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ESCOLA SECUNDÁRIA CACILHAS-TEJO

Rui Ramos in História de Portugal, (Rui Ramoscoord.), A Esfera dos Livros, 4ª edição, Lisboa, 2010, pp. 627-661.

Capítulo VIII SALAZAR E A «REVOLUÇÃO NACIONAL» (1926-1945)
No Verão de 1932, a República Portuguesa teve novamente um chefe de Governo civil: António de Oliveira Salazar. Era um jovem professor da Universidade de Coimbra, ministro das Finanças desde 1928. Com Salazar, ia começar o «Estado Novo», «nacionalista», «autoritário» e «corporativo»: um regime assente numa chefia pessoal do Estado, no monopólio da actividade política legal por uma organização cívica de apoio ao Governo, e na articulação do Estado com associações socio-profissionais e locais, as quais se esperava que viessem a estruturar toda a sociedade. A propósito, o escritor Fernando Pessoa fez uns versos satíricos: «Sim, isto é um Estado Novo! Pois é um estado de coisas!Que nunca antes se viu». Mas lembrava o que se via então pelo mundo inteiro, numa época em que, como notou Paul Valéry, «a ditadura se tornou tão contagiosa como era antigamente a liberdade». Também o Brasil, nesta época, teve um «Estado Novo» (1933-1945), e não só no nome parecido com o português1.
1 Para

uma introdução a Salazar e ao s alazarismo, ver as sínteses de Manuel de Lucena e de António Barreto, «António de Oliveira Salazar», em M. F. Mónica e A. Barreto (orgs.), Dicionário de História de Portugal ² Suplemento, Porto, 2000, vol. IX, pp. 283-390; Manuel Braga da Cruz, «Notas para uma caracterização política do salazarismo¶>, em Análise Social, n.0¶ 72-74, 1982, pp. 773-794; Fernando

Rosas, «Salazar», em F. Rosas e J. M. Brandão de Brito (orgs.), Dicionário de História do Estado Novo, Lisboa, 1996, vol. II; Hermínio Martins, Classe, Status e Poder e outros Ensaios sobre o Portugal Contemporâneo, Lisboa, 1998, pp. 19-51; Jaime Nogueira Pinto, António de Oliveira Salazar: o Outro Retrato, Lisboa, 2007; Vasco Pulido Valente, Portugal. Ensaios de História e de Política, Lisboa, 2009. Os estudos académicos sobre o regime salazarista são discutidos em António Costa Pinto, O Salazarismo e o Fascismo Europeu. Problemas de Interpretação nas Ciências Sociais, Lisboa, 1992, e Luís Reis Torgal, «Sobre a História do Estado Novo: Fontes, bibliografia, áreas de abordagem e problemas metodológicos», em Revista de História das Ideias, vol. 14, 1992, pp. 529-554.

A ascensão de Salazar (1926-1932)
Filho de uma família de agricultores de Santa Comba Dão (distrito de Viseu), Salazar não foi o primeiro «pobre, filho de pobres», como gostava de lembrar, que chegou à chefia do governo: a Igreja, a universidade e a política já haviam demonstrado serem capazes de dar oportunidade ao
talento independentemente da origem social. Mas Salazar foi o primeiro chefe de Governo, desde 1834, que não estava identificado com as correntes de opinião liberais ou republicanas. Era um antigo seminarista e um militante do Centro Católico Português, do qual chegara a ser deputado em 1921. Embora leigo, levava a vida doméstica típica de um sacerdote solteiro, partilhando a casa em Coimbra com outros padres. Como chegou ao topo? Ministro das Finanças pela primeira vez a 3 de Junho de 1926, logo a seguir à revolução, não durou duas semanas. Voltou passados quase dois anos, a 27 de Abril de 1928, um mês depois da eleição do general Carmona como presidente da República. Reconheceram-lhe então o direito de veto sobre todos os aumentos de despesa. Não era um sinal da sua ascendência política, mas do desespero financeiro dos chefes militares, perante um défice mais alto do que a média de 19241926 e sobretudo perante o fracasso do empréstimo externo em que o general Sinel de Cordes, antecessor de Salazar na pasta das Finanças, apostara para resolver as dificuldades. Como seria de esperar, a imprensa da «situação» promoveu Salazar como uma «competência» olímpica
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mas não era necessariamente o começo do seu predomínio, apenas uma tentativa de credibilizar a nova gerência financeira. Cortando despesas e agravando impostos, chegou a um superavit. Mas um ano depois, em Julho de 1929, ei-lo a demitir-se novamente. Encontrava-se então no hospital, depois de partir a perna ao escorregar num tapete do ministério. Nada foi fácil. Como ele próprio lembrou depois, ninguém lhe reservara um grande papel: «no fundo, o 28 de Maio era destinado a tirar o poder [ao Partido Republicano Português] e a entregá-lo aos partidários de Cunha Leal» 2.
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2 Franco

Nogueira, Um Político Confessa-se (Diário, 1960-1968), Porto, 1986,

p. 179.

A ele, tratavam-no como um «técnico», que vinha consertar a máquina, e «não como um político» 3.
3 Marcelo Caetano, Minhas Memórias de Salazar, Lisboa, 1977, p. 32.

Nada, porém, o favoreceu tanto como ser subestimado. O referido Francisco Pinto Cunha Leal, ex-chefe de Governo da direita republicana, expusera-se em todos os debates: arranjara fama, mas também ódios. Tinha um partido, mas por isso mesmo havia o risco de monopolizar o Estado com as suas clientelas. Salazar, muito reservado, discursara nuns congressos católicos e escrevera nos jornais, mas sempre de um ponto de vista doutrinário ou técnico. Não era uma figura imponente. Aos 39 anos, magríssimo, tinha um ar solene e crispado, de «bispo anglicano» e uma voz «débil e ligeiramente ciciante». Nunca perdeu o sotaque beirão 4.
4 Luís Cabral de Moncada, Memórias, Lisboa, 1992, p. 126.

Costumava preocupar os amigos com as suas enxaquecas e depressões. Em 1926, tinha sido Cunha Leal a lembrá-lo para ministro. Em 1929, elogiou-o publicamente na Sociedade das Nações. Nunca lhe deve ter passado pela cabeça estar a lançar um rival. Salazar contou com a hierarquia da Igreja, que seria chefiada desde 1930 por um seu amigo íntimo, o cardeal Manuel Gonçalves Cerejeira, e com os activistas leigos dos movimentos católicos 5.
5 Manuel Braga da Cruz, A Democracia-Cristã e as Origens do Salazarismo, Lisboa, 1980; do mesmo autor, «As elites católicas nos primórdios do salazarismo», em Análise Social, n.° 116-117, 1992, pp. 547-574; Arnaldo Madureira, A Igreja Católica na Origem do Estado Novo, Lisboa, 2006.

Essa ligação tornou-o interessante para a Ditadura Militar, empenhada em conciliar os católicos. Mas os bispos não desejavam correr riscos políticos nem tinham força para, só por si, o imporem. Como se viu no caso da portaria sobre o toque dos sinos das igrejas, em 1929, Salazar estava consciente de que não se podia sustentar simplesmente num partido católico. Nunca se apresentou como representante dos católicos e da Igreja, pelo contrário: em 1932, diria: «Os católicos foram absolutamente estranhos à minha entrada no Governo, como têm sido absolutamente estranhos a todos os meus actos políticos.» 6
6 António

Ferro, Salazar. O Homem e a Sua Obra, Lisboa, 1982, p. 85.

Com efeito, os católicos seriam apenas mais uma corrente, entre outras, a competir por influência dentro da «situação». Quanto ao exército, entre 1928 e 1930, chefes do governo como os generais Vicente de Freitas e Ivens Ferraz nem sempre lhe foram favoráveis. Salazar chegou a ter entrevistas cortadas pela censura e a correspondência violada pela polícia política 7.
7 Assis Gonçalves, Intimidades de Salazar, Lisboa, 1971, pp. 155, 168.

Só em 1930, com o general Domingos Oliveira, deixou de sofrer essa pressão directa. É verdade que o presidente Carmona lhe valeu repetidamente. Mas foi também Carmona quem se opôs durante muito tempo à sua promoção a chefe do Governo, o que só acabou por fazer «não sem sérias hesitações» 8.
8 Cunha

Leal, As Minhas Memórias, Lisboa, 1968, vol. III, p. 164.

Como Salazar reflectiu mais tarde: «Nunca tive a certeza de que, durante a maior parte do tempo em que trabalhámos juntos, Carmona estivesse comigo. Estou mesmo convencido de que não estava comigo na maior parte desse tempo.» 9
9 Franco Nogueira, Um Político Confessa-se (Diário, 1960-1968), Porto, 1986, p. 179

Sem Carmona ou a Igreja, Salazar não teria chegado onde chegou, mas a sua ascensão não foi uma mera questão de patrocínios institucionais. Dependeu da sua habilidade para jogar um xadrez político muito rebuscado. A Ditadura Militar foi sempre um aglomerado heterogéneo de personalidades e grupos que só tinham em comum a rejeição da esquerda republicana: uns eram monárquicos e outros republicanos; uns

e os chamados «sovietes» de jovens oficiais da guarnição de Lisboa. Não era generosidade. No exército. essa pluralidade reflectia-se na tensão entre os generais. Entre os seus colaboradores. Salazar dependeu da sua habilidade para manter equilíbrios. quando Cunha Leal o tentou comprometer com uma crise em Angola 11. Franco dispôs de uma soberania ilimitada nas suas competências e indefinida no tempo. Depois desfez-se dele. A sua atenção aos pormenores e memória espantosa impressionavam toda a gente. 1977. ² 16 Marcelo Caetano. vol. ficou dias sem conseguir substitui lo.° 5. com as várias correntes: até fez questão de «contar os ministros pelas cores que publicamente lhes eram atribuídas» 13. Angola. O general Carmona. Matosinhos. que o tentavam convencer e manipular. O tipo de educação que recebera numa Igreja em adaptação à modernidade (através do ralliement e da doutrina social) preparou-o para ser intransigente nos princípios e flexível nas formas. tocados pelo Integralismo Lusitano. e não o devemos perder. o cuidado maior era «manter o equilíbrio das forças da ditadura» 14. 1995. os «rapazes mexiam-se»: «tenho força de mais. Minhas Memórias de Salazar. como notou o seu secretário. 10 Mário de Figueiredo. 486. 12 Cunha Leal. pois a cadeira de Economia Política era um dos requisitos dos cursos do Estado-Maior. 2008. de modo que as questões comigo só se resolvem com sangue» 10. mas falava com muita gente. 11 Fernando Tavares Pimenta. Em 1929. Fez da ambiguidade uma arte. de formar um governo «nacional». encabeçada pelo médico Bissaia Barreto. da Comissão do Livro Negro sobre o Regime Fascista. 34. p. Eram rapazes iconoclastas. Em 1932. Desde Setembro de 1936. p. com os quais formou a sua própria corte republicana. n. Os «tenentes de Maio» ressentiram -se com esta sombra da velha república. e sobretudo «ouvia muito». se os velhos generais o despedissem. Salazar teve a preocupação. Lisboa. pp. geralmente republicanos. 15 Manuel de Lucena. 1968. ed. O Regime Salazarista e a Sua Evolução. III. Em 1929. importante figura da Maçonaria. 14 Cartas e Relatórios de Quirino de Jesus a Oliveira Salazar. deu a chave do sistema: «O equilíbrio tem sido a nossa força. Lisboa. n. os «tenentes de Maio». numa entrevista em 1934.» 17 . como um monarca absoluto. p.° 178. 203. Alguns deles tinham sido seus alunos em Coimbra. em Estudos. Teve de aceitar um general republicano imposto pelos comandos militares de Lisboa. mas necessidade. em Análise Social. como notaram os seus colaboradores. p. As Minhas Memórias.católicos e outros maçons. Diário. «A voz dos sinos: O diário de Mário de Figueiredo sobre a crise política de 1929». Mas também demorava a tomar decisões e. mas reteve os seus seguidores. de diferentes interesses e orientações. transcrito em Fátima Patriarca. «de paz». e que ele ia convencendo e manipulando. 1987. Nunca fazia cenas nunca se expunha. Apreciaram em Salazar a sua irreverência perante o passado liberal e republicano. 2006. sem interromper os interlocutores 15. arbitrar entre a esquerda e a direita da ditadura 12. Salazar nunca esteve na posição que viria a ser a do general Franco em Espanha. especialmente os do Núcleo Militar de Campolide. os Brancos e a Independência. 30. tinha como chefe de gabinete um «republicano moderado» e como secretário pessoal um tenente «integralista». pediu a colaboração de Cunha Leal. ajudado pela «privatização» da luta política. Em 1932. p. parecia frequentemente «irresoluto» 16. Lisboa. a partir de uma «posição central». Notas Manuscritas. 153 -158. mas a mistura deu a Salazar o trunfo que o próprio Cunha Leal lhe reconheceu: a capacidade de. 307. Raramente aparecia em público. 2005. 185. Revista do Centro Académico de Democracia-Cristã. Porto. «Diário de Leal Marques sobre a formação do primeiro governo de Salazar>. Mas Salazar não se ficou por aqui. que detestavam a «política velha» e desconfiavam dos generais. perante rumores de que o ministro da Guerra queria dar um golpe de Estado. Rodeou-se de personalidades e de grupos contrários uns aos outros. 193. transcritas em Rita Almeida Carvalho e António Araújo. 13 Leal Marques. A limitação do seu mandato ficou à vista quando. que a ditadura fez passar do parlamento para os gabinetes. era capaz de envolver e seduzir em privado. Salazar contou com estes «rapazes». Frio e baço em público. pp. Salazar notou a um amigo que.

