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exame 2021

12
HISTÓRIA A
António Ribeiro
Lia Ribeiro

REVISÃO CIENTÍFICA
Manuel Loff
Ilídio Silva

ATUAL E COMPLETO
Explicação de todos os conteúdos

200 questões com resposta detalhada

Teste diagnóstico
com feedback online imediato

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exame
12
HISTÓRIA A
Avelino Ribeiro

REVISÃO CIENTÍFICA
Manuel Loff
Ilídio Silva
NOTA INTRODUTÓRIA

Testes e Exame História A – 12.o ano é um instrumento orientador e facilitador


da aprendizagem dos alunos de 12.o Ano – História A – tendo em vista, funda-
mentalmente, a condensação de informação histórica relevante conciliando a
aquisição de conhecimentos e o desenvolvimento das competências necessárias
para o sucesso e a excelência nos testes e no Exame Nacional de História A, que,
em 2013-2014, integrará conteúdos programáticos dos 11.° e 12.° anos e, a partir
de 2014-2015, dos 10.°, 11.° e 12.° anos de escolaridade.

Os alunos de História A do 12.o ano encontrarão neste trabalho, que abrange


os programas destes 3 anos do ensino secundário:

• orientações sobre métodos de trabalho;

• conteúdos essenciais que serão objeto de estudo e avaliação nas aulas,


nos testes e no Exame Nacional;

• exercitação das aprendizagens através de questões orientadoras do


estudo, na banda externa das páginas, e questões para exame, no final
de cada módulo;

• propostas de resolução das questões-tipo, dos testes e das questões para


exame em http://leyaeducacao.com;

• recolha dos exames nacionais de História desde 2007 e respetivas pro-


postas de resolução em http://leyaeducacao.com.

Não obstante estes apoios, importa ter em conta que o objetivo da excelên-
cia exige um grande investimento pessoal no trabalho e capacidade de orga-
nizar os saberes, com autonomia e alguma originalidade, em contextos inter-
pretativos coerentes, críticos e reflexivos.

A História é uma ciência fascinante. Sem ela vaguearíamos num mundo sem
referências, perderíamos o norte, a identidade. Mas também é verdade que,
se o seu estudo não requer capacidades específicas de ordem anormalmente
elevada, exige muito de cada um.

Bom trabalho!

O Autor
Índice 3

ÍNDICE

1. Como estudar para obter resultados de excelência............................................................. 6


2. Como abordar um teste escrito ou exame ........................................................................... 7
o
3. Prova de Exame Nacional de 12. Ano – História A ............................................................. 8
4. Interpretação das questões dos testes e do Exame Nacional de História A ...................... 9

10.° Ano
Módulo 1 | Raízes mediterrânicas da civilização europeia – cidade, cidadania
e império na antiguidade clássica
Unidade 1 – O modelo ateniense......................................................................................... 10

Unidade 2 – O modelo romano............................................................................................ 15

Unidade 3 – O espaço civilizacional greco-latino à beira da mudança.............................. 20

QUESTÕES PARA EXAME...................................................................................................... 22

Módulo 2 | Dinamismo civilizacional da Europa Ocidental nos séculos XIII a XV –


espaços, poderes e vivências
Unidade 1 – A identidade civilizacional da Europa Ocidental ............................................ 25

Unidade 2 – O espaço português – a consolidação de um reino cristão ibérico .............. 32

Unidade 3 – Valores, vivências e quotidiano ...................................................................... 41

QUESTÕES PARA EXAME...................................................................................................... 46

Módulo 3 | A abertura europeia ao mundo – mutações nos conhecimentos,


sensibilidades e valores nos séculos XV e XVI
Unidade 1 – A geografia cultural europeia de Quatrocentos e Quinhentos....................... 48

Unidade 2 – O alargamento do conhecimento do mundo .................................................. 51

Unidade 3 – A produção cultural ........................................................................................ 54

Unidade 4 – A renovação da espiritualidade e religiosidade............................................. 62

Unidade 5 – As novas representações da Humanidade ..................................................... 66

QUESTÕES PARA EXAME...................................................................................................... 69

11.° Ano
Módulo 4 | A Europa nos séculos XVII e XVIII – sociedade, poder e dinâmicas
coloniais
Unidade 1 – A população da Europa nos séculos XVII e XVIII: crises e crescimento ....... 71

Unidade 2 – A Europa dos estados absolutos e a Europa dos parlamentos .................... 74

Unidade 3 – Triunfo dos estados e dinâmicas económicas nos séculos XVII e XVIII ....... 80

Unidade 4 – Construção da modernidade europeia............................................................ 87

QUESTÕES PARA EXAME ...................................................................................................... 91


4 Índice

ÍNDICE

Módulo 5 | O Liberalismo – ideologia e revolução, modelos e práticas nos séculos


XVIII e XIX
Unidade 1 – A Revolução Americana, uma revolução fundadora ....................................... 93

Unidade 2 – A Revolução Francesa – paradigma das revoluções liberais e burguesas ... 95

Unidade 3 – A geografia dos movimentos revolucionários na primeira metade do século


XIX: as vagas revolucionárias liberais e nacionais........................................ 99

Unidade 4 – A implantação do liberalismo em Portugal .................................................... 101

Unidade 5 – O legado do liberalismo na primeira metade do século XIX ........................ 106

QUESTÕES PARA EXAME...................................................................................................... 109

Módulo 6 | Economia e sociedade; nacionalismos e choques imperialistas


Unidade 1 – As transformações económicas na Europa e no Mundo ................................. 111

Unidade 2 – A afirmação da sociedade industrial e urbana............................................... 119

Unidade 3 – Evolução democrática, nacionalismo e imperialismo ..................................... 125

Unidade 4 – Portugal, uma sociedade capitalista dependente .......................................... 128

Unidade 5 – Os caminhos da cultura.................................................................................. 132

QUESTÕES PARA EXAME...................................................................................................... 137

12.° Ano
Módulo 7 | Crises, embates ideológicos e mutações culturais na primeira
metade do século XX
Unidade 1 – As transformações das primeiras décadas do século XX .............................. 139
1.1. Um novo equilíbrio global ............................................................................................ 139
1.2. A implantação do marxismo-leninismo na Rússia: construção do modelo soviético .. 144
1.3. A regressão do demoliberalismo.................................................................................. 147
1.4. Mutações nos comportamentos e na cultura............................................................... 149
1.5. Portugal no primeiro pós-guerra .................................................................................. 160

Unidade 2 – O agudizar das tensões políticas e sociais a partir dos anos 1930 ............. 165
2.1. A Grande Depressão e o seu impacto social............................................................... 165
2.2. As opções totalitárias................................................................................................... 168
2.3. A resistência das democracias liberais......................................................................... 171
2.4. A dimensão social e política da cultura ...................................................................... 173
2.5. Portugal e o Estado Novo ............................................................................................ 181

Unidade 3 – A degradação do ambiente internacional....................................................... 187


3.1. A irradiação do fascismo no mundo ............................................................................ 187
3.2. Reações aos totalitarismos fascistas ........................................................................... 188

QUESTÕES PARA EXAME...................................................................................................... 190


Índice 5

Módulo 8 | Portugal e o mundo da Segunda Guerra Mundial ao início


da década de 1980 – opções internas e contexto internacional
Unidade 1 – Nascimento e afirmação de um novo quadro geopolítico.............................. 196
1.1. A reconstrução do pós-guerra ...................................................................................... 197
1.2. O tempo da Guerra Fria – a consolidação de um mundo bipolar.............................. 203
1.3. A afirmação de novas potências .................................................................................. 214
1.4. O termo da prosperidade económica: origens e efeitos............................................. 220

Unidade 2 – Portugal: do autoritarismo à democracia ...................................................... 224


2.1. Imobilismo político e crescimento económico do pós-guerra a 1974 ........................ 224
2.2. Da revolução à estabilização da democracia .............................................................. 234
2.3. O significado internacional da revolução portuguesa................................................. 243

Unidade 3 – As transformações sociais e culturais do terceiro quartel do século XX ..... 245


3.1. A importância dos polos culturais anglo-americanos. A reflexão sobre a condição
humana nas artes e nas letras. O progresso científico e a inovação tecnológica ..... 245
3.2. A evolução dos media ................................................................................................. 249
3.3. Alterações na estrutura social e nos comportamentos............................................... 252

QUESTÕES PARA EXAME ..................................................................................................... 257

Módulo 9 | Alterações geostratégicas, tensões políticas e transformações


socioculturais no mundo atual
Unidade 1 – O fim do sistema internacional da Guerra Fria e a persistência da dicotomia
norte-sul .......................................................................................................... 261
1.1. O colapso do bloco soviético e a reorganização do mapa político da Europa de Leste.
Os problemas da transição para a economia de mercado.......................................... 262
1.2. Os polos do desenvolvimento económico................................................................... 265
1.3. Permanência de focos de tensão em regiões periféricas............................................ 279

Unidade 2 – A viragem para uma outra era ...................................................................... 288


2.1. Mutações sociopolíticas e novo modelo económico................................................... 288
2.2. Dimensões da ciência e da cultura no contexto da globalização............................... 301

Unidade 3 – Portugal no novo quadro internacional ......................................................... 309


3.1. A integração europeia e as suas implicações ............................................................. 309
3.2. As relações com os países lusófonos e com a área ibero-americana......................... 311

QUESTÕES PARA EXAME...................................................................................................... 316

Provas/Questões para Exame


• Prova A (11.°/12.° anos) ..................................................................................................... 320
• Prova B (10.°/11.°/12.° anos)............................................................................................... 323
• Prova C (10.°/11.°/12.° anos)............................................................................................... 326
6 Como estudar para obter resultados de excelência

1. Como estudar para obter resultados de excelência

Questões... Respostas... Para reter...

1. Tenho tanto para Primeira decisão: elabore um plano de estudo A planificação do trabalho é tanto
estudar... com alguma antecedência. mais importante quanto maior for
Por onde devo No plano devem constar: a dimensão e complexidade da
começar? tarefa a realizar.
– a calendarização dos dias e das horas que vai
dedicar à preparação do teste ou exame;
- o registo das restantes tarefas que tem de
realizar na escola e fora dela.

2. Tenho tanto para Nas aulas: Não deixe ficar para trás nenhuma
estudar... – sinalize no manual os conteúdos mais matéria por não gostar ou por não
Como poderei saber importantes que, no caso da História, são os a compreender! Os amigos (e o
tudo? conteúdos designados por “estruturantes” no professor é um deles) são para as
Programa da disciplina; ocasiões!
– preste muita atenção às indicações do
professor sobre a avaliação formativa e à Procure sempre entender o que
estrutura e conteúdos dos testes e exames; está a estudar. Optar por decorar
– anote as matérias em que tem dúvidas e que os conteúdos não contribui para a
precisam de um estudo mais atento. compreensão dos mesmos.

No trabalho de casa:
– comece por reler, com atenção, os seus Só interiorizamos os
apontamentos e notas que registou nas conhecimentos que, de algum
aulas; modo, compreendemos e fazem
– interrogue-se regularmente sobre o que é sentido para nós.
mais importante saber sobre as matérias
que está a estudar; Estudar é, essencialmente,
– à medida que vai lendo sublinhe as palavras organizar e integrar as novas
e/ou expressões e afirmações mais informações nos conhecimentos
significativas para as matérias em estudo e que já possuímos.
tome notas;
– à medida que vai estudando procure Procure conhecer-se cada vez
estabelecer mentalmente relações com os melhor - descobrir as suas
conhecimentos de que já dispõe; deste modo, qualidades e dificuldades.
ser-lhe-á mais fácil reter ou memorizar os A motivação, o empenho e a
novos conhecimentos adquiridos; se estudar persistência permitem superar
em grupo, discuta com os(as) colegas os todas (ou quase todas) as
pontos que considera mais importantes e dificuldades.
sobre os que tem dúvidas;
– para facilitar a memorização e a
O trabalho intelectual é física e,
compreensão, recorra a algumas técnicas:
sobretudo, mentalmente
• elaboração de esquemas e/ou de pequenas esgotante. Por isso, deve evitar
sínteses; horários prolongados de estudo,
• anotação de palavras e/ou expressões fazendo regularmente pequenos
significantes; intervalos (Note Bem: nunca faça
• organização de um glossário; “diretas”).
• debate das matérias com um(a) colega;
• estudo intervalado.
Como abordar um teste escrito ou exame 7

2. Como abordar um teste escrito ou exame

Propostas... Para reter...

a) Comece por ler todo o teste ou exame antes de começar a responder; Escrever é um ato de
desta forma, ficará desde logo com uma ideia geral sobre as matérias comunicação e, quanto melhor
e as questões que irá abordar, o seu grau de dificuldade e a questão o fizermos, melhor será a
do tempo. nossa capacidade de sermos
compreendidos da forma que o
b) Nesta primeira leitura assinale, sublinhando ou anotando, os elementos pretendemos ser.
fundamentais dos documentos – palavras e/ou expressões, dados
quantitativos, pormenores das figuras...
Podemos aprender a escrever
c) Antes de iniciar cada resposta, anote e ordene os tópicos de conteúdo bem se criarmos um hábito de
que considera adequados à questão e depois siga-os na elaboração da ler e escrever regularmente.
sua resposta.

d) Na redação das respostas tenha presente que irá ser avaliado, tendo em Escrever bem requer esforço,
consideração os seguintes aspetos: dedicação e concentração.
Também ajuda (e muito) ter
sempre um dicionário e uma
– formulação da questão, em particular do verbo que a introduz, pois gramática por perto.
este define o alcance da mesma. (Consulte o significado dos
verbos mais utilizados nos testes/exames na pág. 9); Não tenha receio da escrita,
– relevância da informação na resposta à questão formulada; dos testes. Aproveite-os para
avaliar e melhorar o seu
– mobilização de informação circunscrita ao assunto em análise;
desempenho.
– articulação (obrigatória) com as fontes;
– forma como a fonte é explorada, sendo valorizada a interpretação Não tenha medo de errar; o erro
e não a mera transcrição; deve ser encarado como um
instrumento para a melhoria.
– correção na transcrição de excertos das fontes e pertinência
desses excertos como suporte de afirmações ou argumentos;
Confie em si próprio, nas suas
– utilização adequada da terminologia específica da disciplina.
capacidades.

e) Em todas as respostas, para além das competências específicas


referidas na alínea anterior, são também avaliadas competências de
comunicação escrita em língua portuguesa, tendo em consideração:
– a estrutura ou a organização do discurso;
– a correção da sintaxe, da pontuação e da ortografia;
– a forma legível da escrita.

NOTA:
O domínio da comunicação escrita em língua portuguesa representa cerca de 10%
da cotação em todos os itens da Prova de Exame Nacional da disciplina de
História A, contribuindo, desta forma, para valorizar a classificação atribuída ao
desempenho de competências específicas da disciplina.
8 Prova de Exame Nacional de 12.o Ano – História A

3. Prova de Exame Nacional de 12.o Ano – História A

OBJETO DE AVALIAÇÃO

• Competências

A Prova de Exame Nacional de História A tem como objeto de avaliação os saberes e competências defi-
nidos nos programas e que foram sendo desenvolvidos ao longo do ciclo de estudos do Ensino Secundá-
rio, concretamente:

– analisar fontes de natureza diversa, distinguindo informação explícita e implícita, assim como os res-
petivos limites para o conhecimento do passado;

– analisar textos historiográficos, identificando a opinião do autor e tomando-a como uma interpretação
suscetível de revisão, em função dos avanços historiográficos;

– situar cronológica e espacialmente acontecimentos e processos relevantes, relacionando-os com os


contextos em que ocorreram;

– identificar a multiplicidade de fatores e a relevância da ação de indivíduos ou grupos, relativamente a


fenómenos históricos circunscritos no tempo e no espaço;

– caracterizar aspetos relevantes da História de Portugal, europeia e mundial;

– relacionar a História de Portugal com a História europeia e mundial, distinguindo articulações dinâmicas
e analogias/especificidades, quer de natureza temática quer de âmbito cronológico, regional ou local;

– mobilizar conhecimentos de realidades históricas estudadas para fundamentar opiniões, relativas a pro-
blemas nacionais e do mundo contemporâneo;

– elaborar e comunicar, com correção linguística, sínteses dos assuntos estudados:

• estabelecendo os seus traços definidores;

• distinguindo situações de rutura e de continuidade;

• utilizando, de forma adequada, terminologia específica.

• Conteúdos

Os conteúdos a avaliar no Exame Nacional da disciplina de História A no ano letivo de 2013-2014 repor-
tam-se às matérias estudadas nos 11.o e 12.o anos, a partir de 2014-2015, nos 3 anos do ciclo de estudos
do Ensino Secundário (10.°/11.°/12.°).

De entre os conteúdos a avaliar, assumem particular importância as matérias consideradas pelos pro-
gramas da disciplina como aprendizagens estruturantes que devem merecer especial atenção.

Assim, na prova de exame nacional as questões incidem sobre os conteúdos de aprofundamento, as apren-
dizagens e os conceitos estruturantes assinalados na abertura de cada unidade com um (*) e dois (**)
astericos, respetivamente.
Prova de Exame Nacional de 12.o Ano – História A 9

4. Interpretação das questões dos testes e do Exame Nacional de História A

A correta interpretação das perguntas ou questões dos testes e do exame nacional de História A é funda-
mental para compreender o seu alcance e adequar os conteúdos das respostas ao solicitado.
Importa, pois, compreender corretamente os significados dos verbos que introduzem as questões.

Verbos Respostas pretendidas / Competências a mobilizar

Pretende-se que separe os elementos (partes) associados a um determinado facto


Analise… histórico ou a uma fonte histórica e/ou historiográfica (texto, quadro, gráfico, mapa...)
e que explicite as suas inter-relações; analisar é decompor, examinar, explicitar, comparar...

Pretende-se que faça um julgamento do valor ou da importância dos dados ou do facto


Avalie… histórico em apreço, que assuma uma atitude crítica; avaliar é julgar, apreciar, estimar,
verificar...

Pretende-se que apresente os elementos definidores, específicos, que distinguem os


Caracterize… factos ou dados históricos apresentados; caracterizar é definir, descrever, distinguir,
rotular, listar...

Pretende-se que clarifique as diferenças entre os dados ou factos históricos


Distinga…
apresentados; distinguir é analisar, calcular, comparar...

Pretende-se que mencione princípios, dados ou elementos sobre o assunto solicitado;


Enuncie…
enunciar é identificar, reconhecer, reproduzir, resumir...

Pretende-se que clarifique factos, dados ou situações; explicitar é clarificar, diferenciar,


Explicite…
interpretar, explicar...

Pretende-se que interprete e exponha de forma inteligível uma ideia, um determinado


Explique…
facto ou dado histórico; explicar é decompor, descrever, explicitar, justificar...

Pretende-se que mencione dados ou elementos; identificar é nomear, listar, rotular,


Identifique…
categorizar...

Pretende-se que explique a informação histórica associada aos documentos apresentados


Interprete…
com base em conhecimentos prévios; interpretar é explicar, descrever, resumir...

Pretende-se que apresente as razões ou argumentos para sustentar uma afirmação,


Justifique…
uma hipótese explicativa, um facto histórico; justificar é fundamentar, suportar, defender...

Pretende-se que identifique, mencione dados, factos; referir é identificar, nomear,


Refira…
mencionar...

Pretende-se que estabeleça relações, associações entre os dados ou factos apresentados;


Relacione…
relacionar é comparar, confrontar, associar...
10 Módulo 1 - Raízes mediterrânicas da civilização europeia – cidade, cidadania e império na antiguidade clássica

10.° Ano Módulo 1


Raízes mediterrânicas da civilização europeia – cidade,
cidadania e império na antiguidade clássica
1. O modelo ateniense
2. O modelo romano
3. O espaço civilizacional greco-latino à beira da mudança

Contextualização
As civilizações antigas grega e romana e o Mediterrâneo – espaço de encontro e de sínteses
de povos e culturas –, que lhes serviu de berço, constituem a matriz civilizacional de uma
Cronologia Europa que acolheu e difundiu, à escala do globo, a herança político-cultural clássica que
tem na democracia e no humanismo dos Gregos, e no universalismo e no pragmatismo dos
As grandes etapas da Romanos, os seus pilares cruciais.
evolução política em Atenas
683 a. C.
A oligarquia substitui Unidade 1 O modelo ateniense
a monarquia. Crise política:
legislação de Drácon
SUMÁRIO
(624 a. C.) e Sólon
(594 a. C.). 1.1 A democracia antiga: os direitos dos cidadãos e o exercício dos poderes
560 a. C. 1.2 Uma cultura aberta à cidade
Tirania: Pisístrato
(560-527 a. C.); Hípias APRENDIZAGENS RELEVANTES
e Hiparco (527-514 a. C.).
510 a. C. - Identificar os elementos definidores da polis grega.
Democracia: reformas de - Caracterizar o modelo democrático ateniense: as suas limitações, os fundamentos e os
Clístenes (510-507 a. C.); mecanismos de funcionamento. Analisar o funcionamento da democracia ateniense, real-
Péricles e Efialtes (462 a. C.).
çando as suas qualidades e limitações.
443-429 a. C.
O “Século de Péricles”. CONCEITOS/NOÇÕES
Polis; Ágora; Democracia antiga; Cidadão**; Meteco; Escravo; Ordem arquitetónica

** Aprendizagens e conceitos estruturantes

1.1. A democracia antiga: os direitos dos cidadãos e o exercício de


poderes
O desenvolvimento da democracia na cidade-estado de Atenas resulta de um processo
longo e complexo de luta pela liberdade e igualdade dos cidadãos, traduzido na imple-
mentação de reformas políticas, sociais e económicas sucessivas a partir do século VII a. C.
Fig. 1. Péricles eliminou protagonizadas sobretudo pelos legisladores Drácon, Sólon e Clístenes, atingindo a polis(1)
a posição oligárquica
ateniense o seu apogeu na segunda metade do século V a. C., sob o governo de Péricles
à democracia e projetou
o prestígio e o poderio de (Fig. 1), de 443 a 429 a. C.
Atenas no mundo grego.
O período de 443-429 a. C.,
durante o qual teve uma
posição política dominante,
foi já denominado de (1)
A polis grega caracterizava-se pela sua independência (autonomia/liberdade), pela autossuficiência económica
“século de Péricles”. (autarcia) e pela especificidade do regime e culto (comunidade político-religiosa).
Unidade 1 - O modelo ateniense 11

– O funcionamento da democracia direta


As democracias antigas(2), de que a ateniense é o melhor exemplo, apresentavam
características muito diversas das democracias atuais. A palavra “democracia” tem ori-
gem no vocábulo grego demokratia, “domínio do povo”: eram os próprios cidadãos reu-
nidos em assembleias que tomavam as decisões sobre todos os assuntos de interesse
público. Os cidadãos não delegavam os poderes, exerciam-nos efetivamente. Denomi-
nam-se, por isso, democracias diretas.

Em Atenas, no século V a. C., era a Assembleia Popular ou Eclésia, constituída pela


totalidade dos cidadãos* atenieneses, quem tomava as decisões. Tinha poderes para * Cidadão: em Atenas,
gozava deste estatuto
decidir sobre todos os assuntos de interesse geral. Reunia-se regularmente uma vez por
todo o adulto do sexo
mês e quando especialmente convocada para resolver algum assunto importante. masculino filho de pais
naturais da Ática (região
A iniciativa legislativa estava confiada à Boulé, uma assembleia composta por 500 da Grécia onde está
situada Atenas), que não
membros (bouleutas) escolhidos por sorteio (50 por tribo), que preparava as propostas
tivesse sido
de lei (probouleumata) discutidas e aprovadas nas sessões da Eclésia. expressamente privado
dos seus direitos civis por
Os magistrados eram considerados como servidores do povo. Uns eram escolhidos ter cometido algum crime
por sorteio; outros eram eleitos após um apertado processo de controlo moral e político grave.

(docimasia) e controlados no exercício dos seus mandatos, em regra, anuais.

De todas as magistraturas, a mais antiga era o Arcontado que, em Atenas, substituíra


a monarquia no ano de 683 a. C. No século V a. C. o poder executivo estava entregue a
9 arcontes e 1 secretário, eleitos pela Eclésia. As funções do Arcontado, de início muito
importantes, foram diminuindo à medida que a democracia evoluiu, perdendo poderes em ? Questão
(3)
proveito dos estrategos , o mesmo acontecendo ao Areópago, o tribunal ou conselho
1. Relativamente à
mais antigo de Atenas. democracia ateniense,
refira:
A aplicação da justiça encontrava-se também nas mãos do demos. Com exceção de • três características de
alguns tipos de crimes, o seu exercício pertencia ao Tribunal Popular ou Helieu, consti- natureza democrática;
tuído por 6000 heliastas (cidadãos maiores de 30 anos, sorteados em número de 600 • três limites da participação
democrática.
por cada uma das 10 tribos).

– Os limites da participação democrática


O regime democrático ateniense na Época Clássica baseava-se na isonomia (igualdade
perante a lei), na isocracia (igualdade de participação nos negócios públicos) e na ise-
goria (igualdade de direitos na defesa pública dos seus pontos de vista). Mas também a
liberdade individual e a filantropia (amor pelo homem, com correspondência no termo
cristão caridade). A introdução da mistoforia(4) reforçou o caráter democrático do regime
ao permitir uma participação mais alargada dos cidadãos. Contudo, a democracia direta
dos atenienses tinha limitações importantes:

(2)
Democracias antigas: em Atenas, o poder soberano estava na Assembleia Popular ou Eclésia, constituída por todos
os cidadãos, que tomava decisões por maioria. O conceito moderno de democracia representativa ou parlamentar foi
desenvolvido no século XVIII por pensadores como Montesquieu (divisão de poderes), Rousseau (soberania popular) ou
Voltaire (igualdade de direitos entre todos os homens).
(3)
Estrategos: em Atenas, a partir de 501 a. C., os dez magistrados que se encarregavam do comando dos corpos de
hoplitas (soldados de infantaria). Eram eleitos pela Eclésia.
(4)
Mistoforia: subsídio de participação nas assembleias concedido pelo Estado aos cidadãos mais pobres; o objetivo
era combater o absentismo, estimulando a participação dos cidadãos na vida política.
12 Módulo 1 - Raízes mediterrânicas da civilização europeia – cidade, cidadania e império na antiguidade clássica

– dos prováveis 400 000 habitantes da Ática no século V a. C., apenas uma minoria
de cerca de 40 000 indivíduos seriam cidadãos de pleno direito – os escravos(5)
(c. 200 000) e os metecos ou estrangeiros residentes em Atenas (c. 70 000) não per-
tenciam ao restrito número dos cidadãos com direitos de participação política, tal
como as mulheres, que estavam também excluídas da vida pública;
– a ameaça de uma acusação de ilegalidade (graphê paranomon)(6) limitava iniciati-
vas suscetíveis de serem consideradas inconvenientes ou perigosas pela Eclésia,
Documento 1 apesar da liberdade de tomar a palavra reconhecida a qualquer cidadão;
– ostracismo(7), mecanismo penal instituído para impedir abusos de poder e defender
Principais jogos (festivais
religiosos e atléticos): a democracia, não raras vezes foi utilizado para silenciar ou afastar cidadãos críti-
– Jogos Olímpicos em cos ou indesejáveis;
honra de Zeus, em Olímpia;
– as desigualdades sociais, a escravatura e a política externa imperialista.
– Jogos Píticos, em honra
de Apolo, em Delfos,
de 4 em 4 anos;
– Jogos Ístmicos, em honra
1.2. Uma cultura aberta à cidade
de Poseidon, no Istmo de
Corinto; – As grandes manifestações cívico-religiosas
– Jogos Nemeus, em honra Como em muitas outras cidades gregas, as festas dos atenienses correspondiam não
de Zeus, em Némea,
de 2 em 2 anos. apenas a uma necessidade de lazer e diversão, mas contribuíam sobretudo para um
reforço da coesão da comunidade à volta de uma divindade protetora.

A organização das festividades era responsabilidade


1
dos magistrados. Os atenienses prestavam culto aos
2 mesmos deuses(8) que todos os outros gregos, mas a
1 – Cávea nova
2 – Cávea antiga sua particular devoção ia para aqueles que tinham a seu
3 – Orquestra
cargo a proteção da sua cidade: os deuses e heróis epó-
6
6 4 – Cena
3 5 – Corredor de nimos(9), fundadores da polis e dos genê(10).
5 5 acesso lateral
4 6 – Muros de As festividades mais importantes eram as Panate-
contenção neias – as Pequenas (anuais) e as Grandes Panateneias
(de quatro em quatro anos), em honra de Atena –, e as
Fig. 2. Planta do teatro de Dionísias, em particular as Grandes Dionísias, porventura as mais populares, que celebra-
Epidauro (séc. IV a. C.).
A cávea (bancadas vam o deus Dioniso, deus das festas, do vinho, dos prazeres. Estas grandes manifesta-
escalonadas, escavadas na ções cívico-religiosas, durante as quais se realizavam competições desportivas e cultu-
encosta de uma colina),
a orquestra (espaço rais, estavam abertas a toda a cidade, incluindo os metecos e as mulheres.
central ou semicircular
destinado à atuação de
atores e do coro)
e a cena (servia de fundo)
eram três elementos (5)
Escravos: homens não-livres. Os escravos faziam os trabalhos domésticos e desempenhavam também tarefas eco-
essenciais do teatro grego. nómicas. Isto tornava naturalmente a vida do cidadão mais facilitada e libertava-o para as tarefas intelectuais e da
Expressou-se na tragédia, política.
uma forma literária (6)
Graphê paranomon: lei ou proposta de lei contrária às outras leis.
derivada do culto a Dioniso (7)
Ostracismo: pena de condenação ao exílio temporário (por um período de 10 anos), que exigia 6000 votos, expres-
(destacaram-se Ésquilo, sos em ostraca, ou seja, fragmentos de cerâmica onde era inscrito o nome do cidadão que se pretendia expulsar da
Sófocles e Eurípedes), e na cidade. Foi decretado em Atenas no ano de 510 a. C.
comédia (crítica social (8)
Deuses: representavam forças da Natureza e eram revestidos de forma humana: como os humanos possuíam
e política), na qual se defeitos e virtudes, distinguiam-se destes pela beleza, eterna juventude e imortalidade. As suas histórias consti-
destaca para Aristófanes. tuíam a mitologia grega.
(9)
Epónimo: “aquele que dá o seu nome”. A divindade epónima de Atenas era a deusa Atena.
(10)
Génos: grupo de famílias aristocráticas que se consideravam descendentes de um mesmo antepassado.
Unidade 1 - O modelo ateniense 13

– A educação para o exercício público do poder Cronologia

O sistema de educação procurava conciliar num só programa duas tendências: uma, O teatro: autores e obras
mais antiga, visando a formação de homens vigorosos, guerreiros e atletas com uma mais importantes

sólida preparação moral; a outra, virada para a formação intelectual. A formação para o Ésquilo (525-456 a. C.):
Os Persas (472 a. C.),
exercício da cidadania é essencial para o funcionamento do regime democrático. Os Sete contra Tebas
(467 a. C.), Oréstia
Os rapazes iniciavam os seus estudos por volta dos 7 anos de idade, quando saíam da
(458 a. C.)
companhia das mulheres (do gineceu, espaço feminino) e iniciavam a sua aprendizagem
Sófocles (497-406 a. C.):
em escolas privadas. Os mais ricos eram acompanhados no seu percurso escolar por um Antígona (442 a. C.),
pedagogo, um escravo culto. Na escola, a aprendizagem ficava a cargo de três mestres – Rei Édipo (427 a. C.),
Electra (420-410 a. C.)
o paidotribes, professor de ginástica, o kitharistês, que ensinava música, e o gramático,
Eurípedes (480-406 a. C.):
responsável pelo ensino da leitura, escrita, aritmética e literatura. Esta aprendizagem Medeia (431 a. C.),
prolongava-se até aos 13 ou 14 anos. Hipólito (428 a. C.),
As Troianas (415 a. C.)
A partir dos 15 anos, a educação prosseguia no ginásio (aprendizagem de Matemá-
Aristófanes (445-385 a. C.):
tica e Filosofia) e na palestra(11). Os mais abastados que pretendessem prosseguir os estu- A Assembleia das
dos faziam-no junto de um mestre disponível para os orientar. Mulheres (392 a. C.), As
Rãs (405 a. C.), As Aves
A partir do século V a. C., em Atenas, este modelo de educação orientado para a for- (414 a. C.), As Vespas
(422 a. C.), As Nuvens
mação integral do jovem, futuro cidadão, sofreu a concorrência dos sofistas, professores (423 a. C.)
itinerantes que privilegiavam a retórica(12) (a arte da persuasão) e a dialética (a arte do
debate), habilidades importantes para o cidadão interessado em fazer valer as suas ideias
e levar os restantes a segui-las, ou seja, fazer demagogia e alcançar o sucesso político.

A B
– A arquitetura como expressão do culto público e da procura da harmonia
O objetivo primordial dos Gregos era criar edifícios simultaneamente funcionais e
belos. Na Grécia encontramos edifícios públicos destinados a fins religiosos, como os
templos e os teatros, e construções civis, normalmente situados na ágora*, como giná-
sios, palestras, estádios e pórticos. Fig. 3. Esquema simplificado
da ordem dórica (A) e da
De todos estes edifícios, o templo foi o que mereceu uma maior atenção dos Gregos. ordem jónica (B).
A planta do templo era constituída por uma sala única, a naos ou cella, onde se encon-
trava a estátua da divindade, o pronaos ou pórtico que dava acesso ao seu interior, um
* Ágora: praça pública
opistódomos, fachada posterior do templo, e o peristilo formado por colunas (colunata) e local de convívio
envolvendo o conjunto. localizada na parte baixa
de Atenas; era aí que se
O esquema de construção do templo assentava numa relação racional e coerente de realizava o mercado e que
se situavam construções
elementos horizontais e verticais que transmitiam a ideia de ordem e proporção. As relacionadas com a vida
ordens arquitetónicas* gregas mais antigas são a dórica e a jónica, contemporâneas mas política.

originárias de regiões distintas da Grécia. Tal facto explica as diferenças de pormenor


observadas num e noutro caso. A coluna dórica (Fig. 3) não tem base e assenta diretamente * Ordens arquitetónicas:
conjunto de regras formais
sobre o estilóbata, o fuste apresenta caneluras de aresta viva e o capitel, constituído pelo
e de proporção que
équino e o ábaco, é muito sóbrio. O entablamento (Fig. 4) é formado pela arquitrave lisa, ligavam entre si, de uma
forma preestabelecida,
pelo friso (dividido em tríglifos e métopas) e encimado por uma cornija.
todas as partes de um
edifício, normalmente um
(11)
Palestra: significa luta em grego. Funcionava como escola de treino físico e também como local de convívio social templo.
masculino, já que mulheres não eram admitidas. Geralmente, eram anexas aos gymnasium (de gymnos, nu em
grego), local fechado para treino.
(12)
Retórica: correntemente, a mesma coisa que oratória. Porém, numa linguagem mais precisa, a retórica designa a
arte teórica de persuadir pela palavra, ao passo que a oratória cuida da sua aplicação na prática.
14 Módulo 1 - Raízes mediterrânicas da civilização europeia – cidade, cidadania e império na antiguidade clássica

A ordem jónica distingue-se da dórica pela coluna ter base, pelo seu fuste ser mais
alto e elegante, com caneluras de aresta chata, e por ter um capitel mais elaborado, com
volutas. A arquitrave é tripartida, dividida por três filas horizontais, o friso é liso e fre-
quentemente decorado com pinturas ou esculturas. Por vezes, as colunas são substituí-
das por figuras femininas (Cariátides) ou masculinas (Atlantes).

Nos finais do século V a. C., surge uma nova ordem arquitetónica, a ordem coríntia,
estruturalmente idêntica à ordem jónica mas diferenciando-se desta por uma maior abun-
dância decorativa e monumentalidade. A diferença mais significativa reside no capitel
(Fig. 5), muito elaborado, decorado com folhas de acanto e folhas de água.

cornija
Capitel dórico.
métopa
friso
tríglifo

arquitrave entablamento

Capitel jónico.

ábaco
capitel
équino

Fig. 4. Pormenor do
caneluras de
Pártenon, templo
aresta viva fuste consagrado à deusa
Atena construído no
Capitel coríntio. séc. V a. C. na acrópole
de Atenas.
Fig. 5. Capitéis das ordens
arquitetónicas gregas.
– A escultura como expressão do culto público e da procura da harmonia
Na Grécia Antiga, a escultura toma como tema principal o homem; o antropomorfismo
é a expressão dominante deste género artístico. Deuses, heróis e atletas, os temas pri-
vilegiados da escultura, estão intimamente ligados à religião e partilham entre si a forma
? Questão
humana (como escreveu Protágoras, c. 492-422 a. C., “o homem é a medida de todas as
1. Que características coisas”). Os deuses gregos são concebidos à imagem e semelhança do homem, mas do
distinguem as ordens
arquitetónicas dórica, homem ideal, anatomicamente perfeito. Tanto na vida como na arte, o grego busca a
jónica e coríntia? harmonia e a perfeição.
Unidade 2 - O modelo romano 15

Unidade 2 O modelo romano Cronologia

Fases da expansão romana


SUMÁRIO 360-218 a. C.
Roma domina a Península
2.1. Roma, cidade ordenadora de um império urbano* Itálica.
2.2. A afirmação imperial de uma cultura urbana pragmática* 264-146 a .C.
Guerras Púnicas: vitória
2.3. A romanização da Península Ibérica, um exemplo de integração de uma região periférica no de Roma e domínio do
universo imperial* Mediterrâneo Ocidental.
58-52 a. C.
Conquista da Gália por Júlio
APRENDIZAGENS RELEVANTES
César.
– Interpretar a extensão do direito de cidadania romana como um processo de integração 115 d. C.
O Império atinge a sua
da pluralidade de regiões no Império*. extensão máxima.
– Identificar na romanização da Península Ibérica os instrumentos de aculturação das popu- A carreira de Augusto:
lações submetidas ao domínio romano*. 44-43 a. C.
Obtém do Senado poderes
– Distinguir formas de organização do espaço nas cidades do Império, tendo em conta as de Propretor.
suas funções cívicas, políticas e culturais**. É designado Cônsul.
27 a. C.
– Reconhecer a importância do legado político e cultural romano para a formação da civili- Adota a designação de
zação europeia ocidental*. “Príncipe” (Princeps).
27-23 a. C.
CONCEITOS/NOÇÕES O Senado confere-lhe
o título de “Imperador”
Urbe**, Império**, Forum, Direito**, Magistratura, Urbanismo**, Pragmatismo, Romanização**, (Imperator) e “Augusto”
Município, Aculturação** (Augustus).
23 a. C.
* Conteúdos de aprofundamento O Povo e o Senado
** Aprendizagens e conceitos estruturantes conferem-lhe o “Poder
Tribunício” (Tribunicia
Potestas).
12 a. C.
2.1. Roma, cidade ordenadora de um império urbano É “Sumo Pontífice”
(Pontifex Maximus).
Constituído ao redor do Mediterrâneo e da relação de forças que se desenvolveram no
10 a. C.
seu seio, o Império Romano levou a cabo a unificação de um espaço vastíssimo que, no seu Recebe o título de “Pai da
Pátria” (Pater Patriae).
apogeu (séculos I e II d. C.), se estendia, de Ocidente para Oriente, da Península Ibérica à
Mesopotâmia, e, de norte para sul, das Ilhas Britânicas ao Egito.
Ao redor do Mar Mediterrâneo erguiam-se os seus principais cen-
tros urbanos: Roma, Cartago, Atenas, Antioquia, Alexandria...

As províncias do Império encontravam-se ligadas por uma


rede viária complexa (Fig. 1) e inovadora, ajustada às necessida-
des militares e às atividades civis, como o comércio e a desloca-
ção dos indivíduos. As vias romanas modificam a paisagem e os
acidentes topográficos não as param nem as desviam, ligando os
territórios mais remotos do Império entre si e cada um deles a
Roma, no centro. Fig. 1. A rede viária romana,
concebida de forma
engenhosa e tecnicamente
– A unidade do mundo imperial: o culto a Roma e ao imperador evoluída, articulava os
principais portos e as cidades
O domínio do Mediterrâneo e a construção do Império* acarretaram elevados custos do Império e ligava-os a
à sociedade romana e importantes consequências políticas. A vastidão dos seus domí- Roma, constituindo desta
forma um instrumento
nios fez com que a Constituição da Roma Republicana, assente no modelo da polis grega, indispensável para
se tornasse cada vez menos eficaz para o governo do Império* que já não pode dispen- a exploração económica das
regiões dominadas e para a
sar o exército e os seus generais. afirmação do domínio imperial.
16 Módulo 1 - Raízes mediterrânicas da civilização europeia – cidade, cidadania e império na antiguidade clássica

* Império: na Roma antiga, É assim que se impõe Júlio César, o conquistador da Gália, que governa sozinho
imperium era o poder
supremo militar e civil do durante alguns meses, nos anos 45 e 44 a. C., após uma sangrenta guerra civil, inves-
rei, e posteriormente dos tido de amplos poderes ditatoriais. Esta experiência política termina abruptamente no
altos magistrados da
República. Com Augusto, ano de 44 a. C. com o seu assassinato às mãos dos seus adversários republicanos. No
o imperium passou entanto, a conservação do Império reclamava cada vez mais o estabelecimento de um
a constituir a base de
legitimação ou regime monárquico.
fundamentação do seu
poder e autoridade e do Caberá a Augusto (63 a. C.–14 d. C.), sobrinho-neto e herdeiro do ditador assassinado,
domínio Romano sobre os após derrotar Marco António, iniciar o regime de Principado(1).
povos submetidos a Roma
(Império Romano). Convictos de que essa era a melhor forma de garantir a coesão do Estado e do Impé-
rio, as autoridades romanas empenharam-se em promover a disseminação dos valores
da romanidade. O culto ao Imperador e o modo de vida romano foram difundidos de um
extremo ao outro do Império (Fig. 2), nas cidades fundadas à imagem de Roma, com
forum, templos e banhos públicos, que as elites
cultas adotaram e tinham orgulho em ostentar.

– A unidade do mundo imperial: a


codificação do Direito
A ideia de lei, imprescindível na vida e no
pensamento dos Romanos, constitui um dos
seus legados mais importantes. A base do
direito civil, aquele que se aplicava aos cida-
dãos romanos, era o costume que, segundo a
tradição, tinha sido codificado na Lei das Doze
Tábuas (449 a. C.).
Fig. 2. A expressão do
Império Romano no tempo Posteriormente, este corpo legislativo, que era a base de todo o direito público e
de Augusto: “Hoje, não
existe ninguém no mundo privado(2) em Roma, acabaria por cair em desuso, ultrapassado pela atividade jurídica do
civilizado que não Senado e dos magistrados, em particular os pretores que, através da publicação de
reconheça Roma a senhora
do Universo e recuse numerosos éditos(3), criaram uma grande quantidade de regulamentos que acabaram por
obedecer-lhe”. tornar-se numa espécie de grande código de direito civil. Sob o Império, o Direito tor-
Dionísio de Halicarnasso
nou-se essencialmente um instrumento para servir os objetivos de centralização política
e administrativa dos imperadores e de afirmação e coesão do Império.

– A unidade do mundo imperial: a progressiva extensão da cidadania


A concessão do direito da cidadania, que inicialmente era um privilégio que se limi-
tava aos Romanos propriamente ditos, vai progressivamente alargar-se às populações
que viviam sob os seus domínios. Primeiro à Itália, no decurso ainda do século I a. C.;
logo de seguida, a um número cada vez maior de povos e cidades, num processo que

(1)
Principado (princeps, primus inter pares = príncipe, o primeiro entre iguais): regime que se baseia no princípio da
aceitação ou consenso geral e que representa um compromisso entre república e monarquia. O príncipe recebe for-
malmente o poder do povo e do Senado. As suas principais características são: reforço do poder executivo (auctoritas)
e respeito pelas formas tradicionais (mores maiorum).
(2)
Direito público e direito privado: o primeiro regula as relações entre os cidadãos e o Estado; o segundo as relações
entre os cidadãos. Havia ainda o jus gentium (à letra, direito das gentes) que regulava as relações de Roma com os
povos do Império. A influência do direito romano sobre os direitos nacionais europeus perdura até à atualidade.
(3)
Éditos: ordens/leis escritas e comunicadas através de anúncios públicos.
Unidade 2 - O modelo romano 17

conheceu um desenvolvimento gradual até à sua generalização nos primeiros anos do Documento 1
século III, pelo Édito de Caracala de 212 d. C. A cidadania romana foi concedida a todos
A generalização da cidadania
os homens livres do Império integrando a pluralidade dos povos no Estado imperial. romana: Édito de Caracala
(212)
Contrariamente ao conceito grego, para os Romanos a cidadania é uma noção aberta.
Todos os que habitam
O critério determinante para um novo cidadão é a adesão aos valores da cidade. Esta o mundo romano são
considerados cidadãos
liberalidade de Roma na atribuição da cidadania constituiu o melhor fator de coesão do
romanos por determinação
Império. do imperador.
Digesto, V, 17
2.2. A afirmação imperial de uma cultura urbana pragmática
- A padronização do urbanismo* * Urbanismo: ordenamento
das construções e do
Urbs Orbi(4), Roma é o centro do Mundo, a cidade por excelência à volta da qual tudo espaço citadino.
gravita e à imagem da qual se erguem novas cidades, segundo o seu modelo político,
cultural e urbanístico. Pode assim falar-se de um tipo de “cidade romana” com um pla-
neamento urbanístico de caráter utilitário, edificada a partir do traçado das vias e tendo
como centro o forum* com os templos, a basílica e a cúria. * Forum: nome dado pelos
romanos à praça principal
Outras construções com fins práticos, como aquedutos, fontes, termas(5) e esgotos, ou da cidade. O seu centro
político, religioso,
recreativos, como ginásios, teatros e anfiteatros, ou ainda obras de caráter comemora- económico e social.
tivo, como arcos de triunfo e colunas monumentais, completavam um conjunto arquite- O mesmo que ágora para
os Gregos.
tónico imponente, sólido e funcional, características próprias de um povo positivo e com
grande sentido de pragmatismo*. * Pragmatismo:
pensamento/atitude que
A admiração por Roma, pelos seus modelos urbanísticos e artísticos e pelo modo de condiciona a validade de
uma ideia ou conhecimento
vida dos Romanos levou os povos do Império, em particular as suas elites, a aceitarem à sua utilidade ou
a supremacia romana, colaborando deste modo na pacificação e na unidade imperial, ou aproveitamento. Por outras
palavras, dá prioridade ao
seja, na pax romana(6), um instrumento fundamental para a segurança e prosperidade do
efeito útil. O pragmatismo
Império. dos Romanos revela-se em
áreas muito diversas: na
religião, na arte, na
– A fixação dos modelos arquitetónicos literatura, no direito,
na política interna e externa.
Os Romanos não criaram um estilo arquitetónico próprio. Expressão do seu espírito
pragmático, a arquitetura romana é essencialmente uma síntese de influências etruscas
e gregas. O plano do templo é herdado dos Etruscos, tal como o arco de volta perfeita
(ou arco romano), um dos elementos fundamentais da sua arquitetura aplicado às pon-
tes, aquedutos e edifícios públicos e privados. A decoração é grega, sendo a ordem corín-
tia a preferida pela sua exuberância e dimensões mais conformes à escala de grandeza
do Império. Não obstante, também inovaram. São criação romana as ordens toscana e
compósita, esta integrando elementos das ordens jónica e coríntia e dois novos materiais
de construção: o cimento (opus caementicium), extremamente resistente, e o ladrilho
(opus latericium) (Fig. 3). Combinados, possibilitaram a construção de abóbadas de gran-
des dimensões e, não obstante, leves. ? Questões

1. Que instrumentos
(4) utilizou Roma no processo
Urbs Orbi: cidade do Mundo.
(5)
de unificação do seu
Termas: edifícios públicos ou privados destinados a banhos, cujo esquema básico é constituído por um vestiário e
Império?
três salas de banhos com piscinas de água fria, tépida e quente, e a sala da caldeira.
(6)
Pax romana: a Paz (Pax) era, para os Romanos, o principal objetivo do que consideravam ser a missão sagrada de 2. Qual o papel do Direito
Roma: formar um vasto império de abundância e bem-estar, sob o governo romano. nesse processo?
18 Módulo 1 - Raízes mediterrânicas da civilização europeia – cidade, cidadania e império na antiguidade clássica

– A fixação dos modelos escultóricos


Na linha da escultura grega e helenística, entre os Romanos também se destacou o
relevo histórico de caráter monumental e narrativo, no qual se faz a exaltação da ordem
política imperial (Fig. 4). A preocupação de perpetuar na pedra esculpida os acontecimen-
tos notáveis de uma época ou de um reinado (historicismo) inspirou outras realizações
do mesmo tipo, como o Altar da Paz (Ara Pacis), de Augusto, o Arco de Tito, ou as colu-
Fig. 3. Mosaico romano nas comemorativas dos imperadores Trajano e Marco Aurélio. Mas a característica mais
(Conímbriga). original da escultura romana é o retrato. A preocupação da representação detalhada dos
traços fisionómicos e do vestuário manifesta um apurado realismo, que chega a deixar
transparecer o próprio caráter psicológico das personagens retratadas.

– A apologia do Império na épica e na historiografia


Do mesmo modo que a arquitetura e a escultura, a preocupação central da poesia
épica e da historiografia passa pela glorificação da grandeza de Roma e do Império. Des-
tacaram-se Virgílio (70-19 a. C.), autor de Eneida, o grande poema épico e étnico dos roma-
nos, a obra onde se diviniza o seu passado e se justifica o Império, Horácio (65-8 a. C.)
e Ovídio (43 a. C.-17 d. C.) que cantam nos seus versos os valores romanos e os feitos
gloriosos do imperador Augusto.
Fig. 4. Busto de Marco A historiografia segue a mesma linha: Tito Lívio (59 a. C.-17 d. C.), o grande historia-
Aurélio (121-180 d. C.).
dor romano, autor de Ab Urbe Condita(7), um trabalho monumental sobre a história de
Roma, exalta as virtudes romanas e a proteção dos deuses na realização do seu destino
? Questão glorioso; Tácito (56/57-120 d. C.), autor de Histórias e Anais, evidencia dotes narrativos
e de análise psicológica; Suetónio (c. 69-140 d. C.), autor de Vidas dos Dozes Césares,
1. Quais os objetivos da
épica e da historiografia uma coleção de biografias imperiais.
romana?
– A formação de uma rede escolar urbana uniformizada
No início da época imperial, a par do interesse pelas artes e literatura, cresce a preo-
cupação com a formação intelectual dos jovens. O objetivo da instrução é promover e
reforçar o projeto imperial, romanizar, pelo que era importante criar uma rede escolar
urbana uniformizada, coerente. Os mestres eram normalmente escravos ou libertos, fre-
quentemente gregos. O litterator, “aquele que ensina as letras”, ensinava as crianças,
rapazes e raparigas, a ler, a escrever e a contar. Esta escola (ludus) para as crianças dos
7 aos 11 anos funcionava em sala ou ao ar livre.

O segundo grau de ensino (“secundário”) começava por volta 12 anos e ia até aos 15
anos e estava a cargo do grammaticus. Estudava-se o latim e o grego, poesia e noções de
história, geografia, astronomia e física. No terceiro grau de ensino (“superior”) os alunos
possuíam mais de 16 anos. A prioridade era o estudo dos prosadores e da retórica. Tal
como entre os gregos, a educação romana fundamentava-se largamente no ensino das
Humanidades(8), tendo em vista a formação de oradores eloquentes e moralmente bem
formados.

(7)
Ab Urbe Condita: desde a fundação da Cidade.
(8)
Humanidades (da palavra latina humanitas): está associada à reflexão filosófica e às atividades culturais, em espe-
cial literárias. Daí que a palavra significasse também “instrução”, “educação”, “cultura”, “letras” e “artes liberais”.
Unidade 2 - O modelo romano 19

2.3. A romanização da Península Ibérica, um exemplo Cronologia


de integração de uma região periférica no universo imperial 218-201 a. C.
II Guerra Púnica: os
Até ao séc. II a. C., o território da Península Ibérica esteve à margem da expansão Romanos instalam-se
imperialista romana. A situação alterou-se em 218 a. C. quando, no contexto da II Guerra na Península Ibérica.
Púnica, os Romanos invadem a Península Ibérica para combater os Cartagineses. Roma 197 a. C.
Conquista romana de Cádis
venceu Cartago e, apercebendo-se da importância económica e estratégica da Península, aos cartagineses.
promoveu a sua conquista e ocupação. Ainda antes do fim da Guerra, em 206 a. C., os A Hispânia fica sob
o controlo de Roma.
Romanos procederam pela primeira vez à divisão da Hispânia em duas províncias, a
155 a. C.
Citerior e a Ulterior. Início da guerra lusitano-
-romana.
Pacificados os resistentes Celtiberos e Lusitanos, o imperador Augusto fixou a orga- 29 a. C.
nização administrativa da Hispânia, dividindo a Ulterior em duas províncias – a Lusitânia Roma impõe o seu domínio
ao espaço hispânico.
(capital Emerita Augusta) e a Bética (capital Cordoba) –, dando à Citerior o nome de Tar-
24 a. C.
raconense estas em Conventus (leis e justiça). Paralelamente estimulou a fixação de vete- Augusto divide a província
ranos das legiões e emigrados de Itália (fundação de colónias), que impulsionaram a Ulterior em duas: Lusitânia
(capital - Emerita Augusta,
romanização*. A presença de mercadores e funcionários dinamizou o comércio e a circu-
Mérida) e Bética (capital –
lação monetária. As villae, grandes unidades de exploração agrícola, abasteciam de Cordoba), dando à Citerior
o nome de Tarraconense.
cereais, vinho, azeite e carne as despensas romanas, a par de outras atividades como o
19 a. C.
fabrico da cerâmica, a mineração, a pesca e a extração do sal.
Conquista definitiva da
As cidades peninsulares indígenas possuíam estatutos político-jurídicos distintos. Península Ibérica.

Dividiam-se em dois tipos: 74 d.C.


O imperador Vespasiano
– estipendiárias – resistentes à conquista, pagavam um tributo (stipendium), mas aos concede o direito de
cidadania (Jus latii minus)
habitantes, livres, era-lhes permitido manter leis próprias e a propriedade da terra; aos hispânicos.
– livres, podendo ser federadas e, como federadas, em alguns casos imunes, isto é, 212
isentas de tributos. Caracala cria a província
da Gallaecia (Galiza).

A algumas cidades, como Olissipo (Lisboa), foi atribuído o estatuto de município


(municipium), dispondo os seus habitantes de direitos de cidadania e autonomia em
graus variáveis. * Romanização: processo
de transformação cultural
Seguindo o modelo da Roma Imperial, nas cidades peninsulares construíram-se edifí- e civilizacional (aculturação)
dos povos submetidos ao
cios públicos utilitários e de lazer, como o forum, templos, termas, aquedutos, teatros e domínio de Roma com
anfiteatros, difundiu-se a língua (latim) e os costumes romanos, entre outros meios ou expressão na adoção, mais
ou menos profunda
instrumentos de um processo de aculturação(9) exemplar e de integração de uma região
e duradoura, da cultura
periférica no universo imperial romano facilitada pelo engenhoso sistema de comunica- romana.
ções romano.

(9)
Aculturação: processo pelo qual um grupo entra em contacto com uma cultura diferente da sua e a assimila total
ou parcialmente.
20 Módulo 1 - Raízes mediterrânicas da civilização europeia – cidade, cidadania e império na antiguidade clássica

Cronologia Unidade 3 O espaço civilizacional greco-latino à beira da mudança


313
SUMÁRIO
Édito de Milão, do
Imperador Constantino: – O império universal romano-cristão
tolerância para todas
as religiões. – A Igreja e a transmissão do legado político-cultural clássico
318-381 – Prenúncios de uma nova geografia política: a presença dos “Bárbaros” no Império
Propagação do Arianismo.
325
APRENDIZAGENS RELEVANTES
Concílio de Niceia: formula
o Credo e reafirma – Reconhecer a importância do legado político-cultural clássico como uma das matrizes da
a divindade de Cristo.
formação da civilização europeia ocidental.**
381
Concílio de Constantinopla:
confirmação dos acordos CONCEITOS/NOÇÕES ESSENCIAIS
de Niceia. Igreja romano-cristã; Civilização**; Época Clássica
391
Teodósio impõe o
Cristianismo como religião * Conteúdos de aprofundamento
oficial do Império e proíbe ** Aprendizagens e conceitos estruturantes
os antigos cultos aos
deuses.
– O império universal romano-cristão
* Igreja Romano-Cristã: O Imperador Constantino (306-337) (Fig. 1), depois de restaurar a unidade imperial,
comunidade dos fiéis que
seguem o Cristianismo pelo Édito de Milão, de 313, concede a liberdade religiosa e a igualdade de direitos aos
e respeitam a autoridade cristãos e decreta a restituição dos bens anteriormente confiscados à Igreja.
do Papa de Roma.
No entanto, os problemas não terminaram para o Cristianismo. As diversas maneiras
de entender a Fé provocaram várias divisões. As heresias(1) donatista(2) e ariana(3) consti-
tuíram um sério problema para a unidade da fé cristã. Para ultrapassar a questão, Cons-
tantino interveio para pôr ordem na organização da Igreja promovendo a convocação de
um concílio ecuménico(4) , o Concílio de Niceia (325), que condenou o Arianismo e defi-
niu o Credo (dogma) da fé cristã. Superada a crise, o Cristianismo pôde reafirmar o seu
caráter católico (universal), integrando a totalidade dos homens numa única sociedade,
a da comunidade dos fiéis de Cristo, sob o primado da Igreja Romano-Cristã*.

– A Igreja e a transmissão do legado político-cultural clássico


Fig. 1. Constantino,
Ultrapassados os problemas de unidade do dogma cristão e dispondo a Igreja de uma
o Grande, restabeleceu
a unidade imperial organização mais sólida, os Padres da Igreja ou patrística, como são designados os escri-
e governou o Império de tores cristãos dos primeiros séculos, vão dedicar-se a uma intensa atividade intelectual
324 a 337. Em 313, pelo
Édito de Milão, concedeu e doutrinal. Entre os mais importantes Padres da Igreja, destacaram-se Tertuliano, Ata-
a liberdade religiosa násio, Basílio, Gregório de Nazianzo, Gregório de Nisa e João Crisóstomo.
e a igualdade de direitos
aos cristãos.
(1)
Heresia: desvio doutrinário.
(2)
Donatismo: movimento cismático criado pelo bispo Donato, que dividiu a Igreja do Norte de África no século IV.
Os donatistas defendiam que os Sacramentos não eram válidos em si mesmos mas que a sua validade dependia da
Questão dignidade do sacerdote que os ministrava.
? (3)
Arianismo: heresia propagada por Ário (318-381) e seus adeptos, que negava a divindade de Jesus e que deu origem
a uma das mais graves crises da Igreja Primitiva.
1. Qual o papel de (4)
Ecuménico: universal; “concílio ecuménico” porque nele tiveram assento prelados representantes de todo o mundo
Constantino na afirmação
cristão. A intervenção de Constantino instaurou um novo sistema de relações entre a Igreja e o poder político, o cesa-
do Cristianismo no Império ropapismo (ingerência do poder político nos assuntos da Igreja) que, no futuro, iria constituir uma fonte de novos pro-
Romano? blemas para a Igreja.
Unidade 3 - O espaço civilizacional greco-latino à beira da mudança 21

Mas o papel dos Padres não se limitou ao plano doutrinal. Alguns deles revelam uma
grande simpatia pelas línguas e filosofia da Época Clássica* que pensavam poder servir * Época Clássica:
o objetivo da propagação do Cristianismo. Neste particular, sobressaíram Lactâncio, período áureo
das civilizações grega
Santo Ambrósio, S. Jerónimo e Santo Agostinho (Fig. 2), estudiosos dos filósofos heléni- (sécs. V-IV a. C.) e romana
cos e das leis romanas. (sécs. I a. C.–II d. C.).

– Prenúncios de uma nova geografia política: a presença dos “Bárbaros”


no Império
Os primeiros ataques dos Bárbaros (século III) obrigaram os imperadores a reorgani-
zar o sistema defensivo do Império. Esta reorganização permitiu mantê-los em res-
peito, sempre que estes procuram retomar a ofensiva. O Império assim protegido
pôde continuar a subsistir, mas a abertura das fileiras do exército romano aos
Bárbaros ou a sua instalação no seu território trouxe novos problemas:
o exército romano vai-se transformando num exército de mercenários(5) e os
Bárbaros vão-se instalando nos territórios do Império, como “federados(6)”,
julgando resolver, assim, a “questão bárbara”.

As grandes invasões que conduziram à queda de Roma ocorreram no início


do século V: sob pressão dos Hunos, os Germanos invadiram a Itália e, em 410,
Roma foi pilhada pelos Visigodos, de Alarico. Em 452, os Hunos, comandados, por
Átila, penetraram na Itália mas Roma foi poupada. Ao mesmo tempo, instalam-se por
todo o Império diversos reinos bárbaros: os Visigodos, na Hispânia, os Francos no Norte Fig. 2. Santo Agostinho
(354-430) ensinando os
da Gália, os Vândalos na África, etc. Em 476, Odoacro, chefe dos Hérulos, afasta o último
seus discípulos. O seu
Imperador Romano, Rómulo Augústulo (475-476) e provoca a queda e a desagregação pensamento sobre
do Império Romano do Ocidente. a questão da relação
entre ciência e fé pode
resumir-se na célebre
frase: Compreende para
que possas crer, crê para
que possas compreender.

? Questão

1. Que fatores explicam o


declínio do Império
Romano do Ocidente?

Fig. 3. O Império Romano no século IV.

(5)
Mercenários: aquele que serve ou trabalha por um preço ou salário ajustado. Aqui, soldados que combatem por
dinheiro, muitos dos quais recrutados entre os povos Bárbaros.
(6)
Federados: povos inteiros que se encontravam ligados a Roma por meio de um tratado (foedus). Estes povos con-
servavam os seus costumes, a sua organização social e política; ocupam as terras romanas e em compensação for-
necem ao governo imperial um certo número de soldados.
22 Módulo 1 - Raízes mediterrânicas da civilização europeia – cidade, cidadania e império na antiguidade clássica

Questões para Exame


1

Documento 1 | A democracia ateniense na Época Clássica

Não é a habitação que constitui o cidadão: os estrangeiros [metecos] e os escravos não são “cidadãos”,
mas “habitantes”. (...) Não participam, portanto, senão duma maneira imperfeita nos direitos de cidada-
nia. Quase a mesma coisa acontece com as crianças, que não têm ainda idade para estarem inscritos no
recenseamento dos cidadãos (…). Com maioria de razão se devem deliberadamente riscar desta lista os
infames e os proscritos. O que constitui propriamente o cidadão, a sua qualidade verdadeiramente carac-
terística, é o direito de sufrágio nas Assembleias e de participação no exercício do poder público na sua
pátria.
Aristóteles, Tratado da Política, II, Cap. IV.

Documento 2 | O regime político ateniense

Direi em primeiro lugar que é justo que, em Atenas, os pobres e a multidão gozem de mais benefícios
do que os ricos e os bem-nascidos, porque é o povo que embarca nos navios e que faz o poder da cidade.
(...) Também é justo que todos igualmente participem nas magistraturas, sorteadas ou eletivas, e que todo
o cidadão que o peça possa tomar a palavra.
Pseudo-Xenofonte, República Ateniense, 1, 2.

Documento 3 | O exercício do direito de voto

Fig. 1. Uma eleição sob a proteção divina de Atenas, os cidadãos depositavam o voto numa urna
(pintura sobre cerâmica, século V a. C.).
Questões para Exame 23

Documento 4 | A arquitetura e escultura gregas, expressão do culto público e procura da harmonia

Fig. 2. Fachada principal do Pártenon (448-436 a. C.) na Acrópole Fig. 3. Estátua do deus Hermes com o
ateniense. pequeno Dioniso, de Praxíteles (350-330
a. C.).

1.1. Caracterize o regime democrático ateniense nos séculos V e IV a. C. tendo em conta os tópicos a seguir
enunciados:

– os fundamentos da democracia;
– os limites da participação democrática.

Para além dos seus conhecimentos, deve integrar na sua resposta os dados dos documentos 1 a 3.

1.2. Explicite na análise das figuras 2 e 3 a afirmação que titula o documento 4.

Documento 5 | O sentido pragmático dos Romanos

Fig. 4. Pormenor de uma via romana. Fig. 5. Ruínas romanas de Conímbriga.


24 Módulo 1 - Raízes mediterrânicas da civilização europeia – cidade, cidadania e império na antiguidade clássica

Documento 6 | A romanização da Península Ibérica

Aos aldeamentos do Centro e Norte da Península e às “cidades” (oppida) indígenas do sul, os Roma-
nos vão contrapor as suas cidades (urbes), com os seus sistemas próprios de governo e os seus monu-
mentos.
A habitação privada vai sofrer também alterações, embora o novo modelo de casa tenha sido mais
característico do colono romano ou do indígena romanizado de médio ou alto poder económico. Os aldea-
mentos (vici) continuaram a ter a sua tradicional habitação indígena, com algumas modificações, sobre-
tudo a nível de materiais (cobertura de telhado em telhas planas – tegullae (...) – de cerâmica, substituindo
a tradicional cobertura de fibras vegetais, e a utilização de cimentos e argamassa), captação e abasteci-
mento de águas, vias de acesso e um ou outro eventual monumento de tipo religioso ou dedicatório. (...).
Conímbriga é um dos poucos locais onde podemos estudar a casa (domus) romana com alguma segurança.
Aqui as casas ricas desenvolvem-se em torno de um peristilo com um tanque central e zonas ajardinadas.
(...). Os únicos exemplares de “ilhas” (insulae) que conhecemos são os escavados em Conímbriga. (...).
O templo mais conhecido é o impropriamente chamado templo “de Diana”, na cidade de Évora. Seria dedi-
cado, mais provavelmente, ao culto do imperador e de Roma (...). Uma das zonas importantes das cida-
des romanas era o fórum, grande praça retangular ou subquadrangular à volta da qual, ou perto da qual,
se concentravam alguns edifícios públicos: templo, basílica, cúria, mercado. (…) A estes (...) deveremos jun-
tar vários balneários, públicos ou privados (...).

SARAIVA, J. H.(dir.), História de Portugal, vol. 1, Lisboa, Publ. Alfa, pp. 374-376.

2.1. A partir dos dados dos documentos 5 e 6, explicite o sentido pragmático dos Romanos.

2.2. Analise o processo de romanização da Península Ibérica.

A sua resposta deve abordar, pela ordem que entender, os seguintes tópicos de desenvolvimento:

– os objetivos da conquista da Península;

– os instrumentos utilizados no processo de romanização;

– os fatores do seu sucesso.

