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Apontamentos

de
Direito das Sucessões
Elaborados na regência do Professor Luís Menezes Leitão
por
Henrique Simões | n.º 60906

Os apontamentos não dispensam a leitura dos manuais obrigatórios, nem a presença nas aulas
teóricas. É possível (ou melhor, é certa) a existência de erros (quer de direito, quer ortográficos).
0. Notas Introdutórias 10
0.1 Sucessão inter vivos e Sucessão mortis causa 10
0.1.1 Doação com Reserva de Usufruto 10
0.1.2 Doação com reserva do direito de dispor de coisa determinada 10
0.1.3 Doação cum moriar 11
0.1.4 Doação si praemoriar 11
0.1.5 Partilha em Vida 12
0.2 Pressuposto da Sucessão 13
0.3 Objeto da Sucessão 14
1.Espécies de Sucessores 15
1.1 Diferenças de Regime 17
1.1.1 Exigir Partilha e Requerer Inventário 17
1.1.2 Responsabilidade pelos encargos da herança 18
1.1.3 Regime das providencia relativas a memoria do falecido 18
1.1.4 Regime das Vocações Indivisíveis 19
1.1.5 Outros Aspetos 19
1.1.6 Direito de Acrescer 19
1.2 Conclusão 19
2. Designação Sucessória 19
3. Abertura da Sucessão 21
4. Vocação Sucessória 22
5. Pressupostos da Vocação 23
5.1 Personalidade Jurídica 23
5.1.1 PMA após a abertura da sucessão 24
5.1.2 Personalidade Coletiva 25
5.1.3 Sobrevivência em relação ao de cuius 25
5.2 Capacidade Sucessória 25
5.2.1. Incapacidade: Indignidade e Deserdação 25
5.2.1.1 Indignidade Sucessória 25
5.2.1.2 Deserdação 28
5.3 A Titularidade da designação sucessória prevalecente 30
6. Princípio da Indivisibilidade da Vocação 30
6.1 Exceções 31
6.1.1 As situações no âmbito da Sucessão Contratual 31
6.1.2 As situações no âmbito da Sucessão Legitimária e Testamentária 31
6.1.3 A situação de transmissão do direito de suceder 31
6.1.4 A situação de pluralidade de legados 31
6.1.5 A situação de atribuição concomitante do legado e da herança 31
6.1.6 A situação da parte acrescida com encargos especiais 32
7. Modalidade da vocação 32
7.1 Vocação Originária e Subsequente 32
7.2 Vocação Pura e Impura (Condicional, a Termo e Modal) 33
7.3 Vocação Una e Múltipla 34
7.4 Vocação Direta e Indireta 34
7.5 Vocação Imediata e Derivada 35
7.6 Vocação Comum e Anómala 35
7.7 Modalidades de Vocações Anómalas 36
7.7.1 A transmissão do direito de suceder 36
7.7.2 Substituição Direta 37
7.7.2.1 Modalidades da Subsituição Direta: 37
7.7.3 O Direito de Representação 39
7.7.3.1 Na sucessão legal 39
7.7.3.2 Na sucessão testamentária 39
7.7.3.3 Na sucessão contratual 41
7.7.3.4 Regime do direito de representação 41
7.7.3.4.1 Desigualdade de graus sucessórios com pluralidade de estripes 41
7.7.3.4.2 Igualdade de graus sucessórios com pluralidade de estripes 42
7.7.3.4.3 Unidade da Estripe 43
7.7.4. Direito de Acrescer 43
7.7.4.1 Sucessão Legal 44
7.7.4.2 Sucessão Testamentária 45
7.7.4.2.1 Entre Herdeiros 46
7.7.4.2.2 Entre Legatários 47
7.7.4.2.3 Geral 47
7.7.4.3 Sucessão Contratual 47
7.7.4.4 Natureza do Direito de Acrescer 48
7.7.5 Substituição Fideicomissária 48
7.7.4.4.1 Situação Jurídica do Fiduciário 49
7.7.4.4.2 Situação Jurídica do Fideicomissário 50
7.7.4.4.3 Fideicomissos Irregulares 50
7.7.5 Concurso de Vocações Anómalas 51
8. Sucessão Legitima 51
8.1 Hierarquização de Sucessivos 52
8.1.1 Preferência de classe 52
8.1.2 Preferência de graus de parentesco 52
8.1.3 Divisão por cabeça 53
8.1.3.1 Exceções a regra da divisão por cabeça 53
8.2 Sucessão do Cônjuge e Descendentes 54
8.3 Sucessão do Cônjuge e Ascendentes 55
8.4 Sucessão Exclusiva do Cônjuge 56
8.5 Sucessão dos Irmãos e seus Ascendentes 56
8.6 Sucessão dos Colaterais até ao quarto grau 56
8.7 Sucessão do Estado 57
9. Sucessão Testamentária 57
9.1 Características do Testamento enquanto Negócio Jurídico 58
9.1.1 Unilateral 58
9.1.2 Não Receptício 58
9.1.3 mortis causa 58
9.1.4 Gratuito 59
9.1.5 Formal 59
9.1.6 Individual 59
9.1.7 Pessoal 60
9.1.8 Livremente Revogável 61
9.2 Forma do Testamento 62
9.2.1 Formas Comuns 62
9.2.1.1 Testamento Público 62
9.2.1.2 Testamento Cerrado 63
9.2.1.3 Testamento Internacional 63
9.2.2 Formas Especiais 64
9.2.2.1 Regime Geral 64
9.2.2.2 Testamento Militar 65
9.2.2.2.1 Testamento Militar Público 65
9.2.2.2.2 Testamento Militar Cerrado 65
9.2.2.2.3 Formalidades Complementares 66
9.2.2.3 Testamento Marítimo 66
9.2.2.4 Testamento a bordo de aeronave 66
9.2.2.5 Testamento feito em caso de Calamidade Pública 66
9.2.3 Âmbito da Forma Legal 67
9.2.4.1 Possibilidade Física e Legal, Determinabilidade e Licitude do objeto e do fim do Testamento 67
9.2.4.2 Capacidade Testamentária Ativa 68
9.2.4.2.1 Substituição Pupilar e Quase-Pupilar 68
9.2.4.2.1.1 Substituição Pupilar 69
9.2.4.2.1.2 Substituição Quase-Pupilar 69
9.2.4.3 Indisponibilidade Relativa 69
9.2.4.3.1 As disposições do maior acompanhado a favor de acompanhante ou administrador legal de
bens 70
9.2.4.3.2 As disposições do menor a favor do tutor, curador, administrador legal de bens e protutor 70
9.2.4.3.3 As disposições de alguém a favor do médico ou enfermeiro que tratar o Testador ou a favor
do sacerdote 71
9.2.4.3.4 As disposições efetuadas pelo cônjuge a favor da pessoa com quem cometeu adultério 71
9.2.4.3.5 As disposições efetuadas pelo testador a favor do notário ou dos outros intervenientes no
testamento ou a sua aprovação 71
9.2.4.3.6 As disposições legalmente proibidas quando realizadas por interposta pessoa 71
9.2.4.3.7 A disposições efetuadas em violação de impedimentos matrimoniais 71
9.3 Falta e Vícios da Vontade no Testamento 72
9.3.1 Clareza e Esclarecimento 72
9.3.2 Declarações Não Sérias 72
9.3.3 Falta de consciência da declaração e coação física 73
9.3.4 Incapacidade Acidental 73
9.3.5 Simulação 73
9.3.6 Reserva Mental 73
9.3.7 Erro na declaração 74
9.3.8 Erro-vício, dolo, ou coação moral 74
9.3.8.1 Erro-vício 74
9.3.8.2 Dolo e Coação 75
9.3.8.2.1 Coação Moral 75
9.3.8.2.2 Usura 75
9.4 Invalidade e Inexistência do Testamento 76
9.4.1 Confirmação 76
9.4.2 Carater Injuntivo 77
9.5 Interpretação do Testamento 77
9.5.1 Normas Interpretativas Especificas em matéria testamentária 79
9.5.2 Integração do Testamento 80
9.6 Conteúdo do Testamento 81
9.6.1 Disposições de natureza não patrimonial 81
9.6.1.1 Declaração de Maternidade 81
9.6.1.2 Perfilhação 81
9.6.1.3 Designação de tutor 81
9.6.1.4 Disposições a favor da alma 81
9.6.1.5 Outras Disposições 82
9.6.2 Disposições de natureza patrimonial 82
9.6.2.1 Disposições a título de herança 82
9.6.2.2 Disposições a título de legado 82
9.6.2.2.1 Legados Típicos e Atípicos 83
9.6.2.2.2 Legados per vindicationem e per damnationem 83
9.6.2.2.3 Legados dispositivos e obrigacionais 83
9.6.2.2.4 Legados com eficácia imediata e mediata 83
9.6.2.2.5 Posição de Menezes Leitão 84
9.6.2.3 Legados Dispositivos 84
9.6.2.3.1 Legado de coisa certa e determinada 84
9.6.2.3.2 Legado de usufruto 85
9.6.2.3.3 Legado de crédito 85
9.6.2.4 Legados Obrigacionais 85
9.6.2.4.1 Legado de coisa genérica 85
9.6.2.4.2 Legado Alternativo 86
9.6.2.4.3 Legado de prestação periódica 86
9.6.2.5 Regime da perturbação do legado 87
9.6.2.5.1 Legado de Coisa Alheia 87
9.6.2.5.2 Legado de coisa certa e determinada integrada na comunhão conjugal 87
9.6.2.5.3 Legado de coisa pertencente ao próprio legatário 88
9.6.2.5.4 Legado de coisa onerada 88
9.6.2.5.5 Legado para pagamento de dívida inexistente ou extinta 89
9.6.2.6 Instituição de Fundações 89
9.6.3 Cláusulas Acessórias do Testamento 90
9.6.3.1 Condição 90
9.6.3.1.1 Regime da pendência da condição 91
9.6.3.1.2 Verificação da condição 92
9.6.3.2 Termo 92
9.6.3.2.1 Pendência do termo 92
9.6.3.2.2 Verificação do termo 93
9.6.3.3 Modo 93
9.6.3.3.1 Regime 93
9.7 Revogação do Testamento 94
9.7.1 Modalidades 94
9.7.1.1 Modo da Revogação 94
9.7.1.1.1 Revogação Expressa 94
9.7.1.1.2 Revogação Tácita 94
9.7.1.1.3 Revogação Real 95
9.7.1.2 Âmbito da Revogação 96
9.7.2 Revogação do Testamento Revogatório 96
9.7.3 Caducidade do Testamento 96
10. Sucessão Contratual 97
10.1 Modalidades 97
10.1.1 Pactos Renunciativos 98
10.1.2 Pactos Aquisitivos ou Designativos 98
10.1.3 Pactos Dispositivos 98
10.2 Regime 98
10.2.1 Pactos Sucessórios Renunciativos 98
10.2.2 Pactos Sucessórios Designativos 100
10.2.2.1 Disposição do esposado a favor do outro ou reciprocamente em relação a ambos 100
10.2.2.2 Disposição de terceiro a favor de um ou de ambos os esposados 101
10.2.2.3 Disposição dos esposados a favor de terceiros 102
10.2.2.4 Doação por morte para casamento 102
10.3 Natureza Jurídica da situação jurídica dos sucessíveis contratuais 103
10.4 Possibilidade de repúdio 103
11. Sucessão Legitimária 104
11.1 Herdeiros Legitimários 104
11.2 Legítima 105
11.2.1 Legítima Objetiva 105
11.2.2 Legítima Subjetiva 105
11.2.3 Cálculo da Legítima 106
11.2.3.1 Relictum 106
11.2.3.2 Donatum 106
11.2.3.3 Passivo 106
11.2.4 Fórmula de Cálculo da Legítima 106
11.3 Tutela da Legítima 107
11.3.1 Tutela Quantitativa da Legítima 107
11.3.1.1 Redução por inoficiosidade 107
11.3.1.1.1 Legitimidade 108
11.3.1.1.2 Regime 109
11.3.1.1.3 Natureza Jurídica 110
11.3.2 Tutela Qualitativa da Legítima 111
11.3.2.1 Cautela Sociniana 111
11.3.2.2 Legado por conta da legítima 113
11.3.2.2.1 Natureza Jurídica 113
11.3.2.3. Legado em substituição da legítima 114
11.4 Colação 115
11.4.1 Âmbito de aplicação subjetivo 115
11.4.1.1 A dispensa da colação 116
11.4.2 Obrigação de Conferir 117
11.5 Imputação 118
11.5.1 Doações feitas aos descendentes que entrem na sucessão 118
11.5.2 Doações feitas aos descendentes que não queiram ou não possam aceitar a sucessão 119
11.5.3 Doações feitas ao cônjuge 120
11.5.4 Doações feitas ao cônjuge que renunciou a herança 120
11.5.5 Doações feitas a ascendentes 121
11.5.6 Doações feitas a favor de pessoas que à data não eram sucessível legitimários do doador 121
11.5.7 Deixas a favor dos herdeiros legitimários 121
11.5.7.1 Deixas a título de herança 121
11.5.7.2 Deixas a título de legado 121
11.5.7.2.1 Pré-Legado 121
11.5.7.2.2 Legado por conta da legítima 121
11.5.7.2.3 Legado em substituição da legítima 121
11.5.8 Deixas a favor de não sucessíveis legitimários prioritários 122
11.5.9 Síntese 122
12. Pendência da Sucessão 122
12.1 Modalidades 123
12.2 Administração 123
12.2.1 Providências de Administração 123
12.2.2 Curadoria da Herança 124
12.3 Notificação 124
12.4 Natureza Jurídica 124
12.4.1 Tese da Obnubilação do Sujeito 125
12.4.2 Tese de Direitos e Obrigações à Espera de Sujeito 125
12.4.3 Tese da Vinculação de uma Universalidade Jurídica 125
12.4.4 Tese das Situações Jurídicas sem Sujeito 125
0. Notas Introdutórias
0.1 Sucessão inter vivos e Sucessão mortis causa
Quando se estabelece o conceito de Sucessão, torna-se impossível de distinguir a sucessão em
vida da sucessão por morte. Se se tiver uma sucessão em vida, o fenómeno sucessório resulta de um ato
jurídico, normalmente um negócio jurídico, realizado em vida do autor da sucessão, e constitui a causa
jurídica da aquisição. Por contrário, na sucessão por morte os efeitos jurídicos apenas se produzem por
morte do autor da sucessão, o que implica que, neste caso, a morte seja considerada a causa jurídica da
aquisição, isto não impede que seja celebrado em vida um negócio jurídico que depois vai determinar
esta aquisição, é o que sucede com o Testamento e com o Pacto Sucessório, nos casos em que são
admitidos, se se verificar numa situação deste tipo é a celebração de um negócio, o qual tem relevância
para efeitos da designação sucessória, mas este negócio não produz efeitos em vida do autor da
sucessão.

Esta distinção é especialmente relevante relativamente aos negócios jurídicos mortis causa,
tomando-se em consideração a norma que aparece no Artigo 946.º/1, o qual proíbe a doação por
morte, salvo nos casos previstos pela lei, admitindo o número 2 deste preceito que seja vista como
disposição testamentaria a doação que haja produzir os seus efeitos por morte do doador, desde que
sejam observadas as formalidades dos testamentos – ou seja, o Artigo 946.º/2 admite a conversão da
doação por morte em testamento, desde que sejam observadas as formalidades deste.

Neste âmbito existe na prática jurídica perante certos negócios a dificuldade de aferir se esta
perante uma situação de doação por morte proibida ou perante uma situação de disposição em vida por
negócio jurídico. Estes negócios são:

i) doação com reserva de usufruto;

ii) doação com reserva do direito de dispor;

iii) doação cum moriar ou quando morrer;

iv) doação si praemoriar ou se morrer primeiro;

v) partilha em vida.

0.1.1 Doação com Reserva de Usufruto


Nota prévia: resulta do Artigo 1439.º, o usufruto é o direito de gozar temporária e plenamente
uma coisa ou direito alheio, sem alterar a sua forma ou substância. É um direito vitalício.

Na prática familiar é muito comum fazer uma doação com reserva de usufruto, isto é, alguém
doa determinada coisa, mas reserva para si o usufruto sobre esta, isto implica que o donatário fica logo
proprietário, porém o doador permanece usufrutuário da coisa: assim, o donatário só vai ver a
propriedade consolidada, quando o usufrutuário morrer.

Neste âmbito, apesar de só se adquirir a propriedade plena com a morte do doador, a verdade é
que não se está perante um negócio mortis causa, pois o que vem a suceder é que a pessoa se limitou a
doar a nua propriedade, tendo o negócio efeitos em vida.

0.1.2 Doação com reserva do direito de dispor de coisa determinada


É a figura que se prevê no Artigo 959.º/1, o doador conserva da faculdade de enquanto for vivo
de continuar a dispor de uma parte do objeto da doação, que reservou para si, isto é o doador doa o
bem, porém quer continuar a receber deste uma determinada quantia. Esta faculdade não se transmite
para os seus herdeiros, nos termos do Artigo 959.º/2.

Existe neste caso uma propriedade resolúvel, uma vez que o doador pode retirar da coisa que
doou enquanto for vivo. Se for uma quantia, a verdade é que há aqui um encargo por parte do
donatário. Em ambos os casos está-se perante um negócio que produza efeitos em vida, a morte não faz
adquirir nada pelo donatário.

0.1.3 Doação cum moriar


É uma doação em vida subordinada por um termo suspensivo, a morte do doador: o doador doa
o bem, porém a doação só produz efeito após a morte do doador. Questiona-se a validade destas
cláusulas, por um lado o Artigo 2028.º que proíbe os pactos sucessórios, e, por outro lado, o Artigo 946.º
que proíbe a doação por morte. A doutrina apresenta divergências, que segundo Menezes Leitão não há
justificação:

i) Antunes Varela e Pires de Lima defendem que a doação cum moriar não é proibida
pelo Artigo 2028.º, mas já o é pelo Artigo 949.º;

ii) a maioria da doutrina, de onde se inserem Cristina Araújo Dias, Pereira Coelho,
Capelo de Sousa, considera valida esta doação, entendendo que a lei apenas proíbe as doações por
morte, sendo que neste caso a morte não é a causa jurídica da doação, mas apenas o seu termo
suspensivo.

iii) Menezes Leitão considera que a lei determina que seja invalida a doação, seguindo
neste ponto a posição de Antunes Varela e Pires de Lima, porque o que a lei proíbe no Artigo 946.º é a
produção dos efeitos da doação por morte do doador, não que esta seja a causa jurídica da doação. Ora
uma vez que o termo suspensivo é a morte, os efeitos da doação só se produzem com esta, nos termos
do Artigo 278.º, e é por isto que a doação deve ser considerada nula, podendo valer, porém, como deixa
testamentaria, se observadas as formalidades do testamento.

0.1.4 Doação si praemoriar


Nesta doação é sujeita a termo suspensivo, só produz efeitos após a morte do doador, porém, é
acrescida de uma condição suspensiva, relativa a circunstância da morte do doador ocorrer antes da
morte do donatário.

Neste caso:

i) Antunes Varela e Pires de Lima consideram que esta doação é proibida pelo Artigo
946.º, pois:

a) em primeiro lugar, porque consideram que é muito difícil avaliar quais são os
requisitos de validade da doação por morte;

b) em segundo lugar, se a permitíssemos, estaríamos a abrir a porta à fraude,


porque está-se a proibir apenas as doações que fossem simultaneamente pactos sucessórios.
ii) a maioria da doutrina, de onde se inserem Cristina Araújo Dias, Pereira Coelho,
Capelo de Sousa, considera valida esta doação, por se tratar de uma doação inter vivos;

iii) Menezes Leitão considera que o Artigo 946.º não proíbe apenas as doações mortis
causa, mas também todas as doações que produzam efeitos em morte do doador.

0.1.5 Partilha em Vida


Trata-se de um negócio muito usado na prática, mas cuja definição dos efeitos jurídicos lança
várias dúvidas. A Partilha em Vida está regulada no Artigo 2029.º, o qual, nos seu número 1, determina
que não é tido como sucessório o contrato pelo qual alguém faz doação entre vivos, com ou sem reserva
de usufruto, de todos os seus bens ou parte deles a algum ou alguns dos presumidos herdeiro
legitimários, com o consentimento dos outros, e os donatários pagam ou se obrigam a pagar a estes o
valor das partes que proporcionalmente lhes tocariam nos bens doados.

Neste sucede resulta efetivamente do negócio que o doador quer antecipar a partilha de
determinados bens. A lei não o classifica como pacto sucessório, a verdade é que não produz efeitos por
morte do doador, porém tem uma função sucessória, pois trata-se de uma caso de doação a um
presuntivo herdeiro legitimário. A lei até tem um esquema curioso de admitir a possibilidade de o
negócio aproveitar herdeiros legitimários futuros, assim se sobrevier ou se tornar conhecido outro
presuntivo herdeiro legitimário, este pode exigir que lhe seja composta em dinheiro a parte
correspondente, à luz do Artigo 2029.º/2. O pagamento das tornas em dinheiro pode ser feito efetuado
imediatamente com o negócio, não o sendo está sujeito a atualizações, à luz do Artigo 2029.º/3.

A primeira questão que surge em relação a este negócio é que este realiza-se entre os
presumidos herdeiros legitimários: só sendo abrangidos pelo negócio, os presumidos herdeiros
legitimários. Não sendo considerada como pacto sucessório, sendo vista pelo legislador como uma
especialidade da sucessão entre vivos, haverá, no entanto, uma doação entre vivos com encargos em
relação aos herdeiros com uma função sucessória, uma antecipação daquilo que os herdeiros iriam
receber por morte.

Por isto, é uma doação entre vivos com algumas características especiais como é o
consentimento abrange não apenas o donatário, mas também os presumidos herdeiros legitimários.

Questiona-se, porém, se a partilha em vida vai determinar a aplicação dos institutos da colação
e redução por inoficiosidade: estes são dois institutos que protegem a posição dos herdeiros
legitimários:

i) na redução por inoficiosidade – se alguém fizer doações que afetam a legitima


subjetiva dos herdeiros legitimários, isto é, as doações ultrapassam o que é permitido, afetado o que era
devido aos herdeiros legitimários, estes podem intentar uma ação para as reduzir;

ii) na colação – não é obrigatório, mas há uma presunção que o autor da sucessão não
quis prejudicar uns filhos em relação aos outros, determina o Artigo 2104.º, que todo o que autor doou
em vida aos descendentes é devolvido a herança.

Quanto a saber a sua aplicabilidade a partilha em vida:


i) quanto a redução por inoficiosidade – a maioria da doutrina, onde se incluí José
António Barreiros, Corte Real e Cristina Araújo Dias, entende que, embora só no momento da morte do
doador se possa perceber se há ou não afetação da legitima, caso a mesma venha a ocorrer há sempre a
possibilidade de os herdeiros recorrerem a redução por inoficiosidade;

ii) quanto a colação – a doutrina divide-se:

a) Corte Real defende que se aplica, uma vez que é necessário proceder a atualização
dos valores;

b) José António Barreiros, Pereira Coelho, Oliveira Ascensão, e Cristina Araújo Dias
defendem que se exclui a aplicação.

iii) Menezes Leitão defende que se a aplicar estes institutos desvirtua-se o negócio da partilha
em vida, o que se está a fazer é a prévia antecipação relativamente a algo que irá ocorrer
posteriormente à morte do autor, não se está verdadeiramente a permitir que em vida se faça a
partilha: por isto, a ideia subjacente a este negócio é a antecipação da partilha, por este motivo é que a
lei desde 1977 a lei tutela herdeiros legitimários que aparecerem depois. Independentemente, se
houver uma valorização considerável, não se deverá aplicar estes institutos.

0.2 Pressuposto da Sucessão


A morte do autor da sucessão é o pressuposto da abertura da sucessão, determina o Artigo
2031.º que esta desencadeia a abertura da sucessão. A morte é um facto jurídico stricto sensu, o qual
extingue a personalidade jurídica, nos termos do Artigo 68.º/1, extinguido a suscetibilidade de ser titular
de situações jurídicas. Sendo a morte pressuposto da sucessão esta tem de ser demonstrada, e
normalmente é através da descoberta ou reconhecimento do cadáver do falecido. A lei, porém, admite
dispensar este reconhecimento, se o desaparecimento da pessoa se tiver dado em circunstâncias que
não permitam duvidar da sua morte, é o que resulta do Artigo 68.º/3.

Consta do Artigo 68.º/2 a chamada presunção de comoriência, isto é, quando duas pessoa
morrem e não se sabe qual delas morreu primeiro, presume-se que morreram ao mesmo tempo.

A morte presumida, verificada os seus requisitos à luz do Artigo 114.º, também pode determinar
a abertura da sucessão, uma vez que a declaração de morte presumida produz os mesmo efeitos da
morte, como resulta do Artigo 115.º, a lei admite porém a possibilidade de demonstrar que óbito
ocorreu em situação diversa daquela indicada na declaração, nos termos do Artigo 118.º/1, podendo
portanto haver mais ou menos sucessores. Prevê-se igualmente a possibilidade de o ausente regressar,
no Artigo 119.º.

Um outro caso é as chamadas curadorias provisórias e definitivas, que permitem a pessoa, antes
da declaração da morte presumida, tomar providencias em relação ao património do ausente. Com a
curadoria definitiva, nos termos do Artigo 99.º, determina os Artigos 102.º e 103.º que pode haver uma
entrega antecipada dos bens aos herdeiros, legatários e outros interessados, e por isto procede-se a
abertura dos testamentos cerrados, por força do Artigo 101.º. Mas aqui não se está perante uma
sucessão, pois os curadores definitivos não são vistos como proprietários dos bens que administram, só
tendo poderes de fruição no caso de serem ascendentes ou descendentes do ausente, e é por isto que a
entrega provisória dos bens cessa com o regresso do ausente, com a noticia da sua existência e do lugar
que reside, com a certeza da sua morte, ou com a declaração de morte presumida, como resulta do
Artigo 112.º.

Um aspeto importante é que a morte tem de ser inscrita no registo civil. Tanto a morte efetiva,
tanto a morte presumida, como as curadorias, constituem factos sujeitos a registo, nos termos do Artigo
1.º, p) e j) CRC. Os familiares do falecido tem o dever de proceder ao registo do óbito, nos termos do
Artigo 193.º CRC, sem o qual não poderão invocar a sucessão. No caso do cadáver não ser encontrado,
há regras, designadamente em caso de naufrágio, que determina os Artigos 204.º/2 e 3, 207.º e 208.º
CRC que se procede a justificação judicial do óbito, a qual está previsto nos Artigos 233.º e ss. CRC.

A lei prevê que uma vez registada óbito, nos termos do Artigo 3.º CRC, que a prova do mesmo
não pode ser ilidida por qualquer outra, a não ser nas ações de Estados ou nas ações de registo civil.

0.3 Objeto da Sucessão


Determina o Artigo 2024.º que a sucessão abrange as situações jurídicas patrimoniais de uma
pessoa falecida e consequente devolução dos bens que a esta pertenciam, ou seja, a sucessão tem como
objeto as situações jurídicas patrimoniais, quer esta sejam ativas, como é o caso de direitos subjetivos
ou poderes potestativos, quer estas sejam passivas, como as obrigações ou as sujeições.

Entre os direitos objeto da sucessão incluem-se:

i) direitos reais;

ii) direitos de autor;

iii) propriedade intelectual;

iv) direitos de crédito – inclusivamente, segundo Menezes Leitão, o direito à


indemnização pela perda de vida do autor.

A sucessão não se limita as situações jurídicas substantivas, podendo ocorrer a sucessão nas
situações adjetivas ou processuais, como o direito de instaurar ou prosseguir uma ação judicial.

Determina o Artigo 2025.º que não são objeto da sucessão os:

i) direitos pessoais do de cuius – é o que acontece:

a) com os direito de personalidade, embora que os herdeiros possam tutelar a


memória da pessoa falecida. Os direito de personalidade são intransmissíveis;

b) sendo também intransmissível o direito pessoal de autor, mas estes direito


pode ser exercido pelos sucessores do falecido;

c) não há sucessão relativamente a funções legalmente atribuídas ao autor da


sucessão;

d) o direito de os herdeiros intentar ou prosseguir ações relativas a estados


familiares não é propriamente uma situação de sucessão, antes de extensão da
legitimidade processual para os herdeiros.
ii) direitos que a lei excluí do âmbito da sucessão – é o caso do por serem
intransmissíveis:

a) usufruto – é vitalício, nos termos do Artigo 1439.º, não se transmite por


morte;

b) uso e habitação – por força do Artigo 1488.º.

Em princípio a lei não admite que a intransmissibilidade seja excluída por via negocial, uma vez
que implicaria renúncia a sucessão, hipótese proibida pelo Artigo 2028.º/1. Mas podem se extinguir por
morte os direitos renunciáveis, à luz do Artigo 2025.º/2.

Há casos duvidosos, é o caso do direito à indemnização pela perda da vida do autor da sucessão:

i) Antunes Varela, Oliveira Ascensão, e Corte Real, que os familiares só tem direito a
danos próprios, e não aos danos sofridos pelo autor da sucessão em consequência da perda de
personalidade;

ii) Menezes Leitão em caso de morte da vítima o direito de indeminização é titulado


pelos herdeiros, nos termos do Artigo 2024.º;

iii) Daniel Morais defende que há uma regra especial do Artigo 496.º, Menezes Leitão
discorda, defendendo que o Artigo 496.º é um direito de indemnização por danos morais próprio dos
familiares do autor.

Jorge Duarte Pinheiro fala de uma sucessão imprópria no caso da transmissão do direito ao
arrendamento, como resulta do Artigo 1106.º CC e o Artigo 57.º NRAU. Menezes Leitão discorda.

Uma outra situação é o contrato de seguro de vida, neste caso o direito tem fonte no contrato a
favor de terceiro, em especial na promessa a cumprir depois da morte do autor, embora a lei determine
que o terceiro só adquire o direito à prestação após a morte do promissário, este tem como fonte o
contrato, não se tratando de um fenómeno sucessório.

1.Espécies de Sucessores
Os sucessores distinguem-se entre herdeiros e legatários. Esta distinção assenta no antigo mito
do Direito Romano, de que é apenas continuador do trabalho do de cuius o herdeiro, não se passando
isto com os legatários. Embora hoje o Artigo 2030.º/1 CC venha estabelecer que ambos são sucessores,
há alguma doutrina que continua influenciada por esta configuração romana. Hoje a distinção apenas é
relevante para o objeto da sucessão.

Resulta do Artigo 2030.º/2 CC que é:

i) herdeiro aquele que sucede na totalidade ou numa quota do património do de cuius;

e, ii) legatário aquele que sucede em bens concretos.

Galvão Telles – é herdeiro aquele que sucede na universalidade me si; enquanto, que o legatário
é aquele que sucede em bens concretos.

Também é considerando herdeiro aquele que sucede no remanescente, nos termos do Artigo
2030.º/3 CC.
A lei não é, todavia, clara relativo aos casos em que o testador proceda a repartição do
património, não de uma forma aritmética, mas antes tomando em consideração a natureza dos bens,
casos em que estes ficam determinado – herança ex res certa – a hipótese do testador deixar por via de
deixas dicotómicas a totalidade do seu património: ex. ao A dou os meus bens moveis, ao B dou os meus
bens imoveis.

No anteprojeto do Código, Galvão Telles afastava a hipótese da herança ex res certa, posição
que manteve, considerando-a como legado.

O facto que esta norma nunca passou para o Código, levou a maioria da doutrina a classificar a
situação como herança, como por exemplo: Capelo Sousa, Cristina Dias, Jorge Duarte Pinheiro.

Daniel Morais – classifica como legado, sendo que só pode ser considerando como herança, se
tal for a vontade do autor da sucessão.

Menezes Leitão defende que deixas que repartem o património com base na natureza dos bens,
adequa-se muito melhor a instituição de herdeiro, do que à nomeação de legatário. O professor adianta
que a situação não se altera, se o testador atribuir por via de uma deixa testamentaria parte do seu
património por referência a natureza dos bens (dou todos os meus bens imoveis), sem porem
especificar o destino dos restantes bens – posição contraria ao JDP e CAD que defendem nesta hipótese
que estar-se-ia perante um legado.

Apesar da lei fazer referência que só é legatário aquele que sucede em bens determinados – a
determinação é apenas exigida para a individualização dos bens, não sendo necessária a sua
especificação concreta, são assim legados as deixas de universalidades de facto (coisas compostas
ligadas pela sua utilidade – ex. rebanho de ovelhas). A lei admite:

i) legado de coisa genérica, no Artigo 2253º;

ii) legado alternativo, no Artigo 2267.º.

Da mesma forma constitui legados as universalidades de direito, no caso do testador deixar a


totalidade ou uma quota não partilhada de uma herança que ainda não recebeu, ou dispor por morte de
um estabelecimento comercial de que é titular, existe a individualização dos bens, e não uma quota do
seu património, então é um legado.

O usufrutuário, ainda que o seu direito incida sobre a totalidade do património, é havido como
legatário, nos termos do Artigo 2030.º/4 CC.

Usufruto – direito de gozar e usar temporariamente coisa ou direito alheio sem alterar a sua
forma ou substância.

O usufruto é sempre um legado, porém tal não resultava do anteprojeto: se o usufruto incide
sobre a totalidade do património, institui herdeiro. A justificação deve-se ao facto que o usufruto, ainda
que incida sobre a totalidade do património, é um direito determinado.

Galvão Telles – defende que deveria ser considerado herdeiro aquele que sucede a
universalidade/totalidade da herança em usufruto, pois recebe a totalidade dos bens, de igual modo
aquele que sucede na totalidade deste em direito de propriedade pleno. Qualquer deles recebe a
totalidade da herança, um com menos poderes.
Cristina Dias – defende a solução legal, pois o usufruto é sempre um direito determinado, ainda
que incida sobre bens indeterminados.

Menezes Leitão – este estatuto de legatário merece críticas, pois independentemente de a


herança ser recebida em propriedade plena ou usufruto, continua a haver uma sucessão numa
universalidade, pelo que a classificação correta é de herdeiro. O que o Artigo 2030.º/4 CC é uma ficção
sem qualquer consequência de regime, pois o Artigo 2072.º CC estabelece a responsabilidade do
usufrutuário pela herança, em termos semelhantes ao herdeiro, previsto no Artigo 2071.º CC. Por isto,
defende Menezes Leitão, que ao usufrutuário também deve assistir, o direito de:

i) aceitar a deixa a benefício de inventario, previsto no Artigo 2052.º/1 CC;

ii) exigir partilha, previsto no Artigo 2101.º/1 CC.

1.1 Diferenças de Regime


É tradicional a posição que defende que o estatuto do herdeiro é muito diferente do legatário.
Defende Menezes Leitão, que tal não é certo, pois ambos são espécies de sucessores, ambos participam
no fenómeno sucessório, e ambos estão sujeitos ao mesmo regime de aceitação e repúdio, nos termos
do Artigo 2050.º e ss. ex vi Artigo 2259.º.

Porem há certos efeitos que só assistem aos herdeiros:

i) faculdade de exigir partilha e requerer inventário;

ii) pelo regime das providencia relativas a memoria do falecido;

iii) responsabilidade pelos encargos da herança;

iv) pelo regime das Vocações Indivisíveis;

v) pela aposição de termo;

vi) direito de preferência.

1.1.1 Exigir Partilha e Requerer Inventário


Nos termos do Artigo 2101.º, apenas o herdeiro tem faculdade de exigir partilha da herança, o
legatário não tem este direito, mesmo que tenha sucedido em conjunto com outro num determinado
bem: nesta hipótese, só pode recorrer a ação de divisão de coisa comum, prevista no Artigo 412.º (??).
Há, porém, casos de legatários que podem exigir partilha – na lição de ML, o usufrutuário que sucede
numa quota da herança. Por outro lado, há herdeiros que não tem faculdade de exigir partilha:

i) herdeiro universal;

ii) herdeiro do remanescente;

iii) herdeiro de uma herança ex res certa.

Em virtude de não serem considerados interessados diretos na partilha, os legatários tem uma
intervenção muito limitada, só os herdeiros podem:

i) deduzir a oposição do inventário;


ii) impugnar a legitimidade dos interessados citados ou alegar a existência de outros;

iii) impugnar a competência do cabeça de casal ou as indicações constantes das suas


declarações;

iv) apresentar reclamação à relação de bens;

v) impugnar créditos e dividas da herança.

Pelo contrário, os legatários só são admitidos no caso de haver herdeiros legitimários a deduzir
impugnação relativo a questões que possam afetar os seus herdeiros.

Em consequência, a partilha só pode ser anulada por falta de intervenção de um dos co-
herdeiros. E, apenas o herdeiro preterido pode requerer que seja convocada conferencia de
interessados para que possa ser determinado o seu pinhão.

1.1.2 Responsabilidade pelos encargos da herança


A maior distinção de regime que existe no estatuto do herdeiro face ao estatuto do legatário
reside na responsabilidade dos encargos da herança, nos termos do Artigo 2068.º CC, a qual é, em
princípio/por regra, atribuída aos herdeiros, nos termos do Artigo 2071.º, 2097.º e 2098.º CC, não
abrangendo os legatários.

No entanto o cumprimento dos legados é considerado encargo da herança, Artigo 2078.º, cujo
cumprimento incube aos herdeiros, de acordo com o Artigo 2265.º.

Pode acontecer que os legatários sejam obrigados a suportar os encargos da herança:

i) É o que sucede no caso de a herança ser insuficiente para cumprimento dos legados em que
estes são pagos radiadamente, com exceção dos legados remuneratórios, que são considerados dívidas
da herança, nos termos do Artigo 2277.º CC;

ii) O usufrutuário pode adiantar as importâncias necessárias para os encargos relativos aos bens
que usufrui, nos termos do Artigo 2072.º CC.

Em ambos, não há uma responsabilidade direta dos legatários perante os encargos da herança.

Há, porém, dois casos onde a responsabilidade pelos encargos é atribuída ao legatário:

i) Se houver indicação do testador neste sentido, nos termos do Artigo 2276.º CC, estabelece
que o legatário responde pelo cumprimento dos legados e outros encargos que lhe sejam impostos, mas
só dentro dos limites do valor da coisa legada;

ii) Sem indicação do testador, o Artigo 2073.º/1 e 2 CC, atribui ao legatário da totalidade ou de
quota do património do falecido a obrigação de alimentos ou pensão vitalícia, só caindo idêntico dever
do legatário de bem(ns) determinado(s) se tal for expressamente previsto;

iii) No caso, de a herança ser repartida toda ela em legados, o Artigo 2277.º estabelece que os
encargos dela são suportados por todos os legatários, na proporcionalidade dos seus legados, exceto se
outra for a vontade do testador.
Outro aspeto que tem sido falado na distinção do regime refere-se à assunção da posse, a lei
não estabelece, porém, qualquer distinção – o Artigo 2255.º, limita-se a referir que, por morte do
possuidor, a posse continua nos seus sucessores. João Oliveira Ascensão, faz uma interpretação
restritiva deste Artigo, defendendo que sucessores no Artigo 2255.º significa herdeiro, sendo que os
legatários só sucedem na posse, quando os herdeiros a entregarem.

1.1.3 Regime das providencia relativas a memoria do falecido


Só os herdeiros podem requerer providencias destinadas a tutela da personalidade da pessoa
falecida, nos termos do Artigo 71.º/2 CC.

1.1.4 Regime das Vocações Indivisíveis


É apenas aplicável aos herdeiros, de acordo com o Artigo 2054.º/2, 2055.º, 2064.º/2.

1.1.5 Outros Aspetos


O cargo só é atribuído, não existindo cônjuge sobrevivo, nem testamenteiro, aos herdeiros
legais ou testamentários, nos termos do Artigo 2080.º/1 CC, só sendo atribuída aos legatários, no caso
de a herança ser repartida em legados, nos termos do Artigo 2081.º CC

A transmissão do direito de suceder, por morte do titular deste, só é admissível em caso de


herdeiro, nos termos do Artigo 2058.º/1 CC.

Sanções especificas por sonegação de bens, só se aplica aos herdeiros, por força do Artigo
2096.º, já não os legatários;

Direito de Preferência na alienação 2130.º/1 CC, não reconhecendo a lei este direito aos
legatários.

Existindo Inoficiosidade as disposições testamentarias a título de herança são reduzidas antes


das disposições a título de legado, nos termos do Artigo 2171.º CC.

É possível sujeitar a termo inicial a nomeação de legatário, nos termos do Artigo 2243.º/1, mas o
mesmo já não é possível a instituição de herdeiro, nos termos do Artigo 2243/2.

Por força do Artigo 2243/2 CC, a sujeição a termo final tem-se por não escrita, salvo se o direito
transmitido for de natureza temporária, como é o caso de legado de usufruto.

1.1.6 Direito de Acrescer


O Artigo 2137.º/2 CC prevê genericamente o direito de acrescer na sucessão legal, sempre que
algum dos sucessíveis da mesma classe não queira ou possa aceitar a herança.

O Artigo 2301.º CC prevê o Direito de Acrescer se dois ou mais herdeiros forem instituídos na
totalidade ou quota dos bens, e alguns deles não poder ou queira aceitar a herança.

Já em relação aos legatários o Artigo 2302.º CC limita o direito de acrescer aqueles que sejam
nomeados em relação ao mesmo objeto.

1.2 Conclusão
Deve-se dizer que conforme salienta parte da doutrina, que há uma diferença de natureza, e
não apenas de objeto, é esta a posição do professor Gomes da Siva e Oliveira Ascensão: segundo o qual
o legatário é mero beneficiário da herança, enquanto o herdeiro é um sucessor pessoal, uma
continuação do de cuius. Cristina Dias defende que só é sucessor, em sentido restrito, o herdeiro.

Para outros autores, JDP e Corte Real, são ambos sucessores, no mesmo sentido, Menezes
Leitão, adicionando que não há uma diferença de natureza, antes diferença de regime.

2. Designação Sucessória
A designação sucessória corresponde a determinação, em vida do autor da sucessão, dos
sucessíveis que podem ser chamados a sucessão em caso da morte deste. Efetivamente, antes do
falecimento do autor da sucessão, já se pode saber, com relativa segurança, quais são aqueles que o
virão a suceder, sendo estes assim os seus sucessíveis designados.

Fala se em sucessíveis para indicar as pessoas beneficiarias do facto designativo. Devendo,


assim, distinguir-se entre:

i) Sucessíveis Designados – quando ainda não se verificou a abertura da sucessão;

ii) Sucessíveis Chamados – quando, em relação aos mesmos, já se verificou o chamamento em


consequência da morte do de cuius.

A partir da aceitação da herança ou do legado, os herdeiros e os legatários são designados por


sucessores, nos termos do Artigo 2030.º/1 CC. A designação não faz parte do fenómeno jurídico
sucessório, uma vez que se verifica antes de ocorrer a abertura da sucessão. Não obstante, acaba por
ser um pressuposto deste fenómeno, atribuindo, durante a vida do de cuius, uma expectativa de o vir a
suceder, sendo por isto atribuída para a orbita da sucessão.

Os factos que desencadeiam a designação nomeia-se por factos designativos. Os factos


designativos são aqueles que atribuem a alguém a qualidade de sucessível, impropriamente, os mesmo
são referidos no Artigo 2026.º CC, o qual refere que os títulos de vocação sucessória são a lei, o
testamento e o contrato. A formulação, segundo Menezes Leitão, não é correta, pois o testamento e o
contrato não são títulos de vocação, uma vez que são negócios jurídicos que atribuem a qualidade
sucessível antes da morte do de cuius, enquanto que a vocação apenas ocorre no momento de abertura
da sucessão. Para além disto, a lei não é um facto designativo tendo sempre de ocorrer um facto que
determina a sua aplicação, seja ele um negócio jurídico ou outro.

Assim, os factos designativos podem ser:

i) negociais – são negociais o testamento e o pacto sucessório, dão origem,


respetivamente, a sucessão testamentaria e contratual;

ii) não-negociais – são o casamento, o parentesco, a adoção e a cidadania portuguesa.

Há, no entanto, que referir, que os factos designativos não atribuem em definitivo a qualidade
de sucessível à determinadas pessoas, uma vez que esta qualidade apenas se concretiza na data de
abertura da sucessão, até esta, podem ocorrer vicissitudes que tem por efeito afetar a designação
sucessória. Efetivamente, as designações sucessórias são conflituantes entre si, pelo que se têm que ser
hierarquizadas: por exemplo, a designação sucessória resultante da sucessão legitima pode ser afetada
se ocorrer a celebração de um testamento, que constitui uma designação sucessória prevalecente, da
mesma forma, se o autor da sucessão celebrar casamento, os seus descendentes vão ter mais um
herdeiro concorrente. Precisamente por este motivo, nem todas as designações sucessórias iram-se
converte em vocação, só ocorrendo tal com a designação sucessória prevalecente aquando da morte do
autor da sucessão.

