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YAMAS E NIYAMAS

NIYAMAS

1. Não violência

A Violência - A Cólera - A Justificação e a Condenação - O Ideal e o Real

O medo, o prazer, o sofrimento, o pensamento e a violência estão relacionados


entre si. Em maioria encontramos prazer na violência, em não gostar de
alguém, em odiar uma dada raça ou grupo de pessoas, em nutrir sentimentos
hostis para com os outros. Mas, no estado mental em que a violência
desapareceu completamente, há uma alegria muito diferente do prazer da
violência, com os seus conflitos, rancores e temores.

Podemos penetrar a raiz da violência e dela nos livrarmos? De contrário,


viveremos a batalhar perenemente uns com os outros. Se é dessa maneira que
desejais viver - e aparentemente a maioria das pessoas o deseja - continuai
então assim; se dizeis: "Ora, sinto muito, mas a violência nunca terá fim, jamais
acabará" - nesse caso vós e eu não temos possibilidade de comungar, uma
vez que vos emparedastes; mas se dizeis que talvez exista uma diferente
maneira de viver, teremos então a possibilidade de comunhão.

Consideremos, pois, juntos - aqueles de nós que têm a capacidade de


comungar - se existe alguma possibilidade de acabarmos totalmente com
qualquer forma de violência em nós mesmo existente, e ao mesmo tempo
vivermos neste mundo monstruoso e brutal.

Acho que é possível. Não desejo ter em mim a mais leve sombra de ódio, de
ciúme, de ansiedade ou medo. Desejo viver completamente em paz. Mas isso
não significa que desejo morrer. Desejo viver nesta terra maravilhosa, tão cheia
de vida, de riqueza e de beleza! Desejo olhar as árvores, as flores, os rios, os
prados, as mulheres, as crianças, e ao mesmo tempo viver completamente em
paz comigo mesmo e com o mundo. Que posso fazer?
Se soubermos olhar a violência, não só exteriormente, na sociedade - guerras,
rebeliões, antagonismos nacionais e conflitos de classes - mas também em nós
mesmos, talvez então tenhamos a possibilidade de transcendê-la.

Este é um problema muito complexo. Há séculos e séculos que o homem é


violento; as religiões, em todo o mundo, tentaram amansá-lo, e nenhuma delas
foi bem-sucedida. Assim, se vamos examinar esta questão, devemos, acho eu,
encará-la com toda a seriedade, porque esse exame nos levará a um domínio
completamente diferente. Mas se desejamos meramente entreter-nos
intelectualmente com o problema, não iremos muito longe.

Podeis pensar que de vossa parte esse problema vos interessa seriamente,
mas, uma vez que há tanta gente no mundo que não o leva a sério e não se
mostra disposta a tomar alguma medida em relação a ele, de que serve
fazerdes alguma coisa? Não me importa se os outros o levam a sério ou não;
eu o levo a sério, e tanto basta. Eu não sou o guarda de meu irmão (1).

Eu, de minha parte, como ente humano, sinto-me fortemente interessado nesta
questão da violência, e farei o necessário para eu próprio não ser violento; mas
não posso dizer a vós nem a ninguém: "Não sejais violento". Isso não tem
significação alguma, a não ser que também não desejeis sê-lo. Assim, se
pessoalmente desejais compreender o problema da violência, prossigamos
juntos a nossa viagem de exploração.

O problema da violência é exterior ou interior? Desejais resolver o problema no


mundo exterior, ou estais questionando a violência em si, tal como em vós
existe? Se, interiormente, em vós mesmos, estais livre da violência, surge logo
a pergunta: "Como posso viver num mundo cheio de violência, ganância,
avidez, inveja, brutalidade? Não serei destruído?" - Esta alusão às palavras de
Caim, após assassinar Abel, é a pergunta que inevitável e invariavelmente se
faz. Fazendo tal pergunta, não me pareceis estar vivendo realmente em paz.
Se viveis pacificamente, não tendes problema de espécie alguma. Podeis ir
para a prisão se vos recusardes a alistar-vos no exército, ou ser fuzilado se vos
recusardes a combater; mas isso não é problema: sereis fuzilado. É
extremamente importante compreender isso.
Estamos tentando compreender a violência como um fato, não como uma idéia;
como um fato existente no ente humano, e o ente humano sou eu. E, para
examinar o problema, eu tenho de ser completamente vulnerável, aberto a ele.
Tenho de desmascarar-me a mim mesmo; não há necessidade de me
desmascarar diante de vós, porque isso talvez não vos interesse - mas devo
achar-me num estado mental que queira levar o exame completamente a cabo,
sem me deter em nenhum ponto, dizendo "não irei mais adiante".

Ora, devo ver bem claramente que sou um ente humano violento. Tenho
experimentado a violência na cólera, nos apetites sexuais, no ódio, no criar
inimizades, no ciúme etc. Tendo-a experimentado, conhecido, digo de mim
para mim: "Desejo compreender este problema integralmente, e não apenas
um fragmento seu, conforme se expressa na guerra; quero compreender essa
agressividade existente no homem e que também existe nos animais, dos
quais faço parte".

Violência não é meramente assassinar. Há violência no uso de uma palavra


áspera, num gesto de desprezo, na obediência motivada pelo medo. A
violência, portanto, não é apenas a carnificina organizada, em nome de Deus,
da sociedade, da pátria. A violência é muito mais sutil e profunda, e nós
queremos investigar as suas últimas profundezas.

Quando vos denominais indiano, ou maometano, ou cristão, ou europeu, ou o


que quer que seja, estais sendo violento. Sabeis por quê? Porque vos estais
separando do resto da humanidade. Quando vos separais, pela crença, pela
nacionalidade, pela tradição, gera-se a violência. Assim, o homem que deseja
compreender a violência, não deve pertencer a nenhuma nação, nenhuma
religião, nenhum partido político ou sistema partidário; o que deve interessá-lo
é a compreensão total da humanidade.

Pois bem; há duas escolas principais de pensamento que se interessam pela


violência. Uma delas diz: "A violência é inata no homem"; a outra diz: "A
violência é o resultado da herança social e cultural do homem". Não nos
interessa a escola a que pertenceis, pois isso não tem importância nenhuma. O
importante é o fato de que somos violentos e não a razão desse fato.
Uma das expressões da violência mais comuns é a cólera. Quando atacam
minha esposa ou minha irmã, sinto-me justamente encolerizado; quando são
atacados a minha pátria, as minhas idéias, os meus princípios, a minha
maneira de vida, fico também justamente encolerizado. Sinto também cólera,
quando são atacados os meus hábitos, as minhas insignificantes opiniões. Se
me pisais no pé ou me insultais, enraiveço-me, ou se fugis com minha mulher
sinto ciúme, um ciúme também justo, porque ela é minha propriedade. Todas
essas manifestações de cólera são moralmente justificadas. Também se
justifica o matar pela pátria.

Assim, falando a respeito da cólera, que faz parte da violência, consideramo-la


em termos de cólera justa e cólera injusta, conforme nossas próprias
inclinações ou as pressões do ambiente ou a consideramos como cólera
simplesmente? Existe cólera justa? Ou só existe a cólera? Não há influência
boa ou influência má - só há influência; mas quando sou influenciado por uma
coisa que não me convém, chamo-lhe má influência.

Se protegeis vossa família, vossa pátria, um trapo colorido chamado bandeira,


uma crença, uma idéia, um dogma, aquilo que quereis possuir ou que já tendes
nas mãos, essa própria proteção denota cólera. Assim, podeis olhar a cólera
sem nenhuma explicação ou justificação, sem dizerdes: "Tenho de proteger o
que é meu" ou "Tive razão para me encolerizar" ou "Que estupidez minha, ter-
me encolerizado"? Podeis olhar a cólera como uma coisa em si? Podeis olhá-la
de maneira completamente nova, quer dizer, sem defendê-la, nem condena-la?
Podeis?

Posso olhar-vos se vos sou hostil ou se vos considero uma pessoa excelente?
Só posso ver-vos, quando vos olho com certo cuidado em que não esteja
contida nenhuma dessas coisas.

Ora, posso eu olhar a cólera da mesma maneira, o que significa que sou
vulnerável ao problema, que não resisto a ele, que estou observando, que
estou observando esse extraordinário fenômeno sem nenhuma reação a ele?

É muito difícil considerar a cólera desapaixonadamente, porquanto ela faz parte


de mim, mas é isso o que estou tentando fazer. Aqui estou eu, um ente
humano violento, não importando se sou preto, se sou moreno, branco ou
vermelho. Não importa se herdei essa violência ou se a sociedade a produziu.
Só isto me importa: "Se é possível libertar-me dela".

Livrar-me da violência significa tudo para mim. É-me mais importante do que o
sexo, o alimento, a posição, porque essa coisa me está corrompendo. Estou a
destruir-me e a destruir o mundo, e preciso compreender a violência,
transcendê-la. Sinto-me responsável por toda a cólera e toda a violência
existentes no mundo. Sinto-me responsável, e isso não são meras palavras.
Digo de mim para comigo: "Só posso fazer alguma coisa se eu próprio
transcender a cólera, a violência, a nacionalidade". E esse meu sentimento de
que devo compreender a violência em mim existente me confere uma
estupenda vitalidade e paixão para compreendê-la.

Mas, para transcender a violência, não posso reprimi-la, negá-la, não posso
dizer: "Ora, ela faz parte de mim, e está acabado" ou "Eu não a quero". Tenho
de enfrentá-la, de estudá-la, de entrar em intimidade com ela, e essa intimidade
não é possível se a condeno ou justifico. Entretanto, na verdade, nós a
condenamos e justificamos. Por conseguinte, digo "Deixemos, por ora, de
condená-la ou de justificá-la".

