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Itinerários de pesquisa

Perspectivas qualitativas em Sociologia da Educação


Marília Pinto de Carvalho
Nadir Zago
Rita Amélia Teixeira Vilela (orgs.)

Revisão de provas
Alexandre Arbex Valadares

Projeto gráfico e diagramação


Fernanda Costa e Silva

Capa
Yomar Augusto

Gerência de produção
Maria Gabriela Delgado

CIP-BRASIL. Catalogação-na-fonte
Sindicato Nacional dos Editores de Livros, RJ

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Itinerários de pesquisa: perspectivas qualitativas em sociologia da
educação! Nadir Zago, Marília Pinto de Carvalho, Rira Amélia Teixeira
Vilela (organizadoras). - Rio de Janeiro: DP&A, 2003.

Inclui bibliografia
ISBN 85-7490-216-0

1. Pesquisa educacional. 2. Sociologia educacional. I. Zago, Nadir.


11. Carvalho, Marília Pinto de. lI!. Vilela, Rita Amélia Teixeira.

CDD370.78
CDU 37.015.4
,.

A OBSERVAÇÃO DO COTIDIANO ESCOLAR

Maria de Lourdes Rangel Tura*

o estudo das instituições pedagógicas esteve, a partir de meados do


século passado, bastante marcado pelas indagações a respeito da relação
entre oportunidades escolares e a origem social dos alunos, que deixava
em desvantagem aqueles que estavam colocados nas posições mais
afastadas dos centros de poder e dos beneficios sociais e econômicos.
Era necessário não se ater apenas à constatação do fato, mas desenvolver uma
teoria que pudesse, a partir de um conjunto organizado e articulado de
conceitos, explicar a existência dos mecanismos de exclusão e seletividade
que operam no interior de um sistema educacional de feição democrática,
que pretende oferecer oportunidades iguais a todos e, no entanto,
estabelece diferenças de êxito e trajetória com relação aos diferentes
pú blicos escolares. As análises macrossociológicas, possibilitadas pelos
grandes levantamentos estatísticos e realizadas por importantes centros
de pesquisa, foram acompanhadas de hipóteses que se desdobravam destas
primeiras constatações e buscavam explicações sociológicas nas práticas
educativas familiares, em componentes culturais como os handicaps
lingüísticas, nas aspirações e valores familiares, nas expectativas docentes,
nas disparidades entre escolas e redes de ensino etc. (FORQUIN, 1995).
A multiplicidade de fatores envolvidos nessa análise da ação educativa
foi levando, progressivamente, os pesquisadores a se aproximarem dos
ambientes escolares, do espaço de interação entre alunos e professores,
das condições concretas de realização do ensinar e do aprender. As escolas,
a sala de aula e os diferentes espaços escolares passaram a ser vistos corno
microcomunidades complexas. Era, no entanto, necessário buscar novas
metodologias de pesquisa que possibilitassem a mell~or teorização sobre
os processos típicos da escolarização de massa e das relações entre escola,
educação e sociedade. No contexto da busca de novas metodologias
para a análise da realidade escolar, reacendeu-se o interesse pelos trabalhos

• Faculdade de Educação da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Ueij).