Cabe referir a chamada hierarquia dos factos designativos, a qual corresponde a forma como a
lei estabelece a relevância dos factos designativos, permitindo, assim, determinar qual deles prevalecerá
no momento da morte do autor da sucessão. Neste âmbito, ocorre a hierarquia das designações
sucessórias:

i) no topo da hierarquia dos factos designativos, encontra-se a denominada sucessão


legitimaria, em relação a qual o Artigo 2027.º CC estabelece que não pode ser afastada pela vontade do
autor da sucessão, prevalecendo, consequentemente, sobre as sucessões contratual e testamentária.
Efetivamente, a lei reserva, injutivamente, uma parte da herança denominada por legitima aos
herdeiros legitimários, a qual o autor da sucessão não pode dispor, nos termos do Artigo 2156.º CC, seja
por testamento, seja por doações mortis causa, seja por doações em vida. Caso o autor da sucessão
tenha efetuado uma disposição que afete a legitima, os herdeiros podem proceder a sua redução por
inoficiosidade, nos termos do Artigo 2168.º e ss. CC. Daí que se considere, que a sucessão legitimaria
tem carater prevalecente na hierarquia dos factos designativos, na medida em que não pode ser
afastada por nenhum outro facto designativo.

ii) em segundo lugar na hierarquia, aparece a sucessão contratual, atendendo a


irrevogabilidade dos pactos sucessórios, o autor da sucessão não pode atentar contra a posição do
donatário após a sua aceitação, nos termos do Artigo 1701.º/1 CC e 1705.º/1 CC, como seria o caso, se
fizesse testamento a favor de um terceiro. A designação resultante do pacto sucessório prevalece,
assim, sobre a designação testamentária, independentemente do facto do testamento ser celebrado em
momento anterior ou posterior ao pacto sucessório.

iii) em terceiro lugar na hierarquia dos factos designativos, aparece a sucessão


testamentária, nos termos do Artigo 2179.º e ss. CC, a qual prevalece sobre a sucessão legitima, a qual a
mesma, nos termos do Artigo 2131.º CC, só tem lugar se o autor da sucessão não tiver disposto dos seus
bens por morte, a forma mais comum de dispor dos bens por morte é o testamento, nos termos do
Artigo 2179.º, através do qual, o autor da sucessão pode proceder a instituição de herdeiro ou
nomeação de herdeiro. Pode, no entanto, referir-se que esta designação testamentaria é frágil, uma vez
que o testamento é iminentemente revogável, nos termos do Artigo 2179.º/1 CC e Artigo 2311.º e ss.
CC;

iv) em ultimo lugar, aparece a sucessão legitima, a qual nos termos do Artigo 2131.º CC,
só tem lugar se o falecido não tiver disposto valida e eficazmente no todo ou em parte dos bens que
podia dispor por morte, a designação legitima é, assim, afetada por qualquer outra designação,
exigindo-se no entanto que a mesma seja valida e eficazmente celebrada.

3. Abertura da Sucessão
A abertura da sucessão corresponde ao momento inicial do fenómeno jurídico sucessório, em
que se verifica a extinção do autor da sucessão, iniciando-se, assim, o processo que ira permitir atribuir
as situações jurídicas, que este era titular, aos sucessores designados, processo este que se realizara
com a aceitação ou partilha, sendo que estas irão retroagir a abertura da sucessão, nos termos do Artigo
2050.º/2 CC e Artigo 2119.º CC. Nos termos do Artigo 2031.º CC, a sucessão abre-se no momento da
morte do seu autor, e no lugar do último domicílio deste, a determinação do momento da abertura da
sucessão é decisiva, uma vez que da sua fixação precisa depende a determinação dos sucessíveis que
podem ser chamados a herança. Assim, se por exemplo morrer o casal, sem filhos, mas ambos tem
sobrinhos, se o marido falecer em primeiro lugar, a mulher herdará dele, pelo que apenas os sobrinhos
desta receberam as duas heranças, e o contrário se morrer primeiro a mulher. Uma vez que a sucessão
depende da pré morte, a mesma terá de ser apurada judicialmente, utilizando para o efeito todos os
meios de prova legalmente admissíveis.

No entanto, em certos casos, a determinação de quem morreu primeiro, pode ser prova difícil,
por isto, estabeleceu-se no Artigo 68.º/2 CC a denominada presunção de comoriência ou de morte
simultânea, determinando-se que quando certo efeito jurídico depender da sobrevivência de uma a
outra pessoa, presume-se em caso de dúvida que faleceram ao mesmo tempo.

Assim, é no momento da abertura da sucessão que se concretiza a denominação sucessória, e


que tem lugar a vocação sucessória, é assim que o Artigo 2032.º/1 determina que aberta a sucessão
serão chamado a totalidade das situações jurídicas do falecido aqueles que tiverem prioridade na
hierarquia dos sucessíveis, desde que tenham a necessária capacidade. A mesma situação ocorre, no
caso, da vocação sucessória ser subsequente, já que o Artigo 2032.º/2, Parte Final CC determina que a
devolução a favor dos sucessíveis subsequentes retroage ao momento da abertura da sucessão. A
verificação da condição, aposta a uma disposição testamentaria, retroage, também, ao momento da
abertura da sucessão, nos termos do Artigo 2242.º/1 CC. Da mesma forma a aceitação ou repúdio da
herança ou legado retroagem ao momento da abertura da sucessão, de acordo com os Artigos 2050.º/2,
2062.º e 2249.º CC. Também a partilha retroage ao momento da abertura da sucessão, nos termos do
Artigo 2119.º CC.

O momento da abertura da sucessão é ainda relevante para a determinação do valor dos bens
sujeitos à coação, nos termos do Artigo 2109.º/1 CC, bem como para o cálculo da legítima, nos termos
do Artigo 2172.º/1 CC, e para a eventual redução por inoficiosidade, nos termos do Artigo 2168.º e ss.
CC

4. Vocação Sucessória
Conforme acima se salientou, a vocação sucessória consiste na atribuição a alguém o direito de
suceder, isto é o direito de aceitar ou repudiar a herança ou legado. A vocação é, porém, suscetível de
ser encarada através de duas vertentes, ambas que se encontram no Artigo 2024.º CC:

i) vertente pessoal – através da determinação das pessoas que tem o direito de suceder,
o denominado “chamamento”;

ii) vertente patrimonial – através da atribuição das correspondentes situações jurídicas


patrimoniais, a designada “devolução”.

Assim, porém, é controvertido na doutrina, se a vocação deve se identificar totalmente com a


devolução, ou se deve considerar-se que são conceitos autónomos:
i) tese da identidade entre os dois conceitos - foi sustentada por Galvão Telles, o qual refere que
chamamento e devolução constituem expressões sinonimas;

ii) defende Corte Real, o qual considera que a vocação ou devolução consistem num fase
intermedio do fenómeno jurídico sucessório, em que estando aberta a sucessão, não se verificou ainda
o exercício positivo do ius delationnes por parte dos sucessíveis chamados.

iii) A autonomia da devolução em relação a vocação foi defendida por Gomes da Silva, que
distingue a vocação da devolução, considerando que a devolução era a escolha entre os sucessíveis
designados os que devem efetivamente suceder, considerando que só pôs escolhidos ou a mais
sucessíveis para a devolução, estes tem de ser citados pela lei que lhes atribui o direito de suceder,
traduzível num poder potestativo na faculdade jurídica de aceitar a herança. Este fenómeno de atribuir
a alguém o direito de aceitar a herança designa-se por vocação. É adotada uma solução semelhante por
Nuno Espinosa da Silva, mas este inverte os conceitos de vocação e devolução.

iv) Doutrina Maioritária defende uma posição intermédia, sustentando que a vocação e a
devolução correspondem a dois prismas diferentes para designar a mesma realidade:
a) a vocação corresponderia assim a uma perspetiva subjetiva;

b) a devolução corresponderia assim a uma perspetiva objetiva.

v) Defende Menezes Leitão que: o Artigo 2024.º parece autonomizar a vocação da devolução,
uma vez que apresenta a devolução dos bens como consequência da vocação, mas noutras disposições,
como os Artigos 2032.º, 2037.º, 2055.º, 2125.º, 2293.º/1, 2294.º, a devolução aparece identificada com
a vocação, por isto o professor não vê que haja justificação para estabelecer uma separação entre os
dois conceitos, defendendo portanto a tese intermedia.

A vocação ocorre normalmente no momento da abertura da sucessão, mas pode acontecer


posteriormente. Se for chamado a vocação o nascituro, uma vez que a vocação fica dependente do seu
nascimento, de acordo com o Artigo 66.º/2.

5. Pressupostos da Vocação
Determina o Artigo 2032.º/1 CC que uma vez aberta a sucessão são “chamados à titularidade
das relações jurídicas do falecido aqueles que gozam de prioridade na hierarquia dos sucessíveis, desde
que tenham a necessária capacidade”. Desta resulta que, a vocação depende de dois pressupostos:

i) a titularidade da designação sucessória prevalecente;

ii) a capacidade.

Em relação a referência a capacidade, a doutrina tem interpretado como referente à capacidade


sucessória do Artigo 2033.º, a qual se refere, igualmente, a entes destituídos de personalidade jurídica.

Porém, Oliveira Ascensão, e, neste sentido Menezes Leitão, defende tratar-se de capacidade em
sentido técnico, prossupondo a personalidade jurídica, não se pode por isto dispensar a personalidade
jurídica. Por este motivo, a vocação tem assim três pre

ssupostos:

i) a personalidade jurídica;
ii) a capacidade sucessória;

iii) a titularidade da designação sucessória prevalecente.

Cabe analisar cada pressuposto:

5.1 Personalidade Jurídica


Ao contrário da designação sucessória, uma vez que não produz a atribuição de direito, e,
portanto, não pressupõem a personalidade jurídica do designado, a vocação não se pode consignar sem
existir a personalidade jurídica. Este requisito, tem por isto duas vertentes:

i) a personalidade jurídica se tenha constituído, normalmente antes da abertura da


sucessão;

ii) que a mesma não se tenha perdido antes da abertura da sucessão.

Regra do Artigo 2033.º/1 é a de que a personalidade jurídica deve ter sido já adquirida ao tempo
da abertura da sucessão, esta regra é alargada aos nascituros já concebidos, ainda que, nos termos do
Artigo 66.º/2 CC, a aquisição deste direito depende deste nascimento, contudo, na sucessão
testamentaria ou contratual, os nascituros não tem sequer de estar concebidos no momento da
abertura da sucessão, podendo ser contemplados desde que filho de “pessoa determinada, viva ao
tempo da abertura da sucessão”, nos termos do Artigo 2033.º/2, a) CC, naturalmente, a aquisição do
direito irá depender do seu nascimento, à luz do Artigo 66.º/2 CC.

Face a este regime legal, a doutrina discute se os nascituros gozam de vocação legal, ou esta só
se concretiza após o seu nascimento:

i) Eduardo dos Santos e Capelo de Sousa independentemente de estar nascido, este


beneficia sempre da vocação;

ii) Pereira Coelho e CAD restringe a existência de vocação aos nascituros já concebidos;

iii) Leite de Campos defende que a personalidade jurídica surge no momento da


conceção, entendendo que o nascituro já concebido é chamado a vocação, e que os bens se transmitem
para os seus herdeiros no caso de ele não chegar a nascer;

iv) Carvalho Fernandes defende que a vocação, que apenas se concretiza no momento
do nascimento, retroage ao momento da abertura da sucessão, sendo que até a verificação deste facto
existem direitos sem titular/sujeito.

5.1.1 PMA após a abertura da sucessão


Ao fazer referência a necessidade do sucessor ter nascido ou ter sido concebido no momento da
abertura da sucessão, a lei não contempla a possibilidade de Procriação Medicamente Assistida, a qual é
regulada pela Lei 32/2006.

Nos termos do Artigo 2.º/1 a lei abrange as seguintes técnicas:

a) Inseminação artificial;

b) Fertilização in vitro;
c) Injeção intracitoplasmática de espermatozoides;

d) Transferência de embriões, gâmetas ou zigotos;

e) Diagnóstico genético pré-implantação;

f) Outras técnicas laboratoriais de manipulação gamética ou embrionários equivalentes


ou subsidiárias.

Nos casos de PMA a pessoa pode ser concebida posteriormente a abertura da sucessão e ser
filho do de cujus, é por este motivo que não é lícito a mulher ser inseminada com sémen do falecido, nos
termos do Artigo 7.º Lei 32/2006, devendo depois ser destruído, nos termos do Artigo 22.º/2 Lei
32/2006. O Artigo 22.º/3 já considera licita a transmissão desde que corresponda a um projeto de vida.
Se por violação destas disposições, criança veio a nascer, esta tem-se como descendente do falecido.

Os doadores não podem ser havidos como progenitores, nos termos do Artigo 10.º/2 Lei
32/2006. A lei é omissa quanto a atribuição de direitos sucessórios em caso de PMA post
mortem:

i) Oliveira Ascensão defendia que a segurança jurídica não pode admitir reconhecer direitos às
crianças nascidas após 300 dias da morte do falecido, posição defendida por Carvalho Fernandes;

ii) Corte Real defendia segundo o princípio da não discriminação que devia ser reconhecido os
direitos sucessórios, esta é a posição de Menezes Leitão.

5.1.2 Personalidade Coletiva


No Artigo 2033.º/2, b) CC atribuí capacidade sucessória as pessoas coletivas e sociedades,
porém não constitui exceção. Mas a uma especialidade relativa as fundações instituídas por testamento,
só são reconhecidas apos a morte do instituidor, neste caso, é o reconhecimento que para alem de
atribuir personalidade jurídica à sucessão, nos termos do Artigo 158.º/2 CC, vale como aceitação dos
bens a esta destinados, de acordo com o Artigo 185.º/1 CC: caso de uma fundação que não tem,
aquando da abertura da sucessão, personalidade jurídica, adquirindo-a posteriormente.

5.1.3 Sobrevivência em relação ao de cuius


Uma vez que a personalidade jurídica tem de existir a data da sucessão, à mesma não pode ter
se extinguindo à data da abertura, fala-se assim na exigência da sobrevivência ao de cuius. Esta consiste
no facto do sucessível não poder ter falecido ou extinguido, no caso das pessoas coletivas, antes ou ao
mesmo tempo que abertura da sucessão.

5.2 Capacidade Sucessória


Prevista no Artigo 2033.º/1 CC, tem capacidade sucessória, para além do Estado, todas as
pessoas nascidas ou concebidas ao tempo da abertura da sucessão, não excetuadas por lei. Enquanto
que a capacidade geral se adquire com a personalidade plena, sendo que esta é adquirida com o
nascimento, a capacidade sucessória adquire-se com a conceção, embora a aquisição pelo nascituro
fique dependente do seu nascimento, nos termos do Artigo 66.º/2.
A Capacidade Sucessória é limitada em função da fonte da designação, é o que acontece no
Artigo 2033.º/2 CC, onde é atribuída capacidade sucessória é restrita a sucessão testamentária e
contratual.

A Capacidade Sucessória pode ser entendida:

i) em sentido amplo, como a capacidade de suceder a toda e qualquer pessoa;

ii) em sentido estrito, toma-se a consideração apenas a idoneidade para suceder apenas
a certa e determinada pessoa – aproxima-se com o conceito de legitimidade.

5.2.1. Incapacidade: Indignidade e Deserdação


5.2.1.1 Indignidade Sucessória
A primeira situação de incapacidade é a designada indignidade sucessória, sendo que nos
termos do Artigo 2034.º CC, carecem de capacidade sucessória, por motivo de indignidade:

i) a condenação como autor ou cúmplice de homicídio doloso, ainda que não


consumado, contra o autor da sucessão ou contra o seu cônjuge, descendente, ascendente, adotante ou
adotado;

ii) O condenado por denúncia caluniosa ou falso testemunho contra as mesmas pessoas,
relativamente a crime a que corresponda pena de prisão superior a dois anos, qualquer que seja a sua
natureza;

iii) O que por meio de dolo ou coação induziu o autor da sucessão a fazer, revogar ou
modificar o testamento, ou disso o impediu;

iv) O que dolosamente subtraiu, ocultou, inutilizou, falsificou ou suprimiu o testamento,


antes ou depois da morte do autor da sucessão, ou se aproveitou de algum desses factos.

A lei restringe as situações de indignidade a casos especialmente graves de atentados contra a


vida e honra do autor da sucessão e seus familiares, contra a liberdade de estar, e contra o próprio
testamento.

A lei não se basta com a prática dos factos previsto na alínea a) e b), exigindo uma condenação
efetiva, nos termos do Artigo 2035.º/1 CC: esta condenação poderá ser posterior à abertura da
sucessão, porém só o crime anterior releva para o efeito. Se, no entanto, a instituição de herdeiro ou
nomeação de legatário estiver depende de condição suspensiva, considera-se relevante o crime
cometido até a verificação da condição, à luz do Artigo 2035.º/2 CC.

Já relativamente a hipótese da alínea c), está em causa um atentado contra a liberdade de estar
através da pratica de dolo ou coação, que induz a fazer, revogar ou modificar o testamento, ou disso o
impediu: este facto terá de ser praticado antes da abertura da sucessão, apesar do dolo e a coação
serem causa de anulação do testamento, nos termos do Artigo 2201.º CC, os mesmo também relevam
para efeitos de indignidade.

A hipótese prevista na alínea d) constitui atentado contra o próprio testamento, o qual pode ser
praticado antes ou depois da abertura da sucessão, estão em causa nesta alínea atos dolosos de:
i) subtração;

ii) ocultação;

iii) inutilização;

iv) falsificação;

v) supressão;

do testamento, bem como o aproveitamento destes factos.

A lei só faz referência a estes factos como constitutivos de indignidade sucessória, tendo surgido
duvidas na doutrina em saber se esta enumeração é taxativa:

Oliveira Ascensão e João Lemes Esteves – pronunciam-se no sentido de se tratar de uma


tipicidade limitativa, podendo ser objeto de integração por forma de abranger outros casos que não
constam da lei, porém admitindo apenas a analogia legis e não a analogia iuris.

Doutrina Maioritária (Galvão Telles, Corte Real, JDP e CAD) – considera que a enumeração é
taxativa, pois:

i) trata-se de uma norma excecional;

ii) trata-se de uma pena civil, e como tal estaria sujeita ao princípio da
legalidade.

A declaração de indignidade tem de ser decretada pelo tribunal, nos termos do Artigo 2036.º:
nos termos do n.º 1, a ação destinada a obter a declaração de indignidade pode ser intentada dentro do
prazo de dois anos a contar da abertura da sucessão, ou dentro de um ano a contar, quer da
condenação pelos crimes que a determinam, quer do conhecimento das causas de indignidade previstas
nas alíneas c) e d) do artigo 2034.º.

A ação pode ser interposta em momento anterior ou posterior a abertura da sucessão.


Relativamente a legitimidade para interpor a ação:

i) antes da abertura da sucessão, esta pode ser requerida pelo autor da sucessão ou pelos seus
presuntivos herdeiros legitimários;

ii) apos a abertura da sucessão, qualquer um dos herdeiros tem legitimidade para requerer a
declaração de indignidade.

Estando em causa o homicídio doloso ou a sua tentativa, o Artigo 69.º-A CP, prevê que a
sentença condenatória penal pode declarar a indignidade sucessória do condenado. Caso esta não tenha
sido declarada na sentença penal, a mesma é comunicada ao Ministério Público para efeitos da
interposição da ação de declaração de indignidade, nos termos do Artigo 2036.º/3 CC. O mesmo
acontece, se o único herdeiro for o sucessor afetado pela indignidade, nos termos do Artigo 2036.º/2
CC.

A indignidade não resulta da prática dos factos, devendo ser assim declarada. Esta sempre foi a
posição dominante na doutrina portuguesa. Porém, Oliveira Ascensão defendeu que a indignidade
opera de pleno direito, só sendo a ação judicial necessária para reclamar os bens que estejam no poder
do indigno, pelo que só neste casos é que seria necessário instaurar a ação – esta posição foi sufragada
por Capelo de Sousa -, porem, argumenta Menezes Leitão que é manifesto que isto não é o que resulta
da lei, uma vez que isto violaria o Artigo 30.º/4 CRP, e relativamente aos factos da alínea c) e d) será
sempre necessário demonstrar judicialmente a pratica destes factos.

Diferente é a questão de saber se uma vez decorridos os prazos previstos no Artigo 2036.º, o
sucessor deixa de poder ser declarado indigno:

i) Oliveira Ascensão defende que estes só são relevantes quando o indigno tenha bens
no seu poder, considerando por analogia com o regime geral da anulabilidade, que sempre que
os bens não tenham sido entregues ao indigno, este pode ser declarado a todo o tempo, à luz da
aplicação analógica do Artigo 287.º/2 CC – foi seguida por Capelo de Sousa e Carvalho
Fernandes e pela jurisprudência STJ 23/6/74;

ii) Menezes Leitão defende que é necessário respeitar os prazos para a declaração.

Declarada a indignidade a devolução da solução ao indigno, a devolução da sucessão ao indigno


é havida como inexistente, sendo ele considerado, para todos os efeitos, possuidor de má fé dos
respetivos bens, isto resulta do Artigo 2037.º/1 CC. Em consequência, o indigno é havido como não
chamado, tanto na sucessão legal como na testamentária.

Surgiram duvidas na doutrina quanto a aplicação do regime da indignidade na sucessão


legitimaria, devido a existência nesta do instituto da deserdação:

i) Pereira Coelho e Leite de Campos defendem que sendo a indignidade um regime


geral, deveria ceder perante o regime especial vigente na sucessão legitimária, sendo este o
único regime aplicável;

ii) Oliveira Ascensão sustentou que na sucessão legitimaria só funciona a indignidade à


título supletivo, só seria possível recorrer a indignidade quando já não fosse possível recorrer à
deserdação;

iii) Corte-Real entendeu que o Artigo 2034.º CC se aplica igualmente ao herdeiro


legitimário, tendo assim plena aplicação, apenas sendo desnecessário interpor a respetiva ação
se testamentário tiver deserdado o indigno – posição defendida por Jorge Duarte Pinheiro e
Menezes Leitão.

A capacidade do indigno não prejudica o direito de representação dos seus descendentes na


sucessão legal, nos termos do Artigo 2037.º/2 CC. A incapacidade do indigno não permitira aos seus
descendentes invocarem o direito de representação na sucessão testamentária, nos termos do Artigo
2037.º/2, a contrario sensu CC.

A lei prevê a possibilidade daquele que tiver incorrido em indignidade readquirir a capacidade
sucessória, se o autor da sucessão expressamente o reabilitar em testamento ou escritura pública, nos
termos do Artigo 2038.º/1 CC. O Artigo 2038.º/2 CC prevê que quando não haja reabitação expressa,
mas sendo o indigno contemplado em testamento quando o testador já conhecia a causa da
indignidade, pode ele suceder dentro dos limites das disposições testamentárias: temos, assim, um caso
de reabilitação tácita, mas cuja operatividade é limitada a sucessão testamentária, a doutrina discute a
possibilidade de acrescer, nos termos do Artigo 2301 e ss. CC:

i) Corte Real defende que é possível verificados os respetivos pressupostos a favor do


indigno;

ii) Oliveira Ascensão responde em sentido contrário, considerando que a limitação do


Artigo 2038.º/2 CC não se aplica apenas ao título da sucessão testamentaria, abrangendo
também a sua virtualidade expansível – Menezes Leitão defende também neste sentido.

5.2.1.2 Deserdação
Deserdação é um instrumento típico da sucessão legitimaria, que permite ao autor da
sucessão privar um herdeiro legitimário da sua respetiva legitima quando se verifica uma das
hipóteses do Artigo 2166.º/1 CC:

a) Ter sido o sucessível condenado por algum crime doloso cometido contra a
pessoa, bens ou honra do autor da sucessão, ou do seu cônjuge, ou de algum descendente,
ascendente, adotante ou adotado, desde que ao crime corresponda pena superior a seis meses
de prisão;

b) Ter sido o sucessível condenado por denúncia caluniosa ou falso testemunho


contra as mesmas pessoas;

c) Ter o sucessível, sem justa causa, recusado ao autor da sucessão ou ao seu


cônjuge os devidos alimentos.

A deserdação tem de ser realizada pelo testamento, estando sujeita as regras de forma
do testamento, podendo, pelo testador, ser revogada. Para poder efetuar a deserdação o
testador tem de indicar expressamente uma das causas do Artigo 2166.º, sob pena de nulidade
da deserdação.

i) Corte Real e Duarte Pinheiro defendem que nas hipóteses da alínea a) e b) em que o
herdeiro tenha praticado o crime, mas ainda não tenha sido condenado, a possibilidade de uma
deserdação condicional, em hipótese da condenação vir a ocorrer depois da feitura do
testamento, através de aplicação analógica 2035.º/1 – Menezes Leitão defende que sim.

Embora a lei apenas faça referência a sucessão legitimaria, a deserdação afeta


igualmente a sucessão legitima e a testamentária, já em relação a sucessão contratual existe um
instituto em paralelo que é a revogação da doação por ingratidão do donatário, previsto nos
Artigos 1705.º/3 e 960.º/3 CC. Assim:

i) se houver deserdação, o deserdado fica privado da sucessão legitimaria, legitima e


testamentaria anterior a deserdação;

ii) pode, no entanto, suceder a deixas testamentarias efetuadas com a deserdação ou


posterior a esta, dentro dos limites destas deixas, por aplicação analógica do Artigo 2038.º/2 CC.

Tem sido questionado se a deserdação possa ser parcial, isto é, por exemplo, alguém
ficar deserdado em determinada parte da legítima:
i) Corte Real e Duarte Pinheiro respondem que não, devido ao princípio da
indivisibilidade da vocação, nos termos do Artigo 2055.º CC e Artigo 2250.º CC, e da
intangibilidade da legítima, nos termos do Artigo 2163.º, considerando subsequentemente nula
a clausula que deserdação;

ii) Menezes Leitão defende que seria possível, pois:

a) Artigo 2166.º, a fortiori, CC, se o autor da sucessão pode privar o herdeiro


legitimário da legitima, então nada impede que o possa privar apenas em parte;

b) o autor pode beneficiar o herdeiro legitimário com uma disposição


testamentaria;

c) o autor devia puder punir o herdeiro legitimário da forma que entender mais
apropriada;

d) sustentar a nulidade da deserdação parcial, implica deixar o herdeiro que


praticou um dos atos do Artigo 2166.º sem punição.

Há semelhança do que acontece com a indignidade deve, por força do Artigo 2166.º/2
CC, ser aplicada a hipótese de reabilitação do deserdado, a qual depende da revogação da
disposição testamentaria, esta revogação pode ser:

i) expressa, nos termos do Artigo 2312.º CC

ii) tácita, nos termos do Artigo 2313.º CC, quanto a esta o Artigo 2038/2
estabelece, no entanto, que o facto que o deserdado for contemplado em testamento só lhe
atribui o direito de suceder nos limites da disposição testamentária.

Sendo o herdeiro legitimário objeto de uma deserdação ilegal, a forma correta de agir é,
nos termos do Artigo 2167.º CC, é a ação de impugnação da deserdação, para qual a lei
estabelece um prazo de 2 anos desde a abertura do testamento, porém a lei pressupõem que o
herdeiro esteve presente na abertura do testamento: não sendo este o caso, deve-se considerar
por analogia com os Artigos 2059.º e Artigo 2308.º, o prazo só se inicia quando o interessado
teve conhecimento do testamento e da deserdação. A ação tem como pressuposto legal a
inexistência da causa invocada, pelo que não pode ser utilizada quando não há indicação de
causa ou quando a causa indicada não consta do Artigo 2166.º CC, a doutrina diverge quanto a
solução neste caso:

i) Corte Real defende que, nestas condições, considera-se como inexistente;

ii) Jorge Duarte Pinheiro sustenta que o deserdado poderá arguir a nulidade, nos
termos do Artigo 2308.º;

iii) Menezes Leitão defende que é inexistente.

5.3 A Titularidade da designação sucessória prevalecente


Efetivamente são apenas chamados os sucessíveis que gozam de prioridade na hierarquia da
sucessão, designados por isto como sucessíveis prioritários. Assim, o filho é chamado antes do irmão do
de cuius, apenas se ele não quiser é que o último sucede, sendo que a devolução retroage à data de
abertura da sucessão, nos termos do 2032.º/2 CC.

6. Princípio da Indivisibilidade da Vocação


Implica que o chamamento do herdeiro ou legatário não pode implicar uma aquisição
meramente parcial da herança ou do legado, a lei estabelece que o sucessível designado não pode
aceitar ou repudia parte da herança, nos termos do Artigo 2054.º/1 CC, ou legado, nos termos do Artigo
2250.º/1, 1º Parte CC, assim, aquele que é chamado por um só título de vocação tem de aceitar ou
repudiar na integralidade da vocação pela qual foi chamado.

Este principio aplica-se igualmente nos casos de vocação múltipla, em que existe uma
pluralidade de títulos sucessórios, dispõem o Artigo 2055.º /1, 1.º Parte CC que “se alguém é chamado a
herança simultânea ou sucessivamente, por testamento, e por lei, e a aceita ou repudia por um dos
títulos, entende-se que a aceita ou repudia igualmente pelo outro” – pressupõem assim que mesmo em
casos de pluralidade de títulos de vocação, a aceitação e o repudio abrangem ambos os títulos.

Não tem um conteúdo tão amplo como sustenta alguma parte da doutrina, uma vez que é
objeto de muitas exceções, entre elas:

i) as situações da sucessão contratual;

ii) as situações de sucessão legitimaria e testamentaria que contempla o Artigo


2055.º/1, 2.º Parte CC e Artigo 2055.º/2 CC.

iii) situação de transmissão do direito de suceder do Artigo 2058.º CC;

iv) situação de pluralidade de legado, presente no Artigo 2250.º/1, 2º Parte CC;

v) situação de atribuição concomitante do legado e da herança, prevista no Artigo


2250º/2 CC;

vi) e, relativamente ao direito de acrescer, o Artigo 2306.º CC.

6.1 Exceções
6.1.1 As situações no âmbito da Sucessão Contratual
Uma vez que nesta, a aceitação ocorre antes da abertura da sucessão, não podendo haver
repúdio, o sucessor não estará proibido de repudiar a sucessão a outros títulos.

6.1.2 As situações no âmbito da Sucessão Legitimária e Testamentária


Resulta do Artigo 2055.º/1, 2º Parte CC dispõem que o sucessível chamado a herança por
testamento e por lei, “pode aceitá-la ou repudiá-la pelo primeiro, não obstante a ter repudiado ou
aceitado pelo segundo, se ao tempo ignorava a existência do testamento”: neste caso não se justifica
privar o herdeiro testamentário da herança que lhe foi atribuída pelo testador, apenas pelo facto de ter
repudiado a sucessão legitima que lhe estaria destinada.

Do Artigo 2055.º/2 CC resulta que “o sucessível legitimário que também é chamado à herança
por testamento pode repudiá-la quanto à quota disponível e aceitá-la quanto à legítima”: a exceção
resulta lei não pretender retirar ao herdeiro legitimário a possibilidade de recusar ser beneficiado pelo
de cuius, reconhecendo-se-lhe, consequentemente, a possibilidade de repudiar a quota disponível,
mantendo no entanto o seu direito a legitima.

6.1.3 A situação de transmissão do direito de suceder


O Artigo 2058.º/2 onde estabelece que a aceitação da herança pelo falecido não impede os
herdeiros de repudiar a herança que estes tenham sido chamados: uma vez que neste caso a herança
inclui um ius delegationnes, a lei permite que o mesmo seja plenamente exercido, podendo os herdeiros
proceder a um repudio autónomo.

6.1.4 A situação de pluralidade de legados


Resulta do Artigo 2250.º/1, 2º Parte, o qual permite que em casos de pluralidade de legados, o
legatário possa aceitar um legado e repudiar o outro, desde que este último não seja onerado pelo
testador: a razão desta exceção da exceção prende-se com a lei querer evitar o repudio sistemático de
legados com encargos.

6.1.5 A situação de atribuição concomitante do legado e da herança


Resulta do Artigo 2250.º/2 que quem beneficia de deixas de herança e de legado, pode aceitar
uma e repudiar a outra, desde que nenhuma delas esteja sujeita a encargos: caso tal suceda, não pode
repudiar isoladamente a deixa sujeita a encargos, sendo obrigado a efetuar a aceitação ou o repudio de
ambas.

6.1.6 A situação da parte acrescida com encargos especiais


Por regra o princípio da indivisibilidade proíbe a possibilidade de repudio separado da parte
acrescida, que é adquirida automaticamente pelo beneficiário. O Artigo 2306.º excetua esta regra, se a
parte acrescida estiver sujeita a encargos especiais, sendo então possível o repudio autónomo da parte
acrescida, revertendo esta em favor do beneficiário dos encargos.

7. Modalidade da vocação
A vocação admite várias modalidades, dando origem a uma serie de classificações, pode assim
distinguir-se entre a:

i) Vocação Originária e Subsequente;

ii) Vocação Pura e Impura (Condicional, a Termo e Modal);

iii) Vocação Una e Múltipla;

iv) Vocação Direta e Indireta;

v) Vocação Imediata e Derivada;

vi) Vocação Comum e Anómala.

7.1 Vocação Originária e Subsequente


Esta classificação baseia-se no momento em que se concretiza o chamamento:

i) Vocação Originária – verifica-se no momento da morte do de cuius, nos termos do Artigo


2032.º/1 CC;
ii) Vocação Subsequente – quando a vocação se concretiza em momento posterior.

Conforme salienta Jorge Duarte Pinheiro, a vocação é normalmente originária, mas a lei prevê
alguns casos de vocação subsequente:

i) a vocação daquele que é chamado em virtude do facto do sucessível primeiramente designado


não puder ou querer aceitar a herança ou legado, nos termos do Artigo 2032.º/2 CC;

ii) a vocação da pessoa singular que ainda não tenha nascido a data da abertura da sucessão,
nos termos do Artigo 66.º/2 CC;

iii) a vocação do sucessível instituído ou nomeado sob condição suspensiva, a qual só ocorre
após a verificação da condição, nos termos do Artigo 2229.º CC;

iv) a vocação do fideicomissário, que só é chamado após a morte do fiduciário.

A classificação destas situações como tendo carater subsequente não é pacifico na doutrina:

a) em relação a i):

1) defende Gomes da Silva que não se produziria em favor destes qualquer forma de
devolução ou de vocação, no momento da abertura da sucessão, tendo assim carater
subsequente;

2) por outro lado, defende Galvão Telles já haveria aqui uma forma de vocação no
momento da abertura da sucessão suspensa a favor do sucessível subsequente;

3) considera Oliveira Ascensão que aquando da morte do autor da sucessão dá-se em


princípio a imediata vocação de todos os seus suciáveis, sendo, no entanto, a atribuição do
direito de suceder de todos os suscetíveis subsequentes condicionada em virtude da
possibilidade de aceitação da herança por parte dos sucessíveis chamados em primeiro lugar –
direito condicional improprio.

b) em relação a ii):

1) defende Capelo de Sousa que existe aqui uma vocação originaria, não obstante a
condição de nascimento; esta é a opinião de Diogo Campos Leite embora apenas para os nascituros em
sentido estrito;

2) defende Menezes Leitão que é uma vocação subsequente.

c) em relação a iii):

1) defende Pereira Coelho e Capelo de Sousa que se trata de uma situação de vocação
originária;

2) defende Menezes Leitão que é gritante a natureza subsequente, na sequência do


defendido por Galvão Telles, pois é manifesto que a vocação só se concretiza no momento da
verificação da condição, ainda que retroage ao momento da abertura da sucessão, nos termos do Artigo
2242.º/1 CC.
Algumas das vocações subsequentes retroagem a data da abertura da sucessão, como é o caso
das vocações:

i) do posterior sucessível;

ii) do sucessível instituído ou nomeado sob condição suspensiva;

Já não é, porem, o caso do nascituro, em que só adquire no momento do seu nascimento, à luz
do Artigo 66º/2, nem o caso do fideicomissário, uma vez que a devolução pelo fiduciário só se verifica
depois e esta não resolve a vocação do fiduciário, nos termos do Artigo 2209.º, 2291.º, 2293.º/1, e
2294.º.

7.2 Vocação Pura e Impura (Condicional, a Termo e Modal)


Esta classificação baseia-se no facto da vocação ser ou não sujeita a clausula acessória, como é a
condição, o termo, e o modo. Assim a vocação diz-se:

i) Pura, quando não está sujeita a qualquer clausula acessória;

ii) Impura, quando se encontra submetida a clausula acessória, como seja a condição, o termo e
o modo, falando-se respetivamente em:

a) vocação condicional;

b) vocação a termo;

c) vocação modal.

A vocação pura é a regra, sendo alias aquela que ocorre na sucessão legal, uma vez que a lei
nunca sujeita a vocação a nenhuma clausula acessória. Já na sucessão voluntaria, seja ela testamentaria
ou contratual, a vocação pode ficar sujeita a uma clausula acessória, bastando para isto que o testador
ou as partes no pacto sucessório estipulem isto, neste caso haverá que considerar o regime geral da
condição e do termo, constante dos Artigos 270.º e ss. e do Artigo 278.º, os quais são objeto de
regulamentação especial:

A) no âmbito da sucessão testamentaria:

i) a condição, nos Artigos 2229.º e ss.;

ii) o termo, nos Artigos 2243;

iii) o modo, nos Artigos 2244.º e ss.

B) no âmbito da sucessão contratual:

i) o modo, nos Artigos 963.º e ss.

7.3 Vocação Una e Múltipla


A vocação diz-se:

i) Una, quando apenas um sucessível é chamado a suceder num único título de vocação;
ii) Múltipla, quando existirem vários sucessíveis ou se o único sucessível é chamado a suceder
em mais de um título de vocação ou na dupla qualidade de herdeiro e legatário.

A vocação una só se pode verificar na sucessão universal de um único herdeiro, sendo esta
incompatível com a designação de legatário, uma vez que este não pode receber todo o património
hereditário.

A vocação múltipla compreende várias modalidades:

i) o chamamento do mesmo sucessível a vários títulos ou qualidades;

ii) o chamamento de vários sucessíveis da mesma qualidade por um só título;

iii) o chamamento de vários sucessíveis da mesma ou de qualidades diferentes por vários títulos.

7.4 Vocação Direta e Indireta


A vocação diz-se:

i) Direta, quando se baseia apenas na relação existente entre o sucessível e o de cuius;

ii) Indireta, quando o chamamento do sucessível toma por base não apenas a sua relação com o
de cuius, mas também a sua relação para com terceiro, que não entrando na sucessão, serve de ponto
de referência para a vocação.

A vocação direta é a regra, a indireta ocorre sempre que o sucessível prioritário não possa ou
não queira aceitar a sucessão, neste caso chamado o sucessível subsequente e vindo a vocação deste a
ser moldada sob a anterior vocação de sucessível prioritário, cuja posição é ocupada pelo sucessível
subsequente, retroagindo a devolução à data da abertura da sucessão, nos termos do Artigo 2032º/2
CC. A vocação indireta não pressupõem a resolução de uma vocação anteriormente realizada, uma vez
que esta pode nem sequer ocorrer, como sucede na hipótese de pré morte.

A vocação indireta tem como pressuposto o facto de um sucessível, primeiramente, designado


não querer ou poder aceitar a sucessão, a primeira hipótese configura repudio, já a segunda
corresponde a um conjunto de situações que tem em comum a impossibilidade jurídica de efetuar a
aceitação:

i) não sobrevivência em relação ao de cuius;

ii) ausência apos a declaração da morte presumida;

iii) indignidade e deserdação.

A impossibilidade física, em caso de morte posterior ao de cuius, não constitui vocação indireta,
antes desencadeia a transmissão do direito de suceder, e, em caso de impossibilidade física por alguma
limitação é necessário recorrer ao suprimento da sua incapacidade.

Constitui modalidade de vocação indireta:

i) a substituição direta, nos termos dos Artigos 2281 e ss.;

ii) o direito de representação, nos termos dos Artigos 2039.º e ss.;


iii) o direito de acrescer, previsto nos Artigos 2137.º/2, 2157.º, 2301.º e ss.

7.5 Vocação Imediata e Derivada


Esta categoria baseia-se no facto de ter ocorrido uma aquisição originaria ou derivada da
vocação. A vocação diz-se:

i) Imediata, quando é adquirida originalmente pelo chamado;

ii) Derivada, quando foi transmitida para o chamado apos uma prévia aquisição do direito de
suceder pelo de cuius.

A vocação derivada só se verifica com a transmissão do direito de suceder, nos termos do Artigo
2058.º CC, pressupõem assim o chamamento de alguém a sucessão de um terceiro, e que se verifique o
falecimento do chamado sem que este tenha podido aceitar ou repudiar, nestes casos inclui-se na
herança daquele que sucedeu o direito de aceitar ou repudiar a herança do terceiro, transmitindo este
para os seus herdeiros, adquirindo assim a vocação por transmissão.

A vocação não se confunde por isto com a vocação indireta, pois nesta ainda continua a ocorrer
uma aquisição originaria da vocação, o contrário ocorre na derivada.

7.6 Vocação Comum e Anómala


A vocação diz-se:

i) Comum aquela que corresponde ao padrão de normalidade, sendo por isto:

1) originaria;

2) pura;

3) direta;

4) imediata.

ii) Anómalas aquelas que se desviam deste padrão de normalidade.

Na prática esta classificação apresenta-se como um somatório das classificações anteriores.

7.7 Modalidades de Vocações Anómalas


Sendo que neste âmbito:

i) a transmissão do direito de suceder;

ii) a substituição direta;

iii) o direito de representação;

iv) o direito de acrescer;

v) a substituição fideicomissária.

7.7.1 A transmissão do direito de suceder


Nos termos do Artigo 2058.º/1 CC, verifica-se a transmissão do direito de suceder em caso de
falecimento do sucessível sem ter aceite ou repudiado a herança, caso em que o direito de suceder
transmite-se aos herdeiros. A transmissão do direito de suceder depende da aceitação por parte dos
herdeiros da herança em que o falecido foi chamado, nos termos do Artigo 2058.º/2 CC. Este regime é
aplicável aos legados, por força do Artigo 2249.º CC.

A transmissão do direito de suceder depende dos seguintes pressupostos:

i) o chamamento de alguém a uma sucessão;

ii) falecimento do chamado sem que este tenha aceite a herança ou legado;

iii) o chamamento dos herdeiros do primitivo chamado;

iv) a aceitação por estes daquela sucessão.

A transmissão não se pode verificar no âmbito da sucessão contratual, uma vez que nesta o
beneficiário tem de aceitar a proposta de doação em vida, nos termos do Artigo 945.º/1 CC, o que faz na
própria convenção antenupcial, nos termos do Artigo 1700.º CC: não sendo assim possível que o
beneficiário suceda sem aceitar a doação, não podendo ser transmitido o ius delegationnes para os seus
herdeiros.

Esta só tem lugar se após a abertura da sucessão se verificou efetivamente o chamamento do


sucessível, mas este veio a falecer sem ter exercido o seu direito de aceitar ou repudiar a herança,
transmitindo-se este na herança para os seus herdeiros.

É necessário que o transmissário tenha capacidade sucessória em relação ao transmitente e ao


primitivo de cuius. Por se tratar de um fenómeno de vocação é necessário preencher os pressupostos
em ambas as heranças, assim:

i) se o transmissário for incapaz em relação ao transmitente, não pode suceder ao ius


delegationnes;

ii) se o transmissário for incapaz em relação ao primitivo de cuius, não poderá ser atribuído este
direito.

Ocorrendo a transmissão do direito de suceder o transmissário pode aceitar ou repudiar a


herança, nos termos que faria o transmitente.

É convertido na doutrina, se a transmissão do direito de suceder configura vocação indireta:

i) Galvão Telles e Corte Real afirmam que sim, considerado que o fenómeno sucessório não se
encontrava concluído em relação ao primitivo de cuius, só vindo sê-lo por via da atuação da vocação dos
sucessores do transmitente, e assim acabam por suceder ao primeiro de cuius;

ii) Oliveira Ascensão e Antunes Varela afirma o oposto, segundo estes autores na transmissão do
direito de suceder não ocorre um fenómeno de sucessão indireta, mas antes uma situação de dupla
transmissão, porque os pressupostos da vocação só se tem de verificar aquando da segunda abertura da
sucessão, já não em relação a primeira – Menezes Leitão e Jorge Duarte Pinheiro adere a esta tese.

7.7.2 Substituição Direta


Sendo que a Substituição Direta, ou substituição vulgar, ocorre quando o autor da sucessão
substitui outra pessoa ao herdeiro ou legatário designado para a hipótese de este não poder ou não
querer aceitar a herança ou o legado, nos termos dos Artigos 2281.º e 2285.º CC.

A Substituição Direta constitui um caso de vocação indireta, uma vez que toma por referência
uma sucessão anterior, substituindo-se um sucessível a outro com a designação sucessória
prevalecente.

Esta distingue-se da substituição fideicomissária, prevista nos Artigos 2286.º e ss., e da


substituição pupilar e quase-pupilar, prevista nos Artigos 2297.º e ss., a razão deve-se ao facto que a
substituição direta importa uma única transmissão sucessória, e, daí, a sua designação como direta, ao
contrário das outras que envolvem duas transmissões sucessórias. Por este motivo, a substituição direta
não tem limites de graus, enquanto que a substituição fideicomissária só é admitida em um grau, nos
termos do Artigo 2288º.

7.7.2.1 Modalidades da Subsituição Direta:


i) singular – quando existe apenas um herdeiro ou legatário instituído e igualmente um só
herdeiro ou legatário substituto;

ii) plural – quando existam vários herdeiros ou legatários designados ou substitutos, sendo que
neste caso se pode substituir várias pessoas a uma só, como de uma só a várias, nos termos do Artigo
2282.º CC;

iii) recíproca – quando o testador determinar que o co-herdeiros ou colegatários, se subsituam


reciprocamente, nos termos dos Artigos 2283.º/1 e 2285.º/1:

a) feita a herdeiros, determina o Artigo 2283.º/2, se estes foram instituídos em


partes desiguais, no silêncio do testador, respeitar-se-á a mesma proporção na substituição; se, porem,
nem todos forem chamados a sucessão ou for chamada outra pessoa além deles, determina o Artigo
2283.º/3 CC, que se nada se declarar em relação a proporção, o quinhão vago será repartido em partes
iguais.

b) feita a legatários nomeados em relação ao mesmo objeto, determina o Artigo


2285.º/2 CC, que, no silencio do testador, considera-se a substituição feita na mesma proporção em que
foi feita a nomeação.

iv) expressa ou tácita.

A substituição direta pode ocorrer sempre que o herdeiro ou legatário não queira ou não possa
aceitar a herança, a sua verificação depende, porém, da vontade do testador, que é livre para
determinar a sua aplicação a algum ou alguns dos casos, excluindo os outros. Porém, o Artigo 2281.º/2
CC contem uma disposição interpretativa: se o testador só previr um dos casos, na falta de declaração
em contrário, entende-se que deve abranger o outro.

