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CONTABILIDADE

SOCIOAMBIENTAL
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)
(Jeane Passos de Souza – CRB 8a/6189)

Vanzo, Geni Francisca dos Santos


Contabilidade socioambiental / Geni Francisca dos Santos Vanzo.
– São Paulo: Editora Senac São Paulo, 2016. (Série Universitária)

Bibliografia.
e-ISBN 978-85-396-1191-1

1. Contabilidade socioambiental I. Título. II. Série

16-463s CD – 657.4
BISAC BUS001000

Índice para catálogo sistemático


1. Contabilidade socioambiental 657.4
CONTABILIDADE
SOCIOAMBIENTAL

Geni Francisca dos Santos Vanzo


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Sumário
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Introdução Capítulo 3
Noções de Direito Ambiental, 57
Capítulo 1
A Contabilidade 1 Direitos difusos e
direitos coletivos, 58
Socioambiental no contexto 2 Constituição Federal e
das Ciências Contábeis, 9 Direito Ambiental, 61
3 Responsabilidade pelos
1 Evolução da Contabilidade:
danos ao meio ambiente, 69
dos registros rudimentares
às normas internacionais, 10 4 Bens ambientais: conceito,
gênero e titularidade, 72
2 Objetivo e função social da
Contabilidade, 24 Considerações finais, 73
3 Accountability e o Sistema Referências, 74
de Informações Contábeis, 25
Capítulo 4
4 Contabilidade Social
e Ambiental, 28 Sustentabilidade e
Considerações finais, 32 desenvolvimento sustentável, 77
Referências, 33 1 Sustentabilidade:
Capítulo 2 conceitos e definições, 78
2 Desenvolvimento sustentável:
Meio ambiente, 35 conceito e uso da expressão, 81
1 Meio ambiente: conceito e 3 Políticas ambientais
definição, 36 derivadas do conceito de
2 Meio ambiente: fonte de desenvolvimento sustentável, 84
recursos e receptor 4 Sustentabilidade na
de resíduos, 37 economia contemporânea, 89
3 Problemas ambientais 5 Meta do desenvolvimento
e suas consequências, 40 sustentável: “ecoeficiência”, 83
4 A sociedade e o Considerações finais, 94
meio ambiente, 42 Referências, 95
5 Responsabilidade social
sobre o meio ambiente, 43
6 Valor econômico
do meio ambiente, 44
7 Iniciativas de proteção
ao meio ambiente, 50
8 Políticas públicas
de proteção ambiental, 52
Considerações finais, 54
Referências, 55

5
Capítulo 5 Capítulo 7

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Responsabilidade social e Contabilidade Ambiental, 145
sustentabilidade empresarial, 97
1 Contabilidade Ambiental:
1 Responsabilidade social introdução, 146
corporativa (RSC): 2 Contabilidade Ambiental e
conceitos e definições, 98 Contabilidade Financeira, 150
2 Evolução do conceito 3 Contabilidade Ambiental
de responsabilidade como instrumento de
social nas organizações, 105 gestão do meio ambiente, 152
3 Responsabilidade social e 4 Eventos e fatos
governança corporativa, 107 contábeis ambientais, 154
4 Normas e certificações 5 Planos de contas, 159
socioambientais, 112 6 Princípios e normas
5 Indicadores e relatórios de contábeis aplicáveis, 161
responsabilidade socioambiental 7 Patrimônio ambiental, 163
das organizações, 115
Considerações finais, 165
Considerações finais, 118
Referências, 166
Referências, 119
Capítulo 8
Capítulo 6
Ativos e passivos ambientais
Fundamentos de gestão
e patrimônio líquido, 169
ambiental empresarial, 123
1 Elementos das
1 Gestão ambiental: demonstrações contábeis, 170
conceito e dimensões, 124
2 Ativos ambientais, 175
2 Estratégias e abordagens
de gestão ambiental, 129 3 Passivos ambientais, 184
3 Modelos de gestão 4 Provisões, ativos contingentes
ambiental, 130 e passivos contingentes, 193
4 Sistemas de gestão 5 Reserva para contingências
ambiental (SGA), 132 (patrimônio líquido), 196
5 Normas internacionais Considerações finais, 197
sobre SGA, 136 Referências, 198
6 Instrumentos Capítulo 9
de gestão ambiental, 138
Receitas, custos e
Considerações finais, 142
despesas ambientais, 201
Referências, 143
1 Gastos ambientais, 203
2 Custo ambiental, 205
3 Despesas e
perdas ambientais, 219
4 Receitas e
ganhos ambientais, 223
Considerações finais, 226
Referências, 227

6 Contabilidade Socioambiental
Capítulo 10 Capítulo 13
Material para uso exclusivo de aluno matriculado em curso de Educação a Distância da Rede Senac EAD, da disciplina correspondente. Proibida a reprodução e o compartilhamento digital, sob as penas da Lei. © Editora Senac São Paulo.

Tributos e gestão ambiental, 231 Elaboração do


1 Aplicação do Direito Tributário na
Balanço Social/Relatório
proteção do meio ambiente, 232 de Sustentabilidade, 307
2 Características dos tributos
ambientais, 237 1 Modelos de Balanço
Social/Relatório de
3 Tributação ambiental e Sustentabilidade, 308
os princípios tributários, 242
2 Processo de elaboração
4 Política de tributação ambiental, do Balanço Social, 319
245
3 Balanço Social: indicadores, 323
Considerações finais, 248
Considerações finais, 324
Referências, 248
Referências, 325
Capítulo 11
Capítulo 14
Controladoria e
Elaboração do Balanço Social
gestão ambiental, 251
e relatório de Sustentabilidade
1 Controladoria ambiental: – recursos humanos e outras
conceitos e funções, 253
informações sociais, 327
2 Sistema de controladoria
ambiental e seus componentes, 1 Demonstrando as relações
256 sociais, 328
3 Gestão de custos ambientais, 258 2 Práticas trabalhistas
4 Logística reversa: e trabalho decente, 332
conceitos e custos, 267 3 Demais subcategorias de
5 Créditos de carbono: informações sociais, 342
mercado voluntário 4 Indicadores de desempenho
e mercado regulado, 271 social, 347
6 Indicadores de desempenhos Considerações finais, 349
sociais e ambientais, 275
Referências, 350
7 Relatórios ambientais:
tipos e divulgação, 276 Capítulo 15
Considerações finais, 277 Elaboração do Balanço Social/
Referências, 277 Relatório de Sustentabilidade:
Capítulo 12 Balanço Ambiental e outras
Balanço Social e Relatório informações ambientais, 351
de Sustentabilidade, 281
1 Formas de evidenciação
1 Balanço Social e Relatório das informações ambientais, 352
de Sustentabilidade: 2 Indicadores de desempenho
considerações iniciais, 282 ambiental, 358
2 Evolução histórica 3 Evidenciação das
do Balanço Social, 289 demonstrações contábeis
3 Balanço Social no Brasil, 291 ambientais, 361
4 Balanço Social para pequenas 4 Modelos de Balanço Patrimonial
e médias empresas (PMEs), 294 e DRE Ambientais, 363
5 Reflexões sobre o Considerações finais, 366
Balanço Social, 298 Referências, 367
Considerações finais, 304
Referências, 304

A Contabilidade Socioambiental no Contexto das Ciências Contábeis 7


Capítulo 16 Exercícios complementares –

Material para uso exclusivo de aluno matriculado em curso de Educação a Distância da Rede Senac EAD, da disciplina correspondente. Proibida a reprodução e o compartilhamento digital, sob as penas da Lei. © Editora Senac São Paulo.
Demonstração do Capítulo 9, 411
Valor Adicionado (DVA), 369
Questão 1, 411
1 DVA: conceitos e definições, 370 Questão 2, 413
2 Características das informações Questão 3, 415
da DVA, 376 Questão 4, 416
3 Elaboração da DVA, 378
Resolução dos exercícios, 417
4 Análise da DVA: indicadores de
desempenho, 379 Questão 1, 417
Considerações finais, 382 Questão 2, 417
Referências, 384 Questão 3, 418
ANEXO 1 – Sugestão de plano Questão 4, 419
de contas ambientais, 385 Sobre a autora, 421
Referência, 389
ANEXO 2 – Evidenciação de
ativos biológicos nas
demonstrações financeiras
de 2014 da Suzano Papel e
Celulose S.A., 390
Referência, 397
ANEXO 3 – Exemplos de
indicadores de desempenho
social, 398

ANEXO 4 – Exemplo de
informações ambientais não
evidenciadas nas demonstra-
ções financeiras, 401
Referência, 407
Exercícios complementares –
Capítulo 7, 408
Questão 1, 408
Questão 2, 409
Questão 3, 409
Resolução dos exercícios, 410
Questão 1, 410
Questão 2, 411
Questão 3, 411

8 Contabilidade Socioambiental
Capítulo 1
Material para uso exclusivo de aluno matriculado em curso de Educação a Distância da Rede Senac EAD, da disciplina correspondente. Proibida a reprodução e o compartilhamento digital, sob as penas da Lei. © Editora Senac São Paulo.

A Contabilidade
Socioambiental
no contexto das
Ciências Contábeis

A compreensão da importância, dos objetivos e do papel da


Contabilidade Socioambiental no contexto evolutivo atual da sociedade
e da Ciência Contábil requer que se reveja um pouco da história dessa
ciência e, sobretudo, a sua correlação com os diversos momentos que
marcaram a história da humanidade.

Com essa finalidade, este capítulo abordará os principais momentos


da trajetória da Contabilidade, desde o seu possível surgimento – cons-
tatado por meio de achados arqueológicos que mostram registros rudi-
mentares do “patrimônio” do homem primitivo – até o momento atual,
que aborda a Contabilidade como um instrumento de gestão e controle,
consubstanciado em normas seguidas por mais de cem países – as
Normas Internacionais de Contabilidade (IFRS – International Financial
Reporting Standards).

9
Reconhecida e classificada como Ciência Social Aplicada, a Contabi­

Material para uso exclusivo de aluno matriculado em curso de Educação a Distância da Rede Senac EAD, da disciplina correspondente. Proibida a reprodução e o compartilhamento digital, sob as penas da Lei. © Editora Senac São Paulo.
lidade, por sua própria natureza, relaciona-se com a sociedade. Neste ca-
pítulo, será possível compreender sua função social, ou seja, como essa
ciência contribui para o bem-estar da sociedade contemporânea e, por
consequência, como, por meio da Contabilidade Socioambiental, auxilia no
momento histórico atual, em que a sociedade se conscientiza do caráter
vital da busca pela preservação do meio ambiente.

Sem a pretensão de estudar as minúcias da riquíssima história


da Contabilidade, este capítulo abordará os pontos essenciais para
conduzir o raciocínio do leitor de forma que este, ao terminar de es-
tudá-lo, constate ter acrescido seu entendimento acerca da função
social da Contabilidade e, particularmente, do papel da Contabilidade
Socioambiental no contexto histórico contemporâneo, em que preser-
var o meio ambiente e proporcionar condições sociais para que o ser
humano continue a sua trajetória evolutiva, de forma mais justa e me-
nos penosa, deixou de ser um modismo para se tornar uma condição
de sobrevivência.

1 Evolução da Contabilidade: dos registros


rudimentares às normas internacionais
A trajetória da Contabilidade acompanha a própria trajetória da evo-
lução humana – desde os primeiros sinais de que o homem estaria
saindo do seu estágio primitivo para dar os primeiros passos no que se
convencionou chamar de “civilização”. Entende-se por civilização, nesse
contexto, os primeiros resquícios de intelectualidade demonstrados, no
que diz respeito à Contabilidade, pela necessidade de “controlar” seus
pertences/patrimônio, de forma rudimentar, uma vez que ainda não ha-
via meios de registro numérico ou de contagem.

Antônio Lopes de Sá (1997, p. 15) resume a trajetória da Contabilidade


e sua correlação com a evolução da sociedade com uma frase que já
se tornou clássica: “A Contabilidade nasceu com a civilização e jamais

10 Contabilidade Socioambiental
deixará de existir em decorrência dela; talvez, por isso, seus progressos
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quase sempre tenham coincidido com aqueles que caracterizaram os


da própria evolução do ser humano”.

Mas, por que a evolução histórica da Contabilidade é importante no


contexto do estudo da Contabilidade Socioambiental? Porque a cons-
ciência de um período presente só se evidencia quando se conhecem as
suas origens, o que possibilita a visualização do que pode ser esperado
em período futuro.

Figura 1 – Dos registros rudimentares à Contabilidade Socioambiental

CONTABILIDADE AMBIENTAL
Status de novo ramo da
Ciência Contábil com a finalização do
Relatório Financeiro e Contábil sobre Século
Passivos e Custos Ambientais, pela ISAR XIX ao XX
EVOLUÇÃO DA
CIÊNCIA CONTÁBIL
Revolução Tecnológica
Solidificação e disseminação
da Contabilidade como ciência

Século
XVI ao XIX
CONTABILIDADE COMO CIÊNCIA
Desenvolvimento das doutrinas e
teorias que consolidam o caráter
científico do conhecimento contábil

Século
V ao XV
SISTEMATIZAÇÃO DOS
REGISTROS CONTÁBEIS
Ocidente: queda do Império
Romano e estagnação do
conhecimento contábil
Oriente: criação do Método
3000 a.C. das Partidas Dobradas
ao século V
EVOLUÇÃO DA ESCRITA CONTÁBIL
Evolução da escrita e da Matemática
Antigo Egito, os escribas considerados
“profissionais máximos”

8000 a.C. a
3000 a.C.
REGISTROS RUDIMENTARES
Mesopotâmia como
berço da Contabilidade
Registros feitos em fichas
de barro

A Contabilidade Socioambiental no Contexto das Ciências Contábeis 11


1.1 Registros rudimentares

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De acordo com Sá (1997, p. 21), a história da Contabilidade deve ter
se iniciado há cerca de 20 mil anos, no período Paleolítico Superior1 ou,
talvez antes, nas eras pré-líticas2. Os registros correspondentes foram
encontrados em diversos continentes, realizados na forma de pinturas
líticas e gravações em ossos, identificando elementos patrimoniais,
como animais, por meio de desenhos e de traços indicando quantidades.

Foram encontrados registros datados de 8000 a 3000 a.C., em sí-


tios arqueológicos como Israel, Síria, Iraque, Turquia e Irã, conforme
destacam Schmidt e Santos (2006, p. 14). Essa região, parte da antiga
Mesopotâmia, e o Egito abrigam as bases da civilização ocidental, e a
Contabilidade, como não poderia deixar de ser, tem aí seus alicerces.

A região da Mesopotâmia se localizava entre os rios Tigre e Eufrates,


hoje correspondente a grande parte do Iraque, Síria e Turquia, no conti-
nente asiático. O Egito, localizado numa região denominada transconti-
nental, entre a África e a Ásia, também foi palco de importantes achados,
não só no que se refere às origens da Contabilidade, mas como berço
de relevantes contribuições para o processo evolutivo da humanidade.

Entre os povos da Mesopotâmia, destacaram-se os sumérios que,


em razão das significativas riquezas da Suméria (posterior Babilônia),
constituíram as bases de um desenvolvimento da escrita contábil de
qualidade ascendente (SÁ, 1997, p. 24).

Schmidt e Santos (2006, p. 14) informam que as primeiras fichas de


barro contendo registros que remetem a um sistema contábil utilizado
por civilizações pré-históricas de 8000 a.C. foram encontradas em Uruk,

1 Paleolítico: período da Pré-História, conhecido como Idade da Pedra, ocorrido há cerca de 2,5 milhões
de anos até 10000 a.C. Subdivide-se em Paleolítico Inferior (até, aproximadamente, 300 mil anos atrás) e
Paleolítico Superior (até, aproximadamente, 10000 a.C.).

2 Pré-lítico: período anterior ao Paleolítico.

12 Contabilidade Socioambiental
antiga cidade da Mesopotâmia habitada pelos sumérios. Os registros
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eram feitos em pequenas placas de argila fresca, utilizando-se estiletes


de madeira pontiagudos. Mais tarde, foram criados resumos dessas pe-
quenas placas, que passaram a ser feitos em placas maiores, caracteri-
zando o nosso atual livro Diário.

Antonio Lopes de Sá (1997, p. 25) informa que “apurações de custos,


revisões de contas, controles gerenciais, orçamentos” já eram pratica-
dos em registros realizados em placas de argila pelos povos da Suméria
e da Babilônia.

1.2 Evolução da escrita contábil

O surgimento do papiro – meio utilizado para a escrita, criado pelos


egípcios com matéria-prima derivada da planta de mesmo nome – trou-
xe uma substancial evolução à escrita contábil, que passou a utilizar
esse recurso para ser realizada.

A evolução da escrita comum, por outro lado, também se fez pre-


sente na escrita contábil, simplificando a simbologia empregada nos
correspondentes registros. A evolução dos conhecimentos matemáti-
cos e da cultura dos povos também se fizeram refletir nessa escrita.
Surge, então, a figura do “escriba”, o contador da época, responsável por
tal escrita e que, segundo Sá (1997, p. 27), era considerado o “máximo
profissional” no antigo Egito.

Encontram-se registros da evolução da escrita contábil em todas as


grandes civilizações da história antiga, ressaltando-se, principalmente, a
grande importância da Contabilidade no Império Romano que, pela sua
dimensão, exigia controles patrimoniais que só a Contabilidade poderia
produzir. A queda desse império e a consequente diminuição da riqueza
europeia não impediram, no entanto, que os conhecimentos contábeis, até
então acumulados, fossem disseminados, pois o mundo árabe continuou
contribuindo, de maneira importante, para a evolução da Contabilidade.

A Contabilidade Socioambiental no Contexto das Ciências Contábeis 13


1.3 Sistematização dos registros contábeis

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A Idade Média, período que compreende os séculos V ao XV, teve
início com a queda do Império Romano (ano 476). Justamente por essa
queda, houve um declínio das atividades econômicas do Ocidente e, por
consequência, manteve-se aí o nível de conhecimento contábil já adqui-
rido, embora a importância da Contabilidade tenha se sobressaído, em
função do domínio da Igreja sobre o controle das riquezas ligadas aos
templos romanos e, posteriormente, ao regime feudal.

No Oriente, no entanto, particularmente no mundo árabe, sem os en-


traves observados no Ocidente, a Contabilidade continuou sua trajetória
evolutiva. Teve início, naquela região, a adoção de um critério de regis-
tros contábeis que, posteriormente, após aperfeiçoamento no Ocidente,
seria conhecido como Método das Partidas Dobradas. Esse método tor-
nou-se um marco na sistematização da Contabilidade e é utilizado até
hoje como a técnica que norteia toda a escrita contábil.

1.3.1 A difusão das partidas dobradas

No meio ocidental, o Método das Partidas Dobradas é atribuído ao


Frei Luca Pacioli que, em 1494, tornou pública a sua obra Summa de
Arithmetica, Geometria, Proportioni et Propornalità, cujo capítulo intitula-
do “Particulario de computies et scripturis” descreve o referido método.
Entretanto, historiadores respeitáveis indicam a existência do método
muito antes dessa menção na obra de Pacioli.

Antônio Lopes de Sá (1997, p. 35) cita que “a difusão de livros contá-


beis, ensinando método semelhante, já existia no Oriente há mais tem-
po, e um dos autores árabes fala do processo nas cortes do Egito, no iní-
cio da Idade Média”. O próprio Sá (2004, p. 26), em outra de suas obras,
enfatiza que “admite-se que foram os sumero-babilônios os autores do
sistema de ‘débito’ e ‘crédito’, baseado na identificação mental do que

14 Contabilidade Socioambiental
é ‘meu’ e é ‘seu’”, o que deixa patente não só a antiguidade do método,
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como também a sua origem fora da Itália.

IMPORTANTE

Há que se mencionar, ainda, a estreita ligação das partidas dobradas


com a Matemática, seja pela sua lógica, seja por ter sido tratada por au-
tores que praticavam a Ciência Matemática. Dessa ligação, e pelo fato
de a Matemática ser um dos principais instrumentos da Contabilidade,
é que resulta o fato de a Contabilidade ser comumente confundida com
uma ciência exata, o que não é verdade.

1.4 A Contabilidade como ciência

Historicamente, a curiosidade científica sobre todas as coisas, de


forma geral, se intensifica a partir do século XVI e, desde então, no que
se refere à área contábil, percebe-se o interesse dos autores, expresso
na respectiva literatura, pela explicação do que poderia estar contido na
informação gerada pela Contabilidade. Começam a surgir os primeiros
estudos teóricos, em busca dessas explicações. Esse período é deno-
minado como pré-científico.

No período científico, vivido a partir das primeiras décadas do século


XIX, a mentalidade científica, como afirma Sá (1997, p. 59), “desenvol-
veu-se de maneira uniforme, na ambição da busca do entendimento do
que se passava com a substância patrimonial, inserida nas células so-
ciais”. (Grifo do autor.)

O grande progresso das células sociais, das ciências e da tecnolo-


gia, ocorridos a partir da revolução industrial e social, foi também
responsável para que grandes passos no avanço da Contabilidade
ocorressem, aguçando, nos profissionais e intelectuais, a capaci-
dade de observação, na busca de verdades sobre o comportamen-
to da riqueza. (SÁ, 1997, p. 60)

A Contabilidade Socioambiental no Contexto das Ciências Contábeis 15


Ao referir-se ao progresso das células sociais, o autor está, em

Material para uso exclusivo de aluno matriculado em curso de Educação a Distância da Rede Senac EAD, da disciplina correspondente. Proibida a reprodução e o compartilhamento digital, sob as penas da Lei. © Editora Senac São Paulo.
outras palavras, se referindo ao progresso da sociedade. Parte-se do
princípio, defendido por grandes pensadores, de que a sociedade é um
grande “organismo” e, como tal, é formado por células. Quando cita a
substância patrimonial inserida nas células patrimoniais como objeto
de estudo científico da Contabilidade, Sá está se referindo ao patrimô-
nio como parte de uma célula social, representada por uma entidade
(com ou sem fins lucrativos), que influencia a sociedade e é por ela in-
fluenciada. Essa interação absoluta justifica o avanço da Contabilidade
pari passu com o progresso da sociedade e aponta para o seu caráter
3

eminentemente social. O período científico é marcado pelo desenvolvi-


mento das doutrinas e construção das teorias que consubstanciaram o
caráter científico do conhecimento contábil. As doutrinas deram origem
às escolas de Contabilidade e a correntes de pensamento contábil que
congregam tais escolas.

Segundo Marconi e Lakatos (2007, p. 80), para que um conhecimen-


to seja classificado como científico, ele deve ser:

•• real/factual – por lidar com ocorrências ou fatos;

•• contingente – pois suas proposições ou hipóteses têm sua vera-


cidade ou falsidade conhecida, por meio da experiência;

•• sistemático – por tratar-se de um saber ordenado logicamente,


formando um sistema de ideias (teoria);

•• passível de verificabilidade – ou seja, as afirmações ou hipóte-


ses dele advindas devem ser verificáveis, comprovadas;

•• falível – por não ser definitivo, absoluto ou final, sendo aproxima-


damente exato, uma vez que novas proposições e o desenvolvi-
mento de técnicas podem reformular as teorias existentes.

3 Pari passu: expressão latina que significa “simultaneamente”, “ao mesmo tempo”.

16 Contabilidade Socioambiental
O conhecimento contábil congrega todos esses requisitos e, portan-
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to, classifica-se como conhecimento científico.

Assim, em 1836, a Academia de Ciências da França reconhece


a Contabilidade como uma Ciência Social Aplicada. Ciência, porque
atende aos requisitos já mencionados; e social aplicada, por ter como
objeto de estudo o patrimônio – que é parte de uma célula social (a
entidade) – e, por consequência, pelo fato de inter-relacionar-se com
a sociedade.

1.5 A evolução da Contabilidade no


período contemporâneo

1.5.1 Evolução da Ciência Contábil

No decorrer dos séculos XIX e XX, o que se observou em termos de


evolução da Contabilidade foi a sua solidificação como ciência e a dis-
seminação do pensamento dominante em algumas escolas e correntes
de pensamento contábil, particularmente, a Escola Norte-Americana, a
Moderna Escola Italiana, a Escola Alemã e a Escola Patrimonialista.

Em termos de evolução do pensamento contábil, o período atual


apresenta, segundo Sá (1997), duas correntes: a empírico-normati-
va e a científico-filosófica. A corrente científico-filosófica, alicerce da
Contabilidade como ciência, é representada pelas escolas de pensa-
mento contábil dominantes e, embora sua influência não seja tão visível,
embasa todas as ações da corrente empírico-normativa.

A corrente empírico-normativa tem seus expoentes representados, atu-


almente, pelas normas norte-americanas e pelas Normas Internacionais de
Contabilidade. As normas norte-americanas emanam do sistema normati-
zador da contabilidade dos Estados Unidos da América e, particularmente,
do Financial Accounting Standards Board (FASB). Já as normas internacio-
nais, conhecidas como International Financial Reporting Standards (IFRS),
emanam do International Accounting Standards Board (IASB).

A Contabilidade Socioambiental no Contexto das Ciências Contábeis 17


A segunda metade do século XX, em particular, apresenta um con-

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texto socioeconômico impactado pelo que se convencionou chamar de
Revolução Tecnológica, momento histórico de importância só compa-
rado aos dois grandes momentos que a precederam e que dividiram
a história da humanidade, caracterizando de forma nítida os respec-
tivos momentos da evolução da sociedade: a Revolução Agrícola e a
Revolução Industrial.

Evidencia-se, após a Revolução Industrial, o uso da Contabilidade


como instrumento de gestão das organizações e, paralelamente, a
conscientização de que o desenvolvimento econômico não pode pres-
cindir da preocupação com a preservação dos recursos naturais e da
qualidade de vida da sociedade, sob pena de contribuir para a extinção
do seu principal elemento: o homem. Trata-se da valorização da res-
ponsabilidade social na condução do que se convencionou chamar de
desenvolvimento sustentável.

É nesse contexto, e já em pleno vigor da Revolução Tecnológica, que


se observa a economia mundial, mola propulsora do desenvolvimento
social, funcionando de forma globalizada, em função da evolução inces-
sante das tecnologias de comunicação, em que não há fronteiras que
dificultem as negociações entre os mais diferentes países.

A Contabilidade, no cumprimento do seu papel como ciência e


honrando sua história no acompanhamento da evolução da socieda-
de, adapta-se às novas necessidades dos seus usuários, de forma a
incorporar à sua tradição como instrumento de gestão empresarial as
características necessárias ao seu uso como instrumento de gestão so-
cioambiental. Surgem, então, as primeiras menções ao Balanço Social e
à Contabilidade Ambiental.

18 Contabilidade Socioambiental
1.5.2 Evolução da Contabilidade Socioambiental
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Ferreira (2003, p. 14) destaca como marco inicial para inserção da


Contabilidade nos assuntos socioambientais, o item “d” do Capítulo 8
da Agenda 21, uma agenda de cooperação internacional. Esse docu-
mento foi redigido como resultado da II Conferência Internacional de
Meio Ambiente e Desenvolvimento – Eco 92, um evento produzido pelas
Nações Unidas e que reuniu chefes de estado de diversos países, no Rio
de Janeiro, em 1992, com o objetivo de discutir e traçar metas de de-
senvolvimento sustentável. O referido texto ressalta a “(...) necessidade
de que países e organismos internacionais desenvolvam um sistema
de contabilidade que integre as questões sociais, ambientais e econô-
micas”. (Grifo nosso.)

Segundo Tinoco e Kraemer (2006, p. 12), a Contabilidade Ambiental


passou a ter status de novo ramo da ciência contábil em 1998, quando
finalizado o “Relatório Financeiro e Contábil sobre Passivos e Custos
Ambientais” pelo Grupo de Trabalho Intergovernamental das Nações
Unidas de Especialistas em Padrões Internacionais de Contabilidade e
Relatórios (ISAR – United National Intergovernmental Working Group of
Experts on International Standards of Accounting Reporting).

A década de 1990 é marcada por várias menções ao tema Contabilidade


Ambiental em eventos e encontros promovidos por diferentes organismos
internacionais, contando, especialmente, com o empenho da Organização
das Nações Unidas (ONU) em discutir a questão ambiental, de forma ge-
ral. Países como Dinamarca, Noruega, Bulgária, França e Holanda, entre
outros, editam normas ou aconselhamentos no sentido de divulgação de
relatórios socioambientais.

No que se refere aos informes de caráter social, ressalta-se a implan-


tação do Balanço Social, em 1977, primeiramente na França e, poste-
riormente, na Europa e nas Américas.

A Contabilidade Socioambiental no Contexto das Ciências Contábeis 19


1.6 Evolução da Contabilidade no Brasil

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A Contabilidade chegou ao Brasil a bordo das caravelas portuguesas,
porém, as primeiras manifestações dignas de nota, no que se refere à
sua evolução no país, passaram a ocorrer a partir da chegada da fa-
mília real portuguesa, em 1808. Schmidt e Santos (2006, p. 148) infor-
mam que foi no reinado de D. João VI que os contadores gerais da Real
Fazenda foram obrigados a aplicar o Método das Partidas Dobradas
para realizar a escrituração mercantil. Data de 1850 a publicação do
Código Comercial que instituiu a obrigatoriedade da escrituração contá-
bil e a elaboração de um Balanço Geral, de periodicidade anual.

Desde então, a Contabilidade no Brasil vem evoluindo no ritmo exi-


gido pelo desenvolvimento econômico do país. Assim, grandes marcos
podem ser mencionados nessa trajetória:

Figura 2 – Evolução da Contabilidade no Brasil

1940 1945 1946 1946

Publicação Consideração Fundação Criação


da primeira Lei da profissão contábil da FEA-USP do CFC e
das Sociedades como carreira dos Conselhos
por Ações universitária Regionais

2007 2005 1976

Adoção das Criação Publicação


Normas Internacionais do Comitê de da Lei no 6.404,
de Contabilidade e Pronunciamentos a nova Lei das
instituição da DVA Contábeis Sociedades por
Ações

A Demonstração do Valor Adicionado (DVA) tem por objetivo eviden-


ciar, mesmo que de forma sintética, como se formou a riqueza gerada

20 Contabilidade Socioambiental
pela empresa em determinado período e a sua respectiva distribuição
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para a sociedade.

Com relação à Contabilidade Ambiental, pode-se considerar como


de extrema relevância a edição da NPA 11 – Balanço e Ecologia, em
1996, pelo Instituto Brasileiro de Auditores Independentes (IBRACON),
revogada em 2011, que estabelecia a relação entre a Contabilidade e a
gestão ambiental.

