundo através de um
sistema diferente de símbolos — tem pela frente tempos difí-
ceis. No entanto, com a perda de força por parte do teísmo e
do naturalismo, agora, outras ordens conceituais tornam-se
possíveis.
Muitos proponentes da versão do relativismo concei-
tuai da nova consciência estão bem cientes de suas raízes
filosóficas e sua contraparte nas modernas teorias da física.
A "teoria geral do paranormal", postulada por Laurence
1 .eShan, é uma versão específica do relativismo conceituai.
Quando médiuns desempenham a sua função mediúnica,
afirma LeShan, eles assumem a seguinte cosmovisão mística
básica: " 1 . que há uma forma melhor de obter informação
ilo que através dos sentidos. 2. que h á uma unidade fun-
damental em todas as coisas. 3. que o tempo é uma ilusão.
4. que todo o mal é apenas aparência". 102
Outras vezes,
quando eles são habitantes comuns do universo visível, acei-
i.im mais as noções de senso comum da realidade. LeShan
menciona cientistas modernos com liberalidade, em espe-
i ial, físicos que fazem uso da noção de complementaridade

249
O u n i v e r s o ao lado

para explicar por que um elétron, algumas vezes, aparen-


ta comportar-se como uma partícula, enquanto em outras
comporta-se como uma onda, dependendo do instrumento
utilizado em sua "observação". ' E m todo o tempo, a su-
10

posição é de que ele permanece o mesmo que sempre foi.


Todavia, o que é isso, n i n g u ém sabe. Sabemos apenas que o
elétron aparece em algumas de nossas equações como uma
coisa e, em outras formulações como outra distinta. O es-
quema elaborado por Wilber, representando a totalidade d.i
realidade em quatro quadrantes, cada qual com seu próprio
tipo de linguagem, é uma variante recente. 104

Contudo, Erwin Schrõdinger levanta uma importante


consequência de assumir que os sistemas de símbolos po
dem ser facilmente colocados e removidos, ele aponta que
isso significa que não existe nenhum modelo verdadeiro de
realidade: "Podemos pensar nisso, mas embora pensemos,
isso está errado". 105
A única categoria que nos auxilia a d is
cernir entre o valor de dois sistemas de símbolos é a questão
puramente prática: ele fornece a você o que você deseja?
Assim como na ciência não existem modelos verdadeiros
de realidade, igualmente não existem modelos verdadeiros
de realidade para a humanidade em geral. 106
E assim como
o valor de um modelo científico é mensutado por sua piau
cabilidade, t a m b é m o valor pragmático é a medida da vali.i
de um determinado estado alterado de consciência ou de
uma determinada teoria sobre isso. Nisso, há um consen
so entre teóricos da nova consciência e seus praticantes. " 1

LeShan afirma essa visão de modo sucinto: "Se a aplicaçla


de uma teoria produz resultados na direção prevista. Sul

250
Um universo separado

fertilidade foi demonstrada". 108


Isso t a m b é m se aplica às
teorias da consciência cósmica. Weil aplica o teste prag-
mático à própria experiência: "Pareceria óbvio que o único
critério significativo para a genuinidade de qualquer expe-
riência espiritual [...] seja seu efeito na vida da pessoa que
• "100
I vivência .
A consequência prática da visão do relativismo conceituai
da nova consciência é que permite a uma pessoa crer em
tudo o que lhe traga os resultados desejados. Assim, para
onde você quer ir? O que você quer fazer? Quando Lilly
aceitou a noção naturalista quanto ao universo, ele deu iní-
cio a uma jornada rumo ao inferno. Ao aceitar a noção de
c]ue havia civilizações além da nossa, ele foi "precipitado em
tais espaços". 110
Crer era ser. Nenhuma visão de realidade é
mais real que a outra. Esquizofrenia é uma forma de ver coi-
sas; normalidade é outra, afirma R. D . Laing. "Porém, quem
dirá o que é loucura, especialmente, considerando que os re-
sultados da normalidade têm sido extremamente desastrosos
no Ocidente". " 1

Além do mais, pode ser que algumas de nossas distin-


ções e formas normais de percepção nos tragam problemas
pessoais, sociais e ambientais: "Suponha que alguém tenha
um sentimento e, então, faça alguma distinção sobre aquele
sentimento. Digamos que ele o chame de ansiedade com o
propósito de distinguí-lo de outros sentimentos. Então, o
primeiro sentimento é acompanhado por um segundo que
ele distingue como vergonha"." E m um ciclo espiral, ele
2

.(Mie tanto mais ansiedade e mais depressão. Laing conclui:


"Agora, em certo sentido, são as suas distinções que o estão

• 251 •
O u n i v e r s o ao lado

tornando infeliz. Algumas vezes, penso que grande parte


do sofrimento das pessoas não existiria se elas não tives-
sem nomes para os sentimentos". 113
A solução parece óbvia:
livre-se das distinções ou sistema de símbolos que os contêm.
Imagine uma cosmovisão na qual você não pudesse contar
a diferença entre dor e prazer, por exemplo. Os resultados
de assim agir podem ser severos, mas por que não descobrir
uma forma de adotar tal cosmovisão quando alguém está
enfermo em um estado de consciência comum? Diferentes
cosmovisões possuem diferentes valores em tempos difc
rentes. Por que não empregá-los quando necessário? Que o
sacristão toque diferentes repiques dos sinos para ocasiões
diferentes.

Ra c h a d u r a s n a n o va c o n s c i ê n c i a
Seria a cosmovisão da Nova Era um passo além do niilis
mo? Ela entrega o que promete - uma nova vida, uma nova
pessoa, uma nova era? Uma coisa é clara: ainda não, e o ar
gumento do novo alvorecer não é tranquilizador. J á tivemos
visionários antes, e eles e seus seguidores não fizeram muita
coisa para salvar o mundo em que viviam nem a eles mes
mos. O amanhã está sempre a caminho. Como Alexandei
Pope afirmou: "A esperança surge eterna no peito dos seres
humanos". 114

No momento, temos poucas garantias de que surgi i;i


uma nova sociedade com a consciência cósmica. Muito mais
abundantes são os motivos para o pessimismo, pois a cos
movisão da nova consciência está repleta de inconsistências

• 252
Um universo separado

internas e não começou nem mesmo a solucionar os dile-


mas apresentados pelo niilismo naturalista ou o misticismo
oriental. Ela simplesmente os ignora.
A primeira grande dificuldade verificada com a Nova Era
é compartilhada com o naturalismo e o monismo panteísta.
A noção de um universo fechado — a ausência de um Deus
transcendente — instala o problema. William Irwin Thompson
afirmou: "Deus é para o universo o que a gramática é para
a linguagem". 115
Deus é apenas a estrutura do universo. J á
vimos como tal situação torna a ética algo impossível, pois
ou não existe valor de forma alguma no universo externo
(naturalismo puro) ou Deus é inseparável de todas as suas
atividades e, ao nível do cosmo, as distinções entre o bem e o
mal desaparecem.
Definitivamente, os proponentes da Nova Era não solu-
cionaram esse problema. N a verdade, muitos entendem que
a sobrevivência da raça humana é de valor primordial, insis-
tindo que a não ser que a humanidade evolua, a não ser que
as pessoas sejam radicalmente transformadas, a humanidade
tlesaparecerá. Contudo, poucos discutem questões éticas, e
alguns admitem que na Nova Era as categorias de bem e
tle mal desaparecem, assim como as categorias de tempo e
espaço, de ilusão e realidade. Até mesmo aqueles que optam
por distinções morais são cuidadosos para não se tornarem
obstinados demais. Se a sobrevivência do homem significa
submissão a uma nova elite, então as distinções éticas mais
iidnadas podem se tornar muito caras. Para sobreviver, as
pessoas talvez tenham de abandonar as tradicionais noções
de liberdade e dignidade. 116

253
O u n i v e r s o ao lado

O motivo pelo qual as questões éticas recebem pouca


atenção fica evidenciado a partir da proposição 1. Se o eu é
rei, por que se preocupar com a ética? Tudo o que o rei faz
e decide é correto. Se o eu for satisfeito, isso basta. Tal con-
cepção abre as portas para as crueldades mais abomináveis.
A cosmovisão da Nova Era torna-se presa fácil de todas as
armadilhas do solipsismo e do egoísmo. Contudo, pratica
mente nenhum proponente do sistema d á qualquer atenção
a esse problema. Por quê? Porque, presumo, eles pagam o
preço pelas consequências e tornam-se indiferentes. Deixe
seguir e deixe ser. Viva o aqui e agora. Simplesmente, não há
espaço para distinções éticas.
Wilber, entretanto, argumenta por uma intuição ética,
ou seja, os que são mais evoluídos em relação a uma consci-
ência superior são melhores. Ele faz julgamentos éticos que
fazem de alguns seres humanos inferiores a alguns animais.
Seria melhor matar A l Capone, afirma Wilber, que uma dú
zia de chimpanzés: "Nada é sacrossanto quanto ao hólon
[unidade] humano". 117

Uma segunda dificuldade principal na cosmovisão da


nova consciência surge com o que ela empresta do animis
mo: uma legião de semideuses, demónios e guardiões que
habitam a realidade separada ou os espaços interiores da
mente. Chame-os de projeções da psique, espíritos ou outra
ordem de realidade; de qualquer forma, eles assombram a
Nova Era e devem ser apaziguados com rituais ou contro
lados por encantamentos. A Nova Era reabriu uma poria
cerrada desde que o cristianismo expulsou os demónios das
florestas, dessacralizou o mundo natural e, em geral, passou

254
Um universo separado

a desconsiderar o excessivo interesse nos assuntos do reino


satânico de anjos caídos. Agora, eles estão de volta, batendo
na porta dos dormitórios das universidades, esgueirando-se
por entre os laboratórios de psicologia e arrepiando a espi-
nha dos usuários de tábuas Ouija. A população moderna
saiu do universo preciso de nossos avós para entrar na câma-
ra de horrores góticos dos nossos tataravós.
O teísmo, como o animismo, afirma a existência de espíri-
tos, pois tanto o Antigo quanto o Novo Testamentos atestam a
realidade do mundo espiritual. H á tanto anjos sob o comando
de Deus, quantos demónios (ou anjos caídos) sob seu próprio
comando ou às ordens do mestre dos anjos caídos, Satanás.
Porém, o ensinamento bíblico sobre esse mundo espiritual é
apenas um esboço e o que há, em geral, é sugerido na forma
de alusões indiretas a práticas religiosas pagãs e advertências
quanto a não se envolver com o reino dos espíritos.
Pode parecer estranho que o teísmo cristão não tenha uma
.ingeologia bem desenvolvida. Se existem seres poderosamente
dinâmicos, cuja natureza é benevolente, por que não devería-
mos buscar o contato com eles, empregando-os como guias e
subordinando os seus poderes aos nossos objetivos humanos?
A principal razão é simples: apenas Deus deve ser nossa fon-
te de poder, sabedoria e conhecimento. Quão fácil seria para
rios cultuatmos os anjos e nos esquecermos completamente
ile Deus!
Foi exatamente isso o que aconteceu nos primórdios
da igreja cristã. Os gnósticos, tomando emprestado talvez
do conhecimento astrológico dos caldeus, ensinaram que
1 Vus era muito elevado, a ponto de não estat pessoalmente

255
O u n i v e r s o ao lado

interessado em meros seres humanos. Porém, havia outros


seres - "principados" e "potestades" — superiores aos hu
manos, mas inferiores a Deus. Devemos, prosseguia |
argumento, aprender a apaziguar os seres mais inamistosos I
chamar os mais amistosos, com o propósito de obter auxílio.
Vestígios dessa ideia permanecem na noção dos santos d.i
Igreja Católica. Lançai súplicas a Maria, pois ela é humana I
conhece as nossas necessidades; ela, por sua vez, intercedeu
por nós junto a Deus: Santa Maria, mãe de Deus, rogai /><>i
nós. O perigo nessa noção é que ela tende tanto a exaltar os
santos falecidos quanto denegrir a Deus.
Santos e anjos desempenham papeis muito distintos n.i
Bíblia. A palavra santo significa apenas um membro da igrejl
ou um cristão, e anjos somente estão a serviço do comando
de Deus. Eles não são concedidos aos seres humanos pau
ser manipulados. O infinito amor de Deus é manifesto dr
muitas maneiras, porém, somente ele é o nosso auxiliadoi
Embora Deus, por vezes, lance m ã o de anjos para realizai
Seus planos, ele não necessita de intermediários. Ele próprio
se fez homem e nos conhece plenamente.
Portanto, a Bíblia não contém modelo algum — nenliu
ma contrapartida à oração do Pai Nosso - para envolvei
anjos em nossos planos. O que o texto bíblico contém são
advertências contra solicitar a ajuda de espíritos ou "outros
deuses". U m dos mais antigos e claros encontra-se no livio
de Deuteronômio:

"Quando entrarem na terra que o Senhor, o seu Deus,


dá-lhes, não procurem imitar as coisas repugnantes que as
nações de lá praticam. Não permitam que se ache alguém
entre vocês que queime em sacrifício o seu filho ou a sua

• 256
Um universo separado

filha; que pratique adivinhação, ou se dedique à magia, ou


faça presságios, ou pratique feitiçaria ou faça encantamen-
tos; que seja médium, consulte os espíritos ou consulte os
mortos. O Senhor tem tepugnância por quem pratica essas
coisas, e é por causa dessas abominações que o Senhor, o
seu Deus, vai expulsar aquelas nações da presença de vocês.
Permaneçam inculpáveis perante o Senhor, o seu Deus. As
nações que vocês vão expulsar dão ouvidos aos que prati-
cam magias e adivinhações. Mas, a vocês, o Senhor, o seu
Deus, não permitiu tais práticas." (18.19-24).

Essa instrução foi dada pouco antes de Israel adentrar a


(erra prometida. Canaã era cheia de falsas religiões, repleta
de práticas ocultas. Portanto, tenham cuidado. Não tenham
qualquer relação ou envolvimento com isso. Javé é Deus -
o único. Israel não precisa de nenhum outro deus. N ã o h á
mais nenhum. Pensar o contrário ou cobrir todas as apostas,
buscando os serviços de adivinhos, magos, feiticeiros, encan-
tadores, médiuns ou seja o que for, constitui blasfémia. Deus
é Deus, e Israel é povo de sua exclusiva propriedade.
De igual sorte, o Novo Testamento proíbe a adivinha-
ção e relata muitas situações de possessão d e m o n í a c a . " 8

Uma das mais esclarecedoras é o relato de Jesus expulsan-


do os demónios do endemoninhado geraseno (Mc 5.1-20).
A partir desse relato, fica claro que muitos demónios pos-
suíam aquele homem; eles não eram simples projeções de
sua psicose, uma vez que ao deixarem o geraseno, os demó-
nios entraram em um bando de porcos; demónios são seres
pessoais que podem utilizar a linguagem e se comunicar com
as pessoas; e têm em mente os piores planos para a humani-
dade. Também fica claro - e isso é o mais importante - que

257
O u n i v e r s o ao lado

Jesus exercia completo domínio sobre eles. Nisso reside a


esperança dos cristãos.
Muitos homens e mulheres modernos, que se envolveram
com o ocultismo encontraram libertação em Jesus Cristo.
O próprio apóstolo Paulo nos assegura:

Se Deus é por nós, quem será contra nós? [...] Quem nos
separará do amor de Cristo? [...] Pois estou convencido
de que nem morte nem vida, nem anjos nem demónios,
nem o presente nem o futuro, nem quaisquet poderes,
nem altura nem profundidade, nem qualquer outra coisa
na criação será capaz de nos separar do amor de Deus que
está em Cristo Jesus, nosso Senhor (Rm 8.31, 35, 38-39;
veja também C l 2.15).

Nenhuma força natural nem ser espiritual, ou seja, absolu-


tamente nada pode sobrepujar a Deus. Ele é o nosso refúgio,
não porque nós, como alguns superastros da magia, podemos
ordenar a Deus que nos ajude, mas porque é seu desejo nos
ajudar. "Deus é amor", afirma o apóstolo João. "Deus é luz;
nele não há treva alguma" ( l j o 4.8; 1.5). Portanto, as forças
demoníacas podem ser dominadas e o serão.
Embora a atividade espiritual seja constante em áreas
onde o cristianismo pouco avançou, não há muitos relatos no
Ocidente do tempo de Jesus. Sobre Cristo é dito que expulsou
os espíritos desde os campos até os rios, e quando o cristia
nismo permeia uma sociedade, o espírito do mundo parece
desaparecer ou se esconder. Apenas nas últimas décadas é que
os espíritos das florestas e rios, do ar e das trevas têm sido con-
vidados a tetornar por aqueles que rejeitam as afirmações do
cristianismo e do Deus de Abraão, Isaque e Jacó. Talvez, esse

258
Um universo separado

seja um típico caso de semear ventos e colher tempestades.


Uma terceira dificuldade principal com a nova consciência
é sua compreensão sobre a natuteza da realidade e a natureza
da verdade. Alguns dos mais sofisticados proponentes da nova
consciência, como Ken Wilber, não são ocultistas no sentido
mais comum. Eles não fazem uso do I Ching nem consultam
as cartas do taro. Antes, eles aceitam as linguagens de todos os
sistemas de realidade - as linguagens da feitiçaria e da ciência,
da psicose e da normalidade - e entendem que todas elas são
descrições igualmente válidas de realidade." Nessa versão do
9

pensamento da Nova Era, não há verdade de correspondência


na mente expandida ou níveis superiores de consciência, ape-
nas um padrão de coerência interior. Portanto, não há críticas
a quaisquer ideias ou experiências que uma pessoa venha a ter.
Cada sistema é igualmente válido, devendo apenas passar pelo
teste da experiência, e experiência é algo privado.
Considerada em sua conclusão lógica, tal noção é uma
forma de niilismo epistemológico. 120
Pois jamais podemos
saber o que realmente é, mas apenas conhecer o que expe-
rimentamos. O outro lado da moeda é que o eu é o eixo
ptincipal - deus, se assim preferir - e a realidade é o que
qualquer deus assume que seja ou faz ser.
Nova Era é a expressão das implicações disso, ou o eu não
é deus e, portanto, está sujeito à existência de outras coisas
além de si mesmo.
Para o eu que opta por sua própria divindade, não há
argumento. A acusação naturalista de que isso é pura mega-
lomania ou a acusação teísta de que é blasfémia está fora de
questão. Teoricamente, esse eu aceita como real apenas o que

259
O u n i v e r s o ao lado

ele decide aceitar como tal. E m teoria, seria inútil (porém,


talvez nem tanto na prática) tentar demover de sua ilusão os
que presumem ser deus. Despejar uma panela de chá quente
na cabeça deles não produziria nenhuma reação particular.
Ainda assim, não custa nada tentar!
Talvez (mas como podemos saber?), essa seja a situação
de psicóticos, que deixaram de falar com as outras pessoas.
Estarão eles criando o seu próprio universo? Qual é o seu
estado subjetivo? Apenas descobriremos se eles despertarem
e, nesse caso, a memória é, em geral, precária, se é que elas
retornam. Assim seus relatos podem não ter serventia
alguma. Se eles despertarem, o farão em nosso universo de
discurso. No entanto, talvez esse universo seja o que criamos,
e nós mesmos nos encontramos sozinhos em um quarto ou
canto de hospital, inconscientemente sonhando que estamos
lendo esse livro, que, na verdade, criamos por meio de nosso
maquinário de projeção de realidade do inconsciente.
A maioria das pessoas não segue essa rota, pois fazê-lo
seria retroceder os corredores de infinito regresso. A náusea
permeia aquele caminho, e a maioria de nós prefere não pas-
sar por tal azia. Assim, optamos pela existência não apenas
de nosso eu, mas do eu dos demais e, portanto, exigimos um
sistema que trará não somente unidade ao nosso mundo,
mas igualmente conhecimento. Desejamos conhecer quem
e o que mais habita nosso mundo.
Entretanto, se não somos aquele que concede a unidade
(deus), quem ou o que é ele? Se tespondermos que o cosmo
é tal doador de unidade, acabamos no niilismo naturalista.
Dessa forma, necessitamos, como afirma Samuel McCrackcn

260 •
Um universo separado

cm seu brilhante ensaio sobre a atitude mental do mundo das


drogas, "de certo conjunto simplório de hipóteses funcionais:
de que há uma tealidade lá fora, que nos é possível perceber,
que não importa quão difícil seja essa percepção, a realidade,
por fim, é um fato externo". 121
Também precisamos de uma
base para pensar que essas necessidades devam ser satisfeitas.
Para onde devemos ir? N ã o para o pós-modernismo, como
veremos no próximo capítulo.
Capítulo nove

O HORIZONTE DESVANECIDO

Pó s-mo d er ni smo

Onde está Deus", suplicava ele [o louco] . "Eu lhes direi. Nós o
matamos — você e eu. Todos nós somos seus assassinos. Porém,
comofizemosisso? Como fomos capazes de beber o mar? Quem
nos deu a esponja para apagar todo o horizonte? [...] Não esta-
mos nos esgueirando através de um nada infinito? Não sentimos
a respiração de um espaço vazio? [...] Não sentimos o cheiro da
putrefação divina? Os deuses também apodrecem. Deus está mor-
to. Deus permanece morto. E nós o matamos. Como podemos
nós, os assassinos de todos os assassinos, nos consolarmos? [...]
"Cheguei muito cedo", disse, então; "meu tempo ainda não che-
gou. Esse grande evento está a caminho, aproxima-se e não chegou
aos ouvidos dos homens."

F t i e d r i c h Nietzsche, The Madman [0 louco]

escrita cerca de cem anos


M U M A B R I L H A N T E PARÁBOLA,

atrás, Friedrich Nietzsche vislumbrou tudo isso. Uma 1


O universo ao lado

cultura não pode perder o seu centro filosófico sem arcar


com as mais sérias consequências, não apenas para a filosofia
na qual foi baseada, mas para toda a superestrutura de
cultura e mesmo para cada noção do indivíduo sobre quem
ele é. Tudo muda. Quando Deus morre, tanto a substância
quanto o valor de todas as coisas igualmente morrem.
O reconhecimento da morte de Deus é o começo da sa-
bedoria pós-moderna. Constitui também o fim da sabedoria
pós-moderna, pois, no fim das contas, o pós-modernismo
não é "pós" coisa nenhuma, mas é o último movimento do
moderno, o resultado de o moderno levar a sério os seus pró-
prios compromissos e ver que eles falharam ao passar pelo
teste da análise.
2

Como já comentei antes, Sócrates afirmou que uma


vida que não passe pelo crivo de um exame não merece ser
vivida, mas para um naturalista o filósofo está enganado.'
Para o naturalista uma vida examinada é que não merece ser
vivida. Agora, cerca de cem anos após Nietzsche, as novas
sobre a morte de Deus finalmente alcançaram "os ouvidos
do homem". O horizonte que definia os limites de nosso
mundo foi apagado. O centro que nos mantinha no lugar
desapareceu. Nossa era, que mais e mais está sendo chamada
de pós-moderna, encontra-se à deriva em um mar de pers-
pectivas pluralistas, de possibilidades filosóficas em excesso,
porém, sem qualquer noção dominante que indique para
onde ir ou como chegar lá. Um futuro de anarquia cultural
se avizinha como inevitável.
Chega de conversa deprimente. Este livro deve ser um
catálogo de cosmovisões, e catálogos devem ser desapaixo-
nados. Controle-se!

264
O horizonte desvanecido

O p r o b l em a da d ef i n i ção

A compreensão torna-se difícil. Como definir o indefinido?


Certamente, o termo que melhor se enquadra agora é pós-mo-
dernismo. Porém, o que isso significa? Tal termo é utilizado
4

por tantas pessoas para expressar inúmeras e distintas facetas


da vida cultural e intelectual que o seu significado é, em geral,
muito vago, não apenas nas extremidades, mas igualmente no
centro (como se um termo que expresse uma cosmovisão sem
um centro pudesse, ele próprio, ter um centro).
Embora sendo professor de literatura, Ihab Hassan foi
um dos primeiros estudiosos a escrever sobre pós-modernis-
mo. Ele confessa: "Conheço menos sobre pós-modernidade
hoje que trinta anos atrás [1971] quando comecei a es-
crever sobre o assunto. [...] [Ainda hoje] não há consenso
sobre o que pós-modernismo realmente significa". Mesmo
se ficassem trancados em uma sala, durante uma semana,
discutindo sobre pós-modernismo, os principais escritores
desse tema não chegariam a um acordo, "porém, um rastro
de sangue poderia começar a escorrer por debaixo da por-
ta". Ainda assim, ele observa alguns elementos em comum,
"fragmentos, hibridez, relativismo, jogo, paródia, pastiche,
uma postura anti-ideológica irónica, um caráter beirando o
brega e o burlesco". Mark Lilla faz uma declaração simi-
5

lar sobre o "pós-modernismo académico", descrevendo-o


como "uma constelação precariamente estruturada de dis-
ciplinas efémeras, como estudos culturais, estudos de gays
e lésbicas, estudos de ciência e teoria pós-colonial". Ele diz:
"Isso toma livremente emprestado de uma multidão de tra-
balhos (em tradução) de eruditos como Jacques Derrida,

265
O universo ao lado

Muchael Foucault e Jean-François Lyotard". Por fim, acres-


centa: "Dada a impossibilidade de impor uma ordem lógica
a ideias tão heterogéneas quanto essas, o pós-modernismo é
extenso em atitude e sucinto em argumento". 6

Em geral, imagina-se que o termo pós-modernismo teria


surgido, primeiramente, como uma referência à arquitetura,
quando os arquitetos trocaram as caixas impessoais e sem
adornos de concreto, vidro e aço por modelos e formas mais
complexas, resgatando motivos do passado sem considc
rar o propósito ou função original. No entanto, quando o
7

sociólogo francês Jean-François Lyotard utilizou o termo pós


-moderno para sinalizar uma mudança na legitimação cultu
ral, ele se tornou uma palavra-chave na análise cultural.
Em suma, Lyotard definiu pós-moderno como "uma in
credulidade direcionada às metanarrativas". Não há mais
8

uma única história, uma metanarrativa (em nossos termos,


uma cosmovisão), que mantenha a cultura ocidental unida.
Não há mais aquelas duradouras histórias, cada qual forne-
cendo uma base de poder para o grupo social que as detêm
como suas. Os naturalistas possuem sua própria história, os
panteístas, as deles, bem como os cristãos e assim por dian
te. Com o advento do pós-modernismo, nenhuma história
pode ter mais credibilidade que a outra. Todas elas são igual
mente válidas, sendo, assim, validadas pela comunidade que
vive por elas.
Não posso catalogar pós-modernismo como fiz com as
cosmovisões anteriores. Mesmo mais que o existencialismo,
o pós-modernismo tanto é mais como menos que uma cos
movisão. Em grande parte isso se deve ao fato do termo ter

266
O horizonte desvanecido

se originado dentro da sociologia ao invés da filosofia. Os


sociólogos preocupam-se em como as pessoas se comportam
como parte da sociedade. Eles não utilizam categorias de ser
(metafísica), ou conhecimento (epistemologia), ou ética, ou
seja, eles não questionam o que é verdadeiro quanto à rea-
lidade, mas como as noções de ser, conhecimento e de ética
surgem e funcionam na sociedade. Para compreender o pós-
-modernismo, portanto, teremos de perguntar e responder
não apenas às questões de cosmovisão apresentadas no pri-
meiro capítulo, mas uma questão sobre as questões em si.

A p r i m e i r a co i sa: ser p ar a sab er

Desculpei-me antes por abordar uma explicação, fazendo


primeiro uma declaração sumária que parece obscura. Eu
o farei novamente na esperança de que a explicação a seguir
esclareça a visão.

1. A primeira questão que o pós-modernismo suscita não é


o que está lá ou como sabemos o que lá está, mas como a
linguagem funciona para construir significado. Em outras
palavras, há uma mudança nas "primeiras coisas" de ser
para saber, para construir significado.

Duas mudanças importantes na perspectiva ocorreram


ao longo dos séculos passados: uma delas é o movimento
do "pré-moderno" (característica do mundo ocidental ante-
rior ao século XVII) para o "moderno" (principiando com
Descartes); a segunda é a passagem do "moderno" para o
"pós-moderno" (cujo maior expoente foi Friedrich Nietzsche

267
O universo ao lado

no último quarto do século XIX). Considere o que vem a


seguir como um exemplo dessas mudanças, outras das quais
veremos mais adiante. Houve uma passagem de (1) um in-
teresse "pré-moderno" por uma sociedade justa baseada na
revelação de um Deus justo, para (2) uma tentativa "moder
na" de utilizar a razão universal como um guia para a justiça,
para (3) um desespero "pós-moderno" por qualquer padrão
universal de justiça. A sociedade, então, move-se da hierar-
quia medieval para o Iluminismo da democracia universal
para o pós-moderno, privilegiando os valores autodefinidos
de indivíduos e comunidades. Essa é a fórmula certa para a
anarquia. É difícil pensar nisso como progresso, mas, então,
o progresso é uma noção "moderna". O cristão "moderno"
tinha uma visão extremamente clara da depravação humana,
e a mente "pós-moderna" possui uma visão apequenada dc
qualquer verdade universal.
Uma das formas de compreender tais mudanças é refletit
sobre nossa reflexão. Para nós, isso significa identificar os
9

preconceitos sobre os quais a análise deste livro tem se fun


damentado até o momento.
Alguns leitores de edições anteriores deste livro têm de-
safiado a maneira como expus as questões da cosmovisão
no capítulo 1. A preocupação deles é se esse conjunto de
sete perguntas restringe essa análise particular de cosmo
visão aos limites de uma única. Essa é uma observação
10

perspicaz.
O âmago da questão é a ordem em que as questões são
apresentadas. Apresentei a questão 1 (o que é realidade su-
prema - a realidade real?) em primeiro lugar por uma boa

268
O horizonte desvanecido

razão. Considerei a metafísica (ou ontologia) como o funda-


mento de todas as cosmovisões. Ser vem antes de conhecer.
Se não existe nada lá, então, nada pode ser conhecido. As-
sim, ao definir o teísmo, principiei com Deus, definido
como infinito e pessoal (trino), transcendente e imanente,
onisciente, soberano e bom. Tudo o mais no teísmo emana
11

desse compromisso com uma noção específica do que está


fundamentalmente lá. A questão 2 pergunta sobre a nature-
za do universo exterior, e as questões 3 e 4 sobre a natureza
dos seres humanos e seu destino. Foi apenas na questão 5
que "como nós conhecemos" foi abordado. Então, veio a éti-
ca — como devemos nos comportar — na questão 6. Por fim,
uma pergunta geral sobre a significância histórica humana,
na questão 7.
O fato é que esse ordenamento de questões é pré-moderno,
em geral, e tetsta, em particular. O teísmo coloca o ser antes
do conhecer. O Iluminismo naturalista posiciona o conhecer
antes do ser. A mudança ocorreu com Descartes, logo no
12

princípio do século X V I I . René Descartes é visto como o


primeiro filósofo moderno, não o menos importante por-
que estava mais interessado em como alguém conhece do
que, exatamente, o que se conhece, pois em sua abordagem
filosófica — assim como a abordagem de quase todos os
filósofos a partir de sua época - o conhecer vem antes do
ser. Descartes não estava rejeitando a noção teísta de Deus.
13

Ao contrário, ele defendeu uma noção de Deus, em essência,


semelhante àquela defendida por Tomás de Aquino. No 14

entanto, seu interesse em estar certo sobre essa noção resul-


tou em maiores consequências.

269
O universo ao lado

A abordagem de Descartes quanto ao conhecer é lendá-


ria. Ele desejava ter absoluta certeza de que aquilo que ele
pensava era realmente verdadeiro. Dessa forma, ele levou o
método da dúvida quase (mas não totalmente) ao limite. Do
que posso duvidar?, perguntava a si mesmo na quietude de
seu estudo. Ele concluiu que podia colocar em dúvida todas
as coisas, exceto o fato de ele estar duvidando (duvidar c
pensar). Portanto, concluiu: "Penso, logo existo". Ele, então,
considerou se havia outra coisa, além de sua existência, da
qual pudesse ter certeza. Após uma série de argumentos, por
fim, escreveu:

Não admito agora qualquer coisa que não seja necessaria-


mente verdadeira: sendo mais preciso, nada mais sou que
uma coisa que pensa, o que quer dizer, uma mente, ou uma
alma, ou uma compreensão, ou uma razão, que são termos
cujo significado me era desconhecido até agora. Sou, en-
tretanto, uma coisa real e existo realmente; que coisa sou?
Respondi: uma coisa que pensa. 15

Aqui está a essência do moderno: a autonomia da razão


humana. Certo indivíduo, René Descartes, declara, funda
mentado em seu próprio julgamento, que sabe com uma
certeza filosófica que ele é uma coisa pensante. A partir desse
fundamento, Descartes prossegue, arguindo que Deus ne
cessariamente existe e que a realidade é dualista - matéria e
mente.
A noção da autonomia da razão humana liberou a mente
humana da autoridade dos antigos. O progresso científico e
tecnológico ocorreu não das noções reveladas nas Escrituras,
mas da pressuposição de que a razão humana poderia, de

270
O horizonte desvanecido

fato, encontrar o seu caminho rumo à verdade. Tal conheci-


mento constituía poder, poder instrumental, poder sobre a
natureza, poder para satisfazer nossos desejos. Na ciência, os
resultados foram extraordinários. Na filosofia, entrementes,
o movimento do ser para conhecer, da primazia de Deus
que cria e revela, para a primazia do eu que conhece por si
só, mostrou-se fatal. Isso estabeleceu a agenda para a filosofia
moderna de Locke a Kant, como, igualmente, alimentou a
repercussão dafilosofiapós-moderna de Nietzsche a Derrida,
com o otimismo humanista mesclado ao desespero.

A p r i m e i r a co i sa: c o n h e c e r p ar a si g n i f i car

Quando o conhecimento passou a ser o foco, desvendar


como alguém podia obter conhecimento tornou-se uma
questão importante. David Hume (1711-1776) lançou
dúvidas sobre a existência de causa e efeito como realida-
de objetiva. Immanuel Kant (1724-1804) tentou responder
a Hume, mas terminou por tanto exaltar o eu conhecedor
até a posição de "criador" da realidade, quanto remover dele
a capacidade de conhecer as coisas em si mesmas. Georg 16

F. W. Hegel (1770-1831) e, por um breve período de otimis-


mo, os idealistas alemães, exaltaram o eu humano quase à
dimensões divinas. Finalmente, Friedrich Nietzsche (1844-
1900) desferiu o golpe de misericórdia na autoconfiança
moderna de que o que pensamos que conhecemos, nós,
realmente conhecemos. Com exceção dos entusiastas da
Nova Era, existem hoje poucas esperanças de que o otimismo
sobre a condição humana possa ser sustentado.

• 271
O universo ao lado
;

A extensa história da filosofia moderna pode ser lida em


muitos lugares. Nosso interesse reside em um tema simples,
17

porém central: a mudança de conhecimento para significado.


Primeiramente, é em Nietzsche que isso se torna mais evi-
dente. Nietzsche finalizou o que Descartes havia começado;
ele levou a dúvida além de Descartes, rejeitando seu argu
mento quanto à certeza sobre a existência do eu.
Observe, novamente, a frase de Descartes: "Penso, logo
existo". E se for o pensamento que cria e causa o eu, ao invés
de o eu criar ou causar o pensamento? E se a atividade do
pensar não demandar um agente, porém apenas produz a
ilusão de um agente? E se houver apenas o pensamento
18

- um fluxo de linguagem sem origem discernível, sem um


sentido determinado ou direção?
Independentemente de a crítica específica de Nietzsche
ser uma análise justa da busca de Descartes por certeza, .1
dúvida mais radical de Nietzsche traz danos graves à certeza
humana. Após Nietzsche, nenhuma pessoa reflexiva deveria
ser capaz de asseverar sua confiança na objetividade da ia
zão humana. Porém como Nietzsche indicou na parábola
do louco, é necessário um longo tempo para que ideias se
infiltrem na cultura. O louco afirmou que ele havia chegado
muito cedo. A ação já havia sido executada, mas por volta
de 1880, as notícias ainda estavam a caminho. Somente por
volta das décadas de 1950 e 1960, do século XX, é que as
vozes de Jean Paul Sartre e Albert Carnus começaram a sei
ouvidas. Já na década de 1990, o mundo ocidental e grande
parte do Oriente passaram a ver que a confiança na razão hu
mana encontra-se moribunda. É verdade que a maioria dos

• 272 •
O horizonte desvanecido

filósofos ainda não capitulou, não porque talvez eles tenham


mais a perder, mas porque têm tudo a perder.' Muitos cien-
9

tistas e tecnólogos mantêm sua confiança em que a ciência


concede certeza ao conhecimento, mas parece que eles são a
última cidadela do mundo intelectual a pensar assim.

A m o r t e d a v e r d ad e

O próprio conhecimento encontra-se sob fogo cruzado, em


especial a noção de que há quaisquer verdades de corres-
pondência. O relativismo conceituai, discutido no capítulo
anterior, serve agora não apenas à experiência religiosa, mas
a todos os aspectos da realidade. 20

2. A verdade sobre a própria realidade está para sempre


oculta de nós. Tudo o que podemos jazer é contar
histórias.

Se principiarmos com o eu aparentemente conhecedor e


seguirmos as implicações, acabaremos primeiro com um eu
solitário (solipsismo) e, depois, nem mesmo isso. O teóri-
co literário Edward Said expressou essa questão da seguinte
forma:

Não há mais um cogito [coisa pensante] coerente, o ho-


mem habita agora os interstícios, "os espaços interestelares
vagos", não como um objeto, porém ainda menos que um
sujeito; o homem é a estrutura, a generalidade dos relacio-
namentos entre essas palavras e ideias que chamamos de
humanística, em oposição às ciências puras ou naturais. 21

273 •
O u n i v e r s o ao lado

Claro, ainda contamos histórias pessoais sobre nos-


sa vida, onde estivemos e para onde pretendemos seguir
E contamos longas histórias também. Alguns de nós, digamos,
cristãos, naturalistas otimistas, humanistas seculares, quími
cos, por exemplo, podem apegar-se às nossas metanarrativas,
mas elas são apenas racionalizações do desejo. A linguagem
que utilizamos para contar nossas histórias é, como Nietzsche
expressa, "um exército móvel de metáforas".

