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A Revista do Expresso

EDIÇÃO 2553

Tintin
1/OUTUBRO/2021

em Portugal
O herói da banda desenhada vai estar a partir de hoje em Lisboa, onde em 1935 deu os primeiros passos fora
da Bélgica. Uma luminosa, e ao mesmo tempo sombria, exposição dedicada ao génio de Hergé
Por Jorge Calado e Pedro Boucherie Mendes

+
Seinfeld
O segredo
de uma série
sobre nada
Por Pedro
Mexia
Mossad
O robô
que matou
o cientista
iraniano
Um exclusivo
“The New York
Times”
Europa
Democracia
em risco a Leste
Por Ana França,
na Hungria
e Polónia
03 — 08 outubro M/6

Pianomania

Ivo Pogorelich
Alexandra Dovgan
Rudolf Buchbinder
David Fray
Lucas Debargue
Lucas Debargue © felix broede

GULBENKIAN.PT
mecenas mecenas mecenas mecenas mecenas principal
concertos para piano e orquestra estágios gulbenkian para orquestra concertos de domingo ciclo piano gulbenkian música
PLUMA CAPRICHOSA

O REINO DA CÂMARA MUNICIPAL DE LISBOA

S
UM CICLO DE PODER POLÍTICO COM 14 ANOS FOI INTERROMPIDO QUANDO ESPERAVA TER MAIS QUATRO PARA FECHAR NEGÓCIO

os telefonemas e mensagens que poderiam ser autárquico, nem mais nem menos) da gerontocracia
resumidos naquela frase da máfia, conheço um tipo de Rio não se importou de dizer numa entrevista.
que conhece um tipo que pode dar uma palavrinha. Este presidente da Câmara tem agora, como diz o
Carlos Moedas é agora o rei deste reino. E nenhuma povo, a faca e o queijo na mão.
análise retroativa dos enganos de todos os profetas E não, Rui Rio não ganhou as eleições. Se tivesse
políticos e estatísticos, ou nenhuma análise alguma inteligência política e não se limitasse
futurista das dificuldades e “ingovernabilidades” da a vir à tona tomar fôlego para logo se afogar em
Câmara, das chantagens da vencida e minoritária ninharias tweetadas e erráticas decisões, Rio deveria
extrema-esquerda, dos escolhos do caminho, sair da liderança do partido e deixar que uma
lhe retirarão uma parcela do poder que a partir nova geração o substituísse. E à gerontocracia. Os
de domingo detém. É sabido que os socialistas e jovens turcos vão alinhar-se depois de domingo,
ó existe em Portugal um centro de poder real, comunistas, e por vezes as respetivas dinastias e são, quer se queira ou não, os descendentes de
um poder que modifica e dilata ou retrai a vida familiares, A casado com B que é mãe ou pai Passos Coelho. Os de Rui Rio ninguém sabe quem
quotidiana como nenhum outro. Um poder de C ou prima de D, têm um poder consolidado são, essa guarda jovem e sem nome, anónima e
que mexe, como se diz, com a vida das pessoas, na Câmara, e não o largarão ou dele abdicarão ineficiente, que ele disse que ia renovar o partido.
com a vida real e não com o território futurista com facilidade. A Câmara, como todos os pódios Rio arrastar-se-á e ao PSD para uma batalha que
dos analistas, comentadores e criadores de da natureza a que chamamos humana, é um António Costa deseja e espera para assegurar a
cenários, futuros e ficções políticas. Um poder organismo vivo com células que tratam do seu própria sobrevivência e impedir a nova geração
que alcança um sem número de influências no bem-estar, da homeostase. Negociarão, se isso de socialistas de lhe tomar o lugar. Como fez com
regime patrimonial, a autorização e a delimitação implicar uma sobrevivência amável. Medina na Câmara, Costa quer controlar a sucessão
da propriedade pública e privada, no regime Um ciclo de poder político com 14 anos foi e talvez estas contas lhe custem o legado. O tempo
financeiro, com o equilíbrio entre vastas cobranças interrompido quando esperava ter mais quatro é uma inevitabilidade, a contagem decrescente
e receitas, no regime social e consequente cauda para fechar negócio. Se alguém pensa que 14 anos começou. Costa está na política há demasiados
de ajudas, subsídios e apoios, no regime cultural, no poder não geram corrupção financeira, moral anos, vai deixando de ter visão periférica.
onde a indigência obriga a súplicas e trocas de e intelectual, abuso e prepotência, arrogância Rui Rio é o seguro de vida de António Costa e da
favorecimentos, e nos problemas magnos do e desvario, delinquência e degenerescência, esquerda. Como político inteiro que é, o chefe dos
ambiente, do ar, da água, do lixo, das zonas verdes, pense outra vez. O povo de Lisboa entendeu pôr socialistas sabe o que perdeu nestas eleições. Muito.
do urbanismo, da mobilidade, pública e privada, cobro a isto. 14 anos mais quatro à frente de uma Mesmo muito. Se estamos na política de análise
para dentro e para fora do perímetro urbano, no Câmara Municipal, a mais poderosa, a mais rica, biométrica, a cara era um programa de derrota. O
regime da saúde, pública e privada, no regime da a de Lisboa, transformam-se numa autocracia sorriso secou. E pode pegar nos ministros coxos
convivência, do lazer, da felicidade, da solidão, consentida. Não significa que o presidente da que mantém por bravata, posso, quero e mando,
do prazer e do sofrimento de habitar uma grande Câmara fosse ele mesmo corrupto, significa e embrulhá-los em celofane, que é um papel
cidade. Ou do prazer e sofrimento de visitá-la, que o exercício do poder se torna automático transparente e não muito rijo. Cabrita e afins,
incluindo os turistas. A cidade é primeiro de e dependente da inércia, das delegações e incluindo o fosco Brilhante vivem, Costa morre um
quem nela mora e nela trabalha e em segundo persuasões, das confianças e das desconfianças pouco todos os dias.
dos visitantes e dos que dela estão ausentes. Ao dos mais próximos e da parcela de poder que É divertido verificar como os eleitores mantêm
contrário do que apregoa o PCP, uma cidade não é os que estão junto do poder, a corte, toma para o instinto vital da democracia. Ao contrário da
para todos, nunca foi e nunca será. As metrópoles si sem autorização expressa. A partir de certa citação do Leopardo, usada e abusada, em Lisboa
acolhem quem nelas consegue sobreviver mais altura, o poder é uma acumulação de omissões é preciso que tudo mude para que nada fique na
do que viver e dão em troca a pertença a uma e consentimentos tácitos. O escândalo das mesma. Essa a dura missão do novo presidente. b
comunidade mais vibrante e cosmopolita, com informações passadas a governos onde os direitos
mais oportunidades. humanos não são respeitados, e que Fernando
Este centro de poder chama-se Câmara Municipal Medina não soube ou não quis interpretar e
de Lisboa. O primeiro-ministro e o presidente valorizar, é um sinal dessa inércia onde o presidente
dividem poderes constitucionais, poderes que dá cobertura a atos criminosos, não cuidando
por vezes podem ter tanto de fácticos como de de saber ou investigar como funciona o reino.
fictícios, mas a sua área de influência, diluída pelo Ao fim de 14 anos, e quando se herda o poder, o
território nacional e pelos órgãos adjacentes e os esquecimento é uma forma de ação.
de escrutínio da atividade pública, é mais vasta Carlos Moedas, o proverbial underdog, transformou-

/ CLARA
e logo mais abstrata do que a área de influência se no único grande vencedor da noite eleitoral.
de um presidente da câmara. A seguir à Câmara Rui Moreira, que já esteve neste lugar com a coroa
Municipal de Lisboa vem a do Porto, a segunda
maior cidade, e o resto são trocos e estatísticas.
de louros, perdeu a maioria absoluta, e sofreu
uma dentada no poder. Moedas foi subestimado
FERREIRA
As duas Câmaras, pela orgânica e pela dinâmica, por desconhecidos, retratado em função da cara ALVES
passam quase sem escrutínio. A partir do momento e da expressão, não tem cara de vencedor,
em que um presidente se senta no edifício dos disseram os peritos, e maltratado pelo
Paços do Concelho, um nome adequadamente próprio partido e sobretudo pelo chefe
pomposo, tomou posse do reino. A seu tempo, todos que o escolheu para a Câmara de Lisboa
os que dele dependem direta ou indiretamente, para o ver perder e assim se ver livre
virão ao beija-mão. Desde ontem, começaram dele, como um dos próceres (o crânio

E 3
SUMÁRIO
EDIÇÃO 2553 | 01/OUTUBRO/2021

fisga +E Culturas Vícios

RICARDO LOPES
7 | O fim da reforma?
O envelhecimento
da população, a queda
da natalidade e a redução
da população ativa — e as
novas dinâmicas do mercado
20 | Hergé
Na Fundação Calouste
Gulbenkian, uma aliciante
exposição com origem
em Paris dedicada ao genial
pai de Tintin
53 | Seinfeld
Sucesso maior da televisão
nos anos 90 regressa às
casas de todo o mundo. A
série está disponível a partir
de hoje, na íntegra, na Netflix
73 | São Tomé
Viagem ao lugar onde as
paisagens idílicas se cruzam
com a riqueza da história,
uma ilha que é uma explosão
de cores e sabores
46
Rodrigo Leão
Conversa com o
de trabalho, marcadas pela
automação e digitalização 30 | Mohsen Fakhrizadeh 56 | Livros “Ensaios Um”, 76 | Receita compositor, de regresso
— estão a criar desafios Mahabadi de Lydia Davis Por João Rodrigues com um álbum que
acrescidos no sistema O homem que controlava celebra a beleza da
de pensões português o programa nuclear 60 | Cinema “A 78 | Restaurantes
do Irão estava há anos Metamorfose dos Pássaros”, Por Fortunato da Câmara vida e uma trilogia
10 | Déjà Vu na mira da Mossad — e os de Catarina Vasconcelos que comemora a
80 | Vinhos
Santana da Figueira serviços secretos de Teerão
64 | Música Álbuns de Por João Paulo Martins
liberdade. “Não procuro
Lopes da Foz sabiam-no. Mas isso a perfeição”, diz
Por Bruno Vieira Amaral não impediu o ataque, José Afonso reeditados
81 | Recomendações
com recurso à inteligência 68 | Teatro & Dança De “Boa Cama Boa Mesa”
12 | Os Cadernos e os Dias artificial e a uma
Vulcões e Graça “Silêncio”, de Cédric Orain
metralhadora disparada e Guilherme Gomes, 82 | Design
Por Gonçalo M. Tavares por controle remoto Por Guta Moura Guedes
no D. Maria II, em Lisboa
16 | Planetário 38 | Hungria e Polónia 84 | Moda
FICHA
70 | Exposições “Morder
“Serralves em Luz” Imprensa com vida difícil, o Pó”, de Fernão Cruz, Por Gabriela Pinheiro TÉCNICA
entre rotas europeias minorias com menos na Gulbenkian, em Lisboa Diretor
Por Nuno Galopim direitos. Dois países 86 | Tecnologia João Vieira Pereira
a leste da democracia, Por Hugo Séneca
Diretor-Adjunto
em choque com a Europa Miguel Cadete
87 | Automóveis mcadete@impresa.pt
Por Vítor Andrade
Diretor de Arte
89 | Passatempos Marco Grieco
Por Marcos Cruz Editor
Ricardo Marques
rmarques@expresso.impresa.pt
Editor de Fotografia
João Carlos Santos

CRÓNICAS Coordenadores
João Miguel Salvador
jmsalvador@expresso.impresa.pt
3 Pluma Caprichosa por Clara Ferreira Alves | 18 Cartas Abertas por Comendador Marques de Correia Luís Guerra
52 Fraco Consolo por Pedro Mexia | 59 O Outro Lado dos Livros por Manuel Alberto Valente
lguerra@blitz.impresa.pt

Coordenadores Gerais de Arte


72 O Mito Lógico por Luís Pedro Nunes | 88 Diário de Um Psiquiatra por José Gameiro Jaime Figueiredo (Infografia)
90 Que Coisa São as Nuvens por José Tolentino Mendonça Mário Henriques (Desenho)

ILUSTRAÇÃO DA CAPA: HERGÉ

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fisga
“QUEM SABE TUDO É PORQUE ANDA MUITO MAL INFORMADO”

Reforma dos
Se é verdade que hoje existem mais de dois
trabalhadores por cada reformado, o futuro
afigura-se menos risonho: caminhamos para uma
situação em que o número de reformados será
maior que a população ativa. Consequentemente,

dias contados e num cenário em que o atual modelo de


financiamento das pensões de reforma continue a
ser financiado pelos descontos dos trabalhadores
e contribuições das empresas, é a própria
sustentabilidade da Segurança Social (SS) que
O ENVELHECIMENTO DA POPULAÇÃO, A QUEDA DA NATALIDADE está em causa. E há uma grande probabilidade
E A REDUÇÃO DA POPULAÇÃO ATIVA — E AS NOVAS dessa fatura ser paga pelas gerações mais jovens.
DINÂMICAS DO MERCADO DE TRABALHO, MARCADAS “A manutenção do atual sistema de repartição
vai implicar encargos acrescidos para as novas
PELA AUTOMAÇÃO E DIGITALIZAÇÃO — ESTÃO A CRIAR gerações que, paradoxalmente, têm cada vez mais
DESAFIOS ACRESCIDOS NO SISTEMA DE PENSÕES PORTUGUÊS como certo que vão ter pensões mais reduzidas”,
diz ao Expresso fonte oficial da Associação
TEXTO MARIA JOÃO BOURBON INFOGRAFIA CARLOS ESTEVES
Portuguesa de Fundos de Investimento, Pensões e
ILUSTRAÇÃO CRISTIANO SALGADO Patrimónios (APFIPP).
O envelhecimento da população, a queda da
natalidade e a redução da população ativa — além

E 7
fisga
do impacto expectável das novas dinâmicas do no médio / longo prazo”, nota a APFIPP. “A
VALOR INICIAL DA REFORMA
mercado de trabalho, marcadas pela automação questão que devemos colocar é qual o custo dessa
FACE AO ÚLTIMO SALÁRIO
e digitalização — criam desafios acrescidos no ‘sustentabilidade’. Quando vemos que dentro de
Taxa bruta de substituição, em percentagem
sistema de pensões português. E a atual pandemia 20 a 30 anos os novos reformados perderão mais de
de covid-19 pôs a nu as fragilidades do modelo, ALEMANHA metade dos seus rendimentos, como farão face às
com o Estado a reconhecer no Orçamento para 2021 2019 39,8 despesas do dia a dia, atendendo em particular às
que a quebra de receitas e o aumento de despesas 2030 38,4 despesas acrescidas que muitas vezes surgem nessa
relacionadas com a pandemia farão com que o 2050 37,2 fase da vida (despesas de saúde, sobretudo)? Não
Fundo da Segurança Social se esgote dez anos antes 2070 37,2 será que a sustentabilidade da SS se traduz numa
do que estava anteriormente previsto. GRÉCIA menor adequação e portanto em mais pobreza e em
Conforme o “The 2021 Ageing Report” da Comissão 69 gastos adicionais com programas sociais?” Pobreza
Europeia, estima-se que, em média, em menos de 63,4 que já existe hoje, visto que a pensão média de
20 anos os novos reformados passem a viver com 57,4 velhice em Portugal é inferior a €500 por mês.
pouco mais de metade do salário que tinham antes 56,2 Para Eugénio Rosa, a solução passa por alterar o
de se aposentarem. A taxa de substituição entre o ESPANHA sistema de financiamento da SS, “mudando a base
último ordenado e a reforma era de 74% em 2019, 77 de cálculo das contribuições das empresas, com
mas em 2040 o valor inicial das pensões será 54,5% 66,7 base nos salários pagos, para a riqueza líquida
do último salário. Já em 2070 a capacidade de as 52,6 criada anualmente por cada empresa” (VAL, valor
pensões de velhice substituírem os rendimentos do 41,3 acrescentado líquido). Isto porque “o atual sistema
trabalho será inferior em metade. Apesar de esta FRANÇA de financiamento foi criado há mais de 60 anos”,
ser uma tendência transversal na Europa, Portugal 54,4 numa altura em que “as empresas que criavam
está entre os países em que o futuro se avizinha mais 49,8 mais riqueza eram as que empregavam mais
negro. Escapam apenas o Chipre, a Hungria, Malta, 41,5 trabalhadores”. Hoje, com a evolução da ciência e da
Roménia, Eslovénia e Eslováquia. 34,7 tecnologia, as que criam mais riqueza não são as de
E mesmo ao nível da receita Portugal está entre PORTUGAL trabalho intensivo, mas as de capital e conhecimento
aqueles com piores previsões, com uma queda de 3,3 74 intensivo “e a esmagadora maioria delas tem um
pontos percentuais no peso das receitas dos sistemas 81,1 número relativo reduzido de trabalhadores”. A
públicos de pensões em percentagem do PIB entre 43,5 proposta do economista passa por, durante o ano, as
2019 e 2070. Já na despesa prevê-se uma redução de 41,4 empresas entregarem à SS 23,75% dos salários que
3,7%, só ultrapassada pela Grécia. ITÁLIA pagam “para garantir um fluxo certo de receitas à
Mas há quem questione estes números. Embora 66,9 SS”, aplicando-se no ano seguinte uma taxa — por,
reconheça que a tendência é uma baixa generalizada 55,2 exemplo 8% ou 9% — sobre o VAL. “Como a riqueza
nas pensões reais, o economista Eugénio Rosa coloca 45,4 líquida criada no país cresce com o crescimento
em causa “a veracidade e consistência de uma 51,5 económico, a base de cálculo aumentaria e assim
previsão para um período de 50 anos”, sublinhando SUÉCIA estaria garantida a sustentabilidade da SS”, diz. “Isto
que nestas previsões são normalmente introduzidos 34,2 permitiria adequar as taxas sobre o VAL à realidade
“pressupostos que podem variar muito ao sabor de 35,3 das empresas”, com uma taxa inferior sobre as
quem os faz”. Já a APFIPP alerta apenas que esta 32,8 empresas de trabalho intensivo e outra mais elevada
diminuição é o resultado de um conjunto de fatores 29,9 sobre as de capital e conhecimento intensivo e
que passam, entre outros, pelo facto dos números LETÓNIA digitalizadas.
incluírem a Caixa Geral de Aposentações — um 54,8 Já a APFIPP defende, à semelhança do que vigora
subsistema fechado para novos funcionários a partir 38,9 num número crescente de países, a implementação
de 2005 e “um regime mais ‘generoso’ do que o 23,6 de um regime de auto-enrolment — que passa pela
regime geral da SS” —, o que faz subir a taxa de 20 “criação de um forte estímulo para que as empresas
substituição. “O nível de 74% apresentado para o ano UE e os trabalhadores realizem contribuições para
de 2019 está longe de ser o valor médio usufruído por 46,2 planos de pensões” — e de medidas que incentivem
quem iniciou, nesse ano, uma reforma por velhice 44,4 as contribuições individuais para fundos de pensões
paga pela Segurança Social”, hoje já “bastante 38,6 e para o Produto Individual de Reforma Pan-
inferior” a 74%. 37,5 Europeu, destinado a proteger a poupança, cujos
FONTE: “THE 2021 AGEING REPORT”, COMISSÃO EUROPEIA custos são limitados (1% do capital acumulado por
A (IN)SUSTENTABILIDADE DO SISTEMA ano, no máximo). Na sua perspetiva, o Estado deve
Manter a arquitetura do sistema de pensões reconhecer “que não pode ser omnipotente em
IDADE LEGAL DA REFORMA EM PORTUGAL
português, tal como está, não é sustentável. “O prover os benefícios de reforma às gerações futuras”.
Em anos
atual modelo de pensões é insustentável e a sua 69 anos Algo que Eugénio Rosa questiona. Uma solução
manutenção levaria a um desequilíbrio corrigível e 3 meses assente em fundos de pensões “não tem viabilidade
com um aumento de impostos na ordem dos 22% ou 69 68 anos em Portugal para a esmagadora maioria dos
uma perda de benefícios de reforma de 19%”, lê-se e 3 meses portugueses. Basta pensar que a remuneração média
68 68 anos
no estudo “Finanças Públicas — Uma Perspetiva em Portugal é cerca de metade da média da União
e 10 meses
Intergeracional”, encomendado pela Fundação 66 anos e Europeia. Mesmo que o trabalhador descontasse
Calouste Gulbenkian. E nem um aumento do 67 6 meses 11% para um fundo de pensões, a entidade
crescimento económico, da imigração ou da idade 67 anos patronal descontaria muito menos e a pensão
da reforma (que teria que subir além dos 76 anos) 66 que o trabalhador receberia no fim da vida seria
seriam suficientes para, no longo prazo, resolver o 2021 2040 2050 2060 2070 muito inferior à que recebe atualmente”, realça,
desequilíbrio das finanças públicas. acrescentando que faltaria ainda deduzir comissões
“Faltam, no entanto, dados oficiais, com base em FONTES: “THE 2021 AGEING REPORT”, COMISSÃO EUROPEIA; MINISTÉRIO e lucros para quem administra esses fundos, que não
DO TRABALHO, SOLIDARIEDADE E SEGURANÇA SOCIAL
projeções fiáveis e auditáveis das futuras pensões, estão imunes ao risco de falirem. “O Estado dá uma
que permitam confirmar essa sustentabilidade garantia totalmente diferente.” b

E 8
O PARAÍSO
MAIS SEGURO
PARA AS
SUAS FÉRIAS
É AQUI.
NA TAILÂNDIA.

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fisga
DÉJÀ VU
O FUTURO FOI ONTEM
Felgueiras à cidade homónima (Felgueiras, descansará quando for ex de si mesmo)
e não Fátima), fazem parte do nosso anunciou a intenção de se candidatar
património político e não haverá cidadão novamente à Câmara da Figueira da Foz,
que, ao ouvir a palavra “Gondomar”, muitos portugueses ficaram na dúvida: é
POR não imagine o altissonante major Santana Lopes que se candidata à Figueira
BRUNO Valentim Loureiro a distribuir, com uma ou é a Figueira que se candidata a Santana?
VIEIRA generosidade imperial, varinhas mágicas e Vinte e quatro anos depois, a candidatura
AMARAL moinhos de café pelos seus munícipes. foi tão surpreendente como da primeira vez,
Em princípio, não haveria combinação mais embora, em retrospetiva, a escolha pareça

Santana incongruente, inesperada e, talvez por isso


mesmo, estranhamente feliz, do que a de
lógica. Na altura, Santana era o eterno enfant
terrible do PSD, o principal animador das

da Figueira Pedro Santana Lopes com a Figueira da Foz.


É uma daquelas misturas agridoces, para não
noites shakespearianas dos congressos e o
líder sempre adiado do partido. Afastada
dizer obscenas — género ananás e pizza ou dos centros de decisão política nacionais,
Lopes da Foz Orquestra Filarmónica de Berlim e Scorpions
— que o tempo e o uso acabam por caucionar
mas com o impecável pedigree de estância
balnear das famílias de Coimbra, a Figueira
A política portuguesa em geral, e a criando, mais do que uma sobreposição da Foz tinha uma aura de exílio dourado, de
autárquica em particular, tem propiciado bizarra de conceitos, uma amálgama em que refúgio onde o menino-guerreiro poderia
ao longo dos anos uma série de casamentos os componentes iniciais já não se distinguem retemperar as forças antes das batalhas
à partida improváveis, mas cujos cônjuges um do outro: o Casino da Figueira fica em decisivas da sua vida política, e oferecia o
se tornam de tal forma indissociáveis que rua de Santana Lopes? Cinha Jardim equilíbrio possível entre glamour e discrição,
que é como se a união tivesse sido escrita chegou a ser casada com a Figueira da Foz? nem demasiado agitada que submergisse
pelos deuses na aurora dos tempos. A Para quando a repavimentação de Santana? Santana Lopes, nem demasiado pacata que o
ligação, pelas razões trágicas conhecidas, E aquela vez em que a Figueira da Foz matasse de tédio. A concorrer pelo partido,
de Francisco Sá Carneiro a Camarate, as abandonou um estúdio de televisão? Quando Santana arrasou com 60% dos votos.
associações, por outros motivos, de Cavaco o antigo primeiro-ministro, ex-presidente Agora, em lista independente, a votação foi
Silva a Boliqueime, de Passos Coelho a da Câmara de Lisboa, ex-presidente do menor, a disputa foi renhida, mas a vitória
Massamá e de José Sócrates à mediterrânica Sporting e ex-provedor da Santa Casa da confirmou o que já se suspeitava: Santana e
Formentera, ou a união, esta sim escrita nas Misericórdia de Lisboa (Santana, a figura Figueira não é amor fugaz de verão, é relação
estrelas e gravada no apelido, de Fátima política que mais vezes ressuscitou, só séria para a vida inteira. b

1997

ANDRÉ KOSTERS/LUSA

E 10
fisga
OS CADERNOS E OS DIAS
HISTÓRIA FRAGMENTADA DO MUNDO

POR
GONÇALO
M. TAVARES

Vulcões e Graça
1.
4. 7.
Creta abana — uma pessoa morre.
Noutro ponto, o vulcão Cumbre Vieja continua
em acção. O cone principal do vulcão de La Palma sofreu Um drone passou na semana passada uma
“Lava do vulcão de La Palma já atingiu quase 500 “um colapso parcial” fronteira da América do Sul, mas nada captou do
edifícios e cobriu 212 hectares”. Alguém diz (um técnico): “O vulcão não suporta outro lado.
A lava movimenta-se, o fogo imita a água e torna- o próprio peso.” Do outro lado havia silêncio total ou então a
se coisa próxima de ser rio. “Peso” é uma palavra que remete para máquina avariou.
A lava “continua a correr em direção ao mar, quantidades e ciência; “não suportar” pode atirar Mas o drone surdo captou muitas imagens.
avançando atualmente entre 250 a 300 metros para questões de carga psicológica. Fala-se também de maquinaria, que embarcou
por hora e hoje colapsou parte do cone do Não há linguagem técnica pura; há versos por para Marte, especializada nesse acto concreto de
vulcão.” onde os números podem entrar. ouvir. Umas máquinas saem da terra para ver,
Alguns jornais falam da “raiva” do vulcão. Sem metáforas, a ciência ficaria muito numérica e outras para escutar.
Outros usam termos técnicos. quase muda. Ver e ouvir — as máquinas querem aquilo que o
Como traduzir a raiva em dados naturais e “O vulcão não suporta o próprio peso”, diz um humano quer.
neutros? técnico contemporâneo. A única diferença é o sentido do tacto.
A raiva do vulcão é medida em velocidade: “250 a A ciência não suporta o peso da linguagem A máquina não quer tocar, quer armazenar.
300 metros por hora de avanço da lava”. neutra.

8.
Unidade de medida da raiva: metros por hora.

5.
Efeitos da raiva a 250 metros por hora: casas
destruídas, terreno queimado. No meio de várias casas devastadas pela lava do
Ainda a escala de Richter; por vezes ela descreve, vulcão Cumbre Vieja, uma ou outra permaneceu

2.
outras vezes cavalga metáforas antigas. intacta.
“Magnitude entre 4 e 6: quebra vidros, provoca Como é que isto acontece? Sorte ou milagre,
A velocidade da natureza assinalada com a rachaduras nas paredes e desloca móveis”. Há discute-se.
palavra raiva. também uma descrição de terramotos com Estatística ou divino.
A velocidade da tecnologia assinalada com a esta magnitude que diz o seguinte: “derruba

9.
palavra progresso. fotografias, pinturas e imagens da parede”.
Mas, por vezes, claro, tudo muda. Um terramoto de magnitude de 4 como aquilo
que derruba as representações, os duplos, as Estatística e excepção — toda a norma existe para

3.
imagens. deixar de fora um caso raro — uma casa escapou
Como se o terramoto com magnitude 4 porque foi esquecida.
Uma notícia paralela: “As redes sociais têm-se sussurrasse: estás só com o corpo e com a Divino e excepção: uma casa escapou porque foi
tornado o palco dos ‘negacionistas dos vulcões’ realidade. Não há imagens. escolhida para escapar.
que defendem que, por detrás da erupção do Magnitude 4; uma mensagem mais ou menos O sobrevivente é esquecido: estatística.
Cumbre Vieja, há mão humana.” subtil dirão os anti-imagem. O sobrevivente é escolhido: religião.
Os negacionistas das marés do mar, das erupções Imaginar a magnitude 4, portanto, como

10.
dos vulcões, da terra tremer por vontade própria. iconoclasta; uma forma de a terra voltar ao antes
da imagem: que ninguém pinte, fotografe ou
filme; voltemos ao tacto, esqueçamos os olhos. A casa que escapa, o humano que sobrevive.
Almada Negreiros define “graça”, esse instinto

6.
de escapar a um peso excessivo, como sendo a
“ausência de atrito com toda a circunstância”.
Imaginar um amplo terramoto de magnitude 4, Imagino isto: o corpo que passa pelas
NÃO HÁ LINGUAGEM TÉCNICA PURA; atravessando todo o planeta — e que destruísse circunstâncias como um bailarino hábil rodeado
HÁ VERSOS POR ONDE OS NÚMEROS todos os ecrãs e imagens. de fogo; bailarino que não se queima, fica apenas
PODEM ENTRAR. SEM METÁFORAS, O que fazer com o corpo?, perguntariam os mais quente. b
sobreviventes.
A CIÊNCIA FICARIA MUITO NUMÉRICA Coisa estranha em 2021; não se trata já de filmar o Gonçalo M. Tavares escreve de acordo
E QUASE MUDA toque, trata-se de tocar. com a antiga ortografia

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NO CAMINHO DAS ESTRELAS
POR NUNO GALOPIM

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Luz de
Serralves entre
rotas europeias

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“Lemúria”, o 11º volume da série
“Murena” (com ação que decorre A exposição “Serralves em Luz” surgiu destacada numa Modernity” no Museu de Belas Artes até 13 de fevereiro),
nas primeiras décadas da Roma lista de sugestões publicada pelo jornal britânico “The Amesterdão (“Remember Me: Portraits from Dürer to
imperial) vai chegar esta semana às Times”. O top 10 das melhores exposições a visitar por Sofonisba”, no Rijksmuseum até 16 de janeiro), Dresden
livrarias portuguesas. O texto é de toda a Europa destaca esta experiência com desenho (“On Reflection”, sobre Vermeer, na Gemäldegalerie
Jean Dufaux, que criou a série, e os
de luz de Nuno Maya que se estende por um percurso Alte Meister até 2 de janeiro), Viena (“Modigliani:
desenhos são de Théo, que assumiu
no Parque de Serralves (no Porto) e que ali se manterá The Primitivist Revolution”, no Albertina até 9 de
este lugar depois da morte, em
2014, de Philippe Delaby. parente até dia 17 (em horário noturno, todos os dias, janeiro), Roma (“Inferno”, dedicada aos 700 anos de
das 20h30 às 24h). Rachel Campbell-Johnston, que Dante Alighieri, na Scuderie del Quirinale até 9 de
assina esta lista de destaques, compara a exposição janeiro), Atenas (“Revolution ’21”, sobre os 200 anos da
CINEMA a uma viagem a um “reino de sonhos”. Através de independência grega, no Chios Mastic Museum até 17 de
A 14ª Festa do Cinema Italiano diversas “fontes de luz, como o LED, o halogénio, o janeiro). A lista antecipa ainda a exposição permanente
vai decorrer durante o mês de hmi, o laser ou o vídeo”, a exposição cria “experiências do novo Museu Munch, em Oslo.
novembro com sessões em Lisboa, visuais e sensoriais que transportam o visitante em A proveniência do artigo e a geografia continental
Coimbra, Beja, Setúbal, Penafiel,
diferentes perceções entre o real e o imaginário”, europeia que retrata deixam de fora desta lista as
Porto, Cascais, Alverca do Ribatejo,
descreve a Fundação de Serralves. exposições que neste momento podemos visitar no
Aveiro, Tomar, Almada, num mapa
que poderá ainda ser ampliado. Um A instalação de luz surge acompanhada nesta lista Reino Unido, entre as quais encontramos a retrospetiva
dos destaques é “Siamo Donne”, com outras propostas que passam por Madrid (“The dedicada a Paula Rego que está patente na Tate Britain
uma retrospetiva dedicada a gran- Magritte Machine” no Museu Thyssen-Bornemisza até (Londres) até dia 24, data na qual encerra também a
des atrizes do cinema italiano, que 30 de janeiro de 2022), Paris (“The Morozov Collection: grande exposição do British Museum dedicada a Nero.
resulta de uma colaboração com a Icons of Modern Art” na Fundação Louis Vuitton Já a National Gallery inaugura no próximo dia 9 a
Cinemateca Portuguesa. até 22 de fevereiro), Bruxelas (“Europalia: Tracks to exposição “Poussin and the Dance”. b

MÚSICA
PHOTO
MATON Um novo festival em Bragança
A partir de hoje e até dia 10, Bragança “Piazzolla 100” no dia 8, seguindo-se, no
acolhe o seu primeiro festival dia 9, a ópera-tango “Maria de Buenos
internacional de música clássica. Com Aires”. O concerto de encerramento, dia
programação distribuída por dois fins de 10 na Igreja de Santa Maria, apresentará
semana, o Bragança ClassicFest tem obras de Dvořák e Schubert.
direção artística de Filipe Pinto-Ribeiro e
levará música de várias épocas e origens
a “monumentos e locais emblemáticos da
cidade”. Para o diretor, este é “um festival
de celebração da música e uma porta
aberta para habituais e novos públicos,
nacionais e internacionais”. A Orquestra
de Câmara de São Petersburgo, sob
direção de Juri Gilbo, abre hoje o
A segunda parte do ciclo “Éric Rohmer, ou o Génio do Moderno Cinema Fran- festival com obras de Seixas, Mozart
cês” começa quinta-feira no Cinema Nimas (Lisboa) e no Teatro do Campo e Tchaikovsky, pelas 21h30 no Teatro
Alegre (Porto), passando depois por Coimbra, Braga, Setúbal e Figueira da Municipal de Bragança. O centenário
Foz. Este novo segmento inclui os filmes da série “Comédias e Provérbios”, de Astor Piazzolla (na imagem) será
entre os quais “A Mulher do Aviador” (na imagem) de 1981, todos eles em no- assinalado em dois programas também
vas cópias digitais restauradas. nesta sala, um deles sob a designação

E 16
C A RTA S A B E RTA S

A MINHA EMPRESA DE SONDAGENS


É MUITO MELHOR DO QUE AS
VOSSAS; É PENA NÃO ME LIGAREM

C
A QUATRO DIAS DAS ELEIÇÕES, A MINHA EMPRESA DE SONDAGENS DIZIA QUE
MOEDAS IA GANHAR LISBOA; OUTRAS DAVAM GRANDE VANTAGEM A MEDINA

ontra factos não há argumentos, a pelo que não previu (nem deixou de prever) as vitórias do PS
menos que sejam argumentos dos em Almada ou Loures, nem sequer a do CDS em Santana e a
apoiantes do prestigiado prof. Louçã eleição de uma equipa de futebol e suplentes de vereadores do
ou adeptos do angustiado dr. Ventura. Chega. E, por falar em Santana, também nada disse sobre a
Estes dois expoentes da nossa política vitória do Santana Lopes na Figueira da Foz...
acertam sempre, porque não têm Reconheço, assim, ser um centro de sondagens sujeito a erros
maneira de falhar. O seu segredo e omissões, enviesado e cheio de preconceitos. Nesse aspeto é
reside na utilização de narrativas; como os outros, mas tem a vantagem de acertar mais.
ora estas, como se sabe, são bastante A prova é que foi o único que a seis dias das eleições emitiu
moldáveis às visões e preferências de um boletim a afirmar que “as eleições autárquicas correm bem
quem as constrói, sendo por isso uma ao PSD”, coisa em que poucos acreditavam, discutindo antes
construção social adaptável. Como quem seria o sucessor de Rio depois da inevitável demissão
sabem, as construções sociais adaptáveis são um nome fino que o esperava na noite eleitoral (ou, pelo menos, no congresso
para fake news, que por sua vez é um nome estrangeiro para social-democrata de janeiro).
notícias falsas ou mentirosas. Sabemos, agora, com todos os votos contados, que o dr. Rio,
Mas passemos à frente. apesar do seu mau feitio, falta de jeito e outras coisas mais, tem
Escaldado com as sondagens que dão o PS à frente de tudo todas as condições para continuar a ser líder do PSD, tendo por
desde que era Cavaco e o PSD a estar à frente de tudo, cansado isso passado o cabo das tormentas que eram as autárquicas.
da bazuca do dr. António Costa e da popularidade sempre Porém, o que levava a eminente figura do Norte a ter tanta
elevadíssima do professor Marcelo, o nosso Presidente da certeza da sua própria manutenção? Eu posso explicar sem
República, sabendo que a derrotada edil de Arroios ia às trair nenhum segredo: Rui Rio recorreu à minha empresa de
compras na praça e não lhe pesavam os legumes, quer dizer, sondagens; e não gastou dinheiro com isso. Rui Rio confiou
sabendo tudo o que há para saber e cansado daquilo que se sempre — completa e totalmente — na minha empresa, que
sabe, optei por construir eu próprio um centro de sondagens recorreu às técnicas que, não podendo considerar modernas, se
que é infalível. Este centro de sondagens previu, entre outras revelaram mais acertadas.
coisas, vitórias do PSD em: Enfim, a minha empresa de sondagens, que tem por nome
— Coimbra. Bocas do Rio, previra tudo o que ele disse, pela simples razão
— Funchal. de que se baseou sempre no que o dr. Rio disse. Por exemplo,
— Faro. quatro dias antes das eleições, disse que as sondagens eram
— Cascais (sem grande entusiasmo). uma “vigarice” e tinha o “feeling” (Rio tem palpites em inglês)
— Viseu. de que Moedas ia ganhar. Acertou! Os “feelings” de Rio dão
— Lisboa, sendo que esta previsão é que era verdadeiramente excelentes trabalhos de campo. E baratos! b
difícil.
Ainda previu mais coisas, embora mais fáceis, como a vitória
de Isaltino em Oeiras ou de Rui Moreira no Porto, embora
previsse uma inesperada boa votação do Senhor Feliz na capital
do Norte. Esteve quase a prever a erupção do Cumbre Vieja,
mas decidiu debruçar-se sobre Portalegre, prevendo também
a vitória do PSD neste município. O meu centro ainda não tem
preparada uma sondagem para as legislativas, mas posso já
avançar que contraria todas as que foram feitas na última noite
eleitoral e davam o PS a ganhar com mais vantagem do que em
2019. / COMENDADOR
O meu centro de sondagens é extraordinariamente barato,
porque não se baseia em telefones de lares de velhinhos (que
MARQUES
ainda têm telefone fixo) nem em nada desse estilo, mas numa DE CORREIA
outra técnica que não posso detalhar, embora adiante que é
semelhante àquela do polvo que adivinhava quem vencia os
jogos de futebol entre seleções, num Mundial.
Não tem, por outro lado, uma capacidade ilimitada de trabalho,

E 18
PUB.

