Você está na página 1de 209

TOM CARTER

*'" PERGUNTAS CRUCIAIS

FAZER A VOCÊ •
TRADUÇÃO
Victor Oeakins

V
VMa
© 1 9 9 9 , de T o m C a r t e r
T / r u l o do original * 13 crucial
questions Jesus wants to ask you,
edição publicada pela
KREGEL PUBLICATIONS
(Grand Rapids, Michigan, EUA)

Todos os direitos em lingua portuguesa


reservados por

EDITORA VIDA
Rua Júlio de Castilhos, 2 8 0 * Belenzinho
CEP 0 3 0 5 9 - 0 0 0 • São Paulo, sp
Telefax 0 x x 11 6 0 9 6 6 8 1 4
www.editoravida.com.br

PROIBIDA A REPRODUÇÃO POR QUAISQUER


MEIOS, SALVO EM BREVES CITAÇÕES, COM
INDICAÇÃO DA FONTE.

Todas as citações bíblicas foram extraídas


da Nova Versão Internacional (NVI),
© 2 0 0 1 , publicada por Editora Vida,
salvo indicação e m contrário.

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (cip)


(Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)

Cárter» Tom -
13 perguntas cruciais que Jesus quer fazer a você / Tom
Cárter; tradução Victor Deakins — São Paulo : Editora Vida,
2003.

Título original: 13 crucial questions Jesus wants to ask you

ISBN 8 5 - 7 3 6 7 - 7 1 9 - 8

1, Jesus Cristo - Miscelânia 2. Jesus Cristo - Obras de


divulgação 3. Perguntas e respostas

03-2312 CDD-232

índice para catálogo sistemático

1. Jesus Cristo : Cristologia 232


Sumário

Introdução 7

1. U m a pergunta fundamental 9
"Quem vocês dizem que eu sou?" (Mt 16.15)

2. U m a pergunta profunda 27
"Meu Deus! Meu Deus! Por que me abandonaste?"
(Mt 27.46)

3. U m a pergunta quebrantadora 43
"O coração de vocês está endurecido?" (Mc 8.17)

4. U m a pergunta decisiva 59
"Onde está a sua fé?" (Lc 8.25)

5. U m a pergunta doutrinária 77
"O que está escrito na Lei?" (Lc 10.26)

6. U m a pergunta intrigante 93
"Vocês pensam que esses galileus eram mais pecadores
que todos os outros, por terem sofrido dessa maneira?"
(Lc 13.2)

7. U m a pergunta surpreendente 109


"Com que se parece o Reino de Deus?" (Lc 13.18)
8. U m a pergunta prática 125
"Qual de vocês, se quiser construir uma torre,
primeiro não se assenta e calcula o preço, para
ver se tem dinheiro suficiente para completá-la?"
(Lc 14.28)

9. U m a pergunta misteriosa 141


"Não fui eu que os escolhi, os Doze? Todavia, um
de vocês é um Diabo!" (To 6.70)

10. U m a p e r g u n t a o u s a d a 157
"Qual de vocês pode me acusar de algum pecado?"
(To 8.46)

11. U m a p e r g u n t a d e s a f i a d o r a 175
"Você crê nisso?" 0o 11.26)

12. U m a p e r g u n t a d u r a 189
"Você dará a vida por mim?" (Jo 13.38)

13. U m a pergunta íntima 205


"Você me ama?" (Jo 21.15-17)
Introdução

Quase todos têm uma pergunta que gostariam de


fazer a Jesus.

"Por que o Senhor deixou meu bebê morrer?"


"Onde o Senhor estava enquanto eu era abusado(a)
sexualmente todos esses anos?"
"Como o Senhor consegue amar um pecador como
eur
"Minha esposa, no céu, pode me ver aqui?"
"Como é possível o Senhor não ter origem?"
"Se o Senhor conhece todas as minhas necessida-
des, qual o propósito de me comunicar em ora-
çao?

Você já parou para pensar que Jesus tem algumas


perguntas a lhe fazer? Nas próximas páginas, vamos
lidar com treze delas. Nosso Senhor as fez inicialmen-
te durante seu ministério na terra, e estão registradas
no Novo Testamento. Todavia, porque a Bíblia é a
Palavra viva de Deus, podemos nos colocar na posição
do povo original, que primeiro as enfrentou. Algumas
foram feitas a indivíduos; outras, aos discípulos e outras
ainda, aos que conspiraram contra Jesus. A pergunta
do capítulo 2, por exemplo, foi apresentada ao Pai
celestial. Embora rigorosamente não tenha sido feita a
nenhum ser humano, Jesus por certo quer que a en-
frentemos. Em todos os casos, portanto, podemos su-
por que são perguntas que Jesus nos quer fazer.
Ponha o cinto de segurança, pois não são perguntas
amenas. Algumas são confrontadoras, outras, desafia-
doras e ainda ourras, humilhanres, pessoais e emocio-
nantes. Todas elas são decisivas para o crescimento
espiritual do cristão. Por isso, preparemo-nos para ou-
vir, aprender e responder.
Uma pergunta
fundamental:
"Quem vocês dizem que eu sou?"
MATEUS 1 6 . 1 5

Vince Lombardi, famoso treinador dos Green Bay


Packers, assistiu certa vez a uma derrota humilhante de
seu time para um adversário fraquíssimo. No dia se-
guinte, antes do treino, ele apanhou uma bola de fute-
bol (americano), mostrou-a aos jogadores, inclusive
alguns veteranos da liga profissional e disse: "Senho-
res, isto é uma bola de futebol". Lombardi achou que
estava na hora de voltar a falar dos fundamentos a sua
equipe.
Depois de ensinar seus discípulos durante quase três
anos, Jesus parou para lhes fazer esta pergunta funda-
mental: "Quem vocês dizem que eu sou?" (Mt 16.15).
Temos de partir desse princípio. Antes de começar a
refletir convenientemente sobre qualquer outro assun-
to na Bíblia — mesmo a salvação — , temos de conhe-
cer a pessoa de Cristo.
Pollster George Gallup certa vez perguntou a um
grupo aleatório de americanos: "Quem vocês dizem
que Jesus é?". A maioria definiu o Senhor em ter-
mos positivos, usando palavras como, por exemplo,
amoroso , perdoador , gentil e compassivo .
Quarenta e dois por cento disseram que Cristo era
"a presença de Deus entre as pessoas". Esta é a visão
bíblica, e eu me surpreendo de que tanta gente a
tenha adotado. Os outros entrevistados considera-
ram Jesus um grande líder, um mestre de princípios
morais ou um profeta. O denominador comum
nessas declarações é que Jesus não passa de um sim-
ples homem.
Se outro indivíduo perguntasse às pessoas "Quem
vocês dizem que eu sou?", acharíamos que se tratasse de
um inseguro. Mas Jesus fez essa pergunta por causa de
nossa segurança eterna. Em João 8.24, ele disse aos ju-
deus: "Se vocês não crerem que E U sou [o Senhor Deus],
de fato morrerão em seus pecados". João 17.3 ensina
que conhecer o Filho é a essência da vida eterna. Roma-
nos 10.9 diz: "Se você confessar com a sua boca que
Jesus é Senhor e crer em seu coração que Deus o res-
suscitou dentre os mortos, será salvo". Portanto, nada
menos que nossa salvação depende da resposta que dermos
à pergunta fundamental sobre a identidade de Cristo.

Q U E M É Q U E M ENTRE OS JUDEUS
Antes de perguntar a seus discípulos quem eles acha-
vam que ele era, nosso Senhor perguntou: "Quem os
outros dizem que o Filho do homem é?" (Mt 16.13).
Acho que Jesus estava prevenindo seus discípulos con-
tra as ideias enganosas que as pessoas tinham a seu res-
peito. Afinal, quando se caminha atento por um campo
minado, há menos probabilidade de pisar numa mina.
Os discípulos responderam: "Alguns dizem que é
João Batista; outros, Elias; e, ainda outros, Jeremias
ou um dos profetas" (v. 14). Essa resposta refletiu a
idéia comum de que Jesus era um dos grandes profetas
que havia ressuscitado. Talvez essa concepção equivo-
cada tivesse base em Deuteronômio 18.18, em que se
lê que Deus um dia levantaria um profeta como Moisés
no meio do povo.
Quando Herodes ouviu falar pela primeira vez de
Jesus, o tetrarca "disse aos que o serviam: 'Este é João
Batista; ele ressuscitou dos mortos!'" (Mt 14.2). Do
mesmo modo que João Batista, Jesus pregou o Reino
de Deus e desafiou corajosamente as pessoas a se arre-
pender de seus pecados. João, porém, era somente
uma voz chamando o povo para se preparar espiritual-
mente para o advento de Cristo, ao passo que Jesus era
o próprio Deus (cf. Is 40.3; Jo 1.23). R. V. G. Tasker
escreveu: "João podia preparar os homens para receber
o Reino de Deus no coração, mas ele [Jesus] podia
capacitá-los para recebê-lo. Ele [João] ficou no limiar
do Reino de Deus, mas Jesus era a única porta pela
qual os homens podiam entrar". 1

Outros achavam que Jesus era Elias, que havia


retornado do céu. Malaquias 4.5 diz que Elias seria
enviado por Deus "antes do grande e temível dia do
SENHOR". Ainda hoje os judeus mantêm a tradição de
reservar para Elias uma cadeira vazia à mesa na seder de
pessach [ceia da Páscoa]. A característica peculiar de Elias
era a sua capacidade de realizar milagres. Por exemplo:
multiplicou a última porção de farinha e de óleo da
casa de uma viúva com um único filho de forma que
eles tiveram alimento durante muitos dias (lRs 17.12-
15). Isso nos faz lembrar de Jesus alimentando cinco
mil homens (sem contar mulheres e crianças; Mt
14.21) com cinco pães de cevada e dois peixes (Jo
6.5-13).
Elias e Jesus ressuscitaram um jovem (lRs 17.17-
24; Lc 7.11 -15). Elias fez descer fogo do céu para consu-
mir a oferta de holocausto (lRs 18.30-39), e da mesma
maneira as palavras de Jesus inflamaram o coração dos

1
Mateus: introdução e comentário, São Paulo: Vida Nova, 1980.
ouvintes (Lc 24.32). Elias separou as águas do Jordão
de forma que ele e Eliseu puderam atravessá-lo em seco
(2Rs 2.8); Jesus caminhou sobre as águas (Mt 14.25).
Do que foi dito de Elias, podemos compreender
por que as multidões ficaram confusas quanto à iden-
tidade de Jesus. Entretanto, embora houvesse seme-
lhanças entre os dois, Jesus não era Elias. Este era
apenas um porta-voz de Deus, ao passo que Jesus era
Deus encarnado e o Messias do mundo (Jo 1.1-18;
20.31).
Nos dias de Jesus, também havia os que achavam
que ele era Jeremias. De novo, podemos ver alguma
semelhança entre o ministério de Jeremias e o de Je-
sus. Por exemplo, Jeremias era conhecido como o pro-
feta que chorava. De fato, seu livro Lamentações
expressa a profunda tristeza que sentia por causa da
destruição de Jerusalém pelos babilônios, o que ocor-
reu devido à violação da aliança mosaica pelos israelitas.
Igualmente, Jesus estava cheio de angústia por causa
da calamidade que viria sobre Jerusalém pelas mãos
dos romanos (Lc 19.41). Cristo também ficou muito
triste por ter sido rejeitado pelo povo como o Messias.
Tanto Jeremias quanto Jesus foram mal-interpre-
tados e perseguidos pelo povo de sua época. Jeremias
escreveu sobre a nova aliança, na qual Deus escreveria
espiritualmente sua lei no coração do seu povo e lhe
perdoaria os pecados (Jr 31.33,34). Mas Jesus cumpriu
a nova aliança morrendo na cruz, onde suportou a ira
de Deus e se ofereceu como sacrifício redentor por
nossos pecados (Mc 15.34; l j o 2.2).
O fio comum que caracterizou João Batista, Elias e
Jeremias era a voz profética deles. Eram os porta-vozes
de Deus. Mas Cristo era o Deus de quem falavam. Os
profetas eram os mensageiros, mas Jesus era a própria
mensagem.
A pesquisa de opinião sobre Jesus parecia aquele
antigo Quem équem. Apesar disso, as idéias populares
deixam a desejar, porque não incluem menção alguma
de Jesus como o Messias. As várias opiniões registradas
em Mateus 16.14 dizem algo sobre os indivíduos que
as sustentavam, mas nada a respeito da verdadeira iden-
tidade de Cristo. O versículo revela que os contempo-
râneos de Jesus não faziam a menor idéia de que ele era
o Salvador do mundo ( l j o 4.14).

FALSOS CRISTOS
Ainda hoje a opinião pública sobre Jesus não é confiá-
vel. Rumores, pesquisas ou sondagens sempre trazem
consigo embusres sutis. De nada adianra fazer uma pes-
quisa de opinião sobre quem é Jesus. Pode parecer que
a sociedade tenha opiniões elevadas sobre Cristo, mas,
uma vez que todos esses pontos de vista não são o cor-
reto, não apenas deixam de atingir o objetivo, mas tam-
bém insultam nosso Senhor. Infelizmente, um
sem-número de pessoas concebe uma imagem de Cristo
baseada no que outras pessoas dizem sobre ele, em vez
do que a Bíblia testemunha a seu respeito. Não deixe
que isso aconteça com você. Não fundamente suas idéi-
as a respeito de Jesus em nada menos que a Palavra
inspirada de Deus.
Durante séculos as interpretações falsas sobre Jesus
classificaram-se em três categorias. Uma é a idéia de
que ele era Deus, mas apenas tinha aparência de ho-
mem. Cerinto, contemporâneo do apóstolo João, foi
o líder de um movimento sectário que incorreu nesse
erro. Seus adeptos chamavam-se "docetistas", termo
originário de uma palavra grega cujo significado é "pa-
recer". Eles acreditavam que Jesus tinha aparência de
ser humano, mas não o era. Logo, negavam a encar-
nação de Cristo. João advertia contra o docetismo
quando escreveu em ljoão 4.2,3: "Todo espírito que
confessa que Jesus Cristo veio em carne procede de
Deus; mas todo espírito que não confessa Jesus não
procede de Deus. Esse é o espírito do anticristo...".
Hoje algumas pessoas bem-intencionadas cometem
erro semelhante quando fazem campanha a favor da
divindade de Cristo em prejuízo de sua humanidade.
Elas se assustam quando se menciona que Jesus foi tenta-
do, reve fome, sede e sentiu exaustão e dor. Sem dúvida,
temos de defender a doutrina da divindade de Cristo
contra aqueles que a negam. Mas negar sua humanida-
de é tornar-se culpado de heresia.
O segundo equívoco a respeito de Jesus é que, em-
bora ele tenha uma posição especial junto de Deus,
não passa de um ser criado. No quarto século d . C ,
Ário pregava que apenas o Pai celestial é eterno. Su-
pondo que Jesus era sua primeira e maior criação e,
por sua vez, criara o Universo. Em 325 d.C, o Concí-
lio de Nicéia condenou o arianismo, mas nos 250 anos
seguintes os arianos continuaram empestando a igre-
ja com essa blasfêmia, que ainda hoje infesta algu-
mas teologías. Algumas seitas, como a dos mórmons
e dos testemunhas-de-jeová, por exemplo, acreditam
que Cristo é subalterno de Deus, uma vez que é um
ser criado.
A terceira armadilha que tem feito tropeçar muitos
buscadores incautos da verdade é o preceito de que Je-
sus era tão-somente homem. Os líderes judeus do pri-
meiro século acreditavam tanto nisso que crucificaram
Cristo por ele alegar-se Deus (cf. Mc 14.61-64; Jo
10.33). Em 1906, o eminente médico-missionário e
teólogo alemão Albert Schweitzer escreveu um livro 2

no qual argumenta que Jesus estava enganado acerca


de si mesmo. Também sustenta o engano das pessoas

2
The questfor the historiadJesus, trad. W. Montgomery, New
York: Macmillan, 1961.
que acreditavam na divinidade de Cristo. Em 1952,
Schweitzer recebeu o prêmio Nobel da Paz, mas ele nos
serve de advertência quanto à falibilidade de nossos mais
respeitados e honrados líderes religiosos.
Esses três pontos de vista errôneos mais comuns
acerca de Cristo revelam a imperfeição da opinião pú-
blica. O melhor pensamento da humanidade sempre
será insuficiente para dar a Cristo a glória que ele me-
rece. O único testemunho confiável é o da Bíblia. Você
pode apostar a vida nela que não se enganará sobre Jesus.

A CONCLUSÃO DE PEDRO
Depois de ouvir o que as multidões pensavam sobre ele,
Jesus perguntou a seus discípulos: "Quem vocês dizem
que eu sou?" (Mt 16.15).
Curiosamente, ouvi de um jovem seminarista re-
cém-formado que estava sendo examinado pelo con-
selho de ordenação. A banca o bombardeou com todo
tipo de questão teológica. Perguntou-lhe em que ele
cria em relação à inspiração e à autoridade da Bíblia, à
pessoa de Cristo, ao Espírito Santo, à natureza da igre-
ja e a mais uma grande quantidade de assuntos teoló-
gicos. A cada pergunta, ele respondia: "De acordo com
o dr. Strong...". Estava citando Augustus Strong, au-
tor de uma livro clássica teologia sistemática. 3

5
Teologia sistemática de Strong, São Paulo: Hagnos, 2003,2v.
O conselho ficou satisfeito com todas as respostas
e aprovou a ordenação do jovem. Depois da reunião,
o presidente elogiou o futuro pastor:
— Suas convicções são precisas como uma flecha e
muito sólidas!
O jovem respondeu:
— Não acredito em nada disso. Apenas citei o dr.
Strong porque sabia que era o que vocês queriam ouvir.
O mínimo que se pode dizer é que o conselho de
ordenação ficou arrasado ao ouvir essa confissão.
Do mesmo modo, o desejo de Jesus não é ouvir-
nos falar sobre aquilo em que nossos pais, nosso pas-
tor ou nossa igreja acreditam. Ele quer que creiamos
na verdade da Palavra de Deus, que ele "é o Cristo, o
Filho de Deus" (Jo 20.31).
Em Mateus 16.15, o pronome grego traduzido
por "vocês" está numa posição de realce. O versículo
diz literalmente: "E vocês? [...] Quem vocês dizem
que eu sou?". Jesus estava querendo dizer: "Vocês es-
tão dispostos a ter sua própria opinião em relação a
mim? Vocês ousam correr o risco de discordar da
opinião pública e defender uma convicção contrária
a meu respeito?".
Peter Marshall, capelão falecido do senado dos Es-
tados Unidos, certa vez orou pelos líderes da nação:
"Dá-nos visão clara, ó Deus, para que possamos saber
em que nos firmar e o que defender, porque, se não
lutarmos em favor de algo, cairemos por qualquer
coisa". Marshall compreendia como são indispensáveis
as convicções pessoais.
Convicção é uma crença que as pessoas não podem
evitar compartilhar. À medida que me familiarizo com
as pessoas — em geral as que visitam minha igreja —, per-
gunto-lhes: "O que Jesus significa para você?" ou "Qual
sua opinião em relação a Cristo?". De vez em quando
surge um olhar embaraçado no rosto dessas pessoas, e
elas respondem: "Isso é um assunto pessoal entre mim
e Deus. Prefiro não falar a respeito".
Nossa relação com Cristo deve ser pessoal. Mas tam-
bém deve ser algo que estamos dispostos a — até ávi-
dos por — compartilhar. Jesus pediu que seus discípulos
respondessem francamente à pergunta "Quem vocês
dizem que eu sou?". Em outra passagem a Bíblia nos
ordena: "Estejam sempre preparados para responder a
qualquer pessoa que lhes pedir a razão da esperança
que há em vocês" (IPe 3.15).
Evidentemente, os doze discípulos responderam à
pergunta de Jesus em Mateus 16.13 (cf. v. 14). Mas,
quando ele perguntou "Quem vocês dizem que eu
sou?", apenas Pedro teve coragem de dizer: "Tu és o
Cristo, o Filho do Deus vivo" (v. 16).
De acordo com João 1.41, a palavra Cristo significa
"Messias". O Messias é a figura central da profecia
do Antigo Testamento. Já em Gênesis 3.15, Deus
prometera enviar um Libertador que esmagaria a ca-
beça de Satanás. Isaías o descreveu como nosso substi-
tuto, aquele que levaria o peso dos pecados do mundo
(Is 53.6). Daniel calculou os anos que precederiam a
vinda do Messias (Dn 9.24-26) e Miquéias profetizou
seu local de nascimento (Mq 5.2). Pedro, portanto, ao
chamar Jesus de "o Cristo" (Mt 16.16), estava na reali-
dade dizendo: "Você é aquele por quem Israel esperou
durante séculos e de quem os profetas falaram. Você é
a esperança de todo o mundo!".
Pedro declarou que Jesus é o Messias e "o Filho do
Deus vivo". Os cristãos são filhos espirituais do Deus
vivo apenas por adoção. Romanos 8.15 deixa claro: "Re-
ceberam o Espírito que os adota como filhos". Jesus é
"o Filho de Deus" (Jo 20.31) em relação natural e ínti-
ma com o Pai (cf. Mc 5.7; Lc 1.35). Esse título não só
indica que Cristo está identificado com o Pai, mas tam-
bém é completa e absolutamente igual a ele (cf. Jo 5.18;
10.30,36). Por isso, as palavras de Pedro em Mateus
16.16 colocam Jesus numa classe exclusiva. A declara-
ção do apóstolo implica que ninguém —nem mesmo
um profeta — é digno de ser comparado a Jesus.
Conta-se que Napoleão disse certa vez: "Todos os
heróis da Antigüidade eram homens, e eu sou homem.
Mas nenhum é igual a Jesus Cristo. Ele é mais do que
homem".
JESUS É SENHOR NA CIDADE DO PECADO
Mateus 16.13 informa que Jesus fez sua pergunta
inquiridora enquanto estava no "distrito de Cesaréia
de Filipos". Os habitantes dessa cidade eram conheci-
dos adoradores de Baal, deus cananeu da fertilidade, e
de Pan, deus romano da fertilidade. Herodes construiu
posteriormente um templo nesse distrito para a adora-
ção de César. No meio de toda essa idolatria, Jesus
perguntou a seus discípulos: "Quem vocês dizem que
eu sou?" (v. 15). Pedro respondeu: "Tu és o Cristo, o
Filho do Deus vivo" (v. 16).
Em vez de Cesáreia de Filipos, hoje Jesus poderia
levar-nos a um lugar como Las Vegas, supra-sumo do
mundanismo e do amor ao dinheiro. Talvez, caminhan-
do conosco pelas avenidas principais da cidade, com os
luminosos dos cassinos por toda parte, Jesus nos per-
guntasse: "Quem vocês dizem que eu sou?". E esperaria
que respondêssemos: "O Senhor é a luz do mundo!".
Ou — quem sabe? Jesus nos levasse para assistir a
uma partida do Superbowl,* com aqueles telões
exageradamente coloridos e deslumbrantes, que nos
estimulam a adorar esportes. Imagino Jesus levándo-
nos à melhor cadeira do estádio, no meio de dezenas de
milhares de torcedores delirantes e centenas de milhões

*Partida realizada a cada ano para determinar o campeão da


Liga Nacional de Futebol Americano. (N. do R.)
pelo mundo assistindo ao jogo pela televisão. Ele espera-
ria até os momentos finais do jogo, quando um dos ti-
mes, talvez perdendo por cinco pontos, consegue fazer
um passe desesperado a quase sessenta metros da extre-
midade do campo {end zone).* O receptor agarra a
bola mergulhando na end zone para ganhar o jogo. Os
torcedores pulam e gritam tão alto que é possível ouvi-
los a quilômetros. Nesse momento, Jesus se voltaria
para nós e perguntaria "Quem vocês dizem que eu
sou?", esperando que respondêssemos: "Meu único
objeto de adoração!".
Lembro-me de ler, certa vez, um livro de histórias
bíblicas para meus filhos. Havia uma sobre ídolos, e eu
perguntei para as crianças: "O que é ídolo?". Minha fi-
lha de sete anos respondeu: "Uma estátua". Em seguida
minha esposa perguntou: "Quais os ídolos que as pes-
soas amam mais do que a Jesus hoje em dia?". Nossa
filhinha me olhou com o canto dos olhos e respondeu:
"Futebol". Eu costumo acompanhar toda a temporada
desse esporte e minha primeira reação foi responder ime-
diatamente: "Não, não, eu não adoro futebol!". Mas
resisti ao impulso, acalmei-me e disse: "Você acertou. Se
eu não tomar cuidado, assistir aos jogos pode tornar-se
mais importante que Jesus para mim".

*No futebol americano, end zone é a área do final do campo em


que o jogador que está com a bola pode lançar e fazer o gol. (N. do R.)
Considere mais um exemplo de idolatria — a
premiação da academia de Hollywood. Os fãs ficam
com os olhos pregados no televisor enquanto os ído-
los do cinema, ostentando roupas extravagantes, exi-
bem-se descendo de limusines na entrada do auditório.
Durante a entrega do prêmio, um astro atrás do outro
faz discursos que refletem devoção exclusiva à indús-
tria cinematográfica. Parece que o Oscar é o prêmio
mais prestigioso e cobiçado que o mundo tem para
oferecer. Imagino Jesus esperando nos bastidores para
conhecer os ganhadores do Oscar de melhor ator e
melhor atriz. Mas ele não está esperando para felicitá-
los. Ao contrário, quando saem do palco com a salva
de aplausos ainda ecoando nos ouvidos e o rosto cora-
do pela rara emoção, Jesus lhes pergunta: "Quem vocês
dizem que eu sou?". E espera que respondam: "Meu
Senhor e meu Deus!".
Foi no contexto histórico do primeiro século, quan-
do sobejavam templos e ídolos pagãos, que Jesus pergun-
tou a seus discípulos: "Quem vocês dizem que eu sou?".
E Pedro declarou: "Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo".
Que vitória, Pedro! Esse foi seu maior momento!

T O M A D A DE ATITUDE
Certa vez, em meus anos de adolescência, eu estava com
um grupo de cristãos, diveitindo-me em volta de uma
fogueira numa praia de Santa Cruz, na Califórnia. Está-
vamos sentados ali, depois de um dia nadando no mar,
quando nosso líder contou novamente a história de Je-
sus, ao perguntar aos discípulos: "Quem vocês dizem
que eu sou?". Em seguida, o líder nos convidou a res-
ponder a essa pergunta. Uma por uma, as vozes respon-
deram: "Senhor Jesus, o Senhor é meu Salvador... o
amor de minha vida... meu amigo... meu Senhor... meu
Deus... meu Tudo... aquele que intercede por mim à
destra do Pai celestial... meu Rei... meu Redentor... a
Rocha em que me apoio... ". Jamais me esquecerei des-
sa noite inspiradora!
Agora é sua vez de responder à pergunta de Jesus.
Se você consegue responder de coração "Jesus, tu és o
meu Senhor, meu Deus e tudo o que tenho", sabe que
a vida e a eternidade estão em toda parte. Essa pergun-
ta, entretanto, deve fazer mais do que trazê-lo a Cris-
to. Deixe que ela o faça trazer outros a Cristo.
Você dirige estudos bíblicos? Dá testemunho? É
ativo na vida da igreja? Muito bem! Mas qual o seu
objetivo ao fazer tudo isso? E incutir a verdade em
outras pessoas? Não se esqueça do que Jesus disse: "Eu
sou [...] a verdade" (Jo 14.6). A primeira meta de nos-
so serviço cristão não é transmitir conhecimento, es-
clarecer mentes inquiridoras nem treinar as pessoas
para viver do modo que agrada a Deus. Ao contrário, é
trazer os perdidos espiritualmente para uma relação
pessoal com o Cristo vivo. Se você já o conhece como
Salvador e Senhor, seu objetivo deve ser exaltá-lo de
forma que seu amor por Cristo resplandeça. Como
John Wesley disse certa vez: "Incendeie-se para Deus, e
as pessoas virão assistir a você queimar".
Jesus é digno de todo esse tempo e esforço? Ele
merece sua dedicação irrestrita, seu testemunho firme,
seu amor incomparável e sua adoração incondicional?
Isso depende de sua resposta a esta pergunta: "Quem
você diz que Jesus é?".
Uma pergunta
profunda;

" M e u Deus! M e u Deus! Por


que m e abandonaste?"
MATEUS 2 7 . 4 6

Em 15 de janeiro de 1 9 9 1 , foi publicada a se-


guinte carta na famosa coluna de conselhos da Abby.*

Querida Abby,

Estou preocupado com o que um leitor escreveu


"Que direito têm os mortais de exigir alguma ex-
plicação de Deus?". Abby, esse leitor nunca sen-
tiu a dor angustiante de perder um filho.
Em 1 9 8 8 , minha linda filha de 2 2 anos foi
morta por um motorista embriagado. No princípio,

*Abigail van B u r e n — A b b y — é autora de uma famosa colu-


na de conselhos publicada cm vários jornais dos RUA. (N. do R.)
eu gritei: "Ele não matou somente a ela, mas tam-
bém a mim — a diferença é que eu não consigo
morrer!".
Depois me ajoelhei e implorei a Deus: "O
Senhor pode fazer qualquer coisa. Pode realizar
milagres. Pode trazer minha filha de volta à vida.
Por favor, Deus, deixe-me trocar de lugar com
ela; por favor, deixe-me deitar naquele caixão e
deixe-a sair para viver a vida dela. Ela nunca se
casou nem experimentou o milagre de ser mãe.
Eu estou velha. Já vivi. Tive minha oportunida-
de na vida, mas ela não. Por favor, por favor, dei-
xe-me trocar de lugar com ela... Ela não merecia
morrer!".
Como você pode perceber, Abby, eu ainda es-
tou viva; não porque quero. Mas principalmente
porque não tive coragem de apertar o gatilho ou
de tomar umas pílulas para me livrar da dor terrí-
vel e da sensação de perda com que convivo todos
os minutos de minha vida. Parece que Deus não
quis negociar comigo... O bêbado que matou mi-
nha querida filha (e a mim, também) passou me-
nos de seis meses atrás das grades. Hoje ele anda
por aí e vê a luz do sol enquanto minha filhinha
está na sepultura escura. Embora eu também este-
ja viva e usufruindo o sol, meu coração e minha
alma estão naquela sepultura escura com ela.
Deus não respondeu às minhas orações, e eu
fico ressentida quando me dizem que não tenho
nenhum direito de questioná-lo. Se Deus existe e
se eu algum dia conseguir vê-lo face a face, você
pode apostar tudo que quiser que vou apresentar
muitos "por quês" para ele responder... Estou fu-
riosa por ter de viver neste mundo sem a compa-
nhia dela. Quero saber por quê. Por que eu não
teria o direito de fazer perguntas a Deus?

Assinado, uma mãe desolada.

Confesse. Você também já quis fazer perguntas


como essas a Deus; talvez não dessa forma, tão con-
tundente. Isso pode ter ocorrido quando seu noivo (ou
noiva) desmanchou o noivado, ou seu cônjuge pediu
o divórcio, ou quando sua filha foi estuprada, ou quan-
do você descobriu que estava com câncer, ou quando
os ladrões invadiram sua casa e lhe roubaram bens va-
liosos.
Aos dezessete anos, em meus exames foi diagnosti-
cado diabetes. Meu médico explicou: "Seu pâncreas não
está mais funcionando, e você não pode viver sem a in-
sulina que ele produz. Por isso, terá de tomar injeção de
insulina duas vezes por dia pelo resto da vida. Vai preci-
sar medir o nível de açúcar de seu sangue antes de cada
refeição e antes de dormir. É importantíssimo que você
se alimente corretamente e nunca perca nenhuma refei-
ção nem se esqueça de aplicar nenhuma injeção".
Li por minha conta muito sobre o assunto e fiquei
sabendo que, mesmo mantendo controle rígido da do-
ença, meu risco de no futuro sofrer de cegueira, doenças
cardíacas e derrame era acima da média. Não consegui
evitar perguntar a Deus por quê.
A princípio senti-me culpado por isso. Mas hoje
estou convencido de que não há nenhum pecado nessa
pergunta — desde que ela represente uma busca de fé
sincera, não amargura. Pregado na cruz do Calvário, o
próprio Jesus perguntou a Deus por quê. "Bradou em
voz alta:'[...] Meu Deus! Meu Deus! Por que me aban-
donaste?'" (Mt. 27.46).
Certamente jamais saiu de lábios humanos nenhu-
ma súplica mais angustiada do que essa. Todas as ou-
tras perguntas de Jesus visavam a ensinar seus discípu-
los, despertar o interesse das multidões ou confrontar
seus inimigos. Mas nosso Senhor fez essa pergunta pro-
funda em causa própria. Isso nos ensina cinco lições
poderosas.