Então, o que é verdade? Um exército móvel de metáfo-


ras, metonímias e antropomorfismos - em resumo, uma
soma de relações humanas, que têm sido intensificadas,
transpostas e ornamentadas poética e retoricamente, ainda
parecendo firmes, canónicas e obrigatórias para a pessoa,
apesar do longo tempo de uso: verdades são ilusões sobre
as quais se esqueceu de que isso é o que elas são; metáforas
que estão desgastadas e sem poder de afetar nossos senti-
dos; moedas que perderam sua cunhagem, valendo apenas
como metal, não mais como moedas. 22

Possuímos uma contínua "ânsia pela verdade", mas ago


ra, "ser verdadeiro significa usar as metáforas usuais - em
termos morais: a obrigação de portar-se de acordo com uma
convenção estabelecida, de comportar-se como um rebanho,
em um estilo obrigatório a todos". 23

Os que persistem em suas metanarrativas como se fossem


a história principal, abrangendo ou explicando todas as ou-
tras histórias, estão iludidos. Podemos ter significado, pois
todas essas histórias são mais ou menos significativas, porém
não podemos ter verdade.

• 274
O horizonte desvanecido

Conforme o pós-modernismo, nada do que pensamos sa-


ber pode ser confrontado com a realidade como tal. Agora,
não devemos imaginar que os pós-modernistas crêem que
não há realidade fora de nossa linguagem. Não devemos
abandonar nossa percepção comum de que um ônibus está
descendo a rua e que é melhor sair do seu caminho. Nossa
linguagem sobre haver um "ônibus" que está "descendo"
uma "rua" é útil. Ela possui o valor de sobrevivência! Porém,
dissociados de nossos sistemas linguísticos nada podemos
saber. Toda linguagem é uma construção humana. Não po-
demos determinar a "veracidade" de uma linguagem, apenas
sua utilidade.
Essa noção básica possui muitas expressões variadas,
dependendo do teórico pós-moderno. Richard Rorty rros
servirá de ilustração.

O mundo não fala. Apenas nós o fazemos. O mundo pode,


uma vez que nos programamos com uma linguagem,
levar-nos a manter crenças. Porém, ele não pode nos propor
uma linguagem para falar. Somente outros seres humanos
podem fazer isso. [...] Linguagens são construídas, não en-
contradas e [...] a verdade é uma propriedade de enridades
linguísticas, de sentenças.
24

A verdade é tudo aquilo sobre o qual obtemos a concor-


dância de nossos colegas (ou comunidade). Se conseguirmos
com que eles utilizem nossa verdade, então - como os "poe-
tas fortes", Moisés, Jesus, Platão, Freud - nossa história é tão
verdadeira como qualquer história o será.
É claro que se nossa história não "funcionar", se ralhar-
mos em ter uma linguagem que nos permita "cruzar uma

275
O universo ao lado

rua quando um ônibus está se aproximando", em seguran-


ça, poucos de nós viverão muito tempo em uma cidade
moderna. Algumas linguagens desaparecem porque s e u s
idealizadores não viveram tempo suficiente para ter filhos
a quem pudessem ensiná-las. No entanto, como muitas lin-
guagens — do hindi, passando pelo mandarim, até o swahih
- mantêm-nos vivos nas cidades, todas elas possuem o vei
dadeiro valor necessário para evitar que sejamos atropelados
por um ônibus.
O filósofo Willard Quine compara a linguagem da ciên-
cia moderna às histórias de Homero sobre deuses:

Na grande maioria eu, enquanto físico, creio em objetos


físicos e não nos deuses de Homero, e considero um erro
científico crer-se de outra maneira. Porém, na questão do
fundamenro epistemológico, os objetos físicos e os deuses
de Homero diferem apenas em grau e não em espécie. Os
dois tipos de entidades entram em nossa concepção ape-
nas como depósitos culturais. O mito de objetos físicos é
epistemologicamente superior à maioria no tocante a pro-
var-se mais eficaz que outros mitos como um dispositivo
de trabalhar uma estrutura gerenciável dentro do fluxo de
experiência.
25

Em resumo, o único tipo de verdade que existe é a verda-


de pragmática. Não há verdade de correspondência.
E fácil ver como essa noção, quando aplicada a reivindi
cações religiosas, dispara um relativismo radical. Nenhuma
26

história é mais verdadeira que qualquer outra. A história


funciona? Ou seja, ela satisfaz quem a conta? Ela lhe fornece
o que você deseja - digamos, um senso de pertencer, uma

276
O horizonte desvanecido

paz consigo mesmo, uma esperança no futuro, uma forma


de ordenar a sua vida? Isso é tudo o que alguém pode per-
guntar.
Há também um problema com as próprias histórias.
Como a linguagem na qual elas são expressas deve ser
interpretada? Dentro do segmento desconstrucionista do
pós-modernismo, as histórias que contamos a nós mesmos
e aos outros não possuem um determinado significado. Elas
não apenas estão sujeitas a uma má interpretação devido à
falta de inteligência ou histórico básico, ou diferenças entre
a formação ou de contexto do escritor e o narrador e aquele
do leitor ou ouvinte. Existe uma indeterminância inerente
à própria linguagem. Todas as histórias contêm as sementes
da autocontradição. Textos e declarações significam apenas
27

e tão-somente o que os leitores entendem que eles signifi-


cam. 28

Assim, no pós-modernismo, há um movimento da (1)


noção "pré-moderna" cristã de uma determinada metanar-
rativa revelada para (2) a noção "moderna" de autonomia
da razão humana com acesso à verdade de correspondência,
para (3) a noção "pós-moderna" de que criamos a verdade
quando construímos linguagens que sirvam aos nossos pro-
pósitos, embora essas mesmas linguagens se desconstruam
sob análise.

3. As histórias propiciam às comunidades o seu caráter de


coesão.

Se, então, afirmações quanto à verdade não são vis-


tas como as coisas realmente são, se tudo o que temos são
O universo ao lado

histórias humanamente construídas, que cremos e transmii i


mos, a anarquia total não é necessariamente o resultado. Isso
é verdadeiro por duas razões. Primeiro, as pessoas crêem que
essas histórias são verdadeiras, de modo que elas funcionam
em sociedade como se verdadeiras fossem. Segundo, grupos
de pessoas crêem na mesma história básica, e o resultado são
comunidades mais ou menos estáveis. Comunidades come-
çam a se dividir, quando pessoas que as formam passam a
crer em histórias substancialmente distintas.
Cristãos, por exemplo, acreditam que Deus é trino. O
pós-modernista pode afirmar que essa história não pode sei
conhecida conforme a realidade, porém o cristão acha que
sim. Um naturalista realmente crê que "o cosmo é tudo o
que existe", independentemente de como um pós-modernis-
ta possa explicar que essa crença não pode, em princípio ou
na prática, ser substanciada. Alguém pode afirmar, também,
que um pós-modernista realmente crê que essa explicação
seja verdadeira, embora se o for, então, não pode ser (mas
isso antecipa a crítica do pós-modernismo que segue adian-
te). Seja qual for o caso, as histórias possuem um poder de
união social enorme; elas edificam comunidades que, caso
contrário, seriam um bando díspar de pessoas. O resultado
29

é que, embora, no pós-modernismo, exista uma "increduli-


dade com respeito a metanarrativas" (Lyotard), em todas as
culturas há uma história para a qual converge concordância
suficiente, que atua como uma metanarrativa. Assim, em ge-
ral, tais histórias, agindo como metanarrativas, mascaram um
jogo pelo poder, executado em qualquer sociedade por aque-
les que controlam os detalhes e a propagação da história.

278 •
O horizonte desvanecido

Li n g u ag em c o m o p o d er

A mudança está agora completa: do ser para o conhecer para


o propósito. Porém, as implicações prosseguem se avolu-
mando.

4. Todas as narrativas mascaram um jogo pelo poder.


Qualquer narrativa utilizada como metanarrativa torna-
-se opressiva.

"Conhecimento é poder". Francis Bacon fez essa afir-


mação em um momento particularmente profético. Ele
estava certo. O "moderno" conhecimento científico tem de-
monstrado seu poder por três séculos. Com o advento do
pós-modernismo, entretanto, a situação inverteu-se. Não
existe conhecimento objetivo puro, nenhuma verdade de
correspondência. Em lugar disso, existem apenas histórias
que, quando cridas, concedem ao narrador poder sobre os
seus ouvintes.
Muitos teóricos pós-modernistas importantes, notada-
mente Michel Foucault, enfatizam esse relacionamento.
Qualquer história, exceto a própria, é opressiva. Toda socie-
dade moderna, por exemplo, define "loucura" de forma que
aqueles que se enquadram na categoria são separados do res-
to da sociedade. Uma vez que não há meios de saber como
a loucura é na realidade, tudo o que temos são as nossas
definições. Rejeitar a opressão é rejeitar todas as histórias
30

que a sociedade nos conta. Isso é, certamente, anarquia, e,


como veremos, isso é aceito por Foucault.
Aqui, então, podemos identificar um movimento de (1)
uma aceitação "pré-moderna" de uma metanatrativa escrita

279
O universo ao lado

por Deus e revelada na Escritura, para (2) uma metanai


rativa "moderna" de razão universal gerando verdade sobre
realidade, para (3) uma redução pós-moderna de todas ai
metanarrativas a meros jogos de poder.

A m o r t e d o eu su b st an c i al

A questão da identidade humana remonta a milhares de


anos. O salmista pergunta: "Que é o homem? [...] Tu o
fizeste um pouco menor do que os seres celestiais e o coroas
te de glória e de honra". A resposta veio. Mas, não no pós
31

modernismo.

5. Não há eu substanciai Os seres humanos fazem de si


mesmos o que são pelas linguagens construídas sobre eles
mesmos.

Se isso soar como existencialismo é porque o existencialis-


mo é um passo na direção do pós-modernismo. Sartre disse:
"A existência precede a essência". Fazemos a nós mesmos
32

por meio daquilo que escolhemos fazer. O eu é uma ati-


vidade. O erudito pós-moderno diz: "Somos apenas o que
nos descrevemos ser". O eu não é uma substância, tampouco
uma atividade, mas uma construção flutuante, dependeu
te da linguagem que ele utiliza. Se somos "poetas fortes",
criamos novas maneiras de falar ou modificar a linguagem
de nossa sociedade. Freud, por exemplo, foi um poeta for-
te. Ele levou toda uma sociedade a falar sobre a realidade
humana em termos como "o complexo de Édipo" ou "id,
o ego e o superego". Jung criou o "inconsciente coletivo".
33

280
O horizonte desvanecido

ao há meios de saber se qualquer uma dessas "coisas" existe


ealmente. Contudo, fazemos uso da linguagem para descre-
ermos a nós mesmos, e isso se torna verdade.

Foucault afirma que esramos agora compreendendo que a


"humanidade" é nada mais que uma ficção composta pelas
ciências humanas modernas. [...] O eu não é mais visto
como a suprema fonte e fundamento para a linguagem; ao
contrário, estamos agora vendo que o eu é constituído na
linguagem e através dela.34

No pós-modernismo, o eu é, de fato, um conceito


scorregadio. Para Nietzsche, o único eu digno de viver era
eu do Ubermensch, o "sobre-homem", (por vezes erronea-
ente traduzido como "super-homem"), o único a elevar-se
do rebanho convencional e que modelou a si mesmo. Assim
7
alou Zaratustra é a voz desse "homem além homem". No
ntanto, poucos são capazes de realizar tal feito. A maioria
'e nós possui o eu construído pela linguagem convencional
e nossa época e sociedade.
Dessa forma, uma vez mais há uma mudança (1) da
noção teísta "pré-moderna" de que os seres humanos são
ignificados por serem criados à imagem de Deus, para (2) a
oção "moderna" de que os seres humanos são o produto do
odeio de DNA, o que em si mesmo é o resultado de uma
volução não-planejada baseada nas mutações aleatórias e a
obrevivência do mais apto, para (3) a noção "pós-moderna"
e um eu não substancial, construído pela linguagem cjue
le utiliza para descrever a si mesmo.

• 281
O u n i v e r s o ao lado

Ser b o m sem Deu s

O pós-modernismo segue a trilha deixada pelo naturalismo


e existencialismo, porém com uma vertente linguística.

6. A ética, como o conhecimento, é uma construção


linguística. O bem social é tudo aquilo que a sociedade
assume ser.

Há pouca razão para elaborarmos essa noção. Por um


lado, ela é uma versão pós-moderna de um relativismo cul
tural extremamente antigo. Por outro lado, é a extensão
35

ética da noção de que a verdade é aquilo que decidimos quí


seja. O comentário de Rorty servirá para mostrar que essa
posição não é necessariamente feliz para pessoas que, nor
malmente, chamamos de pessoas de boa vontade.

Não há nada no âmago de nosso ser, exceto o que nós


mesmos colocamos lá, nenhuma norma que não tenha-
mos criado no decurso de criação de uma prática, nenhum
padrão que não seja um apelo a tal norma, nenhuma ar-
gumenração rigorosa que não seja obediente às nossas
próprias convenções. 36

Isso significa, ele admite, que se alguma futura sociedade


decidir que o fascismo é o que ela deseja, então, um liberal
democrata ou qualquer outro não é atrativo o suficiente.
Assim, não há recurso a um bem superior fora da família
humana. Tudo o que resta é um radical relativismo ético. O
bem é tudo o que aqueles que detêm o poder na sociedade
escolherem que seja. Se uma pessoa está feliz com a manei-
ra como a sociedade delineia as suas linhas éticas, então, a

• 282 •
O horizonte desvanecido

liberdade individual permanece. Contudo, o que acontece


se um indivíduo recusa-se a falar a linguagem ética de sua
comunidade?

Considere Foucault, ele que foi de inúmeras maneiras o


anarquista mais radical dentre todos os teóricos pós-moder-
nos. Para ele, o maior bem é uma liberdade individual com
o propósito de maximizar o prazer. Foucault mostrava-se
37

muito temeroso de que a "sociedade constitua uma cons-


piração para suprimir os próprios desejos de autoexpressão
do indivíduo" que "ele agonizou profundamente sobre a
questão se o estupro deveria ser regulamentado pela justiça
penal". Para Foucault, escreve Ronald Beiner, "lei = repres-
são; descriminalização = liberdade". O pós-modernismo
38

não pode fazer nenhum julgamento normativo sobre tal vi-


são, mas apenas observar e comentar: tanto pior para os que
se descobrem oprimidos pela maioria.
Mesmo o valor na literatura é visto como a criação do
leitor. Agora é crença comum, escreve Kevin J . H . Dettmar,
"que o valor artístico não é transcendente, mas contingente:
que o valor reside não estritamente dentro de um texto, mas
em uma complexa interação entre o que o texto diz e faz, e
o que o leitor deseja e precisa". 39

Novamente, vemos uma mudança da (1) ética teísta


"pré-moderna" fundamentada no caráter de um Deus trans-
cendente que é bom e que tem revelado essa bondade a nós,
para (2) a ética "moderna" baseada em uma noção da razão
e experiência humana universal, e na capacidade humana
de discernir o objetivo certo do errado, para (3) a noção

283
O u n i v e r s o ao lado

"pós-moderna" de que moralidade é a multiplicidade de lin-


guagens utilizadas para discernir o certo do errado.

A v an g u ar d a d o p ó s - m o d e r n i s m o

7. O pós-modernismo é instável.

Dadas as seis características anteriores do pós-mo-


-dernismo, é fácil perceber-se porque ele está sempre em
instabilidade. Como diz Lyotard: "Tudo o que foi recebido
apenas ontem [...] deve ser questionado. [...] Um trabalho
pode se tornar moderno apenas se, antes, for pós-moderno.
O pós-modernismo assim compreendido não é o modernis-
mo em seu fim, mas em seu estado nascente, e esse estado
é constante". A história do desenvolvimento do pós-mo-
40

dernismo é muito longa para ser contada aqui. Posso apenas


oferecer alguns episódios curtos, contados, como qualquer
pós-moderno indicaria, a partir de uma única perspectiva -
a minha própria.
Na Idade Média, a teologia era a rainha das ciências. No
iluminismo, a filosofia e, em especial, a ciência, tornaram-
se a vanguarda da mudança cultural intelectual. Já na era
pós-moderna, a teoria literária passa a exercer esse papel,
na linha de frente.
Para qualquer um que tenha se formado em Literatura
Inglesa, no começo da década de 1960, esse movimento
deve parecer repentino e surpreendente. No entanto, na
década de 1960, a teoria literária começou a se tornar tan-
to sofisticada quanto culturalmente relevante. Enquanto
41

284
O horizonte desvanecido

os cientistas prosseguiram com o que já vinham fazendo


por cerca de cem anos, e os filósofos treinavam seu foco em
assuntos cada vez menores de filosofia analítica, um novo
modo de pensar sobre o pensamento emergiu e rapidamente
se desenvolveu. Uma espécie de explosão pré-cambriana de
ideias incendiou a imaginação de estagnados departamentos
ingleses, cujos jovens intelectuais não apenas migraram para
a corrente em voga, mas passaram a ser essa corrente.
Os córregos murmurantes de Marx e Freud alimenta-
ram os serenos reservatórios do distinto New Criticism [Novo
criticismo] do sul dos Estados Unidos e o criticismo histórico,
agitando suas águas. Então, frescas nascentes da antropolo-
gia (Claude Lévi-Strauss), da sociologia (Foucault, Lyotard),
do feminismo (Kate Millet, Elaine Showalter) e da linguística
(Ferdinand de Saussure) surgiram com tal força que os turbi-
lhões do estudo literário passaram a ser a vanguarda da vida
intelectual. Eruditos como Jacques Derrida (desconstrução) e
Stanley Fish (resposta do leitor) passaram a ser proeminentes
nas universidades. Críticos literários tornaram-se celebridades
intelectuais. "A fome por posição social sempre pareceu ser
mais veemente nos professores de inglês do que em outros aca-
démicos", acusa o professor de literatura Mark Krupnick. A
explosão demográfica pós-modernista venceu, ele diz. "Agora,
há menos conflitos nos departamentos porque praticamente
todos são ou teóricos ou especialistas em estudos culturais.
42

Entrementes, alguns contra-ataques se seguiram. A Asso-


ciation of Literary Scholars (ALSC) [Associação dos Eruditos
Literários] o que alguns denominariam de movimento retró-
grado fundada e dominada por antigos estudiosos, começou

• 285 •
O universo ao lado

em 1991, sob a liderança de John M . Ellis, cuja obra, Against


Deconstruction [Contra destruição], é uma crítica aguda ao
trabalho de Jacques Derrida, entre outros. Essa organi-
43

zação ainda está ativa em sua ênfase no estudo tradicional


de literatura como "literatura", não como linguística, po-
lítica ou um instrumento de mudança social. Ilan Stavans,
até mesmo, faz referência a Matthew Arnold, que definiu
o criticismo literário como "um esforço desinteressado em
aprender e propagar o melhor que se conhece e se pensa no
mundo". Talvez de maior interesse é a reação automática
44

que ocorre quando os próprios intelectuais pós-modernos


são submetidos à crítica pós-moderna. Causas políticas, psi
cológicas e de género são agora descobertas ou especuladas
para justificar suas teorias. A cobra parece estar engolindo a
própria cauda. 45

Por fim, noto uma mudança um tanto quanto bizarra.


David e Nanelle Barash sugerem uma abordagem literária
que é, ao mesmo tempo, pós-moderna naquilo que é novo
(pelo que conheço) e retrógrada - um retorno à moderni
dade científica. Ambos sugerem que a teoria da evolução
biológica seja o "princípio organizador" do criticismo liter.í
rio. "A literatura não só constrói um esquadrão arbitrário de
ideias desconexas como também reflete a interação (seja real
seja imaginária) de organismos vivos com o mundo no qual
eles evoluem e para o qual são adaptados". 46

O estudo literário, em geral, tem recuado de algumas de


suas perturbadoras teorias irracionais, porém centenas de
estudantes graduados em literatura inglesa foram educados
nessas teorias, outrora de vanguarda, inserindo-as dentro du

286 •
O horizonte desvanecido

salas de aula. Mesmo se há agora uma reação discernível, tais


abordagens ainda terão um prolongado efeito. 47

A vanguarda está sempre em movimento. A manobra


intelectual inteligente de hoje é a tolice esquecida de ama-
nhã. E o que vem a seguir ainda está para ser obtido. Por
uma razão, todo o movimento pós-moderno pode estar em
apuros. Como veremos, suas contradições internas são qua-
se tão abundantes quanto as do pensamento da Nova Era.
Mas, então, se a história prosseguisse de uma boa razão para
uma razão ainda melhor, a história contada neste livro, sem
falar deste capítulo, seria diferente. Podemos, entretanto, ver
por que muito do pós-modernismo pode não ficar muito
tempo conosco.

Vi sã o p a n o r â m i c a d o p ó s - m o d e r n i s m o

Os efeitos das perspectivas do pós-modernismo podem ser


vistos praticamente em todos os lugares na cultura ocidental.
Já mencionei o estudo literário. A seguir, veremos brevemen-
te seus efeitos na história, ciência e teologia. 48

Na disciplina de história, por exemplo, a importância do


passado desaparece em meio ao presente momento. Historia-
dores estão migrando de uma historicidade moderna (a noção
de que o significado dos eventos é para ser descoberto em
seus respectivos contextos históricos) para uma pós-moder-
na "negativa do caráter permanente do passado, da realidade
do passado independentemente da escolha do historiador
quanto a essa realidade e, portanto, de qualquer verdade ob-
jetiva sobre o passado". O historiador pós-moderno não
49

287
O universo ao lado

utiliza a imaginação para recriar aos seus leitores um s e n s o


do próprio passado, mas cria "um passado na imagem do
presente e de acordo com o julgamento do historiador". " 5

A decisão de não utilizai notas de rodapé nos textos acadc


micos apenas exacerba a situação. 51

Quem pode checar o julgamento do historiador?


Com o historiador pós-moderno, Keith Jenkins, a história
passa a ser uma sala de espelhos: "No mundo pós-moderno,
então, discutir o conteúdo e o contexto da história deveria sei
uma generosa série de estudos metodologicamente reflexivos
da construção de histórias da própria pós-modernidade". '' 5

A história se torna reflexão sobre histórias da reflexão.


O pós-modernismo pouco impactou a ciência em si
mesma - seja em como ela é conduzida seja em como é
compreendida pela maioria dos cientistas. Todavia, o pós
-modernismo começou a reescrever nossa compreensão
sobre o que é a ciência, a despeito do que os cientistas fazem
ou dizem. A maioria dos cientistas, naturalistas ou teístas
cristãos, é constituída de críticos realistas. Eles acreditam que
há um mundo externo a eles mesmos e que as descobertas
da ciência descrevem o que o mundo é, com certa precisão.
Os pós-modernistas são antirrealistas: eles negam que exista
qualquer conexão conhecida ou conhecível entre o que nól
pensamos e dizemos com o que na realidade existe. 53

A verdade científica é a linguagem que utilizamos para


obter o que desejamos. "Não existe nenhuma outra evidên
cia de que as regras [de prática científica] são boas, além
do consenso estendido a elas pelos especialistas", e s c r e v i a i
Lyotard. A ciência é o que os cientistas afirmam sobre ela.
54

• 288 •
O horizonte desvanecido

A essa afirmação, um cientista espirituoso respondeu: "Por


favor, fique posicionado do lado de fora da janela, locali-
zada no décimo andar de um prédio, e repita o que disse".
Mas isso é interpretar de forma errónea os teóricos pós-
-modernos. Eles não estão afirmando que o mundo físico
não existe; porém, estão fornecendo um "relatório" quanto
ao status e à natureza das reivindicações científicas sobre o
conhecimento à luz da impossibilidade de acessar direta-
mente a realidade com o nosso equipamento epistêmico. O
mundo não fala conosco. Nossa mente não acessa as essên-
cias que determinam a realidade, as essências que tornam
madeira madeira, metal metal. Nós falamos com o mundo.
Dizemos "madeira" ou "metal" e colocamos essas palavras
em sentenças que, via de regra, fornecem o que queremos.
Quando isso não ocorre, afirmamos que tais sentenças são
falsas, mas deveríamos dizer que elas não funcionam.
Muito do texto pós-moderno sobre ciência tem sido
expresso em linguagem altamente obscura. Isso tanto tem
frustrado cientistas práticos quanto tem iludido os edito-
res de, pelo menos, um jornal pós-moderno. Alan Sokal,
um físico da Universidade de Nova York, enviou um artigo
intitulado "Transgredindo os limites: rumo a uma hermenêu-
tica transformativa da gravidade quântica", ao jornal Social
7èxt. Seus editores, não percebendo que o artigo era eivado
%

ile baboseiras sob o ponto de vista tanto da física quanto


da sociologia, aceitaram-no para publicação. Sokal, então,
anunciou em outra publicação, Língua Franca, que o artigo
era um trote, escrito para expor os absurdos perpetrados por
grande parte da análise cultural pós-moderna, em geral, e

289
O universo ao lado

na ciência, em particular. Apresentado-se como socialmen-


te de "esquerda", Sokal afirmou que apenas estava tentando
manter os estudos culturais longe do obscurantismo e da
ambição ufanista. O júbilo que aquele trote provocou en
tre os cientistas voltados ao modernismo, bem como a fúria
entre os editores e seus amigos intelectuais, pontua a pos-
tura pessoal que os críticos sociais de hoje e seus assuntos
possuem em suas abordagens pós-modernas sobre a ciên
cia. Todo o incidente mereceu um comentário adicional na
obra de Sokal e Bricmont, Fashionable Nonsense: Postmoderii
LntellectuaTs Abuse of Science [A moda do absurdo: o abuso
da ciência por intelectuais pés-modernos] e The Sokal Hoas
[A farsa de Sokal] uma coletânea de comentários advindos
de eruditos e estudiosos americanos e estrangeiros, editados
pelos mesmos editores da publicação Língua Franca.
Os sociólogos pós-modernos podem, entretanto, dar al
gumas risadas em resposta. Dois cientistas franceses, sem
credenciais nem doutorado, fizeram passar um texto pseu-
docientífico, crivado de jargões, pelos analistas profissionais
de um jornal científico. Se a discussão deles sobre a singu
laridade no coração do Big Bang foi intencionalmente um
trote ou apenas ciência presunçosa e ruim não foi devida
mente esclarecida. No entanto, isso mostrou que absurdos
podem passar pelo crivo de vigilantes intelectuais postados
nas entradas de jornais tanto de ciências naturais quanto de
ciências humanas. 157

As reações de teólogos ao pós-modernismo foram as mais


variadas possíveis. Alguns aceitam suas afirmações centrais c
escrevem não teologias, mas a/teologias (nem teologias nem

290
O horizonte desvanecido

não teologias, porém teologias que provêm do interstício en-


tre os dois). Não procure compreender isso sem ler Mark
C. Taylor. Outros teólogos aceitam a crítica pós-moderna
58

ao modernismo, vendo muito da teologia cristã contempo-


rânea como extremamente "moderna" e tentam reformar a
teologia. Entre esses estão pós-liberais que revisam a noção
sobre o que a teologia é e pode fazer (George Lindbeck), os
que veem na ênfase pós-moderna sobre a história uma opor-
tunidade para a história cristã ser ouvida (Diógenes Allen) e
evangélicos que revisam a teologia evangélica (Stanley Grenz)
ou que enfatizam a natureza narrativa da teologia (Richard
Middleton e Brian Walsh). Outros, ainda, rejeitam todo o
59

programa pós-moderno e clamam por um retorno às Escritu-


ras e à igreja primitiva (Thomas Oden) ou por um programa
de reforma que continue a valorizar a razão humana (Carl E
H . Henry, David Wells e Gene Edward Veith Jr.). 6()

Nos círculos evangélicos, o pós-modernismo continua


provando ser controverso. Alguns jovens estudiosos, como
61

Robert Greer, têm pesquisado as opções cristãs e clamam por


um reconhecimento das verdadeiras reflexões do pós-mo-
dernismo e uma abordagem renovada do que ele denomina
como "pós-pós-modernismo". Estudiosos mais antigos,
62

entre eles Merold Westphal e Douglas Groothuis, por ve-


zes, discordam sobre o que pós-modernos como Eyotard
estão afirmando, de modo que parecem estar falando um
após o outro em seus diálogos. Embora ambos afirmem os
ensinamentos centrais da fé cristã, eles defendem visões no-
tadamente distintas sobre com que precisão a mente é capaz
de conhecer o que é verdadeiro sobre Deus, os seres humanos

291
O universo ao iado

e o universo. Evidentemente, a última palavra sobre pós-


63

modernismo e teologia ainda está para ser escrita.

Pó s - m o d e r n i s m o : u m a c r í t i c a

Principiarei a minha crítica, indicando alguns aspectos da


perspectiva pós-moderna que parecem verdadeiros, não ape-
nas úteis, e prosseguirei com mais observações críticas.
Primeiro, a crítica pós-modernista quanto ao otimismo
naturalista, em geral, acerta o alvo. Excessiva confiança tem
sido depositada na razão humana e no método científico. A
tentativa de Descartes de encontrar uma certeza intelectual
cabal mostrou-se fatal. Como cristão, ele poderia muito bem
ter se satisfeito com uma confiança fundamentada na exis-
tência de um bondoso Deus que nos criou à sua imagem e
deseja que o conheçamos. Ele não deveria supor estar certo
sem a dádiva divina. A história intelectual subsequente de-
veria ser uma lição a todos os que desejam substituir o Deus
que declara: "Eu Sou o que Sou", com uma autoconvicção
individual. Existe um mistério tanto sobre o ser quanto o
conhecer que a mente humana não é capaz de penetrar.
Segundo, o reconhecimento pós-moderno de que a lin-
guagem está intimamente associada com o poder também
é pertinente. Realmente contamos "histórias", cremos em
"doutrinas", defendemos "filosofias", porque elas nos pro
piciam poder ou o poder de nossa comunidade sobre Os
demais. A aplicação pública de nossas definições sobre loucu
ra, de fato, coloca a saúde mental das pessoas sob vigilância.
Na verdade, deveríamos suspeitar de nossos motivos para

292
O horizonte desvanecido

crer no que cremos, usar a linguagem que usamos, contar


a histórias que informam nossa vida. Igualmente, podemos
apenas suspeitar das motivações dos outros.
Se, todavia, adotamos a forma radical que essa suspeita
assume em Foucault, terminamos em uma contradição ou,
pelo menos, em uma anomalia. Se sustentarmos que todas
as expressões linguísticas são jogos de poder, então, essa
própria expressão é um jogo de poder e não mais apropria-
da que qualquer outra. Isso discrimina todo o discurso. Se
todo o discurso, igualmente, for imbuído de preconceito,
não há razão para usar uma em detrimento da outra. Isso
constitui anarquia moral e intelectual. Além do mais, o
principal valor de Foucault - a liberdade pessoal com o
propósito de intensificar o prazer - é crido por sua redução
de todos os valores para o próprio poder. A questão sobre a
verdade não pode ser evitada. E verdade, por exemplo, que
todo o discurso é um jogo de poder camuflado? Se respon-
dermos que não, então, podemos examinar com cuidado
onde o poder é um fator inadequado. Se nossa resposta for
positiva, então, há uma sentença que faz sentido apenas se
não for vista como um jogo de poder. O pós-modernista
radical que responder afirmativamente estará se autocon-
tradizendo. 64

Terceiro, a atenção para as condições sociais sob as quais


compreendemos o mundo pode nos alertar quanto à limi-
tação de nossa perspectiva como seres humanos finitos. De
fato, a sociedade nos molda de inúmeras maneiras, mas se
formos apenas o produto de forças cegas da natureza e da so-
ciedade, então, assim é a nossa visão de que somos o produto

293
O u n i v e r s o ao lado

de forças cegas da natureza e da sociedade. Uma sociologia


radical de conhecimento também é autocontraditória.
No entanto, embora falho em sua abordagem, o pós-mo-
dernismo realmente faz inúmeras contribuições positivas .1
nossa compreensão de realidade. Passo, agora, a comentários
mais críticos.
Primeiro, a rejeição de todas as metanarrativas é, por si
só, uma metanarrativa. A ideia de que não existem metanar-
rativas é considerada como um primeiro princípio, e não
há meios de abordar isso, exceto ignorar a autocontradição
e prosseguir com o show, o que o pós-modernismo precisa
mente faz.
Segundo, a ideia de que não temos acesso à realidade (que
não há fatos, nenhuma verdade-da-matéria) e que apenas
podemos contar histórias sobre ela, é autorreferencialmen
te incoerente. Expressa de forma nua e crua, essa ideia não
pode explicar a si mesma, pois nos conta algo que, por sua
própria natureza, não podemos saber. Charles Taylor aboi
da essa matéria mais cuidadosamente em sua análise sobre
Richard Rorty:

Rorty oferece um grande salto em direção ao não realismo:


onde, o que tem sido até aqui considerado como fatos ou
verdades da matéria, lá, passa a ser apenas linguagens ri-
vais entre as quais nós terminamos por escolher. Se assim
agimos, é porque, de alguma forma, uma funciona melhor
que as outras...
Entretanto, acreditar em algo é considerá-lo verdadeiro, e,
de fato, pode-se conscientemente manipular as crenças de
outros por motivos além daqueles que parecem verdadeiros
para nós.65

294
O horizonte desvanecido

Similarmente, quando Nietzsche afirma que "a verdade é


um exército móvel de metáforas", ou "mentiras" convencio-
nais, ele faz uma acusação que, implicitamente, reivindica ser
verdadeira, mas, por sua própria natureza, não pode ser. 66

Terceiro, como Lilla indica, a visão desconstrutiva do


pós-modernismo sobre a indeterminância da linguagem
(um texto pode ser lido de inúmeras e variadas maneiras,
algumas contraditórias), levanta uma questão: "Como,
então, compreenderemos as próprias proposições dos
desconstrutivistas? Como mais de um crítico já afirmou,
existe um paradoxo insolúvel em utilizar a linguagem para
declarar que a linguagem não pode fazer declarações não
ambíguas". 67

Quarto, a crítica pós-modernista sobre a autonomia e sufi-


ciência da razão humana repousa na autonomia e suficiência da
razão humana. O que leva Nietzsche a duvidar da validade da
frase de Descartes: "Penso, logo existo"? Isto é, o que o leva a du-
vidar que o eu é um agente que causa o pensamento? Resposta:
O pensamento de Nietzsche. E se o pensamento de Nietzsche
não for produzido por Nietzsche, se for apenas a atividade, o
pensamento? Então, o eu de Nietzsche está sendo constru-
ído pela linguagem. Não há nenhum Nietzsche acessível a
Nietzsche ou a nós. De fato, não existe nenhum substancial nós.
Há somente um fluxo de construtos linguísticos. Assim, se exis-
tem apenas construtos linguísticos, então, inexiste uma razão
para sermos construídos de uma forma ou de outra, bem como
nenhuma razão para pensar que a corrente de linguagem atual
que nos constrói possui algum relacionamento com o que é ass i m.
A conclusão é que estamos encaixotados no interior do

295
O universo ao lado

consciente subjetivo, constituído de um progressivo conjunto


de meros jogos de linguagem.

A e sp i r i t u al i d ad e n o m u n d o
p ó s-m o d e r n o

Como temos visto, é verdade que algumas pessoas parecem


conviver bem com a noção de que não há Deus. Bertrand
Russell, Carl Sagan e Kai Nielson são casos em questão.
Outros enfrentam maiores dificuldades. Nietzsche substitui
Deus por si mesmo. Václav Havei atribui ao ser um carátei
que apresenta a si mesmo em termos teístas, mas não real
mente como um Deus pessoal. O erudito pós-moderno,
69

Ihab Hassan, brevemente encoraja uma vaga espiritualidade.


Ele advoga: "O que sei é que sem espírito, o senso de prodí
gio cósmico, de ser e moralidade ao mais amplo limite, poi
todos nós compartilhado, a existência rapidamente se reduz
à mera sobrevivência". O escritor científico, John Horgan,
70

pesquisa a possível conexão entre ciência e espiritualidade,


concluindo um tanto vagamente que a experiência mística
concede a nós um grande dom:

Ver — realmente ver — tudo o que está certo com o mundo.


Assim como crentes em uma deidade benevolente deveriam
ser assombrados pelo problema de uma natureza maligna,
assim gnósticos, ateus, pessimistas e niilistas deveriam ser
assombrados pelo problema da amizade, do amor, da bele-
za, da verdade, do humor, da compaixão e da alegria.71

Como os ateus e niilistas devem se assombrar, ele não diz.

296
O horizonte desvanecido

Ainda assim, a posição predominante dos recentes


naturalistas é humanista em sua essência. De algum modo,
após a morte de Deus nós nos desnortearemos. Ao final de
seu consistente livro, TheModern Mind [A mente moderna],
Peter Watson olha para um pós-modernismo, uma ciência
e um humanismo ocidental minimizados de modo a pro-
ver um caminho da anarquia cultural para sociedades nas
quais todos possam encontrar propósito e significação. Ele
72

cita a ambos, o filósofo Bryan Magee e o sociobiólogo E .


O. Wilson. Para Magee, nenhuma justificação por Deus ou
pela razão é requerida para uma posição moral ou crença na
decência humana. Podemos apenas agir, quando intuitiva-
mente sabemos como devemos agir. Para Wilson, a ciência
73

futura em perseguição ao seu curso corrente mesclar-se-á


com estudos humanísticos e com as artes em uma "consi-
liência" que sustentará valores e desejos humanos. Wilson
acredita que a descoberta das causas materiais para o nosso
senso de moralidade proverá uma suficiente justificativa para
agir como deveríamos. Realmente, apesar de sua renúncia,
ele comete a falácia naturalista de derivar dever de ser. Poucos
consideraram seu reducionismo materialista convincente. 74

Por fim, Alan Sokal e Jean Bricmont consideram três re-


sultados do desafio ao pós-modernismo. O primeiro é "uma
reação que leva a alguma forma de dogmatismo (por exemplo,
Nova Era) ou a um fundamentalismo religioso". O segundo
é "que intelectuais se tornarão relutantes (pelo menos, por
uma década ou duas) a fim de obter uma crítica eficaz da
ordem societária existente". O terceiro é "a emergência de
uma cultura que seria racionalista, porém não dogmática, li-
beral, mas não frívola, e politicamente progressiva, mas não

• 297 •
O universo ao lado

sectária". Todavia, Sokal e Bricmont são realistas. Eles acres-


centam que "isso é apenas uma esperança ou, quem sabe,
somente um sonho". O mais provável é que seja mesmo
7,5

um sonho. Onde, no racionalismo científico, há um funda


mento para tal esperança?
De qualquer forma, o desafio da morte de Deus, da morte
da razão, da morte da verdade e a morte do eu - todos do-
minantes no pós-modernismo atual - provavelmente estarão
convivendo conosco por muito tempo. Pessoas reflexivas de
todas as idades recusam-se a parar de questionar sobre o que
é realmente real e como podemos saber. Se apenas somos
seres materiais, um produto de fontes indiferentes e não in-
tencionais, por que achamos que podemos conhecer todas as
coisas? E por que imaginamos que deveríamos ser bons?
Se o pós-modernismo não nos levou além do natura-
lismo, mas, ao invés disso, enredou-nos em uma teia de
incerteza completa, por que deveríamos pensar que ele nos
descreve como realmente somos? Há um caminho além do
pós-modernismo?