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de campo de cunho qualitativo. Neste capítulo, pretendo me deter na sociais de dimensões mais amplas fizeram com que se desenvolvessem
análise da observação do cotidiano escolar, entendida na perspectiva do metodologias de ênfase quantitativa, que trabalhavam com grandes
envolvimento mais direto do pesquisador no ambiente social que intenta populações e possibilitavam a generalização. A observação direta da
investigar. Irei ilustrar os procedimentos apresentados com dados de uma realidade social, no entanto, não ficou esquecida e manteve um papel
pesquisa etnográfica que realizei em uma escola da rede pública do expressivo no contexto da construção da teoria sociológica. Atualmente,
município do Rio de Janeiro, que denominei pelo nome fictício de a busca por metodologias alternativas, que resultem em maior
Escola Sempre Viva (ESV). aproximação com o acontecer da vida social e a análise do ponto de vista
dos atores, trouxe de volta a observação dos contextos sociais para o
Pensando em observação, preparando a pesquisa centro da atividade investigativa.
A observação induz imediatamente à idéia de uma investigação que
A observação é a primeira forma de aproximação do indivíduo com
segue caminhos menos normatizados e tem protocolos mais flexíveis.
o mundo em que vive. Dessa atividade primitiva decorrem aprendizados
Por outro lado, iLl2resença do observador no campo coloca em evidência
que são fundamentais para a sobrevivência humana. Pelo olhar entramos
as preocupações em torno de vieses decorrentes de suas posições teóricas
no mundo, começamos a nos comunicar com ele e iniciamos o
e ideológicas, de uma possível posição de poder conferida ao cientista -
conhecimento a respeito dos seres que nele habitam.
o gue deve sempre ser pensado em se tratando da observação no ambiente
A observação, com as características específicas de sistematização de escolar - e, num sentido mais geral, de seu etnocentrismo (POSTIC e
condutas e procedimentos e de focalização em torno de um objeto KETELE,1994). O que está em pauta, então, são as questões que envolvem
determinado, constituiu também um procedimento básico da investigação a objetividade ~ subjetividade do .pes9.!lisador. Por isso, é preciso que,
científica, da experimentação. Os laboratórios foram construídos com primeiramente, se indique que a observação não prescinde de pressupostos
essa finalidade e da mesma forma os observatórios. J Também as ciências teóricos que balizem o processo investigativo e sejam o seu ponto de
sociais iniciaram suas análises a partir de observações realizadas por partida, o "código de leitura" da realidade estudada, como disseram
estudiosos interessados nesse campo de conhecimento. Disseram Bourdieu, Almeida e Pinto (1987). Esses também estão na base das hipóteses ou
Chamboredon e Passeron (1999, p. 9): indagações que movem o pesquisador para um determinado problema,
um certo lugar, uma circunstância específica. Da mesma forma,
Como tese lógica, todos os nossos conhecimentos devem ser baseados
é imprescindível que se proceda a uma constante - porque acompanha
na observação (...) devemos proceder a partir dos fatos para chegar aos
princípios ou a partir dos princípios para chegar aos fatos. as diferentes etapas do trabalho - revisão da literatura, que possibilite o
acesso ao conhecimento acumulado sobre o objeto em. estudo, assim
No momento da observação, o sociólogo estabelece uma relação de como a busca de outras fontes de informação - que indiquem, por
conhecimento com seu objeto de estudo, que é, por sua vez, um fenômeno exemplo, dados demográficos ou históricos do grupo estudado - que a
concreto da vida social, imbricado em relações sociais e de poder e atividade de campo mostre necessário consultar. Essa seqüência de estudos
numa rede de significados socialmente compartilhados. e levantamentos pode ter como conseqüência uma redefinição dos
Na instituição da sociologia como campo de saber científico, as vantagens parâmetros prévios da investigação.
oferecidas pelos grandes levantamentos estatísticos, a preocupação com a Finalmente, ainda no sentido de analisar bases teóricas que esclareçam
objetividade dos métodos de pesquisa e o interesse em estudar fenômenos os procedimentos da investigação, vale destacar o caráter reflexivo da
pesquisa social, conforme o que afirmaram Hammersley e Atkinson
1 Têm-se organizado observatórios como espaços de investigação ernpirica que fazem uso, (1986). Esquecer isso é correr o risco de repetir a limitação de certos
entre outros, da observação de tipo etnográfico. Entre esses, pode-se citar o Groupe estudos que terminam por se ater à mera descrição e fogem à interpretação
d'Etudes Sociologiques do INl'l..P (DEROUET, 1985).
e reflexão sobre o observado. Isso acontece, freqüentem.ente, em decorrência
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da preocupação com a estrita distinção entre a atividade do pesquisador para um determinado contexto de pesquisa exprimível por uma
e o grupo pesquisado e do conseqüente esforço de estandardização de multiplicidade de mensagens e de fontes, há que se multiplicar os pontos
processos na tentativa de eliminar os efeitos da presença do pesquisador de vista da observação, levantamento e transcrição do objeto de estudo.
sobre os dados coletados. Contudo, precisamos reconhecer que somos As decisões a tomar são inúmeras, e o pesquisador terá que estar
p...~rtedo mundo que estudamos e que, portanto, não podemos escapar
muito atento @o q~ll!:~Qsk-i!l9nçarfe à especificidade de seu objeto
do senso comum, .nem evitar nossa interferência no fenômeno gue
investigamos. Por outro lado, lidamos com o que as pessoas dizelp, ~
A observação participante tornou-se uma referência importante na
documentam o.u reagem em situações de pesguisa. Este é o nosso material
distinção entre as diferentes abordagens, caracterizando-se, num sentido
de trabalho. A idéia do caráter de reflexibilidade das pesquisas sociais
geral, pela presença constante do pesquisador no campo e a observação
tem como implicação metodológica exatamente levar em conta as
direta das atividades de um grupo no local de sua ocorrência. Haguette
interpenetrações entre o senso comum e a teoria social. Assim, em vez
(1987) distinguiu basicamente duas concepções com relação a essa
de o pesquisador iludir-se em procurar eliminar os efeitos de sua presença
metodologia. Uma que a define como uma forma específica de coleta de )
no campo de investigação, o importante é buscar entendê-Ias. Ou seja,
dados que se sobrepõe à entrevista e ao questionário e outra quê a entende
atentar para o fato de que, se desenvolvemos uma explicação do
mais especificamente como instrumento de mudança social e, em
comportamento humano, esta deve também abranger nossas atividades
decorrência disso, considera o observador mais ativo e capaz de planejar
como pesquisadores e a busca de estratégias de investigação. Laplantine
com o grupo intervenções no contexto social.
(1993, p. 173) afirma que "incluir-se não apenas socialmente mas