J E S U S T O M O U PARA SI O C A S T I G O
DE N O S S O S PECADOS
Em 2Coríntios 5.21, lemos que Deus "tornou pecado
por nós aquele que não tinha pecado, para que nele
nos tornássemos justiça de Deus". Essa é a simples
razão por que o Pai abandonou o Filho na cruz. Jesus,
ainda que absolutamente santo, assumiu as conseqüên-
cias do pecado e a justa ira de Deus merecida pelos
pecadores. Isaías 53.6 diz: " O Senhor fez cair sobre ele
a iniqüidade de todos nós".
Alguns especialitas da Bíblia alegam que Jesus ape-
nas se sentiu abandonado, mas, na realidade, o Pai
celestial esteve ao lado de Cristo todo o tempo. T. R.
Glover, por exemplo, observou: "Às vezes eu achava
que jamais houve nenhuma declaração [como essa] que
revelasse de maneira mais surpreendente a distância en-
tre a sensação e o fato". Porém, uma vez que essa opi-
1

nião faz de nosso Senhor culpado de dizer uma


inverdade sobre o Pai, ela deve ser rejeitada.
Davi observou em Salmos 37.25: "Nunca vi o jus-
to desamparado". Apesar disso, Jesus — o justo supre-
mo — foi abandonado por Deus a fim de que nunca
fôssemos abandonados. Estêvão, o primeiro mártir
cristão de que se tem registro, enquanto estava sendo
apedrejado, via o céu aberto e o Senhor Jesus pronto a
lhe dar boas-vindas (At 7.55,56). Porém, quando Je-
sus estava morrendo, o céu se fechou para ele. Deus
abandonou totalmente seu Filho ao escárnio, ao sofri-
mento, à vergonha e ao horror da cruz.

1
The Jesus ofhistory, London, 1917, p. 192.
Depois de Jesus ter sido tentado por Satanás, os an-
jos o auxiliaram (Mt 4.11). Quando agonizava no
Getsêmani por causa da morte iminente, foi-lhe envia-
do um anjo para fortalecê-lo (Lc 22.43). Porém, pelo
que se sabe, não havia nenhum anjo ao lado de Jesus
quando ele estava pregado na cruz. Até o Espírito Santo
havia se retirado. Isso é que é ser abandonado! Deus dei-
xou que Jesus bebesse até a última gota de sua ira eterna.
Gálatas 3.13 chama essa experiência de Jesus de
maldição: "Cristo nos redimiu da maldição da Lei
quando se tornou maldição em nosso lugar, pois está
escrito: 'Maldito todo aquele que for pendurado num
madeiro'". Nós é que merecíamos suportar o castigo
eterno por violar a lei de Deus, mas Jesus o suportou
por nós. Uma vez que Cristo, como nosso substituto
sem pecado, consentiu em ser abandonado pelo Pai,
podemos reivindicar pela fé a promessa de Hebreus
13.5: "Nunca o deixarei, nunca o abandonarei".
Uma história ilustrativa é a de Felipe Garza, um meni-
no comum de quinze anos, da cidade de Patterson, na
Califórnia. Depois da escola, por exemplo, fazia as tarefas
rotineiras na fazenda do pai. Não havia nada de excepcio-
nal em sua vida simples, isto é, até que ele deu, literal-
mente, seu coração à namorada, que necessitava de trans-
plante. Em janeiro de 1994, Felipe disse à mãe que ia
morrer e queria que a namorada, Donna Ashlock, rece-
besse o coração dele. Três semanas depois, Felipe morreu
em conseqüência do rompimento inesperado de um vaso
sangüíneo do cérebro. Donna recebeu seu coração — e
uma nova oportunidade de vida. Mais tarde ela disse: "Ja-
mais me esquecerei de Felipe. Sempre o amarei por isso".
Menos de três anos depois, Donna também morreu.
Seu namorado havia lhe dado um tempo a mais de vida.
Mas Jesus, quando tomou nosso lugar na cruz do
Calvário, tornou a vida eterna possível para nós! Pelo
fato de nosso Senhor ter sido temporariamente aban-
donado por Deus, podemos desfrutar a eternidade no
céu com ele. Graças a Jesus ter suportado a ira de Deus,
podemos ser perdoados. Por ele ter pagado o preço de
nossos pecados, estamos livres dos grilhões deles em
nossos pensamentos, palavras e ações.

0 PECADO SEPARA-NOS DE DEUS


A pergunta profunda de Jesus em Mateus 27.46 tam-
bém imprime com tinta indelével esta verdade em
nosso coração: o pecado separa as pessoas de Deus. Isaías
59.2 não seria mais claro se estivesse estampado isto
num outdoor. "Mas as suas maldades separaram vocês
do seu Deus". Romanos 6.23 traz uma observação se-
melhante: "O salário do pecado é a morte". Nesse
versículo, morte significa separação de Deus, o fim de
todos os propósitos para os quais Deus nos criou. Não
é somente o término da vida física, mas também a sepa-
ração eterna de Deus.
Por que os não-cristãos rejeitam as alegações de
Cristo? Porque estão longe de Deus. Por que dizem
"Não consigo ver Jesus operar em minha vida"? Por-
que estão distantes dele. Por que nós, crentes, perde-
mos a alegria, deixamos de orar e negligenciamos o
estudo da Bíblia? Porque acalentamos o pecado no
coração, e o pecado sempre nos separa de Deus. Por
que ficamos indiferentes à condição de perigo dos es-
piritualmente perdidos? Porque o pecado nos afastou
do coração do Pai celestial atencioso. O pecado age
sutil, silenciosa e despercebidamente para atingir seu
objetivo mortal.
Por que alguns cristãos abandonam a igreja? Tenho
ouvido muitas desculpas: "A igreja está cheia de hipó-
critas"; "Não estou recebendo alimento espiritual ali";
"Ninguém se preocupa comigo"; "A igreja não está atua-
lizada".
Às vezes essas críticas têm procedência. Mas sem-
pre insisto na verdade de Hebreus 10.25: "Não dei-
xemos de reunir-nos como igreja, segundo o costu-
me de alguns" (BV). Durante os anos do ministério de
Jesus na terra, a sinagoga era lotada de escribas e
fariseus cheios de justiça própria. Apesar disso, era há-
bito de nosso Senhor ir cultuar na sinagoga no sábado
(cf. 1 x 4 . 1 6 ) .
A verdadeira razão de os cristãos se afastarem da
igreja é o pecado que já os afastou do Senhor. O que é
a igreja senão o corpo de Cristo? A falta de comu-
nhão dos crentes com o corpo é um sintoma da perda
de comunhão com seu cabeça, Jesus Cristo (Ef
1.22,23). Se o Pai abandonou o Filho santo quando
este suportou sobre si os nossos pecados na cruz, cer-
tamente se afasta da comunhão conosco quando pe-
camos contra ele.

DEUS É SANTO
Por que o Pai teve de abandonar o Filho? Porque os
olhos de Deus "são tão puros que não suportam ver o
mal"; ele não pode "tolerar a maldade" (Hc 1.13).
Donald Grey Barnhouse escreveu certa vez: "Aqueles
que ensinam que Deus é amor sem ensinar que tam-
bém abomina o pecado têm, na realidade, outro deus,
que é Satanás mascarado". 2

Imagine uma orquestra dando um concerto com


um dos instrumentos desafinado. O regente não tem
outra escolha a não ser pedir que esse músico se retire.
Igualmente, quando o Cristo crucificado suportou
nossos pecados, ele ficou "desafinado" para o Pai, de
modo que Deus teve de abandoná-lo.
Os discípulos abandonaram Jesus por causa do
medo. Os demônios se voltaram contra ele cheios de
ódio. A inveja levou os líderes religiosos a conspirar

2
Man's min, Grand Rapids: Eerdmans, 1952, p. 25.
contra ele. Mas o Pai abandonou o Filho por causa
da santidade. Visto que Jesus carregava nossos peca-
dos na cruz, nosso Deus santo teve de abandoná-lo
completamente.
Eis uma lição maravilhosa para nós. Para crescer em
santidade, também temos de abandonar tudo que in-
duza ao pecado. A Bíblia adverte-nos de que sem san-
tidade ninguém verá o Senhor (Hb 12.14). Se o Pai,
por causa da santidade, teve de abandonar o Filho quan-
do este carregava nossos pecados na cruz, não pode-
mos voltar nosso coração para a busca de coisas mun-
danas sem nos contaminar com o mau cheiro do peca-
do. O pecado nos afasta imediatamente da comunhão
com nosso Deus santo.
Há algum tempo, um jovem cristão me confessou
que se havia enganado redondamente, casando-se com
a mulher errada. Estava ansioso para corrigir o erro,
divorciando-se da esposa, que conhecera recentemen-
te, e casando-se com a ex-namorada, que conhecia há
muito tempo. O jovem me perguntou: "O que os cris-
tãos vão pensar de mim se eu fizer isso?". Respondi-
lhe que devia ficar mais preocupado com o que Deus
acharia disso. Frustrado, ele respondeu: "Mas eu não
vou conseguir ficar feliz enquanto estiver casado com
a mulher errada".
"Deus pode transformar a esposa errada na correta",
disse para animá-lo. "Em vez de tirar vocêào problema,
o Senhor quer tirar o problema de você. Confie que ele
lhe transformará o coração e o fará ter amor por sua espo-
sa". Mas tive de acrescentar: "Ainda que você não consiga
ser feliz com sua esposa, a verdadeira meta do cristão na
vida não é felicidade, mas santidade. O casamento é uma
união sagrada, e Deus espera que você a honre".
O jovem concordou em ser obediente. Com o tem-
po, começou a encontrar a felicidade com a esposa.
Deus o estava recompensando pela busca da santidade!
O Deus santo não teve outra escolha senão aban-
donar Jesus quando este se tornou nosso substituto
sem pecado. O sacrifício de Cristo tornou possível para
nós ter comunhão com o nosso Deus santo ( l j o 1.3).
"Assim como é santo aquele que os chamou, sejam
santos vocês também em tudo o que fizerem" (IPe
1.15). Você pode fazer isso abandonando tudo que
tenha cheiro de pecado.

JESUS PROVOU SEU A M O R POR N Ó S


"Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a sua
vida pelos seus amigos" (Jo 15.13). Jesus não somente
deu a vida na cruz, mas também a alma. Desde a eterni-
dade, sua comunhão com o Pai fora ininterrupta. Na
abertura de seu evangelho, João declara: "Ele estava com
Deus no princípio" (Jo 1.2). Durante o ministério de
Jesus na terra, ele podia dizer que o Pai não o deixara
sozinho (Jo 8.29) e estava com ele (Jo 16.32). No Calvário,
todavia, a eterna comunhão entre o Pai e o Filho foi
interrompida bruscamente. Nosso pecado causou uma
barreira intransponível entre o Messias e seu Pai celestial.
Minha hora preferida do dia é aquela em que chego
a minha casa, à noite, de volta para minha esposa e meus
três filhos. Adoro ouvir as crianças gritarem: "Papai che-
gou em casa!", principalmente quando dizem isso com
alegria, e não com receio, o que acontece com mais fre-
quência! Às vezes eles estão brincando na frente de casa
e, quando estaciono, cercam o carro com sorrisos, amor
e histórias emocionantes de suas aventuras do dia.
A idéia de ser afastado de minha família me faz tre-
mer. Fiquei sozinho até os 32 anos e não gostaria de
voltar a essa condição. Levei muito tempo para com-
pensar isso! Ficar longe de minha mulher e de meus
filhos por uma semana, enquanto me empenho numa
tarefa ministerial, já é bastante ruim. E pela eternida-
de? Esqueça! Eu não deixaria a intimidade que usufru-
ímos por nada. Mas Jesus renunciou sua intimidade
com Deus. Seu amor por nós o obrigou a suportar a
escuridão, a dor, a solidão e a tristeza de ser abandona-
do pelo Pai.
Pode-se indagar: "Até que ponto pôde ser ruim a
separação que Cristo teve de Deus, uma vez que ela
durou apenas pouco tempo?". Foi muito pior do que
qualquer um de nós possa imaginar. Claro que por
fim Jesus voltou à comunhão com seu Pai celestial.
Podemos deduzir isso de passagens como Lucas 23.43.
Mas, ainda que Deus tenha abandonado nosso Senhor
por apenas um período relativamente breve, o castigo
eterno destinado a toda a humanidade foi desencadeado
sobre Cristo. De alguma maneira, na crucificação, Jesus
sofreu nosso castigo eterno. Os que morrem em estado
de incredulidade serão castigados por seus próprios pe-
cados, mas Jesus pagou o preço pelos pecados de toda a
raça humana. O amor o levou a fazer esse sacrifício.

OS INCRÉDULOS SERÃO SEPARADOS DE


DEUS ETERNAMENTE
O que é o inferno? Jesus o chamou de lugar de "trevas"
(Mt 8.12) e de "fogo eterno" (18.8). É o lugar onde
"haverá choro e ranger de dentes" (13.42) e onde "o
seu verme não morre" (Mc 9.48a). Apocalipse 20.10
retrata o inferno como um lugar onde Satanás e suas
hostes demoníacas "serão atormentados dia e noite, para
todo o sempre". Essas descrições são apavorantes. Mas,
se tivéssemos de reuni-las numa só, poderíamos dizer
que inferno é o lugar de separação eterna de Deus.
Jesus advertiu que no julgamento final dirá a al-
guns: "Afastem-se de mim vocês, que praticam o mal!"
(Mt 7.23). Em outra ocasião, ele fez um pronuncia-
mento semelhante: "Malditos, apartem-se de mim..."
(25.41). Paulo declarou que "a pena de destruição
eterna" será "a separação da presença do Senhor..."
(2Ts 1.9). O banimento de diante da presença do Se-
nhor será indescritível e irreversível.
Nesta vida ninguém é completamente abandonado
por Deus. Até monstros como Adolf Hitler ou Saddam
Hussein receberam de Deus as bênçãos diárias de vida e
saúde. Você pode achar que Deus o desamparou. Mas,
se pudesse ver por um instante a dura realidade do casti-
go eterno, descobriria que o Pai está mais perto de você
neste momento do que sua própria respiração.
Valorizamos a idéia de independência. Em nossa
natureza humana, queremos Deus longe de nós. Mas,
se pudéssemos sondar a profundidade da única per-
gunta não respondida de Jesus, registrada em Mateus
27.46, o mais endurecido incrédulo ficaria arrepiado
ao ouvir a palavra "condenação". Certamente, o Espí-
rito quer que a idéia aterradora de incrédulos no limiar
da separação eterna de Cristo nos inflame com o zelo
de compartilhar o evangelho com eles.
Algumas pessoas que você conhece não dão a míni-
ma importância à possibilidade de serem abandonadas
por Deus. E por isso que elas precisam que você se
preocupe com elas. Mais do que isso, precisam que
você ore por elas e lhes fale de Cristo.

T O M A D A DE ATITUDE
Quando o Pai abandonou o Filho na cruz, Jesus expe-
rimentou o máximo de sofrimento e angústia. Mateus
27.45 nos diz que do meio-dia até as três da tarde "hou-
ve trevas sobre toda a terra". Nessa ocasião, nosso Se-
nhor clamou: "Meu Deus, Meu Deus, por que me
abandonaste?". Com essa pergunta, Jesus estava se vol-
tando para o Pai, não se afastando dele, porque acredi-
tou que mesmo na escuridão de sua angústia ele podia
buscar a Deus e encontrá-lo novamente!
Lembre-se dessa verdade em seus momentos de tre-
vas. Mesmo no meio delas, invoque ao Senhor em
oração, porque ele se importa com você e é seu. Ele vai
lhe responder porque abandonou seu substituto sem
pecado — Jesus Cristo — na cruz. Quando se sentir
abandonado por Deus, não zombe da Bíblia nem ig-
nore a oração. Em vez disso, lembre-se deste convite:
"Assim, aproximemo-nos do trono da graça com toda
a confiança, a fim de recebermos misericórdia e en-
contrarmos graça que nos ajude no momento da ne-
cessidade" (Hb 4.16). Podemos fazer isso porque te-
mos um sumo sacerdote que pode compadecer-se das
nossas fraquezas (v. 14,15).
O brado de angústia de Jesus em Mateus 27.46 não
foi sua declaração final da cruz. Pouco antes de morrer,
ele orou: "Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito"
(Lc 23.46; v. Jo 19.30). Nosso Senhor chegou a um
ponto em que parou de perguntar a Deus por que e
simplesmente confiou nele quanto ao inexplicável.
Conforme 1 Pedro 2.23 explica: "Quando insultado,
não revidava; quando sofria, não fazia ameaças, mas
entregava-se àquele que julga com justiça".
Ouse confiar em Deus a esse ponto. Eu disse ante-
riormente que não há nenhum pecado em perguntar a
Deus por quê, contanto que a pergunta seja uma in-
vestigação de fé. Mas, mesmo assim, chega um mo-
mento em que devemos deixar de lado a curiosidade e
descansar na sabedoria do Pai celestial. No céu todas as
perguntas serão respondidas. Portanto, pare de se pu-
nir com dúvidas sobre por que um motorista bêbado
matou seu filho, por que o câncer tirou a vida de seu
cônjuge ou por que você teve de passar por um divór-
cio indesejável.
Se você alega que confia em Deus, prove isso confi-
ando que ele responderá às perguntas não respondidas.
Diga: "Ó Pai, em tuas mãos entrego o meu coração
quebrantado". Depois, como fez com Jesus, o Pai
celestial irá lhe estender a mão, acolhê-lo nos braços e
uni-lo a si.
Uma pergunta
quebrantadora:
"O coração de vocês está endurecido?
MARCOS 8 . 1 7

Quando eu tinha nove anos, meus pais construí-


ram uma quadra de tênis nos fundos de nossa casa.
Apaixonei-me por ela à primeira vista. Durante os treze
anos seguintes, eu jogava ou treinava tênis várias horas por
dia. Longe da quadra, as pessoas, quando me cumprimen-
tavam, diziam: "Isso é a mão de um trabalhador". Eu sem-
preficavaenvergonhado em confessar que minha mão era
calejada de tanto jogar tênis, não de cortar madeira nem de
manusear uma britadeira. Certa vez eu não disse nada. En-
tão o homem que fez o comentário sobre minhas mãos
segurou-as e notou que a esquerda era macia.
O coração endurecido é como a mão calejada, duro,
insensível e indiferente. Não há como esconder a
calosidade. Ela chama a atenção dos outros imediata-
mente.
O aspecto quebrantador da pergunta de Jesus em
Marcos 8.17 é que ele a dirigiu a seus discípulos. Te-
mos a tendência de pensar em dureza de coração como
algo que se aplica a incrédulos contumazes, como o
faraó dos dias de Moisés ou os fariseus que se opuse-
ram a Jesus. Nesse versículo, entretanto, nosso Senhor
está avisando seus próprios seguidores de que se previ-
nam contra essa doença espiritual.
Tendo servido como pastor por mais de duas déca-
das, posso afirmar que há muita dureza de coração nas
igrejas hoje em dia. Também posso dar testemunho de
minha facilidade para ficar insensível às realidades es-
pirituais. Portanto, examine seu coração. Não supo-
nha que a pergunta de Jesus se dirige a alguma outra
pessoa. Hoje ele pede que você pense seriamente se seu
coração está endurecido.

CINCO SINTOMAS DE U M CORAÇÃO DURO


Seu coração está endurecido? (Mc 8.17). Aqui estão
cinco sintomas que podem determinar uma resposta.
O primeiro é falta de amor por Cristo. O coração é o
trono do amor. Dizemos coisas como: "Eu te amo de
todo o meu coração" e "Eu te dou meu coração". O pri-
meiro mandamento da Bíblia nos diz para amar o Se-
nhor nosso Deus de todo nosso coração (Mt 22.34-40).
Os membros do primeiro século da igreja de Éfeso passa-
ram por um endurecimento de coração, visto que Jesus os
reprovou com estas palavras: "Contra você, porém, tenho
isto: você abandonou o seu primeiro amor" (Ap 2.4).
Qual foi a última vez que você disse a Cristo que o
ama? Qual foi a última vez que você falou de seu amor
por Cristo a outra pessoa? Quando faz isso, sua voz
treme como se soubesse que a outra pessoa não vai
acreditar em você?
O segundo sinal de endurecimento do coração é
notado quando as disciplinas espirituais se transformam
em simples hábito. A paixão pela oração esfria-se a ponto
de haver uma indiferença nauseante. O prazer no es-
tudo da Bíblia se torna enfadonho. Você esperava an-
siosamente os domingos, quando congregava com ou-
tros crentes na casa do Senhor, mas agora sua ida à
igreja passou a ser uma obrigação. Houve uma época
em que você contribuía alegre e generosamente para
o Senhor. Você ainda contribui, mas quando deposi-
ta o dízimo no gazofilácio, um espírito de avareza lhe
enrijece as paredes do coração.
Até ouvir o evangelho de Cristo passa a ser monó-
tono para o indivíduo de coração endurecido. O evan-
gelho era uma música bonita, mas não é mais. Agora
há histórias mais agradáveis para ouvir, como as de sua
promoção no trabalho, das férias do último verão ou
da vitória mais recente de seu time.
Davi, o rei de Israel, endureceu o coração quando
se recusou a confessar os pecados de adultério e assassi-
nato. Felizmente para ele, quando confrontado, teve a
sensibilidade necessária para perceber a convicção divi-
na e orar: "Devolve-me a alegria da tua salvação" (SI
51.12). Você precisa fazer uma oração como essa?
O terceiro sintoma de coração cauterizado é a indi-
ferença ao estado de perdição das pessoas separadas de
Cristo. Noutros tempos, a simples idéia de alguém
perecer lhe causava tremor. Hoje, não o perturba ouvir
falar dos amigos e conhecidos que morrem na incre-
dulidade. Você era zeloso em ganhar o perdido para
Cristo. Agora, porém, seu zelo se dissipou.
Um exemplo disso é a história de Charlie Peace,
um assassino famigerado da Inglaterra. Ele foi final-
mente preso, julgado e condenado à morte. Na ma-
nhã de sua execução, na prisão de Armley, em Leeds, o
capelão o acompanhou ao patíbulo onde seria enfor-
cado. Enquanto caminhava pelo corredor, o capelão
lia versículos da Bíblia. Mas seu tom de voz e seu olhar
mais pareciam uma recitação de nomes e endereços li-
dos numa lista telefônica. O assassino condenado esta-
va chocado com o modo automático que o capelão lia
sobre a morte e o inferno. Virando-se para o clérigo,
disse: "Se eu acreditasse no que você e a igreja dizem,
mesmo se a Inglaterra fosse coberta com vidro quebra-
do de costa a costa, eu caminharia ajoelhado sobre os
cacos, se necessário fosse, somente para salvar uma alma
de um inferno eterno como esse". 1

Essa declaração condena você? Se não, você pode


estar se tornando vítima do quarto sintoma do cora-
ção endurecido: a capacidade de pecar com a consciên-
cia tranqüila. Certo homem confessou-me que tinha
aprendido a cometer fornicação sem se sentir culpado.
Na primeira vez que caiu nesse pecado, prometeu a
Deus que se fosse perdoado uma única vez, fugiria desse
vício pelo resto da vida. Deus lhe perdoou o pecado,
mas o homem tropeçou pela segunda vez. De novo
implorou ao Senhor com lágrimas que o restaurasse e
jurou que aprendera a lição. Mas a força da tentação
continuou atraindo-o para o quarto da namorada.
Logo ele começou a dar desculpas por seu comporta-
mento: "Essa será a última vez". "Eu sou humano". "Não
consigo me controlar". "Tudo bem, nós estamos apai-
xonados". Seu coração havia se endurecido.
Seu pecado constante pode ser mentir, enganar, rou-
bar, cobiçar ou ter explosões temperamentais. Seja lá
o que for, se você tem a capacidade de abrandar a culpa
que Deus lhe expõe claramente a cada recaída, então
você começou a petrificar seu coração.
Em outro caso, um homem que estava tendo um
conflito na vida procurou ajuda profissional.

'Leonard RAVENHILI., Porque tarda o pleno avivamento?, Belo


Horizonte: Betânia, 1989.
— Fale-me de seu problema, propôs o psicólogo.
— Quando minha força de vontade esmorece, faço
coisas ruins; depois minha consciência me atormenta.
O psicólogo percebeu a necessidade do homem e
replicou:
— Então você quer melhorar sua força de vontade?
— Não — o homem resmungou — , eu prefiro
enfraquecer minha consciência.
Alguma vez você já se sentiu assim? Se acaso sentiu,
seu coração está começando a endurecer.
Um quinto sinal visível da perda de sensibilidade
do coração é o espírito crítico em relação a Deus e sua
obra. Na abertura de Marcos 3, os fariseus estavam
culpando Jesus por curar um homem no sábado. O
versículo 5 diz que isso era evidência de "sua dureza de
coração".
Lembro-me de um casal cheio do Espírito que se
mudou para a cidade e se filiou à igreja que pastoreio.
Fiquei alegre em recebê-los. Eles lecionavam em nossa
escola dominical, cantavam no coral da igreja e incenti-
vavam os outros crenres. Depois de alguns anos, contu-
do, eles deixaram de vir à igreja. Fui visitá-los para des-
cobrir por quê. O marido me disse: "Tentamos supor-
tar a igreja organizada, mas ficamos fartos da hipocrisia
que vimos. Não conseguimos agüentar mais aquilo".
Jamais nego que a hipocrisia da igreja seja proble-
ma; Deus nos pedirá conta disso. Mas nos dias de Jesus,
os hipócritas mais notorios eram os críticos. Quando
minha vida deixa a desejar quanto aos padrões em que
acredito, sou hipócrita. Há hipocrisia em todos nós.
Os censuradores de hoje não têm desculpa e podem
muito bem ter comunhão conosco, o restante dos pe-
cadores na igreja. Precisamos de críticas construtivas,
mas a atitude crítica contra a obra de Deus revela au-
sência de amor e coração endurecido.
Esses cinco sintomas de coração endurecido ocor-
rem gradualmente, como um lago que se transforma
em gelo durante a noite ou o cimento molhado que se
solidifica em algumas horas. Charles Swindoll observou:

Nenhum jardim se enche de espinhos "de repen-


te". Nenhuma igreja se divide "de repente". Ne-
nhum edifício se esboroa "de repente". Nenhum
casamento se desfaz "de repente". Nenhuma na-
ção passa a ser medíocre "de repente". Ninguém
se avilta "de repente". Lenta, quase impercepti-
velmente, certas coisas que eram rejeitadas em
outros tempos passam a ser aceitas. Coisas que
outrora eram consideradas nocivas agora são tole-
radas secretamente. No início parece inofensivo,
talvez até emocionante, mas a dissensão que traz
deixa uma brecha que aumenta mais à medida
que a erosão moral se junta com a decadência es-
piritual. A brecha se transforma num desfiladeiro.
O "caminho que parece direito" passa a ser, na
verdade, "o caminho da morte", 2

Portanto, a dureza do coração é um pecado sutil.


Como os ponteiros do relógio que não podemos ver
movimentarem-se, ela se arrasta até nós e nos pega de
surpresa.

O CORAÇÃO DURO É U M FARDO PESADO


Seu coração está endurecido? Se está, considere o que a
palavra de Deus diz a respeito. Em primeiro lugar, a
Bíblia ensina que o coração endurecido é um pecado do
qual somos culpados. Salmos 95.8 adverte: "Não endu-
reçam o coração", Essa ordem se repete três vezes no
Novo Testamento, em Hebreus (3.8,15; 4,7). Esses
versículos ensinam que somos nós que endurecemos o
coração.
Mas a Bíblia não diz que Deus endureceu o coração
do faraó (Êx 10.20,27)? Sim; mas em outras passa-
gens afirma que o faraó endureceu seu próprio cora-
ção. Mas, se foi Deus que o endureceu, como pode-
mos culpar o faraó?
Essa pergunta pressupõe que Deus forçou a dureza
do coração do faraó. Acredito que Deus foi passivo no
processo. Transforma-se água em gelo derramando-a

2
Crescendo nas estações da vida, Belo Horizonte: Atos, 2003.
numa forma de gelo e colocando no congelador. Isso
é feito de maneira ativa. Mas, para endurecer o pão,
tudo que se tem de fazer é deixá-lo como está. Sim-
plesmente não o embrulhamos no saquinho de ce-
lofane, ou em plástico, que naturalmente ele fica
amanhecido.
O coração humano é como o pão. Para ficar ma-
cio é preciso que haja uma influência externa sobre
ele. Essa influência é a graça de Deus. Graça, claro, é
favor imerecido. Portanto, o Pai celestial não é injus-
to quando retira sua influência graciosa de nossa vida.
Foi isso que ele fez com o faraó. Em conseqüência, o
coração do rei se endureceu. Podemos dizer que Deus
endureceu o coração do faraó deixando-o à sua pró-
pria corrupção. Portanto, o rei do Egito era culpado
por seu coração de pedra, porque não mostrou ne-
nhuma compaixão pelo povo de Deus, que estava so-
frendo sob seu governo tirânico. Ainda hoje as pes-
soas são responsáveis moralmente pelo endurecimento
de seu próprio coração.
Em segundo lugar, a Bíblia ensina que o coração en-
durecido nos cega para a verdade de Deus. Os fariseus
certa vez pediram a Jesus que comentasse a lei do An-
tigo Testamento sobre o divórcio. Nosso Senhor res-
pondeu: "Moisés permitiu que vocês se divorciassem
de suas mulheres por causa da dureza de coração de
vocês. Mas não foi assim desde o princípio" (Mt 19.8).
No primeiro casamento, no Éden, Deus fez de Adão
e Eva uma só carne (Gn 2.24). Jesus ensinou que as
pessoas deviam saber que não podem separar o que Deus
uniu (Mc 10.9). O divórcio nunca foi intenção de Deus.
Na realidade, ele o odeia (Ml 2.16). Mas o coração en-
durecido do povo o cegou para essa verdade.
Veja outro exemplo em Marcos 6.52. Essa passagem
nos informa que os discípulos "não tinham entendido o
milagre dos pães. O coração deles estava endurecido".
Quando Jesus alimentou os cinco mil, os discípulos
deviam ter entendido que o milagre transcendia a si,
mostrando Cristo como Deus encarnado. A dureza de
coração, entretanto, obscureceu-lhes a mente.
Noutra ocasião Jesus advertiu seus discípulos con-
tra "o fermento dos fariseus e com o fermento de
Herodes" (Mc 8.15). Jesus falava da propagação rá-
pida e influente da incredulidade, da hipocrisia, do
mundanismo e do materialismo deles. Mas os discí-
pulos pensaram que ele estava falando literalmente
de pão. Por isso, Jesus os repreendeu com estas pala-
vras: "Ainda não compreendem nem percebem? O
coração de vocês está endurecido?" (v. 17). Ressalte-
se a associação entre a incapacidade de entender e o
coração endurecido dos discípulos; o segundo é a causa
da primeira.
Em Efésios 4.18, Paulo fala sobre os incrédulos e a
"ignorância em que estão, devido ao endurecimento
do seu coração". Note a associação entre a ignorância
espiritual e sua causa — a dureza de coração.
Certa noite em nossa igreja, eu ensinava sobre a
predestinação. E uma doutrina difícil de compreen-
der, por isso eu estava tentando explicá-la da maneira
mais simples possível. Depois da mensagem, um ho-
mem veio até mim e reclamou: "Eu não vou servir a
um Deus que predestina tudo e todos! Se o que o se-
nhor ensinou nesta noite for verdade, então somos
robôs que não têm nenhuma responsabilidade em acei-
tar a Cristo. Eu não acredito nisso!".
Esse homem me interpretou completamente mal.
Eu dissera que Deus nos responsabiliza por crer em
seu Filho. O homem foi incapaz de ouvir isso, ou
pelo menos de compreender, pois já tinha fechado a
mente para a verdade bíblica sobre a predestinação.
Não houve mudança nele, ainda que eu tivesse base-
ado minha argumentação na Bíblia. Ele tinha endu-
recido o coração.
Você tem dificuldade de perceber as verdades da
palavra de Deus? O problema pode não ter relação
com sua mente; pode ser uma questão de coração.
O problema pode não ser de capacidade intelectual,
mas de insensibilidade espiritual. Você deve consi-
derar em oração a possibilidade de ter endurecido o
coração — exatamente o lugar em que Cristo quer go-
vernar e reinar.
Um terceiro motivo de alarme é que nossa insensibi-
lidade espiritual entristece o coração de Jesus. Veja os
fariseus. Marcos 3.5 diz; que nosso Senhor estava "pro-
fundamente entristecido por causa do coração endu-
recido deles". Pense nisso. O coração endurecido de-
les entristeceu o coração de Jesus! Ele se entristeceu
com a incapacidade dos fariseus de se arrependerem
dos pecados. Cristo ficou profundamente triste por
eles estarem insensíveis ao pecado. Quando eles não
foram capazes de vê-lo como o Messias, ele se entris-
teceu com aquilo em que eles haviam se transforma-
do. Hoje Jesus ainda se entristece com a dureza de
coração que vê não só no mundo, mas principalmen-
te no seu corpo, a igreja.

É POSSÍVEL AMOLECER O CORAÇÃO POR


MEIO DO OLHAR
Se seu coração está endurecido, volte-se para o Calvá-
rio e veja Jesus morrendo na cruz, não apenas pelos
pecados, mas também pela dureza de seu coração. Nin-
guém que testemunhou a morte de Cristo permane-
ceu com o coração endurecido. Recorro a Lucas 23.48
para sustentar minha declaração: "E todo o povo que
se havia juntado para presenciar o que estava aconte-
cendo [a crucificação de Cristo], ao ver isso, começou
a bater no peito e a afastar-se". Por que as pessoas ma-
nifestaram remorso e angústia desse modo? Porque o
coração endurecido delas matara Jesus, por isso bati-
am no peito para atingir a origem do crime.
Isso se aplica às autoridades religiosas que zomba-
ram de Cristo, aos soldados que o pregaram na cruz e
às multidões que o viram morrer. O texto diz que
"todos" eles bateram no peito. Eles vieram para assis-
tir a um "espetáculo", mas foram afligidos pela exe-
cução de um homem inocente. A visão do Salvador
agonizante os perturbou de alguma maneira. Já vi-
mos que a dureza de coração entristece Jesus. No fim,
o povo que assistiu a sua crucificação se entristeceu
também.
Você já se lamentou por sua condição espiritual? O
Salvador anunciou uma bênção para as pessoas que fa-
zem isso (Mt 5.4). Não podíamos imaginar que tris-
teza e bênção caminhassem juntas, mas caminham
porque a tristeza em conseqüência do pecado é o pri-
meiro passo para receber um coração quebrantado. Essa
tristeza é sempre conseqüência do olhar com fé para o
Cristo crucificado.
A Bíblia ordena que sejamos compassivos (Ef 4.32).
Seu coração está endurecido? Se está, confesse a Deus.
Observe com o olhar da fé o Salvador agonizante, que
deu a vida para renovar totalmente a sua vida. Em se-
guida, espere que o Pai celestial lhe dê um coração sen-
sível. Ouça a promessa divina em Ezequiel 36.26:
"Darei a vocês um coração novo e porei um espírito
novo em vocês; tirarei de vocês o coração de pedra e
lhes darei um coração de carne".
Você confia que Deus cumprirá essa promessa? Se
confia, isso é um bom sinal de que o Senhor já come-
çou a amolecer-lhe o coração!

