Você está na página 1de 16

Nestor Távora

Rosmar Rodrigues Alencar

Curso de
Direito
Processual Penal
15 a
edição
revista, atualizada
e ampliada

2020

Manuais p Conc-Tavora-Alencar-Novo Curso de Dir Proc Penal-15ed.indb 3 06/03/2020 14:57:34


Cap. V  •  JUIZ DAS GARANTIAS 245

Capítulo V

Juiz das Garantias

Sumário • 1. Conceito – 2. Fundamento constitucional – 3. Suspensão cautelar da disciplina legal do


juiz das garantias – 4. Implementação e resistência ao juiz das garantias – 5. Competência do juiz das
garantias – 6. Controle da legalidade da investigação criminal – 7. Salvaguarda dos direitos individuais
submetidos à cláusula especial de reserva – 8. Competência para receber comunicação imediata da
prisão – 9. Competência para receber o auto de prisão em flagrante para o controle da legalidade da
prisão – 10. Zelar pela observância dos direitos do preso, podendo determinar que este seja conduzido
à sua presença, a qualquer tempo – 11. Ser informado sobre a instauração de qualquer investigação
criminal – 12. Decidir sobre o requerimento de prisão provisória ou outra medida cautelar – 13. Prorrogar
prisão provisória ou outra medida cautelar, substituí-las ou revogá-las – 14. Decidir sobre o requerimento
de produção antecipada de provas consideradas urgentes e não repetíveis – 15. Prorrogar o prazo de
duração do inquérito, estando o investigado preso – 16. Determinar o trancamento do inquérito policial
quando não houver fundamento razoável para sua instauração ou prosseguimento – 17. Requisitar
documentos, laudos e informações ao delegado de polícia sobre o andamento da investigação – 18.
Decidir sobre requerimentos de afastamento de sigilo telefônico, de fluxo de comunicações, fiscal,
bancário, de dados, de busca e apreensão, de informações e outros meios de obtenção de provas – 19.
Julgar o habeas corpus impetrado antes do oferecimento da denúncia – 20. Determinar a instauração
de incidente de insanidade mental – 21. Decidir sobre o recebimento da denúncia ou queixa – 22.
Assegurar o direito do investigado e do seu defensor ao acesso a todos os elementos informativos e
provas produzidos na investigação criminal – 23. Deferir pedido de admissão de assistente técnico para
acompanhar a produção da perícia – 24. Decidir sobre a homologação de acordo de não persecução
penal ou os de colaboração premiada, quando formalizados durante a investigação – 25. Outras maté-
rias definidas como da competência do juiz das garantias – 26. Quadro sinótico – 27. Súmulas do STJ
– 28. Súmulas do STF – 29. Informativos do STJ – 30. Informativos do STF – 31. Questões de concursos
públicos – 32. Gabarito anotado – 33. Questões discursivas com comentários

1. CONCEITO
Reconhecemos, como juiz das garantias, o magistrado que, por lei, é responsável pelo
controle da legalidade da investigação criminal e pela salvaguarda dos direitos individuais.
O seu conceito se relaciona intimamente com a sua competência e com a necessidade de
se assegurar a imparcialidade do juiz responsável pelo julgamento de mérito condenatório.
O juiz de garantias tem natureza de função enfeixada nas mãos de um órgão jurisdi-
cional. Trata-se de uma das funções que o Poder Judiciário pode exercer. A expressão de-
signa uma delimitação de competência. Ao especificar a competência do juiz das garantias,
apartando-a da competência do juiz da instrução, a legislação não divide a jurisdição, que
subsiste una, porém logra repartir a porção de cada um dos centros de atribuição judicial.
É nesse sentido que o juiz das garantias consiste em um dos exemplos de delimitação
da competência funcional, segundo o objeto do juízo, como lembrado na lição de Afrânio

Manuais p Conc-Tavora-Alencar-Novo Curso de Dir Proc Penal-15ed.indb 245 06/03/2020 14:58:50


246 CURSO DE DIREITO ­PROCESSUAL PENAL – Nestor Távora • Rosmar Rodrigues Alencar

Silva Jardim1. Os elementos de conexão necessários ao estabelecimento da competência


funcional, são aqueles que compõem a estrutura do processo. Na hipótese, a ênfase é no
juiz que deverá exercer o poder, notadamente na fase pré-processual.

2. FUNDAMENTO CONSTITUCIONAL
O sistema acusatório é o alicerce constitucional para a existência do juiz das garantias.
A divisão de funções é um dos pilares mais robustos dessa estrutura de processo penal.
Aquele que tem competência para julgar o mérito condenatório não pode exercer tarefas
próprias do órgão acusador. O juiz das garantias antecipa essa cautela. Como todo juiz, ele
não deve exercer poderes a cargo do promotor da ação penal.
Compreende-se que sua atuação como garante de direitos na fase investigativa é ca-
paz de contaminar o juízo cognitivo que poderia ter, ao cabo, se fosse também julgar o
mérito do processo penal. Não sem motivo, o art. 3º-A, do CPP2, inserido pela Lei nº
13.964/2019, vedou ao magistrado, a partir da constatação de que o processo penal terá
estrutura acusatória:
(1) a iniciativa do juiz na fase de investigação; e
(2) a substituição da atuação probatória do órgão de acusação.
O juiz das garantias é uma forma de delimitar não apenas a competência de magis-
trados, segundo o objeto do juízo cognitivo outorgado pela legislação, mas também para
assegurar que o princípio do juiz natural não conflite com a sua necessária imparcialidade.
Ele é uma divisão da competência, segundo a estrutura funcional da persecução penal. Mas
também ele é limite porque se opõe a julgamentos sobre os quais recaia dúvida sobre a
suspeição do julgador. Nessa linha, não se deve admitir a supressão da liberdade de alguém
se não for respeitada, rigorosamente, a estrutura acusatória do processo penal.
A separação das funções na Lei nº 13.964/2019 incidiu não apenas nos sujeitos proces-
suais que compõem a relação processual penal: autor-juiz-réu. A funcionalidade processual
recaiu sobre a ambivalência de atuação que pode assumir o julgador no processo penal. O
juiz é um ser humano e, dessa maneira, devemos considerar que ele se modifica por meio
do seu contato com elementos empíricos que descrevam fatos como provas.
Deveras, a atividade de conhecimento de um fato penal interfere na percepção e vice-
-versa. Dessa forma, correto o caput, do art. 3º-D, do CPP, que previu hipótese de impedi-
mento do juiz que, na fase de investigação, praticar qualquer ato incluído nas competências
do juiz de garantias. Trata-se de hipótese que o magistrado ficará proibido de funcionar no
processo. Caso viole o impedimento, haverá inexistência jurídica do ato praticado que,
por consequência, deve implicar invalidação. Embora aquele dispositivo faça menção aos
arts. 4º e 5º, do Código, o legislador incursionou em erro material, pelo que entendemos
que as competências indicadas se referem às do art. 3º-B, do CPP, analisadas mais à frente.

