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Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)

Ramalho, Viviane - Resende, Viviane de Melo


Análise de discurso (para a) crítica: O texto como material
de pesquisa - Viviane Ramalho - Viviane de Melo Resende

Coleção: Linguagem e Sociedade Vol. 1
Campinas, SP : Pontes Editores, 2011.

Bibliografia.
ISBN 978-85-7113-336-5

1. Análise de discurso crítica 2. Linguística 3. Discurso I. Título

Índices para catálogo sistemático:



1. Análise de discurso crítica 410
2. Linguística 410
3. Discurso 410
Copyright © 2011 das autoras

Coordenação Editorial: Pontes Editores


Editoração e capa: Eckel Wayne
Revisão: Pontes Editores

Coleção: Linguagem e Sociedade - Vol. 1


Coordenação da Coleção: Kleber Aparecido da Silva

Pontes Editores
Rua Francisco Otaviano, 789 - Jd. Chapadão
Campinas - SP - 13070-056
Fone 19 3252.6011
Fax 19 3253.0769
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www.ponteseditores.com.br

2011
Impresso no Brasil
Análise de Discurso (para a) Crítica: O texto como material de pesquisa

PREFÁCIO

Este livro dá continuidade às reflexões das autoras sobre


a proposta da Análise de Discurso Crítica de subsidiar cienti-
ficamente pesquisas que têm no texto o seu principal material
de trabalho.
As discussões iniciais, que têm servido de referência para
trabalhos com a Análise de Discurso Crítica no Brasil não só
na área específica da Linguística como também em Linguística
Aplicada, Educação, Ciências Sociais, Comunicação, dentre
outros, são aprofundadas neste trabalho. O aprofundamento
nas discussões não compromete a proposta de divulgar de
modo claro e acessível os estudos críticos da linguagem de-
senvolvidos pela ADC de origem britânica.
Com abordagem interdisciplinar e didática, as autoras
avançam na apresentação da teoria, método e aplicação analítica
da ADC, sem perder de vista o amplo e diversificado público a
quem interessa o assunto. Oferecem, de modo claro e objetivo,
exemplos de práticas de análise assim como um prático Glos-
sário que descreve e sintetiza intrincados conceitos e categorias
de análise textual. Retomando noções preliminares e ao mesmo
tempo oferecendo novas informações e perspectivas de aplica-
ção da ADC, as autoras esmeram-se em tornar mais acessíveis
complexos estudos interdisciplinares desenvolvidos na Ingla-
terra, que ainda carecem de maior sistematização no Brasil.
Desse modo, o livro é um convite tanto para a iniciação
quanto para o aprofundamento na Análise de Discurso Críti-

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ca, destinado não só a leitores/as, estudantes, pesquisadores/
as e professores/as que já conhecem reflexões anteriores das
autoras, mas também àqueles/as que pretendem dar seus
primeiros passos rumo a uma perspectiva crítica dos estudos
da linguagem.

Brasília, fevereiro de 2011

Prof. Dr. Kleber Aparecido da Silva


Universidade de Brasília (UnB)
Coordenador Geral da Série “Linguagem e Sociedade”
SUMÁRIO

Prefácio..........................................................................5
Apresentação..................................................................9

Capítulo 1

Análise de Discurso Crítica:


resgatando noções preliminares.....................................11

Capítulo 2

ADC como abordagem teórica


para estudos críticos do discurso....................................31

Capítulo 3

ADC como abordagem teórico-metodológica


para estudos do discurso................................................73

Capítulo 4

Análise textual aplicada: categorias analíticas


e exemplos de análise.....................................................111

Posfácio..........................................................................157
Glossário........................................................................159
Referências Bibliográficas.............................................179
As autoras.......................................................................193
Análise de Discurso (para a) Crítica: O texto como material de pesquisa

APRESENTAÇÃO

Neste livro, avançamos em discussões anteriores sobre a


Análise de Discurso Crítica (ADC) de vertente britânica, mas
sem perder de vista leitores/as iniciantes ou de outras áreas de
conhecimento. Retomamos alguns conceitos centrais da disci-
plina para, então, discutirmos um dos principais diferenciais
da ADC britânica, que é fornecer subsídios científicos para
estudos qualitativos que têm no texto o seu principal material
de pesquisa. Ao contrário de trabalhos anteriores, em que
abordamos principalmente a origem da ADC e os diversos
diálogos teóricos que a constituem, neste livro o foco é no
trabalho de pesquisa com o principal material empírico em
ADC: o texto.
No primeiro capítulo, resgatamos noções importantes
para a compreensão da proposta científica da ADC, tais como
“discurso”, “poder como hegemonia”, “ideologia”. Procura-
mos destacar por que essas noções fundamentam a concepção
de linguagem como prática social e como instrumento de
poder, sendo, portanto, pontos de partida para a compreensão
da proposta teórica e metodológica em ADC.
No segundo capítulo, buscamos esclarecer motivos que
fazem esta ser uma vertente crítica para estudos da linguagem.
Também refletimos sobre a concepção de “texto como evento
discursivo”, em cujo cerne estão as compreensões de “prática
social” e “ordens de discurso”. Como parte dessa reflexão,
apresentamos os significados do discurso, uma proposta da
ADC de compreender a linguagem segundo sua funcionali-

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Análise de Discurso (para a) Crítica: O texto como material de pesquisa

dade nas práticas sociais: como forma de agir no mundo e se


relacionar, de representar e de identificar a si, a outrem e a
aspectos do mundo.
No terceiro capítulo, buscamos esclarecer procedimentos
teórico-metodológicos para realização de pesquisas qualita-
tivas subsidiadas pela proposta da ADC. Discutimos o arca-
bouço metodológico básico – inspirado no Realismo Crítico
–, que é motivado por problemas sociodiscursivos e composto
por investigações de cunho social e discursivo. Também le-
vantamos reflexões sobre os dois principais paradigmas de
investigação em ADC.
Por fim, no Capítulo 4, discutimos e exemplificamos o
processo de análise textual, praticado na ADC como parte do
processo de análise de discurso. A partir de um texto jorna-
lístico, fazemos explanações sobre traços textuais moldados
por modos de agir/gêneros, modos de representar/discursos e
modos de ser/estilos, analisando categorias como avaliação,
coesão, estrutura genérica, interdiscursividade, intertextuali-
dade, dentre outras.
Para sistematizar a discussão, oferecemos ao final do
livro um Glossário que sintetiza alguns conceitos centrais, que
aparecem em negrito no texto, bem como todas as categorias
de análise trabalhadas.
Com este livro, esperamos contribuir para a divulgação e
compreensão da proposta científica da ADC, buscando suprir
a reconhecida carência de maior sistematização desses estudos
no Brasil e, ainda, ampliar as possibilidades de diálogos mais
efetivos entre a ADC e outras disciplinas.

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Análise de Discurso (para a) Crítica: O texto como material de pesquisa

Capítulo 1

Análise de Discurso Crítica:


resgatando noções preliminares

Neste capítulo, retomamos noções preliminares da ADC,


tais como “discurso”, “poder como hegemonia”, “ideologia”,
que fundamentam a concepção de linguagem como prática
social e como instrumento de poder.
Uma vez que em ADC as análises discursivas precisam
articular análises linguísticas do texto e explanações de caráter
social, então os conceitos de ‘discurso’, ‘hegemonia’ e ‘ideo-
logia’ adquirem relevo. Isso porque esses conceitos apontam
tanto para as instanciações discursivas específicas que anali-
samos quanto para as práticas sociais a elas associadas. É por
isso que consideramos esses conceitos um bom começo para
um livro como este, que busca intrumentalizar pesquisadores/
as para análises discursivas.
Assim, abordamos o conceito de ‘discurso’, pedra ba-
silar de todo o referencial da ADC. Respondemos questões
como ‘o que é discurso?’, ‘por que a ADC é crítica?’, ‘o que
significa a relação dialética entre linguagem e sociedade, de
que tanto se fala em ADC?’, ‘qual é a relação entre discurso
e prática social?’. Discutimos, também, a heterogeneidade de
abordagens em ADC, esclarecendo que não se trata de cam-
po homogêneo, ao contrário, constitui-se de um conjunto de
abordagens diversas que, no entanto, mantêm continuidades.
Retomamos, ainda, os conceitos de hegemonia de Gramsci e

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Análise de Discurso (para a) Crítica: O texto como material de pesquisa

de ideologia de Thompson, relacionando-os ao conceito de


discurso e debatendo sua relevância em análises discursivas
críticas.

1.1 O que é discurso?

Para entender o que é discurso na concepção de ADC de-


senvolvida por Fairclough (1989, 1995, 2001, 2003a) e Chou-
liaraki e Fairclough (1999), precisamos partir da compreensão
de que a ADC é uma abordagem científica interdisciplinar para
estudos críticos da linguagem como prática social.

A Análise de Discurso Crítica, em um sentido amplo,


refere-se a um conjunto de abordagens científicas
interdisciplinares para estudos críticos da linguagem como
prática social.

Assim, tomando pressupostos de abordagens das ciências


sociais, a ADC desenvolveu modelos para o estudo situado do
funcionamento da linguagem na sociedade. Daí a centralida-
de do conceito de ‘discurso’, um conceito que é, ao mesmo
tempo, ligado aos estudos da linguagem e a diversos avanços
das ciências sociais.
Como esclarecem Fairclough (2003a) e Chouliaraki e
Fairclough (1999), a proposta insere-se na tradição da ciência
social crítica, comprometida em oferecer suporte científico
para questionamentos de problemas sociais relacionados a
poder e justiça.

O “C” de ADC justifica-se por seu engajamento com a


tradição da “ciência social crítica”, que visa oferecer
suporte científico para a crítica situada de problemas
sociais relacionados ao poder como controle.

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Análise de Discurso (para a) Crítica: O texto como material de pesquisa

Sua característica interdisciplinar explica-se pelo “rom-


pimento de fronteiras epistemológicas” com teorias sociais,
pelo qual objetiva subsidiar sua própria abordagem sociodis-
cursiva assim como oferecer suporte para que pesquisas sociais
possam contemplar, também, aspectos discursivos (Resende &
Ramalho, 2006, p. 14). Isso porque a linguagem se mostra um
recurso capaz de ser usado tanto para estabelecer e sustentar
relações de dominação quanto, ao contrário, para contestar e
superar tais problemas.
Na perspectiva sociodiscursiva da ADC, a linguagem é
parte irredutível da vida social, o que pressupõe relação interna
e dialética de linguagem-sociedade, em que “questões sociais
são, em parte, questões de discurso”, e vice-versa (Chouliaraki
& Fairclough, 1999, p. vii). 1

A perspectiva da linguagem como parte irredutível da


vida social pressupõe relação interna e dialética entre
linguagem e sociedade, pois questões sociais são também
questões discursivas, e vice-versa.

Os estudos que assumem uma postura mais centrada na


estrutura, isto é, nas características mais fixas da linguagem (ou
“semiose” para abarcar manifestações linguísticas tanto verbais
quanto não verbais), tendem a investigar a linguagem apenas
como sistema semiótico, desprezando de algum modo os atores
que dela fazem uso. Por outro lado, aqueles que se centram mais
na ação dos agentes sociais, isto é, nos eventos individualizados
mais flexíveis, tendem a investigar a linguagem com base em
textos isolados, sem atentar para as estruturações presentes tanto
na sociedade quanto no uso da linguagem.
Entre essas duas posturas, está a concepção da ADC de
linguagem como parte da prática social. Nessa perspectiva, o

1 Os originais em língua estrangeira foram traduzidos pelas autoras.

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Análise de Discurso (para a) Crítica: O texto como material de pesquisa

conceito de discurso é central, pois aponta tanto para o sistema


quanto para seu uso contextualizado.

O conceito de prática social refere-se a uma entidade


intermediária, que se situa entre as estruturas sociais mais
fixas e as ações individuais mais flexíveis
(Chouliaraki & Fairclough, 1999).

É precisamente isso o que justifica o fato de a ADC não


pesquisar a linguagem como sistema semiótico nem como
textos isolados, mas, sim, o discurso, entendido como um
momento, uma parte, digamos assim, de toda prática social.
Esse conceito complexo de discurso nos permite, em pesquisas
situadas, compreender o uso da linguagem como ancorado
em estruturações semióticas e sociais, sem perder de vista a
flexibilidade dos eventos comunicativos, que permite a cria-
tividade na produção de textos.

A ADC não pesquisa a linguagem como sistema semiótico


nem como textos isolados, mas, sim, o discurso como um
momento de toda prática social.

Aprofundaremos essa discussão ao longo do livro, por


isso agora importa esclarecer apenas que, para a ADC, em
todos os níveis da vida social, desde os mais fixos (estrutu-
ras sociais) aos mais flexíveis (eventos sociais), passando
pelo nível intermediário (práticas sociais), a linguagem está
presente.
Conforme Fairclough (2003a), entre a estrutura, em que
a linguagem figura como sistema semiótico (com as opções
lexicais, gramaticais, semânticas, e outras, que ela oferece),
e os eventos, em que a linguagem se manifesta como textos
particulares (produzidos em contextos e situações específicas,
por indivíduos particulares), estão as práticas sociais. As prá-

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Análise de Discurso (para a) Crítica: O texto como material de pesquisa

ticas, então, constituem o “ponto de conexão entre estruturas


abstratas, com seus mecanismos, e eventos concretos”, isto é,
entre “sociedade e pessoas vivendo suas vidas”, nos termos
de Chouliaraki e Fairclough (1999, p. 21).
Nas práticas sociais, a linguagem se manifesta como dis-
curso: como uma parte irredutível das maneiras como agimos
e interagimos, representamos e identificamos a nós mesmos,
aos outros e a aspectos do mundo por meio da linguagem.
Recapitulemos, então, na Figura 1, os significados dos
conceitos de estrutura, prática e evento no que diz respeito à
linguagem:

Figura 1 – Relação entre estruturação social e discursiva

Fonte: Resende (2009a, p. 33).

Práticas sociais são “maneiras recorrentes, situadas


temporal e espacialmente, pelas quais agimos e
interagimos no mundo” (Chouliaraki & Fairclough, 1999,
p. 21). São entidades intermediadoras entre o potencial
abstrato presente nas estruturas e a realização desse
potencial em eventos concretos.

Isso significa que o fluxo de nossa vida diária sempre


envolve ação e interação, relações sociais, pessoas (com
crenças, valores, atitudes, histórias etc.), mundo material e
discurso (Fairclough, 2003a). Ou, na definição Chouliaraki

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Análise de Discurso (para a) Crítica: O texto como material de pesquisa

& Fairclough (1999), atividade material, relações sociais,


fenômeno mental e discurso.Isto é, pessoas usam recursos
do mundo material (como agora nós estamos usando papel,
tinta, um espaço físico para ler etc.) para agir e interagir com
outras pessoas (que têm suas próprias crenças, valores), esta-
belecendo relações sociais (em nosso caso, a relação leitor/a
– autoras), fazendo uso da linguagem, seja diretamente (como
o livro que você está lendo ou o professor que possa estar
falando) ou indiretamente (o que você pode estar pensando
agora). É aqui, nas práticas sociais, que se explica o conceito
de discurso.
Então, discurso, para responder a nossa pergunta do
início desta seção, é o momento integrante e irredutível das
práticas sociais que envolve a semiose/linguagem em arti-
culação com os demais momentos das práticas: fenômeno
mental, relações sociais e mundo material. Essa articulação é
indicada na Figura 2:

Figura 2 – Articulação irredutível entre os momentos da prática social

Ao fazermos uso da linguagem em nossas vidas cotidia-


nas, recorremos a maneiras particulares de representar, de agir
e interagir e de identificarmos o mundo e a nós mesmos/as.

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Análise de Discurso (para a) Crítica: O texto como material de pesquisa

Isto é, assim como todas as outras pessoas – cada qual com


suas particularidades e em seu contexto histórico, político,
cultural –, lançamos mão de discursos, gêneros e estilos
específicos, em dadas situações sociais também específicas.
Nesse sentido é que falamos em “discurso político neoliberal”,
por exemplo.
Sendo assim, como Fairclough (2003a, p. 26) esclarece,
sobre o termo “discurso” recaem dois significados. Como
substantivo mais abstrato, significa “linguagem como mo-
mento irredutível da vida social”. Por outro lado, como um
substantivo mais concreto, discurso significa um “modo par-
ticular de representar parte do mundo”, ligado a interesses
específicos. Essa duplicidade de sentidos não compromete
a compreensão aqui porque, para tratar da segunda acepção,
mais concreta, falaremos em discursos “particulares” ou
“discursos”, no plural.

O termo ‘discurso’ possui dois significados em ADC.


Como substantivo mais abstrato, significa o momento
irredutível da prática social associado à linguagem; como
substantivo mais concreto, significa um modo particular
de representar nossa experiência no mundo.

Quando ouvimos uma pessoa se referindo a um evento


como “ação policial” e uma outra pessoa se referindo ao
mesmo evento como “crime” ou, ainda, uma se referindo a
alguém como “jovem” e outra como “delinquente”, fica claro
o que significa representar o mundo de maneiras particulares,
que revelam modos também particulares de ver e entender o
mundo, as pessoas, as relações sociais, as lutas de poder.
Essas diferentes perspectivas do mundo, ou seja, esses
discursos que se ligam a campos sociais específicos e a projetos
particulares, podem ser disseminados como se fossem universais,

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Análise de Discurso (para a) Crítica: O texto como material de pesquisa

isto é, como se essa representação particular fosse a mais correta,


a mais justa, legítima e aceitável. Isso, sobretudo na nossa “socie-
dade da informação”, pode ser uma das mais poderosas armas de
luta pelo poder. Parafraseando Canclini (2006, p. 43), os efeitos
da disseminação de alguns “discursos particulares” estariam
entre as explicações para a seguinte pergunta inquietante: “por
que líderes que empobrecem as maiorias conseguem manter sua
aprovação entre as massas prejudicadas?”.

1.2 Análise de Discurso Crítica como


campo heterogêneo

Como já vimos, o termo “Análise de Discurso Crítica”


não se refere a uma abordagem única e estável dos estudos de
linguagem. Ao contrário, a ADC, como campo de investiga-
ção do discurso em práticas contextualizadas, é heterogênea,
instável e aberta.
É heterogênea porque há uma gama variada de aborda-
gens que se identificam com o rótulo ‘ADC’. Assim, não ape-
nas os avanços trazidos pela abordagem de Norman Fairclough
são identificados com a ADC, mas também as perspectivas
de autores como Teun Van Dijk (1989), Ruth Wodak (1996),
Blommaert (2005), Theo van Leeuwen (2008), entre outros/as.
Todas essas abordagens são legitimamente associadas à Aná-
lise de Discurso Crítica, e cada uma delas provê acercamento
teórico e instrumental específico para pesquisas discursivas.
Também na América Latina há avanços que devem ser
considerados quando se fala em ADC. Pesquisadores/as lati-
noamericanos/as têm contribuído, nesse sentido, para a difusão
da ADC como teoria e método de investigação, gerando abor-
dagens próprias, questionando as abordagens já legitimadas e
introduzindo avanços que não podem nem devem ser minimiza-
dos (ver, por exemplo, Magalhães, 2000; Berardi, 2003; Meurer,

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Análise de Discurso (para a) Crítica: O texto como material de pesquisa

2004; Pardo Abril, 2008; Pardo 2008; Resende, 2009a; Silva,


2009; Ramalho, 2010a). A esse respeito, Pardo Abril (2007, p.
32) enfatiza que “a chegada dos estudos discursivos críticos à
América Latina constitui uma de suas principais razões de cres-
cimento e expansão, pois se desenvolveram múltiplas aplicações
dos princípios teóricos na análise de situações e problemáticas
concretas, o que resultou no desenvolvimento das teorias e dos
métodos, e na ampliação de perspectivas”.
Essa heterogeneidade de abordagens – essa abertura para
a diferença – é o que impulsiona a ADC para um aperfeiçoa-
mento constante. Uma vez que as diferentes abordagens não
estão fechadas para o diálogo, e que em pesquisas situadas
é possível lançar mão de conceitos e categorias oriundos de
diversas perspectivas, a possibilidade de criatividade nos
desenhos de pesquisa é grande.
Assim, a heterogeneidade que caracteriza a ADC garante
também sua instabilidade. É instável não apenas porque há
possibilidade de combinações entre diferentes abordagens,
mas também porque um dos pressupostos básicos de análises
discursivas críticas é a interdisciplinaridade: “um elemento im-
portante das análises que se realizam em ADC é que requerem
que o/a investigador/a tenha presentes não apenas elementos
de análise linguística, mas também de corte sociológico (...).
A ADC constitui-se, dessa maneira, teoria e método abertos à
interdisciplinaridade” (Andrade et al., 2008, p.124).
Não é difícil perceber por que uma perspectiva teórica do
discurso como a que vimos até aqui não poderia se fechar em
fronteiras disciplinares rígidas. E a compreensão do discurso
como parte das práticas sociais jamais poderia ter surgido
dentro das fronteiras da Linguística, sem apropriação de con-
ceitos e teorias oriundas das ciências sociais. É por isso que o
próprio surgimento da ADC nos estudos de linguagem só pode
ser compreendido com base em diálogos interdisciplinares.

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Análise de Discurso (para a) Crítica: O texto como material de pesquisa

A ADC caracteriza-se por uma heterogeneidade de


abordagens que estabelecem diferentes relações
interdisciplinares com diferentes disciplinas das
ciências sociais. Essas relações interdisciplinares
foram fundamentais para o surgimento da ADC e são
fundamentais para seus avanços.

Apesar de sua instabilidade e de sua heterogeneidade, é


de se esperar que haja elementos norteadores comuns, capazes
de manter agregadas as diferentes abordagens de ADC. Caso
contrário, não teríamos as continuidades que fazem da ADC
um campo de investigação.
Além da abordagem interdisciplinar, as principais conti-
nuidades observadas entre as diferentes vertentes dos estudos
críticos do discurso são seu posicionamento explícito, isto é,
seu engajamento social, e a utilização de análises sistemáticas
de textos como método de pesquisa (Resende, 2009a).
Pesquisas em ADC não partem de meros interesses
acadêmicos, de reflexão autocentrada na metalinguagem do
campo. Ao contrário, pesquisas em ADC só se justificam se
enquadradas na perspectiva crítica. Interessam à ADC in-
vestigações que relacionam o uso da linguagem a contextos
situados que envolvem o poder, pois a ADC define-se pela
motivação de “investigar criticamente como a desigualdade
social é expressa, sinalizada, constituída, legitimada pelo uso
do discurso” (Wodak, 2004, p. 225).

Isso tem duas implicações imediatas: as categorias


linguísticas são utilizadas em ADC como ferramentas
para a investigação de problemas sociais, e a unidade
mínima de análise é o texto, entendido de modo amplo
no que envolve suas condições de produção, distribuição
e consumo, e seu funcionamento em práticas sociais
situadas.

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Análise de Discurso (para a) Crítica: O texto como material de pesquisa

Assim, as categorias linguísticas aplicadas à análise de


textos concretos não se justificam em si mesmas, mas no que
possibilitam compreender acerca do funcionamento social
da linguagem. Isso porque “a análise de discurso é uma
ferramenta, mais que um fim em si mesma, para explorar o
modo sistemático como os atores ou grupos sociais legitimam
maneiras de ver o mundo, ou como se opõem a elas propondo
modos alternativos às formas hegemônicas de construção da
realidade social” (Quiroz, 2008, p.79).
A ADC, então, ao mesmo tempo rejeita análises linguísti-
cas que não se mostrem relevantes para a crítica social e exige
que a crítica social oriunda de pesquisas nesse campo sejam
baseadas em análises linguísticas situadas. É por isso que se
pode classificar a ADC como Análise de Discurso Textualmen-
te Orientada (Fairclough, 2001). O propósito das análises em
ADC é, portanto, mapear conexões entre escolhas de atores
sociais ou grupos, em textos e eventos discursivos específicos,
e questões mais amplas, de cunho social, envolvendo poder.

Em ADC, a análise linguística e a crítica social devem,


necessariamente, estar interrelacionadas: a análise
linguística alimenta a crítica social, e a crítica social
justifica a análise linguística.

Assim, temos que o suporte científico oferecido pela


ADC, para questionamentos de problemas parcialmente dis-
cursivos relacionados a poder, envolve o trabalho com textos,
em qualquer modalidade – orais, sonoros, escritos, visuais – e
sob qualquer forma – entrevistas, reportagens, publicidades,
narrativas de vida, filmes e assim por diante. Esse principal
material empírico com que o/a analista de discurso trabalha
carrega propriedades sociodiscursivas muito relevantes, resul-
tantes de sua produção e circulação na sociedade e, ao mesmo
tempo, constituintes dessa mesma sociedade. Essa discussão

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Análise de Discurso (para a) Crítica: O texto como material de pesquisa

não é simples e, conforme discutiremos no capítulo seguinte,


está relacionada à concepção de mundo da ADC.
Por ora, cabe entender que, como evento discursivo
ligado a práticas sociais, o texto traz em si traços da ação
individual e social que lhe deu origem e de que fez parte; da
interação possibilitada também por ele; das relações sociais,
mais ou menos assimétricas, entre as pessoas envolvidas na
interação; de suas crenças, valores, histórias; do contexto
sócio-histórico específico num mundo material particular,
com mais ou menos recursos.
Essa percepção de texto como parte discursiva empírica
de eventos sociais baseia-se numa visão funcionalista da
linguagem, que a entende como um recurso de que pessoas
lançam mão em suas vidas diárias para interagir e se relacio-
nar, para representar aspectos do mundo assim como para
‘ser’, para identificar a si e aos outros. Consequentemente, a
linguagem é também resultado desse uso social.
Essa compreensão funcionalista, que concebe o discurso
como modo de interagir e se relacionar, de representar e de
identificar(-se) em práticas sociais, oferece meios para inves-
tigar traços dessas ações materializadas em textos – material
empírico pelo qual se pode investigar níveis mais profundos da
realidade. Conforme explicamos no capítulo seguinte, a visão
de mundo realista crítica da ADC supera a crença em estudos
sociais ‘objetivos’. Para a ADC, como o mundo social é aberto
e estratificado, só se pode ter acesso ao nível mais profundo,
‘o potencial’, passando pelo filtro de nosso conhecimento
empírico (e crenças, valores, atitudes, ideologias) sobre ele,
o nível mais imediato.

Os textos que analisamos nos oferecem ‘pistas’ para a


compreensão das práticas sociais investigadas. Como
a relação entre o discurso e os demais momentos das

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Análise de Discurso (para a) Crítica: O texto como material de pesquisa

práticas é de articulação e interiorização, por meio dos


textos (produzidos em eventos discursivos situados)
podemos compreender o funcionamento social dessas
práticas.

Esse é um fundamento basilar do trabalho de análise


textual, que é uma parte da análise de discurso. O proces-
so de análise textual, em que investigamos com categorias
analíticas traços de modos de (inter-)agir/relacionar-se,
representar e identificar(-se) em práticas sociais, é sempre
parcial e subjetivo. O que lhe confere cientificidade é o tra-
balho explanatório, isto é, de compreensão conjugado com a
explanação. Pela compreensão descrevemos e interpretamos
propriedades de textos, e pela explanação investigamos o texto
como material empírico à luz de conceitos, de um arcabouço
teórico particular.

1.3 Poder como hegemonia

Se, para essa perspectiva crítica, a relação linguagem-


sociedade é interna e dialética, então isso significa que a
linguagem constitui-se socialmente, mas também tem “con-
sequências e efeitos sociais, políticos, cognitivos, morais e
materiais” (Fairclough, 2003a, p. 14). Como ciência crítica,
a ADC preocupa-se com efeitos ideológicos que (sentidos de)
textos possam ter sobre relações sociais, ações e interações,
conhecimentos, crenças, atitudes, valores, identidades. Isto
é, sentidos a serviço de projetos particulares de dominação e
exploração, que sustentam a distribuição desigual de poder.

Como ciência crítica, a ADC preocupa-se com efeitos


ideológicos de sentidos de textos sobre relações sociais,
ações e interações, conhecimentos, crenças, atitudes,
valores, identidades.

23
Análise de Discurso (para a) Crítica: O texto como material de pesquisa

Ao contrário de outras teorias que veem o poder como


uma força de coação unilateral da estrutura sobre o indiví-
duo, que dela não consegue se libertar, para a ADC o poder é
temporário, com equilíbrio apenas instável. Por isso, relações
assimétricas de poder são passíveis de mudança e superação.
No cerne de tal entendimento, está o conceito de poder como
hegemonia, de Gramsci (1988; 1995).
Essa concepção de poder em termos de hegemonia im-
plica uma inerente ‘instabilidade’, um ‘equilíbrio instável’.
Para Gramsci, no contexto político de democracias ocidentais,
o poder de uma classe em aliança com outras forças sociais (a
exemplo dos ‘líderes que empobrecem as maiorias’, citados
anteriormente em referência a Canclini) sobre a sociedade como
um todo (as ‘massas eleitoras’, por exemplo) nunca é atingido
senão parcial e temporariamente. A instabilidade da hegemonia
é o que caracteriza o conceito de ‘luta hegemônica’.
Para grupos particulares se manterem temporariamente em
posição hegemônica, é necessário estabelecer e sustentar liderança
moral, política e intelectual na vida social. Isso pode ser parcial-
mente assegurado, segundo Eagleton (1997, p. 108), pela “difusão
de uma visão de mundo particular pela sociedade como um todo,
igualando, assim, o próprio interesse de um grupo em aliança com
o da sociedade em geral” (Resende & Ramalho, 2006).
Há distintas maneiras de se instaurar e manter a hegemonia,
dentre elas, a luta hegemônica travada no/pelo discurso. Quando
essas perspectivas favorecem algumas poucas pessoas em de-
trimento de outras, temos representações ideológicas, voltadas
para a distribuição desigual de poder baseada no consenso.

A luta hegemônica travada no/pelo discurso é uma das


maneiras de se instaurar e manter a hegemonia. Quando
o abuso de poder é instaurado e mantido por meio de
significados discursivos, está em jogo a ideologia.

24
Análise de Discurso (para a) Crítica: O texto como material de pesquisa

É por isso que o conceito de poder como hegemonia, con-


quistado mais pelo consenso que pelo uso da força, reforça a
relevância das ideologias, veiculadas pelo discurso. Parte das
lutas hegemônicas é a luta pela instauração, sustentação, univer-
salização de discursos particulares. É nesse sentido que temos
“ordens do discurso hegemônicas”, como a ordem do discurso
da política neoliberal, da biomedicina ocidental, e assim por
diante. Na próxima seção, discutiremos o conceito de ideologia
como forma simbólica a serviço de relações de dominação.

1.4 Ideologia na perspectiva crítica

Seguindo a perspectiva crítica de Thompson (2002a),


na ADC ‘ideologia’ é um conceito inerentemente negativo.
É um instrumento semiótico de lutas de poder, ou seja, uma
das formas de se assegurar temporariamente a hegemonia pela
disseminação de uma representação particular de mundo como
se fosse a única possível e legítima. Sentidos ideológicos são
aqueles que servem necessariamente, em circunstâncias parti-
culares, “para estabelecer e sustentar relações de dominação”
(Thompson, 2002a, p. 77). Assim, o primeiro passo para a
superação de relações assimétricas de poder, e para a (auto)
emancipação daqueles que se encontram em desvantagem,
pode estar no desvelamento de ideologias.
Segundo Fairclough (1989, p. 85), a ideologia é mais efe-
tiva quando sua ação é menos visível, de forma que “se alguém
se torna consciente de que um determinado aspecto do senso
comum sustenta desigualdades de poder em detrimento de si
próprio, aquele aspecto deixa de ser senso comum e pode perder
a potencialidade de sustentar desigualdades de poder, isto é, de
funcionar ideologicamente”. Se reproduzimos acriticamente
um aspecto problemático do senso comum, a ideologia segue
contribuindo para sustentar desigualdades. Se, ao contrário,

25
Análise de Discurso (para a) Crítica: O texto como material de pesquisa

desvelamos, desnaturalizamos o senso comum, de maneira


consciente, existe a possibilidade de coibirmos, anularmos seu
funcionamento ideológico. Para prosseguir com o exemplo
anterior, se as ‘massas eleitoras’ se tornam mais conscientes
de que estão sendo prejudicadas por ‘líderes que empobrecem
a maioria’ podem, de algum modo, começar a romper o senso
comum, de forma que discursos particulares que sustentam de-
sigualdades podem ter sua potencialidade ideológica reduzida.
Para a ADC, são objetos de preocupação, portanto, aquelas
representações particulares que podem contribuir para a distri-
buição desigual de poder, ou seja, para projetos específicos de
dominação. Ao contrário de concepções neutras, que caracterizam
fenômenos ideológicos sem considerá-los como necessariamente
enganadores e ilusórios, ou ligados a interesses de algum grupo
em particular, na concepção crítica ideologia é, por natureza,
hegemônica e, como tal, inerentemente negativa. Aqui, sentidos
ideológicos servem necessariamente ao consenso, à universa-
lização de interesses particulares projetados para estabelecer e
sustentar relações de dominação (Thompson, 2002a).

Para a ADC, a ideologia é, por natureza, hegemônica


e inerentemente negativa. Os sentidos veiculados em
textos são classificados como ideológicos apenas se
servem à universalização de interesses particulares
projetados para estabelecer e sustentar relações de
dominação. Thompson (2002a) elenca uma série de
‘modos de operação da ideologia’ que são muito úteis
como categorias em análises discursivas críticas (sobre
isso, veja também Resende & Ramalho, 2006).

A ADC mantém um diálogo fundamental com a abordagem


crítica de ideologia de Thompson (2002a). A partir de alguns as-
pectos da teoria marxista de ideologia, o autor sugere cinco modos
gerais de operação da ideologia, ligados a estratégias típicas de
construção simbólica, conforme sintetizamos no Quadro 1:

26
Análise de Discurso (para a) Crítica: O texto como material de pesquisa

Quadro 1 – Modos gerais de operação da ideologia

MODOS GERAIS DE OPERAÇÃO ESTRATÉGIAS TÍPICAS DE CONS-


DA IDEOLOGIA TRUÇÃO SIMBÓLICA

RACIONALIZAÇÃO (uma cadeia


de raciocínio procura justificar um
conjunto de relações)

LEGITIMAÇÃO
UNIVERSALIZAÇÃO (interesses
Relações de dominação são represen-
específicos são apresentados como
tadas como legítimas
interesses gerais)

NARRATIVIZAÇÃO (exigências de
legitimação inseridas em histórias do
passado que legitimam o presente)

DESLOCAMENTO (deslocamento
contextual de termos e expressões)

DISSIMULAÇÃO
Relações de dominação são ocultadas, EUFEMIZAÇÃO (valoração positiva
negadas ou obscurecidas de instituições, ações ou relações)

TROPO (sinédoque, metonímia,


metáfora)

PADRONIZAÇÃO (um referencial


padrão proposto como fundamento
UNIFICAÇÃO partilhado)
Construção simbólica de identidade
coletiva
SIMBOLIZAÇÃO DA UNIDADE
(construção de símbolos de unidade
e identificação coletiva)

27
Análise de Discurso (para a) Crítica: O texto como material de pesquisa

DIFERENCIAÇÃO (ênfase em carac-


FRAGMENTAÇÃO terísticas que desunem e impedem a
Segmentação de indivíduos e grupos constituição de desafio efetivo)
que possam representar ameaça ao
grupo dominante
EXPURGO DO OUTRO (construção
simbólica de um inimigo)

NATURALIZAÇÃO (criação social e


histórica tratada como acontecimento
natural)

REIFICAÇÃO ETERNALIZAÇÃO (fenômenos


Retratação de uma situação transitória sócio-históricos apresentados como
como permanente e natural permanentes)

NOMINALIZAÇÃO/ PASSIVAÇÃO
(concentração da atenção em certos
temas em prejuízo de outros, com
apagamento de atores e ações)

Adaptado de Resende & Ramalho (2006, p. 52), com base em Thompson (2002a,
p. 81).

Nessa proposta fluida e aberta de Thompson (2002a), a


partir da qual podemos investigar outros modos e estratégias
ideológicas, a legitimação consiste em um modo de repre-
sentar relações de dominação como sendo justas e dignas de
apoio. Segundo os “três tipos puros de dominação legítima”,
de Weber (1999), Thompson (2002a) indica três estratégicas
típicas de construção simbólica voltadas para legitimar re-
lações de dominação: a racionalização, a universalização e
a narrativização. A estratégia de racionalização consiste em
utilizar fundamentos racionais, apelos à legalidade, a bases
jurídicas para legitimar relações assimétricas de poder. A uni-
versalização, por sua vez, diz respeito à estratégia de difundir,

28
Análise de Discurso (para a) Crítica: O texto como material de pesquisa

disseminar representações particulares como se fossem de


interesse geral, universal. A narrativização, por fim, consiste
na estratégia de reproduzir histórias, no curso de nossas vidas
cotidianas, que legitimam relações de dominação com base em
tradições, costumes, dotes carismáticos, prestígio de pessoas
particulares.
A dissimulação, um segundo modo geral de operação da
ideologia, consiste em ocultar, negar ou obscurecer relações
de dominação. Thompson (2002a) aponta três estratégicas
típicas de construção simbólica ligadas a esse modo geral: o
deslocamento, a eufemização e o tropo. Pelo deslocamento,
termos geralmente ligados a um campo particular são usados
com referência a outro, de forma que o segundo agrega as
conotações positivas ou negativas do primeiro. Pela estratégia
da eufemização, ações, instituições ou relações sociais são
representadas positivamente, obscurecendo aspectos pro-
blemáticos. O tropo refere-se ao uso figurado da linguagem
voltado para ocultar, negar, obscurecer relações assimétricas
de poder. Com base nessa estratégia, hibridismos discursivos
em propagandas de medicamento podem operar “metáforas
acionais”, ideologicamente orientadas para ofuscar assimetrias
entre “peritos/as” e “leigos/as” (sobre isso, veja Ramalho,
2009a; 2010a,c).
A unificação, terceiro modo geral, consiste em cons-
truir simbolicamente uma forma de unidade que interliga
indivíduos numa identidade coletiva, independentemente das
divisões que possam separá-los. Duas estratégias principais
são relacionadas a esse modo: a padronização, baseada num
referencial padrão partilhado, e a simbolização, a construção
de símbolos de identificação coletiva.
A fragmentação segmenta indivíduos ou grupos poten-
cialmente capazes de desafiar forças e interesses dominantes.
Thompson (2002a) destaca duas possíveis estratégias de frag-

29
Análise de Discurso (para a) Crítica: O texto como material de pesquisa

mentação: a diferenciação, em que se enfatizam características


que desunem grupos coesos, ou impedem sua constituição; e
o expurgo do outro, em que indivíduos ou grupos que possam
constituir obstáculo ao poder hegemônico são representados
como inimigo que devem ser combatidos (Ramalho, 2005;
Resende, 2009b).
A reificação, o quinto e último modo de operação da
ideologia discutido em Thompson (2002a), consiste na repre-
sentação de situações transitórias, sociais, históricas, como
se fossem permanentes, naturais e atemporais. São quatro as
estratégias ligadas a esse modo: a naturalização, pela qual
criações sociais e históricas são representadas como aconte-
cimentos do mundo natural; a eternalização, estratégia pela
qual fenômenos sócio-históricos são representados como
permanentes; a nominalização e a passivação, em que eventos
e processos sociais são destituídos de ação humana, pelo apa-
gamento de atores e ações. Exemplificaremos alguns modos
gerais de operação da ideologia e respectivas estratégias de
construção simbólica no Capítulo 4, em que desenvolvemos
uma análise textual.
Nas ideias e conceitos que vimos até aqui se fundamenta a
proposta crítica da ADC para estudos de problemas sociais que
podem ser parcialmente sustentados/superados pelo discurso.
No próximo capítulo, voltamos nosso olhar para a proposta
teórica que sustenta, em termos ontológicos, a vertente de
ADC associada aos trabalhos de Fairclough. Aprofundamos,
também, a discussão em torno de gêneros, discursos e estilos
como modos relativamente estáveis de agir, representar e
identificar(-se) discursivamente.