Tem-se questionado se a substituição direta ocorre igualmente no caso de ser invalida a deixa a
favor do substituto:

i) Oliveira Ascensão e Carvalho Fernandes respondem afirmativamente, considerando que o


instituidor pode ter previsto esta invalidade e que é seguro que a sua vontade seria neste caso de
instituir o substituído, devendo por isto a não referencia a “não poder aceitar a herança ou o legado” ser
entendida em sentido amplo; Já na hipótese do substituído falecer sem ter declarado se aceita ou
repudia a herança, tal não constitui hipótese de não poder aceitar a herança, uma vez que nesta
hipótese verifica-se a transmissão do direito de suceder para os seus herdeiros. Oliveira Ascensão
admite porem que o testador estipule em contrário determinando a exclusão do direito de suceder
neste caso e estabelecendo a imediata vocação do substituto;

ii) Corte-Real entende que a substituição direta não deve operar se a vocação do substituído se
chegar a concretizar, dando origem a transmissão do direito de suceder, podendo neste caso admitir-se
uma substituição fideicomissária – posição sufragada por Menezes Leitão, adiantado tratar-se de um
fideicomisso irregular, nos termos do Artigo 2295.º.

Apesar da lei só se referir a substituição direta no âmbito da sucessão testamentaria é manifesto


que a mesma pode ter lugar na sucessão contratual, bem como nada parece impedir que o testador fixe
um substituto direto para o herdeiro legitimo, afastando por esta via o direito de representação ou o
direito de acrescer. Mais controverso é a hipótese de esta ocorrer na sucessão legitimária:

i) Corte-Real e CAD defendem que em virtude do carater injuntivo desta não é possível designar
substituto ao herdeiro legitimário;

ii) Oliveira Ascensão admitem a designação de substituto na hipótese de não funcionar o direito
de representação ou o direito de acrescer.

iii) Menezes Leitão defende a primeira.

Quanto aos efeitos da substituição direta, verificando-se a mesma se o sucessível titular da


designação sucessória não quiser ou não puder aceitar a herança ou o legado, a lei determina o
chamamento do substituto, logo no momento da abertura da sucessão, estipulando o Artigo 2284.º CC,
que os substitutos sucedem nos direitos e obrigações em que sucederiam os substituídos, exceto se
outra for a vontade do testador.

A substituição direta é uma modalidade de vocação indireta e condicional. Quando admitida


afasta a aplicação do direito de representação e do direito de acrescer.

7.7.3 O Direito de Representação


Nos termos do Artigo 2039.º, quando a lei chama os descendentes de um herdeiro ou legatário
a ocupar a posição daquele que não pôde ou não quis aceitar a herança ou o legado. O fundamento
deste é de impedir que circunstancias fortuitas e imprevistas que impeçam o chamamento do sucessível
anterior, venham afetar a disciplina normal da sucessão, frustrado as legitimas expectativas dos
descendentes e donatários.

Constitui uma forma de vocação indireta, que abrange os descendentes e os adotados


permitindo-lhes ocupar a posição do seu ascendente ou adotante que não quis ou não pude aceitar a
herança ou legado. Esta é, alias, o único caso que a lei favorece os descendentes perante o cônjuge,
permitindo-lhes que o não exercício ou a rejeição da sucessão por parte do ascendente ou adotante,
não prejudique o chamamento dos descendentes ou adotados à herança ou ao legado.
Este distingue-se da transmissão do direito de suceder, porque nesta o chamado a sucessão
faleceu sem ter podido aceitar a herança ou o legado, enquanto que naquele o representado não
chegou a ser chamado, por este motivo a transmissão do direito de suceder pressupõem que após a
abertura da sucessão se verifique um segundo chamamento a favor dos herdeiros do chamado
inicialmente, implicando o surgimento de dois fenómenos sucessórios. Pelo contrário, no direito de
representação ocorre um único fenómeno sucessório, uma vez que a vocação subsequente a favor dos
sucessíveis representado produz os seus efeitos logo no momento da abertura da sucessão.

O direito de representação opera tanto na sucessão legal como na sucessão testamentaria, nos
termos do Artigo 2040.º, encontrando-se uma situação igualmente prevista na sucessão contratual, nos
termos do Artigo 1703.º/2, o regime funciona de forma distinta em cada uma destas.

7.7.3.1 Na sucessão legal


Resulta do Artigo 2042.º que esta necessita apenas de dois pressupostos:

i) filho ou irmão do falecido não possa ou queira independentemente da causa;

ii) e, que este filho ou irmão tenha deixado descendentes.

A lei permite assim amplamente o direito de representação, seja qual for a causa que leva o
filho ou irmão do falecido a cauerer aceitar a herança, abrangendo assim as hipóteses de pré-morte,
indignidade, deserdação, e ausência, porem o segundo pressuposto restringe este direito aos
descendentes, independentemente do grau de parentesco, e não sendo concedido este direito ao
cônjuge.

7.7.3.2 Na sucessão testamentária


Esta encontra-se prevista no Artigo 2041.º, sendo os seus pressupostos mais complexos que
aqueles previstos para a sucessão legal:

i) herdeiro ou legatário designado tenha falecido antes do testador ou tenha repudiado


a herança ou legado;

ii) que não se verifique a caducidade da vocação sucessória por outra causa;

iii) que este herdeiro ou legatário designado tenha deixado descendentes ou adotados;

iv) que o sucessor não tenha disposto em sentido contrário, o que se presume se tiver
designado substituto ao herdeiro ou ao legatário, estando em causa o fideicomissário, ou legado de
usufruto, ou outro direito pessoal.

Ao contrário o que se verifica na sucessão legal, a lei limita na sucessão testamentária as causas
que desencadeiam este direito à pré-morte e ao repudio, devendo também ter-se em consideração a
declaração de morte presumida, uma vez que esta tem os mesmos efeitos, à luz do Artigo 115.º CC. Não
haverá direito de representação na hipótese de indignidade e de deserdação, como já se retirava à
contrário do Artigo 2037.º/2 CC.

As disposições testamentarias caducam, nos termos do Artigo 2317.º, por várias causas, sendo
que a existência de descendente impede esta caducidade nos casos de pré-morte ou repúdio,
respetivamente alíneas a) e e), in fine, do Artigo 2317.º CC. A vocação sucessória caduca, sem que o
direito de representação possa operar, nos casos em que:

i) a pré-morte ocorre antes de se ter verificado a condição suspensiva a que a disposição


foi sujeita, nos termos do Artigo 2317.º, b) CC;

ii) sucessor se tornar incapaz de adquirir a herança ou o legado, nos termos do Artigo
2317.º, c) CC;

iii) sendo o chamado o cônjuge, se tiver verificado à data da abertura da sucessão o


divórcio, a separação judicial de pessoas e bens, ou a anulação do casamento, ou estas vierem a ser
posteriormente proferidas, nos termos do Artigo 2317.º, d) CC.

Em caso de ausência de descendente ou adotados, não haverá direito de representação.

O sucessor não tenha disposto em sentido contrário, isto ocorre em todas as situações do Artigo
2041.º/2 CC, porém entende Menezes Leitão que este não é taxativo, devendo considerar-se o direito
de representação afastado em todos os casos em que o testador o pretenda impedir, entre estas
situações encontra-se:

i) a de ter designado substituto ao herdeiro ou ao legatário, nos termos do Artigo


2041.º/2, a) CC, esta ocorre quando:

a) na substituição direta, nos termos dos Artigo 2281.º e ss. – em que o testador
substitui outra pessoa ao herdeiro ou legatário designado para o caso deste não querer
ou puder aceitar a herança ou o legado, nos termos do Artigo 2281.º e 2285.º;

b) na substituição fideicomissária, nos termos do Artigo 2286.º e ss. – uma vez


que esta se converte em direta, na hipótese de o fiduciário não querer ou puder aceitar
a herança ou o legado, nos termos do Artigo 2293.º/3 e 2296.º;

c) isto não ocorre na substituição pupilar ou quase-pupilar, previstas nos artigos


Artigo 2297.º e ss., pois não impedem o funcionamento do direito de representação,
conforme resulta do Artigo 2297.º/2 e Artigo 2298.º/2.

ii) situação do fideicomissário, nos termos do Artigo 2041.º/2, b) CC, já que o Artigo
2293.º/2 determina que se o fideicomissário não puder ou não quiser aceitar a herança fica sem efeito a
substituição, e a titularidade considera-se adquirida pelo fiduciário, nos termos do Artigo 2293.º/2 CC;

iii) no caso de legado de usufruto ou de outro direito pessoal, nos termos do Artigo
2041.º/2, c) CC, nestes casos presume-se que o testador quis beneficiar exclusivamente o
testamentário, razão pela qual não se deverão considerar abrangidos os seus descendentes.

7.7.3.3 Na sucessão contratual


O direito de representação só abrange o caso de doação mortis causa feito por terceiro para
casamento, nos termos do Artigo 1703.º/2 CC, os beneficiários são apenas os filhos nascidos daquele
casamento, parece, porém, que se pode estender analogicamente este regime aos adotados pelo casal,
assim como aos filhos que o casal tenha tido anteriormente ao casamento.
Apesar de a lei restringir o direito de representação aos filhos daquele casal, tal parece justificar-
se pelo facto que o objetivo do terceiro em estabelecer a doação ser o favorecimento da união daquele
casal, o que justifica o tratamento especial da sua prol, não parece assim que este regime infrinja a
proibição constitucional da descriminação dos filhos nascidos fora do casamento, nos termos do Artigo
36.º/4 CRP, até porque abrange filhos nascidos de outros casamentos, mas já se terá de considerar
inconstitucional a sua interpretação no sentido de impedir a sua aplicação aos descendentes de 2.º grau
e seguintes nascidos fora do casamento dos seus progenitores: mesmo a designação dos descendentes
do 1.º grau como legítimos, ofende o que se encontra previsto no Artigo 36.º/4 CRP.

Este regime é supletivo podendo ser afastado se na convenção antenupcial for instituída uma
substituição direta nos casos de pré morte.

7.7.3.4 Regime do direito de representação


Resulta do Artigo 2035.º CC, que a representação tem lugar ainda que todos os membros de
varias estripes estejam relativamente ao autor da sucessão no mesmo grau de parentesco, pelo o que
existe uma só estripe, em consequência o direito de representação pode funcionar tanto na hipótese de
ocorrer desigualdade de graus sucessórios, como na hipótese dos graus sucessórios serem iguais, mas
haver diversidades de estripes ou quando a estripe for só uma, este direito permite afastar:

i) as regras de preferência de graus parentesco, previstas no Artigo 2135.º;

ii) as regras da sucessão por cabeça, prevista no Artigo 2136.º;

iii) e, do direito de acrescer, previsto no Artigo 2137.º.

7.7.3.4.1 Desigualdade de graus sucessórios com pluralidade de estripes


Conforme se pode ver no quadro abaixo, A, de cuius, teve dois filhos B e C, dos quais C é pré-
falecido de A, deixando por sua vez dois filhos, D e E, que são netos de A. Neste caso, em virtude do pré-
falecimento de C a regra de preferência de grau, constante do Artigo 2135.º CC, determinaria que os
netos não sucedessem em virtude da maior proximidade do filho, uma vez que existe direito de
representação esta regra é afastada, nos termos do Artigo 2138.º CC. Neste caso, D e E vão ser
chamados a sucessão de A, mas não sucedem em igualdade com B, uma vez que ocupam a posição que
restaria a C, resta dividir-lhes a parte que a este caberia.

7.7.3.4.2 Igualdade de graus sucessórios com pluralidade de estripes


Conforme se pode ver no quadro abaixo, A, de cuius, teve dois filhos B e C, ambos pré falecidos,
porém A tem 5 netos, uma vez que B deixou 3 filhos, D, E, e F, e C deixou 2 filhos, G e H, neste caso,
embora já não esteja em questão a regra da preferência de grau, constante do Artigo 2135.º, uma vez
que tanto B como C são pré-falecidos, a verdade é que a sua posição continua a ser considerada para
efeitos da repartição da herança entre os netos do de cuius. D, E, e F vão ser chamados a sucessão de A,
mas não sucedem em igualdade com G e H, uma vez que ocupando a posição de B apenas podem
repartir a parte que caberia a este, recebendo assim apenas 1/6, já G e H como ocupam a posição de C,
dividem a parte que a este competia na herança, recebendo por isto apenas ¼ da mesma, ou seja a
existência de direito de sucessão vem afastar a regra de divisão por cabeça, prevista no Artigo 2136.º.

O direito de representação continua a existir mesmo no caso de as posições dos herdeiros


serem idênticas, como na hipótese de B e C terem apenas deixado dois filhos cada um, correspondendo
neste caso ao quadro abaixo, B e C são pré-falecidos em relação a A, cada um com dois filhos. O direito
de representação continua a funcionar, uma vez que apesar da situação parecer idêntica a uma sucessão
direta de A para os seus netos, a posição que ocupavam os pais destes não deixa de ser ignorada,
continuado a partilha a ser efetuada por estripes – assim, se D repudiar a herança ou for declarado
indigno perante A, a existência de direito de representação, implica que a sua parte acresça em relação
a E, e não em relação aos filhos de C, uma vez que não são de B, nos termos dos Artigos 2137.º/2 e
2138.º.

7.7.3.4.3 Unidade da Estripe


Conforme se pode ver no quadro abaixo, A, de cuius, teve um único filho, B, pré-falecido, mas
que deixou um neto, C. Em vida A fez uma doação em vida à B, e deixou as suas joias à uma amiga, D.
Neste caso a existência de direito de representação é importante para se averiguar a necessidade da
redução das liberalidades feitas em vida, efetivamente a doação de joias a D podia ser inoficiosa, caso a
doação feita a B não fosse considerada para efeitos do cálculo da legitima, podendo C interpor uma ação
de redução por inoficiosidade, nos termos dos Artigo 2168.º e ss. CC.

7.7.4. Direito de Acrescer


Verifica-se o Direito de Acrescer quando ocorre a designação de vários sucessíveis para
sucederem conjuntamente numa herança ou legado, sendo atribuída a um ou vários deles o direito de
suceder relativamente a parte que o outro ou os outros não quiseram ou não puderam aceitar. Tem
como justificação a intenção de esgotar o universo dos sucessíveis prioritários, antes de serem
chamados os outros, assim havendo concurso de sucessíveis prioritários, em relação a uma herança ou
legado, pretende-se que a não aquisição por um deles não venha a provocar a repartição da herança ou
legado pelos outros, em lugar de se proceder ao chamamento dos herdeiros subsequentes.

Quanto ao âmbito de aplicação, o direito de acrescer não se verifica apenas no direito


sucessório, prevendo a lei a sua aplicação em muitos outros casos, porém, é no âmbito das sucessões
por morte que tem a sua maior aplicação, este verifica-se tanto na sucessão legal, nos termos dos
Artigos 2137.º2 e 2157.º, como na sucessão testamentária, nos termos dos Artigo 2301.º a 2307.º,
podendo ocorrer, excecionalmente, na sucessão contratual, sempre que o testador o declare nas
doações mortis causa efetuadas conjuntamente, nos termos do Artigo 944º/1, in fine ou ainda nos casos
de constituição de usufruto por doação mortis causa, nos termos do Artigo 944.º/2.

Os fundamentos do direito de acrescer são, no entanto, diferentes nas várias categorias de


sucessão, enquanto que na sucessão legal este é imposto legalmente, na sucessão testamentaria o
fundamento é a vontade conjetural do testador, podendo ser afastado por determinação deste, já na
sucessão contratual o acrescer nem sequer se funda na vontade conjetural do autor da sucessão,
exigindo, salvo no caso de usufruto, uma declaração sua neste sentido.

Compete analisar o regime do direito de acrescer nas diversas categorias de sucessão.


7.7.4.1 Sucessão Legal
Pode-se identificar os seguintes pressupostos do direito de acrescer de acordo com os Artigos
2137.º/2, 2138.º e 2157.º:

i) designação simultânea de vários sucessíveis da mesma classe, para suceder na


herança;

ii) a circunstância de algum ou alguns destes sucessíveis não puderem ou quiserem


aceitar a herança;

iii) inexistência do direito de representação.

O primeiro pressuposto tem-se de verificar, por força da lei, uma designação conjunta dos vários
sucessíveis na herança.

O segundo tem um funcionamento diferente na sucessão legal do que nas outras situações de
vocações indiretas, uma vez que não abrange as situações de pré-morte, nos termos do Artigo 2139.º/2
e 2159.º/2. Assim, por exemplo:

i) se existiu um cônjuge que faleceu antes do autor da sucessão e um filho, aplica-se o


regime do Artigo 2159.º/2 para o cálculo da legitima, considerando-se o cônjuge como não
existente;

ii) a mesma situação havendo 5 filhos e um cônjuge pré-falecido, fazendo-se entre os


filhos a partilha em partes iguais, afastando o Artigo 2139.º/2;

iii) igualmente se existir dois filhos e um falecer previamente, também não há lugar ao
direito de acrescer, sendo a legítima de metade da herança, nos termos do Artigo 2159.º/2.

Tem sido controvertido na doutrina em saber se o direito de acrescer ocorre nos casos de
incapacidade sucessória por indignidade ou deserdação:

i) posição maioritária, onde se incluem os nomes de Jorge Duarte Pinheiro e Corte-Real,


é de que há lugar ao direito de acrescer em casos de indignidade e deserdação;

ii) em sentido contrário, Oliveira Ascensão, equipara estes casos a pré-morte através de
uma declaração interpretativa lata, que inclui-se no conceito de inexistência do herdeiro a incapacidade
jurídica e não apenas física;

iii) Menezes Leitão, defende a posição maioritária.

O terceiro este justifica-se pelo facto que com o direito de representação os descendentes são
chamados a sucessão pelo que os sucessíveis da mesma classe já não puderam beneficiar do direito de
acrescer. Na sucessão legal o acrescer só funcionando dentro de cada título, por este motivo:

i) o herdeiro legitimo não beneficia de direito de acrescer em caso de pré-morte, incapacidade


ou repudio do direito testamentário, ocorrendo antes a caducidade da deixa, nos termos do Artigo
2317.º, a), b) e e);
ii) da mesma forma, no caso de os herdeiros legítimos previamente chamados faltarem
ou repudiarem a herança, não ocorre direito de acrescer a favor dos herdeiros testamentários,
sendo antes chamados os sucessíveis da classe subsequente.

O acrescer funciona apenas dentro da mesma classe sucessíveis assim se faltarem


apenas alguns dos sucessíveis da mesma classe, a sua parte acresce à dos outros, nos termos do
Artigo 2137.º/2, assim se se verificar:

i) a falta de um dos descendentes, a sua parte acresce aos outros descendentes e ao


cônjuge;

ii) se faltar o cônjuge, não se verifica direito de acrescer;

iii) se se verificar a falta de descendentes e ascendentes, o cônjuge é chamado a


totalidade da herança, nos termos do Artigo 2141.º, pois se não houver descendentes, o cônjuge
passa a segunda classe de sucessíveis, como resulta do Artigo 2133.º/2;

iv) no caso dos ascendentes o direito de acrescer dá-se prioritariamente em relação aos
outros ascendentes, só passando para o cônjuge se todos estes faltarem, de acordo com o
Artigo 2143.º.

Tem sentido objeto de controvérsia da doutrina, o direito de acrescer no caso de o


cônjuge concorrer com mais de 3 descendentes, caso em que o Artigo 2137.º/2 atribui ¼ da
herança.

7.7.4.2 Sucessão Testamentária


A lei prevê a existência de acrescer entre herdeiros, nos termos do Artigo 2301.º, e entre
legatários, nos termos do Artigo 2302.º e 2305.º, não se encontra prevista nenhuma situação de direito
de acrescer entre herdeiros e legatários, e verifica-se uma única hipótese de direito de acrescer de
legatários sobre herdeiros, de acordo com o Artigo 2306.º.

Os pressupostos do direito de acrescer na sucessão testamentária são os seguintes:

i) a instituição de vários herdeiros ou de legatários, nos termos do Artigo 2301.º e 2302.º;

ii) existência de impossibilidade de aceitação e/ou repúdio da herança ou legado por um destes;

iii) ausência de disposição em contrário do testador;

iv) não ter o legado de natureza pessoal;

v) inexistência de direito de representação.

Em relação ao primeiro, a instituição não tem de ser conjunta, sendo apenas necessário que se
verifique em relação a totalidade ou quota de bens no caso da herança ou ao mesmo objeto no caso de
legado:

i) alguma doutrina (Capelo de Sousa e Cristina Araújo Dias) entende, porém, que no caso da
instituição ser conjunta existira uma preferência do acrescer entre herdeiros conjuntos, só depois sendo
chamados os restantes;
ii) Menezes Leitão defende que não há base legal para justificar esta posição.

Em relação ao segundo, no âmbito de sucessão testamentaria incluem-se nos casos de


impossibilidade aceitação a pré-morte e a indignidade de um sucessível designado.

Tem sindo controvertido na doutrina se há lugar ao direito de acrescer na sucessão


testamentaria, se no momento da abertura da sucessão se verificou uma cause de invalidade da
disposição testamentaria em relação a algum dos herdeiros ou legatários instituídos:

i) Capelo de Sousa defende a aplicação do direito de acrescer nestas situações;

ii) Oliveira Ascensão, Corte-Real e Duarte Pinheiro a rejeitam;

iii) Menezes Leitão vai no sentido de rejeitar, uma vez que a invalidade da deixa não
corresponde a qualquer impossibilidade de aceitação, pelo que não justifica defender a existência de
acrescer.

Mais controversa é a possibilidade de existir direito de acrescer no caso de resolução da


disposição testamentaria por incumprimento de um encargo por parte de um dos beneficiários, nos
termos do Artigo 2248.º:

i) Corte-Real e Duarte Pinheiro consideram existir aqui uma situação de acrescer uma
vez que ocorreria um caso de ineficácia da aceitação do nomeado, o que corresponderia a um não puder
aceitar a disposição;

ii) Menezes Leitão defende o oposto, uma vez que resolvida a disposição testamentaria,
a mesma é considerada supervenientemente ineficaz, o que não corresponde aos pressupostos do
direito de acrescer.

O terceiro pressuposto tem como exemplo típico a substituição direta.

Se houver falha do quarto pressuposto, o legado ou a herança tem-se por extinta devido a sua
natureza pessoal, não se verificando a existência de direito de acrescer.

Em relação ao último pressuposto, a existência de direito de representação implica o


chamamento dos descendentes do primitivo chamado.

O direito de acrescer está sujeito a um regime diferente consoante estejam em causa herdeiros
ou legatários.

7.7.4.2.1 Entre Herdeiros


Determina o Artigo 2301.º/1, que verificando-se a instituição de dois ou mais herdeiros na
totalidade ou numa quota dos mesmos bens, seja ou não conjunta a instituição, e alguns deles não
puderem ou não quiserem aceitar a herança, acrescera a sua parte aos restantes. Este será efetuado em
partes iguais se os herdeiros tiverem sido instituídos desta forma, caso sejam desiguais as suas quotas, a
parte do que não pude ou quis aceitar, é dividida pelos outros respeitando-se a proporção entre eles.

7.7.4.2.2 Entre Legatários


Já no caso de se verificar a nomeação de vários legatários no mesmo objeto,
independentemente de terem sido nomeados conjunta ou individualmente, determina o Artigo 2302.º
que a parte daqueles que não quiseram ou puderam aceitar acrescerá aos restantes, aplicando-se com
as necessárias alterações o regime estabelecido para os herdeiros.

Assim, e por força do Artigo 2302.º/2, se as nomeações dos legatários forem efetuadas em
partes iguais, a parte acrescida será dividida de forma igualitária, sendo desigual a nomeação respeitar-
se-ia a mesma proporção, caso não haja lugar ao acrescer, determina o Artigo 2303.º que o objeto do
legado é atribuído ao herdeiro ou legatário onerado com o seu cumprimento, salvo se este objeto
estiver genericamente compreendido noutro legado.

Um caso particular do acrescer entre legatários é, nos termos do Artigo 2305.º, o de acrescer
entre usufrutuários, em virtude da sua qualificação como legatários nos termos do Artigo 2030.º/4, o
Artigo 1442.º já lhes atribui o direito de acrescer no caso do testamento atribuir uma designação
conjunta, mas em virtude do Artigo 2305.º remeter para o Artigo 1442.º e 2303.º parece que bastara
que a nomeação de usufrutuários ocorra para o mesmo objeto para se verificar direito de acrescer.

7.7.4.2.3 Geral
O Artigo 2306.º determina que a aquisição da parte acrescida se dá por força da lei, sem a
necessidade de aceitação do beneficiário, que não pode repudiar separadamente esta parte, excetua-se
porem a hipótese da parte acrescida prever encargos especiais, estabelecidos pelo testador, conforme
se prevê nos Artigos 2244.º e ss., neste caso se esta parte acrescida for objeto do repudio, reverte para
a(s) pessoa(s) em que cujo o beneficio os encargos foram constituídos. Apesar da lei apenas referir a um
repudio da parte acrescida para que este regime se possa aplicar, na verdade é necessário um duplo
repudio pois só o mesmo permite demonstrar a falta de interesse da deixa testamentária, exige-se que a
deixa com encargo seja objeto de repudio por parte do herdeiro ou legatário originariamente instituído
ou nomeado e que seja objeto de repudio por parte do herdeiro ou legatário chamado por acrescer,
verificando-se este duplo repudio a deixa reverte para o beneficiário, sendo que o encargo extingue-se
por confusão, à luz do Artigo 868.º.

7.7.4.3 Sucessão Contratual


O Artigo 904.º/1, em principio, exclui a existência de um direito de acrescer nas doações,
mesmo em caso de nomeação conjunta dos donatários, este regime é naturalmente aplicável as
doações mortis causa, como é o caso das doações para casamento, nos termos do Artigo 1703.º/2,
devendo considerar-se também aplicável para a instituição de herdeiro ou legatário efetuada na
convenção antenupcial, nos termos dos Artigos 1700.º e ss.: o que exclui, em principio, a verificação do
direito de acrescer na sucessão contratual.

O direito de acrescer entre donatários só poderá ocorrer por indicação do doador em virtude de
uma declaração deste, ao abrigo da Autonomia Privada, o autor da sucessão pode assim estipular a
existência de um direito de acrescer entre donatários ou entre herdeiros ou legatários designados
contratualmente. O Artigo 904.º/2 prevê ainda que a falta de declaração do doador não prejudica o
direito de acrescer quando o usufruto seja constituído por doação, é assim aplicável as doações mortis
causa este Artigo.

No âmbito da sucessão contratual o direito de acrescer tem uma configuração especial, uma vez
que o pressuposto normal do mesmo é que um dos designados conjuntamente não possa ou não queira
aceitar a sucessão, enquanto que na sucessão contratual tem em que principio ocorrer a aceitação da
doação, nos termos do Artigo 945.º, na qual só são excluídas as doações puras feitas a incapaz.

7.7.4.4 Natureza do Direito de Acrescer


Quanto a sua natureza é comum estabelecer-se uma distinção entre:

i) Direito de Acrescer, em sentido estrito – considera-se que houve um novo chamamento do


beneficiário resultante de um novo título de vocação sucessória, distinta do chamamento inicial

ii) Direito de não decrescer – considera-se que o título de vocação sucessória permanece o
mesmo, pelo que não existiria um fenómeno de vocação indireta, mas apenas a expansão do objeto
inicial do chamamento em virtude dos outros beneficiários não puderem ou não quererem aceitar a
herança ou o legado – conforme explica Carlos Lima se se dá a ocorrência da falta de um dos chamados
a porção deste é absorvida pelos outros, não porque lhes acresça, mas antes porque tal porção já
virtualmente estava abrangida ab initio na respetiva vocação, assim, para que tal porção não concorre-
se aos outros chamados, era necessário fazer decrescer o respetivo direito.

A consequência desta distinção é que:

i) no direito de acrescer, em sentido restrito, seria necessária a aceitação da parte acrescida por
parte do beneficiário, o qual poderia proceder ao repudio separado da mesma;

ii) no direito de não decrescer, em virtude do facto de a aquisição da parte acrescida operar por
força da lei, não sendo necessário ocorrer qualquer aceitação, e não se permitindo o seu repudio
separado.

No nosso sistema jurídico, o direito de acrescer é configurado como um direito de não


decrescer. Só se verifica o acrescer configurado como direito de acrescer, em sentido restrito, na
sucessão testamentaria quando a parte acrescida estiver sujeita a encargo especial.

7.7.5 Substituição Fideicomissária


Resulta do Artigo 2286.º, diz-se substituição fideicomissária a disposição pela qual o testador
impõem ao herdeiro (fiduciário) instituído o encargo de conservar a herança para que ela reverta por
sua morte em favor a outrem (fideicomissário). O Artigo 2296.º estende a aplicação desta figura aos
legados.

Trata-se de uma situação em que o sucessor instituído em primeiro lugar, o fiduciário, fica
obrigado a conservar o objeto da sucessão para que ele reverta por sua morte em beneficio de outro
sucessor, o fideicomissário, em ordem a permitir que o conhecimento da situação por terceiros a
clausula fideicomissária está sujeita a registo, nos termos do Artigo 94.º, b) Código do Registo Predial.

A substituição fideicomissária corresponde a uma hipótese típica de vocação sucessiva, em que


se verifica duas vocações, ao contrario do que se verifica na vocação indireta que toma por conta um
outro chamado, cuja vocação não se concretizou, aqui verifica-se e concretizam-se duas sucessões, as
quais resultam do mesmo negocio jurídico, o testamento ou pacto sucessório celebrado pelo de cuius.
Assim, a substituição fideicomissária distingue-se da direta, porque nesta o substituído não chega a
exercer o direito de suceder. E distingue-se da pupilar ou quase pupilar, uma vez que nesta o progenitor
substitui ao filho na realização do testamento, e assim na qualidade de testador.
O âmbito de aplicação da substituição fideicomissária encontra-se especialmente prevista no
âmbito da sucessão testamentaria, regulada nos Artigo 2286.º e ss., o Artigo 962.º autoriza igualmente a
utilização de substituições fideicomissárias nas doações em geral, o que permite a sua aplicação no
quando de sucessão por morte no quadro da sucessão contratual, o Artigo 1702.º expressamente
admite a utilização de pactos sucessórios estabelecidos na convecção antenupcial. Já no âmbito da
sucessão legitimaria, a substituição fideicomissária é vedada pelo Artigo 2163.º, que impede o testador
de instituir encargos na legitima contra a vontade do herdeiro, também não é concetualmente
admissível a admissão da substituição fideicomissária em relação a sucessão legitima, uma vez que a sua
instituição por testamento ou pacto sucessório implicaria que os seus herdeiros legítimos passassem a
sucessores testamentários ou contratuais, é o que sucede no Artigo 2295.º/2 em que no caso de
proibição do herdeiro de dispor da herança, são considerados como fideicomissários os herdeiros
legítimos do fiduciário.

Quanto aos limites de validade, o Artigo 2287.º, admite a possibilidade de a substituição


fideicomissária ser plural, não havendo assim obstáculos a designação simultânea de vários fiduciários
ou vários fideicomissários. Neste caso a aquisição para o ou os fideicomissários só se verifica em caso do
falecimento do último dos fiduciários. São nulas as disposições em mais de um grau, por força do Artigo
2288.º, justifica-se pelo facto de querer-se impedir excessivos encargos sobre os bens. A lei estabelece
que esta proibição se verifica ainda que a reversão da herança para o fideicomissário fique sujeita a
condição, são assim admitidos os fideicomissos condicionais. A doutrina considera, porém, que o Artigo
2288.º ao apenas proibir que a disposição fique subordinada a um acontecimento futuro e incerto,
apenas impede a condição suspensiva, já não da condição resolutiva, sendo então permitida pelo Artigo.
Porém, Menezes Leitão defende que o espírito do Artigo 2288.º é evitar a utilização da condição de
modo a ilidir a proibição de estabelecimento de substituições fideicomissária em mais de um grau.

7.7.4.4.1 Situação Jurídica do Fiduciário


Uma vez que está-se perante um fenómeno de vocação sucessiva, a vocação do fiduciário
concretiza-se logo no momento da abertura da sucessão, ainda que este tenha o encargo de conservar
os bens de modo a permitir a futura vocação do fideicomissário após a sua morte. O fiduciário assume a
abertura da sucessão o estatuto de herdeiro ou legatário do de cuius, ainda que a sua vocação seja
impura, uma vez que é estabelecida a termo incerto, caducando com a sua morte e encontra-se onerada
com encargo de conservação dos bens atribuídos.

Este tem o gozo e administração dos bens, nos termos do Artigo 2290.º/1, nos mesmo termos
do que o usufrutuário, salvo o que se considerar incompatível com a natureza do fideicomisso, de
acordo com o Artigo 2290.º/2. Embora possa, em caso de evidente necessidade ou utilidade, alienar os
bens mediante autorização judicial, nos termos do Artigo 2291.º.

Em consequência da futura reversão para o fideicomissário, os credores pessoais do fiduciário


não tem o direito de executar os bens sujeitos ao fideicomisso, apenas podendo executar os seus frutos,
à luz do Artigo 2292.º. Com a morte do fiduciário, ocorre a devolução da sucessão ao fideicomissário,
nos termos do Artigo 2293.º/1, mas se este não puder ou quiser aceita-la fica sem efeito a substituição,
e a herança ou legado consideram-se definitivamente adquiridos pelo fiduciário, nos termos do Artigo
2293.º/2. Neste caso, não funciona o direito de representação a favor do fideicomissário, ainda que este
tenha descendentes, nos termos do Artigo 2242.º/2, b).
Apesar do seu estatuto ser moldado sobre o usufrutuário, o fiduciário é considerado
proprietário dos bens, não se estando perante a constituição de usufruto, ainda que seja atribuída a
título provisório.

7.7.4.4.2 Situação Jurídica do Fideicomissário


Nos termos do Artigo 2294.º, não há lugar a aceitação ou repudio da herança ou legado, em vida
do fiduciário, nem este pode praticar neste período quais quer atos de disposição dos bens atribuídos,
mesmo que a título oneroso, porque a aceitação ou repudio da herança ou legado, apenas pode ocorrer
depois da morte do fiduciário, de acordo com o Artigo 2293.º/1.

Se o fiduciário não poder ou não quiser aceitar a herança, determina o Artigo 2293.º/3, prevê a
conversão da substituição fideicomissária em direta, dando se a devolução dos bens desde a morte do
testador. Daqui resulta que durante a vida do fiduciário, o fideicomissário não é titular de qualquer
direito sobre a herança ou legado, mas apenas de uma expectativa de o vir a suceder, em função desta
expectativa jurídica a lei limita a possibilidade de disposição dos bens pelo fiduciário, nos termos do
Artigo 2291.º, e impede que lhe possa ser impostas ao fiduciário decisões judiciais em que ele não tenha
intervindo, de acordo com o Artigo 2290.º/3.

A vocação em benefício do fideicomissário encontra-se assim suspensa em vida do fiduciário,


devendo ser considerada como uma vocação sobre condição suspensiva.

O fiduciário se vier a suceder ao fideicomissário é sempre considerado legatário.

7.7.4.4.3 Fideicomissos Irregulares


Nos termos dos Artigo 2295.º, é havidos como fideicomissos:

i) As disposições pelas quais o testador proíba o herdeiro de dispor dos bens


hereditários, seja por ato entre vivos, seja por ato de última vontade;

ii) As disposições pelas quais o testador chame alguém ao que restar da herança por
morte do herdeiro – designado pela doutrina de fideicomisso de resíduo;

iii) As disposições pelas quais o testador chame alguém aos bens deixados a uma pessoa
coletiva, para o caso de esta se extinguir.

Estes caraterizam-se por não corresponderem integralmente a definição que consta do Artigo
2286.º, neste o autor da sucessão ou não estabelece o encargo de conservar os bens da sucessão, ou
não atribui ao fideicomissário o benefício da sua reversão.

Na primeira hipótese de fideicomisso irregular, são havidos como fideicomissários os herdeiros


legítimos, nos termos do Artigo 2295.º/2. Neste caso o autor estabelece o encargo de conservar os bens,
mas já não o benefício de reversão por morte.

As duas outras hipóteses, nestes casos o autor não estabelece o encargo de conservação dos
bens, porém a lei mantém o encargo embora atenuado, podendo o fiduciário dispor dos bens por ato
entre vivos, sem autorização judicial, porém, necessita da autorização do fideicomissário, nos termos do
Artigo 2295.º/3.

7.7.5 Concurso de Vocações Anómalas


Neste caso é necessário determinar qual a vocação anómala prevalecente, neste caso a lei
estabelece uma hierarquia especifica entre as vocações anómalas, segundo Jorge Duarte Pinheiro, a
qual é seguida por Menezes Leitão:

i) a substituição direta ou substituição fideicomissária;

ii) o direito de representação.;

iii) o direito de acrescer.

Em relação a primeira, justifica-se pelo facto que a lei determina no Artigo 2041 a não aplicação
do direito de representação, sempre que o autor tenha sido designado substituto ao herdeiro ou
legatário, a mesma prevalência verifica-se na substituição fideicomissária em beneficio dos herdeiros do
fiduciário, nos termos do Artigo 2041.º/2, a) e 2293.º/3, quer em beneficio dos herdeiros do
fideicomissário, nos termos do Artigo 2041.º/2, b). Na sucessão contratual, a estipulação de uma
substituição fideicomissária exclui o único caso nela previsto de representação, de acordo com o Artigo
1703.º/2.

Esta prevalecem em relação ao acrescer, nos termos do Artigo 2304.º, uma vez que constituem
disposição em contrário em relação ao mesmo.

Em relação ao segundo, o direito de representação prevalece sobre o acrescer na sucessão


testamentaria, nos termos do Artigo 2304.º, in fine, este regime deve-se aplicar por analogia em relação
a sucessão contratual. Já em relação a sucessão legitima e legitimaria, como segundo Menezes Leitão é
inadmissível a existência de substituição, a regra é a prevalência do direito de representação sobre o
direito de acrescer, com forme resulta do Artigo 2138.º e 2157.º.

8. Sucessão Legitima
Nos termos do Artigo 2131.º, se o falecido não tiver disposto valida e eficazmente dos bens de
que podia dispor para depois da morte são chamados a sucessão destes bens os seus herdeiros
legítimos. A sucessão legitima ocorre, assim, a título supletivo, não tendo lugar se houver uma
disposição válida e eficaz dos bens da herança por parte do autor da sucessão. Nos termos do Artigo
2132.º são herdeiros legítimos: o cônjuge, os parentes e o Estado pela ordem e segundo as regras
constantes do presente capítulo. Em consequência da equiparação da adoção à filiação, nos termos do
Artigo 1586.º e 1973.º e ss., são também considerados herdeiros legítimos o adotado e o adotante. Já o
membro sobrevivo da União de Facto não é considerado herdeiro legitimo tendo apenas nos termos do
Artigo 2020.º o direito de exigir alimentos da herança do falecido, além da proteção especial que lhe é
conferida pela lei da União de Facto.

Nos termos do Artigo 2133.º/1, a sucessão legitima defere-se pela seguinte ordem:

i) cônjuge e os descendentes, incluindo os adotados;

ii) cônjuge e os ascendentes, incluindo os adotantes;

iii) os irmãos e seus descendentes;

iv) os outros colaterais até ao quarto grau;

v) o Estado.
O cônjuge sobrevivo integra a primeira classe de sucessíveis, salvo se o autor da sucessão falecer
sem deixar descendentes e deixar ascendentes, caso que integra a segunda classe, nos termos do Artigo
2133.º/2.

8.1 Hierarquização de Sucessivos


Em face a vastidão do número de sucessíveis legítimos é normal que nem todos sejam
chamados, pelo que é necessário proceder a sua hierarquização, de modo a determinar quais são os
sucessíveis legítimos prioritários. Esta hierarquização obedece a três regras gerais:

i) a preferência de classe;

ii) a preferência de graus de parentesco;

iii) a divisão por cabeça.

8.1.1 Preferência de classe


Esta regra implica que os sucessíveis de uma classe preferem aos sucessíveis das classes
subsequentes, pelo que apenas aqueles são chamados a sucessão. Esta regra encontra-se consagrada
2133.º, que nos indica quais são as classes sucessíveis, acrescentado o Artigo 2134.º, que os herdeiros
de uma das classes sucessíveis preferem aos das classes imediatas, da mesma forma o Artigo 2137.º,
prevê que os sucessíveis de uma classe só são chamados a suceder se todos os sucessíveis da classe
anterior não quiserem ou não puderem aceitar a herança.

Nestes termos, imaginado que o autor deixa dois filhos e dois pais, como os filhos integram a
primeira classe sucessíveis, e os pais a segunda, apenas os filhos são chamados a sucessão, à luz do
Artigo 2134.º. Se um dos filhos repudiar a herança, e não tiver ascendentes, a sua parte acresce a do
outro filho, nos termos do Artigo 2137.º/2. O chamamento dos pais apenas se verificara no caso de
ambos os filhos repudiarem a herança, por força do Artigo 2137.º/1.

8.1.2 Preferência de graus de parentesco


Esta regra determina que dentro de cada classe os parentes de grau mais próximo preferem aos
de grau mais afastado, nos termos do Artigo 2135.º.

Assim, se o autor da sucessão deixar dois filhos e um neto, os filhos são sucessíveis prioritários, à
luz do Artigo 2135.º. Consequentemente, o neto não será chamado a sucessão do autor, sendo a
herança repartida entre os dois filhos.

Porém, esta regra pode ser posta em causa pelo instituto do direito da representação, nos
termos do Artigo 2038.º:

Assim, se o autor da sucessão deixar dois filhos e um neto filho de um outro pré-falecido, o neto
tem direito a concorrer a herança juntamente com os outros dois filhos, na posição que competia ao
anterior filho: o direito de representação permite afastar a regra da preferência de grau de parentesco.

8.1.3 Divisão por cabeça


Esta regra implica que os sucessíveis legítimos prioritários sucedem em partes iguais e aplica-se
normalmente entre os parentes de cada classe, nos termos do Artigo 2136.º, e na situação do concurso
do cônjuge com até três descendentes, à luz do Artigo 2139.º/1, Primeira Parte:
Assim:

i) se ao autor da sucessão sobreviverem dois filhos, a cada um deles cabe metade da herança;

ii) se ao autor da sucessão sobreviverem dois filhos e o cônjuge, a cada um deles cabe 1/3 da
herança.

Ou seja, os diversos herdeiros sucedem, em virtude desta regra, de forma igualitária.

A regra da sucessão por cabeça é aplicável mesmo no caso de haverem colaterais duplamente
parentes do falecido, nos termos do Artigo 2138.º, é o que ocorre, por exemplo, dos primos filhos de um
casamento entre a irmã do pai com o irmão da mãe do autor, apesar do duplo parentesco existente, a
sua posição sucessória não é diferente da dos outros primos, aplicando-se a regra da sucessão por
cabeça.

8.1.3.1 Exceções a regra da divisão por cabeça


Esta regra da divisão por cabeça é objeto de algumas exceções:

i) a sucessão do cônjuge com mais de três descendentes, nos termos do Artigo 2139.º/1,
Segunda Parte;

ii) a sucessão do cônjuge com ascendentes, nos termos do Artigo 2142.º/1;

iii) a sucessão dos irmão germanos e unilaterais, nos termos do Artigo 2146.º;

iv) direito de representação, a que se refere o Artigo 2138.º.

Relativamente a primeira, embora o Artigo 2139.º/1, Primeira Parte estabeleça que a partilha
entre o cônjuge sobrevivo e os filhos faz-se por cabeça, dividindo-se a herança em tantas partes quantos
forem os herdeiros, determina na sua parte final, que a quota do cônjuge não pode ser inferior a ¼ da
herança. Assim sendo, sempre que o cônjuge concorra com mais 3 descendentes a regra da divisão por
cabeça deixa-se de aplicar, passando o cônjuge a receber sempre ¼ da herança, enquanto que os
descendentes dividem entre si os restantes ¾ da herança.

Já a segunda exceção, o Artigo 2142.º/1 estabelece que ao cônjuge pertenceram 2/3 da herança
e aos ascendentes 1/3 da herança. Assim, a regra da divisão por cabeça é totalmente excluída, uma vez
que são sempre atribuídos 2/3 da herança, cabendo aos ascendentes dividir entre si o 1/3 restantes.

Já a terceira, determina o Artigo 2146.º que concorrendo a sucessão irmãos germanos e irmãos
consanguíneos e uterinos, o quinhão dos irmãos germanos ou dos descendentes que o representam é
igual ao dobro do quinhão de cada um dos outros. Esta exceção justifica-se por, normalmente, haver
maior aproximação do autor da sucessão aos seus irmãos germanos, por serem filhos do mesmos pais,
em relação aos seus irmãos sanguíneos ou uterinos.

Por fim a ultima exceção, nos termos do Artigo 2138.º a divisão por cabeça não prejudica o
direito de representação nos casos onde este tiver lugar, de acordo com os Artigos 2038 e ss.:
efetivamente, nos termos deste direito a divisão faz-se por estripe, nos termos do Artigo 2044.º, pelo
que a parte que competia ao sucessível que não pode ou não quis aceitar a herança é atribuída ao
conjunto dos descendentes deste sucessível, em consequência havendo mais que um sucessível do
herdeiro pré-falecido, a regra de divisão por cabeça deixa de ter aplicação, determinado o Artigo 2042.º
que a representação tem lugar na linha reta em beneficio dos descendentes de filho do autor da
sucessão e na linha colateral em beneficio dos descendentes de irmão do falecido: neste caso cabe a
cada estripe aquilo em que sucederia o ascendente respetivo, nos termos do Artigo 2044.º/1. Implica
que o direito de representação prejudica a aplicação da regra da divisão por cabeça, quer em relação a
sucessão dos descendentes, nos termos do Artigo 2140.º, quer em relação aos irmão e seus
descendentes, nos termos do Artigo 2145.º

8.2 Sucessão do Cônjuge e Descendentes


O cônjuge e os descendentes do autor integram a primeira classe de sucessíveis, à luz do Artigo
2133.º/1, a). Porém, o cônjuge deixa de integrar a primeira classe, se o autor da sucessão não deixar
descendentes e deixar ascendentes, por força do Artigo 2133.º/2, passando neste caso a integrar a
segunda classe, prevista no Artigo 2133.º/1, b). Para poder suceder, o cônjuge tem de ter em vigor o seu
casamento, assim dispõe o Artigo 2133.º/3, que o cônjuge não é chamado à herança se a data da morte
do autor da sucessão:

i) se se encontrar divorciado deste;

ii) ou, se se encontrar separado judicialmente de pessoas e bens por sentença que já
tenha transitado ou venha a transitar em julgado;

iii) ou ainda, se a sentença de divórcio ou separação vier a ser proferida posteriormente


àquela data, nos termos do Artigo 1785.º/3.