1. JARDIM, Afrânio Silva. Primeiras impressões sobre a lei que regulamenta o “juiz de garantias”. Justificando, jan. 2020.
Disponível em: <http://www.justificando.com/2020/01/22/primeiras-impressoes-sobre-a-lei-que-regulamenta-o-jui-
z-de-garantias/>. Acesso em: 17 fev. 2020.
2. Dispositivo com eficácia suspensa, nos termos de decisão monocrática do Supremo Tribunal Federal (STF – ADI 6298/
DF – Medida Cautelar – Rel. Min. Luiz Fux – 22 jan. 2020).

Manuais p Conc-Tavora-Alencar-Novo Curso de Dir Proc Penal-15ed.indb 246 06/03/2020 14:58:51


Cap. V  •  JUIZ DAS GARANTIAS 247

Não é desnecessário invocar o magistério, sempre relevante, de Aury Lopes Jr e Ruiz


Ritter, dando ênfase ao fato de que “a atuação do juiz na fase pré-processual (seja ela inqué-
rito policial, investigação pelo MP etc.) é e deve ser muito limitada. O perfil ideal do juiz
não é como investigador ou instrutor, mas como controlador da legalidade e garantidor do
respeito aos direitos fundamentais do sujeito passivo”. Nesse espaço, seque se deve cogitar
deferir ao julgador o poder de “orientar a investigação policial, tampouco presenciar seus
atos, mantendo uma postura totalmente suprapartes e alheia à atividade policial”3.
Ainda seguindo o que leciona Aury Lopes Jr. sobre o tema, em outro estudo, im-
portante lembrar da teoria da dissonância cognitiva, desenvolvida na psicologia social:
ela consiste na percepção de uma tensão entre o conhecimento de um indivíduo e a sua
opinião. Eis uma das questões centrais que nos ajudam a entender quando a imparciali-
dade do juiz ficou comprometida. Por exemplo, na gestão de provas no processo penal, o
juiz enfrentará não somente opiniões antagônicas, causadoras de desconfortos cognitivos
(contradições em torno do fato, formadas na estrutura de seu pensamento), porém, prin-
cipalmente, tentará reduzir o abismo desses paradoxos, procurando uma consonância,
tendente a reduzir sua frustração de expectativas, na procura de um equilíbrio em seu
sistema cognitivo, em defesa do ego4.
A dissonância acontece diante do conflito entre a doxa (opinião) e a episteme (ciência,
consciência, cognição ou conhecimento), elementos estruturais do conhecimento do hu-
mano. O juiz das garantias, nessa toada, não pode julgar o mérito da causa, porque afetada
sua imparcialidade, porque tomou, previamente, conhecimento dos fatos. Restou, destarte,
prejudicada a sua atividade cognoscitiva.
E qual a razão de invocar os ricos da dissonância de conhecimento dos fatos apre-
sentados na fase de investigação preliminar em confronto com a etapa processual penal?
Para proteger o imputado contra os riscos do descompasso cognitivo que pressionam
o magistrado, quando do julgamento, eis que, por ter tido contato com os elementos investi-
gativos, terá sua imparcialidade comprometida, ainda que inconscientemente, notadamente
quando o julgador se esforçar para encontrar uma tutela equilibrada, mas capaz de distorcer
a aplicação das regras do processo de conhecimento diante da narrativa acusatória.

3. SUSPENSÃO CAUTELAR DA DISCIPLINA LEGAL DO JUIZ DAS GARANTIAS


Logo que publicada a Lei nº 13.964/2019, associações de classes vinculadas à magistra-
tura e ao Ministério Público, assim como partidos políticos ingressaram com ações diretas
de inconstitucionalidade (ADI’s), atacando o que, a nosso ver, aquele diploma legal traz de
melhor ao sistema processual penal brasileiro.
Duas medidas cautelares foram concedidas, sucessivamente, no período de suspensão
das atividades do STF:

3. LOPES JR., Aury; RITTER, Ruiz. A imprescindibilidade do juiz das garantias para uma jurisdição penal imparcial: reflexões
a partir da teoria da dissonância cognitiva. Revista Duc In Altum Cadernos de Direito, vol. 8, nº16, p. 57, set.-dez. 2016.
4. LOPES JR., Aury. Teoria da dissonância cognitiva ajuda a compreender a imparcialidade do juiz. Consultor Jurídico, 11
jul. 2014. Disponível em: <https://www.conjur.com.br/2014-jul-11/limite-penal-dissonancia-cognitiva-imparcialida-
de-juiz>. Acesso em: 18 fev. 2020.

Manuais p Conc-Tavora-Alencar-Novo Curso de Dir Proc Penal-15ed.indb 247 06/03/2020 14:58:51


248 CURSO DE DIREITO ­PROCESSUAL PENAL – Nestor Távora • Rosmar Rodrigues Alencar

(1) a primeira, em menor extensão, pelo Presidente da Corte Suprema, Ministro Dias
Toffoli;
(2) a segunda, de dimensão bem mais larga, pelo relator, Ministro Luiz Fux.
Apesar da obviedade, não custa lembrar que são ações de controle de constituciona-
lidade, pela via concentrada. Para a suspensão cautelar de algum dispositivo, seria preciso
demonstrar incompatibilidade insuperável com o texto constitucional. Na hipótese, não
vemos como justificar a sustação do juiz de garantias. Ele atende ao escopo constitucional
do juiz competente que todos temos direito: imparcial e natural, a fim de que seja assegu-
rado o direito maior, que é a presunção de inocência do imputado.
Vejamos cada uma daquelas decisões, em apertada síntese.
(1) A primeira, concedida nos autos das ADI’s 6298, 6299 e 6300, pelo
Ministro-Presidente5.
Na fundamentação da decisão, foi rejeitada a alegação de inconstitucionalidade formal,
ao reconhecer legítimo o exercício da competência do Congresso Nacional. No que concerne
aos artigos 3º-A ao 3º-F, do CPP, introduzidos pela Lei nº 13.964/2019, foi realçado que o
microssistema do juiz das garantias tem o condão:
(a) de promover “uma clara e objetiva diferenciação entre a fase pré-processual (ou
investigativa) e a fase processual propriamente dita do processo penal”, colorindo “uma
cisão muito mais acentuada entre as duas fases do processo penal. A linha divisória entre
as duas fases está situada no recebimento da denúncia ou da queixa, último ato praticado
pelo juiz das garantias (art. 3º-C, caput)”. Depois dessa etapa, as demais questões, pendentes,
“passam a ser resolvidas pelo juiz da instrução e do julgamento (art. 3º-C, § 1º)”;
(b) de romper com o modelo que sempre vigorou no processo penal brasileiro, ao
tornar impedido o juiz que atuar na competência das garantias. Consiste numa “mudança
paradigmática de nosso processo penal”. No entanto, “mostra-se formalmente legítima,
sob a óptica constitucional, a opção do legislador de, no exercício de sua liberdade de
conformação, instituir no sistema processual penal brasileiro, mais precisamente no seio
da persecução criminal, a figura do ‘juiz das garantias’”;
(c) de criar uma divisão de competência funcional entre os juízes na seara criminal,
como já ocorre em vários países do mundo. Um juiz atuará durante a fase de investigação
no controle da legalidade e da garantia dos direitos fundamentais e outro, durante a ins-
trução do processo e em seu julgamento”. Entrementes, “ambos são juízes independentes
e com todas as garantias da magistratura, previstas no art. 95 da Constituição Federal”;
(d) de se inserir – com os arts. 3º-A; 3º-B; 3º-C; 3º-D, caput; 3º-E e 3º-F do CPP – “em
questões atinentes ao próprio exercício da jurisdição no processo penal brasileiro, alterando
profundamente sua lógica de funcionamento, a partir de uma clara cisão de competência
entre as fases pré-processual e processual”;
(e) de interferir em questão de organização judiciária com a introdução do pará-
grafo único, do art. 3º-D, porquanto determina que se adote “um sistema de rodízio de