30
Análise de Discurso (para a) Crítica: O texto como material de pesquisa

Capítulo 2

ADC como abordagem teórica para


estudos críticos do discurso

No Capítulo 2, discutimos a postura ‘crítica’ da ADC


nos estudos da linguagem, localizando-a numa visão cien-
tífica de crítica social; no campo da pesquisa social crítica,
e na teoria e análise linguística (Chouliaraki & Fairclough,
1999). Também refletimos sobre a concepção de ‘texto
como evento discursivo’, em que são centrais as noções de
‘prática social’ e ‘ordens do discurso’ – o aspecto discursivo
de (redes de) práticas sociais. Com essas noções, podemos
compreender os significados do discurso, uma proposta da
ADC de conceber o discurso a partir das maneiras como
ele figura em práticas sociais: como modos (inter-)agir, de
representar e de ser.

2.1 Por que crítica?

A perspectiva ‘crítica’ da ADC, herdada também de


suas origens na Linguística Crítica (cf. Resende & Ramalho,
2006), assenta-se no diálogo com a Ciência Social Crítica,
comprometida com o questionamento de aspectos políticos e
morais da vida social (Fairclough, 2003a). No caso da vertente
de ADC desenvolvida por Fairclough, sobretudo no diálogo
com o Realismo Crítico (RC).

31
Análise de Discurso (para a) Crítica: O texto como material de pesquisa

Na filosofia de Bhaskar (1989; 1998), expoente do Re-


alismo Crítico, o mundo é um sistema aberto, em constante
mudança e constituído por diferentes domínios (potencial,
realizado e empírico; ver a seguir), assim como por diferen-
tes estratos. Os estratos – físico, biológico, social, semiótico
etc. – possuem estruturas distintivas e mecanismos gerativos
que se situam no domínio do potencial, ou seja, do que pode
ou não ser ativado. Quando são ativados simultaneamente,
causam efeitos imprevisíveis nos demais domínios.
No domínio potencial, mecanismos gerativos de di-
versos estratos (físico, biológico, social, semiótico, dentre
outros) operam simultaneamente com seus poderes causais,
gerando efeitos nos outros domínios. Sayer (2000, p. 11)
exemplifica:

fenômenos sociais são emergentes de fenôme-


nos biológicos, que são, por seu turno, emer-
gentes dos estratos físicos e químicos. Assim, a
prática social da conversação depende do estado
fisiológico dos agentes, incluindo os sinais en-
viados e recebidos em torno de nossas células
nervosas, mas a conversação não é redutível a
estes processos fisiológicos. [...] Embora nós
não precisemos voltar ao nível da biologia ou
da química para explicar os fenômenos sociais,
isto não significa que os primeiros não tenham
efeito sobre a sociedade. Tampouco significa
que podemos ignorar a maneira pela qual afe-
tamos estes estratos, por exemplo, através de-
contracepção, medicina, agricultura e poluição.

A relação de interdependência causal implica que a ope-


ração de qualquer mecanismo gerativo dos diferentes estratos
é sempre mediada pela operação simultânea de outros, de
forma tal que não são redutíveis a um e sempre dependem (e
interiorizam traços) de outros. Por isso, não há necessidade

32
Análise de Discurso (para a) Crítica: O texto como material de pesquisa

de voltar ao estrato da biologia, da física ou da química para


investigar fenômenos sociais, mas isso não anula efeitos bio-
lógicos, físicos e químicos sobre a sociedade, e vice-versa.
Não há necessidade, por exemplo, de voltar ao estrato da
química ou da biologia para investigar o fenômeno social da
‘semioticização do medicamento’, em que produtos farma-
cêuticos são convertidos em ‘símbolos de saúde’ (Ramalho,
2010a). Embora os medicamentos como objetos estejam, sem
dúvida, ligados à biologia e à química, para estudar os efeitos
sociais de textos que anunciam medicamentos não precisamos
voltar a esses estratos: o estudo que tomamos aqui com exem-
plo centrou-se em aspectos dos estratos semiótico e social.
A ontologia estratificada do Realismo Crítico sustenta,
ainda, a existência de três domínios da realidade: potencial,
realizado e empírico. 1 Bhaskar (1998, p. 41) representa essa
ontologia numa figura que adaptamos aqui:

Figura 3 – Ontologia estratificada do Realismo Crítico

1 Bhaskar (1989) utiliza os termos ‘real’, ‘actual’ e ‘empirical’ para se referir


aos três domínios da realidade. Quanto ao nível do que Bhaskar designa
‘real’, preferimos utilizar a nomenclatura ‘potencial’, conforme adaptação
de Fairclough (2003). Entendemos que ‘potencial’ designa mais claramente
o domínio da realidade ligado aos poderes dos objetos sociais potencial-
mente ativados em eventos. Em relação ao domínio ‘actual’, consideramos
que ‘atual’ em português não carrega o mesmo significado de ‘actual’ em
inglês, que se refere ao que ‘se realiza’ de fato em um dado evento, por isso
preferimos a tradução por ‘realizado’ (Resende, 2009a). Essas traduções são
mantidas nas citações de originais em inglês.

33
Análise de Discurso (para a) Crítica: O texto como material de pesquisa

A Figura 3 representa a estratificação do mundo em três


domínios – potencial, realizado e empírico. Conforme Sayer
(2000, p. 09), o domínio do potencial corresponde “ao que
quer que exista, seja natural ou social, independentemente de
ser um objeto empírico para nós e de termos uma compreensão
adequada de sua natureza”. É o domínio dos objetos, suas es-
truturas, mecanismos e poderes causais. Sejam físicos, como
minerais, ou sociais, como burocracias, esses objetos “têm
uma certa estrutura e poderes causais, isto é, capacidade de
se comportarem de formas particulares, e tendências causais
ou poderes passivos, isto é, susceptibilidades a certas formas
de mudança”.
Na ontologia da estratificação da realidade, o potencial é
o domínio das estruturas, mecanismos e poderes causais dos
objetos, ao passo que o realizado, como Sayer (2000, p. 10)
explica, refere-se a “o que acontece se e quando estes poderes
são ativados”, ou seja, àquilo que esses poderes fazem e ao
que ocorre quando eles são ativados.
Para exemplificar com base na linguagem, podemos asso-
ciar o sistema semiótico (a potencialidade para significar) com
o domínio do potencial e, por outro lado, os sentidos de textos
com o domínio do realizado (o significado). O realizado é o
domínio dos eventos que passam ou não por nossa experiência.
O empírico, por sua vez, é o domínio das experiências efetivas,
a parte do potencial e do realizado que é experienciada por
atores sociais específicos. Neste caso, o exemplo seriam os
textos (orais, escritos, visuais, multimodais) com que de fato
tivemos contato em nossa vida.
Se o potencial é o domínio dos poderes causais e o re-
alizado é o domínio dos eventos em que se acionam esses
poderes, o empírico, por sua vez, é o que se percebe da ati-
vação desses poderes no nível dos eventos experienciados.
Em outros termos, é o que se experiencia do potencial e do

34
Análise de Discurso (para a) Crítica: O texto como material de pesquisa

realizado, mas que não esgota a possibilidade do que tenha,


ou poderia ter, acontecido.
Essa concepção de mundo, que vem informando
pesquisas brasileiras como as de Papa (2008), Ramalho
(2008) e Resende (2008), pressupõe a inviabilidade de se
ter acesso direto aos domínios do potencial e do realizado,
já que só podem ser alcançados pela mediação de nosso
conhecimento e experiência (e de nossas crenças e atitu-
des), ou seja, a partir do empírico. Para Bhaskar (1978, p.
36), constituiriam “falácias epistêmicas” pretender, por um
lado, estudar o “mundo real” de maneira “objetiva”, visto
que só podemos estudar o mundo real passando pelo filtro
de nossas experiências; e, por outro, conceber o mundo
como constituído apenas pelo domínio empírico, ou seja,
por aquilo que experienciamos.
Esse ponto é fundamental para a abordagem teórico-
metodológica da ADC, por descartar a possibilidade de
pesquisas ‘objetivas’ em análise de discurso, que acessariam
diretamente a ‘realidade’. Como já vimos, a cientificidade
de pesquisas em ADC está no processo de investigação em
que o material empírico é explanado segundo um arcabouço
teórico particular.
Nos princípios gerais do RC que vimos até aqui assenta-
se a compreensão de que o discurso tem efeitos na vida
social, os quais não podem ser suficientemente investigados
levando-se em consideração apenas o aspecto discursivo de
práticas sociais.
Textos, como resultados de eventos discursivos, têm
efeitos na vida social que não podem ser investigados apenas
com base no aspecto discursivo de práticas sociais. Tendo
isso em vista, parece claro perceber que análises discursivas
críticas não podem ser pautadas apenas no aspecto discur-
sivo das práticas, sob o risco de se perder de vista a relação

35
Análise de Discurso (para a) Crítica: O texto como material de pesquisa

dialética entre os momentos da prática e o potencial do


discurso para a compreensão de outros aspectos da prática
(Resende, 2009d).
De acordo com Chouliaraki e Fairclough (1999, p. 67),
a lógica da análise crítica é relacional/dialética, “orientada
para mostrar como o momento discursivo trabalha na prática
social, do ponto de vista de seus efeitos em lutas hegemônicas
e relações de dominação”. Ou, em outros termos, orientada
para investigar e mostrar conexões e relações causais que estão
ocultas em relações assimétricas de poder (Fairclough, 2003a).

A ADC é ‘crítica’ porque sua abordagem é relacional/


dialética, orientada para a compreensão dos modos
como o momento discursivo trabalha na prática social,
especificamente no que se refere a seus efeitos em lutas
hegemônicas.

Como já vimos, o foco dessa abordagem relacional/


dialética, igualmente informada pela ciência social crítica,
não está na estrutura social, mais ‘fixa’ e abstrata, tampouco
na ação individual, mais ‘flexível’ e concreta. Está, de fato,
na entidade intermediária das práticas sociais. E o conceito
de ‘prática social’ como entidade intermediária é mais um dos
aspectos do RC recontextualizados em ADC.
O Realismo Crítico endossa uma concepção transforma-
cional de constituição da sociedade que, segundo Bhaskar
(1989, p. 32-37), difere dos “modelos” do “voluntarismo”,
da “reificação”, e até mesmo do “dialético”. Segundo o au-
tor, no voluntarismo objetos sociais são resultado apenas do
comportamento intencional de indivíduos. No modelo de
reificação, objetos sociais são externos e exercem coerção
sobre indivíduos. No dialético, por sua vez, ‘sociedades’ e
‘indivíduos’ são dois momentos de um mesmo processo: as
sociedades criam indivíduos, e indivíduos afetam sociedades.

36
Análise de Discurso (para a) Crítica: O texto como material de pesquisa

Nos termos de Bhaskar, “no primeiro modelo [voluntarismo],


há ações, mas não condições. No segundo modelo [reificação],
há condições, mas não ações. No terceiro modelo [dialética],
por sua vez, não há distinção entre ações e condições”.
Embora identifique afinidades entre as concepções trans-
formacional e dialética, Curry (2000, p. 102) pondera que a
primeira difere da segunda no “aspecto crucial da irredutibi-
lidade das estruturas aos agentes que as transformam”. Isso
significa que, na perspectiva transformacional, em um dado
corte sincrônico a sociedade não é criação dos seres humanos,
mas pré-existe a eles (embora diacronicamente a sociedade
seja resultado da ação dos seres humanos).
A respeito desse aspecto temporal da relação estrutura-
ação, Resende (2009a, p. 28) explica que é possível discutir
essa relação em termos de sincronia e diacronia:

A concepção realista crítica da relação entre estru-


tura e ação, então, enfatiza que as estruturas sociais
são condição necessária e pré-existente à agência
intencional, mas também que elas existem apenas
em virtude da agência. Nessa concepção, então, as
estruturas sociais são tanto condição como resul-
tado da agência humana, que ao mesmo tempo as
reproduz e as transforma. Um aspecto essencial
desse modelo (e que o diferencia da Teoria da
Estruturação de Giddens, segundo Archer, 1998),
é a assimetria histórica entre estrutura e ação – o
fato de que as estruturas são sempre prévias, isto
é, embora na agência seja potencialmente possível
transformar estruturas (e não apenas reproduzi-
las), as estruturas com as quais um ator social
lida hoje foram conformadas em ações anteriores
de atores sociais que o antecederam. (...) Então é
possível propor uma relação temporal (em termos
de sincronia/diacronia) entre os dois elementos da
recursividade estrutura/agência.

37
Análise de Discurso (para a) Crítica: O texto como material de pesquisa

A sociedade existe em virtude da agência humana, mas


não é redutível a ela, e vice-versa. Como Sayer (2000, p. 19)
exemplifica, ações sempre pressupõem recursos pré-existentes
e meios: “falar pressupõe uma língua; uma língua, uma co-
munidade e recursos materiais, como cordas vocais ou outros
meios de se efetuar sons inteligíveis”. Tal postura implica que
‘sociedades’ e ‘indivíduos’, ou estruturas e agência humana
não são redutíveis a um, mas, sim, causalmente interdepen-
dentes.

Sociedades e indivíduos, ou estruturas sociais e agência


humana, são causalmente interdependentes, mas não
se confundem.

Assim, Bhaskar (1989, p. 34) entende que sociedade é

tanto a condição sempre presente (causa material) e


o resultado continuamente reproduzido da agência
humana. E práxis é tanto produção consciente, e
reprodução (normalmente inconsciente) das con-
dições de produção, que configuram a sociedade.
O primeiro refere-se à dualidade da estrutura, e o
último à dualidade da práxis.

A relação entre estrutura e agência tem caráter dual:


estrutura é condição sincrônica, causa material, mas também
é resultado diacrônico da atividade humana, a qual, por sua
vez, reproduz e transforma essa causa material. A concepção
de que seres humanos não criam estruturas sociais, mas as
(re)produzem à medida que as utilizam como condições para
suas atividades, é representada na Figura 4:

38
Análise de Discurso (para a) Crítica: O texto como material de pesquisa

Figura 4 – Concepção transformacional de constituição da sociedade

Fonte: Ramalho (2007, p. 87), com base em Bhaskar (1998).

Na Figura 4, o movimento descendente da seta repre-


senta a ação humana como dependente de regras e recursos
(incluindo mecanismos e seus poderes causais) disponíveis
na estrutura social. Ao mesmo tempo em que essa estrutura,
na qualidade de meio, é facilitadora, por permitir a ação, ela
também é constrangedora, pois ‘regula’ condutas.
Por outro lado, o movimento ascendente da seta repre-
senta que o acionamento de regras e recursos de estruturas
sociais por atores sociais pode resultar em reprodução ou
transformação de tal estrutura, como resultado. Assim, ação
e estrutura constituem-se transformacional e reciprocamente.
Em práticas sociais, agentes individuais se valem da estrutura
social, (re)articulando mecanismos e poderes causais, e a (re)
produzem, gerando no mundo efeitos imprevisíveis.
Com base em tais princípios, mas também em Harvey
(1992), a ADC localiza seu objeto de estudo nas práticas so-
ciais – “o ponto de conexão entre estruturas abstratas, com seus
mecanismos, e eventos concretos” (Chouliaraki & Fairclough,
1999, p. 21). Isso significa que pesquisas em ADC não devem
focalizar apenas o discurso, sob os riscos que já destacamos.
As práticas sociais são um foco coerente para uma abor-
dagem como a ADC, porque permitem, por sua característica
intermediária, manter o foco simultaneamente nas potencia-
lidades das estruturas e na individualidade dos eventos. Isso

39
Análise de Discurso (para a) Crítica: O texto como material de pesquisa

evita os erros do voluntarismo (Já que cada texto ou instan-


ciação discursiva não é plenamente livre, mas responde às
contingências do contexto e às restrições do sistema, inclusive
em termos do potencial semiótico) e do reificacionismo (apesar
das contingências contextuais e das restrições do sistema, há
uma liberdade relativa capaz, inclusive, de provocar transfor-
mações nas estruturas sociais e semióticas).

2.2 Linguagem e prática social

Como discutimos, a ADC concebe a linguagem como


um dos estratos do mundo. O ‘estrato semiótico’, com seus
mecanismos e poderes gerativos, mantém relações simultâneas
e transformacionais com os demais estratos (social, físico,
químico, biológico etc.), de modo que internaliza traços de
outros estratos, assim como tem efeitos sobre eles. Tal com-
preensão de mundo fundamenta a ideia de que a linguagem
tem efeitos nas práticas e eventos sociais.
Isso significa, conforme Fairclough (2003a), que a lin-
guagem é parte integrante e irredutível do social, em todos
os níveis, como discutimos no Capítulo 1 e ilustramos agora
na Figura 5:

Figura 5 – Linguagem como momento da vida social

Níveis do social Níveis da linguagem

Estrutura social Sistema semiótico


Práticas sociais Ordens do discurso
Eventos sociais Textos

Com base em Fairclough (2003a: 220).

40
Análise de Discurso (para a) Crítica: O texto como material de pesquisa

Na Figura 5, representamos três diferentes níveis da vida


social correlacionados a três níveis da linguagem, conforme
proposto em Fairclough (2003a). No gradiente decrescente,
temos, no nível mais abstrato das estruturas, a linguagem como
sistema semiótico – com sua rede de opções lexicogramaticais.
No nível intermediário das práticas sociais, temos a lin-
guagem como ordens do discurso – “as combinações particu-
lares de gêneros, discursos e estilos, que constituem o aspecto
discursivo de redes de práticas sociais”, a faceta socialmente
estruturada da linguagem (Fairclough, 2003a, p. 220).
Por fim, no nível mais concreto dos eventos, temos a
linguagem como texto – o principal material empírico com
que analistas de discurso trabalham, mas não o único. Disso
advém o entendimento de que o objeto de estudo da ADC não
é a linguagem como estrutura (sistema semiótico), tampouco
apenas como evento (texto), mas também como prática social,
ou seja, análises discursivas críticas privilegiam o espaço das
ordens do discurso como espaço de geração de conhecimento
sobre o funcionamento social da linguagem. É claro que para
tanto investigam as instanciações materializadas em textos
concretos, isto é, têm como material analítico as concretiza-
ções do potencial do sistema semiótico em eventos discursivos
situados. Por isso podemos dizer que análises discursivas
críticas transitam entre os três níveis da linguagem, o que só
é possível graças ao foco no nível intermediário das ordens
do discurso (Resende, 2010c).
Vamos lembrar que, em ADC, o termo ‘discurso’ adqui-
re duas acepções. Como substantivo mais abstrato, significa
‘linguagem e outros tipos de semiose como momento irredu-
tível da vida social’ ao passo que, como um substantivo mais
concreto, significa ‘modos particulares de representar parte
do mundo’. De acordo com a primeira acepção, em práticas
sociais a linguagem figura como discurso: o momento semi-

41
Análise de Discurso (para a) Crítica: O texto como material de pesquisa

ótico que se articula com os demais momentos das práticas –


fenômeno mental, relações sociais, mundo material. Conforme
a segunda acepção, os diferentes momentos semióticos de
diferentes práticas dão origem a (redes de) ordens do discurso,
formadas por gêneros, discursos e estilos particulares de cada
campo ou atividade social. Observe-se a Figura 6:

Figura 6 – Discurso e prática social

Na Figura 6, temos a prática social conformada por


uma articulação situada de elementos chamados ‘momentos
da prática’ – discurso (no conceito mais abstrato), relações
sociais, fenômeno mental e atividade material. No momento
semiótico da prática (discurso), temos a articulação de outros
três elementos, que configuram, juntos, o momento discursivo
da prática. Trata-se de discursos (no conceito mais concreto),
gêneros e estilos, os elementos conformadores de uma ordem
do discurso.

42
Análise de Discurso (para a) Crítica: O texto como material de pesquisa

Por isso, na qualidade de “ponto de conexão entre estru-


turas abstratas, com seus mecanismos, e eventos concretos”
(Chouliaraki & Fairclough, 1999, p. 21), ou entre “estrutura”
e “agência” (Bhaskar, 1989), práticas sociais são maneiras
recorrentes, situadas temporal e espacialmente, pelas quais
pessoas interagem no mundo. Conforme Fairclough (2003a),
práticas sempre articulam ação e interação (relações sociais),
pessoas com crenças, valores, atitudes, histórias (fenômeno
mental), mundo material (que possibilita a atividade material)
e discurso.
Em práticas particulares, esses elementos mantêm entre si
constantes relações dialéticas de articulação e internalização,
sem se reduzirem a um, tornando-se “momentos” da prática.
Resende & Ramalho (2004, 2005, 2006) explicam que essas
relações dialéticas de articulação e internalização entre os
momentos de práticas sociais particulares podem ser tanto
minimizadas para se aplicar à articulação interna de cada mo-
mento de uma prática (como ilustramos na Figura 6 em relação
ao momento semiótico), quanto ampliadas para se aplicar à
articulação externa entre práticas organizadas em redes.
No primeiro caso, tomando como exemplo o momento
discursivo de práticas, há relações dialéticas entre seus três
momentos internos: gêneros, discursos, estilos. No segundo
caso, relações dialéticas entre diferentes práticas, associadas a
diferentes campos sociais, formam redes das quais as próprias
práticas passam a constituir momentos.
Nas práticas sociais cotidianas, utilizamos o discurso de
três principais maneiras simultâneas e dialéticas: para agir e
interagir, para representar aspectos do mundo e para identificar
a nós mesmos/as e a outros/as.

O discurso tem três principais significados nas práticas:


ação e interação, representação de aspectos do mundo e

43
Análise de Discurso (para a) Crítica: O texto como material de pesquisa

(auto)identificação. Esses três significados são simultâneos


em toda prática: a linguagem é funcionalmente complexa.

Essas principais maneiras como o discurso figura simultâ-


nea e dialeticamente em práticas sociais correlacionam-se aos
três momentos de ordens do discurso, os momentos internos do
momento semiótico das práticas (gêneros, discursos e estilos,
respectivamente).
Gêneros discursivos são, portanto, maneiras relativamen-
te estáveis de agir e interagir discursivamente na vida social.
Discursos são maneiras relativamente estáveis de representar
aspectos do mundo, de pontos de vista particulares. Estilos,
por fim, são maneiras relativamente estáveis de identificar,
discursivamente, a si e a outrem.
Essas maneiras de (inter)agir, representar e identificar(-se)
em práticas sociais internalizam traços de outros momentos das
práticas, assim como concorrem para constituir esses outros mo-
mentos, tendo em vista a articulação interna entre os momentos
das práticas sociais. Assim, a linguagem constitui-se socialmente
na mesma medida em que tem “consequências e efeitos sociais,
políticos, cognitivos, morais e materiais” (Fairclough, 2003a,
p. 14). Isso explica porque, em ADC, dizemos que o discurso é
socialmente constitutivo e constituído socialmente.

A relação linguagem-sociedade é interna: o discurso é


socialmente constitutivo e constituído socialmente.

2.3 As (redes de) ordens do discurso

Considerar a importância do social, e não só do semióti-


co, na manutenção do potencial mais ou menos (in)definido
da linguagem para criar significados implica reconhecer as
(redes de) ordens do discurso como um sistema, isto é, um

44
Análise de Discurso (para a) Crítica: O texto como material de pesquisa

potencial semiótico estruturado que possibilita e regula nossas


ações discursivas, tal como as práticas sociais possibilitam e
regulam nossas ações sociais.
Sobre o assunto, Chouliaraki & Fairclough (1999) ob-
servam que, ainda que reconheça a importância do ‘contexto
social’ e conceba a linguagem como um sistema aberto, pas-
sível de mudança, a Linguística Sistêmico-Funcional – teoria
linguística que informa essa vertente de ADC – vincula tal
abertura somente ao sistema semiótico.
Para uma abordagem discursiva, como Chouliaraki e
Fairclough ainda explicam, o potencial de significados da
linguagem deve ser entendido não só a partir da noção de
sistema semiótico, mas também de sistema social de ordens
do discurso, as “combinações particulares de gêneros, dis-
cursos e estilos, que constituem o aspecto discursivo de redes
de práticas sociais” (Fairclough, 2003a, p. 220). Conforme
Chouliaraki e Fairclough (1999, p. 151-2),

a linguagem, como um sistema aberto, tem capacida-


de ilimitada para a construção de significado através
de conexões gerativas sintagmáticas e paradigmáti-
cas, mas é o dinamismo da ordem do discurso, capaz
de gerar novas articulações de discursos e gêneros,
que mantém a linguagem como um sistema aberto
(...). Por outro lado, é a fixidez da ordem do discurso
que limita o poder gerativo da linguagem, impedindo
certas conexões.

Para a autora e o autor, o foco em mudanças no sistema,


possibilitadas e constrangidas por conexões gerativas sintag-
máticas e paradigmáticas, ajuda a explicar o poder gerativo
da linguagem, mas não é suficiente. É necessário reconhecer
que o sistema aberto da linguagem é mantido tanto por seus
recursos ‘internos’ (lexicogramaticais, semânticos) quanto por
recursos ‘externos’, assegurados pelo dinamismo das ordens

45
Análise de Discurso (para a) Crítica: O texto como material de pesquisa

do discurso de cada campo social. Uma possível representação


dessa proposta é apresentada a seguir, na Figura 7: 2

Figura 7 – Estrutura dupla da linguagem

Na Figura 7, uma adaptação do que propõe Halliday


(2004, p. 25), representamos dois sistemas constituintes da lin-
guagem. O sistema semiótico, interno, formado por diferentes
estratos (semântico, lexicogramatical, fonológico, fonético), e
o sistema de redes de ordens do discurso, de natureza socio-
discursiva. Esse segundo sistema, a faceta social da estrutura
da linguagem, também é estratificado, conforme ilustramos
na Figura 8, a seguir:

2 As figuras 7 e 8 são representações das autoras, baseadas em Halliday (2004).

46
Análise de Discurso (para a) Crítica: O texto como material de pesquisa

Figura 8 – Estratos do sistema de ordens do discurso

Os estratos do sistema de redes de ordens do discurso são


gêneros, discursos e estilos. Como integram redes de práticas
sociais dinâmicas, e, portanto, redes de ordens do discurso,
são mais bem definidos como ‘momentos’. Assim como o
sistema semiótico, o sistema social da linguagem formado
por ordens do discurso também constitui redes potenciais
de opções, e, portanto, de significados. Entretanto, a rede de
opções de ordens do discurso não é formada por palavras e
orações (ainda que seja possibilitada por elas), mas, sim, por
gêneros, “tipos de linguagem ligados a uma atividade social
particular”, discursos, “tipo de linguagem usado para construir
algum aspecto da realidade de uma perspectiva particular”, e
estilos, “tipo de linguagem usado por uma categoria particular
de pessoas e relacionado com sua identidade” (Chouliaraki
& Fairclough, 1999, p. 63).

47
Análise de Discurso (para a) Crítica: O texto como material de pesquisa

A rede de opções de ordens de discurso é formada por


gêneros, discursos e estilos: modos relativamente estáveis
de agir, representar e identificar discursivamente.

Esses três momentos figuram em práticas como recursos


sincrônicos para a ação humana, e como produtos diacrônicos
dela. Isso implica que a abertura da linguagem para significar
é mantida tanto por recursos disponíveis ‘dentro’ do sistema
quanto pelo dinamismo das ordens do discurso. Novas articu-
lações de discursos, gêneros e estilos de diferentes (redes de)
ordens do discurso também contribuem para a construção de
significados. A possibilidade de articulação desses elementos
está ligada à criatividade na produção de eventos discursivos,
apesar dos constrangimentos do sistema, semiótico e social.
Assim, temos que a relação transformacional estrutura-ação
social repete-se na relação estrutura-ação discursiva.

O potencial da linguagem para significar é mantido


tanto por recursos disponíveis no sistema quanto por
recursos disponíveis nas (redes de) ordens do discurso. A
possibilidade de novas articulações de discursos, gêneros
e estilos de diferentes ordens do discurso está ligada à
criatividade discursiva. Isso significa que a estabilidade
é relativa.

Assim, por um lado, o poder gerativo do semiótico é


mediado pelo poder gerativo de outros momentos da prática
social. Por outro, a semiose tem estrutura dupla, formada
pela rede de opções do sistema semiótico (linguagem como
estrutura) mas também pela rede de opções do sistema social
da linguagem, as redes de ordens do discurso (linguagem
como momento da prática social).
Elementos de ordens do discurso são categorias tanto
discursivas quanto sociais, que ultrapassam a fronteira entre o

48
Análise de Discurso (para a) Crítica: O texto como material de pesquisa

linguístico e o não linguístico. Por isso, a análise de gêneros,


discursos e estilos (e seus respectivos significados/ formas
em textos) possibilita a explanação da relação entre discurso,
relações sociais, atividade material e fenômeno mental (Fair-
clough, 2003a).

Por meio da análise de gêneros, discursos e estilos em


textos situados, é possível investigar relações entre
aspectos discursivos e não discursivos de práticas sociais.

Os três modos como o discurso figura simultânea e


dialeticamente em práticas sociais – como modo de (inter)
agir, de representar e de identificar(-se) – correlacionam-
se a três principais significados do discurso, ligados
aos três elementos de ordens do discurso, gêneros, dis-
cursos e estilos. Na Figura 9, a seguir, reproduzimos
a representação de Resende & Ramalho (2005, p. 43):

Figura 9 – Relação dialética entre os significados do discurso

Fonte: Resende & Ramalho (2005, p. 43).

49
Análise de Discurso (para a) Crítica: O texto como material de pesquisa

A Figura 9 associa o significado acional/relacional do


discurso, relativo a modos de (inter)agir discursivamente, a
gêneros. O significado representacional, ligado a maneiras
particulares de representar aspectos do mundo, é associado a
discursos. O significado identificacional, por sua vez, relativo
a maneiras de identificar(-se), associa-se a estilos.

Os três tipos de significado sempre presentes em textos


associam-se aos elementos constituintes de ordens do
discurso: o significado acional a gêneros, o significado
representacional a discursos, o significado identificacional
a estilos (Fairclough, 2003a).

Embora gêneros, discursos e estilos, assim como os sig-


nificados do discurso, tenham suas especificidades, a relação
entre eles é dialética. Cada qual internaliza traços de outros,
de maneira que nunca se excluem ou se reduzem a um.
Fairclough (2003a, p. 25) avalia que o ponto de partida
nos três principais significados do discurso ajuda a efetivar
a proposta de alcançar a relação dialética entre momentos
semióticos e não semióticos do social. Além disso, avança
na percepção não só do sistema semiótico, mas também do
sistema social de redes de ordens do discurso. Isso se explica
pelo fato de gêneros, discursos e estilos, como maneiras rela-
tivamente estáveis de (inter)agir, representar e identificar(-se)
em práticas sociais, não serem categorias puramente linguís-
ticas. Uma vez que práticas articulam discurso com outros
momentos (relações sociais, fenômeno mental, mundo ma-
terial), elementos de ordens do discurso são categorias tanto
discursivas quanto sociais, que “atravessam a divisão entre o
discursivo e o não discursivo”.
Neste ponto, é importante lembrar não só que o conceito
de “ordem do discurso” tem origem nos estudos de Foucault

50
Análise de Discurso (para a) Crítica: O texto como material de pesquisa

(2003 [1971]) mas também que os três significados do dis-


curso (ação, representação e identificação) comentados aqui
associam-se aos três grandes eixos da obra de Foucault (1994):
o eixo do poder, o eixo do saber e o eixo da ética.
O significado acional relaciona-se ao eixo do poder, ou
seja, a ‘relações de ação sobre os outros’. Nessa perspectiva
é que se entende que gêneros, como maneiras de (inter)agir
e relacionar-se discursivamente, implicam relações com os
outros, mas também ação sobre os outros e poder. O signifi-
cado representacional relaciona-se ao eixo do saber. Discur-
sos, como maneiras particulares de representar aspectos do
mundo, pressupõem controle sobre as coisas e conhecimento.
O significado identificacional relaciona-se ao eixo da ética.
Estilos, maneiras de identificar a si e aos outros, pressupõem
identidades sociais e individuais, ligadas às ‘relações consigo
mesmo’, ao ‘sujeito moral’. Sistematizando, temos o Quadro
2, a seguir:

Quadro 2 – Relações entre os significados do discurso, de Fairclough (2003),


e os eixos de Foucault (1994)

Significados Elementos de ordens Eixos


(Fairclough, 2003) do discurso (Foucault, 1994)
Significado acional Gêneros Eixo do poder
Significado representacional Discursos Eixo do saber
Significado identificacional Estilos Eixo da ética

Os três eixos da obra de Foucault não são isolados, mas


também dialeticamente articulados, ou seja, o controle sobre
as coisas (eixo do saber) é mediado pelas relações com/ sobre
os outros (eixo do poder), assim como as relações com/ sobre
os outros pressupõem relações consigo mesmo (eixo da ética),
e assim por diante. Por isso, Fairclough (2003a, p. 29) lembra
que a relação entre os significados do discurso também deve

51
Análise de Discurso (para a) Crítica: O texto como material de pesquisa

ser compreendida como dialética, isto é, “discursos particu-


lares (representação/ saber) são mediados por gêneros (ação/
poder), assim como gêneros pressupõem estilos (identificação/
ética)” ou, ainda, “representações particulares (discursos)
podem ser legitimadas em maneiras particulares de ação e
relação (gêneros), e inculcadas em maneiras particulares de
identificação (estilos)”.

2.4 Representação: os discursos particulares

Primeiramente, entendemos com Fairclough (2003a) que


diferentes discursos são diferentes perspectivas do mundo e,
como tal, ligam-se a campos sociais específicos e a projetos
particulares. Na discussão sobre ideologia no Capítulo 1,
vimos que a universalização de representações particulares
destaca-se como importante instrumento de lutas hegemôni-
cas. Isso porque uma das formas de se assegurar temporaria-
mente a hegemonia consiste em disseminar uma perspectiva
de mundo particular como se fosse a única possível, legítima
e aceitável (cf. Resende, 2009c).

A universalização de discursos particulares e sua


legitimação são poderosas ferramentas para a manutenção
de hegemonias. Isso relaciona, por um lado, os conceitos
de discurso e luta hegemônica, e, por outro lado,
reforça o papel da ideologia na manutenção de relações
hegemônicas.

Hoje, é preciso reconhecer o papel de destaque das mídias


como instrumento de lutas hegemônicas, o qual ampliou a pos-
sibilidade de grupos cada vez mais restritos disseminarem seus
discursos, suas visões particulares de mundo como se fossem
universais. E, como nos ensina van Dijk (2008, p. 23), “muitas

52
Análise de Discurso (para a) Crítica: O texto como material de pesquisa

formas de poder contemporâneo devem ser definidas como


poder simbólico, isto é, em termos do acesso preferencial ou
do controle sobre o discurso público”.
Para Hardt & Negri (2004), vivemos um terceiro para-
digma econômico capitalista, baseado na oferta de serviços
e no manuseio de informações. A esse respeito, Fairclough
(2003b, p. 188) observa que

a linguagem e a semiose têm uma considerável


importância na reestruturação do capitalismo e em
sua organização em nova escala. Por exemplo, a
totalidade do conceito de ‘economia baseada no co-
nhecimento’, uma economia em que o conhecimento
e a informação adquirem um novo e decisivo signi-
ficado, implica uma economia baseada no discurso:
o conhecimento se produz, circula e é consumido
como discursos.

Fairclough (2003a, p. 219-20) utiliza o termo ‘novo


capitalismo’ para designar as reestruturações mais recentes
do capitalismo na manutenção de sua continuidade como
modelo dominante, de acordo com sua “capacidade de supe-
rar crises por meio da transformação radical de si mesmo, de
modo que a expansão econômica possa continuar. (...) Essa
transformação [na direção do novo capitalismo] envolve a
reestruturação das relações entre os domínios econômico,
político e social”. Para o autor, o novo capitalismo consiste
numa “re-estruturação” das relações entre diferentes campos
da vida social, e um “re-escalonamento” nas relações entre
diferentes escalas da vida social.
A re-estruturação das relações entre diferentes campos da
vida social implica, sobretudo, transformações que apontam
para a colonização de outros campos sociais (político, educa-
cional, artístico) pelo campo econômico. Fairclough (1989,
p. 36) aponta que alguns discursos-chave nas sociedades

53
Análise de Discurso (para a) Crítica: O texto como material de pesquisa

modernas, como aqueles associados a práticas de publicidade,


entrevista, aconselhamento/terapia, incorporam ideologias
e colonizam muitos campos sociais, incluindo a ordem do
discurso desses campos, para legitimar relações societais
existentes. Para o autor, os discursos-chave associados à pu-
blicidade têm potencial para “inserir a massa da população no
sistema capitalista de mercadoria, atribuindo aos indivíduos o
legitimado, e até mesmo desejável, papel de consumidores”.
A partir da ideia de que as transformações do novo capi-
talismo pressupõem “re-estruturação” de diferentes campos
sociais e “re-escalonamento” de relações locais/globais, Fair-
clough (1989) reconhece que a publicidade exerce significativa
influência na vida moderna. Coloniza outros campos sociais
e cria uma ambivalência que compromete a distinção entre
propósitos estratégicos e propósitos comunicacionais, nos
termos de Habermas (2002), de forma tal que compromete
a credibilidade entre o que é autêntico e o que é tecnologia
discursiva. Fairclough (2003a) exemplifica que a “competiti-
vidade” coloniza setores públicos, levando governos nacionais
a se promoverem e a ‘venderem’ sua imagem ativamente,
para garantir recursos públicos e credibilidade com entidades
financeiras mundiais, por exemplo. Com base no que temos
visto nos anos mais recentes, nesse exemplo podemos incluir
o Brasil. Isso implica processos de mercadologização não só
de práticas em princípio desvinculadas da economia, mas
também do discurso. O discurso torna-se aberto a processos de
“tecnologização”, isto é, de cálculo, manipulação e desenhos
econômicos, com a finalidade de sustentar o sistema capitalista
fundado não na produção econômica, mas no consumismo
(Fairclough, 2002). Exemplos podem ser apontados em pro-
cessos de “mercantilização da saúde” (cf. Ramalho, 2010a),
da educação, e mesmo mercantilização da vida privada, em
que internalizamos ideais de competitividade do mercado,
muitas vezes sem notar.

54
Análise de Discurso (para a) Crítica: O texto como material de pesquisa

Fairclough (2002) observa que a infiltração da economia


na vida cotidiana implica mercadologização do discurso. O
discurso torna-se aberto a processos de “tecnologização”,
com a finalidade de sustentar o sistema capitalista fundado
no consumismo.