Preciso fazer-vos ver que não se pode olhar a cólera nem a violência com
olhos que condenam ou justificam, e que, se a violência não representa para
vós um urgente problema, não podeis afastar aquelas duas coisas. Assim, em
primeiro lugar, tendes de aprender; tendes de aprender a olhar a cólera, a olhar
vosso marido, vossa esposa, vossos filhos: tendes de escutar o político,
aprender porque não sois objetivo, porque condenais ou justificais. Tendes de
aprender que condenais e justificais porque isso faz parte da estrutura social
em que viveis,- faz parte de vosso condicionamento como alemão, indiano,
negro, americano - ou o que acaso sois por nascimento - com todo o embota-
mento mental resultante desse condicionamento.

Para aprender, para descobrir uma coisa fundamental, precisais de penetração.


Se tendes um instrumento obtuso, um instrumento embotado, não podeis
penetrar profundamente. Assim, o que agora estamos fazendo é aguçando o
instrumento, que é a mente - essa mente que se embotou por causa do
justificar e do condenar. Só sereis capaz de penetrar fundo se vossa mente for
penetrante como uma agulha e forte como o aço.

De nada serve ficardes recostado e perguntar: "Como chegarei a ter essa


mente?". Vós tendes de desejá-la assim como desejais a vossa próxima
refeição, e para a terdes deveis ver que o que está tornando vossa mente
embotada e estúpida é esse estado de invulnerabilidade que ergueu muralhas
ao redor dela e que faz parte da condenação e da justificação. Se a mente
puder libertar-se desse estado, sereis então capaz de olhar, de estudar, de
penetrar e, assim, talvez, alcançar um estado totalmente consciente do
problema em seu todo.

Voltemos, pois, ao problema central: É possível erradicarmos a violência em


nós existente?

Alguns dentre nós, a fim de se libertarem da violência, têm-se servido de um


conceito, de um ideal chamado "não violência", e pensamos que, tendo um
ideal que seja o oposto da violência - a não violência - podemos libertar-nos do
fato, da coisa real; mas não podemos. Temos tido inumeráveis ideais, todos os
livros sagrados estão cheios deles e, contudo, continuamos violentos; portanto,
por que não enfrentar a própria violência e esquecer de todo a palavra?

Se desejais compreender a realidade, a isso deveis aplicar toda a vossa


energia. Essa atenção e energia são desviadas quando se cria um mundo
fictício, ideal. Assim, podeis banir completamente o ideal? O homem que é
realmente sério, que sente a ânsia de descobrir o que é a verdade, o que é o
amor, não tem conceito de espécie alguma. Só vive dentro de o que é.

Para investigar o fato de vossa própria cólera, não deveis pronunciar


julgamento sobre ela, porque no mesmo instante em que concebeis o seu
oposto, a estais condenando e, por conseguinte, não podeis vê-la tal como é.
Quando dizeis que não gostais ou que tendes ódio de alguém, isso é um fato,
embora pareça terrível. Se o olhais, se o examinais cabalmente, ele deixa de
existir; mas se disserdes "Eu não devo odiar; devo ter amor no coração", ficais
então vivendo num mundo hipócrita, de duplos padrões. Viver com plenitude no
momento presente é viver com o que é, o real, sem idéia de condenação ou
justificação; então o compreendeis tão completamente que ficais livre dele.
Quando se vê claramente, o problema está resolvido.

Mas, podeis ver claramente a face da violência, não só fora mas também
dentro de vós, o que significa que estais totalmente livre da violência, uma vez
que não aceitastes nenhuma ideologia para, por meio dela, vos libertardes da
violência? Isso exige meditação muito profunda, e não uma simples
concordância ou discordância verbal.

Acabastes de ler uma série de asserções, mas tereis compreendido tudo?


Vossa mente condicionada, vossa maneira de vida, a inteira estrutura da
sociedade em que viveis, vos impedem de olhar um fato e dele vos livrardes
imediatamente. Dizeis: "Vou pensar a respeito disso; vou considerar se é ou
não possível libertar-me da violência. Vou tentar ser livre". Esta é uma das
coisas mais terríveis que se podem dizer: Vou tentar. Não há tentar, não há
esforçar-se. Ou a gente age ou não age. Estais admitindo o tempo, com a casa
em chamas. A casa está a arder, como resultado da violência existente no
mundo inteiro e em vós mesmo, e dizeis "Vou pensar nisso. Qual é a melhor
ideologia para extinguir o fogo?" Quando a casa está em chamas, discutis
sobre a cor dos cabelos do homem que traz a água?

Liberte-se do Passado, Jiddu Krishnamurti

Cólera, Violência, Agressividade

Como sabeis, há muito do animal em nós. Os biólogos nô-lo dizem, mas não
precisamos ouvir os biólogos, se observarmos a nós mesmos e os animais. Em
nós há muita animalidade. Somos autoritários, brutais, violentos, sem
consideração (…), agressivos - e assim são os animais. (…) (A Suprema
Realização, pág. 179-180)

(…) Quando a mente não está presa no conflito dos opostos, ela é capaz de
discernir sem escolha o processo do “eu” em sua íntegra. Enquanto esse
processo continuar, tem de haver medo, e a tentativa de fugir dele apenas
aumenta e fortifica o processo. Se vos quiserdes libertar do medo, deveis
compreender plenamente a ação nascida da carência. (Idem, pág. 42)
Nessas condições, (…) não procureis ir “muito longe”; mas investigai o motivo,
(…) as atividades da mente que deseja ir longe. (…) Ou é porque desejamos
fugir de nós mesmos, ou porque ambicionamos influência, prestígio, posição,
autoridade. (…) (Idem, pág. 27)

(…). Como disse, (…) a cólera pode resultar de causas físicas ou psicológicas.
Zangamo-nos, talvez, porque estamos sendo frustrados, nossas reações
defensivas estão sendo quebradas, nossa segurança, (…) cuidadosamente
construída, está sendo ameaçada, etc. (…) (Palestras em Ojai e Sarobia, 1940,
pág. 43)

Não estais realmente preocupado com a injustiça; se estivésseis, jamais vos


zangaríeis; ficais zangado, porque há satisfação emocional no ódio e na raiva;
senti-vos dominados pelo ódio e pela raiva. (…) (Idem, pág. 46)

A cólera tem essa peculiar qualidade de isolamento; como a tristeza, isola e -


pelo menos temporariamente - cessa, por completo, o estado de relação. A
cólera tem a força e a vitalidade passageiras dos que estão isolados. Há um
estranho desespero na cólera; porque isolamento é desespero. (…)
(Comentários sobre o Viver, pág. 67-68)

Quando resistis à cólera ou ao ódio, o que foi que realmente sucedeu?


Construístes um muro contra o ódio, mas o ódio continua existente; o muro
está apenas a escondê-lo de vós. Ou vos determinais a não vos irritar, mas
essa própria determinação faz parte da cólera, (…) dá mais força à cólera. (…)
Quando resistis, controlais, reprimis, (…) tudo isso vem a dar no mesmo,
porque todos esses atos provêm da vontade (…) (A Outra Margem do
Caminho, pág. 61)

A mesma coisa se verifica (…) Pensai na cólera de maneira completa, olhai-a


de frente, sem procurar escusas. No momento em que olhais o fato de frente,
começa a transformação. (…) Assim, acompanhar um pensamento do princípio
ao fim significa ver o que é, sem desfiguração; e, quando percebo o fato
diretamente, só então ele se transforma. Não é possível realizar a
transformação enquanto estiver me evadindo, fugindo do que é (…) (A Arte da
Libertação, pág. 143-144)
(…) Permanecendo conscientes, descobrimos, por exemplo, que estamos
encolerizados porque alguém está contradizendo a nossa crença. Examinando-
a (a cólera) mais detidamente, inquirimos a nós mesmos (…) Com esse modo
amplo de observar e compreender a significação íntima da cólera, ela cedo se
desvanecerá e a mente se tornará mais penetrante, (…) tranqüila e sábia (…)
(Autoconhecimento, Correto Pensar, Felicidade, pág.144)

Um dos nossos maiores problemas é a violência, não só no exterior, mas


também no interior. A violência não é apenas física, pois a estrutura da psique
está baseada na violência. Esse esforço incessante, esse constante
ajustamento a um padrão, a perene busca dos prazeres, por conseguinte, o
desejo de evitar tudo o que causa dor (olhar, observar o que é) - tudo isso faz
parte da violência. A agressividade, a competição, a constante comparação
entre o que é e o que deveria ser - tudo isso (…) são formas de violência. (…)
(A Importância da Transformação, pág. 9)

A violência, como podemos observá-la em nós mesmos, faz parte de nossa


herança animal. Uma boa parte de cada um de nós é animal e, se não
compreendemos nossa estrutura de entes humanos totais, e apenas tratamos
de acabar com a violência, separadamente, daí resultará mais violência ainda.
(…) (A Questão do Impossível, pág. 39)

A violência é uma forma de vontade. E pode-se viver neste mundo sem o


perpétuo exercer do querer e do não querer, do gostar e do não gostar? Isso,
em suma, significa viver pacificamente. Mas nós temos de agir neste mundo e,
assim sendo, é possível agir sem a vontade, a qual assume tantas formas, tais
como ambição, competição, impulso de realizar, preencher, rejeitar, resistir, é
possível isso? (…) (A Essência da Maturidade, pág. 153)

A fonte da violência é o “eu”, o ego, que se expressa de muitos e vários modos


- dividindo, lutando para tornar-se ou ser importante, etc.; que se divide em “eu”
e “não eu”, em consciente e inconsciente; que se identifica, ou não, com a
família, a comunidade, etc. (…) Enquanto subsistir o “eu”, em qualquer forma
que seja, sutil ou grosseira, haverá inevitavelmente violência. (Fora da
Violência, pág. 67)
(…) A violência é uma forma de energia; é a energia que, utilizada de certa
maneira, se torna agressão. (…) (Idem, pág. 68)

Pois bem, vemos que a violência existente no mundo é em parte medo, em


parte, prazer. Há uma extraordinária busca de sensações; nós as desejamos e
incitamos a sociedade e nô-las dar. (…) Ora, na própria compreensão e no
percebimento da verdade a esse respeito, essa energia se torna inteiramente
diferente. (Idem, pág. 73)

