Mestiçagem, degenerescência e crime

Mestiçagem, degenerescência e crime1 Race crossing, degenaration, and crime
Dr. Nina Rodrigues
Professor de Medicina Legal da Faculdade da Bahia2

I
Mestiçagem. A mestiçagem humana é um problema biológico dos mais apaixonantes intelectualmente e que tem o dom especial de suscitar sempre as discussões mais ardentes. A questão da unidade ou da multiplicidade da espécie humana, do monogenismo e do poligenismo, que parece pertencer ao domínio das ciências naturais e apresentar um interesse pura e exclusivamente antropológico, provoca as mais ardentes disputas. No calor do debate, reconhecemos freqüentemente que nesta questão está contida outra, transcendente, filosófica, e até teológica: a da origem natural ou sobrenatural do homem, do transformismo ou da criação divina. Ao aceitar como critério fundamental da espécie a fecundidade indefinida dos cruzamentos, era natural que os poligenistas apoiassem o hibridismo dos cruzamentos humanos, contra os monogenistas, que se esforçam por demonstrar a viabilidade perfeita de todos os mestiços. Assim, o critério de viabilidade e de capacidade dos mestiços foi posto no terreno das ciências naturais. Tanto como para os animais, esse critério deveria ser a perfeita eugenesia dos mestiços humanos, que uns apoiavam e outros negavam. Colocados nesse campo, foi fácil aos monogenistas declarar os que os contraditavam como vencidos, demonstrando, com numerosos fatos em seu apoio, a eugenesia exuberante de produtos do cruzamento, ainda que provenientes das raças consideradas pelos poligenistas espécies distintas, tais como as raças branca, negra e vermelha. O debate entre o monogenismo e o poligenismo estava, entretanto, destinado a perder afinal quase todo seu interesse filosófico, já que, admitindo com os transformistas que a origem do homem se deu entre os primatas, e não entre os símios ou pró-símios, é admissível que ela se localize tanto em um só tronco quanto em troncos diversos, de tal modo que atualmente há tanto transformistas que aceitam a hipótese polifilética (Haeckel, Popinard etc.) quanto os que aceitam a hipótese monofilética (Keane etc.).

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Tradução de Mariza Corrêa do artigo “Métissage, dégénerescence et crime”, publicado nos Archives d’Anthropologie Criminelle, v.14, n.83, 1899. O exemplar usado para esta tradução, cópia do existente na Faculdade de Medicina da Bahia, trazia uma dedicatória em francês, manuscrita, para Alfredo Britto, na qual só é legível a palavra amitié, assinada por Nina Rodrigues e com a data de 10 de janeiro de 1900. Abaixo, a informação sobre a editora: Lyon, A. Storck & Cie, Imprimeurs-Éditeurs; e a data. Nota de tradução: conforme o frontispício do artigo.

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v.15, n.4, p.1151-1182, out.-dez. 2008

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2008 1153 . voltando-se para todo um povo ou para casos muito limitados e muito específicos. Em alguns casos muito especiais é sempre justo suspeitar de uma exceção ou de uma influência degenerativa local. Sem ir mais longe. suscetíveis de produzir sua decadência. o exemplo da América do Sul a favor do sucesso completo da mestiçagem e punha em relevo a intrepidez e a energia da empresa dos paulistas8 brasileiros. recentemente vemos Gustave Le Bon10 considerar as repúblicas sul-americanas a prova incontestável da influência social desastrosa dos mestiços. n. preencher duas condições fundamentais: estudar pequenas localidades. e o Brasil. degenerescência e crime Esta é. Agassiz. Quatrefages. nas quais é mais fácil distinguir as diferentes causas degenerativas. Habitantes do estado ou província de São Paulo. Keane. é quase impossível distinguir a influência da mestiçagem entre as mil outras causas complexas. loc. tal como feita até hoje. a utilidade de procurar resolver o problema através da observação direta e imediata é indiscutível. cit. a posição que a mestiçagem da América Latina tem ocupado na discussão. Paris. As grandes proporções que o cruzamento de raças que deviam ser consideradas espécies distintas tem tomado nesses países deveriam forçosamente atrair a atenção dos debatedores. em 1863. não pode trazer senão provas muito discutíveis e não pode iluminar a questão com as luzes soberanas da verdade. loc. dado que a população local não se distingue em nada do tipo médio geral da província ou estado. Gustave Le Bon. Voyage au Brésil. 10 11 v. II Em tais condições. No trabalho que publicou em 1855. lembrado por todos nesse debate. L’unité de l’espèce humaine. p. Mas em 1861. 1861. Mais tarde.-dez. Essai sur l’inegalité des races humaines. em minhas observações. out..4. precisamente contra ele. cit. responsável pela ação imputável ao cruzamento. Quatrefages7 invocava. trad. precisamente.1151-1182.15. é Agassiz9 que por sua vez vê a mestiçagem como a causa fundamental da decadência miserável dos mestiços do vale amazônico. Num país inteiro e sem o recurso a estatísticas no caso dos povos que se prestam a essa discussão. 1869.Mestiçagem. procurei. Para evitar esses escolhos. A observação. 6 7 8 9 Gobineau. ao passo que Keane11 os apresenta como a prova não menos conclusiva das vantagens da mestiçagem. e completar o estudo da capacidade social da população através do exame de sua capacidade biológica escalonada sobre sua história médica. Paris. assim como as repúblicas sul-americanas. tem-se tornado o exemplo obrigatório. 1855. Gobineau6 já fazia um quadro bem negro da decadência dos mestiços sul-americanos.