5. STF – ADI 6298/DF; ADI 6299/DF; ADI 6300/DF – Medida Cautelar – Min. Presid. Dias Toffoli – 15 jan. 2020.

Manuais p Conc-Tavora-Alencar-Novo Curso de Dir Proc Penal-15ed.indb 248 06/03/2020 14:58:51


Cap. V  •  JUIZ DAS GARANTIAS 249

magistrados como mecanismo de efetivação do juízo das garantias”. Realmente “a norma


em referência determina a forma pela qual, nas comarcas em que funcionar apenas um
juiz, deverá ser implementado o juízo das garantias. Ao fazer isso, cria uma obrigação aos
tribunais no que tange a sua forma de organização, violando, assim, o poder de auto-or-
ganização desses órgãos (art. 96 da Constituição Federal) e usurpando sua iniciativa para
dispor sobre organização judiciária (art. 125, § 1º, da Constituição Federal);
(f) de promover a imparcialidade judicial, tornando o juiz um garantidor dos direitos
fundamentais no Estado Democrático de Direito, eis que “a instituição do ‘juiz das garan-
tias’ pela Lei nº 13.964/2019 veio a reforçar o modelo de processo penal preconizado pela
Constituição de 1988. Tal medida constitui um avanço sem precedentes em nosso processo
penal, o qual tem, paulatinamente, caminhado para um reforço do modelo acusatório”.
Muito além da função de garante, o juiz das garantias se irmana com as cláusulas de “re-
serva de jurisdição na adoção de medidas restritivas de direitos fundamentais na fase da
investigação” e com a necessidade de preservação de sua imparcialidade.
A decisão do Ministro-Presidente, apesar de suspender a eficácia das regras do juiz de
garantias, ao lado de algumas outras, assim o fez pelo período de cento e oitenta dias. Na
fundamentação, referiu grandes nomes como Frederico Marques, Aury Lopes Jr., Gustavo
Badaró, Teresa Armenta Deu, Ernst Beling, dentre outros.
Da parte conclusiva, extrai-se a deliberação no sentido de suspender-se a eficácia dos
arts. 3º-D, parágrafo único, e 157, § 5º, do Código de Processo Penal, incluídos pela Lei nº
13.964/19; a eficácia dos arts. 3º-B, 3º-C, 3º-D, caput, 3º-E e 3º-F do CPP, inseridos pela
Lei nº 13.964/2019, até a efetiva implementação do juiz das garantias pelos tribunais, o que
deverá ocorrer no prazo máximo de cento e oitenta dias, contados a partir da publicação da
decisão. De outra vertente, resolveu conferir-se interpretação conforme às normas relativas
ao juiz das garantias (arts. 3º-B a 3º-F do CPP), para esclarecer que não se aplicam aos pro-
cessos de competência originária dos tribunais, os quais são regidos pela Lei nº 8.038/1990,
aos processos de competência do Tribunal do Júri, aos casos de violência doméstica e
familiar, como também aos processos criminais de competência da Justiça Eleitoral. Além
de todas essas providências, a decisão cautelar ora analisada definiu regras de transição.
No nosso entender, o juiz de garantias é perfeitamente compatível com os ritos exclu-
ídos pela referida liminar. No tribunal, por exemplo, relator e revisor podem alternar as
funções de garantia e de instrução6.
(2) A segunda decisão monocrática, concedida nos autos das ADI’s 6298, 6299,
6300 e 6305, pelo Ministro-Relator7.
Na decisão epigrafada, foi revogada a decisão anterior, proferida pelo Presidente do
STF. No que interessa, a suspensão da eficácia dos dispositivos correspondentes ao micros-
sistema do juiz das garantias foi reiterada, mas sem limite no tempo, até que seja examinada

6. JARDIM, Afrânio Silva. Primeiras impressões sobre a lei que regulamenta o “juiz de garantias”. Justificando, jan. 2020.
Disponível em: <http://www.justificando.com/2020/01/22/primeiras-impressoes-sobre-a-lei-que-regulamenta-o-jui-
z-de-garantias/>. Acesso em: 17 fev. 2020.
7. STF – ADI 6298/DF; ADI 6299/DF; ADI 6300/DF; ADI 6305/DF – Medida Cautelar – Rel. Min. Luiz Fux – 22 jan. 2020.

Manuais p Conc-Tavora-Alencar-Novo Curso de Dir Proc Penal-15ed.indb 249 06/03/2020 14:58:52


250 CURSO DE DIREITO ­PROCESSUAL PENAL – Nestor Távora • Rosmar Rodrigues Alencar

a questão pelo Pleno daquele tribunal. O Ministro Relator, reputando inconstitucional


formal e materialmente, o juiz das garantias, ponderou, como argumentos, que:
(a) os arts. 3º-A a 3º-F, do CPP, consistem, preponderantemente, em normas sobre
organização judiciária, de iniciativa do Poder Judiciário. De outra vertente, “o juízo das
garantias e sua implementação causam impacto financeiro relevante ao Poder Judiciário,
especialmente com as necessárias reestruturações e redistribuições de recursos humanos
e materiais, bem como com o incremento dos sistemas processuais e das soluções de tec-
nologia da informação correlatas”.
(b) estudos comportamentais não permitem inferir que, automaticamente, que “qual-
quer juiz criminal do país tem tendências que favoreçam a acusação, nem permite inferir, a
partir dessa ideia geral, que a estratégia institucional mais eficiente para minimizar eventuais
vieses cognitivos de juízes criminais seja repartir as funções entre o juiz das garantias e o
juiz da instrução”;
(c) somente uma leitura formalista diria que os artigos 3º-A ao 3º-F, do CPP, “teriam
acrescentado ao microssistema processual penal mera regra de impedimento do juiz cri-
minal, acrescida de repartição de competências entre magistrados paras as fases de inves-
tigação e de instrução processual penal”. No entanto, “a criação do juiz das garantias não
apenas reforma, mas refunda o processo penal brasileiro e altera direta e estruturalmente
o funcionamento de qualquer unidade judiciária criminal do país”.
Da parte conclusiva dessa decisão cautelar, do Ministro Relator, ficou consignada a
revogação da decisão monocrática anterior, exarada pelo Ministro Presidente do STF e, em
acréscimo, a suspensão “sine die a eficácia, ad referendum do Plenário da implantação do
juiz das garantias e seus consectários (arts. 3º-A, 3º-B, 3º-C, 3º-D, 3ª-E, 3º-F, CPP), como
também da alteração do juiz sentenciante que conheceu de prova declarada inadmissível
(157, § 5º, CPP), da alteração do procedimento de arquivamento do inquérito policial (28,
caput, CPP) e da liberalização da prisão pela não realização da audiência de custodia no
prazo de vinte e quatro horas (art. 310, § 4°, CPP).

