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Moderna PLUS

história
conexões
conexões com a história

Alexandre Alves
Doutor em História Econômica pela Faculdade de Filosofia, Letras e
Ciências Humanas da Universidade de São Paulo.
Pesquisador-colaborador no Departamento de História da Universidade
Estadual de Campinas.

Letícia Fagundes de Oliveira


Mestre em História Social pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências
Humanas da Universidade de São Paulo.
Professora de História no Ensino Superior.

1a edição
Moderna Plus

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© Alexandre Alves, Letícia Fagundes de Oliveira, 2010

Moderna PLUS
Coordenação editorial: Maria Raquel Apolinário
Edição de texto: Eduardo Augusto Guimarães, Nubia Andrade e Silva, Rosane Cristina
Thahira, Paulo Ferraz de C. Oliveira, João Luiz Maximo da Silva, Ricardo Van Acker, Bianca
Barbagallo Zuchi, Vanessa Gregorut
Assessoria na seção Diálogos com a arte: Divanize Carbonieri
Assessoria didático-pedagógica: Thelma Cadermatori Figueiredo de Oliveira, Regina
Maria de Oliveira Ribeiro, Murilo José de Resende
Assistência editorial: Vivian Kaori Ehara, Tathiane Gerbovic, Dirce Yukie Yamamoto, Izilda
de O. Pereira, Gabriele Cristine Barbosa dos Santos
Preparação de texto: Izilda de O. Pereira, Daisy Pereira Daniel
Coordenação de design e projetos visuais: Sandra Botelho de Carvalho Homma
Projeto gráfico: Everson de Paula, Marta Cerqueira Leite, Mariza Porto
Capas: Everson de Paula
Fotos: caixa do aluno e exemplar do professor: cópia da escultura Apolo Belvedere,
original grego esculpido em mármore por Leochares (Leocarés), século IV a.C.
© Randy Faris/Corbis/Latinstock; ruínas de templo na acrópole de Atenas, Grécia
© De Agostini/Contributor/Getty Images
Parte I: Ninfa com a concha, escultura em mármore, séc. IV a.C. © Hervé
Lewandowski/RMN/Other Images;
Parte II: coroa de dom Pedro II © Claus Meyer/Tyba – Museu Imperial/IPHAN/MinC;
Parte III: Perfil do tempo, escultura em bronze de Salvador Dalí, 1931 © Michael
Nicholson/Corbis/Latinstock – Fundação Gala-Salvador Dalí.
Coordenação de produção gráfica: André Monteiro, Maria de Lourdes Rodrigues
Coordenação de arte: Wilson Gazzoni Agostinho
Edição de arte: Enriqueta Monica Meyer
Assessoria de projetos visuais: William H iroshi Taciro
Edição de infografia: Tathiane Gerbovic, Daniela Máximo, Ana Claudia Fernandes,
Mauro César Corrêa Brosso, Marcos Antônio Zibordi
Editoração eletrônica: Grapho editoração
Coordenação de revisão: Elaine Cristina del Nero
Revisão: Ana Paula Luccisano, Nancy H. Dias, Nelson J. de Camargo
Coordenação de pesquisa iconográfica: Ana Lucia Soares
Pesquisa iconográfica: Ana Claudia Fernandes, Carol Böck, Fernanda Siwiec, Etoile
Shaw, Felipe Campos, Leonardo de Sousa Klein, Odete Ernestina Pereira
Coordenação de bureau: Américo Jesus
Tratamento de imagens: Arleth Rodrigues, Bureau São Paulo, Fabio N. Precendo,
Rubens M. Rodrigues
Pré-impressão: Helio P. de Souza Filho, Marcio Hideyuki Kamoto, Alexandre Petreca,
Everton L. de Oliveira
Coordenação de produção industrial: Wilson Aparecido Troque

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)


(Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)

Alves, Alexandre
Conexões com a História: volume único /
Alexandre Alves, Letícia Fagundes de Oliveira. —
São Paulo: Moderna, 2010.

1. História (Ensino médio) I. Oliveira, Letícia


Fagundes de. II. Título.

10-07444 CDD-907

Índices para catálogo sistemático:


1. História : Ensino médio 907

ISBN 978-85-16-07402-9

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
Todos os direitos reservados
EDITORA MODERNA LTDA.
Rua Padre Adelino, 758 - Belenzinho
São Paulo - SP - Brasil - CEP 03303-904
Vendas e Atendimento: Tel. (0_ _11) 2602-5510
Fax (0_ _11) 2790-1501
www.moderna.com.br
2011
Impresso na China

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Apresentação
“Aqueles que não se recordam do passado estão
condenados a repeti-lo.”
(George Santayana)

Caros alunos e professor


Vivemos num mundo cada vez mais complexo e
interconectado, em que o tempo e o espaço encolhem
cada vez mais à medida que se aperfeiçoam as tecnologias
de comunicação e de transporte. O avanço tecnológico,
no entanto, é só um lado deste mundo marcado também
por guerras, instabilidades, atitudes de intolerância e pelo
aumento sem precedentes das desigualdades e da exclusão
social.
Neste mundo estranho e contraditório, não paramos de
nos surpreender com a fantástica aceleração dos fluxos de
informação e as inovações tecnológicas que povoam nosso
cotidiano. Processos, produtos e programas tornam-se
obsoletos da noite para o dia, o que pode nos levar a perder
os vínculos com nosso passado e, portanto, a noção de nossa
própria identidade.
Ao mostrar as relações entre as experiências das gerações
passadas, o presente em que pensamos e agimos e o futuro
que queremos construir, a disciplina de história nos ajuda
a compreender este mundo cada dia mais complexo e
multifacetado e a nos situar nele de forma crítica e autônoma.
Diante do verdadeiro oceano de imagens e informações que
nos rodeia, o conhecimento histórico pode funcionar como
um instrumento de orientação, como eram as cartas náuticas
e as bússolas que guiavam os navegadores do passado.
Sempre pensando no trabalho de alunos e professores de
história na sala de aula, desenvolvemos uma coleção voltada
para o entendimento das transformações do tempo presente
e para a tarefa de construir um futuro mais justo, tolerante e
humanizado, que garanta espaços de atuação e convivência
para jovens, adultos e idosos e saiba atender às necessidades
do homem sem destruir o ambiente nem comprometer a vida
das futuras gerações.
Do ponto de vista dos conteúdos da disciplina, o
resultado foi uma obra moderna, atualizada, que incorpora
as mudanças que ocorreram no conhecimento histórico
nas últimas décadas. O trabalho com conceitos, diferentes
gêneros textuais e imagens revela as distintas perspectivas
pelas quais o passado pode ser interpretado, trazendo para
as aulas a riqueza e a complexidade dos processos históricos.
Assim, nos preocupamos em escrever uma obra que alunos e
professores possam ler com prazer, tornando o aprendizado
da história uma experiência significativa e estimulante.

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a organização deste livro
A obra Moderna Plus História-Conexões Abertura de Parte
A abertura de Parte apresenta
é organizada em volume único. um breve sumário das
O conteúdo do livro, no entanto, é Unidades e dos respectivos
Capítulos que serão
encadernado separadamente em três partes: estudados.
Parte I, Parte II e Parte III. Assim, você leva
para a sala de aula apenas a Parte com
o conteúdo que está sendo estudado.

Abertura de Unidade
A abertura de Unidade traz textos,
imagens e infográficos que
dialogam com os conteúdos que
serão estudados nos Capítulos
correspondentes.

Questões
motivadoras
estimulam a realizar
uma reflexão
introdutória sobre o
assunto explorado na
abertura.

A linha do tempo
apresenta os principais
acontecimentos
a serem estudados Abertura de Capítulo
na Unidade. Na abertura de Capítulo,
o texto o prepara para
estudar os conteúdos do
Capítulo, apresentando e
O Capítulo é organizado problematizando o assunto
em Seções. Na abertura que será tratado.
do Capítulo, há uma breve
descrição do que será
estudado em cada Seção.

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Controvérsias
Abertura de Seção Na seção Controvérsias,
No início de cada Seção, há uma descrição dos você vai conhecer
Objetivos e dos Termos e conceitos específicos algumas polêmicas que
para cada uma delas. Dessa maneira, você tem dividem os pesquisadores
uma visão geral sobre a Seção que irá estudar. e perceber que a história
Os Termos e conceitos serão retomados nas é um campo de estudo
atividades do Caderno do estudante. em constante renovação.

Glossário
Palavras menos
conhecidas e
consideradas
importantes para
o entendimento
do texto são
esclarecidas no
glossário.

Programa de trabalho com


documentos (docs.)
Ao longo das Seções, você vai
encontrar caixas de textos, imagens, Vocabulário histórico
gráficos, tabelas e mapas que O significado de algumas palavras
complementam ou problematizam centrais para os estudos de história
os conteúdos desenvolvidos. Eles e que pode se transformar ao longo
são identificados como docs. e são do tempo é objeto desta seção.
numerados por Seção.

Questões
No final de cada
Seção, Questões
verificam o
conhecimento
aprendido.

Conteúdo digital Moderna Plus:


Indicação de alguns conteúdos
Analisar um documento histórico digitais disponíveis no portal
Nesta seção, você será orientado Moderna Plus: mapas animados,
a examinar com atenção aspectos animações multimídia, filmes e
fundamentais na leitura de textos, trechos de vídeos.
pinturas, esculturas, cartazes e outros
tipos de documentos históricos.

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a organização deste livro

Ampliando conhecimentos
Esta seção traz temas históricos
relevantes para o capítulo
que está sendo estudado,
desenvolvidos por meio de
infografias.

Atividades
No final de cada Capítulo, uma
bateria de atividades avalia o
estudo realizado e possibilita
ampliar a compreensão dos
conteúdos.

Diálogos com a arte


A história da arte recebe
um cuidado especial na
seção Diálogos com a
arte, desenvolvida no final
de cada Unidade. Aqui o
conteúdo histórico dialoga
com diferentes expressões
no campo da arte, como
a pintura, a escultura, o
cinema e a literatura.

Sugestões
A seção traz sugestões
de livros, filmes e
sites relacionados aos
assuntos tratados na
Unidade.

Praticando:
vestibulares e Enem
Questões de
vestibulares de todo
o Brasil e do Enem
foram selecionadas
para você testar o seu
conhecimento.

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SUMÁRIO GERAL
Capítulo 2
PARTE Civilizações do Nilo e
I da Mesopotâmia 48
Seção

2.1 Mesopotâmia: o começo da civilização 49


• Civilização e preconceito, 49 • A
A produção do ocupação da Mesopotâmia, 49 • Atividades
Introdução conhecimento histórico 20 econômicas, 50 • O Código de Hamurábi, 50 •
Divisão social, 51 • A escrita cuneiforme, 51 •
Seção Religião e ciência, 52
I.1 A história e o historiador, 21 2.2 A civilização egípcia 53
• Nascimento e desenvolvimento da história, 21 • O povoamento do Egito, 53 • De aldeia a
• As fontes da história, 22 • Quem faz a história, 22 império, 53 • A sociedade, 54 • A economia,
• A interpretação do passado, 22 • Novos tempos 55 • Religião e reforma, 56 • O mito da
e abordagens, 23 • O valor da memória, 24 pesagem das almas, 56
Analisar um documento histórico
I.2 Tempo, memória e história, 25 • O escriba egípcio, 57
• Os tempos da história, 25 • A percepção
Ampliando conhecimentos
e a medida do tempo, 25 • Os períodos da
• Egito: dádiva do Nilo, 58
história, 26
Atividades, 27 2.3 A civilização núbia 60
• A redescoberta de uma civilização, 60 • O
Reino de Kush, 60 • O período meroíta, 61
Da Pré-história às primeiras
Unidade A civilizações do Oriente 28
Atividades, 62

Capítulo 3
Capítulo 1
Índia e China 63
A Pré-história humana 30
Seção
Seção
3.1 A civilização do Vale do Indo 64
1.1 O lugar do homem na evolução das • O início de uma civilização, 64 • As cidades
espécies 31 e as atividades econômicas, 64 • Expansão
• O criacionismo, 31 • O evolucionismo, 32 da civilização do Rio Indo, 65
• O papel da arqueologia, 33 • A evolução
humana: traços gerais, 33 3.2 A civilização clássica indiana 66
• As migrações arianas e o bramanismo, 66 •
1.2 Uma cultura de caçadores 35 O sistema de castas na Índia, 67
• A periodização da Pré-história, 35 • Os
primeiros artefatos humanos, 35 • As 3.3 Reações contra o sistema de castas 68
primeiras espécies do gênero Homo, 36 • Novas crenças religiosas, 68 • As técnicas
• O Homo neanderthalensis, 36 • O Homo espirituais da ioga, 68 • O budismo e o
sapiens, 37 jainismo, 69
Controvérsias, 70
1.3 A origem do homem americano 38
• A ocupação da América, 38 3.4 A origem da civilização chinesa 71
Controvérsias, 40 • As primeiras culturas agrícolas na China, 71
• A dinastia Chou e a expansão da China, 72
1.4 A Pré-história brasileira 41
• As culturas do Pleistoceno (até 12 mil anos 3.5 O Império Chinês 73
atrás), 41 • As culturas do Holoceno (de 12 • O nascimento do Império Chinês, 73
mil anos atrás até o presente), 42 • A atividade intelectual, 74
Atividades, 75
1.5 O Neolítico e a Revolução Agrícola 44
• O período neolítico, 44
Atividades, 47

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sUMÁrio geral

capítulo 4
5.4 A crise das póleis e a conquista
macedônica 114
hebreus, fenícios e persas 76 • As Guerras Médicas, 114 • A Guerra do
seção
Peloponeso, 114 • O Império Macedônico, 115
Atividades, 116
4.1 Da era do bronze à era do ferro 77
• O colapso da era do bronze, 77 • As invasões capítulo 6
aramaicas, 78
roma e antiguidade tardia 117
4.2 Os hebreus: das origens ao êxodo 79 seção
• Origem dos hebreus, 79 • Abraão e a Terra
Prometida, 79 • Os hebreus no Egito, 80 6.1 A polêmica origem de Roma 118
• O mito da origem de Roma, 118 • O
4.3 Os hebreus antigos: política e sociedade 82 testemunho dos fatos, 118 • A Monarquia
• O período dos juízes, 82 • A monarquia
Romana, 119
hebraica, 82 • A dominação externa, 83
Controvérsias, 84 6.2 A República Romana 120
• Uma república aristocrática, 120 • A expansão
4.4 A civilização marítima dos fenícios 85 militar romana, 121 • A crise social no fim da
• O império marítimo, 85 • A perda da
República, 121
independência, 86
6.3 O nascimento de um império universal 122
4.5 O Império Persa 87 • A guerra civil e o fim da República, 122 • A
• A formação do Império Persa, 87 • Satrapias:
cultura no século de Augusto, 123 • O poder do
a administração do Império, 88 • O fim do
imperador, 124
Império Persa, 88
Atividades, 89 6.4 Homens livres, escravos e o cotidiano em
Diálogos com a arte Roma 125
• Quem tinha direito à cidadania, 125 • A
• As primeiras manifestações da arte, 90
escravidão na sociedade romana, 125 • A cidade
Praticando: vestibulares e ENEM, 95 romana, 127 • A zona rural, 127 • A vida cotidiana,
128
Praticando: vestibulares e ENEM,
A Antiguidade 103
clássica: Controvérsias, 129
Unidade B Grécia e Roma 98 Ampliando conhecimentos
• Pompeia e o Vesúvio, 130
capítulo 5
6.5 O declínio do Império Romano 132
a civilização grega 100 • Anarquia militar, invasões, guerra civil, 132
seção • O declínio da escravidão, 132 • A reforma
de Diocleciano, 132 • Nasce a religião cristã,
5.1 Grécia: da origem ao período homérico 101 133 • A difusão do cristianismo, 134 • A perda
• A civilização minoica, 101 • A civilização da unidade territorial, 135 • O governo de
micênica, 101 • Testemunhos do período Justiniano, 136
homérico, 102 • Os poemas da sociedade Atividades, 137
grega, 102 • A virtude guerreira, 103 • As
comunidades gentílicas, 103 • Crise da Diálogos com a arte
comunidade gentílica, 103 • A escultura grega, 138
Analisar um documento histórico Praticando: vestibulares e ENEM, 142
• A pintura grega, 104
A Idade Média: Ocidente
5.2 A formação da pólis grega e a invenção da Unidade C e Oriente 144
democracia 105
• A comunidade de cidadãos: a pólis, 105 • A capítulo 7
colonização grega, 106 • As reformas sociais,
a formação da europa feudal 146
106 • Sólon e a cidade ateniense, 107 • A tirania,
107 • A democracia ateniense, 108 • Esparta: a seção
pólis oligárquica, 109
7.1 A Europa da Alta Idade Média:
5.3 O universo cultural da pólis 110 transformações sociais e econômicas 147
• Os Jogos Olímpicos, 110 • A busca pela verdade: • A crise da escravidão e a ruralização da
a filosofia, 110 • A educação grega, 112 • O teatro sociedade, 147 • A família, o casamento e a
grego, 112 • A matemática grega, 113 mulher, 148 • A violência no cotidiano, 148

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7.2 A Igreja e a evangelização dos povos Analisar um documento histórico
bárbaros 149 • Relatos sobre o Reino de Gana, 181
• A ação da Igreja Católica, 149 • O movimento Ampliando conhecimentos
monástico, 149 • A conversão dos reinos • O comércio caravaneiro de sal, 182
bárbaros, 151 Atividades, 184
7.3 O reino cristão dos francos 152
capítulo 9
• A dinastia merovíngia, 152 • Carlos Magno e
a dinastia carolíngia, 152 • A desagregação do o outono da idade Média 185
Império, 154
seção
7.4 Sociedade e economia na ordem feudal 155
• As relações de vassalagem, 155 9.1 A crise econômica e demográfica 186
• O senhorio: a unidade de produção feudal, • As mudanças climáticas, 186
156 • Uma sociedade dividida em ordens, 156 • As doenças e a história, 187 • A Guerra
dos Cem Anos, 189
7.5 Transformações do feudalismo 158 Ampliando conhecimentos
• Os cristãos e as peregrinações armadas, 158 • A peste negra na Europa, 190
• Resultados das Cruzadas, 159 • O aumento Analisar um documento histórico
da produção agrícola, 160 • A revitalização • A vida e a morte, 192
do comércio, 160 • O crescimento de outras
atividades, 161 • A expansão das cidades 9.2 A crise do feudalismo: revoltas
medievais, 161 urbanas e camponesas 193
• A desagregação do sistema feudal, 193
7.6 A cultura na Baixa Idade Média 162
• O renascimento do século XII, 162 • O Controvérsias, 195
surgimento das universidades, 162 • A 9.3 As conquistas otomanas e a queda de
literatura medieval, 163 Constantinopla 196
Controvérsias, 164
• O poder do Império Otomano, 196
Atividades, 165
Atividades, 199
capítulo 8 Diálogos com a arte
a civilização árabe e • Estilos arquitetônicos, 200
os reinos africanos 166 Praticando: vestibulares e ENEM, 204

seção A aurora dos tempos


Unidade D modernos 206
8.1 A Península Arábica e o nascimento do
islã 166
• A paisagem e os povos da Arábia, 167 capítulo 10
• Maomé funda uma nova religião, 168 a civilização do renascimento 208
Analisar um documento histórico
• O Alcorão: o livro sagrado dos seção
muçulmanos, 170
10.1 O humanismo e o Renascimento
8.2 A expansão muçulmana 171 Cultural 209
• Os sucessores de Maomé, 171 • As atividades • Uma época de grandes transformações,
econômicas, 172 • A vida nas cidades, 172 209 • O humanismo e a revalorização
8.3 As ciências e as artes no mundo da Antiguidade, 210 • O ensino no
islâmico 173 Renascimento, 211 • O homem renascentista,
• A literatura árabe, 173 • As ciências no mundo 211 • A arte renascentista, 213 • A Revolução
árabe, 173 • A arquitetura e as artes plásticas Científica, 214
islâmicas, 175 10.2 A expansão marítima europeia 215
8.4 Reinos da África Saheliana 176 • As grandes navegações, 215
• O islã na África Subsaariana, 176 • A expansão portuguesa, 216 • A viagem
• Reinos e impérios do Sahel, 176 de Colombo a serviço da Espanha, 217
• As cidades-irmãs: Djenné e Timbuctu, 179 • O imaginário europeu sobre o Novo
• O comércio transaariano e Mundo, 218
transaheliano, 180 Controvérsias, 219

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SUMÁRIO GERAL

10.3 Reformas religiosas 220 12.3 O mercantilismo 246


• O diálogo da Igreja com seus fiéis, 220 • Uma nova política econômica, 246
• Contestações à Igreja Católica, 220 • Efeitos econômicos da conquista da
• Lutero e a Reforma Protestante, 221 América, 247 • A intervenção do Estado na
• A Reforma de Calvino, 222 economia, 248
• A Contrarreforma, 222 Atividades, 249
Atividades, 223 Diálogos com a arte
• A arte na Europa e na América, 250
Capítulo 11 Praticando: vestibulares e ENEM, 254
Sociedade e cultura dos nativos
americanos 224
Seção
PARTE
11.1 Os povos da Mesoamérica 225
• No princípio, os olmecas, 225 • A civilização II
maia, 226
11.2 Mexicas e astecas 227
• A valorização do passado indígena, 227
A construção do
• Os mexicas, 227 Unidade E mundo moderno 258
Analisar um documento histórico
• O Códice Mendoza, 229
Capítulo 13
Ampliando conhecimentos
• Tenochtitlán: expressão da riqueza
O império colonial português 260
asteca, 230 Seção

11.3 Povos dos Andes 232 13.1 A construção do império


• Antes dos incas, 232 • O domínio dos marítimo português 261
quéchuas, os incas, 232 • Impérios territoriais e marítimos, 261
• O controle do comércio marítimo português,
11.4 Terras do Brasil 234
262 • O reconhecimento político da expansão
• O Brasil antes de Cabral, 234
portuguesa, 262 • O Estado da Índia, 263
• Os tupinambás, 234 • Os índios
brasileiros hoje, 235 13.2 O Estado do Brasil 264
Atividades, 236 • O início da exploração do território, 264
• As capitanias hereditárias, 264 • O sistema
Capítulo 12 na América portuguesa, 265 • A criação do
O absolutismo e a formação governo geral, 265
do Estado moderno 237
13.3 O Brasil açucareiro 267
Seção • O trabalho nos engenhos, 267 • A ação dos
12.1 O nascimento do Estado moderno 238 jesuítas na colônia, 268 • Expedições de
• A formação das monarquias nacionais, 238 apresamento, 268
• O Estado centralizado, 239 13.4 A União Ibérica e o Brasil holandês 269
12.2 O absolutismo e a sociedade de corte 241 • Filipe II: rei de Espanha e Portugal, 269
• O sonho de poder do Império Habsburgo, • A conquista de Pernambuco, 270 • A dupla
241 • Teóricos do poder absoluto, 242 restauração da década de 1640, 272 • Os
• A formação da sociedade de corte, 243 resultados da expulsão dos holandeses do
• A França de Luís XIV, 244 Brasil, 272
Analisar um documento histórico Controvérsias, 273
• O discurso monárquico, 245 Atividades, 274

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Capítulo 14 Capítulo 16
A colonização da América espanhola 275 A mineração na América
Seção portuguesa 302
Seção
14.1 A conquista espanhola 276
• Estranhamento e espanto, 276 • As primeiras
16.1 A descoberta do ouro no Brasil 303
conquistas espanholas, 277 • Um império em declínio, 303 • A busca pelo
• Os espanhóis chegam ao México, 277 • Os ouro, 304 • Corrida para as minas, 305 • As
espanhóis partem em direção ao Peru, 278 • O técnicas de extração do ouro, 306 • A Guerra
encontro entre incas e espanhóis, 279 dos Emboabas, 306
Controvérsias, 280
16.2 Sociedade e economia das Minas Gerais 307
14.2 A colonização 281 • A criação de vilas e cidades, 307 •
• O controle das novas terras pela Coroa A integração do território, 308 • Riqueza
espanhola, 281 • Administração das colônias, para poucos, 308 • O controle das minas
281 • Organização social, 282 pela Coroa, 309 • A debilidade da economia
14.3 Trabalho e organização econômica da portuguesa, 309 • A descoberta de
colônia 283 diamantes, 310 • O declínio da produção
• Mineração, 283 • Agricultura, 283 • A aurífera, 310
Controvérsias, 311
pecuária, 284 • Trabalho indígena, 284 •
Escravidão, 285 • Resistência e continuidade 16.3 A religiosidade e a cultura do barroco 312
das culturas nativas, 285 • O barroco mineiro, 312
Atividades, 286 Atividades, 314

Capítulo 15
Capítulo 17
O Atlântico negro: o tráfico de escravos e
As treze colônias e a formação
as relações comerciais com a África 287 dos Estados Unidos 315
Seção
Seção
15.1 A presença portuguesa na África 288
17.1 Ingleses na América 316
• Comércio e colonização, 288 • As feitorias,
• Repulsão e atração, 316 • Eleitos de Deus, 316
288 • A prática da escravidão na África, 289
• Sudaneses e bantos, 289 • Colonização e 17.2 A independência das treze colônias 319
assimilação, 290 • A cristianização do Reino do • Novos interesses da metrópole, 319
Congo, 290 • A intervenção metropolitana, 319
• A reação colonial e as novas leis
15.2 O tráfico negreiro 291 metropolitanas, 320 • Uma Constituição
• O comércio transatlântico de escravos, 291 para o novo país, 320
Controvérsias, 293
Ampliando conhecimentos 17.3 Expansão e guerra 321
• O tráfico transatlântico, 294 • A guerra contra o México, 321
• A conquista do Oeste, 322
15.3 O trabalho escravo no Brasil 296 Analisar um documento histórico
• Os “negros da terra” e os negros da “Guiné”, • O Destino Manifesto e a identidade
296 • Uma sociedade de escravos, 297 • Uma norte-americana, 323
mão de obra valiosa: o escravo africano, 299
Analisar um documento histórico 17.4 A guerra civil 324
• As formas de pensar de um mundo • O Sul contra o Norte, 324 • Escravistas
escravista, 300 contra abolicionistas, 324 • Eclode a guerra,
Atividades, 301 325 • Libertos, mas marginalizados, 326

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SUMÁRIO gERAl

17.5 O avanço norte-americano na 19.4 O cotidiano das cidades e dos


América Latina 327 trabalhadores 359
• A fronteira avança para o sul, 327 • Da • O aumento populacional, 359 • A exploração
negociação à ação, 328 da mão de obra nas fábricas, 360
Atividades, 329 Ampliando conhecimentos
Diálogos com a arte • Jovens operários, 362
• A expressividade da escultura barroca, 330 Atividades, 364

Praticando: vestibulares e ENEM, 334


Sugestões, 335 Capítulo 20
A Revolução Francesa e o Império
Napoleônico 365
Seção
Uma era de revoluções
Unidade F e transformações 336 20.1 O guerra revolucionária e a queda da
monarquia 366
Capítulo 18 • A França do Antigo Regime, 366 • A crise
O iluminismo 338 do Antigo Regime, 367 • O despertar
da revolução, 368 • A radicalização da
Seção
Revolução, 369
18.1 O movimento iluminista 339
20.2 A república revolucionária 370
• A razão contra a fé, 339 • A difusão do
• A Convenção Nacional, 370 • Girondinos e
iluminismo, 339 • Iluminismo e educação, 341 •
jacobinos, 370 • Os jacobinos no poder, 370
A tradição republicana, 342 • O retorno dos girondinos, 371 • A fase do
Analisar um documento histórico Diretório, 372
• A pintura histórica , 343
20.3 O cotidiano durante a Revolução 373
18.2 O despotismo esclarecido 344 • A igualdade na fala e nas roupas, 373
• A racionalização do Estado, 344 • A contestação ao poder da Igreja, 374
• Contradições do despotismo esclarecido, 346 • A mulher e a família, 374 • O calendário
Atividades, 347 revolucionário, 375 • O Sistema Métrico
Decimal, 375
Analisar um documento histórico
Capítulo 19 • O hino revolucionário, 376
Das Revoluções Inglesas
à Revolução Industrial 348 20.4 Ascensão e queda do Império
Napoleônico 377
19.1 A Inglaterra no século XVI 349 • Do Consulado ao Império, 377
• O Estado napoleônico, 378 • As guerras
• A Inglaterra no princípio da modernidade,
napoleônicas, 378
349 • As leis contra a vadiagem, 350 • A
Ampliando conhecimentos
formação do império comercial inglês, 350
• A campanha de Napoleão na Russia, 380
19.2 A crise do absolutismo inglês 351 Atividades, 382
• O início da era Stuart, 351 • A Revolução Puritana,
352 • A restauração e a Revolução Gloriosa, 353
Capítulo 21
Analisar um documento histórico A independência das colônias
• A construção da imagem de Cromwell, 354 espanholas 383
19.3 A Revolução Industrial 355 Seção
• O pioneirismo inglês no processo de 21.1 Antes da independência 384
industrialização 355 • Da produção artesanal à • A força das ideias, 384 • Crise espanhola
maquinofatura, 356 • A revolução das máquinas, e reformas na América, 384 • O domínio
357 • O liberalismo econômico, 358 francês, 384

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21.2 A luta na América Central e no México 385 Sociedade e cultura
• Os criollos no comando dos novos governos, Unidade G no século XIX 416
385 • Os casos do México e da América
Central, 385
Capítulo 23
21.3 A independência do Haiti e de Cuba 387 Ciência, nação e revolução
• A rebelião escrava no Haiti, 387 • O caminho no século XIX 418
oposto de Cuba, 388 Seção

21.4 A independência na América do Sul 389 23.1 As revoluções liberais na Europa 419
• A Grã-Colômbia, 389 • O Vice-Reino do Rio da • O Congresso de Viena e a Restauração, 419 • A
Prata, 389 • Bolívia e Peru, 389 onda revolucionária, 420 • A ideologia liberal, 421
21.5 Uma América, muitas Américas 390 Analisar um documento histórico
• Os caudilhos e os projetos localistas, 390 • • A pintura romântica, 422
A defesa da unidade nacional, 390 • A unidade
americana, 390 23.2 O nacionalismo 423
Controvérsias, 392 • A formação do sentimento nacional, 423 •
Atividades, 393 A unificação da Itália e da Alemanha, 424 • A
nação como invenção, 425

Capítulo 22 23.3 A ciência no século XIX 426


A independência do Brasil e o • Tecnologia e sociedade, 426 • Termodinâmica
Primeiro Reinado 394 e eletromagnetismo, 426 • As descobertas
Seção de Darwin e Wallace, 427 • Ciência e
secularização, 429
22.1 A crise do sistema colonial 395 Controvérsias, 430
• A política pombalina, 395 • A Conjuração
Mineira, 396 • A Conjuração Baiana, 397 23.4 Organizar cientificamente a sociedade 431
• Desenvolvimento científico e sociedade, 431
22.2 A chegada da corte e a abertura • Pseudociência, 431 • O positivismo: a ciência
dos portos 398 como religião, 432 • O darwinismo social, 433 • A
• A Europa no início do século XIX, 398 • A viagem degenerescência social e a eugenia, 433
para o Brasil, 398 • A abertura dos portos, 399 •
Atividades, 434
Brasil: de colônia a Reino Unido, 399
Ampliando conhecimentos Capítulo 24
• A corte portuguesa no Rio de Janeiro, 400 O movimento operário e as ideias
Controvérsias, 402 socialistas 435
22.3 A proclamação da independência Seção
e o Primeiro Reinado 403
• A Revolução de 1817 em Pernambuco, 403 • 24.1 A luta pela cidadania 436
A Revolução do Porto, 403 • A volta de d. João • Os custos sociais do capitalismo, 436
a Portugal e a independência do Brasil, 404 • • Igualdade jurídica e desigualdade
A formação do Estado nacional brasileiro, 405 social, 437 • As lutas pela ampliação dos
• A primeira constituinte brasileira, 405 • A direitos, 437
Constituição de 1824, 406 • A Confederação do
Equador, 406 24.2 Socialismo e anarquismo 440
• Origens do socialismo, 440 • O anarquismo,
22.4 O fim do Primeiro Reinado 408 442 • O marxismo ou socialismo científico,
• Crise na Província Cisplatina, 408 • A
443
abdicação de d. Pedro I, 408
Atividades, 409 24.3 A mobilização da classe operária 445
• A superação das fronteiras nacionais, 445
Diálogos com a arte
• A arte burguesa e o teatro da crítica social, 410 • A Associação Internacional dos
Trabalhadores, 445 • A Comuna de Paris, 446
Praticando: vestibulares e ENEM, 414 Controvérsias, 448
Sugestões, 415 Atividades, 449

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SUMÁRIO GERAL

Capítulo 25 26.2 A expansão europeia na Ásia 481


Um império nos trópicos: • A dominação britânica na Índia, 481 • O
a monarquia brasileira 450 imperialismo na China, 482 • O Japão e a era
Seção Meiji, 483
25.1 Da Regência ao Segundo Reinado 451 26.3 A expansão europeia na África 484
• O sistema regencial, 451 • Reformas • A corrida pelo domínio da África, 484 • A
regenciais, 452 • Revoltas provinciais, 452 Conferência de Berlim, 485
• O golpe da maioridade e a coroação
de d. Pedro II, 453 • A disputa entre 26.4 Ideologia e cultura no imperialismo 486
liberais e conservadores, 453 • O darwinismo social, 486 • As grandes
• As experiências políticas no Império, 454 exposições universais, 487 • Diálogos com a
25.2 A economia no governo de arte africana, 487 • Relatos de viagens pela
d. Pedro II 455 África, 488
• O império do café, 455 • As pressões Atividades, 489
inglesas pelo fim do tráfico negreiro, 457 •
A abolição do tráfico negreiro, 457 • A Lei de
Terras de 1850, 457 • A mão de obra livre dos Capítulo 27
imigrantes, 458 Arte, ciência e tecnologia
25.3 Cultura e cotidiano no Segundo na Belle Époque 490
Reinado 459 Seção
• Um projeto moderno de civilização, 459
27.1 O impacto das novas tecnologias no
• O que é ser brasileiro?, 460 • O
romantismo brasileiro, 461 • Teorias cotidiano 491
raciais na Europa e no Brasil, 461 • O desenvolvimento tecnológico no
século XIX, 491 • Os novos meios de
25.4 O fim do Segundo Reinado 462
comunicação, 492 • A cultura de massa, 493
• A Guerra do Paraguai, 462
• O movimento abolicionista, 463 Analisar um documento histórico
• A crise da monarquia e a proclamação • O cartão-postal, 494
da república, 464 27.2 O conhecimento no início do século XX 495
Atividades, 465
• Uma nova visão do homem, 495 • As
Diálogos com a arte ciências humanas e a filosofia numa época
• Poesia e romance no século XIX, 466 de mudanças, 495
Praticando: vestibulares e ENEM, 470
27.3 A revolução das vanguardas artísticas 497
Sugestões, 472 • A arte em transição, 497 • A ruptura com a
tradição, 497 • Vanguarda e revolução, 498
PARTE Atividades, 499

III
Capítulo 28
A Primeira Guerra Mundial 500
Seção
Unidade H Um mundo em crise 474 28.1 A marcha para a guerra 501
• Os antecedentes da guerra, 501
Capítulo 26
O imperialismo na Ásia e na África 476 28.2 Eclode o conflito mundial 503
Seção
• O estopim da guerra, 503 • A guerra de
trincheiras, 504 • A entrada dos Estados Unidos
26.1 Industrialização e imperialismo 477 na guerra, 505
• As novas tecnologias e a expansão
industrial, 477 • A crise capitalista de 28.3 A tecnologia da destruição 506
1873 e seus efeitos, 479 • O colonialismo • A ciência a serviço da morte, 506 • Os
contemporâneo, 480 bastidores da guerra, 507

