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ESTATUTO DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE

Da Adoção

Art. 39. A adoção de criança e de adolescente reger-se-á segundo o disposto nesta Lei.

§ 1o A adoção é medida excepcional e irrevogável, à qual se deve recorrer apenas quando esgotados os
recursos de manutenção da criança ou adolescente na família natural ou extensa, na forma do parágrafo
único do art. 25 desta Lei.

§ 2o É vedada a adoção por procuração.

Comentários:

Segundo o civilista Carlos Roberto Gonçalves, a adoção “é o ato jurídico solene pelo qual alguém recebe
em sua família, na qualidade de filho, pessoa a ela estranha”. Rege-se, sobremaneira, como se observa
do dispositivo sob comento, pelo Estatuto da Criança e do Adolescente, com supedâneo autorizativo do
art. 227, §5º, da Carta Magna (“A adoção será assistida pelo Poder Público, na forma da lei, que
estabelecerá casos e condições de sua efetivação por parte de estrangeiros.”).

Tanto é um ato solene e delicado que a lei veda a sua ocorrência via cártula procuratória. E deve ser
aplicada de maneira excepcional, pois o primazia das atenções deve ser direcionada à permanência da
criança ou adolescente junto à sua família natural (pais e seus descendentes) ou extensa ou ampliada
(parentes próximos com os quais há uma convivência com vínculos de afinidade e afetividade).

No que toca à sua natureza jurídica, o doutrinador Antônio Cezar Lima da Fonseca assevera constituir-se
por “ato jurídico bilateral complexo”, eis que, num primeiro momento, de natureza negocial, exsurgirão
as manifestações dos interessados e, num segundo, ingressará na relação o Poder Público para atestar a
conveniência ou não da sua efetivação, com fulcro sobretudo nos Princípios regentes da Criança e do
Adolescente. Dividindo-se, destarte, em fases, a primeira será a postulatória e a segunda a instrutória
que culminará com a emanação de uma sentença.
Art. 40. O adotando deve contar com, no máximo, dezoito anos à data do pedido, salvo se já estiver sob
a guarda ou tutela dos adotantes.

Comentários:

A maioridade, consoante o Código Civil, via de regra, ocorre aos 18 anos de idade; sendo assim este foi o
parâmetro escolhido pelo legislador como sendo o limite para ser procedida a adoção, excetuando-se os
casos em que o pretenso adotando já esteja convivendo numa relação jurídica de guarda ou de tutela.

Art. 41. A adoção atribui a condição de filho ao adotado, com os mesmos direitos e deveres, inclusive
sucessórios, desligando-o de qualquer vínculo com pais e parentes, salvo os impedimentos
matrimoniais.

§ 1º Se um dos cônjuges ou concubinos adota o filho do outro, mantêm-se os vínculos de filiação entre o
adotado e o cônjuge ou concubino do adotante e os respectivos parentes.

§ 2º É recíproco o direito sucessório entre o adotado, seus descendentes, o adotante, seus ascendentes,
descendentes e colaterais até o 4º grau, observada a ordem de vocação hereditária.

Comentários:

Informa o presente comando legal que o adotado, tanto fática quanto juridicamente, deve possuir os
mesmos direitos (inclusive sucessórios e de alimentos) e deveres de uma filho natural, nenhum tipo de
discriminação existirá que não seja aquela que trate a respeito dos impedimentos matrimoniais
dispostos no Código Civil.

Art. 42. Podem adotar os maiores de 18 (dezoito) anos, independentemente do estado civil.
§ 1º Não podem adotar os ascendentes e os irmãos do adotando.

§ 2o Para adoção conjunta, é indispensável que os adotantes sejam casados civilmente ou mantenham
união estável, comprovada a estabilidade da família.

§ 3º O adotante há de ser, pelo menos, dezesseis anos mais velho do que o adotando.

§ 4o Os divorciados, os judicialmente separados e os ex-companheiros podem adotar conjuntamente,


contanto que acordem sobre a guarda e o regime de visitas e desde que o estágio de convivência tenha
sido iniciado na constância do período de convivência e que seja comprovada a existência de vínculos de
afinidade e afetividade com aquele não detentor da guarda, que justifiquem a excepcionalidade da
concessão.

§ 5o Nos casos do § 4o deste artigo, desde que demonstrado efetivo benefício ao adotando, será
assegurada a guarda compartilhada, conforme previsto no art. 1.584 da Lei no 10.406, de 10 de janeiro
de 2002 - Código Civil.

§ 6o A adoção poderá ser deferida ao adotante que, após inequívoca manifestação de vontade, vier a
falecer no curso do procedimento, antes de prolatada a sentença.

Comentários:

Albergando o mesmo patamar da maioridade civil a fim de reconhecer o discernimento necessário a


partir de tal marco, o Estatuto autoriza a habilitação para adotar àqueles que tenham idade igual ou
superior a 18 anos. É o requisito etário que não afasta, pela interpretação sistemática do ordenamento
jurídico, a verificação de condições morais e materiais de desempenhar a elevada função de verdadeiro
pai de uma criança e, da mesma forma, disponham de absoluta capacidade civil, em termos de
discernimento para a prática de atos da vida civil.
Impede-se, contudo, os ascendentes (avós, bisavós e gerações antecedentes no mesmo tronco
genealógico) e irmãos dessa possibilidade e, ainda, aqueles pretensos adotantes que tenham menos do
que 16 anos de diferença a maior de idade do adotado.

Visando ao superior interesse da criança ou do adolescente e para assegurar a saudável convivência


familiar, indispensável à transmissão dos valores e princípios pela família, a legislação em análise exige
que, para adoção realizada por mais de uma pessoa, comprove-se a estabilidade familiar pelo casamento
civil ou pela união estável. Autorizando, entretanto, os divorciados e os ex-companheiros a assim agirem
desde que o estágio de convivência tenha sido iniciado na constância do período de convivência e que
seja comprovada a existência de vínculos de afinidade e afetividade com aquele não detentor da guarda,
que justifiquem a excepcionalidade, sendo permissível, inclusive, a guarda compartilhada.

Até mesmo é possível o deferimento da adoção ao falecido que, dantes, havia demonstrado o seu
interesse indubitável de vontade nesse sentido, concretizando-se, assim, todos os seus efeitos.

Nesse cenário, impende-se tratar a respeito da adoção conjunto almejada por casal homossexual. A
legislação não dispõe sobre a temática expressamente. Há posições contrárias e favoráveis a adoção por
homossexuais (sejam casais compostos por pessoas organicamente femininos ou masculinos). Em
verdade, o que há de ser considerado é o Melhor ou Superior Interesse da Criança e do Adolescente e
não determinantes meramente discriminatórias em face do Princípio Constitucional da Igualdade. A
união homossexual também pode ser considerada uma união estável, há precedentes assim declarando.

O primeiro precedente, segundo o doutrinador Antonio Cezar Lima da Fonseca, proveio do Tribunal de
Justiça do Estado do Rio Grande do Sul (TJRS 7ª Cãmara Cível, Ap. Cível 70013801592, julgamento
unânime em 05/04/2006) e foi mantido pelo Superior Tribunal de Justiça por meio do REsp. 889.852-RS.

Art. 43. A adoção será deferida quando apresentar reais vantagens para o adotando e fundar-se em
motivos legítimos.

Comentários:
Corolário direto do Princípio do Melhor ou Superior Interesse da criança ou do adolescente, prezando
sempre pelas vantagens ao adotando.

Art. 44. Enquanto não der conta de sua administração e saldar o seu alcance, não pode o tutor ou o
curador adotar o pupilo ou o curatelado.

Comentários:

Trata-se de regra protetiva do adotando eis que, apesar de o ordenamento jurídico autorizar a adoção do
tutelado ou do curatelado, respectivamente, pelo tutor ou curador, faz-se prudente demonstrar que os
mesmos tenham condições de gerir ou administrar verbas ou patrimônio dos futuros adotados.

Art. 45. A adoção depende do consentimento dos pais ou do representante legal do adotando.

§ 1º. O consentimento será dispensado em relação à criança ou adolescente cujos pais sejam
desconhecidos ou tenham sido destituídos do poder familiar.

§ 2º. Em se tratando de adotando maior de doze anos de idade, será também necessário o seu
consentimento.

Comentários:

O consentimento decorre do mandamento inserto no art. 166 do Estatuto da Criança e do Adolescente,


dispensando tão somente quando houver destituição do poder familiar ou quando falecidos os pais.
Garante-se, ainda, a oitiva e assentimento do próprio adolescente (assim considerado a partir dos 12
anos de idade).

Art. 46. A adoção será precedida de estágio de convivência com a criança ou adolescente, pelo prazo que
a autoridade judiciária fixar, observadas as peculiaridades do caso.

§ 1o O estágio de convivência poderá ser dispensado se o adotando já estiver sob a tutela ou guarda
legal do adotante durante tempo suficiente para que seja possível avaliar a conveniência da constituição
do vínculo.

§ 2o A simples guarda de fato não autoriza, por si só, a dispensa da realização do estágio de convivência.

§ 3o Em caso de adoção por pessoa ou casal residente ou domiciliado fora do País, o estágio de
convivência, cumprido no território nacional, será de, no mínimo, 30 (trinta) dias.

§ 4o O estágio de convivência será acompanhado pela equipe interprofissional a serviço da Justiça da


Infância e da Juventude, preferencialmente com apoio dos técnicos responsáveis pela execução da
política de garantia do direito à convivência familiar, que apresentarão relatório minucioso acerca da
conveniência do deferimento da medida.

Comentários:

Consubstancia-se, a adoção, numa mudança, em regra, um tanto radical de estruturação familiar, por
isso para fins comprobatórios de sua adequação, a lei impõe a realização de período de estágio de
convivência, com efetivo acompanhamento técnico. Quando se trata de adotantes residentes no
estrangeiro, é de, ao menos, 30 dias em território nacional; nos demais casos, no tempo fixado pela
autoridade judiciário de acordo com cada caso concreto.

Art. 47. O vínculo da adoção constitui-se por sentença judicial, que será inscrita no registro civil
mediante mandado do qual não se fornecerá certidão.

§ 1º A inscrição consignará o nome dos adotantes como pais, bem como o nome de seus ascendentes.

§ 2º O mandado judicial, que será arquivado, cancelará o registro original do adotado.


§ 3o A pedido do adotante, o novo registro poderá ser lavrado no Cartório do Registro Civil do Município
de sua residência.

§ 4o Nenhuma observação sobre a origem do ato poderá constar nas certidões do registro.

§ 5o A sentença conferirá ao adotado o nome do adotante e, a pedido de qualquer deles, poderá


determinar a modificação do prenome.

§ 6o Caso a modificação de prenome seja requerida pelo adotante, é obrigatória a oitiva do adotando,
observado o disposto nos §§ 1o e 2o do art. 28 desta Lei.

§ 7o A adoção produz seus efeitos a partir do trânsito em julgado da sentença constitutiva, exceto na
hipótese prevista no § 6o do art. 42 desta Lei, caso em que terá força retroativa à data do óbito.

§ 8o O processo relativo à adoção assim como outros a ele relacionados serão mantidos em arquivo,
admitindo-se seu armazenamento em microfilme ou por outros meios, garantida a sua conservação para
consulta a qualquer tempo.

§ 9º Terão prioridade de tramitação os processos de adoção em que o adotando for criança ou


adolescente com deficiência ou com doença crônica.

Comentários:

Tratam-se de normas procedimentais para concreção jurídica da adoção, desde a prolação da sentença
até a sua inscrição no registro civil mediante mandato judicial.

Em suma, portanto, são estes os requisitos ou condições para adoção, segundo Carlos Roberto
Gonçalves:
idade mínima de 18 anos do adotante (comentada no art. 42, caput);

diferença de idade de, no mínimo, dezesseis anos entre o adotante e o adotado (também comentado no
art. 42, §3º);

consentimento dos pais ou representantes legais de quem se deseja adotar;

concordância do adotado quando tiver idade igual ou superior a 12 anos, consoante preconiza o art. 28,
§2º;

processo judicial (art. 47, caput); e

efetivo benefício para o adotando, fundado no Princípio do Superior ou Melhor Interesse para a Criança
ou Adolescente (art. 43).

Art. 48. O adotado tem direito de conhecer sua origem biológica, bem como de obter acesso irrestrito ao
processo no qual a medida foi aplicada e seus eventuais incidentes, após completar 18 (dezoito) anos.

Parágrafo único. O acesso ao processo de adoção poderá ser também deferido ao adotado menor de 18
(dezoito) anos, a seu pedido, assegurada orientação e assistência jurídica e psicológica.

Comentários:

Faz parte da dignidade da pessoa humana o conhecimento de sua origem biológica e acesso ao processo
judicial que culminou em sua adoção.

Art. 49. A morte dos adotantes não restabelece o poder familiar dos pais naturais.

Comentários:

Possuindo a condição ou status de filho natural, como apregoa o texto constitucional encartado no art.
227, §6º, da CF, o adotado não será considerado juridicamente filho dos seus pais biológicos em função
do falecimento dos seus adotantes.
Art. 50. A autoridade judiciária manterá, em cada comarca ou foro regional, um registro de crianças e
adolescentes em condições de serem adotados e outro de pessoas interessadas na adoção.

§ 1º O deferimento da inscrição dar-se-á após prévia consulta aos órgãos técnicos do juizado, ouvido o
Ministério Público.

§ 2º Não será deferida a inscrição se o interessado não satisfazer os requisitos legais, ou verificada
qualquer das hipóteses previstas no art. 29.

§ 3o A inscrição de postulantes à adoção será precedida de um período de preparação psicossocial e


jurídica, orientado pela equipe técnica da Justiça da Infância e da Juventude, preferencialmente com
apoio dos técnicos responsáveis pela execução da política municipal de garantia do direito à convivência
familiar.

§ 4o Sempre que possível e recomendável, a preparação referida no § 3o deste artigo incluirá o contato
com crianças e adolescentes em acolhimento familiar ou institucional em condições de serem adotados,
a ser realizado sob a orientação, supervisão e avaliação da equipe técnica da Justiça da Infância e da
Juventude, com apoio dos técnicos responsáveis pelo programa de acolhimento e pela execução da
política municipal de garantia do direito à convivência familiar.

§ 5o Serão criados e implementados cadastros estaduais e nacional de crianças e adolescentes em


condições de serem adotados e de pessoas ou casais habilitados à adoção.

§ 6o Haverá cadastros distintos para pessoas ou casais residentes fora do País, que somente serão
consultados na inexistência de postulantes nacionais habilitados nos cadastros mencionados no § 5o
deste artigo.

§ 7o As autoridades estaduais e federais em matéria de adoção terão acesso integral aos cadastros,
incumbindo-lhes a troca de informações e a cooperação mútua, para melhoria do sistema.

§ 8o A autoridade judiciária providenciará, no prazo de 48 (quarenta e oito) horas, a inscrição das


crianças e adolescentes em condições de serem adotados que não tiveram colocação familiar na
comarca de origem, e das pessoas ou casais que tiveram deferida sua habilitação à adoção nos cadastros
estadual e nacional referidos no § 5o deste artigo, sob pena de responsabilidade.