A Lei de Salazar. Cortar-se-ia assim com a cultura e as instituições que tinham permitido às esquerdas republicanas entrar na área do poder. A 28 de Maio de 1932. Os elementos propriamente políticos eram os mesmos de sempre: um chefe de Estado. 2000. até porque os governos republicanos já tinham feito muito do trabalho. e a crise não afectou Portugal como outros países europeus mas também política. General Carmona ao Jornalista António Ferro. Mantinham-se a separação republicana da Igreja e do Estado e a enumeração liberal dos direitos e liberdades. confirmava os receios de qualquer «situacionista». era aceite pelo próprio «reviralho». a solução er a óbvia: instaurar uma monarquia absoluta. mais uma vez patente nos golpes de 1931 na Madeira e em Lisboa. era improvável que conseguissem resistir ao regresso das esquerdas ao poder. não se recorrendo a fórmulas neutras como a do futuro «Estado espanhol» de Franco. colaborara com a esquerda republicana antes de 1926 19. o autoritarismo não. Mas se a monarquia e o Catolicismo dividiam. Deste modo. em Análise Social. já se notava antes de 1926. 2006. Conservar-se-iam a bandeira. Coimbra. a serem representados numa Câmara Corporativa. em Abril de 1931. um Governo e um parlamento definidos e articulados de modo a estabelecer uma espécie de monarquia constitucional. o Catolicismo fosse a religião do Estado e a representação política da nação se fizesse através das famílias.17 António Ferro. confessional e corporativa. deu ideia do que seria uma «II República» em Portugal. A ideia de um governo «forte». através de decretos-leis ao abrigo de autorizações legislativas. 19 Ver Rui Ramos. 1049-1072. 2007. o Governo publicou um projecto de Constituição. A insistência dos «reviralhistas» em recuperar o poder pela força.° 153. ² ² Para as direitas mais radicais. «Diário de Leal Marques sobre a formação do primeiro governo de Salazar». 209. «O fim da República». Tal como o rei. porém. o presidente não governava e todos os seus actos tinham de ser referendados pelo chefe do Governo. com as suas queimas de igrejas e o saneamento do exército. um dos mais íntimos conselheiros de Salazar nesta época. que só tinha uma câmara (a Assembleia Nacional). p. com as esquerdas republicanas. O exercício autoritário do poder executivo. Mesmo os que estavam ideologicamente mais próximos encontravam-se separados por querelas doutrinárias ou pessoais. como em 1919. n. que dispunha de um Conselho de Estado como órgão consultivo. transcrito em Fátima Patriarca. num regime pluripartidário. Não por acaso. bem como os princípios da igualdade de todos os cidadãos perante a lei. preparado por Salazar e pelos seus colaboradores e discutido no Conselho de Ministros e no Conselho Político Nacional 20. 1934. Quirino de Jesus. em que o governo pertencesse ao rei. destinada a dar pareceres sobre projectosleis. 19. O seu relatório inicial chamava a atenção para o «eclectismo» e «empirismo» da proposta. em Análise Social. sobretudo as de raiz integralista. associações e municípios. pp. Se a Ditadura Militar acabasse. Mas a grande questão que se colocava à Ditadura Militar não era apenas socio-económica ou financeira as finanças foram saneadas rapidamente. Os «situacionistas» não eram suficientemente coesos para formar um partido capaz de competir. Salazar seguiu sempre a «opinião geral» de que qualquer governo que tentasse essa radicalização «não durava uma semana» 18. n. o presidente. em que o lugar do rei era ocupado por um presidente da República eleito por sufrágio directo e individual para um mandato de sete anos. Havia uma novidade: previase associar os portugueses em vários organismos locais e socio-profissionais. Declaração do Sr. A designação oficial do regime continuaria a ser a de «República Portuguesa». Havia. 20 Ver António Araújo. o chefe do Governo era o único responsável pela ² .° 178. o hino e os feriados escolhidos pelo governo provisório em 1910. 18 Leal Marques. Mas essa câmara seria apenas consultiva. divisão de poderes e independência dos magistrados. p. A fórmula política do «Estado Novo» O triunfo de Salazar é geralmente associado ao saneamento financeiro e à coordenação de interesses sociais e económicos perante a crise mundial de 1929-1931. Mas a II República em Espanha. Diário. Lisboa. um senão: um regime desses alienaria os republicanos que sustentavam a Ditadura Militar. nomeava e exonerava livremente o chefe do Governo e podia dissolver ou interromper o parlamento. Também tal como o rei. livre de chicanas parlamentares e com o direito e o dever de «intervir» na sociedade e na economia.

Os Tempos Áureos (1928-1936). Lisboa. as regras de nomeação. . 133. Na prática. 21 J M. Aliás. o presidente da República permanece a pedra angular do regime¶ 22. em Julho de 1932. e reservou a actividade política legal a uma associação cívica. chamada União Nacional (UN) . o sistema eleitoral definido em 1934 afastou a possibilidade de representação de minorias. Salazar notava: «bastará dizer-lhe que os directores-gerais dos ministérios. vol. incluindo até mulheres em certas condições. mas ressalvou as preferências e expectativas de todos os situacionistas. promoção e transferência de juizes impediam surpresas por esse lado. por exemplo. mas só respondia perante o presidente. Em 1932. os ministérios do Interior. o que poupou a muita gente ter de definir qualquer posição. com pouquíssimas excepções. Lisboa. Haveria um círculo único nacional. era apenas um órgão de debate político. que até reconhecia «o direito de resistência às ordens que violem as garantias individuais». ² 22 Marcelo Caetano. 1982. Além de Salazar. como durante a Ditadura Militar. nota 1. a separação da Igreja e do Estado. Muitas das notabilidades dos velhos partidos republicanos puderam assim adaptar-se discretamente à nova situação. eleita cada quatro anos por sufrágio directo. «sem carácter de partido e independente do Estado» (estatutos aprovados em Agosto de 1932). manifestarem e tomarem o poder. 118. por vezes em direcções divergentes. o regime esteve sempre em evolução. Os católicos continuavam com o statu quo alcançado nos últimos anos do domínio do PRP. Tavares Castilho. Entre 1932 e 1936. mas pela própria Assembleia Nacional. da Guerra e dos Negócios Estrangeiros mudaram de responsável quatro vezes. tudo isto servia para fazer Salazar depender unicamente de Carmona. são os mesmos de antes do 28 de Maio» 23. De facto. apesar dos juramentos políticos. o governo não corria o risco de ser contestado por magistrados mais liberais. p. duas vezes. na Justiça. 2009. mas ainda assim restrito. sem filhos. p. que no futuro poderia vir a englobar a nação e dispensar outras formas de representação. Coimbra. Salazar. Os monárquicos podiam consolar-se com um presidente da República que era quase um rei. Finalmente. A Assembleia Nacional. 128. só outro ministro se manteve: Manuel Rodrigues. Manuel II em Londres. viria a funcionar 46 dias por ano) 21. três vezes. 24 Franco Nogueira. A célebre estabilidade governativa nunca existiu. o sufrágio era mais alargado do que sob o domínio do PRP. Coimbra. com 90 lugares. deixou o exilado Afonso Costa. o Governo foi mais longe: até 1935. 1952. Os Deputados da Assembleia Nacional. Quanto às eleições. usufruir do lugar de consultor jurídico da Companhia dos Diamantes de Angola 24. e um parlamento. os das Colónias e do Comércio. Salazar. Os inimigos do regime nunca poderiam aproveitar as suas instituições para se organizarem. Evoluções do equilíbrio político (1932-1939) Seria um erro imaginar o Estado Novo como a realização progressiva e linear de um modelo previamente definido por Salazar. que discutia e votava as leis e o orçamento propostos pelo Governo (nas décadas seguintes. ii. Assente em equilíbrios instáveis. edição. fez reuniões e associações dependerem de autorização do Governo. a qual instituiu a censura prévia à imprensa. p. A morte do rei D. permitiu a Salazar dar por encerrada a questão do regime. p. A Constituição fechou a possibilidade de um regresso à ordem anterior a 1926. funcionários públicos e militares. Os integralistas ficavam com a organização corporativa. e os das Obras Públicas e da Instrução. 23 António Ferro. e que talvez um dia pudesse ser substituído por um rei. Os «republicanos moderados» tinham a república. 314. sendo eleitos os nomes da lista mais votada. 2. Nestas remodelações. No caso da Assembleia Nacional. A Constituição de 1933. 1977. transparecem incessantes malabarismos com correntes políticas e personalidades. mas na legislação reguladora das liberdades. apesar da sua propaganda oposicionista. não foram obrigados a inscrever-se na UN. 1935-1974. O Homem e a Sua Obra. Como a inconstitucionalidade das leis não era julgada por um tribunal especial.governação. O chefe do Governo era o «verdadeiro e efectivo detentor do poder» mas do «ponto de vista formal. O condicionamento da vida pública não estava na Constituição.

mais rural e então com menos aderentes (20 mil) 30‡ 30 António Costa Pinto. tanto de jovens oficiais radicais. 1931-1939. Lisboa. a 5 de Julho de 1932. claramente a segunda figura do Governo depois de Salazar. o que deve ser entendido. Os nacionais-sindicalistas aproveitaram simpatias no exército. ² 28 Arnaldo Madureira. Salazar apareceu rodeado pelos ministros Albino dos Reis (Interior). Dois factores vieram perturbar os equilíbrios políticos. Tratava-se de um movimento juvenil (36 por cento dos dirigentes nacionais e distritais eram estudantes). Manuel Rodrigues. Foi o amparo militar que deixou o nacional-sindicalismo desafiar um Governo que. A embaixada francesa identificava-o como «de tendência republicana liberal» 26. não no sentido de uma abertura à oposição. 1914 -1945. A Formação Histórica do Salazarismo. acima de tudo. Lisboa. Lisboa. formavam o que um correspondente de Salazar em Dezembro desse ano. um «Estado essencial . Marcelo Caetano escreveu nas suas memórias que. Os Camisas-Azuis. aliás. O regime soube. 1981. e portanto «incompatível por natureza com o génio da nossa civilização cristã». i. ² . 169. «admito até que os propósitos de Salazar fossem liberalizantes» 27 27 Marcelo Caetano. 73. O Comportamento Político dos Militares. nesta época. Com o ministro das Colónias. Ideologia. 75. pela entrada no regime 28. Lisboa. estavam interessados em limitar Salazar. Inventara ainda. Relatórios para Oliveira Salazar. 29 António Araújo. p. com o respectivo bigode hitleriano. Entretanto. O primeiro foi a ascensão de Hitler na Alemanha entre 1932 e 1933. em Lisboa. Albino dos Reis caiu em Julho de 1933. p. presidiu à comissão nomeada a 14 de Fevereiro de 1933 para redigir o texto final da Constituição. que excitou os simpatizantes portugueses do fascismo. p. A Lei de Salazar. com os velhos integralistas a exigirem a Salazar que denunciasse «o limite odioso» que a Maçonaria supostamente lhe impusera 29. cd. embora republicanos. recomendava que em vez do «reviralho». 27. esclareceu: «é preciso afastar de nós o impulso tendente à formação do que poderia chamar-se o Estado totalitário». 70. Representavam «o êxodo» dos que tinham «um temperamento de acção com maiores tendências para as direitas» 31. a 26 de Maio de 1934. contou outro factor: a continuada influência de uma oficialidade politizada.Na sua posse como chefe de Governo. optassem pelo «penetralho». Armindo Monteiro. Não por acaso. Esta evolução provocou uma reacção ácida por parte das correntes de direita. muito patrocinada pelo Secretariado da Propaganda Nacional (também criado no mesmo ano). para dar escoamento oficial ao fascismo juvenil mas que nunca chegou a ter mais do que 2000 filiados 32. como de alguns oficiais superiores que. 2004. 2007. Coimbra. tipicamente fascista («anticapitalista» e «antiburguês») e com uma boa adesão (30 mil filiados). da Comissão do Livro Negro sobre o Regime Fascista.mente pagão». perante uma União Nacional muito mais velha. Forças Armadas e Regime Político em Po rtugal no Século Xx. substituído por um militar. isto é. antes de 1936. explorar a linguagem do civismo e da «regeneração nacional» herdada de liberais e republicanos. atraiu à União Nacional bastantes influentes da antiga direita republicana. E tiveram de facto uma presença significativa entre os filiados da União Nacional com passado político. Mas. especialmente no Norte. Lisboa. 31 Assis Gonçalves. Mas Salazar deu luta. Lisboa. Elites e Movimentos Fascistas em Portugal. a quem o amigo de Salazar. Bissaia Barreto. A Construção do Mito. 26 José Medeiros Ferreira. 280. p. mas da inclusão dos republicanos moderados. Reconhecíveis pelas camisas azuis e cruzes de Cristo. 1992. Salazar. Francisco Rolão Preto (39 anos). 1977. No 1 Congresso da UN. no fim de 1933. 2000. Minhas Memórias de Salazar. conseguiu dividir os nacionais-sindicalistas e atingir a relação de forças conveniente para banir o partido de Rolão Preto a 29 de Julho. vol. 25 Helena Matos. descrevia como o «núcleo central» 25. p. os nacionais-sindicalistas encheram banquetes. Manuel Rodrigues (Justiça) e Duarte Pacheco (Obras Públicas). p. comícios e marchas com estudantes e operários. a Acção Escolar Vanguarda. Por isso. Apareceu um movimento nacional-sindicalista liderado por um antigo integralista. 1994. todos republicanos.

