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FACULDADE DE DIREITO

CURSO DE DIREITO

Direito Internacional Privado

Desejado Gabriel Mepina


1
Tema:

- Exercício

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Caso 1
António, moçambicano, residente na Malawi, morreu em
Maputo solteiro. Berta, malawiana, invocando a circunstância
de viver há mais de 2 (dois) anos com António, inicialmente em
Moçambique e, depois, no Malawi, como se fossem casados,
invoca o disposto no art. 422 da Lei da Família.

«Quid iuris» sabendo que o direito malawiano não reconhece


quaisquer direitos à união de facto.

Mobilize as seguintes regras de conflitos: arts. 52º, 53º, e 62º


do CC.
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Caso 1 - Resposta
Lei Moçambique:
◦ Nacionalidade de António;
◦ Local da morte de António;
◦ Residência habitual comum ao início da União de Facto;
◦ Lex fori

Lei Malawiana:
◦ Nacionalidade da Berta;
◦ Residência habitual comum à data do óbito;

 Trata-se de uma relação absolutamente internacional, pois, todas as


conexões com os dois Estados são relevantes.
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Caso 1 - Resposta
Estrutura das possíveis normas de conflitos a serem usadas:
 Artigo 62 do C.C.
◦ Conceito-quadro: relações sucessórias
◦ Elemento de conexão: Lei nacional do de cujus (Lei moçambicana)

 Artigo 52 do C.C.
◦ Conceito-quadro: Relação entre cônjuges (estatuto patrimonial primário)
◦ Elemento de conexão: Lei da residência habitual comum (Lei malawiana)

 Artigo 53 do C.C.
◦ Conceito-quadro: Convenção antenupcial (regime patrimonial secundário)
◦ Elemento de conexão: na falta da nacionalidade comum, a lei da residência
comum ao tempo do casamento/da união de facto (Lei moçambicana).
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Caso 1 - Resposta
Interpretação do conceito quadro (qualificação – art. 15 do CC)
 Não temos nenhuma norma para união de facto. Portanto, recorrendo ao raciocínio do
artigo 30 do CC temos que substituir esta questão a uma norma familiar.

 Será que o artigo 422 da Lei de Família (LF) tem uma natureza sucessória ou familiar?
Resp.: Este artigo tem natureza familiar, pois o que está em questão não é direito a herança ou ao
legado, pois apenas as pessoas que se encontram nas primeiras linhas da classe de sucessíveis é que
podem reclamar tal direito ou, se houver um testamento a seu favor, Berta iria reclamar a sucessão.
Neste caso, a Berta tem apenas o Direito de reclamar o direito a alimentos que deve ser
satisfeitos por via de apanágio dos bens deixados pelo de cujus.

Conclusão: A norma do art. 422 da LF subsume-se ao art. 52 do CC, pois o direito a


alimento faz parte do direito à assistência entre as fazem parte da união. Logo, a Lei
malawiana passa a ser competente e a Berta não tem direito a apanágio, pois, esta lei não
reconhece a União de Facto.
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Caso 2
Malunga, zimbabweano, morreu em Moçambique tendo
deixado em testamento todos os seus bens aos médicos
(moçambicanos) que o assistiram. Aberta a sucessão, os
familiares zimbabweanos, residentes em Zimbabwe, invocam a
invalidade do testamento com base no artigo 2194º do Código
Civil moçambicano. O direito zimbabweano não se opõe à
validade do testamento.
«Quid iuris».

Mobilize as regras de conflitos dos artigos 25º e 62º, ambos do


Cód. Civ.
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Caso 2 - Resposta
Lei Zimbabweana:
◦ Nacionalidade de Malunga;
◦ Nacionalidade dos familiares de Malunga;
◦ Residência dos familiares de Malunga

Lei Moçambicana:
◦ Local da morte de Malunga;
◦ Nacionalidade dos médicos;

 Trata-se de uma relação absolutamente internacional, pois, todas as


conexões com os dois Estados são relevantes.

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Caso 2 - Resposta
Estrutura das possíveis normas de conflitos a serem usadas:
 Artigo 25 do C.C.
◦ Conceito-quadro: estado dos indivíduos, capacidade, relações familiares,
sucessões por morte.
◦ Elemento de conexão: Lei dos respectivos sujeitos (médicos -Lei moçambicana;
autor do testamento – Lei zimbabueana)

 Artigo 62 do C.C.
◦ Conceito-quadro: relações sucessórias
◦ Elemento de conexão: Lei nacional do de cujus (Lei zimbabwena)

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Caso 2 - Resposta
Interpretação do conceito quadro (qualificação – art. 15 do CC)
 Será que o artigo 2194 do C.C. tem uma natureza sucessória ou pessoal? Ou seja, o
que se pretende proteger aqui: o próprio património do de cujus ou os interesses
sucessórios?
Resp.: São os interesses sucessórios que estão em questão, visto que os médicos têm uma
indisponibilidade relativa para receber. E constitui conteúdo da norma do art. 2194, a disposição
testamentária a favor de médicos feita durante a doença que venha levar o autor a more; e a finalidade é
de proteger o interesse sucessório dos familiares sucessíveis.

Conclusão: A norma do art. 2194 da CC subsume-se ao art. 62 do CC, pois ambos


possuem a natureza sucessória e com a finalidade de proteger interesses sucessórios dos
herdeiros. Logo, a Lei zimbabweana passa a ser competente, tornando, assim, válido o
testamento por não existir qualquer indisponibilidade dos médicos face ao direito
zimbabweano.