Atualmente, o divorcio ou a separação judicial de pessoas e bens por mútuo consentimento


podem ser decretadas pelo conservador do registo civil, nos termos do Artigos 1786.º/3 e 1794.º, caso
tal tenha ocorrido o cônjuge não será chamado a sucessão.

O cônjuge não será chamado a sucessão em caso de:

i) inexistência do casamento, nos termos do Artigo 1628.º e 1630.º;

ii) nulidade, nos termos do Artigo 1625.º;

iii) anulabilidade, de acordo com o Artigo 1631.º;

Nestes dois últimos casos há que salvaguardar o regime do casamento putativo, pelo que se o
cônjuge estiver de boa fé terá o direito de suceder caso a morte do outro cônjuge ocorrer antes do
transito em julgado da sentença de anulação, nos termos do Artigo 1647.º e 1648.º. Também, não terá
direito de suceder o cônjuge que celebre novo casamento após a declaração de morte presumida, de
acordo com o Artigo 116.º, perdendo o direito a sucessão caso se prove que o óbito ocorreu em data
posterior a este casamento, de acordo como o Artigo 118.º.

Em contrapartida, o cônjuge mantém o seu direito de suceder em caso de separação de facto ou


simples separação de bens.

Já em relação aos descendentes a sucessão depende de terem um vínculo de filiação


estabelecido:
i) relativamente a mãe este resulta do facto do nascimento, à luz do Artigo 1796.º/1, o qual é
estabelecido através da declaração de maternidade, nos termos do Artigos 1813.º e ss., averiguação
oficiosa, nos termos dos Artigos 1808 e ss., ou reconhecimento judicial, à luz do Artigo 1814.º;

ii) relativamente ao pai o vínculo pode resultar da presunção de paternidade, de acordo com os
Artigos 1826.º e ss., da perfilhação, à luz dos Artigos 1849.º e ss., averiguação oficiosa, nos termos dos
Artigos 1864.º e ss., e reconhecimento judicial, à luz dos Artigos 1879 e ss.;

iii) é legalmente equiparada a um ato constitutivo da filiação a sentença de adoção, nos termos
do Artigo 1986.º/1: sendo que em relação a adoção o vinculo tem que se encontrar já constituído por
sentença já proferida à data da morte do adotante, nos termos do Artigo 1973.º/1.

No caso da filiação, a sua constituição tem eficácia retroativa, nos termos do Artigo 1797.º/2,
assim o reconhecimento judicial em data posterior a morte do de cuius permite a aquisição dos direitos
sucessórios.

Segundo Menezes Leitão são inconstitucionais os prazos constantes dos Artigos 1817.º e 1873.º,
uma vez que viola claramente o principio da proporcionalidade exigir que o direito ao estabelecimento
da filiação só possa ser exercido por uma pessoa na fase inicial da sua vida ou no prazo de 3 anos do
conhecimento de factos supervenientes relativos a filiação – pelo que discorda, Menezes Leitão com a
jurisprudência do Tribunal Constitucional que considera esta situação em conformidade com a
Constituição. Também defende não ser sustentável a posição de Jorge Duarte Pinheiro e de alguma
jurisprudência do STJ que admite a possibilidade de abuso de direito no exercício das ações destinadas
ao reconhecimento da filiação, excluindo ao abrigo do Artigo 334.º o filho do seus direito sucessórios
que a lei reconhece – o autor fundamenta com o facto da vocação sucessória é um efeito legal,
resultante em virtude da filiação estabelecida, a qual só pode ser afastada através dos institutos da
indignidade e deserdação, não através do abuso de direito: a aplicação deste seria uma verdadeira
discriminação dos filhos nascidos fora do casamento, o qual a constituição expressamente proíbe.

8.3 Sucessão do Cônjuge e Ascendentes


Esta é a segunda classe sucessíveis, à luz do Artigo 2133.º/1, b), a qual abrange o cônjuge e os
ascendentes ou qualquer um destes. Da mesma forma o vínculo do casamento tem de se manter
vigente à data de abertura da sucessão, para que o cônjuge possa suceder.

Os ascendentes só sucedem se o vínculo de filiação se encontrar estabelecido, ainda que o seu


estabelecimento em data posterior tenha eficácia retroativa, nos termos do Artigo 1797.º/2, estabelece
o Artigo 1856.º que a perfilhação de filho falecido só produz efeitos em relação a favor dos seus
descendentes: o que impede os ascendentes de serem chamados a esta sucessão ou a sucessão dos
seus descendentes. Já a inibição das responsabilidades parentais não exclui os pais inibidos de serem
chamados a sucessão dos seus filhos.

No caso de ocorrer a sucessão conjunta do cônjuge e dos seus ascendentes, ao cônjuge


pertenceram 2/3 da herança e aos ascendentes 1/3 da herança, nos termos do Artigo 2142.º/1: não se
aplicando a regra da divisão por cabeça.
Faltando o cônjuge os ascendentes são chamados à totalidade da herança, nestes casos
aplicam-se totalmente as regras de preferência e as regras da sucessão por cabeça, nos termos do Artigo
2142.º/3.

8.4 Sucessão Exclusiva do Cônjuge


O Artigo 2144.º estabelece que na falta descendentes e ascendentes o cônjuge é chamado a
totalidade da herança. Esta disposição tem, no entanto, gerado certa controvérsia na doutrina, sobre o
quê que se entende por falta de ascendentes:

i) Pires de Lima, Antunes Varela, Capelo de Sousa e Jorge Duarte Pinheiro entendem que
a sucessão exclusiva do cônjuge apenas ocorre se não houver um único ascendente que não possa ou
não queira aceitar a herança, independentemente do grau de parentesco deste ascendente, uma vez
que o Artigo 2143.º estabelece um acrescer entre ascendentes;

ii) Oliveira Ascensão entende que nos termos do Artigo 2143.º o acrescer só se verifica
em relação aos ascendentes que concorram a sucessão, pelo que em caso de repúdio dos acedentes de
primeiro grau verifica-se o acrescer para o cônjuge e não para os ascendentes de grau anterior;

iii) Menezes Leitão adere a posição de Oliveira Ascensão, uma vez que a lei não
estabelece qualquer direito de representação em relação aos ascendentes de grau anterior, defende
que o regime de preferência de graus de parentesco impede o acrescer para ascendentes de grau
anterior.

8.5 Sucessão dos Irmãos e seus Ascendentes


Faltando o cônjuge e os parentes na linha reta, são chamados à sucessão legitima os irmãos, e
representativamente os filhos destes, nos termos dos Artigos 2133.º/1 e 2145.º. Se a sucessão
concorrerem vários irmão a divisão faz-se em princípio por cabeça, nos termos do Artigo 2136.º, a
menos que se verifique o concurso entre irmãos germanos e irmãos consanguíneos ou uterinos, ou dos
filhos que os representem, caso em que o quinhão destes últimos é igual a metade do quinhão dos
primeiros, nos termos do Artigo 2146.º. Faltando os irmãos do falecido são chamados à sucessão
representativamente à sucessão os respetivos descendentes, há lugar a aplicação da regra da
preferência de grau, nos termos do Artigo 2135.º, sem prejuízo do direito de representação, sempre que
a este haja lugar, à luz do Artigo 2138.º.

8.6 Sucessão dos Colaterais até ao quarto grau


Determina o Artigo 2147.º que na falta de herdeiros das classes anteriores são chamados a
sucessão os restantes colaterais até ao quarto grau preferindo-se sempre os mais próximos, estão aqui
em causa: “os tios; os tios-avós; e os primos-direitos”, não adquirindo direito sucessórios os restantes
colaterais a partir do quinto grau. Em virtude da regra da preferência de grau, os tios preferiram aos
tios-avós e aos primos-direitos. Já se só sobreviverei ao autor tios-avós e primos-direitos, parece que
ambos concorreram a sucessão, uma vez que não há preferência de grau entre eles.

O Artigo 2148.º considera irrelevante o duplo parentesco determinado que a partilha faz-se pela
cabeça.

8.7 Sucessão do Estado


Uma vez que os bens não podem ficar sem sucessor, determina o Artigo 2152.º, que na falta de
cônjuge e de todos os parentes sucessíveis é chamada a herança o Estado. Apesar, de a lei referir que no
Artigo 2153.º o Estado tem relativamente a herança os mesmos direitos e obrigações de qualquer outro
herdeiro, a situação deste enquanto herdeiro não é exatamente igual a dos restantes herdeiros.
Efetivamente, a aquisição da herança pelo Estado como sucessor legitimo opera-se de direito, sem
necessidade de aceitação, não podendo, portanto, o Estado repudia-la, nos termos do Artigo 2155.º: em
consequência não há lugar a aplicação do regime dos Artigos 2050.º e ss. e 2062.º e ss., os quais são
substituídos pela declaração judicial de herança vaga em beneficio do Estado, nos termos do Artigo
2155.º, considerando-se a herança jacente até a ocorrência desta declaração judicial, à luz do Artigo
2046.º.

A declaração judicial de herança vaga em benefício do Estado é efetuada nos termos do


processo especial de liquidação da herança vaga em benefício do Estado, previsto nos Artigos 938 e ss.
CPC. Este processo prevê que no caso de herança jacente, por não serem conhecidos os sucessores, por
o Ministério Publico pretender contestar a legitimidade daqueles que se apresentarem, ou por os
sucessores conhecidos haverem repudiado a herança, são tomadas as providencias necessárias para
assegurara conservação dos bens, e em seguida são citados por éditos quaisquer interessados incertos
para deduzir a sua habilitação como sucessores no prazo de 30 dias depois de findar o prazo dos éditos,
nos termos dos Artigo 938.º/1 CPC. No caso de algum interessado se habilitar a herança, a mesma pode
ser contestação pelo Ministério Público ou por qualquer interessado, à luz do Artigo 938.º/2 CPC. Já se
ninguém aparecer a habilitar a herança ou de caírem todos os que se apresentarem como sucessores, a
herança é declarada vaga para o Estado, nos termos do Artigo 939.º/1 CPC. Neste caso, feita a
declaração do direito do Estado procede-se a liquidação da herança: cobrando-se as dividas ativas,
vendendo judicialmente, satisfazendo-se o passivo, e adjudicando-se ao Estado o remanescente, nos
termos do Artigo 939.º/2 CPC. Compete ao Ministério Público instaurar a ação relativa a cobrança dos
créditos da herança, à luz do Artigo 939.º/3 CPC: sendo que os credores da herança citados para
reclamar os seus créditos por apenso ao processo de liquidação, neste casos tem-se um regime especial
da prescrição, uma vez que o Artigo 322.º CC estabelece que a prescrição de direitos da herança ou
contra ela não se completa antes de decorridos seis meses depois de haver pessoa por quem ou contra
quem os direitos possam ser invocados.

9. Sucessão Testamentária
A sucessão testamentaria é aquela espécie de sucessão em que a designação sucessória resulta
de um testamento, trata-se assim de uma modalidade da sucessão voluntaria, resultante da Autonomia
Privada do autor da sucessão.

O testamento aparece definido no Artigo 2179.º/1 como o ato unilateral e revogável pelo qual
uma pessoa dispõe para depois da morte de todos os seus bens ou parte deles. A definição legal,
defende Menezes Leitão, parece integralmente incorreta:

i) o testamento não é um simples ato, mas um verdadeiro negócio jurídico, na medida


em que, tirando as limitações resultantes da sucessão legitimaria, o testador tem plena liberdade de
estipulação;
ii) não é apenas um ato de disposição de bens, admitindo o Artigo 2179.º/2 a
possibilidade de o testador inserir disposições de carater não patrimonial, efetivamente a lei admite que
o testamento possa conter:

a) a declaração de maternidade, nos termos do Artigo 114.º/1 CRC;

b) a perfilhação, nos termos do Artigo 1853.º, b);

c) a designação de tutor, nos termos do Artigo 1928.º/3.

Por estes motivos o testamento deve-se qualificar como o negócio jurídico unilateral pelo qual
alguém procede a disposições de última vontade.

9.1 Características do Testamento enquanto Negócio Jurídico


Enquanto negócio jurídico o testamento possuí as seguintes características, ou seja, é um
negócio jurídico:

i) unilateral;

ii) não receptício;

iii) mortis causa;

iv) gratuito;

v) formal;

vi) individual;

vii) pessoal;

viii) livremente revogável.

Cumpre analisar estas características:

9.1.1 Unilateral
Em primeiro lugar, o testamento é um negócio jurídico unilateral porque só tem uma parte, o
próprio testador, o facto de o sucessível designado poder aceitar ou repudiar a disposição testamentária
não a converte em contraparte: uma vez que, após a abertura da sucessão e antes da aceitação, o
sucessível adquire logo o direito de suceder, cujo o conteúdo não pode modificar, nos termos dos
Artigos 2054.º/1 e 2064.º/1. Não é assim necessária a aceitação para produzir os efeitos do testamento,
já que a designação e vocação sucessória se verificam independentemente de aceitação.

9.1.2 Não Receptício


Em segundo lugar, o testamento é um negócio não receptício uma vez que não necessita de
chegar ao conhecimento de outrem para produzir efeitos, verificando-se estes logo que a vontade do
testador é manifestada de forma adequada, nos termos do Artigo 224.º/1, Parte Final.

9.1.3 mortis causa


Em terceiro lugar, o testamento é um negócio mortis causa uma vez que os seus efeitos apenas
produzem por morte do testador, não constitui por isto um verdadeiro testamento o designado
testamento vital, previsto no Artigo 2.º da Lei 25.º/2012, neste caso está-se perante diretivas
antecipadas de vontade relativamente aos cuidados de saúde, e precisamente por isto é um negócio
que produz os seus efeitos em vida do seu autor.

9.1.4 Gratuito
Em quarto lugar, o testamento é um negócio gratuito uma vez que contem disposições
patrimoniais em benefício de outrem sem qualquer contrapartida por parte do beneficiário. A
disposição testamentaria pode estar sujeita a encargos, nos termos do Artigo 2244.º, mas estes
representam apenas uma restrição a liberalidade e não uma contrapartida por parte do beneficiário.

9.1.5 Formal
Em quinto lugar, o testamento é um negócio formal uma vez que a lei prevê formas espécies
para o testamento, só sendo o mesmo válido se obedecer a uma das formas legalmente previstas,
constantes dos Artigos 2204.º e ss.

9.1.6 Individual
Em sexto lugar, o testamento é um negócio individual uma vez que a lei apenas admite que
tenha uma pessoa como seu autor, sendo proibido por lei a realização de um testamento em que haja
mais que um testador. Efetivamente, no Artigo 2181.º veda-se o denominado testamento de mão
comum. Desta norma resulta que o testamento em ordem de ser plena garantia do exercício da
liberdade de estar apenas pode ter um único autor, sendo nulo o testamento onde apareça outrem a
participar na sua feitura.

Tal não impede que existam vários testamento a favor de partes em termos de reciprocidade,
sendo frequente até a sua realização entre os cônjuges, por exemplo o marido faz testamento em favor
da mulher e vice-versa, não é, porém, possível, que estes testamentos sejam realizados num único ato.

Há num entanto 3 exceções ao carater individual do testamento:

i) a conversão da doação por morte em testamento;

ii) a autorização do cônjuge para a disposição de coisa certa ou determinada do


património conjugal;

iii) a inclusão de disposições testamentarias na convenção antenupcial.

Relativo a primeira, efetivamente, o Artigo 946.º/2 determina que apesar de nula a doação por
morte pode ser válida como disposição testamentaria desde que tiverem sido observadas as
formalidades do testamento, neste caso está-se perante uma aplicação particular da regra do Artigo
293.º, admitindo-se a conversão de um negócio nulo num outro de conteúdo e tipo diferente sem ser
necessário demonstrar a vontade das partes neste sentido. Em qualquer caso, se a doação por morte se
transformar num negócio unilateral e revogável como o testamento não há obstáculo a que se possa ser
convertida. A dúvida, no entanto, é o significado de “observar as formalidades do testamento”:
i) Galvão Telles, Pires de Lima, Antunes Varela e Baptista Lopes entendem que a
exigência destas formalidades implica que a doação seja feita por escritura pública e que nela
intervenham duas testemunhas, por força do Artigo 67.º/1, a) e 67.º/3 CN;

ii) Oliveira Ascensão defende que a regra não pode ser entendida literalmente uma vez
que seria impossível uma doação revestir todas as formalidades do testamento, bastando por isto que a
doação tenha sido feita por escritura pública ou forma notarial equivalente, esta posição foi
posteriormente seguida por Corte-Real e Carvalho Fernandes;

iii) Menezes Leitão sustenta o autor que exigir o cumprimento de todas as formalidades
do testamento equivaleria tornar praticamente impossível qualquer hipótese de conversão ao abrigo do
Artigo 946.º/2, por outro lado a presença das testemunhas não se apresenta como essencial, dado que o
Artigo 67.º/2 CN admite a sua dispensa pelo notário no caso de haver urgência e a dificuldade em as
conseguir.

Daqui resulta que a conversão da doação em testamento constitui uma exceção ao carater
individual do testamento, na medida em que admite que um negócio com dois outorgantes possa valer
como testamento.

Relativamente ao segundo, o casamento não afeta a liberdade de estar dos cônjuges, referindo
expressamente o Artigo 1685.º/1, que cada um dos cônjuges conserva a faculdade de dispor para depois
da morte dos bens próprios e da sua meação dos bens comuns, sem prejuízo das restrições impostas por
lei em favor dos herdeiros legitimários. No entanto, relativamente aos bens comuns o cônjuge uma vez
que é apenas titular da sua meação não pode dispor de coisas certas e determinadas, em consequência
o Artigo 1685.º/2, estabelece que a disposição que tenha por objeto coisa certa e determinada do
património comum apenas dá ao contemplado o direito de exigir o respetivo valor em dinheiro. Daqui
resulta que a disposição de coisas certas e determinadas do património comum embora seja valida
quanto ao valor, é nula quanto a substância. O Artigo 1685.º/3, b) reconhece, porém, ao beneficiário o
direito de reclamar a coisa em espécie se a disposição tiver sido autorizada pelo outro cônjuge de forma
autêntica ou no próprio testamento. Neste último caso, a lei admite a intervenção do outro cônjuge no
testamento em ordem a conferir validade ao direito do beneficiário de exigir coisa em espécie, o que
constitui uma exceção ao carater individual do testamento.

Em relação a última exceção, efetivamente o Artigo 1704.º, possibilita aos esposados que
instituam o terceiro como herdeiro ou nomeiam-no como legatário na convenção antenupcial,
atribuindo-se, porem, cariz meramente testamentário a estas disposições se não se tratar de pessoa
certa ou determinada ou esta não intervier no ato como aceitante. Esta solução constitui mais uma
exceção a proibição de testamento de mão comum, a lei admite inclusivamente que neste caso fique
consignada a correspetividade destas disposições caso em que a invalidade de uma das disposições
produz a invalidade da outra.

9.1.7 Pessoal
Em sétimo legal, o testamento é um negócio pessoal uma vez que a lei proíbe que o mesmo seja
efetuado por representante ou possa estar dependente do arbítrio de outrem, quer no que toca a
instituição de herdeiros ou nomeação de legatários, quer no que respeita ao objeto da herança ou do
legado, quer no que pertença ao cumprimento ou não cumprimento das suas disposições, nos termos
do Artigo 2182.º, portanto nesta medida o testamento deve considerar-se autossuficiente não podendo
recorrer-se a colaboração de terceiros.

Há, no entanto, algumas exceções ao carater pessoa:

i) a atribuição à terceiro da repartição da herança ou legado quando seja instituída ou


nomeada uma generalidade de pessoas, nos termos do Artigo 2182.º/2, a);

ii) a atribuição à terceiro da nomeação de legatário entre pessoas determinadas, nos


termos do Artigo 2182.º/2, b);

iii) a escolha do legado pelo herdeiro onerado, pelo legatário ou por terceiros, nos
termos do Artigo 2183.º;

iv) as disposições pupilar ou quase-pupilar, previstas nos Artigos 2297.º e ss.

Compete analisar cada uma destas situações:

Em primeiro lugar, trata-se de uma situação em que o testado institui uma generalidade de
pessoas como herdeiros ou legatários, atribuindo, como por exemplo, 1/6 da herança aos membros de
clube X ou os livros da sua biblioteca jurídica aos advogados de determinada comarca. Neste caso, a
disposição testamentaria não se encontra completa faltando a repartição da herança ou do legado entre
os beneficiários, sendo por este motivo permitido ao testador atribuir a terceiro a faculdade de fazer
esta repartição, essa constitui uma exceção ao carater pessoal do testamento, na medida em que se
admite que um terceiro possa especificar mais precisamente o conteúdo da disposição testamentaria.
Neste caso, pode qualquer interessado requerer ao tribunal a fixação de um prazo para a repartição da
herança ou do legado, sob a cominação, de a repartição pertencer a pessoa designada para o efeito pelo
tribunal, à luz do Artigo 2182.º/3.

Em segunda lugar, a lei não permitindo ao testador encarregar outrem de escolher herdeiro,
permite a nomeação de legatário desde que indique aas pessoas entre as quais a escolha deve ser
efetuada, ou seja o legado de um livro pode ser determinado entre várias pessoas, cabendo a escolha à
terceiro. Neste caso, também pode qualquer interessado requerer a tribunal a fixação de um prazo para
nomeação de legatário, sob a cominação da distribuição do legado ser feita por igual entre as pessoas
que o testador tenha determinado.

Em terceiro lugar, será por exemplo o caso de uma testadora determinar o legado de uma das
suas joias a sua amiga, determinado, porém, que caberá ao herdeiro onerado, a sua amiga ou a terceiro
a escolha da joia a receber. A lei determina a aplicação do disposto no Artigo 2182.º/3 com as
necessárias adaptações, parece assim que qualquer interessado pode requerer em tribunal a fixação do
prazo para escolha do legado por parte da pessoa a quem competir esta escolha, sob a cominação da
mesma ser efetuada pelo tribunal.

As outras exceções são as que resultam da disposição pupilar e da disposição quase-pupilar, na


primeira situação o progenitor que não estiver inibido total ou parcialmente das responsabilidades
parentais tem a faculdade de substituir ao filho os herdeiros ou legatários que bem lhe aprouver, na
segunda a faculdade é exercida pelo progenitor sem distinção de idade no caso de o filho ser incapaz de
testar em consequência de uma sentença de acompanhamento. Em ambos os casos se verifica uma
exceção ao carater pessoal do testamento, uma vez que a faculdade de testar que compete ao filho é
exercida pelo seu progenitor.

9.1.8 Livremente Revogável


Em oitavo lugar, o testamento é um negócio livremente revogável uma vez que o testador pode
revogá-lo enquanto for vivo, nos termos do Artigo 2179.º/1, faculdade alias a que não pode renunciar,
de acordo com o Artigo 2311.º. Esta característica do testamento é contestada por Jorge Duarte
Pinheiro atento a consagração da irrevogabilidade da filiação, nos termos do Artigo 1858.º, defende
Menezes Leitão que não parece que tenha razão pois o testamento é iminentemente revogável face a
sua natureza de disposição de última vontade, e a última vontade é precisamente a ultima pelo que o
testador pode sempre alterar enquanto for vivo, por isto mesmo a lei proíbe a estipulação da
irrevogabilidade ou a renuncia a faculdade da revogação, nos termos do Artigo 2311.º

9.2 Forma do Testamento


Sendo que o Testamento constitui um negócio formal, deve por isto respeitar a forma prescrita
por lei. Assim, havendo um testamento que não respeita esta forma será considerado nulo, como
sucede com o Testamento Nuncupativo, realizado por forma oral, ou o Testamento Hológrafo,
celebrado por forma escrita. Também não é admitido o chamado Codicilo, documento escrito onde o
testador faz legados de reduzido valor, esta figura é reconhecida no Direito Brasileiro, à luz dos Artigos
1801 e ss. CC Brasileiro.

Em Portugal, o testamento exige sempre forma especial, mas deve-se distinguir as formas
comuns do testamento e as formas especiais. O Artigo 2204.º refere que há duas formas de Testamento,
o público e o cerrado, porém em 1975 foi aprovada, pelo Decreto-lei 252/75, a convenção relativa a lei
uniforme sobre a forma do testamento internacional: pelo que presentemente as formas do testamento
são 3 – o Testamento Público, o Testamento Cerrado, e o Testamento Internacional. Para além destes,
os Artigos 2210.º e ss. preveem uma serie de formas especiais para o Testamento.

Em consequência da exigência da intervenção notarial para o Testamento, não é considerado


válido qualquer outro Testamento que não tenha esta intervenção: designadamente não será válido o
chamado Testamento escrito e assinado pelo testador, nos termos do Artigo 2206.º/5 – Testamento
Hológrafo, valido nos países de common law.

9.2.1 Formas Comuns


9.2.1.1 Testamento Público
Determina o Artigo 2205.º, que este é o testamento escrito pelo notário no seu livro de nota.
Efetivamente, nos termos do Artigo 7.º/1 CN, entre os livros de notas destinados aos atos notariais
encontra-se um especifico destinado aos Testamentos Públicos e as escrituras de revogação do
testamento, sendo que estes são aí inseridos, nos termos do Artigo 11.º CN, e registados num livro
especifico, onde se anotam os atos que a ele respeitam, nos termos do Artigo 15.º CN. O Testamento
Público constitui um documento autêntico, como a Escritura Pública, nos termos dos Artigos 369.º e ss.,
mas tem um regime muito diferente desta, uma vez que é registado em livro autónomo e exige, em
princípio, a intervenção de testemunhas, nos termos do Artigo 77.º/1 CN. O testamento não tem
natureza pública, sendo confidencial até a morte do testado, nos termos do Artigo 32.º/2 CN: diz-se
público não por estar acessível ao público, mas por ser feito por oficial público – por este motivo, ao
contrario do que acontece com a generalidade dos documentos arquivados nos cartórios notarias, as
certidões relativas ao conteúdo do testamento público só podem ser requeridas em vida do testador
pelo próprio ou por procurador com poderes especiais para o ato, nos termos do Artigo 164.º/1, a) CN.

9.2.1.2 Testamento Cerrado


Este, nos termos do Artigo 2206.º/1, é escrito e assinado pelo testador ou por outra pessoa a
seu rogo, ou escrito por outra pessoa a rogo do testador e por este assinado, mesmo escrito a rogo por
outrem exige-se que o Testamento Cerrado possa ser lido pelo testador, já que por força do Artigo
2208.º, os que não sabem ou não podem ler são inábeis para dispor em Testamento Cerrado. O Artigo
106.º/1 CN exige que o documento seja manuscrito pelo próprio testador ou por outrem a seu rogo,
admite-se a ressalva de emendas, rasuras, traços, entrelinhas, borrões ou notas marginais, desde que
tenham sido feitas exclusivamente por quem o tenha escrito ou pelo próprio testador, à luz do Artigo
106.º/3 CN. A ressalva faz-se antes da assinatura ou em aditamento seguido e novamente assinado, nos
termo do Artigo 106.º/3 CN. É exigida a assinatura do testador no Testamento Cerrado, o Artigo
2206.º/2 apenas permite a falta de assinatura do testador quando este não saiba ou não possa fazê-lo,
ficando consignado no testamento a razão por que não o assina. A pessoa que assinar o Testamento
Cerrado deve rubricar as folhas que não contenham a sua assinatura, por força do Artigo 2206.º/3. Este
testamento deve ser aprovado pelo notário à luz da lei notarial, nos termos do Artigo 2206.º/4, assim é
aplicável o Artigo 108.º CN, o qual determina que a aprovação do notário através de instrumento
lavrado após a assinatura, contendo as seguintes declarações do testador:

i) que o escrito apresentado contém as suas disposições de última vontade;

ii) que está escrito e assinado por ele, ou escrito por outrem e a seu rogo e somente
assinado, ou assinado por outrem a seu rogo visto este não saber assinar;

iii) que o testamento não contém palavras emendadas, truncadas, escritas sobre rasuras
ou entrelinhas, borrões ou notas marginais, ou, no caso de as ter, que estão devidamente ressalvadas;

iv) que todas as folhas, à exceção da assinada, estão rubricadas por quem assinou o
testamento.

Caso o Testamento não tenha sido escrito pelo testador, deve conter a menção que foi por este
lido, à luz do Artigo 108.º/3 CN. O notário faz constar do instrumento o número de páginas completas e
linhas de alguma página incompleta, a lei obriga que as folhas do testamento sejam rubricadas pelo
notário, sendo que se o testador o solicitar o testamento e o correspetivo instrumento de aprovação é
cosido e lacrado pelo notário, que apõe sobre o lacre o seu sinete, à luz do Artigo 108.º/4 CN. Em
qualquer caso, na folha que servir de invólucro é lançada uma nota com a indicação da pessoa a quem o
testamento pertence, nos termos do Artigo 108.º/5 CN.

A aprovação pelo notário é meramente formal, uma vez que é feita sem leitura, dado que o
Artigo 107.º determina que só a pedido do testador o testamento cerrado pode ser lido pelo notário,
esta pode ser feita em voz alta, na presença de algum dos intervenientes, alem do próprio testador se
este o autorizar. Uma vez aprovado o testamento deve ser registado no livro próprio para testamentos e
atos a eles referidos. Este considera-se datado no momento da sua aprovação, nos termos do Artigo
2207.º, sendo que o testador pode conservá-lo em seu poder, cometê-lo à guarda de terceiro ou
depositá-lo em qualquer repartição notarial, à luz do Artigo 2209.º/1.
9.2.1.3 Testamento Internacional
O testamento, nos termos do Artigo 1.º da convenção internacional relativa lei uniforme para a
forma do Testamento Internacional, aprovado pelo Decreto-lei 252/75, é valido no que concerne a
forma, qualquer que seja o local em que seja realizado, a situação dos bens , a nacionalidade, o
domicilio, ou residência do testador, se for feito sobre a forma de Testamento Internacional. Em
qualquer caso, o facto de não observar a forma de testamento internacional não prejudica a validade
deste como testamento se obedecer a forma da lei interna. Este deve ser feito por escrito, ainda que
não necessariamente feito pelo testador, podendo ser escrito à mão ou por outro processo, nos termos
do Artigo 3.º Lei uniforme para a forma do Testamento Internacional, tem, no entanto, de ser certificado
por entidade competente para o efeitos, à luz dos Artigos 4.º e 10.º desta convenção. À luz do Artigo 1.º
Decreto-lei 177/79, esta entidades competentes são os notários, quando o testamento foi celebrado em
território português, ou os agentes consulares portugueses, quando o testamento for celebrado no
estrangeiro. O testamento internacional é certificado através da declaração do testador junto da pessoa
habilitada que aquele é o seu testamento e que conhece o seu conteúdo, não tem, no entanto, que dar
conhecimento deste conteúdo, nem as testemunhas, nem a pessoa habilitada, à luz do Artigo 4.º da dita
convenção. Na presença destas pessoas o testador assina o testamento ou se o já tiver feito
previamente reconhece e confirma a sua assinatura, nos termos do Artigo 5.º/1. Se estiver
impossibilitado de assinar deve ser feita menção disto no testamento de acordo com o Artigo 5.º/3.

9.2.2 Formas Especiais


Em primeiro lugar, não corresponde a uma forma especial de testamento a disposição do Artigo
2223.º, que se limitava a fazer a derrogação, permitida pelo Artigo 65.º/2, a regra do n.º1 do Artigo 65.º,
o qual estabelece que os testamentos serão válidos quanto a forma se corresponderem às prescrições
da lei do lugar onde o ato for celebrado ou às lei pessoal do autor da herança, sendo que o n.º2
estabelece que se a lei pessoal do autor exigir, sob pena de nulidade ou ineficácia, a observância de
determinada forma, ainda que o ato seja praticado no estrangeiro, será esta exigência respeitada. O
Artigo 2223.º vinha exigir, quanto a testamento de português no estrangeiro, uma forma solene, mesmo
que a lei do local o permitisse: assim, se um português realiza-se um Testamento Hológrafo em
Inglaterra, ainda que neste local seja permitido essa forma, a aplicação em Portugal ficava prejudicada,
pois era uma norma de aplicação imediata, uma vez que restringe a solução de lei estrangeira. Esta
disposição deve-se ter como revogada em virtude do Regulamento da União Europeia 650/2012 de 4 do
Parlamento Europeu e do Conselho de 4 de julho de 2012 relativo à competência, à lei aplicável, ao
reconhecimento e execução das decisões, e à aceitação e execução dos atos autênticos em matéria de
sucessões e à criação de um Certificado Sucessório Europeu, em virtude deste regulamento também se
tem como revogado o Artigo 65.º, uma vez que o mesmo não permite aos Estados-membros
estabelecerem normas de aplicação imediata nesta matéria.

A lei prevê quatro formas especiais de testamento:

i) o testamento militar;

ii) o testamento marítimo;

iii) o testamento a bordo de aeronave;

iv) o testamento feito em caso de calamidade pública.


Todas estas formas estão sujeitas a um regime geral constantes dos Artigos 2221.º e 2222.º

9.2.2.1 Regime Geral


O Artigo 2221.º/1 determina que não pode ser testemunha, abonador ou intérprete em
qualquer dos testamentos regulados na presente secção quem está impedido de o ser nos documentos
autênticos extraoficiais, sendo igualmente aplicável a disposição do Artigo 2197.º ex vi Artigo 2221.º/2
que estabelece uma indisponibilidade relativa aos intervenientes do testamento. O Artigo 2222.º/1
estabelece um prazo de eficácia muito curto relativo as formas especiais do testamento, determinando
que o testamento celebrado por alguma das formas especiais previstas na presente secção fica sem
efeito decorridos dois meses sobre a cessação da causa que impedia o testador de testar segundo as
formas comuns. No entanto, se no decurso deste prazo o testador for colocado de novo em
circunstâncias impeditivas, o prazo é interrompido, devendo começar a contar-se por inteiro a partir da
cessação das novas circunstâncias, de acordo com o Artigo 2222.º/2. A entidade perante quem for feito
o testamento deve esclarecer o testador acerca deste prazo de eficácia, fazendo menção do facto no
próprio testamento, porém a falta de cumprimento deste dever não determina a falta de validade do
testamento, à luz do Artigo 2222.º/3, sem prejuízo deste caducar por decurso do referido prazo.

9.2.2.2 Testamento Militar


A esta forma especial podem recorrer os militares e as pessoas a este equiparadas, ou seja civis
ao serviço das forças armadas, estas pessoas podem recorrer a esta forma de testamento sempre que se
encontrem em campanha ou aquartelados fora do País, ou ainda dentro do País mas em lugares com os
quais estejam interrompidas as comunicações e onde não exista notário, e também quando se
encontrem prisioneiros do inimigo, à luz do Artigo 2210.º. A lei admite duas forma de Testamento
Militar:

i) o testamento militar público, nos termos do Artigo 2211.º;

ii) o testamento militar cerrado, nos termos do Artigo 2212.

9.2.2.2.1 Testamento Militar Público


Neste determina-se que um militar ou civil a ele equiparado declarará a sua vontade na
presença do comandante da respetiva unidade independente ou força isolada e de duas testemunhas,
nos termos do Artigo 2211.º/1, atribuindo assim, ao comandante a competência para lavrar o
testamento. Se o próprio comandante quiser fazer testamento, tomará o seu lugar quem o deva
substituir, à luz do Artigo 2211.º/2. Neste caso o testamento depois de escrito, datado e lido em voz alta
pelo comandante, será assinado pelo testador, pelas testemunhas e pelo mesmo comandante, porém,
se o testador ou as testemunhas não puderem assinar, declarar-se-á o motivo por que o não fazem, nos
termos do Artigo 2211.º/3.

9.2.2.2.2 Testamento Militar Cerrado


Este corresponde aquele que é feito pelo militar ou pelo civil a ele equiparado pelo seu próprio
punho, sendo admitido esta forma de testamento sempre que aquele souber e puder escrever, à luz do
Artigo 2212.º/1. Neste caso, o testamento é escrito e assinado pelo testador, sendo depois apresentado
ao comandante, na presença de duas testemunhas declarando que exprime a sua última vontade, sendo
que o comandante, sem o ler, escreverá no testamento a declaração datada de que ele lhe foi
apresentado, sendo essa declaração assinada tanto pelas testemunhas como pelo comandante, nos
termos do Artigo 2212.º/2. Ainda na presença das testemunhas, se o testador o solicitar, determina o
Artigo 2212.º/3, que o comandante coserá e lacrará o testamento, exarando na face exterior da folha
que servir de invólucro uma nota com a designação da pessoa a quem pertence o testamento ali
contido. Também neste caso, se o comandante quiser fazer testamento a aprovação do mesmo é
efetuada por aquele que o deve substituir, à luz do Artigo 2211.º/1 ex vi Artigo 2212.º/4.

9.2.2.2.3 Formalidades Complementares


Ambas as formas de testamento militar estão sujeitas a formalidades complementares, à que se
refere o Artigo 2213.º: devendo o testamento ser depositado pelas autoridades militares na repartição
ou em alguma das repartições notariais do lugar do domicílio ou da última residência do testador, à luz
do Artigo 2213.º/1, e na eventualidade do testador falecer antes de findar a causa que o impedia de
testar nas formas comuns, será a sua morte anunciada no jornal oficial, com designação da repartição
notarial onde o testamento se encontra depositado, por força do Artigo 2213.º/2.

9.2.2.3 Testamento Marítimo


Este é aquele que é realizado abordo a bordo de navio de guerra ou de navio mercante, em
viagem por mar, nos termos do Artigo 2214.º. A semelhança do que se prevê para o testamento militar,
o mesmo pode ser realizado por forma público ou cerrada, competindo ao comandante do navio as
funções que no testamento militar correspondem ao comandante da unidade independente ou força
isolada, à luz do Artigo 2215.º. O testamento marítimo é feito em duplicado, registado no diário de
navegação e guardado entre os documentos de bordo, nos termos do Artigo 2216.º. Quando o navio
entrar em porto estrangeiro onde exista autoridade consular portuguesa, determina o Artigo 2217.º/1
que o comandante deve entregar a essa autoridade um dos exemplares do testamento e cópia do
registo feito no diário de navegação. Quando o navio aportar em território português, o comandante
deve entregar à autoridade marítima do lugar o outro exemplar do testamento ou ambos se nenhum foi
depositado no caso do Artigo 2217.º/1, além da cópia do registo, como resulta do Artigo 2217.º/2. Em
qualquer dos casos, o comandante cobrará recibo da entrega e averbá-lo-á no diário de navegação, à
margem do registo do testamento, nos termos do Artigo 2217.º/3. Recebido o testamento, e de acordo
com o Artigo 2218.º/1, a autoridade consular ou militar lavrará termo de entrega do testamento, logo
que esta lhe seja feita, e fá-lo-á depositar na repartição ou em alguma das repartições notariais do lugar
do domicílio ou da última residência do testador, logo falecido o testador será a sua morte anunciada
junto de um jornal oficial, com a designação da repartição notarial onde o testamento se encontra
depositado, à luz do Artigo 2213.º/2 ex vi Artigo 2218.º/2.

9.2.2.4 Testamento a bordo de aeronave


Estabelece o Artigo 2219.º, que o disposto nos artigos 2214.º a 2218.º é aplicável, com as
necessárias adaptações, ao testamento feito em viagem a bordo de aeronave. É no entanto difícil de
conceber esta aplicação, uma vez que os tempos curtíssimos das viagens de avião aliado a dificuldade de
elaborar disposições testamentária em caso de emergência a bordo torna extremamente difícil a
aplicação do regime do testamento marítimo ao testamento a bordo de aeronave.

9.2.2.5 Testamento feito em caso de Calamidade Pública


Este tipo de testamento corresponde a situação que hoje se atravessa, leia-se COVID-19. Neste
caso o Artigo 2220.º/1 estabelece que se qualquer pessoa estiver inibida de socorrer-se das formas
comuns de testamento, por se encontrar em lugar onde grasse epidemia ou por outro motivo de
calamidade pública, pode testar perante algum notário, juiz ou sacerdote, com observância das
formalidades prescritas nos artigos 2211.º ou 2212.º, admite-se assim também a celebração testamento
de forma pública ou cerrada. Em qualquer caso, o testamento será depositado, logo que seja possível,
na repartição notarial ou em alguma das repartições notariais do lugar onde foi feito, nos termos do
Artigo 2220.º/2.

9.2.3 Âmbito da Forma Legal


Outra característica do testamento como negócio formal é o facto de não admitir a relevância
de outras estipulações do testador, que não constem do testamento, ao contrário do que o Artigo
220.º/1 genericamente prevê para a forma legal. Assim, o Artigo 2184.º determina a proibição do
testamento per relationem, ao estabelecer que é nula a disposição que dependa de instruções ou
recomendações feitas a outrem secretamente, ou se reporte a documentos não autênticos, ou não
escritos e assinados pelo testador com data anterior à data do testamento ou contemporânea desta.
Assim, por exemplo, disser no testamento que remete para instruções que deu para o seu advogado ou
que as suas instruções encontram-se num papel em certo lugar, esta disposição não será considerada
válida. A doutrina tem, porém, discutido se a referencia legal aos documentos não autênticos, não
escritos e assinados pelo testador com data anterior à data do testamento ou contemporânea desta
permite considerar válido o testamento que remeta para este tipo de documentos (leia-se documentos
autênticos, escritos e assinado pelo testador): como na hipótese do testador determinar que deixa a
determinada pessoa os imoveis que adquiriu por escritura pública em certo dia ou os móveis que
constam de uma relação datada e assinada:

i) alguma doutrina, onde se incluem os nomes de Antunes Varela, Pires de Lima,


Guilherme Oliveira e Daniel Morais, responde afirmativamente, entendendo que é valida uma
disposição testamentaria essencial desde que conste de documento anterior ou com mesma data
escrito e assinado pelo testador;

ii) outra parte da doutrina, onde se incluem os nomes de Oliveira Ascensão, Corte-Real,
Capelo de Sousa e Carvalho Fernandes, vai, porém, em sentido diferente considerando que esta regra só
se pode aplicar as disposições testamentarias não essenciais, pois em relação a estas últimas a remissão
só se pode fazer para documento que revista a forma legal de testamento ou escritura pública;

iii) Menezes Leitão concorda com a posição ii), uma vez que o Artigo 2184.º não admite
que disposições testamentárias essenciais constem de documento que não revista a forma de
testamento ou pelo menos de escritura pública.

9.2.4 Requisitos do Testamento e das disposições testamentarias

Para além da necessidade de adoção de forma especial, o testamento e as disposições


testamentarias que nele se integram obedecem a requisitos especiais para poderem ser válidas, pode-se
indicar a este propósito a:

i) possibilidade física e legal, determinabilidade, e licitude do objeto e fim do


Testamento;
ii) capacidade para testar;

iii) existência de disponibilidade relativa

9.2.4.1 Possibilidade Física e Legal, Determinabilidade e Licitude do objeto e do fim do Testamento


O testamento está, em princípio, sujeito as regras relativas ao objeto e fim negocial, constantes
do Artigo 280.º, será assim nulo o testamento que tenha:

i) um objeto:

a) fisicamente impossível – como a deixa de um bem inexistente;

b) legalmente impossível – como a deixa de bens do domínio público.

ii) um conteúdo indeterminável;

iii) um conteúdo ilícito – como a deixa de um depósito de drogas.

É também nula a disposição testamentaria, quando da interpretação do testamento resultar que


foi essencialmente determinada por um fim contrário à lei, à ordem pública ou aos bons costumes, nos
termos do Artigo 2186.º – será, por exemplo, o caso da deixa de valores para o beneficiário prosseguir
uma atividade criminosa.

Existe um regime especial para as condições e encargos ilícitos, constantes dos Artigos 2230.º e
2245.º, o qual será tratado aquando do conteúdo do testamento.

9.2.4.2 Capacidade Testamentária Ativa


O testador necessita de ter capacidade testamentária ativa, uma vez que, nos termos do Artigo
2190.º, o testamento feito por incapaz é nulo. De acordo com o Artigo 2188.º, podem testar todos os
indivíduos que a lei não declare incapazes para o fazer, sendo manifesto que só as pessoas singulares
podem testar, não possuindo as pessoas coletivas capacidade testamentária. Em relação as pessoas
singulares, resulta do Artigo 2189.º que são incapazes de testar os menores não emancipados e os
maiores acompanhados, apenas nos casos em que a sentença de acompanhamento assim o determine,
fora destes casos os maiores acompanhados podem testar.

Os menores não emancipados, uma vez que o menor obtém por pleno direito a emancipação
em consequência do casamento, nos termos do Artigo 132.º, uma vez que a lei não o distingue parece
que o casamento do menor, mesmo sem autorização dos países ou do tutor legalmente exigida de
acordo com o Artigo 1604.º, a), não o impede de fazer testamento, à luz do Artigo 133.º e 2109.º, a),
mesmo em relação aos bens excluídos da sua administração, nos termos do Artigo 1649.º. Efetivamente,
a exclusão da administração do menor não implica que o mesmo não tenha capacidade testamentária
em relação a todos os seus bens.

Já em relação ao maior acompanhado, enquanto que antigamente se determinava que os


interditos com anomalia psíquica eram incapazes de testar, hoje a lei limita a incapacidade dos maiores
acompanhados ao estritamente necessário, à luz do Artigo 145.º/1, pelo que em princípio é livre o
exercício pelo mesmo de todos os seus direitos pessoais, onde se incluem expressamente o de testar, de
acordo com o Artigo 147.º/2, salvo existindo determinação em contrario constante da sentença judicial.
Face ao carater pessoal do testamento não é possível a representação ou assistência neste ato,
admitindo a lei, porém as figuras da substituição pupilar e quase-pupilar, nos termos dos Artigos 2297 e
ss.

9.2.4.2.1 Substituição Pupilar e Quase-Pupilar


Estas constituem uma forma de representação legal do testador, permitindo nos casos em que
este é incapaz de testar que o seu progenitor se subsitua neste ato realizando um testamento por conta
dele. O Artigo 2300.º esclarece que as substituições pupilar e quase-pupilar só podem abranger os bens
que o substituído haja adquirido por via do testador, embora a título de legítima, não abrangendo bens
que o substituído haja adquirido por terceiros. A razão da substituição pupilar ou quase-pupilar é a
intenção do progenitor, no caso em que o menor ou maior acompanhado não tenha descendentes ou
ascendentes, evitar que qualquer dos outros herdeiros legítimos possam receber a herança por morte
deste em virtude da sua incapacidade para testar, por este motivo estas substituições ficam sem efeito,
logo que o substituído adquire capacidade para testar ou se falecer deixando descendentes ou
ascendentes.