MONÇÃO E MELGAÇO -
A ORIGEM DO ALVARINHO

É no Noroeste da Península Ibérica que encontramos À DESCOBERTA DAS distinto, complexo e frutado.
PRINCIPAIS CASTAS Acompanham na perfeição
a essência dos cristalinos, aromáticos e saborosos Vinhos Nem só de Alvarinho vive pratos de paladares mais
Verdes, entre os quais a casta-rainha dá pelo nome a sub-região de Monção & fortes, como bacalhau,
de Alvarinho. Foi deste cantinho de Portugal que este Melgaço. Além do microcli- carne grelhada e assada,
ma, com os seus invernos enchidos e queijos.
néctar partiu à conquista do resto do país e do mundo frios e chuvosos e verões Já outros Vinhos Verdes
quentes e secos, as condi- brancos, das castas Loureiro
ções naturais do terreno, e Trajadura, apresentam
serpenteado pelo rio Minho habitualmente cor citrina ou
É ali, no meio de uma CULTURA SECULAR se a Portugal para trocar e seus afluentes e com solos palha, aromas ricos, fruta-
paisagem exuberante Acredita-se que a sua bacalhau pelo vinho de maioritariamente graníticos, dos e florais. São os ideais
entre rios e montanhas, na história remonte à criação Monção. induzem a obtenção de para acompanhar saladas,
linha raiana com Espanha das povoações de Monção e A elevada qualidade do outros Vinhos Verdes de mariscos, peixes, carnes de
que percorre a sub-região de Melgaço, há cerca de 700 Vinho Verde deste território elevada qualidade, produto aves e gastronomia oriental.
vitivinícola de Monção & anos, mas dados arqueo- português viria a ser de uvas de castas autócto- Os Vinhos Verdes tintos
Melgaço, que se cultivam lógicos da segunda metade reconhecida já no século nes. Entre brancos, tintos (castas Pedral, Alvarelhão,
as melhores videiras da do século I a.C., referentes XX, tendo o Alvarinho de e rosados, a que se juntam Borraçal e Vinhão) carac-
nobilíssima e cobiçada a artefactos como ânforas Monção e Melgaço sido espumantes e aguardentes, terizam-se pela sua cor e
casta Alvarinho. vinárias, revelam que a registado na década de 30. todos com certificação e acidez ligeiras e pelo seu
O microclima atlântico cultura do vinho na região Desde aí, a sua identidade selo de garantia Monção & aroma moderadamente
temperado com influência era uma prática recorrente foi-se afirmando, Melgaço, o difícil é escolher. intenso. São ótimos para
continental deste território dos seus habitantes naquela contribuindo grandemente Os Vinhos Verdes Alvari- acompanhar a gastronomia
nortenho, que faz parte da época ancestral. para o desenvolvimento nhos caracterizam-se pela regional minhota.
Região dos Vinhos Verdes, No século XIV, os ingleses de toda a zona minhota sua cor palha intensa, com As castas tintas que atingem
demarcada em 1908, descobriram-no e dirigiam- e do país. reflexos citrinos, aroma menos cor dão origem aos
propicia a produção de um vinhos rosados. Revelam
vinho de excelência e com aromas intensos e frescos e
características únicas de MONÇÃO & MELGAÇO servem-se especialmente
aroma e sabor. Intenso, como aperitivo ou a acom-
EM NÚMEROS
encorpado e ao mesmo panhar sobremesas.
A produção de vinhos verdes de Monção & Melgaço
tempo fresco e perfumado, Vale a pena conhecer, e
ronda os 10 milhões de litros anuais (85% é branco),
com mineralidade saborear, os Vinhos Verdes
distribuídos por cerca de 250 marcas que apostam,
pronunciada e grande cada vez mais, na internacionalização. Para estes da sub-região de Monção &
potencial de guarda e de números contribuem perto de 2100 viticultores, que Melgaço, o berço do nobre
evolução em garrafa, o se dedicam à cultura da vinha numa extensão total Alvarinho. Um bom mote
Alvarinho é apreciado cá e de mais de 1700 hectares. Destes, aproximadamente para excelentes momentos
além-fronteiras. 1300 hectares são exclusivos Alvarinho. de convívio à mesa.
A AVENTURA DE
TINTIN

OBJETIVO
PORTUGAL
Na Fundação Calouste Gulbenkian,
abrem-se as páginas para uma aliciante
exposição com origem em Paris
dedicada ao genial Hergé, pai de Tintin

E 20
TEXTO
JORGE CALADO
(CRÍTICO DE ARTE)

HERGÉ

E 21
A

banda desenhada é a televisão numa folha de papel”
afirmou Adolfo Simões Müller, o padrinho das his-
tórias aos quadradinhos em Portugal e autor de es-
tupenda literatura infantil nos anos 40 e 50. Quando
comecei a ler “O Papagaio”, a televisão já tinha sido
inventada — fora objeto de maravilha no Pavilhão
da RCA da Feira Mundial de 1939 em Nova Iorque —
mas não estava comercializada. (Só seria introduzi-
da em Portugal em 1956, na Feira Popular de Lisboa,
no último ano em que esteve instalada em Palhavã,
hoje território das Fundações Eugénio de Almeida e
“O Papagaio”, em 1935, Müller pediu ao amigo pa-
dre Abel Varzim — que regressara no ano anterior da
Bélgica, após doutoramento na Universidade Cató-
lica de Lovaina — para interceder junto de Georges
Remi afim de obter os direitos de reprodução. Entre
católicos tudo se concertou, e em 1936 ‘Tim-Tim’ es-
treava-se em “O Papagaio”. Quanto a Varzim, teve
um papel ativo — tal como Müller — na fundação,
também em 1936, da Rádio Renascença, a emisso-
ra católica portuguesa. Defensor de causas sociais,
preocupado com as condições da classe operária, o
hábitos) portugueses. O praguejante e beberrão Ca-
pitão Haddock, batizado Capitão Rosa, bebia agora
vinho do Porto em vez de uísque, e o sábio mouco e
distraído, Professor Tournesol, virou a Senhor Pinta-
dinho de Branco ou Professor Girassol. Por outro lado,
o portuguesíssimo Oliveira da Figueira, uma espécie
de ‘vendedor de banha da cobra’, introduzido em
“Os Charutos do Faraó”, passou a espanhol de Mála-
ga. A ‘vingança’ de Hergé surgiu na aventura “A Ilha
Negra”, quando chamou Dr. Müller ao mau da fita...
(Hergé baseou quase todos os seus personagens em
Calouste Gulbenkian.) A escolha de “O Papagaio”, padre Varzim viria a afastar-se do regime e a com- familiares, amigos e conhecidos.)
o jornal infantil de inspiração católica fundado por bater as ideias do Estado Novo, tendo sido perse- Apesar das picardias, as relações entre Hergé e
Müller em 1935, não fora casual. Havia outros jor- guido pela polícia política. Em 1994, 30 anos após a os seus correspondentes portugueses foram sem-
nais e revistas de histórias aos quadradinhos, como sua morte, foi agraciado com o grau de Grande Ofi- pre cordiais. Até porque, entretanto, com o início
“Pim Pam Pum!” (associado a “O Século”), “O Mos- cial da Ordem da Liberdade. ‘Tim-Tim’, o rapaz que da II Guerra Mundial e a ocupação nazi da Bélgi-
quito” ou o “Diabrete”, mas “O Papagaio” tinha um não envelhece (tal como Peter Pan), terá exultado! ca em 1940, Simões Müller ficou impedido de fazer
trunfo: “As Aventuras de Tim-Tim”, o repórter de 15 Sabe-se que Hergé não ficou satisfeito com o transferências financeiras para o Sindicato (Belga)
anos de poupa loura espetada e calças à golfe, ór- aportuguesamento do nome de Tintin para Tim-Tim de Propriedade Artística. Remi propôs então que os
fão, mas sempre acompanhado do fiel “Rom-Rom” (mais tarde Tintim e nas edições mais recentes Tin- pagamentos lhe fossem feitos diretamente, mas em
— um cachorro pelo-de-arame branco bem-pen- tin), e muito menos com a mudança do nome do cão géneros: além das sardinhas de conserva e chá, tam-
sante, de sexo indeterminado — criados pelo belga — “Milou” no original francês — para “Pom-Pom” e bém café, cacau, azeite, chocolate, leite condensado,
Georges Remi sob o imortal pseudónimo de Hergé. depois “Rom-Rom”. Milú estava fora de questão por- conservas de carapaus, arroz, bolachas, etc. (Na Bél-
(Uma combinação dos nomes das suas iniciais lidas que era o nome da grande coqueluche da rádio à épo- gica o abastecimento era difícil e havia racionamen-
de ordem inversa, R. e G.) ‘Tim-Tim’ era aquilo a que ca — a cançonista de dez anos e futura atriz de cine- to de bens alimentícios.) Pediu também — caso fosse
mais tarde se chamaria um role model, um modelo ma, Maria de Lurdes de Almeida Lemos. Mas Müller possível — que enviassem um par de vezes por mês,
de virtudes onde a ingenuidade dava o braço à en- foi ainda mais longe e reenquadrou e remontou mui- através da Cruz Vermelha, o mesmo tipo de géneros
genhosidade. Curioso e corajoso, nascera para des- tas pranchas e vinhetas para as ajustar ao formato de ao irmão Paul, então prisioneiro de guerra na Alema-
lindar mistérios e neutralizar ameaças e catástro- “O Papagaio”, quebrando o suspense com que devia nha. Tudo a descontar nos “direitos de reprodução
fes, acudindo aos fracos e inocentes e castigando os terminar cada página. (Hergé seria um devotado ad- de Tintin e ‘Milou’”. O que foi feito com satisfação
maus. O mundo estava em guerra, eu era um miúdo mirador dos filmes de Hitchcock.) ‘Tim-Tim’ era ago- de ambas as partes.
de cinco anos, e fiquei com um amigo para a vida. ra apresentado como repórter português de “O Papa- Müller viria a deixar a direção de “O Papagaio”
gaio”, e as referências eram todas portuguesas, com em 1941 para fundar “O Diabrete”, jornal laico para
HERGÉ E PORTUGAL censura à mistura. Por exemplo a greve dos trabalha- crianças. Obteve os direitos para a outra série famo-
Portugal foi o primeiro país não-francófono a pu- dores na América era descrita como paragem para sa de Hergé com Quim e Filipe (no original, “Quick
blicar “As Aventuras de Tintin”. Melhor ainda, fê-lo almoço... (No Estado Novo não havia direito à greve.) e Flupke, garotos de Bruxelas”), e tentou ainda le-
logo a cores (quando na Bélgica natal continuaria a Em 1939 as aventuras de “Tintin au Congo” passaram var as aventuras de Tintin para a nova publicação,
preto e branco até à publicação do álbum “A Estrela a ser de “Tim-Tim em Angola”, e os vários persona- mas só o conseguiu em 1949, após o encerramento
Misteriosa”, em 1942). O herói de 15 anos nascera em gens que iam aparecendo tomavam sempre nomes (e de “O Papagaio” no ano anterior. A celeuma azedou
1929 com a aventura “Tintin no País dos Sovietes”,
publicada no suplemento infantil (semanal) le petit
vingtième do jornal católico “Le Vingtième Siècle”.
Por cá, estreou-se em 1936 em “O Papagaio” com
“Tim-Tim na América (do Norte)”. (Em Espanha Portugal foi o primeiro país
e na Grã-Bretanha só começou a ser publicado no
pós-guerra, em meados dos anos 50.) O catolicismo
convicto dos vários intervenientes explica o avanço
não-francófono a publicar
português. Numa viagem à Bélgica, Simões Müller
terá tomado conhecimento do petit vingtième com
“As Aventuras de Tintin”.
o pequeno-grande herói Tintin. Em vias de fundar Melhor ainda, fê-lo logo a cores
E 22
1

TIAGO MIRANDA
HISTÓRIA 1Pormenor da
2 exposição dedicada a Hergé na 4
Fundação Calouste Gulbenkian
2Tintin estreou-se em Portugal
em 1936, em “O Papagaio”, com
“Tim-Tim na América (do Norte)”.
Três anos depois, as aventuras de
“Tintin au Congo” passaram a ser
“Tim-Tim em Angola” 3Uma
carta de Georges Remi, Hergé,
para Portugal a pedir que os
pagamentos lhe fossem feitos
diretamente, mas em géneros:
além das sardinhas de conserva e
chá, também café, cacau, azeite,
chocolate, leite condensado,
conservas de carapaus, arroz,
TIAGO MIRANDA

bolachas, etc. E pediu que


enviassem um par de vezes por
mês, através da Cruz Vermelha, o
mesmo tipo de géneros ao irmão
Paul, então prisioneiro de guerra
na Alemanha 4Hergé para lá de
Tintin — obras em exposição na
5 6
Gulbenkian 5O portuguesíssimo
Oliveira da Figueira, uma espécie
de ‘vendedor de banha da cobra’,
3 introduzido em “Os Charutos do
Faraó”, passou a espanhol de
Málaga nas primeiras
edições em Portugal
6O padre Abel Varzim,
que fizera doutoramento
na Universidade
Católica de Lovaina, foi
decisivo para as edições
portuguesas

E 23
as relações entre Müller e Varzim (que não vira com e papel para desenhar. No sótão da casa encontrava para o texto — reflete a retidão da postura cívica e
bons olhos a criação de um rival laico a “O Papa- livros de histórias que o encantavam — “Robinson moral que adotou desde miúdo. A simplicidade e a
gaio” de tradições católicas). ‘Tim-Tim’ era um Crusoe”, “Huckleberry Finn”, “David Copperfield”, clareza favorecem a legibilidade narrativa, mas são
amigo fixe; segui-lhe os passos no “O Diabrete”, tal etc. — e também outros como as “Fábulas de La Fon- também valiosas qualidades de cidadania. Por outro
como em 1952 comecei a ler o “Cavaleiro Andante” taine”, ilustradas por Benjamin Rabier. Eram aque- lado, o jovem Remi percebeu que as tiras de banda
(que acabou em 1962), e depois o “Foguetão” (de les, também, os meus heróis de juventude; quanto a desenhada pediam um ritmo que tem algo a ver com
grande formato) e o “Zorro” (de formato de bolso). Rabier, os meus pais tinham os dois volumes da pri- o pára-arranca das imagens em movimento do ci-
Todos jornais de banda desenhada de linha clara, meira edição (1924) de “O Romance da Raposa”, de nema mudo, e que o truque dramático do gag podia
fundados e dirigidos por Müller, e todos habitados Aquilino Ribeiro, generosamente ilustrada a preto e funcionar como o motor de propulsão da aventura.
por ‘Tim-Tim e companhia’. Infelizmente o “Fogue- branco e a cores por Rabier, que faziam as minhas (Ou não fosse ele então um fã indefetível dos filmes
tão” — que Müller considerava a sua melhor criação delícias. Remi considerá-lo-ia sempre o seu mestre de Chaplin e Keaton; as calças à golfe de Tintin são
— não teve êxito e faleceu ao 13º número... no que respeitava ao imaginário do mundo animal. uma piscadela de olho às calças largas e bambas de
Em 1921, Georges aderiu ao Movimento Escutis- Charlot.) Ainda tentou frequentar escolas de arte,
REMI E HERGÉ ta e, como aluno da Escola de São Bonifácio, chegou mas rapidamente percebeu que eram uma perda de
Georges Remi nasceu em Etterbeek, na região de Bru- a líder da Patrulha Esquilo com o cognome Raposa tempo. Na altura certa (1925) foi salvo pela rede de
xelas, a 22 maio 1907, sob o signo de Gémeos, quiçá Curiosa. Tinha encontrado o seu caminho. O talento escutismo católico com o convite para ir trabalhar
G. R. e R. G. ... Hergé e Tintin são hoje sinónimos. A para o desenho e o interesse pela história e geografia para o “Le Vingtième Siècle”, presidido pelo formi-
questão é saber quem era Georges Remi e qual a re- fizeram o resto. Aos 15 anos começou a colaborar no dável padre Norbert Wallez. “Devo-lhe tudo”, con-
lação do criador e alter ego (pseudónimo) com a cri- jornal dos escuteiros da escola, “Jamais assez” (Nun- fessaria mais tarde. Por exemplo, a sugestão de cri-
atura. A maravilhosa exposição “Hergé” — que se ca é demais) e logo a seguir na revista mensal da Fe- ar um adolescente que fosse um espelho de virtudes
estreia hoje na Fundação Calouste Gulbenkian — dá deração dos Escuteiros Católicos, “Le boy-scout bel- católicas, com um cão por companheiro. (Georges
algumas respostas, mas mantém outros aspetos na ge”. Aqui apareceram os seus primeiros desenhos, preferia gatos.) Mas também a primeira mulher e a
sombra, nomeadamente as depressões que levavam ilustrações e capas sob os nomes de G. Remi, Jeré- sua grande colaboradora durante quase três déca-
o criador de Tintin a desaparecer periodicamente e a mie, Jérémiades, GR, e Hergé (usado pela primeira das, Germaine Kieckens — a sua Hergée — avisada
praticar a contemplação. Organizada em colaboração vez em 1924). Remi sempre achou que o escutismo e sensata secretária do padre Wallez. O casal não te-
com o Museu Hergé em Louvain-la-Neuve (Bélgica), tinha sido uma excelente escola de vida; incutira-lhe ria filhos; Georges ficara estéril após tratamento por
“Hergé” baseia-se na mostra similar vista no Grand “o gosto pela amizade, o amor da natureza, dos bi- radiação de uma erupção cutânea. Coincidência ou
Palais de Paris em 2016/17. Remi trabalhou toda a vida chos e dos jogos”. Inevitavelmente Tintin ficou com não, o universo de Tintin será um conjunto de per-
para jornais, tendo começado a carreira no “Le Ving- a “mesma marca”. É o escutismo, o dever de ajudar sonagens sem família. Aliás, o único personagem
tième Siècle”; Tintin é apresentado como repórter do o próximo (simbolizada na obrigação de praticar feminino de relevo é a cantora de ópera Bianca Cas-
petit vingtième, mas nunca o vemos a escrever, exceto pelo menos uma boa ação por dia, registada com o tafiore, o ‘rouxinol milanês’. Remi detestava ópera,
na primeira aventura, no país dos sovietes (que Remi famoso nó na ponta do lenço de pescoço) — e não o mas apreciava jazz e a música de Debussy.
renegou durante décadas, considerando-a mera obra jornalismo — que os une.
de juventude). Georges cresceu como criança irre- O desenho de ‘linha clara’, limpa, sem sombrea- A CAMINHO DO ORIENTE
quieta, que só sossegava quando lhe davam um lápis dos — de que foi pioneiro, tal como no uso de balões 1934 é um ano-charneira na carreira de Hergé. Tem
27 anos, abre o Atelier Hergé (de curta duração), está
casado há dois anos e tem quatro aventuras de Tin-
tin publicadas — todas já mencionadas — que levam

O desenho de ‘linha clara’, limpa, o herói ao país dos sovietes, Congo, América e Egito
(e nesta última, “Os Charutos do Faraó”, também

sem sombreados — de que foi à Arábia e à Índia). O próximo será sobre o Extre-
mo Oriente. A China, porém, fiava mais fino. Em

pioneiro, tal como no uso de 1931 a invasão e ocupação da Manchúria pelo Japão
alertara a Europa (onde Adolf Hitler estava prestes
a atingir o poder). As simpatias de Remi/Hergé iam
balões para o texto — reflete a todas para a China e desta vez estava disposto a de-
fendê-la aos quadradinhos face à agressão imperi-
retidão da postura cívica e moral alista do Japão. (No álbum da América já se mostra-
ra sensível à espoliação dos índios, hoje chamados
que Hergé adotou desde miúdo nativos-americanos.)

E 24
1 2
TIAGO MIRANDA

ETAPAS 1 Tintin nasceu em


3 4 1929 no suplemento infantil
(semanal) do jornal católico
“Le Vingtième Siècle” 2
Hergé, a mulher Germaine
Kieckens e o amigo do casal
Tchang Tchong-Jen, em 1934
3 Tchang reapareceu em
1958, com “Tintin no Tibete”
4 “O Lótus Azul”. Em janeiro,
uma ilustração (1936) a
guache/aguarela e tinta foi
vendida por €3,2 milhões
5 ”Composição sem título”, 6
TIAGO MIRANDA

1960 6 O padre Norbert


Wallez foi decisivo para Hergé
ao convidá-lo para colaborar
no “Le Vingtième Siècle”

5
©HERGÉ-MOULINSART 2021

E 25
Hergé quis preparar-se bem. Seguiu o aviso do socorro... Para mim, esta é a mais pura e emocional cada país ou região. Logo em “A Orelha Quebrada”
padre Gosset, conselheiro dos estudantes chineses — e portanto, a melhor — de todas as aventuras de — a série que se seguiu a “O Lótus Azul” — Hergé in-
na Universidade Católica de Lovaina, e arranjou um Tintin. No seio da natureza inóspita, uma história de troduziu-nos à arte africana do Museu Etnográfico
consultor — Tchang Tchong-Jen, um ano mais novo amor/amizade que não é outra coisa senão a deman- de Bruxelas, enquanto o MacGuffin da história é um
que Remi, natural de Xangai, que estudara pintura da espiritual do eu mais profundo da criatura (Tin- ídolo arumbaya da fictícia república sul-americana
na Academia Real de Belas-Artes de Bruxelas. Será o tin) e do seu criador (Hergé/Remi). Aqui, a banda de São Teodoro, copiado de uma estatueta de ma-
princípio de uma bela amizade, com encontros su- desenhada atinge, a seu modo, a grandeza shakes- deira da cultura chimú (Peru) da Coleção dos Mu-
cessivos ao domingo. Tchang começou pelo princí- peariana. Era também a aventura preferida de Hergé. seus Reais de Arte e História da Bélgica. (Hitchcock
pio: ofereceu pincéis e tinta (-da-china) a Hergé e É sabido como a vida imita a arte. Remi nunca recorreria ao conceito de MacGuffin em “Os 39 De-
ensinou-lhe caligrafia chinesa e o espírito dos ideo- esquecera Tchang e mencionava-o em todas as en- graus” em 1935.) Hergé continuaria a usar a arte dos
gramas. (Curiosamente, tive uma introdução seme- trevistas. Com o restabelecimento (1971) das rela- outros até ao fim. A 24ª e última aventura, “Tintin e
lhante à cultura chinesa quando um doutorando e ções diplomáticas entre a Bélgica e a China, estava a Alpha-Arte”, deixada incompleta, lida com a fal-
amigo chinês do Instituto Superior Técnico me en- determinado a reencontrá-lo. Tchang vivera quase sificação da arte contemporânea.
sinou a transcrever em chinês as ideias de Oriente- cinco anos em Bruxelas, onde devia ter deixado ami- Se é verdade que o rigor da representação cons-
-Ocidente como título de uma exposição e catálogo gos. Remi começou pelos restaurantes chineses; até tituía um ponto de honra para o Estúdio Hergé fun-
de fotografia de António Júlio Duarte; percebi então havia um com o nome de Lótus Azul, mas era viet- dado em 1950 — quer se tratasse de um simples car-
como o uso do pincel mais a espessura e o ritmo do namita... Após muitas voltas e inquirições chegou ro ou do painel do foguetão que leva Tintin “Rumo
traço são essenciais à correta transmissão visual dos à fala com um afilhado de Tchang. O amigo estava à Lua” no princípio dos anos 50, uns bons 15 anos
conceitos.) Tchang foi um verdadeiro coautor, edu- vivo, casara, tinha quatro filhos, fundara uma escola antes de Neil Armstrong dar o “salto de gigante pela
cando Hergé na civilização e cultura chinesas, suge- de arte em Xangai, servira o regime comunista, fora Humanidade” em 1969 — também é certo que Hergé
rindo episódios verdadeiros e assegurando a auten- vítima da Revolução Cultural, sofrera a reeducação não descurava as oportunidades de recorrer nas suas
ticidade do mínimo pormenor. A fidelidade ao real forçada em campos de trabalho e vivia novamente vinhetas a obras de arte que apreciava. É o caso da
é o primeiro grau da imaginação. em Xangai. A preparação da visita dos reis da Bélgi- famosa “A Grande Onda de Kanagawa” (1831), uma
A amizade entre Hergé e Tchang e a dívida de ca à China em 1981 facilitou as trocas; a 1 de março das 36 vistas do Monte Fuji por Katsushika Hoku-
gratidão do primeiro ao segundo ficaria selada na desse ano, um debilitado Georges Remi abraçava, de sai, evocada na página 12 de “Os Charutos do Fa-
nova série com a ligação fraternal de Tintin ao rapaz lágrimas nos olhos e passados 45 anos, o seu amigo raó”. Com uma diferença importante: enquanto no
órfão da mesma idade — também chamado Tchang Tchang. Para os fãs de todo o mundo, se Tchang era original a onda está prestes a rebentar da esquerda
— que aquele salva de morrer afogado. A aventura real, Tintin também o era. para a direita, na prancha de Hergé a rebentação é
termina em Xangai com a despedida lacrimosa dos invertida. A razão é simples. Enquanto os japoneses
dois amigos e o regresso de Tintin à Europa. (Na ver- A ARTE DE HERGÉ leem da direita para a esquerda, nós, ocidentais, le-
dade, foi Tchang quem deixou a Bélgica para regres- Não tenho dúvidas em afirmar que o design gráfi- mos da esquerda para a direita. A inversão da dire-
sar a Xangai em 1936.) A história tomaria o nome de co de Hergé é arte, mas as artes plásticas — todas! ção é essencial para manter a ameaça não só a Tintin
“O Lótus Azul” e ficaria como um dos melhores ál- — atravessam a sua vida e o seu trabalho. Nem ou- mas também ao leitor.
buns de Hergé. Em janeiro, uma ilustração (datada tra coisa era de esperar de um garoto que nascera É também nos anos 50 que Remi começa a cole-
de 1936) a guache/aguarela e tinta, destinada à capa para desenhar. Sabe-se que admirava a clareza de cionar arte convictamente. Há algo de comum entre
(mas não usada por dificuldades de impressão), foi Holbein e o traço de Ingres. Nos anos 30, no pouco a precisão de linha de um Piet Mondrian e a linha
vendida num leilão em Paris por €3,2 milhões — um tempo que dedicou à publicidade, produziu efica- clara de Hergé. Em casa, o pai de Tintin gostava de
recorde para a nona arte que é a banda desenhada! zes siglas, logótipos, emblemas, anúncios, folhetos admirar ‘arte contemplativa’, a maior parte abstra-
No pós-guerra, Remi perdeu o contacto com o e cartazes. Tchang ensinou-o a ser fiel à cultura de ta. Escolheu expressionistas belgas, mas também
amigo chinês, mas não o esqueceu. Tchang reapare-
ceria em 1958, como pretexto da vigésima aventura
de Tintin, agora no Tibete (anexado pela China em
1950). Hergé atravessava um período complicado,
com problemas conjugais, bloqueio criativo e pesa- Hergé não tinha vocação para
delos horríveis dominados pela cor branca de neve.
“Tintin no Tibete” começa com um destes pesadelos.
Em férias nos Alpes na companhia do Capitão Had-
ser ‘pintor de domingo’, nem
dock, Tintin ouve a notícia de que um avião se des-
penhou nos Himalaias, adormece no fim do jantar e
sequer como bálsamo das suas
tem a visão de Tchang sepultado na neve, a pedir-lhe crises reais ou imaginárias
E 26
TINTIN, A
EUROSTAR

TEXTO
PEDRO
BOUCHERIE
MENDES

Stricto sensu, Tintin tem pouco vendidos, traduzido em 110 línguas,


interesse. Não é um personagem com incluindo variadíssimos dialetos regi-
arco que aspire a mais que o regresso onais, Tintin é o expoente supremo da
à sua casa de Bruxelas, ainda que linha clara, estilo de desenho em que
em seu redor o Capitão Haddock vá personagens caricaturais e engraça-
ganhando espessura, os gémeos Du- dos se dispõem em cenários realistas,
pond interesse e o Professor Girassol muito contrastados, com cores mar-
(cujo primeiro nome em português foi cadas, sem sombreados ou preocu-
‘Senhor Pintadinho de Branco’) com- protegido de sempre, em especi- Obra sem mulheres, com exceção da pações de tridimensionalidade, com
plexidade e mistério. Até Milou, um al depois do casamento da viúva enigmática Bianca Castafiore, o Tintin contorno a definido a separar as áreas,
cão, tem penchant por uísque, que o do autor com Nick Rodwell, antigo que perdura não é o Tintin original, por causa das técnicas de impressão
torna um personagem tão imperfeito proprietário da primeira loja Tintin, que publicado semanalmente em tiras e da época). Esta qualidade técnica e
quanto divertido. gere o império. Cessando sucessivos pranchas e os primeiros álbuns foram artística, o grande fôlego e detalhe das
No cânone, Tintin, permanece opaco, contratos de cedência de imagem, retocados para chegar à versão limpa histórias e um invulgar talento nos en-
sem idade, passado, família ou em- o inglês Rodwell, “a pessoa menos e mais crescida, cabeça de coco quadramentos dos quadrinhos, muito
prego. Jovem de 92 anos (a primeira popular na Bélgica”, decidiu tornar ruivo, dois pontinhos para os olhos, cinematográficos, que criam a ilusão
tira é de janeiro de 1929), Tintin foi-se Tintin no Rolls Royce da animação e um traço para a boca, outro para o de ações rápidas, explicam muito o
encorpando num dos maiores sím- Hergé num artista contemporâneo por nariz e ainda assim tão expressivo. As êxito e a perpetuidade em leitores dos
bolos do herói aventureiro e curioso, direito próprio, tão grande e celebrado alterações foram feitas sem engulhos. 7 aos 77. Afortunadas as crianças que
mantendo-se civilizado e cosmopoli- como um Magritte. Não se pode dizer Hergé, de facto um artista maior, era crescem a ler Tintin que, mesmo dado
ta, como se queria o verdadeiro euro- que tenha falhado. O museu Hergé também um empresário francamente como adormecido, surge quando é
peu de antanho. Criado por um Hergé (em Louvain-La-Neuve) não é uma pragmático, que captava a contem- inadiável. Em março de 2016, minutos
de 20 e poucos anos, em Tintin é fácil tintinlândia, ou sequer tem zonas para poraneidade: décadas antes dos a seguir aos atentados de Bruxelas,
encontrar os valores do escutismo crianças, mais parecendo uma galeria autos de fé, já o polémico “Tintin no muitos usaram espontaneamente Tin-
e de uma certa boa índole católica de arte de arquitetura ambiciosa. Em Congo” fora revisto por ele, assu- tin para manifestar dor e solidariedade.
europeia, comum durante décadas 2011, Spielberg produziu um filme e mindo a contrição do seu herói como Por cada imagem dos destroços nas
no século passado — hoje provavel- os originais de pranchas e capas dos colono paternalista (o livro é muito redes sociais, havia outra da criação
mente visto como uma excentricida- álbuns chegam a valores astronómicos popular em África, já agora). de Hergé em lágrimas, partilhadas e
de conservadora. Sempre decente, nos leilões: uma versão da capa de “O Ignorado nos Estados Unidos e não reconhecidas em todo o mundo.
bravo e humanista, chegou à lua anos Lótus Azul” foi arrematado este ano tão conhecido no Reino Unido, No aeroporto de Bruxelas, há uma
antes dos americanos, andou pela por €3,2 milhões , recorde mundial de Hergé, como Emílio Salgari ou Júlio réplica gigante do foguetão que levou
América, Rússia, China, Japão, pelos uma obra de banda desenhada. Verne, preencheu centenas de horas Tintin, “Milou”, Haddock, Dupond e
Andes, pela Arábia ou à procura de A gerência dos assuntos de Tintin do tempo de muitos continentais Dupont e o Professor Girassol à lua,
meteoritos no Atlântico Norte em férrea de Rodwell é tão intransigente com aventuras emocionantes e reais a receber na capital da Europa quem
“Aventuras” que compreendem 22 que proíbe reprodução de ima- como uma tarde de verão. Em todos vem de fora e quem regressa. O leal
álbuns terminados, mais um inacaba- gens, sempre que os conteúdos não os álbuns, o embrenhar é imediato, Tintin faz-nos sentir em casa, tão
do e o primeiro, o muito mais tosco agradam e impede clubes de fãs de com um lastro que fica para sempre, europeu como as tamancas holande-
“Tintin no País dos Sovietes”, ainda reproduzir desenhos, perseguindo ju- para lá da nostalgia ou da rememo- sas, as baguetes francesas ou o cantar
hoje por colorir. dicialmente quem o faz. Em 2005, na ração. “As Joias de Castafiore”, um tirolês.
Ativo até 1976, com a morte de Her- exposição evocativa dos 175 anos do whodunnit em que Tintin não sai Comparando com o universo Disney,
gé (1983) Tintin foi interrompido para reino da Bélgica, não há referência a do mesmo quilómetro quadrado, é mais sanitizado e infantil; com os he-
sempre por seu desejo expresso, ao Tintin, por dificuldades na negociação uma extraordinária proeza narrativa; róis da Marvel, de super-heróis mus-
contrário de séries de outros grandes com o cioso Rodwell. Sabendo que “O Ceptro de Otokkar”, um thrillher culados e inimigos trans-humanos ou
nomes da BD franco-belga como Tintin passa para o domínio público adulto de Guerra Fria e “Voo 714 para até com a lógica própria da animação
Spirou, Astérix, Blake e Mortimer. em 2054, este inglês não nega a pos- Sydney” tem um desenrolar excecio- japonesa, é preciso um certo esforço
Hoje, aquele que os flamengos cha- sibilidade de um novo livro (o último nal e um final empolgante, tão típico para não considerar herança europeia
mam ‘Kuifje’ (“poupinha”) é um recluso data de 1976) e assim prolongar a das melhores séries de agora. do mundo Tintin no mínimo mais
e o personagem animado mais bem proteção legal. A caminho dos 300 milhões de álbuns aconchegante, interessante e rica. b

E 27
Serge Poliakoff, Jean Dubuffet, Lucio Fontana, Frank acompanhar a evolução dos tempos. Há diferenças em Le Soir tinha sido interrompida com a libertação
Stella, etc. Andy Warhol — que declarara ter sido subtis entre as séries a preto e branco, a cores, e as de Bruxelas. O novo Tintin retomaria a história e a sua
influenciado pela arte de Hergé, tal como pela de sucessivas edições dos álbuns. Por exemplo, a con- sequela sob o nome “O Templo do Sol”, em estreita
Walt Disney — produziu em 1979 quatro imagens descendência colonial que atravessa o “Tintim no colaboração com Jacobs. Infelizmente para Remi, os
de Hergé ao estilo dos seus retratos de celebridades Congo” de 1930, começou a ser atenuada logo em traumas da incivilidade tinham causado estragos, a
como Marilyn Monroe ou Jackie Kennedy. Em 1993, 1942. No entanto, a popularidade mundial de Her- insegurança instalara-se e a instabilidade psicológica
Roy Lichtenstein — outro artista colecionado por gé ficou seriamente abalada no pós-Guerra quando extravasou para o trabalho. As relações com Germai-
Remi — criou “Tintin reading” para ilustrar a capa se discutiu a publicação das aventuras de Tintin em ne complicavam-se, sucediam-se os casos amorosos
do romance de Frederic Tuten, “Tintin in the New Le Soir, sob controlo alemão a partir de 1940. (“Le e as ausências bruscas, férias várias com Germaine
World”. (Hergé morrera dez anos antes.) Mostra o Vingtième Siècle” e o respetivo suplemento infantil para recompor a relação, etc.; a publicação do “Tem-
nosso herói de 15 anos sentado numa poltrona a ler o tinham sido encerrados pelos nazis.) Entre publicar plo do Sol” foi interrompida, cortou com o amigo Ja-
jornal, com “Milou” deitado aos seus pés e o boné do em Le Soir e sobreviver, ou não publicar, Remi não cobs, pensou até em emigrar para a Argentina. Em
Capitão Haddock numa mesinha de canto; na pare- hesitou. As suas responsabilidades na orientação e dada altura correu o boato de que Hergé — ou seria
de, “A Dança” de Henri Matisse; um punhal voador direção do jornal eram nulas. Através das suas cria- Tintin? — tinha morrido! A verdade é que ao longo do
atravessa a imagem, talvez uma referência à “Orelha turas sempre se batera contra os corruptos e prepo- final dos anos 40 e da década de 50, Georges Remi so-
Quebrada” (ou à capa dum petit vingtième de 1936). tentes. É verdade que o padre Wallez fora um admi- freu várias depressões crónicas, agravadas pelo senti-
O salto foi finalmente dado por Remi nos anos rador declarado de Mussolini, mas em 1938 Hergé do de culpa em faltar aos seus deveres matrimoniais
60. Frequentador habitual da Galeria Carrefour no apresentara como vilão maior de “O Ceptro de Ot- e profissionais. Vivia atormentado pelo ‘demónio da
centro de Bruxelas, aconselhou-se com o crítico e tokar” um tal Müsstler, cujo nome resultara obvia- pureza’ que insuflara na sua criatura, Tintin, mas que
historiador de arte Pierre Sterckx, tomou lições com mente da combinação de Mussolini com Hitler. A ele, como criador, atraiçoara. Entretanto (1946) iam
o pintor belga Louis Van Lint (um dos fundadores do libertação de Bruxelas a 3 de setembro de 1944 trou- aparecendo novos heróis de banda desenhada, como
grupo COBRA), e começou a pintar a sério. O resul- xe a prisão de Remi/Hergé, mencionado duas vezes, Lucky Luke mais as suas proezas no extremo-oeste
tado é interessante, mas são óbvias as dívidas a Joan pelo nome e pseudónimo, na lista de jornalistas in- americano, do também belga Morris...
Miró (o pintor contemporâneo que mais admirava), civiques. A inveja gera muitas vezes sede de vingan- A segunda fase da vida de Hergé é abrilhantada
Dubuffet, etc. Uma trintena de pinturas depois, de- ça. O caso arrastou-se, Hergé foi preso quatro vezes, pelo aparecimento de Fanny Vlamynck, a nova colo-
sistia, reconhecendo que “a banda desenhada é a mas foi salvo por Tintin, padrão de virtudes cívicas. rista do Estúdio Hergé, contratada em 1955. 27 anos
minha única forma de expressão”. Hergé não tinha O certificado de boa cidadania foi-lhe finalmente mais nova que Georges Remi, será a sua segunda
vocação para ser ‘pintor de domingo’, nem sequer entregue em 1946. Poucos meses depois, nascia o companheira (embora ele continue a passar um dia
como bálsamo das suas crises reais ou imaginárias. segundo Tintin, desta vez sob a forma de revista au- por semana com Germaine). Obtido o divórcio em
tónoma para jovens dos 7 aos 77 anos. Entre os cola- 1977, casará imediatamente com Fanny, sem nun-
CRISES POLÍTICAS E PSICOLÓGICAS boradores estaria Edgar P. Jacobs, famoso criador da ca abandonar totalmente aquela a quem chamava
O otimismo da obra de Hergé esconde a comple- dupla Blake e Mortimer, com quem aliás já andava a carinhosamente Hergée. Diagnosticado com osteo-
xidade psicológica do seu autor. A ficção irrompe trabalhar. Remi ia a caminho dos 40 anos. Começa- mielofibrose em 1979 — que lhe exigiria transfusões
na vida quando “os bons acabam felizes e os maus vam as crises complicadas da meia-idade. de sangue semanais — Georges Remi morreu a 3 de
infelizes”, na definição certeira de Miss Prism, Em tempos atribulados e de desorientação, o tra- março 1983; Germaine faleceu em 1995. Herdeira
a governanta da comédia “Quanto Importa Ser balho pode ser o grande motivador, mas é também dos direitos da obra de Hergé, Fanny casou em 1993
Leal” (1895), de Oscar Wilde. Tintim/Hergé soube um fardo. A publicação de “As Sete Bolas de Cristal” com o dono da loja Tintin, aberta em Covent Garden
(Londres) em 1984; ambos são hoje defensores fer-
renhos dos direitos de utilização da obra de Hergé.
Quanto a Tintin, não envelheceu nem morreu. Atra-

Em 1938 Hergé apresentou como vessou culturas de norte a sul e de ocidente a oriente,
onde continua a exibir a sua poupa aerodinâmica, a

vilão maior de “O Ceptro de Ottokar” vestir as suas calças à golfe e a estimular a imagina-
ção de sucessivas gerações de crianças dos 7 aos 77
anos. Nos anos 60, o general Charles de Gaulle, Pre-
um tal Müsstler, cujo nome resultara sidente da França, considerava Tintin o seu único
rival internacional. Será que os políticos atuais con-
obviamente da combinação de tinuam a ler a obra de Hergé? b

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OPERAÇÃO Uma guarda de honra carrega o caixão


do cientista Mohsen Fakhrizadeh Mahabadi, no dia
30 de novembro de 2020, em Teerão. Fakhrizadeh
foi assassinado numa operação dos serviços secretos
israelitas na vila de Absard, a leste da capital do Irão

E 30
O cientista
e a máquina
que o matou
O homem que controlava o programa
nuclear do Irão estava há anos na mira da
Mossad — e os serviços secretos de Teerão
sabiam-no. Mas isso não impediu o ataque,
com recurso à inteligência artificial e a uma
metralhadora disparada por controle remoto
TEXTO RONEN BERGMAN E FARNAZ FASSIHI/”THE NEW YORK TIMES”

E 31
DARRON MARK/CORBIS/GETTY IMAGES

O
principal cientista nuclear iraniano acordou uma Desde 2014, quando o Governo israelita orde-
hora antes do nascer do sol, como fazia na maior nou à sua agência de segurança externa, a Mos-
parte dos dias, para estudar filosofia islâmica an- sad, que impedisse o Irão de obter armas nuclea-
tes de o seu dia começar. Nessa tarde, ele e a mu- res, a agência tinha levado a cabo uma campanha
lher deixariam a sua casa de férias no mar Cáspio e de sabotagem e ciberataques nas instalações de
iriam de carro até à casa de campo que tinham em enriquecimento de combustível nuclear do Irão.
Absard, uma vila bucólica a leste de Teerão, onde Também tinha vindo a eliminar metodicamente
tencionavam passar o fim de semana. Os serviços os especialistas que se pensava estarem à frente
de inteligência do Irão tinham-no avisado sobre do programa de armas nucleares iraniano. A partir
um possível plano para o assassinar, mas o cien- de 2007, os seus agentes tinham assassinado cinco
tista, Mohsen Fakhrizadeh, ignorara o aviso. cientistas nucleares iranianos e ferido um outro.
Convencido de que Fakhrizadeh liderava os es- Muitos dos cientistas trabalhavam diretamen-
forços do Irão para construir uma bomba nuclear, te para Fakhrizadeh (pronuncia-se fah-KRI-zah-
Israel queria matá-lo há pelo menos 14 anos. Mas -deh) no que os funcionários de inteligência is-
tinha havido tantas ameaças e planos que ele já não raelitas diziam ser um programa encoberto para
prestava atenção. Malgrado a sua posição proemi- construir uma ogiva nuclear, incluindo superar os
nente nas forças armadas iranianas, Fakhrizadeh desafios técnicos substanciais de fazer uma sufici-
queria viver uma vida normal. Apreciava pequenos ente pequena para caber num dos mísseis de lon-
prazeres domésticos: ler poesia persa, levar a sua go alcance iranianos. Os agentes israelitas também
família até à costa, guiar no campo. E, descartando tinham matado o general iraniano encarregado do
os avisos da sua equipa de segurança, muitas ve- desenvolvimento de mísseis e 16 membros da sua
zes conduzia o próprio carro até Absard em vez de equipa. Mas o homem que os israelitas diziam li-
deixar que os guarda-costas o levassem num carro derar o programa da bomba permanecia esquivo.
blindado. Era uma quebra séria do protocolo de se- Em 2009, uma equipa de atiradores tinha esperado
gurança, mas ele insistia. Assim, naquela sexta-fei- por Fakhrizadeh no local de um planeado assassínio
ra, dia 27 de novembro, pouco depois do meio-dia, em Teerão, mas a operação fora cancelada no último
pôs-se ao volante do seu sedan Nissan Teana preto, momento. O plano fora comprometido, suspeitou a
com a mulher ao lado, e fez-se à estrada. Mossad, e o Irão tinha montado uma emboscada.