p. quase voltaram ao estado selvagem e seus donos não tomam outro cuidado que o de saber onde eles foram parar. com uma eloqüência indiscutível. Em segundo lugar. Obrigado a omitir todos os esclarecimentos que pudessem tornar reconhecíveis as pessoas. os acúmulos notáveis de tara hereditária degenerativa. Não incluo os casos nos quais a degenerescência não se revestiu de formas mórbidas suscetíveis de serem reconhecidas pelos leigos e de serem v. que sob todos os aspectos não se separa nem se distingue do tipo médio da população mestiça do estado. mais ou menos estreitos. a atividade que podemos esperar de uma população nova. às afecções graves do sistema nervoso. os laços de parentesco. Nada mais apropriado para manter o gosto da vida nômade nesse povo semibárbaro. bom para mulheres e crianças mais do que para homens. de bem estar. A propensão às doenças mentais. uma única grande família. reconhecíveis até pelo vulgo. Como em todas as pequenas localidades nas quais a população se desenvolve gradualmente em torno de um pequeno núcleo de habitantes. n. As pessoas se dedicam à criação de gado. sempre estreito e quase nulo. a partir da reputação da qual goza. no entanto.4. tinha o vigor. especialmente na cidade. o espírito empreendedor é pouco progressista. ele fica satisfeito assim que encontra o estritamente necessário à vida cotidiana. Na tábua genealógica que vou esboçar. saudável e fortificada pelo cruzamento. se ela não padece de uma indolência invencível. ao contrário. sua previdência não vai muito longe. mandioca. o que só exige deles um trabalho intermitente. como muitas outras. Entre os raros indivíduos que fazem exceção a essa regra. III Degenerescência.Mestiçagem. tão acentuada aqui quanto poderia ser num povo decadente e esgotado. que ela é uma exceção à regra. degenerescência e crime Se existe uma localidade na qual os mestiços brasileiros constituem uma população capaz de oferecer esperanças de futuro. tentei representar a história médica dessa localidade tal como a pude reconstituir com os dados de minhas observações diretas e com as informações que recolhi cuidadosamente sobre pessoas ainda vivas. à degenerescência física e psíquica é das mais acentuadas. o desejo de riquezas. A tendência à degenerescência é. deixados soltos a pastar nos campos naturais ou não cultivados. out. não obstante está longe de ser realmente trabalhadora. tabaco. Os procedimentos de cultivo são de fato primitivos. cultiva-se apenas os produtos mais comuns: cereais. É disso que se ocupam os trabalhadores durante uma pequena parte do ano. leve. os animais. Não se deveria acreditar. até do simplesmente confortável – não o aguilhoa nem o estimula ao trabalho. Em primeiro lugar. observarei apenas que nessa tábua só se encontram os indivíduos que foram atingidos por formas degenerativas tão evidentes que elas são.-dez. fazem deles. 2008 1155 .15. mas utilizam o mais primitivo dos sistemas.1151-1182. Propus-me a verificar se esta população. em Serrinha. Ela compreende perto de seis gerações e demonstra. é certamente Serrinha.

. é relativamente rara em Serrinha. surdo-mudez. mulata clara. às vezes estados delirantes prolongados. n. vontade de chorar. casada duas vezes. Volta das tendências melancólicas depois de seu último parto. associam-se a numerosas manifestações de degenerescência inferior. Mencionarei apenas alguns casos de histeria major. mesmo em estado de vigília. Observação VII. ela é constantemente atormentada por ilusões sensoriais e alucinações visuais e auditivas. mestiça parda. 28 anos. N. Abertas as pálpebras com a ajuda dos dedos. insônia. tão freqüente na população mestiça do estado. Há tudo para crer numa forte tara hereditária. e mais tarde numerosos acessos de grande histeria que por vezes lhe causam contraturas rebeldes. verdadeiro tipo indígena. Tara hereditária. Simples blefarospasmo muscular bilateral. Antes de casar teve um acesso de depressão melancólica acompanhado de fenômenos neurastênicos que permanecem há um ano. ou pequena histeria. Tem um pai degenerado.O. alguns muito curiosos por sua associação a manifestações muito complexas de degenerescência. tristeza. Casada duas vezes.. Desde verdadeiras monstruosidades até simples estigmas de degenerescência. sem ocupação. Forte tara hereditária. Arm. tenho anotações sobre seis casos que observei em pardos. J. bem situada. cinco filhos. bem situada. mestiça quase branca. Estigmas histéricos. mas se ocupa com trabalhos domésticos fatigantes. Encontramos aí perturbações e crises histeriformes freqüentes entre os neurastênicos. mestiça de índio apresentando sinais bem marcantes da raça vermelha. sensação de cabeça estalando.. tais como lábio leporino. Observação VIII. v.-dez. A histeria. palato fendido. degenerescência e crime Observação V. negros e brancos.4.Mestiçagem. doença das mais freqüentes na Bahia entre os mestiços e os brancos. alcoólatra. considerada cega há muito tempo.1151-1182. a doente pode ver perfeitamente. foi tratada várias vezes na nossa cidade. manifestações dermopáticas notáveis.. Mãe de uma jovem que não pude ver e que tem acessos de histeria convulsiva. Observação VI. repugnância pelo trabalho. out. dores cefálicas. 2008 1157 . Diferentes casos de não-viabilidade de recém-nascidos devida a essa causa chegaram ao meu conhecimento e pude recolher alguns esclarecimentos a esse respeito. ovário etc. As anomalias e as monstruosidades sobre as quais conservei anotações compreendem tipos diferentes. A degenerescência física e mental é excessivamente freqüente. p. 32 anos. não doloroso. mas quase não há a histeria convulsiva comum. Mulher estéril. biabdominal.. quase sem ocupação. Fortemente histérica.. impossibilidade de fixar a atenção. quase branca. A epilepsia é também muito freqüente. Bem situada.. 40 anos.. Natimorto.. com encurtamento dos membros superiores encaixados no tórax.15. A. Observação IX. atingida por um violento acesso de melancolia que sofreu após ter dado à luz um monstro com hipertrofia cartilaginosa do tecido ósseo. Desde sua mais tenra infância teve acidentes histéricos graves. Recentemente atendi uma senhora de Serrinha. anestesia.. mulatos claros e escuros. comum.