§ 9o Compete à Autoridade Central Estadual zelar pela manutenção e correta alimentação dos cadastros,
com posterior comunicação à Autoridade Central Federal Brasileira.

§ 10. A adoção internacional somente será deferida se, após consulta ao cadastro de pessoas ou casais
habilitados à adoção, mantido pela Justiça da Infância e da Juventude na comarca, bem como aos
cadastros estadual e nacional referidos no § 5o deste artigo, não for encontrado interessado com
residência permanente no Brasil.

§ 11. Enquanto não localizada pessoa ou casal interessado em sua adoção, a criança ou o adolescente,
sempre que possível e recomendável, será colocado sob guarda de família cadastrada em programa de
acolhimento familiar.

§ 12. A alimentação do cadastro e a convocação criteriosa dos postulantes à adoção serão fiscalizadas
pelo Ministério Público.

§ 13. Somente poderá ser deferida adoção em favor de candidato domiciliado no Brasil não cadastrado
previamente nos termos desta Lei quando:

I - se tratar de pedido de adoção unilateral;

II - for formulada por parente com o qual a criança ou adolescente mantenha vínculos de afinidade e
afetividade;

III - oriundo o pedido de quem detém a tutela ou guarda legal de criança maior de 3 (três) anos ou
adolescente, desde que o lapso de tempo de convivência comprove a fixação de laços de afinidade e
afetividade, e não seja constatada a ocorrência de má-fé ou qualquer das situações previstas nos arts.
237 ou 238 desta Lei.
§ 14. Nas hipóteses previstas no § 13 deste artigo, o candidato deverá comprovar, no curso do
procedimento, que preenche os requisitos necessários à adoção, conforme previsto nesta Lei.

Comentários:

A norma estabelece a criação de bases de dados de crianças e adolescentes aptos à adoção e de


interessados habilitados, individualmente ou em conjunto, a serem adotantes em cada comarca ou foro
regional, estaduais e nacionais (nestes devendo haver necessariamente autoridade central estadual ou
federal brasileira, respectivamente). Determina controle rigoroso na inserção ou exclusão de registros,
rigor compatível com a atenção que deve ser dispendida em prol da proteção dos propensos adotados,
atribuindo-se ao Ministério Público a função precípua desse controle. E, somente de modo excepcional
atendidos os critérios elencados no §13 do artigo em questão, será permitida a adoção em favor de não
cadastrado nas mencionadas bases de dados.

Apresenta, ainda, de forma a prevenir o tráfico internacional de crianças ou adolescentes preferência


daqueles que residam com ânimo de permanência no Brasil em face dos pretensos adotantes que aqui
não residam ou não possuam domicílio.

Art. 51. Considera-se adoção internacional aquela na qual a pessoa ou casal postulante é residente ou
domiciliado fora do Brasil, conforme previsto no Artigo 2 da Convenção de Haia, de 29 de maio de 1993,
Relativa à Proteção das Crianças e à Cooperação em Matéria de Adoção Internacional, aprovada pelo
Decreto Legislativo no 1, de 14 de janeiro de 1999, e promulgada pelo Decreto no 3.087, de 21 de junho
de 1999.

§ 1o A adoção internacional de criança ou adolescente brasileiro ou domiciliado no Brasil somente terá


lugar quando restar comprovado:

I - que a colocação em família substituta é a solução adequada ao caso concreto;

II - que foram esgotadas todas as possibilidades de colocação da criança ou adolescente em família


substituta brasileira, após consulta aos cadastros mencionados no art. 50 desta Lei;
III - que, em se tratando de adoção de adolescente, este foi consultado, por meios adequados ao seu
estágio de desenvolvimento, e que se encontra preparado para a medida, mediante parecer elaborado
por equipe interprofissional, observado o disposto nos §§ 1o e 2o do art. 28 desta Lei.

§ 2o Os brasileiros residentes no exterior terão preferência aos estrangeiros, nos casos de adoção
internacional de criança ou adolescente brasileiro.

§ 3o A adoção internacional pressupõe a intervenção das Autoridades Centrais Estaduais e Federal em


matéria de adoção internacional.

Comentários:

A Convenção de Haia dispõe o âmbito de sua aplicação (arts. 1 a 3), os requisitos para as adoções
internacionais (arts. 4 e 5), define as Autoridades Centrais e regular-lhes a atividade (arts. 6 a 13),
discrimina os requisitos processuais (arts. 14 a 22), o reconhecimento e os efeitos da adoção (arts. 23 a
27), indica cláusulas finais permissivas que os Estados soberanos a ela adiram ou denunciem, isto é,
retirem-se.

Seu art. 2º preconiza que “a Convenção será aplicada quando uma criança com residência habitual de
um Estado Contratante (Estado de origem) tiver sido, for, ou deva ser deslocada para outro Estado
Contratante (Estado de acolhida), que após sua adoção no Estado de origem por cônjuges ou por uma
pessoa residente habitualmente no Estado de acolhida, quer para que essa adoção seja realizada, no
Estado de acolhida ou no Estado de origem.”

Pelo exposto, conclui-se que o critério não é o Estado de origem ou nascimento do(s) adotante(s), a sua
nacionalidade, mas, sim, o critério territorial. Destarte, um brasileiro pode realizar uma adoção
internacional, desde que residente no exterior e para lá deseje conviver com o adotado em território
brasileiro.

A própria Carta Magna de 1988 já se preocupa com a adoção internacional, ao dispor, em seu art. 227, §
5º, que a lei estabelecerá casos e condições para efetivação por parte de estrangeiros.
ACESSO A JUSTIÇA

Acesso à Justiça

O acesso à justiça é direito humano e essencial ao completo exercício da cidadania. Mais que acesso ao
judiciário, alcança também o acesso a aconselhamento, consultoria, enfim, justiça social.

O disposto no artigo 5º, XXXV, da Constituição Federal é muito mais abrangente que o acesso ao Poder
Judiciário e suas instituições por lesão a direito. Vai além, enquadrando-se aí também a ameaça de
direito, e segue-se com uma enorme gama de valores e direitos fundamentais do ser humano.

Assim, quem busca a defesa de seus direitos (ameaça ou lesão) espera que o Estado-juiz dite o direito
para aquela situação, em substituição da força de cada litigante, pacificando os conflitos e facilitando a
convivência social.

Cândido Rangel Dinamarco comenta o escopo social da jurisdição:

“Saindo da extrema abstração consiste em afirmar que ela visa a realização da justiça em cada caso e,
mediante a prática reiterada, a implantação do clima social de justiça, chega o momento de com mais
precisão indicar os resultados que mediante o exercício da jurisdição, o Estado se propõe a produzir na
vida da sociedade.

Sob esse aspecto, a função jurisdicional e legislativa estão ligadas pela unidade de escopo fundamental
de ambos: a paz social.

Mesmo quem postule a distinção funcional muito nítida e marcada entre os dois planos de ordenamento
jurídico (teoria dualista) há de aceitar que direito e processo compõem um só sistema voltado à
pacificação de conflitos”[3]
A tutela jurisdicional é exercida através da garantia de acesso à justiça e se constitui um dos maiores,
senão o maior instrumento para garantir uma ordem jurídica justa e então efetivar o exercício da
cidadania plena.

O acesso à justiça está intimamente ligado à justiça social. Pode-se até afirma que é a ponte entre o
processo e a justiça social.

Nos séculos XVIII e XIX só formalmente as pessoas tinham acesso à justiça, podiam propor ou contestar
ação. A justiça, na prática, só era obtida por quem tivesse dinheiro para arcar com as despesas de um
processo.

No começo deste século, com o crescimento do capitalismo, começam as reivindicações e as


preocupações de índole social, quando a garantia do acesso à justiça passa a ter mais relevo.

Hoje em dia, está mais perto de coincidir a garantia do acesso à justiça formal e prático. Mas é ilusório
afirmar que isto já acontece em nosso país nos dias de hoje. Sabe-se que existem inúmeros obstáculos
que uma sociedade tem que transpor para que se chegue à justiça. E estes obstáculos se apresentam de
forma ainda mais intensa quando se trata das classes menos favorecidas.

Falar em acesso à ordem jurídica justa é também falar em justiça eficaz, que é um dos maiores
problemas dos sistemas jurídicos de hoje. A terminologia JUSTIÇA está diretamente ligada a não só “dar
a cada um o que é seu” mas sim em “dar a cada um o que é seu conforme a vontade da lei e em seu
devido tempo.”

4. Empecilhos ao acesso à Justiça

Apesar dos inúmeros avanços já conquistados na consolidação de um integral acesso à justiça,


instrumento essencial à efetivação dos direitos componentes da cidadania plena, muitos empecilhos
ainda existem à completa efetividade deste direito social básico. Esta efetividade somente se daria num
contexto em que as partes possuíssem “completa ‘igualdade de armas’ – a garantia de que a conclusão
final dependa apenas dos méritos jurídicos relativos das partes antagônicas, sem relação com diferenças
que sejam estranhas ao Direito e que, no entanto, afetam a afirmação e reivindicação dos direitos”.[4]
Evidentemente que tal “paridade de armas” tem caráter utópico, razão pela qual devemos buscar meios,
cada vez mais radicais, para alcançá-la.

Passando prioritariamente pela esfera sócio-econômica, tais limitações também possuem aspectos
culturais, psicológicos e, na esfera do Direito, jurídicas e procedimentais.

4.1 Empecilhos Econômicos

O elevado valor do processo é um dos principais empecilhos para um firme acesso à justiça. Sendo o
Brasil dotado de uma péssima distribuição de renda, podemos concluir o quão limitador é o acesso à
justiça, e por que não dizer, à cidadania como um todo, devido a desigualdade econômica.

Os procedimentos judiciais necessários à solução de uma lide, na maioria do países, possui custos
normalmente elevados e devem ser necessariamente pagos pelos autores, incluindo os honorários
advocatícios e algumas custas judiciais. Consiste na mais importante despesa individual, os honorários
advocatícios, que representam a esmagadora proporção dos altos custos do litígio, pois os advogados e
seus serviços são muito caros.

No Sistema Americano, o vencido não é obrigado a responder pelos honorários do advogado da parte
vencedora. Nos países que adotam o princípio do sucumbência – a menos que o litigante em potencial
esteja certo de vencer -, a penalidade é duas vezes maior e pode inibir o litigante em potencial de
ingressar em juízo, já que, se vencido, além de arcar com os honorários do seu advogado, terá que pagar
os honorários da parte contrária.[5]

Não se pode esquecer também que, ao autor, cabe o pagamento das custas de distribuição, as provas
que desejar produzir (perícias, diligências, etc.), e ainda o preparo de recursos, ficando distantes, em
virtude de seu preço, da parte menos favorecida economicamente.

Em pesquisa realizada pelo Projeto de Florença, coordenado por Mauro Cappelletti, foi constatado que
em determinados países, o custo do litígio aumenta na medida em que baixa o valor da causa, chegando
ao absurdo de, na Alemanha, pela justiça comum, uma pequena causa de valor não superior a US$ 100,
mesmo que somente utilizada a primeira instância, custa US$ 150, enquanto uma ação de US$ 5.000, em
duas instâncias, teria o custo de US$ 4.200.[6]

A equação, perversa, tem destinatário certo: os indivíduos menos favorecidos, ou seja o trabalhador, o
consumidor, o morador dos conjuntos habitacionais e das favelas, enfim, exatamente aqueles que, por
sua condição social, mais fragilizados se encontram, mais vulneráveis estão ao domínio de grupos
econômicos e dos poderosos, e mais dependentes, portanto, de uma expedita atuação do Estado para
resguardar os seus interesses, tão desprezados.

A duração dos processos é também um fator que limita o acesso à justiça. Em muitos países as causas
levam em média três anos para se tornarem exeqüíveis. Essa delonga eleva consideravelmente as
despesas das partes, pressionando os economicamente mais fracos a abandonarem sua causas, ou
aceitarem acordos por valores muito inferiores aqueles a que teriam direito. Em razão disto a Convenção
Européia para a Proteção dos Direitos Humanos e Liberdades Fundamentais, em seu art. 6º, parágrafo 1º
, reconhece “que a Justiça que não cumpre suas funções dentro de ‘um prazo razoável’ é, para muitas
pessoas, uma Justiça inacessível.”[7]

O processo é um instrumento indispensável não somente para a efetiva e concreta atuação do direito de
ação, mas também para a remoção das situações que impedem o pleno desenvolvimento da pessoa
humana e a participação de todos os trabalhadores na organização política, econômica e social do país,
[8] portanto, sua morosidade estrangula os direitos fundamentais do cidadão.

A morosidade do processo está ligada à estrutura do Poder Judiciário e ao sistema de tutela dos direitos.
Para que o Poder Judiciário tenha um bom funcionamento, necessário se faz, dentre outros, que o
número de processos seja compatível com o número de juizes que irão apreciá-los, porém, é sabido que
não é isso que ocorre. A imensa quantidade de processos acumulados por um juiz prejudica não só a
celeridade da prestação da tutela jurisdicional, como também a sua qualidade.[9]

Muitas demandas não seriam levadas ao Poder Judiciário se o réu não tivesse do seu lado a lentidão da
tutela jurisdicional, certamente a celeridade evitaria a propositura de muitas ações.

A morosidade gera descrença na justiça, a partir do momento em que o cidadão toma conhecimento da
sua lentidão, das angústia e dos sofrimentos psicológicos trazidos por ela. No entanto, a Convenção dos
Direitos Humanos e Liberdades Fundamentais, em seu art. 6º, parágrafo 1º, garante que toda pessoa
tem o direito a uma audiência eqüitativa e pública, dentro de um prazo razoável, por um tribunal
independente e imparcial. Ainda, a Constituição Federal Brasileira, em seu art. 5º, § 2º, afirma que “toda
pessoa tem direito de ser ouvida com as devidas garantias e dentro de um prazo razoável...”

4.2 Empecilhos Sócio–culturais

As limitações causadas em razão do estrato social a que pertence o cidadão, apesar da decorrência
lógica da desigualdade econômica, possuem também aspectos sociais, educacionais e culturais.

A grande parte dos cidadãos não conhece e não tem condições de conhecer os seus direitos. Quanto
menor o poder aquisitivo do cidadão, menor o seu conhecimento acerca de seus direitos e menor a sua
capacidade de identificar um direito violado e passível de reparação judicial; além disto é menos
provável que conheça um advogado ou saiba como encontrar um serviço de assistência judiciária. São
barreiras pessoais que necessitam ser superadas para garantir o acesso à justiça.

A complexidade das sociedades faz com que mesmo as pessoas dotadas de mais recursos tenham
dificuldade para compreender as normas jurídicas.[10]

Para Horácio Wanderley Rodrigues, são três os pontos principais de estrangulamento, neste aspecto, ao
acesso presentes no Brasil. Em primeiro lugar a falência da educação nacional, o descompromissso dos
“meios de comunicação” com a informação, e por fim, a quase inexistência de instituições oficiais
encarregadas de prestar assistência jurídica prévia ou extraprocessual, que atuariam informando e
educando a população sempre que surgissem dúvidas jurídicas sobre situações concretas.[11]

Saliente-se que quanto mais pobre é o cidadão, mais difícil é o seu contato com um advogado, não só
porque em seu círculo de relações não existem profissionais desta área, mas também porque, ele reside,
quase sempre, muito distante dos bairros onde funcionam os escritórios de advocacia e os tribunais.