Al ém do p ó s-m o d e r n i sm o

Evidentemente, o pós-modernismo não é uma cosmovisão


madura, mas é uma perspectiva tão penetrante que tem
influenciado inúmeras cosmovisões, mais notadamente o
naturalismo. Na verdade, a melhor forma de pensar sobre
grande parte do pós-modernismo é vê-lo como a fase mais
recente do "moderno", a forma mais recente do naturalis-
mo. No pós-modernismo, a essência do modernismo não

298
O horizonte desvanecido

foi deixada para trás. Ambos repousam em duas noções cha-


ve: (1) que o cosmo é tudo o que existe — não existe Deus
de qualquer espécie - e (2) a autonomia da razão huma-
na. Claro que a segunda noção é decorrente da primeira. Se
não há Deus, então, os seres humanos, ou o quem quer que
seja mais, são as únicas "pessoas" no cosmo; elas possuem as
únicas mentes racionais para as quais há alguma evidência.
Estamos, assim, por conta própria. Os primeiros modernos
eram otimistas; os mais recentes não. As distinções entre os
primeiros e os últimos modernos são, certamente, impor-
tantes o suficiente não apenas para serem notadas, mas para
sinalizar os últimos com um termo do tipo pós-moderno.
O pós-modernismo remove a máscara sorridente da arro-
gância da face do naturalismo. A face por trás da máscara exibe
feições sempre mutantes; há a angústia de Nietzsche se prote-
gendo contra a mentalidade de rebanho da massa humana, a
alegria enlevada de Nietzsche desejando ser o sobre-homem,
o olhar enviesado de Foucault buscando a intensificação da
experiência sexual, o sorriso cómico de Derrida, enquanto
ele desconstrói todo o discurso, incluindo o seu próprio, e o
ar de ironia em torno dos lábios de Rorty, enquanto ele opta
por uma solidariedade sem fundamento. Contudo, nenhuma
dessas faces exibe uma confiança na verdade, uma confiança
na realidade ou em uma esperança crível pelo futuro.
Se nossa cultura mover-se rumo a um futuro auspicioso,
primeiramente, deve retroceder a um passado mais realista,
removido do ponto em que começamos a sair dos trilhos,
reconsiderar as reflexões valiosas derivadas do que tem ocor-
rido desde então e forjar uma cosmovisão mais adequada. 7<>
Capítulo dez

A VIDA EXA MI N A D A

Conclusão

No m eu soçobr an t e con vés br ilh ou


U m farol, eterno feixe de luz. A carn e desfalece, e lixo mor t al
Cai para o verme residuário; o fogaréu do mun do, em cinza esfria;
N u m r elâm pago, a u m estrondo de trombeta-fin al,
Sú b it o sou tudo o que Cr ist o é, se Ele foi tudo o que sou, e, n u m
in stan te, este João- Nin gu ém , caçoado, pobre caco, trapo, palito de
fósforo, Im or t al diaman te, é diaman te im or t al.

Gerard Manley Hopkins, That Nature Is a Heraclitean Fire, and


ofthe Com fort qfthe Resurrection, [Da natureza com o o fogo de
Heráclito e do reconforto da ressurreição]

A TÉ AQUI, EXAMINAMOS SETE COSMOVISÕES b ási cas, seis,


se n ão con t ar m os o n i i l i sm o , ou oit o, se con t ar m os as
duas for m as de exist en cialism o, e m separ ado.
Ou a i n d a dez, se acr escen t ar m os o a n i m i sm o e a per s-
p ect iva p ó s - m o d e r n a , am b o s m e n c i o n ad o s c o m b r e vid ad e.
O un i v e rso ao lado

To d a v i a, q u e m est á con t an d o? P o d e r í a m o s m u l t i p l i c a r as
c o sm o v i sõ e s p ar a en qu ad r ar o n ú m e r o de h ab it an t es do
u n iver so a qu alqu er t em p o - o u e m t odos os t em pos se
ad ot ar m os a ver t en t e or ie n t al o u se con sid e r ar m os o u n i -
ver so de u m a p er sp ect iva de et er n id ad e. A o c o n t r á r i o ,
p o d e r í a m o s afir m ar qu e exist e u m a ú n i c a c o sm o v i sã o b á-
sica, com p ost a de u m a p r o p o si ç ã o : t odos possu em uma
c o sm o v i sã o !
A i n d a , podem os per gu n t ar : ser ão estas as ú n icas escolh as?
O n d e est á a filosofia d a r evist a Playboyi E o ar t ist a que "cr ia"
par a t r azer or d em do caos d a vida? Tais o p ç õ e s, c o m cer t eza,
possu em seus adept os. N ã o obst an t e, qu an d o exam in am os
cada o p ç ã o , descobr im os que cada u m a delas é u m a sub-
d ivisão o u u m a ver são específica de u m a o u m ais o p çõ e s
já discu t idas. A filosofia h ed on ist a d a r evist a Playboy é u m a
ver são bar at a do n at u r alism o. A s pessoas são m á q u i n a s de
sexo; lu br ifiqu e- as, azeite-as, coloque-as e m fu n cion am en t o
e sin t a a e m o ç ã o . Nossa! Isso é p u r o n at u r alism o n o qual o
b e m é t u do aqu ilo que lh e faz sen t ir-se b e m e, c o m algum a
sor t e, n i n gu é m sai fer ido.

O est et icism o — a c o sm o v i são de u m a pessoa que faz arte


a p ar t ir d a v i d a a fim de dar fo r m a ao caos e sign ificado ao
absu r do - é, con sid er avelm en t e, m ais sofist icado e atraen te.
Seus adept os (pessoas com o W alt e r Pat er , n o final do sécu
lo X I X , alé m de Er n e st H e m i n gw ay , H e r m a n H esse, James
Joyce, W allace St even s, Som er set M a u gh a m , P ablo Picasso,
Le o n ar d Be r n st e in , n o sécu lo X X ) , e m ger al, são pessoas dc
per son alidade at r aen t e e m esm o car ism át ica. N o en t an t o, o

302
A vida exam inada

est et icism o é u m a fo r m a de exist en cialism o n o qu al o ar t ist a


cr ia valor , dot an do o u n iver so de cer t a for m alid ad e e or d em .
O e n i gm á t i c o h er ói de H e m i n gw a y é u m exem plo t íp ico.
Suas n or m as ét icas n ã o são t r ad icion ais, mas elas são con sis-
t en t es. El e vive por suas p r ó p r i as regras, qu an d o n ão pelas
regras dos ou t r os. O s p ap é is de H u m p h r e y Bogar t , desem -
pen h ados e m Key Largo, Casablanca e O Tesouro de Sierra
Madre, con ced er am a essa c o sm o v i sã o u m a d i m e n sã o m ais
que pr ofission al e c o n d u z i r am o est et icism o (a v i d a com o
cer t o est ilo) ao m er cado. To d av i a, o est et icism o é apen as u m
t ipo específico de exist en cialism o est ét ico n o q u al as pessoas
escolh em os seus p r ó p r i o s valor es e d e t e r m in am o p r ó p r i o
car át er por m eio de suas escolh as e açÕes. Já v i m o s n o cap í-
t u lo seis a que p on t o t u d o isso leva.

O fato é que, em bor a, a p r in cí p io, as cosm ovisõe s p ar e çam


pr olifer ar , elas são con st it u íd as de respostas a q u e st õe s par a as
quais h á apen as u m lim it ad o n ú m e r o de respostas. P or exem -
plo, qu an t o à q u e st ão d a r ealidade su pr em a, som en t e duas
respostas básicas p od e m ser for n ecidas: o u o u n iver so é aut o-
-exist en t e e sempr e exist iu , o u u m De u s t r an scen den t e é que
é aut oexist en t e e sem pr e exist iu . O t e í sm o e o d e í sm o afir-
m a m a segun da resposta; o n at u r alism o, o m o n i sm o p an t eíst a
or ien t al, o pen sam en t o d a N o v a E r a e o p ó s- m o d e r n i sm o
afir m am a p r im eir a. C o m o cer t o t e ólogo disse, o u o presen te
u n iver so de n ossa exp er iên cia teve u m a or igem pessoal ou é
pr odu t o do im pessoal, som ado ao t em po e ao acaso.'

O u con sider e u m exem plo difer en t e, o u seja, qu an t o à


q u e st ão se a l gu é m pode r ealm en t e con h ecer algo ou n ã o ,

303
O un i v e rso ao lado

igu alm en t e, h á apen as du as respostas possíveis: pode-se


con h ecer o u n ão algo sobre a n at u r eza d a r ealidade. Se é
possível a u m a pessoa con h ecer algo, e n t ão a lin gu agem
n a q u al esse con h e cim e n t o é expresso cor r espon de, de
algu m a forma i n e q u í v o c a , à r ealidade, e o p r i n cí p i o da
n ã o c o n t r a d i ç ã o oper a. A r ejeição p ó s- m o d e r n i st a dessa
n o ç ã o é au t or r efer en cialm en t e in coer en t e.
Afi r m a r que podem os con h ecer algo ver dadeir o n ã o sig-
n ifica que devem os con h ecer cabalm en t e o que é ver dadeir o.
O con h e cim e n t o est á su jeit o a r efin am en t o, p o r é m se for
ver dadeir o, deve h aver , pelo m en os, u m gr ão de ver dade n a
c o n c e p ç ã o ain d a por r efin ar d a pessoa. A l g u m aspecto dessa
c o n c e p ç ã o deve per m an ecer , pois estava desde o p r i n cí p i o ,
caso con t r ár io , n ã o er a con h ecim en t o. P or exem plo, as pes-
soas de an t igam en t e obser vavam o m o v i m e n t o do sol n o
céu . Sabem os qu e o sol per m an ece par ado, e n osso plan et a
é que gir a. To d av i a, n osso con h ecim en t o i n c l u i a ver acid a-
de d a o b se r v aç ão dos an t igos; o sol parece elevar-se t an t o
qu an t o par ecia par a eles. D e qu alqu er forma, se podem os
saber algo sobre a r ealidade, isso descar t a o in fin it o n ú m e r o
de exp licações p ossíveis, sugeridas pelo r elat ivism o con ceit u -
ai. Nesse sist em a n ã o podem os r ealm en t e con h ecer o caso.
Est am os con fin ados den t r o dos lim it es de n osso sist em a de
lin gu agem . Isso é essen cialm en t e n iil ism o .

Exist e , igu alm en t e, u m n ú m e r o lim it ad o de escolh as c o m


respeito à n o ç ã o de t em po. O t em po é cíclico o u lin ear ; o u
leva a algu m lu gar (ou seja, ele n ã o se r epet e), o u r et or n a
et er n am en t e (e, por t an t o, n ã o exist e com o u m a cat egor ia
sign ificat iva). T a m b é m h á u m n ú m e r o lim it ad o de escolh as

304
A vida exam inada

qu an t o à ét ica b ásica, à m e t afísica, a q u e st õ e s r elat ivas à so-


b r evivên cia pessoal n a m or t e e, assim por dian t e.
A s c o sm o v i sõ e s, e m ou t r as palavr as, n ã o são ilim it ad as
e m n ú m e r o . E m u m a sociedade plu r alist a, elas par ecem
exist ir e m p r o fu são , m as as q u e st õ e s fu n d am en t ais e res-
pect ivas o p ç õ e s são , n a ver dade, b e m d im in u t as. O cam p o,
con for m e o r ed u zim os, c o n t é m dez o p ç õ e s (o u n ove, o u
sete — n osso p r ob lem a con t in gen t e!). Nossa p r ó p r i a escolh a
pessoal r epou sa e m algu m lu gar den t r o desse cam p o, m as se
o ar gu m en t o desse livr o for v ál i d o , seguem-se du as co n cl u -
sões. P r i m e i r a, n ossa escolh a n ã o deve ser cega. H á m an eir as
de lan çar lu z aos cam in h os dos qu ais e xt r aí m o s n ossas esco-
lh as. Segu n da, seja q u al for a escolh a que fizermos, se n ã o
for m os h ip ócr it as, t em os o com p r om isso de viver por ela.
C o m o in d icad o n a p r ó p r i a d e fin ição de c o sm o v i sã o , n ó s "v i -
vem os, m ovem o- n os e t em os n osso ser", e m con for m id ad e
c o m a c o sm o v i sã o que r ealm en t e adot am os, n ã o aqu ela que
sim plesm en t e con fessamos. U m a dest em ida h on est idade de-
ver ia car act er izar t an t o a n ossa au t o an ál i se — on d e est amos
agora - qu an t o n ossa bu sca pela ver dade.

Escolhendo uma cosmovi são


C o m o , en t ão, d e ve r íam os escolh er viver? C o m o podem os
decidir en tre as finitas altern ativas? O que pode n os au xiliar
a escolh er en tre u m a co sm o v i são que pr esum e a exist ên cia
de u m De u s pessoal e t r an scen den t e, e ou t r a que n ão o faz?
Al gu m a coisa de m i n h a p r ó p r i a visão sobre esse assun to deve,

305
O un i v e rso ao lado

por cer t o, t er ficado eviden t e n as descr ições e cr ít icas das vá-


rias o p çõ e s. Agor a é t em po de t or n ar essa visão explícit a. 2
A n ã o ser qu e cad a u m de n ó s com ece a d m i t i n d o qu e,
e m n ossa pr esen t e c o n d i ç ã o , som os os ú n i c o s cr iador es e
doador es de sign ificad o d o u n iver so - u m a p o si ç ã o defen -
d i d a p o r p ou cos, m e sm o d en t r o d a c o sm o v i sã o d a Nova
E r a — e n t ã o ser ia b o m aceit ar u m a at it u d e de h u m i l d a -
de co m o u m a est r u t u r a de t r ab alh o r efer en cial. Q u alqu er
c o sm o v i sã o qu e ad ot ar m os ser á l i m i t ad a. N o ssa finitude
c o m o seres h u m a n o s, o qu e qu er qu e a n ossa h u m an i d ad e
v e n h a a ser, m a n t e r - n o s- á lon ge d a p r e ci são t ot al q u an t o à
m an e i r a qu e com p r e e n d e m o s e expr essam os n ossa cosm o
v i são e t a m b é m d a t ot alid ad e e e xa u st ã o . Al gu m a s ver dades
de r ealidade e sco r r e gar ão p o r en t r e a t r am a de n ossas m ais
finas redes in t elect u ais, b e m com o t ais redes ap r e se n t ar ão
algu n s fu r os qu e n e m m e sm o per ceber em os. A ssi m , a con-
d i ç ã o p ar a c o m e ç a r é a h u m i l d a d e , pois n ossa t e n d ê n ci .i
é ad ot ar m os p o si ç õ e s qu e n os r e n d e r ão poder , qu er seja
ve r d ad e ir a qu er n ã o .

Co n t u d o , h u m ild ad e n ã o sign ifica cet icism o. Se espe


r am os con h ecer algo, devem os assu m ir qu e som os capazes
disso. E com t al p r e ssu p o si ç ã o ou t r os elem en t os são vin cu la
dos, p r im ar iam e n t e as ch am ad as leis do p en sam en t o: as leis
de iden t idade, n ã o c o n t r ad i ç ã o e o m eio e xclu í d o . A o seguii
t ais leis, som os capazes de pen sar clar am en t e e estar segll
ros de qu e n osso r aciocín io é válid o. Tais su p o si çõ e s, en iao.
con d u ze m à p r im e ir a car act er íst ica qu e a c o sm o v i são poi
n ó s adot ada dever ia possu ir - coe r ê n cia in t elect u al interioi
Ke i t h Yan d e ll, d a Un iver sid ad e de W i sc o n si n , afir m a isso.

306
A vida exam inada

su cin t am en t e: "Se u m sist em a con ceit u ai c o n t é m com o u m


elem en t o essen cial ( u m o u m ais m em b r os) u m con ju n t o de
p r o p o si ç õ e s que sejam in con sist en t es, logicam en t e falan do,
t al sist em a é falso". 3
E sobre esse fu n d am en t o que as co sm o v i sõ e s do d e í sm o ,
do n at u r alism o, do m o n i sm o p an t e í st a or ien t al e ou t r os,
for am exam in ad os n os cap í t u l os an t er ior es. C a d a q u al foi
en con t r ad o in con sist en t e e m algu n s pon t os p r in cip ais. O s
n at u r alist as, por exem plo, d eclar am o u n iver so co m o sen -
do fech ado, por u m lado, en qu an t o afi r m am que os seres
h u m an os pod em r e or d e n á- lo, de ou t r o. Se m e u ar gu m en t o
for cor r et o, t emos vist o que, par a n ó s ser m os capazes de re-
or den ar o u m od elar n osso am b ien t e, devem os ser capazes
de t r an scen der n osso am b ien t e im ed iat o. To d av i a, com o o
n at u r alism o declar a que n ão podem os fazê- lo, ele é i n co n -
sist en t e e n ã o pode ser ver dadeir o, pelo m en os com o ele é
for m alm en t e elabor ado. 4
U m a segu n da car act er íst ica par a u m a c o sm o v i sã o ade-
qu ada é que ela deve ser capaz de abr an ger as i n fo r m aç õ e s
de r ealidade — dados de t odos os t ipos: aqueles qu e cada u m
de n ó s co m p i l ar por m eio de n ossas exp er iên cias con scien -
tes d a v i d a d iár ia, os que são for n ecidos por u m a an álise
cr ít ica e in ve st igação cien t ífica, os que são a n ó s r epor t ados
a par t ir d a exp er iên cia dos ou t r os. Tod as essas i n fo r m açõ e s
devem ser cu idadosam en t e avaliadas, p r im e ir am e n t e e m seu
n ível m ais in fer ior (Isso é ver íd ico? É ilu sór io?). N o en t an -
t o, se os dados passar em pelo teste, devemos ser capazes de
in cor p or á- los e m n ossa c o sm o v i são . Se u m fan t asm a se r ecu -
sar a desaparecer sob in ve st igação, a n ossa c o sm o v i são deve

307 •
O un i v e rso ao lado

pr over u m lu gar par a ele. Se u m h o m e m r essuscit a den t r e os


m or t os, n osso sist em a deve explicar o p o r q u ê disso. Vi st o
que n ossa c o sm o v i sã o n ega o u falh a e m com pr een d er as i n -
fo r m açõ e s, ela é falsa o u , pelo m en os, in adequ ada.
Esse é o desafio ao n at u r alism o, que levou a algun s acei-
t ar em o t e ísm o com o alt er n at iva. A evid ên cia h ist ór ica d a
r essu r r eição de Cr i st o , e dos i n ú m e r o s out r os "m ilagr es", t em
sido, por m u it os, con sider ada t ão con sist en t e, a pon t o de eles
aban don ar em u m sist ema con ceit u ai, a b r a ç a n d o u m ou t r o.
Con ve r sõe s ao cr ist ian ism o, em especial en tre in t elect uais de
n osso t em po, quase sempre est ão acom pan h adas de m u d an -
ças n a co sm o v isão, pois o pecado, com o vist o n o text o b íb lico,
possui u m a d i m e n sã o t an t o in t elect u al qu an t o m o r al . 5
Ter ceir a, u m a c o sm o v i sã o apr opr iad a deve explicar o
que ela p r oclam a explicar . Al gu n s n at u r alist as, por exem p lo,
e xp licam a m or alid ad e pela r efer ên cia à n ecessidade de so-
br eviver . To d av i a, com o v i m o s, isso é explicar a qu alidade
m o r al {dever) apen as pela r efer ên cia à qu alidade m et afísi-
ca (ser). Talvez, a e sp é cie h u m a n a t en h a de desen volver u m
con ceit o de m or alidad e a fim de sobr eviver , m as por que
ela deve sobr eviver ? N ã o é sat isfat ór io r espon der com o B. F.
Sk in n e r : "Ta n t o p ior ", par a n ó s, se n ã o sobr eviver m os, pois
a q u e st ã o ain d a clam a por respostas.
As per gu n t as cr u ciais, e n t ão , a ser em feitas a u m a cos-
m o v i são sã o : C o m o ela exp lica o fato de os seres h u m an o s
pen sar em , m as pen sar h esit an t em en t e, am ar , m as t a m b é m
odiar , ser em cr iat ivos, p o r é m igu alm en t e dest r u t ivos, sáb i o s,
mas c o m fr e q u ê n cia t olos e assim por dian t e? O qu e exp lica
n ossos an seios pela ver dade e por r ealização pessoal? P or que

• 308
A vida exam inada

o pr azer com o o con h ecem os agor a, r ar am en t e n os satisfaz


por com plet o? P or qu e, e m ger al, sem pr e qu er em os m ais
- m ais d in h e ir o, m ais am or , m ais êxt ase? C o m o explicar a
r ecusa h u m a n a e m agir de u m m od o am or al?
Essas sã o , clar o, q u e st õ e s elevadas, m as é par a isso que
serve u m a c o sm o v i são — par a for n ecer respostas a tais ques-
t ion am en t os o u , pelo m en os, p r ovid en ciar a est r u t u r a den t r o
d a q u al tais q u e st õ e s p od e m ser r espon didas.
P or fim, u m a c o sm o v i sã o deve ser sat isfat ór ia su bjet i-
vam en t e. E l a deve pr een ch er n osso sen so de n ecessidade
pessoal com o u m pr at o de m i n gau qu en t e m at a a fom e
a p ó s u m a lon ga n oit e de son o. M e n c i o n o sat isfação por ú l-
t im o por qu e é a qu alidade m ais efém er a. Se o fizesse e m
p r im e ir o lugar, isso pod er ia su ger ir qu e a su bjet ivid ade é o
m ais im p or t an t e fator, e, clar o, isso pod er ia su scit ar algu m as
q u e st õ e s. Afir m ar - se que u m a c o sm o v i sã o ap r op r iad a deve
satisfazer é falar e m cír cu los; a q u e st ão é, com o u m a cosm o-
visão pode satisfazer? E a r espost a, cr eio eu , é deveras clar a:
a c o sm o v i sã o satisfaz sen do ver dadeir a. Pois se pen sar m os
ou m e sm o r em ot am en t e su speit ar m os que h á algo ilu sór io
e m n ossa c o m p r e e n sã o de r ealidade, t em os u m a t r in ca que
pode se am p liar e m u m a r ach ad u r a de d ú v i d a e, por fim,
par t ir e m p e d aç o s a paz de n osso m u n d o e m u m a guer r a
civil in t elect u al. N o fim das con t as, a ver dade é a ú n ica coisa
que n os sat isfazer á. P o r é m , p ar a d et er m in ar a ver acidade de
u m a c o sm o v i sã o , som os l an ç ad o s de volt a às t r ês pr im eir as
car act er íst icas já m en cion ad as: con sist ê n cia in t er n a, m an u -
seio adequ ado das i n fo r m aç õ e s e capacidade de explicar o
que é declar ado com o explicad o.

309
O universo ao lado

A i n d a , a sat isfação su bjet iva é im p or t an t e , e pode ser a


falt a dela que n os leva a in vest igar a n ossa c o sm o v i sã o , e m
p r im e ir o lugar . O vago e i n c ó m o d o sen t im en t os de que algo
n ão se en caixa, leva- n os a bu scar sat isfação. Nossa cosm o-
visão n ão se m ost r a d ign a de ser v i v i d a. P odem os en t er r ar
n ossas d ú v i d as, mas eles per sist em e m r et or n ar à su p er fície.
É p ossível m ascar ar n ossa i n se gu r an ça , p o r é m as m á sc a -
ras caem . N a r ealidade, descobr im os que apen as qu an d o
per seguim os n ossas d ú v i d as e m bu sca d a ver dade é que co-
m e ç a m o s a sen t ir sat isfação r eal. 6
O n d e , e n t ão , n ó s n os en con t r am os h oje? E m t er m os de
co sm o v i sõ e s p ossíveis, n ossas o p ç õ e s são n u m er osas, m as,
com o já vim os, lim it ad as. Das que in vest igam os, t odas, exce-
to o t e í sm o , apr esen t ar am falh as graves. Se m e u ar gu m en t o
est iver cor r et o, n e n h u m a delas - d e í sm o , n at u r alism o, exis-
t en cialism o, m o n i sm o p an t e í st a or ien t al o u a filosofia da
N o v a Er a , t am pou co a per spect iva p ó s- m o d e r n a - pode ade-
qu adam en t e r espon der pela possibilidade de con h ecim en t o
ge n u í n o , pela fact icidade do u n iver so ext er n o o u pela exis-
t ên cia de d ist in çõe s ét icas. Ca d a u m a delas, em seu p r ó p r i o
cam i n h o , acaba e m algu m a for m a de n i i l i sm o .

O t eísmo crist ão revist o


Exist e, en t r et an t o, u m a r ot a que n ão t e r m in a n o n iilism o
- n ã o in do alé m dele, mas r et or n an do a u m a b ifu r cação
an t er ior n a estrada in t elect u al. Pode parecer est ran h o suge-
r ir à n ossa era m od er n a o descarte do pen sam en t o m oder n o
e p ó s- m o d e r n o , e r et or n ar par a o sécu lo X V I I o u an t erior.

310
A vida exam inada

N o en t an t o, d ever íam os n os lem br ar de que o t e ísm o cr ist ão,


com o o defin i, foi aban don ado cu lt u r alm en t e, n ão devido à
sua in con sist ên cia in t er n a ou sua falh a e m explicar os fatos,
mas e m fu n ção de ter sido in adequ adam en t e com pr een dido,
esquecido com plet am en t e ou n ão aplicado às qu est ões e m
m ã o s. Al é m do m ais, n e m todos aban d on ar am o t e í sm o, t r ês
sécu los at r ás. Ele per m an ece e m t odos os n íveis n a sociedade
e e m cada disciplin a acad é m i c a - nas ciên cias e nas h u m a-
n idades, n a t ecn ologia e n o m u n d o dos n egócios - aqueles
que con sider am seu t e ísm o co m cabal seriedade e h on est idade
in t elect u al.
Q u est ion am en t os e algu m as arestas - de fat o, o t e í sm o as
possu i. E h á pr oblem as. A h u m an id ad e finita, ao que par ece,
deve ser h u m i l d e o su ficien t e par a r econ h ecer que qu alqu er
c o sm o v i sã o sem pr e os t er á. P o r é m , o t e í sm o explica o p o r q u ê
de t er m os tais q u e st õe s e pr oblem as. Seu fu n d am en t o n ã o
est á n o eu ou n o cosm o, m as n o D e u s que a t u d o t r an scen de
- o D e u s pessoal e in fin it o, n o qu al t oda a r azão, b on d a-
de, e sp e r an ça, am or , r ealidade e d ist in çõe s e n con t r am suas
or igen s. El e p r ovê o qu adr o de r efer ên cia n o qu al podem os
en con t r ar p r o p ó si t o e sign ificado. El e passa n o teste q u á d r u -
plo par a d et er m in ar u m a c o sm o v i são adequ ada.
Ge r a r d M a n l e y H o p k i n s, u m poet a je su ít a do sécu lo
X I X , cu ja jor n ad a in t elect u al for n ece u m fascin an t e est udo
de com o u m a m en t e r eflexiva e u m cor ação i n q u i r i d o r po-
d em en con t r ar u m lugar de descan so, n os d eixou u m r ico
filão de poem as que per son ifica a c o sm o v i sã o cr ist ã. N a d a
m ais, cr eio eu , capt u r a o t om do t e í sm o cr ist ão m elh or que
o p oem a "G o d s Gr a n d e u r " [A gr an deza de Deus], e isso

311
O un i v e rso ao lado

co l o car á u m desfech o pessoal adequ ado à n ossa con sider a-


ção in t elect u al sobr e c o sm o v i sõ e s:

A grandeza de Deus, o mun do inteiro admira,


E m ouro ou ouropel, faísca o seu fulgor;
Gran diosa em cada gr ão, qual limo em óleo
Amortecido. Mas por que n ão temem a sua ira?
Ger ações vêm e vão; tudo o que gera, gira
E gora em mercancia; em barro, em borra de labor;
E ao h omem man ch ou o suor, o sujo, a sujeição; sem cor
O solo agora é; n em mais, solado, o pé sentiria.

E ainda assim a natureza n ão se curva;


U m lím pido frescor do ser das coisas vaza;
E quando a últ ima luz o torvo oeste turva
A h , a aurora, ao fim da fímbria, abrasa —
Porque o Espír it o Santo sobre a curva
Terra com alma ardente abra, ah! A alva asa."8

Cl a r o , h á m u i t o m ais a ser dit o sobr e as d i m e n sõ e s pes-


soais e t eológicas dessa for m a de se olh ar a v i d a . 9 Aceit ar o
cr ist ian ism o cr ist ão apen as com o u m con st r u t o in t elect u al,
n a ver dade, n ã o é aceit á- lo plen am en t e. Exi st e u m a d i m e n -
são pr ofu n d am en t e pessoal en volvid a e m com pr een d er e
viver d en t r o dessa c o sm o v i sã o , pois ela i n c l u i o r econ h eci-
m e n t o de n ossa p r ó p r i a d e p e n d ê n c i a de De u s com o suas
cr iat u r as, n ossa r eb elião con t r a ele e n ossa con fian ça n ele
pela r est au r ação da am izade co m su a pessoa. E isso sign ifica
aceit ar a Cr i st o t an t o com o n osso liber t ador da escr avid ão
com o Sen h or par a n osso fu t u r o.
Ser u m t eíst a cr ist ão n ão é apen as ab r açar u m a cosm o-
visão in t elect u al; é estar pessoalm en t e com p r om e t id o com

• 312
A vida exam inada

o in fin it o e pessoal Sen h or do u n iver so. Isso con d u z a u m a


vid a e xam in ad a que vale a pen a ser v i v i d a.

313
Notas

Capít ulo 1. Toda a diferença do m und o


Introdução

1
CRANE, De St ep h en . War is Kind and Other Lines (1899), co m
f r eq u ên ci a incluíd o em ant o l o g i as. O p o em a heb r eu q u e se seg ue
é o sal m o 8.
2
TENNYSON, Alf red , Lo rd e. In Memoriam (1850), p o em a 54.
3
Um a co l eção út il d e ensaio s so b re a no ção d as co sm o vi sõ es
p o d e ser en co n t r ad a em Paul A. M arshal l, Sand er Grif f ioen e
Ri chard M o u w, ed it o res, Stained Glass: Worldviews and Social
Science (Lan h am , M d .: Universit y Press of Am ér i ca 1989); o ensai o
d e Jam es H. Ol t hui s," On Wo r l d vi ews" p p . 26- 40, é d e esp ecial re-
f lexão .
4
Na t erceira ed i ção d est a o b r a, co nf essei q u e m ui t o t em p o at rás
t i n h a g r an d e est i m a p o r T. S. Eliot . A ele é cred i t ad a a f rase: "Os
p o et as m ed ío cr es i m i t am ;o s b o n s p o et as ro ub am ' ! O t ít ulo d est e
livro [em ing lês, The Universe Next Door] o rig ina- se d as d uas últ i-
m as linhas d e u m p o em a d e E. E.Cu m m i n g s:" Pi t y t his b usy m o n s-
t er, m an u n ki n d :l i st en :t h er e' s a hell/ of a g o o d uni verse next d o o r;
let's g o " [ Co m p ad eça- se d esse o cu p ad o m o nst r o , d esu m an i d ad e:
o u ça: há u m b r ut al / b o m uni ver so ao lad o ; si g am o s em f r ent e] .
Veja E. E.Cu m m i n g s,Po em s: 1923-1954 (Nova Yo r k:Har co u r t Brace,
1954), p .397.
' Vej a m i n h a o b ra Naming the Elephant: Worldview as a Concept
(Do wners Grove, III.: Int erVarsit y Press, 2004), em esp ecial o cap ít ulo
7, para u m d esenvo l vi m ent o m ais ext enso e um a just if icat iva mais
co m p let a dessa d ef inição .
O u n i v e r so ao l ad o

6
Veja d escri ção co m p l et a so b re o co ncei t o b íb lico d e co r ação
d e Davi d N aug le, Worldview: The History of a Concept (Grand
Rap i d s,M i ch .:Eer d m an s,2002),p p .267- 274.A t r ad u ção d e Al m ei d a,
Revist a e At ual i zad a t r ad u z kardia co m o " m ent e" ; na Nova Versão
Int er naci o nal , o t er m o o rig inal é t r ad uzi d o co m o " co ração "
7
Id em , p .266.
8
Veja S\ (e,Naming the Elephant, cap ít ul o 3.

Capít ulo 2. U m universo permeado d a grandeza de Deus


Teísmo cristão
1
Um d o s mais f asci nant es est u d o s so b re o t em a é Jean Seznec, The
Survivalofthe Pagan Gods (Nova York: Harp er an d Ro w, 1961), q ue
ar g u m en t a q u e os d euses g reg o s t o rnaram - se " crist ianizados" ;
m en ci o n an d o Jul i ano , o Ap ó st at a, q u e d isse: " Tu t ens ven ci d o , ó
Pálid o Gal i l eu"
2.Vário s livros so b re a co sm o vi são crist ã f o r am p ub l i cad o s d esd e
as ed i çõ es ant erio res d o p resent e livro. Di g no s d e reg ist ro são
(Grand Rap id s, M i ch: Eer d m an s, 1983); Ar t h u r F. Ho l m es, ed ., The
Making ofa Christian Mind (Do wner s Gro ve, III.: Int erVarsit y Press,
1985); Making Sense ofYour World from a Biblical Viewpoint, d e W
Gar y Phillips e Wi l l i am E. Br o wn (Chi cag o : M o o d y Press, 1991); The
Transforming Vision: Shaping A Christian Worldview, d e Richard
M i d d l et o n (Do wn er s Gro ve, III.: Int erVarsit y Press, 1984); Truth
is Stranger Than It Used to Be, Richard M i d d l et o n e Brian Walsh
(Do wn er s Gro ve, III.: Int ervarsit y Press, 1995). M i n h a p róp ria obr.i,
Discipleship of the Mind (Do wn er s Gro ve, III.: Int erVarsit y Prev.,
1990), el ab o ra t em as d o p resent e cap ít ul o . O m ais recent e <•
Worldview.The History ofa Concept, Davi d N aug le (Grand Rap l d l ,
M i ch.: Eer d m an s, 2002).
3
Um a d ef inição p ro t est ant e clássica so b re Deus é enco nt rad a n.i
Co nf issão d e West m i nst er 2.1:" Há u m só Deus vi vo e verdadeiro ,
o q ual é inf init o em seu ser e p erf eiçõ es, ele é u m esp írit o p ur l l
si m o , invisível , sem co rp o , m em b r o s o u p ai xõ es, i m u t ável , imen
so, et erno , i n co m p r een sível , - o n i p o t en t e, o ni sci ent e, santíssIrtV> .
co m p l et am en t e livre e ab so l u t o ,f azen d o t u d o para a sua própri.i
glória e seg u n d o o co nsel ho d a sua p ró p ria vo n t ad e,q u e é rot.i <•

316
Notas

i m u t ável . É chei o d e am o r, é g raci o so , m i seri co rd i o so , l o n g ân i m o ,


m u i t o b o n d o so e ver d ad ei r o r em u n er ad o r d o s q u e o b u scam e,
co n t u d o , j u st íssi m o e t errível em seus j u ízo s, pois o d ei a t o d o o
p ecad o ; d e m o d o al g u m t er á p o r i n o cen t e o cu l p ad o "
Para u m a co n si d er ação so b r e o co ncei t o t eíst a d e Deus a p art ir
d o p o n t o d e vi st a d a f ilosof ia acad ém i ca, ver Et i en ne Gi b so n , God
and Philosophy (N ew Haven , Co n n .:Yal e Uni versi t y Press, 1941); E.
L. M ascal l , He Who Is: A Study in Traditional Theism (Lo nd r es: Li b ra,
1943); H. P. O w en , Concepts ofDeity (Lo nd r es: M acm i l l an , 1971), p p .
1-48. Out r as q uest õ es m et af ísi cas ab o r d ad as aq ui são d i scut i d as
em Willians Hasker, Metaphysics (Do wn er s Gr o ve, III.: Int erVarsit y
Press, 1983); C. St ep h en Evans, OurIdea ofGod (Do w n er s Gr o b e, III.:
Int erVarsit y Press, 1991).
BROM iLEY,Geoffrey W." TheTrinit y' ,' em Bakers Dictionary ofTheology,
ed . Everet t F. Harriso n (Gr and Rap i d s, M i ch.: Baker, 1960), p. 5 3 1 .
M ui t o s ficam int rig ad o s co m a q u est ão d o m al . Em vi st a t an t o d a
o ni sci ênci a q u an t o d a b o n d ad e d e Deus, o q u e é o m al e q ual
a razão d e sua exi st ênci a? Para u m a análise m ai s ab r an g en t e
so b r e o assunt o veja Pet er Kreef t , Making Sense out of Suffering
(Ann Ar b o r ,M i ch .:Ser van t , 1986) e Henri Bl o ch er ,£w 7an dt h eCr oss
(Do w n er s Gr o ve, III.: Int erVarsit y Press, 1994). Eu ab o r d o esse
assu n t o no s cap ít ul o s 12 e 13 d e Why Should Anyone Believe
Anything atAII?(Downers Gr o ve, III.: Int erVarsit y Press, 1994).

Essa f rase v em d e Francis A. Schaef f er, He is There and He is Not


Silent (Wh eat o n , III.: Tyn d al e Ho use, 1972), p. 43. O cap ít ul o 8 d a
o b ra d e C. S. Lewi s, Miracles (Lo nd res: Fo n t an a, 1960), p. 18, ig ual-
m en t e co n t ém u m a excel en t e d escr i ção d o q u e u m si st em a ab er-
t o en vo l ve. Out ras q u est õ es relat ivas à co m p r een são crist ã so b re
a ci ênci a são d i scut i d as em Del Rat zsch, Philosophy of Science
(Do w n er s Gr o ve, III.: Int erVarsit y Press, 1986) e N ancy R. Pearcey
e Charl es Th axt o n , The Soul of Science (Wh eat o n , III.: Cro ssway,
1994).
SIDNEY, S/r Philip . The Defense of Poesy. Veja t am b ém Do ro t hy
L. Sayers, The Mind of the Maker (Nova York: M er i d i an , 1956) e
J. R. To l ki en , " On Fairy St o ries" em The Tolkien Reader (Nova York:
Bal l ant i ne, 1966),p .37.

