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ORIENTALISMO - ENTRE REPRESENTAÇÃO E

ESTEREOTIPAÇÃO
Jéssica Pereira Couto

Quem é, e o que é ser Oriental/Asiático? De pronto, uma pergunta


simples, que o ocidental tem certeza de que é capaz de responder:
“Os habitantes de países, como: Arábia Saudita, Bahrein, Qatar,
Chipre, Emirados Árabes Unidos, Iêmen, Irã, Iraque, Israel,
Jordânia, Kuwait, Líbano, Omã, Palestina, Síria e pela parte asiática
do Egito”, além dos habitantes do Extremo Oriente- ou Ásia
Oriental-, que são: “China, Japão, Coreia do Sul , Coreia do Norte,
Taiwan, Hong Kong, Mongólia e Macau”. Uma resposta geográfica à
pergunta, seguida de comportamentos que associamos ao que é ser
“oriental”. Os filmes, propagandas e séries à que gostamos de
assistir, têm respondido essa pergunta durante anos, e nós juramos
que estes reproduzem fielmente, o que é ser oriental. Essa
construção (produção) sobre quem é o oriental e o que lhe compete,
caracteriza o Orientalismo, que por sua vez desemboca no mar da
estereotipação. Toda estereotipação é preconceito, e todo pré-
conceito, como o próprio nome já diz, é formulação de opiniões
sobre aquilo que se desconhece, mas que se pode alterar com o
tempo. E é sobre a construção, consolidação e propagação, de uma
imagem distorcida dos orientais que trataremos aqui.
Oriente em perspectiva: distanciamento e negação
No texto de André Bueno (2012) é destacada a importância do
Oriente e suas contribuições presentes em modas culturais. Sobre a
escolha de conhecer ou não, estudar ou não o Oriente e a Ásia, ele
questiona: “Poderemos considerar nosso conhecimento como
completo se deixarmos de conhecer culturas que representam mais
da metade do mundo?”. O Oriente não é homogêneo, assim como
não o é a Ásia, e levando essa heterogeneidade em conta, que nos é
passada como algo exótico- esquisito-, em lampejos;
displicentemente escolhidos como representantes e definidores da
cultura (de forma desconexa e descompromissada), cegam o
telespectador, que está convicto de fazer a junção correta dos
fragmentos que são a ele apresentados. No entanto, sugerir que
estudar essas culturas é algo simples, é desconsiderar os fatos.

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Ainda sobre André Bueno, no texto: “O problema em falar sobre o
‘oriente’ no Brasil”, o professor destaca a dificuldade tanto de
estudar como de publicar sobre o 'oriente’; sendo um desses
obstáculos para estudo e publicação, o método. As normas para
estudar o Oriente e a Ásia, não devem ser pautados no Ocidente,
nem tê-lo como base. As leituras sobre orientais e asiáticos devem
ser feitas dentro de pressupostos teóricos por eles produzidos. Como
exemplo, o professor utiliza o verbo ‘SER’ -caro aos gregos- e o
pensamento filosófico por eles desenvolvido, que define como o
homem se relaciona consigo mesmo e com os demais, mas que é
desconhecido pelos chineses, e que, consequentemente, não
influenciou sua visão de mundo. Um exemplo do Ocidente como
“padrão” foi a corrente historiográfica “acadêmica”, século XIX, que
tinha nos modelos da sua civilização, europeia, os medidores da
civilização asiática, desvalorizando os modelos ‘orientais’. Já a
corrente “esotérica”, no entanto, uma linha de estudo que idealizava
a Ásia, mas não tinha profundidade histórica, valorizou símbolos até
então desconhecidos pelo ocidente na busca de uma alternativa
espiritual ao capitalismo, e ao cristianismo, mas redundou em
estereótipos.
No texto de Krystal Urbano e Maria Elizabeth Pinto de Melo: “A
Representação dos Asiáticos na TV Brasileira: Apontamentos
Iniciais”; é discutido como são representados os asiáticos na mídia
de uma forma geral. Uma vez que as produções midiáticas são fruto
de estereótipo e não de reflexão, estudo e compreensão das diversas
etnias que ocupam os países que compõem o Oriente Médio e o
Extremo Oriente; essas produções têm sido, em sua maioria,
produtoras e reprodutoras de preconceitos contra ‘orientais’. Uma
das errôneas representações é a coadjuvância dos atores asiáticos
nos programas de TV brasileiros, sejam eles novelas, séries,
propagandas e afins. Mas mais que não ocupar papéis centrais nas
teledramaturgias nacionais, aos asiáticos é relegado papéis
diretamente ligados a estereótipos produzidos a seu respeito, como:
“feirantes e pasteleiros ou de aficionados por tecnologia, praticantes
de artes marciais e vendedores de sushi, gueixas e samurais”
(URBANO, MELO, 2018, pág. 3).
Também é criticado a substituição de atores orientais- para papéis
orientais- por atores caucasianos. Ao que tudo indica, os orientais
não têm condições de se auto representar; mas os caucasianos
seriam dotados da capacidade de ser o que bem entenderem, sendo

