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Desenvolvimento Econômico e Qualidade de Vida.

Do PIB ao FIB (trechos de textos para estudo)

Tradicionalmente, o desenvolvimento é associado ao desenvolvimento econômico. Quando se


pensa em um país desenvolvido, se pensa na riqueza deste país, ou em quanto dinheiro circula
atualmente neste país.

Desenvolvimento econômico é a riqueza econômica dos países ou regiões obtida para o bem
estar dos seus habitantes. De uma perspectiva política, desenvolvimento econômico pode ser definido
como o esforço que visa melhorar o bem-estar econômico e a qualidade de vida de uma comunidade
através da criação e/ou manutenção de empregos e do crescimento da renda. [...]

O PIB é um indicador de desempenho econômico, calculado no Brasil pelo IBGE. O PIB real mede o produto
total de bens e serviços de um país e, portanto, a capacidade desse país de satisfazer as necessidades e
desejos de seus cidadãos. Este indicador foi criado depois da II Guerra Mundial e é, ainda hoje, o critério
mais utilizado para medir os níveis de desenvolvimento de uma região ou de um país. Talvez uma das
questões mais importantes da macroeconomia seja saber o que determina o nível e o crescimento do PIB. O
PIB depende dos fatores de produção, capital, trabalho e da tecnologia que transforma o capital
e trabalho em produto. O PIB cresce quando os fatores de produção aumentam ou a tecnologia
avança. Admite-se que, no longo prazo, a capacidade de um país de produzir bens e serviços determina o
nível de vida de seus cidadãos.

PIB

É o produto interno bruto agregado que expressa o total da produção final de bens e serviços finais
produzidos em determinado período de tempo.

PIB = C + G + I + (X – M)

G = Consumo do governo

C = Consumo das famílias

I = Investimento bruto

X = exportações de bens e serviços

M = importações de bens e serviços

Nesta abordagem, o aumento do bem estar econômico e a melhora na qualidade de vida (incluindo lazer,
saúde, cultura e educação) são consequências da maior circulação de dinheiro em um país. De maneira
resumida, quanto maior o PIB mais desenvolvido seria um país.

Tal associação é facilmente compreendida quando lembramos que um PIB elevado significa um mercado
suficientemente forte para garantir um consumo igualmente forte e um setor industrial capaz de, por seu
lado, garantir a transformação de bens primários em bens de consumo, num circulo virtuoso que leva a mais
crescimento econômico e a um PIB crescente. [...]

Uma das formas propostas para complementar a análise referente ao nível de desenvolvimento econômico
de um país, dá-se por meio de alguns indicadores sociais, tais como: taxa de mortalidade infantil, taxa de
analfabetismo, número de médicos e leitos hospitalares por habitante, quantidade média de anos na escola
e expectativa de vida. O conceito de desenvolvimento implica, portanto, em muito mais que o simples
crescimento e o crescimento econômico não é suficiente para garantir este desenvolvimento.” (ALMEIDA,
GIANNETTI, BONILLA, 2008, apostila, p. 7-9, grifos nossos)

A avaliação do desenvolvimento de um país pelo seu PIB tem sido criticada por não levar em consideração aspectos
relacionados ao bem estar socioambiental, que incluem a distribuição da renda e das oportunidades de realização pessoal
(acesso à cultura, lazer, esporte, saúde...), bem como a conservação dos serviços ambientais que são a base da existência
e da qualidade das ações humanas.

Neste sentido, índices como o IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) e o FIB (Felicidade Interna Bruta) aparecem como
resposta em uma perspectiva de avanço na idéia de desenvolvimento, para além da idéia de crescimento econômico.

[...] o IDH (Índice de Desenvolvimento Humano), [...] mede a média das realizações de um país em três
dimensões básicas do desenvolvimento humano: uma longa expectativa de vida, o conhecimento e um
padrão de vida digno para a população.

O IDH é uma medida comparativa de pobreza, alfabetização, esperança de vida para os diversos países do
mundo. Seu cálculo vai de 0 (zero) a 1 (um), sendo que quanto mais próximo da unidade, mais desenvolvido
é considerado o país.

A escolaridade inclui a alfabetização dos adultos e a educação primária, secundária e terciária da população
em geral. O PIB per capita entra no cálculo do IDH como um substituto de uma medida do padrão de vida ou
de distribuição de renda. (ALMEIDA, GIANNETTI, BONILLA, 2008, apostila, p. 9)

Com o IDH foram incluídos fatores sociais no cálculo da medida do desenvolvimento, mas para avaliar se
este desenvolvimento seria sustentável, ainda falta um fator essencial a ser considerado: o meio ambiente.
[...] os economistas, que consideram que o desenvolvimento é conseqüência do aumento da circulação e da
distribuição do dinheiro, devem aprender como o sistema humano está inserido no meio ambiente. O que os
economistas chamam de “externalidades”, mas que na verdade são os fluxos de energia que controlam a
economia, devem ser melhor entendidos”. (ALMEIDA, GIANNETTI, BONILLA, 2008, apostila, p. 13, grifo
nosso)

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Um breve histórico e explanação sobre o FIB pode ser visto no texto a seguir, extraído de
http://www.felicidadeinternabruta.com.br/oque.php

FIB

O conceito de Felicidade Interna Bruta nasceu em 1972, em um pequeno país do Himalaia, quando o rei
questionou se o Produto Interno Bruto seria o melhor índice para designar o desenvolvimento de uma nação.

Desde então, o reino do Butão começou a praticar esse conceito e atrair a atenção do resto do mundo com
a sua nova fórmula para o cálculo de riqueza de um país, que considera outros aspectos além do
desenvolvimento econômico, como a conservação do meio ambiente e a qualidade de vida das pessoas.

Através dos quatro pilares da FIB, economia, cultura, meio ambiente e boa governança, derivam-se 9
domínios de onde são extraídos indicadores para que a “Felicidade” de uma nação seja avaliada:

• Bem-estar psicológico - Avalia o grau de satisfação e de otimismo que cada habitante tem em relação
à sua própria vida. Os indicadores incluem a prevalência de taxas de emoções tanto positivas quanto
negativas, como os sentimentos de egoísmo, inveja, calma, compaixão, generosidade e frustração. O
estresse, as atividades espirituais, a auto-avaliação da saúde, física e mental, também são analisados.

• Meio Ambiente - Mede a qualidade da água, do ar e do solo e a biodiversidade. Os indicadores incluem


o estado dos recursos naturais, as pressões sobre os nossos ecossistemas, a diversidade e resiliência
ecológica.

• Saúde - A relação entre saúde e bem-estar é autoexplicativa. O objetivo desse indicador é mostrar os
resultados das políticas de saúde. Critérios, como expectativa de vida, também entram na conta. Os
indicadores de status de saúde incluem a auto-avaliação da saúde, invalidez, as limitações para atividades e
a taxa de dias saudáveis. Os indicadores dos fatores determinantes de saúde incluem padrões de
comportamento arriscados, exposição a condições de risco, status nutricional, práticas de amamentação e
condições de higiene. O sistema de saúde é medido a partir do ponto de vista da satisfação do usuário em
diversas dimensões, tais como amabilidade do provedor, competência, tempo de espera, custo, distância e
etc.

• Educação - Essa categoria indica o ritmo de crescimento das taxas de alfabetização e do acesso às
escolas e faculdades, além de avaliar a eficácia da educação em prol da meta do bem-estar coletivo. O
domínio da educação leva em conta vários fatores, tais como: participação, competências, apoio
educacional, entre outros. Esse domínio inclui no seu escopo a educação informal (competências nativas,
técnicas tradicionais orgânicas de agricultura e pecuária, remédios caseiros, genealogias familiares,
conhecimento sobre a cultura e história locais).