317 •
O u n i v e r so ao l ad o

' THIEUCKE, Hel m u t . Nihilism, t rad . Jo h n W. Do b er st ei n (Lo nd res:


Ro ut l ed g e e Keg an Paul, 1962), p. 110.
10
A p alavra g reg a logos co m o ut ilizad a em Jo ão e em o ut ro s t ext o s
p o ssui u m rico co n t ext o d e sig nif icad o . Co nsi d er e, por exem p l o ,
J. N. Bi r d sal l ," Lo g o s" em NewBible Dictionary, 3 ed i ção (Do wner s
a

Gro ve, III.: Int erVarsit y Press, 1996), p p . 744- 45.


11
Para ab o r d ag en s m ais d et al had as so b re ep i st em o l o g i a a partir
d e u m a p er sp ect i va crist ã, veja Ar t h u r F. Holmes,A/ / Truth Is God\
Truth (Do wn er s Gro ve, III.: Int erVarsit y Press, 1977); David L. Wolfe,
Epistemology (Do wn er s Gr o ve, III.: Int erVarsit y Press, 1982); e capí
t ulo s 5-6, do m eu livro Discipleship ofthe Mind.
12
Veja Jo h n W en h am , Christand the Bible, 2 ed i ção (Grand Rap k k ,
a

M i ch.: Baker, 1984).


, 3
Veja, por exem p l o , a d i scussão so b re a q u ed a e seus efeit os em
Francis A. Schaeffer, Génesis in SpaceandTime (Do wn er s Gro ve, III.:
Int erVarsit y Press, 1972), p p .69- 101.
14
Para o b t er u m ensi no b íb lico so b re esse assunt o , ver Jo h n
W en h am , The Enigma of Evil (Grand Rap id s, M i ch.: Zo n d er van ,
1985), p p . 27- 41.
15
" Go d ' s Gr an d eu r " em The Poems of Gerard Manley Hopkins,
4a. ed ., ed s W. H. Gar d ner e N. H. M acKenzi e (Nova York: Oxf o rd
Universit y Press, 1967), p.66.
16
BELLOW, Saul . Mr. Sammler's Planet (Gr een w i ch , Co n n .: Fawcet t ,
1970), p. 216.

Capít ulo 3. A precisão do universo


Deísmo
1
M ILTON, Jo h n . Paradise Lost p. 2.557- 61.
2
- BRONOWSKI, J. Science and Human Values (Nova York: Harp er & Row,
1965), p .7.
3
MEDAWAR, Pet er."On 'The Effecting ofAII Things Possible'", The Listener,
2 d e o u t u b r o d e 1969, p. 348.
4
COPLESTON, Fred reck. A History of Philosophy (Lo nd r es: Burns and
Oat es, 1961), 5.162- 163.

318
Notas

5
A o b r a d e Pet er Gay, Deism:An Anthology (Pr i ncet o n, N. J.: D.Van
N o st r and , 1968) é u m a co l eção út il d e t ext o s o r i und o s d e u m a
am p l a var i ed ad e d e escrit o res d eíst as.
6
FULLER, Buckm i nst er . Ideas and Integrities, m en ci o n ad o por Sara
San b o r n (" Who Is Bu ckm i n st er Fuller?" Commentary, out ubro
d e 1973, p. 60). Ela co m en t a que "a int elig ência b en evo l en t e d e
Fuller p arece co m p o st a fora d o g r an d e Relojoeiro d o s d eíst as e d a
Sup r a- Al m a d e Em er so n " (p .66).
7
FÉNELON, Franço is. Lettres sur divers sujets, metaphysique et de
religion, letter 5, m en ci o n ad o em Emile Bréhier, The History of
Philosophy, t r ad . Wad e Baskin (Chi cag o : Universit y o f Ch i cag o
Press, 1967), 5.14.
8
Id em , p. 15.
9
POPE, Al exand er . Essay on Man, p. 1,17- 22.
10
Id em , linhas 23- 32; cf. linhas 233- 58.
" Id em , linhas 289- 294.
, 2
Id em , linhas 123- 26,129- 30.
13
Id em , l i nhas 145- 46.
'"• Ind ução o u raciocínio ind ut ivo - a t ent at iva d e ar g um ent ar a part ir
d e d et alhes p ara princípios gerais - Alfred Nort h Wh i t eh ead a isso
d en o m i n o u "o d esesp ero d a f ilosof ia" (A. N .Whit ehead , Sc/ enceanc/
the Modem World [1925, reim p ressão Nova York, 1948], p. 25).
1 5
GILSON, Etienne. God and Philosophy (N ew Haven , Co n n .: Yale
Uni versi t y Press, 1941), p p . 106- 7.
16
EINSTEIN, Al b ert . Ideas and Opinions (No va York: Bo n an za, 1954).
Veja t am b ém Ro b ert Jast ro w, God and the Astronomers (Nova
York: Warner, 1978).
17
HAWKING, St ephen./ 4 Brief History of Time (Nova York: Ban t am , 1988),
p .122.
18
WHITE, M i chael e GRIBBIN, Jo h n . Stephen Hawking: A Life in Science
(N o va York: Pl u m e, 1992), p. 3.
' - HAWKING, Briedf History, p. 1 4 1 .
9

2 0
FERGUSON, Kit t y.5fep/ ien Hawking: Quest for aTheory of the Universe
(No va York: Franklin Wat t s, 1991), p. 84.

• 319
O u n i v e r so ao l ad o

21
WRIGHT, Ro b er t . Three Scientists and Their Gods (N o va York:
Har p er & Ro w, 1988), p. 69. Ou t r a p o ssi b i l i d ad e é q u e ci ent i st as
q u e p er ceb em i n t el i g ên ci a no f u n ci o n am en t o d o u n i ver so são
panenteístas.O p an en t eísm o é co m o u m a casa d i vi d i d a ao m ei o
en t r e o t eísm o e p an t eísm o . No p an en t eísm o , o u n i ver so não é
Deu s, m as est á contido em Deu s. Ou Deu s é a m en r ed o uni verso ,
n ão eq u i p ar ad o a el e, m as não sep ar ad o d el e. Essa co sm o vi são
t en d e a ser d ef en d i d a ap en as p o r p esso as al t am en t e i nt el ect u
ais. O f ísico Paul Davi es, p o r exem p l o , foi co n t em p l ad o co m o
Pr ém i o Tem p l et o n Para o Pro g resso na Rel i g i ão . Veja sua o b r a,
" Physi cs an d t h e M i n d of Go d : Th e Tem p l et o n Prize Ad d r ess"
First Things (ag o st o / set em b r o d e 1995), p p . 31- 35; e t am b ém
God and the New Physics (N o va York: Si m o n an d Schust er, 1983);
e The Mind ofGod: The Scientific Basis for a Rational World (Nov.i
Yo rk: Si m o n an d Schust er , 1992).

Cap ít ulo 4. O silêncio do espaço f init o


N at uralism o
1
LA M ETTRIE, Jul i en Of f ray d e. Man a Machine (1747), em Les Philoso
phes, ed . N o r m an L.Torrey (Nova York: Cap r i co r n, 1960), p. 176.
2
Por exem p l o , Alf red No rt h Wh i t eh ead d i z:" É claro q u e enco nt ra
m o s no sécul o XVII o f am o so ar g u m en t o d e Paley d e q u e o m eça
n i sm o p r essup õ e u m Deu s q u e é o aut o r d a n at u r eza. Po r ém , mes
m o ant es d e Paley co lo car o ar g u m en t o em sua f o r m a f i nal , Hu m c
j á havia escrit o a rép lica d e q u e o Deus q u e vo cê enco nt r ar será o
t i p o d e Deus q u e f ez esse m ecan i sm o . Em o ut ras p alavras, aq uele
m ecan i sm o p o d e, no m áxi m o , p ressup o r um m ecân i co , e não m e
r am ent e u m m ecân i co , m as o seu m ecân i co " Wh i t eh ead : Science
and the Modem World (1925; rei m p ressão Nova York: M ent or, 1948),
p .77.
3
O t o m i m p et u o so , ant i cr i st ão e ant i - rel i g i o so d o en sai o de
La M et t ri e é u m a am o st r a d e seu co n t eú d o an t i t eíst a,exal t an d o ,
co m o f az, a razão h u m an a às cu st as d a r evel ação . Um a amostr<>
d i sso , ext r aíd a d a co n cl u são d e Man a Machine, é d ever as ins
t r u t i va: " Reco n h eço ap en as ci ent i st as co m o j u ízes d as co n cl u
so es q u e d esen vo l vo , e eu , por m ei o d i sso ,d esaf i o t o d o h o m em

• 320 •
Notas

p r eco n cei t u o so q u e não seja u m an at o m i st a o u f am i l i ar i zad o


co m a ú n i ca f ilo so f ia q u e p o ssu i p r o p ó si t o , q u al seja, a d o cor-
p o h u m an o . Co nt r a t ão f o r t e e só l i d o car val h o , o q u e p o d er i am
os d éb ei s j u n co s d a t eo l o g i a, m et af ísi ca e esco l ást i ca p r o d u zi r ;
ar m as d e b r i n q u ed o , co m o no ssas esp ad as d e i n f ân ci a, q u e
p o d em m u i t o b em co n ced er o p r azer d a l u t a, m as n u n ca f erir u m
ad ver sár i o . N ecessár i o será d i zer q u e m e ref iro às n o çõ es sup er -
f iciais e t r i vi ai s, ao s b an ai s e d ep l o r ávei s ar g u m en t o s q u e ser ão
i n st ad o s, en q u an t o a so m b r a d o p r eco n cei t o o u d a su p er st i ção
p er m an ecer na t er r a, p ela su p o st a i n co m p at i b i l i d ad e d e suas
su b st ân ci as e q u e se en co n t r am e i n t er ag em i n cessan t em en t e
[La M et t r i e est á f azen d o aq u i al u são à d i vi são d a r eal i d ad e d e
Descar t es en t r e m en t e e m at ér i a] ?" (p . 177).
Ri g o r o sam en t e f al and o , há nat uralist as q u e não são m at erialist as
- ist o é, q u e d ef en d em q u e p o d e haver el em en t o s d o uni verso
q u e não são m at érias - p o r ém , eles t êm p o u co i m p act o so b re a
cul t ura d o Oci d en t e. M i nh a d ef i ni ção d e nat ural i sm o est ará rest ri-
t a ao s d aq u el es q u e são m at eri al i st as.
SAGAN, Carl . Cosmos (No va York: Ran d o m Ho use, 1 9 8 0 ) , p. 4 . Sag an
p r o sseg ue, d i zend o :" N o ssas m ai s d éb ei s co n t em p l açõ es d o co s-
m o s no s co m o vem - há u m calaf rio na esp i n h a, u m nó na gar-
g an t a, u m a sensação d e d esm ai o , co m o u m a m em ó r i a d i st ant e,
d e q u ed a d as alt uras. Sab em o s q u e est am o s no s ap r o xi m an d o
d o m ai o r d e t o d o s os m i st éri o s" Para Sag an , nesse livro e na sé-
rie d e t el evi são q u e levava o m esm o n o m e, o co sm o s assu m e a
p o si ção d e Deu s, cr i and o o m esm o t i p o d e asso m b r o em Sag an ,
q u e ele t ent a p r o vo car em seus leit ores e t el esp ect ad o r es. Po rt an-
t o, a assi m ch am ad a ciênci a p assa a ser relig ião , d i zem al g uns, a
religião d o ci ent i sm o . Veja Jef f rey M ar sh, " Th e Uni verse an d dr.
Sag an " Commentary, m aio d e 1 9 8 1 ,p p . 6 4 - 6 8 .
HAWKING, St ep hen./ \ Bríef History of Time (Nova York: Ban t am , 1 9 8 8 ) ,
p. 13. A co n cl u são d e Haw k i n g é cau t el o sam en t e o t i m i st a:" Se, d e
f at o , d esco b r i r m o s u m a t eo ri a [p ara o uni verso ] [...] seria o t riunf o
f inal d a razão h u m an a - pois en t ão , co n h ecer íam o s a m en t e d e
Deu s" (p . 175).

LA M ETTRIE, Man a Machine, p. 177. Por o ut ro lad o , d ef inir- se o ser


h u m an o co m o " um cam p o d e ener g i as m o ven d o - se no int erior

321
O u n i v e r so ao l ad o

d e u m si st em a f l ut uant e d e energ i as m ai o r " é, i g u al m en t e, nat u-


ralist a. Em n en h u m caso a h u m an i d ad e é vist a co m o t r an scen -
d en t e ao co sm o . Veja M ari l yn Fer g u so n , The Brain Revolution:The
Frontiers ofMind Research (Nova Yo rk:Tap ling er, 1973), p. 22.
8
BRÉHIER, Em i l e. The History of Philosophy, t r ad . Wad e Baski n
(Chi cag o : Uni versi t y of Ch i cag o Press, 1967), 5.129.
9
Humanist Manifestos I and II (Buf f alo : Nova York: Pr o m et h eu s,
1976). p.16. Esses d ois m ani f est o s, em esp eci al o seg u n d o (q ue foi
r ascu n h ad o por Paul Ku r t z), são co n ven i en t es co m p i l açõ es d as
p r essup o si çõ es nat ural i st as. Dur ant e m ui t o s an o s, Paul Kurt z foi
p ro f esso r d e f ilosof ia na St at e Universit y o f N ew York, em Búf alo,
ed i t o r d o Free Inquiry (p eri ó d i co t ri m est ral d ed i cad o à p r o p ag a-
ção d o " h u m an i sm o secular" ) e ed it o r d a Pr o m et h eu s Bo o ks.
10
GARRATY, Jo h n A. e Pet er Gay, ed s., The Columbia History of the
World (No va York: Harp er & Ro w, 1972), p. 14.
11
JOBLING, Davi d ." Ho w Do es Ou r Tw en t i et h - Cen t u r y Co n cep t of t he
Uni ver se Af f ect Our Un d er st an d i n g of t h e Bi b l e?" set em b r o
n o vem b r o , 1972, p. 14. Ernest N ag el , em u m o p o r t u n o ensaio ,
d ef i n i n d o o n at u r al i sm o nos m o l d es d a m et ad e d o sécul o XX,
af i rm a essa p o si ção em t er m o s m ais r i g o r o sam en t e filosóficos
"A p ri m ei ra [ p r o p o si ção cent ral d o n at u r al i sm o ] é a p ri m azi a cau
sal e exi st enci al d a m at éri a na o r d em execu t i va d a nat ur eza. Essa
é a p r essup o si ção d e q u e a o co rrênci a d e even t o s, q ual i d ad es e
p ro cesso s, b em co m o os co m p o r t am en t o s caract eríst ico s d o
vári o s i nd i víd uo s, são co n t i n g en t es na o r g ani zação d e corpos
lo calizad o s no t em p o - esp aço , cuj as est rut uras i nt ernas e rela
çõ es ext er n as d et er m i n am e l i m i t am o ap ar eci m en t o e desap. i
r eci m ent o d e t u d o o q u e o co rre" (Ernest N ag el , " N at uralism Rt
co n si d er ed " [ 1954] , em Essays in Philosophy,ed. Ho ust o n Pet ersoii
[Nova York: Po cket Lib rary, 1959] , p .486).
1 Z
LA M ETTRIE, Man a Machine, p.177.
13
COPLESTON . Fred rick, A History of Philosophy (Lo nd r es: Burns and
Oat es, 1961), p. 6 .5 1 . Ent re os p ro p o sit o res d a n o ção de q u e o s
seres h u m an o s são m áq u i n as est á Jo h n Brierly, The Thinkimi
Machine (Lo nd r es: Hei n em an n , 1973).

322
Notas

14
BARRET, Wi l l i am . The Death of the Soul: From Descartes to the
Computer (Nova York: Ancho r , 1987), p. 154. Sher r y Turkl e, q u e
t em est u d ad o o ef eit o d o s co m p u t ad o r es na au t o co m p r een são
h u m an a, af i rm a q u e" as p esso as q u e t en t am p ensar so b re si m es-
m as co m o co m p u t ad o r es en f r en t am p r o b l em as co m a no ção
d o eu " (Carl M i t ch am relat a o seu t r ab al h o em " Co m p u t er Et ho s,
Co m p u t er Et hi cs" em Research in Philosophy and Technology
[ Gr een w i ch , Co n n .: JAI Press] , p. 8.271).
15
O Manifesto Humanista II, em g er al , d ecl ara a si t uação co m res-
p eit o à nat ureza co m o u m t o d o : "A N at ureza p o d e, d e f at o ,
ser m ai s ab r an g en t e e p r o f u n d a d o q u e ag o r a co n h ecem o s;
q u ai sq u er d esco b er t as no vas, co n t u d o , não au m en t ar ão no sso
co n h eci m en t o d o n at u r al " (p .16).
16
HUXLEY, Ju l i an . " The Uni q ueness o f M an " em Man in the Modem
World (Nova York: M ent o r, 1948), p p .7- 28. Geo r g e Gayl o rd
Si m p so n list a " f at ores int er- relacio nad o s d e i nt el i g ênci a, f lexib ili-
d ad e, i nd i vi d ual i zação e so ci al i zação " (Th e M ean i n g o f Evo l u t i o n ,
ed . rev. [Nova York: M ent o r, 1951 ] , p. 138).
17
N AGEL," N at uralism Reco nsi d ered ' ,' p .490.
18
O f ísico Ed w ar d Fr i ed ki n, p o r exem p l o , crê q u e m esm o em u m
uni ver so t o t al m en t e d et er m i n i st a, as açõ es h u m an as p o d em
não ser p revisíveis e exi st e lug ar p ara o " p seu d o l i vr e- ar b ít r i o "
(Ro b ert Wr i g ht , Three Scientists and Their God [Nova York: Harp er
& Ro w ,1 9 8 8 ] ,p .6 7 ).
19
Humanistas Manifestos I e //, p. 17.
2 0
RUSSEL, Ber t r an d . "A Free M an's Wo r shi p " em Why I am Not a
Christian (Nova York: Si m o n & Schust er, 1957), p. 107.
2
' AYER, A. J. The Humanist Outlook (Lo nd r es: Pem b er t o n , 1968), p. 9.
22
N AGEL," N at uralism Reco nsi d ered ' ,' p .496.
23
Humanist Manifestos I e l\ , p. 17.
24
UPDIKE, Jo h n . " Pi g eo n Feat hers',' em Pigeon Feathers and Other
Stories (Gr een w i ch , Co n n .: Fawcet t , 1959), p.96.
25
GARRATY e GAY, ed s., Columbia History ofthe World, p. 3.
26
Um d o s m ais i nt ri g ant es t r at am en t o s d ad o à o r i g em d o uni verso
é aq u el e ap r esen t ad o p o r Haw k i n g em A Brief History of Time.

• 323 •
O u n i v e r so ao l ad o

A m aio ria d o s cient ist as, q u e t am b ém são nat uralist as, aceit a
al g u m a f o rm a da t eoria evo l uci o nári a. Daniel C. Dennet t , p rova-
vel m en t e est á cert o ao escrever q ue, " em b o ra exi st am vig o ro sas
co nt ro vérsias g i rand o em t o r no d a t eoria evo l uci o nári a" el as são
d isp ut as em f am ília. A ideia d ar wi n i an a" é t ão seg ura q u an t o q ual-
q uer o ut ra na ciência" ; q u e os "seres h u m an o s são p ro d ut o s d a
evo l ução " é um "fat o i nq uest i o nável " (Darwin 's Dangerous Idea
[Nova York: Si m o n & Schust er, 1995] , p p . 19,481). Um cient ist a, na-
t uralist a, q ue não aceit a o d ar wi n i sm o o u o n eo d ar wi n i sm o , en -
t ret ant o , é M ichael Den t o n , Evolution:A Theory in Crisis (Bet hesd a,
M d .: Ad ler and Adler, 1985). Ent re os crist ãos, m uit o s cient ist as e
t eólogos, em especial aq ueles associados ao Am eri can Scient ific
Af f iliat ion, aceit am al g u m a f o rm a d e evo l ução q u e seja t ant o
ci ent i f i cam ent e possível q u an t o co nsist ent e co m o t eísm o cris-
t ão (veja os i núm er o s art ig o s no Journal ofthe American Scientific
Affiliation and Perspectives on Science and Christian Faith (o reb a-
t izad o j o rnal ASA). Exem p l o s ad icio nais são Charles Hu m m el , The
Galileo Connection (Do wn er s Gro ve, III.: Int erVarsit y Press, 1985);
Ho war d J.Van Till, The Fourth Day (Grand Rap id s, M i ch.: Eerd m ans,
1986); Ho ward J.Van Till, Davis A .Yo u n g e Clarence M en n i n g a,
ScienceHeldHostage (Do wner s Gro ve, III.: Int erVarsit y Press, 1988).
Em b o r a o n at u r al i sm o m et o d o l ó g i co ai n d a seja a p r essu p o -
sição r ei nant e ent r e a m ai o r i a d o s ci ent i st as, t an t o secul ar es
q u an t o cri st ão s, el e t em si d o ser i am en t e d esaf i ad o por al g u n s
ci ent i st as, f iló so f o s e crít ico s cul t ur ai s. W. Ch r i st o p h er St ew ar t
exp l i ca o co nf l i t o en t r e cri st ão s em " Rel i g i o n an d Sci en ce" na
o b r a Reason for the Hope Within, ed . M i ch ael J. M urray (Gr and
Rap i d s, M i ch .: Eer d m an s, 1999), p p . 318- 44. Para aq u el es q u e se
o p õ em ao n at u r al i sm o m et o d o l ó g i co e q u e, em co n t r ap ar t i d a,
d ef en d em a ci ênci a d o " d esíg ni o " o u " t eíst a" veja esp eci al m en -
t e o seg u i n t e: b i ó l o g o M i ch ael Beh e, Darwin's Black Box: The
Biochemical Chalenge to Evolution (Nova York: Free Press, 1996);
Ch ar l es B.Th axt o n , Wal t er L. Brad l ey e Ro g er Ol sen , The Mystery
of Life's Origin (N o va York: Ph i l o so p h i cal Lib rary, 1984); m at e-
m át i co e f iló so f o Wi l l i am Dem b sk i , The Design Inference (Nova
York: Cam b r i d g e Un i ver si t y Press, 1998); Intelligent Design: The
Bridge Between Science and Theology (Do wn er s Gro ve, III.:

324
Notas

Int erVarsit y Press, 1999); Signs of Intelligence: Understanding


Intelligent Design (Gr an d Rap i d s, M i ch .: Brazo s, 1999); No Free
Lunch (Lan h am , M d .: Ro w an an d Li t t l ef i el d , 2002); Design
Revolution: Answering the Toughest Questions About Intelligent
Design (Do w n er s Gr o ve, III.: Int er Varsit y Press, 2004); o p ro f es-
sor d e lei e crít ico cul t ur al Phillip E. Jo h n so n , Darwin on Trial
(Do w n er s Gr o b e, III.: Int erVarsit y Press, 1993); Reason in the
Balance: The Case Against Naturalism in Science, Law and Educa-
tion (Do w er s Gr o ve, III.: Int er var si t y Press, 1995); The Wedge of
Truth (Do w n er s Gr o ve, III.: Int erVarsit y Press, 2000); e The Right
Questions (Do w n er s Gr o ve, III.: Int erVarsit y Press, 2002); q u ím i co
e hi st o r i ad o r d a ci ênci a Ch ar l es B.Th axt o n e a escri t o ra N ancy
Pearcey, The Soul of Science: Christian Faith and Natural Philoso-
phy (W h eat o n , III.: Cr o ssway, 1994); e o f iló so f o Del Rat zsch . Um a
crít ica ao s ar g u m en t o s cr i st ão s so b r e esse t em a é en co n t r ad a
em Del Rat zsch , The Battle of Beginnings: Why Neither Side is
Winning the Creation-Evolution Debate (Do w n er s Gr o ve, III.: In-
t erVarsi t y Press, 1996); Science and Its Limits, 2a. ed . (Do w n er s
Gr o ve, III.: Int erVarsit y Press, 2000); Nature, Design and Science:
The Status of Design in Natural Science (Al b an y: St at e Uni ver si t y
of N ew York Press, 2001).
Ci nco co leçõ es d e ensai o s, escrit os por u m a am p l a vari ed ad e
d e erud i t o s t am b ém f o ca esse t ó p i co : J. P. M o r el and , ed .,
The Creation Hypothesis: Scientific Evidence for an Intelligent
Designer (Do wn er s Gro ve, III.: Int erVarsit y Press, 1994); Jo h n
Buell e Virg ínia Hearn, ed s., Darwinism: Science or Philosophy?
(Ri char d so n, Tex.: Fo und at i o n for Th o u g h t an d Et hics, 1994);
Wi l l i am A. Dem b ski , ed ., Mere Creation: Science, Faith and Intelli-
gent Design (Do wn er s Gr o ve, III.: Int erVarsit y Press, 1998); J. P.
M o rel and e Jo h n M ark Reino ld s, Three Views on Creation and Evo-
lution (Grand Rap id s, M i ch .: Zo n d er van , 1999); e M i chael Behe
co m o ut ro s, Science and Evidence for Design in the Universe: Papers
Presented at a Conference Sponsored by the Wethersfield Institute,
September25,1999 (São Francisco : Ig nat ius, 2000).
1
SIMPSON, Meaning of Evolution, p. 143. A razão p el a q u al Si m p so n
d ever i a co nf erir ao s seres h u m an o s u m a n at u r eza esp i ri t ual
n ão f ica cl ar a. Não d evem o s,en t r et an t o , ut ilizá- lo p ara sig nif icar

325
Notas

co m u m Deus inf init o e p esso al , q u e ag e co m o o f u n d am en t o


p ara esses val o res, t o rna- se difícil ver co m o os valo res co n t em -
p o r âneo s serão cap azes d e est ar alicerçad o s em al g u m ab so l ut o
seg uro . Veja Al l an Bl o o m , The Closing of the American Mind (Nova
York: Si m o n & Schust er, 1987), em esp eci al p p . 194- 216. Veja t am -
b ém Alasd air M acl nt yr e, After Virtue, 2a. ed . (Not re Dam e, Ind .:
Not re Dam e Universit y Press, 1984).
4 2
Um m ani f est o h u m an i st a crist ão foi p ub l i cad o na revist a Eterni-
ty, j an ei r o d e 1982, p p . 16- 18. Os aut o res f o ram Do n al d Bl o esch,
Geo r g e Brushab er, Richard Bub , Ar t hur Ho l m es, Bruce Lo ckerb i e,
J. I. Packer, Bernard Ram m e eu .
43
Manifesto Humanista I e II. Out ra b reve co m p i l ação d as visõ es h u -
m ani st as secul ares," The Af f irm at io ns of H u m an i sm :A St at em en t
of Princip ies an d Val ues" ap ar ece na co nt r acap a d e Free Inquiry,
ver ão d e 1987.
4 4
Essa seção so b re m ar xi sm o foi escrit a por C. St ep h en Evans,
p ro f esso r d e filosofia, Baylor Universit y.
4 5
Um a d as m el ho r es i nt r o d uçõ es às i núm er as f acet as d o m ar xi sm o
é f eit a por Richard Schm i t t , Introduction to Marx and Engels: Criti-
cai Reconstruction (Bould er, Co l o : West vi ew, 1987). Um a boa in-
t r o d u ção , d o p o nt o d e vi st a crist ão , é a d e Davi d Lyo n , Karl Marx:
A Christian Assessment of His Life and Thought (Do wn er s Gro ve,
III.: Int erVarsit y Press, 1979). Claro q u e não há m el ho r f o rm a d e
r eal m en t e co m p r een d er M arx q u e os seus p ró p rio s escrit os, b em
co m o os escrit o s d e seu am i g o ínt i m o e co lab o rad o r, Fried rich
Eng el s. M uit o s d o s m ais i m p o r t an t es t ext o s est ão p resent es em
Richard Tucker, ed ., The Marx-Engels Reader, 2 ed . (No va York: W.
a

W.N o r t o n , 1978).
4 6
M ARX, Karl ." Co nt ri b ut i o n t o t h e Crit iq ue o f Hegel's Phi l o so p hy of
Rig ht : l n t r o d u ct i o n " em The Marx-Engels Reader, ed .Tucker, p .60.
4 7
Id em .
4 8
Um a i m p o r t an t e crít ica crist ã so b re o nat ural i sm o é en co n t r ad a
em Jo h n so n , Reason in the Balance.
4 9
SIMPSON, Meaning ofEvolution, p. 139.
5 0
Id em , p p . 166- 81. Desd e os t em p o s d e Dar wi n eT. H. Huxley, os na-
t uralist as t êm d ep o si t ad o m ui t a esp er ança na evo l u ção h u m an a.

327
O u n i v e r so ao l ad o

Al g u n s o t im ist as m o d er n o s são Ar t h u r C. Cl arke, Profiles of the


Future (Nova York: Ban t am , 1964), p p . 212- 27; Pet er M ed awar ," On
Ef f ect ing Ali Th i n g s Po ssib le" The Listener, 2 d e o u t u b r o d e 1969,
pp. 437- 42; Gl en n Seab o r g ," Th e Role o f Sci ence an d Techno l o -
g y" Wash i n g t o n Universit y M ag azi ne, p r i m aver a d e 1972, p p . 3 1 -
35;Ju l i an Huxley, " Tr an sh u m an i sm " em Knowledge, Morality and
Destiny (Nova York: M ent o r,1960), p p . 13- 17.

Cap í t ul o 5. M ar co zero
Niilismo
1
ADAM S, Do ug l as. The Hitchhikers Guide to the Galaxy (Nova York,
Po cket , 1981); The Restaurant at the End ofthe Universe (Nova York:
Po cket , 1982); Life, the Universe and Everything (Nova York: Po cket ,
1983); So Long andThanksforAlltheFish (Lo nd res: Pan, 1984).
2
ADAM S. Hitchhikers Guide, p. 173.
3
- ADAM S. Restaurant, p. 3.
4
Id em , p. 246.
5
ADAM S. Life, p. 222. Ao f inal d o q u ar t o r o m an ce, o q u e n em d e per-
t o p arece t ão p u n g en t e em seu ef eit o , ap r en d em o s a m en sag em
f inal d e Deus p ara n ó s:" Ped i m o s d escu l p as p ela i nco nveni ênci a"
(SoLong, p .189).
5
Ad am s d eve t er rido por úl t i m o , p ois, co m o m eu s am i g o s m at e
m át i co s m e en si n ar am , o resul t ad o d e seis vezes no ve é 54, m as
p o d e ser escrit o co m o 42 na b ase 13. Faça o s cálculo s!
7
NIETZSCHE, Fried rich. Human, AH Too Human, t r ad . M ario n Fáber
(Li nco l n: Uni versi t y o f N eb raska Press, 1984), no . 106, p. 74.
8
PLATT,Jo h n .Po r exem p l o ,acr ed i t a q u e essa é a úni ca lib erd ad e q ue
a p esso a necessit a [CenterMagazine, M arço - Ab ril , 1972, p .47).
- SKINNER, B. F.BeyondFr eedom andDignity
9
(Nova Yo rk:Al f red A. Knop í,
1971), p. 2 1 1 . 0 b ehavi o r i sm o d e Skinner, sem p r e al vo d e muit as
crít icas, é ag o ra (mais d e t rês d écad as d ep o i s), em g er al , co nsid e
rado sim p list a e i n ad eq u ad o co m o exp l i cação p ara o co m p o r t a
m en t o h u m an o .
10
M ONOD, Jacq u es. Chande and Necessity, t r ad . Au st r yn Wai n h o u sc
(Nova York: Alf red A. Knopf , 1971), p p . 98,112.

328
Notas

11
Al g u ns cient ist as são caut el o so s em f u n d am en t ar suas co n cl u -
sões m et af ísicas so b re co ncei t o s cient íf ico s. Richard Bub e, por
exem p l o , ar g u m en t a q u e acaso co m o co ncei t o ci ent íf i co n ão é o
m esm o q u e acaso co m o co ncei t o d e co sm o vi são (ist o é, m et af ísi-
co ),o b ser van d o q u e em ci ênci a acaso é o t er m o d ad o a u m a d es-
cri ção cient íf ica q u e est á " apt a ap en as a p red izer a p r o b ab i l i d ad e
d e u m est ad o f ut uro d e u m si st em a a part ir d o co n h eci m en t o
d e seu est ad o p r esent e" (Richard Bu b e, Putting It AH Together:
Seven Patterns forRelating Science and the Christian Faith [ Lan h am ,
M d .: Universit y Press of Am er i can , 1995] , p. 23).0 acaso cient íf ico ,
ent ão , classifica u m limit e para o co n h eci m en t o em vez d e d es-
crever u m a caract eríst ica d a " realid ad e" (ist o é, f az u m a af i rm a-
ção m et af ísi ca). Esse acaso cient íf ico é, p o rt ant o , co m p at ível co m
a n o ção d e u m m u n d o r aci o nal , en t en d i d o t an t o por crist ãos
co m o p o r nat uralist as. Po r ém , est á claro q u e o acaso sem p r e f u n -
ci o n a, m esm o nos escrit os d o s cient ist as (em p art icular, Jacq u es
M o n o d ), no sent id o d e co sm o vi são (ist o é, m et af ísi co ).
12
Ve j a N ancy Pearcey e Charles Th axt o n , The Soul of Science:
Christian Faith and Natural Philosophy (Wh eat o n , III.: Cro ssway,
1994), p p . 214- 15; cap . 9, " Qu an t u m M yst eries: M aki ng Sense of
t he N ew Ph ysi cs" p p .287- 219,é u m a exp o si ção lúcid a d o s assun-
t os ab o r d ad o s.
13
O co ncei t o cient íf ico d e acaso é d everas co nt r o ver t i d o . O p rin-
cíp io d a i n d et er m i n ân ci a d e Hei senb er g asseg ur a q u e n i n g u ém
p o d e d et er m i n ar co m p reci são t ant o a lo calização q u an t o o mo-
mentum d e um d ad o el ét ro n q ual q uer. Pode- se t er o co n h eci -
m en t o d e u m o u d e o ut ro , p o r ém , não os d o is ao m esm o t em p o .
Esse é u m p rincíp io ep i st em o l ó g i co . No ent ant o , m ui t o s cient is-
t as, i ncl ui nd o Hei senb er g , el ab o r am i m p l i caçõ es o nt o l ó g i cas d o
p ri ncíp i o ep i st em o l ó g i co q u e não são cl ar am en t e g arant i d as. O
p ró p ri o Hei senb erg af i r m o u :" Desd e q u e t o d o s os exp er i m en t o s
est ão sujeit os às leis d a m ecân i ca q uânt i ca [...] a invalid ad e d a
lei d a casual i d ad e est á d ef i ni t i vam ent e p ro vad a pela m ecân i -
ca q u ân t i ca" (m en ci o n ad o por St anley Jaki , " Ch an ce or Realit y"
e m Chance or Reality and Other Essays [ Lan h am , M d .: Universit y
Press of Am ér i ca, 1986] , p p .6- 7. A i m p l i cação é q u e não ap en as o
uni ver so é i nco m p r eensível em u m sent id o f u n d am en t al , m as é,
em si m esm o , irracio nal o u at é irreal.