Finalmente, quando os pobres conseguem algum acesso à justiça, correm o risco de tê-la muito precária,
como exemplo, temos a assistência judiciária que tem seus serviços, muitas vezes, deficientemente
prestados.
Ainda, outro ponto importante diz respeito à disparidade que surge quando um litigante habitual
defronta-se com um litigante eventual. Esta distinção se verifica entre indivíduos que freqüentemente
estão em juízo com aquele que nunca, ou poucas vezes, sentou-se perante um juiz. Segundo o professor
Galanter, as vantagens dos habituais são inúmeras: “1) a maior experiência com o direito possibilita-lhes
melhor planejamento do litígio; 2) o litigante habitual tem economia de escala, porque tem mais causas;
3) o litigante habitual tem oportunidades de desenvolver relações informais com os membros da
administração da justiça; 4) ele pode diluir os riscos da demanda por maior número de casos; e 5) pode
testar estratégias com determinados casos, de modo a garantir expectativa mais favorável em relação a
casos futuros”.[12]

Pode-se concluir que dá menos problemas mobilizar as empresas no sentido de tirarem vantagens de
seus direitos, o que, se dá exatamente contra aquelas pessoas comuns que são mais relutantes em
buscar o amparo do sistema judicial, em face das dificuldades que encontrarão.

4.3 Empecilhos Psicológicos

O aspecto psicológico deve necessariamente ser considerado. As pessoas menos favorecidas


economicamente de alguma forma temem os advogados, os juizes e os promotores. Os juizes são vistos
como seres superiores e, os advogados como ‘pessoas em que se deve confiar desconfiando’.

A maioria das pessoas tem receio de estar em juízo, seja por decepção com o resultado de alguma ação
em que estivesse envolvida ou tivesse interesse, ou por temerem represálias ao recorrerem à justiça, ou
ainda, represálias da própria parte adversária.

Para o brasileiro, o Poder Judiciário, é inacessível, não é confiável e não faz justiça.

4.4 Empecilhos Jurídicos e Judiciários

Estruturados de acordo como preceitos individualistas decorrentes do liberalismo burguês consolidado


nos séculos XVIII e XIX, os ordenamentos jurídicos ocidentais, apesar de grandes avanços já
conquistados, ainda mantém limitações no que concerne à legitimação para agir, principalmente na
esfera dos direitos coletivos, difusos e individuais homogêneos, direitos supra-individuais só passíveis de
efetiva aplicabilidade com a maior amplitude possível de titulares para sua tutela.
A inacessibilidade a alguns instrumentos processuais, bem como a procrastinação dos feitos em razão de
brechas da legislação processual, constituem também entraves à consolidação de uma ordem jurídica
justa.

A crise econômica e de legitimidade enfrentada pelo Poder Judiciário, consubstanciada em constante


denúncias de corrupção e nepotismo, na carência de recursos materiais e humanos, a centralização
geográfica de suas instalações, dificultando o acesso de quem mora nas periferias, a inexistência de
instrumentos de controle externo por parte da sociedade, tem contribuído para o aumento das
restrições de grande parcela da sociedade à acessibilidade.

Por fim, dentro das restrições de caráter eminentemente judiciário, há que se destacar a polêmica acerca
da limitação da capacidade postulatória, que tantos debates vem gerando entre os operadores jurídicos.
A exigência da presença de advogado em todo e qualquer processo (já relativizada pelo Poder Judiciário)
tem sido vista por um lado como elemento castrador da efetividade ao acesso e por outro como garantia
a ele, ou seja, como instrumento de limitação ou elemento fundamental ao exercício pleno da cidadania.

5. Soluções para efetivação do acesso à Justiça

5.1 As três “ondas” de acesso à Justiça.[13]

O recente despertar de interesse em torno do acesso à justiça levou a três posições básicas. Deu início a
partir dos anos setenta, podendo afirmar que as soluções para o acesso são: - primeira onda -,
hipossuficientes econômicos, - segunda onda -, interesses transindividuais e, - terceira onda –, novas
fórmulas de instrumentos.

Num primeiro momento, denominado de primeira onda, os esforços “concentraram-se, muito


adequadamente, em proporcionar aos pobres”.[14] Tais reformas se realizaram adotando dois sistemas
básicos de atuação: através do sistema Judicare e de advogados remunerados pelos cofres públicos.
Alguns países, mais recentemente, adotaram os dois modelos combinados.

O sistema Judicare é caracterizado por Mauro Cappelletti como “um sistema através do qual a
assistência judiciária é estabelecida como um direito para todas as pessoas que se enquadrem nos
termos da lei. Os advogados particulares, então, são pagos pelo Estado. A finalidade do Judicare é
proporcionar aos litigantes de baixa renda a mesma representação que teriam se pudessem pagar um
advogado”.[15] Áustria, Inglaterra, Holanda, França e Alemanha foram os principais países a adotar este
sistema.

O sistema de assistência judiciária, com advogados remunerados pelos cofres públicos, foi implantado
em primeiro lugar nos Estados Unidos da América (Legal Services Corporation), e se caracteriza por
prestar a assistência não só judiciária, mas também jurídica, prévia e informativa, aos pobres, realizando
“grandes esforços no sentido de fazer as pessoas pobres conscientes de seus novos direitos e desejosas
de utilizar advogados para obtê-los”.[16]

Suécia e a província canadense de Quebec, verificando a insuficiência de cada um dos modelos básicos
em separado, forma os primeiros ordenamentos jurídicos a adotar um sistema misto, combinando o
Judicare com advogados servidores públicos, isto é, dando dupla opção aos necessitados para constituir
um profissional jurídico na defesa de seus interesses. A elas seguiram-se a Austrália, a Holanda e a Grã-
Bretanha.

Após a reformulação dos serviços de assistência judiciária, o ‘movimento acesso à justiça’ enfrenta um
outro obstáculo, agora de caráter organizacional. A segunda onda vem buscando solucionar a
representação dos interesses coletivos, difusos e individuais homogêneos, direitos novíssimos e que
restavam já mortos por ausência de aparato procedimental que os fizesse valer.

Num primeiro momento atribui-se ao Ministério Público a tutela destes direitos, mas sendo o parquet
representante natural em juízo dos interesses públicos tradicionais – por exemplo, do interesse do
estado em perseguir a criminalidade, esta solução não prosperou, já que tais direitos, apesar de
eminentemente públicos, possuem tamanho grau de novidade, especialização e técnica que na maioria
das vezes inviabiliza a ação daquele órgão estatal.

Daí o surgimento de agências públicas especializadas, como por exemplo a Environmental Proctetion
Agency (EDA nos Estados Unidos e o Ombudsman público dos consumidores na Suécia). Além destas
instituições, as legislações passaram a ampliar a possibilidade de participação no polo ativo das ações
para defesa destes direitos. Foram gradualmente admitidas inúmeras organizações não-estatais
(associações, sindicatos, partidos políticos, etc.) como legitimadas para tutela de direitos coletivos e
difusos, além da criação de novas ações, como por exemplo as class action ou ações coletivas nos EUA.
Mas o ‘movimento’ não parou por aí. Uma terceira onda se formou e ainda não se esgotou, buscando a
superação do chamado “obstáculo processual”. Diante da constatação de que somente os mecanismos já
citados eram ainda insuficientes ao efetivo acesso à justiça, já que “ a solução processual – o processo
ordinário contencioso – mesmo quando são superados os problemas de patrocínio e de organização dos
interesses, pode não ser a solução mais eficaz, nem no plano de interesses das partes, nem naquele dos
interesses mais gerais da sociedade”, busca o ‘movimento de acesso à justiça‘ novas alternativas para
resolução de conflitos que não restritas ao ordenamento processual, normalmente exasperador de
paixões e conflitos. Algumas destas alternativas, contempladas no plano do pluralismo jurídico, já estão
sendo aceitas como instrumental procedimental competente para dirimir litigiosidades, como, por
exemplo, a mediação, a conciliação informal e a arbitragem, entre outros.

Entre nós, a questão do acesso à justiça somente toma contornos transformadores, após o final da
ditadura militar, nos primórdios dos anos oitenta e, em razão disto, as três ondas ocorrem
concomitantemente. Dos muitos e bons frutos já produzidos nestes poucos anos, podemos citar, de
forma geral, a Ação Civil Pública, instituída pela Lei nº 7.347, de 24 de julho de 1985, que disciplina a
tutela do meio ambiente, aos direitos do consumidor, a bens e direitos de valor artístico, estético,
histórico e turístico e qualquer outro interesse difuso ou coletivo, o Estatuto da Criança e do Adolescente
( Lei nº 8.069, de 13 de julho de 1990), o Código de Proteção e Defesa do Consumidor (Lei nº 8.078, de
11 de setembro de 1990), a Lei Complementar nº 76, de 06 de julho de 1993, que estabelece o processo
de desapropriação de imóvel rural, por interesse social, para fins de reforma agrária, em 12 de janeiro de
1994, a Lei Complementar nº 80, que organiza a Defensoria Pública da União, do Distrito Federal e dos
Territórios e prescreve normas gerais para organização das defensorias dos estados-membros e os
Juizados Especiais Cíveis e Criminais (Lei nº 9.099, de 26 de setembro de 1995).

A Constituição Federal de 05 de outubro de 1988 foi, sem sombra de dúvidas, o mais proficiente
instrumento legal pátrio de ampliação da cidadania e das garantias de efetivo acesso à justiça: o art. 5º,
inciso LXXIV, dispõe: “o Estado prestará assistência jurídica integral e gratuita aos que comprovarem
insuficiência de recursos”; prevê em seu art. 134 a criação da Defensoria Pública: “instituição essencial à
função jurisdicional do Estado, incumbindo-lhe a orientação jurídica e a defesa, em todos os graus, dos
necessitados, na forma do art. 5º, LXXIV”.

MEDIDAS SOCIOEDUCATIVAS
MEDIDAS SOCIOEDUCATIVAS

Conteúdo

O que são?

Quem recebe?

Quem aplica?

Como são executadas no DF?

Advertência (art. 115 do ECA)

Obrigação de reparar o dano (art. 116 do ECA)

Prestação de serviços à comunidade (art. 117 do ECA)

Liberdade assistida (arts. 118 e 119 do ECA)

Semiliberdade (art. 120 do ECA)

Internação (arts. 121 a 125 do ECA)

Endereços e telefones

Vara de Execução de Medidas Socioeducativas

Secretaria de Estado de Políticas para Crianças, Adolescentes e Juventude

Defensoria Pública

O que são?

Medidas socioeducativas são medidas aplicáveis a adolescentes autores de atos infracionais e estão
previstas no art. 112 do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). Apesar de configurarem resposta à
prática de um delito, apresentam um caráter predominantemente educativo.

Quem recebe?

Pessoas na faixa etária entre 12 e 18 anos, podendo-se, excepcionalmente, estender sua aplicação a
jovens com até 21 anos incompletos, conforme previsto no art. 2º do ECA.

Quem aplica?

O juiz da Infância e da Juventude é o competente para proferir sentenças socioeducativas, após análise
da capacidade do adolescente de cumprir a medida, das circunstâncias do fato e da gravidade da
infração.

Como são executadas no DF?

A execução das medidas socioeducativas de prestação de serviços à comunidade (PSC), liberdade


assistida (LA), semiliberdade e internação é de responsabilidade da Secretaria de Estado de Políticas para
Crianças, Adolescentes e Juventude do Distrito Federal, por meio da Subsecretaria do Sistema
Socioeducativo.

No âmbito da Justiça, compete à Vara de Execução de Medidas Socioeducativas acompanhar e avaliar,


constantemente, o resultado da execução das medidas, bem como inspecionar os estabelecimentos e os
órgãos encarregados do cumprimento das medidas socioeducativas, além de promover ações para o
aprimoramento do sistema de execução dessas medidas.

ADVERTÊNCIA (ART. 115 DO ECA)

O que é: uma repreensão judicial, com o objetivo de sensibilizar e esclarecer o adolescente sobre as
consequências de uma reincidência infracional.

Responsável pela execução: Juiz da Infância e da Juventude ou servidor com delegação para tal.

OBRIGAÇÃO DE REPARAR O DANO (ART. 116 DO ECA)

O que é: ressarcimento por parte do adolescente do dano ou prejuízo econômico causado à vítima.

Responsável pela execução: Juiz da Infância e da Juventude ou equipe interprofissional da Vara, por
delegação.

PRESTAÇÃO DE SERVIÇOS À COMUNIDADE (ART. 117 DO ECA)

O que é: realização de tarefas gratuitas e de interesse comunitário por parte do adolescente em conflito
com a lei, durante período máximo de seis meses e oito horas semanais.
Responsável pela execução: Secretaria de Estado de Políticas para Crianças, Adolescentes e Juventude do
Distrito Federal, por meio do trabalho desenvolvido nas Unidades de Atendimento em Meio Aberto
(UAMAs), com apoio das instituições parceiras.

LIBERDADE ASSISTIDA (ARTS. 118 E 119 DO ECA)

O que é: acompanhamento, auxílio e orientação do adolescente em conflito com a lei por equipes
multidisciplinares, por período mínimo de seis meses, objetivando oferecer atendimento nas diversas
áreas de políticas públicas, como saúde, educação, cultura, esporte, lazer e profissionalização, com vistas
à sua promoção social e de sua família, bem como inserção no mercado de trabalho.

Responsável pela execução: Secretaria de Estado de Políticas para Crianças, Adolescentes e Juventude do
Distrito Federal, por meio do trabalho desenvolvido nas Unidades de Atendimento em Meio Aberto
(UAMAs).

SEMILIBERDADE (ART. 120 DO ECA)

O que é: vinculação do adolescente a unidades especializadas, com restrição da sua liberdade,


possibilitada a realização de atividades externas, sendo obrigatórias a escolarização e a
profissionalização. O jovem poderá permanecer com a família aos finais de semana, desde que
autorizado pela coordenação da Unidade de Semiliberdade.

Responsável pela execução: Secretaria de Estado de Políticas para Crianças, Adolescentes e Juventude do
Distrito Federal, por meio do atendimento realizado pelas Unidades de Atendimento em Semiliberdade.

INTERNAÇÃO (ARTS. 121 A 125 DO ECA)

O que é: medida socioeducativa privativa da liberdade, adotada pela autoridade judiciária quando o ato
infracional praticado pelo adolescente se enquadrar nas situações previstas no art. 122, incisos I, II e III,
do ECA. A internação está sujeita aos princípios de brevidade, excepcionalidade e respeito à condição
peculiar de pessoa em desenvolvimento. A internação pode ocorrer em caráter provisório ou estrito.

Responsável pela execução: Secretaria de Estado de Políticas para Crianças, Adolescentes e Juventude do
Distrito Federal, por meio das Unidades de Internação.

De todas as sentenças proferidas pelos juízes da Vara da Infância e da Juventude e da Vara Regional de
Atos Infracionais da Infância e da Juventude cabe apelação (recurso de sentença) no prazo de 10 dias,
juntamente com a apresentação das razões.