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Caso 3
François, francês, residente em França, encarregou Bruno, também
francês e residente em França, nos termos de uma relação jurídica
contratual, de transporte de determinados bens para Moçambique.
Perto de Muxungue ocorreu um acidente de viação por exclusiva culpa
de Bruno. Calisto, moçambicanos, sofreu danos avultados. Invocando
o artigo 500º do Cód. Civ., este último vem demandar François e
Bruno nos tribunais moçambicanos.
Na contestação, François pretende não ser responsabilizado pelos
actos culposos de Bruno, uma vez que, segundo o direito material
francês que regularia as relações entre comitente e comissário, aquele
não responderia pelos actos deste.
 Resolva a hipótese baseando-se nos arts. 41, 42 e 45 do Cód. Civ.

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Caso 3 - Resposta
Lei francesa:
◦ Nacionalidade de François e de Bruno;
◦ Residência comum de François e de Bruno.

Lei Moçambicana:
◦ Local do destino da mercadoria;
◦ Nacionalidade de Calisto;
◦ Local da ocorrência do acidente.

 Trata-se de uma relação absolutamente internacional, pois, todas as


conexões com os dois Estados são relevantes.

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Caso 3 - Resposta
Estrutura das possíveis normas de conflitos a serem usadas:
 Artigo 41 do C.C.
◦ Conceito-quadro: Obrigações provenientes de negócios jurídicos
◦ Elemento de conexão: Lei convencional (sendo inexistente se remete ao art. 42)

 Artigo 42 do C.C.
◦ Conceito-quadro: Obrigações provenientes de negócios jurídicos
◦ Elemento de conexão: Lei da residência habitual comum (Lei francesa)

 Artigo 45 do C.C.
◦ Conceito-quadro: Responsabilidade extracontratual
◦ Elemento de conexão: lei do local onde decorreu a principal actividade causadora
do prejuízo (Lei moçambicana).
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Caso 3 - Resposta
Interpretação do conceito quadro (qualificação – art. 15 do CC)
 Será que o artigo 500 do C.C. tem uma natureza contratual ou extracontratual?
Resp.: O art. 500 do CC tem a natureza extracontratual e corresponde a responsabilidade objectiva.

Conclusão: A norma do art. 500 da CC subsume-se ao art. 45 do CC, por regular sobre a
responsabilidade extracontratual e logo se chama a aplicação da lei moçambicana. Neste
caso o François, considerado como comitente deve responder pelos actos do seu
comissários Bruno, independentemente da sua culpa e ele goza do direito de regresso
sobre este.

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Caso 4
A, moçambicano e B, italiana, casaram-se em 1985 em Milão. Quando
casaram, A tinha 77 anos e B apenas 35. Em 1986 fixaram residência
com carácter estável e permanente em Barcelona. Em 1990, na
comemoração do 5º aniversário de casamento, A ofereceu a B um jipe
que havia adquirido meses antes em Coimbra. A doação realizou-se
em Espanha.C, filho de A pretende invalidar a doação invocando para
tal os artigos 166º e 168º da Lei de Família.
Deveria o juiz dar razão a C sabendo que a doação é válida face ao
direito espanhol que chama para reger a doação entre casados a «lex
locit celebrationis»?

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Caso 4 - Resposta
Lei Moçambicana:
◦ Nacionalidade de “A”;
Lei Italiana:
◦ Nacionalidade de “B”;
◦ Local de celebração do casamento

Lei espanhola:
◦ Residência comum
◦ Local da celebração do contrato de doação

 Trata-se de uma relação absolutamente internacional, pois, todas as


conexões com os três Estados são relevantes.
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Caso 1 - Resposta
Estrutura das possíveis normas de conflitos a serem usadas:
 Artigo 25 do C.C.
◦ Conceito-quadro: estado dos indivíduos, capacidade, relações familiares, sucessões por morte.
◦ Elemento de conexão: Lei dos respectivos sujeitos (“A” - Lei moçambicana)

 Artigo 42 do C.C.
◦ Conceito-quadro: Obrigações provenientes de negócios jurídicos
◦ Elemento de conexão: Lei da residência habitual comum (Lei espanhola)
 Artigo 52 do C.C.
◦ Conceito-quadro: Relação entre cônjuges (estatuto patrimonial primário)
◦ Elemento de conexão: Lei da residência habitual comum (Lei espanhola)
 Artigo 53 do C.C.
◦ Conceito-quadro: Convenção antenupcial (regime patrimonial secundário)
◦ Elemento de conexão: na falta da nacionalidade comum, a lei da primeira residência comum (Lei
espanhola).

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Caso 4 - Resposta
Interpretação do conceito quadro (qualificação – art. 15 do CC)
 Será que os artigos 166 e 168 da LF têm uma natureza familiar ou negocial?

Resp.: São os interesses familiares que estão em questão, pois se visam proteger o património de cada
um dos cônjuges e pretende evitar defraudamento do próprio regime de separação de bens.
Sendo assim, ou aplicamos o art. 52 ou o art. 53 do CC. Por qual deles opta?.

Conclusão: O art. 52 do CC regula as relações pessoais e patrimoniais primárias e aquelas


que não dependem de nenhum regime de bens. Já o art. 53 do CC. disciplina as relações
patrimoniais (secundárias) dependentes de um regime de bens. Logo, deveremos aplicar o
art. 53 do CC., que atribui competência à lei espanhola, segundo a qual a doação é válida.

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Obrigado

Até a próxima aula

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