subjetivamente faz parte do objeto científico que procuramos construir". A observação participante ganhou destaque como técnica de eleição
Vale, neste ponto, lembrar da afirmação de Geertz (1999) de que estaremos de cientistas sociais ligados ao interacionismo simbólico e que pretendiam
sempre diante de uma versão dos fatos, parcial e provisória, posto que acompanhar os processos de interação entre os sujeitos da pesquisa (AoLER
nossos relatórios de pesquisa expressam não a realidade social observada, e AoLER, 1998).
mas uma~a partir de nossas observações, de nossos Carlos Rodrigues Brandão (1983, 1985) reuniu vários desses estudos
pressupostos teorico-metodológicos e do recorte que fazemos numa realizados no Brasil nos anos 1980 - época em que o interesse por essa
realidade multifacetada. metodologia cresceu no país - e, dando indicação de seus pressupostos,
Do que foi exposto acima, fica claro que existem diferenças internas afirmou que "a participação (... ) determina um compromisso, que
com relação à observação como técnica de investigação científica e isso subordina o próprio projeto científico de pesquisa ao projeto político
pode ser verificado, por exemplo, nas tipificações que lhe são atribuídas. dos grupos populares (...)" (1983, p. 12).
Fala-se em observação metódica, sistemática, direta, flutuante, in situ, Sobre trabalhos realizados no campo da educação, André (1995)
naturalística, participante, não-participante etc. Na definição dessas publicou um texto em que apresenta alguns estudos de cunho etnográfico,
diferenças estão contidas as situações de pesquisa mais ou menos realizados em escolas do município do Rio de Janeiro e de São Paulo
estruturadas, pontuais, presenciais e participantes. O que se estuda pode durante esse mesmo período - os anos 1980 - que fazem uso, entre
ser a totalidade de uma cultura, o significado de detemunadas práticas outros procedimentos, da observação de aulas (KRAMER e ANDRÉ, 1984;
sociais ou um comportamento específico. Os objetivos de análise também ANDRÉ, 1989), da observação de turmas de P a 4a séries do Ensino
se diferenciam. Eles podem ser o diagnóstico de uma situação, a e.2ffilicação Fundamental (ANDRÉ e MEDIANO,1986) e da observação sistemática das
sociológica ou a interpretação de significados culturais. Com efeito, atividades escolares (ANDRÉ et al., 1987).
o objeto de estudo, a orientação teórico-metodológica, as negociações Esses estudos indicam que a observação pressupõe o envolvimento
realizadas no campo de pesquisa, a forma de acesso aos dados irão do pesquisador em múltiplas ações, entre elas o registrar, narrar e situar
determinar o tipo de observação (SANDAY,1984). Por outro lado, tendo acontecimentos do cotidiano com uma intenção precípua. Envolve
em vista a complexidade da vida social, Pais (1999, p. 14) propõe que,
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também a formulação de hipóteses ou questões, o planejamento, a análise, principal auxiliar o seu diário de campo, no qual anota, da forma mais
a descoberta de diferentes formas de interlocução com os sujeitos ativos completa e precisa possível, os diferentes momentos da pesquisa, incluindo
da realidade investigada e, certamente, a análise do próprio modo suas incertezas, indagações e perplexidades. É um recurso imprescindível,
que ele irá consultar seguidamente e, ao reler o que escreveu, cada vez
segundo o qual o pesquisador olha seu objeto de estudo.
mais se interessar pelo registro do que foi observado e pelo que vai
Para uma tipologia de diferentes modos de observação, pode-se
percebendo de vantagem nesta tarefa, que é especialmente importante
também recorrer ao que Postic e Ketele (1994) distinguem como
quando é preciso confrontar informações díspares, analisar diferentes
instrumentos de observação. Em. primeiro lugar, destacam-se aqueles ligados
posições diante de situações ocorridas ou relembrar uma seqüência de
a tradições teórico-metodológicas que têm uma preocupação maior em
fatos. Além disso, o pesquisador poderá fazer uso também de fotos,
controlar as variáveis e o impacto da presença do pesquisador no campo filmagens e documentos diversos, desde que isso esteja de acordo com o
e que mantêm uma proximidade, maior ou menor, com o modelo que foi negociado com os sujeitos da pesquisa.
tradicional do laboratório científico de cunho positivista. Eles fazem uso
A observação, neste último caso, é um mergulho profundo na vida
de alguma matriz de observação que orienta um trabalho dirigido,
de um grupo com o intuito de desvendar as redes de significados,
freqüentemente, para questões mais pontuais e determinam um
produzidos e comunicados nas relações interpessoais. Há segredos do
comportamento não-intervencionista do pesquisador. Entre eles, estão
grupo, fórmulas, padrões de conduta, silêncios e códigos que podem ser
os "sistemas de categorias", que trabalham COlTl uma definição prévia de
desvelados.
um conjunto de sinais que definem e reagrupam significações semelhantes
Irei analisar mais detidamente a observação de feição antropológica
em relação a um comportamento social que se queira observar. De forma
e naturalística, pelas vantagens oferecidas, que, num sentido geral, podem
semelhante se age no caso dos "inventários ou sistemas de regras", em
ser englobadas na possibilidade de atingir uma gama maior da
que o trabalho de campo é orientado por uma lista de ações ou incidentes
complexidade dos fenômenos sociais que envolvem a rede de significados,
específicos que podem ser observados em um período determinado de
as múltiplas dimensões da vida social e o hibridismo próprio de nossas
tempo. Nas "escalas de avaliação", as categorias ou sinais preestabelecidos
culturas. A principal desvantagem aludida é o grande dispêndio de tempo
são analisados por meio da construção de gráficos que descrevem variáveis
como freqüência e intensidade. Nos "protocolos de análise da interação" Alexander (1987), ao identificar o enfraquecimento do embate entre
se formalizam comportamentos a serem observados com a finalidade de as tradições da macro e da microteorização, afirmou que emerge dessa
distingir as formas pelas quais os sujeitos interagem, e nos "relatórios do crise a busca de uma síntese que inter-relacione ação e estrutura e que o
novo movimento teórico tem por base o reconhecimento da centralidade
fluxo do comportamento" se registram minuciosamente o que dizem e o
do significado coletivamente estruturado ou da cultura. Enfim, para o
que fàzem os sujeitos da investigação. Alguns recorrem, ainda, a procedimentos
autor, o estudo de uma cultura pode facilitar o desenvolvimento de uma
clínicos e entre esses se destacam aqueles em que a observação é feita por
teoria multidimensional. Hall (1997) também destacou o crescente
meio de câmeras ou gravadores ocultos (LECOMPTEe GOETZ, 1984).
interesse pela cultura nos estudos sobre as organizações sociais modernas.
Numa perspectiva que se aproxima mais da observação própria da É a esse sentido que me refiro ao aludir às vantag~ns da observação de
prática antropológica e dos métodos naturalísticos, especialmente pela cunho antrop'ológico, gue focaliza mais a~lamente o contexto