E 32
ATAQUE Um modelo especial da pouco mais do que que uma coleção de “termos
metralhadora belga FN NAG, cool na moda”.
ligada a um aparato robótico Mas desta vez havia realmente um robô as-
avançado, foi a arma escolhida sassino. A história do que se passou nessa tarde e
pelos israelitas para o ataque. dos eventos que levaram a isso, saída diretamente
Operada à distância, teve de ser da ficção científica, é publicada aqui pela primei-
desmontada, introduzida no Irão e ra vez, com base em entrevistas com funcioná-
montada no local. Além disso, foi rios americanos, israelitas e iranianos, incluindo
preciso incorporar dados dois agentes dos serviços de inteligência familia-
informáticos para corrigir os
res com os detalhes do planeamento e execução
atrasos na receção das imagens;
A operação, a mais recente e da operação, bem como declarações que a família
espetacular de uma série de de Fakhrizadeh fez aos media iranianos. O êxito
ataques a cientistas ligados ao da operação foi resultado de muitos fatores: fa-
programa nuclear iraniano, foi lhas sérias dos guardas revolucionários iranianos,
preparada e executada pela extenso planeamento e vigilância pela Mossad, e
Mossad, liderada por Yossi Cohen uma negligência a roçar o fatalismo por parte de
(aqui numa foto de 2015); Fakhrizadeh. Mas também foi o teste de estreia
Mohsen Fakhrizadeh, o cientista de um atirador computorizado de alta tecnologia,
principal do programa nuclear do equipado com inteligência artificial e múltiplas
Irão, era há muito alvo dos câmaras, operado via satélite e capaz de disparar
IRANIAN LEADER PRESS OFFICE/HANDOUT/ANADOLU AGENCY/GETTY IMAGES

serviços secretos de Israel 600 tiros por minuto. A metralhadora modificada,


com controle remoto, vem agora juntar-se ao dro-
ne de combate no arsenal das armas de alta tec-
nologia para os assassínios seletivos à distância.
Mas ao contrário de um drone, a metralhadora ro-
bótica não chama a atenção no céu, enquanto um
drone pode ser abatido, e pode estar em qualquer
lado — características suscetíveis de reformular os
mundos da segurança e da espionagem.

“LEMBREM-SE DESSE NOME”


Os preparativos para o assassínio começaram após
GALI TIBBON/AFP/GETTY IMAGES

uma série de reuniões no fim de 2019, inícios de


2020, entre funcionários israelitas, liderados pelo
diretor da Mossad, Yossi Cohen, e altos funcioná-
rios americanos, incluindo o então Presidente Do-
nald Trump, o secretário de Estado Mike Pompeo,
e a diretora da CIA, Gina Haspel. Israel tinha pa-
rado a campanha de sabotagem e assassínios em
2012, quando os EUA começaram as negociações

Desta vez iam tentar algo de novo. Agentes ira-


nianos a trabalhar para a Mossad tinham estacio-
outra. Uma camião explodira em frente ao carro
de Fakhrizadeh, a seguir cinco ou seis atiradores
O assassino,
nado uma carrinha Nissan Zamyad azul de caixa
aberta à beira de uma estrada que ligava Absard
saltaram de um carro próximo e abriram fogo. Um
canal de redes sociais ligado à Guarda Revolucio-
um atirador
à autoestrada principal. O local era uma peque-
na elevação a partir da qual se viam os veículos a
nária Iraniana reportou uma intensa batalha de ti-
ros entre os guarda-costas de Fakhrizadeh e uns
experiente,
aproximarem-se. No chão da carrinha, escondi-
da por baixo de lonas e falsos materiais de cons-
12 atacantes. Várias pessoas foram mortas, diziam
testemunhas. assumiu
trução, estava uma metralhadora de 7.62 mm. Por
volta da uma hora, a equipa recebeu um sinal de
Um dos relatos mais estranhos surgiu uns dias
depois. Várias organizações de media iranianas re- a sua posição,
que Fakhrizadeh, a sua mulher e um grupo de
guarda-costas armados em carros de escolta es-
portaram que o assassino era um robô e que toda
a operação tinha sido conduzida por controle re- calibrou
tavam prestes a partir para Absard, onde muitos
membros da elite iraniana têm segundas casas e
moto. Esses relatos contradiziam diretamente os
supostos testemunhos oculares de uma batalha as miras,
vivendas de férias. O assassino, um atirador expe-
riente, assumiu a sua posição, calibrou as miras,
entre equipas de assassinos e guarda-costas e as
notícias segundo as quais alguns dos assassinos desengatilhou
desengatilhou a arma e tocou levemente no gati-
lho. Porém, estava muito longe de Absard. Olhava
haviam sido presos ou mortos. Os iranianos tro-
çaram da história como sendo um esforço trans- a arma e tocou
para um ecrã de computador num local desconhe-
cido a mais de 1600 km de distância.
parente para minimizar o embaraço de uma força
de segurança que não conseguira proteger uma levemente no
NOTÍCIAS DE UM ASSASSÍNIO
das figuras mais guardadas do país. “Porque é que
não dizem que a Tesla construiu o Nissan, que se gatilho. Porém,
As notícias no Irão nessa tarde seriam confusas,
contraditórias e essencialmente erradas. Uma
guiou a si próprio, se estacionou, fez os disparos e
estoirou consigo mesmo?”, dizia uma conta radi- estava muito
equipa de assassinos havia esperado junto à es-
trada que Fakhrizadeh passasse, dizia uma. Re-
cal das redes sociais. Thomas Withington, um ana-
lista em guerra eletrónica, disse à BBC que a teoria longe de Absard
sidentes tinham ouvido uma grande explosão se- do robô assassino devia ser tomada com “um bom
guida por intenso tiroteio de metralhadora, dizia grão de sal”, e que a descrição iraniana parecia ser

E 33
com o Irão que levaram ao acordo nuclear de 2015. baixas. A ideia de uma metralhadora preposicio- segundo Ali Akhbar Salehi, o antigo chefe da
Agora que Trump cancelara esse acordo, os israeli- nada e controlada à distância foi proposta, mas Agência de Energia Atómica do Irão e um amigo
tas queriam recomeçar a campanha para bloquear havia uma série de complicações logísticas, e mui- e colega de longa data. Dirigiu o programa de de-
o progresso nuclear do Irão e o obrigar a aceitar tas formas de correr mal. Metralhadoras com con- senvolvimento de mísseis para a Guarda e foi pio-
restrições estritas ao seu programa nuclear. trole remoto existiam, e vários exércitos as possu- neiro do programa nuclear do país. Como diretor
No final de fevereiro, Cohen apresentou aos íam, mas o seu volume e peso tornavam-nas di- de investigação no Ministério da Defesa, teve um
americanos uma lista de operações potenciais, fíceis de transportar e esconder, e só tinham sido papel chave a desenvolver drones de produção do-
incluindo o assassínio de Fakhrizadeh. O cientis- usada com operadores por perto. O tempo estava méstica e, segundo dois funcionários do Irão, foi
ta estava no topo da lista de alvos de Israel desde a esgotar-se. à Coreia do Norte para juntar forças no desenvol-
2007, e a Mossad nunca tinha tirado os olhos dele. No verão, parecia que Trump, que estava com- vimento de mísseis. Na altura em que morreu, era
Em 2018, o primeiro-ministro israelita, Benjamin pletamente em sintonia com Netanyahu no que vice-ministro da Defesa. “No campo do nuclear
Netanyahu, deu uma conferência de imprensa tocava ao Irão, podia perder a eleição americana. e da nanotecnologia e da guerra bioquímica, o sr.
para mostrar documentos que a Mossad tinha rou- O seu provável sucessor, Joe Biden, tinha prome- Fakhrizadeh era uma personagem a par com Qas-
bado dos arquivos nucleares iranianos. Alegando tido inverter as políticas de Trump e regressar ao sem Soleimani, mas de forma totalmente enco-

MARK WILSON/GETTY IMAGES


que provavam que o Irão ainda tinha uma progra- acordo nuclear de 2015, ao qual Israel se opusera berta”, disse numa entrevista Gheish Ghoreishi,
ma de armas nucleares ativo, referiu Fakhrizadeh vigorosamente. Se Israel ia matar um alto funcio- que foi conselheiro do Ministério dos Negócios
pelo nome diversas vezes. “Lembrem-se desse nário do Irão, um ato que tinha potencial para de- Estrangeiros do Irão para assuntos árabes.
nome”, disse. “Fakhrizadeh”. sencadear uma guerra, precisava do consentimen- Quando o Irão precisava de equipamento ou
Os funcionários americanos informados sobre to e proteção dos Estados Unidos. Isso implicava tecnologia sensível que era proibida por sanções
o plano de assassínio em Washington apoiaram- agir antes de Biden tomar posse. No melhor cená- internacionais, Fakhrizadeh arranjava maneira de
no, segundo alguém presente na reunião. Ambos rio de Netanyahu, o assassínio afastaria qualquer os obter. “Criou uma rede subterrânea, da América
os países foram encorajados pela resposta relati- hipótese de ressuscitar o acordo nuclear, mesmo Latina até à Coreia do Norte e à Europa de Leste,
vamente tépida do Irão ao assassínio pelos EUA do que Biden vencesse. para encontrar as partes de que necessitávamos”,
major-general Qassem Soleimani, o comandante disse Ghoreishi.
militar iraniano morto por um ataque de drone O CIENTISTA Ghoreishi e um antigo funcionário sénior ira-
com a ajuda da inteligência israelita em janeiro Fakhrizadeh cresceu numa família conservadora niano contaram que Fakhrizadeh era conhecido
de 2020. Se podiam matar o líder militar de topo na cidade santa de Oom, o centro teológico do Irão como um workaholic. Tinha uma expressão sé-
do Irão sem grandes consequências, isso significa- xiita. Tinha 18 anos quando a revolução islâmica ria, exigia perfeição, e não possuía sentido de hu-
va que o Irão ou não podia ou tinha relutância em derrubou a monarquia do país, um evento histó- mor, disseram. Raramente tirava folgas. E evita-
responder com mais força. A vigilância a Fakhri- rico que inflamou a sua imaginação. Decidiu con- va a atenção dos media. Muita da vida profissio-
zadeh intensificou-se. cretizar dois sonhos: tornar-se um cientista nu- nal de Fakhrizadeh foi top secret, mais conhecida
À medida que as informações iam chegando, a clear e fazer parte da ala militar do novo governo. da Mossad do que da maioria dos iranianos. A sua
dificuldade do desafio pareceu clara. O Irão tam- Como símbolo da sua devoção à revolução, usava carreira poderá ter sido um mistério mesmo para
bém havia retirado lições do assassínio de Solei- um anel de prata com uma grande ágata vermelha os seus filhos. Numa entrevista televisiva, eles dis-
mani — nomeadamente, que os seus oficiais de oval, do mesmo tipo que usavam o líder supremo seram que tinham tentado reconstituir o que o seu
topo podiam tornar-se alvos. Consciente de que do Irão, ayatola Ali Khamenei, e Soleimani. pai fazia com base nos seus comentários esporá-
Fakhrizadeh estava a cabeça dos mais procura- Entrou na guarda revolucionária e foi promo- dicos. Calculavam que estivesse envolvido na pro-
dos de Israel, os iranianos tinham apertado a sua vido até general. Fez um doutoramento em física dução de medicamentos.
segurança. Os seus guarda-costas pertenciam à nuclear no Instituto de Tecnologia de Isfahan, com Quando os inspetores nucleares internacionais
unidade de elite Ansar da Guarda Revolucionária, uma dissertação sobre “identificar neutrões”, apareceram, disseram-lhes que ele estava indis-
fortemente armada e bem treinada, que comu- ponível, e os seus laboratórios e locais de testes
nicava por canais encriptados. Acompanhavam fora de alcance. Preocupado com o bloqueio ira-
os movimentos de Fakhrizadeh em caravanas de
entre quatro a sete veículos, alterando as rotas e o
Fakhrizadeh niano, o Conselho de Segurança das Nações Uni-
das congelou os bens de Fakhrizadeh, como parte
timing para despistar possíveis ataques. E o carro
que ele próprio guiava era trocado entre quatro ou
era conhecido de um pacote de sanções ao Irão em 2006. Embora
ele fosse considerado o pai do programa nuclear
cinco ao seu dispor.
Israel tinha empregado uma variedade de mé-
como um do Irão, nunca participou nas conversações que
levaram ao acordo de 2015. O buraco negro que
todos nos assassínios anteriores. O primeiro ci-
entista nuclear na lista fora envenenado em 2007. workaholic. era a sua carreira foi uma razão importante por
que, mesmo após fechado o acordo, permanece-
O segundo, em 2010, fora morto por uma bomba
pegada a um motociclo e detonada à distância, Muita ram questões sobre se o Irão ainda tinha um pro-
grama de armas nucleares, e quão avançado esta-
mas o planeamento fora terrivelmente comple-
xo, e um suspeito iraniano foi apanhado. Confes- da sua vida va. O Irão insistia firmemente que o seu progra-
ma nuclear tinha fins puramente pacíficos e que
sou e foi executado. Após esse desastre, a Mossad
mudou para assassínios mais simples, executados profissional não tinha qualquer interesse em desenvolver uma
bomba. O ayatola Khamenei pronunciou mesmo
pessoalmente. Em cada um dos quatro seguintes,
de 2010 a 2012, atiradores em motocicletas apro- foi top secret, um édito a declarar que uma tal arma violaria a
lei islâmica.
ximaram-se por trás do carro do alvo do tráfico
em Teerão e ou o atingiram através da janela ou mais conhecida Mas investigadores da Agência Internacional
de Energia Atómica concluíram em 2011 que o Irão
pegaram uma bomba na porta do carro antes de
fugirem. da Mossad do tinha “levado a cabo atividades relevantes para o
desenvolvimento de um engenho nuclear”. Tam-
Mas a caravana armada de Fakhrizadeh, à es-
preita desses ataques, tornava o método da moto- que da maioria bém disseram que, embora o Irão tivesse desman-
telado o seu esforço concentrado para construir
cicleta impossível.
Considerou-se fazer detonar uma bomba na dos iranianos uma bomba em 2003, trabalhos significativos no
projeto haviam continuado. Segundo a Mossad, o
rota de Fakhrizadeh, forçando a caravana a uma programa de construção da bomba tinha simples-
paragem que permitisse atiradores atacarem-na. mente sido desconstruído e as suas partes com-
O plano foi abandonado devido à probabilidade de ponentes distribuídas em diferentes programas e
um tiroteio estilo gangue que provocasse muitas agências, tudo sob a direção de Fakhrizadeh.

E 34
ACORDO O ataque foi
desencadeado com
Em 2008, quando o Presidente George W. Bush conhecimento das
visitou Jerusalém, o primeiro-ministro Ehud Ol- principais figuras dos EUA.
mert fê-lo ouvir a gravação de uma conversa, que Os preparativos
funcionários israelitas disseram ter tido lugar começaram após uma
pouco antes, entre um homem que identificaram série de reuniões no fim de
como Fakhrizadeh e um colega. Segundo três pes- 2019, inícios de 2020,
soas que disseram ter ouvido a gravação, Fakhri- entre funcionários
zadeh falava explicitamente sobre o seu esforço israelitas, liderados pelo
continuado para desenvolver uma ogiva nuclear. diretor da Mossad, Yossi
Um porta-voz de Bush não respondeu a um pe- Cohen, e altos funcionári-
dido de comentário, e o “New York Times” não os americanos, incluindo o
então Presidente Donald
pôde confirmar independentemente a existência
Trump (à direita), o
da gravação ou o seu conteúdo.
secretário de Estado Mike
Pompeo (à esquerda), e a
PROGRAMANDO O ATAQUE diretora da CIA, Gina
Um robô assassino muda profundamente o cálculo Haspel
para a Mossad. A organização tem há muito a re-
gra de que se não houver resgate, não há operação,
significando que é essencial ter um plano a toda
a prova para retirar os operativos em segurança.
Não haver agentes no terreno altera a equação a fa-
vor da operação. Mas uma metralhadora compu-
torizada maciça e não testada apresenta uma série
de outros problemas.
O primeiro é como instalar a arma no local. Is-
rael optou por um modelo especial da metralha-
dora belga FN NAG, ligada a um aparato robótico
avançado, segundo um funcionário de espiona-
gem familiar com o plano. O funcionário disse que
o sistema não era muito diferente do Sentinel 20,
fabricado pela empresa de material militar Escri-
bano e disponível no mercado.
Mas a metralhadora, o robô, os seus compo-
nentes e os acessórios por junto pesam cerca de
uma tonelada. Portanto, o equipamento foi des-
montado nas partes mais pequenas que foi possí-
vel e contrabandeado para o pais peça a peça, em
várias formas, rotas e ocasiões. A seguir foi nova-
mente montado no Irão.
O robô foi construído para caber na caixa de
uma carrinha Zamyad, um modelo comum no
Irão. Câmaras apontando em múltiplas direções
foram montadas na carrinha para proporcionar
à sala de comando uma vista completa não só do
alvo e dos seus seguranças, mas do ambiente em
volta. Por fim, encheu-se o camião de explosivos,
de forma a poder ser completamente destruído O Irão já tinha sido abalado por uma série de bomba poderosa para o destruir, tornando o plano
após o ataque, destruindo todas as provas. ataques de alto perfil em meses recentes. Além muito mais complicado.
Era mais complicado disparar a arma. Uma de matar líderes e danificar instalações nuclea-
metralhadora montada numa carrinha, mes- res, eles tornavam claro que Israel tinha uma rede O ATAQUE
mo estacionada, tremerá após o recuo de cada eficaz de colaboradores dentro do Irão. As recri- Pouco antes das 15h30, a caravana chegou à curva
tiro, mudando a trajetória das balas subsequen- minações e a paranoia só se intensificaram após na rua Firuzkouh. O carro de Fakhrizadeh parou
tes. Também, embora o computador comunicas- o assassínio. Agências de informações rivais — do quase completamente, e foi positivamente iden-
se com a sala de controlo via satélite, enviando ministro das Informações e da Guarda Revolucio- tificado pelos operacionais, que também podiam
dados à velocidade da luz, haveria um pequeno nária — culparam-se mutuamente. Um antigo ver a mulher dele ao seu lado. A caravana virou
atraso; aquilo que o operador via no ecrã já te- funcionário das informações iraniano disse ter à direita no boulevard Iman Khomeini, e o carro
ria acontecido há um momento, e ajustar a mira ouvido que Israel infiltrara a própria equipa de se- da frente acelerou até à casa para a inspecionar
para compensar levaria outro momento, tudo gurança de Fakhrizadeh, tendo conhecimento de antes da chegada de Fakhrizadeh. A sua partida
enquanto o carro de Fakhrizadeh continuava em mudanças de última hora nos seus movimentos, deixou o carro dele totalmente exposto. A carava-
movimento. na rota e na hora. na abrandou numa lomba logo antes da Zamyad
O tempo que as imagens da câmara demorari- Mas Shamkhani disse que houvera tantas estacionada. Um cão rafeiro começou a atraves-
am a chegar ao atirador e a resposta do atirador a ameaças ao longo dos anos que Fakhrizadeh não sar a estrada.
chegar à metralhadora, não incluindo o seu tempo as levava a sério. Recusava viajar numa viatura A metralhadora disparou uma rajada, atingin-
de reação, foi estimado em 1,6 segundos, um tem- blindada, insistindo em guiar ele próprio um dos do a frente do carro por baixo do para-brisas. Não
po suficiente para o tiro mais bem apontado sair seus carros. Quando ia com a sua mulher, pedia é claro se esses tiros atingiram Fakhrizadeh, mas
ao lado. Programou-se a inteligência para com- aos guarda-costas que fossem num carro sepa- o carro guinou e deteve-se. O atirador ajustou as
pensar o atraso, o abalo e a velocidade do carro. rado atrás, em vez de viajarem com ele, segun- miras e disparou outra rajada, atingindo o para-
Outro desafio era determinar em tempo real que do três pessoas conhecedoras dos seus hábitos. -brisas pelo menos três vezes, e Fakhrizadeh pelo
era Fakhrizadeh quem estava ao volante do car- Fakhrizadeh também pode ter achado atrativa menos uma vez no ombro. Ele saiu do carro e aga-
ro e não um dos seus filhos, a sua mulher ou um a ideia de martírio. “Deixem-nos matar”, disse chou-se junto à porta da frente aberta. Segundo a
guarda-costas. numa gravação à Mehr News, um media conser- agência iraniana FarsNews, mais três balas atingi-
Israel não tem no Irão as capacidades de vigi- vador, publicada em novembro. “Matem tanto ram-no na espinha. Tombou na estrada.
lância que tem noutros lugares, como Gaza, onde como quiserem, mas não nos pararão. Mataram O primeiro guarda-costas chegou num dos
usa drones para identificar um alvo antes do ata- cientistas, portanto temos esperança de sermos carros de trás: Hamed Asgari, um campeão nacio-
que. Um drone suficientemente grande para via- mártires, mesmo que não vamos para a Síria e nal de judo, com uma espingarda na mão. Olhou
jar até ao Irão poderia ser facilmente abatido pe- não vamos para o Iraque.” Mesmo que Fakhriza- em volta em busca do atacante, aparentemente
los mísseis antiaéreos do país, fabricados na Rús- deh aceitasse o seu destino, não é claro por que confuso. Ghasemi correu para o seu marido. “Eles
sia. A solução foi estacionar um carro falsamente motivo a Guarda Revolucionária encarregada de o querem matar-me, tu vai-te embora”, disse-lhe,
avariado, apoiado num macaco e sem uma roda, proteger aceitou lapsos de segurança tão flagran- segundo os filhos. Ela sentou-se no chão e pôs-lhe
num cruzamento com a estrada principal onde os tes. Conhecidos disseram apenas que ele era tei- a cabeça no seu colo, contaria mais tarde à televi-
veículos que se dirigiam a Absard tinham de fazer moso e insistente. são estatal iraniana.
inversão de marcha, pouco mais de um quilóme- Se Fakhrizadeh tivesse ido no banco de trás A Zamyad azul explodiu. Foi a única parte da
tro antes do local de ataque. Esse veículo continha do carro, teria sido muito mais difícil identificá- operação que não correu como planeado. A explo-
outra câmara. -lo e evitar matar outras pessoas. Se o carro fosse são devia ter desfeito em pedaços o robô, para os
Na madrugada de sexta-feira, a operação foi blindado e as janelas à prova de bala, os assassinos iranianos não puderem reconstituir o que aconte-
posta em marcha. Os israelitas deram aos ameri- teriam tido que usar munições especiais ou uma cera. Em vez disso, a maior parte do equipamen-
canos um aviso final. A carrinha Zamyad azul foi to foi atirada ao ar e caiu no solo, danificada sem
estacionada na esquina do boulevard Iman Kho- conserto mas largamente intacta. A avaliação da
meini. Os investigadores descobriram mais tarde
que as câmaras de segurança na estrada tinham
A metralhadora Guarda Revolucionária — que o ataque fora efetu-
ado com uma metralhadora com controle remoto
sido desativadas.
disparou “equipada com um sistema de informações por
satélite” que usava inteligência artificial — estava
O PERCURSO
Quando a caravana deixou a cidade de Rostam-
uma rajada, correta. Toda a operação levara menos de um mi-
nuto. Foram disparadas 15 balas. Os investigado-
kala na costa do Mar Cáspio, o primeiro carro le-
vava uma equipa de guarda-costas. Atrás dele atingindo a res iranianos notaram que nem uma delas atingira
Ghasemi, sentada junto ao marido, uma precisão
ia o Nissan preto não blindado que Fakhrizadeh
guiava, com a mulher, Sadigheh Ghasemi, ao seu frente do carro que atribuíram ao uso de software de reconheci-
mento facial.
lado. Dois outros carros blindados seguiam atrás.
Nesse dia a equipa de segurança tinha avisado por baixo do Hamed Fakhrizadeh estava na casa de famí-
lia em Absard quando recebeu um telefonema
Fakhrizadeh de uma ameaça contra ele, e pediu-
-lhe que não viajasse, segundo o seu filho Hamed para-brisas. perturbado da sua mãe. Levou minutos a chegar
àquilo que descreveu como um cenário de “guerra
Fakhrizadeh e funcionários iranianos. Mas Moh-
sen Fakhrizadeh disse que tinha uma aula para Não é claro completa”. Fumo e nevoeiro turvavam-lhe a vi-
são, e podia cheirar sangue. “Não foi um simples
dar na universidade no dia seguinte, e não podia
fazê-lo à distância. se esses tiros ataque terrorista em que alguém chega, dispara
uma bala e foge”, disse mais tarde na televisão
Ali Shamkhani, o secretário do Conselho
Nacional Supremo, contou mais tarde aos media atingiram iraniana. “O seu assassínio foi mais complicado
do que se sabe e se pensa. Ele era desconhecido
iranianos que as agências de informações tinham
mesmo conhecimento de um possível local para Fakhrizadeh, do público iraniano, mas era muito bem conheci-
do daqueles que são inimigos do desenvolvimen-
to do Irão.” b
uma tentativa de assassínio, embora não estives-
sem certas da data. O “Times” não conseguiu ve- mas o carro
e@expresso.impresa.pt
rificar se tinham realmente uma informação tão
específica ou se a alegação era um esforço de con- deteve-se
trole de danos após um falhanço embaraçoso da Tradução de Luís M. Faria
espionagem iraniana. Artigo publicado originalmente a 18 de setembro de 2021

E 36
A leste da
democracia
Imprensa com vida difícil,
minorias com menos direitos.
Hungria e Polónia estão
em choque com a Europa
ARTE EXPRESSO EM FOTOS DE GETTY IMAGES

TEXTO
ANA FRANÇA
ENVIADA À
POLÓNIA E HUNGRIA

E 38
FIGURAS Jaroslaw Kaczyński
(à esq.), líder do Direito e Justiça
(PiS), partido ultraconservador
que lidera o Governo polaco,
e Viktor Orbán, primeiro-
-ministro da Hungria (à dir.)

E 39
A
carrinha com matrícula eslovaca chega de manhã
cedo, todas as quintas-feiras — e todas as quintas-
-feiras Lukács Csaba pega no seu carro, dirige-se à
zona industrial de Budapeste e transfere da bagagei-
ra da carrinha para o seu próprio carro os fardos de
papel atados com corda que são o seu jornal. As pá-
ginas da mais recente edição do “Magyar Hang”, a
“Voz da Hungria”, estão espalmadas contra os vidros
da redação, um rés do chão central da capital hún-
gara, e Csaba muda-as a cada nova edição, para que
quem não tem dinheiro para comprar o jornal o pos-
sa ler na mesma. “É um ideia que trouxe da Coreia
do Norte, achei apropriado”, sorri o diretor do título
que se tornou o ódio de estimação do Governo con-
servador do primeiro-ministro húngaro, Viktor Or-
PETER KOHALMI/AFP/GETTY IMAGES

bán, desde que foi lançado, em 2018, por dissidentes


do “Magyar Nemzet”, um outro jornal muito respei-
tado, nascido em 1938, que fechou também em 2018
para logo voltar a abrir com uma gerência um pou-
co menos incómoda para os interesses do partido de DIREITOS Um instante de
Orbán, o Fidesz. protesto contra os políticos
Durante várias semanas, a equipa de Csaba tentou húngaros durante a parada gay
encontrar uma gráfica húngara para imprimir o jor- em Budapeste, em 2016
nal — nenhuma resposta. Vem da Eslováquia todas as
semanas. É um problema simbólico, mostra o estado
das coisas, mas é contornável. “Mais complicado é
não termos acreditações para os eventos do Governo, Dizem que os meios liberais estão bem de saúde — e A nova legislação proíbe a exibição a menores de
as entidades oficiais não nos responderem às pergun- proliferam, desimpedidos. Há de facto meios da opo- qualquer produto cultural, publicitário, informati-
tas, não termos publicidade institucional, e mesmo as sição, mas os entraves à sua saúde financeira são gran- vo ou pedagógico que expresse atos não coinciden-
empresas privadas dizem-nos que têm medo de ser des — e só nas cidades são realmente influentes. Em tes com o conceito de família definido pela emenda
prejudicadas em adjudicações e coisas assim se com- 2018, o Governo criou a Fundação da Europa Central constitucional nº 9, aprovada em 2020 (“uma mãe é
prarem páginas no nosso jornal.” para a Imprensa (KESMA, na sigla em húngaro), um uma mulher, um pai é um homem”). Perto de escolas
Lukács Csaba conhece Orbán pessoalmente, foi organismo controlado pelo Estado para dentro do e igrejas, a “propaganda” também está proibida. Tal-
seu eleitor em 2010, até apoia algumas medidas de in- qual 12 empresários donos de mais de 470 jornais, rá- vez Safo e Shakespeare, ou até a Bíblia, venham a ser
centivo à família (45 mil euros a fundo perdido para dios, televisões locais, sites de informação, desporto e removidos das montras e envolvidos em papel opa-
os casais que se comprometerem a ter mais dois filhos entretenimento transferiram os seus ativos. Em maio co dentro das livrarias — é o que diz a lei, mas se é ou
além dos que já tiverem), mas o homem que ele rece- de 2019, o portal de monitorização da independência não fácil de aplicar e policiar é outra questão. Judit
beu no hotel que a família tem na Roménia já não exis- dos media Mérték revelou, com base em informação Varga desvaloriza a posição da UE (“vergonha”, dis-
te, diz, e agora quer combatê-lo onde dói mais: dentro pública, que 77,8% dos meios de comunicação social se a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der
do coração conservador dos húngaros. “Nenhum con- estão nas mãos de empresários com antigas e conhe- Leyen) e classifica a lei como “um exercício de senso
servador vai comprar um jornal da extrema-esquer- cidas ligações ao Fidesz. comum”.
da, mas um jornal do centro-direita que fala de temas O “Magyar Hang” não anda nos carros dos minis- Mas senso comum de quem? Do povo e das três
muito caros aos verdadeiros conservadores — como tros e também não consta do vasto escaparate que há maiorias de dois terços que os húngaros deram ao
utilização de dinheiros públicos, corrupção, erosão na sala de espera do Ministério da Justiça, onde a mi- Governo de Viktor Orbán — é a resposta pronta de
do Estado de Direito —, isso sim, tem poder junto dos nistra, Judit Varga, recebeu o Expresso. Em julho, a UE todos os membros do Fidesz com quem falámos.
eleitores do Fidesz.” e a Hungria voltaram a chocar na questão dos direitos “É por isso que digo que há um défice democráti-
Membros do Governo húngaro, candidatos a de- das minorias LGBTQ+, como já tinha acontecido antes co na UE: as leis não vêm dos cidadãos diretamente,
putados, cronistas próximos do Fidesz, todo um acor- com outra minoria — os migrantes, que durante boa vêm de think tanks, de instituições internacionais, de
deão afinado de vozes se desdobra constantemente em parte de 2015 e 2016 tentaram chegar ao centro da Eu- ONG, que estão a impingir a sua ideologia aos cida-
declarações públicas sobre a liberdade de imprensa. ropa pelo sul da Hungria. dãos. Nós somos diferentes, porque a nossa primeira

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Lőrinc Mészáros (a pessoa mais rica da Hungria), que
costuma dizer aos jornalistas que a sua fortuna súbita
se deve a um tríptico muito especial encabeçado por
Deus e sustentado em medidas iguais por sorte e por
Viktor Orbán, é o mais inexplicável. Um homem que
toda a vida instalou tubagens de gás, Mészáros tem
agora mais de 100 empresas que vão da construção à
comunicação social, passando pelo negócio do vinho,
agricultura e imobiliário. De acordo com o site inde-
pendente sobre transparência nos negócios Átlátszó,
83% da riqueza do império de Mészáros provém direta
ou indiretamente da UE.
Balázs Fürjes, candidato pelo Fidesz ao 3º círcu-
lo eleitoral de Budapeste e secretário de Estado para
o Desenvolvimento Urbano da capital, recebe-nos
nas férias, num restaurante enorme e rústico, prati-
camente uma quinta. Buganvílias pendem dos telha-
dos e enrolam-se nos troncos das laranjeiras. Chega
acompanhado de um homem mais novo que apresen-
ta como um brilhante ideólogo do futuro do Fidesz e
do conservadorismo europeu. Não nos permite usar o
seu nome porque, justifica, faz outras coisas sem ser
política e não quer que as suas opiniões sejam demasi-
ado conhecidas. Fürjes começa — quer explicar o que
o faz levantar-se de manhã: “A nossa força, o nosso
compasso, é a vontade do povo. Na Europa dizem que
é populismo, aqui dizemos que é democracia.” É difí-
cil interrompê-lo, ele prossegue: “Somos um dos go-
vernos mais democráticos, se não o mais democrático
na União Europeia. Aqui, como nos outros Estados-
-membros, podemos falar livremente, defender os di-
reitos das comunidades LGBT, viu-se bem na marcha
Pride de Budapeste, que teve imensas pessoas; mas o
que já não é assim tão comum nos outros países, e aqui
é, é pôr em cima da mesa outras considerações menos
positivas sobre estas questões de identidade, tal como
não é permitido ter dúvidas sobre a questão das mi-
grações. Se não partilhamos da opinião geral, somos
excluídos e estigmatizados, já não somos bons euro-
peus, já não fazemos parte.” A mesa toda concorda.
Chega a vez do ideólogo — que é também economista,
urbanista e sociólogo formado em algumas das mais
recomendadas universidades da Europa: “É tudo uma
questão de prioridades: Varsóvia e Budapeste são ci-
dades seguras, são o Ocidente no seu melhor, pensam
primeiro nos seus próprios cidadãos, mas para a UE a
responsabilidade é estar em linha com a vontade dos
húngaros”, diz Varga. A nova diversidade neste momento parece domínio exclusi-
vo dos assuntos de orientação sexual e de género...”