Vós percebeis a existência da violência em vossa vida diária. Se a


condenardes, criareis o seu oposto, o ideal da não violência, o qual perpetua a
violência (…) Mas na percepção plena e flexível da violência e suas várias
conseqüências, reside a nossa libertação dela, e não na mera substituição por
outra forma de violência. (O Caminho da Vida, pág. 22)

Mas, há o condicionamento mais profundo, como, por exemplo, uma atitude


agressiva perante a vida. A agressividade implica tendência de domínio, busca
de poder, de posses, de prestígio. (…) Pode uma pessoa julgar que não é
agressiva, mas se (…) ela tem algum ideal, ou opinião, ou escala de valores,
existe então tendência para a arrogância, que se tornará gradualmente
agressiva e violenta. (…) Esse condicionamento agressivo precisa ser
descoberto, para vermos se o herdamos do animal ou se nos tornamos
agressivos pelo prazer de nos impormos aos outros, de tomar-lhes a frente. (A
Questão do Impossível, pág. 61)

É possível viver sem agressão e, conseqüentemente, sem defesa? Significa


todo esforço apenas uma série de ataques e defesas? Pode a vida ser vivida
sem esse esforço destruidor? (…) Todo esforço por vir-a-ser não redunda
inevitavelmente em afirmação e expansão pessoais, do indivíduo, e, portanto,
também do grupo ou da nação, conduzindo ao conflito, ao antagonismo e à
guerra? (O Egoísmo e o Problema da Paz, pág. 95-96)

(…) Esse “vir-a-ser” aquisitivo cria o oposto correspondente, tornando-se,


assim, o ataque e a defesa, uma parte de nossa existência diária. Nenhuma
solução se encontrará enquanto pensarmos o sentirmos em termos de defesa
e ataque, que só servem para nutrir a confusão e a luta. (Idem, pág. 96)
É possível pensar-sentir sem defesa nem ataque? Só será possível tal coisa
quando houver amor, quando cada qual abandonar a cupidez, a malevolência,
a ignorância, que se expressam pelo nacionalismo, pela ambição de poder (…)
Se o indivíduo desejar resolver permanentemente esse problema, é claro que o
pensamento-sentimento deve libertar-se de toda ânsia de posse e de todo
temor.

TRANSFORMAÇÃO SEM ESFORÇO

Pensamos ser necessário o conflito, o esforço, para se operar a transformação.


Tal esforço, muito evidentemente, supõe disciplinamento, controle, constante
exercício, o ajustamento da pessoa ao que deveria ser. Estamos, na maioria,
acostumados com essa maneira de pensar, e sobre ela se fundam as nossas
atividades, a nossa perspectiva, e os nossos valores. O que deveria ser, o
ideal, assumiu uma extraordinária predominância em nossas vidas. Para mim é
totalmente errônea uma tal maneira de pensar, e uma vez que vos achais aqui
para conhecer o que eu tenho para dizer-vos, tende a bondade de escutá-lo,
sem o rejeitardes.

No meu entender, só é possível transformação radical quando não há esforço,


quando a mente não está tentando tornar-se alguma coisa, não está tentando
ser virtuosa — o que não significa que não o deva ser. Enquanto há esforço
para se alcançar a virtude, está havendo continuidade do “eu”, pois é ele que
se está esforçando para ser virtuoso, o que, afinal, é meramente outra forma de
condicionamento, uma modificação de o que é. Nesse processo está contida
esta outra questão: Quem é que faz o esforço e qual o objetivo a que visa esse
esforço. O objetivo, evidentemente, é o automelhoramento. Mas, enquanto
fizermos qualquer esforço para melhorarmos a nós mesmos, não haverá
virtude. Isto é, enquanto houver ideais de qualquer espécie, temos de fazer
esforços para nos adaptarmos, nos ajustarmos a um dado ideal, ou nos
tornarmos esse ideal. Se sou violento e tenho o ideal da não-violência, existe
em mim um conflito, uma luta entre o que é e o que deveria ser. Esta luta, este
conflito, é um estado de violência e não um estado de liberdade, de isenção de
violência.

Ora bem, posso olhar para o que é — o estado de violência — sem fazer do
seu oposto um ideal? Neste caso, de certo, só me interessa a violência e não a
maneira de me tornar não-violento, porque o próprio processo de me tornar
não-violento é uma forma de violência. Posso, pois, encarar a violência, sem
nenhum desejo de transformá-la num outro estado? Tende a bondade de
seguir-me com paciência, até o fim. Posso considerar o estado a que chamo
“violência”, ou avidez, ou inveja, ou seja o que for, sem tentar modificá-lo ou
mudá-lo? Posso considerá-lo sem reação alguma, sem avaliá-lo, sem lhe dar
nome algum?

Estais prestando atenção? Tende a bondade de “experimentar” o que estou


dizendo, para verdes a coisa diretamente, agora, e não quando voltardes para
casa.

Se uma pessoa é violenta, pode considerar esse estado a que deu o nome de
“violência”, sem condená-lo? O “não condenar” é um processo
extraordinariamente complexo, porque a própria verbalização do sentimento, a
própria palavra “violência” é condenatória. E pode-se olhar esse sentimento,
esse estado que denominamos “violência”, sem lhe dar nome algum? Quando
não lhe damos nome, que está acontecendo? A mente é toda constituída de
palavras, não é verdade? Todo pensar é um processo de verbalização. E
quando não se dá nome a esse sentimento, quando não lhe aplicamos o termo
“violência”, não está ocorrendo uma revolução extraordinária, na atenção que
estamos dando ao sentimento?

Consideremos o assunto de outra maneira. A mente divide a si mesma em


violência e não-violência, de modo que há dois supostos estados: o estado que
ela deseja alcançar, e o estado que é. Está, aí, a funcionar um processo
dualista, e, no meu sentir, só é possível a transformação radical quando cessa
completamente esse processo dualista, isto é, quando a totalidade da
consciência, da mente, pode dar atenção completa a “o que é”. E a mente não
pode dar essa atenção completa se há qualquer tendência de condenação,
qualquer desejo de modificar o que é, qualquer forma de distração, verbalizar,
dar nome. Quando é completa a atenção, vereis que essa atenção, em si, é “o
bom”, e “o bom” não é o esforço que se faz para transformar o que é noutra
coisa diferente.

Isto talvez seja uma explicação muito complicada de um fato que é muito
simples. Enquanto a mente tem o desejo de transformação, qualquer
transformação que conseguir será apenas uma “continuidade modificada” de “o
que é”, porquanto a mente não pode conceber a transformação total. Só pode
haver transformação total quando a mente presta atenção total a “o que é”, e a
atenção não pode ser completa se há qualquer forma de verbalização,
condenação, justificação ou avaliação.

Krishnamurti – AUSTRÁLIA E HOLANDA - 1955

2. SATYA

A verdade não pode ser dita. É um estado de consciência intransferível.


O que podemos então chamar de “falar a verdade” é dizer aquilo que ao ser
escutado aproxima a consciência daquele que escuta do estado de ser onde a
realidade pode ser compreendida silenciosamente naquilo que ela é.

A tradução literal da palavra "satya" é "seidade" ou, "as coisas como


elas são", e, se refletirmos com cuidado sobre a aplicação do termo "seidade"
ou "as coisas como elas são", outro não poderá ser o significado e, portanto,
deverá ser permanente - por isto é chamado Verdade Absoluta.

Satya é a perfeita veracidade do pensamento, da palavra e da ação.

Satya, a verdade, consiste em fazer coincidir pensamentos, palavras e


atos, o que deve entender-se como evitar a intenção de enganar, o que implica
a aquisição de algum nível de benefício egocêntrico com o engano. Falsidade é
algo a ser identificado em suas nuances e eliminado em suas causas. Satya é
procurar sempre a verdade, independentemente de onde essa busca possa
nos levar. Entretanto, como diz o Rish Vyása : “A palavra pronunciada com o
propósito de comunicar o próprio pensamento a outrem é verdadeira, desde
que não engane ou confunda. A palavra deve pronunciar-se não para ferir, mas
para beneficiar. Porque, se ferir, não produzirá harmonia, apenas sofrimento.”
Satya é a perfeita veracidade do pensamento, da palavra e da ação. É
transparência com aquilo que se sente e pensa e a inteligência que nos dá a
clareza sobre o que é oportuno e adequado ser expresso em palavras e ação
em cada situação. Costuma-se dizer que a mentira tira a força da fala. No
entanto, naturalmente ninguém sensato diria á um criminoso que estivesse
perseguindo alguém e perguntasse onde está escondido aquele que está
sendo perseguido, ninguém sensato lhe responderia corretamente a pretexto
de estar falando a verdade.

Reflita com esse texto sobre o terreno onde o que chamamos mentira floresce.
Sem eliminar esse terreno o mero cultivo do ideal da verdade não é suficiente
para vivenciar satya.

Krishnamurti - Que é a mentira? Uma contradição. Certo? Uma auto


contradição. Pode-se contradizer a si mesmo de forma consciente ou
inconscientemente. A contradição pode ser deliberada ou não. Pode ser muito
sutil. Ou óbvia. Quando é muito grande o buraco aberto pela contradição, ou a
pessoa se torna desequilibrada, ou então percebe essa distância, essa brecha
e tenta remenda-la.

Para compreender bem este problema, o que é a mentira e porque


mentimos precisamos observa-lo, examina-lo, sem pensar no seu oposto.
Podemos observar o problema da contradição existente em nós mesmos, sem
fazer esforços para não sermos contraditórios?

Nossa dificuldade, quando examinamos esta questão, consiste em que


temos sempre muita pressa em condenar a mentira; mas, a fim de
compreende-la, será que podemos considera-la sem perguntar o que é a
verdade e o que é a mentira, porém perguntando o que é a contradição.
Porque existe em nós a contradição?