Por sua vez, o processo de “re-escalonamento” nas re-


lações entre diferentes escalas da vida social implica, princi-
palmente, transformações nas relações sociais em escala local
para escalas globais. Com Sousa Santos (2005), podemos
dizer que esse processo é parte do movimento hegemônico
globalizante de Estados centrais do sistema mundial, liderados
pelos EUA, sobre países semiperiféricos e periféricos do ca-
pitalismo, a exemplo do Brasil. Pensemos na crise financeira
de 2008, que abalou a economia do império e teve ressonância
em vários outros países.
A importância da linguagem, nessas mudanças, está em
sua centralidade no novo modo de produção capitalista, isto
é, uma economia baseada no conhecimento, na informação,
pressupõe uma economia baseada no discurso. O novo ca-
pitalismo depende de tecnologias de comunicação – que se
associam ao que Giddens (2002, p. 22) define como “traços
básicos da modernidade”: separação de tempo e espaço,
mecanismos de desencaixe e reflexividade institucional –,
assim como depende da criação de “marcas” (branding) para
garantir o sucesso econômico de companhias multinacionais
(Fairclough, 2002). Como a mídia tem papel fundamental
nesse processo, hoje as representações estão, sem precedentes,
cada vez mais associadas aos meios de comunicação.
Essa centralidade da informação, e consequentemente
da linguagem, no modo avançado de produção capitalista,
leva Hardt & Negri (2004, p. 42-60) a contrastarem a ante-
rior “sociedade disciplinar”, proposta por Foucault (1997),
com a atual “sociedade de controle”. Na primeira, conforme

55
Análise de Discurso (para a) Crítica: O texto como material de pesquisa

os autores, o comando social era construído mediante uma


rede difusa de instituições, como a prisão, a fábrica, o asilo,
a escola, que produziam e regulavam costumes, hábitos e
práticas produtivas. O ato disciplinar se desenvolvia somente
em instituições voltadas para a imposição da disciplina. Na
sociedade de controle atual, em contrapartida, o poder é exer-
cido por sistemas de comunicação e redes de informação que
organizam internamente as práticas diárias e comuns. Não se
restringe a locais estruturados de instituições sociais, mas se
estende em redes flexíveis e flutuantes. Dispõe da “máquina
comunicacional de alta tecnologia”, que constitui um recurso
de sustentação da hegemonia.
Nessa perspectiva, a ‘experiência mediada’, celebrada
em Giddens (2002) como forma moderna de libertação, re-
presenta a conversão do ato disciplinar local para um controle
global, sem fronteiras. A expansão da disponibilidade de
informação no espaço e no tempo implica maior alcance de
discursos voltados para o ‘controle’ de condutas e práticas
sociais, o que Fairclough (2003a) define como ‘aparato de
regulação’. Para Giddens (2002), as tecnologias de comu-
nicação formam um elemento essencial da reflexividade da
modernidade, o que leva o autor a reconhecer a modernidade
avançada como marcadamente “reflexiva”. Em alguns con-
textos, a experiência mediada tornou a vida cotidiana mais
influenciada por informação e conhecimento, de modo que,
segundo o autor, a construção das autoidentidades tornou-se
mais propensa a revisões à luz desse conhecimento.
Para Giddens (1991, p. 88), em cenários “pré-modernos”
atores sociais podiam “ignorar os pronunciamentos de sa-
cerdotes, sábios e feiticeiros, prosseguindo com as rotinas
da atividade cotidiana”, ao passo que, no mundo moderno,
o mesmo não pode ser feito em relação ao conhecimento
perito, ou seja, aos discursos produzidos por “sistemas de
excelência técnica ou competência profissional”. Ainda para

56
Análise de Discurso (para a) Crítica: O texto como material de pesquisa

o autor, em contextos “pré-modernos” a tradição oferecia um


meio de organizar a vida social. Eram necessárias transições
de vários estágios da vida, mas elas eram governadas por
processos institucionalizados, e o papel do indivíduo neles
era relativamente passivo. No mundo moderno, ao contrário,
vivemos num ambiente de risco, “orientado para a dominação
da natureza e para a feitura reflexiva da história” (Giddens,
2002, p. 104). Diante de riscos humanamente criados e de múl-
tiplas ‘escolhas’ de estilo de vida a adotar, isto é, de “práticas
que dão forma a uma narrativa particular da autoidentidade”,
o indivíduo seria permanentemente guiado por suas próprias
construções reflexivas, em grande parte influenciadas por
discursos peritos, pela reflexividade institucional.
Isso significa que, com as tecnologias, a infiltração de
conhecimento especializado no mundo da vida passou a
influenciar de modo mais pronunciado as autoidentidades e,
consequentemente, parte da segurança ontológica, isto é, do
“sentido de continuidade e ordem nos eventos”, advém da
confiança nesses discursos peritos (Giddens, 2002, p. 104).
Como se vê, o autor imprime otimismo a tais mudanças,
entendendo-as como ‘empoderamento’ de atores sociais (o que
equivale a dizer que essa é uma representação particular do
autor a respeito dessas mudanças, ligada a interesses particu-
lares). No entanto, Sousa Santos (2005, p. 53) alerta que esse
tipo de análise “esquece que a grande maioria da população
mundial sofre as consequências de uma modernidade ou de
uma globalização nada reflexiva ou que a grande maioria dos
operários vivem em regimes de acumulação que estão nos
antípodas da acumulação flexível.”
O fato é que as tecnologias não alcançam a todos/as e,
quando o fazem, há outros tipos de problema. Chouliaraki &
Fairclough (1999), por exemplo, problematizam que práticas
sociais podem depender precisamente desse tipo de autocons-
trução reflexiva, cada vez mais influenciada pela reflexividade

57
Análise de Discurso (para a) Crítica: O texto como material de pesquisa

institucional e por discursos hegemônicos, para estabelecer


e manter relações assimétricas de poder. Essa perspectiva
de discursos hegemônicos da sociedade de controle está de
acordo com Fairclough (2002), que concebe essas transfor-
mações sociais como parcialmente discursivas. Isso porque a
ampla circulação de conhecimento implica disseminação de
discursos particulares, que são dialeticamente materializados
em maneiras de agir e interagir, e inculcados em maneiras de
ser, como identidades.
Para finalizar a seção, vale lembrar, com Sousa Santos
(2005, p. 29), que “as características dominantes da globa-
lização são as características da globalização dominante ou
hegemônica”, e não acontecimentos naturais associados a uma
suposta evolução da história.

Para pesquisas em ADC, em relação ao estudo da


materialização de discursos em textos são temas
relevantes: a representação de grupos específicos
de atores sociais em textos de ampla circulação; a
recontextualização de discursos de um campo a outro;
as influências de discursos específicos sobre construções
identitárias e sobre modos de ação; a representação de
aspectos específicos do mundo por meio de discursos
particulares; os modos como grupos específicos de atores
sociais atualizam discursos particulares na representação
de sua experiência etc.

2.5 Ação e interação: os gêneros discursivos

Para a ADC, gêneros não são “tipos textuais fixos”,


mas, sim, um dos momentos de ordens do discurso, daí se-
rem definidos como ‘gêneros discursivos’, e não ‘gêneros
textuais’. O conceito de gênero está associado ao significado
acional/ relacional do discurso. Nessa concepção, a rede de
opções de gêneros existe no nível das práticas sociais, nas

58
Análise de Discurso (para a) Crítica: O texto como material de pesquisa

redes sociodiscursivas de ordens do discurso, que, a exem-


plo da rede semiótica, permitem e constrangem processos de
significação. Como vimos com base em Fairclough (2003a),
as opções que as redes de ordens do discurso oferecem não
são de palavras e orações, mas de gêneros, discursos e estilos
particulares, ligados aos modos particulares, e relativamente
estáveis, como cada campo social (inter)age, representa e
identifica pelo discurso. Nota-se uma concepção mais clara,
para uma teoria social do discurso, da relação entre o signi-
ficado acional, ligado a gêneros, e as macrofunções textual e
relacional da linguagem, da Linguística Sistêmico-Funcional
(LSF; Halliday, 2004).
Em poucas palavras, para a LSF, a linguagem desempe-
nha três macrofunções: a macrofunção ideacional, pela qual
representamos aspectos do mundo; a macrofunção interpes-
soal, pela qual estabelecemos relações e papéis sociais, e a
macrofunção textual, pela qual organizamos, construímos
textos. Com base na LSF, Fairclough (2001) propõe trabalhar,
na teoria social do discurso, com quatro macrofunções da
linguagem: ideacional; relacional e identitária, partindo da
macrofunção interpessoal; e textual. Revisando essas quatro
funções, Fairclough (2003a) propõe, como ponto de partida,
a compreensão das maneiras como o discurso figura em prá-
ticas sociais: como (inter)ação, associada a gêneros; como
representação, associada a discursos, e como identificação,
relacionada a identidades (cf. Resende & Ramalho, 2006).
Tal ponto de partida nos ajuda a compreender gêneros
não apenas segundo a organização estrutural da mensagem,
ligada à função textual, mas, sobretudo, segundo as maneiras
pelas quais a mensagem contribui para a negociação de re-
lações sociais entre os/as participantes do discurso, ligadas à
macrofunção relacional (cf. Resende, 2010a). Logo, gêneros
discursivos pressupõem relações com outras pessoas, assim
como ação sobre outras pessoas, o que, em circunstâncias

59
Análise de Discurso (para a) Crítica: O texto como material de pesquisa

específicas, pode estar relacionado à distribuição assimétrica


de poder (Fairclough, 2003a).

Gêneros discursivos estão ligados a diferentes modos


de ação/relação social estabelecidos discursivamente.
Por isso, dizemos que os gêneros referem-se a modos
relativamente estáveis de (inter)ação por meio do discurso.

Nessa concepção, de gêneros como um elemento de


ordens do discurso associado ao significado acional/rela-
cional, a rede de opções de gêneros refere-se a um potencial
abstrato previsto nas redes sociodiscursivas de ordens do
discurso, que permitem e constrangem processos de signifi-
cação. Chouliaraki & Fairclough (1999, p. 144) reconhecem
nos gêneros discursivos “um mecanismo articulatório que
controla o que pode ser usado e em que ordem, incluindo
configuração e ordenação de discursos”. E, por isso, o con-
ceito de gênero associa-se à “faceta regulatória do discurso”,
e não simplesmente à “estruturação apresentada por tipos
fixos”. Fairclough (2003a, p. 31) observa que na atualidade
(cadeias de) gêneros contribuem para ações/relações tempo-
ral e espacialmente desencaixadas, “facilitando a acentuada
capacidade de ‘ação a distância’, e, portanto, facilitando o
exercício do poder”.

A associação do potencial genérico a relações sociais


específicas e, sobretudo, a modos de ação discursiva
temporal e espacialmente desencaixados, em termos das
‘cadeias de gêneros’, implicam uma relação entre gêneros
e exercício do poder.

Isso significa que diferentes gêneros regularmente ligados


– como entrevista e reportagem, por exemplo – transcendem
diferenças de espaço/ tempo, e facilitam não só a ação de

60
Análise de Discurso (para a) Crítica: O texto como material de pesquisa

discursos particulares a distância, mas também o exercício


do poder. Dessa forma, ao reconhecer “a importância dos
gêneros na sustentação da estrutura institucional da sociedade
contemporânea”, incluindo as relações capitalistas, Fairclough
(2003a, p. 31) reforça a relação entre poder e gêneros. De tal
relação, depreende-se que certos gêneros possibilitam e con-
trolam não só discursos, mas práticas sociais como um todo.
Fairclough (2003a, p. 32) contrasta ‘gêneros práticos’,
que figuram mais na ação pela qual as coisas são feitas, e ‘gê-
neros de governança’, que regulam e controlam as maneiras
como as coisas são feitas.3 Estes últimos são associados a
redes de práticas especializadas na regulação e no controle
de outras práticas sociais. As notícias, como exemplifica o
autor, associadas aos meios de comunicação que integram o
“aparato de governança”, podem regular e controlar os even-
tos noticiados e as maneiras como as pessoas reagem a esses
eventos (cf. Ramalho, 2005).
Podemos reconhecer os anúncios de medicamento, por
exemplo, como um gênero de governança, associado aos
meios de comunicação e orientado para controlar crenças sobre
saúde, práticas de consumo no mundo da vida, identificação
do/a ‘consumidor/a de medicamentos’, e assim por diante
(Ramalho, 2010b). Por isso, gêneros – maneiras particulares
de ação e relação – podem legitimar discursos ideológicos, ou
seja, maneiras particulares de representar práticas “a partir de
perspectivas posicionadas que suprimem contradições, anta-
gonismos, dilemas, em favor de seus interesses e projetos de
dominação” (Chouliaraki & Fairclough, 1999, p. 26).

Gêneros, como maneiras particulares de ação e relação,


podem servir para legitimar discursos ideológicos,
conduzir maneiras particulares de representar práticas,
influenciar modos de identificação.
3 No original, “genres of governance” (Fairclough, 2003a, p. 32).

61
Análise de Discurso (para a) Crítica: O texto como material de pesquisa

A concepção de gêneros como elementos de ordens do


discurso, associados diretamente ao significado acional/re-
lacional da linguagem, implica ação humana, mutabilidade,
plasticidade, hibridismo. Permite levar a efeito a compreensão
do preceito bakhtiniano de que “não há razão para minimizar
a extrema heterogeneidade dos gêneros do discurso” (Bakhtin,
1997, p. 281).
Para a ADC, um texto ou interação particular não ocor-
re ‘em um gênero particular’, mas frequentemente envolve
uma combinação de diferentes gêneros. Além da ideia de
hierarquização dos gêneros, característica dessa combinação
híbrida, a ADC sustenta, também, distintos níveis de abstração.
Num gradiente decrescente de abstração, há ‘pré-gêneros’,
‘gêneros desencaixados’ e ‘gêneros situados’ (Fairclough,
2003a). Esquematicamente, temos:

Figura 10 – Níveis de abstração no conceito de gênero discursivo

Os pré-gêneros, termo de Swales (1990) usado por Fair-


clough (2003a, p. 68), são mais abstratos, constituídos esponta-
neamente na vida cotidiana em circunstâncias de comunicação,
a exemplo da narração, da argumentação, da descrição; são
sequências tipológicas utilizadas na composição de gêneros. O
renomado pesquisador brasileiro de gêneros Marcuschi (2008)
designa os pré-gêneros como ‘tipos textuais’, que diferem dos
‘gêneros textuais’ nesta classificação.
Os ‘tipos textuais’, como esclarece o pesquisador, desig-
nam “uma espécie de sequência teoricamente definida pela

62
Análise de Discurso (para a) Crítica: O texto como material de pesquisa

natureza linguística de sua composição (aspectos lexicais,


sintáticos, tempos verbais, relações lógicas)”. Não são textos
empíricos, mas cerca de seis sequências linguísticas ou, nos
termos de Adam (1992), ‘sequências de base’ como narração,
argumentação, exposição, descrição, injunção, diálogo. A
mistura ou o hibridismo de tipos em gêneros é definida, em
Marcuschi (2008, p. 167), como “heterogeneidade tipológica”.

Pré-gêneros ou ‘tipos textuais’ referem-se a um


potencial abstrato definido pela natureza linguística da
composição. Em número limitado, trata-se de cerca de
seis sequências linguísticas ou sequências de base:
narração, argumentação, exposição, descrição, injunção,
diálogo. O potencial abstrato dos pré-gêneros é alçado
para o potencial composicional de gêneros discursivos.

Menos abstratos que os pré-gêneros são os gêneros de-


sencaixados, que correspondem a potenciais para realizações
linguísticas concretas que transcendem redes particulares de
práticas. Um exemplo pode ser apontado na entrevista, que
figura em diversas práticas, como jornalística, médica, aca-
dêmica, etnográfica. Esses gêneros desencaixados, quando
alçados nessas práticas particulares, dão origem aos gêneros
situados entrevista jornalística, entrevista médica, entrevista
acadêmica, entrevista etnográfica.

Gêneros desencaixados referem-se a potenciais para


realizações linguísticas que transcendem práticas
particulares, podendo ser alçados na composição de
gêneros específicos relativos a diversas práticas situadas.

Por fim, os gêneros situados correspondem aos gêneros


textuais de Marcuschi (2008). Na classificação de Marcuschi
(2005, p. 31), os ‘gêneros textuais’ designam “realizações
linguísticas definidas por propriedades sociocomunicativas”,

63
Análise de Discurso (para a) Crítica: O texto como material de pesquisa

como “conteúdos, propriedades funcionais, estilo e composi-


ção característica”. São tipos relativamente estáveis de textos
“que cumprem funções em situações comunicativas”.
Essa classificação corresponde à categoria dos ‘gêneros
situados’ de Fairclough (2003a). Ao contrário dos pré-gêneros
ou tipos textuais, que se limitam a alguns poucos, os gêneros
discursivos são inúmeros, híbridos, e nem todos têm nomes
estabelecidos. Como exemplos, Marcuschi (2008) cita: carta
pessoal, bilhete, telefonema, aulas virtuais, bulas de remédio,
horóscopo, dentre outros.

Gêneros discursivos são tipos relativamente estáveis de


textos, segundo o conceito canônico de Bakhtin (1997).
Trata-se de um potencial menos abstrato que os pré-
gêneros, alçados na composição dos gêneros. Porém,
trata-se ainda de um conceito abstrato: os gêneros não
se confundem com os textos empíricos. E essa distinção
é fundamental.

A exemplo do gênero ‘entrevista jornalística’, gêneros


situados são característicos de uma (rede de) prática particular,
como a do jornalismo. Nessa perspectiva, considera-se que
um texto pode materializar, por exemplo, o gênero situado
‘entrevista jornalística’. Este, por sua vez, pode ser composto
por gêneros desencaixados, pouco mais abstratos, como a
entrevista, e, necessariamente, por pré-gêneros, ainda mais
abstratos, como a narração. Neste livro, quando usamos os
termos ‘gêneros’ ou ‘gêneros discursivos’, fazemos referência
ao conceito de ‘gênero situado’.
Por se tratar de abordagem discursiva, pela qual se con-
sideram gêneros como elementos/momentos de ordens do
discurso, logo, momentos de (redes de) práticas sociais, o
termo ‘gênero discursivo’ é mais adequado do que ‘gênero tex-
tual’, já que o conceito de ‘texto’ pressupõe a ideia de ‘evento

64
Análise de Discurso (para a) Crítica: O texto como material de pesquisa

discursivo’. Com isso, queremos enfatizar os gêneros como


elementos ligados a práticas sociais – entidade social interme-
diária entre estruturas mais fixas e eventos mais efêmeros e
flexíveis, como vimos. Tal postura apoia-se no entendimento
do gradiente de entidades sociodiscursivas mais fixas até as
menos fixas, quais sejam estrutura social-sistema semiótico;
práticas sociais-ordens do discurso (e gêneros, discursos,
estilos) e, por fim, eventos-textos.

Em ADC, é muito importante que se faça distinção


entre os conceitos de gêneros discursivos e de textos
empíricos. Gêneros referem-se sempre a um potencial
abstrato, mesmo quando se fala em gêneros situados.
A materialização desse potencial só acontece em textos
concretos.

Gêneros discursivos podem apresentar configuração


híbrida, definida por Fix (1997)4 como “intertextualidade
inter-gêneros” e por Marcuschi (2008, p. 163) como “inter-
genericidade”. Pelas definições, entende-se “a mescla de
funções e formas de gêneros diversos num dado gênero” ou “o
aspecto da hibridização em que um gênero assume a função de
outro”, o que resulta na subversão do modelo genérico global.
Por exemplo, uma bula de medicamento que assume função
de anúncio publicitário subverte a função potencial do gênero
‘bula’. Preserva a forma, mas se presta ao propósito precípuo
de promover mercadorias (Silva & Ramalho, 2008a,b; Rama-
lho, 2009b, 2010a).
Comentamos que, além dos distintos níveis de abstra-
ção, Fairclough (2003a, p. 70) destaca a hierarquização de
gêneros em textos. Segundo o autor, textos podem apresentar
hibridismos de gêneros hierarquicamente relacionados. Neste
caso, haverá um ‘gênero principal’ e outros ‘subgêneros’. Os
4 Citado em Marcuschi (2005, p. 31).

65
Análise de Discurso (para a) Crítica: O texto como material de pesquisa

anúncios publicitários intercalados nos programas televisivos


de auditório podem servir como exemplo. O gênero princi-
pal é ‘programa de auditório’ e os ‘anúncios publicitários’,
realizados pelo/a próprio/a apresentador/a ou por garotos/
as-propaganda, constituem subgêneros na interação.
Esse é um dos aspectos da interdiscursividade, isto é, da
hibridização de gêneros, discursos e estilos, que pode, como
alertam Chouliaraki & Fairclough (1999, p. 62), constituir
“uma estratégia de luta hegemônica”. Isso significa que hibri-
dismos de gêneros podem servir, nessa perspectiva, para fins
ideológicos. Podem implicar não apenas questões semióticas,
mas também questões relacionadas a poder e ideologia (Silva
& Ramalho, 2008b). Retomemos, com Fairclough (2003a, p.
35), o exemplo da “promoção de governos nacionais”, a qual
tem, naturalmente, um aspecto discursivo. Para o autor, a
mudança na relação entre cidades, países, governos e corpora-
ções empresariais envolve hibridismos entre discurso político,
discurso empresarial, publicitário e, até mesmo, turístico, o
que implica hibridismos de gêneros.

Hibridismos de gêneros podem servir para fins ideológicos.


Isso acontece quando a mistura de gêneros associa-se a
questões relacionadas a poder e ideologia.

Como se vê, quando não ignoradas, a heterogeneidade,


a mutabilidade e a plasticidade não constituem problema.
Problema sério é, como advertiu Bakhtin (1997, p. 282), ten-
tar homogeneizar os gêneros ou, ainda, estudar somente sua
composição formal, “o que leva irremediavelmente à trivia-
lização”. É por isso que o estudo dos gêneros deve superar a
limitação de seu aspecto meramente textual, para assumir a
relevância de seu papel nas práticas sociais, seu aspecto rela-
cional. Os conceitos da ADC esboçados acima são ferramentas
úteis para investigação de gêneros situados (o principal e os

66
Análise de Discurso (para a) Crítica: O texto como material de pesquisa

subgêneros) em textos, porque instrumentalizam o estudo “da


correlação entre língua, ideologias e visões de mundo”, como
indicou Bakhtin (1997, p. 282).
No que diz respeito à relação entre linguagem e ideologia,
a proposta teórico-metodológica da ADC de investigar gêneros
a partir de relações dialéticas entre gêneros, discursos e estilos
de diferentes (redes de) ordens do discurso permite explorar,
com efeito, questões de poder e ideologia.

Para pesquisas em ADC, em relação ao estudo da


materialização de gêneros discursivos em textos são temas
relevantes: a relação entre gêneros específicos e práticas
sociais particulares, em termos do funcionamento dos
gêneros nas práticas; a hibridização de gêneros situados
na composição de novos gêneros, em termos de sua função
social; a utilização de gêneros específicos de uma prática
particular em outras, em termos de interdiscursividade; a
mudança genérica de gêneros situados tendo em vista os
novos meios de comunicação etc.

2.6 Identificação: os estilos particulares

Além de ser um modo de representar o mundo e de


interagir nele, a linguagem como discurso também é um
modo de identificar a si mesmo/a e a outrem. Contribui para
a constituição de ‘modos particulares de ser’, ou seja, para
a formação de identidades sociais ou pessoais particulares.
Com Chouliaraki e Fairclough (1999, p. 63), podemos dizer
que o “tipo de linguagem usado por uma categoria particular
de pessoas e relacionado com a sua identidade” expressa, de
alguma forma, como essas pessoas se identificam e como
identificam outras pessoas. Por isso estilos relacionam-se a
processos de identificação. Esta, no entanto, não é uma questão
simples e unidirecional.

67
Análise de Discurso (para a) Crítica: O texto como material de pesquisa

Também usamos a linguagem para nos identificarmos e


para identificarmos outras pessoas com quem/ de quem
falamos. A linguagem, portanto, contribui para a formação
de identidades sociais ou pessoais particulares e para
a identificação de outras pessoas e grupos sociais em
textos.

A partir da perspectiva transformacional de constituição


da sociedade que vimos neste capítulo, entendemos que a ação
individual e a estrutura social constituem-se reciprocamente.
Atores sociais, nesse sentido, não são completamente livres
nem completamente constrangidos pela estrutura social. As
pessoas não são apenas pré-posicionadas no modo como par-
ticipam em eventos sociais e textos, mas também são atores
sociais que atuam no mundo.
Por isso, conforme Fairclough (2003a), a identificação
não é um processo puramente textual, isto é, não se resume
apenas à construção discursiva. É certo que a identificação
é, parcialmente, um processo de construção de significado,
segundo Castells (2001, p. 22), baseado em atributos culturais
interrelacionados, que prevalecem sobre outras fontes de sig-
nificado. No entanto, envolve aspectos não discursivos e, além
disso, pode sofrer interferência de instituições dominantes mas
somente quando e se os atores as interiorizam, construindo o
significado de sua identidade com base nessa interiorização.
Sendo assim, é necessário considerar tanto as permissões e
constrangimentos sociais que constituem as identificações,
quanto a agência individual, reprodutora ou transformadora,
na construção de autoidentidades.
Sensível às transformações sociais acima discutidas, Can-
clini (2006) observa, por exemplo, um deslocamento atual da
identidade do/a cidadão/ã para a do/a consumidor/a. Para o au-
tor, as transformações causadas pelo capitalismo avançado não
representam um simples processo de homogeneização, mas, sim,

68
Análise de Discurso (para a) Crítica: O texto como material de pesquisa

de reordenamento das diferenças e desigualdades, sem suprimi-


las. É nesse sentido que estudos sobre a América Latina já não
podem mais situá-la fora da “globalização”, o que implica “já
não ser mais possível pensar e agir deixando de lado os processos
globalizadores, as tendências hegemônicas” (Canclini, 2006, p.
14). Tais tendências, segundo o autor, apontam para um processo
em que as identidades se organizam cada vez menos em torno
de símbolos nacionais e passam a inspirar-se no que propõem os
meios de comunicação. É claro que isso aponta a relevância do
discurso na constituição de identidades nesse contexto.
Assim, as perguntas próprias dos/as cidadãos/ãs – “a que
lugar pertenço e que direitos isso me dá, como posso me in-
formar, quem representa meus interesses?” – são respondidas
antes “pelo consumo privado de bens e meios de comunicação
do que pelas regras abstratas da democracia ou pela participa-
ção em organizações políticas” (Canclini, 2006, p. 14, 29). As
“nações”, nessa perspectiva, são definidas menos pelos limites
territoriais ou por sua história política do que pela formação
de comunidades internacionais de consumidores/as. As iden-
tidades modernas territorializadas vão cedendo lugar a iden-
tidades configuradas no consumo, “naquilo que se possui, ou
naquilo que se pode chegar a possuir”, e, consequentemente,
a novas identidades, que incluem desempregados/as de longo
prazo; trabalhadores/as informais, precários/as, autônomos/
as; migrantes impulsionados/as pela pobreza; miseráveis, sem
os direitos humanos mais básicos (Campione, 2007, p. 60).
Para Campione (2007, p. 58-63), na América Latina
essas mudanças, que interessam às relações de exploração
no capitalismo avançado, fazem parte de um conjunto de
esforços governamentais de “despolitização”, pelos quais se
busca “desorganizar, fragmentar, reforçar o privado e a con-
corrência interindividual, ‘seduzir’ pela crescente oferta de
bens e consumo”, como meio de enfraquecimento político dos
movimentos sociais, das organizações populares. Ressalte-se:

69
Análise de Discurso (para a) Crítica: O texto como material de pesquisa

esforços parcialmente discursivos, que buscam, pelo consenso,


legitimar a máquina do novo capitalismo, “que produz milio-
nários e esfomeados simultaneamente”.
Também é nessa perspectiva que Bauman (2001) nota
mudanças nas práticas de consumo que culminaram em um
processo de transição da identidade dos/as “cidadãos/ãs pro-
dutores/as” da modernidade para a dos “indivíduos consumi-
dores”, da modernidade avançada. Contrastando “sociedade
disciplinar” e a atual “sociedade de controle”, o autor entende
que, antes, as pessoas tendiam a nascer com uma identidade,
definida por classes sociais, assim como por laços patriarcais,
religiosos, territoriais. Para o autor, hoje as pessoas tendem a
não “nascer em” uma identidade. Precisam buscá-la, precisam
“tornar-se” algo, o que se garante, mas apenas temporariamen-
te, na participação (ou não) em práticas de consumo.
Assim é que atualmente parte da identificação está na se-
leção e uso de produtos/ serviços, de forma que os indivíduos
tendem a se autoidentificar cada vez mais por preferências
de consumo (livros, discos, shows, alimentos, viagens, fil-
mes etc.) do que pela religião, nacionalidade, enfim. Se o/a
“cidadão/ã produtor/a” necessitava do mínimo para manter-
se vivo, o “indivíduo consumidor”, por outro lado, diante de
infinitas possibilidades oferecidas – mas apenas para uma
parcela das populações –, nunca alcança a plena realização. É
permanentemente alimentado por desejos voláteis, efêmeros,
evasivos e, por isso, insaciáveis.
Como “a lista de compras não tem fim”, ainda conforme
Bauman (2001, p. 88), estamos sempre infelizes, ansiosos/as,
insatisfeitos/as, inseguros/as. É isso o que assegura parcial-
mente a próxima compra, da próxima mercadoria que adquiri-
mos na busca por uma identidade menos volátil. Isso implica
mudança das práticas de consumo utilitaristas, características
da sociedade industrial, para novas práticas fundadas num tipo

70
Análise de Discurso (para a) Crítica: O texto como material de pesquisa

de consumismo hedonista. Isto é, para práticas de consumo


voltadas menos para suprir necessidades básicas do que para
satisfazer desejos voláteis, relacionados a prazer, bem-estar,
felicidade, autorrealização. Tal busca pela autoidentidade,
fundada numa “falsa” liberdade (afinal, o “poder de compra”
define e reordena diferenças e desigualdades), afeta o modo
como compreendemos nosso corpo, nossa saúde, nossas rela-
ções com o mundo e com as outras pessoas (Ramalho, 2010a).
Nesse contexto das questionáveis “liberdades de esco-
lha” e “autonomias individuais”, a celebrada “flexibilidade
da identificação” é menos um meio de emancipação, como
quer o discurso hegemônico, do que um nefasto instrumento
de redistribuição de liberdades, já que “quanto mais escolha
parecem ter os ricos, tanto mais a vida sem escolha parece
insuportável para todos” (Bauman, 2001, p. 104-6).
Fica claro, portanto, que, apesar desse constraste entre
sociedade disciplinar e sociedade de controle, a maior parte da
população mundial não tem, hoje, acesso aos bens e serviços ofe-
recidos para essa “construção identitária baseada em consumo”.
Como sabemos, hoje os 20% mais ricos do mundo apropriam-se
de 82,7% de toda a riqueza, enquanto apenas 6% são divididos
entre os dois terços mais pobres (Dowbor, 2009). Esses são dados
alarmantes, mas que não são referidos nos variados textos que
constroem identidades de pessoas com base no consumo.
No que concerne especificamente ao apelo ao consumo,
Champagne (1997, p. 78) afirma que “a defasagem que tende
a se instaurar nos jovens entre os desejos de consumo e a renda
disponível jamais foi tão grande como hoje”. Obviamente, essa
carência e essa defasagem, contrastadas com os padrões de uma
sociedade que se identifica pelo que consome, são também
matéria-prima para construções identitárias ligadas à exclusão
social. Devemos lembrar, portanto, que por mais que as iden-
tidades tenham sido “flexibilizadas”, há aspectos identitários

71
Análise de Discurso (para a) Crítica: O texto como material de pesquisa

sobre os quais não podemos, em princípio, operar escolhas.


Exemplos são as categorias de gênero social e classe social.
Segundo Archer (2000), somos posicionados/as involunta-
riamente, como agentes primários, no que se refere a esses as-
pectos de nossas identidades sobre os quais não podemos optar.
A “incorporação do agente social”, por outro lado, refere-se a
nossa capacidade de, reflexivamente, nos tornarmos capazes de
agir coletivamente pela mudança social. Isso está de acordo com
o conceito de “identidades de projeto” de Castells (2001; veja
discussão em Resende & Ramalho, 2006; sobre a relação entre
essas teorias e os movimentos sociais, veja Resende, 2009a).
Tanto a teoria de identidade de Castells quanto a teoria
da incorporação dos agentes sociais de Archer reconhecem a
relação entre esses processos identificacionais e as possibi-
lidades de ação estratégica de grupos desprivilegiados nessa
distribuição desigual de recursos – inclusive os recursos para
construção ativa de identidades de que tratamos quando nos
referimos a Bauman (2001). Isso evidencia a relação dialé-
tica entre os significados representacional, identificacional
e acional. Em nossa experiência no mundo, interiorizamos
discursos que nos servem de suporte para a construção de
nossas identidades, e essas construções identitárias podem
nos prover ferramentas para ação transformadora.

Para pesquisas em ADC, em relação ao estudo da


materialização de estilos em textos são temas relevantes:
a interiorização de discursos na construção de identidades
e identificações; a relação entre construções identitárias
e modos de ação discursiva e social; as identificações
construídas para grupos específicos em textos de ampla
circulação ou em variados tipos de texto; a construção
identitária em pesquisas etnográficas e em histórias de
vida; a relação entre identidades e movimentos sociais
ou outros grupos ligados a lutas específicas.

72
Análise de Discurso (para a) Crítica: O texto como material de pesquisa

Capítulo 3

ADC como abordagem teórico-


metodológica para estudos do
discurso

Neste capítulo, discutimos procedimentos epistemológicos


e metodológicos para realização de pesquisas subsidiadas pela
proposta da ADC. Refletimos, em primeiro lugar, sobre o plane-
jamento de pesquisas qualitativas, da perspectiva da necessária
relação entre ontologia, epistemologia e metodologia (Resende,
2009a). Em seguida, discutimos dois dos principais paradigmas
de investigação utilizados em pesquisas com ADC: a pesquisa
etnográfica e a pesquisa documental. Por fim, apresentamos o
arcabouço metodológico básico – inspirado no Realismo Crítico
–, que é motivado por problemas sociodiscursivos e composto
por investigações de cunho social e discursivo.

3.1. Como planejar pesquisas em ADC?

Como já vimos, a proposta de abordagem teórico-


metodológica da ADC fornece subsídios para a realização de
pesquisas qualitativas cujo principal material empírico são
textos, sejam documentos oficiais, entrevistas, reportagens,
textos publicitários, dentre tantos outros tipos de texto passí-
veis de serem materiais de pesquisas em ADC.
Como paradigma de investigação que atravessa diversos
campos e disciplinas, explorando temas transversais, a pesqui-

73
Análise de Discurso (para a) Crítica: O texto como material de pesquisa

sa qualitativa consiste em “um conjunto de práticas materiais


e interpretativas que dão visibilidade ao mundo” (Denzin &
Lincoln, 2006, p. 17), isto é, que permitem investigar aspec-
tos do mundo considerando seus aspectos qualitativos. Esse
conjunto abarca vários tipos de práticas interpretativas que
permitem transformar aspectos do mundo em representações
por meio das quais podemos entendê-los, descrevê-los e
interpretá-los. A opção por práticas interpretativas específicas
desse conjunto não é feita a priori, mas, sim, à medida que o
problema, as perguntas e os objetivos da pesquisa vão sendo
construídos.
Esse tipo de pesquisa abarca não só uma variedade de
materiais empíricos, a exemplo de entrevistas, produções
culturais, textos, artefatos, histórias de vida, imagens, como
também uma multiplicidade de métodos.1 O processo da pes-
quisa qualitativa envolve três conjuntos interligados de deci-
sões, relacionadas a ontologia, epistemologia e metodologia.
Segundo Denzin & Lincoln (2006, p. 32-3), o/a pesquisador/a,
situado/a biograficamente, “aborda o mundo com um conjunto
de ideias, um esquema (teoria, ontologia) que especifica uma
série de questões (epistemologia) que ele então examina em
aspectos específicos (metodologia, análise)”.
Essas orientações ontológicas, epistemológicas e
metodológicas caracterizam o esquema interpretativo da
pesquisa. Pesquisas qualitativas são, por princípio, inter-
pretativas, isto é, “guiadas por um conjunto de crenças e
de sentimentos em relação ao mundo e ao modo como este
deveria ser compreendido e estudado” (Denzin & Lincoln,
2006, p. 34). O autor e a autora apontam quatro paradigmas
interpretativos principais: positivista (e pós-positivista),
1 Exemplos de pesquisas articulando histórias de vida e ADC são aquelas
conduzidas pelos grupos coordenados por María Laura Pardo, na Argentina,
e por Lésmer Montecino, no Chile (Pardo, 2008; Montecino, 2010). Papa
(2008) também apresenta dados de histórias de vida analisados com base
na ADC.

74
Análise de Discurso (para a) Crítica: O texto como material de pesquisa

construtivista-interpretativo, crítico (marxista, emancipa-


tório) e feminista-pós-estrutural.
A primeira tarefa que se impõe ao/à investigador/a em
pesquisas qualitativas é, portanto, a definição de sua concepção
de mundo, ou da natureza da realidade (ontologia). Segundo
Mason (2002), a definição clara da ontologia que orienta um
projeto de investigação deve ser o primeiro passo em qual-
quer pesquisa, pois os pressupostos ontológicos determinam
as decisões de cunho epistemológico e metodológico. Por
se apoiar na teoria social crítica, preocupada com questões
relacionadas a poder e justiça, podemos dizer que a versão
de ADC que discutimos aqui assume uma postura ontológica
crítico-realista, abordada no capítulo anterior.
Sabemos que a ADC ocupa-se de efeitos ideológicos que
sentidos de textos, como instâncias de discurso, possam ter
sobre relações sociais, ações, interações, pessoas e mundo
material. Suas preocupações direcionam-se a sentidos que
possam atuar a serviço de projetos particulares de dominação
e exploração, seja contribuindo para modificar ou sustentar,
assimetricamente, identidades, conhecimentos, crenças, atitu-
des, valores, ou mesmo “para iniciar guerras, alterar relações
industriais”, como exemplifica Fairclough (2003a, p. 8). À
ADC também interessa o papel do discurso na mudança social,
os modos de organização da sociedade em torno de objetivos
emancipatórios. Esse foco de atenção insere a ADC em um
paradigma interpretativo crítico, pelo qual intenta oferecer
suporte científico para estudos sobre o papel do discurso na
instauração/ manutenção/ superação de problemas sociais.

A ADC objetiva oferecer suporte científico para estudos


sobre o papel do discurso em relação a problemas sociais
contextualmente situados. Daí sua vinculação a um
paradigma interpretativo crítico.