mulata escura. Tara hereditária pesada. 30 anos. mas bem constituído e ainda vigoroso. n. 2008 1159 . out. negra.-dez. A. Antecedentes hereditários desconhecidos. alguns dos quais são casados. jovem de 16 anos. Antecedentes hereditários desconhecidos.. tem vários filhos que atingiram a idade adulta. Delírio de alucinação alcoólica há longos anos com alternâncias de melhora e de agravamento. novo acesso de melancolia gemedora com sitiofobia opiniática que nos obrigou a recorrer. seis dos quais estão vivos. 55 anos. Observação XX. Parece ter tido um ataque de melancolia. M. 28 anos. Antecedentes: descobri que ela descendia de pais africanos filiados à seita iorubá.4.. Observação XXIV. vigoroso. o revi no asilo desta cidade. degenerescência e crime falamos. 40 anos. Delírio de perseguição com alucinações múltiplas. vê em toda parte amantes de sua mulher. Valeriano Baptista. mulato. religioso. Falta de sobriedade. Observação XIX. sobretudo auditivas. já teve duas ou três vezes delírios polimorfos. Trabalha no campo. freqüentemente a maltrata e a ameaça de morte. fazendo cateterismo do esôfago pelas fossas nasais. Observação XXII. Mãe alienada. concepções delirantes provenientes de uma nevrose do estômago.. atualmente delirante polimorfo.. Toma mil precauções ridículas para surpreendê-la. durante vários dias. político. 55 anos. estava atacada por um delírio agitado. de grandeza etc. alto. mais ou menos longos.. v. mulato alto.J. delírio de possessão demoníaca há meses.15.. Observação XXIII.. teve onze filhos.Mestiçagem. p. Quando a vi. 14 filhos. Casado com uma mulata já velha... Pouco tempo depois de minha partida de Serrinha. Mal desenvolvida fisicamente. mulato claro. a família se recusou a internar a doente. Antecedentes hereditários desconhecidos. Delírio de perseguição sob a forma de um violento delírio de ciúmes. à sonda alimentar. Casado. Sem ser alcoólatra. Néscia. mas incoerente. Atingido pela loucura há cerca de cinco anos. Hipocondríaco. estando conseqüentemente exposta aos êxtases e aos fenômenos de sonambulismo. A. numa época em que não morava em Serrinha. com freqüência não está sóbrio.1151-1182. Por causa de suas perseguições. a quem acusa de infidelidade com a cumplicidade de seus próprios filhos. bem constituído. Tendência pronunciada à demência.. Depois do parto. fui chamado a examiná-lo a pedido das autoridades. mulato baixo e musculoso. 30 anos. magro.. Joanna. de perseguição. Observação XXV. A doença persiste. Antonio Oliveira. F. histeria. ele pedia que lhe abrissem o ventre para retirar os animais que o carcomiam. a doença apresenta períodos de calma que lhe permitem voltar ao seio da família e retomar seus trabalhos habituais. delírio hipocondríaco.. Alienado há cerca de seis anos. Observação XXI. antecedentes desconhecidos. mestiça de sangue indígena bem marcada pelos caracteres da raça vermelha.

encycl. É realmente curioso ver na grande árvore genealógica o mesmo indivíduo. e essas causas não são outras senão as más condições nas quais se efetivaram os cruzamentos raciais dos quais saiu a população da localidade analisada. essa sendo a opinião corrente na localidade. de Dechambre.-dez. degenerescência e crime determinantes das psicoses são em realidade os primeiros sintomas de um estado neuropático”. ela pode bem tomar formas que vão desde brilhantes manifestações de inteligência – como entre os degenerados superiores. Nossas conclusões serão as mesmas no que tange às localizações nervosas da sífilis. v. negra e vermelha. Proteiforme. como estudo de conjunto. num fenômeno muito complexo que não podemos reduzir a manifestações mórbidas fatais ou irremissíveis. que tomarão corpo mais e mais nas gerações futuras –.15 deixaram fora de dúvida a sua impossibilidade de causar sozinha a degenerescência. Como fica evidente nesse estudo. o professor Lacassagne. até as manifestações estridentes da degenerescênciaenfermidade. transmitir a tara hereditária aos filhos nascidos dessas duas uniões.15. 2008 1161 . verdadeiro louco moral. Ora. não obstante ser uma causa de seu agravamento.1151-1182. que transmite aos filhos legítimos que ele teve com uma prima a mesma manifestação de degeneração que transmitiu a uma filha adulterina. no entanto. não podemos negar que nossa tábua genealógica principal demonstra com eloqüência a grande influência da hereditariedade consangüínea sobre a degenerescência da população de Serrinha. des sciences médicales. Mas é sobretudo a consangüinidade que vemos geralmente como causa eficiente dessas manifestações. como vemos ainda a hereditariedade atravessar facilmente as barreiras do parentesco consangüíneo. nascida de uma negra. quero colocar o importante artigo de meu eminente mestre e amigo. do germe de um desequilíbrio diatético que trabalha para a extinção da raça sem ser incompatível com a existência de uma saúde vigorosa dos 15 Verbete ‘consanguinité’. As causas reais das manifestações mórbidas ou de degenerescência estudadas na população de Serrinha devem ser mais longínquas e mais poderosas. no topo dos quais. A degenerescência das populações mestiças se constitui.4. n. sem dúvida. como são as raças branca. cuja freqüência pode denunciar apenas uma degenerescência latente. out. p. mas é impossível atribuir-lhe uma ação maior. resultou num produto desequilibrado e de frágil resistência física e moral. A observação XII nos mostra o marido infectado. Temos de convir. nas quais os estigmas se impõem pelo franco desequilíbrio mental ou sob a forma impressionante de monstruosidades físicas repugnantes. O cruzamento de raças tão diferentes antropologicamente. o que contém certamente uma grande parte de verdade. casado sucessivamente com duas mulheres estranhas à sua família. que a degenerescência-enfermidade é aqui a conseqüência de uma fragilidade congênita. Dict.Mestiçagem. passando por uma média de capacidade social de tipo inferior. mal tocada por tendências degenerativas. não apenas existem em Serrinha várias famílias degeneradas sem laços de parentesco entre elas. Os belos estudos sobre a consangüinidade. não podendo se adaptar ao clima do Brasil nem às condições da luta social das raças superiores.