Há um esforço para vivermos de acordo com um padrão, de acordo com


um modelo, uma constante avaliação de nós mesmos de acordo com um
modelo, um padrão, um esforço constante para sermos alguma coisa, seja aos
olhos dos outros ou aos nossos próprios olhos. Vocês percebem isso?

Existe um desejo de seguir, não é verdade? De seguir alguma norma.


Quando não estamos em harmonia com essa norma, há contradição.

Porque temos um padrão, um modelo para avaliação? Uma idéia à qual


estamos sempre tentando satisfazer? Porquê? Porque desejamos estar em
segurança, evidentemente porque desejamos estar protegidos, ser benquistos,
tidos em bom conceito, etc. Aí se encontra a semente da contradição. Porque
estamos sempre procurando um certo alvo, tentando ser alguma coisa, não
pode deixar de haver contradição; por conseguinte tem de haver essa brecha
entre o falso e o verdadeiro. Este ponto é importante, e você pode vê-lo se
examinar devagar. Não quero dizer que não haja o falso e o verdadeiro; mas
porque existe contradição em nós? Não é porque estamos procurando ser
alguma coisa, ser nobres, virtuosos e criadores, ser felizes, etc?

No próprio desejo de ser alguma coisa há uma contradição: não ser outra
coisa. É esta contradição que é tão destrutiva! Se uma pessoa é capaz de
completa integração com alguma coisa a contradição cessa. Quando nos
identificamos completamente com alguma coisa, resulta daí egocentrismo,
resistência. E isto produz desequilíbrio, como é bem óbvio.

Porque existe contradição em nós? Fiz alguma coisa, que não desejo seja
descoberta; pensei alguma coisa que não corresponde ao padrão isso me põe
num estado de contradição, não gosto desse estado. Sempre que há avaliação
segundo algum padrão, tem de haver temos, e é o temor que contradiz. Mas,
se não há “vir a ser”, se não há esforço para ser alguma coisa, não existe o
sentimento de temor; não há mais contradição ou mentira em nós, em nível
algum. Nem consciente, nem inconsciente; não há mais nada a reprimir,
esconder ou ostentar. Como a maior parte de nossas vidas se constitui de
diferentes disposições de ânimo, nossas atitudes variam em conformidade com
essas disposições de ânimo. E isto é contradição. Desaparecendo esses
estados de ânimo, humores, nós somos o que somos. Essa contradição toda é
que é importante, e não o fato de dizer ou não dizer mentiras inocentes e
polidas.
Enquanto existir essa contradição, teremos uma existência superficial, com
temores superficiais, que temos de encobrir. E é daí que surgem as mentiras
inocentes e tudo o mais. Consideremos essa questão, sem perguntar o que é
mentira e o que é verdade, sem estes opostos.

Vamos examinar o problema da contradição existente em nós mesmos, e o que


é dificílimo, porquanto, já que dependemos das sensações, quase toda a nossa
existência é contraditória. Dependemos de lembranças, de opiniões, e temos
muitos temores que desejamos encobrir. E, quando a contradição se torna
insuportável, perdemos a cabeça. Queremos paz, e tudo o que fazemos produz
a guerra. Tanto no meio familiar, como socialmente. Ao invés de
compreendermos o que cria o conflito, procuramos, mais e mais, nos tornar
uma coisa ou outra. Isso ou aquilo, aumentando assim ainda mais a brecha da
contradição.

È possível compreender porque existe a contradição em nós mesmos?


Não só superficialmente, mas muito mais a fundo, isto é, psicologicamente ?
Antes de tudo, percebemos que levamos uma vida contraditória ?

Queremos paz e somos nacionalistas. Queremos evitar os males


sociais, e cada um de nós é individualista, limitado, egocêntrico. Vivemos em
contradição. Porquê? Não é porque somos escravos da sensação? Isto não é
para ser rejeitado ou aceito. A questão requer profunda investigação das coisas
que estão latentes na sensação, ou seja, os Desejos. Queremos muitas coisas,
todas em contradição entre si. Usamos muitas máscaras contraditórias;
colocamos uma máscara quando convém, e a retiramos quando se torna mais
vantajoso e conveniente usar outra máscara. É esse estado de contradição que
cria a mentira. E então em oposição à mentira criamos a verdade.

Mas, por certo, a verdade não é o oposto da mentira. O que tem oposto
não pode ser a verdade. O oposto contém seu próprio oposto, e por isso não é
a verdade, e para compreender esta questão profundamente, precisamos estar
cônscios de todas as contradições em que vivemos.

Quando digo “eu te amo”, isso subentende ciúme, inveja, ansiedade,


temor, ou seja: contradição! Essa contradição é que precisa ser compreendida,
e, só podemos compreende-la quando dela estamos conscientes. Mas
consciente sem censura ou justificação. Observando apenas o que é. Para
podermos observa-la passivamente temos de compreender por completo os
processos de julgamento: de justificação ou de condenação.

Não é fácil observar sem interferir naquilo que se observa. Mas quando
temos a compreensão daquilo que se observa começamos a perceber todo o
processo que determina as variações do nosso pensar e sentir. Quando se
percebe o inteiro significado da contradição em nós mesmos existente,
acontece uma mudança extraordinária: você é você mesmo, e não uma coisa
tentando ser outra coisa. Você já não está mais seguindo um ideal, procurando
a felicidade. Você é o que é. E a partir daí pode continuar. Não há mais a
possibilidade da contradição, e o terreno onde a mentira aparece foi eliminado.

3. ASTEYA – não roubar

Rohit Mehta

“Quando estabelecido em não-roubar, Asteya, um indivíduo se sente como se


possuísse toda a riqueza no mundo”. Rohit Mehta

Por que os seres humanos roubam? Alguns roubam para razões físicas,
quando suas barrigas estão vazias. Outros roubam para razões psicológicas,
quando seus corações estão vazios. Rohit Mehta explica em seu livro Yoga a
arte da integração, que a razão física para roubar é um problema da
organização sócio-econômica: “Com organização apropriada da sociedade e
com planejamento econômico este problema no sentido material estrito poderia
ser eliminado.”

Na perspectiva do Yoga, no entanto, o ato de roubar vem do sentimento de


vazio psicológico ou de sentir-se incompleto. Mehta continua. “O sentimento de
ser incompleto surge pela comparação com os outros.” Nós comparamos e
queremos o que outros têm na habilidade física, beleza, juventude, riqueza
material, fama, poder, amor e na assim chamada realização espiritual. Nós
comparamos, e a seguir imitamos e queremos possuir o que outros têm. Isto é
um ato de roubar psicológico.
Mehta conclui, “quando uma pessoa se move sempre na busca de satisfação
das necessidades que o tornariam pleno, tende a incorporar o hábito de roubar.
Mas qual é a diferença entre necessidades e querer simplesmente? E o que
nós necessitamos verdadeiramente na vida ser saudável, feliz, e realizados?
Se você perguntar a uma pessoa em Calcutá, India e outro na palma Saltam,
CA, as respostas podem ser muito diferentes.

Não há nenhuma fórmula do jogo para o que cada pessoa individual necessita.
É muito subjetivo. As necessidades de cada pessoa variam dependendo dos
climas diferentes, o trabalho e situações e mudanças vivas como tempo,
estação e idade: isto é aqueles que vivem em um clima morno. Necessitar
menos roupa, alimento e abrigo do que aqueles que vivem em um clima frio.

Assim quando o desejo vem, nós podemos sempre perguntar se o que eu


quero necessito-o verdadeiramente? Mas como podemos nós começar já
sendo desobstruídos e situados em nossas necessidades verdadeiras ? Nós
podemos ficar atentos dentro de nós mesmos e escutar. O Yoga ensina-nos a
aquietar nossas mentes, para escutar profundamente que nossos próprios
corpo, mente, e alma verdadeiramente necessitam.

Podemos começar descobrindo o que podemos dar a nós mesmos em termos


de cuidado, atenção ao corpos, emoção e mente, ao invés de ficarmos fixados
apenas naquilo que queremos. Isso é uma mudança de atitude que pode
favorecer o estado de asteya. Quando damos, nós recebemos. Então quando
praticamos asteya toda a riqueza do mundo é nossa.

Agora, como Asteya relaciona-se a nossa prática do yoga? a maneira de nos


relacionarmos com nossos corpos na prática do yoga é uma reflexo de como
nós nos relacionamos à vida em geral. Nas aulas de yoga nós frequentemente
comparamos e queremos o que outros têm. Nós queremos ter flexibilidade,
força, forma do corpo, juventude, ou postura.

E então nós pudemos tentar imitar os outros em uma carta postura. Imitar é
uma forma sutil de roubamos “uma postura final que nosso estudante,
companheiro, ou professor. E se nosso corpo não estivesse pronto para aquela
postura determinada, nós podemos apenas gerar tensão, dor e ferimento. .
E por último, como Asteya se relaciona com a nossa vida diária? Nós nos
comparamos com nossos vizinhos? Nós tentamos imitar outras habilidades e
realizações? Nós temos e possuímos um material mais material, uma riqueza e
uma propriedade do que nós necessitamos realmente? Nós prendemos sobre
nossas posses, ou nós compartilhamos com os outros?

Nós aceitamos fundos para serviços que não fizemos? Nós estamos usando
mais recursos naturais do que nós necessitamos? Estamos roubando da
natureza? É interessante que em muitos países se usam mais recursos
naturais da terra do que é realmente necessário. Isto porque em geral nos
sentimos mais vazios e incompletos em nossos corações, olhando
externamente para encher nossas vidas com as posses?

NÃO ROUBAR É antes de mais nada ter consciência dos recursos gerados por
você mesmo, ou disponibilizados por outros que os tenham gerado para que
você possa usa-los. É não se a propriar daquilo que por direito pertence a outra
pessoa ou Instituição, sem a prévia autorização. Isto se aplica a objetos ou
idéias.

As estratégias para se apropriar desonestamente do que não lhe pertence


envolve muitas vezes o esquecimento de Satya, ou seja, a mentira. È nesse
sentido também mentir, omitir ou ocultar uma verdade para tirar vantagem
financeira. Evidente que formas mais grosseiras de roubo envolvem muitas
vezes a violência.