••• jWímfikDEMlTUDE 1
: ; ' o: ' '
: 1

Talvez você possa afirmar com toda sinceridade que


seu coração é terno para com o Senhor e sensível ao
toque de seu Espírito Santo. Então ore com compai-
xão por seus amigos e conhecidos que construíram
barreiras espirituais ao redor do coração a fim de man-
ter nosso Senhor do lado de fora. Procure oportunida-
des de falar de Cristo a eles. Ouse acreditar que Deus
preparou o coração deles para ouvir o evangelho. Lem-
bre-se de que o Espírito Santo quebranta corações en-
durecidos por intermédio dos sensíveis.
No início do século xx, um garoto chamado C. S.
Lewis foi criado na Igreja Anglicana. Mas, quando era
adolescente colegial, passou a ser ateu. Nessa época, ele
afirmava que queria ser dono de sua própria alma sem
interferência de ninguém. Ele descreveu sua reação a
qualquer menção do sobrenatural como a de um alcoó-
latra ao álcool: pura náusea. Menosprezava a igreja e
confessou: "Gostava dos clérigos e pastores da mesma
maneira que gostava de ursos. A pouca vontade de ir à
igreja era a mesma que a de ir ao jardim zoológico".
Depois Deus começou a amolecer-lhe o coração en-
durecido. Ele sentia "a aproximação firme e inexorável
do Senhor, a quem tão ardentemente não desejava en-
contrar". Mas, pela primeira vez, fez um auto-exame
com um propósito extremamenre prárico e "descobriu
o que o atemorizava: um jardim zoológico de luxúria,
um pandemônio de ambições, um berçário de medos,
um harém de ódios acariciados. Meu nome era legião".
Em 1929, Lewis cedeu e reconheceu que Deus era
Deus. Ajoelhou-se e orou. "Naquela noite, talvez fosse o
mais abatido e relutante convertido de toda a Inglaterra".
Lewis havia endurecido o coração de tal forma que até
nesse momento ainda estava "relutante, ressentido, dan-
do chutes e olhando em toda direção para ter uma chance
de escapar". Não escapou. Ele, que tinha endurecido o
3

coração anteriormente, é conhecido hoje como um dos


mais eloqüentes defensores da fé cristã do século xx. Sem-
pre há esperança para incrédulos endurecidos. Por isso,
não se desanime de suas orações pelas pessoas cujo cora-
ção está endurecido contra Cristo. Apropria negligência
de oração é evidência da dureza de coração.
Jesus é o doador que deseja oferecer — a você, a
mim e a todo o mundo — o transplante de coração
que precisamos urgentemente. Ele vai direto ao cerne
do nosso problema.

1
'Surpreendidopela alegria, São Paulo: Mundo Cristão, 1998.
U m a pergunta
decisiva:

"Onde está a sua fé?"


LUCAS 8 . 2 5

Alguém certa vez observou: "Paraos nossos an-


tepassados, a fé era uma experiência. Para os nossos
pais, a fé era uma herança. Para nós, a fé é uma conve-
niência. Para nossos filhos, a fé é um transtorno".
Como isso é triste, principalmente levando em con-
ta a advertência da Bíblia de que "sem fé é impossível
agradar a Deus" (Hb 11.6). Jesus se entristecia cons-
tantemente por causa da falta de fé de seus discípulos.
Quando .eles acharam que estavam correndo risco de
vida numa tempestade violenta no mar, Jesus repreen-
deu o vento e as ondas agitadas, fez a água ficar tão lisa
quanto um espelho e em seguida perguntou: "Onde
está a sua fé?" (Lc 8.25),
A resposta que você der a essa pergunta indica onde
você passará a eternidade. Jesus deu a entender que você
tem fé. Todos têm. Mas onde você a deposita?

S U A FÉ D E V E ESTAR S O M E N T E E M C R I S T O

Em que você crê? Muitos dirão que essa pergunta é


irrelevante. "Tudo que importa", alegam, "é ter fé".
Veja, por exemplo, o grupo Alcoólicos Anônimos (AA). 1

O terceiro de seus famosos doze passos de recuperação


declara: "Decidimos entregar nossa vontade e nossa vida
aos cuidados de Deus, na forma em que o concebía-
mos". A expressão na forma em que o concebíamos pre-
sume que fé em qualquer divindade basta. Uma publi-
cação da organização diz: "Descobrimos que não pre-
cisávamos considerar outra concepção de Deus. Nossa
própria concepção, ainda que inadequada, foi sufi-
ciente [...] para alcançar um contato com ele [...] Para
nós, o Reino do Espírito é amplo, espaçoso e abran-
gente".
Mas Deus não é um bufê nórdico, com uma varie-
dade de pratos. As Escrituras dizem que Cristo é o único
objeto de fé aceitável (Jo 3.16,36). Portanto, para ser
eficaz, a fé deve repousar em Cristo somente.
Lembro-me da história de Donald Malcolm Campbel,
detentor do recorde mundial de corrida de barco. Ele

'Alcoólicos Anônimos: wvw.alcoolicosanonimos.org.br


perdeu a vida num lago da Escócia quando seu barco
explodiu e afundou. O único objeto que ficou à tona
era um bichinho de pelúcia. Campbel havia deposita-
do sua fé nesse bichinho como um "talismã de boa
sorte", mas era um objeto sem valor algum, incapaz de
livrá-lo do perigo que ele temia. 2

Para gastar uma nota de qualquer valor, você preci-


sa exercer fé no poder de compra dela. Mas o valor do
dinheiro, não a sua fé, é a base dessa compra. Se tudo
que importasse fosse fé, poderíamos comprar bens com
dinheiro de brincadeira.
Cristo é o objeto de nossa fé. Mas não acreditamos
nele simplesmente porque temos de acreditar em algo.
Ao contrário, sabemos que confiando nele temos a vida
eterna. Ele é o verdadeiro Salvador e Senhor do mundo.
As Escrituras declaram que "Deus tanto amou o
mundo que deu o seu Filho Unigénito, para que todo
o que nele crer não pereça, mas tenha a vida eterna" (Jo
3.16); "Quem crê no Filho tem a vida eterna" (v. 36);
"todo aquele que olhar para o Filho e nele crer tenha a
vida eterna, e eu o ressuscitarei no último dia" (6.40).
Quando Jesus perguntou a seus discípulos "Onde
está a sua fé?" (Lc 8.25), ele queria dizer que a fé podia
estar no objeto errado. Você pode ter fé que Deus existe,

2
Michael P. GREEN, Illustrations for biblicalpreaching, Grand
Rapids: Baker, 1982, p.140.
mas isso não o faz cristão. Pode-se ter fé em algum
credo ortodoxo, mas nenhum credo é substituto de
Cristo. Você pode ter fé que sua igreja é fiel à Palavra
de Deus, mas isso não o levará para o céu. J . I. Packer
comentou:

A histórica idéia de fé do catolicismo romano é


simplesmente confiança e obediência. Para Roma,
fé é apenas a crença no que a Igreja Romana ensi-
na. Na verdade, Roma faz diferença entre fé "ex-
plícita" (crença em algo que se compreende) e fé
"implícita" (aceitação, sem compreender, de tudo
quanto a Igreja Romana defende) e afirma que
apenas a última — que na realidade é apenas um
voto de confiança no ensino da igreja e é compa-
tível com a total ignorância do cristianismo — é
requerida do leigo para a salvação! 3

O ensino bíblico sobre a natureza da fé salvífica é


contrário ao que a Igreja Católica Romana tem defen-
dido historicamente. As Escrituras declaram que so-
mente a fé explícita em Cristo nos leva à salvação e à
adoção na família de Deus. O objeto de fé de cada um tem
muita importância quando se trata da vida eterna. Você

God's words, Downers Grove: InterVansity, 1981, p. 129.


}

[Publicado no Brasil sob o título Vocábulos de Deus (São José dos


Campos: Fiel, 2002).]
pode ter a mais sincera fé do mundo em que algo ou al-
guém além de Cristo o salvará, mas está sinceramente
errado. A fé das crianças que acreditam em Papai Noel
pode ser genuína, mas é incapaz de produzir-lhes um
Papai Noel verdadeiro. Quando se trata de nossa sal-
vação do pecado, nossa fé deve estar no único objeto
digno dela — Jesus Cristo.

S U A FÉ D E V E T E R Q U A T R O LADOS
A fé em Cristo é como um quadrado. Para ser genuí-
na, deve ter quatro lados. Se estiver faltando um ape-
nas, você deve questionar sua condição com Deus.
Em primeiro lugar, a fé começa com a disposição de
ouvir as declarações de Cristo. Paulo perguntou: "Como,
pois, invocarão aquele em quem não creram?" (Rm
10.14). O apóstolo conclui: "Consequentemente, a fé
vem por se ouvir a mensagem, e a mensagem é ouvida
mediante a palavra de Cristo" (v. 17).
As pessoas que se recusam a ler as Escrituras, ouvir
um sermão evangelístico ou freqüentar um estudo
bíblico, bem como as que ouvem com a mente fe-
chada, estão despreparadas para a fé salvífica. Nos tri-
bunais de justiça, não se pronuncia nenhum veredic-
to a favor ou contra o acusado sem que lhe seja dada
a oportunidade de se expressar livremente. O mesmo
ocprre com o veredicto espiritual em favor de Cristo.
Antes de as pessoas dizerem "Confio em Cristo para
ser salvo", elas devem dizer: "Vou refletir sobre as
declarações dele nas Escrituras".
Em segundo, a fé em Cristo implica conhecimento.
É preciso conhecer os fatos essenciais do evangelho.
Por exemplo, Jesus é o Deus Filho, que veio à terra
como homem. O Pai celestial o enviou para morrer na
cruz em meu e em seu lugar. O sangue derramado de
Jesus foi o preço de resgate pago para nos libertar do
pecado. A ressurreição de Jesus comprovou a validade
do pagamento pelo pecado. Se você desconhece esses
fatos fundamentais do evangelho, sua fé esta baseada
em algum outro, não no Cristo da Bíblia.
Muita gente acredita em coisas erradas sobre Cris-
to. Alguns pensam que ele era apenas um bom profes-
sor de moral, ou que nos ensinou como salvar a nós
mesmos, ou que, porque ele é amoroso, não vai per-
mitir que ninguém vá para o inferno. A fé fundamen-
tada nessas noções falsas resultará em salvação fictícia.
Eis um teste de conhecimento básico referente a
Cristo e à salvação que ele oferece: defina o evange-
lho numa frase. Você acha difícil? Eu sempre pedia
que os candidatos que entrevistava para os cargos da
equipe pastoral fizessem isso. Procuro uma resposta
nesta linha: " O evangelho consiste no fato de Deus
ter enviado seu Filho, Jesus, para morrer na cruz como
sacrifício por nossos pecados, a fim de que pudésse-
mos obter a vida eterna mediante a fé em Jesus". Para
ter a fé fundamentada corretamente, você precisa co-
nhecer esses fatos essenciais.
Terceiro, afé em Cristo compreende convicção. Mui-
tas pessoas lêem a Bíblia, ouvem sermões e conhe-
cem o evangelho, mas não aceitam nenhuma de suas
verdades. O indivíduo cuja fé é genuína diz: "Estou
convencido de que Jesus Cristo é o único Salvador
para mim". Os discípulos expressaram esse tipo de fé
em João 16.30 quando disseram a Jesus: "Por isso
cremos que vieste de Deus". Romanos 10.9 também
destaca nossa necessidade de crer na promessa: "Se
você confessar com a sua boca que Jesus é Senhor e
crer em seu coração que Deus o ressuscitou dentre os
mortos, será salvo".
Uma vez atingido esse nível de convicção ou con-
sentimento mental, não pare por aí. Os demônios acre-
ditam na existência de Deus (Tg 2.19), contudo se
opõem a ele. Isso nos leva ao quarto elemento da
fé: envolvimento. Você deve não apenas crer em Cristo,
mas também envolver-se com ele.
Certa vez eu ouvi Josh McDowell dizer que fé "é
quando seu envolvimento excede seu conhecimento".
Quando nos sentamos numa cadeira, transmitimos-
Ihe nosso peso; mesmo assim, com tudo que sabemos,
ela pode cair conosco. Tomamos pílulas não porque
conhecemos as substâncias farmacológicas que elas con-
têm, mas porque temos confiança no médico que as
prescreveu. Nosso envolvimento com ele excede nos-
so conhecimento de medicina. Quando dirigimos um
carro, os freios podem não estar funcionando perfeita-
mente, mas, mesmo antes de termos testado o pedal do
freio, confiamos pisando no acelerador. Nossa confian-
ça no carro excede nosso conhecimento de sua condição
mecânica. Esse é o aspecto de envolvimento da fé.
A necessidade de envolvimento com a fé é uma das
lições da parábola de Jesus sobre os solos (Mt 13.1-
23). Essa parábola ilustra quatro tipos de coração: o
que é como um caminho, o solo rochoso, o espinhoso
e o bom solo. Os quatro solos receberam a semente da
Palavra de Deus, mas somente um deu fruto. Alguém
pode achar que o solo do caminho, o solo rochoso e o
espinhoso representam os crentes imaturos. Mas, se isso
fosse verdade, Jesus estaria ensinando que todo aquele
que ouve a Palavra de Deus se converte. Obviamente,
não é o que ocorre. Os três solos improdutivos repre-
sentam as pessoas que demonstram alguns sinais de fé.
Vimos anteriormente que a fé começa com a
receptividade. O caminho, o solo rochoso e o espinho-
so receberam a semente da Palavra de Deus, apenas isso.
Eles simbolizam as pessoas que nunca se envolvem com
Cristo e assim permanecem perdidos espiritualmente.
Os substantivos gregos equivalentes a "fé" e "con-
vicção" não ocorrem nenhuma vez no evangelho de
João. Mas o verbo grego traduzido por "crer" ocorre
98 vezes. João está nos dizendo que a fé é ativa, não
passiva. Não fica ociosa no cérebro, ela evolui para o
compromisso, o envolvimento.
De novo, quando o Novo Testamento fala sobre
crer em Cristo, normalmente expressa o conceito na for-
ma de "crer aprofundando-se em Cristo". João 3.16, por
exemplo, no grego é literalmente assim: "Porque Deus
tanto amou o mundo que deu o seu Filho Unigénito,
para que todo o que crer e se aprofundar nele não pereça,
mas tenha a vida eterna". Com isso aprendemos que a fé
faz as pessoas tomarem a iniciativa de abandonar sua
existência pecaminosa e unir-se espiritualmente a Cristo.
Certa vez, ouvi falar de um capitão de navio cujo
jovem filho escalou o mastro quando estavam em alto
mar. Já no topo, o garoto estava amedrontado demais
para descer. Então o pai gritou para ele: "Na próxima
vez que o navio balançar, pule ao mar!". O navio ba-
lançou várias vezes, mas o menino continuou agarrado
no mastro com muito esforço. Porém, suas mãos esta-
vam se cansando rapidamente, e ele sabia que, se não
se empenhasse em obedecer ao pai, logo cairia no con-
vés. Finalmente, desesperado, o menino se jogou ao
mar enquanto o navio estava inclinado. O pai retirou-
o da água, e ele foi salvo.
Como esse menino, não temos esperança alguma
de salvação a não ser nos entregar a Cristo pela fé. O
evangelho nos diz para cair nos braços salvadores de
Jesus, pois somente nele ficaremos seguros.
Martinho Lutero expressou esse envolvimento quan-
do declarou: "Eu correria para os braços de Jesus ainda
que ele tivesse na mão uma espada desembainhada".
Em vez de espada desembainhada, nosso Senhor tem
cicatrizes nas mãos. Elas nos dizem: "Eu o amo! Eu fui
crucificado por você!".
Como é fácil confiar num Salvador assim!
Al Munger conta a seguinte história sobre dirigir
numa pista estreita, sinuosa, montanhosa e de mão
dupla, em direção a Mazatlan, no México:

Nossos amigos, Betty e Joe, acabaram de ultrapas-


sar com o trailer um grande caminhão que soltava
fumaça de diesel. Agora era a nossa vez de ultra-
passar o monstro. Havia uma dezena de motoris-
tas impacientes atrás de nós. CURVA PELIGROSA, o si-
nal, em espanhol, nos alertava. Conseguíamos en-
xergar pouco mais de 45 metros à frente, depois
do que a estrada desaparecia contornando a mon-
tanha, mas eu decidi fazer tudo para ultrapassar.
Engatei a segunda, pisei fundo no acelerador e co-
meçamos a ultrapassar o caminhão. Os motoristas
atrás de nós devem ter pensado que éramos loucos.
Se viesse um ônibus ou caminhão na direção con-
trária nos lançaria para todos os lados. Mas eles
não sabiam que alguns segundos antes da ultra-
passagem, a Betty havia nos chamado pelo rádio
amador dizendo: "A estrada está livre por uns 2,5
quilômetros adiante". A iniciativa que parecia
suicida era segura porque nossos amigos podiam
ver a estrada adiante e sabiam que não havia ne-
nhum carro vindo. Decidi acreditar na Betty. Eu
sabia que ela não mentiria para mim. 4

E disso que trata o nível de compromisso de fé em


Cristo. E confiar nas promessas da Palavra de Deus a
ponto de agir com base nelas, mesmo quando a estrada
adiante parece assustadora e não podemos ver para onde
ela nos leva. Jesus disse que suas ovelhas não somente
ouvem a sua voz, mas também o seguem (Jo 10.27).
Como o carro que seguiu o trailer por uma curva de
uma estrada estreita porque o motorista ouviu a voz de
segurança à frente, o crente também confia em Jesus a
ponto de segui-lo — e não somente através da porta de
salvação no dia da conversão, mas também durante a
tristeza, a perseguição, as provações e na própria morte.
Confiar que Cristo nos dirige em qualquer curva
espiritual da estrada da vida lembra-me do hino de
Louisa Stead:

Que alegria é crer em Cristo,


em seu nome confiar,

4
In: Clint & Mary BECKWITH, org., Time outi, Ventura:
Evergreen, 1989, p. 77-8.
observar os seus ensinos,
nas promessas descansar!

Cristo! Cristo! Eu confio


em teu nome, em teu poder.
Cristo, meu Senhor amado,
faze minha fé crescer! 5

Podemos ter exemplo dos quatro elementos de fé


numa relação que visa ao casamento. No princípio o ho-
mem e a mulher precisam demonstrar alguma
receptividade entre si. Ele deve estar disposto a convidá-
la para um encontro, e ela deve aceitar o seu convite. Pas-
sado esse estágio, entra em jogo o elemento do conheci-
mento. O casal fica sabendo de particularidades um do
outro — gostos, coisas que desagradam, traços de perso-
nalidade e em que cada um acredita. Depois disso, come-
ça o estágio da confiança. Ambos se convencem de que
são a pessoa certa um para o outro. Acreditam que Deus
os uniu e quer que passem o resto da vida unidos pelo
casamento. Por fim, eles se comprometem mutuamente
recitando um para o outro, diante de Deus e dos convida-
dos, votos de fidelidade no matrimônio. Desse modo,
do princípio ao fim, um bom casamento é construído
sobre o alicerce da fé.

^Que alegria écrer em Cristo-, hino 318 do Hinário para o culto


cristão.
SÓ É POSSÍVEL AGRADAR A DEUS
M E D I A N T E A FÉ
Hebreus 11.6 nos fala que sem fé é impossível agradar
a Deus. O outro aspecto dessa verdade está em
ITessalonicenses 2.15, que diz que aquele que não tem
fé em Cristo não agrada a Deus. Há três razões por que
devemos exercer a fé em Cristo.
Primeiro, somente a fé em Cristo produz boas obras
aceitáveis por Deus. A Bíblia fala sobre "o trabalho que
resulta da fé" (lTs 1.3). Se a fé em Cristo não for a
causa principal de nossas boas obras, elas são inaceitá-
veis para Deus.
Há algum tempo encontrei uma moeda canadense
de dez centavos em minhas coisas. Tentei usá-la para
pagar a mercearia, mas o caixa recusou-se a aceitá-la.
Depois tentei usá-la para pagar a gasolina. Novamente
foi rejeitada. Eu fui avisado até pelas máquinas de jor-
nal e refrigerante: "Não utilize moedas canadenses".
Claro que não culpamos os canadenses por usar suas
moedas, mas, nos Estados Unidos — que é onde
moro — , elas não são aceitas.
Da mesma maneira, embora a falta de fé em Cristo
possa produzir boas obras que impressionam as pesso-
as, essas obras não agradam a Deus. O modo de agir de
Deus é divino, não humano. Se não começarmos com
fé em Cristo, até nossas obras religiosas não passarão
de pecados camuflados.
Segundo, a fé em Cristo é vitalpara nós porque ela se
revela no amor aos outros. Gálatas 5.6 nos diz que "em
Cristo Jesus nem circuncisão nem incircunscisão têm
efeito algum, mas sim a fé que atua pelo amor". Pode-
mos parafrasear esse versículo assim: "No cristianismo,
os rituais não significam nada, mas a fé em Cristo signi-
fica tudo, porque nos faz amar uns aos outros".
Sua fé é ativa? Ela se expressa em amor ao Pai e ao
Filho, Jesus? Você ama seus irmãos em Cristo? E os
perdidos, ama também? No sermão do monte, Jesus
disse: "Amem os seus inimigos" (Mt 5.44). Se você
não pode dizer sinceramente que faz isso, sua fé não
está funcionando como deveria. E possível que sua fé
não seja autêntica.
O conceito de fé que opera mediante o amor às ve-
zes passa despercebido na euforia do evangelismo. Ex-
plicamos aos não-crentes que eles estão espiritualmente
perdidos e necessitam de Cristo. Levamos essas pessoas
a fazer a oração do pecador, na qual confessam seus pe-
cados e depositam sua confiança em Cristo como seu
Salvador. Depois lhes garantimos que, por terem orado
usando as palavras certas, elas agora são nascidas de novo.
Em geral são, mas às vezes essa experiência de "fé" é ape-
nas uma questão da mente, não do coração. O motivo
de tantas pessoas terem recitado a oração do pecador e
permanecerem desobedientes a Cristo é que ainda não o
amam. Quando o amor está ausente, a fé é morta.
Terceiro, vocêprecisa terfé em Cristo, porque o sacrifí-
cio dele é o único meio de salvação. "Pois vocês são salvos
pela graça, por meio da fé" (Ef 2.8). Os problemas eter-
nos são decididos nesta vida com base em sua fé ou na
falta dela. Somente aqueles que "crêem no nome do Fi-
lho de Deus [...] têm a vida eterna" (ljo 5.13).
Essa informação nos dá um vislumbre da seriedade
de Jesus quando perguntou aos seus discípulos: "Onde
está a sua fé?". (Lc 8.25). O que era verdade para os
doze ainda é verdade para você. Se sua fé estiver no
lugar errado, isso lhe custará a sua alma. Logo, a per-
gunta principal não é "Você tem fé?", mas "Em que se
baseia a sua fé?". No seu batismo? Você confia em sua
condição de membro de igreja, em boas obras, ou em
algum conceito de Deus contrário às Escrituras? Essa
fé não apenas não o levará para o céu, mas também o
fará objeto de escárnio no inferno.

TOMADA DE ATITUDE
Quero sugerir-lhe duas maneiras de responder à pergunta
crucial de Lucas 8.25. Primeiro, peça a Deus que lhe reve-
le onde você tem depositado sua confiança máxima. Tal-
vez você espere que sua vida moral o torne justo diante de
Deus. Ou talvez tenha depositado sua fé num deus dife-
rente do da Bíblia — um deus que não castiga o pecado,
ou que o deixará entrar no céu mesmo que você se recuse
a aceitar o Filho de Deus como seu Salvador.
Sobre isso, vale lembrar um acontecimento interes-
sante ocorrido quando Andrew Jackson começou o pri-
meiro mandato de presidente dos Estados Unidos, em
1829. Nesse ano, um homem chamado George Wil-
son foi julgado e sentenciado à morte. Jackson soube
alguma coisa sobre o caso e ficou convencido da inocên-
cia de Wilson, de modo que concedeu ao condenado o
indulto presidencial. Para surpresa do presidente, Wil-
son não só o recusou, mas também argumentou que
sua rejeição do indulto o tornava nulo e ineficaz.
O promotor público do estado da Pensilvânia, onde
Wilson estava preso, informou que a lei era silente nesse
ponto. Ninguém jamais havia recusado o perdão. O caso
chegou até o supremo tribunal dos Estados Unidos. O
juiz superior do supremo tribunal, John Marshall, es-
creveu: "O indulto é apenas um pedaço de papel se não
for aceito pelo indivíduo implicado. Se ele recusa o in-
dulto, então não é indulto. George Wilson deve ser en-
forcado". Alguns meses depois a sentença se cumpriu. 6

Se sua fé não o leva a aceitar o dom gratuito de vida


eterna oferecido por Deus na pessoa de seu Filho, no
dia do julgamento você começará a sofrer a eterna per-
da no inferno. Isso é simples e claro (v. Ap 20.11-15).
Onde está sua fé? Está firmada em Cristo com con-
fiança absoluta? Em um hino autobiográfico, Lidie

6
SwordoféeLord, 13 Mar. 1981, p. 16.
Edmunds falou da alegria da fé pessoal firmada no
objeto correto:

Minha fé encontrou descanso,


não em credo feito por homens;
confio naquele que eternamente vive,
que advoga por mim.
Não preciso de outro argumento,
Não preciso de outro rogo;
Basta-me Jesus ter morrido,
E morrido por mim. 7

Depois de firmar a fé em Cristo, você está pronto


para dar o segundo passo. Pergunte a Deus como ele
quer que você demonstre sua fé. Vimos em Gálatas 5.6
que a fé opera mediante o amor. Que ato de amor Deus
quer que você realize como prática de fé? Talvez ele o (a)
esteja chamando para servi-lo com alegria no ministério
para crianças de sua igreja. Ele pode querer que você
comece a dar sua contribuição financeira regularmente.
Ou talvez queira que realize uma tarefa bem simples,
como visitar uma pessoa solitária num hospital de recu-
peração. Seja qual for a forma que você exercite sua fé
em Cristo, isso trará a graça de Deus sobre outras pesso-
as e a segurança dele para você. Desse modo, a fé já não
será nem conveniência nem estorvo. Será sua vida.

7
Lidie EDMUNDS, NO otherplea, do século xix.
Uma pergunta
doutrinária:

" 0 que está escrito na Lei?"


LUCAS 1 0 . 2 6

Andrew Bonar contava uma história sobre um


cristão que morreu e foi para o céu. Passeando pelas
ruas de ouro, aproximou-se de um grupo de autores
de livros da Bíblia: Isaías, Ezequiel e Obadias. O cris-
tão apresentou-se a todos, e apertaram-se as mãos. "É
um privilégio conhecê-los", disse. "Ouvi muito sobre
cada um de vocês."
Isaías, então, perguntou:
— O que você achou do meu livro?
Com o olhar embaraçado, o cristão respondeu:
— Desculpe-me, eu nunca consegui lê-lo.
Obadias amenizou a tensão dizendo:
— Isaías é bem extenso, tem 66 capítulos. Mas o
meu livro tem apenas um capítulo. Claro que você o
leu. O que achou?
De novo o cristão ficou vermelho e confessou que
não tinha lido. Em seguida, tentando adquirir algum
conhecimento, disse:
— Obadias... vamos ver... está no Antigo ou no
Novo Testamento.
Você também está caminhando para esse possível
embaraço? Em Lucas 10, um escriba perguntou a Je-
sus o que tinha de fazer para herdar a vida eterna (v.
25), e nosso Senhor respondeu com outra pergunta:
"O que está escrito na Lei?" (v. 26). Jesus queria que
esse conhecedor da lei mosaica descobrisse a resposta
para sua própria pergunta por meio de seu conheci-
mento do Antigo Testamento. E o escriba descobriu!
Depois de lhe ouvir a resposta sucinta, Jesus disse que
ele havia respondido corretamente (v. 27,28).
Nos dias atuais há muitas noções falsas sobre a
mensagem do Antigo Testamento (AT). Alguns dizem
que ele foi escrito para nos ensinar a receber a salvação
em troca de nosso empenho para obtê-la. Outros ale-
gam que o AT apresenta um Deus completamente di-
ferente do Deus do Novo Testamento (NT). Outros,
por sua vez, insistem que o AT se aplica apenas aos ju-
deus, e não aos cristãos. Alguns cristãos descartam com-
pletamente o AT, como se o NT o fizesse desnecessário.
Em que, então, elevemos acreditar sobre o AT e a lei
mosaica? Uma pesquisa do NT pode ajudar a esclarecer
as coisas para nós. Ele apresenta cinco repostas à per-
gunta "O que está escrito na Lei?", feita por Jesus.

A LEI N O S M O S T R A N O S S O P E C A D O
Três versículos da carta de Paulo aos Romanos salien-
tam esse propósito da lei. O primeiro, Romanos 3.20,
informa-nos que "é mediante a Lei que nos tornamos
plenamente conscientes do pecado". Talvez você per-
gunte: "As pessoas precisam ser informadas de que são
pecadoras? Isso não é óbvio para elas?". Não! Por incrí-
vel que pareça, se a Bíblia não nos dissesse que somos
pecadores, não saberíamos. Às vezes as pessoas têm cân-
cer e se sentem bem, não sabendo que estão doentes.
O médico tem de informá-las. Da mesma forma, a
Lei de Deus é o "médico" que nos apresenta a nossa
enfermidade espiritual chamada "pecado".
Observe, por exemplo, os dez mandamentos, que
constituem a essência da lei moral de Deus. O manda-
mento "Não furtarás" (Êx 20.15) o faz lembrar das
vezes que você pode ter feito algum pequeno furto.
Mesmo não sendo um ladrão propriamente, você pode
ficar assombrado com a lembrança de "afanar" uns
biscoitinhos da lata de biscoitos de sua mãe, ou de pe-
gar doces na mercearia sem pagar, ou deixar de devol-
ver o dinheiro que você "emprestou" de um amigo.
A Lei é como um espelho que reflete a perfeita reti-
dão de Deus e as nossas falhas e transgressões (Tg 1.23-
25). Imagine um homem levantando-se de manhã e
olhando seu reflexo no espelho. Ele vê pêlos, cabelos
desgrenhados, dentes amarelos e uma mancha suja no
rosto. O espelho lhe permite ver o que é necessário
para ficar com boa aparência. Entretanto, nenhum es-
pelho jamais fez a barba de um homem, penteou-lhe
os cabelos, escovou os dentes nem lavou-lhe o rosto.
O mesmo acontece com a Lei de Deus. Quando a
examinamos, vemos nossos defeitos espirituais. Ela
reflete nossos pecados de inveja, ira, mentira, fofoca,
incredulidade e desamor (para mencionar alguns). Te-
mos de nos arrepender de nossos pecados e confiar em
Cristo para obter a salvação. No entanto, sem o "espe-
lho" espiritual da Lei, não saberíamos que havíamos
ofendido nosso Deus santo.
Romanos 5.20 ensina uma lição semelhante: "A Lei
foi introduzida para que a transgressão fosse ressaltada".
A Lei de Deus é como uma lupa que se usa para exami-
nar uma roupa. A lupa não cria manchas na roupa, mas
as faz parecer maiores e desse modo ajuda-nos a enxer-
gar as nódoas no tecido. As lentes de aumento também
revelam manchas que jamais veríamos a olho nu.
Do mesmo modo que a lupa, o Antigo Testamen-
to aumenta nossa consciência da presença predominante
do pecado em nossa vida. Quando olhamos através
das "lentes" poderosas da Lei, vemos mais claramente
a plena odiosidade de nosso pecado. A Lei também
mostra como o nosso pecado é completamente des-
prezível comparado à santidade de Deus.
O terceiro versículo lança ainda mais luz sobre o
assunto. Em Romanos 7.7, Paulo falou por todos nós
quando declarou: "Eu não saberia o que é pecado, a
não ser por meio da Lei. Pois, na realidade, eu não
saberia o que é cobiça, se a Lei não dissesse: 'Não cobi-
çarás'". A proibição da cobiça é o último dos dez man-
damentos e pode ser aplicada a todos os outros man-
damentos anteriores. Isso quer dizer que podemos vio-
lar todas as leis de Deus não somente com nossos atos
externos, mas também em nosso coração.
Embora a Lei em si não seja pecaminosa (cf. 7.12),
traz à luz o poder do pecado. Uma vez que o pecado é
despertado em nós, desejamos participar de seus atos
desprezíveis (cf. v. 8-11). Certa vez, uma mulher con-
testou a leitura dos dez mandamentos na igreja porque
"eles colocam muitas idéias na mente das pessoas". É
isso mesmo.
Lembro-me da história de um homem que com-
prou uma geladeira nova e queria se livrar da velha,
que estava quebrada. No entanto, ia lhe custar dinhei-
ro arranjar alguém para transportar e se desfazer dela.
Então, ele pendurou uma placa na geladeira dizendo:
"VENDE-SE — $ 50". Em seguida deslizou-a escada abai-
xo para a frente de sua casa. Na manhã seguinte, a ge-
ladeira não estava mais lá! Era como se a placa disses-
se: "Não roubarás". Foi exatamente por isso que al-
guém a levou.
Era isso que Paulo estava dizendo quando falou sobre
a Lei despertando o pecado em nós. O pecado utiliza
as exigências específicas da Lei como base de operação
de onde lança sua ação perversa. Quando a nossa natu-
reza rebelde é confrontada pela Lei de Deus, achamos
que o proibido é mais atraente. Não que o ato peca-
minoso seja tentador em si mesmo, mas seduz dando-
nos oportunidade de fazer valer nossa própria vonta-
de. Por exemplo, quando Adão e Eva comeram o fru-
to proibido no jardim, estavam arrogando para si a
independência de Deus.
Quando as tropas de Napoleão se aproximaram dos
Alpes, o general perguntou a seus patrulheiros: "É pos-
sível o exército inteiro chegar ao cume?".
"Com muita dificuldade", foi a resposta. E assim
eles partiram. Milhares pereceram na tentativa. Imagi-
ne se os Alpes fossem duas vezes mais altos? Os conse-
lheiros de Napoleão lhe teriam dito que não havia ne-
nhuma possibilidade de chegar ao topo, e ele jamais
teria tentado a escalada que ceifou tantas vidas.
A intenção espiritual da Lei de Deus é duas vezes
mais elevada que os Alpes. Quando lemos o manda-
mento "Não matarás" (Êx 20.13) podemos afirmar
seguros: "Posso obedecer a esse mandamento!". Mas Jesus
depois declarou que qualquer pessoa que se irar contra
outra é culpada de morte aos olhos de Deus (Mt
5.21,22). Diante do mandamento: "Não adulterarás"
(Êx 20.14), podemos nos vangloriar: "Consigo me abs-
ter disso!". Mas, quando Jesus compara o adultério com
a cobiça do coração (Mt 5.27,28), somos infinitamente
mais desafiados pela presença e pelo poder do pecado.
Jesus não estava acrescentando nada de novo à Lei; a
intenção divina estava lá desde o princípio, principalmen-
te no mandamento contra a cobiça. Os líderes religiosos
de Israel tinham negligenciado por conveniência essa ver-
dade durante séculos, e o Senhor os fez lembrar dela. Ele
estava lhes ensinando que guardar a Lei não é apenas uma
questão externa, mas também de atitude interior.
Quando compreendemos essa verdade, a lei parece
infinitamente mais difícil de obedecer. Guardar os
mandamentos é como tentar fazer um exército trans-
por uma cadeia de montanhas cuja altitude é de mi-
lhares de quilômetros. Isso nos ajuda a enxergar como
somos completamente pecadores e incapazes de resis-
tir ao pecado e obedecer à Lei.