329
O u n i v e r so ao l ad o

Hei sen b er g , em co n j u n t o co m p el o m eno s alg uns cient ist as e


d i vul g ad o r es d a ci ênci a, t ransf eriu- se d a ig norância d a realid ad e
para o co n h eci m en t o so b re essa realid ad e. Não p o sso m ed i r X;
p o r t ant o , X não exist e. É exat am en t e um m o vi m en t o d o s limit es
d o co n h eci m en t o p ara a d ecl ar ação d e q ue não t em o s n en h u -
m a j ust i f i cat i va para p ensar q u e sab em o s q ual q uer co i sa, o q ue
co nst it ui m ui t o d o p ad r ão d o p en sam en t o p ó s- m o d erno (veja
cap ít ul o 9 d est e livro ). A r eal i d ad e t em d e se co nf o rm ar à m en t e
h u m an a, em u m a m anei r a co n h ecível co m p l et am en t e t eó ri ca,
o u ela não exist e. Na ver d ad e, o so l i p si sm o "há m uit o é reco nhe-
ci d o co m o u m a i m p l i cação i nevi t ável d o sig nif icad o d rást ico d o
p ri ncíp i o d e Hei sen b er g " (Jaki ," Ch an ce o r Real i t y" p p . 12- 13).
Um a saíd a para esse d i l em a foi t o m ad a por Niels Bohr, insist in-
d o q u e " t o d a d ecl ar ação so b re o nt o l o g i a o u so b re o ser d eve ser
evi t ad a" (i d em , p. 8).W. Pauli co n co r d o u , co m o Jaki d iz," q ue q ues-
t õ es so b re a realid ad e er am t ão m et af ísi cas e inút eis co m o era a
p r eo cu p ação d o s f ilósof os m ed i evai s so b re o n ú m er o d e anjos
q u e cab er i am na cab eça d e u m al f i n et e" (i d em , p. 10).
Out ra saíd a ad o t ad a p o r Ei nst ein e o ut r o s cient ist as, foi t ent ar
ig no rar o p rincíp io em si, d esco b r i n d o m ei o s de co n ceb er co m o
as m ed i d as p o d er i am ser co m p l et as e p recisas ao m esm o t em p o .
A t ent at i va d el es f al h o u . Tu d o o q u e p ô d e ser d it o f o i , nas pala
vras d e Ei nst ei n: " Deus não j o g a d ad o s co m o uni verso " ; (id em ,
p. 9). M as isso foi m ais u m co m p r o m i sso p ré- t eó rico , u m a pres
sup o si ção , q u e p r o p r i am en t e u m a co n cl u são el ab o r ad a d e um a
t eo ri zação b em - suced i d a o u d o l ab o r at ó r i o o u d e exp er i m ent o ' ,
d o p en sam en t o . Isso, ent ão , d ei xo u a co n cl u são o nt o l ó g i ca s ei
el ab o rad a co m o m ui t o s o f i zer am : o u n i ver so não é f u n d am cn
t al m en t e i n co m p r een sível (i d em , p .8).
A h u m i l d ad e p ré- m o d erna so b re a cap aci d ad e h u m an a e r r n »
n h ecer p o d e t er i m p ed i d o esse m o vi m en t o iló g ico e precipit ai li >
Pense na caut ela d o ap ó st o l o Paulo (" Ag o ra, p o i s, vem o s ap enas
u m ref lexo o b scur o , co m o em esp el ho " ), e a seg uir, a esperam,.i
("ent ão, ver em o s f ace a f ace" ; 1 Cor 13.12; N VI).
A q uest ão , Jaki co n cl u i , resum e- se a u m a co n f u são ont ológii >
e ep i st em o l ó g i ca." A ci ênci a d a m ecân i ca q u ân t i ca d eclara ap r
nas a i m p o ssi b i l i d ad e d e u m a p recisão p er f ei t a nas med ições

330 •
Notas

A filosofia d a m ecân i ca q uânt i ca d ecl ar a, em úl t i m a i nst ânci a, a


i m p o ssi b i l i d ad e d e d ist ing uir ent r e m at erial e não m at er i al , e at é
m esm o ent re ser e não ser. [...] De q u al q u er m an ei r a, se é i m p o s-
sível d ist ing uir ent re ser e não- ser, ent ão os esf o rço s para d izer
q u al q u er coisa so b re l i b erd ad e e d et er m i n i sm o se t o r n am co m -
p l et am en t e sem si g ni f i cad o " (Jaki ," Chance or Real i t y" p . 14).
14
Jaki t am b ém o b ser va q u e o co n h eci m en t o i g u al m en t e p erd e
seus f u n d am en t o s (" Chance or Real i t y" p . 17).
15
. Al vi n Plant ing a ut iliza u m ar g u m en t o similar para rejeit ar a " pe-
rigosa i d ei a" d e Dar wi n d e q u e a m en t e h u m an a d esenvo l veu- se
por m ei o d a sel eção nat ural - a so b r evi vênci a d o m ais ap t o . Veja
" D e n n e t t s Dan g er o u s l d ea" a revisão d e Pl ant i ng a so b re a o b ra
d e Daniel C. Den n et , Darwin'% Dangerous Idea (Nova York: Si m o n
& Schust er, 1995), em Books and Culture, m ai o / j unho 1996, p. 35.
Um a versão co m p l et a d e seu ar g u m en t o p o d e ser en co n t r ad a
em Warrant and Proper Function (Nova York: Oxf o r d Universit y
Press, 1993), cap . 12.
16
Ext raíd o d e u m a cart a para W. Gr ah am (3 d e j u l h o d e 1881),
m en ci o n ad o em The Autobiography of Charles Darwin and
Selected Letters (1892: rei m p resso Nova York: Dover, 1958). Est o u
em d ívi d a co m Francis A.Sch aef f er por est a o b ser vação ,f ei t a por
ele em u m a palest ra so b re Charl es Dar w i n . C. S. Lewi s, em u m ar-
g u m en t o sem el hant e, cit a J. B. S. Hal d ane co m o seg u e:" Se m eu
p ro cesso m ent al é t o t al m en t e d et er m i n ad o p el o m o vi m en t o
d o s át o m o s em m eu céreb ro , não t en h o n en h u m a razão para su -
p o r q u e m i n h a crença seja ver d ad ei r a [...] e, p o r t ant o , não t en h o
n en h u m a razão para sup o r q u e m eu céreb r o seja f o r m ad o por
át o m o s" (M iracle [ Lo nd res: Fo n t an a, 1960] , p. 18).
17
LEWIS, Miracle, p. 109. Em o ut ro co nt ext o , Lewis o b ser va:" So m en t e
q u an d o vo cê é so licit ad o a crer na Razão ad vi n d a d a não razão
é q u e vo cê d eve g rit ar: Alt o !, pois se não o fizer, t o d o o p ensa-
m en t o é d esacr ed i t ad o " (p. 32).
18
Ext raíd o d e The Black Riders and Other Lines, f r eq u en t em en t e em
ant o l o g i as.
1 9
St an l ey Jaki t ece co m en t ár i o s so b re f ísicos q u e t en t am co n -
t o r n ar esse p r o b l em a, m as q u e, por f i m , t er m i n am co m o ant i
realist as.

331
O u n i v e r so ao l ad o

2 0
CAPON, Ro b ert Farrar. Hunting the Divine Fox (No va York: Seab ury,
1974),p p .17- 18.
21
BLOOM, Al l an. The Closing of the American Mind (Nova York: Si m o n
& Schust er, 1987), p .194.
2 2
Veja An t h o n y Fl ew," Fr o m Is t o O u g h t " e m Sociobiology Debate,
ed . Ar t h ur L. Cap l an (Nova York: Harp er & Row, 1978), p p . 142- 62,
para u m a rig orosa exp l an ação d o m o t i vo p elo q ual a t ent at iva
nat uralist a d e o b t er dever d e ser é u m a f alácia. Um cient ist a q ue
p er ceb eu a insuf iciência d a f ísica em f o rnecer u m a n o r m a ét ica
foi Ei nst ei n, q u e "disse a u m d e seus b ióg raf os j am ai s t er ext raíd o
u m si m p l es valo r ét ico d a f ísi ca" (Jaki ," Chance or Realit y','cit ando
P.M ichelmore, Einstein:Pfofíleof the Man [Nova York: Do d d , 1962],
p .251).
23
Em u m a seção ult rajant e d e Darwirís Dangerous Idea, Dennet t ,
sem f u n d am en t o al g u m , universaliza sua p ró p ria ét ica sub jet iva:
" Sal vem os elef ant es! Si m , claro , m as não a qualquer preço. Por
exem p l o , não f o r çand o as p esso as d a Áf rica a vi ver em co m o no
sécul o XIX [...] Sal vem os b at ist as! Si m , claro, m as não a qualquer
preço. Não se isso sig nif icar t o lerar a d esi n f o r m ação d e crianças
so b re o m u n d o nat ural [ist o é, não se isso sig nif icar o ensi no às
crianças d e q u e o livro d e Génesi s é l i t eral m ent e ver d ad ei r o l "
(pp. 515- 16).
2 4
Veja d i scussão d e Bl o o m so b re valo res {Closing of the American
Mind, pp. 25- 43,194- 215).
25
Richard Dawki n s rep resent a u m a p o st ura co m u m ent re os
nat uralist as. Em b o r a f aça j u l g am en t o s m o rais (ele rejeit a a no-
ção d e q u e os f raco s d ever i am si m p l esm en t e receb er p erm is
são para m o rrer), ele ad m i t e q u e não exist e q ual q uer f und a
m en t o racio nal para esse j u l g am en t o . Aq ui est á u m nat uralist a
q u e se recusa a aceit ar as co n seq u ên ci as ló g icas d o nat uralis
m o para a sua p ró p ria vi d a. Niilist as en car am co m m ui t o mais
i nt eg ri d ad e a si t uação (veja a ent revi st a d e Nick Pollard co m
Dawki n s no Space/ Time Gazette, o ut ub r o d e 1995, co m o relat ado
na NewsletteroftheASA andCSGA,julho/ agosto,de 1996,p .4).
26
KAFKA, Franz. " The W at ch m an " em Parables and Paradoxes (Nova
Yo k :Sch o ck en ,1 9 6 2 ),p .8 1 .

332
Notas

27
Um d o s ep i g r am as d e N i et zsche, em The Gay Science, f az eco à
p ar áb o l a d e Kaf ka:" Cu/ po. Em b o r a os m ai s p ersp i cazes j u ízes d as
f eit iceiras, b em co m o as p ró p rias f eit iceiras, est avam co n ven ci -
d o s d a cul p a por f eit içaria, u m a cu l p a, no en t an t o , i nexi st ent e.
Isso o co rre, p o r t ant o , co m t o d a a cu l p a" (The Portable Nietzsche,
t r ad . Walt er Kau f m an n [Nova Yo r k:Vi ki n g , 1954] , p p . 96- 97).
28
Poderia- se- ia ret rucar q u e t al cul p a (ist o é, sen t i m en t o s d e culp a)
p o d e ser r em o vi d a p o r m ei o d e p sicanálise f r eu d i an a e o ut ras
p sico t erap ias e, assi m , há al g o q u e p o d e ser f eit o . Po r ém , isso
ap en as enf at iza a am o r al i d ad e d o s seres h u m an o s. Isso reso lve o
p r o b l em a q u an t o ao sen t i m en t o d e cul p a por m ei o d e não per-
mit ir q u e al g u ém d e al g u m a f o r m a aja m o r al m en t e.
29
VONNEGUT, Kurt Jr. Cafs Cradle (Nova York: Dell, 1970), p. 177.
30
Est ou em d éb it o co m a o b ra d e Hel m ut Thielicke, Nihilism, t rad .
Jo h n W. Do b erst ein (Lo nd res: Ro ut l ed g e an d Keg an Paul, 1962),
pp. 148- 66, em esp ecial 163- 66, por sua o b servação so b re o
niilismo.
31
Out r a m an ei r a d e exp r essar esse ar g u m en t o é d ei xar claro
q u e a co n st r u ção d e sen t en ças é co m o u m at o f u n d am en -
t al, co m o u m a af i r m ação p ar ad i g m át i ca d e sig nif icad o , q u e
co nst rui r sent enças e neg ar o si g ni f i cad o é aut o co nt r ad i t ó r i o .
Keit h Yand el l em " Relig io us Exp er i en ce an d Rat io nal Ap p ai sal "
Religious Studies, j u n h o d e 1974, p. 185, exp ressa o ar g u m en t o
co m o seg u e:" Se u m si st em a co ncei t uai F é t al q u e p o d e ser d e-
m o n st r ad o q u e (a) F é verdadeiro e (b) F é sab i d o ser ver d ad ei r o
são i nco m p at ívei s, en t ão esse f at o f o r nece u m a b o a razão (em -
b o r a, t al vez n ão co ncl usi va) p ara sup o r q u e F é falso.
32
HELLER, Jo sep h .Cat ch- 22 (No va York: Dell, 1962), p. 184.
33
Id em , p .185.
34
BLOOM , Closing of the American Mind, p. 196.

Cap í t ul o 6. Al ém do niilism o
Existencialismo
1
CAM US, Al b er t . L'Été, m en ci o n ad o em Jo h n Cr u i cksh an k, Albert
Carnus and the Literature of Revolt (Nova York: Oxf o r d Universit y
Press, 1960), p. 3.

333 •
O u n i v e r so ao l ad o

2
Est o u em d éb i t o co m C. St ep h en Bo ard por essa o b ser vação .
3
0 t em a ao q ual m e refiro é o " d esejo d e p o d er " cu l m i n an d o na no -
ção d e Ubermensch (o " So b r e- h o m em " o u " Su p er - h o m em " ), t u d o
o q u e rest a ap ó s a t o t al p er d a d e q u al q u er p ad r ão t r an scen d en t e
t an t o p ara a ét ica q u an t o p ara a ep i st em o l o g i a. Discut irei isso na
seção so b re p ó s- m o d er n i sm o (cap ít ulo 9).
4
Cu m p r i n d o , p o r t ant o , a " p ro f ecia" d e N iet zsche, na p aráb o l a d o
lo uco .Veja cap ít ul o 9.
5
WHITEHEAD, A. N. Science and the Modem World (1925; rei m p resso ,
Nova York: M ent o r, 1948), p. 49.
6
SARTRE, Jean Paul. " Exi st enci al i sm ' ; r ei m p r esso em A Casebook on
Existencialism, ed . Wi l l i am V. Sp ano s (No va York: Th o m as Y. Cr o w el l ,
1966), p. 289.
Id em .
8
- Id em , p. 278.
9
Id em .
'° Essa ilust ração p r o ced e d e Sar t r e," Exi st en ci al i sm " p p . 283- 84.
" PLATTj o h n .em CenterMagazine, m arço - ab ri l , d e 1972, p .47.
,2
DOSTOIEVSKI, Fyo d o r. Notes from Underground, t r ad . An d r ew R.
M as An d r ew (Nova York: N ew Am er i can Lib rary, 1961), p. 99.
13
Id em , p .115.
, 4
SARTRE," Exi st en ci al i sm " p. 279.
15
Id em , p. 289.
, 6
Id em , p. 279.
17
Id em , p. 280.
18
Id em , p. 285.
19
CAM US, Al b er t . The Plague, t r ad . St uart Gilb ert (No va York: Ran d o m
H o u se,1 9 4 8 ),p .3 5 .
2 0
Id em , p .108.
21
Id em , p p . 9,29,277 .
22
Id em , p. 174.
23
Id em , p .175.

334
Notas

2 4
Id em , p. 227- 28.
2 5
Id em , p. 230.
2 6
Id em , p .120,230.
2 7
Id em , p. 262- 63.
2 8
Id em , p .116.
2 9
Id em , p .117- 18.
3 0
Id em , p. 278.
3
' O r o m an ce p o d e e p r o vavel m en t e d ever i a ser lido co m o u m
co m en t ár i o so b re o r eg i m e nazist a, u m a p rag a asso l o u t o d a a
Eur o p a e Áf rica d o N o rt e, n ão ap en as Or an .
3 2
M UM M A, Ho war d . Albert Carnus and the Minister (Brewst er, M ass.:
Par acl et e,2000).
3 3
BLACKHAM, H. J." Th e Point less o f It Al l " em Objections to Humanism,
ed . H. J. Bl ackh am (Har m o n d sw o r t h , U.K.: Pen g u i n , 1965), p. 123.
3 4
Id em , p. 124.
3 5
Ed war d Jo h n Carnell f o r nece u m a excel ent e i nt r o d ução à neo -
- o rt o d o xia e so b re co m o ela surg iu em TheTheology of Reinhold
Niebuhr, ver. ed . (Grand Rap i d s, M i ch.: Eer d m an s, 1960), p p . 13- 39.
3 6
CAM US, Plaque, p. 197.
3 7
Id em , p. 196.
3 8
BUBER, M ar t i n. / and Thou, t r ad . Ro nal d Greg o r Sm i t h (No va York:
Charl es Scrib ner, 1958), p p . 29- 30.
3 9
Id em , p. 34.
4 0
Id em , p .4.
£ I d em , p .1 1 .
4 2
Id em , p. 7.
4 3
S0r en Ki erkeg aard , d e u m a cart a m en ci o n ad a por Walt er
Lo wr i e em A Short Life of Kierkegaard (Pr i ncet o n, N. J.: Princet o n
Universit y Press, 1942), p. 82.
4 4
A p ró p ri a p o sição d e Ki erkeg aar d co m resp eit o a esse assunt o é
m at éri a d e d eb at es ent r e os est ud i o so s. Os q u e enf at i zam a sua
rejeição d o valor d a ver d ad e o b jet iva i ncl uem M arjorie Gr ene,
Introduction to Existencialism (Chi cag o : Universit y of Chi cag o

335 •
O u n i v e r so ao l ad o

Press, 1948), p p . 21- 22,35- 39 e Francis A. Schaef f er, The God Who
Is There (Do wn er s Gro ve, III.: Int erVarsit y Press, 1968), p p . 51- 54.
Do o ut ro lad o, est ão C. St ep h en Evans, Subjectivity and Religious
Beliefs (Grand Rap id s, M i ch.: Christ ian Universit y Press, 1978) e
Jo h n M acquarrie,£x/ sfenaVj/ / sm (Phi l ad el p hi a: West m i nst er Press,
1972),p p . 74- 123.
' Vej a p. 117 aci m a.
'• BUBER, / and Thou, p. 96.

' Vej a Do nal d Bl o esch . God the Almight (Do wn er s Gro ve, III.:
Int erVarsit y Press, 1995), p p . 166- 67.
1
GRENE, Introducion, p. 36.

' SCHAEFFER, Francis A. He Is There and He Is Not Silent (Wh eat o n ,


l l l .:Tyn d al e Ho use, 1972), p p . 37- 88, em esp eci al , p. 79. Alasd air
M acl nt yre escr eve:" Qu e lóg ica há em art icular e t o rnar exp lícit as
aq uel as regras q u e est ão , na ver d ad e, i nco rp o rad as ao d iscurso
real e q u e, d ad o esse f at o , p er m i t em ao s h o m en s t ant o el ab o -
rar ar g u m en t o s vál i d o s q u an t o evit ar as p enal i d ad es d a i nco n-
sist ência. [...] Um p up i l o d e Duns Sco t us d em o n st r o u q u e [...] d e
u m a co nt r ad i ção , seja lá q ual for, q ual q uer ar g u m en t o p o d e ser
d eri vad o . Seg ue- se q u e se no s co m p r o m et em o s a af irm ar t al
co nt rad i ção no s co m p r o m et em o s a af irm ar q u al q u er co i sa, seja
lá o q u e for p o ssível af i rm ar - e t am b ém a neg á- l a. O h o m em
q u e assevera u m a co nt r ad i ção , p o rt ant o , nad a co n seg u e d izer
e, t am b ém , se co m p r o m et e co m t u d o ; am b o s são f alhas em afir-
m ar q u al q u er co isa d et er m i n ad a, em d izer q u e é u m caso e não
o o ut ro . Po rt ant o , d ep en d em o s d e no ssa cap aci d ad e em ut ilizar
e em co nco rd ar co m as leis d a lóg ica a f i m d e falar, e u m a am -
pla p art e d a lógica f o rm al esclarece p ara nó s o q u e t em o s feit o
d u r an t e t o d o esse t em p o " (Herb ert M ar cu se:An Exposition and a
Polemic [Nova York: Vi ki n g , 1970] , p p . 86- 87).
' Para u m a co nsi d er ação so b re a co nd i ção p resent e d o s est ud o s
so b re os assunt o s t rat ad o s p elo s el evad o s crít icos, veja St ep hen
Neill e To m Wri g ht , The Interpretations of the New Testament
1861-1986 (Nova York: Oxf o rd Universit y Press, 1988); Geral d Bray,
Biblical Interpretation: Past and Present (Do wn er s Gro ve, III.:
Int erVarsit y Press, 1996); Do n al d Carso n e o ut ro s, An Introduction

336
Notas

to the New Testament (Grand Rap id s, M i ch.: Zo n d er van , 1992); e


Craig Bl o m b er g , The Historical Reliability ofthe Gospels (Do wner s
Gr o ve, III.: Int erVarsit y Press, 1987).
ARNOLD, M at t hew. God and the Bible, em English Prose of the
Victorian Era, ed . Charles Fred erick Harro ld e Wi l l i am D.Tem p l e-
m an (No va York: Oxf o rd Universit y Press, 1938), p. 1 2 1 1 .
ARNOLD, M at t h ew." Th e St ud y of Po et r y" em English Prose ofthe Vic-
torian Era, p. 1248.
CARNELL. Theology ofReinhol Niebuhr, p. 168.
BULTMANN, Rudolf. Kerygma and Myth (Nova York: Harp er &
Bro t hers, 1961), p. 39.
Luke Ti m o t h y Jo h n so n , ap ó s u m a veem en t e crít ica às t ent at i vas
m o d er n as d e d i f am ar os evan g el h o s (por u m lado) e por co lo -
car excessi va ênf ase na f act i ci d ad e d as narrat ivas d o s evan g e-
lhos (d e o ut ro lad o ), af i r m a: "O Jesus real para a f é crist ã não é
si m p l esm en t e u m a f ig ura d o p assad o , m as por cert o e aci m a d e
t u d o u m a f ig ura d o p resent e, u m a f i g ur a, d e f at o , q u e d ef i ne os
crent es at uais por sua p r esen ça" (The Real Jesus [São Francisco :
Harp erCo llins, 1996] , p. 142). Isso é o cri st i ani sm o exist encialist a
em u m a r o u p ag em co n t em p o r ân ea; não est á, necessar i am ent e,
em co nf lit o co m o t eísm o crist ão o r t o d o xo , m as co l o ca a ênf ase
em u m vi ver relacio nal p r esent e em d et r i m en t o d e u m a p r eo cu -
p ação p elo f at o hist órico.
A hist ória d e est ud o s erud i t o s so b re Jesu s lad eia a hist ória int e-
lect ual q u e t em o s t r açad o nessa o b r a. Prim eiro , h o u ve a aceit a-
ção cab al d os evan g el h o s co m o hist ória co nf i ável . A seguir, co m
os d eíst as e nat uralist as (p or exem p l o , Ernest Renan) surg iu a ne-
g ação d a hist o ricid ad e d e q ual q uer even t o so b r enat ur al na vi d a
d e Jesu s. Isso foi seg ui d o d a ênf ase neo - o rt o d o xa na sig nif icân-
cia religiosa e exist encial d a hist ória d e Jesu s, q u e foi co nsi d er ad a
co m o al t am en t e m i t o l ó g i ca (por exem p l o , Rud o lf Bu l t m an n ) e,
por radicais ref o rm ad o res, ut ilizand o u m a i m ag i nat i va m ist ura
d e cet i ci sm o nat uralist a e f ant asi a esp ecul at i va (por exem p l o ,
Jo h n Do m i n i c Cro ssan). Reaçõ es a essas i nd ag açõ es nat uralis-
t as q u an t o à hist ória d e Jesu s t an t o por p art e d e erud i t o s t eís-
t as t rad icio nais (por exem p l o , Ben Wi t her i ng t o n e N .T.Wrig ht ) e,
O u n i v e r so ao l ad o

m o d est am en t e, por est ud i o so s neo - o rt o d o xo s (por exem p l o ,


Luke Ti m o t h y Jo h n so n ) est ão d esem p en h an d o u m i m p o r t an t e
p ap el no est ab el eci m en t o d o est u d o hist ó rico so b re Jesus em
alicerces m ais só lid o s.
5 7
Revisão d e Resurrection: A Symbol of Hope, p o r Llo yd Geer i n g ,
Times Literary Supplement, 26 d e n o vem b r o , 1971, p. 148.

Cap í t ul o 7. Jornada r u m o ao o Orient e


Monismo panteísta oriental

' O p resent e relat o d a recent e m u d an ça no p en sam en t o o rient al


é d o l o r o sam en t e sup erf icial . Para o b t er m ais d et al h es, vej a: R. C.
Zah en er ,Zen , Drugs and Mysticism (Nova Yo r k:Vi n t ag e, 1974). Um
exam e mais ab r an g en t e e erud i t o p o d e ser en co n t r ad o nos en -
saios co l et ad o s em Irving I.Zaret ski e M ark P. Leo n e, eds. Religious
Movements in Contemporary América (Pri ncet o n, N. J.: Princet o n
Universit y Press, 1974). St ep h en Neill Christian Faith and Other
Faiths (Do wn er s Gr o ve, III.: Int erVarsit y Press, 1984), p esq ui sa e
avalia i núm er as relig iõ es, incluind o - se o h i n d u ísm o e o b u d i sm o .
Um a crít ica crist ã d a t en d ên ci a o ci d ent al r u m o ao Ori ent e p o d e
ser en co n t r ad a em Os Gu i n n ess, The Dust of Death (Wh eat o n , III.:
Cro ssway, 1994), p p . 195- 234. No cap ít ul o 11 d e Miracles (Lo n d o n :
Fo n t an a, 1960), p p . 85- 98, C. S. Lewi s ar g u m en t a q u e m esm o no
Oci d ent e, o p an t eísm o é a religião nat ural d a h u m an i d ad e, e sua
crít ica d essa f o r m a d e p an t eísm o é m ui t o út il. Veja t am b ém a
análise al t am en t e crít ica d e Ernest Becker so b re Zen b u d i sm o a
p art ir d a p sicanálise m o d er n a e d a t eo ria d a p si co t erap i a em Zen:
A RationalCritique (Nova Yo r k:W.W.N o r t o n , 1961).
2
DASGUPTA, Su r en d r an at h . A History of Indian Philosophy, 5 vols.
(Cam b r i d g e: Cam b r i d g e Universit y Press, 1922- 1969). Para t ext o s
so b re filosofia e religião o r i ent al , veja Sarvap alli Rad h akr i sh n an e
Charl es A. M o o re, ed s., A Source Book in Indian Philosophy (Prin-
cet o n , N.J.: Pri ncet o n Uni versi t y Press, 1957); Wing - t sit Ch an , ed .,
A Source Book in Chinese Philosophy (Pr i ncet o n, N.J.: Princet o n
Universit y Press, 1963) e Luci en St ryk, ed ., World ofBuddha (Nova
York: Gro ve, 1968). Para livros so b re zen - b u d i sm o , veja no t a 23, à
f rent e. Para est ud o s g erais so b re religiões o rient ais, Keit h Yand ell

• 338 •
Notas

r eco m en d a St uart Hacket t , Oriental Philosophy (M ad i so n : Uni -


versi t y of Wi sco nsi n Press, 1979); Davi d L Jo h n so n , A Reasoned
lookat Asian Religions (M i nneap o l i s: Bet h any Ho use, 1985); Jul i us
Li ner, The Face of Truth (Lo n d o n : M acm i l l an , 1986); Eric Lo t t , God
and the Universe in the Vedantic Theology of Ramanuja (M ad ras:
Ram n u j a Research So ciet y, 1976) e Lo t t , Vedantic Approaches toGod
(Lo n d o n : M acm i l l an , 1980).
3
Sri Ram akr i sh n a (1836- 1886), cert a vez, t o co u seu d i scíp ul o
Naren (q ue, m ais t ard e, t o rno u- se Sw am i Vi vek an an d a e viajo u
p ara Ch i cag o , a f i m d e p art icip ar d o p ri m ei r o Par l am ent o d e
Relig iõ es M und i ai s, t o r nand o - se, por co n seq u ên ci a, u m a f ig ura
exp o en t e na i nt r o d ução d o p en sam en t o o ri ent al no Oci d en t e);
est e en t r o u em est ad o d e t r anse e vi u em u m cl arão " q ue t u d o ,
r eal m en t e, é Deu s, q u e n ad a exi st e, m as o d i vi n o , q u e o m u n d o
int eiro é seu co r p o , e t o d as as co isas são suas f o r m as" (Richard
Sch i f f m an , Sri Ramakrishna: A Prophet for a New Age [Nova York:
Parag o n Ho use, 1989] , p. 153).
4
Ext r aíd o d e Ch an d o g ya Up an i sh ad , The Upanishads, t r ad . Ju an
M ascar ó (Har m o n d sw o r t h , UK.: Pen g u i n , 1965), p. 117.
5
Ch r i st m as Hu m p h r eys,. Buddhism, 3a. ed . (Har m o n d sw o r t h , UK.:
Pen g u i n , 1962), p. 22.
6
HUMPHREYS co m en t a, por exem p l o , q u e m esm o d i st i nçõ es sist e-
m át i cas e int elect uai s ent re as p rincip ais co r r ent es d o b ud is-
m o (Hi nayana e M ah ayan a) são essen ci al m en t e i nsi g ni f i cant es:
" To d o s os ar g u m en t o s co m resp eit o a ' m el ho r ' e ' p io r' d evem
cessar. Ho m en s e m u l h er es, d ia e no it e, i nsp i ração e exp i r ação ,
cab eça e co ração , são al t er nad o s e não alt ernat ivo s e a d iscus-
são so b r e val o r relat ivo n ad a m ais é d o q u e d ois lad o s d a m esm a
m o ed a" (i d em , p. 51).
7
Sch i f f m an . Sri Ramakrishna, p. 214, m en ção d e Ro lland Ro m ai n ,
The Life of Ramakrishna (Cal cut á: Ad vai t a Ash r am a, 1931), p. 197.
8
Meditations ofMaharishi Mahesh Yogi (No va York: Ban t am , 1968),
p .18.
9
HUMPHREYS. Buddhism, p. 203.
10
Upanishads, p p . 83- 84.

339
O u n i v e r so ao l ad o

" H ESSE, Her m an . Siddhartha, t r ad . Hilda Ro sner (Nova York: N ew


Di rect i o ns, 1951), p .115.
1 2
M ASCARÓ. Upanishads, p. 12.
13
Sri Ram akr i sh n a, q u e at rib ui ao d eus h i n d u Kali as cat eg o rias d e
co n h eci m en t o e i g no r ânci a, p ureza e i m p u r eza, b em e m al , co n-
f essa a d i f i cul d ad e d e vi ver al ém d a d ual i d ad e d a ver d ad e e d a
m en t i r a. Po r ém , el e o f az p o r am o r a Kali (i m p l i can d o u m a d u -
al i d ad e co m o ó d io ) e relat a ao s seus d i scíp ul o s: " Não p u d e m e
co n ven cer a d esist ir d a ver d ad e" (o q u e i m p l i ca a d u al i d ad e co m
f al si d ad e); (m en ci o n ad o p o r Sch i f f m an , Sri Ramakrishna, p. 135).
14
Na o b ra Sidarta, p o r exem p l o , Sid art a f ere m ui t as p esso as en -
q u an t o p ro sseg ue o seu cam i n h o r u m o à u n i d ad e co m o Um .
Co n t u d o , ele j am ai s se d escul p a o u co n f essa.Tam p o u co isso t em
sent i d o em seu si st em a.
15
HESSE. Siddhartha, p. 116.
16
Id em , p .119.
17
- HUMPHREYS. Buddhism, p. 23; Hesse. Siddhartha, p. 106.
18
HESSE. Siddharta, p .110.
19
Id em , p .110- 11.
2 0
Id em , p. 78.
2 1
M ASCARÓ. Upanishads, p. 23.
2 2
HESSE. Siddhartha, p. 122.
2 3
A hist ória e o t em p er o d o zen - b u d i sm o p o d em ext raíd o s d e
Ro b ert Li n ssen , Zen: The Art of Life (No va York: Pyr am i d , 1962);
St ewar t W, Ho l m es e Ch i m yo Ho ri o ka, Zen Art for Meditation
(Tó q u i o : Charles e. Tut t l e, 1973); D. T. Su zu ki , An Introduction to
Zen Buddism (Nova York: Gro ve, 1964). Há i núm er as t ent at i vas d e
m o st rar q u e o Zen é co nsi st ent e co m a f é crist ã o u q u e os ensi na-
m en t o s d e Jesus ref let em a co m p r een são zen.To d as as t ent at i vas
q u e li - p o r exem p l o , Ro b ert Sohl e Aud r ey Carr, ed s., The Gospel
According to Zen (No va York: N ew Am er i can Library, 1970) - são
p r o f u n d am en t e en g an o sas, pois, i nvar i avel m ent e, o s ensi no s d e
Jesu s r eceb em u m a i nt erp ret ação zen t o t al m en t e d i sco r d ant e
d e q ual q uer co isa q u e Jesu s p ud esse t er i n t en ci o n ad o ensinar,
d ad o o seu lugar no t em p o e esp aço .

340
Notas

2 4
Li N SSEN .Zen , p. 142- 43.
2 5
KVALOY, Si g m u n d o . " N o r weg i an Eco p hi l o so p h y an d Eco p o lit ics
an d Thei r Inf luence f r o m Bu d d h i sm " em Buddhist Perspectives on
the Ecocrisis, Th e Wh eel p ub l i cat i o n 346/ 348 (Kand y, Sri Lan ka:
Bud d hi st Pub licat io n So ciet y, 1987),p .69.
26
M YO CH O , m est re zen (1281- 1337), " Th e Orig inal Face" em A First
Zen Reader (Ru t l an d ,Vt : Charl es E.Tut t le, 1960), p .2 1 .
2 7
Co m f r eq u ên ci a, esse koan é t r ad uzi d o por " Qual é o so m d e
u m a m ão ap l au d i n d o ?" p o r ém , a p alavra ap l aud i r não ocorre em
j ap o n ês.
2 8
M IURA, Issu e SASAKI, Ru t h Fuller. The Zen Koan (N o va York:
Har co u r t Brace an d Wo r l d , 1956), p. 44; Su zu k i , Introduction,
pp. 59,99- 117.
2 9
SUZUKI. Introduction, p. 39, escreve, p o r exem p l o : " Zen d eseja
elevar- se aci m a d a ló g ica. Zen d eseja enco nt r ar u m a af i r m ação
sup eri o r o n d e não exi st am ant ít eses. Po rt ant o , n o zen Deus não
é n eg ad o , t am p o u co i m p o st o ; ap en as não há u m Deus no zen
t al q u al é co n ceb i d o por m en t es crist ãs e judaicas'.' Veja t am -
b ém p p . 48- 57.

Cap í t ul o 8. U m universo separado


A Nova Era
1
Em 1976 e m esm o em 1981, ut ilizei a p alavra " i nf ânci a" Em 1997,
alt erei- a p ara " ad o l escênci a"
2
Tal vez Sam Keen foi q u em t en h a ch eg ad o m ais p ert o co m seu
b reve art i g o " The Co sm i c Versus t he Rat i o nal " em Psychology
Today, j u l h o d e 1974, p p . 56- 59.
3
FERGUSON, M ari l yn. The Aquarian Conspiracy: Personal and Social
Transformation in the 1980s (Los Ang el es: Jer em y P.Tarcher, 1980)
[A conspiração aquariana, t rad . Carlos Evarist o M . Co st a (Rio d e
Jan ei r o : Reco rd , 1991)], e Frit jof Cap r a, The Turning Point Science,
Society and the Rising Culture (Nova York: Ban t am , 1982) [O pon-
to de mutação: a ciência, a sociedade e a cultura emergente, t r ad .
Ál varo Cab ral (São Paulo : Círculo d o Livro , 1986)]. De Cap ra, veja
t am b ém , The Tao of Physics (Nova York: Ban t am , 1977) [O tao
da física, t rad . Jo sé Fer nand es Dias (São Paulo : Cult rix, 1986)].

341
O u n i v e r so ao l ad o

Os livros d e Ken Wi l b er i n cl u em , Spectrum of Concisousness


(Wh eat o n , III: Quest , 1977; 2 ed . 1983); See No
a
Boundary
(Bo uld er, Colo.: Sh am b h al a, 1981); Up from Eden (Bo uld er, Co l o :
Sh am b h al a, 1983); A Sociable God (No va York: M cGraw- Hi l l , 1983);
Sex, Ecology, Spirituality (Bo st o n: Sh am b h al a, 1995); A Brief History
of Everything (Bo st o n: Sh am b h al a, 1996); The Marriage ofSense and
Soul (Nova York: Bro ad way, 1999): One Taste: The Journals of Ken
Wilber (Bo st o n: Shanb hal a, 1999); Integral Psychology (Bost on:
Shambhala,2000);/ A7/ ieoryor"Evef- yfh/ ng(Bost on:Shambhala,2000)e
Boomeritis (Bo st o n: Sh am b h al a, 2002). Para o b t er u m r esum o
e u m a análise so b re o si st em a d e Wilb er, veja Do ug l as Gro o -
t hui s, " Ken Wi l b er" em Baker Dictionary of Cults (Grand Rap id s,
M i ch.: Baker, no prelo) e a revisão d e Tylor Jo h n st o n so b re a o b ra
A Brief History of Everything, no Den ver Jo u r n al 5 (2002)
< www.d en ver sem i n ar y.ed u / d j / ar t i cl es02/ 0400/ 0404/ p h p > .
4
Veja, em esp ecial, t rês livros d e Do ug las R. Gro o t huis: Unmasking
the New Age (Do wner s Gro ve, III.: Int erVarsit y Press, 1986),
Confronting the New Age (Do wners Gro ve, III.: Int erVarsit y Press,
1988) e Jesus in an Age of Controversy (Eug ene, Ore.: Harvest
Ho use, 1996). Est e últ im o lida co m os co nceit os d a Nova Era sobre
Jesus. Inúm eras o rg anizaçõ es esp ecializad as est ão aco m p an h an -
do o d esenvo l vi m ent o , ent re elas a Spirit ual Co unt erf eit s Project ,
P. O. Box 4308, Berkeley, CA 94704; Christ ian Research Inst it ut e,
P. O. Box 500, San Ju an Cap ist rano, CA 92693 e CARIS, P. O. Box
2067, Cost a M esa, CA 92626. Cad a u m a delas p ub lica lit erat u-
ra, avaliand o o m o vi m en t o d a Nova Era.Veja t am b ém Ted Pet ers,
TheCosmicSelf'(São Francisco :Harp erSan Francisco, 1991) e u m livro
cujo t ít ulo p arece u m p o uco p rem at uro : Vishal M ang al wad i , When
the New Age Gets Olá (Do wners Grove, III.: Int erVarsit y Press, 1992).
5
HERRICK, Jam es A. The Makinf of the New Spirituality (Do wn er s
Gr o ve, III.: Int erVarsit y Press, 2003). Ig ual m ent e, veja Carl A.
Raschke, The Interruption of Eternity: Modern Gnosticism and the
Origins ofthe New Religious Conciousness (Chi cag o : Nelson Hall,
1980).
6
Veja " Bo o m Ti m es o n t he Psychi c Fro nt ier" r ep o r t ag em d e cap a da
revist a Ti m e, d e 4 d e m ar ço d e 1974, q u e d em o n st r o u o int eresse
no f en ó m en o p síq uico , ent re eles, ESP, p si co ci nese (a cap aci d ad e

• 342 •
Notas

m en t al d e inf luenciar o b j et o s f ísico s), a f o t o g raf ia kirliana (q ue,


su p o st am en t e, m o st ra a " aura" d e seres vi ven t es), a cura p ara-
n o r m al , acu p u n t u r a, cl ar i vi d ênci a, exp eri ênci as "fora d o co r p o "
p r em o n i ção (co n h eci m en t o p r évi o d e even t o s). Um an o mais t ar-
d e, a Saturday Review, d e 22 d e f evereiro d e 1975, realizou u m a
co b er t u r a p aralela à f eit a p ela revist a 77rne, p o r ém , em u m p lano
m ai s so f i st i cad o , su g er i n d o q u e a p o p u l ar i d ad e d a no va co ns-
ci ênci a co rria em cam i n h o s m ai s p r o f und o s d o q u e m er am en t e
m o d as cult urais p assag eiras, co m o a t eo l o g ia so b re a m o r t e d e
Deus. Not ícias so b re as cel eb r açõ es d a No va Er a, ao t em p o d a su -
p ost a Co nver g ênci a Har m ó n i ca (ag o st o d e 1987),est avam est am -
p ad as em m uit o s j o r nai s e revist as am er i can as, sen d o q u e m ui t o s
art ig o s ut ilizavam u m ling uajar iró nico . A Nova Era d esp er t a o in-
t eresse p úb l i co , m as n em sem p r e o resp eit o p úb l i co .
7
O New Age Journal p asso u p o r u m a int eressant e m et am o r f o se
d esd e o seu l an çam en t o , em 1974, q u an d o surg iu co m o u m a p u -
b l i cação f eit a por co nf esso s e idealist as ad ep t o s d o m o vi m en t o .
So b a am eaça d e ext i n ção , em 1983, seu mais an t i g o d iret o r es-
cr eveu q u e a p ub l i cação (set em b r o d e 1983, p. 5) havia receb id o
u m a injeção f inanceira e co m eçava, não ap enas a ap r esent ar u m
no vo visual - d i ag r am ação m ais p ro f issio nal, p ap el co u ch ê e i m -
p ressão em q uat ro co res - co m o t am b ém t i nha u m a no va d ireção
ed i t o ri al , co ncent rand o - se m en o s nos mais ext r em o s exp o en t es
d o p en sam en t o d a Nova Era e mais nas f ro nt eiras ent r e a Nova
Era e a van g u ar d a d a cul t ura am er i can a. Em j u n h o d e 1984, a
m u d an ça foi sinalizad a p o r no vo s n o m es em seus créd it o s e p o-
siçõ es ed it o riais- chave. A revist a p asso u , ent ão , a reflet ir m ui t o s
m ais d o f u n d am en t o est ab el eci d o d a Nova Era q u e seus cant o s
vi vo s. Al g u ém p o d e int erp ret ar t al m u d an ça co m o u m sinal d a
vi n d a d o p ró p rio m o vi m en t o d a No va Era, u m a t ent at i va d e al -
cançar o co m p r ad o r co m u m d e b anca d e j o r nal co m ideias mais
p alat áveis do m o vi m en t o , o u a co m erci al i zação d a Nova Era por
ad m i ni st r ad o r es d e classe m éd i a. M esm o assi m , q u an d o u m a
no va ed it o ra (Jo an Du n can Oliver) assu m i u o co m an d o , em ag o s-
t o d e 1996,el a reviu as ed i çõ es ant erio res e co m en t o u q u e" o f o co
t em p er m an eci d o co nst ant e" ; nas p alavras d e u m ed it o r ant erio r:
"Nós est am o s real m ent e f al and o so b re cura d o esp írit o " (ag o st o
d e 1996, p. 6). Em 2002, a p ub l i cação m u d o u seu n o m e para Body

343
O u n i v e r so ao l ad o

& Soul [Corpo e Alma), t al vez u m a ad m i ssão d e q u e a Nova Era j á


não f o sse m ais n o vi d ad e, ret end o o vi st o so f o r m at o ant erior, m as
ag o ra ap r esen t an d o u m co n t eú d o o r i ent ad o à saú d e. 0 ed it o r
co m en t o u :" Po r 28 ano s, a p ub l i cação rep o rt o u so b re no vo s ele-
m en t o s d e u m em er g en t e m o vi m en t o holíst ico - m o vi m en t o q u e
ag o r a t o rno u- se o est ilo d e vi d a d e m i l hares, sen ão d e m i l hõ es
d e am er i can o s. Ag o r a, co m a revist a Body & Soul, p r o m et em o s
d ar co n t i n u i d ad e à essa t rad ição , t r azend o a vo cê o m el ho r em
id eias, t en d ên ci as e no vi d ad es holíst icas [Body & Soul [ m arço /
ab r i l , 2002] , p. 6). A hi st ó ria d a revist a é u m est u d o so b r e co m er -
ci al i zação : o esp írit o t ransf o rm o u- se em d ó l ares e car n e.
8
Revist a Ti m e, 7 d e d ezem b r o d e 1987, p p . 62- 72.
9
A t ent at i va d e M acLai ne, ap ó s liderar i núm er o s sem i nári o s d e
f i m d e sem an a, d e co nst ruir o seu p ró p rio cent ro d a Nova Er a, no
N o vo M éxi co , t eve d e ser ab an d o n ad a q u an d o " m o r ad o r es locais
p r o t est ar am , al eg an d o q u e o lug ar era eco l o g i cam en t e m ui t o f rá-
gil para aco m o d ar os p l ano s d a est rel a" (Time, 10 d e j an ei r o d e
1994). M uit o t em p o d ep o i s, ela rel em b r a o f at o d e u m and ar i l ho
b elg a d esejar f alar co m ela so b re " Deus, o uni verso e o sent i d o d a
vi d a" e d e p ed ir sua " b ên ção " Ela recuso u- se a f azer isso p o r q ue
" não g o st aria d e ser vist a co m o u m g ur u d a No va Era. Essa é a
razão p ela q ual desist i d e liderar m eu s sem i nár i o s it inerant es.
M uit as p esso as co n ced er am seus p o d eres a m i m " (The Camino
[Nova York: Po cket , 2000] , p. 140). As vul t o sas ven d as d o ro m an-
ce (q ue al g uns co n si d er am co m o não f i cção ), The Celestine Pro-
phecy (Nova York: Warner, 1993) [A Profecia Celestina, t rad . Sylvia
Bello (Rio d e Janei r o : Ob j et i va, 1997)], p o d eria levar al g u ém a ar-
g u m en t ar q u e Jam es Red f ield havia sub st i t uíd o Shirley M acLai ne
co m o o m ai s co n h eci d o g u r u pop d a Nova Era. Po r ém , essa o b ra,
q u e u m d os crít icos ch am o u d e "o pior livro so b re Nova Era q u e
li" p o ssui ai nd a m en o s co n t eú d o e mais t o lices q u e q ual q uer
o ut ra co isa i m ag i n ad a por M acLai n e em seus p iores d ias. Esse
p ri m ei ro livro, b em co m o sua seq u ên ci a, The Tenth Insight (Nova
lork, Warner 1996) [A décima profecia, t rad . Ad alg isa Cam p o s da
Silva (Rio d e Janei r o , Ob j et i va, 1997)], est ão f ad ad o s ao esq ue
ci m en t o . Al an At ki n so n m o st r a co m o o p r i m ei ro livro veio a ser
escrit o e a recep ção co nf usa q u e r eceb eu em " Th e Celest ine

344
Notas

Pr o p h et " New Age Journal, ag o st o d e 1994, p p . 60- 65, 127- 29.