A sua resposta deve integrar, para além dos seus conhecimentos, os dados disponíveis nos documentos
5 e 6.
Unidade 1 - A identidade civilizacional da Europa Ocidental 25

Módulo 2 10.° Ano


Dinamismo civilizacional da Europa Ocidental
nos séculos XIII a XV – espaços, poderes e vivências
1. A identidade civilizacional da Europa Ocidental
2. O espaço português – a consolidação de um reino cristão ibérico
3. Valores, vivências e quotidiano

Contextualização
Unida no e pelo Cristianismo e o sistema feudal, a Europa Ocidental nos séculos XIII e XIV
apresenta contudo uma grande diversidade política - impérios, reinos, senhorios e comunas.
É o tempo da conflituosa ordenação das relações entre os poderes espiritual e temporal, do
renascimento das cidades e das novas formas de sociabilidade, cultura e mentalidade que
tiveram a sua origem nesta fase mais dinâmica e criativa da história medieval da Europa
Ocidental. É ainda o tempo da afirmação de Portugal como entidade política autónoma.

Unidade 1 A identidade civilizacional da Europa Ocidental


SUMÁRIO Cronologia
1.1. Poderes e crenças – multiplicidade e unidade Sécs. VIII-XV
1.2. O quadro económico e demográfico – expansão e limites do crescimento Reconquista Cristã na
Península Ibérica.
APRENDIZAGENS RELEVANTES Sécs. XI-XIII
As Cruzadas no Oriente.
- Reconhecer na sociedade europeia medieval fatores de coesão que se sobrepuseram às
permanentes diversidades político-regionais, distinguindo a importância da Igreja nesse Sécs. XI-XIII
Colonização do norte e
processo.
leste da Germânia.
- Reconhecer no surto demográfico do século XIII, na expansão agrária que o acompanhou
1204-1261
e no paralelo desenvolvimento urbano o desencadear de mecanismos favorecedores de O Império Latino do
intercâmbios de ordem local, regional e civilizacional. Oriente.
- Reconhecer o senhorio como o quadro organizador da vida económica e social do mundo Fins séc. XIII
rural tradicional, caracterizando as formas de dominação exercidas sobres as comunida- Avanço turco sobre o
Império Bizantino.
des campesinas**.
Séc. XIV
CONCEITOS/NOÇÕES Termina o movimento de
Reino**; Senhorio**; Comuna; Papado; Igreja Ortodoxa grega; Islão; Burguesia; Economia monetária expansão para o leste.
Fomes, pestes (Peste
* Conteúdos de aprofundamento Negra, 1347-1350) e
guerras (Guerra dos Cem
** Aprendizagens e conceitos estruturantes
Anos, 1337-1453).

1.1. Poderes e crenças – multiplicidade e unidade


– Uma geografia política diversificada: impérios, reinos, senhorios e comunas
A partir sensivelmente do ano mil, foram desaparecendo as incertezas da Alta Idade
Média e a Europa Ocidental recuperou a estabilidade e a prosperidade. No plano político,
a consolidação do feudalismo proporcionou novas bases de autoridade aos príncipes
26 Módulo 2 - Dinamismo civilizacional da Europa Ocidental nos séculos XIII a XV – espaços, poderes e vivências

medievais nas suas lutas contra o Sacro Império Romano-Germânico(1) que, desgastado
* Papado: instituição pelas suas lutas contra o Papado*, começa no século XII a dar sinais de fragilidade, per-
pontifícia. Considerados
como representantes de mitindo deste modo a formação de reinos* e ducados fortes. Noutras regiões do Ocidente
Deus, na Idade Média os europeu, em França, na Inglaterra e na Península Ibérica – nos reinos de Castela, de Ara-
Papas juntavam ao seu
enorme prestígio e gão e de Portugal –, verificou-se um processo de afirmação das monarquias hereditárias
autoridades espirituais um assentes numa administração central cada vez mais complexa e controladora.
imenso poder temporal.
* Reino: estado governado Diferentemente, no norte da Península Itálica e no Mar Báltico, áreas comerciais muito
por um regime monárquico ativas, fortalece-se a autonomia política das cidades-estados onde a aristocracia mercan-
ou realeza.
til controla o governo. Veneza e Génova sustentam o seu poder numa hegemonia comer-
* Comuna: cidade
emancipada da tutela cial e militar que vão construindo no Mediterrâneo. Lubeck, sede da Liga Hanseática
senhorial; situação (1241) – uma poderosa associação comercial e militar das cidades alemãs –, impõe o seu
alcançada através de um
processo de luta ou domínio no Mar do Norte. Na Flandres e no Norte de França, o movimento comunal, expri-
simplesmente através da mindo as aspirações de liberdade dos burgueses das cidades, libertou diversas cidades
compra de uma carta de
franquia, a carta comunal. da dependência dos senhores feudais e transferiu para as elites mercantis o governo des-
* Senhorio banal: designa tas cidades emancipadas, as comunas*.
um conjunto de poderes de
origem e natureza pública Na Europa Central e Oriental e em muitos pontos do Ocidente europeu, encontramos,
exercidos pelo senhor num no século XIII e durante bastante tempo mais, os senhorios banais*, ou seja, vastas áreas
território. O titular
acumulava no senhorio onde os senhores exerciam o direito de bannum(2), um direito que no passado pertencia
esse poder jurisdicional ou exclusivamente ao monarca.
político, rendas e, muitas
vezes, património.
– Imprecisão de fronteiras internas e externas
Na Idade Média, as fronteiras dos estados europeus estavam longe de estar estabili-
zadas. O mesmo se verificava relativamente ao exterior. Além disso, o seu traçado não
era rígido nem definitivo. Nos finais do século XIII, Portugal era uma notável exceção,
pois o seu território ficou praticamente definido. O mesmo não se passava no resto da
Península Ibérica onde a presença muçulmana irá prolongar-se até ao século XV.

Na Alemanha, as sucessivas tentativas do Papado e dos imperadores do Sacro Impé-


rio para realizar o sonho de formar uma monarquia universal cristã, integrando todos os
povos do Ocidente, levaram ao aparecimento de numerosos estados. O sonho de uni-
dade deu lugar à fragmentação política e à rivalidade entre os príncipes ávidos de esten-
derem as suas fronteiras e reforçarem o seu poder. No século XIII, o Império transfor-
mara-se numa confederação de estados sob a presidência distante do imperador, num
mosaico de estados praticamente autónomos.

Na Itália, o conflito entre o Papado e o Sacro-Império(3) favoreceu a independência


das cidades e os conflitos no interior destas pelo controlo do poder. Em França, os

(1)
Sacro Império Romano-Germânico: império fundado por Otão I, coroado como imperador pelo papa, em 962, nascido
da união dos territórios orientais do fragmentado Império Carolíngio dividido após a morte do seu fundador Carlos
Magno; subsistiu até 1806, quando foi abolido por Napoleão Bonaparte.
(2)
Direito de bannum: poder de comandar, obrigar e castigar homens livres; ou seja, poderes de caráter militar e judi-
cial e a imposição de serviços e tributos.
(3)
O papa Inocêncio III (1198-1216) pretendeu impor no Ocidente uma espécie de teocracia, procurando submeter todos
os príncipes à sua autoridade, ou seja, à autoridade do representante de Deus na Terra. Estas pretensões provoca-
ram um grave conflito com Frederico II, imperador do Sacro-Império.
Unidade 1 - A identidade civilizacional da Europa Ocidental 27

monarcas feudais recorrem à guerra para unificar o território sob a sua autoridade pro-
curando retirar aos ingleses os domínios que possuem no continente, nomeadamente na
Normandia e na Aquitânia.

As fronteiras externas da Europa estavam também longe de uma estabilização. O longo


período de crescimento económico e demográfico dos séculos XI-XIII impulsionou a
expansão da Europa muito para além dos seus limites geográficos do ano mil. No
extremo ocidental, no sul e no oriente o domínio muçulmano era um fortíssimo obstá-
culo. Por isso, o conflito tornou-se inevitável: na Península Ibérica, a Reconquista Cristã,
iniciada no século VIII, empurrou os Muçulmanos para o norte de África; no oriente, as
Cruzadas permitiram abrir a navegação mediterrânica e os mercados orientais aos Euro-
peus; a norte e a leste, o movimento de colonização estendeu a fronteira da Europa muito
para além do limite tradicional do rio Elba.

O avanço turco a Oriente nos finais do século XIII, a paragem dos arroteamentos e o
regresso da “trilogia sinistra” (fome, peste e guerra) no século XIV iriam interromper de
forma dramática o surto expansionista dos séculos anteriores.

– A organização das crenças: o poder do Bispo de Roma na Igreja ocidental


A Igreja de Roma emergiu da queda do Império Romano do Ocidente, no século V, Cronologia
como a única força organizada e com força e capacidade para se impor numa Europa
1054
onde os povos “bárbaros” recém-instalados procuravam assimilar o legado civilizacional
Cisma entre a Igreja de
romano. O processo de cristianização destes povos deu à Igreja de Roma um enorme Roma e de Bizâncio.
prestígio e autoridade que ela soube capitalizar para influenciar a organização e os com- 1075-1122
A Questão das
portamentos das sociedades europeias e dos poderes políticos. Investiduras.
A Igreja defendia uma organização social triangular: três ordens bem delimitadas, 1198-1216
Pontificado de Inocêncio III.
sendo cada uma delas investida de uma função particular. No topo, os oradores, o clero, 1209-1229
seguido da ordem dos guerreiros, a nobreza, que têm por missão defender o conjunto Cruzada contra os
Albigenses (movimento
do povo, e, finalmente, os mantenedores, o povo, vivendo sob a obrigação de alimentar herético) no sul de França.
as outras duas. Cada uma das três ordens devia, portanto, cooperar na manutenção da 1223
concórdia num mundo ordenado por Deus e, por isso, imutável. Fundação da Ordem dos
Franciscanos.
O crescimento económico e o renascimento urbano iniciado no século XI acabariam 1231
Gregório IX cria a
por mostrar o desfasamento entre este modelo de organização social e a nova realidade.
Inquisição papal.
O resultado foi a desorganização do sistema de relações que a teoria das três ordens
quisera eternizar. Os antagonismos sociais surgiram tanto nos campos como nas cidades
onde o contraste entre a riqueza de uns e a miséria de outros se tornava cada vez mais
escandaloso. No seio da própria Igreja surgiram movimentos reformadores: uns heréti- Questões
?
cos, outros autorreformadores, como as Ordens Mendicantes e as Confrarias, defendendo
1. Qual o modelo de
novas formas de religiosidade mais próximas dos ideais evangélicos da Igreja primitiva.
organização social
Ao mesmo tempo, a difusão de uma cultura laica, à margem dos padrões da moral reli- defendido pela Igreja?
Quais os seus objetivos?
giosa, retirou o monopólio do ensino e da cultura ao clero.
2. Como se explicam os
No domínio do pensamento político, a Igreja impõe o ideal da reconstituição da uni- frequentes conflitos nas
relações entre o Papado e
dade imperial no Ocidente e alimenta o sonho da constituição de uma comunidade polí-
o Império ao longo da
tico religiosa unida sob a autoridade do Papa e do Imperador. Mas a pretensão da Igreja Idade Média?
28 Módulo 2 - Dinamismo civilizacional da Europa Ocidental nos séculos XIII a XV – espaços, poderes e vivências

de afirmar a superioridade do poder espiritual sobre o temporal marcaria negativamente


as relações entre os dois poderes ao longo de toda a Idade Média.

As lutas dos papas Gregório VII (Fig. 1), no século XI, e de Inocêncio III, no século XIII,
com os imperadores do Sacro-Império marcaram decisivamente essas relações: a ideia
imperial não desapareceria, mas o projeto universalista que a Igreja tentara encarnar
estava, definitivamente, comprometido.

– O reforço da coesão interna face a Bizâncio e ao Islão*


Fig. 1. Iluminura de 1114, O Cristianismo constitui após a queda de Roma a base da unidade da Europa medie-
representando Henrique IV
val, mas esta unidade era muito relativa. Com efeito, a cristandade conheceu vários con-
no momento em que
suplica a presença de flitos envolvendo papas e imperadores, reis e clérigos, tendo na sua origem questões de
Gregório VII para que
natureza política e social misturadas com outras do foro religioso. Destas querelas resul-
este lhe levantasse
a excomunhão. taram naturais quebras de prestígio e a rutura entre Roma e Bizâncio no ano de 1054,
quando o patriarca Bizantino e o legado do papa lançaram anátemas(4) recíprocos, culmi-
nando numa série de crises motivadas por divergências doutrinais e de autoridade.

Confinada ao Ocidente, a Igreja Romana procu-


rou reforçar a coesão combatendo os movimentos
heréticos, como o dos Cátaros ou Albigenses(5), no
século XII, criando a Inquisição para reprimir as
heresias, apostando ao mesmo tempo na pregação
e no exemplo das novas Ordens Mendicantes.

Relativamente ao Islão, a Igreja ocidental, fun-


dada na sua vocação universal, mobilizou as suas

Fig. 2. Partida do rei


energias na luta contra aqueles que considerava
francês Luís IX (1215-1270) como infiéis, inimigos do Cristianismo, e pregou a Guerra Santa (Cruzada) (Fig. 2), tanto
para a Cruzada (1248-1254).
na Península Ibérica (Reconquista Cristã) como no Oriente, na Terra Santa, lugar sagrado
de peregrinação.

*Islão: religião dos


muçulmanos. A palavra 1.2. O quadro económico e demográfico – expansão e limites do
“islão” significa crescimento
“submissão”. O muçulmano
é aquele que se submete
à doutrina de Alá revelada – A expansão agrária
ao profeta Maomé e escrita
no livro sagrado, o Corão, Depois de um período terrível marcado pelas incertezas da vida (fomes, insegurança,
cujo significado em árabe pestes) e pelas ameaças externas (os Vikings, no norte, os Magiares, no centro, os Muçul-
é “recitação”.
manos a oriente e a sul), as primeiras décadas do século XI significaram para a Europa
o regresso da paz e o início de um longo período de expansão económica e de estabili-
dade que se prolongará até aos finais do século XIII.
? Questões

1. Como procurou a Igreja


ocidental reforçar a sua
(4)
coesão interna? Anátemas: excomunhões.
(5)
Cátaros (“puros”) ou Albigenses: criticavam a Igreja Católica, na sua prática e nas suas riquezas, rejeitavam os
2. Que atitude assumiu sacramentos e o culto, negavam a encarnação de Cristo e combatiam o casamento e a procriação. Falhadas as pre-
relativamente ao Islão? gações de S. Bernardo, o Papa pregou contra eles uma cruzada que se transformou numa guerra sangrenta e que
Porquê? termina em 1229.
Unidade 1 - A identidade civilizacional da Europa Ocidental 29

Na origem destas mutações encontra-se um significativo cres-


cimento demográfico que impulsiona os movimentos das Cruza-
das (Oriente), da Reconquista na Península Ibérica e a coloniza-
ção alemã do leste europeu. Mas também explica o
arroteamento(6) de extensas áreas no interior da Europa que até
então se encontravam cobertas por matagais e florestas ou ato-
ladas em pântanos.

Os agentes destas transformações são, nomeadamente, os


Fig. 3. Progressos técnicos
senhores laicos e eclesiásticos e os próprios reis que levaram a cabo profundos arrotea- agrícolas depois do ano
mentos coletivos. mil: a utilização de
instrumentos em ferro
As Ordens Monásticas revelam-se instituições empreendedoras, na tarefa de coloniza- e do cavalo, de estrume
animal e de novos
ção e de ocupação dos solos(7). Do mesmo modo, reis e eclesiásticos unem-se para fun- engenhos de irrigação
dar novas aldeias. Fundam-se assim terras novas e aldeias livres, para onde se procura (nora e picota).

atrair as gentes mais variadas, até mesmo servos em fuga dos seus senhores com pro-
messas de terras e a garantia da sua liberdade pessoal.

Ao mesmo tempo, ocorre uma “revolução” das técnicas agrícolas (Fig. 3):
– a substituição do arado pela charrua, cuja grelha assimétrica permitia não só abrir ? Questões
o solo mas também revirá-lo, arejando-o e facilitando uma melhor distribuição dos
1. Que condições
nutrientes; favoreceram a expansão
agrária na Europa Ocidental
– a introdução da rotação trienal (seguindo a sequência: trigos de inverno, trigos de nos séculos XI-XIII?
primavera, repouso) favoreceu o aumento da produção e da produtividade; 2. Qual a relação entre
– o uso preferencial do cavalo em vez do boi; embora mais caro e mais difícil de man- o aumento da produção
agrícola e o crescimento
ter, o cavalo permite ganhos de tempo no trabalho. demográfico então
verificado?
Apesar de a produtividade da terra continuar reduzida, do século XI ao XIV, a Europa
conseguiu ultrapassar a ameaça das fomes cíclicas, facto que esteve na origem do cres-
cimento demográfico, até então contido, devido à insuficiência da produção agrícola. No
entanto, o equilíbrio demográfico continuava a ser frágil. As sociedades europeias ainda
não estavam suficientemente protegidas das crises de subsistências e da penúria de
homens.

– Dinamização das trocas regionais e afirmação das grandes rotas do comércio


externo Cronologia

1200
O comércio mediterrânico Instituição da feira de
Bruges.
O longo período de expansão económica que caracterizou o Ocidente cristão nos sécu-
1260-1266
los XI-XIII e o movimento das Cruzadas, conjugado com o enfraquecimento do domínio Primeira viagem dos
muçulmano e a melhoria dos meios de transporte marítimos (desenvolvimento da constru- venezianos Niccolo e Mateo
Polo à Ásia.
ção naval, adoção de novos instrumentos e técnicas de orientação e navegação como a
1284
Os Genoveses derrotam
a frota de Pisa e afastam
esta cidade da disputa do
(6)
Arroteamento: desbravamento; transformação de áreas incultas, bravias, em terras cultivadas, produtivas. comércio no Mediterrâneo
(7)
Cluny, Cister e as Ordens Militares promovem ativamente o arroteamento de novas terras.
Oriental.
30 Módulo 2 - Dinamismo civilizacional da Europa Ocidental nos séculos XIII a XV – espaços, poderes e vivências

bússola, o portulano(8) e a vela triangular), permitiram que os


“italianos” estabelecessem uma rede comercial no Mediterrâ-
neo que durante vários séculos lhes assegurou a prosperidade
económica, constituindo-se como uma ponte privilegiada entre
a Cristandade e os mundos Bizantino e Muçulmano.

Na ligação do Atlântico ao Oriente, os portos mediterrâni-


cos de Barcelona, Génova, Marselha, Tunes, Veneza, Constan-
tinopla e Alexandria constituíam as escalas mais importantes.
Estas correntes comerciais marítimas eram ainda reforçadas
por rotas terrestres que do Oriente confluíam para as margens

Fig. 4. O porto de Génova


do Mar Negro e destas para o Norte da Europa. De entre as
no século XV. cidades mediterrânicas, Veneza é a mais importante, embora nos séculos XII e XIII tivesse
de enfrentar a concorrência de Pisa e Génova (Fig. 4), que lhe disputavam o lucrativo
comércio no Mediterrâneo Oriental.

O Mediterrâneo Oriental era de importância vital para as cidades italianas mas tinha
igualmente um grande interesse comercial para a Europa. Com efeito, era a partir do
comércio nesta área que, através dos “italianos”, os Europeus tinham acesso aos produ-
tos de luxo asiáticos (especiarias, tecidos e fazendas de algodão e de seda, pérolas e
pedras preciosas...), às matérias-primas da Ásia Menor (alúmen e metais), aos couros,
peles e cereais da Rússia e da Roménia, aos escravos da Rússia, ao peixe salgado, vinhos
e sal do Mar Negro. Por outro lado, estes mercados absorviam artigos industriais, sobre-
tudo panos e tecidos, objetos de metal, bronze, estanho ou ferro produzidos nas cida-
des da Flandres, da Inglaterra e do sul da Alemanha. Do norte de África, provinha o ouro
tão necessário à cunhagem de moedas.

? Questões O comércio no Ocidente: principais centros urbanos e rotas comerciais

1. Quais as grandes rotas No Mar do Norte e no Mar Báltico as cidades alemãs adquirem autonomia política e
do comércio mediterrânico tornam-se polos comerciais muito dinâmicos, estendendo a sua influência para além dos
no século XIII?
limites da sua jurisdição e estabelecendo acordos comerciais com outras cidades. Foi
2. Qual a importância do
comércio do Mediterrâneo
neste contexto que se constituiu, em 1241, a poderosa Liga Hanseática, com sede em
Oriental para a Europa? Lubeque, que passou a organizar a proteção militar dos seus pesados navios de carga,
as kogge(9), carregados sobretudo com produtos em quantidade e relativamente baratos
(cereais, madeira, sal). De simples associação criada para a defesa da navegação no Mar
Báltico, a Hansa transformou-se numa importante confederação política e comercial de
cidades mercantis, monopolizando o comércio nesta área e estendendo a sua influência
a todo o norte europeu.

À margem da Hansa, algumas cidades do sul da Alemanha conheceram também um


grande desenvolvimento. Ravensburgo, Nuremberga e Augsburgo, entre outras, puderam
beneficiar, a partir do século XIII, de um período de prosperidade, graças às boas comu-
nicações com o norte de Itália e com a França, ao incremento da indústria têxtil e sobre-
tudo ao investimento na exploração mineira e na metalurgia.

(8)
Portulano: tipo de carta náutica retangular onde se encontravam registadas as linhas de rumo e a localização dos
principais portos da costa Ocidental da Europa, Mar do Norte e Mediterrâneo.
(9)
Kogge: navio de carga com um único mastro e vela quadrangular. Os latinos chamavam-lhe carraca.
Unidade 1 - A identidade civilizacional da Europa Ocidental 31

A ligação entre o norte da Europa e o norte de Itália estabele-


ceu-se num primeiro momento por via terrestre, através das rotas
abertas nos Alpes, tendo como pontos de referência as célebres
cidades-feiras de Champagne (Lagny, Bar-sur-Aube, Provins e Troyes).
Estas feiras, situadas estrategicamente no caminho entre aqueles
dois grandes polos económicos e apoiadas pelas concessões dos
condes da Champagne (isenções fiscais e de salvo-condutos), trans-
formaram a região num mercado aberto e contínuo, num espaço de
encontro quase obrigatório dos mercadores itinerantes oriundos de
todas as partes do Mundo Ocidental.
Fig. 5. S. Mateus
Mas o percurso dos mercadores não terminava nestas cidades-feiras. Para muitos, representado como
mercador e banqueiro, com
a Champagne era apenas uma etapa no caminho da e para a Flandres, onde existiam livros de contabilidade,
várias cidades com feiras e indústrias muito dinâmicas: Bruges, Ypres, Lille e Gand. balanços destinados
ao câmbio e peças de ouro
Bruges era a mais importante. A sua situação privilegiada no centro de uma grande
sobre o balcão. O volume
região industrial e mercantil e no estuário do Zwin, servida pelo anteporto de Damme, e a rapidez das transações
fizeram aumentar
por um porto bem apetrechado e por uma rede de canais navegáveis, transformou-a
a procura do dinheiro
no local ideal para as relações comerciais dos mercadores hanseáticos, ingleses e do e a importância dos
banqueiros.
sul da Europa, nomeadamente “italianos”, bascos, catalães e portugueses. Para além
disto, albergava a praça financeira europeia, a Bolsa (de Buerse, apelido da família pro-
prietária do espaço), procurada por mercadores, cambistas e banqueiros (Fig. 5) de toda
a Europa numa altura em que a economia europeia evoluía cada vez mais para uma
economia monetária*.

– A fragilidade do equilíbrio demográfico * Economia monetária:


economia aberta, onde
Não obstante a prosperidade quase generalizada na Europa nos séculos XI-XIII, a ver- a moeda circula com
dade é que o equilíbrio alcançado entre o crescimento demográfico e a produção agrí- velocidade e em
quantidade fruto da
cola era precário, porque os níveis de produtividade jamais foram melhorados de forma dinâmica das atividades
a afastar a ameaça das fomes. O equilíbrio era mantido à custa de uma conquista per- comerciais e financeiras.
Nos séculos XI-XIII,
manente de novos solos (arroteamentos de florestas, pântanos e baldios). a melhoria dos transportes
marítimos (incremento da
Nos finais do século XIII e princípios do século XIV, atingiu-se uma situação de ten- construção naval),
são entre a população e a produção e a rutura tornou-se inevitável, com a conjugação a adoção de novos
instrumentos e técnicas
de dois fatores com consequências devastadoras: de navegação (portulano,
bússola, vela triangular),
– o abrandamento e a paragem dos arroteamentos em muitas regiões da Europa;
contabilísticas (partida
– o início de uma época de catástrofes climáticas e de maus anos agrícolas. dobrada/deve e haver)
e financeiras (letra de
câmbio e cheque) deram
Estava “lavrado o terreno” onde germinariam as fomes, as epidemias e a crise. A fome um importante contributo
atinge duramente a demografia. Primeiro os pobres, depois todos. As taxas de mortali- para esta dinâmica.

dade elevam-se e a mão de obra torna-se escassa. Menos braços, menos produção. Ao
flagelo da fome junta-se o das epidemias (os corpos mal alimentados estão mais expos-
tos à doença), o das pilhagens e o das guerras. Fecha-se o círculo sinistro. A crise está ? Questão
instalada.
1. Que fatores explicam
a fragilidade do equilíbrio
demográfico na Europa dos
séculos XIII-XV?
32 Módulo 2 - Dinamismo civilizacional da Europa Ocidental nos séculos XIII a XV – espaços, poderes e vivências

Cronologia Unidade 2 O espaço português – a consolidação de um reino cristão


1096 ibérico
Fundação do Condado
Portucalense. SUMÁRIO
1128
Batalha de S. Mamede: 2.1. A fixação do território – do termo da Reconquista ao estabelecimento e fortalecimento de
D. Afonso Henriques fronteiras*
assume o governo do 2.2. O país urbano e concelhio*
Condado.
2.3. O país rural e senhorial*
1139
2.4. O poder régio, fator estruturante da coesão interna do reino*
Batalha de Ourique:
D. Afonso Henriques
assume o título de rei. APRENDIZAGENS RELEVANTES
1143 – Compreender a especificidade da sociedade portuguesa concelhia, distinguindo a diversi-
Tratado de Zamora:
dade de estatuto dos seus membros e as modalidades de relacionamento com o poder
D. Afonso VII, imperador de
Castela, reconhece o título régio e os poderes senhoriais**.
de rei a D. Afonso – Interpretar a afirmação do poder régio em Portugal como elemento estruturante da coe-
Henriques.
são do país concelhio e do país senhorial e promotor de missões de prestígio e de auto-
1179
nomia do Reino no contexto da cristandade ibérica**.
Bula Manifestis Probatum:
o papa reconhece a
independência do Reino CONCEITOS/NOÇÕES
de Portugal. Reconquista**, Concelho**, Carta de foral, Mesteiral, Imunidade**, Monarquia feudal**, Cúria, Cor-
1249 tes/parlamentos**, Inquirições, Legista
D. Afonso III reconquista
o Algarve. * Conteúdos de aprofundamento
1297 ** Aprendizagens e conceitos estruturantes
Tratado de Alcanises:
definição das fronteiras
leste de Portugal.

2.1. A fixação do território – do termo da Reconquista ao


estabelecimento e fortalecimento de fronteiras
A definição do território de Portugal, tal como a sua existência
como entidade política independente no oeste peninsular, está inti-
* Reconquista: processo de mamente ligada ao fenómeno da Reconquista*. Pode mesmo afir-
recuperação do domínio
mar-se que Portugal é um produto seu, pois tanto a formação do
da Península Ibérica,
conquistada e ocupada Condado Portucalense (1096)(1) como também a autonomização po-
pelos Muçulmanos
lítica e o alargamento territorial do Reino de Portugal estão-lhe as-
(Sarracenos ou Mouros),
iniciado a partir das sociados.
Astúrias no século VIII
pelos cristãos Com efeito, foram as vitórias no campo de batalha contra o Islão
peninsulares. Tratou-se de que deram a D. Afonso Henriques o prestígio e a autoridade neces-
um movimento lento (até
aos finais do século XV), sários para reivindicar junto das autoridades castelhana e papal o di-
irregular (com avanços reito de usar o título de rei e ser aceite como soberano pelos seus
e recuos) e com
alternância de longos súbditos(2).
períodos de paz e outros
de guerra. (1)
A formação do Condado Portucalense (1096) resultou da doação de D. Afonso VI ao
conde D. Henrique da Borgonha, que se encontrava na Península para ajudar na luta con-
tra os mouros, a título de dote hereditário, pelo casamento deste com D. Teresa, sua
Fig. 1. Definição da fronteira filha.
(2)
leste de Portugal nos fins A partir de 1139, data da vitória na Batalha de Ourique, D. Afonso Henriques assumiu o
do século XIII pelo Tratado título de rei, apesar da sua condição de vassalo de D. Afonso VII, imperador de Leão e
de Alcanises (1297). Castela.
Unidade 2 - O espaço português – a consolidação de um reino cristão ibérico 33

Foi ainda o sucesso militar que lhe permitiu obter um território suficientemente amplo
para viabilizar a existência de Portugal como reino independente, alargando a sua fron-
teira sul até à linha do Tejo-Sado, com a conquista de Santarém (1147) e cuja posse abriu
o caminho à tomada de Lisboa (1147) e feito alcançado com a ajuda dos Cruzados. Segui-
ram-se-lhes as conquistas de Sintra, Almada e Palmela, fortalezas importantes para a de-
fesa de Lisboa e de Alcácer do Sal.

Ao mesmo tempo que se ia processando o alargamento territorial para sul, D. Afonso


Henriques e os seus sucessores dividiam os seus esforços no povoamento e organização
administrativa, económica e social das áreas conquistadas, elementos fundamentais para Fig. 2. D. Dinis (1279-1325),
negociou o Tratado de
a consolidação das fronteiras e para a própria sobrevivência do Reino. Para realizar estes
Alcanises (1297), com
objetivos foram concedidas cartas de foral, criaram-se os primeiros órgãos de administra- Castela.
ção central e fizeram-se importantes doações de terras e privilégios às ordens religiosas
e às ordens militares. A tomada de posse por D. Afonso III, em 1249, das cidades e cas-
telos do Algarve, ainda nas mãos dos Mouros, concretizou o grande objetivo de estender
as fronteiras até ao limite sul do território. Cronologia

A definição do espaço territorial português ficou concluída com a celebração do Tra- 1137-1179
D. Afonso Henriques
tado de Alcanises (Fig. 1) (1297) entre D. Dinis de Portugal (Fig. 2) e D. Fernando IV de
concede forais a Penela
Castela que fixou de forma praticamente definitiva a fronteira leste de Portugal. (1137), Leiria (1142),
Germanelo (1142-1144),
Deste modo, ainda no século XIII, Portugal estabelecia as fronteiras do seu território Arouce (1151) e a Lisboa
que, com pequenas alterações posteriores, haveriam de permanecer até aos nossos dias. (1179).
1186
D. Sancho I doa Almada,
Palmela e Alcácer do Sal
2.2. O país urbano e concelhio à Ordem de Santiago.
1192
– A multiplicação de vilas e cidades concelhias D. Sancho I concede foral
a Penacova.
As formas de povoamento e de organização das populações no território portu-
guês refletem as características do meio geográfico e, sobretudo, as condições histó-
ricas em que se processou a formação do território português, concluída no século XIII.

A configuração retangular, alongada no sentido do litoral, e o acentuado con-


traste natural entre as regiões do norte e do sul, do litoral e do interior condicio-
naram naturalmente a distribuição populacional no território português. O norte,
OCEANO ATL NTICO

em especial a região litoral, dispunha de uma maior densidade humana, mas os


seus núcleos populacionais eram bastante mais reduzidos e muito dispersos. No
século XIII, até ao vale do Tejo, apenas as cidades de Porto, Coimbra, Braga e Gui-
marães tinham alguma dimensão. Os maiores aglomerados populacionais situa-
vam-se no sul, onde havia uma forte tradição urbana romana e muçulmana,
destacando-se Lisboa e Évora, entre outras de menor dimensão, como Santarém,
Elvas, Silves, Faro e Tavira.

Foram as condições históricas ligadas ao avanço da Reconquista Cristã para sul que
terão tido uma influência mais marcante. A conquista e integração do sul no domínio
português implicou importantes movimentos de populações, particularmente do norte
de Portugal mais povoado, para as regiões que iam sendo tomadas aos Mouros,
Fig. 3. Concelhos medievais
fenómeno que acabaria também por favorecer a coesão étnica e cultural do País. portugueses.
34 Módulo 2 - Dinamismo civilizacional da Europa Ocidental nos séculos XIII a XV – espaços, poderes e vivências

* Carta de foral: documentos Esta tarefa de povoamento – fundamental para assegurar a defesa e promover a explo-
concedidos pelos reis ou
pelos senhores (laicos e ração económica do território – foi incentivada pelos reis através de doações às Ordens
eclesiásticos) que regulavam Religiosas e Militares (Templários, Hospitalários, Calatrava e Santiago) como contrapartida
a vida dos concelhos,
nomeadamente os direitos ao auxílio prestado na luta contra o Islão e às ordens não militares (Cónegos Regrantes
e obrigações dos seus de St.o Agostinho, Cistercienses, Franciscanos e Dominicanos).
habitantes (“vizinhos”), em
particular a administração, Ao mesmo tempo e com idênticos objetivos, reis e senhores (nobres e eclesiásticos)
o fisco e a justiça.
concederam cartas de foral* às vilas e cidades de Portugal. Desta forma foram criados mui-
* Concelho: circunscrição
territorial e administrativa tos concelhos* (Fig. 3), importantes agentes do povoamento.
com um variável grau de
autonomia; cada concelho – A organização do território e do espaço citadino
possuía uma assembleia
de notáveis ou homens- Sob o ponto de vista administrativo, o território português estava dividido em terras
-bons que elegia diversos
magistrados, estando (ou territórios) e em concelhos. As primeiras eram governadas por um rico-homem que,
também o rei aí na qualidade de delegado do rei, superentendia nos atos de administração e de justiça.
representado através de
magistrados nomeados Existiam, ainda, as terras pertencentes às ordens religiosas e ordens religiosas militares,
por si.
gozando de vários privilégios e imunidades, como a isenção fiscal.

Os concelhos eram fundamentalmente de dois tipos: rurais e urbanos. O seu número


? Questão e a sua distribuição geográfica estão diretamente ligados à Reconquista: em número re-

1. Quais eram os objetivos duzido no norte, onde havia uma forte presença senhorial; mais numerosos no sul e nas
dos reis portugueses ao terras do interior, em consequência das necessidades de povoamento e de exploração
doarem terras às Ordens
Religiosas e Militares? económica destas regiões.
Como se explica a sua
concentração no centro As áreas urbanas eram muito restritas. Lisboa, Évora, Porto e Coimbra eram as mais
e sul do País? importantes. A sua população incluía não só mercadores e mesteirais* mas também um
número significativo de camponeses. A separação entre o campo e a cidade estava longe
* Mesteirais: trabalhadores de ser real, coexistindo no interior das muralhas as atividades agrícolas, comerciais e ar-
em ofícios (mesteres) de tesanais.
artesanato ou indústria,
e alguns pequenos A invasão da Península pelos Bárbaros destruiu o modelo urbanístico romano assente
comerciantes (almocreves
e carniceiros); nas cidades no traçado regular das ruas e das praças e substituiu-o pelo emaranhado de ruas e rue-
mais importantes estavam las estreitas e tortuosas, irregularmente calcetadas, sem esgotos, comprimidas por uma
reunidos por profissões
numa mesma rua. A partir muralha circundante, que acompanha as irregularidades do solo (é a cidade a adaptar-se
do século XIII, crescem em
ao espaço, não o contrário). As ruas não eram pensadas para o transporte sobre rodas;
número e em força
económica e nos séculos eram sobretudo para as pessoas ou para os animais de carga utilizados como meios de
XIV e XV vão adquirir poder
na administração local. transporte(3). Algumas das ruas concentravam um mesmo tipo de lojas e ofícios e eram
mesmo identificadas pelos nomes das respetivas atividades: rua
dos sapateiros, dos caldeireiros, etc. Sentiam-se assim mais pro-
tegidos e vigiavam-se mutuamente. É o sentido corporativista tão
caracteristicamente medieval.

No centro da cidade encontravam-se as construções que cons-


tituíam o núcleo cívico da vida citadina: a Sé, para a qual se en-
caminham quase todas as ruas, uma praça aberta para o Paço
Municipal, local de mercado, de festas e de reuniões municipais
(Fig. 4).
Fig. 4. Panorâmica da
cidade de Coimbra. (3)
Nas zonas históricas das nossas principais cidades ainda hoje se podem observar estas características.
Unidade 2 - O espaço português – a consolidação de um reino cristão ibérico 35

As casas de habitação, com dois ou três andares, agrupavam-se em quarteirões, abran-


gendo estábulos, celeiros e lojas térreas abertas por uma só porta para a rua. Muitos des-
tes conjuntos dispunham de pátios interiores em geral com um único acesso da rua. Em
regra, a loja situava-se em baixo e os dormitórios no andar de cima com acesso através
de escadas estreitas. Os seus interiores eram austeros, amplos e pouco iluminados. As la-
reiras davam algum conforto, mas também a ameaça dos incêndios.

Na segunda metade do século XIII, o surto económico e demográfico trouxe algumas


alterações à organização das cidades: em alguns casos alargaram-se as cinturas amuralha-
das; noutros a população instalou-se no seu exterior, formando os arrabaldes.

– O exercício comunitário de poderes concelhios


Os concelhos, criados ou legalizados pelos forais, dispunham de graus variáveis de
autonomia. Esta exprime-se de várias formas: na existência de uma Assembleia Municipal
composta pelos homens-bons, dispondo do direito de eleger os seus magistrados, de
criar leis próprias e de organizar as suas forças militares; na garantia de determinadas li-
berdades individuais, como a posse de bens; e ainda na exclusão do exercício dos direi-
tos senhoriais na área municipal.

A autonomia (em grau variável) das comunidades concelhias era exteriorizada por cer-
tos símbolos: o selo municipal (Fig. 5); o pelourinho, local da execução das sentenças, para
além de símbolo da autonomia; a bandeira e certos emblemas representativos do espírito
Fig. 5. Selo do concelho
de solidariedade coletiva ou ainda certos elementos identificativos do concelho.
de Castelo Mendo,
do século XIII. Os símbolos
Se a autonomia(4) é o elemento essencial do regime do concelho, o exercício comuni-
escolhidos (neste caso a
tário dos poderes é o instrumento decisivo da sua realização. De facto, o concelho é fun- muralha) exprimem
damentalmente uma comunidade de vizinhos(5), embora tal não exclua a existência de sentimentos de autonomia
e de solidariedade coletiva
várias categorias sociais e direitos desiguais para os seus habitantes. das comunidades
concelhias.
Os magistrados eram em número variável e tinham diversas designações nos diferen-
tes concelhos. Os mais importantes eram os juízes, alcaides ou alvasis(6), supremos repre-
sentantes e dirigentes do concelho. Depois, funcionários com funções em áreas específicas:
os meirinhos (fisco e justiça); o almotacé(7) (economia); os mordomos (administração dos
bens concelhios); os sesmeiros (gestão das terras).

O rei estava sempre representado por um ou mais magistrados, por si nomeados: o ? Questão
alcaide ou juiz; o almoxarife (cobrança dos direitos régios); o mordomo do rei, (adminis-
1. Como se exprime
trador dos bens da coroa no concelho). Nos finais do século XIII, princípios do século XIV, a autonomia da vida
com o objetivo de reforçar o controlo real da vida concelhia, foram criados os corregedo- municipal?
res ou juízes de fora parte, delegados do rei nos concelhos e representantes destes nas
cortes. Foram ainda criados novos funcionários administrativos, os vereadores, com poder
de decisão em áreas importantes.

(4)
Com o tempo, sobretudo a partir de D. Afonso III, a política de centralização régia foi restringindo a autonomia muni-
cipal.
(5)
Vizinhos: com origem na palavra latina vicinorum, designa os habitantes com residência permanente na área do
concelho e com posses suficientes para pagar os tributos devidos.
(6)
Alvasis: vocábulo de origem árabe (al-wazir) que designa o mesmo que vereadores de um concelho.
(7)
Almotacé: do termo árabe al-muhtasib.
36 Módulo 2 - Dinamismo civilizacional da Europa Ocidental nos séculos XIII a XV – espaços, poderes e vivências

– A afirmação política das elites urbanas


O exercício dos poderes concelhios tinha uma natureza comunitária, mas tal não sig-
nifica que existia uma igualdade de direitos entre a comunidade de vizinhos. As diferen-
ças tornam-se mais notadas quando se analisa a superioridade social e económica dos
cavaleiros-vilãos ou homens-bons(8), uma verdadeira elite de proprietários alodiais* e mer-
cadores, sobre os peões(9) (Fig. 6), a grande maioria constituída pelos pequenos proprie-
tários, rendeiros, assalariados e mesteirais com baixos rendimentos.

A superior condição social e económica do cavaleiro-vilão ou homem-bom exprime-se


Fig. 6. Um peão no trabalho
do campo (Tomar, Museu num certo número de privilégios relativos à sua segurança pessoal, à aplicação da justiça
Lapidar do Castelo). e na posição cimeira que detinha na estrutura política concelhia. O seu poder económico
e influência social permitiram-lhes controlar os cargos e magistraturas municipais. Constituiu-
-se deste modo uma oligarquia municipal que foi restringindo cada vez mais a participa-
* Proprietários alodiais: ção política dos peões. Este facto reduziu significativamente o número de participantes nas
proprietários livres de
direitos e deveres assembleias municipais que, a partir do século XIV, passaram a reunir-se em recintos fe-
senhoriais; estavam chados. Daí o nome de “câmara” para designar o edifício onde se reuniam os titulares das
abrangidos pelas
obrigações de “fossadeira” magistraturas municipais.
paga em prestações
agrárias ou serviços
pessoais, para além do 2.3. O país rural e senhorial
pagamento do dízimo
à Igreja e de outras – O exercício do poder senhorial: privilégios e imunidades
imposições.
Como nos demais reinos europeus, em Portugal a nobreza era uma categoria social pri-
vilegiada, distinguindo-se pelo exercício de funções políticas e militares, que faziam dela
um auxiliar imprescindível da realeza. A nobreza, como as restantes ordens sociais, não
constituía uma categoria social homogénea. Na realidade, integravam-na grupos ou clas-
ses com níveis de rendimentos e até de estatuto muito diferenciados. Os ricos-homens,
magnatas conhecidos como nobres de “pendão e caldeira”(10), aproveitaram a luta contra
os Mouros para conquistar os favores do rei a quem os ligam laços de vassalagem, obter
* Imunidade: privilégio que a imunidade*, enriquecer e transformar-se no grupo mais importante de entre os nobres.
dava aos seus titulares um
Abaixo destes ricos-homens situava-se um grupo muito mais numeroso de proprietários
conjunto de regalias como
a isenção de pagamento de aristocratas, os infanções(11), e depois uma nobreza que vivia fundamentalmente do serviço
impostos à coroa, com
militar, os cavaleiros e escudeiros.
a consequente proibição
da entrada dos funcionários
A nobreza senhorial vivia da terra e das rendas dominiais, cobradas em espécie, di-
régios nos seus domínios.
nheiro ou serviço aos camponeses que cultivavam as suas propriedades, as honras, e
sobre os quais exercia uma jurisdição limitada. As honras beneficiavam de um conjunto
de privilégios e imunidades, como o direito de proibição de entrada a funcionários régios,
isenção do pagamento de impostos e autonomia judicial e administrativa.

(8)
Terminada a guerra com os Mouros a designação de “cavaleiro” deixou de fazer sentido e foi sendo substituída pela
de “homem-bom”, uma expressão mais adequada à nova realidade pós-Reconquista, já que recorda a riqueza e a
? Questão honra e não a função militar.
(9)
O termo “peão” tem origem no tipo de participação na guerra; não tendo posses para manter um cavalo e o res-
1. Como se explica a petivo equipamento, o peão combatia a pé.
formação de uma (10)
Esta denominação significa que os ricos-homens tinham o poder e a autoridade para arregimentar sob o seu
oligarquia política nos estandarte cavaleiros e peões e os meios para os sustentar no decurso de uma campanha militar.
concelhos? (11)
A partir do século XIII, os nobres por nascimento passam a ser vulgarmente designados por “fidalgos”.
Unidade 2 - O espaço português – a consolidação de um reino cristão ibérico 37

No entanto, a realeza manteve sempre o controlo sobre o poder senhorial reservando


para si determinados direitos, como a justiça maior (pena de morte ou corte de membros),
ou combatendo-o abertamente.

– A exploração económica do senhorio ? Questões


Os senhorios eclesiásticos (coutos) e laicos (honras e reguengos) eram constituídos por 1. Como se caracterizava
a economia senhorial?
propriedades relativamente extensas (contínuas e/ou descontínuas), num mundo agrário
2. Em que condições viviam
relativamente fechado que procurava a autossuficiência. Uma boa parte da propriedade
e trabalhavam os
senhorial era explorada diretamente pelo seu proprietário (a reserva) através de um homem camponeses dependentes?
da sua confiança e nela trabalhavam sobretudo os servos adscritos (ligados) à terra.

Uma outra parte era dividida em parcelas (casais, quintãs ou vilares) e entregues a
camponeses que as exploravam mediante determinadas condições: pagamento de uma
renda (censo, ração, porção, foro, renda, eirádega, terrádigo...), das geiras ou corveias
(trabalho gratuito ao longo do ano) e da dízima(12) à Igreja, entre outros tributos (peitas,
fintas, talhas...).

A prioridade da vida económica do País, tanto nos senhorios como fora deles, ia para
a produção de subsistências, para o cultivo dos cereais, bem como para a produção de
vinho e azeite, destinados não só ao consumo local como à troca dos excedentes, e ou-
tras atividades como a pastorícia e a criação de gado.

No litoral, a pesca, a extração do sal e o comércio marítimo eram atividades flores-


centes, funcionando até como atração para as gentes do interior.

– A situação social e económica das comunidades rurais dependentes


Mais do que uma extensa propriedade, o senhorio ou domínio senhorial era uma
comunidade hierarquizada de pessoas que viviam e trabalhavam em condições económi-
cas e jurídicas (direitos e obrigações) diferenciadas.

A massa de camponeses dependentes que trabalhava nos senhorios integrava catego-


rias e designações diversas. A população rural no seu conjunto tinha em comum uma vida
de penúria e de pobreza, agravada pelas fortes limitações quanto à sua mobilidade geo-
gráfica, em particular os servos adscritos à terra (com vínculo à terra).

A evolução da servidão veio introduzir significativas diferenças no seio da população


camponesa e estabeleceu novas formas de relação entre o trabalhador e a terra. Desapa-
receu assim a relativa uniformidade do século XI e surgiram diversas categorias de depen-
dentes com condições jurídicas, económicas e sociais distintas.

Ao norte do Douro havia algumas terras senhoriais, com a particularidade de os senho-


res poderem ser escolhidos pelos habitantes. Designavam-se estas terras por beetrias.
Tratavam-se de coletividades de homens livres que, preferindo a segurança à liberdade,
procuravam um nobre que os aceitasse sob a sua proteção.

(12)
Dízima: prestação correspondente a 10% da produção obtida na agricultura, na pesca, na salicultura e em outras
atividades; podia ser convertida em determinado montante de produtos ou de dinheiro.
38 Módulo 2 - Dinamismo civilizacional da Europa Ocidental nos séculos XIII a XV – espaços, poderes e vivências

Cronologia 2.4. O poder régio, fator estruturante da coesão interna do reino


Reinados dos primeiros reis
– A centralização do poder – justiça, fiscalidade e defesa
de Portugal
1143-1185 À cabeça do Reino encontrava-se o rei: chefiava o exército, administrava a justiça, ga-
D. Afonso Henriques.
rantia a ordem e a paz internas e dirigia as relações externas. Pertencia-lhe ainda, em ex-
1185-1211
clusivo, a prerrogativa de cunhar moeda, ou, como então se dizia, de “bater a moeda”(13).
D. Sancho I.
Por outro lado, os tribunais reais reservavam em exclusivo para si a aplicação da justiça
1211-1223
D. Afonso II. maior (pena de morte ou corte de membros), constituindo este facto uma limitação da ju-
1223-1248 risdição senhorial e ao mesmo tempo uma afirmação clara da supremacia da justiça real.
D. Sancho II. Outro direito era a aposentadoria(14) a que se obrigavam as terras onde o monarca e a sua
1248-1279 corte se instalavam nas deslocações pelo País.
D. Afonso III.
A legitimidade e a força da monarquia portuguesa têm fundamento na tradição visigó-
tica do exercício do poder real em nome de Deus(15); na propriedade de terras adquiridas
ao longo do processo da Reconquista; no caráter patrimonial do poder, indivisível e ina-
lienável, que legitimava a transmissão da realeza de pais para filhos segundo a regra da
primogenitura masculina. Aparentemente os poderes do rei não conheciam limites, já que
das suas decisões não existia apelo. No entanto, o rei jurava obedecer às leis e manter
as liberdades do Reino e proteger o clero e a nobreza, o que significava uma limitação ao
seu poder.

– A reestruturação da administração central e local – o reforço dos poderes da


? Questões
chancelaria e a institucionalização das cortes
1. Qual o significado da
intensificação do papel No desempenho das suas atribuições, o rei era auxiliado por um grupo de altos fun-
legislativo do rei a partir
cionários: o alferes-mor (chefiava o exército na ausência do rei); o mordomo da corte (res-
do século XIII?
ponsável pela administração da casa real); o chanceler (guarda do selo real). Até ao termo
2. Qual o significado da
presença dos procuradores da Reconquista, o primeiro era o mais importante, facto que se explica pela situação de
dos concelhos nas Cortes guerra. Terminada esta, organizou-se, a partir de então, a chancelaria régia à frente da qual
a partir de Leiria (1254)?
estava o chanceler, auxiliado por escrivães e notários, encarregados da redação e valida-
ção dos diplomas.

A partir do século XIII, foi criado o cargo de escrivão da puridade (secretário particu-
lar que acompanhava o rei nas suas deslocações) e foram criados novos funcionários es-
pecializados, como o porteiro-mor (superentendia na cobrança dos impostos) e o
tesoureiro-mor. A administração central integrava ainda um grupo restrito de conselheiros
do rei, a Cúria Régia, formada por favoritos régios, altos funcionários e membros da famí-
lia real. Entretanto, a Cúria daria origem a dois órgãos: o Conselho Régio, composto por
prelados, ricos-homens e militares, e as Cortes*.

* Cortes/parlamentos: As Cortes mais antigas de que há documentação realizaram-se em Coimbra (1211), no


assembleias com funções
essencialmente consultivas reinado de D. Afonso II. A sua importância deriva do facto de terem sido aí aprovadas as
e fiscais, convocadas pelo
rei e constituídas por
(13)
representantes das três O rei chamou a si não só o direito de “bater a moeda”, como também o direito de a “quitar” (quebrar, desvalori-
ordens sociais – clero, zar) ou “levantar” (elevar, revalorizar), ou seja de alterar o valor da moeda.
(14)
nobreza e povo. Aposentadoria: como o termo indica, consistia na hospedagem gratuita ao rei (ou senhores) e respetiva comitiva
quando passavam por uma localidade; tratava-se de um dos mais gravosos encargos suportados pelas populações
dependentes, tanto rurais como urbanas.
(15)
Os primeiros reis referiam sempre essa origem do seu poder, considerando-se por “graça” ou “vontade” de Deus.
Unidade 2 - O espaço português – a consolidação de um reino cristão ibérico 39

primeiras leis gerais que se conhecem no Reino. Em 1254, as Cortes de Leiria contaram Cronologia
já com a participação dos procuradores dos concelhos, o que revela o reconhecimento real
1210
do papel dos concelhos na administração do Reino e o seu interesse no apoio popular à D. Afonso II – 1.a Lei de
Desamortização.
política de controlo do clero e nobreza.
1220
O objetivo de reforço do poder real passou também por um controlo mais rigoroso da Primeiras Inquirições
(D. Afonso II).
administração local: dos concelhos e dos senhorios. Para isso, recorreu ao aumento do nú-
1254
mero e dos poderes de intervenção dos funcionários régios e a medidas legislativas de Reunião das Cortes de
combate à expansão senhorial. Leiria com representantes
do clero, nobreza e dos
concelhos.
– O combate à expansão senhorial e a promoção política das elites urbanas 1258
Inquirições Gerais de
Apesar da supremacia de que beneficiava a realeza, esta teve de impor um conjunto D. Afonso III.
de medidas de fortalecimento do poder real e de centralização administrativa no sentido 1284
Inquirições Gerais de
de limitar as prerrogativas senhoriais e controlar os abusos dos senhores.
D. Dinis.
D. Afonso II (1211-1223) criou o sistema das Confirmações, que obrigava a submeter os 1286
Lei de Desamortização de
títulos ou diplomas de posse dos bens à confirmação do rei, pretendendo desta forma aca- D. Dinis.
bar com os abusos de membros do clero e da nobreza e até dos concelhos, com a apro-
priação indevida de bens da coroa. Esta prática foi seguida por sucessivas Inquirições*, * Inquirições: inquéritos,
que permitiram ao rei identificar as ilegalidades, castigar e recuperar rendimentos. Com ob- a nível nacional, ao estado
dos direitos reais,
jetivos idênticos, foram elaboradas Leis de Desamortização, que proibiam a aquisição de ordenados pelo poder
bens de raiz aos eclesiásticos e às instituições religiosas, com o intuito de travar a con- central. Trata-se de uma
medida de fortalecimento
centração já considerável da propriedade fundiária na posse do clero. do poder real e de
centralização
Este processo de combate à expansão senhorial prosseguiu durante o século XIV. A de- administrativa que visava
bilidade do sistema vassálico* português facilitava a ação de controlo da realeza. D. Fer- combater os abusos contra
os interesses da coroa.
nando recusou o direito de justiça às honras constituídas a partir de 1325, com algumas
* Vassalidade: rede de
exceções. D. João I restringiu o direito de transmissão das terras doadas pela Coroa, me- solidariedades
dida que D. Duarte consagraria na Lei Mental (1434)(16). aristocráticas assente num
vínculo vitalício de
Ao mesmo tempo que prosseguia o combate à expansão do poder senhorial, a realeza dependência pessoal pelo
qual, em troca de
procurou atrair as elites urbanas à sua causa apoiando as suas atividades económicas, fidelidade e apoio, um
abrindo-lhes as portas da administração central e reforçando a sua influência nas estrutu- homem livre (vassalo)
recebe proteção e outras
ras administrativas locais. Mas a grande oportunidade de afirmação política da burguesia recompensas (benefício ou
urbana surgiu com a crise dinástica e a Revolução de 1383-1385. O seu apoio ao Mestre feudo) de um outro
(senhor).
de Avis, proclamado Rei nas Cortes de Coimbra de 1385, trouxe importantes contrapartidas
* Legistas: homens com
às elites urbanas: os legistas* assumiram lugares importantes na administração central, formação jurídica. Nos finais
nomeadamente no Conselho do Rei onde acederam e em maioria; os mercadores reforça- da Idade Média, a política
de centralização régia
ram a sua influência junto da Coroa e beneficiaram de vários apoios reais (Bolsa de abriu-lhes lugares na
Mercadores, 1293, acordos comerciais…); e os mesteirais ascenderam ao governo das cida- administração central,
adquirindo então grande
des desafiando a força, até então dominante, dos proprietários e mercadores(17). importância política.

(16)
Segundo a Lei, a Coroa mantinha os seus direitos sobre as doações régias e estas só poderiam ser herdadas pelo
filho varão legítimo; caso não se verificassem estes pressupostos, tais bens seriam reintegrados na Coroa.
(17)
Nas Cortes de Coimbra de 1385 ficou assente que, de futuro, pertenceria a dois homens de cada mester (ofício) as
seguintes atribuições: a eleição dos magistrados municipais; a designação de funcionários; a elaboração das postu-
ras (leis) municipais; a fixação dos impostos.
40 Módulo 2 - Dinamismo civilizacional da Europa Ocidental nos séculos XIII a XV – espaços, poderes e vivências

– A afirmação de Portugal no quadro político ibérico


Cerca de um século e meio depois do reconhecimento de D. Afonso Henriques (Fig. 7)
como Rei por parte de Castela no Tratado de Zamora (1143), um novo tratado entre os dois
Reinos, assinado na localidade castelhana de Alcanises (1297), definia de forma pratica-
Fig. 7. Palavra-sinal
Portugal no selo real mente definitiva o território do Reino de Portugal.
de D. Afonso Henriques.
Mas esse facto só por si não podia garantir a viabilidade da independência de Portu-
gal. A resistência à poderosa força de atração de Castela não estava garantida. Era neces-
sário que o País fosse capaz de construir uma identidade ou individualidade nacional,
condição essencial para a sua sobrevivência como Estado independente. D. Dinis, o Rei La-
vrador, estava consciente desse facto quando se reuniu com o rei de Castela em Alcanises.

Por isso, estabilizada a linha de fronteira, as prioridades do seu reinado foram: a de-
fesa, investindo os seus esforços na organização da marinha e na reparação dos castelos
na fronteira para prevenir qualquer invasão de Castela; o fomento do povoamento e das
atividades económicas, em particular da agricultura e do comércio; e a criação de um nú-
cleo cultural português, promovendo uma cultura nacional, fazendo da corte real um polo
de produção e de difusão de cultura (ele mesmo deu o exemplo como poeta e trovador)
e dotando o Reino de escolas e de um Estudo Geral.

Cronologia Os esforços dos nossos monarcas para formarem uma individualidade nacional suficien-
temente forte para afirmar Portugal no quadro político peninsular tiveram a sua grande
1143
Tratado de Zamora. prova na Revolução de 1383-1385 (Fig. 8). Os patriotas agrupados em redor do Mestre de
1248 Avis tinham consciência do que estava em causa com a proclamação da Rainha D. Bea-
(Re)conquista do Algarve.
triz: a sobrevivência de um Estado, mas também a preservação de um sentimento nacio-
1297
Tratado de Alcanises. nal que tinha já então consciência da sua individualidade. Consolidada a independência
1383 nacional, Portugal pôde partir então para a grande empresa planetária dos Descobri-
Morte de D. Fernando:
regência de D. Leonor em mentos.
nome de D. Beatriz
e D. João de Castela.
1384
D. João de Castela cerca
Lisboa.
1385
Cortes de Coimbra:
aclamação de D. João I, Rei
de Portugal.
Batalhas de Aljubarrota,
Trancoso e Valverde.
1415
Conquista de Ceuta: início
da expansão ultramarina
portuguesa.

Fig. 8. A vitória na Batalha de Aljubarrota (14 de agosto de 1385) foi determinante para a consolidação da
identidade nacional e a afirmação de Portugal no quadro político ibérico.
Unidade 3 - Valores, vivências e quotidiano 41

Unidade 3 Valores, vivências e quotidiano


SUMÁRIO

3.1. A experiência urbana


3.2. A vivência cortesã
3.3. A difusão do gosto e da prática das viagens: peregrinações e romarias; negócio e misssões
político-diplomáticas

APRENDIZAGENS RELEVANTES

- Compreender as atitudes e os quadros mentais que enformam a sociedade da época, dis-


tinguindo cultura popular de cultura erudita**. * Arte gótica: expressão
- Desenvolver a sensibilidade estética através da identificação e apreciação de obras artís- com sentido pejorativo
usada a partir do
ticas do período medieval. Renascimento para
- Valorizar formas de organização coletiva da vida em sociedade. qualificar uma arte
“bárbara”, atribuída aos
Godos, invasores do
CONCEITOS/NOÇÕES Ocidente durante a Alta
Confraria, Corporação, Universidade, Cultura erudita**, Cultura popular**, Arte gótica, Época Idade Média; hoje designa
um estilo de arte que se
medieval difundiu na Europa a partir
de França do século XII ao
* Conteúdos de aprofundamento início do século XVI,
** Aprendizagens e conceitos estruturantes caracterizada pelos seus
novos elementos
arquitetónicos (ogivas,
arcobotantes), pelo sentido
do espaço e a integração
3.1. A experiência urbana dos diferentes volumes,
pela verticalidade e beleza
– Uma nova sensibilidade artística – o gótico das suas linhas.

No domínio artístico, o novo espírito do mundo urbano expressa-se na nova


arte gótica*, nascida da rutura com a tradição românica. Com o seu berço na
Ilha-de-França, no Noroeste de França, na primeira metade do século XII, o
estilo gótico é contemporâneo e produto do surto das cidades no Ocidente, um
espaço de prosperidade e liberdade favorável à criatividade e à inovação.

A arquitetura
As construções góticas (Fig. 1) exprimem conceções inteiramente novas: o
edifício é entendido como um todo organizado, cujas partes adotam formas
determinadas segundo a sua função no conjunto; o arco de volta inteira é subs-
tituído pelo arco quebrado ou ogival, inovação que veio resolver o problema
da abóbada sobre o cruzeiro(1); o peso da abóbada em ogiva (com nervuras) é
transportado para os contrafortes exteriores através dos arcobotantes(2), liber-
tando deste modo as paredes e tornando possível rasgar amplas janelas que
solucionaram o problema da iluminação.
Fig. 1. Catedral de Notre-
-Dame de Chartres
(1194-1220). Exuberante
(1)
Cruzeiro: cruzamento da nave central com o transepto. expressão de verticalidade,
(2)
Arcobotante: solução encontrada pelos arquitetos góticos para neutralizar a pressão da abóboda sobre as paredes luminosidade e amplidão
laterais. do gótico clássico.
42 Módulo 2 - Dinamismo civilizacional da Europa Ocidental nos séculos XIII a XV – espaços, poderes e vivências

Cronologia A primeira grande construção do gótico é a Abadia de Saint-Denis, iniciada em 1137


por iniciativa do Abade Suger. Esta e outras grandes abadias, como a de Saint-Martin-
O Gótico: a arte das catedrais
-des-Champs, exteriores aos grandes centros urbanos, marcaram a primeira fase do gótico,
c. 1144
Abadia de Saint-Denis mas a construção mais representativa do gótico é a catedral. Trata-se de um tipo de
(França). edifício com planta alargada, com uma ou várias naves (a central mais ampla e elevada),
1155-1225
Catedral de Laon. trifório, charola com capelas absidiais e rosáceas. As fachadas apresentam portais, deco-
c. 1163 rados com esculturas e relevos, e torres, de planta quadrada terminada em terraços ou
Início da construção da em flechas. As suas características fundamentais são a verticalidade, luminosidade e
Catedral de Notre-Dame de
Paris. amplidão.
1194-1220
O desejo incontido de manifestar de forma exuberante a alegria pela vida, pela redes-
Catedral de Chartres.
1223 coberta do homem e do mundo, o Gótico evoluiu para fases onde a prioridade era dada
Início da construção da à exuberância decorativa e ao movimento (multiplicação das linhas ascendentes culmi-
Catedral de Burgos.
nando em agulhas e pináculos, o jogo de curvas e contracurvas), culminando no século
1248-1322
Catedral de Colónia. XV, no chamado gótico flamejante (de flama, chama).
1250
Catedral de Siena. A escultura
A escultura gótica revela na sua fase inicial um formalismo e rigidez quase românicos.
Outro aspeto característico da escultura deste período é o seu caráter monumental que
decorre da sua integração na arquitetura.

Nos séculos XII e XIII, a escultura gótica regista uma evolução no sentido de uma
representação mais expressiva, naturalista e humanizada (Fig. 2), ainda que procure um
tipo de beleza ideal e serena dentro de certos convencionalismos. Progressivamente, vai
abandonando a arte monumental, entrando no realismo e tornando-se independente da
arquitetura.
Fig. 2. Virgem com o
Menino (Nuno Pisano, Pisa, A pintura
Igreja de Santa Maria).
Tema muito comum da Na pintura gótica sobressai o vitral (Fig. 3) que aparece como um elemento inte-
escultura gótica. O realismo
e a expressividade da grante da arquitetura. As soluções técnicas encontradas para o problema da descarga
representação transformam do peso das abóbodas permitiu abrir janelas e aumentar substancialmente os espaços
a Virgem numa figura
simples de mulher e mãe,
abertos preenchidos e decorados com o vitral. Para o homem medieval, a luz era uma
igual a tantas outras. forma de manifestação divina, razão pela qual as representações projetadas no interior
das edificações através dos vidros coloridos produziam uma forte impressão mística. As
figuras e cenas mais recriadas nos vitrais são temas religiosos, como a vida de Cristo,
da Virgem e dos santos ou ainda os trabalhos dos diversos ofícios.

Uma outra técnica que marcou a última etapa da pintura gótica é a pintura de retá-
bulos que substitui e impõe-se à pintura mural.

Também a iluminura(3) recuperou gradualmente a sua importância. O renovado inte-


resse por esta técnica de pintura está relacionado com os gostos requintados do mundo
urbano e das cortes europeias.

Fig. 3. Vitral alusivo à (3)


Iluminura: pintura, sobre pergaminhos e manuscritos, de representações de figuras, cenas ou ornatos em minia-
Última Ceia. tura que formavam pequenos quadros num livro, ou ainda decorações das letras maiúsculas.
Unidade 3 - Valores, vivências e quotidiano 43

– As mutações na expressão da religiosidade: ordens mendicantes e confrarias* Cronologia

Como reação à mundanização da Igreja surgiram nos séculos XII-XIII diversas seitas 1210
religiosas, como a dos albigenses(4) e a dos valdenses(5), que condenam a vida de luxo Inocêncio III aprova
a Ordem Franciscana criada
da hierarquia eclesiástica, apregoam o ideal de pobreza e de sacrifício do Sermão da por S. Francisco de Assis.
Montanha, negam o purgatório, as indulgências, o sacerdócio e o culto dos santos, amea- 1209-1229
Cruzada contra os
çando desta forma a autoridade da Igreja Católica e a ortodoxia da Fé. Albigenses (no sul de
França).
O Papado reage com a reunião do IV Concílio de Latrão, em 1215(6), que cria um tri-
1216
bunal episcopal para a perseguição das heresias. Em 1231, Gregório IX coloca-a sob a Honório III confirma
direção e o controlo direto dos delegados pontifícios, criando a Inquisição papal, com a a Ordem Dominicana
fundada por S. Domingos.
missão de combater as doutrinas contrárias à ortodoxia.
1215
IV Concílio de Latrão:
Para este combate o Papado não poderia contar com as velhas instituições monásti-
instituição de um tribunal
cas contemplativas refugiadas nos seus mosteiros. Esse papel foi confiado às novas ins- episcopal - a Inquisição.
tituições religiosas, fundadas nos ideais evangélicos de pobreza e de fraternidade da 1232
O papa Gregório IX cria
Igreja primitiva, as Ordens Mendicantes dos Franciscanos (São Francisco de Assis) e dos a Inquisição papal.
Dominicanos (São Domingos), vocacionadas para o ensino e a pregação.