abertura da investigação a fenômenos mais gerais da vivência de um sociocultural do ambiente escolar, -º-9ue inclui a genealogia dos
grupo, pelo interesse de recolher um material mais vasto e com uma acontecimentos, articulações com outros ambientes sociais e
menor rigidez de protocolos, pode-se destacar, como instrumento essencial temporalidades e a análise da construção_de subjetividades e id.~ntidad~s
da observação, o próprio pesquisador, que irá coordenar, selecionar e no~processos de socialização que ali se realizam.
interpretar o conjunto de fenômenos que ele presenciou em sua atividade
Para se alcançar esse objetivo, Geertz (1989) recomenda que a
de campo (SANDAY, 1984). Nesse processo, o observador tem como
observação seja acompanhada de uma descrição densa daquilo que foi
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observado. Esse é um procedimento que possibilita realizar mais do que realizadas primordialmente como forma de entendimento do que se passa
a mera descrição de fatos, porque parte do pressuposto de que os no campo de investigação, numa tentativa de elaboração pessoal do que se
acontecimentos do cotidiano se inter-relacionarn com estruturas sociais observa ou como uma estratégia de reunir questões e estabelecer o que se irá
mais amplas e com tradições que foram sendo incorporadas pelo grupo mais atentamente focalizar e os novos procedimentos que serão adotados,
em ritos e costumes, que têm sua gênese em situações distantes do Na ESV havia um professor que parecia bastante intrigado ao
momento em que são vividos. A descrição densa é o esforço de articulação verificar que eu estava constantemente fazendo anotações sobre o que
entre fatos, o envolvimento na lógica de sua organização, o decifrar dos observava e, em diferentes momentos, se mostrou interessado em
aspectos obscuros, o buscar pistas para desvendar certos mistérios. Tudo conhecer o que eu escrevia. Um dia me perguntou: "Você está
isso exige que a atividade fundamental do pesquisador seja a interpretação/
conseguindo aproveitar algo de tudo isso que está anotando? Há alguma
reinterpretação dos acontecimentos. Esta é a forma de tomar os símbolos
coisa de especial nessa escola que valha a pena esse seu esforço?". Não
inteligíveis. É a maneira de se apreender a hierarquia estratificada de
havia nessa indagação um excesso de ingenuidade ou de descrença no
\..- estruturas significantes, que está na base de práticas e costumes sociais.
meu trabalho, mas uma verdadeira curiosidade de acompanhar o que eu
Uma descrição superficial pode deixar escapar a intencionalidade das
fazia.
ações humanas ou a sutileza de certos códigos socialmente estabelecidos,
pois fragmenta tempos e espaços, isola acontecimentos, fecha o gesto no Num certo dia, depois de alguns acontecimentos tumultuados
seu próprio contexto de enunciação. Assim, realidade e significação, ação ocorridos na Escola, ele comentou: "Acho que no final do ano sua pesquisa
e sentido formam uma rede de relações instituídas na ação do homem sobre vai ser um dramalhão.Janete Clair pura". No momento em que apresentei
a natureza e na interação social. Nessa rede de significados incluem-se, os resultados do trabalho, esse professor foi o que pareceu acompanhar
também, as relações do vivido e pensado - ligados à imediatez do suas conclusões com maior interesse.
momento histórico - com a totalidade social mais ampla e menos Ceglowski (1997) disse que para ela o difícil é encontrar a forma de 'I
contingente. O que temos diante de nós é a necessidade de tradução de mostrar e explicar aos diferentes pesquisadores do campo com quem se }
comportamentos observados, de ritos socialmente reconhecidos, de crenças pretende estabelecer a interloéução como escrever é útil para o entendimento
compartilhadas e, por isso, é preciso encontrar formas de descrição que do que se está observando. )
possam tornar estes elementos mais compreensíveis, mais nitidamente Enfim, a observação possibilita não só o acúrnulo de dados como o
inseridos numa rede de significados que lhes dão sentidos e materializam
descortinar de novos direcionamentos, novas focalizações e acertos de
sua existência.
rota. Neste contexto é importante atentar, como lembra Geertz (1999,
Numa outra perspectiva, que pude perceber muito nitidamente na p. 14), que esse procedimento de investigação quando se efetua de forma
oportunidade do trabalho investigativo, Richardson (1998) indica que mais direta e no intuito do conhecimento de uma determinada cultura
essas anotações muitas vezes são motivadas pelo desejo de encontrar algo vai se realizando por vias tortuosas, desvios e ruas estreitas, pois o trajeto
ou para aprender alguma coisa que não se sabia antes. É como se se não está mapeado a priori e, por isso, não se pode esperar caminhar por
estivesse a pôr em ordem ou a tentar articular um emaranhado de uma estrada reta, onde se anda incansavelmente para frente.
situações. O referido autor fala nesta atividade como um processo criativo
Todas essas questões, no entanto, não diminuem o valor da
e dinâmico e assevera que escrever pode ser validado como um modo
observação, principalmente pela possibilidade de trazer o enriquecimento
de conhecer ou como um processo de descoberta. Além disso, a prática
do conhecimento sistemático sobre as relações entre educação e sociedade,
da escrita pode aperfeiçoar textos tradicionais porque o escritor,
por sua contribuição para o crescimento da compreensão a respeito dos
analisando uma realidade já estudada, relata mais profundamente ou de
acontecimentos socioeducativos e pelo acúmulo de dados e análises para
forma mais complexa o seu material ou pode apresentar um outro
entendimento, uma nova versão da situação. Assim, as anotações são o desenvolvimento da teoria social. É importante atentar, ainda, para' o
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valor heurístico que advém da possibilidade de se analisarem diferentes um retomo à administração central ou regional da educação para a
atividades e perspectivas dos sujeitos pela observação dos indivíduos em concretização da autorização de permanência no ambiente escolar.
seus locais de estudo, trabalho e lazer. Está visto que ao descrever essa trajetória estou calcada em minha
experiência e o faço porque esses trâmites marcadamente burocráticos,
A entrada no campo, os primeiros contatos mas também de relações pessoais e institucionais, são etapas fundamentais
para o bom andamento de um trabalho de campo em uma escola da rede
Acreditar que os outros possuem a mesma natureza que possuímos é o pública. Na investigação a que tenho me referido, após esse percurso
mínimo que se espera de uma pessoa decente (...) ver-nos, entre os inicial anotei em meu cademo de campo que não encontrei nenhum obstáculo
outros, como apenas mais um exemplo da forma que a vida humana maior por parte da direção, dos prcfessores, funcionários ou alunos, se bem que
adotou em um determ.inado lugar, um caso entre casos, um mundo alguns me olharam curiosos, outros silenciosos, indagativos, misteriosos, mas,
entre mundos. Se a antropologia interpretativa tem alguma função geral