• Cultura - O domínio da cultura leva em conta a diversidade e o número de instalações culturais,


padrões de uso, diversidade no idioma e participação religiosa. Os indicadores estimam valores nucleares,
costumes locais e tradições, bem como a percepção de mudanças em valores e tradições.

• Padrão de vida - Avalia a renda per capita e a qualidade dos bens e serviços disponíveis à população.
O domínio do Padrão de Vida cobre o status econômico básico dos cidadãos do país. Esses indicadores
avaliam os níveis de renda ao nível individual e familiar, medem a segurança financeira, o nível de dívidas, a
qualidade das habitações e o montante de assistência em espécie recebida por familiares e amigos.

• Uso do tempo - Avalia a possibilidade que cada um tem de escolher como aproveitar seus dias. Os
indicadores devem mostrar o tempo que a população dedica ao trabalho, à família e à cultura, considerados
fundamentais para a sensação de bem-estar das pessoas.

• Vitalidade Comunitária - O índice mostra o grau de identidade entre os habitantes.


O domínio da vitalidade comunitária foca nas forças e nas fraquezas dos relacionamentos e das interações
nas comunidades. Ele examina a natureza da confiança, da sensação de pertencimento, a vitalidade dos
relacionamentos afetivos, a segurança em casa e na comunidade, a prática de doação e de voluntariado.
Esses indicadores possibilitarão aos formuladores de política pública rastrear as mudanças nos efeitos
adversos para a vitalidade comunitária.
• Boa Governança - Avalia como a população enxerga o governo; ver se ele passa a imagem de que
respeita características como responsabilidade, honestidade e transparência.
Os temas desses indicadores incluem liderança em vários níveis do governo, na mídia, no judiciário, na
polícia e nas eleições.

Atualmente, existem diversas discussões em torno da revisão do cálculo da riqueza de um país. O PIB é uma
medida quantitativa, e não qualitativa, não leva em conta a distribuição da renda e não inclui nenhum
julgamento moral sobre o valor da atividade executada (a não ser excluir atividades ilegais, como o tráfico
de drogas). Então, por exemplo, a limpeza de um acidente nuclear contribuiria para o PIB da mesma
maneira que a produção de energia solar. Quando o petróleo é extraído do solo e vendido aos
consumidores, isso é somado à riqueza de uma nação, e não contabilizado como um esgotamento de seus
recursos. Esperamos que, ao mudarmos a maneira como calculamos a atividade econômica, possamos
mudar nossas prioridades políticas e construir sociedades mais felizes e ambientalmente justas.

Veja algumas das iniciativas que promovem uma discussão sobre o cálculo do PIB:

Índice de Desenvolvimento Humano – ONU

Índice de Genuíno Progresso – Canadá

World Database of Happyness – Holanda

Comissão de revisão do cálculo do PIB - Joseph Stiglitz

Happy Index Planet – Europa

O Texto a seguir tem parte do artigo de Eric Zencey “G.D.P. R.I.P (PIB – Descanse em Paz)”, obtido em
http://www.visaofuturo.org.br/pdfs2/GNP%20RIP%20-%20PIB%20-%20Descanse%20em%20Paz%20-%20Eric
%20Zencey.pdf, no qual o autor aponta diversos limites da utilização do PIB.

[...] Para começar, o PIB exclui uma grande parte da produção que tem valor econômico. Nem o trabalho voluntário nem
os serviços domésticos não remunerados (faxina, limpeza, cuidar das crianças pequenas, manutenção e melhoramentos
do tipo “Faça-Você-Mesmo - Do-It-Yourself”) entram nessa contabilidade, sendo que o nosso padrão de vida, nosso nível
geral de bem-estar econômico, se beneficia poderosamente de ambos. Nem tampouco inclui o enorme benefício que
obtemos, fora de qualquer mercado, diretamente da natureza. Um exemplo mundano: se você deixar que o sol seque
suas roupas, esse serviço é grátis e não aparece no nosso PIB; se você jogar sua roupa suja na secadora, você vai queimar
combustível fóssil, aumentar sua pegada carbônica, tornar a economia mais insustentável – e vai dar um empurrãozinho
para aumentar o PIB.

De uma forma geral, a substituição de serviços do capital-natural (como o sol secando roupas, ou a propagação de
peixes, ou controle de enchentes ou a purificação da água) por serviços de capital-construído (capital-built) (como aqueles
de uma secadora, ou de uma fazenda de piscicultura industrial, ou de diques, represas e estações de tratamento de água)
é uma roubada – capital-construído é caro, não se mantém, e em muitos casos provê um serviço inferior e mais
imprevisível. Mas no PIB, cada instância de substituição de um serviço de capital-natural por um serviço de capital-
construído aparece como algo bom, um aumento na nossa atividade econômica nacional. Não é de se admirar que
atualmente estamos nos defrontando com uma crise global na forma de uma premida escassez de serviços de capital-
natural de todos os tipos.

Isso aponta para o equívoco maior e mais profundo em se usar uma medida nacional de renda como um indicador de
bem-estar econômico. Ao resumir toda a atividade econômica da economia, o PIB não faz distinção entre itens que são
‘custos’ e itens que são ‘benefícios’. Se você sofrer um acidente automobilístico e colocar seu carro amassado numa
oficina para fazer lanternagem, o PIB sobe.

Um similar e contra intuitivo resultado vem de outros tipos de gastos para reparação, como assistência médica, redução
da poluição, controle de enchentes e custos associados com crescimento populacional e crescente urbanização – incluindo
prevenção ao crime, construção de auto-estradas, tratamento de água e expansão de escolas. Gastos com tudo isso
aumentam o PIB, embora a maior parte do que almejamos comprar não seja um melhorado padrão de vida, e sim a
restauração ou a proteção da qualidade de vida da qual já desfrutávamos.

E as quantias envolvidas não são nenhuma mixaria. O furacão Katrina produziu algo como 82 bilhões de dólares em
danos na cidade de Nova Orleans, nos EUA, e na medida em que a destruição ali foi remediada, o PIB subiu. Algumas das
despesas com reparos na Costa do Golfo (onde se situa a cidade de Nova Orleans) de fato representam uma mudança
positiva em prol do bem-estar econômico, já que antigos utensílios e tapetes e automóveis foram substituídos por novos,
presumivelmente aperfeiçoados. Mas muitas dessas despesas não melhoraram a comunidade (de fato, em certos casos
pioraram), se compararmos com o estado dela anteriormente.

Considere os cerca de 70 km de mangue esponjoso entre a cidade de Nova Orleans e a Costa do Golfo que outrora
protegia a cidade das tempestades. Quando aqueles mangues foram perdidos em prol do desenvolvimento – fatiados até
a morte por canais para que, na maior parte das vezes, plataformas petrolíferas pudessem ser transportadas – o PIB subiu,
mesmo quando esses “melhoramentos” destruíram as defesas naturais da cidade e dizimaram a crucial área para desova
de camarões para a pesca da Costa do Golfo. Os mangues eram uma espécie de capital-natural, e sua perda gerou um
custo que jamais entrou em qualquer contabilidade – nem no PIB nem em qualquer outra.

Decisões sábias dependem de avaliações precisas dos custos e benefícios de diferentes cursos de ação. Se não levarmos
em conta os serviços do ecossistema como um benefício na nossa mensuração básica de bem-estar, suas perdas não
poderão ser contabilizadas como um custo – e nesse caso o processo de tomada de decisão do ponto de vista econômico
inevitavelmente nos levará a indesejáveis e perversos resultados anti-econômicos.

O problema básico é que o PIB mede a atividade, e não o benefício. Se você anotasse suas despesas no seu talão de
cheque do jeito que o PIB mede as contas nacionais, você registraria todo o dinheiro que fosse depositado na sua conta
bancária, faria entradas para cada cheque que você emitisse (suas despesas), e depois somaria todos esses valores. O
resultado dessa soma pode lhe dizer algo de útil sobre o fluxo total de caixa da sua família, mas não irá lhe dizer se,
financeiramente falando, você está melhor neste mês do que no mês passado, ou se de fato você está solvente ou falindo.