9.2.4.2.1.1 Substituição Pupilar


Encontra-se prevista no Artigo 2297.º, permitindo ao progenitor, que não esteja inibido total ou
parcialmente das suas competências parentais, substituir aos filhos os herdeiros ou legatários que bem
lhe aprouver, para o caso de os mesmos filhos falecerem antes de perfazer os dezoito anos de idade.
Uma vez que a substituição pupilar destina-se a suprir a incapacidade de testar, a mesma fica sem efeito
logo que o menor perfaça os dezoito anos de idade, à luz do Artigo 2297.º/2, devendo-se considerar que
a mesma fica sem efeito se o menor for antes dos dezoito anos emancipado pelo casamento, de acordo
com o Artigo 132.º, uma vez que nesta o menor adquire plena capacidade do exercício de diretos, à luz
do Artigo 133.º, passando consequentemente a poder testar, Artigo 2189.º, a). Da mesma forma, a
substituição pupilar fica sem efeito se o substituído deixar descendentes ou ascendentes, nos termos do
Artigo 2297.º/2.

9.2.4.2.1.2 Substituição Quase-Pupilar


Encontra-se prevista no Artigo 2298.º, permitindo ao progenitor exercer esta faculdade de
testar em substituição do filho sem dependência da sua idade, no caso de este ser incapaz de testar em
sequência de uma sentença de acompanhamento. A substituição pupilar, nos termos do Artigo 2299.º,
converte-se em quase-pupilar se o menor for declarado acompanhado e objeto de sentença de
acompanhamento: não obstante a sua redação ainda referir “interdito por anomalia psíquica”.

A substituição quase-pupilar fica sem efeito, logo que cesse a limitação referida ou se o
substituído falecer deixando descendentes ou ascendentes, de acordo com o Artigo 2298.º/2. A lei não
contempla, porém, a situação de tendo o maior acompanhado, antes de ser decretada uma medida de
acompanhamento que o impeça de testar, deixando consequentemente o cônjuge:

i) Corte-Real, Capelo de Sousa e Cristina Araújo Dias sustentaram, face ao regime


anterior, que a substituição quase-pupilar deveria igualmente ficar sem efeito;

ii) Oliveira Ascensão opunha-se a esta solução, considerando que a sobrevivência do


cônjuge em relação ao substituído não deveria implicar a caducidade da substituição, esta solução veio a
ser defendida, à luz do atual regime, por Daniel Morais;
iii) Menezes Leitão adere a ii) posição, por considerar que está em causa a futura
transmissão dos bens deixados pelos pais ao filho, que não se vê que deva caducar pelo facto de ele ter
casado.

9.2.4.3 Indisponibilidade Relativa


A indisponibilidade relativa consiste na proibição de testar a favor de determinadas pessoas em
virtude da relação entre estas e o testador. Neste caso, trata-se de situações onde o testador possui
capacidade para fazer testamento, mas em que a lei lhe veda a sua realização a favor de pessoas
determinadas, por virtude da capacidade de influência que estas tenham sobre o testador, estão nestas
situação:

i) as disposições do maior acompanhado a favor de acompanhante ou administrador


legal de bens, nos termos do Artigo 2192.º;

ii) as disposições do menor a favor do tutor, administrador legal de bens e protutor, de


acordo com o Artigo 1937.º, d);

iii) as disposições de alguém a favor do médico ou enfermeiro que tratar o testador, ou


do sacerdote que lhe prestar assistência espiritual, se o testamento for feito durante a doença e o seu
autor vier a falecer dela, nos termos dos Artigos 2194.º e 2195.º;

iv) as disposições efetuadas pelo cônjuge a favor da pessoa com quem cometeu
adultério, nos termos do Artigo 2196.º/1;

v) as disposições efetuadas pelo testador a favor do notário ou dos outros


intervenientes no testamento ou a sua aprovação, nos termos do Artigo 2197.º;

vi) as disposições legalmente proibidas quando realizadas por interposta pessoa, nos
termos do Artigo 2198.º;

vii) as disposições efetuadas em violação de impedimentos matrimoniais, de acordo


com o Artigo 1600.º/2.

9.2.4.3.1 As disposições do maior acompanhado a favor de acompanhante ou administrador legal de bens


Culmina o Artigo 2192.º/1 a nulidade destas disposições, porém consideram-se válidas estas
disposições, pressupondo-se naturalmente a capacidade testamentária, quando se trate de
descendentes, ascendentes, colaterais até ao terceiro grau, cônjuge do testador ou pessoa com quem
este viva em união de facto. Há assim, salvo no caso de se tratar de doações a favor dos familiares
referidos no Artigo 2192.º/2, uma proibição genérica dos maiores acompanhados efetuarem
testamento a favor do seu acompanhante ou administrador legal de bens, sendo estas disposições
consideradas nulas.

9.2.4.3.2 As disposições do menor a favor do tutor, curador, administrador legal de bens e protutor
Esta resulta do facto que ao tutor está vedado receber do pupilo, diretamente ou por interposta
pessoa, quaisquer liberalidades, por ato entre vivos ou por morte, se tiverem sido feitas depois da sua
designação e antes da aprovação das respetivas contas, nos termos do Artigo 1937, d), sem prejuízo do
disposto para as deixas testamentárias no n.º 3 do artigo 2192.º. Esta disposição é extensível ao
curador, nos termos do Artigo 156.º, ao administrador de bens, por força do Artigo 1971.º/1, e parece
também dever sê-lo em relação ao protutor, sempre que este subsitua o tutor, nos termos do Artigo
1956.º, b). A sanção para este ato será a nulidade do testamento, nos termos do Artigo 294.º.

Daqui resulta que se a tutela ou administração legal de bens for efetuada em relação ao menor,
o testamento não é proibido se for realizado depois do menor atingir a maioridade e já estiverem
aprovadas as respetivas contas, mesmo que não estejam aprovadas as contas, parece que a disposição
testamentária também não será proibida se for efetuada a favor dos familiares referidos no Artigo
2192.º/2.

9.2.4.3.3 As disposições de alguém a favor do médico ou enfermeiro que tratar o Testador ou a favor do sacerdote
O Artigo 2194.º que considera nulas a disposição testamentária a favor do médico ou
enfermeiro que tratar o testador ou do sacerdote que lhe prestar assistência espiritual, se o testamento
for feito durante a doença e o testador vier a ser falecida. Tal explica-se em virtude da influência que
estas pessoas podiam ter no testador, levando-o a fazer testamento a favor delas apenas em virtude da
debilidade psicológica que a sua doença mortal acarretava. Assim se o testador não falecer da doença
que foi tratado teria, entretanto, podido revogar o testamento, e se não o fez foi porque decidiu manter
a liberalidade, caso o testamento seja realizado após a cura do testador, este também deverá ser
considerado válido.

Mesmo tendo sido realizado durante a doença e o testador vier a falecer dela há, porém,
exceções a invalidade destas disposições, assim: não são abrangidos os legados remuneratórios de
serviços recebidos pelo doente, nem as disposições a favor dos familiares referidos no n.º 2 do Artigo
2192.º, como resulta do Artigo 2195.º.

9.2.4.3.4 As disposições efetuadas pelo cônjuge a favor da pessoa com quem cometeu adultério
A lei institui esta proibição por motivos de tutela da instituição familiar e também por considerar
lesivo dos interesses do outro cônjuge permitir a realização por testamento a favor da pessoa com quem
cometeu adultério. Este tem duas importantes exceções, que resultam do Artigo 2196.º/2, isto é a
proibição não se aplicará, se a data da disposição o casamento já estava dissolvido, ou os cônjuges
estavam separados judicialmente de pessoas e bens ou separados de facto há mais de seis anos, à data
da abertura da sucessão, nem se esta se limitar a assegurar alimentos ao beneficiário. Em relação a
hipótese de separação de facto, entende Jorge Duarte Pinheiro e Daniel Morais que dado que o facto
que a Lei 61/2008 ter vido estabelecer a possibilidade de divorcio ao fim de um ano de separação de
facto, deve-se fixar igualmente este prazo para os efeitos do Artigo 2196.º/2, a), e não apenas seis
meses.

9.2.4.3.5 As disposições efetuadas pelo testador a favor do notário ou dos outros intervenientes no testamento ou
a sua aprovação
É também nulo, nos termos do Artigo 2197, a disposição a favor do notário, intérpretes e
testemunhas que intervieram no testamento ou na sua aprovação. Esta solução justifica-se já que os
intervenientes podiam influenciar ilegitimamente o doador para realizar a liberalidade, deixando assim
de ser um ato livre. Há alias impedimentos expressos a estas entidades para a prática de atos notariais
referidos nos Artigos 5.º, 6.º e 68.º CN.

9.2.4.3.6 As disposições legalmente proibidas quando realizadas por interposta pessoa


O Artigo 2198.º/1 determina que são nulas todas as disposições anteriormente referidas quando
realizadas por interposta pessoa: a tal abrange todas as pessoas referidas no Artigo 579.º/2, por força
do Artigo 2198.º/2, sendo assim o cônjuge do inibido, a pessoa que deste seja herdeiro presumido e
qualquer terceiro que tenha acordado com o inibido a posterior transmissão da coisa ou do direito,
objeto da disposição testamentária.

9.2.4.3.7 A disposições efetuadas em violação de impedimentos matrimoniais


Determina o Artigo 1650.º/2 que a infração ao disposto nas alíneas c) e d) do artigo 1604.º
importa, respetivamente, para o tio ou tia, para o tutor, acompanhante ou administrador, ou seus
parentes ou afins na linha reta, irmãos, cunhados ou sobrinhos, e para o adotante, seu cônjuge ou
parentes na linha reta, a incapacidade para receberem do seu cônjuge qualquer benefício por doação ou
testamento. Estabelece o Artigo 22.º/3 Lei 103/2009 que a celebração de casamento entre padrinhos e
afilhados importa para o padrinho ou madrinha a capacidade de receber do seu consorcio qualquer
benefício por doação ou testamento. Existe também nestes casos uma situação de impossibilidade
relativa.

9.3 Falta e Vícios da Vontade no Testamento


O testamento, como negócio jurídico está sujeito as regras sobre a falta e vícios da vontade no
negócio, sendo lhe aplicáveis 240.º e ss., este sendo um negócio onde a vontade do testador é
especialmente preponderante fica sujeito a regras especiais, que se encontram previstas nos Artigos
2180.º e 2199.º a 2203.º.

9.3.1 Clareza e Esclarecimento


O primeiro pressuposto do testamento é a exigência da expressão de uma vontade clara e
esclarecida, sendo nulo o testamento em que o testador não tenha exprimido cumprida e claramente a
sua vontade, mas apenas por sinais ou monossílabos, em resposta a perguntas que lhe fossem feitas,
por força do Artigo 2180.º. Deste modo, resulta a necessidade de uma expressão de uma vontade clara
e cumprida, trata-se de um requisito que não se encontra previsto para os negócios em geral, e justifica-
se pela necessidade do negócio testamentário expressar a vontade do testador.

9.3.2 Declarações Não Sérias


Quanto as declarações-não-sérias nada se encontra especialmente previsto no regime do
testamento, pelo que há de proceder a aplicação do Artigo 245.º/1, determina este que carece de
qualquer efeito declaração não séria, feita na expectativa de que a falta de seriedade não seja
desconhecida. Coloca-se a dúvida de saber se há aplicação neste caso da regra do número 2 do Artigo
245.º, que determina a possibilidade de a declaração ser feita em circunstâncias que induzam o
declaratário a aceitar justificadamente a sua seriedade, conferindo-lhe o direito de ser indemnizado pelo
prejuízo que sofrer:

i) Guilherme Oliveira considera que não se deve excluir a possibilidade de terceiro obter
uma indemnização, embora considere que a situação especial do negócio testamentário torna mais
difícil a existência de legitimas expectativas do terceiro a merecer tutela;

ii) Oliveira Ascensão considera que a questão está em aberto, uma vez que no CC
português não existe disposição semelhante ao §278 BGB, que proíbe esta extensão ao dispor que o
destinatário não tem direito a confiar na validade desta disposição testamentaria. A seu ver o facto de
no testamento não haver declaratória, não seria razão decisiva de se excluir a aplicabilidade da regra se
se pudesse pensar que esta se estenderia aos destinatários das atribuições;

iii) Jorge Duarte Pinheiro entende que o carater não receptício do testamento excluí a
indemnização do Artigo 245.º/2, uma vez que está só existe nos negócios com declaratários;

iv) Menezes Leitão concorda com a posição de Jorge Duarte Pinheiro, pois não só o
testamento constitui de facto um negócio não receptício, enquanto que o Artigo 245.º/2 pressupõe a
existência de um declaratário, como também não se vê que expectativas devessem ser tuteladas neste
caso, das quais resultaria uma responsabilidade da herança pela feitura de testamento inexistente.

9.3.3 Falta de consciência da declaração e coação física


Também não existe regra especial relativa a falta de consciência da declaração e coação física
devendo-se aplicar a regra do Artigo 246.º, assim não produzirá qualquer efeito , se o declarante não
tiver a consciência de fazer um testamento ou for coagido pela força física a emiti-la – trata-se, assim,
um caso de inexistência do testamento, embora se tenha que referir que os formalismos exigidos para o
testamento tornam estas situações pouco prováveis, salvo haver conivência do notário. O Artigo 246.º,
2.º Parte estabelece, porém, se a falta de consciência da declaração foi devida a culpa, fica o declarante
obrigado a indemnizar o declaratário: defende Menezes Leitão que esta disposição não se pode aplicar
em sede de negócio testamentário, uma vez que implica uma responsabilidade dos herdeiros pela
indemnização, o testamento não é um negócio receptício.

9.3.4 Incapacidade Acidental


Esta encontra-se regulada no Artigo 2199.º, o qual determina a anulabilidade do testamento
feito por quem se encontrava incapacitado de entender o sentido da sua declaração ou não tinha o livre
exercício da sua vontade por qualquer causa, ainda que transitória. Está-se perante a aplicação do
regime da incapacidade acidental previsto no Artigo 257.º, com uma importante diferença só podendo
ser anulado se o facto for notório ou conhecido pelo declatário, como o testamento não é um negócio
receptício, não se aplica este requisito. É uma forma muito frequente de anulação do negócio
testamentário, podendo ser anulado em virtude incapacidade acidental provisório como permanentes.

9.3.5 Simulação
Esta encontra-se prevista no Artigo 2200.º, nos termos do qual é anulável a disposição feita
aparentemente a favor de pessoa designada no testamento, mas que, na realidade, e por acordo com
essa pessoa, vise a beneficiar outra – trata-se de um regime diferente do que vigora para a simulação
em geral: o acordo não se faz entre as partes do negócio, já que apenas o testador é parte, mas antes
entre o testador e a pessoa designada; por outro lado, o testamento não é nulo, mas apenas anulável.

O Artigo 2200.º prevê a simulação por interposição fictícia de pessoas, embora pareça que seja
igualmente relevantes, por aplicação das regras gerais, para a anulação do testamento, a simulação
absoluta e a relativa. Já a disposição testamentaria valida, isto é dissimulada, poderá ser válida nos
termos do Artigo 241.º/2: no Artigo 2259.º/1 encontra-se um caso de aplicação desta solução, já que
testador pretender fazer uma liberalidade dissimulando o pagamento de uma dívida a lei considera
válida o legado: porém, na hipótese de interposição fictícia de pessoas é difícil admitir-se a validade da
disposição, atendendo a falta do mínimo de correspondência entre o ato dissimulado e o contexto do
testamento, por força do Artigo 2187.º.

9.3.6 Reserva Mental


Ao fazer referência a simulação, o Artigo 2200.º exclui a relevância desta no negócio
testamentário. Por isto, a doutrina tem entendido que a reserva mental não tem relevância para a
validade do testamento, em sentido contrário:

i) Oliveira Ascensão defende devido a preponderância da vontade, devera-se considerar


que a reserva mental conduz a anulação do negócio, por aplicação analógica do Artigo 2200.º,
admitindo a possibilidade de conceder uma indemnização ao enganado;

ii) Jorge Duarte Pinheiro considera antes aplicável o Artigo 244.º/2, considerando
anulável a disposição testamentária contrária a vontade real do testador, que tenha sido feita com o
intuito de enganar qualquer pessoa, exigindo-se apenas que esta tenha o mínimo de correspondência
no contexto do testamento, ao abrigo Artigo 2187.º, não admite, porém, qualquer indemnização.

Menezes Leitão defende que deve-se considerar irrelevante a reserva mental, uma vez que o
testamento não constitui um negócio com declaratário.

9.3.7 Erro na declaração


É aplicável ao testamento o regime geral do Artigo 247.º relativo ao erro na declaração, no
entanto, atendendo ao carater não receptício do testamento, não se exigirá o requisito da
cognoscibilidade para o declaratário, bastando apenas que a essencialidade do erro resulte do
testamento. O Artigo 2203.º admite, no entanto, o regime especial para certos casos de erro na
declaração, estabelecendo uma conversão legal, assim se o testador tiver indicado erroneamente a
pessoa do herdeiro ou do legatário ou dos bens que são objeto da disposição, mas se da interpretação
do testamento for possível concluir a pessoa ou aos bens que o testador pretendia-se referir, a
disposição vale para esta pessoa ou a estes bens.

9.3.8 Erro-vício, dolo, ou coação moral


Nos termos do Artigo 2201.º, é também anulável a disposição testamentária determinada por
erro, dolo ou coação. Admitindo-se, assim, a anulação do testamento por vicio na formação da vontade.
Seja ele o erro, o dolo ou coação moral.

9.3.8.1 Erro-vício
Resulta do Artigo 2202.º, que este pode ser de facto ou de Direito, mas exige-se em qualquer
caso a sua essencialidade, no sentido de que o Testador sem o mesmo não teria feito a disposição em
causa. Sendo o testamento um negócio unilateral não receptício não vigoram neste âmbito outros
requisitos referentes a anulação por erro, estabelecidos no regime-geral do negócio jurídico como é o
caso da cognoscibilidade desta essencialidade, nos termos dos Artigos 251.º e 247.º , ou o
reconhecimento da mesma por acordo com este, nos termos do Artigo 252.º/1. Também, ao contrário
do que se prevê nos negócios jurídicos em geral, a lei estabelece que a essencialidade tem de resultar do
próprio testamento, tal levou a uma controvérsia na doutrina sobre saber se é admitida ou não prova
complementar em relação a essencialidade do erro-vício:
i) para Oliveira Ascensão o Artigo 2202.º reflete, em matéria testamentária, a
contraposição estabelecida nos Artigos 251.º e 252.º/1 para os negócios jurídicos em geral, pelo que
apenas se aplica ao erro sobre os motivos que não se refiram ao objeto da disposição ou a pessoa do
beneficiário, sendo estes últimos abrangidos pelo Artigo 2201.º que não estabelece qualquer exigência
de prova complementar;

ii) já Corte-Real e Jorge Duarte Pinheiro entendem que o Artigo 2202.º é aplicável a todo
o erro-vício, excluindo por isto a admissibilidade da prova complementar em relação a essencialidade
exigida para a sua anulação;

iii) Menezes Leitão concorda que o Artigo 2202.º é aplicável a todo o erro-vício, não
fazendo por isto sentido aplicar em matéria testamentária a distinção estabelecida nos Artigos 251.º e
252.º/1, mas não vê qualquer razão para adotar em relação a anulação por erro-vício um regime
probatório diferente do que aquele que vigora para a interpretação do negócio testamentário.
Considera assim ser aplicável a solução prevista no Artigo 2187.º/2, de que é admitida prova
complementar, mas a essencialidade terá de resultar, ainda que de modo imperfeito, do próprio
testamento.

É igualmente questionável se em matéria testamentaria se pode admitir a relevância do erro na


base do negócio, nos termos previstos no Artigo 252.º/2:

i) Oliveira Ascensão e Jorge Duarte Pinheiro sustentam a este propósito, que dado o
carater unilateral e não receptício do testamento haverá que adaptar o regime desta disposição,
considerando anulável a disposição testamentaria viciada por erro sobre as circunstâncias que fundaram
a decisão de testar;

ii) Menezes Leitão concorda com a relevância deste erro, não vendo razão para que o
mesmo seja sujeito a um regime diferente do que resulta do Artigo 2202.º, não considerando por isso
necessária qualquer adaptação do Artigo 252.º/2.

9.3.8.2 Dolo e Coação


Os mesmos são causas de incapacidade sucessória por motivo de indignidade, nos termos do
Artigo 2034.º, c), não deixam de ser relevantes para efeitos de anulação da disposição testamentária,
uma vez que os mesmos podem provir de terceiro.

9.3.8.2.1 Coação Moral


Por força do Artigo 255.º, considerar-se-ia que a mesma ocorre sempre que o Testamento tenha
sido determinado pela ameaça ilícita ao testador de um mal com o fim de obter a realização do
testamento. A lei não faz qualquer distinção no âmbito do negócio testamentário consoante a origem da
coação moral tenha origem no próprio beneficiário ou em terceiro, ao contrário do que sucede no
regime geral do negócio jurídico, nos temos do Artigo 256.º. Deve por isto entender-se que em meteria
de testamento qualquer ameaça ilícita releva como causa de anulação, independentemente de quem
seja o seu autor, não se exige assim que a ameaça seja de mal grave, nem que seja justificado o receio
pela sua consumação.

9.3.8.2.2 Usura
Uma outra questão é se o testamento pode ser anulado por usura, nos termos do Artigo 282.º,
uma vez que a lei não faz qualquer referência a este vício em sede testamentária:

i) Capelo de Sousa responde afirmativamente, considerando que a situação de


necessidade, inexperiência, ligeireza, dependência, estado mental ou fraqueza de carácter do testador
torna o testamento anulável, entendendo não ser quer necessária a existência de benefícios sucessivos
ou injustificados, em virtude da necessidade de proteção da liberdade e da vontade real nas disposições
testamentárias;

ii) Jorge Duarte Pinheiro e Daniel Morais sustentam que o testamento pode ser anulado
por usura, exigindo no entanto o preenchimento dos pressupostos do Artigo 282.º - esta posição tem
tido acolhimento pacifico na jurisprudência, que admite, assim, anulação do testamento explorando a
situação de necessidade do testador, consegui que este estabelecesse encargos sucessivos ou
injustificados – Acórdão do STJ de 22 de Maio de 2003 e Acórdãos da Relação de Lisboa de 2019.

9.4 Invalidade e Inexistência do Testamento


Conforme se verificou o testamento pode ser considerado inexistente, nos mesmo casos que o
negócio jurídico em geral, ou seja nos casos de falta de consciência da declaração e coação física, nos
termos do Artigo 246.º. Verificando-se uma situação de inexistência do testamento, o mesmo não
produz qualquer efeito, podendo qualquer pessoa invocar a todo o tempo esta inexistência.

Já a invalidade ocorre sempre que, não se verificando uma situação de inexistência, o


testamento seja celebrado em infração a alguma disposição legal, em principio a consequência desta
infração é a nulidade do testamento, e por vezes a lei o declara expressamente, como sucede com o
Artigo 2180.º, mas mesmo que não o faça, como ocorre no Artigo 2181.º, deverá ser esta a
interpretação a adotar, até por força do Artigo 294.º.

A anulabilidade ocorre, por contrário, quando a lei o expressamente o preveja, como sucede
genericamente nas hipóteses de falta e vícios da vontade do testador, nos termos dos Artigos 2199.º e
ss., incluindo a simulação, à luz do Artigo 2200.º, a qual no negócio jurídico em geral constitui causa de
nulidade, à luz do Artigo 240.º/2.

Ocorrendo uma situação de nulidade do testamento ou de disposição testamentária, determina


a lei que a respetiva ação caduca no prazo de 10 anos a contar da data em que o interessado teve
conhecimento do testamento e da causa da nulidade, nos termos do Artigo 2308.º/1. Já no caso de
mera anulabilidade, a ação caduca passados dois anos em que o interessado teve conhecimento do
testamento e da causa da anulabilidade, nos termos do Artigo 2308.º/2. Apesar de se tratar de casos de
caducidade, a lei manda aplicar o regime da suspensão e da interrupção da prescrição, nos termos do
Artigo 2308.º/3.

9.4.1 Confirmação
A lei prevê, porém, a possibilidade de confirmação do testamento por parte dos interessados,
impedindo o que o tiver confirmado de invocar qualquer um destes desvalores, de acordo com o Artigo
2309.º. Ao contrario do que se prevê para o regime geral do negócio jurídico, à luz do Artigo 288.º, e a
semelhança do que se prevê para a doação, de acordo com o Artigo 968, não se está neste caso perante
uma verdadeira confirmação, sendo antes uma situação de confirmação imprópria, já que não se verifica
uma verdadeira sanação da invalidade do ato, mas antes uma perda, ou renuncia individual, ao direito
de declarar a sua nulidade e anulabilidade, que não se estende por isto aos outros interessados.

O facto de a confirmação poder abranger a hipótese de nulidade do testamento, ao contrário do


que sucede com o regime geral, em que se restringe a situações de mera anulabilidade, levou alguma
doutrina a defender que algumas hipóteses de nulidade do testamento não seriam suscetíveis de
confirmação:

i) Oliveira Ascensão considera que o testamento feito por mero escrito particular não
seria nulo, a pesar do que dispõe o Artigo 2206.º/5, mas sim inexistente pelo que seria insuscetível de
confirmação;

ii) Guilherme Oliveira considera insuscetíveis de confirmação as disposições contrárias à


ordem pública e aos bons costumes e as disposições pessoais contrárias à lei, como a perfilhação do
nascituro feita antes da conceção, nos termos do Artigo 1885.º;

iii) Jorge Duarte Pinheiro considera haver casos de nulidade típica sujeita ao regime do
Artigo 286.º em relação a certas disposições testamentárias, abrangendo:

a) as disposições condicionais ou modais ilícitas ou impossíveis, nos termos dos


Artigos 2229.º e 2245.º;

b) as disposições ilícitas, nos termos do Artigo 280.º/1;

c) as disposições impossíveis, nos termos do Artigo 280.º/2;

d) as disposições determinadas por um fim ilícito, à luz do Artigo 286.º;

e) as disposições que não observam a forma legal, à luz do Artigo 220.º e


2206.º/5.

iv) Menezes Leitão não vê razão para restringir a aplicação do preceito do Artigo 2309.º
fundamentado que como a confirmação é impropria, apenas priva o direito de invocar a nulidade por
parte do interessado, pelo que não há razão:

a) não há razão para o herdeiro poder conservar este direito, quando ele
mesmo decide cumprir um legado, que o testador realizou por documento particular;

b) já relativamente as condições e encargos ilícitos ou impossíveis, também não


há motivo que o beneficiário que aceitou ser privado da disposição em consequência dos mesmos
apareça depois a invocar a nulidade;

c) já em relação as disposições testamentarias impossíveis de cumprir ou


contrárias à ordem pública e aos bons costumes, ou as mesmas não podem ser realizadas pelo que não
se coloca a questão de confirmação, ou o cumprimento das mesmas constitui um ato ilícito em si
mesmo, o que igualmente afasta a possibilidade de confirmação.

d) a invalidade da perfilhação referida no Artigo 1885.º, nada tem a ver com a


nulidade do testamento, e só a esta se refere o Artigo 2309.º.

9.4.2 Carater Injuntivo


O regime da invalidade do testamento tem carater injuntivo, sendo vedada ao testador proibir a
impugnação do testamento nos casos onde-se verifique nulidade ou anulabilidade.

9.5 Interpretação do Testamento


Esta obedece a um critério especial, distinto daquele que se encontra previsto para a
generalidade dos negócios jurídicos, nos Artigos 236.º e ss., efetivamente, o Artigo 2187.º/1 dispõe que
na interpretação das disposições testamentárias observar-se-á o que parecer mais ajustado com a
vontade do testador, conforme o contexto do testamento. Esta disposição impõe um critério subjetivista
de interpretação que se desvia do critério geral objetivista, do Artigo 236.º, quer mesmo do regime
especial dos negócios formais, à luz do Artigo 238.º. O objetivo da interpretação do testamento é
sempre reconstituir a vontade do testador até ao limite do que for possível, com base nos elementos
disponíveis, assim, em primeiro lugar a disposição testamentária não deve ser interpretada
isoladamente, mas sim no âmbito do contexto do testamento, através do confronto com as restantes
clausulas do mesmo. Depois para efeitos de interpretação do testamento podem ser consideradas as
disposições complementares per relationem que não forem invalidas. No entanto, o critério subjetivista
não tem aplicação integral, uma vez que não sendo possível determinar a vontade real do testador,
prevalece o sentido que resulta do testamento.

Questiona-se “o contexto do testamento” é apenas o que resulta do conjunto de clausulas deste


ou se abrange o circunstancialismo que o rodeou, na medida em que o Artigo 2187.º/2 contrapõem o
contexto do testamento ao que resulta da prova complementar, parece claro que está apenas em causa
o que resulta do conjunto das disposições testamentárias, sem prejuízo de poderem ser valoradas as
indicações que resultam de outros meios de provas, estes estranhos ao contexto do testamento são,
genericamente, os que resultam dos Artigos 349.º a 396.º, podendo abranger: as presunções, a
confissão, os documentos, a prova policial, a própria inspeção e a prova testemunhal. No entanto, o
contexto do testamento funciona como limite à própria interpretação, na medida em que ter a vontade
do testador que está expressa no testamento, a lei não admite que a mesma possa resultar de outros
meios de prova que não tenham qualquer correspondência com aquele.

Agora, tem-se de analisar o problema da eventual aplicação subsidiaria dos critérios gerais de
interpretação dos negócios jurídicos, previstos nos Artigos 236.º e ss., em relação ao testamento, já que
alguma doutrina tem vindo defender a sua aplicação:

i) Oliveira Ascensão que refere que a parte geral é tendencialmente aplicável ao


testamento;

ii) Carvalho Fernandes sustenta que não é de excluir, dado o caracter especial do Artigo
2187.º, a aplicação subsidiaria e sucessiva dos Artigos 238.º, 236.º e 237.º, na medida do conciliável com
a particular natureza do testamento;

iii) Menezes Leitão afirma ser questionável a possibilidade de efetuar a aplicação


subsidiaria destas disposições:

a) relativamente a aplicação subsidiaria do Artigo 236.º:

i) Jorge Duarte Pinheiro defende a sua aplicação sustentando que na


impossibilidade de adotar o critério subjetivista do Artigo 2187.º, haverá que adotar o
sentido que um normal declaratário colocado na posição do real declaratário possa
deduzir do que foi declarado;

ii) Menezes Leitão defende que não parece que o Artigo 2187.º deixe qualquer
espaço para a aplicação do Artigo 236.º, uma vez que esta consagra um critério
objetivista contrário ao critério subjetivista consagrado no Artigo 2187.º, o testamento
deve ser interpretado no sentido de ir buscar a vontade do testador, mesmo que o texto
seja o único elemento;

b) relativamente a aplicação subsidiaria do Artigo 237.º:

i) Capelo de Sousa e Jorge Duarte Pinheiro sustentam a sua aplicação,


considerando que se do testamento resultam dois sentidos igualmente onerosos,
devera-se adotar o sentido menos oneroso para os herdeiros;

ii) Daniel Morais entende que se trata de preceito que não se adequa ao
testamento;

iii) Menezes Leitão vai no mesmo sentido de ii).

c) relativamente a aplicação do Artigo 238.º/1, Menezes Leitão sublinha que


esta disposição exige que esta interpretação tenha correspondência no texto do negocio
formal, ainda que imperfeitamente expressa, enquanto que o Artigo 2187.º/2
estabelece antes a exigência desta correspondência com o contexto do testamento: o
que constitui referenciais distintos, efetivamente no Artigo 238.º/1 se pretende uma
interpretação assente na letra de cada clausula negocial, autonomamente considerada,
no Artigo 2187.º/2 impõe uma interpretação que manda atender a todo o texto,
colocando cada disposição na sua relação com as outras;

d) relativamente ao Artigo 238.º/2, o Menezes Leitão afirma que não pode ser
aplicado ao testamento.

Concluí Menezes Leitão que o sentido da real vontade do testador só pode ser
encontrado conforme o Artigo 2187.º.

9.5.1 Normas Interpretativas Especificas em matéria testamentária


Estas encontram-se previstas no código em lugares dispersos, para além do critério geral de
interpretação, é por exemplo o Artigo 2225.º que estabelece a disposição a favor de uma generalidade
de pessoas, sem qualquer outra indicação, considera-se feita a favor das existentes no lugar em que o
testador tinha o seu domicílio à data da morte, assim se o testador quiser deixar “toda a sua fortuna aos
pobres” esta abrange os pobres da sua área de residência, mas não outros que estejam noutro lugar.

Outra norma interpretativa encontra-se no Artigo 2226.º/1, que estabelece que a disposição a
favor dos parentes do testador ou de terceiro, sem designação de quais sejam, considera-se feita a favor
dos que seriam chamados por lei à sucessão, na data da morte do testador, sendo a herança ou legado
distribuído segundo as regras da sucessão legítima, o n.º 2 acrescenta que de igual forma se procederá,
se forem designados como sucessores os herdeiros legítimos do testador ou de terceiro, ou certa
categoria de parentes. Daqui resulta que se o testador entender deixar a herança aos seus parentes ou
herdeiros legítimos, e não fazer qualquer designação, tem como efeito a distribuição de acordo com as
regras da sucessão legítima, não deixa de estar em causa o cumprimento de uma disposição
testamentaria, sendo esta remissão para as regras da sucessão a forma que a lei julga corresponder à
intenção do testador em fazer esta designação.

Dispõe o Artigo 2227.º outra norma interpretativa, determinado que se o testador designar
certos sucessores individualmente e outros coletivamente, são estes havidos como individualmente
designados. Assim, por exemplo, o qual constava do Artigo 1797.º Código de Seabra, o testador diz
“instituo por meus herdeiros Pedro e Paulo e os filhos de Francisco”, se Francisco deixar 3 filhos, à luz do
Artigo 2227.º, deve-se interpretar a disposição no sentido de individualmente designar os filhos de
Francisco, assim devera-se dividir a herança por 5, e não por 3.

Já o Artigo 2228.º determina que se o testador chamar à sucessão certa pessoa e seus filhos,
entende-se que são todos designados simultaneamente, nos termos do artigo anterior, e não
sucessivamente. Daqui resulta que se o testador designar por herdeiros “Francisco e os seus três filhos”
poderia entender-se que se trataria apenas da designação de Francisco, sendo o seus filhos chamados
apenas caso este não possa ou não queira aceitar, porém resulta do Artigo 2228.º, que esta designação
é conjunta, devendo-se proceder a divisão por 4.

Outra norma interpretativa encontra-se no Artigo 2260.º, o qual determina que o legado feito
a favor de um credor, mas sem que o testador refira a sua dívida, não se considera destinado a satisfazer
essa dívida. Assim, se o testador estabelecer que deixa 10.000€ a um dos seus credores, mas não
menciona que o dinheiro se destina a pagar a sua dívida, deve-se interpretar a disposição no sentido de
ter havido intenção de constituir um verdadeiro legado, o qual é independente da dívida existente. Mas
se o testador disser que deixa ao seu credor 10.000€ devido ao facto deste lhe ter emprestado dinheiro,
já se deve interpretar esta disposição como destinada ao pagamento da dívida.

O Artigo 2262.º que refere se o testador legar a totalidade dos seus créditos, deve entender-se,
em caso de dúvida, que o legado só compreende os créditos em dinheiro, excluídos os depósitos
bancários e os títulos ao portador ou nominativos. Na verdade, se o testador deixar todos os seus
créditos à alguém, podia-se questionar se este visa abranger os seus depósitos bancários, que são
créditos sobre os bancos, e os títulos, que são créditos sobre o título, mas como não são assim
entendidos pelas pessoas comuns, não se devendo os considerando abrangidos pelo legado.

O Artigo 2263.º que dispõe que sendo legado o recheio de uma casa ou o dinheiro nela
existente, não se entende, no silêncio do testador, que são também legados os créditos, ainda que na
casa se encontrem os documentos respetivos.

Por fim, o Artigo 2269.º relativa à extensão dos legados, refere o n.º 1 desta que na falta de
declaração do testador sobre a extensão do legado, entende-se que ele abrange as benfeitorias e partes
integrantes, acrescendo o n.º2 que o legado de prédio rústico ou urbano, ou do conjunto de prédios
rústicos ou urbanos que constituam uma unidade económica, abrange, no silêncio do testador, as
construções nele feitas, anteriores ou posteriores ao testamento, e bem assim as aquisições posteriores
que se tenham integrado na mesma unidade, sem prejuízo do disposto no n.º 2 do artigo 2316.º.

9.5.2 Integração do Testamento


A questão que se tem vindo a colocar relativamente a situação do testador é a possibilidade de
integração do testamento, ou seja, neste âmbito saber até que ponto o Artigo 239.º pode ter aplicação
relativamente a aspetos da sucessão testamentária, no sentido de eventuais lacunas do testamento
poderem ser integradas. A posição que se tem de entender é que o Artigo 239.º não tem aplicação
relativo a aspetos essenciais da disposição testamentária, uma vez que o Artigo 2182.º diz que devem
ser indicados pelo próprio testador, pelo que não parece possível estabelecer relativamente a aplicação
de lacunas. A questão que aqui se coloca é a de Oliveira Ascensão tem reconhecido eficácia a uma
disposição implícita no testamento, o que segundo Menezes Leitão é contraditória uma vez que, ou
resulta implicitamente do testamento por interpretação deste, ou a ideia de ser integrada é discutível.

Também é discutível a questão que chegou ao STJ, num acórdão de 23 de Setembro de 1993, no
qual a testadora indica 7 herdeiros, mas omite a distribuição de 1/8 da herança, o tribunal entendeu que
era intenção da testadora excluir os herdeiros legítimos, e por isto, dividiu a herança pelos 7 herdeiros,
com base no Artigo 239.º: Menezes Leitão afirma ser questionável esta aplicação.

Quanto aos aspetos não essenciais ou instrumentais da disposição testamentária, parece, à luz
da lição de Menezes Leitão, possível fazer esta integração, um exemplo dado por Jorge Duarte Pinheiro
é o testador dizer que o testamenteiro é remunerado, mas não estabelecer o valor desta: aí de facto é
possível fazer a integração de acordo com o Artigo 239.º.

9.6 Conteúdo do Testamento


Este conteúdo pode ser patrimonial ou pessoal, isto resulta expressamente do Artigo 2179.º/2,
o qual refere que as disposições de carácter não patrimonial que a lei permite inserir no testamento são
válidas se fizerem parte de um ato revestido de forma testamentária, ainda que nele não figurem
disposições de carácter patrimonial.

9.6.1 Disposições de natureza não patrimonial


Entre as disposições de carater não patrimonial, incluem-se:

i) a declaração de maternidade;

ii) a perfilhação;

iii) a designação de tutor;

iv) o sufrágio ou a favor da alma.

9.6.1.1 Declaração de Maternidade


O testamento pode incluir uma declaração de maternidade, efetivamente o Artigo 114.º/1 CRC
prevê que a mãe pode incluir uma declaração de maternidade relativamente a filho nascido a mais de
um ano, caso em que se considera que a maternidade foi estabelecida. Nesta situação, dispõem o Artigo
129.º CRC que a maternidade é registada por averbamento ao assento do filho.

9.6.1.2 Perfilhação
Da mesma forma, o testamento pode incluir uma declaração de perfilhação, nos termos do
Artigo 1853.º, b), neste caso a perfilhação é sempre irrevogável, e sendo feita em testamento, não é
prejudicada pela revogação deste. No entanto atento ao carater confidencial do testamento, só após a
morte deste é que a perfilhação se tornará conhecida, pelo que no caso de destruição do testamento
cerrado, o seu conhecimento pode tornar-se impossível.

9.6.1.3 Designação de tutor


O testamento pode incluir designação de tutor ao filho menor, nos termos do Artigo 1928.º/3,
podendo este igualmente revogar esta designação. Nos termos do Artigo 1929.º, se ocorrer a
designação de mais que um tutor ao mesmo filho, a tutela será atribuída segundo a ordem de
designação, sendo que, no entanto, a designação do tutor tem que vir a ser judicialmente confirmada,
nos termos do Artigo 1931.º/1.

9.6.1.4 Disposições a favor da alma


Estabelece o Artigo 2224.º/1 que é válida a disposição a favor da alma, quando o testador
designe os bens que devem ser utilizados para esse fim, ou quando seja possível determinar a quantia
necessária para tal efeito, determinado o n.º2 que a disposição a favor da alma constitui encargo que
recai sobre o herdeiro ou o legatário.

9.6.1.5 Outras Disposições


Para além destas, há outras disposições sem natureza patrimonial que podem ser incluídas no
testamento, como por exemplo: a confissão extrajudicial, nos termos do Artigo 358.º/4, a deserdação,
nos termos do Artigo 2166.º/1, a reabilitação, nos termos dos Artigos 2038.º e 2166.º/2, a revogação do
testamento, nos termos dos Artigos 2312.º e ss., e a nomeação de testamenteiro, nos termos do Artigo
2320.º.

Da mesma forma pode ser estabelecido em testamento a designação de uma pessoa coletiva,
designadamente uma fundação, mas neste caso já se está perante uma disposição de natureza
patrimonial atenta a necessidade de estabelecer uma dotação de bens a favor desta pessoa coletiva.

Questiona-se em face da disposição do Artigo 2179.º/2 se o testador apenas pode incluir


disposições não patrimoniais que se encontrem previstas na lei. Menezes Leitão afirma que nada
impede o testador, ao abrigo da Autonomia Privada, de incluir outras disposições de cariz não
patrimonial, como por exemplo onde será o seu funeral, o que acontecerá aos seus órgãos, e afins. Para
além disto, o testador pode incluir disposições sobre a publicação ou não das suas cartas, do seu espólio
literário, ou determinar a forma desta publicação, revelar factos relativos à sua vida privada, proibir a
realização de homenagens públicas, estabelecer orientações políticas ou partidárias – o denominado
testamento político, porém, em termos práticos, os testamentos políticos são normalmente pouco
executados –.

9.6.2 Disposições de natureza patrimonial


O testamento é constituído maioritariamente por disposições desta natureza, uma vez que é
esta a sua função primordial. No âmbito do conteúdo principal de natureza patrimonial incluem-se as
disposições à título de herança ou legado, podendo-se acrescentar a constituição de fundações, uma vez
que neste caso se trata de uma liberalidade que institui uma pessoa coletiva – exemplo a fundação
Gulbenkian. Existe ainda o conteúdo acessório, o qual abrange as condições, termos e modos, devendo-
se também incluir nesta sede as denominadas substituições existentes – a substituição direta e a
fideicomissária, uma vez que estas correspondem no primeiro caso a uma condição suspensiva e no
segundo um termo associado a uma condição neste âmbito.

9.6.2.1 Disposições a título de herança


Este é o conteúdo patrimonial mais importante do testamento, como se sabe é considerado
herdeiro testamentário aquele que seja instituído por testamento na totalidade ou numa quota do
património do testador, nos termos do Artigo 2030.º/2, bem como no remanescente dos seus bens, de
acordo com o Artigo 2030.º/3. Caso o testador efetue alguma destas disposições o beneficiário destas
será considerado herdeiro. Esta é a disposição mais importante, mas a menos regulada no Código Civil.

9.6.2.2 Disposições a título de legado


Em relação a estes, existe legado sempre que o testador atribua ao beneficiário bens e valores
determinados, de acordo com o Artigo 2030.º/2, in fine. Sendo também considerado legatário o
usufrutuário, ainda que o seu direito incida sobre a totalidade do património do de cuius, nos termos do
Artigo 2030.º/4. Caso o testador efetue alguma destas disposições o beneficiário destas será, assim,
qualificado como legatário.

Existem quatro classificações de legados – a classificação entre os legados:

i) típicos e atípicos;

ii) per vindicationem e per damnationem

iii) dispositivos e obrigacionais;

iv) com eficácia imediata e mediata.

9.6.2.2.1 Legados Típicos e Atípicos


Esta é a menos importante, distingue os legados consoante se encontrem regulados, ou não, na
lei. Assim, por exemplo, é considerado legado típico o legado de um crédito ou do receio de uma casa
porque se encontram regulados, respetivamente, nos Artigos 2261.º e 2263.º. Já um legado de uma joia
ou de um livro, pertencentes ao testador, serão considerados legados atípicos, uma vez que não tem
regulação legal, apesar de serem relativamente comuns.

9.6.2.2.2 Legados per vindicationem e per damnationem


Esta distingue entre os legados per vindicationem e per damnationem¸ consoante exista a
atribuição de um direito de propriedade ou um direito real sobre uma coisa, ou, apenas, um direito de
crédito contra o herdeiro. Isto deve-se ao facto de o Direito Romano ter base processual a contraposição
era efetuada na altura através de categoria de ações: as actiones in rem e as actiones in personam. E,
portanto, neste âmbito se o legatário disponha de uma ação de reivindicação (reinvidicatio) que
permitia reclamar a coisa junto do herdeiro ou de terceiro, estar-se-ia perante um legado per
vindicationem. Se não fosse este o caso, e houvesse meramente um crédito, estar-se-ia perante um
legado per damnationem.

Esta classificação, sendo clássica, foi pacifica nos juristas portugueses, que classificavam os
legados habitualmente consoante o testador atribuía ao legatário um direito real ou, antes, um direito
de crédito.
9.6.2.2.3 Legados dispositivos e obrigacionais
Esta classificação é baseada na classificação anterior, sendo formulada por Galvão Telles,
segundo este autor “nos legados dispositivos a propriedade do objeto do legado transmite-se
diretamente para o legatário, enquanto que nos legados obrigacionais a coisa só seria adquirida com o
comprimento por parte do sucessor onerado com o encargo”: a diferença em relação a classificação
anterior resulta de uma maior abrangência por parte dos legados dispositivos em relação aos legados
per vincidicationem¸ já que, enquanto estes se referiam a direitos reais sobre coisas, para Galvão Telles
os legados dispositivos abrangeriam também os atos de disposição de créditos, seja através da sua
transmissão para o legatário, não admitida no Direito Romano, seja através da sua extinção por perdão
do devedor. Ou seja, o legado pelo qual o testador atribuí ao legatário direitos de crédito ou perdoa
uma divida, seria considerado um legado dispositivo, e não um legado obrigacional.