de forma geral, houve uma concordância muito favorável com relação à minha
no mundo, é a de constantemente re-ensinar esta verdade fugaz (GEER TZ,
presença na Escola e à minha proposta de pesquisa.
1999, p. 30).
Eisenhart e Howe (1992) chamam a atenção para a importância de
O pesquisador chega à escola. É o primeiro momento de contato
pennanecer por um longo período de tempo no campo de investigação,
com o seu campo de trabalho. Um primeiro momento que já foi
assim como para o cuidado com a linguagem e a postura do pesquisador,
antecedido por muitos outros, relacionados com as decisões em tomo da
como forma de garantir a validade interna da pesquisa. Isso é especialmente
investigação, da construção do objeto de estudo e do projeto de pesquisa.
importante, quando o projeto inclui a necessidade de estabelecer contato
Seguiram-se a isso os contatos com as instâncias regionais e centrais da
direto com alunos, professores, pais e outras pessoas que freqüentam, a
administração da educação escolar para obter as informações necessárias escola.
e a autorização para a entrada na escola. Tendo conseguido a autorização
para o trabalho, é preciso consultar os dados a respeito dos estabelecimentos No campo, o pesquisador deverá encontrar a linguagem adequada
para se comunicar com todos e captar certas fórmulas, entonações, gestos
educacionais, realizar diversas visitas a diferentes unidades da rede de
próprios do ambiente escolar não só para entendê-lo melhor como para
ensino para conhecer os colégios e verificar as conveniências e possibilidades.
se fazer entender. No entanto, é bom ter em mente que o observador é
Há um longo processo de negociação nessa etapa. Há espaços onde é
o "outro" nesse grupo, e que um esforço mimético de reproduzir gestos,
nítido o cerceamento à entrada do pesquisador, o que é, muitas vezes,
falares e estilos do grupo observado pode ter efeitos negativos pois pode
acompanhado da alegação de anteriores experiências negativas com a
produzir uma linguagem pouco convincente ou estereotipada, como
presença de estranhos no colégio. O primeiro dado favorável parece ser
analisou Pais (1993).
a boa receptividade da diretora. Este foi o aspecto mais positivo que
encontrei quando decidi eleger a ESV como meu campo de investigação. Todos esses cuidados, que estão inseridos em questões mais amplas
A diretora e sua adjunta muito espontaneamente abriram o espaço escolar que envolvem a ética da pesquisa, devem levar em consideração dois
para que eu realizasse ali minha pesquisa e assim pude, entre outros, aspectos fundamentais. O primeiro diz respeito à especificidade da
verificar o esforço que empreendiam para construir na Escola um clima instituição escolar, onde são muito intensos os mecanismos de regulação
favorável ao trabalho pedagógico. Costumo dizer que conhecê-Ias foi social. A prática pedagógica esteve sempre fortemente regulada por leis,
uma oportunidade muito feliz para mim. decretos e diversas formas de fiscalização vinculadas às secretarias de
educação. Quem vem de "fora" é, mais freqüentemente, o representante
Tendo acertado o locus de sua observação, o pesquisador irá iniciar
da administração regional, o avaliador, o inspetor. Em segundo lugar,
um processo de negociação com a escola, explicar as razões de sua
é comum que as pessoas não se sintam bem sendo observadas. Iturra
presença constante e o que pretende realizar no período de observação
(1989, p. 157) afirma que o método de observação é violento:
daquele espaço educativo. Concluída essaetapa, freqüentemente é necessário
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Violento para quem começa a ser observado; violento para quenl observa. ambiente social. Além disso, o modo como o meio está intemalizado nas
É uma relação onde a suspeita etnocêntrica é normalmente introduzida. pessoas que participam da vida escolar faz diferença no jeito como se
E, para acabar com a suspeita, o investigador de campo é ritualmente deve apreendê-lo.
introduzido, pelo grupo que estuda, dentro desse mesmo grupo.
Nesse momento inicial, também é importante conhecer a estrutural
Na ESV, depois de já ter permanecido algum. tempo no ambiente organizacional do colégio - a grade curricular, o calendário escolar, as
de investigação e iniciado os primeiros contatos, tive que me ausentar formas de avaliação, as datas das reuniões de pais e professores, as festas
por uns dez dias porque adoeci. Quando voltei ao campo, logo que escolares, as atividades planejadas, os espaços/tempos de convivência-
cheguei, um aluno, com quemjá havia conversado algumas vezes, veio e sua rotina de funcionamento. -
me perguntar por que eu tinha ficado tantos dias sem ir à escola. Fiquei Vale destacar que na observação de qualquer realidade social o
muito satisfeita com isso. Era como se ele tivesse, naquele instante, me observador terá que adquirir a capacidade do estranhamento que é tão
incorporando ao grupo dos participantes daquele ambiente cultural. mais difícil quanto mais familiar é o espaço observado. O estranhamento
Ou seja, a grande transformação ocorre no momento em que o com.porta as indagações que se fazem no contato com o .campo de
pesquisador verifica que o campo o acolhe, que ele começa a fazer parte investigação, no que se inserem as formas de compreender o outro,
do grupo, o que não exclui a situação de precisar ter bem. delimitada sua a capacidade de se surpreender com o que parece corriqueiro e uma
posição no espaço social. De forma geral,-ª-'p'rincipal dificuldade d.9 abertura a outros sentidos da organização de um espaço cultural (DA
observador para se localizar num ambiente escolar, onde estão bem MATTA, 1978).
mapeadas as diferentes posisões sociais, é que na escola ele não é nem.
A escolarização de massa popularizou o espaço escolar e, por isso,
professor, nem aluno, nem funcionário, ~m ~ ou mãe de aluno. Nj! ESV
seus ritos, normas e regras foram amplamente intemalizados nos diferentes
freqüentemente os estudantes me chamavam de professora, mas não era
grupos sociais. Como então transformar o familiar em exótico, estranhar
esta a posição que eu queria ocupar naquele local.
regras sociais e costumes cristalizados? Como descobrir o exótico no que
O pesquisador vai sendo, aos poucos, aceito pelo grupo, ajudado
foi lentamente incorporado e reificado por nós e se sustenta apoiado por
pela estranheza gerada por sua presença e a decorrente curiosidade
mecanismos de legitimação? Este é um dos problemas que se apresentam
daqueles que pedem explicações, querem saber m.ais sobre a pesquisa, para quem vai investigar o espaço escolar.
perguntam. a sua opinião sobre fatos da vida escolar ou fazem comentários
Estando já há algum tempo a realizar o trabalho de campo na ESV,
sobre os acontecimentos cotidianos. Com isso, facilitam. o conhecimento
me surpreendi com a idéia de que aqueles rapazes e moças, alunos do
das disposições e costumes da cultura escolar e possibilitam, nessa
colégio, parecessem ter pouca imaginação. Eram por demais conformados
interlocução, que as relações fiquem mais definidas e a posição do
com o regulamento escolar, faziam o discurso dos adultos, refletiam pouco