A LEI N O S D E I X A D E S E S P E R A D O S A P O N T O
DE P R O C U R A R M O S A SALVAÇÃO
Uma vez que percebemos nossa condição pecaminosa,
nossa natureza humana diz: "Tenho de resolver esse
problema; vou melhorar!". Então tentamos desespera-
damente agradar a Deus e nos salvar. Podemos mesmo
controlar nossos pecados até certo ponto. Mas é claro
que todos temos nossas fraquezas individuais. Para você
talvez seja temperamento explosivo, profanação, lu-
xúria, glutonaria ou outra coisa qualquer. Você come-
ça a pensar que, se tão-somente pudesse dominar esse
pecado crônico, ficaria íntegro espiritualmente.
É onde entra a Lei de Deus. Ela nos avisa que "quem
obedece a toda a Lei, mas tropeça em apenas um ponto,
torna-se culpado de quebrá-la inteiramente" (Tg2.10).
A Lei de Deus não é como um exame escolar, em que se
pode errar ou deixar em branco algumas perguntas e
ainda assim receber uma nota boa e suficiente para ser
aprovado. E como o pneu do automóvel: se um prego
furar qualquer ponto, o pneu inteiro murcha.
Pense numa equipe de futebol. Quando um jogador
comete uma falta, o time inteiro sofre a penalidade. Por
melhor que sejam os outros jogadores, toda a equipe
ficará prejudica se esse jogador continuar transgredindo
as regras. Nossa vida moral é composta de muitos cole-
gas de equipe no início de uma partida de futebol. A
maioria dos elementos morais pode estar sob controle
quase perfeito, mas, se houver uma única falta, nosso
ser moral estará completamente doente para Deus.
O que está escrito na Lei? A mensagem da Lei é que
não se pode resolver o problema do nosso pecado! Não
fosse por essa mensagem, estaríamos enroscados numa
rede de justiça própria. Por isso, a bondade de Deus,
que opera mediante a sua Lei, leva-nos ao ponto de per-
ceber nossa necessidade da graça em Cristo (Gl 3.24).

A LEI I L U S T R A O E V A N G E L H O
Ao longo do Antigo Testamento, vemos ilustrações de
Cristo e de sua obra na cruz. Os muitos cordeiros
mortos em altares sacrificatorios tipificam Jesus, que
foi sacrificado pelos nossos pecados. Em Gênesis 22,
por exemplo, Abraão estava a ponto de oferecer seu
filho Isaque como sacrifício humano em obediência à
ordenança de Deus. Na última hora, porém, Deus
impediu Abraão e mostrou-lhe um carneiro que to-
maria o lugar de Isaque. Esse carneiro representa Jesus,
nosso substituto. Ele recebeu o castigo que merecía-
mos quando se abriram as comportas da ira de Deus
sobre ele no Calvário.
O sacrifício principal do Antigo Testamento foi o
cordeiro Pascal (Êx 12). Deus mandou que os israelitas
tomassem um cordeiro imaculado, matassem-no e as-
pergissem o sangue nas laterais e na viga superior da porta
da casa. Naquela noite um anjo matou o primogênito
de toda casa em que não havia sangue nos batentes das
portas. Esse cordeiro pascal era uma prefiguração de
Jesus. Quando confiamos pela fé que o sangue de Cris-
to derramado nos salva de nossos pecados, Deus passa
por nós e, vendo esse sangue, nos poupa. Poupa-nos
do castigo que merecemos justamente porque seu Fi-
lho foi castigado em nosso lugar.
Salmos 22 e Isaías 53 profetizam a crucificação de
Cristo. A serpente de bronze que Moisés ergueu numa
estaca em obediência a Deus, a fim de que todos que
para ela olhassem fossem curados das picadas de cobra,
também profetiza a crucificação de Cristo (Nm 21.5-
9; Jo 3.14,15). Observe que o remédio era semelhante
ao problema. Um olhar para a serpente de metal cura-
va as pessoas do veneno das serpentes reais. Da mesma
maneira, o Cristo crucificado se tornou pecado por
nós a fim de que, mediante a fé nele, possamos ser
curados do pecado de nosso coração. Conforme Paulo
explica em 2Coríntios 5.21, "Deus tornou pecado por
nós aquele que não tinha pecado, para que nele nos
tornássemos justiça de Deus".
Quando Jesus estava caminhando com os dois discí-
pulos no caminho de Emaús, "começando por Moisés e
todos os profetas, explicou-lhes o que constava a respeito
dele em todas as Escrituras" (Lc 24.27). Mais tarde, nesse
mesmo dia, ele falou a um grupo maior de discípulos
sobre "tudo o que a meu respeito [Jesus] estã escrito na
Lei de Moisés, nos Profetas e nos Salmos" (v. 44).
Muitos cristãos presumem equivocadamente que
só o Novo Testamento prega a salvação pela fé em
Cristo. Se isso fosse verdade, haveria dois evangelhos —
um no Antigo Testamento e outro no Novo. Todavia,
o evangelho que vemos revelado no Novo Testamento
é o mesmo que os crentes esperaram ansiosamente no
Antigo Testamento. Nesse aspecto, a Lei nos prepara
para Cristo com suas muitas ilustrações de nossa neces-
sidade de um Salvador. C. H. Spurgeon escreveu:

Não acredito que homem algum possa pregar o


evangelho sem pregar a Lei. A Lei é a agulha, e
não se pode passar o fio de seda do evangelho
pelo coração do homem sem primeiro introduzir
a agulha da Lei para abrir caminho para o fio. Se
os homens não entenderem a Lei, não vão perce-
ber que são pecadores. E se não tiverem consciên-
cia de que são pecadores, jamais valorizarão o sa-
crifício pelo pecado. Não há cura para o homem
sem que a Lei o fira, nem há meio de fazê-lo vol-
tar à vida sem que a Lei o mate. 1

A LEI N O S C O N D U Z A C R I S T O
Paulo escreveu que a Lei, conforme expressa no Antigo
Testamento, "encerrou tudo debaixo do pecado, a fim
de que a promessa, que é pela fé em Jesus Cristo, fosse
dada aos que crêem" (Gl 3.22). Como um juiz, a Lei

'Tom CARTER, ed., 2,200quotationsfrom the writingof'Charles


H. Spurgeon, Grand Rapids: Baker, 1988, p. 118.
de Deus nos declara prisioneiros do pecado. Satanás
pode nos sussurrar no coração que o pecado traz liber-
dade, mas na realidade só nos escraviza.
O versículo 23 retrata a Lei como um carcereiro de
prisioneiros culpados e condenados que esperam o julga-
mento divino. Estávamos em prisão preventiva (por as-
sim dizer) até que pudéssemos depositar nossa fé em Cristo.
Embora na condição de não-salvos sejamos escravizados
ao pecado, existe uma porta de fuga. Jesus é a porta de
fuga, e a fé é o braço que se estende para abrir a porta.
O versículo 24 diz: "Assim, a Lei foi o nosso tutor
até Cristo, para que fôssemos justificados pela fé". O
substantivo grego traduzido por "tutor" não quer di-
zer instrutor, mas criado, guarda, ou guardião. Nas fa-
mílias gregas ou romanas abastadas esse guardião era
uma pessoa contratada cuja responsabilidade era for-
mar, corrigir e disciplinar a criança. 2

Se a criança torcesse a verdade, o tutor diria: "Isso é


mentira!". Se estivesse prestes a roubar algo, o tutor
podia lhe dar tapas nas mãos. Se a criança quisesse ir a
algum lugar impróprio para ela, o tutor advertiria: "Não
vá lá!". De forma semelhante, a Lei de Deus é a nossa
guardiã e guia para nos conduzir a Cristo. A Lei tam-
bém nos alerta sobre nossa necessidade de redenção e

2
JamesM. BOICE, Galatkns, (FraiikE. GAEBELEIN, org., Theexpositors
Bible commentary, Grand Rapids: Zondervan, 1976, p. 467, v. 10.
purificação espiritual. Condena o nosso estado depra-
vado a fim de que, pela fé, nos voltemos para Jesus
como nossa única esperança de salvação eterna.

A LEI N O S E N S I N A A A M A R
O escriba a quem Jesus originalmente perguntou: "O
que está escrito na Lei?" (Lc 10.26), respondeu: "Ame
o Senhor, o seu Deus, de todo o seu coração, de toda a
sua alma, de todas as suas forças e de todo o seu enten-
dimento' e Ame o seu próximo como a si mesmo'" (v.
27). Ouvindo isso, Jesus respondeu: "Você respondeu
corretamente" (v. 28).
Os judeus calcularam 613 ordenanças na Lei de
Moisés — 248 positivas e 365 negativas. Pode-se pen-
sar que seria impossível resumir todos esses "faça" e
"não-faça" num só mandamento, mas foi exatamente
o que o escriba fez. Quando se resume toda a Lei do
Antigo Testamento, o resultado é a palavra amor. Ame
a Deus com toda a sua força e ame o seu próximo
como a você mesmo. Paulo corrobora quando escreve
que o amor é o cumprimento da lei (Rm 13.10).
Examine novamente os dez mandamentos. Os qua-
tro primeiros nos ensinam a amar Deus com todo o
nosso ser. Se fizermos isso, não teremos nenhum ou-
tro deus antes dele, não adoraremos ídolos, não men-
cionaremos o nome dele em vão e nos lembraremos
de reservar um dia por semana para adorá-lo.
Os seis últimos mandamenros nos ensinam a amar
o nosso próximo como a nós mesmos. O amor nos
compele a honrar nossos pais. Se amarmos o nosso
próximo, certamente não mataremos ninguém. O amor
ao próximo nos impedirá de cometer adultério com o
cônjuge dele. Não se rouba daqueles a quem se ama.
Tampouco se conta mentiras para eles ou a respeito
deles. Também não temos inveja dos bens de nosso
próximo, porque não há lugar para a cobiça num cora-
ção cheio de amor. Portanto, o amor a Deus e às ou-
tras pessoas é a essência da Lei.
O amor é a conseqüência natural da Lei. Amamos a
Deus porque a sua Lei revela nosso pecado e desse modo
nos alerta para nossa condição de perdidos. Amamos a
Deus por usar sua Lei para nos deixar desesperados a
ponto de procurar a salvação, por nos livrar de nossa
justiça própria. Amamos a Deus por ilustrar em sua Lei
o evangelho de Cristo, porque lança a luz necessária so-
bre a doutrina do Antigo Testamento. Amamos a Deus
por usar a sua Lei para nos conduzir a Cristo, pois longe
dele não há salvação. Amamos as outras pessoas ou por-
que são nossas irmãs em Cristo ou porque têm a mesma
necessidade que nós de conhecê-lo.

TOMADA DE ATITUDE
Nós cristãos tendemos a gastar a maior parte de nosso
tempo de leitura da Bíblia no Novo Testamento, não
é mesmo? Você já leu o Antigo Testamento do prin-
cípio ao fim? Quando chegar ao céu, você se sentirá
envergonhado quando encontrar os profetas, como
Isaías e Obadias, porque você negligenciou a leitura
do livro deles?
Um jeito de responder afirmativamente à pergunta
de Jesus é estudar as Escritura todas de maneira metó-
dica. Reserve um tempo todo dia para ouvir a voz de
Deus na Palavra dele. Na média de quinze minutos
por dia, a maioria das pessoas consegue ler a Bíblia
inteira em menos de um ano. Isso requer disciplina,
mas todo cristão pode banquetear-se diariamente nas
riquezas da Bíblia o ano todo. As pessoas cegas ou
impossibilitadas de ler podem ouvir a Palavra de Deus
em fitas de áudio. A falta de compromisso é a única
coisa que impede um crente de conhecer o que está
escrito na Palavra de Deus.
Você sabe o que está escrito na Lei? Talvez sua res-
posta sincera à pergunta de Jesus seja: "Não sei, Se-
nhor. Nunca a li". Nesse caso, empenhe-se num estu-
do diário piedoso de toda a Bíblia.
Mas não pare por aí. Nosso propósito de ler a Bí-
blia não é meramente nos alimentar, mas alimentar os
outros. Jesus nos confiou a responsabilidade de com-
partilhar as suas boas novas com outros que estão
desavisados de seu estado de perdição. Para os iniciantes,
que tal ler a Bíblia para os seus filhos? Minha mulher e
eu fizemos isso por muitos anos todas as noites, e Deus
abençoou nossos três filhos com fé destemida em Cris-
to e amor por ele. Há pessoas a sua volta que não lêem
a Bíblia, mas o ouvirão. Todo conhecimento que rece-
berão da Palavra de Deus deve vir de sua boca.
O que está escrito na Lei? Uma mensagem divina
de amor, perdão e salvação em Jesus Cristo para toda a
humanidade.
U m a pergunta
intrigante:
"Vocês pensam que esses ga-
lileus eram mais pecadores que
todos os outros, por terem so-
frido dessa maneira?"
LUCAS 1 3 . 2

Era 2 8 de janeiro de 1 9 8 6 . Seis astronautas norte-


americanos, entre eles uma mulher civil, professora de
escola primária, embarcaram no ônibus espacial
Challenger. Com poucos segundos de vôo, ocorreu o
desastre, e os seis morreram numa bola de fogo. Nas
horas seguintes, os telespectadores assistiram horroriza-
dos dezenas de vezes à explosão. A terrível morte desses
astronautas indica que eles eram secretamente piores que
os outros cientistas, pilotos, ou professores?
Analise o que aconteceu no dia 21 de dezembro de
1988. O vôo 103 da Pan-Am estava prestes a cruzar o
oceano Atlântico, da Europa para os Estados Unidos.
Mas, quando sobrevoava a Escócia, explodiu uma bom-
ba na seção de carga do avião. Ninguém a bordo so-
breviveu ao acidente. Espalharam-se partes de corpos
por vários quilômetros ao redor da cidade de Lockerbe.
O grupo musical The Temptations* tinha reservas no
vôo 103, mas cancelaram no último minuto para fa-
zer mais uma apresentação na Europa. Por que os
Temptations foram poupados? Eles eram melhores que
as outras pessoas? Contribuíram mais para a felicidade
da humanidade, ou a música deles era mais necessária?
Que dizer de um homem que contrai HIV come-
tendo adultério e depois põe a vida da esposa em risco
antes de ficar sabendo que tem a doença fatal? A verda-
de acaba vindo à tona, e a esposa faz o teste. Ela não
tem o vírus. Deus a poupou porque é uma vítima ino-
cente ou porque ela se expôs à doença por demonstrar
amor sincero ao marido infiel?
Situações e questionamentos como esses não são
novidade. O livro mais antigo da Bíblia, Jó, tratou
dessas questões de sofrimento. Em Lucas 13.1-5, o
próprio Jesus levantou a questão duas vezes.

*Grupo musical negro da década de 1960, ainda hoje em ativi-


dade. Um dos grandes representantes da Motown (nome de uma
gravadora de Detroit, especializada em música negra, e que virou
sinônimo desse estilo musical — black music). Entre seus vários
sucessos, encontra-se My Girl.
N Ã O SE PODE JULGAR O S PECADORES PELO
SOFRIMENTO DELES
Lucas 13.1-5 começa com a notícia de um ato ultra-
jante de assassinato: "Naquela ocasião, alguns dos que
estavam presentes contaram a Jesus que Pilatos mis-
turara o sangue de alguns galileus com os sacrifícios
deles" (v. 1). Os galileus habitavam o extremo norte
das três províncias da Palestina. As pessoas mencio-
nadas nesse versículo tinham viajado para Jerusalém,
no sul, para uma festa judaica. Os judeus galileus fo-
ram massacrados, enquanto ofereciam sacrifício em
cumprimento da lei mosaica, pelo sempre medroso
Pilatos, que fora informado equivocadamente de um
princípio de tumulto e enviara seus soldados para
sufocar a suposta rebelião. Os informantes acrescen-
taram o detalhe horrível de que dos altares de sacrifí-
cio escorria o sangue da oferta misturado com o dos
adoradores.
O relato desse incidente está de acordo com dois
escritores seculares — Josefo e Filo — , ambos con-
temporâneos de Pilatos. Filo chamou o governador
romano de "inflexível, impiedoso e obstinado" e fa-
lou dos seus atos de crueldade e da sua tendência para
castigar as pessoas impiedosamente sem julgamento
justo. Josefo escreveu que Pilatos matou três mil ju-
deus e encheu o templo com os cadáveres. Em outra
ocasião, ele infligiu a mesma atrocidade a dois mil
judeus. 1

O ato sanguinário de Pilatos mencionado em Lucas


13.1 era naturalmente o assunto da cidade, e a multidão
queria saber o que Jesus pensava disso. Em vez de res-
ponder à pergunta deles, fez-lhes outra: "Vocês pensam
que esses galileus eram mais pecadores que todos os
outros, por terem sofrido dessa maneira?" (v. 2). À pri-
meira vista, tinha-se a impressão de que o povo havia
relatado o massacre de Pilatos para evocar a condenação
de Jesus sobre ele. Mas a resposta de Cristo destaca um
assunto à parte, porque os judeus eram inclinados a acre-
ditar que a boa sorte vinha automaticamente para o jus-
to, e o sofrimento era sinal de pecado.
Sem dúvida, as pessoas que estavam com Jesus nes-
se dia eram da Judeia, habitantes do sul que sempre
estereotiparam o galileus como imorais e grosseiros.
Quando Natanael soube que Jesus viera de Nazaré, na
Galileia, perguntou incredulamente: "Nazaré? Pode vir
alguma coisa boa de lá?" (Jo 1.46). Portanto, pode-
mos entender que os judeus de Lucas 13.1 estavam
dizendo: "Aqueles galileus cujo sangue Pilatos mistu-
rou com o sacrifício deviam ser a escória da terra para
merecer esse destino!".

'Daniel R. SCHWARTZ, Pontius Pilate, in: David N. FREEDMAN,


ed., The anckor Bible dictionary, New York: Doubleday, 1992, p.
395-401.
O versículo 3 relata a resposta de Cristo: "Eu lhes
digo que não! Mas se não se arrependerem, todos vocês
também perecerão". Jesus estava dizendo que as pesso-
as que sofrem mais do que as outras não são necessari-
amente mais pecadoras. Se fossem, poderíamos avaliar
a espiritualidade de uma pessoa pelo grau de conforto
que ela desfruta. Na mente de Jesus não era impossível
algumas das melhores pessoas de Israel terem morrido
nas mãos de Pilatos.
Nosso Senhor advertiu seus ouvintes para não fazer
especulações a respeito dos que foram mortos, mas exa-
minar a própria vida. Se não se arrependessem, perece-
riam. Embora Jesus não estivesse falando apenas das
espadas romanas, sua advertência se cumpriu literal-
mente no ano 70, quando o povo da Judéia foi massa-
crado pelos soldados romanos. Porque não se arrepen-
deram de seus pecados e não se voltaram para Cristo
pela fé, sofreram atrocidade mais horrenda do que a
que haviam descrito.
Jesus sabia que sua advertência não entraria facil-
mente na cabeça dura de seus ouvintes; por isso, para
reforçá-la, utilizou outro exemplo: "Ou vocês pensam
que aqueles dezoito que morreram, quando caiu sobre
eles a torre de Siloé, eram mais culpados do que todos
os outros habitantes de Jerusalém?" (v. 4).
A matança dos galileus por Pilatos foi um ato de
crueldade, mas a queda da torre de Siloé foi eviden-
temente um acidente. Estas vítimas eram judias, não
galiléias. Jesus estava querendo dizer: "Se vocês acham
que uma morte incomum é sinal de pecado incomum,
não podem apontar o dedo de acusação somente para
os galileus. Alguns de seus próprios conterrâneos mor-
reram na catástrofe da torre de Siloé. Eles eram culpados
de maior pecado do que os outros que sobreviveram?".
No caso dos galileus, Jesus perguntou se eles eram
mais "pecadores" do que todos os outros galileus (v.
2). Mas, no versículo 4, ele empregou o substantivo
grego traduzido por "culpados", que no grego significa
literalmente "devedores". Isso nos ensina que as pes-
2

soas devem obediência a Deus. Responder favoravel-


mente a Jesus e seu evangelho não é para nós uma ques-
tão de escolha. Em todo o Novo Testamento Deus
não nos pede nem convida a acreditar; ele nos ordena.
Jesus respondeu a sua segunda pergunta quase exata-
mente com as mesmas palavras que à primeira: "Eu lhes
digo que não! Mas se não se arrependerem, todos vocês
também perecerão" (v. 5). Na versão revista e atualizada
de Almeida, o versículo 3 traz o advérbio "igualmente"
em vez de "também", o que pode referir-se ao modo
que aquelas pessoas morreriam. Da mesma maneira que
os galileus tiveram o sangue misturado aos seus próprios

' I . Howard MAKSHALL, Thegospel ofLuke: acommentary on the


Greek text, Grand Rapids: Eerdmans, 1978, p. 5 5 4 .
sacrifícios, os judeus sofreriam um destino semelhante
na destruição de Jerusalém em 70.
Mas podemos interpretar a palavra "igualmente" do
versículo 5 (RA) como dizendo: "Vocês perecerão rapi-
damente e sem aviso". A torre matou esmagadas aque-
las dezoito pessoas quando elas menos esperavam. Da
mesma forma, os pecadores impenitentes perecerão
imediatamente. Podem partir tranqüilamente no lei-
to, com a família em volta, mas depois do último sus-
piro estarão desesperadamente perdidos.

O M U N D O PECADOR VAI SOFRER


Observe novamente as duas perguntas de Jesus. Em
Lucas 13.2, ele não perguntou: "Vocês pensam que es-
ses galileus eram pecadores porque tiveram esse desti-
no?". Não, ele referiu-se a eles como "pecadores maio-
res". De novo, no versículo 4 ele não perguntou: "Vocês
acham que aqueles dezoito sobre quem caiu a torre de
Siloé eram os culpados perante Deus?" Também não,
sua real pergunta foi: "Eles eram mais culpados que os
outros?".
Se não houvesse pecado neste mundo, não haveria
mortes trágicas, pois a morte é a conseqüência do pe-
cado na raça humana (cf. Gn 2.17; 3.17-19; Rm 5.12;
6.23). Se a lição principal de Jesus tivesse sido que as
vítimas do massacre de Pilatos e as do acidente em
Siloé eram inocentes, sua advertência, "Mas se não se
arrependerem, todos vocês também perecerão", teria
caído por terra. O ponto que Jesus queria ressaltar era
que a morte dessas pessoas não era prova de que eram
mais pecadoras que as outras que permaneceram vivas.
Há alguns anos, um motorista bêbado tentou ul-
trapassar um carro numa estrada de mão dupla numa
curva sem visibilidade. Bateu de frente com o carro
cheio de homens de nossa igreja que voltavam de uma
conferência cristã. Um deles ficou em coma durante
um mês. Teve recuperação parcial, mas perdeu a visão
em conseqüência do acidente. Em seguida, perdeu o
emprego. Depois, a esposa não conseguiu lidar com a
crise e se divorciou, casando-se novamente com outro
homem. Hoje esse homem continua sendo um queri-
do servo de Deus, do mesmo jeito que era antes. Ele
não guarda nenhuma amargura no coração contra o
motorista bêbado, a ex-esposa nem contra Deus.
Como uma tragédia dessa pode ter acontecido a
alguém tão maravilhoso? Porque vivemos num mun-
do pecador. O pecado de um homem que dirigia bê-
bado roubou de outro o trabalho, a visão e a esposa. A
vítima era inocente? Sim e não. Ele não merecia essa
experiência mais do que os outros daquele carro, que
escaparam ilesos, mas também não era perfeito. Ele,
como todos os outros, precisava de um salvador. Fe-
lizmente, ele confiava em Cristo como Salvador. Esse
homem provou que sua fé era genuína permanecendo
fiel a Cristo apesar da tragédia que sofreu.
AS PESSOAS CHEIAS DE JUSTIÇA PRÓPRIA
JULGAM AS QUE SOFREM
Tanto as pessoas que morreram em conseqüência da
ordem de Pilatos quanto as que foram esmagadas pela
torre em Siloé eram pecadoras, nem mais nem menos
que qualquer outra, até onde sabemos. Ninguém que
tenha ficado aquém das expectativas da glória de Deus
tem o direito de se levantar em julgamento contra pes-
soas que sofrem infortúnio.
Os amigos de Jó não entenderam isso. Eles testemu-
nharam o extraordinário sofrimento dele e presumiram
que era prova de pecado secreto na vida dele. Elifaz fala-
va pelos três quando perguntou a Jó: "E por sua piedade
que [Deus] o repreende e lhe faz acusações? Não é gran-
de a sua maldade? Não são infindos os seus pecados?"
(Jó 22.4,5). Elifaz prosseguiu especulando que Jó se re-
cusara gananciosamente a emprestar dinheiro aos ami-
gos necessitados, não dera água ao sedento e retivera a
comida do faminto, mandara embora de mãos vazias as
viúvas e quebrara os braços dos órfãos (v. 6-9).
Um dia Jesus e seus discípulos encontraram um ho-
mem cego de nascença. Os discípulos perguntaram:
"Mestre, quem pecou: este homem ou seus pais, para
que ele nascesse cego?" (Jo 9.2). Eles se precipitaram à
conclusão incorreta de que o sofrimento do homem
era conseqüência de pecado seu ou de seus pais. Tal-
vez até mais preocupante que essa idéia deficiente seja
a conclusão de que, por não terem nascido cegos, eles,
os discípulos, eram mais justos que o homem e os
pais dele. Essa atitude legalista e hipócrita sempre nos
condena.
Nos primeiros anos de meu ministério, eu era co-
pastor sob o comando de um líder que tinha servido à
mesma igreja durante mais de 25 anos. A esposa desse
homem tinha compartilhado a vida dela, bem como a
dele, de maneria generosa, altruísta e amorosa com as
pessoas da igreja e da cidade. Depois adoeceu grave-
mente com um câncer terminal. A verdadeira tragédia
não foi a morte, mas a dor emocional causada por um
membro da igreja que foi ao hospital para dizer à mu-
lher agonizante que o câncer era por culpa dela mes-
ma. O acusador queria fazer o papel de Deus.
Muitas vezes nosso Pai celestial permite provações
duríssimas para edificar a fé de seus filhos, purificá-los
como ouro, prepará-los para a obra futura, ou dar-lhes
o privilégio de sofrer por amor a Cristo. Se o sofri-
mento incomum sempre remetesse a pecado grave,
Jesus teria sido o pior pecador da história.
Que dizer dos mártires cristãos, que foram quei-
mados em estacas, dilacerados por animais selvagens,
apedrejados e crucificados? Você os acusaria de terem
sido escolhidos por Deus por causa de seus pecados
secretos? Quem somos nós para dizer que as pessoas
que se contorcem de dor, as que estão mergulhadas em
profunda aflição ou as que lutam com depressão grave
estão sendo castigadas por Deus? O castigo genuíno
para o pecado, Jesus deu a entender, é coisa para o
mundo vindouro, não este. Por isso temos de nos re-
cusar a tirar conclusões desfavoráveis sobre as pessoas
que estão em circunstâncias adversas.

O SOFRIMENTO DEVE FAZER-NOS


ARREPENDER
Em Lucas 13.1-5, Jesus foi além, exortando-nos a dei-
xar de cuidar da vida dos outros. Também nos instou a
cuidar de nossa própria vida: "Mas se não se arrepen-
derem, todos vocês também perecerão" (v. 3,5). Quan-
do a tragédia se abate sobre os outros, devemos dizer a
nós mesmos: "Meus pecados merecem esse tratamen-
to severo e muito mais. Isso é um retrato do que po-
deria acontecer-me espiritualmente se eu não estiver
correto perante Deus". Também devemos orar: "Se-
nhor, mostra-me os pecados inconfessos de minha vida.
Sei que eles te desagradam. Quero dar as costas a eles e
voltar para ti".
Arrependimento é isso. O verbo grego metanoeÕ,
geralmente traduzido por "arrepender", significa literal-
mente "mudar de mente". Para arrepender-nos, temos
3

3
F. Wilbur GINGRICH & Frederick W. DANKER, Léxico do Novo
Testamento grego/português, São Paulo: Vida Nova, 1993, p. 134.
de mudar nossa mente em relação a várias coisas. Pri-
meiro, temos de transformar radicalmente nosso con-
ceito de nós mesmos. Pensávamos que éramos basica-
mente bons, mas agora que o Espírito nos convenceu,
vemos-nos como pecadores. Em outros tempos ima-
ginávamos que éramos auto-suficientes, agora compre-
endemos que precisamos de um Salvador.
Segundo, o arrependimento muda nossa mente em
relação ao pecado. Dávamos desculpas para ações que
feriam os outros e a nós mesmos. Acreditávamos em
ética circunstancial — que nenhuma ação é absoluta-
mente certa ou errada; antes, tudo depende da situa-
ção. Por exemplo, se um homem e uma mulher tive-
rem relações sexuais fora do matrimônio, a ética cir-
cunstancial diria que, uma vez que eles se amem, não
são culpados de adultério nem de fornicação. Ou se
alguém conta uma mentira para evitar ferir os senti-
mentos de outro, está agindo corretamente. O arre-
pendimento aniquila todas essas falsas desculpas. Obri-
ga-nos a concordar com Deus que pecado é pecado,
simplesmente porque ele diz isso em sua Palavra.
O significado principal do verbo grego homologeõ
geralmente traduzido por "confessar", é "concordar" com
alguma coisa ou "reconhecer". Literalmente, significa
4

4
Ibid. p. 146
"dizer a mesma coisa". Na confissão, dizemos a mes-
5

ma coisa que Deus diz a respeito do pecado, isto é, que


é errado, implica culpa e precisa ser abandonado. Do
ponto de vista bíblico, somente quem se arrependeu —
isto é, mudou a menre quanto ao pecado —pode con-
fessar-se a Deus.
Terceiro, o arrependimento implica mudança de
opinião sobre Cristo. Talvez no passado você costu-
masse usar o nome dele em vão, até em blasfêmias.
Agora ele passou a ser a melodia de seus hinos, o pa-
drão de suas orações, o tema de seu testemunho e a
força de sua vida. Antes, Jesus não era nada para você,
mas agora é o seu Salvador, seu Senhor, seu Tudo-em-
tudo. Você passou por uma profunda mudança de ati-
tude em relação a Jesus. Isso é arrependimento.
Temos aqui, então, uma definição resumida de arre-
pendimento. Arrependimento é uma mudança de ponto
de vista que leva a uma mudança de coração que comprova
a transformação de vida. O falso arrependimento teme
6

as conseqüências do pecado. E como a menininha que

'Gerhard KiTTF.i. & Gerhard FRIEDRICH, orgs., Theological


dictionary ofthe New Testament, ed. trad. para o inglês abr. G. W.
Bromiley, Grand Rapids: Eerdmans, 1985, p. 687, v. 1.
6
W. S. REID, arrependimento, in: Walter A . EIWF.EI., org., Enci-
clopédia histórico-teológica da igreja cristã, São Paulo: Vida Nova,
1988,1992.
orava: "Ó Deus, me faz ser boazinha, mas não boazinha
demais. Só o suficiente para eu não precisar apanhar".
Pense também no caso de uma adolescente solteira
que fica grávida. Os colegas de escola a ridicularizam.
O novo garoto de quem ela gosta não chega perto dela,
pois ela está "marcada". Ela acha que não pode prosse-
guir a vida normalmente até ter o bebê e dá-lo para
adoção. Ela lamenta o pecado de promiscuidade sexu-
al? Talvez apenas esteja arrependida de ter de suportar
as conseqüências de sua imprudência moral.
Esses são exemplos de arrependimento falso . Arre-
pendimento genuíno implica coração quebrantado por
causa do pecado e pelo pecado e conduz à transforma-
ção radical do modo de pensar e agir.