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28.4 O armistício e os resultados da guerra 508 30.3 Messianismo e cangaço 534
• A paz dos vencedores, 508 • O pessimismo do • Canudos 534, Violência e cangaço, 535
pós-guerra, 509 30.4 Movimentos urbanos 536
Analisar um documento histórico • A formação da classe operária no Brasil, 536 •
• A arte e a tragédia da guerra, 510 A luta por direitos sociais, 536 • Anarquismo e
Atividades, 511 anarcossindicalismo, 537 • A fundação do PCB, 537
• O tenentismo, 537
Capítulo 29 Atividades, 539
Revolução e contrarrevolução Diálogos com a arte • A arte da Belle Époque, 540
num mundo instável 512
Praticando: vestibulares e ENEM, 544
Seção
Sugestões, 545
29.1 A Revolução Mexicana 513
• México: um país com muitos conflitos, 513 • Totalitarismo e autoritarismo:
Unidade I a caminho da guerra total 546
A ditadura de Porfírio Diaz, 513 • O governo de
Madero, 514 • O governo de Carranza, 515
29.2 A Revolução Russa 516 Capítulo 31
• A Rússia: palco de uma revolução, 516 • A ascensão do totalitarismo 548
Primeiro ato: a Revolução de 1905, 517 • A Seção
Rússia e a Primeira Guerra Mundial, 517 • 31.1 O surgimento do fascismo 549
Segundo ato: a Revolução de Fevereiro, 518 • • A onda revolucionária, 549 • A contrarrevolução
Terceiro ato: a Revolução de Outubro, 519 • A e o surgimento do fascismo, 550 • A ideologia
guerra civil, 519 fascista, 550 • A crise econômica e política na
Controvérsias, 520 Alemanha, 551 • A ideologia nazista, 551
29.3 O Estado socialista 521 31.2 A crise econômica mundial 552
• O comunismo de guerra, 521 • As diferenças • A quebra da Bolsa de Nova York, 552 • O
ideológicas, 522 descrédito da democracia, 553
Atividades, 523 31.3 O totalitarismo nazista 554
• A ascensão do Partido Nazista, 554 • A
Capítulo 30 estrutura do Estado alemão, 554 • Perseguição
A república das elites: a Primeira e eugenia, 555
República no Brasil 524 31.4 O totalitarismo na União Soviética 556
Seção • A construção do regime soviético, 556
• O sistema educacional stalinista, 557 •
30.1 Cidadania e exclusão social na Primeira A coletivização forçada da terra, 557 • A
República 525 industrialização soviética, 557
• A República da Espada (1889-1894), 525 • Analisar um documento histórico
A primeira Constituição republicana, 525 • O • O realismo socialista, 558
encilhamento, 526 • A consolidação do regime,
31.5 A Guerra Civil Espanhola 559
526 • A República Oligárquica, 527
• Origens da Guerra Civil Espanhola, 559
30.2 Mudanças socioeconômicas no Brasil 528 Atividades, 560
• A primazia do setor cafeeiro, 528
• A economia da borracha, 528 • O
Capítulo 32
desenvolvimento industrial, 529 • As reformas Vargas e o Estado Novo no Brasil 561
urbanas, 529 • As epidemias e os avanços na
Seção
medicina, 530 • A Revolta da Vacina, 530
Analisar um documento histórico • A 32.1 A crise do liberalismo no Brasil 562
fotografia: testemunho da modernidade, 531 • O Brasil e a crise de 1929, 562 • A ascensão
Ampliando conhecimentos de Vargas ao poder, 562 • O Governo Provisório
• O legado de Oswaldo Cruz, 532 e a centralização do poder, 563

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SUMÁRIO gERAl

32.2 O movimento constitucionalista 564 A Guerra Fria e o conflito de


• A Revolução Constitucionalista de
Unidade J ideologias 596
1932, 564 • A Constituição de 1934, 565
• Anos de conflito: o Brasil entre Capítulo 34
1930-1937, 565 guerra Fria e descolonização 598
Seção
32.3 O Estado Novo 567
• O golpe de 1937, 567 • Repressão, censura e 34.1 A Guerra Fria 599
propaganda, 567 • A política econômica, 568 • • Depois das guerras, a Guerra Fria, 599 •
A valorização do trabalho, 569 A criação da ONU, 599 • O mundo dividido
em dois, 600 • A reconstrução capitalista,
32.4 Cotidiano e cultura 570 600 • O Estado de bem-estar social, 601 •
• Educação no Estado Novo, 570 • Cinédia e A perseguição ao “inimigo”, 602 • A corrida
Atlântida, 570 • A era de ouro do rádio, 571 espacial, 602 • A corrida armamentista, 603 •
Analisar um documento histórico A Otan e o Pacto de Varsóvia, 603
• Uma charge da era do rádio, 572
34.2 Os conflitos “quentes” da Guerra Fria 604
32.5 O fim do Estado Novo 573 • O Partido Comunista Chinês, 604 •
• As relações internacionais do regime, 573 • A A República Popular da China, 604
entrada do Brasil na Segunda Guerra, 573 • A • A participação das superpotências nos
derrocada do Estado Novo, 574 conflitos, 605 • A Guerra da Coreia, 606 •
Atividades, 575 A Guerra do Vietnã, 606 • A Crise dos
Mísseis, 607
Ampliando conhecimentos
Capítulo 33 • Jerusalém: cidade velha de guerra, 608
A Segunda guerra Mundial 576
34.3 A descolonização na Ásia e na África 610
Seção
• O domínio britânico na Índia, 610 • O
33.1 Rumo à guerra total 577 contexto africano, 611 • A descolonização da
• O período do entreguerras, 577 • A invasão da África, 611 • O apartheid na África do Sul, 612
Polônia e o início da guerra, 578 • O fim do apartheid, 612
Controvérsias, 613
33.2 A guerra no Pacífico 580
Atividades, 614
• A entrada dos Estados Unidos na guerra, 580 •
A breve ofensiva japonesa, 581 • Efeitos da
guerra nos Estados Unidos, 581 Capítulo 35
Os movimentos sociais e a transformação
33.3 A guerra na União Soviética 582
dos comportamentos 615
• O espaço vital e a Operação Barbarossa, 582 •
Uma guerra bem mais longa que o previsto, 583 Seção

Controvérsias, 584 35.1 A sociedade de consumo e a revolução


cultural 616
33.4 A resistência e a contraofensiva dos
• As transformações no sistema capitalista, 616
aliados 585
• O monopólio das grandes corporações, 616
• A resistência contra o nazifascismo, 585 • O
• A sociedade de consumo, 616 • A formação de
Dia D e o avanço aliado na Europa Ocidental,
uma cultura jovem, 617
586
35.2 Revolução e protesto nos anos 1960 618
33.5 Guerra e tecnologia 587 • O ano de 1968, 618
• As armas de destruição em massa, 587
Atividades, 589 35.3 Os novos movimentos sociais 621
• A luta contra o racismo nos Estados
Diálogos com a arte • A arte de vanguarda, 590
Unidos, 621 • O feminismo, 622 • A Nova
Praticando: vestibulares e ENEM, 594 Esquerda, 622
Sugestões, 595 Atividades, 623

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Capítulo 36
Unidade K O mundo globalizado 658
O populismo no Brasil e na
América latina 624
Seção
Capítulo 38
O colapso do socialismo no
36.1 O Brasil depois do Estado Novo 625 leste Europeu 660
• Populismo e política de massas, 625 Seção
• De Vargas a Dutra, 626 • A sucessão de
Dutra, 626 • Vargas novamente no poder, 627 38.1 A crise e o fim do sistema soviético 661
• O sistema político da União Soviética, 661
36.2 Os anos JK 628 • Estagnação econômica do bloco soviético,
• A sucessão de Vargas, 628 • O Plano de 661 • As reformas de Mikhail Gorbachev, 662
Metas, 628 • O outro lado do • A política externa e interna, 663 • O fim da
crescimento, 629 União Soviética, 663
Controvérsias, 630
38.2 A desagregação do bloco socialista 664
36.3 Os antecedentes do golpe de 1964 631 • Socialismo à força, 664 • Polônia, 664 •
• O governo Jânio Quadros, 631 • A posse Hungria, 665 • Alemanha Oriental (RDA),
de Jango, 632 665 • Bulgária, 665 • Tchecoslováquia, 666 •
Romênia, 666
36.4 O populismo na Argentina 633
• Da grandeza à crise, 633 • O governo de 38.3 A Europa Oriental depois do socialismo 667
Perón, 634 • O retorno de Perón, 634 • A Rússia após o colapso da União
Atividades, 635 Soviética, 667 • Crise no antigo bloco
soviético, 667 • Os conflitos étnicos, 668
Controvérsias, 669
Capítulo 37 Atividades, 670
Ditaduras militares na
América latina 636
Capítulo 39
Seção
O Brasil contemporâneo 671
37.1 Militares no poder 637 Seção
• Unidade militar?, 637 • Castello Branco: a
primeira fase do regime, 638 • AI-5: a dura 39.1 A nova república 672
face do regime, 638 • Contestações ao • A transição democrática, 672 • O início do
regime, 639 governo Sarney, 672 • A Constituição cidadã,
673
37.2 O regime consolidado 640
• Os anos do governo Médici, 640 • O governo 39.2 O povo nas urnas: eleições diretas
Geisel, 641 • A abertura: lenta, gradual e para presidente 674
progressiva, 642 • A eleição de Fernando Collor, 674 • O governo
Controvérsias, 644 Itamar Franco, 675

37.3 Golpes militares em outros países da 39.3 De FHC a Lula 676


América Latina 646 • O primeiro mandato de FHC, 676 • A
reeleição de FHC, 676 • O primeiro mandato
• Chile: da democracia ao golpe, 646
presidencial de Lula, 677 • O segundo
• O golpe militar de 1973, 647 • A ditadura de
mandato presidencial de Lula, 678 • Um
Pinochet, 648 • Argentina: país de golpes,
balanço do governo Lula, 678
649 • A ditadura Argentina, 649 • A guerra das
Malvinas, 650 39.4 Desafios do Brasil contemporâneo 679
Atividades, 651 • Os indígenas no Brasil atual, 679 • A afirmação
Diálogos com a arte • A arte do pós-guerra, 652 da cultura africana no Brasil, 680 • O Brasil no
mundo pós-crise, 681
Praticando: vestibulares e ENEM, 656 Controvérsias, 683
Sugestões, 657 Atividades, 684

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SUMÁRIO gERAl

Capítulo 40 Analisar um documento histórico


Perspectivas do mundo globalizado 685 • A sociedade de consumo e o império das
Seção
marcas, 697

40.1 O novo capitalismo global 686 40.4 Guerra e terrorismo em um


• Globalização e integração econômica, 686 mundo instável 698
• As políticas econômicas neoliberais, 687 • A guerra no mundo contemporâneo, 698
• Neoliberalismo e globalização, 688 • A • Os ataques terroristas de 11 de setembro, 699
desindustrialização, 688 • A guerra contra o terror, 699

40.2 Efeitos sociais do processo de 40.5 O problema ecológico e a ameaça da


globalização 689 catástrofe climática 701
• A organização das empresas e do trabalho, • A relação entre homem e natureza, 701 •
689 • Desemprego e precarização do trabalho, Industrialização e degradação ambiental, 701 •
690 • Globalização e pobreza, 691 O aquecimento global, 702
• Crime globalizado, 692 • Êxodo rural e Atividades, 703
urbanização descontrolada, 693 Diálogos com a arte
• Mercantilização da produção cultural, 693 • Novas leituras e linguagens, 704
40.3 A revolução tecnológica e as mudanças Praticando: vestibulares e ENEM, 708
nas relações humanas 694 Sugestões, 709
• A tecnologia e a transformação da sociedade,
694 • As novas tecnologias de informação e
comunicação, 695 • O impacto da internet nas
relações humanas, 695

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PARTE I
Das origens do homem
à conquista do Novo Mundo

Introdução

A produção do conhecimento histórico, 20

Unidade A

Da Pré-história às PARTE

I
primeiras civilizações do Oriente, 28
Capítulo 1 A Pré-história humana, 30
Capítulo 2 Civilizações do Nilo e da Mesopotâmia, 48
Capítulo 3 Índia e China, 63
Capítulo 4 Hebreus, fenícios e persas, 76

Unidade B

A Antiguidade clássica: Grécia e Roma, 98


Capítulo 5 A civilização grega, 100
Capítulo 6 Roma e a Antiguidade Tardia, 117

Unidade C

A Idade Média: Ocidente e Oriente, 144


Capítulo 7 A formação da Europa feudal, 146
Capítulo 8 A civilização árabe e os reinos
africanos, 166
Capítulo 9 O outono da Idade Média, 185

Unidade D

A aurora dos tempos


modernos, 206
Capítulo 10 A civilização do
Renascimento, 208
Capítulo 11 Sociedade e cultura dos
nativos americanos, 224
Capítulo 12 O absolutismo e a
formação do Estado
moderno, 237

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Introdução

A produção do
conhecimento histórico

Uma ciência em construção


I.1 A história e
Por que aprender história? Para que serve o conhecimento histórico?
o historiador
Para responder a essas perguntas, podemos recorrer a uma comparação.
O historiador produz um Muitas vezes, pessoas que passaram por acidentes e traumas graves
conhecimento sobre o passado
perdem total ou parcialmente a memória, sofrendo de amnésia. Ao perder
baseado na análise de fontes
a memória, essas pessoas perdem ao mesmo tempo o seu passado, a sua
históricas, que devem ser
história. Não conseguindo mais reconhecer os outros nem a si mesmos, os
interpretadas e questionadas.
pacientes que sofrem de amnésia não possuem identidade ou perspectiva
I.2 Tempo, memória de futuro.
e história Com a história acontece algo semelhante. Assim como o doente de

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O tempo é a matéria-prima da amnésia, se não tivéssemos história, não teríamos referências para nos
história, e a memória torna o orientar na vida: não saberíamos quem somos, de onde viemos, nem o que
indivíduo capaz de relacionar devemos fazer. Dependendo da maneira como encaramos o passado, serão
presente, passado e futuro. feitas as escolhas para o futuro. Assim, o conhecimento histórico torna
possível compreender melhor o mundo em que vivemos e o nosso próprio
lugar dentro desse mundo, ou seja, a nossa identidade.
Uma das principais funções da história
é relembrar aquilo que poderia ser esque-
cido, transmitindo o conhecimento sobre
o passado às novas gerações. Para isso,
deve-se evitar julgar o passado com os
valores do presente. O papel do historiador
é procurar compreender os desejos, os
pensamentos e as motivações dos homens
e das mulheres do passado com o objetivo
de dar continuidade aos projetos que eles
não conseguiram concluir ou de evitar os
erros que cometeram.
A história é uma disciplina cujos limi-
tes estão em constante ampliação. Isso
acontece porque o seu próprio objeto de
estudo, as sociedades humanas no tempo,
está em constante transformação. Confor-
me as sociedades mudam, modificam-se
as interrogações que os homens fazem ao
passado.

Clio, pintura de Pierre Mignard, 1689. Na


mitologia grega, Clio é a musa da história.
Nessa tela, ela é representada como uma
jovem com um livro na mão direita (que
simboliza o conhecimento do passado)
e uma trombeta na mão esquerda (que
simboliza o tempo inexorável). Museu
de Belas Artes, Budapeste.

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Seção I.1
A história e o historiador
Objetivos Nascimento e desenvolvimento da história
Entender a importância A história é a disciplina que estuda a vida dos homens em sociedade ao
da história e o processo longo do tempo. Seu objetivo é compreender ações, desejos, pensamentos,
de produção do sentimentos e criações culturais dos homens em diversas sociedades e va-
conhecimento histórico. riadas épocas. A própria disciplina de história tem uma longa história atrás
Compreender o vínculo de si, que começou na Grécia antiga.
da história com outras A palavra história vem do grego antigo historie, que em dialeto jônio signi-
disciplinas. fica “investigação”, e está relacionada a outras duas palavras: o substantivo
istor, “testemunho”, e o verbo istorein, “informar-se”. Esse é o sentido usado
Termos e conceitos
pelo viajante grego Heródoto (século V a.C.), que escreveu uma história das
• História guerras dos gregos contra os persas com base em testemunhos oculares dos
• Fonte histórica acontecimentos. Para Heródoto, o objetivo da história é produzir um discurso
• Sujeito histórico ou relato verdadeiro dos fatos, separando-o dos mitos, fábulas e lendas.
Até o advento do mundo moderno, surgiram muitas outras formas de
encarar a história. Somente no século XVI, contudo, foram criados métodos
para orientar a análise das fontes históricas, distinguindo os testemunhos
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falsos dos testemunhos verdadeiros sobre o passado. Por meio do contato


direto com as fontes e do desenvolvimento do método crítico, os historiado-
res procuravam compreender toda a diversidade de usos e costumes entre
os povos.

dOc. 1 História e identidade nacional Novos rumos da história


Em 1838, poucos anos depois de o Brasil ter-se A história, no entanto, ainda era considerada um
tornado um país independente de Portugal, foi criado gênero literário, no qual importava mais a elegância da
na cidade do Rio de Janeiro o Instituto Histórico e escrita do que a objetividade do conhecimento. Isso
Geográfico Brasileiro (IHGB). Sua missão era con- mudaria no século XIX, quando a história passou a ser
solidar a unidade nacional, produzindo trabalhos considerada uma ciência e tornou-se uma disciplina
sobre a memória e a história do Brasil. No mesmo acadêmica, ensinada em escolas e universidades. Ao
ano, foi fundado o Colégio Pedro II, uma instituição mesmo tempo que a história se afirmou como disci-
destinada a oferecer certo padrão cultural para as plina científica, surgiu a preocupação em preservar o
elites da corte do Rio de Janeiro e que dava destaque patrimônio documental e material do passado, prin-
para o ensino de história. cipalmente o das nações. Para conservar e divulgar
a memória nacional, foram criadas instituições como
museus, escolas, arquivos, institutos históricos e
associações arqueológicas [doc. 1].
No século XX, o conhecimento histórico avançou
muito. Os historiadores não se restringiam mais a
narrar a história dos acontecimentos que pontuavam
a memória da nação (guerras, batalhas, tratados,
revoluções etc.), como no século XIX. Novas áreas de
pesquisa e novos métodos e abordagens surgiram,
modificando as relações entre presente, passado
e futuro e transformando o modo como o conheci-
mento histórico era produzido. Como parte desse
Introdução

movimento de mudança, novos campos de estudo


se desenvolveram, como a história da infância, das
atitudes diante da morte, da loucura, da relação en-
Fachada do Colégio Pedro II, na cidade do Rio de Janeiro, tre o homem e o clima, das roupas, das mulheres, da
em 2008, uma instituição pública de ensino administrada
pelo governo federal.
leitura, da amizade, e novos vestígios foram tratados
como fontes históricas.
21

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As fontes da história Quem faz a história
Todos os vestígios deixados pelas gerações pas- As transformações na sociedade são ocasiona-
sadas são fontes históricas que podem ser analisadas das pelos sujeitos históricos, que podem ser tanto
pelos historiadores para produzir conhecimento his- pessoas individuais quanto grupos coletivos. O grau
tórico. Esses vestígios podem ser registros escritos, de importância das transformações sociais varia
monumentos, fotografias, pinturas, instrumentos de conforme a repercussão que os acontecimentos
trabalho, joias, vestimentas, entre muitos outros ob- tiveram para o conjunto da sociedade e o valor que
jetos feitos pelo trabalho humano, que servem como a cultura dominante atribui a elas. Até meados do
base para a construção do conhecimento histórico. No século XIX, somente os grandes personagens, como
século XIX, quando a história tornou-se uma disciplina imperadores, reis, generais e papas, eram conside-
acadêmica e o ofício do historiador uma profissão rados sujeitos da história. As mudanças históricas
reconhecida, só se considerava fonte histórica os eram atribuídas aos feitos individuais desses “heróis”,
documentos escritos, especialmente os registros responsáveis pela grandeza das nações.
oficiais produzidos pelos Estados, como tratados Essa visão da história foi se modificando a partir
diplomáticos, narrativas de batalhas, documentos do final do século XIX, quando outros sujeitos históri-
administrativos etc. cos começaram a surgir no discurso do historiador: as
No século XX, a concepção de fonte histórica se mulheres, os operários, os pobres, os povos coloniza-
ampliou consideravelmente. Vestígios arqueológicos, dos etc. Essa mudança resultou do próprio processo
imagens, mitos, lendas, relatos orais, literatura, cine- histórico. Desde o momento em que começaram a
ma, publicidade, enfim, todas as produções humanas se revoltar contra a dominação, os grupos humanos

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passaram a ser consideradas fontes para o conhe- inferiorizados na sociedade passaram a construir uma
cimento do passado [doc. 2]. Essa transformação é memória e a exigir um lugar na história.
um dos fatores que possibilitaram a ampliação do
território do historiador e a abertura de novos campos A interpretação do passado
de pesquisa.
Toda história tem uma dimensão interpretativa, em
que entra a subjetividade do historiador. Aquele que
escreve a história deve procurar o significado e a expli-
cação que se podem atribuir aos fatos históricos. As-
sim, para o historiador, o passado pode ser comparado
a um texto a ser decifrado, e vários métodos podem
ser usados para decifrar esse texto. O historiador não
deve apenas narrar os acontecimentos do passado,
mas explicar os contextos e processos históricos em
que os acontecimentos se inserem. Para isso, ele deve
utilizar conceitos, teorias e métodos de pesquisa.
Outra característica importante do conhecimento
histórico é que o próprio historiador é um ser humano
de seu tempo. Assim, o historiador sempre fala de
determinada perspectiva, que expressa o seu lugar na
sociedade, sua formação acadêmica, suas convicções
filosóficas ou ideológicas, enfim, sua visão de mundo.
A presença da subjetividade do historiador na produ-
ção do conhecimento histórico não significa que esse
conhecimento seja menos objetivo. Pelo contrário, jus-
tamente porque cada historiador narra a história de um
ponto de vista particular, temos uma multiplicidade de
perspectivas, que enriquecem nosso conhecimento do
passado. Além disso, o historiador, diferentemente do
literato, não pode inventar os fatos, mas sim construir a
Introdução

dOc. 2 Tumba em Tebas, Egito, 1550-656 a.C. A pintura que


sua narrativa baseada em documentos, em vestígios do
decora o interior dessa tumba é uma fonte para o estudo
do antigo Egito. Isso não significa que seu conteúdo será passado, que conferem legitimidade ao seu trabalho.
interpretado da mesma maneira por todos os historiadores.
Dependendo dos materiais disponíveis para a pesquisa e da • Subjetividade. O universo interior ou o espaço íntimo
perspectiva do historiador, a pintura pode ser vista como de cada indivíduo, caracterizado por crenças, valores,
testemunho da crença dos egípcios na imortalidade, como emoções e sentimentos por intermédio dos quais
expressão da organização social, entre outras possibilidades. interagimos com a sociedade e o mundo exterior.

22

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Novos tempos e abordagens diferentes da nossa. Por exemplo: os esquimós, entre
outras particularidades, costumam surpreender pela
Ao ampliar o campo de observação, os historiado- capacidade de distinguir diferentes tonalidades de
res do século XX não se limitaram mais à ação dos per- branco, cor predominante naquelas paisagens gela-
sonagens considerados grandes sujeitos históricos, das do extremo norte. Já a comunidade dos bororos,
mas procuraram dar sentido à experiência cotidiana bastante estudada pelos antropólogos, celebra tra-
das pessoas comuns, mostrando que, por exemplo, dicionalmente rituais funerários que chegam a durar
o mais humilde soldado do exército de Napoleão era meses entre a morte e o enterro definitivo dos ossos
um sujeito histórico tanto quanto o próprio Napoleão. do indivíduo morto. Podemos dizer, então, que a visão
O historiador também voltou seu olhar para o pensa- de mundo de determinada época ou lugar expressa
mento, os costumes e o modo de vida das pessoas crenças, valores e experiências dos sujeitos históri-
comuns. Foi assim que se desenvolveram novas e cos que vivem ou viveram naquele contexto.
importantes áreas da história, como a história oral
e a história das mentalidades [doc. 3]. • Esquimó. Conjunto de povos que habitam as regiões
A própria realidade é socialmente construída e próximas ao Polo Ártico da América (Alasca, Canadá),
Groenlândia e Sibéria. O termo usado no Canadá para
varia de acordo com as experiências vividas pelos descrever esses povos é “inuit”.
sujeitos históricos. Em outras palavras, não existe • Bororo. Nação indígena brasileira, composta
uma realidade universal. É mais fácil perceber as dife- atualmente de cerca de 1.500 indivíduos, que vive
renças interculturais quando observamos sociedades no estado do Mato Grosso.
Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

dOc. 3 História oral e história das mentalidades


A história oral é uma abordagem histórica que bus- minada sociedade numa época específica. As mentali-
ca registrar a memória de pessoas e grupos sociais dades estão associadas às atividades inconscientes,
que não aparecem tradicionalmente nos registros aos elementos culturais e de pensamento que fazem
escritos, dando voz a sujeitos anônimos, esquecidos parte do cotidiano sem que os indivíduos os perce-
ou à margem da história escrita, como mulheres, bam. A mentalidade é considerada uma estrutura de
crianças, analfabetos, idosos, operários etc. A história longa duração e, portanto, muda mais lentamente do
oral nasceu no final da década de 1940 nos Estados que os acontecimentos políticos e sociais. Um bom
Unidos e aos poucos foi incorporada por outros países, exemplo de estrutura de longa duração são as cren-
como Inglaterra (1960) e Brasil (1970), sempre envol- ças religiosas, como o catolicismo no Brasil. Ele foi
vida com as questões da memória humana individual implantado no processo de colonização e permanece
ou coletiva. influente até os dias de hoje. Outro exemplo são os
A história das mentalidades elege como objeto de usos e costumes de um povo, como o consumo de
estudo os comportamentos, as crenças, os valores, arroz e feijão, típico dos brasileiros, e a prática do Tai
os sentimentos e os medos que caracterizam deter- Chi Chuan, típica dos chineses.

Página da internet do
Museu da Pessoa. Esse
museu é um espaço
virtual destinado a
Introdução

valorizar a vida das


pessoas e está aberto
à participação de todo
indivíduo que queira
compartilhar a história
da sua vida. Acesso em
março de 2010.

23

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O valor da memória da humanidade. Com o fim da guerra e a derrota do
nazismo, os aliados tiveram de escolher se os campos
Não existe nenhuma sociedade sem memória. Seja de concentração deviam ser desmantelados ou não.
por meio de mitos, lendas ou relatos orais, seja por Decidiu-se conservá-los exatamente como eram para
meio de documentos escritos, imagens e monumen- manter viva a memória do horror e impedir que um
tos, cada sociedade preserva o passado de alguma acontecimento tão terrível fosse esquecido ou que,
maneira. Essa memória, que é constituída pelo con- algum dia, alguém afirmasse que aquilo nunca havia
junto de vestígios deixados pelas gerações passadas, acontecido [doc. 4].
pode ter diversas funções: exaltar os grandes feitos
dos ancestrais, preservar a identidade de um grupo QUESTÕES
social, transmitir costumes, tradições e vivências 1. Relacione os elementos da imagem da abertura des-
etc. Mas a função mais importante da memória é te capítulo com a concepção que se tinha da história
relembrar aquilo que poderia ser esquecido, trans- no mesmo período.
mitindo o significado das experiências passadas às 2. A subjetividade do historiador compromete a obje-
novas gerações. tividade do conhecimento histórico? Justifique sua
resposta.
Vamos dar um exemplo. O holocausto, ou seja,
o assassinato de milhões de judeus pelo governo 3. Explique como uma nova concepção de sujeito his-
tórico provocou mudanças nos estudos de história
nazista da Alemanha durante a Segunda Guerra no século XX [doc. 4].
Mundial, foi uma das maiores catástrofes da história

dOc. 4

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Relatos da dor
Durante a Segunda Guerra Mundial, o químico sua morte, sem qualquer sentimento de afinidade humana,
italiano Primo Levi foi preso e enviado para campos na melhor das hipóteses considerando puros critérios de
de concentração, entre eles Auschwitz I, na Polônia. conveniência. Ficará claro, então, o duplo significado da
Com o fim da guerra, em 1945, ao ser libertado relatou expressão ‘Campo e extermínio’, bem como o que desejo
suas experiências como prisioneiro judeu na obra É expressar quando digo: ‘chega ao fundo’.”
isto um homem?.
LEVI, Primo. É isto um homem?
Rio de Janeiro: Rocco, 1988. p. 25.

“Imagine-se, agora, um homem privado não apenas dos O escritor


seres queridos, mas de sua casa, seus hábitos, sua roupa, italiano de
tudo, enfim, rigorosamente tudo que possuía; ele será um origem judaica
ser vazio, reduzido a puro sofrimento e carência, esquecido Primo Levi em
de dignidade e discernimento — pois quem perde tudo, mui- Roma, na Itália,
em 1986.
tas vezes perde também a si mesmo; transformado em algo
tão miserável, que facilmente se decidirá sobre sua vida e
Introdução

Área externa do antigo


campo de concentração
de Auschwitz, que hoje
funciona como museu.
Oswiecim, Polônia, 2008.

24

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Seção I.2
Tempo, memória e história
Objetivo Os tempos da história
Analisar a relação Podemos dizer que o tempo é a matéria-prima de que é feita a história. A
entre tempo, história e história pressupõe a divisão do tempo em passado (o que já passou), presente
memória. (a realidade vivida neste momento) e futuro (o que ainda está por vir). Como o
homem é um ser que tem linguagem e memória, é capaz de relacionar o presen-
Termos e conceitos
te vivido com as experiências passadas e com as expectativas para o futuro.
• Tempo
Segundo o pensador italiano Benedetto Croce, toda história é a história do
• Memória presente. Isso significa que o passado não é uma dimensão estática, imutável
• Período histórico e separada do presente. É a partir do presente que podemos construir um
conhecimento sobre o passado, e esse conhecimento, por sua vez, nos permite
entender o presente e planejar o futuro. Assim, passado, presente e futuro
são dimensões dinâmicas e interdependentes, nas quais se desenrolam os
desejos, as aspirações e as ações humanas.
Um bom exemplo para entendermos a ligação entre passado, presente
e futuro é pensarmos na história das mulheres. De fato, foi a partir do mo-
mento em que as mulheres começaram a conquistar um espaço público na
Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

sociedade, ou seja, a partir de uma questão do presente, que se desenvol-


veu, na historiografia, um espaço para estudar o passado da mulher, agora
entendida como sujeito histórico.

A percepção e a medida do tempo


O tempo, ao lado do espaço, é uma das dimensões fundamentais da
percepção humana, permitindo-nos interagir com o mundo exterior e nos
orientar nele. A percepção psicológica do tempo evolui desde a infância e seu
desenvolvimento se conclui apenas no final da adolescência.
Uma criança de 5 anos não consegue dimensionar a duração de uma semana,
um mês ou um ano. Por isso, quando ela nos pergunta quando vai receber o
presente prometido e respondemos que ela o receberá em quinze dias, é comum
ela nos perguntar todos os dias se a tão esperada data já chegou. As crianças
também percebem o tempo de modo afetivo e psicológico, distinguindo mo-
mentos prazerosos, em que o tempo parece sempre passar de forma acelerada,
de momentos desagradáveis, em que a relação contrária prevalece.
Conforme avança o processo de amadurecimento, a criança e o adoles-
cente passam a reconhecer a duração de uma viagem, a diferença entre um
mês e um ano, a distância entre uma semana e outra, os ciclos da natureza,
como o aparecimento e o pôr do sol, elementos cotidianos que conferem um
referencial concreto da passagem do tempo, sem que desapareça a noção
afetiva do tempo, também presente na experiência do adulto.

O tempo e a sociedade
O tempo também é experimentado de modo distinto por diferentes so-
ciedades. Nas sociedades agrárias e pré-industriais, por exemplo, o tempo
social identifica-se com o tempo cósmico da natureza. A medida do tempo
é feita conforme o ciclo das estações, marcado pelos trabalhos agrícolas, o
Introdução

ritmo do clima e a sucessão entre períodos de trabalho e períodos de festa.


Por exemplo, são as estações do ano que definem a época de iniciar o plan-
DOC. 1 Pedra do sol asteca, tio, de fazer a colheita e de preparar a terra para um novo cultivo. O trabalho
calendário esculpido num bloco agrícola é determinado pelo tempo da natureza porque é necessário que as
de basalto pesando 24 toneladas.
Museu Nacional de Antropologia, plantações recebam chuva no tempo certo e que a frequência da chuva se
Cidade do México. reduza na época da colheita [doc. 1].
25

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O tempo no mundo moderno o mundo ocidental. Esse calendário tem 365 dias,
Nas sociedades industriais modernas, ao contrário, divididos em doze meses de 28 (fevereiro), 30 ou 31
o tempo é medido por instrumentos mecânicos, como o dias. A cada quatro anos, é acrescido um dia no mês
relógio. É o relógio que determina o horário de iniciar o de fevereiro, constituindo o chamado ano bissexto.
trabalho, de interrompê-lo para o almoço e de encerrar
as atividades. O aumento da facilidade de comunica- Os períodos da história
ções e da circulação de informações modifica a per-
cepção social do tempo, transmitindo a sensação de Para facilitar a compreensão dos acontecimentos
aceleração e de novidade permanente. O tempo deixa históricos, o historiador organiza e divide o tempo em
de ser pautado pelos lentos ciclos da natureza e passa períodos históricos, que destacam acontecimentos
a ser orientado pelo ritmo frenético da máquina. considerados fundamentais para a sociedade em
que ele vive. Tradicionalmente, a história europeia
Os calendários ocidental está dividida em quatro períodos: Idade
Antiga, Idade Medieval, Idade Moderna e Idade Con-
A necessidade de ordenar o tempo social levou à
temporânea [doc. 2].
instituição dos calendários. O calendário é uma forma
de dividir o tempo e organizá-lo em períodos que se A divisão da história em quatro grandes períodos
repetem de forma cíclica, como os dias, os meses e os é uma convenção, assim como a duração e a escolha
anos. Os calendários permitem datar e situar os acon- dos acontecimentos que marcam o início e o fim de
tecimentos, facilitando o planejamento do trabalho e cada período. Por exemplo, a eleição da Revolução
das atividades escolares, a organização de cerimônias Francesa como marco inicial da Idade Contemporâ-
nea pode ser entendida como o reconhecimento de

Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.


e rituais, o culto dos feitos dos ancestrais e até para
assinalar eventos futuros por meio de previsões. um patrimônio histórico comum a um determinado
grupo, no caso os europeus ocidentais.
Os calendários estabelecem uma relação entre o
tempo vivido pelas sociedades e o tempo da natureza. Adotamos a periodização clássica da história oci-
Na maioria das culturas, o calendário foi criado com dental, pois acreditamos que essa divisão tradicional
base em observações astronômicas, mas também auxilia o aluno a situar os acontecimentos no tempo e a
nos ciclos da natureza, como a alternância entre o perceber neles elementos de mudança e continuidade,
período de chuva e o período de seca. O fenômeno diferenças e semelhanças, além de reconhecer as di-
mais utilizado como referência são os ciclos da lua. ferentes dimensões temporais.
Os calendários baseados no ciclo da lua, chamados • Gregoriano. Refere-se ao calendário instituído pelo
lunares, deram origem a ciclos de cerca de trinta dias papa Gregório XIII em 1582, substituindo e corrigindo
para os meses e de doze meses para o ano. Entre as imprecisões do calendário juliano, estabelecido em
46 a.C. pelo imperador romano Júlio César.
os exemplos de calendários lunares, encontram-se
o da Babilônia, um dos mais antigos da história da
QUESTÃO
humanidade, e o muçulmano.
O calendário gregoriano, utilizado por nós atual- Quais as semelhanças e as diferenças entre a concep-
ção de tempo das sociedades tradicionais e a das
mente, se fundamenta no ciclo solar. Conhecido como sociedades industriais?
calendário cristão, serve de referência para todo

dOc. 2 A periodização clássica da história Esta linha do tempo não foi organizada em escala temporal.
Aparecimento da Queda do Império Tomada de Revolução
escrita – 3100 a.C. Romano – 476 Constantinopla – 1453 Francesa – 1789
Idade Idade Idade Idade
Antiga Média Moderna Contemporânea
Introdução

Vassalo presta
homenagem a
Pintura em ânfora seu senhor, selo Esquadra de Pedro Torres Gêmeas do World Trade
representando o nascimento do século XII. Álvares Cabral, extraído Center após serem atingidas
de Dioniso. Grécia, século do Livro das Armadas, por aviões terroristas. Nova
V-IV a.C. século XVI. York, EUA, 2001.

26

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ATIVIDADES

Retomar conteúdos a) Identifique pelo menos dois argumentos comuns


aos dois textos quanto à importância da cronologia
nos estudos de história.
1 Imagine que você é um historiador e resolveu escrever
a história da sua família. Faça uma lista das fontes b) Por que, segundo o texto 2, não se pode dispensar
históricas disponíveis para a elaboração deste traba- a cronologia nos estudos de história?
lho, organizando-as em: escritas, iconográficas, orais c) Que diferenças, quanto ao estilo, você ressalta entre
e materiais. os dois textos?

2 Todas as pessoas, em seu cotidiano, se relacionam de 4 Leia esta tirinha da Mafalda.


alguma maneira com o passado: rememorando um
acontecimento pessoal, procurando soluções para
um problema familiar, planejando uma ação futura,
cultuando deuses e ancestrais. O que diferencia essa
“volta ao passado”, por meio de relatos pessoais, lendas
e mitos, do trabalho realizado pelo historiador?