Estas novas formas de religiosidade motivaram também a ação dos leigos, impulsio-
* Confrarias: irmandades
nando em particular a criação das confrarias*.
constituídas sob
o patrocínio de um santo,
– A expansão do ensino elementar com estatutos e rituais
próprios, reunindo
A evolução demográfica, económica, social e cultural verificada na Europa nos sécu- frequentemente homens
da mesma profissão, tendo
los XII e XIII não poderia deixar de se refletir no ensino. A vida intelectual era até então
como objetivo a prática da
quase exclusivamente um domínio clerical. As escolas catedrais (nas sés episcopais) e as caridade.
escolas monásticas (nos mosteiros) eram totalmente controladas pelas autoridades ecle-
siásticas e destinavam-se à instrução dos homens da Igreja. Por outro lado, o ensino aí
ministrado permanecia essencialmente oral e limitava-se em geral ao ensino do cate-
cismo, escrita, música e aritmética.

Para responder às novas necessidades sociais, a partir de meados do século XII são
criadas escolas laicas. Desta forma, o ensino deixou de estar ligado exclusivamente à
preparação dos futuros clérigos. A prática do comércio tornava indispensável o conheci-
mento da leitura, da escrita e do cálculo. O ensino destas escolas era no entanto de nível
elementar. Todos aqueles que queriam um saber mais completo teriam de procurar as
instituições do clero.

– A fundação de universidades
No contexto do renascimento económico, urbano e cultural dos séculos XII-XIII e cor-
respondendo às novas necessidades e expectativas sociais, alguns mestres com elevado
prestígio reuniram à sua volta estudantes interessados em partilhar dos seus saberes.

(4)
Albigenses (de Albi, no sul da França), ou cátaros (do grego, puros): a difusão desta heresia (sécs. XI-XIV) que pre-
conizava uma renovação moral e espiritual baseada na antítese entre o bem (Deus) e o mal (Satanás) levou o papa
a pregar uma cruzada (guerra) contra eles (1209-1229).
(5)
Valdenses: seita religiosa fundada pelo comerciante de Lyon, Pedro Valdo, que pregava o ideal de pobreza e a per-
feição evangélica, obtendo bastante adesão no norte de Itália.
(6)
O Concílio foi particularmente duro para com os judeus: foram proibidos de ocupar cargos, obrigados a usar um
vestuário que os distinguisse dos demais e confinados a ghettos.
44 Módulo 2 - Dinamismo civilizacional da Europa Ocidental nos séculos XIII a XV – espaços, poderes e vivências

* Universidade: (universitas Daqui surgiu um novo tipo de comunidade de intelectuais, associando professores e
magistrorum et
scholarium) comunidade alunos, constituídos em corporação, a universitas magistrorum et scholarium. A palavra
ou corporação de mestres universidade* (universitas) significa na Idade Média “corporação”. A expressão que
e alunos, com instituições
próprias, destinada exprime a ideia de universidade, no sentido de instituição escolar, é o estudo geral
a aprofundar os estudos. (studium generale). Sustentados frequentemente pelo soberano e pelo papa, os estudos
Dirigida por um reitor,
dividia-se em Faculdades, gerais dispõem de estatutos próprios e de privilégios como qualquer outra corporação
geralmente quatro: profissional.
Teologia, Direito (canónico
e civil), Medicina e Artes A partir do século XIII, os estudos universitários eram feitos no interior de Faculdades
(letras e ciências); atribuía
os graus de bacharel, especializadas em determinadas matérias. Nem todas as universidades tinham o mesmo
licenciado e mestre. currículo.

O ensino nas universidades era ministrado em latim e o método usado era a escolás-

Cronologia tica, baseado sobretudo na leitura e comentário pelo mestre (ensino magistral) de textos
dos sábios e filósofos antigos. As universidades conferiam os graus de bacharel, licen-
Principais universidades
europeias dos séculos
ciado e doutor.
XII-XIII
Temendo pelo seu prestígio e para evitar desvios das suas doutrinas, a Igreja con-
1119 Bolonha
1125 Montpellier trola a sua criação, bem como as matérias e as práticas de ensino. Em Portugal, a cria-
1150 Paris ção do ensino universitário foi aprovada em 1290 por uma Bula do Papa Nicolau IV, con-
1168 Oxford
1224 Pádua cedida na sequência de uma petição feita em 1288 por vários Abades e Priores e com o
1241 Siena apoio do rei D. Dinis.
1244 Salamanca
1290 Lisboa
3.2. A vivência cortesã
– A cultura leiga e profana nas cortes régias e senhoriais: educação cavaleiresca,
? Questões
amor cortês, culto da memória dos antepassados
1. Como se explica
a criação das O renascimento urbano e o desenvolvimento da burguesia e das atividades económi-
universidades? cas nos séculos XII e XIII foram modificando os padrões de vida, a visão do mundo e a
escala de valores das elites da sociedade medieval. Ao mesmo tempo, a afirmação das
monarquias feudais favoreceram a multiplificação das cortes régias e senhoriais. Os reis
* Cultura popular:
manifestações culturais e senhores acolhem nos seus castelos fortificados intelectuais e artistas para animar e
fundadas na tradição e no prestigiar as respetivas cortes, transformando-as em centros de produção e difusão de
costume, caracterizadas
por uma grande uma cultura leiga e profana. Trata-se de uma cultura popular* de natureza profana abor-
espontaneidade dando, em linguagens vulgares (nacionais), temas diversificados, desde os feitos épicos
e irreverência, produzidas
pelo povo e transmitidas e cavaleirescos à lírica, com objetivos mais lúdicos que didáticos, distinta da cultura
de geração para geração, erudita*.
principalmente, por via oral.

* Cultura erudita: Os ideais cavaleirescos de coragem na luta e de fidelidade aos ideais cristãos inspi-
manifestações culturais raram os cantares épicos, escritos em língua vulgar, como as canções de gesta france-
que expressam
pensamentos estruturados sas, das quais a mais célebre é a Canção de Rolando ou o Poema del Mio Cid (c. 1140),
e produzidas por uma elite na Península Ibérica.
ou minoria de intelectuais,
geralmente pertencentes A partir do século XIII, expande-se a poesia trovadoresca provençal (oriunda da Pro-
às categorias sociais
superiores. É uma cultura vença, região do sul de França) cujo tema fundamental era o amor cortês: um amor-vas-
que a sociedade valoriza salagem envolto em disfarce, ou “mesura”, necessário à preservação do segredo sobre a
como superior ou
dominante. identidade da amada (uma mulher casada). As emoções e as subtilezas de gestos e
Unidade 3 - Valores, vivências e quotidiano 45

linguagem do amor cortês adaptavam-se bem ao gosto cerimonioso e ao artificialismo Cronologia


cortesãos. Ao mesmo tempo, vai-se enraizando nas cortes o gosto pelo romance cortês
Sécs. XI-XII
em prosa, menos rude do que a canção de gesta, de que se destacam Cavaleiros da Canção de Rolando.
Távola Redonda, de Chrétien de Troyes, e Demanda do Santo Graal. c. 1140
Poema del Mio Cid.
Para além da ficção narrativa, as cortes europeias alimentam também um grande inte- Sécs. XII-XIII
Demanda do Santo Graal.
resse pela narração dos factos verídicos, pela narrativa história, sob a forma de crónicas.
1160
O culto da memória dos antepassados está assim na origem do desenvolvimento da his- Tristão e Isolda, de
toriografia, que teve na Península Ibérica um desenvolvimento superior ao do resto da Godofredo de Estrasburgo.
Europa medieval, destacando-se os célebres Annales Portucalenses Veteres (século XII) 1170
Lancelot e Perceval, de
e a Crónica Geral de Espanha (c. 1270) elaborada na corte castelhana de Afonso X, o Chrétien de Troyes.
Sábio (1252-1284) Séc. XIII
Amadis de Gaula
Crónica Geral de Espanha.
3.3. A difusão do gosto e da prática das viagens: peregrinações e
romarias; negócios e missões político-diplomáticas
Cronologia
O interesse e a necessidade do saber fizeram crescer o número das universidades e
1096-1099
das escolas públicas, laicas. Muitos estudantes e clérigos deslocam-se entre os vários Primeira Cruzada ao
centros de culto e de saber. As grandes universidades europeias, como Paris, Bolonha, Oriente.
Oxford, Lovaina ou Salamanca, acolhem estudantes de todas as regiões. 1204
Tomada de Constantinopla
pelos Cruzados.
Ao mesmo tempo, a pregação pelas Ordens Mendicantes de uma religião mais pró-
1260-1266
xima dos ideais evangélicos de pobreza e sacrifício da Igreja primitiva despertou novas Primeira viagem dos
e mais intensas manifestações de religiosidade, incentivando à realização das peregrina- venezianos Niccolo e Mateo
Polo na Ásia.
ções aos principais lugares do culto cristão, em especial, a Terra Santa, Roma e Santiago 1267
de Compostela. Os peregrinos fazem longas jornadas, levam e trazem notícias, promo- Mercadores portugueses
na feira de Lille.
vem o comércio e os serviços.
1271-1295
Marco Polo percorre
O florescimento das cortes régias e senhoriais transformou estas em polos muito ati- o Oriente.
vos de produção e difusão de cultura, atraindo um número crescente de pessoas que aqui 1275
Aparecimento do portulano
procuram proteção, oportunidades de enriquecimento e de promoção social. A vida cor-
(carta marítima).
tesã estimula realizações de caráter lúdico e cultural: saraus, torneios, caçadas, banque-
tes e com eles a circulação de trovadores, jograis, mensageiros...

As casas reais europeias empenhadas em reforçar os seus poderes têm necessidade


de estabelecer alianças e tratados entre si, reunir esforços para enfrentarem a oposição
dos senhorios feudais ou ameaças externas. Daí a importância das missões diplomáticas
em cortes estrangeiras, embaixadas que negoceiam acordos políticos e económicos e
também de natureza amorosa.

Os limites estreitos do senhorio feudal e o sedentarismo quotidiano do homem


medieval não tardarão a ser rompidos de forma decisiva.
46 Módulo 2 - Dinamismo civilizacional da Europa Ocidental nos séculos XIII a XV – espaços, poderes e vivências

Questões para Exame


1

Documento 1 | O trabalho rural num senhorio Documento 2 | O afolhamento trienal


medieval (séc. XIII)
Um grande progresso reside no hábito, iniciado
nos séculos XI-XIII, de fazer três afolhamentos, e não
dois (...). Escusado será dizer que o afolhamento trie-
nal se divulgou com extrema lentidão, a princípio
(...). O novo afolhamento só a pouco e pouco se
desenvolve de forma sistemática. (...). Este facto tor-
nava possível assegurar uma maior variedade e
abundância de alimentos não só para os homens,
mas também para os animais; o aumento da produ-
ção de aveia deu um impulso decisivo na criação de
gado cavalar. Esta (a produção de aveia) é uma das
bases económicas da cavalaria feudal e, é preciso
não esquecer, que o cavalo foi também muito utili-
zado nos trabalhos agrícolas.
UNESCO (1967), Histoire de l´Humanité, vol. I.

Documento 3 | As rotas e o comércio na Europa no século XIII

Mar
do
Norte

1.1. A partir dos documentos 1 a 3, explique o aumento da produção agrícola na Europa Ocidental nos
séculos XI-XIII.

1.2. Explique o dinamismo comercial e financeiro europeu no século XIII (doc. 3).
Questões para Exame 47

Documento 4 | Carta de Foral de Vila Nova de Cerveira (1321)

Dom Dinis (...). A vós, João Soares (...) e a Gil Martins (...) e a (...). Bem sabedes em como era meu
talante(1) de fazer uma póvoa a par do meu castelo de Cerveira, e enviei-vos sobre isso minha carta para
saberdes se havia aí homens que o quisessem povoar e enviaste (dizer) que havia aí peças grandes(2) deles,
que o queria fazer, e que vos pediam para acoileramento(3) dessa póvoa vinte e oito casais.

In Saraiva, J. H. (1983), História de Portugal, Origens-1245, Lisboa, Alfa.

(1)
vontade
(2)
grande número
(3)
divisão do termo em coirelas ou casais.

Documento 5 | As Cortes portuguesas no século XIII Documento 6 | Inquirições de D. Dinis, 1288

Ano Localidade Assunto

1211 Coimbra Leis gerais


1250 Guimarães Reclamações do clero
1254 Leiria Quebra da moeda
1261 Coimbra Quebra da moeda
1273 Santarém Reclamações do clero
1280 Évora Inquirições gerais
1285 Lisboa Inquirições gerais
1288 Guimarães Questões com o clero
1289 Lugar desconhecido Reclamações da nobreza
1291 Coimbra Lei sobre heranças
(ordens religiosas)

2.1. Integre os documentos 4 a 6 na caracterização dos poderes em Portugal na época medieval, especi-
ficando, nomeadamente:

– composição e diversidade de estatuto dos membros da sociedade portuguesa;

– fundamentos da legitimidade e força da monarquia portuguesa;

– o relacionamento do poder régio com os poderes senhoriais e concelhios.


48 Módulo 3 - A abertura europeia ao mundo – mutações nos conhecimentos, sensibilidades e valores nos séculos XV e XVI

10.° Ano Módulo 3


A abertura europeia ao mundo – mutações nos
conhecimentos, sensibilidades e valores nos séculos XV e XVI

1. A geografia cultural europeia de Quatrocentos e Quinhentos


2. O alargamento do conhecimento do mundo
3. A produção cultural
4. A renovação da espiritualidade e da religiosidade
5. As novas representações da Humanidade

Contextualização
O movimento das Descobertas iniciado pelos Portugueses, logo secundados pelos Espa-
nhóis, iniciou o processo de desencravamento dos diversos “mundos” do Mundo. Ao fazê-lo,
deram à Europa o domínio dos mares e com ele a oportunidade de afirmar a sua hegemonia
sobre o planeta. Ao mesmo tempo, forneceu aos europeus uma nova e correta visão sobre
a geografia física da Terra e sobretudo promoveu o encontro entre povos e culturas que até
então se ignoravam mutuamente, retirando daí a prova da unidade e da universalidade do
género humano.
Em estreita ligação com os Descobrimentos, o Renascimento e o Humanismo operaram uma
verdadeira revolução cultural e social numa Europa que procurou na reinvenção das origens
da sua matriz cultural e na renovação da sua espiritualidade e religiosidade o reencontro
consigo própria e o encontro com o outro. Os tempos medievais não foram, pois, estéreis,
nem uma “época de trevas”, como se pretendeu classificar este longo período histórico.

Unidade 1 A geografia cultural europeia de Quatrocentos e Quinhentos

SUMÁRIO
– Principais centros culturais de produção e difusão de sínteses e inovações
– O cosmopolitismo das cidades hispânicas – importância de Lisboa e Sevilha

APRENDIZAGENS RELEVANTES
– Reconhecer o papel de vanguarda dos Portugueses na abertura europeia ao mundo e a sua
contribuição para a síntese renascentista.

CONCEITOS/NOÇÕES
Navegação astronómica; Cartografia
Unidade 1 - A geografia cultural europeia de Quatrocentos e Quinhentos 49

– Principais centros culturais de produção e difusão de sínteses e inovações


A Europa dos séculos XV e XVI constituiu um tempo e um espaço de produção e difu-
são de novas conceções, valores e atitudes, uma época de grandes reformas que trans-
formaram as formas do pensamento e da atividade humanas e exerceram uma profunda
influência nos domínios das artes, das letras e das ciências.
Este movimento de renovação teve o seu berço em Itália. Em Florença, os Médicis,
agrupam à sua volta uma “academia” de letrados e artistas, exemplo que seria seguido
por outros banqueiros, pelas igrejas e conventos e pelo próprio governo da cidade. Esta
prática de mecenato(1) foi fundamental para fazer de Florença o principal centro artístico
de Quatrocentos.
Nos finais do século XV, a expulsão dos Médicis de Florença e a instabilidade política
? Questão
e social que se lhe seguiu levaram os artistas e letrados a refugiarem-se em Roma cujos
papas Alexandre VI Borgia (1492-1503), Júlio II (1503-1513) e, em especial, Leão X (1513- 1. Como se explica que as
-1521) desejam transformá-la na capital de um império cristão. Milão, Génova e, sobretudo, cidades italianas tenham
sido a “vanguarda” da
Veneza, grande potência comercial, constituem outros tantos polos de arte e cultura. renovação e progresso
cultural nos séculos XV
A partir de Itália, os novos princípios e valores difundiram-se pela Europa ocidental. As e XVI?
peregrinações a Roma, o comércio, as relações diplomáticas entre as cortes europeias, o
gosto pelas viagens, a criação da imprensa moderna (1440) por Gutenberg e os progres-
sos técnicos na navegação favoreceram essa difusão. Em volta das universidades e nas
grandes cidades mercantis, como Paris, Lião, Londres, Praga, Viena, Cracóvia, Augsburgo
e Nuremberga, formaram-se círculos de letrados e artistas que, apoiados pelos monarcas
e pelos homens de negócios, tornaram estas cidades grandes centros de cultura.

– O cosmopolitismo das cidades hispânicas – importância de Lisboa e Sevilha


Cronologia
No século XVI, Lisboa é a cabeça de um vasto e disperso Império que pôs em con-
tacto, através do Atlântico e do Índico, povos da Europa, da África, da América do Sul 1494
Assinatura do Tratado de
(Brasil) e do Extremo Oriente que até então se ignoravam mutuamente. O Porto no estuá-
Tordesilhas entre Portugal
rio do Tejo exporta para os mercados europeus, via Antuérpia, a pimenta e outras espe- e Espanha.
ciarias indianas, o açúcar, as pedras preciosas, o mobiliário de luxo, as madeiras exóti- 1498
Chegada de Vasco da Gama
cas e o ouro, que lhe chegam de todos os quadrantes do Império, e o vinho, a cortiça, à Índia (Calecute).
os corantes naturais e o sal do Reino. É ainda a porta de entrada de numerosos artigos 1500
manufaturados e matérias-primas essenciais: os têxteis ingleses, flamengos, alemães e Pedro Álvares Cabral
descobre o Brasil.
italianos; os metais e a madeira da Alemanha e da Holanda; o trigo embarcado nos por-
1501
tos do norte da Europa... Pedro Álvares Cabral
regressa a Lisboa com
Lisboa é a base de apoio da empresa ultramarina: alberga o principal agente merca- o primeiro carregamento
dor, o monarca e a sua corte, e o organismo regulador e controlador dessa empresa, a de especiarias.
Casa da Índia(2), que dirige e explora o lucrativo comércio oriental das especiarias pela Rota 1502
Fundação da Casa da Índia
do Cabo que, até 1570, o próprio rei reserva para si sob a forma de monopólio régio(3). (Lisboa).
(1)
Mecenato: proteção às letras e às artes, levada a cabo por homens ricos e poderosos, que acolhem e apoiam os
1510
intelectuais e os artistas. Conquista de Goa por
(2)
A Casa da Índia, fundada pelo rei D. Manuel em 1502, cobrava direitos, estabelecia os contratos por conta do rei com Afonso de Albuquerque.
os negociantes e os exploradores, organizava as frotas, controlava a carga e descarga dos navios e fazia o registo 1513
de todos os navios portugueses largados de Lisboa. Chegada dos Portugueses
(3)
Monopólio régio: em 1504, o Estado impôs o seu controlo sobre o comércio do Oriente através da Casa da Índia. Em à China.
1506, a Coroa estabeleceu um monopólio sobre todas as importações de ouro, prata, cobre e coral e sobre o tráfico
entre Goa e as feitorias mais importantes. Neste quadro, que durou até 1570, apenas o Estado podia armar e enviar 1580-1640
navios para o Índico. União Ibérica.
50 Módulo 3 - A abertura europeia ao mundo – mutações nos conhecimentos, sensibilidades e valores nos séculos XV e XVI

Cronologia Capital política e económica, Lisboa é no século XVI uma grande cidade mesmo à
escala europeia, atraindo as elites mercantis e financeiras e culturais de todas as partes
1492
Castela conquista o reino do continente europeu, reforçando o seu caráter cosmopolita.
muçulmano de Granada.
Cristóvão Colombo chega
Sevilha, com a descoberta do Novo Mundo e o tráfico da América (metais preciosos,
às Antilhas. sobretudo a prata(4), as pérolas, os produtos de tinturaria como a cochonilha, o índigo,
1503 corantes e couros), tornou-se na capital do negócio e da banca de Espanha. Servida pelo
Fundação da Casa de
Contratación (Sevilha). porto de Cádis e sede da Casa de Contratación (1503), viu a sua importância crescer em
1519-1522 paralelo com o desenvolvimento da expansão espanhola e conquistou um lugar próprio
Fernando Cortés conquista nas grandes rotas comerciais europeias. A concessão pelo monarca do monopólio do trá-
o Império Asteca e refunda
o México. fico com as Índias Ocidentais a esta cidade transformou-a num polo de atração para os
1524 homens de negócios de toda a Europa: portugueses, flamengos, genoveses, franceses,
Sevilha recebe o monopólio
alemães e bretões. O elevado poder de compra da sua população e os altos salários que
do comércio colonial
espanhol. aí se praticavam proporcionavam ótimas oportunidades de negócios e constituíam pode-
1532 rosos fatores de atração.
Francisco Pizarro conquista
o Império Inca (Peru). Da Europa do Norte, recebe metais, panos, armas, bacalhau e trigo. Exporta vinhos,
1545 azeite e conservas de frutos, e reexporta para a América os géneros alimentícios, armas,
Início da exploração das
minas de prata do Potosi tecidos e utensílios de ferro e cobre, importados dos países europeus, fornecendo-a ainda
(Peru). do mercúrio, um produto essencial para a extração da prata.

No século XVI, Lisboa e Sevilha têm muito em comum: devem a sua fortuna às Des-
cobertas. Por outro lado, apesar da sua importância económica e política, Lisboa e Sevi-
lha não puderam, ou não souberam, tirar todo o partido da supremacia colonial, que deti-
veram e assumir o papel de centro da economia europeia de quinhentos. Esse lugar
coube a Antuérpia que explorou muito bem as suas potencialidades e as fraquezas do
capitalismo ibérico.

O AFLUXO DE METAIS PRECIOSOS MOVIMENTO DOS NAVIOS PORTUGUESES


A SEVILHA COM DESTINO AO ÍNDICO
Anos Ouro (kg) Prata (kg) Partida Chegadas
Anos
de Lisboa ao Oriente
1503-1510 4965 0
1511-1520 9153 0 1500-1509 138 128
1521-1530 4889 148 1510-1519 96 90
1520-1529 76 61
1531-1540 14 466 86 193 1530-1539 80 69
1541-1550 24 957 177 573 1540-1549 61 55
1551-1560 42 620 303 121 1550-1559 51 40
1560-1569 49 42
1561-1570 11 530 942 858 1570-1579 54 51
1571-1580 9429 1 118 592 1580-1589 56 47
1590-1599 44 37
1581-1590 12 101 2 103 027
1591-1600 19 451 2 707 626 Totais 705 620

Vilar, P. (1980), Ouro e Moeda na História, Lisboa, Europa-América, p. 126.

(4)
De início, o valor das remessas do ouro suplantava o da prata. Mas depois de 1560 inverte-se a situação: de 1561 a
1570, Sevilha regista 943 toneladas de prata, contra 11 toneladas e meia de ouro; em 1620, a prata constitui, em peso,
99% das remessas dos metais preciosos americanos.
Unidade 2 - O alargamento do conhecimento do mundo 51

Unidade 2 O alargamento do conhecimento do mundo Cronologia

1502
SUMÁRIO
Planisfério de Cantino.
- O contributo português: inovação técnica; observação e descrição da natureza* 1519
- A matematização do real Planisfério de Pedro Reinel.
– A revolução das conceções cosmológicas* 1552
Planisfério de Lopo
Homem.
APRENDIZAGENS RELEVANTES
1561
- Identificar a emergência e a progressiva consolidação de uma mentalidade quantitativa e Lopo Homem: Atlas
experimental que prepara o advento da ciência moderna e proporciona ao homem um Universal.
maior domínio sobre a natureza. 1568
Publicação do Atlas, de
Fernão Vaz Dourado.
CONCEITOS/NOÇÕES
*Navegação astronómica:
Navegação astronómica; Cartografia; Experiencialismo**; Mentalidade quantitativa; Revolução
navegação tendo como
coperniciana** orientação a altura dos
astros, calculada através
* Conteúdos de aprofundamento
do recurso a instrumentos
** Aprendizagens e conceitos estruturantes
específicos (astrolábio,
balestilha, regimentos,
tábuas solares). Iniciada
por meados do século XV,
tornou-se indispensável no
– O contributo português: inovação técnica Atlântico para que os
pilotos, durante dias
As grandes Descobertas não teriam sido possíveis sem alguns dos progressos técni-
e dias, só com mar e céu
cos, em particular no domínio da arte de marear, que ocorreram antes e em paralelo com à vista, tivessem uma ideia
do lugar, por precária que
o surto da expansão ultramarina iniciada por Portugal em Quatrocentos. A navegação
fosse, em que a cada
atlântica, bem distinta da do Mediterrâneo(1), levantava novos e complexos problemas momento se encontravam.
que exigiam respostas técnicas adequadas e eficazes.

Por isso, os Portugueses tiveram de mostrar uma grande capacidade de adaptação e


transformação criativas do saber tradicional, recorrendo ao conhecimento fundamentado
dos seus cosmógrafos, matemáticos e astrónomos, imprescindíveis para a navegação
astronómica*, e ao saber adquirido na prática quotidiana pelos nossos navegadores, para
se apetrecharem com os meios técnicos necessários à superação das dificuldades de
orientação e navegação no Atlântico: a utilização da caravela (Fig. 1), uma embarcação
móvel, de casco alongado e resistente e com velas triangulares que lhe permitiam boli-
nar (conjugação da navegação em zigue-zague com os movimentos das velas de forma Fig. 1. Caravela portuguesa,
a poder avançar mesmo com ventos desfavoráveis); a descoberta dos ventos alíseos(2); prato hispano-mourisco,
século XV.
o aperfeiçoamento dos métodos de cálculo da latitude(3); a adaptação criativa do astro-
lábio náutico (Fig. 2) e da carta plana quadrada(4) e o aperfeiçoamento da balestilha e do

(1)
Mediterrâneo: mar interior, estendido em longitude, relativamente calmo e sobretudo bem conhecido; uma carta de
marear e uma bússola eram suficientes para uma navegação segura, tanto mais que os marinheiros têm constante-
mente no seu horizonte visual a linha de costa e as numerosas ilhas. A situação era muito diferente no Atlântico, o
Mar Tenebroso, como era designado entre os Muçulmanos.
(2)
Ventos alíseos: ventos regulares e constantes que sopram de E para O nas regiões intertropicais; de ENE para OSO
no hemisfério norte; e de ESE para ONO no hemisfério sul; a sua regularidade é um fator favorável à navegação.
(3)
Para determinar a latitude os Portugueses começaram por utilizar a constelação Ursa Menor, de que faz parte a
Estrela Polar. O processo para fazer este cálculo era há muito conhecido na Península. O problema era adaptar os ins-
trumentos mais adequados ao uso dos navegadores e elaborar um regimento com regras claras, acessíveis aos pilo-
tos. A determinação da longitude era menos rigorosa, fazendo-se por estimativa.
(4)
As novidades técnico-científicas do astrolábio náutico e da carta plana quadrada representam uma adaptação ino-
vadora do astrolábio plano e da carta-portulano medieval. Fig. 2. Astrolábio náutico.
52 Módulo 3 - A abertura europeia ao mundo – mutações nos conhecimentos, sensibilidades e valores nos séculos XV e XVI

Cronologia quadrante; a elaboração de roteiros com a descrição minuciosa das costas e dos seus
acidentes e a indicação dos perigos a evitar e da extensão dos rumos entre as escalas,
1505-1508
Duarte Pacheco Pereira: guias náuticos(5), livros de marinharia(6), regimentos(7), tábuas solares, escalas de latitude,
Esmeraldo de situ orbis. etc.; melhoria tecnológica das armas de fogo e, em particular, da artilharia.
1537
Pedro Nunes: Tratado da
Esfera.
– O contributo português: observação e descrição da natureza
1538-1539 Os europeus conheciam muito pouco dos outros mundos e tinham deles imagens que
D. João de Castro: Roteiro
de Lisboa a Goa e Roteiro a abertura planetária iniciada pelos Portugueses em Quatrocentos demonstraria serem
de Goa a Diu. erradas (Fig. 3). Com efeito, narrativas fantásticas e mitos relacionados com o mar e os
1562 continentes africano e asiático acabariam por ser destruídos pelos Portugueses através
Garcia da Orta: Colóquios
dos Simples e Drogas da de um saber fundamentado na experiência, isto é, na vivência das coisas. Foi através
Índia. deste experiencialismo* que os nossos marinheiros deram a conhecer ao mundo algu-
mas novidades que contrariavam muito do saber herdado e há muito estabelecido:
*Experiencialismo:
– habitabilidade da zona equatorial;
conhecimento das coisas
adquirido pela prática – comunicabilidade entre os hemisférios norte e sul;
e observação. Trata-se de
uma atitude meramente – ligação entre os oceanos Atlântico e Índico;
empírica que poderíamos
classificar de “pré- – descoberta de uma nova parte do Mundo (o continente americano);
-científica” para a distinguir – esfericidade da Terra, já defendida pelos Gregos, mas contestada maioritariamente
de experimentalismo, uma
atitude científica, onde na época medieval.
à observação se segue
a racionalização
e a experimentação. O contributo dos Portugueses para uma nova visão do Mundo e da Natureza é essen-
cialmente informativo e empírico, porque a preparação intelectual e científica dos nossos
navegadores não lhes permitia ir mais além do que a simples observação das coisas
através dos sentidos. É verdade que em alguns espíritos mais cultos da época
constatamos a preocupação de procurar um conhecimento racional e, portanto,
científico da realidade observada. É o caso de Duarte Pacheco Pereira (1460-
-1533), D. João de Castro (1500-1548), Garcia da Orta (1501-1568), Pedro Nunes
(1502-1578) e Amato Lusitano (1511-1568), que procuraram ir mais além da abor-
dagem empírico-sensorial dos fenómenos observados, mas o seu racionalismo
crítico-experiencial não chegou a traduzir-se numa atitude científica sistemática.

Mas o contributo mais decisivo dos Portugueses terá sido o de ter cons-
truído uma nova visão do Mundo e da Natureza, sobretudo o de ter feito a
demonstração de que não há bestas nem monstros humanos, que a natureza
do género humano é una; também que não há povos nem civilizações infra-
-humanos, ou seja, a ideia de humanidade.
Fig. 3. Imagem medieval do
mundo: o oceano rodeia
a terra como um círculo.

? Questão (5)
Guias náuticos: obras que ensinam as regras da astronomia náutica. O Guia Náutico de Munique (c. 1509) e o de Évora
(c. 1516) constituem os mais antigos textos impressos onde se apresentam as principais regras de pilotagem e os
1. Que contributos deram elementos de navegação astronómica, em uso no princípio do século XVI.
os portugueses para o (6)
Livros de marinharia: espécie de manuais com todas as informações necessárias para a navegação astronómico-
conhecimento no século -oceânica.
XVI? (7)
Regimentos: conjuntos de regras e cálculos que facilitavam o trabalho dos pilotos na determinação da latitude.
Unidade 2 - O alargamento do conhecimento do mundo 53

– A matematização do real
O renovado interesse pela natureza e pela vida quotidiana dos indivíduos e das socie-
dades, que caracterizou o início dos Tempos Modernos, influenciou a formação de uma
nova mentalidade, mais técnica e utilitária, mais racional e rigorosa.

Na origem e no desenvolvimento desta nova atitude mental estão fundamentalmente


três fenómenos marcantes: o movimento das Descobertas, que exigiu respostas objeti-
vas para os novos problemas; a progressiva afirmação do Estado moderno, centralizado
e burocratizado, com novas necessidades – inventariação dos recursos humanos (exérci-
tos, quadros administrativos) e materiais (fisco, movimentos económicos e financeiros);
o incremento da atividade mercantil e das técnicas comerciais e bancárias e de contabi-
lidade que lhe estão associadas.

O Estado e a sociedade são levados assim a calcular, a valorizar o rigor e a quanti- * Mentalidade quantitativa:
ficação, contribuindo assim para a progressiva afirmação de uma mentalidade virada para atitude mental que se
caracteriza pela
o número, para a medida, uma mentalidade quantitativa*. Tudo é mensurável, tudo é valorização do número, do
quantificável, até o próprio tempo. rigor e da medição.

– A revolução das conceções cosmológicas


O universo medieval é o de Aristóteles e de Ptolomeu, um universo fechado e finito, * Revolução coperniciana:
todo ele contido no interior da esfera que se julgava envolver as estrelas fixas, formado revolução operada na
astronomia por Nicolau
por duas partes essencialmente diferentes: o mundo celeste e o mundo sublunar. Copérnico (1473-1543) que
refutou a teoria
O astrónomo polaco Nicolau Copérnico (1473-1543) iniciou a revolução* que viria a geocêntrica do Universo
alterar por completo a conceção do mundo por parte dos europeus. Na sua obra De revo- defendida desde a
Antiguidade, segundo
lutionibus orbium coelestium (1543), o seu universo é descrito como um espaço geome- a qual a Terra é o centro
trizado, limitado por uma esfera celeste imóvel em cujo centro se encontra o Sol. A Terra imóvel do Universo,
contrapondo-lhe
e os demais planetas e estrelas moviam-se em seu redor (heliocentrismo) (Fig. 4). o heliocentrismo, teoria
segundo a qual é a Terra
O sistema heliocêntrico coperniciano foi considerado herético e moralmente errado que gira em volta do Sol,
pelas autoridades eclesiásticas. Foi por isso que os poucos astrónomos que tinham e não o inverso.

começado a pôr em dúvida a antiga teoria do Universo geocêntrico o tenham feito secre-
tamente com o receio de perseguições por parte da Igreja. As teorias de Copérnico foram
completadas por Kepler (151-1630), que defendeu que as órbitas dos planetas não eram Cronologia
circulares, como afirmara Copérnico, mas sim elíticas.
Principais astrónomos dos
séculos XV-XVII
1473-1543
Nicolau Copérnico.
1546-1601
Tycho Brahe.
1564-1642
Galileo Galilei (Galileu).
1571-1630
Johannes Kepler.
1642-1727
Isaac Newton.

Fig. 4. O universo segundo Copérnico.


54 Módulo 3 - A abertura europeia ao mundo – mutações nos conhecimentos, sensibilidades e valores nos séculos XV e XVI

Unidade 3 A produção cultural


SUMÁRIO
3.1. Distinção social e mecenato
3.2. Os caminhos abertos pelos humanistas
3.3. A reinvenção das formas artísticas*

APRENDIZAGENS RELEVANTES
– Reconhecer o prestígio da coroa portuguesa na Época Moderna e a função valorizante da
produção artística e literária nacional.
– Identificar no urbanismo, na arquitetura e na pintura a expressão de uma nova conceção
do espaço de caráter antropocêntrico**.
– Identificar na produção cultural renascentista a herança da Antiguidade Clássica e a con-
tinuidade com o período medieval.
– Desenvolver a sensibilidade estética através da identificação e apreciação de obras artís-
ticas e literárias do período renascentista.

CONCEITOS/NOÇÕES
Intelectual; Civilidade; Renascimento**; Humanista**; Antropocentrismo**; Naturalismo; Classi-
cismo**; Perspetiva; Manuelino**

* Conteúdos de aprofundamento
** Aprendizagens e conceitos estruturantes

3.1. Distinção social e mecenato


– A ostentação das elites cortesãs e burguesas
Os séculos XV e XVI são favoráveis à afirmação dos homens mais dotados e empreen-
dedores: o progresso económico e o desejo de distinção social das elites arrastam con-
sigo o aumento do luxo e o desenvolvimento da urbanização, da cultura e da sociabi-
lidade(1).

O homem é um ser social, é essa a sua natureza, que se afirma tanto melhor quanto
mais hábil e educado for. Isto leva ao desenvolvimento de padrões de comportamento
em grupo que são cada vez mais refinados e, ao mesmo tempo, a integrar na formação
dos homens e mulheres regras de conduta apropriadas às mais diversas situações. Fala-se
* Civilidade: conjunto de então de civilidade*, devendo referir-se neste contexto a obra de Baldassare Castiglione,
formalidades observadas autor d’O Livro do Cortesão (1528), um educador de “pessoas bem nascidas” que, mais
entre as pessoas
bem-educadas que vivem do que qualquer outro, contribuiu para a conversão da vida cortesã italiana (e europeia)
em sociedade; cortesia, aos valores da civilização. Apóstolo das “boas maneiras”, Castiglione definiu o modelo
delicadeza, polidez,
etiqueta, urbanidade. do que considerava ser o “homem completo”: um militar e diplomata brilhante e um
artista talentoso.

Ao mesmo tempo, a prosperidade económica ofereceu às elites burguesas uma outra


via de afirmação e distinção social: a ostentação de riqueza através da moda do vestuá-
rio, sofisticado e luxuoso, e da festa. O vestuário feminino passou também a ser mais

(1)
Sociabilidade: tendência para viver em sociedade, facto que implica a adoção de modos ou regras adequados.
Unidade 3 - A produção cultural 55

elaborado (corpetes, espartilhos, camisas bordadas, peitilhos...). Os ambientes cortesãos ? Questões


e palacianos valorizam a aparência e a etiqueta. As cortes absolutistas promovem-nas.
1. Como caracteriza
A exteriorização de riqueza era uma forma de afirmação, uma fonte de prestígio. Por isso, a sociedade da época do
o burguês afortunado procura vestir-se como os fidalgos e copiar-lhe os gestos, na espe- Renascimento?

rança de se confundir ou para rivalizar com eles: o sonho de muitos burgueses era o eno- 2. Como explica
a importância atribuída
brecimento e ter os padrões de vida da aristocracia nobre. à moda do vestuário
e à civilidade?
– O estatuto de prestígio dos intelectuais e artistas
Na sociedade quatrocentista e quinhentista a cultura torna-se uma fonte de prestígio
e de reconhecimento social. Conscientes disso, príncipes, nobres e eclesiásticos rodeiam-se
de artistas e intelectuais a quem apoiam e patrocinam as suas obras. É o mecenato(2),
modo de afirmação político e social de quem o pratica mas também importante para o
desenvolvimento da produção intelectual e artística. Os artistas e intelectuais são recom-
pensados pela generosidade dos mecenas (Fig. 1) e pelo reconhecimento social. Este
fenómeno não pode ser explicado senão pela nova difusão da cultura, fruto da aparição
da imprensa, e pelo interesse de um público instruído, cada vez mais numeroso.

– Portugal: o ambiente cultural da corte régia


Em Portugal, o Paço real constituiu o grande foco de irradiação cultural nos séculos Fig. 1. Lourenço, o Magnífico
(1449-1492), duque de
XV e XVI. As razões são claras e encadeiam-se umas nas outras: Florença, modelo dos
– a formação de quadros superiores para as tarefas administrativas e a gestão dos mecenas renascentistas.
(Florença, Galeria dos
empreendimentos ultramarinos centralizados pela Coroa; Ofícios).
– oportunidade para reforçar o prestígio do rei mecenas e da sua corte, colocando
desta forma a cultura ao serviço dos objetivos de afirmação do absolutismo régio(3);
– disponibilidade de meios económico-financeiros (ainda que esta situação fosse mais
precária e aparente do que se pretendia fazer crer) proporcionados pela exploração ? Questão
utramarina, em especial pela “carreira da Índia” no século XVI.
1. Que objetivos se
pretendiam atingir com
Assim se explica o ambicioso programa de grandes construções manuelinas (Paços da a prática do mecenato?
Ribeira, Mosteiro dos Jerónimos e a Torre de Belém). É ainda neste quadro que se regista
na corte quinhentista portuguesa a presença de intelectuais e artistas estrangeiros de
renome e a concessão de bolsas aos estudantes portugueses que pretendessem formar-se
nos centros culturais de maior prestígio na Europa, como Paris, Lovaina, Oxford e Sala-
manca, entre outros, os chamados bolseiros d´el-rei(4).

Como resultado do mecenatismo real, na década de 1430 e 1440, chegaram ao nosso


País conhecidos humanistas italianos, como Mateus Pisano e Estêvão de Nápoles para
educarem o príncipe D. Afonso (futuro D. Afonso V), entre outros. Os portugueses Diogo
de Gouveia e o seu sobrinho André de Gouveia, que chegaram a ocupar a cátedra da

(2)
Mecenato: a expressão tem a sua origem no nome do romano amigo de Augusto, Caio Mecenas, que se celebrizou
como um importante protetor de homens de letras entre os quais Virgílio e Horácio. Fig. 2. Retrato de Damião
(3)
Absolutismo régio: regime em que o soberano se considera legitimado pela origem divina do seu poder para exer- de Góis (1502-1574), por
cer o poder livre de controlos ou limitações de quaisquer outros poderes. Os regimes absolutistas afirmaram-se na Jan Mabuse. Diplomata,
Europa ocidental entre os séculos XVI e XVIII, em paralelo com a formação do Estado moderno. historiador e humanista
(4)
O número de 41 bolseiros, correspondente à última vintena de anos do reinado de D. Manuel, elevou-se para 177 proeminente nas cortes de
nas duas primeiras décadas do reinado de D. João III. D. Manuel I e de D. João III.
56 Módulo 3 - A abertura europeia ao mundo – mutações nos conhecimentos, sensibilidades e valores nos séculos XV e XVI

Cronologia reitoria da Universidade de Paris, André de Resende, Pedro Nunes, Garcia da Orta, Amato
Lusitano e Damião de Góis (Fig. 2), entre muitos outros, adquiriram projeção e grande
c. 1500
Estatutos manuelinos da notoriedade internacional. Também a reforma da Universidade levada a cabo por D. João III,
Universidade de Coimbra. entre 1533-1535, e a fundação do Colégio das Artes, em 1547, foram realizadas com o
1502
Auto da Visitação ou
contributo decisivo dos antigos bolseiros e dos mestres estrangeiros radicados entre nós.
Monólogo do Vaqueiro,
de Gil Vicente. BOLSAS CONCEDIDAS PELA COROA A ESTUDANTES PORTUGUESES NO ESTRANGEIRO
Início da construção do
Mosteiro dos Jerónimos. 1500-1514 22
1505
Construção do Paço da 1515-1521 19
Ribeira (Lisboa).
1522-1526 27
1513
Embaixada de D. Manuel 1527-1530 64
ao Papa Leão X.
1514 1531-1535 46
Edição das Ordenações
Manuelinas. 1536-1540 40 Dias, J. S.,
A Política Cultural
1515-1519 na Época de D. João III,
1541-1550 21
Edificação da Torre de vol. I, t. I.
Belém.
1521
Morte de D. Manuel 3.2. Os caminhos abertos pelos humanistas
e subida ao trono
de D. João III. – Valorização da Antiguidade Clássica
1547
Fundação do Colégio das Os intelectuais e artistas dos séculos XV e XVI viveram momentos únicos de desco-
Artes. berta: do mundo (Descobrimentos), da natureza e das suas leis (Ciência), da Antiguidade
1572
Publicação de Os Lusíadas,
Clássica.
de Luís de Camões.
O interesse pela Antiguidade greco-latina teve a sua origem nas cidades italianas que,
animadas por um forte impulso de progresso e prosperidade económica, procuraram nas
suas origens a fonte de inspiração e o património cultural capazes de dar resposta às
suas ambições e aos seus ideais. Seguindo o exemplo de Petrarca (1304-1374), um
incomparável investigador de livros antigos, os primeiros a procurar esse caminho foram
essencialmente pesquisadores e colecionadores de obras romanas.
* Humanistas: designação
dada aos estudiosos dos Mas a Antiguidade não foi só romana; grande parte do seu legado encontrava-se
autores e obras da escrito em grego, língua cujo conhecimento era imprescindível para o acesso direto aos
Antiguidade greco-latina.
escritos de autores como Homero e Platão. A conquista, em 1453, de Constantinopla,
* Classicismo: fenómeno
artístico característico do
capital do Império Romano do Oriente, pelos Turcos Otomanos forçou a fuga para a Itá-
Renascimento, que se lia de muitos intelectuais gregos, o que veio reforçar o interesse pela língua e pelas
fundamenta na literatura
e nas artes da Antiguidade
obras dos autores gregos (e hebraicos) antigos estudadas, com racionalidade e sentido
Grega e Romana. crítico, pelos humanistas*.

Esta valorização da Antiguidade Clássica, o Classicismo*, fez-se igualmente sentir tam-


bém no seio da própria Igreja Romana. O papa Nicolau V (1447-1455) funda a Biblioteca
Vaticana e enriquece-a com um grande número de títulos gregos.
? Questão
Da Itália, a paixão pelo grego e pela cultura helénica passou à França, à Inglaterra, à
1. Como se explica o grande Espanha, aos Países Baixos, à Alemanha... Thomas More traduz para latim os Diálogos
interesse dos humanistas
de Luciano (1506), Erasmo elabora uma nova versão do Novo Testamento (1516), Amyot
do século XV pelas obras
e autores clássicos? traduz para o francês as Vidas Paralelas, de Plutarco (1559).
Unidade 3 - A produção cultural 57

– A consciência da modernidade e a afirmação das línguas nacionais


O gosto pelo legado clássico, grego e romano trouxe consigo a crescente rejeição de
alguns modelos herdados do passado. Com efeito, embora não seja possível dizer-se que
o Renascimento (designação dada ao período da História da Europa aproximadamente
entre fins do século XIV e meados do século XVI, caracterizado por um movimento de
renovação cultural e social global que transformou as artes, as letras e as ciências, bem
como todas as demais formas do pensamento e da atividade humanas) se traduza por
uma recusa pura e simples do passado medieval e com ele da visão teocêntrica do
mundo, assiste-se, ao longo dos séculos XV e XVI, a uma revalorização do homem e de
tudo aquilo que lhe é próprio. Esta atitude traz consigo um novo sentido de liberdade e
manifesta-se através da vontade de conhecer e de experimentar, fruto do desejo (e neces-
sidade) de progresso e de um ideal de modernidade.

Daqui resultaram consequências importantes. Por um lado, a atitude de rejeição da


Idade Média que aparecia aos olhos do homem do Renascimento como a “Idade das Tre-
vas”, um tempo obscuro, teocêntrico e dogmático, dominado pelo medo e pelo fanatismo.
Por outro lado, a definição de um modelo do “homem moderno”, caracterizado como um
indivíduo com espírito crítico e senhor de si próprio, confiante nas suas capacidades.
Fig. 3. Erasmo de Roterdão
O desenvolvimento do espírito crítico teve também implicações importantes no domí- (1466-1536), humanista e
nio político. Com efeito, apesar do humanismo europeu ter permanecido fiel às orienta- filósofo holandês e um dos
maiores críticos da
ções gerais do humanismo italiano, a verdade é que a pretensa superioridade da herança imoralidade do clero.
clássica romana e da língua latina vai sendo contestada à medida que se foi difundindo
no Ocidente. Assim, ao lado dos traços comuns vão surgindo diversidades regionais que
se vão acentuando, à medida que as traduções das obras originais e as respetivas publi-
cações promovem o reforço das línguas nacionais que dão a conhecer os respetivos patri-
mónios histórico-culturais nacionais.

– Individualismo, espírito crítico, racionalidade e utopia


É usual dizer-se que o Renascimento descobriu o Homem, libertando-o de todos os
constrangimentos do passado, fossem eles familiares, corporativos, religiosos ou da socie-
dade em geral, e colocou-o no centro do mundo (antropocentrismo*). Contudo, nem a * Antropocentrismo:
Idade Média representou um domínio exclusivo do coletivo sobre o individual, esquecendo conceção que considera
o homem como o centro do
o Homem, nem a Época Moderna viveu livre dos constrangimentos sociais e religiosos. Universo, pelo que lhe são
destinadas todas as
Não havendo assim o corte brutal entre a Idade Média e os Tempos Modernos que coisas, tudo lhe está
os homens do Renascimento defenderam, é verdade que entre uma época e a outra subordinado.

se assiste a um enfraquecimento dos vínculos sociais e à afirmação do indivíduo livre


e confiante que procura impor-se à atenção e à admiração de todos. É o tempo dos
condottieri(5), de banqueiros como os Médicis (Florença) e de aventureiros como César
Bórgia, filho do Papa Alexandre VI, que durante alguns anos dominou a Itália central.

(5)
Condottieri: na Itália do Renascimento, chefes de guerra que comandavam tropas de mercenários e intervinham
nas decisões políticas.
58 Módulo 3 - A abertura europeia ao mundo – mutações nos conhecimentos, sensibilidades e valores nos séculos XV e XVI

Cronologia A paixão do homem renascentista pelo mundo clássico, greco-romano, expressa antes
de tudo a sua oposição a um mundo de valores que considerava envelhecidos e inade-
1511
Erasmo de Roterdão (1469- quados para as suas aspirações e os seus ideais. A convicção de que vivia uma “idade
-1536): O Elogio da Loucura. nova” e a sua vontade de afirmar a sua modernidade em relação a uma época, a Idade
1516
Thomas More (1478-1535): Média, que considerava “bárbara”, estimularam nas elites cultas do tempo um forte espí-
A Utopia. rito crítico. Com efeito, desde o século XV que os principais humanistas europeus fazem
1532 críticas implacáveis à corrupção moral, à ignorância e à hipocrisia da sociedade e dos
François Rabelais (1494-
-1553): Gargântua poderes instituídos, quer fossem eles laicos ou religiosos.
e Pantagrual;
Tommaso di Campanella O melhor exemplo desta ousadia intelectual é Erasmo de Roterdão (1469-1536), o
(1568-1639): Cidade do Sol. humanista mais influente do Renascimento: e O Elogio da Loucura (1511), irónico e mor-
daz, critica a corrupção moral do clero, em particular do Papa e dos bispos, incluindo nas
suas críticas os reis e os príncipes.

Mas o papel dos humanistas não se limitou à denúncia do que consideravam ser os
erros da sociedade do seu tempo. O regresso às fontes antigas encorajou também a cla-
rificação da ideia de progresso através da comparação da realidade do seu tempo com
a ideia – influenciada pelo estudo da herança clássica - de como ela deveria ser. Surgem
assim as “utopias”(6), descrições de modelos de sociedades organizadas segundo princí-
pios diferentes daqueles que vigoravam no mundo real. Trata-se de um género literário
que floresceu na época do Renascimento, cuja designação provém da obra de Thomas
More (1478-1535)(7), A Utopia (1516), e que expressa ao mesmo tempo uma visão otimista
das possibilidades do homem e o profundo divórcio existente entre as aspirações dos
humanistas e a realidade do quotidiano.

François Rabelais (1494-1553), na sua principal obra Gargântua e Pantagruel, confron-


tou a realidade da vida monástica com a abadia por si idealizada, onde a divisa era “faz
o que te apetecer”. Concebida por Tommaso di Campanella (1568-1639), A Cidade do Sol
descreve também uma sociedade ideal situada algures nos mares equatoriais, baseada
em princípios comunitários.

Cronologia 3.3. A reinvenção das formas artísticas


1495-1498 – Imitação e superação dos modelos da antiguidade
Leonardo da Vinci: A Última
Ceia. Os artistas renascentistas não fizeram uma imitação passiva dos modelos clássicos.
1501-1505 Sem esconder a sua enorme admiração por esses modelos, os artistas do Renascimento
Miguel Ângelo: David
(Florença). estabeleceram também com eles uma relação de competição, ou seja, desejaram fazer
1506 melhor do que os gregos e os romanos e alguns deles tiveram mesmo a consciência de
Bramante: projeto da nova
o ter alcançado. Inspirar-se nos Antigos para fazer coisas novas – era esse o seu propó-
basílica de S. Pedro.
1508 sito. A Antiguidade apresenta-se assim aos intelectuais e aos artistas não tanto como um
Miguel Ângelo: frescos da modelo a ser imitado, mas sobretudo como um estímulo à sua superação.
Capela Sistina.
1509
Rafael: salas do Vaticano. (6)
A utopia é uma palavra de origem grega - ου + τοπος (ou topos, não lugar) – consistindo numa idealização da
1586 vida dos homens; ela pressupõe uma atitude crítica em face da realidade e uma exploração das diferenças com um
Vitrúbio: De Architectura determinado modelo ou ideal.
(tratado de arquitetura). (7)
Thomas More acabaria decapitado por oposição aberta ao divórcio e ao cisma com a Igreja Católica de Henrique VIII.
Unidade 3 - A produção cultural 59

Com efeito, os artistas do Renascimento não só revelaram uma técnica superior à dos * Perspetiva: conjunto de
regras de representação
Antigos – nomeadamente no domínio pictórico com a pintura a óleo, a perspetiva* e a que permite a reprodução
introdução do uso da tela – como também foram mais longe nas tentativas de reduzir o tridimensional de um
objeto sobre uma
mundo à medida do homem colocando a arte ao serviço da compreensão racional das superfície plana
aparências do mundo exterior. (bidimensional), uma vez
estabelecido o ponto de
observação.
– A centralidade do observador na arquitetura e na pintura: a perspetiva
matemática
? Questão
Numa época em que os homens se esforçavam para compreender o mundo de um
modo mais científico, as explicações até então admitidas como válidas para esse efeito 1. Qual a atitude dos
artistas renascentistas
já não são suficientes: a razão exige dos homens que se dedicam ao estudo da realidade relativamente aos modelos
natural as provas e a confirmação das suas teses. artísticos clássicos:
imitação e/ou inspiração e
A arte, feita até então em função de uma fé religiosa, procurando na natureza apenas desafio?

aquilo que pode servir o seu ideal, uma vez liberta desta servidão teológica, torna-se
também ela um meio de conhecimento do mundo exterior. A partir de agora, aos olhos
do artista, colocado numa posição de observador, oferece-se um campo imenso de explo-
ração: a infinita variedade dos elementos e das formas do universo, humano e natural.

O século XV recuperava assim a visão racionalista que estava na base do pensamento e


das realizações artísticas da Antiguidade Clássica. Na arquitetura, o racionalismo traduziu-se
na adoção da ordem arquitetónica(8) e no aspeto “matemático” e geométrico dos edifícios.

Na pintura, o objetivo de reproduzir com o maior realismo possível a realidade


humana e natural implicou o recurso à perspetiva, ou seja, ao efeito de profundidade ou
tridimensionalidade nas figuras pintadas, e ao “projeto”(9).

A arte transformou-se desta forma num laboratório “científico” da realidade observada


e as obras de arte tornaram-se construções quase matemáticas. A aproximação à ciência
faz-se através dos métodos da arte e o artista, a seu modo, faz ciência. Votado ao conhe-
cimento da natureza, o artista cumpre deste modo o grande desígnio do Renascimento:
a racionalização das aparências do mundo exterior.

– A racionalidade no urbanismo
As cidades medievais eram constituídas por aglomerados de edifícios, cercados por
muralhas que protegiam as suas populações mas também as isolavam do mundo exte-
rior. O traçado e a configuração da cidade dependiam da muralha(10) que a delimitava,
dos acidentes do terreno e do crescimento da população citadina. No interior da cidade,
as construções acantonavam-se em redor de uma catedral (castelo, abadia ou convento)
para onde convergiam ruas e vielas estreitas e tortuosas por onde circulavam quase
exclusivamente pessoas e animais.

(8)
Ordem arquitetónica: conjunto de regras formais e de proporção que ligavam entre si, de uma forma de antemão
estabelecida, todas as secções de um edifício.
(9)
Projeto: estudo rigoroso, matemático, prévio à execução de uma obra.
(10)
Muralhas: a sua finalidade principal era a proteção, funcionando também como fronteira ou limite, acompanhando
(e condicionando) o crescimento da cidade: se esta aumentava, levantava-se outra muralha. A partir do século XV, os
progressos da artilharia tornaram ilusório o seu papel de proteção.
60 Módulo 3 - A abertura europeia ao mundo – mutações nos conhecimentos, sensibilidades e valores nos séculos XV e XVI

Como se percebe, estas cidades não podiam satisfazer nem os princípios de raciona-
lidade nem o modo de vida requintado do homem do Renascimento. O objetivo de racio-
nalização que estava no centro das preocupações dos arquitetos renascentistas está tam-
bém presente na organização dos espaços urbanos. Ao fazê-lo, estes arquitetos iniciaram
a história do urbanismo moderno.

? Questões Com efeito, o Renascimento assinala a primeira intervenção urbanística consciente,


através da elaboração de planos geométricos, em xadrez ou em círculos concêntricos,
1. De que forma o
urbanismo moderno considerados como ideais. É esta racionalidade (e utopia) que fundamenta os planos de
expressa a mentalidade do remodelação das velhas cidades medievais, em particular das praças, que constituíam o
homem do Renascimento?
centro monumental dos centros urbanos e um espaço cívico privilegiado.
2. Quais as principais
inovações na pintura e na
escultura do Renascimento? – A expressão naturalista na pintura e na escultura
Os artistas do Renascimento foram mais longe do que quaisquer outros que os pre-
cederam no modo de representar o homem e, acima de tudo, a sua realidade física, natu-
ral. Como foi isso possível?

Em primeiro lugar, através de uma melhor compreensão da anatomia humana tradu-


zida tecnicamente através de inovações da pintura renascentista: os progressos da pin-
tura a óleo que permitem o uso mais subtil da cor, da luz, da sombra e da ilusão do
volume das figuras que reproduzem com precisão as três dimensões ocupadas pelo corpo
humano. Ao mesmo tempo, através da técnica da perspetiva que deu ao artista a possi-
bilidade de traduzir com um rigor matemático, na tela, a realidade exterior onde o homem
se move, o seu meio ambiente rigorosamente retratado nas cores e nas formas e como
tal reconhecível pelo olhar do observador.

Masaccio (1401-1428), o primeiro grande pintor do século XV, foi o grande iniciador
dessa nova maneira de exprimir na tela o volume das coisas e a anatomia dos corpos.
A busca da representação exata da realidade observada levou-o a introduzir a perspetiva
nos grandes planos colocando o observador na posição de espetador privilegiado que sur-
preende as personagens no seu espaço natural (paisagem) ou construído (arquitetura).

* Naturalismo: reprodução Estas inovações – volume, perspetiva e naturalismo* – fizeram escola na pintura
fiel, exata, da natureza,
renascentista. De entre os seus muitos seguidores destacaram-se Piero della Francesca
dos seres ou objetos tal
como são percecionados (1416-1492), Luca Signorelli (1441-1523) e Botticelli (1444-1520), atingindo o seu máximo
no seu estado natural. desenvolvimento no século XVI com Miguel Ângelo (1475-1564) cujos frescos da Capela
Sistina (1508-1512) são uma demonstração impressionante da energia, do vigor e das
potencialidades expressivas da figura humana.

O interesse dos artistas do Renascimento pelo homem e o objetivo de o representar


com a maior precisão possível estão também claramente evidenciados na escultura.
Donatello (1386-1466) ousou, pela primeira vez desde os tempos da antiga Roma, repre-
sentar um corpo nu, um corpo que pretendia ser a cópia fiel da fisionomia e dos movi-
mentos do jovem que lhe terá servido de modelo.

Este naturalismo e realismo constituíam uma novidade, mas estavam perfeitamente


dentro do novo espírito da época, da nova maneira de observar a natureza humana e de
a representar com fidelidade. A perspetiva tornou possível projetar obras proporcionadas
e em atitudes naturais e, sobretudo, dispor as figuras de uma forma idêntica à realidade.
Unidade 3 - A produção cultural 61

– A arte em Portugal: o gótico-manuelino e a afirmação das novas tendências


renascentistas
A arte renascentista chega a Portugal tardiamente e, de início, apenas através de ele-
mentos decorativos, associados às estruturas do Gótico final(11), que no nosso País adqui-
riu características ornamentais próprias, definindo uma arte denominada por alguns de
estilo manuelino*, uma designação e um conceito controversos.

A verdade é que o Renascimento penetrou em Portugal como forma ornamental asso-


ciada à arquitetura da última fase do Gótico. Os elementos decorativos renascentistas –
arabescos(12), grotescos(13), medalhões... – aparecem a decorar formas arquitetónicas
essencialmente góticas (Fig. 4). Uma outra particularidade: foram introduzidos por artis-
tas estrangeiros – biscainhos e galegos na região norte, franceses e italianos, na região
sul – ou por nacionais educados no estrangeiro, dos quais se destaca Francisco da
Holanda (1517-1584). Fig. 4. A janela da Sala do
Capítulo do Convento de
Na arquitetura, João de Castilho (1490-c. 1551) conclui as obras do Mosteiro dos Jeró- Cristo, em Tomar (c. 1510).
nimos, Francisco de Arruda edifica a Torre de Belém e Diogo de Arruda dirige as obras
do Convento de Cristo, em Tomar, cuja Janela da Sala do Capítulo ilustra de forma exu- * Manuelino: o nome
berante a diversidade e o exotismo da gramática decorativa manuelina (heráldica, ele- “Manuelino” deve-se
a Varnhagen (séc. XIX) que
mentos marítimos, vegetalistas e religiosos). Mantendo as estruturas essenciais da arqui- também identificou as
tetura gótica, o manuelino adota novos conceitos de espaço e iluminação (uniformização suas características, tendo
por base elementos
da altura das naves, igrejas-salão…). decorativos genuinamente
nacionais e relacionados
Na escultura, a arte renascentista produziu sobretudo retábulos, esculturas, imagens com os Descobrimentos.
e túmulos onde estão bem patentes duas características fundamentais: a proporção e o Almeida Garrett acolheu
com entusiasmo poético
realismo. Dois grandes artistas estrangeiros deixaram uma vasta e valiosa obra entre nós: o nome de “Manuelino”
Nicolau de Chanterenne e João de Ruão. e transformou-o no
símbolo nacional da épica
Na pintura, a influência renascentista veio sobretudo através da escola flamenga das Descobertas. Esta
perspetiva provocaria uma
(Flandres), cuja influência revela-se na conceção do espaço, no emprego de motivos orna- forte contestação entre os
mentais renascentistas e no realismo da representação da figura humana e da natureza. historiadores e os críticos
de arte que contestam as
Destacaram-se Jorge Afonso (c. 1495-1521) e Vasco Fernandes, mais conhecido por Grão- teses da sua ligação com
-Vasco (1475-1541/42), cuja obra apresenta uma grande originalidade pelo seu vigor a expansão ultramarina
e da originalidade nacional,
expressivo e dramatismo. O Políptico de São Vicente atribuído a Nuno Gonçalves, uma pretendendo ver nele uma
obra que faz um notável “retrato” da sociedade portuguesa quatrocentista, é o quadro evolução do Gótico final
(ou tardo-Gótico).
mais significativo da pintura manuelina, uma arte de síntese que combina a tradição
gótica e a novidade do Renascimento.

(11)
Gótico final (ou tardo-gótico): fase da evolução do Gótico, um estilo que floresceu na Europa do século XII ao século ? Questão
XVI, caracterizada pela pouca sobriedade, estilização e acumulação de elementos decorativos.
(12)
Arabescos: desenhos característicos da arte árabe constituídos por figuras geométricas entrelaçadas e muito orna- 1. Que características
mentadas. definem a arte
(13)
Grotescos: decorações com temas vegetalistas, formas humanas ou figuras de animais. gótico-manuelina?
62 Módulo 3 - A abertura europeia ao mundo – mutações nos conhecimentos, sensibilidades e valores nos séculos XV e XVI

Cronologia Unidade 4 A renovação da espiritualidade e religiosidade


1378 De Ecclesia, de John
Wyclif (1320-1384). SUMÁRIO
1413 De Ecclesia, de Jan 4.1. A Reforma Protestante*
Huss (1369-1415).
1509 Elogio da Loucura, de 4.2. Contrarreforma e Reforma Católica*
Erasmo de Roterdão
(1469-1536). APRENDIZAGENS RELEVANTES
1524 De libero arbítrio, de
Erasmo de Roterdão. – Interpretar as reformas – Protestante e Católica – como um movimento de humanização
e individualização das crenças e de rejuvenescimento do Cristianismo, não obstante a vio-
lência das manifestações de antagonismo religioso durante a Época Moderna**.
Documento 1
CONCEITOS/NOÇÕES
As críticas de Erasmo ao
Papado Reforma**; Heresia; Dogma**; Predestinação; Sacramento; Rito; Concílio; Seminário; Catecismo;
De quantas alegrias e Inquisição; Index; Proselitismo; Missionação**
comodidades se privariam,
de repente, os papas se * Conteúdos de aprofundamento
resolvessem seguir as ** Aprendizagens e conceitos estruturantes
pisadas de Cristo? (…) Mas,
não temamos estas
infelicidades para os
nossos muito Santos
Padres: eles deixam
a S. Pedro e a S. Paulo os 4.1. A Reforma Protestante
sofrimentos e trabalhos
e guardam para si as
honras e os prazeres que – Individualismo religioso e críticas à Igreja Católica
hoje rodeiam a Santa Sé.
Erasmo de Roterdão,
No início do século XVI, a cristandade ocidental atravessa um tempo particularmente
Elogio da Loucura. sensível da sua história. Vindos do passado, sucedem-se os apelos de reforma dos com-
portamentos e da moral do clero, particularmente escandalosos no topo da hierarquia
? Questão
eclesiástica. Ao desejo de reforma religiosa junta-se o individualismo religioso, uma
1. Que críticas faz Erasmo forma de espiritualidade mais virada para a meditação pessoal e menos interessada na
ao Papado? Que
liturgia, e a vontade de emancipação dos poderes políticos nacionais.
consequências terão tido
para a Igreja?
De resto, a crise da Igreja Romana tivera um momento marcante no Cisma do Oci-
dente (1378-1417), que dividiu a Cristandade durante quase quatro décadas na obediên-
cia a dois pontífices – um sediado em Roma, outro em Avinhão. Também os apelos para
uma reforma da Igreja e do sacerdócio do inglês John Wyclif (c. 1324-1384) e do checo
Jan Huss (1369-1415), entre outros, que denunciaram com vigor o estado de corrupção
moral do clero e desafiaram a autoridade papal, não tiveram correspondência na realiza-
ção das reformas reivindicadas.

O mesmo aconteceu com os humanistas, como Erasmo de Roterdão (1469-1535), que


criticou os excessos do clero e defendeu o regresso à pureza original de uma religião
baseada nas Escrituras, combinando a fé e a razão. O seu pensamento inspiraria uma
corrente de renovação religiosa e moral denominada de erasmismo(1) que, impulsionado
pela invenção da imprensa, conheceu uma larga difusão na Europa.