75
Análise de Discurso (para a) Crítica: O texto como material de pesquisa

Bauer, Gaskell & Allum (2005, p. 19) explicam que inves-


tigações sociais apresentam quatro dimensões: (1) o delinea-
mento da pesquisa de acordo com seus princípios estratégicos,
tais como etnografia e pesquisa documental; (2) a definição/
criação dos métodos de coleta/ geração de dados, tais como
entrevista, coleta de documentos, observação, questionário,
grupo focal, gravação de interações; (3) a decisão sobre os
tratamentos analíticos dos dados, como análise de discurso,
análise estatística, análise retórica; e, por fim, (4) os interesses
do conhecimento, como controle e predição, emancipação,
entre outros.
Note-se, entretanto, que a enumeração proposta pelos
autores para essas dimensões da pesquisa apresenta duas inade-
quações. Primeiro, não reconhece a relevância de decisões de
cunho ontológico em planejamentos de pesquisa (veja a seguir).
Segundo, a dimensão relacionada aos “interesses do conheci-
mento” é identificada como sendo a quarta e última dimensão.
Ora, a decisão a respeito do que se pretende com a pesquisa não
pode, evidentemente, ser posterior às decisões que envolvem o
planejamento metodológico da pesquisa. Isso porque os interesses
do conhecimento afetam diretamente o paradigma de pesquisa
a ser adotado, a definição dos métodos para coleta/ geração de
dados e a decisão sobre o tratamento analítico dos dados.
Assim, uma enumeração adequada a descrever os passos
de um planejamento de pesquisa seria: (1) decisões de caráter
ontológico; (2) decisões de caráter epistemológico; (3) de-
cisões de caráter metodológico voltadas às estratégias para
coleta/ geração de dados; (4) decisões de caráter metodológico
voltadas às estratégias para sistematização e análise de dados.

Todo planejamento de pesquisa consistente deve


considerar questões de cunho ontológico, epistemológico
e metodológico. Essas decisões são interdependentes.

76
Análise de Discurso (para a) Crítica: O texto como material de pesquisa

Então vamos por partes. Por que é necessário tomar


decisões de cunho ontológico como primeiro passo em um
planejamento de pesquisa? A resposta a essa questão é exem-
plarmente encontrada em Mason (2002, p. 11):

A ontologia pode parecer um conceito difícil precisa-


mente porque a natureza e a essência das coisas sociais
parecem tão fundamentais e óbvias que pode parecer
difícil ver o que há para conceituar (...) É apenas
quando se reconhece que perspectivas ontológicas
alternativas podem contar diferentes histórias que um/a
pesquisador/a pode começar a ver sua própria visão on-
tológica do mundo social como uma posição que pode
ser estabelecida e compreendida, e não uma verdade
óbvia e universal que possa ser tomada como tácita.

É necessário entender, portanto, que há implicações na


adoção de uma versão da ontologia. Quais são os componentes
ontológicos do mundo social? Quais deles minha pesquisa irá
focalizar? Essas são questões que devem estar muito claras para
o/a pesquisador/a antes mesmo de se decidir pelo paradigma de
pesquisa apropriado à investigação. Dependendo dos componen-
tes ontológicos que se pretende acessar, diferentes paradigmas
podem ser mais indicados. Uma decisão consciente é fundamental
para evitar incoerências epistemológicas e metodológicas.
Uma vez que se tenha clareza a respeito da versão da
ontologia adotada e dos componentes ontológicos a serem
investigados, pesquisadores/as precisam se perguntar: O que
poderia representar conhecimento a respeito das entidades ou da
realidade social pesquisada? O que pretendo com esta pesquisa?
Como me posiciono, enquanto pesquisador/a, em relação aos/às
participantes de minha pesquisa? “Questões epistemológicas
devem, então, direcionar você a uma consideração de questões
filosóficas envolvidas na delineação exata do que você conta
como evidência ou conhecimento de coisas sociais” (Mason,

77
Análise de Discurso (para a) Crítica: O texto como material de pesquisa

2002, p. 13). Obviamente, as respostas às questões epistemo-


lógicas precisam ser coerentes com a definição ontológica, e os
dois conjuntos de respostas devem ser consistentes.
Tomadas as decisões acerca das perspectivas ontológica e
epistemológica, e definidas as questões de pesquisa norteado-
ras do estudo, é necessário pensar nas estratégias de pesquisa.
As estratégias metodológicas devem ser coerentes com as
decisões anteriores, relacionando as questões de pesquisa aos
métodos. Mason (2002, p. 20-2) sugere que se considerem as
seguintes perguntas:

• Que fontes e métodos para geração de dados são


potencialmente válidos ou apropriados?
• O que essas fontes e métodos podem me ensinar?
Que processos e componentes ou propriedades da realidade
social essas fontes e métodos podem me ajudar a perceber
(ontologicamente)?
• Como ou sobre que base eu acho que eles podem fazer isso
(epistemologicamente)?
• Quais das minhas questões de pesquisa eles podem me
ajudar a conhecer?

Por fim, todo planejamento de pesquisa requer reflexão


acerca do tratamento analítico que será aplicado aos dados.
Embora muitos relatórios de pesquisa façam crer que as
análises “surgem” espontaneamente dos dados, isso não é
verdade. Toda pesquisa requer algum planejamento também
de ordem analítica, e isso não se refere apenas à abordagem
analítica adotada, como “análise de discurso” ou “análise
estatística”. Para serem analisados segundo qualquer método
analítico selecionado, é preciso antes organizar os dados, o
que implica a decisão de como fazê-lo. Dados etnográficos,
por exemplo, costumam ser extensos e exigem codificação – é
possível codificar os dados em relação a temas específicos,

78
Análise de Discurso (para a) Crítica: O texto como material de pesquisa

por exemplo, e daí selecionar recortes a serem submetidos ao


método analítico em questão (Resende, 2008).
Assim, considerando as etapas do planejamento de pes-
quisa, podemos propor o seguinte quadro:

Quadro 3 – Etapas do planejamento de pesquisa

Planejamento de pesquisa
Quais são os componen-
Sobre o que constitui o
tes ontológicos do mundo
1. Decisões de ca- mundo social e o que se
social?
ráter ontológico pretende investigar do
Quais deles pretendo in-
mundo social
vestigar?
O que poderia representar
conhecimento a respeito das
Sobre a natureza do conhe- entidades ou da realidade
cimento e a possibilidade social pesquisada?
2. Decisões de ca-
de se gerar conhecimen- O que pretendo com essa
ráter epistemo-
to sobre os componentes pesquisa?
lógico
ontológicos identificados Como me posiciono, no
como essenciais papel de pesquisador/a, em
relação aos/às participantes
de minha pesquisa?

Como posso obter dados ca-


pazes de prover acesso aos
3. Decisões de componentes ontológicos
Sobre as estratégias para
caráter metodo- que pretendo conhecer?
coleta ou geração de dados
lógico (geração/ Esses métodos são coerentes
para a pesquisa
coleta de dados) com minha reflexão episte-
mológica e minhas questões
de pesquisa?

Como posso organizar os


dados que tenho em cor-
4. Decisões de pus/ corpora passíveis de
Sobre as estratégias para
caráter metodo- análise?
sistematização e análise
lógico (análise de Que estratégias analíticas
de dados
dados) são coerentes com meus
dados, meus objetivos e mi-
nhas questões de pesquisa?

79
Análise de Discurso (para a) Crítica: O texto como material de pesquisa

Ressalte-se, entretanto, que todo planejamento deve ser


percebido como um potencial aberto: frequentemente o desen-
rolar da investigação reorienta o planejamento inicial e indica
ajustes necessários. É preciso estar sensível a isso durante o
processo de investigação, para que o planejamento, formatado
para orientar o processo, não se torne uma “camisa de força”,
engessando as possibilidades que se apresentam (Resende,
2008). Isso é verdade, sobretudo, quando se decide realizar
pesquisa de campo.

3.2 Como realizar pesquisas em ADC?

Essa última reflexão é relevante se consideramos que


pesquisas em ADC podem ser orientadas, epistemologica-
mente, por diferentes paradigmas, como o etnográfico e o
documental. O paradigma etnográfico, por exemplo, tem
sido o delineamento de boa parte das pesquisas realizadas no
Núcleo de Estudos de Linguagem e Sociedade (NELiS) da
Universidade de Brasília.
Para exemplificar o planejamento e a condução de
pesquisa etnográfica no escopo da ADC, vamos recorrer
ao delineamento metodológico da pesquisa “Análise de
Discurso Crítica e Etnografia: o Movimento Nacional de
Meninos e Meninas de Rua, sua crise e o protagonismo
juvenil”, realizada por Resende (2008; veja também Re-
sende, 2009a, 2010c). Em seguida, para ilustrar o planeja-
mento e a condução de pesquisa documental em ADC, na
seção 3.2.2 faremos uma breve descrição da abordagem
teórico-metodológica da pesquisa “Discurso e ideologia
na propaganda de medicamentos: um estudo crítico sobre
mudanças sociais e discursivas” (Ramalho, 2008).

80
Análise de Discurso (para a) Crítica: O texto como material de pesquisa

3.2.1 Pesquisas etnográficas

A investigação “Análise de Discurso Crítica e Etnografia:


o Movimento Nacional de Meninos e Meninas de Rua, sua
crise e o protagonismo juvenil”, etnográfico-discursiva de
caráter extensivo, foi realizada entre 2005 e 2008, e a coleta/
geração de dados estendeu-se por mais de dois anos. Nos ter-
mos do Realismo Crítico, o objeto intransitivo pesquisado foi
a crise do Movimento e o enfraquecimento do protagonismo
na prática em decorrência dessa crise, e o objetivo da inves-
tigação foi identificar algumas das causas sociodiscursivas
dessa crise, a fim de desenvolver uma crítica explanatória. 2
O método múltiplo que caracteriza a etnografia reduziu o
risco de abordagem unilateral do tema. Taylor (1996) pontua
que a etnografia caracteriza-se por geração e coleta de da-
dos por meio de diferentes métodos (entrevistas, conversas,
observação, documentos formais); uso de abordagem sem
estruturação rígida prévia e compreensão a partir de análise
em profundidade. As conclusões são mais acuradas se basea-
das em diversas fontes de informação, de modo colaborativo:
2 Por uma série de razões, o Movimento Nacional de Meninos e Meninas de
Rua entrou em severa crise financeira, o que impossibilitou a manutenção
de educadores/as nos Núcleos de Base do Movimento. Entre essas razões,
destacam-se o encerramento do projeto “Organização de Meninos e Meni-
nas”, financiado pelo Sécours Catholique, e o insucesso na aprovação de
novos projetos de captação de recursos para a área, e o envolvimento maciço
da coordenação do Movimento e de suas educadoras com a organização
de uma cooperativa de catadores/as de material reciclável em Brasília. A
crise financeira teve graves desdobramentos, acarretando crises de ordem
pedagógica, organizacional e de militância. Uma das consequências da crise
pedagógica foi que jovens ‘ex-meninas’ do Movimento (isto é, jovens que
participaram do Movimento na infância e/ou na adolescência) assumiram
a posição de ‘meninas-educadoras’, passando a coordenar as ações dos
núcleos de base de suas cidades. Um dos focos mais produtivos da pesquisa
de Resende (2008) foi a análise da identificação dessas jovens como educa-
doras e da postura do Movimento em relação a essa nova posição criada no
âmbito da instituição. O texto completo da tese pode ser obtido na página da
Biblioteca Central da Universidade de Brasília ou pelo endereço http://bdtd.
bce.unb.br/tedesimplificado/tde_busca/arquivo.php?codArquivo=3617.

81
Análise de Discurso (para a) Crítica: O texto como material de pesquisa

não se trata de justapor informações obtidas por diferentes


métodos, trata-se, antes, de obter diversas dimensões do
objeto da pesquisa; por isso esse trabalho tem sido chamado
‘multidimensional’ (Mason, 2006).
Tendo em vista essa perspectiva, para a construção dos
corpora da pesquisa de Resende (2008) foram escolhidos mé-
todos complementares, a fim de garantir o acesso a uma gama
ampliada de conhecimento acerca dos processos sociodiscur-
sivos pesquisados, e buscando coerência entre os métodos
selecionados e as questões da pesquisa (veja Resende 2009a).3
Segundo Geertz (1989, p. 15), a necessidade de se de-
finir uma metodologia específica de trabalho etnográfico é
imperativa. O antropólogo pondera que “o ecletismo é uma
autofrustração, não porque haja somente uma direção a per-
correr, mas porque há muitas: é preciso escolher”. Isso não
pode ser tomado, entretanto, como necessidade de se ter no
planejamento de pesquisa uma ‘camisa de força’: como já
pontuamos, o planejamento deve ser suficientemente flexível
para incorporar necessidades evidenciadas no decorrer da pes-
quisa, sobretudo quando se opta pela pesquisa participativa.
Na pesquisa de Resende (2008), foram utilizados, como
procedimentos metodológicos para a geração e a coleta de
dados, a observação participante, as notas de campo, os grupos
focais, as entrevistas focalizadas e a gravação de reuniões. A
abordagem multimetodológica e multidimensional teve por
objetivo, por um lado, um acercamento amplo do objeto da
pesquisa e, por outro, uma abordagem das práticas em que o
movimento social pesquisado envolvia-se, a fim de dar conta
3 As questões de pesquisa que nortearam o estudo foram as seguintes: (a)
Como as educadoras do MNMMR/DF representam a ação e a crise da ins-
tituição?; (b) Como as jovens representam o MNMMR/DF e identificam-se
como protagonistas?; (c) Como as jovens representam suas trajetórias dentro
do MNMMR/DF e sua ação como protagonistas?; (d) Como as educadoras
do MNMMR/DF (e outros/as adultos/as envolvidos/as com o Movimento)
representam o protagonismo e identificam as jovens?

82
Análise de Discurso (para a) Crítica: O texto como material de pesquisa

de uma ontologia do mundo social como composto de práticas


sociais articuladas. (cf. Resende, 2010c)
A observação participante origina-se, como boa parte
dos métodos etnográficos, da antropologia social e cultural.
Opõe-se à observação (pretensamente) objetiva, em que o
contexto social pesquisado é abordado ‘de fora para dentro’. A
observação participante, ao contrário, define-se pela perspecti-
va interna, situada na ação cotidiana, em que o/a pesquisador/a
envolve-se diretamente nas atividades dos/as participantes da
pesquisa (Bogdewic, 1992). Uma vantagem da observação
participante é o acesso a certas assunções que em uma dada
comunidade são tomadas como tácitas e que, de outra forma,
apenas seriam disponibilizadas por meio das representações
da própria comunidade (Gans, 1999).
Geertz (1989: 27) demonstra preocupação com a obser-
vação do comportamento dos/as participantes em pesquisa
etnográfica. Para ele, é “através do fluxo do comportamento
– ou, mais precisamente, da ação social – que as formas cul-
turais encontram articulação”. Mas a observação participante
ultrapassa esse primeiro objetivo de anotação da ação social,
de sua transformação em relato passível de análise: a obser-
vação participante consiste não apenas em estar presente no
contexto a ser pesquisado, mas em participar das atividades
observadas, tornar-se um ‘membro do grupo’. Assim, sendo
a pesquisadora um membro externo ao Movimento Nacional
de Meninos e Meninas de Rua (MNMMR), um dos objetivos
da observação participante foi, na medida do possível, tornar-
se um membro interno. Isso é relevante inclusive para uma
melhor percepção das práticas, atividades e interações em
curso no campo (Holliday, 1998).
A experiência inicial com a observação participante foi,
também, fundamental para o acercamento de conceitos-chave
da organização, como o de ‘protagonismo juvenil’, que se

83
Análise de Discurso (para a) Crítica: O texto como material de pesquisa

tornou um conceito central também para a pesquisa e para as


etapas posteriores de geração de dados (Resende, 2008). Além
disso, por meio da observação participante foi possível ter
acesso a diversas atividades do Movimento e conhecer outras
organizações com as quais o MNMMR se relaciona. Isso foi
relevante para a compreensão das práticas sociais das quais
o Movimento participa.
A etapa de observação participante permitiu, ainda, pro-
ceder ajustes no planejamento inicial da pesquisa, de modo a
torná-lo adequado ao contexto pesquisado. Talvez esse seja
o principal mérito da observação como primeira etapa de
pesquisas colaborativas. No caso específico da pesquisa em
foco, a observação foi também fundamental para o conheci-
mento da ação social e das (redes de) práticas sociais como
componentes ontológicos do mundo social.
A observação foi registrada em notas de campo. As notas
de campo constituem um momento fundamental no trabalho
de campo porque articulam, no discurso, os diversos métodos
adotados em uma pesquisa particular, integrando percepções
e interpretações associadas aos vários momentos da pesquisa.
Os diários de pesquisa são produtos escritos do trabalho de
campo que têm um propósito catártico para etnógrafos/as
porque registram reações pessoais, frustrações e conquistas
do trabalho no campo. Além disso, o diário de pesquisa é um
ambiente intertextual no sentido de que entre as impressões
anotadas também se registram as relações percebidas entre a
prática da pesquisa particular e a ‘teoria de método’ adotada –
entre a previsão abstrata do desenho da pesquisa e a realização
concreta do trabalho de campo – e entre os métodos e as teorias
adotadas na pesquisa. Daí sua utilidade no favorecimento da
autorreflexão sobre a prática de pesquisa: o diário não é só
um mecanismo de reflexão sobre o objeto da investigação, é
também uma oportunidade de reflexão sobre a própria prática.

84
Análise de Discurso (para a) Crítica: O texto como material de pesquisa

Além de sua utilidade para a reflexão da prática de pes-


quisa, as notas de campo são úteis como auxílio à memória,
e ainda que não sejam diretamente utilizadas como dados
analíticos na pesquisa, podem ser utilizadas no momento da
análise dos dados. Ademais, a prática de se fazer notas de
campo já é parte da interpretação e é útil para a seleção de
que tópicos serão então investigados (Stubbs, 1987), por isso
as notas carregam de antemão um tipo de análise. Isso está
de acordo com o que propõe Geertz (1989), para quem as
notas de campo são uma inscrição da atividade social, uma
anotação que a transforma em relato, que a conserva para ser
consultada novamente.
As notas são vistas, enquanto registros da observação em
campo, como estratégia capaz de prover acesso às práticas e à
ação social. Evidentemente, o acesso às práticas e à ação não
é direto, mas mediado pela compreensão do/a pesquisador/a,
por seus modos de observar e compreender. Isso não invalida a
observação como fonte de dados, já que também os textos são
analisados, sempre, com base na subjetividade do/a analista
(Chouliaraki & Fairclough, 1999).
Uma vez estabelecido contato com as participantes da
referida pesquisa, por meio da observação, a pesquisa passou
a uma segunda etapa: a realização de grupos focais. Grupo
focal define-se como uma técnica de pesquisa que diz respeito
à geração de dados “por meio de interação grupal sobre um
tópico determinado” (Morgan, 1996, p. 130). O grupo focal,
então, localiza a interação em uma discussão em grupo que é a
fonte dos dados. A vantagem do grupo focal sobre a entrevista
individual é justamente a interação: por meio do grupo de dis-
cussão é possível captar pontos de instabilidade e discordância,
negociação de significados, liderança (Hollander, 2004).
Gaskell (2005, p. 66) chama atenção para a necessidade
de formulação de um tópico-guia na condução de qualquer

85
Análise de Discurso (para a) Crítica: O texto como material de pesquisa

tipo de entrevista qualitativa, individual ou em grupo. Para


ele, “um bom tópico-guia irá criar um referencial fácil e
confortável para uma discussão, fornecendo uma progressão
lógica plausível através dos temas em foco”. Entretanto, é
preciso adotar o tópico-guia, formulado para dar conta das
questões de pesquisa, com flexibilidade: algumas alterações
de foco podem acontecer devido ao próprio interesse dos/as
participantes.
O tópico-guia formulado para os encontros de grupo focal
na pesquisa centrou-se em dois principais eixos temáticos: (1)
o Movimento Nacional de Meninos e Meninas de Rua no Dis-
trito Federal e (2) o protagonismo juvenil. Foram formuladas
questões abertas, propondo temas para a discussão, com base
nesses dois eixos. Para ambos os eixos temáticos, iniciou-
se com perguntas descritivas, procurando incitar respostas
dirigidas pela compreensão dos/as participantes quanto aos
temas tratados, e adicionaram-se perguntas estruturais, que
acrescentam um foco mais específico (Gilchrist, 1992). As
questões propostas foram:

Quadro 4 – Tópico-guia para grupos focais em Resende (2008)

Eixo temático (1)


O que é o MNMMR/DF?
Quais são os objetivos do MNMMR/DF?
Como o MNMMR/DF age para atingir esses objetivos?
Como se deu o ingresso do/a participante no MNMMR/DF?
Eixo temático (2)
O que é o protagonismo juvenil?
O protagonismo juvenil tem uma importância social? Se sim, qual?
O que faz de um/a jovem protagonista?
O MNMMR/DF favorece o protagonismo juvenil? Se sim, como?

86
Análise de Discurso (para a) Crítica: O texto como material de pesquisa

Além dos grupos focais, foram gerados dados por meio de


entrevistas focalizadas. Trata-se de um tipo de entrevista que
permite que a interação se desenvolva mais livremente, ainda
que focalizada em pontos específicos de interesse (Doncaster,
1998). Esse método visa deixar os/as participantes livres para
relatarem o que considerem relevante acerca do tema estuda-
do, o que tem o duplo mérito de alcançar a perspectiva dos
sujeitos face ao tema e de não invadir de maneira indesejável
sua privacidade. A participação essencial nessas entrevistas é
a do/a entrevistado/a e não a do/a entrevistador/a (Magalhães,
1986). A vantagem desse tipo de entrevista é que garante o
foco no tema de interesse da pesquisa mas ao mesmo tempo
confere liberdade de expressão aos/às participantes, o que pode
ser relevante para a construção discursiva de suas identidades.
No método de entrevista focalizada não é desejável uma
lista de perguntas a serem feitas, mas é útil levantar desde o
início os temas a serem abordados, elaborando-se, tal como
para os grupos focais, um tópico-guia. Para Gaskell (2005,
p. 66), “duas questões centrais devem ser consideradas antes
de qualquer forma de entrevista: o que perguntar (a especifi-
cação do tópico-guia) e a quem perguntar (como selecionar
os entrevistados)”.
Quanto à primeira questão, a formulação do tópico-guia
de Resende (2008) levou em consideração o fato de que as
entrevistas deveriam servir para obter representações acerca
do MNMMR e sua atuação, da identificação das participantes
em relação ao Movimento e das redes de práticas de que o
Movimento faz parte. Quanto à segunda questão, a experiência
anterior com o Movimento, no período de observação, foi útil
para identificar que participantes poderiam ajudar a conhecer
essas informações e teriam disponibilidade para tanto.
Foram planejadas questões abertas e em pequeno número,
pois o objetivo era mais levantar tópicos para discussão que

87
Análise de Discurso (para a) Crítica: O texto como material de pesquisa

fazer perguntas propriamente. Outras questões foram sendo


integradas às interações de acordo com o fluxo de cada entre-
vista. As entrevistas foram diálogos informais, em que tanto as
entrevistadas quanto a pesquisadora negociavam conhecimen-
tos e partilhavam experiências sobre o Movimento. O período
anterior, de observação, foi fundamental para as entrevistas
por dois motivos: primeiro porque permitiu estabelecer rela-
ção prévia com as participantes, o que é imprescindível para
se realizar esse tipo de entrevista dialógica; segundo porque
os conhecimentos adquiridos sobre o Movimento durante a
observação foram utilizados nas entrevistas para a construção
desse diálogo, o que distancia essas entrevistas do modelo
pergunta-resposta.
Vale ressaltar que as questões previstas não foram tratadas
como imposições à pesquisa. É importante reconhecer que a
pesquisa etnográfica, como um processo autoconstrutivo, se
constrói à medida que é feita; pode ser modificada e frequen-
temente o é. Houve abertura também para as participantes
inserirem outras questões, de acordo com sua própria agen-
da de interesses. Em cada uma das entrevistas, as questões
levantadas deram ensejo a outras questões, de modo que as
entrevistas seguiram distintos caminhos.
Por fim, foram coletados dados mediante a gravação de
reuniões. Durante o trabalho de campo, em diversas ocasiões
a pesquisadora foi convidada a participar de eventos e ativida-
des do Movimento Nacional de Meninos e Meninas de Rua.
Em algumas ocasiões, Resende não julgava adequado efetuar
gravações em áudio das interações de que participava, por
estarem presentes pessoas que não sabiam/ não participavam
da pesquisa ou por a situação não ser favorável a gravações.
Duas reuniões, entretanto, puderam ser gravadas.
A gravação dessas reuniões não estava, evidentemente,
no desenho inicial da pesquisa. Essas ocasiões, entretanto,

88
Análise de Discurso (para a) Crítica: O texto como material de pesquisa

foram aproveitadas para a coleta de dados, de acordo com o


que Retamozo (2006, p. 11) sugere ao afirmar que “ao estudar
movimentos sociais, é preciso pôr em prática uma vigilância
etnográfica para identificar situações que possam brindar
material para uma melhor compreensão”. Uma vantagem
da utilização desses dados é seu potencial para a análise da
atividade do Movimento, uma vez que não se trata de dados
gerados em situação específica de pesquisa – como são os
dados gerados por meio de entrevistas, por exemplo –, mas
dados relativos à atividade concreta da própria organização
(sobre a distinção epistemológica entre dados gerados e dados
coletados, veja Resende 2009a).
Precisamos, ainda, considerar as estratégias para a siste-
matização e a análise de dados da pesquisa. Pesquisas etnográ-
ficas normalmente resultam em grande quantidade de dados, o
que nos obriga a desenvolver métodos para o tratamento desse
material. Na pesquisa em foco não foi diferente: as transcrições
dos encontros de grupo focal, das entrevistas individuais e
das reuniões gravadas geraram centenas de páginas que não
poderiam ser analisadas integralmente seguindo-se os métodos
próprios da ADC.
Embora grande parte do trabalho de produção das análises
tenha sido feito diretamente nos arquivos digitais, as etapas
iniciais de tratamento dos dados são, para muitos/as pesquisa-
dores/as, um trabalho a ser feito com lápis, canetas coloridas
e, infelizmente, muito papel. O primeiro procedimento, após
a transcrição das gravações em áudio e a impressão dos arqui-
vos, foi uma primeira leitura cuidadosa de cada documento.
Apenas na segunda leitura foram feitos grifos e tomadas
notas a respeito dos textos, já iniciando uma seleção prévia
de recortes potenciais. Esse primeiro recorte, mais amplo, foi
utilizado como base para o recorte final, imprimindo-lhe uma
cópia e reiniciando o processo.

89
Análise de Discurso (para a) Crítica: O texto como material de pesquisa

Nesse sentido, a estratégia utilizada por Resende pode


ser identificada com o que Crabtree & Miller (1992, p. 95)
conceituam como “abordagem mais flexível”, em oposição
a uma abordagem “mais estruturada”, em que a codificação
do texto é definida a priori e depois aplicada aos dados. Na
abordagem flexível, ao contrário, é a leitura dos dados que
define a codificação, em termos dos temas e categorias que se
decide explorar. Evidentemente, essa abertura na codificação
é algo relativa: quando procedemos a primeira leitura dos do-
cumentos não estamos livres de pressuposições a seu respeito,
temos já construídas algumas perspectivas a respeito do que
vamos buscar, não só porque conhecemos as interações de que
são resultado, mas também por toda a experiência etnográfica
com a observação.
Trata-se de uma tarefa trabalhosa, demorada, mas que
resulta útil para a redução do extenso material em dados es-
pecificamente relacionados às questões de pesquisa. Se por
um lado todo recorte carrega a desvantagem do não aprovei-
tamento de parte dos dados gerados – e muitas vezes é preciso
excluir da pesquisa temas que seriam também relevantes –, por
outro lado traz a vantagem de manter o foco nos problemas
da pesquisa. O consolo é saber que toda pesquisa é mesmo
um processo formado por escolhas subsequentes – e além
disso sempre é possível utilizar os dados não explorados em
trabalhos posteriores.
A vantagem de se trabalhar com recortes decorre de que
as formulações para análise textual da ADC referem-se a “um
trabalho intensivo que pode ser produtivamente aplicado a
recortes de material de pesquisa mais que a textos longos”
(Fairclough, 2003a, p. 6). Como a unidade mínima de análise
em ADC é o texto, é necessário que os recortes selecionados
para análise não sejam constituídos de enunciados isolados,
mas de trechos significativos em seu conjunto.

90
Análise de Discurso (para a) Crítica: O texto como material de pesquisa

Uma vez definido o recorte final a ser aplicado sobre um


determinado documento etnográfico, e providenciada sua impres-
são, foi adotado o procedimento da codificação em cores como
primeira estratégia de identificação das categorias relevantes
para a análise discursiva do documento. A codificação em cores
é uma dentre as diversas estratégias para codificação disponíveis
e, embora seja um procedimento muito simples – com base na
utilização de canetas ou lápis coloridos para separar tópicos ou
categorias que depois terão análise sistemática –, é útil para tornar
mais ‘legíveis’ (ou ‘analisáveis’) os dados etnográficos. Foram
utilizadas canetas marca-texto de quatro cores diferentes para
destacar recorrências de categorias que se mostravam úteis em
cada texto. Assim fazendo, não apenas identificavam-se catego-
rias como também se procedia a sua separação, o que facilita no
momento posterior, o da primeira redação da análise.
No que se refere aos resultados da pesquisa, os principais
mecanismos gerativos que explicam o problema, apontados
nos dados, são as contradições na construção de identidades
e identificações, no que se refere à constituição da posição
‘menina-educadora’; as relações sociais hierárquicas resis-
tentes à transformação, no interior mesmo do Movimento; a
crise de legitimação social da luta do Movimento no contexto
em que o discurso assistencialista se fortalece em detrimento
da participação cidadã; a adesão ao discurso da imobilidade,
que entra em choque irreconciliável com os objetivos de mo-
bilização social; a carência de recursos simbólicos ligados ao
discurso e a naturalização da incapacidade de transformar essa
carência, que têm efeito na fragilidade da rede de articulação
nacional do Movimento e na carência de recursos materiais
para a ação; a ausência de espaços legítimos de transição de
papéis na instituição, notadamente dos centros de formação de
educadores/as (veja Resende, 2008, para uma descrição minu-
ciosa desses mecanismos gerativos e as análises linguísticas
que permitiram chegar à crítica explanatória).

91
Análise de Discurso (para a) Crítica: O texto como material de pesquisa

Uma reflexão sobre o compartilhamento dos resultados


da pesquisa e a negociação das interpretações é apresentada
em Resende (2010b, p. 361, grifos no original):

As análises que fiz foram capazes de enxergar


ficções, representações e contradições que pare-
cem opacas aos membros do Movimento. Com o
compartilhamento dos resultados e a negociação
de minhas interpretações, procurei fazer com que
essas reflexões extrapolassem o âmbito estritamente
acadêmico da pesquisa e gerassem reflexões também
no âmbito do Movimento.
Essas reflexões trouxeram consequências: logo após
o encerramento da pesquisa, a coordenação do Mo-
vimento passou por uma reformulação, deixando de
ser centrada na figura de um/a só coordenador/a para
assumir uma estrutura de coordenação colegiada. A
primeira coordenação colegiada que se formou teve
como integrante uma das ‘ex-meninas’ que busca-
va, à época da pesquisa, consolidar sua posição de
‘menina-educadora’ (...). A segunda coordenação
colegiada, a atual, também tem como integrante uma
‘ex-menina’ participante da pesquisa, consolidando
uma nova postura do Movimento em relação a essas
jovens. Gosto de acreditar que o trabalho que realizei
tenha tido influência nessa mudança. E alimento a
esperança de que isso sirva para construir, no âmbito
desse Movimento, um espaço mais democrático.

Nesta seção, procuramos demonstrar que pesquisas


etnográficas exigem, por sua natureza, um grande esforço
de planejamento. Além disso, pesquisas que recorrem a esse
paradigma trazem duas importantes dificuldades: demandam
muita dedicação em termos do tempo investido no trabalho
de campo e resultam em volume extenso de dados. Mas
pesquisas etnográficas em ADC também trazem vantagens
importantes. As principais delas são a possibilidade de se ex-

92
Análise de Discurso (para a) Crítica: O texto como material de pesquisa

plorarem variados componentes da ontologia, em termos da


filiação ao Realismo Crítico que vimos no capítulo anterior,
e a possibilidade de se conduzirem pesquisas engajadas, em
contextos situados.
A pesquisa etnográfica não constitui, entretanto, o único
delineamento de pesquisa utilizado em ADC. Com frequência
muito maior, realizam-se pesquisas de caráter documental,
em que os dados da pesquisa são textos coletados para esse
fim (Meyer, 2003).

3.2.2. Pesquisas documentais

A pesquisa documental utiliza, como principal material


empírico, dados de natureza formal, como textos midiáticos,
jurídicos, oficiais, entre outros, cuja elaboração demanda
competência de conhecimento especializado.4 De modo
complementar, esse tipo de pesquisa pode recorrer a dados
de natureza informal, como entrevistas, dados gerados me-
nos conforme regras de competência e mais pelo “impulso
do momento”, conforme Bauer, Gaskell & Allum (2005, p.
21). Dados de natureza informal, ainda segundo os autores,
permitem acessar “a maneira como as pessoas espontanea-
mente se expressam e falam sobre o que é importante para
elas e como elas pensam sobre suas ações e as dos outros”,
o que pode complementar a análise dos dados formais em
pesquisa documental. Além disso, dados do tipo etnográfico
são relevantes para se conhecerem as redes de práticas sociais
envolvidas no problema estudado.
Para exemplificar o planejamento e a condução de pes-
quisas documentais em ADC, vamos descrever brevemente
4 O texto que utilizamos no capítulo 4 para ilustrar a aplicação de categorias
de análise, por exemplo, poderia compor o corpus de uma pesquisa de tipo
documental sobre a representação de pessoas em situação de rua em textos
jornalísticos, como vem sendo feito por Silva (2008) e Pardo Abril (2008).

93
Análise de Discurso (para a) Crítica: O texto como material de pesquisa

a abordagem teórico-metodológica da pesquisa “Discurso e


ideologia na propaganda de medicamentos: um estudo crítico
sobre mudanças sociais e discursivas” (Ramalho, 2008).
O objetivo geral do estudo foi investigar a função do dis-
curso na sustentação de relações assimétricas de poder entre
“peritos/as” (especialistas em saúde: médicos/as, empresários/
as da indústria farmacêutica; assim como especialistas em
linguagem: publicitários/as, editores/as de veículos de co-
municação) e “leigos/as”, cidadãos/ãs comuns, que recebem
diariamente conteúdos publicitários e necessitam do conhe-
cimento perito em saúde.
No Brasil, o debate sobre os riscos da circulação de pro-
pagandas de medicamento na mídia já tem certa tradição. As
crescentes preocupações envolvem, por exemplo, os riscos da
automedicação, das intoxicações, do consumo inadequado e
exagerado de medicamentos, da autoidentificação projetada na
imagem do/a consumidor/a de produtos para saúde (Ramalho,
2009a, 2010a). Tudo isso somado a desigualdades sociais e
dificuldades de acesso a serviços e tratamentos de saúde, dentre
outros problemas. A indústria de medicamentos está entre as
mais lucrativas do mundo, e investe mais em propaganda (35%
da receita) do que em pesquisa e desenvolvimento de novos
medicamentos (Angell, 2007). Ainda que o Brasil disponha de
serviço público de saúde assim como de políticas de regulação
da promoção comercial de medicamentos, parte da população
brasileira, por um lado, está desassistida de tratamentos e ser-
viços de saúde; por outro, considerável parcela da sociedade é
diariamente exposta a apelos comerciais que possuem potencial
para, em práticas específicas, levar pessoas ao consumo desne-
cessário e desmedido de medicamentos. Diante do reconhecido
problema, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa)
passou, em 2000, a controlar o conteúdo de propagandas de
medicamentos, o que impulsionou novas formas de promover
veladamente esses produtos no Brasil (cf. Ramalho, 2008).

94
Análise de Discurso (para a) Crítica: O texto como material de pesquisa

Embora envolva diretamente o uso da linguagem, até


meados de 2005 a publicidade de medicamentos não era objeto
de pesquisas linguístico-discursivas no Brasil, o que já se pode
verificar em estudos como de Böehlke (2008), Silva (inédito),
além do que apresentamos aqui. Mas o problema da influên-
cia da propaganda no comportamento do/a consumidor/a de
produtos para saúde envolve, diretamente, uso da linguagem,
daí sua natureza social e semiótica.
Com base na perspectiva ontológica e epistemológica
da ADC, que entende a relação linguagem-sociedade como
relacional/dialética, definimos o paradigma interpretativo
crítico da pesquisa, que permitiu problematizar efeitos
ideológicos que sentidos de textos, como instâncias de dis-
curso, podem ter sobre relações sociais, ações e interações,
pessoas, mundo material. Nos termos específicos da pesqui-
sa, buscamos investigar e problematizar representações, ou
discursos, particulares que podem ser legitimados no (sub)
gênero anúncio publicitário e, em determinadas práticas, in-
culcados na identidade do/a “consumidor/a de medicamento
(ver Ramalho, 2008)”.
Definido o paradigma interpretativo, traçamos estraté-
gias para gerar dados que ajudassem a alcançar os objetivos
pretendidos e a responder às questões da pesquisa. O objetivo
geral da pesquisa, qual seja, “investigar na propaganda de me-
dicamentos sentidos potencialmente ideológicos, orientados
para sustentar relações assimétricas de poder entre ‘leigos/as’
e ‘peritos/as’” (Ramalho, 2008, p. 115), suscitou as seguintes
questões:
– Há conexões entre mudanças sociais na promoção de me-
dicamentos na modernidade tardia (vigilância, sociedade de
consumo) e mudanças discursivas? Quais?
– Que sentidos potencialmente ideológicos são articulados
nos textos publicitários? Como são articulados?