o que parecia justificar a reorganização e rearmamento do exército. 1994. p. Duarte Pacheco saiu do Governo. Talvez por isso. Pedro Teotónio Pereira. 1988. 162. Entre 1931 e 1933.. no entanto. forçou-o a recuar. 422. Lisboa. 1992. Carmona não o abandonou 38. ir até onde quis. A Ditadura Militar Portuguesa. passados à reserva. tentava finalmente impor-se ao exército. sobretudo. Em Janeiro de 1938. 2004. Maria Carrilho. Lisboa. Esta evolução coincidiu com um novo rearranjo em Lisboa. p. em 1933. A 28 de Agosto de 1936. Lisboa. coincidiu com o predomínio dos «liberais» no Governo. um comício dos sindicatos nacionais no Campo Pequeno. 1914 -1945. Elites e Movimentos Fascistas em Portugal. Debaixo de Fogo! Salazar e as Forças Armadas (1935-1941). Salazar. As placas tectónicas dentro do regime continuaram a mover-se. Mas Salazar sabia que não tinham substituto para ele e que a guerra em Espanha dissuadia de aventuras. Os primeiros meses da guerra civil em Espanha geraram em Portugal um ambiente de exaltação. houve aumento de vencimentos e das possibilidades de promoção. aliás. Lisboa. Salazar livrou-se dos velhos oficiais republicanos. Salazar aproveitou as incertezas da balança de poder na Europa e. em Abril de 1933. Por isso. entretanto. a estreia de Teotónio no Governo. Actas do Colóquio da Faculdade de Letras de Lisboa. 1987. Os Camisas-Azuis. a embaixada inglesa concluía que «sem o apoio [de Carmona] a sua queda imediata seria inevitável» 37. 33 António Costa Pinto. ambas com camisas verdes e saudações . dissertação de doutoramento. 1926-1933. O Fascismo em Portugal. foi «o momento mais crítico da vida política de Salazar» 36. o caleidoscópio da conjuntura internacional. 60. No princípio de 1936. tendo a sua propaganda corporativista desempenhado um importante papel na contenção do nacionalsindicalismo 35. A 18 de Janeiro. p. 1998. A Relação Peninsular na Antecâmara da Guerra Civil de Espanha (1931-1936). com a redução dos efectivos militares e do número de oficiais e subalternos (menos 22 por cento). Lisboa. Para alguns. Em Março de 1936. pp. que passou a ser o mais baixo desde 1905. Da tróica republicana. A vitória das direitas espanholas. Teve a ajuda de jovens oficiais «tecnocratas» e «apolíticos» e explorou desentendimentos entre os oficiais-generais. conjugadas com uma certa hesitação inglesa. mas agora contrabalançado por Pedro Teotónio Pereira. Uma Biografia. descansou Lisboa. Foi assim que pôde nomear-se a si próprio ministro da Guerra (11 de Maio de 1936) e proceder à «reforma geral do exército». 189 -198. toda a gente parecia passar o dia a ouvir as emissões de rádio. 1985. jovem integralista. como representante dos oficiais de Lisboa. 299. onde o número de oficiais saltou de 1001 para 1906. Forças Armadas e Regiines Políticos em Portugal no Século XX. 2000. 1982. em Lisboa. 35 Fernando Martins. em AA. o general Domingos de Oliveira. as esquerdas. Tratava-se de sanear a oficialidade politizada. 38 Telmo Faria. Três anos antes. 37 Douglas Wheeler. provocou finalmente a fundação da milícia que os mais fascistas pediam há muito: a Legião Portuguesa (30 de Setembro de 1936). Lisboa. promovido a ministro do Comércio. É vora. pp. a II República espanhola pareceu uma base para as oposições republicanas 34. Memórias. Lisboa. José Medeiros Ferreira. que se acrescentou à Mocidade Portuguesa (19 de Maio de 1936). voltaram ao poder em Espanha (Fevereiro) e logo depois em França (Maio). VV. Salazar não pôde. «A Acção Escolar Vanguarda. O Comportamento Político dos Militares. todos os 18 generais eram novos. Lisboa. 229-258. como subsecretário de Estado das Corporações e Previdência Social. Forças Armadas e Mudança Política em Portugal no Século xx. da evolução política em Espanha. p. representara uma abertura à direita. porém. 34 Hipólito de la Torre Gómez. restava Manuel Rodrigues. unidas numa Frente Popular. Ideologia. 36 Costa Brochado. Em 1940. 1933 -1936<>. Os nacionais-sindicalistas integrados de modo nenhum «marcaram o regime» 33. seguindo. Em contrapartida.32 António Costa Pinto e Nuno Ribeiro. Em Lisboa. mas também dos jovens tenentes revolucionários do 28 de Maio.

53 mil membros. Em 1938. acabou por evoluir no sentido do escutismo (campismo. 1996. pp. » 42 42 Manuel Rodrigues. 1936-1944. desportos. Lisboa. 39 Mário Soares. Salazar. 161. o Estado Novo lembrava em muitos aspectos o Estado fascista italiano: o corporativismo. que «fazia tudo em função dele próprio e não queria saber nem de sistemas. Onde via uma ideia que lhe permitisse aumentar a influência num determinado momento.° 122. a União Nacional. 27-28. 1993. 2000. 1995. Milão. Lisboa. O Regime Salazarista e a Sua Evolução. n. 174. 39. «frio». um real «dinamismo fascista» 39. A Milícia do Estado Novo. Lisboa. até 1939. Lisboa. No entanto. Irene Pimentel. usava-a «não por ser integralista ou o contrário. não foram os fascistas que mais admiraram Salazar. Mas foi uma falsa partida. p. ² 40 Luís Nuno Rodrigues. dos quais 11 mil em Lisboa e 6400 no Porto. Mas. canto coral). e em Goffredo Adinolfi. As relações com congéneres alemãs e italianas também foram racionadas por causa da opinião católica (a pastoral colectiva dos bispos de 18 de Abril de 1938 alertava contra o «ídolo pagão de um estatismo totalitário») e por falta de meios financeiros 40. e em Maio seguinte Duarte Pacheco voltou ao Governo. Salazar em França. por exemplo. Não convenceu. 41 Philippe Schmitter. 264. 2007. «extremamente realista». Lisboa. mas porque lhe era útil 44. A Legião Portuguesa. só houve armas. nem de regimes. reduziu-se a uma força auxiliar do exército. mostraram qualquer renovação de pessoal a partir desses movimentos 41. pp. mas conservadores como José Maria Gil Robles. nem a Câmara Corporativa. Hitler e Franco. «A Mocidade Portuguesa nos anos 30: anteprojectos e instauração de uma organização paramilitar da juventude». 1999. Portugal: do Autoritarismo à Democracia. Portugal Amordaçado. Lisboa. chegou a enquadrar cerca de três quartos dos estudantes dos liceus. determinado em transformar a sociedade a partir de um movimento de massas um movimento que dominasse o Estado e fosse capaz de projectar líderes que não tivessem vindo das elites tradicionais ou ascendido pelas vias académica e profissional estabelecidas.romanas. nas ruas. Propaganda e consenso nel Portogallo salazarista (1932-1944). Salazar e os Fascistas. A Mocidade. 158. 249-263. A pesar da sua dimensão paramilitar. fardas e instrução para metade dos legionários. 184. A Mocidade Portuguesa Feminina. Ultrapassou mesmo. aliás sem armamento até ao fim de 1938 e depois desta data. Sentia-se. 1977. aqueles que se consideravam a si próprios verdadeiros fascistas. católico ou não». líder da Confederação Espanhola de Direitas Autónomas (1933). Problemas Sociais. 44 João Medina. Em vez disso. Estudos sobre Salazar e a Ditadura. «um homem sem ilusões». pp. escolas técnicas e colégios das cidades do litoral (uns 30 mil filiados). monárquico ou não. Lisboa. pp. Al confini dei fascismo. Sobre a reputação europeia de Salaz ar. em Manuel de Lucena. em números. 1974. Mas faltava a dinâmica revolucionária: a vontade de um chefe histriónico. à frente de uma autocracia das velhas classes médias 43. e até o acordo com a Igreja Católica. Lisboa. Para a direcção das milícias foram destacadas figuras da elite governamental. em Análise Social. por isso. Mas nem a Assembleia Nacional. havia um professor catedrático introvertido. mas pouco saiu desse meio. nem de ideias. em 1939-1942. Rolão Preto insistiu em que Salazar era simplesmente «um pragmático». em 1940. 1943. p. ver João Medina. as milícias com camisas de cor distintiva. Pedro Teotónio Pereira foi afastado com uma embaixada na Espanha nacionalista. Na Europa. a propaganda do «chefe» e do seu «pensamento». A Legião adquiriu. a não ser que lhe servissem de pedestal». 555-588. Em Dezembro de 1937. 1979. ² 43 A questão da relação entre o salazarismo e o fascismo é discu tida. «largamente ecléctico». e do mesmo autor. Matosinhos. 2007. nos seus artigos em O Século. tutelada pelo Ministério da Educação. Manuel Rodrigues continuava a insistir: «O Estado português não é totalitário. Simon Kuin. enquadrada por militares. .

das suas ilhas e das suas colónias. revelou um desejo de «mudar mentalidades». e Portugal teve de a seguir a 6 de Outubro. 48 António Ferro. A princípio. onde Massis teve de andar 20 metros para chegar à secretária. Mussolini 45 António de Oliveira Salazar. O comércio mundial caiu. Demasiado tarde. Ia assentar o Estado. . 211. não lhe deixou dúvidas acerca do futuro de Espanha: «a nova ordem política será necessariamente totalitária». rodeado por uma impressionante guarda moura. «anti-revolucionária». i. lentamente. pareceu est ar sobretudo a tentar corrigir desequilíbrios défice orçamental. ² Viver habitualmente» Em 1938. em toda a extensão territorial da sua Metrópole. alto. com um ar jovem. p. a 11 de Maio de 1931. fundamental para o acesso aos mercados de capitais internacionais 47. Em Roma. p. p. Franco. num discurso de 21 de Outubro de 1929. através da literatura. porque o investimento externo era reduzido e a maior parte dos produtores de pequena dimensão e voltados para o mercado interno. O Homem e a Sua Obra. 1982. da fraca possibilidade de modificar as coisas sociais». tanto como dirigiu. não acreditava na ideia do «Estado omnipotente». da etnografia. Lisboa. inflação. Convertibilidade Cambial. Recebeu Massis na discreta residência oficial de São Bento. definira a sua orientação como a de um «nacionalismo sólido. das artes. tinha objectivos simples: «aquilo que me proponho é fazer viver Portugal habitualmente».acolheu-o num imenso salão de trabalho. mas com uma elegância natural». dívida pública. o escritor francês Henri Massis visitou alguns dos ditadores europeus. depois do colapso da bolsa de Nova Iorque. 1995. mas no que chamou o «sentimento profundo da realidade objectiva da nação portuguesa. renegou o fado e até as comemorações históricas. no que ao escritor francês lembrou o modesto escritório de um reitor de liceu. A sua preocupação era «fazer baixar a febre política» no país e «reencontrar o equilíbrio. Salazar era de outra espécie. Acima de tudo. O seu modelo implícito era o que no século xix se atribuíra aos «ingleses». ² ² 47 Fernando Teixeira dos Santos. vol. «O último a aderir ao padrão -ouro.). Não tinha nada de uma «personagem ditatorial»: era «um homem magro. a Inglaterra desvalorizou a sua moeda. A 21 de Setembro. O decreto de 24 de Setembro de 1931. admitiu Salazar 48. « sem entusiasmo nem heroísmo». introduzia assim na política aquele conceito do país que começara a ganhar. Eichengreen e J. Conseguiu assim. prudente. 1961. Coimbra. Discursos. pp. um passadista. Julho-Setembro de 1931». Braga de Macedo. o ritmo habitual». Portugal sofreu menos do que outros países. «o soldado de Deus». Conferência Comemorativa do 140. Salazar desejava tornar os portugueses «modestos nas suas aspirações». bens e capitais. 1982. porém. Lisboa. não na «abstracção» de indivíduos desligados da sociedade e arrastados por ideias de transformação radical. Salazar. em 1932. Tencionava «proceder como a Natureza». Não era. Salazar. prático. da geografia e do turismo. através do aumento de impostos e das restrições à circulação internacional de pessoas. 231-249. em J. Para Portugal. Entre 1929 e 1931. «Viril e duro». Salazar. O Homem e a Sua Obra. Queria instituir uma «ditadura da inteligência». em todo o conjunto da sua população uma realidade histórica e uma realidade social» 45. «fazendo-os esperar resultados sérios apenas da lenta transformação das almas». Lisboa. vestido sobriamente. conciliador». regressar de jure ao «padrão-ouro». uma nova «realidade» para a classe média.° Aniversário da Adesão de Portugal ao Padrão-Ouro. Habilidosamente. e ao mesmo tempo ajudá-los a adoptar modos de vida sustentáveis. 143. No seu grande quartel-general de Burgos. B. Nas entrevistas a António Ferro para o Diário de Notícias. 34. A «missão» do líder era reconciliar os portugueses com essa «realidade». propunha uma «nova democracia». «O nosso atraso salvou-nos nesse ponto». 46 António Ferro. os Estados conseguiram tornar a «crise» financeira numa «depressão» económica. depreciação da moeda tendo como referência a economia mundial do século xix. porque inspirada pela consciência do «limitado poder de acção do homem. o «duce» definiu-lhe o fascismo como «o horror à vida confortável». foi arrastado. Reis (orgs. «pouco sentimental»: «eu faço uma política e uma administração bastante à inglesa» 46. Mas Salazar. que criou o Conselho Superior da Economia Nacional. o sinal de uma moeda estável. O «viver habitualmente» estava obviamente calculado para contrastar com o «viver perigosamente» de Mussolini.