também professor na Faculdade da Bahia. do cruzamento. e se distanciam dos tipos rigorosamente médios nos quais parece revelar-se em toda sua plenitude. como conseqüência de anulações ou combinações que podem ser feitas entre elas. Nesses casos. Paris. que o médico foi atingido pela loucura. Um mestiço pode herdar a inteligência da raça superior e outras características da raça inferior. Couto de Magalhães afirma que o melhor mestiço (de branco com índio) é aquele que resulta do tronco branco com no máximo um quinto de sangue indígena.4. São eles em geral citados entre nós como sendo a negação mais formal da degenerescência dos mestiços. Ora. levou sempre uma vida desregrada e morreu em conseqüência dela. talvez fosse fácil demonstrar sua degenerescência ou a existência de taras em suas famílias. correspondente do Instituto Francês. observa. como é o caso do engenheiro Lislet Geoffray. Ladislau Netto observou em famílias mulatas que os filhos nos quais se acentuam as características da raça negra é que são por vezes os mais inteligentes. Um de seus críticos (Araripe). Clémence Royer. dos instintos ou dos sentimentos das raças puras podem predominar. o conflito que irrompeu entre qualidades psíquicas e condições físicas e fisiológicas muito desiguais de duas raças profundamente diferentes. mas que é preciso. todos sabem que Silva morreu de uma mielite. se é do antagonismo e da diferença entre as características antropológicas ou étnicas das raças que se cruzam que devem vir todos os defeitos dos produtos mestiços.Mestiçagem.15. ao contrário.16 inversamente. dada há um bom quarto de século:“Podemos 16 In Quatrefages. que não vale a pena lembrar aqui. n. entre os mestiços. 1861. que ele se ressente da incurável lubricidade da raça negra. ou finge-se ignorar. e dela morreu. no produto resultante da união. degenerescência e crime Rio de Janeiro. um de nossos mestiços de maior valor intelectual. antigo condiscípulo dele. distinguir entre o cruzamento das raças próximas e pouco diferentes e aquele de raças antropologicamente muito distintas. demonstram que as qualidades físicas e morais podem se transmitir formando combinações muito variadas. das duas raças. v. Ora. e sua degenerescência genésica que fazia dele um homossexual ativo é notória. Outros mestiços se mostraram superiores em nosso país. à qual pertencia. é claro que não podemos julgar a mestiçagem em bloco. e que o engenheiro recentemente pôs fim a sua vida. apresentado como prova do valor da mestiçagem. recorrendo ao suicídio. O eminente Barreto.1151-1182. características que a hereditariedade fundiu numa combinação. Nossos antropólogos já observaram que os mestiços brasileiros não são igualmente dotados de boas qualidades. Atualmente. É que as características físicas e morais das duas raças não se fundem nos mestiços de modo a resultar sempre num produto médio. num amálgama defeituoso.-dez. certas qualidades das tendências. Mas esquece-se facilmente. ou ainda em caso de fusão proporcional. p. é outro mestiço notável pelo talento. Esta desigualdade. falando de seu lirismo como poeta. os mestiços são mais ou menos retornados ao equilíbrio de uma das raças puras. out. L’unité de l’espèce humaine. o terceiro foi um eminente jurista. em toda sua brutalidade. como fez Mme. Muitos exemplos. Silva. todos os fatos confirmam inteiramente a seguinte opinião de Spencer. da influência das duas raças que se cruzam é um fato sancionado pela prática mais distanciada da especulação científica. 2008 1163 .