4. IMPLEMENTAÇÃO E RESISTÊNCIA AO JUIZ DAS GARANTIAS


A resistência ao instituto é impressionante. Não menos incrível é que a reação ao
juiz das garantias já era antevista pela doutrina de Aury Lopes Jr. e Ruiz Ritter, em estudo
publicado há quatro anos, quando denunciavam “práticas autoritárias em pleno Estado
Democrático de Direito” e “a tentativa de abortamento dessa importante figura”. A justifi-
cativa daquela época não era diferente da contemporânea. Dizia-se que o juiz das garantias
representaria “um ‘atraso no combate à impunidade’, tendo em vista que daria margem
para anulação de processos futuros e maior morosidade das investigações”, além do que
conflitaria “com a realidade judiciária do País, que não teria juízes suficientes para colocar
em prática a inovação projetada”. A exemplo do problema estrutural-orçamentário, tam-
bém infundada “a invocação da razoável duração do processo para problematizar o novo
instituto, considerando-se que é inadmissível a utilização de uma garantia fundamental

Manuais p Conc-Tavora-Alencar-Novo Curso de Dir Proc Penal-15ed.indb 250 06/03/2020 14:58:52


Cap. V  •  JUIZ DAS GARANTIAS 251

(CF, art. 5º, LXXVIII) em favor do poder punitivo estatal”, eis que “sua função é justamente
a sua limitação”8.
Na realidade, deveríamos priorizar a implementação do juiz das garantias. Afinal, qual
direito mais importante que o da liberdade de um ser humano? O argumento do custo
orçamentário é superado por tantos outros. Fernando Braga, a esse propósito, pontificou
que a criação do juiz de garantias “não gera nova demanda (como aquela gerada pela
implementação das audiências de custódia, p. ex.)”, sendo “necessário apenas redistribuir
o trabalho que antes cabia a apenas um juízo/juiz”. De outro lado, o sistema de rodízio
entre juízes, na forma preconizada para a substituição entre eles, asseguraria a eficácia do
princípio do juiz natural. Ademais, “as dificuldades decorrentes da distância poderão
ser contornadas perfeitamente com a tecnologia já implementada na maior parte do
Judiciário Brasileiro”9.
Deveras, o próprio texto da Lei nº 13.964/2019, encarregou-se de estabelecer ba-
lizas para a adoção de critérios objetivos, previamente estatuídos na legislação, a fim
de evitar designações arbitrárias. Na forma do art. 3º-E, ficou vincado que o juiz das
garantias deverá ser designado conforme as normas de organização judiciária da União,
dos Estados e do Distrito Federal, observando critérios objetivos a serem periodicamente
divulgados pelo respectivo tribunal. Já nas comarcas em que funcionar apenas um juiz,
coube ao parágrafo único, do art. 3º-D, do CPP, atribuir, aos tribunais, o dever de criar o
referido sistema de rodízio de magistrados.

5. COMPETÊNCIA DO JUIZ DAS GARANTIAS


O rol de competências do juiz das garantias é aberto, exemplificativo, numerus apertus.
Não obstante, temos vinte e oito incisos que descrevem casos específicos atribuídos a sua
cognição. Toda regra de competência do juiz das garantias deve ter esteio na sua dúplice
responsabilidade, capitulada no art. 3º-B, caput, do nosso Código. Decerto o juiz das ga-
rantias é o responsável:
(1) pelo controle da legalidade da investigação criminal; e
(2) pela salvaguarda dos direitos individuais cuja franquia tenha sido reservada à
autorização prévia do Poder Judiciário.
Essa disposição normativa tem como cerne o postulado acusatório que deve orientar
o processo penal. A adequação ao texto constitucional é evidentíssima.
Como apontou Ney Bello, “as novas redações dos artigos 3°A e 3°B do Código de
Processo Penal estabelecem a proibição de que o juiz produza provas, não podendo de-
terminá-las de ofício, e também criam uma diferenciação funcional”. Aquele magistrado,
“atuante na fase do inquérito”, deverá “ser distinto do magistrado que processa o caso.
Que
equívoco dogmático há nisso?” A alteração legislativa, “em consonância com o que se faz

8. LOPES JR., Aury; RITTER, Ruiz. A imprescindibilidade do juiz das garantias para uma jurisdição penal imparcial: reflexões
a partir da teoria da dissonância cognitiva. Revista Duc In Altum Cadernos de Direito, vol. 8, nº16, p.84, set.-dez. 2016.
9. BRAGA, Fernando. Porque a hora é de pensar sobre como implementar o juízo das garantias. Migalhas. Disponível em:
<https://www.migalhas.com.br/depeso/317677/porque-a-hora-e-de-pensar-sobre-como-implementar-o-juizo-das-
-garantias>. Acesso em: 17 fev. 2020.

Manuais p Conc-Tavora-Alencar-Novo Curso de Dir Proc Penal-15ed.indb 251 06/03/2020 14:58:53


396 CURSO DE DIREITO ­PROCESSUAL PENAL – Nestor Távora • Rosmar Rodrigues Alencar

quanto as decisões interlocutórias, autoriza reconhecer o princípio da preclusividade das


resoluções judiciais14.
O processo é um andar adiante e tende à estabilização das relações jurídicas. Exceção
a essa regra só existe se for expressa e favor libertatis.
O valor da imutabilidade da jurisdição é muito caro ao processo penal. A sentença
penal absolutória transitada em julgado não pode jamais ser rescindida. Não é cabível re-
visão criminal contra ela (imutabilidade forte), eis que se trata de coisa julgada material
soberana.
É expressão do princípio do ne bis in idem que o acusado não poder ser perseguido
pelo mesmo fato duas vezes. Isso quer dizer que só é possível responder a um processo
penal com desfecho de mérito absolutório uma única vez. Por outro lado, a imutabilidade
da coisa julgada condenatória não é absoluta, porquanto, em tese, cabe contra ela revisão
criminal a qualquer tempo, se presentes os pressupostos legais (imutabilidade fraca).

20. QUADRO SINÓTICO

CAPÍTULO VIII – JURISDIÇÃO


JURISDIÇÃO
Conceito
É o poder-dever pertinente ao Estado-Juiz de aplicar o direito ao caso concreto. 1.
Ordinariamente, a prestação jurisdicional é feita pelos órgãos que
Jurisdição típica: compõem a estrutura do Poder Judiciário.
Poder Judiciário ou 2
Justiça Ordinária A jurisdição é una e o seu exercício observa os ditames da har-
monia entre os Poderes que constituem o Estado brasileiro.