Ler textos e imagens

3 Os textos a seguir são do antropólogo Claude Lévi-


-Strauss (texto 1) e do crítico e historiador da literatura
Alfredo Bosi (texto 2).
Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

Texto 1

“A história não escapa, portanto, à obrigação, comum


a todo conhecimento, de utilizar um código para analisar
o seu objeto, mesmo (e sobretudo) se atribuirmos a esse
objeto uma realidade contínua. [...] Esse código consiste
numa cronologia. Não há história sem datas; para nos
convencermos disso, basta considerar o modo como um
aluno chega a aprender história: ele a reduz a um corpo
Tira da Mafalda, personagem criada
descarnado cujo esqueleto é constituído pelas datas. Não pelo argentino Quino.
sem razão, reagiu-se contra esse método enfadonho, mas
caindo por vezes no excesso inverso. Se as datas não são a) Como a tirinha da Mafalda apresenta os sujeitos da
história?
toda a história, nem o mais interessante na história, elas,
b) Escreva um pequeno texto expondo seu próprio
todavia, representam aquilo sem o que a própria história
papel como sujeito da história.
desapareceria, pois toda a sua originalidade e toda a sua
especificidade residem na apreensão da relação do antes 5 O texto a seguir é parte de um diálogo entre dois per-
e do depois, a qual estaria condenada a desaparecer se, sonagens do romance filosófico O mundo de Sofia.
pelo menos virtualmente, os seus termos não pudessem
ser datados.”
“– Quer dizer que a Idade Média durou dez horas? –
LÉVI-STRAUSS, Claude. História: método sem objeto perguntou Sofia. [...]
específico. In: SILVA, Maria Beatriz Nizza da (Org.).
Teoria da história. São Paulo: Cultrix, 1976. p. 40.
– Se cada hora valer cem anos, então sua conta está
certa. Podemos imaginar que Jesus nasceu à meia-noite,
Texto 2 que Paulo saiu em peregrinação missionária pouco antes
da meia-noite e meia e morreu quinze minutos depois,
“1492, 1792, 1822, 1922. em Roma. Até as três da manhã a fé cristã foi mais ou
Datas. Mas o que são datas? menos proibida. [...] Em 380, o cristianismo se tornou
Datas são pontas de icebergs. a religião de todo o Império Romano. [...] Por volta de
1200, aproximadamente, começaram a ser fundadas as
O navegador que singra a imensidão do mar bendiz primeiras universidades.”
a presença dessas pontas emersas, sólidos geométricos,
cubos e cilindros de gelo visíveis a olho nu e a grande GAARDER, Jostein. O mundo de Sofia: romance da história
distância. Sem essas balizas naturais que cintilam até da filosofia. São Paulo: Companhia das Letras, 1997. p. 187-189.
Introdução

sob a luz noturna das estrelas, como evitar que a nau se


espedace de encontro às massas submersas que não se
veem? [...].” a) Qual o significado das horas na periodização feita
pelos personagens?
BOSI, Alfredo. O tempo e os tempos. In: NOVAES, Adauto. b) A qual calendário essa periodização está relacionada?
Tempo e história. São Paulo: Companhia das Letras/ c) Qual a relação entre a meia-noite do diálogo e esse
Secretaria Municipal da Cultura, 1992. p. 19. calendário?

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Moderna plus história alexandre alves
letícia fagundes de oliveira
1
conexões
Parte I
Introdução Volume único

SugeStõeS de atIvIdadeS

introdução - a produção do do exclamado [...] ‘Este é o meu descanso eterno, aqui


habitarei, pois isso é o que tenho desejado!’ Contudo,
conhecimento não tardei a distinguir, em meio ao aparente silêncio
destas galerias, um movimento e um murmúrio que não
histórico eram os da morte. Estes papéis e pergaminhos, há tanto
Ler textos e imagens tempo abandonados, nada mais desejavam do que ser
restituídos à luz do dia: pois não são papéis, mas sim
1 Analise a seguinte frase de um historiador francês vidas de homens, de províncias e de nações [...]. Todos
e observe a pintura de Dalí.
viviam e falavam, e rodeavam o autor numa multidão
“A história é filha do seu tempo.” que falava uma centena de línguas [...].”
Lucien Febvre [1942]. FEBVRE, Lucien. O problema da MICHELET, Jules. In: THOMPSON, Paul. A voz do passado: história oral.
incredulidade no século XVI: a religião de Rabelais. São Paulo: Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1992. p. 74-75.
Companhia das Letras, 2009. p. 30.
fondation gala - salvador dalí/licenciado por autvis, brasil,
2010 - salvador dalí museum, são petersburgo, flórida

a) Contextualize o trecho, identificando o local de


trabalho de Michelet e a época em que trabalhou.
b) Quais as metáforas criadas por Michelet para
denominar os arquivos com os quais iria
trabalhar?
c) Que mudança na relação com os arquivos ele
expôs nesse texto?

Analisar uma fonte histórica


3 A proposta é desenvolver com os alunos um
trabalho com fontes históricas que os aproxime
daquele realizado pelos historiadores.
a) Peça aos alunos que providenciem algum
material relacionado à história de sua família, do
seu bairro ou da sua cidade. Pode ser uma foto,
um objeto, um relato oral ou escrito.
b) Escolhido o material (fonte), os alunos vão situá-
-lo no tempo, identificando a data ou o período
A desintegração da persistência da memória, pintura do espanhol
em que foi produzido.
Salvador Dalí, 1952-1954.
c) Analisar a fonte, procurando indícios que podem
a) Qual característica do conhecimento histórico é indicar o tempo e o contexto em que foi produzida.
ressaltada na frase de Febvre?
d) Realizar uma pesquisa para obter dados sobre o
b) O que significa a imagem dos relógios se contexto histórico em que a fonte foi produzida:
derretendo? Em sua opinião, o tempo é algo quais acontecimentos históricos estavam
estático ou dinâmico? Como os homens se acontecendo no local, qual o seu significado.
relacionam com ele?
e) Relacionar o contexto com as informações
2 O texto a seguir, do historiador francês Jules obtidas na análise da fonte escolhida: por
Michelet (1798-1874), foi escrito para o posfácio exemplo, se for uma fotografia, observar o
de seu livro sobre a história da França. Ele era, ambiente, os objetos existentes, as pessoas
na ocasião, chefe do setor histórico dos Arquivos retratadas e suas vestimentas, relacionando tudo
Nacionais da França. isso ao contexto pesquisado.
www.modernaplus.com.br

“Quanto a mim, quando entrei pela primeira vez f) Comparar o período histórico da fonte analisada
nestas catacumbas de manuscritos, nesta admirável com o momento atual: semelhanças e diferenças
necrópole de documentos nacionais, teria de bom gra- culturais, políticas, econômicas e sociais.
uNIDADe
da Pré-história às primeiras
questões

A
1. Explique a diferença entre as duas concepções sobre
a origem da vida: a criacionista e a evolucionista.
civilizações do Oriente 2. O que foi a chamada Revolução Agrícola? Quando
teria ocorrido? Que mudanças esse acontecimento
trouxe para a vida humana?

3. Por que os hebreus se diferenciavam dos demais po-


vos da Antiguidade?

O respeito à diversidade
No século XXI, a internet e as comunidades virtuais
capítulos vêm ganhando espaço privilegiado na comunicação eletrô-
nica, em que crianças, jovens e adultos acreditam poder
1 A Pré-história expressar livremente suas ideias e opiniões.
humana
A criação de uma rede mundial de comunicação, no
2 Civilizações do Nilo entanto, não pôs fim ao preconceito e à intolerância en-
e da Mesopotâmia tre os povos. Não é difícil perceber que filmes e novelas
retratam personagens de determinadas culturas de modo
3 Índia e China estereotipado. Por que nos filmes norte-americanos de
ação o inimigo geralmente é um personagem islâmico ou 5
4 Hebreus, fenícios de um país subdesenvolvido?
e persas 3
Em um mundo em que a tolerância e o respeito à
diversidade são palavras de ordem cada vez mais pre-
1. Pintura rupestre no sítio sentes, se faz necessário conhecer, sem preconceitos,
arqueológico de Tassili n’ o presente e o passado de culturas diferentes da nossa, 1 7
Ajjer, na Argélia, 4000– como aquelas que se formaram, há milhares de anos, no
-2000 a.C.;
2. peitoral egípcio mostrando norte da África, no Oriente Médio e no Sudeste Asiáti-
um escaravelho, c. 930 a.C.; co. Apesar da diversidade entre os povos antigos,
3. máscara púnica feita 2
todos eles representam ramificações do desen-
de pasta de vidro, século
III a.C.; volvimento do Homo sapiens, a espécie da qual 6
4. vasilha de cerâmica fazemos parte.
vermelha, procedente
de Napata, antiga Núbia,
c. 600 a.C.; 9
5. estatueta suméria,
c. 2500 a.C.;
6. baixo-relevo do século III 4
representando o menorah, o
candelabro judaico;
7. leão alado em ouro do
Império Persa, século V a.C.;
8
8. Bodisatva (do sânscrito,
ser de sabedoria) em arenito,
século I;
9. par de vasos da dinastia
Han, China, século II a.C.
500 km

A Pré-história e as primeiras civilizações do Oriente Esta linha do tempo não foi organizada em escala temporal. Fonte: VIDAL-NAQUET, Pierre; BERTIN, Jacques. Atlas histórico: da pré-história aos nossos dias. Lisboa: Círculo de Leitores, 199. p. 39.

As imagens da linha do tempo estão identificadas ao


longo dos capítulos desta unidade.

c. 6,5 milhões c. 500 mil c. 9000 a.C. c. 5500 a.C. c. 4000 a.C. c. 2800 a.C. c. 2000 a.C. c. 1792 a.C. c. 1000 a.C. c. 220 a.C.
de anos atrás anos atrás a 1750 a.C.
Revolução Agrícola. Início da utilização Os sumérios A civilização Os hebreus Difusão Início da construção
Data do fóssil do O Homo Sedentarização do de metais. ocupam a região harapense ocupam a Código de do alfabeto da Muralha da China.
hominídeo mais antigo erectus homem. da Mesopotâmia. começa a se Palestina. Hamurábi. fenício.
conhecido até o momento, domina formar em
o Sahelanthropus tchadensis. o uso torno no Rio
do fogo. Indo, na Índia.
capítulo

1 A Pré-história humana

A origem da humanidade
1.1 O lugar do homem na
Muitas têm sido as explicações para a origem do homem ao longo da
evolução das espécies
história: algumas míticas, carregadas de simbologias, outras baseadas
A origem da vida é motivo em fatos, porém fantasiosas. Contudo, graças aos estudos e pesquisas
de grande polêmica entre
realizados nos últimos dois séculos, temos atualmente uma ideia mais
os evolucionistas e os
clara a respeito da origem do homem.
criacionistas.
Se pudéssemos retroceder um milhão de anos no passado da Terra,
1.2 Uma cultura de não encontraríamos seres humanos iguais a nós, mas espécies que teriam
caçadores pouca semelhança conosco, seja na aparência, seja no comportamento.
A primeira espécie do gênero Estaríamos na verdade observando a infância da espécie humana no período
Homo iniciou o período que chamamos de Pré-história. Nessa fase, os antepassados do homem
paleolítico. moderno começaram a andar sobre os membros inferiores, a usar suas
mãos e sua inteligência para superar as difíceis condições de sobrevivência,
1.3 A origem do homem a dominar outras espécies e a ocupar os continentes.
americano
Assim, estudar a Pré-história é fundamental para compreendermos
As teorias que buscam explicar as origens de nossa cultura, da invenção das primeiras ferramentas, das
a origem do homem americano primeiras formas de arte, das cidades, da nossa alimentação e de nosso
divergem quanto à data de sua
vestuário, o que possibilita perceber que temos hoje muito mais conforto
chegada à América.
e recursos de sobrevivência que nossos antepassados, mas também um
1.4 A Pré-história modo de vida que estimula o individualismo, agride a natureza e estabelece,
brasileira entre os homens, fronteiras socioeconômicas, étnicas e territoriais.
Os sambaquis e as culturas
ceramistas são algumas das
principais manifestações da
Pré-história brasileira. Homo
neanderthalensis
1.5 O Neolítico e a
Revolução Agrícola
A Revolução Agrícola marcou
o início do Neolítico.

Homo Homo
Homo
Homo habilis floresiensis sapiens
erectus
Australopithecus
boisei
Australopithecus
Australopithecus africanus Ilustração atual representando
afarensis a evolução da espécie humana.
Sem escala, cores-fantasia.
Australopithecus
anamensis
Fonte: FACCHINI, Fiorenzo. L’uomo: origine ed evoluzione. Milano: Jaca Book, 1993. p. 8-9.

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Seção 1.1
O lugar do homem na evolução
das espécies
Objetivos O criacionismo
Diferenciar o As civilizações mais antigas já elaboravam explicações sobre a aparição
criacionismo do do homem, seu lugar no mundo e suas relações com outras espécies.
evolucionismo.
Muitos povos inventaram histórias sobre a criação, ligadas a mitos ou a
Caracterizar a família crenças religiosas. Para os antigos egípcios, por exemplo, os homens teriam
dos hominídeos. se originado das lágrimas do deus Sol Rá. Já os maias acreditavam que os
homens foram feitos de uma massa de milho.
Termos e conceitos
Os mitos e as lendas sobre a origem do homem, que têm como ponto
• Criacionismo
comum a crença de que a humanidade foi criada por um ser superior, fazem
• Evolucionismo
parte de uma corrente de pensamento chamada criacionismo.
• Hominídeo
O criacionismo no mundo ocidental é baseado na tradição judaico-cristã.
Defende-se a ideia de que Deus é o criador de tudo aquilo que existe e que,
depois de ter gerado a Terra e todos os seres vivos, teria criado Adão e Eva,
dos quais toda a humanidade, até os nossos dias, descenderia. Os fundamen-
Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

tos dessa interpretação criacionista são encontrados no Livro do Gênesis,


no Antigo Testamento da Bíblia [doc. 1].
Até o século XVII, a visão criacionista era dominante no mundo ocidental.
Existiam até mesmo cálculos que estabeleciam a data precisa em que Deus
teria criado o homem, como a datação estabelecida pelo teólogo irlandês
James Usher, em 1650. Segundo Usher, a criação do mundo ocorreu em
23 de outubro de 4004 a.C., um domingo, e Adão e Eva, os primeiros humanos,
foram criados em 28 de outubro de 4004 a.C., uma sexta-feira [doc. 2].

dOc. 1 A obra do criador


“Deus disse: ‘Façamos o homem à nossa imagem, se-
gundo a nossa semelhança, e que ele submeta os peixes do
mar, os pássaros do céu, os animais grandes, toda a terra e
todos os animais pequenos que rastejam sobre a terra!’
Deus criou o homem à sua imagem, à imagem de Deus
ele o criou; criou-os macho e fêmea.
Deus os abençoou e lhes disse: ‘Sede fecundos e pro-
líficos, enchei a terra e dominai-a. Submetei os peixes do
mar, os pássaros do céu e todo animal que rasteja sobre
a terra!’ [...]
Deus viu tudo o que havia feito. Eis que era muito bom.
Houve uma tarde, houve uma manhã: sexto dia.
Capítulo 1 • A Pré-história humana

O céu, a terra e todos os seus elementos foram ter-


minados.
Deus terminou no sétimo dia a obra que havia feito.
Ele cessou no sétimo dia toda a obra que fazia.
omo
apiens Deus abençoou o sétimo dia e o consagrou, pois tinha
cessado, neste dia, toda a obra que ele, Deus, havia criado
pela sua ação.
Este é o nascimento do céu e da terra quando da sua
criação.”

Gênesis 1,26 – 2,4. Bíblia: tradução ecumênica.


São Paulo: Loyola, 1994. p. 25-26.
dOc. 2 A criação de Eva, ilustração de Gustave Doré. Século XIX.

31

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O evolucionismo Os estudos de darwin e Wallace
A partir do século XVII, com o desenvolvimento das Alguns anos mais tarde, o naturalista inglês
ciências e a contestação das explicações religiosas Charles Darwin usou os estudos de Lyell para ela-
sobre o funcionamento do mundo, muitos estudiosos borar parte de sua teoria da evolução das espécies.
passaram a questionar se haveria também uma ex- Mas ele não era o único a estudar o assunto. Desde
plicação racional para a origem humana. 1845, o também inglês Alfred Russell Wallace re-
fletia sobre a evolução e debatia suas hipóteses
No século XIX, começaram a surgir estudos
com Darwin. O resultado desses estudos foi apre-
concretos sobre o assunto. Na década de 1820, o
sentado por eles em 1858, numa comunicação em
escocês Charles Lyell, trabalhando com a geologia,
que expuseram a teoria da evolução por seleção
buscava compreender a formação de nosso planeta,
natural, mais conhecida por evolucionismo. No ano
com base na análise de rochas, acidentes geográficos
seguinte, Charles Darwin publicou seu livro A origem
e do subsolo.
das espécies, que Wallace defendia publicamente.
Lyell lançou a hipótese de que a Terra teria uma
A tese de Darwin é a de que a sobrevivência de uma
origem muito antiga, remontando até mesmo a
espécie ocorria por um processo de seleção natural,
bilhões de anos. Ele também foi um dos primeiros
no qual as espécies mais adaptadas às condições
a entender que o solo podia ser lido como um livro,
existentes em seu habitat seriam as mais bem-
no qual as camadas mais profundas seriam as mais
-sucedidas, tendo maiores chances de sobreviver e
antigas. Quando achava fósseis nessas camadas,
procriar, enquanto as menos adaptadas acabariam
Lyell usava-os como indicadores da idade das cama-
por desaparecer. Mais tarde, em 1871, Darwin deu con-
das de rocha em que se encontravam. Desse modo,

Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.


tinuidade a seus estudos com a publicação do livro A
os estudiosos passaram a perceber que muito do
origem do homem e a seleção sexual, em que defendia
que era encontrado em camadas profundas era bem
que o homem havia evoluído como os outros seres e
mais antigo do que se pensava [doc. 3].
que o ser humano e os macacos tinham uma origem
comum, tese que causou grande polêmica [doc. 4].
dOc. 3 O que é um fóssil?
Pensar em espécies anteriores à do homem moder-
Os fósseis são restos materiais preservados de no não era novidade. Darwin não criou uma teoria com-
antigos organismos vivos. Podem ser ossos, dentes, pletamente nova. Mas sua teoria abriu caminho para a
chifres e eventualmente até um corpo inteiro. Tam- hipótese de existirem outras espécies humanas com
bém são fósseis outros sinais desses organismos,
características semelhantes às dos macacos, mas
como ovos, sementes e pegadas. Há vários modos
que teriam desaparecido ao longo da evolução.
de se formar um fóssil. Eles podem resultar de um
organismo que é envolto em uma substância que o
dOc. 4 charles darwin
preserva da decomposição, como o gelo, o petró-
leo ou a seiva resinosa de árvores, que dá origem Charles Darwin nasceu em 1809, na Inglater-
ao âmbar. Outro processo de fossilização ocorre ra. Enquanto estudava medicina na universidade,
quando as substâncias que compõem um organismo interessou-se pela história natural e, em 1831, in-
são lentamente substituídas por minerais que nele gressou em uma expedição científica à América do
se infiltram, transportados pela água que penetra Sul a bordo do navio Beagle. A viagem lhe permitiu
nos corpos. observar as relações entre o meio ambiente e as va-
riadas formas de desenvolvimento dos seres vivos.
O naturalista também verificou que existiam traços
comuns entre as espécies extintas e as atuais.
Ao retornar à Inglaterra, em 1836, levou consigo
centenas de exemplares de animais e plantas cole-
tados durante a viagem. Com base nessa amostra,
concluiu que apenas as espécies mais adaptadas
sobreviviam em determinados ambientes. Isso era
parte de sua teoria sobre a evolução das espécies,
que acabou sendo publicada apenas em 1859, no
livro A origem das espécies.
Em 2009, eventos realizados em vários países,
inclusive no Brasil, comemoraram os 150 anos do
lançamento da principal obra de Darwin e os 200
Fóssil de esqueleto humano do período anos do nascimento desse grande cientista, cuja
neolítico. Roaix, França. teoria ainda é motivo de grande polêmica.

32

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O papel da arqueologia O gênero Homo
A história da espécie humana é antiga e recua a Acredita-se que as duas espécies de austra-
milhões de anos no passado. Para estudar um passa- lopitecos entraram em contato com o primeiro
do tão distante como esse, não podemos aproveitar representante do gênero Homo, o Homo habilis, por
os mesmos tipos de documentos utilizados para lidar volta de 2,5 milhões de anos, na África Oriental. A
com acontecimentos mais recentes, tais como jor- existência simultânea desses dois gêneros indica
nais, livros, fotografias ou entrevistas orais. Naquele o desenvolvimento paralelo do Australopiteco e do
Homo, o que reforça a ideia de que a evolução não é
período, o homem ainda não tinha desenvolvido a es-
uma linha contínua.
crita e vivia em grupos nômades ou seminômades.
O gênero Homo, do qual fazemos parte, tem as
Dessa forma, as fontes para o estudo da Pré-histó-
pernas mais longas que os braços, glândulas sudorí-
ria são compostas daquilo que fazia parte do modo de
paras, poucos pelos no corpo, dentição diversificada
vida dos seres humanos e que sobreviveu à passagem
e multifuncional e capacidade craniana maior que a
do tempo. Vestígios materiais (como as pinturas ru-
dos outros hominídeos. Existiram pelo menos dez
pestres), restos de objetos (como pontas de lança e
espécies associadas a este gênero, entre elas o Homo
utensílios feitos de ossos) ou de atividades dos grupos
sapiens, a única que conseguiu sobreviver [doc. 6].
humanos passados (como marcas de uma fogueira)
são os elementos que devem ser analisados para se A característica mais marcante do gênero Homo
entender esse período. O estudo específico desses é sua maior capacidade cerebral, que lhe possibilitou
elementos é realizado pela arqueologia [doc. 5]. fabricar objetos, uma característica evolutiva bem
diferente da linha seguida pelo gênero Australopiteco,
Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

baseado mais na força física. Assim, seu surgimento


A evolução humana: traços gerais foi acompanhado do aparecimento dos primeiros
instrumentos feitos de pedra e osso.
O ser humano faz parte da ordem dos primatas,
constituída de espécies que têm algumas carac-
terísticas comuns: cérebro grande em relação ao dOc. 5 O ofício da arqueologia
tamanho do crânio, que por sua vez é pequeno em A arqueologia é a ciência que estuda as socie-
relação ao corpo; olhos e narinas na parte frontal da dades humanas passadas por meio de vestígios
face; mamas no peito; membros com cinco dedos nas materiais que atestam a existência dessas socie-
extremidades; um dos dedos em oposição aos outros dades e as ações que desenvolveram. Os vestígios
quatro; capacidade de ficar de pé. deixados pelas sociedades vão se acumulando no
Dentro da ordem dos primatas pertencemos à solo em camadas, como as folhas de um livro. Por
família dos hominídeos. Essa família compreende meio de escavações, os arqueólogos descobrem
os ancestrais humanos e alguns grandes macacos, marcas do passado até então ocultas.
como os gorilas. Até o momento, o primeiro ancestral Os locais onde as escavações são feitas são de-
humano conhecido dessa família é o Sahelanthropus nominados sítios arqueológicos, e os sinais encon-
tchadensis, descoberto em 2002 no Chade, na África trados são os vestígios arqueológicos. Escavando
Central, com cerca de 6,5 milhões de anos. Já possuía a cuidadosamente os sítios, recuperando os vestígios
capacidade de andar com os membros inferiores, que materiais e analisando-os com critérios científicos,
os arqueólogos podem levantar hipóteses sobre
é um dos traços característicos da espécie humana.
como vivia determinado grupo humano.

O gênero Australopiteco
Entre 4,5 e 2 milhões de anos, um novo gênero surgiu
Capítulo 1 • A Pré-história humana

entre os hominídeos: o Australopiteco, termo de origem


grega que significa “macaco do sul”, pois eles habitavam
o sul da África. Os australopitecos também usavam os
membros inferiores para andar, mas possuíam cérebro
maior que os dos macacos e maxilares salientes com
dentes caninos e molares semelhantes aos nossos.
Por volta de 2,7 milhões de anos, apareceram duas
novas espécies entre os australopitecos: o Australo-
pithecus robustus e o Australopithecus boisei. Essas
espécies já possuíam dentes pré-molares e molares
Pesquisadores realizam escavação em sítio arqueológico.
grandes para triturar folhagens, grãos e frutos e habi- Berlim, Alemanha, 2008.
tavam as regiões das savanas e estepes na África.
33

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dOc. 6 A evolução da espécie humana Representação atual da evolução dos hominídeos. Sem escala, cores-fantasia.

Homo sapiens

Espécie à qual pertencemos.


Desenvolveu a técnica da 190.000-
cerâmica e dos metais. atualidade
Construiu cidades e desenvolveu Homo floresiensis
a agricultura e a criação de
animais. Elaborou a linguagem Media c. 1,3-1,5 metro. Vivia
falada e depois a escrita. isolado na Indonésia. Produzia
instrumentos de pedra lascada,
350.000- caçava e preparava alimentos
130.000 assados no fogo.

Homo neanderthalensis

Ramo paralelo ao Homo sapiens. Vivia


600.000-
em bandos. Fabricava instrumentos de
130.000
pedra, vestia-se com peles de animais Homo erectus
e enterrava seus mortos. Comunicava-
-se co m sons articulados. Maior que o Homo habilis (1,3-1,7
metro). Andava completamente

Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.


ereto, começou a usar o fogo e
1,8 m.a.- lascas de pedra e utilizava cavernas
300.000 e abrigos como habitação. Primeira
espécie a sair da África.
Homo habilis

Primeira espécie do
gênero Homo. Não vivia mais em
árvores e media perto de 1 metro. 2,5-1,5 m.a.
Primeiro a fabricar instrumentos Australopithecus boisei
de pedra, osso e madeira.
Crânio maior que o do
Australopithecus africanus. Media
perto de 1,2 metro de altura. Pode
2,6-1,2 m.a.
ter usado ferramentas.

Australopithecus africanus

Tinha crânio pequeno, dentição


Unidade A • Da Pré-história às primeiras civilizações do Oriente

semelhante à humana e media


cerca de 1 metro de altura. 3,0-2,0 m.a.

Australopithecus afarensis

Primeiro a caminhar ereto. Media


cerca de 1 metro de altura e tinha
3,9-2,9 m.a. crânio pequeno. Vivia em pequenos
bandos nas florestas e savanas.

Australopithecus anamensis

Postura bípede e aparência


semelhante à dos macacos, 4,5-3,9 m.a. questões
exceto na dentição. Já não
era mais bem adaptado a 1. Quais são os argumentos da teoria evolucionista para
viver nas árvores. defender que a espécie humana é resultado de uma
evolução biológica e não da criação de uma divindade,
como sustentam diferentes crenças religiosas?

2. Analise o quadro da evolução da espécie humana


Fonte: FACCHINI, Fiorenzo. L‘Uomo: origine ed evoluzione. [doc. 6].
Milano: Jaca Book, 1993. p. 8-9; BAILEY, Jill; SEDDON, Tony. • O surgimento do gênero Homo marcou o fim da
Prehistoric world. Oxford: Oxford University Press, 1994. evolução biológica dos hominídeos? Explique.
p. 150-151. (Coleção Young Oxford Books)

34

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Seção 1.2
Uma cultura de caçadores
Objetivos A periodização da Pré-história
Diferenciar a espécie A primeira divisão da Pré-história em idades foi elaborada em 1820 pelo
Homo sapiens das arqueólogo dinamarquês Christian Thomsen, que criou o chamado Sistema
espécies anteriores. das Três Idades: Idade da Pedra, Idade do Bronze e Idade do Ferro. Para
Caracterizar a vida Thomsen, as mudanças nas técnicas de fabricação mostravam o desenvol-
humana no período vimento cultural dos povos.
paleolítico. Mais tarde, em 1865, o arqueólogo John Lubbock dividiu a Idade da Pedra
Reconhecer da forma como utilizamos até hoje: Paleolítico (Pedra Antiga), Mesolítico
as principais (Pedra Intermediária) e Neolítico (Pedra Nova). Ainda segundo Lubbock, o fim
características da Idade da Pedra encerraria a Pré-história e iniciaria a Idade dos Metais,
da arte rupestre. subdividida em Idade do Cobre, Idade do Bronze e Idade do Ferro [doc. 2].
Embora muito aceito e utilizado, esse sistema de periodização se mostra ina-
Termos e conceitos
dequado. Como a divisão se baseia nas culturas pré-históricas do Mediterrâneo
• Pré-história e da Eurásia, ela gera problemas quando aplicada a outras regiões. Na América,
• Paleolítico por exemplo, os maias já haviam desenvolvido a astronomia, a matemática e um
• Gênero Homo sistema de escrita complexo, mas ainda dependiam de instrumentos feitos de
Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

• Arte rupestre pedra lascada ou polida, sendo por isso associados à Idade da Pedra.
Também não há um marco inicial para o que se convencionou chamar de
Conteúdo digital Pré-história. Alguns autores estabelecem como ponto de partida o surgi-
Moderna PLUS http://
mento dos primeiros australopitecos, por volta de 4,5 milhões de anos atrás.
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Animação: Pré-história Outros definiram como evento inaugural da Pré-história a capacidade humana
de produzir artefatos, desenvolvida por indivíduos da espécie Homo habilis,
2,5 milhões de anos atrás. É essa periodização que adotamos nesta obra.

Os primeiros artefatos humanos


Um dos traços fundamentais e característicos da evolução humana é a ca-
pacidade de fabricar ferramentas e utensílios. Os primeiros objetos conhecidos,
fabricados por grupos humanos, eram feitos de pedra (alguns estudiosos argu-
mentam que foram fabricados de ossos de animais). Os exemplos mais antigos
foram encontrados na África Oriental. São pedras lascadas de pelo menos
2,5 milhões de anos, chamadas choppers. Instrumentos semelhantes tam-
dOc. 1 Acima, à bém foram encontrados em diversas partes da África, Europa e Ásia [doc. 1].
esquerda, machado de sílex,
c. 200 mil anos atrás. À direita, Os utensílios em pedra encontrados fornecem pistas importantes sobre a
instrumento de pedra, c. 300 vida desses hominídeos, por exemplo, sobre o tipo de alimentação que tinham e
mil anos atrás.
os recursos que podiam obter usando esses novos instrumentos. Quanto mais
aumentavam seus recursos e capacidades, maiores eram as chances de se
protegerem e garantirem a sobrevivência do grupo. Com o tempo os instrumen-
Capítulo 1 • A Pré-história humana

tos foram se diversificando e sendo adaptados a funções mais especializadas,


a exemplo de machados bifaces, raspadores e pontas de projéteis.

dOc. 2 A periodização tradicional da Pré-história

Paleolítico Mesolítico Neolítico Idade Idade Idade


do Cobre do Bronze do Ferro
2,5 milhões a 35000-6000 a.C. 10000-2000 a.C.
35000 a.C. 5500-2000 a.C. 3000-1000 a.C. 1500 a.C.-500 d.C.
A divisão proposta com base na classificação de John Lubbock predominou até meados do século XX. As datas indicam
o intervalo em que se encontram o início e o fim de cada período ao redor do mundo, pois essas mudanças não
aconteceram ao mesmo tempo em todas as culturas. Por exemplo, o Neolítico durou na Europa Central de 6000 a 3000
a.C., mas na Turquia aconteceu antes, entre 9000-6000 a.C.

35

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As primeiras espécies O Homo neanderthalensis
do gênero Homo No chamado Paleolítico Médio (de 300 mil a 35 mil
Segundo a periodização tradicional, o Paleolítico anos atrás), a maioria das espécies até então existen-
se iniciou com a primeira espécie do gênero Homo, tes do gênero Homo desapareceu, incluindo o Homo
o Homo habilis, que surgiu na África Oriental por volta habilis e o Homo erectus. O novo período foi dominado
de 2,5 milhões de anos atrás. Esse período apresen- por duas novas espécies: o Homo neanderthalensis (ou
tava como principal marca evolutiva o domínio da Homem de Neanderthal) e o Homo sapiens.
produção de instrumentos de pedra. Organizava-se O Homo neanderthalensis habitava a Europa e
em pequenos grupos, constituídos de vinte a cem parte da Ásia Central durante a era glacial [doc. 4].
indivíduos, sem distinções sociais marcantes. Tinha como principal característica um cérebro mais
Eram grupos que viviam da caça de pequenos desenvolvido, que lhe permitia fabricar instrumentos
animais e da coleta de frutos, folhas e raízes, sendo de pedra mais especializados, como machados, facas,
assim denominados de caçadores-coletores. Por dardos e arpões. Também utilizava outros materiais,
esse motivo, eram nômades, ou seja, não se fixavam como madeira, chifres e ossos. Construía abrigos
em um só lugar, movimentando-se continuamente em com ossos, peles e ramos de árvores, usava o fogo,
busca de mais recursos. Os indivíduos dessa espécie preparava armadilhas e esfolava animais.
geralmente habitavam o interior das cavernas e os
abrigos naturais encontrados nas rochas.
O Homo erectus viveu entre 1,8 milhão e 300
mil anos atrás [doc. 3]. Ele foi o primeiro hominídeo

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a deixar a África e se espalhar pela Ásia e Europa.
Usava instrumentos de pedra e criou o machado
biface, com dois gumes. Organizava-se em pequenos
grupos, como o Homo habilis, e deixou sinais que
demonstram os cuidados do grupo com os membros
fracos ou doentes.
Os membros dessa espécie viviam como caça-
dores-coletores e realizavam grandes caçadas, ao
contrário do Homo habilis. Os primeiros indícios de dOc. 4
manipulação do fogo também são atribuídos ao Homo Reconstituição
facial do Homo
erectus, conquista que teria ocorrido por volta de 500
neanderthalensis,
mil anos atrás. Essa evolução tecnológica foi utilizada de 1988.
para preparar alimentos, iluminar, aquecer e proteger
o grupo de outros animais, aumentando as chances
de sobrevivência da espécie. O Homo neanderthalensis também foi a primeira
Unidade A • Da Pré-história às primeiras civilizações do Oriente

espécie a enterrar seus mortos. Uma flauta de osso


encontrada na Eslovênia indica ainda que produziam
instrumentos musicais. Os grupos se organizavam em
bandos de caçadores-coletores com poucos indiví-
duos, entre vinte e cinquenta membros.
Durante pelo menos 100 mil anos essa espécie
coexistiu com o Homo sapiens, mas desapareceu por
volta de 130 mil anos atrás, por causas desconhe-
cidas. Alguns especialistas defendem que seu desa-
parecimento se deveu à competição por recursos com
o Homo sapiens, na qual teria sido derrotado. Outros
especulam que essa espécie pode não ter se adaptado
à mudança climática resultante do fim da era glacial.

• Era glacial. Também conhecida como glaciação


e era do gelo, é o nome dado a cada um dos períodos
em que uma grande mudança climática cobriu um terço
da superfície da Terra com uma camada de gelo. A última
glaciação conhecida foi a de Wurm ou Wisconsin, que
dOc. 3 Reconstituição facial do durou cerca de 100 mil anos e terminou por volta de
Homo erectus, de 1988. 12 mil anos atrás.

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O Homo sapiens e das crenças dos nossos antepassados. As pinturas
e as gravuras rupestres começaram a ser produzidas
O Homo sapiens se espalhou gradativamente a por volta de 35 mil anos atrás em diferentes lugares
partir da África Oriental em direção à Ásia e à Europa do mundo [doc. 5].
desde 190 mil anos atrás. É a espécie à qual perten-
Seus membros construíam cabanas e tendas
cemos, tendo as mesmas características fisiológicas
fabricadas com galhos, peles e ossos de animais e
que nós. Ao contrário do que muitos imaginam, ele não
usavam vestes feitas de peles e couro. Eles também
descende do Homo neanderthalensis, mas forma um
produziram as primeiras manifestações de arte ru-
ramo separado, que evoluiu paralelamente.
pestre. O sepultamento dos mortos acompanhado
A nova espécie, dotada de inteligência muito de objetos funerários indica o desenvolvimento de
maior, desenvolveu novas técnicas de produção de crenças e práticas rituais.
instrumentos de pedra e de outros materiais, como O Homo sapiens também foi responsável pela di-
osso, chifre e madeira. Uma organização social mais versificação e especialização dos instrumentos, com
complexa e definida começou a surgir, marcada pela a fabricação de anzóis e arpões para pesca, lanças,
cooperação, necessária para caçar animais maiores clavas, machados e pontas de projéteis para caça,
(como mamutes e ursos), distribuir os alimentos e furadores, raspadores, agulhas e facas para extrair
organizar as migrações dos grupos. couros e peles. No período mesolítico (35 mil a 18 mil
Como não temos documentos escritos das popu- anos atrás), começaram a produzir arcos, flechas e
lações pré-históricas, a arte rupestre é um registro canoas, a fabricar novos utensílios de pedra e a de-
valioso, que pode nos fornecer pistas do modo de vida senvolver a técnica da cerâmica.
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dOc. 5 Arte rupestre


A arte rupestre está presente em grande parte dos dos povos pré-históricos, não é possível decifrar, com
sítios arqueológicos na forma de estatuetas, gravuras certeza, o significado das mensagens transmitidas.
e pinturas em cavernas e paredões rochosos. Para Podemos, no máximo, levantar hipóteses.
pintar, os homens pré-históricos usavam pigmentos
que extraíam da natureza, misturando cera de abelhas,
sangue, barro, gordura, resinas vegetais, minerais
moídos, carvão, água e até excrementos.
Acredita-se que a arte rupestre representava
a primeira forma de expressão e comunicação dos
homens pré-históricos, por meio da qual exibiam sua
percepção e compreensão do mundo e de si mesmos.
Algumas cenas pintadas sugerem rituais ou atividades
organizadas, como danças e caçadas; outras mostram
aspectos do cotidiano, como uma mulher grávida; há
também figuras que mostram sinais desconhecidos.
Segundo o arqueólogo André Prous, essas imagens
“não pretendiam ser obra de arte, mas transmitir infor-
mações, tais como hoje fazem os sinais de trânsito, as
Pinturas rupestres na caverna de Lascaux, França,
bandeiras e as letras organizadas em uma mensagem”. de aproximadamente 17 mil anos atrás. Note a
Entretanto, como não conhecemos o código social representação dos animais.
Capítulo 1 • A Pré-história humana

questões

1. Compare as duas ferramentas e comente as diferen-


ças relacionadas à forma de fabricação e ao uso pelos Espécie
grupos humanos [doc. 1].
Forma de
2. Por que o sistema de divisão da Pré-história em “ida- organização
des” se apresenta inadequado?