Pelo fato de usarmos tal equivocada métrica de bem-estar econômico, é tolice perseguir políticas cujo principal propósito
seja aumentá-lo. Fazer isso é uma instância de “falácia de concretude deslocada” (fallacy of misplaced concreteness) –
tomar o mapa pelo território, ou tratando uma leitura de um instrumento como se fosse a realidade em vez de uma
representação. Quando você está sentindo frio na sua sala de estar, você não acende um fósforo e o coloca debaixo de
um termômetro, para em seguida alegar que a sala esquentou. Mas é isso que fazemos quando buscamos melhorar o
nosso bem-estar econômico pela estimulação do PIB.

Diversas alternativas ao PIB têm sido propostas, e cada uma lida com o problema central de se colocar valor nos bens e
serviços que jamais foram “precificados”. As alternativas são controversas, porque tal tipo de avaliação abre espaço para
a subjetividade – para a expressão de valores pessoais, de ideologia e de crença política.

Como então, afinal de contas, devemos julgar exatamente o valor daqueles mangues do estado da Louisiana (cuja capital
é Nova Orleans)? Será que foi de 82 bilhões de dólares? Mas o que dizer sobre o valor da área de pesca de camarão que já
havia sido perdida, mesmo antes do Katrina? E o que dizer sobre o valor do seguro oferecido para a proteção dos
mangues contra uma outra perda futura de 82 bilhões de dólares? E o que dizer da segurança e senso de continuidade de
vida desfrutados por milhares de pessoas que viviam e ganhavam sua vida em função daqueles mangues antes que estes
desaparecessem? É admissivelmente difícil “precificar” (colocar um preço em) tais coisas – mas não há razão para se
arbitrar seus preços como zero, do jeito que o PIB atualmente faz.

O senso comum nos diz que, se quisermos uma acurada contabilidade da mudança do nosso nível de bem-estar
econômico, precisamos subtrair os custos dos benefícios, e contabilizar todos os custos, incluindo aqueles relacionados
aos serviços providos pelo ecossistema, uma vez que estes sejam perdidos por conta do desenvolvimento econômico. E
nestes custos deveriam ser incluídos proteção contra inundações e tempestades, purificação e abastecimento de água,
manutenção da fertilidade do solo, polinização das plantas e regulação do clima numa escala global e local. (Uma recente
estimativa coloca o valor mínimo de mercado desses serviços de capital-natural em torno de 33 trilhões de dólares por
ano).

A natureza também tem um valor estético e moral; alguns de nós experienciam deslumbramento, arrebatamento e
humildade nos nossos encontros com ela. Mas não precisamos ir tão longe a ponto de incluir tais intangíveis subjetivos
para consertar a contabilidade da renda nacional. À medida que os desgastados ecossistemas pelo mundo forem
desaparecendo, será cada vez mais fácil atribuir uma avaliação não subjetiva aos mesmos - um valor que devemos
atribuir caso queiramos mantê-los de fato. Nenhuma civilização pode sobreviver à sua perda.

Considerando os problemas fundamentais com o PIB enquanto um principal indicador econômico, e o nosso hábito de
tomá-lo como a medida de bem-estar econômico, deveríamos descartá-lo completamente. Poderíamos manter o atual
número, mas “renomeando-o” para tornar mais claro o que ele de fato representa: poderíamos chamá-lo de “Transações
Domésticas Brutas”. Poucas pessoas se deixariam iludir, assumindo que uma mensuração de transações brutas
representaria uma mensuração do bem-estar geral. E essa “renomeação” iria criar espaço para a aceitação de uma nova
mensuração, que pudesse sinalizar de forma mais acurada as mudanças no nível de bem-estar econômico que
estivéssemos desfrutando.

Nosso uso de produtividade total como sendo nosso principal indicador econômico não é mandatário por lei, de modo que
seria razoavelmente fácil para o Presidente Obama convocar um painel de economistas e outros especialistas para que se
juntassem ao Bureau of Economic Analysis na criação de uma nova e mais acurada medida. Pode até ser chamada de
“Bem-Estar Econômico Líquido”. No lado dos benefícios figurariam os tais bens de fora do mercado, como o trabalho
doméstico não remunerado e os serviços providos pelo ecossistema, e no lado do débito ficariam os gastos defensivos e
de reparação que não melhoram o nosso padrão de vida, juntamente com a perda dos ecossistemas, e o capital que
gastamos ao tentar substituí-los.

Em 1934, o economista Simon Kuznets, no seu primeiro relatório sobre a renda nacional no Congresso americano, alertou
que “o bem-estar de uma nação não pode ser inferido a partir de uma medida de renda nacional”. Assim como essa crise
que estamos vivendo nos dá a oportunidade de acabar com a abordagem econômica da “natureza-que se-dane” e do
“quanto-mais-melhor”, que floresceu quando o petróleo era barato e abundante, podemos finalmente agir em cima do
sábio alerta de Kuznets. Estamos num buraco econômico, e à medida que subimos para fora dele, o que precisamos não é
simplesmente uma medida do quanto de dinheiro passa pelas nossas mãos a cada trimestre, mas de um indicador que
nos possa dizer se estamos de fato e realmente ganhando terreno na perene luta para melhorar as condições materiais da
nossa vida.
ENTREVISTA COM Dr. ERIC ZENCEY

Por que deveríamos estar pensando numa alternativa ao PIB agora?

O PIB é uma medida extremamente tola para se avaliar o progresso econômico e o bem-estar humano. Esse índice jamais
foi idealizado para medir esses conceitos, e precisamos achar uma medida melhor o quanto antes. Qualquer hora é uma
boa hora para se fazer isso, mas a crise pela qual estamos passando atualmente torna esse momento ainda mais
oportuno. O que estamos vendo do ponto de vista econômico é, de muitas maneiras, inédito, e a resolução dessa crise irá
requerer que pensemos de modos que não foram pensados anteriormente. Em termos práticos, com o PIB em baixa no
mundo todo, fica mais fácil fazer a mudança. Uma nova métrica poderia ser implementada, e poderia orientar as políticas
públicas em prol de uma recuperação econômica que possa nos dar mais daquilo que realmente almejamos, que é bem-
estar social, e não apenas atividade econômica.

Por que o PIB é uma medida “extremamente tola” de bem-estar?

O primeiro e maior problema é que o PIB não mede coisa alguma de bemestar, ele mede a soma total do valor monetário
das transações do mercado. Por conta disso, ele junta coisas que são custos e coisas que são benefícios, sem fazer muita
distinção entre ambos. Isso é uma tolice. E mesmo como um somatório de todos os custos e benefícios o PIB é falho, por
que ele não mede os custos de forma acurada.

Mas o que é que o PIB falha em medir?

O custos mais significativos que o PIB falha em medir, na minha opinião, são os custos do desenvolvimento econômico –
as perdas de capital natural, e por conseguinte os custos dos serviços do capital natural, que acontecem com a destruição
ou a radical simplificação de complexos ecossistemas. Nenhuma civilização pode sobreviver à perda dos serviços do
capital natural da qual ela depende. Se deixarmos de contabilizar as perdas por esses serviços na nossa contabilidade
nacional, avançaremos diretamente para a nossa extinção.

Será que você poderia dar exemplos de serviços de capital natural?

Certamente que posso! Essa terminologia ainda é um tanto recente, porém a conscientização do conceito está crescendo.
Nós – nós humanos, nas nossas comunidades, nações e civilizações – desfrutamos de inegáveis e diretos bens e serviços
da natureza, que estão à margem de qualquer mercado. Os economistas que falam dessas coisas têm encontrado
diversos modos de classificar os serviços de capital natural em diferentes categorias, mas basicamente eles são em torno
de uma dúzia.

