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2º B2: André Sica — Nº 3; Rosa Dias — Nº 20 e Luigi Sibinelli — Nº14.

Avaliação Discursiva de História

Uma problemática (não apenas) colonial


Ainda que a colônia de Pindorama não possa ser considerada a filha da nação brasileira, a primeira
engendrou traços e estruturas sociais sob a vigência dos quais vivemos nos dias atuais, produzindo, dessa
forma, um percurso histórico que, conforme James Baldwin, padece de justificativas morais. A fim de
fundamentar a premissa de que as contradições e assimetrias econômicas, sociais e arraigadas no próprio
imaginário da sociedade brasileira que tem fixada na sua memória coletiva mitos de origem completamente
infundados e forjados no seio de um projeto etnocêntrico são um construto histórico que remonta ao
processo de expansão ultramarina das potências europeias (vetores da expansão de uma fase de acumulação
primitiva do capital, cujo florescimento custou — e segue custando — a vida de muitos), faz-se necessário
analisar os processos que condicionaram a sociedade colonial brasileira, demarcando uma continuidade dos
efeitos deletérios de uma experiência de contato que foi, na sua essência, uma experiência de dominação e
de imposição (inclusive, ideológica) sobre, primeiramente, as culturas nativas e, posteriormente, sobre os
negros advindos da África. Nesse sentido, o presente texto busca demonstrar que a invasão europeia que
configurou a colônia brasileira persiste até hoje e que, dessa forma, o Brasil pode ser considerado, conforme
Ailton Krenak, como uma invenção.
Em primeiro lugar, é importante ponderar que, desde o embrião da sociedade colonial, fundada
(efetivamente, e não apenas como entreposto) a partir da empreitada capitaneada, em 1530, por Martim
Afonso de Souza, servidor da Coroa Portuguesa, as facetas indissociáveis do projeto de colonização já eram
esboçadas: primeiramente, pela natureza remuneratória e exploratória do sistema de Capitanias Hereditárias,
o qual materializava o sentido comercial e extrativista das Grandes Navegações, centradas no
desenvolvimento econômico da Metrópole; em segundo lugar, pela motivação religiosa dos atos de expansão,
visto que o Estado de Portugal orientou e mobilizou o sentido cultural do processo com vistas à continuação
de uma cruzada que considerava a inserção da fé católica em povos sem fé, enxergados como incapazes de
apresentarem por si mesmos, sendo vinculados, a priori, a um parâmetro absoluto e civilizatório. Tais
dimensões, explicitadas já na Carta de Pero Vaz de Caminha (1500), não podem ser prescindidas do
entendimento de que, no mundo escravista, não apenas seres humanos são mercantilizados e inseridos em
uma engrenagem da qual são a máquina motora, mas também extirpados de seus sentidos e modos de
existência inerentes em favor de um arranjo cujos protagonistas e beneficiários são os mesmos que dominam
economicamente o Brasil, país calcado na lógica da colonização.
No século XVI, os portugueses, interpretando a legislação monárquica, lançaram mão da escravização
de nativos sob o pretexto da Guerra Justa, segundo o qual seria plausível subjugar aqueles que não
incorporassem a fé cristã ou apresentassem algum tipo de resistência armada, servindo-se, inclusive, de
rivalidades rituais preexistentes entre o heterogêneo mosaico de povos existentes no Brasil, o qual foi
violentado simbólica e fisicamente e reduzido ao propósito da aquisição de força militar e de trabalho
(escravo). Dessa premissa, seguiu-se um verdadeiro massacre dos povos originários — articulado, em grande
parte, pelas bandeiras, centradas, antes da época das pesquisas auríferas, no aprisionamento de indígenas,
contraposto pelas missões jesuíticas que propunham a sua educação sob a égide da fé cristã — o drama
subsiste até o atual contexto, em que, por exemplo, há propostas de emendas constitucionais para abrir terras
demarcadas para exploração — a guerra é contínua e transcende, propriamente, o tempo histórico em que
se deu inicialmente. Ademais, tal busca por implantação de um sistema produtivo fundamentado no trabalho
escravo (tensão inerente à experiência de contato, marcada pelo interesse e pela avidez de uma sociedade
de comerciantes) acompanha uma tentativa do Estado metropolitano de incorporar os nativos em seus
enredos, expurgando as suas peculiaridades a partir de um projeto de catequese fundado numa pretensa
necessidade salvar formas de existências cujos laços originais (constrangidos) e pretensamente primitivos
foram desarticulados. As matizes de nossa História são acompanhadas por mitos de colonização que obliteram
e relegam os indígenas, ainda que tenham sido atores significativos que perpassaram todos os ciclos
econômicos, tratando-os como um povo conquistado por uma minoria privilegiada e por um modelo
brutalmente injusto. Portanto, o desconhecimento em relação ao escravo índio (convencionado como
preguiçoso, tese corroborada por discursos públicos) é uma falsificação ideológica que reverbera num senso
de realidade deturpado e numa ignorância (essência da segregação e da apatia moral), os quais ganham corpo
nas mediações socioeconômicas, cujos parâmetros não são coerentes dentro do modo organizacional dos
indígenas.
Somente por volta de 1620 — devido a fatores como o aumento drástico da demanda sacarina
europeia e a falta de resistência epidemiológica dos nativos (“a preferência pelos africanos revela-se na
engrenagem do sistema mercantilista de colonização”) —, os escravos africanos, de baixíssima expectativa de
vida em solo colonial (em decorrência de condições aviltantes de trabalho), começaram a ser majoritários nos
engenhos, de tal modo que a faceta mais lucrativa da manufatura da cana era o comércio de escravos, tráfico
revigorado, posteriormente, no século XVIII, pela necessidade de braços ativos para a mineração, que
proporcionou a interiorização da colônia e o deslocamento da mão de obra para a região das Minas (algo que
comprometeu a dinâmica litorânea). O Brasil, nesse sentido, mais do que berço da escravização, tem
enraizado o escravismo, pois ela foi o cerne da exploração econômica da colônia, moldando a memória
coletiva da sociedade brasileira e plasmando o seu tecido social de forma perene (isso deve ser modificado,
sobretudo, ao nosso ver, por medidas estruturais direcionadas à educação) e corroborada pelo estado de
funcionamento das instituições. O país foi o principal destino dos navios negreiros que transplantaram os
africanos de forma volumosa e que são essenciais para a compreensão da escravidão africana colonial (e não
o contrário). Nesse contexto, é estarrecedora a seguinte contradição, notada por Henry Gates Jr. : por um
lado, o Brasil é um país absolutamente diverso, fundamentalmente africano (raízes muito negligenciadas) e
fundado em sincretismos, mas, por outro, foi o último do Hemisfério Ocidental a abolir a escravidão e, ainda
assim, vangloria-se sob a tese da democracia racial, que não passa de um ideal que parece, atualmente,
intangível, sobretudo num país em que a Consciência Negra é problematizada como nenhum outro feriado e
em que até as comunidades quilombolas, símbolo de resistência a um arranjo ideológico que propugnava a
necessidade de subserviência à escravidão, seguem sendo acometidas pelas sombras da expurgação à qual
foram submetidas na época da colônia. Mais uma vez, nota-se um descompasso: se, por um lado, Zumbi dos
Palmares é, indiscutivelmente, um herói nacional, por outro, a violência contra a população negra — parte da
qual foi privada do conhecimento em relação às suas verdadeiras origens — recrudesce a um ritmo desolador.