95
Análise de Discurso (para a) Crítica: O texto como material de pesquisa

– A quais convenções discursivas leitores/as de textos pu-


blicitários recorrem para identificar publicidades de medi-
camento?
– Há leituras mais disciplinadoras e outras mais criativas?
A pesquisa demandou uma abordagem predominante-
mente documental, cujo principal material empírico foram
documentos formais da mídia impressa, elaborados por
publicitários/as e jornalistas. Coletamos inicialmente 610
textos, produzidos de 1911 a 2006, que promovem medi-
camentos mais ou menos explicitamente. Com base numa
compreensão mais sociológica dos gêneros discursivos
(Miller, 1994; Bazerman & Prior, 2004), sistematizamos os
textos coletados segundo um gradiente de hibridização de
gêneros. Embora a perspectiva do estudo fosse sincrônica,
com foco num tempo de curta duração (2000 a 2006), a coleta
de material viabilizou a triangulação de dois intervalos prin-
cipais de tempo, o que permitiu também uma aproximação
comparativa dos dados. O primeiro intervalo corresponde
a 1920-1970, período anterior ao controle sanitário, e o
segundo a 2002-2006, período de vigência do controle de
propagandas de medicamento.
Dada a ambivalência discursiva entre o que é informação
e o que publicidade nos dias atuais (Fairclough, 1989), siste-
matizamos os 610 textos conforme seu propósito promocional,
mais ou menos explícito, em quatro categorias gerais: publici-
dade clássica; publicidade indireta; publicidade institucional
e publicidade oculta. Cabe esclarecer que as três últimas
categorias (publicidade indireta, institucional e oculta) são
provenientes da primeira versão da Resolução de Diretoria
Colegiada 96/2008, um dos documentos formais da Anvisa
que constituíram o corpus ampliado da pesquisa.
Com bastante frequência, em pesquisas documentais
não é suficiente trabalhar apenas com o corpus principal de

96
Análise de Discurso (para a) Crítica: O texto como material de pesquisa

dados formais, como as publicidades. Nem sempre esse tipo


de dado consegue responder a todas as questões de pesquisa,
sendo necessário recorrer a outros tipos de dados. Na pesquisa
em foco, tínhamos questões não só sobre a composição dos
textos publicitários em si, mas também sobre as práticas de
produção e recepção desses textos, o que demandou, além de
vasta pesquisa bibliográfica para análise conjuntural, a coleta
de dados informais e de dados quantitativos.
Depois de sistematizados, os dados documentais deram
origem a um corpus principal composto por 13 textos e,
posteriormente à aplicação de questionários de leitura (ver a
seguir), delimitamos um corpus de 6 textos, representativos
do gradiente “mais ou menos explicitamente promocional”.
Esse conjunto de textos mostrou-se “representativo” frente
à proposta de “delineamento do corpus como um processo
cíclico”, apresentada em Bauer & Aarts (2005: 53). Conforme
os autores, um corpus representativo precisa ter “equilíbrio”,
que se alcança “quando esforços adicionais acrescentam pou-
ca variância dialética”. O processo cíclico de delineamento
do corpus deve se iniciar pela “investigação empírica piloto
e análise teórica”, seguir para o “delineamento do corpus”,
partir para “compilação de porção do corpus”, chegar à etapa
da “investigação empírica”, e retornar ao “delineamento do
corpus” até que o acréscimo de dados se torne dispensável.
Como apontamos, para responder às questões de pes-
quisa, somamos à investigação da composição dos textos
promocionais, comentada logo a seguir, outros dois elemen-
tos atuantes em processos de significação: a produção e a
recepção/consumo de textos (Fairclough, 2003a). Aspectos
diretamente relacionados à produção dos textos publicitá-
rios foram investigados em dados formais, como legislações
vigentes sobre o tema, e, também, em dados informais. Os
principais dados informais foram notas de campo coletadas
em observação não-participante em três eventos organizados

97
Análise de Discurso (para a) Crítica: O texto como material de pesquisa

por autoridades sanitárias para discussão da legislação para


a promoção de medicamentos, que, à época, de 2005 a 2007,
passava por reformulação (cf. Ramalho, 2008). Com autoriza-
ção prévia da Anvisa, participamos de importantes discussões,
nem sempre pacíficas, entre diferentes segmentos interessados
no tema (sanitaristas, representantes de associações de farmá-
cias, representantes de associações do mercado publicitário,
empresários da indústria de medicamentos, editores, publicitá-
rios etc.). Essa aproximação das práticas particulares sanitária,
publicitária, editorial, dentre outras, permitiu conhecer e reunir
diferentes opiniões e posições sobre o problema pesquisado e,
ainda, ajudou a validar ou refutar algumas conclusões iniciais,
construídas com base em pesquisa documental e bibliográfica.
Para investigar aspectos específicos da recepção dos tex-
tos, ou seja, de práticas de leitura e interpretação, foi necessário
somar à perspectiva qualitativa da pesquisa documental princípios
de delineamento da pesquisa de levantamento por amostragem,
característica de pesquisas quantitativas. O pré-teste, realizado
em 2006 com pequeno grupo de colaboradores/as, apontou a
aplicação de questionários como procedimento mais ade-
quado para esta parte da pesquisa. A outra possibilidade seria
realizar entrevistas em profundidade, mas, para uma pesquisa
predominantemente documental, elas gerariam mais dados
do que o necessário. Realizamos 20 entrevistas individuais,
em profundidade, com leitores/as potenciais de anúncios de
medicamento, mas a aplicação de questionário, também sub-
metida a teste, mostrou-se mais eficaz para a coleta de uma
amostragem representativa de práticas de leitura.
Ao contrário do enfoque na produção, que visava explorar
crenças, valores, motivações dos atores sociais; o objetivo,
aqui, foi mais voltado para a investigação de práticas de
leitura e identificação do (sub)gênero “anúncio de medica-
mento”. Essa investigação específica procurou responder
questionamentos acerca da ambivalência contemporânea entre

98
Análise de Discurso (para a) Crítica: O texto como material de pesquisa

informação-publicidade, como: quais textos do corpus docu-


mental principal são identificados como predominantemente
“publicitários”? Ou predominantemente “informativos”? Ou
os dois? Que elementos – cores, enquadramento, disposição
do texto, fotos, vocabulário, propósitos – são apontados como
característicos de publicidades? Quais textos do corpus são
lidos como “reportagem”, “cartão postal”, “notícia”? Por quê?
Com que frequência?
Em busca de tais respostas, geramos dados de natureza
quantitativa por meio de aplicação de questionários abertos au-
toadministrados a uma amostragem, ou “seleção”, de um grupo
natural de leitores/as potenciais de anúncios publicitários. No
Brasil, como mencionamos, não temos só os problemas da
automedicação e da exposição a propagandas de medicamentos,
mas também o problema da falta de acesso a medicamentos e
a serviços, de qualidade, de saúde. Para evitar uma abordagem
ingênua, precisamos selecionar um grupo natural de leitores/as
potenciais de anúncios como “amostra da população maior
que eles representam” (Babbie, 2005: 107). A opção por um
“grupo natural”, em vez de grupos estatísticos, por exemplo,
foi orientada pela alternativa de seleção de colaboradores/as
de pesquisa sugerida por Gaskell (2005).
O autor explica que grupos naturais são constituídos por
pessoas que interagem conjuntamente, ou que partilham um
passado comum ou possuem um projeto futuro comum, ou que
leem os mesmos veículos de comunicação, ou têm interesses
e valores mais ou menos semelhantes, e, por isso, formam um
meio social. Esse tipo de seleção de colaboradores/as pode ser
mais eficiente e produtivo na medida em que permite delimitar
ambientes sociais relevantes para o tópico em investigação,
definindo a população sobre a qual se deseja tirar conclusões.
Tendo isso em vista, nosso grupo natural de colaboradores/as
de pesquisa foram estudantes de vários cursos de Graduação
da Universidade de Brasília, que se voluntariaram a respon-

99
Análise de Discurso (para a) Crítica: O texto como material de pesquisa

der aos questionários. Características que demarcam esse


grupo natural, que interage no ambiente de estudo, podem ser
apontadas no possível acesso aos meios de comunicação de
massa em geral e no nível de escolaridade, qual seja, Ensino
Médio completo.
Essa seleção ajudou a evitar, além do erro ingênuo de
pressupor que todos têm, igualmente, acesso a medicamentos e
a serviços de saúde, o erro da universalização da escolaridade
e do acesso aos meios de comunicação, embora isso não signi-
fique que as práticas de leitura deste grupo sejam as mesmas.
A questão da “recepção” é muito complexa, por envolver
crenças, histórias, valores pessoais, tipos de atividade, rela-
ções de poder, idade, aspectos sociais, econômicos, e outros
fatores espaciais e temporais. O próprio termo “recepção”
não é muito apropriado porque conota certa “passividade”,
mas o mantivemos na pesquisa por ser útil para distinguir
a recepção/consumo de textos das outras duas dimensões,
produção e composição
Não é possível determinar de antemão os sentidos que
leitores/as atribuirão a textos, ou mesmo antecipar se determi-
nado sentido ideológico será apropriado ou não pelo/a leitor/a.
Tendo isso em vista, o objetivo do levantamento quantitativo
de dados não foi cruzar variáveis, “conjuntos de caracterís-
ticas mutuamente excludentes, como sexo, idade, emprego
etc.” (Babbie, 2005, p. 124), e concluir, por exemplo, que
leitores/a mais jovens, ou com mais estudo, identificam com
mais frequência propagandas implícitas. Aqui, o objetivo foi
coletar dados para descrever, analisar e interpretar aspectos
da recepção dos textos do corpus num grupo específico de
leitores/as potenciais, que representa uma população maior
de leitores/as. A delimitação da seleção sem cruzamento de
variáveis evita o problema, lembrado por Bauer e Aarts (2005:
60), de pesquisadores/as que coletam “muito mais material
interessante do que aquele com que poderiam efetivamente

100
Análise de Discurso (para a) Crítica: O texto como material de pesquisa

lidar, dentro do tempo de um projeto”, o que quase sempre


resulta em superficialidade da análise do material, tanto de
natureza documental quanto etnográfica. Dessa forma, a
delimitação de uma seleção representativa, mas não ampla
demais, permitiu a investigação em profundidade de uma
prática de leitura específica.
Selecionado o grupo, partimos para o trabalho de aplica-
ção dos questionários abertos autoadministrados, até o ponto
em que não se acrescentavam novas informações. A aplicação
ocorreu em 2006 e 2007. Sem intervenção da pesquisadora,
os questionários foram respondidos por voluntários/as do
grupo em salas de aula, seu ambiente natural. Como Babbie
(2005) pondera, a despeito de levantamentos quantitativos
serem feitos com mais frequência por meio de questionários
constituídos de perguntas fechadas, é igualmente produtivo
utilizar perguntas abertas. Questionários abertos, como o
que aplicamos na pesquisa, permitem que o/a colaborador/a
se sinta mais livre e dê suas próprias respostas, uma vez que
não estão restritas a alguns poucos itens que o/a pesquisador/a
julga possíveis, e foi o que de fato ocorreu na coleta de dados.
Tendo essa vantagem em vista, elaboramos o questionário
da pesquisa com três perguntas-padrão abertas, aplicáveis a
todos os textos do corpus principal. Cada pergunta, como
se apresenta a seguir, relaciona-se a um tópico específico de
pesquisa, que não consta no questionário:

Tópico 1: Identificação da(s) função(ões) social(is) do texto


a- Tendo em vista que textos são ligados a atividades sociais,
responda: qual poderia ser a função deste texto na prática
social ou, em outras palavras, um texto como este pode servir
para quê?
Tópico 2: Elementos discursivos relevantes para definição
da(s) função(ões) do texto

101
Análise de Discurso (para a) Crítica: O texto como material de pesquisa

b- Que elementos do texto lido (trecho, parte, função, forma,


palavra, frase etc.) ajudaram você a identificar a função do
texto no item a?
Tópico 3: Identificação do tema central do texto
c - Qual é o tema/assunto do texto que você leu?

As perguntas foram elaboradas em linguagem colo-


quial, sem preocupação com terminologias, e de maneira a
contemplar os três tópicos principais de investigação. Após
aplicação dos questionários, as respostas abertas foram cate-
gorizadas e quantificadas, dando origem aos dados quantita-
tivos da pesquisa. Para o delineamento definitivo do corpus
principal, foram selecionados 6 textos, e os respectivos 180
questionários.
Concluída a categorização dos 180 questionários por
padrão de respostas, os dados foram quantificados, dando
origem a ocorrências de respostas para as categorias cria-
das para cada texto do corpus. Com base nesses dados, foi
possível quantificar e interpretar, por exemplo, a frequência
em que leitores/as identificam textos promocionais menos
explícitos como “publicidade”, ou a frequência de respos-
tas que se prendem a elementos textuais mais fixos como
“foto”, “slogan”, na identificação de textos publicitários.
Ou, ainda, leitores/as que reconhecem, em anúncios, temas
como “dor de cabeça”, em vez de “medicamento para dor”.
Vale lembrar que todo esse procedimento foi realizado com
anonimato e autorização prévia dos/as colaboradores/as (cf.
Ramalho, 2010b).
Por fim, para o estudo da composição dos textos, ou seja,
para a análise textual, estabelecemos um diálogo teórico-me-
todológico entre a teoria da narratividade do texto publicitário
(Vestergaard & SchrØder, 1994); a teoria de gêneros da Nova
Retórica (Miller, 1994; Bazerman & Prior, 2004) e a ADC.

102
Análise de Discurso (para a) Crítica: O texto como material de pesquisa

Com base em análises-piloto, construímos um arcabouço para


análise textual relacionando esforços retóricos característicos
de textos publicitários com categorias analíticas que consti-
tuem recursos discursivos potencialmente capazes de levar a
cabo tais esforços. Por exemplo, o esforço retórico de “chamar
atenção/despertar interesse do/a leitor/a” mostrou-se mais
relacionado ao uso do recurso da “interdiscursividade” – da
hibridização de ordens de discurso –, uma produtiva categoria
de análise textual da ADC. Aqui vale destacar que abordagens
teórico-metodológicas que concebem gêneros como entida-
des mais fixas e estáveis seriam inadequadas para o estudo,
tendo em vista o hibridismo e plasticidade característicos de
publicidades.
Conforme discutimos, na ADC britânica textos são conce-
bidos como parte de eventos específicos, que envolvem, além
de discurso, pessoas, (inter)ação, relações sociais e mundo
material. Nessa perspectiva relacional/dialética, textos são
materializações situadas de discurso que constituem crenças,
valores, formas de ação e interação, relações sociais, mundo
material, e, ao mesmo tempo, são constituídos por esses outros
momentos de práticas sociais. Nos termos da pesquisa, essa
abordagem de textos permitiu investigar discursos particu-
lares articulados em publicidades (representação) que podem
ser legitimados no gênero publicidade de medicamento (ação/
relação), e inculcados em estilos de vida projetados na imagem
do/a “consumidor/a de medicamento” (identificação).
O estudo permitiu identificar e analisar o significativo
papel do discurso da propaganda de medicamentos na susten-
tação de problemas sociais relacionados a distribuição desigual
de poder entre “leigos/as” e “peritos/as”. Representações he-
gemônicas particulares de grupos interessados na ampliação
do mercado de consumidores/as de medicamento, no atual
modelo biomédico hegemônico de atenção a saúde (Barros,
2008), circulam em anúncios publicitários de modo a legitimar

103
Análise de Discurso (para a) Crítica: O texto como material de pesquisa

diversos problemas, apontados no início da subseção, que


são, em parte, efeitos ideológicos de sentidos de textos sobre
relações sociais, ações e interações, conhecimentos, crenças,
identidades, aumentando, ainda, desigualdades entre os que
podem e os que não podem “comprar saúde”.
Essa breve descrição teórico-metodológica evidencia a
complexidade do trabalho com dados documentais formais,
que frequentemente exige um corpus principal inicial bastante
extenso e, também, outros tipos de dados complementares, de
natureza etnográfica ou mesmo quantitativa. A definição do
corpus complementar está diretamente ligada à abordagem
epistemológica do estudo, ou seja, a seus objetivos e questões.
Por isso, não é possível defini-lo de antemão, o que demanda
várias revisões e redefinições ao longo da pesquisa.

3.3 Abordagem crítica para estudos da linguagem

Para levar a efeito o princípio de que o mundo tem profun-


didade ontológica, isto é, de que “eventos derivam da operação
de mecanismos, os quais, por sua vez, derivam das estruturas
dos objetos, e estes se localizam em contextos geo-históricos”
(Sayer, 2000, p. 15), a abordagem teórico-metodológica
da ADC operacionaliza a proposta de investigação crítica-
explanatória de Bhaskar (1989; cf. Resende, 2010b; 2010c).
Partindo do princípio de que “questões sociais são, em
parte, questões sobre discurso”, a ADC é uma proposta para
estudos da linguagem que visam alcançar “níveis mais pro-
fundos, suas entidades, estruturas e mecanismos que existem
e operam no mundo”. Para tanto, as investigações baseiam-se
em análises de mecanismos causais e de seus efeitos potenciais
em contextos particulares, com atenção voltada para causas
e efeitos envolvidos em relações de poder (Chouliaraki &
Fairclough, 1999, p. vii).

104
Análise de Discurso (para a) Crítica: O texto como material de pesquisa

A proposta teórico-metodológica da ADC oferece fer-


ramentas analíticas para o/a pesquisador/a mapear conexões
entre aspectos semióticos e não-semióticos do social, tendo
em vista dois objetivos principais. Primeiro, investigar me-
canismos causais discursivos e seus efeitos potencialmente
ideológicos. Segundo, refletir sobre possíveis maneiras de
superar relações assimétricas de poder parcialmente susten-
tadas por (sentidos de) textos.
De acordo com o princípio da profundidade ontológica,
entende-se que o trabalho de descrição e interpretação de
conexões – em termos de relações não mecânicas de causa e
efeito – entre linguagem e sociedade não pode ser feito, de
maneira satisfatória, apenas com base em análises de textos.
Assim como a realidade não pode ser reduzida ao empírico,
ou seja, a nosso conhecimento sobre ela, que é contingente,
mutável e parcial, também “não devemos presumir que a re-
alidade de textos seja exaurida por nosso conhecimento sobre
eles” (Fairclough, 2003a, p. 14).
Não pode haver, portanto, análises textuais ‘completas’
e ‘definitivas’, ou ‘objetivas’ e ‘imparciais’. São inevitavel-
mente seletivas, pois “em toda análise, escolhemos responder
a determinadas questões sobre eventos sociais e textos, e não
a outras questões possíveis”. Isso, como ressalva Fairclou-
gh, (2003a)., não compromete a ‘cientificidade’ de análises
textuais, mas aponta as limitações desse tipo de trabalho,
quando isolado

Não há análises textuais ‘completas’, ‘definitivas’,


‘objetivas’ ou ‘imparciais’. Toda análise é inevitavelmente
seletiva, assim como toda pesquisa compõe-se de
escolhas sucessivas, que lhe determinam o planejamento
e a condução.

105
Análise de Discurso (para a) Crítica: O texto como material de pesquisa

Para investigações mais aprofundadas de mecanismos


discursivos e seus potenciais efeitos ideológicos em práticas
sociais particulares, a ADC propõe o arcabouço apresentado
no Quadro 5, a seguir:

Quadro 5 – Arcabouço teórico-metodológico da ADC


(Chouliaraki & Fairclough, 1999, p. 60)

Percepção de um problema social com aspectos semióticos


Identificação de obstáculos para que o problema seja superado
análise da conjuntura
análise da prática particular
análise de discurso
Investigação da função do problema na prática
Investigação de possíveis modos de ultrapassar os obstáculos
Reflexão sobre a análise

Essa proposta para explanação crítica de problemas


sociais, pela investigação de mecanismos que os produzem,
compõe-se de cinco etapas principais. De acordo com Fair-
clough (2003a, p. 15), para ter acesso a efeitos ideológicos
de textos, é preciso relacionar a “microanálise” de textos à
“macroanálise” de maneiras como relações de poder operam
por meio de redes de práticas e estruturas. Por isso, as cinco
etapas do arcabouço, descritas a seguir, conjugam análises
social e discursivamente orientadas.
Como vimos, pesquisas orientadas pela ADC partem da
identificação de um problema social com aspectos semióticos.
Definida a preocupação de pesquisa, segue-se à identificação
de elementos que representam obstáculos para a superação do
problema, por meio de três tipos de análise: análise da con-
juntura, análise da prática particular e análise de discurso.

106
Análise de Discurso (para a) Crítica: O texto como material de pesquisa

Esses três tipos de análise podem especificar obstáculos para


que o problema em foco seja superado.
Nas duas primeiras etapas, investigam-se redes de práti-
cas (ou conjunturas) em que se localiza o problema de cunho
semiótico, assim como a prática particular em estudo. Isso
inclui análise de relações dialéticas entre discurso e outros
momentos (essencialmente não discursivos). As análises da
conjuntura e da prática particular garantem a contextualização
da análise discursiva, ou seja, garantem que os textos anali-
sados sejam relacionados a suas causas mais amplas e a seu
contexto particular, o que está de acordo com o princípio da
profundidade ontológica.
Por exemplo, em investigação acerca do discurso da
imprensa brasileira sobre a invasão ao Iraque em 2003, Ra-
malho (2005) pesquisou, no âmbito da análise conjuntural,
o histórico de conflitos entre os Estados Unidos e países do
Oriente Médio; a política internacional entre esses países;
aspectos da política imperial dos EUA e do modelo neoliberal
de capitalismo, bem como analisou a prática particular da
grande mídia brasileira inserida nessa conjuntura mais ampla,
buscando mapear relações de conflito ou condescendência
entre o discurso do Império e o discurso da mídia brasileira.
Pesquisas em análise de discurso são empreendimentos
complexos, que não se limitam à análise textual. Ao contrário,
exigem numerosas leituras em Ciências Sociais, reflexões
sociais e/ou trabalho de campo. Isso possibilita uma compre-
ensão mais ampla do problema sociodiscursivo pesquisado,
tornando mais efetivas as análises discursivas propriamente
ditas. Aqui cabe lembrar que a proposta transdisciplinar da
ADC faz dela uma disciplina “aberta”, possibilitando o diálogo
e a operacionalização de diversas disciplinas. O objetivo não é,
portanto, definir um método pronto para aplicação em pesqui-
sas, mas, sim, oferecer subsídios para estudos “lançarem luz

107
Análise de Discurso (para a) Crítica: O texto como material de pesquisa

sobre a dialética entre o social e o discursivo em uma ampla


variedade de práticas sociais” (Chouliaraki & Fairclough,
1999, p. 17).
O terceiro tipo de análise voltado para identificar obs-
táculos para a superação do problema em estudo é a análise
discursiva. Na análise de discurso, em que textos figuram
como principal material empírico, pesquisam-se conexões
entre mecanismos discursivos e o problema em foco. A análise
detalhada e intensiva de textos como elementos de processos
sociais é, nos termos de Chouliaraki & Fairclough (1999), um
processo complexo que engloba duas partes: a compreensão
e a explanação.
Um texto pode ser compreendido de diferentes maneiras,
uma vez que diferentes combinações das propriedades do texto
e do posicionamento social, conhecimentos, experiências e
crenças do/a leitor/a resultam em diferentes compreensões.
Parte da análise de textos é, portanto, análise de compreensões,
que envolvem descrições e interpretações. A outra parte da
análise é a explanação, que se situa na interface entre con-
ceitos e material empírico. Trata-se de um processo no qual
propriedades de textos particulares são “redescritas” com
base em um arcabouço teórico particular, com a finalidade
de “mostrar como o momento discursivo trabalha na prática
social, do ponto de vista de seus efeitos em lutas hegemônicas
e relações de dominação” (Chouliaraki & Fairclough, 1999,
p. 67).
Além de incluir essas duas etapas, a compreensão e a ex-
planação, a análise de discurso é orientada, simultaneamente,
para a estrutura e para a (inter)ação discursiva. Isto é, para
os recursos sociais (ordens de discurso) que possibilitam e
constrangem a interação, bem como para as maneiras como
esses recursos são articulados em textos. A concepção de textos
como parte de eventos específicos, que envolvem pessoas, (in-

108
Análise de Discurso (para a) Crítica: O texto como material de pesquisa

ter)ação, relações sociais, mundo material, além de discurso,


situa a análise textual na interface entre ação, representação e
identificação, os três principais aspectos do significado.

Em ADC, é fundamental ter em mente a relevância tanto


do potencial estrutural das ordens de discurso quanto das
possibilidades criativas dos eventos discursivos concretos.
Isso garante um foco simultâneo nos recursos estruturais
e nas características da interação.

Esse tipo de análise, segundo Fairclough (2003a, p. 28),


implica uma perspectiva social detalhada de textos. Permite
abordar os textos “em termos dos três principais aspectos do
significado, e das maneiras como são realizados em traços dos
textos”, buscando conexões “entre o evento social concreto e
práticas sociais mais abstratas”, pela investigação dos gêneros,
discursos e estilos utilizados, e das maneiras como são articu-
lados em textos. A análise discursiva é, portanto, explanatória:
conjuga teoria e material empírico para investigar (sentidos
de) textos tendo em vista seus efeitos sociais.

A concepção de textos como parte de eventos


específicos situa a análise textual na interface entre ação,
representação e identificação, e ressalta a relevância do
contexto de interação para análises discursivas.

As duas etapas seguintes do arcabouço correspondem a


investigações sobre as funções do problema na prática, e as
possíveis maneiras de superar os obstáculos, identificados em
fase anterior. O objetivo é identificar mecanismos que susten-
tam o aspecto problemático em uma prática particular, tendo
em vista a possibilidade de superá-lo. Por fim, o arcabouço
propõe uma reflexão sobre a análise e sua contribuição para
questões de emancipação social, parte essencial da pesquisa,
dada sua postura crítica e emancipatória. Aqui, são avaliados

109
Análise de Discurso (para a) Crítica: O texto como material de pesquisa

limites e alcances da pesquisa assim como suas contribuições


para pesquisas futuras, já que uma investigação particular,
naturalmente, não pode esgotar um problema e sempre é feita
a partir de um ponto de vista específico.
Para a análise discursiva textualmente orientada, conta-
mos com uma ampla gama de categorias analíticas, oriundas
de diversas abordagens do funcionalismo linguístico, como a
Linguística Sistêmica Funcional, a Pragmática, a Linguística
Textual, a Teoria da Enunciação. No próximo capítulo, vere-
mos algumas dessas categorias, por meio de uma análise que
nos servirá de exemplo.

110
Análise de Discurso (para a) Crítica: O texto como material de pesquisa

Capítulo 4

Análise textual aplicada:


categorias analíticas
e exemplos de análise

O objetivo deste capítulo é discutir e exemplificar o


trabalho de análise textual que pode ser realizado com base
na ADC. Conforme mencionado, o texto é o principal mate-
rial empírico de pesquisa do/a analista crítico/a do discurso,
seja uma entrevista de natureza etnográfica, uma imagem,
uma reportagem, e assim por diante. É a partir desse ma-
terial linguístico que buscamos conexões dialéticas entre
discurso e aspectos sociais problemáticos, como esforço
para ajudar a superá-los. Para tanto, a ADC, com base so-
bretudo na Linguística Sistêmico-Funcional (LSF), propõe
um rico arcabouço de categorias linguístico-discursivas de
análise textual. Essas categorias auxiliam o mapeamento de
relações dialéticas entre o social e o discursivo, permitindo
a investigação de efeitos constitutivos de textos em práticas
sociais, e vice-versa.
Para apresentar e exemplificar o trabalho de análise tex-
tual, buscamos definir, primeiramente, o que se entende em
ADC por “categorias analíticas”. Em seguida, partindo do que
oferece o texto “Ivan, o andarilho-jardineiro, constrói jardim
em gramado da 307 Sul”, apresentamos algumas categorias
de análise, seguidas de exemplo de aplicação.

111
Análise de Discurso (para a) Crítica: O texto como material de pesquisa

4.1 O que são ‘categorias analíticas’?

Lembremos que a relação entre os significados do dis-


curso – acional/relacional, representacional e identificacional
– é dialética, ou seja, cada qual internaliza traços de outros,
sem se reduzirem a um. Isso implica, por exemplo, que um
discurso particular (representação) pode ser legitimado em
gêneros específicos (ação/relação) e inculcado em estilos de
vida projetados na construção de identidades e identificações.

Discursos (representação) podem ser legitimados


em gêneros (ação/relação) e inculcados em estilos
(identificação). Por isso dizemos que a relação entre os
significados do discurso é dialética e que sua distinção,
embora seja necessária, não é absoluta.

Os três momentos de ordens do discurso (discursos, gêne-


ros, estilos) são realizados em traços semânticos, gramaticais
e lexicais de textos. Isso implica que maneiras relativamente
estáveis de representar, de (inter)agir e de identificar(-se) em
práticas sociais são materializadas em textos.
Embora a relação entre os momentos de ordens do
discurso seja dialética, discursos, gêneros e estilos são, em
princípio, realizados em traços específicos em textos. Isto é,
traços particulares (vocabulário, relações semânticas, grama-
ticais) são, em princípio, associados a gêneros, a discursos ou
a estilos específicos. Gêneros são realizados nos significados
e formas acionais de textos. Discursos, nos significados e
formas representacionais. Estilos, por sua vez, nos signifi-
cados e formas identificacionais (Fairclough, 2003a, p. 67).
“Categorias analíticas” são, portanto, formas e significados
textuais associados a maneiras particulares de representar, de
(inter)agir e de identificar(-se) em práticas sociais situadas.
Por meio delas, podemos analisar textos buscando mapear

112
Análise de Discurso (para a) Crítica: O texto como material de pesquisa

conexões entre o discursivo e o não discursivo, tendo em vista


seus efeitos sociais.
Isso não quer dizer, insistimos, que uma categoria em
princípio associada a estilos não possa ter relação com gê-
neros ou discursos específicos. A categoria “avaliação”, por
exemplo, é em princípio relacionada a estilos particulares, uma
vez que avaliações são pessoais, ligadas a maneiras de ser. No
entanto, o uso de avaliações específicas pode ser associado a
discursos e a gêneros particulares, como na publicidade, em
que mercadorias são exaustivamente avaliadas como “mara-
vilhosas”, “inovadoras”, “necessárias”.

Ainda que a relação entre os significados do discurso seja


dialética, gêneros são realizados em significados e formas
acionais de textos; discursos, em significados e formas
representacionais; estilos, por sua vez, em significados
e formas identificacionais.

Uma análise discursiva crítica não se confunde com


simples leitura e interpretação. Isso porque contamos com
conceitos associados a categorias analíticas aplicadas sis-
tematicamente. A escolha de que categorias utilizar para a
análise de um texto não pode ser feita a priori. É sempre uma
consequência do próprio texto e das questões/preocupações
de pesquisa. Fairclough (2003a) discute detalhadamente vá-
rias categorias de análise textual relacionando-as a temas de
pesquisas sociais. Resumidamente, o autor apresenta algumas
perguntas que podem nortear a escolha de categorias para um
estudo particular. Vejamos algumas questões a seguir:

113
Análise de Discurso (para a) Crítica: O texto como material de pesquisa

Quadro 6 – Questões para análise textual

Aspectos discursivos/textuais Perguntas sobre o texto em análise

O texto se situa em uma cadeia de gêneros?


O texto é caracterizado por uma mistura de gêneros?
Estrutura genérica Que gêneros o texto articula (em termos de atividade,
relações sociais, tecnologias de comunicação)?

De outros textos/ vozes relevantes, quais são incluí-


dos? Quais são significativamente excluídos?
Como outras vozes são incluídas? São atribuídas?
Se sim, especificamente ou não especificamente?
Intertextualidade As vozes atribuídas são relatadas diretamente (cita-
ção) ou indiretamente?
Como outras vozes são tecidas em relação à voz do/a
autor/a e em relação umas com as outras?

Que presunções existenciais, proposicionais ou


valorativas são feitas?
Presunção É o caso de se ver algumas presunções como ide-
ológicas?

Quais são as relações semânticas predominantes entre


períodos e orações (causa – razão, consequência, pro-
pósito; condicional; temporal; aditiva; elaborativa;
contrastiva/concessiva)?
Há relações semânticas em nível mais alto entre
Relações semânticas/ grama- partes maiores do texto (por exemplo, problema-
ticais entre períodos e orações solução)?
As relações gramaticais entre orações são predomi-
nantemente paratáticas, hipotáticas ou encaixadas?
Há relações particularmente significativas de equiva-
lência e diferença construídas no texto?

114
Análise de Discurso (para a) Crítica: O texto como material de pesquisa

Quais são os tipos predominantes de troca (troca


de atividade ou de conhecimento) e funções da fala
(afirmação, pergunta, demanda, oferta)?
Que tipos de afirmação há (afirmações de fato, pre-
visões hipotéticas, avaliações)?
Trocas, funções da fala, modo Há relações ‘metafóricas’ entre trocas, funções da fala
gramatical ou tipos de afirmação (por exemplo, demandas que
aparecem como afirmações, avaliações que aparecem
como afirmações factuais)?
Qual é o modo gramatical predominante (declarativo,
interrogativo, imperativo)?

Que discursos são articulados no texto e como são ar-


ticulados? Há uma mistura significativa de discursos?
Quais são os traços que caracterizam os discursos
Interdiscursividade
articulados (relações semânticas entre palavras, co-
locações, metáforas, presunções, traços gramaticais)?

Que elementos dos eventos sociais representados são


incluídos ou excluídos? Que elementos incluídos são
mais salientes?
Quão abstrata ou concretamente os eventos são
representados?
Como os processos são representados? Quais são os
tipos de processo predominantes (material, mental,
Representação de eventos/ verbal, relacional, existencial)?
atores sociais Há instâncias de metáfora gramatical na representa-
ção de processos?
Como atores sociais são representados (ativado/
passivado, pessoal/impessoal, nomeado/classificado,
específico/ genérico)?
Como tempo, espaço e a relação entre ‘tempos-
espaços’ são representados?

Que estilos são articulados no texto? Como são


articulados?
Há mistura significativa de estilos?
Quais são os traços que caracterizam os estilos ar-
Identificação
ticulados (‘linguagem corporal’, pronúncia e outros
traços fonológicos, vocabulário, metáfora, modali-
dade, avaliação)?

115
Análise de Discurso (para a) Crítica: O texto como material de pesquisa

Como os autores se comprometem em termos de


verdade (modalidades epistêmicas)? Em termos de
obrigação e necessidade (modalidades deônticas)?
Em que extensão as modalidades são categóricas
(afirmação, negação etc.)? Em que extensão são
modalizadas (com marcadores explícitos de mo-
Modalidade dalidade)?
Que níveis de comprometimento observam-se (alto,
médio, baixo) quando há marcadores explícitos de
modalidade?
Quais são os marcadores de modalização (verbos
modais, advérbios modais etc.)?

Com que valores (em termos do que é desejável ou


indesejável) o/a autor/a se compromete?
Como valores são realizados – como afirmações
Avaliação avaliativas, afirmações com modalidades deônticas,
afirmações com processos mentais afetivos, valores
presumidos?

Adaptado de Fairclough (2003a, p. 191-194).

O número de categorias a ser aplicado a um texto depende


de vários aspectos, como o objetivo da análise e a natureza do
trabalho analítico. Depende, também, da extensão do texto a
ser analisado: para objetos analíticos muito extensos, pode ser
inviável a aplicação de muitas categorias. Mesmo para textos
mais curtos, em geral se escolhem algumas categorias ligadas
ao(s) aspecto(s) do texto que se pretende(em) explorar (ação,
representação, identificação).
O tipo de trabalho que apresentamos a seguir, exploran-
do no mesmo texto muitas categorias, não é usal, e fazemos
isso aqui como estratégia para explicar o funcionamento de
diferentes categorias analíticas.

116
Análise de Discurso (para a) Crítica: O texto como material de pesquisa

4.2 Apresentação de categorias e exemplo de análise

Para a análise específica de gêneros e significados acio-


nais/relacionais, o arcabouço da ADC, inspirado na LSF, ofe-
rece categorias mais ligadas a traços de textos ou a aspectos
da organização textual que são, de maneira geral, moldados
por gêneros. O mesmo ocorre com discursos e estilos: para
análise específica de discursos e significados representacio-
nais, há categorias mais ligadas a aspectos textuais moldados
por discursos; para análise particular de estilos e significados
identificacionais, há categorias mais relacionadas a aspectos
textuais moldados por estilos.
A seguir, discutimos e exemplificamos, com base no texto
“Ivan, o andarilho-jardineiro, constrói jardim em gramado da
307 Sul”, algumas categorias de análise que têm sido utilizadas
em pesquisas em ADC. Não separamos as categorias empre-
gadas por significados do discurso (acional, representacional,
identificacional), mas indicamos, para fins didáticos, o signi-
ficado a que cada categoria está mais relacionada.
O texto que nos servirá de exemplo é uma “crônica”
publicada na seção “Crônica da cidade” do jornal Correio
Braziliense, principal jornal da capital. Em geral, as crônicas
dessa seção são dedicadas a “personalidades” da cidade. O
texto selecionado, publicado em abril de 2009, conta a his-
tória de um senhor de 57 anos que vive em situação de rua,
há pelo menos cinco anos, em Brasília. Veremos, na análise,
quais aspectos dessa história são privilegiados, quais são
deixados em segundo plano e quais são excluídos. Veremos
também como, por meio dos recursos linguístico-discursivos
empregados no texto, constrói-se uma representação particu-
lar da realidade e identificações particulares para os atores
envolvidos, e como, assim, o texto age sobre o mundo e
sobre seus/suas leitores/as.

117
Análise de Discurso (para a) Crítica: O texto como material de pesquisa

O texto “Ivan, o andarilho-jardineiro, constrói jardim em


gramado da 307 Sul” está reproduzido em anexo. Sugerimos
que antes de prosseguir você leia cuidadosamente o texto. Em
seguida, procure refletir:

• O que você sabe sobre o problema da situação de rua?

• Por que esse problema pode ser visto como parcialmente


discursivo?

• Como a situação de rua costuma ser representada em


variados tipos de texto?

• Como, em geral, pessoas em situação de rua são


identificadas em textos jornalísticos?

• Que relação podemos estabelecer entre o problema da


situação de rua e sua representação em textos?

Agora, se você já conhece algumas das categorias da


ADC, faça como exercício um mapeamento prévio das catego-
rias que lhe parecem úteis para a análise do texto. O que você
percebe em relação aos modos como no texto se representam
aspectos do mundo e se identificam pessoas? Como o texto
age sobre o mundo e sobre os/as leitores/as potenciais? Que
efeitos sociais esse texto pode ter?
Nas seções a seguir, apresentamos nossa análise do texto,
lembrando que toda análise é necessariamente incompleta,
parcial e aberta a revisão. O aprofundamento que damos à
descrição das categorias é apenas o necessário à aplicação
nesse texto particular. Para uma discussão mais completa,
recomendamos a consulta às fontes citadas.

118
Análise de Discurso (para a) Crítica: O texto como material de pesquisa

4.2.1 Avaliação

Um aspecto de destaque no texto é a avaliação, uma ca-


tegoria em princípio identificacional, moldada por estilos, que
diz respeito a apreciações ou perspectivas do/a locutor/a, mais
ou menos explícitas, sobre aspectos do mundo, sobre o que
considera bom ou ruim, ou o que deseja ou não, e assim por
diante (Fairclough, 2003a, p. 172).1 Como maneira particular
de se posicionar diante de aspectos do mundo, avaliações são
sempre parciais, subjetivas e, por isso, ligadas a processos de
identificação particulares. Caso tais processos envolvam po-
sicionamentos ideológicos, podem atuar em favor de projetos
de dominação.
Avaliações, então, são significados identificacionais que
podem ser materializados em traços textuais como afirmações
avaliativas, afirmações com modalidades deônticas, avaliações
afetivas e presunções valorativas.

A avaliação é, em princípio, uma categoria identificacional,


moldada por estilos. São apreciações ou perspectivas
do locutor, mais ou menos explícitas, sobre aspectos do
mundo, sobre o que considera bom ou ruim, ou o que
deseja ou não, e assim por diante.

Em afirmações avaliativas, o elemento avaliativo pode


ser mais explícito, como um atributo em processos relacionais
atributivos; um verbo em processos materiais e verbais; um ad-
vérbio avaliativo, um sinal de exclamação. Ou pode, ainda, ser
menos explícito e estar apenas pressuposto, isto é, inserido em
frases e não afirmado. Afirmações com modalidades deônticas,

1 Aqui, não faremos distinção entre tipos de avaliação, em termos da teoria


da avaliatividade. Sobre o assunto, cf. Martin, J. R. & White, P. R. R. The
language of evaluation: appraisal in English. London: Palgrave MacMillan
(2005).

119
Análise de Discurso (para a) Crítica: O texto como material de pesquisa

por sua vez, podem avaliar aspectos do mundo em termos de


obrigatoriedade ou necessidade. Avaliações afetivas, um ter-
ceiro tipo de avaliação explícita, são afirmações com processos
mentais afetivos, que envolvem eventos psicológicos, como
reflexões, sentimentos e percepções (Halliday, 1985, p. 106).
Por fim, as presunções valorativas correspondem ao tipo de
avaliação mais implícito, sem marcadores transparentes, como
ocorre no exemplo (1):2

(1) Ivan agradece e comenta (...): “Comer não é pro-


blema. Recebo a solidariedade dos moradores dos
edifícios. Já fiz muitas amizades. Se as pessoas estão
gostando de mim, isso é muito bom”.