Permita-me discorrer sobre essa lista: micro e macro moderação climática, purificação e transporte de água; polinização;
controle de enchentes e moderação de tempestades; provisão de matéria prima; absorção (e algumas vezes
desintoxicação) dos nossos afluentes; fertilidade do solo; reciclagem de nutrientes; habitat para espécies; criação e
manutenção de um estoque de possibilidades genéticas; e oportunidades recreativas, estéticas, espirituais e educacionais
para os seres humanos. Repito, essa é apenas uma possível maneira de descrever os tipos de serviços que a natureza nos
oferece.

Gostaria de ressaltar com estudantes que historicamente o movimento ambiental tem sido associado apenas com a
última categoria – a imagem do ambientalista é aquela do “abraçador de árvores”, a pessoa que enxerga valores
estéticos, recreativos ou espirituais na natureza. Em parte isso se dá porque tradicionalmente a economia tem dito “claro,
a natureza tem valor, algumas pessoas pagarão para apreciá-la, por isso ela deve ter algum valor”. O que o conceito de
capital natural faz e redimensionar essa moldura. Ele diz que os valores ambientais não são um mero subconjunto dos
valores econômicos, mas justamente o oposto. Uma economia não navega à deriva numa Terra-do-Nunca, do modo que
os livros acadêmicos a modelam. Uma economia está inserida num ambiente mais amplo. Ela troca matéria e energia com
esse ambiente. E isso significa que os processos econômicos são na verdade um subconjunto dos processos ambientais.
Existe um capital natural e um capital construído (built capital), sendo que a nossa economia extrai serviços produtivos de
ambos.[...] (p.2-7)

São apresentados a seguir alguns trechos do artigo “Educar para a Sustentabilidade: complexidade, reflexividade,
desafios” de Pedro Roberto Jacobi (Professor Titular da Faculdade de Educação da USP)

Ver a publicação completa (inclusive para consulta das referências bibliográficas em:

JACOBI, Pedro. Educar para a Sustentabilidade: complexidade, reflexividade, desafios- In: Revista Educação e Pesquisa-
vol. 31/2- maio-agosto 2005, FEUSP. (disponível em http://www.ufmt.br/gpea/pub/jacobi_art.rev.fe-2005.abril%202005.pdf)

[...]

1- O Complexo Desafio da Sustentabilidade


As noções de desenvolvimento e direitos humanos representam duas idéias força que marcam a segunda metade do
século XX. Em ambos os casos, o sistema das Nações Unidas desempenha o papel de promotor e impulsionador dos
processos de debate e formulação de agendas que colocam estes temas para a sociedade.

No caso do tema do meio ambiente, a sua emergência é mais recente, como conseqüência dos debates sobre os riscos de
degradação do meio ambiente, que de forma esparsa, começaram nos anos sessenta.

[...] O quadro socioambiental que caracteriza as sociedades contemporâneas revela que a relação estabelecida entre os
humanos e o meio ambiente está causando impactos cada vez mais complexos, tanto em termos quantitativos quanto
qualitativos, nas condições de vida das populações e na capacidade de suporte planetária com vistas a garantir a
qualidade de vida das futuras gerações.

O conceito de desenvolvimento sustentável surge no contexto do enfrentamento da crise ambiental, configurada na


degradação sistemática de recursos naturais e nos impactos negativos desta degradação sobre a saúde humana. [...]

Articulam-se [..], de um lado, os impactos da crise econômica dos anos 80 e a necessidade de repensar os paradigmas
existentes; e de outro, o alarme dado pelos fenômenos de aquecimento global e a destruição da camada de ozônio, dentre
outros problemas (Jacobi, 1997, Guimarães, 2001, Conca et al,1995).

Assim, o que se observa é que enquanto se agravavam os problemas sociais e se aprofundava a distancia entre os países
pobres e os industrializados, emergiram com mais impacto diversas manifestações da crise ambiental, que se relacionam
diretamente com os padrões produtivos e de consumo prevalecentes.

Os sinais da crescente conscientização se observam a partir de alguns referenciais que agregam à dimensão do discurso
propostas de sustentabilidade ambiental , social e de desenvolvimento, como é o caso dos movimentos sociais em defesa
da ecologia, as conferências internacionais promovidas pela ONU principalmente, a partir da Conferência das Nacões
Unidas sobre o Ambiente Humano, realizada em Estocolmo em 1972, – Organização das Nações Unidas — para debater os
temas do meio ambiente e do desenvolvimento; nos relatórios do Clube de Roma e, mais ou menos diretamente, nos
trabalhos de autores pioneiros, de diversos campos, que refletiram sobre as mesmas questões. Um dos mais destacados
foi A Primavera Silenciosa de Rachel Carson, cientista e ecologista americana, que lançado em 1962, marcou o início da
revolução ecológica nos Estados Unidos (Martell, 1994; Dobson, 1994;). Rachel Carson questionava o modelo agrícola
convencional e sua crescente dependência do petróleo como matriz energética. Ao tratar do uso indiscriminado de
substâncias tóxicas na agricultura, alertava para a crescente perda da qualidade de vida produzida pelo uso
indiscriminado e excessivo dos produtos químicos e os efeitos dessa utilização sobre os recursos ambientais. A maior
contribuição de A Primavera Silenciosa1 foi a conscientização pública de que a natureza é vulnerável à intervenção
humana. Poucas pessoas até então, se preocupavam com problemas de conservação, a maior parte pouco se importava
se algumas ou muitas espécies estavam sendo extintas. O alerta de Rachel Carson era assustador demais para ser
ignorado: a contaminação de alimentos, os riscos de câncer, de alteração genética, a morte de espécies inteiras... Pela
primeira vez, a necessidade de regulamentar a produção industrial de modo a proteger o meio ambiente se tornou aceita.
Em pouco tempo a obra de Carson tornou-se uma referência do emergente movimento ambientalista nos EUA: e foi
também um dos principais alicerces do pensamento ambientalista naquele país e no restante do mundo, tornando-se um
referencial no debate em torno dos desequilíbrios ecológicos provocados pela ação humana no planeta.

Logo após a publicação de Primavera Silenciosa, trabalhos como o de Paul Ehrlich, The Population Bomb (1966) e o de
Garret Hardin, Tragedy of the Commons(1968), reforçaram a teoria malthusiana, relacionando a degradação ambiental e a
degradação dos recursos naturais ao crescimento populacional.

Em 1972, com a publicação pelo Clube de Roma2 do livro Limites do Crescimento, os cientistas, liderados por Dennis
Meadows argumentam de forma catastrofista que a sociedade se confrontaria dentro de poucas décadas com os limites do
seu crescimento por causa do esgotamento dos recursos naturais. Para alcançar a estabilidade econômica e ecológica se
propõe o congelamento do crescimento da população global e do capital industrial, mostrando a realidade dos recursos
limitados e indicando um forte viés para o controle demográfico.

No mesmo ano, a Organização das Nações unidas promove a Conferência de Estocolmo, onde pela primeira vez na história
se discute a questão ambiental, e se insere a discussão ambiental na agenda internacional. Em 1973, utiliza-se pela
primeira vez o conceito de ecodesenvolvimento para caracterizar uma concepção alternativa de desenvolvimento, cujos
princípios foram formulados por Ignacy Sachs. Tinham como pressuposto a existência de cinco dimensões do
ecodesenvolvimento, a saber: 1) a sustentabilidade social, 2) a sustentabilidade econômica, 3) a sustentabilidade
ecológica, 4) a sustentabilidade espacial e 5) a sustentabilidade cultural . Estes princípios se articulam com teorias de
autodeterminação que estavam sendo defendidas pelos países não alinhados desde a década dos 60 (Sachs, 1986;
Guzman, 1997, Jacobi, 1997).