3. Elabore um quadro comparativo das quatro princi- Instrumentos


pais espécies do gênero Homo no Paleolítico, de acor-
do com as indicações. Na primeira linha, coloque as Meios de
quatro espécies, e, nas linhas seguintes, os aspectos sobrevivência
de seu modo de vida (forma de organização, instru-
Formas de
mentos fabricados, formas de sobrevivência, formas
comunicação
de comunicação).

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Seção 1.3
A origem do homem americano
Objetivo A ocupação da América
Compreender as Há muitas dúvidas sobre a origem dos primeiros habitantes da Améri-
diferenças entre as ca. De onde vieram? Eles vieram por terra ou por mar? Quando chegaram?
principais explicações Qual foi o primeiro ponto de ocupação? Apenas um grupo se expandiu e se
sobre a chegada do espalhou por todo o território americano ou a América recebeu populações
homem à América. de mais de uma procedência?
Por muito tempo pensou-se que a evolução humana na América fosse
Termos e conceitos
tão antiga quanto nos outros continentes. Porém, conforme os estudos
• Teoria Clóvis arqueológicos foram avançando, percebeu-se que a única espécie humana
• Sítio arqueológico que existiu na América foi a do Homo sapiens. Isso significa que o homem
moderno migrou para o nosso continente depois de ter se desenvolvido na
África, na Ásia e na Europa.
No início do século XX, os cientistas acreditavam que as primeiras incur-
sões de grupos humanos na América teriam se iniciado por volta de 35 mil anos
atrás, na última era glacial. Eles teriam vindo da Ásia e entrado na América
através do Estreito de Bering congelado. A passagem pelo estreito não teria

Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.


sido difícil, pois possuía aproximadamente 100 quilômetros de largura.

Teorias explicativas da ocupação da América


Na década de 1930, foram descobertos artefatos feitos de pedra perto da
cidade de Clóvis, no estado do Novo México, nos Estados Unidos [doc. 1]. Essas
evidências de ocupação humana do continente datavam de 12 mil anos atrás
e eram as mais antigas encontradas até então. A chamada “cultura Clóvis”
era constituída por povos caçadores que produziam ferramentas em pedra
com uma técnica complexa e possuíam traços físicos semelhantes aos das
populações asiáticas.
Essas descobertas levaram à elaboração de uma das principais teorias
sobre a chegada do homem à América, chamada de teoria Clóvis. Segundo
essa teoria, o homem teria chegado à América entre 15 mil e 12 mil anos atrás,
vindo da Ásia através do Estreito de Bering (no atual estado norte-americano
do Alasca), que se encontrava congelado naquela época. Posteriormente, a
Unidade A • Da Pré-história às primeiras civilizações do Oriente

ocupação teria se irradiado por toda América do Norte e Central, até atingir
a América do Sul há cerca de 11 mil anos.
A partir da década de 1970, contudo, novas descobertas arqueológicas em ou-
tras regiões da América, como Monte Verde (Chile), Aguazuque e Tequendama
(Colômbia), Taima-taima (Venezuela) e Lagoa Santa (Minas Gerais, Brasil),
indicavam ocupações anteriores à cultura de Clóvis, que chegavam até
14.500 anos atrás. Os artefatos em pedra encontrados indicavam que
essas ocupações seriam mais antigas que a de Clóvis.
Além desses indícios, a análise dos restos humanos encon-
trados nos novos sítios arqueológicos revela características
físicas diferentes das que caracterizam as populações asiá-
ticas, ficando mais próximas das populações da Oceania e da
África. Com base nessas conclusões, foi elaborada uma nova
teoria segundo a qual o homem teria chegado à América pelo
mar, vindo da Oceania e de ilhas do Oceano Pacífico.
O antropólogo e arqueólogo brasileiro Walter Neves elaborou
uma terceira teoria. Defende que houve não apenas uma, mas diversas
ondas migratórias para a América, ocorridas em datas diferentes e
DOC. 1 Artefatos da “cultura
Clóvis” encontrados no estado do compostas de grupos oriundos tanto da Ásia (que entraram na América
Novo México, Estados Unidos. através do Estreito de Bering) quanto da Oceania [doc. 2].
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dOc. 2 caminhos trilhados para chegar à América

OCEANO
GLACIAL ÁRTICO
g
in
er

B
SIBÉRIA

de
ALASCA

to
ÁSIA

Estrei
EUROPA AMÉRICA
DO
OCEANO
NORTE OCEANO
DESERTO PACÍFICO
DO SAARA
ATLÂNTICO
FILIPINAS
ÁFRICA
TERRA DE SUNDA
NOVA GUINÉ
OCEANIA
POLINÉSIA Fonte: VIDAL-NAQUET, Pierre;
OCEANO AMÉRICA BERTIN, Jacques. Atlas
ÍNDICO DO histórico: da Pré-história aos
3.030 km SUL nossos dias. Lisboa: Círculo
de Leitores, 1987. p. 18; Atlas
Prováveis rotas do ser humano para a América histórico escolar. Rio de
Janeiro: FAE, 1991. p. 50.

Outras interpretações sobre a origem dOc. 3 Parque Nacional Serra da capivara


do homem na América
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No Parque Nacional Serra da Capivara, existem


Atualmente, a linha de interpretação de Walter Ne- 912 sítios arqueológicos cadastrados, que abrigam
ves é bem-aceita entre os pesquisadores. No entanto, cerca de 30 mil pinturas rupestres, muitas com
já se reconhece que existem sítios pré-históricos datações estimadas em 20 mil anos atrás ou mais,
mais antigos na América, com datações confirmadas o que daria ao Parque a condição de conjunto ar-
entre 15 mil e 25 mil anos atrás. Um exemplo é o sítio queológico mais antigo do Brasil.
de Santa Elina, em Mato Grosso, com datação em
25 mil anos, sítios na Pensilvânia (Estados Unidos),
com datação em 17 mil anos, e em Old Crow (norte do
Canadá), com datação em 25 mil anos.
A polêmica ficou mais intensa com os estudos da
arqueóloga franco-brasileira Niède Guidon nos sítios
do Meio e Boqueirão da Pedra Furada, no Parque Na-
cional Serra da capivara, situado no Piauí. Segundo a
pesquisadora, os vestígios encontrados nesses sítios,
como acúmulo de carvões, conjunto de pedras quei-
madas e pinturas rupestres, datam de pelo menos 48
mil anos atrás, o que representariam os vestígios mais
antigos da presença humana na América [doc. 3].
Segundo as datações propostas por Niède Guidon,
a ocupação do Brasil e da América do Sul ocorreu por
volta de 50 mil anos atrás, sugerindo que a chegada
dos primeiros homens à América poderia ter ocor-
Capítulo 1 • A Pré-história humana

rido através das ilhas do Pacífico entre 80 mil e 70


mil anos atrás, período em que, devido à glaciação,
haveria mais terras emersas.
As datações dos materiais provenientes do sítio
Boqueirão da Pedra Furada são consideradas corre- Pinturas rupestres do Parque Nacional
Serra da Capivara, Piauí, 2000.
tas, porém não há consenso sobre se esse material
arqueológico é resultado da atividade humana, já
que poderia ter sido produzido também pela ação de
questão
forças naturais. Um congresso realizado no Brasil em
2006 trouxe maior apoio à posição de Niède Guidon, Quais foram as descobertas que colaboraram para o
questionamento da teoria Clóvis? Quais teorias foram
ao mostrar marcas de ação humana em lascas en- criadas com base nessas descobertas?
contradas em Pedra Furada.
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CONTROVÉRSIAS O povoamento da América

A data da chegada de grupos de Homo sapiens riamente foi queimado por um homem ou uma mulher.
na América é um dos temas mais controversos Pode ter sido uma queimada natural. Então, o contexto no
na arqueologia americana. A maior polêmica está qual aquele carvão está depositado é importante, porque
relacionada à datação dos vestígios do Boqueirão a partir dali vamos poder saber se estamos lidando com a
influência antrópica ou não, se houve realmente autoria
da Serra Furada, no sítio arqueológico do Parque
humana na produção daquele contexto ou não.”
Nacional Serra da Capivara, no Piauí. Saiba um
pouco mais sobre essa polêmica. NEVES, Eduardo Góes. Por que não tem pirâmide no Brasil?
In: Por ti América: aventura arqueológica – depoimentos [CD-
-ROM]. Idealização, concepção e desenho expositivo Alex Peirano

“Suponha que nós abandonemos esta sala, e que daqui Chacon. Rio de Janeiro: Centro Cultural Banco do Brasil/
CPDOC, 2006. p. 39-41.
a mil anos um arqueólogo a encontre. Esta sala será um sítio
arqueológico. Aí a pessoa tira esta mesa daqui, tira estes • Antrópico. Mudança feita pelo
papéis, os copos, e leva para o laboratório. No laboratório, homem no meio em que vive.
ela não vai se lembrar direito onde estava a mesa, se ela
estava encostada no canto da parede ou no centro da sala.
QUESTÕES
Este papel estava na diagonal ou não? E o microfone, estava
apontado para cá? Se ela quiser entender aqueles documen- 1. Em que tipo de estudos as teorias sobre a origem
tos, ela terá certamente que desmontar aquele contexto. do homem americano estão baseadas?

Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.


Mas a palavra mágica da arqueologia é justamente contex- 2. Quais as principais controvérsias que envolvem
to. Qual é a nossa briga em relação aos sítios do Piauí? Há as teorias sobre a origem do homem americano?
uma discussão, sobre se eles têm ou não têm 50 mil anos,
70 mil, 90 mil. Na verdade, você pode datar uma amostra 3. Por que os vestígios arqueológicos da Serra da Ca-
pivara, no Piauí, causam tanta discussão entre os
de carvão de 45 mil anos, mas o fato de o carvão ter sido pesquisadores?
queimado há 45 mil anos não quer dizer que ele necessa-

3
Unidade A • Da Pré-história às primeiras civilizações do Oriente

Ilustração atual representando uma escavação


arqueológica (1), o trabalho de investigação feito
sobre as descobertas (2) e as hipóteses que podem
ser levantadas pelos pesquisadores (3 e 4).

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Seção 1.4
A Pré-história brasileira
Objetivo As culturas do Pleistoceno
Identificar (até 12 mil anos atrás)
a periodização da
Pré-história brasileira. Uma periodização da Pré-história brasileira muito aceita pelos arqueólo-
gos leva em consideração principalmente os aspectos culturais dos grupos
Termos e conceitos que habitaram o Brasil na Pré-história. Essa periodização, que adotaremos
aqui, apresenta dois grandes períodos: culturas do Pleistoceno e culturas
• Cultura ceramista
do Holoceno.
• Tradição
• Sambaqui Na geologia, Pleistoceno é o nome dado ao período em que ocorreram as
glaciações e que se estende de 1,8 milhão de anos até 12 mil anos atrás.
As culturas brasileiras do Pleistoceno correspondem às mais antigas do
Brasil. São encontrados vestígios dessas culturas em Minas Gerais, Goiás,
Piauí, Pernambuco e Rio Grande do Norte. Os grupos pleistocenos eram nô-
mades e mais ou menos coesos, sendo formados por um número reduzido
de membros. Viviam em cavernas e abrigos sob rochas no topo de colinas
ou próximo a rios. Produziam ferramentas em pedra para abater os animais
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e retirar sua pele.


No período do Pleistoceno, o clima era mais frio e seco. A fauna era abun-
dante, fornecendo caça de pequeno e médio porte, que podia ser apanhada
com porretes e armadilhas.
Nessa época também encontramos a chamada megafauna, composta
de grandes animais, como o cliptodonte (tatu gigante) e a preguiça-gigante
[doc. 1]. A megafauna também era alvo da caça dos homens pré-históricos,
mas em menor grau, tanto pela dificuldade na captura quanto pelo fato de
esses animais competirem com os humanos pelos mesmos recursos.

O que dizem as evidências


As pesquisas arqueológicas feitas em sítios do Pleistoceno descobriram
ossadas humanas, artefatos de pedra (como seixos lascados, batedores e las-
cas) e restos de fogueiras com detritos alimentares. Esses restos orgânicos
mostram o consumo de carne de anta, capivara, veado, paca, tatu, tamanduá,
lagarto, ema e peixe. Além da caça, esses grupos se alimentavam de frutos,
raízes e tubérculos, que eram abundantes no período.
Os fósseis humanos mais antigos já encontrados no Brasil datam do Pleis-
toceno. Eles foram descobertos no século XIX em uma caverna na região de
Lagoa Santa, em Minas Gerais. No mesmo local, na década de 1970, foram
encontrados ossos e o crânio de uma mulher, batizada pelos arqueólogos
de Luzia, em referência a Lucy, o mais antigo fóssil humano encontrado na
África [doc. 2].
Capítulo 1 • A Pré-história humana

A análise do crânio de Luzia indica que ela tem mais parentesco com grupos
ligados às correntes migratórias da Austrália e do Pacífico do que
com grupos das estepes asiáticas que vieram pelo Estreito
de Bering, o que reforça o debate sobre a antiguidade
do homem na América, abordada na seção anterior.

dOc. 1 Reconstituição
de uma preguiça-gigante.

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dOc. 2 Luzia, a “primeira brasileira” pelos vales. Seus utensílios em pedra, principalmente
pontas de flechas e lascas, tinham como caracterís-
“Hoje sabemos [...] que as importantes coleções de
esqueletos de Lagoa Santa possuem mais de 10 mil anos. ticas serem adornados em ambos os lados, sendo
Em 1999, pesquisadores da Universidade de Manchester, produzidos a partir de vários tipos de pedras.
na Inglaterra, reconstituíram a face do crânio humano Existem indícios claros de que os grupos da tradição
mais antigo já encontrado nas Américas, proveniente umbu sepultavam seus mortos, colocando-os sobre
de Lagoa Santa. Apelidado, de forma carinhosa, com o cinzas de fogueiras e enterrando o corpo com alguns
nome de Luzia, o crânio é de uma mulher e tem cerca de
objetos, como colares de conchas. Além de utilizarem
11.680 anos. O crânio e outros ossos do corpo de Luzia
pedras e conchas, essa tradição também produzia ob-
haviam sido descobertos em 1975,
em Lagoa Santa, por uma equi- jetos com ossos (furadores retocados, agulhas e anzóis
pe franco-brasileira coordenada curvos) e adornos de dentes de tubarão.
pela arqueóloga francesa Annete Pouco mais tarde, percebemos que a tradição umbu
Laming-Emperaire, e hoje se desapareceu em algumas regiões, dando lugar à tradi-
encontram no acervo do Museu ção humaitá, correspondente a grupos que habitavam
Nacional do Rio de Janeiro.” os barrancos e terraços próximos a rios, tendo uma
economia baseada ainda na coleta de vegetais e na
FUNARI, Pedro Paulo; NOELLI,
Francisco. Pré-história do Brasil. pesca. Seus instrumentos de pedra eram mais pesa-
São Paulo: Contexto, 2001. p. 34. dos, compostos de machados bifaces e pedras com
Reconstituição da
lascamento simples, mas sem pontas de flecha.
cabeça de Luzia, de 1999.

Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.


A cultura dos sambaquis
Um traço comum da ocupação do litoral marítimo
As culturas do Holoceno (de 12 e fluvial brasileiro são elevações formadas por areia,
mil anos atrás até o presente) conchas e moluscos, por vezes de grandes dimensões.
Essas elevações são conhecidas como sambaquis, pa-
O Holoceno divide-se em duas fases: a cultura lavra que em tupi significa “amontoado de conchas”.
pré-ceramista (entre 12 mil e 5 mil anos atrás) e a Os sambaquis são encontrados em boa parte do Sul
cultura ceramista (a partir de 5 mil anos atrás). Essa e do Sudeste do país (Rio Grande do Sul, Santa Catarina,
divisão tem como critério a produção de cerâmica, Paraná e São Paulo), bem como em alguns estados do
considerada uma evolução tecnológica muito impor- Nordeste (Maranhão, Bahia e Rio Grande do Norte).
tante em qualquer cultura.
A formação dos sambaquis se deve à presença
Nesse período, com o domínio da agricultura, as de grupos coletores marinhos que viveram no litoral
populações pré-históricas tiveram um crescimento entre 8 mil e 2 mil anos atrás, e que se alimentavam de
demográfico sensível e alguns grupos deixaram de moluscos e peixes, abundantes nas costas brasileiras.
ser nômades para se tornar sedentários. O cultivo Os sambaquis eram morros artificiais erguidos por es-
Unidade A • Da Pré-história às primeiras civilizações do Oriente

da terra proporcionou uma grande mudança nas ses grupos, com finalidade ainda não definida pelos
atividades econômicas e no nível tecnológico dessas estudiosos. Suas dimensões variavam de dois a dez
populações pré-históricas, acarretando mudanças em metros de altura, mas existem alguns em Santa Cata-
todos os aspectos do seu modo de vida. rina que chegam a atingir 70 metros de altura [doc. 3].
Os povos dos sambaquis baseavam seu sustento
As culturas pré-ceramistas
principalmente na coleta de moluscos, que eram abun-
Nas regiões Centro-Oeste e Nordeste do Brasil, as dantes nas lagoas, mangues e baías do litoral do Bra-
culturas pré-ceramistas ainda são pouco conhecidas, sil. Alguns arqueólogos consideram que os sambaquis
mas se sabe que no cerrado e na caatinga havia uma podiam servir de área de acampamento, pela quanti-
concentração forte de caçadores-coletores em sítios dade de restos de caça e de alimentação escavados.
a céu aberto e abrigos sob rochas. Os instrumentos
Nos sambaquis são encontrados esculturas de
em pedra desses grupos, utilizados para raspar couro
pedra e ossos que sugerem algum tipo de organização
ou madeira, eram lascados em apenas uma das faces,
social rígida. Algumas sepulturas mostram também
dentro da tradição itaparica. Mais tarde, a partir de
quantidades de objetos e cuidados diferenciados com
8 mil anos atrás, esses instrumentos em pedra foram
os corpos, o que indicaria certa diferenciação social.
substituídos por lascas simples.
• Tradição. Conjunto de artefatos que possuem, em
Na região Sul do país destacam-se outras duas
uma região e em determinado período de tempo,
tradições: a umbu e a humaitá. A tradição umbu é características técnicas e decorativas semelhantes.
associada à presença de caçadores-coletores das Por exemplo, pinturas rupestres com figuras, temas e
regiões de planalto, que se espalharam mais tarde técnicas de trabalho parecidas.

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dOc. 3 Sambaqui
Garopaba do Sul. Jaguaruna,
Santa Catarina, 2005.
Nos sambaquis, não são
encontrados apenas conchas
e outros materiais calcários,
mas também sinais de
atividade humana, como
fogueiras, enterramentos,
vasos de cerâmica e
utensílios de pedra.

As culturas ceramistas de 3,5 mil anos atrás. A cerâmica marajoara possuía


Por volta de 5 mil anos atrás, boa parte dos grupos uma decoração composta de sinais padronizados que
que habitavam o Brasil passou a cultivar produtos expressavam mitos desse povo [doc. 4].
A cultura tapajônica está associada à tradição
Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

agrícolas, especialmente a mandioca e o milho. A cerâ-


mica tornou-se importante para esses grupos porque inciso-ponteada, da qual a cerâmica tapajônica é
permitiu a preservação dos alimentos, a criação de apenas a representante mais destacada. Ela é com-
novas técnicas de preparação de alimentos cozidos posta de vasos com figuras humanas e de animais
em panelas, sem ter de colocá-los diretamente sobre bem modeladas e bastante estilizadas, dos quais
o fogo. Além disso, ela passou a ser usada por alguns os vasos de cariátides (com suportes em forma de
povos como urna para enterrar os mortos. figura humana ou animal) e os de gargalo são os
Uma das maiores culturas agrícolas desse pe- exemplos mais famosos [doc. 4].
ríodo foi a tupi-guarani, formada pela associação de
dois ramos diferentes de povos: os tupinambás e os
guaranis. Os tupi-guaranis eram povos agricultores
e ceramistas que, por volta de 2 mil anos atrás, se
espalharam por boa parte do território brasileiro,
acompanhando principalmente o litoral, estendendo-
-se também por países vizinhos, como o Paraguai.
A população tupi-guarani se difundiu de tal maneira
que no século XVI chegava a um milhão de indivíduos,
sendo até hoje uma das populações indígenas mais
significativas no país. Por ser uma cultura que ainda
estava presente na época da chegada dos europeus,
há diversos relatos de cronistas estrangeiros que dOc. 4 Na imagem de
cima, vaso zoomorfo da
tiveram contato com esses grupos e descreveram cultura Santarém. Santarém,
suas crenças e costumes. Pará. Na imagem ao lado,
Capítulo 1 • A Pré-história humana

vaso marajoara. Ilha de


Na Amazônia podemos encontrar vários indícios Marajó, Pará.
de culturas expressivas da Pré-história brasileira.
Desde o período pré-ceramista, por volta de 12 mil
anos atrás, há sinais de ocupação da Bacia Ama-
zônica por populações de caçadores, pescadores e
coletores. As culturas mais marcantes dessa região
questões
são a marajoara e a tapajônica, associadas a duas
tradições ceramistas diferentes. 1. Quais são os aspectos culturais utilizados na perio-
dização da Pré-história brasileira?
A cultura marajoara está ligada à tradição poli-
croma, ou seja, que utilizava uma gama de diferentes 2. Observe os vasos e indique as características de for-
ma e decoração que representam a tradição de cada
cores em suas peças. Essa tradição surgiu na Ilha de uma das culturas [doc. 4].
Marajó, criada pelo povo que ali habitava por volta

43

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Seção 1.5
O Neolítico e a Revolução Agrícola
Objetivos O período neolítico
Diferenciar a O fim da era glacial, entre 14 mil e 10 mil anos atrás, gerou profundas mudan-
vida humana do ças ambientais. As mais evidentes foram o aumento da cobertura vegetal e de
período paleolítico da sua diversidade; a diminuição dos recursos hídricos disponíveis, causada pelo
do período neolítico. secamento de rios e lagos de água doce, indispensáveis à vida; a desertificação
Explicar a Revolução de certas regiões (por exemplo, na África, onde se formou o Deserto do Saara, e
Agrícola e as mudanças no Oriente Médio, onde se formou o Deserto da Arábia); o desaparecimento de
que ela gerou nas grandes mamíferos (como os mamutes); o aumento das manadas de mamíferos
comunidades humanas. de pequeno e médio porte, entre diversas outras mudanças.
O fim da era glacial coincide, na periodização tradicional da Pré-história,
Termos e conceitos com o início do Neolítico, caracterizado pela introdução de mudanças técni-
• Neolítico cas importantes, entre elas a fabricação de utensílios de pedra polida. Além
• Revolução Agrícola dessa inovação, o período neolítico também é associado a transformações
• Especialização técnicas, sociais, econômicas, produtivas e culturais que alteraram o modo
do trabalho de vida, a organização e a produção de alimentos dos grupos humanos. Es-
• Idade dos Metais sas transformações foram tão importantes e decisivas para os homens que

Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.


• Estado alguns estudiosos falam em Revolução Neolítica.
O conceito de revolução tem sido hoje em dia criticado, já que as transforma-
ções foram graduais e progressivas, apesar de extremamente relevantes. Além
disso, as modificações não foram simultâneas em todo o mundo (ocorreram entre
Conteúdo digital
Moderna PLUS http://
11 mil e 4,5 mil anos atrás). De qualquer forma, vários cientistas consideram que
www.modernaplus.com.br as transformações ocorridas entre 11 mil e 9 mil anos atrás, na região chamada
Filme: A guerra do fogo crescente Fértil [doc. 1], foram as mais importantes para a humanidade.

A Revolução Agrícola
Acredita-se que no território que corresponde hoje à Turquia e na região
do Crescente Fértil houve as primeiras tentativas de domesticação de plantas
e da prática do cultivo, provavelmente baseadas na observação de plantas
selvagens e seus ciclos de vida. Foi o início da agricultura, descoberta que
ficou conhecida como Revolução Agrícola.
Unidade A • Da Pré-história às primeiras civilizações do Oriente

Paralelamente ocorreu a domesticação de animais. É possível que o aqueci-


mento global e a restrição das áreas de água potável tenham levado as manadas
de animais a se concentrar à beira de lagos e rios, da mesma maneira que os
grupos humanos, favorecendo o contato e o controle desses
dOc. 1 O crescente Fértil animais e, por fim, a domesticação.
Vestígios arqueológicos indicam que foi durante o
Neolítico que todas as plantas e animais de importância
MAR NEGRO
econômica foram domesticados em vários lugares do mun-
MAR
CÁSPIO do [doc. 2]. Podemos citar o trigo e a cevada no Egito, por
volta de 8000 a.C., e o carneiro na Mesopotâmia, no mesmo
ÁSIA MENOR ME
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IRÃ período, embora existam evidências de que o cachorro já

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Rio Eu fosse companheiro dos humanos desde o Paleolítico.
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A difusão da cerâmica, outra grande mudança do Neolíti-


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MEDITERRÂNEO Golfo co, ocorreu por volta de 5500 a.C., impulsionada pela neces-
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sidade de obter recipientes para armazenar e transportar


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Rio J

ARÁBIA
Rio Nilo

EGITO líquidos, grãos e sementes, além de possibilitar o cozimento


dos alimentos que compunham a base da alimentação
VE
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humana nesse período. Para cozinhar tubérculos, cereais


AR HO

180 km Crescente Fértil

Fonte: VIDAL-NAQUET, Pierre; BERTIN, Jacques. Atlas histórico.


e carnes, era necessário um recipiente capaz de suportar
Lisboa: Círculo de Leitores, 1990. p. 25. altas temperaturas, e a cerâmica era ideal para isso.
44

HIST_PLUS_UN_A_CAP_01.indd 44 17.08.10 13:11:14


dOc. 2 As origens da agricultura e da domesticação de animais

EUROPA
3500 a.C. ÁSIA
7000 a.C.
AMÉRICA
6500 a.C.
6500 a.C. 8000 a.C. 5500 a.C.
4500 a.C. 6000 a.C.
7000 a.C.
7000 a.C. 7000 a.C. 8000 a.C.
7500 a.C.
OCEANO 7000 a.C.
8000 a.C.
ATLÂNTICO ÁFRICA
8000 a.C. 6000 a.C. 3500 a.C.
8000 a.C. 5000 a.C.
6000 a.C.
7000 a.C.
3000 a.C. 7000 a.C.
3000 a.C.
4000 a.C.
3300 a.C.

4000 a.C. 6000 a.C. 5000 a.C.


6000 a.C. OCEANO
OCEANO
AMÉRICA ÍNDICO
PACÍFICO OCEANIA

Algodão Cânhamo Feijão Milho Cabra Galinha Área de origem


das principais
Arroz Centeio Inhame Painço culturas agrícolas
Carneiro Ganso
e criação de Fonte: Atlas da história do mundo.
animais
Aveia Cevada Lentilha Sorgo Cavalo Lhama São Paulo: Times/Folha de S. Paulo,
Batata Ervilha Mandioca Trigo
1995. p. 38-39; REFREW, Colin;
Boi Porco
BAHN, Paul. Arqueologia. Madri:
Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

2.370 km
Akal, 1993. p. 152.

Os primeiros assentamentos humanos utensílios (agulhas de costura e botões de ossos) e


A Revolução Agrícola, porém, não implicou apenas vestimentas (sapatos de couro e roupas de lã).
o desenvolvimento da agricultura. Ela marcou a trans- O trabalho com esses materiais exigiu determi-
formação de grupos pequenos, móveis e possivelmen- nadas habilidades técnicas que levaram à especia-
te igualitários de caçadores-coletores em sociedades lização do trabalho. Ou seja, alguns indivíduos de
sedentárias, estabelecidas em aldeias e vilas. um assentamento foram liberados do trabalho no
O domínio de técnicas agrícolas, tais como a inven- campo e passaram a executar tarefas específicas
ção do arado, da roda e a construção de canais de ir- ligadas ao artesanato. O surgimento do artesanato
levou à criação de um sistema de trocas, em que o
rigação, possibilitou maior aproveitamento das áreas
artesão trocava seus produtos por alimentos que ele
cultivadas e o surgimento de um excedente agrícola.
não produzia. Estava nascendo o comércio.
O aumento da capacidade de produção exigiu que as
comunidades criassem meios de armazenagem dos Associado à especialização do trabalho, o uso
produtos. Com a criação desse excedente foi possível de metais na fabricação de armas e utensílios, c. de
ampliar a oferta de alimentos sem a necessidade de 5500 a.C., também aproxima o fim da Idade da Pedra
migrações em busca de novos recursos. e o início da Idade dos Metais. O primeiro metal a
ser trabalhado foi o cobre, utilizado na fabricação de
Outros motivos permitiram o aumento demográ-
enfeites e estatuetas. Por volta de 3000 a.C., o bron-
fico das comunidades. Carregar mais de uma criança
ze, uma liga obtida da mistura de cobre e estanho,
pequena num grupo em constante movimento é muito
começou a ser trabalhado para produzir ferramentas,
difícil. Já em assentamentos permanentes, cuidar
armas e estátuas. O uso do ferro só se difundiu por
mais de uma criança deixou de ser uma grande difi-
volta de 1500 a.C. [doc. 3].
Capítulo 1 • A Pré-história humana

culdade, o que levou a um aumento da população.

A especialização do trabalho
e o trabalho com metais
A criação de animais possibilitou obter uma série de
subprodutos, como peles, lã, leite, chifres, ossos, que
podiam ser trabalhados e também transformados em
outros produtos, como alimentos (derivados do leite),

dOc. 3 À esquerda, facas feitas


Conteúdo digital Moderna PLUS de bronze, c. 1100-700 a.C. Acima,
http://www.modernaplus.com.br lâmpada a óleo feita de ferro,
Mapa animado: Origem da agricultura e da pecuária c. 700-400 a.C. Hallstatt, Áustria.

45

HIST_PLUS_UN_A_CAP_01.indd 45 17.08.10 13:11:21


O surgimento do Estado e da escrita Vocabulário histórico
O crescimento dos assentamentos em tama-
civilização
nho e em número de habitantes, a criação de um O conceito de civilização surgiu por oposição ao con-
excedente agrícola, o comércio e a especialização ceito de barbárie. Segundo essa concepção, havia uma
do trabalho geraram outras mudanças. A tarefa de hierarquia entre aqueles que se consideravam cultural-
administrar os excedentes, construir diques e canais mente superiores (civilizados) e os demais (bárbaros).
Atualmente, alguns autores definem civilização como um
de irrigação para ampliar e manter as plantações
conjunto de características comuns compartilhadas por
nas épocas de seca e garantir a defesa dos assen- uma comunidade de pessoas, e tem havido certo esforço
tamentos passou a exigir a figura de um líder com com o objetivo de evitar que o conceito volte a hierarquizar
poder suficiente para controlar, gerir e organizar a as sociedades como superiores ou inferiores.
vida e as relações nesses assentamentos. Surgia o
poder político centralizado, ou seja, o Estado. “A palavra civilização surgiu na França iluminista do
Todas essas mudanças marcaram o início da século XVIII com um significado moral: ser civilizado era
urbanização, também conhecida como Revolução ser bom, urbano, culto e educado. Para os iluministas,
Urbana. A crescente complexidade dos assentamen- a civilização era uma característica cultural que se con-
tos, sua estabilidade e a presença de um poder polí- trapunha à ideia de barbárie, de violência, de selvageria.
[...] Mas desde o século XIX, historiadores e arqueólogos
tico levaram ao surgimento das primeiras cidades.
foram cada vez mais empregando a palavra civilização
Dessa maneira, entre 5000 e 3500 a.C. surgiram no plural, falando em civilizações, e o termo foi, assim,
as primeiras cidades propriamente ditas, situadas aproximando-se dos conceitos de cultura, de povo, de
nos vales dos rios Tigre e Eufrates, na Mesopotâmia; nação, e ganhando novos significados.”
do Rio Nilo, no Egito; do Rio Indo, na Índia; do Rio

Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.


SILVA, Kalina Vanderlei; SILVA, Maciel Henrique. Dicionário
Jordão, na Palestina; e no vale dos rios Hoang-Ho e de conceitos históricos. São Paulo: Contexto, 2006. p. 59-60.
Yang Tse, na China. Fora dos vales fluviais, é preciso
citar Çatal Hüyük, na Turquia, uma das mais antigas
cidades da história [doc. 4]. questões

O aparecimento das primeiras cidades assinalou, 1. Observe o mapa e responda às questões [doc. 2].
na periodização clássica, o fim do período neolítico a) Quais animais e plantas domesticados se destacam
na região do Crescente Fértil e da atual Turquia?
e da chamada Pré-história. Mas também marcou o
b) Quais produtos importantes para as primeiras
surgimento do que chamamos de civilização, ou seja, sociedades humanas foram obtidos com essas
uma relação consciente e estável entre grupos hu- plantas e animais?
manos e cidades que compartilham de uma mesma
2. O período neolítico é marcado por mudanças pro-
matriz cultural e mantêm relações entre si. fundas na vida humana. Relacione essas mudanças
O fim da Pré-história também é associado ao sur- e explique por que o conceito de “Revolução Neolíti-
ca” é contestado por muitos estudiosos.
gimento da escrita. Verificamos que os primeiros sis-
temas de sinais gráficos que podem ser classificados 3. Entre as transformações ocorridas no período neolíti-
como expressões da linguagem escrita apareceram, co, destaca-se a formação de cidades. Em que região
ocorreu a formação das primeiras cidades e quais
Unidade A • Da Pré-história às primeiras civilizações do Oriente

segundo o que se acredita, na Mesopotâmia, especi- fatores favoreceram essa forma de organização?
ficamente na Suméria, no fim do quarto milênio a.C.

dOc. 4 As primeiras cidades


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OCEANO Bengala Mesopotâmicos


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Indianos
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690 km Cidades

Fonte: A aurora da humanidade. Rio de Janeiro: Time-Life/Abril Livros, 1993. (Coleção História em Revista)

46

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ATIVIDADES

Retomar conteúdos a) Identifique a hipótese levantada pelo autor do


texto com relação à domesticação do cacau na
Mesoamérica.
1 Quais são os métodos científicos usados pelos estu-
diosos da Pré-história humana? b) Como se obteve o milho que conhecemos hoje?
c) A manipulação genética de um organismo tem
como objetivo introduzir nele características
2 Diferencie evolucionismo e criacionismo, identificando
desejáveis. Converse com os colegas sobre as
seus principais argumentos ou evidências.
experiências de manipulação genética na atua-
lidade, discutindo as polêmicas que envolvem o
3 Interprete o esquema a seguir e identifique o processo assunto.
histórico a que ele se refere, localizando-o no tempo e
no espaço.
6 Observe as imagens, leia as legendas e escreva um
texto sobre a música na Pré-história, considerando:
domesticação do trigo e cevada > excedente agrícola
a) o que podemos saber sobre o assunto, a partir dos
e uso da cerâmica > sedentarização > aumento de
achados arqueológicos apresentados nas fotos;
população > especialização do trabalho > metalurgia,
urbanização e formação do Estado b) a importância da música como expressão humana
no passado e no presente.

4 Destaque uma diferença importante entre as espécies


a seguir.
a) Australopiteco e Homo habilis.
Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

b) Homo habilis e Homo erectus.


c) Homo erectus e Homo neanderthalensis.
d) Homo erectus e Homo sapiens.

Ler textos e imagens

5 Leia o texto a seguir para responder às questões.

Acima, flauta de osso


“Por exemplo, uma coisa interessante, ainda muito mal co- de abutre, c. 35 mil
nhecida, é que o cacau, tão importante na Mesoamérica, é uma anos atrás, encontrada
planta amazônica, que foi domesticada na Mesoamérica – logo, na caverna de Hohle
Fels, Alemanha, e
houve algum tipo de contato entre as duas regiões. [...] Domes- atribuída à espécie
ticar significa transformar uma planta selvagem em cultivada. Homo sapiens. Ao lado,
[...] O caso do milho, também domesticado na Mesoamérica, é tambor cerâmico do
muito interessante. O milho é uma planta que não consegue período neolítico,
deitar semente, porque o que o homem come são exatamente as c. 4000 a.C.
sementes da planta. No processo de domesticação do ancestral
do milho, que é outra planta, chamada teosinto, houve uma
manipulação, uma seleção daquelas variedades que não joga- Produzir um texto
vam fora a sua semente, e daí resultou o milho que se conhece
hoje. Isso foi feito há sete mil anos a partir de um conhecimento 7 Leia as frases a seguir e, a partir delas, redija um texto
discutindo o conceito de humanidade.
muito íntimo, sem lupa e sem microscópio. A mandioca, tão
importante hoje em dia, é uma planta venenosa, extremamente Texto 1
tóxica, que foi domesticada na Amazônia por um processo de
“O homem não descende do macaco como geral-
Capítulo 1 • A Pré-história humana

engenharia genética semelhante. [...] Se você fizer a farinha e


a deixar guardada, ela pode apodrecer relativamente rápido. mente se diz. Ele é macaco. [...] há uma continuidade
Já um pé de mandioca fica plantado, crescendo, por mais de entre nossos antepassados primatas e nós.”
um ano e meio, dois anos. Você tem uma espécie de geladeira
desligada armazenando a planta [...]. Pela manipulação, essa LANGANEY, André. A mais bela história do homem: de como
planta que era tóxica, venenosa, foi transformada na base de a Terra se tornou humana. Rio de Janeiro: Difel, 2002. p. 17-18.
uma civilização.”
Texto 2
NEVES, Eduardo Góes. Por que não tem pirâmide
no Brasil?. In: Por ti América: aventura arqueológica: depoimentos “O homem, em suma, não tem natureza, o que ele
[CD-ROM]. Idealização, concepção e tem é história.”
desenho expositivo Alex Peirano Chacon. Rio de Janeiro: Centro
Cultural Banco do Brasil/CPDOC, 2006. p. 38.
ORTEGA Y GASSET, J. In: WHITROW, G. J.
O tempo na história. Rio de Janeiro: Zahar, 1993. p. 11.