Em 2004, o Conselho Federal de Contabilidade, por meio da Resolução


no 1.003, de 19 de agosto de 2004, aprovou a NBC T 15 – Informações
de Natureza Social e Ambiental, com alguns conceitos discutíveis sobre
a segregação de informações ambientais das informações contábeis.

Sobre os informes de caráter social, registram-se esforços de entidades


não governamentais e pesquisadores, desde os anos de 1960, no sentido
de que as empresas passassem a divulgá-los, com destaque especial para
o sociólogo Herbert de Souza que, por meio do IBASE, promoveu campa-
nha incansável pela divulgação de um Balanço Social, a partir de 1997.

1.7 Normas Internacionais de Contabilidade (IFRS)

Normas Internacionais de Contabilidade é a expressão que se


convencionou utilizar para as International Financial Reporting
Standards (IFRS), cuja tradução original seria Normas Internacionais de
Demonstrações Financeiras.

O ambiente globalizado da economia, proporcionado pelos recursos


tecnológicos em constante renovação, particularmente das telecomuni-
cações, exigiu que a Contabilidade se instrumentalizasse de maneira a
permitir que as informações contábeis fossem entendidas por qualquer
um de seus usuários, em qualquer lugar do mundo. Afinal, consagrada
como a linguagem que traduz os negócios, a Contabilidade, mais uma
vez fazendo jus ao seu caráter social, caminha para o atendimento às

A Contabilidade Socioambiental no Contexto das Ciências Contábeis 21


necessidades de uma nova sociedade, no que se refere à geração de

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informações que viabilizam os negócios e, consequentemente, o desen-
volvimento econômico.

A intensa dinâmica das negociações, propiciada pelo contexto de


globalização da economia, tem exigido que as informações contábeis
sejam elaboradas e expressas por meio de uma linguagem que pos-
sibilite a avaliação e a comparação de dados econômico-financeiros
gerados pelas partes envolvidas nessas negociações entre os mais
diferentes países. Isto porque, num mercado amplo e competitivo, as
negociações carecem de decisões rápidas e com menor grau de risco.

NA PRÁTICA

Cada país, de acordo com a sua cultura, demonstrará informações con-


tábeis do seu jeito. Um ativo é um ativo em qualquer lugar do mundo,
uma receita, uma despesa, idem. Mas, a forma de demonstrá-los pode
ser diferente, dependendo do seu país de origem. Mesmo sendo expres-
sas em números, tais informações podem ter sido elaboradas ou cons-
truídas de diferentes formas.
Se uma entidade considerar um determinado gasto como custo, conta-
bilizando-o como ativo para, depois da sua venda, no futuro, considerá-
-lo como despesa, o seu resultado do período em que tal gasto ocorreu
será diferente daquele apurado por uma entidade que o tenha conside-
rado como despesa no momento de sua ocorrência.

Foi com a intenção de “harmonizar” a linguagem contábil – melhoran-


do a elaboração e a apresentação das informações e facilitando sua aná-
lise e uso para efeito de tomadas de decisões em diversos níveis – que,
a partir das últimas décadas do século passado, registrou-se um movi-
mento no sentido de harmonização das normas contábeis internacionais.

No conjunto de normas internacionais em uso, na época, dois deles


se destacavam:

22 Contabilidade Socioambiental
•• as normas norte-americanas – US GAAP (Generally Accepted
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Accounting Principles ou Princípios Contábeis Geralmente Aceitos


nos Estados Unidos da América): provenientes, particularmente,
do Financial Accounting Standards Board (FASB);

•• as normas internacionais, conhecidas como International


Financial Reporting Standards (IFRS), editadas pelo International
Accounting Standards Board (IASB).

Num processo que não cabe aqui detalhar, mas que deve ser objeto
de pesquisa para qualquer interessado, pela sua importância no con-
texto de evolução da Contabilidade, as IFRS se sobressaíram e, atual-
mente, mais de cem países já as adotam, total ou parcialmente, para
elaboração e/ou apresentação dos seus demonstrativos contábeis.

No Brasil, o processo de convergência para as Normas Internacionais de


Contabilidade passou a tomar corpo com a formação do Comitê de Pronun­
ciamentos Contábeis (CPC), criado pelo Conselho Federal de Contabilidade
em 2005, e solidificou-se com a edição da Lei no 11.638, de 28 de dezembro
de 2007.

PARA SABER MAIS

Para saber mais sobre o processo de harmonização das Normas


Internacionais de Contabilidade consulte:
NIYAMA, Jorge Katsumi. Contabilidade internacional. 2. ed. São Paulo:
Atlas, 2010.

As IFRS não têm normas específicas sobre Contabilidade Socio­


ambiental. O tratamento dos ativos e passivos ambientais não se di-
ferencia dos demais e, portanto, deve seguir as premissas aplicáveis a
todos os ativos e passivos, sejam tangíveis ou não – assim como os
custos, receitas e despesas de caráter ambiental seguirão as premis-
sas cabíveis. Os princípios gerais aplicáveis à elaboração e divulgação

A Contabilidade Socioambiental no Contexto das Ciências Contábeis 23


das demonstrações contábeis estão previstos no CPC 00 – Estrutura

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Conceitual para Elaboração e Divulgação de Relatório Contábil Financeiro.

2 Objetivo e função social da Contabilidade


O estudo da história da Contabilidade esclarece a classificação da
Ciência Contábil como social aplicada, como já visto em tópicos ante-
riores. Quanto mais se busca avançar no tempo, percebe-se a estreita
relação entre a evolução da Contabilidade e da sociedade, ratificando o
seu caráter social, isto é, sua existência em função da sociedade e para
a sociedade.

Os objetivos da Contabilidade podem ser descritos de diversas for-


mas, variando conforme o autor que os aborda; entretanto, todos con-
vergem para um mesmo ponto: a geração de informações que, elabo-
radas de acordo com a lógica científica, contribuirão para a gestão dos
patrimônios das entidades.

Assim, adotando-se as concepções de Iudícibus (2000, p. 23), pode-


-se afirmar que o objetivo básico da Contabilidade consiste no forneci-
mento de informações econômicas, de produtividade e sociais para os
vários usuários, “de forma a que propiciem decisões racionais”, sobre o
patrimônio das entidades.

A função social da Contabilidade torna-se transparente quando se


percebe que a consecução dos seus objetivos terá sempre como fina-
lidade o bem-estar da sociedade. Sá faz uma colocação que resume,
com sabedoria, essa relação da Contabilidade com a sociedade:

O homem, o homem em sociedade, o patrimônio do homem a ser-


viço dele, o patrimônio do homem a serviço da sociedade parecem
ser fortes conexões que alimentam uma justa classificação dos
estudos contábeis no campo social. (SÁ, 2006, p. 42)

24 Contabilidade Socioambiental
Se a Contabilidade, de forma geral, já tem esse vínculo com o social
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desde há muitos séculos, a sua modalidade socioambiental hoje só re-


força a sua caracterização como uma ciência, cujos objetivos e práticas
são, eminentemente, sociais.

3 Accountability e o
Sistema de Informações Contábeis
Entendida a função social da Contabilidade e o seu principal objetivo
como geradora de informações de ordem econômica, de produtividade
e social, úteis à tomada de decisões, importa conhecer como tais infor-
mações são geradas e como cumprem o objetivo proposto.

As informações contábeis resultam de um processo que vai desde


a classificação dos fatos contábeis e seus registros, de forma lógica e
sistematizada, fazendo uso de um plano de contas, até a elaboração e di-
vulgação dos relatórios contábeis, legais ou gerenciais. Esse processo in-
tegra o Sistema de Informações Contábeis que, por sua vez, está inserido
no sistema de informações das organizações, conforme a figura a seguir.

Figura 3 – Sistema de Informações Contábeis (SIC)

Sistematizados
de forma lógica
EVENTOS

REGISTROS Legais
Fatos e gerenciais
mensuráveis COMPILAÇÃO
RELATÓRIOS
CONTÁBEIS
Elaboração
da informação

A Contabilidade Socioambiental no Contexto das Ciências Contábeis 25


Um sistema de informações pode ser definido, segundo Oliveira

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(2009, p. 97), como um

conjunto de procedimentos que permitem o registro dos fatos in-


ternos e externos vivenciados pela organização, com a finalidade
de criar um banco de dados que possibilite a tomada de decisões,
em consonância com os valores institucionais.

O Sistema de Informações Contábeis, também conhecido como SIC,


como já mencionado, faz parte do sistema de informações da entidade
e nele se integra. Gil, Biancolino e Borges (2010, p. 47) afirmam que, den-
tro do sistema de informações de uma empresa, “a ciência contábil se
estabelece como um sistema completo e dinâmico que incorpora todos
os eventos financeiramente mensuráveis” na geração das informações
contábeis, conforme é apresentado na figura a seguir.

Figura 4 – Sistema de Informações Contábeis no ambiente do sistema de informações

AMBIENTE DO SISTEMA DE INFORMAÇÕES

FINANCEIRO
$

$ SISTEMA DE $
INFORMAÇÕES
CONTÁBEIS (SIC)
$
OUTROS (INCLUSIVE RECURSOS
PRODUÇÃO
INFORMAÇÕES AMBIENTAIS) HUMANOS

Vale ressaltar que para a geração de informações úteis aos seus


usuários, objetivo principal da Contabilidade, é necessário que se saiba,
antes de qualquer coisa, quais informações precisarão ser geradas para
que as decisões tomadas estejam de acordo com os valores institu-
cionais. Assim, Padoveze (2003, p. 48) ressalta a necessidade de um
“processo interativo de definição de objetivos pela administração”, com
o responsável pela geração da informação contábil.

26 Contabilidade Socioambiental
De acordo com Padoveze (2003, p. 48) é a “alta administração quem
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vai informar ao contador o grau de detalhamento da informação, a quan-


tidade de departamentos ou centros de custo ou atividades, e os tipos
e formas de relatórios a serem extraídos do SIC”, além de periodicidade,
moedas, prazos, etc.

Essa relação da Contabilidade com a alta administração pode ser


utilizada como um exemplo simples de accountabilty. À medida que a
Contabilidade está gerando as informações solicitadas e reportando-as
aos usuários, ela está dando um feedback ao gestor sobre as respon-
sabilidades que lhe foram confiadas que, no caso, foram cumpridas por
meio da elaboração e geração dos relatórios contábeis. A análise e a
explicação desses informes contábeis também comporão essa “presta-
ção de contas”, conforme a figura a seguir.

Figura 5 – Accountability

Delegação

Accountability CONTABILIDADE
Delegação

ALTA Accountability
ADMINISTRAÇÃO
Delegação
OUTROS
Accountability
(MARKETING, RH, SAC, ETC.)
Delegação

Accountability é uma expressão em inglês utilizada para retratar essa


relação de prestação de contas, de retorno, de feedback pelo responsá-
vel por determinada tarefa a alguém que a tenha lhe delegado. Quando
se amplia esse conceito para várias tarefas que tenham sido delegadas
a alguém por um grupo de pessoas, pode-se começar a perceber a res-
ponsabilidade da Contabilidade perante um grupo de usuários (sócios,
acionistas, credores, fornecedores, funcionários, governo, etc.) ou, até
mesmo, perante a sociedade como um todo.

A Contabilidade Socioambiental no Contexto das Ciências Contábeis 27


De acordo com a AA1000 (INSTITUTE OF SOCIAL AND ETHICAL

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ACCOUNTABILITY, 1999, p. 8), citada por Monteiro e Ferreira (2007,
p. 83), accountability é um

[...] conceito que envolve: transparência na divulgação de informa-


ção para as partes interessadas na organização; responsabilidade
sobre a organização, suas ações, omissões e decisões e consequ-
ências; e conformidade com as políticas e práticas adotadas como
padrão pela empresa.

As organizações – seja por meio dos demonstrativos gerados pela


Contabilidade, seja por meio de outros relatórios sociais ou informes –
devem aos seus sócios ou acionistas, assim como à sociedade que as
sustenta adquirindo seus produtos ou serviços, informações que escla-
reçam como elas estão atuando e gerindo seus recursos. No caso de
recursos naturais, essa prestação de contas é absolutamente impres-
cindível, visto que não interessa só a um grupo restrito, mas a centenas
ou milhares de pessoas e, em alguns casos, ao mundo inteiro!

PARA PENSAR

Sem a relação de accountability/prestação de contas, a Contabilidade


conseguiria cumprir o seu objetivo?

4 Contabilidade Social e Ambiental


Após o entendimento do papel social da Contabilidade, constatando
que esta, no decorrer da história da humanidade, sempre acompanhou
a evolução da sociedade, e compreendendo que o cumprimento desse
papel está relacionado com o seu objetivo de gerar informações úteis
para todos os seus usuários, já é possível passar a estudar, mais espe-
cificamente, os fundamentos da Contabilidade Socioambiental.

28 Contabilidade Socioambiental
Neste tópico serão introduzidos os conceitos e as definições que
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norteiam o estudo da Contabilidade Ambiental para que, no Capítulo 7,


a sua aplicabilidade seja detalhada.

4.1 Conceitos e definições

A Contabilidade Social, também denominada Contabilidade Socioam­


biental, Balanço Social e Ambiental ou, ainda, Contabilidade Social e Am­
biental, é um ramo da Ciência Contábil que tem por objetivo produzir infor-
mações sobre os impactos sociais e ambientais resultantes da atuação
das empresas e seus reflexos no patrimônio, não só próprio, como também
no patrimônio que pertence a toda uma sociedade, representado por seus
recursos naturais e fundamentais à vida do ser humano. Não é incomum,
quando se usa a denominação Contabilidade Social, que esta seja confun-
dida com aquela que cuida das contas nacionais de um país, disciplina que
faz parte da área de Economia.

Assim como em trabalhos anteriores desta autora, a denominação


Contabilidade Social ou Socioambiental aqui empregada – e que englo-
ba tanto a Contabilidade Ambiental quanto o Balanço Social, a serem
estudados mais à frente – tem o objetivo didático de simplificar o enten-
dimento desse ramo da Contabilidade que, por ser relativamente novo,
ainda causa certa confusão no que se refere às suas denominações.

Nesse contexto, a Contabilidade Ambiental seria a divisão da Contabi­


lidade Socioambiental que cuida do registro e da evidenciação dos fatos re-
lacionados ao meio ambiente, e o Balanço Social, do registro e evidenciação
dos fatos que se relacionam mais diretamente às pessoas, à sociedade.

Figura 6 – Contabilidade Socioambiental

CONTABILIDADE
AMBIENTAL
CONTABILIDADE
SOCIOAMBIENTAL
BALANÇO
SOCIAL

A Contabilidade Socioambiental no Contexto das Ciências Contábeis 29


Tinoco e Kraemer (2006, p. 148) destacam que a Contabilidade Am­

Material para uso exclusivo de aluno matriculado em curso de Educação a Distância da Rede Senac EAD, da disciplina correspondente. Proibida a reprodução e o compartilhamento digital, sob as penas da Lei. © Editora Senac São Paulo.
biental trouxe algumas inovações que corroboram a geração de informa-
ções ambientais, até então não evidenciadas nas demonstrações contá-
beis: a definição de custos, despesas operacionais e passivos de caráter
ambiental; a forma de mensuração do passivo ambiental, principalmente
aqueles decorrentes de ativos de vida longa; e a utilização intensiva de
notas explicativas e de relatórios ambientais abrangentes, além do uso
de indicadores de desempenho específicos.

Quanto ao Balanço Social, trata-se de um relatório que congrega in-


formações quantitativas e qualitativas sobre o patrimônio e o desempe-
nho das entidades no que concerne ao valor, explícito ou implícito, por
elas agregado à sociedade onde se inserem e por quem são mantidas.
Configura uma relação de accountability das entidades com a socie-
dade em geral e, em particular, com a parte da sociedade com quem
mantém relacionamento direto, como sócios, acionistas, funcionários,
fornecedores e outros credores, clientes, governo, entre outros.

4.2 Legislação e normas contábeis

A legislação que rege o uso dos recursos naturais e a preservação do


meio ambiente, assim como a que se refere aos benefícios sociais aos
trabalhadores, é relativamente extensa, o mesmo não ocorrendo com
as normas contábeis que versam sobre tais assuntos.

No que concerne à Contabilidade Socioambiental, há que se ressal-


tar as disposições da Lei no 6.404, de 15 de dezembro de 1976, atualiza-
da pela Lei no 11.638, de 28 de dezembro de 2007, particularmente os
artigos 116 e 154, que ressaltam a responsabilidade social do acionista
controlador e do administrador; o artigo 176, que instituiu a obrigatorie-
dade da elaboração, pelas companhias abertas, da Demonstração do
Valor Adicionado; e o artigo 177, que determina que as demonstrações
financeiras das companhias abertas observarão as normas expedidas

30 Contabilidade Socioambiental
pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM) e que estas devem ser
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elaboradas em consonância com os padrões internacionais de conta-


bilidade, abrindo, no parágrafo sexto, a possibilidade de as companhias
fechadas observarem as mesmas normas expedidas para as compa-
nhias abertas. As disposições do artigo 177 vinculam a elaboração das
demonstrações financeiras às normas expedidas pela CVM e, desta for-
ma, o que ela determinar em relação às informações ambientais nas de-
monstrações financeiras deverá, por extensão, ser atendido pelas com-
panhias abertas, podendo as companhias fechadas fazê-lo por opção.

Dentre as normas expedidas pela CVM sobre informações ambien-


tais, destaca-se o Parecer de Orientação no 15, de 28 de dezembro de
1987, recomendando, desde aquela época, que fossem divulgadas no
Relatório de Administração das companhias abertas as informações
sobre a proteção do meio ambiente, descrevendo-se o objetivo dos in-
vestimentos efetuados e o montante aplicado. Outra norma da CVM,
importante no que tange a tornar obrigatória a divulgação de dados
ambientais pelas companhias abertas, é a Deliberação CVM no 594, de
15 de setembro de 2009. Essa deliberação aprova o Pronunciamento
Técnico CPC 25, que versa sobre provisões, ativos e passivos contin-
gentes, o que significa que deverão ser constituídas e divulgadas, obri-
gatoriamente, provisões e passivos contingentes decorrentes de danos
ambientais.

Além da aprovação do CPC 25, com a correspondente emissão da


norma NBCTG 25 (R1), de 01 de dezembro de 2014, o Conselho Federal
de Contabilidade (CFC) explicita na NBCT 15 – aprovada pela Resolução
CFC no 1003, de 19 de agosto de 2004 – procedimentos para evidencia-
ção de informações de natureza social e ambiental, com o objetivo de
demonstrar à sociedade a participação e a responsabilidade social da
entidade. Essa norma ainda está em vigor.

No que se refere à auditoria das informações socioambientais para


divulgação, o Instituto dos Auditores Independentes do Brasil (IBRACON)

A Contabilidade Socioambiental no Contexto das Ciências Contábeis 31


publicou o Comunicado Técnico CT 07/2012, baseado em normas inter-

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nacionais de contabilidade e auditoria.

No âmbito internacional, vários são os organismos que tratam de as-


suntos socioambientais, os quais serão evidenciados, oportunamente, nos
capítulos seguintes. Vale destacar, no entanto, o International Guidance
Document: Environmental Management Accounting, publicado em agosto
de 2005, pela International Federation of Accountants (IFAC, 2005), que é
um guia de suma importância para a Contabilidade Ambiental.

Considerações finais
Neste capítulo, foi possível entender o papel social da Contabilidade,
que, tendo por objeto de estudo o patrimônio das entidades, considera-
do como célula social e propulsor do desenvolvimento econômico, se
evidencia pela geração de informações úteis à gestão desses patrimô-
nios, contribuindo para que os benefícios por eles gerados alimentem o
progresso e o bem-estar da sociedade.

Constatou-se, por meio da revisão de sua trajetória histórica, que


a Contabilidade acompanha a evolução da sociedade, decorrendo daí a
existência e a importância da Contabilidade Socioambiental no contex-
to histórico atual, momento em que a sociedade despertou para uma
consciência de responsabilidade social que coloca o cuidado com o
meio ambiente como questão vital para o seu bem-estar e, até mesmo,
para a sua sobrevivência.

Gerando informações úteis à gestão socioambiental, a Contabilidade


cumpre o seu objetivo também nessa modalidade, e continua a atender
à sociedade em suas necessidades de controle patrimonial.

32 Contabilidade Socioambiental
Referências
Material para uso exclusivo de aluno matriculado em curso de Educação a Distância da Rede Senac EAD, da disciplina correspondente. Proibida a reprodução e o compartilhamento digital, sob as penas da Lei. © Editora Senac São Paulo.

BRASIL. Lei no 6.404, de 15 de dezembro de 1976. Dispõe sobre as socieda-


des por ações. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/LEIS/
L6404consol.htm>. Acesso em: 02 mar. 2016.

_____. Lei no 11.638, de 28 de dezembro de 2007. Altera e revoga dispositivos


da Lei no 6.404, de 15 de dezembro de 1976, e da Lei no 6.385, de 7 de de-
zembro de 1976, e estende às sociedades de grande porte disposições relati-
vas à elaboração e divulgação de demonstrações financeiras. Disponível em:
<http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2007-2010/2007/lei/l11638.htm>.
Acesso em: 02 mar. 2016.

CFC – CONSELHO FEDERAL DE CONTABILIDADE. Resolução no 1.003, de 19 de


agosto de 2004. Aprova a NBC T 15 – Informações de Natureza Social e Ambiental.
Disponível em: <http://www.portaldecontabilidade.com.br/nbc/res1003.htm>. Acesso
em: 02 mar. 2016.

CVM – COMISSÃO DE VALORES MOBILIÁRIOS. Parecer de Orientação CVM


no 15, de 28 de dezembro de 1987. Disponível em: <http://www.portaldecontabi-
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34 Contabilidade Socioambiental
Capítulo 2

Meio ambiente

No Capítulo 1, foi possível constatar que a Contabilidade Socioam­


biental se ocupa do patrimônio socioambiental das entidades, mas, por
extensão, também o faz no que se refere ao patrimônio socioambien-
tal da sociedade. Esse patrimônio resulta dos eventos que ocorrem no
meio ambiente e das ações que o afetam.

Assim, neste Capítulo 2, buscar-se-á entender o que é meio ambiente


e quais são os problemas que o atingem, a fim de se compreender os
seus impactos no patrimônio das entidades e no patrimônio natural da
humanidade. Estudando, ainda, o que é uma sociedade e a sua relação
com o meio em que vive, será possível compreender o que vem a ser
a responsabilidade social e ambiental e como esta vem se impondo à
sociedade atual.

35
Para a inserção dos recursos ambientais no âmbito da Contabilidade

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Socioambiental, se faz necessário atribuir valores a esses recursos, o
que remete à busca de métodos para a sua valoração ou mensuração,
assunto que também será abordado neste capítulo.

Para finalizá-lo, serão indicadas as principais iniciativas de proteção


ao meio ambiente por parte de organismos nacionais e internacionais,
bem como as políticas públicas brasileiras no mesmo sentido.

1 Meio ambiente: conceito e definição


Quando se pensa em meio ambiente, a primeira coisa que vem à men-
te é a natureza, representada pela fauna e flora, o clima, a poluição, en-
fim, aspectos individualizados dos elementos que sustentam a vida no
planeta. No entanto, o conceito de meio ambiente vai muito além desses
elementos que, isoladamente, não são capazes de exprimir o que ele sig-
nifica em sua plenitude. Ele representa, de forma simples e objetiva, o
meio onde a vida acontece, com toda a sua complexidade e magnitude.

Tinoco e Kraemer (2006, p. 34) definem meio ambiente como o “con-


junto de elementos bióticos (organismos vivos) e abióticos (energia so-
lar, solo, água e ar) que integram a camada da Terra chamada biosfera,
sustentáculo e lar dos seres vivos”.

Para o Conselho Nacional do Meio Ambiente (CONAMA, 2002), o


meio ambiente é o “conjunto de condições, leis, influência e interações
de ordem física, química, biológica, social, cultural e urbanística, que
permite, abriga e rege a vida em todas as suas formas”.

Qualquer que seja a definição adotada para meio ambiente, importa


entender que o homem depende dele para manter seu equilíbrio físi-
co, psicológico e social. O primeiro item da Declaração da Conferência
das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente Humano (Declaration of
United Nations Conference on the Human Environmental), realizada em

36 Contabilidade Socioambiental
Estocolmo, em 1972, descreve com propriedade essa relação integral
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do homem com o meio ambiente:

O homem é, ao mesmo tempo, criatura e moldador de seu ambien-


te, o que lhe dá sustento físico e a oportunidade de crescimento
intelectual, moral, social e espiritual. Na longa e tortuosa evolução
da raça humana neste planeta um estágio foi alcançado quando,
através da rápida aceleração da ciência e da tecnologia, o homem
adquiriu o poder de transformar seu ambiente de inúmeras ma-
neiras e em escala sem precedentes. Ambos os aspectos do am-
biente do homem, o natural e o artificial, são essenciais para o seu
bem-estar e para o gozo dos direitos humanos básicos, inclusive o
direito à própria vida. (UNEP, 1972)

O meio ambiente, todavia, não privilegia o homem como ser es-


pecial, este faz parte dele, nele se integra e de sua interação com ele
dependerá a harmonia com os seus demais elementos (seres vivos,
energia solar, solo, água e ar). Citando a Teoria Geral dos Sistemas de
Bertalanffy (1977), Tinoco e Kraemer (2006, p. 35) enfatizam que “tudo
está unido a tudo e que cada organismo não é um sistema estático
fechado ao mundo exterior, mas um processo de intercâmbio com o
meio circunvizinho”, o que significa que da interação entre os elementos
que compõem o meio ambiente dependerá o seu equilíbrio. Cabe ao
homem, como ser inteligente, cuidar para que suas ações não sejam
perniciosas a esse equilíbrio.

2 Meio ambiente: fonte de recursos


e receptor de resíduos
O meio ambiente pode ser visto como provedor de recursos para
o desenvolvimento da economia e, por consequência, do homem e da
sociedade, como também o receptor dos resíduos produzidos nesse
processo de desenvolvimento.

Meio ambiente 37
Figura 1 - Meio ambiente: fonte de recursos e receptor de resíduos

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RECURSOS FAB
RIC
A

ÇÃ
O
RECICLAGEM

CO
NS
UMO
RESÍDUOS

Como provedor, o meio ambiente sempre foi a fonte de recursos na-


turais utilizada pelo homem para produzir bens e serviços que satisfi ­
zessem às suas necessidades. Os recursos naturais, segundo Barbieri
(2011, p. 6), “envolvem elementos ou partes do meio ambiente físico e
biológico, como solo, plantas, animais, minerais e tudo o que possa ser
útil e acessível à produção da subsistência humana”.

Os recursos naturais são classifi cados como:

• renováveis: que não se alteram com o uso, como a energia solar,


eólica, etc.;

• renováveis, mas sujeitos a esgotamento, aumento ou diminui-


ção: que podem variar de acordo com o uso ou com a qualidade
ambiental, como o solo, a água, a vegetação, os animais, etc.;

38 Contabilidade Socioambiental
•• não renováveis: esgotáveis com o uso, porém, em alguns casos,
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recicláveis. Exemplos: combustíveis fósseis, minérios, etc.

Os bens e serviços produzidos pelo homem utilizando os recursos na-


turais não são integralmente consumidos. Como todo ser vivo, como cita
Barbieri (2011, p. 15), o “ser humano retira recursos do meio ambiente
para prover a sua subsistência e devolve as sobras”, isto é, os resíduos
que retornam ao meio ambiente, na forma de “poluição”, que é o problema
mais visível no que diz respeito à degradação ambiental, embora não seja
o único.

A poluição é representada pela presença de poluentes no meio am-


biente em qualquer de suas formas. Barbieri (2011, p. 35) define poluen-
tes como “qualquer forma de material ou energia que produz impactos
adversos ao meio ambiente físico, biológico e social”. Assim, a poluição
produzida pelo homem, em nível mundial, atinge o solo, a água, a at-
mosfera, provocando distúrbios nocivos para todo o ecossistema e não
só para a geração atual, mas, inclusive, para as gerações futuras.

Além da poluição, diversos são os problemas que afetam o meio am-


biente e que colocam em risco a sua capacidade de continuar provendo
recursos naturais em quantidade e com a qualidade necessária à manu-
tenção da qualidade de vida humana.

IMPORTANTE

Tudo o que é utilizado no processo produtivo tem origem, direta ou indi-


reta, nos recursos naturais ou depende deles para ser realizado (energia,
por exemplo). Até mesmo a prestação de serviços que exige somente a
interveniência do homem utilizando-se desse recurso natural (homem)
para se concretizar! E, de alguma forma, tais recursos, após utilizados,
voltarão para a natureza, total ou parcialmente, em algum momento!

Meio ambiente 39
3 Problemas ambientais e

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suas consequências
Como visto no tópico anterior, os recursos naturais mais importan-
tes, como a água, o solo, a vegetação e até mesmo os animais, embora
renováveis, podem ser aumentados, diminuídos ou esgotados, em fun-
ção da qualidade ambiental. Essa qualidade está cada vez mais com-
prometida, principalmente pela poluição causada pelo homem ou pelo
mau uso desses recursos.

O impacto da espécie humana sobre o meio ambiente tem sido


comparado por alguns cientistas às grandes catástrofes do pas-
sado geológico da Terra. A humanidade deve reconhecer que agre-
dir o meio ambiente põe em perigo a sobrevivência de sua própria
espécie, e pensar que o que está em jogo não é uma causa na-
cional ou regional, mas a existência da humanidade toda. É a vida
que está em jogo. Podemos conceber um ecossistema sem o ho-
mem, não podemos encontrar o homem sem algum ecossistema.
(TINOCO; KRAEMER, 2006, p. 35)

Grandes desastres ambientais vêm sendo registrados desde os anos


1930, com consequências que vão desde a disseminação de doenças
causadas por poluição atmosférica até os danos irreparáveis à natureza
e ao próprio homem, seja por sequelas imediatas ou futuras, deixadas
por doenças, seja até mesmo por mortes.

O maior desastre ambiental no Brasil foi registrado em novembro de


2015, na cidade de Mariana, em Minas Gerais, onde uma barragem se
rompeu e derramou 32 milhões de metros cúbicos de lama de rejeitos
de mineração no Rio Doce, destruindo toda a vida que havia no rio, cau-
sando mortes no distrito de Bento Rodrigues, onde várias casas foram
soterradas, e prejuízos econômicos e sociais à população ribeirinha, in-
clusive do estado do Espírito Santo, prejudicando, também, o abasteci-
mento de água em diversos munícipios vizinhos.