1
A autora, mostrou como o DDT penetrava na cadeia alimentar e acumulava-se nos tecidos
gordurosos dos animais, inclusive do homem (chegou a ser detectada a presença de DDT até no
leite humano!), com o risco de causar câncer e doenças genéticas. A grande polêmica movida
pelo instigante e provocativo livro é que não só ele expunha os perigos do DDT, mas questionava
de forma eloqüente a confiança cega da humanidade no progresso tecnológico. Dessa forma, o
livro ajudou a abrir espaço para o movimento ambientalista que começava a emergir.
2
O Clube de Roma foi uma associação livre de cientistas, empresários e políticos de diversos
países que se reuniu em Roma, no princípio da década de 70, para refletir, debatere formular
propostas sobre os problemas do sistema global (McCormick, 1992).
[...] Os pressupostos do ecodesenvolvimento e outras formulações desenvolvidas nos anos setenta conseguiram introduzir
a dimensão ambiental nos esquemas tradicionais de desenvolvimento econômico prevalecentes na América Latina, e a
partir delas avançou-se na adoção de políticas ambientais mais estruturadas e consistentes. [...] Provavelmente a maior
virtude do ecodesenvolvimento seja a de que além da incorporação definitiva dos aspectos ecológicos no plano teórico,
enfatiza a necessidade de inverter a tendência autodestrutiva dos processos de desenvolvimento no seu abuso contra a
natureza. O conceito de ecodesenvolvimento propunha uma abordagem multidimensional e alternativa de
desenvolvimento que articulava promoção econômica, preservação ambiental e participação social.

O conceito de desenvolvimento sustentável pela Comissão Brundtland em 19873 3 - “Nosso Futuro Comum” possibilita
uma complexa integração conceitual entre meio ambiente e desenvolvimento, - projeta mundialmente o termo
“desenvolvimento sustentável” e o conteúdo da nova estratégia oficial de desenvolvimento. A Comissão parte de uma
visão complexa das causas dos problemas sócio-econômicos e ecológicos da sociedade global, sublinhando as
interrelações entre economia, tecnologia, sociedade e política, e enfatiza a necessidade de uma nova postura ética
assentada na responsabilidade tanto entre as gerações quanto entre os integrantes da sociedade dos nossos tempos.
Apresenta uma lista de ações a serem assumidas enquanto atribuições dos Estados e também define metas a serem
realizadas no nível internacional, tendo como agentes as diversas instituições multilaterais.[...]

[...] Apesar das críticas a que tem sido sujeito, o conceito de desenvolvimento sustentável representa um importante
avanço. O principal referencial é a Agenda 21 global, plano abrangente de ação para o desenvolvimento sustentável no
século XXI, que considera a complexa relação entre o desenvolvimento e o meio ambiente, que a partir de um tripé,
combina eficiência econômica com justiça social e prudência ecológica, como premissas da construção de uma sociedade
solidária e justa.

O desenvolvimento sustentável4 não se refere especificamente a um problema limitado de adequações ecológicas de um


processo social, mas a uma estratégia ou modelo múltiplo para a sociedade, que deve levar em conta tanto uma
viabilidade econômica quanto ambiental. Num sentido abrangente a noção de desenvolvimento sustentável remete à
necessária redefinição das relações sociedade humana – natureza, e, portanto a uma mudança substancial do próprio
processo civilizatório. Entretanto, a falta de especificidade e as pretensões totalizadoras tem tornado o conceito de
desenvolvimento sustentável, difícil de ser classificado em modelos concretos e operacionais e analiticamente precisos.

Por isso, ainda é possível afirmar que não se constitui num paradigma no sentido clássico do conceito, mas uma
orientação ou um enfoque, ou ainda uma perspectiva que abrange princípios normativos (Jacobi, 1997; Ruscheinsky,
2004;Guimarães, 2001).

O desenvolvimento sustentável (Jacobi, 1997) somente pode ser entendido como um processo onde, de um lado, as
restrições mais relevantes estão relacionadas com a exploração dos recursos, a orientação do desenvolvimento
tecnológico e o marco institucional. De outro, o crescimento deve enfatizar os aspectos qualitativos, notadamente aqueles
relacionados com a equidade, o uso de recursos – em particular da energia, e a geração de resíduos e contaminantes.
Além disso, a ênfase no desenvolvimento deve fixar-se na superação dos déficits sociais nas necessidades básicas e na
alteração de padrões de consumo, principalmente nos países desenvolvidos para poder manter e aumentar os recursos
base, sobretudo os agrícolas, energéticos, bióticos, minerais, ar e água.

[...]

Freqüentemente, observa-se o conceito de desenvolvimento sustentável como idéia força integradora, apesar do
consenso que tem sido construído, e que serve para impulsionar os enfoques integradores entre meio ambiente e
desenvolvimento. Podemos afirmar que ainda prevalece o enfoque sobre o desenvolvimento sustentável mais centrado na
sua capacidade de idéia força, nas suas repercussões intelectuais e no seu papel articulador de discursos e de práticas
atomizadas.

Atualmente, o avanço rumo a uma sociedade sustentável é permeado de obstáculos, na medida em que existe uma
restrita consciência na sociedade a respeito das implicações do modelo de desenvolvimento em curso. As causas básicas
que provocam atividades ecologicamente predatórias podem ser atribuídas às instituições sociais, aos sistemas de
informação e comunicação e aos valores adotados pela sociedade. Isto implica principalmente na necessidade de
estimular uma participação mais ativa da sociedade no debate dos seus destinos, como uma forma de estabelecer um
conjunto socialmente identificado de problemas, objetivos e soluções (Jacobi, 1997, Guimarães, 2001).

3
Este relatório é o resultado do trabalho da comissão da ONU World Comission on Environment
and Development presidida por Gro Harlem Brundtlandt, então primeira ministra da Noruega, foi
organizada pela ONU, em 1983, para estudar a relação entre o desenvolvimento e o meio
ambiente e criar uma nova perspectiva para abordar essas questões. O Relatório “Nosso Futuro
Comum”, produzido pela Comissão, veio a público em 1987 (McCormick, 1992).
4
O livro organizado por Clovis Cavalcanti (1997) “ Meio ambiente, desenvolvimento sustentável e
políticas públicas” apresenta um conjunto de contribuições de autores nacionais e estrangeiros
numa perspectiva interdisciplinar, reunindo diferentes abordagens teóricas e expressando as
preocupações básicas em torno dos desafios da sustentabilidade.
A sustentabilidade como novo critério básico e integrador precisa estimular permanentemente as responsabilidades
éticas, na medida em que a ênfase nos aspectos extra-econômicos serve para reconsiderar os aspectos relacionados com
a eqüidade , a justiça social e a ética dos seres vivos.

Os anos noventa marcam mudanças significativas no debate internacional sobre os problemas ambientais. A atenção do
planeta para a crise ambiental, que se inicia em Estocolmo em 1972, atinge seu clímax no Rio de Janeiro, em 1992,
quando são lançadas as bases para uma nova concepção de desenvolvimento. No processo que conduziu à Conferência
das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente e o Desenvolvimento –a Rio 92 – o enfoque do desenvolvimento sustentável foi
adotado como um marco conceitual que presidiu todo o processo de debates, declarações e documentos formulados.
Assim a interdependência entre o desenvolvimento socioeconômico e as transformações no meio ambiente, ignorada
durante décadas, entrou tanto no discurso como na agenda de grande parte dos governos do mundo.

A década de 90 representa um marco no debate internacional sobre os problemas ambientais, tendo a Conferência Rio 92
como ponto de inflexão pelo seu significado para a legitimação de uma nova concepção de desenvolvimento. Avança-se
na adoção de convenções como a de Diversidade Biológica e a de Mudanças Climáticas, indicando novas possibilidades de
o fortalecimento das interconexões entre as dimensões ambientais, sociais, culturais e econômicas do desenvolvimento.
Representou também um primeiro passo de um longo processo de entendimento entre as nações sobre as medidas
concretas visando reconciliar as atividades econômicas com a necessidade de proteger o planeta e assegurar um futuro
sustentável para o planeta.