Por o ut r o lad o , M acl ai ne p r o sseg ui u co m suas aut o b i o g raf i as.
My Lucky Stars: A Hollywood Memoir (Nova York: Ban t am , 1995)
co n cen t r a- seem sua carreira prof issional;7/ ieCom/ no (2000) reco n-
t a os f ant ást i co s e asso m b r o so s even t o s d e u m a p er eg r i nação à
Esp an h a e os ensi no s esp irit uais d e Jo h n , t h e Sco t , u m d e sues
esp írit o s g ui a. Fi nal m ent e, M acLai ne, j u n t am en t e co m seu cão ,
escr ever am Out on a Leash: Exploring the Nature of Reality and
Love (No va York: At ria Bo o ks, 2003).
0
A revel ação d e Bo b Wo o d w ar d d an d o co nt a q u e, à ép o ca, a
p r i m ei r a- d am a, e hoje sen ad o r a, Hillary Ro d h am Cl i nt o n t em
p r o cur ad o os co nsel ho s d e Jean Ho ust o n , u m a f am o sa co nse-
lheira d a No va Era, cau so u cert a ef ervescênci a por al g u m as se-
m an as no verão d e 1996, p o r ém , em d ezem b r o j á havia sid o t o -
t al m en t e esq u eci d a. Veja Bo b Wo o d w ar d , The Choice (Nova York,
Si m o n & Schust er, 1996), p p . 55- 57,129- 35,271 - 72,412- 13. An u n -
ci ant es valeram - se d a co n exão : u m an ú n ci o so b re u m a co nf e-
rência em n o vem b r o d e 1996, co m a fot o d e Jean Ho u st o n , foi
vei cu l ad o co m a no t a:" Am i g a e co nsel hei ra d e Hillary Cl i nt o n" no
Chicago Tribune, 28 d e j u l h o d e 1996, sec. 14, p. 1 1 . Ho ust o n en -
si no u f ilo so f ia, p sico lo g ia e relig ião na Co l u m b i a Universit y,
Hunt er Co lleg e, N ew Scho o l for Social Research e M ar ym o u n t
Co l l eg e, send o t am b ém ex- p resi d ent e d a Asso ci at i o n for Hu m a-
nist ic Psycho lo g y. Al g u m as p ub l i caçõ es enco nt r am - se m en ci o -
nad as na no t a 13, m ais ad i ant e.
1
Ent revi st a d e Jer r y Avro n co m Ro b ert M ast ers e Jean Ho ust o n,
em " The Variet es of Po st p syched el i c Exp er i en ce" Intellectual
Digest, m arço d e 1973, p. 16.
2
Id em , p. 18.
3
HOUSTON, Jean . " To war d Hi g her- Level Ci vi l i zat i o ns" The Quest,
p r i m aver a d e 1990, p. 42. Esse m o vi m en t o g eral t em si d o o
t em a cent r al em seus i n ú m er o s livro s, i ncl ui nd o - se Life Force:
The Psycho-historical Recovery ofthe Self (N o va Yo rk: Del l , 1980),
Goodseed: The Journey of Christ (Wh eat o n , III.: Qu est , 1992),
The Search for the Beloved: Journeys in Scared Psychology (Los
An g el es: Jer em y P. Tarcher, 1987), A Mythic Life (São Fr anci sco :
Har p er San Franci sco , 1996). Jump Time (No va York: Jer em y P.

345
O u n i v e r so ao l ad o

Tarcher, 2000) e Mystical Dogs (M ak aw ao , M au i , Haw ai i : Inner


Ocean , 2002). Trat a- se d e u m el em en t o - ch ave no s r o m an ces
d e Jam es Red f i el d . O so ci ó l o g o Geo r g e Leo n ar d , ed i t o r d a
revist a Look, ant es d a d i vi são , p r evi u a m esm a t r an sf o r m a-
ção r ad i cal , ad i an t an d o o " su r g i m en t o d e u m a n o va n at u r e-
za h u m an a" Sua f é é i n ab al ável : " Essa no va esp éci e evo l u i r á"
(Geo r g e Leo n ar d , " N o t es o n t h e t r an sf o r m at i o n " Intellectual
Digest, set em b r o d e 1972, p p . 25, 32). Shi rl ey M acLai n e p re-
g a o m esm o : t an t o a t ecn o l o g i a co m u m , q u an t o a " t ecn o -
lo g ia i nt eri o r" t em p r o g r ed i d o , at est an d o a " evo l ução da
m en t e h u m an a" e " u m sat o f o r m i d ável n o p r o g r esso d a h u -
m an i d ad e" (Shirley M acLai n e, lt's ali in the playing [No va York:
Ban t am , 1987] , p p . 334- 35 [A vida é um palco, t r ad . M yr i am
Cam p el l o (Rio d e Jan ei r o , Reco r d , 1988).
, 4
" T h e Gu r u an d t h e Paud i t : An d r ew Co h en e Ken Wi l b er em
Di al o g u e" What Is Enlightenment, p r i m aver a/ ver ão , 2 0 0 3 , p. 86.
15
Id em , p .93.
1 6
A leit ura d e t ext o s ant i g o s à luz d e int eresses co n t em p o r ân eo s
sem p erceb er q u e t ais t ext o s est ão send o r em o vi d o s d e seus
resp ect i vo s co nt ext o s int elect uai s e co sm o vi são , co nst it ui u m a
p eq u en a ind úst ria ent re os sab i chõ es m o d er n o s. Em Godseed,
por exem p l o , Ho ust o n int erp ret a Jesus à luz d os t ext o s g nó s
t ico s d o século II, em vez d e à luz d os d o cu m en t o s d o Novo
Test am en t o d o século I. Jam es Red f ield ap r esen t a u m p erso
n ag em em sua o b r a The Celestine Prophecy que d i z:" Qu an d o os
seres h u m an o s co m eçam a elevar suas vi b raçõ es a um nível em
q u e o ut ro s não p o d em vê- los [...] isso sinalizará q ue est am o s
at r avessand o a barreira ent re est a vi d a e o o ut ro m u n d o do q ual
vi em o s e p ara o q ual vam o s. Esse cr u zam en t o d e co nsciência
é o cam i n h o m o st r ad o por Crist o. Ele ab riu- se p ara a energ i a at e
q u e est ivesse t ão i l u m i n ad o q u e f o sse cap az d e and ar so b re as
ág uas (p. 241). O ap ó st o l o Paulo j am ai s co n f u n d i u a sua p róp ria
i d ent i d ad e co m a d e Crist o, m as Wi l b er ap r esent a o ap ó st o lo
f azen d o isso; ele t r an sf o r m a: " Crist o vi ve em m i m " (Gl 2.20);
em : "O ' eu ' d ef init ivo [de cad a p esso a] é Crist o " {A brief histoiy
of everything, p. 132). Eu t en h o d i scut i d o t ais eq uívo co s de

346
Notas

int erp ret ação , f o r n ecen d o i núm eras ilust rações em Scripture
Twisting (Do wn er s Gro ve, III.: Int erVarsit y Press, 1980), em b o r a
não p r i m ar i am en t e so b re f o nt es d o No vo Test am en t o .
17
WEIL, An d r ew . The Natural Mind: A New Way of Looking at Drugs
and the Higher Consciousness (Bo st o n: Ho u g h t o n M if f lin, 1973),
p. 205 [drogas e estados superiores da consciência, t rad . N o rb ert o
d e Paula Li m a (São Pau l o :Gr o u n d , 1987)] ; su m ar i zad o em Psycho-
logy Today, o ut ub r o d e 1972. Em 1983 (rev. 1993), Weil escr eveu
u m livro so b re d ro g as m o d i f i cad o ras d a m en t e para ad o les-
cent es e seus p ais, From Chocolate to Morphine: Everything You
need to Know About Mind-Altering Drugs, co- aut o ria d e Winif red
Ro sen , rev. ed . (Bo st o n: Ho u g h t o n M if f lin, 1993). Aq ui os aut o res
d i st i n g u em ent re o uso d e d ro g as (q ue eles ap r o vam ) e o ab u so
d e d r o g as (co nt ra o q ual eles l u t am );a m aio ria d o s cap ít ul o s so b re
t i p o s i nd i vi d uai s d e d ro g as t er m i n a co m " su g est õ es e p r ecauçõ es"
para o uso d e t ais d ro g as. O cap ít ul o so b re d ro g as m o d i f i cad o ras
d a m en t e, por exem p l o , d et al ha o q u e al g u ém d eve f azer o u não
para o b t er o sen t i m en t o d e b em - est ar q u e as d r o g as, em g eral ,
evo cam . Weil e Ro sen o b ser vam n o p ref ácio p ara a seg u n d a ed i-
ção q u e a p rim eira ed i ção foi b ani d a d e al g u m as l i vr ar i as,em b o -
ra eu t en h a en co n t r ad o o livro em nossa b ib lio t eca d o bairro.
18
Do u g l as Gr o o t h u i s o b ser va q u e Ti m o t h y Leary, o m ai s p o p u -
lar g u r u d as d r o g as, nas d écad as d e 1960 e 1970," m o d i f i co u o
seu f am o so cr ed o d a d écad a d e 1960:' Si n t o n i ze- se, lig ue- se e
caia f ora' : p ar a:' Li g u e- se, inicialize- se e d esco nect e- se' , co m en -
t an d o q u e o co m p u t ad o r p esso al é o " LSD d a d écad a d e 1990"
En t r et an t o , Leary ai n d a, p el o m en o s o casi o n al m en t e, f ez uso
d o LSD p r ó xi m o d o f im d e sua vi d a. Veja Do u g l as Gr o o t h u i s,
" Tech n o sh am an i sm : Dig it al Deit ies' ,' em The Soul in Cyberspace
(Gr an d Rap i d s, M i ch .: Baker, 1997), p p . 105- 20. En t ão , i g u al m en -
t e Eu g en e Tayl o r r ep o r t a q u e o uso d e d r o g as al u ci n ó g en as
t em exp er i m en t ad o u m r et o r no (" Psyched el i cs: Th e Seco n d
Co r n i n g " Psychology Today, j u l h o / ag o st o , d e 1996, p p . 56- 59,
84). N ão f ica cl aro se esse r essu r g i m en t o d o uso d e d r o g as est á
l i g ad o ao p en sam en t o d a N o va Era o u é p r i n ci p al m en t e recre-
aci o n al .

347
O u n i v e r so ao l ad o

1 9
LEM LEY, Br ad ." M y Di n n er w i t h A n d y " N e w Ag e Jo u r n al , d ezem -
b r o d e 1995, p. 66. Os livros d e Weil q u e en f at i zam a saú d e i n-
c\ uem:HealthandHealing:UnderstandingConventionalandAlter-
native Medicine (Bo st o n : Ho u g h t o n M i f f l i n, 1983), Natural Health,
Natural Medicine: A Comprehensive Manual for Wellness and
Self-Care (Bo st o n : Ho u g h t o n M if f lin, 1990) e Spontaneous
Healing: How to Discover and Embrace Your Body's Natural Abili-
ty to Maintain and Heal Itself (Nova York: Al f red A. Kno p f , 1995)
[cura espontânea: como descobrir e intensificar sua capacidade
natural de manter a saúde e o bem-estar, t r ad . Al yd a Ch r i st i n a
Sauer (Rio d e Jan ei r o : Ro cco , 1998). Est e ú l t i m o livro f i g u r o u na
list a d o s m ais ven d i d o s d o New York Times por cer ca d e q u at r o
m eses, co m ven d as d e 400 mil exem p l ar es em p o u co s m eses
(Lem l ey, " M y Di n n er w i t h A n d y " p. 66). Em b o r a el e co n t i n u e
f o r n ecen d o i n st r u çõ es so b r e f o r m as m ai s b r an d as d e m ed i t a-
ção (p or exem p l o , Cura Espontânea, p. 194- 209), em seus livros
so b r e cu r a, Weil p ar ece r ei vi nd i car m u i t o m en o s p el o s est ad o s
al t er n ad o s d e co n sci ên ci a q u e em seus livros an t er i o r es.Ou t r o s
livros d e Weil i n cl u em : Marriage of the Sun and Moon: A Quest
for Unity in Consciousness (Bo st o n : Ho u g h t o n M i f f l i n, 1998);
Eight Weeks to Optimum Health (No va York: Al f r ed A. Kno p f ,
1997) e Healthy Kitchen: Recipes for a Better Body, Life and Spirit
(N o va Yo rk: Al f red A. Kno p f , 2002).
2 0
Para u m a i n vest i g ação m ai s ab r an g en t e d o t r ab al h o d esses
p si có l o g o s e n eu r o ci en t i st as sem se at o lar no s d et al h es, veja
M ari l yn Fer g u so n , The Brain Revolution: The Frontiers of Mind
Research (N o va Yo rk: Tap l i ng er, 1973), em esp eci al os cap ít u -
los 1 ,3 ,6 - 1 2 ,1 7 ,2 0 - 2 3 . Sua b io g raf ia f o r n ece u m b o m co m eço
p ara u m est u d o p r o f u n d o so b r e os p r i m ei r o s p en sad o r es d a
No va Er a.Os t r ab al h o s q u e p o d em ser exam i n ad o s são :Wi l l i am
Jam es, Varieties of Religious Experience (1902; reim p resso , Nova
York: M ent o r, 1958), p al est r as16- 17, C. G. Ju n g , Modem Man in
Search of a Soul (N o va Yo rk: Har co ur t Brace, 1933), esp eci al -
m en t e o cap ít u l o 10; Ab r ah am M asl o w, Religious Values and
PeakExperiences (Co l u m b u s:Oh i o St at e Uni ver si t y Press, 1962);
Al d o u s Huxley, The Doors of Perception and Heaven and Hell
(N o va Yo rk: Har p er & Ro w, 1963); St ani sl av Grof, " Beyo n d

348
Notas

t h e Bo und s of Psycho analysis" Intellectual Digest, set em b ro d e


1972, p p . 86- 88; q uant o a An d r ew Weil, veja as not as 17 e 19;
o livro mais int eressant e d e Jo h n Lilly é The Center of the
Cydone:An Autobiography of Inner Space (Nova York: Jul i an, 1972).
21
Gr o o t hui s. Unmasking, p .80; veja o cap ít ul o so b re a p sico lo g ia d a
Nova Er a, p p .71- 91.
2 2
RoszAK.Thedoro. Where the Wasteland Ends: Politics and Transcen-
dence in Postindustrial Society (Gar d en Cit y, N.Y.: An ch o r , 1973)
e UnfinishedAnimal:An Adventure in the Evolution of Conscious-
ness (N o va Yo rk: Har p er & Ro w, 1975); Wi l l i am Ir wi n Th o m p so n ,
At the Edge of History: Speculations on the Transformation of
Culture (N o va Yo rk: Har p er & Ro w, 1971) e Passages About Earth
(N o va Yo rk: Har p er & Ro w, 1974); vej a t am b é m , d e Th o m p so n ,
Darkness and Scattered Light (Gar d en Cit y, N.Y.: An ch o r , 1978)
e The Time Falling Bodies Take to Light (N o va Yo rk: St . M art in' s,
1981).
2 3
CASTANEDA, Car l o s. The Teachings of Don Juan: A Yaqui Way of
Knowledge (Ber kel ey: Un i ver si t y of Cal i f ó rnia Press, 1968) [A
erva do diabo: as experiências com plantas alucinógenas revela-
das por Don Juan, t r ad . Luzi a M ach ad o d a Co st a (Rio d e Jan ei r o :
Reco r d , d e 1982)] , A Separate Reality: Further Conversations with
Don Juan (N o va York: Si m o n & Schust er, 1971) [Uma estranha
realidade, t r ad ., Luzia M ach ad o d a Co st a (Rio d e Jan ei r o : Reco r d ,
d e 1983)] , Journey to Ixtlan: The Lessons ofDon Juan (N o va York:
Si m o n & Schust er , 1972) [Viagem a Ixtlan, t r ad . [ Luzia M ach ad o
d a Co st a (Rio d e Jan ei r o : Reco r d , d e 1983)] , Tales of Power (N o va
Yo rk: Si m o n & Schust er, 1974) [Portas para o infinito, t r ad . [Luzia
M ach ad o d a Co st a (Rio d e Jan ei r o : Reco r d , d e 1984)] , The Eagle's
Gift (N o va York: Po cket , 1982) [O presente da águia, t r ad . [Vera
M aria Wh at el y (Rio d e Jan ei r o : Reco r d , d e 1983)] , The Fire from
Within (N o va York: Si m o n & Schust er , 1984) [O fogo interior, t r ad .
[ An t o n i o Tr ân si t o (Rio d e Jan ei r o : Reco r d , d e 2000)] , The Power of
Silence (N o va York: Si m o n & Schust er , 1987) [O poder do silêncio:
novos ensinamentos de Don Juan/ Carlos Casf aned o , t r ad . An t o n i o
Tr ân si t o (Rio d e Jan ei r o : Reco r d , d e 2000)] , The Art of Dreaming
(N o va Yo rk: Har p er Per en n i al , 1993) [A arte de sonhar, t r ad . Al ves
Cal ad o (Rio d e Jan ei r o : Reco r d , d e1994)] , 5/7enf Knowledge (Lo s

349
O u n i v e r so ao l ad o

An g el es: Cl ear g r een , 1996), The Active Side oflnfinity (N o va York:


Har p er Co l l i ns, 1998), Magicai Passes: The Practical Wisdom ofthe
Shamans of Ancient México (N o va Yo rk: Har p er Co l l i n s, 1998) e
The Wheel ofTime: The Shamans of México: Their Thoughts About
Life, Death and the Universe (Lo s An g el es: La Ei d o l o n a, 1998). Os
livros m ai s r ecent es d essa list a, em b o r a o casi o n al m en t e ap ar e-
cessem nas list as d o s m ai s ven d i d o s, n em d e l o n g e p r o vo car am
o m esm o i m p act o p ú b l i co d o s t rês p r i m ei r o s.
Lo g o os leit o res co m eçar am a se q u est i o n ar se Cast an ed a t i n h a
cr i ad o o f ei t i cei ro índ i o Yaq ui d e sua f ért il i m ag i n ação ; veja o s
vári o s p o n t o s d e vi st as exp r esso s p o r crít i co s co m o Jo yce Caro l
Oat es, em u m a ant o l o g i a d e Dani el C. N o el , ed ., Seeing Casta-
neda (N o va Yo rk: PutnarcVs So n s, 1976). Ri char d De M ille p o d e
m u i t o b em r eceb er os cr éd i t o s por d esm ascar ar d e m o d o co n -
vi n cen t e o carát er f ict íci o d o s livros d e Cast an ed a; veja sua o b r a
Castaneda's Journey: The Power and the Allegory (Sant a Bár b ar a,
Calif.: Cap r a, 1976). Não o b st an t e, no p ref áci o d o livro The Power
of Silence, Cast an ed a su st en t a: " M eus livro s são u m relat o verí-
d i co d e u m m ét o d o d e en si n o q u e Ju an M at u s, u m f ei t i cei ro
i n d íg en a m exi can o , ut i l i zo u p ara m e aj ud ar a co m p r een d er o
m u n d o d o s f ei t i cei ro s" (p . 8). Cast an ed a, sem p r e evasi vo , q u e-
b ro u o si l ênci o em u m a en t r evi st a co m Keit h Th o m p so n , no New
Age Journal, ab ril d e 1994, p p . 6 6 - 7 1 , 152- 156. Aq u i ele n o va-
m en t e d ef en d e suas o b r as co m o u m an t r o p ó l o g o p ar t i ci p an t e,
p o r ém , no p r o cesso el e t ece co m en t ár i o s q u e su sci t am m ais
q u est õ es d o q u e f o r n ecem r esp o st as. No en t an t o , o an t r o p ó -
lo g o Clif f o rd Geer t z p r o vavel m en t e f al a p o r m u i t o s d e seus
co l eg as, q u an d o af i r m a: "Os livros d e Cast an ed a n ão p o ssu em
p r esen ça na an t r o p o l o g i a" (ci t ad o p o r A n u p am a Bh at t ach ar ya,
" Th e Rel u ct ant So r cer er " < www.l i f ep o si t i ve.co m / sp i r i t / t r ad i t i o -
n al - p at h s/ so r cer y/ car l o s- cast an ed a.asp > ).
A p o lém ica em t orno d e Cast aned a co nt inuo u a caract erizar os
art igos q ue surgiram após as not ícias sobre sua m o rt e. Veja, por
exem p l o , Bhat t acharya, " The Reluct ant Sorcerer"; Keit h Th o m p -
so n, "To Carlos Cast aned a, Wherever You Are" < www.b cint ernet .
net / ~ newm an/ Cast aned a.ht m > e Pet er Ap p leb o m e," Carlo s Cast a-
ned a, M yst ical Writ er, Dies 72", New York Times, 19 d e j u n h o d e 1998.

350 •
Notas

Cap r a, O tao da física, Ponto de mutação, cap ít ul o 3 e GaryZukav,


The Dancing Wu Li Masters (No va York: Ban t am , 1980) [A dan-
ça dos mestres Wu Li: Uma visão geral da nova física, t r ad . ECE -
Ed it o ra d e Cul t ura Esp irit ual (São Paulo : ECE, 1989)], Veja
St even Wei n b er g , "Sokal's Ho ax" New York Review of Books,
8 d e Ag o st o d e 1986, p p . 11- 15, e Vi ct o r J. St eng er, " N ew Ag e
Physics: Has Sci ence Fo u n d t h e Pat h t o Ul t i m at e?" Free Inquiry,
ver ão d e 1996, p p . 7- 11. para crít icas q u an t o a q u al q u er t ent a-
t iva d e esb o çar i m p l i caçõ es m et af ísicas a part ir d e t eo rias físi-
cas co m o a m ecân i ca q u ân t i ca; veja t am b ém Richard H. Bub e,
Putting It AH Together: Seven Patterns for Relating Science and
the Christian Faith (Lan h am , M d .: Universit y Press of Am ér i ca,
1995), p p . 150- 62; e N ancy R. Pearcey e Charles B.Th axt o n , The
Soul of Science: Christian Faith and Natural Philosophy (Wh eat o n ,
III.: Cro ssway, 1994), p p . 189- 219.
Vej a, p o r exem p l o , a esp ecu l ação d e Th o m as so b r e o q u e aco n -
t ece à co n sci ên ci a h u m an a na m o r t e, em Lewi s Th o m as, The
Lives ofa Celi (N o va York: Ban t am , 1975), p p . 6 0 - 6 1. Su a f r eq u en -
t e m en ção à h i p ó t ese d e Gai a - a id eia d e q u e a t erra é u m or-
g an i sm o úni co - t am b ém é m u i t o co m u m ent r e os p en sad o r es
d a No va Er a.
LOVELOCK, J. E. Gaia: A New Look at Life on Earth (Nova York: Oxf o rd
Uni versi t y Press, 1979).
Um a excel ent e d i scussão crít ica so b re a m ed i ci n a holíst ica p o d e
ser en co n t r ad a em Paul C. Reisser,Teri K. Reisser e Jo h n Wel d o n ,
New Age Medicine (Do wn er s Gr o ve, III.: Int erVarsit y Press, 1987).
Esse livro co n t ém u m a am p l a b ib liog raf ia p ara aq uel es q u e d e-
sejam ap ro f und ar- se no assu n t o .
Veja, por exem p l o , Jean Wat so n, Postmodern Nursing and Beyond
(Nova York: Churchill Living st o ne, 1999); Vid et t e Todaro- Frances-
chi, The Enigma of Energy: Where Science and Religion Converge
(Nova York: Crossroad , 1999); Barbara Blat t ner, Holistic Nursing
(Eng l ewo o d Cliffs, N.J.: Prent ice- Hall, 1981); M argaret A. N ew m an ,
Health as Expanded Consciousness (St . Louis: C. V. M osby, 1986);
Lynn Keeg an, The Nurse as Healer (Albany, N.Y.: Delmar, 1994);
Dolores Krieger, The Therapeutic Touch (Eng l ewo o d Cliffs, N.J.:
Prent ice- Hall, 1979); Kat hleen Heinrich, " The Greek Go d d esses

351
O u n i v e r so ao l ad o

Sp eak t o Nurses" Nurse Educator 15, n°.5 (1990): 20- 24. Dois
p eriód icos p r o m o vem a en f er m ag em holíst ica: The Journal of
Holistic Nursing e Nursing Science Quarterly. Para u m a crít ica
so b re as t erap ias d e en f er m ag em d a Nova Era, veja Sharo n Fish,
" Therap eut ic To u ch : Healing Science of M et ap hysical Fraud " e
"A N ew Ag e for Nursing " Jo urnal of Christ ian Nursing , verão d e
1996, pp. 3- 11; out ros art ig os similares ap ar ecem nas ed içõ es d o
inverno d e 1998, o ut o no d e 2001 e verão d e 2002.
2 9
LEMLEY. My Dinner with Andy, p. 68. Ig ual m ent e, veja os livros escri-
t o s por Weil e m en ci o n ad o s na no t a 19.
3 0
Ap esar d e j á est ar en vo l vi d o à m u i t o s an o s, Ch o p r a é u m re-
cém - ch eg ad o à n o t o r i ed ad e na ár ea d e saú d e d a N o va Er a. A
hi st ó r i a en vo l ven d o a su a saíd a d o m o v i m en t o d e M ed i t ação
Tr an scen d en t al d e M ah ar i sh i M ah esh e su a r ísp i d a r ecep ção
p o r p ar t e d a m ed i ci n a co n ven ci o n al é r el at ad a p o r Gr eg o r y
Den n i s, " W h af s Dep p ak' s Secr et ?" N ew Ag e Jo u r n al , f ever ei -
ro d e 1994, p p . 50- 54, 78- 79, 128. Veja a r esen h a d e Do u g l as
Gr o o t h u i s so b r e o livro d e Deep ak Ch o p r a, The Seven Spiritu-
als Laws of Success: A Practical Guide to the Fulfillment ofYour
Dreams (San Raf ael , Calif .: Am b er - Al l en / N ew Wo r l d Li b r ar y,
1995), em Christian Research Journal, o u t o n o d e 1995, p p . 5 1 ,
4 1 . A Bi l i o t eca d o Co n g r esso cr ed i t a a Ch o p r a cer ca d e vi n t e
t ít u l o s d esd e 2000.
31
Shirley M acLai ne ch am a Kub rik d e " m est re m et af ísico " em
seu livro Dancing in the Light (Nova York: Ban t am , 1985), p. 262.
32
HEINLEIN, Ro b ert A. Stranger in a Strange Land (1961; reim p resso ,
Nova York: Berkerley, 1968).
33
KINNEY, Jay. " Th e M yst eri o us Revelat io ns of Philip K. Dick" Gnosis
Magazine, o u t o n o / i n ver n o d e 1985, p p . 6- 11.
3 4
O t ext o d esse livro foi p ub l i cad o . Veja Wallace Sh aw n e An d r é
Greg o ry, My Dinner with André (Nova York: Gr o ve, 1981).
3 5
As crít icas ao m o vi m en t o su r g i r am m u i t o m ai s ced o . Veja,
p o r exem p l o , a r esen h a d o livro d e Wei l , The Natural Mind, no
New York Times Book Review, 15 d e o u t u b r o d e 1972, p p . 27- 29.
Resen h as crít icas so b r e as o b r as d e Cast an ed a p er f azem u m a
leg ião . Veja a r ep o r t ag em d e cap a d a revi st a Time, 5 d e m ar ço
Notas

d e 1973, p p . 36- 45. In ú m er as anál i ses m ai s ab r an g en t es so b re


t o d o o m o vi m en t o r u m o a u m a no va co n sci ên ci a, m er ecem
u m a m en ção esp eci al p o r sua p r o f u n d a r ef l exão : Os Gu i n n es,
The Dust ofDeath (W h eat o n , III.: Cr o ssway, 1994), cap . 6- 8; R. C.
Zaeh n er , Zen, Drugs and Mysticism (N o va York: Vi n t ag e, 1974);
Sam u el M cCRack en , " Th e Dr u g s of Hab i t an d t h e Dr u g s of
Bel i ef " Commentary, j u n h o d e 1 9 7 1 , p p . 43- 52; M árci a Co vel l ,
" Vi si o ns of a N ew Rel i g i o n " Sat u r d ay Revi ew, 19 d e d ezem b r o
d e 1970; Ri ch ar d Ki n g ," Th e Ero s Et h o s: Cu l t in t h e Co u n t er cu l -
t u r e" Psychology Today, ag o st o d e 1972, p p . 35- 37,66- 70.
'THOM PSON. Passagens About Earth, p.124.
Jo h n Lilly ch am a o céreb r o d e" b i o - co m p u t ad o r " e o h o m em d e
" b elo m ecan i sm o " d esap o n t an d o o co m p an h ei r o d a no va co ns-
ci ênci a R. D. Laing (Lilly, Centerof the Cyc/ one, p p .4 ,1 7 ,2 9 ).
' Cap r a. O t ao d a f ísica, e o cap ít ul o 3 d e Ponto de mutação;
Zu kav, A dança dos mestres Wu Li; M acLai ne, Dancing in the Light,
pp. 323- 24,329,351- 53.
' W EI L, Natural Mind, cap ít ul o s 6- 7, b em co m o Spontaneous Hea-
ling, p p . 113,203- 7. M uit o s, se não a m ai o ri a, d o s p r o p o n en t es d a
No va Era r eco n h ecem a ín t i m a af i ni d ad e d e suas no çõ es co m as
d o Ori ent e, e al g uns acr ed i t am ser essa u m a f o rt e i nd i cação d e
q u e eles est ão no cam i n h o cert o , ext r ai nd o o m el h o r d o s d o is
m u n d o s. A t en d ên ci a sincret ist a d o Ori ent e j á foi o b ser vad a no
cap i t ul o 7.
' NIDA, Eu g en e e SMALLEY, Wi l l i am A. Introducing Animism (Nova
York: Friend ship , 1959), p. 50. Esse b reve p anf let o é u m no t ável
arq ui vo d e i nf o rm ação so b re o an i m i sm o p ag ão m o d er n o .
Roszak. Where the Wasteland Ends, p. xv.
' O est u d o d e Ro b ert Bellah so b re o i nd i vi d ual i sm o na Am ér i ca
i l um i na u m a f orça p rincip al p o r t rás d a ênf ase d a No va Era so b re
o eu co m o o cent ro d a real i d ad e. Veja Ro b ert N. Bellah e o ut ro s,
Habits ofthe Heart (Nova York: Harp er & Ro w, 1985).
' LILLY. Center ofthe Cyclone, p. 210.
' I d e m , p .110.
' Id em , p. 5 1 ; it álicos d e Lilly. Lau r en ce LeShan é m ais m o d est o . Ele

353 •
O u n i v e r so ao l ad o

escr eve, co m resp eit o ao m o d o co m o a ci ênci a p ó s- Einst ein vê


a realid ad e, q u e " d ent ro d essa vi são , o h o m em não ap en as d es-
co b r e a realid ad e; d ent ro d e limit es ele a i nvent a" : The Médium,
the Mystic and the Physicist (Nova York: Vi ki n g , 1974), p. 155.
' M acLai n e. / f's AH in the Playing, p. 192. M acl ai n e co n t i n u a a d i va-
g ar nos limit es ent re o so n h o e a realid ad e ao l o ng o d e Camino,
em esp eci al , p. 304. Veja t am b ém Ho u st o n , Search for the Beloved,
p p . 25- 26. A f o r m a casual co m q u e M acLai ne, Ho ust o n e o ut ro s
ut ilizam a l i n g u ag em d a aut o r evel ação d e Deus, EU SOU, em Êx
3.14, é p r o f u n d am en t e o f ensi va a j u d eu s t rad i ci o nai s e crist ão s,
para o s q uai s o t er m o ind ica u m a d i f erença radical ent r e o h u m a-
no e o d i vi no , e não u m a uni ão ent re o h u m an o e o d i vi no . Davi d
Sp ang ler, líder esp irit ual em Fi n d h o r n , vai ai nd a m ais lo ng e q u e
M acl ai ne:" EU SOU a vi d a d e u m n o vo céu e u m a no va t erra. Ou -
t ros d evem seg uir e se unir a m i m para co nst rui r suas f o rm as. [...]
Há sem p r e ap en as o q u e EU SOU, m as eu t en h o revel ad o a m i m
m esm o em no va vi d a, no va luz e no va verd ad e... É m i n h a f u n -
ção por i nt er m éd i o d esse cent ro [ Fi nd ho rn] d em o n st r ar o q u e
EU SOU co m o m ei o d a evo l ução d o grupo'.'Veja Davi d Sp ang ler,
Revelation: The Birth ofa New Age (Fi n d h o r n , 1971), p p . 1 1 0 ,1 2 1 ,
ci t ad o em Th o m p so n , Passages About Earth, p. 173. Tais t ext o s
eco am as p alavras d o d eu s Kri shna em Bh ag avad Git a (6.29- 31).
É difícil en t en d er o q u e Th o m p so n p ensa d essa est r anh a l i ng ua-
g em elit ist a, m as ele p arece ver Sp ang l er co m o u m d os p ri m ei -
ros i nd i víd uo s t r ansf o r m ad o s d a Nova Era (Th o m p so n , Passages
About Earth, p. 174).
' FERGUSON, M ari l yn. Brain Revolution, p. 344; "Life at t h e Lead i ng
Ed g e:A/ vew / 4g el n t er vi ew w i t h M arilyn Ferg uso n" / VeivAg e,ag o s-
t o d e 1982; Weil, N at u r a/ M n c/ ,p p . 204- 5. Sam Keen (" Aco nver sa-
t io n [...]", Psychology Today, j u l h o d e 1973, p. 72) cit a Oscar Icha-
zo co m o d i zen d o : "A h u m an i d ad e é o M essi as" Weil, por acaso ,
d i sse:" Est o u q u ase t en t ad o a ch am ar os p sicó t ico s co m o a van -
g u ar d a evo l uci o nária d e no ssa esp éci e. Eles p o ssu em o seg r ed o
d e m u d ar a realid ad e p ela t r an sf o r m ação d a m en t e; se f o r em ca-
p azes d e usar t al t al ent o p ara f ins p o sit ivo s, não haverá limit es
para o q u e eles p o d er ão realizar" (Natural Mind, p. 182). LeShan
p arece co nco rd ar (The Médium. The Mystic and The Physicist,