40 Contabilidade Socioambiental
Além dos problemas causados pelos desastres ambientais, provoca-
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dos direta ou indiretamente pelo homem, há que se registrar aqueles cau-


sados pelo consumo desenfreado de recursos para satisfazer às suas
necessidades, cada vez mais sofisticadas e intensificadas pelo cresci-
mento populacional. Entre esses problemas, destaca-se o uso intensivo
de combustíveis fósseis, de pesticidas e implementos agrícolas, a erosão
e o desgaste dos solos, a destruição da camada de ozônio pela emissão
de gases nocivos e o efeito estufa, a destruição de espécies e da biodiver-
sidade, a escassez da água e a poluição, já citada, entre outros.

Figura 2 – Problemas ambientais e suas consequências

Os problemas ambientais carecem de soluções corretivas e, sobre-


tudo, preventivas, que somente a mobilização de toda a sociedade, im-
buída de responsabilidade social, será capaz de prover. A ação conjun-
ta do indivíduo comum com seu grupo social e com o Poder Público
para o cumprimento de políticas de preservação socioambiental – num
compromisso moral e ético para com os seus semelhantes e todas as
demais formas de vida – é o único caminho que se mostra viável, não

Meio ambiente 41
só para a solução dos problemas ambientais, mas sobretudo para a

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preservação da espécie humana.

4 A sociedade e o meio ambiente


O conceito de “sociedade” recebe diferentes tratamentos de acor-
do com a área do conhecimento que o estuda (Sociologia, Filosofia,
Antropologia, Economia, Política, etc.). Considerando a sua complexi-
dade, e por não ser esse o foco deste trabalho, importa destacar que
sociedade pode ser entendida como um conjunto de seres que convi-
vem de forma organizada ou grupo de seres que vivem em colaboração
mútua e de forma gregária, entre as várias definições que lhe são dadas.
O sentido de coletividade, de comunidade, intrínseco à sociedade, é o
que deve ser explorado para entender as suas ações no meio ambiente.

Mathis (2004, p. 9) enfatiza a complexidade da descrição do que vem


a ser uma sociedade tomando-se por base as concepções da Sociologia
comum, mas aborda a teoria defendida por Luhmann1 que descreve a
sociedade como um sistema social que envolva a totalidade das comu-
nicações, contrapondo-se às citadas dificuldades. Num sistema social,
todos os seus membros se comunicam entre si, influenciam e são in-
fluenciados, construindo um todo, que reflete um objetivo comum. Esta é
a base da teoria de sistemas: a inter-relação entre os seus componentes.

Com essa visão da sociedade como um sistema social, fica mais fá-
cil estabelecer uma correlação entre a sociedade e o que se espera dela
no que se refere ao meio ambiente, sabendo-se que num sistema tudo
se inter-relaciona. Todas as ações dos membros de uma sociedade afe-
tam o meio ambiente, seja físico, seja emocional, e são por ele afetadas.
É uma relação de interdependência que constrói ou destrói.

1 Niklas Luhmann (1927-1998): sociólogo alemão, considerado um dos mais importantes representantes
da sociologia alemã.

42 Contabilidade Socioambiental
IMPORTANTE
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Atualmente, já se observa que o objetivo comum de proporcionar


qualidade de vida a todos os seres vivos, por intermédio de um meio
ambiente saudável e de relações sociais salutares, passou a fazer
parte do universo dos membros do que se convencionou chamar de
sociedade globalizada, haja vista a amplitude das relações entre os
diversos povos em função das tecnologias de informação e comuni-
cação. É o “sistema social” se ampliando e assumindo, mesmo que
de forma inicial, a responsabilidade que lhe cabe na preservação da
saúde do meio ambiente e dos seres que o habitam.

5 Responsabilidade social
sobre o meio ambiente
Assim como o conceito de sociedade, o conceito de responsabili-
dade social abrange diferentes conotações, dependendo da área do
conhecimento que o estuda. É um termo geralmente utilizado para re-
ferir-se à responsabilidade das organizações perante a sociedade. Por
ora, o que se pretende é abordar a responsabilidade social no âmbito
do indivíduo, elemento componente de uma sociedade que, depois de
chamá-la para si, tem condições de extrapolar tal responsabilidade para
o âmbito empresarial.

Se consultados mais de um dicionário da Língua Portuguesa para


compreensão do vocábulo “responsabilidade”, serão obtidas definições
que convergem para o entendimento de obrigação para com alguém,
alguma coisa, alguma causa ou, ainda, o dever de arcar com as conse-
quências das próprias ações ou das de outras pessoas. Por outro lado,
a palavra social vem de sociedade, ou seja, resulta da sociedade ou da
relação entre os indivíduos que a constituem.

Meio ambiente 43
IMPORTANTE

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Pode-se concluir que responsabilidade social ou socioambiental, no âm-
bito do indivíduo, é a obrigação que este tem para com a sociedade em
que se insere, arcando com as consequências de suas ações no que se re-
fere ao seu relacionamento com os demais membros dessa sociedade. A
responsabilidade social abrange, portanto, todas as ações dos indivíduos.

No que se refere ao meio ambiente, as ações do homem, mais do que


nunca, têm caráter social, pois afetam a todos o que nele estão inseridos
e, desta forma, a responsabilidade social sobre o meio ambiente se re-
veste de importância significativa, em níveis que atingem a todo o mundo
de hoje e do futuro. Tinoco e Kraemer (2006, p. 45) ressaltam que “o im-
pacto dos danos ambientais nas gerações atuais e seus reflexos para as
futuras fizeram com que a questão ambiental atravessasse fronteiras, se
tornasse globalizada”.

Se o surgimento da responsabilidade social, no que se refere às orga-


nizações, pode ser cronologicamente identificado, isso não ocorre com
relação ao indivíduo, posto tratar-se de um sentimento que resulta de
todo um processo evolutivo e educacional complexo. A discussão do
assunto no âmbito das organizações, no entanto, pode ter um efeito
positivo no desenvolvimento desse sentimento.

O despertar da consciência das próprias responsabilidades perante o


meio em que vive e perante seus semelhantes, e que ainda carece de in-
centivo, é condição fundamental para a construção da qualidade de vida
que se espera para o presente e para o futuro.

6 Valor econômico do meio ambiente


O valor do meio ambiente pode ser tratado sob dois aspectos: o da
sua valoração/mensuração do seu valor econômico e o da sua inserção

44 Contabilidade Socioambiental
como parte essencial dos processos produtivos e, neste caso, visto sob
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o prisma das teorias econômicas praticadas na Economia Ambiental.


Tratemos de cada um desses aspectos.

6.1 Mensuração do valor econômico do meio ambiente

Na Contabilidade só é possível registrar fatos contábeis mensuráveis


em moeda, ou seja, eventos aos quais se possa atribuir um valor econô-
mico passível de registro. Entretanto, a mensuração de valor ou valora-
ção de alguns eventos ligados ao meio ambiente é bastante complexa.

Ferreira (2011, p. 16) enfatiza que “em alguns casos é preciso dar
valor monetário a bens ou serviços que não têm preço estabelecido
ou valor contratado, e isso traz incertezas às quais os contadores não
estão acostumados”. É a esse processo de atribuição de valor mone-
tário, a bens ou serviços cujos preços não estão disponíveis no merca-
do, que se denomina valoração.

Essa tarefa de atribuição de valor econômico a um recurso ambiental,


de acordo com Ferreira (2011, p. 19), “baseia-se em determinar quanto me-
lhor ou pior estará o bem-estar dos indivíduos quando ocorrer mudanças
na quantidade e na qualidade dos bens e serviços ambientais, tanto no uso
quanto no não uso”.

A Economia Ambiental, segundo Ferreira (2011, p. 19), trata desses pro-


cessos de valoração por diferentes métodos, já que são variadas as ocor-
rências. Entre essas ocorrências, pode-se citar que, em algumas situações,
os benefícios de uma ação são percebidos, mas nem sempre mensurá-
veis; em outras os benefícios são concretos, mas os respectivos preços
são restritos ao uso local de uma região, não podendo ser generalizados e
utilizados como parâmetros.

A atribuição de valor econômico de um recurso ambiental, de acordo


com Ferreira (2011, p. 18), “é resultado da observação de todos os seus
atributos”, que podem ou não estar associados a um uso. No caso de

Meio ambiente 45
estar associado a um uso, tal observação ainda considera se o uso é re-

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alizado pelas gerações atuais ou futuras, levando em conta a satisfação
dos seus consumidores.

Citando Motta (1998), Ferreira (2011, p. 18) indica uma equação para
cálculo do Valor Econômico do Recurso Ambiental (VERA), esclarecendo
que tal valor envolve o valor de uso e de não uso, sendo que o valor de uso
é segregado em direto, indireto e de opção.

VERA = VU + VNU
VERA = (VUD + VUI + VO) + VE

VU VNU

Onde:

•• Valor de Uso (VU): é o valor atribuído a um recurso ambiental


pelo seu uso presente ou seu potencial uso futuro. Ele se divide
em Valor de Uso Direito (VUD), Valor de Uso Indireto (VUI) e Valor
de Opção (VO).

•• Valor de Uso Direto (VUD): é o valor atribuído a um recurso am-


biental em função do bem-estar que ele proporciona por meio do
seu uso direto.

•• Valor de Uso Indireto (VUI): é o valor atribuído a um recurso am-


biental quando o benefício do seu uso deriva de funções ecos-
sistêmicas (benefícios relevantes gerados pelos ecossistemas2).

2 Ecossistema: sistema onde se vive. Conjunto de todos os seres vivos somados a fatores externos como
a água, o sol, o vento, o solo, etc.

46 Contabilidade Socioambiental
•• Valor de Opção (VO): é o valor que os indivíduos estão dispostos
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a pagar para manter a opção de um dia fazer uso, de forma direta


ou indireta, de determinado recurso ambiental. Ou seja, são valo-
res a serem consumidos, direta ou indiretamente, no futuro.

•• Valor de Não Uso (VNU): é o valor atribuído a um recurso ambien-


tal, dissociado do seu uso, embora represente um consumo am-
biental. Deriva de uma posição moral, cultural, ética ou altruística
em relação aos direitos de existência de espécies não humanas
ou de preservação de outras riquezas naturais.

A valoração dos recursos ambientais segue métodos que ainda têm


limitações, pois dependem de hipóteses e de fatores relacionados ao
comportamento dos indivíduos consultados no processo de mensura-
ção. Entre os métodos mais conhecidos, Ferreira (2011, p. 20-23), cita: o
método direto, o método indireto, o método do preço líquido e o método
de custo de uso, a seguir resumidos:

Quadro 1 – Métodos de valoração dos recursos ambientais

MÉTODO CARACTERÍSTICAS

Atribui valor aos impactos ambientais, utilizando um valor de mercado


para os efeitos que mudam a qualidade ou a quantidade de produtos que
Direto
são trocados no mercado. Exemplos: tratamento da água, cujo valor pode
ser obtido junto às empresas que prestam tal serviço.

A atribuição de valor é feita sem o uso do valor de mercado para o


impacto ambiental ou seu efeito direto, por não existirem parâmetros para
comparação. Exemplo: aterro sanitário diminui o valor de uma propriedade,
cuja perda não tem valor de mercado estabelecido ou estimado.
Na aplicação desse método, podem-se utilizar as seguintes técnicas:
• Preço hedônico: influenciado pelos atributos do entorno de uma
Indireto
propriedade, adicionados ao preço da propriedade em si.
• Custo de viagem: quando se conhece o uso de determinada área para
fins recreativos, estima-se quanto as pessoas gastariam para visitá-la.
• Avaliação contingente: preço atribuído com base em pesquisa para
estimar o quanto determinada área pode valer, de acordo com quanto
possíveis interessados estariam dispostos a pagar.

(cont.)

Meio ambiente 47
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MÉTODO CARACTERÍSTICAS

É dado pela multiplicação da “variação física do estoque não renovável pelo


preço de mercado do recurso líquido de custos de produção, acrescentando
Preço líquido (aplicável a
um fator de correção referente às variações dos preços e dos estoques ao
recursos exauríveis)
longo do período observado” (MOTTA, 1995 apud FERREIRA, 2011, p. 22).
Exemplo: descoberta de nova jazida de petróleo ou minério.

Parte da premissa de que se pode propiciar algum tipo de benefício às


gerações futuras como compensação à extinção do recurso natural no
Custo de uso (aplicável a presente. “Postula-se que parte da receita de exploração do recurso
recursos exauríveis 3) natural pode ser reinvestida para garantir fluxos de rendimentos
perpétuos, quando o estoque desse capital natural estiver esgotado.”
(MOTTA, 1995 apud FERREIRA, 2011, p.23)

Fonte: Ferreira (2011, p. 20-23)3

6.2 Economia Ambiental, Economia Verde


ou Nova Economia

Os recursos naturais constituem-se, direta ou indiretamente, de in-


sumos para o processo produtivo. Seja como matéria-prima, seja como
gerador de energia, tais insumos foram utilizados indiscriminadamen-
te durante séculos na promoção do desenvolvimento econômico e do
progresso humano. No entanto, esse mesmo progresso que viabiliza a
dilapidação de tais recursos para satisfazer às necessidades cada vez
mais sofisticadas do homem tem despertado a consciência de que os
recursos naturais também podem se esgotar de forma definitiva ou di-
minuir a ponto de não mais o atenderem.

Segundo Pereira, Silva e Carbonari (2011, p. 107) “para alguns eco-


nomistas, crescimento econômico é a tradução mais perfeita de pros-
peridade”, o que leva a inferir que um país que produz muita riqueza – e
consequentemente maior renda per capita – daria aos seus cidadãos

3 Recursos exauríveis: recursos naturais que não serão renovados, diminuirão ou se extinguirão.

48 Contabilidade Socioambiental
condições privilegiadas de fazer as melhores escolhas. No entanto, no
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mundo globalizado, há mostras cabais de que não é bem assim, basta


analisar as diversas crises econômicas que grandes potências mun-
diais vêm enfrentando nas últimas décadas.

Em termos de impactos ambientais, nem mesmo as grandes potên-


cias, desenvolvidas economicamente, estão a salvo. Pelo contrário, são
elas que, pelo seu alto consumo, causam maiores agressões ao meio
ambiente. Tais impactos atingem, também, outras nações menos de-
senvolvidas, e cria-se aí um ciclo de prejuízos, onde todos perdem.

O modelo econômico predominante desde a Revolução Industrial


(século XVIII) baseia-se na exploração dos recursos naturais de forma
indiscriminada, priorizando o aumento da produção e do consumo, fa-
tores estes intensificados pelo aumento populacional.

É nesse contexto de modelo econômico – que incentiva o consumo,


que degrada o meio ambiente e que já não atende à consciência do ho-
mem que pretende legar condições de vida saudável às gerações futuras
– que surge a Economia Ambiental, Economia Verde ou Nova Economia.

No glossário publicado por Pereira, Silva e Carbonari (2011, p. 109), es-


tes definem a Economia Verde como:

[...] aquela em que a produção, a distribuição e o consumo de bens


e serviços se dão por meio de processos em que os recursos não
são utilizados mais rapidamente do que a capacidade que a natu-
reza tem de renová-los. Por isso, pode ser chamada também de
economia sustentável. A Nova Economia também pode ser defini-
da como aquela que promove um equilíbrio entre a vitalidade am-
biental, social e econômica, apoiada na inovação que dê origem a
processos de produção que priorizem a sustentabilidade em todas
as etapas, desde o empréstimo de recursos naturais até a recicla-
gem de bens já consumidos.

A transição para esse novo modelo econômico não é simples,


embora muitos organismos mundiais já estejam engajados nessa

Meio ambiente 49
mudança, além dos diversos movimentos por parte da sociedade e

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dos governos. Na realidade, o futuro da humanidade dependerá da
adesão a esse novo modelo.

7 Iniciativas de proteção ao meio ambiente


Como já citado, vários são os organismos mundiais que incentivam e
organizam eventos voltados para o estímulo a iniciativas de proteção ao
meio ambiente, bem como os movimentos sociais que se mobilizam nes-
se sentido, provocando reações positivas por parte das empresas. Estas,
por diversas razões, também têm desenvolvido políticas de atuação que
caminham para a adoção de medidas de proteção ao meio ambiente e
incentivo ao desenvolvimento humano.

Desde meados do século XX registram-se eventos dignos de nota,


conforme o quadro a seguir:

Quadro 2 – Eventos ambientais

ANO EVENTO OBJETIVO

Conferência Científica das Nações Unidas


sobre a Conservação e Utilização de Gestão dos recursos naturais
1949
Recursos Naturais (UNSCCUR) (Nova Iorque após a Segunda Guerra Mundial.
– EUA)

Observação da atmosfera
Ano Geofísico Internacional (patrocínio da
1957/1958 e estudo de áreas remotas
UNESCO)
(Antártida, por exemplo).

Produtividade biológica e
1964/1974 Programa Biológico Internacional
bem‑estar humano.

Conferência das Nações Unidas sobre Relações entre o comércio


1964 Comércio e Desenvolvimento (UNCTAD) e a industrialização;
(Genebra – Suíça) desenvolvimento econômico.

Uso pacífico do
1961 Tratado Antártico
Continente Branco.

(cont.)

50 Contabilidade Socioambiental
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ANO EVENTO OBJETIVO

Simpósio das Nações Unidas sobre a Relação entre a contaminação


1970 Desorganização do Meio Ambiente ambiental e a natureza do sistema
(Tóquio – Japão) socioeconômico vigente.

Discussão sobre medidas


Simpósio sobre Problemas relativos ao
1971 disciplinares visando
Meio Ambiente (Praga – Tchecoslováquia)
o controle ambiental .

Conferência das Nações Unidas sobre o


Meio ambiente e
1972 Meio Ambiente Humano (ONU)
desenvolvimento econômico.
(Estocolmo – Suécia)

1973 Conferência sobre os Direitos do Mar Recursos dos fundos marinhos.

I Conferência das Nações Unidas sobre a


1977 Problemas relacionados à água.
Água (Mar del Plata – Argentina)

Decênio Internacional do Fornecimento de Melhoria dos serviços de água


1980/1990
Água Potável e Saneamento (ONU) potável e de saneamento básico.

Rede Pan-americana de Informação em Saúde Disseminar informações sobre


1980/1990
Ambiental (América Latina e Caribe) saúde ambiental.

Comissão Mundial sobre o Meio Ambiente Estabelecida em decorrência da


1983
e Desenvolvimento (ONU) Conferência de Estocolmo (1972).

Conferência Internacional sobre Água e Meio Recursos hídricos


1992
Ambiente (ONU) (Dublin – Irlanda) e meio ambiente.

Conferência das Nações Unidas sobre o


Meio ambiente e
1992 Meio Ambiente e Desenvolvimento – Rio 92
desenvolvimento sustentável.
ou Eco 92 (Rio de Janeiro)

Cúpula Mundial sobre


2002 o Desenvolvimento Sustentável Desenvolvimento sustentável.
(Johanesburgo – África do Sul) – Rio+10

Conferência das Nações Unidas sobre o


2012 Desenvolvimento sustentável.
Desenvolvimento Sustentável – Rio+20

Dos eventos citados, cabe ressaltar a Conferência das Nações Unidas


sobre o Meio Ambiente e Desenvolvimento (Rio 92) pela repercussão da
Agenda 21, documento resultante dessa conferência internacional e que

Meio ambiente 51
teve como propósito principal estabelecer a importância do comprometi-

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mento de cada país, nos âmbitos público e privado, em cooperar no estu-
do e na proposta de soluções para os problemas socioambientais.

PARA SABER MAIS

A Agenda 21 é um documento de importância ímpar para o processo


de proteção ao meio ambiente e desenvolvimento sustentável. Depois
dela, e em razão do que nela foi estabelecido, muitas foram as ações
de estímulo e promoção de medidas destinadas a esse fim. Saiba mais
sobre a Agenda 21 consultando o site do Ministério do Meio Ambiente.

Cabe ainda evidenciar, pela sua importância, as Conferências das


Partes (COPs). Trata-se de um fórum internacional para discussão e
negociação das regras e políticas para implementação do que foi esta-
belecido pela Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre a Mudança
do Clima, vigente desde 1994. O fórum se reúne anualmente em diferen-
tes países do mundo para revisar as normas da Convenção e avaliar o
seu cumprimento. Da COP 3, realizada em 1997, na cidade de Kyoto, no
Japão, resultou o Protocolo de Kyoto, um dos marcos mais importantes
para o enfrentamento da questão de mudanças climáticas pelas nações.

8 Políticas públicas de proteção ambiental


As políticas públicas de proteção ambiental foram instituídas em
função da necessidade de gestão ambiental pelo Poder Público que, pe-
las circunstâncias, foi o primeiro a envidar ações nesse sentido.

Barbieri (2011, p. 65) informa que, “por um longo período, as inicia-


tivas dos governos eram quase que exclusivamente de caráter cor-
retivo”, após a ocorrência de um problema ambiental. Entretanto, a
partir da década de 1970, vários países começaram a criar políticas

52 Contabilidade Socioambiental
públicas para tratamento das questões ambientais também como
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medidas preventivas.

O Poder Público – responsável pela gestão ambiental nos âmbitos fe-


deral, estadual e municipal – utiliza vários instrumentos de políticas públi-
cas para evitar problemas ambientais. Tais instrumentos, de acordo com
Barbieri (2011, p. 65), podem ser explícitos, quando criados para alcançar
efeitos ambientais específicos, ou implícitos, quando alcançam tais efei-
tos de forma indireta, como uma lei que organiza o trânsito e que, indireta-
mente, estará contribuindo para uma menor poluição do ar, por exemplo.

Os instrumentos explícitos de políticas públicas são classificados


por Barbieri (2011) em:

•• instrumentos de comando e controle: regulam as ações dos indi-


víduos e organizações, permitindo o exercício do poder de polícia
por meio de proibições, restrições e imposição de obrigações;

•• instrumentos fiscais ou econômicos: utilizam medidas que re-


presentem benefícios ou custos adicionais para as pessoas ou
organizações;

•• outros instrumentos: apoio ao desenvolvimento científico e tec-


nológico, educação ambiental, unidades de conservação e gera-
ção de informações ao público em geral, entre outros.

Em nível nacional, a política pública ambiental brasileira tem suas


raízes fragilmente cultivadas a partir de atos isolados ocorridos desde o
Brasil colonial e que não tinham finalidade ambiental, propriamente dita,
mas acabaram contribuindo para a sua proteção, como a construção
do Jardim Botânico em 1810, por exemplo. A partir da década de 1930,
passa por legislações importantes, porém, só por meio da Lei no 6.938,
de 31 de agosto de 1981, é que se estabeleceu uma Política Nacional
de Meio Ambiente. Destacam-se, ainda, as disposições da Constituição
Federal de 1988, que estabeleceu a defesa do meio ambiente e incor-
porou o conceito de desenvolvimento sustentável e as leis que vieram

Meio ambiente 53
posteriormente, como consequência das disposições constitucionais.

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Entre essas leis, vale mencionar a Lei de Crimes Ambientais, Lei no 9.605,
de 12 de fevereiro de 1998.

PARA PENSAR

A sociedade brasileira está preparada para exercer o seu papel no que


tange à preservação ambiental e ao desenvolvimento social, sem a ne-
cessidade de medidas coercitivas para o cumprimento da Política Na-
cional de Meio Ambiente?

Considerações finais
Para o estudo da Contabilidade Socioambiental, é preciso conhecer
o componente do patrimônio objeto desse estudo, que é o meio am-
biente: os seus problemas, a sua valoração e o que é feito em termos
globais para preservá-lo e, por consequência, manter ou maximizar o
seu desempenho.

Assim, neste Capítulo 2, buscou-se entender o que o termo “meio


ambiente” significa e o seu papel de provedor de recursos naturais para
a economia e, também, de receptor dos inevitáveis resíduos gerados
após a produção e o consumo dos produtos e serviços. Desse proces-
so, foi possível constatar a ocorrência de problemas ambientais e suas
consequências, bem como o comportamento da sociedade diante das
questões ambientais e o surgimento da responsabilidade dos indivídu-
os em nível social e ambiental.

Como item imprescindível para o registro contábil dos recursos am-


bientais, estudou-se também, neste capítulo, os métodos mais utiliza-
dos para mensuração ou valoração desses recursos.

54 Contabilidade Socioambiental
Foram abordadas, ainda, as principais iniciativas de proteção do
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meio ambiente por parte de organismos nacionais e internacionais, bem


como as políticas públicas e seus instrumentos, no âmbito da Política
Nacional de Meio Ambiente atual.

Cumprido o objetivo inicial proposto, pode-se evoluir para o estudo,


no Capítulo 3, das disposições legais aplicáveis aos atos e fatos que
envolvem o meio ambiente.

Referências
BARBIERI, José Carlos. Gestão ambiental empresarial. 3. ed. São Paulo:
Saraiva, 2011.

CONAMA – CONSELHO NACIONAL DO MEIO AMBIENTE. Resolução no 306, de


5 de julho de 2002. Disponível em: <http://www.mma.gov.br/port/conama/res/
res02/res30602.html>. Acesso em: 09 mar. 2016.

FERREIRA, Aracéli Cristina de Sousa. Contabilidade Ambiental: uma informação


para o desenvolvimento sustentável. 3. ed. São Paulo: Atlas, 2011.

MATHIS, Armin. A sociedade na teoria dos sistemas de Niklas Luhmann.


Presença – Revista de Educação, Cultura e Meio Ambiente, Porto Velho, v. 8,
n. 28, p. 5-23, maio 2004. Disponível em: <http://www.revistapresenca.unir.br/
artigos_presenca/presenca28_completa.pdf>. Acesso em: 29 fev. 2016.

PEREIRA, Adriana Camargo; SILVA, Gibson Zucca da Silva; CARBONARI, Maria


Elisa E. Sustentabilidade, responsabilidade social e meio ambiente. São Paulo:
Saraiva, 2011.

TINOCO, João Eduardo Prudêncio; KRAEMER, Maria Elisabeth Pereira.


Contabilidade e gestão ambiental. São Paulo: Atlas, 2006.

UNEP – UNITED NATIONS ENVIRONMENTAL PROGRAMME. Declaration of


United Nations Conference on the Human Environmental. Stockholm (Sweden),
June, 1972. Disponível em: <http://www.unep.org/Documents.Multilingual/
Default.asp?DocumentID=97&ArticleID=1503&l=en>. Acesso em: 08 mar. 2016.

Meio ambiente 55
56
Capítulo 3
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Noções de
Direito Ambiental

A Contabilidade tem estreita relação com o Direito, na medida em


que a geração das informações contábeis requer conhecimento atua-
lizado para interpretar e colocar em prática a legislação que lhes diz
respeito. Assim é que, atualmente – além do convívio constante com a
legislação societária e tributária, entre outras – a Contabilidade também
se volta para o estudo da legislação ambiental, tratada no âmbito do
Direito Ambiental, para gerar informações socioambientais de qualidade
e com a confiabilidade que se espera da Contabilidade Socioambiental.

Por essa razão, neste capítulo, serão abordados os fundamentos de


Direito Ambiental, desde a compreensão dos direitos ambientais como
direitos que transcendem o individual, a abordagem constitucional de
proteção ao meio ambiente e a responsabilização pelos danos a ele

57
causados, entendendo o que pode ser considerado como “bens am-

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bientais” e a quem pertencem esses bens.

Como profissionais da Contabilidade, conhecer minimamente a le-


gislação que rege a gestão do meio ambiente é condição para a com-
preensão dos mecanismos para registro e compilação das informações
contábeis socioambientais. Como cidadãos, o conhecimento dos direi-
tos e das obrigações para com o meio ambiente é fundamental para a
sua preservação e o próprio bem-estar.

1 Direitos difusos e direitos coletivos


Os direitos, garantias e obrigações dos indivíduos são estabelecidos
por leis. Em termos sociais, tal afirmativa é verdadeira e não suscita
dúvidas. Entretanto, quando se pensa em meio ambiente, quem pode
ser responsabilizado pelos prejuízos a ele causados? De quem é a obri-
gação de cuidar dele? Para responder a essas e a outras questões, é
necessário recorrer a alguns preceitos básicos do Direito.

Fiorillo (2014, p. 37) esclarece que o “direito positivo1 sempre foi


observado com base nos conflitos de direito individual”, mas, após a
Segunda Guerra Mundial, emergiram temas que diziam respeito às ne-
cessidades de uma coletividade e que não poderiam ser analisados
num contexto individualizado, mas coletivo. Tais temas envolviam direi-
tos que estavam além dos direitos individuais, caracterizando-se “direi-
tos metaindividuais”.

Um exemplo de direito metaindividual ocorre quando se observa uma


“ação popular”, em que um autor ingressa com uma ação na justiça para
colocar em discussão um conflito que atinge a uma coletividade. Esse

1 Direito positivo: conjunto de princípios e regras que regem a vida de um povo em determinada época.

58 Contabilidade Socioambiental
direito é garantido pela Lei de Ação Popular – Lei no 4.717, de 29 de
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junho de 1965.

Os direitos metaindividuais, no entanto, somente foram definidos


pela Lei no 8.078, de 11 de setembro de 1990 (Código de Defesa do
Consumidor), principalmente em decorrência das disposições constitu-
cionais (art. 225 da Constituição Federal). De acordo com Fiorillo (2014,
p. 40), “consagrou a existência de um bem que não é público nem, tam-
pouco, particular, mas sim de uso comum do povo” – o bem ambiental.
São direitos metaindividuais, de acordo com a referida lei, os direitos
difusos, coletivos e individuais homogêneos.

1.1 Direitos difusos

No seu artigo 81, parágrafo único, inciso I, Lei no 8.078 estabelece


quando será admitido o exercício de uma defesa coletiva, determinando
que esta ocorrerá quando se tratar de direitos difusos. Ao mesmo tempo,
esclarece que serão entendidos como direitos difusos aqueles que são
transindividuais, de natureza indivisível e de que sejam titulares pessoas
indeterminadas e ligadas por circunstâncias de fato (BRASIL, 1990).

Conforme explica Fiorillo (2014, p. 41) os direitos difusos são trans­


individuais quando “transcendem o indivíduo” e, portanto, ultrapassam a
esfera de direitos e obrigações individuais. Tais direitos são indivisíveis,
ou seja, não podem ser divididos (exemplo: “ar atmosférico”).