(1)
Erasmismo: corrente de reforma religiosa inspirada no pensamento de Erasmo; apelava à reforma moral do clero e
preconizava uma vivência religiosa mais conforme o espírito e a moral da Igreja original.
Unidade 4 - A renovação da espiritualidade e religiosidade 63

– A rutura teológica Cronologia

O movimento de rutura teológica foi desencadeado por Martinho Lutero (1483-1546). 1517
A materialização da sua rutura com Roma começou a definir-se em 1515, com a promulga- Afixa as 95 teses na porta
da igreja do castelo de
ção de uma Bula de Indulgência por Leão X, necessitado de dinheiro para levar a cabo as Wittenberg.
obras da Basílica de S. Pedro, em Roma. Em 1517, a pregação das indulgências(2) chegou 1519
Rompe com Roma.
aos arredores de Wittenberg, o que levou a uma reação por parte de Lutero, fazendo afi- 1521
xar na porta da igreja do castelo da cidade as suas 95 teses contra as indulgências (1517). Publica De servo arbítrio.
1522
O papa Leão X condenou as suas teses na bula Exurge Domine e impôs a Lutero a sua Comparece na Dieta de
Worms convocada pelo
retratação sob pena de excomunhão(3). Lutero responde com a publicação de três Manifes-
imperador Carlos V.
tos (1520), dirigidos ao imperador e aos nobres alemães, onde critica violentamente o Papa, 1534
apela à resistência contra as imposições papais e contesta abertamente diversos dogmas* Traduz para alemão
a Bíblia (durante a sua
da Igreja. Nos finais desse ano, Lutero queima publicamente a bula papal e Leão X exco- estada no castelo de
Wartburg).
munga-o. O Príncipe Eleitor do Saxe, Frederico, o Sábio, dá-lhe refúgio no seu castelo de
Wartburg, onde faz a tradução da Bíblia do original grego para a língua alemã e estrutura
* Dogmas: princípios ou
a sua doutrina, que suscitou o apoio de numerosos setores do país. proposições doutrinárias
consideradas como
A rápida difusão do luteranismo na Alemanha (1521-1525) explica-se em parte pelo incontestáveis e
facto de esta ter adquirido uma dimensão política. Com efeito, os princípios luteranos de indiscutíveis.

organização hierárquica da sociedade civil e da substituição da autoridade eclesiástica


pela do Estado serviam bem aos príncipes alemães para justificar a defesa dos seus inte-
resses tanto frente ao poder imperial como contra Roma.

C
– As igrejas reformadas
B
Ao recusar à Igreja o exclusivo da interpretação das Escrituras D
A

e ao proclamar que cada crente é capaz de, por si próprio, percor-


rer o caminho que o leva até Deus, Lutero abriu as portas à forma-
ção de igrejas diferentes e concorrentes (Fig. 1), cada uma corres-
pondendo a uma particular interpretação dessas mesmas
Escrituras.
Fig. 1. Os grandes
A Igreja Calvinista reformadores: Lutero (A):
João Calvino (B); Zwínglio
O êxito da Reforma Protestante fora da Alemanha resulta, em grande parte, da ação (C); Filipe Melanchton (D);
entre outros (gravura
de João Calvino (1509-1564), erudito e teólogo de nacionalidade francesa. Obrigado a alemã do século XVI).
fugir de Paris, Calvino procurou a cidade de Genebra (Suíça) como refúgio, onde a dou-
trina protestante tinha muitos adeptos. Nesta cidade, Calvino estabeleceu uma ditadura
religiosa, um regime de teocracia no qual a sua Igreja controlava a vida pública e privada
* Predestinação: doutrina
e perseguia os dissidentes. Calvino explica a salvação em termos de uma predestinação* segundo a qual Deus
escolhe entre os homens
incerta, argumentando que, embora o homem estivesse predestinado à salvação ou à aqueles que irão salvar-se
condenação, nunca poderia conhecer antecipadamente a sua sorte. e aqueles que vão ser
condenados, retirando
ao homem qualquer
(2)
Indulgências: promessa de remissão dos pecados a todos aqueles que se arrependessem e adquirissem a bula de possibilidade de rejeitar ou
perdão contra uma determinada quantia em dinheiro. aceitar livremente a graça
(3)
Excomunhão: pena eclesiástica que implica a expulsão da comunidade dos fiéis, ou seja, da Igreja. divina.
64 Módulo 3 - A abertura europeia ao mundo – mutações nos conhecimentos, sensibilidades e valores nos séculos XV e XVI

A Igreja Anglicana

Na Inglaterra, a Reforma não foi iniciada por homens ligados à Religião mas sim pelo
próprio rei Henrique VIII (1509-1547) (Fig. 2), que retirou a Igreja Inglesa da jurisdição de
Roma, uma vez que o Papa se recusava a conceder-lhe a anulação do seu casamento
com a primeira mulher, Catarina de Aragão. O argumento foi a incapacidade da Rainha
para lhe dar um herdeiro do trono. Decidiu então conceder-se a si próprio o divórcio em
1527-1528, para o que separou a Igreja Inglesa da sua obediência a Roma.

A Reforma Inglesa começou portanto por ser um ato político. Uma vez iniciado o movi-

Fig. 2. Henrique VIII, mento, este tornou-se cada vez mais religioso e protestante. Em 1534, pelo Ato de Supre-
o fundador da Igreja macia, Henrique VIII foi proclamado chefe supremo da Igreja da Inglaterra. Em 1536, dis-
Anglicana, por Holbein.
solveu os mosteiros e confiscou-lhes as propriedades, que distribuiu ou vendeu pelos
seus partidários.
Cronologia

1533
Henrique VIII separa-se da
rainha e casa-se com Ana 4.2. Contrarreforma e Reforma Católica
Bolena.
Clemente VII excomunga-o. – Reafirmação do dogma e do culto tradicional
1534
Ato de Supremacia: Face ao movimento reformador que alastrava pela Europa do Norte, Paulo III (1534-
o Parlamento reconhece
a Igreja estatal Anglicana -1549) convocou, em 1536, um concílio* ecuménico (universal) para a cidade italiana de
e atribui ao rei a suprema Trento. Era o começo da Reforma da Igreja Católica Romana.
autoridade eclesiástica.
Execução de Thomas More.
A primeira tarefa do Concílio consistiu na reafirmação dos dogmas do Catolicismo pos-
1534-1539
Henrique VIII suprime os tos em causa pelas Igrejas reformadas: a reafirmação do Credo, das Sagradas Escrituras
mosteiros e vende os seus
e da Tradição como fontes da revelação divina, a condenação da interpretação individual
bens.
1536 da Bíblia, a reafirmação do valor dos sacramentos, em particular da eucaristia.
João Calvino publica
Institutio Christianae Os resultados do Concílio depressa chegaram aos leigos: em 1566 foi publicado o
Religionis: exposição da
Catecismo* romano, tendo-se igualmente procedido à reforma do Breviário e do Missal,
teoria da predestinação.
1553 que regulavam o culto católico tradicional.
Genebra converte-se no
centro do mundo
protestante. – A reforma disciplinar; o combate ideológico
O Concílio fixou também normas disciplinares relativas à formação e à vida dos
padres – criação de seminários* – e à regulamentação da vida monástica. Ao mesmo
* Concílio: assembleia dos
prelados da Igreja reunida tempo procurou moralizar o comportamento social e religioso do clero cujos excessos
para deliberar sobre
questões de doutrina ou de
davam fortes argumentos às críticas dos reformadores protestantes.
disciplina eclesiástica.
Os reformadores católicos tomaram igualmente medidas de repressão e combate ao
* Catecismo: compêndio ou
manual que contém, Protestantismo, um movimento denominado por Contrarreforma, através da qual a Igreja
de forma elementar,
Romana procurou combater a expansão da heresia protestante e os seus adeptos segui-
a doutrina da Igreja.
* Seminários: casas de dores. Foi reativado e reorganizado o Tribunal do Santo Ofício (ou Inquisição). Onde quer
educação e ensino de que prevalecesse a jurisdição católica, os hereges estavam sujeitos a penas que iam até
jovens que se destinam
à vida eclesiástica. à morte pelo fogo em celebrações públicas e ritualizadas designadas por auto-de-fé.
Unidade 4 - A renovação da espiritualidade e religiosidade 65

O combate ideológico da Contrarreforma estendeu-se também à literatura impressa. Cronologia


A criação da Congregação do Index*, em 1543, teve como objetivo travar a propagação
1524-1535
das ideias reformistas através da censura prévia das obras impressas e da elaboração de Fundação das ordens
religiosas dos Teatinos,
listas de livros cuja leitura passou a ser proibida aos fiéis.
Capuchinhos e Ursalinas.
A Reforma Católica utilizou ainda outros instrumentos: a fundação de novas ordens 1535
Inácio de Loiola funda
monásticas capazes de, pelo seu exemplo de obediência, austeridade e pobreza, reenca- a Companhia de Jesus
(Jesuítas).
minhar e conquistar fiéis pela pregação e pelo ensino. É este espírito de proselitismo*
1542
que está na origem da criação dos Capuchinhos e da Companhia de Jesus (ou Jesuítas), Restabelecimento da
fundada por Santo Inácio de Loyola, em 1540. Inquisição romana.
1545
Este espírito de missionação* que mobiliza os religiosos, como os jesuítas portugue- Primeira sessão do Concílio
de Trento.
ses S. Francisco Xavier (1506-1552), o “apóstolo da Índia”, ou ainda Manuel da Nóbrega,
que missiona no Brasil, contrasta claramente com o clima de intolerância e de guerra
aberta que se verifica um pouco por toda a Europa nos séculos XVI-XVII. * Congregação do Index:
organização religiosa criada
para controlar a circulação
– O impacto da Reforma Católica na sociedade portuguesa das ideias através da
imprensa, recorrendo quer
Em Portugal, tal como na Espanha e na Itália, o movimento da Reforma não teve gran- à censura prévia, quer
des adeptos, em parte devido à existência da Inquisição. à elaboração de catálogos
dos livros suspeitos de
heresia e cuja leitura era
Para fazer face a possíveis avanços da heresia, D. João III (1521-1557) solicitou ao
proibida pela Igreja.
Papa a introdução da Inquisição. A resposta favorável da Santa Sé viria em 1536 pelo
papa Paulo III. A sua atuação estendeu-se ao Ultramar e penalizava os crimes de feitiça- * Proselitismo: atividade ou
zelo em fazer prosélitos,
ria, vigiava a impressão de livros e as práticas heréticas, elegendo como alvo principal ou seja, ganhar novos
adeptos ou seguidores
os cristãos-novos(4) que, duramente perseguidos, veem-se frequentemente obrigados a
para a fé católica.
fugir do país e a pagarem importantes somas em dinheiro para escapar à Inquisição e,
em muitos casos, aos autos-de-fé. Nem as figuras prestigiadas da vida cultural e política * Missionação: ação de
pregação da fé, conversão
foram poupadas. Um caso significativo, entre muitos outros, foi o de Damião de Góis ou evangelização.
(1502-1574), historiador e humanista reputado.

Da ação inquisitorial resultaram importantes consequências:


– instauração de um clima de medo e o controlo do pensamento e da escrita levaram ? Questão

os intelectuais e artistas a refugiarem-se no cultivo dos formalismos estéticos e lite- 1. Que interesses terão
rários(5) esvaziados de conteúdo e fora da realidade; motivado a solicitação de
D. João III ao papa para
– o isolamento cultural do nosso País, afastando-o dos progressos e inovações que criar a Inquisição em
Portugal?
então ocorriam na Europa nos domínios científico e cultural.
– a fuga de pessoas e de capitais para o estrangeiro, em particular para o norte da
Europa, uma região próspera e tolerante, onde os cristãos-novos, os mais visados
pela Inquisição, encontravam refúgio seguro.

(4)
Cristãos-novos: designação dada aos judeus convertidos ao Cristianismo; esta denominação tinha um sentido dis-
criminatório relativamente aos restantes cristãos (velhos).
(5)
Na literatura estão bem presentes no fenómeno do Gongorismo; na arte, no Maneirismo e no Barroco.
66 Módulo 3 - A abertura europeia ao mundo – mutações nos conhecimentos, sensibilidades e valores nos séculos XV e XVI

Cronologia Unidade 5 As novas representações da Humanidade


1492
Cristóvão Colombo atinge
SUMÁRIO
as Antilhas ao serviço de – O encontro de culturas e as dificuldades de aceitação do princípio da unidade do género
Espanha.
humano: evangelização e escravização
1498
Chegada de Vasco da Gama – Os antecedentes da defesa dos direitos humanos
à Índia (Calecute).
1502 APRENDIZAGENS RELEVANTES
Pedro Álvares Cabral
– Interpretar as reformas – Protestante e Católica – como um movimento de humanização
aporta no Brasil.
e individualização das crenças e de rejuvenescimento do Cristianismo, não obstante a vio-
1513
Chegada dos portugueses lência das manifestações de antagonismo religioso durante a Época Moderna**.
à China.
O espanhol Balboa explora CONCEITOS/NOÇÕES
o Ístmo do Panamá. – Miscigenação; Providencialismo; Direitos Humanos**; Racismo; Época moderna
1519-1521
Viagem de circum- * Conteúdos de aprofundamento
-navegação de Fernão ** Aprendizagens e conceitos estruturantes
Magalhães.
1519-1523
O espanhol Hernán Cortés
conquista o México. – O encontro de culturas e as dificuldades de aceitação do princípio da unidade
1532
O espanhol Francisco
do género humano: evangelização e escravização
Pizarro conquista o Império
Antes do processo de abertura planetária desencadeado pelo movimento das Desco-
Inca (Peru).
1541 bertas na Época Moderna, de que Portugal foi pioneiro, o conhecimento da geografia
Chegada dos portugueses humana e natural do Planeta era muito restrito e essencialmente especulativo e fabuloso.
ao Japão.
Este facto aliado ao isolamento físico e cultural e ao desconhecimento mútuo dos diver-
sos “mundos” do Mundo explicam em parte as atitudes discriminatórias de superioridade
cultural e religiosa (etnocentrismo) dos povos “civilizados” relativamente aos “barbáros”
ou “gentios”(1) e a aceitação de atividades indignas do ser humano como a escravatura
e o respetivo tráfico.

Ao desencravarem os “mundos” até então isolados, os Descobrimentos surpreende-


ram os europeus com a extrema diversidade étnica e civilizacional mas ao mesmo tempo
demonstraram a unidade física do ser humano. Com efeito, o imaginário clássico e medie-
val concebia o ser humano desconhecido, o “outro”, como uma categoria inferior de
homem, física e mentalmente monstruoso, selvagem. Não foi isso que os nossos nave-
gadores encontraram, por exemplo em África, onde verificaram que “a estatura dos
homens é de mediana grandeza; e, tirando-se-lhes a cor da negra, são parecidos com os
Portugueses”(2).

No entanto, nem o vasto conjunto das informações sobre a realidade natural e


humana fornecidas pelos Descobrimentos, nem a evolução dos valores e das atitudes
relativamente ao homem introduzidas pelo Renascimento e pelo Humanismo foram sufi-
* Racismo: ideias ou cientes para modificar o racismo* e o etnocentrismo patentes na forma herdada do pas-
preconceitos que valorizam
sado como os Europeus compreendiam e se relacionavam com o “outro” civilizacional.
as diferenças biológicas
entre os seres humanos,
atribuindo superioridade a (1)
Na Época Moderna, o termo “gentios” (ou pagãos) designava os povos nativos, tidos como “selvagens” ou “primi-
alguns de acordo com a tivos”.
matriz racial. (2)
Pigafetta, F. e Lopes, D. (1951), Relação do Reino do Congo e das Terras Circunvizinhas, Lisboa, ed. R. Capeans,
pp. 26-29.
Unidade 5 - As novas representações da Humanidade 67

A evangelização Cronologia

O encontro dos Portugueses com os povos do continente africano expressou-se em 1482


formas diferentes, conforme as situações. Assim, enquanto os contactos com as regiões Primeiro contacto europeu
com o Congo: Diogo Cão
da costa ocidental e na costa oriental foram superficiais e essencialmente de caráter eco- coloca o Padrão de S. Jorge
nómico, noutras os contactos culturais foram relativamente intensos, tendo a religião na margem esquerda do
rio Zadi ou Nzari (Zaire).
desempenhado um papel importante.
1520
Primeira embaixada
Consentida ou imposta, a verdade é que a evangelização contribuiu para um mudança
portuguesa enviada pelo
do olhar entre africanos e europeus, dois mundos muito desiguais mas que souberam rei D. Manuel I ao Reino do
Ngola (Angola).
encontrar formas de relacionamento e de convivência (Fig. 1).
1542
No Oriente, os Europeus encontraram sociedades evoluídas, estruturadas segundo Francisco Xavier chega
a Goa.
valores e conceitos profundamente diferentes dos seus, o que fez com que o diálogo 1548
tenha sido bem mais difícil de estabelecer. Primeiros Jesuítas no
Brasil.
Até 1542 a missionação no Oriente fora levada a cabo essencialmente pelos Francis- 1554
canos. A sua ação, no entanto, não produziu grandes resultados. Seguiram-se-lhes os O jesuíta Manuel da
Nóbrega funda em
padres Jesuítas. Graças à sua pregação, assistiu-se a conversões em massa um pouco por Piratininga (Brasil)
todo o Oriente(3), mas a percentagem dos convertidos era extremamente diminuta. o Colégio de S. Paulo.
1583
Acresce que a maior parte destas conversões era superficial e não puseram verdadeira- Evangelização pelos
mente em causa a essência hindu ou budista dos novos “cristãos”. Por outro lado, os Franciscanos.
comportamentos de prepotência e intolerância religiosa por parte dos Europeus acaba- 1597
Os missionários cristãos
ram por fazer fracassar a ação missionária. A reação das autoridades indígenas na China são expulsos do Japão.
e no Japão traduziu-se em perseguições sangrentas.

No continente americano, o processo de dominação espanhola do Novo Mundo teve


consequências civilizacionais devastadoras: a destruição quase total das formas de orga-
nização indígenas e o extermínio da população e das culturas florescentes pré-colombia-
nas dos Aztecas, Maias e Incas.

A descoberta do Brasil, em 1500, por Pedro Álvares Cabral, marcou o início da pre-
sença portuguesa no continente americano. No entanto, só algumas décadas mais tarde
é que Portugal encetou a sua colonização sistemática e com ela a missionação, desta-
cando-se neste processo o padre jesuíta português Manuel da Nóbrega, que defendeu a
criação de aldeamentos (ou “reduções”), comunidades organizadas onde os nativos esta- Fig. 1. Crucifixo africano de
riam protegidos da escravização e seriam instruídos na moral e na doutrina cristãs. inspiração cristã (séc. XVI).

A escravização

Com a descoberta do Golfo da Guiné chegaram a Portugal os primeiros escravos negros


? Questão
da costa africana. A partir de então, o interesse pelo escravo africano não pararia de cres-
cer e Portugal intensificou o seu tráfico, tendo o escravo negro sido utilizado fundamen- 1. Que papel desempenhou
a evangelização no
talmente como mão de obra doméstica substituindo o escravo mouro. Em 1486 foi criada
encontro entre
a Casa dos Escravos para organizar este lucrativo comércio. Portugueses e Africanos?

(3)
Em 1576 haveria assim 50 000 cristãos no Sudeste Indiano, número que subiu aos 150 000 na China (em 1635)
e aos 300 000 no Japão (em 1613). Na Etiópia, na década de 20 do século XVII, haveria 200 000.
68 Módulo 3 - A abertura europeia ao mundo – mutações nos conhecimentos, sensibilidades e valores nos séculos XV e XVI

Cronologia Na primeira metade do século XVI organizou-se o tráfico negreiro entre as costas de
África e as da América para o trabalho nas minas de ouro e de prata mexicanas e perua-
1486
Fundação da Casa dos nas. A colonização do Novo Mundo pelos Espanhóis e o incremento da produção açuca-
Escravos. reira no Brasil fizeram aumentar significativamente a procura de escravos. Com os mer-
1570
cados do litoral já muito enfraquecidos, a procura de peças (escravos) passou a fazer-se
Primeira lei de restrição da
escravidão dos índios do diretamente no interior, quer através de incursões para a sua captura quer através de
Brasil. um comércio organizado. Outra forma de adquirir escravos era através da exigência do
Morte do padre Manuel da
Nóbrega no Rio de Janeiro. pagamento de tributo, sob a forma de escravos, aos sobas ou chefes tribais.
1639
Bula papal de condenação Os efeitos do tráfico esclavagista foram devastadores para as sociedades africanas:
do tráfico de escravos intensificaram-se os conflitos tribais para o aprisionamento de escravos, a população foi
índios.
dizimada e as suas possibilidades de desenvolvimento comprometidas. Para os territó-
1761
Abolição do tráfico de rios de acolhimento, estas migrações forçadas resultaram num recrudescimento das ten-
escravos na metrópole: sões étnico-culturais e no desenvolvimento do fenómeno da miscigenação.
declaravam-se libertos os
escravos que entrassem
em Portugal. – Os antecedentes da defesa dos direitos humanos
Para lá de todo o manancial de informações geográficas e científicas, os Descobrimen-
? Questão tos – e este foi talvez o seu contributo mais importante – demonstraram a semelhança
física do género humano, desmistificando as conceções até então dominantes, que
1. Que consequências
demográficas davam conta de seres misteriosos, de aspeto muito diferente dos europeus, seres sub-
e económicas resultaram -humanos, portanto inferiores.
para o continente africano
da intensificação do tráfico O cronista João de Barros, na I Década, dá-nos uma síntese do pensamento português
de escravos para
a América? sobre esta matéria que revela uma consciência da unidade do homem. No entanto, o seu
pensamento manifesta ainda a tradicional intolerância religiosa que não reconhece legiti-
midade às crenças “infiéis”.

Em Espanha, Bartolomeu de las Casas, padre dominicano que missionou nas Antilhas,
defendeu que se deveria instruir os Índios na fé cristã mas sem violência, pois também
eram filhos de Deus. Um outro dominicano, Francisco de Vitória (c. 1480-1546), contes-
tou princípios e comportamentos nas relações com os pagãos e infiéis questionando
nomeadamente o dever invocado pelos cristãos de obrigar os índios, se necessário pela
força, a obedecer às suas leis. O holandês Hugo Grócio (1583-1645)(4) defendeu a unidade

Direitos Humanos*:
racional e social do homem e a superioridade do direito natural, isto é, dos direitos
constituem as proteções comuns à natureza humana, portanto, a todos os homens. O Protestantismo deu também
mínimas que permitem ao
um contributo importante ao defender a liberdade de consciência, uma pedra essencial
indivíduo viver uma vida
digna, defendido das do edifício dos direitos humanos*.
arbitrariedades do poder;
são, por conseguinte, uma
espécie de espaço
“sagrado”, intransponível,
constituído pelas
chamadas “liberdades
fundamentais” do
indivíduo, do homem.

(4)
Grócio é o fundador da teoria do direito natural moderno; protestante, foi profundamente influenciado pelos juris-
tas espanhóis do século XVI, em especial Francisco Vitória.
Questões para Exame 69

Questões para Exame


1

Documento 1 | As elites urbanas e cortesãs Documento 2 | Os humanistas


europeias dos séculos XV e XVI
Os humanistas interessavam-se por tudo o que
dizia respeito ao homem, mas particularmente pela
natureza humana e por conseguinte por si próprios.
Esta tomada de consciência do eu produziu tam-
bém sem dúvida aqueles aspetos que se encontram
tradicionalmente associados com o Renascimento:
vaidade egoísta, grande imoralidade, ambição da
fama e de um nome imortal.

S. Dresden (1968), O Humanismo no Renascimento,


Porto, Ed. Inova, p. 227.

Fig. 1. O retrato dos Cônjuges Arnolfini, obra de Jan van Eyck


(Londres, Galeria Nacional, 1434).

Documento 3 | A corte de D. Manuel I

1.1. Justifique a importância dada à civilidade pelas elites


urbanas e cortesãs europeias nos séculos XV e XVI
(doc. 1).

1.2. Explicite os interesses dos humanistas enunciados no


documento 2.

1.3. A partir da observação do documento 3, explique a


política cultural da Coroa portuguesa no século XVI.
Fig.2. Rosto das Ordenações Manuelinas
(edição de João Pedro Buonhomini, Lisboa,
1514). Por cima da figura do rei D. Manuel no
trono, a legenda: “O rei governa no Mundo
do mesmo modo que Deus tem poder nos
Céus”.
70 Módulo 3 - A abertura europeia ao mundo – mutações nos conhecimentos, sensibilidades e valores nos séculos XV e XVI

Documento 4 | A arte do Renascimento

Fig. 4. Pormenor de
A Primavera (1482), de
Fig. 3. Igreja de Santo Botticelli: a deusa das flores
André, de Mântua, 1470, primaveris adornada com
obra de Leon Battista. ramos e flores.

Documento 5 | A arte manuelina ou gótico-manuelina

2.1. Identifique nas figs. 3 e 4 (documento 4) três características da


arte do Renascimento.

2.2. Tendo em conta elementos da fig. 5 (documento 5), caracterize


a denominada arte manuelina ou gótico-manuelina.
Fig. 5. Portal sul do Mosteiro dos
Jerónimos, obra de João de Castilho.

3
Documento 6 | A Contrarreforma Católica

Fig. 7. Auto-de-fé em Lisboa.

3.1. Analise a ação da Inquisição em Portugal tendo em conta os seguintes


tópicos de desenvolvimento:
– o interesse régio na sua criação.
– o seu impacto na economia, na ciência e na cultura.
Fig. 6. Rosto do Regimento do
Santo Ofício da Inquisição dos Integre na resposta, para além dos seus conhecimentos, os dados das
reinos de Portugal, de 1640. figuras 6 e 7 (documento 6).
Unidade 1 - A população da Europa nos séculos XVII e XVIII: crises e crescimento 71

Módulo 4 11.° Ano


A Europa nos séculos XVII e XVIII – sociedade, poder
e dinâmicas coloniais
1. A população da Europa nos séculos XVII e XVIII: crises e crescimento
2. A Europa dos estados absolutos e a Europa dos parlamentos
3. Triunfo dos estados e dinâmicas económicas nos séculos XVII e XVIII
4. Construção da modernidade europeia

Contextualização
A Europa política dos séculos XVII e XVIII caracteriza-se pela afirmação do Estado absoluto
e burocratizado, apoiado nas conceções do absolutismo régio e na sociedade de ordens.
O Estado parlamentar está confinado ao noroeste europeu, às Províncias Unidas e à Inglaterra.
No plano económico, a dinâmica do capitalismo europeu de matriz mercantilista reforçou as
economias nacionais, fomentou os conflitos políticos e as disputas coloniais entre estados.
Na segunda metade do século XVIII, a reunião de um conjunto de condições favoráveis per-
mitiu à Inglaterra ganhar uma vantagem decisiva no arranque para a grande aventura da
industrialização e construir uma hegemonia económica, para a qual também contribuiu a
economia portuguesa e em particular o ouro do Brasil. Cronologia
No domínio cultural, os progressos científicos e técnicos e as mudanças de mentalidade sus-
citados pela filosofia das Luzes alicerçaram a construção da modernidade europeia, cujos 1580-1590
Maus anos agrícolas
princípios e valores inspiraram o projeto político, social e cultural pombalino em Portugal. sucessivos na Europa.
1618-1648
Guerra dos Trinta Anos
e epidemias.
1628-1631
Epidemia de peste na
Unidade 1 A população da Europa nos séculos XVII e XVIII: crises e Alemanha, França e no
norte de Itália.
crescimento 1640-1668
Guerra da Restauração,
entre Portugal e Espanha.
SUMÁRIO
1642-1648
– Fatores de instabilidade demográfica: as crises demográficas Guerra civil em Inglaterra.
– Os mecanismos autorreguladores 1643-1645
– Uma nova demografia a partir de meados do século XVIII Levantamentos
generalizados no sul de
França contra o fisco.
APRENDIZAGENS RELEVANTES
1648-1651
- Reconhecer nas crises demográficas um fator de agravamento das condições do mundo Peste em Espanha.
rural e de perturbação da tendência de crescimento da economia europeia. 1648-1652
Guerra civil (“Fronda”)
CONCEITOS/NOÇÕES e peste em França.
Crise demográfica; Economia pré-industrial** 1665-1666
Grande peste em Londres.
* Conteúdos de aprofundamento 1690-1694
** Aprendizagens e Conceitos estruturantes Surto generalizado de
peste e fome na Europa.
72 Módulo 4 - A Europa nos séculos XVII e XVIII – sociedade, poder e dinâmicas coloniais

* Crise demográfica: período – Fatores de instabilidade demográfica: as crises demográficas


mais ou menos prolongado
em que o número de óbitos A irregularidade da evolução da população, traduzida na alternância de tendências de
ultrapassa o número de crescimento e recuo de ritmos e amplitudes variáveis segundo as regiões e as épocas, cons-
nascimentos: o número de
casamentos diminui, bem titui um dos traços mais distintivos da demografia de tipo antigo que caracterizou a Europa
como as taxas de dos séculos XVI a XVIII. As causas desse fenómeno são conhecidas: um equilíbrio frágil
fecundidade e natalidade,
pelo que a população entre o quantitativo da população e as subsistências; as crises demográficas* responsá-
estagna ou declina. veis por quebras populacionais acentuadas nos períodos de rutura desse equilíbrio.

As sociedades do Antigo Regime viveram numa situação de permanente escassez de


recursos alimentares. Por isso, as sociedades viam-se perante um problema caracterís-
* Economia pré-industrial: tico das economias pré-industriais*: para produzir mais eram necessários mais homens,
expressão utilizada para
mas este aumento de braços implicava também mais bocas para alimentar, logo uma
designar uma economia
que não entrou ainda na maior pressão sobre as subsistências. Dois anos consecutivos de más colheitas represen-
era da industrialização: tavam a fome generalizada, epidemias e mortes. Já elevada em anos de produção normal,
essencialmente agrária
e com um setor industrial a mortalidade atingia então níveis catastróficos e instalava-se a crise demográfica. Mesmo em
pouco importante; fraca épocas de relativa normalidade, as taxas de mortalidade eram elevadas devido a malforma-
produtividade agrícola
e industrial; persistência ções genéticas, a acidentes pré-natais (fatores endógenos)(1), à falta de higiene, aos atrasos
de laços e formas de da medicina, a uma alimentação imprópria, acidentes e contágios (fatores exógenos)(2).
exploração de natureza
feudal.
– Os mecanismos autorreguladores
Apesar das potencialidades de crescimento demográfico decorrentes da elevada taxa de
? Questões natalidade e da estrutura jovem da população, nas sociedades de Antigo Regime a taxa de
substituição ou saldo fisiológico(3) situava-se próximo da unidade. Um saldo fisiológico tão
1. Explicite as relações
entre crise alimentar escasso tornava o equilíbrio demográfico precário. Não obstante, existiam mecanismos
e crise demográfica; guerra autorreguladores, isto é, comportamentos biológicos, sociais, morais e religiosos capazes de
e demografia.
contrabalançar os efeitos de uma evolução demográfica irregular, com oscilações de cresci-
2. Enuncie os principais
mecanismos mento excessivo e quebras acentuadas. Constituíam fatores de limitação do crescimento:
autorreguladores da
– o casamento tardio (em média entre os 20 e os 30 anos), conjugado com a fraca
demografia do Antigo
Regime. esperança média de vida e a mobilização dos maridos para a guerra, limitava o
tempo das uniões matrimoniais e a capacidade reprodutora dos casais;
– o celibato definitivo (sobretudo masculino);
– os intervalos intergenésicos relativamente longos(4) (30 meses em média), os abor-
tos espontâneos e a esterilidade feminina precoce;
– a resistência aos casamentos de viúvas e a condenação das conceções pré e extra-
matrimoniais.

Por outro lado, na presença de crises demográficas o regime demográfico antigo con-
servava faculdades de recuperação:
– elevadas taxas de fecundidade e natalidade;
Fig. 1. São Francisco em
– a diminuição da idade no casamento e a sua multiplicação.
Êxtase, c. 1660 (Francisco
de Zurbarán). A morte
(1)
e os seus símbolos eram Fatores endógenos: causas anteriores ao nascimento.
(2)
uma presença constante Fatores exógenos: causas posteriores ao nascimento.
no pensamento e devoção (3)
Diferença entre a mortalidade e a natalidade, ou seja o deve e o haver na contabilidade da população.
quotidianos nos séculos (4)
Intervalos de tempo existentes entre o nascimento dos filhos. Em média eram largos e tendiam a aumentar à
XVII e XVIII. medida que novas crianças nasciam.
Unidade 1 - A população da Europa nos séculos XVII e XVIII: crises e crescimento 73

– Uma nova demografia a partir de meados do século XVIII


Em 1740 os sinais de uma nova tendência demográfica começam a desenhar-se em boa
parte da Europa Ocidental. Primeiro na Grã-Bretanha, que beneficia de uma conjuntura
económica favorável. A diminuição da mortalidade (mais nítida nos adultos, menos visível
e mais lenta nas idades infantil e juvenil) é o indicador mais significativo de uma demo-
grafia nova e explica-se pela diminuição da frequência e da violência das fomes, das epi-
demias e das guerras. Um outro indicador é o aumento da esperança média de vida(5).

Estas transformações processadas, de forma lenta e gradual, na estrutura demográ-


fica das sociedades europeias a partir de meados do século XVIII justificou a designação
de revolução demográfica. Da conjugação da baixa da mortalidade com a manutenção ou
o aumento da natalidade, devido sobretudo à diminuição da idade do casamento e a
casamentos mais numerosos, resultaram importantes ganhos populacionais(6) e foi então
possível contornar as crises demográficas e a penúria de homens que caracterizaram o
regime demográfico antigo.

N.¡
300
200
îbitos
100
50

20
10 Conce›es
5
25
20
15
Casamentos
10
5

1624 1625 1626 1627 1628 Anos

Fig. 2. Crises demográficas e casamentos. Crise de 1625-1627 em Saint-Lambert-de-Levées.

37
35,44 ? Questões
35 34,1 33,84
33,4 33,39
34,0 34,4 34,23
33,3 33,3
Por 1000 habitantes

32,36
1. A partir dos elementos
31,1 30,5 32,0 31,7
31,43
30
29,7
fornecidos, caracterize
27,5 28,8
28,2 o modelo demográfico de
27,9
26,7 25,65 tipo antigo.
26,7
25 26,0
23,14
20,33 21,65
2. Caracterize o novo
19,98 modelo demográfico,
20 20,80
relacionando-o com as
170010 20 30 40 1750 60 70 80 90 1800 10 20 30 40
êndice de natalidade
alterações verificadas na
êndice de mortalidade sociedade europeia na
Fig. 3. A revolução demográfica em Inglaterra. segunda metade do século
XVIII.

(5)
Esperança média de vida: duração média de vida previsível de um indivíduo, consoante as condições de mortalidade
que existem no seu ano de nascimento.
(6)
Este crescimento foi tão notado que suscitou reações alarmistas, destacando-se Thomas Malthus (1766-1834),
autor de Ensaio Sobre o Princípio da População (1798), onde defende que a taxa de crescimento da população segue
uma progressão geométrica e a taxa à subsistência não vai além de uma progressão aritmética, pelo que a fome seria
inevitável. A solução estaria no controlo da natalidade (celibato e casamento tardio), sobretudo para quem não
pudesse (os pobres) assegurar o seu próprio sustento e o dos seus familiares.
74 Módulo 4 - A Europa nos séculos XVII e XVIII – sociedade, poder e dinâmicas coloniais

Unidade 2 A Europa dos estados absolutos e a Europa dos


parlamentos
SUMÁRIO
2.1. Estratificação social e poder político nas sociedades de Antigo Regime*
2.2. A Europa dos parlamentos: sociedade e poder político

APRENDIZAGENS RELEVANTES
- Compreender os fundamentos e as formas da organização político-social do Antigo
Regime**.
- Reconhecer a importância da afirmação de parlamentos numa Europa de estados abso-
lutos**.

CONCEITOS/NOÇÕES
Antigo Regime**; Monarquia absoluta**; Ordem/estado**; Estratificação social**; Mobilidade
* Antigo Regime: do social; Sociedade de corte; Parlamento**
francês, Ancien Régime,
* Conteúdos de aprofundamento
expressão pejorativa
criada nos anos anteriores ** Aprendizagens e conceitos estruturantes
à Revolução Francesa para
designar o conjunto das
instituições políticas,
sociais e jurídicas que os
revolucionários pretendiam
substituir: monarquia 2.1. Estratificação social e poder político nas sociedades de
absoluta, privilégios da
nobreza e do clero, direitos
Antigo Regime
senhoriais, etc. Por
extensão e analogia, é um – A sociedade de ordens assente no privilégio e garantida pelo absolutismo régio
conceito utilizado pela de direito divino
historiografia para
designar o período da A sociedade europeia de Antigo Regime* (sécs. XVI-XVIII) organiza-se em três ordens ou
história europeia do século
XVI às revoluções liberais estados*: o clero, a nobreza e o terceiro estado. A cada ordem corresponde um determi-
(sécs. XVIII ou XIX, nado estatuto, que comporta ao mesmo tempo obrigações e privilégios, justificados pelo
segundo os países).
nascimento ou pela função atribuída a cada ordem. A riqueza não é um critério decisivo.
* Ordem/estado: categoria
ou corpo social tendo por O clero ocupa o primeiro lugar na hierarquia social. O prestígio e o poder espiritual e
base a função
desempenhada na temporal da Igreja junto dos poderes políticos e das sociedades modernas permitiram ao
sociedade e o nascimento, clero beneficiar da proteção dos monarcas absolutos e preservar os seus tradicionais pri-
definia-se por critérios
como a honra, o estatuto vilégios (direito canónico, imunidades, cobrança do dízimo) e manter o seu ascendente
e o prestígio atribuídos
social, cultural e religioso junto das populações.
a essa função.
* Mobilidade social: A nobreza, elite militar e fundiária, constitui o segundo estado e usufrui também de
possibilidade de alteração uma situação privilegiada na estrutura política e social do Antigo Regime.
do posicionamento ou
estatuto social de um Ao terceiro estado, a maioria da população, cabia-lhe a produção de subsistências e
indivíduo. Apesar da
relativa rigidez da o peso dos impostos. Trata-se de uma ordem não privilegiada, muito heterogénea na sua
hierarquia social, no Antigo composição e nos níveis de rendimento.
Regime abriam-se ao
terceiro estado várias vias Apesar da rigidez desta hierarquia, a verdade é que a sociedade do Antigo Regime
de ascensão social:
a entrada no clero desenvolveu uma relativa mobilidade social*. A aquisição de títulos ou de terras cuja
e o enobrecimento (por
posse enobrecesse o acesso a lugares superiores na administração do Estado ou o casa-
concessão ou aquisição de
títulos). mento eram vias possíveis de ascensão social.
Unidade 2 - A Europa dos estados absolutos e a Europa dos parlamentos 75

– Pluralidade de estratos sociais, de comportamentos e de valores


A sociedade de ordens de Antigo Regime foi adquirindo uma crescente complexidade
e uma maior mobilidade relativamente ao modelo feudal. Com efeito, a estratificação
social* englobava no interior de cada uma das ordens um conjunto diversificado de estra- * Estratificação social:
divisão da sociedade em
tos ou classes. No clero, encontramos o clero secular (papa, cardeais, bispos e párocos) estratos, classes ou
e o clero regular (ordens religiosas masculinas e femininas), o alto clero (cardeais, bis- categorias sociais
distintas.
pos e abades ou abadessas) e o baixo clero (párocos ou curas e monges).

Na nobreza encontramos também diferenças substanciais entre uma alta nobreza e


* Monarquia absoluta:
uma baixa ou pequena nobreza muito inferior àquela em níveis de vida e até de esta-
regime monárquico no qual
tuto, nobreza de corte, nobreza provincial, nobreza de toga (administração) e da nobreza o soberano se considera
legitimado por Deus
de espada (exército), por oposição à velha nobreza de sangue ou de linhagem que pro- (origem divina do poder
cura desesperadamente conservar a sua proeminência tradicional. real) para exercer o poder
soberano e absoluto, isto
No terceiro estado o principal fator de diferenciação é o critério de riqueza/pobreza, é, a jurisdição suprema,
livre de controlos ou
destacando-se a burguesia ligada às atividades mais lucrativas, como o comércio, a limitações e a centralização
dos poderes na sua pessoa
banca, a indústria e as profissões liberais e os proprietários fundiários. Abaixo desta, (sagrada).
situa-se a multidão dos explorados e subjugados pelas elites urbanas e rurais: os peque-
nos comerciantes, artífices, camponeses e os vagabundos e mendigos.
* Sociedade de corte:
A hierarquia social expressava-se também nos valores e comportamentos na vida quo- designa o conjunto
numeroso de pessoas que
tidiana. Os indicadores de diferenciação são muito diversificados e constatam-se em viviam na residência e em
domínios tão vulgares como o do vestuário, dos hábitos alimentares, da habitação, das volta do soberano (corte)
e a organização da vida
diversões, dos modos de tratamento, etc. Cada ordem possui um código de conduta pró- cortesã que se tornou
muito complexa,
prio que a identifica com a sua função e estatuto social. As diferenças obviamente mais
cerimoniosa e protocolar
nítidas distinguem os membros das ordens privilegiadas do clero e da nobreza dos não com o absolutismo
monárquico. A corte na
privilegiados do terceiro estado. Idade Moderna era o centro
do poder político da
monarquia, objeto de
– Os modelos estéticos de encenação do poder atração da nobreza
e símbolo do poder
A centralização político-administrativa da monarquia absoluta* e a natureza sagrada e prestígio do soberano.
de um rei, que comunga da Majestade e da proteção divinas e que dispõe da jurisdição O Palácio de Versalhes
constituiu o modelo dos
suprema sobre todos os seus súbditos, exigiam um espaço físico adequado. Assim, nos palácios reais. A sua
centros urbanos mais importantes dos estados, as capitais, começam a erguer-se impo- dimensão (chegou
a albergar 20 000
nentes e luxuosos palácios para albergar a casa real e o numeroso séquito dos cor- pessoas) e luxo incomuns
impressionaram todas as
tesãos.
cortes europeias.
A corte* e a vida cortesã adquiriram, com o absolutismo real, uma dimensão e impor-
tância proporcionais à imagem do poder absoluto e da autoridade suprema que os sobe-
? Questões
ranos reivindicavam para si, pretendendo inculcar nos seus súbditos e projetar para o
exterior das fronteiras do seu Estado. A corte absolutista assentava em dois pilares 1. Caracterize a sociedade
do Antigo Regime.
essenciais: o luxo e magnificência dos espaços onde se movimenta o rei e os cortesãos;
2. Identifique modelos
a hierarquia regulada por uma etiqueta rigorosa englobando as maneiras de estar, de estéticos de encenação
ou representação do poder
vestir, de falar e de gesticular, as precedências e até os divertimentos correspondendo a
absoluto na Europa nos
outras tantas formas de encenação ou representação do poder. séculos XVII e XVIII.
76 Módulo 4 - A Europa nos séculos XVII e XVIII – sociedade, poder e dinâmicas coloniais

– Sociedade e poder em Portugal: preponderância da nobreza fundiária


e mercantilizada
A organização e a vida da sociedade portuguesa do Antigo Regime foram profunda-
mente influenciadas por dois fenómenos que marcaram o início dos tempos modernos:
a expansão ultramarina, que transformou Portugal numa potência comercial-marítima; e
a progressiva afirmação do absolutismo régio que, sem pôr em causa a hierarquia social
Cronologia tradicional, determinou alterações significativas nos comportamentos sociais, na compo-
sição das ordens e nas relações destas com o poder.
1706-1750
Reinado de D. João V. Aos nobres que se adaptaram aos novos tempos, instalando-se nas cidades, em espe-
1720
cial na capital, na vizinhança da corte régia, o lugar ideal para obter cargos, títulos, remu-
Fundação da Academia
Real da História. nerações e outras dádivas reais, abriram-se novas fontes de enriquecimento e de valori-
1730 zação social através dos negócios, do exército e da administração do Estado. Definem-se
Construção do Mosteiro
de Mafra.
desta forma no seio da nobreza diferentes categorias funcionais: a nobreza mercantilizada
1732 (cavaleiro-mercador), ligada ao tráfico marítimo, a nobreza de espada, com funções essen-
Início da construção da cialmente militares, e a nobreza de corte, com altas funções administrativas. Numa situa-
Igreja dos Clérigos (Porto).
ção bem diferente encontram-se os fidalgos que continuam agarrados ao preconceito sobre
1733
Conclusão da Torre da o trabalho manual, vivendo na província de rendimentos fundiários (nobreza provincial).
Universidade de Coimbra.
Talha dourada barroca
da Igreja de S. Francisco – Criação do aparelho burocrático do Estado absoluto no século XVII
(Porto).
Primeira ópera portuguesa Em Portugal, o absolutismo real apresenta idênticas tendências gerais de centraliza-
em estilo italiano. ção e burocratização. As tendências centralizadoras do poder real começam a afirmar-se
1746 ainda na Baixa Idade Média e no início da Idade Moderna(1), mas o absolutismo português
Publicação do Verdadeiro
Método de Estudar, de só se estruturou verdadeiramente na segunda metade do século XVII e no século XVIII.
Verney.
1747 Essa estruturação assentou, em primeiro lugar, na reorganização da justiça. Os prin-
Início da construção do cipais tribunais do Reino – a Casa da Suplicação, a Casa do Cível, o Tribunal (ou Mesa)
palácio de Queluz.
do Desembargo do Paço e a Mesa da Consciência e Ordens – foram objeto de diversas
1748
Inauguração do Aqueduto reformas com vista a um controlo régio mais eficaz sobre o exercício da justiça.
das Águas Livres (Lisboa).
No que respeita à governação, o papel das cortes apagou-se quase completamente.
O infante D. Pedro – futuro D. Pedro II – dissolveu-as em 1674 por suposta ingerência
nos negócios do governo, tendo sido reunidas pela última vez em 1697-1698 para jura-
rem herdeiro da coroa o príncipe D. João.

Relativamente aos conselhos, depois de um período mais ativo que se seguiu à res-
tauração da independência, perderam a sua importância em favor de um número restrito
de secretários, favoritos do rei que trabalhavam na sua dependência direta.

A política de centralização e burocratização estendeu-se também aos assuntos econó-


micos e financeiros. Foram introduzidas profundas reformas no sistema das finanças
públicas com o objetivo de uma fiscalização mais apertada, nomeadamente sobre as
alfândegas e a arrecadação dos impostos. A criação de companhias privilegiadas e de
monopólios, tanto para o comércio como para a indústria, serviu também os objetivos de
controlo e centralização económica do absolutismo régio.

(1)
Recorde a instituição das sisas gerais por D. João I, a Lei Mental de D. Duarte, as Ordenações Afonsinas publicadas
pelo regente D. Pedro (1439-1348) e a disciplinação da nobreza por D. João II.
Unidade 2 - A Europa dos estados absolutos e a Europa dos parlamentos 77

– O absolutismo joanino Cronologia

A conjuntura económica favorável da primeira metade do século XVIII, proporcionada 1568


pelo ouro do Brasil e pela exportação do vinho para Inglaterra, deu a D. João V (1706-1750) Sublevação do príncipe
Guilherme de Orange
os meios financeiros necessários para se rodear do aparato exterior, à imagem do monarca contra o domínio espanhol;
francês Luís XIV. Enriqueceu o Paço da Ribeira, residência real à beira Tejo, em Lisboa, e início da luta dos Países
Baixos pela independência.
promoveu a construção de novos espaços palacianos, como o palácio dito “dos Bichos”,
1579
em Belém, o convento-palácio de Mafra e o monumental Aqueduto das Águas Livres União de Utrecht:
constituição das Províncias
(Lisboa). Pela riqueza ornamental e decorativa sobressaem a Biblioteca da Universidade de
Unidas (Províncias do
Coimbra e a Capela de S. João Baptista da Igreja de S. Roque, em Lisboa. Norte, calvinistas).
1581
Ao mesmo tempo, D. João V proporcionou à sua corte o luxo adequado à exaltação Declaração de
da figura de um monarca absoluto e ele próprio assumiu o papel de mecenas da vida Independência das
Províncias Unidas.
cultural, financiando o teatro, a Academia Real de História, a publicação e aquisições de
livros e a construção de bibliotecas.

Não obstante, as realizações joaninas tiveram sobretudo um caráter formal, espetacu-


lar e ornamental, não trazendo grandes inovações ao ambiente cultural tradicional no
País, onde a influência dominante dos jesuítas e da Inquisição se manteve. As novas
ideias que chegavam até nós deviam-se fundamentalmente a um grupo restrito de inte-
lectuais portugueses emigrados, os chamados “estrangeirados”.

No plano da governação, D. João V reforçou o papel da coroa, recrutando um maior


número de burocratas e intelectuais para a administração do Reino, ao mesmo tempo que
controlava a nobreza com a concessão de tenças e de outras dádivas. Restringiu a
influência política dos conselhos, transferindo esse poder para secretários. Para os finais
do seu reinado, e com a quebra nas remessas do ouro do Brasil, a crise económica, a
corrupção e a desorganização administrativa, o poder do Estado fragilizou-se e a nobreza
fortaleceu o seu poder pondo em causa os objetivos da sua política absolutista.

2.2. A Europa dos parlamentos: sociedade e poder político


– Afirmação política da burguesia nas Províncias Unidas, no século XVII
Consumada a libertação política, as Províncias Unidas, criadas em 1579 pela União de
Utrecht, integrando sete províncias do norte dos Países Baixos(2), maioritariamente calvi-
nistas, transformaram-se num espaço de liberdade e de oportunidade para todos aque-
les que eram vítimas da intolerância política e religiosa: protestantes, mouriscos, judeus,
intelectuais e políticos perseguidos pelas monarquias absolutistas europeias. Com a imi-
gração de pessoas vieram também conhecimento e capitais, preciosas mais-valias para o
seu desenvolvimento.

O sistema de monarquia absoluta dominante na Europa não se ajustava a uma socie-


dade burguesa liberal e empreendedora. A luta pela independência e a prosperidade
económica exigiam um sistema político liberal, capaz de conjugar a autonomia das cida-
des e províncias e as necessidades gerais de um Estado unificado. No cimo da hierarquia
política estavam os Estados Gerais, que se reuniam em Haia e que agrupavam os dele-
gados das diferentes províncias.

(2)
Holanda, Zelândia, Utrecht, Frísia, Groninga, Overijssel e Gueldres.
78 Módulo 4 - A Europa nos séculos XVII e XVIII – sociedade, poder e dinâmicas coloniais

Apoiada numa burguesia empreendedora e no papel de Amesterdão, centro econó-


mico e financeiro da Europa, e numa rede de rotas marítimas à escala mundial, as Pro-
víncias Unidas tornam-se uma república burguesa e liberal.

– Grócio e a legitimação do domínio dos mares


Afastada dos portos ibéricos, a Holanda, a mais ativa das sete Províncias Unidas,
encontrou uma alternativa: cruzar os mares e constituir um império colonial.
Fig. 1. Hugo Grócio (1583- Mas esta tarefa não era de realização pacífica. Portugal e Espanha reivindicavam, com
-1645). Jurista e diplomata
holandês. No seu Mare base na prioridade da descoberta e na doação pontifícia (reconhecidos, de uma maneira
Liberum (1609) defendeu geral, pelos outros estados europeus), o direito de exclusividade de navegação e do
a liberdade de navegação
e comércio, contra comércio com as terras e os povos integrados nos respetivos impérios coloniais.
a doutrina do Mare
Clausum, legitimada pela Mas, confiante nas capacidades da sua poderosa marinha e armada, liberta de deve-
Santa Sé, segundo a qual res morais de respeito pelas determinações papais (era protestante, maioritariamente cal-
mares e territórios
pertenciam aos seus vinista), a Holanda avançou com o seu projeto colonial. Um incidente surgido em 1603,
descobridores. a sul da península de Malaca, entre um navio português – a nau Santa Catarina – e dois
navios holandeses da poderosa Companhia Holandesa das Índias Orientais, esteve na ori-
gem da obra de Hugo Grócio (1583-1645) (Fig. 1), De Jure Praedae, onde defendeu a liber-
dade de navegação e comércio para todos os povos (doutrina do mare liberum), contes-
tando as pretensões de Portugal e de Espanha ao direito de monopólio da navegação
(mare clausum).

– Recusa do absolutismo na sociedade inglesa


Apesar da tradição de resistência ao autoritarismo monárquico, cujas raízes remontam
à célebre Magna Carta (1215)(3), os monarcas da dinastia Tudor (1485-1603) instauram o
absolutismo em Inglaterra. Em 1603, Jaime I (1603-1625), rei da Escócia e herdeiro dos
Tudor, proclama-se soberano da Grã-Bretanha e inaugura a dinastia dos Stuart (1603-
-1648). O seu reinado inicia um período de lutas violentas motivadas por conflitos de
natureza política e religiosa. Com Carlos I (1625-1649) acentuam-se as divisões entre o
* Parlamento: assembleia monarca e o Parlamento*. Em 1628, o Parlamento exige, mediante a Petição dos Direitos
representativa: na Baixa
(Bill of Rights), garantias face às detenções arbitrárias e aos impostos.
Idade Média e Moderna, os
parlamentos eram
compostos por
A sublevação dos católicos irlandeses (“matança do Ulster”, 1641) e a detenção de
representantes designados alguns dos principais deputados precipitam a guerra civil (1642-1648), que vai confron-
pelas ordens; na Época
Contemporânea,
tar os partidários da coroa, os “Cavaleiros” e os partidários do Parlamento, conhecidos
a representação política por “Cabeças Redondas”(4). Desta guerra sai vencedor o Parlamento, cujas forças eram
resulta do sufrágio.
comandadas por Olivier Cromwell (1599-1658). Carlos I é executado em 1649 e a monar-
quia abolida. Instaurado o regime republicano (Commonwealth) (1649-1660), a Ingla-
terra passa a ser governada pelo Parlamento.

(3)
Magna Carta (1215): imposta pela aristocracia inglesa ao rei João Sem Terra que ficava obrigado a respeitar as leis
tradicionais e os privilégios da nobreza, a consultar o Tribunal do Rei antes de lançar impostos, a não mandar pren-
der ou condenar alguém sem ser julgado.
(4)
“Cabeças Redondas” (Roundheads): assim designados pelo uso do cabelo muito curto, segundo um uso muito comum
entre os puritanos.
Unidade 2 - A Europa dos estados absolutos e a Europa dos parlamentos 79

Todavia, não por muito tempo. Em 1653, Cromwell assume o título vitalício de Lord Cronologia
Protector, dissolve o Parlamento, inicia uma ditadura pessoal. A sua morte, em 1658,
Inglaterra
abriria caminho à restauração da monarquia com Carlos II (1660-1685), filho do rei deca- 1625-1649
pitado em 1649. Recomeçam as tensões entre a Coroa e o Parlamento. Recusa do absolutismo:
lutas entre a Coroa
A Carlos II sucedeu Jaime II (1685-1688), católico, que tenta a restauração oficial do e o Parlamento.
1628
catolicismo. A reação anglicana irrompe de forma violenta, a oposição parlamentar soli-
O Parlamento impõe
cita a intervenção de Guilherme III de Orange (statouther da Holanda, casado com a filha a Carlos I a Petição de
Direitos (Bill of Rights).
mais velha do rei inglês) e oferece-lhe a coroa inglesa. Jaime II foge para França. Termi-
1642-1648
nava desta forma a pacífica “Revolução Gloriosa” (Glorious Revolution) de 1688, da qual Guerra Civil (Coroa vs.
resultaram importantes consequências: Parlamento).
1649
– a Declaração dos Direitos (Declaration of Rights) de 1689, que impõe importantes Execução de Carlos I
limitações ao poder real; e abolição da Monarquia.
1649-1660
– a divisão de poderes; Regime republicano
(Commonwealth).
– a consagração da superioridade da lei sobre a vontade do rei, isto é, uma monar-
1660-1685
quia controlada pelo Parlamento, ou seja, uma antecipação do regime parlamentar. Restauração da Monarquia
(Carlos II).
1679
– Locke e a justificação do parlamentarismo Publicação do Habeas
Corpus Act.
John Locke(5) (1632-1704) refutou a doutrina do direito divino dos reis defendida pelo
1688
absolutismo. Retomou a doutrina do contrato social, que fundamentou com os seguintes Revolução Gloriosa
(Glorious Revolution).
argumentos:
1689
– o direito de governar vem do consentimento dos governados; Declaração dos Direitos
(Declaration of Rights).
– se um governo tentar governar de forma absoluta e arbitrária, se violar os direitos
naturais do indivíduo pode ser legitimamente derrubado;
– os direitos do indivíduo são absolutos e universais e, como tal, são sagrados, invio-
láveis.

Paralelamente, defendeu a superioridade do poder legislativo sobre o poder executivo,


a supremacia das leis naturais (liberdade, propriedade e segurança) sobre as humanas e
a tolerância religiosa.

(5)
Locke: autor de Dois Tratados sobre o Governo (1689), é considerado como o teórico da “Revolução Gloriosa” inglesa
(1688-1689) e um defensor do parlamentarismo.
80 Módulo 4 - A Europa nos séculos XVII e XVIII – sociedade, poder e dinâmicas coloniais

Unidade 3 Triunfo dos estados e dinâmicas económicas nos séculos


XVII e XVIII

SUMÁRIO
3.1. Reforço das economias nacionais e tentativas de controlo do comércio; o equilíbrio europeu
e a disputa das áreas coloniais
* Mercantilismo: termo 3.2. A hegemonia económica britânica: condições de sucesso e arranque industrial
utilizado para designar um 3.3. Portugal – dificuldades e crescimento económico*
conjunto de doutrinas
e práticas económicas APRENDIZAGENS RELEVANTES
elaboradas na Europa, nos
séculos XVI-XVIII, cujas – Compreender a importância do domínio de espaços coloniais para o equilíbrio político dos
características essenciais estados no sistema internacional dos séculos XVII e XVIII**.
são: a preocupação
– Reconhecer, nas práticas mercantilistas, modos de afirmação das economias nacionais**.
metalista ou bulionista,
o intervencionismo e – Identificar o poder social da burguesia nos finais do século XVIII como resultado da dinâ-
dirigismo estatal, o mica mercantil e da aliança com a realeza na luta pelo fortalecimento do poder real.
protecionismo e o – Relacionar a formação de um mercado nacional e o arranque industrial ocorridos na Ingla-
nacionalismo.
terra com as transformações das suas estruturas económicas**.
* Protecionismo: política – Compreender a influência das relações internacionais nas politicas económicas portugue-
económica que privilegia sas e na definição do papel de Portugal no espaço europeu e atlântico**.
os interesses dos
produtores e comerciantes CONCEITOS/NOÇÕES
nacionais relativamente
à concorrência externa. Capitalismo comercial**; Protecionismo**; Mercantilismo**; Balança comercial**; Exclusivo colonial;
São vários os mecanismos Companhia monopolista; Comércio triangular; Tráfico negreiro; Bandeirante; Manufatura; Bolsa de
utilizados para atingir esse valores; Mercado nacional; Revolução industrial**
objetivo: concessão de
subsídios, de monopólios * Conteúdos de aprofundamento ** Aprendizagens e conceitos estruturantes
e isenções fiscais;
imposição de taxas
aduaneiras e de quotas
à importação; alterações 3.1. Reforço das economias nacionais e tentativas de controlo do
do valor da moeda, etc.
comércio; o equilíbrio europeu e a disputa das áreas coloniais
Era convicção generalizada que o remédio para a crise económica que se fazia
sentir na Europa do século XVII, e a melhor forma de combater a hegemonia
comercial e financeira da Holanda e de Amesterdão, era o reforço das economias
nacionais através da intervenção do Estado na defesa e proteção dos interesses
nacionais face à concorrência estrangeira. Esta era uma política económica a que
se chamou mercantilismo* (Fig. 1), por assentar no comércio.

Apesar da diversidade das formas que tomou nos diferentes países, podemos dis-
tinguir no mercantilismo algumas características gerais comuns:

– o bulionismo (ou metalismo) – a riqueza (e poder) de um país dependeria fun-


damentalmente da maior ou menor abundância de metais preciosos ou de
moeda em circulação;

– o protecionismo*, nacionalismo económico e intervencionismo estatal (imposi-


ção de taxas e outras restrições alfandegárias às importações, concessão de
apoios às indústrias nacionais…);

– o objetivo da balança comercial* favorável;

Fig. 1. O mercantilismo. – o colonialismo (mercados fornecedores de matérias-primas baratas e consumidores).


Unidade 3 - Triunfo dos Estados e dinâmicas económicas nos séculos XVII e XVIII 81

O mercantilismo francês ou colbertista * Balança comercial: relação


entre o valor das
O grande obreiro do mercantilismo francês foi Colbert (1619-1683), ministro de Luís importações e das
exportações de
XIV, que com grande sentido prático imprimiu à política mercantilista um cunho muito
mercadorias (bens visíveis)
próprio, que justificou o nome de colbertismo. num determinado período
(em regra, um ano). Diz-se
Colbert adotou uma política dirigista rigorosa e definiu um conjunto de medidas tendo favorável ou positiva
quando o valor das
como objetivo prioritário o fomento industrial: exportações é superior
– criação de manufaturas* protegidas pelo Estado; ao das importações;
desfavorável ou negativa
– agravamento das taxas aduaneiras às importações de mercadorias e à exportação na situação inversa.
de matérias-primas;
* Manufatura: em sentido
– contratação de mão de obra estrangeira especializada; genérico, designa qualquer
– estímulo ao trabalho através de prémios e isenções fiscais; tipo de atividade de
transformação das
– formação de uma rede de vigilância e de regulamentação minuciosa para elevar a matérias-primas em
produtos acabados, pelo
quantidade e a qualidade das manufaturas. que é equivalente
a indústria. Em História,
Paralelamente, Colbert procurou incrementar a exploração colonial através da criação o termo é utilizado para
de companhias comerciais privadas mas com privilégios, como a concessão de monopó- designar o conjunto das
diferentes atividades
lios comerciais, e protegidas pela marinha de guerra. industriais e formas de
organização do trabalho -
Os resultados do colbertismo foram modestos. Apesar do incremento da produção indus- fraca especialização da
trial, em especial a indústria de luxo, como as manufaturas dos Gobelins(1), e do comércio, produção e uso de técnicas
de produção não
persistiram os fatores estruturais que constrangiam a economia francesa: o isolamento dos mecanizadas -
mercados urbanos e rurais, a fraca concentração das empresas, a insuficiente mecanização características de épocas
anteriores à revolução
e a escassez de capitais (investimentos especulativos, aquisição de terras e gastos militares industrial.
e sumptuários da corte). Por outro lado, a intervenção estatal traduziu-se num excesso de
controlo e de regulamentação, uma rigidez que limitou a iniciativa individual e a inovação.

O mercantilismo inglês
Na Inglaterra, a política mercantilista também se caracterizou pela preocupação bulio-
nista, proteção da produção e apoios ao comércio nacional e à marinha, mas a priori-
dade foi para o comércio e o objetivo da balança comercial. Foi esta orientação que ditou:
– os Navigations Acts (entre 1651 e 1673), com o objetivo fomentar o comércio e a
navegação ingleses e combater a hegemonia holandesa;
– a proteção à produção industrial;
– a proteção à produção agrícola através das corn-laws, leis que restringiam as impor-
tações de trigo e apoio ao alargamento das enclosures.

Estes apoios diretos e indiretos à produção, ao comércio e à marinha provocaram ? Questões


naturalmente a reação da Holanda (três guerras consecutivas), mas produziram resulta- 1. Explique as
dos surpreendentes para a economia inglesa, permitindo-lhe afirmar-se como a principal preocupações bulionistas
do mercantilismo.
potência naval europeia no século XVIII.
2. Quais as prioridades da
política mercantilista de
Colbert?
3. Quais as prioridades do
(1)
Gobelins: família de tecelões flamengos, cujas tapeçarias eram famosas pelo seu tipo de ponto rendado. mercantilismo inglês?
82 Módulo 4 - A Europa nos séculos XVII e XVIII – sociedade, poder e dinâmicas coloniais

Cronologia O mercantilismo holandês

1713 Diferentemente da generalidade das políticas mercantilistas, os holandeses jamais


Paz de Utrecht: fim da colocaram especiais entraves à circulação dos metais preciosos e das moedas. Aliás, con-
Guerra de Sucessão de
Espanha. A Inglaterra trariando a tradicional preocupação bulionista dos mercantilistas, cunhavam mesmo moe-
incorpora os territórios das comerciais de grande valor utilizadas no comércio externo.
coloniais franceses da
Terra Nova e da Nova Por outro lado, defenderam o princípio da liberdade de navegação (doutrina do mare
Escócia e adquire Gibraltar
e Minorca a Espanha. liberum), o que, de resto, convinha ao seu papel de intermediários marítimos e ao papel
1756-1763 de Amesterdão como grande entreposto comercial e a maior praça financeira da Europa.
Guerra dos Sete Anos.
Por isso, é considerado um “mercantilismo evoluído, moderado e incompleto”, apesar de
1763
Tratado de Paris: fim da terem também recorrido a práticas protecionistas sempre que estavam em causa os seus
Guerra dos Sete Anos. interesses, como foi o caso das companhias comerciais de monopólio, a Companhia das
A Inglaterra adquire
à França o Canadá, o Cabo Índias Orientais e a Companhia das Índias Ocidentais.
Bretão, a Senegâmbia
e possessões na Índia;
O equilíbrio europeu e a disputa das áreas coloniais
à Espanha a Florida.
1794 O Tratado de Vestefália, em 1648, pôs fim a um longo período de três dezenas de
A Inglaterra conquista
a maior parte das anos de guerra na Europa, a designada Guerra dos Trinta Anos (1618-1648), e ao sonho
Pequenas Antilhas. da constituição de um império cristão sob a autoridade do papa e do imperador.
1796
A Inglaterra conquista aos A nova ordem europeia consagrada em Vestefália assentava no reconhecimento da
Holandeses o Cabo da Boa
Esperança e Ceilão. igualdade soberana dos estados e na independência de todos relativamente à Santa Sé.
1802 Negada, assim, a subordinação dos estados a qualquer autoridade superior, a vida inter-
Constituição do Reino nacional europeia passou a decorrer sob o princípio do equilíbrio de forças ou do equi-
Unido da Grã-Bretanha
e Irlanda. líbrio político. Para concretizar esse princípio era necessário evitar a formação de esta-
dos poderosos que pudessem afirmar uma supremacia ou hegemonia sobre os restantes.

No entanto, o sistema estabelecido em Vestefália não trouxe paz e estabilidade à


Europa. As práticas mercantilistas (protecionistas, nacionalistas) estimularam a disputa
dos mercados, dos transportes, dos mares e dos domínios coloniais e as ambições hege-
? Questão
mónicas das potências europeias geraram inúmeras guerras travadas quer no continente
1. Explicite os interesses quer no ultramar nos séculos XVII e XVIII(2).
das potências nas disputas
das áreas coloniais.

3.2. A hegemonia económica britânica: condições de sucesso e


arranque industrial
Vitoriosa nas guerras com a Holanda e nos confrontos económicos e coloniais com a
França, a Grã-Bretanha afirmou a sua preponderância marítima e abriu um ciclo hegemónico
na economia europeia do século XVIII, beneficiando de um conjunto de condições favoráveis:
* Enclosures: grandes – as inovações agrícolas: a supressão, gradual, do pousio através da rotação contínua
propriedades vedadas,
concentradas nas mãos da de culturas (afolhamento quadrienal); introdução ou alargamento de novas culturas,
nobreza terratenente como o milho, couves, cenouras, beterraba e, sobretudo, a batata; melhoramento
e resultantes da
privatização das terras das alfaias agrícolas; seleção de sementes e de animais; utilização do cavalo; con-
comunais, provocando o centração da propriedade (enclosures*);
êxodo maciço do
campesinato para as (2)
São exemplos: a guerra dos Trinta Anos (1618-1648), as três guerras anglo-holandesas (1652-1664), a guerra
cidades, onde passou franco-inglesa (1666), a guerra franco-holandesa (1667-1668 e 1688), a Guerra da Sucessão de Espanha (1700-1714),
a engrossar o proletariado os ataques holandeses às colónias portuguesas; as disputas coloniais entre ingleses e holandeses e franceses e
urbano. ingleses na América do Norte e no Índico…
Unidade 3 - Triunfo dos Estados e dinâmicas económicas nos séculos XVII e XVIII 83

– o surto demográfico e a urbanização: elevados índices de crescimento demográfico,


de rendimentos e de consumo;
– a criação de um mercado nacional vasto e unificado (rede de canais e estradas,
transportes e navegação de cabotagem);
– um sistema financeiro moderno, estável e com grande credibilidade internacio-
nal (elevados stocks de metais preciosos, estabilidade da libra esterlina, rede de
bancos – Banco de Inglaterra e bancos provinciais, privados, country banques –,
Bolsa de Londres – Royal Exchange of London);
– poderio naval e sucesso na política colonial: protecionismo à construção naval e à
marinha e expansionismo colonial (Atos de Navegação e vitória nas guerras trava-
das na Europa e no ultramar com as potências rivais – Holanda e França).