A exploração financeira, por exemplo, inclui também mudanças de regras pré


estabelecidas por parte de alguém que detenha o poder em uma determinada
situação. È claro que nesse tipo de situação só é roubado quem se deixa
roubar. Mas usar o poder para tirar vantagens financeiras é uma forma
perversa e comum de roubo.

Roubar idéias, técnicas, é apresenta-las como se fossem de sua autoria.

A prosperidade daquele que rouba é aparente e transitória. Aparente porque no


fundo uma pessoa que rouba sente-se miserável em seu coração e
consciência. Transitória, porque a própria pessoa ou quem for se beneficiar de
suas posses, pode, e muitas vezes será desmascarada, e perderá os supostos
benefícios do seu roubo.

4. BRAHMACHARYA - AGIR COMO O DIVINO.

Estado onde a relação com os objetos dos sentidos não visa o preenchimento
psicológico. Aplicado ao aspecto sexual é não fazer da relação uma forma de
preencher o vazio existencial. Pode significar também, o não desperdício da
energia sexual. Em contexto monástico é o celibato.

Quando se vive a partir da identificação com a mente e as memórias, o eu é


temporal. Na dimensão temporal há um sentimento permanente de ser
incompleto. Isso pode estar mais ou menos consciente. O fato é que esse
estado de incompletude e insatisfação move uma atitude de busca de
preenchimento para dar maior consistência a si mesmo. E essa atitude volta-se
para fora, para obter satisfação através dos estímulos provenientes das
impressões sensoriais. Nessa perspectiva toda a relação com o mundo se dá
em uma atitude básica de carência e as relações se tornam uma forma de
preenchimento. Isso se refere à todas as impressões sensoriais. Busca de
satisfação através dos sentidos, portanto.

Brahmacharia é um estado onde toda a ação brota da fonte divina infinita e


portanto não busca nada exteriormente. Agir como o divino. Compartilhando a
plenitude de si mesmo através das relações, ao invés de procurar
preenchimento através das relações.

Um dos pontos fundamentais nessa atitude brahmacharya é o aspecto


relacionado à sexualidade. A relação sexual é uma das maiores experiências
sensoriais, em termos de propiciar satisfação e prazer através da mobilização
dos sentidos. Brahmacharya, em relação ao sexo, como em relação à todos as
demais experiências sensoriais propiciadoras de bem estar e prazer, envolve
basicamente uma atitude de despreendimento e não utilização da experiência
como uma forma de preenchimento do vazio.

As questões então são: como estabeleço minhas relações com os sentidos? O


que estou buscando quando me relaciono sexualmente ? quando como, bebo,
durmo...estou procurando preencher o vazio, a insatisfação existencial? Liberar
ansiedade? Ver atentamente o que é que me move...sem julgamentos e
comparações... Apenas compartllho amorosidade e mergulho em um estado de
não-dualidade com o outro? Ao terminar uma experiência agradável, deixo que
ela termine e morro para ela me abrindo para o momento seguinte ? ou
mantenho a idéia do que aconteceu e tento repetir a experiência porque ela foi
agradável? Quando vivencio uma experiência agradável, de puro deleite, vivo-a
com consciência e atenção, sem culpas, apegos ou aversões?

Uma atitude adequada em relação ao sexo é o não desperdício da energia


sexual. È a arte de preservar esta energia para que ela possa fluir e nutrir os
centros mais sutis de percepção. Isso envolve moderação.

No contexto monástico brahmacharya é celibato. O Kundalini Yoga é um Yoga


para ser vivenciado em uma vida familiar normal. Isso envolve relacionamentos
sexuais em um contexto adequado. Mesmo assim é sempre interessante se
perguntar sobre a motivação e o quanto fazemos do contato sexual um meio
auto preenchimento.

Rohit Mehta diz: B.K.S. Iyengar em seu livro A luz do Yoga, ao falar dos Sutras
de Patanjali lembra-nos que o grande yogi Vasista teve cem crianças, e
contudo foi chamado um Brahmachary. O próprio professor, Sr. Iyengar, é um
Brahmachary e tem seis crianças.

Rohit Mehta diz, “Bramacharya é traduzido geralmente como o celibato, mas


este não é seu significado mais profundo e amplo. Significa realmente não-
indulgência de todos os tipos. Na verdade, todas as demonstrações ostensivas
de nossas posses são indulgência. Seja na riqueza, beleza, poder oi
relacionamento humano, ou até mesmo virtude e as chamadas conquistas
espirituais.

Brahmacharya exprime abstinência de qualquer demonstração grosseira ou


sutil. Uma mente dada á demonstração; exibição é uma mente vulgar, pois
toda ostentação é grosseira e vulgar.
Vamos olhar mais perto no sutra completo, Brahmacharya - Pratistayan Virya -
Labhak que Rohit Mehta traduz como, “quando se é estabelecido em
Brahmacharya ou em não indulgência, surge uma energia inesgotável.

Há uma tendência à indulgência no comer, beber, dormir trabalhar,


jogar,, vida social e outros tipos de excitação dos sentidos.

Alegria é deleite na experiência pura de cada momento. Prazer é a


busca de repetição da experiência de deleite e alegria.

Em vez de tentar prender em experiências passadas ou de tentar


controlar as passagens naturais da época e do fluxo da vida, Brahmacharya é
um processo de encontrar-se com cada momento novo fresco e novo. Mehta
diz, “quando nenhuma continuidade é procurada em uma experiência, então
ela termina, deixa o espaço interior livre para o encontro com o novo de cada
momento.

Vimala Thakar explica que Brahmacharya é a maneira de viver na qual


você está sempre ciente do divino, da inteligência suprema. E conclui que
Brahmacharya é dedicação total à percepção, à compreensão e à consciência
do divino.

5. APARIGRAHA – NÃO POSSESSIVIDADE.

Akal Muret Singh

Aparigraha é um estado de ser necessário para que a mente tenha condições


para um completo aquietamento. Neste estado de ser está ausente o
sentimento de posse; a falsa noção de que se é proprietário de alguma coisa,
ideia, pessoas, instituições...

Essa noção de propriedade se funda em um sentimento de posse. Esse


sentimento de posse é caracteriza a possessividade. Portanto, aparigraha não
é privação de direitos ao uso de propriedades. É ausência do sentimento de
posse.
Uma pessoa que nega a si mesma o direito à posse de recursos necessários
para possibilitar o seu modo de viver, não se encontra por causa disso em
estado de aparigraha. A ideia de nada possuir não exclui, portanto, o
sentimento de posse. Nesses casos, muitas vezes, o sentimento de posse se
expressa exatamente na ideia de nada possuir. A pessoa possui o ideal de
nada possuir, e isso cumpre a função de preenchimento do ego que o
sentimento de posse costuma cumprir. São formas disfarçadas, e, por isso
mesmo mais enganosas para a própria pessoa, pois ela se supõe livre do
sentimento de posse. Um asceta pode ter um sentimento de posse ao seu
próprio ideal de andar de tanga, maior do que alguém que tem disponível
muitas roupas, carros e castelos, mas que não usa estes bens para dar sentido
a si mesmo ou como referência sobre quem ele é.

O sentimento de posse é uma estratégia do eu temporal, sempre inconsistente


e receoso de seu próprio fim, que busca agarrar-se a coisas para fortalecer a
ilusão de sua existência permanente. É o medo à impermanência e ao fluxo da
vida que se apega àquilo que possa lhe dar uma experiência de estabilidade e
permanência.

Quando alguma coisa passa a representar uma fonte de estímulos


sustentadores do eu, surge naturalmente um apego á isso. Essa coisa se torna
desmedidamente importante, pois está sustentando uma noção de eu
permanente. O apego é uma declaração de dependência do eu em relação
àquilo que está lhe sustentando, quando em verdade ele próprio sabe da sua
inconsistência; sabe que ele é um fluxo de memórias em movimento, sem
nenhuma substancialidade.

O apego gera a necessidade de garantir que esta fonte de estímulos


sustentadores do ego esteja sempre disponível. E para isso ela precisa ser
possuída. O eu precisa sentir que é dono daquilo que está preenchendo o seu
vazio. O sentimento de posse é uma forma do eu se assegurar de que existe. É
um auto engano. È uma mentira que o eu conta para si mesmo, e tenta
acreditar que é verdade. Isso ocorre em relação à objetos, ideias,
pessoas....tudo o que entra em contato com o eu e, de alguma maneira lhe
nutre, passa a ser objeto de cobiça, de apego e de posse.
A possessividade é um obstáculo ao Yoga, pois ajuda a manter a ilusão de que
existe um eu separado, temporal. Este eu cria divisão na mente, entre
pensador e pensamentos, e mantém a insegurança e a inquietação mental.

O sentimento de posse é, no entanto, completamente frágil, por mais forte e


arraigado que seja, pois a todo instante tudo pode acontecer e o objeto de sua
posse ser destruído; se for uma pessoa pode morrer ou ir embora; se for
dinheiro pode ser roubado ou perdido; se for ideologia pode ser refutada e
evidenciada a sua falsidade. Essa possibilidade sempre aberta de perder o
objeto da sua posse é acompanhada pelo medo e pela luta para manter e
aumentar os objetos de posse. Dessa forma se há alguma perda resta ainda
outras posses. Há então um investimento no sentido de aumentar as posses
em todas direções: todo tipo de coisas, dinheiro, pessoas, ideologia,
fama...tudo que possa amparar o frágil sentido de si mesmo que sustenta o
ego.

O sentimento de posse é uma doença do ego, do eu temporal, e precisa antes


de mais nada ser reconhecido.

É preciso ver muito claramente dentro de si mesmo todas as expressões desse


sentimento. Dos mais grosseiros, como a posse de objetos e dinheiro, até os
mais sutis, como ideias, pessoas e auto imagem fantasiosa.