47

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Capítulo

2 Civilizações do Nilo
e da Mesopotâmia

Nilo e Mesopotâmia: berço de civilizações


2.1 Mesopotâmia: o
No mundo contemporâneo, as atividades humanas desenvolvidas em
começo da civilização
torno de grandes rios são muito importantes para a economia e a cultura
Na Mesopotâmia, foram regionais. Podemos elencar alguns exemplos: o Rio São Francisco no Bra-
produzidos os primeiros
sil, o Rio Mississípi nos Estados Unidos ou ainda o Rio Reno na Alemanha.
códigos de leis e os primeiros
Preservar a vitalidade desses rios, sem interromper a cadeia do desen-
sistemas de escrita da história.
volvimento econômico, é uma das mais importantes tarefas do chamado
2.2 A civilização desenvolvimento sustentável.
egípcia Os grandes rios também foram decisivos para o surgimento das pri-
A necessidade de garantir o meiras civilizações da história, graças ao sistema de agricultura irrigada.

Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.


melhor aproveitamento das A civilização egípcia floresceu no Vale do Rio Nilo, no nordeste da África, e
cheias e vazantes do Rio Nilo caracterizou-se por um governo fortemente centralizado. Localizados ao
para a produção agrícola sul do Egito, os reinos da civilização núbia mantiveram duradouras trocas
impulsionou o processo de culturais e comerciais com os vizinhos ao norte. Já a civilização meso-
centralização política no Egito potâmica desenvolveu-se numa região que hoje corresponde ao Iraque
antigo. (principalmente) e países vizinhos. Os mesopotâmicos organizavam-se em
torno de cidades-Estado independentes.
2.3 A civilização núbia A civilização egípcia e a mesopotâmica compartilharam uma série de
Na região da Núbia, onde hoje características comuns, como uma crescente eficiência agrícola baseada
se localiza o Sudão, formou- em técnicas sofisticadas de irrigação e armazenamento de água dos rios;
-se uma grande civilização da centralização política sobre territórios específicos; ambas tinham uma
Antiguidade. forma de poder político em que o governante era considerado um deus ou o
representante divino; a economia era mantida pela acumulação centralizada
de tributos; ambas praticavam o comércio a longa distância e empregavam
a escrita para registrar atividades econômicas e políticas.

Pirâmides de Gizé, no Egito, em foto recente. As pirâmides foram


construídas durante o período conhecido como Antigo Império
(2686 a 2181 a.C.) para servir de tumbas aos faraós. A pirâmide
de Quéops, a maior delas, construída por volta de 2500 a.C., levou
mais de vinte anos para ser concluída.

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Seção 2.1
Mesopotâmia: o começo da civilização
Objetivo Civilização e preconceito
Estabelecer conexões Como vivemos numa cultura ocidental, é comum encontrarmos nos
entre as características jornais, na televisão e no cinema a ideia de civilização associada ao modo
políticas, econômicas e de vida da Europa e dos Estados Unidos. Expressando uma visão eurocên-
sociais da Mesopotâmia. trica, esses povos são apresentados como protagonistas da história e
promotores das grandes conquistas da ciência, como se possuíssem uma
Termos e conceitos
aptidão natural para a civilização.
• Civilização
Essa noção de civilização, baseada no preconceito, não considera a
• Escrita
identidade, os valores e a história de cada povo. Parte do pressuposto
• Cidade-Estado
de que a cultura europeia é um modelo a ser seguido, e tudo o que foge
• Império desse modelo é atrasado e inferior. Como veremos, diferentes povos cons-
truíram grandes civilizações, que apresentavam características políticas
e culturais próprias e com diferentes níveis de urbanização, e tinham sua
população exercendo diferentes ofícios.

A ocupação da Mesopotâmia
Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

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Mesopotâmia é uma palavra de origem grega que significa “entre rios”
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Mapa animado: e se refere à região compreendida entre os rios Tigre e Eufrates. Essa
Primeiras cidades região faz parte do chamado Crescente Fértil, uma área excelente para a
Mapa animado: agricultura, embora esteja cercada por terras áridas. As primeiras socie-
Primeiras migrações
dades dotadas de escrita e de uma estrutura social complexa surgiram
Mapa animado:
Povos da Mesopotâmia: nessa região, conhecida como o “berço da civilização”.
domínios e expansão A Mesopotâmia não conheceu períodos prolongados de unificação po-
lítica. Ela geralmente se apresentou como uma série de cidades-Estado
independentes que se formaram ao longo dos rios Tigre e Eufrates. Espe-
cialmente em períodos de guerras, essas cidades selavam alianças tem-
porárias que podiam originar grandes impérios. Os povos que habitaram
a Mesopotâmia ao longo de vários séculos foram os sumérios, os acádios,
os amoritas (antigos babilônios), os assírios, os elamitas e os caldeus
(novos babilônios) [doc. 1].

Vocabulário DOC. 1 Povos da Mesopotâmia


histórico

Capítulo 2 • Civilizações do Nilo e da Mesopotâmia


Cidade-Estado ÁSIA MENOR
A cidade-Estado é uma
forma política característica Nínive MAR
do mundo antigo. Designa Alepo
CÁSPIO

uma cidade e as zonas rurais Rio Euf


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adjacentes que lhe estão CHIPRE
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subordinadas, configurando ASSÍRIA


e

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uma comunidade política 250 km MEDITERRÂNEO PLANALTO


Damasco
autônoma que possui suas
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Tiro DO IRÃ
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próprias leis, moedas e di-


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Jerusalém
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Babilônia
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vindades tutelares. A cidade- MAR Susa


EGITO SUMÉRIA
-Estado, portanto, não se MORTO DESERTO Nipur
DA Lagash PÉRSIA
Mênfis Uruk
subordina a nenhum outro Monte
ARÁBIA
Sinai Ur
poder. Exemplos de cidades- Golfo Fonte: VIDAL-
Estado na Antiguidade foram CALDEIA Pérsico -NAQUET, Pierre;
Ur, Uruk, Babilônia e Nínive, BERTIN, Jacques.
Domínio da civilização Extensão máxima do Império
Atlas histórico:
na Mesopotâmia; Biblos e suméria Assírio (século IX a.C.)
da Pré-história
Sidon, na Fenícia; Atenas e Extensão máxima do Extensão máxima do Segundo
aos nossos dias.
Império Acádio Império Babilônico (Caldeu)
Esparta, na Grécia; e a pró- Lisboa: Círculo
pria cidade de Roma. Extensão máxima do de Leitores,
Primeiro Império Babilônico
1990. p. 29.

49

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Atividades econômicas registrá-las. No Egito, ao contrário, não se tem notícia da
existência de textos jurídicos. O faraó era considerado
O Vale da Mesopotâmia era árido e
um deus encarnado e toda justiça emanava unicamente
pouco fértil, levando os povos dessa
de sua vontade e de seu arbítrio.
região a dependerem da agricultura
irrigada. Assim, as cheias dos rios Ti- O Código de Hamurábi é o mais conhecido dos docu-
gre e Eufrates tinham de ser bem mentos jurídicos mesopotâmicos. O código, preservado
aproveitadas, pois eram funda- numa estela de pedra negra, foi elaborado por ordem do
mentais para o sucesso da ati- rei Hamurábi, que governou o Primeiro Império Babilô-
vidade agrícola. Sistemas locais nico entre 1792 e 1750 a.C. Sob seu reinado, os domínios
de irrigação eram desenvolvidos se estendiam da Assíria, no norte da Mesopotâmia, até
e controlados por comunidades a Caldeia, no sul. Contudo, o próprio termo “código” é
camponesas locais desde aproxima- enganoso. Criado no início do século XX, o termo trans-
damente 4000 a.C [doc. 3]. mite a ideia de uma coleção completa de todo o direito
então vigente. A intenção dos autores não foi essa, pois
Os templos desempenhavam papel
várias esferas da vida social foram deixadas de fora.
central na economia mesopotâmica.
Embora a estela contenha sentenças de Hamurábi,
Planejavam a produção agrícola, es-
grande parte foi acrescentada por escribas tomando
tocavam os produtos, promoviam o
como base tradições legais anteriores [doc. 4].
comércio e realizavam emprésti-
mos. O templo era um complexo A famosa expressão “lei de talião”, com seu lema
agrário-artesanal, em que con- “olho por olho, dente por dente”, é originada do Código
viviam diferentes camadas de Hamurábi. O princípio buscava estabelecer uma
sociais. Ao lado dos templos, proporção justa entre o crime cometido à vítima e a
existia o palácio como estru- punição imposta ao criminoso. A pena aplicada ao crimi-
doc. 2 Estatueta tura política e econômica. noso deveria corresponder ao dano causado a alguém.
de ouro suméria Assim, a lei tratava apenas do ato cometido. É provável
representando pessoa As terras dos templos e
que essa fosse a base de todos os antigos códigos de
segurando oferenda, dos palácios eram arrendadas
séculos XIII-XII a.C.
direito, anteriores aos direitos grego e romano. Diferen-
aos camponeses que, em
Museu do Louvre, Paris. tes são as leis modernas, que abordam as intenções e
troca de serviços prestados,
as circunstâncias em que o crime foi cometido.
recebiam rações e cereais para o seu sustento. Produ-
ziam-se cevada, trigo, gergelim, palmeiras, verduras e
frutas. Os camponeses também criavam animais, com
destaque para porcos, bois, aves, cabras, ovelhas e
cavalos. Os animais forneciam carne, leite e lã, além
de serem usados para puxar o arado. Alguns lotes de
terra eram administrados diretamente pelos templos
Unidade A • Da Pré-história às primeiras civilizações do Oriente

e palácios, utilizando trabalhadores escravos.


O artesanato mesopotâmico revelava um elevado
nível técnico para a época. Fabricavam barcos, con-
feccionavam objetos de cerâmica, joias e tecidos. As
tumbas da elite suméria estavam repletas de objetos
de cobre, bronze, ouro e prata, trabalhados com técni-
cas variadas e ricamente ornamentadas [doc. 2]. Tam-
bém praticavam o comércio local e a longa distância,
utilizando metais e cevada como moeda. Operações
comerciais, como o empréstimo a juros, o penhor e a
caução, eram comuns entre comerciantes que agiam
como intermediários dos templos e palácios.

o código de Hamurábi
Os códigos de leis são os principais documentos que doc. 3 Aldeia localizada na região pantanosa da
nos ajudam a entender o funcionamento da sociedade Mesopotâmia, nas proximidades da cidade de Nasiriyah,
mesopotâmica. Como o rei não era considerado divino, Iraque, 1974. Os pântanos dessa região eram formados
pelos rios Tigre e Eufrates. No final da década de 1990,
mas apenas alguém investido de poder pelos deuses, as entretanto, o ditador Saddam Hussein ordenou a drenagem
leis também valiam para ele. Por isso a necessidade de dos pântanos, transformando a região em um deserto.

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doc. 4 Estela de Hamurábi A escrita cuneiforme
“Quando o sublime Anum, rei dos Anunnaku, (e) Os mesopotâmicos desenvolveram uma das
Enlil, o senhor do céu e da terra, aquele que determina primeiras escritas da história, o sistema cunei-
o destino do país, assinalaram a Marduk, filho primogê-
forme, cujos registros datam do IV milênio a.C. A
nito de Ea, a dignidade de Enlil sobre todos os homens,
invenção foi obra dos sumérios, que habitavam o
(quando) eles o glorificaram entre os Igigu, (quando) eles
pronunciaram o nome sublime de Babel (e) a fizeram sul da Mesopotâmia. Os sinais gravados na argila
poderosa no universo, (quando) estabeleceram para ele úmida tinham a forma de pregos de cabeça larga,
em seu meio uma realeza eterna, cujos fundamentos ou cunhas, o que explica o nome cuneiforme. Inicial-
são firmes como o céu e a terra, naquele dia Anum e mente os sinais eram figurativos, representando
Enlil pronunciaram o meu nome, objetos e ideias. Mais tarde, distanciando-se do
para alegrar os homens, desenho original, os sinais tenderam a se tornar
Hamurábi, o príncipe pie- mais abstratos. Dependendo dos agrupamentos
doso, temente a deus, para que se faziam com os sinais, eles podiam repre-
fazer surgir justiça na terra,
sentar ideias ou sons.
para eliminar o mau e o
perverso, para que o forte Apenas uma parcela muito pequena da popu-
não oprima o fraco, para, lação sabia ler e escrever. Nesse pequeno grupo,
como o sol, levantar-se destacavam-se os escribas, funcionários especia-
sobre os cabeças-pretas lizados na escrita cuneiforme. Preparados desde
e iluminar o país.” crianças na eduba, a escola da Mesopotâmia, os
escribas eram peças-chave para garantir o funcio-
Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

Estela de Hamurábi
[c. 1765 a.C.]. In: BOUZON, namento de todo o sistema político e econômico
Emanuel. O Código mesopotâmico, ocupando posição privilegiada na
de Hamurábi. Petrópolis:
Vozes, 1986. p. 39-40.
sociedade.
Os escribas registravam transações comerciais
dos templos e dos palácios, redigiam contratos,
controlavam o fluxo de entradas e saídas de pro-
dutos agrícolas dos templos, faziam a crônica dos
reis e das batalhas e serviam de diplomatas nas
Estela em que está
gravado o Código de
relações com outros povos. Muitos desses textos
Hamurábi, c. 1765 a.C. foram descobertos pelas escavações arqueológi-
Museu do Louvre, Paris. cas e se encontram hoje em museus do Oriente
Médio e da Europa.

divisão social doc. 5 A organização social na Mesopotâmia


Segundo o Código de Hamurábi, elaborado por
volta de 1765 a.C., a sociedade babilônica estava
dividida em três camadas sociais básicas: os awilu, Awilu. Proprietários de terras e
funcionários da burocracia palaciana.
os mushkenu, os gurush e os wardu, que definiam a

Capítulo 2 • Civilizações do Nilo e da Mesopotâmia


condição jurídica e política do indivíduo [doc. 5].
Os escravos – em geral, mulheres – provinham do
exterior e eram obtidos por meio da guerra, da pirata- Mushkenu. Camponeses e
trabalhadores não escravos
ria ou do comércio. Há documentos que indicam que que viviam sob a dependência
crianças abandonadas podiam ser escravizadas. Em do palácio.
épocas de crise, era algo comum pessoas venderem-
-se a si mesmas ou membros de sua família como es-
cravos. Os escravos, contudo, não eram a maioria da
Gurush. Eram trabalhadores
população. Havia uma massa de camponeses livres, sem família que cultivavam os
cujo trabalho era apropriado na forma de tributos lotes dos templos.
pagos ao Estado ou aos templos.
Os escravos podiam pertencer ao Estado ou aos
templos e eram utilizados nas obras de irrigação, ar- Wardu. Eram os escravos.
mazenamento e distribuição de excedentes agrícolas.
Havia também escravos urbanos e domésticos, que Fonte: KRAMER, Samuel Noah. Mesopotâmia: berço da civilização.
pertenciam a particulares. Rio de Janeiro: José Olympio. p. 43. (Coleção Life)

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A Biblioteca de Assurbanipal O cosmos atuava sobre a Terra. Tudo o que nela
Nas ruínas da antiga cidade assíria de Nínive, no existia, inclusive a vida humana, estava sujeito à força
norte da Mesopotâmia, foi encontrado um conjunto cósmica dos planetas. Para orientar a vida humana
de textos literários e eruditos que formam o que pode e garantir a sobrevivência, era necessário conhecer
ser considerada a primeira biblioteca da história. A essas forças e suas leis. A astronomia e a astrologia,
biblioteca pertencia ao rei Assurbanipal, governante portanto, eram conhecimentos fundamentais para a
do Império Assírio, que atingiu seu auge entre os sociedade mesopotâmica.
séculos IX e VII a.C.
Na Biblioteca de Assurbanipal foram encontra- A semelhança entre o céu e a Terra
dos textos gravados em tabuletas de argila, como O cosmos também mantinha uma relação de seme-
versões do célebre poema Epopeia de Gilgamesh lhança com a Terra. Os rios, os templos e as cidades,
(composto originalmente nos primeiros séculos do II por exemplo, tinham um equivalente no céu. O mapa do
milênio a.C.), um dicionário sumério-acádio, além de mundo na geografia babilônica reproduzia o mapa das
textos de matemática, astronomia, astrologia, magia regiões celestes e do paraíso, de tal forma que todos
e alquimia. As pesquisas levam a crer que Assurbani- os povos e as regiões conhecidas formavam um mundo
pal, um dos raros monarcas da época que sabiam ler circular cercado por água de todos os lados.
e escrever, reuniu num mesmo local objetos impor- Os zigurates, os grandes templos mesopotâmi-
tantes do universo cultural da Mesopotâmia. cos, também mantinham uma ligação com o céu. O
• Epopeia. Poema ou prosa que relata e glorifica
zigurate era uma representação em escala reduzida
os feitos de um herói lendário ou histórico. do cosmos e era construído de tal modo que cada

Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.


segmento do templo representava as principais
divisões do universo: o mundo subterrâneo, a terra e
Religião e ciência o firmamento. O zigurate simbolizava a união entre o
No mundo moderno, as explicações científicas céu e a terra e acreditava-se que a alma dos mortos
para os fenômenos do universo costumam opor-se ascendia ao céu subindo um a um os degraus do tem-
às explicações religiosas. Porém, para os povos plo. Dentro do zigurate havia um trono destinado ao
antigos, como os babilônicos, os conhecimentos deus que habitava o templo, em homenagem ao qual
sobre a ciência e a técnica não estavam separados se realizavam festas e rituais conforme um calendário
das crenças religiosas. Diferentemente do homem litúrgico anual [doc. 6].
moderno, que parte da observação e das medidas
racionais da natureza, os babilônios viam o mundo questÃO
de uma forma mística e mágica. Os deuses meso-
Como o rei Hamurábi justifica a criação de um código
potâmicos eram antropomórficos, considerados de leis [doc. 4]?
imortais e dotados de poder sobre o universo.
Unidade A • Da Pré-história às primeiras civilizações do Oriente

doc. 6 Zigurate construído em c. 2100 a.C. Os zigurates são


edificações construídas na forma de pirâmide, com a presença
de rampas e degraus. Iraque, foto de 1999.

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Seção 2.2
A civilização egípcia
Objetivo O povoamento do Egito
Compreender Atualmente, a questão das mudanças climáticas vem atraindo cada vez
o processo de mais a atenção de pesquisadores. Estudos em diferentes regiões do planeta
centralização política indicam a ocorrência de um processo de aquecimento global relacionado ao
do Egito e a relação derretimento das geleiras polares e à elevação do nível do mar. As consequên-
entre Estado e religião cias para a vida na Terra podem ser graves.
nessa sociedade.
Situação semelhante ocorreu, há alguns milênios, no norte da África. As
Termos e conceitos alterações climáticas que ocorreram nessa região explicam o povoamento do
Egito. O Deserto do Saara era uma região de savanas, habitada por caçadores
• Faraó
e pescadores e posteriormente por agricultores e criadores de gado. A última
• Estado
glaciação, ocorrida por volta de 12 mil anos atrás, provocou o ressecamento
• Politeísmo
do terreno e levou à formação dos atuais desertos na região. À medida que
• Religião a desertificação avançava, diversos povos se instalaram nas margens do Rio
Nilo [docs. 1 e 2]. A desertificação se intensificou entre 3300 e 3000 a.C., com
a queda no volume de chuvas e a diminuição do nível das cheias do Nilo.

De aldeia a império
A agricultura irrigada era inicialmente de caráter local e descentralizado,
controlada por comunidades camponesas, que também praticavam a caça, a
pesca e a coleta de frutos. Entre 7000 e 4000 a.C., a crescente inovação agrí-
cola e a formação dos primeiros núcleos humanos sedentários promoveram o
crescimento populacional, tornando necessária a construção de obras, como
diques e canais, que possibilitassem maior produção agrícola. Dessa forma,
essas primeiras comunidades tiveram de se unir para possibilitar o aumento
da produção agrícola, dando origem a confederações tribais, os nomos.
DOC. 1 O Egito antigo
• Glaciação. As glaciações são períodos geológicos de intenso resfriamento da
HITITAS
superfície terrestre, provocando o aumento das geleiras nos polos e em zonas
montanhosas de neve perpétua. Os períodos glaciares podem durar de 40 mil a
100 mil anos. A última glaciação se encerrou há cerca de 12 mil anos.
FENÍCIA
MAR MEDITERRÂNEO
• Dique. Obra de engenharia destinada a impedir que as águas de um rio ou mar
Biblos
Sidon invadam determinado terreno.
Tiro
PALESTINA

MAR
MORTO

Capítulo 2 • Civilizações do Nilo e da Mesopotâmia


Tânis

Mênfis

SINAI
PENÍNSULA
Tell el-Amarna ARÁBICA
Rio
Ni

o
l

Tebas
M
AR

VER
ME

Abu-Simbel
LHO

NÚBIA
Kerma
Extensão do Império
Napata no século XIII a.C.
no século XV a.C.

480 km Império Hitita

Fonte: VIDAL-NAQUET, Pierre; BERTIN, DOC. 2 Vista aérea de plantações às margens do Rio Nilo, Egito, 1999. O Nilo é um rio de
Jacques. Atlas histórico. Lisboa: Círculo águas perenes, encravado no meio do deserto. Durante as cheias anuais, uma camada de
de Leitores, 1990. p. 41. húmus é deslocada e depositada sobre as terras próximas ao rio, fertilizando-as.

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A unificação do Egito A sociedade
Por volta de 3500 a.C., havia dois reinos no No Egito faraônico, podemos reconhecer três
Egito: o do Alto Egito, ao sul, e o do Baixo Egito, ao camadas sociais principais: a nobreza, uma cama-
norte, na região do Delta do Nilo. Por volta de 3150 da de servidores e trabalhadores que exerciam
a.C., Menés, o governante do Alto Egito, conseguiu diversas funções e os camponeses [doc. 3] . Os
unificar os dois reinos, subordinando os vários no- escravos, em menor número, podiam ser estrangei-
mos. Esse processo de centralização do poder deu ros capturados nas guerras, filhos de escravos ou
origem ao período dinástico e transformou Menés ainda trabalhadores recebidos pelo Estado egípcio
no primeiro faraó do Egito. Foi nesse contexto que como pagamento de tributos por parte das regiões
os líderes dessas comunidades, os nomarcas, se dominadas.
transformaram em funcionários e representantes
No casamento, em geral predominava a monoga-
do poder central, assumindo a tarefa de administrar
mia. Os maridos, porém, podiam ter várias esposas,
as aldeias, fiscalizar os impostos e fazer cumprir as
o que era comum nas camadas da elite. No caso das
decisões do faraó.
esposas do faraó, apenas uma era escolhida para
Desde então, o palácio começou a controlar a vida ser a rainha. Era comum também a prática da en-
econômica do território, construindo obras de irriga- dogamia. Os egípcios davam importância à família
ção e coordenando a produção agrícola. Os palácios e por isso costumavam ter respeito e consideração
passaram a arrecadar os excedentes agrícolas por suas mães. A mulher egípcia podia adquirir pro-
produzidos nas comunidades aldeãs, exigindo delas priedades, legar bens e fazer testamentos.
uma tributação em espécie. Em consequência disso,

Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.


passou a haver uma divisão e especialização do tra- • Dinástico. Referente à dinastia, sucessão de
balho e uma organização social hierarquizada. soberanos que pertencem a uma mesma família.
A história política do Egito antigo é dividida A história do Egito é tradicionalmente dividida em
31 dinastias faraônicas. Essa divisão foi elaborada
em quatro períodos: Período Arcaico (3150-2686 por intelectuais gregos que ocupavam importantes
a.C.), Antigo Império (2686-2181 a.C.), Médio cargos sacerdotais no Egito por volta do século III a.C.
Império (2040-1782 a.C.) e Novo Império (1570- • Endogamia. Casamento entre membros de uma
-1069 a.C.). mesma família, como irmãos.

doc. 3 A sociedade egípcia

O faraó personificava
o Estado e se impunha
como soberano divino.

Grupo privilegiado que


Sacerdotes
Unidade A • Da Pré-história às primeiras civilizações do Oriente

organizava o trabalho e
decidia por todos.
Altos funcionários do Estado

Escribas
Pequenos e médios servidores do
Estado, formavam um grupo que
Comerciantes prestava serviços ao faraó e aos
palácios e templos.

Artesãos

Conhecidos como felás, representavam a maioria da


população. Trabalhavam nas atividades agropecuárias,
Camponeses eram obrigados a entregar parte da produção ao faraó,
como pagamento de tributos, além de serem recrutados
periodicamente para o trabalho nas obras públicas.

Escravos Prisioneiros de guerra, filhos de escravos


ou provenientes de tributos pagos pelas
regiões conquistadas.

Fonte: CASSON, Lionel (Org.). O antigo Egito. Rio de Janeiro: José Olympio, 1983. (Biblioteca de história universal Life)

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A economia O comércio interno era bem desenvolvido, mesmo
não havendo moedas. A circulação de produtos en-
A economia egípcia baseava-se na agricultura. Os tre as regiões era intermediada pela administração
principais produtos eram cevada, trigo, linho, verduras faraônica. O comércio exterior era feito exclusiva-
e vinhas. A pesca, a caça e a criação de animais, como mente em grandes expedições organizadas pelo
bois, cabras e aves, também eram praticadas pelos faraó. Os egípcios exportavam vinho, cereais, óleos
egípcios [doc. 4]. O trabalho agrícola ocupava cerca vegetais, papiro e móveis e importavam pedras
de oito meses do ano, correspondendo, no nosso ca- preciosas, marfim, perfumes e madeiras.
lendário, aos meses de novembro a junho. Nos quatro
meses restantes, que correspondiam à época das
doc. 4 A domesticação de plantas e animais
inundações, os camponeses eram deslocados para a
construção e manutenção dos canais de irrigação e “ Os cereais, principalmente a cevada e o trigo,
para a edificação de grandes obras, como os templos, forneciam o essencial da produção agrícola. Mas, aos
os palácios e as pirâmides. campos propriamente ditos, acrescentavam-se os po-
mares com legumes e árvores frutíferas, mormente a
A coleta realizada no Vale do Nilo, a agricultura e a vinha em altas parreiras. A isto se associava a criação.
exploração das minas de ouro, cobre e pedras preciosas Não do cavalo, que só foi conhecido tardiamente, na
forneciam matérias-primas para a atividade artesanal. segunda metade do segundo milênio, por intermédio
Nas aldeias produziam-se utensílios mais rústicos dos invasores Hicsos, e que ficou reservado aos aristo-
para uso diário. Já nas oficinas dos templos e palácios cratas, mas do boi, do asno, e sobretudo do porco, do
produziam-se produtos de luxo para o consumo da elite. carneiro e da cabra, assim como de aves, gansos e patos,
Com o papiro, por exemplo, fabricava-se papel, cordas, já que as galinhas eram desconhecidas.”
Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

cestas e esteiras [doc. 5]. Os egípcios eram considera-


AYMARD, André; AUBOYER, Jeannine. História geral das
dos “mestres” na arte de tecer e tinham também uma civilizações. 6. ed. Rio de Janeiro: Difel, 1977. v. 1. p. 42-43.
importante indústria de construção naval.

doc. 5 o papiro e velas de barco. O caule fibroso permitia produzir


A imagem abaixo representa a colheita do papiro. uma superfície plana e flexível própria para a escrita.
O papiro é um tipo de planta que se desenvolvia de Primeiro os caules eram cortados em lâminas finas e
forma abundante no Vale do Nilo, sendo utilizado depois agrupados, formando uma espécie de tecido.
na fabricação de papel, cordas, sandálias, esteiras O papiro era, em seguida, polido e comprimido.

Capítulo 2 • Civilizações do Nilo e da Mesopotâmia

Estela funerária do
túmulo de Nefer e
Ka-hay. Egito, séculos
2500-2400 a.C.

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Religião e reforma o mito da pesagem das almas
Os egípcios eram politeístas, ou seja, acre- Segundo algumas igrejas cristãs, as ações cometi-
ditavam em muitos deuses e mitos. Os deuses das em vida por um indivíduo são julgadas por Deus no
personificavam elementos ou forças da natureza, dia do Juízo Final. Após a morte, cada um é punido ou
atividades e acontecimentos da vida, sentimentos absolvido num tribunal divino, cuja sentença definirá
humanos etc. Alguns deuses, como Ísis e Osíris, a nova morada do indivíduo. Se punido, ele vai para
eram antropomórficos, assumiam a forma hu- o inferno; se absolvido, para o céu. A imagem de um
mana; outros eram antropozoomórficos, ou seja, tribunal divino, no entanto, não é exclusiva das igrejas
tinham forma humana e animal; e outros tinham ca- cristãs. Muitas religiões professam ou professavam
racterísticas zoomórficas, isto é, apresentavam- uma crença semelhante, inclusive a religião egípcia.
-se na forma de animais, tais como o gato, o chacal, Segundo o mito da pesagem das almas, para saber
a serpente e o crocodilo. se o ka de um morto merecia ou não obter a imortali-
A divindade mais importante era Rá, mais tarde dade, um tribunal presidido por Osíris julgava as boas
chamado Amon-Rá, o deus-sol. O faraó, visto como e más ações cometidas por essa pessoa em vida [doc.
um deus encarnado, era o filho de Rá. O deus Osí- 6]. Para que o ka pudesse ascender ao mundo dos
ris, um dos mais populares do Egito antigo, estava mortos, era preciso que seu corpo terrestre estivesse
associado ao Rio Nilo e à agricultura. Conta o mito preservado. A necessidade de conservar o corpo para
que seu irmão Set, tomado de inveja, matou Osíris a vida além-túmulo explicava a prática de mumifica-
e ordenou que seu corpo fosse lançado nas águas ção dos cadáveres no ritual fúnebre egípcio.
do Nilo. Mais tarde, ao reencontrar o corpo boiando Após esse processo, o ka do morto era conduzi-

Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.


no rio, cortou-o em vários pedaços e os espalhou ao do por Anúbis, deus da morte, à sala do julgamento.
longo do Nilo. Ísis, esposa de Osíris, saiu à procura O coração do morto era pesado numa balança. Do
do corpo do marido. Depois de recolher todos os outro lado da balança, como contrapeso, era posta
pedaços, reconstituiu o corpo de Osíris, que passou uma pluma de avestruz, símbolo de Maât, a divinda-
a governar o reino dos mortos. de que simbolizava a verdade e a justiça. Se os dois
Na crença dos egípcios, não havia um além- lados da balança se equilibrassem, o morto poderia
mundo que tivesse a função de morada dos deuses. ascender ao reino dos mortos e obter a paz. Mas,
Os deuses habitavam a Terra e sua morada eram os se seu coração fosse mais pesado que Maât, então
templos. Os homens deviam honrá-los, por meio de o demônio Babai devorava seu ka. O resultado do
cantos, danças e oferendas, para torná-los bene- julgamento era transcrito por Thot, o escriba dos
volentes e não abandonarem os homens sozinhos deuses, num papiro para justificar a justiça divina
na Terra. e servir de exemplo aos vivos.

• Ka. O ka era o duplo espiritual que


nascia com cada pessoa. O ba (que
Unidade A • Da Pré-história às primeiras civilizações do Oriente

corresponde à personalidade em termos


modernos) formava a outra parte da
alma. Após a morte, ka e ba precisavam
se encontrar novamente para que
pudessem existir no além-túmulo.
Nesse sentido, o corpo precisava ser
preservado para manter a aparência
de modo que o espírito pudesse
reconhecê-lo após a morte.

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Filme: Egito

questões

1. Aponte algumas semelhanças en-


tre a organização social da Meso-
potâmia e a do antigo Egito [doc. 5,
p. 51, e doc. 3, p. 54].

2. Quais características da religião


egípcia podem ser identificadas
doc. 6 Papiro representando a pesagem das almas diante nessa imagem [doc. 6]?
do deus Amon, séculos XI-X a.C. Museu do Louvre, Paris.

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ANALISAR UM DOCUMENTO HISTÓRICO O escriba egípcio

Na sociedade egípcia, os escribas ocupavam


uma posição de prestígio. Para se tornar um ser-
vidor do Estado, o escriba estudava cerca de doze
anos, aprendendo escrita, aritmética, história,
geografia, literatura e administração.
O texto abaixo faz parte da chamada literatura
de sabedoria, gênero literário divulgado por escri-
bas e constituído de conselhos sobre a maneira
correta de viver.
O texto pode ser utilizado pelos historiadores
para compreender os valores que orientavam ou
deveriam orientar a sociedade egípcia ou, pelo
menos, uma parte dela.

“O encarregado da fornalha tem os dedos imundos


Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

e seu cheiro é o de cadáveres. Seus olhos congestionam-


-se pelo excesso de fumaça e ele não consegue livrar-se
de sua sujeira. Leva o dia a cortar juncos (para queimar)
e suas roupas são repugnantes (até) para ele.
Escultura representando um escriba egípcio, encontrada
O sapateiro padece muito com suas cubas de verniz. em Sacara, no Egito, datada de c. 2500 a.C. Museu do
Sente-se tão bem como um homem entre cadáveres. Louvre, Paris.
Seus dentes só cortam couros.
O lavadeiro lava na margem (do rio) com os crocodi- Para compreender o documento
los (muito) próximos. Quando o pai entra na correnteza
Para desenvolver a habilidade da leitura, é impor-
na época da enchente, seu filho (sequer) pode aproximar- tante aprender a reconhecer os diferentes gêneros de
-se dele. Esta não é uma boa ocupação para ti, não é (com texto que se expressam em nosso cotidiano. Os gêne-
certeza) a melhor das profissões. [...] ros textuais apresentam características definidas por
seu estilo, função, composição, conteúdo, entre ou-
O passarinheiro padece muito ao procurar os habi- tros. Exemplos: carta, e-mail, telegrama, conto, fábu-
tantes do céu. Quando a revoada passa, ele diz: ’Se eu la, anedota, poema, cartaz, crônica, receita, manual,
ofício, charge, texto científico etc.
tivesse uma rede!’ Mas o deus não deixa que isso aconteça
e ele fica irado com sua sorte. 1. O texto se expressa por meio do gênero carta ou
depoimento, justificando o tom intimista e pessoal
Também falarei sobre o pescador, (pois) tem a pior de exposição do narrador.
das ocupações. Eis que labuta no rio, misturado aos
2. O narrador apresenta uma série de argumentos

Capítulo 2 • Civilizações do Nilo e da Mesopotâmia


crocodilos. Na hora da contagem (do que pescou) enche- com o intuito de demonstrar a sua tese. Trata-se
-se de lamentações e sequer pode alegar que havia um de um texto argumentativo.
crocodilo (à espreita). [...] 3. O narrador compara diferentes profissões, enfati-
Eis que não há profissão sem chefe, exceto a do zando os aspectos negativos de cada uma delas.
escriba: ele é o chefe. Por isso, se souberes escrever, 4. O texto termina com uma assertiva, ou seja, uma de-
esta será para ti melhor que as outras profissões que te claração enfática que expressa o pensamento do autor.
descrevi em sua desdita. Atenta para isso, não se pode
chamar um camponês de ser humano. Em verdade eu te questões
fiz ir para a Residência, em verdade fiz isso por amor a ti,
(pois) um dia (que seja) na escola, será proveitoso para 1. “Eis que não há profissão sem chefe, exceto a do
escriba: ele é o chefe. Por isso, se souberes escre-
ti. Suas obras duram como as montanhas.” ver, esta será para ti melhor que as outras pro-
fissões que te descrevi.” Qual o significado dessa
Sátira das profissões (2060-1991 a.C.). In: ARAÚJO, E. argumentação no contexto da sociedade egípcia?
Escrito para a eternidade: a literatura no Egito faraônico.
Brasília: Editora da UnB, 2000. p. 220-223. 2. A quem se destinavam as recomendações do ve-
lho escriba? Você acredita que elas sejam válidas
nos dias atuais?
• Desdita. Má sorte, infortúnio.

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AMPLIANDO CONHECIMENTOS
O Egito antigo
EDITERR ÂNEO
MAR M

Egito: dádiva do Nilo


“O Egito é uma dádiva do Nilo.” A frase, atribuída ao questões
Gizé
historiador grego Heródoto, mostra a estreita relação entre o 1. Com base nos dados desta ilustração, Mênfis

Rio Nilo e a civilização que se desenvolveu às suas margens. problematize a frase atribuída a Heródoto, ex-
plicando o papel do meio físico e da ação hu-
Porém, a sociedade egípcia não foi obra da natureza. mana na formação da civilização egípcia.
O planejamento realizado pelo Estado e o trabalho dos
2. Por que nos dias de hoje, nas grandes cidades
camponeses foram fundamentais para o bom aproveitamento do Brasil, o transbordamento dos rios resulta

R io
em graves problemas?

VE
Nil

MA LHO
dos recursos naturais da região.