O arranque industrial
A partir de 1750-1760 surgiram em Inglaterra três inovações que revolucionaram o modo
de produção dos bens industriais e tornaram este país pioneiro no arranque (take-off )
industrial (Fig. 2):
– a aplicação de um conjunto de inventos na indústria têxtil;
– a utilização do carvão mineral (em substituição do carvão vegetal);
– a invenção da máquina a vapor.

Fig. 2. A prioridade inglesa na Revolução Industrial.

O têxtil, um setor em grande expansão, foi o primeiro a aplicar os progressos técni- * Pudelagem: do inglês
cos: a “lançadeira volante”, de John Kay (1733), foi aplicada com grande sucesso na tece- puddling; técnica pela qual
se transforma o ferro
lagem; a spinning jenny, de Hargreaves, permitia a uma trabalhadora fiar, ao mesmo fundido em ferro macio,
tempo, vários fios; a water frame (1768), de Highs, e a mule jenny (1780), de Crompton, através da eliminação das
impurezas do ferro fundido
trouxeram à fiação um enorme estímulo. e do carbono por meio da
sua combustão.
Esta revolução das técnicas estendeu-se também à metalurgia. Darby conseguiu utili-
* Laminação: ato de
zar o coque na produção de ferro macio (aço). Henry Cort (1740-1800) registou as paten-
laminar, isto é, a redução
tes da pudelagem* e da laminação*. do metal a lâminas.
84 Módulo 4 - A Europa nos séculos XVII e XVIII – sociedade, poder e dinâmicas coloniais

Mas a invenção mais importante foi sem dúvida a máquina a vapor (Fig. 3) de James
Watt (1736-1819), que trouxe como consequência fulcral para o desenvolvimento indus-
trial a possibilidade da utilização industrial da nova forma de energia, o vapor, com todas
as vantagens na economia do trabalho humano e na concorrência internacional.

A reunião de todas as condições referidas, associadas às condições favoráveis de


Fig. 3. A máquina a vapor
de Watt e Boulton (1788). natureza política, social, cultural e mental, explica a prioridade inglesa na Revolução
Industrial*.
* Revolução industrial:
processo de
transformações
económicas, sociais 3.3. Portugal – dificuldades e crescimento económico
e técnico-científicas
ocorridas na Inglaterra – Da crise comercial de finais do século XVII à apropriação do ouro brasileiro pelo
entre 1760/1780 até às
primeiras décadas do mercado britânico
século XIX, período que se
caracterizou pelo aumento O quadro político-económico
substancial da capacidade
produtiva graças Após a Restauração da independência, em 1 de dezembro de 1640, Portugal viu-se
à aplicação à indústria da
máquina a vapor. confrontado com um conjunto de problemas político-militares muito complexos, a que se
acrescentaram outros de natureza económica, ligados à grave crise comercial e financeira
do último quartel do século XVII: o estado de guerra com a Espanha (Guerra da Restau-
? Questões
ração) prolongou-se até 1668; a exportação dos produtos coloniais (açúcar e tabaco bra-
1. Que condições favoráveis sileiros…) reduziu-se drasticamente em resultado da concorrência inglesa e holandesa e
explicam a prioridade
das políticas mercantilistas adotadas pelos países europeus, provocando a queda dos
inglesa no arranque
(take-off) industrial? preços destes bens; os rendimentos do Estado caíram e aumentou a dependência externa
do Reino; o défice da balança comercial e escassez de meios de pagamento agravaram-se.
Entre 1670 e 1692, a crise comercial e financeira atingiu o seu auge.

– As tentativas de remediação: a política manufatureira


Para remediar a situação de crise comercial e financeira, os economistas mercantilis-
tas da época defenderam a implementação de uma política económica manufatureira
capaz de travar o défice da balança comercial e reduzir a dependência do exterior.

Duarte Ribeiro de Macedo, embaixador em Paris e conhecedor do colbertismo, defen-


deu entusiasticamente as vantagens de uma política de fomento industrial no livro Dis-
curso sobre a introdução das artes no Reino (1675), uma obra que serviu de fundamen-
tação teórica aos dois ministros da Fazenda do rei D. Pedro II, o marquês de Fronteira e
o conde da Ericeira. Do seu programa constaram as seguintes realizações:
– contratação de artífices especializados estrangeiros;
– estabelecimento de novas manufaturas em zonas próximas da produção de maté-
rias-primas e onde havia já uma tradição de produção industrial: vidros (Lisboa),
têxteis (Estremoz, Lisboa, Covilhã, Fundão e Tomar) e fundições de ferro (Lisboa,
Tomar e Figueiró dos Vinhos);
– promulgação de “pragmáticas” proibindo o uso de diversos artigos de luxo;
– concessão de subsídios, privilégios fiscais e de mercado;
– desvalorização da moeda;
– criação de companhias comerciais monopolistas.
Unidade 3 - Triunfo dos Estados e dinâmicas económicas nos séculos XVII e XVIII 85

Os resultados da política manufatureira: relativo fracasso


A política de fomento manufatureiro não alcançou os resultados desejados pelos seus
promotores e foi abandonada. Apontam-se três fatores fundamentais:
– a retoma da atividade comercial ligada às exportações do açúcar, tabaco, vinho (em
especial o vinho do Porto) e do azeite a partir de 1692;
– a descoberta de ouro no Brasil (1693-1695), há muito procurado pelos bandeiran- * Bandeirante: colonizador
aventureiro que,
tes*, que permitiu pagar em ouro os défices da balança;
organizado em autênticas
– a sobreposição dos interesses comerciais e agrícolas, em particular os vinícolas, milícias ao som de
tambores e com bandeiras,
patentes na assinatura do Tratado de Methuen (1703). penetrava no interior do
território brasileiro
A apropriação do ouro brasileiro pelo mercado britânico seguindo o curso dos rios
ou o trilho dos “índios” em
A descoberta de ouro no Brasil nos finais do século XVII e a eventualidade de uma busca de nativos e das
riquezas do sertão.
aproximação de Portugal à França, num contexto de acesa rivalidade comercial-marítima
anglo-francesa, reforçaram o papel estratégico do nosso país e consequentemente o
interesse da Grã-Bretanha por este seu aliado tradicional. A celebração do Tratado de
Methuen (1703) foi o corolário desta situação, que também agradava aos setores comer-
cial e vinhateiro portugueses.

As consequências deste tratado para as economias dos respetivos países têm sido
muito discutidas. É reconhecido que o Tratado de Methuen mais não fez do que consa-
grar formalmente situações ou tendências de facto preexistentes. Ou seja, ter-se-á limi-
tado a formalizar a crescente procura dos vinhos portugueses na Grã-Bretanha e dos têx-
teis ingleses no nosso país, onde nunca deixaram de ser adquiridos (por contrabando),
apesar das medidas protecionistas. O efeito mais significativo do Tratado de Methuen
terá sido o reforço (e aceleração) da integração da economia portuguesa na esfera de
influência britânica cujas bases haviam sido já lançadas no tratado de paz anglo-luso de
1642 em que os ingleses obtiveram a liberdade de acesso ao império português.

– A política económica e social pombalina


O afluxo do ouro brasileiro criou em Portugal uma situação de prosperidade que per-
mitiu um reinado de grande brilho ao rei D. João V (1706-1750). No entanto, a diminui-
ção do afluxo daquele metal precioso em meados do século mostrou quão frágil e apa-
rente era essa riqueza e Portugal mergulhou numa nova crise económica.

Foi este cenário de crise que o rei D. José I (1750-1777) e o Marquês de Pombal tive-
ram de enfrentar. Numa primeira fase (até cerca de 1760), a prioridade foi reestruturar o
setor comercial, reprimindo o contrabando e apostando na criação de companhias de
monopólio, com o objetivo de combater a dependência dos estrangeiros, em particular
dos ingleses. Foi nesta perspetiva que criou a Junta do Comércio (1755) e uma série de
companhias comerciais de monopólio – Companhia do Grão-Pará e Maranhão (1755),
Companhia de Pernambuco e Paraíba (1756) e Companhia dos Vinhos do Alto Douro
(1756). A política pombalina de racionalização e moralização estendeu-se também aos
setores financeiro e fiscal – criação do Real Erário (1761) – onde foram centralizados
todos os serviços de arrecadação e depósito das receitas do Estado.
86 Módulo 4 - A Europa nos séculos XVII e XVIII – sociedade, poder e dinâmicas coloniais

? Questões A partir de 1770, Pombal adotou um programa de fomento industrial, recorrendo às


habituais práticas mercantilistas: elaboração de pragmáticas(3), criação de novas fábricas
1. Relacione as medidas de
fomento industrial de e reorganização de outras (Fábrica de Chapéus de Pombal, Real Fábrica de Seda do Rato,
Pombal com a conjuntura Real Fábrica de Vidros na Marinha Grande…); concessão de privilégios de fabrico ou
económica-financeira de
Portugal em meados do exclusivos; contratação de artífices estrangeiros...
século XVIII.
Pombal foi afastado do poder após a morte de D. José I, em 1777. A economia por-
2. Integre a execução dos
tuguesa não superara a situação de dependência externa, em particular da Inglaterra, mas
Távoras e a lei de 1769 na
política seguida por o seu domínio deixou de ser tão esmagador.
Pombal relativamente
à nobreza.
A política social pombalina
Apostado em levar à prática o “espírito das Luzes” e promover o progresso do País,
Pombal empenha-se numa política de nivelamento social, combatendo duramente as
ordens privilegiadas: expulsa os Jesuítas e expropria os seus bens (1759); manda execu-
tar os Távoras e o Duque de Aveiro, acusados de conspirarem contra o rei (1759); sub-
mete a Inquisição (1772); promove a renovação dos quadros da nobreza pela concessão
de novos títulos (vinte e três) e pela extinção de outros tantos e a sua reeducação (Colé-
gio dos Nobres, 1761).

Em contrapartida, promoveu a burguesia, em particular o seu estrato mais alto: auto-


riza os comerciantes a constituir morgadios (1769), declara oficialmente o comércio como
“profissão nobre, necessária e proveitosa” (1770) e põe fim à distinção entre “cristãos-
-velhos” e “cristãos-novos” (1773), atraindo o seu apoio financeiro.

Pombal transformou desta forma a alta burguesia em clientela política e económica


do Estado, cumulando-a de privilégios, em prejuízo da pequena e média burguesia e da
pequena e média nobreza, esmagadas pela concorrência estatal e pelos grandes interes-
ses económicos (monopólios).

– A prosperidade comercial de finais do século XVIII


Cruzados Nos finais do século XVIII, a economia portuguesa começa
(105) Total
35 a mostrar sinais de recuperação. A conjuntura económica inter-
nacional era favorável: o arranque da revolução industrial
s
ria

30
do
rca

25 inglesa teve como consequências o aumento da procura de


Me

20 matérias-primas e a reanimação do comércio internacional.


15
A economia portuguesa muito dependente do comércio
10

Ou
colonial, em particular da reexportação dos produtos brasilei-
5 ro
% 100 ros (Fig. 4), retira vantagens da conjuntura. O comércio com a
de ouro
Ásia aumentou. O incremento da procura do açúcar e algodão
50
brasileiros e das produções metropolitanas do vinho, lã e sal
1700 1750 1800
reduzem a dependência da economia nacional das remessas
Fig. 4. A evolução das
exportações brasileiras. do ouro brasileiro. A balança comercial começa a apresentar nos finais do século XVIII
sucessivos saldos positivos. O aumento da quantidade e a diversificação dos produtos
exportados foram acompanhados por uma maior diversificação dos parceiros comerciais.

(3)
Leis que proibiam o uso de certos artigos (importados) considerados de luxo.
Unidade 4 - Construção da modernidade europeia 87

Unidade 4 Construção da modernidade europeia


SUMÁRIO
4.1. O método experimental e o progresso do conhecimento do homem e da natureza Cronologia
4.2. A filosofia das Luzes: apologia da razão, do progresso e do valor do indivíduo*
4.3. Portugal – o projeto pombalino de inspiração iluminista: modernização do Estado e das ins- Progressos técnicos e
tituições científicos do século XVIII
1724
Termómetro – Fahrenheit.
APRENDIZAGENS RELEVANTES 1747
– Valorizar o contributo dos progressos do conhecimento e da afirmação da filosofia das Transmissão da
eletricidade por fio isolado –
Luzes para a construção da modernidade europeia**. Watson.
1752
CONCEITOS/NOÇÕES Para-raios – Franklin.
Iluminismo** 1768
Máquina de fiar – Arkwright.
* Conteúdos de aprofundamento
Telescópio – Herschel.
** Aprendizagens e conceitos estruturantes 1781
Máquina a vapor – James
Watt.
1783
Análise da água – Lavoisier.
1786
Experiências elétricas –
Galvani.

* Método experimental (ou


científico): conjunto dos
procedimentos, fases ou
4.1. O método experimental e o progresso do conhecimento do etapas necessários para
obter conhecimentos
homem e da natureza rigorosos (científicos) por
meio de instrumentos
fiáveis. As suas fases
No século XVII, homens da ciência como Galileu (1564-1642), Kepler (1571-1630) ou essenciais: observação,
formulação da hipótese,
Newton (1642-1727) lutaram empenhadamente contra o dogmatismo e a ignorância, valo- experimentação
rizando a razão e a experiência, guias do conhecimento. Em Novum Organon (1620), Fran- (demonstração ou
refutação da hipótese),
cis Bacon definiu as fases ou etapas do método experimental* que revolucionou e ace- apresentação da tese ou
lerou o progresso do conhecimento. A ideia de John Locke (1632-1704), de que o teoria científica.
conhecimento humano era obtido através dos sentidos, estabeleceu a base teórica para
um interesse sem precedentes pela educação.

Os iluministas do século XVIII acreditavam que a ciência e a educação, libertas do


dogmatismo e do sobrenatural, eram os caminhos para o progresso da Humanidade.

A evolução extraordinária que a ciência e a técnica conheceram na segunda metade


do século XVIII não é alheia a esta nova atitude face ao conhecimento e à educação. Gra-
ças às experiências de Franklin, inventor do para-raios, a Física faz a principal descoberta
desta época: a da eletricidade. As pesquisas de Lavoisier (1743-1794) sobre a composi-
ção do ar e da água fazem nascer uma nova ciência, a Química moderna. O escocês Watt
concebe a primeira máquina a vapor (c. 1769) produzindo utilmente energia, invento que
provocaria uma autêntica revolução na indústria, nos transportes e na organização e
modo de vida das sociedades.
88 Módulo 4 - A Europa nos séculos XVII e XVIII – sociedade, poder e dinâmicas coloniais

* Iluminismo: movimento 4.2. A filosofia das Luzes: apologia da razão, do progresso e do


intelectual difundido na
Europa em finais do século valor do indivíduo
XVII e no século XVIII,
centrado principalmente O século XVIII na Europa – “o Século das Luzes”, como lhe chamaram – culminou num
em França, baseado
na confiança, na razão, processo de revisão do pensamento e da ação do Homem, iniciado no século anterior
na defesa dos direitos nos Países Baixos e na Inglaterra e denominado de Iluminismo*.
naturais do indivíduo e
na noção de progresso A ordem, a desigualdade e a hierarquia são agora tidas como contrárias à razão e
histórico, moral e material,
princípios que consideradas como obstáculos à realização plena do Homem. Da apologia da razão
fundamentam propostas decorrem dois princípios fundamentais do Iluminismo: o naturalismo (valorização de tudo
revolucionárias de
organização social, política o que é natural, espontâneo) e o individualismo (o indivíduo e os seus interesses devem
e cultural das sociedades prevalecer, pois a sociedade não é mais do que a soma dos indivíduos ou dos interes-
humanas.
ses individuais).

Os filósofos iluministas acreditavam no progresso, quer dizer, na possibilidade de


transformar o homem e a sociedade para melhor. Essa melhoria passava por um futuro
* Direitos naturais: direitos no qual reinasse a paz e a fraternidade e uma nova ordem política que salvaguardasse
inerentes à natureza
humana - a igualdade os direitos naturais* do indivíduo.
jurídica, liberdade,
segurança e propriedade -
tidos como universais, – A defesa do direito natural, do contrato social e da separação dos poderes
e como tal considerados
invioláveis. O pensamento iluminista não se restringiu à abordagem de questões de natureza filo-
sófica, moral e religiosa, mas refletiu também sobre a realidade política e os seus funda-
mentos. Com efeito, o Iluminismo produziu uma das maiores e mais originais transforma-
ções ao nível do pensamento político, no Ocidente. Montesquieu, com O Espirito das Leis
* Contrato social: doutrina (1748); Jean-Jacques Rousseau, com O Contrato Social (1762).
que se opõe ao princípio
da origem divina do poder, John Locke (1632-1704), em Dois Tratados sobre o Governo (1689), defendeu que o
defendendo que são os
indivíduos que, mediante direito de governar vinha do consentimento dos governados, pelo que se o governo ten-
um pacto – implícito ou tasse governar de forma absoluta e arbitrária, se violasse os direitos naturais do indiví-
explícito –, renunciam em
parte aos seus direitos, duo, perderia a fidelidade dos seus súbditos, podendo então ser legitimamente derru-
de forma voluntária, em bado (teoria do contrato social*).
benefício da convivência
mútua, sem abdicar da sua
Jean-Jacques Rousseau (1712-1778), em O Contrato Social (1762), partindo do pressu-
liberdade primitiva.
posto que o homem era naturalmente bom e que o mal, se o havia, tinha a ver com a
sociedade que lhe corrompia a razão e a virtude, propôs um pacto social que implicava
toda a comunidade. Através dele cada indivíduo unia-se a todos, garantindo-se assim a
Cronologia igualdade e a liberdade que, segundo ele, depende da igualdade.

1690 Montesquieu (1689-1755), em O Espírito das Leis (1748), defende a teoria da separa-
John Locke: Tratados do ção de poderes – legislativo, executivo e judicial – ; só haveria liberdade política se estes
Governo Civil.
três poderes não estivessem concentrados nas mesmas mãos.
1748
Montesquieu: O Espírito
das Leis.
1762
J. J. Rousseau: O Contrato
Social.
1763
Voltaire: Tratado da
Tolerância.
Unidade 4 - Construção da modernidade europeia 89

4.3. Portugal – o projeto pombalino de inspiração iluminista * Despotismo iluminado ou


esclarecido: regime político
inspirado nas conceções
– Modernização do Estado e das instituições iluministas, adotado por
monarcas europeus na
A primeira preocupação do governo do Marquês de Pombal foi a racionalização ou segunda metade do século
XVIII. Constituindo a última
modernização do aparelho político administrativo, promovendo para o efeito reformas fase do absolutismo
com vista a restabelecer a autoridade do Estado e a eficiência dos seus serviços. Estes monárquico, o despotismo
caracterizou-se pelo
objetivos enquadram-se nos princípios do despotismo iluminado ou esclarecido*. reforço da centralização
e burocratização do Estado
Foi nesta perspetiva que foram criadas a Junta de Comércio (1755) (controlo do comér- e pela racionalização da
cio e combate ao contrabando), o Real Erário (1761) (centralização e controlo das recei- vida social, económica
e cultural.
tas e despesas) e a Intendência Geral da Polícia de Lisboa (1760).

O controlo pelo Estado do aparelho político implicava sobretudo o afastamento dos


grupos nobiliárquicos e eclesiásticos tradicionais, a restrição ou mesmo extinção dos Cronologia
seus privilégios e das instituições. É neste contexto que procedeu, entre outras medidas,
1755
à expulsão dos jesuítas (1759), à nacionalização da Inquisição (1769) transformada em tri- Criação da Junta de
Comércio; extinção da
bunal régio e à promoção da alta burguesia, visando criar uma clientela política apoiante Mesa do Bem Comum.
e submissa à ação governativa e empenhada na política de fomento económico do País. 1759
Expulsão dos Jesuítas;
início das reformas
– Ordenação do espaço urbano pombalinas de ensino.
1760
Os objetivos do despotismo esclarecido da centralização política e do nivelamento Fundação da Intendência
social tiveram expressão na adoção de uma maior uniformização arquitetónica que limi- Geral da Polícia de Lisboa.
tava a ostentação e sujeitava o traçado das construções citadinas aos planos urbanísti- 1761
Criação do Erário Régio.
cos elaborados e controlados pelos déspotas. O terramoto de 1 de novembro de 1755 e 1769
o incêndio e maremoto que se lhe seguiram deram a Pombal a oportunidade para a reor- Inquisição é convertida em
tribunal régio.
denação urbanística da Baixa de Lisboa (Fig. 1). 1770
O comércio é declarado
“profissão nobre,
necessária e proveitosa”;
extinção da venda e da
hereditariedade nos
empregos e ofícios
públicos.
1771
Criação da Real Mesa
Censória.
1772
Reforma da Universidade.
1773
Supressão da distinção
entre cristãos-velhos
e cristãos-novos.

Fig. 1. Planta para a reconstrução da Baixa Lisboeta depois do terramoto de 1755.


90 Módulo 4 - A Europa nos séculos XVII e XVIII – sociedade, poder e dinâmicas coloniais

O plano de reconstrução encomendado por Pombal a Manuel da Maia, e no qual tra-


balharam Eugénio dos Santos e Carlos Mardel, foi elaborado e executado de uma forma
racional e prática, segundo conceções arquitetónicas e urbanísticas inteiramente novas:
avenidas rasgadas, ruas largas e perpendiculares, algumas das quais com pórticos e colu-
natas, amplas praças e edifícios de dimensões e traça semelhantes e agrupados em quar-
teirões. O Terreiro do Paço dá lugar à “Real Praça do Comércio”, o verdadeiro coração
da nova cidade, com uma bolsa, ladeada por dois torreões, um arco do triunfo e a está-
tua equestre de D. José I no centro.

? Questão O plano é um bom exemplo do novo ordenamento urbanístico da Europa das Luzes,
caracterizado pelo traçado geométrico e radiante das ruas, pela uniformização e simetria
1. Esclareça na
reconstrução da Lisboa das fachadas e pela centralidade dos edifícios, um quadro adequado à consagração do
Pombalina a influência poder do déspota perante o qual todos os poderes se inclinam.
iluminista.

– A reforma do ensino
O setor da educação e do ensino em Portugal, em meados do século XVIII, estava sob
o controlo dos Jesuítas e encontrava-se numa situação de declínio. Ainda no reinado de
D. João V, os “estrangeirados” haviam denunciado esta situação e as consequências
negativas para o País. Sem grande sucesso.

Pombal, inspirado no pensamento e nas obras desses estrangeirados, nomeadamente


Luís António Verney (Verdadeiro Método de Estudar), Ribeiro Sanches (Cartas sobre a
Educação da Mocidade, Método para Aprender a Estudar Medicina e Apontamentos para
Fundar-se uma Universidade Real) e os diplomatas D. Luís da Cunha e Alexandre de Gus-
mão, põe em prática um vasto programa de reformas pedagógicas e culturais:
– decretou a expulsão dos Jesuítas do território nacional e a confiscação dos seus
Cronologia
bens (1759), substituídos por outras ordens religiosas, que praticavam um ensino
1746 mais moderno e atualizado, em especial os Oratorianos;
Luís António Verney:
Verdadeiro Método – ao nível dos chamados estudos menores, criou novas escolas e mais lugares para
de Estudar. “mestres de ler, escrever e contar”;
1759
Instituição da Aula do
– nos estudos secundários criou várias “aulas” (escolas) pelo Reino: Náutica (Lisboa,
Comércio (Lisboa). 1759) e Aula Náutica e de Desenho (Porto), Aula do Comércio (Lisboa) e o Real Colé-
Expulsão dos Jesuítas. gio dos Nobres (1761);
Extinção da Universidade
de Évora. – nos estudos superiores, setor onde as suas reformas foram mais profundas, tomou
Ribeiro Sanches: Carta
sobre a Educação
várias medidas com o objetivo de tornar o ensino universitário mais ajustado aos
da Mocidade. princípios das Luzes e às necessidades de formação dos quadros superiores da
1761 administração do Estado: extinção da Universidade de Évora (1759) e reforma da
Fundação do Real Colégio
dos Nobres. Universidade de Coimbra, criação da Junta de Providência Literária (1770), duas
1768 novas faculdades (Matemática e Filosofia Natural), Observatório Astronómico, Jardim
Criação da Real Mesa Botânico, Laboratório de Química, Gabinete de Física, Museu de História Natural,
Censória.
estudo de Anatomia em cadáveres humanos, sendo criado para o efeito um Teatro
1770
Criação da Junta de Anatómico;
Providência Literária.
– criação do Subsídio Literário (1772) para subsidiar as reformas.
1772
Reforma dos estudos
menores (ensino primário). Fiel aos princípios e práticas centralizadoras do despotismo iluminado, Pombal criou
Novos Estatutos da a Real Mesa Censória (1768), organismo de controlo, que chamou a si o papel de cen-
Universidade de Coimbra.
Criação da Junta do sura da produção cultural, antes exercido pela Inquisição, e a imprensa régia, dotando-se
Subsídio Literário. o Estado com o seu próprio órgão de difusão ideológica.
Questões para Exame 91

Questões para Exame


1

Documento 1 | Crise alimentar e demográfica em Amiens (1692-1695)

Fig. 1.

1.1. Explicite a relação entre a evolução do preço do trigo e a evolução da natalidade e da mortalidade.

Documento 2 | A sociedade do Antigo Regime

No seio das três grandes ordens da nação, encontram-se várias categorias (...). Dessa forma, o clero
abrange duas categorias (…). As posições e as dignidades da nobreza são bem conhecidas: príncipes de
sangue, duques e pares, nobreza que beneficia das honras da corte, nobres com títulos, enfim indivíduos
sem títulos, denominados “escudeiros”. Essas dignidades têm amiúde mais valor que a distinção entre
nobreza de espada e nobreza de toga. (...).
Na frente do terceiro estado, estão os oficiais reais (…). Encontram-se em seguida as “pessoas letradas”
que não são oficiais: formados em universidades, médicos, advogados; depois os “práticos e pessoas de
negócios”: notários, procuradores, enfim os comerciantes e artesãos de ofícios qualificados como “artes”.
Abaixo vêm as “pessoas vis” (expressão que significa pessoas do povo): trabalhadores, “pessoas mecâni-
cas”, senhores com profissão ou sem ela, “homens de braços”, e por fim os “mendigos válidos”, “vagabun-
dos e indigentes”.

Mousnier R. (1967), État et société sou François Ier et pendent le gouvernement personnel de Louis XIV,
in Corvisier, A. (1976), O Mundo Moderno, Lisboa, Ática, p. 285 (adaptado).

Documento 3 | O poder do monarca absoluto

É com toda a razão que se chama deuses aos reis, porque estes exercem na terra um poder que se asse-
melha ao poder divino. Considerai os atributos de Deus e vós os reconhecereis na pessoa do rei. Deus tem
o poder de criar ou de destruir, de fazer ou de desfazer, de dar a vida ou a morte, de julgar toda a gente
sem dar contas a ninguém. Os reis possuem um poder semelhante. A felicidade dos seus súbditos depende
do seu belo prazer; eles podem elevar ou baixar, dispor da vida ou da morte, julgar todos os súbditos sem
ter de dar contas senão a Deus.

Jaime I, 1609.
92 Módulo 4 - A Europa nos séculos XVII e XVIII – sociedade, poder e dinâmicas coloniais

Documento 4 | A Declaração dos Direitos (1689)

(…) Os Lordes espirituais e temporais e os Comuns, (…) constituindo em conjunto a plena e livre repre-
sentação da nação, (...) declaram (…) para assegurar os seus antigos direitos e liberdades:

1. Que o pretenso poder da autoridade real de suspender as leis ou a execução das leis sem o consen-
timento do Parlamento, é ilegal; (...)

8. Que as eleições dos membros do Parlamento devem ser livres; (...)

Dareste, F. R. e Dareeste, P. (1928), Les constitutions modernes (Europa I), Paris.

2.1. Explicite três características da sociedade europeia do Antigo Regime presentes no documento 2.

2.2. Analise a recusa do absolutismo na Inglaterra no século XVII.

A sua resposta deve abordar, pela ordem que entender, os seguintes tópicos de desenvolvimento:

– as raízes históricas da resistência ao absolutismo;

– as dificuldades de implantação do parlamentarismo;

– a importância política da Revolução Gloriosa (1688-1689).

A sua resposta deve integrar, para além dos seus conhecimentos, os dados disponíveis nos documentos
(documentos 2 a 4).

Documento 5 | O Contrato Social

(...) resta sempre ao povo o poder supremo de afastar ou mudar os legisladores, se considerar que estes
atuam de maneira oposta à missão que lhes foi confiada. Com efeito, todo o poder delegado que tem uma
missão determinada e uma finalidade fica limitado por estas; se os detentores desse poder se afastam delas
abertamente ou não se mostram empenhados em consegui-las, será forçoso que se ponha fim a essa mis-
são que se lhes confiou. Nesse caso o poder voltará por força a quem antes lho entregou; então este pode
confiá-lo de novo às pessoas que julgue capazes de assegurar a sua própria salvaguarda. Deste modo, a
comunidade conserva perpetuamente o poder supremo de subtrair-se às tentativas e maquinações de qual-
quer pessoa, inclusivamente dos seus próprios legisladores, sempre que estes sejam tão néscios [incompe-
tentes] ou tão malvados que se proponham levar a cabo maquinações contrárias às liberdades e à proprie-
dade dos indivíduos.

John Locke, (1690), Do Governo Civil, cap. XIII.

3.1. Explicite as conceções de John Locke sobre o contrato social (documento 5).

3.2. Enuncie três propostas dos filósofos iluministas do século XVIII.


Unidade 1 - A Revolução Americana, uma revolução fundadora 93

Módulo 5 11.° Ano


O Liberalismo – ideologia e revolução, modelos e práticas
nos séculos XVIII e XIX
1. A Revolução Americana, uma revolução fundadora Cronologia
2. A Revolução Francesa – paradigma das revoluções liberais e burguesas
1756-1763
3. A geografia dos movimentos revolucionários na primeira metade do século XIX: as Guerra dos Sete Anos.
vagas revolucionárias liberais e nacionais 1765
4. A implantação do liberalismo em Portugal Lei do Selo (Stamp Act) -
imposto de selo sobre
5. O legado do liberalismo político na primeira metade do século XIX todas as publicações.
1773
Contextualização Boicote das colónias ao
chá trazido pela Companhia
No século XVIII, as ideias e propostas iluministas estiveram na origem dos processos de das Índias Ocidentais.
transformação revolucionária das sociedades do Antigo Regime e da construção de uma Encerramento do porto de
nova ordem política e social. Na América, os ideais iluministas influenciaram e acompanha- Boston decretado pela
Inglaterra.
ram o nascimento de uma nova nação, os Estados Unidos, uma referência para os povos e
1774
nações que lutam pela liberdade e igualdade de direitos e pela democracia. Na Europa, a Reunião do 1.º Congresso
Revolução Francesa constituiu o detonador e o paradigma das sucessivas vagas revolucio- de Filadélfia.
nárias que varreram o continente na primeira metade do século XIX. 1775
2.º Congresso de Filadélfia:
Na primeira metade do século XIX, o liberalismo, depois de ultrapassadas as resistências, formação do exército
triunfa também em Portugal. “rebelde”.
As transformações revolucionárias nos domínios social, político e cultural operadas pelo Batalhas de Lexington
e Concord: início da luta
liberalismo, apesar das suas limitações e incoerências, constituem a matriz e um legado militar.
fundamental para as sociedades contemporâneas. 1776 (4 de julho)
Declaração da
Independência.
Unidade 1 A Revolução Americana, uma revolução fundadora 1778
Entrada da França na
guerra ao lado dos
SUMÁRIO rebeldes.
– Nascimento de uma nação sob a égide dos ideais iluministas 1783
Vitória americana na
APRENDIZAGENS RELEVANTES batalha de Yorktown.
1783
– Compreender o fenómeno revolucionário liberal como afirmação da igualdade de direitos e Tratado de Versalhes:
da supremacia do princípio da soberania nacional**. reconhecimento inglês
da independência dos EUA.
CONCEITOS/NOÇÕES 1787
Revolução liberal**; Constituição** Constituição Americana.
1789
* Conteúdos de aprofundamento Eleição do 1.º presidente
** Aprendizagens e conceitos estruturantes dos EUA: George
Washington.

– Nascimento de uma nação sob a égide dos ideais iluministas

O caminho da independência
Apesar de vitoriosa, os elevados custos financeiros da Guerra dos Sete Anos levaram
a Inglaterra a impor pesadas tributações sobre os seu colonos americanos. Entre outros
impostos, o Parlamento britânico aprovou a Lei do Selo (Stamp Act) (1765) que tornava
obrigatório o uso de papel selado.
94 Módulo 5 - O Liberalismo – ideologia e revolução, modelos e práticas nos séculos XVIII e XIX

* Soberania popular: Os protestos contra esta medida considerada injusta e ilegal não se fizeram esperar.
princípio segundo o qual
o poder supremo do Em dezembro desse ano, o lançamento ao mar pelos colonos no porto de Boston de um
Estado pertence à nação carregamento de chá da Companhia das Índias Orientais (episódio conhecido por Boston
ou ao povo, entendidos
como o conjunto de
Tea Party) levou o governo inglês a decretar o encerramento deste porto e a exigir o
cidadãos que exercem pagamento de uma indemnização. Entretanto, novas imposições fiscais agravaram o
o poder através dos seus
clima de revolta.
órgãos representativos.
Em 1774, reuniu o 1.o Congresso de Filadélfia, que proibiu o comércio com a Ingla-
terra, passando esta a considerar rebeldes os colonos. No 2.o Congresso de Filadélfia
(1775) foi decidido responder à guerra declarada pela metrópole e constituir um exército,
? Questões
cujo comando foi entregue a George Washington. Em 1776, os representantes das coló-
1. Como se explica nias reuniram-se no 3.o Congresso de Filadélfia para aprovar a Declaração da Independên-
a rebelião dos colonos cia dos Estados Unidos: as treze colónias afirmavam-se estados livres e soberanos, invo-
contra a metrópole
inglesa? cando os princípios iluministas dos direitos naturais do homem e da soberania popular*.
2. Esclareça os aspetos Em 1783, a assinatura do Tratado de Versalhes pôs fim ao conflito militar, reconhecendo
de movimento de a Inglaterra a independência das suas antigas colónias. Estava consumado o nascimento
independência
de um novo Estado, os EUA.
e de revolução liberal
presentes na Declaração
de Independência dos EUA. A estruturação do Estado
A criação de um Estado a partir da união das treze colónias não era uma tarefa fácil,
pois havia entre elas importantes diferenças, nomeadamente económicas e religiosas.
* Constituição: em sentido O trabalho dos denominados “Pais Fundadores” (Founding Fathers) do novo Estado,
moderno, é um texto
escrito que é a lei como George Washington, Benjamim Franklin, Thomas Jefferson, James Madison, entre
fundamental de um Estado, outros, afigurava-se, pois, extremamente difícil. Em 17 de setembro de 1787, em Filadélfia,
isto é, de valor superior
e depois de grandes debates, foi possível obter um consenso e assinar um documento
a todas as demais leis.
que constitui a pedra angular do novo Estado e da nação que o tempo iria cimentar: a
Constituição* dos Estados Unidos da América.

Inspirada no sistema político inglês e nos princípios iluministas, a Constituição esta-


* Sistema federal: forma
de organização estadual belece um Estado central forte ao mesmo tempo que garante, pelo sistema federal*,
caracterizada pela a relativa autonomia de cada Estado. Os direitos e liberdades individuais são assegurados
existência de vários
poderes políticos, sendo pelas dez primeiras emendas (Bill of Rights), redigidas por Jefferson e votadas em 1789,
um deles soberano mas a escravatura dos negros é mantida(1) e os índios são excluídos da nação americana.
(o Estado Federal) e os
restantes dependentes Relativamente à organização dos poderes, a Constituição estabelece uma separação
(os Estados Federados).
entre os poderes (legislativo, executivo e judicial) e um sistema de governo presidencia-
lista, em que o chefe de Estado, que é ao mesmo tempo chefe de governo, eleito por
um Colégio Eleitoral escolhido pelos cidadãos eleitores, não depende do parlamento, res-
pondendo politicamente apenas perante o povo. Os tribunais têm o poder de controlo
dos atos dos governantes.

O facto de a revolução americana ter origem num ato de rebeldia contra os alegados
atos de tirania do governo britânico e a natureza democrática do regime favoreceram a
difusão na opinião pública internacional, sobretudo europeia, da imagem de uma revo-
* Revolução liberal:
movimento de rutura com lução liberal*. O seu exemplo inspiraria outros movimentos revolucionários na América e
o Antigo Regime inspirado na Europa, em particular a Revolução Francesa.
nos ideais iluministas de
transformação da vida
social, política e cultural. (1)
A escravatura só será abolida pela 13.a emenda votada no final da Guerra de Secessão (1861-1865).
Unidade 2 - A Revolução Francesa – paradigma das revoluções liberais e burguesas 95

Unidade 2 A Revolução Francesa – paradigma das revoluções


liberais e burguesas

SUMÁRIO
2.1. A França nas vésperas da revolução
2.2. Da Nação soberana ao triunfo da revolução burguesa: a desagregação da ordem social de
Antigo Regime; a monarquia constitucional; a obra da Convenção; o regresso à paz civil e a
nova ordem institucional e jurídica

APRENDIZAGENS RELEVANTES
– Identificar a revolução como momento de rutura e de mudança irreversível de estruturas**.
– Compreender a Revolução Francesa como um exemplo de transformação revolucionária da
ordem social e política de Antigo Regime e de construção de uma nova ordem política e
social.
Cronologia
CONCEITOS/NOÇÕES
Monarquia constitucional**; Soberania nacional**; Sistema representativo**; Estado laico; Sufrágio 1789
Janeiro
censitário
Publicação do panfleto do
* Conteúdos de aprofundamento
abade Siéyès, Qu’est-ce
que le Tiers-État?
** Aprendizagens e conceitos estruturantes
Fevereiro/maio
Eleições para os Estados
Gerais.
5 de maio
Sessão de abertura dos
Estados Gerais (Versalhes).
20 de junho
2.1. A França nas vésperas da revolução Juramento na Sala do Jogo
da Péla.
As causas da Revolução Francesa são complexas, mas podemos relacioná-la com duas
9 de julho
ordens de fatores: a crise do Antigo Regime, abalado pela propaganda iluminista, e as Proclamação da
Assembleia Nacional
dificuldades de uma conjuntura económico-financeira e política desfavorável que a monar- Constituinte.
quia absoluta se mostrava incapaz de ultrapassar. 14 de julho
Tomada da Bastilha.
A sociedade francesa nos finais do século XVIII, que mantinha na sua estrutura e com- 3-4 de agosto
Decreto de 4 de agosto:
posição as características de Antigo Regime (hierarquizada e trinitária), já não estava
abolição dos direitos
ajustada às realidades e às aspirações de uma burguesia que tinha plena consciência da feudais.
27 de agosto
sua importância económica e da sua escassa representação política; nem de uma nobreza
Declaração dos Direitos
que, empobrecida pela alta dos preços, reforça as imposições feudais sobre os campo- do Homem e do Cidadão.
neses e consome pensões régias a uma coroa numa má situação financeira. Fracassadas 2 de novembro
Nacionalização dos bens
as sucessivas tentativas de reforma dos ministros de Luís XVI, Turgot (1774-1776), Necker do clero.
(1776-1781), Calonne (1783-1787) e Brienne (1787-1788), restava ao soberano como única 1790
13 de fevereiro
saída a convocação de Estados Gerais. Supressão das ordens
religiosas.
A aristocracia e a burguesia estavam de acordo com essa convocação. Mas tinham 12 de julho
objetivos diferentes. Os nobres pretendiam servir-se dos Estados Gerais para travar as Constituição Civil do Clero.

reformas à custa da redução dos seus privilégios. Queriam ainda que os Estados fossem 1791
14 de junho
organizados como em 1614, data em que se haviam reunido pela última vez: as três Lei Le Chapelier: extinção
ordens reuniam e votavam separadamente, tendo cada ordem um número idêntico de das corporações;
aprovação da Constituição
deputados e dispondo de um voto. de 1791.
96 Módulo 5 - O Liberalismo – ideologia e revolução, modelos e práticas nos séculos XVIII e XIX

Nestas condições, o terceiro estado (burgueses, artesãos e campo-


neses, mais de 80% da população) estaria em minoria. Por isso, con-
testou a convocação dos Estados Gerais nos moldes tradicionais da
monarquia absoluta. O folheto do abade Siéyès, Qu´est-ce que le Tiers-
État? (1789), como os Cadernos de Queixas (Fig. 1), então elaborados,
exprimem um descontentamento generalizado e exigem o cumprimento
de três condições: número dos seus representantes igual à soma dos
da nobreza e do clero, deliberação em comum e votação por cabeça.

As eleições para os Estados Gerais realizaram-se nos meses de feve-


Fig. 1. O Terceiro Estado sob reiro a maio de 1789, tendo sido eleitos cerca de 600 deputados pelo terceiro estado,
os impostos (caricatura de
Adel e Klerus). 300 pelo clero e 280 pela nobreza.

2.2. Da Nação soberana ao triunfo da revolução burguesa


– A desagregação da ordem social de Antigo Regime
? Questão Na abertura dos Estados Gerais a 5 de maio de 1789, em Versalhes, o terceiro estado
consegue uma representação em número idêntico à do clero e nobreza juntos, mas não
1. Explicite a importância
das medidas legislativas consegue fazer aceitar por estas ordens a sua proposta de reunir numa sala comum e
adotadas pela Assembleia
votar por cabeça.
Constituinte (1789-1791)
para a desagregação da
Face ao impasse criado, os deputados do terceiro estado, alegando representar “98%
ordem social do Antigo
Regime em França. da Nação”, proclamam-se Assembleia Nacional (17 de junho), juram não se separar até
à redação de uma Constituição e deliberaram que, a partir de então, nenhum imposto
poderia ser lançado sem o seu consentimento.

Estava dado o primeiro passo para a rutura. O poder do rei era oficialmente abolido
num domínio essencial, as finanças. A 9 de julho, e após novos incidentes com o rei e
num clima de ameaça de insurreição popular, a Assembleia passa a denominar-se Assem-
bleia Constituinte e começa a discutir um projeto de constituição. Entretanto, aprova
várias medidas legislativas revolucionárias:
– o Decreto da noite de 4 de agosto de 1789 (suprime os direitos feudais e todos os
privilégios senhoriais);
– a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão (27 de agosto de 1789) que
consagra os princípios da liberdade e igualdade de todos os homens);
– a Constituição Civil do Clero (12 de julho de 1790) que transforma o clero em fun-
* Estado laico: estado cionários do Estado e os seus bens em bens nacionais (Estado laico*);
secular, não religioso, ou
seja, estado que considera – a Lei de Le Chapelier (14 de junho de 1791) que extingue as corporações e proíbe
a religião como uma os trabalhadores de formarem sindicatos, de fazerem reivindicações salariais e
escolha individual, portanto
um domínio perfeitamente greves;
distinto e independente do – a Constituição de 1791 que estabelece a monarquia constitucional e que reconhece
poder político.
aos franceses os direitos e liberdades individuais.
Unidade 2 - A Revolução Francesa – paradigma das revoluções liberais e burguesas 97

– A Monarquia Constitucional* * Monarquia constitucional:


forma de governo em que
Os fundamentos da nova organização política da França revolucionária foram estabe- o poder real está limitado
por outras instituições, em
lecidos pela Constituição de 1791. Na sua base estavam princípios revolucionários da particular por um
soberania popular, da separação dos poderes e da igualdade civil, que não a igualdade parlamento. As normas
fundamentais do sistema
política, pois a Constituição distinguiu duas categorias de cidadãos: os cidadãos ativos político estão definidas na
(os que pagavam certo censo ou imposto) tinham o direito de voto, e os cidadãos pas- constituição.
sivos (restantes) não tinham esse direito(1).

A eleição dos deputados devia fazer-se em dois degraus, ainda segundo um critério * Sufrágio censitário:
sistema eleitoral que limita
de rendimentos: eleitores e deputados. A Constituição de 1791 estabeleceu, deste modo, o direito de voto segundo
um regime de monarquia constitucional censitária* que satisfazia sobretudo a burguesia. critérios de riqueza.

O rei exerce o poder executivo, nomeando os ministros, com o direito de recusar a


sua sanção às leis aprovadas pela Assembleia, ainda que apenas por um período de * Sistema representativo:
forma de organização
tempo determinado (direito de veto suspensivo). O poder legislativo foi atribuído a uma
política fundada no
Assembleia Legislativa e o poder judicial foi confiado a juízes eleitos. princípio da soberania
popular expressa no direito
A Revolução consagrava, deste modo, a queda da monarquia absoluta e o triunfo do de designar através de um
governo representativo* e da doutrina da separação dos poderes. processo eleitoral os
representantes do povo
na ação governativa.
– A obra da Convenção (1792-1795)
A crise económica e sobretudo a intervenção estrangeira em apoio ao Rei, proveniente
das monarquias da Áustria, Prússia e da Rússia, exaltaram os ânimos dos revolucioná- Cronologia

rios. O povo acusou o rei de cumplicidade com os invasores, assaltou o palácio das 1792
Tulherias (20 de junho de 1792). Alguns dias depois a Assembleia Legislativa proclama a 5 de julho
O exército da Prússia
“Pátria em perigo” (11 de julho) e decreta a mobilização obrigatória de todos os France- invade a França.
ses. A 10 de agosto de 1792, na sequência de uma insurreição popular, Luís XVI é 11 de julho
Proclamação pela
deposto. A 22 de setembro desse ano (1792), é proclamada a República. Assembleia Legislativa
da “Pátria em perigo!”.
O governo é entregue a uma Convenção, uma assembleia eleita por sufrágio univer- 9 de agosto
sal, encarregada de estabelecer uma nova constituição. Esta assembleia é dominada por Criação de uma comuna
revolucionária em Paris.
duas forças políticas distintas: os Girondinos(2), que defendiam os interesses da alta bur- 10 de agosto
Insurreição popular:
guesia, adeptos de uma república liberal, e os Jacobinos(3) ou Montanheses, representan-
deposição do Rei.
tes da pequena e média burguesia, liderados por três patriotas e revolucionários: Marat, 20 de setembro
Vitória da França em Valmy.
Danton e Robespierre.
21 de setembro
Convenção.
O julgamento e condenação do rei Luís XVI (decapitado a 21 de janeiro de 1793) abre 22 de setembro
caminho ao período do “Terror” marcado pela adoção de medidas de exceção e pelo radi- Proclamação da República.
calismo revolucionário: a Convenção assume-se como um governo ditatorial; o poder exe- 1793
21 de janeiro
cutivo foi entregue a um Comité de Salvação Pública; foram criados comités de vigilância Execução de Luís XVI.
revolucionária e tribunais revolucionários para julgar os suspeitos de traição, “os inimigos 24 de julho
Constituição do Ano I.
do povo”; foi organizado um exército popular para a luta contra as invasões estrangeiras… 27 de julho
Robespierre no Comité
de Salvação Pública.
(1)
O censo de um cidadão ativo equivalia ao valor de três dias de trabalho, ou seja, 3 libras; o de um eleitor, a 10 dias
7 de setembro
de trabalho, ou seja, 10 libras. Da população francesa, cerca de 4 300 000 eram cidadãos ativos, 3 000 000 cidadãos Grande Terror.
passivos e 50 000 eleitores. 1794
(2)
Girondinos: designação que decorre do facto de uma parte deles serem representantes do departamento da Gironda. Julho
(3)
Jacobinos: nome derivado do facto de reunirem no antigo convento dos Dominicanos, conhecidos em Paris por jaco- Execução de Robespierre:
binos porque o seu primeiro convento fundado no século XIII estava situado na rua de Saint-Jacques. fim do “Grande Terror”.
98 Módulo 5 - O Liberalismo – ideologia e revolução, modelos e práticas nos séculos XVIII e XIX

Em julho de 1793, Robespierre (1758-1794), o incorruptível, controla o Comité de Sal-


vação Pública e impõe-se à Convenção. Apoiado pelos sans-culottes(4), Robespierre impõe
um regime ditatorial com recurso sistemático à violência. Foi a segunda fase do Terror,
denominada de “Grande Terror” (setembro de 1793-27 de julho de 1794), período
durante o qual a guilhotina não deu tréguas aos “traidores” ou “inimigos do povo” e
até os heróis da Revolução, incluindo o próprio Robespierre, contam-se entre as suas
vítimas.

– O regresso à paz civil e a nova ordem institucional e jurídica


Cronologia A República burguesa (27 de julho de 1794 a 9 de novembro de 1799)
1794 As divisões entre os revolucionários e a reação burguesa no Golpe do 9 de Termidor
27 de julho
(27 de julho de 1794) precipitaram a queda de Robespierre e dos seus partidários. Vol-
Golpe de estado de 9 do
Termidor: queda de tou a moderação à Convenção, os jacobinos e sans-culottes foram perseguidos (“terror
Robespierre.
31 de outubro
branco”), foi aprovada a nova Constituição do Ano III (1795) e restabelecido o voto cen-
Eleição do Diretório. sitário. Para evitar a ditadura, o poder legislativo era partilhado pela Câmara de Deputa-
1795 dos, o Conselho dos Quinhentos, e um Senado, o Conselho dos Anciãos. O poder execu-
Constituição do Ano III.
1799 tivo exercido por um Diretório (5 diretores).
9 de novembro
Golpe de estado de 18 de A persistência da instabilidade política, o aumento da importância política do exército
Brumário; Constituição do e as ambições do jovem general Napoleão Bonaparte explicam o Golpe de 18 de Brumá-
Ano VIII.
rio (9 de novembro de 1799). O Diretório é substituído por um Consulado(5). Em finais de
1804
Código Civil; coroação de 1799, a Constituição do Ano VIII conferiu a Napoleão o título de 1.o cônsul e o poder de
Napoleão imperador.
decisão, institucionalizando a ditadura deste. O passo seguinte seria a sua coroação
1804-1814
Império napoleónico. imperial (1804). O processo revolucionário estabilizou. A Revolução estava terminada.

? Questão QUADRO-SÍNTESE
Principais momentos do período revolucionário em França
1. Qual o significado do
golpe de 18 de Brumário
(1799) para a Revolução 1789 1791 1792 1793 1794 1795 1799 1804 1815
Francesa? Monarquia Constitucional República
Ass. Nacional Ass.
Convenção Diretório Consulado
Constituinte Legislativa Império
República burguesa
República popular • Golpe do 9 de Termidor • Golpe de 18
Revolução Burguesa de Brumário
“Terror” Estabilização do processo revolucionário
• Decretos da noite de 4 de • Comité de Salvação • Constituição do Ano III • Código civil
agosto Pública (1804)
• Declaração dos Direitos do • Tribunal
• Constituição do Ano VIII
Homem e do Cidadão revolucionário
• Constituição Civil do Clero • Política de • Império
• Lei de Le Chapelier descristianização napoleónico
• Constituição de 1791 • Exército popular

(4)
Sans-culottes: à letra, sem calções. Com efeito, vestiam calças e não os calções até ao joelho característicos do
vestuário dos nobres e dos ricos. Usavam ainda um colete (la carmagnole) e um barrete vermelho ornado com uma
pena, inspirado no barrete frígio que os escravos africanos usavam na Roma antiga.
(5)
O Consulado, que substituiu o Diretório, integrava três cônsules provisórios: Siéyès, Ducos e Bonaparte.
Unidade 3 - A geografia dos movimentos revolucionários na primeira metade do século XIX 99

Unidade 3 A geografia dos movimentos revolucionários na primeira


metade do século XIX: as vagas revolucionárias liberais e nacionais

SUMÁRIO
– Vagas revolucionárias liberais e nacionais na Europa pós-napoleónica

APRENDIZAGENS RELEVANTES
– Compreender o fenómeno revolucionário liberal da primeira metade do século XIX como
afirmação da igualdade de direitos e do princípio da soberania nacional sobre o da legiti-
midade dinástica**.

CONCEITOS/NOÇÕES
Monarquia constitucional**; Soberania nacional**; Sistema representativo**; Estado laico; Sufrágio
censitário
Cronologia
** Aprendizagens e conceitos estruturantes
1814-1815
Congresso de Viena.
1815
Constituição da Santa
– Vagas revolucionárias liberais e nacionais na Europa pós-napoleónica Aliança e da Quádrupla
Aliança.
Vencida a França e o projeto imperialista napoleónico pela resistência dos povos euro- 1817
peus, nos quais se incluiu Portugal, e pelos exércitos da coligação (Grã-Bretanha, Rússia, Revolta liberal e anti-
-portuguesa em
Áustria e Prússia) organizados na frente comum denominada de Quádrupla Aliança, o Pernambuco (Brasil).
objetivo destas potências era agora restaurar a ordem europeia arruinada por cerca de 1819
Independências da
vinte anos de guerra. Venezuela e da Colômbia
(definitivas em 1830).
Foi com esse fim que se reuniram no Congresso de Viena (1814-1815) os vencedores
1820
de Napoleão (Inglaterra, Rússia, Prússia, Áustria, França, Suécia, Espanha e Portugal). Revoluções liberais em
Portugal, Espanha
A orientação geral do Congresso foi a de restaurar na Europa o princípio da legitimidade
e Nápoles.
monárquica posto em causa pelas ideias liberais revolucionárias e, com base nele, defi- 1821
nir uma ordem jurídica internacional fundada no equilíbrio de forças dos estados. Bolívar liberta o Peru.
1822
Para fiscalizar a sua execução e assegurar a sua eficácia, o Congresso criou um dire- Proclamação da
independência do Brasil.
tório formado pela Quádrupla Aliança, na qual se integraria a França, constituindo-se
1823
deste modo uma espécie de governo da Europa formado pelas cinco grandes potências Doutrina Monroe (EUA).
(Pentarquia). Para conjugar as suas políticas sobre as questões internacionais acordaram 1828
A “Revolução de Julho” em
reunir-se periodicamente em congressos. França: abdicação do rei
Carlos X.
Com idêntico objetivo, por iniciativa do czar Alexandre I, foi assinado pela Rússia, Independência da Bélgica.
Prússia e Áustria um tratado que criou a denominada Santa Aliança. No congresso de 1839-1840
Dissolução da
Troppau (1820), definiu-se o seu método de ação: não reconhecimento dos governos Confederação Centro-
nascidos de movimentos revolucionários (princípio da legitimidade) e intervenção militar -Americana: novos estados:
El Salvador, Honduras,
nos estados em que a autoridade legítima fosse ameaçada (princípio da solidariedade). Nicarágua, Costa Rica
e Guatemala.
O sistema funcionou durante pouco mais de uma década. No entanto, rapidamente foi
1848
posto em causa pelo ressurgimento das rivalidades entre as potências e pelas rebeliões Movimentos
liberais. revolucionários em Paris,
Milão, Veneza, Viena
Uma primeira vaga revolucionária ocorreu entre 1820 e 1824, em Espanha, Nápoles, e Praga.
II República em França
Portugal, Grécia e na América (revoltas das colónias espanholas e do Brasil). (1848-1851).
100 Módulo 5 - O Liberalismo – ideologia e revolução, modelos e práticas nos séculos XVIII e XIX

De modo geral, estes movimentos revolucionários resultaram de conspirações ou


movimentos desencadeados por organizações secretas que, na sua maioria, acabaram
por ser controlados pelos poderes governamentais. Uma segunda, entre 1829 e 1839, em
França, onde a burguesia liberal, com o apoio popular, impôs a abdicação do rei absolu-
tista Carlos IX e a sua substituição por Luís Filipe I, duque de Orleães, o “rei-cidadão”
(1830), na Bélgica, Alemanha, Itália, Polónia, Grécia e no Império Austríaco.

Finalmente, no ano de 1848, “o ano das revoluções”, ocorreram praticamente por toda
a Europa (Fig.1) levantamentos populares, barricadas e insurreições tendo como bandei-
ras a liberdade e o nacionalismo. Na origem desta nova vaga de revoluções estão a
pequena burguesia e as classes operárias em luta contra o sistema capitalista por uma
maior justiça social e pela democratização dos regimes liberais, à mistura com aspirações
nacionalistas. Paris, Viena, Berlim, Praga, Buda, Peste, Turim, Milão assistem a fortes
movimentos insurrecionais.

O saldo destes movimentos revolucionários foi escasso: embora a revolução pare-


cesse triunfante em grande parte da Europa, a verdade é que os monarcas apoiados na
alta burguesia e nas forças conservadoras reagiram e acabaram por conseguir impor-se,
explorando as contradições entre os liberais e nacionalistas. Essas reformas permitiram
à burguesia liberal assumir em quase todos os países o protagonismo político. Ao
mesmo tempo, deram mais força aos movimentos nacionalistas, de caráter unificador (na
Alemanha e na Itália) ou separatista (na Grécia e na Bélgica, por exemplo). No entanto,
as correntes nacionalista e democrática abalaram e reformaram muitos dos princípios
essenciais da organização política, social e cultural do Antigo Regime.

N Revolu›es N
Pa’ses que conquistaram
a independncia
Mar Agita›es revolucion‡rias
Irlanda do
1829 Norte Motins
Limites da Confedera‹o
Germ‰nica Estados
Holanda Hanover Unidos
1830 OCEANO
BŽlgica Hesse Pol—nia ATLåNTICO
OCEANO 1830 1830-1831
ATLåNTICO 1830 Florida
MŽxico Havana
Saxe (1821)
Frana 1830 IMPƒRIO RUSSO Cuba Porto Rico
Viena (Ind.1828) (EUA 1898)
1830 Su’a Prov. Unidas
1830 da AmŽrica
1848 1847 Venezuela
Veneza Central (1819)
1831 (1824-1838) Col™mbia
1848 (1819)
Portugal Mar Equador
1820 Espanha Negro (1822) ImpŽrio
1812 1831 do Brasil
1820 1848 SŽrvia (1822)
IMPƒRIO OTOMANO OCEANO Peru
N‡poles 1830 PACêFICO (1824) Bol’via
1820 (1825) Paraguai
(1811)
Chile
(1818) Uruguai
GrŽcia Campanhas de Bol’var (1828)
1821-1829 1819-1824 Argentina
0 250 km Mar Mediterr‰neo Campanhas de San Martin (1816)
1817-1822
Batalhas decisivas Patag—nia
Fig. 1. As revoluções liberais
Fronteiras dos novos
na Europa e o surto Estados 0 2000 km
independentista na América
Latina (primeira metade do
século XIX).
Unidade 4 - A implantação do liberalismo em Portugal 101

Unidade 4 A implantação do liberalismo em Portugal


SUMÁRIO
4.1. Antecedentes e conjuntura (1807-1820)
4.2. A revolução liberal de 1820 e as dificuldades de implantação da ordem liberal (1820-1834);
precariedade da legislação vintista de caráter socioeconómico; a desagregação do império
atlântico; a Constituição de 1822 e a carta constitucional de 1826*
4.3. O novo ordenamento político e socioeconómico (1834-1851)*: importância da legislação de
Mouzinho da Silveira e dos projetos setembrista e cabralista

APRENDIZAGENS RELEVANTES
– Analisar a interação dos poderes que convergiram no processo revolucionário português**.
– Relacionar a desarticulação do sistema colonial luso-brasileiro e a questão financeira com
a dinâmica de transformação do regime em Portugal*. Cronologia
– Distinguir na persistência das estruturas arcaicas da sociedade portuguesa um fator de
1806
resistência à implantação do liberalismo**.
Napoleão decreta o
Bloqueio Continental
CONCEITOS/NOÇÕES à Inglaterra.
Carta Constitucional**; Vintismo; Cartismo; Setembrismo; Cabralismo 1807-1810
Invasões francesas de
* Conteúdos de aprofundamento Portugal.
** Aprendizagens e conceitos estruturantes 1808
A família real portuguesa
chega ao Brasil.
1815
4.1. Antecedentes e conjuntura (1807-1820) Elevação do Brasil
à categoria de Reino.
Apesar dos obstáculos políticos e das naturais resistências culturais, como o analfa- 1816
betismo e a persistência de uma mentalidade essencialmente conservadora, as ideias Morte de D. Maria I;
D. João VI, rei.
liberais foram-se difundindo no nosso País.
1817
A Maçonaria desempenhou um papel de relevo nessa difusão, apesar de reprimida. Revolta liberal
e antiportuguesa em
As perseguições desencadeadas pelo poder político dificultaram o desenvolvimento das Pernambuco (Brasil).
suas atividades, mas, no início do século XIX, as invasões francesas (1807-1810) vieram Conspiração liberal falhada
em Lisboa: execução de
possibilitar-lhe uma maior liberdade de ação. Para além da Maçonaria e dos militares Gomes Freire.
franceses, os exilados nas grandes capitais europeias, Londres e Paris, em particular, 1818
Fundação do Sinédrio
constituíram outro importante veículo de difusão do liberalismo*, através dos seus escri- (associação secreta
tos e publicações (livros, jornais e panfletos) que faziam introduzir clandestinamente no paramaçónica) no Porto.
País. Alguns destes exilados regressaram a Portugal com as invasões francesas juntando- 1820
Revoluções liberais em
-se aos opositores do regime vigente. Portugal e Espanha.

A conjuntura económica e política


* Liberalismo: movimento
(1) intelectual e político que
A resposta portuguesa ao Bloqueio Continental (1806) decretado por Napoleão não
valoriza o valor
o satisfez e as tropas franco-espanholas invadiram Portugal (1807), sob o comando do fundamental da liberdade
general Junot. Para evitar o aprisionamento e a deposição, a família real portuguesa reti- individual. Enquanto
doutrina política, elaborada
rou-se para o Brasil. Seguiram-se mais duas invasões, em 1808, comandadas por Soult, nos séculos XVIII e XIX,
e em 1810 por Massena. defende a igualdade
jurídica dos cidadãos,
a divisão dos poderes e um
(1)
Para além de exigir o encerramento dos portos portugueses à navegação britânica, Napoleão impôs a confiscação sistema representativo
dos bens dos súbditos ingleses estacionados em Portugal. e constitucional.
102 Módulo 5 - O Liberalismo – ideologia e revolução, modelos e práticas nos séculos XVIII e XIX

? Questão Durante este período, a crise económica acentuou-se com as destruições provocadas
pela guerra, com o aumento das despesas militares e com os elevados gastos da corte
1. Como se explica o
descontentamento geral do no Brasil. Ao mesmo tempo, a Grã-Bretanha passou a dispor do governo de Portugal e
país em 1820? o general Beresford exercia o poder de forma autoritária e até violenta, como ficou
patente na repressão da conspiração de 1817 e do seu presumível líder, o general Gomes
Freire de Andrade, grão-mestre da Maçonaria e combatente da Legião Estrangeira de
Napoleão.

A permanência da família real no Brasil tornara-se incompreensível e inaceitável,


nomeadamente para a burguesia mercantil que via com grande preocupação a progres-
siva emancipação económica e política daquela colónia. Com efeito, a abertura dos por-
tos brasileiros ao comércio internacional (1808) e a elevação do Brasil à categoria de
Reino (1815) prejudicaram seriamente os mercadores nacionais, colocados numa situação
de concorrência com os estrangeiros. A ausência da Corte não tinha já justificação, pois
o motivo que estivera na sua origem estava já perfeitamente ultrapassado com a retirada
das tropas invasoras e a queda definitiva de Napoleão (1815).

Estes acontecimentos provocaram, como é compreensível, um clima de descontenta-


Cronologia
mento geral e deram força à ideologia liberal, tanto mais que esta beneficiava de impor-
1820 tantes apoios externos decorrentes da Revolução Espanhola (1812), da campanha da
Levantamento militar no
Porto (24 de agosto). imprensa desenvolvida pelos exilados portugueses radicados na Europa e pela intensa
Junta Provisional do atividade da Maçonaria.
Governo Supremo do Reino.
1821
Regresso da Família Real 4.2. A revolução liberal de 1820 e as dificuldades de implantação
do Brasil.
1822
da ordem liberal (1820-1834)
Promulgação da primeira
Constituição portuguesa. Em 24 de agosto de 1820, numa altura em que o general Beresford se deslocara ao
1823-1824 Brasil, o levantamento militar no Porto, encabeçado pelo comandante Sepúlveda, pelo
Reação absolutista: coronel Cabreira e pelo brigadeiro António da Silveira e enquadrado pelo Sinédrio, tinha
Vilafrancada e Abrilada.
1826 objetivos muito precisos: exigir o regresso do rei, afastar o domínio britânico e estabe-
Morte de D. João VI. lecer uma monarquia constitucional. Semanas depois, em setembro, aconteceu em Lis-
Carta Constitucional
(D. Pedro). boa um fenómeno idêntico.
D. Pedro abdica da Coroa
de Portugal em benefício Constituída a Junta Provisional do Governo Supremo do Reino e realizadas as eleições
da sua filha, D. Maria da
(1821), por sufrágio indireto, foi solicitado o regresso a Portugal de D. João VI, facto que
Glória.
1828-1834 ocorreu em julho desse ano, ficando o seu filho primogénito, D. Pedro, como regente do
Reinado de D. Miguel Brasil. Chegado ao País, o Rei jurou os fundamentos da Constituição que as Cortes esta-
(restauração do
absolutismo). vam a elaborar. A rainha D. Carlota Joaquina e o seu filho, o infante D. Miguel, recusa-
1832 (8 de julho) ram o juramento.
Desembarque do exército
liberal na praia de Arnosa Esta posição antiliberal da rainha e de D. Miguel, a independência do Brasil (1822) e
do Pampelido (a norte do
Porto). a restauração do regime absoluto em Espanha (1823) encorajaram a tentativa de reposi-
1832-1834 ção do absolutismo em Vila Franca de Xira, conhecida por Vilafrancada, liderada pelo
Guerra civil.
Legislação de Mouzinho infante D. Miguel. Em abril de 1824, verificou-se um novo movimento contrarrevolucioná-
da Silveira. rio, a Abrilada. Apesar de não conseguir restaurar o absolutismo, a reação armada abso-
1834 lutista permitiu ao Rei pôr de lado a Constituição (1822) e governar de forma moderada-
Implantação definitiva
do liberalismo. mente absolutista.
Unidade 4 - A implantação do liberalismo em Portugal 103

A morte de D. João VI (1826) veio criar um problema de difícil resolução. O filho pri-
mogénito, D. Pedro, era o imperador do Brasil. Aclamado em Portugal como D. Pedro IV,
abdicou a favor da sua filha Maria da Glória sob duas condições: o casamento desta com
seu tio D. Miguel e o juramento do novo texto constitucional, a Carta Constitucional* * Carta Constitucional:
(1826), elaborada e outorgada por si. modelo de constituição
formal (escrita), que
De regresso a Lisboa (1828), D. Miguel jura a Carta e assume a regência, mas rapida- é concedida pela Coroa
sem a participação dos
mente esquece os compromissos e restaura a monarquia absoluta. Em 1832, D. Pedro deixa cidadãos e em que a figura
o Brasil, assume a regência em nome de D. Maria II, e lidera o desembarque na metrópole do Monarca assume um
papel mais importante.
do exército liberal reunido nos Açores. A guerra civil (1832-1834) que se lhe seguiu dará a
vitória aos liberais. D. Miguel é obrigado a assinar a Convenção de Évora Monte (1834) e
parte para o exílio. Estava consumado o triunfo definitivo do liberalismo em Portugal.