354
Notas

pp. 211- 12). Em Passages About Earth, Th o m p so n most ra- se ot i-


m ist a ao l o ng o d e t o d a a o b r a, p o r ém veja em esp eci al a p.149;
d o ze ano s mais t ard e em "A Gai an Polit ics" Whole Earth Review,
i nver no d e 1986, p .4,el e exp ressa al g u m as reservas, o b ser van d o
q u e o esp írit o d aq u el a ép o ca havia t r o cad o " Guerra nas est relas
e" Ku n g Fu " por " Di nast i a" e " Dallas" Jo ni M it chel por M ad o n n a e
" Co nt at o s i m ed i at o s" p o r " Ram b o "
WILBER. Brief History of Everything, p. 156. Paralelas a isso est ão as
o b ser vaçõ es d e M arg aret N ew m an d e q u e "a co nsci ênci a é co -
ext en si va co m o uni ver so e resid e em t o d a a m at ér i a" e "a p esso a
não possui co nsci ênci a - a p esso a é co n sci ên ci a" (Health as Ex-
panded Conciousness, p p . 33,36).
De aco r d o co m Wilb er (A Brief History of Everything, p p . 217- 19),
ap en as al g u ém t r ei nad o em u m a d iscip lina co m o zen é cap az d e
j u l g ar se o q u e al g u ém est á vi ven ci an d o é u m a realid ad e t rans-
cen d en t e o u não . O co n h eci m en t o é u m est ad o esp ecíf i co ; em
no ssa co nsci ênci a co m u m , so m o s i ncap azes d e j u l g ar a realida-
d e d as exp er i ênci as d e u n i d ad e co m Deus, o u m o u o universo .
Rei vi nd i caçõ es à ver d ad e não p o d em ser avaliad as p ela razão
co m u m ; so m en t e o i l u m i n ad o p o d e d iscernir se u m a af i r m ação
é ver d ad ei r a.
Al d o us Huxley, ci t ad o em Laura Archer a Huxley, This Timeless
Moment: A Personal View of Aldous Huxley (1968; reim p resso ,
Nova York: Ballant ine, 1971), p p . 249- 51.
HUXLEY. Door ofPerception, p. 13.
Id em , p. 22.
Id em , p. 23.
Id em . Perceb a a co nt rad i ção int erna no q u e Huxl ey d iz. Por u m
lad o, sem u m a no va co n sci ên ci a, a h u m an i d ad e não será ca-
p az d e so b reviver nest e p l anet a; por o ut ro , o eu , se ele ap en as
p erceb ê- lo , é o cent r o d o uni verso . Um a vez q u e o co sm o é et er-
n o (u m a no ção im p lícit a no si st em a d e Huxl ey), o eu é et erno .
Assi m , por q u e se p r eo cup ar co m a vid a na t erra? Essa at it ud e
d o t ip o "por q u e se p r eo cu p ar " t em sido a p o si ção d o Orient e
por sécul o s; m as, p arece q u e q u an d o o Oci d en t e vai ao Orient e
em b usca d e sab ed o r i a, n ão co n seg u e se d esvenci l har d e t o d a a
O u n i v e r so ao l ad o

b ag ag em o ci d en t al , p art e d ela é f i r m em en t e enr ai zad a na no -


ção j ud ai co - cri st ã d e q u e o p resent e m u n d o (as p esso as na t erra)
t em al g u m a valia.
:
Ken Wi l b er insist e q u e a ci ência é vál i d a em seu p ró p ri o d o m ín i o
d a realid ad e f ísica (A Sociable God, p p . 7- 8).
' M ACLAINE. Out on a Limb, p. 74 e lt's AH in the Playing, p. 265;
Cast an ed a, A Separate Reality; LeSh an , The Médium, The Mys-
tic and the Physicist, p. 34; Lilly, Center of Cyclone, p. 25; Al b er t o
Ro sen f el d ," M i n d an d Suxpexmmà",Saturday Review, 22 d e f e-
ver ei r o d e 1975, p. 10; Wilb er, Brief History of Everything, p p . 156,
240; Kl im o , Channeling, p p . 174- 76.
' M ACLAIN E. It's AH in the Playing, p. 188.
1
M ACLAINE. Dancing in the Light, p. 309.
1
M ACLAIN E. It's AH in the Playing, p. 3 3 1 .
1
LILLY, Jo h n . Center of Cyclone, p. 110.
Id em , p .5.
1
Huxley. Door ofPerception, p. 89.
1
Lilly. Center of Cyclone, p. 180, b em co m o , p p . 10,54.
1
Fer g uso n . Brain Revolution, p p .61- 63.
Cast an ed a. Journey to Ixtlan, p p . 297- 98.
' Huxley. Door ofPerception, p. 17- 18.
' Out r o s, no en t an t o , en f at i zam a co n t i n u i d ad e, se não a u n i d ad e,
d o e u , o u n i ver so vi sível e i nvi sível . Veja Fer g u so n , Brain Revo-
lution, p. 2 1 ; Th o m p so n , Passages About Earth, p p . 97- 103, 166;
Lilly, Center of Cyclone, p. 2 1 1 ; Wiler, Brief History of Everything,
p p .1 5 6 ,2 4 0 .
' Al u sõ es às suas vi d as p assad as o co r r em ao l o ng o d o s t ext o s d e
M acLai n e, p o r ém ch eg am a p arecer u m a l ad ai nha em Dancing in
the Light, p p . 366- 384.
'CASTANEDA. Teachings of Don Juan, p p . 32, 136- 38; Separate
Reality, p p . 5 1 , 140, 144, 158- 59; Journey to Ixtlan, p p . 213- 215;
Tales of Power, p. 46,87- 89,239,257 .
1
LILLY. Center of Cyclone, p p . 27,39,55- 57,90- 91,199 .
M acLai n e d em o n st r a isso e m / f's AH in the Playing, p p . 191 - 93.

356
Notas

' Vej a o esq u em a d e Lilly (Center of Cyclone, p p . 148- 49), d et al h an-


d o e d escr even d o os vário s níveis d e co nsci ênci a e resp ect ivo s
ró t ulo s, d el e, d e Geo r g e I. Gurd jief f e I. K.Tai m m i .
' BUCKE. Richard M auri ce. Cosmic Consciousness: A Study in the
Evolution of the Human Mind (1901; rei m p resso , Nova York:
Pen g u i n , 1991), p. 3, co m o ci t ad o em Jam es, i/ ar/ efes of Religious
Experience, p. 306. Bucke, i g u al m en t e, m en ci o n a " um a acel eração
d o sen so m o r al " p o r ém isso é i n co m u m , co m o ver em o s.
' N o v am en t e, veja os vário s níveis d e Lilly (Center of Cyclone,
pp. 148- 49).
' M ACLAINE. Dancing in the Light, p. 350; ên f ase d el a. Ho u st o n p as-
so u p o r t al exp er i ên ci a ao s seis an o s d e i d ad e: " Par eceu - m e
co m o se eu co n h ecesse t o d as as co i sas, co m o seu eu fosse
t o d as as co i sas" (Godseed, p. xvi i ).
FERGUSON. Brain Revolution, p. 60. Ig u al m en t e, veja as d escr i çõ es
e m Lilly, Center of Cyclone, cap ít u l o s 11- 18; Jam es, Varieties
of Religious Experience, p p . 292- 328; LeSh an , The Médium, The
Mystic and the Physicists, p p . 86- 87,250; Zaeh n er , Zen, Drugs and
Mysticism, p p . 89- 94; Wilb er, Brief History of Everything, p p . 156,
240; p r at i cam en t e, t o d a d i scu ssão so b r e est ad o s al t er ad o s d e
co n sci ên ci a m en ci o n ar á m u i t as, se n ão t o d as, aq u el as car act e-
ríst icas. Para u m a ab o r d ag em m ai s esp ecíf i ca às car act er íst i cas
d o s est ad o s al t erad o s d e co n sci ên ci a, veja Ar n o l d M . Lu d w i g ,
" Al t er ed St at es of Co n sci o u sn ess" em Altered States of Cons-
ciousness: A Book of Readings, ed . Ch ar l es Tart (N o va York: Jo h n
Wi l ey & So n s, 1969), p p . 9- 22.
Veja p p . 152- 154.
' M ACLAINE. Dancing in the Light, p p . 202- 3,242- 43,248- 49,269,341 -
4 2 ,3 4 5 ,3 5 1 ,3 6 3 - 6 4 ,3 8 3 ; e lt's AH in t he Playing s, p p . 173- 75.
' JAM ES. Varietes of Religious Experience, p. 306; Th o m p so n , Pas-
sages About Earth, p p . 29, 82; Wilb er, Brief History of Everything,
pp. 189, 233, 235; Lilly, Cenf er of Cyclone, p p . 20, 1 7 1 , 180;
Hu xl ey,Do o r so f Per cep f / ' o n ,p .39.Wi l b er ,p o r exem p l o ,af i r m aq u e
q u an t o m ais evo l u íd o , m el h o r :" A i nt ui ção m o ral b ási ca é p ro t e-
g er e p r o m o ver a m áxi m a p r o f u n d i d ad e p ara a m áxi m a ext en -
são" (Brief History of Everything, p. 335). O m al é p o ssível p o r q u e

• 357
O u n i v e r so ao l ad o

" q u er em o s ser íntegros [t er d i rei t o s] sem ser p ar t e d e nad a [t er


r esp o n sab i l i d ad e] " (i d em , p .333).
' HUXLEY. Doors of Perception, p. 55; veja t am b ém p p . 5 1 , 54- 58,
133- 40.
' Id em , p. 54.
' LILLY. Cenfer of Cyclone, p p . 2 4 - 2 5 ,3 3 ,8 8 - 9 0 ,1 6 9 ; e Cast an ed a, ao
l o ng o d e t o d o s os seus q uat r o p rim eiro s livros.
'• M ACLAINE. /f's AH in the Playing, p p . 162- 71.
1
LILLY. Center of Cyclone, p p . 35; Huxley, This Timeless Moment,
pp. 275- 88; Wei l , Natural Mind, p p . 8 3 ,9 5 .
!
Ken relat a a n o ção d e Ichazo q u an t o à " q u ed a" d o h o m em em
" Co nver sat i o n" p. 67.
' GRO F. " Beyo nd t h e Bo und s of Psycho anal ysi s" p p . 86- 88; Lilly,
Center of Cyclone, p p . 17, 35; LeSh an , The Médium, The Mystic
and the Physicist, p p . 232- 64; Jam es, Varietes of Religious Experien-
ce, p. 306; Zaehner, Zen, Drugs and Mysticism, p. 44.
' KLUBER- ROSS, El i sab et h. On Death and Dying (Nova York: M acM i l l an,
1969). Para u m a exp l i cação d e suas no çõ es e u m a crít ica d e
u m a p ersp ect i va crist ã, veja Phillip J. Sw i h ar t ,Th e Ed g e of Deat h
(Do wn er s Gro ve, III.: Int erVarsit y Press, 1987), p p . 25- 31; esse livro
co n t ém u m a b ib liog raf ia út il d e livros so b re exp er i ênci as à beira
d a m o r t e e o ut ras fora d o co rp o .
1
M o o d y, Raym o n d J. Jr., Life After Life (Nova York: Ban t am , 1976).
Al g u m as livrarias d a Nova Era p o ssu em u m a seção i nt ei r am ent e
d ed i cad a à lit erat ura so b re exp er i ênci as fora d o co rp o .
' M ACLAINE. Dancing in the Light, p p . 353- 59,366.
' M ACLAIN E. It's Ali in the Playing, p. 166.

Veja o crít ico crist ão Sw i h ar t , Edge of Death, p p . 41- 82, em es-


p eci al , 67- 69; e M ark Al b r ech t , Reincarnation (Do w n er s Gr o ve,
III.: Int erVarsit y Press, 1982); p ara u m a p er sp ect i va secul ar h u -
m an i st a, vej a M el vi n Har r i s," Ar e' Past - Li f e' Reg r essi o n s Evi d en ce
o f Rei n car n at i o n ?" Free Inquiry, o u t o n o d e 1986, p p . 18- 23; e o
ar t i g o em t rês p art es d e Paul Ed w ar d s," Th e Case Ag ai n st Rein-
car n at i o n " Freee Inquiry, o u t o n o d e 1986, p p . 24- 34; i nver n o d e
1986- 1987, p p . 38- 43; p r i m aver a d e 1987, p p . 38- 43,46- 49.

358
Notas

'- HUSLEY. Doors ofPerception, p. 13.


' I d e m , p. 140. Veja t am b ém o r o m an ce d e Huxley, A ilha, em q u e
ele co n ced e u m t r at am en t o i m ag i nat i vo e co m p l et o a m ui t as
d essas no çõ es d e no va co n sci ên ci a.
' LILLY. Center of Cyclone, p. 39. As sent enças o m i t i d as su g er em
i n ú m er as alt ernat ivas não - o cult as, incluind o - se o relat ivism o
p esso al .
' WHORF, Ben j am i n . Language, Thought and Reality, ed . Jo h n B.
Carro l (Cam b r i d g e, M ass.: M IT Press, 1951), p .57.
' Id em , p. 58.
' CHASE, St uart . p ref ácio p ara i d em , p. vi .
I
M ASTERS, Ro b ert . Intellectual Digest, m ar ço d e 1973, p. 18. Qu e sua
co n cl u são não result a d e sua ilust ração, est á al ém d o p o nt o aq ui
ab o r d ad o .
' CASSIRER, Cassirer. Language and Myth, t r ad . Su san n e K. Lang er
(Nova York: Dover, 1946), p. 7.
I 0
l d e m ,p p . 7- 8.
II
Id em , p. 8.
12
LESHAN. The Médium, the Mystic and the Physicist, p. 4 3 . Aq u i , ele
se b aseia em Ber t r and Russel p ara a list a, m as ele d o cu m en t a
a p art ir d e sua p ró p ria exp er i ênci a e a d o s cl ari vi d ent es q u e
ent r evi st o u.
)3
Po ssuo f o rt es su sp ei t as q u e n ad a há excet o u m r el aci o na-
m en t o m et af ó ri co ent re o co ncei t o d e co m p l em en t ar i d ad e
ut ilizad o por cient ist as e a versão d o rel at i vi sm o co ncei t uai ad -
vo g ad o por LeShan e o ut ro s t eó rico s d a no va co n sci ên ci a. Veja
Wei nb erg ," So kal ' s H o ax" e St en g er ," N ew Ag e Physi cs" m en ci o -
n ad o na no t a 24, p ara co nf i r m ação . Po r ém , é sem p r e u m a b o a
m an o b r a ret órica ap el ar para o p rest íg io d a ci ênci a - m esm o
ad vo g an d o u m a co sm o vi são q u e, se p rat i cad a, d est ruiria a ini-
ciat iva cient íf ica.
M
To d a a o b ra d e Wilb er, Brief History of Everything, é d ed i cad a a
u m a el ab o ração d esse esq u em a.
)5
Er wi n Schrõ d ing er, ci t ad o em Fer g u so n , Brain Revolution, p. 19.
É claro q u e, se não há m an ei r a d e se m ed ir a ver d ad e d e u m
O u n i v e r so ao l ad o

m o d el o d e r eal i d ad e, i g u al m en t e n ão p o d e se m ed i r a sua
f al si d ad e. Assi m , a id eia d e q u e t o d o s os no sso s m o d el o s d e
r eal i d ad e são er r ad o s é u m a n eg at i va d e t o d o o si g ni f i cad o e
u m caso ci f rad o d e ni i l i sm o (veja Th i el i cke, Nihilism, p p . 63- 65).
Dizer- se q u e não há " m o d el o s ver d ad ei r o s" d e r eal i d ad e na
ci ên ci a não é u m a crít ica d evast ad o r a p ara os q u e co m p r een -
d em a d escr i ção ci ent íf i ca co m o p r o ved o r a d e d i scer n i m en t o s
vál i d o s so b re como é a r eal i d ad e, p o r ém não o q u e a real i d ad e
é (veja Bu b e, Putting ItAII Together, p p .15- 20).
1 0 5
Para o b t er u m a vi são d if erent e so b re co m p l em en t ar i d ad e, veja
Do n al d M acKay, The Clockwork Image (Do wn er s Gro ve, III.: In-
t erVarsit y Press, 1974), p p . 9 1 , 92; e Bu b e, Putting ItAII Together,
p p .167- 87.
1 0 7
Veja Fer g u so n , Brain Revolution, p. 8 3 ; Wei l , N at ural M i n d , p. 67;
LeSh an , The Médium, The Mystic and the Physicist, p p . 99, 124,
1 3 9 ,1 5 0 ; Jam es, Varieties of Religious Experience, p. 308; Ichazo ,
m en ci o n ad o por Keen ," Co n ver sat i o n [...]','p. 70; Lilly, Center of
Cyclone, p o r co m p l et o .
1 0 8
LILLY. Center of Cyclone, p. 125.
1 0 9
WEIL. Natural Mind, p. 67. Esse crit ério p r ag m át i co t am b ém
g o ver n a o j u l g am en t o d e Charles Tart e Jo h n Kl i m o (Klim o ,
Channeling, p p . xiv, 23).
1 , 0
I d em ,p p .4 8 ,8 7 .
111
LAIN G,R. D., m en ci o n ad o p o r Pet er M ezan," Af t er Fr eud an d Ju n g ,
N o w Co m es R. D. Lai n g : Po p - shrink, Reb el , Yo g i , Phi l o so p her -
- Ki ng ?, Esquire, j an ei r o d e 1972, p. 1 7 1 .
1 1 2
Id em .
113
.l d e m .
1 1 4
POPE, Essayon Man, 1.95.
1 , 5
Th o m p so n . Passages About Earth, p. 99.
1 1 6
Nesse p o nt o há p o uca d i f erença ent re B. F. Ski nner e William
Irwi n Th o m p so n ; veja Beyond Freedom and Dignity, p p . 180- 82 e
Passages About Earth, p p . 117- 18.
117
WILBER, Brief History of Everyhing, p. 336. Por " hó l o n h u m an o "
Wi l b er q uer exp r essar o t o d o co m p l exo q u e co nst it ui u m ser
h u m an o

360
Notas

1 , 8
Veja, p o r exem p l o , M at eu s 7.21- 23; Lucas 10.20; At o s 8.9- 24;
13.8- 11; 19.11- 20; Gál at as 5.19- 21; Ti ag o 3.13- 18; Ap o cal i p se
21.8. Ig u al m en t e, veja J. S. Wr i g h t e K. A. Ki t ch en , " M ag i c an d
So r cer y" em New Bible Dictionary, ed . I. Ho w ar d M arshall e
o u t r o s, 3 . ed . (Do w n er s Gr o ve, III.: Int erVarsit y Press, 1961),
a

p p .713- 17.
1 1 9
O m u n d o válido cam i n h a por ent re i nt eressant es p er m u t açõ es
em LeSh an , The Médium, the Mystic and the Physicist, p p . 9 9 ,1 0 8 ,
150,210.
1 2 0
Talvez Thi el i cke ch am ar i a isso d e niilism o ci f rad o ; ver Thi el i cke,
Nihilism, p p . 36,65- 65.
121
M CCRAKEN, Sam u el . " Th e Dr ug s of Hab i t " Commentary, junho de
1971,p . 49.

Cap í t ul o 9 O H orizont e desvanecido


Pós-modernismo

' Fr i ed r i ch N i et zsche." The M ad m an " Gay Science, 125, em Portable


Nietzsche, t rad . Walt er Kau f m an n (Nova York: Vi ki n g , 1954),
p p . 95- 96.
2
An t h o n y Gi d d en s ch am a d e p ó s- m o d er ni d ad e a " rad icalização
d a m o d er n i d ad e" {The Consequences ofModernity [ St anf o rd , Calif.:
St anf o rd Universit y Press, 1990] , p .52).
3
Veja cap ít ul o 5.
4
Ao escr ever est e cap ít u l o , ach ei as seg u i n t es ap r esen t açõ es e
crít icas ext r em am en t e val i o sas; a list a d ever i a ser co n si d er ad a
ext en si va a t o d as as o u t r as f o n t es m en ci o n ad as nas no t as d es-
t e cap ít u l o : St even Best e Do u g l as Kellner, Postmodern Theory
(N o va Yo r k:Gu i l f o r d , 1991); St even Co nno r , Postmodernist Culture
(Oxf o r d : Bl ackw el l , 1989); Fred ric B. Bu r n h am , Postmodern Theo-
logy; Christian Faith in a Pluralist World (San Fr anci sco : Harp er-
San Fr an ci sco , 1989); Al b er t Bo r g m an n , Crossing the Postmodern
Divide (Ch i cag o : Uni ver si t y of Ch i cag o Press, 1992) e St ep h en
To u l m i n , Cosmopolis: The Hidden Agend of Modernity (Nova York:
Free Press, 1990).

• 361
O u n i v e r so ao l ad o

5
HASSAN, l hab . " Po st m o d er n i sm o t o Po st m o d er n i t y" < w w w / i h a-
b h assan .co m / p o st m o d er n i sm _t o _p o st m o d er n i t y.h t m > . Seu pri-
m ei ro t r ab al ho d e d est aq u e so b re p ó s- m o d er n i sm o foi The Dis-
memberment of Orpheus: Toward a Postmodern Literature (Nova
York: Oxf o rd Universit y Press, 1971).
5
- LILLA, M ark. " The Polit ics of Jacq u es Derri d a" New York Review of
Books, 25 d e j u n h o d e 1998, p. 36. Lilla é p rof esso r d e p en sam en t o
social na Uni ver si d ad e d e Chi cag o .
7
A arq ui t et ura m o d er n a é a ap l i cação d e razão m ecân i ca às for-
m as d o esp aço . Isso result a na f o r m a seg u i n d o a f u n ção - caixas
g i g ant es d e co ncret o , vi d r o e aço co m cant o s ret os e n en h u m a
cu r va ap ar ent e. Os cent ro s d e m ui t as ci d ad es am er i can as, co m o
At l an t a, Dallas, M i nneap o l i s, ap r esen t am esses co nj unt o s d e blo-
cos al t am en t e f o rm ais e i m p esso ai s. Os arq ui t et o s p ó s- m o d er no s
se r eb el ar am co nt ra o i m p esso al , t r azend o d e vo l t a m o t i vo s d e
cad a era ant erio r d a arq ui t et ura d e t o d as as cult uras - j anel as cir-
culares, co l unas clássicas, g árg ulas m o d er n i zad as - inserind o - o s
em f o r m as est rut urais q u e n ão ap r esen t am n en h u m p rincíp io or-
g ani zad o r ap ar ent e.
- LYOTARD, Jean- Fr anço i s. The Postmodern Condition:A Reporton
8
Kno-
wledge, t rad . Geo f f Ben n i n g t o n e Brian M assu m i (M i nneap o l i s:
Universit y of M i nneso t a Press, 1984), p. 24.
9
Gi d d en s escreve: "O q u e é caract eríst ico d e m o d er n i d ad e não é
acei t ação d o no vo por seu p ró p rio m éri t o , m as a p ressup o si ção
d a ref lexão i nd i scr i m i nad a - q u e, claro , inclui a ref lexão so b re a
nat ur eza d a p róp ria ref lexão " {Consequences of Modernity, p. 39).
Por exem p l o , t en h o ref let id o ao l o ng o d esse livro so b re as co sm o -
visõ es q u e m o d el am a no ssa co m p r een são ; ag o ra est o u o l h an d o
para o m eu olhar, ref let ind o so b re a m i n h a ref lexão. Um a o ut ra
m anei r a d e exp ressar isso é d izer q u e d arei u m p asso at rás em
m i n h a anál i se para ef et uar u m a m et a- análise.
, 0
Lidei co m essa q u est ão e m , Naming the Elephant: Worldview as
a Concept (Do wn er s Gro ve, III.: Int erVarsit y Press, 2004).
11
Cap ít ul o 2.
12
Recen t em en t e, al g u n s f i l ó so f o s n at u r al i st as (co m o Paul M .
Churchland e Patrícia Smit h Churchland ) ret roced eram , ent ret ant o ,

362
Notas

em d ireção a u m a no va ênf ase nos m ecan i sm o s inerent es na or-


d em m at erial.Veja " Nat uralist ic Ep ist emo lo g y' ,' em The Cambridge
Dictionary of Philosophy, ed . Ro b ert Aud i (Cam b r i d g e: Cam b r i d g e
Universit y Press, 1995), p p . 518- 19.
13
Ded i co a essa q uest ão , o cap ít ul o 3 d e Naming the Elephant
(Do wn er s Gro ve, III.: Int erVarsit y Pr ess,2004), p p .51 - 73.
1 4
Cerca d e t rint a ano s at rás, escrevi u m t ext o p ara u m curso d e
g r ad u ação so b re a f ilosof ia d o século XVII, no q ual p ro vei , para
m i n h a p ró p ria sat isf ação e a d e m eu professor, q u e Descart es
e Aq u i n o d ef en d i am vi sõ es id ênt icas a resp eit o d e Deu s. O q u e
não co n seg u i ver ,en t ão , é q u e o int eresse d e Descart es em co m o
ele co n h eci a q u e t al Deus exist ia t eria t id o t ais co n seq u ên ci as.
15
DESCARTES, René. " M ed i t at i o n II" em Phi l o so p hi cal Wo rks, t rad .
Elizab et t h S. Hal d ane e G. R.T. Ross, 2 vo l s. (Nova York: Dover, 1955),
1:152.
16
Claro q ue, p ara Kant , " criador d a realid ad e" não d eve ser en t en -
d i d o à m anei r a d o p en sam en t o d a Nova Era; as cat eg o ri as pelas
q uai s co m p r een d em o s realid ad e - esp aço , t em p o , et c. - f azem
p art e d e nossa co nt r i b ui ção co m o seres h u m an o s;el as f o r m am a
est rut ura d e no sso co n h eci m en t o .
17
Est o u d o l o r o sam en t e co n sci en t e d e q u e m eu s co m en t ár i o s so-
bre Descart es, Hu m e e Kant são superf iciais e, t al vez, i m p er d o á-
vei s. Po r ém , em b o r a as crít icas sejam ab u n d an t es, p enso q u e eles
assu m i r am o f o r m at o co rret o . Para a hist ória d a f ilosof ia m o d er-
n a, co nsid erei d e esp ecial valia a o b ra d e Co p l est o n (Fred erick
Co p l est o n , A History of Philosophy, vo l s. 4- 9 [ Lo nd res: Burns an d
Oat es, 1958- 1974]). Para as q uest õ es ab o r d ad as aq u i , ent ret ant o ,
veja Ro b ert C. So l o m o n , Continental Philosophy Since 1750: The
Rise and Fali ofthe Self(Nova York: Oxf o rd Universit y Press, 1988).
18
" Po i s, an t i g am en t e, acred it ava- se na ' alm a' co m o se acred i t ava
na g r am át i ca e no sujeit o g r am at i cal : dizia- se, ' eu' é a co nd i ção ,
' p enso ' é o p red i cad o e o co n d i ci o n ad o - o p ensar é u m a at ivi-
d ad e para a q ual o p en sam en t o deve f o rnecer u m sujeit o co m o
cau sa. Ent ão , al g u ém t en t o u , co m ad m i r ável p er sever ança e
ast úci a, d esvencilhar- se d essa red e - e q u est i o n o u se o co nt rá-
rio não seria o caso :' p enso ' , a co nd ição ,' eu' , o co nd i ci o nad o ;' eu' ,

363
O u n i v e r so ao l ad o

nesse caso [so u] ap en as u m a sínt ese q u e é feita p el o p en sa-


m en t o " (Fried rich N i et zsche, Beyond Good and Evil, sec. 54, em
The Basic Writtings of Nietzsche, ed . Walt er Kau f m an n [Nova York:
M o d en Lib rary, 1969] , p.257); veja t am b ém u m a crít ica m ai s
ext en sa nas seçõ es 16- 17, p p . 213- 14.
19
RORTY, Ri char d . Por exem p l o , t ransf eriu- se d e u m p o st o d e f ilo so -
f ia, na Un i ver si d ad e d e Pr i ncet o n, p ara t o rnar- se u m p ro f esso r d e
h u m an i d ad es na Un i ver si d ad e d e Vi r g íni a.
20
Veja cap ít ul o o it o , p p .246- 252.
21
SAID, Ed w ar d . Beginnings: Invention and Method (No va York: Basic
Bo o ks, 1975), p. 286, m en ci o n ad o p o r St anl ey Gr en z, A Primer on
Postmodernism (Grand Rap id s, M i ch.: Eer d m an s, 1996), p. 120.
22
NIETZSCHE. " On Trut h an d Lie in an Ext ra- m o ral Sen se" em The
Portable Nietzsche, t r ad . Walt er Kau f m an n (Nova York: Vi ki n g ,
1954), p p . 46- 47.
2 3
Id em .
2 4
RORTY, Ri char d . Contingency, Irony and Solidarity (Cam b r i d g e:
Cam b r i d g e Uni versi t y Press, 1989), p p . 6- 7. Co m p ar e a af i rm a-
ção d e Ro rt y co m est a, d e M i chel Fo ucaul t :" A ver d ad e d eve sér
co m p r een d i d a co m o u m si st em a d e p r o ced i m en t o s o r d en ad o s
para a p r o d u ção , reg ul ação , d i st ri b ui ção , ci rcul ação e o p er ação
d e af i r m açõ es" ("Trut h an d Po w er " [de Power/ Knowledge],err\ The
Foucault Reader, ed . Paul Rab i n o w [Nova York: Pan t h eo n , 1984] ,
p .74).
25
QUINE, Wi l l ard Van Or m an " Tw o Do g m as of Em p i r i ci sm " em
From a Logical Point ofView, 2a. ed . (Cam b r i d g e, M ass.: Har var d
Un i ver si t y Press, 1980), p. 44. Qu i n e acr escen t a: " Ep i st em o l o g i -
cam en t e, esses são m i t o s co m o m esm o f u n d am en t o d e o b j e-
t o s f ísi co s e d eu ses, n em m el h o r o u pior, excet o p o r d i f er en ças
no g r au em q u e eles no s p er m i t em lidar co m n o sso sen so d e
exp er i ên ci a" (i d em , p. 45). Est o u em d éb i t o co m St ep h en Evans
p o r essa o b ser vação .
2 6
Discut o rel at i vi sm o relig ioso em m aio res d et al hes no s cap ít u -
los 5-6 d e Chris Chrisman Goes to College (Do w n er s Gr o ve, III.:
Int erVarsit y Press, 1993), p p .45- 68.
2 7
LiLLA."Polit ics of Jacq u es Der r i d a" p .38.

364 •
Notas

2 8
Um a b reve e út il i n t r o d u ção a esse t em a p o d e ser en co n t r ad a
em Haro l d K. Bu sh Jr .," Po st st r u ct u r al i sm as Th eo r y an d Pract ice
in t h e Eng l i sh Class Ro o m " ERIC Di g est (1995), d i sp o n ível em
< w w w .i n d i an a.ed u / ~ er i cr ec/ i eo / d i g est s/ d 104.h t m l > .
2 9
Em u m a so ci ed ad e p ó s- m o d er n a au t o - r ef l exi va, Lyo t ard ind i-
ca q u e "a m ai o r i a d as p esso as p er d eu a no st al g i a p ela nar r a-
t i va p er d i d a. De n en h u m a f o r m a, isso sig nif ica q u e elas f o r am
r ed u zi d as ao b ar b ar i sm o . 0 q u e as salva é o co n h eci m en t o d e
q u e a l eg i t i m ação p o d e ad vi r ap en as d e sua p r ó p r i a p rát i ca lin-
g u íst i ca e i nt er ação co m u n i cad a" (Postmodern Condition, p. 41).
Lyo t ar d p ar ece não est ar ci en t e d e q u e sua hist ó ria " p ó s- m o -
d er n a" é, p o r si só , u m a hi st ó ri a ag i n d o co m o u m a m et an ar r at i -
va (al g o q u e p er d eu a cr ed i b i l i d ad e na ci ên ci a p ó s- m o d er n a, d e
aco r d o co m ele) e, p o r t an t o , n ão m ai s crível q u e q u al q u er o ut ra
hi st ó r i a, q u e q u al q u er o ut r a exp l i cação .
3 0
" Co n h eci m en t o é vi o l ên ci a.O at o d e co nhecer , af irm a Fo ucault , é
um at o d e vi o l ênci a" (Grenz, Primeron Postmodernism, p. 133).
31
Sal m o 8.4- 5; al g u m as t r ad uçõ es d i zem : " um p o u co inf erior a
Deu s"
3 2
SARTRE, Jean Paul . " Exi st en ci al i sm " em A Casebook on Existencia-
lism, ed . Wi l l i am V. Sp sn o s (N o va Yo r k " Th o m as Y. Cr o w el l , 1966),
p. 289. Para Sart re, en t r et an t o , o au t ên t i co eu j am ai s é en g l o b a-
d o p o r seu co n t ext o cul t ur al o u q u al q u er m et an ar r at i va; an t es,
el e é r ad i cal m en t e livre.
3 3
Veja a d i scussão d e Rort y so b re Freud co m o u m " p o et a f o r t e" em
Contingency, p p . 20,28,30- 34, b em co m o seus co m en t ár i o s so b re
o p o d er d a p o esia (p p . 151- 52), e so b re a ver d ad e co m o "qual-
q u er q u e seja o result ad o d e u m a co m u n i cação não d et u r p ad a"
(p. 67; t am b ém p p . 52,68).
34
Grenz.Primeron Postmodernism,p. 130.Gr en s t am b é m m en ci o -
na Fo u cau l t , co m o seg u e:" A t o d o s aq u el es q u e ai n d a d esej am
f al ar so b r e o h o m e m , so b r e seu rei no o u sua l i b er ação , a t o d o s
o s q u e ai n d a se q u est i o n am so b r e o q u e é o h o m e m em sua es-
sên ci a,a t o d o s os q u e d esej am co n si d er á- l o co m o p o n t o d e par-
t i d a e m suas t en t at i vas d e al can çar a ver d ad e [ „ .] a t o d as essas
d i st o r ci d as e t o r ci d as f o r m as d e r ef l exão , p o d em o s ap en as

365
O u n i v e r so ao l ad o

r esp o n d er co m u m a ri sad a f i l o só f i ca - q u e si g n i f i ca, at é cer t o


p o n t o , o si l ên ci o " (ext r aíd o d e The Order ofThings [ N o va Yo rk:
Ran d o m Ho u se- Pan t h eo n , 1971] , p p . 342- 43, m en ci o n ad o em
Gr en z, Primer on Postmodernism, p. 131).
"Veja a b reve d i scussão no cap ít ul o 5.
' RORTY, Richard . The Consequences of Pragmatism (M i nneap o l i s:
Universit y of M i nneso t a Press, 1982), p. xlii. Derrid a incorre no
m esm o p r o b l em a. M ark Lilla escreve: " Derrid a d ep o si t a en o r m e
co nf i ança na b o a vo n t ad e id eo ló g ica o u p reco ncei t o s d e seus
leit ores, pois ele não p o d e lhes d izer a razão d e esco l her j ust i ça
em vez d e injust iça, o u d em o cr aci a e não t i rani a, ap en as ele o f az"
(Lilla," Polit ics of Jacq u es Der r i d a" p .40).
'• BEINER, Ro nald ." Fo ucault ' s Hyp er- lib eralism " Crit ical Revi ew, verão
d e 1995, p p . 349- 70.
!
Id em , p p . 353- 54.
'• Det t m ar o b ser va q u e essa vi são " t em sid o art i cul ad a d e m o d o
mais i nf l uent e" por Barb ara Herrnst ein Sm i t h em Contingencies
ofValue (Cam b r i d g e: Harvard Universit y Press, 1988). Veja Kevin
J. H. Det t m ar, " W h af s So Great Ab o u t Great Bo o ks" Chronicle of
Higher Education, 11 d e set em b r o d e 1998, p. B6.
'• LYOTARD. Postmodern Condition, p. 79.
' O q u e seg u e é u m q u ad r o am p l o d e r ecen t e t eo r i a lit erária.
Det al h es p o d em ser en co n t r ad o s em Ro g er Lu n d i n , The Cul-
ture of Interpretation (Gr an d Rap i d s, M i ch .: Eer d m an s, 1993). A
p esq u i sa d e Bo n n y Kl o m p St even s e Larry L. St ew ar t , d esi g -
nad a p ara i nt r o d uzi r est u d an t es f o r m ad o s ao est u d o lit erário,
t am b ém é út i l ; veja A Guide to Literary Criticism and Research,
3a ed . (No va York: Har co ur t Brace Co l l eg e, 1996). Ig u al m en t e,
co n si d er o út eis as crít icas e co n t r acr ít i cas so b re t eo r i a iit erária
p ó s- m o d er n a em i n ú m er o s ar t i g o s, d e vo l u m es r ecen t es d e The
Christian Scholars Review and Christianity and Literature. Em
esp eci al , veja a p esq u i sa d e r ecent es ab o r d ag en s crist ãs à li-
t er at ur a e t eo r i a, em Haro ld K. Bush Jr., " Th e Ou t r ag eo u s Idea
of Chr i st i an Li t erary St u d y: Pr o sp ect s for t h e Fut ur e an d a M e
d i t at i o n o n Ho p e" Christianyty and Literature, o u t o n o d e 2 0 0 1 ,
p p . 79- 103. Os seg u i n t es livro s são ext r em am en t e út eis:

• 366 •
Notas

Cl ar en ce Wal h o u t e Lel an d Ryk en , Contemporary Literary The-


ory.A Christian Appraisal (Gr an d Rap i d s, M i ch .: Eer d m an s, 1991 );
e W. J.T. M it chell,/ 4ga/ 7isf Theory (Ch i cag o : Uni ver si t y of Ch i cag o
Press, 1985).
4 2
KRUPNICK, M ark. " Why are Eng l i sh Dep ar t m en t s St ill Fig ht ing t he
Cul t ure Wars?" Chronicle ofHigher Education, 20 d e set em b r o d e
2002, p .B16.
4 3
ELLIS, Jo h n M . Against Deconstruction (Pr i n cet o n , N.J.: Pr i ncet o n
Un i ver si t y Press, 1989); Cal eb Cr ai n ," l n si d e t h e M LA: or, Is Li t era-
t ur e En o u g h ?" Lín gu a Franca, m ar ço d e 1999, p p . 35- 43.
4 4
STAVANS, lllan."A Lit erary Crit ic's t o t he Cul t ure at Large",Chronicleof
Higher Educatio, 9 d e ag o st o d e 2003, p. B7.
4 5
DICKSTEIN, M orris. " Lit erary Th eo r y an d Hist orical Un d er st an d i n g "
Chronicle ofHigher Education, 23 d e m ai o d e 2003, p p . B7- 10.
4 6
BARASH, David P. e N anelle Barash, " Bio lo g y as a Lens: Evo lut io n
an d Lit erary Cri t i ci sm " Chronicle ofHigher Education, o u t u b r o d e
2002,p p .B7- 9.
4 7
Karen J.Wi n kl er p esq ui sa os at aq ues e co nt ra- at aq ues d a t eo ria
lit erária p ó s- m o d er na em , " Scho lars M ark t he Beg i nni ng o f t h e
Ag e of 'Post - t heory",' Chronicle of Higher Education, 13 d e o u t u -
bro d e 1993, p. A9.Vej a t am b ém Frank Lent r i cchi a," Last Will an d
Test am en t o f an Ex- Li t erary Cr i t i c" Língua Franca, set em b r o / o u -
t u b r o d e 1996, p p . 59- 67.
4 8
Em The Death ofthe Truth (M i nneap o l i s: Bet hany Ho use, 1996),
Denni s M acCal l um co l et o u u m a série d e ensaio s crít icos so b re
p ó s- m o d er n i sm o nas áreas d e saúd e, lit erat ura, ed u cação , hist ó-
ria, p si co t erap i a, d ireit o , ci ênci a e religião, cad a q ual escrit o por
u m esp ecialist a na área.
4 9
HIMMELFARB, Ger t r u d e. " Trad it io n an d Creat ivit y in t he Writ ing
of Hi st o ry" First Things, n o vem b r o d e 1992, p. 28. O ensaio d e
Hu m m el f ar b , q u e ab r an g e as d iscip linas d e hist ó ria, d ireit o , f i-
losofia e cul t ur a, em g er al , m er ece ser lido em sua t o t al i d ad e
(pp. 28- 36).
5 0
Id em , p. 30.