4%. as suas primeiras manobras militares desde a Primeira Guerra Mundial. 1986. até 1939. em capitais. recuaram de 7. O exército teve. Era ainda um Estado que vivia de impostos sobre os consumos e gastava com dívida pública (18% entre 1928 e 1939). 103. apostou-se no ensino por professores sem diploma. xii de Oliveira Marques e Nova História de Portugal. 128. As receitas e as despesas do Estado. metade no rearmamento das Forças Armadas. p. Não era o fontismo.6% em 1950. Serrão (dir. pelo contrário. Lisboa. Salazar reconheceu. «Política económica. no Alentejo. e outra metade em infra-estruturas de transporte. Mas a baixa do serviço da dívida (tinha representado 22% entre 1920-1927) permitiu mais investimentos em obras públicas (de 15% para 17%). O Homem e a Sua Obra. 41-68. ii. referindo-se às «guerras de tarifas»: «Eu nunca julguei. 45-70.). «O chamado problema do analfabetismo: as políticas de escolarização e a persi stência do analfabetismo em Portugal (séculos xix e xx)».). Portugal e o Estado Novo (1930-1960). todos os orçamentos passaram a ter superavit. vol. «O método dos pobres: educação popular e alfabetização em Portugal (séculos xix e xx)». que diminuíra 5 pontos percentuais entre 1890 e 1911. por exemplo. 1992. pp.9% para 70. . comunicação. Significativamente. entre Lisboa e o novo Estádio Nacional (1944). Rosas (org. A Lei de Reconstituição Económica de 24 de Maio de 1935 previu investimentos de 8550 milhões de escudos em quinze anos. o que causou a desvalorização da moeda portuguesa.» 51 51 António Ferro. 49 49 Anabela Nunes e J. com receitas próprias. «Política económica. despesas sociais (de 3% para 4%) e educação (9%) 52. p. xii de Oliveira Marques e J. A taxa de analfabetismo. e a defesa (26%). Entretanto. Lisboa. Salazar. 1982. de 70. 341. M. O número de escolas primárias públicas cresceu de 7 mil em 1927 para 10 mil em 1940. Brandão de Brito. em Colóquio. em proporção do PIB. em E Rosas (org. Nova História de Portugal. ² ² 53 Rui Ramos. Começou a preparar a sua motorização e a aquisição de uma força aérea que não fosse apenas de desporto. os direitos alfandegários chegaram a 30% do valor das importações em 1936. «Portugal vai ver-se obrigado a dobrar-se sobre si próprio.). n. o que compensou a quebra das exportações e das remessas de emigrantes. Os Tempos Áureos (1928-1936). industrialização e crescimento».8%. Fernando Rosas. Portugal e o Estado Novo (1930-1960). Para acelerar a escolarização a custos baixos. 1992. o Plano dos Centenários previu uma nova expansão.7% em 1920-1926 para 5% em 1931-1935. sobretudo depois das restrições brasileiras à circulação de capitais em 1935. em F. a maioria (51%) dos portugueses foi recenseada como sabendo ler e escrever o que liberais e republicanos nunca tinham conseguido. p. 207. de 75. n. 1993. J. pela primeira vez. Em 1940. em Ler História.3%.8% para 40. ter de recorrer a medidas como certas que tenho adoptado ultimamente e que reconheço sem valor económico. Tudo desta vez seria feito pelo próprio Estado. industrialização e crescim ento». Serrão (dir. de 61. O Estado Novo nos Anos Trinta. em vez de por concessionários através do crédito. Como Salazar anunciara em Outubro de 1931.° 35. 1977. Brandão de Brito. Nesse ano. Lisboa. M. do mesmo autor. com a decorrente estabilização da moeda e dos preços. e 8 entre 1911 e 1930. as exportações. em população. Coimbra. praticamente não aumentaram. Salazar. Entretanto. a rede de estradas duplicou (de 13 mil para 26 mil quilómetros) e o país obteve a sua primeira auto-estrada de modelo alemão. em produção e consumo» 50. p. O equilíbrio orçamental. 50 Franco Nogueira. produção de energia eléctrica e irrigação. Educação e Sociedade.). vol. vol. propiciou um regresso de capitais portugueses do estrangeiro. As remessas de emigrantes também se retraíram. iria cair 21 pontos percentuais entre 1930 e 1950. em Outubro de 1937.Mesmo assim.3 % para 61. segundo os salazaristas lembraram num panfleto intitulado «Como o Estado Novo combate o analfabetismo» 53. pp. a administração (25%). 1998. o serviço da dívida pública externa em relação às receitas passou de 9% em 1926 para 6% em 1938 e chegaria a 0. Em 1932. Lisboa. Oficialmente. os regentes escolares (1931).° 2. quase disparatadas. Mas a «autarcia» não fora uma opção. 52 Anabela Nunes e J. envolvendo 12 mil homens.

tratava-se de «alargar quanto possível a nossa base de recrutamento dos valores sociais. porque «quando o Estado se substitui aos particulares.. o condicionamento do plantio da vinha ou o proteccionismo cerealífero haviam formado a base de um sistema de regulamentação e coordenação estatal que antes do Estado Novo já abrangia indústrias como a moagem (1926) e as conservas de peixe (1928). O fomento florestal. M. Nova História de Portugal. XII de Oliveira Marques e J. o Estado promoveu o aproveitamento de todos os recursos. em F. metalurgia. O Estado Novo ² Das Origens ao Fim da Autarcia. mas que fosse reacção a circunstâncias internacionais e que tenha levado a consequências não previstas. Salazar não pretendia um Estado banqueiro. isto é. Tratava-se apenas de prevenir «o exagero ou a falta de concorrência». e as «graves contingências a que se expõe a classe obreira quando liga a sua existência à vida precária de oficinas levianamente instaladas». VV. Chefs. em média. Desceram para 13% entre 1923 e 1926. . fundada em 1936. é provável que o aumento tenha sido conseguido mais pela expansão da base contributiva do que pelo agravamento dos contributos individuais 58. mantiveram-se em 11. 56 Henri Massis. industrial ou comerciante. Durante a guerra (1939-1944). e novamente para 11% entre 1928 e 1931. Rosas (org. industrialização e crescimento». em Análise Social. papel. Em 1935 e 1936. também necessária para a montagem ou substituição de máquinas. planeou a colocação de população nas partes do território menos povoadas. Entretanto. Lisboa. para evitar quedas de preços e desemprego. O «condicionamento das indústrias» prometia ser «transitório» e «sem intuitos de ingerência na vida privada das actividades nacionais». através de casais agrícolas. madeira. vol. 131. Já a 14 de Fevereiro de 1931. Nuno Madureira. O plano de florestação cobriu serras e charnecas com pinheiro-bravo. Subiram para 12% entre 1931 e 1934. aliás contra ideias anteriores de Salazar que sempre suspeitara da vocação cerealífera do país. esmaga a força criativa de toda a iniciativa privada». Tal como os liberais. mas regressaram aos 11% depois. n. «O Estado.8% do PIB. vol. 337-354. Houve ainda apoio à natalidade. «Política económica.° 148. 346. em 1938. em AA. a partir de 1943. Salazar. mudando a paisagem do Centro e Norte do país. O Homem e a Sua Obra. p. Paris. pp. A Junta de Colonização Interna. embora tivessem chegado aos 18% em 19221923. 1982. hoje demasiado restrita» 54. o peso do Estado na economia não aumentou. No caso das receitas fiscais. p. para os trabalhadores por conta de outrem na indústria e nos serviços. 267. O artigo 31 da Constituição atribuía-lhe «o direito e a obrigação de coordenar superiormente a vida económica e social». que obrigaram o Governo a mudar de rumo algumas vezes e a adoptar «diferentes regimes económicos» para diferentes sectores de actividade 55.). De facto. as condições climatéricas propiciaram as maiores colheitas de todos os tempos. 54 António Ferro. as despesas públicas equivaleram. 1926 -1959. Nada disto era novo.). Lisboa. calçado. O seu objectivo era criar «uma economia nacional que seja capaz de se dirigir a si própria» 56. através da instituição do «abono de família». aumentando para uma média de 14% só em 1945-1949. para fazer face à «crise». 57 57 v¶ Anabela Nunes e J. 1987. Brandão de Brito. Também é provável que este condicionamento económico não tenha correspondido a um plano prévio. Lisboa. 777-822. tinha sido lançada a «campanha do trigo» no Alentejo. Serrão (dir. o Governo limitara a actividade industrial em vários sectores: têxteis. «Sete falsas hipóteses sobre a campanha do trigo». 1992. a 14% do PIB entre 1920 e 1926. Em 1929. Portugal e o Estado Novo (1 930-1960). Mas o Estado não visou apenas o fomento. 55 Ver José Paulo Martins Casaca. o patronato e a indústria portuguesa (1922-1957)». cortiça e alimentos. i. 1939. Só se podia estabelecer novas fábricas com autorização do Governo. pp. p.Para Salazar. 1998. A preços constantes. agricultor. com a divisa «o trigo da nossa terra é a fronteira que melhor nos defende».