– Precaridade da legislação vintista* de caráter socioeconómico * Vintismo: corrente


democrática do liberalismo
Embora a elaboração da Constituição fosse sua tarefa fundamental, os deputados das português fiel aos
Cortes aprovaram reformas importantes no domínio socioeconómico: o estabelecimento princípios da Revolução
de 1820 e consagrados no
da liberdade de imprensa; a extinção de direitos senhoriais; a abolição de Inquisição; modelo de organização
a nacionalização dos bens da Coroa (propriedades, capelas, direitos reais e comendas política definido na
Constituição de 1822.
das ordens militares) e a sua venda em hasta pública. A economia portuguesa regista
alguns progressos significativos: a criação do Banco de Lisboa (1821); o início da utilização
da máquina a vapor na indústria e nos transportes fluviais e marítimos (1820-1821); a
criação da Sociedade Promotora da Indústria Nacional (1822). Contudo, uma parte do
esforço de modernização das estruturas económicas e sociais do País perder-se-ia devido
à grave situação das finanças públicas (invasões francesas, ocupação inglesa, gastos mili-
tares, crise económica) e à instabilidade social e política.

– A desagregação do império atlântico


Outro problema que preocupava as Cortes era a evolução da situação no Brasil, cujo
posicionamento face à metrópole, substancialmente modificado com os privilégios con-
cedidos pelo Rei, era contrário aos interesses da burguesia portuguesa. Por isso, as Cor-
tes cedo adotaram uma política tendente a anular os privilégios adquiridos e a devolver
ao Brasil a condição de colónia, senão de direito ao menos de facto. Ordenaram ainda
ao príncipe D. Pedro (Fig. 1) que viesse para a Europa.

Todavia, nem o Brasil queria perder o seu estatuto nem D. Pedro a oportunidade de Fig. 1. D. Pedro IV, Rei de
ser rei de um país como o Brasil. Em maio de 1822, D. Pedro foi designado “Defensor Portugal.

perpétuo do Brasil” e, face à reação das Cortes que pretendiam anular as decisões tor-
radas por D. Pedro, este resolveu-se a proclamar a independência do Brasil. Foi o cha-
mado “Grito do Ipiranga”, em 7 de setembro de 1822. Um mês mais tarde, e seguindo
o exemplo do México, era proclamado imperador. Em 1825, Portugal reconheceu formal-
mente a independência desta sua antiga colónia.

– A Constituição de 1822 e a Carta Constitucional de 1826


A eleição e reunião das Cortes Gerais Extraordinárias e Constituintes da Nação Portu-
guesa (1821) concretizou o primeiro objetivo do movimento revolucionário de 1820. O passo
seguinte seria a elaboração de uma constituição escrita.
104 Módulo 5 - O Liberalismo – ideologia e revolução, modelos e práticas nos séculos XVIII e XIX

* Cartismo: corrente O primeiro texto constitucional português, a Constituição de 1822, jurada pelo rei
conservadora do
liberalismo português que D. João VI após o seu regresso do Brasil, é um documento progressista e democrático,
defendia o modelo de proclama os direitos e os deveres individuais, afirma a soberania da Nação e consagra a
organização política
definido na Carta independência dos três poderes – legislativo (Cortes), executivo (rei e ministros) e judi-
Constitucional de 1826.
cial (juízes). O rei ficava com escassos poderes, dispondo apenas de veto suspensivo na
elaboração das leis. O governo respondia perante as Cortes.

Este modelo de governação liberal estabelecido acabaria por não ter uma realização
? Questão
efetiva, porque os movimentos contrarrevolucionários de Vilafrancada (1823) e Abrilada
1. Compare os textos (1824) levaram o rei a “colocar a Constituição na gaveta”.
constitucionais da
Constituição de 1822 À morte de D. João VI, em 1826, o País continuava a viver uma situação de indefini-
e da Carta Constitucional
de 1826. ção política e iniciava-se uma sucessão algo conflituosa. A clarificação desta situação che-
garia com a outorga da Carta Constitucional de 1826 por D. Pedro.

A Carta, fonte inspiradora do cartismo*, é um documento claramente conservador:


Cronologia representa uma solução de compromisso visando obter o mais amplo consenso e apoio
1832-1834 possíveis. Definiu uma divisão quadripartida dos poderes – legislativo, moderador,
Legislação liberal de executivo e judicial. O primeiro pertencia às Cortes, compostas de duas Câmaras (bica-
Mouzinho da Silveira.
Guerra civil: liberais contra maralismo) – a Câmara dos Deputados, eleita por quatro anos através de sufrágio
absolutistas.
restrito, indireto e censitário, e a Câmara dos Pares, composta por membros nomeados
1834
Convenção de Évora Monte: sem número fixo pelo rei, vitalícia e hereditariamente. O poder moderador competia ao
fim da guerra civil e vitória
rei, que detinha ainda o poder executivo conjuntamente com o governo.
do liberalismo.
1836 Os poderes do Rei foram bastante alargados: nomeava os Pares, convocava as Cortes
Revolução “Setembrista”.
1842
e podia dissolver a Câmara dos Deputados, nomear e demitir o governo, suspender os
Golpe de estado de Costa magistrados e vetar as leis decretadas pelas Cortes. Por outro lado, a Carta era aceitável
Cabral: reposição da Carta
(Cartismo*). pelas ordens tradicionais privilegiadas (clero e nobreza) e agradava à alta burguesia.
1846-1847
Revoltas populares da
Maria da Fonte e da
Patuleia.
4.3. O novo ordenamento político e socioeconómico (1834-1851):
1851 importância da legislação de Mouzinho da Silveira e dos projetos
Movimento da
Regeneração. setembrista e cabralista
Deve-se a Mouzinho da Silveira (1790-1848) um conjunto de reformas que moderniza-
ram os velhos e ineficazes sistemas administrativo e judicial do País:
– abolição dos morgados e capelas com rendimento líquido inferior a duzentos mil
réis anuais;
– extinção das sisas, excetuando os bens de raiz, do dízimo e dos forais;
– supressão do privilégio exclusivo da Companhia dos Vinhos do Alto Douro da expor-
tação do vinho e da produção de aguardentes;
– nova divisão administrativa do território nacional em províncias, comarcas e conce-
lhos;
– nova organização judicial do país em círculos judiciais subdivididos em comarcas,
estas em julgados e estes em freguesias; estabelecimento de um Supremo Tribunal
(Lisboa).
Unidade 4 - A implantação do liberalismo em Portugal 105

Esta linha reformadora liberal prosseguiu no governo setembrista* de Passos Manuel, * Setembrismo: fase do
liberalismo português
apoiado na burguesia industrial, no proletariado urbano e na classe média dos comerciantes: entre 1836 (Revolução de
promoveu a reforma no ensino (criação dos liceus nacionais, escolas politécnicas e Setembro) e 1842 (golpe
militar liderado por Costa
médico-cirúrgicas em Lisboa e no Porto e do Conservatório Real de Lisboa); procurou Cabral e pelo Duque da
fomentar a indústria através de uma política protecionista (Pauta Aduaneira de 1837); Terceira), caracterizada
pela restauração dos
apoiou a política de fomento ultramarino impulsionada pelo Marquês de Sá da Bandeira. princípios democráticos do
vintismo.
Em 1842, um novo golpe de estado colocou no poder Costa Cabral e restaurou a
Carta. O “Cabralismo*” prosseguiu a via das reformas no ensino, em especial no ensino
primário (obrigatório dos 7 aos 15 anos), na administração e nos transportes e comuni- * Cabralismo: fase do
liberalismo português
cações.
entre 1842 e 1851 (golpe
político-militar chefiado
Em 1851, um novo golpe de estado, a que se chamou “Regeneração”, pôs fim ao
pelo Marechal-Duque de
regime ditatorial cabralista e à instabilidade decorrente das revoltas populares da Maria Saldanha: movimento da
Regeneração)
da Fonte (1846) e da Patuleia (1847).
protagonizada pelo
ministro Costa Cabral que
restabeleceu a Carta
Constitucional de 1826
QUADRO-SÍNTESE
e governou o País de forma
A implantação do liberalismo em Portugal (1820-1851) autoritária e ditatorial.

1820 21 22 23 24 26 28 32 34 36 42 46 47 1851

Abrilada Guerra Maria da


Cortes civil Fonte
Vilafrancada
Constituintes Carta Revolta Golpe de Patuleia
Constituição Constitucional Setembrista Costa Cabral
de 1822 Convenção de Regeneração
Revolução Évora Monte
Liberal
Cartismo

RESTAURAÇÃO DO
ABSOLUTISMO CARTIS-
VINTISMO ABSOLUTISMO Setembrismo Cabralismo
MODERADO MO (Miguelismo)

ABSOLUTISMO vs. LIBERALISMO


VINTISMO vs. CARTISMO
VINTISMO vs. CARTISMO
106 Módulo 5 - O Liberalismo – ideologia e revolução, modelos e práticas nos séculos XVIII e XIX

Cronologia Unidade 5 O legado do liberalismo na primeira metade do século XIX


1776
Adam Smith: Investigações SUMÁRIO
Sobre a Natureza e as
Causas da Riqueza das 5.1. O Estado como garante da ordem liberal*
Nações. 5.2. O Romantismo, expressão de ideologia liberal
1803
Jean-Baptiste Say: Tratado
de Economia Política. APRENDIZAGENS RELEVANTES
1817 – Identificar as alterações da mentalidade e dos comportamentos que acompanharam as
David Ricardo: Princípios
revoluções liberais.
de Economia Política
e Tributação. – Valorizar a consciencialização da universalidade dos direitos humanos, a exigência de par-
1830 ticipação cívica dos cidadãos e da legitimidade dos anseios de liberdade dos povos**.
Vaga de revoluções
nacionais na Europa.
CONCEITOS/NOÇÕES
1833
Constituição do Zollverein Liberalismo económico**; Romantismo
na Alemanha.
* Conteúdos de aprofundamento
1838
Fundação da Anti-Corn Law ** Aprendizagens e conceitos estruturantes
League (Associação contra
as Leis sobre os Cereais),
na Inglaterra.
1846 5.1. O Estado como garante da ordem liberal
Abolição das leis
protecionistas inglesas.
– Liberdades públicas, secularização das instituições e liberalismo económico
Na origem do modelo de organização política e social defendido pelos liberais está
uma grande desconfiança em relação ao poder, pelo que a sua grande preocupação foi
garantir as liberdades públicas que dão ao indivíduo garantias contra o poder e a auto-
ridade civil ou religiosa. Nesta perspetiva, o liberalismo tendia a restringir a área de inter-
venção não só do poder público como do poder eclesiástico. Foi também por essa razão
que o liberalismo criou mecanismos de controlo e fiscalização da ação governativa,
nomeadamente através de representantes eleitos (parlamentos), e promoveu a seculari-
zação das instituições e dos comportamentos.

O Estado jamais deveria controlar, sobrepor-se e muito menos substituir-se à inicia-


tiva individual considerada como o motor do desenvolvimento. Devia apenas garantir o
seu livre exercício, velando pela criação das condições necessárias à sua realização e san-
cionando qualquer tipo de entraves ou distorções ao seu exercício.

No plano económico, o liberalismo considera que o incentivo essencial da atividade


* Liberalismo económico:
doutrina elaborada nos económica é o lucro individual, pelo que deve ter inteira liberdade para o procurar. Ao
séculos XVIII e XIX que se fazê-lo, cada indivíduo é conduzido por uma “mão invisível” que harmoniza o interesse
funda no princípio da
liberdade individual, individual com o interesse comum(1). Por isso, a intervenção estatal não só é inútil como
defende a livre iniciativa prejudicial. Para o liberalismo económico*, a ordem natural não deve ser violentada pela
e o livre comércio (laissez
faire, laissez passer). intervenção do estado, sendo esta apenas justificável quando está em causa a ordem, a
segurança, a justiça e obras e instituições públicas, que não possam ser mantidas pela
? Questão iniciativa privada.

1. Qual o papel do Estado


na vida económica (1)
Mão invisível: este conceito introduzido por Adam Smith sustenta que, embora cada participante tente apenas atin-
segundo a ideologia gir o seu objetivo particular, um sistema de mercado livre funciona, apesar disso, para benefício de todos, como se
liberal? uma benevolente “mão invisível” dirigisse todo o processo.
Unidade 5 - O legado do liberalismo na primeira metade do século XIX 107

– O cidadão, ator político


Revolucionários no domínio dos princípios, a verdade é que os regimes políticos de
inspiração liberal na primeira metade do século XIX estiveram longe de ser um modelo
de coerência revolucionária. O caráter de compromisso entre princípios e práticas liberais
(democráticos com outros antidemocráticos) está presente nos regimes liberais, entre
outros elementos (bicamaralismo, hereditariedade…), na restrição do corpo eleitoral à
minoria dos cidadãos ativos*, definidos segundo determinados critérios ou condições de * Cidadão ativo e cidadão
passivo: o cidadão ativo
natureza económica (censo), cultural (instrução) e outras. Os governantes eram escolhi-
é aquele que usufrui de
dos de entre um número muito limitado de cidadãos e de eleitores. Este sistema eleito- direitos políticos; ao invés,
o cidadão passivo não
ral, assente em regra no sufrágio indireto e censitário*, está longe de respeitar o princí-
dispõe desses direitos,
pio da igualdade jurídica dos cidadãos defendida pelo liberalismo. De resto, o voto era nomeadamente o de eleger
ou ser eleito.
considerado pelos liberais apenas como uma função (e não um direito), uma espécie de
serviço público que a nação solicita a determinada categoria de cidadãos e segundo
regras por si estipuladas. * Sufrágio indireto
e censitário: indireto
Desta forma, o liberalismo estabelece uma divisão política entre o país legal (o con- quando os representantes
são eleitos em fases
junto dos cidadãos ativos) e o país real, que inclui também os excluídos da vida polí- sucessivas, cada uma
delas com um corpo
tica, os cidadãos passivos*, muito mais vasto do que aquele.
eleitoral mais restrito;
diz-se censitário quando
– Os limites da universalidade dos direitos humanos: a problemática da abolição o direito de voto está
limitado a cidadãos que
da escravatura cumpram determinados
requisitos, em particular
A problemática da escravatura havia sido já levantada no passado. No século XVI, já um certo nível de riqueza
os padres espanhóis Francisco de Vitória e Las Casas e jesuítas portugueses notabiliza- ou rendimento (censo).

ram-se, entre outros, na denúncia da natureza perversa da escravização, uma luta preju-
dicada pelos poderosos interesses económicos e preconceitos culturais que lhe estavam * Época Contemporânea:
expressão que designa
associados. o período da história mais
recente iniciado pelas
Foi na Época Contemporânea* que o debate se intensificou ligado à filosofia das revoluções liberais e pela
Luzes, partindo do pressuposto fundamental de que todos os homens são naturalmente revolução industrial até
à atualidade.
livres e iguais. Livres, porque no seu “estado de natureza”, isto é, antes da existência
de qualquer autoridade política, ninguém exercia autoridade sobre outrem; e iguais, por-
que a liberdade era pertença de todos. Para além de naturais, os iluministas considera- Cronologia

vam que estas qualidades ou direitos eram universais, isto é, válidos para todos os 1761
homens enquanto seres dotados de razão. Abolição do tráfico de
escravos na metrópole
Esta conceção foi determinante para os progressos da luta pela abolição do tráfico de (Portugal).
1836
escravos e da escravatura nos séculos XVIII e XIX, em países como a França (II República, Proibição do comércio de
1848), os EUA (13.a Emenda à Constituição, 1865) e em Portugal (decreto de Sá da Ban- escravos nas colónias
portuguesas a sul do
deira, 1869). equador.
1861-1865
Guerra de Secessão (EUA).
1869
Abolição da escravatura em
todos os domínios
portugueses, mantendo-se,
no entanto, os escravos
com alguma ligação
“aos senhores” até 1878.
108 Módulo 5 - O Liberalismo – ideologia e revolução, modelos e práticas nos séculos XVIII e XIX

Cronologia 5.2. O Romantismo, expressão da ideologia liberal


1797-1804
Primeiro romantismo – Revalorização das raízes históricas das nacionalidades e exaltação da liberdade
alemão.
A. W. e F. Schlegel fundam Na sua essência, o Romantismo* foi um movimento de revolta contra a ilustração do
a revista Athenaeum (1798). Iluminismo, contra o primado da Razão proclamado pelos filósofos do século XVIII.
1796
Início do romantismo Ao valorizar a liberdade, o indivíduo e a rebeldia, os românticos abraçaram e inspira-
inglês – Wordswoth:
Lyrical Ballads. ram a causa da emancipação dos povos face aos impérios. A guerra de libertação dos
Coleridge – A Recantation gregos face ao domínio turco (1821-1829) inspirou poetas e pintores e uniu a intelectua-
(Ode à França).
1802 lidade europeia. Delacroix, por exemplo, associou-se ao sofrimento dos oprimidos habi-
França: Chateaubriand tantes de Quios em luta contra o domínio turco, consagrando-lhes uma das suas obras
– O Génio do Cristianismo.
mais importantes, O Massacre de Quios.

– A explosão do sentimento nas artes plásticas, na literatura e na música


* Romantismo: movimento Elaborado contra a tradição representada pelo academismo e neoclassicismo, o Roman-
cultural de origem anglo-
tismo faz triunfar, desde o fim do século XVIII, mas principalmente no início do século XIX,
-saxónica e germânica
iniciado nos finais do a espontaneidade e a revolta. As transformações verificadas no mundo, sobretudo a Revo-
século XVIII que rejeita
todas as regras lução Francesa, trouxeram para o primeiro plano o indivíduo com as suas inquietações,
estabelecidas pelos pesadelos e sonhos, obsessões, indignações e esperanças. A solidão, a noite e a morte
clássicos e reivindica uma
total liberdade; exalta convivem com a agitação da vida, segundo o artista, o seu temperamento e a sua cultura.
o indivíduo, o sentimento
e os costumes e as No domínio da Literatura, o Romantismo caracteriza-se pela sua oposição ao classi-
tradições particulares das cismo antigo, quer no domínio temático quer formal: às amenidades do bucolismo clás-
épocas, de cada
comunidade, de cada sico opõe o belo horrível, disforme, misterioso, tenebroso ou fantástico; à luminosidade
Nação.
diurna, o enevoado, o noturno o irreal; à ordem e medida o desordenado e o desmesu-
rado; à razão o sentimento; às regras da composição a liberdade estilística. O romântico
exalta o culto do eu (egocentrismo), cultiva a cor local, o pitoresco e o exótico (não
apenas o medievo mas também os elementos africanos, orientais, os ambientes dos
miseráveis, as lendas e mitologias populares…).

Nas artes plásticas e arquitetura, nostálgicos da Natureza selvagem levam a cabo uma
renovação da pintura, nomeadamente através da aguarela, onde impera o imaginário e tons
de dramatismo. Inspirados na literatura do passado, exploram com mestria o movimento e
as cores violentamente contrastantes, e os efeitos de claro-escuro emprestam às suas obras
um vigor e dinamismo impressionantes, novos coloridos e novos ritmos, uma mistura do
real com o imaginário. Na arquitetura, o renovado interesse pelas tradições nacionais,
designadamente medievais, e por realidades exóticas inspiraram os revivalismos históricos,
sínteses de tendências que emprestam aos edifícios ecletismo e virtuosismo técnico.

A música romântica caracteriza-se por um grande dinamismo e propensão para a gran-


diosidade e teatralidade, explorando sistematicamente a alteração das regras. As obras
intimistas enchem-se de um conteúdo emocional intenso; as obras de grande enverga-
dura exprimem uma nova tensão. A orquestra aumenta o número de executantes, os ins-
trumentos diversificam-se. Cultiva-se o virtuosismo e novas formas de expressão musical
como o recital solista ou o poema sinfónico.
Questões para Exame 109

Questões para Exame


1

Documento 1 | As queixas do terceiro estado em França nas vésperas da Revolução

1.o O que é o terceiro estado? Tudo.


2.o Que tem ele sido até ao presente na ordem política? Nada.
3.o Que pretende ele? Ser alguma coisa.
(...). Ora, isto é ao mesmo tempo, uma iniquidade odiosa para a generalidade dos cidadãos e uma trai-
ção para a coisa pública. Quem ousará dizer que terceiro estado não contém em si tudo o que é preciso
para formar uma nação? É forte e robusto mas tem ainda um braço preso às cadeias. (…) Assim, o que é o
terceiro estado? Tudo, mas um tudo atado e oprimido. Que seria ele sem a ordem privilegiada? Tudo, mas
um tudo livre e florescente. Nada pode caminhar sem ele; tudo caminharia infinitamente melhor sem os
outros. (...).

Siéyès, E., Qu’est-ce que le Tiers-État?, in Gothier, L. e Troux, A. (1962), Recueils de Textes d´Histoire.

Documento 2 | O regime censitário

Art.o 2 – Para ser cidadão ativo é preciso: ter nascido ou ter-se tornado francês; ter completado os 25
anos; estar domiciliado na cidade ou no cantão no tempo determinado pela lei; pagar, (…), uma contribui-
ção direta pelo menos igual ao valor de três dias de trabalho (…); não ser criado de servir; (…).
Art.o 7.o – Ninguém poderá ser nomeado eleitor, se não reunir as condições necessárias (…): nas cidades
com mais de 6000 almas, ser proprietário ou usufrutuário de bens avaliados pelo rol das contribuições num
rendimento igual ao valor de 200 dias de trabalho, ou ser locatário de uma habitação avaliada (…) com o
valor de 100 dias de trabalho (…).

Excerto da Constituição Francesa de 1791

1.1. Explicite as reinvindicações do terceiro estado nas vésperas da Revolução Francesa (documento 1).

1.2. Integre os documentos 1 e 2 na análise do caráter burguês da Revolução Francesa no período consi-
derado (1789-1791).

Documento 3 | O processo de emancipação do Brasil

Desenvolvimento interno Resoluções das Cortes Constituintes O caminho da independência

1808 – Abertura dos portos 1821 – Exigência de regresso da 1789 – Inconfidência Mineira.
brasileiros às “nações família real. 1817 – Revolução de Pernambuco.
amigas”. – Formação de Juntas 1821 – Motins no Pará, Baía e Rio
1809 – Fundação da Biblioteca Real Provisórias de Governo de Janeiro.
do Rio de Janeiro. dependentes da metrópole. 1822 – Proclamação da
1815 – Elevação do Brasil à – Subordinação jurídica e independência do Brasil.
categoria de reino. militar do Brasil. 1825 – Reconhecimento da
1822 – Ordem de regresso de independência por Portugal.
D. Pedro.
110 Módulo 5 - O Liberalismo – ideologia e revolução, modelos e práticas nos séculos XVIII e XIX

Documento 4 | Constituição de 1822

Art.o 26 – A soberania reside essencialmente na Nação. Não pode porém ser exercitada senão pelos seus
representantes legalmente eleitos.
Art.o 30 – [Os poderes políticos] são legislativo, executivo e judicial. O primeiro reside nas Cortes com
dependência da sanção do Rei (...). O segundo está no Rei e nos Secretários de Estado, que o exerciam
debaixo da autoridade do mesmo Rei. O terceiro está nos Juízes. Cada um destes poderes é de tal maneira
independente, que um não poderá arrogar a si as atribuições do outro.

Documento 5 | D. Miguel e a Vilafrancada (1823)

Documento 6 | Carta Constitucional (1826)

Art.o 11.o – Os poderes políticos reconhecidos pela Constituição do Reino De Portugal são quatro: o poder
legislativo, o poder moderador, o poder executivo e o poder judicial. (...).
Art.o 14.o – As Cortes compõem-se de duas Câmaras: Câmara de Pares e Câmara de Deputados. (...).
Art.o 39.o – A Câmara dos Pares é composta de membros vitalícios e hereditários, nomeados pelo Rei e
sem número fixo. (...).
Art.o 59.o – O Rei dará, ou negará, a sanção a cada decreto dentro (...) que lhe for apresentado. (...).
Art.o 65.o – São excluídos de votar (...): # 5.o - os que não tiverem renda líquida anual cem mil réis (...).

2.1. Relacione as decisões aprovadas nas Cortes Constituintes (documento 3) com a independência do
Brasil.

2.2. Analise as dificuldades da implantação do liberalismo em Portugal na primeira metade do século XIX.
Na sua resposta deve ter em conta os seguintes tópicos de desenvolvimento:
– o contexto histórico da Revolução Liberal de 1820;
– a reação absolutista;
– as divergências entre os liberais.

Para além dos seus conhecimentos, deve integrar na sua resposta os dados dos documentos 3 a 6.
Unidade 1 - As transformações económicas na Europa e no Mundo 111

Módulo 6 11.° Ano


Economia e sociedade; nacionalismos e choques
imperialistas
1. As transformações económicas na Europa e no Mundo
2. A afirmação da sociedade industrial e urbana
3. Evolução democrática, nacionalismo e imperialismo
4. Portugal, uma sociedade capitalista dependente
5. Os caminhos da cultura

Contextualização
Cronologia
A revolução industrial que teve origem na Inglaterra no século XVIII estende-se gradualmente
a novos países ao longo do século XIX, ao mesmo tempo que evolui em termos qualitativos. 1851
O desenvolvimento da industrialização induziu profundas alterações na organização das Primeira Exposição
sociedades e nas relações sociais: a burguesia industrial e financeira reforçou o seu poder Mundial, no Palácio de
Cristal, em Londres.
económico, em grande parte à custa da exploração do proletariado industrial; as classes Máquina de costura de
médias adquiriram peso social e político. Singer.
A extrema precaridade das condições de vida e de trabalho do proletariado suscitou o apa- 1854
recimento das propostas socialistas de transformação revolucionária da sociedade. Sainte-Claire Deville isola
o alumínio.
O liberalismo revolucionário oitocentista despertou os nacionalismos* e gerou o movimento
1856
das nacionalidades caracterizado por uma dupla face: a valorização do Estado-Nação e o Patente do forno elétrico
desenvolvimento de tendências imperialistas. de Siemens.
Em Portugal, depois de uma fase de permanente instabilidade e conflitualidade ideológica Patente do conversor do
inglês Bessemer para
em nada favorável ao arranque industrial, a Regeneração (1851) representou o início de uma o fabrico do aço.
fase de maturidade e de maior realismo bem mais propícia ao desenvolvimento económico 1858
do país. No entanto, as dificuldades políticas e económicas dos finais do século precipitaram Exploração do petróleo na
a queda da monarquia e o triunfo do republicanismo. Pensilvânia (EUA).
As transformações da civilização industrial alteraram também as condições da produção cul- 1866
Descoberta da dinamite
tural e estão na origem do movimento de renovação no pensamento e nas artes de finais do pelo norueguês Nobel.
século XIX/princípios do século XX. 1869
Descoberta do dínamo
elétrico pelo belga
Unidade 1 As transformações económicas na Europa e no Mundo Gramme.
1876
Invenção do telefone pelo
SUMÁRIO
americano Bell.
1.1 A expansão da revolução industrial 1879
1.2. A geografia da industrialização Invenção da lâmpada
1.3. A agudização das diferenças* elétrica de filamentos pelo
americano Edison.
APRENDIZAGENS RELEVANTES 1887
– Relacionar a dinâmica do crescimento industrial com o caráter cumulativo dos progressos Registo da patente
técnicos e a exigência de novas formas de organização do trabalho. do motor de explosão
do alemão Daimler.
– Relacionar os desfasamentos cronológicos e ritmos da industrialização com as relações 1888
de domínio ou de dependência estabelecidas a nível mundial**. Patente do pneumático
– Reconhecer as características das crises do capitalismo liberal. do escocês Dunlop.
1895
CONCEITOS/NOÇÕES Descoberta do raio-X pelo
Progressos cumulativos; Capitalismo industrial**; Estandardização; Livre-cambismo; Crise cíclica alemão Röntgen.
Marconi realiza a primeira
* Conteúdos de aprofundamento ligação telegráfica sem
** Aprendizagens e conceitos estruturantes fios.
112 Módulo 6 - Economia e sociedade; nacionalismos e choques imperialistas

1.1. A expansão da revolução industrial


– Novos inventos e novas fontes de energia; a ligação ciência-técnica
As grandes inovações tecnológicas do século XIX – o telefone, o fonógrafo, o dínamo
e o motor de combustão interna – estão ligadas aos progressos cumulativos* da ciência
e da técnica e da investigação científica que, por sua vez, se centra cada vez mais na
procura de respostas para os problemas levantados pela revolução dos transportes e das
comunicações (caminho de ferro, barco a vapor e telégrafo), ainda na primeira metade do
século, e pela expansão do processo de industrialização fora da Grã-Bretanha. A utiliza-
ção industrial das novas fontes de energia (petróleo e a eletricidade) e das novas tecno-

* Progressos cumulativos:
logias a elas associadas provocou alterações no modo de produção industrial de tal
inovações que ocorrem em forma significativas que se pode falar de uma “segunda revolução industrial”.
paralelo e/ou resultam de
outras num processo de A ligação laboratório-fábrica esteve também na origem do desenvolvimento de várias
interação e/ou de adição.
ciências, como a Química (corantes artificiais, explosivos, produtos farmacêuticos, fertili-

* Cartel: associação de zantes e fotografia).


empresas numa dada
atividade produtiva cujo
Nos finais do século XIX, os novos produtos (celofane, lacas, fibras artificiais, cimento,
propósito é restringir ou betão…), a melhoria da qualidade do aço e a substituição do vapor pela eletricidade fize-
dificultar a concorrência
ram o mundo entrar na era da produção e o consumo de massa.
nessa atividade, exercer
um poder de monopólio
através do – Concentração industrial e bancária
estabelecimento de
acordos relativamente aos No último terço do século XIX, a conjuntura de baixa de preços, o aumento da pro-
preços, às quantidades
produzidas, à repartição cura e as tendências livre cambistas favoreceram a concentração industrial, que se desen-
dos mercados entre si ou volveu através de duas formas:
ainda por outras práticas
do mesmo tipo. – pela associação entre empresas que controlavam uma determinada fase do processo
produtivo, em regra a última (concentração horizontal);
* Holding: sociedade de
controlo de outras – pela integração de diferentes empresas ligadas às diversas fases de produção,
empresas através da desde a obtenção de matérias-primas até à venda do produto final (concentração
aquisição de ações em
quantidade suficiente para vertical).
as dominar.
A primeira forma de concentração (horizontal) deu origem à formação de cartéis* e de
holdings*. O processo de crescimento da dimensão e do poder económico-financeiro das
* Trust: empresa que
empresas produziu ainda uma outra forma de concentração: o trust*. Apesar de diferentes,
resulta frequentemente de
um processo de absorção os objetivos são comuns: contornar a concorrência e assegurar o controlo dos mercados.
de outras empresas
a partir de uma mais Nas vésperas da I Grande Guerra, na maioria dos países industrializados europeus for-
poderosa. Difere do cartel
maram-se estruturas empresariais muito poderosas, verdadeiros impérios industriais. Um
por operar uma fusão
entre as empresas e por poder de tal modo forte que em muitos casos ultrapassava as fronteiras nacionais e se
ter como objetivo
estendia ao estrangeiro (empresas multinacionais*) com o objetivo de explorar as dife-
a eliminação dos seus
concorrentes pelas baixas renças de custos de produção (matérias-primas e trabalho) e encontrar novos mercados
de preços. consumidores. Alguns estados intervieram em defesa dos interesses nacionais e da con-
corrência, restringindo ou até proibindo as fusões e a formação de monopólios(1).
* Empresas multinacionais
ou empresas transnacionais
(ETN): empresas que
operam fora do território (1)
A Lei Sherman proibia “toda a combinação sob a forma de trust ou que de outro modo constitua obstáculo ao comér-
nacional da própria sede. cio entre os estados”, mas os tribunais interpretaram-na de modo tão vago que na realidade nunca teve aplicação.
Unidade 1 - As transformações económicas na Europa e no Mundo 113

A partir de meados do século XIX, os pequenos bancos privados vão dando lugar a ban- Cronologia
cos de maior dimensão, organizados segundo o modelo empresarial de sociedades por
1849-1873
ações*. Este novo tipo de bancos, denominados em França por banques d´affaires e na Conjuntura económica
europeia de expansão.
Grã-Bretanha por joint stock banks, ocupa-se em primeiro lugar do crédito à indústria e só
1852
depois das operações bancárias tradicionais. No último quartel do século, acompanhando Criação do Crédit Mobilier.
a tendência verificada no setor industrial, o sistema bancário tende para a concentração. 1855
Fundação do Creditanstalt
Em França, o Crédit Mobilier dos irmãos Pereire, o Crédit Lyonnais (1863) e a Société Bank (Viena).
1863
Générale (1864) são os exemplos mais importantes de uma “haute-banque” especializada Fundação do Crédit
no crédito à indústria e aos grandes empreendimentos. Na Grã-Bretanha, sobressai o Lyonnais.
Loyds Bank de Londres, na Alemanha, o banco dos Rothschild e o Bank für Händel und 1864
Criação da Société Générale.
Industrie (1853). 1874-1896
Conjuntura económica
A grande produção industrial passou deste modo a estar associada à banca e a viver europeia de recessão.
na dependência da alta finança. O capitalismo industrial* triunfa, colocando-se na lide- 1886
Criação da Peugeot.
rança da economia.

– A racionalização do trabalho * Sociedade por ações:


empresa onde o capital
Comprovada a eficácia da utilização da máquina ferramenta na produção, o objetivo é fracionado em partes
ou ações que podem ser
dos estudiosos do problema foi racionalizar a ligação entre o trabalho mecânico e o tra- adquiridas ou subscritas
balho humano com vista a alcançar a máxima eficiência. por particulares, os
acionistas, que desta forma
F. Taylor (1856-1915) definiu um modelo de “gestão científica de trabalho” tendo se tornam sócios da
empresa, participando nos
como princípios básicos da organização do trabalho (taylorismo): seus resultados – lucros
ou prejuízos – na
– a separação das tarefas mentais (direção, planificação) e de execução; proporção do investimento
realizado.
– uma estreita cooperação entre a direção e o pessoal;
– a divisão metódica (racional) das fases da atividade laboral, eliminando todos os
* Capitalismo industrial:
gestos inúteis, todos os tempos mortos; fase da evolução do
– a máxima simplificação das tarefas de forma a permitir um ritmo uniforme e com- capitalismo iniciada com
a revolução industrial
passado (automatizado) do trabalho. caracterizada por um
elevado desenvolvimento
No início do século XX, o industrial norte-americano Henry Ford (1863-1947) adaptou da atividade produtiva,
pelo investimento maciço
o sistema de Taylor à sua empresa, a Ford Motor Company, desenvolvendo com um
de capital na indústria
enorme sucesso um método assente na produção estandardizada* e em cadeia que ficou e por um forte crescimento
do trabalho assalariado.
conhecido por fordismo.

A produção em série e a criação de uma linha de montagem levaram ao extremo a


* Produção estandardizada
racionalização da ligação entre o trabalho mecânico e humano. Os operários eram chama- ou estandardização:
produção uniformizada,
dos a executar tarefas extremamente simples e rigorosamente encadeadas, sem paragens
sem inovações, do mesmo
ou gastos de tempo inúteis. O trabalhador era incentivado a melhorar a produtividade do modelo ou tipo de produto,
permitindo economias
seu trabalho através de uma política salarial que recompensava os mais produtivos com
de tempo e de custos.
salários mais elevados. Desta forma, Ford conseguiu um aumento espetacular da produ-
ção dos seus automóveis, uma diminuição de custos de produção e dos preços. O auto-
móvel que até então estava apenas ao alcance da gente rica tornou-se num bem acessí-
vel a um número muito maior de bolsas. Foi assim que o seu célebre modelo T, conhecido
nos EUA por Tin Lizzie, vendeu mais de quinze milhões de unidades em dezanove anos.
114 Módulo 6 - Economia e sociedade; nacionalismos e choques imperialistas

1.2. A geografia da industrialização


– A hegemonia inglesa
A prioridade no take-off (arranque ou descolagem) industrial constituiu para a Ingla-
terra uma vantagem competitiva decisiva na luta pela hegemonia no seio da economia
europeia do século XVIII.

A vantagem adquirida no arranque da revolução industrial e os progressos alcança-


dos no desenvolvimento do processo de industrialização transformaram a Inglaterra na
“oficina do mundo”. Em 1873 assegura um terço da produção industrial mundial. A Expo-
sição Universal em Londres (1851) constituiu uma demonstração espetacular da hegemo-
nia industrial britânica e da sua supremacia tecnológica relativamente aos demais países.

Esta proeminência verifica-se também no domínio comercial e financeiro. O incremento


das vias férreas e da construção de canais fluviais e o crescimento da população e da
urbanização reforçaram a dimensão e a coesão do mercado interno.

As grandes companhias de navegação asseguravam as ligações regulares com todas as


partes do mundo: a Cunard com a América, a Peninsular e Oriental e a British India com a
Índia e o Extremo Oriente. Londres torna-se no principal centro comercial e financeiro do
maior império colonial do mundo. Este quadro de clara superioridade britânica seria ainda
? Questão
reforçado com a adoção do livre-cambismo que estimulou o comércio externo e o desen-
1. Explique a hegemonia volvimento da indústria, pois o livre-câmbio fez baixar o preço das matérias-primas.
económica inglesa no
século XIX.
– A afirmação de novas potências
A partir da revolução industrial inglesa, que constituiu simultaneamente o ponto de
partida e o modelo de referência, o processo de industrialização foi-se estendendo geo-
1780 1800 1820 1840 1860 1880 1900 1920 1940 1959
graficamente (Fig. 1) ao longo do século XIX em vagas sucessivas, ainda que com carac-
Gr‹-Bretanha terísticas e ritmos distintos, em conformidade com a capacidade de cada país de receber
Frana
EUA
e de adaptar as inovações.
Alemanha
SuŽcia Em França, a partir da década de 1830-1840, ultrapassados muitos dos constrangi-
Jap‹o
mentos naturais e humanos (dispersão e o isolamento dos mercados, fraco poder de
Rœssia
Canad‡ compra, escassez de capitais, concorrência britânica, instabilidade política e social, per-
Arranque industrial
das coloniais…), o take-off industrial pôde avançar. As vantagens proporcionadas pelo
Fig. 1. O arranque industrial.
caminho de ferro – maior facilidade e rapidez no acesso aos mercados, baixa dos custos
dos transportes e, portanto, dos preços de custo – foram rapidamente compreendidas
pelos homens do dinheiro e dos negócios atraídos pelas boas perspetivas de rendimento.
Os setores financeiro e industrial, em especial a siderurgia e a metalurgia, adquirem uma
nova dinâmica com a constituição de grandes grupos financeiros, como os Rothschild e
os Pereire.

Na Alemanha, a formação da Zollverein(2) (1834) representou um importante estímulo ao


arranque da industrialização, na medida em que permitiu criar um mercado alargado e uni-
ficado para a circulação de mercadorias.

(2)
Zollverein (1834-1870): união aduaneira entre a maioria dos estados alemães criada por iniciativa da Prússia e do
seu chanceler Bismark.
Unidade 1 - As transformações económicas na Europa e no Mundo 115

Paralelamente, recorrendo às técnicas inglesas, aos capitais franceses e ao apoio esta-


tal, os estados alemães intensificaram a exploração dos seus vastos recursos mineiros
(ferro, carvão) e construíram uma densa rede ferroviária que funcionou como motor não
só da unificação económica como também política. A unificação política, concretizada em
1871, com a proclamação do II Reich(3), e a aquisição das ricas e prósperas regiões da
Alsácia e da Lorena após a vitória nesse mesmo ano sobre a França fortaleceram a moral
e o nacionalismo alemães e impulsionaram este país para uma rápida industrialização
estimulada por uma política económica estatal autoritária e protecionista, pela concentra-
ção do investimento nas indústrias química, naval e elétrica e em estruturas empresa-
riais de grande dimensão, pela aposta na instrução e na estreita ligação da fábrica ao
laboratório. Um pouco antes de 1900, a Alemanha consegue ultrapassar a Inglaterra em
termos industriais.

No outro lado do Atlântico, os Estados Unidos da América (EUA) também avançam


para a industrialização nos anos 40. Cronologia
Nação jovem, com vontade em assumir-se como potência regional no continente ame-
1853
ricano, tirou partido de vários fatores favoráveis: Exposição Universal de
Nova Iorque.
– a vastidão do território, reforçado com importantes aquisições territoriais(4), e a
1861-1865
abundância de recursos naturais (ouro, petróleo, minérios...) proporcionaram-lhe um Guerra da Secessão.
grau elevado de autossuficiência de matérias-primas e energia; 1867
A Rússia vende o Alasca e
– a imigração de mão de obra europeia; as ilhas Aleutas aos EUA.
– a aquisição da tecnologia estrangeira, em especial inglesa, nomeadamente para a 1876
Exposição Universal de
construção das redes ferroviárias, fundamental na ligação dos vastos espaços pro- Filadélfia.
gressivamente alargados com a ocupação do Oeste(5) e na unificação do imenso 1887
mercado interno; Interstate Commerce Act
(EUA).
– a criação de fortes estruturas financeiras; a intervenção do governo federal em 1890
defesa da concorrência no mercado interno (Interstate Commerce Act, 1887, e Sher- Sherman Antitrust Law
(EUA).
man Antitrust Law, 1890), em paralelo com a adoção de uma política protecionista
relativamente ao exterior.

No final do século XIX, os EUA são já um sério concorrente à liderança económica


mundial.

O Japão foi o único país asiático que iniciou o processo de industrialização no século
XIX, fazendo-o através de um modelo de autodesenvolvimento industrial, imposto “de
cima para baixo”. O grande obreiro da transformação do Japão, um país agrícola e atra-
sado, pobre em recursos naturais e territorialmente exíguo, numa potência económica
moderna e competitiva foi o imperador Mutsu-Hito (1852-1912) que iniciou a chamada Era
Meiji ou Restauração Meiji(6) (1868-1912). A partir de 1854-1858, iniciou a abertura
Fig. 2. Um navio da frota
(controlada) do país ao exterior (Fig. 2) e introduziu reformas políticas, adotando um sis- americana no porto de
tema constitucional e o princípio da igualdade de todos perante a lei. Tóquio, em julho de 1853.

(3)
O primeiro tinha sido o Sacro-Império Romano.
(4)
A Luisiana foi comprada à França em 1803; a Florida, à Espanha em 1819; o Texas, anexado em 1845; Washington e
Oregon, tornaram-se americanos depois de um acordo com o Canadá em 1846; a Califórnia e o Novo México integra-
dos depois da guerra de 1846-1848 com o México. Os EUA têm a dimensão da Europa (9 363 000 km2) e só são exce-
didos pela Rússia, Canadá e China.
(5)
A ocupação do Oeste fez-se na base do homestead, a parcela de 65 hectares oferecida gratuitamente a qualquer
adulto que aí residisse durante 5 anos.
(6)
“Meiji” significa em japonês, “luzes” ou “progresso”.
116 Módulo 6 - Economia e sociedade; nacionalismos e choques imperialistas

No plano económico, os direitos senhoriais foram abolidos e o camponês foi incenti-


vado a melhorar a sua produtividade com a aplicação de novas técnicas ocidentais. O
Estado passou a apoiar as grandes empresas exportadoras (as Zaibatsu), adquiriu equi-
pamentos industriais e contratou técnicos no estrangeiro, ao mesmo tempo que impôs
um modelo de relações laborais à imagem e semelhança da sociedade civil, isto é, fun-
dado no respeito absoluto pela hierarquia e pela disciplina. Estes esforços reformistas
foram completados pelo estabelecimento de um sistema de instrução pública obrigatória
(1890) orientado para o desenvolvimento da sua capacidade de trabalho e do amor
nacionalista. Nas vésperas da I Grande Guerra e depois de ter derrotado a Rússia cza-
rista (1905) e anexado a Coreia (1910), o Japão era a grande potência industrial e militar
da Ásia.

– A permanência de formas de economia tradicional


Ao longo do século XIX assiste-se nos países onde o processo de industrialização está
em marcha a um fenómeno que constitui uma das principais características da evolução
do sistema capitalista: o triunfo da fábrica, uma nova forma de organização do trabalho
e da atividade industrial, sobre o sistema tradicional da produção artesanal.

Formas de organização do trabalho e da No entanto, as formas de organização da produção características


atividade industrial da era pré-industrial (artesanal e oficinal) mantiveram-se ativas. Mas

Produção artesanal Produção mecanizada – as pequenas unidades de produção de tipo familiar que empregam
tradicional grande indústria uma mão de obra muito pouco ou nada especializada e laboram com
• Dispersão das oficinas • Concentração da métodos de fabrico tradicionais e de fraca produtividade veem dimi-
e fraca divisão do produção e de mão de nuir seriamente as suas capacidades competitivas e muitas não sobre-
trabalho obra (cada vez mais)
especializada. vivem.
• Fontes de energia • Adoção de técnicas de O desenvolvimento da industrialização e do capitalismo não podia
pouco eficazes (força produção mecanizada.
muscular e hidráulica) deixar de se fazer sentir nos campos. O processo de transformação das
e manipulação de
estruturas agrárias – designado por “revolução agrícola” – induziu
instrumentos.
aumentos de produtividade e de rendimentos das culturas e da cria-
• Investimentos • Investimentos
reduzidos avultados. ção de gado. Mas, o ritmo e a profundidade dessas transformações
• Consequências: • Consequências: não foram iguais nem gerais na Europa, variando segundo os países e
produção limitada, produção cada vez
as regiões: no noroeste europeu, o mundo rural modernizou-se e pros-
fracos lucros, poucos maior, tornando
benefícios sociais. possível a realização perou; na Europa continental e mediterrânica, continuou limitado por
de grandes lucros e o
alargamento dos
estruturas arcaicas, feudalizantes.
benefícios sociais.
O desenvolvimento da industrialização revolucionou também o
comércio: o caminho de ferro aproximou os mercados, intensificou as trocas e permitiu
a venda por correspondência. Mas as formas tradicionais do comércio, nomeadamente
os vendedores ambulantes e as feiras, continuaram a ter um papel importante no abas-
tecimento das populações.
Unidade 1 - As transformações económicas na Europa e no Mundo 117

1.3. A agudização das diferenças


– A confiança nos mecanismos autorreguladores do mercado
Os economistas liberais ou “clássicos” – Adam Smith (1723-1790), Jean-Baptiste Say
(1767-1832) e David Ricardo (1772-1823) – acreditavam na existência de uma ordem
económica natural, pelo que o Estado deveria por isso dispensar-se de toda a interven-
ção, porque só a liberdade permitiria o funcionamento eficaz dos mecanismos autor-
reguladores do mercado, responsáveis pela manutenção do equilíbrio da economia:
– o interesse individual que assegura a produção dos bens necessários à satisfação
das necessidades humanas;
– o mecanismo dos preços que adapta a oferta à procura, evitando tanto a escassez –
a subida do preço de um bem raro atrai os investidores mobilizados pelo objetivo do
lucro pelo que a oferta desse bem aumenta – como também o excesso – a baixa do
preço de um bem abundante desincentiva a sua produção e a diminuição da sua oferta.

Estes princípios fundamentais do liberalismo económico, que se traduziram no laissez * Livre cambismo: princípio
faire, laissez passer, foram também aplicados nas relações económicas internacionais. do liberalismo económico
segundo o qual o comércio
Para obter um maior grau de vantagens cada um dos países deveria especializar-se na livre entre as nações, isto
produção dos bens em que tem vantagem, em cuja produção é mais eficiente, isto é, que é, liberto da interferência
do Estado e de barreiras
produz melhor ou mais barato (princípio da vantagem absoluta). É o ponto de partida de qualquer espécie,
para a defesa do livre cambismo*. As trocas comerciais – e a circulação dos meios de é a melhor política
comercial, aquela que
pagamento e os investimentos de capitais – devem ser livres, libertos de constrangimen- maior bem-estar
tos ou obstáculos, e realizar-se exclusivamente por iniciativa e ação de agentes privados. proporciona às sociedades.

– As crises do capitalismo
A história do capitalismo mostra-nos que o formidável crescimento económico que ele ? Questão
suscitou não se processa de uma forma linear mas numa sucessão de ciclos económicos 1. Identifique os mecanismos
de duração variável(7), constituídos por um período de expansão ou prosperidade que- autorreguladores num
mercado livre e explicite
brado por uma crise, responsável pelo período de recessão ou depressão que se lhe
o seu funcionamento.
segue. Finalmente, dá-se a recuperação que lança a economia numa nova fase de expan-
são e dá início a um novo ciclo económico(8).

As crises económicas constituem uma constante na história da evolução do capita-


lismo. No entanto, estas divergem relativamente às suas características e aos fatores que Cronologia
as explicam. Assim, até meados do século XIX, as crises são de subprodução, provoca-
Ciclos e fases ou
das quer pelo fator estrutural da incapacidade do homem em responder com o aumento conjunturas da economia
europeia (1790-1920):
da produção ao ritmo mais rápido de crescimento da população, quer devido à conjuga-
1790-1815 – Fase A
ção de fatores conjunturais, como a “sinistra trilogia” da fome, peste e guerra. Para além
1816-1847 – Fase B
de serem de subprodução, estas crises têm origem no setor agrícola, nas más colheitas 1848-1872 – Fase A
que geram num primeiro momento a escassez de cereais e a alta do seu preço e, num 1783-1795 – Fase B
segundo, a fome, as doenças, a peste e a falta de braços que prolonga e acentua a crise. 1896-1920 – Fase A

(7)
Na evolução do capitalismo distinguem-se ciclos curtos ou de Kitchin (de 3 a 5 anos), ciclos médios ou de Juglar
(de 6 a 10 anos) e ciclos longos ou de Kondratieff (de 40 a 50 anos). As tendências seculares de alta ou de baixa
denominam-se de trends.
(8)
O indicador utilizado pelos economistas para determinar as fases de um ciclo económico é o movimento dos preços.
Por isso, também se denomina o período de expansão por Fase A ou de alta de preços e o de recessão por Fase B ou
de baixa de preços.
118 Módulo 6 - Economia e sociedade; nacionalismos e choques imperialistas

Na segunda metade do século XIX, numa altura em que a industrialização caminhava


para a maturidade e se estendia a novos países, a economia europeia confrontou-se com
* Crise cíclica: o mesmo que um fenómeno novo: o retorno periódico das crises, as crises cíclicas*. O fator decisivo
crise periódica, isto é, crise
aqui não é como no passado a escassez, mas a abundância, a superprodução: a produ-
que ocorre com
regularidade. ção industrial em alta não encontra no consumo um nível correspondente.

Para além deste fator conjuntural, as crises de superprodução decorrem de um fator


estruturante do espírito que anima o sistema capitalista: a procura incessante do aumento
da produtividade e do lucro.

– O mercado internacional e a divisão internacional do trabalho


A mundialização (parcial) das trocas (Fig. 3), favorecida pela expansão da industriali-
zação, pela revolução dos transportes e das comunicações, pelo incremento do comércio
* Divisão internacional do internacional, promoveu a divisão internacional do trabalho*, criando deste modo uma
trabalho: princípio que
relação de interdependência ou complementaridade internacional entre as economias dos
defende que cada país
deve especializar-se na países industrializados e as economias dos países e/ou regiões não industrializados ou
produção daquele (s) bem periféricos. Aqueles passaram a depender das importações ultramarinas de matérias-pri-
(ou bens) que produz
melhor ou mais barato, mas e bens alimentares; estes dos produtos manufaturados.
exportando os seus
excedentes em troca Mas desta relação fundada num sistema de trocas de valor desigual (os bens indus-
de produtos importados. triais tinham um valor relativo muito superior ao valor dos bens primários) aproveitou
sobretudo a Europa. Para os países/regiões não industrializados resultaram consequên-
cias, algumas positivas (imigração de pessoas e capitais…), outras negativas (dependên-
cia económica, política e até cultural), cujos efeitos ainda perduram.

? Questão BçLTICO
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1. Descreva o padrão
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COLîNIAS Alimentos êNDIAS Contrabando AMƒRICA


DO SUL OCIDENTAIS dinheiro LATINA

Manufaturas: especialmente txteis, n‹o necessariamente autoproduzidos ou consumidos


Alimentos: incluindo tabaco e peixe
Servios: especialmente marinha mercante
Dinheiro: em moeda, ouro em barras e letras de c‰mbio
MatŽrias-primas: especialmente madeira e outras provis›es navais e ferro (do B‡ltico)

Fig. 3. O comércio multilateral no século XIX.


Unidade 2 - A afirmação da sociedade industrial e urbana 119

Unidade 2 A afirmação da sociedade industrial e urbana


SUMÁRIO
2.1. A explosão populacional; a expansão urbana e o novo urbanismo; migrações internas e emi-
gração
2.2. Unidade e diversidade da sociedade oitocentista*

APRENDIZAGENS RELEVANTES
– Relacionar o papel da burguesia, como nova classe dirigente, com a expansão da indús-
tria, do comércio e da banca**.
– Identificar as oportunidades oferecidas pelo capitalismo oitocentista à formação de uma
nova classe média**.
– Reconhecer, nas formas que o movimento operário assumiu, a resposta à questão social
do capitalismo industrial**.

CONCEITOS/NOÇÕES
Explosão demográfica**; Profissões liberais; Consciência de classe; Sociedade de classes**; Proleta-
riado; Movimento operário**; Socialismo**; Marxismo**; Internacional operária

* Conteúdos de aprofundamento
** Aprendizagens e conceitos estruturantes

2.1. A explosão populacional; a expansão urbana e o novo


urbanismo; migrações internas e emigração
O século XIX registou um extraordinário aumento demográfico em quase todo o
Mundo, sobretudo na Europa, cuja população cresceu a um ritmo de tal modo acelerado
que pode falar-se em “explosão demográfica”*. * Explosão demográfica:
designa o forte
Este crescimento rápido, que transformou o Velho Mundo num continente exportador crescimento da população
em consequência das
de homens, explica-se sobretudo pela diminuição da mortalidade em consequência da alterações verificadas
melhoria geral das condições de vida (higiene, alimentação, saúde…). na estrutura demográfica
das sociedades
A descida da taxa de mortalidade, em paralelo com o aumento da esperança média industrializadas do século
XIX (“revolução
de vida e o decréscimo das taxas de fecundidade e de natalidade, foram desenhando um
demográfica”): redução das
novo regime ou modelo demográfico, já liberto do poderoso entrave ao crescimento taxas de mortalidade,
manutenção das taxas
populacional constituído pelas crises demográficas do passado.
de natalidade elevadas
e o aumento da esperança
O impacto do aumento da população tornou-se notado sobretudo nas cidades que
média de vida.
conheceram um crescimento ainda mais espetacular do que o da população global.
As cidades já existentes tornaram-se grandes cidades, em particular aquelas que goza-
vam de uma situação geográfica privilegiada e as que constituíam grandes centros eco-
nómicos e administrativos. Ao mesmo tempo, surgiram novas cidades.

O fenómeno urbano é, essencialmente, um fenómeno demográfico e resulta de uma


convergência de fatores:
– o afluxo dos camponeses impelidos ao êxodo rural pelo superpovoamento dos cam-
pos, pelas expropriações e pela fuga à ruína e pelas oportunidades de emprego e
a miragem de uma vida melhor na cidade;
120 Módulo 6 - Economia e sociedade; nacionalismos e choques imperialistas

– a concentração da produção industrial nas zonas urbanas;


– o desenvolvimento do setor terciário (comércio e serviços) cujos progressos multi-
plicaram as ofertas de emprego e as oportunidades de negócios;
– a revolução dos transportes que veio facilitar a mobilidade das populações.

A concentração acelerada e caótica de enormes massas humanas em espaços urba-


nos limitados fez surgir uma série de novos e graves problemas: o abastecimento das
populações, a circulação de pessoas e de mercadorias, o saneamento e a saúde pública,
a habitação, a administração e a ordem pública. Para além disso, provocou alterações
? Questão radicais no modo de vida das pessoas e das coletividades.

1. Que problemas Para solucionar ou atenuar estes problemas, a intervenção dos poderes públicos tor-
urbanísticos colocou nou-se inevitável. Na segunda metade do século XIX, o urbanismo e as suas propostas
o fenómeno do crescimento
das cidades do século XIX? de remodelação das áreas urbanas vão transformando, a um ritmo dependente da con-
juntura económica, a fisionomia das grandes cidades(1).

Migrações internas e emigração


No século XIX, a conjugação de vários fatores favoreceu os movimentos migratórios
internos e os movimentos emigratórios internacionais.

Relativamente aos primeiros, para além das migrações sazonais, o movimento migra-
tório mais significativo foi o êxodo rural, estimulado por fatores de repulsa (superpovoa-
mento, pobreza) e de atração (apelo irresistível da vida urbana).

A emigração europeia intercontinental na primeira metade do século XIX é relativa-


mente modesta. O forte crescimento populacional, as crises económicas, sociais e políti-
cas que atingem a Europa do Noroeste entre 1845 e 1853 elevaram o número de emi-
grantes, na sua maioria anglo-saxónicos (ingleses, irlandeses), alemães e escandinavos.

Depois de um período estacionário, à entrada do último quartel do século XIX, período


em que em que se verifica um surto industrial nos países de emigração, o fluxo reinicia-se
e acentua-se: contrai-se a emigração do norte europeu e começam a elevar-se os contingen-
tes de emigrantes latinos da Europa mediterrânica e eslavos da Europa Central e do Leste.

Os Estados Unidos da América, um país abundante em terra e oportunidades e caren-


ciado de homens, é o destino da maior parte destes emigrantes. Também a América
Latina, em especial o Brasil, que também se debatia com falta de mão de obra (expan-
são da cultura do café e abolição da escravatura), e a Argentina recebem massas impor-
tantes de emigrantes portugueses, espanhóis e italianos.

Os continentes africano e asiático não atraíram um interesse significativo dos emigran-


tes europeus no século XIX. Apesar da escalada imperialista europeia em África depois da
Conferência de Berlim (1884-1885), apenas a África do Sul (descoberta de ouro e diaman-
tes) acolheu um número importante de emigrantes brancos. No caso da Ásia, à distância
física considerável acrescentava-se uma distância cultural de muito maior peso e ainda a
falta de abertura das autoridades e das hierarquias sociais aos contactos exteriores.

(1)
O plano de remodelação urbanística de Paris, executado pelo barão Haussmann entre 1850-70, constituiu o modelo
deste novo urbanismo assente em princípios estéticos e de racionalidade.
Unidade 2 - A afirmação da sociedade industrial e urbana 121

2.2. Unidade e diversidade da sociedade oitocentista

– Uma sociedade de classes


Nos estados onde triunfou o liberalismo, a abolição dos privilégios de nascimento e
a consagração constitucional da igualdade jurídica de todos os cidadãos perante a lei
deu um golpe mortal no predomínio social e político da aristocracia de casta ou linha-
gem, provocando uma profunda revolução social com a supressão da sociedade de
ordens e a criação de uma sociedade de classes*. * Sociedade de classes:
sociedade característica do
Esta nova sociedade é mais flexível e dinâmica, caracterizada por uma grande mobi- regime liberal e capitalista,
móvel e estruturada em
lidade social, tanto ascendente como descendente. O espírito de iniciativa e o esforço categorias sociais
individual tornam-se os novos critérios de valorização social, ao mesmo tempo que a (classes), tendo por base,
fundamentalmente,
riqueza, a cultura e o desempenho de cargos de prestígio na política ou no exército são critérios de natureza
os novos caminhos para a afirmação social em substituição do privilégio ou da herança económica (riqueza).

do Antigo Regime.

– A condição burguesa: proliferação do terciário e incremento das classes médias


Ao longo do século XIX, acompanhando o dinamismo económico global da Europa
capitalista vai-se desenvolvendo o setor terciário (comércio e serviços) e com ele dá-se
o incremento da pequena e média burguesias, as classes médias.

Integrando uma grande diversidade de categorias profissionais (profissões liberais,


pequenos empresários, quadros da administração e funcionários) e pessoas com instru-
ção e rendimentos muito desiguais, as classes médias constituem uma massa de pessoas
fundamentalmente urbana, heterogénea e sem uma verdadeira consciência de classe*, * Consciência de classe:
identificação
isto é, sem coesão nem identidade própria. Estas categorias sociais e profissionais só e solidarização de
têm em comum o facto de viverem, total ou parcialmente, de rendimentos obtidos em interesses comuns por
parte de uma dada
fontes diversas mas não no trabalho dos seus braços. categoria ou estrato social.

À medida que a organização e dimensão das empresas e o setor terciário se desen-


volviam, cresceu entre as classes médias, em número e influência, um grupo constituído
por uma mão de obra qualificada, os denominados “colarinhos brancos”. Com mais ambi-
ção do que rendimentos, os “colarinhos brancos” são o espelho da nova sociedade
industrial, individualista e aberta, que valoriza o mérito e o bem-estar.

– Valores e comportamentos
O prestígio dos nomes e o brilho do modo de vida da velha aristocracia cativaram
uma grande parte das elites burguesas que, sem uma verdadeira consciência de classe,
começaram por adotar o padrão de vida da velha aristocracia, copiando-lhe os gostos e
os hábitos requintados, incluindo as práticas filantrópicas (caridade) através das quais a
alta burguesia busca o reconhecimento social.

Todavia, à medida que vai adquirindo consciência da dimensão do seu sucesso e dos
meios necessários para o manter, a alta burguesia faz questão de proclamar a superiori-
dade de determinados valores que considera seus e que lhe abriram as portas do êxito:
122 Módulo 6 - Economia e sociedade; nacionalismos e choques imperialistas

a defesa intransigente da moral e da família, a valorização do trabalho, da poupança e do


mérito individual. Os exemplos de indivíduos que acumularam grandes fortunas e atingi-
ram o topo da hierarquia social, quando, à partida, dispunham de poucos ou nenhuns
recursos, deram mais força e credibilidade àqueles valores e ao mito do êxito individual,
o self-made man”(2). Por isso, na escala dos valores burgueses oitocentistas a instrução e
a cultura têm um lugar tão importante como o dinheiro, não sendo raros os exemplos de
indivíduos pobres ou de fracos recursos que alcançaram um grande sucesso social e até
político. No entanto, a situação mais comum era a conjugação do dinheiro e da instrução.

? Questões Acomodada ao sucesso e ao poder, a burguesia foi perdendo o caráter revolucioná-


rio, que a caracterizara inicialmente, para se transformar na guardiã da ordem estabele-
1. Como se explica
o incremento das classes cida, a ordem burguesa, adotando uma atitude mais conservadora. Para a burguesia, o
médias no século XIX? importante era defender a propriedade, fonte do rendimento que proporciona a segu-
2. Em que condições
rança, o prestígio social e a influência política. Este conservadorismo social e político não
o operariado vivia e
trabalhava no século XIX? se restringe à alta burguesia, caracteriza também as classes médias que viviam com os
3. Como se explica olhos postos na alta burguesia, estrato que sonhavam alcançar e cujos comportamentos
a extrema precariedade
procuravam copiar sem contudo disporem de recursos económicos para tal. Ao mesmo
das condições de vidas do
operariado oitocentista? tempo, a consciência da precariedade da sua situação económica e social e sobretudo o
medo de descer à condição do operariado industrial levaram as classes médias a adotar
uma relação de reverência e de aceitação para com a ordem estabelecida.

– A condição operária: salários e modos de vida


A industrialização induziu profundas alterações no trabalho humano, nas condições
de vida e de trabalho do homem. A mecanização da produção e a especialização das tare-
fas, o crescimento populacional e o êxodo rural concorreram para desvalorizar o traba-
lho dos operários e agravar as suas condições de vida e de trabalho (Fig. 1) colocando-
-os numa situação de dependência total face aos empresários industriais:
– salários baixos (inexistência de regulamentação, tabelas salariais e mão de
obra numerosa);
– horários muito longos (quinze ou dezasseis horas por dia e seis dias por
semana e sob uma dura disciplina);
– instalações precárias (locais de trabalho mal arejados, húmidos e acanha-
dos, propícios à propagação de doenças e aos acidentes de trabalho);
– ausência de proteção (quer no desemprego quer na doença ou na velhice);
Fig. 1. Os grandes problemas – trabalho infantil e feminino (salários de 1/3 dos que são pagos aos
do operariado no século XIX.
homens).

Estas penosas condições de trabalho foram agravadas pelas difíceis condições de


habitação e de alimentação (alojamento junto das fábricas, em bairros degradados, com
prédios de má construção e insalubres e onde proliferam o alcoolismo, a prostituição,
a vagabundagem e a mendicidade).

