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2°) Suponhamos que o Brasil declare guerra contra a Argentina, devido uma ameaça de

invasão armada. Durante o período de beligerância, nosso Congresso Nacional edita uma
nova lei fechando as fronteiras com aquele país e consequentemente proibindo que
brasileiros ultrapassem esses limites, sob pena de cometerem crime punido com reclusão de
1 a 3 anos. Ocorre que Carlitos Gonzáles (brasileiro) que possuía parentes no país vizinho
desrespeitou a proibição, atravessando a fronteira. Na Argentina, Carlitos permaneceu até o
fim da guerra. Logo após o término do conflito armado, nosso Congresso Nacional edita nova
lei reabrindo as fronteiras, acabando também com a punição. Sabendo da notícia, Carlitos
retorna ao Brasil.
A) Diante desse caso hipotético apresentado, o que acontecerá com Carlitos?
Embora a lei tenha sido revogada, por tratar-se de crime cometido em tempo de guerra, e
ainda regida por uma lei excepcional ou temporária, será aplicada ao fato a pena de acordo
com o que determinado durante sua vigência, tal qual o Art. 3 do Cp.:
Art. 3º - A lei excepcional ou temporária, embora
decorrido o período de sua duração ou cessadas as
circunstâncias que a determinaram, aplica-se ao fato
praticado durante sua vigência. (Redação dada pela Lei
nº 7.209, de 1984)
Traz-se à tona ainda, o julgado na qual fora negado o recurso visando retroatividade:
PRELIMINARMENTE – DIREITO INTERTEMPORAL –
VIGÊNCIA DO NOVO CÓDIGO DE PROCESSO CIVIL –
RECURSO INTERPOSTO SOB A ÉGIDE DO CÓDIGO DE
1973 – MARCO TEMPORAL – DIA 18 DE MARÇO DE 2016
– RESPEITO AOS ATOS PROCESSUAIS INTEIRAMENTE
PRATICADOS ANTES DO NOVO DIPLOMA – TUTELA
JURÍDICA DAS SITUAÇÕES CONSOLIDADAS NO TEMPO –
RECURSO ANALISADO COM BASE NO CÓDIGO ANTIGO –
ULTRATIVIDADE EXCEPCIONAL DA LEI REVOGADA. - O
recurso interposto antes do dia 18 de março de 2016, dia
de início da vigência do Novo Código de Processo Civil,
deve atender aos ditames do antigo diploma de 1973,
sob pena de malferir-se os artigos 1º, 14 e 1.046, todos
do CPC/2015, além do art. 6º da LINDB e art. 5º, inciso
XXXVI, da Constituição Federal. PROCESSUAL CIVIL –
AGRAVO DE INSTRUMENTO – PROLAÇÃO DE SENTENÇA
– FATO SUPERVENIENTE – PERDA DO OBJETO –
PREJUDICIALIDADE – ART. 557 DO CPC73 – NEGATIVA DE
SEGUIMENTO. - Proferida a sentença, o possível prejuízo
sofrido pela parte agravante é transferido para esta,
sendo consequência inarredável a prejudicialidade do
agravo, ante a perda do seu objeto. (TJPB -
ACÓRDÃO/DECISÃO do Processo Nº
20116044220148150000, - Não possui -, Relator DESA
MARIA DE FATIMA MORAES B CAVALCANTI , j. em 03-08-
2016)
(TJ-PB - AI: 20116044220148150000 2011604-
42.2014.815.0000, Relator: DESA MARIA DE FATIMA
MORAES B CAVALCANTI, Data de Julgamento:
03/08/2016, 1 CIVEL)
Por fim trazemos a luz os ensinamentos de Damásio de Jesus, que salienta ainda acerca
eventuais impunidades que ocorreriam:
Se o criminoso soubesse antecipadamente que
estivessem destinadas a desaparecer após um
determinado tempo, perdendo a sua eficácia, lançaria
mão de todos os meios para iludir a sanção,
principalmente quando iminente o término de sua
vigência pelo decurso de seu período de duração ou de
suas circunstâncias determinadoras. Se a lei temporária
não tivesse eficácia após o decurso do lapso temporal
pré-fixado, todos os que tivessem desobedecido a sua
norma nos últimos dias de vigência ficariam impunes,
pois não haveria tempo para o processamento das ações
penais antes da autorrevogação. Tal possibilidade criaria
graves injustiças: uns seriam condenados, outros, não.
Só seriam apenados os que tivessem praticado crimes
em época bem anterior ao término de sua vigência
(JESUS, Damásio de. Código Penal Anotado / Damásio de
Jesus. – 22. ed. – São Paulo: Saraiva, 2014, p. 27).
Portanto, entende-se que ao retornar ao Brasil, Carlitos poderá ser processado.