Segundo Guimarães (2001:17), o debate internacional que teve início em Estocolmo e consolidou-se no Rio, supera
inexoravelmente a perspectiva tecnocrática no tratamento da crise ambiental, a ilusão ingênua que os avanços do
conhecimento científico seriam suficientes para permitir a emergência de um estilo sustentável de desenvolvimento. Os
problemas ambientais são os problemas do desenvolvimento, de um desenvolvimento desigual para sociedades humanas,
e nocivo para os sistemas naturais. Isto requer “declarar reiteradamente que os seres humanos constituem o centro, e a
razão de ser do desenvolvimento requer um novo estilo que deve ser ; ambientalmente sustentável no acesso e uso dos
recursos naturais e na preservação da biodiversidade; que seja socialmente sustentável na redução de pobreza e das
desigualdades e na promoção da justiça social; que seja culturalmente sustentável na conservação do sistema de valores,
práticas e símbolos de identidade que determinam integração nacional ao longo do tempo; e que seja politicamente
sustentável aprofundando a democracia e garantindo o acesso e participação de todos os setores de sociedade nas
decisões públicas. Este estilo tem como diretriz uma nova ética de desenvolvimento, uma ética na qual os objetivos
econômicos de progresso material subordinam-se às leis que governam o funcionamento dos sistemas naturais, bem
como à critérios superiores de respeito à dignidade humana e de melhoria na qualidade da vida das pessoas.

Uma outra iniciativa marcante e que teve ampla repercussão foi a Carta da Terra,resultado da mobilização e articulação
da sociedade civil que se inicia a partir da publicação de Nosso Futuro Comum em 1987, e cuja primeira versão foi
discutida na Eco 92, durante o Fórum Global de ONGs. Em 1997, durante a Conferência de Meio Ambiente -Rio + 5 foi
instituída a comissão responsável para coordenar os processos de consulta e redação, e após amplos processos públicos
de debates em quarenta e seis países durante oito anos, em 14 de março de 2000 foi ratificada pela Unesco (Gadotti,
2000; Trevisol, 2003:105-108; Boff, 2002:49-56). Trata-se de uma declaração de princípios globais que orienta as ações
individuais e coletivas rumo ao desenvolvimento sustentável e sugere parâmetros éticos globais. Boff (2002:54-55)
destaca três pontos relevantes: resgate de valores da solidariedade, da inclusão e da reverência; superação do conceito
fechado de desenvolvimento sustentável e ética do cuidado.

Na mais recente Cúpula do Mundial sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável - Rio + 10 , realizada em 2002
em Johanesburgo, as questões mais relevantes sobre clima e energia não foram devidamente tratadas, poucas metas pré-
determinadas foram revistas e não foram estabelecidos prazos severos para o seu cumprimento. O plano aprovado na
Cúpula apenas faz recomendações e sugestões de objetivos que visam conciliar o crescimento econômico, a justiça social
e a proteção ao meio ambiente, sem estabelecer metas com percentuais específicos ou com data marcada para a solução
dos problemas.

As expectativas geradas com os avanços na Rio 92 se reduzem significativamente antes e após o constatado relativo
fracasso da Conferência Rio +10. Apesar dos avanços ocorridos em vários setores, os princípios de proteção ambiental e
de desenvolvimento sustentável continuam a ser considerados um entrave para o crescimento econômico.

O quadro atual, claramente demonstrado por estudos científicos, indica que os ecossistemas continuam sentindo o
impacto de padrões insustentáveis de produção e de urbanização. A base de recursos naturais continua estando sujeita às
pressões antrópicas crescentes, e os serviços ambientais estão absorvendo um maior volume de poluição. Além disso,
durante a última década muitos países aumentaram sua vulnerabilidade a uma série mais intensa e freqüente de
fenômenos que tornam mais frágeis os sistemas ecológicos e sociais, provocando insegurança ambiental, econômica e
social, minando a sustentabilidade e gerando incertezas em relação ao futuro.

______________________________________________________________

O que é desenvolvimento sustentável (trechos de obras)

“Estamos diante de um momento crítico na história da Terra, numa época em que a humanidade deve
escolher o seu futuro. À medida que o mundo torna-se cada vez mais interdependente e frágil, o futuro
enfrenta, ao mesmo tempo, grandes perigos e grandes promessas. Para seguir adiante, devemos
reconhecer que no meio da uma magnífica diversidade de culturas e formas de vida, somos uma
família humana e uma comunidade terrestre com um destino comum. Devemos somar forças para
gerar uma sociedade sustentável global baseada no respeito pela natureza, nos direitos humanos
universais, na justiça econômica e numa cultura da paz. Para chegar a este propósito, é imperativo que,
nós, os povos da Terra, declaremos nossa responsabilidade uns para com os outros, com a grande
comunidade da vida, e com as futuras gerações.” (PREÂMBULO da Carta da Terra)

“No dicionário, a sustentabilidade simplesmente implica que uma determinada atividade ou ação seja
susceptível de ser sustentada (ou seja, de continuar indefinidamente). Pensando no meio ambiente, esta
definição não é particularmente útil uma vez que muitas práticas altamente nocivas podem ser mantidas
por longos períodos de tempo, além do tempo da vida humana individual. Muitas pessoas podem
argumentar que os ecossistemas se adaptam às mudanças impostas pela ação humana ao longo do tempo,
mas esta é uma representação perversa para o futuro do planeta.

Os ecossistemas do planeta, que suportam a totalidade das nossas necessidades no que diz respeito à
saúde, à criação de riqueza e bem-estar, têm evoluído ao longo de bilhões de anos. Por sua vez, a
civilização moderna surgiu há cerca de 5.000 anos (ou 70 vidas humanas de 70 anos ou cerca de 200
gerações). O ritmo da mudança que temos imposto ao mundo natural é espetacularmente rápido e pode ser
também irreversível, uma vez que excede a velocidade em que ecossistemas podem evoluir. Portanto,
temos de tomar os diversos ecossistemas do planeta como um ponto de referência fixa para enquadrar as
nossas atividades de desenvolvimento, em vez de esperar que os ecossistemas se moldem de acordo com
nossas necessidades e desejos.

A emergência nas décadas de 80 e 90 para as questões ambientais de alcance global, como o


empobrecimento da camada de ozônio e as alterações climáticas, chamou a atenção para o acentuado
aumento na taxa e na amplitude das mudanças no ambiente forjadas pela expansão da economia global.”
(ALMEIDA, GIANNETTI, BONILLA, 2008, apostila, p. 17)

Desenvolvimento Sustentável “o desenvolvimento que satisfaz as necessidades presentes, sem


comprometer a capacidade das gerações futuras de suprir suas próprias necessidades.” (Nosso Futuro
Comum – Relatório Brundtland - 1987)

“O conceito de desenvolvimento sustentável tem uma conotação extremamente positiva. Tanto o Banco
Mundial, quanto a UNESCO e outras entidades internacionais adotaram-no para marcar uma nova filosofia
do desenvolvimento que combina eficiência econômica com justiça social e prudência ecológica.
Esse tripé virou fórmula mágica, que não falta em nenhuma solicitação de verbas para projetos da natureza
mais variada no campo eco-sócio-econômico dos países e regiões do nosso velho Terceiro Mundo. O
conceito desenvolvimento sustentável sinaliza uma alternativa às teorias e aos modelos tradicionais do
desenvolvimento, desgastadas numa série infinita de frustrações.” (BRÜSEKE, 1994, p. 17, grifos nossos)5

Um antecedente importante deste conceito, já visto no texto de Jacobi, foi o trabalho do Clube de Roma
(Limites do Crescimento):

“[...] O relatório, utilizando simulações em computador, mostrou que a taxa de crescimento da utilização dos
recursos e a poluição ameaçavam comprometer o crescimento econômico com consequências imprevisíveis.