(2)
A imagem do self-made man, o homem de sucesso que se faz por si próprio, contando exclusivamente com o seu
esforço e talento, sem favores ou ajudas externas, serviu à burguesia sobretudo para justificar as desigualdades
sociais: a riqueza e o poder dependeriam do talento individual pelo que estariam ao alcance de todos.
Unidade 2 - A afirmação da sociedade industrial e urbana 123

– O movimento operário: associativismo e sindicalismo Cronologia

O crescimento das classes operárias e a extrema miséria social e moral em que viviam, 1834
agravada para além dos limites possíveis nas fases de depressão económica e pelo cres- Fundação da União
Nacional de Sindicatos
cimento demográfico, levou os operários a tomar gradualmente consciência da sua con- (Inglaterra).
dição operária e a encetar esforços de organização no sentido de lutar pela defesa do 1841
Fundação do Sindicato dos
que considerava serem os seus interesses, dando forma ao que a historiografia designa Mineiros, em Inglaterra.
por movimento operário*. 1848
Manifesto do Partido
As primeiras reações operárias até meados do século XIX inscrevem-se ainda no Comunista, por K. Marx e
F. Engels.
modelo de tumulto popular tradicional, revoltas localizadas, sem ideologia definida, sem
1864
organização formal, cujas formas mais generalizadas são a greve ou recusa ao trabalho Fundação da Associação
e a destruição da maquinaria industrial, tida como responsável pela desvalorização do Internacional dos
Trabalhadores
seu trabalho e consequente quebra dos seus salários e o desemprego. Em Inglaterra, (“I Internacional”).
onde estas reações são mais violentas e generalizadas, fez-se notar, na segunda década 1871
Proclamação da Comuna
do século XIX, o movimento dos ludds ou luddites(3).
de Paris.
Legalização das Trade
O fracasso destas reações espontâneas, anárquicas, vai convencer os operários da Unions, em Inglaterra.
necessidade de concentrar esforços na organização de um movimento operário forte e 1889
estruturado. As primeiras organizações operárias são ainda inspiradas nos princípios e Fundação em Paris da
II Internacional.
objetivos mutualistas das velhas corporações de ofícios do Antigo Regime. 1895
Fundação da Confederação
O movimento operário de caráter sindical ou de classe surge na Grã-Bretanha. Tendo Geral dos Trabalhadores
sido o primeiro país a industrializar-se, é também o primeiro a reconhecer a liberdade de (CGT), em França.

associação e de coligação (lei de 1824), na sequência da qual se organizarão os primei-


* Movimento operário:
ros sindicatos (trade-unions).
designação dada aos
esforços de organização
Em França, bolsas e federações uniram-se numa organização mais vasta que integra
do operariado no sentido
todos os sindicatos, a Confederação Geral do Trabalho (CGT) (1895), a primeira grande de reforçar a sua coesão
e orientar a sua luta
central sindical francesa.
reivindicativa na defesa do
que considerava serem os
– As propostas socialistas de transformação revolucionária da sociedade seus interesses. Podemos
distinguir neste movimento
duas grandes vertentes:
Os socialistas utópicos a sindical (sindicatos) e a
política (partidos políticos).
A partir do momento em que toma consciência do seu peso político e da necessidade
de modificar o quadro legislativo favorável à burguesia capitalista, o movimento operá-
* Socialismo: Doutrina de
rio passa a associar uma outra vertente, a política, com a formação dos partidos operá- reforma social que põe em
rios. Os objetivos destes partidos são mais vastos do que a satisfação das reivindicações causa os princípios do
modelo económico e social
sindicais: transformar a sociedade, criar as condições para uma nova ordem social mais do capitalismo liberal –
justa. Esta aspiração identifica-se claramente com o socialismo*. a iniciativa individual,
a concorrência,
As primeiras propostas ou ideias socialistas de reforma económica e social com vista a propriedade privada –
e defende que todos (ou
à concretização do ideal de uma sociedade mais justa e equitativa foram apresentadas, quase todos) os meios de
entre 1815 e 1848, por um conjunto diversificado de pensadores, doutrinários e até de produção devem ser
propriedade da
industriais. comunidade, promovendo,
deste modo, uma
repartição dos
rendimentos do capital
(3)
Movimento dos ludds ou luddites: grupos de artesãos organizados que, liderados por um real ou imaginário “Rei mais igualitária e a justiça
Ludd”, mascarados e a coberto da noite, assaltavam as fábricas para destruir as máquinas. social.
124 Módulo 6 - Economia e sociedade; nacionalismos e choques imperialistas

Cronologia Em Inglaterra, Robert Owen (1771-1858) procurou fazer das suas empresas modelos
de harmonia e de justiça nas relações laborais: reduziu os horários de trabalho e promo-
1872
Fundação da Associação veu a educação e instrução dos trabalhadores; propôs a formação de cooperativas de
Fraternidade Operária produção e de consumo.
Portuguesa.
Primeiras greves em Lisboa. Em França, Saint-Simon, Charles Fourier, Louis Blanc e Proudhon (1802-1864), este o
1875
Fundação do Partido mais ousado, condenou o lucro obtido à custa dos esforços suplementares do trabalha-
Socialista Português. dor e o juro como contrários à justiça e considerou o Estado inútil, declarando-se, por
1884 isso, “anarquista”.
Partido Operário Belga.
1888
Partido Socialista Operário O socialismo revolucionário
Espanhol.
1889
Partindo do princípio de que o capitalismo é, essencialmente, um regime de explora-
Fundação da II Internacional. ção humana e que o capital e o trabalho são inconciliáveis, Karl Marx (1818-1883)(Fig. 2)
1890 incita o proletariado(4) à união e à insurreição com vista à tomada do poder. A este ato
As primeiras
comemorações do 1.o de revolucionário seguir-se-ia numa primeira fase a ditadura do proletariado que dirigiria o
maio. processo da supressão do sistema económico e social capitalista e instalaria as bases de
1892
Partido Socialista Italiano. um sociedade sem classes nem exploração. Numa segunda etapa, fase superior do comu-
nismo, o Estado dissolver-se-ia e surgiria uma sociedade nova, harmoniosa, assente no
princípio de “a cada um segundo as suas necessidades”.

As conceções marxistas não podiam deixar de repercutir-se no movimento operário.


O seu apelo à união do proletariado de todo o mundo (O Manifesto do Partido Comu-
nista de 1848, da sua autoria e de Friedrich Engels) esteve na origem da Associação
Internacional dos Trabalhadores (AIT), em 1864.

Fig. 2. ”Proletários de todos os países, uni-vos!”. Estandarte sindical do fim


do século XIX, expressando o apelo de Marx e Engels no Manifesto do Partido
Comunista.

(4)
Proletariado: termo utilizado por Marx para caracterizar o trabalhador do século XIX livre, desprovido de propriedade
ou de qualquer outra fonte de rendimento, que não seja a sua força de trabalho que é obrigado a vender por um preço
(salário).
Unidade 3 - Evolução democrática, nacionalismo e imperialismo 125

Unidade 3 Evolução democrática, nacionalismo e imperialismo


SUMÁRIO
3.1. As transformações políticas
3.2. Os afrontamentos imperialistas: o domínio da Europa sobre o mundo

APRENDIZAGENS RELEVANTES
– Identificar os progressos do processo de democratização dos regimes liberais ao longo do
século XIX e princípios do século XX.
– Relacionar o movimento das nacionalidades com a ideologia liberal.
– Relacionar as rivalidades e a partilha imperiais com os interesses políticos e económicos
das grandes potências.

CONCEITOS/NOÇÕES
Demoliberalismo**; Imperialismo**; Colonialismo**; Nacionalismo

* Conteúdos de aprofundamento
** Aprendizagens e conceitos estruturantes

3.1. As transformações políticas


– A evolução democrática do sistema representativo; os excluídos da democracia
representativa
A realidade dos regimes liberais oitocentistas mostra-nos que estes estavam longe de
constituírem modelos de coerência e de democracia, como o demonstram vários aspetos
comuns a estes regimes:
– a persistência da hereditariedade (monarquias hereditárias, câmaras não eletivas); Cronologia
– as limitações ao exercício de cargos políticos (instrução, rendimentos, não remune- Reconhecimento do direito
ração dos cargos políticos); de voto às mulheres
1920
– a restrição do corpo eleitoral à minoria dos cidadãos ativos através do sufrágio mas- EUA
culino, indireto e censitário. 1928
Grã-Bretanha
Nos finais do século XIX, estas situações discriminatórias e antidemocráticas provoca- 1933
ram compreensivelmente reações contrárias por parte dos excluídos do sistema – mulhe- Portugal
1944
res, operários, agricultores e uma grande parte da pequena burguesia, que constituíam França
a esmagadora maioria da população, e dos que defendiam a sua causa – que se mobili-
zaram no sentido de lutarem por aquilo que consideravam ser os seus direitos. As gre-
ves e as manifestações de rua multiplicaram-se e a imprensa tornou-se mais interessada
nestes problemas. Paralelamente, a difusão das ideias socialistas, republicanas e sindi-
calistas foram ganhando cada vez mais adeptos. * Sufrágio universal:
sistema de votação aberto
Ao longo do século XX, nos países mais industrializados da Europa Ocidental e nos a todos os cidadãos sem
EUA, ainda que de forma lenta e frequentemente violenta, os regimes liberais foram restrições de qualquer
ordem (sexo, riqueza, raça,
registando importantes progressos: a adoção progressiva do sufrágio universal*; a remu- escolaridade, estado
civil...), para além da idade
neração dos cargos políticos; a formação de partidos de massas; o alargamento da ins-
mínima (maioridade)
trução; a perda de influência ou o desaparecimento das câmaras não eletivas; o reforço exigida a todos.
126 Módulo 6 - Economia e sociedade; nacionalismos e choques imperialistas

dos poderes dos parlamentos; a admissão do voto direto e secreto e do referendo; a


separação entre o Estado e a Igreja (Estado laico); a implementação de reformas sociais
e laborais (a contratação coletiva, legalização do sindicalismo, do direito à greve, jorna-
das de trabalho de oito horas, apoio na doença, desemprego e reforma...).
* Demoliberalismo: ideologia O liberalismo vai evoluindo, desta forma, para o demoliberalismo*.
liberal e democrática que
defende não só os
princípios da democracia – As aspirações de liberdade nos estados autoritários e os movimentos de
liberal representativa
(soberania popular,
unificação nacional
separação dos poderes
A Europa industrializada, burguesa e liberal não representava, contudo, toda a
e direitos do
individualismo), mas Europa. Neste velho continente subsistiram, em alguns estados do sul e principalmente
pretende alargar
a democracia aos direitos
no leste da Europa, até ao fim da I Guerra Mundial, regimes políticos autoritários* e
sociais e económicos dos imperialistas, monarquias autocráticas apoiadas nas elites privilegiadas do Antigo Regime
cidadãos.
(oligarquias fundiárias e religiosas), no exército e nas forças policiais e cujo poder se
estendia sobre diferentes países e nações.
* Regimes autoritários:
estados despóticos que se
Os representantes desta velha Europa encontravam-se no Império Otomano, já em
fundamentam no poder decadência, no Império Austro-Húngaro, no extenso Império Russo e até no Império Ale-
e na autoridade de uma
minoria que governa de
mão, a despeito, neste último, do seu extraordinário desenvolvimento económico, demo-
modo arbitrário gráfico e cultural.
e repressivo, apoiada no
exército e nas forças Em todos estes estados foi dura e demorada a luta pela democratização levada a cabo
policiais.
quer pelas suas populações quer pelas minorias nacionais ou étnicas que se encontra-
vam no interior desses impérios, encorajadas pela oposição político-ideológica de raiz
* Nacionalismo: sentimento liberal e nacionalista. A associação entre o liberalismo e o nacionalismo* gerou dois tipos
de pertença a uma
de nacionalismos:
determinada comunidade
étnica e cultural (nação). – o nacionalismo democrático, anti-absolutista e anti-imperialista, que esteve na ori-
Levado ao extremo,
o nacionalismo tende gem das vagas revolucionárias na Europa, entre 1830 e 1848, e dos movimentos de
a desenvolver uma atitude emancipação nacional nos impérios Austríaco, Russo e Otomano;
de superioridade ou
desprezo pelas demais – o nacionalismo unitário, que gerou os movimentos de unificação da Itália (1870),
nações e a suscitar
e justificar ambições de e da Alemanha (proclamação do II Reich, em 1871).
expansão (imperialismo).
3.2. Os afrontamentos imperialistas: o domínio da Europa sobre
o mundo
No século XIX novos e importantes desenvolvimentos consagraram o domínio da
Europa sobre o mundo. Durante a primeira metade do século houve apenas um império
verdadeiramente grande, o Império Britânico(1). Para além dos britânicos, só a França no
norte de África e a Rússia e os EUA, avançando através das respetivas massas territo-
riais, mostravam ambições expansionistas.

A partir do último quartel do século XIX, as circunstâncias alteraram-se. Aprovei-


tando o declínio dos antigos impérios Chinês, Otomano e Persa e apoiadas na liderança
tecnológica e industrial, as principais potências europeias (e os EUA) intensificaram a

(1)
No final da época da rainha Vitória (1819-1901), os ingleses orgulhavam-se de que ela governava um império “no qual
o Sol nunca se punha”, o que era efetivamente verdade.
Unidade 3 - Evolução democrática, nacionalismo e imperialismo 127

concorrência pelo controlo de novos territórios e mercados (Fig. 1). No Oriente, depois Cronologia
da China (1842) e o Japão (1853) terem sido forçados a abrir os seus portos ao comér-
1840-1842
cio ocidental, os Franceses expandiram o seu domínio no sudeste asiático (Indochina). Guerra do Ópio: abertura da
Na Ásia Central, a Rússia estendeu o seu domínio à custa de novas anexações territoriais China ao comércio com o
Reino Unido.
e esforçou-se por realizar o seu velho sonho de abrir um acesso direto ao Mediterrâneo, 1853
objetivo que esteve na origem do conflito com a Turquia (Guerra da Crimeia, 1853- O americano Perry entra no
porto de Tóquio à frente de
-1854)(2). Em África, assistiu-se a uma escalada sem precedentes desenhada pela Confe- uma frota naval exigindo
rência de Berlim (1884-1885), à medida dos interesses das antigas (Grã-Bretanha e França) a abertura do Japão ao
comércio ocidental.
e das novas potências europeias (Itália e a Alemanha). 1853-1854
Guerra da Crimeia entre a
Na origem da intensificação de um colonialismo* imperialista europeu (e norte-ameri- Rússia e a Turquia.
cano) que nada parecia deixar escapar estão a aquisição e controlo das fontes de maté- 1862
França consolida o seu
rias-primas, de novos mercados consumidores, o investimento do capital excedente e domínio colonial em África
ambições neocoloniais. (Senegal e Argélia).
1867
No início do século XX, as relações internacionais estavam longe da estabilidade de Rússia vende o Alasca
e as ilhas Aleutas aos EUA.
algumas décadas atrás. As rivalidades políticas e económicas, as tensões nacionais e
1868
étnicas e a corrida armamentista tornavam a ordem internacional extremamente instável. Mutsu-Hito inicia a
O primeiro conflito mundial não tardaria. modernização/ocidentalização
do Japão.
1884-1885
Conferência de Berlim:
partilha da África entre as
potências europeias.
Fig. 1. Soldados das 1890
”Grandes Potências do Ultimato inglês a Portugal.
Mundo” (da esquerda para 1904-1905
a direita): Japão, EUA, Guerra russo-japonesa.
Alemanha, Grã-Bretanha,
França, Rússia, Itália e
Áustria-Hungria. * Colonialismo: designa
a expansão comercial e/ou
N territorial praticada por
Marrocos Mar Mediterr‰neo
çsia Em 1878 Em 1879-1890
Brit‰nico
companhias comerciais ou
ArgŽlia
Tun’sia Francs por estados, assim como o
Rio de Ouro Egito Portugus processo ou formas
Alem‹o de dominação política,
Belga
Senegal económica e cultural
Uadai Eritreia Som‡lia
Sokoto Bomu Italiano
G‰mbia Madl brit‰nica
Espanhol utilizadas.
Samori Abiss’nia
Serra Ashanti
Leoa Camar›es Som‡lia
Togo italiana Estados africanos
LibŽria Costa do
Ouro Lagos Estado Boer
Congo çfrica oriental ImpŽrio Otomano
Congo belga brit‰nica
francs çfrica oriental
alem‹
Angola
Mashona
Moambique
Sudoeste Matabele
africano
OCEANO alem‹o Botswana
ATLåNTICO Boers
OCEANO
êNDICO

Col—nia do Cabo ? Questões


0 1000 km
1. Justifique o reforço
Fig. 2. A escalada do colonialisno imperialista em África no último quartel do imperialismo na
do século XIX. segunda metade do século
XIX.
(2)
Esta guerra é um exemplo da rivalidade que então existia entre as grandes potências: a Grã-Bretanha e a França 2. Avalie as consequências
colocaram-se ao lado dos Turcos contra os Russos. desse facto.
128 Módulo 6 - Economia e sociedade; nacionalismos e choques imperialistas

Cronologia Unidade 4 Portugal, uma sociedade capitalista dependente


1820
Revolução Liberal (1820). SUMÁRIO
1822
– A Regeneração entre o livre-cambismo e o protecionismo (1850-1880)*
1.a Constituição Portuguesa.
– Entre a depressão e a expansão (1880-1914)*
1822
Proclamação da – As transformações do regime político na viragem do século (1890-1916)*
Independência do Brasil.
1823-1824 APRENDIZAGENS RELEVANTES
Reação absolutista: – Integrar o processo de industrialização português no contexto geral, identificando os fato-
Vilafrancada (1823)
res que o limitaram**.
e Abrilada (1824).
1828-1834 – Compreender as condições em que ocorreu o esgotamento do liberalismo monárquico e o
Reinado de D. Miguel. fortalecimento do projeto republicano de transformação social e política**.
1832-1834
Guerra civil. CONCEITOS/NOÇÕES
1836-1842 Regeneração**; Fontismo
Setembrismo.
1846-1848 * Conteúdos de aprofundamento
Revoltas populares: Maria ** Aprendizagens e conceitos estruturantes
da Fonte e Patuleia.
1842-1851
Cabralismo.
1851
Regeneração. – A Regeneração entre o livre-cambismo e o protecionismo (1850-1880):
o desenvolvimento de infraestruturas: transportes e comunicações
O triunfo do golpe militar liderado pelo duque de Saldanha no norte do País, em abril-
-maio de 1851, designado de Regeneração*, põe fim a um longo período de três décadas
* Regeneração: período do (1820-1851) de intensos conflitos sociais e políticos, de lutas ideológicas e agitação, e ini-
liberalismo português
entre 1851 e os finais do cia uma fase de maturidade, de estabilidade, enfim das realizações necessárias para recu-
século XIX e que expressa perar o País do seu atraso económico e tecnológico e colocá-lo no caminho da moderni-
a vontade do golpe militar
de 1851 de regenerar a vida dade e do progresso.
nacional, fazendo entrar
o País no caminho da As alterações à Carta Constitucional (1826) introduzidas pelo Ato Adicional de 1852
ordem e do progresso.
(alargamento do sufrágio e eleições diretas para a Câmara dos Deputados) pacificaram a
vida política nacional e conduziram ao rotativismo*.
* Rotativismo: sistema de
alternância no poder de O primeiro governo regenerador teve em Fontes Pereira de Melo (1819-1887), minis-
dois partidos e que
representam as tendências tro do novo Ministério das Obras Públicas, Comércio e Indústria, criado em 1852, a sua
conservadoras e as mais figura de referência. As suas ideias e a obra notável que executou definiram uma política
democráticas.
de desenvolvimento económico designada por fontismo.

As preocupações fontistas centraram-se no lançamento de infraestruturas de transpor-


tes e comunicações: estradas modernas, macadamizadas, pontes, portos e linhas férreas;
instalação do telégrafo (1857) e reestruturação dos correios.

Os esforços “fontistas” surtiram efeitos positivos, já que se assistiu a um notável


desenvolvimento, quer qualitativo quer quantitativo em diversos setores. Contudo, a
modernização foi realizada sobretudo pelo Estado, à custa da subida dos impostos, de
empréstimos e financiamentos estrangeiros. A adoção do livre-cambismo (moderado)
favoreceu a concorrência estrangeira e acentuou a nossa dependência do exterior.
Unidade 4 - Portugal, uma sociedade capitalista dependente 129

– A dinamização da atividade produtiva Cronologia

A política fontista não se limitou ao investimento em infraestruturas de transportes e 1851


comunicações, apesar de este ser o aspeto mais salientado. Com efeito, os governos da Regeneração.
1852
Regeneração promoveram ainda o fomento industrial através de várias reformas legisla- Ato Adicional à Carta
tivas e educativas visando diretamente o desenvolvimento da atividade industrial e a for- Constitucional; Criação
do Ministério das Obras
mação de recursos humanos para a indústria: regulamentação do ensino técnico e cria- Públicas, Comércio e
ção de escolas industriais e de desenho industrial (1852); fundação da Associação Indústria.
Industrial Portuguesa (1860); representação e organização de exposições industriais 1854
Primeiras linhas
internacionais, como a Exposição Internacional (1865) no Palácio de Cristal, no Porto, telegráficas.
construído precisamente para acolher esta exposição(1). 1856
Inauguração da primeira
Os investimentos realizados no domínio das infraestruturas de transportes e comuni- linha férrea portuguesa
(Lisboa-Carregado);
cações e os progressos (moderados) na indústria nas primeiras três décadas da Regene- inauguração da rede oficial
ração surtiram efeitos positivos, já que se assistiu a um notável desenvolvimento no setor do telégrafo elétrico.
1860
industrial. O inquérito industrial de 1881 mostrou que a indústria nacional tinha evoluído
Fundação da Associação
em alguns dos aspetos que tradicionalmente constituíam importantes obstáculos ao seu Industrial Portuguesa.
desenvolvimento, como a escassez de capital, a deficiente preparação técnica da mão de 1861
Exposição Industrial
obra e dos empresários, a reduzida dimensão do mercado interno, a fraca cotação da Portuguesa (Porto).
produção nacional e a forte concorrência da Inglaterra. 1863
Exposição Agrícola
e Industrial (Braga).
– A necessidade de capitais e os mecanismos de dependência 1864
Conclusão da linha férrea
A construção de infraestruturas de transportes e comunicações e o fomento industrial do norte até Gaia e do sul
exigiam investimentos elevados e um grande empenhamento dos dinheiros públicos e do até Beja.
1865
Estado. Os governos da Regeneração adotaram as respostas mais óbvias e porventura as
Fundação do Banco
mais viáveis: a subida dos impostos, a adoção de uma política comercial livre-cambista Nacional Ultramarino (BNU);
Criação da Companhia
(moderada) e o recurso a empréstimos e financiamentos estrangeiros. União Fabril; Exposição
Internacional no Palácio
O agravamento fiscal sobre os rendimentos pessoais piorou as já difíceis condições de Cristal (Porto).
de vida da população em geral e a abertura aos capitais estrangeiros aumentou natural-
mente a nossa dependência do exterior, tanto mais que o ritmo do desenvolvimento
industrial manteve-se extremamente lento devido à persistência das debilidades estrutu-
? Questões
rais tradicionais do setor produtivo – baixa produtividade do trabalho industrial e redu-
zida procura externa dos nossos produtos – agora mais evidenciadas com a abertura do 1. Que alterações foram
introduzidas pelo Ato
mercado interno à concorrência estrangeira. O crescimento das importações, motivado Adicional de 1852 no regime
sobretudo pelo aumento da procura de matérias-primas, se por um lado constitui um instituído pela Carta?
indicador positivo do desenvolvimento industrial, por outro contribuía para um maior 2. Que setores da atividade
económica do País
desequilíbrio da balança comercial. Esta situação de défice tinha como consequência ime- mereceram a maior atenção
diata o agravamento dos problemas financeiros do País e o crescimento da dívida da política fontista?
pública(2) e da dependência externa.

(1)
Nos inícios dos anos 50, este grande monumento industrial seria demolido.
(2)
Em 1890 atingia cerca de 600 000 contos, tendo aumentado à média de 11 000 contos por ano desde 1855. A dívida
pública por habitante (107 000 réis) era a segunda maior da Europa, depois da francesa (125 000 réis), e uma das
maiores do Mundo.
130 Módulo 6 - Economia e sociedade; nacionalismos e choques imperialistas

– Entre a depressão e a expansão (1880-1914): a crise financeira de 1880-


-1890 e o surto industrial de final do século
A economia portuguesa viveu nos anos de 1880-1890 uma situação de crise financeira
quase permanente, que culminou numa situação de quase bancarrota do Estado portu-
guês em 1891-1892.

Esta falta de dinheiro pode ser explicada pela conjugação de um conjunto de fatores:
uns de natureza interna, como a “política de endividamento” externo do fontismo, o
aumento das importações, o crescimento da dívida pública, os excessivos gastos da
governação, a crise vinícola, a desvalorização da moeda portuguesa face à libra; outros
tinham origem na conjuntura internacional de recessão económica (1873-1896), como a
concorrência externa, a quebra das remessas dos emigrantes no Brasil, as dificuldades
de obtenção de crédito nas praças estrangeiras...

Face às dificuldades, o livre-cambismo fontista deu lugar a uma política protecionista


alfandegária e fiscal(3). Pretendia-se apoiar o desenvolvimento das indústrias nacionais e
incentivar novas indústrias. Ao mesmo tempo, promoveu-se a exploração do mercado
colonial de África e a criação de grandes companhias (a Companhia dos Tabacos; a Com-
panhia União Fabril (CUF) (cimentos); Companhia das Águas de Lisboa e Companhia
Cronologia Reunida de Gás do Porto e as seguradoras Fidelidade, Bonança e Universal, no setor dos
serviços; Companhia de Caminhos de Ferro Portugueses e a Carris de Lisboa (transpor-
1871
Conferências Democráticas tes); a Companhia da Zambézia, Companhia do Niassa e Companhia do Caminho de Ferro
do Casino Lisbonense. de Benguela (investimentos coloniais).
1875
Fundação do Partido No entanto, no início do século XX, Portugal era ainda um país essencialmente rural
Socialista Português.
e com uma indústria ainda sem capacidade para competir nos mercados externos com os
1876
Criação do Centro Eleitoral países industrializados.
Republicano Democrático.
1878
Eleição do 1.o deputado – As transformações do regime político na viragem do século (1890-1926):
republicano (Rodrigues os problemas da sociedade portuguesa na viragem do século e a contestação
de Freitas, no Porto).
1880
da monarquia
Comemorações do
tricentenário da morte O longo período de estabilidade político-social e de fomento económico iniciado pela
de Camões. Regeneração (1851) deu lugar, nas duas últimas décadas do século XIX, a uma profunda
1890
Ultimato inglês.
crise, de caráter político, económico e financeiro. As contradições da monarquia consti-
1889 tucional e vários acontecimentos políticos constituíram desafios demasiado fortes para
Revolta republicana uma monarquia e um sistema político (o rotativismo) extremamente fragilizados e inca-
de 31 de janeiro (Porto).
1906
pazes de responder à força das novas ideias republicanas e socialistas emergentes.
Ditadura de João Franco.
A humilhação nacional provocada pelo Ultimato inglês (1890)(4) constituiu um golpe deci-
1908
Regicídio. sivo na monarquia. As novas forças políticas, o Partido Socialista e sobretudo o Partido
1910 Republicano aproveitaram esta oportunidade para promoverem intensas campanhas de pro-
Proclamação da República
(5 de outubro). paganda e de mobilização do descontentamento popular.

(3)
O regresso ao protecionismo era, de resto, uma política que vinha sendo adotada pela generalidade dos países
europeus (com exceção da Inglaterra) desde o início do último quartel do século XIX.
(4)
As pretensões coloniais de Portugal (“mapa cor-de-rosa”) colidiram com a ambição britânica e o objetivo do seu
então primeiro-ministro Cecil Rhodes de unir o Egito ao Cabo.
Unidade 4 - Portugal, uma sociedade capitalista dependente 131

O nacionalismo, a liberdade e a democracia, que constituíam as ideias-chave do ideário


republicano, encontraram nestes acontecimentos a rampa ideal para se projetarem e con-
quistarem a adesão popular.

Ao mesmo tempo, a situação de quase bancarrota (1891), associada aos escândalos


políticos (“a questão dos tabacos”, os adiantamentos à Casa Real(5) e a impopularidade
da ditadura de João Franco (1906-1908), agravaram o ódio à monarquia e precipitaram o
Regicídio de 1 de fevereiro de 1908: D. Carlos e o príncipe herdeiro D. Luís Filipe foram
assassinados em Lisboa, por elementos republicanos, ficando ferido o outro infante, ? Questões
D. Manuel. Cerca de dois anos depois, uma revolução militar e civil, com amplo apoio
1. Que acontecimentos
popular e enquadrada pela Maçonaria e pela Carbonária, provocaria a queda da Monar- históricos favoreceram
quia e fazia triunfar a República, em 5 de outubro de 1910. a propaganda republicana
e ajudaram à queda da
monarquia?
– A solução republicana e parlamentar – a Primeira República 2. Explique a instabilidade
política e social da
O extraordinário apoio e entusiasmo popular que acompanhara a abolição da monar- 1.a República.
quia e a instauração da República esmoreceu rapidamente e os cerca de dezasseis anos
do novo regime (1910-1926) seriam marcados por uma constante instabilidade político-
-social. Múltiplas razões podem ser apresentadas: Cronologia
– a falta de coesão dos republicanos (cisão do Partido Republicano Português (PRP)
Chefes de Governo entre
em 3 fações – Partido Republicano Evolucionista (António José de Almeida), União 1910 e 1915
Republicana (Brito Camacho) e o Partido Democrático (Afonso Costa)); Teófilo Braga
(01.10.1910 a 01.09.1911)
– a natureza democrática e liberal (parlamentar) do regime estabelecido pela Consti- João Chagas
tuição de 1911 – consagrava os direitos e garantias individuais e a separação dos (03.09.1911 a 12.11.1911)
Augusto de Vasconcelos
poderes, sendo o mais importante o legislativo exercido por um parlamento (Con- (12.11.1911 a 16.06.1912)
gresso) com um peso excessivo na vida política da Nação (Governos e presidentes Duarte Leite
da República dependiam da sua confiança, isto é, das maiorias parlamentares, uma (16.01.1912 a 09.01.1913)
Afonso Costa
situação que não era fácil obter face às divisões verificadas no seio dos republica- (09.01.1913 a 09.02.1914)
nos e à indisciplina partidária. Por isso, nos cerca de dezasseis anos de vida do Bernardino Machado
regime sucederam-se 45 governos e oito presidentes da República); (09.02.1914 a 23.06.1914)
Bernardino Machado
– o clima de crise social provocado pelas reformas estruturais(6) (tímidas para uns, (23.06.1914 a 12.12.1914)
demasiado radicais para outros). Vitor Coutinho
(12.12.1914 a 25.01.1915)
Chefes de Estado entre 1910
Um quadro sociopolítico instável como este favorecia as conspirações, as revoltas, as e 1915
manifestações de rua, a agitação no Congresso, comprometia a eficácia da ação gover- Teófilo Braga
(1910-1911)
nativa. Em 28 de maio de 1926, o general Gomes da Costa, um dos mais prestigiados
Manuel de Arriaga
heróis da I Grande Guerra, revoltou-se em Braga e iniciou uma marcha sobre Lisboa. (1911-1915)
Estava aberto o caminho para a instauração do Estado Novo e do regime ditatorial que Teófilo de Braga
(1915)
marcaria um longo período da nossa história até 25 de abril de 1974.
Bernardino Machado
(1915-1917)

(5)
Adiantamentos à Casa Real: verbas adiantadas pelos governos à família real, a pretexto de ser insuficiente a dota-
ção oficialmente estabelecida.
(6)
Expulsão dos Jesuítas e encerramento dos conventos, reconhecimento do direito à greve, Lei do Inquilinato (1910);
reorganização da assistência pública (1911); obrigatoriedade do casamento civil e o estabelecimento do divórcio, cam-
panha contra o analfabetismo, criação do ensino infantil e reforma do ensino primário (1911); separação entre o Estado
e a Igreja Católica, regulação do horário de trabalho (1915).
132 Módulo 6 - Economia e sociedade; nacionalismos e choques imperialistas

Unidade 5 Os caminhos da cultura


SUMÁRIO
– A confiança no progresso científico*
– O interesse pela realidade social na literatura e nas artes – as novas correntes estéticas na
viragem do século*
– Portugal: o dinamismo cultural do último terço do século*

APRENDIZAGENS RELEVANTES
– Caracterizar o movimento de renovação no pensamento e nas artes nos finais do século
XIX/princípio do século XX**.

CONCEITOS/NOÇÕES
Positivismo; Cientismo; Impressionismo; Realismo; Simbolismo; Arte Nova

* Conteúdos de aprofundamento
** Aprendizagens e conceitos estruturantes
* Cientismo: crença
ilimitada nas capacidades
da ciência para resolver os
problemas e promover – A confiança no progresso científico
o progresso das sociedades
humanas. Deste modo, No século XIX a ciência e a tecnologia evoluem a par e passo, levando muitos euro-
a utilização do método das
ciências da Natureza e das peus a acreditar que viviam numa época de progresso sem fim e antevendo uma nova
matemáticas seria Idade de Ouro cada vez mais próxima. É o tempo do Cientismo*. Um número cada vez
imprescindível para validar
qualquer teoria ou maior de intelectuais considerava a ciência como a maior realização do espírito humano
doutrina. e o seu método, o método científico, como o caminho certo e eficaz para enfrentar e
equacionar todos os problemas.

– Avanço das ciências exatas e emergência das ciências sociais


A segunda metade do século XIX e princípios do século XX constituiu um período de
progresso científico sem precedentes. Embora todas as ciências tenham conhecido avan-
ços importantes, foram as ciências ditas exatas que tiveram maior desenvolvimento,
concretamente a Física (descobertas revolucionárias sobre a luz, a eletricidade, ondas
magnéticas, descoberta do raio-X, do rádio…), a biologia (teoria da evolução de Darwin),
Fig. 1. Auguste Comte a medicina (a teoria microbiana de Pasteur e Koch, a descoberta dos bacilos da tubercu-
(Biblioteca Nacional, Paris)
lose e da cólera asiática (Koch), o isolamento dos germes de outras doenças graves,
foi o introdutor do
positivismo*, um sistema como a difteria, a peste bubónica, o tétano e a doença do sono…).
filosófico que preconizava
a observação direta dos A mentalidade cientista triunfante não poderia deixar de influenciar também a abor-
fenómenos e a descoberta
dagem das questões sociais. Auguste Comte (1798-1857)(Fig. 1) acreditava que as socie-
das leis que os explicam.
dades humanas eram regidas por leis. A procura dessas leis levou-o à criação de uma

* Positivismo: sistema
nova ciência a que se chamou Sociologia. O estudo da evolução física do homem, dos
filosófico criado por tipos humanos existentes, das culturas pré-históricas e das instituições e costumes pri-
Augusto Comte, de caráter
empirista e antimetafísico,
mitivos deu origem ao nascimento da Antropologia, fundada por J. Prichard (1786-1848)
que recusa qualquer tipo e E. Tylor (1832-1917). A Psicologia desligou-se da Filosofia e tornou-se uma ciência autó-
de juízo de valor não
expresso numa certeza noma, conhecendo então uma grande notoriedade e desenvolvimento graças aos contri-
científica. butos do russo Pavlov (1846-1924) e Freud (1856-1939).
Unidade 5 - Os caminhos da cultura 133

– A progressiva generalização do ensino público Cronologia

A consciência das sociedades europeias de que a instrução era uma condição indis- 1850
pensável ao funcionamento regular dos regimes democráticos trouxeram para o primeiro Verdi: Rigoletto.
Courbert: Enterro em
plano a questão do ensino público. Com efeito, a democratização política passava pela Ornans.
extensão do sufrágio às classes mais baixas da população, em regra sem instrução, pelo Charles Dickens: David
Copperfield.
que se tornava imprescindível a generalização da instrução pública de modo a formar
1857
cidadãos e decisores esclarecidos. Baudelaire: As Flores do
Mal.
Mas a universalidade do ensino implica a sua obrigatoriedade e também a gratuiti- Flaubert: Madame Bovary.
dade, já que se se pretende que todos tenham acesso ao ensino terá de ser o Estado 1866
Júlio Verne: Da Terra à Lua.
ou as coletividades públicas a assumir as respetivas despesas. Dostoievsky: Crime
e Castigo.
Em Portugal, a reforma do ensino em 1844 estabeleceu a obrigatoriedade de frequên-
1869
cia do ensino primário para as crianças dos 7 aos 15 anos. No entanto, esta medida aca- Tolstoi: Guerra e Paz.
bou por não ter grande eficácia por falta de escolas e de professores habilitados e a 1872
Monet: Impressão
questão da universalidade do ensino prolongar-se-ia no tempo. Sol-Nascente.
1874
Primeira exposição dos
– O interesse pela realidade social na literatura e nas artes – as novas impressionistas.
correntes estéticas na viragem do século 1883
Antoní Gaudí: início das
obras da Igreja da Sagrada
O Realismo* Família (Barcelona).
1888
Entre 1830 a 1870 a cultura na Europa Ocidental é atravessada por uma corrente dire- Van Gogh: Os Girassóis.
tamente relacionada quer com os acontecimentos sociais e políticos e avanços científi- 1889
cos quer com as exigências de uma moral renovada. É neste contexto que se afirma o Richard Strauss: Dom Juan
(poema sinfónico).
Realismo, uma tendência dominante na literatura e nas artes ocidentais de cerca de 1830
1893
ao início da I Grande Guerra (1914-1918). Tchaikovsky: Sinfonia n.o 6
em Si Menor.
O Realismo é acima de tudo um protesto contra o sentimentalismo e as fantasias dos
românticos. Os realistas olham e descrevem a vida não em função de um ideal emotivo
* Realismo: corrente
mas de acordo com a realidade tal como ela era analisada e descrita pela ciência e pela literária e artística
filosofia. Interessam-se em particular pelos problemas psicológicos e sociais, analisando caracterizada pela procura
da representação fiel da
minuciosamente o comportamento humano. Observar a realidade contemporânea e repro-
Natureza (realidade) de um
duzi-la com sinceridade é, para estes artistas, o único processo de dar forma a uma modo preciso e objetivo,
necessidade de regeneração e de progresso social. sem qualquer preocupação
de disfarçar o que possam
Em França, que foi o país onde este movimento cultural eclodiu e onde mais profun- ter de feio ou chocante.

damente se desenvolveu, destacaram-se:


– na literatura, três grandes romancistas, cuja influência se estendeu muito além das
fronteiras francesas: Balzac (1799-1850) que, em Comédia Humana, descreveu com
crueza os vícios, a imoralidade e a corrupção da burguesia; Flaubert (1821-1880),
que em Madame Bovary faz uma crítica violenta ao estado de degradação humana,
ao contraste dramático entre as fantasias românticas e a triste realidade da vida
quotidiana; Zola (1840-1902), também um analista da natureza humana, centra as
suas obras na abordagem de problemas sociais;
– na pintura, as duas grandes referências são Courbet (1819-1877) e Daumier (1808-
-1879) que apresentam os factos da vida social e política tal qual os viam, fazendo-o
muitas vezes de forma rude e satírica.
134 Módulo 6 - Economia e sociedade; nacionalismos e choques imperialistas

Na Inglaterra, Thackery (1811-1863), que expôs os escândalos da aristocracia, e Char-


les Dickens (1812-1870), autor dos romances Olivier Twist e David Copperfield, deu espe-
cial atenção aos pobres e denunciou os horrores das “casas de trabalho” (workhouses)
e outras injustiças sociais.

* Impressionismo: O Impressionismo*
movimento estético que
procura traduzir as Privado de manifestos e de formulações teóricas, o Impressionismo não se apresenta
impressões imediatas dos
sentidos, as sensações do
nem como uma escola nem como um movimento homogéneo de artistas que se reco-
momento, o fugidio, o nhecem numa teoria. Na realidade, trata-se de um encontro entre personalidades artísti-
instante. Tecnicamente,
a pintura impressionista cas profundamente diferentes, unidas pelas mesmas formas de sentir e pelo idêntico
é caracterizada por anseio de se apresentarem fora dos meios da arte oficial dos salões, abertos apenas a
pinceladas pequenas
e rápidas, pela dissolução pintores académicos e bem aceites pela crítica. Trata-se de uma pintura que exprime um
das formas e do volume novo gosto, uma forma pessoal de reproduzir o visível em termos espontâneos, liberta
e pela utilização de cores
primárias. da literatura e dos símbolos, desvinculada dos cânones tradicionais da pintura comemo-
rativa. Nascida do naturalismo e continuadora do realismo, a pintura impressionista
modifica a estrutura artística tradicional porque revoluciona nos seus princípios o modo
de exprimir a realidade visível, desligando-a da representação fiel da natureza para repro-
duzir antes a sua verdade percetível e sensível.

A alteração fundamental levada a cabo pelos impressionistas consiste, efetivamente,


na alteração do modo de ver a natureza e o mundo exterior, reproduzindo-os na tela
sujeitos a um imediatismo temporal e sensível. A intenção do artista passa pela captura
do instante de uma realidade momento em permanente transformação que, a cada muta-
ção da luz, muda de aspeto e de verdade. Assim sendo, deixa de ser determinante o
tema que o artista escolhe para representar; o que na realidade importa é o modo como
o pintor capta a luz num dado e preciso momento, instante irrepetível da vida, da luz,
da atmosfera.

* Simbolismo: movimento O Simbolismo*


literário e artístico, datado
dos anos 70 a 90 do século Na década de 90 do século XIX surge no Ocidente um novo movimento, o Simbo-
XIX, de reação contra a
lismo. Trata-se de uma corrente que, não se limitando às artes plásticas, pretende acen-
sociedade industrial e as
correntes estéticas então tuar uma visão do mundo orientada para a perceção e valorização da realidade interior,
dominantes (o naturalismo
e o impressionismo) misteriosa, íntima e profunda que se presta mais à evocação do que à descrição. Os sim-
considerando a arte como bolistas criticavam a preocupação dos impressionistas com os aspetos ocasionais,
uma construção, produto
final de uma ordem momentâneos da Natureza e a sua indiferença pelas ideias. Na sua opinião, o mundo
própria, com harmonia visível não é senão a imagem das realidades espirituais.
técnica e estética.
Em finais do século XIX já não se pensa que a ciência seja capaz de explicar tudo,
uma vez que a confiança no positivismo se encontra comprometida: assim, os simbolis-
tas associam aos processos científicos métodos paracientíficos, de tal modo que, nas
suas obras, a psicologia pende muitas vezes para a metafísica, com incursões frequen-
tes nos mundos do espiritismo e do ocultismo. Apesar disso, a dimensão física não deixa
nunca de existir. Mas as imagens dos impressionistas, plenas de vida, movimento e luz
natural, tornam-se agora estáticas e misteriosas.
Unidade 5 - Os caminhos da cultura 135

A Arte Nova* * Arte Nova: corrente ou


estilo artístico
Na última década do século XIX, correspondendo a uma perceção que os estilos caracterizado pela rejeição
dos estilos académicos
conhecidos não se harmonizavam com as realidades da civilização moderna e a um
e históricos e revivalistas
desejo e vontade de evolução, assiste-se a um movimento de renovação das artes deco- da sua época (últimas
duas épocas do século XIX
rativas e da arquitetura. O homem moderno não acredita nos ideais gregos de harmonia
e as primeiras do século
e de equilíbrio, nem nas virtudes medievais da devoção e da cavalaria, mas sim no pro- XX), pelo recurso às novas
técnicas e aos novos
gresso científico e técnico, na eficiência económica e no conforto. São esses os ideais
materiais e por uma
que encontraram expressos na arte, na chamada Arte Nova que apresenta alguns traços extrema sensibilidade
estética.
distintivos:
– a rotura decisiva com o academismo e eclectismo do século XIX, em particular com
os estilos históricos e revivalistas (gótico e barroco);
– a exuberância e imaginação decorativa inspirada na Natureza – em particular no
reino vegetal – e com preferência pelas linhas sinuosas, estilizadas ou geometriza-
das que lhe emprestam movimento, ritmo e plasticidade;
– o recurso às novas técnicas criadas pelos progressos da engenharia e aos novos
materiais (ferro, aço, vidro, betão, ladrilho…), usados quer como elementos estrutu-
rais quer decorativos, tirando partido das suas características de resistência, flexibi-
lidade e valor estético.

Símbolo do novo modo de vida de uma sociedade urbana e industrial, de gostos refi-
nados, a Arte Nova é reconhecível nas grandes cidades nas entradas/saídas dos metro-
politanos, em edifícios de estruturas simples e de fachadas rasgadas e onduladas. Mas
a Arte Nova não se restringe à arquitetura. Os seus artistas foram defensores da unidade
das artes. Por isso, a Arte Nova tem realizações nos mais variados domínios, como a joa-
lharia, as artes gráficas e o mobiliário.

– Portugal: o dinamismo cultural do último terço do século

O papel da Geração de 70

No domínio das letras, as três últimas décadas do século XIX ficaram marcadas por
um importante movimento de renovação das ideias e dos modelos literários a que se
convencionou chamar Geração de 70. Este movimento, inspirado em correntes culturais
estrangeiras, iniciou-se em Coimbra, com a denominada “Questão Coimbrã” (1865), que
teve em Antero de Quental e Teófilo de Braga as suas principais figuras.

Em 1871, Antero e alguns dos seus companheiros de Coimbra a que se associaram, entre
outros, Oliveira Martins e José Fontana, constituíram um grupo mais alargado, o Cenáculo,
cuja realização mais importante foi a organização de um ciclo de conferências em Lisboa,
no Casino Lisbonense, com o propósito de “estudar as condições de transformação polí-
tica, económica e religiosa da sociedade portuguesa.” O Governo acabaria por proibi-las.

O movimento acabou como nasceu: um grupo de onze intelectuais que a si próprio


se designava por Vencidos da Vida e que passou a reunir-se semanalmente para jantar,
discorrendo com pessimismo sobre os problemas nacionais.
136 Módulo 6 - Economia e sociedade; nacionalismos e choques imperialistas

Nas Artes Plásticas


As novas correntes artísticas europeias não eram desconhecidas em Portugal, mas os
nossos pintores (e a esmagadora maioria dos apreciadores e consumidores de arte) pre-
feriram manter-se ligados ao Naturalismo, emprestando-lhe um forte sentimentalismo e
tons românticos. Destacaram-se entre os demais: Silva Porto (1850-1894), Marques de
Oliveira (1853-1927), Henrique Pousão (1859-1884), José Malhoa (1855-1933) e Colum-
bano Bordalo Pinheiro (1857-1929), o maior retratista do seu tempo. O retrato encomen-
dado era a principal fonte de receita destes mestres. O caricaturista e ceramista Rafael
Bordalo Pinheiro (1846-1905) foi uma exceção a esta regra. Os seus trabalhos, reprodu-
zidos aos milhares por meio da litografia, foram muito apreciados pelos setores popula-
res e constituíram um meio eficaz de crítica da vida política e social.

Na Arquitetura
Na arquitetura assiste-se na segunda metade do século XIX ao revivalismo das formas
medievais, uma das formas encontradas pela burguesia liberal para expressar a rotura
face ao passado recente.

No caso português foi a própria monarquia que começou por dar o exemplo com o
grande projeto do Palácio da Pena (1840-1847), em Sintra, uma iniciativa de D. Fernando,
marido de D. Maria II. Do neogótico ao neomourisco, passando por sugestões indianas
e pelo manuelino, tudo se encontra ali presente.

O revivalismo histórico arquitetónico, expressão de um marcado nacionalismo e de


um gosto pelo exótico, está presente em numerosas construções quer de caráter público
quer privado, de que se destacam: a Estação do Rossio, em Lisboa (1887), obra de Luís
* Modernismo: designação Monteiro (1848-1942), e a Praça de Touros do Campo Pequeno (1892), de J. Dias da Silva
dada aos diversos (1848-1912), exemplos de edificações de estilo neoárabe, o Palácio do Buçaco (1888-1907)
movimentos da literatura,
das artes plásticas, da e o Palácio da Regaleira, exemplos do neomanuelino, a Capela dos Pestanas (1878-1788),
arquitetura e da música no Porto, obra de Albano Cascão, exemplo do revivalismo neogótico, e inúmeros palace-
que surgiram nos finais
do século XIX e se tes da elite aristocrática e burguesa um pouco por todo o País.
prolongaram até meados
do século XX. Apesar da Nos últimos anos do século XIX começou a fazer-se sentir o desejo de um estilo “ver-
sua extrema diversidade, dadeiramente português” inspirado numa visão romântica do mundo rural. Nasceu assim
tinham em comum:
a rotura com a tradição a ideia da “casa portuguesa”, cujo mentor foi Raul Lino (1879-1974), e com ela um modo
e o academismo e a defesa de construir dito “à antiga portuguesa” com beirais de telhados, alpendre, azulejos,
da liberdade de criação
e a procura incessante
pátios, cantaria. Entretanto, as tendências do Modernismo* internacional que na Europa
da inovação. e nos EUA estavam em pleno desenvolvimento, iam espreitando a sua oportunidade.
Questões para Exame 137

Questões para Exame


1

Documento 1 | Taxa de crescimento anual da produção industrial (1870-1913)

Reino Unido 2,2

Alemanha 2,9

Documento 2 | Os mecanismos autorreguladores do mercado

Desde que entre os homens se mantenha a concorrência; se, por acaso, havendo concorrência, um
desequilíbrio se torna ameaçador, imediatamente se produz um movimento de preços: as mercadorias pro-
duzidas em excesso baixam, o que desalenta a sua produção; aquelas que, pelo contrário, são mais pro-
curadas que oferecidas, veem o seu preço elevar-se, o que estimula a sua produção; desta forma o equi-
líbrio realiza-se por si mesmo (...).
Em suma, desde que se mantenha a concorrência, todo o indivíduo que busca o seu interesse pessoal
é levado, quer queira quer não, a servir o interesse geral, e a atividade de todos é de tal ordem, que a
ordem, a justiça e o progresso ficam assegurados.
Adam Smith (1776), A Riqueza das Nações.

Documento 3 | A intervenção do Estado

Penso, portanto, que uma socialização bastante ampla do investimento será o único meio de assegurar
uma situação aproximada de pleno emprego, embora isso não implique a necessidade de excluir ajustes e
fórmulas que permitam ao estado cooperar com a iniciativa privada (...).
Não é a propriedade dos meios de produção que convém ao Estado assumir. As indispensáveis medi-
das de socialização podem ser introduzidas por etapas, sem afetar as tradições gerais da sociedade.
J. M. Keynes (1977), Théorie Générale, Paris, Petite Bibliothèque, p. 132.

1.1. Tendo em conta os dados do documento 1, enuncie as especificidades do processo de industrializa-


ção na Alemanha.

1.2. Distinga as conceções económicas presentes nos documentos 2 e 3, nomeadamente em relação aos
seguintes aspetos:
– iniciativa individual;
– intervenção do Estado;
– equilíbrio da economia.
138 Módulo 6 - Economia e sociedade; nacionalismos e choques imperialistas

Documento 4 | As propostas dos primeiros socialistas (utópicos)

Homens de hábitos laboriosos, vós que sois a parte mais honesta, mais útil e mais preciosa da socie-
dade, que produzis toda a riqueza e toda a ciência, vós formastes e estabelecestes o Grande Sindicato
Nacional Unificado da Grã-Bretanha e Irlanda e que será a salvaguarda do mundo (...). Graças a este exem-
plo benéfico, a maior revolução alguma vez realizada na história da raça humana começará, efetuar-se-á
rapidamente e desabrochará no mundo inteiro sem efusão de sangue, sem violência, sem males de qual-
quer espécie, simplesmente sob o efeito de uma influência moral irresistível.
Robert Owen, “À população do mundo”, in História, Revolução e Civilização Urbanas, p. 150.

Documento 5 | O Manifesto Comunista de Marx de Engels

A história de toda a sociedade até aos nossos dias não é mais do que a história da luta de classes
(...). A sociedade burguesa moderna, gerada na ruína da sociedade feudal, não aboliu os antagonismos de
classes. (...) Cada vez mais a sociedade se divide em duas classes diametralmente opostas: a burguesia e
o proletariado (...). O proletariado de cada país deverá, em primeiro lugar, conquistar o poder político, eri-
gir-se em classe dirigente da nação, constituir-se ela própria como nação. Os comunistas proclamam aber-
tamente que os seus fins só poderão ser atingidos pela transformação violenta de toda a ordem social (...).
Que as classes dirigentes tremam à ideia de uma revolução comunista. Os proletários não têm nada a per-
der, senão as cadeias. Têm um mundo a ganhar. Proletários de todos os países, uni-vos!
K. Marx e F. Engels (1848), Manifesto do Partido Comunista.

Documento 6 | O processo de industrialização em Portugal

Percentagem da população agrícola e população industrial


Unidades industriais na 2.ª metade do século XIX (em relação à população ativa)

Unidades industriais População População


Anos (com mais de 10 operários) Número de operários 1864 agrícola industrial

1852 362 12 500 1876-84 61,1 % 19,4 %


1881 1245 46 000 1887-92 57,1 % 21,1 %
Quadro 1 - Fonte: Cabral, Manuel Vilaverde, Quadro 2 - Fonte: Castro, Armando de (1978),
O Desenvolvimento do Capitalismo em Portugal no século XIX, A Revolução Industrial em Portugal no século XIX,
Edições A Regra do Jogo, Lisboa, pp. 277-279. Porto, Editora Limiar.

2.1. Distinga as propostas dos documentos 4 e 5.

2.2. Integre os documentos 4 e 5 numa caracterização global da sociedade industrial europeia oitocentista.

2.3. Tendo em conta os dados dos quadros 1 e 2 (doc. 6), explique a evolução da indústria portuguesa na
segunda metade do século XIX.
Unidade 1 - As transformações das primeiras décadas do século XX 139

Módulo 7 12.° Ano


Crises, embates ideológicos e mutações culturais
na primeira metade do século XX
1. As transformações das primeiras décadas do século XX
2. O agudizar das tensões políticas e sociais a partir dos anos 30
3. A degradação do ambiente internacional

Contextualização
Após o grave confronto da Primeira Guerra Mundial (1914-1918) pareciam estar criadas as
condições para uma paz duradoura entre as nações, apesar das dificuldades de recuperação
económica que se anteviam. A vitória dos Aliados foi também a vitória da democracia. A cria-
ção da Sociedade das Nações expressava a vontade de se edificar uma nova ordem interna-
cional assente na superioridade do Direito sobre a força.
No entanto, tratava-se de uma situação precária e instável. A profunda crise económico-
-financeira de 1929 a que o Mundo teve de fazer frente nos anos 30, a crise das democracias
liberais, a emergência das ideologias fascistas e dos regimes totalitários e a agudização das
tensões internacionais precipitaram a Europa e o Mundo num novo conflito (1939-1945),
ainda mais devastador do que o anterior.

Unidade 1 As transformações das primeiras décadas do século XX


SUMÁRIO
1.1. Um novo equilíbrio global*
1.2. A implantação do marxismo-leninismo na Rússia: a construção do modelo soviético*
1.3. A regressão do demoliberalismo
1.4. Mutações nos comportamentos e na cultura*
1.5. Portugal no primeiro pós-guerra*

APRENDIZAGENS RELEVANTES
– Compreender o corte que se opera na mentalidade confiante e racionalista da sociedade
burguesa de início do século XX**.
– Reconhecer como principais vetores da mudança cultural, no limiar do século XX, a emer-
gência do relativismo científico, a influência da psicanálise e a rutura com os cânones
clássicos da arte europeia**.
– Compreender a expansão de regimes autoritários como reflexo do problema do enquadra-
mento das massas na vida política**.
– Compreender os condicionalismos que conduziram à falência do projeto político e social da
1.a República**.

CONCEITOS/NOÇÕES
Soviete; Ditadura do proletariado; Centralismo democrático; Comunismo; Marxismo-leninismo**;
Anomia social; Feminismo; Relativismo; Psicanálise; Modernismo**; Vanguarda cultural**; Expressio-
nismo; Fauvismo; Cubismo; Abstracionismo; Futurismo; Dadaísmo; Surrealismo

* Conteúdos de aprofundamento
** Aprendizagens e conceitos estruturantes
140 Módulo 7 - Crises, embates ideológicos e mutações culturais na primeira metade do século XX

Cronologia 1.1. Um novo equilíbrio global


Tratados do pós-Primeira
Guerra Mundial:
1.1.1. A nova geografia política após a Primeira Guerra Mundial
1919 Terminada a Primeira Guerra Mundial colocavam-se à Europa e ao Mundo dois pro-
Janeiro-Junho – Conferência blemas fundamentais para o restabelecimento da paz: a reorganização do mapa político
de Paris.
da Europa e o estabelecimento de uma nova ordem internacional, capaz de restaurar e
Junho – Tratado de
Versalhes. garantir a convivência pacífica entre as nações.

Setembro – Tratado de O primeiro foi resolvido através dos tratados de paz (que ignoraram e tomaram sem
Saint-Germain. efeito o tratado de Brest-Litovsk assinado pela Rússia e pela Alemanha em março de
Novembro – Tratado de 1918) negociados entre 1919 e 1920 pelos representantes das potências vencedoras, reu-
Neuilly. nidos de janeiro a junho de 1919 na Conferência de Paris(1), liderada pelo presidente dos
1920 EUA (Woodrow Wilson) e pelos primeiros-ministros do Reino Unido (Lloyd George) e da
Junho – Tratado de Trianon.
França (Georges Clemenceau).
Agosto – Tratado de
Sèvres. Para além do Tratado de Versalhes que, de um modo geral, se aplicava unicamente
à Alemanha, foram redigidos quatro outros tratados de paz com os vencidos: o Tratado
de Saint-Germain com a Áustria; o Tratado de Neuilly com a Bulgária; o Tratado de Trianon
com a Hungria e o Tratado de Sèvres com o Império Otomano. Fundados no princípio do
direito dos povos à autodeterminação, estes tratados desenharam um novo mapa polí-
tico da Europa (Fig. 1):
• na Europa Central e do Leste: o Império Áustro-Húngaro
desintegrou-se, dando origem a três novos estados – a
Áustria, a Hungria e a Checoslováquia; outras partes deste
Império formaram a Jugoslávia (à Sérvia e ao Montenegro,
independentes antes da guerra, juntam-se a Croácia, a
Eslovénia e a Bósnia-Herzegovina) e a nova Polónia; a
Roménia passou a integrar a Transilvânia, a Bessarábia e
Dodruja; a Itália recebeu o Tirol e a Ístria; a Alemanha
sofreu perdas territoriais importantes, sobretudo no leste
(Posnânia e Alta Silésia) e foi cortada em duas partes pela
formação do “corredor polaco”(2); a Rússia foi amputada
dos seus territórios ocidentais com a cedência de áreas à
Polónia e a emancipação das Repúblicas Bálticas (Letónia,
Fig. 1. A Europa após a Estónia e Lituânia), da Finlândia e dos territórios da Transcaucásia. O fim do Império
Primeira Guerra Mundial.
Otomano, surgindo em seu lugar novos estados: a Arábia Saudita, o Iraque, a Síria e o
Revista L’Histoire, n.º 232,
maio de 1999 (adaptado). Líbano (entregues a Mandato da França), a Palestina (tutelada pela Sociedade das
Nações), a Transjordânia e o Curdistão, embora a independência deste nunca se tenha
confirmado.
• a Oeste: a França recuperou à Alemanha a região fronteiriça da Alsácia-Lorena; a
Bélgica adquiriu também da Alemanha dois pequenos territórios: Eupen e Malmédy;
a Dinamarca adquiriu o Schleswig à Alemanha.

Desta forma, o anterior equilíbrio político e étnico foi profundamente modificado no


interior da Europa.

(1)
Os países vencidos – Alemanha, Áustria, Hungria, Bulgária e Turquia - não foram admitidos nas negociações.
(2)
O Tratado de Versalhes, atribuindo à Alemanha a responsabilidade do conflito, impôs-lhe ainda a perda de todas as
suas colónias, a desmilitarização e o pagamento de “reparações” pelos danos causados aos vencedores. O tratado
foi visto pelos alemães como um diktat e fomentou fortes ressentimentos.
Unidade 1 - As transformações das primeiras décadas do século XX 141

1.1.2. A Sociedade das Nações (SDN)


O cumprimento das deliberações adotadas nos tratados celebrados no após-guerra e
a necessidade de evitar novos conflitos tornaram necessária a criação de uma nova
ordem internacional capaz de garantir a paz e a direção da vida internacional.

Os princípios em que se devia basear a reorganização do Mundo depois da guerra


haviam sido definidos pelo Presidente Wilson, dos EUA, numa mensagem dirigida ao
Congresso em janeiro de 1918, conhecida como os Catorze Pontos. O último destes pro-
punha a constituição de uma organização mundial de estados com o objetivo de asse- * A SDN era composta por
cinco órgãos:
gurar a paz e a segurança internacionais.
Assembleia-Geral
(integrando todos os
A proposta do Presidente Wilson concretizou-se com a criação da Sociedade das Nações
estados-membros);
(SDN)*, com sede em Genebra, cujo Pacto organizador foi assinado pelos 27 participantes Secretariado; Conselho
na Conferência e posteriormente integrado no próprio texto do Tratado de Versalhes (1919). (nove estados-membros:
cinco permanentes e
Os objetivos fundamentais da Sociedade das Nações (Doc. 1) eram: quatro eleitos
rotativamente de três em
– submeter as relações entre os estados ao Direito Internacional; três anos); Tribunal
Internacional de Justiça e
– evitar o recurso à guerra pela promoção do desarmamento; punição dos infratores várias comissões
com sanções morais, económicas ou mesmo militares; consagração do princípio da especializadas, como a
Organização Internacional
segurança coletiva, pelo qual uma agressão a um dos membros da Sociedade obri-
do Trabalho (OIT) ou as
gava os outros a defenderem a vítima; resolução pacífica dos conflitos pelo recurso comissões para os
à arbitragem (mediação) e a um órgão judicial – o Tribunal Permanente de Justiça refugiados e para a
administração dos antigos
Internacional – com sede em Haia (Holanda); territórios coloniais dos
países vencidos.
– promover a cooperação económica e financeira entre os estados-membros.

Apesar das boas intenções que presidiram à sua criação, a Sociedade das Nações não
Documento 1
foi capaz de as cumprir. As razões desse fracasso deveram-se:
– à exclusão dos estados vencidos, pois a SDN passou a assemelhar-se mais a uma coli- Todos os membros da
Sociedade concordam em
gação de estados vencedores, com o objetivo de impor a sua vontade na direção da que, se entre eles surgir
vida internacional, do que a uma organização geral de estados, livremente consentida; um conflito suscetível de
produzir uma rutura,
– às condições humilhantes impostas aos vencidos, em especial à Alemanha; submeterão o caso seja a
um processo da
– ao descontentamento de alguns estados vencedores com os acordos de paz e com
arbitragem ou a uma
o incumprimento de promessas; solução judicial seja ao
exame do Conselho.
– à não adesão dos Estados Unidos e à ausência da URSS; Concordam também em
– à exigência da unanimidade nas deliberações; que não deverão, em caso
algum, recorrer à guerra
– ao facto de a arbitragem e as decisões do Tribunal Permanente de Justiça Interna- antes de expirado o prazo
de três meses após a
cional não terem um caráter de obrigatoriedade.
decisão arbitral ou
judiciária ou do relatório de
Embora tenha revelado alguma eficácia inicial na defesa da superioridade do Direito Conselho.
sobre a força nas relações internacionais(3), a verdade é que a SDN falhou no objetivo prin- Art. 12.º, Pacto da SDN.

cipal para que fora criada: a defesa da paz e da segurança internacionais. Não
conseguiu, por exemplo, impedir a ocupação do Ruhr pelas tropas franco-belgas (1923), ? Questão

1. Esclareça se o Pacto da
(3)
Entre 1924 e 1928 a SDN esteve ligada direta ou indiretamente a uma série de tratados que, embora na prática se SDN proibiu o recurso à
tenham revelado ineficazes, são expressão do ideal de Paz: Protocolo para a Resolução Pacífica dos Conflitos Inter- guerra nas relações
nacionais (1924); Pacto de Locarno (1925); Pacto Briand-Kellog ou Pacto de Renúncia Geral à Guerra (1928); Ato Geral internacionais.
de Arbitragem (1928).
142 Módulo 7 - Crises, embates ideológicos e mutações culturais na primeira metade do século XX

Cronologia o abandono do Japão da organização, a agressão da Itália contra a Etiópia (1935), país-membro
da SDN, a Guerra Civil de Espanha (1936-1939) ou a invasão da China pelo Japão (1937),
Os fracassos da SDN
dissolvendo-se em 19 de abril de 1939, ano em que irrompeu a Segunda Guerra Mundial.
1920
Não ratificação pelo
Senado americano do 1.1.3. A difícil recuperação económica da Europa
Tratado de Versalhes nem
do Pacto da SDN. A crise do pós-guerra
1923
Ocupação do Ruhr pelas
A Europa detinha, antes de 1914, a liderança económica, financeira e política no mundo,
forças franco-belgas. mas a guerra pôs fim a esta situação privilegiada. O interminável conflito mundial acarre-
1933 tou para uma boa parte dos países europeus consideráveis perdas humanas e materiais:
Saída do Japão da SDN.
– escassez de mão de obra ativa (milhões de mortos, feridos e mutilados);
1935
Ataque da Itália à Etiópia, – paralisação das atividades produtivas (campos devastados e destruição de fábricas
membro da SDN. e outras infraestruturas económicas) e contração das atividades comerciais e finan-
1936-1939 ceiras;
Guerra Civil de Espanha.
– défices orçamentais e dívidas públicas elevadíssimas;
1937
Invasão da China pelo – surtos inflacionistas* decorrentes do recurso a empréstimos e a emissões de
Japão. moeda-papel.
1939
Início da Segunda Guerra Vencedores e vencidos, ainda que atingidos de forma desigual, saíram da guerra,
Mundial.
senão arruinados, pelo menos consideravelmente empobrecidos. A este cenário devasta-
dor associava-se um quadro sociopolítico nada favorável. O fim da guerra foi acompa-
nhado por um surto de grande agitação social e política.
* Surtos inflacionistas:
movimentos de subida Os anos de 1919-1921, período do regresso à paz, constituem para a generalidade dos
generalizada dos preços
países europeus uma fase de reconversão das suas economias:
(inflação).
– os princípios do liberalismo económico são restringidos e adotam-se medidas para
estimular a criação de emprego e as importações de máquinas, de petróleo e de
produtos alimentares;
– são implementadas políticas de estabilização monetária (manipulação das taxas de
juro e controlo da inflação) e recorre-se à emissão massiva de moeda-papel (moeda
* Moeda fiduciária: tipo de fiduciária*) para aumentar a quantidade de dinheiro em circulação e fazer face à
moeda que circula com a escassez de meios de pagamento e estabelecer o crédito.
confiança nos bancos
emissores (palavra latina
fiducia = confiança), sendo Resultados destas medidas: desvalorizações monetárias, inflação, défices nas balan-
convertível em metal. ças de pagamentos e níveis elevados de endividamento externo. Estas dificuldades inter-
Este tipo de moeda inclui
cheques, ordens de nas são agravadas pela decisão das potências europeias de se desvincularem ao sistema
pagamentos, títulos de do padrão-ouro(4), desorganizando desta forma o sistema financeiro e monetário anterior
crédito, entre outros meios
à guerra, na medida em que deixou de haver uma forma clara para definir as cotações
de pagamento.
das moedas dos diferentes países.

Os anos de 1921-1925 constituem para a Europa um período de reajustamento. O apa-


relho produtivo reconstitui-se a bom ritmo. A descida dos preços provoca a diminuição das
importações e o aumento das exportações, o que melhora ao mesmo tempo a balança de
pagamentos e a situação orçamental.

(4)
Com o abandono do padrão-ouro, as instituições bancárias deixaram de ser obrigadas a converter em ouro a tota-
lidade da moeda fiduciária em circulação. A instabilidade monetária tem repercussões negativas sobretudo nas eco-
nomias exportadoras, porque ao incentivar o protecionismo e a depreciação das moedas prejudica as trocas comerciais
e a circulação internacional dos capitais.
Unidade 1 - As transformações das primeiras décadas do século XX 143

Persistem, no entanto, importantes problemas estruturais nas


economias europeias, como os níveis elevados de desemprego e
das dívidas públicas e a escassez de capitais (Fig. 2).