T O M A D A DE ATITUDE
Seríamos negligentes se meramente estudássemos Lucas
13.1-5, compreendêssemos seu contexto histórico e
aprendêssemos com sua inspiração. Duas vezes nesses
versículos nosso Senhor nos desafia com estas palavras:
"Mas se não se arrependerem... ". Vocês refere-se a mais
gente do que apenas aos ouvintes originais de Jesus no
primeiro século. Jesus dirige hoje essas mesmas pala-
vras a nós.
Por isso perguntemos: "De que preciso arrepender-
me? O que o Espírito Santo deseja retirar-me do co-
ração e da vida?". Talvez seja uma atitude de falta de
perdão em relação a alguém que o ofendeu. Quem
sabe, a luxúria secreta tenha crescido como erva dani-
nha durante anos no solo carnal de seu coração. Pode
ser a negligência para com a Palavra de Deus, a falta de
oração, a vergonha que o impede de falar de Cristo aos
outros ou as explosões temperamentais que têm
destruído seus relacionamentos, apesar de você negar
que tudo isso seja um problema sério.
Talvez você se pergunte se o arrependimento é ca-
bível para cristãos. Com toda certeza, uma vez que
continuamos pecando, temos de continuar arrependen-
do. Precisamos diariamente dizer "não" ao pecado e
"sim" para Deus.
No sentido mais profundo, as palavras de Jesus nos
exortam a não presumir que pertencemos a Deus. Duas
vezes Cristo avisou: "Mas se não se arrependerem, to-
dos vocês também perecerão" (v. 3,5). Nos últimos
anos, alguns estudiosos da Bíblia têm discutido se o
arrependimento é necessário para a salvação. Os que
afirmam que não é, não levaram em conta esse texto.
Infelizmente, muitos membros de igreja são os que os
puritanos chamavam de "evangélicos hipócritas" — pes-
soas que supõem que sua salvação está garantida por-
que manifestaram um voto intelectual de confiança
em Jesus como o Salvador do mundo. Entretanto, es-
sas pessoas nunca deram as costas pecado e se entrega-
ram a Cristo. Estão perecendo.
Por favor, não me diga que você é batizado. Não
me diga que é membro da igreja ou que leciona numa
classe de estudo bíblico. Em vez disso, diga-me que
foi transformado espiritualmente por Cristo. Diga-me
que você odeia o pecado, que antes amava e agora ama
o Senhor, que antes menosprezava. Diga-me que é uma
nova pessoa interior e exteriormente. Diga-me que se
arrependeu. Então eu lhe direi que você respondeu afir-
mativamente à pergunta intrigante de Jesus.
U m a pergunta
surpreendente:
"Com que se parece o Reino
de Deus?"
LUCAS 1 3 . 1 8

Dificilmente se vêem moradores de uma casa de


repouso dando cambalhotas pelos corredores. O pas-
tor aposentado Wilbur Westerdahl não chegou a esse
ponto, mas organizou um espetáculo para os seus com-
panheiros residentes da Covenant Village. Ele havia aca-
bado de ler uma entrevista minha no jornal, na qual
me perguntavam: "Como o senhor se interessou pelo
ministério pastoral?".
Contei do meu amor pelo pastor Westerdahl quando
eu tinha cinco anos. Expliquei: "Todo domingo quan-
do saía da igreja, eu o lembrava: 'Quando eu crescer,
vou ser igualzinho ao senhor!'".
"Ele ficou enjoado de tanto ouvir isso e me disse:
'De agora em diante, apenas pisque para mim todo
domingo, que eu vou sabet que isso significa que você
ainda quer ser pastor quando crescer'. Durante anos eu
piscava e sorria quando apertava a mão dele toda se-
mana depois do culto. Deus usou o meu amor por
esse homem para me chamar para o ministério".
Imagino que anos atrás o pastor Westerdahl não
acreditava muito nas promessas daquele pestinha de
cinco anos. Mas no fim foi como se eu tivesse de con-
tinuar o trabalho da vida dele. Ele foi ricamente aben-
çoado pela lembrança dos resultados surpreendentes
que surtem de começos insignificantes.
Em 1849, James Hudson Taylor, então com dezessete
anos, sentiu um forte chamado de Deus para o campo
missionário da China. Cinco anos depois, ele desem-
barcou em Shanghai. Os outros missionários o consi-
deraram "um pobre e inconseqüente joão-ninguém".
Porque nenhuma missão estava disposta a apoiá-lo,
Taylor fundou a China Inland Mission [Missão para o
Interior da China]. Orou para que Deus lhe enviasse
"24 trabalhadores dispostos e hábeis", dois para cada
província. A meta de Taylor era nada menos que levar o
evangelho a cada habitante da China.
No princípio, a China Inland Mission sofreu opo-
sição tanto de seus colegas missionários como dos chi-
neses. Houve até algumas revoltas contra Taylor e seus
colaboradores. Menos de trinta anos depois do início
de sua missão, Taylor liderava 641 missionários, prati-
camente metade de todo o grupo de protestantes na
China. Hoje a China Inland Mission continua, mas
com o nome de Overseas Missionary Fellowship [Co-
munidade Missionária Estrangeira]. Fundaram-se mui-
tos outros postos da missão, e inúmeros cristãos foram
chamados aos campos estrangeiros por causa da influ-
ência de Taylor.
Começos pequenos e insignificantes podem levar a
resultados jamais sonhados. Jesus ilustrou essa verdade
em suas parábolas da semente de mostarda e do fer-
mento. Ele começou a contá-las fazendo perguntas se-
melhantes surpreendentes: "Com que se parece o Rei-
no de Deus?" (Le 13.18J e "Com que compararei o
Reino de Deus?" (v. 20). Jesus ensinou mais sobre o
reino divino do que qualquer outra coisa. Durante os
quarenta dias entre a ressurreição e a ascensão, parece
que seu ensino concentrou-se nesse assunto (At 1.3).
Nas parábolas da semente de mostarda e do fer-
mento, nosso Senhor animou os corações desespera-
dos com dois fatos acerca do Reino de Deus.

ATÉ A OBRA PEQUENA DO REINO


É IMPORTANTE
Jesus comparou o Reino de Deus a "um grão de mos-
tarda que um homem semeou em sua horta. Ele cresceu
e se tornou uma árvore, e as aves do céu fizeram ninhos
em seus ramos" (Lc 13.19). A semente de mostarda era
a menor de todas as sementes usadas na Palestina. Era
difícil enxergar uma semente sozinha, porque tinha o
tamanho aproximado de uma cabeça de alfinete. Era
possível segurar milhares dessas sementes na palma da
mão. Contudo, uma única sémen tinha podia amadure-
cer, tornando-se uma árvore em que os pássaros fizes-
sem seus ninhos. Isso me lembra de um provérbio:
"Grandes carvalhos crescem de pequenas bolotas".
Nosso Senhor nos pega de surpresa quando com-
para o Reino de Deus a uma semente de mostarda.
Esperávamos que ele o comparasse a algo vasto, como
o mar Mediterrâneo ou o Império Romano. Em vez
disso, ele escolheu uma coisa quase microscópica.
No hino de 1864, "Cristo vos conduz", de Sabine
Baring-Gould, cantamos: "Eia ó soldados, crentes em
Jesus! [...] Eis que à vossa frente vai o General!", fa-
lando da igreja como um grande exército. Mas Jesus
diz que o Reino, do qual a igreja é uma parte, tem
crescimento mais parecido com o de uma semente mi-
núscula. Pode tornar-se grande, mas sempre começa
pequeno. Deus não dá nenhuma importância à osten-
tação. Ele gosta de lidar com o que parecem ser pesso-
as miseráveis e acontecimentos insignificantes. E o re-
sultado é um mundo transformado.
Essa notícia era animadora para os discípulos. Eles
tinham deixado a família para seguir Jesus e abandonado
a profissão para ser evangelistas. Mas o que eles tinham
para mostrar? Ganharam a hostilidade dos líderes reli-
giosos judeus, o ódio do Império Romano e ameaça
de martírio. Claro, muitos doentes estavam sendo cu-
rados, e multidões de pessoas, abençoadas. Mas o so-
nho de alguns discípulos de acabar com a opressão
política de Roma e ser aclamados heróis estava trans-
formando-se rapidamente em pesadelo. Talvez alguns
estivessem começando a se perguntar: "Nossa lealdade
a Jesus vale tudo isso?".
Imagino Jesus dizendo-lhes: "Lembrem-se do grão
de mostarda! Embora seja minúsculo, está cheio de
vida. Quando plantado, inevitavelmente se transfor-
mará numa árvore onde os pássaros farão sua casa. Por
isso, não se desanime!".
Talvez você esteja servindo a Cristo num canteiro
pequenino da vinha dele. Talvez sua igreja não tenha con-
dições de manter um pastor de tempo integral ou, quem
sabe, seu grupo de estudo bíblico tem só um pouquinho
de pessoas. Você pode se perguntar se seu trabalho para
Cristo faz alguma diferença no Reino de Deus. Não se
esqueça da semente de mostarda! O trabalho do Reino
sempre começa pequeno, e sua importância não provém
do tamanho, mas de sua vida intrínseca.
Ao contrário dos primeiros discípulos, podemos ver
a prova do que Jesus disse em Lucas 13.19. Ele pró-
prio nasceu na obscuridade. Sua cidade natal, Nazaré,
era tão insignificante que um judeu (Natanael) per-
guntou se poderia vir algo bom de lá (Jo 1.46). Jesus
viveu na pobreza, não teve educação religiosa formal
nem jamais escreveu nenhum livro. Foi rejeitado por
outros judeus. Na realidade, eles e os romanos o cruci-
ficaram. Mas o enterro de Cristo foi como a semeadu-
ra de um grão de mostarda. Logo ficou vivo nova-
mente e, nos séculos seguintes a sua ressurreição, as-
censão e exaltação, as pessoas se arrebanharam em torno
dele com fé, como os pássaros nos galhos das árvores.
De novo, pense nos apóstolos. Como doze homens
apenas fizeram "discípulos de todas as nações" (Mt
28:19). O próprio Jesus os chamou de "pequeno reba-
nho" (Lc 12.32). Os líderes religiosos os identifica-
vam como "homens comuns e sem instrução" (At 4.13).
Após a ascensão de seu Senhor, o número dos que per-
maneceram juntos era aproximadamente 120 (1.15).
No dia de Pentecostes, foram acrescentados três mil
convertidos (2.41). Logo o número aumentou para
perto de cinco mil (4.4). E daí em diante "crescia rapi-
damente o número de discípulos" (6.7).
Apesar da perseguição externa e da dureza interior
de coração das pessoas não salvas que os cristãos anti-
gos procuravam alcançar, o Reino de Deus expandiu-
se com novos cidadãos. Logo depois do início do ter-
ceiro século, o teólogo africano Tertuliano escrevia ao
imperador romano: "Nós cristãos ocupamos tudo o
que é seu — cidades, ilhas, cidades livres, castelos, as-
sembléias públicas, o palácio, o senado e o fórum, to-
das as classes de homens. Excedemos em número os
seus exércitos. Há mais cristãos numa única província
que soldados em todas as legiões".
Em Apocalipse 7.9, lemos que no fim dos tempos
os crentes em Cristo serão "uma grande multidão que
ninguém podia contar, de todas as nações, tribos, po-
vos e línguas". Isso nos lembra que nada pode impedir
o progresso do evangelho. Como uma semente de
mostarda, é cheio de vida que, por sua própria nature-
za, tem que crescer.
Por isso não perca a coragem quando o ministério em
que estiver envolvido parecer muito pequeno para ter
importância. Jesus tinha capacidade de encontrar valor
nas pequenas coisas — por exemplo, as moedinhas da
viúva, o único talento, o copo de água fresca e o almoço
de um menino para alimentar cinco mil pessoas.
Há muitos anos, no ministério de meio de semana
para crianças de nossa igreja, um dos professores apre-
sentou um menino chamado Todd Burkdoll para Cris-
to. O professor nem sonhava que quinze anos mais
tarde, Todd, como missionário, levaria o evangelho para
a Tailândia. A semente de mostarda da fé se desenvol-
veu numa frondosa árvore!
Em 1515, um monge católico e professor universi-
tário chamado Martinho Lutero foi transformado pelas
palavras de Romanos 1.17: " O justo viverá pela fé".
Lutero descobriu que a salvação é um presente gratui-
to que se recebe pela fé. Em 1517, Lutero contestou o
ensino católico romano de que a salvação é adquirida
por meio de boas obras. Como um minúsculo grão de
semente de mostarda, Martinho Lutero, cheio da vida
da Palavra de Deus, lançou sozinho a centelha da Re-
forma protestante. Muitos cristãos continuam fazen-
do seu ninho espiritual nos galhos dessa grande árvore.
Acredito que estamos fazendo história neste mo-
mento. No céu, olharemos para trás e veremos como
até algumas observações casuais que fizemos em nome
de Cristo serviram como catalisador para transformar
a vida de outras pessoas e as impulsionou a mudar o
mundo pelo evangelho.
Muitos acreditam que a menção de Jesus às aves do
céu que se aninham nos galhos da árvore de mostarda
era uma profecia da entrada dos gentios no Reino de
Deus. Alguns incrédulos comentam com sarcasmo: "O
cristianismo é para as aves!". Nem imaginam que Je-
sus concorda com eles! A canção do céu é que Cristo
comprou com o seu sangue indivíduos "de toda tribo,
língua, povo e nação" (Ap 5.9).
Portanto, qualquer traço de segregação em nossas
igrejas é incorreto. Em Cristo não há distinção racial,
social, espiritual nem pessoal (Gl 3.28). Nenhum de
nós tem o direito de insistir que outros membros do
corpo de Cristo vistam-se como nós, pratiquem nosso
estilo de adoração, leiam nossa versão favorita da Bí-
blia, pertençam a nossa denominação ou concordem
com pontos doutrinários insignificantes. Não são ape-
nas os pintarroxos que se aninham nos galhos da árvo-
re de mostarda, mas também os periquitos, os pardais,
os cardeais e qualquer ave que desejar. O Reino de Deus
é bem grande para todos. Pode abrigar multidões de
pessoas de todas as posições, porque sua semente viva
faz que ele cresça.

O TRABALHO DO REINO QUE PASSA


DESPERCEBIDO TRANSFORMA A SOCIEDADE

Lucas 13.20,21 contém outra parábola sobre o Reino:


"Mais uma vez [Jesus] perguntou: 'Com que compa-
rarei o Reino de Deus? É como o fermento que uma
mulher misturou com uma grande quantidade de fari-
nha, e toda a massa ficou fermentada'". O fermento é
a substância usada para levedar a massa.
Alguns professores de Bíblia insistem que em toda
a Escritura o fermento é sempre símbolo do mal. 1

Contudo, o Senhor ordenou que os judeus apresen-


tassem o bolo com fermento quando oferecessem suas

'Observe, por exemplo, os comentários enfáticos de John F.


Walvoord em Matthew: thy kingdom come (Chicago: Moody, 1974,
p. 102-4).
ofertas de comunhão para ação de graças (Lv 7.13). As
ofertas movidas também deviam ser "cozidas com fer-
mento" (23.17). Isto indica que o fermento nem sem-
pre representa uma coisa ruim.
Os mesmos símbolos podem ser usados em dife-
rentes contextos da Bíblia para representar coisas bem
diferentes. Por exemplo, a Bíblia descreve tanto Sata-
nás (IPe 5.8) quanto Jesus (Ap 5.5) como um leão.
Uma serpente representa Satanás (Gn 3.1; Ap 12.9) e
também os crentes (Mt 10.16). O mesmo também
ocorre com o fermento, que não tem significado sim-
bólico uniforme na Bíblia. Temos de interpretar cada
ocorrência por suas próprias características. Em Lucas
13.20,21, Jesus disse que o Reino de Deus {não o rei-
no de Satanás) é como o fermento. O contexto nos
obriga a interpretar o fermento como símbolo do que
é bom. Se representasse as influências demoníacas que
invadiriam a igreja em anos posteriores, nosso Senhor
teria usado o tempo futuro ("o Reino de Deus será
como"). Em vez disso, empregou o tempo presente
(Vcomo"). Além disso, se o fermento fosse uma in-
fluência degradante nessa parábola, Jesus estaria dizen-
do que no final o Reino de Deus fracassaria.
Essa parábola é complementar à anterior. A semen-
te de mostarda ilustra o crescimento externo do Reino
de Deus; o fermento retrata sua capacidade de trans-
formar a sociedade de dentro para fora.
Quando Jesus nasceu em Belém, foi como se Deus
tivesse misturado uma porção minúscula de fermento
na massa da humanidade. E veja o que aconteceu. A
vida de Jesus operou uma metamorfose na vida dos
doze discípulos. Eles, por sua vez, "viraram o resto do
mundo de cabeça para baixo" (At 17.6; BV). Dois mil
anos depois, o fermento do evangelho continua trans-
formando a sociedade. E um dia será ouvido no céu
este brado: " O reino do mundo se tornou de nosso
Senhor e do seu Cristo" (Ap 11.15).
No âmbito individual, podemos dizer que Deus
mistura o fermento de seu Espírito Santo na massa do
coração dos novos convertidos e começa a transformar
cada parte deles. Esse "fermento" influencia o casamento
deles, a família e até a ética nos negócios. Da mesma
maneira que o fermento transforma a mistura de fari-
nha numa massa fervilhante, também o Espírito San-
to, plantado no coração dos cristãos, põe fim aos hábi-
tos pecaminosos. Quando essas pessoas fermentadas
se afastam da comunhão de Deus, descobrem que não
conseguem descansar até que confessem seus pecados e
arrependam-se deles.
O rei Davi de Israel é exemplo disso. Enquanto ten-
tou esconder seu pecado de adultério e assassinato, seu
corpo definhou e ele perdeu a vitalidade (SI 32.3,4).
Davi sentia-se miserável porque o fermento de vida nova
dentro dele não lhe permitia descansar em pecado. Como
uma porção de massa de farinha resultante do efeito do
fermento, o espírito de Davi estava se contorcendo.
O Espírito tem controle sobre você? Ou há um can-
to de sua vida onde o acesso dele é proibido? O fermen-
to persiste até que transforma a porção inteira de fari-
nha. E o Espírito de Deus persevera até transformar sua
vida completamente. As vezes a obra do Espírito exerce
bastante pressão dentro de você, como o fermento que
faz a massa crescer e se expandir. No fim você ficará
parecido com Cristo, o verdadeiro pão do céu.
A influência do fermento começa com a obra de Deus
em seu caráter. Assim que Deus tenha fermentado, ele o
chama para ser o seu fermento no mundo. O desejo
dele é que, por amor a Cristo, você influencie positiva-
mente tudo ao seu redor. Deus quer que você seja trans-
formado e um transformador de outros pela sua graça.
Certa noite, eu e alguns membros de nossa congre-
gação nos apresentamos perante a câmara municipal
para pedir permissão para construir uma nova igreja
num lote desocupado que possuíamos. Depois de muita
discussão, recebemos a autorização oficial para come-
çar. Mais de um ano depois uma mulher participou
pela primeira vez do nosso culto. Após alguns dias,
naquela semana, visitei-a em sua casa e fiquei sabendo
que ela não freqüentava a igreja há anos. Quando lhe
perguntei o que a tocou para ir ao culto, ela respondeu:
"No ano passado o senhor e alguns de seus membros
compareceram perante a câmara municipal para pedir
licença de construção para a sua nova igreja! Eu estava
lá também naquela noite e algo em vocês me chamou
a atenção. Durante todos estes meses eu não consegui
esquecer isso e quis juntar-me a vocês, por isso aqui
estou".
O que havia em nós para chamar a atenção daquela
mulher? O fermento de nosso testemunho. A nature-
za dele é transformar as pessoas com quem tem conta-
to. Naquela noite na prefeitura não tínhamos a menor
idéia de que Deus estava nos usando, mas usou!
Talvez você não esteja certo se o Senhor o está usan-
do. Nesse caso, anime-se em saber que o fermento de
Deus opera invisível e misteriosamente para transfor-
mar a massa dos corações que você toca com o evange-
lho. Às vezes, só Deus pode ver os resultados positivos
de nosso testemunho de Cristo. Mas, se ele os vê, nós
não precisamos ver.
Você pode perguntar: "E as pessoas para quem eu
testemunho que nunca se transformam? Por que o fer-
mento do evangelho não opera nelas?". Às vezes, as pes-
soas para quem você testemunha não são como a massa
de farinha macia. São corações que já se tornaram du-
ros, impedindo que o fermento espiritual se misture neles.
Mas a parábola de Jesus dos quatro solos promete que al-
guns corações estão prontos para a semente do evangelho.
Nesses casos, tudo que você precisa fazer é render-se ao
Espírito e, dessa forma ser o seu agente transformador.

^: :? j-:--/::i^MA&ApeAriTüí>É-
:
r

As parábolas da semente de mostarda e do fermento


nos apresentam três lições importantes, e cada uma
sugere um passo de ação que podemos dar.
A primeira lição é que a vida e o poder do Reino de
Deus já foram liberados. Talvez o seu empenho para
Cristo seja mais como uma semente de mostarda do
que uma árvore e mais como uma pitada de fermento
do que uma porção de massa transformada. Não se
desespere por causa disso; até uma sementinha de mos-
tarda tem vida, e essa pitada de fermento está cheia de
poder. Portanto, espere Deus usar você agora.
O título do livro de George Ladd sobre o Reino de
Deus, Thepresence ofthefuture, lembra-nos á que não
temos de esperar até o reino milenar de Cristo para ver
o reino em ação. Toda a sua vida e todo o seu poder
2

estão germinando agora mesmo. Por isso, peça a seu


Senhor para manifestar essa vida e esse poder por in-
termédio de você.
Segunda lição: as duas parábolas de Jesus advertem
para sermos pacientes com a obra de Deus. Até que

2
Grand Rapids: Eerdmans, 1974.
Cristo volte, a semente de mostarda continuará cres-
cendo, e a influência do fermento não se completará.
Logo, não fique frustrado se aquele seu familiar ou seu
amigo fizer pouco progresso para a conversão, ou ne-
nhum. Deus não esperou por tantos anos você se tor-
nar cristão? Seja paciente com os que hesitam em con-
fiar em Cristo para ser salvos. Não subestime os mi-
núsculos passos que eles dão para depositar a fé em
Cristo. Em vez disso, veja esses passos como evidên-
cias do Reino de Deus operando, porque as sementes
de mostarda e o fermento são pequenos por natureza.
Terceira lição: a semente de mostarda e o fermento
ilustram que Deus quer transformar o mundo espiri-
tualmente. Como membro do Reino, você é um agen-
te de transformação de Deus, ou o mundo lhe está
transformando? A Bíblia nos acautela: "Não se amol-
dem ao padrão deste mundo, mas transformem-se pela
renovação da sua mente" (Rm 12.2).
Jesus nos advertiu de que, como sal da terra, pode-
mos ficar insípidos (Mt 5.13). De modo semelhante,
temos de encarar a possibilidade de ter perdido nossa
influência fermentativa. Anteriormente, eu disse que
o nosso testemunho para Cristo às vezes é ineficaz por-
que o coração de muitos é duro e, por isso, incapaz de
ser misturado com o fermento do evangelho. Mas outra
razão de vermos tão poucos se transformarem é que não
vivemos como agentes espiritualmente fermentados.
Abandonamos esse papel quando dissemos "sim" para
as coisas mundanas.
A semente de mostarda do Reino de Deus está em
seu coração? Então, plante-a como uma nova obra para
Cristo em sua esfera de influência. As boas novas da
morte vicária de Cristo na cruz têm fermentado sua
vida espiritualmente? Então, seja o fermento de Deus
na vida de outra pessoa. Embora seu trabalho do Rei-
no seja diminuto, sua semente de vida e seu germe de
poder podem realizar resultados enormes — tudo pela
salvação de pessoas, pelo crescimento da igreja de Cris-
to e pela glória de Deus.
Uma pergunta
prática:
"Qual de vocês, se quiser cons-
truir uma torre, primeiro não se
assenta e calcula o preço, para
ver se t e m dinheiro suficiente
para completá-la?"
LUCAS 1 4 . 2 8

Foi a coisa mais ridícula que já vi. Quando viajava


pelo sentido norte da rodovia 101 da Califórnia para
visitar meus pais, eis que surge, cruzando a via expressa
no meio da cidade de San José, um gigantesco viaduto
que não levava a lugar nenhum. A construção come-
çou para ser uma via que uniria a rodovia 1 0 1 a outra
via expressa. Mas durante anos ficou ali semiconstruída.
Toda vez que eu passava debaixo daquela via elevada, que
aparentava ter dois ombros e nenhum braço, balançava
a cabeça e ria. Aprendi uma grande lição com essa desa-
gradável vista: uma obra parcialmente acabada expõe
mais ao ridículo seu construtor do que algo jamais ini-
ciado.
Quantas tarefas inacabadas você tem em casa? Tal-
vez tenha comprado um novo balanço para as crian-
ças, mas quando tentou ler as instruções, chegou à con-
clusão de que só um cientista aeroespacial podia
entendê-las. As peças do balanço ainda estão encaixo-
tadas na garagem, em vez de montadas no quintal. Seus
filhos perguntam: "Quando o senhor vai montar nos-
so balanço?". E a cada desculpa você se lembra de que é
um sonhador, não alguém que termina o que começa.
Quem sabe, você tenha começado a escrever uma
carta a um amigo que está sofrendo por causa do di-
vórcio. Depois de duas ou três frases, você não sabe
mais o que dizer, então põe a caneta de lado. Pretende
terminar quando uma onda de inspiração lhe passar
pela mente; mas as águas estão calmas. Essa carta in-
completa era para dar ânimo a seu amigo, mas agora é
você que está desanimado. Ou, talvez, na última vés-
pera de Ano Novo você tenha decidido ler a Bíblia do
começo ao fim durante o novo ano. Com quinze mi-
nutos por dia, atingiria sua meta. Sua leitura estava em
dia até meados de fevereiro, mas você parou por aí.
Seu marcador de páginas ainda está em Levítico, e você
está espiritualmente desanimado.
Em Lucas 14.28-32, Jesus fez duas perguntas práticas
que nos desafiam a completar nossa caminhada com ele.
CALCULE O PREÇO DE SEGUIR A CRISTO

Nessa etapa no ministério de Jesus, sua popularidade


estava em alta. Lemos que "uma grande multidão ia
acompanhando Jesus" (v. 25). Poderíamos parafrasear:
"O povo acompanhava o grupo sem fazer nada". Eram
espectadores curiosos, como as pessoas que sempre
saem correndo quando ouvem a sirene de um cami-
nhão de bombeiro.
Jesus lhes perguntou: "Qual de vocês, se quiser cons-
truir uma torre, primeiro não se assenta e calcula o
preço, para ver se tem dinheiro suficiente para completá-
la?" (v. 28). Normalmente as torres eram construídas
em parreirais como postos de vigilância contra ladrões
que vinham roubar a colheita, os animais e danificar a
safra. As torres eram projetos notáveis. Sendo carpin-
1

teiro, Jesus talvez tivesse construído algumas torres.


No versículo 33, Jesus deu a entender que há uma
analogia entre a torre e o resultado da vida espiritual de
um discípulo. A torre permanece ereta e é uma cons-
trução incomum. Da mesma forma, um discípulo deve
sobressair sendo diferente. Todos constroem algum tipo
de vida. Como é a sua construção? Como um barracão?

'William S. LASOR, towers, in: Geoffrey W Bromiley, org., The


international standard Bible encyclopedia, Grand Rapids: Eerdmans,
1988, p. 881, v. 4.
Uma casa que combina com a vizinhança do mundo?
Ou uma torre que aponta para o céu?
As torres, claro, são caras. Por isso Jesus ordenou
que calculássemos o custo do discipulado.
"A salvação não é gratuita?", você pode perguntar.
" Que conversa é essa sobre o preço que tenho de pagar?".
Sim, a salvação é de graça. A Bíblia ensina clara-
mente que "o salário do pecado é a morte, mas o dom
gratuito de Deus é a vida eterna em Cristo Jesus, nosso
Senhor" (Rm 6.23). Como, então, pode Jesus nos
advertir a calcular o custo do discipulado? Esse tem
sido um dos assuntos mais acaloradamente debatidos
no meio cristão nos últimos anos.
Suponha que um pai leve o filho aniversariante até
a garagem da casa. Logo que entram, o filho vê um
carro novo em folha, e o pai grita: "Feliz aniversário!".
O carro é seu presente para o filho, que nada pagou
para recebê-lo. Mas mantê-lo é outra história. O jo-
vem tem de arrumar um emprego para ganhar seu pró-
prio dinheiro e gastar em abastecimento, manutenção,
consertos, seguro e taxas. Possuir um carro é uma ex-
periência cara.
Alguns motoristas tentam se virar com o mínimo
possível. Não fazem a manutenção e os consertos, isso
sem mencionar o seguro, que também não pagam e,
às vezes, até as taxas de registro não são recolhidas. Con-
seqüentemente, o veículo dessas pessoas faz ruído, enguiça
e quebra. Muitos cristãos tentam arranjar-se sem pagar
o custo do discipulado. São espectadores na igreja, não
soldados no campo de batalha. Vêm para assistir aos
trabalhos, mas não querem arcar com o compromis-
so. Podem ser crentes, mas não são discípulos.
William Barclay conta a história de um homem
que disse a um professor: "Soube que Fulano foi um
de seus alunos". O professor respondeu: "Não. Ele as-
sistiu às minhas aulas, mas não foi meu aluno". 2

O significado da palavra discípulo é "aprendiz". O 3

que Jesus diria sobre você? "Ela ouviu sermões durante


décadas, mas nunca aprendeu nada; ela não é discípula
minha."
Sempre que celebro uma cerimônia de casamento,
lembro aos convidados que "casamento não é assumir
um compromisso capenga, mas, sim, reverente, sábio,
com mente sã e temente a Deus". Os noivos devem
calcular o custo do casamento, mas muitos não fazem
isso. Eles se casam do mesmo modo que os demais
casais que se prepararam cuidadosamente para o ma-
trimônio e assumiram o compromisso de viver com

2
The Gospel ofLuke, Filadelphia: "Westminster, 1956, p. 203
(Série Daily Bible Studies).
3
W. E . VINE, Merrill F. UNGER & William WHITE, Dicionário
Vine: o significado exegético e expositivo das palavras do Antigo e
do Novo Testamento, Rio de Janeiro: CPAD, 2 0 0 3 .
amor. Mas os que se apressaram em casar têm muito
mais dificuldades de se ajustar e fazer a união dar certo.
Todo cristão está casado com Jesus, mas nem to-
dos calculam o custo de viver para Cristo diariamente.
A palavra "preço" em Lucas 14.28 mostra que Jesus
estava falando sobre calcular a despesa do discipulado. 4

A igreja a que sirvo atualmente como pastor construiu


um prédio num local novo. Descobrimos que havia cus-
tos intermináveis — terreno, projeto, impostos, licenças,
melhorias, empreiteiro e a estrutura. Durante oito anos
planejamos, trabalhamos, juntamos informações, conver-
samos com os empreiteiros, reunimo-nos com funcioná-
rios públicos, solicitamos licenças, mas ainda não tínha-
mos nem sequer escavado o solo! Há um alto custo —
financeiro e de outra ordem — implicado em qualquer
projeto de construção. E qual o custo do discipulado?
Em primeiro lugar, custa nossa lealdade. Jesus dis-
se: "Se alguém vem a mim e ama o seu pai, sua mãe,
sua mulher, seus filhos, seus irmãos e irmãs, e até sua
própria vida mais do que a mim, não pode ser meu
discípulo" (v. 26). Os estudiosos concordam que nesse
versículo nosso Senhor estava empregando uma
hipérbole, uma figura de linguagem que constitui exa-
gero intencional. O versículo paralelo, Mateus 10.37,

4
F. Wilbur G l N G R I C H & Frederick W. DANKER, Léxico do Novo
Testamento grego/ português, São Paulo: VidaNova, 1993.
confirma isso. Nele Jesus manda que não amemos pai,
mãe, filho oufilhamais que a ele. Nossa lealdade a Cristo
tem de ultrapassar a lealdade que devotamos aos que
nos são mais próximos e queridos. Se fôssemos obriga-
dos a escolher entre nossa submissão a Cristo e nossos
familiares, não deveríamos hesitar em ficar do lado de
nosso Senhor.
Conheci homens e mulheres que perderam o cônjuge
por causa da mudança de lealdade. Antes da conversão,
esses homens e essas mulheres pecavam com seus compa-
nheiros e eram indulgentes com o pecado deles. Mas as-
sim que entregaram a vida a Cristo, decidiram-se contra a
iniqüidade. Em um dos casos, o problema era embria-
guez; noutro, troca de casais e noutro, aborto. Quando se
recusaram a fazer parte desses pecados, foram substituí-
dos por outro parceiro. Essas pessoas calcularam o custo
do discipulado e dispuseram-se a pagar o preço.
Segundo, o discipulado de Jesus nos custa a vida.
Nosso Senhor nos advertiu: "Aquele que não carrega
sua cruz e não me segue não pode ser meu discípulo"
(Lc 14.27). O que é necessário para carregar a cruz?
Muito mais do que carregar um fardo. Às vezes os cren-
tes dizem: "Meu divórcio não desejado é a cruz que
carrego" ou "Minha cruz é um filho rebelde". Mas o
requisito de Jesus de que tomemos a cruz significa
que isso é algo que podemos evitar, mas não devemos.
Já o divórcio e filhos rebeldes são problemas que Cris-
to quer que façamos nossa parte para evitar.
A cruz que temos de carregar, portanto, é o sofrimen-
to do qual poderíamos escapar caso estivéssemos dispos-
tos a nos comprometer com nossa fé. Os discípulos pre-
ferem sofrer a comprometer-se com a fé. Nos dias de
Jesus, a cruz era usada para um só propósito: executar
pessoas. Nosso Senhor estava dizendo: "Se você quiser
5

ser meu discípulo, deve estar disposto a morrer por mim".