14. PONTES DE MIRANDA, Francisco Cavalcanti. Tratado das ações: tomo 1. Campinas: Bookseller, 1998. p. 318.

Manuais p Conc-Tavora-Alencar-Novo Curso de Dir Proc Penal-15ed.indb 396 06/03/2020 14:59:34


Cap. VIII • JURISDIÇÃO 397

CAPÍTULO VIII – JURISDIÇÃO


A Justiça Extraordinária ou Justiça Política é constituída de órgãos
Jurisdição do Poder Legislativo. O Poder Legislativo, ao julgar, exerce ativida-
atípica: justiça de que lhe é atípica. Atividade típica do Legislativo é legislar. A
3
extraordinária ou justiça política é exercida por órgãos diversos do Poder Judiciário,
justiça política que compõem a estrutura política do Legislativo. Cuida-se de
justiça prestada de forma extraordinária.
Princípios
Adotamos a expressão princípios como espécie de norma. Norma é gênero, enquanto
regras e princípios são espécies. De acordo com essa perspectiva, norma não se confunde 4
com o texto. O enunciado é o texto. O conjunto de enunciados é texto bruto.
Para exercer jurisdição é necessário ser magistrado; logo, estar devi-
damente investido na função. Faltando investidura, o ato praticado
Princípio da é inexistente juridicamente, já que ausente um pressuposto
processual essencial. 5
investidura
A investidura se dá conforme as regras previstas na Constituição
do Brasil. A regra é o concurso público.
A regra é que a função jurisdicional não pode ser delegada a outro
órgão, mesmo que jurisdicional. O juiz não pode delegar suas
atribuições típicas a seus servidores, tais como: conduzir de au-
diências ou decidir sobre questões incidentes. Não pode também
Princípio da delegar suas atribuições a outro juiz. A substituição entre juízes
6
indelegabilidade ocorre conforme as regras instituídas para este fim. A doutrina
costuma catalogar as cartas precatórias, as cartas de ordem e as
cartas rogatórias, como exceções ao princípio da indelegabili-
dade da jurisdição, eis que há a prática de atos processuais por
um outro magistrado, que não o originariamente competente..
Art. 5º da CF/1988, LIII assevera que ninguém será processado nem
sentenciado senão pela autoridade competente. Isso quer dizer
que para haver processo penal válido é indispensável que a atri-
buição para processar e julgar o acusado seja conferida consti-
tucional e legalmente pela Constituição e pelas leis de processo.
Em outras palavras, são vedadas providências como:
(1) a designação arbitrária de juiz para condução de processos
Princípio do juiz em tramitação;
7
natural (2) a substituição entre juízes que não obedeça a critérios pre-
viamente determinados, ou seja, substituição entre juízes existe,
porém deve respeitar as normas que regem a matéria, tal como
se dá com a substituição de desembargadores por juízes, não ha-
vendo nulidade das decisões dos respectivos órgãos colegiados
de segundo grau de jurisdição pelo fato de sua composição estar
constituída, em sua maior parte, por membros convocados, eis
que atendidas as regras de substituição e de convocação;

Manuais p Conc-Tavora-Alencar-Novo Curso de Dir Proc Penal-15ed.indb 397 06/03/2020 14:59:34


398 CURSO DE DIREITO ­PROCESSUAL PENAL – Nestor Távora • Rosmar Rodrigues Alencar

CAPÍTULO VIII – JURISDIÇÃO


(3) a alteração de competência que não seja em razão de supres-
são de órgãos ou de criação de órgãos para o fim de se dividir
tarefas a fim de conferir maior funcionalidade à jurisdição.
Sobre o ponto, é de ver que a regra é a perpetuatio jurisdictionis,
Princípio do juiz isto é, se o processo tiver início perante um órgão jurisdicional, 7
natural deve ter continuidade perante este juízo, sem que a criação de
outro órgão com igual competência determine a alteração de
sua tramitação. O Código de Processo Penal não trata expres-
samente o assunto, invocando-se, na omissão, o enunciado do
art. 43, do CPC.
Art. 5º, inciso XXXV da CF/1988, assegura que a lei não excluirá da
apreciação do Poder Judiciário lesão ou ameaça a direito. O acesso
à justiça é direito fundamental. Por sua vez, o magistrado não
Princípio da poderá eximir-se da função de julgar. Cuida-se da indeclinabi-
lidade jurisdicional. 8
inafastabilidade
A lei não pode suprimir do juiz o poder que lhe é especialmente
inerente: julgar, resolver litígios nos espaços de penumbra, de
contingência.
A jurisdição não está sujeita à vontade das partes. Impõe-se. A
jurisdição penal, em especial, é permeada por esse princípio. O
Princípio da
Ministério Público, diante de crimes de ação penal pública incon-
nevitabilidade ou 9
dicionada, age obrigatoriamente. O processo, instaurado, tem seu
da irrecusabilidade
fluxo contínuo até desaguar em sentença. As partes se submetem
ao julgado, ainda que não o queiram.
Deve haver correspondência entre a sentença e o pedido feito na
inicial acusatória. É vedado julgamento extra, citra ou ultra peti-
ta. O magistrado está adstrito àquilo que lhe for pedido.
11. Correlação e emendatio libelli: aduz o art. 383, do CPP, que
o juiz, sem modificar a descrição do fato contida na denúncia ou
queixa, poderá atribuir-lhe definição jurídica diversa, ainda que, em
consequência, tenha de aplicar pena mais grave. Se equivocada a
tipificação esboçada na inicial acusatória, ao juiz caberá fazer o
Princípio da devido enquadramento legal. Incide, no ponto, o postulado de
que o juiz conhece o direito ou jura novit curia. 10 a
correlação ou
12
relatividade O momento adequado para corrigir os equívocos de tipificação
é o da prolação da sentença. Esta é a regra. Ao receber a inicial
acusatória, dando início ao processo, não pode o magistrado al-
terar a tipificação esboçada na denúncia ou na queixa-crime. Se
o fizer, estará se imiscuindo arbitrariamente nas atribuições do
órgão acusador.
A emendatio libelli tem cabimento até mesmo no segundo grau
de jurisdição, havendo restrição apenas se implicar na reformatio
in pejus.

Manuais p Conc-Tavora-Alencar-Novo Curso de Dir Proc Penal-15ed.indb 398 06/03/2020 14:59:35