B) Qual a principal característica das leis temporárias e excepcionais?


As leis estão no artigo 3 do código penal e tem por principal característica a vigência durante
um determinado período, em circunstancias especificas:
Art. 3º - A lei excepcional ou temporária, embora
decorrido o período de sua duração ou cessadas as
circunstâncias que a determinaram, aplica-se ao fato
praticado durante sua vigência.
Há ainda divergências no entendimento, pois Lei Excepcional é criada para situações
excepcionais, serve para vigorar sob determinadas condições excepcionais (calamidade,
guerra etc). Lei Temporária é para permanecer vigente em apenas um período determinado
de tempo.
Ainda, muito se discute acerca da aplicabilidade da lei em questão, trazendo-se a tona a
questão da retroatividade, Rogerio Greco, no livro Curso de Direito Penal - Parte Geral, por
exemplo, ao explanar o tema traz a seguinte análise ao falar da aplicação ou não da lei de
forma extra temporal:
Para os que entendem que não, a lei ordinária, ao retomar seu vigor
após a vigência da lei excepcional ou temporária, não tem o condão de
mudar a CONCEPÇÃO JURÍDICA DO FATO. Com a nova situação não se
pode dizer da exclusão da relação penal, mas da ausência de elementos
do tipo. As situações punidas pelas leis excepcionais ou temporárias e
aquelas punidas pela lei ordinária são completamente diferentes.
Naquelas existe a contribuição do tempus como elemento de
punibilidade na estrutura da norma incriminadora.
Para os que entendem que sim, no momento em que o constituinte de
88 consagrou o princípio da irretroatividade da lei prejudicial ao agente
sem fazer qualquer ressalva, só se poderia concluir que as leis penais
temporárias e excepcionais não possuem ultra-atividade em desfavor
do réu. O legislador não pode abrir exceção em matéria que o
constituinte erigiu como garantia individual. (p. 31)
Em razão de não ser um fato recorrente no brasil, não foi localizada jurisprudência para a
seguinte questão

C) O que você entende por "abolitio criminis" no Direito Penal? Explique e fundamente suas
respostas.
A abolitio criminis transforma um fato outrora considerado típico, em atípico, portando
descriminalizando sua conduta. Sendo, portanto, uma das causas de extinção de punibilidade,
elencadas no Art. 107, III do Código Penal.
Grego, em seu livro Curso de Direito Penal - Parte geral, entende que:
“A abolitio criminis faz cessar todos os efeitos PENAIS da
sentença condenatória, SUBSISTINDO OS EFEITOS CIVIS.”
(p. 31)
O entendimento do autor pode ser visto também nos tribunais, conforme o agravo de
execução abaixo exemplificado, na qual houve a extinção da punibilidade do agente:
AGRAVO EM EXECUÇÃO. EXTINÇÃO DA PUNIBILIDADE.
ABOLITIO CRIMINIS. IRRESIGNAÇÃO MINISTERIAL.
Abolitio criminis temporária (arts. 30, 31 e 32 da Lei n.º
10.826/2003) não incidente, eis que, conforme a
jurisprudência consolidada deste Tribunal e do STJ,
somente se estendeu às condutas praticadas até
31.12.2009, tendo o delito em apreço ocorrido em
23.04.2010. Agravo provido.
(TJ-RS - AGV: 70054981469 RS, Relator: José Ricardo
Coutinho Silva, Data de Julgamento: 23/04/2015,
Segunda Câmara Criminal, Data de Publicação:
01/06/2015).

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