tendo recebido uma dose nova de sangue branco. ainda pequena. outra com boa saúde. Mas de que perspectiva podem essas verdades ser invocadas a favor do poligenismo? A raça. mas com tendência a engordar. que ocuparam o norte do Brasil durante quase trinta anos. 1861. neurastênico hereditário desde muitos anos. uma segunda degenerada: assimetria facial. L’unité de l’espèce humaine. outro. com acessos histérico-epiléticos. é bastante superior à que observamos na mãe pátria. esteve internado na Alemanha e no nosso asilo. doenças com tiques. Italiano. histérica. Um. Pois bem. não cria uma causa menor de degenerescência. v. Observação XXX. É verdade que o negro africano emigrado para a Europa freqüentemente morre de tísica.Mestiçagem. ou essa se extingue ao fim de um pequeno número de gerações. como vimos. um que parece normal e duas meninas nas mesmas condições. o segundo.1151-1182. tuberculoso. outra menina. uma menina com histeria e tuberculose pulmonar. continuam a degenerar ao invés de regenerar. com muitas fobias. Os casos seguintes esclarecerão esse aspecto.20 monogenista notável e partidário decidido da unidade da espécie humana. taciturno. uma última. no entanto. Português casado com uma mulata clara. n. O mais velho tem um temperamento nervoso. dissimulado. ao passo que as colônias alemãs do extremo sul. histeroepilepsia. O mais velho é idiota. 2008 1165 . p. Quatrefages. out. estão em plena prosperidade. Conheço inúmeros casos nos quais os mestiços. O mais velho. pretende-se poeta. Seis filhos. muito bonita.4. casado com uma senhora mestiça quase branca. o segundo.-dez. Não pretendo discutir a não – adaptação da raça branca aos climas tórridos nem a dos negros aos climas frios. impetuoso. nervoso. outro. muito claros. uma menina atingida pela pequena histeria. é antes de tudo um produto do meio. Português casado com uma mestiça de branco e indígena. p. violento.15. Alemão casado com uma mulata escura. concentrado. a segunda. e sobretudo a das crianças. não deixaram outros vestígios de sua linhagem que não alguns nomes de família. enfim. epiléptico. degenerado. Por último. alienado. pode escrever: “É verdade que o europeu branco transportado abaixo da linha [do Equador] ou às regiões intertropicais definha e perece freqüentemente sem deixar posteridade. uma menina completamente degenerada. seis filhos. um adolescente que até agora apresenta um estado normal. lembrar que os holandeses. Observação XXVIII.368. Formada sob o império de certas condições de existência e encontrando-se bruscamente sob novas 20 Quatrefages. o elemento branco que se mistura não deixa de se extinguir. Observação XXIXX. Paris. nas quais os negros decrescem numericamente. tem boa saúde até agora. Observação XXVII. cinco filhos. degenerescência e crime chocante. ainda que de segundo ou de terceiro sangues. Permitam-me. perturbado. taciturno. cinco filhos. É também verdade que na nossa colônia da Argélia a mortalidade dos adultos. Duas crianças pequenas com uma assimetria facial notável. mística.

83. as conclusões às quais chegaram em seus estudos. em Serrinha a criminalidade é muito baixa: estamos longe de poder dizer o mesmo da população mestiça do país. Gentini. Bertholon. Se a violência. Relatório. 1886. p.25 para os muçulmanos da Tunísia. Kocher. Candido Mota. nas quais vemos a criminalidade associar-se franca e intimamente com as 22 23 24 25 Spencer. sobretudo os da América. 1893. e até a impulsividade inata das raças inferiores.28 para as colônias francesas. n. A falta de estatísticas não nos permite fazer um estudo comparativo da criminalidade baiana. Principes de sociologie. isto é. Scienze Penali ed Anthropologia Criminale. que o tipo violento predomina na criminalidade da população de cor. degenerados físicos. São Paulo. que esse defeito provenha de uma inércia constitucional. “Pode ser”. Bevilaqua. Mas do fato de que em Serrinha a criminalidade seja baixa. tanto do ponto de vista da energia vital quanto do da inteligência. deve exercer uma influência decisiva sobre a qualidade dos crimes. 1896. degenerescência e crime são.4. É o que podemos concluir. é suficiente ler a história das duas famílias das quais se vai falar. e Le crime en pays créoles. 28 29 30 31 Corre. Kocher. 1894. v. 1884. Archives d’Anthropologie Criminelle. Paris.15. 26 27 Lorion.” E no entanto esta apatia não exclui entre eles as explosões de um furor violento provocadas às vezes por causas da menor importância.26 para a Conchincina.1151-1182. em geral. não se pode concluir que a degenerescência. não exerça uma influência muito forte nas manifestações criminosas. out.Mestiçagem. em grande parte sem estatísticas rigorosas. no que diz respeito ao Brasil. de modo nenhum. 1894. Corre. Minas Gerais. p. Fournier de Flaix. Paris. Relatório. por E. de maneira geral. Gentini. de Lorion. Revue Scientifique. Neste país. La criminalité aus États-Unies. Etnographie criminelle. se às vezes eles parecem ricamente dotados. das estatísticas limitadas ou muito incompletas de Clovis Bevilaqua. La criminalité chez les arabes en Algérie. Bahia. dotados de uma apatia extrema. de Flaix. Archivio di Psychiatria. Saraiva Salvinho. 1887. v. Pois bem. 2008 1167 .30 para São Paulo. Spencer observou que existem muitos selvagens. pode bem não ter nenhuma influência sobre sua quantidade.31 para Minas Gerais. podemos dizer que entre eles a inteligência parece mesmo tanto mais ativa e mais potente porque ela não é nunca perturbada pela consciência”.23 para os Estados Unidos. diz ele.29 para o Ceará. Para convencer-se de que a criminalidade é também aí uma simples manifestação da degenerescência produzida pela mestiçagem. Paris. ele busca explicar esse fato por uma predisposição constitucional orgânica. tão nitidamente existente nesse local com seus traços mórbidos. Criminalité et médecine judiciaire em Cochinchine.IX.22 “se as raças americanas não se mostram dispostas a agir depois do primeiro impulso.24 para a Argélia. de Candido Mota. de Saraiva. Bertholon.27 para o México. Criminologia e direito. os ensaios de estatística feitos até hoje nos autorizam apenas a confirmar. Esquisse de l’anthropologie criminelle des tunisiens musulmans. Cazelles. Archives d’Anthropologie Criminelle. 1889.-dez. trad. Paris. La criminalitá nel Messico.