367
O u n i v e r so ao l ad o

HIMMELFARB, Ger t r u d e. " Wh er e Have AN Fo o t no t es Go n e?" em On


Looking into Abyss (Nova York: Alf red A. Knopf , 1994).
JENKINS, Kei t h. Re-thinking History (Lo nd res: Ro ut l ed g e, 1991),
p. 70 (a últ im a sent ença d o livro). Para u m a ar g u m en t ação q u an -
t o a ret ro ced er d a hist o rio g raf ia p ó s- m o d er n a, veja Jef f rey N.
West er st r o m ," Ar eyo u N o w o r H av eYo u Ever Been ... Po st m o d er n ?"
Chronicle ofHigher Education, 11 d e set em b r o d e 1998, p. B4.
Para u m a p esq ui sa so b re essas q uest õ es na f ilosof ia d a ci ên-
cia, veja Del Rat zsch, Science and Its Limits: The Natural Sciences
in Christian Perspective (Do wn er s Gr o ve, III.: Int erVarsit y Press,
2000).
LYOTARD, Postmodern Condition, p. 29.
Em u m a d ecl aração d i r eci o nad a a irrit ar cient ist as e filósofos
t rad i ci o nai s, o crít ico lit erário Terry Eag l et o n, escr eveu:" Ci ênci a e
f ilosof ia d evem se d esf azer d e suas el o q uent es af i rm açõ es m e-
t af ísicas e o l h ar em p ara si m esm as co m m aio r m o d ést i a co m o
ap en as u m o ut ro co n j u n t o d e narrat ivas" (cit ad o d e" Aw ak en i n g
M o d erni t y' ' Times Literary Supplement, 20 d e f evereiro d e 1987,
por Alyst er M cGr at h,A Passion forTruth [ Do wn er s Gro ve,III.:Int er-
Varsit y Press, 1996] , p .187).
O ar t i g o o ri g i nal ap ar eceu em Social Text, p r i m aver a/ ver ão d e
1996, p p . 217- 52; A r evel ação d e So kal so b r e o t r o t e foi em
"A Physi ci st Exp er i m en t s w i t h Cul t ur al St u d i es" Língua Franca,
m ai o / j u n h o d e 1996, p p . 6 2 - 6 4 .0 t ext o p o st eri o r d e So kal , for-
n ecen d o "o seu p ró p ri o relat o so b re o si g ni f i cad o p o lít ico d o
d eb at e" q u e foi en vi ad o p ara o Social Text ao m esm o t em p o
em q u e seu ar t i g o foi en vi ad o a Língua Franca, p o r ém rej ei t ad o
p el o s ed i t o r es, foi p u b l i cad o co m o " Tr an sg r essi n g t h e Bo u n d a
ries: An Af t er w o r d " Di ssent , o u t o n o d e 1996, p p . 36- 37. A hist ó
ria d esse t ro t e foi am p l am en t e d i vu l g ad a nos j o r n ai s, no ver ão
d e 1996. Veja, p o r exem p l o , " M yst er y Sci en ce Th eat er " Língua
Franca, j u l h o / ag o st o d e 1996, p p . 54- 64; Br uce V. Lew en st ei n ,
" Sci ence an d So ci et y: t h e Co n t i n u i n g Val ue o f Reaso n ed d eb a
te", Chronicle of Higher Education, 21 d e j u n h o d e 1996, p p . B1- 2;
Liz M cM i l l an ," Th e Sci en ce War s" Chronicle of Higher Education,
28 d e j u n h o d e 1996, p p . A8- 9, 13; St even Wei n b er g , " So kal s

368
Notas

Ho ax" New York Review of Books, 8 d e ag o st o d e 1996, p p . 1 1 -


15;" So kal' s Ho ax: An Exch an g e" New York Review of Books, 3 d e
o u t u b r o d e 1996, p p . 54- 56; " Fo o t n o t es" Chronicle of Higher
Education, 22 d e n o vem b r o d e 1996, p. A8. Veja t am b ém Al l an
So kal e Jo h n Br i cm o n t , Fashionable Nonsense: Postmodern
Intellectuafs Abuse of Science (N o va Yo rk: Picad o r, 1998), e The
Sokal Hoax: The Sham That Shocked the Academy, ed . os ed i t o res
d e Língua Franca (Li n co l n : Uni ver si t y of N eb r aska Press, 2000).
' MONASTERSKY, Ri chard . " Th e Em p ero r' s N ew Sci ence: French TV
St ars Rock t h e World of Theo ret i cal Physi cs" Chronicle of Higher
Education, 15 d e n o vem b r o d e 2002, p p . A l 6- 18.
5
TAYLOR, M ar k C. Erring: A Postmodern a/ theology (Ch i cag o : Uni -
ver si t y of Ch i cag o Press, 1982). Aq u i est á u m a b r eve am o st r a
d e Tayl o r :" Id ei as j am ai s são f i xas, m as em co n st an t e t r an si ção ;
p o r t an t o , elas são i r r ep r een si vel m en t e t r ansi t ó r i as [...] As p al a-
vras d a a/ t eo l o g ia caem en t r e el as; est ão sempre no m ei o [ ent re
o co m eço e o fim]. O t ext o a/ t eo l ó g i co é u m t eci d o en t r et eci d o
em t r am as p r o d u zi d as d e i n t er m i n ável fiar"(p. 13). Desd e en t ão ,
Tayl o r t em ab r an g i d o d esd e a t eo l o g i a at é a ci b er n ét i ca; vej a
seu perf il em " Fr o m Kant t o Las Veg as t o Cyb er sp ace: A Phi l o so -
p h er o n t h e Ed g e o f Po sm o d er n i sm " Chronicle ofHigher Educa-
tion, 29 d e m ai o d e 1998, p p . A16- 17.
'• Um a co l et ânea d e ensaio s so b re o t em a por al g uns d o s t eó lo -
g os m en ci o n ad o s aq ui , al ém d e o ut ro s é d e Ti m o t h y R. Phillips
e Den n i s L. Ok h o l m , ed s. The Nature ofConfession (Do wn er s Gro -
ve, III.: Int erVarsit y Press, 1996).Veja t am b ém Geo r g e A. Li nd b eck,
The Nature of Doctrine (Phi l ad el p hi a: West m i nst er Press, 1984);
Di ó g enes Al l en, Christian Belief in a Postmodern World (Lo usvil-
le, Ky.: West m i snt er Jo h n Kno x, 1989); St anley Gr enz, Revisioning
Evangélica! Theology (Do wn er s Gro ve, III.: Int erVarsit y Press, 1993)
e J. Richard M i d d l et o n e Brian J. Wal sh, 7rufh Is Stranger Than It
Used to Be (Do wn er s Gro ve, III.: Int erVarsit y Press, 1995).
'•ODEN, Th o m as C, After Modernity... What? (Grand Rapids, M ich.:
Zo n d er van , 1990); Carl F. H. Henry, " Trut h: Dead o n Arrival" World,
20- 27 d e m aio d e 1995, p. 25; David F. Wells, God in the Wasteland
(Grand Rapids, M ich.: Eer d m ans, 1994) e Gen e Ed ward Veit h Jr.,
Postmodern Times (Wh eat o n , III.: Crossway, 1994). Od en ut iliza o

• 369 •
O u n i v e r so ao l ad o

t er m o pós-moderno para d escrever a sua própria ab o r d ag em , m as


ele assim ag e p o rq ue co nsid era o q ue t en h o d it o sobre pós- moder-
no não ser" p ó s" - m o d erno , m as u l t r am o d em o .O q u e ele reco m en-
d a para igreja d e nossos dias, acredit a ele, vai al ém d o m o d er no e,
assi m , p o d e l eg i t i m am ent e ser ch am ad o d e p ó s- m o d erno .
Veja al g o sen saci o n al d e Ch ar l o t t e Al l en , "Is Deco n st r u ct i o n
t h e Last Best Ho p e o f Evan g el i cal Ch r i st i an s?" Língua Franca,
j an ei r o d e 2000, p p . 47- 59.
1
GREER, Ro b ert . Mapping Postmodernism: A Survey of Christian
Options (Do wn er s Gro ve, III.: Int erVarsit y Press, 2003).
' Veja M er o l d West p h al , " Bl i nd Sp o t s: Ch r i st i an i t y an d Post -
m o d er n Ph i l o so p h y" Christian Century, 14 d e j u n h o d e 2003,
p p . 32- 35; Do u g l as Gr o o t h u i s, " M o d em Fal l aci es: Resp o n se t o
M er o l d West p h al " e M er o l d West p h al ," M er o l d West p h al Rep l i es"
Christian Century, 26 d e j u n h o d e 2003, p p . 41 - 42.
1
M cGr at h co m en t a: " O p ó s- m o d er n i sm o , p o r t an t o , n eg a, na
p r át i ca, o q u e af i rm a em t eo r i a. M esm o a q u est ão casu al : 'O
p ó s- m o d er n i sm o é verd ad eiro ' , i n g en u am en t e susci t a q u est õ es
cri t eri o sas f u n d am en t ai s q u e o p ó s- m o d er n i sm o co n si d er a
em b ar aço sam en t e d if ícei s d e lid ar" [Passion for Truth, p. 195).
'TAYLOR, Charl es. " Ro rt y in t h e Ep i st em o l o g i cal Tr ad i t i o n" em
Reading Rorty, ed . Al an R. M al ach o wski (Oxf o rd : Bl ackwel l , 1990),
p .258.
' NIETZSCHE."On Trut h an d Lie" p p . 9 5 - 9 6 .0 co m en t ár i o d e Bernard
William s so b re Rort y p o d er i a, i g u al m en t e, servir para N iet zsche:
" Al g um as vezes, ele [Rort y e, eu acr escent ar i a, Niet zsche] p arece
co n h ecer so b re a co n d i ção d e seus p ró p rio s p en sam en t o s. [...]
Em o ut ras vezes, ele p arece esq uecer- se, por co m p l et o , d e u m re-
q u er i m en t o d a au t o co n sci ên ci a,e co m o as ant i g as f ilo so f ias,t en-
t a escap ar, can d i d am en t e t r at an d o seu p ró p rio d i scurso co m o
p o si ci o nad o fora d a si t uação f ilosóf ica geral q u e ele m esm o est á
d escr even d o . Ele, p o r t ant o , neg l i g enci a a q u est ão se al g u ém
d ever i a aceit ar seu relat o so b re várias at i vi d ad es int elect uais, e
ai nd a p rosseg uir, p rat icand o - as" ("Aut o- da- fé: Co n seq u en ces of
Pr ag m at i sm " em Reading Rorty, ed . Al an R. M al ach o wski [Oxf o rd :
Bl ackwel l , 1990] , p. 29). Para u m a am p l a e so f ist icad a crít ica

• 370
Notas

so b re a ep i st em o l o g i a p ó s- m o d er n a, veja Al vi n I. Go l d m an ,
Knowledge in a Social World (Oxf o r d : Oxf o rd Universit y Press,
1999),p p .3- 100.
6 7
LiLLA." Polit ics o f Jacq u es Der r i d a" p. 38.
6 8
Veja p p . 67- 77 aci m a.
6 9
HAVEL, Václav. Letters to Olga: j u n h o d e 1979 a set em b r o d e 1982,
t r ad . Paul Wi l so n (Nova Yo rk: Henr y Holt , 1989), p p . 3 3 1 ,3 4 6 ,3 5 8 -
59; veja t am b ém Jam es W. Sire, Václav Havei: Intellectual Conscien-
ce of International Politics (Do w n er s Gr o ve, III.: Int erVarsit y Press,
2001 ),p p . 55- 59.
7 0
HASSAN ." Po st m o d erni sm t o Po st m o d er n i t y" p ar ág r af o f i nal .
71
HORGAN, Jo h n . " Bet w een Sci en ce an d Sp i ri t ual i t y" Chronicle of
Higher Education, 29 d e n o vem b r o d e 2002, p. B9.
7 2
WATSON, Pet er. The Modem Mind: An Intellectual History of the
Twentieth Century (Nova York: Per enni al , 2001), p p . 767- 72.
7 3
M AGEE, Br yan . Confessions of a Philosopher (Lo n d r es: Ph o en i x,
1977), p p . 590- 92.
7 4
WILSON, E. O., Consilience: The Unity of Knowledge (Nova York:
Alf red A. Kno p f , 1998), em esp eci al , p p . 238- 65. Veja, por exem -
plo, as resp o st as d o p ó s- m o d er ni st a Ri chard Ro rt y e d o b ió lo g o
Paul R. Gr o ss, "Is Ever yt h i n g Rel at i ve?" Quarterly, i n ver n o d e
1998, p p .14- 49.
7 5
SOKAL e Br i cm o nt . Fashionable Nonsense, p .2 1 1 .
7 6
Finalizo est e cap ít ul o co m u m a no t a ci f r ad a. Não é m i n h a i nt en-
ção, ag o r a n em m ai s t ar d e, co nt ri b ui r co m o q u e t en h o b r eve-
m en t e p revist o . Out ro s (veja aq uel es m en ci o n ad o s nas no t as d e
r o d ap é 59 e 60, d est e cap ít ul o ) est ão t r ab al h an d o nisso e, assi m ,
d ei xar em o s essa t aref a p ara eles e seus co l eg as.

Cap í t ul o 1 0 A vida exam i nad a


Conclusão

' SCHAEFFER, Francis A. The God Who Is There (Do wn er s Gro ve, III.:
Int erVarsit y Press, 1968), p. 88.

371
O u n i v e r so ao l ad o

2
Escrevi à exau st ão so b r e as razõ es p o r q u e al g u ém d ever i a es
co l her u m a co sm o vi são em d et r i m en t o d e o ut r a, em WhyShould
Anyone Believe Anything at AH? (Do wn er s Gro ve, III.: Int erVarsit y
Press, 1994).
3
YANDELL, Kei t h. " Relig io us Exp er i en ce an d Rat io nal Ap p r ai sal "
Religious Studies, j u n h o d e 1974, p. 185.
4
Cad a f o r m u l ação d e cad a co sm o vi são d eve ser co nsi d er ad a por
seus p ró p rio s m érit o s, cl ar o .To d avi a, p ara cad a u m a d as co sm o
vi sõ es, t en h o p o n d er ad o e d esco b er t o q u e t o d as elas co n t êm
p r o b l em as d e i nco nsi st ênci a.
5
Veja, por exem p l o , Ro m an o s 1.28.
6
Para u m t r at am en t o co m p l et o so b re a nat ureza d a d ú vi d a e sua
co nt r i b ui ção p ara a f o r m u l ação d e u m a co sm o vi são ad eq u ad a,
vej a, d e Os Gu i n n ess, God in the Dark (Wh eat o n , III.: Crossway,
1996).
7
Vej a, p o r exem p l o , d u as co l et ân eas d e en sai o s p esso ai s, p o r fi
l ó so f o s q u e er am ab er t am en t e cr i st ão s: Kelly Jam es Cl ar k, ed .,
Philosophers Who Believe: The Spiritual Jouneys of 17 Leadiíu/
Thinkers (Do w n er s Gr o ve, III.: Int er Var si t y Press, 1 9 9 3 );Th o m as
V. M o r r i s, ed ., God and the Philosophers: The Reconciliation ol
Faith and Reason (N o va Yo rk: Oxf o r d Un i ver si t y Press, 1 9 9 4 )
e Paul M . A n d er so n , Professors Who Believe: The Spirityal Joui
neys of Christian Faculty (D o w n er s Gr o ve, III.: Int er Var si t y Pr ess,
1998).
8
HOPKINS, Gerard M anley." Go d ' s Gr an d eu r " em The Poems of Gerard
Manley Hopkins, 4a ed ., ed . W. H . Gar d n er e N. H. M aKenzi e (Nova
York: Oxf o rd Universit y Press, 1967), p. 66.
9
0 N o vo Test am en t o é o t ext o p r i m ár i o p ara o t eísm o cr i st ão ,
m as t am b é m r eco m en d o Jo h n R. W .St o t t ,Basi c Christianity,vr\
ed . (Do w n er s Gr o ve, III.: Int er Var si t y Press, 1973), e J. I. Packei ,
Knowing God, rev. ed . (Do w n er s Gr o ve, III.: Int er Var si t y Pr ess,
1993).

372
Index

Bellow, Saul, 318


A
Bergman, Ingmar, 131, 137
Adams, Douglas, 111,113, 138, 328 Bernstein, Leonard, 302
Agostinho 15, 35 Best, Steven, 361, 369
Albrecht, Mark, 358 Bhattacharya, Anupama, 350
Allen, Diógenes, 291, 369 Birdsall, J. N., 318
Anderson, Paul M , 372 Blake, W illiam, 221
Animismo 220 Blattner, Barbara, 351
Aquino, Tomás 15, 40, 269
Blocher, Hen ri, 317
Aristóteles 15, 58, 123
Bloesch, Donald, 327, 336
Arnold, Matthew, 11, 172, 173, 286,
Blomberg, Craig, 337
337, 357
Bloom, Allan , 128, 138, 326, 327,
Atkinson, Alan, 345
332, 333
Audi, Robert, 362
Board, C. Stephen, 9, 334
Avron, Jerry, 345
Bogart, Humphrey, 303
Ayer, A. J. , 83, 323
Bohr, Niels, 330
Borgmann, Albert, 361
B Bradley, Walter L., 324
Bray, Gerald, 337
Bacon, Francis, 58, 137, 279
Bréhier, Emile, 64, 68, 78, 319, 322
Barash, David R, 286, 367
Bricmont, John, 290, 297, 368, 371
Barash, Nanelle, 286, 367
Brierly, Jonh, 322
Barrett, W illiam, 323
Broad, C. D., 228
Barth, Karl, 161, 173, 174, 176
Bromiley, Geoffrey, 317
Baskin, Wade, 319, 322
Bronowski, J. , 58, 318
Baudelaire, Charles, 66, 157
Brown, W illiam E., 316
Becker, Ernest, 338
Brunner, Em il, 161
Beckett, Samuel, 110, 111, 113, 119,
Brushaber, George, 327
137, 138
Bube, Richard H „ 10, 329, 351, 360
Behe, Mich el, 324, 325
Buber, Martin, 165, 166, 169,335, 336
Beiner, Ronald, 283, 366
Bucke, Richard Maurice, 235, 237,
Bellah, Robert, 353
356,357
O universo ao lado

Budismo, 183, 201 Crossan, John Dominic, 338


Buell, Jon, 325 Cruickshank, John, 334
Bultmann, Rudolf, 173, 174, 175, Cummings, E. E., 315
337
Burnham, Frcdrie, 361
Bush, Harold K., Jr., 364, 366
D
Darwin , Charles, 84, 122, 123, 325,
c 328, 331, 332
Dasgupta, Surendranath, 182, 338
Cabanis, Pierrejean Georges, 80, 146 Davies, Paul, 320
Cage, John, 137 Dawkins, Richard, 86, 332, 333
Carnus, Albert, 15, 135, 141, 143, Deddo, Gary, 10
149, 153, 154, 155, 156, 158, 159, Deísmo, 3, 55, 59,318
164, 176, 272,334, 335 Dembski, W illiam, 324, 325
Caplan, Arth ur L., 332 Dennett, Daniel, 324, 326, 332
Capon, Robert barrar, 127, 332 Dennis, Gregory, 352, 367, 369
Capra, Fritjof, 208, 216, 219, 341, Denton, Michael, 324
342, 350, 353 Derrida 265, 271, 285, 286, 299,
Carnell, Edward John, 174, 335, 337 361,364, 365,366,370
Carr, Audrey, 340 Descartes, René, 74, 79, 80, 267, 269,
Carson, Donald, 337 270, 272, 292, 295, 321, 323, 363
Cassirer, Ernest, 248, 359 Dettmar, Kevin J. H . , 283, 366
Castaneda, Carlos, 215, 221, 229, Dick, Philip K„ 217, 352
232, 233, 238, 239, 349, 350, 352, Dickstein, Morris, 367
356, 358 Disney, W alt, 135
Ch an , W ing-tsit, 338 Duchamp, Mareei, 110
Chase, Stuart, 359
Chesterton, G. K., 46
Chopra, Deepak, 216, 352
E
Churchland, Patricia Smith, 362 Eagleton, Terry, 368
Churchland, Paul M., 362 Eckhart, Meister, 232
Clapp, Rodney, 10 Edwards, Paul, 358
Clarke, Arth ur C , 217, 328 Einstein, Albert, 71, 319, 330, 332,
Clark, Kelly James, 372 353
Clin ton , Hillary Rodham, 345 Eliot .T. S., 315
Cohen, Andrew, 211, 346 Ellis, John M., 286, 366
Connor, Steven, 361 F.ngels, Friedrich, 327
Copleston, Frederick, 59, 318, 322, Englund, Harold, 166
363 Evans, C. Stephen, 9, 317, 327, 336,
Cosmovisão, 16 364
Crane, Stephen, 1 1, 12, 13, 109, F.wer, W illiam, 50
125, 133,315 Existencialismo, 3, 141, 144, 160, 334

374
Index

F H
Fairbridge, Rhodes W ., 78 Hackett, Stuart, 339
Fénelon, François, 62, 319 Haldane, J. B. S., 331, 363
Ferguson, Kitty, 208, 225, 232, 236, Harris, Melvin, 358
237, 319, 322, 341, 348, 354, 356, Harrison, Everett E, 317
357, 359, 360 Harrold, Charles Frederick, 337
Ferguson, Marilyn, 208, 225, 232, Hasker, W illiam, 317
236, 237, 319, 322, 341, 348, 354, Hassan, Ihab, 265, 296, 361, 371
356, 357, 359, 360 Havei, Václav, 296, 370
Fish, Stanley, 285 Hawking, Stephen, 71, 72, 77, 319,
Flew, Antony, 332 321, 324
Foucault, Mich el, 266, 279, 281, Hearn, Virgínia, 325
283, 285, 293, 299, 364, 365, 366 Hegel, Georg W ilhelm Friedrich, 96,
Freud, Sigmund, 246, 275, 280, 285, 97, 99, 102, 271, 327
360, 365 Heidegger, Martin, 143
Friedkin, Edward, 72, 323 Heinlein, Robert, 217, 352
Fuller, Buckminster, 61, 319,'341 Heinrich , Kathleen, 351
Heisenberg, Werner, 112, 329, 330
Heller, Joseph, 113, 333
G Hemingway, Ernest, 138, 302, 303
Garraty.John A., 322, 323 Henry, Carl F. H . , 291, 369, 370
Gay, Peter, 319, 322, 323, 333, 361 Herrick, James A., 209, 342
Geering, Lloyd, 175, 338 Hesse, Hermann, 179, 183, 193,
Geertz, Clifford, 350 196, 201,237, 302, 340
Giddens, Anthony, 361, 362 Himmelfarb, Gertrude, 367
Gilson, Etienne, 71, 319 Holmes, Arthur E, 7, 316, 318, 327,
Goldman, Alvin I . , 370 340
Graham, W ., 331 Hoover, James, 10
Greer, Robert, 291, 369 Hopkins, Gerard Manley, 23, 52,
Gregory, André, 218, 352 301, 311, 318
Grene, Marjore, 170, 336 Horgan, corista John Horgan, 296, 371
Grenz, Stanley, 291, 364, 365, 369 Horioka, Ch imyo, 340
Gribbin, John, 319 Houston, Jean, 210, 211, 214, 225,
Grof, Stanislav, 214, 240, 348, 358 235, 322, 345, 346, 354, 357
Groothuis, Douglas, 10, 209, 213, Hume, David, 271, 320, 363
291, 342, 347, 349, 352, 370 Hummel, Charles, 324
Gross, Paul R., 371 Humphreys, Christmas, 188, 197,
Guinness, Os, 10, 338, 372 339, 340
Gurdjieff, George I . , 356 Huxley, Laura Archera, 81,214, 226,
227,228, 229, 231,232, 237, 238, 243,
244,323, 328,348,355, 356, 357,358

• 375
O universo ao lado

Huxley.T. H . , 81, 214, 226, 227, 228, Kirchen, K. A., 348, 360
229, 231, 232, 237, 238, 243, 244, Klimo, Jon, 214, 229, 356, 360
323, 328, 348, 355, 356, 357, 358 Krieger, Dolores, 351
Krupnick, Mark, 285, 366
Kiibler-Ross, Elisabeth, 240
I Kubrick, Stanley, 217
Ichazo, Oscar, 225, 354, 358, 360 Kurtz, Paul, 322
Ionesco, Eugene, 113 Kvaloy , Sigmund, 341

J L
Jaki, Stanley, 329, 330, 331, 332 Laing, R. D., 251,353, 360
James, W illiam, 10, 209, 214, 235, La Mettrie Julien Offray de, 75, 77,
302, 315, 326, 342, 344, 346, 348, 79, 80, 89,320, 321,322,326
357, 358, 360, 370, 372 Lemley, Brad, 213, 348, 352
Jesus, 17, 30, 32, 4 1 , 44, 48, 50, 53, Lentricchia, Frank, 367
63, 67, 78,87, 90, 161, 172, 174, Leonard, George, 225, 303, 346
175, 200, 204, 212, 257, 258, 275, Leone, Mark P., 338
337, 338,340, 341,342,346 LeShan, Lawrence, 229, 249, 250,
Jobling, David, 78, 83, 322 353, 354, 356, 357, 358, 359, 360,
Johnson, David L., 325, 327, 337, 361
338, 339
Lévi-Strauss, Claude, 285
Johnson, LukeTimoth y, 325, 327,
Lewenstein, Bruce V., 368
337, 338, 339
Lewis, C. S., 123,216,317, 331,
Johnson, Philip E., 325, 327, 337,
338, 339 338,351
Joyce, James, 302, 350 Lilla, Mark, 265, 295, 361, 364, 366,
Jung, C. G., 214, 280, 348, 360 370
Lilly, Joh n, 207, 214, 223, 224, 229,
230, 231, 233, 237, 238, 239, 245,
K 246, 251, 349, 353, 356, 357, 358,
Kafka, Franz, 113, 130, 137, 138, 359, 360
161, 173, 333 Lindbeck, George A., 291, 369
Kant, Immanuel, 7, 169, 271,363, 369 I.inssen, Robert, 340, 341
Kaufmann, Walter, 333, 361, 363, 364 Lipner, Julius, 339
Keegan, Lyn n , 351 Lippman, Walter, 326
Keen, Sam, 235, 341, 354, 360 Locke , John, 59, 60, 74, 271
Kellner, Douglas, 361 Lockerbie, Bruce, 327
Kierkegaard, Soren, 142, 160, 168, Lodge, Sir Oliver, 244
170, 176, 335, 336 Lott, Eric, 339
Kin g, Richard, 353, 360 Lovelock, J. E„ 216, 351
Kinney, Jay, 352 Lowrie, Walter, 335
Lucas, George, 217, 360

• 376 •
Index

Ludwig, Arnold M., 96, 357 Michelmore, R, 332


Lundin, Roger, 366 Middleton, J. Richard, 291, 316, 369
Lyon, David, 327 Millet, Kate, 285
Lyotard, Jean-François, 266, 278, Milton , John, 56, 93, 318
284, 285, 288, 291, 362, 364, 365, Mitcham, Carl, 323
366, 368 Mitchell, Joni, 366
Miuta, Issu, 341
Molière, Jean Baptiste, 16
M Monastersky, Richard, 368
Maclntyre, Alasdair, 327, 336 Monod, Jacques, 86, 119, 120, 326,
MacKay, Donald, 360 329
MacKenzie, N . H . , 318 Moody, Raymond J., Jr., 240, 316, 358
MacLaine, Shirley, 71, 210, 224, Moore, Charles, 338
226, 229, 230, 232, 236, 237, 238, Moreland, J. R, 325
240, 244, 344, 345, 346, 352, 353, Morris, Thomas, 367, 372
354,356,357,358 Mouw, Richard, 315
Macquarrie, John, 336 Mumma, Howard, 159, 335
Madonna, 355 Murray, Michael ] . , 324
Magee, Bryan, 297, 371 Myocho, mestre zen, 341
Mahesh, Maharishi, 183, 187, 188,
340, 352
Malachowski, Alan R., 370
N
Mangalwadi, Vishal, 342 Naugle, David, 7, 10, 316
Manifesto Humanista, 78, 83, 88, Neill, Stephen, 337, 338
89, 94, 323, 326, 327 Newman, Margaret A., 351, 355
Marshall, I . Howard, 315, 360 Nida, Eugene, 353
Marshall, Paul A , 315, 360 Niebuhr, Reinhold, 161, 173, 335,
Marsh, Jeffrey, 321 337
Marx, Car l, 95, 96, 97, 98, 99, 100, Nielson, Kai, 296
101, 102, 103, 104, 285, 327 Nietzsche, Friedrich, 15, 114, 116, 128,
Mascall, E. L.,317 138,142,173, 263, 264, 267, 271,
Mascará, Juan, 193, 200, 339, 340 272, 274, 281, 294, 295, 296, 299,
Maslow, Abraham, 214, 235, 348 328, 333, 334, 361, 363, 364, 370
Masters, Robert, 214, 235, 247, 248, Noel, Daniel C , 350
345, 350, 359 Nova Era, 71, 208, 209, 212, 213,
Maughm, Somerset, 302 218, 221, 222, 234, 239, 241, 259,
McCraken , Samuel, 361 271, 310, 343, 344, 345, 349, 351
McGrath , Alister, 368, 370
McMillan , Liz, 368
Medawar, Peter, 58, 318, 328 O
Menninga, Clarence, 324 Oates, Joyce Carol, 318, 322, 350, 363
Mezan, Peter, 360 Oden, Thomas, 291,369

377
O universo ao lado

Okh olm, Dennis L , 369 Renan, Ernest, 171, 337


Oliver, Joan Duncan 244, 344 Romain, Rolland, 339
Olthuis, James H . , 315 Rorty, Richard, 275, 282, 294, 299,
Owen, H . R, 317 363, 364, 365, 370, 371
Rosenfeld, Albert, 229, 356
Rosen, W inifred, 347
P Roszak, Theodore, 214, 221, 349, 353
Packer, J. L, 327, 372 Russell, Bertrand, 296
Paley, W illiam, 320 Ryken, Leland, 366
Paramahamsa, Sri Ramakrishna, 378
Pascal, Blaise, 35, 175
Pater, Walter, 302
s
Paulo, Apóstolo, 15, 39, 45, 48, 49, Sagan, Carl, 76, 296, 321, 326
258, 301, 330, 342, 346, 347, 351 Said, Edward, 273, 364
Pearcey, Nancy, 317, 325, 329, 351 Sanborn, Sara, 319
Peterson, Houston, 322 Sartre, Jean Paul, 15, 141, 143, 146,
Peters, Ted, 342 147, 151, 152, 153, 158, 176, 272,
Phillips, Timothy R., 316, 369 280, 334, 365
Phillips, W. Gary, 316, 369 Sasaki, Ruth Fuller, 341
Picasso, Pablo, 302 Saussure, Ferdinand de, 285
Plantinga, Alvin , 331 Sayers, Dorothy L , 317
Platão, 15, 275 Schaeffer, Francis A , 171, 317, 318,
Platt, John, 90, 91, 148, 168, 326, 331,336, 371
328, 334 Schiffman, Richard, 339, 340
Pollard, Nick, 333 Schmitt, Richard, 327
Schrõdinger, Erwin , 250, 359
Seaborg, Glen n , 328
Q Seznec, Jean, 316
Quine, W illard Vam Oman , 276, Shakespeare, W illiam, 26, 93
364 Shawn, Wallace, 352
Showalter, Elaine, 285
Sidney, Sir Philip, 36, 317
R Simpson, George Gaylord, 85, 86,
Radhakrishnan, Sarvapalli, 338 90,91, 106, 323, 325,326, 327
Ramakrishna, 339, 340 Sire, James, 316, 370
Ramm, Bernard, 327 Skinner, B. E, 90, 118, 148,308,
Raschke, Carl A., 342 328, 360
Ratzsch, Del, 317, 325,367 Smalley, W illiam A., 353
Redfield, James, 344, 346 Sohl, Robert, 340
Reisser, Paul C , 351 Sokal, Alan, 289, 290, 297, 351,
Reisser, Teri, 351 359,368, 371

378 •
Index

Solomon, Robert C , 363 Toland, John, 68


Spangler, David, 354 Tolkien .J. R. R., 317
Spanos, W illiam V., 334 Torrey, Norman L., 320
Spenser, Edmund, 93 Toulmin, Stephen, 361
Spielberg, Steven, 217 Trevethan, Thomas, 9
Stavans, Ilan, 286, 367 Tucker, Richard, 327
Stenger, Victor J., 351, 359 Turkle, Sherry, 323
Stevens, Bonny Klemp, 303, 366
Stevens, Wallace, 303, 366
Stewart, Larry L., 324, 340, 366
u
Stewart, W . Christopher, 324, 340, Updike, John, 73, 83, 323
366
Stott, John R. W ., 372
Strauss, D. E , 171, 285
V
Suzuki, D. T., 182, 203, 340, 341 Van Till, Howard J. , 324
Swihart, Phillip J. , 358 Veith, Gene Edward, Jr., 291, 369
Vivekananda, Swami, 182, 339
Voltaire, F. M. A. de, 60
T Vonnegut, Kurt, Jr., 113, 132, 333
Tart, Charles, 357, 360
Taylor, Charles, 291, 294, 347, 369,
370
w
Taylor, Eugene, 291, 294, 347, 369, Walhout, Clarence, 366
370 Walsh, Brian, 291, 316, 369
Taylor, Mark C , 291, 294, 347, 369, Watson, Jean, 297,351,371
370 Watson, Peter, 297, 351, 371
Templeman, W illiam D., 337 Watts, Alan, 182, 319
Tennyson, Alfred Lord, 13, 315 Weber, Marx, 128
Th axton , Charles, 317, 324, 325, W eil, Andrew, 212, 213, 216, 220,
329, 351 225, 235, 251, 347, 348, 349, 352,
Th ielicke, Helmut, 37, 318, 333, 353, 354, 358, 360
359, 361 Weinberg, Steven, 351, 359, 368
Thomas, Lewis, 9, 216, 291, 334, W eldon, John, 351
351,365,369,372 Wellhausen, Julius, 171
Thompson, Keith, 214, 215, 219, Wells, David, 291, 369
225, 229, 237, 253, 349, 350, 353, W enh am.Joh n, 318
354, 356, 357, 360 Westerstrom, Jeffrey N., 367
Thompson, W illiam Irwin , 214, 215, Westphal, Merold, 291, 370
219, 225, 229, 237, 253. 349, 350, W hitehead, Alfred Norih , 319, 320,
353, 354, 356, 357, 360 334
Todaro-Franceschi, Vidette, 351 W h ir e, Mich ael, 319

379 •
O universo ao lado

W horf, Benjamim, 247, 359 W right, N. T. (Tom), 72, 320, 323,


Wilber, Ken, 208, 211, 212, 214, 225, 337, 338, 360
226, 229, 235, 237, 250, 254, 259, W right, Robert, 72, 320, 323, 337,
342, 346, 355, 356, 357, 359, 360 338, 360
W illiams, Bernard, 370
W ilson, E. O., 215, 297, 326, 370,
371
Y
W ilson, James Q., 215, 297, 326, Yandell, Keith , 10, 306, 333, 339, 371
370, 371
W inkler, Karen J. , 367
W itherington, Ben, 338 Z
Wolfe, David L., 318 Zaehner, R. C , 235, 352, 357, 358
Woltjer, Lodewijk, 84 Zaretsky, Irving I . , 338
Woodward, Bob, 345 Zen, 183, 338, 341, 352, 357, 358
W right, J. S., 72, 320, 323, 337, 338, Zukav, Gary, 216, 219, .350, 353
360

380 •

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