A partir de 1925-1926 os esforços para a estabilização mone-


tária e o controlo dos défices orçamentais e da inflação começam
a dar resultados. A Grã-Bretanha restabelece, em 1925, a pari-
dade-ouro e a libra recupera face ao dólar. Na Alemanha, a
Fig. 2. A circulação de
queda vertiginosa do marco é superada pela adoção do Reichsmark em 1924. Paralela-
moeda-papel na Alemanha.
mente, a estabilização social e política das principais potências europeias – a França, Ale- Histoire, Terminales, Paris,
manha e Grã-Bretanha – encorajam a poupança e os investimentos. Hachette, p. 50.

No plano das relações internacionais, a aceitação das disposições territoriais defini- Questões
?
das nos tratados do pós-guerra (Pacto de Locarno, 1925), a admissão da Alemanha na
Sociedade das Nações (1926) e os esforços desenvolvidos pela SDN na condenação do 1. Como evoluiu a circulação
de moeda-papel na
uso da força (Pacto Briand-Kellog, 1928(5)) e na promoção do desarmamento criam um Alemanha no período
clima de desanuviamento. considerado?
2. Como explica essa
Nos finais da década de vinte, a Europa parece ter recuperado das sequelas da guerra evolução?
e encara o futuro com confiança; mas não tardaria a verificar-se uma inversão brutal 3. Quais os efeitos dessa
dessa situação. evolução?

1.1.4. A ascensão dos EUA Cronologia

A guerra europeia fez dos Estados Unidos o principal fornecedor de alimentos, bens A recuperação económica da
Europa no pós-guerra
de equipamento e armamento aos beligerantes. Esta forte corrente de exportação teve
1919-1921
como consequências uma balança comercial largamente excedentária e um enorme afluxo
Reconversão.
de ouro àquele país. No início de 1919, os EUA dispunham aproximadamente de metade
1921-1925
do stock de ouro mundial. Reajustamento.

Ao mesmo tempo, a estabilidade monetária transformou os EUA num refúgio seguro 1925-1929
Estabilização e
para os capitais circulantes, uma boa parte dos quais era encaminhada para a Europa crescimento.
sob a forma de empréstimos e investimentos. Os países europeus tornaram-se seus
devedores. O crescimento
industrial nos EUA
Esta situação de dependência foi ainda acentuada pela adoção por parte dos EUA de (1922-1929)
um sistema aduaneiro fortemente protecionista relativamente aos produtos fabricados na Indústria
70%
Europa e de medidas para restringir a imigração europeia (leis de 1921 e 1924). siderúrgica

Os EUA (Quadro 1) conhecem, então, um período de franca prosperidade (1924-1929); Indústria


94%
química
são os denominados Loucos Anos Vinte e a afirmação do mito do American Way of Life.
Os progressos técnicos e o elevado poder de compra da sua população permitiram a Indústria
156%
petrolífera
estandardização e a racionalização da produção industrial. Nova Iorque substituiu Lon-
dres como o centro da economia internacional. Por deterem metade do stock de ouro Indústria
255%
automóvel
mundial, invertem o balanço das contas: de devedores, os EUA tornaram-se credores da
Quadro 1
Europa e na primeira potência mundial.
Eric Hobsbawm, A Era dos
Extremos, Lisboa,
Presença, 1994.
(5)
Este Pacto, conhecido pelos nomes dos seus promotores – Briand, ministro francês dos Negócios Estrangeiros e
Kellog, Secretário de Estado dos EUA –, ilegaliza o recurso à guerra nas relações internacionais.
144 Módulo 7 - Crises, embates ideológicos e mutações culturais na primeira metade do século XX

1.2. A implantação do marxismo-leninismo na Rússia:


a construção do modelo soviético
1.2.1. O contexto revolucionário de 1917
Os fatores longínquos da Revolução de outubro de 1917 que derrubou o Impé-
rio Russo governado pelo regime czarista e que deu origem ao primeiro Estado
socialista-comunista da História podem encontrar-se na incompetência da gestão
czarista (autocrática) que mantinha o país e o Império numa situação de atraso
económico-social: estruturas arcaicas, feudalizantes (Fig. 3). Nicolau II empreendera
Fig. 3. Cartaz russo algumas reformas que, ao invés de contribuírem para a resolução dos problemas,
caricaturando os inimigos acentuaram o descontentamento social e político. O massacre de operários que vinham
da revolução: militares,
capitalistas, sacerdotes, apresentar petições de reforma social ao Czar, no dia que ficou conhecido como o
latifundiários (1918). “Domingo Vermelho” (1905) é um bom exemplo deste clima de tensão social.

Os fatores próximos da revolução podem procurar-se nos acontecimentos de natureza


militar, socioeconómica e política que se sucederam desde a entrada da Rússia na Pri-
meira Guerra Mundial, em agosto de 1914, até ao início do ano de 1917, concretamente:
– as derrotas nos campos de batalha, os danos humanos, materiais e financeiros
decorrentes da sua participação na guerra;
– a má administração que estimula as desordens nos campos, manifestações e greves
nas cidades contra a alta de preços e a miséria de largas camadas da população;
– a exploração pelos oponentes ao regime – liberais-constitucionais e revolucionários –
dos erros do regime czarista.

1.2.2. A revolução de 1917


A Revolução de 1917 ocorre em dois tempos. O primeiro, despoletado em fevereiro
(março, no calendário russo), uniu em São Petersburgo (ou Petrogrado) operários, solda-
dos e políticos da oposição que, num clima de grande exaltação, executaram um golpe de
estado que derrubou o czar Nicolau II (abdicou do poder em 15 de março), transferindo o
* Soviete: conselho ou poder para o Soviete* de Petrogrado e para um Governo Provisório presidido pelo príncipe
comité formado por de Lvov do Partido Constitucional Democrata (KD)* e com Kerensky, líder do Partido Socia-
delegados dos operários e
soldados. Os Sovietes lista Revolucionário (SR)*, como Ministro da Justiça. A Rússia torna-se uma República.
surgiram em 1905 como
corpos ou órgãos da No entanto, as divergências ideológicas e políticas entre o Governo Provisório, de
insurreição revolucionária caráter burguês, liberal e reformista, e os sovietes, cujos membros eram crescentemente
das massas populares.
de maioria desafeta ao Governo Provisório (bolcheviques e socialistas revolucionários de
* Partido Constitucional
Democrata (KD): composto esquerda), criaram enormes dificuldades à realização do objetivo governamental de fun-
por burgueses que
dar uma democracia liberal, idêntica aos regimes democráticos dos países ocidentais.
defendiam um regime
liberal, parlamentar.
* Partido Socialista Num segundo momento, de fevereiro a outubro, o clima de insurreição popular agra-
Revolucionário (SR): fação vou-se e o Governo Provisório perdeu toda a autoridade. A recusa em retirar a Rússia da
política que integrava
operários e intelectuais guerra e em fazer as reformas reclamadas pela massa dos camponeses operários e solda-
socialistas. dos, viúvas, órfãos e mutilados cansados de uma guerra implacável aprofundaram o des-
contentamento social. Os camponeses recusaram-se a pagar as rendas aos proprietários e,
Unidade 1 - As transformações das primeiras décadas do século XX 145

no verão desse ano, começaram a ocupar e a repartir as terras, apoiados pelos milhares
de soldados que desertavam da guerra.

Sob a liderança de Lenine (Fig. 4), os bolcheviques*, o mais ativo dos grupos revo-
lucionários, foram progressivamente estendendo a sua influência no país e nos sovietes,
sobrepondo-se aos mencheviques* e aos socialistas revolucionários.

Em 7 de outubro de 1917, em resposta ao apelo de Lenine, uma revolta popular lide-


rada pelos bolcheviques assaltou o Palácio de Inverno, em São Petersburgo, derrubou o
Governo Provisório, na altura presidido por Kerensky, proclamando a vitória do socia- Fig. 4. Lenine (Vladimir Ilich
lismo-comunismo na Rússia. Ulianov, 1870-1924) foi o
fundador do Estado
Soviético. Inimigo desde a
1.2.3. Do poder dos sovietes ao centralismo democrático sua juventude do regime
czarista, estudou Direito e
A) O período do “comunismo de guerra” (1918-1921) converteu-se ao marxismo.
Preso e deportado para a
Sibéria, exilou-se em 1900.
O novo governo dirigido por Lenine, acompanhado por duas outras grandes figuras – Viveu na Alemanha, Bélgica,
Trotsky (1879-1940), Comissário da Guerra, e Estaline (1879-1953), Comissário das Naciona- França, Inglaterra e Suíça.
Em 1905, regressou à
lidades –, proclamando a vitória da revolução socialista, consagrou o poder dos Sovietes. Rússia para participar na
fracassada revolução desse
Para cumprimento da promessa de retirar o país da guerra, o governo bolchevique ano e, por fim,
assina o Tratado de Brest-Litovsk (março de 1918) com a Alemanha para a sua retirada definitivamente em 1917,
para liderar a Revolução de
da Primeira Guerra Mundial, sujeito a custos territoriais e económicos muito elevados – Outubro (Bolchevique).
perda de 26% da população do antigo império, de 800 000 km2 da sua extensão territo-
rial, de 23% da indústria e de 75% do carvão e do ferro. * Bolcheviques (maioritários):
designação dos membros
Determinado a concretizar o princípio marxista da ditadura do proletariado*, Lenine da fação do Partido
Operário Social-Democrata
decretou um conjunto de medidas revolucionárias que pontuaram esta primeira fase do seu Russo liderada por Lenine.
governo (1917-1921) e que foi denominada pela historiografia de “comunismo de guerra”: * Mencheviques
(minoritários): membros da
– expropriação das grandes propriedades fundiárias e sua distribuição pelos camponeses; fação minoritária e
moderada do Partido
– requisição da produção agrícola; Operário Social-Democrata
– nacionalização das empresas industriais abandonadas pelos seus proprietários e a Russo criado em 1903,
depois da disputa entre
institucionalização do controlo operário nas demais; Vladimir Lenine e Julius
Martov, ambos membros
– nacionalização dos bancos e do comércio externo; do partido.
– imposição de uma política de partido único, o Partido Comunista (designação ado- * Ditadura do proletariado:
regime político teorizado
tada pelo Partido Bolchevique, em 1918), e proibição dos restantes partidos políticos;
por Marx e por Lenine como
– criação de uma polícia política, a Tcheka (1917), e instauração de um clima de terror um período de transição
até à abolição de todas as
através de depurações, julgamentos e execuções sumárias, fazendo da execução de classes e a instauração de
toda a família imperial (1918) uma demonstração exemplar da determinação do novo uma sociedade sem
classes, o comunismo, o
regime em eliminar todas as estruturas burguesas e capitalistas. estádio mais avançado do
socialismo. Segundo Marx,
em consequência da luta
Como facilmente se percebe pela sua natureza e alcance, as medidas adotadas tiveram de classes e da revolução
como principais impulsionadores e beneficiários os sovietes dos camponeses e operários, socialista, o proletariado
deveria assumir todo o
pelo que nesta fase da Revolução pode-se falar de um regime de poder dos sovietes. poder político, com o
objetivo de eliminar as
A implementação do programa económico e social bolchevique deparou-se com enor- estruturas da sociedade
burguesa e do sistema
mes obstáculos: capitalista.
146 Módulo 7 - Crises, embates ideológicos e mutações culturais na primeira metade do século XX

* Marxismo-leninismo: termo – a resistência dos pequenos e médios proprietários rurais;


criado após a morte de
Lenine, mentor e líder do – a devastadora guerra civil (1918-1921) entre as forças revolucionárias, apoiadas no
marxismo na Rússia, para
Exército Vermelho organizado por Trotsky, e as contrarrevolucionárias, integradas
designar a adaptação feita
por ele da teoria marxista à no Exército Branco e apoiadas pela intervenção militar de um grande número de paí-
realidade russa, um país
ses, incluindo os impérios centrais e vários dos Aliados;
economicamente atrasado,
rural e com estruturas – a diminuição drástica da produção agrícola (caiu para metade relativamente a 1913)
feudalizantes.
e industrial;
Documento 2 – a generalização da miséria e do descontentamento social.
O Novo Estado Soviético
Art.º 1 - A Rússia receberá o O processo de destruição das estruturas capitalistas, a construção do marxismo-leni-
título de República dos nismo* na Rússia e a criação da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS), em
Sovietes de trabalhadores,
soldados e camponeses. 1922, da qual resultou a constituição de um Estado federal e multinacional, levaram
Todo o poder central e local Lenine a considerar que a organização política da União Soviética teria de ser, ao mesmo
pertence a estes Sovietes.
tempo, disciplinada, centralizada e democrática.
Art.º 2 – A República
Soviética Russa funda-se A fórmula política adotada para a sua realização foi a aplicação do princípio do cen-
no princípio da união
voluntária das nações tralismo democrático à organização política do Estado Soviético (Doc. 2). Ou seja, o cará-
livres e constituirá uma ter democrático estaria salvaguardado pelo reconhecimento do princípio da soberania do
Federação de Repúblicas
nacionais de Sovietes (...). povo e do direito de representação das diferentes repúblicas e nacionalidades, bem como
Declaração de Direitos do Povo na organização hierarquizada dos poderes orientados a partir da base.
Trabalhador e Explorado, 1918.
Mais concretamente: os sovietes locais e regionais eleitos por sufrágio universal esta-
? Questão
vam representados no Congresso dos Sovietes, que designava o Comité Executivo Central,
1. Qual o modelo de composto de duas câmaras – o Conselho da União e o Conselho das Nacionalidades –
organização política do
Estado Soviético adotado
que, por sua vez, elegiam o Conselho dos Comissários do Povo e o Presidium, órgãos
por Lenine? executivos.

Em paralelo com esta organização de matriz democrática, o modelo do centralismo


Documento 3
democrático integrava ainda uma outra estrutura, cujas diretrizes eram impostas a partir
A guerra civil foi do topo e rigorosamente seguidas: o Partido Comunista da União Soviética (PCUS), com
acompanhada por um
um aparelho dirigente com tanto poder e influência na organização política soviética que
pavoroso colapso
económico. Em 1920, a se confundia e sobrepunha ao próprio Estado. Teoricamente, o órgão mais importante do
produção total não passou
PCUS era o Congresso que elegia o Comité Central, que, por sua vez, designava o Polit-
de 13 por cento do que
tinha sido em 1913. (...) Em buro, composto por cinco membros, tendo a seu cargo a gestão corrente do partido.
1921 foi adotada a Nova
Política Económica (NEP),
que Lenine definiu como B) A Nova Política Económica (NEP) – 1921-1928
“um passo atrás para poder
dar dois passos à frente”. Os graves problemas económicos e o fim da Guerra Civil, com a vitória bolchevique,
(...) levaram Lenine a um recuo estratégico na orientação seguida, através da Nova Política
McNall Burns, História da
Civilização Ocidental, Lisboa, Económica (NEP) (Doc. 3), com o objetivo de recuperar a economia e, no quadro de um
Círculo de Leitores, 1981, p. 267. pragmatismo ideológico controlado, dar um pouco de bem-estar a um povo a viver numa
? Questões
situação de enormes carências:
1. Explique o colapso da – restabelecimento da pequena livre iniciativa e da pequena propriedade privada;
economia russa em 1920.
2. Explicite o significado e
– substituição das requisições das produções por impostos em géneros;
o alcance da afirmação de – possibilidade de os camponeses venderem no mercado os excedentes das produ-
Lenine destacada no
documento. ções agrícolas;
Unidade 1 - As transformações das primeiras décadas do século XX 147

– permissão da importação de capitais, técnicos, maquinaria e matérias-primas;


– privatização das empresas com menos de 20 operários;
– criação de prémios de produtividade;
– criação, em 1922, pelo agrupamento das diversas repúblicas que compunham o ter-
ritório russo, de um Estado Federal, a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas
(URSS).
– reforma monetária e criação de uma nova moeda, o rublo (1924).

Quais os resultados da NEP?

O recuo controlado e limitado de Lenine na construção do modelo socialista soviético


através da NEP obteve resultados positivos na economia:
– permitiu relançar a produção e reanimar as trocas de bens agrícolas;
– estimulou a produção industrial; atenuou a fome e a escassez e o descontenta-
mento social.

No domínio social, a execução da NEP acarretou sérios riscos à realização do objetivo


marxista da construção de uma sociedade sem classes, ao fazer emergir uma nova classe
média de proprietários rurais abastados, os kulaks, e de pequenos comerciantes, os nep-
men (literalmente, homens da NEP).

Esta categoria de burgueses afortunados será, de resto, um alvo a abater após a


tomada do poder por Estaline, em 1928.

* Demoliberalismo: sistema
1.3. A regressão do demoliberalismo* político de democracia
representativa ou
parlamentar, fundado nos
1.3.1. O impacto do socialismo revolucionário. Dificuldades económicas e princípios liberais
radicalização dos movimentos sociais enunciados nos séculos
XVIII e XIX, no qual a
soberania é delegada pelo
Nos anos que se seguiram à Primeira Guerra Mundial, a Europa, perturbada e em gran-
povo a órgãos
des dificuldades económicas, questionou o liberalismo político e a democracia parlamentar. representativos, regendo-
-se pelo princípio da
As massas populares, afetadas pelo desemprego e estimuladas pelo exemplo da revo- maioria e pelo respeito da
vontade popular expressa
lução soviética e pela ação da III Internacional ou Komintern*, mostraram a sua insatis- em eleições.
fação exigindo a intervenção do Estado, ocupando terras e fábricas e promovendo gre- * III Internacional
ves e manifestações. (Comunista) ou Komintern:
fundada em Moscovo, no
Os regimes demoliberais europeus, mesmo as democracias mais consolidadas, mos- ano de 1919, após a vitória
dos comunistas na
tram-se aparentemente incapazes de encontar respostas eficazes para travar o clima de Revolução Russa, tinha
contestação generalizada e as forças sociais e políticas tendem a radicalizar-se. como principais objetivos
dirigir o movimento
Na Alemanha (República de Weimar), os espartaquistas (fação radical do Partido operário internacional e
universalizar o modelo
Social-Democrata alemão, liderada por Karl Liebknecht e Rosa Luxemburgo) protagoni- comunista soviético. Foi
zam, em 1919, uma insurreição em Berlim com o objetivo de instaurar um regime comu- dissolvida em 1943, em
plena Segunda Guerra
nista idêntico ao soviético. Mundial.
148 Módulo 7 - Crises, embates ideológicos e mutações culturais na primeira metade do século XX

Documento 4 Esta onda revolucionária de inspiração marxista alastrou a outros países: o Reino
Unido e a França tiveram de enfrentar, nos anos de 1919-1920, duros surtos grevistas; a
A crise das democracias
encontra a sua razão de Itália, a Áustria e a Hungria confrontaram-se também com violentas insurreições revolu-
ser na conjunção dos cionárias. Na Hungria, como na Baviera ou na Finlândia, proclamam-se “Repúblicas dos
ataques que lhe são
dirigidos do exterior pelo Conselhos” (ou seja, de modelo soviético), que vigoram durante alguns meses.
fascismo e pelo
comunismo e das Em consequência destas lutas, os trabalhadores conseguem algumas conquistas sociais
imperfeições de ordem e laborais, mas, rapidamente, o poder político apoiado nas forças militares e na alta bur-
interna. (...) A crise da
democracia está no guesia, receando o caos e a expansão do bolchevismo no continente europeu, reprime
sentimento, exato ou com violência a contestação revolucionária.
errado, da inadequação dos
princípios e das
instituições da democracia
clássica, isto é,
1.3.2. A emergência dos autoritarismos
parlamentar e liberal, às
circunstâncias, aos As classes médias, alicerce do demoliberalismo e grandes vítimas da queda do poder
problemas e às de compra que quase as reduziu ao nível dos proletários, sentiram-se traídas pelas con-
disposições do espírito
público. (...) cessões sociais aos revolucionários e perderam toda a confiança no Estado liberal. Tor-
René Rémond, Introdução à naram-se, pois, presa fácil da propaganda e da capacidade de mobilização das massas
História do Nosso Tempo,
Lisboa, Gradiva, 1994, p. 319. da direita conservadora e fascista que defendia soluções autoritárias, um poder forte
capaz de garantir a estabilidade e a propriedade contra o caos e a ameaça do comunismo
? Questão (Doc. 4).

1. Comente as afirmações
do autor relativamente à Nos países de tradição liberal e democrática (Reino Unido, França, países escandina-
crise da democracia no vos...), os acordos entre forças de diferentes quadrantes ideológicos e a aplicação de
pós-Primeira Guerra
Mundial. medidas de intervenção social e económica permitiram aos regimes democráticos sobre-
viver à agudização da instabilidade sociopolítica.

Entretanto, difundiam-se os nacionalismos, tanto mais exaltados e agressivos


quanto os respetivos povos se sentiam vítimas da humilhação internacional, como era
o caso particular dos derrotados da Primeira Guerra Mundial, como a Alemanha, onde
Hitler (Fig. 5), líder do Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alemães
(NSDAP), prometia a superação das humilhações da derrota e agitava a ameaça do

Fig. 5. Hitler em tribunal,


comunismo: apoiado nas SA (Secções de Assalto) e nas SS (Secções de Segurança),
após a tentativa falhada de alcançou o poder em 1933, depois de o seu partido ter sido o mais votado nas eleições
golpe de estado (putsh de
de 1932.
8 de novembro de 1923).
Também entre os vencedores da guerra havia países com um forte sentimento de frus-
Cronologia
tração com os tratados de paz, como a Itália, onde Mussolini, apoiado na milícia nacio-
A emergência dos nalista dos camisas negras, comandou a Marcha sobre Roma (1922) e obrigou o rei Vítor
autoritarismos na Europa:
Manuel III a nomeá-lo chefe do Executivo. Em 1924, já no poder, os fascistas manipulam
1922
Itália. os resultados e o próprio sistema eleitoral e impõem a ditadura fascista.
1923
Espanha, Turquia e Em Espanha, em 1923, Primo de Rivera instaurou uma ditadura. Pilsudski fez o mesmo
Bulgária. na Polónia, em 1926. Na Grécia, o general Metaxas impõe um regime autoritário (1936).
1925
Na Jugoslávia, é o próprio rei Alexandre I que impõe uma ditadura com o objetivo de
Grécia.
1926 garantir a unidade nacional posta em causa pelos conflitos étnicos. Também em Portu-
Polónia, Lituânia e Portugal. gal, o golpe de estado do General Gomes da Costa, em 28 de maio de 1926, pôs fim à
1928
I República e conduziu o país para a ditadura.
Jugoslávia.
Unidade 1 - As transformações das primeiras décadas do século XX 149

1.4. Mutações nos comportamentos e na cultura


1.4.1. As transformações da vida urbana
Estimulada pelo crescimento populacional, por surtos migratórios, pelo progresso dos
transportes e pela concentração das indústrias, do comércio e dos serviços nos seus
espaços, as cidades conheceram um forte impulso ao longo da segunda metade do
século XIX e na primeira metade do século XX.

O crescimento das cidades operou-se a um ritmo caótico, agravando, por isso, os pro-
blemas urbanos relativos aos abastecimentos, à circulação (Fig. 6), ao saneamento e à
saúde pública.

A formação de grandes aglomerados urbanos – “metrópoles” (grandes cidades) e


“megalópoles” (extensas áreas urbanas constituídas por uma sucessão de cidades) –
veio romper o tradicional equilíbrio entre a cidade e o campo e, dentro da cidade, entre
os seus moradores, perturbando as relações interpessoais, familiares e sociais, origi-
nando profundas modificações nas formas de viver e novas sociabilidades.

A forte pressão social que se exerce sobre o indivíduo nestes extensos espaços cita-
Fig. 6. Elétrico e
dinos conduz à uniformização, à estandardização dos gostos, hábitos de consumo, valores carruagens. Lisboa nos
e comportamentos, ou seja, à massificação da vida urbana. A desagregação das solida- princípios do século XX.

riedades tradicionais, o desenraizamento individual e a desumanização do trabalho, colo-


cam o indivíduo numa situação de extrema vulnerabilidade face a uma civilização urbana
marcada por hábitos consumistas e por um profundo individualismo. A sociedade urbana
torna-se uma sociedade de massas onde o particular, o diferente e o individual consti-
tuem exceções de difícil compreensão e aceitação. O afastamento para a periferia das
cidades de grupos sociais de fracos recursos económicos e com grandes dificuldades de
integração no modo de vida da civilização urbana favoreceu o desenvolvimento dos fenó-
menos da marginalidade e da anomia social*. * Anomia social: designa um
estado de falta ou falha no
respeito às normas sociais.
A) Uma nova sociabilidade O termo também é usado
para explicar
comportamentos
Os imigrantes urbanos que encheram as cidades nos séculos XIX-XX tiveram de dei-
desviantes de certos
xar para trás as práticas e os vínculos sociais anteriores. Desenraizados e sem referên- grupos.
cias culturais, a construção de novas solidariedades, sobretudo num mundo estranho,
competitivo e, não raras vezes, hostil como o urbano, era para eles uma tarefa funda-
mental.

Mas, para isso, eram necessários tempo e espaço. A primeira necessidade foi resol-
vida pelo aumento da produtividade e pelas reivindicações dos trabalhadores, que per-
mitiram reduzir o tempo de trabalho e criar os tempos livres e os ócios.

A segunda, pelo reordenamento urbanístico das grandes cidades e pelo desenvolvi-


mento do comércio e dos serviços. Ao reservar cada vez mais espaços para atividades de
lazer – jardins, alamedas e espaços verdes – e lugares públicos de convívio – clubes
noturnos, bares, cafés, esplanadas, cinemas… –, as sociedades urbanas criaram também
outros tantos novos espaços e meios de socialização.
150 Módulo 7 - Crises, embates ideológicos e mutações culturais na primeira metade do século XX

B) A crise dos valores tradicionais

O período entre as duas guerras mundiais assinala uma crise de confiança nos prin-
cípios e valores universalmente aceites pelas sociedades europeias demoliberais.

Com efeito, a crença nas virtualidades da democracia liberal, nos valores societais
dominantes, como o trabalho, a austeridade, a educação, a família e a moral cristã, e nas
capacidades, que se supunham ilimitadas, da Ciência foi dando o lugar ao ceticismo e à
rebeldia, ao frenesim consumista e à ânsia de viver.

Duas ordens de razões podem ajudar a compreender este fenómeno de rutura do


padrão de valores e comportamentos sociais:

– por um lado, a massificação da vida urbana, acompanhada pela queda de influên-


cia da Igreja e da família como agentes reguladores dos valores e comportamentos
sociais, e a difusão de novas conceções culturais e científicas;
– por outro, as imagens traumáticas da Primeira Guerra Mundial perduravam na
memória das sociedades que sofreram direta ou indiretamente os seus horrores,
lançando uma sombra sobre o otimismo do século XIX, fundado na convicção plena
Documento 5 nas capacidades dos indivíduos e das sociedades para construir um futuro de pro-
gresso e de bem-estar contínuos para a Humanidade.
Apesar das reticências da
opinião média, não é
possível deixar de acentuar Acresce que os enormes sacrifícios suportados pelo esforço de guerra terão provo-
o formidável anseio de ar
cado nas pessoas uma reação de compensação, um desejo incontido de recuperar os
puro suscitado pelos
roaring twenties. A radical anos perdidos e de libertar as frustrações acumuladas. Esta atitude vinha, de resto, ao
modificação da moda
feminina, ou a voz do jazz,
encontro das investigações e teorias revolucionárias de Sigmund Freud (1856-1939), um
dos bares noturnos e dos médico austríaco que acreditava que a maioria dos casos de doenças mentais e nervo-
cocktails correspondem a
uma nova arte de viver, à sas resultavam de conflitos violentos entre os instintos naturais e as restrições impostas
instalação de uma por uma falsa moral.
sociedade de consumo.
(...) para os estudantes de
Oxford ou do Quarter Latin, Como sempre acontece, foram as elites urbanas e esclarecidas as primeiras a captar
a flapper não é apenas o
e exteriorizar estes sinais de mudança, a dar o exemplo, atitude nem sempre compreen-
tipo ideal de jovem
excêntrica, liberta de dida pelos seus contemporâneos. O modelo de vida americano (american way of life) dos
convenções sociais e
tabus; a sua maquilhagem,
denominados loucos anos vinte (roaring twenties), caracterizado pela incessante procura
o vestuário masculino ou do prazer e da evasão – e que outras sociedades se esforçaram por imitar –, protago-
as saias acima do joelho, o
seu gosto pelo cigarro e niza, de forma exemplar, os novos tempos de mudança.
pelos night-clubs,
representam cortes com
as regras do século XIX. C) A emancipação da mulher
Bernard Droz, História do
Século XX, vol. I, Lisboa, A partir das primeiras décadas do século XX ocorreram significativas mudanças nos
D. Quixote, 1988, pp. 131-132.
papéis desempenhados pelas mulheres nas sociedades ocidentais (Doc. 5), no sentido
de uma, cada vez maior, igualdade de direitos com os homens. As alterações acentua-
? Questão
ram-se decisivamente a partir da Primeira Guerra Mundial (1914-1918). Com efeito, a
1. Como explica a crise dos guerra proporcionou a intervenção das mulheres em quase todos os setores da atividade
valores sociais tradicionais económica, desde os trabalhos pesados das fábricas até à direção das empresas, subs-
nas primeiras décadas do
século XX? tituindo os homens ausentes nas frentes de combate.
Unidade 1 - As transformações das primeiras décadas do século XX 151

As capacidades intelectuais e o dinamismo revelados pelas mulheres – uma reve-


lação surpreendente para as sociedades ocidentais onde tradicionalmente o seu
papel era subalternizado – levaram-nas a tomar consciência da sua força e a orga-
nizar-se para reivindicar a sua emancipação (Fig. 7).

Aos fenómenos da industrialização e da Primeira Guerra Mundial, que possibili-


taram uma maior participação da mulher no mundo do trabalho, devemos adicionar
outros fatores que ocorreram em paralelo: Fig. 7. Manifestação
feminina em Nova Iorque
– a aceleração da vida urbana e alteração do código de valores; (1912). No pano, ao alto:
“Para impostos iguais,
– a crescente laicização (descristianização) das sociedades ocidentais; representação igual”. Nas
faixas das manifestantes:
– a alteração do conceito de família com a generalização da família nuclear (restrita a
“Voto para as mulheres”.
pais e filhos) e dos comportamentos sexuais, em particular o controlo da natalidade.

As primeiras formas da luta das mulheres pela sua emancipação traduziram-se nos
movimentos sufragistas(6) que reivindicavam o reconhecimento da igualdade de direitos
relativamente aos homens no trabalho, na estrutura familiar e na vida pública e o sufrá-
gio universal. Para atrair a atenção de uma sociedade preconceituosa e mobilizar apoios
para a sua causa, as militantes sufragistas mais radicais criaram associações femininas e
* Feminismo: conceção
levaram a cabo corajosas campanhas na imprensa e manifestações de protesto(7).
social, política, ética que
Mas o feminismo* encontrou outras formas – porventura menos espetaculares, mas efi- defende a igualdade
absoluta dos direitos e
cazes – de afirmação pública através do vestuário e da moda. Os tecidos, mais leves, reve- deveres de ambos os
lam discretamente as linhas do corpo. As saias sobem do tornozelo até ao joelho e as sexos, pela melhoria legal
e real das condições em
meias realçam os contornos das pernas. O espartilho foi dando lugar ao soutien. A moda que vive a mulher.
dos cabelos compridos, muito do agrado de gostos românticos, passou a ter um concor- * Relativismo: doutrina
rente muito popular entre as feministas: o cabelo curto e o penteado à garçonne, mais ade- segundo a qual todo o
conhecimento é relativo,
quado à imagem de independência e à vida ativa. dependendo de fatores
contextuais, variando de
acordo com as
D) A descrença no pensamento positivista e as novas conceções científicas
circunstâncias, negando,
por isso, a possibilidade do
Nos inícios do século XX predominava ainda a mentalidade confiante, positivista e conhecimento absoluto e
racionalista que caracterizara o mundo do conhecimento na segunda metade do século XIX. de certezas definitivas.

Mas, de uma forma algo surpreendente, processa-se uma reação antipositivista e antirra-
cionalista. Na origem desta rutura estão, em primeiro lugar, as novas e revolucionárias
conceções e descobertas científicas que têm o seu ponto de partida no relativismo* que
veio pôr em causa o paradigma positivista da objetividade e universalidade do conheci-
mento científico.

Um dos grandes obreiros desta revolução intelectual e científica dos princípios do século
XX foi Einstein (Fig. 8). A doutrina que lhe deu maior fama foi a sua Teoria da Relatividade,
Fig. 8. Albert Einstein
apresentada sob a forma estrita em 1905 e ampliada dez anos depois. Einstein punha em (1879-1955), físico e
causa não só as antigas conceções sobre a matéria, mas também toda a Física tradicional matemático de origem
alemã. A sua Teoria da
construída sobre as conceções da geometria euclidiana e da mecânica newtoniana. Relatividade, expressa pela
fórmula E=mc2, ou seja, a
(6)
O termo “sufragistas”, inicialmente usado com sentido pejorativo, apareceu pela primeira vez no jornal inglês Daily energia (E) é igual à massa
Mail Newspaper em 1906. (m) multiplicada pelo
(7)
Destacou-se nesta luta a Women’s Social and Political Union (WSPU), fundado por Emmeline Pankhurst em 1903.
quadrado da luz (c2),
Fiéis ao seu lema “Atos e não palavras”, interrompiam reuniões políticas, assediavam os deputados do Parlamento, revolucionou a Física e a
partiam janelas, cortavam cabos telefónicos e telegráficos e chegaram a invadir a Câmara dos Comuns. Ciência contemporânea.
152 Módulo 7 - Crises, embates ideológicos e mutações culturais na primeira metade do século XX

Sustentou que o espaço e o movimento não eram absolutos, mas relativos. Os obje-
tos não tinham apenas três dimensões, mas quatro. Ao comprimento, largura e espessura,
acrescentou Einstein, a nova dimensão do tempo e representou todas as quatro dimen-
sões como fundidas numa síntese a que deu o nome de “contínuo espaço-tempo”. Pro-
curava dessa forma explicar a ideia segundo a qual a massa depende do movimento.

Uma série de descobertas – de Röentgen, Becquerel, Pierre e Marie Curie e Max Planck –
desacreditaram a conceção racionalista que defendera a continuidade e indestrutibilidade
da matéria. O físico nuclear de origem germânica Heisenberg (1901-1976) enunciou o prin-
cípio da indeterminação, que desferiu um rude golpe no determinismo e na previsibili-
dade dos fenómenos.

Estas novas conceções e descobertas relançam a crítica à Ciência, o seu alcance e os


seus limites. Henri Poincaré (1854-1952), ao defender que a Ciência não conhece e jamais
pode conhecer algo da natureza das coisas, pois ela só consegue determinar as relações
das coisas entre si, desvalorizou o papel da experiência, considerada até então como ins-
trumento de toda a certeza ou verdade científica. Bergson (1859-1941) considerava que
a realidade não era cognoscível através da experiência ou da evidência racional, mas por
uma espécie de “intuição” (intuicionismo). Na década de 30, num quadro de crise moral
e material generalizada, esta corrente irracional encontra no existencialismo do filósofo
alemão Heidegger (1889-1976) um impulso decisivo.
* Psicanálise: criada e
desenvolvida por Sigmund No domínio do comportamento humano, a Psicanálise* de Freud (Fig. 9), abre novos
Freud numa tentativa de
caminhos à compreensão do subconsciente ou inconsciente através da interpretação de
compreender a
personalidade e o sinais exteriorizados e torna-se um método terapêutico(8). Freud admitia a existência da
comportamento humano
mente consciente, mas considerava o subconsciente muito mais importante na determi-
em toda a sua
complexidade. Constitui nação dos atos do indivíduo. Acreditava que a maioria dos casos de doenças mentais ou
uma das grandes correntes
nervosas resultavam de conflitos violentos entre os impulsos ou instintos naturais e as
da Psicologia. É, ao mesmo
tempo, uma teoria geral do restrições impostas pela moral social.
psiquismo, uma
psicoterapia e um método As conceções freudianas, em particular sobre sexualidade e o castigo, adquirem popu-
de investigação.
laridade muito rapidamente não só no domínio da Psicologia, como também nos meios
literários e artísticos, influenciando ainda certos comportamentos ao incentivar uma maior
libertação dos constrangimentos sociais.

Outras ciências humanas são também levadas a reconsiderar as suas conceções e


métodos. A Sociologia, a Antropologia, a Filosofia e a Psicologia, influenciadas pelos pro-
gressos da Ciência, conhecem importantes desenvolvimentos. A História, a partir do final
da década de 30, com Marc Bloch (1886-1944) e Lucien Febvre (1878-1956), fundadores
Fig. 9. Sigmund Freud da revista Annales d´Histoire Économique et Sociale, questionam a obsessão positivista
(1856-1939), médico
austríaco, fundador da da objetividade e imparcialidade absolutas do historiador, alarga o seu objeto e assume
Psicanálise, revolucionou o sem complexos a natureza relativa, subjetiva do conhecimento histórico.
modo de encarar a mente
e o comportamento
humano.

(8)
Na investigação do inconsciente, Freud começou por utilizar a hipnose, mas depressa a abandonou em favor de
outras técnicas, em especial, a associação livre de ideias e a interpretação de sonhos.
Unidade 1 - As transformações das primeiras décadas do século XX 153

E) As vanguardas: ruturas com os cânones das artes e da literatura

A crise do pensamento e da Ciência e as novas conceções e descobertas científicas


dos princípios do século XX não poderiam deixar de se refletir nos restantes domínios da
Cultura.

De facto, também nos domínios das artes e da literatura se verificou o aparecimento de


* Vanguarda cultural:
uma vanguarda cultural*, uma geração de intelectuais e artistas inovadores, e de certa forma
movimento inovador no
visionários, que tinham como ponto de partida a ideia de que lhes estava destinada a nobre campo artístico, literário
ou em qualquer área da
missão de romper com a tradição, com as suas imagens e símbolos, e de acelerar, anteci- cultura que rejeita os
par o futuro, através da procura incessante de novas ideias e formas de expressão. cânones estabelecidos e
antecipa tendências
posteriores.
Foi esta nova atmosfera intelectual e artística simultaneamente de rutura e de inova-
ção criadora que deu origem ao Modernismo*. * Modernismo: designação
dada ao conjunto dos
movimentos, grupos ou
tendências que, a partir
1.4.2. As novas tendências da pintura dos inícios do século XX,
rompem com os cânones ou
regras tradicionais nas
A) Fauvismo
artes e na literatura e que
procuram novas expressões
Apesar de não ter formado propriamente uma escola e de ter durado apenas alguns técnicas, formais e estéticas
anos (1905-1907), o Fauvismo* ou movimento fauve tem uma intenção comum bem defi- baseadas em conceções
autónomas e
nida: a pintura deve transmitir sensações profundas ao espetador, e não apenas passa- revolucionárias suscetíveis
de melhor traduzirem o
geiras, como acontecia no Impressionismo. progresso e os novos
gostos desenvolvidos nas
Levando ao extremo o anticonvencionalismo e o gosto ou o prazer pela inovação, o sociedades ocidentais.
Fauvismo apresenta como principais características:
* Fauvismo (de fauves,
– o abandono das regras tradicionais da pintura académica, como o pormenor descri- feras, termo utilizado pelo
crítico de arte francês
tivo e as técnicas da perspetiva e do claro-escuro; Louis Vauxcelles, a
propósito da exposição
– a assunção da bidimensionalidade da tela (redução da perspetiva) e com ela a afir- Salão de Outono de 1905):
mação da autonomia do espaço pictórico relativamente ao espaço natural, ao objeto constituiu a primeira
grande revolução artística
real; do século, liderada por
Henri Matisse.
– a exploração da expressividade da cor, recorrendo a cores fortes e puras ou primá-
rias, a tonalidades arbitrárias e violentamente contrastantes, aplicadas com
pinceladas intuitivas, vigorosas e grossos empastes (de modo “selvagem”);

– o “primitivismo” das formas e a simplicidade do traço emprestando ao qua-


dro emotividade, rudeza e agressividade envolvendo ao mesmo tempo o
observador na comunhão das emoções (Fig. 10);

– a desvalorização da temática, sem qualquer conotação social, política ou


outra; é apenas pretexto para a realização plástica.

Os representantes fauves mais destacados: Henri Matisse (1869-1954), fun-


dador do movimento, Maurice Vlaminck (1876-1958), Georges Rouault (1871-
Fig. 10. A Cigana (1906), de
-1958) e André Derain (1880-1954). Henri Matisse (Museu da
Annonciade, Saint-Tropez).
154 Módulo 7 - Crises, embates ideológicos e mutações culturais na primeira metade do século XX

B) Cubismo

* Cubismo: corrente ou Entre 1906 e 1908, as experiências de um jovem e talentoso artista espanhol chamado
escola pictórica iniciada
por Picasso e Braque, Pablo Picasso (1881-1974) e do seu amigo Georges Braque (1882-1963) estão na origem
cerca de 1907, que
representa um dos de uma nova conceção de pintura, o Cubismo*.
movimentos estéticos
mais importantes da arte
A primeira fase deste estilo (1909-1912) denomina-se Cubismo Analítico. Os objetos
contemporânea.
Caracteriza-se pela são decompostos em linhas e planos monocromáticos, derivados do cubo e da esfera,
simplificação e
geometrização das formas muitas vezes transparentes, inclinados, justapostos ou imbricados. Fragmentando os pla-
e pela decomposição dos
objetos sem nenhum nos, o artista dá uma perspetiva simultânea e multifacetada do objeto em todos os seus
compromisso de fidelidade
com a sua aparência real, o contornos ou ângulos. Desta forma, o ponto de vista do observador já não é único e fixo,
Cubismo procura novas
mas móvel e múltiplo, apesar de traduzido por uma única imagem. Simultaneamente, a
formas de representação
dos volumes no espaço perspetiva perde importância (Fig. 11).
bidimensional do quadro,
sem o recurso à perspetiva
tradicional e à representação Os temas mais comuns são pessoas, paisagens e naturezas-mortas compostas por
naturalista. Pode-se
distinguir duas fases: objetos comuns, como garrafas, copos e instrumentos musicais. Nesta fase, as referên-
1909-1912, período do
“cubismo analítico”; cias ao mundo visual são ainda bastante precisas, evoluindo gradualmente para imagens
1913-1914, período do
“cubismo sintético”.
mentais ou concetuais do real.

Cerca de 1911, Braque e Picasso começam a introduzir nos seus quadros letras e
números para que pareçam menos abstratos. Depois, colam nas telas fragmentos de
papel, cartão e vidro, areia… É o início das “colagens” com a utilização de elementos até
então inéditos na pintura. Não tendo valor estético próprio, estes materiais de uso quo-
tidiano associados a uma obra de arte estimulam visualmente o observador e afastam o
artista da cópia ou reprodução.

Pouco antes da Primeira Guerra Mundial, o Cubismo evolui numa outra direção: é a
fase do Cubismo Sintético que tem no pintor espanhol Juan Gris (1887-1927) o seu ini-
ciador e o maior representante. As representações geométricas já não se inspiram dire-
tamente na imagem dos objetos, mas são inventados ou criados para formar uma com-
posição em que os diferentes elementos não conservam nada das aparências naturais.

O objetivo não é a decomposição dos objetos, mas a expressão das suas formas
Fig. 11. Les Demoiselles
d´Avignon (1907), de essenciais e da sua matéria, eliminando todo o pormenor acidental (por inútil), redu-
Picasso (Museu de Arte
Moderna, Paris). zindo-os a formas geométricas simples – o quadrado, o retângulo e o triângulo. O Cubis-
Correntemente
apresentada como o seu
mo tornou-se assim uma arte mais intelectualizada, mais racionalizada e, por consequên-
marco inicial, esta obra cia, mais abstrata.
revela as duas grandes
influências do Cubismo:
Cézanne (geometrização
das formas) e a arte Representantes mais importantes do movimento cubista: Picasso, Braque, Juan Gris
africana (simplificação e e Jean Metzinger (1883-1956).
rudeza das formas).
Unidade 1 - As transformações das primeiras décadas do século XX 155

C) Expressionismo

A Ponte (Die Brücke)

No início do Expressionismo* estão os artistas alemães Kirchner (1888-1938), Heckel


(1883-1970), Fritz Bleyl (1880-1966) e Schmidt-Rottluff (1884-1976), aos quais se juntaram
* Expressionismo:
depois Nolde (1867-1956), Pechstein (1881-1955) e Müller (1874-1930) que, em 1905, na
movimento de vanguarda
cidade de Dresden, formaram o denominado grupo Die Brücke (A Ponte)(9). artística que se opõe ao
Impressionismo e defende
Inspirado nas ideias filosóficas do Existencialismo e na obra de Van Gogh (1853-1890), não a representação da
realidade objetiva, mas a
Gauguin (1848-1903) e Munch (1863-1944), o Die Brücke fundamenta as suas conceções
emoção que esta suscitava
estéticas e artísticas no entendimento da arte como uma forma de expressão subjetiva, ao artista. Iniciado no fim
do século XIX por artistas
um meio de revelação das emoções humanas no que estas têm de confuso e irracional. plásticos alemães, atinge o
seu apogeu entre 1910 e
As formas de expressão encontradas pelos membros do grupo para traduzir as emo- 1920 e estende-se aos
países do Norte da Europa
ções, os dramas e as angústias humanas, tais como o medo, a solidão ou o ciúme, foram: e à literatura, à música, ao
teatro e ao cinema.
– a deformação intencional e patética do real através da acentuação excessiva das
suas formas e contornos, pela utilização das cores puras e pela disposição dinâmica
e ritmada dos pormenores (uma desfiguração quase caricatural) (Fig. 12);
– a ligação afetiva entre as formas humanas e as dos cenários naturais ou urbanos
envolventes;
– a substituição da perspetiva por uma organização do espaço baseada em tonalida-
des fortemente contrastantes que sugerem a profundidade e o modelado;
– o recurso às pinceladas expressivas e dramáticas, a tons vivos para exprimir melhor
Fig. 12. Bailarinas, de
a violência das emoções e produzir reações idênticas no observador. Ludwig Kirchner (coleção
particular, Turim).
A deformação das figuras,
O Cavaleiro Azul (Der Blaue Reiter) as formas simplificadas e
angulosas, a acentuação
Entre 1911 e 1914, surgiu um outro movimento expressionista, com origem na cidade dos traços e as
de Munique, fundado por Vassili Kandinsky (1866-1944), que, com Franz Marc (1880-1916), tonalidades contrastantes
concorrem para expressar
fundou o grupo O Cavaleiro Azul (Der Blaue Reiter). a espontaneidade e o vigor
da paixões humanas.
Apesar das diferenças de sensibilidades e de formas de expressão artística dos seus
membros, este grupo deu ao Expressionismo, sobretudo através de Kandinsky, pintor
russo que vivia na Alemanha e era o seu líder, uma feição marcadamente não figurativa,
abstrata. Kandinsky considerava que a arte é uma “atividade do espírito” que permite,
tal como a música, transcender o mundo material, objetivo. As cores, as linhas e as for-
mas já não têm nenhuma relação com a Natureza. A pintura pode dispensar o objeto já
que a arte pictórica tem uma fundamentação teórica e formas de expressão próprias. A
obra de arte vale pelas vibrações que suscita, pela espiritualidade e energia que reflete;
não pela conotação ou dependência do mundo que nos cerca.

Representantes: Munch, Kirchner, Nolde, Paul Klee e Kandinsky.

(9)
O nome define metaforicamente o objetivo do grupo: procurar a ponte que leva do visível ao invisível ou uma porta
entre o passado e o presente/futuro. Há uma clara atração pelo primitivismo e pela recuperação de técnicas tradi-
cionais/medievais.
156 Módulo 7 - Crises, embates ideológicos e mutações culturais na primeira metade do século XX

D) Abstracionismo

* Abstracionismo: O Abstracionismo* teve o seu ponto de partida numa experiência isolada de Vassili
movimento caracterizado
pela ausência de
Kandinsky, em 1910, ainda durante a fase do Cavaleiro Azul, e o seu grande desenvolvi-
referências figurativas, mento entre 1918 e 1933.
pela afirmação da
autonomia da obra de arte
da realidade visível e pela O Abstracionismo constitui o termo de um percurso de rutura com a arte figurativa e
utilização de uma
linguagem plástica com as composições em perspetiva, de norma renascentista, no sentido da afirmação da
abstrata, matemática e
racional. autonomia da obra de arte face ao real. O artista propõe-se não traduzir a realidade sen-
sível, objetiva ou a sua ilusão, mas sim abstrair dessa realidade uma outra produzida pelo
espírito: o objeto desaparece (ausência de referências figurativas); a obra de arte torna-
se um objeto autónomo, independente da realidade visível.

Esta libertação da arte em relação ao real é acompanhada pela utilização de uma lin-
guagem plástica abstrata, fria, matemática, racional expressa na exploração da assime-
tria, no jogo cromático (tons contrastantes, utilização das cores primárias e das duas “não
cores” – o branco e o negro) e na articulação entre as linhas conjugadas numa unidade
capaz de traduzir uma realidade oculta e mais profunda que as aparências.

O Abstracionismo pode subdividir-se em duas grandes tendências: Abstracionismo


Lírico (ou Expressivo) e Abstracionismo Geométrico.

O primeiro, criado por Kandinsky, derivado diretamente do Expressionismo, inspira-se


no instinto e no inconsciente e apresenta as seguintes características: jogo das formas
orgânicas e cores vibrantes; recurso a meios expressivos onde sobressaem as linhas, as
formas e as cores e os seus respetivos significados; procura de relações com outras artes,
nomeadamente com a música, a arte não figurativa por excelência.

O segundo, diretamente influenciado pelo Cubismo e pelo Futurismo, corresponde a


uma fase de radicalização do Abstracionismo. Caracteriza-se pela criação de uma lingua-
gem puramente plástica capaz de refletir através de formas geométricas simples, pinta-
das com cores primárias e neutras, a racionalidade da ordem e da harmonia universais.

O Abstracionismo Geométrico subdivide-se em várias correntes, sendo as mais repre-


sentativas e fecundas: o Suprematismo, um movimento criado pelo artista russo Male-
vitch (1878-1935), cerca de 1915-1916, que se distinguiu pelo dinamismo das formas puras
Fig. 13. Composição (1921),
de Piet Mondrian e geométricas e pela intensidade e vibração cromáticas das suas obras; e no Neoplasti-
(Gemeentemuseum, Haia).
Planos, linhas e ângulos
cismo, ou seja, uma nova plástica que recusa qualquer noção de subjetividade e, por-
ordenam-se numa tanto, de dinamismo, de movimento e de profundidade. Piet Mondrian (1872-1944) foi o
composição racional. As
três cores primárias puras seu mais destacado representante na pintura (Fig. 13).
(amarelo, azul e vermelho)
opõem-se e equilibram-se
com as não-cores (branco, Representantes: Kandinsky, Paul Klee, Malevitch e Piet Mondrian.
cinzento e preto).
Unidade 1 - As transformações das primeiras décadas do século XX 157

E) Futurismo

O Futurismo* teve origem em Itália a partir da publicação, em 1909, no jornal Le Fígaro, * Futurismo: movimento
artístico e literário de
do Manifesto Futurista do poeta italiano Marinetti. Polémico e profético, o texto propõe a índole revolucionária;
aniquilação definitiva de toda e qualquer forma de tradição, preconizando uma literatura inspirado no progresso
científico e tecnológico dos
e artes mais condizentes com o presente, com a era das máquinas e da velocidade.
inícios do século XX,
Em 1910, o Manifesto dos Pintores Futuristas, assinado por Umberto Boccioni, Giacomo combatia qualquer forma
de tradição, bem como o
Balla (Fig. 14), Carlo Carrà, Gino Severini e Luigi Russolo, enunciavam as grandes linhas geometrismo intelectual dos
de orientação do movimento: cubistas e o sensualismo
cromático dos
– o repúdio da estética tradicional, bem como do geometrismo intelectual e estático expressionistas.
dos cubistas e do sensualismo cromático dos expressionistas;
– a exaltação da originalidade, da força, da velocidade, do maquinismo e do progresso
científico e tecnológico.

O Futurismo constituiu-se, portanto, como uma vanguarda de rebeldia contra a tradi-


ção e de afirmação da energia, vitalidade e dinamismo da vida moderna e dos valores
da civilização industrial. Baseando-se na descoberta da Física, de que a energia é a rea-
lidade fundamental da Natureza, os futuristas insistiam que o movimento deveria consti-
tuir o tema principal da arte. Ousaram mesmo considerar o automóvel de corrida “mais
belo do que a Vitória de Samotrácia”. Fig. 14. Mercúrio Passa
Diante do Sol (1914), de
Para criar plasticamente a ilusão de movimento e dinamismo, os artistas futuristas Giacomo Balla (coleção
recorreram a diversas técnicas inspiradas na fotografia e no cinema, como a decomposi- particular, Milão).
ção das formas e das cores, a alternância de planos, a sobreposição de imagens e as
variações cromáticas. Concorrem ainda para reforçar aquela ilusão, a utilização de linhas
circulares e contorcidas, de espirais e elipses e de planos geométricos em ângulo agudo.

Representantes: Giacomo Balla (1871-1958), Carlo Carrà (1881-1966), Umberto


Boccioni (1882-1916), Gino Severini (1883-1950).

F) Dadaísmo

O movimento artístico niilista que surgiu entre os horrores da Primeira Guerra Mun-
dial, chamado Dadaísmo*, teve origem em Zurique em 1916. Precursor do Surrealismo, * Dadaísmo: (de dada, um
sobre o qual exerceu uma influência determinante, o Dadaísmo nasceu, em parte, do termo de origem obscura) –
movimento literário e
desencanto amargo de uma geração educada na crença da bondade dos valores da civi- artístico iniciado pelo
lização industrial com a brutalidade da Primeira Guerra Mundial. poeta romeno Tristan
Tzara, que preconizava
O contexto histórico do seu nascimento ajuda a compreender a sua natureza irreve- uma libertação absoluta da
arte de tudo o que lhe
rente e crítica. Os seus princípios teóricos explicitados em sucessivos manifestos procla- fosse exterior, a supressão
mam a espontaneidade (em francês, dada significa “cavalinho de brinquedo”), a liber- total da lógica, o absurdo,
ridicularizando os valores
dade e a anarquia absoluta do artista: a autêntica arte seria a anti-arte. Esta atitude
estéticos, morais e
revela o seu propósito principal: chocar a sociedade burguesa em geral e as concepções religiosos vigentes.
artísticas instaladas em particular, pelo absurdo, pela ironia e pelo sarcasmo.
Os processos destrutivos, provocatórios do Dadaísmo tiveram, contudo, a vantagem
de agitar um certo número de ideias e práticas preconcebidas, induzindo algumas modi-
ficações estéticas e artísticas radicais.
158 Módulo 7 - Crises, embates ideológicos e mutações culturais na primeira metade do século XX

Pretendendo demonstrar que o valor estético de algo não depende dos procedimen-
tos técnicos, mas da atitude mental, os artistas dadaístas desenvolveram técnicas plás-
ticas novas, como as colagens na tela de objetos com relevo e a transformação de obje-
tos vulgares em obras de arte (Fig. 15), só pela simples circunstância da mudança do seu
contexto de uso para um outro puramente estético, como uma galeria de arte, por exem-
plo. Esta última é uma técnica muito característica de Marcel Duchamp (1887-1968), que,
Fig. 15. Com Ruído Secreto com Francis Picabia (1878-1953) e Tzara (1896-1963), foi o precursor do movimento Dada.
(1916), de Marcel Duchamp
(Museu de Arte Moderna,
Estocolmo). Uma ilustração Representantes: Marcel Duchamp, Picabia, Man Ray (1890-1976) e Tzara.
do espírito anti-arte dada:
um novelo de cordel preso
entre duas placas de metal, G) Surrealismo
gravadas com palavras e
letras desconexas
Nascido em França cerca de 1919, o Surrealismo*, um movimento inicialmente literá-
interrompidas por pontos,
como na linguagem morse, rio, constituiu, na linha do movimento Dada, uma reação aos valores culturais e artísti-
ridiculariza a ideia de
cos das sociedades ocidentais, em particular o racionalismo e o convencionalismo.
secretismo.
Diretamente influenciado pela psicanálise e pelo bergsonismo(10), o movimento surrea-
* Surrealismo: movimento lista abriu um mundo novo à criação artística: o subconsciente humano.
artístico e literário de
origem francesa, Em 1924, no primeiro Manifesto do Surrealismo, André Breton (1896-1966), um poeta
caracterizado pela procura francês atraído pela psicanálise, defende a substituição da visão racional do mundo por
de processos de expressão
do pensamento uma interpretação orientada pelo inconsciente, estabelecendo associações livres seme-
subconsciente de maneira lhantes às dos sonhos ou alucinações. No entanto, o objetivo não é traduzir os sonhos,
espontânea e automática.
mas, através deles, atingir uma realidade mais autêntica, a realidade interior, e desta
forma “achar a solução dos problemas fundamentais da vida”.
A partir desta conceção teórica o Surrealismo evoluiu em duas direções:
uma, a das experiências criadoras automáticas; outra, a da fantasia pura e a
da reconstrução poética de um mundo imaginário (Fig. 16). O automatismo
tinha como objetivo assegurar a total liberdade criadora, eliminando qualquer
controlo da razão ou da consciência, libertando assim os impulsos criadores
que residem no subconsciente. Para isso utilizaram várias técnicas, entre as
quais o recurso ao álcool ou à droga, para provocar estados alucinatórios, e à
hipnose.
Fig. 16. A Persistência da
Memória (1931), de Para além da técnica do desenho e pintura automáticos, o Surrealismo socorreu-se de
Salvador Dalí, Museu de técnicas clássicas de desenho e da gradação cromática e de outras tipicamente vanguar-
Arte Moderna, Nova Iorque.
O sonho e o imaginário distas, como a colagem, o dripping(11) e a grattage(12).
abriram um novo e atrativo
campo temático à
exploração artística. Representantes: Salvador Dalí (1904-1989), Max Ernst (1891-1976), Joan Miró (1893-
-1983), René Magritte (1898-1967), André Masson (1896-1987), Giorgio de Chirico (1888-
-1978) e Yves Tanguy (1900-1955).

(10)
Sistema filosófico de Bergson. Valorizou a intuição contra o intelecto, defendendo que este não é capaz de apreen-
der a realidade no seu sentido mais profundo.
(11)
Técnica pictórica que consiste no gotejar da tinta através de um movimento pendular mecânico.
(12)
Técnica que consiste em colocar uma tela pintada sobre uma superfície em relevo para, através de pressão e ras-
pagem, fazer surgir as marcas dessa superfície.
Unidade 1 - As transformações das primeiras décadas do século XX 159

1.4.3. A arquitetura
A utilização de novos materiais de construção (aço, betão armado, placas de vidro, plás-
ticos, contraplacados) e a necessidade de construir novos tipos de edifícios (gares, aero-
portos, pavilhões de exposições, bairros sociais), conciliando a tecnologia industrial com a
estética quer na relação do edifício com o espaço exterior quer na relação do espaço inte-
rior com o indivíduo, aliados à adoção de novos métodos de construção, influenciaram as
experiências inovadoras realizadas por arquitetos americanos e europeus (Fig. 17), na pri-
meira metade do século XX.

Fig. 17. A Fábrica Fagus, em


A tendência dominante na arquitetura deste período é o que se chama Movimento
Alfeld an der Leine (1911-
Moderno gerado pela confluência de, entre outros, o Neoplasticismo, Construtivismo -1914), obra de Walter
Futurismo e Purismo, e que foi designado na época por Funcionalismo, Racionalismo e Gropius e Adolf Meyer.
A arquitetura funcionalista
por Estilo Internacional. concede prioridade
à adequação do edifício,
à sua finalidade ou função.
1.4.4. A escultura
A escultura do início do século XX continuou marcada pelo génio de Rodin (1840-1917)
e permaneceu presa à estética, aos suportes e aos meios tradicionais, sendo a sua evo-
lução mais lenta e menos afirmativa que a da pintura.

Aristide Maillol (1861-1944), discípulo de Rodin, exaltou a beleza feminina, em atitu-


des e movimentos plasmados, de formas naturalistas desligadas de qualquer relação his-
tórica ou mitológica.

Serão as vanguardas pictóricas a libertá-la das “formas antigas” e a iniciar uma nova
e ousada linguagem escultórica, assente no rompimento com a tradição figurativa, na sim-
plificação plástica e na valorização do objeto, dos seus materiais, formas e significados
(Boccioni, Fig. 18). Brancusi (1876-1957), pioneiro da escultura abstrata, libertou-se das
aparências de superfície para revelar a beleza intrínseca dos próprios materiais utilizados.

1.4.5. As novas correntes na literatura


Na viragem para o século XX assiste-se no universo literário ocidental, por um lado,
ao desenvolvimento ainda vigoroso do Realismo e, por outro, à emergência de novas
Fig. 18. Formas Únicas de
tendências, refletindo as influências dos progressos revolucionários da Ciência e do Continuidade no Espaço
desenvolvimento das Ciências Sociais, em particular da Psicologia. (1913), de Umberto Boccioni
(1882-1916), Palácio Real,
A partir de 1920, o Realismo Social perdeu importância, salvo na URSS, onde a lite- Milão. Obra futurista, onde
é evidente a rutura com a
ratura acompanhou o processo revolucionário. Nos EUA transforma-se numa espécie de
tradição figurativa e a
realismo baseado no indivíduo e onde os problemas da chamada Lost Generation (“Gera- expressão do movimento
dinâmico de um corpo
ção Perdida”) inspiraram os primeiros romances de Ernest Hemingway (1898-1961), a poe-
humano no espaço, através
sia de Thomas Elliot (1888-1965), as obras dramáticas de Eugene O´Neill (1988-1953) e do alongamento dos
de John Steinbeck (1902-1960). volumes.

A tendência dominante desta década é o introspetivismo ou psicologismo*, direta ou


* Psicologismo: Doutrina
indiretamente ligada às correntes filosóficas, científicas e artísticas, em particular à Psi- filosófica que subordina a
canálise e ao bergsonismo. O britânico Aldous Huxley (1894-1963), o alemão Thomas lógica e o conhecimento à
Psicologia; todos os atos
Mann (1875-1933), o irlandês James Joyce (1883-1941) e o francês Marcel Proust (1871-1922) humanos têm explicação
foram os seus principais intérpretes. psicológica.
160 Módulo 7 - Crises, embates ideológicos e mutações culturais na primeira metade do século XX

1.5. Portugal no primeiro pós-guerra


1.5.1. As dificuldades económicas e a instabilidade política e social;
a falência da 1.a República

Os principais problemas económicos e políticos com que a sociedade portuguesa se


debateu no primeiro pós-guerra eram sobretudo de natureza estrutural e com profundas
raízes nos tempos da Monarquia. A participação de Portugal na Primeira Guerra Mundial
e as suas consequências, quer humanas quer económicas e também financeiras, aliadas
à instabilidade governativa(13), agravaram muitos desses problemas.

No domínio económico-financeiro:

– arcaísmos das estruturas de transportes e comunicações;


– excessivo parcelamento da propriedade agrícola;
– baixos índices de produtividade dos setores agrícola e industrial;
– escassez de capitais e de mão de obra fabril qualificada;
– número e dimensão relativamente reduzidos das unidades fabris e incipiente
mecanização;
– défices orçamentais crónicos e balanças comercial e de pagamentos defici-
tárias (Fig. 19);
– elevada dívida pública;
– surtos inflacionistas decorrentes dos desequilíbrios entre a oferta e a pro-
cura, da especulação e das desvalorizações da moeda;

Fig. 19. A evolução – desemprego, carestia de vida, racionamentos...


orçamental: receitas e
despesas públicas
(1910-1926).
A. Oliveira Marques, História
de Portugal, Vol. 2, Lisboa,
No domínio político:
Palas Editores, 1978, p. 203.

– divisões no Partido Republicano Português (PRP): – logo em 1911, os republicanos


dividiram-se pelo Partido Democrático, de Afonso Costa, o Partido Evolucionista, de
António José de Almeida e o Partido Unionista, de Brito Camacho;
– natureza parlamentar e democrática do regime (subordinação do poder executivo
ao legislativo);
– a insatisfação e descontentamento generalizado decorrentes das reformas legislati-
vas no domínio social, laboral e religioso consideradas tímidas por uns (operariado,
intelectuais de esquerda...) e radicais por outros (clero, alta burguesia...);

(13)
Nos 16 anos do regime republicano (1910-1926) houve em Portugal 45 governos, sete Presidentes da República, oito
eleições presidenciais e nove legislativas.
Unidade 1 - As transformações das primeiras décadas do século XX 161

* Reformas legislativas
– oposição conservadora – Igreja, monárquicos (organizados no movimento desig- da I República:
nado por Integralismo Lusitano), nobres e alta burguesia – está desagradada com – Abolição dos títulos,
distinções e direitos de
o caráter popular e social das reformas legislativas*; nobreza.
– temor das classes médias do caos social, do bolchevismo e da proletarização que – Lei do Inquilinato.
– Lei da Greve.
as leva a desejar um governo forte, capaz de impor a ordem e a disciplina sociais. – Lei reguladora do horário
de trabalho.
Estes factos provocaram a erosão do regime republicano e precipitaram o Golpe Mili- – Obrigatoriedade do Seguro
Social para acidentes de
tar de 28 de Maio de 1926, liderado pelo General Gomes da Costa, que pôs fim à 1.a Repú- trabalho, doença e velhice.
blica (1910-1926), um regime demoliberal, pluripartidário e parlamentar, e que abriu cami- – Lei da Separação entre o
Estado e a Igreja.
nho à Ditadura Militar (1926-1933) e ao Estado Novo (1933-1974). – Obrigatoriedade do
casamento civil e do seu
1.5.2. O movimento modernista em Portugal registo civil.
– Lei do divórcio.
– Regulação do direito dos
O clima de crise social e política que se vivia no País nos inícios do século XX – crise
filhos.
da Monarquia, instauração da República, Primeira Guerra Mundial – não era de todo favo- – Reforma do ensino e
rável ao acompanhamento das novas correntes culturais e artísticas em desenvolvimento incremento da educação
popular.
na Europa (Doc. 6).
Mas a difusão das correntes modernistas europeias em Portugal debateu-se com
outros importantes obstáculos, designadamente:
– o limitado acesso à informação sobre as polémicas filosóficas e estéticas da moder-
nidade internacional; Documento 6

– a escassez de públicos consumidores de bens culturais, devido aos baixos poder A “primeira geração”
de compra e de alfabetização da população; modernista portuguesa
Os artistas desta primeira
– a predominância do gosto naturalista nas artes; geração desejaram então
– a ausência de uma linha programática dominante (sincretismo de tendências). dar a arte moderna a
Portugal, (…) um país que,
de modo algum estava
A) O primeiro grupo modernista português preparado para tais
aventuras (…) tinha-se
O sentimento de crise e de inconformismo que contesta o conservadorismo da socie- posto à margem da
dade portuguesa e pretende contribuir para a sua transformação, manifestou-se através geografia cultural do
Ocidente, e, preso numa
de um primeiro grupo modernista constituído à volta da revista Orpheu (1915) – o prin- crise social