a um ² ² . créditos e subsídios. havia 495 grémios. cujo nome lembrava a Carta dei Lavoro da Itália fascista. A partir de 1937. 191. com vários institutos e juntas de vinho do Porto. fez-se esforços para exportar. Memórias. Era através destes organismos que os indivíduos e os grupos deviam defender os seus interesses. conheceu uma desaceleração entre 1927 e 1939. Desenvolviam actividades desportivas e culturais (bibliotecas. orfeões. n.6 por mil para 126. Por exemplo.° 148. No entanto. Quanto às casas do povo. vol. por esgotamento do mercado interno e dificuldade de abastecimentos. 157-193. Em 1945. já que sem emigração a população cresceu de 6 825 883 para 7 722 152 o maior aumento populacional de todos os tempos num período tão curto. as perspectivas não eram risonhas no fim da década: a indústria deixou de crescer ao ritmo de 1930-1937. Subsídios de invalidez e doença. financiados para o efeito por contribuições dos seus membros. Funcionavam como associações de socorro e previdência. para recuperar só já depois de 1945 60. O seu objectivo era regulamentar a produção e a distribuição. Os sindicatos. na tanoaria do Porto). Por isso. financiadas por impostos sobre patrões e quotizações obrigatórias dos trabalhadores.5%. «O Estado. já inferior ao de 1920-1930. As taxas de crescimento anual do PIB foram menores do que na década de 1920. 2003. tanto a greve como o lock out foram proibidos. 59 ² 59 Pedro Lains. Podiam ser nacionais ou locais. 1. movimentando capitais relativamente elevados. Os Progressos do Atraso. conservas de peixe. Os níveis de salários e contratos colectivos de trabalho negociados pelos sindicatos eram vinculativos para todos (o primeiro foi negociado em 1934. etc. Uma Nova História Económica de Portugal. Os organismos corporativos eram também a base da chamada «previdência social» e de um novo tipo de representação política. em Análise Social. com uma base profissional e distrital. havia 308 sindicatos. A ideia era substituir o mercado pela regulação corporativa. 781. Em 1945. 2007. a criação de empresas comerciais em Évora. p. cortiça. o p atronato e a indústria portuguesa (1922 -1957)». O Estado corporativo A estrutura corporativa começou a ser desenhada pelo Estatuto do Trabalho Nacional (23 de Setembro de 1933).58 Nuno Madureira. pp. Havia limites para o que Portugal podia fazer «dobrado sobre si próprio». azeite. Em 1945. Lisboa. empregando cerca de 500 médicos. o que é notável. e estagnou até 1952. 1998. depois de um período intenso entre 1919 e 1923. as 506 casas do povo mantinham 400 postos clínicos. A agricultura entrou em recessão até 1947. pensões de velhice e abonos de família (1944) estavam a cargo destes organismos. pp. iii série. enquadravam os empregados dos serviços e indústria urbana. A quebra da mortalidade infantil (de 143. 61 61 Pedro Teotónio Pereira. os grémios associavam os patrões e eram obrigatórios (ao contrário dos sindicatos). p. 8. em Revista da Faculdade de Letras do Porto ² História. quotas de produção. em cooperação uns com os outros e sob a supervisão do Estado. casas do povo e sindicatos participavam nas eleições das vereações municipais e estava previsto que se conjugassem. sempre abaixo dos 1. mas constantes (houve apenas uma quebra em 1936). vol. O Estado passou a reconhecer a certas associações sindicatos nacionais. casas do povo e grémios o monopólio da representação da população activa e a dar-lhes acesso a órgãos do Estado com poderes de regulação. englobavam todos os activos de uma freguesia rural. frutas. sessões de cinema) e prestavam assistência médica. estabelecer preços. 309-310. Os seus dirigentes tinham de ser aprovados pelo governo. filarmónicas. 1972. áreas de negócio e ritmos de formação (1889 -1960)». Finalmente. «As associações capitalistas eborenses: actores. Os grémios. 60 Paulo Eduardo Guimarães.1) sugere que a sua condição de vida melhorou. Lisboa.

64 Fátima Patriarca. academias científicas. n. 65 Alvaro Garrido. pp. juntas.° 45. 59. Alguns salazaristas tentaram filiar este sistema nas corporações de artes e ofícios abolidas em 1834. Foram sobretudo as corporações económicas que se desenvolveram. 67 Philippe Schmitter. 1999. Lisboa. Houve resistências. A Lei do Contrato de Trabalho de 1937 (prevendo férias pagas e indemnização por despedimento) ou os salários mínimos decretados a partir de 1935-1936 não se aplicaram à população rural isto é. desde 1935. i. da mão-de-obra para as campanhas na Terra Nova 65. Portugal: do Autoritarismo à Democracia. tinham 590 mil sócios 63. ² ². Só 20 por cento dos chefes de família estavam ² abrangidos 68. p. como. pp. A Questão Social no Salazarismo. e mesmo essas só a um nível básico. mas nas associações formadas ao longo do século xix. 111-136. 1930-1947. apenas 30 por cento das 4000 freguesias rurais. Lisboa. «O sector vinícola contra organização corporativa (1933 -1937)». Coimbra. pp. a metade da população activa. e muitas outras de cultura e recreio. No caso dos empresários. eram quase todos de Lisboa e Porto 67. a maioria no Sul. Procurou-se até atrair muitos dos seus líderes anarquistas. «Os bacalhoeiros em revolta: a greve de 1937». Dulce Freire. O seu alcance foi reduzido. Em 1930. Lisboa. Os sindicatos nacionais resultaram da nacionalização das antigas associações de classe.° 42. 1976.° 165. 63 Philippe Schmitter. pp. 62 José Luís Cardoso e Maria Manuela Rocha. o regime deixou subsistir as suas maiores associações ao lado dos organismos corporativos. A Evolução do Sistema Corporativo Português. vol. . n. 119. O ponto de partida não estava aí. As associações de socorros mútuos. sociedades desportivas) representadas na Câmara Corporativa. «Corporativismo e Estado -providência (1933-1962)». 2002. além de 668 associações de socorros mútuos. por exemplo. Para ocupar os tempos livres de toda esta gente existia. 643. n. 66 Manuel de Lucena. em Análise Social. entre os vinicultores ou os pescadores de bacalhau. 175-198. animadas pel a subida de salários depois da Primeira Guerra Mundial mas abaladas a seguir pela inflação. sob a direcção geral (mais tarde) do Ministério das Corporações e do Instituto Nacional do Trabalho e da Previdência Social. ii. 1995. institutos públicos e tribunais que trataram de supervisionar as suas actividades. pp. 2003. 1999. Domingos Cruz. Portugal: do Autoritarismo à Democracia. a Federação Nacional para a Alegria no Trabalho (FNAT) 62. das quais emergiriam as corporações económicas. Os sindicatos. em Ler História. em Ler História. 1999.nível intermédio. A expressão «casa do povo» era já corrente em muitas associações de inspiração socialista. p. vol. Lisboa. 1934. José Carlos Valente. Lisboa. Pequenas e sem muitos recursos 66. 234-235. socialistas e comunistas 64. A Mutualidade em Portugal. «morais» (assistência) e «culturais» (universidades. pp. 1191 -1211. Ainda em 1960. que em 1937 se revoltaram contra o novo regime de recrutamento. havia cerca de 754 associações de trabalhadores e 285 de empresários. 2003. O plano do corporativismo nunca foi realizado. por exemplo. regularizado e contratualizado pelo Estado. 115. 52. em federações nacionais ou regionais. Estado Novo e Alegria no Trabalho: Uma História Política da FNAT (1935 -1958). as organizações corporativas permaneceram submetidas aos funcionários de uma série de comissões. 640. tinham casas do povo.

O regime utilizou os cargos de direcção nos municípios e nas estruturas corporativas para enquadrar os influentes da província. Lisboa. 1932-1968. «Corporatism and the theory of the firm. pp. 26. tal como na organização interna das empresas 69. 1997. p.68 Manuel de Lucena. Na prática. 1886-1941. vol. de José Freire Antunes. a organização corporativa serviu para o Estado integrar e controlar o operariado de Lisboa e do Porto e o proletariado agrícola do Sul e facilitar concentrações e conversões tecnológicas nalguns sectores da economia. «O Estado Novo perante os poderes periféricos: o governo de Assis Gonçalves em Vila Real (1934 -1939). vol.° 90. 70 Salazar e Caetano: Cartas Secretas. não produziu mais do que 250 pareceres 70. As continuidades foram óbvias: no caso da Câmara Municipal de Avis. No ensino da economia. presidentes de câmara municipal e os membros das direcções de órgãos corporativos e da União Nacional. pp. ed.. e 14. pp. mas também para proteger produtores inviáveis (através da aquisição da produção a preços garantidos. n. procuradores. absorvendo até os de regimes anteriores 71. todos unidos por laços familiares.. A Evolução do Sistema Corporativo Português. 360. . A Câmara Corporativa nunca foi mais do que uma assembleia de funcionários e de notabilidades nomeadas pelo governo.° 2. 71 Rui Ramos. por sua vez. bairrismos e favores mútuos.) era José Lopes Coelho. Elites de Avis. Os agricultores independentes representavam cerca de 31. em Journal of the History of Economic Thought. em 1941 o presidente que ficou foi o seu neto Luís Mendes Vieira Coelho »72 72 Maria Antónia Pires de Almeida.2% isolados) e o resto eram familiares seus. e as indústrias caseiras. por exemplo). os trabalhadores por conta de outrem não chegavam a metade (42. o corporativismo manteve-se marginal. em Análise Social. 1976. grandes e pequenos empresários e modos de produção modernos e arcaicos. Em 1940. num sistema muito complexo. 69 José Luís Cardoso e Carlos Bastien. Lisboa. II. nunca incluíram os pequenos produtores de alimentos e bebidas empregando menos de cinco operários. 193. p. Lessons from the Portuguese experience». n.7%) da população activa agrícola. não teve serviços ou instalações próprias. Funcionava em pequenas secções. 109-135. 197-219. Em vinte anos. Os grémios. 1986.6% patrões. «se em 1887 o presidente (. 393. 17. Lisboa. A ditadura da ³inteligência´ Os salazaristas tiveram pela frente nestes anos a mesma sociedade rural de pequenas comunidades onde predominavam os produtores independentes.8% (dos quais. Família e Poder no Alentejo. Assim se articularam. governadores civis. 2004. 1993. Até 1950. Destas famílias saíram os deputados. reunindo apenas -se uma vez por ano na antiga sala da Câmara dos Pares.

Ricos e Pobres no Alentejo. Tudo. 73 Marcelo Caetano. José Cutileiro. «Os camponeses e a política no Portugal de Salazar ² o Estado corporativo e o apoliticismo nas aldeias». profissionais liberais (1 4%) e militares (9%). Lisboa. maçon e com muitas ligações aos antigos republicanos. delegados do procurador-geral da República. integrados num sistema em que. Lisboa. sem votos que contassem. 1999. p. 47. chefes da secção de finanças e guardas todos geralmente forasteiros. Para os autarcas de província. 77 Philippe Schmitter. Tavares Castilho. a Junta Geral e várias câmaras municipais 74. p. Lisboa. 1999. 2009. Outro caso era o do médico Bissaia Barreto. tal como nos anteriores. a vida municipal passava por «enviar embaixadas a Lisboa» para «bater à porta de ministérios e outras repartições públicas » 76 76 António de Almeida Brandão. 164. Geograficamente. pp. Ordem e Progresso. Portugal: do Autoritarismo à Democracia. Minhas Memórias de Salazar. de onde provinham 39. Lisboa. 300. 305. 1935-1974. a . Bissaia Barreto. 1979. O resto era professores (16%). que tentavam manipular por «cunhas». Mesmo na Câmara Corporativa. Castelo Branco e Portalegre 78. advogados e magistrados representavam 41% do total dos deputados. A Câmara Corporativa. uma sociedade atomizada perante um Estado aparentemente omnipotente. porém. o mesmo acontecendo à população. tinha sempre à porta do seu gabinete uma longa fila de gente da província à espera do cartãozinho para juntarem à pretensão a apresentar nalgum organismo do Estado 73. Anos depois. 78 J M. que nomeava presidentes de câmara e regedores de freguesia (embora as juntas fossem eleitas). as casas do povo levaram os lavradores a diminuírem a caridade pessoal. pp.7%) e dos engenheiros civis (10%). assim. Memórias de um Arouquense. Os Deputados da Assembleia Nacional. amigo pessoal de Salazar. em 1973. em cujo distrito dominava a União Nacional. aliás. ² ² 75 Joyce Riegelhaupt. Os influentes foram. Viseu. professor catedrático de Coimbra. Coimbra. 30-33. Lisboa. desde ter um isqueiro até reparar um muro). n. pp. Guarda. 1977. a sua capacidade de pressão sobre as autoridades administrativas estava diminuída.3% dos procuradores 77. Metade dos procuradores trabalhava em organismos do governo central. dois académicos franceses concluíram que o Estado Novo. fundador da rede de casas da criança e do parque infantil Portugal dos Pequenitos uma espécie de grande influente de Coimbra. não tinha meios para propiciar patronos só podia pedir favores. ² 74 Jorge Pais de Sousa. 30. No topo do regime. em Análise Social. seguidos dos militares (16. a nível local. suposta representante das «forças vivas nacionais». Uma Sociedade Rural Portuguesa. As comunidades rurais estavam condicionadas por um sistema de licenças e de multas (era preciso licença para tudo. era controlado pelo Governo. além dos juízes. 267. tinha sido recrutada no Estado e em Lisboa e no Porto. tal como. Na primeira Assembleia Nacional (1934-1938). devido à ausência de eleições livres e concorrenciais. aumentando a distância entre as classes 75.O ministro Albino dos Reis. O resultado foi. a qual. os deputados provinham desproporcionadamente do interior: distritos de Bragança. «com toda a tarimba do antigo cacique local». No Alentejo. 349.° 59. 1999. 505-523. Cerca de três quartos (68%) eram funcionários do Estado. 1977. muito mais do que pelo esclarecimento do «direito a nível legal». só 10% dos procuradores eram proprietários e 15% empresários industriais. pp. predominavam os empregados do Estado com formação jurídica.