Os titulares dos direitos difusos são pessoas indeterminadas e liga-


das por circunstâncias de fato, ou seja, em função de um fato específi-
co, como uma atmosfera poluída, por exemplo; pessoas indeterminadas
são prejudicadas e estão ligadas pelas circunstâncias que, no exemplo
dado, é a poluição atmosférica.

Noções de Direito Ambiental 59


1.2 Direitos coletivos no sentido estrito

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Com relação aos direitos coletivos, a mesma lei (art. 81, parágrafo
único, inciso II) esclarece que esses serão transindividuais, de natureza
indivisível e seu titular será um “grupo, categoria ou classe de pessoas li-
gadas entre si ou com a parte contrária por uma relação jurídica de base”.

Os conceitos de transindividual e de indivisível são os mesmos já co-


mentados e aplicáveis aos direitos difusos. Os titulares dos direitos cole-
tivos, entretanto, diferentemente do observado nos direitos difusos, são
determináveis. Fiorillo (2014, p. 45) enfatiza que “ainda que num primeiro
momento não seja possível determinar todos os titulares, por conta da
natureza do direito coletivo, esses titulares, que estão ligados por uma
relação jurídica entre si ou com a parte contrária, são identificáveis”.

1.3 Direitos individuais homogêneos


Sobre os direitos individuais homogêneos, citados como direitos me-
taindividuais, não há menção direta na lei em questão. Entretanto, Fiorillo
(2014, p. 45) conclui que “se trata de direitos individuais, cuja origem de-
corre de uma mesma causa”.

Quadro 1 – Comparativo entre direitos difusos, coletivos e individuais homogêneos

INDIVIDUAIS
DIFUSOS COLETIVOS
HOMOGÊNEOS

Individuais, cuja
Transindividuais e Transindividuais e
Direitos origem decorre de uma
indivisíveis. indivisíveis.
mesma causa.

Pessoas Determináveis. Grupo,


indeterminadas categoria ou classe de
Titulares e ligadas por pessoas ligadas entre si ou Indivíduos.
circunstâncias de com a parte contrária por uma
fato. relação jurídica de base.

Compradores de
Atmosfera Aumento ilegal de
Exemplos mercadorias de um lote
poluída. mensalidades escolares.
com o mesmo defeito.

60 Contabilidade Socioambiental
Para efeito do Direito Ambiental, portanto, haja vista a amplitude e o ca-
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ráter coletivo dos impactos socioambientais, os direitos objetos de defesa


são os metaindividuais, ou seja, os difusos, os coletivos e os homogêneos.

2 Constituição Federal e Direito Ambiental


Como já citado no tópico anterior, a Constituição Federal dedica seu
artigo 225 a estabelecer, com a sua força de lei magna, os direitos e
deveres de caráter ambiental. Em termos de legislação, a importância
desse artigo se junta à da Lei no 6.938, de 31 de agosto de 1981 (Código
Ambiental), para consolidar e fundamentar o Direito Ambiental.

PARA SABER MAIS

Pela sua importância, vale a pena conhecer na íntegra o artigo 225 da


Constituição Federativa do Brasil de 1988. O documento está disponível
no portal da Presidência da República.

Antunes (2000) apud Modé (2007, p. 9) define Direito Ambiental da


seguinte forma:

[...] Direito Ambiental pode ser definido como um direito que se des-
dobra em três vertentes fundamentais, que são constituídas pelo
direito ao meio ambiente, direito sobre o meio ambiente e direito do
meio ambiente. Tais vertentes existem, na medida em que o Direito
Ambiental é um direito humano fundamental que cumpre a função
de integrar os direitos à saudável qualidade de vida, ao desenvol-
vimento econômico e à proteção dos recursos naturais. Mais do
que um Direito autônomo, o Direito Ambiental é uma concepção
de aplicação da ordem jurídica que penetra transversalmente, em
todos os ramos do Direito. O Direito Ambiental, portanto, tem uma
dimensão humana, uma dimensão ecológica e uma dimensão eco-
nômica que se devem harmonizar sob o conceito de desenvolvi-
mento sustentável.

Noções de Direito Ambiental 61


Para o alcance de seus objetivos, Direito Ambiental faz uso de diver-

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sas legislações, além daquelas já citadas.

Em termos de legislação, muitas antecederam a Constituição Federal


de 1988, conforme indicam Sarlet, Machado e Fenterseifer (2015, p. 27-30).
Esses autores a denominam como a fase legislativa da “constitucionaliza-
ção” da proteção ambiental, pela sua relação direta com as inovadoras dis-
posições constitucionais, conforme a seguir:

•• Constituição Federal de 1988 (art. 5o, LXXIII) – ampliação do ob-


jeto da ação popular e a consagração da ação popular ambiental.

•• Constituição Federal de 1988 (art. 225) – consagração constitu-


cional da proteção do ambiente como objetivo e dever do Estado
e como direito-dever fundamental de titularidade do indivíduo e
da coletividade.

•• Lei no 7.735/89 – criação do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente


e dos Recursos Renováveis (IBAMA).

•• Lei no 7.802/89 – Lei sobre agrotóxicos: o combate à poluição


química.

•• Lei no 8.078/90 – Código de Defesa do Consumidor: o fortale-


cimento (e maior grau de sistematização) do Direito Processual
Coletivo brasileiro e seus reflexos na legislação ambiental.

•• Lei no 8.080/90 – Lei do Sistema Único de Saúde (SUS): a tutela e


promoção da “sadia qualidade de vida”.

•• Lei no 9.433/97 – Lei da Política Nacional de Recursos Hídricos: a


gestão pública democrática dos recursos hídricos.

•• Lei no 9.605/98 – Lei dos Crimes e Infrações Administrativas


Ambientais: a “criminalização” e repressão estatal às condutas
lesivas ou potencialmente lesivas ao meio ambiente.

62 Contabilidade Socioambiental
•• Lei no 9.795/99 – Lei da Política Nacional de Educação Ambiental:
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o papel do Estado e da sociedade na promoção da consciência


ecológica.

•• Lei no 9.985/00 – Lei do Sistema Nacional de Unidades de


Conservação da Natureza: a sistematização do regime jurídico
das áreas ambientais especialmente protegidas.

•• Lei no 10.257/01 – Estatuto da Cidade: proteção do ambiente ur-


bano rumo às “cidades sustentáveis”.

•• Lei no 10.406/02 – Novo Código Civil (art. 1.228 § 1o): Consagração da


“função ecológica” da propriedade (e da posse).

•• Lei no 10.650/03 – lei sobre o acesso público aos dados e infor-


mações existentes no órgãos e entidades integrantes do Sistema
Nacional de Meio Ambiente (Sisnama).

•• Lei no 11.105/05 – Lei da Biossegurança: consagração expressa


do princípio da precaução na legislação ambiental brasileira.

•• Lei no 11.284/06 – Lei do Serviço Florestal Brasileiro: gestão das


florestas públicas para a produção sustentável.

•• Lei no 11.428/06 – Lei da Mata Atlântica: proteção das últimas áreas


remanescentes do bioma da Mata Atlântica no território nacional.

•• Lei no 11.445/07 – Lei da Política Nacional de Saneamento Básico:


a abordagem socioambiental da tutela ecológica.

•• Lei no 11.516/07 – criação do Instituto Chico Mendes de Conservação


da Biodiversidade (ICMBio).

•• Lei no 11.794/08 – uso científico de animais.

•• Lei no 11.934/09 – os limites à exposição humana a campos elétri-


cos, magnéticos e eletromagnéticos: a regulação jurídica de novos
riscos ecológicos.

Noções de Direito Ambiental 63


•• Lei no 11.959/09 – Política Nacional de Desenvolvimento Sustentável

Material para uso exclusivo de aluno matriculado em curso de Educação a Distância da Rede Senac EAD, da disciplina correspondente. Proibida a reprodução e o compartilhamento digital, sob as penas da Lei. © Editora Senac São Paulo.
da Aquicultura e da Pesca.

•• Lei no 12.187/09 – Política Nacional sobre Mudança do Clima.

•• Lei no 12.305/10 – Política Nacional de Resíduos Sólidos.

•• Lei no 12.527/11 – Lei do Acesso à Informação: acesso à informa-


ção ambiental.

•• Lei Complementar no 140/11 – Lei sobre Competência Adminis­


trativa em Matéria Ambiental: a regulação infraconstitucional dos de-
veres de proteção ambiental dos entes federativos (União, Estados,
Distrito Federal e Municípios).

•• Lei no 12.608/12 – Lei da Política Nacional de Proteção e Defesa


Civil: a questão dos refugiados ou necessitados ecológicos (ou
socioambientais).

•• Lei no 12.651/12 – com alterações da Lei no 12.7172/12: Nova


legislação florestal brasileira.

•• Lei no 13.123/15 – Lei sobre Acesso ao Patrimônio Genético, Proteção


e Acesso ao Conhecimento Tradicional Associado e Repartição de
Benefícios para Conservação e Uso Sustentável da Biodiversidade.

Para o cumprimento do objetivo da Contabilidade Socioambiental,


não se pode deixar de estudar os fundamentos do Direito Ambiental,
visto constituírem a base legal a ser observada. Toda a legislação
ambiental brasileira está disponível no site do Ministério do Meio
Ambiente.

2.1 Destinatários do Direito Ambiental

O caput do artigo 225 da Constituição Federal deixa explícito que:

64 Contabilidade Socioambiental
Todos têm direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado,
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bem de uso comum do povo e essencial à sadia qualidade de vida,


impondo-se ao Poder Público e à coletividade o dever de defendê-lo
e preservá-lo para as presentes e futuras gerações.

A abrangência da palavra “todos”, segundo Fiorillo (2014, p. 49), com-


preende a coletividade de pessoas residentes no país (naturais ou es-
trangeiras), isto é, estarão sob a proteção da Constituição Federal, no
que se refere ao direito a um meio ambiente ecologicamente equilibra-
do, todos os que residam no país.

Por outro lado, Fiorillo (2014, p. 52-59) estende a discussão sobre


o fato de o Direito Ambiental ter como destinatária somente a pessoa
humana, ou todas as demais formas de vida, concluindo que essas de-
mais formas de vida também estariam incluídas quando a sua proteção
fosse condição para a sadia qualidade de vida da pessoa humana.

2.2 Definição legal de meio ambiente

No Capítulo 2, foram discutidos alguns conceitos e definições para


a expressão “meio ambiente”. No entanto, a sua definição legal foi dada
pelo inciso I, do artigo 3o da Lei no 6.938/81, que estabelece: “Art. 3o. Para
os fins previstos nesta Lei, entende-se por: I – meio ambiente, o conjunto
de condições, leis, influências e interações de ordem física, química e bio-
lógica, que permite, abriga e rege a vida em todas as suas formas”.

Como se observa, há uma amplitude importante na definição dada


pela referida lei, amplitude essa contemplada no dispositivo constitu-
cional, retroevidenciado, quando se refere “à sadia qualidade de vida”.
Assim, conforme conclui Fiorillo (2014, p. 61), o legislador optou por tra-
zer o conceito jurídico indeterminado para o meio ambiente, buscando
“criar um espaço positivo de incidência da norma”.

Noções de Direito Ambiental 65


2.3 Classificação do meio ambiente

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O meio ambiente pode ser classificado, segundo os seus aspectos,
com o objetivo de identificar a atividade degradante que o esteja atin-
gindo, como também o bem imediatamente agredido (FIORILLO, 2014,
p. 61). Essa classificação abrange o meio ambiente natural, artificial, cul-
tural e do trabalho. Tais aspectos, abordados por Fiorillo (2014, p. 62-66),
podem ser assim resumidos:

Figura 1 – Classificação do meio ambiente

Meio ambiente
Meio ambiente de trabalho
cultural
Meio ambiente
artificial

Meio ambiente
natural ou físico

•• Meio ambiente natural ou físico: constituído pela atmosfera; pe-


los elementos da biosfera; pelas águas, incluindo o mar territorial;
pelo solo e subsolo, incluindo os recursos minerais; pela fauna e
pela flora.

•• Meio ambiente artificial: compreende o espaço urbano construído


que consiste no conjunto de edificações (espaço urbano fechado)
e equipamentos públicos (espaço urbano aberto).

66 Contabilidade Socioambiental
•• Meio ambiente cultural: abrange os bens de natureza material e
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imaterial, considerados individualmente ou em conjunto, portado-


res de referência à identidade, à ação, à memória dos diferentes
grupos formadores da sociedade brasileira, incluindo: as formas
de expressão; os modos de criar, fazer e viver; as criações cien-
tíficas, artísticas e tecnológicas; as obras, objetos, documentos,
edificações e demais espaços destinados às manifestações ar-
tístico-culturais; os conjuntos urbanos e sítios de valor histórico,
paisagístico, artístico, arqueológico, paleontológico, ecológico e
científico. (BRASIL, 1988, art. 216).

Há que se ressaltar dentro do meio ambiente cultural, o meio am-


biente digital, inclusão que se justifica, considerando que:

O meio ambiente cultural, por via de consequência, manifesta-se


no século XXI, em nosso país, exatamente em face de uma cultura
que passa por diversos veículos reveladores de um novo processo
civilizatório adaptado, necessariamente, à sociedade da informa-
ção, de uma nova forma de viver relacionada a uma cultura de con-
vergência em que as emissoras de rádio, televisão, o cinema, os
videogames, a internet, as comunicações por meio de ligações de
telefones fixos e celulares, etc., moldam uma “nova vida” revelado-
ra de uma nova faceta do meio ambiente cultural, a saber, o meio
ambiente digital. (FIORILLO, 2014, p. 65)

•• Meio ambiente do trabalho: é constituído pelo local onde as pes-


soas desempenham suas atividades laborais, relacionadas à sua
saúde, de forma remunerada ou não, e cujo equilíbrio está baseado
na salubridade do meio e na ausência de agentes comprometedo-
res da incolumidade físico-psíquica dos trabalhadores, de qualquer
sexo, idade, tipo de contrato, etc.

Considerando, ainda, as disposições constitucionais para proteção da


qualidade da vida humana, é preciso mencionar o patrimônio genético,
objeto da engenharia genética amplamente utilizada na pecuária, agricul-
tura, avicultura, etc., e que utiliza gametas para a produção de seres vivos,

Noções de Direito Ambiental 67


em determinadas situações. Tal patrimônio também está protegido por

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legislação específica, além das constitucionais citadas.

2.4 Princípios constitucionais aplicáveis

O Direito Ambiental, por ser uma ciência autônoma, possui seus pró-
prios princípios diretores emanados da Constituição Federal. Tais prin-
cípios estão consubstanciados na Lei no 6.938/81- Política Nacional do
Meio Ambiente, em nível nacional, e estão em consonância com a Política
Global de Meio Ambiente – estabelecida na Conferência das Nações
Unidas sobre o Meio Ambiente Humano, realizada em Estocolmo, em
1972 (UNEP, 1972) – e atualizada na Conferência das Nações Unidas
sobre o Meio Ambiente e Desenvolvimento (ECO 92), realizada no Rio
de Janeiro, em 1992.

São aplicáveis ao meio ambiente os seguintes princípios diretores:

Quadro 2 – Princípios constitucionais aplicáveis

Princípio do
O desenvolvimento que atenda às necessidades do presente,
desenvolvimento
sem comprometer as futuras gerações.
sustentável

Busca evitar a ocorrência de danos ambientais e, se esses ocorrerem, busca


a sua reparação. Delega ao poluidor o dever de arcar com os custos de
prevenção de danos ao meio ambiente, bem como, os custos da reparação
Princípio do
dos danos que, porventura, venham a ocorrer. Entendendo-se como poluidor,
poluidor-pagador
de acordo com as disposições legais, “a pessoa física ou jurídica, de direito
público ou privado, responsável direta ou indiretamente, por atividade de
degradação ambiental” (Lei no 6.938/81, art. 3o, inciso IV).

Considerado um dos princípios mais importantes, busca a prevenção


de danos ambientais, uma vez que, na maioria das vezes estes são
Princípio da irrecuperáveis, sendo sua prevenção fator fundamental para proteção
prevenção do meio ambiente. A própria Constituição Federal, em seu artigo 225,
determina ser dever do Poder Público e da coletividade, “proteger e
preservar o meio ambiente para as presentes e futuras gerações”.

(cont.)

68 Contabilidade Socioambiental
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Resulta da ação conjunta do Poder Público e da coletividade, representada


Princípio da
por organismos sociais diversos, empenhados na defesa do meio ambiente, e
participação
demais pessoas físicas ou pessoa jurídicas.

É impossível dissociar o meio ambiente de quaisquer outros aspectos


que envolvam a qualidade de vida da sociedade e seus direitos. Assim,
Princípio da tomando‑se por base que a sua proteção foi determinada pela própria
ubiquidade 2 Constituição, quaisquer atividades, públicas ou privadas, devem passar,
necessariamente, pelo crivo dessa proteção, avaliando-se o seu potencial de
degradação do meio ambiente, em qualquer de suas faces.

Outros princípios podem ser incorporados à questão ambiental, haja


vista a amplitude da Ciência do Direito.

3 Responsabilidade pelos
danos ao meio ambiente
As atribuições de responsabilidades pelos danos ao meio ambiente
estão relacionadas ao princípio do poluidor-pagador.

Antes de se estudar tais responsabilidades, é importante ter claro o


entendimento do que é um dano, no âmbito ambiental. De forma geral,
Fiorillo (2014, p. 94) define dano como sendo uma lesão a um bem jurídico.
Ocorrendo lesão a um bem ambiental, tem-se então um dano ambiental.

Carvalho (2008, p. 41) define dano ambiental como “qualquer ato


que lesione o meio ambiente, resultando em uma ofensa ou diminuição
de patrimônio”. Leite (2003) apud Carvalho (2008, p. 41), define a expres-
são dano ambiental como sendo ambivalente, pois, “designa tanto altera-
ções nocivas ao conjunto de elementos que compõem o meio ambiente
como à saúde das pessoas e aos seus interesses”.

2 Ubiquidade: estar presente, concomitantemente, em todos os lugares.

Noções de Direito Ambiental 69


Os danos podem ser de natureza material ou patrimonial ou, ainda,

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de ordem moral. Os de natureza material, como se infere, dizem respeito
aos bens materiais, podendo ocorrer de forma individual ou coletiva. Os
danos morais dizem respeito às lesões/ofensas causadas a qualquer
interesse de ordem imaterial, seja individual ou coletivo.

Os danos morais se igualam, em importância, aos danos materiais e,


se for o caso, um pode ser acrescido ao outro. A Lei no 10.406, de 10 de
janeiro de 2002 – Novo Código Civil, em seu art. 186o, ratifica esse en-
tendimento ao determinar que “aquele que, por ação ou omissão volun-
tária, negligência ou imprudência, violar direito e causar dano a outrem,
ainda que exclusivamente moral, comete ato ilícito”. (Grifo nosso.)

A reparação de um dano ambiental pode ser feita pela recomposi-


ção do ambiente lesado, ou seja, de modo natural, o que nem sempre é
possível, ou por meio de indenização em dinheiro. Em ambos os casos,
trata-se de uma obrigação que deverá ser evidenciada pelas informa-
ções contábeis.

Se a ocorrência de um dano ambiental advier de atos praticados,


direta ou indiretamente, por pessoas físicas ou jurídicas, a essas serão
atribuídas as responsabilidades que podem ser assim classificadas:
responsabilidade civil, responsabilidade administrativa e responsabili-
dade penal.

•• Responsabilidade civil: é aquela que obriga qualquer pessoa, físi-


ca ou jurídica, a reparar os danos que cause a outrem. A respon-
sabilidade administrativa está relacionada aos atos praticados
por agentes públicos, no exercício de suas funções e, particular-
mente, ao “poder de polícia” a eles conferidos. A responsabilidade
penal diz respeito à obrigação de responder por delitos, por práti-
cas ilegais.

•• Responsabilidade administrativa: a Lei no 9.605, de 12 de fevereiro


de 1998, que estabelece as sanções aos causadores dos danos

70 Contabilidade Socioambiental
ambientais, considera como “infração administrativa ambiental,
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toda ação ou omissão que viole regras jurídicas de uso, gozo, pro-
moção, proteção e recuperação do meio ambiente”.

•• Responsabilidade penal: a mesma lei (art. 2o) esclarece que esta-


rá sujeito às penas nela previstas quem, de qualquer forma, con-
correr para a prática dos crimes que ela assim qualifica. A respon-
sabilidade civil, por sua vez, está expressa no artigo 14, parágrafo
1o da Lei no 6.938/81 que determina que o poluidor é obrigado,
independentemente da existência de culpa, “a indenizar ou repa-
rar os danos causados ao meio ambiente e a terceiros, afetados
por sua atividade”. É considerada uma responsabilidade objetiva,
isto é, independe de culpa, e solidária.

Fiorillo (2014, p. 139) destaca que o parágrafo 3o do art. 225 da Consti­


tuição Federal prevê a tríplice responsabilidade do poluidor ambiental,
pessoa física ou jurídica: a sanção penal (responsabilidade penal), a
sanção administrativa (responsabilidade administrativa) e a sanção re-
lacionada à obrigação de reparar os danos causados ao meio ambiente
(responsabilidade civil). Tais sanções são cumulativas, isto é, não se ex-
cluem. O agente poluidor, causador do dano ambiental, pode sofrer san-
ção penal e/ou administrativa, independentemente de ter que reparar os
danos causados.

NA PRÁTICA

Responsabilidade civil objetiva e solidária


Citando jurisprudência do Supremo Tribunal de Justiça (STJ 404), Fiorillo
(2014, p. 140) demonstra a situação a seguir resumida:

Ação civil pública (ACP) na qual o Ministério Público objeti-


va a recuperação de área degradada devido à construção de
usina hidrelétrica, bem como indenização pelo dano causa-
do ao meio ambiente. A Turma que julgou a ACP entendeu
que a responsabilidade por danos ambientais é objetiva e,
como tal, não exige a comprovação de culpa, bastando a

Noções de Direito Ambiental 71


constatação do dano e do nexo de causalidade*. Contudo,

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não obstante a comprovação do nexo de causalidade ser a
regra, em algumas situações, dispensa-se tal necessidade,
em prol de uma efetiva proteção do bem jurídico tutelado. É
o que ocorre na esfera ambiental, nos casos em que o adqui-
rente do imóvel é responsabilizado pelos danos ambientais
causados na propriedade, independentemente de ter sido
ele ou o dono anterior o real causador dos estragos. A res-
ponsabilidade por danos ao meio ambiente, além de objeti-
va, também é solidária. A possibilidade de responsabilizar o
novo adquirente de imóvel já danificado apenas busca dar
maior proteção ao meio ambiente, tendo em vista a extrema
dificuldade de precisar qual foi a conduta poluente e quem
foi seu autor.

*Nexo de causalidade: é o vínculo existente entre a conduta do agente


causador e o resultado por ela produzido.

4 Bens ambientais:
conceito, gênero e titularidade
As disposições constitucionais de proteção ao meio ambiente esta-
beleceram a existência de um bem que se diferencia das características
atribuídas aos bens públicos ou privados e utilizadas pelo aplicador da
Ciência do Direito.

O caput do art. 225 da Constituição Federal, ao referir-se ao meio am-


biente, ecologicamente equilibrado, a que todos têm direito, esclarece
que esse é um “bem de uso comum do povo e essencial à sadia quali-
dade de vida”. Nasce aí, um novo gênero de bens – o bem ambiental.

Fiorillo (2014, p. 185) informa que podem ser considerados como


bens essenciais à sadia qualidade de vida aqueles “fundamentais à ga-
rantia da dignidade da pessoa humana”, relacionados com os direitos

72 Contabilidade Socioambiental
fundamentais garantidos pelo art. 6o da Constituição Federal: o direito à
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educação, à saúde, ao trabalho, ao lazer, à segurança, à previdência social,


à proteção à maternidade, à proteção à infância e à assistência ao desam-
parado. Por outro lado, por ser um “bem de uso comum”, o bem ambiental
é do povo que dele pode desfrutar, dentro dos limites constitucionais.

Diante dessas considerações, pode-se definir bem ambiental como


sendo aquele essencial à qualidade da vida humana, sob todos os as-
pectos, materiais e imateriais, e que pertence a todo o povo, dentro dos
limites estabelecidos pela Constituição.

PARA PENSAR

Seria possível tratar os direitos da pessoa humana de forma não integra-


da ao Direito Ambiental?

Considerações finais
Neste capítulo, foi possível compreender como o Direito considera
os direitos e obrigações de caráter ambiental e o tratamento que lhe
consagra, por meio do seu ramo denominado Direito Ambiental.

Foi possível, ainda, conhecer a definição que a legislação atribui à


expressão “meio ambiente”, como a Constituição Federal o protege, e
verificar, cronologicamente, as várias legislações que regem as rela-
ções com o meio ambiente, além de abordar pontos importantes de
algumas delas.

Após conceituar “dano ambiental”, estudou-se os tipos de respon-


sabilidades a que estão sujeitas as pessoas físicas e jurídicas quando,
direta ou indiretamente, forem causadoras de danos ambientais, desta-
cando o caráter objetivo e solidário da responsabilidade civil.

Noções de Direito Ambiental 73


Por fim, foram abordados o conceito, o gênero e a titularidade dos

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bens ambientais, concluindo-se, nesse ponto, que os bens ambientais
pertencem a todo o povo que, por conseguinte, é responsável pela sua
preservação, na busca pela qualidade de vida.

Referências
BRASIL. Constituição Federativa do Brasil. 1988. Disponível em: <http://
www.planalto.gov.br/ccivil_03/Constituicao/Constituicao.htm>. Acesso em:
15 mar. 2016.

_____. Lei no 4.717, de 29 de junho de 1965. Regula a ação popular. Disponível


em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/L4717.htm>. Acesso em: 15
mar. 2016.

_____. Lei no 6.938, de 31 de agosto de 1981. Código Ambiental. Dispõe sobre


a Política Nacional do Meio Ambiente, seus fins e mecanismos de formulação
e aplicação, e dá outras providências. Disponível em: <http://www.planalto.gov.
br/ccivil_03/leis/L6938.htm>. Acesso em: 15 mar. 2016.

_____. Lei no 8.078, de 11 de setembro de 1990. Código de Defesa do


Consumidor. Dispõe sobre a proteção do consumidor e dá outras providências.
Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/L8078.htm>. Acesso
em: 16 mar. 2016.

_____. Lei no 9.605, de 12 de fevereiro de 1998. Dispõe sobre as sanções penais


e administrativas derivadas de condutas e atividades lesivas ao meio ambiente,
e dá outras providências. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/
leis/L9605.htm>. Acesso em: 15 mar. 2016.

_____. Lei no 10.406, de 10 de janeiro de 2002. Novo Código Civil Brasileiro.


Institui o Código Civil. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/
leis/2002/L10406.htm>. Acesso em: 15 mar. 2016.

CARVALHO, Gardênia Maria Braga de. Contabilidade Ambiental: teoria e prática.


2. ed. Curitiba: Juruá, 2008.

FIORILLO, Celso Antonio Pacheco. Curso de Direito Ambiental. 15. ed. São Paulo:
Saraiva, 2014.

74 Contabilidade Socioambiental
MODÉ, Fernando Magalhães. Tributação ambiental: a função do tributo na
Material para uso exclusivo de aluno matriculado em curso de Educação a Distância da Rede Senac EAD, da disciplina correspondente. Proibida a reprodução e o compartilhamento digital, sob as penas da Lei. © Editora Senac São Paulo.

proteção do meio ambiente. Curitiba: Juruá, 2007.

SARLET, Ingo Wolfang; MACHADO, Paulo Afonso L.; FENTERSEIFER, Tiago.


Constituição e legislação ambiental comentadas. São Paulo: Saraiva, 2015.

UNEP – UNITED NATIONS ENVIRONMENTAL PROGRAMME. Declaration of


United Nations Conference on the Human Environmental. Stockholm (Sweden),
June, 1972. Disponível em: <http://www.unep.org/Documents.Multilingual/Default.
asp?DocumentID=97&ArticleID=1503&l=en>. Acesso em: 08 mar. 2016.

Noções de Direito Ambiental 75


Capítulo 4
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Sustentabilidade e
desenvolvimento
sustentável

Neste capítulo, serão abordadas as questões que deram origem à es-


pecialidade contábil socioambiental – a sustentabilidade e o desenvolvi-
mento sustentável. É para auxiliar as organizações na busca da susten-
tabilidade, por meio do desenvolvimento sustentável, que a Contabilidade
Socioambiental evolui à exata medida que a sociedade se conscientiza
da importância dessas metas, auxiliando na elaboração e na divulgação
de informações socioambientais que permitam avaliar e controlar os
eventos que afetam o meio ambiente.

O entendimento conceitual do vocábulo “sustentabilidade”, com toda


a sua abrangência e amplitude, será o primeiro tema a ser tratado neste
capítulo. A partir dele, será possível compreender a expressão “desen-
volvimento sustentável”, tão utilizada nos dias atuais, mas nem sempre
com o significado que lhe é próprio de forma plena. Outros temas serão:

77
a relação da sustentabilidade com a economia contemporânea e a bus-

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ca pela “ecoeficiência”.

Como se caminha para a sustentabilidade de forma ordenada e bus-


cando prevenir, corrigir e minimizar impactos socioambientais? Este ca-
pítulo mostrará que esse caminho é construído por meio da criação e
prática de políticas ambientais, seja no âmbito do setor público, seja no
âmbito do setor privado, ambos influenciados pela atuação da sociedade.

1 Sustentabilidade: conceitos e definições


O conceito de sustentabilidade é complexo e abrangente, posto que
se aplica a diversas situações e resulta da correlação de muitas variáveis.

Os dicionários, de forma geral, definem sustentabilidade como “a


qualidade do que é sustentável”. O que é sustentável, por sua vez, é de-
finido como “o que pode ser sustentado” ou que é passível de sustenta-
ção, o que amplia significativamente o campo de análise, considerando
as várias acepções que a palavra “sustentar” – originária do latim sus-
tentare – pode assumir.

Reunindo alguns desses significados, dispostos no Dicionário brasilei-


ro da Língua Portuguesa, da Enciclopédia Barsa (2001, p. 1650), tem-se
que sustentar pode significar: sustentação, com o sentido de amparar,
escorar; manutenção, no sentido de não mudar de posição; provimento,
tanto no sentido de alimentar quanto no sentido de prover as diversas
necessidades físicas ou psicológicas de alguém; manter-se à altura de
algum papel na sociedade; afirmação de algo com obstinação; conservar
firmeza, perpetuar, continuar, durar, etc.