AUTORIZÇÃO PARA VIAJAR

A autorização para viajar é uma medida restritiva imposta pelo Estatuto da Criança e Adolescente – ECA
– Lei 8.069/90 no intuito de evitar abusos e crimes que possam atentar contra a integridade de crianças
e adolescentes, com reflexos óbvios e diretos em toda a estrutura familiar e até na sociedade. Vejamos o
que nos diz nossa Legislação: Cosntituição Federal de 1988

Art. 227. É dever da família, da sociedade e do Estado assegurar à criança e ao adolescente, com
absoluta prioridade, o direito à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao lazer, à profissionalização, à
cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência familiar e comunitária, além de colocá-los a
salvo de toda forma de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão.

Ônibus. Transporte Coletivo na Cidade de São Paulo. Deficientes. Mobilidade. SPTrans

Compras abaixo de 100 dólares postadas no exterior ficam isentas do imposto de importação se o
destinatário for pessoa física.

Acesse os posts abaixo para saber sobre os direitos relacionados a viagens:

Carteira de Identidade. Documentos que servem como identidade civil

Viagem Aérea – Overbooking. Atrasos, Cancelamentos


Passagem de ônibus Vale por um ano

Passagem de ônibus. Remarcação e Devolução do Dinheiro. Quais nossos Direitos?

ESTATUTO DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE – Lei 8.069/90

Art. 2º – Considera-se criança, para os efeitos desta Lei, a pessoa até doze anos de idade incompletos, e
adolescente aquela entre 12 (doze) e 18 (dezoito) anos de idade.

Art. 33 – A guarda obriga à prestação de assistência material, moral e educacional à criança ou


adolescente, conferindo a seu detentor o direito de opor-se a terceiros, inclusive aos pais.

Art. 36 – A tutela será deferida, nos termos da Lei civil, a pessoa de até 21 (vinte e um) anos
incompletos.

Parágrafo único. O deferimento da tutela pressupõe a prévia decretação da perda ou suspensão do


pátrio poder e implica necessariamente o dever de guarda.

Art. 83 – Nenhuma criança poderá viajar para fora da comarca onde reside, desacompanhada dos pais
ou responsável, sem expressa autorização judicial.

§ 1º A autorização não será exigida quando:

a) tratar-se de comarca contígua à da residência da criança, se na mesma unidade da Federação, ou


incluída na mesma região metropolitana;

b) a criança estiver acompanhada:

1) de ascendente ou colateral maior, até o terceiro grau, comprovado documentalmente o parentesco;

2) de pessoa maior, expressamente autorizada pelo pai, mãe ou responsável.

§ 2º A autoridade judiciária poderá, a pedido dos pais ou responsável, conceder autorização válida por
dois anos.

Art. 84 – Quando se tratar de viagem ao exterior, a autorização é dispensável, se a criança ou


adolescente:
I – estiver acompanhado de ambos os pais ou responsável;

II – viajar na companhia de um dos pais, autorizado expressamente pelo outro através de documento
com firma reconhecida.

Art. 85 – Sem prévia e expressa autorização judicial, nenhuma criança ou adolescente nascido em
território nacional poderá sair do País em companhia de estrangeiro residente ou Domiciliado no
exterior.

CRIANÇA e ADOLESCENTE – RESUMO

01. Criança –> de zero a 11 anos, 11 meses e 29 dias de idade.

02. Adolescente –> de 12 a 18 anos de idade.

03. NÃO é necessária a Autorização Judicial para adolescentes viajarem a qualquer parte do território
nacional – artigo 83, “caput”, da Lei 8.069/90.

04. NÃO é necessária a Autorização Judicial para crianças viajarem a qualquer parte do território
nacional, quando estiverem acompanhadas de um dos parentes abaixo relacionados, desde que sejam
maiores de 18 anos ou maiores de 16 emancipados, comprovado documentalmente o parentesco: a)
pais; b) avós; c) bisavós; d) tios; e) sobrinhos; f) irmãos – n.º 1, letra “b”, § 1º , art. 83, da Lei 8.069/90.

05. NÃO é necessária a Autorização Judicial para crianças viajarem a qualquer parte do território
nacional, quando estiverem acompanhadas de pessoa maior de 18 anos ou pessoa maior de 16 anos
emancipada, expressamente autorizadas pelo pai, mãe ou responsável – n.º 2, letra “b”, § 1º, art. . 83, da
Lei 8.069/90.

06. NÃO é necessária a Autorização Judicial para crianças viajarem a qualquer parte do território
nacional, quando estiverem acompanhadas de um de seus guardiões ou tutores – arts. 33 e 36, da Lei
8.069/90.
07. NÃO é necessária a Autorização Judicial para crianças ou adolescente viajarem ao exterior quando
estiverem acompanhados de ambos os pais ou responsáveis – inciso I, art. 84, da Lei 8.069/90.

08. NÃO é necessária a Autorização Judicial para crianças ou adolescentes viajarem ao exterior quando
estiverem acompanhadas de um dos pais, autorizado expressamente pelo outro através de documento
com firma reconhecida – inciso II, art. 84, da Lei 8.069/90.

09. As Autorizações Particulares mencionadas nos itens “05” e “08” acima, poderão ter o mesmo prazo
de validade estipulado no § 2º do art. 83 da Lei 8.069/90, ou seja, dois anos.

DIREITO DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE

A Doutrina da Proteção Integral no cenário da infância e adolescência brasileira

A Constituição da República Federativa do Brasil de 1988 foi inovadora ao adotar a Doutrina da Proteção
Integral na questão da infância e adolescência[1] no Brasil. A referida doutrina teve seu crescimento
primeiramente em âmbito internacional, em convenções e documentos na área da criança, dentre os
quais se destaca a Convenção Internacional sobre os Direitos da Criança de 1989, aprovada por
unanimidade pela Assembléia Geral das Nações Unidas[2]. Conforme Liberati (2003, p. 20), a Convenção
“representou até agora, dentro do panorama legal internacional, o resumo e a conclusão de toda a
legislação garantista de proteção à infância".

A Convenção definiu a base da Doutrina da Proteção Integral ao proclamar um conjunto de direitos de


natureza individual, difusa, coletiva, econômica, social e cultural, reconhecendo que criança e
adolescente são sujeitos de direitos e, considerando sua vulnerabilidade, necessitam de cuidados e
proteção especiais. Exige a Convenção, com força de lei internacional[3], que os países signatários
adaptem as legislações às suas disposições e os compromete a não violarem seus preceitos, instituindo,
para isto, mecanismos de controle e fiscalização. (VERONESE; OLIVEIRA, 2008).

O Brasil, com base nas discussões sobre a Convenção, adota no texto constitucional de 1988 a Doutrina
da Proteção Integral, consagrando-a em seu art. 227[4].

“É dever da família, da sociedade e do Estado assegurar à criança, ao adolescente e ao jovem[5], com


absoluta prioridade, o direito à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao lazer, à profissionalização, à
cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência familiar e comunitária, além de colocá-los a
salvo de toda forma de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão.”

Segundo Saraiva (2002), pela primeira vez na história brasileira, a questão da criança e do adolescente é
abordada como prioridade absoluta e a sua proteção passa a ser dever da família, da sociedade e do
Estado.

Contudo, a interferência prática desta opção constitucional coube à legislação especial, aprovada em 13
de julho de 1990, através da promulgação da Lei Federal Nº 8.069/90 – o Estatuto da Criança e do
Adolescente.

“A gama de direitos elencados basicamente no art. 227 da Constituição Federal, os quais constituem
direitos fundamentais, de extrema relevância, não só pelo seu conteúdo como pela sua titularidade,
devem, obrigatoriamente, ser garantidos pelo Estatuto, e uma forma de tornar concreta essa garantia
deu-se, justamente, por meio do Estatuto da Criança e do Adolescente, o qual tem a nobre e difícil tarefa
de materializar o preceito constitucional.” (VERONESE, 1996, p. 94).

Deste modo, para Veronese (1996) o surgimento de uma legislação que tratasse crianças e adolescentes
como sujeitos de direitos era imprescindível, evitando que os preceitos constitucionais fossem reduzidos
a meras intenções. Sendo crianças e adolescentes titulares de direitos próprios e especiais, em razão de
sua condição específica de pessoas em desenvolvimento, tornou-se necessária a existência de uma
proteção especializada, diferenciada, integral.

Complementa Paula (2002) ser da própria essência do Direito da Criança e do Adolescente a presença da
proteção integral:
“[...] me parece que a locução proteção integral seja auto-explicativa [...] Proteção Integral exprime
finalidades básicas relacionadas às garantias do desenvolvimento saudável e da integridade,
materializadas em normas subordinantes que propiciam a apropriação e manutenção dos bens da vida
necessários para atingir destes objetivos.” (PAULA, 2002, p. 31).

A Doutrina da Proteção Integral veio contrapor a Doutrina da Situação Irregular então vigente instituída
pelo Código de Menores de 1979, “[...] onde a criança era vista como problema social, um risco à
estabilidade, às vezes até uma ameaça à ordem social [...] a infância era um mero objeto de intervenção
do Estado regulador da propriedade [...]”. Assim, a doutrina da situação irregular não atingia a totalidade
de crianças e adolescentes, mas somente destinava-se àqueles que representavam um obstáculo à
ordem, considerados como tais, os abandonados, expostos, transviados, delinqüentes, infratores, vadios,
pobres, que recebiam todos do Estado a mesma resposta assistencialista, repressiva e
institucionalizante. (CUSTÓDIO; VERONESE, 2009, p. 68).

Pela nova ordem estabelecida, criança e adolescente são sujeitos de direitos e não simplesmente objetos
de intervenção no mundo adulto, portadores não só de uma proteção jurídica comum que é reconhecida
para todas as pessoas, mas detém ainda uma “supraproteção ou proteção complementar de seus
direitos”. (BRUNÕL, 2001, p.92). A proteção é dirigida ao conjunto de todas as crianças e adolescentes,
não cabendo exceção.

O artigo 3º do Estatuto da Criança e do Adolescente esclarece a proteção complementar instaurada pela


nova doutrina, ao afirmar que `a criança e ao adolescente são garantidos todos os direitos fundamentais
inerentes a pessoa humana, bem como são sujeitos a proteção integral.

“Art.3° A criança e o adolescente gozam de todos os direitos fundamentais inerentes à pessoa humana,
sem prejuízo da proteção integral de que trata esta Lei, assegurando-se-lhes, por lei ou por outros meios,
todas as oportunidades e facilidades, a fim de lhes facultar o desenvolvimento físico, mental, moral,
espiritual e social, em condições de liberdade e de dignidade.”

Fica evidenciado o princípio da igualdade de todas as crianças e adolescentes, estes compreendidos


como todos os seres humanos que contam entre zero e 18 anos, ou seja, não há categorias distintas de
crianças e adolescentes, apesar de estarem em situações sociais, econômicas e culturais diferenciadas.
Lembra Machado (2003) que sistema especial de proteção tem por base a vulnerabilidade peculiar de
crianças e adolescentes, que por sua vez influencia na aparente quebra do princípio da igualdade, isto
por que:

“a) distingue crianças e adolescentes de outros grupos de seres humanos simplesmente diversos da
noção do homo médio; b) autoriza e opera a aparente quebra do princípio da igualdade – porque são
portadores de uma desigualdade inerente, intrínseca, o ordenamento confere-lhes tratamento mais
abrangente como forma de equilibrar a desigualdade de fato e atingir a igualdade jurídica material e não
meramente formal.” (MACHADO, 2003, p. 123).

Assim, com base na supremacia que o valor da dignidade da pessoa humana recebeu na Constituição da
República Federativa do Brasil de 1988, foi inaugurado um sistema especial de proteção à infância,
expressamente referido no parágrafo 3º do artigo 227, também no artigo 228, artigo 226, caput §§ 3º,
4º, 5º e 8º e 229, primeira parte da CF/88. Ainda, XXX e XXXIII do artigo 7º, e § 3º do artigo 208.

Extrai-se do art. 227 da Constituição Federal e art. 4º do Estatuto da Criança e do Adolescente que o
dever de assegurar este sistema especial de proteção cabe à família, comunidade, sociedade em geral,
poder público, que o farão com absoluta prioridade.

Liberati (2003) entende prioridade absoluta como estar a criança e o adolescente em primeiro lugar na
escala de preocupações dos governantes, que em primeiro lugar devem ser atendidas as necessidades
das crianças e adolescentes. Exemplifica:

“Por absoluta prioridade, entende-se que, na área administrativa, enquanto não existirem creches,
escolas, postos de saúde, atendimento preventivo e emergencial às gestantes, dignas moradias e
trabalho, não se deverão asfaltar ruas, construir praças, sambódromos, monumentos artísticos etc,
porque a vida, a saúde, o lar, a prevenção de doenças são mais importantes que as obras de concreto,
que ficam para demonstrar o poder do governante.” (LIBERATI, 2003. p. 47).

A lei ordinária nº 8.069/90, no parágrafo único do artigo 4º, detalhou a garantia da prioridade absoluta
como sendo: a) primazia de receber proteção e socorro em quaisquer circunstâncias; b) precedência de
atendimento nos serviços públicos ou de relevância pública; c) preferência na formulação e na execução
das políticas sociais públicas; d) destinação privilegiada de recursos públicos nas áreas relacionadas com
a proteção à infância e à juventude.
Outra base que sustenta a nova doutrina é a compreensão de que crianças e adolescentes estão em
peculiar condição de pessoas humanas em desenvolvimento, encontram-se em situação especial e de
maior vulnerabilidade, ainda não desenvolveram completamente sua personalidade, o que enseja um
regime especial de salvaguarda, o que lhes permite construir suas potencialidades humanas em
plenitude.

Neste sentido, afirma Machado (2003) que o direito peculiar de crianças e adolescentes desenvolver sua
personalidade humana adulta integra os direitos da personalidade e é relevante tal noção por estar
ligada estruturalmente a distinção que os direitos da crianças e adolescentes recebem do texto
constitucional.

“[...] sustento, pode-se afirmar, ao menos sob uma ótica principiológica ou conceitual, que a
possibilidade de formar a personalidade humana adulta – que é exatamente o que estão “fazendo”
crianças e adolescentes pelo simples fato de crescerem até a condição adulta – há de ser reconhecida
como direito fundamental do ser humano, porque sem ela nem poderiam ser os demais direitos da
personalidade adulta, ou a própria personalidade adulta.” (MACHADO, 2003, p. 110).

Entretanto, frisa a autora, que a personalidade infanto-juvenil não é valorizada somente como meio de o
ser humano atingir a personalidade adulta, isto seria um equívoco, uma vez que a vida humana tem
dignidade em si mesma, em todos os momentos da vida, seja no mais frágil, como no momento em que
o recém-nascido respira, seja no momento de ápice do potencial de criação intelectual de um ser
humano. Assim, o que gera e justifica a positivação da proteção especial às crianças e adolescentes não é
meramente a sua condição de seres diversos dos adultos, mas soma-se a isto a maior vulnerabilidade
destes em relação aos seres humanos adultos, bem como a força potencial que a infância e juventude
representam à sociedade. (MACHADO, 2003).