.... Não apresenta deformação ou estigma físico.. [Resolvi-me a completar o estudo deste criminoso...11 e índice nasal de 80. consegui hipnotizar o criminoso e desde então] procurei indagar que influência podiam ter exercido no seu espírito a suposta ordem do inimigo do pai e a do companheiro a quem imputa a sugestão do roubo.... apenas ligeiro buço... degenerescência e crime de toda sorte.. [Embora com dificuldade........ Nota de tradução: de acordo com a frase seguinte. cortado um pé de mandioca e prometido um tio que assim que o pai chegasse lhe havia de comunicar o fato para que ele castigasse o filho... de fato é ele impassível referindo o crime em todas as suas minudências como se se tratasse da coisa mais natural do mundo. O administrador afirma que não sabe mais o que há de fazer dele.... 180 mm Diâmetro transverso máximo. 150mm Altura nasal.... out........... v. [Continuo a estudá-lo.Mestiçagem............... Foi... não é canhoto.. talvez o ‘não’ tenha sido incluído por erro de composição na edição brasileira.. [Também por este meio consegui] *Obtive igualmente* a confissão completa dos seus hábitos pederastas que até então ele teimava em negar...4.... A fisionomia do criminoso é sem expressão. nem ambidestro.75 [80... embriaguez...... confessando que tinha sido falsa a invenção de um mandante.. em que se revela uma ausência completa do sentimento de piedade... tentei hipnotizá-lo. jogo.. mas não é de difícil hipnotização35] *Ele é difícil de hipnotizar* e opõe *rudes* obstáculos às sugestões... ou de criminoso de hábito aperfeiçoado pelo meio? Esta última classificação tem em seu favor a falta dos grandes estigmas físicos do criminoso nato..... As medidas cefálicas tomadas dão os seguintes resultados: Diâmetro anteropostero máximo..-dez.......... revelou o criminoso] *Assim.. Daí em diante [mesmo em vigília] o menor passou a contar-me o fato por este modo........] É um pardo em que os caracteres do mulato e do mameluco34 estão bem combinados......... Trata-se neste caso de um criminoso nato.....] Por que parte entram nessa conduta a perversidade congênita e o lapidamento da prisão.... Mas a [precocidade] *perversidade* desse criminoso.. 110mm Diâmetro frontal máximo..... ou pelo menos 34 35 *Produto de branco e índio*..1151-1182. na ausência do pai... 52 mm Largura nasal.... para evitar o castigo que este cometeu o parricídio... é o que não posso dizer...15.76]..... aparentando aceitá-las..... a natureza do seu crime..... [Hipnotizado... 155mm Diâmetro frontal mínimo........ 2008 1169 ........ nem revela logo à primeira vista o cinismo do menor que fará objeto da observação seguinte... 42 mm donde calculamos índice cefálico hiperbraquicéfalo de 86. mas sendo realmente muito dissimulado... Ainda completamente imberbe.... tem aparentemente um ar de submissão que parece convencional. pois.. vive constantemente em castigo.. Nada indica que este rapaz tenha sido vítima de sugestões estranhas na prática dos seus crimes... n. mas o criminoso logo confessou* que tal ordem nunca havia existido e que o verdadeiro móvel do crime havia sido a circunstância de ter ele. p.. [Todavia nem faz garbo do crime..

........... 1.. Testemunha ocular desse fato........... Por fim. apontar a espingarda na direção das casas vizinhas................. 180mm Diâmetro bizigomático.... Encontrei-o expirando....... do qual apresento aqui alguns trechos: Lino não apresenta nenhuma anomalia importante.. Circunferência anteroposterior..... ficou passeando em frente ao quartel......... degenerescência e crime O criminoso........ Arco parietal. Fui vê-lo imediatamente...75m Circunferência toráxica.... continuando a falar em altos brados e a ameaçar todo mundo. Fiz sua autópsia e escrevi meu relatório..................70m Envergadura......... sempre num estado de extrema agitação............................................. a boca cheia de uma espuma sangrenta................... 040mm Largura nasal..86m A cabeça era bem conformada...........22.............................. quase imberbe.......... o crânio não apresentava nenhuma anomalia.. 180mm 166mm 520mm 310mm 270mm 120mm 110mm 090mm v.....-dez..... A calota craniana se encontra no laboratório de medicina legal de nossa Faculdade.......... e sob ordens da autoridade... 1..... Circunferência transversal....15... com apenas alguns fios de bigode........4................ ameaçando todo mundo aos gritos....... Circunferência horizontal total........... Tomei suas medidas que deram os seguintes resultados: Altura....40.......................1151-1182.................. tentar forçar a porta a coronhadas..... n..... 2008 1171 ............ desafiava a todos e a cada um a vir prendê-lo..... situada em frente.... Arco ocipital................. acompanhei todas as peripécias da janela de uma casa na qual morava... mede: Do queixo à linha dos cabelos..................... sem assimetrias.. evidentemente excitado... ir até aquela na qual o oficial encontrara abrigo......Mestiçagem... donde calculamos índice cefálico ultrabraquicéfalo de 90.................... apontando a arma para aqueles que o olhavam................... O rosto................ p................... sempre com a arma na mão........ 125mm Altura nasal. provocante.............. vi Lino........ out..... a fronte coberta por um suor abundante...... todas as portas da pequena cidade se fecharam e o lugar no qual os crimes foram cometidos ficou deserto... 0.... um soldado fez fogo sobre ele e o deixou estendido.. Durante mais de uma hora......... mas sem aparência de uma embriaguez bem caracterizada................ Num piscar de olhos. 043mm donde índice nasal de 107........................... É um mulato escuro de cabelos crespos............. Arco frontal.... Medidas craniométricas: Diâmetro anteroposterior. Diâmetro transversal...... passeando de um lado para outro no lugar.........