Segundo as ideias dos economistas tradicionais, era preciso crescer para atingir o desenvolvimento. Mas, se
o sistema econômico não pode ser expandir indefinidamente, a fim de permitir o acesso a melhores padrões
de vida para os pobres, como atingir o desenvolvimento? Além disso, o crescimento demográfico e o
econômico eram tipicamente vistos como indissoluvelmente ligados, com um apoiando o outro. Como lidar
com o crescimento da população?

Limites do Crescimento criou a necessidade de responder a tais perguntas em confronto com os modelos de
crescimento dominantes. A escolha não estava mais entre o crescimento e o não crescimento, mas na
desaceleração do crescimento, para evitar um colapso de proporções indefinidas. Neste sentido, a questão
não é tanto o que é sustentabilidade, mas sim o que significa ser insustentável. Esta questão é tratada por
Jared Diamond em Colapso. Para Diamond, o resultado de práticas insustentáveis de utilização da natureza,
não resulta em catástrofe, mas em que as gerações futuras terão, “níveis de vida significativamente piores”.
“riscos mais elevados” e serão privados dos principais valores que atualmente detêm. Ele defende que a
economia mundial moderna deve aprender com o passado e utilizar os sinais do presente.

O desafio do desenvolvimento sustentável

O grande desafio deste século é o de alcançar a situação denominada de desenvolvimento sustentável. Isto
implica em compreender que a sociedade e a economia estão inseridas no meio ambiente. A
natureza fornece materiais e energia e, quando estes são abundantes, a economia cresce, o conhecimento
e as aspirações dos seres humanos aumentam. Se o meio ambiente for explorado a uma velocidade
superior àquela que o planeta tem condições de repor, os valores, projetos e aspirações tendem
a desacelerar. [...]

A capacidade de carga é outro conceito que precisa definição: em biologia é “o máximo de população de
uma determinada espécie que uma área pode suportar sem reduzir a capacidade de suporte da mesma
espécie no futuro”. Mas para os seres humanos, a definição depende de uma distinção entre crescimento e
desenvolvimento. Para a humanidade, a sustentabilidade será alcançada somente quando o
desenvolvimento suplantar o crescimento, reconhecendo a natureza finita dos recursos do nosso
planeta.

5
BRÜSEKE, Franz (1994) “O problema do desenvolvimento sustentado” In CAVALCANTI, Clóvis
(Org.). Desenvolvimento e Natureza: Estudos para uma sociedade sustentável.
INPSO/FUNDAJ, Instituto de Pesquisas Sociais, Fundacao Joaquim Nabuco, Ministerio de Educacao,
Governo Federal, Recife, Brasil. 1994. p. 262. (14-20 pp.) Disponível em:
http://168.96.200.17/ar/libros/brasil/pesqui/cavalcanti.rtf (Acesso em 10/01/2011)
De forma mais ampla, a capacidade de carga refere-se ao número de indivíduos que podem ser
suportados por uma determinada área, dentro dos limites de seus recursos naturais, e sem
degradar os capitais naturais, sociais e econômicos. A capacidade de carga para uma determinada
área não é fixa. Ela pode ser alterada pela tecnologia, para melhor ou para pior, por pressões do aumento
populacional ou do aumento da poluição. Quando o ambiente é degradado, a capacidade de carga
efetivamente encolhe, deixando o ambiente incapaz de suportar até mesmo o número de pessoas que
poderiam ter vivido anteriormente na área em uma base sustentável. Nenhuma população pode viver além
da capacidade de carga do ambiente por muito tempo.

As diferentes opções para o futuro estão condicionadas pela capacidade do meio ambiente em
fornecer materiais e energia e à capacidade dos seres humanos de perceber e compreender que
o desenvolvimento depende dos fluxos provenientes da natureza e é limitado por eles. (ALMEIDA,
GIANNETTI, BONILLA, 2008, apostila, p. 18-20, grifos nossos)

“Sustentabilidade Ambiental

[...] Para que uma sociedade seja sustentável, alguns fatores devem ser observados. Segundo Herman Daly,
ideólogo da Teoria da Sustentabilidade, há dois princípios básicos a serem atendidos:

1º princípio da sustentabilidade ambiental – Os recursos naturais não devem ser


consumidos a uma velocidade que impeça sua recuperação.

2º princípio da sustentabilidade ambiental – A produção de bens não deve gerar resíduos


que não possam ser absorvidos pelo ambiente de forma rápida e eficaz.

A aplicação desses princípios em nível global direciona ações locais em prol:

• da conservação dos sistemas de sustentação da vida e da biodiversidade,

• do aumento de uso de recursos renováveis,

• da minimização da utilização de recursos não renováveis e

• do respeito aos limites da capacidade de suporte dos ecossistemas.

Nos modelos de interação dos sistemas humanos (econosfera e sociosfera) com o meio ambiente (ecosfera)
surgem na literatura, três tipos de sustentabilidade: a econômica, a social e a do meio ambiente. Os três
tipos se confundem e são representados por diversos modelos. Aqui será tratada a sustentabilidade
ambiental, por entender que a sociedade e a economia não são possíveis sem a interação com o meio
ambiente.

Os fluxos a que se referem aos princípios da sustentabilidade de Herman Daly podem ser identificados nos
modelos de interação dos sistemas humanos. Dependendo do tipo de interação considerado, a
sustentabilidade pode ser classificada de três formas diferentes: fraca, média e forte dependendo de quanto
se considera a substituição entre os tipos de capital (natural, econômico e social).

O primeiro modelo representa a interação entre os sistemas humano e natural como compartimentos
separados e ilimitados em seu desenvolvimento. Neste tipo de sustentabilidade fraca, a soma de todos os
capitais (ambiental, econômico e social) é mantida constante, sem diferenciação do tipo de capital. Por
exemplo, uma planta de tratamento de efluentes líquidos substituiria perfeitamente o serviço ambiental de
purificação de água realizado por uma floresta.

SOCIEDAD
MEIO ECONOMIA
E
AMBIENTE (econosfer
(sociosfera
(ecosfera) a)
)

Dada a atual ineficiência na utilização dos recursos do meio ambiente, a sustentabilidade fraca seria uma
melhoria bem-vinda como uma primeira etapa, mas este modelo não representa a sustentabilidade
ambiental, já que os capitais não são substitutos perfeitos uns aos outros, pelo contrário, são
complementos. Por exemplo, a planta de tratamento de efluentes líquidos complementaria o serviço
ambiental de purificação de água realizado por uma floresta.

O segundo modelo de sustentabilidade média considera os três compartimentos (eco, econo e sociosfera)
com áreas de domínio comuns. Contudo, neste modelo há outras áreas que são independentes. As
interações de troca entre os sistemas humanos (social e econômico) possuem áreas que não dependem
fortemente do sistema natural. Neste tipo de sustentabilidade, a soma dos três tipos de capital (ecológico,
econômico e social) é também mantida constante, porem a substituição entre os diferentes tipos de capital
seria parcial. Por exemplo, o plantio de um bosque substituiria parcialmente o capital natural de uma
floresta natural. Especial atenção deve ser dada à composição de cada capital. Assim, o petróleo poderia ser
explorado, desde que pudesse ser substituído por recursos gerados por outro tipo de capital, como um
recurso energético renovável. Além disso, devem-se definir os limites de cada tipo de capital, para evitar
preocupações com a sua substituição. Como não sabemos exatamente quais são estes limites críticos para
cada tipo de capital, utiliza-se a precaução para não esgotar recursos (especialmente do capital natural). A
sustentabilidade média é uma grande melhoria sobre a sustentabilidade fraca. Sua grande fraqueza é que é
difícil, se não impossível, definir os limites críticos de cada tipo de capital.