Ocorre que a efetivação dos direitos fundamentais de cidadania pressupõe a criação de um Sistema de
Garantia de Direitos, que atue na perspectiva da promoção, da defesa e do controle. Este direito deve
ser produzido na sociedade, onde se experimenta um intenso processo de correlações de forças,
considerando a histórica postura de negligência e arbitrariedade com crianças e adolescentes no Brasil.

3. Crianças e adolescentes são sujeitos de direitos fundamentais especiais


A Doutrina da Proteção Integral instaurou um sistema especial de proteção, delineando direitos nos
artigos 227 e 228 da Constituição brasileira, tornando crianças e adolescentes sujeitos dos direitos
fundamentais atribuídos a todos os cidadãos e ainda titulares de direitos especiais, com base na sua
peculiar condição de pessoa em desenvolvimento.

Machado (2003) afirma serem os direitos elencados no caput do artigo 227 e 228 da CF/88 também
direitos fundamentais da pessoa humana, pois o direito à vida, à liberdade, à igualdade mencionados no
caput do artigo 5º da CF referem-se a mesma vida, liberdade, igualdade descritas no artigo 227 e § 3º do
artigo 228, ou seja, tratam-se de direitos da mesma natureza, sendo todos direitos fundamentais.

Porém, os direitos fundamentais de que trata o artigo 227 são direitos fundamentais de uma pessoa
humana de condições especiais, qual seja pessoa humana em fase de desenvolvimento. Neste sentido,
Bobbio (2002, p.35) aponta como sendo singular a proteção destinada às crianças e adolescentes:

“Se se diz que “criança, por causa de sua imaturidade física e intelectual, necessita de uma proteção
particular e de cuidados especiais”, deixa-se assim claro que os direitos da criança são considerados
como um ius singulare com relação a um ius commne; o destaque que se dá a essa especificidade do
genérico, no qual se realiza o respeito à máxima suum cuique tribuere.” (grifo do autor).

Os direitos fundamentais de crianças e adolescentes são especiais e, de acordo com Machado (2003),
eles podem ser diferenciados do direito dos adultos por dois aspectos, sendo um quantitativo, pois
crianças e adolescentes são beneficiários de mais direitos do que os adultos, e ainda podem ser
classificados pelo seu aspecto qualitativo ou estrutural, por estarem os titulares de tais direitos em
peculiar condição de desenvolvimento.

Na sequência serão analisados os direitos fundamentais de crianças e adolescentes, apresentando certo


detalhamento sobre cada um deles. Tendo em vista a extensa gama de direitos fundamentais, optou-se
por realizada a abordagem dos direitos elencados no art. 227 da CF, quais sejam: “direito à vida, à saúde,
à alimentação, à educação, ao lazer, à profissionalização, à cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade
e à convivência familiar e comunitária”.

3.1. Direito à Vida e à Saúde


O Estatuto da Criança e do Adolescente e a Constituição da República Federativa do Brasil de 1988
iniciam a exposição dos direitos fundamentais pelo direito à vida e à saúde. No artigo 7º do ECA, lê-se: “A
criança e o adolescente têm direito a proteção à vida e à saúde, mediante a efetivação de políticas que
permitam o nascimento e o desenvolvimento sadio e harmonioso, em condições dignas de existência”.

O próprio ECA preceitua várias medidas de caráter preventivo, além de políticas públicas que permitam o
nascimento sadio, configurando-se, segundo Elias (2005) o direito de nascer.

Assegura-se à gestante o atendimento pré e perinatal, pelo Sistema Único de Saúde (art. 8). Às mães é
assegurado o aleitamento materno, mesmo se estiverem submetidas a medida privativa de liberdade
(art.9). Aos hospitais e demais estabelecimentos são impostas obrigações, tais como a manutenção de
registros (prontuários) pelo período de 18 anos, identificação do recém-nascido, proceder a exames
acerca de anormalidades no metabolismo do recém-nascido, prestar orientação aos pais, fornecer
declaração de nascimento onde constem as intercorrências do parto e do desenvolvimento do neonato
(art. 10).

Ainda, o Estatuto da Criança e do Adolescente garante o tratamento igualitário de todos os sujeitos,


independentemente da condição social (art. 11). Os portadores de deficientes receberão tratamento
especializado (§ 1º), incumbindo ao poder público o fornecimento gratuito de medicamentos, próteses e
outros recursos quando necessários (§ 2º). No caso de internação da criança e do adolescente, os
hospitais deverão propiciar condições para que um dos pais permaneça com o paciente (art.12). O
Sistema Único de Saúde promoverá ainda programas de assistência médica, odontológica e campanhas
de vacinação das crianças (art. 14).

Observa-se, desta forma, que o direito à vida, incutido no direito à saúde, é considerado o mais
elementar e absoluto dos direitos fundamentais, pois é indispensável ao exercício de todos os outros
direitos. Não pode ser confundido com sobrevivência, pois o direito à vida implica o reconhecimento do
direito de viver com dignidade, direito de viver bem, desde o momento da formação do ser humano.
(AMIN, 2007).

Neste sentido, Lenza (2007) afirma que o direito à vida abrange tanto o direito de não ser morto, privado
da vida, portanto o direito de continuar vivo, como também o direito de ter uma vida digna, garantindo-
se as necessidades vitais básicas do ser humano, e proibindo qualquer tratamento indigno, como a
tortura, penas de caráter perpétuo, trabalhos forçados, cruéis, entre outros.
Amim (2007) ilustra a efetivação do direito à vida e à saúde, apontando para a hipótese de adolescente
que estando à beira da morte, deve ser assegurado a ele, minimamente, os recursos para tentar mantê-
lo vivo, ou se for inevitável a sua morte precoce, que ao menos haja tratamento digno. Ainda, na
hipótese de uma criança ou adolescente sem as duas pernas, seria indigno que se arrastasse no intuito
de se locomover, neste caso caberia providenciar uma cadeira de rodas, eventual cirurgia para colocação
de prótese, enfim todos os meios para assegurar dignidade na forma de viver.

3.2. Direito à Alimentação

O art. 227 da Constituição Federal inclui, logo após o direito à vida e à saúde, o direito à alimentação no
rol dos direitos fundamentais de crianças e adolescentes.

É um direito especial de crianças e adolescentes positivado, levando em consideração a maior


vulnerabilidade por estarem em peculiar condição de pessoa em desenvolvimento. Este direito tem
estreita ligação com o direito à vida e direito ao não- trabalho. Assim, a positivação deste direito criou
para o Estado o dever de assegurar alimentação a todas as crianças e adolescentes que não tenham
acesso a ela por meio dos pais ou responsáveis e, ainda, faz nascer o direito individual de exigir esta
prestação. (MACHADO, 2003).

Conforme determina o art. 1.696 do Código Civil de 2002, “o direito à prestação de alimentos é recíproco
entre pais e filhos, e extensivo a todos os ascendentes, recaindo a obrigação nos mais próximos em grau,
uns na falta de outros”, assim na falta dos genitores poderá a criança e o adolescente pleitear os
alimentos dos outros parentes, respeitando a ordem de sucessão. Define o art. 2° da Lei de Alimentos, n.
5.478/68, que o credor, ao postular pela concessão dos alimentos, exporá suas necessidades e provará
apenas o parentesco ou a obrigação de alimentar do devedor.

3.3 Direito à Educação

A educação figura na Constituição Federal de 1988 como direito fundamental do ser humano, buscando
conferir suporte ao desenvolvimento de crianças e adolescentes. Este direito está expresso nos art. 205 a
214 da Constituição Federal de 1988, na Lei 9.394/90 (Lei de Diretrizes da Educação) e na Lei 8.069/90
(Estatuto da Criança e do Adolescente).
A Lei de Diretrizes da Educação Nacional, conhecida como Lei Darcy Ribeiro, reafirma a obrigação
solidária do Poder Público, da família e da comunidade na busca de garantir a educação.

“Art. 2º. A educação é direito de todos e dever da família e do Estado, terá como bases os princípios de
liberdade e os ideais de solidariedade humana e, como fim, a formação integral da pessoa do educando,
a sua preparação para o exercício da cidadania e a sua qualificação para o trabalho.”

Conforme descrito no artigo 54 do Estatuto da Criança e do Adolescente, o Estado buscará a efetivação


do Direito à educação, assegurando o ensino fundamental gratuito e universal a todos (inciso I), com
acesso a “programas suplementares de material didático-escolar, transporte, alimentação e assistência à
saúde” (inciso VII). Ainda, será oferecido atendimento especializado aos portadores de deficiências
(inciso III), e educação infantil, em creche e pré-escola, às crianças de zero a seis anos de idade (inciso
IV). A não oferta do ensino obrigatório importa em responsabilização da autoridade competente (§ 2º).

Fazendo alusão ao § 3º do artigo 54 do ECA, Machado (2003) ressalta a prestação positiva imposta ao
Estado em assegurar o direito à educação, não bastando a oferta de vagas, a Constituição exige do
Estado o recenseamento de crianças e adolescentes em idade escolar, que proceda a chamada deles e
que zele, junto com os pais ou responsáveis, pela freqüência à escola.

Contudo, alerta Meneses (2008, p. 28):

“[...] o aluno fora da sala de aula afronta a juridicidade. Mas um aluno na sala de aula, sem espaço para o
erro, e por causa dele, desautorizado a reconstruir concepções, afronta a proteção integral de pessoa em
desenvolvimento. Ainda o aluno na sala de aula, porque assim determina a lei, que não respeita a
convivência com o educador e com os outros alunos, liquida com a qualidade da relação [...].” (MENESES,
2008, p.28).

Veronese e Oliveira (2008, p. 67) esclarecem ser o direito de aprender, explícito no direito ao acesso à
educação regular, um dos direitos humanos fundamentais. Isto se deve a relação existente entre
educação e cidadania. Cidadania entendida como “[...] um exercício contínuo de reivindicação de
direitos. Como reivindicar o que não se conhece? Daí decorre a necessidade de investimento em
educação [...]”. Ainda, sendo crianças e adolescentes sujeitos de direitos em processo de
desenvolvimento, a educação se tornou um direito indisponível, um requisito indispensável para garantir
o crescimento sadio, nos aspectos físico, cognitivo, afetivo e emocional.

3.4 Direito à Cultura, ao Esporte e ao Lazer

As crianças e adolescente necessitam de vários estímulos na sua formação: emocionais, sociais, culturais,
educativos, motores, entre outros. Assim, a cultura estimula o pensamento de maneira diversa da
educação formal. O esporte desenvolve habilidades motoras, socializa o indivíduo. O lazer envolve
entretenimento, a diversão que são importantes para o desenvolvimento integral do indivíduo. (AMIN,
2007).

Cabe aos Municípios, com o apoio dos Estados e da União, estimular e destinar recursos e espaços para
programações culturais, esportivas e de lazer, voltadas para a infância e a juventude, conforme art. 59 do
ECA.

Elias (2005) ressalta a importância da cultura, do esporte e lazer no processo de formação dos
indivíduos, sob o ponto de vista físico e mental. Desta forma, a municipalização facilita o atendimento
nestas áreas, contribuindo para afastar crianças e adolescentes dos perigos das drogas e de outros vícios
que prejudicam o desenvolvimento de uma personalidade saudável, o que, no futuro, poderá levá-los a
uma vida sem qualidade e à criminalidade.

Para Amin (2007) estes direitos devem ser assegurados pelo Estado através da construção de praças,
instalação de teatros populares, promoção de shows abertos ao público, construção de complexos ou
simples ginásios poliesportivos. A família deve buscar proporcionar o acesso a estes direitos, e a escola
tem papel importante na promoção destes, quando realiza passeios ou forma grupos de teatro com os
próprios alunos.

Aponta Machado (2003) que um direito que se desprenderia do direito ao lazer, à convivência familiar e
comunitária, do direito ao não-trabalho, seria o direito de brincar. A garantia deste direito auxiliaria no
desenvolvimento cognitivo, psicológico e social da criança e do adolescente.

Assegurar o direito de brincar encontra seu significado quando inserido numa sociedade influenciada
pela mídia que passou a exigir um comportamento adulto daqueles que ainda não o são. Assim, crianças
e adolescentes assumem uma agenda de horários similar a dos adultos, a outros ainda é imposta a
responsabilidade pelo cuidado de irmãos menores, correndo o risco de lhes faltar tempo para brincar,
conversar, se divertir. (AMIN, 2007).

3.5 Direito à Profissionalização e à Proteção no Trabalho

O direito ao trabalho “repousa basicamente na proteção do interesse individual de ter liberdade para
exercer as potencialidades que todo trabalho humano comporta e na proteção o interesse individual de
prover as próprias necessidades”. (MACHADO, 2003, p. 176).

Observa, contudo, Machado (2003) que, quando a criança ou o adolescente exercitam o trabalho não
mais como impulso de experimentação das suas potencialidades, mas, sim, como necessidade de prover
seu próprio sustento, o trabalho conflitua com outros interesses necessários ao seu pleno
desenvolvimento. O trabalho poderá retirar as forças imprescindíveis para o acompanhamento das aulas
regulares, limitando a capacidade de aprendizado e prejudicando sua qualificação teórico-profissional.
Ainda, o trabalho poderá representar um esforço superior ao seu estágio de crescimento,
comprometendo a saúde e o seu desenvolvimento cognitivo.

Por estas razões, visando proteger crianças e adolescentes e, ao mesmo tempo, assegurar-lhes o direito
fundamental à profissionalização, o ordenamento estabeleceu um regime especial de trabalho, com
direitos e restrições.

A Emenda Constitucional nº 20, de 15/12/98 alterou o inciso XXXIII do art. 7º restringindo o trabalho
adolescente a partir dos 16 anos, salvo na condição de aprendiz a partir dos 14 anos, conforme art. 403
da CLT e art. 60 da Lei 8.069/90.

Além da limitação etária, é proibido o trabalho noturno, entre às 22 e 5 horas, o trabalho perigoso,
insalubre ou penoso, realizado em locais prejudiciais à formação e desenvolvimento físico, psíquico,
moral e social do adolescente, bem como em horários que prejudiquem a sua frequência à escola (art.
67 do ECA e arts. 403, 404, 405 da CLT). Também lhe são assegurados os direitos trabalhistas e
previdenciários (art. 65 do ECA).

O direito ao trabalho protegido, exercido por adolescente entre 14 a 18 anos, não pode ser confundido
com o direito à profissionalização, existindo na essência antagonismos entre eles. De acordo com
Machado (2003, p.188):

“[...] o direito à profissionalização objetiva proteger o interesse de crianças e adolescentes de se


preparem adequadamente para o exercício do trabalho adulto, do trabalho no momento próprio; não
visa o próprio sustento durante a juventude, que é necessidade individual concreta resultante das
desigualdades sociais, que a Constituição visa reduzir.”

Diante do mundo contemporâneo que exige qualificação elevada, da qual a educação é requisito
necessário, a qualificação profissional dos adolescentes é garantidora de um mínimo de igualdade entre
os cidadãos quando da inserção no mercado de trabalho. Entretanto, quando o adolescente passa a
exercer o trabalho regular precocemente, mais se limitam suas chances de desenvolver adequadamente
sua profissionalização, para que possa, na idade adulta, competir no mercado de trabalho, mantendo,
desta forma, sua desigualdade na inserção social, pois a aprendizagem é limitada e precária,
basicamente laboral e não educativa, que se norteia pelos princípios da produtividade do trabalho e
lucro do empregador. (MACHADO, 2003).