9.6.2.2.4 Legados com eficácia imediata e mediata


Com base na classificação de Galvão Telles, Luís Carvalho Fernandes vem propor uma outra
classificação, distinguindo os legados com eficácia imediata e mediata. Nos legados com eficácia
imediata a aquisição da propriedade por parte do legatário ocorreria como efeito imediato do
testamento, enquanto que, nos legados com eficácia mediata estaria dependente de um segundo ato, a
praticar, normalmente, pelo herdeiro onerado com o legado. O autor ilustra a diferença com a
classificação de Galvão Telles com o legado de coisa genérica, que a seu ver seria um legado dispositivo
por implicar uma redução do ativo da herança, mas que não teria eficácia imediata, uma vez que a
transmissão da propriedade estaria dependente da especificação ou da escolha.

9.6.2.2.5 Posição de Menezes Leitão


Menezes Leitão pronuncia-se a favor da posição de Galvão Telles: pois não parece correta a
critica apresentada por Carvalho Fernandes, uma vez que resulta do Artigo 2253.º que o legado de coisa
genérica é válido ainda que nenhuma coisa daquele género se encontrasse no património do testador –
pelo que neste âmbito, não se esta necessariamente em causa um legado dispositivo, uma vez que a lei
não exige a existência de coisas deste género na herança. Por um outro lado, os legados obrigacionais
tem eficácia imediata, uma vez que fazem surgir um direito de crédito a favor do legatário.

9.6.2.3 Legados Dispositivos


Quanto a estes a lei menciona vários destes, sendo assim típicos, entre este encontra-se:

i) o legado de coisa certa e determinada;

ii) o legado de usufruto;

iii) o legado de crédito.

9.6.2.3.1 Legado de coisa certa e determinada


São legados dispositivos aqueles que incidam sobre coisa certa e determinada, sempre que tal
suceda o legatário beneficia da ação de reivindicação, podendo por isto reivindicar a coisa de terceiro,
nos termos do Artigo 2279.º: é no entanto duvidoso se o pode fazer se a coisa se encontrar em posse do
herdeiro ou de outro legatário:
i) a maioria da doutrina tem entendido que como a lei se refere apenas a reivindicação a
terceiro, neste caso estaria vedado do beneficiário da deixa a ação de reivindicação contra o herdeiro,
tendo a entrega de ser reclamada a quem esteja obrigado a cumprir o legado;

ii) Menezes Leitão discorda desta posição afirmado que o Artigo 2050.º dispõem que o
domínio e posse dos bens da herança adquirem-se pela aceitação, e sendo esta disposição aplicável aos
legados, parece que o legado de coisa certa e determinada institui o legatário na propriedade da
mesma, não vendo assim razão para proceder a reivindicação, apesar de dispor da ação do
cumprimento do legado, nos termos do Artigo 2270.º.

A ação de reivindicação tem de ser articulada com a aceitação do legado, apesar da primeira ser
imprescritível, a verdade é que o legado tem de ser aceite no prazo de 10 anos, nos termos do Artigo
2059.º e 2249.º, pelo que o legatário perderá a reivindicação se deixar ultrapassar este prazo sem
aceitar o legado. Se proceder a reivindicação, previamente a aceitação do legado, e encontrando-se
dentro do prazo para esta aceitação, considerar-se-ia ocorrer aceitação tácita do mesmo.

Finalmente, a extensão do legado de coisa certa e determinada, esclarece o Artigo 2269.º/1, que
na falta de declaração do testador sobre a extensão do legado, entende-se que ele abrange as
benfeitorias e partes integrantes, ou seja as despesas feitas para conservar ou melhorar as coisas, nos
termos do Artigo 216.º/1, e as coisas moveis ligadas aos prédios com carater de permanência, nos
termos do Artigo 204.º/3. O Artigo 2269.º/2 esclarece ainda que o legado de prédio rústico ou urbano,
ou do conjunto de prédios rústicos ou urbanos que constituam uma unidade económica, abrange, no
silêncio do testador, as construções nele feitas, anteriores ou posteriores ao testamento, e bem assim as
aquisições posteriores que se tenham integrado na mesma unidade.

Relativamente aos frutos da coisa legada, não havendo declaração do testador sobre os frutos
da coisa legada, o legatário tem direito aos frutos desde a morte do testador, com exceção dos
percebidos adiantadamente pelo autor da sucessão, nos termos do Artigo 2271.º.

9.6.2.3.2 Legado de usufruto


Um outro exemplo de legado dispositivo é o legado de usufruto, conforme se sabe pode
abranger parte ou a totalidade do património hereditário, nos termos do Artigo 2030.º/4. Sobre este
legado, refere o Artigo 2258.º que a respetiva deixa, na falta de indicação em contrário, considera-se
feita vitaliciamente, ou sendo feita a pessoa coletiva terá a duração de 30 anos, são estes os limites
máximos do direito de usufruto, previstos no Artigo 1443.º: presumindo a lei, assim, que o testador teve
a intenção de estabelecer o prazo máximo quando efetua legado de usufruto.

9.6.2.3.3 Legado de crédito


O outro exemplo de legado dispositivo é o legado de crédito, previsto no Artigo 2261.º, que
constitui a deixa de um crédito existente no património do testador. O seu carater dispositivo é
confirmado pelo facto de só produzir efeitos relativamente a parte que subsiste no património do
testador no momento da sua morte, nos termos do Artigo 2261.º/1. Por isto, a obrigação do herdeiro
limita-se a entrega ao legatário dos títulos respeitantes ao crédito, de acordo com o Artigo 2261.º/2, não
tendo de prestar qualquer auxílio a sua cobrança efetiva. Conforme acima se salientou, este legado é
objeto de normas interpretativas especiais, assim se:
i) for legada a totalidade dos créditos do testador deve-se entender em caso de dúvida o
legado só compreende os depósitos em dinheiro, excluindo os depósitos bancários e os títulos
ao portador e os nominativos, nos termos do Artigo 2262.º;

ii) for legado o receio de uma casa ou o dinheiro nela existente não se entende, no
silêncio do testador, que o legado abrange os créditos, ainda que na casa se encontrem os
documentos respetivos, nos termos do Artigo 2263.º.

9.6.2.4 Legados Obrigacionais


A lei menciona igualmente vários tipos de legados obrigacionais, entre eles encontra-se:

i) o legado de coisa genérica;

ii) o legado alternativo;

iii) o legado de prestação periódica.

9.6.2.4.1 Legado de coisa genérica


O legado de coisa genérica encontra-se previsto no Artigo 2253.º, o qual considera válido ainda
que nenhuma coisa deste género se encontrasse no património do testador à data do testamento e
nenhuma aí se encontre a data da sua morte, salvo se o testador declarar que a coisa existe no seu
património. Assim, se o testador legar a outra 20 garrafas de vinho do Porto é irrelevante se ele tinha ou
continuava a ter estas 20 garrafas no seu património, tendo os herdeiros de obter 20 garrafas para a sua
entrega, daí que este legado corresponda a um legado obrigacional, e não a um legado dispositivo, até
porque mesmo que existam garrafas de vinho do Porto na herança a escolha não tem que cair
necessariamente sobre elas, nos termos do Artigo 2266.º/2. A situação apenas se altera se o testador
declarar que as 20 garrafas do vinho do porto existem no seu património, neste caso se nenhuma
garrafa se lá encontrar é nulo o legado, nos termos do Artigo 2253.º, Parte Final.

A lei esclarece que compete a escolha das coisas dentro do género ao obrigado do cumprimento
do legado, a menos que o testador determine que esta escolha seja efetuada pelo próprio legatário ou
por terceiro, nos termos do Artigo 2266.º/1. Salvo estipulação do testador em contrário, a escolha
recairá sobre as coisas existentes na herança, salvo se não encontra nenhum do género designado, à luz
do Artigo 2266.º/2, Primeira Parte, cabendo a escolha ao legatário ele pode escolher a coisa melhor, a
menos que esta incida sobre coisas não existentes na herança, nos termos do Artigo 2266.º/2, Parte
Final.

As regras relativas a determinação da prestação, nos termos do Artigo 400.º, bem como ao da
escolha feita pelo credor ou por terceiros nas obrigações genéricas, nos termos do Artigo 542.º, são
correspondentemente aplicáveis, nos termos do Artigo 2266.º/3.

No caso de um sucessor onerado ou o legatário falecer antes de efetuar a escolha transmite-se


este direito ao seus direitos, nos termos do Artigo 2268.º.

9.6.2.4.2 Legado Alternativo


O legado alternativo é aquele que compreende duas ou mais prestações, mas que o onerado se
exonera se efetuar uma ou outra prestação, que por escolha vier a ser designada. O Artigo 2267.º
esclarece que aos legados alternativos estão sujeitos ao regime, devidamente adaptado, das obrigações
alternativas, sendo assim aplicáveis aos mesmos o disposto nos Artigos 543.º e ss., também no âmbito
do legado alternativo a escolha é transmitida aos herdeiros, se o sucessor onerado ou o legatário
falecerem sem a terem efetuado, nos termos do Artigo 2268.º.

9.6.2.4.3 Legado de prestação periódica


Um outro exemplo de legado obrigacional é o legado de prestação periódica, de que o legado de
alimentos constitui um caso particular. A lei esclarece que se o testador legar qualquer prestação
periódica o primeiro período corre desde a sua morte, tendo o legatário direito a prestação de cada
período, ainda que faleça no seu percurso, de acordo com o Artigo 2273.º/1. Daqui decorre que o
legado de prestação periódica se inicia com a morte do testador e termina com a morte do legatário,
mas caso o mesmo morra dentro deste período a mesma continua a ser devida. Assim, por exemplo, se
o legatário tiver direito a uma prestação anual a mesma é devida a partir do ano da morte do testador e
continua a ser devida no ano da morte do legatário, ainda que este faleça no início daquele. A mesma
regra verifica-se no legado de alimentos, o qual é igualmente devido a partir do momento da morte do
testador, mesmo que os alimentos só venham a ser fixados posteriormente, nos termos do Artigo
2273.º/2.

São, porém, diferentes os momentos de vencimento do legado de prestação periódica e o


legado de alimentos, uma vez que, enquanto o primeiro legado só é exigível no termo do período, mês
ou ano, o seguindo é exigível logo no início deste período, nos termos do Artigo 2273.º/3.

9.6.2.5 Regime da perturbação do legado


Quanto ao regime da perturbação na prestação, o chamado cumprimento defeituoso, também
o legado pode ser objeto de perturbações, que frustrem o direito do legatário, a lei refere 5 situações
deste tipo:

i) o legado de coisa alheia;

ii) o legado de coisa incluída na comunhão conjugal;

iii) o legado de coisa pertencente ao próprio legatário;

iv) o legado de coisa onerada;

v) o legado para pagamento de dívida inexistente ou extinta.

9.6.2.5.1 Legado de Coisa Alheia


Os legados dispositivos estão, naturalmente, sujeitos à regra que ninguém pode dispor de bens
que é titular. Assim, se no momento da abertura da sucessão se verificar que a coisa legada pertence a
outrem, o legado é nulo, nos termos do Artigo 2251.º/1, não produzindo, consequentemente, quaisquer
efeitos. No caso de o testador ter alienado a coisa correspondente ao legado considera-se ter ocorrido
revogação deste, nos termos do Artigo 2316.º/1. O legado pode, porém, ser valido se de o testamento
se depreender que o testador sabia que não lhe pertencia a coisa legada, nos termos do Artigo 2251.º/1,
Parte Final, neste caso este legado será valido sendo considerado um legado obrigacional, assim o
sucessor que aceitar a disposição fica obrigado a adquirir a coisa e transmiti-la ao legatário ou
proporciona-la de qualquer outro modo, não sendo isto possível fica obrigado a pagar ao legatário o
valor da coisa, porém, já no caso da coisa lhe pertencer ficará obrigado a transmiti-la ao legatário, nos
termos do Artigo 2251.º/2.

O regime do legado de coisa alheia é aplicável igualmente no caso de a coisa legada não
pertencer por inteiro ao testador, verificando-se a nulidade, no entanto apenas em relação a parte que
não lhe pertencer, de acordo com o Artigo 2252.º/1. Neste caso, porém, se resultar do testamento que
o testador sabia que a coisa não lhe pertencia por inteiro, o legado será considerado como obrigacional
em relação a parte alheia, ficando o sucessor onerado com o legado, igualmente, obrigado a
proporcionar aquisição da coisa ao legatário ou a pagar-lhe o valor dela, de acordo com o Artigo
2252.º/1, Parte Final e Artigo 2251.º/2

9.6.2.5.2 Legado de coisa certa e determinada integrada na comunhão conjugal


Efetivamente como em relação aos bens comuns, o cônjuge só tem direito a sua meação, só
dela pode dispor por morte, nos termos do Artigo 1685.º/1, não podendo assim dispor de coisa certa e
determinada integrada na comunhão conjugal, se, porém, apesar desta proibição, o cônjuge efetuar a
disposição de coisa certa e determinada, estabelece o Artigo 1685.º/2, que esta disposição apenas dá ao
contemplado o direito de exigir o respetivo valor em dinheiro. Daqui resulta que esta disposição é nula
quanto ao objeto legado, sendo, porém, objeto de conversão num legado do respetivo valor. Admite o
Artigo 1685.º/3, que possa ser exigida a coisa em espécie, ou seja o legado é valido quanto ao objeto,
nas seguintes situações:

i) a coisa por qualquer título estiver tornado propriedade exclusiva do disponente à data
da sua morte;

ii) a disposição tiver sido previamente autorizada pelo outro cônjuge por forma
autêntica ou no próprio testamento;

iii) a disposição tiver sido feita por um dos cônjuges em benefício do outro.

9.6.2.5.3 Legado de coisa pertencente ao próprio legatário


Outra hipótese é a do legado de coisa pertencente ao próprio legatário, a que se referem os
Artigos 2256.º e 2257.º. Neste âmbito, há que distinguir entre a situação da coisa já pertencer ao
legatário à data do testamento, nos termos do Artigo 2256.º, ou ser por este adquirido em data
posterior, nos termos do Artigo 2257.º.

Se a coisa legada pertencia ao legatário na data da feitura do testamento e continua-lhe a


pertencer no momento da abertura da sucessão, a lei considera nulo o legado, nos termos do Artigo
2256.º/1. Se, porém, a data da abertura da sucessão a coisa pertencia ao testador, o legado passa a ser
considerado válido, o mesmo, igualmente, se verifica caso a coisa objeto do legado pertencia, no
momento da abertura da sucessão, ao herdeiro onerado com o legado ou a terceiro, e do testamento
resultar que a deixa foi feita na previsão deste facto, à luz do Artigo 2256.º/2. Neste último caso, aplica-
se ao legado o regime do legado de coisa pertencente ou onerada por terceiro, nos termos do Artigo
2256.º/3 que remete para o Artigo 2251.º/ 2 e 4.

Já se a coisa do legado for posteriormente adquirida pelo legatário ao testador, de forma


onerosa ou gratuita, determina o Artigo 2257.º/1, que o legado não produz qualquer efeito. A solução
compreende-se em virtude da inutilidade do legado, uma vez que o beneficiário já teria adquirido a
coisa que o testador proporcionou. Da mesma forma, o legado não produz qualquer efeito, se após o
testamento o legatário adquire a coisa a título gratuito do sucessor onerado ou a terceiro, já se adquirir
a título oneroso, o legatário pode adquirir o que houver desembolsado, quando do testamento resulte
que o testador sabia não lhe pertencer a coisa legada, nos termos do Artigo 2257.º/2.

9.6.2.5.4 Legado de coisa onerada


Uma outra hipótese, é o legado de coisa onerada, previsto no Artigo 2272.º, caso em que a coisa
legada não se encontra livre, mas sujeita a ónus ou encargos, a lei não atribui grande relevo a esta
situação, determinado que se a coisa estiver onerada com alguma servidão ou encargo passa com o
mesmo encargo para o legatário, nos termos do Artigo 2272.º/1. É uma solução que se compreende
atento a oponibilidade dos encargos existentes ao novo proprietário, mas também ao facto que com os
mesmo, o legatário continuar a ser beneficiado com a situação, não se justificando assim que possa
reclamar algo mais dos herdeiros. A lei estabelece uma exceção a esta regra em relação as prestações
atrasadas, que serão pagas por conta da herança, da mesma forma serão pagas pela herança as dividas
da hipoteca, bem de como outra garantia real constituída sobre a coisa objeto de encargo, nos termos
do Artigo 2272.º/2. Efetivamente, não faria sentido que o legatário fosse obrigado a cumprir prestações
vencidas antes do momento em que recebeu o legado, as quais devem pertencer na responsabilidade
da herança. Também, não se justifica que o facto de a coisa legada ter sido dada em garantia de uma
dívida do autor da sucessão, o obrigue a suportar esta dívida, caso em que só poderia ocorrer se o
legado tivesse sido estabelecido com este encargo.

9.6.2.5.5 Legado para pagamento de dívida inexistente ou extinta


Por fim, o legado para pagamento de dívida inexistente ou extinta, a que se refere o Artigo
2259.º. Efetivamente, destinando-se o legado a solver uma divida, o facto desta não existir ou de ter
sido, posteriormente, extinta, impede o legado de desempenhar a função visada pelo testador. A lei
distingue as situações da dívida nunca ter existido ou se ter, entretanto, extinguido.

Relativamente a situação da dívida nunca ter existido, determina a lei que se o testador legar
certa coisa ou certa soma como por ele devida ao legatário, é válido o legado, ainda que a soma ou coisa
não fosse realmente devida, salvo sendo o legatário incapaz de a haver por sucessão, nos termos do
Artigo 2259.º/1. A inexistência da dívida não afeta a validade do legado, uma vez que foi vontade do
testador de atribuir a coisa ou quantia ao legatário, independentemente da dívida, sendo que a sua
menção no testamento vale como reconhecimento da mesma. A situação altera-se no caso de o
legatário ser incapaz de receber a coisa por sucessão, efetivamente, se o legatário, por indignidade ou
por indisponibilidade relativa, não poder receber bens do testador, a falsa referencia a existência de
uma divida permitiria ilidir a aplicação destes institutos, considerado a lei nulo o legado nestas
situações.

Relativamente a situação da dívida se ter, entretanto, extinto, determina a lei que o legado fica,
todavia, sem efeito, se o testador, sendo devedor ao tempo da feitura do testamento, cumprir a
obrigação posteriormente, nos termos do Artigo 2259.º/2. Esta situação compreende-se pelo facto que
o cumprimento posterior da dívida pode ser interpretado como a revogação tácita do legado, nos
mesmos termos da alienação da coisa legada, de acordo com o Artigo 2316.º.

9.6.2.6 Instituição de Fundações


Estas pessoas coletivas podem ser constituídas através de testamento, nos termos do Artigo
185.º/1. Nestes casos, os herdeiro do testador não podem revogar a instituição, sem prejuízo do
disposto acerca da sucessão legitimária, de acordo com o Artigo 185.º/3, o que naturalmente implica a
sujeição da instituição da fundação ao regime geral da redução por inoficiosidade. Para efeitos da
instituição da fundação, o testador terá de indicar no testamento o fim da fundação, e especificar os
bens que lhe pretende destinar, nos termos do Artigo 186.º/1. O testador pode ainda formular os
estatutos, providenciar a sua sede, organização e funcionamento da fundação, regular os termos da sua
transformação ou extinção, e o destino dos respetivos bens, nos termos do Artigo 186.º/2. Caso o
testador não formule os estatutos, determina o Artigo 187.º/1, que cabe aos executores do testamento
a sua elaboração ou acabamento. Caso os executores não lavrem dentro do ano posterior à abertura da
sucessão esta tarefa passa a competir a autoridade competente para o reconhecimento da fundação,
sendo que na elaboração dos estatutos deverá se tomar em conta a vontade real ou presumível do
testador. A aquisição da personalidade jurídica da fundação depende sempre de reconhecimento por
parte da autoridade competente para o reconhecimento da fundação, de acordo do Artigo 188.º/1, o
qual pode ser recusado, caso em que se verifica a ineficácia da disposição testamentária, sempre que,
nos termos do Artigo 188.º/3:

i) Se os fins da fundação não forem considerados de interesse social pela entidade


competente, designadamente se aproveitarem ao instituidor ou sua família ou a um universo
restrito de beneficiários com eles relacionados;

ii) Se o património afetado for insuficiente ou inadequado, designadamente se estiver


onerado com encargos que comprometam a realização dos fins estatutários ou se não gerar
rendimentos suficientes para garantir a realização daqueles fins;

iii) Se os estatutos apresentarem alguma desconformidade com a lei.

Os bens entregues devem ser entregues a uma associação ou fundação de fins análogos, que a
entidade competente designar, salvo disposição do instituidor em contrário, nos termos do Artigo
188.º/5. Sendo efetuado o reconhecimento, o mesmo importa a aquisição, pela fundação, dos bens e
direitos que o ato de instituição lhe atribui, nos termos do Artigo 188.º/2. Deste modo, dispensa-se a
aceitação, normalmente exigida, nos termos do Artigo 2050.º.

9.6.3 Cláusulas Acessórias do Testamento


Uma vez que, como qualquer negócio jurídico, o testamento pode ser sujeito a cláusulas
acessórias, de que constituem exemplos:

i) a condição;

ii) a termo;

iii) o modo

9.6.3.1 Condição
A condição está prevista nos Artigos 270.º e ss. quanto ao negócio jurídico em geral, sendo
consequentemente aplicáveis ao testamento. Confirmando esta orientação, dispõe o Artigo 2229.º que
o testador pode sujeitar a instituição de herdeiro ou legatário a condição suspensiva ou resolutiva, com
as limitações dos Artigos 2230.º e ss. A principal limitação que se verifica é a que ocorre em relação as
condições impossíveis, contrárias à lei ou à ordem pública, ou ofensiva dos bons costumes, as quais são
consideradas como não escritas, de acordo com o Artigo 2230.º:

i) a condição impossível é aquela que desde o início é insuscetível de se verificar, não


correspondendo assim ao facto futuro e incerto que carateriza a condição, um exemplo
corresponde ao facto do testador deixar a herança na condição dos beneficiários beberem o
oceano;

ii) a condição contrária a lei ou ordem pública é aquela que infringe qualquer disposição
legal, ou no caso da ordem pública infringe valores fundamentais da sociedade civil, seria por
exemplo o facto de alguém deixar determinada herança a outrem na condição deste cometer
um crime;

iii) a condição ofensiva dos bons costumes atenta contra regras da moral social ou
contra regras de conduta deontológicas.

A lei dá exemplos de várias condições contrárias à lei, embora esta enumeração é meramente
exemplificativas, devendo considerar-se nulas as condições que limitem a liberdade individual do
beneficiário da disposição em termos semelhantes.

A condição captatória, pela qual o testador condiciona a deixa ao facto do herdeiro ou legatário
fazer igualmente no testamento alguma disposição a favor do testador ou de outro, de acordo como
Artigo 2231.º. A proibição desta condição resulta da enorme limitação que esta coloca a liberdade de
testar, coagindo o beneficiário a dispor dos seus bens por morte em contrapartida da aquisição da
herança ou do legado.

Sem igualmente exemplos de condições contrárias à lei, a condição de residir ou não residir em
certo prédio ou local, de conviver ou não conviver com certa pessoa, de não fazer testamento, de não
transmitir a determinada pessoa os bens deixados ou de os não partilhar ou dividir, de não requerer
inventário, de tomar ou deixar de tomar o estado eclesiástico ou determinada profissão e as cláusulas
semelhantes, nos termos do Artigo 2232.º. A proibição resulta do facto de restringirem a liberdade do
beneficiário de decidir na sua vida, na sua profissão ou no destino a dar aos bens que recebeu, a lei
admite no entanto que o testador imponha ao legatário a obrigação de dar preferência a determinada
coisa na venda ou na celebração de outro contrato, nos termos gerais dos pactos de preferência, de
acordo com o Artigo 2235.º.

Da mesma forma considera-se contraria à lei, a condição de celebrar ou não celebrar


casamento, nos termos do Artigo 2233.º/1. Efetivamente, esta condição limita a decisão de contrair ou
não casamento, a qual tem de corresponder a uma decisão livre do beneficiário. A lei considera válida a
deixa de usufruto, uso, habitação, pensão ou outra prestação contínua ou periódica para produzir efeito
enquanto durar o estado de solteiro ou viúvo do legatário, nos termos do Artigo 2233.º/2. A validade
excecional desta deixa resulta de se achar merecedora de tutela a pretensão do testador de apenas
conceder estes apoios ao legatário enquanto ele se mantiver solteiro ou viúvo, uma vez que estar
casado implica, em princípio, ter alguém que o possa ajudar na sua vida.

Ao contrário do que se verifica nas regras gerais, em que o negócio sujeito a este tipo de
condições é, normalmente, nulo, nos termos do Artigo 271.º, a validade destas deixas não é prejudicada
por uma condição física ou legalmente impossíveis, sendo estas consideradas não escritas, nos termos
do Artigo 2230.º/1, salvo declaração do testador em contrário. Pelo contrário, as condições contrária à
lei ou à ordem pública, ou ofensiva dos bons costumes, têm-se igualmente por não escrita, ainda que o
testador haja determinado o contrário, nos termos do Artigo 2230.º/2, sem prejuízo do disposto no
Artigo 2186.º, o qual prevê a nulidade da disposição testamentário, cujo o fim seja contrária à lei, à
ordem pública ou ofensiva dos bons costumes.

9.6.3.1.1 Regime da pendência da condição


A pendência da condição no âmbito do negócio testamentário obedece a um regime especial,
constante dos Artigo 2236.º e ss., o qual se diferencia do regime geral previsto, nos Artigos 272.º e ss. O
regime da pendência da condição é distinto consoante a condição seja resolutiva ou suspensiva, por
vezes a distinção destas duas realidades não é fácil, pelo que a lei vem esclarecer que se a herança ou o
legado for deixado na condição do beneficiário não dar certa coisa ou não praticar certo ato por tempo
indeterminado, a disposição considera-se feita sob condição resolutiva, a não ser que o contrário resulte
do testamento, nos termos do Artigo 2234.º.

Sendo a condição resolutiva, determina o Artigo 2236.º/1 que o tribunal pode impor ao herdeiro
ou legatário a obrigação de prestar caução no interesse daqueles a favor de quem a herança ou legado
será deferido no caso de a condição se verificar, essa obrigação pode ser dispensada pelo testador, nos
termos do Artigo 2236.º/3. Sendo o sucessor obrigado a prestar caução, a não prestação da mesma
implica que a herança ou legado, seja posta em administração, nos termos do Artigo 2237.º/2.

Sendo a condição suspensiva, há que distinguir consoante a disposição seja a título de herança
ou de legado. Sendo uma disposição a título de herança atribuída sob condição suspensiva é posta a
herança em administração, até que a condição se cumpra ou haja a certeza de que não pode cumprir-se,
nos termos do Artigo 2237.º/1. Já se tratando de legado dependente de condição suspensiva ou termo
inicial, o tribunal pode impor àquele que deva satisfazer o legado a obrigação de prestar caução no
interesse do legatário, de acordo com o Artigo 2236.º/2, neste caso o legado só é posto em
administração caso a caução não seja prestada, nos termos do Artigo 2237.º/2, podendo o testador
excluir esta solução, à luz do Artigo 2236.º/3.

No caso de herança sob condição suspensiva, a administração pertence ao próprio herdeiro


condicional e, se ele a não aceitar, ao seu substituto; se não existir substituto ou este também a não
aceitar, a administração pertence ao co-herdeiro ou co-herdeiros incondicionais, quando entre eles e o
co-herdeiro condicional houver direito de acrescer, e, na sua falta, ao herdeiro legítimo presumido, nos
termos do Artigo 2238.º/1. Já no caso da herança sujeita a condição resolutiva ou do legado sujeito a
qualquer obrigação, em caso de incumprimento a administração compete aquele em cujo interesse a
caução devia ser prestada, à luz do Artigo 2238.º/2, podendo o tribunal pronunciar-se de forma
diferente se ocorrer justo motivo, segundo o Artigo 2238.º/3. A administração da herança é sujeita ao
mesmo regime da curadoria provisória, nos termos do Artigo 2239.º, o que implica a aplicação dos
Artigo 93.º e ss.

9.6.3.1.2 Verificação da condição


Quanto a verificação da condição, o Artigo 2242.º/1, manda retroagir os efeitos da verificação
da condição à morte do testador, considerando como não escritas as declarações testamentárias em
contrário. Esta regra desvia-se do estabelecido no Artigo 276.º, que manda retroagir os efeitos da
verificação da condição à data da conclusão do negócio jurídico. O que é explicável devido a natureza
mortis causa do testamento. O Artigo 2242.º/2 manda aplicar o regime do Artigo 277.º/2 e 3, esclarece
que assim o preenchimento da condição não prejudica a validade dos atos de administração ordinária
realizados, enquanto a condição estiver pendente, pela parte a quem incumbir o exercício do direito, à
luz do Artigo 277.º/2 ex vi Artigo 2242.º/2, e em relação aos frutos são aplicáveis as regras relativas à
aquisição de frutos pelo possuidor de boa fé, nos termos do Artigo 277.º/3.

9.6.3.2 Termo
O testamento pode igualmente ser sujeito a termo, porém a sua admissibilidade é muito
restrita, nos termos do Artigo 2243.º, o qual limita muito a aplicação ao testamento do regime geral,
previsto nos Artigos 278.º e 279.º. Efetivamente a lei não admite a sujeição da instituição de herdeiro a
termo inicial, nem a termo final, considerando estas cláusulas como não escritas, nos termos do Artigo
2243.º/2. O que implica que o herdeiro adquire imediatamente a herança à título definitivo,
independentemente, de qualquer estipulação de termo. Já a nomeação de legatário pode estar sujeita a
termo inicial, mas este apenas suspende a execução da disposição, não impedindo que o nomeado
adquira logo direito ao legado, nos termos do Artigo 2243.º/1, já a sujeição a termo final tem-se por não
escritas, exceto se a disposição versar sobre direito temporário, nos termos do Artigo 2243.º/2.
Efetivamente, o legado pode consistir num direito temporário como o usufruto, nos termos do Artigo
2258.º e 1443.º, neste caso, naturalmente, terminará com o decurso do prazo, com o qual foi
constituído.

9.6.3.2.1 Pendência do termo


A lei manda aplicar ao legado sujeito a termo inicial o mesmo regime do legado sujeito a
condição suspensiva, podendo ser imposta pelo tribunal a prestação de caução no interesse do
beneficiário, nos termos do Artigo 2236.º/2, a qual pode ser dispensada pelo testador, nos termos do
número 3 da mesma disposição. Em caso de não cumprimento desta disposição, o legado é posto sobre
administração, nos termos do Artigo 2237.º/2, a qual compete ao seu beneficiário, de acordo com o
Artigo 2238.º/2, embora o tribunal possa providenciar de forma diferente, havendo justo motivo, à luz
do Artigo 2238./º3.

9.6.3.2.2 Verificação do termo


Ao contrário do que sucede com o regime geral do termo, de acordo com o Artigo 278.º, e do
regime específico da condição no testamento, de acordo com o Artigo 2242.º, a verificação do termo
suspensivo no testamento não tem eficácia retroativa, uma vez que apenas a sua execução é suspensa,
dado que o legatário adquire imediatamente o seu direito, nos termos do Artigo 2243.º/1.

9.6.3.3 Modo
À semelhança do que sucede com as doações, de acordo com o Artigo 963.º/1, também as
disposições testamentárias podem ser oneradas com encargos, de acordo com o Artigo 2244.º. O modo
ou o encargo consiste num restrição, imposta ao beneficiário da liberalidade que o obriga a realizar
determinada prestação no interesse de outrem ou do próprio beneficiário, podendo por isto consoante
os casos revestir a natureza de uma obrigação, em sentido técnico, como de um mero ónus jurídico. Ao
contrário do que sucede com as doações em que o encargo pode ser imposto a favor do autor da
liberalidade, por natureza tal não pode ocorrer no testamento, salvo em sentido moral, como sucede
nos encargos a favor da alma, nos termos do Artigo 2224.º, ou destinados a perpetuar a memória do
testador.

Enquanto que a condição suspende a disposição testamentária, mas não obriga o beneficiário, o
modo obriga o beneficiário, mas não suspende a disposição testamentária. À semelhança do qua
acontece com a condição não é admissível no testamento a estipulação de encargos impossíveis,
contrários à lei ou à ordem pública, ou ofensivos dos bons costumes, nos termos do Artigo 2245.º. Se
forem física ou legalmente impossíveis, consideram-se não escritos, e não prejudicam o beneficiário,
salvo declaração em contrário, à luz do Artigo 2230.º/1 ex vi Artigo 2245.º. Se forem contrários à lei ou à
ordem pública, ou ofensivos dos bons costumes, consideram-se não escritos, ainda que o testador tenha
declarado o contrário, nos termos do Artigo 2230.º/2 ex vi Artigo 2245.º, salvo se se poder concluir que
o testamento foi determinado para este fim, caso em que será igualmente nulo, por força do Artigo
2186.º.

9.6.3.3.1 Regime
A lei prevê a possibilidade de o tribunal impor ao herdeiro ou legatário onerado pelos encargos
a obrigação de prestar caução, sempre que tal seja justificado e o testador não tenha disposto coisa
diversa, nos termos do Artigo 2246.º. A lei atribui a qualquer interessado o direito de exigir o
cumprimento dos encargos, sempre que o herdeiro ou legatário faltem ao seu cumprimento, de acordo
com o Artigo 2247.º. Relativamente aos interessados a quem é atribuída esta faculdade para além da
pessoa que o interesse ou dos seus credores, devem ser considerados como tais os sucessíveis que
possam beneficiar da resolução da disposição testamentaria. A resolução da deixa com fundamento na
falta de cumprimento dos encargos só é admissível, nos termos do Artigo 2248.º/1, se o testador o tiver
determinado ou se for lícito concluir por testamento que a disposição não seria mantida sem o
cumprimento do encargo, é permitido assim o apuramento da vontade real e da vontade hipotética do
testador, caso ele tivesse previsto a situação. O direito de resolução caduca, no entanto, decorridos 5
anos sobre a mora no cumprimento do encargo e, em qualquer caso, decorridos 20 anos sobre a
abertura da sucessão, nos termos do Artigo 2248.º/3. Caso se verifique a resolução da disposição, o
encargo deve ser cumprido pelo beneficiário da resolução, salvo se outra coisa resultar do testamento
ou da natureza da disposição, nos termos do Artigo 2248.º/2.

9.7 Revogação do Testamento


A revogação do testamento constitui um negócio jurídico extintivo do testamento anterior,
como este tem carater unilateral, o ato de autonomia privada que lhe dá origem, leia-se o negócio, pode
extinguir-se em virtude de um ato de autonomia privada de sinal contrário, emitido pelo mesmo autor.
Em virtude da revogação o testamento anterior torna-se supervenientemente ineficaz, dando-se
subsequentemente a sua extinção. Como o testamento corresponde a última vontade do testador é
essencial a sua revogabilidade, por este motivo o Artigo 2179.º inclui a revogabilidade na noção legal de
testamento, estabelecendo o Artigo 2211.º que o testador não pode renunciar a faculdade de renunciar
a faculdade de revogar o seu testamento, considerando como não escrita qualquer clausula que
contrarie esta faculdade.

9.7.1 Modalidades
A revogação pode corresponder a várias modalidades:
i) se estiver em causa o modo de efetuar a revogação distingue-se entre revogação:

a) expressa;

b) tácita;

c) real.

ii) se estiver em causa o âmbito da revogação distingue-se entre revogação:

a) total;

b) parcial.

9.7.1.1 Modo da Revogação


9.7.1.1.1 Revogação Expressa
A revogação diz-se expressa quando o testador declara noutro testamento ou em escritura
pública que revoga, em todo ou em parte, o testamento anterior, nos termos do Artigo 2312.º. Embora
esta disposição se refira indistintamente a qualquer escritura pública, a verdade é que a escrituras
públicas de revogação de testamentos correspondem a um ato notarial diferente das escrituras públicas
comuns, sendo por isto lavradas pelo notário no livro de notas para testamentos e escrituras de
revogação, previstas nos Artigos 7.º, a) e 11.º CN, e nunca no livro de notas para escrituras diversas,
previstas no Artigo 7.º, b) e 12.º CN.

9.7.1.1.2 Revogação Tácita


Já a revogação tácita do testamento ocorre quando o testador efetua um testamento
incompatível com o anterior, nos termos do Artigo 2313.º/1. Uma vez que a escritura de revogação tem
de ser expressa, a revogação tácita tem de constar necessariamente de um testamento com data
posterior, se aparecerem dois testamentos com a mesma data, não sendo possível determinar qual
deles é o mais recente, e forem incompatíveis entre si, consideram-se por não escritas as disposições
contraditórias, nos termos do Artigo 2313.º/2.

9.7.1.1.3 Revogação Real


Esta ocorre quando se verifica a inutilização do testamento, de acordo com o Artigo 2315.º, ou a
alienação ou transformação da coisa legada, à luz do Artigo 2316.º. Embora consistia em bom rigor um
caso de declaração tácita, uma vez que se deduz de factos que, com toda a probabilidade, revelam a
vontade de revogar o testamento, a lei autonomiza o caso da revogação real da revogação tácita.

A revogação real por inutilização do testamento apenas é possível em relação ao testamento


cerrado, ocorrendo nos casos em que o mesmo aparecer dilacerado ou feito em pedaços, neste caso
considerar-se-ia revogado, exceto quando se prove que o facto foi praticado por pessoa diversa do
testador, ou que este não teve intenção de o revogar ou se encontrava privado do uso da razão, nos
termos do Artigo 2315.º/1, presume-se que o facto foi praticado por pessoa diversa do testador, se o
testamento não se encontrava no seu espolio à data da morte deste, por força do Artigo 2315.º/2. A
destruição do testamento cerrado é um facto que permite presumir a vontade do testador em revogar o
testamento, porém trata-se de uma presunção ilidível ou iuris tantum, podendo ser afastada por prova
em contrário, à luz do Artigo 350.º/1, sendo que a presunção se deixa de aplicar se o testamento não se
encontrava no espolio do testador, pois uma vez que o testamento foi confiado a terceiro dificilmente
seria o seu autor a destruir.

A lei estabelece que a simples obliteração ou cancelamento do testamento, no todo ou em


parte, ainda que com ressalva de assinatura, não é havida como revogação, desde que se possa ler a
primitiva disposição, nos termos do Artigo 2315.º/3: desta resulta que se o testamento não aparecer
rasgado, mas apenas apagado ou riscado, a lei faz depender a revogação real da primitiva disposição
ficar ilegível, considerando inexistir revogação no facto contrário – esta justifica-se pelo facto de se
considerar duvidoso que o simples riscar ou apagar seja suficiente para indiciar a vontade do testador,
até por ser difícil provar quem o efetivamente o fez.

O outro caso de revogação real, referido no Artigo 2316.º, é o caso de alienação ou


transformação da coisa legada, a qual já é aplicável a qualquer testamento, incluindo o testamento
público. Em relação a alienação da coisa legada, a lei estabelece que se o testador proceder a alienação
total ou parcial da coisa legada, tal implica revogação correlativa do legado – a referida alienação pode
decorrer de um negócio oneroso ou gratuito inter vivos, uma vez que se resultasse do testamento se
consideraria esta revogação como tácita, nos termos do Artigo 2313.º. Já parece ser também
considerada como real a revogação decorrente da alienação através de um pacto sucessório. O legado
continua a considerar revogado caso a alienação seja anulada por fundamento diverso da falta ou vícios
da vontade do alheador, ou ainda que este readquira por outro modo a propriedade da coisa, nos
termos do Artigo 2316.º/1.

Já em relação a sua transformação determina a lei que se o testador proceder a sua


transformação da coisa legada noutra de diferente forma, designação ou natureza, tal implica a
revogação do legado, nos termos do Artigo 2316.º/2.

Estes casos de revogação real constituem meras presunções, admitindo-se a prova que o
testador ou alienar ou transformar a coisa, não quis revogar o legado, de acordo com o Artigo 2316.º/3.
Não se vê, porém, que o legado possa ser cumprido, dado o facto que a lei considera nulo o legado de
coisa alheia, nos termos dos Artigos 2251.º e 2252.º, bem como o legado de coisa não existente no
espolio do testador.

9.7.1.2 Âmbito da Revogação


A revogação diz-se total se o testador elimina todo o conteúdo do seu testamento, dizendo-se
parcial se o testador afetar apenas uma parte deste. No Artigo 2311.º/1 admite-se que o testador possa
proceder a revogação do testamento com qualquer destes efeitos.

Tanto a revogação expressa como a tácita podem ser totais ou parciais, consoante o âmbito da
declaração expressa ou a incompatibilidade do testamento posterior.

Já a revogação real por inutilização do testamento é necessariamente total, uma vez que neste
caso nada se pode aproveitar do testamento anterior, pelo contrário, a revogação real por alienação ou
transformação da coisa legada é necessariamente parcial, pois incide apenas sobre aquele legado, só
podendo ser considerada revogação total na hipótese do testamento anterior ter unicamente este
conteúdo.

9.7.2 Revogação do Testamento Revogatório


Pode acontecer que, depois do testador revogar tácita ou expressamente o seu testamento, o
testamento que procedeu a esta revogação seja por sua vez revogado, neste caso a lei estabelece que a
revogação continua a produzir os seus efeitos, não implicando a segunda revogação a repristinação do
testamento anterior, nos termos do Artigo 2314.º/1. Prevê se, no entanto, que o testamento anterior
possa recuperar a sua força, se o testador revogado o testamento posterior declare ser a sua vontade
que revivam as disposições do testamento anterior, nos termos do Artigo 2314.º/2.

9.7.3 Caducidade do Testamento


Esta encontra-se prevista no Artigo 2317.º, o qual estabelece que tanto a instituição de herdeiro
como a nomeação de legatário caducam, se:

i) Se o instituído ou nomeado falecer antes do testador, salvo havendo representação


sucessória;

ii) Se a instituição ou nomeação estiver dependente de condição suspensiva e o sucessor


falecer antes de a condição se verificar;

iii) Se o instituído ou nomeado se tornar incapaz de adquirir a herança ou o legado;

iv) Se o chamado à sucessão era cônjuge do testador e à data da morte deste se


encontravam divorciados ou separados judicialmente de pessoas e bens ou o casamento tenha
sido declarado nulo ou anulado, por sentença já transitada ou que venha a transitar em julgado,
ou se vier a ser proferida, posteriormente àquela data, sentença de divórcio, separação judicial
de pessoas e bens, declaração de nulidade ou anulação do casamento;

v) Se o chamado à sucessão repudiar a herança ou o legado, salvo havendo


representação sucessória.

Estabelece a lei que a enumeração do Artigo 2317.º é meramente indicativa, podendo a lei
estabelecer outras disposições que completam ou acrescentam casos de caducidade, nos termos do
Artigo 2317.º, proémio. Assim:

i) ao Artigo 2317.º, b) deve ser acrescentado os casos da certeza da não verificação da condição
suspensiva ou a verificação da condição resolutiva em vida do testador ou sucessor, nos termos do
Artigo 2229.º;

ii) à dependência em relação ao casamento das disposições testamentárias efetuadas pelo


cônjuge ao seu consórcio, referida no Artigo 2317.º, d), há que considerar ainda que:

a) os Artigos 1791.º e 1794.º estendem esta dependência quando as mesmas sejam


feitas, quer pelo cônjuge, quer por terceiro, em vista do casamento ou da consideração do
estado de casado, as quais caducam com o divorcio ou separação de pessoas e bens do
beneficiário;

b) para além disto (antigamente) se o cônjuge voltar a casar (sem respeitar o prazo
internupcial) perde todos os bens de que haja recebido do antigo cônjuge, nos termos do Artigo
1650.º/1 (revogado à luz do Artigo 2.º, a) Lei 85/2019);
iii) há ainda que considerar a dependência das disposições testamentarias em relação a
convecção antenupcial, assim:

a) em primeiro lugar, se se verificar a caducidade da convenção antenupcial, nos termos


do Artigo 1760.º, ficam sem efeito as disposições testamentárias a favor de terceiro que dela
constava, nos termos do Artigo 1704.º;

b) da mesma forma se ambos os esposados fizerem disposições recíprocas na


convenção antenupcial e se verificar a invalidade de uma delas, caduca a outra, nos termos do
Artigo 1706.º;

iv) para além disto, o Artigo 2317.º, e) apenas se refere ao repúdio da disposição testamentária,
havendo que a este acrescentar o decurso do prazo para aceitar ou repudiar a herança ou legado, nos
termos do Artigo 2059.º.

v) uma outra causa de caducidade é o ter decorrido o prazo de eficácia dos testamentos
celebrados de acordo com as formas especiais, nos termos do Artigo 2222.º;

vi) por fim, uma outra causa de caducidade é o facto de o bem legado já não pertencer ao
testador, ou porque foi adquirido pelo legatário, nos termos do Artigo 2257.º, ou porque já não existe
no espolio do testador, nos termos do Artigo 2254.º.

10. Sucessão Contratual


O Artigo 2028.º/1 proíbe em princípio a sucessão contratual, o qual se compreende dado que o
testamento é um ato unilateral, e por isto revogável, enquanto que um pacto sucessória estaria sujeito a
regra do pacta sunt servanta, à luz do Artigo 406.º/1, vedando a sua revogação unilateral, impedindo o
de cuius de alterar em vida a sua última vontade, assim os pactos sucessórios são nulos, com a exceção
dos previstos em disposições legais especiais e da possibilidade da conversão da doação por morte em
testamento, prevista no Artigo 946.º/2.

10.1 Modalidades
Há 3 modalidades de pacto sucessório previstas no Artigo 2028.º:

i) pactos sucessório renunciativos, mediante os quais alguém renuncia à sucessão de


pessoa ainda em vida;

ii) pactos sucessórios aquisitivos ou designativos, mediante os quais alguém regula a sua
própria sucessão;

iii) pactos sucessórios dispositivos, mediante os quais alguém dispõe de sucessão de


terceiro ainda não aberta.