pesquisador no grupo se delineie melhor. Laplantine (1993) destaca que
sobre os acontecimentos do cotidiano! Falei sobre isso com a professora
foi~ ~ quem primeiro indicou as vantagens que o
Regina N ovaes, comentando a respeito de minha perplexidade diante
observador pode tirar da perturbação causada por sua presença no campo
do que observava, e ela me disse: "Sem imaginação! Tem alguma coisa
de investigação, com.preendendo-a como fonte de conhecimento. É neste
errada nisso. Acho que você tem que ir atrás dessa imaginação, ver por
processo que se vão estabelecendo as regras de convivência, a forma de
onde ela passa, como se produz, onde se esconde".
devolução do que for analisado e as normas de sigilo com relação a certas
informações.
É indiscutível a tensão gerada na interação entre observador e
observado e, nos primeiros contatos, os sujeitos tendem a mostrar um
Enfim, quando o observador chega ao campo é sempre "gente nova
comportamento ou a fazer um discurso que lhes parece ser do agrado ou
no pedaço" e, como em qualquer situação desse tipo, a fonna como irão
da expectativa do observador. Por isso, o pesquisador precisa ter cuidado
acontecer as primeiras aproximaçõeú fundamental para a imagem. q!J...e
para não se deixar levar pelas primeiras impressões. É importante, ainda,
os atores sociais irão fazer dele. Qualquer pessoa faz diferença num.
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lembrar que se está em busca de uma rede de significados que tem origem novos caminhos e perspectivas de análise, no esforço de explicar os
nos sentidos dados às ações sociais e que os comportamentos, nesse sistemas de relações sociais.
contexto, não podem ser entendidos como idiossincrasias pessoais, mas No caso da investigação no ambiente escolar, a ida ao campo e a
como práticas que se produziram historicanlente na convivência social volta para casa, que coincide com o fim do horário escolar, o recesso das
e, assim, não devem ser isoladas de sua gênese, das regras de funcionanlento férias, os dias feriados, os finais de semana, facilitam essa dinâmica de
da instituição, de crenças e valores incorporados em relações sociais aproximação e distanciamento. Além disso, é comum se estar vivendo
mantidas entre sujeitos em interação. em vários ambientes culturais ao mesmo tempo - a escola, a casa,a universidade,
O momento do estranhamento se irá seguir, no convívio constante os ambientes de lazer, o convívio com os amigos etc. - o que contribui
com o grupo pesquisado, de um processo de impregnação da cultura do para tomar possível essa empreitada.
campo. É o esforço de captar formas de pensamento, de realizar seus
ritos, de seguir suas regras para melhor se abrir à sua influência, ao seu Outros procedimentos que se associam à tarefa da
ethos e assim aprofundar o conhecimento do universo cultural estudado. observação
Laplantine (1993) fala, então, de uma dinâmica de compreensão "por
dentro", que é essa etapa descrita acim.a, e urna com.preensão "por fora", O guadro de referências teórico-metodológicas do ]2esguisador
que ocorre quando se mantém um. distanciamento do olhar, se volta à interfere, modifica, detemuna a coleta de dados, a seles;ão de infom~ntes,
perspectiva do diferente, do estranho para que se possa compreender as abordagens mais naturalísticas ou mais egruturadas, as análises mais
melhor as redes de significados que escapam. dos atores sociais, a lógica focais ou mais sistêmicas, conforme se indicou acima. Não existe,
certamente,
- - - --
uma regra do que observar, dos melhores lugares ou
que integra diferentes ações e dá organicidade ao grupo. É quando se
afasta o véu da opacidade própria das relações sociais introjetadas. É o momentos. O movimento dos alunos e alunas, suas falas e gestos, os
momento em que o pesquisador volta à tona depois de sua imersão na conteúdos dos livros didáticos adotados na escola, as normas de
vida do grupo que estuda. No trabalho de cam.po, esta altemância de posições comportamento, os ritos e mitos, as opiniões dos professores e professoras
leva a freqüentes reconstruções analíticas e novas formas de aproxim.ação e suas disputas, as comemorações das datas cívicas, as diferentes festas
com os fenômenos observados. escolares, as reuniões pedagógicas e de pais, as eleições para diretor e
Para se ter um parâmetro das etapas e do tipo de relação estabelecida para o grêmio estudantil, os murais, os momentos especiais e as rotinas
serão objeto de observação? A resposta a estas questões está contida no
entre o observador e seu campo de trabalho.é interessante acompanhar a
que se delineou no objeto de estudo, nos objetivos pretendidos,...!2-ª.s
análise de Carspecken e Apple (1992) q!:!e distinguiram cinco etaj2as em
perspectivas teóricas adotadas. Se, como afirma Geertz (1999, p. 13), o que
sua descrição de uma pesquisa crítica qualitativa. Estas etapas (coleta de
dados monológica, análise reconstrutiva preliminar, Rrodução de dados está em jogo é "construir um relato da estrutura in!eginativ~ de um.~
de fomla dialógica, ck:scgção do sistema de relações sociais e elucidação sociedade", essa tarefa implica o esforço de captar entendimentos diferentes
dos nossos e, numa hermenêutica que irá conferir status epistemológico
do sistema de relações sociais) me parecem de muito interesse para balizar
ao senso comum, analisar fatos do cotidiano e se colocar no lugar do
a especificidade dos diferentes momentos da observação, marcando,
outro, ao procurar acompanhar a construção simbólica de um dado objeto
especialm.ente, situações monológicas e dialógicas e o processo
social e a sua transformação em uma realidade prática. Uma tarefa
intermediário da análise reconstrutiva. Como se pode antever, o processo
complexa que faz emergir uma certa visão de mundo que comporta
se dá por meio de seguidas aproximações com o campo de trabalho. Idas
estruturas de pensamento e ação, que se desdobram em conhecimentos e
e vindas, que vão descortinando sentidos, marcando perplexidades e
conceitos sobre as coisas, no interior de uma lógica que determina uma
indagações. Não há propriam.ente etapas que se esgotem para dar espaço
a outras. No processo de análise reconstrutiva vão se intercalando maneira de se lidar com os objetos de interesse daquele universo cultural
momentos de atividades monológicas e situações dialógicas e surgindo e as expectativas de comportamento, de trocas sociais e de formas de
expressão de sentimentos pessoais.
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Nesse contexto de observação, pode surgir a necessidade de se tradicional. No contexto de sua argumentação, citam um trecho de um
realizarem vários outros procedimentos de pesquisa COrl10 entrevistas, diário de campo de Malinowski, no qual o antropólogo anota o quanto é
questionários, discussões em grupo, coleta de documentos etc. imprescindível o uso deste recurso, que serve para esclarecer alguns pontos
~
No ambiente escolar, a observação da cultura discente é bastante obscuros ou para uma melhor compreensão dos significados e valores do
facilitada quando se tem a oportunidade de fazer uso de alguma tarefa de ambiente cultural.