Atualmente, a palavra sustentabilidade tem sido largamente utilizada


quando o assunto é o meio ambiente – que também é conceitualmente
complexo. Como foi visto no Capítulo 2, para o Conselho Nacional do
Meio Ambiente (CONAMA, 2002) meio ambiente é o “conjunto de con-
dições, leis, influência e interações de ordem física, química, biológica,

78 Contabilidade Socioambiental
social, cultural e urbanística, que permite, abriga e rege a vida em todas
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as suas formas”. Combinando os significados vistos no parágrafo ante-


rior com essa definição de meio ambiente, pode-se conceituar susten-
tabilidade da seguinte forma:

IMPORTANTE

Sustentabilidade é o resultado das ações de sustentação, amparo e ma-


nutenção da qualidade de vida em todas as suas formas, por meio da
oferta de condições e interações de ordem legal, física, química, biológi-
ca, social, cultural e urbanística.

Cruz e Ferrer (2015, p. 240) consideram que:

Sustentabilidade não é nada mais do que um processo mediante


o qual se tenta construir uma sociedade global capaz de se per-
petuar indefinidamente no tempo em condições que garantam
a dignidade humana. Atingido o objetivo de construir essa nova
sociedade, será sustentável tudo aquilo que contribua com esse
processo e insustentável será aquilo que se afaste dele.

Nota-se, mais uma vez, a abrangência do conceito que afirma ser sus-
tentável “tudo” o que contribua para o processo de construção de uma
nova sociedade e será insustentável “tudo” o que se afaste desse objetivo.

IMPORTANTE

“A busca de sustentabilidade é um processo e a própria construção do con-


ceito é uma tarefa ainda em andamento e muito longe do fim” (TINOCO;
KRAEMER 2006, p. 137).

Importa destacar que o conceito de sustentabilidade não separa a


questão ecológica da questão social e, dentro desta, vincula-se a tudo o

Sustentabilidade e desenvolvimento sustentável 79


que diga respeito à qualidade da vida humana, num contexto de socie-

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dade que, conforme já estudado, implica em convivência organizada e,
sobretudo, de colaboração mútua, num sentido de coletividade e de co-
munidade. Sob esse prisma, há que se enfatizar que a sustentabilidade
também não pode ser aquela que resulte do atendimento de necessida-
des e interesses específicos de indivíduos ou de grupos restritos.

Figura 1 – Conflitos de interesses

A indústria quer custos A sociedade


baixos com energia barata precisa de ar limpo

As pessoas querem A sociedade precisa


consumir sem critério de solos férteis

Interesses diversos e, por vezes, conflituosos são desafios a serem


superados, uma vez que a sociedade não tem outro caminho a percorrer
a não ser a busca constante da sustentabilidade. Desde as últimas dé-
cadas no século XX, essa busca tem sido objeto do empenho do mundo
empresarial que, a par dos seus interesses econômico-financeiros, vem
se conscientizando da necessidade de se desenvolver de forma susten-
tável se quiser se manter atuante num mercado globalizado altamente

80 Contabilidade Socioambiental
competitivo. Conscientiza-se, sobretudo, da necessidade de um meio
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ambiente que continue a fornecer-lhes recursos imprescindíveis à pró-


pria sobrevivência. Trata-se da sustentabilidade empresarial que tem na
Contabilidade Socioambiental as informações que instrumentalizam o
processo de gestão socioambiental, subsidiando essa busca pelo desen-
volvimento sustentável.

2 Desenvolvimento sustentável:
conceito e uso da expressão
A atenção para a necessidade de se promover o desenvolvimento
econômico em consonância com a sustentabilidade do meio ambiente
teve início na Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente
Humano, realizada pela Organização das Nações Unidas (ONU), em
1972, em Estocolmo, na Suécia. Na ocasião esse desenvolvimento dife-
renciado foi denominado “ecodesenvolvimento”.

Onze anos depois, em 1983, Gro Harlem Brundtland, então primei-


ra-ministra da Noruega, foi indicada pela ONU para liderar a Comissão
Mundial sobre o Meio Ambiente e Desenvolvimento com o propósito de
envidar esforços para a constituição de uma agenda global que levasse
à mudança do conceito que até então se tinha sobre desenvolvimen-
to humano. Em 1987, a Comissão apresentou um relatório que ficou
conhecido como Relatório Brundtland (Relatório da Comissão Mundial
sobre o Meio Ambiente e Desenvolvimento: Nosso Futuro Comum) que
reuniu informações e declarações de especialistas de diversos países,
como resultado de pesquisas realizadas durante três anos.

Foi no Relatório Brundtland1 que, pela primeira vez, se definiu o


que seria desenvolvimento sustentável, no item II da Parte 1 – Novas
Abordagens para o Meio Ambiente e Desenvolvimento:

1 Relatório Brundtland: Report of the World Commission on Environment and Development: Our Common
Future (Relatório da Comissão Mundial sobre o Meio Ambiente e Desenvolvimento: Nosso Futuro Comum).

Sustentabilidade e desenvolvimento sustentável 81


49. O desenvolvimento sustentável procura atender às necessida-

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des e aspirações do presente sem comprometer a capacidade de
atender as do futuro. Longe de se exigir a cessação do crescimento
econômico, reconhece que os problemas da pobreza e do subde-
senvolvimento não pode ser resolvido a menos que tenhamos uma
nova era de crescimento, na qual os países em desenvolvimento
desempenham um grande papel e colher grandes benefícios. (UN,
1987)

O conceito de desenvolvimento sustentável, segundo o mesmo rela-


tório (UN, 1987, item 48), “fornece uma estrutura para a integração das
políticas ambientais e estratégias de desenvolvimento”, tomando-se um
sentido amplo para o termo “desenvolvimento”.

Do entendimento da amplitude da expressão “desenvolvimento sus-


tentável” e pela correlação deste com a “sustentabilidade” é que resulta
a sua divisão em três dimensões – econômica, social e ambiental.

Figura 2 – Dimensões do desenvolvimento sustentável

Dimensão Dimensão Dimensão


econômica social ambiental

Desenvolvimento sustentável

•• Dimensão econômica: diz respeito às atividades econômicas, ge-


radoras de riqueza que, no âmbito de desenvolvimento sustentável,

82 Contabilidade Socioambiental
deverão integrar-se ao meio ambiente. Nessa dimensão, a escas-
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sez de recursos ou o reaproveitamento de recursos já utilizados


deverão ser geridos de forma a minimizar custos e maximizar ga-
nhos, obedecendo, porém, às premissas de sustentabilidade. Isto
significa dissociar “desenvolvimento” de “crescimento econômico”,
visto que, em alguns casos, pode ser necessária a retração das ati-
vidades em benefício da sustentabilidade.

•• Dimensão social: refere-se aos aspectos que proporcionam con-


dições qualitativas e equitativas de vida aos indivíduos, formando
uma sociedade educada para a sustentabilidade.

•• Dimensão ambiental: relaciona-se com todo o ecossistema, abran-


gendo os recursos naturais que, direta ou indiretamente, movem a
economia; as condições de uso e preservação desses recursos e
correspondente geração de resíduos; e todas as demais condições
necessárias à preservação da qualidade de vida.

As dimensões apontadas são interdependentes e se correlacionam


para atingir o objetivo de desenvolvimento com sustentabilidade.

A partir do Relatório Brundtland, a expressão “desenvolvimento sus-


tentável” tem sido largamente utilizada. Entretanto, tal expressão nem
sempre é entendida em sua total plenitude, posto que carrega consigo
toda a abrangência do termo “sustentabilidade” que, como foi visto no
tópico anterior, não se restringe só a questões ecológicas, sociais ou
econômicas, mas abrange todas elas e quaisquer outras que digam
respeito à qualidade de vida do homem, num contexto de sociedade, ou
seja, coletivamente. Ressaltando esse entendimento:

A exigência da Sustentabilidade, se verdadeiramente se quiser ga-


rantir o futuro da espécie e progredir na sua “humanização”, supera,
salvo melhor juízo, o conceito clássico de Desenvolvimento Sus-
tentável. (CRUZ; FERRER, 2015, p. 242)

Sustentabilidade e desenvolvimento sustentável 83


Nesse contexto, pode-se inferir que o desenvolvimento sustentável

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está relacionado a um conceito de sustentabilidade globalizada, onde
todos os países – ricos ou pobres – deverão integrar o desenvolvimento
com o meio ambiente, de forma ampla. Alcançar esse objetivo implica
mudanças nas políticas adotadas para a economia e o meio ambiente,
níveis nacionais e internacionais, o que, além de causar conflitos de inte-
resses entre as nações, é ainda mais difícil para os países pobres.

Sensível a tais dificuldades, a Cúpula Mundial sobre o Desenvolvimen­


to Sustentável, realizada pela ONU, em 2002, em Joanesburgo, na África
do Sul, conferência também conhecida como Rio+10, em sua declara-
ção final, “pede o alívio da dívida externa dos países em desenvolvi-
mento e o aumento da assistência financeira para os países pobres”.
A mesma declaração reconhece ainda que “os desequilíbrios e a má
distribuição de renda, tanto entre países quanto dentro deles, estão no
cerne do desenvolvimento insustentável”.

3 Políticas ambientais derivadas do conceito


de desenvolvimento sustentável

3.1 Conceitos

Denomina-se como política ambiental o conjunto de ações do setor


público ou privado orientadas para a preservação do meio ambiente.
São essas políticas que norteiam a gestão ambiental, tanto no que se
refere às políticas públicas, quanto àquelas adotadas pelas organiza-
ções do setor privado.

Historicamente, foram as políticas públicas que primeiro se evidencia-


ram, mesmo que timidamente, por meio das ações governamentais. Tais
ações, a princípio, tinham a finalidade de corrigir eventuais problemas de
ordem ambiental e eram pontuais, não tendo maior expressividade para

84 Contabilidade Socioambiental
a sociedade como um todo. Segundo Barbieri (2011, p. 64), foi a partir
Material para uso exclusivo de aluno matriculado em curso de Educação a Distância da Rede Senac EAD, da disciplina correspondente. Proibida a reprodução e o compartilhamento digital, sob as penas da Lei. © Editora Senac São Paulo.

da década de 1970 que “começaram a surgir em vários países políticas


governamentais que procuravam tratar as questões ambientais de modo
articulado e introduzir uma abordagem preventiva”.

Os eventos promovidos por organizações internacionais, reunindo


representantes de diversos países para discutir os aspectos do meio
ambiente e sua relação com o desenvolvimento econômico, foram de
grande importância no processo de mudança da prática corretiva para
a preventiva. Particularmente, cabe destacar a Conferência das Nações
Unidas sobre o Meio Ambiente Humano, realizada em Estocolmo, em
1972, que instituiu a Política Global de Meio Ambiente constituindo-se
numa referência para o estabelecimento de políticas públicas nacionais.

Scardua e Bursztyn (2003, p. 291) informam que o “tema políticas pú-


blicas tornou-se objeto de um intenso debate nas duas últimas décadas
do século XX”, momento que, ao lado de uma crescente complexidade
das sociedades e de uma maior expectativa por uma regulação pública
das políticas ambientais, começa a surgir “uma maré liberal”, representan-
do limitações às ações do Estado.

A influência da sociedade civil nas políticas públicas é enfatizada por


Floriano da seguinte forma:

Políticas, no estado de direito democrático, tendem a expressar a


forma desejada pela sociedade em solucionar os problemas que
surgem. Nestas condições, pode-se dizer que toda política parte de
um movimento da sociedade em torno de um problema ou conflito.
(FLORIANO, 2007, p. 30)

Observa-se, portanto, que há uma correlação importante entre a so-


ciedade civil e, por consequência, o setor privado, e as políticas públicas.

Sustentabilidade e desenvolvimento sustentável 85


Figura 3 – Correlação entre as políticas ambientais públicas e a sociedade civil

Material para uso exclusivo de aluno matriculado em curso de Educação a Distância da Rede Senac EAD, da disciplina correspondente. Proibida a reprodução e o compartilhamento digital, sob as penas da Lei. © Editora Senac São Paulo.
Conferência das Nações
Unidas sobre o Meio
Ambiente Humano 1972

Política Global de
Meio Ambiente

Políticas ambientais Sociedade civil


públicas

Setor público Indivíduo

Setor privado

Com relação às políticas ambientais adotadas pelo setor privado,


além daquelas que visam atender à legislação pertinente imposta pelas
políticas públicas, as empresas responsáveis praticam diversas outras,
seja para conseguir certifi cações, seja para atender a sua missão ou
visão empresarial.

As políticas ambientais mais comuns praticadas pelas empresas,


além do cumprimento das normas legais e para obtenção de certifi ca­
ções, estão ligadas aos seguintes tópicos:

• prevenção e controle da poluição nas suas diversas formas;

• cuidados com a saúde, segurança e o bem-estar de funcionários


e comunidades;

• ações voluntárias para a economia de energia, materiais descar-


táveis e outros;

• promoção de ações culturais e de campanhas de educação


ambiental;

• transparência e visibilidade de relatórios fi nanceiros e ambien­


tais, etc.

86 Contabilidade Socioambiental
3.2 Políticas públicas ambientais nacionais
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Conforme foi visto, são as políticas que norteiam a gestão ambien-


tal. No que diz respeito à gestão ambiental pública, ou seja, aquela que
atinge a todos os indivíduos de uma sociedade (BARBIERI, 2011, p. 65),
é a “ação do Poder Público conduzida de acordo com uma política públi-
ca ambiental”, definindo política pública ambiental como “o conjunto de
objetivos, diretrizes e instrumentos de ação que o Poder Público dispõe
para produzir efeitos desejáveis no meio ambiente”.

No Brasil, como visto no Capítulo 3, a Lei no 6.938, de 31 de agosto


de 1981, estabeleceu a Política Nacional de Meio Ambiente. Embora não
tenha sido a primeira ou única legislação sobre a proteção do meio am-
biente, essa lei, segundo Barbieri (2011, p. 92), “representa uma mudan-
ça importante nas questões ambientais, na medida em que procura in-
tegrar as ações governamentais dentro de uma abordagem sistêmica”.

A Constituição Federal de 1988, segundo Vianna e Veronesi (1992,


p.  126) “consolida a abordagem sistêmica segundo a qual a questão
ambiental deve ser analisada, considerando simultaneamente os as-
pectos sociais, econômicos e institucionais”.

As principais legislações que congregam as políticas públicas am-


bientais nacionais estão listadas no Capítulo 3.

As legislações ambientais constituem instrumentos diretos de regula-


ção e controle das políticas públicas ambientais, impondo normas e san-
ções para as infrações. Outros instrumentos diretos ou indiretos também
são utilizados: instrumentos fiscais, por meio de incentivos ou taxações;
instrumentos de mercado (títulos), por meio de transações realizadas em
mercado regulado pelo governo; educação ambiental; entre outros.

Como é possível observar, os instrumentos de políticas públicas am-


bientais estão, direta ou indiretamente, associados a fenômenos que
afetarão a economia e o seu desenvolvimento sustentável.

Sustentabilidade e desenvolvimento sustentável 87


O Relatório da Comissão Mundial sobre o Meio Ambiente e

Material para uso exclusivo de aluno matriculado em curso de Educação a Distância da Rede Senac EAD, da disciplina correspondente. Proibida a reprodução e o compartilhamento digital, sob as penas da Lei. © Editora Senac São Paulo.
Desenvolvimento (1987, Inciso II, parte 1, item 39) enfatiza essa relação
afirmando que “tensões e padrões de desenvolvimento econômico am-
bientais estão ligados uns aos outros”. Exemplifica citando que políticas
econômicas, como políticas agrícolas ou energéticas, afetam o uso da
terra, a água, a degradação ambiental, o efeito estufa, etc., o que de-
monstra que a busca do desenvolvimento sustentável deve ser o norte
das políticas públicas ambientais e que estas devem permear todas as
demais políticas de gestão pública.

O mesmo relatório, segundo Barros (2013, p. 25), enfoca os seguin-


tes principais objetivos das políticas ambientais, derivados do conceito
de desenvolvimento sustentável:

Figura 4 – Objetivos das políticas ambientais

Retomar o crescimento econômico como


condição necessária para erradicar a pobreza

Inovar, permanentemente, os sistemas produtivos,


tornando-os mais eficientes, democráticos e
menos intensivos em matérias-primas e energia

Atender às necessidades humanas


essenciais, como emprego, alimentação,
energia, água e saneamento

Conservar as fontes de recursos naturais


Relatório Brundtland
Principais objetivos das políticas
ambientais derivados do conceito de Valorizar o desenvolvimento tecnológico e
desenvolvimento sustentável
administrar os riscos

Incluir o meio ambiente e a economia no


processo decisório

Manter um nível populacional sustentável

88 Contabilidade Socioambiental
Para o desenvolvimento sustentável, interesses econômicos e de
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preservação do meio ambiente precisam caminhar juntos na concep-


ção de políticas públicas de gestão que viabilizem o seu alcance.

PARA PENSAR

As políticas públicas devem abranger punições mais severas aos infrato-


res da saúde ambiental ou somente estabelecer normas e proporcionar
condições para a educação ambiental?
Como o setor privado pode contribuir nesse processo de construção de
políticas públicas?

4 Sustentabilidade na
economia contemporânea
A história comprova que os recursos naturais têm sido largamente
explorados como principal insumo de produção e consequente
desenvolvimento da economia, sem muita preocupação com a sua
capacidade de recuperação e, principalmente, com os meios necessários
à sua transformação para consumo. Esse modelo, no entanto, tornou-
se insustentável, posto que já se constata o esgotamento desses recur-
sos e os desastres provocados pelas consequências da sua exploração
de forma “despreocupada”. No presente, esse modelo já traz grandes
prejuízos e, para o futuro, as previsões são desastrosas, caso ele conti-
nue a ser praticado.

O velho conceito de crescimento econômico como sinônimo de ri-


queza e desenvolvimento para os países já não tem mais lugar no mun-
do contemporâneo. Como já mencionado, o conceito de desenvolvimen-
to sustentável implica uma visão mais ampla e profunda do que vem a
ser a riqueza de uma nação, por vezes significando um retrocesso ou

Sustentabilidade e desenvolvimento sustentável 89


interrupção de alguns processos produtivos. É o momento da inovação

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e da gestão inteligente dos recursos.

Nesse contexto, surge o que se convencionou chamar de Economia


Verde ou Nova Economia que, segundo Pereira, Silva e Carbonari (2011,
p. 109), “ [...] já se desenha nos cenários globais e vem para permanecer
por tempo indeterminado, apesar das críticas de que é alvo”.

Economia Verde ou Nova Economia, de acordo com esses autores,


pode ser definida como:

[...] aquela em que a produção, a distribuição e o consumo de bens


e serviços se dão por meio de processos em que os recursos não
são utilizados mais rapidamente do que a capacidade que a nature-
za tem de renová-los. (PEREIRA; SILVA; CARBONARI, 2011, p. 109)

Considerando-se, principalmente, as dificuldades dos países mais


pobres, que precisam produzir para se desenvolver, e o egoísmo de al-
guns outros já desenvolvidos, percebe-se o tamanho do desafio para
a implementação de políticas ambientais que levem a essa Nova
Economia. Países ricos ou pobres têm a missão de superar suas dife-
renças de interesses na busca pela sustentabilidade, sob pena de verem
perecer as gerações futuras.

No entanto, esse desafio deve ser tomado em nível individual, já que:

[...] a consolidação da Nova Economia também depende de mudan-


ças de atitudes, comportamentos e estilos de vida das pessoas
comuns. O consumo é, provavelmente, a dimensão na qual há a
percepção de que pequenas mudanças nos hábitos podem fazer
muita diferença (PEREIRA; SILVA; CARBONARI, 2011, p. 121).

Empregos Verdes e Empresas Verdes são denominações frequente-


mente encontradas no âmbito da Nova Economia ou Economia Verde
e estão relacionados a postos de trabalho em atividades econômicas
que contribuem para reduzir emissões de carbono e/ou conservação
e melhoria da qualidade do meio ambiente, no caso dos empregos e,

90 Contabilidade Socioambiental
da mesma forma, às empresas que geram tais atividades e ações de
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preservação ou melhoria ambiental.

Citando novamente o Relatório da Comissão Mundial sobre o Meio


Ambiente e Desenvolvimento (1987, Inciso II, parte 1, item 39), “a eco-
nomia não é apenas a produção de riqueza e a ecologia não é apenas
sobre a proteção da natureza; ambas são igualmente relevantes para
melhorar a sorte da humanidade”.

NA PRÁTICA

Escassez de água pode limitar crescimento econômico nas próximas


décadas, diz ONU
Por Agência ONU/Instituto Akatu
Três em cada quatro empregos do mundo são forte ou moderadamente
dependentes de água, segundo estimativa de relatório das Nações Uni-
das (ONU), publicado no dia 22 de março, na ocasião do Dia Mundial da
Água. Consequentemente, a escassez e os problemas de acesso à água
e ao saneamento podem limitar o crescimento econômico e a criação de
empregos no mundo nas próximas décadas, de acordo com o documen-
to, que citou a falta de investimentos em infraestrutura e os altos índices
de vazamentos nos sistemas hídricos das cidades globais, inclusive de
países desenvolvidos. Segundo o “Relatório Mundial das Nações Unidas
sobre Desenvolvimento dos Recursos Hídricos, Água e Emprego”, metade
dos trabalhadores do mundo – 1,5 bilhão de pessoas – está empregada
em oito indústrias dependentes de recursos hídricos e naturais: agricultura,
silvicultura, pesca, energia, manufatura intensiva de recursos, reciclagem,
construção e transporte. “A água e o emprego estão indissociavelmente
ligados em vários níveis, quer seja na perspectiva econômica, na ambiental
ou na social”, disse a diretora-geral da UNESCO, Irina Bokova [...].

4.1 Sustentabilidade empresarial

A economia é movimentada, principalmente, pela atuação das orga-


nizações, com ou sem fins lucrativos, que geram empregos e produtos

Sustentabilidade e desenvolvimento sustentável 91


e/ou serviços para consumo. Assim, como agentes propulsores da eco-

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nomia, tais organizações e suas políticas socioambientais também são,
por extensão, responsáveis pelo desenvolvimento sustentável.

Entre esses agentes, destaca-se o setor industrial, pela atuação dire-


ta de suas empresas no meio ambiente no que se refere a vários aspec-
tos, mas, principalmente, pelas ações poluidoras e pelo uso de recursos
naturais. Isto não significa que os demais setores da economia não par-
ticipem do processo ou não consumam recursos naturais, mas o setor
produtivo, sem dúvida, é o mais atuante quando se analisa os impactos
no meio ambiente.

Barros (2013, p. 26) enfatiza que, por ser considerado o maior vilão
do meio ambiente, o setor produtivo também “tornou-se o setor privile­
giado para conduzir o desenvolvimento sustentável”. Essa posição, se-
gundo o autor, contribuiu para que as lideranças empresariais mundiais
adotassem uma postura proativa com relação ao desempenho ambiental.

A sustentabilidade empresarial está ligada a diversos fatores, des-


de o cumprimento da sua missão até a sua permanência em ativida-
de, gerando resultados, ou melhor, gerando “valor” não só para os seus
acionistas ou sócios, mas para a sociedade em que se insere e da
qual depende.

Atender às necessidades de todas as partes interessadas (stake-


holders2) no desempenho de uma empresa, considerando premis-
sas de sustentabilidade, não é tarefa fácil, mas um número cada
vez maior de empresas tem praticado políticas ambientais para o
desenvolvimento sustentável.

Com a incorporação do desenvolvimento sustentável nos negócios,


as lideranças empresariais aprendem a pensar vários movimentos

2 Stakeholder: qualquer pessoa ou entidade que tenha interesse na organização ou que seja afetada pelos
seus atos.

92 Contabilidade Socioambiental
à frente, em termos de valores sociais, ambientais e novas formas
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de diálogo com os stakeholders. Além disso, as empresas apren-


dem a manter o foco imparcial sobre as atuais realidades econô-
micas e de mercado. (BARROS, 2013, p. 31)

Considerando que o desenvolvimento sustentável é gerado, principal-


mente, pelas empresas, é possível dimensionar a importância da atua-
ção delas nesse processo. Para as empresas sociedades anônimas que
já se conscientizaram dessa importância existem nichos de negócios
especiais nas bolsas de valores e de futuros, além de certificações que,
ao serem obtidas, só contribuem para que a empresa se destaque entre
os clientes e consumidores dos seus produtos e/ou serviços, criando
valor para sua marca.

O cenário é promissor, todavia, está muito longe do ideal. O planeta


tem pressa!

PARA SABER MAIS

Para compreender o papel das empresas no processo de degradação


ambiental e o que elas podem fazer ou deixar de fazer em termos de
sustentabilidade empresarial e, por extensão, pela sustentabilidade
do planeta e da sociedade, assista ao documentário The Corporation
– um dos melhores filmes já feitos sobre o meio ambiente, em suas
múltiplas faces.

5 Meta do desenvolvimento sustentável:


“ecoeficiência”
O enfrentamento dos desafios de mudança de paradigmas de de-
senvolvimento econômico na busca de sustentabilidade – em sentido
amplo, construção e prática de políticas ambientais, entre outros desa-
fios que se apresentam ao setor empresarial nos dias atuais – leva à

Sustentabilidade e desenvolvimento sustentável 93


busca de soluções que viabilizem a ambientação nessa nova conjun-

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tura. Nesse contexto, surge o conceito de ecoeficiência que, segundo
Barros (2013, p. 24), significa:

[...] colocação no mercado de bens ou serviços que satisfazem às


necessidades humanas trazendo melhor qualidade de vida, redu-
zindo os impactos ambientais e o uso de recursos naturais, con-
siderando o ciclo inteiro de vida da produção e reconhecendo a
capacidade de o planeta suportar tal demanda.

Nota-se que os desafios citados estão todos contidos no termo


“ecoeficiência” que, por sua vez, ratifica a expressão “desenvolvimen-
to sustentável”.

PARA PENSAR

A ecoeficiência deve atingir o “ciclo inteiro de vida da produção”. O que


isto significa na prática?

Considerações finais
Qualidade de vida, em todos os âmbitos, é o que se procura atingir
quando a proposta é “praticar” sustentabilidade. Tal prática começa no
indivíduo, estende-se pela sociedade e influencia a criação de políticas
ambientais públicas e privadas que, se seguidas, geram bem-estar.

Todo esse processo passa pela economia dos países que, por sua
vez, depende de que as organizações adotem políticas socioambientais
saudáveis na busca de desenvolvimento sustentável.

Neste capítulo, partiu-se do conceito de sustentabilidade para a


compreensão do sentido amplo da expressão “desenvolvimento susten-
tável”, cuja obtenção está diretamente ligada à adoção de políticas am-
bientais que levem ao seu atingimento e que não devem partir só das

94 Contabilidade Socioambiental
empresas, do governo e demais organizações, mas também de cada
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indivíduo que constitui a sociedade global.

Referências
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próximas décadas, diz ONU. Instituto Akatu, mar. 2016. Disponível em: <http://www.
akatu.org.br/Temas/Agua/Posts/Escassez-de-agua-pode-limitar-crescimento
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a Política Nacional do Meio Ambiente, seus fins e mecanismos de formulação
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tecnológica como ampliação de seus fundamentos. Sequência, Florianópolis,
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www.onu.org.br/rio20/documentos>. Acesso em: 20 mar. 2016.

FLORIANO, Eduardo Pagel. Políticas de gestão ambiental. 3. ed. Santa Maria


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serie7.pdf>. Acesso em: 28 mar. 2016.

Sustentabilidade e desenvolvimento sustentável 95


PEREIRA, Adriana Camargo; SILVA, Gibson Zucca da Silva; CARBONARI, Maria

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VIANNA, Marcelo Drugg Barreto; VERONESI, Gilberto. Políticas ambientais


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96 Contabilidade Socioambiental
Capítulo 5

Responsabilidade
social e
sustentabilidade
empresarial

A responsabilidade social exercida em nome da promoção da sus-


tentabilidade empresarial, tomando-se aqui a denominação sustenta-
bilidade empresarial – por ser a mais utilizada, porém não restrita às
empresas, mas sim abrangendo todas as organizações, com ou sem
fins lucrativos – será o assunto objeto deste Capítulo 5.

No desenvolvimento do capítulo, essa responsabilidade será trata-


da como corporativa, utilizando-se a expressão responsabilidade social
corporativa (RSC) no sentido amplo de corporação, por ser mais abran-
gente do que responsabilidade social empresarial (RSE).

97
Será demonstrado que, apesar de existir várias definições para res-

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ponsabilidade social corporativa ou empresarial, essas convergem para
um mesmo conceito que evoluiu através dos tempos, paralelamente à
evolução da humanidade.

A responsabilidade social será situada num contexto de governan-


ça corporativa, sobre a qual serão abordados os princípios e práticas
estabelecidos, principalmente, pelo Instituto Brasileiro de Governança
Corporativa – o IBGC.

Finalizando o capítulo, serão abordadas as principais normas e certifi-


cações socioambientais, destacando-se em particular as que se referem
à responsabilidade social corporativa, bem como serão abordados os in-
dicadores socioambientais mais utilizados e a função da Contabilidade
Socioambiental na produção e análise desses indicadores e, também, os
relatórios mais utilizados para divulgação desses indicadores.

1 Responsabilidade social corporativa (RSC):


conceitos e definições
A expressão “responsabilidade social corporativa”, também é co-
nhecida como “responsabilidade social empresarial”, “cidadania corpo-
rativa” ou “cidadania empresarial”. Essas últimas são utilizadas não só
como sinônimo de responsabilidade social corporativa, mas em alguns
casos têm sentido próprio.

Ashley, Coutinho e Tomei (2000, p. 5) mencionam que o conceito de


cidadania empresarial “[...] tem sido tratado de maneira bastante ins-
trumental [...]” com a conotação de algo que proporcionaria vantagem
competitiva às organizações, ressaltando-se, principalmente, o aspec-
to ligado aos investimentos na comunidade por meio de projetos e
ações sociais.

98 Contabilidade Socioambiental
Neste estudo, será utilizada a expressão responsabilidade social
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corporativa (RSC), por entendermos que o termo “corporativa” abrange


todo o universo das organizações, ao passo que “empresarial” restringe-
-se às empresas que, como se sabe, são aquelas organizações criadas
com a finalidade de obtenção de lucro.

1.1 Responsabilidade social

O conceito de responsabilidade, conforme estudado no Capítulo 2,


remete ao entendimento de obrigação para com alguém, alguma coisa
ou alguma causa, abrangendo, ainda, o dever de arcar com as conse-
quências das próprias ações ou, em alguns casos, das ações de outras
pessoas (de um filho menor, por exemplo). Social, por sua vez, diz res-
peito à sociedade, abrangendo tudo o que dela resulta e tudo que atinge
os indivíduos que a constituem.