10.1.1 Pactos Renunciativos


Nestes, os chamados pacto de non sucedendo, é estabelecido um acordo entre o autor da
sucessão e o seu sucessível, nos termos do qual o sucessível renuncia em vida do autor à sucessão,
efetuando, assim, um repúdio antecipado do mesmo. Seria exemplo disto o acordo entre pai e filho, do
qual este renuncia a herança do pai.
10.1.2 Pactos Aquisitivos ou Designativos
Nestes, os chamados pacto de sucedendo, o autor institui alguém como seu herdeiro ou
legatário, mas em lugar de o fazer por testamento, fá-lo por contrato, celebrado com o sucessível, assim
designado.

10.1.3 Pactos Dispositivos


Nestes, pacta de hereditate tertii ou de sucesione tertii, alguém convencido que irá suceder a
determinada pessoa em vida, celebra com outrem um contrato, ainda em vida daquela, pelo qual dispõe
desta sucessão em todo ou em parte.

10.2 Regime
Nos termos do Artigo 2028.º/2, os pactos sucessórios apenas são válidos nos casos previstos na
lei: isto implica a nulidade de todos os pactos dispositivos, podendo, no entanto, ser válidos alguns
pactos designativos e um caso de pactos renunciativos, nos termos do Artigo 1700.º.

Os pactos designativos correspondem a doações por morte, nos termos das quais se atribui ao
donatário a qualidade de herdeiro ou legatário, situação que apenas se admite no âmbito da convenção
antenupcial, nos termos do Artigo 1700.º/1, a) e b). Já os pactos renunciativos correspondem ao repúdio
antecipado de uma sucessão ainda não aberta, fazendo assim o sucessor prescindir antecipadamente de
uma sucessão, que ainda não se verificou, na altura em que o sucessor não está em condições de tomar
uma decisão esclarecida sobre o assunto, pelo que estes pactos são por regra proibidos, sendo apenas
admitida a renúncia reciproca a condição de herdeiro legitimário do outro cônjuge, na convenção
antenupcial quando o regime de bens convencional ou supletivo seja o da separação de bens, nos
termos do Artigo 1700.º/1, c) e 3.

Sendo nulos os pactos sucessórios, esta está sujeita ao regime da nulidade nos negócios
jurídicos em geral, à luz do Artigo 285.º e ss., e não em relação ao regime da nulidade atípica do negócio
testamentário.

10.2.1 Pactos Sucessórios Renunciativos


A Lei n.º 48/2018 veio dilatar consideradamente o âmbito dos pactos sucessórios, ao prever que
um pacto sucessório renunciativos, a renúncia recíproca dos cônjuges a condição de herdeiro legitimário
do outro cônjuge, respetivamente agora o Artigo 1700.º/1, c) prevê que os cônjuges possam renunciar
reciprocamente na convenção antenupcial à condição de herdeiro legitimário do outro cônjuge. O Artigo
1700.º/3 determina, no entanto, que esta estipulação apenas é admitida caso o regime de bens,
convencional ou imperativo, seja o da separação: assim, a estipulação de qualquer outro regime
matrimonial ou a ausência de convenção antenupcial, excluí assim a possibilidade de celebrar o pacto
renunciativos. Sendo que, nos termos do Artigo 1707.º-A/1 a renúncia pode ser condicionada à
sobrevivência ou não de sucessíveis de qualquer classe, bem como de outras pessoas, nos termos do
artigo 1713.º, não sendo necessário que a condição seja recíproca. Em qualquer caso, mesmo que a
condição não seja recíproca, a renúncia tem de o ser, nos termos do Artigo 1700.º/1, c), pelo que na
condição terá de ser referida a renúncia de ambos os nubentes, e não apenas de um.

A renúncia tem como efeito a perda do cônjuge da condição de herdeiro legitimário, mas a lei
não deixa de reconhecer a este direitos especiais em relação a herança:
i) não são considerados inoficiosas as liberalidades feitas ao cônjuge até a parte da
herança correspondente a legítima subjetiva deste, caso a renúncia não existisse: a lei permite assim
que o cônjuge seja contemplado pelo de cuius em doação ou testamento como verdadeiro herdeiro
legitimário, e colocando estas liberalidades numa legítima subjetiva fictícia criada para o efeito;

ii) não prejudica outros direitos do cônjuge não relacionada com a sua posição
sucessória, designadamente o direito à alimentos do cônjuge sobrevivo, previstos no Artigo 2018.º, ou
prestações socais por morte, nos termos do Artigo 1707.º-A/2 – a estes Menezes Leitão acrescenta o
direito de indemnização por morte da vítima, nos termos do Artigo 496.º/2;

iii) o cônjuge adquire ainda o direito especial sobre a casa, morada de família, uma vez
que o Artigo 1707.º-A/3, estabelece que sendo a casa de morada de família propriedade do falecido, o
cônjuge sobrevivo pode nela permanecer, pelo prazo de cinco anos, como titular de um direito real de
habitação e de um direito de uso do recheio, por sua vez o Artigo 1707.º-A/4 permite que este prazo
seja prorrogado pelo tribunal, excecionalmente e por motivos de equidade, considerando
designadamente a especial carência em que o membro sobrevivo se encontre, por qualquer causa,
sendo que a partir do momento em que o cônjuge atinge 65 anos, este direito torna-se vitalício, à luz do
Artigo 1707.º-A/10.

Estes não são concedidos ao cônjuge sobrevivo se este tiver casa própria no concelho da
casa de morada da família, ou neste ou nos concelhos limítrofes se esta se situar nos concelhos de
Lisboa ou do Porto, nos termos do Artigo 1707.º-A/6, sendo que estes direitos caducam se o interessado
não habitar a casa por mais de um ano, salvo se a razão dessa ausência lhe não for imputável, à luz do
n.º 5 do mesmo Artigo.

Esgotado o prazo em que beneficiou do direito de habitação, o cônjuge sobrevivo tem o


direito de permanecer no imóvel na qualidade de arrendatário, nas condições gerais do mercado, e tem
direito a permanecer no local até à celebração do respetivo contrato, salvo se os proprietários
satisfizerem os requisitos legalmente estabelecidos para a denúncia do contrato de arrendamento para
habitação, pelos senhorios, com as devidas adaptações, verbato do Artigo 1707.º-A/7: neste caso ou na
falta de acordo sobre a condição do contrato, pode o tribunal fixá-las, ouvidos os interessados, à luz do
n.º 8 idem.

Por fim, o cônjuge tem direito de preferência sobre o imóvel durante o tempo em que o
habitar a qualquer título, por força do Artigo 1707.º-A/9.

Faz-se a estes direitos atribuídos ao cônjuge que tiver renunciado a sua condição de herdeiro
legitimário não é de prever que a figura tenha grande aplicação, uma vez que a esmagadora maioria das
famílias tem apenas como património relevante a casa onde reside, o facto do cônjuge ser sempre
beneficiário de um direito de habitação da mesma, que se torna vitalício a partir do momento que
perfaz 65 anos, leva a que este património fique onerado a favor do cônjuge por um período
considerável, impedindo os herdeiros de ele dispor, o objetivo deste diploma de salvaguardar a posição
dos descendentes na hipótese do autor contrair casamento numa fase posterior da vida não é, assim,
assegurado.

10.2.2 Pactos Sucessórios Designativos


Relativamente a estes é tradicional no Direito Português a sua admissão da sua estipulação na
convenção antenupcial. Efetivamente, o Artigo 1457.º, § único, Código de Seabra já excecionava da
conversão da doação por morte em testamento as doações para casamento, ainda que hajam de
produzir o seu efeito após a morte do doador, inicialmente esta disposição teve uma interpretação
restritiva entendendo-se que as doações para casamento eram apenas aquelas efetuadas por terceiros
aos esposados, no entanto, um assento do Supremo Tribunal de Justiça de 16 de dezembro de 1927,
veio generalizar a admissibilidade dos pactos sucessórios designativos na convenção antenupcial, ao
prever que são válidas, genericamente, as convenções conjugais que se estipule o destino dos bens do
casal após dissolvido o matrimonio, contando que não se altere a sucessão dos herdeiros legitimários.

O Artigo 1700.º, a) e b) CC admite, consequentemente, a validade da estipulação na convenção


antenupcial de alguns pactos sucessórios designativos que se podem reconduzir aos seguintes:

i) a instituição de herdeiro e a nomeação de legatário através de doação mortis causa


feita na convenção antenupcial por um dos esposados a favor a outro ou reciprocamente em relação a
ambos;

ii) a instituição de herdeiro e a nomeação de legatário através de doação mortis causa


feita na convenção antenupcial por terceiro a favor de um ou de ambos os esposados;

iii) a instituição de herdeiro e a nomeação de legatário através de doação mortis causa


feita na convenção antenupcial por qualquer um dos esposados a favor de terceiro, contando que seja
pessoa certa e determinada e que intervenha, como aceitante, nesta convenção antenupcial;

iv) a lei considera como válidas as doações mortis causa feitas para casamento, desde
que sejam inseridas na convenção antenupcial, nos termos do Artigo 1755.º/2 e 1756.º, os quais são
sujeitas ao mesmo regime dos pactos sucessórios, para além do seu regime especial, constante dos
Artigos 1757.º e ss.;

O Artigo 1700.º/2 prevê a possibilidade de, como sucede nas doações, serem estipuladas
cláusulas de reversão, como as previstas nos Artigos 960.º e 961.º, e fideicomissárias, de acordo com os
Artigos 962.º e 2286.º e ss., desde que sejam respeitadas os limites gerais destas cláusulas. Estas
cláusulas são livremente revogáveis, a todo o tempo, pelo autor da liberalidade, nos termos do Artigo
1707.º.

10.2.2.1 Disposição do esposado a favor do outro ou reciprocamente em relação a ambos


Na convenção antenupcial qualquer dos esposados pode instituir o outro como herdeiro ou
nomeá-lo legatário, sendo também possível que ambos o façam reciprocamente, nos termos do Artigo
1700.º/1, a). Neste caso, a instituição contratual de herdeiro ou a nomeação de legatário não podem ser
unilateralmente revogadas após a aceitação, nem é lícito ao doador prejudicar o donatário por atos
gratuitos de disposição, nos termos do Artigo 1701.º/1, o doador pode apenas alienar os bens doados
com fundamento em grave necessidade, própria ou dos membros da sua família a seu cargo, desde que
haja autorização do donatário prestada por escrito ou o respetivo suprimento, nos termos do Artigo
1701.º/2. Caso o doador assim proceda, o donatário concorrera a sucessão do doador no valor que os
bens legados teriam à data da morte deste, devendo ser pago com preferência a todos os demais
legatários do doador, nos termos do Artigo 1701.º/3.
No caso da instituição ter por objeto uma quota da herança, continua a ser vedado ao doador
prejudicar o donatário por atos gratuitos de disposição, razão pela qual o valor desta quota é
estabelecido conferindo-se o valor dos bens que o doador haja disposto gratuitamente depois da
doação, nos termos do Artigo 1702.º/1, os quais devem ser somados ao remanescente da herança para
cálculo do valor da quota. A situação é alterada no caso da instituição abranger a totalidade da herança,
neste caso pode o doador dispor gratuitamente em vida ou por morte de 1/3 dela, sendo o cálculo da
mesma, igualmente, feito através da soma ao remanescente do valor dos bens doados, nos termos do
Artigo 1702.º/2. Porém, o doador pode no ato de doação renunciar, no todo ou em parte, a este direito,
à luz do Artigo 1702.º/3.

A lei determina a caducidade da instituição de herança e do legado contratuais a favor de


qualquer dos esposados, nos termos do Artigo 1760.º/1, nas seguintes situações:

i) se o casamento não for celebrado dentro de um ano, ou se, tendo-o sido, vier a ser
declarado nulo ou anulado, salvo o disposto em matéria de casamento putativo;

ii) se ocorrer divórcio ou separação judicial de pessoas e bens por culpa do donatário, se
este for considerado único ou principal culpado: a verdade é que esta referência a culpa do donatário no
Artigo 1760.º/1, b) deve-se considerar tacitamente revogada, pela Lei n.º 61/2008 que deixou de
apreciar a culpa em caso de divórcio, efetivamente o Artigo 1791.º/1 determina que: cada cônjuge
perde todos os benefícios recebidos ou que haja de receber do outro cônjuge ou de terceiro, em vista
do casamento ou em consideração do estado de casado, quer a estipulação seja anterior quer posterior
à celebração do casamento, sendo este regime aplicável a separação judicial de pessoas e bens, por
força do Artigo 1794.º.

iii) sendo que, também, o outro caso é o donatário falecer antes do doador, nos termos
dos Artigos 1703.º, a), 1760.º/1,a), 1790.º/1, e 1794.º.

Em caso de divorcio ou separação judicial de pessoas e bens pode o cônjuge autor determinar
que o benefício remeta para os filhos do casamento, nos termos do Artigo 1791.º/2 e 1794.º.

10.2.2.2 Disposição de terceiro a favor de um ou de ambos os esposados


Efetivamente, a convenção antenupcial pode igualmente incluir a instituição de herdeiro ou a
nomeação de legatário a favor de um ou de ambos os esposados, nos termos do Artigo 1700.º/1, b),
neste caso aplica-se também o regime dos Artigos 1701.º e 1702.º, com a especialidade das
liberalidades poderem ser revogadas por mutuo acordo a todo o tempo, nos termos do Artigo 1701.º/1,
Parte Final. Aplica-se também a caducidade previstas nas hipóteses de não celebração do casamento, de
divórcio ou separação judicial de pessoas e bens e de pré-falecimento do donatário, nos termos dos
Artigos 1703.º, a), 1760.º/1,a), 1790.º/1, e 1794.º: em caso de divorcio ou separação judicial de pessoas
e bens pode o terceiro, autor da liberalidade, determinar que o benefício remeta para os filhos do
casamento. Para além disto, a doação não caduca por pré-falecimento do donatário quando a este
sobrevivam descendentes legítimos nascidos do casamento, os quais são chamados para receber os
bens doados em lugar do donatário, nos termos do Artigo 1703.º/2.

Questiona-se se o Artigo 1703.º/2, cuja a redação corresponde a inicial do código, manteve-se


inalterada, em especial com a entrada em vigor da Constituição em 1976, em especial face ao princípio
da não discriminação entre os filhos nascidos dentro e fora do matrimonio, que é estabelecido pelo
Artigo 36.º/2 CRP: Menezes Leitão afirma que a designação de “descendentes legítimos” é
inconstitucional, e deve-se para o efeito considerar revogada, mas a solução substancial não se pode
considerar como tal, uma vez que se destina a favorecer os filhos daquele casamento, no âmbito da
convenção antenupcial estipulada, por este motivo tem-se de considerar que todos os netos são
chamados por Direito de Representação independentemente de serem nascidos de um ou outro
casamento.

10.2.2.3 Disposição dos esposados a favor de terceiros


Relativamente a esta, a lei distingue consoante a disposição seja feita a favor de pessoa que
intervenha na convecção antenupcial como aceitante, de acordo com o Artigo 1705.º, ou tal não venha
a ocorrer, como é o caso da disposição a favor de pessoas indeterminadas ou a favor de pessoa certa e
determinada que não intervenha na convenção, nestes casos considera-se que a disposição tem valor
meramente testamentário, podendo ser revogada pelo disponente, o qual não pode renunciar a esta
revogabilidade, e não produz quaisquer efeitos se a convenção caducar, nos termos do Artigo 1704.º.

Já se a disposição for feita a favor de pessoa que intervenha na convecção antenupcial como
aceitante, a disposição tem carater contratual, existindo um pacto sucessório a favor deste terceiro, o
qual é irrevogável, nos termos do Artigo 1701.º e 1702.º, à luz do Artigo 1705.º/1. A lei admite no
entanto a possibilidade do disponente reservar a faculdade de revogação, caso em que a disposição
pode ser livremente revogada, nos termos do Artigo 1705.º/2. Em qualquer caso, a doação pode ser
revogada por ingratidão do donatário, nos termos dos Artigos 970.º e ss., e sendo igualmente sujeita a
redução por inoficiosidade, à luz do Artigo 2168.º e ss., segundo o Artigo 1705.º/3. A disposição é ainda
ineficaz em caso de caducidade da convenção antenupcial, de acordo com o Artigo 1705.º/1, in fine,
caducando igualmente se o donatário falecer antes do doador, à luz do Artigo 1705.º/4.

Nos casos de ambos os esposados fazerem disposição a favor de terceiros pode consignar-se, na
convenção antenupcial, o carater correspetivo das duas disposições, caso em que a invalidade ou a
revogação de uma das disposições produz a ineficácia da outra, nos termos do Artigo 1706.º/1, neste
caso desde que uma das disposições começar a produzir os seus efeitos a outra já não pode ser
revogada ou alterada, exceto se o beneficiário da primeira a renunciar restituído quanto haja por esta
recebido, à luz do Artigo 1706.º/2.

10.2.2.4 Doação por morte para casamento


Este é, na prática, o pacto sucessório designativo mais comum, sendo disciplinado pelos Artigos
1753.º e ss. Nos termos do Artigo 1753.º/1, a doação para casamento é a doação feita a um dos
esposados, ou a ambos, em vista do seu casamento: ou seja, tem que ser feita antes do casamento,
tendo como donatário um ou ambos os esposados, sendo que o doador pode ser o outro esposado ou
terceiro, como referindo o Artigo 1704.º. Estas doações podem ser celebradas tanto inter vivos como
mortis causa, portanto a doação por morte para casamento é um pacto designativo, tal resulta do Artigo
1755.º/2, sendo aplicado o regime geral dos Artigos 1701.º a 1703.º, sem prejuízo do regime especial
previsto nos Artigos 1756.º e ss. Sendo que o Artigo 1756.º/1 determina que as doações para casamento
só podem ser feitas na convenção antenupcial, assim, as doações por morte para casamento são
consideradas nulas, por força do Artigo 946.º/1, sem prejuízo da sua conversão, à luz do Artigo 946.º/2.
Alguma doutrina tem defendido que se a doação constar de escritura pública e os nubentes levaram a
figura como noivos, se considera parte da convenção antenupcial, ainda que uma outra seja celebrada
pelos nubentes. As doações para o casamento estão sujeitas a redução por inoficiosidade e não são
revogáveis por mútuo consentimento, nos termos do Artigo 1758.º e 1759.º, mas estão sujeitas ao
regime de caducidade dos pactos sucessórios, já que o Artigo 1760.º/1, a), 1791.º e 1794.º estabelece,
respetivamente, a sua nulidade caso o casamento não venha a ser celebrado dentro de um ano, caso
venha a haver divórcio ou separação judicial de pessoas e bens, caducado caso o donatário faleça antes
do doador ou se nascerem descendentes do casamento caso em que estes são chamados, 1755.º/2 e
1703.º/2.

10.3 Natureza Jurídica da situação jurídica dos sucessíveis contratuais


A sucessão contratual atribui ao sucessível contratual uma tutela muito forte, a qual quase se
assemelha com a tutela atribuída ao sucessível legitimário, efetivamente, não é apenas limitada a
revogabilidade das disposições contratuais como também é restrita a possibilidade de alienação em vida
dos bens objeto da disposição contratual, sendo que o próprio método de cálculo da herança tem em
conta os bens doados após a disposição, em ordem a proteger o sucessível contratual.

A generalidade da doutrina entende que, sempre que exista um pacto sucessório irrevogável, o
sucessível já goza, em vida do autor da sucessão, de uma expectativa jurídica de aquisição dos bens em
causa, esta situação ocorre quer na situação em que a disposição contratual é desde início irrevogável,
quer quando supervenientemente adquire este efeito, como é o caso da hipótese do Artigo 1706.º/2. Já
no caso de a disposição poder ser revogável, a situação do sucessível contratual é equiparada a do
sucessível testamentário, uma vez que tem uma mera expectativa de facto, pois a situação pode ser
posta em causa na vida do autor.

10.4 Possibilidade de repúdio


Uma questão controversa é a de saber se o sucessível contratual, aquando da abertura da
sucessão, pode renunciar a herança ou o legado:

i) Pires de Lima e Antunes Varela respondem afirmativamente, considerando que a


natureza contratual das doações por morte, que envolve a aceitação do donatário, não o impede de na
altura do chamamento de repudiar a herança;

ii) Jorge Duarte Pinheiro entende que uma vez que o donatário aceitou a doação mortis
causa, em vida do doador, à data da abertura da sucessão não adquire o direito de aceitar ou repudiar a
herança, já se encontrando aceite, pois a aquisição se verifica automaticamente com a morte do
testador, sem que haja possibilidades de repúdio, isto, à luz da lição do autor, é confirmado pelo facto
do Artigo 2055.º não prever o chamamento do sucessível contratual;

iii) Daniel Morais entende que não pode repudiar a doação, uma vez que já a aceitou em
vida, mas pode aceitá-la, aquando da abertura, à título de benefício de inventário.

iv) Menezes Leitão defende que a posição de Daniel Morais é a que deve ser atendida,
uma vez que evita a possibilidade do donatário vir a responder com os seus próprios bens por dividas da
herança.

11. Sucessão Legitimária


A sucessão legitimária constitui uma modalidade injuntiva de sucessão, uma vez que o elenco de
herdeiros legitimários encontra-se legalmente fixado no Artigo 2157.º, mando o Legislador reservar uma
parte da herança a favor destes, a qual se denomina Legitima Objetiva, à luz do Artigo 2156.º. Não
podendo o autor da sucessão impor encargos a legitima nem designar os bens que a devem integrar,
nos termos do Artigo 2163.º. Efetivamente, a lei apenas admite que o autor da sucessão possa privar o
herdeiro legitimário da legitima através do instituto da deserdação, previsto no Artigo 2166.º, mas esta
só é admissível em casos excecionais que não afetam, por isto, a injuntividade da sucessão legitimária.

A sucessão legitimária constitui assim uma modalidade de sucessão legal, que se distingue da
legitima:

i) quer em relação ao universo dos sucessíveis, basta comparar o Artigo 2157.º com o
Artigo 2132.º;

ii)quer em relação ao regime da incapacidade sucessória, comparando o Artigo 2034.º e


Artigo 2166.º;

iii) quer pela forma do cálculo da legitima, de acordo com o Artigo 2162.º.

Sendo estabelecidos vários institutos destinados a tutela dos herdeiros legitimários como:

i) a tutela face os encargos, nos termos do Artigo 2163.º;

ii) a tutela face aos legados, nos termos dos Artigos 2164.º e 2165.º;

iii) a redução das doações por inoficiosidade, nos termos dos Artigos 2168.º e ss.

As regras da sucessão legitimária são igualmente as examinadas para a sucessão legitima,


compreendendo a preferência de classes, nos termos dos Artigos 2133.º e 2134.º, a preferência de
graus de parentesco, de acordo com o Artigo 2135.º, e a regra da divisão por cabeça, à luz do Artigo
2136.º.

11.1 Herdeiros Legitimários


Atendendo a sua injuntividade a sucessão legitimaria assume centralidade especial no âmbito
do nosso sistema sucessório: esta injuntividade não é, no entanto, absoluta, já que a devolução
sucessória não é imposta, tendo igualmente os herdeiros legitimários a possibilidade de repudiar a
herança.

Quanto ao elenco dos herdeiros legitimaria ele encontra-se previsto no Artigo 2157.º, o qual
refere que são herdeiros legitimários o cônjuge, os ascendentes e os descendentes, de acordo com as
regras da sucessão legítima. Há, no entanto, que sublinhar que são igualmente herdeiros legitimários o
adotado e os seus descendentes, bem como o adotante e os seus ascendentes, à luz do Artigo 1986.º. O
Decreto-Lei n.º 496/77 adotou a controversa solução de instituir o cônjuge como herdeiro legitimário,
atribuindo-lhe mesmo uma situação de privilégio na sucessão legitimária, uma vez que a sua legitima é
dividida de forma diferenciada da dos seus descendentes quando existem mais de 3, nos termos do
Artigo 2139.º/1. E é em qualquer caso muito superior a legitima dos ascendentes, nos termos do Artigo
2142.º. Esta situação de privilégio é reforçada pelo facto que o cônjuge não está sujeito a colação, nos
termos do Artigo 2104.º, e tem o direito de ser encabeçado no direito da habitação da casa de morada
da família e no direito de uso do respetivo recheio, à luz do Artigo 2103.º-A. Finalmente, esta posição
sucessória pode ser ainda mais reforçada, em virtude do regime de bens do casamento, na medida em
que caso seja estabelecida a comunhão conjugal, o cônjuge conserva o direito a sua meação nos bens
comuns, sendo apenas objeto da sucessão a meação que competia ao outro cônjuge. A Lei n.º 48/2018
admitiu, porém, a renúncia recíproca aos direito sucessórios por parte dos cônjuges na convenção
antenupcial, desde que o regime convencional ou imperativo adotado seja o da separação de bens, nos
termos do Artigo 1701.º/1, c) e 3.

11.2 Legítima
Quanto ao Artigo 2156.º define a chamada legitima objetiva como a porção de bens de que o
testador não pode dispor, por ser legalmente destinada aos herdeiros legitimário. Esta corresponde a
chamada quota indisponível, em contraposição a quota disponível, a qual corresponde a parte que o
testador não pode legitimamente dispor. A legitima subjetiva corresponde a parte que o testador não
pode dispor em relação a cada um dos herdeiros legitimários. Subsequentemente, a legítima objetiva
corresponde a soma das legítimas subjetivas.

11.2.1 Legítima Objetiva


Esta pode corresponder a 1/3 da herança a 2/3 da herança. Se o cônjuge concorrer com
descendentes ou ascendentes, a legítima é de 2/3 da herança, nos termos do Artigo 2159.º/1 e
2161.º/1. Se não existirem outros descendentes ou ascendentes e existir o cônjuge, a legítima deste
corresponde a ½ da herança, nos termos do Artigo 2158.º. Não existindo cônjuge, mas existirem
descendentes a legítima destes é de ½ ou de 2/3 da herança, conforme exista um só filho ou existam
dois ou mais filhos, nos termos do Artigo 2159.º/2. Não existindo cônjuge, mas existirem apenas
acidentes a legítima destes é de ½ ou 1/3 da herança conforme sejam chamados os pais ou os
ascendentes de segundo grau e seguintes, nos termos do Artigo 2161.º/2.

Pelo contrário, a resolução de uma vocação já realizada não prejudica o cálculo da legítima, pelo
que a indignidade declarada posterior à abertura da sucessão, não prejudica a legítima que foi nesta
altura fixada: assim, se o autor da sucessão tiver 2 filhos, e um deles for declarado indigno antes da
abertura da sucessão, a legítima seria de ½ da herança, mas se a indignidade resultar de causa posterior
à abertura da sucessão, a legítima mantem-se em 2/3 da herança. Já Corte-Real e Daniel Morais,
invocado razões de segurança jurídica consideram que a existência a que se referem os Artigos 2158.º e
ss. é apenas a existência física, pelo que no caso de um dos filhos ser indigno a sua existência é relevante
para a determinação do valor da legítima, operando direito de representação, se o mesmo tiver
descendentes, nos termos do Artigo 2042.º, ou o direito de acrescer para os restantes filhos do de cuius,
nos termos do Artigo 2137.º/2.

11.2.2 Legítima Subjetiva


A divisão da quota indisponível faz-se de acordo com as regras da sucessão legítima, nos termos
do Artigo 2157.º, o que implica que se aplica a regra da divisão por cabeça, nos termos do Artigo 2136.º,
a qual pressupõe a igualdade das diversas legítimas subjetivas, naturalmente, sem prejuízo do direito de
representação a que haja lugar, nos termos do Artigo 2138.º. Esta regra é, no entanto, quebrada no caso
do cônjuge concorrer com mais de 3 filhos, caso em que terá uma legítima subjetiva coincidente com ¼
da quota indisponível, de acordo com o Artigo 2139.º. Da mesma forma, no concurso do cônjuge com
ascendentes, este terá uma legítima subjetiva correspondente à 2/3 da quota indisponível, cabendo aos
ascendentes o 1/3 remanescente, nos termos do Artigo 2142.º.

11.2.3 Cálculo da Legítima


O cálculo da legítima encontra-se previsto no Artigo 2162.º, do qual resulta que para este
cálculo deve atender-se ao valor dos bens existentes no património do autor da sucessão à data da sua
morte, ao valor dos bens doados, às despesas sujeitas a colação e às dívidas da herança, tal corresponde
respetivamente ao chamado Relictum, Donatum, e Passivo da herança.

11.2.3.1 Relictum
O relictum corresponde ao valor dos bens existentes no património do autor da sucessão à data
da sua morte: o qual abrange os moveis, os imoveis, os créditos, e outros direitos: se o autor era casado
em algum regime de comunhão, integram o relictum também a sua meação dos bens comuns,
excluindo-se naturalmente a meação do outro cônjuge. Uma vez que o relictum é calculado com base no
património existente à data da abertura da sucessão são ainda incluindo neste os bens deixados por
testamento ou os bens doados por morte, uma vez que os mesmos ainda se encontram no património
do de cuius nesta data.

11.2.3.2 Donatum
O donatum integra os bens doados em vida e as despesas sujeitas à colação, ou seja, o que o
testador doou, quer a terceiros, quer aos seus descendentes. Em relação aos bens doados em vida, a sua
inclusão no âmbito da herança para efeitos da sucessão legitimária vai implicar um aumento do
quantum sobre o qual vai incidir a quota legitimária: nas palavras de Corte-Real está-se perante “uma
espécie de aparente ficção legal, e para efeitos do calculo da legitima o valor da herança é, assim,
incrementado através das doações feitas em vida e das despesas sujeitas à colação. Estas despesas
sujeitas à colação encontra-se indicadas no Artigo 2110.º, abrangendo tudo o que o falecido tiver
despendido gratuitamente em proveito dos descendentes, com a exceção, nos termos do Artigo
2110.º/2, das despesas com o casamento, alimentos, estabelecimento e colocação dos descendentes, na
medida em que se harmonizem com os usos e com a condição social e económica do falecido. Não são,
no entanto, consideradas para efeitos do cálculo da legítima as coisas que tiverem perecido em vida do
autor da sucessão por facto não imputável ao donatário, nos termos do Artigo 2162.º/2 e Artigo 2112.º.
A lei esclarece que o valor dos bens doados é o que eles tiverem à data da abertura da sucessão, à luz do
Artigo 2109.º/1, sendo este regime aplicável também as despesas sujeitas à colação. A inclusão do
donatum para efeitos do cálculo da legítima, o objeto da sucessão legitimária não coincide com o que
seria o objeto da sucessão legítima, pois abrange também as despesas feitas em vida e as despesas
sujeitas à colação.

11.2.3.3 Passivo
O passivo incluí todas as dívidas incluídas no Artigo 2068.º, com a exceção dos legados, uma vez
que estes integram o relictum, assim, inclui despesas com o funeral e sufrágios do seu autor, os
encargos com a testamentaria, administração e liquidação do património hereditário, e o pagamento
das dívidas do falecido.

11.2.4 Fórmula de Cálculo da Legítima


Quanto a forma de cálculo da legítima são aceites pela doutrina duas fórmulas que tem vindo a
ser chamadas por:

i) fórmula da Escola de Lisboa – é defendida por autores com Galvão Telles, Oliveira
Ascensão, e Corte-Real, determina que se deve seguir a ordem do Artigo 2162.º para efeitos do cálculo
da legítima, e portanto é necessário somar o Relictum com o Donatum, e só depois subtrair o Passivo, ou
seja, a formula seria Relictum + Donatum - Passivo (R+D-P);

ii) fórmula da Escola de Coimbra – é defendida por Pereira Coelho, o qual sustenta que o
Artigo 2162.º não tem como objetivo indicar a ordem das operações, mas apenas indicar os elementos
que integram o cálculo da legítima, o autor defendeu por isto que a dedução das dívidas deve ser feita
em relação aos bens deixados, a esta posição vieram aderir Capelo de Sousa e Carvalho Fernandes, ao
entender desta posição a formula de cálculo da legítima seria Relictum - Passivo + Donatum (R-P+D);

iii) Menezes Leitão afirma que esta divergência só tem efeitos práticos se a herança for
deficitária porque neste caso a posição da Escola de Coimbra privilegia o interesse dos herdeiros
legitimários sobre os donatários, enquanto que a posição da Escola de Lisboa faz o inverso. Assim, está
distinção só é relevante caso o Passivo seja maior que o Ativo da herança. A favor da escola de Coimbra
existe o argumento de que as doações e as despesas sujeitas à colação não respondem pelas dívidas da
herança para efeitos do pagamento dos encargos, nos termos do Artigo 2069.º, bem com a necessidade
de proteger os herdeiros legitimários dos donatários em vida. Já a favor da escola de Lisboa, existe o
argumento não apenas da ordenação efetuada pelo Artigo 2162.º, mas também o facto de não se
justificar reduzir o valor a 0, em consequência da dedução do Passivo ao Relictum¸ uma vez que se for
deficitário a escola de Coimbra classifica-o como 0. Menezes Leitão opta assim pela posição da escola de
Lisboa, assim, afirma que: primeiro tem-se de somar o relictum ao donatum, e só depois deduz-se as
dívidas.

11.3 Tutela da Legítima


Esta é objeto de uma proteção especial que não permite ao autor da sucessão privar dela o
autor legitimário, salvo nas situações excecionais da deserdação, de acordo com o Artigo 2166.º e ss.,
em consequência a legítima não pode ser afetada por disposições do autor da sucessão, quer por morte,
quer por vida, uma vez que se encontra destinada por lei aos herdeiros legitimários, nos termos do
Artigo 2156.º - fala-se por isto do princípio da intangibilidade da legítima, o qual tem uma dimensão
qualitativa e uma quantitativa.

11.3.1 Tutela Quantitativa da Legítima


Esta proíbe o autor da sucessão de privar, total ou parcialmente, o herdeiro legitimário do valor
que lhe assiste à título de legítima, em consequência, o autor da sucessão não pode diminuir, através de
disposições testamentárias, ou de doações em vida ou por morte, a quantia que os herdeiros
legitimários devem receber, aquando da sua morte. A tutela quantitativa da legítima é assegurada pelo
instituto da redução das liberalidades por inoficiosidade.

11.3.1.1 Redução por inoficiosidade


Diz-se redução por inoficiosidade a ação atribuída aos herdeiros legitimários, nos termos do
Artigo 2168.º e ss., que lhes permite reduzir as liberalidades feitas pelo autor da sucessão que ofendam
a suas legítimas, e por isto são consideradas inoficiosas. A redução tem origem na chamada querella
inoficiosi testamenti, ação que era concedida pelo pretor romano em caso de incumprimento do
denominado officium pietatis, esse era a obrigação moral que os pais tinham no direito romano de
providenciar pela subsistência dos filhos, sendo esta obrigação que está na origem da sucessão
legitimária.
A lei refere que são suscetíveis de redução todas as liberalidades efetuadas pelo autor da
sucessão, seja em vida ou por morte, desde que ofendam a legítima dos herdeiros legitimários, nos
termos do Artigo 2168.º/1: essa ofensa da legítima denomina-se por inoficiosidade, e consiste no facto
de em resultado da operação do cálculo da legítima se verificar que as liberalidades existentes
determinam que os herdeiros legitimários recebam menos do que aquilo que lhes competiria a título
legítimo. Em princípio, a redução abrange toda e qualquer liberalidade feita pelo autor, não podendo
este excluir qualquer liberalidade desta redução, e estarão abrangidas tanto liberalidades diretas como
indiretas, sendo exemplos desta última aquelas realizadas por interposta pessoa ou o pagamento de
dívidas alheias com um animus donandi, ou seja, sem a intenção de solicitar o reembolso ao devedor. O
Artigo 2168.º/2 estabelece uma exceção a redução “não são inoficiosas as liberalidades a favor do
cônjuge sobrevivo que tenha renunciado à herança nos termos da alínea c) do n.º 1 do artigo 1700.º, até
à parte da herança correspondente à legítima do cônjuge caso a renúncia não existisse”: assim, mesmo
que o cônjuge tenha renunciado a herança, a lei continua a criar uma legítima subjetiva fictícia para
efeitos de imputação das doações feitas em vida a este em caso de redução.

Determina o Artigo 2170.º que o autor não pode renunciar em vida o direito de reduzir as
liberalidades, a mesma pode ser efetuada, mesmo que o herdeiro a ela tenha renunciado: assim,
consideram-se nulos todo e qualquer negócio unilateral ou bilateral celebrado em vida do autor da
sucessão destinado a prejudicar a intangibilidade quantitativa da legítima. Em consequência, não é
possível instituir um legado em substituição da legítima na Sucessão Contratual, devendo este resulta do
Testamento.

11.3.1.1.1 Legitimidade
Nos termos do Artigo 2169.º há lugar a redução em todo o que for necessário para que a
legítima seja preenchida. Assim, a eficácia das liberalidades só é afetada na medida em que seja
necessário para preencher a legítima. Tem legitimidade para requerer a redução os herdeiros
legitimários ou os seus sucessores, nos termos do Artigo 2169.º: Jorge Duarte Pinheiro acrescenta que
tem igualmente esta legitimidade os adquirentes do quinhão hereditário em caso de alienação da
herança e os credores do repudiante que aceitem a herança em nome deste, nos termos do Artigo
2067.º - este último ponto é discutido na doutrina:

i) Pires de Lima e Antunes Varela defendem que a questão é bastante duvidosa


precisamente em virtude da liberdade de aceitação da herança que a lei faz conceder ao próprio
herdeiro legitimário;

ii) Batista Lopes contesta abertamente a legitimidade dos credores do repudiante de


requererem a redução por inoficiosidade;

iii) Menezes Leitão defende que, uma vez que os credores do repudiante podem aceitar
a herança em nome dele, nos termos do Artigo 2067.º, deveram ter igualmente o direito de exercer a
sua substituição no direito à redução por inoficiosidade, uma vez que não se trata de um direito pessoal.

A redução pode ser efetuada por acordo entre os legitimários e os beneficiários das
liberalidades, em caso da falta deste a redução implica a instauração de uma ação judicial, sendo que
esta tem de ser instaurada no prazo de 2 anos a contar da aceitação da herança, sob pena de
caducidade, nos termos do Artigo 2178.º, podendo extinguir-se antes por renúncia desde que superior à
abertura da sucessão.
11.3.1.1.2 Regime
Determina o Artigo 2171.º que a redução abrange em primeiro lugar as disposições
testamentárias a título de herança, em segundo lugar os legados, e por último as liberalidades que
hajam sido feitas em vida do autor da sucessão. A lei não se refere as doações por morte, mas estas
estão igualmente sujeitas a redução por inoficiosidade, nos termos do Artigo 1705.º/3 e 1759.º,
devendo este regime ser idêntico ao estabelecido para as doações inter vivos, conforme defende Duarte
Pinheiro.

A redução começa assim pelas disposições a título de herança só passando aos legados se a
redução daquelas não for suficiente, Galvão Telles que deve ser aberta uma exceção ao legado de
usufruto de quota ou totalidade da herança, entendo que a sua redução devera ter lugar
simultaneamente com as disposições à título de herança: Menezes Leitão defende que não há base legal
para esta solução, sem prejuízo da critica que o autor faz de iure condendo da qualificação do
usufrutuário de quota ou totalidade da herança como legatário. Se for suficiente a redução da
disposições testamentárias, esta é em princípio efetuada proporcionalmente, tanto no caso das deixas à
título de herança ou à título de legado, nos termos do Artigo 2172.º/1. O testador pode no entanto
estabelecer a preferência de certas deixas em relação, caso em que as deixas com preferência só serão
reduzidas se o valor integral das restantes não for suficiente para o preenchimento da legítima, como
resulta do Artigo 2172.º/2. Já as deixas remuneratórias (estas são as liberalidades que se destinam a
remunerar serviços recebidos pelo testador que não tenham a natureza de dívida exigível) beneficiam
de preferência legal, nos termos do Artigo 2172.º/3, pelo que só serão reduzidas em último lugar.

Não sendo a redução das disposições testamentárias suficientes para preenchimento da


legítima, há lugar a redução das doações em vida, devendo-se começar pela última, em todo ou em
parte, e se esta não chegar passar-se-ia a seguinte, e assim sucessivamente até se dar o preenchimento
da legítima, à luz do Artigo 2173.º/1. Aqui não há lugar a redução de forma proporcional, operando
antes um critério de antiguidade, sendo a primeira doação a ser reduzida a mais recente. Se, no entanto,
houver diversas liberalidades feitas no mesmo ato ou na mesma data, a redução será feita entre elas
rateadamente, salvo se alguma delas for remuneratória, caso em que beneficia da preferência das
disposições remuneratórias.

Questiona-se se esta hierarquização é injuntiva ou supletiva:

i) Jorge Duarte Pinheiro defende a supletividade considerando que ao abrigo do


princípio geral da liberdade contratual uma doação pode ser reduzida que uma disposição testamentaria
ou uma liberalidade contratual mais recente, se tal for convencionado: o autor excetua desta solução a
doação para casamento a favor dos esposados por considerar que a mesma tinha um impacto similar de
revogação total ou parcial destas doações, o que não é permitido, nos termos do Artigo 1758.º;

ii) Menezes Leitão defende que a doação em geral está sujeita a um princípio geral de
irrevogabilidade, só sendo a revogação possível nos termos do Artigo 969.º, que seriam ultrapassados
pelo acordo de prevalência das disposições testamentarias sobre as doações, não concordando com
essa posição.

Os termos em que se efetua a redução resultam dos Artigos 2174.º e ss., destas resulta que ao
contrário do que se prevê em sede de colação, onde existe apenas uma obrigação de conferência do
valor dos bens doados, só havendo restituição do próprio bem em caso de acordo de todos os herdeiro,
nos termos do Artigo 2108.º/1, na redução de inoficiosidade prevê-se a restituição em espécie dos bens
objeto de redução. Assim, se for necessário afetar toda a disposição para preencher a legítima, os bens
deixados ou doados devem ser restituídos aos herdeiros legitimários. Se a redução for parcial, ou seja,
não sendo necessário afetar toda a disposição para preencher a legítima, e:

i) sendo os bens divisíveis, a redução faz-se separando deles a parte necessária para
preencher a legítima, nos termos do Artigo 2174.º/1;

ii) sendo os bens indivisíveis se a importância da redução exceder metade do valor dos
bens, estes pertencem integralmente ao herdeiro legitimário, e o legatário ou donatário haverá o resto
em dinheiro, nos termos do Artigo 2174.º/2, 1.º Parte, deverá ser-lhe igualmente restituído em dinheiro
aquilo que ele despendeu gratuitamente em beneficio dos herdeiros legitimários, nos termos do Artigo
2174.º/3;

iii) em lugar da restituição em espécie os herdeiros legitimários receberam em dinheiro a


importância da redução, caso a importância da redução não exceder metade do valor dos bens, nos
termos do Artigo 2174.º/2, 2.º Parte;

iv) haverá também lugar à restituição em dinheiro na hipótese dos bens doados tiverem
perecido por qualquer causa ou tiverem sido alienados ou onerados, caso em que o donatário ou os
seus sucessores são responsáveis pelo preenchimento da legítima em dinheiro, até ao valor desses bens,
nos termos do Artigo 2175.º.

Sempre que houver lugar a restituição em dinheiro a insolvência daqueles que, segundo a
ordem estabelecida, devem suportar o encargo da redução não determina a responsabilidade dos
outros, nos termos do Artigo 2176.º, sendo o donatário é considerado, quanto a frutos e benfeitorias,
possuidor de boa fé até à data do pedido de redução, à luz do Artigo 2177.º: assim em relação aos frutos
esta norma remete para o Artigo 1270.º/1, dela resultante que o donatário faz seus os frutos naturais
percebidos até ao dia em que souber que está a lesar com a sua posse o direito de outrem, e os frutos
civis correspondentes ao mesmo período, mas este direito já não se estende aos frutos pendentes, à luz
do Artigo 1270.º/2, por fim do Artigo 1270.º/3 resulta que se o donatário tiver alienado frutos antes da
colheita e antes de cessar a boa fé, a alienação subsiste, mas o produto da colheita pertence ao titular
do direito, deduzida a indemnização, não sendo assim considerado nulo o negócio, o que aconteceria
por aplicação da venda de bens alheios. Em relação as benfeitorias:

i) necessárias será sempre possível ao donatário obter uma indemnização;

ii) uteis, se puderem ser removidas sem detrimento da coisa, então ao donatário assiste
esta hipótese, caso contrário só é possível reclamar o valor, nos termos do enriquecimento sem causa;

iii) voluptuarias, se puderem ser removidas sem detrimento da coisa, então o donatário
pode levantá-las, caso não seja possível, este não tem direito a nada.

11.3.1.1.3 Natureza Jurídica


Esta tem vindo a ser objeto de discussão na doutrina:

i) Oliveira Ascensão defende que se deve distinguir na redução entre as doações e as


disposições testamentárias:
a) em relação as doações, a redução não põem em causa a validade do negócio
subjacente, havendo apenas o exercício por parte do herdeiro legitimário de um direito prevalecente
que entra em conflito com o direito do donatário, assim a doação permanece eficaz, mas o donatário
pode vir a ser compelido a restituir os bens que recebeu;

b) em relação as disposições testamentária, a redução produziria a sua


caducidade, nos termos do Artigo 2317.º.

Em função desta distinção, o autor considera que os credores da herança não pode
executar os bens doados, mas já o podem fazer se estiver em causa uma disposição testamentária.

ii) Corte-Real e Jorge Duarte Pinheiro consideram existir na redução por inoficiosidade
uma impugnação judicial de natureza constitutiva que importa a ineficácia relativa e superveniente da
liberalidade inoficiosa;

iii) Menezes Leitão defende que a redução não corresponde a uma impugnação das
disposições testamentárias ou das doações, uma vez que nem as anula ou torna ineficazes, antes faz
surgir um crédito a restituição em natura ou em valor, trata-se assim de uma ação com carater pessoal,
e não real, uma vez que os terceiros adquirentes não podem ser demandados, devendo os alienantes
restituir em valor a parte para o preenchimento. Assim, da redução resulta um direito de crédito a
composição da legítima por parte dos beneficiários, a diferença entre doações e deixas testamentárias
assenta assim:

a) nas doações, uma vez que o donatário já recebeu aquele valor, o direito de
crédito tem de ser exercido daquela forma;

b) nas deixas testamentárias, o direito de crédito pode ser compensado com a


obrigação que existiria com a entrega da herança ou do legado que deixaria de existir em consequência
da redução.