feição pedagógica. Na ESV, propus aos estudantes do segundo segmento Afora essas, é comum também o investigador realizar algumas
do Ensino Fundamental, com a anuência dos professores e professoras, entrevistas senu-estruturadas. Estas entrevistas organizam-se em tomo
a realização em sala de aula de um trabalho individual em que fiz uso de de perguntas ou roteiros, que representam os tópicos a averiguar.
uma técnica projetiva para obter informações sobre valores, crenças e Guardam, neste sentido, certa similaridade com a entrevista estruturada,
normas de comportamento. No final da atividade, que teve apoio de especialmente pelo fato de conterem questões previamente estabelecidas
narrativas, perguntas e ilustrações e era distinta para os rapazes e as moças, e por se delimitarem a um centro de interesse. Distanciam-se desta, no
os estudantes produziram um texto que me surpreendeu pelo que continha entanto, porque não há uma seqüência muito estandardizada nem um
de novo a respeito daquele grupo e, como vantagem suplementar, o contato controle muito rígido da postura do entrevistador, o que permite que se
abriu um canal importante de comunicação com os alunos e alunas. mantenha uma comunicação mais livre entre o pesquisador e o
entrevistado e que se realizem acertos de rota diante de situações
No trabalho de campo, vão se delineando a cada momento diferentes
inesperadas. É bom, se houver consentimento do interlocutor, que essas
focos de análise para os quais a atenção do pesquisador se dirig~; contudo,
entrevistas sejam gravadas para que não se percam aspectos importantes
as novidades devem ser encaradas com cautela porque não se pode romper
do relato e da forma como os fatos foram enunciados.
com detemunados acordos tácitos que o gruJ20 estab§leceu, nem invadir
campos sagrados ou desmerecer os ritos, e( tudo isso exige conhecê-Ios. No ambiente escolar, de acordo com minha experiência, os estudantes
aceitam mais facilmente dar entrevistas que os professores. Na ESV, eles
São situações que demandam a utilização de outros procedimentos de
gostavam de ouvir o que tinha ficado gravado e se mostravam satisfeitos
pesquisa e, nesse caso, se destaca a entrevista que, por sua freqüente
com o que haviam falado, se bem que estranhei perceber que tinham
utilização, pode-se dizer que faz parte da observação de um universo
muita dificuldade de refletir sobre os acontecimentos do cotidiano escolar
cultural.
e tendiam a iniciar a entrevista tentando reproduzir o discurso do adulto.
Na escola, uma conversa com algum professor ou professora, com os Anotei no meu diário de campo a respeito de um grupo de entrevista
alunos, com o diretor ou os funcionários é a primeira medida no sentido que fiz com alunas da quinta e sexta séries: elas parecem que têm pouco o
de conhecer as regras do jogo, entender os códigos, confrontar posições. que falar, ou melhor, que não têm como falar. Parecem reticentes quando falam
Bogdan e Biklen (1994) descrevem este procedimento, assemelhado a da vida na escola efora dela, assim como têm reduzidas expectativas quanto ao
uma co/wersa entre amigos, como um processo importante de coleta de seu futuro.
dados, que deve ser facilitado pela escolha de uma boa oportunidade e
As entrevistas não-estruturadas ou informais foram um recurso que
de um bom interlocutor. Estes autores falam, então, na transformação de
utilizei muito para obter informações dos professores e professoras e,
uma situação favorável em uma oportunidade de realização de uma
nesse caso, o discurso emergia repleto de informações, relações entre
entrevista do tipo não-estruturada e essas oportunidades costumam ser acontecimentos e registros de n01111as,regras, tabus e f01111asde pensamento
inúmeras e, também, básicas para o progresso da investigação. que foram se instituindo no grupo.
Fontana e Frey (1998) asseveram que a maior parte dos dados Bogdan e Biklen (1994) chamam a atenção de que nas entrevistas
coletados nos processos de observação é produzida por meio da entrevista ualitativas - assim denominadas por eles para distingui-Ias dos processos
informal ou não-estruturada e mostram que este é um procedimento mais fonnalizados e estruturados - a infonnação é cumulativa. Assim,
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cada entrevista determina e se liga à seguinte. O que interessa é obter com algo que era tido como um acontecimento importante, do
um conjunto de informações que sejam úteis, de acordo com o que conhecimento de todos e que estava envolvido em uma narrativa
motivou o processo. Por isto, as situações inesperadas podem dar origem fragmentada a respeito de um tempo pouco definido, com personagens
a reelaborações na forma de perguntas, por exemplo. noVOS, diferentes dos sujeitos atuais. Que história era aquela? Como
Na ESV, depois de realizar um conjunto de entrevistas e de fazer a juntar as diferentes dimensões e temporalidades daquele fato?
análise do que tinha conseguido reunir como novas informações, me Vale neste ponto narrar uma dessas situações intrigantes que marcaram
preparava para iniciar outro grupo de entrevistas que tinham o objetivo o tempo em que estive na ESV. Eu estava numa turma da sétima série e
de preencher algumas lacunas ou lapsos das falas anteriores, de esclarecer os alunos e alunas respondiam a um questionário que eu havia proposto
melhor alguns aspectos que haviam sido elaborados de forma incompleta e que tinha o objetivo de colher dados a respeito da situação sociocultural
ou novas questões que as narrativas haviam suscitado. do grupo discente. Foi quando ouvi pela primeira vez se falar da bandalha.
Numa pergunta sobre a profissão dos pais, um garoto disse: "O pai dele
A interpretação trabalha na bandalha". Sorri para ele. Devia ser uma brincadeira. O termo,
no entanto, voltou a aparecer em outras situações e, pior, uns poucos
Durante o período de observação no campo de investigação, o pesquisador
alunos registraram como profissão do pai a bandalha! Muitos deles moravam
coleta um volume imenso de dados. em favelas situadas nos arredores da escola e era possível que os pais
Na pesquisa realizada na ESV os dados foram reunidos basicamente tivessem uma ocupação fora dos padrões instituídos, mas dizê-lo assim,
em quatro cadernos, que compunham meu diário de campo, e em um abertamente! A partir daí, se tomou para mim um verdadeiro desafio
arquivo no qual eu guardava fotos, fitas de entrevistas gravadas, inúmeros desvendar o que havia por trás daquela palavra. Eu tentava apurar a
textos escritos e impressos, resultados acadêmicos, fichas, cartazes, gráficos, escuta: era banda lha ou turma da bandalha o que eles diziam? Só havia um
alguns documentos, um jornal publicado pelos alunos etc. Muito desse jeito de resolver o problema: eu tinha de encontrar um momento favorável
material foi fornecido pelos próprios professores e alunos que queriam para perguntar a algum aluno ou aluna o que aquilo queria dizer
colaborar com a pesquisa. Uma professora de Português, de comum exatamente. E o momento havia chegado. Eu soube que abandalha er;ur1