A Comunicarte – Agência de Responsabilidade Social – conceitua


responsabilidade social da seguinte forma:

Responsabilidade Social é o reconhecimento presente nos cida-


dãos, individualmente e em conjunto, dos seus deveres para com a
comunidade em que vivem e a sociedade em geral. Este conceito
se fundamenta no princípio de que, em maior ou menor grau, as
ações individuais sempre têm algum impacto (positivo ou negati-
vo) na vida de outros cidadãos e da coletividade. Assim, a Respon-
sabilidade Social concretiza-se por meio da tomada de atitudes,
comportamentos e práticas positivas e construtivas, que contri-
buem para preservar e melhorar o bem-comum e elevar a qualida-
de de vida de todos. Quando aplicada às empresas, a expressão
também é sinônimo de Responsabilidade Social Corporativa. (CO-
MUNICARTE, [s/d])

Como se observa, a responsabilidade social se inicia no indivíduo e


em grupos de indivíduos, estendendo-se para as empresas ou corpora-
ções com as mesmas conotações a eles aplicáveis.

Responsabilidade social e sustentabilidade empresarial 99


1.2 Responsabilidade social corporativa

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Tomando-se por base o conceito genérico de responsabilidade so-
cial visto anteriormente, a responsabilidade social corporativa pode ser
definida como a responsabilidade que as corporações1 têm para com
a sociedade em que atua e com quem se relacionam, incluindo, nesse
sentido, as ações de seus administradores e/ou funcionários.

É um conceito bastante abrangente e, por isso mesmo, não se tem


uma definição unânime de responsabilidade social corporativa. Tem-se,
desde o radicalismo de Milton Freedman que afirmava, segundo Oliveira
(2013, p. 52), que “a única responsabilidade social das empresas era
gerar lucro para seus acionistas, dentro das regras/leis da sociedade”,
até aqueles que, equivocadamente, relacionam essa responsabilidade
com ações filantrópicas.

Carroll (1979), apud Oliveira (2013, p. 55), afirma que “a responsa-


bilidade social de uma empresa engloba as expectativas econômicas,
legais, éticas e filantrópicas que uma sociedade tem das organizações
em um determinado momento”. Esse autor propõe um modelo de res-
ponsabilidade social corporativa composto de quatro níveis interliga-
dos, porém, em forma de pirâmide, ou seja, um nível sucedendo o outro,
partindo da base (responsabilidade econômica) e chegando-se ao ápice
(responsabilidade discricionária).

1 Corporação: “[...] é um grupo de pessoas que agem como se fossem um só corpo, uma só pessoa as quais
buscam alcançar seus objetivos e metas, ou seja, é um grupo de pessoas que se submete a lutar pelos
mesmos ideais” (PORTAL EDUCAÇÃO, 2014). Abrange, portanto, tanto as empresas com fins lucrativos
quanto as organizações sem fins lucrativos.

100 Contabilidade Socioambiental


Figura 1 – Modelo de responsabilidade social proposto por Carroll
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Responsabilidade
discricionária Ações voluntárias de
extensão à comunidade

Responsabilidade ética Comportamento segundo


princípios éticos e morais

Obedecer e cumprira legislação


Responsabilidade legal

Responsabilidade econômica Sobrevivência econômica

Fonte: adaptado de Oliveira (2013, p. 55).

Note-se que a definição dada por Carroll, citada anteriormente, faz


referência às expectativas da sociedade “em um determinado tempo”, o
que significa que tais expectativas podem mudar. Mesmo assim, esse
autor trabalha com a existência de quatro níveis fixos de responsabili-
dade social, o que permite entender que tais níveis existirão, indepen-
dentemente das expectativas da sociedade. Destaque-se, ainda, que a
responsabilidade ou sustentabilidade econômica, para ele, é a base sem
a qual as empresas não sobreviveriam a médio prazo.

O Instituto Ethos, ao referir-se à responsabilidade econômica das


empresas, não separa o modelo econômico do exercício da ética e do
cumprimento das exigências legais, assim se manifestando:

Os valores éticos e de integridade são premissas do modelo eco-


nômico preconizado pela Plataforma por uma Economia Inclusiva,
Verde e Responsável, o qual não se viabilizará num ambiente que
favoreça privilégios oportunistas e acumulação de poder. A visão
de sustentabilidade anda lado a lado com o compromisso de não
sobrepor os interesses privados aos interesses públicos e com-
partilhados e de manter esses padrões em qualquer investimento,

Responsabilidade social e sustentabilidade empresarial 101


estabelecendo relações éticas independentemente do nível das

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exigências locais. (INSTITUTO ETHOS, [s/d])

Segundo esse conceituado instituto, a prática da economia de acor-


do com padrões éticos implica atitudes empresariais no sentido de:

[...] combate à corrupção e à impunidade; valorização da trans-


parência; estímulo à concorrência leal; estímulo à cooperação;
respeito às leis e às regras de negócio; e respeito aos direitos das
diferentes comunidades, étnicas e grupos sociais de se aproximar
em seu próprio ritmo do estilo de vida contemporâneo. (INSTITUTO
ETHOS, [s/d])

Para o Instituto Ethos, “os valores empresariais devem ultrapassar as


determinações do processo produtivo da organização e o que acontece
entre os limites físicos de suas instalações”, reforçando que:

A atuação cidadã e responsável da organização deve considerar


o seu envolvimento e os impactos de suas atividades sobre todos
aqueles com os quais ela se relaciona: funcionários e suas famí-
lias, clientes, fornecedores, o governo e a comunidade do entorno,
entre muitos outros stakeholders (partes interessadas). A adoção
de uma postura clara e transparente no que diz respeito a seus
objetivos e compromissos fortalece a legitimidade social de suas
atividades. (INSTITUTO ETHOS, [s/d])

De todos esses argumentos e premissas, é possível concluir que,


sem dúvida, a sustentabilidade econômica é fundamental para a sobre-
vivência de qualquer organização, mas que essa não dispensa que, con-
comitantemente, se busque sustentá-la em padrões éticos, legais e em
valores que devem ser extensivos a todos que com ela se relacionam.

O que não se discute é que, conforme declara o International Institute


for Sustainable Development (IISD), o conceito de responsabilidade so-
cial corporativa é subjacente à ideia de que as empresas não podem
mais agir como entidades econômicas isoladas, operando de forma
“descolada” da sociedade. As visões tradicionais de competitividade,

102 Contabilidade Socioambiental


sobrevivência e rentabilidade, segundo o IISD (2013), estão sendo
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superadas/varridas.

É também bastante interessante, pela sua abrangência, a definição


de responsabilidade social corporativa dada pela Comunicarte Agência
de Responsabilidade Social:

É o reconhecimento e assunção, pelas empresas e por seus atores-


-chave (proprietários ou controladores, demais acionistas, dirigen-
tes, gestores e outros empregados) dos seus deveres em relação à
comunidade em que atuam e à sociedade em geral. Este conceito
fundamenta-se em dois pressupostos. O primeiro está associado
ao fato de que as decisões e os resultados das atividades empresa-
riais alcançam e impactam um universo muito mais amplo do que
o composto por seus proprietários, acionistas e gestores. Assim,
a RSC enfatiza o impacto das atividades empresariais em relação
a todos os agentes com que interagem, direta ou indiretamente:
empregados e seus familiares, fornecedores, consumidores, inves-
tidores, colaboradores, competidores, governos e comunidades. O
segundo pressuposto relaciona-se ao fato de que as questões de
direitos humanos e de cidadania são de natureza pública: dizem
respeito a todos os cidadãos; e não, apenas, ao governo. (COMU-
NICARTE, [s/d])

Essa definição, além de ratificar a anterior, principalmente no que se


refere ao impacto das atividades empresariais em todos aqueles que se
relacionam com a organização, reforça a responsabilidade do indivíduo
nas questões sociais.

Importa, ainda, conhecer a definição dada para responsabilidade so-


cial pela Norma Internacional ISO 26000:

Responsabilidade social: responsabilidade de uma organização pe-


los impactos de suas decisões e atividades (1) na sociedade e no
meio ambiente, por meio de um comportamento ético e transpa-
rente que ― contribua para o desenvolvimento sustentável, inclusi-
ve a saúde e bem-estar da sociedade; ― leve em consideração as
expectativas das partes interessadas; ― esteja em conformidade

Responsabilidade social e sustentabilidade empresarial 103


com a legislação aplicável e seja consistente com as normas in-

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ternacionais de comportamento ; e ― esteja integrada em toda a
organização e seja praticada em suas relações (2). NOTA 1 Ativi-
dades incluem produtos, serviços e processos. NOTA 2 Relações
referem-se às atividades da organização dentro de sua esfera de
influência. (ABNT, 2010)

Como se pode constatar, apesar de não haver unanimidade nas


definições, todas convergem, a seu modo, para o mesmo ponto: o re-
conhecimento de que as organizações têm responsabilidades perante
a sociedade e que o objetivo a ser alcançado envolve a integração de
interesses econômicos, sociais e ecológicos, trilogia que é conhecida
no mercado internacional, conforme informa Vellani (2011, p. 4), como
Triple Bottom Line (TBL).

Figura 2 – Triple Bottom Line

Integração de:

Interesses
econômicos
TRIPLE BOTTOM LINE

Interesses
sociais

Interesses
ecológicos

104 Contabilidade Socioambiental


PARA SABER MAIS
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Para aprofundar seus conhecimentos sobre o assunto, visite o site das


organizações a seguir e conheça as publicações, eventos e dados im-
portantes sobre responsabilidade social corporativa.

• Instituto Ethos.

• Comissão Europeia (EU) – emprego, assuntos sociais e inclusão.

• Banco Mundial.

• ONU Brasil.

• International Institute for Sustainable Development (IISD).

2 Evolução do conceito de responsabilidade


social nas organizações
O conceito de responsabilidade social começa a despontar formal-
mente no meio literário a partir da metade do século XX. Porém, desde
o começo do referido século tem-se registro de fatos que denotam a
preocupação com a responsabilidade social e de autores que começam
a pesquisar e desenvolver o tema.

De Benedicto, Rodrigues e Penido (2008, p. 4) citando Oliveira (2000,


p. 2) destacam nesse período as primeiras manifestações sobre o as-
sunto pelos “americanos Charlies Eliot (1906), Hakley (1907) e John
Clark (1916)”, além do inglês Oliver Sheldon (1923).

Anteriormente ao século XIX, segundo Hood (1998 apud ASHLEY;


COUTINHO; TOMEI, 2000, p. 2), cabia aos governos a condução dos ne-
gócios de forma corporativa, de maneira a atender aos interesses de
ordem pública como, por exemplo, corporações fundadas para prestar
serviços de construção, transportes e infraestrutura.

Responsabilidade social e sustentabilidade empresarial 105


Alguns autores, como Oliveira (2013), ressaltam a importância da

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Revolução Industrial (séculos XVIII e XIX) para o processo de evolução
da responsabilidade social corporativa, em vista dos progressos trazi-
dos pela industrialização e suas consequências sociais e ambientais.

Foi no ambiente contraditório da Revolução Industrial que, segundo


Carmo (2015), “efervesceram as primeiras reflexões acerca do compro-
misso das empresas em atender não só os interesses capitalistas rela-
cionados ao lucro”, mas também aos interesses de todos aqueles que
eram afetados pelo desenvolvimento das empresas, seja do ponto de
vista interno (funcionários, administradores, etc.), seja do ponto de vista
externo (fornecedores, credores, comunidade, etc.).

O debate sobre a responsabilidade social, de acordo com Borger:

[...] pode ser considerado quase tão antigo quanto as próprias no-
ções de empresas e de negócios e tem assumido aspectos dife-
rentes na mesma medida em que o papel e a influência das empre-
sas na sociedade vem se transformando no decorrer das últimas
décadas, simultaneamente com as conquistas da humanidade no
campo social. (BORGER, 2001, p.8)

Refletindo, portanto, o estágio evolutivo da sociedade em relação aos


aspectos socioambientais, observa-se que, nos dias atuais, existe uma
acentuada movimentação no sentido de que a responsabilidade social
corporativa seja praticada pelas organizações e que a sociedade cobre
delas a transparência na divulgação dos seus atos. Hoje, segundo De
Benedicto, Rodrigues e Penido (2008, p. 5 apud DE BENEDCITO, 2002),
“o tema responsabilidade social assume um aspecto ético-empresarial
tão forte, ao ponto de estar transformando-se em uma ‘doutrina empre-
sarial’, sem a qual não há sucesso”.

106 Contabilidade Socioambiental


Figura 3 – Evolução histórica da responsabilidade social corporativa
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• Responsabilidade social corporativa como


Século XXI
"doutrina empresarial"

•Primeiras literaturas sobre o assunto


Século XX • Evolução do senso de responsabilidade social corporativa

Evolução humana
Séculos • Revolução Industrial
XVIII e XIX • Necessidade cada vez maior de responsabilidade corporativa

Antes do • Governos conduziam os negócios corporativos


século XIX de forma a atender aos interesses públicos

É o indivíduo, como elemento da sociedade, quem dita, por meio da


sua própria evolução e atuação efetiva como agente de mudanças, o ní-
vel de responsabilidade social corporativa que deve ser praticado pelas
organizações.

3 Responsabilidade social e
governança corporativa
A governança corporativa tem ocupado lugar de destaque quando
o assunto é gestão empresarial. Na medida em que a responsabilidade
social corporativa deve ser exercida pelos proprietários ou controlado-
res, acionistas, administradores, gestores e demais colaboradores das
organizações e admitindo-se a sua importância para o sucesso dessas
organizações, não há como dissociá-la das políticas de governança
corporativa.

O termo “governança” remete a governo, administração, controle, e


se reveste de diferentes características de acordo com o contexto em
que é aplicado.

Responsabilidade social e sustentabilidade empresarial 107


3.1 Conceito de governança corporativa

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Governança corporativa, de acordo com Silva (2006, p. 16), “é um con-
junto de práticas que tem como finalidade otimizar o desempenho de uma
companhia, protegendo investidores, empregados e credores, facilitando
assim, o acesso ao capital”.

São várias as definições atribuídas à governança corporativa, des-


tacando-se a do Instituto Brasileiro de Governança Corporativa (IBGC),
entre outras de igual relevância:

Governança corporativa é o sistema pelo qual as empresas e de-


mais organizações são dirigidas, monitoradas e incentivadas, en-
volvendo os relacionamentos entre sócios, conselho de adminis-
tração, diretoria, órgãos de fiscalização e controle e demais partes
interessadas. As boas práticas de governança corporativa conver-
tem princípios básicos em recomendações objetivas, alinhando
interesses com a finalidade de preservar e otimizar o valor econô-
mico de longo prazo da organização, facilitando seu acesso a re-
cursos e contribuindo para a qualidade da gestão da organização,
sua longevidade e o bem comum. (IBGC, [s/d])

A governança corporativa, portanto, compreende políticas e práticas


adotadas pelos gestores, de forma a otimizar os resultados das orga-
nizações, protegendo seus investidores, empregados e demais interes-
sados, contribuindo para o bem comum. O bem comum, neste caso,
abrange todos que, direta ou indiretamente, são atingidos pelos atos
e desempenho da organização que, por sua vez, é afetada pela reação
de todos os envolvidos.

Para melhor entendimento, pode-se utilizar a representação de um


sistema organizacional ou sistema empresarial e suas inter-relações
com os stakeholders para ilustrar a abrangência dos resultados das po-
líticas de governança corporativa:

108 Contabilidade Socioambiental


Figura 4 – As políticas de governança corporativa da organização e sua relação com os stakeholders
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MEIO AMBIENTE

Fornecedores Organização Clientes


credores consumidores

Sócios/
Administradores acionistas/
gestores investidores
MEIO AMBIENTE

MEIO AMBIENTE
Políticas de
governança
corporativa

Funcionários

Outros
Governo Empresa membros
da sociedade

MEIO AMBIENTE

O exercício da gestão ou governança incorpora a lei física de “ação


e reação”, ou seja, os atos praticados em nome da governança de uma
organização repercutirão nos ambientes interno e externo, causando
reações que serão favoráveis ou desfavoráveis na mesma medida da
responsabilidade social que norteou tais atos.

3.2 Governança corporativa e responsabilidade social

A qualidade da governança, ou seja, da gestão de qualquer organi-


zação é elemento vital para o seu sucesso e, por conseguinte, da sua
continuidade. Por outro lado, o sucesso e a continuidade de uma or-
ganização são condições fundamentais para a qualidade de vida da-
queles que estão diretamente ligados a ela (ambiente interno): sócios,
acionistas, administradores, funcionários e suas famílias e, também,
para aqueles com quem a organização se relaciona (ambiente externo):

Responsabilidade social e sustentabilidade empresarial 109


fornecedores, credores, prestadores de serviços, consumidores, comu-

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nidade onde está inserida, etc.

Como visto no tópico anterior, a prática de governança corporativa


cuida para que todos esses stakeholders sejam beneficiados com os re-
sultados de uma gestão capaz de otimizar o desempenho da organiza-
ção e a sua continuação, sendo, portanto, instrumento indispensável para
uma gestão estratégica. Mas, o que move uma organização no sentido de
adotar práticas de governança corporativa? Além dos benefícios econô-
micos, no caso de empresas, o senso de responsabilidade social, sem o
qual, atualmente, dificilmente uma organização poderá sobreviver.

A responsabilidade social é abordada pelo IBGC entre os princípios


básicos de governança corporativa, como:

Responsabilidade Corporativa - Os agentes de governança devem


zelar pela viabilidade econômico-financeira das organizações, re-
duzir as externalidades negativas de seus negócios e suas opera-
ções e aumentar as positivas, levando em consideração, no seu
modelo de negócios, os diversos capitais (financeiro, manufatu-
rado, intelectual, humano, social, ambiental, reputacional, etc.) no
curto, médio e longo prazos. (IBGC, [s/d])

O uso da responsabilidade social como instrumento de gestão corpo-


rativa, portanto, tem um caráter estratégico importante que será refletido
nos resultados obtidos e no desempenho geral da organização, inclusive
no que se refere à valorização de sua marca e atração de investimentos.

Descobre-se a dimensão estratégica da responsabilidade social, na


medida em que ela possa contribuir para maior competitividade,
por implicar um ambiente de trabalho mais motivador e eficiente,
por contribuir para uma imagem institucional positiva e por favo-
recer o estabelecimento de relacionamentos calcados em maior
comprometimento com seus parceiros de negócio. (MARTINELLI,
1997, apud COUTINHO; MACEDO-SOARES, 2002, p. 76)

110 Contabilidade Socioambiental


Outro princípio, estabelecido pelo IBGC, e que também tem total rela-
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ção com o senso de responsabilidade social corporativa é o da:

Equidade  – Caracteriza-se pelo tratamento justo e isonômico de


todos os sócios e demais partes interessadas (stakeholders), le-
vando em consideração seus direitos, deveres, necessidades, inte-
resses e expectativas. (IBGC, [s/d]) 

Os princípios e as práticas de governança corporativa não se aplicam


só às empresas (organizações com fins lucrativos). Segundo o IBGC
([s/d]), apesar de terem sido desenvolvidos para elas, tais princípios e
práticas “[...] podem ser adotados e trazer benefícios para organizações
não empresariais, por meio do alinhamento de interesses em busca de
contribuir para o sucesso da organização e para sua longevidade”.

3.3 Governança corporativa e accountability

A prestação de contas dos atos e realizações das organizações aos


seus stakeholders é uma das premissas de uma gestão socialmente
responsável e, por conseguinte, se inclui no rol dos princípios de gover-
nança corporativa:

Prestação de Contas (accountability) - Os agentes de governan-


ça devem prestar contas de sua atuação de modo claro, conciso,
compreensível e tempestivo, assumindo integralmente as conse-
quências de seus atos e omissões e atuando com diligência e res-
ponsabilidade no âmbito dos seus papéis. (IBGC, [s/d])  

A concretização do princípio da prestação de contas ocorre pela prática,


por parte da organização, de um outro princípio de governança corporativa:

Transparência - Consiste no desejo de disponibilizar para as par-


tes interessadas as informações que sejam de seu interesse e não
apenas aquelas impostas por disposições de leis ou regulamentos.
Não deve restringir-se ao desempenho econômico-financeiro, con-
templando também os demais fatores (inclusive intangíveis) que

Responsabilidade social e sustentabilidade empresarial 111


norteiam a ação gerencial e que condizem à preservação e à otimi-

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zação do valor da organização. (IBGC, [s/d])  

As políticas e práticas de governança corporativa, portanto, ao con-


templarem tais princípios, estarão completando e facilitando o fluxo de
ações que são consequência da inter-relação da organização com as par-
tes interessadas. Do resultado positivo desse fluxo dependerá o sucesso
da organização. É nesse mister que a Contabilidade Socioambiental dará
a sua contribuição, por meio da elaboração de demonstrativos, com base
em registros, que não só cumprirão a tarefa de prestação de contas com
transparência, como possibilitarão a projeção e o controle dos resultados
das ações da governança.

PARA SABER MAIS

Quer conhecer melhor as práticas de governança corporativa? Consulte


as “Publicações” no site do Instituto Brasileiro de Governança Corpora-
tiva (IBGC).

4 Normas e certificações socioambientais


As normas socioambientais advêm das políticas socioambientais
que podem ser públicas ou privadas, conforme estudado no Capítulo 4,
além das políticas globais, resultantes de acordos celebrados em even-
tos e conferências promovidas para estabelecê-las. As políticas públi-
cas estarão contempladas nas legislações correspondentes e deverão
ser observadas por todos os indivíduos e as organizações, e as políticas
privadas serão normatizadas, quando for o caso, pelas organizações
que as instituíram, sendo aplicáveis somente a elas.

Além dessas, existem normas emitidas com o propósito de certificar


ou recomendar procedimentos que levem à excelência da gestão, pelas

112 Contabilidade Socioambiental


organizações, de determinados aspectos como qualidade e padrões de
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gestão de áreas específicas. Por exemplo:

•• ISO 14000 (meio ambiente).

•• ISSO 9000 (qualidade).

•• CE EMAS (ambiental).

•• BS 8800 (condições dignas de trabalho).

•• BS 8855 (ambiental).

•• SA 8000 (direitos sociais).

•• OHSAS 18001 (riscos/acidentes).

•• AA 1000 (prestação de contas).

Certificação, segundo Hoskins e Shinya (2003 apud SILVA; DRUMMOND,


2005), “é um procedimento através do qual uma terceira parte fornece uma
declaração por escrito atestando que um produto, um processo ou um ser-
viço atende a específicos requisitos”. É um diferencial importante para algu-
mas empresas que buscam se destacar em seus segmentos.

Especificamente sobre responsabilidade social corporativa/empre-


sarial, tem-se:

•• ABNT NBR 16001 (responsabilidade social) – A Associação Brasileira


de Normas Técnicas (ABNT), conforme informa Louette (2008, p. 150),
como representante oficial da ISO2 no Brasil, publicou em 2004, após
dois anos de trabalho de um grupo-tarefa, a Norma Brasileira de
Requisitos em Sistema de Gestão de Responsabilidade Social. Essa
versão foi atualizada em 2012, com as disposições da ISO 26000.
A NBR 16001 é uma norma que permite que a organização busque a

2 ISO: sigla de International Organization for Standardization, ou Organização Internacional para Padronização,
em português. A ISO é uma entidade de padronização e normatização, criada em Genebra, na Suíça, em 1947.

Responsabilidade social e sustentabilidade empresarial 113


certificação, razão pela qual é passível de auditoria, pois foi estrutura-

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da em requisitos verificáveis. 

A NBR 16001 tem por objetivo fornecer às organizações os ele-


mentos de um sistema da gestão de responsabilidade social eficaz,
passível de integração com outros requisitos da gestão, de forma a
auxiliá-las a alcançar seus objetivos relacionados com os aspectos
da responsabilidade social. (LOUETTE, 2008, p. 150)

•• ISO 26000 (responsabilidade social) – A Norma Internacional


ISO 26000 – diretrizes sobre Responsabilidade Social, foi publi-
cada em Genebra, na Suíça, em novembro de 2010, e em dezem-
bro do mesmo ano foi publicada no Brasil como ABNT NBR ISO
26000. A norma orienta todos os tipos de organização, de qual-
quer porte ou localização sobre conceitos, históricos e princípios
de responsabilidade social; temas centrais e questões sobre o
assunto; integração, implementação e promoção de comporta-
mento socialmente responsável; identificação e engajamento das
partes interessadas; e comunicação de compromissos, desem-
penho e demais informações referentes à responsabilidade so-
cial. O uso da norma é voluntário e não oferece nenhuma certifi-
cação a quem a adote.

No que se refere à Contabilidade Socioambiental, não há no Brasil


normas contábeis específicas para registro de operações de cará-
ter ambiental; o que se tem é a NBC T 15 – Informações de Natureza
Social e Ambiental, aprovada pela Resolução do Conselho Federal de
Contabilidade no 1003/04, que “estabelece procedimentos para eviden-
ciação de informações de natureza social e ambiental, com o objetivo de
demonstrar à sociedade a participação e a responsabilidade social da
entidade” (CFC, 2004). A referida norma é anterior à adoção das Normas
Internacionais de Contabilidade pelo Brasil, embora ainda esteja vigente,
pois, conforme mencionado, não normatiza o registro das operações,
mas somente a evidenciação de informações.

114 Contabilidade Socioambiental


As Normas Internacionais de Contabilidade não preveem tratamento
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específico para as operações de caráter socioambiental, partindo da pre-


missa que essas não se diferenciam qualitativamente das demais ope-
rações e, portanto, estão inclusas nas Normas Gerais de Contabilidade.
Algumas dessas normas gerais, eventualmente, coincidem com as ca-
racterísticas socioambientais, mas não foram redigidas com fins diferen-
ciados como, por exemplo: a Resolução CFC no 1288/10, que aprova a
ITG 13 – Direitos e Participações Decorrentes de Fundos de Desativação,
Restauração e Reabilitação Ambiental; a Resolução CFC no 1186/09, que
aprova a NBC TG 29 – Ativo Biológico e Produto Agrícola; e a Resolução
CFC no 1180/09, que aprova a NBC TG 25 – Provisões, Ativos Contingentes
e Passivos Contingentes.

Sobre as normas contábeis, cabe ainda ressaltar a NBC TG 29, que


versa sobre a Demonstração do Valor Adicionado, demonstrativo contá-
bil de caráter social que será tratado no Capítulo 16.

PARA PENSAR

A obtenção de uma certificação socioambiental é um processo minu-


cioso e complexo, justamente para garantir que as respectivas regras
estejam sendo cumpridas. A atuação de uma auditoria, nesse caso, é
indispensável. A que tipo de auditoria um processo como esse deve ser
submetido? Ela diz respeito, também, à Contabilidade Socioambiental?

5 Indicadores e relatórios de
responsabilidade socioambiental
das organizações
Indicadores são índices calculados para mostrar a relação existente
entre duas ou mais referências quantitativas ou qualitativas, passíveis
de serem quantificadas.

Responsabilidade social e sustentabilidade empresarial 115


O Ministério do Meio Ambiente define “indicadores” da seguinte

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forma:

Indicadores são informações quantificadas, de cunho científico, de


fácil compreensão usadas nos processos de decisão em todos os
níveis da sociedade, úteis como ferramentas de avaliação de deter-
minados fenômenos, apresentando suas tendências e progressos
que se alteram ao longo do tempo. Permitem a simplificação do
número de informações para se lidar com uma dada realidade por
representar uma medida que ilustra e comunica um conjunto de
fenômenos que levem a redução de investimentos em tempo e re-
cursos financeiros. (BRASIL. MMA) 

No âmbito socioambiental, os indicadores, geralmente, são classifi-


cados como ambientais, socioeconômicos ou sociais.

Existem vários indicadores com a finalidade de demonstrar infor-


mações regionais ou nacionais, elaborados por órgãos oficiais como o
Ministério do Meio Ambiente (MMA) e o Instituto Brasileiro de Geografia
e Estatística (IBGE). Os Indicadores da Camada de Ozônio, por exem-
plo, são divulgados pelo MMA, e os Indicadores de Desenvolvimento
Sustentável (IDS) são divulgados pelo IBGE, assim como o Índice de
Desenvolvimento Humano (IDH).

As organizações utilizarão indicadores de acordo com as suas ne-


cessidades de análise de desempenho socioambiental, seja para efeito
de gestão, seja para divulgação, os quais poderão considerar, a exemplo
do que ocorre com o Global Reporting Initiative (GRI), três elementos
fundamentais: o econômico, o ambiental e o social.

O Global Reporting Initiative (GRI) – Iniciativa Global para Apresentação


de Relatórios é, segundo Tinoco e Kraemer (2006, p. 282), um acordo in-
ternacional “[...] cuja missão é elaborar e difundir as diretrizes para organi-
zação de relatórios de sustentabilidade aplicáveis global e voluntariamen-
te pelas organizações“.

116 Contabilidade Socioambiental


O relatório que resulta da aplicação das diretrizes do GRI é um relató-
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rio de sustentabilidade que serve de modelo, em todo o mundo, para as


organizações que divulgam seus desempenhos socioambientais. O GRI
G4 é o modelo atualmente vigente para a confecção do relatório, cujas
diretrizes são assim comentadas:

Chegar ao confronto com relatórios de sustentabilidade pode


parecer um salto para um terreno inexplorado para os não inicia-
dos. Com Diretrizes para Relatórios de Sustentabilidade da GRI G4,
é mais uma viagem de descoberta, ajudando as organizações a
centrar as suas atenções para o estabelecimento de metas, medir
o desempenho e gestão da mudança, a fim de implementar melho-
res práticas. (GRI, [s/d])

Outra referência de indicadores socioambientais, que tomou por base


as diretrizes do GRI, é o conjunto de Indicadores Ethos para Negócios
Sustentáveis.