RM
o

R
Carnaque

E
Tebas Luxor

Abu-Simbel

Grandes blocos de pedras calcárias Pirâmides


eram utilizados para a construção das Templos 170 km
pirâmides. Extraídos das pedreiras do

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deserto, eram transportados de barco até
o local das construções. Chegando lá, os
trabalhadores carregavam esses blocos
utilizando toras de madeira e trenós.
Após a vazante,
o solo se tornava
enriquecido pelo
húmus, material
orgânico formado
Os escribas controlavam
pela decomposição
a cobrança de impostos,
de plantas e animais.
realizavam censos populacionais
e registravam informações
relativas à produção
agrícola e ao comércio.
Os canais
de irrigação
transportavam
a água para
Unidade A • Da Pré-história às primeiras civilizações do Oriente

regiões distantes,
e os reservatórios
garantiam o
As áreas desérticas fornecimento de água
dificultavam as viagens por quando a inundação

Capítulo 2 • Civilizações do Nilo e da Mesopotâmia


terra. Normalmente, em uma terminava.
viagem do sul para o norte,
com a correnteza a favor,
as embarcações usavam No solo fertilizado pelo
seus remos, e na volta, com húmus, os camponeses
o vento a favor, utilizavam plantavam trigo, cevada,
suas velas. ervilha, lentilha, verduras e
Além de cuidar da casa e outros produtos.
dos filhos pequenos, as
mulheres teciam panos,
moíam trigo e trabalhavam Julho/outubro: época das cheias Novembro/junho: época da vazante
O papiro crescia às margens do O nível do rio subia e inundava as Durante a vazante, os camponeses
nas plantações.
rio. Com a planta, os egípcios margens. Nesse período, muitos semeavam, colhiam e debulhavam os
fabricavam grande quantidade de camponeses eram recrutados pelo cereais. Uma boa produção agrícola
produtos: papel, cordas, cestos, Estado para o trabalho nas construções garantia a subsistência da população
caixas, sandálias e pequenas públicas, como pirâmides, templos, nos períodos de estiagem.
embarcações. diques e canais de irrigação.

Nível do rio
Em alguns pontos, as margens
Representação atual de como o Rio Nilo e o trabalho férteis do Nilo alcançavam Fonte: CASSON, Lionel. O antigo Egito.
humano tornaram possível o desenvolvimento do Egito Nível do rio 20 quilômetros de extensão. Rio de Janeiro: José Olympio, 1983; HERÓDOTO.
58 antigo. Cores-fantasia, sem escala. História. Rio de Janeiro: Ediouro, s.d. 59
Seção 2.3
A civilização núbia
Objetivo A redescoberta de uma civilização
Reconhecer a Durante muito tempo, o estudo da civilização núbia permaneceu ignora-
importância do estudo do. Parte disso se deve ao preconceito racista que imperou desde o final do
da civilização núbia. século XIX e que associava os povos africanos de pele negra à inferioridade,
ao atraso civilizatório e à inexistência de história.
Termos e conceitos
De acordo com estudiosos contemporâneos, as origens da civilização
• Civilização
etíope (os “homens de pele queimada”, como eram conhecidos pelos gregos
• Escrita
e pelos romanos) são tão ou mais antigas que as do Egito. Os primeiros indí-
• Candace
cios da ocupação da região por povos caçadores, agricultores e pescadores
datam de cerca de 8000 a.C.
O chamado “corredor núbio” constituiu um elo importante no contato entre
a África subsaariana e as zonas mediterrâneas, controladas pelo Egito. Por
esse motivo, a Núbia – região do atual Sudão – ocupou uma posição estratégica
no mundo antigo, tanto nas trocas comerciais quanto nos contatos culturais
entre povos distintos [doc. 1].

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DOC. 1 A região da Núbia O Reino de Kush
MAR MEDITERRÂNEO
Para os estudiosos, os vestígios arqueológicos de Kerma são testemu-
SINAI
nhos de uma cultura núbia nativa e sede de uma dinastia local. É provável
que Kerma fosse a capital do Reino de Kush, que se estendeu de 1730 a
Ri

Nil
o

o
ANTIGO
EGITO
1ª Catarata
PENÍNSULA
ARÁBICA 1570 a.C. O advento do Reino relacionou-se à centralização do poder político
nas mãos de reis, à criação de um exército real e ao processo de formação
M
AR

Abu-Simbel
2ª Catarata
de camadas sociais distintas.
VE R

NÚBIA
3ª Catarata
ME

Kerma
KUSH
O poder e a autonomia de Kerma oscilaram ao longo dos séculos. Em
L
HO

4ª Catarata 5ª Catarata
Napata
NÚBIA
Meroé
determinadas épocas o reino foi submetido ao poder dos faraós, pagando
tributos e fornecendo escravos [doc. 2]. Em outras, os núbios estenderam
seu domínio em direção às áreas mais ao norte, transformando-se eles
próprios em faraós.
O domínio do Egito sobre toda a Núbia iniciou-se por volta de 1570 a.C. e
Unidade A • Da Pré-história às primeiras civilizações do Oriente

durou cerca de quinhentos anos. Nesse período, Kerma foi transformada numa
província do Império, seus habitantes, reserva de mão de obra para os em-
Limites atuais
690 km dos países preendimentos egípcios, e seus guerreiros, soldados do exército faraônico.
Fonte: Ki-Zerbo, J. (org.) História geral
da África. São Paulo: Ática/Unesco, O domínio kushita
1982. v. 2, p. 226.
Essa situação se inverteu no século VIII a.C. O Império Egípcio se fragmentou
em pequenas unidades políticas, que passaram a disputar o poder entre si. O
Reino de Kush aproveitou para conduzir seus próprios representantes ao trono
egípcio. Os faraós kushitas estabeleceram a capital em Napata e governaram
durante 450 anos. As tradições faraônicas foram preservadas nos templos, na
cerâmica e nos textos escritos.

Cena de batalha
DOC. 2
entre núbios e egípcios.
Túmulo do faraó Tutancâmon,
século XIV a.C. Tebas, Egito.
Museu Egípcio, Cairo.

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o período meroíta A escrita meroíta
Com a invasão do Egito pelos assírios, no século Havia dois tipos de escrita meroíta: a hieroglífica
VII a.C., o território núbio foi reduzido e limitado ao e a demótica. Os sinais da escrita hieroglífica foram
tomados dos hieróglifos egípcios. Já a escrita cursiva
norte por Napata, velha capital do reino. No século V
derivou parcialmente do demótico egípcio. A escrita
a.C., pressionados por expedições egípcias, os reis
cursiva possuía um alfabeto de 23 sinais, alguns
núbios foram forçados a se dirigir ainda mais para o
representando números e outros simbolizando pala-
sul, transferindo sua capital para a cidade de Meroé.
vras, e cada vocábulo era separado do outro por dois
Napata foi conservada como um centro religioso
ou três pontos verticais. Apesar disso, ainda não foi
para onde os reis eram deslocados nos momentos
totalmente decifrada.
de coroação ou de sepultamento.
A instalação da corte em Meroé inaugurou um o papel das candaces
novo período, conhecido como meroíta, e significou
A tradição política dos reinos da Núbia também
uma reorientação cultural e política do antigo reino.
se destaca pelo poder atribuído às mulheres, mães
Menos preocupados com as fronteiras egípcias e
ou esposas reais, chamadas posteriormente de can-
mais voltados para as raízes núbias, os reis kushi-
daces. Revelando as tradições matrilineares núbias,
tas restabeleceram a língua e a escrita meroítas, já durante o período egípcio elas ocupavam um lugar
que passaram a ser oficiais no reino. Em termos de projeção nos centros religiosos dedicados ao deus
religiosos, o deus egípcio Amon foi substituído por Amon, exercendo a função de sacerdotisas. Na época
um deus de corpo humano e cabeça de leão, conhe- de Meroé, adicionaram aos seus nomes o título de
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cido como Apedemeque, cultuado como a principal candaces, e algumas delas,


divindade núbia. poderosas e aguerridas,
perpetuaram seus feitos
Agricultura, artesanato e comércio por meio de afrescos
A atividade econômica que mais se destacou em e portais de tumbas
Meroé foi o comércio. A cidade notabilizou-se como [doc. 3].
entreposto de rotas caravaneiras que ligavam o Mar
Vermelho, o Alto Nilo e o Chade, exportando produtos
de luxo como incenso, ouro, pena de avestruz, pele de doc. 3 Ao lado,
leopardo e marfim. joia de ouro,
representando o
Meroé também foi um empório de produtos arte- disco solar, que
sanais. Vestígios da cultura material, como objetos de pertenceu à candace
ferro e de outros metais, peles, tecidos, cerâmicas e Amanixaquete, século I
a.C. Museu Estadual de
joias, evidenciam a presença de um grupo de artesãos Arte Egípcia, Munique.
relativamente numeroso. A produção expressava Abaixo, bracelete que
pertenceu à candace
tanto a influência egípcia quanto a tradição meroíta.
Amanixaquete, século
Entretanto, não se sabe como os ofícios eram orga- I a.C. Coleção de
nizados e nem mesmo o nome dos artistas, pois a Arte Egípcia da

Capítulo 2 • Civilizações do Nilo e da Mesopotâmia


Alemanha, Munique.
escrita meroíta ainda não foi decifrada.
A cerâmica núbia apresentava traços e técnicas
próprios. Vasos com bases arredondadas são ex-
pressões dessa arte. A moldagem era feita à mão,
supostamente por artesãs, e em rodas de oleiros,
técnica geralmente associada a homens. Outros arte-
fatos encontrados apresentam dimensões menores
e paredes tão finas que são chamados de cerâmica
casca de ovo. Motivos egípcios, triângulos, losangos,
rãs, crocodilos, cobras, galinhas-d’angola e girafas questões
aparecem pintados em vermelho e preto sobre fundo 1. Destaque, com base no texto, práticas desenvolvi-
creme ou ocre amarelado, ou em branco e preto sobre das pelos núbios que demonstram o caráter comple-
fundo encarnado. xo da civilização que eles construíram.

2. Associe os elementos presentes nessas joias com as


• Matrilinear. Organização social cuja
características da sociedade núbia do período me-
transmissão de bens e privilégios é feita por roíta [doc. 3].
meio de descendência materna.

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atividades

Retomar conteúdos 12 Sintetize a informação principal apresentada no texto


a seguir.
1 Na região do Crescente Fértil, embora cercada por terras
áridas, ocorreu a sedentarização de diferentes povos.
Qual a influência do meio natural na fixação populacio-
nal na região e no surgimento de várias civilizações?
“Apenas por volta de 3000 a.C. é que se pode
perceber uma clara diferença entre a civilização do
2 Explique a forma de organização política das cidades- baixo vale do Nilo, egípcio, e o alto vale, núbio. Até
-Estado mesopotâmicas. essa época, práticas funerárias, cerâmica, instrumentos
de pedra e posteriormente de metal, muito semelhan-
3 O que os zigurates representavam na cosmogonia tes, se não idênticos, são encontrados desde Cartum,
mesopotâmica? no sul, até Matuar, perto de Assiut, no norte. Tais
objetos testemunham um forte parentesco entre as
4 Como o Estado egípcio administrava os excedentes da
produção agrícola?
várias regiões no tocante tanto à organização social,
crenças religiosas e rituais funerários, quanto ao modo
5 Que relação de continuidade a foto possibilita perceber de vida, em que a caça, a pesca e a criação animal
entre o Egito antigo e a sociedade egípcia atual [doc. 2, estavam associadas a uma forma de agricultura ainda
p. 53]? rudimentar.”

6 De que modo a religião fundamentava o poder dos ADAM, Shehata. A importância da Núbia: um elo entre a
faraós no antigo Egito? África central e o Mediterrâneo. In: KI-ZERBO, J. (Org.). História

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geral da África. São Paulo: Ática/Unesco, 1982. v. 2. p. 232.
7 Em sua opinião, os mitos e os rituais relacionados à
morte são vestígios históricos válidos para o conheci-
mento de uma sociedade como a egípcia? Justifique Pesquisar
sua resposta.
13 Leia a notícia sobre recentes descobertas arqueológicas
8 A organização do Estado no Egito e na Mesopotâmia no Sudão.
tinha bases em comum? Quais eram essas bases? No
que se diferenciavam?

9 Quais formas de intercâmbio favoreceram as trocas “Três estátuas em pedra datadas do período Me-
culturais entre o Egito e os reinos da Núbia? roé (450 a.C. e 300 d.C.) foram descobertas nos sítios
arqueológicos do Sudão, na África. As esculturas, que
10 Por que a figura das candaces chama a atenção dos contêm inscrições da antiga escrita meroítica, são as
estudiosos da cultura núbia?
mais completas já encontradas. [...] Todas as esculturas
encontradas são de um carneiro que sabemos represen-
Ler textos e imagens tava o deus Amun, considerado rei dos deuses egípcios
e força criadora da vida. A curiosidade sobre as estátuas
11 Observe a imagem e responda: que características das descobertas desta vez é que todas têm inscrições muito
Unidade A • Da Pré-história às primeiras civilizações do Oriente

crenças e práticas funerárias do Egito antigo podem ser


antigas e difíceis de interpretar. [...]
observadas no sarcófago?
A importância das estátuas [...] é que suas inscrições
estão gravadas numa língua mais antiga do que todas
as inscrições que se conhece no Meroé. [...]”

DISSAUX, René-Pierre. Descoberta: estátuas do reinado


Kush no Sudão, 17 dez. 2008. Disponível em
http://peregrinacultural.wordpress.com.
Acesso em 29 jul. 2009.

a) Que conhecimentos sobre a cultura meroítica po-


dem ser elaborados com base nessas descobertas?
b) Forme um grupo com os colegas para pesquisar,
em livros e na internet, informações obtidas com
as novas descobertas relacionadas ao antigos
núbios.
c) Apresentem o resultado da pesquisa para os demais
grupos, destacando o papel das novas descobertas
arqueológicas no conhecimento histórico elaborado
sobre esses povos.
Sarcófago onde teria sido enterrada Ísis, neta do faraó d) Registre em um texto as descobertas e os debates
Ramsés II, 1600-1400 a.C. Sacara, Egito, foto de 2009. realizados por sua turma.

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capítulo

3 Índia e china

o mundo do Extremo oriente


3.1 A civilização do Vale
A Índia e a China se localizam na Ásia Oriental, numa região entrecortada
do Indo
por cadeias de montanhas e planícies fluviais. Nesses países predominam
A civilização que se formou no as monções, correntes de ventos que sopram do mar para a terra e da
Vale do Rio Indo desenvolveu
terra para o mar, responsáveis pela alternância de períodos de seca e de
um sofisticado planejamento
chuvas intensas. Nessa região, desenvolveram-se duas das civilizações
urbano.
mais antigas do mundo. Apesar de distintas, ambas são caracterizadas
3.2 A civilização clássica por uma espantosa continuidade histórica e cultural, com tradições que
indiana duram até hoje.
O bramanismo legitimava a A população chinesa se utiliza de técnicas milenares, como a acupuntu-
organização social indiana, ra, o tratamento com ervas e dietas, para cuidar de sua saúde; preparam
estruturada sobre o rígido suas refeições com receitas que aproveitam tudo o que na natureza serve
sistema de castas. de alimento; fabricam cerâmicas e porcelanas com a mesma perfeição téc-
nica e decorativa que havia há quase 3 mil anos; mantêm o mesmo sistema
3.3 Reações contra o de escrita composto de ideogramas, inventado há mais de 2 mil anos. Os
sistema de castas chineses de hoje praticam artes marciais como o kung-fu e brincam com
As práticas e as concepções uma de suas melhores invenções: a pipa.
do budismo e do jainismo Na Índia surgiram duas das principais religiões do mundo: o hinduís-
opuseram-se ao sistema de mo e o budismo, que estão ligados à mesma prática espiritual e física, a
castas hindu. ioga, agora bastante comum no mundo moderno. A religião e as práticas
espirituais são apenas parte do legado dessa cultura. A culinária
3.4 A origem da
indiana nos legou o uso de especiarias, como pimenta-do-reino,
civilização chinesa
mostarda, gengibre e a mistura de temperos chamada curry,
A civilização chinesa, muito usada em pratos regionais do Oriente.
como outras da
Antiguidade, Seja falando do espírito, da mente ou do
formou-se às corpo, encontramos muitas marcas das cul-
margens de rios. turas da China e da Índia no mundo contem-
porâneo. Neste capítulo, procuraremos
3.5 o Império compreender os fatores que possibilita-
chinês ram o surgimento dessas duas civilizações,
A Muralha da China foi assim como os traços socioculturais que
construída com o objetivo identificam cada uma delas.
de defender o Império das
ameaças estrangeiras. Shiva Nataraja.
Escultura hindu em
Capítulo 3 • Índia e China

bronze, século XIII.


Museu de Belas
Artes, Houston.

Recipiente chinês em bronze da dinastia Chang, c. 1500 a.C.


Museu Nacional de Arte Asiática – Guimet, Paris.

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Seção 3.1
A civilização do Vale do Indo
objetivo o início de uma civilização
Compreender o A civilização indiana é uma das mais antigas da história humana. Pesquisas
processo de formação arqueológicas mostram que a região já era habitada há pelo menos 30 mil
da civilização indiana. anos. Temos muito menos informação, no entanto, sobre os primórdios da
civilização indiana do que sobre outras civilizações antigas, como o Egito e a
Termos e conceitos
Mesopotâmia. Até agora os arqueólogos não conseguiram decifrar satisfato-
• Civilização riamente a escrita harapense, presente em amuletos e vasos de cerâmica.
• Planejamento urbano Por volta de 2800 a.C., em torno do Vale do Rio Indo, na região noroeste
do subcontinente indiano, atual Paquistão, floresceu a chamada civilização
harapense [doc. 1]. Tratava-se de uma civilização urbana, cuja vida se baseava
num sistema de agricultura irrigada, que aproveitava as cheias do Rio Indo
de modo semelhante aos egípcios e mesopotâmicos da mesma época.

As cidades e as atividades econômicas


As duas principais cidades dessa antiga civilização eram Harapa e Mohenjo-

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-Daro. Escavações arqueológicas indicam que, fortificadas, essas cidades já
possuíam um admirável sistema de planejamento urbano. As construções
eram regulares, erguidas com tijolos queimados do mesmo tamanho. As ruas
tinham ângulos retos e sistema de esgoto e de drenagem. As casas eram
altas, ficavam de frente para a rua e contavam até mesmo com um sistema
de proteção contra o barulho e o mau cheiro. A vida doméstica se desenvolvia
dentro de um pátio fechado, sobre o qual ficavam as varandas. Cada casa pos-
suía seu próprio poço, além de áreas para banho, latrina e esgoto. No centro
de Mohenjo-Daro foi encontrada uma grande cidadela, espécie de fortificação
que era usada como proteção contra eventuais ataques inimigos [doc. 2].
Assim como no Egito e na Mesopotâmia, a economia harapense foi possível
graças à proximidade de um grande rio, o Indo. Isso lhe permitiu desenvolver
uma agricultura diversificada que utilizava técnicas de irrigação e produzia
trigo, cevada, ervilha, gergelim, legumes e cultivava frutas, como tâmara e
melão. Os harapenses produziam, também, um refinado artesanato em ouro,
Unidade A • Da Pré-história às primeiras civilizações do Oriente

prata, bronze, marfim e pedras semipreciosas. Além disso, produtos tipica-


mente indianos, como tintas para os olhos, pérola, madeira e ornamentos
de marfim, eram comercializados com mercados distantes no Golfo Pérsico,
Ásia Central e Mesopotâmia [doc. 1].

doc. 1 Vale do Rio Indo


Nômades
das estepes
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SUMÉRIA IRÃ Harapa H I


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do deserto
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Mohenjo-Daro
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NG Rio Gange
DESERTO ÉTI
CA
s
DE THAR

Lothal Golfo
ARÁBIA de
MAR PLANALTO Bengala
ARÁBICO DO
DECÃ
630 km
Fonte: VIDAL-NAQUET, Pierre; OCEANO
BERTIN, Jacques. Atlas ÍNDICO
Zona de influência da civilização harapense
histórico: da Pré-história aos
nossos dias. Lisboa: Círculo Zona de influência da civilização suméria
de Leitores, 1987. p. 35.

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O declínio da cultura harapense
Além do mistério que envolve a escrita harapense,
há outro problema que intriga os pesquisadores: o de-
clínio súbito da civilização do Indo entre 1900 e 1300
a.C. Nesse período, Harapa aparece já desabitada, sem
conservação de suas muralhas e redes de esgoto. Há
duas explicações principais para esse declínio:
• A invasão de um povo estrangeiro indoeuropeu, os
arianos ou árias, que teria destruído com violência as
cidades harapenses e submetido a população nativa.
DOC. 2 Ruínas de banheiro público, c. 3000 a.C. Mohenjo-Daro, • Fatores endógenos, como mudanças climáticas,
atual Paquistão, em foto de 2000. secas prolongadas, crise econômica e política.
Embora a chegada dos árias tenha coincidido com
Expansão da civilização o declínio da cultura harapense, eles não teriam
do Rio Indo sido responsáveis por esse fato.
Mais recentemente, valendo-se de tecnologias como
Das primeiras civilizações conhecidas na história,
imagens de satélites, pesquisadores conseguiram
incluindo a egípcia e a mesopotâmica, a civilização estudar o curso de rios já extintos e também as secas,
do Indo foi a que chegou a abranger a maior área as chuvas e os ritmos cíclicos da natureza no passado,
geográfica, com mais de 1.500 assentamentos num inclinando-se cada vez mais pela segunda hipótese.
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território que equivalia à extensão da Europa Ociden-


tal. Ao longo do tempo, as pesquisas arqueológicas • Indoeuropeu. Termo que designa as populações que
revelaram a presença de outras cidades no Vale do ocuparam e conquistaram, ao longo de centenas de anos,
grande parte da Europa e da Ásia Ocidental. Trata-se de
Indo, e mesmo mais distantes, tais como Lothal e Me- uma classificação linguística, pois esses povos, ao que
luhha que, apesar de reunir diferentes grupos étnicos, parece, tinham uma língua comum. Essa língua deu origem
partilhavam a mesma tradição cultural [doc. 1]. ao grego, latim, germânico, eslavo, sânscrito e persa.
• Endógeno. Aquilo que tem origem no interior de alguma
Descobertas recentes localizaram regiões de influên- coisa. Nesse caso, no interior da civilização harapense.
cia da cultura harapense também fora do Vale do Indo,
indicando a existência de trocas comerciais com outras
culturas. Nas montanhas do Afeganistão, distante cerca
de oitocentos quilômetros do Vale do Indo, pesquisado-
res encontraram uma aldeia mineira com muitos objetos
típicos da cultura harapense.

A escrita harapense
Na região da Mesopotâmia, pesquisadores localiza-
ram selos e tabletes feitos de argila contendo figuras
e sinais que foram identificados como um sistema de
escrita hieroglífica, ainda não decifrada. Acredita-se que
esses sinais representassem fórmulas mágicas, religio- DOC. 3 Sinete de argila, c. 2000
sas e informações contábeis usadas por mercadores. a.C. Harapa, atual Paquistão. Museu
Nacional da Índia, Nova Délhi. Entre
A análise dos selos nos chama a atenção para a as inúmeras imagens que figuram
presença constante do unicórnio, um animal fabuloso nos sinetes encontrados no território
da cultura de Harapa, a do bovídeo
presente nos mitos da literatura indiana posterior unicórnio é a mais frequente.
[doc. 3]. Alguns especialistas acreditam que essas
Capítulo 3 • Índia e China

imagens simbolizavam a castidade e deviam ser atri- QUESTÕES


buto de uma elite dirigente de sacerdotes com posi-
1. Observe a imagem e identifique os elementos que
ção dominante nessa sociedade: o clã do unicórnio. indicam o desenvolvimento urbano da civilização
A interpretação acima, contudo, é controversa. harapense [doc. 2].
Há pesquisadores que defendem que essas imagens 2. Observe a imagem e responda às questões [doc. 3].
indicavam uma comunidade poderosa e espalhada de a) Descreva o sinete (selo) mostrado na imagem.
mercadores. Infelizmente, sem decifrar a escrita ha- b) Qual significado pode ser atribuído ao selo e à
imagem gravada nele e qual seria seu papel na
rapense não é possível conhecer a estrutura política, civilização harapense?
a religião e a visão de mundo dessa civilização.
65

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Seção 3.2
A civilização clássica indiana
objetivo As migrações arianas e o bramanismo
Relacionar o Por falta de documentos escritos e vestígios arqueológicos, é difícil
bramanismo com o reconstituir o período da história indiana que se iniciou com as migrações
processo de divisão arianas. O principal documento utilizado para o estudo da cultura dos
social em castas na povos arianos são os hinos védicos, que foram transmitidos oralmente
civilização indiana. de geração a geração até serem completamente transcritos por volta do
século VI a.C. Por isso essa sociedade que se formou também é conhecida
Termos e conceitos
como sociedade védica.
• Bramanismo
Os árias, ou arianos, eram povos nômades e voltados para o pastoreio.
• Sistema de castas
Vindos provavelmente da Rússia Meridional, penetraram no subcontinente
indiano pela região noroeste, considerada a porta de entrada da Índia, a partir
de 1500 a.C. Os árias instalaram-se no Vale do Indo no decorrer de sucessivas
ondas migratórias. A população nativa era superior à dos árias em número. A
tecnologia militar dos invasores, contudo, baseada no uso do arco, de armas
de bronze e de carros de combate com duas rodas, permitiu uma conquista
sem grandes dificuldades. Com o tempo, os árias foram se sedentarizando

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e pequenos reinos começaram a surgir no Vale do Rio Ganges e aos pés da
Cordilheira do Himalaia.
Os árias tinham uma religião politeísta fortemente ritualizada, o brama-
nismo, que marcou profundamente a sociedade védica. Durante o ritual,
acendia-se o fogo sagrado, bebia-se o soma e se ofereciam manjares e
animais como sacrifício aos deuses [doc. 1]. Esses atos eram acompanha-
dos por hinos cantados. O ritual, que se acreditava ter poderes mágicos,
era privilégio apenas dos brâmanes, que transmitiam os seus segredos e
simbolismos somente a uns poucos iniciados. Acreditava-se que o favor
dos deuses só seria conseguido se os ritos fossem executados correta-
mente e nos mínimos detalhes.
Os hinos védicos enfatizavam o confronto violento entre os árias e as
• Soma. Bebida licorosa
populações indígenas do Vale do Indo. Mas, no campo religioso observou-
considerada de origem
celeste, de poder -se uma combinação de elementos de ambas as tradições religiosas, como
revela a presença de cerâmica decorativa espalhada pelo sul da Índia no
Unidade A • Da Pré-história às primeiras civilizações do Oriente

embriagante e usada
durante os rituais védicos. primeiro milênio a.C.

doc.
1 A cerimônia do Puja
A cerimônia do Puja é um ritual muito im-
portante na Índia, no qual se venera um deus
por meio de uma imagem. Para os hindus a
imagem não é só uma forma de representa-
ção, como para os católicos, mas uma encar-
nação física da divindade. Eles acreditam que,
durante a cerimônia, deus emana seu poder e
sua graça aos fiéis. O puja é, então, uma forma
de comunicação entre a divindade e o mundo.
Tradicionalmente, a cerimônia pode ser cele-
brada em um templo por um sacerdote ou em
casa como um ato individual.

Ritual do Puja do Fogo.


Ujjain, Índia, 2004.

66

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o sistema de castas na Índia As castas e a religião hindu
Por volta do século VI a.C., a religião védica começou O sistema de castas estava associado a alguns
a sofrer uma mudança profunda, sob o rígido controle preceitos da religião hinduísta [doc. 3]. Diferente-
dos brâmanes, a elite sacerdotal daquela sociedade. mente do cristianismo, o hinduísmo tradicional não
Houve um endurecimento dos princípios morais e uma conhecia as ideias de céu ou inferno, ou seja, de um
demarcação dos papéis de cada grupo social, formali- mundo para onde a alma individual seria enviada
zando a divisão da sociedade indiana em castas. após a morte. Em vez disso, havia a crença no ciclo
de reencarnações. Após a morte, a alma renasceria
O sistema de castas tinha como características a
em outro corpo para uma nova vida.
atividade econômica, reservada aos homens; o perten-
cimento do indivíduo à casta de seu pai; o matrimônio No hinduísmo, o carma determinava que os atos
permitido apenas no interior da casta; e a existência de morais praticados por um indivíduo em vidas pas-
uma hierarquia entre as castas [doc. 2]. sadas influenciavam sua vida presente ou futura.
Assim, quem praticou boas ações na existência an-
A casta era hereditária e definida pela condição
terior renasceria em uma casta superior, enquanto
de nascimento de cada pessoa. Cada uma das castas
aquele que renascesse em castas inferiores estaria
era regida por deveres estritamente codificados. Por
pagando pelas más ações cometidas na vida pas-
exemplo, as atividades que uma pessoa podia exercer,
sada. Dessa forma, cumprindo a sua missão, cada
os alimentos que podia comer e as pessoas com quem
pessoa tinha a esperança de, em uma próxima
podia se casar eram definidos conforme as normas
existência, subir um degrau na hierarquia de castas
da casta à qual pertencia.
até nascer na condição de brâmane, o estágio mais
Além das normas relativas aos costumes, havia
Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

próximo da libertação final.


também o darma (dever moral) de cada casta. Assim,
por exemplo, o sudra (servo) tinha o dever de servir doc.
3 O mito de Purusha
e obedecer às castas superiores, realizando com
Um mito narrado no Rigveda explica a origem de
alegria os trabalhos considerados mais degradantes.
tudo o que existe, inclusive as castas, pela imolação
O correto cumprimento do darma purificaria o indiví-
de Purusha, um grande ser primordial.
duo das más ações praticadas em vidas anteriores,
preparando-o para uma existência mais digna em uma
próxima encarnação. “Quando dividiram Purusha, em quantos pedaços o
repartiram?
doc. 2 A sociedade de castas na Índia De que chamam sua boca, seus braços? De que cha-
mam suas coxas e pés?
Purusha Os brâmanes vieram da boca, de seus dois braços
fizeram-se os rajanias [outro nome para os xátrias, a casta
dos guerreiros].
Brâmanes. “Homens do sagrado”,
sacerdotes responsáveis pelos rituais. Suas coxas transformaram-se nos vaixás, de seus pés
produziram-se os sudras.
Xátrias. Nobres guerreiros, que se
A lua gerou-se de sua mente, e de seu olho nasceu
encarregavam da administração e o sol;
da política e viviam das rendas da Indra e Agni de sua boca nasceram, e Vayu de seu
propriedade territorial.
hálito.
De seu umbigo proveio o espaço entre a terra e o céu;
Vaixás. Camponeses, artesãos e de sua cabeça formou-se o céu; a terra de seus pés, e de
comerciantes. sua orelha as regiões do firmamento. Assim se formaram
os mundos.”
Sudras. Servos, camada social
Capítulo 3 • Índia e China

Rigveda, X, 90. In: ELIADE, Mircea. O conhecimento sagrado


oriunda provavelmente da
de todas as eras. São Paulo: Mercuryo, 1995. p. 136.
população nativa subjugada pelos
árias, acrescida de condenados por
dívidas e prisioneiros de guerra.
questÕes

Dalits (intocáveis). Não pertencem a 1. Explique a relação entre o sistema de castas e a reli-
nenhuma casta. Eles são os párias, os “fora gião brâmane [doc. 2].
das castas”, pessoas totalmente excluídas 2. Na Índia, apesar da lei, a discriminação contra os
de direitos e consideradas impuras. dalits permanece. Na sua opinião, há também no
Brasil casos de discriminação? Dê exemplos.
Fonte: GANERI, Anita. Explorando a Índia. São Paulo: Ática, 1997.

67

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Seção 3.3
Reações contra o sistema de castas
objetivo Novas crenças religiosas
Reconhecer correntes A codificação do sistema de castas na Índia, ocorrida por volta do século
religiosas que se VI a.C., foi seguida das primeiras reações contra a rigidez social imposta
opuseram ao sistema pelos brâmanes. Houve, a partir dessa época, uma verdadeira proliferação
de castas indiano. de escolas de pensamento e de novas religiões que desafiavam a situação
social vigente na Índia. Recusar a condição de nascimento como fator de-
Termos e conceitos
terminante para o destino de cada indivíduo foi o denominador comum entre
• Ioga todas essas escolas e religiões.
• Budismo
De modo geral, podemos dizer que as tradições espirituais das grandes
• Jainismo
religiões foram todas, na origem, revoluções culturais, revoltas contra so-
ciedades estagnadas, enrijecidas, marcadas pela hierarquização social e o
formalismo religioso. O budismo, o jainismo, o taoismo chinês, o cristianismo
e o islamismo são exemplos dessas revoluções culturais que abalaram cul-
turas inteiras a partir do interior, fornecendo às pessoas novas esperanças
e a possibilidade da libertação. Algumas, como o budismo e o taoismo, não
chegaram a se tornar religiões institucionalizadas, podendo ser definidas

Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.


muito mais como uma ética pessoal ou uma filosofia de vida. Outras, como o
cristianismo e o islamismo, converteram-se em grandes religiões, divididas
em várias denominações, institucionalizadas e hierarquizadas e com fortes
laços com o poder estatal.

As técnicas espirituais da ioga


A palavra ioga deriva da raiz “yug”, do sânscrito, língua do grupo indoeu-
ropeu e significa “unir”, “atrelar”, “jungir”. A ioga é um conjunto de técnicas
mentais e corporais cuja finalidade é atingir o samádi, ou seja, um estado
constituído pela ampliação da consciência e da lucidez. Em
diferentes variações, essas técnicas místicas e meditativas
estão presentes em quase todas as formas de pensamento
e religiões orientais. Apesar dessa diversidade, as práticas
se orientam pela busca da concentração plena e da imper-
Unidade A • Da Pré-história às primeiras civilizações do Oriente

turbabilidade da mente.
A finalidade da prática da ioga podia ser atingida por
qualquer pessoa, independentemente de sua posição social.
Eram necessários, apenas, o esforço disciplinado e a busca
pela purificação. Por essa razão, as técnicas da ioga eram
uma maneira de superar o determinismo social das castas, de
romper com o ciclo de reencarnações e de abreviar o caminho
da iluminação por meio da ascese espiritual [doc. 1].

• Ascese. Prática de renúncia a todo


tipo de prazer e até mesmo às
necessidades básicas com o objetivo
de elevar espiritualmente o indivíduo.

doc. 1 Damas trazem oferendas a um líder


espiritual. Aquarela sobre papel, século XVIII.
Museu Vitória e Alberto, Londres.

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Ob udismo DOC. 2 A vida de Buda: o iluminado
O budismo foi fundado pelo príncipe Sidarta Gau- O príncipe Sidarta Gautama (565-486 a.C.) per-
tama (565-486 a.C.), o Buda, que pertencia a um clã tenceu ao importante clã dos Sakya, no norte da
importante do norte da Índia [doc. 2]. O budismo apre- Índia (atual região do Nepal). Aos 29 anos, deixou a
senta um caminho para se atingir a iluminação do ser, família para tornar-se asceta itinerante e alcançar
que consiste basicamente na prática da meditação a sabedoria. Após sete anos praticando mortifica-
e na adoção de normas éticas e de uma filosofia de ções e terríveis privações corporais, abandonou o
caminho ascético e atingiu a iluminação (nirvana)
vida que busque conhecer as causas do sofrimento
debaixo de uma árvore Bodhi. Nesse momento
e a conduta necessária para superá-lo.
passou a se chamar Buda (Buda, na língua pali,
Para o budismo, o sofrimento humano nasce do significa o “desperto”, e Bodhi, a árvore do des-
desejo, que leva o homem a buscar o prazer e a fugir pertar). Daí por diante, começou a pregar o darma
da dor. Abandonar e renunciar ao desejo, portanto, é budista, reunindo muitos seguidores e adeptos em
a única maneira de pôr fim ao sofrimento. Qualquer torno de si. Após sua morte, seus
indivíduo estaria em condições de percorrer esse adeptos se dividiram em duas
caminho, independentemente da sua condição social escolas: a Hinayana, para os
e do seu nascimento. Assim, semelhante ao cristianis- quais só existe um Buda e o
mo, o budismo é uma religião universal, ou seja, não é caminho da salvação depende
exclusividade de um ou outro grupo de pessoas. de um esforço individual, e
Buda e seus adeptos não repudiaram explicita- os adeptos do Mahayana,
mente a divisão de castas indiana nem exigiram a sua segundo os quais existem
Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

abolição. As distinções de casta deixavam de valer, muitos Budas (chamados


de Bodisatvas, avatares
no entanto, para os monges e para aqueles que eram
do Buda), os quais, por
admitidos na comunidade budista, a sangha. Qualquer
sua compaixão, zelam
pessoa que aderisse ao budismo tinha de renunciar
pela salvação de todos
aos títulos e prerrogativas da casta à qual pertencia.
os seres.
Assim, o aspecto mais inovador da doutrina budista
era defender a iluminação como resultado da conduta
dos indivíduos e não da condição de nascimento. Buda em
O budismo ganhou multidões de seguidores princi- posição de lótus,
estatueta
palmente no norte da Índia, região onde o Buda pregou, de bronze de
e no leste asiático. Posteriormente, expandiu-se para 1533-1534. China.
a China, a Indochina, a Coreia e o Japão, tornando-se Museu da Ásia
Oriental, Bath.
uma das religiões mais populares do mundo.