Para reconhecer é preciso se observar. Para se observar de maneira adequada


é necessário plena atenção; atenção meditativa, sem identificação, sem
julgamentos e comparações com o que supostamente deveria ser, em função
de modelos e idealizações.

Ver o que é tal como é! Isto permite compreensão das causas, do


como e do que é isso, possessividade. Do que ela significa para você
psicológicamente. Qual é a função do sentimento de posse na sua vida afetiva,
na noção que você tem de si mesmo? Quando você constata este sentimento
como você reage? Sente-se culpada e diz que não deveria ser assim? Ou, se
justifica e diz que o ser humano é assim mesmo...que é necessário...ou faz
qualquer outro discurso new age sobre prosperidade, e com isso se anestesia
na mesma situação e continua cultuando o sentimento de posse?
Nem condenação, nem justificação possibilitam a compreensão desse
processo. Essas duas atitudes vêm de ideias previamente instaladas em tua
mente. Ver o que é tal como é implica perceber o quanto há de julgamento na
sua visão. E implica também ver além desses véus que provêm do passado.

A compreensão do que é a possessividade, em seu significado e


insignificância pode por fim imediato ao que há de inadequado. O falso é visto
em sua falsidade. Então aparigraha aparece espontaneamente, pois sempre
esteve lá. Aparigraha é o modo de ser da alma que independe de apegos e
necessidades de possuir para dar sentido a si mesma. A Alma, a Identidade
Infinita é o seu próprio sentido. È a sua própria beleza. Se apropria de si
mesma para ser plenamente o que é! É livre da necessidade de ter sentimento
de posse.

APARIGRAHA NAS RELAÇÕES

"O amor permite que qualquer coisa que o outro queira fazer, ele possa fazer.
Tudo o que ele quiser - se o deixa em êxtase, a escolha é dele.

Se você ama a pessoa, então você não interfere na privacidade dela. Você
deixa intocada a privacidade da pessoa. Você não tenta invadir seu ser interior.

A exigência básica do amor é "Eu aceito a outra pessoa como ela é" e o amor
nunca tenta mudar a pessoa em função da própria ideia que se tem do outro.
Você não tenta cortar a pessoa aqui e ali e deixá-la do tamanho certo - o que
tem sido feito em todos os lugares no mundo inteiro...

Se você ama, não existem condições. Se você ama, então impor condições
não é o caso. Você o ama como ele é. Se você não o ama então também não
há problema. Ele não é ninguém para você; impor condições não é o caso. Ele
pode fazer tudo que quiser fazer.

Se o ciúme desaparece e o amor permanece, então você tem algo sólido em


sua vida, o qual vale a pena possuir.

Quando você está compartilhando seu contentamento, você não cria uma
prisão para ninguém, você simplesmente dá. Você nem mesmo espera
gratidão ou agradecimento, porque você está dando não para conseguir
alguma coisa, nem mesmo gratidão. Você está dando porque está tão
repleto ... você precisa dar. Assim, se alguém está grato, é você quem esta
grato à pessoa que ACEITOU seu amor, que aceitou seu PRESENTE. Ela o
aliviou, permitiu a você que a banhasse. E quanto mais você compartilha e
mais você dá MAIS VOCÊ TEM.

Então isso não o torna um avarento, não cria um novo medo, o de que "eu
posso perder isso". Na realidade, quanto mais você o perde, mais águas
frescas fluem, vindas de nascentes sobre as quais você não estava consciente
anteriormente.

Se a existência toda é una e se a existência toma conta das árvores, dos


animais, das montanhas, dos oceanos - desde a menor folhinha de erva até a
maior estrela - então ela também toma conta de você.

Porque ser possessivo? A possessividade mostra simplesmente uma coisa -


que você não consegue confiar na existência. Você tem que conseguir uma
segurança pessoal separada, uma protecção pessoal separada. Você não
pode confiar na existência. A não-possessividade é basicamente confiança na
existência.

Não há necessidade de possuir, porque o todo já é nosso.

Abandone a ideia de que o apego e o amor são uma coisa só. Eles são
inimigos. É o apego que destrói o amor.

Se você limita, se você nutre o apego, o amor será destruído, se você alimenta
e nutre o amor, o apego desaparecerá por si mesmo.

O amor e o apego não são um; são duas entidades separadas e antagônicas
entre si.

E lembre-se sempre da regra básica da vida: se você idolatra alguém, um dia


você se vingará.

Você tem que estar alerta para não ser manipulado por ninguém, não importa
quão boas sejam as intenções da pessoa. Você tem de salvar a si mesmo de
tantas pessoas "bem intencionadas", benfeitoras, que constantemente o
aconselham a ser isso e a ser aquilo. Ouça-as e agradeça. Elas não querem
fazer nenhum mal - mas mal é o que acontece. Simplesmente ouça a seu
próprio coração. Esse é o seu único professor.

As pessoas o têm julgado e você aceitou a idéia dela sem um exame


minucioso. Você está sofrendo todos os tipos de julgamentos das pessoas e
está jogando esses julgamentos em outras pessoas. Esse jogo alcançou
proporções incríveis e toda a humanidade está sofrendo isso.

Se você quer sair desse estado, a primeira coisa é: não julgue a si mesmo.
Aceite humildemente sua imperfeição, seus fracassos, seus erros, suas
fraquezas.

Não há necessidade de fingir o contrário, seja simplesmente você mesmo: É


assim que eu sou - cheio de medo. Não consigo sair na noite escura, não
consigo ir na floresta densa. O que há de errado nisso? É simplesmente
humano.

Quando você aceita, você é capaz de aceitar os outros, porque você terá um
insight claro de que eles estão sofrendo da mesma doença. E aceitando-os,
você irá ajudá-los a aceitar a si mesmos.

Podemos reverter todo o processo: você se aceita e isso o torna capaz de


aceitar os outros. E porque alguém os aceita, eles aprendem a beleza da
aceitação pela primeira vez - QUANTA PAZ SE SENTE - e eles começam a
aceitar os outros.

Dar amor é a linda e verdadeira experiência, porque com ela você é um mestre
de si mesmo. Receber amor é uma experiência muito pequena, é a experiência
de um mendigo.

Não seja um mendigo, pelo menos tratando-se de amor, seja um imperador,


porque o amor é uma qualidade inesgotável em você. Você pode dar tanto
quanto quiser. Não tenha preocupação que ele esgotará. O amor não é uma
quantidade, mas uma qualidade e qualidade de uma certa categoria que cresce
ao se dar e morre se você a segura.

Seja realmente esbanjador!!


Não se importe para quem. Esta é na verdade a ideia de uma mente
mesquinha: Eu darei amor a determinadas pessoas que tenham determinadas
qualidades ... Você não entende que tem em abundância, que é uma nuvem de
chuva. A nuvem de chuva não se importa onde chove - nas pedras, nos jardins,
nos oceanos - não importa. Ela quer descarregar-se e essa descarga é um
tremendo alívio.

Assim o primeiro segredo é: não peça amor. Não espere, pensando que você
dará se alguém lhe pedir - Dê! Tudo passa, mas você permanece - você é a
realidade.”

NIYAMA

1. SAUCHA
Pureza. Harmonia de mente, pensamento e palavra. Pureza corporal,
emocional e mental.

2. SANTOSHA.

Alegria incondicional. Estado de ser contente sem causa exterior.

Descontentamento

Podemos investigar, podemos sondar a questão do descontentamento, sem


procurarmos criar o seu oposto, sem querermos alcançar o seu oposto?
Porque, afinal de contas, quando somos jovens, estamos descontentes com a
sociedade, tal como está constituída. Queremos reformá-la, produzir uma
modificação. Aderimos, assim, a uma sociedade, a um partido, um grupo
político ou associação religiosa. E logo o nosso descontentamento se canaliza,
e é refreado e destruído. Porque, nesse caso, estamos interessados tão-
somente em pôr em prática um método, um sistema, para produzirmos um
resultado e, em virtude disso, pomos fim ao nosso descontentamento. Este não
é um dos nossos maiores problemas? Como nos satisfazemos facilmente!

O descontentamento não é essencial em nossa existência, relativamente a


qualquer questão, qualquer indagação, no sondar, no descobrir o que é o Real,
o que é a Verdade, o que é essencial na vida? Posso possuir em mim esse
flamejante descontentamento durante o tempo de colégio; mais tarde, porém
obtenho um emprego e lá se vai o descontentamento. Torno-me satisfeito, luto
para manter minha família, para ganhar a vida, e, dessa maneira, o
descontentamento se acalma, é destruído, e me transformo numa entidade
medíocre, satisfeita com as coisas da vida, e não mais estou descontente.
Entretanto, a chama tem de ser alimentada desde o princípio até o fim, para
que haja verdadeira investigação, o verdadeiro sondar do problema relativo ao
que é o descontentamento. Porque a mente busca muito prontamente um
narcótico que a ponha satisfeita com suas virtudes, qualidades, ideias, ações, e
estabelece uma rotina na qual se aprisiona. Não há dúvida de que estamos
descontentes com "o que é". E é extraordinariamente difícil sondar "o que é" - a
Realidade, e não "o que deveria ser", sondar aquilo que sou momento por
momento. Esse indagar e sondar não visa ao "eu superior", mera fabricação da
mentalidade, mas somente ao que é. Isso é dificílimo, porquanto a nossa
mente nunca fica satisfeita, jamais fica contente quando examina o que é. Quer
sempre transformar o que é noutra coisa, - o que indica o processo da
condenação, da justificação ou da comparação. Se observardes a vossa
própria mente, vereis que quando ela se vê frente a frente com o que é, logo o
condena e compara com o que deveria ser; ou justifica-o, etc., e desse modo
afasta de si o que é, desembaraçando-se dessa coisa que lhe causa
perturbação, dor, ansiedade.