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melhores japoneses que os próprios japoneses, ou ainda melhores
indianos do que os próprios indianos; melhores que coreanos,
chineses e outros. Este princípio: de superioridade branca, é
chamada pelas autoras de: Branquitude. Branquitude essa que serve
como padrão do que é belo, aceitável e normal. Por isso, o homem
branco seria não só o padrão, mas o antônimo do que as culturas
não-brancas representam. Seriam o ápice da escala civilizacional.
Sobre isso, a “superioridade caucasiana”-branquitude-, é que
Edward Said trata em seu livro “Orientalismo: O Oriente como
invenção do Ocidente”. Seid, destaca o Oriente como invenção do
Ocidente, a fim de demonstrar as diferenças culturais, ex.: Orientais
seriam então, os não-brancos, não dotados de civilização e cultura.
Aquilo que é oposto ao Ocidente.
Oriente nos meios de comunicação: estereotipação e
reprodução
Sobre Whitewashing- escalação de atores brancos em papéis para
não-brancos (pertencentes de outras etnias)-, citado no texto de
Krystal Urbano e Maria Elizabeth Pinto de Melo, e retratada num
artigo de Carolina Moreno & Riley Arthur, para o HUFFPOST,
chama a atenção pelo título alarmante: “25 vezes que negros, latinos,
índios e asiáticos foram substituídos por brancos”. Alguns exemplos
das substituições citadas são: Katherine Hepburn, como Jade, no
Filme: A estirpe do Dragão (1944); Elizabeth Taylor como Cleópatra
no filme de mesmo nome, em 1963; e ainda, recentemente, Joseph
Fiennes como Michael Jackson, em: Elizabeth, Michael e Marlon,
em 2016. Apesar de este não ser um texto acadêmico, o conteúdo nos
é interessante. Abaixo, um exemplo não só de Whitewashing como
da estereotipação, seguida de produção e reprodução de estereótipos
através dos meios de difusão.

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A máscara de Fu Manchu
Wikipédia [ver Refs.]

Sax Rohmer- pseudônimo de Arthur Henry Sarsfield-, é apontado


pelo professor André Bueno, em seu texto: ‘O "insidioso doutor Fu
Manchu’ e a construção do orientalismo na literatura e no cinema”’,
como: “um dos maiores difamadores da cultura asiática,” graças as
representações deste em seus romances policiais - que
posteriormente se tornaram filmes-, e que perpetuaram a ideia dos
asiáticos, como: ‘amarelos malvados, astutos e perigosos’. Sendo
destes, o mais famoso vilão e produzido em série. Apesar dos
preconceitos expostos nos escritos de Sax Rohmer, o professor
Bueno leva em conta a literatura como formadora de opinião, além
de considerar seu valor histórico. Com lançamento em 1932, o
filme: The Mask of Fu Manchu, traduzindo: A Máscara de Fu
Manchu, foi considerado um clássico do cinema. Basicamente, o
filme gira em torno da busca pela espada e máscara de Genghis
Khan (Mongol), que atribui poderes mágicos se posta nas mãos de
Shiva (Indiano) e para evitá-lo, uma expedição inglesa busca pela
máscara e espadas, antes que estas sejam encontradas pelo vilão: o
cientista chinês (Manchu).
O vilão, interpretado por Boris Karloff - assim como todo o elenco é
caucasiano, inclusive a filha do vilão, que representa uma mulher de
ascendência asiática, é um cientista formado nas academias
europeias- perigosamente “bem” instruído- que quer destruir o
mundo. Homem culto, poliglota, aficionado por ciências extra-
acadêmicas e cercado por assassinos (os “sifans”: manchus e
chineses, além dos indianos: Dacoits e os Tughis) que estavam
geográfica e linguisticamente separados, mas que no filme, lutavam

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lado a lado pela causa de Fu Manchu. Já o herói: o agente britânico
Nayland Smith (que é uma “cópia”, de acordo com o professor, de
Sherlock Holmes) impediria a destruição do mundo frustrando
seguidamente os planos de Fu Manchu.
Outro caso, recentemente discutido, é o da estereotipação do
personagem indiano Apu Nahasapeemapetilon do desenho “Os
Simpsons”:

wikipédia [ver Refs.]