Aqui, temos uma presunção valorativa, em que a palavra


“solidariedade” constitui um elemento avaliador implícito,
com conotação positiva latente. Isso permite verificar que
Ivan é representado no texto como alguém que avalia positi-
vamente sua relação com os/as moradores/as da localidade, o
que também se percebe na classificação dessa relação como
“amizade” e na afirmação avaliativa explícita “isso é muito
bom”, fortalecida pelo advérbio “muito”.
Outro caso de presunção valorativa aparece no exemplo (2):

(2) Tem por ferramenta apenas uma pá de pedreiro,


presente de um motorista de táxi do ponto ao lado.

Neste exemplo, é a palavra “presente” que traz conotação


positiva, de modo a, novamente, representar a relação entre
Ivan e pessoas de classe média que o cercam como positiva,
enfatizando, assim, uma pressuposta ‘bondade’ daqueles/as
que convivem com Ivan morando nas ruas.

2 Em todos os exemplos, os grifos são nossos e indicam o elemento em análise.

120
Análise de Discurso (para a) Crítica: O texto como material de pesquisa

Há outras avaliações relevantes, como em:

(3) Ana Luiza Rodrigues diz que ela e o marido se en-


cantaram quando, num passeio de fim de tarde pela
quadra, viram o cuidado com que Ivan põe tampinhas
coloridas de garrafas sobre as pedras que delimitam
um dos jardins. “Que capricho! Que delicadeza a
dele”, ela diz. “Ele é muito carinhoso. Fica na chuva
cuidando das plantas”.

Aqui, temos afirmações avaliativas explícitas, com o


processo mental (cf. transitividade na subseção 4.2.6) afe-
tivo “encantaram”, que expressa percepção positiva; com o
atributo “carinhoso”; com exclamações (“Que capricho! Que
delicadeza a dele”), além de outra presunção valorativa posi-
tiva com a palavra “cuidado”, de significado eminentemente
positivo, desejável.
Todas essas avaliações positivas, repetidas e postas em
relevo no texto, são bastante questionáveis pelo fato de dissi-
mularem, por meio de eufemismos, a situação nada positiva
ou desejável de um cidadão abandonado pelo Estado, a ponto
de identificarem como “encantadora” a condição de um ser
humano que “Fica na chuva cuidando das plantas”! (Essa é a
nossa avaliação, negativa, com exclamação!).
As avaliações ajudam a perceber que o discurso do/a
locutor/a, localizado social, cultural, historicamente, é de
quem se posiciona favoravelmente frente à situação miserá-
vel de Ivan, atuando, assim, ideologicamente a serviço das
relações de dominação implicadas no problema social, já que
a situação de rua é naturalizada a ponto de ser avaliada posi-
tivamente. Os/As moradores/as dos prédios, de classe média
alta, são identificados/as como pessoas bondosas que ajudam o
“andarilho-jardineiro”. Ivan, por sua vez, é identificado como
alguém grato a tal “ajuda”.

121
Análise de Discurso (para a) Crítica: O texto como material de pesquisa

A análise dessa categoria aponta para, pelo menos, dois


modos de operação da ideologia, conforme discutimos no
Capítulo 1, seção 1.4, com base em Thompson (2002a). Um
primeiro modo é a dissimulação, porque relações de domina-
ção são obscurecidas pelo uso de eufemismos, que consistem
na valoração positiva de ações e relações nada desejáveis. Um
segundo modo é a reificação, em que uma situação transitória
é representada como permanente e natural, por meio da natu-
ralização, que representa a situação condenável e reversível
de Ivan não como resultado de relações de exploração do ca-
pitalismo mas sim como algo natural e, até, admirável. Como
veremos adiante, outras categorias de análise reforçam essas
conclusões iniciais sobre sentidos potencialmente ideológicos
do texto.

4.2.2 Coesão

O sistema de coesão na organização dos elementos tex-


tuais está relacionado à metafunção textual, segundo Halliday
(1985). Assim, de acordo com as recontextualizações da LSF
propostas por Fairclough, especificamente no que se refere
aos significados do discurso (cf. Resende & Ramalho, 2006,
p. 29), podemos dizer que a coesão associa-se ao significado
acional/relacional, uma vez que está diretamente ligada à
composição formal do texto. Como sabemos, organizamos
textos diferentemente de acordo com os modos pelos quais
pretendemos agir no mundo, o que também está associado ao
conceito de gênero (cf. “relações semânticas/gramaticais entre
períodos e orações”, no Quadro 6, seção 4.1).
Halliday (1985) tornou-se um autor decisivo para a
Linguística Textual ao formular, com Hasan, uma teoria de
coesão que inclui relações funcionais entre orações por con-
junção, por referência, por substituição e por coesão lexical.

122
Análise de Discurso (para a) Crítica: O texto como material de pesquisa

Para a análise do texto em foco, interessa-nos a coesão por


conjunção, relativa a relações significativas entre frases ou
orações. Ao tratar as relações estabelecidas entre orações pelos
mecanismos de coesão textual, Halliday distingue três tipos de
relações lógico-semânticas de expansão entre orações: elabo-
ração, extensão e realce (Halliday, 2004). Temos elaboração
quando a oração que expande o significado expresso em outra
provê uma maior caracterização da informação dada: reafirma,
esclarece, refina, exemplifica, comenta (expressões-chave
aqui seriam ‘isto é’, ‘ou seja’, ‘por exemplo’). Na extensão,
uma oração expande o significado de outra introduzindo algo
novo por meio de adição, deslocamento ou alternativa (‘e’,
‘ou’, ‘mas’...). No realce, uma oração destaca o significado de
outra, monta-lhe um cenário qualificando-a com característica
circunstancial em referência a tempo, espaço, modo, causa ou
condição (‘quando’, ‘se’, ‘para’, ‘porque’, ‘por causa de’ etc.).
Nossa preferência pelo estudo das relações de realce
entre orações no texto em foco deve-se a seu potencial para o
desvelamento de vínculo do texto a uma lógica de aparências
ou a uma lógica explanatória.

O contraste entre a ‘lógica explanatória’ e a ‘lógica de


aparências’ é que a primeira inclui uma elaboração
das relações entre eventos, práticas e estruturas, e a
última não o faz, apenas lista determinadas ‘aparências’
relacionadas a eventos sem referência às práticas e às
estruturas que conformam esses eventos (Fairclough,
2003a).

Assim, o estudo das relações de realce pode nos ajudar a


perceber se o texto estabelece relações significativas entre a
história de Ivan e o problema mais amplo da situação de rua.
Se mapearmos o texto em busca de relações de realce entre
frases e orações, encontraremos os trechos organizados no

123
Análise de Discurso (para a) Crítica: O texto como material de pesquisa

Quadro 7, a seguir:

Quadro 7 – Relações de realce no texto

(4) “É para driblar a ansiedade que


Ivan (...) constrói um jardim”

Para/ pra Relação de finalidade (5) “‘Faço isso pra passar o tempo’”

(6) “‘Faço isso (...) pra não ficar


muito ansioso’”

(7) “Ele repete a mesma história di-


Para quem Relação de destinação versas vezes para quem se dispuser
a ouvir”

(8) “Diz que não entrou no México


porque ‘a imigração não deixou’”

Porque Relação de causalidade (9) “diz que, quando Nosso Senhor


umbicou o mundo, separou os bons
dos maus, porque ‘esse progresso
todo (...) não serve para nada’”

Há, em todo o texto, apenas seis instâncias de marcação


explícita de relações de realce entre frases e orações. Três de-
las claramente têm o efeito de ironizar Ivan, caracterizando-o
como delirante – excertos (7), (8) e (9). As outras três limitam-
se a definir razões que levaram Ivan a construir jardins, razões
sempre ligadas ao indivíduo (ansiedade, passatempo), nunca
às causas sociais da desvinculação de Ivan.
Assim, nenhuma instância no texto marca relações sig-
nificativas que explorem as relações entre a condição de Ivan
e o problema da situação de rua. O texto filia-se, portanto, à
lógica de aparências, dissimulando questões relevantes para
a compreensão do problema.

124
Análise de Discurso (para a) Crítica: O texto como material de pesquisa

Se estendermos a análise da coesão por conjunção para


as instâncias em que aparece o operador argumentativo ‘mas’,
teremos o seguinte mapeamento:

Quadro 8 – Relações adversativas marcadas com “mas”

(10) “ ‘Eles vão me trazer um belo par de tênis, mas antes vou ter
que tomar um banho de sabonete’ ”
(11) “Conta que teve mãe, mas que não teve ‘papai humano’ ”

(12) “Diz que não entrou no México porque ‘a imigração não deixou’,
mas que agora vai à Polícia Federal providenciar o passaporte”

(13) “ ‘Fez um jardim, coitado, só que era época de seca, mas mesmo
assim ele fez’ ”
(14) “Mas contava que Deus estava umbicando o planeta”

(15) “Que já bebeu cerveja, mas que hoje quer distância”

Relações adversativas são marcadas seis vezes pelo uso


de ‘mas’. Cinco delas acontecem em instâncias de relato da
fala de Ivan (veja adiante a categoria de intertextualidade);
dessas, quatro ressaltam um comportamento delirante – ex-
certos (10), (11) e (12) e (14) – e uma conta parte da trajetória
pessoal de Ivan - excerto (15). Assim como vimos no caso
das relações de realce, aqui os excertos em que se contam os
‘delírios’ de Ivan também têm o efeito de ridicularizá-lo, sem
questionar o abandono desse senhor que merece e tem direito
a tratamento médico. Afirma-se sua loucura sem afirmá-la
diretamente, e não se menciona seu abandono.
A narrativa da vida pregressa de Ivan tem como efei-
to, mais uma vez, a localização do problema no âmbito da
família e do indivíduo – não teve pai e fazia uso de bebida.
‘Explicar’ a situação no nível individual e familiar dissimula
as responsabilidades da sociedade e do Estado pelo problema

125
Análise de Discurso (para a) Crítica: O texto como material de pesquisa

da situação de rua e da produção social da loucura. O Estado


sequer aparece mencionado no texto, e a sociedade (‘incluída’)
é representada sempre positivamente, como vimos na análise
da avaliação.

4.2.3 Estrutura genérica

Como modos relativamente estáveis de agir e de se re-


lacionar em práticas sociais, gêneros discursivos envolvem
diretamente atividade, pessoas e linguagem (cf. seção 2.5).
Por esse motivo, para a investigação de gêneros em textos
particulares, Fairclough (2003a, p. 70) propõe que sejam
investigados, em macroanálise social e textual, a atividade
em que o gênero é produzido e circula; as relações sociais
implicadas na atividade e as tecnologias de comunicação da
atividade (cf. “gêneros discursivos”, no Quadro 6, seção 4.1).
No texto em análise, temos a atividade jornalística; relações
entre editores/as, jornalistas, leitores/as do jornal da capital,
e as tecnologias da impressão em larga escala e da internet.
Thompson (2002b, p. 79) denomina esse tipo de mediação
de “quase-interação mediada”, em razão do baixo grau de
reciprocidade interpessoal e da ampla articulação de práticas
sociais em diferentes tempos-espaços. Fairclough (2003a)
aponta que a disponibilidade de informação e o fluxo da co-
municação predominantemente em sentido único acarretam
aumento significativo da capacidade de transmitir mensagens
potencialmente ideológicas em amplas escalas.
Como modos de interação, gêneros implicam atividades
específicas, ligadas a práticas particulares. Cada atividade so-
cial possui propósitos específicos, ou “escopos intencionais”,
nos termos de Bakhtin (1997, p. 291). Então, na primeira apro-
ximação de um gênero situado, caberia, segundo Fairclough
(2003a, p. 70), questionar “o que as pessoas estão fazendo
discursivamente”, e com quais propósitos. O autor pondera,

126
Análise de Discurso (para a) Crítica: O texto como material de pesquisa

entretanto, que a análise de “propósitos da atividade” deve


ser cautelosa, pois diferentes propósitos podem estar combi-
nados hierarquicamente, mesclados, implícitos, de maneira
que a fronteira entre eles pode não ser tão clara. Por exemplo,
gêneros em princípio voltados para informar, como a reporta-
gem, podem ter propósitos mais estratégicos, orientados para
‘vender’ uma mercadoria, uma ideia, um valor, uma concep-
ção particular de mundo. Tais propósitos materializam-se em
textos no que é chamado de estrutura genérica, um aspecto
textual moldado por gêneros discursivos.

Como modos de interação, gêneros implicam atividades


específicas, ligadas a práticas particulares. Como cada
atividade social possui propósitos específicos, na primeira
aproximação de um gênero caberia questionar “o que as
pessoas estão fazendo discursivamente”, e com quais
propósitos (Fairclough, 2003a, p. 70). Estrutura genérica
corresponde à organização e materialização desses
propósitos.

Essa estrutura pode ser mais homogênea em determina-


dos gêneros (como contrato de aluguel), com elementos ou
os estágios textuais bastante fixos, previsíveis, ordenados e
de fácil identificação. Em outros gêneros, mais livres, hetero-
gêneos, plásticos, instáveis (como crônica jornalística) pode
não ser possível verificar tal estrutura. Por esse motivo, pode
ser insuficiente abordar certos gêneros em termos da estru-
tura genérica. Nesse caso, é possível identificar uma macro-
organização ou organização retórica do gênero, mas não uma
“estrutura”, que pressupõe elementos/estágios obrigatórios em
ordens mais fixas. Pode ser preferível trabalhar com a noção
de movimentos retóricos: movimentos discursivos, com um
propósito particular pontual, que servem aos propósitos glo-
bais do gênero e que se distribuem de maneira não sequencial
e não obrigatória (Miller, 1994; Swales, 1990).

127
Análise de Discurso (para a) Crítica: O texto como material de pesquisa

Movimentos retóricos ou esforços retóricos são esforços


discursivos, com um propósito particular pontual, que
servem aos propósitos globais do gênero. Distribuem-se,
em textos, de maneira não sequencial e não obrigatória,
de acordo com as diferentes funções retóricas a serem
desempenhadas. Cada movimento retórico possui
funções específicas e recursos microestruturais para
desempenhá-las.

Para a análise do nosso exemplo de texto é adequada essa


concepção mais flexível de organização dos gêneros, assim
como de seus propósitos. O texto é uma reportagem? Uma
crônica jornalística? Uma crônica literária? Ou todos eles?
Temos alguns elementos de notícia/reportagem: manchete
(com um processo no tempo presente “constrói”), lead, fato
noticioso, foto, depoimentos. Também temos elementos de
crônica – um gênero híbrido, que mescla literatura e jornalis-
mo –, como sequências descritivas (a exemplo de descrições
físicas de Ivan) e narrativas (narração das ações de Ivan), além
da macro-organização narrativa do tipo problema-solução. O
texto inicia-se com a apresentação de Ivan como alguém que
escolheu ser “morador de rua”. Passa a narrar a história de Ivan,
com a problematização inicial e viradas narrativas tipicamente
literárias, que romantizam a situação de Ivan, como ocorre em:

(16) “Está tudo muito verde. Está faltando cor.


Isso aqui estava sem graça”. Ivan trouxe então a
policromia (...)

A última parte do texto é dedicada à “solução” para a


vida de Ivan: contar com a ajuda de “moradores solidários”
para ganhar alimentos (“metade de um frango assado” e uma
“garrafa de iogurte de morango”) e outros ‘presentes’.
Podemos verificar que além de o texto dissimular a
grave situação de descaso para com Ivan e de reificá-la

128
Análise de Discurso (para a) Crítica: O texto como material de pesquisa

como sendo uma “opção de vida”, a estrutura genérica, ou os


movimentos retóricos, contribuem para legitimar relações de
dominação por meio da narrativização (Thompson, 2002a),
em uma história romantizada cujo herói é Ivan, mas o qual
só existe em função da pressuposta bondade de moradores/
as da quadra. A narrativização serve, também, para legitimar
a ideia de que Ivan só está nas ruas porque é doente mental
e assim o quis:

(17) Esta não é a primeira vez que Ivan constrói


jardins na 307 Sul. Há cinco anos, ele esteve por lá,
conta o motorista de táxi José Mendonça, 71 anos,
37 de praça, 26 no mesmo ponto. “Fez um jardim, só
que, coitado, era época de seca, mas mesmo assim
ele fez. Agora voltou e do mesmo jeitinho, não ficou
nem um pouquinho mais velho”. Da vez anterior,
Ivan não falava do vovô ilustre.
Mas contava que Deus estava “umbicando o plane-
ta”. (Nem o Houaiss nem o Aurélio registram o verbo
“umbicar”. O que mais se aproxima, foneticamente,
é “imbicar”, dar rumo certo, dirigir).

Na “crônica jornalístico-literária”, a narração constrói a


“insanidade” de Ivan – constrastada com discursos de sanidade
e autoridade, como no caso do “dicionário”, –, legitimando
a situação de Ivan como uma escolha de cunho individual, e
não uma falha do Estado e da sociedade, o que é reforçado,
no final do texto, com a própria voz de Ivan:

(18) “(...) esse progresso todo, carro, moto, micro-


ondas, amaciante de roupa, não serve para nada. A
responsabilidade é pessoal. Ninguém é julgado pela
cabeça de ninguém”.

129
Análise de Discurso (para a) Crítica: O texto como material de pesquisa

4.2.4 Identificação relacional

Como vimos, o significado identificacional está relacio-


nado ao aspecto discursivo de identidades, à identificação
de atores sociais em textos. No significado identificacional,
analisamos a construção de identidades e a identificação de
atores sociais, isto é, a construção de modos particulares de
identificação de atores sociais representados em textos.
Pelo princípio da dialética entre os significados, a cons-
trução discursiva de identidades relaciona-se também ao
significado representacional (representação) e ao significado
acional/relacional (relações sociais e papéis sociais). Como
explica Resende (2009a, p. 41),

Além dos discursos interiorizados em processos de


identificação, também as relações sociais têm efeito
nos modos como (nos) identificamos em interações,
se entendemos que os processos identificacionais
estão ligados às posições ocupadas por atores so-
ciais. Sayer (2000: 13) chama atenção para a relação
interna entre os papéis e posições que as pessoas
ocupam e suas identidades: “no mundo social, os
papéis das pessoas e suas identidades frequentemente
são internamente relacionados, de modo que o que
uma pessoa ou instituição é ou pode fazer depende
de suas relações com outras”. Para discutir essa
relação entre posição e identificação, Sayer recorre
ao exemplo do aspecto relacional do que significa
ser um/a professor/a, que não pode ser explicado
no nível do indivíduo, mas apenas em termos de
sua relação com estudantes, e vice-versa. Assim,
a construção de identidades e de identificações
também está ligada aos processos representacionais
de classificação, de elaboração de semelhanças e
diferenças (Fairclough, 2003a).

130
Análise de Discurso (para a) Crítica: O texto como material de pesquisa

A identificação relacional diz respeito à identificação


de atores sociais em textos em termos das relações pessoais,
de parentesco ou de trabalho que têm entre si. Esse tipo de
identificação é ‘relacional’ no sentido de que depende das
relações sociais estabelecidas e das posições que os atores
sociais ocupam (Resende, 2009a).

A construção de identidades e de identificações relaciona-


se ao significado identificacional, mas também está
ligada aos processos de classificação, de elaboração de
semelhanças e diferenças (significado representacional),
e aos processos de construção, manutenção e subversão
de papéis sociais e relações sociais (significado acional/
relacional).

A identificação de Ivan contrói-se de duas maneiras no


texto: (1) como lunático, delirante, louco; e (2) como benefi-
ciário de caridade. No primeiro caso, utilizam-se vocabulário
específico (“delírio”, “errático”, “andarilho”, “fantasia”) e re-
presentação da fala de Ivan por discurso direto (veja adiante, na
análise de intertextualidade). Essa construção identificacional
predomina nas primeiras partes do texto. No segundo caso,
da identificação de Ivan como beneficiário de caridade/ soli-
dariedade, dizemos que a identificação é relacional porque a
construção da ‘imagem’ de Ivan como beneficiário depende da
representação das relações sociais que estabelece, denotando
a continuidade entre os aspectos relacional e identificacional
no texto. Vejamos:

(19) Tem por ferramenta apenas uma pá de pedreiro,


presente de um motorista de táxi do ponto ao lado.

(20) “Fez um jardim, só que, coitado, era época de


seca, mas mesmo assim ele fez.” (voz do taxista)

131
Análise de Discurso (para a) Crítica: O texto como material de pesquisa

(21) Passava pouco das 11h, quando uma moradora da


quadra trouxe para Ivan, na volta do supermercado,
dois sacos plásticos: um com metade de um frango
assado e outro com uma garrafa de iogurte de mo-
rango.

(22) Outra moradora (...) traz um saco plástico com pães.


Conta que todos os dias passa por ali e leva algo para
Ivan comer.

(23) Ivan agradece e comenta (...): “Comer não é pro-


blema. Recebo a solidariedade dos moradores dos
edifícios”.

Assim, temos a representação de Ivan como felizardo be-


neficiário da caridade e da simpatia de “moradores solidários” e
do taxista amigo, como em (19), (21), (22). No excerto (23), o
próprio Ivan identifica-se assim, na representação de sua fala, che-
gando a afirmar, segundo o/a locutor/a, “já fiz muitas amizades”.
O que não se questiona no texto é se esse tipo de relação poderia
mesmo ser classificado como ‘amizade’. De um/a amigo/a espera-
se um convite para almoçar em sua casa ou sacos plásticos com
comida? Espera-se a satisfação de necessidades imediatas ou o
apoio na luta pela resolução dos problemas geradores dessas ne-
cessidades não satisfeitas? Saberão esses “moradores solidários”
e o/a locutor/a que o Estado brasileiro tem responsabilidades e
que Ivan tem direitos assegurados em lei?
A relação entre pessoas em situação de rua e a sociedade
‘incluída’ é tênue, apenas raramente ultrapassando a piedade3
(veja-se a identificação de Ivan como “coitado”, no excerto
20) e a caridade (“comer não é problema”). Sem afirmá-lo
claramente, o texto insinua que não há ouvidos para a voz
‘delirante’ de Ivan: “Ele repete a mesma história diversas para
quem se dispuser a ouvir”.

3 Sobre isso, veja Resende (2009c).

132
Análise de Discurso (para a) Crítica: O texto como material de pesquisa

4.2.5 Intertextualidade

A intertextualidade, conceito proveniente das discussões


de Bakhtin (1997), diz respeito à “propriedade que têm os tex-
tos de ser cheios de fragmentos de outros textos” (Fairclough,
2001, p. 114). Em textos específicos, a ausência, a presença,
assim como a natureza da articulação desses outros textos, que
constituem “vozes particulares”, permitem explorar práticas
discursivas existentes na sociedade e a relação entre elas.
De acordo com Fairclough (2001, p. 29), a presença de uma
voz específica, articulada de maneira também específica, em
vez de outras, sinaliza o posicionamento do texto em lutas
hegemônicas.

Em ADC, a polifonia – presença de muitas vozes em


textos – e a intertextualidade – relação dialógica entre
textos, entendidos de modo amplo – são propriedades
intimamente relacionadas. Em textos específicos, a
ausência ou a presença de vozes provenientes de
textos diversos, assim como a natureza da articulação
dessas ‘vozes particulares’, permitem explorar práticas
discursivas existentes na sociedade e a relação entre elas.

Constitui, em princípio, uma categoria analítica acional,


pois é um traço textual moldado por gêneros. Gêneros espe-
cíficos articulam vozes de maneiras específicas. A articulação
dessas vozes, que podem ser, por exemplo, explicitamente
delimitadas na representação por discurso direto; mescladas,
por discurso indireto; assimiladas, em pressuposições; ou
ainda ecoadas ironicamente, tende a ser disciplinadora ou
transformadora em relação a lutas de poder. A análise do
aspecto intertextual de textos, segundo Fairclough (2003a,
p. 41), deve ser orientada pela observação da abertura ou do
fechamento da diferença, isto é, dos variados graus de dialo-
gicidade com as vozes recontextualizadas. A representação em

133
Análise de Discurso (para a) Crítica: O texto como material de pesquisa

discurso direto, por exemplo, tende à abertura da diferença


entre a voz, do/a locutor/a e voz representada, ao passo que
a pressuposição costuma anular diferenças entre a voz do/a
locutor/a e a voz recontextualizada.
Assim como a intertextualidade, a pressuposição conecta
um texto a outros textos. No entanto, ao contrário da primeira,
a pressuposição não é explicitamente atribuída a vozes ou
textos específicos, o que sugere alto grau de engajamento do/a
locutor/a com o que enuncia. Fairclough (2001, p. 155) define
pressuposições como “proposições tomadas pelo produtor
do texto como já estabelecidas ou ‘dadas’”, que podem ser
engatilhadas por diversos recursos linguísticos. Essas propo-
sições são incluídas por Ducrot (1977, p. 32) na categoria de
implícitos não-discursivos, ou seja, implícitos que decorrem
necessariamente do sentido acionado por marcadores lin-
guísticos, que podem ser sentenças clivadas, verbos factivos,
artigos definidos, e outros. Como, de acordo com Fairclough
(2003a, p. 47), “apontam para o consenso, a normalização e
a aceitação, suprimindo diferenças de poder”, pressuposições
constituem um aspecto relevante do potencial ideológico da
intertextualidade.
No texto em foco, além da voz do/a jornalista, aparecem
as vozes de Ivan, do taxista e das moradoras. Essas relações
intertextuais, divididas entre discurso direto, discurso indireto
e relato de ato de fala, são fundamentais para a constituição
do texto, dominando boa parte de sua extensão.

A intertextualidade é a combinação da voz de quem


pronuncia um enunciado com outras vozes que lhe
são articuladas. Essas vozes podem ser articuladas
não apenas em discurso direto, quando se atualizam
as palavras exatas do texto anterior, mas também em
discurso indireto, parafraseando, resumindo, ecoando.
O relato de ato de fala, outro caso de intertextualidade,

134
Análise de Discurso (para a) Crítica: O texto como material de pesquisa

acontece quando não se explicita o conteúdo do ato de


fala (por exemplo, quando se afirma ‘ele gritou’).

Vejamos as instâncias de articulação da voz de Ivan. Para


melhor visualização, vamos utilizar itálico para as ocorrências
de discurso direto, negrito para discurso indireto e sublinha
para relato de ato de fala.

(24) Acocora-se na grama e vai retirando entulhos (“isto


aqui estava feio demais”) e abrindo pequenas covas
com as mãos de dedos longos e ossudos.

(25) A verdejante monotonia o intriga. “Está tudo muito


verde. Está faltando cor. Isso aqui estava muito sem
graça.” Ivan trouxe então a policromia.

(26) “A cor anima o estado de espírito, humaniza a


estupidez”, diz com surpreendente fluência de vo-
cabulário.

(27) “Faço isso pra passar o tempo, pra não ficar muito
ansioso, enquanto espero Fernando Henrique Car-
doso, meu vovô, vir me buscar. Ele vem com minhas
irmãs Gisele Bündchen, Celine Dion e Juliana Paes.
Vamos para Toronto, no Canadá, Celine tem uma
propriedade lá. Eles vão me trazer um belo par de
tênis, roupa limpa, mas antes vou ter de tomar um
banho de sabonete.”

(28) Ele repete a mesma história diversas vezes para quem


se dispuser a ouvir.

(29) Em alguns momentos, conta pedaços de sua vida


que parecem estar conectados com a realidade. diz
que nasceu no Rio de Janeiro quando ainda se
chamava Estado da Guanabara, que morou em
Laranjeiras. O sotaque carioca é a prova de que
Ivan não vive apenas na imensidão da fantasia.

135
Análise de Discurso (para a) Crítica: O texto como material de pesquisa

(30) conta que teve mãe, mas não teve “papai humano”.
Que tem duas irmãs “de carne e osso”, Rosinha
e Teresinha, “mais as três outras que eu não sabia
(Gisele, Celina e Juliana), as celebridades”.

(31) Que já foi operador de máquina, servente de


pedreiro e vigilante. Que veio de Vilhena, Rondô-
nia, “a dois mil quilômetros daqui”. Que conhece a
América Central (“Nicarágua, Guatemala, Costa
Rica, Panamá, El Salvador”). diz que não entrou
no México porque “a imigração não deixou”, mas
que agora vai à Polícia Federal providenciar o
passaporte “com uma foto cinco por sete”. De To-
ronto vai para Tóquio e Bagdá, ele, o vovô e as três
irmãs.

(32) Mas contava que Deus estava “umbicando o pla-


neta”.

(33) Ivan continua crente que Nosso Senhor está umbican-


do a Terra, o que significa “levando para baixo tudo
o que não presta, ladrão, traficante, assaltante”. Ele
conta que, dia desses, um adolescente se sentou ao
lado dele, no banquinho do seu jardim, e pergun-
tou se ele “não tinha um bagulho pra vender”.

(34) diz que as únicas coisas de errado que faz são


fumar (“cigarro de palha porque não tem nicotina”)
e tomar café. Que já bebeu cerveja, mas hoje quer
distância.

(35) Ivan agradece e comenta, depois que dona Walkyria


sai: “Comer não é problema. Recebo a solidariedade
dos moradores dos edifícios. Já fiz muitas amizades.
Se as pessoas estão gostando de mim, isso é muito
bom”.

(36) Ivan divide o mundo entre o bem e o mal, Deus e


“aquele” (Ivan pronuncia o nome Lúcifer só uma vez
e com uma expressão de repulsa). O jardineiro das

136
Análise de Discurso (para a) Crítica: O texto como material de pesquisa

flores de tampa de garrafa diz que, quando Nosso


Senhor umbicou o mundo, separou os bons dos
maus, porque “esse progresso todo, carro, moto,
micro-ondas, amaciante de roupa, não serve para
nada. A responsabilidade é pessoal. Ninguém é jul-
gado pela cabeça de ninguém”. avisa que, depois
que Deus umbicou o mundo, “só vai cair quem
estiver com perfume podre por dentro”.

Esse levantamento das instâncias de articulação da voz


de Ivan no texto e dos modos como a relação intertextual se
estabelece (por meio de discurso direto, discurso indireto ou
relato de ato de fala) nos permite perceber que o discurso
direto como modo de articulação da voz de Ivan é utilizado
quando o assunto é a construção do jardim, em instâncias que
apresentam uma visão bucólica da vida de Ivan; quando se
relatam delírios de Ivan, ridicularizando-o por meio de sua
própria voz e localizando o problema no nível do indivíduo;
quando se exalta a solidariedade das moradoras, reduzindo o
problema à caridade.
O discurso indireto é a opção preferida para contar fatos
(não delirantes) da vida pregressa de Ivan. Quando se opta
pelo discurso indireto para relatar delírios de Ivan, aparece
o complemento de discurso direto no mesmo período (como
no último excerto destacado). O relato de ato de fala ocorre
em três excertos, dois deles denotando a carência de lucidez
de Ivan.
Assim, temos que o/a locutor/a sistematicamente opta
por articular a voz de Ivan com a atualização (supostamente)
exata de suas palavras quando essas palavras o ridicularizam
ou o caracterizam como louco. Essa decisão (no nível da ação
discursiva) tem efeito na identificação de Ivan e na legitima-
ção de formas particulares de se compreender o problema da
situação de rua.

137
Análise de Discurso (para a) Crítica: O texto como material de pesquisa

No que se refere à seleção de verbos dicendi, nota-se


a predominância de instâncias com ‘dizer’ e ‘contar’. Não
aparecem, por exemplo, verbos como ‘asseverar’, ‘afirmar’,
‘garantir’, verbos reservados à articulação, em textos, de
vozes mais legitimadas socialmente. As exceções a ‘dizer’ e
‘contar’ são apenas cinco: ‘repetir’, ‘agradecer’, ‘comentar’ e
‘avisar’. A instância com ‘agradecer’ e ‘comentar’ serve para
exaltar a ‘solidariedade’ da moradora que traz sacos com co-
mida (35); aquela com ‘repetir’ (28) enfatiza a insanidade de
Ivan (“repete a mesma história diversas vezes”), e o mesmo
observa-se na instância com ‘pronunciar’ (36); e a ocorrência
de “avisar” (36) é carregada de ironia, já que o conteúdo do
‘aviso’ – “Avisa que, depois que Deus umbicou o mundo, ‘só
vai cair quem estiver com perfume podre por dentro’” – não
se alinha com a carga semântica desse verbo dicendi. Fica
claro que o/a locutor/a não acredita no ‘aviso’ de Ivan nem
espera que seus/suas leitores/as o façam: avisar é uma ação
discursiva desalinhada com a identificação de Ivan no texto.
A respeito da intertextualidade, ainda é relevante analisar
as pressuposições presentes no texto. Como apontamos, vo-
zes podem ser “assimiladas” por meio de pressuposições, ou
seja, por “proposições tomadas pelo produtor do texto como
já estabelecidas ou ‘dadas’, suprimindo diferenças de poder”
(Fairclough, 2001, p. 155; 2003a, p. 47). Destacamos do texto
dois exemplos representativos de pressuposição:

(37) É para driblar a ansiedade que Ivan da Cunha, ca-


rioca, 57 anos, quixotescamente magro e inquieto,
constrói um jardim de plantas naturais enfeitadas
com peças de plástico, de metal, de papel (...)

(38) (...) que o lixo lhe oferece em sua vida de morador


de rua. Ivan entremeia natureza e objetos, realidade
e delírio no seu errático viver.

138
Análise de Discurso (para a) Crítica: O texto como material de pesquisa

Em (37), a pressuposição, acionada pela sentença clivada


“É para driblar que”, é ‘Ivan constrói jardins para driblar a
ansiedade’. Corroborando as análises iniciais, vemos, aqui,
o/a locutor/a tomar como dada a suposta verdade de que Ivan
constrói jardins por opção, e não por estar completamente
desassistido de direitos básicos, como saúde, alimentação,
moradia. Em (38), há mais uma ocorrência de pressuposição,
desta vez acionada por artigo definido. A passagem “no seu
errático viver” pressupõe, mais uma vez, a escolha de Ivan por
viver, sem moradia fixa, pelas ruas, ou ‘pelo mundo’, como
o texto permite inferir. Essa análise converge com a maneira
como processos (“viver”) são nominalizados no texto: “seu
viver”, “sua vida de morador de rua” (cf. “representação de
eventos/atores sociais”, no Quadro 6, Seção 4.1), construindo,
assim, uma representação naturalizada da situação de Ivan.
A pressuposição, como observa Fiorin (2002, p. 182),
tende a levar o/a leitor/a a aceitar certas ideias, porque são
impostas como verdadeiras. No texto, está dada como certa
e inquestionável a ‘opção’ de Ivan por ser um “andarilho-
jardineiro”. Esses sentidos, impostos como verdadeiros,
contribuem para retratar um problema social e histórico como
sendo um acontecimento permanente e natural.

4.2.6 Processos de transitividade e estruturas visuais

Para dar continuidade às reflexões iniciadas, vamos


abordar, aqui, duas categorias diretamente ligadas ao signi-
ficado representacional, moldado por discursos particulares:
processos de transitividade e estrutura visual.
Segundo a LSF, a macrofunção ideacional da linguagem,
relacionada a maneiras como experienciamos e representamos o
mundo, associa-se ao sistema lexicogramatical da transitividade.
Nesse sistema, selecionamos processos (grupos verbais) materiais,

139
Análise de Discurso (para a) Crítica: O texto como material de pesquisa

comportamentais, mentais, verbais, relacionais e existenciais,


que são associados a diferentes papéis de participantes (grupos
nominais) em diferentes circunstâncias (grupos adverbiais) (Silva,
2007). De acordo com Halliday (2004, p. 172), os processos prin-
cipais são os materiais, pelos quais se representam ações, eventos;
os mentais, que representam percepções, emoções; e os relacionais,
que identificam, caracterizam participantes. Os secundários, que
se encontram nas fronteiras entre os principais, são os comporta-
mentais, que representam comportamentos humanos; os verbais,
que representam ações de dizer, pronunciamentos, e, por fim, os
existenciais, que representam o que existe.
Pela análise das seleções particulares de processos de
transitividade em textos, podemos investigar as maneiras
como o/a locutor/a representa aspectos do mundo. As esco-
lhas no sistema de transitividade “permitem analisar quem
faz o quê, a quem e em que circunstâncias” (Cunha & Souza,
2007, p. 54) (cf. “representação de eventos/atores sociais”, no
Quadro 6, seção 4.1).
Na análise da intertextualidade, notamos que a voz de
Ivan é articulada no texto em discurso direto para atestar sua
insanidade. O/a locutor/a seleciona processos verbais (“conta”,
“diz”) para representar Ivan: processos que se situam entre
o processo mental (que representa emoções, percepções) e
o relacional (que identifica, caracteriza participantes). Ou
seja, não há declaração explícita do/a jornalista a respeito da
insanidade de Ivan; ao contrário, é o próprio Ivan, por meio
de sua voz, que se identificaria como ‘louco’. Nas demais
ocorrências, os processos são predominantemente materiais,
inclusive quando se representa o ‘trabalho’ de Ivan (“vai
retirando (...) e abrindo”, “acocora-se”, “retira”, “constrói”).4

4 Não é nossa intenção, aqui, aprofundar a discussão em torno do sistema de


transitividade. Para uma discussão pormenorizada dessa categoria, suge-
rimos a consulta a Silva (2007), Guio & Fernández (2005), G. Thompson
(2004), além, é claro, de Halliday (2004).

140
Análise de Discurso (para a) Crítica: O texto como material de pesquisa

Com base na LSF, Kress & van Leeuwen (1996, 2001)


propõem uma abordagem para análise crítica de textos multi-
modais, isto é, que conjugam diversos modos de linguagem. Na
“gramática da linguagem visual”, que descreve modos cul-
turalmente definidos por meio dos quais imagens se articulam
em composições visuais, as imagens são concebidas em termos
das mesmas macrofunções da linguagem verbal (ideacional,
interpessoal e textual, segundo a LSF). Assim como a lingua-
gem verbal, as imagens atuam como forma de representação,
como troca de experiência e como mensagem. Entretanto, o que
na linguagem verbal é realizado, por exemplo, por diferentes
classes e estruturas semânticas, na linguagem visual realiza-se
por diferentes estruturas composicionais.
Para os autores, o design como representação pode ser
analisado segundo dois tipos de estruturas visuais: narra-
tiva e conceitual. Estruturas visuais que representam ações,
eventos, processos de mudança, arranjos espaciais transitó-
rios são narrativas. Nas estruturas conceituais, por seu turno,
participantes em imagens não desempenham ações, mas são
representados em termos de classe, significação, estrutura, ou
seja, de seus traços e características ‘essenciais’.5 Comple-
mentando a análise do(s) gênero(s) materializado(s) no texto
em análise, observamos que Ivan é representado na foto (um
elemento característico do jornalismo) não em termos de suas
ações de “jardineiro”, mas sim como um ‘representante’ de
sua classe, em uma estrutura visual do tipo conceitual (Silva
& Pardo Abril, 2010). Ele é representante da classe de pessoas
que ‘supostamente por problemas mentais, ou por opção, ou
por gosto, decidiram morar nas ruas’. A representação imagé-
tica reforça, assim, a construção de sentidos ideológicos que
deslocam a responsabilidade pública para a responsabilidade
privada, do indivíduo.
5 Outras categorias para a análise de imagens são discutidas em Kress & van
Leeuwen (1996).