3.6 Direito à Liberdade, ao Respeito e à Dignidade

A criança e o adolescente têm direito à liberdade, ao respeito e à dignidade, por serem pessoas em
desenvolvimento e sujeitos de direitos civis, humanos e sociais. (art. 15 da Lei 8.069/90).

O direito à liberdade é mais amplo do que o direito de ir e vir. O art. 16 do ECA compreende a liberdade
também como liberdade de opinião, expressão, crença e culto religioso, liberdade de brincar, praticar
esportes e divertir-se, participar da vida em família, na sociedade e vida política, assim como buscar
refúgio, auxílio e proteção.

Porém, conforme verificado no inciso I, do art. 16 são impostas restrições legais ao direito à liberdade de
crianças e adolescentes. Para Elias (2005), as limitações à liberdade são impostas devido a própria
condição de pessoas em desenvolvimento, para o seu bem estar. Neste sentido, Machado (2003) justifica
que as restrições à liberdade da pessoa física em fase de desenvolvimento têm suas especificidades
ligadas à questão da imaturidade de crianças e adolescentes, o que auxilia que estas se protejam contra
agressões aos seus direitos.
Por seu turno, o direito ao respeito é descrito no art. 17 do ECA como a “inviolabilidade da integridade
física, psíquica e moral da criança e do adolescente, abrangendo a preservação da imagem, da
identidade, da autonomia, dos valores, idéias e crenças, dos espaços e objetos pessoais.

“[...] Toda criança nasce com o direito de ser. É um erro muito grave, que ofende o direito de ser,
conceber a criança como apenas um projeto de pessoa, como alguma coisa que no futuro poderá
adquirir a dignidade de um ser humano. É preciso reconhecer e não esquecer em momento algum, que,
pelo simples fato de existir, a criança já é uma pessoa e por essa razão merecedora do respeito que é
devido exatamente na mesma medida a todas as pessoas.” (DALLARI; KORCZACK, 1986, p. 21).

Reafirma o art. 18 do ECA, ser dever de todos zelar pela suprema dignidade de crianças e adolescentes,
colocando-os a salvo de qualquer forma de tratamento desumano, aterrorizante, constrangedor, bem
como qualquer espécie de violência, seja a violência física, a psicológica ou a violência moral.

3.7 Direito à Convivência Familiar e Comunitária

O art. 19 da Lei n. 8.069/90, assegura a toda criança e adolescente o direito de ser criado e educado no
seio da sua família e, excepcionalmente, em família substituta, assegurando a convivência familiar e
comunitária, zelando por um ambiente livre da presença de pessoas dependentes de substâncias
entorpecentes.

Este direito tem por base a capacidade protetora da criança e do adolescente na relação parental.
Conforme Gueiros e Oliveira (2005, p.118), o direito à convivência familiar deve ser garantido tanto aos
filhos, como também aos pais:

“É fundamental defender o princípio de que o lugar da criança é na família, mas é necessário pensar que
essa é uma via de mão dupla – direito dos filhos, mas também de seus pais- e, assim, sendo, deve ser
assegurado à criança o direito de convivência familiar, preferencialmente na família na qual nasceu, e aos
pais o direito de poder criar e educar os filhos que tiveram do casamento ou de vivências amorosas que
não chegaram a se constituir como parcerias conjugais.”
Como fatores que dificultam a manutenção de crianças e adolescentes em suas famílias, são apontados
as desigualdades sociais presentes na sociedade e a crescente exclusão social do mercado formal de
trabalho que incidem diretamente sobre a situação econômica das famílias, inviabilizando o provimento
de condições mínimas necessárias a sua sobrevivência, desta forma, vivem na negligência e abandono,
tanto pais quanto filhos. No caso presente, faz-se urgente que as famílias contem com políticas públicas
sociais que garantam o acesso a bens e serviços indispensáveis à cidadania. (GUEIROS; OLIVEIRA, 2008).

É bem verdade que a pobreza dos genitores não constitui fator de perda ou suspensão do poder familiar,
podendo somente serem decretadas judicialmente (art. 23 e 24 da Lei 8.069/90). O Poder Familiar é
conceituado por Maciel (2007, p. 72) como um “complexo de direitos e deveres pessoais e patrimoniais
com relação ao filho menor, [...] que deve ser exercido no melhor interesse deste último [...]”.

A par disso, esclarece Ishida (2001), que nos procedimentos da infância e juventude, a preferência é
sempre de mantença da criança e do adolescente junto aos genitores biológicos. Somente após
acompanhamento técnico-jurídico que verifique a inexistência de condições dos genitores, havendo
direitos fundamentais ameaçados ou violados, inicia-se a colocação em lar substituto.

Conforme art. 100 da Lei n. 8.069/90, a manutenção e o fortalecimento dos vínculos devem ser
observados também na aplicação de medidas socioeducativas, preferindo aquelas medidas que
favoreçam as relações afetivas que o adolescente já tem construído em sua família e comunidade.

MEDIDAS DE PROTEÇÃO

MEDIDAS DE PROTEÇÃO À CRIANÇA E AO ADOLESCENTE

As medidas de proteção à criança e ao adolescente são aplicáveis sempre que os direitos reconhecidos
por Lei forem ameaçados ou violados:

a) Por ação ou omissão da sociedade ou do Estado;

b) Por falta, omissão ou abuso dos pais ou responsável;

c) Em razão de sua conduta.


Medidas Específicas de Proteção

As medidas previstas poderão ser aplicadas isolada ou cumulativamente, bem como substituídas a
qualquer tempo.

Na aplicação das medidas levar-se-ão em conta as necessidades pedagógicas, preferindo-se aquelas que
visem ao fortalecimento dos vínculos familiares e comunitários.

São também princípios que regem a aplicação das medidas:

· Condição da criança e do adolescente como sujeitos de direitos: crianças e adolescentes são os titulares
dos direitos previstos no Estatuto da Criança e Adolescente - Lei nº 8.069/1990 e em outras Leis, bem
como na Constituição Federal;

· Proteção integral e prioritária: a interpretação e aplicação de toda e qualquer norma contida no


Estatuto da Criança e Adolescente - Lei nº 8.069/1990 deve ser voltada à proteção integral e prioritária
dos direitos de que crianças e adolescentes são titulares;

· Responsabilidade primária e solidária do poder público: a plena efetivação dos direitos assegurados a
crianças e a adolescentes pelo Estatuto da Criança e Adolescente - Lei nº 8.069/1990 e pela Constituição
Federal, salvo nos casos por esta expressamente ressalvados, é de responsabilidade primária e solidária
das 3 (três) esferas de governo, sem prejuízo da municipalização do atendimento e da possibilidade da
execução de programas por entidades não governamentais;

· Interesse superior da criança e do adolescente: a intervenção deve atender prioritariamente aos


interesses e direitos da criança e do adolescente, sem prejuízo da consideração que for devida a outros
interesses legítimos no âmbito da pluralidade dos interesses presentes no caso concreto;

· Privacidade: a promoção dos direitos e proteção da criança e do adolescente deve ser efetuada no
respeito pela intimidade, direito à imagem e reserva da sua vida privada;
· Intervenção precoce: a intervenção das autoridades competentes deve ser efetuada logo que a situação
de perigo seja conhecida;

· Intervenção mínima: a intervenção deve ser exercida exclusivamente pelas autoridades e instituições
cuja ação seja indispensável à efetiva promoção dos direitos e à proteção da criança e do adolescente;

· Proporcionalidade e atualidade: a intervenção deve ser a necessária e adequada à situação de perigo


em que a criança ou o adolescente se encontram no momento em que a decisão é tomada;

· Responsabilidade parental: a intervenção deve ser efetuada de modo que os pais assumam os seus
deveres para com a criança e o adolescente;

· Prevalência da família: na promoção de direitos e na proteção da criança e do adolescente deve ser


dada prevalência às medidas que os mantenham ou reintegrem na sua família natural ou extensa ou, se
isto não for possível, que promovam a sua integração em família substituta;

· Obrigatoriedade da informação: a criança e o adolescente, respeitado seu estágio de desenvolvimento


e capacidade de compreensão, seus pais ou responsável devem ser informados dos seus direitos, dos
motivos que determinaram a intervenção e da forma como esta se processa;

· Oitiva obrigatória e participação: a criança e o adolescente, em separado ou na companhia dos pais, de


responsável ou de pessoa por si indicada, bem como os seus pais ou responsável, têm direito a ser
ouvidos e a participar nos atos e na definição da medida de promoção dos direitos e de proteção, sendo
sua opinião devidamente considerada pela autoridade judiciária competente.

MEDIDAS

Verificada qualquer das hipóteses previstas, a autoridade competente poderá determinar, dentre outras,
as seguintes medidas:
· Encaminhamento aos pais ou responsável, mediante termo de responsabilidade;

· Orientação, apoio e acompanhamento temporários;

· Matrícula e frequência obrigatórias em estabelecimento oficial de ensino fundamental;

· Inclusão em programa comunitário ou oficial de auxílio à família, à criança e ao adolescente;

· Requisição de tratamento médico, psicológico ou psiquiátrico, em regime hospitalar ou


ambulatorial;

· Inclusão em programa oficial ou comunitário de auxílio, orientação e tratamento a alcoólatras e


toxicômanos;

· Acolhimento institucional;

· Inclusão em programa de acolhimento familiar;

· Colocação em família substituta.

Acolhimento institucional e acolhimento familiar

O acolhimento institucional e o acolhimento familiar são medidas provisórias e excepcionais, utilizáveis


como forma de transição para reintegração familiar ou, não sendo esta possível, para colocação em
família substituta, não implicando privação de liberdade.
Sem prejuízo da tomada de medidas emergenciais para proteção de vítimas de violência ou abuso
sexual; o afastamento da criança ou adolescente do convívio familiar é de competência exclusiva da
autoridade judiciária e importará na deflagração, a pedido do Ministério Público ou de quem tenha
legítimo interesse, de procedimento judicial contencioso, no qual se garanta aos pais ou ao responsável
legal o exercício do contraditório e da ampla defesa.

Crianças e adolescentes somente poderão ser encaminhados às instituições que executam programas de
acolhimento institucional, governamentais ou não, por meio de uma Guia de Acolhimento, expedida
pela autoridade judiciária, na qual obrigatoriamente constará, dentre outros:

· Sua identificação e a qualificação completa de seus pais ou de seu responsável, se conhecidos;

· O endereço de residência dos pais ou do responsável, com pontos de referência;

· Os nomes de parentes ou de terceiros interessados em tê-los sob sua guarda;

· Os motivos da retirada ou da não reintegração ao convívio familiar.

Imediatamente após o acolhimento da criança ou do adolescente, a entidade responsável pelo programa


de acolhimento institucional ou familiar elaborará um plano individual de atendimento, visando à
reintegração familiar, ressalvada a existência de ordem escrita e fundamentada em contrário de
autoridade judiciária competente, caso em que também deverá contemplar sua colocação em família
substituta, observadas as regras e princípios estipuladas pelo Estatuto da Criança e Adolescente - Lei nº
8.069/1990.

O plano individual será elaborado sob a responsabilidade da equipe técnica do respectivo programa de
atendimento e levará em consideração a opinião da criança ou do adolescente e a oitiva dos pais ou do
responsável.

Constarão do plano individual, dentre outros:


· Os resultados da avaliação interdisciplinar;

· Os compromissos assumidos pelos pais ou responsável; e

· A previsão das atividades a serem desenvolvidas com a criança ou com o adolescente acolhido e
seus pais ou responsável, com vista na reintegração familiar ou, caso seja esta vedada por expressa e
fundamentada determinação judicial, as providências a serem tomadas para sua colocação em família
substituta, sob direta supervisão da autoridade judiciária.

O acolhimento familiar ou institucional ocorrerá no local mais próximo à residência dos pais ou do
responsável e, como parte do processo de reintegração familiar, sempre que identificada a necessidade,
a família de origem será incluída em programas oficiais de orientação, de apoio e de promoção social,
sendo facilitado e estimulado o contato com a criança ou com o adolescente acolhido.

Verificada a possibilidade de reintegração familiar, o responsável pelo programa de acolhimento familiar


ou institucional fará imediata comunicação à autoridade judiciária, que dará vista ao Ministério Público,
pelo prazo de 5 (cinco) dias, decidindo em igual prazo.

Reintegração à família

Sendo constatada a impossibilidade de reintegração da criança ou do adolescente à família de origem,


após seu encaminhamento a programas oficiais ou comunitários de orientação, apoio e promoção social,
será enviado relatório fundamentado ao Ministério Público, no qual conste a descrição pormenorizada
das providências tomadas e a expressa recomendação, subscrita pelos técnicos da entidade ou
responsáveis pela execução da política municipal de garantia do direito à convivência familiar, para a
destituição do poder familiar, ou destituição de tutela ou guarda.

Recebido o relatório, o Ministério Público terá o prazo de 30 (trinta) dias para o ingresso com a ação de
destituição do poder familiar, salvo se entender necessária a realização de estudos complementares ou
outras providências que entender indispensáveis ao ajuizamento da demanda.
A autoridade judiciária manterá, em cada comarca ou foro regional, um cadastro contendo informações
atualizadas sobre as crianças e adolescentes em regime de acolhimento familiar e institucional sob sua
responsabilidade, com informações pormenorizadas sobre a situação jurídica de cada um, bem como as
providências tomadas para sua reintegração familiar ou colocação em família substituta.

Terão acesso ao cadastro o Ministério Público, o Conselho Tutelar, o órgão gestor da Assistência Social e
os Conselhos Municipais dos Direitos da Criança e do Adolescente e da Assistência Social, aos quais
incumbe deliberar sobre a implementação de políticas públicas que permitam reduzir o número de
crianças e adolescentes afastados do convívio familiar e abreviar o período de permanência em
programa de acolhimento.

Registros e certidões

Verificada a inexistência de registro anterior, o assento de nascimento da criança ou adolescente será


feito à vista dos elementos disponíveis, mediante requisição da autoridade judiciária.

Os registros e certidões necessários à regularização são isentos de multas, custas e emolumentos,


gozando de absoluta prioridade.

Caso ainda não definida a paternidade, será deflagrado procedimento específico destinado à sua
averiguação.

É dispensável o ajuizamento de ação de investigação de paternidade pelo Ministério Público se, após o
não comparecimento ou a recusa do suposto pai em assumir a paternidade a ele atribuída, a criança for
encaminhada para adoção.

Bases: Lei nº 8.069/1990, artigos 98 a 102.