NÃO É POPULISMO, É DEMOCRACIA legislação “OS CONTOS DE FADAS SÃO PARA TODOS”
O lago Balaton, o maior da Europa Central, é o centro
do turismo nacional, recentemente rejuvenescido por húngara Joana Viana, portuguesa, de 38 anos, reside há oito na
capital húngara — é psicóloga, mas neste momento
uma série de investimentos estatais e vouchers que o
Governo ofereceu aos funcionários públicos que es- proíbe exibir trabalha como técnica de recursos humanos em Bu-
dapeste. Está com a sua namorada, Denisa Mihalisko-
colhessem fazer férias dentro do país. Alcandoradas
nas margens estão também algumas das mais opacas a menores va, eslovaca, de 30 anos, quando recebe o Expresso:
“Gostava de não ter medo de vir a ser importunada,
histórias de utilização indevida de fundos comunitá-
rios dos últimos anos. Desde que o primeiro-minis- mensagens multada, questionada se por acaso um dia, perto de
uma escola, der um beijo à minha namorada”, diz a
tro anunciou, em 2014, um investimento substancial
na área do turismo (com mais de 1,4 mil milhões de que expressem portuguesa. Joana e Denisa congeminam o plano de
fuga para muito em breve. “Não é possível viver num
euros destinados ao lago Balaton), seis dos maiores
empreendimentos na cidade de Keszthely mudaram atos não sítio onde não sei se estou a cometer um crime por ser
quem sou, por agir normalmente de acordo com os
de mãos: três foram para um grande amigo de Or-
bán, Lőrinc Mészáros, e outros três para o cunhado coincidentes meus desejos. E estou a desenvolver uma espécie de
autocensura também. Agora ando sempre a pensar:
de Orbán, Istvan Tiborcz. As companhias que estes ‘Será que levo a minha máscara com as cores do ar-
dois homens e os seus associados controlam vence-
ram contratos para a adjudicação de inúmeras obras
com o conceito co-íris para a rua?’”, lamenta Denisa, que trabalha no
departamento de logística e aquisições de uma mul-
e serviços desde que Orbán regressou em força ao po-
der, em 2010, muitos pagos com fundos europeus, se-
de família tinacional que prefere não nomear. Conforme o itine-
rário, logo decide que máscara leva. Faz uma pausa e
gundo uma investigação da Reuters de 2018. O caso de da Constituição enrola a cadela do casal, a “Bruxa”, num cobertor, a

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noite pôs-se fria. “E há outra coisa: ando sempre a ex- (centro-esquerda), o Diálogo (esquerda), os Verdes ainda a luta para saber quem, de entre os cabeças de
plicar a toda a gente isto da diversidade e da nova lei (esquerda), o Partido Socialista Húngaro (social-de- lista de cada partido da coligação, vai ser escolhido para
— não sou ativista, não quero andar a educar o mun- mocrata) e o Momentum (centro). concorrer contra Viktor Orbán como primeiro-minis-
do acerca da minha sexualidade, ninguém tem de fa- Márton Gyöngyösi, vice-presidente do Jobbik e tro, e ainda há a campanha para o referendo sobre a “lei
zer isso para viver em paz, porque é que nós temos de eurodeputado, admite ter feito ele mesmo “parte de LGBT”, que deve acontecer no início de 2022. A oposi-
explicar quem somos e o que somos?” uma juventude demasiado radical na abordagem aos ção decidiu boicotar o ato por considerar as perguntas
No dia 25 de setembro do ano passado, a vice-pre- enormes problemas que existiam na Hungria antes e enviesadas em favor do ‘sim’ à lei. Mais espaço fica para
sidente do partido sem assento parlamentar da extre- durante o período de crise financeira de 2008, uma os cartazes do Fidesz. Por toda a capital há posters com
ma-direita húngara Mi Hazank (A Nossa Pátria), Dóra quase guerra civil”, mas está “orgulhoso” de ter mu- enormes emojis amarelos a deitar vapor pelo nariz de
Dúró, levou uma máquina de destruir papel para uma dado, de ter mudado a par com um partido que, neste tão zangados que estão com Bruxelas, com o multimili-
conferência de imprensa e desfez em direto páginas momento, considera “totalmente afastado do antisse- onário liberal húngaro radicado nos EUA George Soros,
e páginas do livro infantil “Os Contos de Fadas São mitismo e dos sentimentos anticiganos”. “Estamos com quem não quer “proteger a família”.
para Todos” enquanto informava os jornalistas que “as envolvidos num exercício que eu considero profun- Pécs e Komló, um círculo eleitoral no sul da Hun-
aberrações homossexuais não estão de acordo com a damente democrático. Concordamos com muitas gria, perto da fronteira com a Croácia, que em 2015 foi
cultura húngara”. “É como as fogueiras dos nazis e os das políticas de partidos mais à esquerda que nós, um dos locais mais expostos à crise dos refugiados, é
livros rasgados pelos comunistas”, disse a Associa- eles aceitam-nos, acho que isso diz tudo. Além dis- um exemplo da importância de destacar “bons candi-
ção de Editoras da Hungria para classificar o ato de so, fizemos uma revisão às listas e afastámos as pes- datos locais”, diz Laszlo Szakacs, candidato pela Coli-
Dóra Dúró. O livro que muitos dizem ter servido de soas que não quiseram integrar este novo modelo”, gação Democrática da zona. “Temos de nos deixar de
rastilho para a “lei LGBT” conta 17 histórias infantis: diz ao Expresso por Zoom, a partir do seu escritório jogos partidários, temos de mostrar ao país que somos
algumas são clássicas, como a “Branca de Neve”, ou- em Bruxelas. mesmo uma coligação capaz de governar, acho que isso
tras são iterações mais elaboradas, como uma inter- A primeira razão para esta coligação é óbvia: o Job- ainda não está claro, temos de trabalhar na credibilida-
pretação de parte das “Metamorfoses” de Ovídio, mas bik tem apoiantes, muitos. Em 2018 ficou em segundo de.” Szakacs, de 45 anos, concorre por um local conser-
em todas elas as ações das personagens são moldadas lugar nas legislativas, com 20% dos votos e 26 dos 199 vador sob as cores de um partido de centro-esquerda,
por uma luta pela igualdade. Há um guerreiro grego assentos no parlamento húngaro. A outra, como ex- mas não está preocupado. “Eu sou de lá, na Hungria é
transgénero, uma princesa que se cansa do narcisismo plica Atilla Mráz, investigador na área dos direitos ci- isso que conta mais. Temos de encontrar candidatos
do seu marido-príncipe, uma Branca de Neve negra, vis, democracia e Estado de Direito na União Húngara que as pessoas conheçam mesmo, a quem se dirijam
heróis com deficiências físicas, uma Cinderela que é para as Liberdades Civis, é um pouco mais burocráti- sem problemas, e temos de investir nos círculos mais
um rapaz cigano... Dorottya Redai, membro da Asso- ca. “Uma das coisas que servem bem para mostrar o competitivos, nos 60 ou 65 onde o Fidesz tem ali à vol-
ciação Labrisz, que editou a obra, agradece o episódio nível de influência do Governo na vida civil são as no- ta de 40% dos votos.” Com o ordenado mínimo ainda
da debulhadora de folhas: o pequeno livro já vai para a vas regras para o estabelecimento das listas nacionais. baixo (o segundo mais baixo da UE, 487 euros, a seguir
quinta edição e “tornou-se uma espécie de objeto de Passou a ser obrigatório ter um candidato em quase à Bulgária), a inflação a atingir os níveis mais altos dos
resistência”, conta Redai ao Expresso na livraria Írók todos os círculos eleitorais, o que é impossível para últimos oito anos e um sistema nacional de saúde que
Boltja, no centro de Budapeste. Um ano depois de ter qualquer outro partido sozinho que não o Fidesz, por- não conseguiu ajudar todos na pandemia, Szakacs não
sido editado, ainda está na parede dedicada aos mais que não há outro partido grande. Estamos num ponto tem dúvidas de que “com a privatização rápida da edu-
vendidos, em sexto lugar do top 10. em que as regras estabelecidas pelo Fidesz acabam por cação e da saúde, hoje, mais do que em qualquer eleição
Antes da imposição desta lei, a associação de Do- empurrar políticos da extrema-direita para a mesma anterior, o eleitor opositor existe na Hungria”.
rottya costumava percorrer as escolas do país com plataforma de um social-democrata.”
um programa chamado “Vamos conhecer uma pes- Mas a ideia de que o Fidesz é invencível já nem den- A ANGÚSTIA DE NATALIA
soa LGBT”. Desde 2004, visitaram uma média de 50 tro do próprio partido existe. Vários representantes ad- A morada não se pode escrever. Num beco escondido
escolas por ano. Agora vai haver uma lista pré-apro- mitem-no publicamente. Esperam uma vitória, mas de Varsóvia, capital da Polónia, na parte de trás de um
vada de associações que as escolas podem convidar. sabem que será suada. Em 2019, a oposição destronou hotel onde só há caixotes de lixo e exaustores, fica o es-
“Mesmo que não lhes aconteça nada, os professores o candidato do Fidesz nas eleições para presidente da critório do grupo de ativistas Abortion Dream Team.
vão ter medo de nos chamar, por temerem represálias. Câmara de Budapeste e noutras cidades — o sonho da O andar onde Natalia Broniarczyk recebe o Expresso
Estas leis são tão vagas... têm como intenção principal oposição unida nasceu aí. Neste momento, as sonda- parece desabitado, o hall está cheio de latas de tinta,
a autocensura.” Em algumas visitas, foi a sua própria gens mostram a coligação de opositores com 45% e o tábuas, berbequins, fios elétricos descarnados pen-
história que contou aos miúdos. A mãe de Dorottya Fidesz nos 48%, segundo o “Politico”, que faz a média dem de um teto onde faltam pedaços de estuque. Uma
nunca aceitou o facto de a sua filha ser lésbica. Como de todas as sondagens realizadas no país à medida que pequena porta conduz ao escritório das três mulheres
professora de infantário reformada, adotou rapida- vão sendo publicadas. À luta pelo parlamento junta-se que têm o seu rosto espalhado por toda a Polónia por
mente o discurso dos perigos da “propaganda gay” defenderem o que consideram ser um direito funda-
junto dos mais novos. Um dia, Dorottya foi à televisão mental, reduzido à quase inexistência a 27 de janeiro
falar do livro. “A minha mãe ligou-me em choque.
Disse-me: ‘Ai eu não acredito que és tu que andas a Em 1989, 90% de 2021: o direito a interromper voluntariamente a
gravidez por outras razões que não sejam ou uma vi-
promover essas coisas, és tu que estás por trás deste
livro?’ E eu disse: ‘Mas, mãe, já leste o livro? Não vou dos polacos olação ou perigo de vida da mãe. “Há uma carrinha,
como aquelas que os políticos usam em campanha,
falar contigo sobre um livro que não leste.” As primei-
ras edições foram impressas na Hungria, mas, depois aprovavam decorada com uma fotografia nossa em grande plano
com t-shirts a dizer ‘abortion is ok’, que anda pelo país
de se tornar um objeto político de elevada toxicidade,
as gráficas do país decidiram deixar de o imprimir. o trabalho da todo a dizer que somos pecadoras e matamos bebés. Já
passaram na cidade da minha mãe, ela liga-me sem-
Agora vem da Sérvia.
Igreja no país. pre em pânico”, começa por dizer a ativista e profes-
sora de Estudos do Género de 36 anos. As mensagens
POLÍTICOS DA EXTREMA-DIREITA NA MESMA
PLATAFORMA DE UM SOCIAL-DEMOCRATA Esse número de ódio e as ameaças que chegam por telemóvel e pe-
las redes sociais são incontáveis, mas não é o medo de
O tema quente deste verão na Hungria é a viabilidade
ou não da coligação anti-Orbán, uma espécie de li- está agora nos agressões físicas que a faz proteger a morada. Neste
pequeno quarto alugado há comprimidos para abor-
quidificador de ideologias que une pela primeira vez tos “em caso de emergência” que Natalia não quer que
todos os partidos contra o Fidesz. O Jobbik, conhe-
cido pelas suas posições de extrema-direita e ago-
41%, segundo venham roubar nem destruir.
Em 2020, 1074 dos 1110 abortos realizados na Po-
ra recauchutado, dizem os seus deputados, e mais
próximo do “centro-direita e do povo”, faz parte de
uma sondagem lónia tiveram como motivo a existência de deforma-
ções do feto. Depois de o Tribunal Constitucional de-
uma lista à qual se juntam a Coligação Democrática de 2020 cidir que um aborto é “eugenia”, e por isso contrário

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à lei fundamental do país, enormes protestos varreram
cidades e aldeias quase por igual, como só se viu no
estertor do comunismo. Natalia não se permite pôr o
telefone em silêncio, tem este emprego que é desfa-
zer angústias alheias em perguntas tácitas: “Está de
quantas semanas?”, “Precisa de ajuda para viajar
na Europa se for preciso?” Neste momento tem um
drama em mãos que não vai conseguir resolver, uma
menina que “não faz ideia do que lhe aconteceu, não
tinha informação para entender”. Mas, como para fa-
zer um aborto legalmente ela teria de dizer que o na-
morado a violou, vai ter a criança. “É profundamente
traumatizante, ela mesma é uma criança e não aceita,
não fala disso, está em total negação.”
Na Polónia, o catolicismo é uma parte essencial da
cultura, da singularidade polaca, é “o repositório do
FOTOGRAFIAS D.R.

único sistema moral conhecido por todos os polacos,


sem o qual a vida se assemelha a niilismo”, na defini-
ção do secretário-geral do partido Justiça e Paz (PiS),
1 atualmente no poder, Jarosław Kaczyński, que apesar
de não ser primeiro-ministro (esse cargo é de Mateusz
Morawiecki) é quem de facto dirige o país. Kaczyński
ROSTOS 1Natalia Broniarczyk no apartamento onde funciona o Abortion Dream Team 2Erik Karwaszewski,
defende que mesmo os bebés que nasçam mortos ou
de 34 anos, gay e fundador de uma nova Igreja oficialmente reconhecida na Polónia, a Igreja Católica Reformada
com morte quase certa depois do parto devem nascer
3Laszlo Szakacs, candidato pela Coligação Democrática na zona de Pécs e Komló, um círculo eleitoral no sul da
Hungria, perto da fronteira com a Croácia 4Judit Varga, ministra da Justiça da Hungria 5Lukács Csaba, editor para poderem ser batizados.
do “Magyar Hang”, que vai todas as semanas buscar o seu jornal à Eslováquia, onde é impresso 6Dorottya Redai, Foi nas caves das igrejas por todo o país que mui-
membro da Associação Labrisz, que editou “Os Contos de Fadas São para Todos” 7Joana Viana, portuguesa, tos revolucionários se esconderam e conspiraram para
de 38 anos, há oito na capital húngara, com a namorada Denisa Mihaliskova, eslovaca, de 30 anos derrubar o regime comunista — ser católico foi du-
rante muito tempo ser verdadeiramente ocidental, e
ainda é, mas para cada vez menos pessoas. Em 1989,
90% dos polacos aprovavam o trabalho da Igreja no
país. Esse número está agora nos 41%, segundo a son-
dagem de dezembro de 2020 da empresa estatal CBOS.
É o número mais baixo desde 1993. Entre as pessoas
com menos de 29 anos, a confiança na Igreja está nos
9%. Patryk Jaki, eurodeputado do PiS, pai de uma cri-
ança com síndrome de Down, assume ao Expresso que
“de facto a questão do aborto criou uma cisão na soci-
2 3 edade”, mas defende a posição assumida pelo Consti-
tucional. “Imagine: eu nasço saudável, você também,
mas depois temos um acidente de carro. Tornamo-nos
por isso membros menos importantes da sociedade?
Eu acho que não, pelo que também não acho que uma
criança com deficiência deva ser impedida de nascer,
porque não é em nada inferior a outras.” Não aceita
tudo o que a Igreja diz ou faz, mas reforça a necessi-
4 5 6 dade de sistema de valores partilhado contra “o vácuo
moral que pode vir a ser ocupado por outros sistemas
de valores, como o islâmico, que nada tem a ver com
o que nos une como europeus”.
Há claramente um drama a borbulhar sob a epi-
derme conservadora da Polónia: as pessoas estão a
afastar-se da Igreja através de um processo conheci-
do como apostasia, que consiste em requerer o certi-
ficado de batizado na paróquia local e apresentar ao
padre um pedido para que este seja cancelado, junto
com três cópias de uma carta a explicar os motivos. A
Igreja não apresenta números nem fala sobre o assunto
com jornalistas. Ao longo do mês de agosto, o Expresso
escreveu individualmente a vários padres, incluindo
a alguns que dão missa em inglês, e também à Con-
ferência Episcopal da Polónia, mas nunca conseguiu
obter resposta aos pedidos de entrevista.
Adriana é uma dessas “hereges”, palavras da sua
família. “Sou muito católica, continuo a rezar todos os
dias, mas decidi sair da Igreja, fiz uma comunicação à
família antes da missa de domingo e nesse dia não fui
com eles.” Isto passou-se no início do ano, e até ago-
7 ra só o irmão voltou a almoçar com ela ao domingo.
Tem 56 anos e é funcionária pública, só aceita falar

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com um nome fictício, por medo de perder o empre- Muitas famílias vivem agora bem melhor do que eurodeputado Patryk Jaki diz que “isso acontece nou-
go. Foi depois de ver uma amiga a lutar para não ter há 10 anos, e o PiS chama a si o sucesso da economia tros países europeus” mas que “a UE, com os seus lai-
um filho que os médicos sabiam que iria nascer sem polaca, apesar de vir de trás. À imagem do que se pas- vos de colonialismo, acha que pode dizer que há cul-
hipótese de sobreviver que Adriana decidiu cortar a sa na Hungria, o programa Família 500+ dá 500 zlotys turas melhores que outras, democracias que podem
sua ligação à Igreja Católica Romana. “Por que razão por mês (cerca de 120 euros), por filho, a cada família. escolher os seus juízes e outras não”. Se o Constituci-
eu devo ir ouvir padres que apelidam as mulheres e os Além de ser uma segurança financeira muito signifi- onal decidir que a lei polaca está acima da lei europeia,
homossexuais de ‘destruidores da sociedade polaca’?” cativa, contribuiu para o esvaziamento da esquerda: pode dar-se um “Polexit legal”, ou seja, um exit po-
subida de impostos, desembolsos volumosos a fundo laco da ordem legal europeia, termo já cunhado pelo
ZONAS “LIVRES” DE “IDEOLOGIA LGBT” perdido para projetos sociais, tudo isso está a ser fei- professor britânico de Direito Europeu Lauren Pech.
Em Krasnik, uma cidade com 35 mil pessoas no dis- to pelo PiS. Apesar do aumento do consumo e da forte “Hoje em dia, um juiz na Polónia com um processo
trito de Lublin, a cerca de 150 quilómetros a sudeste tendência exportadora que vai ajudar a Polónia a con- político em mãos sente um medo justificado em rela-
de Varsóvia, e um bastião do PiS, a maioria das pessoas tinuar a crescer nos próximos anos, os analistas pare- ção à sua permanência no cargo”, começa por resumir
parece zangada com a reputação que a cidade adquiriu cem duvidar que o PiS alcance uma maioria expressiva o juiz Tomasz Trębicki, membro do coletivo de juízes
depois de em maio de 2019 ter sido uma das cerca de nas eleições de 2023, até porque as sondagens mostram independentes Iustitia. Trębicki traz uma máscara
100 a adotar a “carta da família” e outros documen- 30% de intenções de voto na Direita Unida (dos 40% com o símbolo da associação, a clássica estátua cega
tos “anti-ideologia LGBT”, sem força legal mas com no início do verão) e um pulo da Plataforma Cívica, de com uma balança nos braços, e a t-shirt que veste tem
diretrizes como a de reduzir fundos para organizações Donald Tusk, para os 26%. E o “São Sebastião” pola- inscrita a palavra simples que se tornou grafitti e gri-
que promovam educação sexual. Até o presidente da co pode salvar o centro? “Tusk ficou tanto tempo fora to nas manifestações: “Konstytucja”, “Constituição”.
Câmara, Wojciech Wilk, já se arrependeu de ter apro- que deixou de saber falar para os polacos. Não fala para Encontramo-nos no centro da cidade. Os casos com
vado os documentos, entretanto anulados pela mesma os mais novos, e aos mais velhos soa a burocrata que potencial inflamável chegam quase todos ao “seu” tri-
assembleia local que os havia aprovado, depois de a foi embora e perdeu ligação à terra. As pessoas acham bunal, é no “seu” distrito que estão o parlamento, os
UE e o fundo norueguês de apoio ao desenvolvimento que ele devia ter berrado mais com Bruxelas, é muito ministérios, as principais praças da capital — é aí que
regional terem congelado as transferências para qual- polidinho, e a nossa psique ainda nos manda ser muito as pessoas protestam, é aí que são presas, é para lá que
quer cidade que tivesse adotado documentos “contra duros e combativos, ainda nos vemos como guerreiros o Ministério Público envia as queixas. “Por exemplo,
a ideologia LGBT”. de espada em riste a defender o mundo cristão”, ana- as queixas da Igreja cresceram imenso, são dezenas de
Wojciech Wilk não respondeu ao pedido de en- lisa a antropóloga Joanna Fraczek-Boda. O secretário- casos, o Ministério Público investiga e envia-nos tudo,
trevista do Expresso, enviado também para o e-mail -geral do PiS, diz-se, saiu do país uma única vez. É ver- mas quase nada é ilegal, é só incómodo, certo, mas
geral da autarquia e para os membros da assembleia dade? Interessa se não for? Até um oleiro pouco hábil pintar o arco-íris dentro da auréola da Virgem não é
que em 2019 redigiram os documentos. É sábado à tar- consegue esculpir um mito com pormenores destes. um crime.” As três mulheres que alteraram o retrato
de e no centro da cidade há uma pequena festa com que o juiz refere estiveram dois anos em julgamento e
comida de rua, cerveja, bandas de folk e rock. Gabriel UM MOMENTO “DECISIVO” foram absolvidas já em 2021.
Kulik, de 38 anos e dono de uma pequena empresa de A UE decidiu na quinta-feira, 2 de setembro, bloquear Poznań, onde Jaraczewski vive, no oeste da Poló-
construção, considera que estas “estranhas leis locais a transferência de fundos de ajuda à recuperação da nia, tem desde junho o único hostel gay da Polónia —
que nem são leis” não passam de “uma ideia dos po- pandemia para a Polónia, em resposta ao julgamento o Stonewall, em homenagem ao movimento de luta
líticos de Varsóvia” e que “a maioria das pessoas nem atualmente a decorrer no Tribunal Constitucional que da comunidade gay de Greenwich Village, no fim dos
pensava nos LGBT se não lhe pusessem essas ideias visa decidir que lei tem primazia na Polónia: se a eu- anos 60. Lá encontramos Erik Karwaszewski, de 34
à frente”. Como vários outros habitantes, refere que ropeia se a interna. A UE não consente qualquer dú- anos, gay e fundador de uma nova Igreja oficialmente
estas manobras são “parte da cultura de meter medo vida nessa matéria. reconhecida na Polónia (ou melhor, depois de aprova-
construída pelo PiS, enfiada pela goela dos governos A estas queixas junta-se uma lista de infrações que da, o Ministério da Justiça retirou-lhe o selo e o pro-
locais, que se não fizerem o que eles mandam lá da vem desde 2017, quando a UE disse que o PiS come- cesso está em tribunal): a Igreja Católica Reformada.
capital deixam de receber dinheiro do Governo para çou a modificar o sistema de Justiça e a atribuir cargos “Queria adorar a Deus sem homilias pesadas, cheias
obras e isso e assim perdem eleições”. importantes a gente próxima do partido. O Conselho de acusações, de dor, de culpa que me fazia sentir in-
Marta Szczygiel, de 33 anos, técnica de recursos Nacional Jurídico, o órgão que escolhe quem pode ser digno de participar nos rituais da minha fé.” Há quatro
humanos em Londres, está em Krasnik a visitar fa- juiz e decide promoções a cargos mais altos na magis- anos mudou-se para Poznań — “fiquei mesmo cho-
mília. Os amigos falaram-lhe desta polémica, mas, tratura, não é considerado pela UE um organismo in- cado quando a minha mãe não me aceitou de todo”.
tal como Gabriel, para ela tudo isto é assunto impos- dependente, por estar “tomado por pessoas próximas Apesar de ter nascido há apenas três meses, o hos-
to pelos políticos. “Há gente conservadora, claro, mas do PiS”; a Câmara Disciplinar do Supremo — que pode tel já chegou várias vezes aos jornais. Um exemplo:
ninguém ofendia ninguém antes de os políticos terem remover juízes, reduzir-lhes o salário ou suspender to- “Um mês depois de abrirmos, alguém tirou as nossas
começado a usar linguagem discriminatória. Ago- dos os que demonstrem estar contra as novas regras bandeiras que estavam na frente do prédio e colocou
ra toda a gente acha que pode fazer o mesmo, que as do sistema — vai ser dissolvida por exigência da UE. O nós de forca... Mas é raro haver violência.” Isso não é
autoridades serão lenientes — e têm razão.” A mãe de violência? “Ah, sim, claro, mas eu digo violência séria,
Marta é uma dessas pessoas às quais chama “fanáticas insultos é supernormal ouvir.” Eleições? “Estou desi-
religiosas”. “Tenho muitos amigos gays em Londres e
já passei alguns Natais com eles. Quando ligo à minha A UE decidiu ludido com toda a oposição, toda a gente está. Prome-
tem sempre mais direitos para nós, mas depois não
mãe, ela diz ‘feliz Natal para ti e para os teus amigos,
mas eles vão para o inferno’, e eles normalmente res- na quinta-feira, querem remexer na questão. Em Portugal é fácil um
gay estar assim, como dizer, descansado na sua vida?”
pondem: ‘Diz à tua mãe que nos vemos lá.’ Acho que
agora já é meio a brincar — ou espero.” 2 de setembro, Ainda sem dinheiro para alugar um espaço onde
se possam reunir, os crentes da Igreja Católica Refor-
A Polónia descriminalizou a homossexualidade
em 1932. Foi um dos primeiros países do mundo a fa- bloquear a mada têm-se juntado ou em casa do bispo de Poznań,
bastante comprometido com causas liberais, que dá as
zê-lo, mas, como explica a antropóloga e professora
Joanna Fraczek-Boda, “anos e anos de regimes re- transferência de missas desta nova igreja na sua casa ou noutros apar-
tamentos — de particulares, de amigos, de família, de
pressivos, cujo único objetivo era anular quem não se
encaixava, tornaram a Polónia um sítio onde as pes- fundos de ajuda gente solidária com a causa. “A ideia é que as escritu-
ras sejam interpretadas também por leigos. Falamos
soas têm medo de se destacar”. As suas duas filhas, do que aquelas passagens nos transmitem, o que nos
ambas na primária, são educadas para respeitar todos,
“mas mesmo tão pequeninas já aprenderam aquela
à recuperação fazem sentir, as pistas para caminharmos sempre no
sentido da tolerância por todas as formas de vida. Je-
coisa muito polaca de termos duas faces: não falam
de religião, de lutas LGBTQ+, protestos de mulheres,
da pandemia sus não disse: ‘Ide e repudiai-vos uns aos outros.’” b

não dizem que os pais são ateus”. para a Polónia afranca@expresso.impresa.pt

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E 46
+E
Entrevista
Rodrigo Leão

Não
procuro a
perfeição”
Rodrigo Leão está de regresso com um álbum
que celebra a beleza da vida e uma trilogia que
comemora a liberdade. Conversa com o compositor
na Ericeira, lugar do qual guarda boas memórias

POR CRISTINA MARGATO


FOTOGRAFIAS RICARDO LOPES

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A relação com a Ericeira e com este Não vos passa pela cabeça fazer algo

O
mar de água gelada é por isso muito juntos outra vez?
especial. Fiz aqui muitos amigos. E Na Madredeus seria muito complica-
na altura em que eu e o Pedro Ayres do. Na Sétima Legião fizemo-lo es-
Magalhães procurávamos uma can- poradicamente. De dois em dois anos
tora para aquele projeto que ainda fazíamos um concerto no Frágil, e nos
não tinha nome, mas que viria a ser 30 anos da Sétima Legião fizemos
a Madredeus, passámos aqui uma ou 10 concertos em Portugal. O último
duas noites com uma cantora a ex- concerto foi no Liceu Passos Manuel,
perimentar as músicas que estáva- onde os meus filhos estudaram, ain-
mos a fazer. da com o Ricardo Camacho [1954-
2018]. O Ricardo deixou dois ou três
E que não era a Teresa Salgueiro? temas em que estava a trabalhar. Te-
Não, e também já não me lembro do mos vontade de fazer alguma coisa,
encontro para a entrevista aconteceu na nome dela. mas não sabemos ao certo quando.
Ericeira, local onde Rodrigo Leão se
encontrava a passar alguns dias com E como é que olha para esse pas- E porque é que não é possível o mes-
a família, matando saudades daquela sado da Sétima Legião e da Madre- mo com a Madredeus?
velha vila de pescadores, à qual tem deus, agora que já tem uma distância Porque os elementos da Madredeus se
uma ligação umbilical, familiar e ar- maior? afastaram musicalmente. A Teresa está
tística. Inevitavelmente, a conversa É uma distância maior, mas não é a fazer o seu percurso. O Pedro seguiu
teria de nos levar a outras geogra- tão grande como pode parecer. Ou com o projeto até há três anos, com as
fias e à pandemia, tendo em conta a seja, quer a Sétima Legião quer a Ma- várias mudanças que fez, e o Francisco
forma como os últimos trabalhos do dredeus ainda estão muito presen- Ribeiro faleceu há 12 anos. Mas não é
compositor refletem esse período ou tes dentro de mim. Ainda existe uma nada que seja de todo impossível.
foram atingidos por ele. Primeiro, relação muito grande entre elas e as
“O Método”, disco que lançou pou- coisas que atualmente faço, até por- Agradava-lhe a ideia?
co antes de a pandemia ter cance- que acabo por tocar nos meus con- Estou sempre pronto para tocar.
lado os concertos e interrompido a certos temas da Sétima Legião e da
nossa vida; segundo, “Avis 2020”, EP Madredeus. Não vejo uma separação Mas não para a loucura das digres-
composto durante o confinamento, muito grande entre a minha carreira sões internacionais?
que cumpriu com a família no Alen- a solo e esses projetos. Claro que es- Isso é mais complicado, até mesmo
tejo; e, por fim, “A Estranha Beleza ses projetos foram muito importantes com o meu projeto. Nos anos em que
da Vida”, álbum intuitivo e de veloz para mim e para eu continuar a fazer tocamos mais, e nesses fazemos cerca
criação, que celebra o regresso à cida- música. São pessoas muito chegadas. de 40 concertos, 20 dos quais no país
de, à vida e também ao passado e à li- Ainda hoje somos muito amigos. e 20 fora, já é para mim o limite dos
berdade. Palavra cara a Rodrigo Leão limites. Gosto muito de estar com a
que dará título à trilogia que reunirá Amigo de todos? minha família e com os meus amigos
estes três discos. De quase todos. Almoço com o Pedro mais chegados. Isso é muito impor-
Ayres com muita frequência. Com o tante para mim, e não me imagino
Com que idade começou a vir para a acordeonista, o Gabriel Gomes, temos ficar dois meses sem vir a casa. É im-
Ericeira? um projeto de poesia e somos ami- pensável. Lá fora, passamos no máxi-
Provavelmente com 5, 6 anos. Eu e gos do Bairro das Estacas [em Lisboa, mo duas semanas. Ao fim de 10 a 15
os meus irmãos — somos quatro ra- onde Rodrigo Leão cresceu], do tem- dias voltamos a Portugal.
pazes, e eu sou o mais velho — pas- po em que a Sétima Legião começou.
sávamos aqui todos os verões, por- O Pedro Oliveira é uma das pessoas A pandemia interrompeu os concer-
que o pai da minha mãe, o meu avô que também está muito presente. tos. Como é que foi?
matemático, decidiu comprar uma
casa em frente ao mar. Há 45 anos, a
Ericeira era uma vila de pescadores,
tinha muito menos gente, e ele gos-
tava de estar aqui. Escrevia contos,
que mostrava à minha mãe, ouvia
muita música clássica e, no inverno,
dava comida às gaivotas na varanda.
Quando vínhamos de Lisboa, com a
minha mãe, lembro-me de começar a
sentir o cheiro do mar a meio do per-
curso. A Ericeira foi também o pri-
meiro sítio onde compus as primei-
ras ideias para a Sétima Legião. Mais
Há alturas que me pergunto o
tarde, o álbum “Theatrum” [1996]
foi todo composto aqui, noutra casa
que a minha família alugou, porque
que estou aqui a fazer, com os
a casa do meu avô foi vendida depois
de ele falecer. Para o “Theatrum” pas-
meus filhos a tocarem tão bem.
sei aqui três meses, outubro, novem-
bro e dezembro, com o meu material. O que faço no meio disto tudo?”
E 48
Provavelmente mudou; sem eu me
aperceber concretamente como.
Quando regressei a Lisboa comecei
a sentir-me desconfiado por den-
tro, apesar de os meus filhos Antó-
nio e Sofia estarem positivos; e de
termos de ficar mais 15 dias fechados
no apartamento. Eles tinham muito
poucos sintomas, e nós não testámos
positivo. Como eu estava habitua-
do àquelas caminhadas no Alentejo,
andava de um lado para o outro na
varanda, e foi aí que comecei a sentir
uma energia nova para compor.

Uma alegria?
Sim, uma certa alegria, era quase
como se fosse também uma espécie
de vingança sobre aqueles cinco a
seis meses. Eu achava que não tinha
conseguido fazer o que queria e sen-
tia-me mais despreocupado. Come-
çaram a surgir ideias que remetem
para um ambiente dos anos 50, se
calhar até numa tentativa de fugir da
época que estamos a viver. Comecei
a trabalhar sem saber se dali sairiam
mais dois ou três temas, a juntar a “O
Método”, ou se seria um disco novo.
Mas foi um processo tão rápido que
ao fim de quatro ou cinco meses ti-
nha um disco novo, “A Estranha Be-
leza da Vida”.

Em Avis estava angustiado?


Angustiado não é a palavra exata. Não
estava propriamente angustiado, por-
que tinha acabado de lançar um dis-
co. Estava obviamente preocupado
com o rumo que as nossas vidas iam
ter. Em Avis estava com a minha fa-
mília e com as pessoas de quem gos-
to mais.

O disco “Avis 2020” é mais


cinzento...
Claro que é. Tem uma fragilidade.
É feito de pequenos trechos, ideias
que nem sequer foram desenvol-
Quando a pandemia chegou ti- Como lidaram com a situação? ser um estímulo para compor apenas vidas como eu costumo fazer nou-
nha acabado de lançar “O Método” Foi um choque muito grande, como com sintetizadores, um baixo e uma tros trabalhos. Não houve muito essa
[2020], um disco em que eu que- imagino que tenha sido para toda a guitarra que tinha lá. Inclui também preocupação.
ria encontrar uma direção e que, ao gente. Mas por outro lado estávamos gravações de pássaros, de vento e de
contrário de muitos outros, demorou ali sossegados no meio do campo e animais, e daí saiu o EP “Avis 2020”, E porque é que decidiu lançá-los em
muitos anos a concluir; ou seja, três. das árvores... E eu pensava: “Bolas, que já foi lançado digitalmente e que vez de os deixar na gaveta?
Como tínhamos começado a fazer nunca tive assim tanto tempo dispo- só agora, no contexto da trilogia, será Achei que era importante ter alguma
concertos seis meses antes do lança- nível para tentar compor.” Senti um editado fisicamente. Nesses temas coisa feita por mim associada a esses
mento de “O Método”, os concertos bloqueio muito grande nos dois pri- sente-se a mudança de estação, o fim primeiros meses de pandemia que
já estavam mais consistentes e tínha- meiros meses. De cada vez que me daquele inverno em que choveu muito nós vivemos, independentemente de
mos pela frente mais 30. A pandemia aproximava do sintetizador, não saía e quase se prolongou até à primavera. estar mais ou menos acabada.
chegou e fomos todos para Avis, a absolutamente nada. Comecei a fa-
fugir de Lisboa, ou a fugir não sei de zer caminhadas, e certas caminha- Já alguma vez tinha usado imagens Com a pandemia passou por proces-
quê, eu, a Carolina e os nossos três das fizeram-me pensar. A verdade é do quotidiano como inspiração? sos criativos pelos quais nunca tinha
filhos, os meus sogros e dois amigos que eu queria fazer alguma coisa. Du- Desta forma não. Normalmente faço passado antes?
muito chegados. Ficámos ali os nove rante as caminhadas comecei a fazer músicas para filmes. Sim. Quantas vezes eu não estou a ten-
durante dois a três meses. E depois os com o meu telemóvel filmes das nu- tar encontrar ideias e fico totalmente
cinco — a Carolina, eu e os nossos fi- vens e das árvores, e foram esses fil- A pandemia mudou os sentimentos, bloqueado, ainda que o bloqueio de
lhos — até final de setembro de 2020. mes muito curtos que acabaram por os sentidos, a forma de ver? três anos para fazer “O Método” tenha

E 49
sido diferente. Neste último disco, “A
Estranha Beleza da Vida”, houve uma
maior descontração. Eu já sabia que
podia voltar aos discos que fazia há
10 anos e convidar cantores. Foi outra
vez um processo muito mais intuitivo.
Não estava preocupado em descobrir
um caminho. As ideias foram surgin-
do naturalmente, e, claro, sentia-me
mais feliz do que nos primeiros meses
da pandemia. Gosto muito de tocar ao vivo,
Antes da pandemia, esse bloqueio
tinha a ver com o facto de achar que
mas é verdade que as digressões
tinha chegado a um certo patamar
da sua carreira?
Não. Posso ter alguma preguiça, mas
grandes me assustam”
estou sempre a pensar no que quero
fazer. Nunca sinto que cheguei a al-
gum patamar. A minha música tem
influências muito diferentes, e tenho
tido a sorte de fazer ao longo destes
anos músicas muito diferentes, que A música seria diferente se tivesse noite, quando todos estão a dormir, muito. Eles têm de ser felizes com o
vão do tango à música pop britâni- feito o confinamento na Ericeira? mas, se for preciso, também trabalho que escolherem.
ca, à música francesa, à música bra- Provavelmente, a música seria dife- durante o dia. Se por um lado sinto
sileira... Essa é a principal razão pela rente, a presença deste mar tão for- necessidade de estar sozinho a com- Nesta altura, eles já podiam ter
qual nunca chego a sentir tédio. Te- te é substancialmente diferente do por, por outro lado essas pessoas que desistido...
nho a liberdade de poder misturar campo e das árvores. E a verdade é estão mais perto de mim também são Sim, claro. E todos eles estão muito
estilos musicais diferentes, de modo que aqui há muito mais pessoas, há importantes no processo de encon- melhor do que eu. Porque eu sou um
despreocupado. muito mais vida do que no Alentejo, trar ideias. autodidata. Eu não aprendi a tocar.
onde há mais silêncio.
De onde vem a ideia da estranha be- De que maneira? Como é que se estabelece a vossa re-
leza da vida? Se a música tivesse geografia, qual É difícil explicar, mas diria que meta- lação? Um pai compositor que não
Vem de uma frase de um padre, o seria? de da minha música está ligada ao que sabe ler música. Filhos que sabem ler
padre Pedro. Ouvi-a numa missa no É difícil responder. Quando eu es- me rodeia, às pessoas, aos sítios, ao música, mais do que o pai...
funeral da mãe de um amigo mui- tou no Alentejo, a tentar compor, o café ou à mercearia onde vou, à vis- Sim, sem dúvida: eles sabem mais do
to chegado, há cerca de dois anos. mar da Ericeira está sempre den- ta que tenho da janela, às árvores... A que eu. Há alturas que me pergun-
O padre falou da estranha beleza da tro de mim. Também gosto muito de outra metade vem de dentro de mim; to o que estou aqui a fazer, com os
morte, e a frase ficou-me na cabeça. Lisboa... e é mais abstrata. Mais difícil de expli- meus filhos a tocarem tão bem. O que
Numa altura em que falamos tanto da car. Raramente consigo associar uma faço no meio disto tudo? Mas acho
vida e da morte, achei que fazia sen- É de natureza mais urbana? ideia que surgiu naquele dia a alguma que eles sentem que são dois mundos
tido usá-la neste trabalho, pelo lado Sim, sou de natureza urbana. Sou uma coisa que me aconteceu nesse mesmo completamente diferentes.
poético que tem. pessoa muito ansiosa, e curiosamente dia, mas essas associações existem.
a música que faço raramente trans- Eles não têm ambições de
A pandemia alterou a sua relação mite ansiedade, antes pelo contrário, Alguns temas têm influência da sua composição?
com a morte? embora também existam momentos mulher? A Sofia tem, e já compôs. O António
A morte esteve sempre muito presen- musicais que transmitem essa ansie- Sim, têm, porque a minha mulher, também quer explorar esse lado.
te ao longo da pandemia. Quem aca- dade. A minha música é quase como a Carolina, estudou piano quando
bou por sofrer mais com a pandemia uma terapia para mim próprio. A pan- era nova e também tem feito muitas Acha que o seu legado irá pesar na
foram as pessoas com mais idade e as demia obrigou-me a trabalhar mais, letras para algumas canções, ainda vida deles?
mais novas. Não me imaginaria a es- a lutar mais contra aqueles momen- que ela não se considere uma letris- Acho que não. Eles percebem que
tar completamente fechado, durante tos de tédio e preguiça que tenho com ta. Muitas vezes peço-lhe sugestões, e são dois mundos completamente di-
um ano e meio, com 15 ou 18 anos. muita frequência. “A Estranha Be- ela ajuda-me nalgum acorde, e aí cla- ferentes. Eles vão mais para a músi-
leza da Vida” foi feito entre Lisboa e ro passa a ser coautora da música. É a ca clássica, apesar de ouvirem muita
Teve pena dos seus filhos? o Alentejo, porque sempre que po- pessoa que está mais perto de mim e música pop, antiga e recente. Sabem
Sim, tive alguma pena, mas acho que díamos íamos passar alguns dias no que me conhece melhor. que sempre estive ligado a esta for-
eles estão a recuperar muito depres- Alentejo, e eu levava o computador. ma de fazer música, com o compu-
sa. E se calhar, no meio disto tudo, E os seus filhos? Havia um que estava tador e os sintetizadores. Comecei a
houve coisas boas, como o facto de Trabalha bem em qualquer lado? a estudar piano... tocar guitarra-baixo na Sétima Le-
termos passado mais tempo com eles, Sim, sou capaz de trabalhar fecha- Estão os três a estudar música. O An- gião, há quase 40 anos. No início dos
de termos falado mais com eles. do num quarto de hotel. Não me tónio passou para o terceiro ano da anos 80, estávamos fascinados com
faz confusão, desde que tenha os Escola Superior de Música em pi- aqueles grupos, os Joy Division, os
Houve a hipótese de criar uma pro- auscultadores. ano, a Rosa terminou o oitavo grau New Order, que tocavam mal. Acima
ximidade que de outra maneira não de piano, e a Sofia está no sexto grau de tudo, queríamos seguir as nossas
seria natural? Também trabalha bem em contexto de piano. O António seguiu a mú- próprias ideias, em vez de aprender a
A proximidade sempre foi natural, familiar? sica sem nós esperarmos. Não sei se tocar músicas dos Beatles e dos Rol-
mas não era tão intensa como foi nes- Sim. Dá-me algum conforto e até a Rosa e a Sofia vão seguir música, ling Stones, como faziam alguns dos
te período. energia. Mas aí trabalho sobretudo à mas não é nada que me preocupe nossos amigos. Vi amigos a ter cada