Cap. VIII • JURISDIÇÃO 399

CAPÍTULO VIII – JURISDIÇÃO


Se em consequência da nova definição jurídica, houver a possibi-
lidade da oferta de suspensão condicional do processo, em face
do crime ter pena mínima de até um ano, deve o juiz proceder
na forma do art. 89, da Lei nº 9.099/1995, oportunizado ao MP a
operacionalização da proposta (art. 383, § 1º, CPP).
Por sua vez, se em razão do novo enquadramento, percebe-se
que a infração é de competência de outro juízo, os autos lhe
devem ser remetidos.
12. Correlação e mutatio libelli: o art. 384, do CPP, tem aplicação
quando os fatos narrados na inicial são dissonantes daqueles apu-
rados na instrução criminal. A distinção é quanto à matéria fática,
deduzida na petição inicial, relativamente a outros elementos
conhecidos durante a produção da prova.
Se o aditamento for feito oralmente, em audiência, será reduzido
a termo.
A defesa, assim que realizado o aditamento, será intimada, e terá
cinco dias para se manifestar, podendo também indicar até três
testemunhas.
Autos conclusos, resta ao juiz receber ou não o aditamento. Caso venha
a rejeitá-lo, esta decisão desafia recurso em sentido estrito (art. 581, I,
CPP). Recebido o aditamento, a defesa poderá ajuizar habeas corpus, na
expectativa de que os novos elementos lançados aos autos sejam afas-
tados, por falta de justa causa ou por qualquer outro motivo relevante.
Princípio da
Com o juízo positivo de admissibilidade quanto ao aditamento, 10 a
correlação ou
o magistrado a requerimento de qualquer das partes, designará 12
relatividade
dia e hora para continuação da audiência, com inquirição de tes-
temunhas, novo interrogatório do acusado, realização de debates
e julgamento. Caso as partes não tenham requerido a retomada
da audiência, o julgador, em razão do impulso oficial que lhe é
inerente, irá marcar, de ofício, a realização do ato.
Havendo inércia ou negativa do Ministério Público quanto ao adita-
mento da inicial, cabe ao juiz invocar, por analogia, o art. 28, do CPP.
O instituto da mutatio libelli não terá cabimento na fase recursal.
Antevendo a possibilidade de aplicação da mutatio libelli, o juiz
não deve, contudo, antecipar juízo de mérito quanto ao fato su-
postamente ocorrido, porquanto a instrução probatória revela
apenas a possibilidade de alteração fática, e o aditamento pode
ser rejeitado, após a manifestação defensiva.
Se em razão da mutatio libelli, percebe-se que a infração realmen-
te ocorrida tem pena mínima de até um ano, ou é de competência
de outro juízo, o Ministério Público deve oportunizar a suspen-
são condicional do processo, ou proceder a remessa dos autos
ao juízo competente, conforme o caso (art. 384, § 3º, CPP) e na
forma como explicado acima, para os casos de emendatio libelli.
Por fim, a mutatio libelli não tem aplicação nas ações de iniciativa
privada exclusiva e personalíssima, pois estas são movidas pelo
princípio da disponibilidade e oportunidade. Resta, portanto,
aos crimes de ação pública, e para as ações privadas subsidiárias.

Manuais p Conc-Tavora-Alencar-Novo Curso de Dir Proc Penal-15ed.indb 399 06/03/2020 14:59:35


400 CURSO DE DIREITO ­PROCESSUAL PENAL – Nestor Távora • Rosmar Rodrigues Alencar

CAPÍTULO VIII – JURISDIÇÃO


Previsto no art. 5º, inciso LIV da CF consagra que ninguém será
Devido processo privado da liberdade ou de seus bens sem o devido processo legal.
13
legal Na produção da prova, o devido processo legal material tem o
condão de limitar procedimentos que possam constituir crimes.
Características
Em regra, os órgãos jurisdicionais dependem de provocação (ne
procedat judex ex officio) , o que se faz pelo exercício do direito de
ação. Todavia, a ordem de habeas corpus pode ser concedida ex
officio, sempre que os juízes e tribunais tenham conhecimento do
risco ou da ofensa à liberdade de locomoção. Mitiga-se a inércia,
em favor da liberdade.
Inércia 15
Tem se entendido que, depois de instaurado processo, o juiz
estaria autorizado a atuar de ofício, supletivamente às partes.
Com o advento da Lei nº 13.964/2019, a dúvida que sobejava
não teria mais razão de existir. É vedado ao juiz atuar, seja no
curso da investigação, seja durante o trâmite do processo penal,
independentemente de provocação das partes.
Cabe ao Estado, substituindo a atividade das partes, resolver os
Substitutividade 16
litígios.
O entendimento majoritário pressupõe a existência de lide para o
exercício jurisdicional, ou seja, a presença do conflito de interesses
qualificado pela pretensão resistida.
Todavia, é inapropriado falar em lide como pressuposto da jurisdi-
Lide ção penal, não só em razão da indisponibilidade dos bens jurídicos 17
em jogo, mas também pelo papel desempenhado pelo MP diante
da atual ordem constitucional. Como órgão de fiscalização da lei
e proteção da sociedade, o Ministério Público estaria comprome-
tido a defender um justo provimento jurisdicional. De tal sorte,
não deveria haver, rigorosamente, conflito de interesses.
A atividade jurisdicional tem por objetivo aplicar o direito ao caso
Atuação do direito concreto, restabelecendo-se a paz social violada pela infração co- 18
metida.
A sentença reveste-se do caráter da imutabilidade após o seu
trânsito em julgado, não podendo ser modificada, salvo exceções,
Imutabilidade 19
estritamente autorizadas pelo texto constitucional, a exemplo da
revisão criminal pro reo.

Manuais p Conc-Tavora-Alencar-Novo Curso de Dir Proc Penal-15ed.indb 400 06/03/2020 14:59:35


Cap. VIII • JURISDIÇÃO 401

21. SÚMULAS DO STJ 172. Compete à Justiça Comum Estadual processar e julgar
militar por crime de abuso de autoridade, ainda que praticado
6. Compete à justiça comum estadual processar e julgar delito em serviço.
decorrente de acidente de trânsito envolvendo viatura de po-
lícia militar, salvo se autor e vítima forem policiais militares 200. O Juízo Federal competente para processar e julgar acu-
em situação de atividade. sado de crime de uso de passaporte falso é o do lugar onde o
delito se consumou.
33. A incompetência relativa não pode ser declarada de ofício.
208. Compete à Justiça Federal processar e julgar prefeito
38. Compete à justiça estadual comum, na vigência da Cons- municipal por desvio de verba sujeita a prestação de contas
tituição de 1988, o processo por contravenção penal, ainda perante órgão federal.
que praticada em detrimento de bens, serviços ou interesse
da União ou de suas entidades. 209. Compete à Justiça Estadual processar e julgar prefeito
por desvio de verba transferida e incorporada ao patrimônio
42. Compete à Justiça Comum Estadual processar e julgar as municipal.
causas cíveis em que é parte sociedade de economia mista e
os crimes praticados em seu detrimento. 235. A conexão não determina a reunião dos processos, se
um deles já foi julgado.
53. Compete à Justiça Comum Estadual processar e julgar
civil acusado de prática de crime contra instituições militares 244. Compete ao foro do local da recusa processar e julgar o
estaduais. crime de estelionato mediante cheque sem provisão de fundos.
62. Compete à Justiça Estadual processar e julgar o crime de 528. Compete ao juiz federal do local da apreensão da droga
falsa anotação na Carteira de Trabalho e Previdência Social, remetida do exterior pela via postal processar e julgar o crime
atribuído à empresa privada15. de tráfico internacional.
73. A utilização de papel-moeda grosseiramente falsificado 546. A competência para processar e julgar o crime de uso de
configura, em tese, o crime de estelionato, da competência documento falso é firmada em razão da entidade ou órgão ao
da Justiça estadual. qual foi apresentado o documento público, não importando a
qualificação do órgão expedidor.
75. Compete à Justiça Comum Estadual processar e julgar o
policial militar por crime de promover ou facilitar a fuga de 600. Para a configuração da violência doméstica e familiar
preso de estabelecimento penal. prevista no artigo 5º da Lei nº 11.340/2006 (Lei Maria da
Penha) não se exige a coabitação entre autor e vítima.
78. Compete à Justiça Militar processar e julgar policial de
corporação estadual, ainda que o delito tenha sido praticado 634. Ao particular aplica-se o mesmo regime prescricional
em outra unidade federativa. previsto na Lei de Improbidade Administrativa para o agente
público.
104. Compete à Justiça Estadual o processo e julgamento dos
crimes de falsificação e uso de documento falso relativo a
estabelecimento particular de ensino.
22. SÚMULAS DO STF
122. Compete à Justiça Federal o processo e julgamento uni-
Súmula Vinculante nº 36. Compete à Justiça Federal comum
ficado dos crimes conexos de competência federal e estadual,
processar e julgar civil denunciado pelos crimes de falsificação
não se aplicando a regra do art. 78, II, a, do Código de Pro-
e de uso de documento falso quando se tratar de falsificação
cesso Penal.
da Caderneta de Inscrição e Registro (CIR) ou de Carteira
de Habilitação de Amador (CHA), ainda que expedidas pela
140. Compete à Justiça Comum Estadual processar e julgar
Marinha do Brasil.
crime em que o indígena figure como autor ou vítima.
Súmula Vinculante nº 45. A competência constitucional do
147. Compete à Justiça Federal processar e julgar os crimes
Tribunal do Júri prevalece sobre o foro por prerrogativa de
praticados contra funcionário público federal, quando rela-
função estabelecido exclusivamente pela constituição estadual.
cionados com o exercício da função.
Súmula Vinculante nº 46. A definição dos crimes de res-
151. A competência para o processo e julgamento por crime
ponsabilidade e o estabelecimento das respectivas normas de
de contrabando ou descaminho define-se pela prevenção do
processo e julgamento são de competência legislativa privativa
Juízo Federal do lugar da apreensão dos bens.
da União.
165. Compete à Justiça Federal processar e julgar crime de
453. Não se aplicam à segunda instância o art. 384 e parágrafo
falso testemunho cometido no processo trabalhista.
único do Código de Processo Penal, que possibilitam dar nova
definição jurídica ao fato delituoso, em virtude de circuns-
tância elementar não contida explícita ou implicitamente na
denúncia ou queixa.