Estavam ali para colaborar com o Governo e por isso evitaram a oratória antiga (que sobreviveu apenas nos tribunais). 1992. 2001. passou apenas de 7037 a 9332. num país ainda não industrializado e pouco urbanizado. onde a elite no poder combinava a defesa dos valores tradicionais com uma política de desenvolvimento 79. vol. mas professores universitários. Em relação à população. de tratar as questões de um modo tecnicamente correcto e de mediar compromissos entre interesses e pontos de vista diferentes. 1973. que intervinham directamente em todos os pormenores. 81 António Nóvoa. mas tal como o regime republicano que o antecedeu a uma mutação geracional e ideológica dentro das elites estabelecidas. Les Dictatures Européenes. vários deputados fizeram questão de pôr isso em relevo. como Salazar por discursos escritos. 1055-1076. 165. em Análise Social. A frente desta elite encontravam-se. 83 Marcelo Caetano. 1943. que produzia a maior parte do pessoal político. Serrão (dir. Minhas Memórias de Salazar. em 1934. Nas primeiras sessões da Assembleia Nacional. n. 171. Lisboa. «O império do professor: Salazar e a elite ministerial do Estado Novo (1933-1945)». Era bem uma «ditadura catedrática». p. dominando o aparelho de Estado e dispensando o partido único e até a intervenção militar directa. O seu estilo era muito diferente das elites políticas liberais e republicanas: não eram oradores que discursassem para o público em assembleias. Em 1940. mas peritos que se orgulhavam. outrora banidos pelos velhos costumes parlamentares. Paris. O «império do professor» produziu a todos os níveis do Estado chefias absorventes. mas era suposto que terminasse mal o chefe decidia. isso significava 1 aluno por cada 1000 habitantes em 1930 e 1. tentando mobilizar a opinião. com declarações de renúncia à velha chicana parlamentar e promessas de espírito «construtivo». em 1936. A base em que a elite assentava não mudou: entre 1930 e 1940. «A educação nacional». pp. «com grande desespero dos seus autores» 83. que se permitia corrigir pessoalmente os grandes projectos de obras públicas. Uma grande parte dos licenciados era absorvida pelos serviços do Estado: por exemplo. que foram 40 por cento dos ministros entre 1933 e 1944. Lisboa.Espanha franquista. De facto. como lhe chamou Miguel de Unamuno. Lisboa.2 em 1940 81. ² ² 80 António Costa Pinto. 495. p. mais de metade dos 4000 licenciados em Direito 82. nos seus gabinetes. cinco dos nove ministros eram professores catedráticos. optando. Foi esse o estado de espírito que Salazar e os seus colaboradores procuraram criar cultivando a hierarquia. quatro deles da Faculdade de Direito de Coimbra. 79 André e Francine Demichel. p.° 157. A média de idades dos deputados da primeira Assembleia Nacional era de 45 anos. Só dois deputados tinham mais de 64 anos e quase metade estava entre os 34 e os 43 anos 80. não os demagogos plebeus de outras ditaduras. o número de alunos do ensino superior. como o ministro Duarte Pacheco. xii de Oliveira Marques e J. contra 50 anos para os últimos parlamentos da república. ² . O confronto e debate de pontos de vista contraditórios existia. em F. o salazarismo não correspondeu a uma revolução social. constituíra uma «ditadura de notáveis»: uma classe dirigente bem implantada. Portugal e o Estado Novo (1930-1960). Nova História de Portugal. 82 Manuel Rodrigues. Problemas Sociais. apesar do papel das Forças Armadas. 32-34.). 1977.). Rosas (org. pp.

partidos republicanos continuaram a reunir-se. com órgãos eleitos e imprensa. Em 1932. segundo os seus dirigentes. mais garantidas. A Espuma do Tempo. a Maçonaria (1935) 87. só concorreram os candidatos apoiados pelo Governo. ² ² 87 Rui Ramos. estava em reduzi-los a pequenas esferas de acção: «parecendo que o homem estará mais limitado». A legislação disseminou esse princípio de ordem: na família. 1997.Forças Armadas. a fazer comunicados e a manter jornais. Dança dos Demónios ² Intolerância em Portugal. A repressão e a persistência do pluralismo Salazar nunca escondeu a «pouca confiança na predisposição natural dos portugueses para a disciplina social» (20 de Setembro de 1935). Lisboa. O nacionalsindicalismo seria banido em 1934. de que os mais espectaculares foram as greves de . com a única restrição de que aí não se hostilize o interesse colectivo». 2008. Alguns ficaram exasperados com os serviços públicos. Mas não admitiu o pluralismo partidário.os protocolos e os rituais. A oposição manifestou-se em actos de contestação. ed. Fascista. O Estado Novo reconheceu uma pluralidade de corpos sociais . p. o nacional-sindicalismo. foi reforçada a autoridade paternal. Marujo (orgs. pp. emJ. associações. no entanto «é maior a possibilidade de expansão da sua personalidade porque no seio do grupo familiat. De facto. de modo que a «reforma do Estado é hoje o problema principal» 86. os partidos nunca foram explicitamente proibidos ao contrário das «sociedades secretas». administração pública. entre as quais a professora liceal Maria Guardiola. em Penélope. Igreja. da sua igreja. nenhum sentido de hierarquia e decoro impediu que a «vida do Estado» continuasse a ser penetrada por uma «indomável verrina subterrânea» de suspeitas e maledicência. em condições restritas. Lisboa. vice-presidente da Obra das Mães pela Educação Nacional (1936) e comissária nacional da Mocidade Portuguesa Feminina (1938) 84. 71-94. isto é. pp.). da Comissão do Livro Negro sobre o Regime i. Tratava-se. A própria administração pública não se prestou a tudo o que desejaram os mais entusiastas colaboradores de Salazar. de libertar o debate político do facciosismo dos partidos. surgiu mesmo um partido novo. vol. 30. «O salazarismo e as mulheres: uma abordagem comparativa». Até 1933. 2009. deixa inteiramente livres. municípios. Lisboa. que em 1934 avisava o chefe do Governo de que «a máquina do Estado trabalha num ritmo muito diverso e frequentemente sob um pensamento que podemos dizer oposto».° 17. Embora se tivessem realizado três eleições presidenciais (1928. Memória do Tempo de Vésperas. às mulheres «chefes de família» e eleito as primeiras deputadas portuguesas (1934). Embora tivesse concedido o voto. As Mulheres e o Estado Novo. 1935 e 1942) e outras três legislativas (1934. 1999. 84 Anne Cova e António Costa Pinto. n. «Antimaçonismo». mais verdadeiras» (9 de Dezembro de 1934). Eduardo Franco e A. E por isso. p. O remédio. como Pedro Teotónio Pereira. 316-417. 1987. segundo ele. 85 Adriano Moreira. 153. 1938. da sua associação profissional. por exemplo. 1942).). O Governo dispunha de instrumentos legais para reprimir ou tolerar conforme lhe convinha. famílias com esferas de acção próprias e hierarquias e procedimentos específicos. 86 Correspondência de Pedro Teotónio Pereira para Oliveira Salazar. Coimbra. Anne Cova e Maria Beatriz Nizza da Silva (orgs. do seu centro beneficente ou cultural há largos campos de actividade que o Estado. as «liberdades públicas» eram «porventura mais limitadas em tese. mas mais concretas. No entanto. confinado ao desempenho das suas funções. em parte gerada pelas intrigas das várias facções do regime 85.

° 185. onde o processo era sumário. Destes casos. na maioria anarquistas e comunistas 88. as conspirações de 1935 e 1936. incluindo a violência física. com um tempo médio de menos de um mês em 47 por cento dos casos. a interdição ao preso de dormir ou sentar-se).). É necessário notar. em directiva secreta aos seus filiados.1934. 31 pessoas morreram. no entanto. 96. 35 por cento cumpriram penas superiores àquelas a que tinham sido condenados. 289-293. a fim de obter declarações que valiam como prova em tribunal. em Análise Social. M. A Polícia Política no Estado Novo. pp. Coimbra. despachava directamente com Salazar todas as semanas. Em 1938. o Comando Geral da Legião Portuguesa podia gabar-se. no Estado Novo. p. não pela sua eclosão na rua. 2007. . entre 1910 e 1926 terá havido cerca de 98 mortes ocasionadas por repressão de motins e greves. ² 88 Maria da Conceição Ribeiro. e J. Estado Novo e Violência Política. O Campo de Concentração do Tarrafal. Mas a PVDE foi suficientemente eficaz para que. em casos de direito comum. sobretudo os meios rurais. por falta de medicamentos contra as formas mais graves de paludismo. p. dos quais metade em Lisboa e Porto. entre 1948 e 1962. n. o que facilitou a repressão. Memória do Tempo de Vésperas. durante a guerra civil de Espanha. na ilha de Santiago. p. 1128-1135. em J. desde maus tratos a doença. a maior parte. (isto é. ² ² 91 Diego Palacios. e a campanha bombista de 1937. das quais 60 por cento entre 1936 e 1939. que as outras polícias. ocupavam-se a Polícia de Vigilância e Defesa do Estado (PVDE) e os tribunais militares especiais. e empregava todo o tipo de pressões. que sob o Estado Novo talvez não tenha atingido um grau muito mais elevado do que sob a monarquia constitucional entre 1834 e 1910 ou a 1 República entre 1910 e 1926. 2007. 1986. 388. A repressão sobre elites politizadas fundada na recusa do pluralismo partidário tem de ser colocada no contexto do uso da violência na manutenção da «ordem pública». que «são conhecidos quase todos os agitadores e conspiradores profissionais. Dos presos. I. 259. A arbitrariedade não parava aí: dos condenados. recensão a Vítimas de Salazar. as tentativas de golpe de Estado passassem a ser conhecidas. ed. Não tinham grande formação profissional (apesar de alguns contactos com as polícias italiana. debaixo da custódia da PVDE no continente e 34 na Colónia Penal do Tarrafal. Vítimas de Salazar. dispunha de seis meses para interrogatório após a prisão. que tinha poderes de instrução. alemã e inglesa) nem cobriam todo o país. Lisboa. História da PIDE. Lisboa. os activistas da oposição foram sendo punidos e registados. a penas de um a dois anos de prisão. a polícia causou 94 mortes na repressão de manifestações e protestos 91. Lisboa. 220. apenas 19 por cento foram presentes a tribunal e condenados. usavam os mesmos métodos violentos. pp. Madeira. mas por notas oficiosas do Governo. Pimentel e L. O director da PVDE. em Cabo Verde neste caso. que a 4 de Julho teve o próprio Salazar como alvo. dependendo muito de informadores e das outras autoridades policiais e administrativas. Contava com 100 funcionários em 1933 e 400 em 1941. incluindo a «estátua» 90 90 Adriano Moreira. «As medidas de segurança». efectuou 13 648 prisões. que na sua maioria já têm sido presos ou deportados» 89‡ 89 Directivas secretas para os delegados dos Serviços de Informação da Legião Portuguesa em Repressão Política e Social no Regime Fascista. Farinha (orgs. Por exemplo. Regimes democráticos contemporâneos na Europa apresentaram contabilidades repressivas análogas ou piores: na Itália democrática. A pouco e pouco. houve 41. Lisboa. quando numa rua de Lisboa descia do automóvel para ir à missa. o capitão Agostinho Lourenço (1933-1956). de várias causas. Irene Pimentel. 2008. Soares Tavares. Lisboa. Irene Pimentel. da Comissão do Livro Negro sobre o Regime Fascista. A Espuma do Tempo. a partir de 1931. O Tarrafal recebeu os primeiros presos em 29 de Outubro de 1936. A PVDE. para «averiguações». 2007. Entre 1932 e 1945. 2007. 158. 123-124. pp. 1995. sem sequência judicial. Tratava-se de detenções de intimidação. entre 1933 e 1974. 1926-1945. De 1932 a 1945.