E 50
vez mais técnica, e eu sempre parado, Quando eu comecei a ouvir, com 11 ou Está otimista? aconteceu? Para onde vamos depois
na minha maneira de tocar. 12 anos, King Crimson, Pink Floyd e Sou otimista por natureza. de morrer?
Genesis, era mais difícil mostrar isso
Esta ignorância tornou-vos aos meus pais do que eles me mos- Ansioso, mas não deprimido... E onde encontra as respostas?
audazes... trarem música brasileira, Piazzolla, Não sou nada deprimido. Consigo Não encontro, e não procuro nada em
Talvez. Não tínhamos vergonha ne- Edith Piaf, Jacques Brel e depois, mais adaptar-me com alguma facilidade concreto, a não ser estar bem de saúde
nhuma de não ter muita técnica. Que- tarde, Beethoven ou Mozart. às situações. e estar feliz, para poder trabalhar. Nas
ríamos construir as ideias que tínha- músicas que faço também não procuro
mos. Sabíamos que eram ideias simples Agora que vai fazer 57 anos, como é Só precisa de um computador e de a perfeição. Há muitas coisas imperfei-
e ficávamos felizes se chegavam aos que olha para os 60 que tem à frente? um sintetizador... tas nas minhas músicas. Fazem parte
outros. Mas primeiro estava um sen- [risos] Para os 60 que tenho à frente? E de humor diário, de manhã, à tar- do processo. Não sou daquelas pessoas
timento de felicidade connosco e com A acrescentar aos 57 que já tenho? de e à noite. Isso é necessário, não só muito picuinhas. Penso rapidíssimo.
as pessoas que trabalhavam connosco. Não penso nisso. Vou fazer 57 anos, comigo próprio mas também com as Os pensamentos saltam de assunto
mas sinto-me como se tivesse 40. pessoas que estão à minha volta. em assunto. Nas conversas, os amigos
A música é o território entre si e os queixam-se de eu estar sempre a saltar.
seus filhos? Menos nas digressões? Faz piadas?
Não sei. Temos muitas coisas em co- Não. As digressões também se fazem. Sim, muito estúpidas, non-sense. Escreve?
mum, além da música: os filmes que Gosto muito de tocar ao vivo, mas é Não, não tenho jeito para escrever.
vemos juntos, alguns livros que eles já verdade que as digressões grandes E precisa de ter gente à volta?
começam a ler e que eu já li há mui- me assustam. Sim, preciso de ter gente à volta, de De que tamanho é que são as sauda-
tos anos atrás; e a cozinha enquanto ter alegria, de comer e beber com os des do palco, de zero a cem?
ponto de encontro. Eles começaram Não sente o peso da idade? amigos, de falar sobre os livros que Cem. A primeira vez que toquei [des-
todos a cozinhar muito cedo, com 12 Não. Penso muito no presente, e se lemos e os filmes que vemos... Pre- de que a pandemia começou] foi em
ou 13 anos, e desenrascam-se muito calhar no futuro a médio prazo, no ciso de passear e também preciso de Almada, para 15 pessoas, e foi doloro-
bem. Na música mostram-me muita que pretendo fazer nos próximos seis estar sozinho. Estas caminhadas que so ver as pessoas com máscara, sen-
coisa, como os rappers que ouvimos meses a um ano. Penso em continuar fui fazendo ao longo deste ano obri- tadas nas cadeiras... Mas há as sau-
quando fazemos viagens de carro. Foi a fazer música e a ter esta liberdade garam-me a pensar mais. dades dos músicos com quem toco,
a minha filha Rosa que me mostrou de poder convidar pessoas para me alguns há mais de 20 anos, e a alegria
Billie Eilish. Este diálogo musical com ajudarem a concretizar as ideias que Em que mais pensa, além da música? de estar com eles. b
os meus filhos é um pouco diferente tenho, como aconteceu neste último Penso em coisas abstratas, filo-
daquele que tive com os meus pais. disco, “A Estranha Beleza da Vida”. sóficas. Porque é que a pandemia cmargato@expresso.impresa.pt
FRACO CONSOLO
Gustave Flaubert
(1821-1880) e Charles
Baudelaire (1821-1867)

ILUSÃO E ALUSÃO

C
FLAUBERT COMPREENDEU BAUDELAIRE, MAS ESTE
COMPREENDEU PROFUNDAMENTE AQUELE

harles Baudelaire e Gustave Flaubert chamam “realismo”, mas que confundem com “uma descrição
nasceram no mesmo ano, 1821, minuciosa do acessório”; que descobriu o lugar da estupidez na
publicaram as duas obras-primas província, no funcionalismo, no adultério; e que pratica uma arte
do seu tempo no mesmo ano, 1857, essencialmente “sugestiva”, uma arte que outros designariam com o
e por causa delas foram de imediato termo “alusionismo”, algo entre a alusão e a ilusão. Mais uma vez, as
demandados pela Justiça. Mas, além observações são tão perspicazes quanto reversíveis, tão verdadeiras para
dessas coincidências, estimavam- um como para o outro.
se, e disso deixaram testemunho. Flaubert compreendeu Baudelaire, mas este compreendeu profundamente
A 13 de Julho de 1857, Flaubert aquele. Vale a pena ler as conjecturas ousadas sobre a identificação
escreve uma carta a Baudelaire a do romancista com a sua protagonista, ideia imortalizada na famosa
propósito de “As Flores de Mal”, exclamação apócrifa “Madame Bovary, c’est moi”. Argumenta Baudelaire
livro que, ao que parece, já tinha que o escritor conseguiu “despojar-se (na medida do possível) do seu
lido várias vezes: “Você encontrou uma maneira de rejuvenescer sexo e tornar-se mulher”. E que assim fez daquela mulher, Emma, um
o romantismo”, diz-lhe, dando a entender que só um romantismo homem, naquilo que os homens têm de mais imaginativo, enérgico,
rejuvenescido poderia ter alguma salvação. Todos os elogios que lhe faz ambicioso e dândi. Não lhe interessa discutir a moralidade ou a misoginia,
parecem em certa medida formas de reconhecimento de si no outro: é mas a ausência do autor enquanto comentador e a sua presença enquanto
assim quando observa que Baudelaire “não se parece com ninguém”, que personagem. Se existe uma moral em “Madame Bovary”, a única
ele “compreende a estupidez da existência”, que nele “a originalidade representante possível dessa moral é a adúltera, que traz consigo o heroísmo
do estilo decorre da concepção”, e que “canta a carne sem gostar dela, das vítimas. Porque o nosso mundo não tem qualquer “qualidade” que lhe
de uma maneira triste e distanciada que me é simpática”. Não sendo permita apedrejar adúlteros, misantropos ou boémios. b
um admirador-nato, Flaubert encontra no seu exacto contemporâneo pedromexia@gmail.com
uma sensibilidade afim, ou seja, uma companhia. Baudelaire, como ele, Pedro Mexia escreve de acordo com a antiga ortografia
dedicou-se à escrita quase como um sacerdócio, com prejuízo de tudo
o mais, e sobreviveu às adversidades dessa bizarra condição: “Você é
resistente como o mármore e penetrante como o nevoeiro inglês”.
Uns meses depois, a 18 de Outubro de 1857, Baudelaire publica um
artigo sobre “Madame Bovary”. Diz-se um crítico “retardatário”, que
chega atrasado e sem veemência a um romance de que outros falaram
antes. Não é verdade: a crítica ou atacou ou ignorou o livro, e ao texto de
Baudelaire não falta intensidade crítica. Começa logo com uma óbvia
menção ao seu próprio processo judicial, agradecendo à magistratura
francesa “o fulgurante exemplo de imparcialidade e bom gosto que deu
nesta circunstância” (ou seja, na absolvição de Flaubert, bem relacionado
e com um bom advogado, enquanto Baudelaire, boémio gastador, fora
/ PEDRO
condenado, ambos curiosamente acusados pelo mesmo procurador, um MEXIA
senhor Pinard, que vive na infâmia).
Baudelaire caracteriza o romancista com rapidez e pertinência: diz
que Flaubert seguiu “um certo procedimento literário”, a que alguns

E 52
Vão deixar-nos
fazer isto?
FILES/AFP VIA GETTY IMAGES

Sucesso maior da televisão nos anos 90, “Seinfeld” regressa


às casas de todo o mundo. A série está a partir de hoje
disponível, na íntegra, na Netflix
TEXTO PEDRO MEXIA

E 53
T
emporada 4, episódio 11, emitido
a 18 de Novembro de 1992. Os três
protagonistas masculinos (Jerry,
George e Kramer) fizeram uma
aposta sobre quem consegue estar
mais tempo sem se masturbar
(Elaine associa-se ao desafio, entre
protestos deles). Numa ocasião
em que estão todos juntos no
apartamento de Jerry, aparece no
prédio em frente uma mulher nua, à
janela (recebemos essa informação,
mas temos de a imaginar, porque
não vemos nada). De imediato
os homens se põem de atalaia,
embasbacados.
Elaine vê-os naqueles propósitos,
tão desatentos que respondem
automaticamente às frases absurdas
que ela vai debitando (“vou a
Marte”, “hum-hum”, “diverte-te”),
e percebe que ganhará a aposta com
facilidade. De facto, a competição
não dura muito, porque Kramer, que
tinha estado a espreitar a vizinha, e
saiu disparado, nervoso e decidido,
volta a entrar, de rompante como
é seu hábito, pega nos 100 dólares
que apostou, bate com eles em cima
da mesa da cozinha e anuncia, “I’m
out”, “estou fora”, para espanto dos
outros três e delírio do público que
assistia à gravação.
É a melhor situação cómica de “I’m out”, “estou “Mulva”; Teri Hatcher, peituda e mas quão inovador: uma “comédia
“Seinfeld”? Podemos enumerar despeitada, a garantir “são reais de situação” que transcende a
outras dez ou vinte, cinquenta, fora”. Quando penso e são espectaculares”; George a situação, e cujo registo, em roda
originais, hilariantes: o “it moved”
quando George vem de uma sessão
no que “Seinfeld” falar português, sem ter aprendido,
porque a castidade lhe aumentou a
livre, é metade banalidade, metade
virtuosismo, mesmo quando se
com um massagista-homem em vez (1989-1998) trouxe inteligência; as expressões “serenity reduz à desconversa. Nunca se fez
da massagista habitual; o episódio now”, “my boys can swim”, “no soup tanto com tão pouco.
inteiro que decorre enquanto eles à comédia televisiva, for you”, “yada yada yada”, etc. Além do mais, e não há como fugir
esperam por mesa num restaurante; lembro-me sempre Ainda assim, julgo que o a essa evidência, estes amigos não
outro em que as pessoas fazem o episódio ‘The Contest’ sintetiza são amigos que se recomendem a
contrário daquilo que costumam, dessa exclamação, como nenhum outro o génio de ninguém. Há uns anos, um ensaio
para ver como funciona; o projecto
tautológico de um “coffee table
seguida de uma das “Seinfeld”: a proposta modesta
de acompanhar as conversas de
sobre os protagonistas recentes
da ficção televisiva americana,
book about coffee tables”; George maiores gargalhadas quatro amigos; o conceito de “show “Difficult Men”, tentou explicar
a pedir a demissão e a regressar ao about nothing”; o mundo aberto por que motivo nos identificamos
trabalho no dia seguinte, como se da audiência que conspira contra um pequeno com Tony Soprano, Walter White
nada fosse; o estribilho “não que mundo fechado; a imaturidade ou com os machos tóxicos de Mad
haja alguma coisa de errado nisso”, depois da juventude; a sexualidade Men. Podemos dizer que “Seinfeld”
acerca da homossexualidade; a desbragada, mais mental do que pertence a esse paradigma. É
angústia de um saxofonista depois carnal, mais malícia que lascívia; certo que as personagens não
do cunnilingus; Elaine a acabar com a dialéctica entre a interdição de são violentas, como as das
um namorado porque ele defende a falar de certos assuntos e o não tragédias americanas, mas são
anulação da decisão Roe vs. Wade; falar senão disso. Digamos que egoístas, amorais, mentirosas,
Jerry quando se esquece do nome não se trata apenas de saber quão incapazes de viver com os outros,
de uma ex-namorada e lhe chama divertido é este objecto televisivo, uma incongruência no meio de

E 54
O episódio ‘The Contest’ sintetiza
como nenhum outro o génio de
“Seinfeld”, uma comédia de situação
que transcende a situação. O seu registo,
em roda livre, é metade banalidade,
metade virtuosismo, mesmo quando
se reduz à desconversa

Porque os argumentistas de
“Seinfeld”, e Larry David acima de
todos, rasgam as regras clássicas da
empatia, jogam com a “capacidade
negativa” de nos reconhecermos
nos defeitos dos outros, e evitam
sentimentalismos ou redenções,
seguindo o mote “no hugging, no
learning”, nem abraços nem lições
aprendidas.
Sem menosprezar o timing
impecável de Jerry Seinfeld (mas
nota-se que, de entre os quatro, é
o único não-actor), a espalhafatosa
comédia física de Michael Richards
ou o sarcasmo enfadado de Julia
Louis-Dreyfus, a grande invenção
de Seinfeld é o frustrado e furioso
George, interpretado por Jason
Alexander, figura inspirada não
num amigo, vizinho ou conhecido
de Larry David, mas no próprio
Larry, nas suas debilidades e
tentações. Gostamos de George
Costanza porque ele assume aquilo
que habitualmente escondemos.
Gostamos dele, mas poderíamos
detestá-lo noutras circunstâncias;

NOURUZ
gostamos dele por causa dos
seus constrangimentos e da sua E
desvergonha, porque não triunfa,
mas sobrevive. S

ENSEMBLE
Seinfeld é o Antigo Testamento da
comédia americana de embaraço. P
E
E o Novo Testamento é “Curb Your
Manhattan. Lembremos que Jerry se Enthusiasm”/“Calma, Larry” (de
especializou em terminar namoros
por questões mesquinhas, porque as
Larry David e com Larry David,
na HBO Portugal), onde já nem a
C
namoradas empregam expressões domesticidade nem o quotidiano CICLO MÚSICAS ESCONDIDAS T
infantis, usaram a escova de dentes protegem o protagonista das
dele, têm mãos muito grandes,
ou qualquer outra implicância. E
catástrofes sociais. Mas o selvagem
“Curb” não existiria sem o quase 15 Outubro | Auditório | 19.00 Á
que nenhum dos quatro amigos, selvagem “Seinfeld”, que Jason C
nem o afável Kramer, respeita Alexander definiu como uma série
verdadeiramente os doentes, que vivia desta premissa, desta Músicas tradicionais da antiga rota da seda U
os velhos, os deficientes, as pergunta: será que nos vão deixar
minorias, o que aliás tornará a série fazer isto em televisão? b [Iraque, Síria, Curdistão e Irão] L
O
problemática para espectadores
mais jovens, menos habituados a Pedro Mexia escreve de acordo
essa brutalidade.
Eles portam-se assim. Eles são
com a antiga ortografia
S
assim. Mesmo quando lhes falta
auto-estima, falta-lhes sobretudo
noção. Veja-se o caso de George,
que se entrega compulsivamente SEINFELD
a comportamentos inaceitáveis De Larry David e Jerry Seinfeld
e depois pergunta, quase com Com Jerry Seinfeld, Jason Alexander, mecenas principal mecenas dos espectáculos seguradora oficial bilheteira online
candura, “was that wrong”?, Michael Richards, Julia Louis-Dreyfus
dúvida em si mesma inaceitável. Isto Netflix, estreia-se hoje
tem graça porque tem desplante. (Temporadas 1 a 9)

MUSEU DO ORIENTE
Avenida Brasília, Doca de Alcântara (Norte) | 1350-352 Lisboa | T. (+351) 213 585 200 | info@foriente.pt
Li À experiência
vros D
a autora do conto “Samuel
Johnson Está Indignado”,
cujo texto integral é
“por haver tão poucas árvores
está a escrever. E os ensaios que
enfatizam a importância da revisão
literária aparecem acompanhados
de várias versões do mesmo texto
na Escócia”, ninguém espera ou de versões do próprio texto que
contos tradicionais nem ensaios estamos a ler, para que o processo
Coordenação Luciana Leiderfarb tradicionais. Em “Ensaios Um”, fique à vista.
lleiderfarb@expresso.impresa.pt colectânea de conferências, Apropriando-se de tudo aquilo
prefácios e críticas, encontramos que encontra e que a intriga, Davis
uma Lydia Davis banal quando adequa o texto ao tema, a situação
formula ‘regras’ de escrita, à sugestão. Aquando da morte de
Em “Ensaios Um” competente numa recensão a Blanchot, questiona o significado
Pynchon ou no obituário de Butor, da ausência física em alguém que
encontramos uma interessante quando elogia figuras dedicou tantas páginas à ausência;
Lydia Davis que menores ou esquecidas (Lucia Berlin
e a sua prosa “eléctrica”), mas
visita o estúdio e descreve os
métodos de um artista, Alan Cote, e
se situa nessa zona entusiasmante, como a conhecemos omite, o que tem graça, que se trata
das microficções, quando se deixa do seu marido, talvez esperando
de confluência tomar pelo espírito da aventura, da que alguém descubra isso; e
entre a obra, o texto investigação e da emenda.
Pensemos em Flaubert, que Davis
apresenta um texto sobre Joseph
Cornell à maneira dos objectos de
acabado e o trabalho, traduziu. É claro que gostamos de Cornell, coisas amadas metidas em
compreender as mudanças de ponto caixas. Por vezes, interrompe-se
ou seja, as versões de vista em “Madame Bovary”, a para ir ouvir no YouTube como se
tendência para boicotar o romântico pronuncia o anglo-saxão medieval;
e as revisões. com o grotesco, o uso do pretérito outras, reproduz longas passagens
O que fica à vista é imperfeito como tempo monótono; de obras suas e alheias, às quais
mas a ensaísta valoriza igualmente junta como que umas notas à
o processo pelo qual o facto de Flaubert escrever todos margem; e há momentos em que
os dias, horas seguidas, e de haver se perde no gozo dos livros de
um texto passa antes semanas em que aproveitava uma consulta: “Antes de sânscrito, na
de se tornar definitivo única página. O grande mérito
de “Ensaios Um” é justamente
minha enciclopédia, surgia uma
entrada sobre San Sebastián,
TEXTO PEDRO MEXIA situar-se nessa zona de confluência uma cidade no Norte de Espanha,
entre a obra, quer dizer, o texto junto ao Golfo da Biscaia; e, antes
acabado e o trabalho, ou seja, as disso, outra sobre sans-culottides,
versões e as revisões. Isso e a noção os últimos cinco dias do ano no
de “material”: de onde vêm as Calendário Revolucionário Francês.”
ideias, que ideias podemos usar ou Depois emenda o texto, emenda até
quando, como é que os textos se os cadernos de onde vêm as ideias
acomodam aos géneros literários e o que deram origem ao texto, porque
que é ao certo o literário? há um continuum, não um corte,
Lydia Davis entende o termo entre o trabalho e a obra.
‘influências’ em sentido lato. Tanto É essa contiguidade, como a
pode comentar os idiossincráticos contiguidade entre ficção e
romances de Beckett e os contos não-ficção, ou entre o biográfico e o
De onde vêm as
mínimos de Bernhard como divagar inventado, que faz de “Ensaios Um” ideias, que ideias
sobre espólios familiares, e-mails um volume invulgar (e que torna
estranhos que recebeu, fotografias desinteressantes os ensaios mais podemos usar ou
turísticas holandesas ou frases
ouvidas nos transportes públicos.
clássicos). Davis não gosta muito
da palavra ‘experimental’, porque
quando, como
Discute poemas e autobiografias, associa o experimental ao teórico, é que os textos
mas insiste em ‘formas excêntricas’, ao preconcebido; mas os seus textos
como diários ou fragmentos. Tem estão constantemente a propor se acomodam
QQQQ uma paixão por livros de referência, experiências, vividas ou textuais. aos géneros
ENSAIOS UM e quando pesquisa a palavra Dizer ‘experiência’ é aqui o mesmo
Lydia Davis “gubernatorial” ou “milénio” que dizer impacto emocional, literários e o
Bazarov, 2021, trad. de José
Mário Silva, 464 págs., €23
o texto passa a ser sobre essa
palavra ou consulta, sobre aquilo
ambiguidade, incongruência,
eufonia, surpresa. Os textos dos
que é ao certo
Ensaios que um escritor faz quando não autores que Davis admira são o literário?

E 56
Lydia Davis (n. 1947), escritora
e tradutora norte-americana,
é exímia nas histórias curtas

sublinhados à nossa frente, não


tanto como exegese dos outros mas
como estética da apropriação: vou
tentar escrever assim porque gosto
disto. E é fascinante seguirmos
o percurso de uma história, da
inspiração à publicação, como
aquela que termina, bizarramente:
“Apreciámos a sua amizade.
Apreciámos as suas aulas de ténis.”
Outros ensaios, mais pessoais,
não procuram no entanto o
autocomprazimento. Há um texto
sobre os mortos e a memória que
é em grande medida sobre as
expressões de uso restrito e os
léxicos familiares (“lembra-te dos
Van Wagenens”, diziam-lhe em
pequena, o que significava “não
faças barulho, para não incomodar
os vizinhos”). Quanto ao devaneio
sobre antepassados seus que se
cruzaram com Lincoln, não é o
exame de um orgulho de clã, mas
um estudo de diferentes versões
desses encontros, onde percebemos
que aquilo que conta é a imagem
que ficou dos bisavós dela, não a
imagem do Presidente americano.
Ler um texto é sempre rever um
texto, um texto nosso, que podemos
alterar, ou um texto alheio, que
interpretamos. O que vale para
um romance canónico ou para as
palavras que Jesus “realmente disse”
vale para uma anotação antiga
que fizemos: “No fim de contas,
quando revemos uma frase, não
estamos só a rever as palavras da
frase, mas também a ideia da frase.
E mais genericamente, ao conseguir
que uma certa descrição seja
exacta, estou a melhorar a minha
capacidade de observação, bem
como o meu manejo da linguagem.
Existem por isso várias formas de
justificar o esforço colocado numa
simples frase do caderno, uma frase
COLIN MCPHERSON/CORBIS VIA GETTY IMAGES

que poderá nunca vir a ser usada.”


Leitora de uma atenção incomum,
Lydia Davis gosta apesar disso de
se apresentar como leitora comum.
E em poucos ensaios sofisticados
encontramos uma frase como esta:
“Ainda não li o ‘Dom Quixote’, mas
acho que vou gostar mesmo de o
ler.” b

Pedro Mexia escreve de acordo


com a antiga ortografia

E 57
E ainda...
O
incerto

ANA BAIÃO
rosto COVID 19 — RELATO
DE UM SOBREVIVENTE

do mal Daniel Sampaio


Caminho, 2021, 150 págs., €12,90
Neste pequeno volume autobio-
gráfico, o psiquiatra relata a sua
experiência enquanto doente grave
de covid-19: “Numa UCI, depressa

BARBARA ZANON/GETTY IMAGES


se perde o pudor, esse sentimento
nobre de vergonha e mal-estar.”

Este é o sétimo livro da


luso-brasileira Tatiana O FIO DO
Salem Levy, nascida HORIZONTE
em Lisboa, em 1979 Antonio Tabucchi
D. Quixote, 2021,
103 págs., €15,90

A
ntes de uma reunião na só com infinita delicadeza, só com surgem em catadupa outros
Prefeitura, sobre o projeto a capacidade de encontrar, para vislumbres de tempos diversos: O que parece ser uma investigação
para a sede do campo de cada momento do relato, as palavras memórias de uma infância detectivesca em torno da identidade
golfe das Olimpíadas, adjudicado exatas e o tom certo. disléxica; as relações com a família de um cadáver anónimo torna-se uma
ao seu gabinete de arquitetura, A estrutura narrativa não é e a analista; o inquérito policial indagação sobre o mais profundo da
Júlia decide ir correr. É uma terça- propriamente original. Cinco fastidioso; o receio de incriminar existência humana e do seu sentido.
feira de 2014, princípio da tarde, anos após os factos, Júlia decide o homem errado; a dificuldade
e ela sobe a estrada que vai até à escrever uma longa carta aos dois de fixar o rosto do violador (“a
Top Livros Semana 37
Vista Chinesa, de onde se pode filhos, menina e menino de três lembrança escapava, tal como uma De 13/9 a 19/9
contemplar o Rio de Janeiro em todo anos, contando-lhes tudo, como imagem que nos ocorre no meio Ficção
o seu esplendor. Com os headphones nunca contara antes a ninguém. da noite e que torna a escurecer Semana
anterior
a isolarem-na dos ruídos do mundo, Isto é, voltando ao lugar e ao rapidamente caso tentemos agarrá-
ignora ainda que a sua vida será tempo da violação, uma e outra la”); a “certeza da solidão” diante Último Olhar
1 1 Miguel Sousa Tavares
partida ao meio dentro de minutos. vez, acrescentando pormenores, do trauma; a forma como aquela
Um Fogo Lento
Um homem forte, baixo, de luvas, em busca da verdade total do terça-feira ficou indelevelmente 2 2
Paula Hawkins
encosta-lhe de repente uma pistola acontecimento traumático. “Me impressa no corpo, escrita na pele;
Um de Nós Mente
à cabeça e arrasta-a para o meio veio essa ideia dos detalhes. o olhar sobre a cidade do Rio de 3 3
Karen M. McManus
das árvores, para o fundo da mata Que a cura talvez venha pelos Janeiro e suas transformações, de
Durante a Queda Aprendi a Voar
luxuriante, um fragmento de paraíso detalhes. São os detalhes que vão algum modo paralelas ao percurso 4 5
Raul Minh’alma
que se transforma no seu inferno. me livrar do todo. A posição exata de Júlia; e sobretudo a trajetória de
Ao aproximar-se desta história de cada árvore, o cheiro exato de reconstrução identitária de uma 5 - O Silêncio das Mulheres
Pat Barker
duríssima que “aconteceu de cada folha, a quantidade exata mulher em ruínas. As categorias consideradas para a elaboração deste top
foram: Literatura; Infantil e Juvenil; BD e Literatura Importada
verdade” (a uma mulher concreta, de passos que nós caminhamos Essa reconstrução inicia-se
amiga da autora, que fez questão de na mata, eu e o desconhecido.” durante uma viagem ao México, Não ficção
assumir o seu nome real no corpo do Entre esses fragmentos, por vezes em que não só se volta a ligar ao Semana
livro), Tatiana Salem Levy enfrentou quase insuportáveis, mas de um companheiro, Michel, como faz anterior

decerto vários dilemas. Como contar impressionante fulgor literário, o necessário luto por si mesma Torne-se um Decifrador
1 2 de Pessoas
algo de tão extremo e inominável? (ou pela parte que deixou na Alexandre Monteiro
Como partir do estupro brutal, da mata dos horrores), no fim de um
violência selvagem que esfrangalha transe alucinogénico de contornos 2 - Covid 19, Relato de Um...
Daniel Sampaio
o corpo e a mente de uma mulher, quase mágicos, após consumo
para depois inquirir sobre as de peiote. Algumas belíssimas 3 1 Memórias
Francisco Pinto Balsemão
ondas de choque que se seguem, o cenas de sexo, de alguma maneira
4 3 O Médico da Casa
alcance mais vasto da destruição? o reverso luminoso da violação, José Carlos Almeida Nunes
Como explicar o esforço ingrato da oferecem uma espécie de
5 4 Não Forces, a Vida Flui
memória, essencial para identificar consolo e equilíbrio — também Manuel Clemente
o criminoso, quando a vítima a nós, leitores, que ficámos As categorias consideradas para a elaboração deste top

deseja apenas esquecer o que lhe QQQQ dolorosamente expostos, através


foram: Ciências; História e Política; Arte; Direito,
Economia e Informática; Turismo, Lazer e Autoajuda
aconteceu, na ilusão de que talvez VISTA CHINESA de Joana, ao tenebroso e incerto Estes tops foram elaborados pela GfK Portugal, através
do estudo de um grupo estável de pontos de venda
assim consiga apagar o passado? Tatiana Salem Levy rosto do mal, “rosto que a gente pertencentes a dois canais de distribuição: hipermercados/
supermercados e livrarias/outros. Esta monitorização
A resposta às três perguntas é a Elsinore, 2021, 128 págs., €14,99 nunca lembra mas não consegue é feita semanalmente, após a recolha da informação
eletrónica (EPOS) do sell-out dos pontos de venda.
mesma: só com muita inteligência, Romance esquecer”. / JOSÉ MÁRIO SILVA A cobertura estimada do painel GfK de livros é de 85%.

E 58
O outro lado
dos livros
POR MANUEL
ALBERTO VALENTE

Os cadernos de Auster
Anónimo em Brooklyn, descoberto em Lisboa

F
oi nas mãos de Sophie mas que tal era impossível em
Auster, a filha de Siri Paris). Lamento hoje não ter
Hustvedt e Paul Auster, guardado essas provas, que me
que vi pela primeira vez um serviram de exemplo que aos
BlackBerry, marca que na altura poucos tentei passar aos jovens
não era comercializada em autores, tantas vezes renitentes em
Portugal. Sophie era então uma aceitar sugestões para melhorarem
adolescente mimada, e não os seus textos.
ainda a cantora, compositora Foi também nessa visita
e atriz reputada em que depois que aconteceu um episódio
se transformou. Entretanto, o extraordinário. Tínhamos
BlackBerry fez a sua época e almoçado na Bica e chegávamos
desapareceu; ainda conservo o ao Largo do Calhariz, quando um
que depois comprei (certamente casal espanhol parou diante de nós
com ciúmes do dela), mas não
passa agora de uma peça de
museu, tal como eu aos olhos de
hoje da menina que, naqueles anos
90, acompanhava os pais numa
visita a Lisboa e passava o tempo
agarrada ao telemóvel (há coisas
que já vêm de longe, como dizia o
anúncio ao brandy Constantino...).
Creio que foi durante essa
visita a Lisboa que Paul Auster me
entregou as provas do romance
que estava para ser publicado
nos EUA, de modo que o tradutor
se pudesse ir familiarizando
com o ambiente e a temática
da obra. Tais provas vinham
anotadas a tinta vermelha pelo
seu editor americano; e, quando Assim era o caderno que Paul Auster
digo anotadas, quero dizer com comprava em Lisboa
longos excertos cortados, pontos
de interrogação por todo o lado em grande excitação: tinham lido
e comentários que ajudariam o no “El País” que Auster comprava
autor a resolver melhor certas os seus célebres cadernos numa
passagens. Habituado à prática papelaria dessa zona; de férias
então vigente em Portugal de que em Lisboa, foram lá comprar um
não se podia mexer nos textos de caderno desses e, dois minutos
um autor consagrado, nem sequer depois, era o próprio autor que
tive coragem de transmitir o meu lhes aparecia à frente em carne e
espanto àquele que era nesse osso. Uma cena que podia ter saído
tempo um dos autores norte- do seu “O Caderno Vermelho”,
americanos mais prestigiados precisamente a primeira obra
na Europa (diga-se em abono
da verdade que Auster era mais
do escritor que publiquei na
Pequenos Prazeres, uma das mais
GULBENKIAN.PT
conceituado no Velho Continente emblemáticas coleções da época:
MECENAS
do que no seu país, ao ponto de saborosos livrinhos de capa preta...
me ter dito que conseguia passear tão preta como o velho BlackBerry
anónimo nas ruas de Brooklyn, que eu vira nas mãos de Sophie. b
EM COL ABOR AÇÃO COM
Ci
ne
ma
Coordenação João Miguel Salvador
jmsalvador@expresso.impresa.pt

A protagonista ausente deste


documentário (que não o é) chama-se
Beatriz, avó da cineasta, que esta
nunca conheceu. Era a âncora da
família e de um clã com seis crianças

A vida é uma quimera


A ótima estreia na longa-metragem de Catarina Vasconcelos, “A Metamorfose dos Pássaros”,
chega quinta-feira às salas após ter corrido com êxito meio mundo. Filme secreto, íntimo,
generoso na sua empatia, é um caso invulgar no cinema português
TEXTO FRANCISCO FERREIRA

É
um álbum de família história é narrada sem se vergar tutelar sobre a imagem. E neste
partilhado com generosidade a cronologias lineares, prefere a processo, como referimos, de
e uma franqueza pouco fricção, a tensão, o choque. Estamos devolução do passado ao presente
comuns, mas dizer isso da estreia a falar essencialmente de memórias, (e aqui socorremo-nos do que nos
na longa-metragem de Catarina mas o filme parece debater-se do é dito logo no início do filme),
Vasconcelos (Lisboa, 1986), artista primeiro ao último fotograma com Catarina permite-se com audácia
QQQ plástica e cineasta, é ficar pela a melhor maneira de as devolver ao uma liberdade de movimentos
A METAMORFOSE rama, a meio caminho da ‘saga dos presente, testando com isso vários invulgar em que os objetos não
DOS PÁSSAROS Vasconcelos’, porque o que mais processos narrativos. têm menos vida do que as pessoas
De Catarina Vasconcelos impressiona é a inventiva constante A voz off de “A Metamorfose dos (“os objetos têm vidas que eu
(Portugal) do trabalho, o modo como as Pássaros”, por exemplo, acompanha desconheço, já nada é como quando
Documentário M/12 matérias vão respondendo às ideias o que nos é contado, mas jamais tu estavas aqui”) e em que os
(Estreia-se dia 7) e o filme vai tomando forma. A é bengala, jamais se torna figura elementos se encadeiam sem que

E 60
eu nasci dois anos depois. Dei-me “Com esta muito perto do osso, mas também
tem de haver aqui divertimento.
conta de que, para falar da sua
ausência, seria preciso construir premissa de querer
pelo cinema a sua presença.
Descobrir a dinâmica da minha
saber mais sobre UMA HISTÓRIA DE SUCESSO
“A Metamorfose dos Pássaros” foi
família exigia-me isso. O filme uma pessoa que feito com delicadeza e confiança,
começa a ganhar corpo assim, com mas, ainda assim, é bem provável
o cruzamento do relato dos mais eu nunca conheci que nem Catarina nem a produtora
velhos e a invenção de um tempo
que eu não vivi.”
veio a reboque Primeira Idade tenham previsto
o enorme êxito que o filme viria
Conversámos com Catarina uma família inteira. a colher fora de portas, desde
Vasconcelos sobre o filme faz agora
um ano e meio, antes da estreia
Interessava-me que se estreou na competição
Encounters, de Berlim. Na capital
na Berlinale 2020; depois, mais muito o momento alemã, arrecadou desde logo o
pausadamente, durante a Viennale, Prémio da Crítica Internacional,
um dos poucos festivais que em que a minha mas muitos mais se somariam e
decorreu fisicamente no outono do
ano passado, já a obra tinha entrado
avó desapareceu. em latitudes muito distintas, da
Lituânia a Taiwan, de Portugal
num périplo internacional invejável Dei-me conta de (Melhor Realização no IndieLisboa)
(e disso se fala mais à frente). Foi
uma maneira de dar tempo a um
que, para falar da e Espanha (San Sebastián) ao
Brasil, Chile e Canadá — e, facto de
filme que com muita paciência se sua ausência, seria assinalar, uma parte considerável
construiu (cinco anos de trabalho) desses triunfos foram prémios de
e a um texto que, à semelhança de preciso construir público, votados pela audiência.
tudo o resto, foi escrito sem pressa.
Essa voz off, que passa por múltiplos
pelo cinema Diga-se, em nome do rigor e
da precisão, que entre fevereiro
narradores, é da autoria de Catarina, a sua presença” de 2000 e o dia de hoje “A
mas vai respigar influências e Metamorfose dos Pássaros” foi
passagens à brasileira Noemi Jaffe, CATARINA VASCONCELOS selecionado por 60 festivais,
REALIZADORA
ao “Moby Dick”, de Melville, assim número incrível para uma cineasta
como a “Novas Cartas Portuguesas”, que só tinha até então uma curta-
das Três Marias, entre outras metragem no currículo (“Metáfora
fontes. “E assim fui montando esta ou a Tristeza Virada do Avesso”,
saga, num tom que eu acho que guarda e nas confissões que 2014) e para uma primeira obra que
deve, afinal, muito à literatura. revela, pela graça natural dos seus não é ficção. E também já se estreou
Entretanto, impus-me objetivos, movimentos, não é filme que se comercialmente em diversos
que deram origem a outras questões: ‘folheia’ e está muito longe do países, com vendas para mercados
quis fazer um filme de família sem modelo autobiográfico. A Catarina tradicionalmente complicados para
cair na facilidade do diário. Mas foi contada pela família muita coisa o cinema europeu como os Estados
corri com isso o risco de já não saber que não está no filme. Este, por Unidos e até a China; na vizinha
nos seja possível adivinhar uma só onde estava eu própria no filme.” seu lado, sugere também que há Espanha, para ficarmos por este
vez que plano pode dar sequência ao Aqui veio à conversa o cinema de coisas sobre as quais ela gostaria exemplo, foi lançado com 25 cópias
anterior. Jonas Mekas, também “E Agora? de saber mais, e o filme vive muito por todo o território, com direito a
A figura central de “A Metamorfose Lembra-me”, de Joaquim Pinto, tão disso, deste jogo de escondidas. cartazes em castelhano, galego e
dos Pássaros”, a sua protagonista diferentes desta “Metamorfose dos É uma história verdadeira que catalão.
ausente, chama-se Beatriz, avó da Pássaros”, é certo, mas que, como não se satisfaz nunca com os Ao longo de todo este périplo (já
cineasta, que esta nunca conheceu este, também provaram ter vontade factos e o ritmo da realidade. E referimos o caso de Viena) e das
— e, contudo, é uma presença de transformar memórias e factos nesta pesquisa, também a palavra incessantes viagens da obra que a
inesquecível para marido, filhos e numa quimera — como a história ‘documentário’ é testada. cineasta, por causa da pandemia,
netos. Era a âncora da família e de do rapaz, ouve-se às tantas, que em Diríamos antes que é uma espécie nem sempre conseguiu acompanhar
um clã com seis crianças, o marido, tempos sonhou que se transformava de filme epistolar em que as ‘cartas’, presencialmente, Catarina foi
oficial da Marinha, passou boa parte em pássaro. mais do que lidas, são imaginadas recebendo mensagens, e-mails,
da vida adulta longe de casa. Nisto, “Mais tarde”, continuou Catarina, e até sonhadas, como naquele cartas... A sua história tinha, afinal,
começa a interligar-se no texto e “dei-me conta de que a relação do assombroso momento de teleporting desencadeado outras histórias
nos tais ‘objetos vivos’ a história de mau pai com a morte da minha avó (Catarina concordou com o aspeto de família na cabeça de muitos
pelo menos quatro gerações, num coincidia em muitas coisas com de ficção científica) em que uma que viram o filme e que ficaram a
perpétuo apelo que é igualmente a relação que eu tive com a morte personagem, com as armas que o pensar em si próprios. A cineasta
um desafio ao tempo, já que os mais da minha mãe. As famílias têm cinema permite e que a cineasta resolveu então tornar pública
novos hão de surgir sem aviso prévio esta coisa maravilhosa e obscena convida, vem do passado para um uma parte dessa correspondência
a interpretar os seus pais quando ao mesmo tempo: as palavras presente que nunca conheceu. Uma privada, criando para o efeito um
estes eram crianças. ‘conforto’ e ‘confronto’ estão experiência de luto, “A Metamorfose site que merece visita demorada
“Com esta premissa de querer sempre muito próximas. Senti isso dos Pássaros”? Sim, poucas (metamorfosedospassaros.pt). São
saber mais sobre uma pessoa que no filme, sem nunca termos perdido dúvidas há nisso, há filmes que se testemunhos genuínos e de toda a
eu nunca conheci” — contou-nos a confiança mútua. E sempre a fugir fazem assim, pelas pessoas e pelas espécie, todo um caudal de ideias,
a cineasta — “veio a reboque uma da tentação do registo diário. É coisas que nos faltam. Só que essa considerações e até confissões que
família inteira. Interessava-me documentário... mas não é...” experiência aqui também é sempre traduzem com justiça o impacto que
muito o momento em que a minha De facto, “A Metamorfose dos lúdica. Sublima aquele peso. Como “A Metamorfose dos Pássaros” já
avó desapareceu [1984], porque Pássaros”, nos segredos que se dissesse: vou contar isto, está alcançou. b