As primeiras palavras de Dietrich Bonhoeffer em seu
livro clássico O custo do discipulado são: "Quando Cris-
to chama um homem, ele o convida para vir e morrer".
Nossa disposição de morrer fisicamente por Cristo
deve ser exercitada todos os dias de forma espiritual.
Paulo declarou: "Eu morro diariamente" (ICo 15.31).
Toda manhã, Paulo armava sua cruz, por assim dizer, e
mortificava seu ego para que Cristo pudesse viver por
meio dele. Paulo calculou o custo do discipulado e
estava disposto a pagar o preço.
Jesus morreu na cruz para nos purificar do pecado.
Isso indica que carregar nossa cruz significa que estamos
dispostos a abandonar o pecado. Esse é o terceiro custo do
discipulado. Isaías 55.7 diz: "Que o ímpio abandone o

5
V. H. L. DRUMWRIGHT, crucifixión, in: Merrill C. Tenney,
org., TheZondervanpictóricaencyclopedia of the Bible, Grand Rapids:
Zondervan, 1976, p. 1040-2, v. 1.
seu caminho". O Novo Testamento nos diz que "no
tempo que [nos] resta, não [vivamos] mais para satis-
fazer os maus desejos humanos, mas sim para fazer a
vontade de Deus" (IPe 4.2).
Os discípulos são pessoas livres. Em Cristo, são li-
vres do sexo extraconjugal, da profanação, do ciúme,
do temperamento explosivo, da embriaguez, da ganân-
cia e dos mexericos. Eles não são perfeitos, mas não
estão sob a escravidão do pecado. O problema de muita
gente não é ser escrava do pecado, mas não querer ser
liberta dele. Essas pessoas estão contentes em ser escra-
vas do pecado e não querem ser perturbadas. Elas pre-
judicam a causa de Cristo quando se autodenominam
seguidores suas, porque nunca calcularam o custo do
discipulado. São responsáveis pelas acusações de hipo-
crisia que o mundo lança sobre a igreja.
Jesus compara esses hipócritas ao homem que não
soube calcular o custo de consttução de sua torre. "To-
dos os que a virem rirão dele, dizendo: 'Este homem
começou a construir e não foi capaz de terminar'" (Lc
14.29,30). Por definição, torre é uma edificação que
se ergue acima de tudo em volta. Logo, se o constru-
tor completou apenas os alicerces, tornou-se objeto de
ridículo.
Se quiser que Satanás zombe de você, siga a Cristo
sem calcular o custo. Sua família e seus amigos se
mostrarão céticos quando você declarar sua submissão
a Cristo. A zombaria será sem fim se você fracassar no
discipulado. Todos rirão e dirão: "Nós avisamos que
isso era apenas uma fase por que você estava passando.
Sabíamos que voltaria à velha vida. Você não admitia
que seu compromisso cristão era só uma moda passa-
geira; insistia que era permanente. Agora sabemos a
verdade, não é?".
No Antigo Testamento, seguir a Deus custou o lar a
Abraão. Custou a José dois anos na prisão por um cri-
me que não cometera. Custou a Moisés todas as rique-
zas do Egito. Custou a Sadraque, Mesaque e Abede-
Nego alguns momentos na fornalha ardente. Custou a
Daniel uma noite na cova dos leões. No Novo Testa-
mento, seguir a Cristo custou a vida de Estêvão, morto
por apedrejamento. A Paulo, custou a família, os ami-
gos e a reputação. A João, o exílio na ilha de Patmos.
Talvez, quando se converteu, você não tenha calcula-
do o custo de seguir a Cristo. Tudo que sabia era que
estava recebendo o perdão dos seus pecados, um lar eterno
no céu e Jesus em sua vida. Pode ser que tenha ignorado
completamente o custo do discipulado. Mas e agora?
Jesus é só uma conveniência para você? Sua relação com
Cristo é unilateral, com compromisso apenas da parte
dele? Ou você lhe concedeu total autoridade sobre suas
decisões, seus planos, suas finanças, metas e carreira?
Quando Júlio César desembarcou no litoral da
Bretanha com as legiões romanas, ordenou que seus
homens parassem na extremidade dos despenhadeiros
de Dover e olhassem para o mar abaixo. Eles ficaram
chocados ao ver incendiados todos os navios com que
haviam cruzado o canal da Mancha. César tomou pro-
vidências para que não retornassem. Não restava nada
que fazer a não ser avançar e conquistar. Os guerreiros
talvez não tivessem calculado o custo da operação
quando se alistaram, mas iam pagá-lo a partir daquele
momento.
Cristo quer que você ponha fogo em todas as suas
pontes com os pecados deixados para trás. Cada vez
que a tentação o enfrentar, pergunte-se: "Devo?". E res-
ponda: "Não devo ceder porque entreguei minha vida
a Cristo". Se você for estudante universitário, e os pro-
fessores zombarem de sua convicção na Bíblia, não dê
importância aos argumentos deles fazendo uma nova
decisão pró ou contra Cristo. Deus quer que você diga
ao mestre escarnecedor: "E tarde demais para tentar
destruir minha fé. Ela está bem alicerçada". Essa é a
mentalidade do discípulo.

AVALIE O CUSTO DE NÃO SEGUIR A CRISTO


Agora, mediante uma segunda pergunta, nosso Senhor
nos pede que avaliemos o custo de não segui-lo: "Ou,
qual é o rei que, pretendendo sair à guerra contra ou-
tro rei, primeiro não se assenta e pensa se com dez mil
homens é capaz de enfrentar aquele que vem contra ele
com vinte mil? Se não for capaz, enviará uma delega-
ção, enquanto o outro ainda está longe, e pedirá um
acordo de paz" (Lc 14.31,32).
O homem que estava pretendendo construir a tor-
re não tinha nenhuma obrigação de fazer isso. Era uma
boa idéia, mas ele tinha outras opções. Podia ter posto
guardas ao redor da vinha e obtido o mesmo resulta-
do. Mas o rei que ia para a guerra não tinha escolha.
Jesus diz que o inimigo já estava vindo contra ele com
vinte mil soldados. Suas únicas opções eram lutar ou
render-se. Ele não podia permanecer neutro.
Temos um inimigo também. Seu nome é Satanás.
Ele vem contra nós com todas as hostes do inferno e
não podemos detê-lo. Conforme Paulo nos lembra em
Efésios 6.12: "A nossa luta não é contra seres huma-
nos, mas contra os poderes e autoridades, contra os
dominadores deste mundo de trevas, contra as forças
espirituais do mal nas regiões celestiais". Como o rei
da parábola de Jesus, temos duas escolhas. Podemos
travar guerra contra o Diabo ou nos render a ele.
Por nossa própria força, não somos páreo para Sa-
tanás, da mesma forma que um rei com dez soldados
não tem chance alguma de derrotar um inimigo com
dez milhões de combatentes. Todavia, uma pessoa mais
Jesus Cristo é sempre maioria. Se nos entregarmos a
ele, o Senhor será a nossa defesa. Mais que isso: "Mas,
em todas estas coisas somos mais que vencedores, por
meio daquele que nos amou" (Rm 8.37).
Por conseguinte, o custo de não se render a Deus é
render-se a Satanás. O custo de não seguir a Cristo é
submeter-se ao Diabo. Não se pode permanecer neu-
tro. Se não abraçar a causa de Cristo, você se volta para
Satanás. Está disposto a pagar esse preço?
Dwight Small escreveu um livro muito conhecido
intitulado The high cost ofholy living [O alto custo de
um viver em santidade}. Quem sabe, a continuação
não poderia ter o título The high cost ofunholy living
[O alto custo de viver uma vida profana]. Não ser cris-
tão comprometido tem um preço muito elevado, tão
elevado que não temos condições de pagar nossa dívi-
da do pecado com nossos próprios recursos. Em con-
seqüência, Satanás o cobra de nossos familiares e ami-
gos. Os pecados que cometemos sob o jugo satânico
ferem as pessoas que amamos, que pagam o preço de
nossa falta de discipulado com corações quebrantados
e vidas marcadas. O custo de não seguir a Cristo é a
devastação para as pessoas ao nosso redor.
Se achamos que podemos escolher entre servir a
Cristo e servir a nós mesmos, estamos enganados. A
escolha real está entre servir a Deus ou ao Diabo. A
melhor escolha que podemos fazer é tornar-nos escra-
vos do mestre certo. Desse modo, encontramos nossa
maior liberdade.
TOMADA DE ATITUDE
Fico fascinado com o fato de Jesus não ter dito se a
torre foi construída nem se o rei foi à guerra em vez de
se render ao inimigo. Tudo o que Jesus disse foi que o
construtor e o rei refletiram sobre as opções. Talvez nos-
so Senhor não tenha divulgado a decisão final porque
ele quer que nós escrevamos o final de suas histórias.
Somos o construtor e enfrentamos a batalha. O que
faremos agora: pagar o custo do discipulado ou nos
render a Satanás? Esse é o desafio deste texto. O gran-
de especialista da Bíblia, G. Campbell Morgan, disse
que nunca leu Lucas 14.28-32 sem se perguntar se era
realmente um discípulo. Eu e você temos uma obri-
6

gação para com nós mesmos: refletir seriamente sobre


a pergunta de Morgan. Depois temos uma obrigação
para com aquele a quem chamamos de Senhor: entre-
gar-nos a ele com total compromisso.
Parece que o desafio de Jesus afugenta alguns leito-
res. É como se ele dissesse: "Saia de perto de mim se
você não está disposto a calcular o custo do discipulado
e pagar por ele". A não ser que seja verdade, é arriscado
dizer: O custo do discipulado passa a ser um privilégio

6
G . Campbell MORGAN, The Gospel according to Luke, New
YorlcRevell, 1931, p. 175.
quando recordamos o preço da salvação que Jesus pa-
gou totalmente por nós.
Nosso Senhor leva-nos a desistir de nossa lealdade
terrena, dos pecados que acariciamos e do controle de
nossa vida. Mas Cristo foi muito além disso. Ele aban-
donou seu lar no céu. Abriu mão de seus privilégios
reais, fez-se servo, tornou-se humano. Obedeceu ao
Pai sempre, até a morte na cruz (Fp 2.5-8). Jesus de
bom grado pagou por nós o preço definitivo derra-
mando seu sangue. Por amor a nós suportou a ira de
Deus a fim de que fôssemos perdoados (2Co 5.21).
Jesus não deixou pela metade o trabalho que o Pai
lhe confiara. Pôde dizer ao Pai em oração: "Eu te glo-
rifiquei na terra, completando a obra que me deste para
fazer" (Jo 17.4). Ninguém jamais poderá zombar de
Jesus por uma tarefa inacabada. Satanás não pode zom-
bar de nosso Senhor por vir à terra e morrer no
Calvário. Jesus pôde bradar da cruz: "Está consuma-
do!" (João 19.30). Ele calculou o custo de nossa salva-
ção e pagou-o integralmente. Não há hipoteca que
precisemos pagar por nossa alma.
A única coisa que nos resta fazer é seguir a Cristo
pela estrada do compromisso, do serviço e do amor.
Embora íngreme, esse é o único caminho para a vida
abundante e a plenitude de alegria.
U m a pergunta
misteriosa:
"Não fui eu que os escolhi, os
Doze? Todavia, u m de vocês é
um Diabo!"
JOÃO 6 . 7 0

É difícil pensar num vilão bíblico mais famigerado


que Judas Iscariotes. Talvez o único qualificado seja o
Diabo. Não conheço ninguém que tenha o nome de
Judas. É muito desprezível. Jesus mesmo o chamou
de "um Diabo" (Jo 6.70). Judas executou a obra do
Diabo traindo Cristo. Isso não significa que Judas era
diferente de qualquer ser humano, pois nosso Senhor
também chamou Pedro de "Satanás" (Mt 16.23).
Muitos leitores da Bíblia ficam perplexos com a
pergunta de Jesus em João 6.70: "Não fui eu que os
escolhi, os Doze? Todavia, um de vocês é um Diabo!".
Por que Jesus convidaria um homem para seu grupo
de discípulos que se tornaria traidor? Permita-me su-
gerir duas razões.
Em primiero lugar, acredito que nosso Senhor con-
siderava Judas um seguidor potencial. Jesus o chamou
ao discipulado da mesma maneira que convocou Pedro,
Tiago, João e os outros. Se Judas tivesse respondido
ao amor e aos ensinos de Jesus, podia ter sido um pilar
na igreja primitiva.
Em segundo — e este é o outro lado do mistério —,
Jesus chamou Judas porque tinha de passar pelo sofri-
mento máximo para cumprir seu papel de Salvador
do mundo. Nenhuma expressão da ira de Deus pode-
ria ser retida. Nosso Senhor teve de prová-la plena-
mente. Que maneira melhor de começar do que pelo
beijo traiçoeiro de um amigo?
Maridos e mulheres que flagraram o companheiro
no ato do adultério têm alguma idéia da agonia que
Jesus deve ter sentido quando um de seus próprios dis-
cípulos interrompeu-lhe a oração para que o principal
dos sacerdotes pudesse prendê-lo. Essa foi a primeira
parcela do sofrimento total, que foi desencadeado com-
pletamente quando nosso Senhor morreu na cruz
como sacrifício pelos nossos pecados.
A pergunta referente ao motivo de Jesus ter esco-
lhido Judas como seu discípulo não é mais difícil de
responder do que esta: Por que nos escolheu? Quando
Cristo olhou para nós, ele viu pessoas puras? Não.
Como Judas, nós tínhamos uma natureza diabólica que
queria reivindicar para si mesma a glória que pertencia
por direito a Deus. Jesus escolheu Judas e a nós para ser
seus seguidores, não porque tivéssemos alguma coisa para
oferecer-lhe, mas porque tinha tudo para nos oferecer.
Se rastrearmos sua escolha para investigar o que a moti-
vou, chegaremos a sua própria graça. Agora vamos con-
siderar seis lições importantes do exemplo de Judas.

SATANÁS QUER INFILTRAR-SE N A


COMUNHÃO DOS CRENTES
Se já houve um grupo de crentes reunido para desfru-
tar a comunhão com Cristo e uns com os outros, esse
era o grupo dos doze. Marcos 3.14 nos diz que Jesus
"escolheu doze [...] para que estivessem com ele". O
propósito fundamental desse grupo era proporcionar
a seus membros um conhecimento íntimo de Cristo.
De acordo com João 17.3, a vida eterna é isso.
Poderíamos presumir que Satanás temesse esse gru-
po do qual Jesus era o cabeça. Poderíamos pensar que
esse seria o último círculo de companheirismo a que
Satanás quisesse juntar-se. Pelo contrário, foi o primei-
ro. Jesus estava comissionando esses homens para fa-
zerem discípulos de todas as nações (cf. Mt 28.19).
Logo, se Satanás queria destruir o trabalho de Cristo,
sua melhor oportunidade seria frustrar a resistência na
origem, infiltrando-se no meio dos doze. Por meio de
Judas, o Diabo conseguiu realizar seus planos.
Adivinhe qual é o lugar favorito de Satanás agora?
Não é o bar mais próximo, a loja de artigos pornográ-
ficos, as casas de prostituição. Satanás vai à igreja. Às
vezes você perde um culto de adoração, mas o Diabo
não. Ele sempre está presente lançando as sementes de
discórdia entre os crentes. Sempre que os cristãos se
reúnem para a oração, aí também se achará o Diabo.
Você já foi ofendido por outro membro de sua igre-
ja? Ficou zangado com ele por causa disso? A desaven-
ça entre vocês não é um mero conflito de personalida-
des; é o trabalho de Satanás. Não deixe passar outro
dia sem antes procurar seu irmão e fazer as pazes com
ele. O progresso do evangelho depende disso.
Você menospreza no íntimo as pessoas que freqüen-
tam uma igreja diferente da sua? Talvez jamais confesse
isso, mas acha que não pode ter comunhão com crentes
que falam em línguas, por exemplo. Talvez até duvide
de que eles são realmente crentes, porque não adotam
seu estilo de cristianismo. Cuidado com essa atitude!
Ela nada mais é que o fruto da estratégia satânica.
Uma menininha perguntou à amiga se esta gostaria de
ir à igreja com ela no domingo. A amiga disse que teria de
pedir para a mãe. Depois disso, chegou com a resposta:
"Minha mãe disse que não posso ir à igreja com você por-
que pertencemos a abominações diferentes".
Exatamente! Satanás sabe que pode nos expor ao
ridículo se conseguir dividir-nos. Se temos realmente
necessidade de nos filiar a denominações, vamos acei-
tar generosamente que outros exaltem o Cristo da Bí-
blia. Cerrarmos fileiras uns contra os outros é realizar
o propósito do Diabo.

É DIFÍCIL R E C O N H E C E R O S HIPÓCRITAS
Quando Jesus disse aos seus discípulos que um deles
era um diabo, os outros onze não desprezaram Judas,
dizendo: "Nós sabemos muito bem quem é esse dia-
bo!". Se soubessem, podemos ter certeza de que teri-
am-se levantado contra Judas. Mas o grupo inteiro fi-
cou boquiaberto. Em geral não entendiam as parábo-
las de Jesus e talvez tenham pensado que essa declaração
seria outra de suas afirmações obscuras. Nessa fase, até
o próprio Judas talvez não soubesse que Jesus estava se
referindo a ele.
Entre os doze, havia um único cargo, o de tesourei-
ro, o qual era ocupado por Judas. O principal requisi-
to de quem cuida de dinheiro é honestidade. Os discí-
pulos imaginavam que a tinham encontrado em Judas.
Eles confiaram nele até o fim.
Na noite de sua prisão, Jesus predisse: "Digo-lhes
que certamente um de vocês me trairá" (Jo 13.21). O
versículo 22 relata que "seus discípulos olharam uns para
os outros, sem saber a quem ele se referia". Imagine,
depois de três anos de convivência com Judas, eles ain-
da não sabiam que ele era o traidor. Judas agia como
Satanás e também agia como apóstolo de Jesus. Não
espere reconhecer a hipocrisia em todo impostor que
apareça. Mesmo no céu seremos surpreendidos pela
ausência de pessoas que sempre acreditamos sem ne-
nhuma dúvida que estariam lá.

É PRECISO VIGIAR C O N T R A A HIPOCRISIA


Há alguns anos batizei um homem que tinha feito uma
alegre profissão de fé em Cristo. Meses depois, ele es-
tava vivendo com uma amante. Um amigo e membro
de nossa igreja pediu-lhe que obedecesse à Palavra de
Deus e abandonasse o pecado, mas este se recusou. O
amigo lembrou-lhe o recente batismo, em cuja oca-
sião ele tinha feito um juramento público de viver para
Cristo. Ele apenas riu e disse: "Dê o fora!".
O amigo me contou com profunda mágoa sobre
esse encontro e perguntou: "Como isso pôde aconte-
cer?". Também fiquei triste ao saber disso, mas, para
consolar meu amigo, lembrei-lhe: "Até Jesus teve seu
Judas".
Muitas pessoas ficam longe da igreja por causa dos
hipócritas que a freqüentam. Isso revela a hipocrisia
dos que se afastam. A vida conjugal tem sua dose de
hipocrisia, mas isso não impede que as pessoas se ca-
sem. Há hipócritas nos negócios, mas isso não impede
as pessoas de começarem um negócio. A sociedade está
cheia de hipócritas de toda espécie. Por que, então, as
pessoas que dizem não suportar a igreja por causa da
hipocrisia não se tornam ermitãs? Essas pessoas têm
dois pesos e duas medidas. Isso, porventura, não é hi-
pocrisia?
Se um hipócrita está entre você e Cristo, ele está
mais perto do Senhor do que você. Charles Spurgeon
disse certa vez: "Quanto mais uma igreja floresce, mais,
creio eu, os hipócritas aparecem, da mesma maneira
que vemos muitos bichinhos nocivos rastejando num
jardim depois de uma forte chuva. Os mesmos ele-
mentos que fazem as flores viçosas trazem essas coisi-
nhas perniciosas". 1

Por isso, poupemos as desculpas. Até Jesus voltar, a


igreja sempre estará contaminada pela hipocrisia. Não
devemos ser pegos de surpresa, nem afugentados por
isso. Devemos sondar nosso coração. O exemplo de
Judas nos adverte de que qualquer cristão pode tornar-
se um hipócrita. Todas as vezes que cantamos um hino,
damos ofertas ou contamos aos outros que somos cris-
tãos, beijamos Jesus. Será um beijo sincero? Se não
for, repetimos o pecado de Judas fazendo papel de hi-
pócritas e traímos o Senhor.

'Tom CARTER, ed., 2,200quotationsfront the writings of Charles


H. Spurgeon, Grand Rapids: Baker, 1988, p. 106.
A GANÂNCIA CAUSA SEPARAÇÃO ENTRE
VOCÊ E CRISTO
Durante séculos, os estudiosos especularam por que
Judas traiu Jesus. Alguns disseram que Judas, como
Saulo de Tarso, em Atos, estava convencido de que
Jesus era um falso Messias. Outros alegaram que Judas
estava ofendido pela aparente indiferença de Jesus pela
lei e a violação do sábado. Ainda outros teorizaram
que Judas se voltou contra Jesus porque foi negligen-
ciado como líder entre os discípulos. Por exemplo,
Jesus levou Pedro, Tiago, e João — mas não Judas —
para o monte da transfiguração (Mc 9.2). Judas tam-
bém não conseguiu sentar-se próximo de Jesus, como
João, na última ceia (Jo 13.23).
Thomas DeQuincey propôs que o objetivo de Judas
não era levar Jesus à morte, mas forçá-lo a usar seu
poder sobrenatural. Pouco antes de dar o beijo traidor
em Jesus, Judas disse: "Salve, Mestre!" (Mt 26.49).
Com isso ele supostamente quis dizer: "Solte seu po-
der e destrua esses inimigos nossos! É claro que é me-
lhor você fazer isso do que se deixar prender e crucifi-
car!". Mas Judas estava tragicamente equivocado.
Entretanto, nós não podemos nos ater a essas reori-
as, pois o Novo Testamento não se preocupa em entrar
na psique de Judas. O texto diz apenas que Judas cedeu
ao pecado de ganância. "Então, um dos doze, chamado
Judas Iscariotes, dirigiu-se aos chefes dos sacerdotes e
lhes perguntou: 'O que me darão se eu o entregar a vo-
cês?'. E lhe fixaram o preço: trinta moedas de prata. Desse
momento em diante Judas passou a procurar uma opor-
tunidade para entregá-lo" (cf. v. 14-16).
Judas é um exemplo clássico da advertência encon-
trada em 1 Timóteo 6.10: "Pois o amor ao dinheiro é a
raiz de todos os males. Algumas pessoas, por cobiça-
rem o dinheiro, desviaram-se da fé e se atormentaram
com muitos sofrimentos".
Hoje Jesus ainda é vendido para o Diabo. Uma
pessoa o vende pelo preço de uma revista pornográfi-
ca. Outro deixa Cristo de lado por um salário sema-
nal, obtido através de tapeação dos clientes. Ainda ou-
tro vende Jesus em troca de amigos incrédulos que
nunca se associariam a um cristão.
Certa vez, um pastor embarcou num ônibus e entre-
gou ao motorista uma nota de dez dólares para pagar a
passagem. O motorista lhe deu troco para vinte dólares
em vez de dez. Portanto, deu ao pastor dez dólares a mais.
No princípio, o pastor pensou: "Puxa, como Deus pro-
vê !". Durante o trajeto, foi pensando que precisava mais
do dinheiro que a empresa de ônibus. Mas esse dinheiro
começou a incomodar-lhe a consciência. Quando desceu
do ônibus, o pastor devolveu o dinheiro ao motorista e
disse: "Aqui, você se enganou, me deu troco a mais".
O motorista sorriu e disse: "Não foi engano. Eu
estava em sua igreja domingo passado e o ouvi pregar
contra o amor ao dinheiro. Quando o vi entrar no
ônibus, decidi testá-lo para certificar-me se o senhor
estava mesmo falando sério".
A ganância se disfarça e nos tenta sutilmente a trair
aquele que chamamos de Senhor.

O PECADO NÃO CUMPRE SUAS PROMESSAS


Mateus 27.3 relata que "quando Judas, que o havia
traído, viu que Jesus fora condenado, foi tomado de
remorso e devolveu aos chefes dos sacerdotes e aos lí-
deres religiosos as trinta moedas de prata". Destaque as
palavras, "quando Judas [...] viu". Ele só percebeu a
enormidade de sua culpa depois de ter cometido o cri-
me. Antes disso, tudo o que enxergava era o lucro.
Essas palavras fazem-nos lembrar de Adão e Eva.
Reflita no que a Bíblia diz deles depois de terem comi-
do o fruto proibido: "Os olhos dos dois se abriram"
(Gn 3.7). Adão e Eva pensaram que sua desobediência
ao mandamento divino iria torná-los Deus, mas de-
pois do dano consumado, enxergaram a questão de
outra forma. Perceberam que isso somente lhes trouxe
vergonha. O mesmo se deu com Judas; prometeram-
lhe ganho, mas entregaram culpa.
Experimentamos a mesma conseqüência, não é
mesmo? Hebreus 3.13 nos previne contra "o engano
do pecado", que nos promete vida, mas traz morte;
oferece a possibilidade de felicidade, mas tudo o que
sentimos no final é miséria. O pecado é um mentiro-
so. Judas comprou a mentira por trinta moedas de prata.
Desse modo, não só revelou quanto Cristo valia para
ele, mas também quanto subestimou sua própria alma.
Como C. J . Wright disse:

Mesmo depois de velhos,


somos avaliados por nós mesmos;
por trinta peças, Judas vendeu
a si mesmo, não a Cristo. 2

Muitas pessoas abandonaram o cônjuge afimde


encontrar felicidade com outra pessoa, mas descobri-
ram mais tarde que a infelicidade não era causada pelo
primeiro parceiro, mas pelo próprio coração. Essas
pessoas não conseguiam tolerar a monotonia de um
casamento rotineiro. O sonho de uma relação entusi-
asmada com um novo alguém os atraía. Mas o brilho
de um novo relacionamento também acabou caindo
na mesma maçante rotina, e o pecado escarneceu de
outra vítima.
Qualquer que seja o pecado que você admire, ele
não cumprirá suas promessas. Temos a tendência de pen-
sar em Judas como calculista, astuto e escravo voluntário

1
Jesus the revelation ofGod, London, 1950, p. 164, cit. Leon
MORRIS, The cross in the New Testament, Grand Rapids: Eerdmans,
1965, p. 149.
de Satanás. Mas ele estava mais para um inseto que in-
vadiu inadvertidamente a teia de aranha. Não suponha
que você jamais venha a ser um Judas. Dê uma abertura
a Satanás, e ele o transformará num traidor também.

O REMORSO NÃO SUBSTITUI O


ARREPENDIMENTO
A Bíblia nos diz que depois de Judas haver traído Je-
sus, "foi tomado de remorso e devolveu aos chefes dos
sacerdotes e aos líderes religiosos as trinta moedas de
prata. E disse: 'Pequei, pois traí sangue inocente" (Mt
273b,4a). Que espantosa confissão! Judas não se es-
quivou de sua responsabilidade dizendo: "O Diabo me
forçou a isso" ou "Eu não tive intenção". Nem tentou
lançar a culpa sobre ninguém alegando: "Os chefes dos
sacerdotes me pagaram para entregar Jesus". Judas con-
fessou: "Pequei, pois traí sangue inocente". Ele estava
longe de ser o Diabo encarnado. Era um homem tor-
turado pelo terrível erro cometido.
Por isso, havia esperança para Judas mesmo depois
de ter se mostrado infiel. Se ele tão-somente tivesse le-
vado seu fardo a Jesus, teria encontrado o perdão. Mas
preferiu voltar-se para os chefes dos sacerdotes. Em vez
de confessar seu pecado a Jesus, Judas tentou devolver o
dinheiro aos inimigos do Salvador. Tentou livrar-se da
culpa por meios humanos em vez de valer-se dos recur-
sos divinos.
O jeito humano de solucionar o problema da cul-
pa é o remorso, mas o de Deus é o arrependimento. A
enorme diferença entre os dois é revelada em
2Coríntios 7.10: "A tristeza segundo Deus não pro-
duz remorso, mas sim um arrependimento que leva à
salvação, e a tristeza segundo o mundo produz mor-
te". Se Judas se tivesse arrependido, teria sido salvo.
Mas ele parou no remorso — tristeza do mundo — e
isso produziu mortes física, espiritual e eterna.
Não devemos olhar para nossa consciência a fim
de que nos diga o que é certo ou errado. A consciên-
cia apenas nos diz para fazer o certo. Não nos indica,
porém, o que é o certo. Para aprender essas coisas,
temos de conhecer a Palavra de Deus. Foi aí que Judas
errou. Ele deixou de aprender e colocar em prática a
orientação da Bíblia. Ele deveria ter confessado o pe-
cado a Cristo, mas recorreu a pessoas. Porque elas
não puderam ajudar, o desespero o levou a dar cabo
da própria vida.
Quando sua consciência o acusa de fazer algo erra-
do, a quem você recorre? A um amigo, um psicólogo,
um pastor? Eles não podem resolver seu problema de
pecado. Só Jesus pode ajudá-lo. Ele carregou sozinho
os seus pecados quando morreu na cruz. E para onde
os levou? "Como o Oriente está longe do Ocidente,
assim ele afasta para longe de nós as nossas transgres-
sões" (SI 103.12).
TOMADA DE ATITUDE
As últimas palavras da Bíblia sobre Judas dizem que, de-
pois de ele ter se suicidado, foi "para o lugar que lhe era
devido" (At 1.25). Esse é um modo velado de dizer que
elefoipara o inferno. Em vez de menosprezar Judas com
base em nossa justiça própria, vamos entender que se não
fosse pela graça de Deus, o nosso destino também pode-
ria ser o mesmo de Judas. Portanto, confessemos:

Senhor, quando leio sobre a condenação do trai-


dor, ao lugar que lhe era devido, que temor santo
e esperança humilde enchem-me a mente!
Eu também te traí, mas fui salvo pela graça
incomparável; de outro modo, o mais profundo e
tórrido inferno teria por certo sido o meu lugar. 3

Fico imaginando o que Jesus dirá a Judas no juízo


final. Talvez Cristo o olhe diretamente nos olhos e
pergunte: "Uma morte não foi suficiente, Judas? Eu
morri para que você não tivesse de ser castigado eter-
namente. Mas você se recusou confiar em mim e ter o
perdão. Você tirou sua própria vida. Agora terá tam-
bém de sofrer a segunda morte no inferno".
Hoje Jesus lhe diz: "Eu morri para que você não
tivesse de morrer". Você fica feliz com a idéia de que o

3
Charles H . SPURGEON, 'Spurgeons devotional Bible, Grand
Rapids: Baker, 1977, p. 6 0 7 .
Senhor pagou o preço de seus pecados? Ou, como
Judas, você insiste em castigar-se com culpa e passar
desnecessariamente para a eternidade sem Cristo? Se
você alega ter fé em Cristo, prove arrependendo-se de
seus pecados e desfrutando o perdão do amoroso Pai
celestial.
Judas sempre será lembrado como o homem que
vendeu Jesus. Você e eu também vendemos Jesus. Mas
Deus jamais vendeu seu Filho. Ele o deu gratuitamen-
te. " O dom gratuito de Deus é a vida eterna em Cristo
Jesus, nosso Senhor" (Rm 6.23).
O oposto de vender Jesus é recebê-lo pela fé. E o
oposto da traição é o amor. Não há meio-termo entre
os dois. Decida dar a Cristo sua fé e seu amor. Essa não
é uma decisão comum, porque determina se você pas-
sará a eternidade com Judas ou com Jesus.
Uma pergunta
ousada:

"Qual de vocês pode m e acu-


sar de algum pecado?"
JOÃO 8 . 4 6

Dois cristãos se viram discutindo se seria possível


alcançar o estado de perfeição cristã nesta vida. Um
desafiou o outro a citar uma única pessoa na Bíblia
cuja vida não houvesse tido nenhum traço de pecado.
— Eu posso citar duas, o amigo afirmou. Então
abriu a Bíblia em Lucas 1.6 e leu que Zacarias e sua
esposa, Isabel, "ambos eram justos aos olhos de Deus,
obedecendo de modo irrepreensível a todos os man-
damentos e preceitos do Senhor".
— E você se considera um crente como Zacarias? —
perguntou o primeiro homem.
— Sim, replicou o segundo.
— Então você deve ler o restante de Lucas 1 para
saber que o anjo Gabriel deixou Zacarias mudo tem-
porariamente por causa de sua incredulidade.
" O indivíduo chega quase à perfeição quando pre-
enche um pedido de emprego", diz um ditado cínico.
Mas Jesus é a exceção da regra. Quando perguntou:
"Qual de vocês pode me acusar de algum pecado?" (Jo
8.46), estava afirmando corajosamente que era perfei-
to. Estava desafiando seus inimigos a apresentarem
provas de que ele alguma vez fizera, dissera, ou pensara
algo errado. Que alegação ousada!
Tente perguntar a seu cônjuge: "Você pode me acu-
sar de pecado?". Pergunte isso a seus amigos, aos cole-
gas de trabalho. Para dizer a verdade, se fizéssemos isso
seríamos repreendidos prontamente.
O verbo grego elegchõ, traduzido por "convencer"
no versículo 46, significa "trazer à luz", "expor" algo a
fim de censurar, corrigir ou mostrar a alguém a sua
falta. Todo cristão deve entender o conceito de con-
1

vicção, porque ele é vital ao trabalho de evangelização.