embora ajudasse: em 1934. nem levados a tribunal por serem maçons. 195. 1996. Muitos empregos. instáveis hipocrisias e concessões. censura da imprensa e acção violenta e arbitrária de grupos de voluntários armados.» Restavalhe esperar por explicações ou traduções e contar com o «sentido de solidariedade» das «esquerdas».8% dos eleitores recenseados e 0. 1949 Por comparação com outros regimes contemporâneos. No jornalismo. enquanto a deles. os seus 34 980 aderentes não representavam mais do que 2. 95. Lisboa. Dos 199 membros do Governo. Mas ninguém escapou a uma coacção contínua e difusa. como a ditadura comunista da Rússia ou a ditadura nazi na Alemanha. as suas posições no Estado. quer no passado português recente. a cargo da polícia e dos tribunais. como em Espanha. preso e expulso da função pública por se ter recusado a assinar o telegrama enviado a Salazar por ocasião do atentado. Se se vai para os colégios. Elites e Movimentos Fascistas em Portugal. Os Deputados da Assembleia Nacional.5% da população. É verdade. de visita a Portugal em 1935. 93 José Marinho. como em Itália 94. Significado e Valor da Metafísica e Outros Textos. 1994. Não houve o «terror de massas» inerente às revoluções sociais ou às depurações étnicas da época. Militantes das esquerdas republicanas conservaram. p. por exemplo. há o contacto directo ou indirecto com a Censura. vigilância policial. Por isso. carta citada em Jorge Croce Rivera. 18. 1914 -1945. 1988. O Estado Novo pôde assim explorar o facto de a violência ser uma componente da ordem pública e da vida política. apenas 45. Lisboa. em troca de simples abstenção política. p. M. Lisboa. Lisboa. Tavares Castilho. e dos 608 deputados. não foram expostos em público. já se tinham destacado por deportações e prisões prolongadas sem julgamento. O regime assentava mais no conformismo do que na mobilização. Ideologia. Os Camisas-Azuis. 92 Jorge Botelho Moniz. aqui ou ali.8 % 95 95n Manuel Braga da Cruz. aparece o sindicato. A UN não era obrigatória nem para os funcionários públicos. os assassínios foram muito raros e os presos políticos foram sempre poucos. exercida pelos seus militantes de um modo anárquico e imprevisível. os vários governos da 1 República. pp. Em Outubro de 1937. quer nas outras sociedades europeias. p. No comércio. suspensão de garantias. como aconteceria em França. etc. seria supostamente regrada e previsível 92. 176-177. Um fascista italiano. embora este andasse «frenado [sic] pelo medo» 93. em termos de violência do Estado ou sancionada pelo Estado sobre elites e activistas políticos. «Apresentação» de José Marinho. ou até as bolsas do Instituto para a Alta Cultura (1936) estavam dependentes de informações políticas. 94 António Costa Pinto. não é possível negar que o Estado Novo foi «moderado»: não recorreu à pena de morte. sem ter de ceder de alguma maneira. como se vê pelas eleições. mesmo no sector privado. Lisboa. desde os de Afonso Costa ao de Sidónio Pais. para relativizar a sua repressão. espancamentos e execuções sumárias pela polícia. A Campanha Eleitoral. 2009. o escritor José Marinho escrevia a um amigo: «É muito difícil viver em Portugal ou noutro país nas circunstâncias presentes. O Partido e o Estado no Salazarismo. notou que o regime se caracterizava pela falta de esforço para fazer o povo «participar na vida do Estado» e «viver num clima de tensão ideal». O regime gerava assim facilmente cidadãos de segunda classe. no entanto. Não houve saneamentos gerais de funcionários. que a repressão era direccionada sobretudo contra conspiradores e activistas. os salazaristas fizeram sempre questão de comparar os seus métodos repressivos com a «ditadura da rua» do PRP. a mobilização política era muito baixa.Por outro lado. 1935-1974. O . tem de se fazer uma papeleta declarando que se está integrado. J. só 29% eram filiados. De facto. Os maçons. recurso a tribunais militares.

encomendas. com potência reduzida (as «rádios-minhocas»). O referendo constitucional de 1933 não envolveu mais de 300 000 eleitores (dos quais 6000 votaram «não»).decreto de 27 de Dezembro de 1933 reservou o direito de sufrágio aos cidadãos maiores de 21 anos do sexo masculino que soubessem ler e escrever ou pagassem certa quantia em impostos directos. sendo o resto «simpatizantes» (35%) e «neutros» (17%). como neutral ou desafecta ao regime. dentro de estreitos e vigiados limites e desde que não assumisse a forma de crítica directa do poder. a diminuição do analfabetismo e o aumento da população não se reflectiram no número de recenseados: em 1942. recorreu a prémios. 1924-1939. ou a Orquestra Sinfónica Nacional. com 23 delegações. António Ferro. uma parte apreciável estava mesmo classificada. n. As Vozes da Rádio. dirigida pelo maestro Pedro de Freitas Branco). o Rádio Clube Português. 1999. mas nunca se tentou recenseá-lo ou fazê-lo votar na sua totalidade. 25% eram «situacionistas» e 22% «anti-situacionistas». asseguravam maior cobertura do território nacional e com programação mais variada (noticiários. com a autorização de patrocínios e anúncios 97. passagem de discos. Mas existiam muitas pequenas estações. 2005. em Média e Jornalismo. eram 772 579 (10 por cada 100 habitantes). pp. estatal. da Comissão do Livro Negro i. da Parede. «Rádio Clube Português ² da e cassez de frequências à grande importância no meio radiofónico nacional». da Igreja.° 3. não era centralizada e dependia muito do ponto de vista de cada censor geralmente um militar. conferências e exposições promovidas pelas embaixadas das potências beligerantes durante a Segunda Guerra Mundial (1939-1945). O pluralismo de opinião. Onze jornais eram mesmo identificados como «claramente comunistas» e 32 com «ligações maçónicas» 98. ou a distribuição de publicações. privado mas subsidiado e dirigido pelo fervoroso «nacionalista» Jorge Botelho Moniz. em fins da década de 1930. exposições. havia 100 000 subscritores da taxa de radiodifusão. subsídios e companhias (como a companhia de bailado Verde Gaio. Rádios estrangeiras emitindo em Português. palestras. etc): a Emissora Nacional. O eleitorado inscrito subiu de 478 121 em 1934 para 777 033 em 1938 96. vol. A imprensa depressa desenvolveu códigos de comunicação com o público. 74-75. acabaria por ser parcialmente rompido em 1936. Quanto à imprensa escrita. O regime controlava ou contava com as estações de rádio que. 98 Política de Informação no Regime Fascista. O seu director. 96 Philippe Schmitter. continuou a ter expressão pública. porém. música ao vivo. 97 Rogério Santos. também ajudaram a uma relativa e contida pluralidade. Obteve-se assim um eleitorado potencial maior do que antes de 1926. do ponto de vista oficial. 2003. O modelo francês. sobre o Regime Fascista. de controlo pelo Estado. O Governo instituiu o Secretariado da Propaganda Nacional (1933) para distribuir informação e desenvolver «uma arte e uma literatura acentuadamente nacionais». pp. Em 1940. 71. p. parte delas amadoras. sessões de cinema. Lisboa. A censura. como a britânica BBC (que tornou popular o locutor Fernando Pessa). através da Administração Geral dos Correios e Telégrafos e proibição de publicidade nas emissoras privadas. e ainda a mulheres com curso secundário ou que fossem chefes de família. ao contrário do que sucedia nas ditaduras plebiscitárias. Em 1934. Lisboa. programas infantis. a fim de fintar a censura. ao contrário do que acontecia. 51-66. e a Rádio Renascença. ed. para arregimentar escritores e artistas capazes . por exemplo. Nos anos seguintes. Lisboa. 1980. do mesmo autor. Portugal: do Autoritarismo à Democracia. para a qual compôs Ruy Coelho. na Rússia comunista. 64. de 246 jornais. na província.

à qual. através do Fundo Cinematográfico Nacional). comunicação e ensino que sustentou uma vida intelectual independente do regime. pp. pp.). aliás. de Soeiro Pereira Gomes. pp. Vasco Diogo. Lisboa. A oposição constituiu. através do Instituto para a Alta Cultura e da Academia Portuguesa de História (1936). O Discurso Ideológico do Neo-Realismo Português. pôde quase parecer que não era possível pretender um estatuto de intelectual sem uma atitude de oposição ou distanciamento do regime o que se ficou sobretudo a dever à conjuntura de meados da década de 1940. mas que só foi possível graças a uma infra-estrutura de associação. com a Segunda Guerra Mundial a provocar uma viragem de modas ideológicas. vol. conhecido como «neo-realismo». v. em António Pedro Pitta e Luís Trindade (orgs. 1934-1940. História do Pensamento Filosófico Português. Os Anos de Ferro. 99 Jorge Ramos do 1999. Em termos políticos. 100 Luís de Pina. teve alguns sucessos: por exemplo. n. 1933 -1949. pp.). originários do republicanismo conservador. ² 102 Daniel Melo. em Pedro Calafate (dir. a literatura e as artes serviram também de veículo para as oposições de esquerda. Coimbra. Discursos e Posições Intelectuais no Semanário O Diabo. 103 Nuno Medeiros. Aliás. 2001. Lisboa. O número de títulos publicados cresceu sempre até 1945. e Luís Trindade. ver António Ventura. autor de A Selva (1930). 337. No caso do cinema. cuja primeira edição foi ilustrada por Álvaro Cunhal. faltou o impacto que a iconoclastia fascista deu à sua congénere francesa. 1987. Salazarismo e Cultura Popular. 2005. 85-109. 101 Sobre a divulgação do marxismo. M.os 158-159. . Uma preocupação de respeitabilidade fez o regime preferir homens de Letras como Júlio Dantas ou Augusto de Castro. Transformações do Campo Cultural Português (1900-1950). alguns dos autores mais considerados ou populares dessa época alinhavam com a oposição. de Alves Redol. logo o compositor Fernando LopesGraça escreveu a cantata História Trágico-Marítima (1942). Em 1945. Ferreira de Castro. Os resultados foram ambíguos. Lisboa. ver Carlos Reis. O Espírito do Diabo. 1983. «Comédias cinematográficas dos ano s 30-40 em Portugal». 195 -220.de criar um estado de espírito e um estilo do regime. como O Pai Tirano (1941). O marxismo literário. de que o maior exemplo é Gamões (1946) de José Leitão de Barros. como resposta à celebração do «Mundo Português». o romance Gaibéus (1939). assim. 343 -3 85. Lisboa. Porto. os editores e livreiros eram 71 em 1930 e 160 em 1946 103. não alcançaram o sucesso das comédias que aproveitavam os actores do teatro de revista. 2004. Houve sempre um contencioso entre Salazar e os chefes da direita intelectual «nacionalista>¶. de António Lopes Ribeiro. as produções histórico-literárias patrocinadas pelo regime (a partir de 1947. um dos reorganizadores do Partido Comunista em Portugal na década de 1940 101. 1933-1958. ou O Pátio das Cantigas (1942). como os romancistas Aquilino Ribeiro e J. Em Lisboa. O. pp. de Francisco Ribeiro¶100. em Análise Social. ou ainda o poeta José Régio. um mundo intelectual paralelo. com quatro edições até 1948. 2001. muito recitados. devido à rotina de um Integralismo já velho. 2000. em contraponto ao oficial: por exemplo. «O marxismo em Portugal no século xx». ou a novela Esteiros (1941). e o crítico literário João Gaspar Simões. 301-327. «Edição e editores nos anos 30 e 40: mercado do livro. História do Cinema Português. Sobre o neo-realismo. O Dispositivo Cultural durante a Política do Espírito. O Ministério da Educação. tentou o mesmo para os eruditos 99. 340. Coimbra. autor dos poemas Toada de Portalegre e Cântico Negro. por outro lado. acção cultural e tensões>. em 1940 havia mais de 3000 colectividades de cultura e recreio 102. tomo 2. que vendeu uma média de cerca de 2000 exemplares por ano nas décadas de 1930 e de 1940. Por exemplo.

de «legalizar a situação religiosa de facto». Havia bênçãos e missas em quase todas as cerimónias públicas. Lisboa. sobretudo. Não houve nesta época outra Concordata em que «a Santa Sé dê tanto a um Estado. correios. 104 Robert Paxton. passou de 19 268 para 36 467 entre 1930 e 1940. Tratava-se. mas aumentaram depois. . 106 Daniel Melo. embora não para os civis (e mesmo os baptizados continuaram a poder optar por estes). pp. p. pp. 1977. 2002. 2001. cujo número. p. em Análise Social. uma oportunidade à Igreja. Xx. Mas era a Igreja que deveria ter sido o grande integrador cultural da população. «Estado Novo». 215. mas não obrigatório. 109 Bruno Cardoso Reis. a Praça do Areeiro. na Metrópole. A Arte em Portugal no Século 1991. instituiu o ensino de doutrina cristã nas escolas. pp. O Secretariado da Propaganda esforçou-se ainda por fundar uma «cultura popular» através de bibliotecas nas escolas e nas casas do povo e de sessões de teatro e cinema 106. a não subsidiar o culto. Com os edifícios das escolas. Lisboa. pp. muitas das autoridades civis tratavam o clero com tal reverência que. 803-837. Em 1949. 110 Marcelo Caetano. 107 António de Oliveira Salazar. Lisboa. ² ². a quota das escolas privadas progrediu de 22. aliás. vol. mas apenas as que se dedicassem à assistência. Mas tal como na Itália fascista. o cinema norte -americano. Discursos. místico». em Análise Social. Em Lisboa. Mas o Estado Novo proporcionou. Londres. tribunai s e bairros sociais. como admitiu um dos dirigentes do regime. e admitiu ordens religiosas. a «casa portuguesa» e o moderno. O maior sucesso cultural do regime pertenceu ao Ministério das Obras Públicas. Na província.° 160. 2004. Salazar-Cerejeira. 47. n. ao transformar-se no principal entretenimento das populações urbanas o número de bilhetes vendidos subiu de 10 milhões em 1931 para 20 milhões em 1944 terá contribuído para arruinar o projecto de «controlo cultural» mais «do que toda a oposição liberal e socialista junta» 104. pp. 1997. 2001. The Anatomy of Fascism. projectada pelo arquitecto Luís Cristino da Silva em 1938 e concluída em 1948. Salazarismo e Cultura Popular. devido sobretudo à escolarização de raparigas da classe média.3 por cento para 56. Vertambém Manuel Braga da Cruz. 105 José Augusto França. Salazar recordou que o Estado Novo lhe dera a possibilidade de «vir a recuperar o seu ascendente na alma portuguesa» 107. 183. 141. grande empregador de arquitectos. Sobre o cardeal Cerejeira. A Concordata de 1940 aboliu o direito ao divórcio para os casamentos católicos. é um exemplo. Minhas Memórias de Salazar. 372-373. Salazare o Vaticano. ix. «dava ao povo a sensação de que quem mandava eram os padres» 110. criou um estilo distintivo. 2006. pp. 144 -147. nem restituiu o património confiscado em 1911. 413. 1951. p.°< 143-144. combinando o pombalino. A Força da Igreja. Lisboa. 815-845. O Estado continuou. 108 Pedro Ramos Brandão.7 por cento do total de alunos. militante.As publicações periódicas diminuíram antes de 1940. 195-283. O ensino nas escolas manteve-se demasiado «neutro» para o gosto do cardeal Cerejeira 108. 3. edição. 1933-1958. No ensino secundário. «As negociações da Concordata e do Acordo Missionário de 1940». n. Lisboa. recebendo tão pouco» 109. depois dos conflitos com os governos da 1 República. que os particulares acabaram por adoptar¶ 105. escultores e pintores. «Cardeal Cerejeira: universitário. ver Luís Salgado de Matos. Coimbra.