E 61
Bruno Dumont
em areias movediças
C
elebridade do jornalismo que uma vez nos fixa, às vezes em
e repórter sensacionalista, grande plano, trespassando o ecrã.
France (Léa Seydoux) é uma É France, que afinal nada tem
das personagens mais complexas da de idiota, pura na sua abjeção
QQQ Q
galeria de Bruno Dumont. O filme, revoltante? Uma mártir no mundo PARAÍSO RIFKIN’S FESTIVAL
que tem o nome dela, defende infernal que a alienou? Esta é De Sérgio Tréfaut De Woody Allen
que a realidade que a televisão uma questão antiga no cinema de (Portugal/França/Brasil) Com Wallace Shawn, Gina Gershon,
copia (ou encena) nada nos diz da Dumont, por mais que ele nos diga Documentário M/6 Louis Garrel (Espanha/EUA/Itália)
realidade porque essa cópia não é (foi em Cannes) que a história da Comédia M/12
verdadeira. Não há “transfiguração” “santidade” é mais um problema
(palavra de Dumont) no regime nosso, que o seguimos de filme em Homem de muitos mundos, nascido no Por esta altura, já ninguém está à espera
de imagens e sons que os media filme, que um problema dele como Brasil de onde saiu adolescente, liceu de grandes novidades de Woody Allen,
hoje debitam, tal como ela existe artista. Digamos então que, naquela em Portugal, universidade em Paris que, desde há muito, tem vindo a reciclar
para um romancista, um pintor torpeza, France procura tão-só uma (Filosofia, na Sorbonne), realizador de a sua obra em piloto automático. Ainda
ou um cineasta. A verdade só elevação humana. Há um momento cinema com base portuguesa (mas a assim, o seu novo filme é a tal ponto pre-
aparece quando se dá a dita em que ela se dá conta de que o empresa que criou chama-se Faux), guiçoso e retrógrado que corre o risco
“transfiguração” e Dumont está que faz não vale grande coisa e que Sérgio Tréfaut nunca parou quieto num de surpreender pela negativa. Nele, se-
evidentemente a falar de realismo, pode fazer melhor. lugar e o seu olhar não se aquietou guimos os passos de Rifkin: um homem
a procurar uma “revelação” (outra “France” tem peripécias a mais, num ponto de vista determinado. Na de 70 anos que, no início, se apresenta
palavra dele), “porque o real é palavreado a mais, ecrãs a mais, primeira longa-metragem que realizou como um ex-professor de cinema que
um balbucio, não nos diz nada e coisas que repudiam e nos deixam a (esse extraordinário “Outro País”, em deixou a docência para se dedicar à
não precisamos dele para nada, uma distância maior do que é hábito 1998) concatenou num documentário escrita de um romance que não há meio
precisamos de outra coisa, do que em Dumont. Ele mete-se aqui os olhares exteriores sobre a nossa de se materializar. É a partir do consul-
está atrás da aparência das coisas.” em coisas que não são a sua praia revolução. Os que são de fora, os tran- tório onde então se encontra (o do seu
Por outro lado, a personagem de (atrizes maquilhadas, acidentes sumantes, sempre lhe interessaram psiquiatra) que Rifkin narra em flashback
France (e isto é notório nas suas de carro... por sinal, os planos (“Fleurette”, em 2002; “Lisboetas”, em a história do filme, a da sua ida ao Festi-
tontas reportagens de guerra) dos carros são ótimos), tudo está 2004; “Viagem a Portugal”, em 2011) val de San Sebastián com a mulher: uma
aparece-nos sob a forma excessiva saturado, num excesso que para o e andou por aí, a filmar no Egito (“A Ci- assessora de imprensa que foi incumbi-
da degenerescência profissional cineasta indicia um novo caminho. dade dos Mortos”, 2009), na Ucrânia da de acompanhar um jovem cineasta
e moral do mundo mediático Mas no fim sobra um rosto que e na Rússia (“Treblinka”, 2016). Natural em ascensão no certame. Deixado à sua
que fez dela uma estrela, um conta. Nesse rosto, vive a heroína seria que um dia voltasse ao Brasil. sorte numa cidade desconhecida, Rifkin
mundo fechado, opaco (veja-se de uma tragédia contemporânea. Voltou agora, para ir encontrar nos fins passará o tempo a fazer gala da sua
a caracterização extravagante do / FRANCISCO FERREIRA de tarde/noite dos jardins do Palácio rezinguice e das suas neuroses — ora
apartamento dela) e demente. Ora, do Catete, no Rio de Janeiro, gente de gozando com um auteur imberbe que
se Dumont é impiedoso com a muita idade que ali se junta para cantar só existe como tosca caricatura (ele é
indústria e o exibicionismo atroz e ouvir cantar. São seresteiros de alma, tão fátuo que gozar com ele é redun-
da realidade que ela pratica, jamais cantam com a voz que têm — e, às dante), ora acusando a mulher de ter
é cínico com a personagem de QQQ vezes, nem é muita — e com o coração um affair com o último, ora lamentando
France, jamais troça dela, nem FRANCE que podem — e eu acho que o dão que já não haja quem preze os grandes
um segundo, antes pelo contrário: De Bruno Dumont todo. Estão no ocaso da existência, mestres do cinema. A não ser o próprio
acredita nela e em todos os seus Com Léa Seydoux, Blanche Gardin, todavia celebram a vida, em melodias Allen, que mergulha Rifkin numa série
paradoxos e manipulações, acredita Benjamin Biolay (França/ de amores perdidos, enganos, paixões. de sonhos que correspondem a outros
no rosto de Léa Seydoux e no seu Alemanha/Itália/Bélgica) E o olhar de “Paraíso” gosta muito de- tantos pastiches de clássicos dos anos
regard-caméra, que por mais do Drama M/14 les. Contudo, se tivesse que encontrar 40-60 (“Citizen Kane”, “Persona”...). O
uma palavra que definisse o sentimen- gesto é tão reverente como reativo: ao
Léa Seydoux
to que faz pairar, eu diria ‘melancolia’. celebrar as obras-primas do passado,
interpreta France, Porque o caloroso filme, que Tréfaut o que Allen visa é a denúncia de um
a personagem-título foi colher ao Brasil nas vésperas da presente que, sugere, é incapaz de o
do novo filme do pandemia, tem as marcas visíveis do emular. Estranha crítica, vinda de quem
realizador gaulês fim de um tempo num cenário que os- está longe de ser o que foi, e que se
cila entre a beleza edénica e as agruras tornou autista em relação ao presente
da pobreza. A emergência da praga que convoca, não revelando o menor in-
que varreu vários dos intervenientes teresse pelas suas figuras (todas as per-
— conforme se lê na legenda terminal sonagens secundárias são genéricas) ou
— carrega ainda mais esse sentimento pela sua geografia: como Paris ou Roma
que o realizador sustenta na afirmação antes dela, San Sebastián reduz-se aqui
radical com que o filme fecha: “O Brasil a uma sucessão de vinhetas turísticas.
que eu amei também desaparece com Sobre elas, projeta-se o que se espera-
eles” — deixando suspensa uma outra va: uma comédia romântica que, como
asserção não-dita, a de que o Brasil o protagonista de “O Feitiço do Tempo”,
que hoje existe é outra coisa, pior. se encontra refém do passado.
/ JORGE LEITÃO RAMOS / VASCO BAPTISTA MARQUES

E 62
E ainda...

ESPÉCIE AMEAÇADA 007: SEM TEMPO


De M.J. Bassett PARA MORRER
De Cary Joji Fukunaga
As férias, um safari numa reserva
natural no Quénia, tinham tudo para O 25º filme do agente secreto britâ-
ser o sonho cumprido de uma vida. nico, criado por Ian Fleming, traz Da-
Mas rapidamente se transformam niel Craig pela última vez no papel
num pesadelo para esta família de James Bond. Retirado do ativo,
americana que decide ignorar as 007 terá de deixar a reforma na Ja-
regras do parque e abandonar o tri- maica e entrar de novo em ação. Em
lho marcado. Após o ataque de um causa está o rapto de um cientista e
animal ao veículo, terão de tentar uma nova e perigosa tecnologia nas
fugir a pé. Nos cinemas. mãos erradas. Em exibição.

COISAS DE HOMENS IMUNES


De Lucas Belvaux De Adam Mason
Filme da Seleção oficial do Festival Thriller pandémico, passado num
de Cannes do ano passado, conta a futuro próximo, dá-nos a conhecer
história daqueles que combateram um jovem com uma rara imunidade à
na Argélia em 1960 e que depois da doença que está a arrasar o mundo
guerra se votaram ao silêncio sobre em 2024. Decidido a encontrar-se
o que lá se passou. Será possível se- com Sara (Sofia Carson), a mulher
guir em frente e esquecer o passado que ama, Nico (K.J. Apa) vai furar a
por completo, apagando dois anos quarentena. Terá de enfrentar a lei
da vida? Claro que não. Em cartaz. marcial que vigora. Em sala.

ESTRELAS DA SEMANA
Jorge Vasco
Francisco
Leitão Baptista
Ferreira
Ramos Marques

Coisas de Homens QQ QQ
Cry Macho — A Redenção QQQQ QQQ QQQ
Dreamland: Sonhos e Ilusões Q

ˈˠ˔ˉ˜˔˚˘ˠ
France QQQ
SEDMINA

A Lenda do Cavaleiro Verde Q


QQQ

ˣ˘˟ˢʶ˜ˡ˘ˠ˔
Maligno
Mandíbulas QQQ QQ
de Matjaz Klop͝i͝

A Metamorfose dos Pássaros QQQ

˗˔ʸ˦˟ˢ˩̻ˡ˜˔
Nova Ordem Q
Paraíso QQQ
O Passageiro Oculto Q
Rifkin’s Festival QQQ QQQ Q ʣʤ˔ʤʧˢ˨˧˨˕˥ˢʥʣʥʤ
The Sparks Brothers QQQ
Valor da Vida QQ
DE b MÍNIMO A QQQQQ MÁXIMO EXPRESSO

ˆ˔˟˔ˀʡʹ̻˟˜˫˅˜˕˘˜˥ˢ
ˣ˥ˢ˚˥˔ˠ˔̵̹ˢ˘˖˟˔˦˦˜˙˜˖˔̵̹ˢ˘˧̳˥˜˔˗˘˖˔˗˔˦˘˦˦̵ˢ˘ˠ˪˪˪ʡ˖˜ˡ˘ˠ˔˧˘˖˔ʡˣ˧
˅˨˔ʵ˔˥˔˧˔ˆ˔˟˚˨˘˜˥ˢʟʦʬʿ˜˦˕ˢ˔
Coordenação Luís Guerra
lguerra@blitz.impresa.pt

O que
fazia falta
A chegada de “Cantares do Andarilho”
às plataformas de streaming abre uma campanha
de reedições dos álbuns de José Afonso
lançados entre 1968 e 1981. Este processo
envolve ainda reedições em vinil e CD
TEXTO NUNO GALOPIM

Foi com “Cantares do

O
Andarilho”, que José Afonso
iniciou um percurso mais riginalmente lançado Vampiros’ e ‘Menino do Bairro discos que José Afonso lançou pela
intenso de desafios na em 1968, “Cantares do Negro’, assim como no álbum de editora Orfeu entre 1968 e 1981.
palavra e na música, marcado Andarilho” representou o estreia “Baladas e Canções” (1964), Há já algum tempo que era
também por uma maior final de um hiato que José Afonso escutavam-se horizontes que iam praticamente impossível encontrar
regularidade editorial vivera após a sucessão de discos já além das raízes coimbrãs. Mas estes álbuns nas lojas, exceção
que tinham definido um primeiro foi com “Cantares do Andarilho”, feita para as que se dedicam ao
ciclo entre 1953 e 1964, no qual que se iniciou um percurso mais colecionismo e ao mercado de
deu fôlego à procura de um novo intenso de desafios na palavra e segunda mão. A Movieplay, que
caminho para uma voz nascida na música, marcado também por tinha assegurado em 1987 as
na canção de Coimbra. Depois de uma maior regularidade editorial. primeiras edições em CD da etapa
uma etapa sobretudo dedicada E é precisamente com a edição em da discografia de José Afonso
ao ensino, durante a qual viveu suporte digital deste álbum que originalmente lançada pela Orfeu,
algum tempo em Moçambique, agora arranca uma campanha de entrou na década passada num
José Afonso voltava a fixar em reedições que, aos poucos, não só processo de insolvência. Os seus
disco as suas canções. Entre os levará às plataformas de streaming, herdeiros iniciaram, entretanto,
míticos EP, que tinham revelado mas também a novos lançamentos um processo que os conduziu a
‘Balada do Outono’, depois ‘Os nos suportes físicos de LP e CD, os um novo licenciamento que agora

E 64
Ei-lo aqui a escutar
raízes da canção
sejam ouvidos de novo”. E há um
tradicional, da nítida voz política. Ecos de África
calendário a ter em conta com música e poesia começam também a surgir. Apenas
o primeiro lote de lançamentos. acompanhado pela guitarra de Rui
Depois da edição digital, “Cantares medieval e Pato em “Cantares do Andarilho”,
do Andarilho” surgirá em CD a 29
de outubro, o mesmo dia em que
renascentista alargando o leque de possibilidades
dos arranjos em “Contos Velhos
chegarão os lançamentos, nesses e de mais ecos Rumos Novos” e optando pelo
mesmos dois formatos, do álbum
de 1969 “Contos Velhos Rumos
de vivências rurais pragmatismo da relação entre
a voz e duas guitarras em “Traz
Novos”. Este primeiro ciclo terá Outro Amigo Também” — que
o seu desfecho a 26 de novembro corresponde, em Londres, à sua
com a edição, tanto digital como primeira gravação no estrangeiro —
em CD, de “Traz Outro Amigo José Afonso cria nesta etapa ainda
Também” (1970), surgindo ainda arquivo”, explica Nuno Saraiva, algo trovadoresca clássicos como
nesse dia as reedições em vinil que depois pensou a quem deveria ‘Vejam Bem’ ou ‘Canto Moço’,
destes três álbuns. O segundo lote, confiar o trabalho de masterização. reinventa temas populares, canta
com “Cantigas do Maio” (1971), “Eu Acabou por optar por Florian Siller, Camões, Lope de Vega ou Ary dos
Vou Ser Como a Toupeira” (1972) e do estúdio Soundgarden Mastering, Santos, e alicerça sobretudo uma
“Venham Mais Cinco” (1973), deverá em Hamburgo, “que é uma pessoa voz criativa que, por aquela altura,
surgir entre março e maio de 2022. que tanto trabalha com antigos definia já a linha da frente de uma
Além dos álbuns, Nuno Saraiva masters do jazz como com novas busca de um desafiante sentido de
conta ao Expresso que haverá ainda bandas como os At the Drive In e, modernidade na canção portuguesa.
novos singles digitais, alguns, de portanto, muito versátil e cuidadoso Estavam a fazer falta estes discos! b
resto, já disponíveis: “Vamos fazer com as diferentes estéticas”.
uma seleção de dois a três temas por O editor revela que passou já
álbum, dos mais emblemáticos... “test pressings em vinil a alguns
Mas tenho de ter atenção entre colecionadores” e conta ao Expresso
todos os intervenientes para que que não é só ele “quem acha que
haja harmonia nestas escolhas.” Os estão muito bons”.
singles já extraídos de “Cantares Para trabalhar o som, Florian
do Andarilho” são ‘Natal dos “pediu para ouvir todas as
Simples’, ‘Canção de Embalar’ e referências prévias que tivéssemos
‘Teto na Montanha’, e chamam disponíveis”. Nuno pediu-as à
logo a atenção para um cuidado família e enviou-as “para ele QQQQQ
na frente do design, num trabalho comparar”, observando desde CANTARES DO ANDARILHO
que envolve o próprio José Santa- logo que, “quando se masteriza José Afonso
Bárbara (que fez as capas das para CD às vezes há compressão Mais 5
edições da Orfeu) e João Morais (na a mais, mas aqui não”, notando
música conhecido como ‘O Gajo’), antes uma opção “por uma
sempre “em articulação com a abordagem dinâmica”. No final,
família”. A ideia é aqui a de “recriar “ouve-se tudo”. O técnico “está a
de raiz, com métodos modernos e fazer as masterizações por ordem
RUI OCHÔA

em alta resolução, todos os artworks cronológica” e por esta altura já vai


originais do Santa-Bárbara”. E são no álbum “Coro dos Tribunais”. E,
dele todas as capas originais dos como descreve Nuno Saraiva, “está
lançamentos entre 1970 e 1981, a descobrir a obra nessa sequência”
tendo depois criado também capas e confessa-se “maravilhado”. QQQQQ
se materializa nesta campanha de novas para os discos de 1968 e 1969 Entre os três primeiros discos CONTOS VELHOS
reedições. E é assim que o editor (originalmente com assinatura desta série de reedições vamos RUMOS NOVOS
Nuno Saraiva entra em cena. “Foi o de Fernando Aroso), sendo estas reencontrar importantes passos José Afonso
Alain Vachier quem me apresentou suas criações as que, entretanto, no processo do vincar de uma Mais 5 (edição a 29 de outubro)
à Zélia e ao Pedro”, respetivamente passaram a integrar o cânone. As identidade na música de José
a viúva e um dos filhos do José capas em vinil serão em formato Afonso. Já com Coimbra mais
Afonso. “E houve um diálogo de gatefold. E para os CD há uma opção distante, ei-lo aqui a escutar raízes
dois anos e meio com a família que pelo digifile, que é “um gatefold em da canção tradicional (podemos
nos levou à celebração do contrato miniatura” com “um livrinho de um mesmo falar de folclore), da música
de licenciamento dos 11 masters”, lado, com as letras, e a pochete com e poesia medieval e renascentista
explica ao Expresso, acrescentando o CD do outro”. e de mais ecos de vivências rurais,
que, “na altura”, não considerou os Tal como o design, o som projetando-os, num tempo em
outros títulos da discografia, pelo representou outra preocupação que se afirmavam também novas
que “para já o que temos na mesa” é central neste processo. “Começámos vozes diferentes na canção urbana QQQQQ
a obra de 1968 a 1981. por ouvir tudo aquilo que a família francesa e latino-americana, por TRAZ OUTRO AMIGO TAMBÉM
O foco destas edições “é voltar nos passou e que vinha de fontes novos rumos que não são estranhos José Afonso
a fazer com que estes álbuns diferentes” que tinham “no seu a uma progressivamente mais Mais 5 (edição a 26 de novembro)

E 65
QQQQ QQQQ
THE HILL, THE LIGHT, ENTRE
THE GHOST PAREDES
Haiku Salut Bernardo Moreira Sexteto
Secret Name JACC Records

Em 1967, Richard Brautigan — ro- Carlos Paredes acreditava que a sua


mancista, contista e poeta a meio música não tinha futuro: “A minha
caminho entre a geração beat e a música só ficará no espírito daqueles
contracultura de São Francisco da que a viveram no seu tempo. Não tem
O Anat Cohen Tentet época, figura menor mas de culto mais seguidores. Inevitavelmente vai
atua no dia 4 persistente — publicou 1500 cópias passar”, explicou, em 1981, em entre-
do poema “All Watched Over By vista ao “Jornal de Letras”. Mas até
Machines Of Loving Grace”, o qual, os mestres, felizmente, se enganam.

E o jazz volta à Terceira como aconteceu com várias das suas


obras iniciais, distribuiria gratuita-
mente pelas ruas. É uma visão naïve
“Entre Paredes”, novo álbum do sexteto
do contrabaixista Bernardo Moreira
(com o baterista Joel Silva, o guitar-

M
esmo se o sucesso de deverá centrar-se no último disco, de um ciberbucolismo filho de Tho- rista Mário Delgado, o pianista Ricardo
um concerto ao vivo é intitulado “Triple Helix”, editado reau, Lafargue e das utopias tecno- Dias, o saxofonista Tomás Marques e
sempre uma incógnita em junho de 2019, embora possam lógicas da época (“I like to think — it o trompetista João Moreira) é apenas
dependente de vários fatores, não ocorrer também incursões em has to be! — of a cybernetic ecology a mais recente vénia a uma obra que
será difícil antecipar para a última “Happy Song”, muito centrado where we are free of our labors and insiste em provocar ecos no presente.
noite os dois grandes momentos e inspirado pela cena jazzística joined back to nature, returned to our Não é a primeira vez que o jazz olha
da próxima edição do Angrajazz, brasileira. mammal brothers and sisters, and all para a música do homem de “Movi-
a decorrer desde esta sexta até Como é habitual, o Angrajazz watched over by machines of loving mentos Perpétuos” (o próprio Bernardo
segunda-feira em Angra do tem a abertura assegurada pela grace”) que, relido mais de meio Moreira já tinha editado, em 2003, “Ao
Heroísmo, nos Açores. Com o Bill Orquestra Angra Jazz, com o século depois, arrepia um bocadinho Paredes Confesso”), sinal inequívoco de
Friesel Trio a abrir e Anat Cohen contrabaixista Zé Eduardo como quando pensamos no que poderi- que na procura por standards próprios
Tentet a fechar, tudo se conjuga convidado. Depois entra Vincent am ser (ou no que se tornariam) as o jazz português tenta encontrar uma
para dois grandes espetáculos Meissner com o seu trio. O “machines of loving grace”. Mas que, personalidade distinta. Gravado ao
neste regresso do jazz à ilha após pianista é, aos 21 anos, uma das enquanto título alusivo da sexta faixa vivo no Convento de São Francisco, em
um ano de interregno. grandes revelações do jazz feito de “The Hill, The Light, The Ghost”, Coimbra, em 2020, este álbum con-
Bil Friesel, um dos nomes maiores na Alemanha. Em setembro deste quinto álbum das Haiku Salut (Gem- tém material resultante de uma longa
do jazz contemporâneo, com ano, obteve o primeiro prémio ma Barkerwood, Sophie Barkerwood reflexão de Bernardo Moreira, quem
Thomas Morgan (baixo), outro do “International Jazzhaus Piano e Louise Croft, executantes de acor- concluiu, fruto de experiências nos do-
gigante, e o sensível Rudy Royston Competition”, de Friburgo, deão, piano, glockenspiel, trompete, mínios da música popular e do fado, que
(bateria), já protagonizou este ano depois de, em junho, ter lançado trombone, guitarra, ukulele, percus- competia ao sexteto ir ao encontro de
uma noite memorável em Espinho. “Bewegtes Feld”, o álbum de sões, melódica, malletkat, sintetiza- Paredes. No tema que fecha o álbum,
A dupla Friesel/Morgan tem já estreia com o seu trio. dores, e o resto a que chamam “loo- ‘Canto do Amanhecer’, por exemplo,
um longo percurso em conjunto, Amanhã, a noite começa com o pery and laptopery”), sintetiza bem fica patente esse trabalho no ribombar
marcado pelo grande virtuosismo Quinteto do vibrafonista Jeffery o geométrico pastoralismo assom- da bateria de Joel Silva, mais devedora
de ambos na exploração de Davis, canadiano de nascença, brado de todo o disco. Nascido de aqui das memórias de quem há de ter
atmosferas surpreendentes. mas residente em Portugal, onde uma expedição de field recordings acordado muitas manhãs com gaiteiros
Roystone, graduado em música fez a sua formação musical. A “em busca de fantasmas” armadas de a anunciarem uma qualquer festa popu-
e poesia, defensor da ideia de noite encerra com o que pode um gravador Tascam, “colecionámos lar do que do estudo do swing clássico
que “menos é melhor”, é o tipo ser um dos outros momentos gravações, retirámo-las do contexto nascido na América. Mas é na belíssima
de baterista capaz de fazer tudo altos do Festival, dada a presença e construímos mundos em torno de- versão de ‘Verdes Anos’ que se adivinha
para passar despercebido, não de Trineice Robinson, cantora, las; pode dizer-se que o álbum é uma todo o sério pensamento de Moreira,
obstante a importância, o rigor e a pedagoga conceituada, criadora exploração miniatural do som na sua que aponta o trompete de perfil poéti-
qualidade de todo o seu trabalho. de um método de ensino do relação com a memória”. Lado a lado co de João Moreira, harmonizado com
A seguir entra a multipremiada e canto baseado na música afro- e meticulosamente cerzidos, um pia- os sombreados de piano de Ricardo
aclamada clarinetista Anat Cohen. americana. Acompanha-a o Don no decrépito, uma mesa operatória, Dias, a esse meio caminho que a eterna
No total são dez músicos em Braden Quartet. / VALDEMAR CRUZ uma casa em ruínas, uma única nota canção de Paredes fez na direção de
palco, a explorarem uma enorme de trompete, um bunker abandonado ‘Summertime’ de Gershwin, recolhendo
variedade de instrumentos, em Berlim. Antes, tinham imagina- ainda inspiração na solenidade com
como trombone, vibrafone, do uma banda sonora para Buster que Gil Evans revestiu a abordagem de
guitarra, trompete, sax barítono Keaton e inventado contrapontos Miles Davis ao “Concierto de Aranjuez”.
ou acordeão. Sob a direção de ANGRAJAZZ para música e focos de luz. Agora, Um portento de contenção e de lirismo
Oded Lev-Ari, com quem Anat Angra do Heroísmo, Terceira, fazem pensar numa Virginia Astley que prova que, afinal, esta música ficou
faz há muito uma profícua de 1 a 4 de outubro dedicada à poética da arqueologia no espírito de quem vive noutros tem-
parceria artística, o concerto www.angrajazz.com urbana. / JOÃO LISBOA pos. / RUI MIGUEL ABREU

E 66
E ainda...

DARYAN DORNELES
BERNARD-MARTINEZ

FESTIVAL IMINENTE
Matinha, Lisboa, 7 a 10 de outubro
IVO POGORELICH www.festivaliminente.com
Piano O Festival Iminente mudou de Mon-
Gulbenkian, Lisboa, domingo, 20h
santo para a Matinha, mas a filosofia
mantém-se, juntando a música urba-
Depois de uma longa ausência, Ivo na às artes plásticas, performances,
Pogorelich (Belgrado, 1958) regressa debates e cinema drive-in. No dia de
a Lisboa para um recital no Auditório abertura passam pelo evento artistas
Gulbenkian, o primeiro da série intitula- como Plutónio, DJ Ride ou Pongo,
da Pianomania que até 19 de dezembro mas nos restantes dias terão lugar
conta com as atuações de Alexandra atuações de Emir Kusturica & The No
Dovgan, Rudolf Buchbinder, David Smoking Orchestra, Dino D’Santiago,
Fray, Lucas Debarque, Javier Perianes Ana Moura, Branko, Nenny e Pedro
e Maria João Pires, estando o epílogo Mafama, entre outros.
do ciclo reservado a Arcadi Volodos.
No seu recital de junho de 1999 no
Centro Cultural de Belém, Pogorelich
abandonou o palco sem oferecer um
único ‘extra’ ao público que o aplaudiu
longamente pela interpretação das
Sonatas nº 2 e 3, mazurcas e polonaises
de Chopin. À época, era um homem de
41 anos com o cabelo grisalho muito
comprido preso num catogan, arras-
tando a perna enquanto caminhava
vagarosamente no palco em direção
ao Steinway. Com a beleza escultural,
lenta e sem retórica da “Marcha Fúne- OUT.FEST
bre”, Pogorelich parecia chegado de um Vários locais, Barreiro, 4 a 9 de outubro
www.outfest.pt
outro mundo, ascético e sombrio, lan-
çando um olhar de soslaio à assistência A 17ª edição do Out.Fest, Festival
irrequieta. No programa com duração Internacional de Música Explorató-
prevista de 60 minutos, Pogorelich traz ria do Barreiro conta no cartaz com
novamente na bagagem o repertório da nomes como João Pais Filipe, que
sua especialidade, obras de Chopin que atuará junto com o percussionista
tem revisitado ao longo de décadas: a peruano Manongo Mujica, DJ Nigga
“3ª Sonata” (opus 58), a “Fantasia em Fox, Jessica Ekomane, o gaiteiro
Fá menor” (op. 49), a “Polonaise-Fan- Vasco Alves, Still House Plants ou
tasie” em Lá bemol maior (op. 61) e a Serpente, projeto de Bruno Silva.
“Barcarolle” em Fá sustenido maior (op.
60), uma peça nostálgica que alude
ao sulcar das águas de uma gôndola FESTIVAL
veneziana. Sempre polémico pelas
JOVENS MÚSICOS
Fundação Calouste Gulbenkian,
suas excentricidades, desconstruindo
Lisboa, hoje e amanhã
as peças com uma liberdade absoluta
www.gulbenkian.pt
e um talento sem limites, o pianista
reclama-se descendente da tradição O Festival Jovens Músicos encerra
da antiga escola czarista transmitida a a 34ª edição do Prémio Jovens
várias gerações por uma mestra mítica, Músicos da Fundação Gulbenkian
‘Madame’ Nina Bletcheva, afastada do com uma série de concertos em
Conservatório de São Petersburgo pelo que participam novos e antigos
regime soviético. Pogorelich pretende laureados. Destaca-se, este sábado,
chamar a atenção do espectador para o Concerto de Gala da Orques-
cada uma das notas, como se cada uma tra Gulbenkian, dirigida por José
delas escondesse uma transcenden- Eduardo Gomes, centrado em obras
te verdade que magnanimamente se de António Pinho Vargas e João
dispõe a revelar-nos. / ANA ROCHA Caldas.
Desencontros
mães e filhos, entre amigos, entre
marido e mulher, entre patrão e
empregados... Sobre o véu, ou os
véus, que cobrem os silêncios, e
que nada deixam aclaram. Sobre o
desencontro ou os desencontros que
O silêncio e as suas derivações, numa peça se sucedem.
Do lado da plateia é possível que
a quatro mãos, que reúne Guilherme Gomes nasçam as questões: o que significa
e Cédric Orain, à sombra de Beckett o silêncio de um jovem adolescente
face às perguntas da mãe? O que
TEXTO CRISTINA MARGATO provoca o silêncio no contexto de
uma relação amorosa? É desprezo?
É ofensa? E o que se passou antes

O
Coordenação Cristina Margato silêncio estava lá desde algumas cenas, à fórmula do cadavre desse silêncio? O que quer dizer o
cmargato@expresso.impresa.pt o início. Em Guilherme exquis (um dá uma ideia, o outro silêncio do chefe? Ou, como é que o
Gomes como em Cédric escreve, o outro continua), este não silêncio do chefe leva à desmotivação
Orain. Um encontro inesperado, é um trabalho que afirma, mas que dos empregados? É o silêncio uma
no Japão, durante um festival de indiretamente questiona. Que formas poderosa forma de dar profundidade
teatro, no qual os dois dramaturgos pode o silêncio tomar? Quais os e seriedade a um ritual esotérico ou
e encenadores participaram, fê-los sentimentos que pode despertar? religioso? É o silêncio uma forma
querer trabalhar juntos; e, porque “Silêncio” não é apenas, como de dizer a quem pertence o poder?
não sobre algo que descobriram pode parecer logo na primeira cena, De dizer que não estamos em
ter em comum? O silêncio — esse sobre o silêncio que descobrimos no comunhão?
elemento tão constante no teatro de campo, quando saímos da cidade, e O silêncio, diz Guilherme Gomes,
um como no teatro do outro, como nos livramos do mesmo ruído, que foi trabalhado não apenas no texto,
logo se deram conta nas primeiras a alguns de nós agride e a outros dá mas também com os atores, como
conversas. Escrito e dirigido a quatro consolo; nem sobre a banda sonora se fosse um conflito, e ainda a partir
mãos, falado em português e em condensada que, na cidade, junta o daquilo que o antecede, como seja,
francês, “Silêncio” faz um trabalho som dos carros que passam ao dos o caso da desilusão: “Hoje, há uma
de dissecação da ideia de silêncio. aviões que cruzam o céu, abafando a expectativa de expressão constante,
A peça, estreada na sala estúdio do presença dos pássaros e disfarçando de uso da palavra, que nós também
Teatro Nacional D. Maria II, é um a agitação das folhas das árvores, e quisemos trabalhar nesta peça. E,
desdobrar contínuo, que ora nos no campo evidencia estes últimos se por um lado a palavra representa
atira numa direção ora noutra, no sons na ausência dos primeiros. ordem e poder, por outro, o silêncio
contexto de diferentes relações e Estabelecida a dicotomia campo/ pode funcionar como uma agressão,
SILÊNCIO situações. Resultado de um processo cidade, Guilherme Gomes e Cédric nomeadamente nas relações
De Cédric Orain e Guilherme Gomes de interação entre os dois artistas, Orain detêm-se com maior desvelo afetivas.”
Teatro Nacional D. Maria II, Lisboa, até dia 10 que recorreram, na construção de sobre o silêncio nas relações entre Ao longo de cerca de 12 momentos,
fragmentos teatrais, intercalados
por episódios ainda mais curtos,
que num piscar de olho nos falam
de espera, ou nos falam da espera
existencial e absurda que Samuel
Beckett eternizou, Guilherme Gomes,
João Lagarto, Marcello Urgeghe, Tânia
Alves, Teresa Coutinho vão assumindo
vários papéis. “O Beckett é o grande
dramaturgo do silêncio e da espera,
e ao insinuá-lo de modo consciente,
colando-nos a uma cena muito
próxima de ‘À Espera de Godot’,
quisemos assumir o facto de Beckett
ter estado sempre presente nas nossas
conversas e de estar presente em
nós. É quase uma forma de dizer que
Beckett passou por aqui.”
Sendo que “Silêncio” começou por
ser uma oportunidade para fazer um
ponto de situação “em relação ao
silêncio de cada um de nós”, como
sublinha Guilherme Gomes, o mais
previsível, reconhece o dramaturgo
Teresa Coutinho
português, “é que depois dele, cada
e Guilherme Gomes
FILIPE FERREIRA

numa conversa velada um de nós encare o silêncio de modo


pelos silêncios diferente nas próximas produções.”
Porque o silêncio fala, e não falará
apenas para os seus criadores. b

E 68
E ainda...

Um gajo nunca
ALÍPIO PADILHA

mais é a mesma
TUNA

À ESPERA DE GODOT
EXERCÍCIOS PARA
JOELHOS FORTES
De Samuel Beckett
TMJB — Teatro Municipal Joaquim
coisa
De Andreas Flourakis Benite, Almada, dias 2 e 3 Texto e encenação de Rodrigo Francisco
Teatro da Politécnica, Lisboa, Co-produção: ACTA • CTA
Entre a comédia clownesca e a
até dia 16
comovedora fragilidade humana, 1 a 31 de Outubro
nenhum outro texto alcança Qui. a sáb. às 21h • Qua. e dom. às 16h
Em 2013, num teatro de Atenas, Andreas a dimensão de genialidade Sala Experimental • M/16
Flourakis estreava o seu texto dramático desarmante de “À Espera de Godot”,

Memória viva
“Exercícios para Joelhos Fortes”. As suas de Samuel Beckett, já considerada
personagens debatiam-se com a ameaça a peça de teatro em língua inglesa
da extrema-direita, com a opressão de um mais importante do século XX. Compañia María del Mar Moreno
quotidiano esmagado pela austeridade Encenação do húngaro Gábor Espectáculo inserido na Mostra Espanha 2021
imposta externamente a um país (Grécia) Tompa e interpretação de João Sáb. 9 de Out. às 21h
em crise. Portugal estava então também Melo, Maria Leite, Mário Santos, Sala Principal • M/6
sobre intervenção do FMI. Carla Bolito co- Rodrigo Santos e Vicente Melo.
nhece o texto em 2018, e queria fazê-lo
imediatamente, mas isto de fazer teatro
The Legendary
FANTASMA
Tigerman
Dom. 10 de Out. às 17h
em Portugal precisa de tempo e concreti-
za-o agora. Em 2018 estava ela a fazer “A
DA ÓPERA Sala Principal • M/6
De Gaston Leroux
Arte da Fome”, a partir de três contos de
Culturgest, Lisboa, até dia 9 Av. Prof. Egas Moniz, Almada
Kafka com os quais andava às voltas desde Tel.: 21 273 93 60 | www.ctalmada.pt
2012: “Um Artista da Fome”, “Primeiro Até pode ser que a versão mais
Sofrimento” e “Josefine, a Cantora ou o conhecida de o “Fantasma da
Povo dos Ratos”. “Gostava que as pessoas Ópera” seja a do musical de Andrew
se rissem da tragédia em que estamos.” É Lloyd Webber, mas na origem está
isso que Carla Bolito procura na ence- o texto literário do francês Gaston
nação deste texto de Flourakis. A crise, Leroux. É à sua fonte original
defende, não chegou a passar. E o retrato que o encenador Bruno Bravo
que a peça desenha em cena dá sinais de e a sua companhia de teatro
que isto de viver não anda lá muito bem. Primeiros Sintomas regressa
Por causa dos cortes nos recursos huma- nesta peça teatral, sem abdicar
nos de uma empresa, em resposta à crise da dança e da música.
económica, instaura-se um problema que
é simultaneamente da esfera macro, da
sociedade, e da esfera micro, do familiar.