141
Análise de Discurso (para a) Crítica: O texto como material de pesquisa

4.2.7 Interdiscursividade

Para a ADC, o foco de atenção da intertextualidade,


como vimos, são as vozes articuladas ou não nos textos,
assim como as maneiras como são articuladas. No que diz
respeito à interdiscursividade, por sua vez, a atenção volta-
se para os discursos articulados ou não nos textos, bem como
as maneiras como são articulados e mesclados com outros
discursos (cf. “discursos”, no Quadro 6, seção 4.1). Embora a
interdiscursividade envolva hibridizações não só de discursos,
mas também de gêneros e estilos, frequentemente pela análise
da interdiscursividade investigamos discursos articulados em
textos e suas conexões com lutas hegemônicas mais amplas.
A interdiscursividade é, em princípio, uma categoria
representacional, ligada a maneiras particulares de represen-
tar aspectos do mundo. Discursos particulares associam-se
a campos sociais, interesses e projetos particulares, por isso
podemos relacionar discursos particulares a determinadas
práticas. É possível identificar diferentes discursos observando
as diferentes maneiras de “lexicalizar” aspectos do mundo
(Fairclough, 2003a).
No texto em análise, por exemplo, Ivan é representado
como “morador de rua”, mas poderia ter sido designado como
“trecheiro”, “cidadão”, “vagabundo”, “ser humano”, “pessoa
em situação de rua”, “homem”, “mendigo”. A escolha dos
modos de representação depende dos interesses particulares
e das práticas/ posições enfatizadas na representação.
Note-se a diferença de significado da palavra ‘morador’
em “morador de rua” e em “moradores solidários” ou “mo-
radora da quadra” – embora se trate do mesmo item lexical,
a palavra assume significado muito diverso quando colocada
ao lado de ‘de rua’na lexia já cristalizada. A categorização
influencia os modos como as pessoas agem e pensam sobre

142
Análise de Discurso (para a) Crítica: O texto como material de pesquisa

uma dada situação, por isso a preocupação com a questão da


classificação é essencial. Termos como ‘sem-teto’ e ‘morador/a
de rua’ naturalizam o estado dessas pessoas como condição
permanente. Sobre isso, Resende (2009c, p. 365-6) explica:

A situação de rua tem sido representada com


frequência por meio da expressão ‘moradores/as
de rua’. Ora, há uma contradição evidente nessa
classificação: o que determina o fato de alguém
ser um/a ‘morador/a’ é possuir um endereço, um
local onde ‘mora’. Pois isso é justamente o que (ou
melhor, uma das coisas que) um/a ‘morador/a de
rua’ não tem.
Por meio de classificações que legitimam a diferença,
a injustiça social é naturalizada, conforme a concep-
ção de Thompson (2002a), e deixa de ser questionada
como injustiça, passando a ser compreendida como
um estado natural de coisas.

Assim, ao classificar Ivan como “morador de rua”, o texto


filia-se a um discurso que naturaliza essa situação, afastando
qualquer questionamento a respeito desigualdade social (“sua
vida de morador de rua”). Note-se que a alta densidade de
verbos no presente também atua na reificação da situação de
rua, representada como permanente.
Lembremos, com Fairclough (2003a), que lutas hegemô-
nicas envolvem disputas pela legitimação e universalização
de uma representação particular de mundo como se fosse a
única possível, legítima e aceitável. A acomodação das socie-
dades contemporâneas à pobreza extrema e a invisibilidade
de pessoas em situação de rua são problemas parcialmente
discursivos, atrelados à naturalização de discursos acerca da
precarização social e à dissimulação de questões sociais graves
(Resende, 2009c).

143
Análise de Discurso (para a) Crítica: O texto como material de pesquisa

No texto em análise, podemos identificar outros discursos


ideologicamente relevantes:

(39) Em alguns momentos, conta pedaços de sua vida que


parecem estar conectados com a realidade. Diz que
nasceu no Rio de Janeiro quando ainda se chamava
Estado da Guanabara, que morou em Laranjeiras. O
sotaque carioca é a prova de que Ivan não vive apenas
na imensidão da fantasia. Conta que teve mãe, mas
não teve “papai humano”. Que tem duas irmãs “de
carne e osso”, Rosinha e Teresinha, “mais as três
outras que eu não sabia (Gisele, Celina e Juliana),
as celebridades”.

(40) Mas contava que Deus estava “umbicando o planeta”.


(Nem o Houaiss nem o Aurélio registram o verbo
“umbicar”. O que mais se aproxima, foneticamente,
é “imbicar”, dar rumo certo, dirigir).

(41) Retira mudas de jardins abandonados nas proximi-


dades e monta o seu próprio paraíso verde.

(42) Ivan continua crente que Nosso Senhor está um-


bicando a Terra, o que significa “levando para
baixo tudo o que não presta, ladrão, traficante,
assaltante”. Ele conta que, dia desses, um adoles-
cente se sentou ao lado dele, no banquinho do seu
jardim, e perguntou se ele “não tinha um bagulho
pra vender”. Ivan lembra o episódio com alguma
indignação. Diz que as únicas coisas de errado que
faz são fumar (“cigarro de palha porque não tem
nicotina”) e tomar café. Que já bebeu cerveja, mas
hoje quer distância.

No excerto (39), é relevante observar que aquilo que o/a


locutor/a designa como “realidade” (“Em alguns momentos,
conta pedaços de sua vida que parecem estar conectados com
a realidade”) inclui a questionável dissolução de fronteiras

144
Análise de Discurso (para a) Crítica: O texto como material de pesquisa

entre o público e o privado. As “celebridades” (Gisele, Celina e


Juliana) estão associadas ao que é visto pelo/a locutor/a como
conectado com a realidade. Tal representação se filia a um tipo
de discurso que concebe o público cada vez mais colonizado pelo
privado, por indivíduos e não por cidadãos/ãs, o que, conforme
discutimos no Capítulo 2, “despolitiza” a sociedade, que passa
a se caracterizar cada vez mais “pelo consumo privado de
bens e meios de comunicação do que pelas regras abstratas da
democracia ou pela participação em organizações políticas”
(Canclini, 2006, p. 29).
Em (41) e (42), o autor mescla a voz de Ivan com o dis-
curso religioso, que divide bem e mal e condena ações como
fumar e beber. É notável a articulação de discursos discipli-
nadores com a voz de Ivan, o que, no texto, representa a “co-
erência interna no delírio de Ivan”. A ‘coerência interna’, ao
que parece, está na consonância de Ivan com instituições dis-
ciplinadoras, como a igreja (“paraíso verde”, “Nosso Senhor”,
“coisas de errado”) e a polícia (“levando para baixo tudo o
que não presta, ladrão, traficante, assaltante”). O excerto (40)
também traz um exemplo de discurso normatizador, ligado ao
controle da língua (Nem o Houaiss nem o Aurélio registram o
verbo “umbicar”), o que ainda serve como delimitador entre
o ‘normal’ e o ‘insano’.
Também é possível ver as vozes de ‘vizinhos/as’ de classe
média alta como associadas a um discurso normatizador: a
situação de rua de Ivan é celebrada, avaliada positivamente,
como em “Ele é muito carinhoso. Fica na chuva cuidando das
plantas”. O fato de Ivan ‘ficar na chuva’ poderia engendrar
uma discussão de sua situação – uma pessoa que não conta
com um teto para abrigar-se da chuva. Mas a naturalização da
situação de rua age para o fechamento desse debate. Ivan é o
“andarilho-jardineiro”, o “jardineiro das flores de tampa de
garrafa”, e é representado como satisfeito com sua condição,
assim como parece satisfeita a ‘vizinhança’.

145
Análise de Discurso (para a) Crítica: O texto como material de pesquisa

4.2.8 Metáfora

A metáfora é, em princípio, um traço identificacional


de textos, moldado por estilos particulares. Segundo Lakoff
& Johnson (2002), a essência da metáfora consiste em “com-
preender uma coisa em termos de outra”. Como os autores
observam, nosso sistema conceitual é metafórico por nature-
za, isto é, sempre compreendemos aspectos particulares do
mundo, de acordo com nossa experiência física e cultural,
em termos de outros aspectos, estabelecendo correlações. Os
conceitos metafóricos que estruturam nossos pensamentos,
ainda segundo os autores, também estruturam nossa percep-
ção, nosso comportamento, nossas relações, nossa identidade
pessoal e social.
As metáforas moldam significados identificacionais em
textos, pois, ao selecioná-las num universo de outras possibi-
lidades, o/a locutor/a compreende sua realidade e a identifica
de maneira particular, embora orientada por aspectos culturais
(cf. “estilos”, no Quadro 6, seção 4.1). Ocorre, então, como
Fairclough (2001, p. 241) observa, que “todos os tipos de me-
táfora necessariamente realçam ou encobrem certos aspectos
do que se representa”.

A essência da metáfora é, segundo Lakoff & Johnson


(2002), “compreender uma coisa em termos de outra”.
As metáforas moldam significados identificacionais em
textos, pois, ao selecioná-las num universo de outras
possibilidades, o/a locutor/a compreende sua realidade
e a identifica de maneira particular.

Lakoff & Johnson (2002, p. 50) discutem três tipos de


metáforas. As metáforas conceituais, pelas quais compreende-
mos aspectos de um conceito em termos de outro (excerto 43, a
seguir); as metáforas orientacionais, pelas quais organizamos

146
Análise de Discurso (para a) Crítica: O texto como material de pesquisa

conceitos em relação a uma orientação espacial (excertos 44


e 45), e, por fim, as metáforas ontológicas, em que compre-
endemos nossas experiências em termos de entidades, objetos
e substâncias (excertos 46 e 47).

(43) É para driblar a ansiedade que Ivan da Cunha, cario-


ca, 57 anos, quixotescamente magro e inquieto (...)

(44) Ivan continua crente que Nosso Senhor está umbi-


cando a Terra, o que significa “levando para baixo
tudo o que não presta, ladrão, traficante, assaltante”.

(45) Avisa que, depois que Deus umbicou o mundo, “só


vai cair quem estiver com perfume podre por den-
tro”.

(46) (...) constrói um jardim de plantas naturais, enfeitadas


com peças de plástico,de metal, de papel o lixo lhe
oferece em sua vida de morador de rua.

(47) Em alguns momentos, conta pedaços de sua vida


que parecem estar conectados com a realidade.

No excerto (43), além da metáfora que concebe a difícil


vida de Ivan em termos de um ‘jogo’ (“driblar”), há uma das
principais metáforas responsáveis por construir não só o estilo
da crônica jornalístico-literária, mas também a identificação de
Ivan, e do/a próprio/a jornalista. Por meio da metáfora presente
em “quixotescamente”, o/a locutor/a manifesta sua maneira de
compreender a situação de Ivan, aproximando-o do personagem
de Cervantes – Dom Quixote, o cavaleiro andante, cujos feitos
oscilam entre a fantasia e a realidade, tal qual Ivan é representado
no texto: como o “andarilho-jardineiro” herói. Essa compreensão
‘romântica’ (excertos 48 e 49, a seguir), ‘heroica’ (excertos 50 e
52), ‘visionária’ (excertos 48, 49 e 51) da condição dramática de
Ivan é corroborada por outras passagens do texto:

147
Análise de Discurso (para a) Crítica: O texto como material de pesquisa

(48) Ivan entremeia natureza e objetos, realidade e delírio


no seu errático viver.

(49) O sotaque carioca é a prova de que Ivan não vive


apenas na imensidão da fantasia.

(50) “Agora voltou e do mesmo jeitinho, não ficou nem


um pouquinho mais velho”.

(51) Ivan divide o mundo entre o bem e o mal (...)

(52) O jardineiro das flores de tampa de garrafa (...)

Para um/a leitor/a que conheça o clássico Dom Quixote,


não é difícil perceber a associação sugestiva entre “o Cavaleiro
da Triste Figura” e “o jardineiro das flores de tampa de garrafa”
(excerto 52). Essa maneira particular de identificar Ivan dissi-
mula relações de dominação, ocultando, obscurecendo o sério
problema da desigualdade social, na medida em que reconhece
como “feito” a luta incessante de Ivan pela sobrevivência.
Nos demais excertos, temos apreciações, selecionadas
pelo/a jornalista, sobre o que Ivan consideraria ruim (excertos
44 e 45), na forma de metáforas orientacionais que apontam
“para baixo”, já que na cultura ocidental geralmente o que é
ruim é compreendido pela espacialização para baixo, conforme
Lakoff e Johnson (2002). E, ainda, temos metáforas ontológi-
cas, pelas quais o/a locutor/a compreende a vida de Ivan em
termos de um objeto (“pedaços”, excerto 47), cuja existência
é assegurada pelo “lixo”, que, ao contrário da vida de Ivan, é
personificado (excerto 46).

4.2.9 Representação de atores sociais

A representação de atores sociais é uma categoria de


análise textual relacionada diretamente ao significado repre-

148
Análise de Discurso (para a) Crítica: O texto como material de pesquisa

sentacional e a discursos particulares. Conforme estudos de


van Leeuwen (1997, 2008), uma das principais referências no
assunto, representações de práticas sociais são particulares,
ou seja, construídas por pessoas particulares e a partir de
determinados pontos de vista, e, por isso, representam atores
envolvidos nas práticas de diferentes maneiras. Por exemplo,
atores podem ser excluídos de textos; podem ser incluídos mas
ter sua agência ofuscada, ou enfatizada; podem ser represen-
tados por suas atividades ou enunciados; podem ser referidos
por meio de julgamentos acerca do que são ou do que fazem,
e assim por diante.
Como van Leeuwen (2008) propõe, os modos pelos
quais atores podem ser representados em textos não estão
rigorosamente relacionados a formas linguísticas, mas sim
a escolhas socio-semânticas, daí o conceito de “ator social”.
Por serem relacionadas a discursos particulares, as maneiras
como atores sociais são representados em textos podem ter
implicações ideológicas. A seguir apresentamos um quadro
simplificado das maneiras como atores sociais podem ser
representados em textos:

149
Análise de Discurso (para a) Crítica: O texto como material de pesquisa

Quadro 8 – Sistema simplificado de escolhas para representação


de atores sociais

Supressão
Exclusão
Colocação Em Segundo Plano

Ativação

Passivação

Participação

Circunstancialização

Possessivização

Funcionalização

Categori-
Identificação
zação

Avaliação
Inclusão Determinação
Nomeação
Determinação Única
Personalização Inversão
Sobredeter- Simbolização
minação Conotação
Destilação

Indeterminação

Generalização
Individualização
Especificação Coletivização
Assimilação
Agregação
Abstração
Impersonalização
Objetivação

Adaptado de Resende & Ramalho (2006), com base em van Leeuwen (1997, p. 219).

150
Análise de Discurso (para a) Crítica: O texto como material de pesquisa

Com base nesse quadro de escolhas socio-semânticas,


vemos que no texto em análise autoridades do Estado, por
exemplo, são excluídas da representação. Não há menção a
qualquer autoridade responsável por asssegurar o funciona-
mento do Estado no que diz respeito aos Direitos Humanos.
E esse é um dado ideologicamente relevante por contribuir
para dissimular a situação miserável de Ivan, abandonado pelo
Estado, apresentando-a como uma escolha de vida, individual
e heroica.
Outro dado relevante é a inclusão dos/as ‘vizinhos’ de
Ivan, por nomeação (atores representados pelos nomes) e
categorização por funcionalização (atores representados em
termos de atividades, ocupações, funções que desempenham)
e por identificação (atores representados por aquilo que “são”,
como sexo, idade, classe social, etnicidade, religião). Vejamos
alguns breves recortes:

(53) (...) motorista de táxi do ponto ao lado (...)

(54) (...) o motorista de táxi José Mendonça, 71 anos, 37


de praça, 26 no mesmo ponto

(55) uma moradora da quadra (...) Ana Luiza Rodrigues

(56) Outra moradora, Walkyria Oliveira, 81 anos, 47


morando em Brasília, na mesma quadra (...)

Note-se que a categorização por funcionalização só se


aplica ao taxista, identificado no texto por sua profissão, graças
à qual frequenta o ambiente onde se desenrola a história nar-
rada. Quanto aos /às moradores/as da quadra, essa informação
não é base para sua identificação, mas o fato de residirem na
região os/as posiciona na estrutura de classes, e essa posição
os/as identifica.

151
Análise de Discurso (para a) Crítica: O texto como material de pesquisa

Confirmando as análises anteriores, a inclusão desses ato-


res contribui para construir um cenário idealizado de amizade,
caridade, doação, ao contrário de um cenário de desigualdade
social. A participação dessas ‘pessoas caridosas’ na vida de
Ivan é representada em termos de estabilidade cidadã, ou seja,
dos nomes próprios (José Mendonça, Ana Luiza Rodrigues,
Walkyria Oliveira); de suas atividades (“motorista de táxi...
37 de praça, 26 no mesmo ponto”); de sua identificação por
idade, como nos excertos (54) e (56), e classe social (“mora-
dora da quadra”, “outra moradora...47 morando em Brasília,
na mesma quadra”), ao passo que Ivan é representado como
“morador de rua”:

(57) (...) constrói um jardim de plantas naturais enfeitadas


com peças de plástico, de metal, de papel que o lixo
lhe oferece em sua vida de morador de rua

Contrastando com a estabilidade da classe média alta,


Ivan, embora seja o ‘protagonista’ da crônica, é representado
uma única vez por referência ao nome completo, à naturalidade
ou à idade, e também uma única vez com referência a ativi-
dades relacionadas ao ‘mundo real’, conforme sugere o texto:

(58) Ivan da Cunha, carioca, 57 anos, quixotescamente


magro e inquieto (...)

(59) Conta (...) Que já foi operador de máquina, servente


de pedreiro e vigilante.

Ressalte-se, ainda, as maneiras como essas ocorrências
de representação do ator social Ivan estão articuladas no texto.
Em (58), a representação mais estável de Ivan vem seguida da
metáfora, já comentada, que remete Ivan ao mundo da fantasia,
da loucura. Da mesma forma, em (59), as funções “operador de

152
Análise de Discurso (para a) Crítica: O texto como material de pesquisa

máquina, servente de pedreiro e vigilante” de Ivan são postas


em xeque, por estarem relacionadas não ao que de fato ‘é’,
mas ao que Ivan “conta” (cf. análise da intertextualidade, em
4.2.5). O que Ivan de fato é, segundo o texto, está relacionado a
sua ‘função’ de “jardineiro das flores de tampa de garrafa”, de
“andarilho-jardineiro”.

4.2.10 Síntese dos resultados da análise

O exemplo de análise apresentado ilustra a produti-


vidade e a ampla aplicabilidade das categorias de análise
textual da ADC, associadas com os modos de operação da
ideologia, de Thompson (2002a). O texto analisado ofere-
ce bastante material para investigação, e a apresentação e
análise das categorias evidencia a funcionalidade da aná-
lise textual para mapear conexões causais entre problemas
sociais e discurso, em várias preocupações de estudo e
diversos tipos de texto.
Nosso objetivo com a análise empreendida foi ilustrar a
aplicação de diversas categorias a um texto utilizado como
exemplo. Voltamos a enfatizar que seria mais convencional
uma análise explorando poucas categorias em maior profun-
didade, e que toda análise é sempre seletiva e parcial. Não
há ‘receita’ para pesquisas em ADC – cada pesquisador/a
precisa se engajar pessoalmente no planejamento de seu
estudo e nas sucessivas escolhas que vão desde as decisões
ontológicas até as analíticas. Entretanto, esperamos que o
exemplo de análise que apresentamos aqui tenha lançado luz
sobre o tipo de exercício analítico envolvido em pesquisas
discursivas críticas.
A seguir, apresentamos um quadro-síntese dos principais
resultados de nossa análise:

153
Análise de Discurso (para a) Crítica: O texto como material de pesquisa

Quadro 9 – Síntese de resultados da análise de “Ivan, o andarilho jardineiro...”

Categorias Alguns resultados analíticos (síntese)

Ivan é representado como alguém que avalia positivamente sua


situação e sua relação com os/as moradores/as da localidade.

Avaliações positivas, repetidas e postas em relevo no texto,


Avaliação são bastante questionáveis pelo fato de dissimularem, por
meio de eufemismos, a situação nada positiva ou desejável
de um cidadão abandonado pelo Estado.

A situação de rua é naturalizada a ponto de ser avaliada


positivamente. Isso remete à análise da interdiscursividade.

Nenhuma instância no texto marca relações significativas que


explorem as conexões entre a situação de Ivan e o problema da si-
tuação de rua. O texto filia-se, portanto, à lógica de aparências, dis-
simulando questões relevantes para a compreensão do problema.
Os excertos em que se contam os ‘delírios’ de Ivan têm o efeito
de ridicularizá-lo, sem questionar o abandono desse senhor
Coesão que merece e tem direito a tratamento médico. Afirma-se
sua loucura sem afirmá-la diretamente, e não se menciona
seu abandono.
A narrativa da vida pregressa de Ivan tem como efeito a loca-
lização do problema no âmbito da família e do indivíduo. Isso
dissimula as responsabilidades da sociedade e do Estado pelos
problemas da situação de rua e da produção social da loucura.

Os movimentos retóricos contribuem para legitimar relações


de dominação por meio da narrativização, em uma história ro-
mantizada cujo herói é Ivan. A narrativização serve, também,
para legitimar a ideia de que Ivan só está nas ruas porque é
Estrutura ge- doente mental e assim o quis.
nérica
Na “crônica jornalístico-literária”, a narração constrói a
‘insanidade’ de Ivan, constrastada com discursos de sanida-
de e autoridade, legitimando a situação de Ivan como uma
escolha de cunho individual, e não uma falha do Estado e
da sociedade.

154
Análise de Discurso (para a) Crítica: O texto como material de pesquisa

A identificação de Ivan constrói-se de duas maneiras no texto:


como lunático, delirante, louco; e como beneficiário de caridade.
No primeiro caso, utilizam-se vocabulário específico e represen-
Identificação
tação da fala de Ivan por discurso direto. No segundo caso, a
relacional
identificação de Ivan como beneficiário depende da representa-
ção das relações sociais que estabelece, denotando a continuidade
entre os aspectos relacional e identificacional no texto.

O/A jornalista sistematicamente opta por articular a voz de


Ivan com a atualização (supostamente) exata de suas palavras
quando essas palavras o ridicularizam ou o caracterizam como
louco. Essa decisão (no nível da ação discursiva) tem efeito na
Intertextuali- identificação de Ivan e na legitimação de formas particulares
dade de se compreender o problema da situação de rua.

Toma-se como dada a suposta verdade de que Ivan constrói


jardins por opção, e não por estar completamente desassistido
de direitos básicos, como saúde, alimentação, moradia.

Não há declaração explícita a respeito da insanidade de Ivan;


Processos de
ao contrário, é o próprio Ivan, por meio de sua voz, que se
transitividade
identificaria como ‘louco’.

Ivan é representado imageticamente não em termos de suas


Estruturas
ações de “jardineiro”, mas sim como um ‘representante’ de
visuais
sua classe, em uma estrutura visual do tipo conceitual.

O texto filia-se a um discurso que naturaliza a situação de rua,


afastando qualquer questionamento a respeito da desigualdade
social. A alta densidade de verbos no presente também atua na
Interdiscursi- reificação da situação de rua, representada como permanente.
vidade
É notável a articulação de discursos disciplinadores com a
voz de Ivan, o que, no texto, representa a “coerência interna
no delírio de Ivan”, que parece estar na consonância de Ivan
com instituições disciplinadoras, como a igreja e a polícia.

Por meio de metáfora, Ivan é representado no texto como


o “andarilho-jardineiro” herói. Essa maneira particular de
identificar Ivan dissimula relações de dominação, ocultando,
Metáfora
obscurecendo o sério problema da desigualdade social, na
medida em que reconhece como “feito” a luta incessante de
Ivan pela sobrevivência.

155
Análise de Discurso (para a) Crítica: O texto como material de pesquisa

Autoridades do Estado são excluídas da representação; não


há menção a qualquer autoridade responsável por asssegurar
o funcionamento do Estado no que diz respeito aos Direitos
Humanos. Esse é um dado ideologicamente relevante por
Representa- contribuir para dissimular a situação miserável de Ivan,
ção de atores abandonado pelo Estado, apresentando-a como uma escolha
sociais de vida, individual e heroica.

A inclusão de diversas representações da ‘vizinhança’ e o


modo como são texturizadas contribuem para construir um
cenário idealizado de amizade, caridade, doação, ao contrário
de um cenário de desigualdade social.

O trabalho realizado sobre o texto é análise explanatória


porque conjuga teoria e material empírico para investigar
sentidos do texto, tendo em vista seus efeitos sociais. A análise
discursiva não se confunde com comentário, e só foi possível
chegar aos resultados apresentados porque categorias analíti-
cas associadas a conceitos foram aplicadas.
A análise aponta como diferentes gêneros, discursos e
estilos são materializados e articulados no texto de modo a
construir a ‘admirável narrativa heroica de Ivan’, o que, como
vimos, pode funcionar ideologicamente sobretudo por dissi-
mular relações de dominação e por representar a situação de
rua como permanente e natural, ao contrário de denunciá-la
como transitória, social, política, histórica, consequência de
ações de outros seres humanos.

156
Análise de Discurso (para a) Crítica: O texto como material de pesquisa

Posfácio

Neste livro, procuramos avançar em nossas discussões


anteriores sobre a Análise de Discurso Crítica de vertente
britânica; sem, contudo, torná-lo inacessível seja para leitores/
as iniciantes ou para leitores/as de outras áreas de conheci-
mento que utilizam os pressupostos teóricos e metodológicos
da ADC.
Iniciamos o livro com uma retomada geral de conceitos
centrais da disciplina para, em seguida, discutirmos a contri-
buição da ADC como suporte científico para estudos qualitati-
vos que utilizam o texto (entrevistas, imagens, reportagens, leis
etc.) como material empírico. Assim, no Capítulo 1, refletimos
sobre noções importantes para a compreensão da proposta
científica da ADC, tais como “discurso”, “poder como hege-
monia”, “ideologia”. Procuramos mostrar que essas noções
fundamentam a concepção de linguagem como prática social
e como instrumento de poder.
No Capítulo 2, discutimos porque esta é uma vertente
crítica para estudos da linguagem, e refletimos sobre a con-
cepção de “texto como evento discursivo”. Como parte dessa
reflexão, apresentamos os significados do discurso: acional,
representacional e identificacional.
No Capítulo 3, abordamos procedimentos teórico-me-
todológicos para pesquisas qualitativas em ADC. Discutimos
o arcabouço metodológico básico, motivado por problemas
sociodiscursivos e composto por investigações sociais e
discursivas. Também refletimos sobre os dois principais pa-

157
Análise de Discurso (para a) Crítica: O texto como material de pesquisa

radigmas de investigação em ADC: a pesquisa etnográfica e


a pesquisa documental.
No Capítulo 4, exemplificamos o processo de análise
textual, que é parte do processo de análise de discurso em
ADC. Investigamos em um texto jornalístico traços textuais
moldados por modos de agir/gêneros, modos de representar/
discursos e modos de ser/estilos, apresentando e analisando as
categorias avaliação, coesão, estrutura genérica, identificação
relacional, intertextualidade, processos de transitividade e
estrutura visual, interdiscursividade, metáfora e representação
de atores sociais. Ainda, relacionamos as categorias analisadas
aos modos de operação de ideologia, de Thompson (2002a),
um referencial extensamente utilizado em pesquisas em
ADC. Para finalizar, oferecemos um Glossário que sintetiza
conceitos centrais abordados bem como todas as categorias
de análise trabalhadas.
Com este trabalho, esperamos ter contribuído não só para
sistematizar preceitos teóricos e metodológicos da Análise
de Discurso Crítica de vertente britânica, mas também para
mostrar a relevância da pesquisa social crítica na busca por
“uma melhor compreensão de como sociedades produzem
tanto efeitos benéficos quanto maléficos, e de como os efeitos
maléficos podem ser mitigados, se não eliminados” (Fairclou-
gh, 2003a, p. 203).

158
Análise de Discurso (para a) Crítica: O texto como material de pesquisa

Glossário
Abordagem relacional/dialética: perspectiva de análise discursiva
voltada para investigar relações de causa-efeito do momento dis-
cursivo na prática social, do ponto de vista de lutas hegemônicas e
relações de dominação.

Análise da conjunt0ura, análise da prática particular e análise


de discurso: três tipos de análise que integram a segunda etapa de
investigação proposta pelo arcabouço crítico-explanatório da ADC:
a identificação de elementos que representam obstáculos para a
superação do problema. Na “análise da conjuntura”, investigamos
as redes de práticas em que se localiza o problema em estudo; na
“análise da prática particular”, investigamos aspectos da prática
específica pesquisada, o que inclui mapeamento de relações dialé-
ticas entre discurso e outros momentos da prática. As análises da
conjuntura e da prática particular garantem a contextualização da
análise discursiva, ou seja, garantem que os textos analisados sejam
relacionados a suas causas mais amplas e a seu contexto particular,
o que está de acordo com o princípio da profundidade ontológica
da crítica explanatória. Na etapa da “análise do discurso”, investi-
gamos textos, como material empírico, em busca de conexões entre
mecanismos discursivos e o problema em foco.

Análise textual: como a ADC corresponde a teorias e métodos


para investigar conexões entre vida social e discurso, uma parte
imprescindível do trabalho é a análise de textos, como material
empírico. A concepção de textos como parte de eventos específi-
cos, que envolvem pessoas, (inter)ação, relações sociais, mundo
material, além de discurso, situa a análise textual na interface entre
ação, representação e identificação, os três principais aspectos do

159
Análise de Discurso (para a) Crítica: O texto como material de pesquisa

significado. Esse tipo de análise, segundo Fairclough (2003a, p. 28),


implica uma perspectiva social detalhada de textos. Permite abordar
os textos “em termos dos três principais aspectos do significado, e
das maneiras como são realizados em traços dos textos”, buscando
conexões “entre o evento social concreto e práticas sociais mais abs-
tratas”, pela investigação dos gêneros, discursos e estilos utilizados,
e das maneiras como são articulados em textos. A análise discursiva
é, portanto, explanatória: conjuga teoria e material empírico para
investigar (sentidos de) textos tendo em vista seus efeitos sociais.
Assim como o conhecimento social é inevitavelmente parcial, a aná-
lise textual é inevitavelmente seletiva no sentido de que escolhemos
responder determinadas questões sobre eventos sociais e textos neles
envolvidos e com isso abrimos mão de outras questões possíveis.
Como Fairclough (2003a) observa, não existe análise objetiva de
textos. O processo de análise textual, em que investigamos com
categorias analíticas traços de modos de (inter)agir/relacionar-se,
representar e identificar(-se) em práticas sociais, é sempre parcial
e subjetivo. O que lhe confere cientificidade é o trabalho explana-
tório, isto é, de compreensão conjugado com a explanação. Pela
compreensão descrevemos e interpretamos propriedades de textos,
e pela explanação investigamos o texto como material empírico à
luz de conceitos, de um arcabouço teórico particular.

Articulação: refere-se a toda prática que estabelece uma relação


tal entre elementos que resulta na modificação da identidade deles
(Laclau & Mouffe, 2004, p. 142). Todos os elementos da prática so-
cial entram continuamente em relações mutáveis uns com os outros.

Avaliação: a avaliação inclui afirmações avaliativas, que apresentam


juízo de valor; afirmações com verbos de processo mental afetivo,
tais como ‘detestar’, ‘gostar’, ‘amar’; e presunções valorativas,
sobre o que é bom ou desejável. As afirmações avaliativas são
afirmações acerca do que é considerado desejável ou indesejável,
relevante ou irrelevante. O elemento avaliativo de uma afirmação
pode ser um atributo, um verbo, um advérbio ou um sinal de ex-
clamação (Fairclough, 2003a, p. 172). A avaliação está sujeita a
uma escala de intensidade – por exemplo, adjetivos e advérbios

160
Análise de Discurso (para a) Crítica: O texto como material de pesquisa

avaliativos agrupam-se em conjuntos semânticos de termos que


variam de baixa a alta intensidade, como no continuum bom/ ótimo/
excelente. No caso das afirmações com verbos de processo mental
afetivo, diz-se que as avaliações são ‘afetivas’ porque são geral-
mente marcadas subjetivamente, ou seja, marcam explicitamente a
afirmação como sendo do/a autor/a, em estruturas como ‘eu detesto
isso’, ‘eu gosto disso’, ‘eu adoro isso’. Como os exemplos sugerem,
nesses casos também se observa a gradação entre a baixa e a alta
afinidade. As presunções valorativas são casos em que a avaliação
não é engatilhada por marcadores relativamente transparentes de
avaliação, em que os valores estão mais profundamente inseridos
nos textos (Resende & Ramalho, 2006).

Categorias analíticas: embora a relação entre os momentos de


ordens do discurso seja dialética, discursos, gêneros e estilos são,
em princípio, realizados em traços específicos em textos. Isto é,
traços particulares (vocabulário, relações semânticas, gramaticais)
são, em princípio, associados ou a gêneros, ou a discursos, ou
a estilos específicos. Gêneros são realizados nos significados e
formas acionais de textos. Discursos, nos significados e formas
representacionais. Estilos, por sua vez, nos significados e formas
identificacionais (Fairclough, 2003a, p. 67). Categorias de análise
textual são, portanto, formas e significados textuais associados a
maneiras particulares de representar, de (inter)agir e de identificar
(-se) em práticas sociais situadas. Por meio delas, podemos ana-
lisar textos buscando mapear conexões entre o discursivo e o não
discursivo, tendo em vista seus efeitos sociais.

Ciência social crítica: ciência social comprometida em apontar


possíveis caminhos para superação de problemas sociais relacio-
nados a poder. Como ciência crítica, a ADC ocupa-se com efeitos
ideológicos que (sentidos de) textos possam ter sobre relações
sociais, ações e interações, conhecimentos, crenças, atitudes,
valores, identidades. Isto é, sentidos a serviço de projetos parti-
culares de dominação e exploração, que sustentam a distribuição
desigual de poder.

161
Análise de Discurso (para a) Crítica: O texto como material de pesquisa

Coesão: o sistema de coesão na organização dos elementos textuais


está relacionado à metafunção textual, segundo Halliday (1985).
Assim, de acordo com as recontextualizações da LSF propostas
por Fairclough, especificamente no que se refere aos significados
do discurso (cf. Resende & Ramalho, 2006, p. 29), podemos dizer
que a coesão associa-se ao significado acional/relacional, uma vez
que está diretamente ligada à composição formal do texto. Como
sabemos, organizamos textos diferentemente de acordo com os
modos pelos quais pretendemos agir no mundo, o que também está
associado ao conceito de gênero. Ao tratar as relações estabelecidas
entre orações pelos mecanismos de coesão textual, Halliday dis-
tingue três tipos de relações lógico-semânticas de expansão entre
orações: elaboração, extensão e realce (Halliday, 2004). Temos
elaboração quando a oração que expande o significado expresso
em outra provê uma maior caracterização da informação dada:
reafirma, esclarece, refina, exemplifica, comenta (expressões-chave
aqui seriam ‘isto é’, ‘ou seja’, ‘por exemplo’). Na extensão, uma
oração expande o significado de outra introduzindo algo novo por
meio de adição, deslocamento ou alternativa (‘e’, ‘ou’, ‘mas’...).
No realce, uma oração destaca o significado de outra, monta-lhe
um cenário qualificando-a com característica circunstancial em
referência a tempo, espaço, modo, causa ou condição (‘quando’,
‘se’, ‘para’, ‘porque’, ‘por causa de’ etc.). A análise da coesão ajuda
a investigar, por exemplo, se textos se organizam mais em torno de
uma lógica de aparências ou de uma lógica explanatória.

Conjuntura: redes de práticas sociais relativamente estáveis. A


conjuntura está no nível das práticas sociais, entre a estrutura, a
entidade social mais estável, e os eventos, menos estáveis.

Dialética: princípio segundo o qual o mundo não é um conjunto de


coisas acabadas, mas um complexo de processos em articulação e
modificação ininterrupta. Uma nova articulação oriunda da agência
do sujeito (na ação) pode reestruturar, transformar ou destituir o
poder hegemônico vigente (na estrutura).

Diário de Pesquisa: ver “notas de campo”.

162
Análise de Discurso (para a) Crítica: O texto como material de pesquisa

Discurso: é um elemento da prática social, modo de ação sobre o


mundo e a sociedade, um elemento da vida social interconectado a
outros elementos (atividade material, fenômeno mental e relações
sociais; cf. Chouliaraki & Fairclough, 1999). Mas o termo ‘discurso’
apresenta uma ambiguidade: também pode ser usado em um sen-
tido mais concreto, como um substantivo contável, em referência
a ‘discursos’ particulares – como o discurso religioso, o discurso
midiático, o discurso neoliberal (cf. Fairclough, 2003a).

Domínios da realidade: na ontologia do Realismo Crítico, o mundo


é concebido como estratificado, mutável e aberto, daí a existência
de três domínios da realidade: o potencial, o realizado e o empíri-
co (Bhaskar, 1998). O “potencial” é o domínio dos objetos, suas
estruturas, mecanismos e poderes causais. Sejam físicos, como
minerais, ou sociais, como burocracias, esses objetos “têm uma certa
estrutura e poderes causais, isto é, capacidade de se comportarem de
formas particulares, e tendências causais ou poderes passivos, isto
é, susceptibilidades a certas formas de mudança” (Sayer, 2000, p.
9). O potencial é, portanto, o domínio das estruturas, mecanismos
e poderes causais dos objetos, e o “realizado” refere-se a “o que
acontece se e quando estes poderes são ativados”, ou seja, àquilo
que esses poderes fazem e ao que ocorre quando eles são ativados
(Sayer, 2000, p. 10). Assim, o potencial é o domínio dos poderes
causais; o realizado é o domínio dos eventos em que se acionam
esses poderes, e o “empírico”, por sua vez, é o que se percebe da
ativação desses poderes no nível dos eventos experienciados. É o
que se experiencia do potencial e do realizado, mas que não esgota
a possibilidade do que tenha, ou poderia ter, acontecido.

Entrevistas focalizadas: trata-se de um tipo de entrevista que


permite que a interação se desenvolva mais livremente, ainda que
focalizada em pontos específicos de interesse (Doncaster, 1998).
A vantagem desse tipo de entrevista é que garante o foco no tema
de interesse da pesquisa mas ao mesmo tempo confere liberdade
de expressão aos/às participantes, o que pode ser relevante para a
construção discursiva de suas identidades.

163
Análise de Discurso (para a) Crítica: O texto como material de pesquisa

Epistemologia: ver “Ontologia, epistemologia e metodologia”.

Estilo de vida: “práticas que dão forma a uma narrativa particular


da autoidentidade” (Giddens, 2002, p. 104).

Estilo: tipo de linguagem usado por uma categoria particular de


pessoas e relacionado com sua identidade (Chouliaraki & Fairclough,
1999, p. 63).