Oj ainismo O jainismo não se tornou uma religião tão popu-


O budismo tem muitos pontos em comum com o lar quanto o budismo, tendo se difundido somente
jainismo, a religião fundada por Mahavira, contem- entre um número restrito de adeptos. Ainda hoje
porâneo de Buda. Mahavira descendia de uma família há seguidores do jainismo na Índia e em outros
aristocrática indiana, abandonou a família aos 30 anos países do mundo, principalmente na Europa e nos
para buscar a sabedoria e a salvação como asceta Estados Unidos. É provável que o grande líder in-
itinerante e, após doze anos de meditação e penitên- diano Mahatma Gandhi, em meados do século XX,
cia, teria tido uma revelação. Não se sabe exatamente tenha sido influenciado pela filosofia jaina da não
quando Mahavira nasceu, mas se sabe que morreu por violência, tornando-a um instrumento de resistência
volta de 450 a.C. à dominação colonial britânica.
Capítulo 3 • Índia e China

Os adeptos do jainismo são chamados de jainas e,


da mesma forma que os budistas, rejeitam a religião QUESTÕES
bramânica e o sistema de castas. A noção fundamental
1. Quais os elementos comuns entre o budismo e o
da filosofia de vida dos jainas é a não violência, ou seja, jainismo?
a renúncia a qualquer ato que possa prejudicar um ser
2. A representação de Buda sentado em posição de ló-
vivo, por mais ínfimo que ele seja. A conduta de vida tus é provavelmente um dos maiores símbolos da
pregada pelos jainas é igualmente acessível a todos. religiosidade oriental, significando a junção de cor-
Seu objetivo é a purificação da alma para libertá-la do po e mente. Analise essa posição e a relacione com
os preceitos básicos das técnicas espirituais da ioga
ciclo das reencarnações, objetivo que seria obtido com [doc. 2].
a prática constante e cotidiana da não violência.
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CONTROVÉRSIAS O sistema de castas

Uma das questões da história da Índia que Texto 2


têm recebido constante atenção por parte dos
especialistas é o sistema de castas. Apesar de ter “O debate está aberto e deverá discutir até que ponto
o sistema de castas é um dogma do hinduísmo ou o legado
sido banido legalmente desde 1950, ele permanece
de uma estrutura poderosa imposta por invasores da Ásia
arraigado nos costumes e no comportamento co-
Central séculos atrás. [...]
tidiano das pessoas. Oficialmente, existem cerca
A discriminação por castas é proibida na Índia, mas
de 160 milhões de dalits na Índia, cerca de um
continua sendo parte do dia a dia do segundo país mais
quinto da população. Eles formam uma comunidade
populoso do mundo. [...]
heterogênea que se dedica às tarefas mais desva-
Mas o ministro para Assuntos Externos da Índia, Omar
lorizadas na sociedade, consideradas “impuras”.
Abdullah, afirmou que a discriminação por castas não pode
Os textos a seguir mostram duas visões distin- ser igualada ao racismo. O ministro rejeitou a discussão do
tas sobre o sistema de castas na cultura indiana. tema na Conferência da ONU sobre o Racismo.
Compare os dois textos e depois responda às Esta decisão colocou em risco 160 milhões de pessoas,
questões. membros da casta mais baixa da Índia, os dalits (párias).
Representantes dos dalits afirmaram a jornalistas que a Índia
Texto 1 falhou ao não abrir sua experiência de racismo e intolerância
ao debate internacional. A decisão também atraiu críticas
“Na Índia todos trazem consigo as insígnias carac-

Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.


da organização não governamental Human Rights Watch. A
terísticas da classe de vida à qual pertencem. Podem ser
porta-voz da organização, Smita Narula, diz que a discrimi-
reconhecidos à primeira vista por suas vestimentas, seus
nação baseada em castas é o ‘apartheid escondido’ da Ásia,
que afeta milhões de pessoas no sul do continente.”
adornos, os sinais de sua casta e ocupação. Todo homem
leva o símbolo de sua divindade tutelar pintado na testa,
ficando assim sob custódia e proteção do deus. Mulheres Castas da Índia vão a debate na Conferência da ONU sobre
solteiras, casadas, viúvas vestem roupas apropriadas e a Racismo. Disponível em www.bbc.co.uk/portuguese.
cada uma corresponde um conjunto de normas e tabus Acesso em 2 ago. 2009.
definidos com meticulosidade e seguidos com absoluto
rigor. [...] O propósito destas exigências é preservar livre QUESTÕES
de máculas a força espiritual específica da qual depende a
1. Como cada um dos textos apresenta o sistema de
eficácia de um indivíduo como membro de uma determi- castas na Índia atual?
nada categoria social.”
2. Qual a visão dos dalits diante da justificativa de
ZIMMER, Henrich. Filosofias da Índia. São Paulo: que o sistema de castas é um dogma religioso e
Palas Athena, 1986. p. 116-117. não uma prática de racismo?

3. O segundo texto mostra o movimento dos dalits


Unidade A • Da Pré-história às primeiras civilizações do Oriente

para chamar a atenção internacional para a sua


situação e buscar soluções políticas para o pro-
blema. O que você pensa da ação dos dalits? É vá-
lido que eles recebam ajuda externa para resolver
seus problemas ou eles devem contestar o siste-
ma de castas internamente, já que oficialmente a
Constituição indiana aboliu as castas? Debata o
assunto com seus colegas e escreva sua posição
sobre o assunto.

Mulher da casta
dos intocáveis faz
pipocas à beira de
estrada. Índia, 2007.

70

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Seção 3.4
A origem da civilização chinesa
Objetivo As primeiras culturas agrícolas na China
Compreender o Na China formou-se uma das mais antigas civilizações da história, con-
processo de formação temporânea das civilizações egípcia e mesopotâmica. Como outros povos
da civilização chinesa. orientais do período, os chineses se estabeleceram em torno de rios, o Rio
Hoang-Ho, também conhecido como Rio Amarelo, e o Rio Yang-Tsé, ou Rio Azul,
Termos e conceitos
às margens dos quais se desenvolveu a agricultura irrigada [docs. 1 e 2].
• Dinastia
Segundo as escavações arqueológicas realizadas na região, as comuni-
dades agrícolas mais antigas da China datam de aproximadamente 7500
a.C. Conforme os indícios encontrados, essas comunidades criavam animais,
como porcos e cães, praticavam uma agricultura primitiva, cultivando princi-
palmente o painço (uma espécie de gramínea semelhante ao milho) e o arroz,
e fabricavam cerâmica em fornos. Há indícios de cultivo de arroz no delta dos
rios Amarelo e Azul desde 9000 a.C. Na cultura Liangzhu, às margens do Rio
Azul, desenvolveram-se, por volta de 3000 a.C., técnicas de escultura em jade,
característica da civilização clássica chinesa.
A civilização chinesa foi a síntese de múltiplas combinações de povos e
culturas, formada no decorrer de um longo período. É difícil determinar exa-
tamente quando se iniciou na China o poder político centralizado. Segundo a
tradição, a primeira dinastia teria sido a dos Chi´a, instituída por um fundador
lendário, Yu, a quem se costuma atribuir a construção do sistema de diques
ao longo do Rio Amarelo. Essa dinastia teria durado de 2205 a 1760 a.C. No
entanto, é possível que ela seja uma dinastia mítica, pois até agora não há
documentos suficientes para comprovar esses fatos.
Quando a China ingressou na Era do Bronze, surgiu a primeira dinastia com-
provada por meio de vestígios históricos: a dinastia Chang (1760-1122 a.C.). Foi
nesse período que surgiu a civilização chinesa tal como a conhecemos, com
o aparecimento da escrita e de estruturas políticas e sociais definidas.

DOC. 1 A civilização chinesa antiga

ÁSIA CENTRAL
Shandong
o
g-H

Anyang
an

Ho
Kai-feng MAR
Rio
Loyang AMARELO
Chang'an Yangzhou Soo-chou OCEANO
TIBETE
Indo

-Ts
é Hang-chou PACÍFICO
Ri o ng
Ya

MAR DA
Rio

CHINA
O desenvolvimento da China Si-Kiang ORIENTAL
MARTerras da dinastia Chang Rio Cantão
ARÁBICO
(século XII a.C.)
Apogeu da dinastia
ÍNDIA Chou
(séculos VII e V a.C.) MAR DA
CHINA
Expansão da dinastia Ch'in MERIDIONAL
(século III a.C.)
Capítulo 3 • Índia e China

Golfo
Expansão da dinastia Han de Bengala
(século II a.C.)
Muralha da China 830 km

Fontes: China antiga. Rio de Janeiro: José Olympio, 1969. (Coleção Biblioteca de
História Universal Life); DUBY, Georges. Atlas historique mondial. Paris: Larousse,
2003. p. 185.

DOC. 2 Plantação de arroz às margens


do Rio Yang-Tsé (Azul). China, 2007.

71

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organização política e social A dinastia chou e a
Do ponto de vista político e social, a dinastia expansão da china
Chang se caracterizou pela presença de uma
Entre os séculos XI e X a.C., a dinastia Chang foi
forte aristocracia guerreira, sustentada pelas
conquistada pelos Chou, dando origem à dinastia
comunidades camponesas, e pela instituição de
mais duradoura da história da China. A conquista
uma monarquia baseada no culto dos ancestrais,
foi legitimada pela doutrina do Mandato do céu.
a quem os reis consultavam em casos de guerra ou
Segundo essa doutrina, o soberano era o filho do
assuntos agrícolas. Nos rituais de sacrifício, além
Céu, o que o autorizava a governar por direito divino.
de cereais, ofereciam-se o sangue e a carne das
A derrota dos Chang e a vitória dos Chou, portanto,
vítimas sacrificadas, humanas ou animais. Também
seriam justamente a prova de que o soberano Chou
se praticava a adivinhação por meio de ossos de
detinha o Mandato do Céu.
animais. Os primeiros indícios da escrita chinesa e
da existência de centros urbanos fortificados da- Os Chou eram originários do Vale do Rio Wei, ao
tam também do período Chang. A função principal sul dos domínios da dinastia Chang. Os Chou logo
da escrita era preservar a memória das dinastias assimilaram a escrita e os valores difundidos pelo
reinantes [doc. 3]. povo subjugado. O território chinês se expandiu
continuamente até o século VIII a.C., graças a um
doc. 3
sistema de delegação do poder. O soberano doava
A escrita chinesa terras aos nobres, tornando-os seus dependentes.
Nossa escrita, que é alfabética, é constituída uni- Houve um grande desenvolvimento das atividades
camente de elementos fonéticos, ou seja, de sinais mercantes e do artesanato em bronze [doc. 4].

Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.


que representam os sons da fala. Diferentemente, a
As terras desses nobres eram cultivadas por
escrita chinesa é composta de elementos fonéticos
camponeses. Eles formavam a maioria da população
e logográficos. Os logogramas são símbolos que re-
e trabalhavam a terra dos nobres em troca de uma
presentam palavras ou partes de palavras, podendo
contribuir para a formação de novas palavras.
pequena parte da colheita. Também atuavam na
construção de obras públicas (canais de irrigação,
Inicialmente a escrita chinesa não possuía ele-
muralhas etc.) e como soldados nas guerras.
mentos fonéticos. Ela compunha-se de pictogramas,
sinais que representavam o próprio objeto a que O poder real, baseado no poder da nobreza heredi-
se referiam. Posteriormente, os sinais tornaram-se tária, começou a desmoronar após a morte do último
mais abstratos, até atingirem o formato de ideo- rei Chou, no século VIII a.C. Iniciou-se um período
gramas, que representavam ideias. Apenas num de guerra, crise e instabilidade. O território ocupado
terceiro momento os elementos fonéticos foram durante a dinastia Chou foi dividido entre diversos
introduzidos. reinos rivais. Foi nesse período de fragmentação
Alguns elementos da escrita chinesa antiga do poder que floresceram formas de pensamento
ainda são reconhecíveis na escrita chinesa atual, que marcariam a cultura clássica da China. No lugar
da antiga nobreza decaída, o
Unidade A • Da Pré-história às primeiras civilizações do Oriente

como mostram os exemplos a seguir.


governo passou a ser exercido
por um corpo de funcionários
CALIGRAFIA CHINESA instruídos, responsáveis
pela gestão das atividades
ANTIGA econômicas, pela justiça
e pela preservação das
tradições.

MODERNA
doc. 4 Sino em
bronze da dinastia Chou,
c. 1100 a.C.

Fonte: JEAN, Georges. A escrita: memória dos homens.


questÕes
São Paulo: Objetiva, 2008. p. 47.
1. Explique por que a China antiga pode ser chamada
No quadro de cima vemos a forma antiga, e no de de “civilização fluvial” [docs. 1 e 2].
baixo, temos a representação, respectivamente, dos
seguintes pictogramas: sol, montanha, árvore, meio, 2. Quais as especificidades da escrita chinesa e qual o
campo, fronteira, porta. seu papel naquela sociedade [doc. 3]?

72

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Seção 3.5
O Império Chinês
Objetivo O nascimento do Império Chinês
Entender o processo Com a desagregação da dinastia dos Chou, no século VIII a.C., vários rei-
de centralização política nos disputaram a hegemonia na China. O Reino dos Ch’in conseguiu derrotar
da civilização chinesa e os rivais e progressivamente assumiu o controle do território até unificá-lo
sua produção cultural. no século III a.C. O príncipe Zheng foi coroado primeiro imperador da China,
assumindo o nome de Che Huang Ti [doc. 1].
Termos e conceitos
Com a centralização política da China, surgiram novas relações de po-
• Centralização política
der. Durante a dinastia Chou, por exemplo, o governante doava terras para
• Confucionismo
uma camada de nobres, em troca de serviços prestados. Já a dinastia Ch’in
• Taoismo
se apoiava numa burocracia centralizada formada por funcionários leais e
educados. A burocracia era responsável por controlar os trabalhos agrícolas,
a estocagem e a distribuição de cereais, por gerir a mão de obra para as
grandes construções e por aplicar recompensas ou punições, garantindo a
obediência ao novo poder.
Por volta do século V a.C., houve transformações econômicas e sociais que
remodelaram a sociedade chinesa. Nesse período, foram introduzidos armas
Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

e utensílios de ferro no lugar dos anteriores, feitos de pedra ou bronze. As


inovações técnicas e o recurso à tração animal permitiram melhorar a pro-
dução agrícola e ampliar as áreas de cultivo. Ocorreu uma padronização de
moedas e de pesos e medidas. Por fim, a população cresceu e floresceram
as atividades comerciais e industriais.

A Muralha da China
Uma das grandes obras dos Ch’in foi o início da construção da Muralha
da China, destinada a defender o Império dos ataques de povos nômades
vindos do norte, como os manchus. Em troca de ajuda na defesa do território,
o governo imperial concedia terras e benefícios aos povos fronteiriços.
A Muralha da China, ao contrário do que se acredita, não é uma construção
única, mas a soma de diversas muralhas construídas, destruídas e reconstruídas
ao longo do tempo. Pesquisas recentes, feitas a partir de imagens de satélites,
descobriram que a muralha ocupa uma extensão bem maior do que se
acreditava, totalizando mais de 8 mil quilômetros de extensão, envolvendo
diferentes regiões da China.
A Grande Muralha se estende desde a fronteira norte de Beijing
(Pequim) até o Deserto de Gobi, sendo considerada a construção
humana mais extensa do mundo. Declarada Patrimônio Mundial pela
Unesco em 1987, a Grande Muralha é uma das principais atrações
turísticas e um dos principais objetos de pesquisas arqueológicas
da China [doc 2].
O imperador Che Huang Ti, no entanto, não conseguiu fundar
Capítulo 3 • Índia e China

uma nova dinastia. Após sua morte, a China caiu novamen-


te em guerra civil, até que os Han, por volta de 206 a.C.,
fundaram uma nova dinastia e consolidaram a unidade
política imperial.
DOC. 1 Guerreiros de Xian, foto de 2006.
O exército de guerreiros de terracota foi
encontrado em 1974 no mausoléu de Che
Huang Ti, o primeiro imperador da China.
Pesquisadores acreditam que cerca de 700 mil
trabalhadores e artesãos trabalharam por mais
de trinta anos para finalizar essa obra.

73

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A atividade intelectual consciência de seu lugar na sociedade, cumprisse
seus deveres, praticasse os ritos e obedecesse aos
De modo geral, a atividade intelectual no mundo costumes, a ordem e a estabilidade social estariam
contemporâneo tem a função de refletir e de propor garantidas. O estudo era considerado um meio para
soluções para os problemas que afligem a sociedade e o homem comum tornar-se um homem superior, e
interferem na vida das pessoas. Tradicionalmente, par- esse princípio estava na base do sistema de exames
te desses profissionais é incorporada às atividades do imperiais para o recrutamento de administradores
Estado e passa a desempenhar funções públicas. Na da coisa pública.
China, o intelectual também assumia esse papel.
O desenvolvimento das cidades, a difusão da es- Taoismo
crita e o aparecimento de uma elite de funcionários
Lao-Tsé, que viveu provavelmente no século VI a.C.,
letrados durante os últimos séculos da dinastia Chou
costuma ser considerado o fundador do taoismo, um
favoreceram o surgimento de um pensamento político
pensamento que buscou restaurar a harmonia entre o
e moral na China. Vivendo num período de guerra e in-
homem e a natureza por meio de práticas meditativas
segurança, as diferentes formas de pensamento que
e místicas. O taoismo valorizava o mundo interior e
se desenvolveram nessa época procuravam explicar
defendia o retiro do indivíduo do convívio social para
o lugar da vida humana na ordem cósmica e oferecer
poder viver em contato direto com a natureza, diferen-
um caminho para a harmonia social. As duas escolas
temente do confucionismo, que se preocupava com
de pensamento mais importantes, cuja influência se
as atividades política e social. Segundo o taoismo, o
estendeu até os dias atuais, foram o confucionismo
universo seria constituído por uma série de formas
e o taoismo.
que se alternam numa ordem cíclica. Essas formas

Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.


seriam manifestações de dois princípios que eram,
Confucionismo ao mesmo tempo, opostos e complementares: o yin e
Segundo Confúcio (551-479 a.C.), fundador do o yang. O Tao representaria a união desses dois prin-
confucionismo, a harmonia social poderia ser al- cípios, a ordem que regeria tanto o universo quanto
cançada por meio de uma reforma moral e política da a vida humana e simbolizaria a totalidade primordial
sociedade, efetuada por líderes conscientes e por um que teria originado tudo o que existe.
corpo de servidores educados. O governo deveria ser
exercido, portanto, por homens nobres e virtuosos.
questÃO
A atenção dedicada ao funcionamento da sociedade
levou Confúcio a abandonar os questionamentos Observe a imagem e responda às questões [doc. 1].
sobre o céu e sobre a vida após a morte. Considera- a) Quais relações podem ser estabelecidas entre o
exército de terracota encontrado no túmulo de
va importante a existência concreta de cada um, tal Che Huang Ti e o período em que esse imperador
como vivida no tempo presente. governou a China?
Assim, o primeiro dever de todo ser humano seria b) Quais semelhanças podemos apontar entre os
guerreiros de terracota e as obras encontradas nas
cultivar a si mesmo e se aperfeiçoar moralmente na
Unidade A • Da Pré-história às primeiras civilizações do Oriente

pirâmides egípcias?
interação com outras pessoas. Se cada um tivesse

doc. 2 Grande Muralha da China, foto de 2008. A Grande Muralha não tinha apenas função militar
mas também simbólica: representar o poderio do Estado unificado chinês. No decorrer da história
chinesa, foi reconstruída e reforçada diversas vezes. Ao ser concluída, no século XV, durante a dinastia
Ming, a muralha atingia quase 7 mil quilômetros de extensão.

74

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AtIVIDADes

Retomar conteúdos Art. 424o Com efeito, um marido preserva sua linha-
gem, seus costumes, sua família, a si próprio e seu dever,
1 Sintetize as características principais da cultura hara- preservando sua esposa. [...]
pense. Art. 428o Que o marido designe para função à sua mu-
lher a receita das rendas e despesa, a purificação dos objetos
2 Qual o impacto das invasões arianas sobre as popula-
e do corpo, o cumprimento de seu dever, a preparação do
ções que viviam no território indiano?
alimento e a conservação dos utensílios do lar. [...]
3 Quais as características do Estado e da sociedade chi- Art. 433o Conhecendo assim o caráter que lhes foi
nesa sob a dinastia Ch’in? dado no momento da criação pelo Senhor das Criaturas,
que os maridos prestem a maior atenção em vigiá-las.
4 Explique o papel exercido pelos funcionários letrados
nas dinastias Chou e Ch’in.
Art. 434o Manu deu em partilha às mulheres o amor do
seu leito, de sua residência e do enfeite, [...] a cólera, as más
inclinações, o desejo de fazer mal e a perversidade. [...]
Ler textos e imagens
Art. 439o Quaisquer que sejam as qualidades de um
5 Leia este fragmento dos Diálogos de Confúcio. homem ao qual uma mulher se uniu por um casamento
legítimo, ela adquire essas qualidades, do mesmo modo
que o rio por sua união com o oceano.”
“Disse o mestre:
Código de Manu. Livro IX. Rede de Direitos Humanos e
Riqueza e posição é o que todos desejam, mas se não
Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

Cultura. Disponível em www.dhnet.org.br.


puder obtê-las por meios justos, o homem virtuoso não as Acesso em 6 ago. 2009.
aceitará. Pobreza e inferioridade é o que todos detestam,
mas se não for por meios justos, o homem virtuoso não
as rejeitará. Um homem que se pretende virtuoso, se a) Como o texto descreve a condição da mulher na
abandona a prática do bem está traindo esse nome. O ho- sociedade hindu?
mem virtuoso não deixa de praticar o bem em nenhuma b) Qual o papel do homem em relação à mulher?
circunstância. Ele é virtuoso quando tudo lhe favorece, e c) Como o texto justifica a condição de submissão das
o é também quando tudo lhe é obstáculo.” mulheres na sociedade?

Confúcio. Analectos 5, livro IV. Disponível em 7 Analise a figura que simboliza o yin e yang e relacione-a
www.hottopos.com.br. Acesso em 6 ago. 2009. com os princípios do taoismo.

O taoismo está presente até


a) Qual é o compromisso ético de um homem que hoje na vida cotidiana chinesa,
pretenda ser virtuoso? manifestando-se na astrologia,
na medicina, nas artes marciais,
b) Interprete a seguinte afirmativa do texto: “[O ho- na culinária e até no estilo de
mem] é virtuoso quando tudo lhe favorece, e o é decoração conhecido como
também quando tudo lhe é obstáculo.” fengshui. A integração dos dois
princípios é simbolizada na
6 Manu é um personagem mítico, primogênito de imagem ao lado.
Brahma e o primeiro homem, considerado o pai da
humanidade. A ele se atribui o texto conhecido por Yin Yang
Código de Manu, um conjunto de normas reguladoras
Terra Céu
da convivência social. O texto, escrito em versos entre
1400 e 800 a.C., apresenta um quadro da sociedade Frio Calor
indiana, das castas, mas também das regras religiosas
Feminino Masculino
e de conduta doméstica. A seguir, trechos do Livro IX,
sobre os deveres dos homens e das mulheres. Inverno Verão
Os elementos desse
Lua Sol
quadro expressam
Capítulo 3 • Índia e China

Obscuridade Claridade a dualidade e a


Dos deveres do marido e da mulher complementaridade
Sombra Luz
“Art. 419o Dia e noite, as mulheres devem ser man- entre o yin e o yang.
tidas num estado de dependência por seus protetores;
e mesmo quando elas têm demasiada inclinação por debater
prazeres inocentes e legítimos, devem ser submetidas por
aqueles de quem dependem à sua autoridade. 8 Debata com os colegas: a condição da mulher descrita
o no texto da questão 6 é exclusiva da sociedade hindu
Art. 420 Uma mulher está sob a guarda de seu pai, tradicional? Quais as semelhanças e as diferenças
durante a infância, sob a guarda de seu marido durante com outros tempos e espaços? E no Brasil, quais as
a juventude, sob a guarda de seus filhos em sua velhice; conquistas e dificuldades das mulheres para superar
ela não deve jamais se conduzir à sua vontade. [...] condições adversas dentro da sociedade?

75

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Capítulo

4 Hebreus, fenícios e persas

4.1 Da era do bronze O Oriente Médio antigo


à era do ferro
Entre os séculos XII e X a.C., uma série de transformações técnicas,
O desenvolvimento da metalurgia do
ferro contribuiu para desestabilizar os políticas e sociais pôs fim aos grandes impérios que disputavam o poder
reinos da era do bronze. no Oriente Médio e permitiu o nascimento de novas formas de Estado.
Uma inovação técnica importante desse período foi a introdução da me-
4.2 Os hebreus: das origens talurgia do ferro, que permitiu construir armas bem mais potentes.
ao êxodo
A religião hebraica se diferenciava de No sul da Palestina, surgiu o Reino de Israel, formado por tribos de
outras religiões principalmente por ser pastores nômades que se estabeleceram na região: os hebreus. Um
monoteísta. pequeno reino, que logo se dividiria devido a lutas internas e acabaria

Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.


sendo conquistado por impérios que dominaram a região. Contudo,
4.3 Os hebreus antigos:
política e sociedade mesmo perdendo a independência política, a cultura hebraica, marcada
A fixação dos hebreus em Canaã, pelo monoteísmo ético, sobreviveu e chegou aos nossos dias.
após o retorno do Egito, assinalou o Já ao norte da Palestina, formou-se uma civilização constituída de
nascimento da monarquia hebraica. cidades-Estado, em grande parte dedicada ao comércio marítimo: a dos
4.4 A civilização marítima fenícios. Entre outras realizações, os fenícios foram responsáveis pela
dos fenícios difusão do alfabeto, tanto na Europa quanto na Ásia, uma conquista
Os fenícios ficaram conhecidos como cultural de inestimável valor.
excelentes navegadores e comerciantes.
A leste da Mesopotâmia, no planalto iraniano, desenvolveu-se o
4.5 O Império Persa Império Persa, que no decorrer de poucos séculos iria dominar toda
O extenso Império Persa era mantido, a região, numa expansão contínua sem precedentes até então. Do-
entre outras coisas, por um eficiente minando um imenso território, os persas criaram o primeiro império
sistema de estradas. multicultural da história, unindo sob seu comando povos, línguas e
culturas diferentes.
Hebreus, fenícios e persas
ÁSIA
OCEANO
ATLÂNTICO EUROPA
M
A
Celtas
R

LÍGURES
SP
IO

ETRÚRIA MAR NEGRO


CÓRSEGA
Iberos
BALEARES
Cádiz SARDENHA
Málaga
ÁSIA MENOR M PLANALTO
ES
OP DO IRÃ
SICÍLIA OT Rio T
Rio ÂM igr
Cartago MALTA Siracusa Rodes
Eufr
ates IA e Susa
CHIPRE Arados
Númidas Biblos Babilônia
CRETA Beritos (Beirute)
MAR MEDITERRÂNEO Sidon
FENÍCIA Tiro
GO
Alexandria Gaza Jericó LFO
PÉRSICO
Fenícia LÍBIA Canaã
Colonização fenícia
A Pérsia no início do EGITO
governo de Ciro
A Palestina no século X a.C. ÁFRICA
Ri
o

Colônias fenícias
Ni

370 km
lo

Fontes: VIDAL-NAQUET, Pierre; BERTIN, Jacques. Atlas histórico: da Pré-história aos nossos dias.
Lisboa: Círculo de Leitores, 1987. kinder, Hermann e Hilgemann, Werner. Atlas histórico mundial. Madri: Istmo, 1983. p. 38.

76

HIST_PLUS_UN_A_CAP_04.indd 76 18.08.10 16:52:24


Seção 4.1
da era do bronze à era do ferro
objetivo o colapso da era do bronze
Entender as O impacto que as inovações técnicas e tecnológicas exercem na vida hu-
transformações mana pode ser percebido em vários momentos da história. Entre os séculos
ocasionadas pela XII e X a.C., um conjunto de transformações técnicas, políticas e demográficas
introdução da levou as civilizações do antigo Oriente Médio ao colapso. Esse período, que
metalurgia do ferro na costuma ser designado como “Idade das Trevas”, ainda é pouco conhecido
Antiguidade. pela ausência de documentos escritos. Foi nesse momento que ocorreu uma
mudança técnica fundamental: a substituição da metalurgia do bronze pela
Termos e conceitos
metalurgia do ferro [doc. 1].
• Era do bronze
No decorrer do segundo milênio antes da nossa era, ao lado do Egito e da
• Era do ferro
Mesopotâmia, desenvolveram-se outros reinos no Oriente Médio antigo. Na
costa da Anatólia, estabeleceu-se o Império Hitita, uma monarquia religiosa
e militar conhecida por suas táticas de guerra e pelo uso militar do cavalo e
responsável pela introdução da metalurgia do ferro na região. No nordeste da
Mesopotâmia, surgiu o Império Assírio, cujos domínios chegaram ao Egito. Na
região do Golfo Pérsico, situava-se o Reino de Elam e, finalmente, no norte da
Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

África, o Egito, então na fase do Médio Império [doc. 2].

doc. 1 As características do bronze Vocabulário histórico


O bronze é uma liga metálica obtida pela Técnica e tecnologia
fusão de cobre com estanho. O cobre é um A técnica é o conjunto de procedimentos que o homem
metal flexível demais para fazer armas e ins- desenvolveu, ao longo do tempo, na produção de objetos
trumentos, por isso é necessário adicionar o para facilitar sua vida. O desenvolvimento da técnica é um
índice do domínio do homem sobre a natureza.
estanho para conferir-lhe a dureza necessária.
A tecnologia é a ciência desenvolvida sobre essa téc-
O problema é que o cobre é um minério relati- nica, um conjunto de conhecimentos aplicados sobre os
vamente raro, além disso, as jazidas de cobre procedimentos mecânicos. A inovação tecnológica vem
e de estanho não costumavam ficar na mesma ocorrendo desde a fabricação dos primeiros instrumen-
região. tos de trabalho, ainda na Pré-história. Essa inovação foi
intensificada com a Revolução Industrial, pela automação
Para obter esses minérios em quantidade dos processos de produção.
suficiente, era necessário ter boas relações
com os Estados vizinhos e manter trocas co-
merciais constantes. Além disso, devido à sua doc. 2 Reinos do oriente Médio antigo
raridade, o bronze costumava ser usado apenas (séculos XIII-VII a.c.) Lago
Aral
pela aristocracia guerreira, que o utilizava para MAR NEGRO
suas armas e cerimônias religiosas. A massa
camponesa não utilizava instrumentos de me-
Rio

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A

u
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IMPÉRIO HITITA
tal, mas de madeira ou pedra. Hattusa MAR
CÁSPIO
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Capítulo 4 • Hebreus, fenícios e persas
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e

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CRETA CHIPRE Biblos
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MAR Assur
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Susa
Jerusalém Nipur Lagash
Gaza Uruk REINO DE ELAM
Heliópolis Eridu
Mênfis Ur
Armadura de bronze Tell el-Amarna
Go
lfo

produzida por volta PENÍNSULA


Tebas ARÁBICA
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do século X a. C., EGITO Go


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Rio Nilo

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durante a era do ferro. de


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Apesar da disseminação
R V

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da metalurgia do ferro, Abu-Simbel
E
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o trabalho com o bronze


não foi totalmente Napata
EL

480 km OCEANO
HO

abandonado. ÍNDICO
Fonte: Atlas da história do mundo. São Paulo:
Times/Folha de S.Paulo, 1995. p. 57.

77

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A difusão do ferro Golfo Pérsico e no Mediterrâneo. Sua influência foi
Durante os últimos séculos da era do bronze tão grande que, em alguns séculos, o aramaico, a
(1600-1200 a.C.), os reinos desse período mantive- língua falada por eles, disseminou-se na região,
ram-se em relativa estabilidade. A introdução da suplantando o acádio e tornando-se
metalurgia do ferro contribuiu para subverter essa a língua administrativa do
situação. A técnica do ferro difundiu-se a partir da Império Persa. Embora o
Anatólia para a Europa e a Ásia, aramaico fosse a língua
por volta de 1200 a.C. Para ser falada dominante na Pales-
produzido, o ferro necessitou de tina, o hebraico permaneceu
aperfeiçoamentos técnicos na como língua sagrada [doc. 5]. Com
metalurgia, pois ele entra em a reconstrução das cidades e o
fusão numa temperatura muito ressurgimento das estruturas
mais alta do que a do bronze. No en- estatais, puderam florescer
tanto, ao contrário dos metais que na região novas civiliza-
formam a liga do bronze, o ferro pode ções, como as de Israel, da
ser encontrado em abundância em Fenícia e da Pérsia.
praticamente qualquer lugar da ter-
doc. 4 Jarro persa em
ra. Sendo um metal muito mais duro e bronze, século VIII a.C. O
resistente do que o bronze, a produção desenvolvimento da metalurgia
de armas, carros e armaduras de ferro do ferro não significou o fim
do uso do bronze.
permitiu constituir exércitos muito mais

Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.


letais e bem armados [doc. 3].

doc. 3 Espada de ferro


e ouro, c. 1000 a.C.

As invasões aramaicas
Outro acontecimento que, para muitos pesqui-
sadores, explica o súbito colapso dos reinos da
era do bronze foi a invasão de povos estrangeiros,
alguns deles conhecidos apenas por “povos do
mar”. A origem desses últimos é incerta, embora
a região do Mar Egeu e a Anatólia ocidental sejam
Unidade A • Da Pré-história às primeiras civilizações do Oriente

identificadas como seus locais de dispersão.


Entre os séculos XII e X a.C., os arameus, povos
nômades que viviam no Deserto da Síria, expandi-
ram-se por todo o Oriente Médio, alterando profun-
damente o panorama político, social e cultural da
região. Provavelmente fugindo da seca ou de uma
catástrofe climática, os arameus vieram em ondas doc. 5 Página da Bíblia hebraica com tradução
em aramaico, século XI. O aramaico era a língua
sucessivas e com contingentes cada vez maiores, escrita mais utilizada no Oriente Médio até o século
provocando uma grave crise demográfica e o colap- VII d.C. Era a língua oficial do Império Persa. Seu
so das estruturas políticas e administrativas dos alfabeto, escrito da direita para a esquerda, é
derivado do fenício e serviu de base para a escrita
reinos que dominavam o Oriente Médio na época.
do Antigo Testamento. Dele se originaram o alfabeto
Era o início da era do ferro. hebraico e o árabe.
Aos poucos, os arameus formaram uma rede de
cidades-Estado, sobretudo na Síria e na Mesopotâ-
questões
mia, e atuaram como os principais comerciantes no
1. Quais as hipóteses expostas no texto para o colapso
dos reinos da Idade do Bronze, como o egípcio e os
• Reinos da era do bronze. Incluíam o Império mesopotâmicos, a partir do ano 1000 a.C.?
Babilônico, o Império Assírio e o Império 2. Estabeleça diferenças entre a escrita aramaica e a
Egípcio. Os reinos da era do ferro eram o hitita, escrita cuneiforme dos sumérios [doc. 5].
o arameu, o hebreu, o fenício e o persa.

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Seção 4.2
os hebreus: das origens ao êxodo
objetivo origem dos hebreus
Compreender a Os hebreus são originários de tribos de pastores nômades que vagavam entre
formação histórica dos a Caldeia, a terra de Canaã e o Egito. Por volta do fim do segundo milênio a.C., essas
hebreus na Antiguidade. tribos se fixaram na região de Canaã, às margens do Rio Jordão [docs. 1 e 2]. Os docu-
mentos egípcios e mesopotâmicos da época os chamavam de Apiru e os descrevem
Termos e conceitos
como grupos heterogêneos e dispersos, que sobreviviam negociando, pilhando,
• Bíblia oferecendo-se como mercenários ou até contribuindo para sublevações políticas. Na
• Monoteísmo Bíblia, esses grupos nômades são chamados de Ivrim, que significa “descendentes
• Torá de Heber”, um patriarca lendário sobre o qual não se tem muita informação.
• Êxodo
Abraão e a Terra Prometida
De acordo com a narrativa da Bíblia, o primeiro grande líder dos israelitas
foi Abraão, um velho pastor nômade que deu aos hebreus sua forte identidade
cultural centrada no culto ao deus Yahveh. Certo dia Yahveh teria ordenado a
Abraão que partisse da cidade mesopotâmica de Ur (ou de Harran), onde vivia
Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

com sua família, para a terra de Canaã, ou Palestina, para ali se fixar.
Abraão deveria abandonar o culto aos outros deuses e reconhecer Yahveh
como deus único e autoridade suprema. Em troca, Abraão seria abençoado
com uma descendência inumerável, da qual nasceriam nações, reis e povos
inteiros. A partida de Abraão para Canaã teria ocorrido no século XVIII a.C.
Chefiados por Abraão, os hebreus se estabeleceram na Palestina, onde con-
tinuaram vivendo da criação de animais e organizados em grupos familiares
liderados pelos membros mais velhos da tribo, chamados patriarcas. Abraão,
Isaac e Jacó (depois chamado Israel) foram os primeiros patriarcas.

doc. 1 A Palestina e seus vizinhos doc. 2 Israel, Palestina e


países vizinhos (2010)
LÍBANO
Troia
Sardes
CAPADÓCIA SÍRIA
GOLAN
FRÍGIA
L. Tiberíade
CILÍCIA
Jordão

LÍDIA
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Tarso Haran
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MEDITERRÂNEO
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Çatal Karkemish CISJORDÂNIA


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RODES Huyuk Nínive


Halab Ebla Jerusalém
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Hamath
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ISRAEL
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MEDITERRÂNEO Sidon Mari


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Tiro Damasco
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JORDÂNIA
Capítulo 4 • Hebreus, fenícios e persas
TIN

Rio Jordão
Siquém Babilônia
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Jericó E G I T O
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Gaza Jerusalém CALDEIA


MAR MORTO Ur SINAI
SINAI
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Mênfis
DESERTO DA ARÁBIA
EGITO
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Hermópolis Fonte: VIDAL-NAQUET,


EL

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A grande marcha de Pierre; BERTIN, Jacques.