521. O foro competente para o processo e julgamento dos


15. STJ – Terceira Seção – AgRg no CC 148.963/RJ – Rel. crimes de estelionato, sob a modalidade de emissão dolosa
Min. Jorge Mussi – DJe 22 abr. 2019.

Manuais p Conc-Tavora-Alencar-Novo Curso de Dir Proc Penal-15ed.indb 401 06/03/2020 14:59:35


402 CURSO DE DIREITO ­PROCESSUAL PENAL – Nestor Távora • Rosmar Rodrigues Alencar

de cheque sem provisão de fundos, é o do local onde se deu o maior número de infrações, independentemente das
a recusa do pagamento pelo sacado. respectivas penas.
(D) Se, não obstante a conexão ou continência, foram ins-
522. Salvo ocorrência de tráfico para o exterior, quando en- taurados processos diferentes, que já estão com senten-
tão a competência será da Justiça Federal, compete à Justiça ça definitiva, a unidade dos processos não poderá se dar,
dos Estados o processo e julgamento dos crimes relativos a ulteriormente, para o efeito de soma ou de unificação
entorpecentes. das penas, no juízo da execução.
(E) Tratando-se de infração continuada, praticada em terri-
702. A competência do Tribunal de Justiça para julgar prefei- tório de duas ou mais jurisdições, a competência firmar-
tos restringe-se aos crimes de competência da Justiça comum -se-á pelo local em que a última ocorreu.
estadual; nos demais casos, a competência originária caberá
ao respectivo tribunal de segundo grau. 03. (2017 – CESPE – PJC-MT – Delegado de Polícia Subs-
tituto) Em determinado estado da Federação, um juiz
704. Não viola as garantias do juiz natural, da ampla defesa de direito estadual, um promotor de justiça estadual e
e do devido processo legal a atração por continência ou co- um procurador do estado cometeram, em momentos
nexão do corréu ao foro por prerrogativa de função de um distintos, crimes comuns dolosos contra a vida. Não
dos denunciados. há conexão entre esses crimes. Sabe-se que a Cons-
tituição do referido estado prevê que crimes comuns
721. A competência constitucional do tribunal do Júri pre- praticados por essas autoridades sejam processados e
valece sobre o foro por prerrogativa de função estabelecido julgados pelo respectivo tribunal de justiça.
exclusivamente pela Constituição Estadual.
Nessa situação hipotética, segundo o entendimento do
STF, será do tribunal do júri a competência para proces-
722. São da competência legislativa da união a definição dos
sar e julgar somente o
crimes de responsabilidade e o estabelecimento das respectivas
normas de processo e julgamento. (A) promotor de justiça.
(B) juiz de direito.
(C) procurador do estado e o promotor de justiça.
23. Q U E S T Õ E S D E C O N C U R S O S (D) promotor de justiça e o juiz de direito.
PÚBLICOS (E) procurador do estado.

04. (2017 – FAPEMS – PC-MS – Delegado de Polícia) So-


01. (2018 – UEG – PC-GO – Delegado de Polícia) Sobre o bre competência no direito processual penal, afirma-se
tratamento dado à competência pelo Código de Pro- que
cesso Penal, tem-se o seguinte: (A) a investigação de tráfico internacional de drogas pode
(A) O juiz pode reconhecer, de ofício, incompetência relati- ser iniciada pela autoridade policial estadual, em virtude
va. das leis de cooperação entre as polícias.
(B) No caso de ação penal pública condicionada à represen- (B) o incidente de deslocamento de competência para a
tação, o ofendido pode preferir o foro de domicílio ou Justiça Federal, previsto na atual Constituição Federal
da residência do réu, ainda quando conhecido o lugar nas hipóteses de grave violação de direitos humanos,
da infração. poderá ser suscitado pelo Procurador­-Geral da Repú-
(C) O concurso formal de crimes não configura hipótese de blica, atendidos os requisitos legais, perante o Superior
continência. Tribunal de Justiça, em qualquer fase do inquérito poli-
cial.
(D) A legislação processual adota a teoria da ubiquidade
para determinação do juízo competente pelo lugar da (C) ocorre conexão intersubjetiva por simultaneidade
infração. quando duas ou mais infrações são praticadas ao mes-
mo tempo, por várias, pessoas, umas contra as outras,
(E) A competência será determinada pela conexão quando devendo a investigação e o processo seguir conjunta-
duas ou mais pessoas forem acusadas pela mesma in- mente.
fração.
(D) conforme entendimento do STJ, compete à Justiça Co-
mum Estadual processar e julgar crime em que o indí-
02. (2017 – MPE-PR – MPE-PR – Promotor Substituto) gena figure como autor ou vítima, desde que haja perti-
Assinale a opção correta, de acordo com a legislação nência com direitos indígenas e seja comunicado o fato
processual penal: à FUNAI.
(A) A competência será determinada pela continência quan- (E) tomando conhecimento de que o crime não é de com-
do a prova de uma infração ou de qualquer de suas cir- petência da justiça estadual, o Delegado de Polícia esta-
cunstâncias elementares influir na prova de outra infra- dual deve encaminhar os autos de investigação à auto-
ção. ridade policial competente, a qual deverá repetir todos
(B) No processo por crimes praticados fora do território os atos praticados, sob pena de nulidade do processo
brasileiro, será competente o juízo da Capital do Esta- judicial.
do onde houver por último residido o acusado. Se este
nunca tiver residido no Brasil, será competente o juízo 05. (2017 – TRF – 2ª Região – TRF – 2ª REGIÃO – Juiz
da Capital da República. Federal Substituto) Analise as assertivas sobre a com-
(C) Na determinação da competência por conexão ou con- petência penal e, depois, marque a opção correta:
tinência, havendo concurso de jurisdições da mesma ca- I. A conexão entre crimes da competência da Justiça Fe-
tegoria, prevalecerá a do lugar em que houver ocorrido deral e da Estadual não enseja a reunião dos feitos;