Antes de conduzirmos as pessoas a Cristo, elas preci-
sam ser convencidas de seus pecados. O primeiro pas-
so para ser salvos e crescer à semelhança de Cristo é
entender que são pecadores.

'F. Wilbur GINGRICH & Frederick W. DANKER, Léxico do Novo


Testamento grego/português, São Paulo: Vida Nova, 1993, p. 70.
O SIGNIFICADO DA CONVICÇÃO
O verbo acusar significa "achar ou provar que alguém
é culpado" e "convencer de erro ou pecaminosidade".
O substantivo relacionado, acusação, refere-se ao "ato
ou processo de condenação de um crime, pincipalmente
num tribunal". Quando o suspeito é acusado de um
crime, o juiz ou o júri profere o veredicto "culpado". A
incriminação vai além de acusar alguém de proceder
mal. A acusação precisa ser provada.
Os inimigos de Cristo o acusaram de blasfêmia,
glutonaria, embriaguez, desrespeito ao sábado e possessão
demoníaca. Mas sua pergunta, "Qual de vocês pode me
acusar de algum pecado?" (Jo 8.46), infere que eles não
podiam provar suas afirmações. Ninguém na multidão,
naquele dia, conseguiu aceitar o desafio de Jesus. No fim,
suas acusações foram consideradas denúncias vazias.
Convicção, portanto, é a obra do Espírito Santo
pela qual as pessoas se tornam dolorosamente cons-
cientes de que são culpadas de pecado diante de
Deus, que é santíssimo. Howard Cleveland define
essa ação como "a obra do Espírito Santo mediante
a qual a cegueira satânica é retirada dos olhos dos
homens, e estes, então, são capazes de se enxergar
como realmente são aos olhos de Deus — culpa-
dos, impuros e totalmente incapazes de se salvar". 2

2
In: Everett F. Harrison, org., Baker's dictionary of Theology,
Grand Rapids: Baker, 1960, p. 140.
Porque Jesus era perfeito, nunca precisou ser con-
vencido de pecado.
Numa tarde de verão, um homem que eu nunca
tinha visto entrou em meu gabinete. Tremendo visi-
velmente, confessou que tinha roubado um automó-
vel uma semana antes. Desde então, ele não conse-
guia dormir e estava à beira de um colapso nervoso.
Embora tivesse passado doze de seus 38 anos na pri-
são, sua consciência nunca pesara tanto assim. Seu
único desejo era devolver o carro ao dono e aliviar a
sensação de culpa.
Eu lhe disse que seu problema real era muito mais
profundo que o furto. Ele precisava arrepender-se de
todos os seus pecados. Ele concordou imediatamente.
Falei-lhe do evangelho de Cristo e nos ajoelhamos em
oração. Ele confessou seus pecados a Deus, pediu per-
dão e confiou a Cristo sua salvação.
Em seguida dirigimo-nos a um campo, onde ele
havia escondido o veículo roubado. Depois disso, ele
me levou à casa do proprietário. Indiquei-lhe onde
podia encontrar seu automóvel e intercedi pelo ladrão
arrependido. O dono era cristão e concordou em per-
doar o delito e não abrir processo.
Isso ocorreu há sete anos. Desde então tenho tido
contato com esse ladrão convertido, cujo coração per-
manece sensível a Cristo. A convicção pesou-lhe na
consciência!
A MENSAGEM DE CONVICÇÃO
A convicção nos traz uma mensagem tríplice. Primei-
ro nos mostra que pecados específicos nos separaram de
Deus. O homem de quem falei há pouco estava pros-
trado pelo pecado de roubo. Lemos na Bíblia que Deus
censurou os irmãos de José pelo pecado de vendê-lo
como escravo (Gn 42.21), convenceu Davi dos crimes
de adultério e assassinato (SI 51), repreendeu Isaías por
sua fala impura (Is 6.5), denunciou Zaqueu por extor-
são (Lc 19.8), e Pedro por negar a Cristo (Lc 22.59-
62). Você pode se sentir convencido dos pecados de
mexericar, mentir, enganar, cobiçar, de glutonaria ou
inúmeros outros pecados.
De acordo com João 16.8, o primeiro problema
do qual o Espírito convence as pessoas é o pecado.
Muitos têm problema com bebida alcoólica, mas não
o enxergam como pecado. Para eles é uma "depen-
dência química" ou um "vício", não um pecado pes-
soal contra um Deus santo. As pessoas totalmente
envolvidas no pecado de orgulho podem sentir-se bem
com a própria imagem. Um casal que provocou o
aborto de um bebê pode chegar à conclusão de que
isso era um "direito constitucional", não um ato as-
sassino. Aqueles que desafiam a ordem de Deus de
confiar em Cristo podem desculpar-se dizendo: "Eu
não sirvo para ser cristão".
Mas a convicção muda a mente das pessoas. Ela as
persuade de que tais atitudes, ações e estilos de vida são
pecado. Lança nova luz sobre a questão — a luz divi-
na. Desmascara pensamentos, palavras e atos específi-
cos e revela a verdadeira natureza dos pecados cometi-
dos contra um Deus santo.
A segunda mensagem da convicção é que não ape-
nas os nossos pecados, mas também nossa pecaminosidade
nos separaram de Deus. A convicção nos revela que so-
mos totalmente corruptos (SI 51.5; Jr 17.9). Não só
nossos pensamentos, palavras e ações, mas também
nosso coração precisa mudar. As pessoas que estão em
processo de convicção sabem que algumas mudanças
superficiais que possam fazer na vida não resolverão o
problema do pecado. Elas não se conformam com uma
mera reforma; seu objetivo é nada menos que uma
transformação espiritual radical (Rm 12.1,2).
A terceira mensagem da convicção é esta: só Cristopode
resolver nosso problema de pecado. Só ele pode trazer per-
dão, transformar-nos integralmente e reconciliar-nos com
o Pai celestial. Deus, em seu amor, não nos deixa sem
esperança de salvação. Quando somos convencidos de
nossa culpa, ele nos apresenta as boas-novas de Cristo, que
foi castigado em nosso lugar na cruz a fim de nos libertar.
Pense num menino empinando uma pipa. Ele sol-
tou tanta linha que a pipa se perdeu de vista. Então
alguém vem e indaga:
— O que tem lá em cima?
— Uma pipa — responde o menino.
— Como você sabe que a pipa ainda está lá se não
pode enxergá-la? — a pessoa pergunta.
— Porque posso senti-la puxando — diz o menino.
A convicção é como a pipa. E o invisível toque di-
vino. Com força muito maior do que a linha, puxan-
do não para baixo, para a cova do desespero, mas para
a liberdade espiritual em Cristo. Quase sempre o to-
que é doloroso, mas seu propósito é poupar-nos da
destruição eterna.
Alguém certa vez reclamou com o evangelista Billy
Sunday de que sua pregação estava pesando muito na
consciência de todos. "Você alisa o pêlo do gato no
sentido contrário", disse essa pessoa ao pregador.
A resposta de Billy Sunday foi tão condenatória quan-
to seu sermão: "Então diga para o gato mudar de lado!".
Isso é o que Deus diz quando faz suas denúncias:
"Afaste-se de seu pecado e volte-se para o meu Filho
Jesus!". Longe de Cristo, estamos vivendo numa con-
dição adversa e artificial.
O testemunho de Charles Spurgeon sobre sua pró-
pria convicção revela como Deus cura por intermédio
de Cristo o coração que ele mesmo quebrantou:

M e u coração era u m a terra improdutiva coberta


de ervas daninhas, mas certo dia veio o grande
fazendeiro e começou a arar minha alma. Dez cava-
los negros faziam parte de suas parelhas e ele usava
afiadas lâminas no arado. Profundos foram os sulcos
feitos. Os dez mandamentos eram aqueles cavalos
negros, e a justiça de Deus, como uma lâmina afiada,
fez profundas incisões em meu espírito. Eu estava
condenado, arruinado, destruído, perdido, desam-
parado, desesperado. Pensei que o inferno estivesse
diante de mim. Mas, depois do arado, veio a seme-
adura. Deus, que arou o coração com misericórdia,
fê-lo consciente de que esse coração precisava do Evan-
gelho. Então a semente foi recebida com alegria. 3

O MESTRE DA CONVICÇÃO
Somente uma pessoa pode nos convencer da necessi-
dade de Cristo; é o Espírito Santo. Falando dele, Jesus
declarou em João 16.8: "Quando ele vier, convencerá
o mundo do pecado, da justiça e do juízo".
Tentar convencer as pessoas do pecado sem o mi-
nistério do Espírito é como ordenar a um cadáver que
se levante. Mesmo se pregarmos o evangelho aos in-
crédulos, se o Espírito de Deus não falar por nosso
intermédio, será como tocar música clássica para uma
platéia de surdos.

'Tom CARTER, ed., 2,200quotationsfrom the writings of Charles


HSpurgeon, Grand Rapids: Baker, 1988, p. 45.
Alguns cristãos se lembram com carinho de como
se converteram por meio de um sermão específico pre-
gado por um fervoroso evangelista. Se meu marido pelo
menos ouvisse o sermão desse pregador, uma mulher ima-
gina, tenho certeza de que entregaria a vida a Cristo!
Não tenha tanta certeza. Não foi o evangelista nem
seu sermão que lhe fizeram sentir o peso da culpa e a
conduziram a Deus. Foi o Espírito. Sem dúvida, no
mesmo dia em que você se converteu, outros presen-
tes permaneceram na incredulidade. Então, quem pode
garantir, por exemplo, que o marido, ou a mulher, não
seguiria o exemplo dos incrédulos se ouvisse a prega-
ção do evangelista?
O Espírito Santo é o mestre da convicção. Quando
Pedro falou sobre Cristo no dia do Pentecostes, três
mil ouvintes ficaram "aflitos em seu coração" (At 2.37).
Momentos depois, os apóstolos falaram de Cristo diante
do Sinédrio, e eles "ficaram furiosos" (5.33). Quan-
do Estêvão, o primeiro mártir cristão da história, pre-
gou sobre Cristo, seus ouvintes também "ficaram fu-
riosos" (7.54).
Nem sequer um apóstolo podia penetrar o coração
do povo. Nenhum ser humano pode atingi-lo. Esse é
um ministério que só o Espírito pode realizar. Quan-
do os incrédulos constroem uma parede de defesa con-
tra o seu testemunho, não desanime, porque o mestre
da convicção pode derrubá-la! Portanto, não se renda!
Seja acessível para ele poder usá-lo e mostrar às pessoas
a necessidade de crerem em Cristo.

OS MEIOS DE CONVICÇÃO
Encontramos na Bíblia três meios pelos quais o Espí-
rito leva as pessoas ao conhecimento de sua condição
pecaminosa. O primeiro é a Palavra de Deus. Hebreus
4.12 diz: "Pois a palavra de Deus é viva e eficaz, e mais
afiada que qualquer espada de dois gumes; ela penetra
até o ponto de dividir alma e espírito, juntas e medu-
las, e julga os pensamentos e intenções do coração".
Uma das maiores ações do Espírito registradas no
Antigo Testamento ocorreu na antiga cidade de Nínive,
cuja população era de aproximadamente 120 mil ha-
bitantes (Jn 4.11). Deus disse a Jonas que pregasse "a
4

mensagem que eu lhe darei" (3.2). Era apenas uma breve


comunicação: "Daqui a quarenta dias Nínive será
destruída" (v. 4). Quando o rei de Nínive ouviu isso,
tremeu de medo, arrependeu-se de seus pecados e creu
em Deus. Assim fizeram todos os cidadãos de Nínive,
"do maior ao menor" (v. 5). Jonas anunciou a mensa-
gem de Deus literalmente, e a cidade inteira foi
convencida pelo Espírito!

4
V H. L. ELLISON, Jonah, in: The expositora Bible commentary,
Grand Rapids: Zondervan, 1976, p. 389, v. 3. V. tb. Leslie C.
ALIJEN, The books ofJoel, Obadiah, Jonah, andMiccth, Grand Rapids:
Eerdmans, 1976, p. 234.
Hoje Deus continua convencendo as pessoas pela
pregação de sua Palavra.

Meu pastor prepara suas mensagens


de A a Z em linguagem clara e franca,
e as dirige diretamente a mim.
Quando começa a pregar,
olho ao redor para ver
se acaso há alguém que mereça
mais que eu.

Mas todas as almas parecem puras,


coração voltado ao céu,
enquanto eu, em condenação,
posso apenas contorcer-me no banco.

Sabe, sempre imagino,


se eu faltasse um dia,
será que ele, sem seu alvo
teria alguma coisa para dizer?
— autor desconhecido

Algum tempo atrás uma mulher casada me disse


que estava tendo um caso com outro homem. Eu lhe
perguntei se sentia pesar por isso, e ela me respondeu
que não. Nem achava que isso era errado. "Amo meu
namorado", explicou, "e além disso, meu casamento
está morto há muito tempo".
Peguei a Bíblia e li trechos que diziam que ela esta-
va cometendo o pecado de adultério. Não fiz nenhum
comentário nem interpretação alguma; a Bíblia falou
por si mesma. Imediatamente ela se constrangeu e co-
meçou a chorar.
Garanti-lhe que Cristo estava disposto a lhe perdoar
o pecado. Ela replicou: "Eu quero aceitar o perdão".
Avisei-a de que teria de romper a relação com o namora-
do e renovar o compromisso com o marido e com Deus.
Quando ela prometeu fazer isso, tive certeza de que es-
tava falando sério. Nos minutos seguintes, ela se entre-
gou a Cristo para ser salva. A Palavra de Deus a conven-
ceu! A Palavra a compeliu a concordar com Deus que
estava pecando e a se voltar para Cristo com fé, na busca
do perdão.
Segundo meio de convição: o Espírito usa o teste-
munho dos cristãos para convencer os incrédulos do peca-
do e da necessidade de crer em Jesus. Bill Bright, o fun-
dador da Cruzada Estudantil, conta a história de um
encontro que teve com um bacharel em filosofia na
Universidade de Houston:

O diretor da faculdade convidou Benjamim para


acompanhá-lo em seu encontro comigo na lan-
chonete, depois de um intenso dia de reuniões.
Benjamim se alegrou com a oportunidade de "dis-
cutir com outro fanático religioso". Nós três con-
versamos por mais de uma hora, mas aquilo parecia
uma situação clássica de ausência de comunicação.
Benjamim fazia longas citações de filósofos ateus,
e, quando fazia uma pausa, eu lhe dizia que Deus
o amava e tinha um plano maravilhoso para sua
vida. Então ele afirmava que Deus não existia. Eu
respondia em seguida que tinha a mesma opinião
que ele quando era agnóstico; mas Jesus mudou
minha vida.
Eu havia levantado cedo e ainda não tinha pa-
rado de trabalhar, estava exausto. Parecia que não
íamos chegar a nenhuma conclusão; por isso pro-
pus que terminássemos. "Vocês se importam de
me dar uma carona até o alojamento?", Benjamim
perguntou. Entrei e me sentei no banco traseiro,
pensando que finalmente poderia dormir. Mas
antes de sairmos do estacionamento, Benjamim,
do banco da frente, virou-se e disse: "Sr. Bright,
tudo o que o senhor disse nesta noite me tocou o
coração. Quero aceitar Cristo agora mesmo".
Desnecessário dizer que meu sono ficou em
segundo plano. Benjamim não dera nenhum si-
nal de que estava prestes a aceitar o convite de
Cristo. Não houve nenhuma resposta positiva
durante nossa cansativa conversa. Eu não tinha
sido eloqüente em meu tesremunho verbal. Mas
o Espírito Santo tinha preparado o coração de
Benjamim e me usou, apesar do meu cansaço,
para penetrar aquela fachada e comunicar o amor
de Deus. 5

Terceiro, o Espírito de Deus convence as pessoas por


intermédio de nossas orações. Quando Jesus estava ago-
nizando na cruz, orou: "Pai, perdoa-lhes, pois não sa-
bem o que estão fazendo". "Então eles dividiram as
roupas dele, tirando sortes" (Lc 23.34). Em conseqü-
ência, antes de deixar o local da crucificação naquela
tarde, todos os guardas confessaram: "Verdadeiramen-
te este era o Filho de Deus!" (Mt 27.54). E todo o
povo que se havia ajuntado para presenciar o que esta-
va acontecendo, ao ver isso, começou a bater no peito
(Lc 23.48), porque o ódio de seu coração havia levado
à execução de Jesus. Algum tempo depois, três mil ju-
deus — entre eles alguns que certamente apoiaram a
crucificação de Jesus — se converteram (At 2.41). Em
resposta à oração de Jesus, Deus convenceu alguns dos
assassinos de seu Filho!
As últimas palavras de Estêvão no seu apedre-
jamento foram: "Senhor, não os consideres culpados
deste pecado" (At 7.60). Pouco tempo depois, Saulo,
que tinha conspirado para assassinar Estêvão, creu em
Cristo, foi salvo e se tornou um dos seus apóstolos.

5
Bill BRIGHT, Testemunhando sem medo, São Paulo: Candeia,
1992.
Séculos atrás, Agostinho observou: "Se Estêvão não
tivesse orado, a igreja não teria o apóstolo Paulo".
Certamente você conhece pessoas que precisam ser
convencidas pelo Espírito, e ainda não foram. Ore por
elas! Talvez Deus não tenha tocado esses corações por-
que você não suplicou por eles derramando a alma em
oração.
Um amigo meu é pastor de uma igreja que está
crescendo rapidamente. Os recém-chegados freqüen-
tam os cultos, crêem em Cristo para a salvação e se
tornam membros responsáveis da igreja. Alguém per-
guntou a meu amigo o segredo do crescimento de sua
igreja. Ele respondeu com uma palavra: "Oração". Esse
é seu segredo também. Oração é a chave que abre cora-
ções trancados para Cristo.

TOMADA DE ATITUDE
Aqui estão três passos piedosos que você pode dar
para responder à importantíssima pergunta de Jesus
sobre convicção. Primeiro, creia que, embora dolo-
rosa, você não deve ter medo da convicção. Os que a
temem podem reprimi-la até certo ponto. Os pró-
prios judeus que foram tocados pelo sermão de Estê-
vão foram descritos primeiro como "obstinados" e
que "sempre resistem ao Espírito Santo" (At 7.51).
Eles haviam sufocado o fogo convincente do Espíri-
to de Deus no coração.
É isso que você está fazendo? Ouvi falar de um
homem que comprou um microscópio e usava-o
constantemente; ate' que certa noite examinou a comi-
da que ia comer no jantar. Ficou espantado quando
encontrou no alimento minúsculas criaturas rastejantes.
E o que fez ele? Quebrou o microscópio!
De modo semelhante, muitas pessoas reagem con-
trariamente quando são convencidas e enxergam seus
pecados pela primeira vez. Elas se viram contra Cristo
em vez de ir a ele. A dor da culpa é tão aguda que
fogem dela. Mas a dor é um dom de Deus. Ela nos
avisa para tirar as mãos de um forno quente, por exem-
plo. Se não sentíssemos dor, teríamos a mão torrada.
O mesmo ocorre com a dor espiritual da convicção.
Seu propósito é salvar-nos da agonia da condenação. Jesus
prometeu: "Pois não vim para julgar o mundo, mas para
salvá-lo" (Jo 12.47). Logo, a pergunta "qual de vocês
pode me acusar de algum pecado" não significa amea-
çar-nos com o juízo, mas poupar-nos dele levando-nos
a crer em Jesus como nosso perfeito Salvador.
Por isso, não tenha medo da convicção! Somente
quando você estremece debaixo do fardo do pecado é
que pode alegrar-se em receber a grande salvação. Jesus
nunca pareceu tão belo como quando comparado com
nossa maldade.
Segundo, pergunte a Deus: "Estou acariciando algum
pecado que o Senhor deseje eliminar penetrando-me o
coração?". A Bíblia declara: "Todavia, não há um só
justo na terra, ninguém que pratique o bem e nunca
peque" (Ec 7.20). Portanto, até chegarmos ao céu,
mesmo nós, cristãos, de vez em quando teremos de ser
convencidos da culpa de nossos pecados. Encare isso
como dores de crescimento espiritual. Talvez Deus
queira convencê-lo do espírito intolerante, que não per-
doa, temperamento explosivo, alguma cobiça secreta,
da preocupação com o prazer, ou da falta de amor por
um irmão em Cristo. Se você é incrédulo, Deus quer
que se sinta incomodado com sua rejeição a Cristo.
Não há nenhum pecado pior que esse.
E se você sinceramente não sente nenhuma convic-
ção? Se seu coração é tão duro que você não é capaz de
afligir-se com seus pecados? Isso nos leva ao nosso ter-
ceiro passo de ação: mesmo assim confie que Cristo o
pode salvar. Se você não consegue chegar a ele com o
coração quebrantado pelo pecado, então venha a ele
para que o quebrante. Se você não sente nenhuma tris-
teza natural por seus pecados, aproxime-se de Jesus e
confie que ele irá ensiná-lo, de modo sobrenatural, a se
afligir pelas muitas vezes que você o magoou. Quando
você vai a Cristo não porque tenha algo a oferecer-lhe,
mas porque ele tem tudo a oferecer para você, dá sóli-
da evidência de que a convicção começou a boa obra
em você.
Uma pergunta
desafiadora:

"Você crê nisso?"

JOÃO 1 1 . 2 6

Depois de cumprir seu mandato de presidente dos


Estados Unidos, Thomas Jefferson empreendeu seu
projeto pessoal de reescrever o Novo Testamento. Ele
cria que Jesus era simplesmente um bom mestre de
moral. Jefferson removeu os milagres na tentativa de
descobrir a "real mensagem" de Jesus. As palavras fi-
nais da história do evangelho em seu Novo Testamen-
to foram: "Ali eles deixaram Jesus, rolaram uma gran-
de pedra sobre a porta do sepulcro e foram embora".
Thomas Jefferson não cria no poder da ressurreição de
Cristo.
Em João 1 1 . 2 5 , 26, Jesus tranqüilizou Marta, que
estava triste com a morte do irmão, Lázaro: "Eu sou a
ressurreição e a vida. Aquele que crê em mim, ainda que
morra, viverá; e quem vive e crê em mim não morrerá
eternamente. Você crê nisso?". Essa é, talvez, a mais no-
tável das oito declarações "Eu sou" de Jesus registradas
no evangelho de João.
Muitas vezes tenho ouvido esses versículos repeti-
dos por pastores em cerimônias fúnebres. Mas não me
recordo de tê-los escutado citar o final do versículo
26, em que Jesus pergunta a Marta: "Você crê nisso?".
Nosso Senhor quer que creiamos nas mesmas coisas
que pediu a Marta que cresse. Suas declarações anteri-
ores contêm cinco artigos de fé.

VOCÊ CRÊ QUE JESUS VENCEU A MORTE?


Quando dissera a Jesus um pouco antes: "Senhor, se
estivesses aqui meu irmão não teria morrido" (v. 21),
talvez Marta estivesse em lágrimas. Jesus assegurou-lhe
que Lázaro ressuscitaria (v. 23), mas Marta aceitou sua
promessa como um mero chavão doutrinário, que ti-
nha pouca ou nenhuma relevância para sua presente dor.
Talvez tenha balançado a cabeça, concordando que seu
irmão tornaria à vida na ressurreição do último dia (v.
24). Nesse momento Jesus afirmou: "Eu sou a ressur-
reição e ávida" (v. 25). Ele não disse: "Eu ressuscito as
pessoas da morte" ou mesmo "Eu ressuscitarei dentre os
mortos". Suas palavras foram muito mais poderosas.
Em meus primeiros anos de pastor, eu e um mem-
bro da igreja fomos visitar um cético. Quando ele soube
que éramos da igreja, disse-nos cheio de orgulho que
não tinha fé em Cristo porque todas as religiões eram
iguais. Demos nosso testemunho pessoal do que Cris-
to significava para nós, explicando-lhe o plano da sal-
vação e convidando-o a visitar nossa igreja. Ele, po-
rém, permaneceu impassível, mas não hostil. Esse ho-
mem protestava que, com todas as várias religiões no
mundo, ele jamais poderia saber qual era a verdadeira.
Disse até que era presunção de nossa parte destacar ape-
nas Jesus entre os fundadores das religiões.
Enquanto estávamos nos despedindo à porta, meu
amigo fez uma derradeira observação: "Senhor, lem-
bre-se apenas disto: o cristianismo é a única religião
cujo fundador ainda está vivo, porque Jesus Cristo é a
única pessoa que retornou dos mortos". O silêncio
refletivo daquele homem, que antes apresentara uma
profusão de pretextos, disse-nos em alto e bom som
que ele estava começando a ver a luz.
Buda, Confúcio, Maomé, Joseph Smith, Charles
Taze Russel, Mary Baker Eddy e todos os outros fun-
dadores de religiões estão mortos. Cristo está vivo.
Pode haver religiões comparáveis, mas o cristianismo
não é uma dessas. Ele é incomparável porque apenas
Jesus, seu fundador, venceu a morte.
A Bíblia confirma essa verdade de vários modos:
Primeiro, Jesus fez que três pessoas retornassem à vida,
cada uma num cenário diferente. Ele ressuscitou a filha
de doze anos de Jairo antes do funeral (Mc 5.35-43),
ressuscitou o filho único da viúva durante o funeral
(Lc 7.11-17) e Lázaro, quatro dias depois do funeral
(Jo 11.11-44). Vemos nesses fatos que nada é impos-
sível para Jesus, pois ele é a ressurreição e a vida.
O ministério de cura de Jesus também confirma a
verdade de sua reivindicação messiânica. Ele restaurou
a visão a olhos cegos, a audição a ouvidos surdos e
força a membros paralisados. Tudo que Jesus tocava
ficava são, pois ele é a ressurreição e a vida.
A própria ressurreição de Jesus também o destaca
como o Vencedor sobre a morte e o Senhor da vida.
Porque é Deus, ele tinha de ressurgir dentre os mortos,
pois "a morte não tem mais domínio sobre ele" (Rm
6.9). Ao ressuscitar, Cristo demonstrou que é o imor-
tal e eterno Deus. À luz disso tudo, é muito espantoso
que ele tenha experimentado a morte na primeira vez
(Hb 2.9,14,15).
Podemos também confirmar a alegação de Jesus de
ser a ressurreição e a vida pela existência de milhões de
crentes. Os cristãos são pessoas cujo coração estava
morto para Deus, mas Jesus lhe deu vida (Ef 2.4,5).
Pergunte a qualquer discípulo de Jesus se ele é a ressur-
reição e a vida. Ele responderá: "Estou convencido de
que é, porque Cristo me deu vida nova!".
Jesus não apenas ressuscita nosso coração do sepulcro
do pecado, mas também restaura a vida a casamentos
mortos, famílias mortas e esperanças mortas. Tudo com
que Jesus se compromete volta à vida, porque ele é o
vencedor da morte. Você crê nisso?

VOCÊ CRÊ QUE JESUS FAZ A VIDA


VALER A PENA?
Nosso Senhor disse a Marta naquela penosa ocasião:
"Eu sou [...] a vida" (Jo 11.25). Ele não limitou sua
reivindicação a darvida, mostrar vida, ou ensinar so-
bre a vida. Ele declarou ser a própria vida. Novamen-
te, em João 14.6, Jesus afirmou: "Eu sou [...] ávida".
E Colossenses 3.4 registra: "Cristo, que é a nossa
vida".
Em outras palavras, podemos dizer que Jesus faz a
vida valer a pena. Milhões de pessoas precisam ouvir
essa notícia boa. Nos Estados Unidos, o número de
suicídios de adolescentes e jovens adultos duplicou nos
últimos dez anos. Todo ano, meio milhão de pessoas
tentam suicidar-se. Para cada vinte assassinatos nesse
país, há 25 suicídios. Em Los Angeles, o número de
pessoas que tira a própria vida é maior do que o das
que morrem em acidentes de trânsito. Oito por cento
das vítimas de suicídio já o haviam tentado anterior-
mente.
William Coleman escreveu: "Todo domingo os
pastores têm muitas pessoas com alto risco de suicídio
presentes em sua congregação. Uma análise não rigorosa
mostra que essas pessoas não são muito diferentes das
que nunca tentaram o suicídio... E possível que no-
venta por cento da população considerem algum dia a
idéia de suicidar-se". 1

Rod era um amigo com quem trabalhei durante


um verão num acampamento cristão em nossos últi-
mos anos de adolescência. Ele conhecia o Senhor, mas
sempre falava de quanto a vida é sem sentido. Estava
quase obcecado com o céu, o que não é muito co-
mum num adolescente. Constantemente ele falava de
seu desejo de deixar este mundo e encontrar a alegria
da presença do Senhor.
Alguns meses depois ouvi que um caminhão havia
batido no carro em que Rod viajava como passageiro.
O motorista escapou ileso, mas Rod morreu no im-
pacto. Nós que o conhecíamos não conseguimos evi-
tar pensar que Deus lhe concedera o desejo do coração.
Quando ele ficou desencantado com a vida, o Senhor
tirou-a.
A vida pode ser uma panela de pressão. As vezes
chega-se ao limite máximo de tensão. Mas, se Jesus
Cristo habita em nós, ele pode conceder-nos alegria
mesmo nas situações mais tormentosas. Ele sempre faz
a vida valer a pena. Você crê nisso?

1
Christianity Today, 23 Sep. 1977, p. 38.
VOCÊ CRÊ QUE A MORTE NÃO É O FIM?
Jesus disse a Marta: "Aquele que crê em mim, ainda
que morra, viverá" (Jo 11.25). Amiúde vemos a mor-
te como o fim da vida, mas aqui nosso Senhor nos
garante que a morte não tem a última palavra. Ela ain-
da é uma realidade, mas Jesus a transcende. Se nós lhe
pertencemos pela fé, podemos olhar adiante, para a
vida espiritual além da sepultura e para a ressurreição
física quando ele retornar.
Muitos anos atrás assisti ao funeral de uma mulher
que havia levado uma brilhante vida cristã. Ao lado da
sepultura o pastor disse: "Júlia não está morta! Ela não
morreu realmente!". Ele estava tentando confortar a
família e os amigos com a idéia de que Júlia estava na
presença de seu Senhor, mas acho que ele foi muito
longe. No versículo 25 o próprio Jesus disse que o
crente "morre". Nosso Senhor não negou a morre;
antes, ofereceu esperança que vai muito além dela.
Em lugar de dizer: "Júlia não está morta! Ela não
morreu realmente!", o pastor poderia ter dito: "Júlia está
morta fisicamente, mas a verdadeira Júlia continua a vi-
ver com Cristo no céu. E, na segunda vinda de Cristo,
ele abrirá a sepultura e restaurará a vida ao corpo dela".
A lápide de um homem chamado Peas traz esta
inscrição:

Aqui jaz o corpo do velho Peas,


sob margaridas e árvores,
mas Peas não está aqui, apenas seu corpo.
Pois Peas deixou o corpo e foi para junto de Deus.

Visto que a morte não é o fim para o cristão, não


devemos apegar-nos à vida terrena como se ela fosse a
coisa mais preciosa que possuímos. Muitas vezes visitei
cristãos hospitalizados que pensavam apenas na saúde
física, mesmo em idade avançada e à beira da morte. Eu
tinha vontade de dizer-lhes: "Não é maravilhoso pensar
que em poucos dias você estará em casa, com nosso Se-
nhor no céu?". Mas tudo com que se preocupavam era
recuperar a saúde e retornar para sua casa terrena. Mui-
tos crentes investem muito no corpo físico. Desse modo,
poderia pensar-se que a morte põe fim a rudo, e não
temos nenhum porvir para contemplar.
Podemos aplicar as palavras de Jesus em algo a mais
do que à morte física apenas. Muitas pessoas estão mortas
para as mágoas e necessidades dos outros. Muitos mari-
dos e esposas estão mortos para os sentimentos do com-
panheiro. Esse tipo de morte não precisa ser permanente.
Posso imaginar Jesus prometendo: "Se você crer em mim,
eu o trarei de volta de sua morte atual". Você crê nisso?