O descontentamento não é essencial? E não achais que não devemos deixá-lo


consumir-se, mas sempre nutri-lo, investigá-lo, sondá-lo, de modo que, com a
compreensão do que é, surja o contentamento? Este contentamento não é o
contentamento produzido por um sistema de pensamento; é o contentamento
que acompanha a compreensão do que é. Esse contentamento não é produto
da mente - da mente que está sempre perturbada, agitada, que é incompleta,
quando busca a paz, quando busca um caminho que a leve para longe do que
é. E desse modo, o espírito, pela justificação, pela comparação, pelo
julgamento, procura alterar o que é e espera assim alcançar um estado em que
nunca será perturbado, em que estará calmo, no qual haverá tranquilidade. E
quando a mente se vê perturbada por causa das condições sociais - pobreza,
miséria, degradação, angústias pavorosas - quando a mente percebe tudo isso
e deseja alterá-lo, logo se prende e enreda no método de alterar, no sistema de
alterar. Se o espírito, porém, é capaz de olhar o que é, sem comparação e sem
julgamento, sem o desejo de transformá-lo noutra coisa, pode-se ver que surge
uma espécie de contentamento não produzido pela mente.

O contentamento que é produto da mente é fuga. É estéril. É coisa morta. Mas


há contentamento que não vem da mente, que surge com a compreensão do
que é, e no qual se verifica uma revolução profunda, atingindo a sociedade e
as relações individuais. O descontentamento, pois, não deve ser aplacado,
posto de parte, narcotizado por algum sistema de pensamento. Ele é essencial.
Cumpre mantê-lo vivo, ardente, para podermos investigar as coisas.

O contentamento pode ser encontrado? A paz é uma coisa que possa ser
achada pelo processo do intelecto? A felicidade é coisa adquirível pela
compreensão ou pela criação do seu oposto? Esse sofrimento, esse
descontentamento é essencial em nossa vida? O fato é que estamos
descontentes com o que é, descontentes com as coisas que temos,
descontentes com o que somos; e o descontentamento surge por causa da
comparação. Estou descontente porque vejo que sois ilustrado, rico, feliz,
poderoso. É essa a causa do descontentamento? Ou vem à existência o
descontentamento quando estou em busca de um caminho por onde possa
afastar-me do que é? Se eu puder compreender o caminho do
descontentamento, talvez possa haver felicidade, talvez possa haver
satisfação. Não há caminho para a felicidade, para o contentamento. Aquele
contentamento e aquela felicidade não constituem um processo de
“estagnação”. Pois, se me vejo descontente e desejo estar contente, esse
caminho me conduz ao contentamento, que é estagnação; e isso é o que
deseja a maioria de nós.

krishnamurti
A felicidade acontece quando a sua vida se encaixa com o que você é, quando
se encaixa tão harmoniosamente que qualquer coisa que você fizer será pura
alegria. Então, de repente, você descobrirá que a meditação segue você. Se
você ama o trabalho que está fazendo, se você ama a maneira como está
vivendo, então você está meditativo. Então nada irá desviar você. Quando você
se desvia de certas coisas, isso simplesmente demonstra que você não está
realmente interessado naquelas coisas.

Nós temos nos desviado por motivos não naturais: dinheiro, prestígio, poder.
Ouvir o pássaro cantar não vai lhe dar dinheiro. Ouvir o pássaro cantar não vai
lhe dar poder e prestígio. Observar uma borboleta não irá ajudá-lo
economicamente, politicamente, socialmente. Essa coisas não lhe trarão
remuneração, mas essas coisas irão fazê-lo feliz.

Uma pessoa verdadeira tem coragem de se voltar para as coisas que a fazem
feliz. Se com isso ela permanecer pobre, ela permanecerá pobre; ela não
reclamará disso, ela não guardará nenhum rancor. Ela dirá: 'Eu escolhi o meu
caminho, eu escolhi o cantar dos pássaros e as borboletas e as flores. Eu
posso não ser rico, tudo bem, mas eu sou rico porque eu sou feliz.'

Esse tipo de homem não necessita de qualquer método para se centrar,


por que não é preciso, ele está centrado. Seu centramento está por toda a sua
vida. Vinte e quatro horas por dia ele está centrado.

Em qualquer lugar que você vê dinheiro, você já não é mais você mesmo. Em
qualquer lugar que você vê poder e prestígio, você já não é mais você mesmo.
Em qualquer lugar que você vê respeitabilidade, você já não é mais você
mesmo. Imediatamente você esquece tudo - você esquece os valores
intrínsecos de sua vida, a sua felicidade, a sua alegria, o seu deleite.

Você sempre escolhe algo do lado de fora, e você barganha com algo do lado
de dentro. Você perde o interior e ganha o lado de fora. Mas o que você vai
fazer com isso? Mesmo se você tiver todo o mundo aos seus pés, mas se você
tiver perdido a si mesmo; mesmo se você tiver conquistado todas as riquezas
do mundo, mas se você tiver perdido seu próprio tesouro interior, o que você
fará com tudo aquilo? Essa é a miséria.
Se você puder aprender uma coisa comigo, então que essa coisa seja: esteja
alerta, consciente a respeito de seus próprios motivos mais internos, a respeito
de seu próprio destino mais interno. Nunca perca você mesmo de vista, de
outra maneira você será infeliz. E quando você estiver infeliz, as pessoas irão
dizer: 'medite e você se tornará feliz!' Elas dirão: 'Esteja centrado e você se
tornará feliz; ore e você se tornará feliz; vá ao templo, seja religioso, seja um
cristão ou um hindu, e você será feliz'. Tudo isso é tolice.

Seja feliz! e a meditação virá em seguida. Seja feliz, e a religião virá em


seguida. Felicidade é a condição básica. As pessoas se tornam religiosas
somente quando elas estão infelizes; então a religião delas é falsa. Tente
entender porque você está infeliz.

Muitas pessoas vêm a mim e dizem que elas são infelizes, e elas querem que
eu lhes dê alguma meditação. Eu digo: primeiro, a coisa básica é compreender
porque vocês estão infelizes. E se vocês não removerem todas as causas
básicas de sua infelicidade, eu posso lhes dar uma meditação, mas isso não
vai ser de grande ajuda, porque as causas básicas permanecem aí.

Um certo homem poderia ter sido um grande e belo dançarino, mas ele está
sentado num escritório arquivando fichas. Sem qualquer possibilidade para a
dança. O homem poderia ter curtido dançar sob as estrelas, mas ele segue
simplesmente acumulando contas bancárias. E ele diz que está infeliz: 'me dê
alguma meditação.' Eu posso dar a ele, mas o que essa meditação irá fazer? O
que se espera que ela possa fazer? Ele vai permanecer o mesmo homem:
acumulando dinheiro e sendo competitivo no mercado. A meditação poderá
ajudar da seguinte maneira: poderá fazer com que ele fique um pouco mais
relaxado para seguir fazendo essas tolices, e de uma maneira ainda melhor.

Então, o meu chamado é somente para aqueles que são realmente ousados,
aqueles que desafiam o demônio, aqueles que estão prontos para mudar os
seus próprios padrões de vida, aqueles que estão prontos para apostar tudo -
porque na verdade você nada tem para apostar: somente a sua infelicidade, a
sua miséria. Mas as pessoas se agarram até mesmo a isso.

O que mais você tem para apostar? Só a miséria. E o único prazer que você
tem é falar a respeito dela. Observe as pessoas falando a respeito de suas
misérias: quão felizes elas se tornam! Elas pagam por isso: elas vão aos
psicanalistas para falar a respeito de suas misérias - e elas pagam por isso!
Alguém as escuta atentamente, e elas se sentem felizes.

Comigo, a felicidade vem primeiro, a alegria vem primeiro. A atitude


celebrativa vem primeiro. Uma filosofia afirmativa de vida vem primeiro. Curta!
E se você não puder curtir o seu trabalho, mude. Não espere! Porque todo o
tempo que você está esperando, você está esperando por Godot. E Godot
nunca vem. A pessoa simplesmente espera, e desperdiça sua própria vida. Por
quem e por que você está esperando?

Se você puder ver o ponto, que você está miserável dentro de um certo padrão
de vida, e que todas as velhas tradições dizem: Você está errado. Eu gostaria
de dizer que o padrão é que está errado. Tente entender a diferença na ênfase:
Você não está errado! É só o seu padrão, a maneira de viver que você
aprendeu é que está errado. As motivações que você aprendeu e aceitou como
suas, não são suas. Elas não irão realizar o seu destino. Elas vão contra a sua
essência, elas vão contra o que lhe é elementar

Lembre-se disso: ninguém mais pode decidir por você. Todos os


mandamentos deles, todas as ordens deles, todas as moralidades deles, são
simplesmente para matar você. Você tem que decidir ser você mesmo. Você
tem que tomar sua vida em suas próprias mãos. De outra maneira a vida vai
seguir batendo em sua porta e você nunca estará lá; você estará sempre em
algum outro lugar.

A meditação ocorre naturalmente a uma pessoa feliz. A meditação ocorre


naturalmente a uma pessoa alegre. A meditação é muito simples para uma
pessoa que pode celebrar, que pode curtir a vida. Mas você tem tentado isso
de uma outra maneira, e assim não é possível.

OSHO - A Sudden Clash


of Thunder

A alegria está dentro. Ninguém a traz de fora. Ela não vem de fora, ela é a sua
natureza, ela é você. Ela está escondida dentro, ela é a sua alma.
Se for jogado fora esse lixo que veio de fora e que tem sido acumulado, então
a alma interna começará a expandir, começará a crescer. Você começa a ver a
sua luz e a ouvir a sua dança, você começa a mergulhar na música mais
interna. Mas isso só acontece se você liberar o lixo de modo que o céu interior
possa se estabelecer, algum espaço criado. Então aquele espaço que está
escondido dentro pode expandir-se.

A dor deve ser expressada para que aquela alegria possa expandir-se
internamente. E quando a alegria começa a expandir-se, é necessário
compreender também a segunda coisa. Se você reprimir a dor, ela cresce. Se
a dor é reprimida ela cresce, se você a expressar, ela diminui. Com a alegria
ocorre totalmente o oposto: se você reprimir a alegria, ela diminui; se você a
expressar ela aumenta.