Semelhante a discussão apresentada no Blog “Nó de oito”, onde Lara


Vascouto discute quatro estereótipos sobre asiáticos que Hollywood
“ensinou”, o retrato que pintam sobre os asiáticos vem sendo
problematizado na série “Os Simpsons”. A série vem retratando Apu
como “o dono da venda, de fala engraçada”. O personagem, vive
exposto a constrangimentos por sua inadequação social. Com muitos
filhos, é retratado como “sovina” (o que influencia na qualidade de
produtos estocados, geralmente vencidos, já que Apu não os troca
para economizar). O problema da representação promovida pelos
Simpsons, do personagem Apu , gerou uma onda de críticas por
parte dos telespectadores e atores asiáticos que se viram mal
representados, e mais, vítimas de preconceitos constantes por conta
da estereotipação. Em 2017, foi lançado um documentário

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intitulado: “The Problem With Apu”, com Hari Kondabolu,
disponível no YouTube. Posteriormente, “Os Simpsons” fizeram um
episódio- considerado pelos sabedores do problema como uma
retratação- onde Marge e Lisa Simpson refletem sobre as mudanças
do mundo, e não na mais naturalização de comportamentos
preconceituosos.
Conclusão
A Balança não está de forma alguma equilibrada e o preconceito
com/sobre Orientais ainda é muito presente. Mesmo assim,
documentários, como “O problema com Apu”, e a mobilização pelos
atores asiáticos de Hollywood, promove a desnaturalização dos
estereótipos. Isso já é um começo. No entanto, um lugar de
transformação genuína é a universidade, e esta é de extrema
importância para o combate das deformações históricas sobre o
Oriente socialmente difundidas e naturalizadas. Apesar disso- da
proeminência da universidade-, para nossa surpresa e decepção, o
professor André Bueno, no texto já citado: “O Problema de se falar
sobre 'Oriente' no Brasil”, trata da problemática que é ser
orientalista. Não porque a mídia é um empecilho, mas a própria
academia. Os motivos: A falta de cursos que foquem a temática do
Oriente; o orientalismo presente na metodologia ‘aceitável’ para
pesquisa e produção acadêmica, que não se adequa aos sujeitos à
que se propõe estudar; a falta de professores preparados para avaliar
produções acadêmicas sobre o Oriente nas bancas avaliativas- o que
impede a produção desses textos-, e consequentemente, mina a
circulação de informações epistemológicas sobre a temática, estão
entre os problemas de falar sobre o Oriente.
Se as Universidades não produzem conhecimento a respeito dos
orientais e por consequência, não reproduzem; se a academia
inviabiliza a reprodução do conhecimento. Em suma: se não há
cursos para instruir, professores para ensinar, corrigir e avaliar, as
emissoras teriam a responsabilidade de produzir uma imagem
fidedigna e não estereotipada dos orientais? É preciso representar
sem estereotipar, no entanto, é possível não representar uma cultura
fora do lugar-comum sem conhecê-la? Voltamos à questão inicial do
texto apontada pelo professor André Bueno: “Poderemos considerar
nosso conhecimento como completo se deixarmos de conhecer
culturas que representam mais da metade do mundo?”.

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Referências
Jéssica Pereira Couto - Graduanda de licenciatura em História-
UNIRIO
Imagens:
APU NAHASAPEEMAPETILON. In: WIKIPÉDIA, a enciclopédia
livre. Flórida: Wikimedia Foundation, 2019. Disponível em:
<https://pt.wikipedia.org/w/index.php?title=Apu_Nahasapeemape
tilon&oldid=54614693>. Acesso em: 5 jul. 2019.
THE MASK OF FU MANCHU. In: WIKIPÉDIA, a enciclopédia livre.
Flórida: Wikimedia Foundation, 2019. Disponível
em:<https://en.wikipedia.org/wiki/The_Mask_of_Fu_Manchu>.
Acesso em: 5 Jul. 2019.
Vídeos:
The Mysterious Dr. Fu Manchu (1929). [S.I.:s.n], 2016, 1 vídeo
(1:20:43). Publicado pelo canal Glenn Eric. Disponível
em:<https://www.youtube.com/watch?v=34fflKLxumg>. Acesso
em: 18 de Fev.2019.
The Problem With Apu with Hari Kondabolu. [S.I.:s.n], 2018, 1
vídeo (27:14). Publicado pelo canal: University of California
Television
(UCTV):.<https://www.youtube.com/watch?v=ZTC0P8dLSLg>.
Acesso em: 18 de Fev.2019.
The Simpsons: Marge and Lisa's TERRIBLE Response to the Apu
Controversy. [S.I.:s.n], 2018, 1 video (0:14s). Publicado pelo canal
JaysonYT. Disponível em:
<https://www.youtube.com/watch?v=_NftCjsmvK8>. Acesso em:
18 de Fev.2019.
Textos:
BUENO, André da Silva: O extremo oriente na Antiguidade/André
da Silva Bueno – Rio de Janeiro: Fundação CECIERJ, 2012. 170 p.;
19 x 26,5 cm. ISBN: 978-85-7648-808-8 1. História chinesa. 2.
História asiática 3. História oriental. 4. Orientalismo. I. Título.
BUENO, André da Silva. O "insidioso doutor Fumanchu" e a
construção do orientalismo na literatura e no cinema. Revista: Sobre
Ontens, 2015. Disponível em:

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