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Família - Família Extensa - Filhos - Família Substituta

Infância e Adolescência - Prevenção de Riscos - Espetáculos, Serviços e Produtos

Infância e Adolescência - Entidades de Atendimento - Obrigações


INFRAÇÃO ADMINISTRATIVA

Infração Administrativa do artigo 249 do ECA

Infração Administrativa do artigo 249 do ECA por descumprimento de Requisição do Conselho Tutelar:
Interpretação na órbita do Direito da Criança e do Adolescente

Sidney Fiori Junior e Renee do Ó Souza

Promotores de Justiça da Infância e Juventude em

Tocantins e Mato Grosso, respectivamente

A pretensão do presente artigo é discutir e questionar a jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça


(STJ) que restringe a aplicação do art. 249 da Lei nº 8.069/90 apenas aos pais ou responsáveis (ou
decorrente de tutela ou guarda) que descumprem suas obrigações decorrentes do poder familiar.

Urge a mudança dessa interpretação a fim de resguardar a coercibilidade da atuação do Conselho


Tutelar frente a qualquer política pública omissa, como por exemplo, quando expede requisições para o
poder público de vagas em centros de educação infantis ou em escolas.

1) Da Natureza Jurídica das Infrações Administrativas

As infrações administrativas são forma de expressão do poder de polícia da Administração Pública,


caracterizando-se como a interferência Estatal na esfera privada, à medida que restringem direitos
individuais em nome da coletividade.
A natureza do procedimento de apuração da infração administrativa desperta divergências tanto na
doutrina quanto na jurisprudência.

De um lado, há a tese que defende a natureza administrativa do procedimento. Na mão oposta, os que
insistem na natureza jurisdicional.

Não obstante a plausibilidade das duas correntes doutrinárias, considerando que o próprio Estatuto
imputou competência à Justiça da Infância e da Juventude para a aplicação de penalidade administrativa
nos casos de infração contra norma de proteção a criança e ao adolescente (art. 148, inc. VI), resta
evidenciada a natureza jurisdicional do procedimento.

Conforme expõe Ramos (2007, p. 633):

A violação de um preceito normativo, caracterizando uma infração administrativa, faz nascer o direito
subjetivo da sociedade de exigir o respeito à ordem jurídica vigente.

[...]

Pela sistemática do Estatuto, tal pretensão da sociedade deve ser exigida judicialmente, por iniciativa do
Ministério Público, do Conselho Tutelar, ou através de servidores púbicos credenciados para tal, perante
a Vara da Infância e da Juventude. A aplicação da penalidade pressupõe a intervenção do Poder
Judiciário.

E essa intervenção não é meramente administrativa, pois é função do processo judicial compor a lide,
resolver os conflitos segundo a ordem jurídica estabelecida.

Assim sendo, antes de ser iniciado o comentário das questões relativas ao procedimento de apuração de
infração administrativa, é necessário falar brevemente a respeito das infrações administrativas do ECA.

2) As Infrações Administrativas contra as Normas Protetivas

Como destacado acima, as infrações administrativas representam uma das formas de manifestação do
poder de polícia da Administração Pública, caracterizando-se como a interferência do Poder Público na
esfera particular, por meio da restrição de direitos individuais, em nome da coletividade.
Na definição proposta por Ramos (2007, p. 394):

[...] as infrações administrativas são condutas contrárias a preceitos normativos que estabelecem uma
ingerência do Estado na vida do particular, seja pessoa física ou jurídica, com vistas à proteção de
interesses tutelados pela sociedade, com sanções de cunho administrativo, ou seja, restritivas de
direitos, mas não restritivas de liberdade, geralmente importando num pagamento de uma multa
pecuniária, suspensão do programa ou da atividade, fechamento de estabelecimento, apreensão do
material inadequado ou simples advertência.

[...]

Em termos de escolha legislativa, o que representa um mero ilícito administrativo hoje poderá vir a ser
um ilícito penal amanhã e vice-versa. Há uma consideração valorativa feita pelo legislador quanto a
certos bens jurídicos, tendo como conseqüência a cominação de penas mais leves ou mais graves aos
realizadores das condutas potencialmente ofensivas.

Sendo assim, apesar de seus efeitos serem diferentes, não há uma distinção explícita entre a sanção de
natureza penal e a sanção de natureza administrativa à medida que ambas decorrem da desobediência a
uma norma de conduta e de controle social.

3) Da Necessária Interpretação Favorável ao Objeto Jurídico Protegido

Os argumentos mais comuns lançados nos precedentes do STJ e de outros tribunais dizem respeito à
ilegitimidade da parte, notadamente do Poder Público, para figurar no pólo passivo daquele comando
normativo, eis que apenas os detentores do poder familiar, tutela ou guarda é que poderiam ser punidos
pelo artigo 249 do ECA.

Observamos que o tipo administrativo em questão deve ser dividido em duas partes bem claras, in
verbis:

Art. 249. Descumprir, dolosa ou culposamente, os deveres inerentes ao poder familiar ou decorrente de
tutela ou guarda, bem assim determinação da autoridade judiciária ou Conselho Tutelar:
Pena - multa de três a vinte salários de referência, aplicando-se o dobro em caso de reincidência.

Parece claro que a expressão "bem assim" dividiu o alcance da norma em duas situações diferentes,
sendo a primeira dirigida aos pais ou responsáveis e a segunda, para toda a coletividade que descumpra,
dolosa ou culposamente, as determinações do Conselho Tutelar ou do juiz de direito.

Não fosse assim, estaria comprometida a eficácia da Lei nº 8.069/90, que pretendeu dar ao conselho
tutelar e ao juiz da infância e juventude poderes para proteger, de maneira eficiente, os direitos das
crianças e adolescentes em situação de risco.

Evidente que a CR/88, quando expressamente elencou dentre os princípios da administração pública o
da eficiência, bem assim, quando no art. 227 determinou que caberia à sociedade e ao Poder Público
assegurar, com absoluta prioridade, a efetivação dos direitos das crianças e adolescentes, buscou dar
concretude às normas operacionais destinadas ao efetivo cumprimento das ordens emanadas pelas
autoridades constituídas na seara de defesa, promoção e proteção do público infanto-juvenil.

Para facilitar o entendimento da matéria, entendemos pertinente colacionar a íntegra do art. 100 da Lei
nº 8.069/90, que explicita como deve ser INTERPRETADO o Estatuto da Criança e do Adolescente, sem
embargo da leitura do art. 6º, in verbis:

Art. 100. Na aplicação das medidas levar-se-ão em conta as necessidades pedagógicas, preferindo-se
aquelas que visem ao fortalecimento dos vínculos familiares e comunitários.

Parágrafo único. São também princípios que regem a aplicação das medidas:

I - condição da criança e do adolescente como sujeitos de direitos: crianças e adolescentes são os


titulares dos direitos previstos nesta e em outras Leis, bem como na Constituição Federal;

II - proteção integral e prioritária: a interpretação e aplicação de toda e qualquer norma contida nesta Lei
deve ser voltada à proteção integral e prioritária dos direitos de que crianças e adolescentes são
titulares;

III - responsabilidade primária e solidária do poder público: a plena efetivação dos direitos assegurados a
crianças e a adolescentes por esta Lei e pela Constituição Federal, salvo nos casos por esta
expressamente ressalvados, é de responsabilidade primária e solidária das 3 (três) esferas de governo,
sem prejuízo da municipalização do atendimento e da possibilidade da execução de programas por
entidades não governamentais;
IV - interesse superior da criança e do adolescente: a intervenção deve atender prioritariamente aos
interesses e direitos da criança e do adolescente, sem prejuízo da consideração que for devida a outros
interesses legítimos no âmbito da pluralidade dos interesses presentes no caso concreto;

V - privacidade: a promoção dos direitos e proteção da criança e do adolescente deve ser efetuada no
respeito pela intimidade, direito à imagem e reserva da sua vida privada;

VI - intervenção precoce: a intervenção das autoridades competentes deve ser efetuada logo que a
situação de perigo seja conhecida;

VII - intervenção mínima: a intervenção deve ser exercida exclusivamente pelas autoridades e
instituições cuja ação seja indispensável à efetiva promoção dos direitos e à proteção da criança e do
adolescente;

VIII - proporcionalidade e atualidade: a intervenção deve ser a necessária e adequada à situação de


perigo em que a criança ou o adolescente se encontram no momento em que a decisão é tomada;

IX - responsabilidade parental: a intervenção deve ser efetuada de modo que os pais assumam os seus
deveres para com a criança e o adolescente;

X - prevalência da família: na promoção de direitos e na proteção da criança e do adolescente deve ser


dada prevalência às medidas que os mantenham ou reintegrem na sua família natural ou extensa ou, se
isto não for possível, que promovam a sua integração em família substituta;

XI - obrigatoriedade da informação: a criança e o adolescente, respeitado seu estágio de


desenvolvimento e capacidade de compreensão, seus pais ou responsável devem ser informados dos
seus direitos, dos motivos que determinaram a intervenção e da forma como esta se processa;

XII - oitiva obrigatória e participação: a criança e o adolescente, em separado ou na companhia dos pais,
de responsável ou de pessoa por si indicada, bem como os seus pais ou responsável, têm direito a ser
ouvidos e a participar nos atos e na definição da medida de promoção dos direitos e de proteção, sendo
sua opinião devidamente considerada pela autoridade judiciária competente, observado o disposto nos
§§ 1º e 2º do art. 28 desta Lei.

Como afirmado, além destes princípios, temos que ler o Estatuto à luz da CR/88 e com observância do
art. 6º do ECA, in verbis:

Art. 6º. Na interpretação desta Lei levar-se-ão em conta os fins sociais a que ela se dirige, as exigências
do bem comum, os direitos e deveres individuais e coletivos, e a condição peculiar da criança e do
adolescente como pessoas em desenvolvimento.
Logo, malgrado existam decisões jurisprudenciais no sentido de se responsabilizar apenas os pais ou
responsáveis que descumpram seus deveres relacionados ao poder familiar, não nos parece justo ou
adequado esse tipo de interpretação à luz da Lei nº 8.069/90, em cotejo com a normativa internacional e
com a CR/88.

Na doutrina, existe a clara noção da necessidade de se dividir o art. 249 do ECA em duas partes, como,
por exemplo, na obra de Valter Kenji Ishida: [nota 1]

"Sujeito ativo a pessoa que detenha o pátrio poder, a tutela ou a guarda: pai, tutor oi guardião (no caso
da primeira figura). São os "sujeitos ativos qualificados, dos quais se exige capacidade penal especial, são
também chamados pessoas qualificadas (intranei)" (Jesus, 1991:151). Equipara-se a infração e tela aos
"crimes de mão própria", ou seja, aqueles que somente podem ser praticados pelo autor em pessoa, por
exemplo: só pode descumprir o pátrio poder aquele que legitimamente o detenhas.

No caso da segunda figura ("descumprir determinação da autoridade judiciária ou conselho tutelar"), é


sujeito ativo qualquer pessoa que descumpra determinação do Conselho Tutelar ou da Autoridade
Judiciária. Trata referido dispositivo de alta incidência na pratica forense relacionada à infância e
juventude, sendo no caso da Vara da Infância e Juventude de Itaquera, o de maior infringência.

Seria de melhor técnica que as duas figuras fossem dispostas em tipos diferentes por tratarem de tipos
completamente diferentes: de um lado, tutela-se o real cumprimento das obrigações do pátrio poder e
de outro, protege-se o cumprimento das determinações do Conselho Tutelar ou do Juiz da infância e da
Juventude".

Neste sentido, também lecionam Luciano Alves Rossato, Paulo Eduardo Lépore e Rogério Sanches Cunha
[nota 2] que o artigo 249 do Estatuto da Criança e do Adolescente, apresenta duas figuras típicas. A
primeira refere a uma infração própria e a segunda a qualquer pessoa que desobedeça a determinação
da autoridade judiciária ou do Conselho Tutelar, in verbis:

"Percebe-se a existência de duas figuras típicas no mesmo artigo. A primeira se refere a uma infração
própria, que somente poderá ser praticada por aqueles que possuem deveres inerentes ao poder
familiar ou decorrentes de tutela e guarda. Na segunda figura, qualquer pessoa pode ser agente ativo,
desde que desobedeça determinação da autoridade judiciária ou do conselho Tutelar."

A explicação possível para a existência de duas figuras típicas no mesmo dispositivo está no propósito de
o ECA ter reunido no mesmo artigo o poder requisitório do Conselho Tutelar e sua consequência
pecuniária. O foco do dispositivo foi sistematizar em um único artigo da lei, no capítulo referente a
infrações administrativas, as consequências para o descumprimento das requisições do Conselho Tutelar.
Esse poder de requisição do conselho tutelar encontra-se descrito no artigo 136, III, "a", do ECA. O que
ocorre na verdade entre esses dispositivos, levando em conta uma interpretação lógico-sistemática, é
relação de complementaridade e coercibilidade entre este e aquele dispositivo.

A interpretação de que o artigo 249 do ECA somente alcança descumprimento de requisições do


Conselho Tutelar endereçadas aos detentores do poder familiar, ignora a função social do sistema
protetivo da infância e juventude e ignora que o Poder Público deve ser alcançado por esse dever de
proteção.

De outro lado, é preciso registrar que o Conselho Tutelar somente poderá/deverá requisitar serviços
públicos que figuram alguma espécie de medida de proteção, quando, inequivocamente, identificá-lo
como existente e em funcionamento no município, à exemplo da requisição de vagas na rede pública. Se
certo que realmente não existe a vaga, o problema é mais sério, sendo dever do conselho tutelar tão-
somente encaminhar o caso para o Ministério Público, nos termos do artigo 220, do ECA, para o fim
deste atuar na esfera extrajudicial (com a celebração de Termos de Compromisso de Ajustamento de
Conduta s TACs, por exemplo) ou na esfera judicial (através da propositura de Ação Civil Pública - ACP,
Mandado de Segurança etc.).

Aliás, infelizmente, essa falta de vaga escolar tem sido bastante constatada na linha da Educação Infantil
pelo Brasil afora, cujos municípios não têm cumprido os preceitos constitucionais e infraconstitucionais.
De nada adianta o Conselho Tutelar requisitar vaga e matrícula para creche ou pré-escola inexistentes ou
com déficit de vaga, pois o município não estará obrigado a cumprir requisição inquisitiva que importe
em intromissão no seu erário, pois não lhe foi oportunizado o devido processo legal, a ampla defesa e o
contraditório.

O legislador ordinário, ao elaborar o ECA, quando conferiu ao Conselho Tutelar o poder/dever para
requisitar serviços públicos, bem como quando conferiu atribuição legal para aplicar medidas de
proteção previstas no artigo 101, incisos I a VII, partiu da premissa que todas as políticas públicas e
sociais estariam criadas e em funcionamento em prazo exíguo, conforme se observa do comando do
artigo 259 e parágrafo único. A exceção seria a política de atendimento não existir ou restar insuficiente
para atender a demanda. Se a expectativa legal tivesse sido cumprida por todos os entes da federação, o
Conselho Tutelar teria muito maior força para atuar, pois seu poder de requisição teria manifesta
efetividade, haja vista que haveria equipamento público para encaminhar as crianças, os adolescentes e
seus respectivos familiares.
Entretanto, o contrário é o que prevaleceu até os dias de hoje, mesmo depois de 22 anos de vigência do
ECA. Raro é encontrar nesse país um município que possua uma rede integrada de políticas públicas e
sociais de atendimento à criança e ao adolescente, bem como de atendimento aos seus respectivos
familiares.