Os Indicadores Ethos são uma ferramenta de gestão, de uso gra-


tuito, que visa apoiar as empresas na incorporação da sustenta-
bilidade e da responsabilidade social empresarial (RSE) em suas
estratégias de negócio, de modo que esse venha a ser sustentável
e responsável. Os Indicadores Ethos para Negócios Sustentáveis e
Responsáveis têm como foco avaliar o quanto a sustentabilidade e
a responsabilidade social têm sido incorporadas nos negócios, au-
xiliando a definição de estratégias, políticas e processos. Embora
traga medidas de desempenho em sustentabilidade e responsabili-
dade social, esta ferramenta não se propõe a medir o desempenho
das empresas nem reconhecer empresas como sustentáveis ou
responsáveis. (INSTITUTO ETHOS, 2013)

Ao abordar os indicadores socioambientais de forma genérica, este


tópico teve por objetivo despertar a atenção para esse importante ins-
trumento no contexto da Contabilidade Socioambiental, já que uma das
suas funções é contribuir para o cálculo e análise de indicadores gera-
dos por meio de seus relatórios e registros.

Responsabilidade social e sustentabilidade empresarial 117


Sobre informações sociais, vale ainda destacar o demonstrativo

Material para uso exclusivo de aluno matriculado em curso de Educação a Distância da Rede Senac EAD, da disciplina correspondente. Proibida a reprodução e o compartilhamento digital, sob as penas da Lei. © Editora Senac São Paulo.
denominado Balanço Social, relatório que não contempla um modelo
específico, embora, normalmente demonstre os indicadores agrupados
conforme o GRI G4 ou Indicadores Ethos, juntamente com notas expli-
cativas que detalham tais informações.

PARA SABER MAIS

Vale a pena conhecer melhor os “Indicadores Ethos para negócios sus-


tentáveis e responsáveis”. Consulte o portal do Instituto Ethos.

Considerações finais
Neste capítulo foram desenvolvidos tópicos relevantes em torno do
tema responsabilidade social corporativa, constatando-se que, a exem-
plo do que foi visto anteriormente em relação ao meio ambiente e à
sustentabilidade, são várias as definições atribuídas a ela, formuladas
pelos diversos pesquisadores, e que tais definições, no entanto, acabam
por convergir para o conceito de que ela representa o reconhecimento
e a assunção pela organização, por meio dos responsáveis pela sua
gestão, dos seus deveres em relação à comunidade em que atuam e à
sociedade em geral.

Constatou-se no desenvolvimento do capítulo que a responsabilida-


de social corporativa despontou, com a conotação que hoje é conheci-
da, a partir da segunda metade do século XX, apesar das diversas ma-
nifestações sobre sua existência desde muito antes, ressaltando-se a
sua importância a partir das necessidades criadas pela industrialização
iniciada na Revolução Industrial, nos séculos XVIII e XIX.

Ao abordar os princípios e as práticas de governança corporativa,


inseriu-se a responsabilidade social nesse contexto de governança,

118 Contabilidade Socioambiental


tornando possível visualizar sua manifestação intrínseca, principalmen-
Material para uso exclusivo de aluno matriculado em curso de Educação a Distância da Rede Senac EAD, da disciplina correspondente. Proibida a reprodução e o compartilhamento digital, sob as penas da Lei. © Editora Senac São Paulo.

te nos princípios da equidade, transparência e prestação de contas.

Foram também destacadas as principais normas e certificações


socioambientais, salientando-se que as normas contábeis brasileiras,
por derivarem das normas contábeis internacionais, não contemplam
regras específicas para registro das operações de caráter socioambien-
tal, embora algumas normas contábeis de caráter geral possam ser di-
retamente relacionadas a tais operações.

Por fim, o último tópico tratou dos indicadores e relatórios de respon-


sabilidade socioambiental, sendo abordados os indicadores mais utili-
zados pelo setor privado, embasados nas diretrizes do GRI, e aqueles
elaborados pelo setor público para divulgação de informações socioam-
bientais regionais ou nacionais.

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2012. Disponível em: <http://www.inmetro.gov.br/qualidade/responsabilidade_
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Responsabilidade social e sustentabilidade empresarial 119


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120 Contabilidade Socioambiental


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VELLANI, Cassio Luiz. Contabilidade e responsabilidade social. São Paulo:


Atlas, 2011.

Responsabilidade social e sustentabilidade empresarial 121


Capítulo 6

Fundamentos de
gestão ambiental
empresarial

Neste capítulo, serão estudados os fundamentos de gestão am-


biental necessários ao entendimento da Contabilidade Socioambiental
como instrumento para geração de informações que contribuam para
a eficácia dessa gestão. Com esse objetivo principal, serão destacados
os conceitos e as dimensões da gestão ambiental, assim como as abor-
dagens que a envolvem. Será ainda discutida a adoção do modelo que
deverá nortear o processo de gestão ambiental, compreendendo-o no
contexto do modelo de gestão da organização como um todo, e integra-
do à sua missão, valores, visão e objetivos.

123
Colocar em prática um modelo de gestão exigirá a existência de

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um sistema envolvendo recursos humanos, tecnológicos e financeiros,
além do comprometimento de toda a organização e, particularmen-
te, dos seus líderes. No que se refere ao sistema de gestão ambiental
(SGA), neste capítulo será mostrada a sua composição, seus elementos
essenciais e a sua relação com os padrões ambientais determinados
pelas respectivas normas internacionais.

Sobre as normas internacionais, foram escolhidos para estudo dois


conjuntos de normas – o EMAS e a ISO 14000 – que estabelecem pa-
drões para a gestão ambiental e para o SGA (ISO 14001).

Além do SGA, os instrumentos de gestão ambiental são essenciais


para que se atinjam os objetivos propostos para essa gestão. Finalizando
este capítulo, serão apresentadas as características gerais de dois des-
ses instrumentos: o estudo e a avaliação dos impactos ambientais, o ci-
clo de vida do produto ou projeto, e a auditoria ambiental.

1 Gestão ambiental: conceito e dimensões

1.1 Conceitos

A gestão ambiental tem sido objeto de muitas abordagens, desde que


o assunto meio ambiente passou a fazer parte do dia a dia das pessoas
e das organizações. Para entender o que realmente ela significa, é pre-
ciso considerar que o meio ambiente abrange não só a fauna e a flora,
mas também o ser humano e todos os elementos necessários à vida;
portanto, gestão ambiental refere-se à gestão harmônica de todos esses
componentes.

São várias as definições dadas para “gestão ambiental”. Uma des-


sas definições trata a gestão ambiental como um sistema composto de
vários elementos que, exatamente por formarem um sistema, estariam
inter-relacionados:

124 Contabilidade Socioambiental


Gestão ambiental é o sistema que inclui a estrutura organizacio-
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nal, atividades de planejamento, responsabilidades, práticas, pro-


cedimentos, processos e recursos para desenvolver, implementar,
atingir, analisar criticamente e manter a política ambiental. É o que
a empresa faz para minimizar ou eliminar os efeitos negativos pro-
vocados no ambiente por suas atividades. (TINOCO; KRAEMER,
2006, p. 109)

Essa visão sistêmica é importante justamente por ressaltar a inter-


-relação entre os elementos envolvidos na gestão ambiental, o que a
caracteriza como um conjunto de fatores e, portanto, não constituída
por procedimentos isolados. Mostra, também, que o processo de ges-
tão ambiental tem início desde o estabelecimento da própria estrutura
organizacional que dela vai se ocupar, demonstrando que esse tipo de
gestão não se diferencia dos demais que também requerem a distribui-
ção de atribuições e responsabilidades.

A seguinte definição corrobora esse sentido:

O processo de gestão ambiental leva em consideração todas aque-


las variáveis de um processo de gestão, tais como o estabeleci-
mento de políticas, planejamento, um plano de ação, alocação de
recursos, determinação de responsabilidades, decisão, coordena-
ção, controle, entre outros, visando principalmente ao desenvolvi-
mento sustentável. (FERREIRA, 2011, p. 27)

A definição a seguir explicita um componente importante no proces-


so de gestão do meio ambiente – a prevenção dos problemas ambien-
tais – entendendo que a gestão ambiental é composta por:

[...] diretrizes e as atividades administrativas e operacionais, tais


como planejamento, direção controle, alocação de recursos e ou-
tras realizadas com o objetivo de obter efeitos positivos sobre o
meio ambiente, tanto reduzindo, eliminando ou compensando os
danos ou problemas causados pelas ações humana, quanto evi-
tando que elas surjam. (BARBIERI, 2011, p. 19)

Fundamentos de gestão ambiental empresarial 125


Como se observa, as definições anteriores são direcionadas para

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as organizações, quando comprometidas com a tarefa de proteção ao
meio ambiente. Ribeiro (2010, p. 144) considera que, para o cumprimen-
to dessa tarefa, “[...] é necessário que cada uma de suas áreas de tra-
balho esteja comprometida com esse propósito e, consequentemente,
cada um de seus colaboradores”. Dessa afirmativa pode-se destacar a
“departamentalização” do compromisso com a tarefa de proteção ao
meio ambiente, o que torna o processo de gestão ambiental ainda mais
complexo e o envolvimento individual dos colaboradores.

Oliveira (2013, p. 23-27) traz a ideia de gestão ambiental como gestão


de recursos comuns, partindo da premissa de que “[...] a ação de uma
pessoa ou de uma organização pode afetar um recurso que é utilizado
por várias pessoas” e, portanto, é de uso comum; cita como exemplo
a atmosfera e os oceanos. Considera, ainda, que tanto o Estado como
o mercado não têm como executar e prover regras que promovam a
sustentabilidade dos recursos no longo prazo, cabendo à sociedade es-
tabelecer tais regras. Seu raciocínio baseia-se no conceito da “tragédia
dos comuns”, de Hardin (1968), que demonstra que o uso indiscrimi-
nado dos recursos comuns pelos indivíduos pode, num primeiro mo-
mento, trazer-lhes os resultados que esperavam, mas, a médio ou longo
prazo, o esgotamento desses recursos pelo uso irracional prejudicará a
todos que dele fazem uso. Assim, a complexa gestão de recursos não
é tarefa deste ou daquele grupo de pessoas ou das organizações, mas
sim de todos os que deles se beneficiam. Do exposto por Oliveira, pode-
-se inferir que a tarefa de gestão ambiental é de todos nós.

126 Contabilidade Socioambiental


Figura 1 – Tragédia dos comuns
Material para uso exclusivo de aluno matriculado em curso de Educação a Distância da Rede Senac EAD, da disciplina correspondente. Proibida a reprodução e o compartilhamento digital, sob as penas da Lei. © Editora Senac São Paulo.

RECURSOS DE USO COMUM


Água (rios); atmosfera; área vizinha

Benefício individual Prejuízo coletivo


(inclusive dele mesmo)
• Livrar-se do lixo
• Enchentes
• Mau cheiro
• Infestação por animais
(baratas, ratos) nos
resíduos acumulados
nas margens
• Doenças

Pelas definições apresentadas, é possível constatar que a gestão


ambiental tem as características normais de um processo de gestão,
sendo, contudo, voltada para os elementos que compõem o meio am-
biente. Por outro lado, por se tratar da gestão de recursos comuns, cujos
impactos atingem a coletividade, essa gestão não cabe só ao Estado ou
às organizações, pelo contrário, para se alcançar resultados positivos, é
fundamental o engajamento da sociedade nesse processo.

No caso das organizações, a Contabilidade Socioambiental é


instrumento indispensável na geração de informações para plane-
jamento, avaliação e controle das políticas ambientais, inclusive
departamentalizadas.

Fundamentos de gestão ambiental empresarial 127


1.2 Dimensões

Material para uso exclusivo de aluno matriculado em curso de Educação a Distância da Rede Senac EAD, da disciplina correspondente. Proibida a reprodução e o compartilhamento digital, sob as penas da Lei. © Editora Senac São Paulo.
A palavra “dimensão” pode ser usada de formas diferentes, de acor-
do com o contexto em que é empregada. Pode expressar o tamanho, o
volume ou amplitude de um objeto ou situação. No contexto de gestão
ambiental, será utilizado o conceito de dimensão como uma faceta ou
um aspecto desse processo.

Sem perder de vista esse propósito, a gestão ambiental, segundo


Barbieri (2011, p. 21-22), considera em suas propostas três dimensões:
espacial, temática e institucional:

Figura 2 – Dimensões da gestão ambiental

Dimensão Dimensão temática Dimensão


institucional institucional

Ações de Ações de
gestão gestão
SETORIAL Ar Água NACIONAL

EMPRESAS SINDICATOS
Dimensão espacial
Dimensão espacial

Fauna e Recursos LOCAL


GLOBAL
GOVERNOS Flora minerais INSTITUIÇÕES DE
ENSINO E PESQUISA

ONGs OUTRAS
EMPRESARIAL Aquecimento
Solo REGIONAL
global
Ações de Ações de
gestão gestão

•• Dimensão espacial – diz respeito à área na qual se espera que


as ações da gestão tenham eficácia, ou seja, proporcionem re-
sultados positivos. Essa dimensão pode ter abrangência global,
regional, nacional, subnacional, local, setorial, empresarial, etc.

128 Contabilidade Socioambiental


•• Dimensão temática – delimita as questões ambientais que serão
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alvo das ações de gestão, por exemplo: ar, água, solo, fauna e
flora, recursos minerais, aquecimento global, etc.

•• Dimensão institucional – refere-se aos agentes que tomam as


iniciativas de gestão, a saber: empresas, governos, ONGs, sindi-
catos, instituições de ensino e pesquisa, etc.

Sabe-se que a base de um processo de gestão é o planejamento, e,


na sua concepção, no caso da gestão ambiental, a visão clara das suas
dimensões é condição fundamental para se delinear as ações que nor-
tearão a sua execução e controle.

2 Estratégias e abordagens
de gestão ambiental

A necessidade de gestão ambiental, via de regra, tem origem na exi-


gência do cumprimento das legislações ou nas exigências do mercado
que levam as organizações a buscarem soluções socioambientais, pra-
ticando uma gestão que viabilize a implantação e o controle das políti-
cas ambientais. Como já foi visto, tais políticas podem ser públicas ou
privadas e, neste caso, as organizações adotam estratégias e aborda-
gens que dependerão dos problemas que elas causam ao meio ambien-
te ou daqueles que pretendam evitar.

Barbieri (2011, p. 107-118) destaca três abordagens de gestão am-


biental adotadas pelas organizações, segundo os objetivos que preten-
dam alcançar, ressaltando que tais abordagens também podem sinali-
zar as fases de um processo de gestão ambiental em implantação: o
controle da poluição, a prevenção da poluição e a abordagem estraté-
gica, que, em linhas gerais e resumidamente, apresentam as seguintes
características:

Fundamentos de gestão ambiental empresarial 129


Quadro 1 – Abordagens de gestão ambiental

Material para uso exclusivo de aluno matriculado em curso de Educação a Distância da Rede Senac EAD, da disciplina correspondente. Proibida a reprodução e o compartilhamento digital, sob as penas da Lei. © Editora Senac São Paulo.
Caracteriza-se pelo estabelecimento de práticas visando impedir os
efeitos da poluição gerada por um determinado processo produtivo. Os
Controle da poluição
diversos processos para controle da poluição podem ter custos elevados
e, na maioria das vezes, são realizados em cumprimento da legislação.

Caracteriza-se pela atuação no sentido de evitar, reduzir ou modificar


a geração de poluição por meio da adoção de processos produtivos
Prevenção da poluição
mais eficientes, com menor consumo de materiais e de energia (uso
sustentável dos recursos e controle da poluição).

Abordagem em que as organizações tratam os problemas ambientais


como questões estratégicas que se relacionam à busca de uma
Abordagem estratégica situação vantajosa para organização em seus negócios atuais ou
futuros, atraindo investidores e consumidores diante de uma opinião
pública favorável.

A implementação dessas abordagens, de acordo com Barbieri (2011,


p. 119), requer a realização de “[...] diversas atividades administrativas
e operacionais orientadas por concepções mentais, explícitas ou não,
configurando um modelo de gestão ambiental específico”.

3 Modelos de gestão ambiental


Antes de abordar os modelos de gestão ambiental, vale lembrar o
que é um modelo de gestão:

[...] é produto do subsistema institucional e tem como fundamento


as crenças e valores dos líderes da empresa (fundadores, proprie-
tários e principais gestores). O modelo de gestão é o conjunto de
normas e princípios que devem orientar os gestores na escolha
das melhores alternativas para levar a empresa a cumprir sua mis-
são com eficácia. (CROZATTI, 1998, p. 13)

O desenvolvimento e a adoção de um modelo de gestão têm por


base as crenças e os valores da organização, consubstanciados na sua
missão e evidenciados na sua visão e determinação de objetivos. Como
instrumento imprescindível na gestão, de qualquer tipo de organização,

130 Contabilidade Socioambiental


é o modelo de gestão que norteará os procedimentos e as ações para
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que ela alcance esses objetivos.

Essa premissa também se aplica à gestão ambiental, que não pres-


cinde do imperativo de adotar um modelo de gestão capaz de conduzir
a organização à consecução dos seus objetivos de caráter socioam-
biental. No entanto, a sua especificidade não torna a gestão ambiental
independente do modelo de gestão da organização; pelo contrário, a
ele se integra na tarefa de cumprir a missão que ela determinou e que,
como já comentado, foi estabelecida mediante as suas crenças e valo-
res levando em conta aspectos socioambientais.

Existem diversos modelos genéricos e específicos de gestão ambien-


tal, conforme o segmento a que pertença a organização, que podem ser
adotados caso a organização não crie um modelo próprio, por exemplo:

•• Total Quality Environmental Management (TQEM) ou Administra­


ção da Qualidade Ambiental Total.

•• Cleaner Production ou Produção mais Limpa.

•• Programa Atuação Responsável, para indústrias químicas; e Ecoe­


ficiência, entre outros.

Vale ressaltar, ainda, que os modelos de gestão podem ser combi-


nados para atender às características da organização ou, também, ser
implementados isoladamente.

Esses modelos e suas variações permitem implementações isola-


das, ou seja, uma empresa pode adotar um desses modelos com
seu próprio esforço, embora sempre haverá a necessidade de ar-
ticulação com fornecedores, transportadores, recicladores, entida-
des apoiadoras e outros agentes. (BARBIERI, 2011, p. 135)

Sem entrar no mérito dos detalhes de cada um desses modelos


de gestão, é certo que, qualquer que seja o modelo adotado, a gestão

Fundamentos de gestão ambiental empresarial 131


ambiental não pode prescindir de informações geradas pela Contabilidade

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Socioambiental, principalmente no que se refere aos custos ambientais.
Por outro lado, a geração dessas informações dependerá, dentre outras
providências, de um sistema de gestão ambiental adequado às necessi-
dades de cada organização.

4 Sistemas de gestão ambiental (SGA)

4.1 Conceitos

A palavra “sistema”, por si só, remete à ideia de partes que se inter-


-relacionam para formar um todo. Importa relembrar, no entanto, que
em se tratando de sistemas de gestão ou sistemas contábeis, tais par-
tes são constituídas de recursos materiais, tecnológicos, humanos e
financeiros.

Barbieri (2011, p. 147) define o sistema de gestão ambiental (SGA)


como “[...] um conjunto de atividades administrativas e operacionais in-
ter-relacionadas para abordar os problemas ambientais atuais ou para
evitar o seu surgimento”.

Relembrando o que é um sistema de gestão:

Sistema de Gestão é um conjunto de práticas padronizadas, logica-


mente inter-relacionadas com a de gerir uma organização e produ-
zir resultados. O Sistema de Gestão da organização abrange todos
os seus subsistemas de gestão, composto por práticas. O siste-
ma de gestão costuma ser um emaranhado de práticas de gestão
que interagem entre si, produzindo resultados financeiros ou não”.
(FNQ, [s/d], p. 3)

132 Contabilidade Socioambiental


Figura 3 – Sistema de gestão ambiental (SGA)
Material para uso exclusivo de aluno matriculado em curso de Educação a Distância da Rede Senac EAD, da disciplina correspondente. Proibida a reprodução e o compartilhamento digital, sob as penas da Lei. © Editora Senac São Paulo.

Atividades
administrativas

Sistema de gestão ambiental

Problemas
ambientais

Atividades
operacionais

A ABNT NBR ISO 14001 (2004 apud FOGLIATTI et al., 2011, p. 6), nor-
ma internacionalmente aceita que orienta a implementação e operação
de um SGA, define-o como uma parte do sistema de gestão de uma
organização que tem por finalidade desenvolver, implantar e gerenciar
sua política ambiental, em todos os seus aspectos.

Pode-se entender, portanto, que o sistema de gestão ambiental, em-


bora tenha características próprias, é parte integrante do sistema de
gestão da organização e dele não se dissocia e, dessa maneira, se in-
ter-relaciona com todas as demais partes, inclusive com o sistema de
informações contábeis.

Como qualquer sistema de gestão, o ambiental também exige pla-


nejamento e organização para ser implementado e controlado. No en-
tanto, o alcance dos seus objetivos será tão mais fácil quanto maior
for o comprometimento de todos os envolvidos e, particularmente, da
direção da organização e de seus responsáveis diretos.

Fundamentos de gestão ambiental empresarial 133


Ações isoladas no sentido de corrigir danos ambientais ou mesmo

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preveni-los, de forma pontual, não configuram, segundo Barbieri (2011,
p. 147), um sistema de gestão ambiental propriamente dito, indepen-
dentemente do quanto tenham custado à organização. O que caracte-
riza um sistema de gestão ambiental é a sua integração ao modelo de
gestão adotado para esse fim, servindo de meio para concretização da
política ambiental da organização.

Como elementos essenciais a um sistema de gestão ambiental,


Barbieri (2011, p. 147) menciona “[...] a política ambiental, a avaliação
dos impactos ambientais, os objetivos, metas e planos de ação, os ins-
trumentos para acompanhar e avaliar as ações planejadas e o desem-
penho ambiental da organização e do próprio SGA”. Com base nesses
elementos, um SGA pode ser representado como ações contínuas esta-
belecidas já no seu planejamento, da seguinte forma:

Figura 4 – Elementos essenciais de SGA

Instrumentos
Avaliação dos Objetivos, para Avaliação do
Política desempenho e
impactos metas e planos acompanhar
ambiental da organização
ambientais de ação e avaliar as
ações planejadas do SGA

•• Política ambiental: o seu cumprimento é o objeto de um SGA; ele


só existe em função da existência de uma política ambiental

•• Avaliação dos impactos ambientais: necessária para a determi-


nação das ações a serem desenvolvidas pelo SGA.

•• Objetivos, metas e planos de ação: estabelecimento “do que” (ob-


jetivos) se pretende alcançar com a implementação do SGA, em
função da política ambiental estabelecida, de forma quantitativa e

134 Contabilidade Socioambiental


qualitativa (metas) e “como” tais objetivos serão alcançados (pla-
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nos de ação).

•• Instrumentos para acompanhar e avaliar as ações planejadas:


quais instrumentos de controle serão utilizados para avaliar a efi-
cácia das ações para eventual correção de procedimentos, caso
necessário.

•• Avaliação do desempenho e da organização do SGA: estabeleci-


mento de indicadores que avaliem o desempenho geral da organi-
zação no que se refere à implementação da sua política ambien-
tal e, também, do desempenho do SGA.

Vale aqui ressaltar que nesse processo de desenvolvimento do SGA


deve ser considerada a interface com o sistema de informações con-
tábeis da organização, para que a Contabilidade Socioambiental pos-
sa cumprir o seu papel como geradora de informações para a gestão
ambiental.

4.2 Padrões ambientais

Um padrão representa um modelo a ser seguido. Em termos de ges-


tão ambiental, dada a sua importância, foram estabelecidos alguns pa-
drões regionais, nacionais e internacionais, cujo cumprimento tem sido
objeto das organizações que os tomam como modelos de gestão.

Os padrões ambientais são designados pelas respectivas normas


ambientais, sendo que os padrões nacionais seguem aqueles prescri-
tos internacionalmente. São exemplos desses padrões: os regulamen-
tos do Eco Management and Audit Scheme (EMAS), o conjunto de nor-
mas da ISO 14000 e, em particular, a ISO 14001, entre outras normas
internacionais.

Fundamentos de gestão ambiental empresarial 135


5 Normas internacionais sobre SGA

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O crescimento da importância da gestão socioambiental e os even-
tos internacionais a respeito do tema têm fortalecido o surgimento de
normas que instituem os padrões ambientais desejáveis em nível mun-
dial. Isto porque, conforme já mencionado, o processo de globalização,
particularmente da economia, tem mostrado que a preocupação com o
desenvolvimento sustentável não está restrita a um país ou uma região,
mas se estende ao mundo inteiro.

Entre as normas internacionais sobre os sistemas de gestão ambien-


tal, destacam-se os regulamentos do EMAS e aquelas que compõem o
conjunto de normas ISO 14000.

5.1 Eco Management and Audit Scheme (EMAS)

O EMAS ou Sistema Comunitário de Ecogestão e Auditoria foi ins-


tituído em 1993 pela Comunidade Econômica Europeia (CEE), e desde
então tem denominado com a sigla EMAS o conjunto de normas sobre
gestão ambiental por ele emitido. O EMAS pode ser definido como:

Um instrumento voluntário dirigido às empresas que pretendam


avaliar e melhorar seus comportamentos ambientais e informar
o público e outras partes interessadas a respeito do seu desem-
penho e intenções quanto ao meio ambiente, não se limitando ao
cumprimento da legislação ambiental nacional e comunitária exis-
tente. (TINOCO; KRAEMER, 2006, p. 126)

As organizações que aderirem ao EMAS poderão utilizar a respectiva


marca que atestará que estão em conformidade com o referido regula-
mento. Além de demonstrar seu empenho na busca do desenvolvimen-
to sustentável, tais organizações terão um modelo que facilitará o pro-
cesso de gestão ambiental, com parâmetros claros para controle das
suas ações ambientais, melhorando seu desempenho ambiental, entre
outras vantagens.

136 Contabilidade Socioambiental


5.2 ISO 14000
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Tendo por objetivo a instituição de padrões de fabricação e con-


duta para os segmentos industrial, comercial e de serviços, facilitan-
do as negociações internacionais, a International Organization for
Standardization (ISO) é uma organização formada por órgãos nacionais
de normalização dos diversos países que a compõe. O Brasil está repre-
sentado nesse grupo pela Associação Brasileira de Normas Técnicas
(ABNT).

Mais conhecidas por estarem sempre relacionadas a padrões de


qualidade (ISO 9000), o que empresta maior confiabilidade às empre-
sas certificadas, as normas ISO referentes à gestão do meio ambiente
foram criadas por recomendação do Strategic Advisory Group on the
Environment (SAGE), criado pela ISO em 1991. Tais normas formam a
ISO 14000.

Tinoco e Kraemer (2006, p. 124) informam que os padrões da ISO


14000 podem ser aplicados a todos os tipos e tamanhos de organiza-
ções, tendo sido projetados para “abranger circunstâncias geográficas,
culturais e sociais diversas”. Informam, ainda, que esse conjunto de nor-
mas consistem em dois tipos de padrões:

a. Padrões da organização, que podem ser usados para


executar e avaliar o sistema de gerência ambiental (EMS)
dentro de uma organização, incluindo a ISO 14010, séries
de padrões de auditorias ambientais, e a ISO 14030, série
dos padrões para avaliação de desempenho ambiental.

b. Padrões de produtos, que podem ser usados para avaliar


os impactos ambientais dos produtos e processos.
Fazem parte desse grupo a ISO 14020, série de padrões
de rotulagem ambiental, a ISO 14040, série de padrões da
análise do ciclo de vida, e a ISO 14060, série de padrões do
produto. (TINOCO; KRAEMER, 2006, p. 124-125)

Fundamentos de gestão ambiental empresarial 137


Versam sobre o sistema de gestão ambiental as normas ISO 14001

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e ISO 14004. A ISO 14001 contém os requisitos sujeitos à auditoria para
fins de certificação, registro ou autodeclaração, e a ISO 14004 forne-
ce as diretrizes a serem seguidas pelos SGAs das organizações, bem
como recomendações e exemplos.

PARA SABER MAIS

Consulte o site da Associação Brasileira de Normas Técnicas


(ABNT) e saiba mais sobre as normas ISO e outras normas.

6 Instrumentos de gestão ambiental


A viabilização do processo de gestão ambiental requer o uso de di-
versos instrumentos, entre eles, o estudo e a avaliação dos impactos
ambientais, a avaliação do ciclo de vida do produto ou projeto, e a audi-
toria ambiental.

6.1 Estudo e avaliação dos impactos ambientais

O estudo e a consequente avaliação dos impactos ambientais que


possam ser causados ao meio ambiente pelas organizações compreen­
dem um dos primeiros passos do processo de implantação de um sis-
tema de gestão ambiental, constituindo um instrumento valioso para
que se possa estabelecer ações no sentido de cumprir as legislações
respectivas ou, também e igualmente importante, integrar as suas polí-
ticas ambientais.

A identificação dos aspectos ambientais deve ser feita mediante


um processo contínuo que determine os impactos positivos ou

138 Contabilidade Socioambiental


negativos, passados, presentes e potenciais das atividades da
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organização sobre o meio ambiente. (NBR ISO 14001:2004 apud


BARBIERI, 2011, p. 299)

O impacto ambiental, que pode derivar das atividades, dos produtos


ou dos serviços da organização, de acordo com Barbieri (2011, p. 307),
pode ser entendido como “[...] qualquer mudança no ambiente natural e
social decorrente de uma atividade ou de um empreendimento proposto”.

Entre os processos que permitem avaliar os impactos ambientais,


destaca-se a avaliação do ciclo de vida do produto ou projeto.

6.1.1 Avaliação do ciclo de vida do produto ou projeto

A avaliação do ciclo de vida do produto ou projeto faz parte do estu-


do dos impactos ambientais.

No que se refere ao ciclo de vida do produto (bem ou serviço) ou


ciclo ambiental, o estudo e a avaliação são feitos desde a origem dos
respectivos recursos produtivos até após o seu uso ou consumo final.
Barbieri (2011, p. 239) enfatiza que a origem dos recursos produtivos é
o meio ambiente e que, após o uso ou consumo final dos produtos ou
serviços, o que não foi aproveitado volta ao meio ambiente na forma de
resíduos. Tal percurso envolve os mais variados recursos, desde a ma-
téria-prima, o consumo de energia, os recursos humanos, combustíveis,
etc., e ocasiona diferentes impactos socioambientais.

Sobre o ciclo de vida de um projeto, este é composto por diversas


fases que variam em termos de tempo, recursos envolvidos e respec-
tivos impactos, de acordo com cada projeto. O estudo dos impactos
ambientais de cada fase busca prevenir e/ou corrigir aqueles de caráter
negativo que podem inviabilizar o projeto, pelos possíveis danos, ou au-
mentar seus custos.

Fundamentos de gestão ambiental empresarial 139


IMPORTANTE

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A avaliação do ciclo de vida de um produto ou projeto é ponto de partida
para o estudo e avaliação dos impactos ambientais.