11.3.2 Tutela Qualitativa da Legítima


A tutela qualitativa da legítima encontra-se expressa no Artigo 2163.º, o qual proíbe o autor da
sucessão a impor encargos sobre a legítima ou a designar os bens que a devem preencher contra a
vontade do herdeiro. Em consequência desta o autor da sucessão não pode, contra a vontade do
herdeiro legitimário, substituir a legítima por uma deixa testamentária, preencher a quota legitimária
com bens determinados ou onerá-la de qualquer natureza. Esta é atenuada nos institutos:

i) da cautela sociniana;

ii) do legado por conta da legítima;

iii) do legado em substituição da legítima.

11.3.2.1 Cautela Sociniana


Estabelece o Artigo 2164.º que se, porém, o testador deixar usufruto ou constituir pensão
vitalícia que atinja a legítima, podem os herdeiros legitimários cumprir o legado ou entregar ao legatário
tão-somente a quota disponível.
A cautela sociniana (cautio socini) assim denominada por ser inspirada no parecer jurídico do
jurista Mariano Sozzini, autor do século XVI, que sustentou a validade desta disposição, apesar da
mesma violar a proibição de oneração da legítima, neste caso suscitou-se várias questões uma vez que
os herdeiros legitimários podem ser constrangidos a ficar com uma legítima onerada, perante a
alternativa de perder totalmente a quota disponível:

i) por estes motivos a doutrina tradicional tem vindo a interpretar esta disposição em
termos estritos, considerando que a mesma só é aplicável aos legados de usufruto ou de pensão
vitalícia, não abrangendo as correspondentes doações em vida ou outro tipo de encargos, como a
substituição fideicomissária;

ii) já o Professor Oliveira Ascensão, considerando que a tendência da lei é ampliativa,


considera o regime extensível a outros encargos da mesma índole, como os fideicomissos, posição que é
defendida por Carvalho Fernandes;

iii) Jorge Duarte Pinheiro entende que o regime é de estender as doações de usufruto e
de nua propriedade, as deixas de nua propriedade, e aos fideicomissos;

iv) Menezes Leitão defende a tese tradicional, uma vez que o que justifica o disposto do
Artigo 2164.º é que neste dois tipos de legados é comum a afetação qualitativa da legítima, o que a lei
procura resolver instituído uma faculdade alternativa de entrega da quota disponível, sendo assim uma
disposição excecional, não se justificando a extensão a outras situações.

Questiona-se se atingir a legítima significa ultrapassar o valor da quota disponível ou incidir


sobre bens integrantes da legítima, a questão coloca-se uma vez que o valor do legado vitalício vária
consoante a idade do beneficiário, pelo que na prática poderia conter-se dentro do valor da quota
disponível, por exemplo, imaginando que a herança é toda constituída por bens imoveis, uma pensão
vitalícia a favor de uma pessoa de 80 anos, mesmo que incida sobre a totalidade da herança, pode ser
avaliada em 1/10 da herança, não ultrapassando o valor da quota disponível. Mas a verdade é que o
objetivo da cautela sociniana não é intangibilidade da tutela quantitativa da legítima, mas sim da sua
intangibilidade qualitativa, em consequência o facto da herança ser onerada por usufruto, implica que a
legítima seja atingida, desencadeando assim a aplicação do Artigo 2164.º, e permitindo aos herdeiros
entregar ao beneficiário a quota disponível.

A propósito desta disposição verifica-se ainda uma divergência doutrinaria sobre quem tem
legitimidade para recorrer a cautela sociniana:

i) Galvão Telles defende a necessidade de haver uma deliberação maioritária dos


legitimários para aplicar a cautela sociniana, invocando as regras da sociedade civil, nos termos do
Artigo 985.º/3 e 4;

ii) posição semelhante é defendida por Pires de Lima e Antunes Varela que sustentam
que em caso de divergência entre os co-herdeiros legitimários, aplicam-se as regras da cotitularidade de
direitos sobre a mesma coisa, nos termos dos Artigos 1406.º e ss.;

iii) já Jorge Duarte Pinheiro considera que esta faculdade pode ser exercida por
qualquer um dos herdeiros legitimários em separado, independentemente de serem várias as deixas
que atingem a legítima;
iv) Menezes Leitão defende tratar-se de um direito de exercício coletivo, e não de
exercício individual por parte de cada legitimário.

11.3.2.2 Legado por conta da legítima


Neste o testador determina a atribuição ao herdeiro legitimário de determinados bens para que
com eles seja preenchida a sua quota legitimaria, no fundo pretendendo que seja aquele herdeiro
legitimário a receber aqueles bens, o testador determina que estes integrem a sua legitima, sendo por
isto integrados na quota indisponível. Este não se encontra regulado por lei, mas é referido nos Artigos
1678.º/2, d) e 1733.º/1, a), podendo se considerar admissível em virtude de uma interpretação a
contrario sensu do Artigo 2163.º: efetivamente, se o testador não pode, sem o consentimento do
herdeiro, designar os bens que devem integrar a legítima, parece que já o poderá fazer se este consentir
nesta situação, ficando assim a eficácia do legado dependente desta aceitação. Compete por isto ao
herdeiro legitimário decidir se aceita o legado, caso em que os bens legados passaram a integrar a sua
quota legitimária, mantendo ainda o direito que ela seja preenchida na parte restante com outros bens,
ou se rejeita o legado, caso em que a legítima vai ser preenchida com quaisquer bens, para além disto o
herdeiro legitimário conserva o direito de receber a parte que lhe compete a título de sucessão legítima,
independente da escolha que fizer. Naturalmente, o herdeiro legitimário tem ainda a opção de repudiar
toda a sucessão.

O legado por conta da legítima imputa-se na quota disponível, já a parte que exceder o valor da
legítima é imputada na quota disponível, considerando-se a cargo de toda a herança, nos termos do
Artigo 2264.º, uma vez que existe uma presunção que o testador quis avantajar aquele herdeiro
legitimário em relação aos outros.

Tem suscitado alguma controversa na doutrina o modo de funcionamento das vocações


indiretas no âmbito do legado por conta da legítima:

i) Corte-Real no caso do herdeiro legitimário a quem foi atribuído o legado por conta da
legítima não poder ou não quiser aceitar a herança, funciona o direito de representação, nos termos do
Artigo 2037.º/2, cabendo aos seus descendentes decidir se aceitam o legado ou se preferem a legítima
por preencher;

ii) Jorge Duarte Pinheiro defende de se terem de aplicar, cumulativamente, as regras da


sucessão legal e da sucessão voluntária, sendo que nesta última não há direito de representação do
indigno, razão pela qual os descendentes do herdeiro legitimário indigno serão chamados em
representação deste a sua quota hereditária legal, mas não ao legado por conta da legítima;

iii) Menezes Leitão não vê razão para excluir o direito de opção dos descendentes do
herdeiro legitimário, devendo funcionar o direito de representação em relação ao legado por conta da
legítima.

Por outro lado, o legatário por conta da legítima continua a beneficiar do direito de acrescer, se
algum ou alguns do sucessíveis da mesma classe não puderem ou não quiserem aceitar a herança, nos
termos do Artigo 2137.º/2.

11.3.2.2.1 Natureza Jurídica


A natureza do legado por conta da legítima tem sido objeto de discussão na doutrina,
designadamente saber se constitui um verdadeiro legado, ou antes uma herança:

i) Galvão Telles defende que o legatário por conta da legítima teria um estatuto misto,
estando-se perante uma situação de herdeiro-legatário: posição que é igualmente seguida por Carvalho
Fernandes;

ii) Oliveira Ascensão não existe verdadeiro legado, mas apenas preenchimento da quota
de herdeiro, ainda que lhe possa ser aplicáveis regras relativas aos legados, como a possibilidade de
pedir a entrega imediata dos bens antes da partilha;

iii) Corte-Real considera que estas duas qualificações são incompatíveis entendendo por
isto que se deve aplicar o estatuto de herdeiro, que é aquele que tem mais relevo; Jorge Duarte Pinheiro
defende igualmente esta solução, mas vem contraditoriamente afirmar que no caso dos bens
determinados exceder o valor da quota, o legatário por conta da legítima será herdeiro até ao montante
desta, e legatário em relação ao remanescente – acabando por defender uma aplicação cumulativa das
regras da sucessão legal e voluntária;

iv) Menezes Leitão defende que o legado por conta da legítima não constitui um
verdadeiro legado, mas antes uma situação de herança ex re certa, devendo por isso o legatário por
conta da legítima ser sujeito ao estatuto de herdeiro.

11.3.2.3. Legado em substituição da legítima


Já relativamente a este encontra-se previsto no Artigo 2165.º, o qual no seu número 1 admite a
possibilidade de o autor da sucessão deixar um legado ao herdeiro legitimário em substituição da
legítima. Trata-se de uma figura com uma gigantesca importância histórica no direito português, já que
no testamento de Calouste Gulbenkian, as deixas de bens aos seus filhos foram interpretadas como
sendo um legado em substituição da legítima. Face a necessidade de obter o acordo do herdeiro
legitimário para que este possa ser privada da legítima, estabelece o Artigo 2165.º/2 um direito de
opção a favor do herdeiro legitimário entre a legítima e o legado, sendo que a aceitação de um implica o
repúdio do outro. Se aceitar o legado, o herdeiro legitimário não pode reclamar a diferença de valor, a
qual deve acrescer aos restantes herdeiros legitimários, é isto que distingue esta figura do legado por
conta da legítima: não obstante por vezes pode ser difícil concluir por uma ou por outro, neste caso
entende Jorge Duarte Pinheiro que, em caso de dúvidas, opta-se por classificar como legado em
substituição. Efetivamente a lei manifesta a preferência do legado em substituição da legítima, uma vez
que determina o Artigo 2165.º/3 que mediante o silêncio do herdeiro legitimário, e após notificado nos
termos do n.º 1 do artigo 2049.º, vale como aceitação.

Em relação a imputação do legado em substituição da legítima, rege o disposto no Artigo


2165.º/4 que estabelece que o mesmo é imputado na quota indisponível do autor da sucessão; mas, se
exceder o valor da legítima do herdeiro, é imputado, pelo excesso, na quota disponível.

A doutrina diverge relativamente a qualidade do beneficiário destas disposições, em caso da sua


aceitação:

i) Oliveira Ascensão entende que a aceitação do legado por conta da legítima não
implica a exclusão da qualidade de herdeiro, ainda que não permita ao legatário de suceder no quadro
da sucessão legítima, uma vez que é intenção do testador substituir toda a sucessão legal pelo legado,
por este motivo o legatário não responde pelas dívidas da herança, mas pode beneficiar do acrescer;

ii) Corte-Real entende que a aceitação do herdeiro do legado em substituição da


legítima não esgota toda a sua posição hereditária, não impedindo cumular a qualidade de legatário
com a de herdeiro legítimo em relação a quota disponível remanescente, o legatário conservava ainda a
qualidade de herdeiro para efeitos de desencadear a redução por inoficiosidade;

iii) Jorge Duarte Pinheiro sustenta que o legado em substituição da legítima é um


verdadeiro legado testamentário, que retira a quem o aceita o estatuto de herdeiro legítimo, o que o
impede de exercer os direitos correspondentes aos herdeiro legítimo, em consequência o autor entende
que em caso de indignidade não seria possível o exercício do direito de representação por parte dos
descendentes, e que o legatário em substituição também não pode proceder a redução por
inoficiosidades pelo que terá que suportar o passivo em caso de inoficiosidade;

iv) Menezes Leitão defende que, uma vez que o objetivo do Artigo 2165.º é a possibilidade do
testador determinar o bem que o seu herdeiro irá receber e que normalmente isto implica que o
testador queira beneficiar aquele herdeiro em relação aos demais, tal implica que este herdeiro seja
excluído da sucessão legal. Porém, o autor não vê razão se deve impedi-lo de beneficiar do acrescer
entre herdeiros ou, caso não queira ou não possa aceitar, impedir o seus herdeiros em representação de
beneficiar da opção. Segundo o autor também não a razão para privar o herdeiro legitimário do recurso
da redução por inoficiosidade.

11.4 Colação
Esta vem regulada nos Artigos 2104.º e ss. constituído um instituto privativo da sucessão dos
descendentes, consistindo na obrigação, que é imposta aos descendentes que queiram entrar na
sucessão do ascendente, que restituam à massa da herança, para efeitos de igualação da partilha, os
bens ou valores que lhes foram doados por este, nos termos do Artigo 2104.º/1. Consiste assim, na
obrigação de conferência dos valores dos bens doados pelo de cuius em vida, que é estabelecida para
efeitos de reconstrução do património da herança, pretendendo que os donatários participei na partilha
com os outros herdeiros como se não tivessem recebido quaisquer doações.

11.4.1 Âmbito de aplicação subjetivo


Nos termos do Artigo 2105.º só estão sujeitos à colação os descendentes que eram à data da
doação presuntivos herdeiros legitimários do doador. Assim, os outros herdeiros legitimários como o
cônjuge e os descendentes não estão sujeitos à colação. Essa solução compreende-se porque só em
relação aos descendentes faz sentido presumir que a intenção do doador foi apenas antecipar o que
lhes caberia na sua sucessão, não sendo tal intenção normal nas doações efetuadas aos outros herdeiros
legitimários. Para além disto, exige-se que ao tempo da doação os descendentes sejam presuntivos
herdeiros legitimários, ou seja aqueles que seriam chamados a sucessão em caso de morte deste, uma
vez que também só neste caso faz sentido aquela presunção: assim, se o autor da sucessão fizer uma
doação a um neto, sendo vivo o pai deste, a doação deve-se entender como feita por conta da quota
disponível, dado que o mais provável era que fosse o filho e não o neto que fosse chamado a sucessão;
se no entanto ao tempo da doação do neto, o pai deste já tivesse falecido, já se presumiria que veria a
ser o neto a ser chamado a sucessão, em virtude de direito de representação.
Relativamente a sujeição do cônjuge à colação:

i) há, no entanto, uma posição doutrinária seguida por Oliveira Ascensão e Capelo de
Sousa que entende que o cônjuge deve ser sujeito à colação, uma vez que no entendimento destes
autores existe uma lacuna na lei, criada pela reforma de 1977, quando colocou o cônjuge na posição de
herdeiro legitimário: lacuna esta que prejudica o objetivo de igualação da partilha. Esta lacuna deveria
ser resolvida sujeitando o cônjuge à colação, mas apenas quando concorre com os descendentes, uma
vez que tal deixa de se justificar quando em concurso com os ascendentes;

ii) em sentido contrário manifestaram-se Pereira Coelho, Pires de Lima, Antunes Varela,
Corte-Real, Jorge Duarte Pinheiro, e Cristina Coelho, para tais autores não existe qualquer lacuna legal,
uma vez que o instituto da colação baseia-se numa presunção iuris tantum de que “um pai quando faz
uma doação em relação a um filho, não pretende beneficiar os outros”: manifestamente esta presunção
não se aplica ao cônjuge, pelo contrário a doação visa habitualmente beneficia-lo em relação aos
descendentes;

iii) Fernando Nogueira defende que o cônjuge não está sujeito à colação, mas já não
poderá beneficiar da conferência dos descendentes;

iv) Menezes Leitão defende que é claro que o objetivo do legislador é o de não sujeitar o
cônjuge a colação, sendo o regime das doações feitas ao cônjuge diferente daquelas feitas à
descendente, até porque são livremente revogáveis pelo doador, à luz do Artigo 1765.º, e estão sujeitas
à clausulas de caducidade especiais, nos termos do Artigo 1766.º. O autor também não vê razão para
impedir que o cônjuge não beneficie reflexamente da conferencia dos descendentes. Assim, o autor
adere a posição de Pereira Coelho.

A sujeição do sucessível legitimário à colação não é inevitável, podendo ser afastado no caso
deste não pretender entrar na sucessão, nos termos do Artigo 2104.º/1, o que acontece no caso deste
querer repudiar a herança. Se não houver lugar à colação a doação é imputável na quota disponível, nos
termos do Artigo 2114.º/1, o que implica a possibilidade de redução por inoficiosidade. Apenas no caso
de não haver lugar à colação por repudio do donatário, sem ter descendentes que o representem, a
doação é imputada na quota indisponível, à luz do Artigo 2114.º/2.

Nos termos do Artigo 2106.º, a obrigação de conferir caí sobre o donatário, se vier a suceder ao
doador, ou sobre os seus representantes, ainda que estes não tenham tirado benefício da liberalidade.
Se a doação está sujeita à colação, esta não é prejudicada pelo facto do donatário falecer antes do
doador, mesmo que os herdeiros daquele não tenham tirado qualquer proveito da liberalidade, se os
descendentes do donatário quiserem entrar na sucessão do doador, por via do direito de representação
que lhes cabe, nos termos do Artigo 2039.º, mesmo que estes não tenham para si sido transmitidos
aquando da sucessão do donatário.

Não estão sujeitas à colação as doações feitas ao cônjuge do presuntivo herdeiro legitimário,
nos termos do Artigo 2107.º/1, sendo que se a doação for feita a ambos os cônjuges, apenas é sujeita à
colação a parte que competia ao presuntivo herdeiro legitimário, nos termos do Artigo 2107.º/2. No
entanto, a doação não se considera feita a ambos os cônjuges só porque entre estes vigora o regime da
comunhão de bens, nos termos do Artigo 2107.º/3.

11.4.1.1 A dispensa da colação


Um aspeto a considerar é a chamada dispensa da colação, uma vez que o fundamento da
colação é a presunção de que o autor da sucessão quando realizou a doação não pretendeu beneficiar
aquele descendente em relação aos demais, mas apenas antecipar o que posteriormente lhe caberia na
herança. Nada impede, pois, o doador de ilidir esta presunção, e beneficiar, efetivamente, a posição de
um dos seus descendentes em relação aos outros, desde que não afete a legítima que lhes cabe.
Bastando por isto que efetue a doação por conta da quota disponível, por isto a lei estabeleceu a
possibilidade do doador dispensar a sujeição à colação, no ato da doação ou em ato posterior, de acordo
com o Artigo 2113.º/1. No entanto, se a doação for acompanhada de alguma formalidade externa, só
pela mesma forma ou por testamento pode ser dispensada a colação, à luz do Artigo 2113.º/2. Em
qualquer caso, determina o Artigo 2113.º/3 que a colação presume-se sempre dispensada nas doações
manuais e nas doações remuneratórias, pelo que estas não são sujeitas à colação a menos que o doador
disponha em contrário. Há uma posição na doutrina, de Baptista Lopes e Capelo de Sousa, que entende
que esta presunção é inilidível, o que implicaria que tais doações nunca fossem sujeitas à colação,
Menezes Leitão discorda, afirmando não ser este o espírito do legislador.

Questiona-se se a dispensa da colação, efetuada no ato de doação, pode ser revogada pelo
doador em ato posterior:

i) Corte-Real pronuncia-se em sentido positivo, por considerar que a dispensa da


colação, embora inserida num contrato como a doação, tem natureza unilateral mortis causa, sendo
assim livremente revogável;

ii) Capelo de Sousa e Cristina Coelho consideram que tendo a doação carater bilateral, a
revogação da dispensa nela efetuada não pode ser posteriormente revogada a não ser por acordo das
partes, ou se o doador reservar contratualmente esta faculdade. Pelo que apenas se a dispensa constar
de ato posterior, é que poderia ser revogada livremente pelo doador.

11.4.2 Obrigação de Conferir


Quanto ao regime jurídico da obrigação de conferência, determina o Artigo 2110.º/1 que a
colação tem por objeto tudo quanto o falecido tiver despendido gratuitamente em proveito dos
descendentes, incluído as atribuições gratuitas que não pudessem ser qualificadas como doação, à luz
do Artigo 940.º. Excetua-se apenas as despesas com o casamento, alimentos, estabelecimento e
colocação dos descendentes, na medida em que se harmonizem com os usos e com a condição social e
económica do falecido, por força do Artigo 2110.º/2. A lei permite assim, para além do que é normal
obrigação legal dos pais de fornecer alimentos aos filhos, que a sua assistência material em atos maiores
da vida seja excluída da obrigação de conferir, é no entanto necessário que esta assistência não
ultrapasse o estabelecido pelos usos e pela condição social e económica do falecido.

Também devem ser conferidos os frutos da coisa doada, mas apenas aqueles que tiverem sido
percebidos (colhidos) pelo donatário desde a abertura da sucessão, pelo que antes desta data
pertencem ao donatário, sendo este, por força do Artigo 2115.º, equiparado ao possuidor de boa fé,
sendo-lhe aplicável o disposto nos artigos 1273.º e seguintes. Assim o donatário tem direito ao
reembolso das benfeitorias necessárias, bem como a levantar as benfeitorias uteis, se não o puder fazer,
a receber o seu enriquecimento, à luz do Artigo 1273.º, já em relação as benfeitorias voluptuarias, o seu
levantamento dependerá deste poder ser feito seu deterioramento da coisa, de acordo com o Artigo
1275.º.
O donatário responde pelas deteriorações que culposamente tenha causado nos bens doados, à
luz do Artigo 2116.º, mas já não pelo perecimento da coisa em vida do autor da sucessão por facto não
imputável ao donatário, por força do Artigo 2112.º. Pelo contrário, após a abertura da sucessão o
donatário responde pelo valor da coisa doada, independentemente de culpa, caso esta venha a perecer.

Nos termos do Artigo 2108.º/1, a colação pode efetuar-se por duas formas: imputação do valor
da doação ou da importância das despesas na quota hereditária, ou pela restituição dos próprios bens
doados, se houver acordo de todos os herdeiros. Em princípio, será adotada a primeira forma, uma vez
que a segunda depende do acordo de todos os herdeiros. Se, no entanto, os bens remanescentes não
permitirem a igualação dos diversos herdeiros, tal não implica que devam ser reduzidas as doações, a
menos que ocorra a inoficiosidade, por força do Artigo 2108.º/2. Com a colação apenas se pretende
entrar na herança o valor dos bens doados, e não proceder à igualação. Assim, a redução só ocorre se se
verificar uma inoficiosidade.

O Artigo 2109.º/1 manda atender ao valor que os bens tinha à data da abertura da sucessão, se
os bens já não existissem por terem sido consumidos, alienados ou onerados, manda-se atender ao
valor hipotético que teriam a esta data, de acordo com o Artigo 2109.º/2. Se a doação tinha por objeto
dinheiro ou envolveu encargos em dinheiro e foram cumpridos, determina-se a sua atualização nos
termos do Artigo 551.º, por força do Artigo 2109.º/3.

A colação apenas abrange o que tenha sido doado pelo autor, pelo que se ocorrer a doação de
bens comuns, apenas é conferida o valor de metade dos bens doados por morte de cada um deles, à luz
do Artigo 2117.º/1. O valor de cada uma das metades é o que ela tiver ao tempo da abertura da
sucessão respetiva, por força do Artigo 2117.º/2.

A lei refere que a eventual redução das doações sujeitas a colação constitui um ónus real sobre
os bens doados, de acordo com o Artigo 2118.º/1. Estabelecendo que em relação aos bens imóveis não
se pode fazer o registo da doação sem se efetuar o registo do ónus, à luz do Artigo 2118.º/2,
precisamente por isto este ónus está sujeito a registo, nos termos do Artigo 2.º/1, q) Código do Registo
Predial. Esta solução é, no entanto, bastante controversa, uma vez que aqui não está em causa um ónus
real, mas também não é a colação que importa a redução das doações, mas apenas a inoficiosidade, à
qual estão sujeitos todos os donatários. Na colação há apenas uma conferência do valor dos bens
doados, uma vez que a sua restituição em espécie depende de acordo dos seus interessados.

11.5 Imputação
Resulta da sucessão legitimária a necessidade de dividir a sucessão em duas quotas: a disponível
e a indisponível. No caso do autor da sucessão efetuar atribuições patrimoniais gratuitas coloca-se a
necessidade de determinar a que quota da herança as mesmas devem ser afetas. A operação de
afetação da disposição patrimonial gratuita tem o nome de imputação, sendo sempre necessária a sua
realização, quer para o preenchimento das quotas, quer para a colação, quer para a determinação de
inoficiosidades. Imputar, assim, para efeitos de Direito Sucessório, é operação de preencher ou atribuir
alguma quota, sendo esta operação referida ao enquadramento na quota disponível ou indisponível das
liberalidades feitas em vida ou por morte para efeitos de determinação da partilha.

11.5.1 Doações feitas aos descendentes que entrem na sucessão


Os descendentes estão sujeitos em princípio à colação, se pretenderem entrar na sucessão do
ascendentes, à luz do Artigo 2104.º/1. Neste caso, a doação é imputada na quota indisponível, de
acordo com o Artigo 2108.º/1, salvo na parte em que a exceder, sendo este excesso imputado na quota
disponível, à luz do Artigo 2108.º/2. Pode suceder que não haja lugar a colação, quer porque a coisa
doada pereceu em vida do autor por facto não imputável ao donatário, nos termos do Artigo 2112.º,
quer pelo facto de ter ocorrido o ato de dispensa da colação, nos termos do Artigo 2113.º, nestes casos
a doação é imputada na quota disponível, de acordo com o Artigo 2114.º/1.

Mais complexa é as doações feitas a descendente único, caso em que não se justifica a colação
por não haver qualquer razão para fazer a igualação dos quinhões do descendentes. Neste caso poderia
ser sustentado aplicar o Artigo 2114.º/1, e imputar as doações que lhe são feitas na quota disponível.
Tal, no entanto, poderia reconduzir a eventual inoficiosidade das disposições feitas pelo autor da
sucessão a favor de terceiros, o que seguramente não seria a sua intenção. É por isto preferível
considerar a imputação destas doações na quota indisponível, como defende Cristina Pimenta Coelho.

11.5.2 Doações feitas aos descendentes que não queiram ou não possam aceitar a sucessão
Uma vez que a colação só abrange as doações a favor daqueles que entrem na sucessão, não há
lugar a esta, se o donatário repudiar a herança sem deixar descendentes que o representem, neste caso
determina o Artigo 2114.º/2 que a doação é imputada na quota indisponível. A lei cria, assim, uma
legítima subjetiva fictícia destinada a suportar o valor da liberalidade, sendo que se esta for inferior a
quota hereditária legal, verifica-se o acrescer em relação aos co-herdeiros relativamente a diferença.
Apesar do Artigo 2114.º/2 apenas se referir ao repúdio:

i) Corte-Real sustenta igualmente a aplicação analógica desta disposição aos casos em


que o herdeiro legitimário não pode aceitar a herança em virtude de indignidade ou deserdação, o autor
explica que não se vê que tal situação, implicando uma atuação ilícita, possa por em causa, por via de
uma eventual imputação na quota disponível, disposições testamentárias a serem cumpridas a costa
desta quota ou doações nela imputadas mas mais recentes;

ii) Jorge Duarte Pinheiro segue a posição de Corte-Real;

iii) Menezes Leitão concorda a solução, salientando que a mesma pressupõem que a
doação não seja revogada por ingratidão do donatário, nos termos do Artigo 960.º e ss., caso em que o
objeto da doação é restituído aos herdeiros, nos termos do Artigo 968.º.

Já no caso do donatário não poder aceitar a herança por não ter sobrevivido ao doador, a
doutrina divide-se:

i) Capelo de Sousa, Cristina Coelho, e Cristina Araújo Dias sustentam a aplicação


analógica do Artigo 2114.º/2;

ii) Corte-Real e Jorge Duarte Pinheiro sustentam não ser análoga a situação, defendendo
por isto a imputação na quota disponível;

iii) Menezes Leitão concorda com esta última posição, uma vez que o caso contrário
implicaria uma generalização excessiva do Artigo 2114.º/2, quando a regra geral é antes a do Artigo
2114.º/1.
11.5.3 Doações feitas ao cônjuge
Esta questão relaciona-se com a questão supra suscitada da sujeição do cônjuge à colação:

i) quem defenda a tese de que o cônjuge está sujeito à colação, como é o caso de
Oliveira Ascensão, necessariamente, considera que a imputação das doações feitas ao cônjuge se faz na
quota indisponível, à luz do Artigo 2114.º/1, a contrario;

ii) quem defende que o cônjuge não está sujeito à colação, como faz a esmagadora
maioria da doutrina, tenderá a defender que a imputação se faz antes na quota disponível, à luz do
Artigo 2114.º/1, esta é a posição de Pereira Coelho. Esta tese baseia-se no teor literal do Artigo
2114.º/1, que refere a imputação na quota disponível sempre que não haja lugar a colação;

iii) há ainda autores, que apesar de defenderem a não sujeição do cônjuge à colação,
acabam por defender a imputação das doações feitas ao cônjuge na quota indisponível, esta posição foi
defendida por Corte-Real, sendo depois defendida por Jorge Duarte Pinheiro. Para Corte-Real a norma
do Artigo 2114.º/1 deve ser enquadrada sistematicamente na secção em que se insere apenas
abrangendo o não haver lugar a colação em consequência das disposições anteriores. O autor sustenta
assim que, por via de regra, e na falta de disposição do doador, as doações em vida à sucessíveis
legitimários prioritários devem ser imputadas na quota indisponível. Já para Jorge Duarte Pinheiro esta
solução tem a vantagem de evitar beneficiar excessivamente certos legitimários em relação a outros e
garantir a liberdade de disposição por morte do de cuius;

iv) Paula Barbosa sustenta que em regra as doações feitas ao cônjuge são imputadas na
quota disponível, a não ser que o cônjuge concorra com descendentes sujeitos à colação, neste caso
para efeitos de equilíbrio da partilha, deve-se imputar a doação feita ao cônjuge na respetiva legítima
subjetiva;

v) Menezes Leitão defende que não faz qualquer sentido sujeitar o cônjuge à colação,
sendo que a lei e o autor da sucessão, na maioria dos casos, pretendem avantajar o cônjuge face aos
outros herdeiros legitimários, isto resulta do facto que as doações feitas a este são livremente
revogáveis, e por isto, não estando o cônjuge sujeito à colação, o que o Artigo 2114.º/1 impõe é as
doações sejam imputadas na quota disponível.

Relativos aos argumentos de Corte-Real e Jorge Duarte Pinheiro, defende Menezes


Leitão, que os mesmo podem ser relevantes de iure condendo, mas não podem conduzir a uma
interpretação restritiva do Artigo 2114.º/1. Idem, para os argumentos de Paula Barbosa. Esta tese
determina, em grosso, que se aplique metade das operações da colação, a herdeiros que não lhe estão
sujeitos, como defende Cristina Coelho, pelo que devera ser imputada na quota disponível.

11.5.4 Doações feitas ao cônjuge que renunciou a herança


Determina o Artigo 2168.º/2 que não são inoficiosas as liberalidades a favor do cônjuge
sobrevivo que tenha renunciado à herança nos termos da alínea c) do n.º 1 do artigo 1700.º, até à parte
da herança correspondente à legítima do cônjuge caso a renúncia não existisse. Neste caso, não existe
quota indisponível do cônjuge, pelo que não há que considerar qualquer imputação da mesma,
continuado a imputação das doações feitas ao cônjuge a fazer-se na quota disponível, esta, no entanto,
é aumentada em ordem a abranger a parte correspondente a legítima do cônjuge caso esta renúncia
não existisse, assim limitando a possibilidade de redução por inoficiosidade.
11.5.5 Doações feitas a ascendentes
É pacífico na doutrina que as doações feitas a ascendentes não estão sujeitas à colação, mas já é
controverso a sua imputação na quota disponível, como resulta do Artigo 2114.º/1:

i) Corte-Real e Jorge Duarte Pinheiro defendem que, na ausência de estipulação do


testador em sentido contrário, em relação a todos os herdeiros legitimários, a imputação das doações
devem ser feitas na quota indisponível, tal resulta do facto que no seu entender as doações aos
herdeiros legitimários visarem antecipar o preenchimento da quota legitimária, e ser necessário
preservar a liberdade de disposição por morte do de cuius da quota disponível;

ii) Menezes Leitão defende que a solução apresentada para os autores ainda menos
sentido faz em relação aos ascendentes, efetivamente a lei natural da vida é a de que os ascendentes
não sucedem aos descendentes, considerar que as doações a eles feitas visa preencher a sua quota
legitimária é levar a ficção jurídica a um extremo absoluto. Devem por isto ser imputadas na quota
disponível.

11.5.6 Doações feitas a favor de pessoas que à data não eram sucessível legitimários do doador
Estas devem ser imputadas na quota disponível, nos termos do Artigo 2114.º/1, uma vez que à
data estes não tinham qualquer expectativa de vir a suceder, nem estão sujeitos à colação, como resulta
do Artigo 2105.º/1.

11.5.7 Deixas a favor dos herdeiros legitimários


11.5.7.1 Deixas a título de herança
Se estas forem a título de herança, as mesmas são imputadas na quota disponível, uma vez que
o objetivo é avantajar o herdeiro legitimário em relação aos restantes. Jorge Duarte Pinheiro admite,
porém, que se averigue se a vontade do testador não é apenas de se referir apenas a quota hereditária.

11.5.7.2 Deixas a título de legado


Já se forem a título de legado, como sucede com o pré-legado, o legado por conta da legítima,
ou o legado em substituição da legítima, a situação é variável.

11.5.7.2.1 Pré-Legado
Já relativamente ao pré-legado, previsto no Artigo 2264.º, o mesmo é imputado na quota
disponível, uma vez que o objetivo do testador é avantajar o herdeiro legitimário beneficiário deste
legado em relação aos restantes.

11.5.7.2.2 Legado por conta da legítima


Já este deve ser imputado na quota indisponível, sendo o excesso se houver imputado na quota
disponível. Não sendo o legado suficiente para preencher a legítima, este tem direito a receber a
diferença na partilha.

11.5.7.2.3 Legado em substituição da legítima


Este é imputado na quota indisponível do autor da sucessão, mas se exceder a legítima do
herdeiro é imputado, quanto ao excesso, na quota disponível, nos termos do Artigo 2165.º/4. Sendo o
valor do legado inferior ao do valor da legítima, a aceitação do legado importa a perda do valor da
legítima, à luz do Artigo 2165.º/2.

11.5.8 Deixas a favor de não sucessíveis legitimários prioritários


Estas são imputadas na quota disponível, sendo as deixas reduzidas por inoficiosidade caso a
ultrapassem. Admite-se, porém, no caso de legado de usufruto ou de pensão vitalícia que atinja a
legítima, os herdeiros legitimários optarem por cumprir o legado ou entregar ao legatário a quota
disponível, nos termos do Artigo 2164.º.

11.5.9 Síntese
São imputadas na quota indisponível:

i) as doações sujeitas à colação, e nela conferidas, salvo na parte em que excedam a


quota do legitimário, de acordo com o Artigo 2108.º/1;

ii) as doações efetuadas a descendentes sujeitas à colação, se o sucessor repudiar a


herança sem ter descendentes que o representem, de acordo com o Artigo 2114.º/2;

iii) o legado por conta da legítima e o legado em substituição da legítima, salvo na parte
em que excedam a quota do legitimário;

São imputadas na quota disponível:

i) as doações feitas a descendentes não sujeitos à colação, à luz do Artigo 2114.º/1;

ii) as doações feitas ao cônjuge;

iii) as doações feitas a ascendentes;

iv) as doações feitas a não herdeiros legitimários prioritários;

v) as doações sujeitas à colação na parte que excedam a legítima, nos termos do Artigo
2108.º/1, a contrario;

vi) as deixas a título da herança;

vii) o legado por conta da legítima e o legado em substituição da legítima na parte em


que excedam a quota do legitimário;

viii) o pré-legado, nos termos do Artigo 2264.º

12. Pendência da Sucessão


Uma vez que o direito de aceitar a herança só caduca findo 10 anos, nos termos do Artigo
2059.º/1, pode mediar um período considerável entre a vocação e a aquisição da herança ou do legado,
período dentro do qual estes se mantem jacentes. A fase da vocação segue-se a fase da pendência da
sucessão, em que a herança ou os legados se encontram jacentes no sentido de estarem a espera que
alguém os venha a aceitar.
Nos termos do Artigo 2046.º, diz-se jacente a herança aberta, mas ainda não aceita, nem
declarada vaga para o Estado. Apesar da lei apenas se referir a herança, é manifesto que a mesma
situação se verifica em relação aos legados: uma vez que depois da morte do de cuius a aquisição dos
bens deixados em testamento carece de aceitação, nos mesmos termos da herança, de acordo com o
Artigo 2050.º/1 e 2249.º.

A herança considera-se, assim, jacente, se após a abertura da sucessão ainda não tenha sido
aceite pelos sucessíveis, nem declarada vaga para o Estado. Em relação aos sucessíveis legais ou
testamentários existe, naturalmente, a necessidade de aceitação para que estes possam suceder ao de
cuius, nos termos do Artigo 2050.º. Já se for o Estado a ser chamado, como sucessível legítimo, nos
termos do Artigo 2133.º/1, e), a aquisição por este depende de declaração de herança vaga,
dispensando-se a aceitação, já que o Estado não pode repudiar a herança, nos termos do Artigo 2154.º e
2155.º. Neste caso, considera-se que a sucessão encontra-se pendente entre a morte do de cuius e
aquisição por outrem das situações jurídicas patrimoniais que este era titular, quer através da aceitação
da herança, quer através da declaração de herança vaga.

Já na sucessão contratual, a pendência só se verificara no caso de vocação subsequente, dado


que nas aquisições por morte, a aquisição tende a coincidir com a morte do de cuius, sem necessidade
de aceitação, uma vez que a doação já foi aceite em vida do doador, ainda que só produza os seus
efeitos por morte deste.

12.1 Modalidades
A pendência da sucessão pode ser:

i) total – caso em que nenhuma das situações jurídicas patrimoniais transmissíveis por
morte tiver sido adquirida pelo herdeiro ou legatário;

ii) parcial – caso em que alguma das situações jurídicas patrimoniais transmissíveis por
morte seja adquirida, tal acontecerá se a herança tiver sido aceite por algum dos sucessíveis prioritários.

12.2 Administração
A necessidade de acautelar os interesses dos sucessíveis chamados, torna imperioso que a
herança seja administrada durante o período que se encontra jacente, a lei admite a este propósito duas
situações:

i) a adoção de providências de administração pelo sucessível, nos termos do Artigo


2047.º;

ii) nomeação de curador da herança jacente, nos termos do Artigo 2048.º.

12.2.1 Providências de Administração


Determina o Artigo 2047.º/1 que se o sucessível chamado à herança, se ainda a não tiver
aceitado nem repudiado, não está inibido de providenciar acerca da administração dos bens, se do
retardamento das providências puderem resultar prejuízos, acresce o número 2 que sendo vários os
herdeiros, é lícito a qualquer deles praticar os atos urgentes de administração; mas, se houver oposição
de algum, prevalece a vontade do maior número. Os atos de administração praticados pelo sucessível
não implicam a aceitação da herança, nos termos do Artigo 2056.º/3.
A lei fala do Artigo 2047.º/1 fala de sucessível chamado à herança, mas o seu número dois
apenas se refere a herdeiros:

i) grande parte da doutrina, Oliveira Ascensão, Corte Real, Capelo de Sousa, Jorge
Duarte Pinheiro, entre outros, considera que o legatário não pode tomar providências administrativas;

ii) Menezes Leitão discorda com esta tese, afirmando não existir razão para que o
usufrutuário de toda a herança não possa proceder a sua administração ou mesmo o legatário de um
prédio relativo ao mesmo, para além do Artigo 2047.º/1 falar em sucessível, o Artigo 2249.º estende o
regime da aceitação ou repúdio da herança aos legados: a isto acresce o facto que a herança pode toda
ela ser distribuída em legados.

12.2.2 Curadoria da Herança


A adoção de providências administrativas pelos herdeiros não implica a impossibilidade de ser
nomeado curador a herança, à luz do Artigo 2047.º/3. Efetivamente, dispõe o Artigo 2048.º/1 que
quando se torne necessário, para evitar a perda ou deterioração dos bens, por não haver quem
legalmente os administre, o tribunal nomeará curador à herança jacente, a requerimento do Ministério
Público ou de qualquer interessado. Nos termos do Artigo 2048.º/2, à curadoria da herança é aplicável,
com as necessárias adaptações, o disposto sobre a curadoria provisória dos bens do ausente, o que
implica a remissão para os Artigo 94.º e ss.

A curadoria da herança termina quando cessam as razões que a determinam, nos termos do
Artigo 2048.º/3, deve-se entender que tal ocorre quando surge alguém com competência legal para
administrar a herança ou quando deixar de existir risco de perda ou deterioração dos bens hereditários.
Naturalmente, a curadoria também cessa quando a herança deixar de estar jacente, como no caso de
ser aceite ou ter sido declarado vaga para o Estado.

12.3 Notificação
Nos termos do Artigo 2059.º/1, o Direito de Suceder caduca ao fim de 10 anos, contados desde
que o sucessível tem conhecimento de haver sido a ela chamado: o que constitui um período logo em
que a herança pode se manter jacente, em ordem a evitar esta situação o Artigo 2049.º prevê a
notificação dos herdeiros para comunicar se aceitam ou repudiam a herança, caso estes não aceitem a
herança nos 15 dias subsequentes ao chamamento, isto corresponde a chamada actio interrogatoria, a
qual nos termos do Artigo 2049.º pode ser instaurada a requerimento do Ministério Público ou qualquer
outro interessado, seguindo o processo consignado nos Artigos 1039.º e ss. CPC. Apesar da lei somente
se referir a herdeiro, parece claro que a notificação possa ser instaurada contra o legatário, neste
sentido Capelo de Sousa e Jorge Duarte Pinheiro.

Na falta de declaração de aceitação, ou não sendo apresentado documento legal de repúdio


dentro do prazo fixado, a herança tem-se por aceita, nos termos do Artigo 2049.º/2 e Artigo 2249.º. Se
os sucessíveis notificados repudiarem, sem prejuízo do direito de sub-rogação que é conferido aos
credores pelo Artigo 2067.º, serão feitas notificações aos sucessíveis subsequentes até não haver quem
prefira ao chamamento legal do Estado, à luz do Artigo 2049.º/3.

Estando em causa incapaz, menor ou maior acompanhado, a notificação para aceitação ou


repudio da herança ou legado deve ser feita ao respetivo representante legal, obedecendo, no entanto,
a um regime especial, constante do Artigo 4.º do Decreto-lei 272.º/2001, o qual atribui ao Ministério
Público a decisão sobre o pedido de notificação.

12.4 Natureza Jurídica


Uma vez que a herança jacente corresponde a um património autónomo, já que está sujeita a
um regime especial de responsabilidade por dívidas, tendo como tal personalidade judiciária, a doutrina
tem vindo a discutir como explicar dogmaticamente como pode um património autónomo possa
permanecer por determinado tempo com esta configuração sem ter um titular determinado. Para este
efeito surgiram várias teses para esta explicação:

i) a tese da obnubilação do sujeito;

ii) a tese dos direitos e obrigações à espera de sujeito;

iii) a tese da vinculação de uma universalidade jurídica;

iv) a tese das situações jurídicas sem sujeito.

12.4.1 Tese da Obnubilação do Sujeito


Esta deve-se a Paulo Cunha, para quem existe na herança jacente uma situação de herdeiro
encoberto, que obriga a congelar a relação jurídica, tornando os direitos e deveres potenciais até ao
aparecimento do seu sujeito.

12.4.2 Tese de Direitos e Obrigações à Espera de Sujeito


Esta é defendida por Gomes da Silva, para este autor na herança jacente ocorre uma privação
temporária do sujeito em relação a determinados bens, o que leva o direito a estabelecer uma concreta
organização que assegure a futura afetação dos bens em causa a determinada pessoa, não seria assim
um direito sem sujeito, mas antes um direito à espera de sujeito.

12.4.3 Tese da Vinculação de uma Universalidade Jurídica


Esta foi defendida por Mota Pinto e Capelo de Sousa, para estes autores na herança jacente
existe uma universalidade jurídica que se encontra em estado de vinculação, em virtude de não
existirem direitos dos sucessíveis chamados sobre os bens.

12.4.4 Tese das Situações Jurídicas sem Sujeito


Esta foi defendida por João Oliveira Ascensão, para este autor a herança jacente corresponde a
uma hipótese de situações jurídicas sem sujeito, o que nada tem de anómalo, uma vez que não ocorre a
título definitivo, estando os direitos reservados para titular futuro, devendo todos os outros respeitar o
tempo intermédio por mero efeito da imperatividade da norma, esta organização jurídica objetiva. Esta
posição foi seguida por Pires de Lima, Antunes Varela, Corte-Real, Jorge Duarte Pinheiro e Menezes
Leitão.

13. Sistema da Aquisição Sucessória

No âmbito do Direito Comparado pode-se encontrar 3 sistemas relativos a aquisição sucessória:

i) sistema da aquisição automática;


ii) sistema da aquisição por aceitação – actio;

iii) sistema da aquisição por investidura.

No sistema de aquisição automática obtém-se a qualidade de sucessor em virtude da morte do


autor da sucessão, não se exigindo qualquer outro facto. Já no sistema de aquisição por aceitação, a
aquisição pressupõe um ato de aceitação, exigindo assim um ato de aceitação do sucessor em sentido
favorável à sucessão. Por sua vez, no sistema de aquisição por investidura, a aquisição pressupõe um ato
de autoridade que investe o sucessor no domínio daqueles bens.

O sistema português corresponde a um sistema de aquisição por aceitação, quer em relação à


herança, nos termos do Artigo 2050.º, quer em relação aos legados, em que o sucessível precisa sempre
de uma declaração negocial manifestando a intenção de aceitar a herança ou o legado. Mas a aquisição
não tem de ser expressa, podendo ser tácita, de acordo com o Artigo 2056.º/1, ou até ficta, de acordo
com o Artigo 2049.º/2.

Não sendo o sucessível obrigado a aceitar a sucessão, pode igualmente repudiar a mesma,
manifestando a posição contrária à sucessão

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