Assim, a primeira coisa é isso: que você tem que jogar fora a dor, porque
ela diminui sendo expressada. Não a reprima, pois ela cresce com a repressão.
E quando você tiver a primeira visão da alegria que vem de dentro, então
expresse-a... porque quanto mais você expressar a alegria, mais ela aumenta
internamente e camadas frescas começam a crescer.

Isso é exatamente igual, quando você fica tirando água de um poço: nova
água de fontes frescas encherá o poço. A fonte da alegria está dentro, assim
não tenha medo de que ela irá diminuir por você expressá-la. A dor fica
reduzida ao expressá-la, porque a sua fonte não está dentro. Ela foi trazida de
fora, assim se você a expressar, ela ficará reduzida.

Se você quiser enganchar-se na dor, então tenha isso em sua mente:


nunca jogue-a fora. Se você quiser aumentar o seu sofrimento - e isso é o que
você está fazendo e parece que muitas pessoas estão fazendo - então nunca
expresse seu sofrimento, nunca manifeste-o. Se lágrimas estiverem jorrando,
então engula-as, se você sentir raiva, reprima isso. Se qualquer problema
estiver brotando internamente, reprima isso. Ele irá aumentar. Você se tornará
um grande inferno.

Se você quiser reduzir a dor, então deixe-a acontecer; se você quiser


aumentar a alegria, então deixe-a acontecer, porque a alegria está dentro e
novas camadas continuarão se revelando. E na medida em que você segue
deixando a alegria acontecer você começará a ter mais e mais vislumbres de
pura alegria.

A alegria aumenta ao ser compartilhada.

A dor tem que ser liberada. E quando você começa a ter vislumbres de
alegria, eles também têm que ser liberados. Você tem que se tornar como uma
criancinha, que não tem qualquer preocupação a respeito do passado, nem
qualquer questão a respeito do futuro, que nem mesmo sabe o que os outros
estão pensando a seu respeito. Somente então acontecerá aquilo para o que
eu o chamei aqui, e aquela jornada na qual eu gostaria que você fosse bem
suavemente.

Um pouco de coragem é requerida, e então, os tesouros de alegria não estarão


longe. Um pouco de coragem é requerida e você poderá abandonar o seu
inferno - exatamente como um homem que se sujou na rua e volta para casa
para tomar um banho e a sujeira é lavada. Da mesma maneira, a meditação é
o banho e a dor é a sujeira. Assim como depois do banho a sujeira foi lavada e
você se sente fresco, da mesma forma você terá um vislumbre, sentindo dentro
de si a felicidade e alegria que é a sua natureza."

Osho -
The Sadhana Sutra

3. TAPAS
Intensidade e ardor na ação. Superação. Abandono do eu na ação.

4. SWADHYAYA

Este termo tem mais de um sentido. Swa pode significar estudar seu próprio
texto; ou estudar por si próprio, ou ainda estudar a si próprio.

Estudar a si próprio é um sentido que nos remete a necessidade de


compreensão de quem realmente somos como um processo que desemboca
no Si mesmo Incondicionado, propósito essencial do Yoga.

Patanjali diz que com o auto estudo se torna possível realizar o propósito mais
profundo do Yoga, desde que tenhamos claro que propósito é este. Nesse
sentido é muito importante, além do estudo de si mesmo, o estudo dos textos
que registram o ensinamento de grandes mestres do Yoga, especialmente
aqueles que se referem ao caminho de Yoga que estejamos trilhando.

No caso do Kundalini Yoga isso inclui os ensinamentos dos 10 gurus, de Yogi


Bhajan e o estudo dos textos tradicionais que fundamentam o Yoga de modo
geral, e que trazem uma visão da vida que esclarece as possibilidades da
consciência humana em direção ao seu desenvolvimento e unificação com a
dimensão Divina da existência.

E nessa perspectiva ampla do que é a vida e o homem, o Yoga surge como o


caminhar em direção à plenificação de si mesmo. E é exatamente quando este
propósito se estabelece que o estudo de si mesmo se torna fundamental. Isso
inclui, além da auto observação atenta e meditativa, sem julgamentos e
comparações, o estudo da constituição humana na visão do Yoga. Nossa
estrutura e funcionamento biológico, energético e psíquico. Nossas
possibilidades espirituais e aquilo que Yogi Bhajan chamou de Humanologia.
Todos esses temas de estudo podem fornecer um mapeamento da nossa
condição como seres humanos, são partes do auto estudo. No entanto, a auto
observação direta é que realmente pode abrir um estado de consciência além
do tempo e da mente e realizar efetivamente o propósito maior de um
praticante esclarecido dentro do Yoga.

Para que seja possível a compreensão de si mesmo é necessário a auto


observação meditativa. Para que essa qualidade de auto observação se torne
possível é necessário plena atenção. A plena atenção, por sua vez, não é
desenvolvida naturalmente. Para que se torne possível esse desenvolvimento,
antes de mais nada é preciso perceber que a atenção plena não está presente
na condição atual, e que sem ela não é possível uma auto observação que
propicie condições de auto descoberta e estudo de si.

Ao se dar conta da absoluta necessidade da plena atenção para a auto


observação, começamos a criar a base capaz de possibilitar o seu
desenvolvimento. A partir daí é preciso um trabalho orientado e consciente.
Com a atenção plena se torna possível a auto observação e o estudo de si de
uma maneira apropriada que leva a uma profunda transformação de
consciência. Akalmurth Singh

5. ISHVARA PRANIDHANA

O sutra inteiro diz: samadhi siddhir Ishvara pranidhana. O samadhi surge


quando Ishvara pranidhana acontece.

O que é então Ishvara Pranidhana ? Nidhana significa depositar. Pra quer dizer
“diante”. Ishvara se refere á uma dimensão Incondicionada, Divina. Uma
tradução possível é depositar diante do Divino. Depositar o que? tudo! Todas
as ações, pensamentos, intenções. È uma entrega de si mesmo. Isso elimina o
grande obstáculo ao samadhi: a noção de eu separado. A idéia de um eu
temporal que se pretende autor sempre, nutre a separatividade e inviabiliza o
propósito essencial do Yoga: o estado de samadhi.

Ishvara é interpretado também como a Presença Divina. Nesse sentido esse


Niyama fala da entrega amorosa, devocional à uma representação Divina. Isso
possibilita a dissolução do eu. Na entegra o eu se ausenta, se aniquila, e o
Divino surge. Isso é samadhi. Um estado de ser completamente atemporal e
Incondicionado. O que realmente determina a abertura para o Divino na
entrega não é a forma pela qual Ele é representado, nem o Seu Nome. È a
atitude de ausência de si mesmo.

A Lenda das Areias

Vindo desde as suas origens em distantes montanhas, após passar por


inúmeros acidentes de terreno nas regiões campestres, um rio finalmente
alcançou as areias do deserto. E do mesmo modo como vencera as outras
barreiras, o rio tentou atravessar esta de agora, mas se deu conta de que suas
águas mal tocavam a areia nela desapareciam.

Estava convicto, no entanto, de que fazia parte de seu destino cruzar aquele
deserto, embora não visse como fazê-lo. Então uma voz misteriosa, saída do
próprio deserto arenoso, sussurou:
- O vento cruza o deserto, o mesmo pode fazer o rio.

O rio objetou estar se arremessando contra as areias, sendo assim absorvido,


enquanto o vento podia voar, conseguindo dessa maneira atravessar o deserto.

- Arrojando-se com violência como vem fazendo não conseguirá cruzá-lo.


Assim desaparecerá ou se transformará num pântano. Deve permitir que o
vento o conduza a seu destino.

- Mas como isso pode acontecer?

- Consentindo em ser absorvido pelo vento.

Tal sugestão não era aceitável para o rio. Afinal de contas, ele nunca fora
absorvido até então. Não desejava perder a sua individualidade. Uma vez a
tendo perdido, como se poderá saber se a recuperaria mais tarde?

- O vento desempenha essa função - disseram as areias. - eleva a água, a


conduz sobre o deserto e depois a deixa cair. Caindo em forma de chuva, a
água novamente se converte num rio.

- Como posso saber que isto é verdade?

- Pois assim é, e se não acredita, não se tornará outra coisa senão um


pântano, e ainda isto levaria muitos e muitos anos; e um pântano não é
certamente a mesma coisa que um rio.

- Mas não posso continuar sendo o mesmo rio que sou agora?

- Você não pode, em caso algum, permanecer assim - retrucou a voz. - Sua
parte essencial é transportada e forma um rio novamente. Você é chamado
assim ainda hoje por não saber qual a sua parte essencial.

Ao ouvir tais palavras, certos ecos começaram a ressoar nos pensamentos


mais profundos do rio. Recordou vagamente um estágio em que ele, ou uma
parte dele, não sabia qual, fora transportada nos braços do vento. Também se
lembrou, ou lhe pareceu assim, de que era isso o que devia fazer, conquanto
não fosse a coisa mais natural.

E o rio elevou então seus vapores nos acolhedores braços do vento, que suave
e facilmente o conduziu para o alto, e para bem longe, deixando-o cair
suavemente tão logo tinham alcançado o topo de uma montanha, milhas e
milhas mais distante. E porque tivera suas dúvidas, o rio pode recordar e
gravar com mais firmeza em sua mente os detalhes daquela sua experiência. E
ponderou: - Sim, agora conheço a minha verdadeira identidade.

O rio estava fazendo seu aprendizado, mas as areias sussuraram:

- Nós temos o conhecimento porque vemos essa operação ocorrer dia após
dia, e porque nós, as areias, nos estendemos por todo o caminho que vai
desde as margens do rio até a montanha.

E é por isso que se diz que o caminho pelo qual o Rio da Vida tem de seguir
em sua travessia está escrito nas Areias.

A entrega amorosa ao Desconhecido suspende o domínio do eu temporal e


abre o espaço sagrado da consciência onde reside a Presença Divina,
Purusha, Atma, Shiva, não importa como seja chamado é a Identidade real de
todo ente humano.

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