Portugal Amordaçado. Todas as dioceses do Sul estavam mal servidas. 203.7% em Setúbal não eram católicos 113 113 Manuel Braga da Cruz. O Partido e o Estado no Salazarismo. Em 1948. quase ao nível da França. O Problema da Censura. 2002. Contra as romarias. Lisboa. O Estado Novo ² Das Origens ao Fim da Autarcia. mas menos de um quinto tomava ordens. ii. que o próprio Integralismo criticara» 115. Minhas Memórias de Salazar. Os alunos nos seminários aumentaram (de 2239 em 1930 para 4173 em 1946). António Matos Ferreira. 2008. 1987.3% para 15. em 1936. o ser «firmemente não-católico» era. «a verdadeira pedra-de-toque da consistência oposicionista»114. 1977. Lisboa. No patriarcado de Lisboa. era de 1628. vol. como o novo modelo de vivência da fé «sem foguetes nem arraial». Entre 1932 e 1943. se comparada com a França. p. Continuou assim a haver espaço social para a oposição.. 200. os antigos professores vindos do regime republicano insistiam em falar da «dignidade do homem. 61 -99. 10.8% em Setúbal. As Romarias Portuguesas. Em 1957. Alberto de Monsaraz. Lisboa. Lisboa. Coimbra.2% em Beja. 215.Em 1940. Lisboa. de 4215. 116 Alberto Monsaraz. residiam quase todos no Norte do país e 76% pertenciam às organizações femininas. em Lusitânia Sacra. a Igreja não superara a divisão religiosa entre sexos nem entre regiões. 1974.5% dos portugueses foram declarados sem religião mas essa percentagem subia a 22. 174-175. Mesmo um integralista como Hipólito Raposo nunca se desfez de «um romântico saudosismo da liberdade. 9. mas em Beja era de 7853. vol. .9% em Santarém. Tratava-se. pp. 45% dos casamentos em Lisboa e 54. pp. p. Memória do Tempo de Vésperas. 54. os 95 mil associados da Acção Católica. 281-302. e o de habitantes por sacerdote de 1643 para 1850. VV. em AA. «A Acção Católica Portuguesa. 1946. Os organismos laicos de catequese e assistência mostraram a mesma desigual distribuição regional.2% no Porto. mas em Lisboa. Arraial: Festa de Um Povo. pp. na década de 1940.6% em Lisboa e 7. 1994. ao mesmo tempo que procurava controlar irmandades e confrarias 111. pp. Segundo um memorialista da oposição. viria a invocar contra a censura salazarista o «velho espírito de tolerância e convivência» do século xix 116. de uma média baixa. «A Acção Católica ² questões em torno da organização e da autonomia de acção da Igreja Católica (1933-1958)». 429. a pluralidade cultural que explica em parte a dinâmica política portuguesa não desapareceu. pp. Lisboa. 19. dos direitos e garantias» 117. mas mesmo na última data. Nos liceus. em Braga. o número de habitantes por sacerdote era de 897. a Rádio Renascença (1938). Apesar de contida pela pressão do Estado. só metade das paróquias tinha padre próprio. 14. ² 1933-1974». Também não desapareceram os hábitos gerados por quase um século de liberalismo. A Espuma do Tempo. vi.4% em Portalegre. à imagem de Lourdes em França. os casamentos civis desceram de 27. 115 Marcello Caetano. Lisboa. outro integralista. Mesmo num contexto benevolente. no entanto. Igreja e Sociedade Portuguesa do Liberalismo à República. só 4. contra 0% em Braga ou 2. 117 Adriano Moreira. 28. impôs a peregrinação ao santuário de Fátima. O número de sacerdotes diocesanos e religiosos subiu de 4154 em 1932 para 5562 em 1948 (sem contar 3477 freiras). 209.7% do total. constituída em Março de 1934 sob a dependência da hierarquia. 1988. a Igreja era proprietária de 14 por cento das publicações periódicas e de uma estação de rádio. p.1% em Évora. A situação era ainda mais séria devido à diferença entre as dioceses. onde em 1934 havia um sacerdote por 877 habitantes. Manuel Clemente. no Porto. 111 Pierre Sanchis. Respiração Mental. 114 Mário Soares. 112 112 Todas as estatísticas citadas no presente parágrafo provêm de Paulo Fontes. No recenseamento de 1940. 228. 1983.

até por via do sistema de culturas obrigatórias. muito claro: as colónias teriam de desenvolver -se com os seus próprios recursos e em articulação com a Metrópole. Para cultivar o sentimento «imperial». imposto com mais vigor a partir de 1938. isto significava quase que condenar as colónias ao subdesenvolvimento. No entanto. porque Portugal não dispunha. Portugal foi dos países que menos investiram nas suas colónias. em Moçambique. p. 1993. houve uma exposição colonial no Porto (1934). e Carmona visitou Angola (1938) e Moçambique (1939). realizado por António Lopes Ribeiro com o apoio da Agência Geral das Colónias. dos necessários mercados. Porto. Por isso. p. oposto ao sistema inglês de liberdade comercial. quer como meio de contribuir para projectos de utilidade pública. Armindo Monteiro. Na prática. Os Progressos do Atraso. 165. Em 1935. 238. as oposições puderam insistir em que para Salazar «as colónias constituem um cancro e um pesadelo» 120. à mercê da administração. e a soberania portuguesa vagamente ameaçada. 119 Pedro Aires Oliveira. essencialmente. como as do algodão e do arroz. 2003. o chamado Acto Colonial (1930) e outra legislação. o Reino Unido e a Bélgica. através do Ministério das Colónias. uma grande potência africana» 119. especialmente pela queda do preço dos seus produtos. pp. foram sempre muito inferiores às da Inglaterra com a sua Commonwealth. O valor das exportações coloniais desceu de uma média anual de 591 280 contos em 1927-1931 para 495 165 em 1932-1936. n. Embora a mão-de-obra tivesse de ser paga e o Estado não a pudesse fornecer a privados. puseram termo à autonomia dos delegados do Governo e a concessões a companhias privadas. capitais ou mão-de-obra qualificada. O peso das colónias no orçamento das despesas passou de 4. Angola. 138. 229. pp. Comparado com a França. Filomeno da Câmara e o Império Colonial Português. O Governo foi. só voltando a subir em 1941-1950 (4. nomeadamente pelo incentivo sul-africano ao separatismo dos colonos brancos 118. Lisboa. economia e política: a questão colonial na implantação do Estado Novo». quer como forma de satisfazer obrigações fiscais. Oliveira Salazar. através de um sistema de controlo das suas relações com o exterior segundo o modelo francês.O império colonial Salazar encontrou as colónias abaladas financeira e economicamente. O Acto Colonial reconhecia aos indígenas o direito aos seus usos e costumes. As suas relações comerciais com as colónias. em Análise social.1% em 1931-1940. uma reunião dos governadores coloniais em Lisboa (1935). 19. 120 Cunha Leal. embora as condições não fossem as mais apropriadas para essa cultura 122. os Brancos e a Independência. para estimular a sua economia. fazendo dos territórios unidades políticoadministrativas submetidas a Lisboa enquanto «império colonial». 2008.9%). na continuação. aliás. tal como as tinham deixado liberais e republicanos. descobria que «nós somos no mundo. 1930. 2000. Em 1944. Cenas desta viagem seriam aproveitadas no filme de ficção O Feitiço do Império (1940). 118 Fernando Tavares Pimenta. espartilhadas por contingentes e preços decididos pelo Governo. Uma Nova História Económica de Portugal. e as suas importações de Portugal de 197 590 para 180 526 121. «Ideologia. Ver também Valentim Alexandre. de facto. mas reservava ao Estado português a prerrogativa de os obrigar a trabalhar. 1117-1136. 121 Pedro Lains. Lisboa. de providências anteriores. Lisboa. o algodão ocupava 267 000 hectares e 791 000 trabalhadores. à francesa: tudo dependia do Governo. . as populações continuaram. O enredo resumia uma aspiração que nunca seria realizada: um emigrante português trocava a América pela África portuguesa. Armindo Monteiro. o ministro das Colónias.°> 123-124.5% em 1921-1930 para 1. p.

pp. Oxford. Correspondência Política. pp. 1996. os Brancos e a Independência. ed. não teve sucesso 125. 2009. os indígenas precisavam de falar Português e adoptar costumes europeus. Ver também Anne Pitcher. 459. mas sempre sem representação dos colonos. and Cotton. não havia separação racial institucionalizada. P. isto é. três dos quais em Goa¶ 126. O Algodão de Moçambique. 1993. foram restringidas as produções de cana-de-açúcar na Madeira e de beterraba nos Açores. p. Em 1940. Londres. o ministro Armindo Monteiro descobriu que «o palácio do Governo Geral de Angola podia perfeitamente ser a Câmara Municipal de Freixo de Espada à Cinta» e a multidão de colonos que o recebeu deu-lhe a «impressão de que todos os barbeiros das aldeias de Portugal se tinham reunido aqui» 124. 125 Rui Ramos. A ideia de uma colonização camponesa. em parte. Angola. 162. replicando o mundo rural português em África. 2008. 126 J M. Oliveira. O «império» estava mais próximo graças às ligações via rádio. 907 mil na Argélia. cujo comércio com Portugal decaiu na década de 1930. embora descesse na década de 1950). 455-456. O Fio da Meada. que em 1937 tinha um preço 20% acima do mundial. A History of Mozambique. Lisboa. em 1930. Rosas. Politics in the Portuguese Empire: The State. 1935-1974. 1995. A. 34. No terreno. havia 30 mil brancos em Angola e 17 mil em Moçambique. p. Portugal e a Economia-Mundo (1860-1960). era controlado por seis empresas. Nada era muito grandioso. e por isso uma despesa. devido ao seu baixo nível escolar. pp. Tal como a França. até porque a falta de qualificações e de capital tornava muitos europeus dependentes de apoios da administração. em Penélope. «Um novo Brasil de um novo Portugal: a História do Brasil e a ideia de colonização em Portugal nos séculos XIX e xx». Mas também por isso. Carlos Fortuna. entre 1935 e 1945. apenas 4554 em Moçambique 123. Porto. como o Brasil. o número de «assimilados» era mínimo: 30 000 em Angola. A emigração para as colónias não foi encorajada.° 23. Os colonos portugueses eram muito poucos. 2000. 475. De visita a Luanda. Júlia Leitão de Barros. 1993. 127 Fernando Tavares Pimenta. Os portugueses pagavam o açúcar colonial na década de 1930 a um preço que era o dobro da média mundial. 129-152. houve apenas quatro deputados nascidos nas colónias. 32. Mas o Governo também não era popular em África. que também dominavam a refinação na Metrópole. A importância destes na política nacional era mínima: na Assembleia Nacional.¶ . n. A fim de adquirir os direitos de cidadão. ocupavam empregos subalternos que noutras colonizações tinham sido um veículo de promoção indígena. 123 Malyn Newitt. admitia-se a «assimilação». mas de facto beneficiaram de preços em geral mais altos do que os do mercado mundial e para produtos de qualidade inferior (era o caso do algodão. 50 mil na Rodésia do Sul e 43 mil no Congo Belga 127. a aquisição de cidadania pelos nativos das colónias. Tavares Castilho. A administração foi passando de militares para funcionários civis. Os Deputados da Assembleia Nacional. 1995. A History of Mozambique. pouco mais era do que uma rede de «postos» ligados entre si por estradas de terra batida. Por volta de 1950. e contaram ainda com a renúncia da Metrópole a abastecer-se junto de outros produtores. Industry. porque a colonização era pouco intensa e os portugueses. o segundo produto mais importado depois do algodão e acima das oleaginosas. asseguradas pela Companhia Portuguesa de Rádio Marconi desde 1927. Porto. por contraste com 2 milhões na África do Sul. p. A produção do açúcar. Lisboa. Os colonos protestavam muito. 1926 1974. 124 Armindo Monteiro e Oliveira Salazar.122 Malyn Newitt. Para seu benefício. de F. Londres.