às sete horas da noite. O mestiço C. Alegre. Observação XXXIV. preso. Tio de C. ainda procurou resistir... O assassino estava sob o jugo de um forte acesso de violência.. cobriu-a de golpes de faca e quando abandonou sua vítima ela não era mais que um cadáver coberto de feridas. mede um metro e 72 de altura e um metro e 76 de envergadura. ele queria castigar a vítima.-dez.1151-1182. O ciúme tinha se apoderado dele há algum tempo. por aliança.4. irmão do anterior. mestiço quase negro. já que facilita extremamente a compreensão exata da impulsividade dos mestiços. Encontrando Isabelle na porta da cabana em que moravam.. p. portanto irmão do bisavô/bisavó de Lino. É ainda vigoroso. a quem queria simplesmente castigar. apesar de ter cerca de sessenta anos. mulher de Clemente um negro e alcoólatra contumaz Muitos filhos. trabalhador. com quem vivia maritalmente. e que o enganava: Nota de tradução: se Clemente era tio por aliança de C. um assassino (Obs. Briguento. não pode tocar em bebidas alcoólicas sem se tornar provocativo. X. quando é insultado. out. É um vaqueiro. Manoel assassinou a jovem Isabelle. com características bem nítidas de negro e indígena. Quando o interrogo sobre as causas de seu crime. que acusa de ter atentado contra a honra de sua filha e que recusava-se a pagar indenização. tentou assassinar seu patrão. começou a discutir com ela. tirada na penitenciária). briguento e sempre acaba por chegar à violência e até ao crime. ainda que resumida.Mestiçagem. Ele me disse que evita as discussões e tem tanto medo de não poder se controlar. Sua conduta na cadeia. as genealogias recompostas a partir da descrição de Nina Rodrigues. foge dos lugares onde se encontra. no final. é. Extremamente colérico. teria sido casado com uma irmã do pai ou da mãe deles e. e D. Ver. mostrando igualmente as características do negro e do indígena bem acentuadas (ver a fotografia 2. degenerescência e crime Linha colateral cujos antecedentes são desconhecidos Clemente. n. No dia 9 de dezembro de 1888. considerado pelas pessoas da vizinhança um homem sério. irmão do assassino Manoel Felipe. 37 v. que. onde esta entra como a de número 4.37 Muitos filhos. ele conversa e brinca por iniciativa própria e ri de si mesmo. onde está desde 1889. e D. ele me responde que não estava bêbado e que não sabe como pôde fazer tal coisa. XXXV) A história dos membros anormais dessa família. é um homem de cerca de cinqüenta anos. Observação XXXIII. Ele tentou fazer com que os vizinhos acreditassem que a jovem infeliz tinha caído vítima de um ataque.15. mas sim seu cunhado. escuro. 2008 1173 . Felipe é magro e alto. tem grande valor. mestiço escuro. é exemplar: é um prisioneiro moderado. portanto. obediente.. e não apresenta anomalias nem estigmas dignos de chamar a atenção. Manoel-Felipe. não era irmão do bisavô ou bisavó de Lino.

ele se joga sobre elas.. se lembra perfeitamente de ter atacado as duas mulheres e conserva.. degenerescência e crime Observação XXXVI. da perseguição da criança. Os membros superior e inferior do lado esquerdo são maiores do que os do lado direito. Na penitenciária. ele mostrou uma perda absoluta da memória e se queixava de fraqueza. confessando seu crime. ele encontra uma criança que não conhecia.Mestiçagem. V.-dez. n. 45 anos. no entanto. Ele acrescenta que está envenenado. o criminoso entra numa venda. nesse indivíduo degenerado e impulsivo. Mas este é um ponto que não pude elucidar e não sei a verdade a este respeito. Ele conta que na adolescência contraiu uma moléstia na floresta que começou com uma completa perda de sentidos. sua conduta é excelente e ele aprendeu o ofício de charuteiro. tomou a estrada. mas sua memória não conserva traço do que se passou a partir de sua entrada na cidade. que o tinha abandonado porque ele era preguiçoso e violento... p. sua humildade beira o servilismo: poder-se-ia falar de uma verdadeira apatia. na estrada. não podendo se dar conta do que fazia. Assim. Francisco V. é então que o levam ao hospital no qual dá entrada como emergência. durante a jornada de trabalho do dia primeiro de outubro de 1889. Ao chegar à penitenciária. começa a vomitar. Nunca teve ataques de qualquer tipo e ninguém observou que tenha tido ausências. sua antiga concubina. ao menos no que diz respeito a alguns pontos. nos relatou o crime da seguinte maneira: Embora separado de sua amante..1151-1182. corta a cabeça da primeira. Foi nesse estado que saiu. V. Ele está detido na penitenciária da Bahia há oito anos. e corre atrás de um jovem que as acompanhava.15. Tem. é um negro muito preto com um leve grau de assimetria frontal. a lembrança de sua posição e do lugar onde elas caíram. algumas lembranças e parece que com algumas informações sua memória revive. ouviu dos soldados ou de outros detentos. 2008 1175 . ele decidiu um dia de manhã ir até sua casa buscar uma foice que tinha deixado lá. tais incidentes desapareceram.. vai em direção à cidade de Nazaré. se lembrarmos que antes do crime ele era visto como violento e preguiçoso. assassinou duas mulheres. persegue-a inutilmente e.. Ele acredita em seu envenenamento. e ao acordar encontra-se no hospital. Mais adiante. Não encontrando ninguém na casa. negro. ainda que de maneira confusa. e a uma certa distância encontrou as duas mulheres que seriam suas vítimas. mas o atribui à bebida alcoólica que tinha tomado. e v. Ele é canhoto e tem uma certa fraqueza no membro inferior direito. ele lembra em parte da fuga.. compra e toma um pouco de bicloruto de mercúrio e vai se entregar à autoridade judicial. Nos exames que fiz nesse individuo. que tentava fugir. e o que ele sabe. out. excitado. as exaltações de uma briga com sua amante.. era incessantemente perseguida e ameaçada por ele. talvez ampliadas pelas decepções causadas pela perda dos bens que ela herdou. Ao chegar na cidade. tendo perdido a noção exata das coisas. suas orelhas são muito deformadas. V. Esse servilismo deve ser considerado elemento do caráter epiléptico. viu uma garrafa que conhecia bem e bebeu um pouco de cachaça. exaltado. estive principalmente preocupado com as modificações pelas quais a memória passou ou podia ter passado. abate a segunda. Como podemos ver ao examinar a Figura 3. Uma delas. Sentiu-se fora de si.4. a golpes de foice.