Diante do caos e da inexistência de políticas de atendimento, o Conselho Tutelar deve acionar o


Ministério Público (art. 220, do ECA) para os fins previsto na Lei nº 8.069/90. Mas isso só não bastará,
pois ele terá que atuar, através de seus membros, como agentes políticos e assessorarem o Poder
Executivo na elaboração do orçamento público, nos termos do artigo 136, IX, do ECA.

Portanto, partindo da premissa que o Conselho Tutelar requisitou um serviço existente no município e
que sua requisição foi sonoramente descumprida, há que se incidir a aludida infração administrativa
contra o gestor omisso.

Preceitua Celso Antônio Bandeira de Mello [nota 3]:

Evidentemente, a razão pela qual a lei qualifica comportamento como infrações administrativas, e prevê
sanções para quem nelas incorra, é a de desestimular a pratica daquelas condutas censuradas ou
constranger ao cumprimento das obrigatórias. Assim, o objetivo da composição das figuras infracionais e
da correlata penalização é intimidar eventuais infrações, para que não pratiquem os comportamentos
proibidos ou para induzir os administrados a atuarem na conformidade de regra que lhe demanda
comportamento positivo. Logo, quando uma sanção é aplicada, o que se pretende com isso é tanto
despertar em quem a sofreu um estimulo para que não reincida, quanto cumprir uma função exemplar
para a sociedade.

A optar-se pela interpretação de que a norma não se aplica à conduta dos gestores, estar-se-ia,
literalmente, a legalizar e a conceder "ares de licitude" a uma conduta por demais ofensiva a vários
princípios e preceitos legais previstos na Constituição Federal e no Estatuto da Criança e do Adolescente,
como já exaustivamente declinado.

A infração administrativa tem assim uma função coercitiva e punitiva que recai ao administrador público.
Essa coerção judicial pessoal sobre a atuação do administrador público visa evitar justamente eventual
dano exclusivo ao erário, além de demovê-lo da vontade de resistir aos comandos decorrentes dos
provimentos jurisdicionais, resgatando o próprio valor do Estado Democrático de Direito e encontra
amparo também no artigo 216 do ECA, que prevê um sistema de responsabilidade diferenciado para o
administrador público que omite-se em cumprir seus deveres frente aos direitos das crianças e
adolescentes.

A interpretação restrita dada por alguns se revela ainda, segundo pensamos, contra legem, e despe o
Conselho Tutelar de sua função fiscalizatória em face do poder público, o que em última análise anula o
comando emergente do artigo 136, III, "a", do ECA. Esse entendimento sepulcra a efetivação da proteção
integral constitucional, aleija a prioridade absoluta e faz ouvidos moucos ao melhor interesse da infância
e juventude.

Sem a função infracional do artigo 249 do ECA em face de representantes do Poder Público, o Conselho
Tutelar perde coercibilidade, o que também atenta contra a desjudicialização dos conflitos pretendidos
pela legislação estatutária.

Eventuais lesões aos direitos infanto-juvenis serão, exclusivamente, debelados pelo judiciário, o que
certamente é contraproducente diante da realidade atual brasileira.

A mudança desse paradigma é urgentíssima. Conclama-se para uma interpretação que atenda a esses
propósitos e princípios.

A hermenêutica pretendida é resultado da interpretação dinâmica dos fatos à luz dos valores, princípios
e regras jurídicas a ser desenvolvida pela justiça, não seguindo uma lógica formal (produto de um
raciocínio matemático) nem com o intuito de se criar um preceito legal casuístico e dissociado do
ordenamento jurídico, mas, dentro das amplas molduras traçadas pela Constituição, permitindo uma
solução mais justa e eficiente dentre as possíveis.

Foi nessa linha que o Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul desproveu Recurso da Secretaria de
Educação de Injuí que Apelou contra sentença que condenou a Secretária Municipal ao pagamento da
pena pecuniária por ter negado vaga a crianças em uma creche próximo à sua casa. Nesse entendimento
o Relator Desembargador Dr. Alfredo Guilherme Englert, acompanhado unanimemente, nos brinda com
uma lição:
"(...) Nesta seara, o atendimento de crianças e adolescentes deve ocorrer em primeiro plano pela
Administração Pública, o que, por si apenas, já é suficiente para estabelecer a responsabilização da
Secretária de Educação pela inexistência de vaga para educação infantil."(...)

(...) "Acrescento, ainda, que, apesar da argumentação da recorrente, exsurge dos autos a não-
comprovação da inexistência da vaga em tela. Ora, na medida em que havia a determinação do Conselho
Tutelar, e essa não foi cumprida, a atuação da ora apelante tipificou a conduta prevista no art. 249, do
ECA.(...) grifo nosso

APELAÇÃO CÍVEL. APURAÇÃO DE INFRAÇÃO ADMINISTRATIVA. NEGATIVA, POR PARTE DA SECRETARIA


MUNICIPAL DE EDUCAÇÃO DE IJUÍ, DE INCLUSÃO DE CRIANÇA EM CRECHE MUNICIPAL, APESAR DE
DETERMINAÇÃO DO CONSELHO TUTELAR MUNICIPAL. ATUAÇÃO QUE TIPIFICOU A HIPÓTESE PREVISTA
NO ART. 249, DO ECA. RECURSO DESPROVIDO. (TJRS. 8ª C. Cív. Ap. Cív. nº 70007911084. Rel. Alfredo
Guilherme Englert. J. em 04/03/2004).

Outrossim, o princípio da proteção integral esculpido no art. 227 da CR/88 não comporta indagações ou
ponderações sobre o interesse a tutelar em primeiro lugar, já que a escolha foi realizada pela criança, por
meio do legislador constituinte. O princípio é alicerçado pela condição peculiar da criança e adolescente
de serem pessoas em desenvolvimento, ante sua fragilidade (orgânica, social, econômica, familiar etc.)
de pessoa em formação.

A prioridade deve ser assegurada por todos: família, comunidade, sociedade em geral, Poder Público. A
preferência de receber proteção e socorro em quaisquer circunstâncias, assegurada a crianças e
adolescentes é a primeira garantia de prioridade estabelecida no parágrafo único do art. 4º da Lei nº
8.069/90.

Na prestação de serviços públicos e de relevância pública, crianças e jovens também gozam de


prioridade.

Por sua vez, o melhor interesse, princípio orientador tanto para o legislador como para o aplicador da
norma, determina prioridade das necessidades da criança e do adolescente como critério de
interpretação da lei, decorrentes de conflitos, ou mesmo para elaboração de futuras regras.

4) Direitos Fundamentais e Positivos


A ofensa dos direitos fundamentais das crianças e adolescentes se materializa diariamente nas
constantes requisições do Conselho Tutelar desatendidas por maus gestores de todas as áreas, seja
educação, saúde, serviço social, que, como consequência, negam os direitos mais básicos a tais cidadãos.
Além do abandono promovido pelo Estado, verifica-se desatendimento das normas acima referidas, em
especial ao art. 227 da CR/88, que não custa repetir:

"Art. 227. É dever da família, da sociedade e do Estado, assegurar à criança e ao adolescente, com
absoluta prioridade, o direito à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao lazer, à profissionalização, à
cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência familiar e comunitária, além de colocá-los a
salvo de toda forma de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão.

§ 4º. A LEI PUNIRÁ SEVERAMENTE O ABUSO, a violência e a exploração sexual da criança e do


adolescente."

Observa-se que a Constituição Federal, que adentrou ao mundo jurídico nacional em 1988, claramente
firmou que a sociedade brasileira deverá estar empenhada na proteção integral de crianças e
adolescentes, e, para isso, postou que instrumentos seriam criados para punição dos transgressores.

Foi nessa esteira que surgiu em 1990, a Lei nº 8.069, conhecida pelo nome de Estatuto da Criança e do
Adolescente.

Logo no início de sua codificação, eis um dos regramentos mestres:

"Art. 3º A criança e o adolescente gozam de todos os direitos fundamentais inerentes à pessoa humana,
sem prejuízo da proteção integral de que trata esta Lei, assegurando-se-lhes, por lei ou por outros meios,
todas as oportunidades e facilidades, a fim de lhes facultar o desenvolvimento físico, mental, moral,
espiritual e social, em condições de liberdade e de dignidade."

Encontra-se clarividente na letra da lei serem as crianças e adolescentes titulares de direitos e, no caso,
merecedores de atenção quanto a peculiaridade de serem pessoas em desenvolvimento, devendo
receber dos pais, sociedade e poder público, respeito e dignidade, além de proteção integral (físico,
mental, moral, espiritual e social).
Ocorrendo violação a esses direitos há nítida necessidade de se coibir tais ofensas, seja quem for o
responsável por tal violação.

DISPOSIÇÕES PRELIMINARES

Proteção Integral e Absoluta Prioridade

Formado por um conjunto de princípios e regras, o ECA rege diversos aspectos da vida da criança e do
adolescente, desde o seu nascimento à maioridade. Isto consoante o preceituado no já citado artigo 227
da CF/88. Desta maneira, o Estatuto não se limita apenas a tratar de medidas repressivas contra atos
infracionais da garotada, mas tutela-os de forma ampla.

Importante salientar que o ECA deve ser interpretado e aplicado sempre em atenção aos fins sociais a
que se dirige, conforme se vê no artigo 6º do diploma referido: na interpretação desta lei levar-se-ão em
conta os fins sociais. Tendo sempre em vista que a criança e o adolescente são pessoas em
desenvolvimento – e por estarem em desenvolvimento merecem tratamento especial.

Este princípio da proteção integral encontra-se ligado ao princípio do melhor interesse da criança e do
adolescente, o que obriga os aplicadores do Direito – e toda a sociedade – a buscarem, sempre, a
solução que proporcione o maior benefício possível para os protegidos pela lei em questão.

O artigo 4º do ECA, cópia fiel da primeira parte do artigo 227 da CF/88, nos apresenta em seu parágrafo
único que a garantia de prioridade absoluta para as crianças e adolescentes contemplam:

Primaria de receber socorro;

Precedência de atendimento nos serviços públicos ou de relevância público;

Preferência na formulação e execução de políticas públicas;


Destinação privilegiada de recursos públicos.

Crianças e adolescentes são sujeitos de Direito

Segundo o artigo 5º do ECA

Nenhuma criança ou adolescente será objeto de qualquer forma de negligência, discriminação,


exploração, violência, crueldade e opressão, punido na forma da lei qualquer atentado, por ação ou
omissão, aos seus direitos fundamentais.

Este artigo deixa bastante claro que não serão tolerados, nem por parte dos pais e nem de quaisquer
pessoas que tenham contato com a criança e o adolescente, qualquer comportamento que venha a
atentar contra o 5º artigo do Estatuto que hora estudamos.

Quem pode praticar estas condutas negligentes? Os pais, parentes, guardião e etc., mas também, por
exemplo, sua professora, um médico que lhe negue atendimento etc. É, digamos, uma negligência
comum, própria.

Interessante que o Código de Menores tratava as crianças e adolescentes como objeto de proteção; a
doutrina moderna, por sua vez, os enxergam como sujeitos de Direito – e estes direitos devem ser
protegidos juntamente com as crianças e adolescentes.

Conceito de Criança e de Adolescente

O artigo 2º do ECA estabelece a divisão entre criança e adolescente.

A criança é a pessoa desde o nascimento até os 12 anos incompletos: aquele que não completou 12 anos
ainda.

O adolescente é aquele que completou 12 e tem 18 anos incompleto: ainda não completou 18.

Devemos atentar para o fato de que, para o legislador, a questão é meramente cronológica e não
biológica ou psicológica. E esta distinção é importante no que diz respeito às medidas aplicáveis à prática
de atos infracionais: à criança somente pode ser aplicada medida de proteção; aos adolescentes, medida
socioeducativa.
De 0 a 12 anos incompletos -> Criança

De 12 a 18 anos incompletos -> Adolescente

A partir de 18 anos completos -> Adulto

Aplicação de Medida Socioeducativa no Estatuto a quem já completou a maioridade

Voltando ao já citado artigo 2º do ECA, este estatuto é aplicável somente às pessoas entre 18 e 21 anos –
isto positivado no Parágrafo Unicodo artigoo acima citado, consoante artigo. 5º do Código Civil. Quando
houver a apuração de ato infracional, ainda que o adolescente tenha alcançado a maioridade o processo
judicial ira se desenrolar no âmbito da Justiça da Infância e Juventude. Isto é, a aplicação do Estatuto
somente perde o seu poder de tutela sobre alguém quando este completa 21 anos.

Competência Legislativa

Compete, em matéria de proteção à infância e juventude, à União, os Estados e o Distrito Federal a


obrigação de legislar sobre o assunto – Art. 24, inc XV, da CF/88.

CONSELHO TUTELAR

Recebe o nome de conselho tutelar o órgão público permanente, autônomo, não jurisdicional, cujo
objetivo é zelar pelo cumprimento dos direitos da criança e do adolescente. Apesar de estar vinculado
administrativamente ao poder executivo, não é órgão de governo, mas sim um órgão de estado.

O conselho tutelar age sempre que os direitos de crianças e adolescentes se encontrem ameaçados ou
violados pela sociedade, estado, pais, responsável, ou em razão de sua própria conduta. Em um aspecto
mais amplo, o órgão se presta a atender a camada da população mais desassistida pelas políticas
publicas. Podemos encontrar suas atribuições específicas no Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA)
entre os artigos 95 e 136.

Fazem parte do conselho tutelar os conselheiros tutelares, pessoas que agem como porta-vozes das suas
respectivas comunidades, e atuam junto a órgãos e entidades para assegurar os direitos das crianças e
adolescentes. São eleitos cinco membros através do voto direto da comunidade, para um mandato de
três anos. Devem atender as crianças e adolescentes e aconselhar pais ou responsáveis quando há
descumprimento de proteção prevista no ECA, aplicando a medida cabível.

Em grande parte dos casos, a ação ocorre através de uma denúncia, que é anônima e pode ser feita pelo
telefone dos conselhos da cidade. Ao conselho tutelar são encaminhados os problemas de negligência,
discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão. Ao receber uma denuncia, o órgão passa a
acompanhar o caso, buscando uma solução satisfatória do problema.

Além do limite funcional, estabelecido pelas disposições contidas no ECA, o conselho tutelar deve
observar um limite territorial, definido pelo local onde ele pode atuar. Há ainda certas atribuições que
são equivocadamente atribuídas ao conselho tutelar, como a busca e apreensão de crianças,
adolescentes ou pertences dos mesmos. Tal atribuição cabe ao oficial de Justiça, por meio de ordem
judicial. Do mesmo modo, a autorização para viajar ou para desfilar cabe ao comissário da infância e
juventude. Finalmente, a autorização de guarda é da alçada do juiz, que concede a decisão, quando um
advogado entra com uma petição para a regularização da guarda ou modificação da mesma.

Uma vez criado, o conselho tutelar não pode ser extinto, e por isso ele é classificado como permanente.
Sua condição assegura a proteção dos direitos humanos de crianças e adolescentes de maneira contínua
e ininterrupta, não recebendo qualquer interferência externa. Mesmo assim, as suas ações são passiveis
de fiscalização pelos órgãos responsáveis como o ministério público e a justiça da infância e juventude.

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