Manuais p Conc-Tavora-Alencar-Novo Curso de Dir Proc Penal-15ed.indb 402 06/03/2020 14:59:36


Cap. VIII • JURISDIÇÃO 403

II. São requisitos para o deferimento do incidente de deslo- (A) Caso um Prefeito Municipal venha a cometer um crime
camento de competência para a Justiça Federal a grave de homicídio no exercício de seu mandato, deverá ser
violação de direitos humanos, a necessidade de assegu- julgado pelo Tribunal do Júri do lugar do crime, tendo
rar o cumprimento, pelo Brasil, de obrigações decorren- em vista que este último é o órgão competente consti-
tes de tratados internacionais e a incapacidade de o es- tucionalmente para o julgamento.
tado membro, por suas instituições e autoridades, levar (B) Um Juiz de Direito do Estado de Mato Grosso que co-
a cabo, em toda a sua extensão, a persecução penal. mete um crime de homicídio no Estado do Acre deverá
III. Se cometidos durante o horário de expediente, compete ser julgado pelo Tribunal de Justiça do Estado do Acre,
à Justiça Federal julgar os delitos praticados por funcio- já que tem foro por prerrogativa de função.
nário público federal. (C) Um Promotor de Justiça do Estado de São Paulo que
(A) Apenas a assertiva I está correta. comete um crime de tentativa de homicídio simples no
Estado de Mato Grosso deverá ser julgado pelo Tribunal
(B) Apenas a assertiva II está correta.
de Justiça do Estado de São Paulo, já que tem foro por
(C) Apenas a assertiva III está correta prerrogativa de função.
(D) Todas as assertivas estão corretas. (D) Um Deputado Federal do Estado de Mato Grosso que
(E) Apenas as assertivas II e III estão corretas. comete um crime de homicídio em Brasília deverá ser
julgado pelo Tribunal do Júri do Distrito Federal.
06. (2016 – FUNCAB – PC-PA – Escrivão de Polícia Civil) (E) Um Juiz de Direito do Estado de Mato Grosso que co-
A competência é a medida da Jurisdição, distribuída mete um crime de homicídio no Estado do Acre poderá
entre os vários magistrados, que compõem organi- ser julgado pelo Tribunal de Justiça tanto do Estado do
camente o Poder Judiciário do Estado. A conexão e a Acre como do Estado de Mato Grosso, já que tem foro
continência integram os critérios para a fixação dessa por prerrogativa de função.
competência. A doutrina brasileira no âmbito do pro-
cesso penal traz diversas classificações e consectários 09. (2016 – CESPE – PC-PE – Agente de Polícia) A respeito
a respeito da conexão e da continência. Sobre o tema, da competência no processo penal, assinale a opção
assinale a alternativa correta. correta.
(A) A conexão intersubjetiva por concurso é a situação de (A) A inércia da jurisdição é um princípio processual que
vários agentes que cometem infrações penais em tem- permite ao juiz condenar o réu mesmo quando o Mi-
po e lugares diferentes, embora umas sejam destinadas, nistério Público postula a sua absolvição.
pelo liame subjetivo que liga os autores, a servir de su- (B) De acordo com a teoria da ubiquidade, um juiz pode jul-
porte às seguintes. gar simultaneamente duas ações penais distintas quan-
(B) A conexão instrumental, chamada também pela doutri- do as provas de uma possam repercutir na outra.
na de conexão consequencial, lógica ou teleológica, de- (C) Conexão e continência são institutos que autorizam a
monstra que há vários autores cometendo crimes para prorrogação da competência, possibilitando que esta
facilitar ou ocultar outros, bem como para garantir a im- seja definida em desacordo com as regras abstratas ba-
punidade ou vantagem do que já foi feito. seadas no lugar do crime, domicílio do réu, natureza da
infração ou distribuição.
(C) A conexão intersubjetiva por simultaneidade trata-se da
situação dos agentes que cometem crimes uns contra (D) A competência ratione loci, que se refere ao local da
os outros. consumação do crime, deriva da legislação infracons-
titucional e é de natureza absoluta, não podendo ser
(D) A conexão subjetiva é o nome dado à autêntica forma prorrogada nem reconhecida de ofício pelo juiz.
de conexão processual. Denomina-se, também, conexão
(E) O princípio do juiz natural determina que a ação penal
ocasional, significando que todos os feitos somente de-
deverá ser julgada pelo juiz que primeiro tiver tomado
veriam ser reunidos se a prova de uma infração servisse,
conhecimento do fato.
de algum modo, para a prova de outra, bem como se
as circunstâncias elementares de uma terminassem in-
10. (2016 – VUNESP – TJM-SP – Juiz de Direito Subs-
fluindo para a prova de outra.
tituto) Acompanhe o caso fictício. Tício, prefeito de
(E) No processo penal brasileiro não se admite a fixação da uma cidade do interior de São Paulo/SP, mantém um
competência pela continência. relacionamento extraconjugal com Mévia, policial mi-
litar. Por ciúmes, Mévia decide matar a mulher de Tício,
07. (2016 – FCC – DPE-BA – Defensor Público) De acordo Semprônia. Para tanto, ingressou na casa de Tício e,
com norma expressa do Código de Processo Penal, são com uma faca, acerta a vítima no peito. Em defesa de
fatores que determinam a competência jurisdicional: sua mulher, Tício, mediante disparo de arma de fogo,
(A) O local da residência da vítima e a natureza da infração. acerta Mévia, de raspão. Tício é processado perante o
Tribunal do Júri por homicídio tentado simples, além
(B) A prevenção e o local da prisão.
de posse irregular de arma de fogo, na Justiça Comum,
(C) A prerrogativa de função e o domicílio ou residência do sendo, ao final, absolvido de ambas as imputações, em
réu. decisão transitada em julgado; Mévia, por seu turno, foi
(D) O local da investigação e a conexão ou continência. processada na Justiça Militar, e condenada em decisão
(E) O local da prisão e o local da infração. que se tornou definitiva.
A respeito do caso, assinale a alternativa correta.
08. (2016 – UFMT – DPE-MT – Defensor Público) Em rela- (A) Tratando-se de crime comum, correto o julgamento de
ção à competência jurisdicional decorrente da prerro- Tício pelo Tribunal do Júri, visto que a competência do
gativa de função e à competência do Tribunal do Júri, Tribunal de Justiça para processar e julgar Prefeitos dá-
marque a afirmativa correta. -se apenas em crimes de responsabilidade.

Manuais p Conc-Tavora-Alencar-Novo Curso de Dir Proc Penal-15ed.indb 403 06/03/2020 14:59:36

Você também pode gostar