dos quais uma filha. teve seis filhos. um homem desequilibrado. e um imbecil. e teve um filho homem desequilibrado e pródigo que. dos quais um violento. O segundo filho da irmã B(2). e um homem jovem degenerado. um degenerado físico. Este último casou-se com a primeira filha de (A5) e teve cinco filhos. v. com três filhos. e um homem alienado. Esta teve cinco filhos: uma mulher com boa saúde. um homem com boa saúde.1) uma. p.15. que teve cinco filhos com boa saúde. teve cinco filhos. estéril. Com a índia ele teve um filho homem. dispsomaníaco. mulher de boa saúde. delirante. por sua vez. um homem com boa saúde e 14 filhos. um homem neuropata. casado com uma moça muito degenerada. também teve sete filhos: uma mulher polisarcique.-dez. uma mulher de boa saúde. que teve sete filhos de boa saúde. dos quais (2. com cinco filhos. casou-se com o filho imbecil de (A1) e tiveram três filhos com boa saúde e um que morreu de eclâmpsia. violenta. e apresenta a sua descendência. que tinha retenção de urina e cinco filhos. que se casou com uma mulher asmática. n. degenerescência e crime Anexos1 Tábua genealógica 1 Esse quadro começa com duas irmãs. (A2) um homem colérico. Essa índia tinha uma irmã que teve uma filha imbecil e delirante. delirante. um homem com boa saúde. um homem epiléptico que morreu afogado. que teve quatro filhos. sem filhos. era homem de boa saúde. impulsivo. imprevidente. 2008 1177 . um homem com quatro filhos.2) um idiota. com quatro filhos. um homem com tabes dorsalis. afetado por tabes dorsalis. uma mulher alienada que morreu no asilo. neurastênica hereditária de tendências melancólicas. que não teve filhos. um homem violento. Esta mulher tinha quatro irmãos: um homem com boa saúde. maníaca. O terceiro (B3). O sexto filho da irmã A(6). inconstante. casada com um homem que morreu alienado e cujo pai também era alienado. colérico. um homem desequilibrado. e uma filha com 15 filhos. era um homem de boa saúde. sobre as quais não se tem maiores informações. Vou chamá-las de irmã A e irmã B. teve sete filhos. 11 filhos. e um homem degenerado.Mestiçagem. dois natimortos. Esses sete são: uma mulher que estava bem. um homem com boa saúde. que teve com uma negra uma filha adulterina anã. O quarto (B4) era um homem diabético. uma mulher colérica. com o palato fendido – e uma índia que também lhe deu três filhos. uma mulher neurastênica hereditária. verdadeiro louco moral. Os pais desses cinco irmãos eram uma mulher tísica. quatro filhos. mentiroso e criminoso. e (2. casou-se com a primeira filha da irmã B(1). (A3) um homem desequilibrado. teve um filho ilegítimo. excêntrico. com boa saúde. um anão infantil e outro imbecil. que morreu paralítico e teve filhos com duas mulheres: uma mulata que lhe deu três filhos – uma filha com 11 filhos. com quatro filhos. que se casou com um primo. O quinto filho da irmã A(5).1151-1182. e um homem com poliomielite crônica. estéril. um homem casado. homem com boa saúde. um deles lydis-cefalique e uma mulher degenerada. A irmã A casou-se com um desequilibrado e teve seis filhos: (A1) uma mulher de boa saúde. (A4) um homem desequilibrado. que esteve internado no asilo e hoje se porta bem. um homem que estava bem. casada com um mulato escuro. uma mulher casada. e uma mulher com boa saúde. out. com 12 filhos. Os irmãos da mãe eram uma mulher que morreu alienada.4.

(13) Theodolina. No artigo original este quadro era apresentado no lugar das observações XIII e XIV. morta aos oito anos. estropiada. que é o mais complicado de visualizar. incluídas a seguir. boa saúde. v. 18 anos. XIV). membros muito longos e finos. No primeiro. (8) Firmina. Agradeço a Maria Celina Pereira de Carvalho por ter feito a transposição dessas genealogias para sua forma convencional.15. Nos outros a tradução é literal. A doença teve o mesmo curso entre as outras crianças estropiadas (Obs. teve convulsões na infância. Optei por descrever o conteúdo delas no primeiro quadro. aspecto de uma criança de cinco anos. (7) Idaline. nunca pôde caminhar nem ficar em pé. out.4. coxas arqueadas. n. (12) Morta. (9) Porcina. problemas oculares.-dez. grande desvio da coluna vertebral (escoliose) que só lhe permite a posição sentada. 2008 1179 . morta aos três anos. quase anã. sem outro aspecto de deformação devido ao raquitismo.Mestiçagem. já que não seguem qualquer notação convencional. boa saúde. todas as definições dos personagens são de Nina Rodrigues. estropiada. p. 13 anos.1151-1182. XXXI). (11) Adélia. cabeça bem conformada. constituição muito frágil. NOTAS DE TRADUÇÃO 1 As quatro genealogias que acompanham o artigo são um pouco confusas. degenerescência e crime não menstruada. membros inferiores magros. 2 3 Pode ter sido um erro de composição e tratar-se de Araújo (Obs. sendo semelhantes ao quadro incluído ao final da observação número XXXII. só estabeleci a relação entre eles. 11 anos. 14 anos. (10) Mariana. boa saúde. que não são relatadas.

1151-1182.Mestiçagem.-dez. out.15. p.4. degenerescência e crime Tábua genealógica 2 v. n. 2008 1181 .