2 a 5 outubro 2021
O texto é construído em quadros, numa
sequência de cenas que Carla caracteriza
como “quase BD”, mas na sua encenação DIREÇÃO ARTÍSTICA DE PEDRO TEIXEIRA
AFONSO SOUSA

procurou esbater essa transição, criando CONVENTO DOS REMÉDIOS - Évora - Portugal
uma linha contínua onde tudo se confun- Conferencista Sónia Duarte Técnica Vocal Joana Nascimento
Maestros Owen Rees, Paulo Lourenço, Pedro Teixeira Pianista Nicholas McNair
de numa progressão da intensidade do
Direção do Workshop Instrumental – Fernando Pérez Valera e membros do “Ensemble La Danserye”
absurdo. A pandemia contribuiu para levar
mais longe este excesso de intromissão
de esferas, onde já não se sabe onde BRASA Ensemble Plus Ultra Ensemble “La Danserye”
De Tiago Cadete Direção David Martin (Inglaterra) e “Capella Prolationum”
começa e acaba o contexto profissional 2 outubro | 19h00 Direção Fernando Pérez Valera (Espanha)
BoCA — Biennial of Contemporary 3 outubro | 19h00
e o familiar. “Parece um pesadelo. É um
Arts, Carpintarias de São Lázaro, Concerto de Encerramento
estado extremo em que já ninguém sabe 5 outubro | 17h00
Lisboa, dias 14 a 17
o que está a fazer, que trabalho é este.” Coro Polifónico “Eborae Mvsica” Coro dos Participantes Grupo Instrumental
Direção Eduardo Martins Direção Owen Rees, Paulo Lourença e Pedro Teixeira Direção Fernando Pérez Valera
Atriz, encenadora e ativista pelos direitos Nos últimos anos, Tiago Cadete
CONCERTO FRONTEIRA IGREJA MATRIZ (a confirmar)
dos artistas e de uma sociedade mais jus- tem investigado as relações
ta, o carácter de alerta sobre um modelo históricas entre Portugal e o Brasil Ensemble Plus Ultra
3 outubro | 21h00 | Direção David Martin (Inglaterra)
capitalista em colapso que também está nas suas peças de teatro, sempre
contido no texto mobilizou-a. Mas por numa perspetiva crítica. Desta XXIII INTERNATIONAL WORKSHOP
entre o grotesco e o dramático do quotidi- vez, em “Brasa”, regressa ao tema Manuel Cardoso born in Fronteira
ano contido nesta peça, Carla gostava que com interrogações: quem são
Uso de máscara obrigatório. Reserva antecipada de bilhetes para os concertos através de eboraemusica@gmail.com
as pessoas se rissem. Por isso, espera que os novos migrantes brasileiros e
Apartado 2126, 7001-901 Évora Tel. 266 746 750 eboraemusica.pt eboraemusica@gmail.com
“Exercícios para Joelhos Fortes” seja uma portugueses? Que desejos têm ORGANIZAÇÃO ENTIDADE FINANCIADA CO-ORGANIZAÇÃO APOIOS

comédia. / CLAUDIA GALHÓS quando decidem migrar? PARÓQUIA


DE
FRONTEIRA
e@expresso.impresa.pt

Fernão Cruz é um
lisboeta de 25 anos e as
obras que aqui apresenta
foram pensadas de raiz

PEDRO PINA
para este espaço

D
epois de todos os regressos significado simbólico. Inaugurada no perceção, imagens fendidas ou

O e desaparecimentos, não
é estranho que alguma da
melhor arte que se faz entre nós,
no momento, o seja nos campos
mesmo dia que uma exposição em
torno de desenhos de Boticelli para a
“Divina Comédia” de Dante, “Morder
o Pó” é atravessada pelo tema mais
trocadilhos verbais que podem
gerar uma blague ou um curto-
circuito semântico ou emocional.
O resultado é em geral enigmático,

fundo estabelecidos da escultura e da


pintura. Mais surpreendente, é que
um dos seus protagonistas mais
antigo e mais contemporâneo de
todos: a vida, a morte, a passagem,
a queda, mas nada disso assume
mas possui a capacidade de gerar
uma associação na cabeça do
observador, seja por analogia,

eo estimulantes o faça em ambos os


campos aos 25 anos, com uma
consistência que afasta de imediato
aqui qualquer grandiloquência.
Bem pelo contrário, o tom é sempre
menor, contingentemente humano,
contradição ou surpresa.
Quase surreal, a pintura funciona
com frequência numa sucessão

topo
o paternalista epíteto de “artista tendencialmente autobiográfico e de camadas ou planos que se
jovem”. isso vê-se na natureza das imagens, atravessam como em “A gruta e
“Quarto Blindado”, a exposição nos materiais utilizados nas o espião”, “Ou regresso a casa”;
que Fernão Cruz (Lisboa, 1995) esculturas (a madeira, o gesso, o isolam cenas só parcialmente vistas
apresentou no CIAJG em abril, já cartão) e na técnica rude mas segura como naquela em que duas mãos
dava indicações de uma capacidade que erige uma pintura espessa e partem uma cana ou na que se vê
As pinturas invulgar de manipular um
imaginário omnívoro com uma
crespada.
Cruz gera, sobretudo, imagens
apenas a luz de um clarão sobre o
alcatrão da estrada. Tudo isso se
e esculturas mistura de humor e drama que perplexas que podem ter um sentido passa quase sempre ao nível raso
encontrava uma parte importante trágico como a pintura que dá tom do quotidiano, das escovas de
de Fernão Cruz da sua capacidade de convocação à exposição, que mostra uma figura dentes, das canecas, das cadeiras,
transportam na hábil encenação da escultura
no espaço. Nada nos preparava,
humana a “Cair em palco” diante de
uma plateia vazia; a escultura que
mas os objetos parecem bailar
permanentemente entre uma
imagens no entanto, para a sua mais funciona como uma lápide onde se materialidade vincada e a sua
recente apresentação na Fundação lê “Look down and think of me”, dissolução, entre a comicidade e
surpreendentes Gulbenkian, sob curadoria de ou o grupo escultórico no qual uma o pathos, entre a vulnerabilidade
que lidam com Leonor Nazaré, composta por
um conjunto de dez pinturas
ave de rapina desapossa um homem
do seu casaco; mas também quase
humana e um fugidio mais além tão
incerto como atraente. b
a queda e a morte e 20 esculturas, todas criadas cómico como a coroa de “papelão”
propositadamente para a exposição. que encima o seu nome e ano
TEXTO CELSO MARTINS Mais uma vez, a relação das obras de nascimento. Em nenhum dos
com o espaço é importante, com casos, porém, há uma “mensagem”
a montagem a estabelecer uma ou uma narrativa clara. Com QQQQQ
correspondência entre uma sala frequência, tanto as pinturas como MORDER O PÓ
inicial onde vemos pintura e a outra as esculturas isolam pequenos Fernão Cruz
povoada de esculturas, mediadas por teatros que remetem para condições Museu Calouste Gulbenkian, Lisboa,
um corredor escuro que assume um autobiográficas, para entorses de até 17 de janeiro de 2022

E 70
E ainda...

WE ARE FAMILY
Vários Artistas
Sociedade Nacional de Belas-Artes,
QQQQ Lisboa, até dia 21
LOCUS Com curadoria de Pedro Berástegui,
Gil Heitor Cortesão esta exposição apresenta obras de
Galeria Pedro Cera, Lisboa, até dia 30 Luis Cobelo, Kovi Konowiecki, Bha-
rat Sikka, Elena Anosova, Andrea
Locus? De que lugar nos fala esta Gjestvang, Lionel Jusseret e Juan
exposição? Do lugar da pintura ou do Valbuena.
lugar da ilusão? Do lugar da imagem
ou do lugar do informe? A exposição
começa e acaba com o que podería-
mos entender como uma homenagem
à pintura naturalista entre uma árvore
e uma pedra, passa por duas imagens
de casas, comuns no trabalho do pintor,
e mergulha na singularidade de um
tríptico que reproduz, invertidas, parte
de duas páginas contíguas de um livro
aberto, aumentando a nossa incerteza
na leitura e entendimento da imagem
que (ainda) lá mora. A pintura de Gil ARTE XÁVEGA
Heitor Cortesão é executada ao con- Hugo Ribeiro
Fórum de Arte e Cultura de Espinho,
trário do que é habitual, num suporte
até dia 30
transparente que não vemos mas que
está presente, que não admite sobre- É um projeto fotográfico que acom-
posições ou pentimenti visíveis, salvo panhou ao longo de dois meses de
algumas marcas da fixação da matéria, 2020, em 17 sessões, os pescadores
o que dá às suas pinturas a aparência de de um tipo de pesca artesanal em
terem sofrido uma transposição, i.e., um vias de extinção, conhecida por arte
processo de mudança de um suporte xávega.
para outro em que a sua superfície é,
primeiro, colada pela face a um suporte
provisório antes da transferência para
um suporte mais estável. Este processo
gera uma indefinição que só ajuda ao
tratamento que o pintor dá à imagem.
Em Gil Heitor Cortesão, a imagem
nunca é imediata, e a sua verdade é
a verdade do artifício que a constrói
depois de várias mediações e interme-
diários; aliás, o ponto de partida é, em
muitos casos, uma imagem impressa
que permanece escondida nas versões PAPERWORKS (SEE/SEA)
neonaturalistas da natureza, mas que Maija Annikki Savolainen
Arquivo Municipal de Lisboa,
melhor se pode observar no livro aberto
até 28 de janeiro de 2022
onde a forma do informe vai dominando
o que resta da leitura inicial. Pode haver Exposição integrada na 3ª edição
— e tem havido — um consumo amável do Festival Imago Lisboa, é uma
das imagens reconstruídas que o pintor investigação cujo tema é a luz. São
nos propõe. Porém, “Locus”, esse lugar imagens feitas com uma folha A4
da pintura nascendo continuamente branca dobrada, colocada sob luz
sob e não sobre o suporte, é o lugar da direta do sol em diferentes horários
ilusão consciente, da dúvida e da inde- do dia e do ano. Ao olhar a imagem
finição: esse é o seu maior valor. com alguma distância, é possível ver
/ JOSÉ LUÍS PORFÍRIO uma linha do horizonte.
O MITO LÓGICO

O FIM DA PASTILHA ELÁSTICA

É
QUAL SEX APPEAL OU REBELDIA. MASCAR CHUINGA É CHUNGA.
MAS POR CONSCIÊNCIA AMBIENTAL OU TOTAL ALIENAÇÃO?

costume dizer, porque sim, que as coisas quando a pastilha elástica foi proibida em Singapura em 92. Achei um
cool da moda vão e voltam. Ciclicamente. horror. E foi. Têm sempre 30 anos de avanço sobre o resto do mundo
Algumas. Não todas. Felizmente. Lembro- nestas coisas. Só que impõem as normas com chibatadas para ser
me como no meu Liceu, estudantes mais rápida a interiorização das mesmas. Depois veio a consciência
do 9º ou 10º, fumávamos às claras nos do que acontecia às pastilhas depois de mascadas, atiradas para o
corredores com ar de grandes senhores chão, para os canos, para o oceano. Um desastre ambiental cuspido.
e senhoras. Putos de 14, 15 anos que E as pastilhas vieram sem açúcar, sem aditivos, com propriedade
podiam sacar do seu SG Ventil e fazer medicinais. Mas o primeiro mundo estava cada vez mais orgânico,
estalar o Zippo assim que acabava a mais verde, mais abacate. Para depois mastigar um pedaço plástico
aula. Frente aos professores e contínuos. com produtos artificiais?
Não havia nada de proibido naquilo. Só Os defensores da pastilha vão buscar as mil e uma histórias de
duas décadas depois, e muito milhares como todas as civilizações mascaram sempre qualquer nheca. Mas a
(milhões) de cigarros fumados, achei pastilha moderna surgiu, nos meados do século XIX, como substituto
tudo aquilo ridículo. Que estava a fazer ao falhado de borracha. E alguém lhe juntou sabor. Como tantas outras
chupar fumo negro nojento para dentro coisas — das DST à Coca-Cola — foram os soldados americanos da II
de mim? Para quê é que estava, de forma Guerra que a espalharam pelo mundo. Nos anos 60 foi introduzida
voluntária, a emporcalhar os pulmões com uma série de produtos uma borracha sintética mais barata. Hoje, cada marca tem o seu
cancerígenos, alcatrão e outras imundices? Para ter estilo? Para beber segredo, mas a estrutura molecular é muito similar aos plásticos
o café? Para acordar? Por uma mera questão de vício? Consegui e às borrachas. As gerações Zs, Woke franziram o nariz a mastigar
deixar de fumar com relativa facilidade. Nada dos horrores que por um derivado plástico, exatamente o que está a sufocar os oceanos.
aí falavam. E felizmente antes de chegar o proibicionismo a Portugal, Estamos a complicar. O sociólogo francês Gerald Bronner, na sua
onde assisti a ondas de indignação. Previamente já tinha sido interdito obra “Apocalypse Cognitive”, coloca outra hipótese. Durante a covid,
fumar nos aviões. Como seria possível fazer uma viagem transatlântica as marcas não tiveram onde expor o produto, pelo que se acentuou
sem fumar? E agora nos restaurantes? Guetos! Nos carros? Era o que a quebra da relação entre os jovens e as pastilhas. Mas a razão do
faltava. Hoje, quando olho para as ruas reparo que já não há gente a declínio das pastilhas elásticas tem mais a ver com o facto de os
andar e a fumar — sim, era banal e parvo — e que nas esplanadas são jovens estarem com os olhos sempre fixados nos ecrãs na passagem
muito mais os que não fumam dos que os que o fazem. Que um não pelas caixas do supermercado, o momento em que as marcas faziam o
fumador, como disse Macário Correia há 30 anos e foi martirizado pelo seu pitch: “Ah e dê aí umas pastilhas.” Nesse instante crucial está tudo
“Independente”, quando beija um fumador(a) é como estar a lamber a olhar para o ecrã do telemóvel. O que leva a uma conclusão menos
um cinzeiro. Percebia de beijos e penou por ter sido um visionário. empolgante. Os jovens abandonaram a pastilha porque estavam
A vida à nossa volta muda e estamos desatentos. Em 15 anos o agarrados ao telemóvel e nem as viram. O que leva à triste conclusão
cigarro desapareceu do espaço público sem grande drama. Embora de que a consciência social e ambiental pode não passar afinal de
com estigmatização dos fumadores “resistentes”. Cada vez mais distração total pelo que se está a passar à volta. Tão alienados que
encurralados. E mudamos. Há 15 anos diríamos que isto agora era uma nem se tem disponibilidade mental para comprar, mastigar e cuspir
distopia ditatorial higienizante em que os fumadores são perseguidos uma pastilha feita de lá do que é que elas são feitas. b
sem clemência. E agora que estamos aqui não é assim tão dramático. lpnunesxxx@gmail.com
Sente-se o cheiro encardido e a alma amarelada de um fumador.
Namorar uma fumadora? Hummm.
Olha-se para treinadores de futebol a mascar pastilha elástica de boca
aberta e há qualquer coisa que já não bate certo. A chuinga é chunga.
E de repente percebe-se que a pastilha elástica já é daquelas coisas
que passou para os antípodas do cool para o “nojento-absurdo”.
Que sentido faz estar horas a ruminar um bocado de plástico feito
com derivados de petróleo? Durante décadas, “mascar pastilha foi
um símbolo de rebeldia, sinónimo de angst juvenil com uma aura
de arrojo e ousadia e sex appeal”, diz a “Economist”, que refletiu
sobre isto. Mas acabou. A era das estrelas de rock a mastigar chicla
/ LUÍS
enquanto faziam um solo, ou os estudantes de liceu com atitude, o PEDRO
moço mauzão a mascar em pintas, ela a fazer um balão sexy: pop!
Acabou. Em 2004, uma pastilha mastigada pela Britney Spears foi
NUNES
leiloada no eBay por mais de 15 mil euros. No set do filme “Grease”
(1978) foram “consumidas 100 mil peças de pastilha elástica”. Foi o
estertor.
Em Portugal, antes da pandemia, os números já estavam em queda
livre. Em oito anos tinham caído mais de 35 por cento. Lembro-me

E 72
vícios
“PESSOAS SEM VÍCIOS TÊM POUCAS VIRTUDES”

Regresso à ilha
Viagem ao lugar onde as paisagens idílicas se cruzam
com a riqueza da história. São Tomé é uma verdadeira
explosão de cores e sabores
TEXTO ANA PAULA ALMEIDA EM SÃO TOMÉ E PRÍNCIPE
FOTOGRAFIAS JOÃO CARLOS SANTOS

E 73
A A viagem é uma
inda há roças no coração da floresta onde o Papa-Figos (“Barriga de peixe andala”, “cherne
se continua a desbravar o café e o cacau. E à São Tomé” ou “Bife com chocolate”), o Omâli, a
gente que vive apenas do que cultiva e do verdadeira Dona Teté, O Pirata (com o seu maravilhoso “Arroz
que o mar lhes dá. De São Tomé ou se gosta muito
ou se adora. É quase impossível não ficar rendido
aventura. da terra”) ou a Petisqueira Santola, nas Neves. Os
melhores vinhos, importados, são mais caros; e o
aos encantos das pessoas primeiro e do território Recomenda-se mesmo acontece com as cervejas — embora a Rose-
logo a seguir. É um verdadeiro paraíso na Terra, ma, marca nacional, desafie a resistência dos apreci-
marcado por paisagens incríveis, cenários selva- roupa fresca e adores mais fortes. O chá de chalela, com erva-prín-
gens, praias de areia branca beijadas por coquei- confortável, sem cipe, ou de abacateiro e goiabeira, valem uma prova,
ros e banhadas por águas ora verde esmeralda ora acompanhados com um doce de coco. Já o salão de
azul turquesa, cercadas por rochas pretas vulcâni- esquecer uns chá Diogo Vaz, antecâmara citadina do que pode ver
cas. Mas não pense em São Tomé como mais uma
ilha em que se vai passar uns dias sem nada para
ténis. Para partir e saborear na roça com o mesmo nome, é o lugar re-
comendado para provar gelados artesanais, chocola-
fazer, com o pé na água e na mão uma água de coco. à descoberta, tes variados — com diferentes texturas e intensida-
Visite-se a Boca do Inferno, percorram-se algu- des de cacau, com malagueta, com ervas, amêndoas,
mas das picadas mais bonitas de África, veja o Pa- é obrigatório pepitas de amendoins — ou grãos de café envolvidos
drão dos Descobrimentos — a recordar a descober-
ta do arquipélago entre 1470 e 1471 por navegadores
o aluguer de um em cacau, caramelo com baunilha ou salgado... Caso
apeteça um sumo de cana de açúcar, com limão ou
portugueses. No Forte de São Sebastião, o Museu jipe resistente gengibre, há um quiosque próximo do tribunal, no
Nacional — onde se esconde a verdadeira histó-
ria do arquipélago, sem esquecer a escravatura e o
com tração centro, que o faz no momento.

Massacre de Batepá, que, em 1956, provocou cen- às quatro rodas ILHA DAS TRÊS ESTRADAS
tenas de mortos — vale a visita. E na Roça da Sau- Conhecer São Tomé a fundo não é difícil, basta um
dade está a casa que viu nascer Almada Negreiros, mapa e seguir as indicações: tem apenas três estra-
em 1893, onde se encontra algum espólio do eclé- das nacionais principais, que não se ligam. A Nor-
tico artista (além de um restaurante com uma vis- te fica a antiga Roça do Ouro, a de Agostinho Neto,
ta soberba). Se gostar de Fortalezas ainda há a de com os carris dos caminhos de ferro a recordar
Santo António, São Jerónimo e São José. tempos bastante movimentados. As visitas às roças
Na cidade, o Mercado Antigo Bobo Forro é uma servem para recordar as clareiras que rasgavam na
explosão de cores e sabores que devem ser reconhe- floresta para exploração agrícola e onde se erguiam,
cidos logo de início, como a Flor de Mosquito, a Ge- além da casa principal, as sanzalas dos trabalhado-
leia de Malagueta, a banana seca, batatas de fruta- res, às vezes um hospital, uma igreja e uma escola.
-pão, gengibre cristalizado, matabala, peixes e frutas As melhores praias daquela zona serão talvez a dos
tropicais, entre uma panóplia de outros produtos. Tamarinos, a do Governador e a famosa Lagoa Azul.
Para se inteirar em pleno de toda a experiência gas- É a norte que encontramos o Mucumbli, um re-
tronómica, sem riscos, sugerimos restaurantes como sort italiano, com vistas panorâmicas sobre o oceano

E 74
A Lagoa Azul (na primeira fotografia, à
esquerda) é um dos ex-líbris da ilha. No
coração da floresta, onde se continua a
desbravar o café e o cacau, as roças
(na segunda imagem) ajudam a contar
a história de São Tomé e Príncipe

Atlântico: são 10 bungalows confortáveis e uma co-


zinha de fazer crescer água na boca. Por um punha-
do de dobras, a moeda local, deguste uma “Massa
de santola”, “Bolinhos de gimbôa” ou um “Caril de
gambas” e só depois parta de novo para outras des-
cobertas — como a Roça Diogo Vaz, onde o cacau é
rei. Não muito distante do Padrão dos Descobrimen-
tos está o Túnel de Santa Catarina. Sigamos a rota,
marcada aqui e ali por cascatas borbulhantes de um
lado, como a da Nazaré. Ou um sem-fim de palmei-
ras que parecem querer mergulhar no mar.
A caminho do sul, a Roça de Angolares é para-
gem obrigatória. Tem seis quartos disponíveis se lá
quiser pernoitar, para melhor apreciar o ambiente
da roça e a galeria de arte. Deve fazer reserva pré-
via, sobretudo para o almoço de degustação (que
custa 25 euros por pessoa). O anfitrião é o chefe
João Carlos Silva, o Kalú do antigo programa tele-
visivo “Na Roça com os Tachos”, e fornece uma de-
talhada explicação de cada um dos diversos pratos,
ao longo de uma experiência gastronómica de luxo.
Os pratos são vários, como “Flor amarela”, “Peixe
fumado com erva-príncipe e bolo de mandioca”,
entre outros, das entradas às sobremesas. E fica-se
a conhecer os alegados poderes afrodisíacos das
folhas de micocó...

2 out.
6 nov. um novo conceito
de mercado de arte

4 dez. que aproxima e promove


o diálogo entre
os artistas e o público

1.os sábados de cada mês


das 11h às 19h
no parque de estacionamento
do Prata Riverside Village
Lisboa
entrada livre
plataforma@plaarte.org
http://plaarte.org/
www.instagram.com/pla_arte/ uma parceria
https://www.facebook.com/plaarte
Com uma forte ligação ao mar, São Tomé é também um
lugar de lendas, como a que se conta sobre a Boca do
Inferno (à direita). Quem mergulhar sem medo naquelas
rochas escuras arrisca-se a desembarcar no lugar
homónimo em Cascais

De seguida, pode fazer um passeio de barco no Nada nos prepara para o paraíso de areias dou-
rio Malanza (€10), para ver os mangais. Também radas com águas cálidas e cristalinas que nos aca-
TOME NOTA
nos arredores, fica a Boca do Inferno, sob o man- riciam os pés, assentes em conchas, búzios e pedri- Como ir
to de uma lenda que faz sorrir: diz-se que quem nhas coralinas, sob os coqueiros altíssimos. Com o A STP Airways tem voos diretos, sem
mergulhar sem medo para o meio daquelas rochas ilhéu das Rolas à frente dos nossos olhos extasia- escala, com seis horas de duração. A TAP
escuras entre ondas violentas se arrisca a desem- dos apercebemo-nos estar diante de um dos des- também voa para São Tomé, com escala no
barcar na homónima Boca do Inferno do Guincho, tinos mais fascinantes do continente africano. Fica Gana. Não é necessário visto para viagens
em Cascais — tal como terá acontecido ao antigo a 15 minutos de barco, a travessia custa 10 euros e é com duração inferior a 15 dias.
governador, montado no seu cavalo. Também aí como ir ao paraíso. Basta pisar a Praia Café. Apre-
fica a Roça Água Izé, uma das mais antigas. As ro- cie-se o artesanato local e faça-se a incontornável Onde ficar
ças chegaram no século XIX e estão quase todas em passagem da Linha do Equador. Vá com tempo para A oferta hoteleira não é muito variada.
ruínas, mas algumas, como a Monte Café, foram re- desfrutar da vista, divertir-se a “saltitar” do He- O Pestana, com infinity pool sobre o mar,
continua a ser a melhor opção para uma
novadas e ainda funcionam. Quase todas mantêm misfério Norte para o Hemisfério Sul, tirar fotogra-
estadia na capital de São Tomé. Na ilha,
vestígios da grandiosidade dos edifícios e algumas fias ao Marco do Equador, que ali está desde 1936.
destaque para o resort italiano Mucumbli
das memórias dos escravos a prazo, sem contrato, Na linha, que atravessa outros 12 países, tem sob os
(nas Neves), com vista oceânica, e para
oriundos de Angola, São Tomé, Cabo Verde e Serra pés um mapa de mosaicos que parece um tesouro o os bungalows de madeira do Ecolodge
Leoa, que ali sobreviviam em espaços que servem acabado de descobrir. (no Inhame). Há roças, como a Roça de
agora de abrigo a quem não tem teto. De volta ao Inhame, ali fica um Ecolodge com Angolares, com quartos disponíveis para
bungalows de madeira que são um must, quase so- hóspedes.
DESCOBRIR COM LIBERDADE TOTAL bre as ternas ondas do mar sobre areia fina. Apro-
A viagem é uma verdadeira aventura. Vá de espíri- priadas para espíritos românticos, ou para usufru- Restrições
to animado e mente aberta para sensações únicas. ir com família e amigos, as cabanas têm tipologias A apresentação de um teste à covid-19,
Recomenda-se roupa fresca e confortável, sem es- diferentes (a partir de €80/noite). Talvez tenha a feito antes de viajar, é obrigatória. O
quecer uns ténis. Para partir à descoberta, é obriga- sorte de ver as tartarugas a desovar na praia. Ago- mesmo é repetido antes do regresso. O
tório o aluguer de um jipe resistente com tração às ra são uma espécie protegida, após o interesse ex- procedimento implica a estada por dois
quatro rodas (por €50/dia). Se quiser ir escapando cessivo, que quase as dizimou, por quem fazia joi- dias na cidade, para efetuar o teste PCR
e avançando na picada, que só vai piorar, não acei- as e outros apetrechos com as suas carapaças. No e aguardar o resultado. Aconselha-se
te outro tipo de veículo. Só assim chegará às praias restaurante servem-se santolas, bebe-se cerveja a profilaxia da malária e um seguro de
do Inhame, da Piscina e Jalé. Por outros motivos, ou sumos naturais, aprecia-se uma noite de dan- saúde ou de viagem. O anti-histamínico
e o repelente de mosquitos são
fica a saber porque o km 52 é quase tão desejado e ça tradicional.
recomendados.
conhecido como a Route 66 nos EUA. Não muito distante destaca-se com imponên-
À chegada ao Inhame esquecem-se os saltos e cia o Pico Cão Grande, estrutura de origem vul- Quando visitar
os sobressaltos da condução quase sempre solitária, cânica, que se ergue a 663 metros acima do nível O clima é equatorial e tropical, de outubro
com curvas, contracurvas e zonas íngremes, onde do mar. E não se pode ignorar a beleza do Parque a maio há mais calor e mais chuva, de junho
já chegou a haver alcatrão, entre plantações maci- Natural Ôbo, com uma vegetação quase sufocan- a setembro é altura da gravana, assim
ças de óleo de palma e outros arvoredos densos de te e um Jardim Botânico... São Tomé tem 50 km de chamam ao tempo seco e ao vento que
um verde luxuriante. Amiúde vemos motociclistas comprimento e 30 de largura, enquanto o Príncipe assobia entre as altas palmeiras.
que transportam tudo o que podem nas duas rodas tem apenas 30 km de comprimento e seis de lar-
(até um porco pujante e um peixe enorme vimos gura. Mas nunca o que parece tão pouco é, para- Conselhos úteis
em cima de motos com duas e às vezes três pes- doxalmente, tão irresistível, com a multiplicidade Leve dinheiro em numerário, há poucos
soas). Também pode ir de barco da Cidade de São de microclimas, conforme a chuva, a localização e ATM e os euros são aceites. A mendicidade
Tomé até ao Inhame, mas a atribulada viagem por a temperatura, que varia consoante a altitude e o é uma realidade no país, pelo que se
“estrada” é um desafio que é parte integrante das relevo... a savana a norte e vários distritos que con- recomenda a compra de algum material
boas memórias. trastam entre si. b escolar para oferecer aos mais jovens.

E 76
R ECE I TA
POR JOÃO RODRIGUES
(PROJECTO MATÉRIA)

Alface-do-mar
e alface grelhada
Tempo de preparação 20 minutos | Tempo de confeção 5 minutos
PRODUTOS
INGREDIENTES Cortar as alfaces ao meio, temperar finas, sumo de lima, sal, raspa de
& PRODUTORES
50 g de alga alface-do-mar com sal e um fio de azeite. Grelhar lima e azeite.
fresca Algaplus / 2 alfaces as alfaces até que fiquem bem Cortar as echalotas em finas fatias. Algaplus
cogolho / 2 echalotas / 2 caramelizadas. Reservar. Servir a alface-do-mar temperada por O sistema de cultivo de ma-
talos de coentros / 1 lima Temperar a alface-do-mar com os cima da alface grelhada e terminar croalgas marinhas da Algaplus
/ 1 dl de azeite / sal q.b.
talos de coentros cortados em fatias com as rodelas de echalota. b foi desenvolvido em 2012,
tem certificação biológica e é
pioneiro na Europa. Inclui uma
maternidade para a erva-
-patinha e a produção de sete
espécies de algas autóctones
da nossa costa, estando, por
essa razão, perfeitamen-
te adaptadas às condições
climáticas e à água dos tanques
onde se encontram, a qual é
renovada naturalmente através
dos ciclos das marés. Além do
laboratório, com uma área de
600 m2, desde março de 2018
que a Algaplus é responsável
pela exploração da proprieda-
de de 14 hectares localizados
numa zona da Rede Natura
2000 da Ria de Aveiro, no
concelho de Ílhavo. Alface-do-
-mar (Ulva rígida), musgo-
-irlandês (Chondrus crispus),
botelho-comprido — ou dulse
(Palmaria palmata), como é
conhecida internacionalmente
—, cabelo-de-velha ou ogonori
(Gracilaria gracilis), fava-do-
-mar (Fucus vesiculosus) e
chorão-do-mar (Codium
tomentosum) são algumas das
espécies de algas comestíveis
que fazem parte do portefólio
da Algaplus e estão disponíveis
para venda em lojas de pro-
dutos biológicos, entre outros
pontos de retalho e online no
site da Algaplus.

PROJECTO MATÉRIA
É um projeto sem fins lucrativos,
desenvolvido pelo chefe
João Rodrigues, que pretende
promover os produtores
nacionais com boas práticas
agrícolas e produção animal
TIAGO MIRANDA

em respeito pela natureza


e meio ambiente, enquanto
elementos fundamentais
da cultura portuguesa.
Ler mais em projectomateria.pt

E 78
R ESTAU RAN T ES
POR FORTUNATO DA CÂMARA

Senhora Gastrotasca que parecia levar um toque de man-


teiga. Noutro patamar veio o “Arroz
de carabineiro” (€36), com o fantásti-
ACEPIPE
Arredado de turistas e a cativar clientela local, co bago de carolino a abrir menos que
no de lingueirão, pelo cremoso caldo
O som
o Cacué mostra a nossa boa cozinha como ela é ocre e pleno de sabor às cabeças dos afiado da
crustáceos, que o envolvia. Ao pousar
o tacho foi-nos dito para aguardar 2
mandolina
minutos a fim de deixar cozer os ca- Estamos no Dia Mundial
rabineiros. O arroz havia sido colocado da Música. A perceção de
uma refeição consoante
sobre quatro metades de carabineiro,
as melodias de fundo que
duas de calibre médio e as outras de a acompanham é uma das
calibre pequeno, que se deixaram co- ligações entre música e
zer com o calor residual ficando ten- cozinha. Outra é a mando-
ras e sem perdas de sabor. Impecá- lina, um utensílio profissio-
vel. Um prato de dia de almoço foi o nal que serve para cortar
“Pernil assado no forno” (€9,50) com legumes em diferentes
o lacão sem pele e saboroso, mas que tamanhos e espessuras.
Há versões caseiras com a
podia estar mais tenro, que é o que se
mesma finalidade, e durante
pede a um pernil. As batatas fritas aos muitos e muitos anos era
palitos foram parceiras de primeira. E apenas uma tábua com duas
aparecerem de novo num jantar inti- lâminas diagonais em ferro,
RICARDO LOPES

mista junto ao brilhante “Bife à Mar- ligeiramente sobrepostas,


rare” (€21), grande homenagem a este com afastamento regulado
clássico lisboeta, mas a ser um corte entre elas. A mandolina
de lombo, magnífico no sabor e sem foi inspirada no bandolim,
um instrumento de cordas
maturações, ou seja, boa matéria-pri-
que ficou na Europa após o

A
velha máxima de que só exis- pode ser pronunciada com facilidade ma que não admite disfarces. Muito período árabe. O movi-
tem dois tipos de cozinha ‘a por muitos idiomas, mas os clientes bom o “Pastelão de perdiz” (€16,50) mento de tocar o bandolim
boa’ e ‘a má’, custa por vezes a que acorrem à pequena sala rebaixada com a forma de um rissol gigante de é semelhante ao mesmo
entrar na cabeça de algumas pessoas são mais habitués de hora de almoço massa tenra repleto de um belíssimo gesto vaivém para laminar
que avaliam logo um restaurante pela e repetentes contentos que voltam ao estufado de perdiz, salada de agrião e legumes na mandolina.
coluna da direita do menu. O preço — jantar. O ambiente fica a média luz, rabanetes, e um molho de truz. Vivaldi tem concertos para
bandolim e em Nápoles o
e sou dos poucos que insistem neste as cadeiras são confortáveis e as me- O serviço é simpático e às vezes
instrumento é um símbolo
ponto — é um fator muito relevante sas espaçosas. Parte da carta parece ti- um pouco tenso do chefe e anfitrião cultural.
para se fazer um juízo acerca de um rada de uma centena de restaurantes João Saudade e Silva, que se desdobra Em meados dos anos 50,
lugar. E ‘a boa’ cozinha revela-se pelo que existem ou já existiram em Lis- entre a sala e a cozinha. Nos vinhos o francês Jean Bron criou
preço que nos é pedido em troca do boa. O rigor na escolha dos produtos há boas opções a copo para não fazer uma mandolina em aço
que nos foi proposto e servido. A qua- e a técnica de cada receita parecem ser subir a conta. A doçaria é toda casei- inoxidável que revolucionou
lidade dos produtos e a aplicação cor- a diferença. ra, com o semifrio de “Cheesecake as cozinhas profissionais do
reta e adequada das técnicas de confe- Abriu-se com três salgados fri- de mirtilos” (€5) sem falhas e com mundo inteiro. A chamada
“mandolina francesa” faz
ção encabeçam a maior percentagem tos na hora com o “Rissol de berbi- a compota da baga acídula em bom
diferentes cortes (chips,
de avaliação de um restaurante. Daqui gão” (€2,50) recheado com um sa- contraste. Imaculado o “Pudim Aba- juliana, dados, etc.), tem um
sai a localização, que pode fazer durar bor que remetia para umas amêijoas de de Priscos” (€5) de fatia firme, sem tripé de apoio, e um suporte
(muito) ou fazer desaparecer a melhor à Bulhão Pato, o “Pastel de língua de rachas, mas com alguma elasticida- para segurar os alimentos
das cozinhas. A complementar vem o vaca” (€2,50) trazia a mesma massa de e a untuosidade devida. A “Mous- evitando cortes. A poderosa
espaço e ambiente, o serviço, a lista tenra por fora, e bem estaladiça, mas se de chocolate” (€2,50) surgiu como lâmina cortante é o segredo
de vinhos, etc. Isto numa equação ca- no âmago um desfiado de língua estu- se fosse uma colherada no prato, mas das boas mandolinas. Pare-
nónica, pois há clientes que valorizam fada, com a sua suave textura afiam- das boas. ce que o Sr. Bron se inspirou
nas quatro cordas de aço de
mais uns aspetos que outros. brada a não desiludir os apreciadores. Não é uma colherada, mas uma
alguns bandolins clássicos,
Recuado numa transversal da Av. O “Croquete de rabo de boi” (€2,50) bela pedrada no charco de como se faz para criar vários tipos de
Fontes Pereira de Melo, abriu em 2018 eram bolinhas de um recheio cremoso cozinha portuguesa sem voltinhas ou lâminas em aço. Depois há
o Cacué, expressão de dialeto com e sabor vibrante à carne bovina, apoi- com atalhos, apenas produto e técnica a “mandolina japonesa”,
conotações pouco claras. Na realida- ados sobre boa mostarda. — que tem que ser paga — e rigor em mais estreita e prática de
de, a fonia da palavra até é universal e Nos pratos, o desfile começou com fazer o que é conhecido na sua versão manusear, e que permite fa-
“Arroz de lingueirão” (€15,50), bago melhor. Vir ao Cacué é perceber que zer lamelas de legumes tipo
médio cremoso a absorver todos os há público para amar a boa cozinha ‘folha de papel vegetal’.
sucos do caldo, e um punhado gene- portuguesa tal como ela é. b
CACUÉ roso de bivalves a enriquecer ainda
Rua Tomás Ribeiro, 93C — Lisboa mais esta bela versão de um clássico Desde 1976, a crítica gastronómica
Telefone: 216 082 990. Esplanada: Sim algarvio, aqui com os pedacinhos de do Expresso é feita a partir de visitas
Encerra sábado ao almoço e ao domingo tomate fresco adicionados na parte fi- anónimas, sendo pagas pelo jornal
nal para darem frescura ao conjunto, todas as refeições e deslocações

E 79
VI N H OS
POR JOÃO PAULO MARTINS

RUI DUARTE SILVA


O Douro a mostrar alguns dos seus luxos
Grandes tintos, altos preços

O
s vinhos que selecionei esta semana têm euros, essa caminhada não só não é rápida de fa- os Açores alguma vez foram terra de vinhos ca-
duas características em comum: são do zer como não é acessível a todos. Ao consumidor ros. Só podemos desejar que estas apostas vin-
Douro e são caros. Se comparados com assiste sempre a razão quando pergunta: mas guem mas, e voltamos atrás, as limitadíssimas
o preço médio a que o português compra os vi- que culpa tenho eu que só tenha feito 500 gar- quantidades iludem a realidade.
nhos na grande superfície, então, não são caros, rafas e que, por via disso, esteja a vender o vinho Fica ainda outra questão por responder: es-
são produtos de ourivesaria. A discussão sobre caríssimo? Como diria o saudoso António Silva, tes vinhos em prova cega, aí algures no mundo,
os preços tem sempre um lado académico: se se “quem não tem condições, não se estabelece”. fariam boa figura com “tubarões” de créditos
vende, o preço está certo! Esta é a primeira fase; Há que ter consciência de um facto sim- firmados? Os do Douro sem qualquer dúvida;
na segunda, a coisa pode complicar-se um pou- ples. Não é difícil vender 500 ou 600 garrafas quanto aos outros há um enorme “talvez” por-
co porque se a quantidade em venda era mui- a €80 ou €100; difícil é vender 35.000 a €65, que a originalidade que lhes reconhecemos não
to pequena, o facto de se ter vendido tudo não como acontece com o Chryseia que hoje sugi- é necessariamente fator diferenciador em prova
significa nada; a terceira fase é a mais compli- ro; não só não é fácil como é muito difícil con- cega. São vinhos que requerem explicação e en-
cada: quem comprou, voltou a comprar ou foi seguir uma alta qualidade naquelas quantida- quadramento. E, depois, há a tal prova radical
uma vez sem exemplo, por graça ou vaidade? des. Naturalmente que é no Douro que estes que ninguém quer fazer: em prova cega dizer
É então que se começam a separar as águas: vinhos mais caros estão a nascer, onde a qua- quanto estou disposto a pagar por este vinho?
há quem venda caro mas todos os anos vende, lidade dos solos, das castas e da tradição, tudo Para mim quanto é que ele vale? Que não haja
esgota e o preço mantém-se alto e há quem diz relacionado com o prestígio do Vinho do Porto ilusões, um grande, grande vinho, é aquele que
que vende mas depois coloca os vinhos à con- ajudam os produtores. Também há vinhos mui- nos dispomos a abrir os cordões à bolsa. As três
signação nuns restaurantes dos amigos e recebe to caros noutras zonas do país, ora na Bairrada, sugestões de hoje estão nesse grupo. Depois há
(se receber...) sabe-se lá quando. Há muito que no Alentejo e mais recentemente em Colares e folclore, o ‘Ó ai ó linda’ e o ‘Malhão, malhão’,
defendo que são os preços altos que dignificam Açores. Estas duas últimas regiões têm por si o mas isso são alegrias para principiantes.
e fazem uma região ganhar prestígio internaci- argumento da originalidade, ainda que lhes fal- Nota: se começássemos a sugerir por sema-
onal. A caminhada para se chegar a esse altar te passado de preços em crescendo que possam na três vinhos do Douro a mais de €50, tínha-
onde quem paga tem de desembolsar muitos justificar o que agora se pede. Nem Colares nem mos assunto até final do ano... b
(OS PREÇOS, MERAMENTE INDICATIVOS,
FORAM FORNECIDOS PELOS PRODUTORES)

Quinta da Ervamoira Chryseia tinto 2019 Tecedeiras XX tinto 2018


tinto 2018 Região: Douro Região: Douro
Região: Douro Produtor: Prats & Symington Produtor: Lima & Smith
Produtor: Ramos Pinto Castas: Touriga Francesa (75%) Castas: lote de seis castas
Castas: Touriga Nacional (86%) e Touriga Nacional Enologia: Rui Cunha
e Touriga Francesa Enologia: equipa de enologia PVP: €80
Enologia: João Luís Baptista da Quinta de Roriz Quinta no Cima Corgo, perto do rio. Além
PVP: €96,50 PVP: €65 de uvas próprias também se compram
Este é o primeiro supertinto da empresa, As uvas vêm sobretudo da Quinta de Roriz uvas a produtores. A produção total da
juntando-se assim ao clube dos vinhos e Quinta da Perdiz. Roriz é uma das mais quinta chega às 100.000 garrafas, mas há
mais caros da região. A quinta fica no belas propriedades do Douro, como uma intenção de crescer. Este tinto é de
Douro Superior, bem perto das gravuras localização privilegiada, um pouco acima edição única comemorativa dos 20 anos
do Côa. do Pinhão. 35.000 garrafas produzidas. da produção. Fizeram-se 1500 garrafas.
Dica: Grande definição de fruta, perfeito Dica: Um enorme prazer, conjugação Dica: Rico, balsâmico, maduro, mas em
equilíbrio de taninos e acidez, um vinho perfeita de textura, sabor, longevidade, perfeito equilíbrio sem ficar pesado,
arrasador que nos enche a alma. Um elegância e potência. Seguramente estará estagiado em barrica nova e usada. Um
grande tinto, um enorme Douro. ainda melhor dentro de 8 a 10 anos. clássico Douro da nova geração.