6.2 Auditoria ambiental

A auditoria ambiental é um processo de averiguação de conformi-


dades, assim como as demais auditorias (uma auditoria contábil, por
exemplo), porém, específica para os aspectos ambientais. É útil, tanto
para o controle interno, quanto para efeito de certificações.

A Câmara de Comércio Internacional (ICC) define auditoria ambiental


da seguinte forma:

Auditoria ambiental é um instrumento gerencial que compreende


uma avaliação sistemática periódica, documentada e objetiva do
desempenho da organização, da administração e dos equipamen-
tos de salvaguarda do meio ambiente, visando facilitar o controle
das práticas ambientais e avaliar a adequação das políticas am-
bientais da empresa com as normas legais. (ICC, 1991 apud BAR-
BIERI, 2011, p. 210)

Barbieri (2011, p. 204) informa que “as auditorias ambientais podem


ser aplicadas em organizações, locais, produtos, processos e sistemas
de gestão” e podem ser denominadas de formas diversas, de acordo
com o fim a que se destinam, como:

140 Contabilidade Socioambiental


Quadro 2 – Tipos de auditoria e respectivas finalidades
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TIPO DE AUDITORIA FINALIDADE

Auditoria de conformidade
Verificar o cumprimento da legislação ambiental aplicável.
legal

Identificar questões que afetam, ou poderão afetar o patrimônio da


Due diligence
organização.

Selecionar e avaliar produtos e respectivos fornecedores que tenham


Auditoria de fornecedores atuação ambiental compatível com a política e práticas ambientais
da organização.

Realizada com objetivo específico de detectar problemas em


determinadas áreas ou atividades como: fontes de poluição,
Auditoria ambiental
pesquisa e desenvolvimento de produtos, subprodutos e
localizada ou isolada
desperdícios, saúde ocupacional e segurança do trabalho, entre
outras.

Auditoria do Sistema de Verificar se o SGA atende aos requisitos da norma adotada e a


Gestão Ambiental (SGA) adequação para cumprimento da política ambiental da organização.

Assim como a auditoria contábil, as auditorias ambientais podem


ser classificadas em interna e externa. A auditoria interna é aquela re-
alizada por pessoal da própria organização e a auditoria externa pode
ser realizada tanto por outra organização, no caso da auditoria de forne-
cedores, quanto por uma auditoria de algum organismo certificador ou
por outra que se faça necessária, inclusive de órgãos do governo, nesse
caso de caráter compulsório.

O processo de auditoria ambiental envolve planejamento, princípios


e programas de auditoria de forma a emitir parecer sobre os aspectos
auditados, além de conduta ética e competência por parte dos audito-
res responsáveis.

Fundamentos de gestão ambiental empresarial 141


PARA PENSAR

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Um trabalho de auditoria pode prevenir desastres ambientais como o
que ocorreu em Mariana (MG), em 2015, ou somente constatar e identi-
ficar os responsáveis pelas irregularidades, após o ocorrido?

Considerações finais
A gestão ambiental empresarial tem na Contabilidade Socioambiental
uma preciosa fonte de informações que possibilitam que ela, além de
planejar, controle os eventos ambientais que ameacem impactar a ima-
gem, o patrimônio e os resultados de uma organização.

Por outro lado, para que a Contabilidade Socioambiental possa gerar


informações úteis ao cumprimento da política ambiental adotada pela
organização, é preciso conhecer os fundamentos que norteiam o pro-
cesso de gestão ambiental.

Com esse propósito, este capítulo abordou os principais conceitos


e instrumentos de gestão ambiental como o estudo e a avaliação dos
impactos ambientais, o ciclo de vida do produto ou projeto e a auditoria
ambiental, além dos possíveis modelos desse tipo de gestão e o SGA –
o sistema que viabiliza a sua consecução.

Cumprindo o objetivo proposto no início do capítulo, foram ainda dis-


cutidas, em linhas gerais, duas das mais importantes normas interna-
cionais que estabelecem padrões ambientais, as quais, além de auxiliar
no processo de gestão, certificam que a organização está empenhada e
comprometida com o desenvolvimento sustentável.

142 Contabilidade Socioambiental


Referências
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BARBIERI, José Carlos. Gestão ambiental empresarial. 3. ed. São Paulo: Saraiva,
2011.

CROZATTI, Jaime. Modelo de gestão e cultura organizacional: conceitos e


interações. Cadernos de estudos FIPECAFI, São Paulo, v. 10, n. 18, mai./ago.
1998. Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&
pid=S1413-92511998000200004>. Acesso em: 24 abr. 2016.

FERREIRA, Aracéli Cristina de Sousa. Contabilidade Ambiental: uma informação


para o desenvolvimento sustentável. São Paulo: Atlas, 2011.

FOGLIATTI, Maria Cristina et al. Sistema de gestão ambiental. Rio de Janeiro:


Interciência, 2011.

FNQ – FUNDAÇÃO NACIONAL DE QUALIDADE. Sistemas de gestão. [s/d].


Disponível em: <http://www.fnq.org.br/sistemas-de-gestao_.pdf>. Acesso em: 25
abr. 2016.

OLIVEIRA, José Antonio Puppim de. Empresas na sociedade: sustentabilidade


e responsabilidade social. 2. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2013.

RIBEIRO, Maísa de Souza. Contabilidade Ambiental. 2. ed. São Paulo: Saraiva,


2010.

TINOCO, João Eduardo Prudêncio; KRAEMER, Maria Elisabeth Pereira. Contabili­


dade e gestão ambiental. São Paulo: Atlas, 2006.

Fundamentos de gestão ambiental empresarial 143


144
Contabilidade Socioambiental
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Capítulo 7

Contabilidade
Ambiental

Após a abordagem de temas importantes como os aspectos sociais


da Contabilidade, o meio ambiente e as políticas ambientais, as normas
legais aplicáveis, os aspectos econômicos do desenvolvimento susten-
tável, a responsabilidade social e o processo de gestão ambiental, entre
outros, já é possível entender o papel da Contabilidade Ambiental dentro
desse contexto e perceber as razões do seu surgimento e como ela pode
contribuir de forma decisiva na gestão fundamental do meio ambiente.

Neste capítulo, a Contabilidade Ambiental será correlacionada à


Contabilidade Financeira e à Contabilidade Gerencial, e serão tratados
os aspectos que estruturam a base da sua aplicação – os eventos e
fatos contábeis ambientais e o plano de contas ambientais.

145
Será mostrado, também, que as informações ambientais compiladas

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pela Contabilidade nem sempre são evidenciadas em demonstrativos
contábeis, mas, na maioria das vezes, o são em relatórios denominados
Relatório Social, Relatório Ambiental ou Relatório Anual, entre outras de-
nominações, o que, embora aceitável, prejudica a transparência dessas
informações quando dissociadas do patrimônio da entidade.

Por fim, ratificando essa pertinência com o patrimônio da entidade,


será abordado o patrimônio ambiental nele inserido, demonstrando a
importância da Contabilidade Ambiental para a sua preservação, não só
no que se refere aos aspectos ambientais, mas também com relação
aos aspectos econômicos deles decorrentes.

1 Contabilidade Ambiental: introdução


No contexto em que se constata a função social da Ciência Contábil,
tem-se a Contabilidade Socioambiental como principal fonte de infor-
mações para a gestão socioambiental das organizações e, como foi vis-
to no Capítulo 1, trata-se de um ramo da Contabilidade. A Contabilidade
Ambiental, por sua vez, é a divisão desse ramo que cuida do registro e
da evidenciação dos fatos relacionados ao meio ambiente.

Como geradora de informações úteis para a gestão, a Contabilidade


funciona como “guardiã” dos patrimônios das organizações e, no que
se refere à Contabilidade Ambiental, não poderia ser diferente: ela dá
suporte à gestão do patrimônio ambiental, contribuindo para a sua
preservação.

Pode-se afirmar, portanto, que o objetivo da Contabilidade Ambiental


é gerar informações úteis para o processo de gestão ambiental. De for-
ma mais particularizada,

[...] podemos definir como objetivo da contabilidade ambiental:


identificar, mensurar e esclarecer os eventos e transações econô-

146 Contabilidade Socioambiental


mico-financeiros que estejam relacionados com a proteção, pre-
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servação e recuperação ambiental, ocorridos em um determinado


período, visando a evidenciação da situação patrimonial de uma
entidade. (RIBEIRO, 2010, p. 45)

Como usuários dessas informações, podem-se destacar, além dos


usuários internos da organização, participantes do processo de gestão
ambiental, usuários externos como: sócios, acionistas, investidores, cre-
dores, consumidores, governo, entidades não governamentais e entida-
des de controle ambiental e quaisquer outros interessados nos resul-
tados e na continuidade da organização, além da sociedade em geral.

Figura 1 - Usuários da Contabilidade Ambiental

Informações
ambientais
Sócios, acionistas
Investidores
Consumidores
Credores
Usuários
Governos
externos
Entidades de controle ambiental
Demais interessados
Contabilidade
Ambiental

Gestores
Usuários internos
Informações Gestão ambiental
ambientais

Carvalho (2008, p. 112) enfatiza que “a contabilidade ambiental re-


presenta o elo que liga a empresa a seus diversos usuários, inclusive à
sociedade, no que tange às informações contábeis”.

Salvo para uso interno, as organizações nem sempre se mostram in-


teressadas pela divulgação das informações para os usuários externos,
pois não querem expor suas contribuições negativas para a degradação

Contabilidade Ambiental 147


do meio ambiente. Entretanto, em razão da evolução do sentido de res-

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ponsabilidade social e da crescente preocupação globalizada com o
meio ambiente, cada vez mais a evidenciação das informações ambien-
tais passa a ser exigida por esses usuários.

Conforme documento gerado pela Environmental Protection


Agency (EPA) – a Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos
– as informações geradas pela Contabilidade Ambiental são utilizadas
sob três enfoques e em diferentes contextos usuais da Contabilidade:
o da Contabilidade Nacional, da Contabilidade Financeira e da
Contabilidade Gerencial, esta abrangendo, principalmente, os custos
ambientais (EPA, 1995).

Correlacionando o enfoque dado pela Contabilidade Ambiental com


o enfoque usual da Contabilidade, nos diferentes contextos, e os tipos
de usuários das informações, tem-se o seguinte quadro:

1
Quadro 1 – Enfoques da Contabilidade Ambiental em diferentes contextos

ENFOQUE DA CONTABILIDADE
CONTEXTO ENFOQUE USUAL USUÁRIO
AMBIENTAL

Desempenho
Desempenho ambiental das nações,
macroeconômico das
Contabilidade por meio da mensuração física ou
nações, por meio de dados Externo
Nacional monetária do consumo dos recursos
da economia sobre a renda
naturais, renováveis ou não.
nacional, entre outros.

Desempenho econômico financeiro


evidenciado nos relatórios gerados
Desempenho econômico
pela Contabilidade, tendo como foco
financeiro evidenciado nas
Contabilidade principal, as informações ambientais
demonstrações contábeis, Externo1
Financeira (custos, despesas, passivos
elaboradas de acordo com os
ambientais, etc.) que possam afetar
Princípios de Contabilidade.
o patrimônio e/ou a continuidade da
organização.

(cont.)

1 0bservação: embora elaboradas para usuários externos, as demonstrações contábeis são de grande
utilidade para os usuários internos.

148 Contabilidade Socioambiental


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ENFOQUE DA CONTABILIDADE
CONTEXTO ENFOQUE USUAL USUÁRIO
AMBIENTAL

Compilação e análise das


Compilação e análise das
informações de caráter ambiental,
informações, principalmente
principalmente custos e a sua
financeiras e de custos, para
formação, para elaboração
Contabilidade elaboração de estimativas e
de estimativas e projeções de Interno
Gerencial projeções de desempenho,
desempenho ambiental, controle
controle de custos e
de gastos e custos, e apoio aos
orçamento, e apoio aos
processos decisórios envolvendo
processos decisórios.
questões ambientais.

Percebendo-se a correlação entre as informações geradas pela


Contabilidade Ambiental e aquelas geradas nos contextos contábeis
usuais, é possível entender a definição a ela atribuída pela Divisão para o
Desenvolvimento Sustentável das Nações Unidas (2001 apud TINOCO;
KRAEMER, 2006, p. 151), onde Contabilidade Ambiental é

[...] uma abordagem combinada que facilita a transição de informa-


ção da Contabilidade Financeira e da Contabilidade de Custos para
aumentar a eficiência de materiais, reduzir o impacto e o risco e
reduzir os de salvaguarda ambiental.

Essa definição permite constatar o caráter gerencial da Contabilidade


Financeira Ambiental que, aliada à Contabilidade de Custos, torna-se
um imprescindível instrumento de gestão.

Excetuando-se o contexto de Contabilidade Nacional que, pela


sua especificidade, é objeto de estudo das Ciências Econômicas, no-
ta-se que a Contabilidade Ambiental, no que diz respeito às Ciências
Contábeis, pode ser dividida, para fins didáticos, em: Contabilidade
Financeira Ambiental e Contabilidade Gerencial Ambiental.

Contabilidade Ambiental 149


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Figura 2 – Contabilidade de gestão ambiental

Instrumentos Produtos
Contabilidade Ambiental

Contabilidade Mensuração Demonstrações


Financeira Registros contábeis
Ambiental Evidenciação

Contabilidade Análises
Finanças
Gerencial Projeções
Custos
Ambiental Controle

A Divisão para o Desenvolvimento Sustentável das Nações Unidas


(2001, p. 5), divide a Contabilidade Ambiental em:

•• Contabilidade Financeira.

•• Contabilidade Analítica ou de Custos.

•• Estatísticas e indicadores.

•• Elaboração de orçamentos.

•• Avaliação de investimentos.

A Contabilidade Analítica, no que se refere à gestão de custos, as


estatísticas e indicadores, assim como a elaboração de orçamentos
e a avaliação de investimentos, compõem o que denominamos como
Contabilidade Gerencial Ambiental.

2 Contabilidade Ambiental e
Contabilidade Financeira
No tópico anterior, foi vista a estreita relação entre a Contabilidade
Financeira e a Contabilidade Ambiental. Sob esse enfoque, na prática, a
Contabilidade Ambiental se integrará à Contabilidade Financeira no que

150 Contabilidade Socioambiental


se refere à mensuração, registro e evidenciação dos eventos contábeis
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de caráter ambiental. Tais registros serão realizados de acordo com


os princípios e as normas de contabilidade que, atualmente, conforme
mencionado no Capítulo 1, têm por base as Normas Internacionais de
Contabilidade.

Ratificando esse entendimento, Carvalho (2008, p. 111), define


Contabilidade Ambiental como “o destaque dado pela ciência2 aos re-
gistros e evidenciações da entidade referentes aos fatos relacionados
com o meio ambiente”. Outros autores também vinculam suas defini-
ções para Contabilidade Ambiental aos “registros” contábeis, além de
denominá-la como Contabilidade Financeira Ambiental:

A contabilidade financeira ambiental tem o objetivo de registrar as


transações da empresa que impactam o meio ambiente e os efei-
tos das mesmas que afetam, ou deveriam afetar, a posição eco-
nômica e financeira dos negócios da empresa, devendo assegurar
que: a) os custos, os ativos e os passivos ambientais estejam con-
tabilizados de acordo com os princípios fundamentais da contabi-
lidade ou, na sua ausência, com as práticas contábeis geralmente
aceitas; e b) o desempenho ambiental tenha a ampla transparência
de que os usuários da informação contábil necessitam. (BERGAMI-
NI JUNIOR, 1990)

É justamente por essa integração da Contabilidade Ambiental com a


Contabilidade Financeira que as Normas Internacionais de Contabilidade
(IFRS) não tratam os eventos ambientais de forma isolada, já que o
tratamento contábil dos ativos e passivos ambientais e das receitas e
despesas correspondentes não difere daquele dispensado aos demais
ativos, passivos, receitas e despesas. E não poderia ser diferente, uma
vez que a mensuração e os registros dos eventos contábeis ambientais
devem estar embasados nos Princípios de Contabilidade.

2 Ciência Contábil.

Contabilidade Ambiental 151


Assim, pode-se afirmar que a Contabilidade Financeira Ambiental

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segue todas as regras e procedimentos aplicáveis à Contabilidade
Financeira no seu contexto mais usual, exceto no que diz respeito à evi-
denciação das informações ambientais.

Essas evidenciações nem sempre ocorrem como parte integrante


dos demonstrativos contábeis, mas, na maioria das vezes, como infor-
mações que fazem parte dos Relatórios Anuais – também denomina-
dos Relatórios Ambientais ou Sociais, entre outras denominações – ou
ainda como Destaque Ambiental do Balanço Patrimonial, como um se-
gundo Balanço Patrimonial, conforme defende Silva (2003, p. 284).

Embora fornecidas em outros relatórios, de forma separada dos de-


monstrativos contábeis, as informações ambientais carecem de con-
textualização, quando não inseridas nas demonstrações contábeis
habituais, dificultando a análise patrimonial e do resultado da entidade
como um todo.

IMPORTANTE

A Contabilidade Ambiental ou Contabilidade Financeira Ambiental é um


dos ramos da Contabilidade, assim como a Contabilidade Comercial, a
Contabilidade Societária, a Contabilidade Pública, a Contabilidade Ban-
cária, etc.; e sua mensuração, escrituração e evidenciação seguem os
princípios e as normas contábeis.

3 Contabilidade Ambiental como instrumento


de gestão do meio ambiente
No contexto de uso da Contabilidade Ambiental como instrumento
de gestão, a Contabilidade Financeira Ambiental, embora se destine a
usuários externos, é também utilizada para fins gerenciais. Entretanto,
ela mostra dados sobre eventos já ocorridos, enquanto a Contabilidade

152 Contabilidade Socioambiental


Gerencial Ambiental ou Contabilidade de Gestão Ambiental (CGA) pro-
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priamente dita é utilizada para planejamento, projeções, análise e con-


trole em relação ao que foi planejado e a quaisquer outras informações
ambientais de ordem financeira, orçamentária ou de custos que o usuá-
rio interno julgue necessárias para a tomada de decisões.

No que se refere ao uso gerencial da Contabilidade Financeira


Ambiental, a Divisão para o Desenvolvimento Sustentável das Nações
Unidas (2001, p. 5), considera que são os registros contábeis por ela
gerados, junto àqueles feitos pela Contabilidade de Custos, por ela de-
nominada Contabilidade Analítica, que fornecem a informação básica
para outros instrumentos. Esses registros têm sido utilizados, segundo
esse órgão, “para detectar despesas, custos, indicadores, investimentos
e poupanças associadas a medidas de salvaguarda ambiental”. Sobre a
Contabilidade Gerencial, ela assim se manifesta:

A nível interno os procedimentos da CGA incluem: medições físi-


cas do consumo de materiais e energia, fluxos e deposição final,
avaliação monetária de custos, poupanças e receitas relacionadas
com atividades que apresentam potenciais impactos ambientais.
O procedimento mais útil para a tomada de decisões depende do
tipo de organização (por exemplo: produção fabril ou prestação de
serviços) e do tipo de decisões a tomar (por exemplo: decisões de
compra quanto às matérias-primas; decisões de investimento em
utilização racional de energia; alterações de design do produto, en-
tre outras). (ONU, 2001, p. 1)

Do exposto, conclui-se que a CGA utiliza, além dos valores monetá-


rios atribuídos aos eventos, também medições físicas, para as quais
conta com o trabalho dos técnicos de produção e processos. Para o
levantamento das informações em valor monetário, ela utiliza os dados
de eventos passados extraídos da Contabilidade Financeira Ambiental e
instrumentos que conduzem à projeção de dados futuros.

Entre os dados passados de maior relevância utilizados pela CGA


estão a análise dos custos ou despesas incorridas em determinado

Contabilidade Ambiental 153


período, assim como dos investimentos e a divulgação desses dados

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aos usuários. Já com referência à projeção de dados futuros, estão en-
tre os principais instrumentos a elaboração de orçamentos, por período
e/ou por projetos ambientais, o cálculo e a gestão dos respectivos cus-
tos, a avaliação de investimentos, etc.

Para a tarefa de gestão de custos, cujos detalhes serão abordados


no Capítulo 11, a CGA faz uso dos registros de eventos passados feitos
pela Contabilidade de Custos e, também, das projeções mencionadas.

O cálculo e a análise de indicadores do desempenho financeiro e am-


biental da organização, tanto em períodos passados como aqueles que
são esperados para períodos futuros, é outra atribuição da CGA, sendo
esses importantes para fins de controle, benchmarking e posicionamen-
to da organização perante seus consumidores, clientes, fornecedores,
investidores, sócios e acionistas, etc.

Além das aplicações já mencionadas, pode-se destacar a utilidade


da CGA para: atribuição de preços aos produtos e serviços; design e
implementação do sistema de gestão ambiental; estabelecimento de
metas de desempenho; entre outras.

IMPORTANTE

O levantamento de dados para geração de informações úteis e conse-


quente eficiência e eficácia da Contabilidade Gerencial Ambiental de-
penderá do bom funcionamento do Sistema de Gestão Ambiental (Ca-
pítulo 06).

4 Eventos e fatos contábeis ambientais


Eventos e fatos são palavras sinônimas que remetem ao sentido de
acontecimento, de ocorrência. No caso de um evento ambiental, trata-se
de um acontecimento, um fato que ocorre no meio ambiente. Se esse

154 Contabilidade Socioambiental


fato for mensurável em moeda, tem-se simultaneamente um evento ou
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fato contábil que, como se sabe, é todo evento que provoca alterações
no patrimônio de uma entidade.

Assim, um evento contábil ambiental poderia ser definido como qual-


quer fato que ocorre no meio ambiente, mensurável em moeda, e que
provoca alterações, presentes ou futuras, no patrimônio ambiental.

Para relacionar alguns eventos ambientais e a mensuração dos seus


valores para contabilização, a título de exemplo, adaptou-se a descrição
dos eventos econômicos, relacionados por Ferreira (2011, p. 115-118),
para apresentação a seguir. Os eventos apresentados decorrem de ati-
vidades de produção, prevenção e recuperação de danos ambientais,
bem como de atividades de reciclagem.

4.1 Exemplos de eventos ambientais

Degradação produzida

•• Características: deve ser reconhecida no momento em que ocor-


re, constituindo um passivo contingente que pode ser denomina-
do como Previsão para Contingências Ambientais.

•• Efeitos econômicos: mensuração feita com base nos efeitos eco-


nômicos resultantes da degradação produzida, considerando-se
o custo de oportunidade, ao menor preço de mercado à vista para
cada um dos efeitos previstos.

Contabilidade Ambiental 155


Formação de investimentos

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•• Características: decisão da empresa de desenvolver, ela própria,
para prevenir ou recuperar um dano ambiental ou, ainda, reciclar.
Exemplos de investimentos: construção de um edifício; desenvol-
vimento de tecnologias; gastos necessários para que um equipa-
mento entre em operação, etc.

•• Efeitos econômicos: o valor total do investimento será apurado


mediante a soma de todos os insumos consumidos ao longo do
desenvolvimento do projeto. Tais insumos podem ser: material uti-
lizado; equipamentos; pessoal; serviços técnicos contratados; etc.

Conclusão de projetos de investimentos

•• Características: reconhecimento do término do projeto, momento


em que se avalia o seu resultado, ou seja, se foi pertinente a op-
ção da entidade pelo seu desenvolvimento ou se a aquisição de
terceiros do projeto pronto teria sido mais vantajosa.

•• Efeitos econômicos: o resultado apurado poderá ser um ganho


ou uma perda de capital. Será ganho quando o preço de mercado
do projeto pronto for maior do que o custo incorrido no seu desen-
volvimento. Será perda quando o preço de mercado for menor. Se
o preço de mercado for igual, não haverá ganho nem perda.

Entrada em operação de ativos operacionais decorrentes de inves-


timentos (reconhecimento de benefícios futuros esperados)

•• Características: reconhecimento dos benefícios esperados dos


projetos concluídos, sob a responsabilidade da gestão ambiental,
e que se tornaram ativos operacionais.

•• Efeitos econômicos: reconhece-se a economia de custos de


degradação que serão eliminados ou diminuídos, a partir da
entrada em funcionamento do ativo. Para efeitos gerenciais, o

156 Contabilidade Socioambiental


resultado corresponderá à diferença, positiva ou negativa, entre
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o valor de mercado do ativo e o valor das economias de custos


geradas.

Provisão para gastos operacionais de manutenção do ativo

•• Características: ajuste do valor do ativo operacional pela dedução


dos custos de manutenção correspondente de forma a represen-
tá-lo pelo valor líquido dos benefícios futuros esperados.

•• Efeitos econômicos: custos esperados para sua operação.

Amortização do investimento

•• Características: reconhecimento da amortização dos benefícios


esperados.

•• Efeitos econômicos: se os ativos estão previstos para operarem


dentro de um determinado período de tempo, a amortização será
constante; caso gerem benefícios compatíveis com os níveis de
produção, serão amortizados na mesma medida.

Amortização da provisão para gastos operacionais de manutenção


do ativo operacional

•• Características: amortização dos gastos operacionais de manu-


tenção anteriormente provisionado.

•• Efeitos econômicos: amortização de acordo com o período pre-


visto na provisão e registrada em conta de resultado.

Custos de manutenção do ativo operacional

•• Características: custos de manutenção efetivamente ocorridos


no período.

•• Efeitos econômicos: valor efetivamente gasto com a manutenção


do ativo operacional. Gerencialmente, devem ser comparados
com o inicialmente previsto.

Contabilidade Ambiental 157


Receitas de serviços de gestão ambiental

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•• Características: serviços prestados pelas atividades de preven-
ção, recuperação e reciclagem.

•• Efeitos econômicos: valor mensurado considerando-se os bene-


fícios que tais atividades trazem para a entidade, em termos de
economia de custos gerada sobre multas que deixarão de ocorrer,
tratamentos de doenças que serão evitadas, adicionais de salá-
rios que não mais serão necessários, impostos específicos sobre
o meio ambiente cujo fato gerador não mais ocorrerá, etc.

Receita de venda de produto reciclado

•• Características: produto reciclado pronto que poderá ser transfe-


rido para a produção ou ser vendido a terceiros.

•• Efeitos econômicos: preço de mercado para o produto reciclado


pronto.

Custos de estrutura da atividade ambiental

•• Características: custos fixos para manter a atividade em funciona-


mento.

•• Efeitos econômicos: valor dos custos (pessoal, depreciação, etc.).

Reversão da provisão para contingências ambientais

•• Características: reconhecimento de mudanças nas expectativas


sobre os efeitos previstos da degradação, cuja contingência te-
nha sido registrada.

•• Efeitos econômicos: valor atribuído ao evento.

Ao referirem-se aos eventos ambientais, Tinoco e Kraemer (2006, p.


60-62) citam alguns exemplos de atividades causadoras de impactos
ambientais significativos, ressaltando que esses eventos devem ser

158 Contabilidade Socioambiental


objeto de mensuração, registro contábil e divulgação, tais como: mine-
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ração de carvão; produção de cal; queimadas nas colheitas de cana-de-


-açúcar; produção de papel e celulose; siderurgia; indústria petrolífera.

A contabilização dos eventos mencionados, assim como de outros


eventos ambientais, exigirá a abertura de contas específicas a serem
acrescentadas ao plano de contas da organização.

5 Planos de contas
O registro ou escrituração dos fatos contábeis e posterior evidencia-
ção das informações, via relatórios e demonstrativos, precisa obedecer
a um ordenamento que lhes atribua condições de compilação, consulta
e análise. Para tanto, se faz uso de contas contábeis e subcontas que
agregarão fatos contábeis semelhantes. Ao conjunto dessas contas se
dá o nome de plano de contas, que pode ser assim definido:

Plano de Contas é um conjunto estruturado de contas, numeradas


ou codificadas racionalmente, o qual permite seu uso em sistemas
de contabilidade mecânicos, ou ainda sistemas contábeis eletrôni-
cos, podendo ainda sê-lo em sistemas manuais, o que é raro pre-
sentemente. (TINOCO; KRAEMER, 2006, p. 75)

As contas podem ser sintéticas – totalizadoras de suas subcontas –


e analíticas, representadas pelas subcontas e contas internas que são
utilizadas, de forma inteligente, para segregar operações com o propó-
sito de facilitar o respectivo controle e a análise. São distribuídas em
grupos conforme a sua natureza – Ativo, Passivo, Patrimônio Líquido,
Receitas e Despesas – e de acordo com o seu grau de liquidez, no caso
dos ativos, ou exigibilidade, no caso dos passivos – Ativo Circulante,
Ativo não Circulante, Passivo Circulante e Passivo não Circulante.

Contabilidade Ambiental 159


Figura 3 – Contas

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Sintética
Tipo
Analítica

Ativo

Passivo

Contas Natureza Patrimônio líquido

Receitas

Despesas

Ativo circulante

Ativo não circulante


Grau de liquidez/
exigibilidade Passivo circulante

Passivo não circulante

O plano de contas deve ser concebido de forma a contemplar to-


das as contas necessárias para gerar a informação contábil útil com
a presteza e rapidez exigidas, facilitando a consulta e respectiva aná-
lise dos relatórios contábeis, tanto usuais – Livro Diário, Livro Razão,
Balanço Patrimonial, Demonstração do Resultado, Demonstração
das Mutações do Patrimônio Líquido, Demonstração dos Fluxos de
Caixa, Demonstração do Valor Adicionado e Notas Explicativas às
Demonstrações Financeiras – quanto gerenciais, podendo ser alterado
conforme as necessidades dos usuários. Recomenda-se, no entanto,
que ele não seja alterado com muita frequência para não dificultar a
consulta, a análise e a comparabilidade das informações contábeis.

A elaboração de um plano de contas bem-estruturado, com o maior


número de contas possível, porém adequado às necessidades de in-
formação dos seus usuários, requer que se conheça muito bem os ne-
gócios da organização e os perfis desses usuários. No caso de contas

160 Contabilidade Socioambiental


para registro de eventos ambientais, esse conhecimento é indispensá-
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vel, posto que envolve operações e informações muito específicas para


diversos fins.

As contas que registrarão os eventos ambientais comporão o pla-


no de contas da entidade, na maioria das vezes em subcontas, e suas
denominações devem possibilitar a identificação clara das operações
nelas registradas.

Complementa o plano de contas um relatório detalhado das fun-


ções e do funcionamento das contas, considerado imprescindível, uma
vez que qualquer usuário poderá identificar por meio dele os eventos e
como esses deverão ser registrados em cada conta.

Embora as contas ambi