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Abraão (c. 1800 a.C.) Atlas histórico.


MAELHO
RM

100 km
Nil

200 km
o

A Palestina no século X a.C. Lisboa: Círculo de


R

Israel 1967 Leitores, 1990. p. 39.

Fonte: LACOSTE, Yves. Géopolitique: la longue histoire Território ocupado por Israel
desde 1967 Como na Antiguidade,
d‘aujourd‘hui. Paris: Larousse, 2006. p. 293.
Território devolvido por a disputa pelas terras
Israel ao Egito em 1982
A Palestina é uma estreita faixa de terra espremida entre da Palestina continua
a Fenícia (atual Líbano), o Mar Mediterrâneo e o Deserto Territórios sob controle palestino gerando intensos
da Arábia. A região está situada num ponto estratégico da Território sob controle conflitos entre os
israelense e palestino
passagem de rotas comerciais que ligavam a Ásia e a África. povos da região.

79

HIST_PLUS_UN_A_CAP_04.indd 79 18.08.10 14:29:26


Três religiões e um mesmo deus doc. 4 A história de Sara, Agar e Abraão
Por ter introduzido a ideia de um deus único, abso- Segundo a Bíblia, Sara, esposa de Abraão, era
luto e universal, Abraão é considerado o pai fundador estéril, por isso Abraão decidiu ter um filho com Agar,
das três grandes religiões monoteístas da humanidade, uma serva egípcia. Agar deu à luz Ismael. Entretanto,
que juntas se tornaram a expressão do monoteísmo: o Deus, decidido a cumprir a promessa feita a Abraão,
judaísmo, o cristianismo e o islamismo. Elas podem ser que multiplicaria a sua descendência na Terra, fez
consideradas “religiões abraâmicas”, por atribuírem o com que Sara desse à luz Isaac. Descontente, Sara
mesmo significado à história de Abraão e por partilha- fez Abraão expulsar Agar e Ismael para o deserto.
rem certos elementos básicos e comuns [docs. 4 e 5]. De Isaac descenderiam os hebreus e de Ismael os
“povos do deserto”, ou seja, os árabes.
• Crença em um deus único, criador e universal, com o
qual o homem estabelece uma aliança; essa aliança
pode ser rompida e refeita em diferentes momentos
históricos.
• Presença de um livro sagrado (Torá, Bíblia e Corão),
que teria sido revelado pela divindade aos profetas
ou apóstolos encarregados de transmitir a vontade
de Deus aos homens [doc. 3].
• Crença numa lei moral universal, emanada de Deus
e codificada nos respectivos livros sagrados.
A partilha de tradições comuns entre as três gran-

Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.


des religiões monoteístas também se expressa na
importância que tem a cidade de Jerusalém, em Israel,
Abraão expulsando Agar e Ismael.
para os seus seguidores. Para as três religiões, Jerusa- Pintura de Guercino, 1657.
lém é uma cidade sagrada, que abriga lugares santos:
o Muro das Lamentações (judeus), o Santo Sepulcro
(cristãos) e o Monte do Templo (muçulmanos). Os hebreus no Egito
Segundo a Bíblia, no século XIII a.C., o patriarca
Jacó e seus filhos migraram para o Egito para pres-
doc. 3 A Bíblia tar serviço ao faraó em troca de lotes de terra para
A Bíblia é a principal praticar a agricultura e criar animais. Possivelmente,
fonte de conhecimento saíram da Palestina fugindo da fome e da seca. É
para a história dos he- provável, também, que uma parte das famílias tenha
breus. A Torá, conjunto permanecido em Canaã, enquanto outra teria partido
dos cinco primeiros livros buscando outras terras.
da Bíblia (Gênesis, Êxodo,
Unidade A • Da Pré-história às primeiras civilizações do Oriente

Os hebreus teriam chegado ao Egito quando ele


Levítico, Números e Deu-
estava dominado por um povo estrangeiro, os hicsos.
teronômio), chamada de
Pentateuco pelos cris- Durante o domínio hicso, o prestígio de José (filho de
Iluminura no frontispício Jacó) no palácio do faraó teria assegurado respeito e
tãos, é o texto central de uma Bíblia judaica, 1550.
do judaísmo. Ela relata a prosperidade aos hebreus. Após a expulsão dos hic-
criação do mundo, a origem do homem, a aliança sos, no entanto, os hebreus, acusados de colaboração
entre Deus e os hebreus, entre outras histórias com os invasores, teriam sido escravizados.
da tradição religiosa judaica. Para o historiador, Por volta de 1250 a.C., segundo a Bíblia, surgiu a
no entanto, os relatos bíblicos, ao serem analisa- figura de Moisés, um hebreu criado pela filha do faraó
dos como documentos, devem ser comparados que teria recebido de Deus a missão de libertar o povo
a outras fontes históricas. Um exemplo são as hebreu da escravidão no Egito e reconduzi-lo à Palestina.
descobertas arqueológicas, como ruínas de cons- O relato do livro do Êxodo, na Bíblia, mostra que havia
truções, utensílios domésticos, adornos e obras muitos conflitos entre clãs, pois muitos teriam preferido
de arte. Há também relatos contemporâneos de permanecer no Egito em vez de acompanhar Moisés.
outros povos, como textos egípcios, que podem
confirmar ou não os relatos bíblicos. Devemos
A viagem de volta a Canaã, mais conhecida como
lembrar ainda que nenhum dos textos da Bíblia se êxodo, teria durado quarenta anos. No início da pere-
fixou por escrito antes do século X ou IX a.C.; logo, grinação pelo deserto, no Monte Sinai, Moisés teria
as narrativas apresentadas são em grande parte recebido de Yahveh as tábuas da lei, mais conhecidas
muito posteriores aos fatos que relatam. como os dez Mandamentos, contendo as leis que
os hebreus deveriam cumprir.
80

HIST_PLUS_UN_A_CAP_04.indd 80 18.08.10 14:29:29


A soberania de Yahveh Vocabulário histórico
Na Antiguidade, de maneira geral, os deuses
Monoteísmo
representavam acontecimentos ou fenômenos O monoteísmo é a crença num deus único. Não é uma
da natureza, tinham uma esfera de atuação limi- invenção dos hebreus. Outros povos da Antiguidade cul-
tada e eram cultuados por meio de cerimônias tuavam um deus que consideravam o único verdadeiro.
O principal antecedente do monoteísmo hebraico é o
e rituais, como o sacrifício de animais. Com os
culto ao deus-sol Aton, instituído pelo faraó Akhenaton
hebreus nasceu uma nova visão de divindade. De (Amenophis IV), no Egito, por volta de 1375 a.C. Mas
acordo com essa visão, o deus Yahveh revelava foi o monoteísmo hebraico que teve longa duração e
seus desígnios por meio dos acontecimentos da serviu de base para o surgimento do cristianismo e do
islamismo.
história e não se confundia mais com os fenôme-
Politeísmo
nos da natureza.
O politeísmo é a crença em vários deuses, cada um
Por ser visto como o criador do homem, do uni- deles representando um elemento da natureza (céu,
verso e do tempo, Yahveh podia suspender as leis mar, trovão, tempestade etc.), um acontecimento da
vida (nascimento, morte, casamento etc.) ou um atributo
naturais a qualquer momento. Como sua vontade
humano (beleza, vaidade, coragem, sabedoria etc.).
era soberana, seu poder não era partilhado com
nenhuma outra divindade, espírito ou ídolo, como
nas religiões politeístas. Por isso exigia um culto
exclusivo, que não admitia a adoração a nenhum • Panteão. Conjunto de deuses
de uma religião politeísta.
outro deus. A principal diferença, no entanto, é
que Yahveh exigia de seus seguidores um compor-
Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

tamento ético.
questões
Essa concepção da divindade era radicalmente
distinta de todos os panteões e mitos da Antigui- 1. Destaque as semelhanças e a principal diferença en-
tre os hebreus e outros povos da Antiguidade.
dade. Em nossa era, essa nova visão de divindade
conquistou o mundo com a expansão de duas 2. Exponha a versão judaica para explicar as relações
de proximidade e de distanciamento entre árabes e
grandes religiões monoteístas: o cristianismo e o judeus [docs. 3 e 5].
islamismo.

Capítulo 4 • Hebreus, fenícios e persas

doc. 5 Trecho do Gênesis, versão quadrinizada do primeiro livro da Bíblia.


In: Gênesis, por Robert Crumb. São Paulo: Conrad, 2009. p. 84.

81

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Seção 4.3
os hebreus antigos:
política e sociedade
objetivo o período dos juízes
Entender o processo Ao retornar à região de Canaã, na Palestina, os hebreus travaram intensas
de centralização lutas com os cananeus e, mais tarde, com os filisteus, povos aramaicos que
política dos hebreus ocupavam essa região. Na luta pela posse da região, os hebreus destruíram
e a posterior antigas cidades, como Jericó e Harzor. Isso ocorreu entre 1230 e 1220 a.C.
fragmentação.
Com a ocupação de Canaã, se iniciou, segundo a Bíblia, o período dos
Termos e conceitos juízes, que se estendeu de 1220 a 1030 a.C. Nessa época, os hebreus esta-
vam divididos em doze tribos, marcadas pela ausência de um governo central.
• Monarquia
Em épocas de grandes conflitos surgiam líderes, os “juízes”, que assumiam um
• Diáspora
papel militar e religioso, porém sem conseguir unificar as tribos.

A monarquia hebraica
No final do século XI, os filisteus, que dominavam o uso do ferro, invadiram

Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.


a Cananeia. Para defender-se e resistir à invasão dos vizinhos, as tribos tiveram
de se organizar sob a liderança de um rei. Com o primeiro rei, Saul, escolhido por
sorteio, houve uma divisão entre as tribos de Israel (ao norte) e as tribos de Judá
(ao sul). Israel e Judá entraram em guerra, opondo os partidários de Saul e as
tribos de Judá sob a liderança de Davi. O jovem rei Davi, que governou de 1000 a
962 a.C., conseguiu unificar as tribos rivais, derrotando os filisteus e conquistando
a cidade de Jerusalém, que se transformou na capital do reino.
Após a morte de Davi, seu filho, Salomão, levou a monarquia ao máximo
esplendor, incentivando o comércio no lugar das guerras e adotando o luxo e
o refinamento das realezas orientais. Seu longo reinado (962-924 a.C.) ficou
conhecido como um período de paz e prosperidade. Sob o reinado de Salomão,
a monarquia consolidou-se, com a fortificação das cidades, a reorganização
do exército e a construção do Templo de Jerusalém [doc. 1].

doc. 1 o Templo de Jerusalém


Unidade A • Da Pré-história às primeiras civilizações do Oriente

O Templo de Jerusalém, construído por ordem de Salomão, no século XI a.C.,


era o local de culto religioso central da cultura judaica, considerado a morada de
Yahveh, onde era cultuado e se ofereciam sacrifícios a ele. Em 586 a.C., o tem-
plo foi totalmente destruído por Nabucodonosor II da Babilônia. Décadas mais
tarde (c. 516 a.C.), foi reconstruído no mesmo local e novamente destruído pelos
romanos no ano 70 da nossa era. Desse segundo templo restou um muro exter-
no conhecido como Muro das Lamentações, local considerado sagrado e muito
visitado hoje por judeus e não judeus do mundo todo, que lá rezam e depositam
seus desejos por escrito.

Muro das Lamentações e


a Cúpula dos Rochedos.
Jerusalém, Israel, 2007.

82

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Sociedade e economia dos hebreus A dominação externa
Dois avanços técnicos possibilitaram a fixação Após a morte de Salomão, por volta de 924 a.C.,
dos hebreus em Canaã: a domesticação do camelo não foi possível manter a unidade política dos he-
e a difusão de instrumentos de ferro. Canaã era breus. As dez tribos do norte se separaram formando
uma terra árida, sem muitos recursos hídricos. o Reino de Israel, com capital em Samaria. Ao sul,
Por ser um animal que necessita de pouca água, o as duas tribos restantes formaram o Reino de Judá,
camelo era o meio fundamental de transporte e de com capital em Jerusalém.
comunicação no deserto. Já o uso de ferramentas
Por volta de 722 a.C., as tribos do norte foram
de ferro permitiu a perfuração de poços e cisternas
conquistadas pelos assírios e seus moradores se
para armazenar a água da chuva, usada para irrigar
dispersaram. Tinha início a primeira diáspora dos
os campos.
hebreus. Os habitantes do norte passaram a ser co-
A passagem da vida nômade à vida sedentária nhecidos como samaritanos (habitantes de Samaria),
e o início da monarquia implicou várias mudanças considerados inferiores pelos hebreus por terem se
sociais e econômicas. À medida que se sedentari- misturado com os estrangeiros. Os habitantes do
zavam, os hebreus deixavam de ser povos pastores Reino de Judá, ao sul, passaram a ser conhecidos
nômades e se tornavam agricultores, comerciantes como judeus.
e artesãos. Começavam a aparecer as divisões
O Reino de Judá sobreviveu até 586 a.C., quando
sociais, pois naquele momento instituiu-se a ex-
o rei babilônico Nabucodonosor conquistou a região
ploração familiar da terra. Porém, a terra não era
e ordenou a destruição do Templo de Jerusalém.
considerada ainda uma propriedade privada. Vista
Depois disso, houve uma sucessão de domínios
Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

como sagrada, a terra pertencia ao clã familiar, e o


estrangeiros: persa, a partir do século V a.C., mace-
proprietário tinha apenas o usufruto dela.
dônico, no século IV a.C., e por fim romano, depois de
Nas cidades, os artesãos e os artistas se orga- 63 a.C. As tribos judaicas assimilaram costumes e
nizavam em corporações formadas de acordo com valores de outros povos, correndo o risco de perder
o ofício de cada um: padeiros, fiadores, tecelões, sua identidade cultural dada pelo monoteísmo e a
droguistas, alfaiates, oleiros etc. Alguns ofícios lei mosaica.
emergiram a partir das descobertas arqueológicas,
Na ausência de uma unidade política duradoura,
como uma queijaria do século VII a.C., descoberta
era necessário escrever e documentar tudo, criando
na cidade israelense de Tel Gat.
uma memória que garantisse a preservação da sua
cultura e o sentimento de partilhar um passado co-
Vocabulário histórico mum. É essa memória, corporificada num conjunto
diáspora de tradições escritas e numa história comum, que
A palavra “diáspora” é de origem grega e significa disper- constitui a identidade cultural que caracteriza os
são ou deslocamento de grandes massas populacionais de judeus até a atualidade [doc. 2].
uma área fixa para diferentes áreas. O termo foi utilizado
pela primeira vez na tradução da Bíblia judaica para o
grego, designando exclusivamente as diásporas judaicas. questões
A primeira dispersão aconteceu em 722 a.C., quando o
1. Quais mudanças ocorreram na sociedade hebraica
Reino de Israel foi invadido e destruído pelos assírios. A
com a instalação da monarquia?
segunda aconteceu com a invasão de Nabucodonosor da
Babilônia, em 586 a.C., e a terceira, com o domínio romano, 2. O que os símbolos do judaísmo representam para a
no século I da era cristã. história dos judeus [doc. 2]?
Capítulo 4 • Hebreus, fenícios e persas

doc. 2 Símbolos do judaísmo

1. Menorah. O candelabro 2. Torá. O livro sagrado da lei, que 3. Estrela de Davi. Segundo a
de sete braços é contém os cinco primeiros livros tradição, era o símbolo presente
aceso todo ano da Bíblia: Gênesis, Êxodo, Reis, no escudo de Davi quando
no Festival das Levítico e derrotou o gigante filisteu Golias.
Luzes (Hanukah), Deuteronômio.
que comemora a
reconstrução do
Templo de Jerusalém.

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controvérsias A Bíblia e as pesquisas arqueológicas

A crença nas histórias bíblicas é, principalmen- Em um contexto maior, o discurso de Finkelstein reflete
te, uma questão de fé e não de ciência. A desco- uma mudança surpreendente que vem ocorrendo entre
berta de evidências científicas que confirmam alguns arqueólogos de Israel. Suas interpretações contestam
essas histórias, contudo, contribui para elevar a algumas das histórias mais conhecidas da Bíblia, como, por
exemplo, a conquista de Canaã por Josué. Outras descober-
autoridade da Bíblia. Por isso, muitos arqueólogos,
tas dão informações suplementares à Escritura, como o que
influenciados pela religião, buscam vestígios que
aconteceu com Jerusalém depois que foi capturada pelos
atribuam valor de verdade aos relatos bíblicos. babilônios há 2.600 anos.
Outros, porém, colocando a arqueologia à frente
Em entrevista por e-mail do sítio de Megiddo, Finkelstein
da religião, fazem descobertas que refutam as
disse que, antes, ‘a história bíblica ditava o curso da pesquisa,
histórias contadas na Bíblia. e a arqueologia era usada para ‘provar’ a narrativa bíblica’.
Dessa forma, disse, a arqueologia tornou-se uma discipli-
na secundária. ‘Acho que chegou a hora de colocarmos a
“O relato da Bíblia sobre o rei Davi é tão conhecido que arqueologia na linha de frente’. [...]
até mesmo as pessoas que raramente abrem o Livro Sagrado
As práticas do passado às quais aludiu podem ser ilus-
provavelmente têm uma ideia de sua grandeza.
tradas por uma observação feita por Yigael Yadin, general
Davi, segundo a Escritura, era um líder militar tão israelense que se voltou para a arqueologia. Certa vez ele
soberbo que não só capturou Jerusalém, mas também declarou que entrava em campo com uma espada em uma
transformou a cidade na sede de um império, unificando os

Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.


mão e a Bíblia na outra.
reinados de Judá e Israel. Assim começou a era gloriosa, mais
Muitos arqueólogos, tanto antes da fundação do Estado
tarde ampliada por seu filho, o rei Salomão, cuja influência
moderno de Israel quanto depois, tinham o mesmo tipo de
se estendeu da fronteira do Egito até o Rio Eufrates. Depois,
estratégia: buscar evidências diretas de histórias bíblicas. Essa
veio a decadência.
maneira de ver era gerada por suas convicções religiosas [...].”
Mas e se a descrição da Bíblia não estiver de acordo
com as evidências do solo? E se Jerusalém de Davi era, na Bíblia é reprovada no teste da arqueologia. The New York
realidade, um vilarejo rural atrasado, e a grandeza de Israel Times, 9 jul. 2000. Disponível em www.historianet.com.br.
Acesso em 21 jul. 2010.
e de Judá estivesse num futuro longínquo?
Recentemente, as autoridades em arqueologia de
questões
Israel têm feito essas afirmativas, falando do ponto de
vista das descobertas recentes de escavações do passa- 1. Como a arqueologia, em Israel, tem se relaciona-
do antigo. ‘Da maneira que vejo as descobertas, não há do com a Bíblia ao longo do tempo?
evidência alguma de uma grande e unida monarquia, 2. A Bíblia foi escrita com base na tradição oral dos
nem de Jerusalém governando vastos territórios’, disse hebreus. Como esses registros devem ser trata-
Israel Finkelstein, diretor do Instituto de Arqueologia dos para o conhecimento histórico desse povo?
da Universidade de Tel Aviv. A Jerusalém do rei Davi,
Unidade A • Da Pré-história às primeiras civilizações do Oriente

3. É possível conciliar o conhecimento arqueológico


acrescentou Finkelstein, ‘não era nada além de uma pobre com os relatos bíblicos?
vila na época’. [...]

Sítio arqueológico em
Jerusalém, Israel, em 2009.
As pesquisas arqueológicas
são continuamente
confrontadas com os textos
bíblicos, tanto para confirmá-
-los quanto para questioná-los.

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Seção 4.4
A civilização marítima dos fenícios
objetivos o império marítimo
Compreender a A Fenícia situava-se numa faixa de terra correspondente à costa do atual
importância do comércio Líbano, abrangendo também uma parte da Síria, ao norte, e da Palestina, ao
marítimo para a sul. Apesar de possuir terras aráveis e montanhas repletas de cedros, madeira
formação histórica dos com a qual construíam seus navios, desde cedo os fenícios voltaram-se para o
fenícios na Antiguidade. comércio marítimo. Sua posição geográfica, situada no cruzamento das rotas
Reconhecer o comerciais do Oriente e do Ocidente, era estratégica e os incentivava a explorar
alfabeto como uma os mares [doc. 1]. Por volta do século VIII a.C., os fenícios possuíam a marinha
representação simbólica mais poderosa do mundo mediterrâneo e dominavam a arte da navegação, tendo
e abstrata de ideias e sido os primeiros a fazer a circum-navegação marítima do continente africano.
objetos, diferenciando-o Construíram, assim, um império marítimo.
das representações Os fenícios falavam uma língua semítica, aparentada ao hebraico e ao
pictográficas. aramaico. Tal como mais tarde os gregos, eles se organizavam politicamente
em cidades-Estado autônomas, que emergiram por volta de 1200 a.C. As
Termos e conceitos maiores cidades eram Arados, Biblos, Beritos (atual Beirute), Sidon, Sarepta
• Império marítimo e Tiro. Como não havia centralização política, a unidade cultural entre as
Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

• Cidade-Estado diferentes cidades era dada pelo uso da mesma língua, do mesmo alfabeto
• Alfabeto e pelo culto aos mesmos deuses [doc. 2].
Entre os séculos IX e VIII a.C., ameaçados pelos constantes ataques do
Império Assírio, os fenícios se expandiram pelo Mar Mediterrâneo e fundaram
colônias por toda a região, sendo Cartago, fundada por volta de 814 a.C., no
norte da África, a mais famosa delas. A expansão fenícia, entretanto, não
tinha por objetivo conquistar novas terras, mas estabelecer uma rede de
entrepostos e portos para viabilizar o comércio a longa distância.
Um dos principais pontos dessa rede de comércio encontrava-se no sul
da Península Ibérica, na atual região da Andaluzia, onde os fenícios funda-
ram diversas colônias: Gadir (Cádiz), Ebusus (Ibiza), Málaga, Abdera (Almira),
entre outras. A presença fenícia na região, inclusive em Portugal, é atestada
• Circum-navegação. Ação de
navegar em torno ou ao redor
por uma diversidade de artefatos fenícios encontrados em escavações em
da Terra, de um continente toda a costa da península. Os fenícios forneciam, para a população nativa,
ou de uma região, por via cerâmica, sal e vasos de bronze, entre outros produtos, em troca de ouro,
marítima ou aérea. prata, estanho e outros metais.
doc. 1 A Fenícia e suas colônias

NO O
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AT O C

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Capítulo 4 • Hebreus, fenícios e persas

Celtas

LÍGURES
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CÓRSEGA MA
conteúdo digital Iberos
moderna PlUs http:// Cádiz Ibiza
BALEARES
SARDENHA
www.modernaplus.com.br Málaga
ÁSIA MENOR
Mapa animado: Rotas Almira
comerciais fenícias SICÍLIA
Cartago MALTA Siracusa Rodes
CHIPRE Arados
Númidas
M AR CRETA Beritos (Beirute) Biblos
Fonte: HILGEMANN, Tiro Sidon
M E DI T E RRÂNE O Sarepta
W.; KINDER, H. Atlas Fenícia Alexandria
historique: de l’apparition Colonização fenícia LÍBIA
de l’homme sur la terre Colônias fenícias
Rotas comerciais EGITO
à l’ère atomique. Paris: 400 km

Perrin, 1992. p. 34.

85

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doc. 2 A difusão do alfabeto os quais grupos de prostitutas sagradas (geralmente
relacionadas ao culto da deusa da fertilidade Astarte),
Ao contrário da ideia que se difundiu, os fenícios
que se ofereciam aos estrangeiros e aos cidadãos
não foram responsáveis pela invenção do alfabe-
to, mas pelo seu aperfeiçoamento e difusão. Os
ricos para arrecadar dinheiro para o templo [doc. 3].
egípcios já haviam adaptado a escrita hieroglífica Os relatos da Bíblia falam no sacrifício anual de
para representar letras. Mas o alfabeto fenício foi centenas de crianças de ambos os sexos, que eram
o primeiro a representar fonemas e não apenas atiradas ao fogo em sacrifício ao deus Baal, conhecido
letras, motivo pelo qual ele podia ser usado para em outras cidades fenícias como Moloch. Efetivamen-
escrever em diferentes línguas. Da Fenícia, o alfabe- te, arqueólogos encontraram centenas de corpos de
to difundiu-se para a Europa e a Ásia, onde originou crianças, incluindo recém-nascidos, enterrados em
diferentes tipos de escrita alfabética. baixo do Tophet, o altar onde se realizavam os cultos
nas cidades fenícias.
Alfabeto Alfabeto Alfabeto Alfabeto Alfabeto
fenício latino grego árabe hebraico
Porém, é difícil saber se o local era um cemitério
comum ou se realmente as crianças teriam sido
Aleph A Alfa Aleph Aleph
imoladas em algum ritual religioso. É possível que
em situações limites, ameaçados por uma grande
Beth B Beta Ba Bet dificuldade ou catástrofe iminente, os fenícios, de-
sesperados, tenham sacrificado seus próprios filhos
na esperança de aplacar a fúria do deus Baal.
Daleth D Delta Dal Daleth

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A perda da independência
Mem M Mi Mim Mem
Ameaçadas desde o século VIII a.C. pela expansão
assíria, as cidades fenícias perderam sua independên-
Num N Ni Num Num cia a partir do século VI a.C., sendo dominadas suces-
sivamente pelos persas, macedônios e romanos.
Com a desintegração do Império Persa e o aumen-
to da pressão sobre as províncias pelo pagamento de
A religião politeísta dos fenícios tributos, as cidades fenícias se dividiram e parte delas
Por falta de fontes diretas, pouco se sabe com passou a apoiar a política expansionista macedônica.
certeza sobre a religião dos fenícios, com exceção do Com a conquista macedônica, no século IV a.C., ter-
que diz o Antigo Testamento, em que são tratados de minava definitivamente o sonho das cidades-Estado
forma muito negativa. Os fenícios eram politeístas e fenícias de recuperar sua antiga independência.
cultuavam diversos deuses. Os principais eram Baal,
que representava o sol e o poder gerador da natureza, questões
Unidade A • Da Pré-história às primeiras civilizações do Oriente

e Astarte, deusa da lua e da fecundidade.


1. O que possibilitou aos fenícios criar uma rede de co-
Cada cidade também tinha os seus deuses tutela- mércio marítimo [doc. 1]?
res e o rei era o sacerdote responsável pelo culto ao
2. Observe o mapa e anote em que continentes os fení-
deus da cidade. Os templos tinham muito poder e mui- cios fundaram colônias [doc. 1].
ta riqueza. Possuíam dezenas de funcionários, entre

doc. 3 À esquerda,
estatuetas fenícias de
bronze, século VIII a.C.
À direita, estatueta
fenícia, também de
bronze, representando
um sacerdote ou uma
divindade, século VIII a.C.

86

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Seção 4.5
o Império Persa
objetivo A formação do Império Persa
Entender a formação Por volta do século VII a.C., no Planalto Iraniano, localizado entre o Mar Cáspio
e o funcionamento do e o Golfo Pérsico, havia duas grandes tribos de origem ariana, que formavam
Império Persa. dois reinos independentes: os medos e os persas. Os persas foram dominados
pelos medos até meados do século VI a.C., quando o rei persa Ciro, o Grande,
Termos e conceitos conquistou o Reino da Média, originando o Império Persa.
• Império No decorrer de suas campanhas militares, Ciro estendeu os limites do Im-
• Satrapia pério, conquistando novas regiões, como a Lídia, e as cidades gregas da Ásia
• Zoroastrismo Menor. Em 539 a.C. conquistou a Babilônia e libertou os hebreus do cativeiro
imposto por Nabucodonosor, permitindo que eles retornassem a Jerusalém
e reconstruíssem o Templo de Salomão [doc. 1]. As regiões dominadas pelos
assírios, como a Fenícia, a Síria e a Palestina, ficaram sob domínio persa.
O auge do Império Persa se deu sob o reinado de Dario I, que assumiu o trono em
522 a.C. e perseverou na política expansionista de seus antecessores. Com Dario I,
os domínios persas se estendiam da Ásia Menor, a oeste, à faixa ocidental da Índia,
a leste, além do Egito, na África [doc. 2]. O grande mérito de Dario, no entanto, foi
Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

reunir e organizar em uma única administração populações muito heterogêneas.


doc. 1 os persas vistos pelos hebreus
Ciro foi acolhido pelos hebreus exilados na
Babilônia como um verdadeiro libertador, como
mostra este trecho da Bíblia.

“Yahveh despertou o espírito de Ciro, rei da Pérsia,


que mandou proclamar de viva voz e por escrito, em
todo o seu reino, o seguinte: ‘Assim fala Ciro, rei da
Pérsia: Yahveh, o Deus do céu, entregou-me todos os
reinos da terra e me encarregou de construir-lhe um
Templo em Jerusalém, na terra de Judá. Todo aquele
que, dentre vós, pertence a seu povo, Deus esteja com
conteúdo digital ele e suba a Jerusalém, na terra de Judá [...]’.”
moderna PlUs http:// Gravura representando o
www.modernaplus.com.br Esdras, 1, 1-3. Bíblia de Jerusalém. rei persa Ciro II (c. 600-
Mapa animado: Expansão São Paulo: Paulus, 2002. p. 628. -529 a.C.), século XIX.
do Império Persa

doc. 2 A expansão do Império Persa


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MACE Capítulo 4 • Hebreus, fenícios e persas

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Conquistas de Dario I c o l’ère atomique. Paris:
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Estrada Real Perrin, 1992. p. 40.

87

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Satrapias: a administração o fim do Império Persa
do Império O declínio do Império está relacionado aos confli-
Seguindo uma política iniciada por Ciro, a estratégia tos com os gregos. Em 490 a.C., Dario I tentou invadir
de Dario para administrar os domínios persas foi dividir a Grécia, mas foi derrotado pelos gregos na célebre
o território em províncias, que eram chamadas satra- Batalha de Maratona. Após sucessivas derrotas, os
pias, administradas pelos sátrapas (governadores). Os persas foram obrigados a se retirar e reconhecer a
sátrapas tinham muito poder e governavam seus ter- hegemonia grega no Mar Egeu e na Ásia Menor (Lídia),
ritórios com relativa autonomia, mas deviam recolher renunciando provisoriamente a suas pretensões na
tributos para o rei, além de comandar tropas e aplicar região. Com o enfraquecimento do Império, várias
as leis reais. Por meio de medidas normativas, éditos e satrapias, esgotadas pelo pagamento dos pesados
leis, a administração imperial mantinha o controle sobre tributos, se revoltaram contra o domínio persa. Além da
as esferas da atividade civil, religiosa e militar, deixando pressão externa, internamente travavam-se violentas
os demais assuntos aos cuidados dos sátrapas. lutas pelo poder. Enfraquecido, o Império não resistiu
ao avanço dos exércitos macedônicos, comandados
Os principais cargos na hierarquia administrativa
por Alexandre Magno, que dominaram toda a Pérsia
eram reservados à elite persa, o que constituía uma
e as satrapias.
forma estratégica para manter o poder nas mãos dos
persas. A estrutura do exército imperial era um exem- • Édito. Ordem oficial que se publica por meio
plo disso: o comando do exército era exercido pelos de anúncios chamados editais.
membros da família real e pelas famílias da nobreza
persa, enquanto a massa dos soldados era formada por

Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.


doc. 4 Persépolis, o principal sítio
todos os povos do Império. Dessa maneira, garantia-se arqueológico do Irã
a centralização do poder militar nas mãos do rei.
Persépolis, a capital do Império Persa, foi cons-
Sob o domínio dos persas, as antigas capitais truída numa região de montanhas, próxima à atual
dos reinos autônomos transformaram-se em centros cidade de Shiraz, na região sudoeste do Irã. Per-
das satrapias, formando um império unificado. As sépolis era protegida por muros e exibia palácios,
províncias gozavam, contudo, de grande autonomia tumbas e edificações imponentes. Acredita-se que
cultural, podendo manter sua língua, sua religião e tivesse essencialmente função cerimonial e religio-
suas tradições. Em compensação, eram obrigadas a sa, com uma importância muito mais simbólica do
pagar pesados impostos, tanto em espécie quanto que propriamente administrativa ou econômica. Daí
em moeda. A Índia, o Egito e a Mesopotâmia, por a presença de imagens gravadas em baixo-relevo
exemplo, forneciam gado, trigo, ouro e prata, além nos palácios, simbolizando a diversidade cultural
de tecidos, vasos e animais [doc. 3]. do Império Persa. Nas ruínas do Palácio de Apada-
na foram encontradas 23 figuras esculpidas, que
O Império Persa também se destacava por sua
simbolizavam os 23 povos que pagavam tributos
impressionante capacidade construtiva, como de-
aos persas.
monstram as ruínas da cidade de Persépolis [doc. 4].
Unidade A • Da Pré-história às primeiras civilizações do Oriente

Dario ordenou a criação de um sistema de estradas Ruínas do Palácio Tachara, em


ligando as mais distantes satrapias ao centro do Persépolis, construído no século
Império. Essas estradas incluíam postos de rea- V a.C. por ordem do rei Dario I.
Irã, foto de 2006.
bastecimento e tropa de cavalos. Outra medida foi
introduzir o dárico como moeda única, proibindo os
sátrapas de cunharem suas próprias moedas. Toda
essa organização contribuiu para
conservar o poder centralizado,
situação reforçada pela crença,
difundida pelo zoroastrismo, de
que o imperador recebia o direito
de governar das mãos de Ahura
Mazda, o deus supremo.

questÃO
doc. 3 Vaso persa do século IV a.C. As Como o conteúdo desse documento explica o inter-
cores fortes e a grande quantidade de câmbio que, para alguns estudiosos, marcou a cultura
figuras eram características das pinturas persa e a hebraica [doc. 1]?
orientais feitas em peças de cerâmica.

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AtIVIDADes

Retomar conteúdos a) Sintetize o tema comum aos dois textos e aponte,


com base neles, diferenças e semelhanças entre
a cultura hebraica e a persa.
1 Situe no tempo e no espaço a chamada “era do ferro”
e analise a influência da inovação técnica associada à b) Aponte diferenças e semelhanças entre as duas
metalurgia do ferro: festas descritas no texto e as festas que são feitas
na comunidade em que você vive.
a) em relação às civilizações estudadas no capítulo.
c) Há alguma evidência nos textos sobre o uso do
b) em relação ao mundo atual.
calendário nas duas civilizações? Explique.
2 Redija um texto caracterizando a religião hebraica e
6 Observe a imagem a seguir.
comparando-a ao politeísmo fenício.

3 Analise a importância da memória social e histórica


dos hebreus, comparando-a à escassa memória de
outras sociedades da época, como a dos hititas, dos
quais muito pouco se sabe.

4 Os persas formaram o maior império constituído na


Antiguidade até o século V a.C. Descreva a organização
administrativa e a infraestrutura do Império Persa.

Ler textos e imagens


Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

5 Leia os textos a seguir.

texto 1

“Gritai de alegria, nossa força,


aclamai ao Deus de Jacó. Davi e Golias. Baixo-relevo da catedral armênia
de Santa Cruz (na atual Turquia), construção do
século X.
Elevai a música, soai o tamborim,
a harpa melodiosa e a cítara; a) Descreva a cena mostrada nesse baixo-relevo,
soai a trombeta pelo novo mês, relacionando-a ao acontecimento que representa
e ao surgimento do Reino de Israel.
na lua cheia, no dia de nossa festa.
b) A narrativa representada na cena pode ser conside-
rada um fato histórico? Justifique sua resposta.
Porque é uma lei para Israel,
uma decisão do Deus de Jacó, 7 Leia o texto abaixo e explique o que ele informa a res-
um testemunho que ele pôs em José peito da relação entre o Império Persa e suas províncias.
quando saiu contra a terra do Egito. [...]”

Salmo 81. Para a festa das tendas. Bíblia de Jerusalém. “A lista das satrapias é, ao mesmo tempo, também
São Paulo: Paulinas, 1981. p. 728. uma lista de tributos. Toda a província é taxada anual-
mente. Dezenove províncias pagam cotas fixas em
texto 2 talentos de prata babilônicos; a vigésima, a Índia, paga a
soma fabulosa de 369 talentos de ouro. A cota máxima
“Sentem-se os persas no dever de festejar seu ani- em prata, de mil talentos, provém da Babilônia; a segun-
versário de nascimento, mais do que qualquer outra data, da, de 700, provém do Egito. As outras pagam entre um
Capítulo 4 • Hebreus, fenícios e persas

pondo nesse dia as melhores iguarias à mesa. Os ricos mínimo de 170 e um máximo de 600 com uma média
fazem servir um cavalo, um camelo, um asno e um boi de 300/400 talentos por província. O total para todo o
inteiros e assados no forno. Os pobres se contentam com Império é de 14.560 talentos.”
um cardápio mais modesto. Os persas comem poucos
alimentos sólidos, mas muitas gulodices na sobremesa. [...] ASHERI, David. O Estado persa. São Paulo:
São muito dados ao vinho, e não lhes é permitido vomitar Perspectiva, 2006. p. 108.
nem urinar na presença de outrem. Observam ainda hoje
Pesquisar
tais costumes. Têm o hábito de deliberar sobre