E 80
as nossas recomendações Saiba mais sobre estas e outras sugestões em
boacamaboamesa.expresso.pt

cozinha DaBeira — Country Club


tradicional & Lounge Restaurant
Quinta do Covelo, Covilhã.
Dona Ferreirinha Tel. 275 331 174
Rua Tomás Mendes da Silva
Pinto, 3, Castelo Branco.
Tel. 272 086 621
Os bacalhaus são reis neste
restaurante, com destaque para
o bacalhau braseado com legu-
mes da horta. O cabrito da serra
com esparregado e também os
maranhos, são igualmente ótimas Com múltiplas valências, entre as
opções. Preço médio: €20. quais o restaurante e uma piscina
exterior, continua-se a propor as
Fiado Restaurante especialidades da Beira, do cabrito
Rua do Espírito Santo, 5, Janeiro no churrasco à sopa de peixe do
de Cima. Tel. 272 745 024 rio, sugestões que podem ser
casadas com referências vínicas
dos 21 produtores que constam na
carta. Preço médio: €20.

O Alambique de Ouro
O Alambique de Ouro Hotel
Resort, EN 18, Gramessa.
Palácio da Lousã Boutique Hotel Tel. 275 774 145
Aprecie a gastronomia tradicional Rua Viscondessa do Espinhal, Lousã. Tel. 239 990 800 Petisque a alheira de perdiz, as
e a cozinha regional, de onde se Renovado, além de oferecer conforto adicional nos 46 quartos, foram criadas condições para receber os cherovias e os ovos verdes. E tem
destacam o bacalhau com broa, o que procuram aventura e atividades desportivas nos trilhos da Lousã, com destaque para o BTT. Na ala de haver espaço para a espetada
cabrito no forno a lenha e o javali. nova, os quartos apresentam suportes para pendurar as bicicletas e um espaço para pequenas manuten- de lulas com gambas, servida com
A chanfana e os maranhos estão ções. Na zona do palácio, a nova decoração remete para a natureza. Foi criado um novo espaço de refei- açorda de gambas. Brinde com
em evidência. É uma referência ções e lazer, o À Terra Bar & Canteen, e o restaurante A Viscondessa foi remodelado. A partir de €114. uma das mais de 100 referências
gastronómica. Preço médio: €20. vínicas. Preço médio: €30.

Vallécula Cabicanca Lá em Casa As Tílias Restaurante O Lagarto


Praça Doutor José de Castro, 1, Avenida dos Combatentes Avenida D. Manuel I, Gouveia. Rua dos Restauradores, loja B, Rua Largo D. Manuel I, 1, Castelo
Valhelhas. Tel. 275 487 123 do Ultramar, 66, Aguiar da Beira. Tel. 238 491 983 Fundão. Tel. 275 772 269 Novo. Tel. 275 567 406
Uma refeição aqui demora tempo, Tel. 232 688 972 A aposta é no naco de vitela No menu principal mantêm-se os Serve com afinco o cabrito assado
mas para a mesa vem um sem-fim Tem como especialidades o ca- grelhado com lagosta, criado pelo destaques, a começar pelos frit- com arroz de fressura e batatas
de entradas caseiras. Sempre que brito assado no forno com batata chefe da casa, para duas pessoas, ters de queijo de cabra com pickle assadas, o coelho à caçador e os
possível, há javali, galo e cabrito. assada e arroz de miúdos, lombo que junta mar e terra na grelha. O de cereja e verdura. Sustente com lombinhos de porco com pickles
Perca-se com os doces caseiros, de porco com batata a murro e mi- cabrito e o borrego de leite são os lombinhos de porco com cere- de cereja. Experimente também o
que pode levar para casa. gas, bacalhau e polvo à lagareiro e servidos ao domingo ou por enco- jas e castanhas e o bife de atum. famoso arroz doce branco. Preço
Preço médio: €35. posta de vitela. Preço médio: €20. menda. Preço médio: €15. Preço médio: €20. médio: €15.

XISTO, PRAIAS FLUVIAIS E PASSADIÇOS Palitão


NO CENTRO GEODÉSICO DE PORTUGAL Avenida Afonso de
Paiva, Zona S. Tiago, K-1,
Com estreia este sábado na Castelo Branco.
SIC Notícias, e repetições ao Tel. 966 632 540
Assume a aposta nas carnes,
longo da semana também na
oferta em que o “novo” restaurante
SIC Mulher, na SIC Radical e na
se especializou, com propostas
SIC Internacional, o programa maturadas e bifes, de que é exem-
convida a encontrar o “meio” plo o bife à Palitão, servido numa
de Portugal. A partir de Vila prata com azeite, alho e pickles.
de Rei, atravessada pela Fernandaires e Penedo Furado, Há carilhadas, umas bochechas do
maior e mais famosa estrada onde um passadiço liga o areal porco guisadas numa panela de
portuguesa, a EN2, é na serra às quedas de água. Aproveite ferro, além de bacalhau à lagareiro e
da Milriça que se encontra o para conhecer Água Formosa, filetes de polvo. Termine com leite-
Centro Geodésico de Portugal, que integra a rede das Aldeias -creme. Preço médio: €20.
que marca o “meio” do país. O de Xisto, na chamada região do
local oferece uma vista única e Médio Tejo e que é marcada SELO DE QUALIDADE Em parceria com o Recheio, este
aponta o caminho para várias pela albufeira de Castelo de símbolo é a garantia de que o restaurante em destaque utiliza
produtos das melhores origens e criteriosamente selecionados
praias fluviais, como Zaboeira, Bode.

E 82
FLAD CULTURA
2021/2022
Prémio FLAD de Desenho 2021 Exposição Festa. Fúria. Femina.
Exposição dos 10 finalistas Obras da Coleção FLAD
Visita aos ateliers dos finalistas De 20 de maio a 4 de setembro no
Anúncio do vencedor a 30 de outubro Arquipélago – Centro de Artes
Contemporâneas, São Miguel, Açores

Concurso de Tradução FLAD Outsiders – Ciclo de Cinema


Programa de apoio à tradução de obras Independente Americano (Açores)
literárias de escritores portugueses para 4 a 7 de março no Auditório Ramo Grande,
inglês, e de autores americanos para Praia da Vitória
português 11 a 14 de março no Centro Cultural
Candidaturas de 1 a 31 de outubro e de Congressos de Angra do Heroísmo

Bolsa de Aperfeiçoamento Curso de Artes Visuais


Artístico nos EUA de Longa Duração
Áreas de Cinema e Fotografia Curso de 8 semanas para artistas
Ano letivo de 2022/2023 entre os 25 e os 35 anos
Candidaturas 6 de outubro de 2021 De 23 de maio a 15 de julho no Arquipélago –
a 6 de janeiro de 2022 Centro de Artes Contemporâneas, São Miguel, Açores

Bolsas para Residências Concurso de Tradução FLAD


Artísticas nos EUA Programa de apoio à tradução de obras
literárias de escritores portugueses para
Áreas de Fotografia, Jazz,
inglês, e de autores americanos para
Literatura e Artes Visuais
português
Candidaturas entre 15 de outubro
Candidaturas em maio e outubro
e 15 de dezembro

Outsiders – Ciclo de Cinema Meet the Author


Independente Americano Encontros com escritores americanos
30 de novembro a 8 de dezembro A acontecer em 2022
no Cinema S. Jorge, em Lisboa

Saiba mais em FLAD.PT


D ESI GN
POR GUTA MOURA GUEDES

Em diálogo
Há duas coisas estruturais para arquitectos e
designers: dialogar e respeitar, enquanto inovam

Q
uer em design, quer em arquitec- sempre a tudo. Por sua vez, o diálogo im-
tura, é muitas vezes frequente que plica conhecimento sobre o outro ou so-
o desenho do novo se confronte bre a outra “coisa”, o que demora tempo
com algo que vem do passado. No início e tempo parece ser bem que não temos;
de um projecto, o que é dado ao designer por último respeitar implica saber reco-
ou ao arquitecto é um briefing, um progra- nhecer valor em algo que não é feito por
ma, ou um desafio para resolver. Esse bri- nós, reconhecer diferença e conseguir
efing desenrola-se dentro de um contex- não a anular, ou seja, implica a existência
to que às vezes pode ser quase como uma de uma enorme autoestima e segurança,
tela em branco, ou seja, um contexto quase o que parece escassear
Este projecto do estúdio de Comissariada pelo designer Luca
sem história ou de condicionantes simples, Nem todos os contextos apresentam as
arquitecta Amelia Tavella Architects Nichetto, a exposição “Emphatics”
exemplifica bem o diálogo entre como uma casa num terreno vazio e gran- mesmas qualidades e os mesmos desafi- que inaugurou este Setembro em
uma peça arquitectónica histórica, de, um interior de um apartamento acaba- os. São sem dúvida aqueles em que nos Murano, reuniu oito designers e traz
neste caso um convento do século do de construir, um poster sobre um novo confrontamos com dimensões históricas uma série de peças que, inovando,
XV e uma intervenção evento, uma linha de mobiliário para uma que serão os mais exigentes. E é aí que os honram a tradição do saber fazer
contemporânea, inovadora, mas que empresa que está a começar. Mas pode grandes arquitectos e grandes designers vidro, quer na forma e cor das peças
respeita a herança e o contexto. acontecer — e essa será talvez a maioria se revelam. Quando se lhes pede que in- quer nas alusões ao próprio ambiente
Desde a cor e textura do material dos casos — que tenha lugar num contex- troduzam uma diferente função ou façam da laguna veneziana
escolhido, o cobre, até à modulação to cheio de informação, vinda do passado uma adição em contextos urbanos ou em
dos espaços e da luz. e do presente. Essa informação pode ser casas históricas ou que acrescentem uma
materialmente muito visível e ter grande nova linha de objectos para uma empre-
impacto simbólico, narrativo e funcional. sa com dezenas de anos de existência es-
Pode estar literalmente colada ao “sítio” tamos a pedir-lhe para inovar, para ac-
onde vamos intervir de novo e ter uma ex- tualizar mas para manter uma herança.
pressão elaborada, marcante. Esperamos que o façam lado a lado com
Nestes casos é fundamental que os o existente, sem o destruir, dando-lhe
arquitectos e os designers saibam fazer continuidade e presença no futuro com
duas coisas que são estruturais para a sua esse trabalho.
profissão: dialogar e respeitar, enquanto Aqui como em tudo, é bom aprender-
inovam. Ora, parecendo simples não é de mos com bons exemplos e exigirmos nes-
facto algo que aconteça com regularidade. sa medida. b
Por um lado o desejo de inovar, de fazer
diferente, de deixar marca, de conceber Guta Moura Guedes escreve de acordo
uma nova linguagem, sobrepõe-se quase com a antiga ortografia

E 84
M O DA
POR GABRIELA PINHEIRO

Dicas & Regras


A nova trama das malhas
Foram nossas aliadas quando ficámos em casa
e agora ajudam-nos a encontrar uma saída
confortável mas repleta de sensualidade

A
s malhas foram as nossas melho- aqui e ali. Saias colantes, crop tops, pon-
res amigas durante o ano e meio chos, calças de cintura descaída, são ou-
que já levamos de pandemia. De- tros dos protagonistas deste novo enredo
ram-nos conforto durante um período das malhas.
desafiante, especialmente aquele que Já os tons cremes, caramelo, cru, casta-
passámos entre quatro paredes. Agora, nho chocolate e nude tanto permitem criar
que já começamos a retomar a nossa vida visuais monocromáticos como hábeis de-
fora de casa, elas não nos vão abandonar, gradés. Não são só as cores que nos reme-
muito pelo contrário, vão acompanhar- tem para a natureza, as fibras utilizadas
-nos no regresso, aliando ao conforto al- são muitas vezes elas próprias de origem

FOTOGRAFIAS ZUMA PRESS/FOTOBANCO.PT


gum arrojo e sensualidade. E se os tons natural, prova de que a preocupação com
vão ser predominantemente neutros, já os a sustentabilidade veio para ficar, tanto do
modelos estão longe de ser aborrecidos, ponto de vista do consumo como no que
com uma grande diversidade de cortes e respeita ao posicionamento das marcas.
silhuetas surpreendentemente sexy. Aproveite os dias amenos para se
O vestido de malha é certamente uma aventurar nesta trama, onde as malhas
das peças que vão marcar esta tendên- desconfiam connosco e nos ajudam a cri-
cia, e todas vamos encontrar um favo- ar looks para todas as ocasiões — da mais
rito, entre modelos retos e minimalistas casual à mais sofisticada, de um dia de
e outros mais reveladores — alguns até chuva em casa a uma noite de discoteca
transparentes! —, mostrando alguma pele com os amigos. b

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E 85
T ECN O LOGIA
POR HUGO SÉNECA

Para usar de
qualquer maneira
Ele é tablet, portátil ou apenas ecrã
— e em qualquer dos casos tem sempre
Windows 11. O Surface Go 3 chega ao
mercado nacional a 5 de outubro para
cumprir, juntamente com as consolas
Xbox, a missão de manter a Microsoft no
fabrico de hardware. O novo tablet, que
funciona como portátil quando conecta-
do a um teclado, destaca-se pelo forma-
to 3:2 do ecrã tátil de 26,6 centímetros,
que pretende facilitar a visualização de
documentos de trabalho. A produtivi-
dade também poderá sair beneficiada

Pesado? O Gitamini leva da inclusão de ferramentas como Teams


ou Microsoft 365, mas não impediu a
inserção do acesso direto à modalidade
de subscrição de jogos Game Pass. Com
Robô da Piaggio promete evitar torcicolos e dores de costas 544 gramas de peso (sem teclado), e
a promessa de uma melhoria de 60%

O
na velocidade de processamento face
Gitamini pretende firmar-se como a grande re- radar que fornece as coordenadas necessárias para navegar ao modelo antecessor, o Surface Go 3
volução do transporte de objetos e malas de via- e evitar obstáculos. O habitáculo pode ser trancado por uma chega às lojas com a possibilidade de es-
gem depois da invenção das pegas extensíveis e app de telemóvel, mas os laboratórios da Piaggio em Bos- colha de processador (Core i3-10100Y
das rodinhas que hoje dominam os átrios de aeroportos. ton, EUA, optaram por não adicionar mais funcionalidades ou Pentium Gold 6500Y, da Intel) e
Tem um peso de 12,7 quilos, e consegue transportar mais antirroubo para este autómato — com 60 cm de altura, 45,7 ainda um teto máximo de 8 GigaBy-
nove num percurso de 33,7 quilómetros. Equipado com cm comprimento e 41,9 cm de largura — que tem de seguir tes (GB) de memória RAM. Tem duas
duas rodas que garantem omnidirecionalidade, o autó- o utilizador sem recurso a pegas, trelas ou guias. Além de câmaras de Alta Resolução (1080p)
e som Dolby Audio. Permite uso de
mato promete acompanhar qualquer pessoa que caminhe transportar objetos, pode dispensar energia a gadgets.
estilete. Chega a Portugal com preços
em passo apressado, quando chega à velocidade máxima Nos EUA, está à venda com preços a partir de 1850 dó- a partir de €449. De fora do roteiro de
de 9,6 km/h. lares (€1582). Desconhece-se quando chega à Europa. Até lançamentos para Portugal ficam os
O robô dispõe de câmaras que são usadas para garan- prova em contrário, tudo leva a crer que se destina a ni- modelos Surface Pro X e o promissor
tir a identificação do utilizador que deve seguir, e ainda um chos com necessidades específicas. b tablet dobrável Surface Duo.

OS JOGOS DO PASSADO APRENDER A PESQUISAR DADOS E MAIS DADOS AS IMPRESSÕES DO MANO


A Nintendo lançou uma modalidade Quase todos os portugueses sabem usar A Asustor promete dar resposta às A DCP-J1200W chega ao mercado com
do serviço de subscrição de jogos Switch motores de busca, mas a maioria não os usa crescentes necessidades de velocidades que chegam a 16 páginas por
OnLine, que dá acesso a títulos inicialmente de forma otimizada. A conclusão surge nos armazenamento com duas novas unidades minuto nas impressões a preto e branco, ou
produzidos para as consolas Nintendo 64 números apresentados pela Google, que NAS (de Network-attached storage), que nove páginas por minuto em trabalhos a
e SEGA Mega Drive. “Sonic the Hedgehog revelam que 58% dos portugueses não têm em comum tecnologias que facilitam o cores. Compatível com WiFi e WiFi Direct,
2”, “Super Mario 64”, “The Legend of Zelda: recorrem às funcionalidades que melhoram processamento de filmes em resoluções 4K, dispõe de bandeja de papel para 150 folhas
Ocarina of Time”, ou “Mario Kart 64” são a “pontaria” das pesquisas, apesar de haver bem como as baías que facilitam a troca de e contempla consumíveis opcionais a preto
alguns dos nomes sonantes deste pacote de 48% que dizem que gostariam de saber discos, e acessos com velocidades de 2,5 e branco (720 páginas) e a cores (480
jogos provenientes do passado. A Nintendo mais sobre a matéria. Os dados confirmam Gigabit, através de cabos Ethernet. Drivestor páginas). Os utilizadores podem recorrer à
também deu a conhecer detalhes ainda que a internet seria bem diferente sem 2 Pro (até 36 TeraBytes) e Drivestor 4 Pro app Brother Mobile Connect para gerir
sobre os títulos Bayonetta 3, Splatoon 3 motores de busca: 85% fazem pesquisas na (até 72 TeraBytes) são os nomes das novas consumos de tinta, e armazenar
e Kirby and the Forgotten Land que internet todos os dias, e 43% fazem-nos unidades de armazenamento. Drivestor 2 documentos em suporte digital.
têm estreia prevista para 2022. entre uma e cinco vezes por dia. Pro: €218,69. Drivestor 4 Pro: €308,13. Preço: €118,52.

E 86
AU TO M ÓVE IS
POR VÍTOR ANDRADE

VOLVO DÁ MAIS ELETRICIDADE


AOS HÍBRIDOS
A Volvo Cars acaba de anunciar a
chegada ao mercado de novas
motorizações para os seus modelos
Recharge Plug-in Hybrid. Esta nova linha
irá reforçar a autonomia em modo
elétrico daquele tipo de motorizações
da marca sueca, que passará a ser de
cerca de 90 quilómetros (bastante
acima dos convencionais 50 km)

O início de uma bela amizade com um único carregamento


(em ciclo WLTP).

Comodidade, conforto e suavidade de condução sobretudo


em ambiente urbano são os pontos fortes deste Citroën ë-C4

C
omeço com uma declaração de voador (quer dizer, nunca andei em
interesses. Como serranurbano nenhum, mas imagino que seja uma
que sou, ainda não aderi de for- coisa fofinha e relaxante).
ma entusiástica à mobilidade elétrica Fora da cidade, os níveis de confor-
— embora seja simpatizante da causa. to aumentam mais ou menos na pro-
Mas se fosse apenas urbano e tivesse porção da tal ansiedade que nos con-
de comprar um carro para entrar nes- duz teimosamente o olhar para os nu- KIA EV6 MAIS INTELIGENTE
te clube, o Citroën ë-C4 seria, segura- merosinhos que vão lembrando para O crossover elétrico acaba de ver
mente, uma das opções mais prováveis. quantos quilómetros ainda temos ele- atualizada a função de Assistência à
Insisto. Se fosse apenas urbano tricidade lá em baixo nas baterias. Condução em Autoestrada (HDA 2),
(sem ligações regulares aos calhaus Mas, atenção, palmas para a fan- recorrendo a radares localizados em
graníticos da serra, onde nasci) e com tástica recuperação de energia assim redor do veículo, para ajudar o condutor
a manter uma velocidade e uma
deslocações diárias relativamente cur- que ativamos o modo regenerativo.
distância constantes para o veículo da
tas, sem o stresse e a ansiedade de estar É quase magia. Nas experiências que
frente, ao mesmo tempo que o
sempre a olhar para o nível de autono- fiz em ambiente suburbano conse- Assistente de Fila de Trânsito (LFA)
mia restante nas baterias, lá está, o Ci- gui prolongar de forma considerável o centra o veículo na sua faixa
troën ë-C4 poderia ser uma espécie de ‘tempo de vida’ entre carregamentos. de rodagem.
início de uma bela amizade. Agora, algumas pequenas falhas
Tudo o que hoje se pode esperar de deste modelo: o spoiler traseiro, que
um carro elétrico está aqui, incluindo implica diretamente com a visibilidade
o rol de pontos fracos do costume — através do retrovisor. Um botão físico (e
mas já lá vamos, porque acabam por eu gosto do mix de botões físicos com
ser largamente superados pelos pon- touch) na parte inferior direita do ecrã
tos a favor. a meio do tablier. É que, para se alcan-
O que mais me surpreendeu nos çar por quem vai a conduzir implica
poucos dias em que andei com este C4 um esticar de braço que pode interferir
elétrico foi a comodidade, o conforto com a condução. E ainda a patilha das
e a suavidade de condução proporcio- velocidades, que não é muito friendly e
nada sobretudo em ambiente urbano. nem sempre engrena com facilidade a
A excelente suspensão e a muito marcha atrás, o que pode atrapalhar NOVO MAZDA CX-5
bem conseguida insonorização inte- FICHA TÉCNICA em algumas manobras de arrumação
Uma nova versão do SUV estará à venda
em toda a Europa a partir do início do
rior deste Citroën são uma bênção no Motor Elétrico de 136 cavalos especialmente em espaço citadino,
próximo ano. A geração de 2022
bulício do trânsito citadino. Desloca- de potência onde a rapidez de movimentos é abso- passará a integrar o sistema Mi-Drive,
mo-nos (eu e o carro) pelas ruas em- Autonomia 350 quilómetros lutamente necessária. que permite a seleção de múltiplos
pedradas e sinuosas sem sentirmos Carregamento rápido 80% Já agora, para melhorar ainda mais modos de condução, bem como uma
praticamente o efeito das irregulari- em 30 minutos o conforto na posição de condução dinâmica de condução melhorada, um
dades do piso. Parece que deslizamos Preço 43.906 euros talvez fosse preciso um apoio lombar novo estilo, evoluções em termos de
suavemente numa espécie de tapete regulável. b conteúdos a bordo e ainda mais práticos.

E 87
DIÁRIO DE UM
PSIQUIATRA
POR JOSÉ GAMEIRO

FRAGRÂNCIA Bom dia


COM CARISMA Não queria saber se a relação estava
The One For Men Gold é uma eau
de parfum intense masculina tão
bem ou mal, só queria uma conversa
poderosamente atraente quanto o

H
homem que a usa. Elaborado por esitei se depois do bom dia deveria escrever, meu amigo, meu amor
um trio de perfumistas renomados ou companheiro. Ainda não consegui encontrar a palavra adequada
– Rodrigo Flores-Roux, Michel Girard ao que sinto por ti.
e Olivier Pescheux –, este perfume E já lá vão 40 anos que nos conhecemos, tu tinhas 40, eu tinha 24.
é uma fusão de frutas cítricas, Espero que ainda te lembres do dia que nos vimos pela primeira vez. Está
gengibre-picante e patchuli. descansado que não te vou pôr à prova, os homens são muito esquecidos
dolcegabbana.com destas coisas. Também não interessa muito. O que retenho desse encontro
é o teu sorriso e a tua voz. Até pensei que fosses locutor de rádio ou fizesses
anúncios...
Namorámos pouco tempo, tivemos rapidamente a noção que gostávamos
muito um do outro, mas não ia dar. A juventude fazia de nós pessoas muito

VIAGEM altivas, muito convencidas e tudo nos afastava nas ideias. Desculpa que te
diga, mas eras um conservador e reacionário empedernido. Provocavas-me
AO CENTRO todo o tempo com as minhas ideias de esquerda. Com graça, perguntavas

DA TERRA
se eu te queria nacionalizar. Tudo isso é história, agora defendemos todos
o mercado, mais ou menos liberal e não suportamos a arrogância dos que
O Highlife Automatic Skeleton querem pensar por nós.
é um must-have da Frederique Até parece que te escrevo para mais uma vez discutir política contigo.
Constant, um hábil trabalho De todo, estou aqui porque preciso de pôr no papel o que fui sentindo ao
de esqueletização, uma prática longo destes anos, nem tenho a certeza que te envie esta carta.
relojoeira pouco comum, Em boa verdade, sabes quase tudo da minha vida, desde o nosso
remete-nos para um globo primeiro encontro. Passados poucos meses, conheci o João. Um pragmático
terrestre finamente cinzelado, sem grandes complicações, nem convicções políticas, agarrou-me bem e
que, num complexo jogo de casámos. Tivemos filhos, cresceram, o costume, mas sempre tranquilos.
luz e sombra, permite ver o Penso que te lembras que nos nossos encontros e nas nossas conversas
movimento do seu coração quase nunca te falei do meu casamento, intuía que tu gostavas que o fizesse,
pulsante. Resistente à água até
sempre à procura de alguma brecha por onde pudesses entrar. Todas as
50 metros. Edição limitada.
entradas que conseguiste foram muito boas, mas, lamento dizer-te, nunca
frederiqueconstant.com
abriram a mais pequena brecha.
Mas não conseguia viver sem ti. Estranho não é? Será que passaste a
ser um familiar? É o que se costuma dizer do cônjuge, quando já está tudo
muito morno, ou mesmo frio. Quando tiveste relações estáveis e foram
algumas, desaparecias.
À DESCOBERTA Não posso dizer que sentisse ciúme, apenas falta. Não queria saber se
a relação estava bem ou mal, só queria uma conversa de vez em quando.
DAS TERRAS Sabemos os dois que as conversas nem sempre acabavam bem e que, uma

DE OIRO vez ou outra, nem chegavam a começar, ficávamos quase calados e o tempo
passava. Nunca fui ter contigo porque tinha saudades físicas, ainda que me
É em Vila Velha de Ródão que se encontram tenha acontecido tê-las.
as famosas Portas de Ródão, classificadas Na última vez em que estivemos juntos, lembras-te?, já lá vão uns
Património Natural em 2009. Mas, além meses, quando voltei para casa tive uma sensação muito estranha, que
de vastos pontos de interesse natural, este nunca me tinha acontecido. Senti-me mal, como se não pertencesse ali. Nos
concelho do interior tem toda uma riqueza dias seguintes o mal-estar aumentou, um desconforto que não conseguia
cultural, histórica e gastronómica a descobrir perceber. O João perguntou-me: “O que se passa contigo? Estás diferente.”
na plataforma online Terras de Oiro. E nada de novo tinha acontecido. Tínhamos falado de coisas triviais.
terrasdeoiro.pt Rimos muito, quando chegámos à conclusão que eu estava cada vez mais
conservadora em política. Até me disseste: “Finalmente, percebeste que isto
começou a correr mal logo depois dos Descobrimentos, os melhores foram e
não voltaram, ficaram os piores, como diz um amigo meu.”
Deixei passar uns dias, podia ser coincidência e não ter nada a ver
contigo. Mas tem. Deves achar que sou tonta ou, pior ainda, que não sei o
que quero. Sei muito bem e não me arrependo de nada. Custa-me muito ter
de te dizer, mas não tenho outra solução.
Vou deixar de te ver, mas não sei se e quando te envio esta carta... b
josemanuelgameiro@sapo.pt
PASSAT E M POS
POR MARCOS CRUZ

Sudoku Fácil Palavras cruzadas nº 2385

5 6 3
1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11
9 1 5
7 2 4 1
8 7 3 6 1
2
6 4 9 8
4 5 8 1 7 3
3 8 5
4
4 3 9
9 7 4 5

Sudoku Médio 6
9 4 1
7
2 6 8
8 8
1 3 6
9
8 4 5 3
7 9 5 10
2
1 5 2 11
4 7 6
Horizontais Verticais Soluções nº 2384
1. Depende de um líder carismático 1. Podem ser indiscretas 2. O código HORIZONTAIS
Soluções 2. Causa nó na garganta. Titulo de silêncio da máfia siciliana. Quem 1. autarquias 2. recusar
Fácil Médio de nobreza e de certas categorias não o quer ser não lhe veste a pele 3. miar; ópio 4. auréola;
3 4 8 5 7 6 2 9 1 9 3 8 6 7 1 2 4 5
eclesiásticas 3. A parte de trás. Em pleno 3. O maior rio italiano. A batalha que ail 5. aoristo 6. AC; adia;
9 7 6 3 1 2 5 8 4 2 5 4 9 8 3 7 1 6
modo. A câmara alemã melhor e mais acabou com o Sacro Império Romano- SS 7. Quebra Nozes
1 2 5 4 9 8 3 6 7 1 6 7 4 5 2 8 3 9
2 6 7 1 8 5 9 4 3 8 4 5 1 9 6 3 2 7 cara 4. A espanhola fartou-se de matar Germânico. Não é desejável 4. A ilha 8. urso; do; aro
9. estime; Ari 10. saia;
8 5 3 9 2 4 1 7 6 3 7 1 5 2 4 6 9 8 de 1918 a 1920. Fazer como Judas 5. São ideal de Thomas More. Busca parasitas
sacos 11. morteiros
4 1 9 6 3 7 8 2 5 6 9 2 7 3 8 1 5 4 cinco dias em cada sete. De palmatória 5. Na festa brava fazem-se na arena.
6 9 4 2 5 3 7 1 8 4 2 3 8 6 5 9 7 1
são imperdoáveis 6. Cantiga de Barco que navegava no rio Minho VERTICAIS
5 8 2 7 4 1 6 3 9 5 8 9 3 1 7 4 6 2
embalar. Rival da KGB. Permite todas as 6. Romanos. Resulta de demolição 1. almanaques 2. iu;
7 3 1 8 6 9 4 5 2 7 1 6 2 4 9 5 8 3
esperanças 7. Ponto de referência 8. O de alvenarias 7. Como morre a culpa. cursam 3. trará; estio
árabe. A cidade francesa mais próxima de Chia ao centro 8. Extinguir 9. Detestar. 4. aéreo; boiar 5. rc;
Inglaterra 9. Natural de um país do Chifre Deu voz aos animais 10. Não está orar 6. qualidade 7. us;
de África. Resulta da rotação completa ativa. Contração plural 11. De canção assino; si 8. ião; tão; aar
Palavras Cruzadas Premiados do nº 2383 9. arpão; Zarco 10. II;
de um triangulo retângulo 10. Consertam revolucionária a hino nacional
“O Colégio”, de Cristina Almeida Serôdio, sérios 11. colosso
o exterior dos automóveis 11. Com coca
para Liliana Pinhal, de Espinho; “Um Filósofo em
Nápoles”, de Martim Mittelmeier, para Armando acaba por se entranhar. Pisa bem
Pinto, de Valongo; “Conhecer Uma Mulher”,
de Amos Oz, para Nuno Cortez, da Amadora. Participe no passatempo das Palavras Cruzadas enviando as soluções por correio para
Rua Calvet de Magalhães, 242, 2770-022 Paço de Arcos ou por e-mail para passatempos@expresso.impresa.pt

E 89
QUE COISA SÃO AS NUVENS

O BARCO VAZIO

S
PROCURAMOS ENCONTRAR UM CULPADO PELO EMBATE, E NÃO NOS DAMOS
LOGO CONTA DE QUE A GRAMÁTICA DA CULPA NÃO FUNCIONA

e ao conduzirmos a nossa embarcação ao longo — devemos também descobrir — é aquele capaz de amar a
do rio vier embater contra nós um barco vazio, fragilidade e a imperfeição. É aquele que abraça inclusive as
sabemos que é inútil nos ofendermos com isso. próprias contradições. Este verão li “O Nó do Problema”, de
Aceitamos, nesses casos, que a vida é tecida Graham Greene, e numa das páginas inesquecíveis, que dá
de tais experiências, para as quais não temos a chave a todo o romance, o escritor fala, por exemplo, do
rápidas explicações. Dizemos a nós próprios estranho modo que Deus tem de amar o ser humano. Deus não
que a vida se constrói num campo aberto e a nos ama porque somos amáveis e dignos desse amor. Deus não
sua evolução não chega a ser controlável a cem nos ama porque merecemos. Ao contrário, defende Greene,
por cento e, muitas vezes, nem previsível é. Nos Ele ama-nos sabendo que não merecemos, que não estaremos
encontros e desencontros, nos afastamentos à altura, que não nos aperceberemos sequer da natureza e da
e nas colisões, no que se enlaça ou no que se dimensão desse amor. Mas neste desfasamento é-nos revelado
dissolve maturámos que há uma margem que o essencial do que precisamos conhecer e praticar.
nos escapa da mão, que nos recorda que não estamos sós e, de Nos embates da vida, naqueles mais desafiadores (e também
forma surpreendente e contínua, atesta que a soma que a vida por isso mais áridos, dececionantes e sofridos), naqueles
perfaz é maior do que a nossa parte apenas. Concluímos, assim, que mais nos obrigam a renascer, nem sempre conseguimos
que o embate com um ou outro barco vazio é condição da perceber imediatamente que o barco que veio contra nós na
própria travessia. Mais. Sentimos pouco a pouco que ganhámos corrente é, afinal, um barco vazio. Procuramos encontrar
em integrar esses acontecimentos, em torná-los estações da um culpado pelo embate, e não nos damos logo conta de que
viagem e etapas de um conhecimento interior que cresce. a gramática da culpa não funciona. Seria mais consolador
Para quem sabe ler em profundidade, um barco vazio vem encontrar um bode expiatório, individuar um comandante a
carregado de sinais úteis à navegação. Não é necessariamente quem atribuir a responsabilidade pelo nosso desgosto, pela
um escolho inútil que se tem de suportar ou a expressão do convulsão provocada, pela aflição em que entrámos. Seria mais
absurdo quotidiano que nos acompanha. rápido poder denunciar de forma inequívoca um hipotético
Na verdade, a vida dá a mão a elementos tão distintos para a tripulante hostil a quem atribuir uma qualquer má vontade.
sua dança. Há uma plasticidade e uma resiliência que o embate Mas quedar-se nessa atitude é um exercício de simplificação
com os barcos vazios moldam em nós, e precisamos de ambas. que distorce a essência da vida, que não é só lógica e mecânica,
Há aí, mesmo se com estrondo, ainda que em contraciclo, um que não se esgota na dialética do conflito, que não deixa
chamamento a olhar a realidade para lá da nossa cápsula. A nunca de vir ao nosso encontro como mistério, abertura e
contemplá-la não no linear, no reconhecível e uniforme, mas possibilidade. Por isso, é pleno de sabedoria o poema oriental
na complexidade mutante e instável do seu desenho. Numa e antigo que propõe o seguinte: “Aprende antes a pensar que
primeira reação podemos considerar que é mais difícil amar a todos os barcos estão vazios/ e quando atravessares os rios do
vida assim e, porventura, temos até razão. Mas o amor maior mundo/ coisa alguma te poderá perturbar.” b

HÁ UMA PLASTICIDADE E
UMA RESILIÊNCIA QUE O
EMBATE COM OS BARCOS
VAZIOS MOLDAM EM NÓS, E
PRECISAMOS DE AMBAS. HÁ
AÍ UM CHAMAMENTO A / JOSÉ
OLHAR A REALIDADE PARA TOLENTINO
LÁ DA NOSSA CÁPSULA MENDONÇA

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