ECONOSFE
ECOSFERA
RA

SOCIOSFE
RA

No modelo de sustentabilidade ambiental forte, o meio ambiente contém os sistemas humanos, fornecendo
recursos (como minérios e energia) e prestando serviços ambientais (como a dispersão de poluentes). Estes
recursos e serviços ambientais são a base do desenvolvimento socioeconômico e são a fonte da real
prosperidade humana. Os sistemas humanos estão contidos no sistema natural e a econosfera e a
sociosfera não podem crescer além das limitações intrínsecas da biosfera.

Neste tipo de modelo, para alcançar a sustentabilidade é necessário manter o capital intacto
separadamente. Por exemplo, o esgotamento dos combustíveis fósseis deve ser compensado e garantido
pelo desenvolvimento de outra fonte de energia, como as fontes de energia renováveis. Não há substituição
do capital, como nos outros graus de sustentabilidade, mas uma relação de complementação. Uma serraria
(social-econômico) é inútil sem o complemento natural do capital de uma floresta. Este modelo é o mais
adequado para alcançar a sustentabilidade ambiental, com a manutenção das atividades humanas de
prosperidade econômica e desenvolvimento social por longo prazo.

SOCIOSFE
RA

ECONOSFERA

No modelo de sustentabilidade forte,ECOSFERA


observam-se os diferentes fluxos de troca entre os diferentes
sistemas. A humanidade é usuária dos recursos naturais e controla estes fluxos. Os fluxos de troca entre os
sistemas humanos têm maios qualidade, pois abrangem a troca de recursos manufaturados (especialmente
entre o sistema econômico e social) e de informação (especialmente entre o sistema social e o econômico).
Os sistemas humanos (a econosfera e a sociosfera) têm hierarquia mais alta que os sistemas naturais, pois
as decisões tomadas nestes sistemas controlam os fluxos de troca entre o sistema natural e o humano.

Os seres humanos buscam hoje a sustentabilidade. Porem, face à escassez de energia iminente, às crises na
economia, à explosão demográfica e à preocupação com meio ambiente, os seres humanos podem se ver
obrigados a mudas seu modo de vida. Neste momento, é evidente que nosso futuro depende da relação
sociedade-economia-ambiente em um sistema de ações interdependentes (modelo de sustentabilidade
forte).” (ALMEIDA, GIANNETTI, BONILLA, 2008, apostila, p. 22-26, grifos nossos)

“Engenharia da sustentabilidade

Um princípio simples, conhecido pelos engenheiros, é o que tudo está baseado em energia. A energia
constitui a fonte e o controle de todas as coisas, todos os valores e todas as ações dos seres
humanos e da natureza. Quando a energia disponível é abundante, a economia, o conhecimento
e as aspirações dos seres humanos crescem. Se as fontes de energia são exploradas a uma
velocidade superior àquela que o planeta tem condição de regenerar, os valores, projetos e
aspirações dos seres humanos são desacelerados, ou no mínimo, adiados. Este fenômeno vem
se repetindo ao longo de toda a história da humanidade e da natureza.

Na busca pela sustentabilidade, os engenheiros devem utilizar técnicas para medir e avaliar os sistemas de
fornecimento de energia considerando tanto o homem como a natureza, incluindo ainda em seus cálculos a
economia. Este engenheiro deve perceber que a maior parte doa avanços tecnológicos que ocorreram no
século passado (em que houve um crescimento acelerado) só foi possível pela utilização da energia
disponível, como a utilização do petróleo em grande escala. À medida que a disponibilidade desta forma de
energia diminui, alguns avanços tecnológicos estão fadados a desaparecer.

O entendimento da Engenharia da Sustentabilidade implica, portanto em entender como as leis


da energia controlam todos os modelos humanos, a economia, os períodos de crescimento e de
estabilidade, deve-se hoje contemplar o mundo como um todo e considerar a forma como os
seres humanos podem se adaptar ao ambiente. Conhecendo a forma com que a energia produz
e mantém a ordem para a humanidade e para a natureza, será possível oferecer soluções de
engenharia econômicas e inteligentes para que os indivíduos possam escolher sua forma de
viver.

Os fluxos de energia que formam e mantém os sistemas humanos e naturais

Enquanto havia energia em abundância para a rápida expansão da produtividade e para o desenvolvimento
da cultura humana, o abastecimento de alimentos, a tecnologia e o conhecimento, o homem foi induzido a
considerar a energia, a economia e a sociedade como bens garantidos à sua sobrevivência (sustentabilidade
fraca). Ao refletir sobre o futuro, se pensava em diminuir a desigualdade social e garantir o desenvolvimento
econômico das sociedades. [...] Entretanto, o rápido crescimento que caracterizou o último século,
aliado à percepção da capacidade de carga do planeta e à compreensão de que as nossas fontes
de energia são limitadas, nos leva a tentar compreender a este problema complexo se acordo
com o modelo de sustentabilidade forte.

Em engenharia, para que se possa avaliar um sistema tão complexo se utilizam “sistemas” e diagramas de
sistemas para se realizar os cálculos sobre fluxos e depósitos de recursos. Por exemplo, a planta da
instalação hidráulica de uma casa é um diagrama de sistemas. A partir dele, podemos compreender a
velocidade de entrada e saída de água, quanto custará manter o sistema em funcionamento e as formas de
energia necessárias para sua operação. Já que a energia está incluída em todos os processos, se podem
fazer diagramas para todos eles, desde os de fluxos de água de uma casa, até os de sistemas de plantação
de alimentos e de operação de sistemas mais complexos como uma cidade ou um país.” (ALMEIDA,
GIANNETTI, BONILLA, 2008, apostila, p. 31-32, grifos nossos)

[...]

”As fontes de energia controlam a forma dos sistemas

Um sistema está limitado pelas fontes de energia que chegam a ele. Um sistema muito iluminado rico em
energia solar tem um tipo diferente de vegetação de outro que, por causa de sua localização geográfica ou
altitude elevada, recebe menos energia do sol. Os modelos de agricultura das civilizações antigas estavam
baseados somente nos fluxos de sol e chuva. Hoje, na agroindústria, empregam fontes adicionais de
energia, como combustíveis fósseis, que direta ou indiretamente, alimentam o maquinário e os serviços das
atividades agroindustriais.

A competição pela sobrevivência leva cada sistema a ser diferente de outros se a combinação das fontes de
energia disponíveis for distinta. Em uma mesma área, um fazendeiro pode plantar milho e outro pode
plantar trigo. Depois de vários anos, se as condições do ambiente permanecerem as mesmas, se verá que
todos os fazendeiros da região estarão plantando o mesmo tipo de grãos (milho ou trigo), que produz
melhores colheitas e mais dinheiro.

As fontes de energia externas dão fundamento a um sistema. O sistema gradualmente auto-organiza suas
reservas, seus ciclos de materiais, seus sistemas de retro alimentação e seu formato de forma a otimizar o
uso de energia disponível. Neste processo de tentativa e erro, há uma seleção entre alternativas. Os
sistemas que sobrevivem são aqueles que melhor utilizam sua energia armazenada para
estimular o fluxo energético.

Quando o fluxo de energia externa de um sistema muda, necessita-se de um tempo para o desenvolvimento
de um novo sistema adaptado à nova fonte de energia. Por exemplo, quando o clima muda novas formas de
vegetação substituem as formas primitivas. Quando ocorrem mudanças nos modelos energéticos de
uma região, ocorrem também mudanças nos modelos agrícolas, industriais, econômicos,
culturais e no estilo de vida da população.” (ALMEIDA, GIANNETTI, BONILLA, 2008, apostila, p. 36-37,
grifos nossos)

Além dos textos acima, pede-se que os alunos que não virão o filme “A história das coisas”, (disponível em:
http://www.youtube.com/watch?v=lgmTfPzLl4E) ou que gostariam de rever os conceitos apresentados no mesmo, o
façam.

BONS ESTUDOS

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