acordo com seus alunos e alunas, me cedeu umas redações que eles fizeram, a ocupação de um grupo de pais que fazia o transporte de táxi para um
tendo por tema: "O bom. aluno, o bom professor e a boa escola". Ela ponto turístico perto da escola. Eram conhecidos no local como da
sabia que esses textos seriam de muita utilidade para mim. bandalha porque não tinham ligação com o sistema de fiscalização e
No momento da análise e reconstrução analítica, realizadas durante regulação do turismo na cidade.
o trabalho de campo, o pesquisador está, freqüentemente, tentando A observação minuciosa dos comportamentos e de sua recorrência
organizar o disperso que se amontoa na enormidade de dados coletados exige também compreendê-Ias no contexto das relações e condições
e nas questões que constantemente formula. sociais de sua produção. Isto porque, apesar da aparente fragmentação e
A busca de caminhos mais proveitosos também acompanha esse destituição de significados de muitas práticas sociais,_a organização social
processo. No campo, o pesquisador tem a oportunidade de perceber que é sempre uma totalidade integrada, que precisa ser reconstruída quando
usou formas inadequadas de interlocução com os sujeitos da investigação, se busca dar sentido à multidão de impressões, narrativas, acontecimentos
que não devia ter se portado de um.a determinada maneira ou que e falas dos diferentes atores sociais. Denzin (1998, p. 313) fala, então, de
precisava ter conhecido m.elhor as regras do grupo. Muitas reformulações fonua enfatica a respeito de algo sobejamente conhecido: nas ciências
que realizei em meu projeto inicial de pesquisa ocorreram na tentativa sociais o que há é somente a interpretação; nada fala por si. Dar sentido aos
de adequar minhas expectativas às características do ambiente cultural dados, interpretá-los e buscar a coerência teórica são partes desse processo,
que observava. Quando parecia estar tudo bem conhecido, me deparava que vai sendo lentamente realizado e aprofundado em bases reflexivas.
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Quando o pesquisador se distancia do campo e se envolve na mais um momento de interlocução com os sujeitos da pesquisa, mais
interpretação dos dados tem por parâmetros os pressupostos teóricos a uma oportunidade de "produção de dados de forma dialógica", como
que o estudo se filia. Ou seja, os critérios de julgamento e as bases da propuseram Carspecken e Apple (1992).
interpretação estarão vinculados à tradição epistemológica que orienta o Vasconcelos (2000) chamou a atenção para o que pode significar o
trabalho. Cada tradição tem seu conjunto de perspectivas, conceitos e fato de um pesquisador estar no campo de investigação por um
problemáticas que conferem um estilo próprio e dão identidade à determinado período e considerar terminado o trabalho apenas ao se
produção. Rhedding-Jones (1996), em artigo que relata os resultados de afastar daquele grupo e comunicar à comunidade científica as conclusões
um trábalo de campo, distinguiu dois momentos nítidos em sua a que chegou. No entanto, o que está contido no relatório final da pesquisa
investigação: aquele em que, na escola, se indagava sobre as questões de é um texto que representa a reconstrução analítica que o observador
gênero, relacionadas aos comportamentos das jovens que observava, e realizou a partir da interação social que estabeleceu com os atores de um
aquele em que, na interpretação da cultura, devia seguir a escrita espaço cultural.
acadêmica, de acordo com sua filiação teórica.
Na descrição que fiz de diferentes momentos da investigação que
Uma segunda questão envolve mais especificamente a produção do realizei na ESV ficaram evidentes os processos de comunicação com os
texto ou dos textos da pesquisa. O movimento do campo ao texto e atores da vida escolar. Momentos de indagação e perplexidade e também
do texto ao leitor é muito complexo (DENZIN, 1998). É um trabalho de trocas e colaboração. O que fui tentando reconstruir em suas múltiplas
reflexivo que se realiza por etapas. Num primeiro momento, o texto é feições foi fruto de uma proveitosa interlocução entre mim e os sujeitos
produzido para uma primeira crítica daqueles que estão mais próximos ativos da vida escolar na ESV, e eles mostraram interesse em saber o que
do pesquisador por terem acompanhado de alguma forma a investigação eu havia analisado e interpretado durante a minha permanência na Escola.
e nisso se incluem os sujeitos da pesquisa, como se irá destacar mais
No entanto, Geertz (1999) se preocupou em indagar se os sujeitos
adiante. Os textos produzidos a partir da observação no campo de
da pesquisa são capazes de se reconhecer naquilo que o pesquisador
investigação vão passando, então, por um processo de refinamento e terão
escreveu sobre eles. Certamente que essa comunicação vai exigir um
que ser refundidos e reinterpretados até que se produza um documento final.
novo processo de negociações. O conhecimento adquirido pelo
Geertz (1989), coerente com sua proposta, afirma que uma pesquisador é um conhecimento de outra ordem - científico, se diria
observação densa deve conduzir a uma interpretação densa. Nesse sentido, para encurtar a explicação. Os arranjos culturais têm seus mistérios, suas
aponta para algo também por demais conhecido, que é o fato de existirem incompletudes, sua complexidade e se apresentam, freqüentemente,
diferentes níveis de aprofundamento da interpretação e as decorrências dispostos de forma fragmentada. As conexões são difíceis de se estabelecer.
disso. As bases de realização da interpretação criam seus vieses ou suas O discurso construído pelos agentes sociais de um espaço cultural comporta
condições de compatibilidade, consistência e criticidade. lacunas, por vezes estratégicas. Há assertivas genéricas, disposições vagas
e um processo quase vital de se identificar com isso, de se conformar
De volta ao campo com aquilo. A apresentação da análise e interpretação realizada pelo
pesquisador pode desvendar segredos que se pretendiam ocultos ou romper
A investigação não se encerra, necessariamente, com o prestar contas
algum pacto de silêncio; também é possível que a fala do pesquisador acione
às agências financiadoras, escrever o documento final, apresentar os
a percepção de que esse estranho não está autorizado a vir dizer aos
resultados em reuniões científicas, escrever artigos, apesar de essas
habitantes deste lugar o que está "certo ou errado entre a gente".
atividades serem fundamentais (GEERTZ, 1999).
Esse é, sem dúvida, um momento difícil, e o pesquisador, baseado
Pode-se pensar, ainda, em um espaço intermediário, um tempo
na experiência que adquiriu no convívio com o grupo, vai precisar
intercalado entre a finalização do trabalho de campo e as providências
encontrar a forma de se fazer compreender pelos atores do ambiente
aventadas acima. Essa etapa se desenha como uma volta ao campo para
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cultural que serviu de campo para a sua investigação e, então, discorrer CEGLOWSKI,D. That's a good story, but is it really research? Qualitative Inquiry,
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