Estrutura genérica: como modo de (inter)ação, gêneros implicam


atividades específicas, ligadas a práticas particulares. Cada atividade
social possui propósitos específicos, então um aspecto importante
na análise de gêneros diz respeito a “o que as pessoas estão fazen-
do discursivamente”, e com quais propósitos, segundo Fairclough
(2003a, p. 70). Tais propósitos materializam-se em textos no que
é chamado de estrutura genérica, um aspecto textual moldado por
gêneros discursivos. O autor pondera, entretanto, que diferentes
propósitos podem estar combinados hierarquicamente, mesclados,
implícitos, de maneira que a fronteira entre eles pode não ser tão clara.
Essa estrutura pode ser mais homogênea em determinados gêneros,
com elementos ou os estágios textuais bastante fixos, previsíveis,
ordenados e de fácil identificação. Em outros gêneros, mais livres,
heterogêneos, plásticos, pode não ser possível verificar tal estrutura.
Por esse motivo, pode ser insuficiente abordar certos gêneros em
termos da estrutura genérica. Nesse caso, é possível identificar uma
macro-organização ou organização retórica do gênero, mas não uma
“estrutura”, que pressupõe elementos/estágios em ordens mais fixas.

Estrutura social: representa a condição/restrição para a ação huma-


na individual em práticas sociais, mas é também, dialeticamente, o
resultado dessa ação. O momento da ação na vida social é, também,
o momento da recriação/reprodução da estrutura. Ação e estrutura
constituem-se transformacionalmente, de modo que não podem ser
separadas, ou reduzidas a uma. Por isso, o foco da ADC não é a
experiência do ator individual ou a totalidade social, mas, sim, as
práticas sociais, ordenadas no espaço e no tempo.

164
Análise de Discurso (para a) Crítica: O texto como material de pesquisa

Estruturas visuais: nas imagens, as estruturas visuais equivalem


aos processos de transitividade da linguagem verbal. Segundo
Kress & van Leeuwen (1996), o design visual como representa-
ção pode ser analisado segundo dois tipos de estrutura: narrativa
e conceitual. Estruturas visuais que representam ações, eventos,
processos de mudança, arranjos espaciais transitórios são narrativas.
O que caracteriza uma estrutura como narrativa é a presença de
um vetor, uma linha imaginária (formada por corpos, braços, linha
do olhar, instrumentos em ação, dentre outros) que sugere ações,
eventos. O tipo de vetor, a quantidade e os tipos de participantes
envolvidos definem os processos narrativos como: processos de
ação, processos reacionais, processos verbais, processos mentais e
processos de conversão. Nas estruturas conceituais, por seu turno,
participantes não desempenham ações, mas são representados em
termos de classe, significação, estrutura, ou seja, de seus traços e
características essenciais.

Etnografia: a etnografia caracteriza-se por coleta de dados por


meio de diferentes métodos – que podem variar entre entrevistas,
conversas, observação, documentos formais etc.; abordagem sem
estruturação rígida prévia e análise em profundidade (Taylor, 1996).

Evento discursivo: ver “Texto/evento discursivo”.

Evento social: no continuum entre estrutura, conjuntura e evento,


o evento é a entidade social menos estável. Articula momentos da
prática social (ação/interação, mundo material, pessoas, relações
sociais e discurso) em situações particulares, socio-historicamente
situadas, no plano concreto da ação social.

Experiência mediada: relações sociais desencaixadas espacial e


temporalmente, possibilitadas pelas tecnologias de comunicação.
Para Giddens (2002), as tecnologias de comunicação formam um
elemento essencial da reflexividade da modernidade, o que leva o
autor a reconhecer a modernidade avançada como marcadamente
“reflexiva”. Em alguns contextos, a experiência mediada tornou a
vida cotidiana mais influenciada por informação e conhecimento, de

165
Análise de Discurso (para a) Crítica: O texto como material de pesquisa

modo que, segundo o autor, a construção das autoidentidades tornou-


se mais propensa a revisões à luz desse conhecimento. Fairclough
(2003a) observa que a expansão da disponibilidade de informação
no espaço e no tempo implica maior alcance de discursos voltados
para o ‘controle’ de condutas e práticas sociais, o que define como
‘aparato de regulação’.

Gênero discursivo: gêneros constituem o aspecto especificamente


discursivo de maneiras de ação e interação no decorrer de eventos
sociais. Gêneros específicos são definidos pelas práticas sociais a
eles relacionadas e pelas maneiras como tais práticas são articula-
das; mudanças articulatórias em práticas sociais incluem mudanças
nas formas de ação e interação, ou seja, nos gêneros discursivos, e
a mudança genérica frequentemente ocorre pela recombinação de
gêneros pré-existentes (Fairclough, 2003a, p. 65).

Gênero principal e subgênero: para a ADC, um texto ou interação


particular não ocorre ‘em um gênero particular’, mas frequentemen-
te envolve uma combinação de diferentes gêneros, daí podermos
falar em gênero principal e subgênero.

Gênero desencaixado: constitui potencial para realizações


linguísticas concretas que transcendem redes particulares de
práticas. Um exemplo pode ser apontado na entrevista, que figu-
ra em diversas práticas, como jornalística, médica, acadêmica,
etnográfica. Esses gêneros desencaixados, quando alçados nessas
práticas particulares, dão origem aos gêneros situados entrevista
jornalística, entrevista médica, entrevista acadêmica, entrevista
etnográfica, por exemplo.

Gênero situado: ao contrário dos pré-gêneros, que se limitam a


alguns poucos, os gêneros discursivos são inúmeros, híbridos, e
nem todos têm nomes estabelecidos. A exemplo do gênero ‘en-
trevista jornalística’, gêneros situados são característicos de uma
(rede de) prática particular, como a do jornalismo. Um texto pode
materializar, por exemplo, o gênero situado ‘entrevista jornalística’.
Este, por sua vez, pode ser composto por gêneros desencaixados,

166
Análise de Discurso (para a) Crítica: O texto como material de pesquisa

pouco mais abstratos, como a entrevista, e, necessariamente, por


pré-gêneros, ainda mais abstratos, como a narração.

Gênero, discurso e estilo: momentos internos da ordem do dis-


curso: gêneros, discursos e estilos são, respectivamente, modos
relativamente estáveis de agir, de representar e de identificar(-se)
em práticas. Por isso, gêneros são “tipos de linguagem ligados a
uma atividade social particular”; discursos são o “tipo de linguagem
usado para construir algum aspecto da realidade de uma perspectiva
particular”, e estilos constituem o “tipo de linguagem usado por uma
categoria particular de pessoas e relacionado com sua identidade”
(Chouliaraki & Fairclough, 1999, p. 63).

Gramática da linguagem visual: descrição dos modos cultu-


ralmente definidos como imagens se articulam em composições
visuais. As imagens são concebidas em termos das mesmas ma-
crofunções da linguagem verbal (ideacional, interpessoal e textual,
segundo a LSF). A exemplo da linguagem verbal, as imagens atuam
como forma de representação, como troca de experiência e como
mensagem. Entretanto, o que na linguagem verbal é realizado, por
exemplo, por diferentes classes e estruturas semânticas, na lingua-
gem visual realiza-se por diferentes estruturas composicionais.

Grupo focal: técnica de pesquisa que diz respeito à geração de


dados “por meio de interação grupal sobre um tópico determinado”
(Morgan, 1996, p. 130). O grupo focal, então, localiza a interação
em uma discussão em grupo que é a fonte dos dados. A vantagem
do grupo focal sobre a entrevista individual é justamente a intera-
ção: por meio do grupo de discussão é possível captar pontos de
instabilidade e discordância, negociação de significados, liderança
(Hollander, 2004).

Hegemonia: conforme Gramsci (1988), conquistar a hegemonia é


estabelecer, temporariamente, liderança moral, política e intelectual
na vida social, difundindo sua própria ‘visão de mundo’ pelo tecido
da sociedade como um todo, igualando, assim, o próprio interesse
com o da sociedade em geral (Eagleton, 1997, p. 108). Ao retomar

167
Análise de Discurso (para a) Crítica: O texto como material de pesquisa

o conceito de Gramsci, Fairclough (1997, 2001) caracteriza hege-


monia como domínio exercido pelo poder de um grupo sobre os
demais, baseado mais no consenso que no uso da força. A domina-
ção, entretanto, sempre está em equilíbrio instável, daí a noção de
luta hegemônica como foco de luta sobre pontos de instabilidade
em relações hegemônicas. O conceito de luta hegemônica, assim
compreendido, está em harmonia com a dialética do discurso.
Fairclough (1997) define duas relações que se estabelecem entre
discurso e hegemonia. Em primeiro lugar, a hegemonia e a luta
hegemônica assumem a forma da prática discursiva em interações
verbais, a partir da dialética entre discurso e sociedade – hegemo-
nias são produzidas, reproduzidas, contestadas e transformadas no
discurso. Em segundo lugar, o próprio discurso apresenta-se como
uma esfera da hegemonia, sendo que a hegemonia de um grupo é
dependente, em parte, de sua capacidade de gerar práticas discursi-
vas e ordens de discurso que a sustentem. A ação social é vista como
constrangida pelas permanências relativas de práticas sociais – as
sustenta ou as transforma, dependendo das circunstâncias sociais e
da articulação entre práticas e momentos de práticas. A articulação
entre os momentos da prática assegura que a hegemonia seja um
estado de relativa permanência de articulações dos elementos sociais
(Resende e Ramalho, 2006).

Hibridismo discursivo: movimento de discursos, estilos ou gêneros


de uma prática para outra. Textos híbridos reúnem características
de diferentes gêneros, discursos e estilos, de maneiras particulares.
A rede de ordens de discurso é um recurso na interação que pode
ser usado mais ou menos criativamente. Chouliaraki e Fairclough
(1999) explicam que a análise de qualquer discurso na sociedade
contemporânea, com suas complexas interseções de diferentes
formas e tipos de discurso, deve incluir uma análise interdiscursiva
de como diferentes tipos de discurso são combinados.

Identidade: processo de construção de significado com base em


um atributo cultural, ou ainda um conjunto de atributos culturais
interrelacionados, o(s) qual(ais) prevalece(m) sobre outras fontes
de significado (Castells, 2001, p. 22-27). Tal processo pode sofrer

168
Análise de Discurso (para a) Crítica: O texto como material de pesquisa

interferência de instituições dominantes, mas isso só ocorre quan-


do e se os atores as internalizam, construindo o significado de sua
identidade com base nessa internalização.

Identificação relacional: o significado identificacional está relacio-


nado ao aspecto discursivo de identidades, à identificação de atores
sociais em textos. No significado identificacional, analisamos a
construção de identidades (autoidentificações) e a identificação de
atores sociais, isto é, a construção de modos particulares de iden-
tificação de atores sociais representados em textos. A identificação
relacional diz respeito0 à identificação de atores sociais em textos
em termos das relações pessoais, de parentesco ou de trabalho que
têm entre si. Esse tipo de identificação é ‘relacional’ no sentido de
que depende das relações sociais estabelecidas e das posições que
os atores sociais ocupam.

Ideologia: aspecto discursivo de lutas hegemônicas; um dos modos


pelos quais hegemonias são sustentadas; maneiras como o sentido
serve para estabelecer e sustentar relações de dominação: estabe-
lecer querendo significar que o sentido pode criar ativamente e
instituir relações de dominação; sustentar querendo significar que
o sentido pode servir para manter e reproduzir relações de domi-
nação através de um processo contínuo de produção e recepção de
formas simbólicas, conforme Thompson (2002a, p.79). Este autor
nega as “concepções neutras de ideologia”, inserindo seu modelo
teórico entre as “concepções críticas”, para as quais “o fenômeno
caracterizado como ideologia – ou como ideológico – é necessa-
riamente enganador, ilusório ou parcial” (Thompson, 2002a, p.
73). À análise de ideologia proposta por Thompson, interessam as
maneiras como as formas simbólicas relacionam-se com o poder – e,
portanto, com lutas hegemônicas. Thompson conceitua fenômenos
ideológicos como necessariamente a serviço do estabelecimento e da
manutenção de relações de poder. Fairclough (1989, p. 85) destaca
que a ideologia é mais efetiva quando sua ação é menos visível.
Se alguém se torna consciente de que um determinado aspecto do
senso comum sustenta desigualdades de poder em detrimento de si
próprio, aquele aspecto deixa de ser senso comum e pode perder a

169
Análise de Discurso (para a) Crítica: O texto como material de pesquisa

potencialidade de sustentar desigualdades de poder, isto é, de fun-


cionar ideologicamente. Para a ADC, a desconstrução ideológica
de sentidos de textos que integram práticas sociais pode intervir na
sociedade para superar relações de dominação.

Interdisciplinar: em ADC, interdisciplinaridade consiste no rom-


pimento de fronteiras epistemológicas com teorias sociais, de modo
a subsidiar sua própria abordagem sociodiscursiva assim como
oferecer suporte para que pesquisas sociais possam contemplar,
também, aspectos discursivos.

Interdiscursividade: heterogeneidade de textos em termos da arti-


culação de diferentes discursos. Um mesmo aspecto do mundo pode
ser representado por diferentes discursos. Textos, representando o
mesmo aspecto do mundo, podem articular diferentes discursos,
em relações dialógicas harmônicas ou polêmicas. A análise inter-
discursiva de um texto relaciona-se à identificação dos discursos
articulados e das maneiras como são articulados. A identificação de
um discurso em um texto consiste na identificação de quais partes
do mundo são representadas (os ‘temas’ centrais), e na identificação
da perspectiva particular pela qual são representadas. As maneiras
particulares de representação de aspectos do mundo podem ser
especificadas por meio de traços linguísticos que podem ser vistos
como ‘realizando’ um discurso. O mais evidente desses traços dis-
tintivos é o vocabulário, pois diferentes discursos ‘lexicalizam’ o
mundo de maneiras diferentes (cf. Fairclough, 2003a).

Intergenericidade: “o aspecto da hibridização ou mescla de gêne-


ros em que um gênero assume a função de outro”, o que resulta na
“subversão do modelo global genérico” (Marcuschi, 2005, p. 31).

Intertextualidade: categoria de análise muito complexa e potencial-


mente fértil. Bakhtin (1997) enfatizou a dialogicidade da linguagem,
destacando que textos são dialógicos em dois sentidos: primeiro,
mesmo textos aparentemente monológicos, como os textos escritos,
participam de uma cadeia dialógica, no sentido de que respondem
a outros textos e antecipam respostas; segundo, o discurso é inter-

170
Análise de Discurso (para a) Crítica: O texto como material de pesquisa

namente dialógico por ser polifônico, todo texto articula diversas


vozes. Em linhas gerais, a intertextualidade é a combinação da
voz de quem pronuncia um enunciado com outras vozes que lhe
são articuladas. Para relatar um discurso, pode-se não apenas citar
em discurso direto, mas também parafrasear, resumir, ecoar, em
discurso indireto. O discurso relatado atribui o dito a seu autor,
mas a incorporação de elementos de outros textos também pode
ser feita sem atribuição explícita. Assim, a intertextualidade cobre
uma gama diversa de possibilidades (Resende e Ramalho, 2006).
Uma questão inicial no estudo da intertextualidade em um texto é a
verificação de quais vozes são incluídas e quais são excluídas, isto
é, que ausências significativas podem ser observadas. Em seguida,
analisando-se a presença, é interessante examinar a relação que se
estabelece entre as vozes articuladas. Quando uma voz ‘externa’
é articulada em um texto, têm-se (pelo menos) duas vozes, que
podem representar duas diferentes perspectivas, com seus respec-
tivos interesses, objetivos etc. A relação entre essas vozes pode ser
harmônica, de cooperação, ou pode haver tensão entre o texto que
relata e o texto relatado (Fairclough, 2003a, p. 39).

Metáfora: segundo Lakoff & Johnson (2002), a essência da metáfo-


ra é “compreender uma coisa em termos de outra”. Como os autores
observam, nosso sistema conceitual é metafórico por natureza,
isto é, sempre compreendemos aspectos particulares do mundo,
de acordo com nossa experiência física e cultural, em termos de
outros aspectos, estabelecendo correlações. As metáforas moldam
significados identificacionais em textos, pois, ao selecioná-las num
universo de outras possibilidades, o/a locutor/a compreende sua
realidade e a identifica de maneira particular, embora orientada por
aspectos culturais. Ocorre, então, como Fairclough (2001, p. 241)
observa, que “todos os tipos de metáfora necessariamente realçam
ou encobrem certos aspectos do que se representa”.

Metodologia: ver “Ontologia, epistemologia e metodologia”

Movimentos retóricos: movimentos discursivos em gêneros, com


um propósito particular pontual, que servem aos propósitos globais

171
Análise de Discurso (para a) Crítica: O texto como material de pesquisa

do gênero. Distribuem-se, em textos, de maneira não sequencial e


não obrigatória, de acordo com as diferentes funções retóricas a
serem desempenhadas. Cada movimento retórico possui funções
específicas e recursos microestruturais para desempenhá-las. É
uma maneira de compreender a organização dos gêneros como
mais flexível, em vez de entendê-la como constituída por estágios,
etapas (Swales, 1990).

Notas de campo/diário de pesquisa: notas de campo constituem


momento fundamental no trabalho de campo porque articulam, no
discurso, os diversos métodos adotados em uma pesquisa particu-
lar, integrando percepções e interpretações associadas aos vários
momentos da pesquisa. O diário de pesquisa é um produto escrito
do trabalho de campo que têm um propósito catártico para etnó-
grafos/as porque registra reações pessoais, frustrações e conquistas
do trabalho no campo. Além disso, o diário de pesquisa é um am-
biente intertextual no sentido de que entre as impressões anotadas
também se registram as relações percebidas entre a prática da pes-
quisa particular e a ‘teoria de método’ adotada – entre a previsão
abstrata do desenho da pesquisa e a realização concreta do trabalho
de campo – e entre os métodos e as teorias adotadas na pesquisa.
Daí sua utilidade no favorecimento da autorreflexão sobre a prática
de pesquisa: o diário não é só um mecanismo de reflexão sobre o
objeto da investigação, é também uma oportunidade de reflexão
sobre a própria prática.

Observação participante: opõe-se à observação (pretensamente)


objetiva, em que o contexto social pesquisado é abordado ‘de
fora para dentro’. A observação participante, ao contrário, define-
se pela perspectiva interna, situada na ação cotidiana, em que
o/a pesquisador/a envolve-se diretamente nas atividades dos/as
participantes da pesquisa (Bogdewic, 1992). Uma vantagem da
observação participante é o acesso a certas assunções que em uma
dada comunidade são tomadas como tácitas e que, de outra forma,
apenas seriam disponibilizadas por meio das representações da
própria comunidade (Gans, 1999).

172
Análise de Discurso (para a) Crítica: O texto como material de pesquisa

Ontologia, epistemologia e metodologia: segundo Denzin &


Lincoln (2006, p. 32-3), na pesquisa qualitativa, o/a pesquisador/a,
situado/a biograficamente, “aborda o mundo com um conjunto de
ideias, um esquema (teoria, ontologia) que especifica uma série
de questões (epistemologia) que ele então examina em aspectos
específicos (metodologia, análise)”. Ontologia refere-se a concep-
ções de mundo, ou da natureza da realidade. Para Mason (2002), a
definição clara da ontologia que orienta um projeto de investigação
deve ser o primeiro passo em qualquer pesquisa, pois os pressupos-
tos ontológicos determinam as decisões de cunho epistemológico,
relacionadas à construção do conhecimento na pesquisa, e meto-
dológico, relacionadas a coleta, sistematização e análise de dados.

Ordem do discurso: articulação socialmente estruturada de práticas


discursivas que constitui a faceta discursiva de um campo social
(Chouliaraki & Fairclough, 1999, p. 114). A ideia de “redes de
ordens do discurso” remete à faceta discursiva de redes de práticas
sociais e ao relacionamento entre elas.

Pesquisa documental: delineamento de pesquisa que utiliza como


principal material empírico dados de natureza formal, como textos
da mídia, cuja elaboração demanda competência de conhecimento
especializado.

Pesquisa qualitativa: conjunto de práticas materiais e interpreta-


tivas que permitem transformar aspectos do mundo em represen-
tações por meio das quais “podemos entendê-los, descrevê-los e
interpretá-los” (Denzin & Lincoln, 2006, p. 17).

Prática social: a ADC concebe a vida social como organizada em


torno de práticas, que constituem maneiras habituais, em tempos e
espaços particulares, pelas quais pessoas aplicam recursos – mate-
riais ou simbólicos – para interagirem. Toda prática social articula
diferentes elementos da vida – ação e interação; relações sociais;
pessoas (e suas crenças, valores, atitudes, histórias etc.), mundo
material e discurso (Fairclough, 2003a, p. 205). Quando esses
elementos são reunidos, tornam-se momentos da prática, cada qual

173
Análise de Discurso (para a) Crítica: O texto como material de pesquisa

com seu poder gerativo e mecanismos particulares, que se relacio-


nam dialeticamente sem se reduzirem um ao outro. Esse encontro
dialético entre os momentos da prática ocorre pela internalização
e pela articulação, assegurando que a estrutura social hegemônica
seja um estado de relativa permanência de articulações de elementos
sociais (Chouliaraki & Fairclough, 1999, p. 25).

Pré-gêneros: gêneros apresentam distintos níveis de abstração.


Num gradiente decrescente de abstração, há ‘pré-gêneros’, ‘gêneros
desencaixados’ e ‘gêneros situados’ (Fairclough, 2003a). Os pré-
gêneros, termo de Swales (1990), são mais abstratos, constituídos
espontaneamente na vida cotidiana em circunstâncias de comuni-
cação, a exemplo da narração, da argumentação, da descrição;
são sequências tipológicas utilizadas na composição de gêneros
discursivos.

Pressuposição: Fairclough (2001, p. 155) define pressuposições


como “proposições tomadas pelo produtor do texto como já es-
tabelecidas ou ‘dadas’”, que podem ser engatilhadas por diversos
recursos linguísticos. Essas proposições são incluídas por Ducrot
(1977, p. 32) na categoria de implícitos não discursivos, ou seja,
implícitos que decorrem necessariamente do sentido acionado por
marcadores linguísticos, que podem ser sentenças clivadas, verbos
factivos, artigos definidos, e outros. Como, de acordo com Fairclou-
gh (2003a, p. 47), “apontam para o consenso, normalização e acei-
tação, suprimindo diferenças de poder”, pressuposições constituem
um aspecto relevante do potencial ideológico da intertextualidade.

Processos de transitividade: conforme a LSF, a macrofunção idea-


cional da linguagem, relacionada a maneiras como experienciamos
e representamos o mundo, associa-se ao sistema lexicogramatical
da transitividade. Nesse sistema, selecionamos processos (grupos
verbais) materiais, comportamentais, mentais, verbais, relacionais e
existenciais, que são associados a diferentes papéis de participantes
(grupos nominais) em diferentes circunstâncias (grupos adverbiais).
De acordo com Halliday (2004, p. 172), os processos principais são os
materiais, pelos quais se representam ações, eventos; os mentais, que

174
Análise de Discurso (para a) Crítica: O texto como material de pesquisa

representam percepções, emoções; e os relacionais, que identificam,


caracterizam participantes. Os secundários, que se encontram nas
fronteiras entre os principais, são os comportamentais, que represen-
tam comportamentos humanos; os verbais, que representam ações de
dizer, pronunciamentos, e, por fim, os existenciais, que representam
o que existe. Pela análise das seleções particulares de processos de
transitividade em textos, podemos investigar as maneiras como o/a
locutor/a representa aspectos do mundo. As escolhas no sistema de
transitividade “permitem analisar quem faz o quê, a quem e em que
circunstâncias” (Cunha & Souza, 2007, p. 54).

Quase-interação mediada: tipo de relações estabelecidas pelos


meios de comunicação de massa (livros, jornais, rádio, televisão,
revistas) que implicam uma extensa disponibilidade de informação
e conteúdo simbólico no espaço e no tempo. As formas simbólicas
são produzidas para um número indefinido de receptores potenciais
e constitui uma forma de interação em que o fluxo da comunicação
é predominantemente de sentido único, mediada em uma via (Fair-
clough, 2003a). Thompson (2002b, p. 79) denomina esse tipo de
mediação de “quase-interação mediada”, em razão do baixo grau
de reciprocidade interpessoal e da ampla articulação de práticas
sociais em diferentes tempos-espaços.

Realismo Crítico: corrente filosófica que concebe a vida (social e


natural) como um sistema aberto, constituído por várias dimensões
– física, química, biológica, psicológica, econômica, social, semió-
tica, sendo que todas têm suas próprias estruturas distintivas, seus
mecanismos particulares e poder gerativo. Na produção da vida so-
cial ou natural, a operação de qualquer mecanismo é mediada pelos
outros, de tal forma que nunca se excluem ou se reduzem a um. De
acordo com Bhaskar (1989, p. 12), como a realidade é estratificada,
a atividade científica deve estar comprometida em revelar níveis
mais profundos, suas entidades, estruturas e mecanismos (visíveis
ou invisíveis) que existem e operam no mundo.

Representação de atores sociais: categoria de análise textual re-


lacionada diretamente ao significado representacional e a discursos

175
Análise de Discurso (para a) Crítica: O texto como material de pesquisa

particulares. Conforme van Leeuwen (1997, 2008), representações


de práticas sociais são particulares, ou seja, construídas por pessoas
particulares e a partir de determinados pontos de vista, e, por isso,
representam atores envolvidos nas práticas de diferentes maneiras.
Por exemplo, atores podem ser excluídos em textos; podem ser
incluídos mas ter sua agência ofuscada, ou enfatizada; podem ser re-
presentados por suas atividades ou enunciados; podem ser referidos
por meio de julgamentos acerca do que são ou do que fazem, e assim
por diante. Os modos pelos quais atores podem ser representados
em textos não estão rigorosamente relacionados a formas linguís-
ticas, mas sim a escolhas socio-semânticas, daí o conceito de “ator
social” (van Leeuwen, 2008). Por serem relacionadas a discursos
particulares, as maneiras como atores sociais são representados em
textos podem ter implicações ideológicas.

Semiose: em ADC, equivale a discurso como um momento de


prática social. Refere-se amplamente a manifestações linguísticas,
tanto verbais quanto não verbais (sons, imagens, gestos).

Significado acional/relacional: segundo Fairclough (2003a), há três


principais significados do discurso: o acional, o representacional e
o identificacional, que se relacionam às principais maneiras como
o discurso figura em práticas sociais: como modos de agir, modos
de representar e modos de ser. Por meio da linguagem, agimos e
interagimos, logo, o discurso figura como ação e relação. Diferen-
tes gêneros correspondem, então, a diferentes modos de agir e se
relacionar discursivamente, daí ser o aspecto acional/relacional um
dos significados do discurso, ao lado dos dois outros. Relaciona-se
ao eixo do poder, de Foucault (1994).

Significado identificacional: conforme Fairclough (2003a), há três


principais significados do discurso: o acional, o representacional e
o identificacional, que se relacionam às principais maneiras como
usamos a linguagem em práticas sociais: como modo de agir, modo
de representar e modo de ser. Como modo de ser, o discurso figura
na identificação, na constituição de modos particulares de ser, ou
seja, identidades sociais ou pessoais particulares, que se relacionam

176
Análise de Discurso (para a) Crítica: O texto como material de pesquisa

ao estilo. Embora os três aspectos do significado sejam, de certa


forma, diferentes, eles são dialeticamente relacionados, ou seja,
cada um internaliza os outros. Relaciona-se ao eixo da ética, de
Foucault (1994).

Significado representacional: de acordo com Fairclough (2003a),


há três principais significados do discurso: o acional, o repre-
sentacional e o identificacional, que correspondem às principais
maneiras como o discurso figura em práticas sociais: como modos
de agir, modos de representar e modos de ser. O discurso figura na
representação do mundo material, de outras práticas sociais ou em
representações autorreflexivas da própria prática particular. Essas
representações particulares de aspectos do mundo se realizam
discursivamente e variam conforme as diferentes perspectivas ou
posições dos sujeitos nas práticas sociais. Discursos particulares
constituem, então, modos particulares de representar a realidade,
por isso um dos significados do discurso é o representacional, ainda
que sempre mantenha relações dialéticas com os outros significados.
Relaciona-se ao eixo do saber, de Foucault (1994).

Significados do discurso: proposta de Fairclough (2003a) que


concebe a linguagem em termos das principais maneiras como o
discurso figura em práticas sociais: como modos de agir/integarir,
modos de representar e modos de ser, e seus respectivos significa-
dos: acional, representacional e identificacional. Essa concepção,
segundo o autor, se distancia da noção de “sistema semiótico” para
contemplar outros momentos das práticas sociais: a ação e interação,
as relações sociais, as pessoas (e suas crenças, histórias), o mundo
material e, também, o discurso, mas não só ele.

Texto/evento discursivo: em ADC, textos são vistos como a parte


discursiva de eventos sociais, por isso constituem eventos discursi-
vos. Um texto traz em si traços da ação individual e social que lhe
deu origem e de que fez parte; da interação possibilitada também
por ele; das relações sociais, mais ou menos assimétricas, entre as
pessoas envolvidas na interação; de suas crenças, valores, histó-
rias; do contexto sócio-histórico específico num mundo material

177
Análise de Discurso (para a) Crítica: O texto como material de pesquisa

particular, com mais ou menos recursos. Essa percepção de texto


como parte discursiva empírica de práticas sociais baseia-se numa
visão funcionalista da linguagem, que a entende como um recurso
de que pessoas lançam mão em sua vida diária para interagir e se
relacionar, para representar aspectos do mundo assim como para
‘ser’, para identificar a si e aos outros. Consequentemente, a lin-
guagem também é resultado desse uso social.

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Análise de Discurso (para a) Crítica: O texto como material de pesquisa

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188
Análise de Discurso (para a) Crítica: O texto como material de pesquisa

ANEXO

Ivan, o andarilho-jardineiro, constrói jardim em gramado


da 307 Sul

Ele conta histórias delirantes, mas planta arbustos e flores


de verdade. Depois, pendura nelas objetos coloridos. Tudo
para controlar a ansiedade e “humanizar a estupidez”.

Publicação: 03/04/2009 08:00 Atualização: 02/04/2009


22:12

É para driblar a ansiedade que Ivan da Cunha, carioca,


57 anos, quixotescamente magro e inquieto, constrói
um jardim de plantas naturais enfeitadas com peças de
plástico, de metal, de papel que o lixo lhe oferece em sua
vida de morador de rua. Ivan entremeia natureza e objetos,
realidade e delírio no seu errático viver.

O andarilho-jardineiro começou a criar seu jardim há


pouco mais de um mês, ao lado do Bloco K e em frente ao

189
Análise de Discurso (para a) Crítica: O texto como material de pesquisa

Bloco J da SQS 307. Tem por ferramenta apenas uma pá


de pedreiro, presente de um motorista de táxi do ponto ao
lado. Acocora-se na grama e vai retirando entulhos (“isto
aqui estava feio demais”) e abrindo pequenas covas com
as mãos de dedos longos e ossudos.

Retira mudas de jardins abandonados nas proximidades


e monta o seu próprio paraíso verde. A verdejante
monotonia o intriga. “Está tudo muito verde. Está faltando
cor. Isso aqui estava muito sem graça.” Ivan trouxe então
a policromia: pegou tampas coloridas de garrafas pets e
fez delas botões de flor. Embalagens vazias de amaciante,
por exemplo, se transformaram em flores penduradas na
ponta de um galho. “A cor anima o estado de espírito,
humaniza a estupidez”, diz com surpreendente fluência
de vocabulário.

“Faço isso pra passar o tempo, pra não ficar muito


ansioso, enquanto espero Fernando Henrique Cardoso,
meu vovô, vir me buscar. Ele vem com minhas irmãs
Gisele Bundchen, Celine Dion e Juliana Paes. Vamos
para Toronto, no Canadá, Celine tem uma propriedade lá.
Eles vão me trazer um belo par de tênis, roupa limpa, mas
antes vou ter de tomar um banho de sabonete.”

Pedaços da vida

Há uma coerência interna no delírio de Ivan. Ele


repete a mesma história diversas vezes para quem se
dispuser a ouvir. Em alguns momentos, conta pedaços
de sua vida que parecem estar conectados com a
realidade. Diz que nasceu no Rio de Janeiro quando
ainda se chamava Estado da Guanabara, que morou
em Laranjeiras. O sotaque carioca é a prova de que
Ivan não vive apenas na imensidão da fantasia. Conta
que teve mãe, mas não teve “papai humano”. Que tem
duas irmãs “de carne e osso”, Rosinha e Teresinha,
“mais as três outras que eu não sabia (Gisele, Celina
e Juliana), as celebridades”.

190
Análise de Discurso (para a) Crítica: O texto como material de pesquisa

Que já foi operador de máquina, servente de pedreiro


e vigilante. Que veio de Vilhena, Rondônia, “a dois mil
quilômetros daqui”. Que conhece a América Central
(“Nicarágua, Guatemala, Costa Rica, Panamá, El
Salvador”). Diz que não entrou no México porque “a
imigração não deixou”, mas que agora vai à Polícia
Federal providenciar o passaporte “com uma foto cinco
por sete”. De Toronto vai para Tóquio e Bagdá, ele, o vovô
e as três irmãs.

Esta não é a primeira vez que Ivan constrói jardins na 307


Sul. Há cinco anos, ele esteve por lá, conta o motorista de
táxi José Mendonça, 71 anos, 37 de praça, 26 no mesmo
ponto. “Fez um jardim, só que, coitado, era época de seca,
mas mesmo assim ele fez. Agora voltou e do mesmo
jeitinho, não ficou nem um pouquinho mais velho”. Da vez
anterior, Ivan não falava do vovô ilustre.

Mas contava que Deus estava “umbicando o planeta”.


(Nem o Houaiss nem o Aurélio registram o verbo “umbicar”.
O que mais se aproxima, foneticamente, é “imbicar”, dar
rumo certo, dirigir). Ivan continua crente que Nosso Senhor
está umbicando a Terra, o que significa “levando para
baixo tudo o que não presta, ladrão, traficante, assaltante”.
Ele conta que, dia desses, um adolescente se sentou ao
lado dele, no banquinho do seu jardim, e perguntou se ele
“não tinha um bagulho pra vender”. Ivan lembra o episódio
com alguma indignação. Diz que as únicas coisas de
errado que faz são fumar (“cigarro de palha porque não
tem nicotina”) e tomar café. Que já bebeu cerveja, mas
hoje quer distância.

Moradores solidários

Passava pouco das 11h, quando uma moradora da


quadra trouxe para Ivan, na volta do supermercado, dois
sacos plásticos: um com metade de um frango assado e
outro com uma garrafa de iogurte de morango. Ana Luiza
Rodrigues diz que ela e o marido se encantaram quando,
num passeio de fim de tarde pela quadra, viram o cuidado

191
Análise de Discurso (para a) Crítica: O texto como material de pesquisa

com que Ivan põe tampinhas coloridas de garrafas sobre


as pedras que delimitam um dos jardins. “Que capricho!
Que delicadeza a dele”, ela diz. “Ele é muito carinhoso.
Fica na chuva cuidando das plantas.” Outra moradora,
Walkyria Oliveira, 81 anos, 47 morando em Brasília, na
mesma quadra, traz um saco plástico com pães. Conta
que todos os dias passa por ali e leva algo para Ivan
comer. “Ele alimenta os passarinhos.” Ivan agradece e
comenta, depois que dona Walkyria sai: “Comer não é
problema. Recebo a solidariedade dos moradores dos
edifícios. Já fiz muitas amizades. Se as pessoas estão
gostando de mim, isso é muito bom”.

Ivan divide o mundo entre o bem e o mal, Deus e “aquele”


(Ivan pronuncia o nome Lúcifer só uma vez e com uma
expressão de repulsa). O jardineiro das flores de tampa de
garrafa diz que, quando Nosso Senhor umbicou o mundo,
separou os bons dos maus, porque “esse progresso todo,
carro, moto, micro-ondas, amaciante de roupa, não serve
para nada. A responsabilidade é pessoal. Ninguém é
julgado pela cabeça de ninguém”. Avisa que, depois que
Deus umbicou o mundo, “só vai cair quem estiver com
perfume podre por dentro”.

O “Chifrudo” o impediu de ter filhos de carne e osso.


“Ele estava me roubando, mas Nosso Senhor mandou
me pagar. Me deu uma linda mulher e cinco filhos, três
meninas e dois meninos” — todos em outro plano, o
imaterial. E sorri sorriso de plenitude. A essa hora, se não
for tarde da noite, Ivan está plantando flores de verdade
e de mentira no seu jardim.

Disponível em: <http://www.correiobraziliense.com.


br/html/sessao_13/2009/04/03/noticia_interna,id_
sessao=13&id_noticia=95242/noticia_interna.shtml>.
Acesso em 13 abr. 2009.

192
Análise de Discurso (para a) Crítica: O texto como material de pesquisa

As autoras

Viviane Ramalho é Mestre e Doutora em Linguística pela Uni-


versidade de Brasília (UnB). Professora adjunta do Depto. de
Linguística, Português e Línguas Clássicas (LIP/UnB) e pesqui-
sadora do Programa de Pós-Graduação em Linguística (PPGL/
UnB), na área Linguagem e Sociedade. É vice-coordenadora
do Núcleo de Estudos de Linguagem e Sociedade (NELiS/
CEAM/UnB) e desenvolve pesquisas sobre Comunicação em
saúde. Tem artigos publicados em periódicos como Discurso &
Sociedad, Revista Latinoamericana de Estudios del Discurso,
Cadernos de Linguagem e Sociedade, Linguagem em (Dis)
curso. É autora do livro Análise de discurso crítica da publici-
dade: um estudo sobre a promoção de medicamentos no Brasil
(LabCom/Portugal, 2010) e coautora de Análise de Discurso
Crítica (Resende, V. M. & Ramalho, V. , Editora Contexto/São
Paulo, 2006).
vivi@unb.br

Viviane de Melo Resende é Mestre e Doutora em Linguística


pela Universidade de Brasília (UnB). É professora adjunta do
Depto. de Linguística, Português e Línguas Clássicas (LIP/
UnB) e pesquisadora do Programa de Pós-Graduação em
Linguística (PPGL/UnB), na área de Linguagem e Sociedade.
É coordenadora do Núcleo de Estudos de Linguagem e Socie-
dade (NELiS/CEAM/UnB) e colabora no Programa de Pós-
Graduação em Desenvolvimento, Sociedade e Cooperação
Internacional (CEAM/UnB). Tem artigos publicados em pe-
riódicos como Journal of Multicultural Discourses, Discourse

193
Análise de Discurso (para a) Crítica: O texto como material de pesquisa

& Society, Discurso & Sociedad, Revista Latinoamericana de


Estudios del Discurso, Cadernos de Linguagem e Sociedade,
Linguagem em (Dis)curso, entre outros. Publicou os livros
Análise de Discurso Crítica e Realismo Crítico: implicações
interdisciplinares (Campinas: Pontes, 2009) e Análise de
Discurso Crítica (em co-autoria com Viviane Ramalho; São
Paulo: Contexto, 2006) e organizou o livro Práticas socio-
culturais e discurso: debates transdisciplinares (com Fábio
Pereira; Covilhã, Portugal: Labcom, 2010). Seus interesses de
pesquisa envolvem a pesquisa etnográfica, a análise de discur-
so da mídia e o jornalismo cidadão – em relação a contextos
de extrema pobreza e de mobilização da sociedade.
viviane.melo.resende@gmail.com

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