Logo, a escravidão no Brasil construiu uma estrutura na qual o racismo se assentou, tanto no âmbito
econômico, quanto no psíquico. A mão de obra colonial brasileira consistiu num modo pelo que fomos
sugestionados a enxergar a raça e a desenvolver todos os estigmas que, até hoje, são muito vibrantes. A
herança deixada pelo sistema mercantilista colonial foi o que o caracterizou e até hoje caracteriza a estrutura
da questão racial, como uma consequência de um sistema, em que, conforme mencionado anteriormente,
os escravos eram "as mãos e os pés do senhor de engenho". A partir do momento em que foi colocada a raça
como sinônimo de classe dentro do sistema hierárquico escravocrata, desenvolveu-se uma estrutura que rege
a economia e a sociedade hoje em dia. Dessa forma, a problemática é muito profunda, pois está vinculada à
estrutura construída pela colonialidade, a qual universalizou e internalizou premissas etnocêntricas
(negligentes em relação ao relativismo das posições culturais) que são pretexto para o tratamento social
distinto entre grupos, que não é, sob hipótese alguma, decorrência da natureza, mas de processos culturais
e de falsificações ideológicas que orientaram as hodiernas práticas e comportamentos políticos coletivos, os
quais são absolutamente excludentes
Portanto, faz-se necessário operar criticamente de modo a dispersar a névoa de desconhecimento que
recai sobre a nossa História, que é, antes de tudo, a relação recíproca existente entre o passado e o presente,
cujas bases foram lançadas no primeiro, marcado pela expansão de um sistema econômico excludente que
segue hegemônico. A maioria esmagadora dos brasileiros vive dentro de um espectro em que a escravidão é
pensada como um problema exclusivamente colonial, quando, na verdade, ela se intensifica após a
Independência e a formação do Brasil como nação. A apatia moral oriunda de tais mitos é prejudicial, pois
inibe a compreensão do presente e corrobora os abusos aos quais às memórias de indígenas e negros
africanos importados como mercadorias foram submetidos. O “Ser Senhor de Engenho” é um título que foi
apenas ressignificado.

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