VOCÊ CRÊ QUE A FÉ EM CRISTO DIVIDE A


HUMANIDADE?
Jesus não prometeu vida após a sepultura a todos.
Ofereceu essa segura esperança apenas a quem "crê em
mim" (v. 25). Jesus não disse: "Aqueles que freqüen-
tam a igreja, ou aqueles que vivem vida justa viverão,
ainda que estejam mortos". Somente a fé produz sal-
vação. E não qualquer fé. Nosso Senhor não disse:
"Todo aquele que crê em Deus como o Criador..."
ou "Todo aquele que crê na Bíblia...", ou mesmo "To-
do aquele que crê em certas coisas a meu respeito vive-
rá, mesmo que esteja morto". A condição é: "Aquele
que crê em mim".
Suponha que você está dirigindo seu automóvel e
chega a um cruzamento cujo sinal está fechado para
você. Você põe o pé no freio e percebe que tem de
afundar o pedal até o soalho, mas não percebe resistên-
cia nenhuma. Pressiona mais uma vez, mas nada acon-
tece. O fluido do freio vazou e você acaba batendo
noutro carro que estava esperando no cruzamento.
Depois disso, você manda consertar o vazamento,
põe fluido novo e vai em direção do mesmo cruza-
mento. Novamente, a luz do semáforo está vermelha.
Com temor e tremor por causa da experiência anteri-
or, você pisa no freio. Desta vez, sente o pedal firme
sob seu pé. Você tinha fé firme no freio quando ele
falhou e fé hesitante quando ele funcionou. Até a fé
vigorosa, se não tiver um objeto digno, é inútil. Mas
a fé débil, depositada no objeto certo, será bendita.
O que importa não é a fé vigorosa, mas a fé num
objeto vigoroso.
Somente Jesus é objeto forte de fé. Se sua fé repou-
sa em outra pessoa ou em algo que não seja Jesus, de
nada adiantará. Podemos dividir a humanidade em dois
grupos básicos: o dos que crêem em Cristo e o dos que
não crêem. Essa classificação determina se você passará
a eternidade no céu ou se será banido para o inferno.
Fé em Cristo faz toda a diferença nesta e na vida futu-
ra. Você crê nisso?

VOCÊ CRÊ QUE OS CRISTÃOS NÃO


PRECISAM TEMER A MORTE?
As palavras seguintes de Jesus a Marta foram um passo
além em suas promessas e chegaram a este ponto:
"Quem vive e crê em mim, não morrerá eternamente"
(v. 26). A expressão grega traduzida por "não morrerá
eternamente" é vigorosa no original e poderia ser
traduzida por "de nenhum modo morrerá". Isso não
deve ser entendido no sentido físico, pois morrem cris-
tãos todos os dias. Antes, Jesus está afirmando que os
crentes viverão espiritual e eternamente com ele no céu,
como ele mesmo afirmou em João 14.1-3. Em ter-
mos mais enfáticos, ele está dizendo que os crentes não
precisam temer o que está além da morte.
Muitas pessoas excluíram, para todos os efeitos, o
assunto da morte. Consideram-na tabu. Procuram evi-
tar que os filhos tenham pensamentos a respeito da
morte. Estremecem ante a idéia de ir a um funeral.
Muitos pastores celebrantes de cerimônias fúnebres
atenuam a seriedade do preparo para a morte. Por quê?
Porque as pessoas têm medo de morrer.
O escritor russo Fedor Dostoievski* (1821-1881)
foi acusado de sedição e sentenciado à morte. Já estava
postado diante do pelotão de fuzilamento quando che-
gou a ordem de suspensão da pena. "A certeza da mor-
te inevitável e a incerteza do que virá depois são as mais
terríveis angústias do mundo", escreveu ele mais tarde
acerca dessa experiência. 2

As pessoas que não têm a fé salvadora em Cristo


têm bons motivos para temer a morte, pois estão a
apenas uma batida de coração do inferno. Lá chegan-
do, não podem retornar (Hb 9.27). O inferno é o lu-
gar de miséria eterna, dores, trevas, desespero, lamen-
tações e ranger de dentes (Ap 20.11-15).
As Escrituras, por outro lado, descrevem a experi-
ência de morte do cristão com termos muito diversos:
Translado pelos anjos (Lc 16.22), mudança para a casa
do Pai (Jo 14.2), a vida na presença de Cristo (2Co
5.8), lucro (Fp 1.21), e a partida para um lugar muito
melhor (v. 23).

*Considerado o maior romancista russo de seu tempo e autor


de obras clássicas como Crime e castigo e Os irmãos Karamazov.
2
Ray C. STEDMAN, The death ofdeath, Palo Alto: Discovery
Papers, l4Apr. 1968.
Certo cristão estava com pouco tempo de vida e
tinha medo de morrer. Um amigo dele não sabia como
confortá-lo. De repente ouviu-se um arranhão na por-
ta. O amigo abriu e seu cão saltou sobre ele, fazendo-
lhe festa. O animal o seguira pela rua até a casa do
moribundo. Sacudindo a cauda e lambendo o rosto
do dono, o cão mostrava-se feliz por estar com ele.
"Meu cachorro nunca esteve em sua casa antes, por
isso, não sabia o que havia aqui", disse o amigo ao
homem doente. "Mas, sabendo que eu estava aqui, ele
entrou numa casa desconhecida com confiança. A
morte é um terreno desconhecido de você, mas tenha
certeza de que seu Salvador está esperando-o do outro
lado. Quando você passar pela porta, ele irá lhe dar as
boas-vindas. Isso é tudo o que você precisa saber".
Isso é tudo o que você precisa saber? Quando Paulo
pensou na morte, escreveu: "Temos [...] confiança"
(2Co 5.8). Porque depositara a fé em Cristo, o após-
tolo não tinha razão para temer a morte. Você crê nisso?

TOMADA DE ATITUDE
Duvidar das promessas de Cristo não é uma questão
insignificante. Pelo contrário, é um tremendo insulto
ao amoroso Senhor. Portanto, como primeiro passo
para responder à pergunta de Jesus, peça-lhe para trans-
formar você em uma pessoa de fé. Sempre, desde o
Éden, a raça humana não deu crédito às palavras de Deus.
O Senhor advertiu Adão: "No dia em que dela comer,
certamente você morrerá" (Gn 2.17). Mais tarde, veio
o Diabo e contradisse esse aviso, garantindo a Eva: "Cer-
tamente não morrerão!" (Gn 3.4). Nesse momento
Eva precisou tomar uma decisão: "Devo crer no que
Deus disse ou no que Satanás disse?".
Cada um de nós se vê diante das mesmas duas op-
ções. Jesus declarou ser o vencedor da morte e o Se-
nhor da vida, tanto temporal quanto eterna. Ele per-
gunta: "Você crê nisso?". Não há meio-termo. Se você
não responder: "Sim, Senhor, eu creio que tu és tudo
quanto dizes ser", estará, à revelia, declarando ao Dia-
bo: "Eu creio em você".
A pergunta de Jesus não é: "Você se sente bem quan-
do está ao lado da sepultura de um parente?". Cristo
chorou diante do sepulcro de Lázaro no mesmo dia
em que falou com Marta (Jo 11.35). Ele sabe de ante-
mão a dor que você sente quando assiste ao funeral de
um familiar. A pergunta não diz respeito a sentimen-
tos, mas a fé. Os sentimentos são temporários e não-
confiáveis, enquanto a fé em Jesus é confiável e per-
manente.
Claro, você sofre quando morre a pessoa amada.
Mas você crê que Jesus é o vencedor definitivo da
morte? Como todos, de vez em quando, você é bom-
bardeado com tentações e problemas. Apesar disso,
você crê que Cristo faz a vida valer a pena? Quando
morre um cristão que você ama, ocorre uma separação
real. Essa separação produz solidão em sua vida. Mas
você crê que essa solidão não será para sempre? Que al-
gum dia vocês se reencontrarão? Claro que a morte en-
cerra alguns mistérios. Mas você crê que seu Senhor e
Salvador está esperando para lhe dar as boas-vindas?
O que acontece se você não crê nas promessas de
Jesus? O oposto daquilo que ele disse a Marta: "Aque-
le que não crê em mim certamente morrerá, embora
viva, e todo aquele que morre sem crer em mim ja-
mais verá a luz do céu". Você estaria satisfeito com essa
declaração como seu epitáfio? Se não, creia na palavra
de Cristo, pois ele jamais o iludirá.
Talvez você diga: "Já resolvi meu problema de fé
em Cristo. Creio em tudo isso que ele disse!". Então,
deixe que todo o mundo saiba disso. Se Cristo é sua
ressurreição, prove mostrando aos outros a nova qua-
lidade de vida que ele lhe concedeu. Se Cristo é sua
vida, demonstre vivendo uma vida dedicada a ele. Por
ele ter-lhe dedicado um amor incomparável, prometa
que seu amor por ele também será inigualável. A fé
genuína responde: "Sim, Senhor, eu creio!". Depois,
vive-se aquilo em que acredita.
Uma pergunta
dura:

"Você dará a vida por mim?"


JOÃO 1 3 . 3 8

O especialista em missões mundiais David Barrett,


editor da World Christian encyclopedia [Enciclopédia cristã
mundial], estima que 330 mil cristãos foram martiriza-
dos em 1990. De acordo com Barrett, pelo menos um
em cada duzentos missionários, pastores e evangelistas foi
morto em determinadas regiões. Diz Barrett que essa ten-
dência deve se agravar. Sua estimativa—uma década an-
tes do final do século xx—era de que no ano 2000 meio
milhão de cristãos seriam martirizados por causa da fé.
Daniel Kyanda, que escapou por pouco de ser exe-
cutado por Idi Amin,* em Uganda, representa agora a

*MiMtare político ugandaTse, nascido em 1925. Foi comandante supre-


mo das forças armadas (1966-1967) e presidente de Uganda (1971-1979).
lei aproximar-se do monarca sem ser convidada. Ester disse
que se arriscaria e "se eu tiver que morrer, morrerei" (Et
4.16). Depois de três dias de jejum dos judeus, ela foi até
a presença do rei (5.1). Revelando-lhe sua identidade de
judia, Ester se expôs como alvo do planejado massacre.
Demonstrou com suas palavras e ações a disposição de
depor a vida por Jeová, o Deus dos judeus.
No livro de Daniel, Sadraque, Mesaque e Abede-
Nego recusaram-se a adorar a imagem de ouro do rei
Nabucodonosor quando ameaçados de morte na for-
nalha ardente. Eles responderam: "Se formos atirados
na fornalha em chamas, o Deus a quem prestamos
culto pode livrar-nos, e ele nos livrará das tuas mãos, ó
rei. Mas, se ele não nos livrar, saiba, ó rei, que não
prestaremos culto aos teus deuses nem adoraremos a
imagem de ouro que mandaste erguer" (Dn 3.17,18).
Bastou isso para Nabucodonosor imediatamente dar
ordens para que se aquecesse a fornalha sete vezes mais
do que o normal, e que os três judeus desafiantes fos-
sem amarrados e lançados no forno ardente (v. 19,20).
Sem nenhuma queixa eles foram lançados às chamas (v.
21), prontos para queimar até a morte por causa de sua
crença. Mas o Senhor os livrou (v. 22-27). Mais tarde,
Nabucodonosor admirou-se com aqueles que preferi-
ram "abrir mão de sua vida a prestar culto e adorar a
outro deus que não fosse o seu próprio Deus" (v. 28 b).
Quando lhe fora ordenado não dirigir oração a nin-
guém durante trinta dias — fosse divino ou huma-
no — , exceto ao rei Dario, o relacionamento de Daniel
com o Senhor permaneceu inabalável. Quando preso
por orar a Jeová, Daniel não vacilou ante a perspectiva
de ser lançado aos leões. E ele não tinha nenhuma ga-
rantia de que o Senhor o protegeria. Daniel estava dis-
posto a morrer (Dn 6).
João Batista sabia muito bem que denunciar o rela-
cionamento adúltero de Herodes podia custar-lhe a
vida, como de fato ocorreu. A fé de João num Deus
de justiça e santidade constrangeu-o a pagar o terrível
preço (Mc 6.17-19).
Depois de pregar seu convincente sermão em Atos
7, Estêvão sustentou a verdade de Cristo até o martírio.
O Espírito revelou a Paulo que aflição e grilhões o
esperavam em cada cidade a que levasse o evangelho.
Ao ouvir isso, o apóstolo declarou: "Todavia, não me
importo, nem considero a minha vida de valor algum
para mim mesmo, se tão-somente puder terminar a
corrida e completar o ministério que o Senhor Jesus
me confiou, de testemunhar do evangelho da graça de
Deus" (At 20.24). Ele descreveu sua morte vindoura
nas mãos do governo romano como "derramado como
uma oferta de bebida" (2Tm 4.6).
As Escrituras também falam/ de heróis anônimos
da fé que foram apedrejados, serrados pelo meio ou
trespassados à espada (Hb 11.37).
A história da igreja está repleta de exemplos de cren-
tes que abriram mão da própria vida por Cristo. Cerca
de 117 a. C , Inácio de Antioquia, um líder idoso da
igreja, foi levado a Roma sob escolta militar para ser
devorado por animais selvagens no Coliseu. Em cada
parada ao longo do caminho, ele escrevia cartas a várias
igrejas. Numa dessas cartas, ele se descreveu como "o
trigo de Deus triturado pelos dentes dos animais selva-
gens; que eu possa ser achado como puro pão de Deus".
Depois da zombaria do imperador e da condenação da
multidão, os leões foram soltos. Inácio pôs o braço na
boca de um dos leões e, enquanto seus ossos eram
esmigalhados, bradava: "Agora eu começo a ser cristão!" 2

Numa das últimas perseguições romanas, ordenou-


se a todos os crentes em Cristo que renunciassem a fé
nele, do contrário seriam mortos. Quarenta soldados
da décima segunda legião acampados em Sebaste, na
Armênia, recusaram-se. Eles foram despidos, lançados
num lago gelado e abandonados à morte. Para tentá-
los à apostasia, foram preparados na margem do lago
fogueiras e banhos quentes. Mas eles se uniram neste
cântico: "Quarenta guerreiros lutando por ti. Permite
que os quarenta obtenham a vitória!".
Por fim, um homem não conseguiu mais suportar o
sofrimento. Saiu do lago, renunciou ao Senhor Jesus e

2
John O. Gooen, Christian history 9, n". 3, p. 31.
foi atendido pelos guardas romanos. De fora do lago,
ainda se podia ouvir o cântico: "Quarenta guerreiros
lutando por ti. Permite que os quarenta obtenham a
vitória!".
A oração deles foi respondida quando um dos guar-
das, Sempronius, foi tocado e convertido ao testemu-
nhar a fidelidade daqueles 39 homens. Ele se declarou
cristão, tirou as vestes e tomou o lugar do desertor.
Uma vez mais o cântico ressoou: "Quarenta guerreiros
lutando por ti. Permite que os quarenta obtenham a
vitória!". Horas depois a maioria deles morreu de frio.
Os sobreviventes foram executados. Todos obtiveram
a vitória pela qual haviam orado. 3

O que você faria numa situação como essa? Sua fé é


tal que você possa abrir mão da própria vida? Posso
imaginar Jesus perguntando-nos: "Você dará a vida por
mim?" (Jo 13.38).

JESUS REQUER QUE SEUS DISCÍPULOS


ESTEJAM DISPOSTOS A MORRER POR ELE
Em Mateus 16.24, nosso Senhor apresentou três pon-
tos inegociáveis a todos os que desejassem segui-lo: "Se
alguém quiser acompanhar-me, negue-se a si mesmo,
tome a sua cruz e siga-me". Os três verbos gregos usa-
dos na última parre desse versículo são imperativos,

3
Ibid., p. 33.
ordens absolutas que devem ser obedecidas. Esses mes-
mos requisitos de discipulado se repetem nas passa-
gens paralelas de Marcos 8.34 e Lucas 9.23.
Considere o segundo imperativo. O que significa
tomar sua cruz? Dito de maneira mais simples, refere-
se à disposição de morrer por Cristo. Muitos cristãos
deixam essa verdade passar despercebida. As pessoas di-
zem: "Minha cruz é uma sogra resmungona" ou "Eu
carrego a cruz de uma dor artrítica". Quando Jesus nos
diz para tomar nossa cruz, ele quer dizer que isso é algo
que podemos preferir não fazer. Não podemos fazer
muita coisa com relação a uma sogra mal-humorada ou
a uma artrite, qualquer que seja o nosso nível de com-
prometimento com Cristo. Mas a cruz é algo que acei-
tamos deliberadamente quando poderíamos recusá-la.
Nos dias de Jesus, a cruz era usada para um único
propósito: executar pessoas. Tomar a cruz, portanto, é
dizer a Cristo: "Estou pronto a depor minha vida por
ti". Em seu comentário do evangelho de Marcos, H.
B. Swete escreveu que tomar a cruz é "colocar-se a si
mesmo na posição de um condenado a caminho da
execução". 4

As pessoas a quem Cristo disse inicialmente as pala-


vras registradas em Mateus 16.24 tinham, sem dúvida,

4
The gospei accordingto St. Mark, London, 1913: Grand Rapids,
1956.
visto criminosos condenados suportarem cruzes. Esses
carregadores de cruz não estavam exercitando-se para
perder peso. Eles estavam em uma viagem sem retor-
no para uma morte medonha e agonizante. No pri-
meiro século d.C, os crentes que tomavam sua cruz
provavam seu compromisso definitivo com Cristo.
Não existia algo como crucifixão parcial. Eles deixa-
vam tudo para trás e iam até o limite por seu Senhor.
Em meados da década de 1950, os jovens Jim Elliot
e Pete Fleming sentiram o chamado de Deus para ser-
vir como missionários aos índios auca, no Equador.
Ainda na faculdade, Jim escreveu: "Estou pronto para
morrer pela salvação dos aucas". Ele não era tolo. Po-
dia dar o que não podia manter para ganhar o que não
podia perder.
Nessa mesma época, Pete Fleming escreveu em seu
diário: "Anseio levar o evangelho aos aucas, se Deus
me conceder a honra de proclamar o nome dele entre
esse povo. Eu daria alegremente minha vida por essa
tribo se apenas pudesse ver esse povo forte, inteligente
e esperto reunido em torno de uma mesa para louvar o
Filho com toda a alegria do seu coração! O que mais se
poderia conceder a uma vida?".
Depois de uma viagem marítima de oito dias, Jim
e Pere chegaram a Guaiaquil, no Equador. Pete escre-
veu de novo em seu diário: "Cerca de meio caminho
rio Guayas acima, finalmente compreendi que este era
o Equador. Senti uma sensação pungente pela primei-
ra vez. Jim e eu cantamos calmamente: 'Fé de nossos
pais, santa fé, seremos fiéis a ti até a morte', até o barco
aportar". 5

Não muito depois disso, em 8 de janeiro de 1956,


Jim, Pete e outros três missionários foram martiriza-
dos por causa de Cristo, pelos aucas que eles amavam.
Mas a obra dos missionários não foi em vão, pois as
esposas deles mais tarde foram ao Equador e conquis-
taram muitos dos assassinos de seus maridos para a fé
em Cristo. Jim Elliot e Pete Fleming carregaram sua
cruz e seguiram seu Senhor por toda a vereda, até o
lugar da execução.
No começo da década de 1980, guerrilheiros co-
lombianos capturaram um jovem tradutor da Bíblia
de Wycliffe, chamado Chet Bitterman. Eles então lan-
çaram seu ultimato: "Todo o pessoal do Wycliffe deve
deixar nosso país em dez dias, ou mataremos nosso
refém". Essa organização cristã respondeu: "Não nego-
ciamos com terroristas nem pagamos resgates por re-
féns. Nós ficaremos. A vida de nosso missionário é
sacrificável pela causa de Cristo".
Logo depois Chet Bitterman foi assassinado. Quan-
do sua mãe, Mary Bitterman, de Lancaster, Pensilvânia,

'Elisabeth ELLIOT, Through the gates ofsplendor, New York:


Harper and Row, 1957.
ouviu as novas, sua mansa resposta — publicada pela
revista Eternity — foi: "Há muito mais coisas impli-
cadas além da vida de nosso filho. Há a vida de milha-
res de índios na selva que jamais ouviram a história de
Jesus" .(í
Por que a vida de Chet Bitterman pôde sacrificar-se
na causa de Cristo? Porque ele tomara a cruz em obe-
diência a seu Senhor. Como Mary Bitterman pôde re-
agir tão resignadamente às novas da morte de seu fi-
lho? Porque ela também tomara sua cruz; morrera para
tudo e todos exceto Jesus.

VOCÊ PODE ABRIR MÃO DE SUA


VIDA POR CRISTO HOJE
Paulo testificou certa vez: "Todos os dias enfrento a
morte" (ICo 15.31). Noutra parte, afirmou: "Fui cru-
cificado com Cristo. Assim, já não sou eu quem
vive, mas Cristo vive em mim" (Gl 2.20). Talvez você
nunca seja chamado a queimar numa estaca ou ser des-
pedaçado por animais selvagens, mas poderá experi-
mentar um martírio espiritual por Cristo todos os dias,
rendendo-se a ele consciente e incondicionalmente.
Se seu dia é repleto de planos pessoais, você monta a
cruz dizendo: "Senhor, meu tempo é na verdade teu
tempo. Se tu quiseres interferirem meu planejamento,

6
'Eternity, May 1981, p. 10.
estou à disposição". Você morre para o ego quando
um motorista imprudente atravessa-lhe a frente e você,
em vez de xingá-lo, sussurra esta oração: "Obrigado,
Senhor, por livrar-me de um acidente". Você morre
para o eu quando, nos negócios, prefere ser honesto,
ainda que isso lhe custe dinheiro ou uma promoção.
Você morre para o eu quando permite que seu cônjuge
aja da maneira dele, embora você esteja convencido de
que ele está errado. De certo modo, todo cristão deve-
ria poder dizer com Paulo: "Todos os dias enfrento a
morte" (ICo 15.31). Às vezes é uma atitude mais co-
rajosa do que queimar literalmente numa estaca.
Alguns cristãos, em vez de morrer diariamente, es-
tão se deixando desviar por outros por temerem que
suas amizades acabem. Alguns têm medo de que a car-
reira termine, por isso, acabam cedendo a práticas co-
merciais nada éticas. Outros receiam um futuro incer-
to e por isso nutrem no coração o amor ao dinheiro.
Bill Harvey falou a todos nós escrevendo isto:

Tenho de morrer.
Não quando meus cabelos encanecerem ou
eu tombar numa batalha,
ou dormir pela vez derradeira,
mas dia após dia.

O eu precisa morrer.
Tudo o que sempre esperou ser;
ele tem de morrer agonizante, não placidamente.
Em seu lugar meu Senhor precisa ver
um cadáver.

Eu preciso morrer.
Fui barro e barro serei;
Que meu Oleiro agora me molde,
Assim serei tudo quanto ele desejar. 7

Tudo e todos têm de morrer. Infelizmente, essa é a


lei da vida. No reino espiritual, Deus convoca seus fi-
lhos a morrerem diariamente. Quando foi a última
vez que você tomou sua cruz e seguiu a Cristo? Quan-
do se trata de seu casamento, Jesus pergunta: "Você
dará a vida por mim?". Em seu relacionamento com
seus filhos ou com seus pais, o Senhor pergunta: "Você
dará a vida por mim?". Quando você chega à escola ou
ao trabalho todo dia, a pergunta permanece: "Você dará
a vida por mim?". Não pense que você arderia numa
fogueira se não é capaz de morrer para seus interesses
pessoais agora.

TOMADA DE ATITUDE
A pergunta de Jesus, "Você dará a vida por mim?",
implica o desejo dele para sermos algo mais que dispos-
tos a fazer isso. Logo, a pergunta que devemos fazer

7
SwordoftheLord, 9 Oct. 1981, p. 15.
em seguida não é: "Senhor, queres que eu abra mão de
minha vida por ti?", mas "Senhor, de que modo queres
que eu ofereça minha vida por ti?".
Talvez ele queira que você abandone sua carreira e
deixe de lado seu confortável estilo de vida para viajar
a outra parte do mundo como missionário. Ou, quem
sabe, Deus o esteja chamando para se preparar para o
ministério pastoral de uma igreja local. De certo ele
deseja que você dedique seu tempo e seus talentos onde
você está, de modo que as pessoas com quem você
trabalha conheçam a Cristo. É possível que, para você,
dar ofertas generosas para a obra do evangelho no
mundo seja como abrir mão da própria vida. De qual-
quer forma, Jesus o está chamando para abrir mão de
sua vida por ele. Obedeça-lhe.
Será que seu Salvador merece que você morra por
ele? Se sim, então viva por ele. Hoje Jesus nos chama
para ser sacrifícios vivos. As Escrituras assim apelam:
"Portanto, irmãos, rogo-lhes pelas misericórdias de Deus
que se ofereçam em sacrifício vivo, santo e agradável a
Deus; este é o culto racional de vocês" (Rm 12.1).
Talvez fosse mais fácil ser um sacrifício morto do
que um sacrifício vivo. Ser sacrifício vivo requer que se
volte ao altar todo dia. O último sacrifício morto na
Bíblia foi o corpo de Cristo. Agora que ele lhe deu nova
vida mediante sua fé, ofereça essa vida a ele em sacrifício.
Sacrifique seu tempo a ele. Sacrifique seu amor a ele.
Sacrifique seu serviço a ele. Sacrifique sua carreira a ele.
Jesus ainda pergunta: "Você dará a vida por mim?".
Você pode responder à pergunta dele hoje mesmo em sua
casa, em seu local de trabalho, em sua igreja e em sua vi-
zinhança; e neste mundo de rápidas mudanças, talvez
até diante de um pelotão de fuzilamento.
Uma pergunta
íntima:

"Você m e ama?"
JOÃO 2 1 . 1 5 - 1 7

Jason Tuskes era um adolescente de dezessete anos,


aluno respeitado no colégio em que estudava e amante
de metgulho submarino. Numa tetça-feira de manhã,
ele estava explorando uma caverna submarina próxi-
ma de sua casa, no centio-oeste da Flótida. Ele pre-
tendia comemorar o aniversário de sua mãe naquela
noite, saindo para jantar com seus pais e o irmão mais
novo.
Na caverna, Jason ficou preso numa passagem es-
treita. Depois de lutai em vão pata libeitar-se, ele sol-
tou a correia do tanque amarelo de oxigênio, já quase
vazio, e titou a faca de mergulhador da bainha. Do lado
do tanque, ele tabiscou uma mensagem final para sua
família: "Mamãe, papai e Christian, eu amo vocês".
Depois se afogou. 1

Jason poderia ter dito muitas outras coisas, mas ele


preferiu a frase "amo vocês". Nada era mais importan-
te para ele naquele momento. Nenhuma outra palavra
teria comunicado melhor à família o sentimento de
seu coração.
Não são essas, porventura, as palavras que todo ser
humano gostaria de ouvir? Filhos cujos pais nunca lhe
dizem "eu te amo" em geral têm falta de auto-estima.
Algumas pessoas se suicidam porque não se sentem
amadas.
De todas as perguntas que Jesus fez nos evangelhos,
apenas uma foi repetida mais de uma vez. Em três
versículos consecutivos, Cristo perguntou a Pedro:
"Você me ama?" (Jo 21.15-17). Jesus poderia ter-lhe
perguntado: "Você me serve?" ou "Você fala de mim
aos outros?", ou ainda, "Você me adora?". Mas Cristo
quis ser mais profundo que isso.
Ainda hoje a pergunta principal de nosso Senhor a nós
é: "Você me ama?". Ele não pergunta: "Você freqüenta a
igreja?" nem "Você entrega o dízimo?", tampouco "Você
ora?", "Você lê a Bíblia?". Se pudermos responder sincera-
mente sim a essa pergunta, as outras áreas de responsabili-
dade espiritual irão se resolver por si mesmas.

'Larry JAMES, Leadership, ]ul.-Sep. 1990, p. 4 9 .


POR QUE VOCÊ DEVE AMAR A CRISTO?
Uma razão por que você deve amar Jesus é que ele ama
você. Ele escreveu a última mensagem a você com tinta
vermelho-sangue na cruz romana: "Eu amo você!".
Como ele mesmo declarou em João 15.13: "Ninguém
tem maior amor do que aquele que dá a sua vida pelos
seus amigos".
Harry Bonder, um pastor do estado do Kansas, foi
acordado às três da manhã por dois policiais. Eles o
informaram que seu filho havia sofrido um acidente
de carro na estrada e que o veículo pegou fogo. Teste-
munhas disseram que as chamas estavam tão intensas
que não havia maneira de salvar o rapaz. Bonder, en-
tão, respondeu calmamente: Acredito que se eu esti-
vesse lá, eu teria tentado salvá-lo. O amor por seu fi-
lho o teria compelido a agir, mesmo com todas as
chances contrárias.
J. Lesslie Newbigin escreve: " O amor de Deus só
pode ser revelado por um ato. Palavras apenas não po-
dem demonstrar amor. Mesmo que Deus escrevesse as
palavras 'Deus é amor' com letras de fogo nas nuvens,
isso não nos diria nada. O amor precisa ser expresso". 2

O amor de Deus se manifestou na morte de Cristo.


Sua crucifixão foi uma sólida prova de que Deus ama
você. Romanos 5.8 narra esse fato da seguinte forma:

2
J . Lesslie NEWBIGIN, Sin and salvation, London, 1 9 5 6 , p. 7 1 .
"Mas Deus demonstra seu amor por nós: Cristo mor-
reu em nosso favor quando ainda éramos pecadores". O
fato de Jesus ter-lhe dado a maior das provas de amor só
tem sentido se você corresponder a esse amor.
Outro motivo por que você deve amar a Cristo é
que, fazendo isso, você cumpre o maior de todos os man-
damentos. Isso é comprovado no exemplo do escriba
que perguntou a Jesus: "De todos os mandamentos, qual
é o mais importante?" (Mc 12.28). Jesus respondeu:
"Ame o Senhor, o seu Deus, de todo o seu coração, de
toda a sua alma, de todo o seu entendimento e de todas
as suas forças" (v. 30). Naturalmente, Jesus estava se re-
ferindo a Deus Pai. Mas Cristo também é o Senhor Deus.
Se amá-lo cumpre o grande mandamento, deixar de
amá-lo deve ser o pior pecado.
Novamente, seu amor deve ser dedicado a Cristo
porque ele fará que você obtenha lucro do sofrimento.
Você pode estar na fornalha da aflição. Talvez um mem-
bro de sua família tenha morrido ou você tenha perdi-
do a saúde. Quem sabe seu casamento está se desinte-
grando, ou seus filhos estão lhe causando mágoas. Mais
cedo ou mais tarde a fé de cada cristão é provada no
cadinho da adversidade. Nessas ocasiões, talvez a pro-
messa bíblica mais amiúde reclamada seja Romanos
8.28: "Sabemos que Deus age em todas as coisas para
o bem daqueles que o amam".
Grave essas últimas palavras: "daqueles que o amam".
Se você não ama a Cristo, todos os seus prazeres se
transformam em calosidades que o endurecem contra
o evangelho. Mas, se seu coração pertence a Jesus,
mesmo a sensação de vazio o prepara para a plenitude
dele, doenças fatais edificam uma fé saudável e a pró-
pria morte o conduz à presença de Deus. Aquele que
ama a Cristo aproveita-se de todas as oportunidades
para revelar a suficiência de seu Senhor.

COMO VOCÊ DEVE AMAR A CRISTO?


Uma coisa é saber que você deve amar a Cristo. O
próximo passo é aprender de que modo um ser humano
pecaminoso pode expressar melhor esse amor. O pri-
meiro modo é amar a Cristo pessoalmente. Todo amor
é edificado sobre o fundamento do relacionamento
pessoal. Quando nos apaixonamos por alguém, quere-
mos saber tudo que podemos sobre essa pessoa. Jesus
não perguntou: "Pedro, você ama meus ensinos?", "Você
ama minha igreja?" nem "Você ama minha palavra?";
mas sua pergunta foi: "Você me ama?" (Jo 21.15-17).
Eu corro o perigo sutil de permitir que meu amor
pelo ministério substitua meu amor por Cristo. Gos-
to muito de ser pastor. Sei que esse é o plano de Deus
para minha vida e cada dia sinto-me estimulado a cum-
pri-lo. Algumas vezes, porém, paro e me pergunto:
"Meu amor está em Cristo ou na obra dele?". Se esti-
ver na obra, tenho de redirecionar meu amor de volta
para o Senhor.
Do que você gosta como cristão? Do compa-
nheirismo e das amizades de um povo maravilhoso,
da certeza dos pecados perdoados ou da segurança da
salvação? Deus quer que você desfrute esses benefícios,
mas não pretende que eles sejam o centro do seu amor.
Esse lugar está reservado para Cristo somente.
O segundo modo é amar a Cristo fervorosamente.
Quando Jesus foi indagado sobre o mais importante
mandamento da vida, ele respondeu francamente: "Ame
o Senhor, o seu Deus, de todo o seu coração, de toda a sua
alma, de todo o seu entendimento e de todas as suas for-
ças" (Mc 12.30, grifo do autor). Isso significa que nosso
amor por aquele a quem chamamos Senhor tem de ser
absoluto. Não há limite em nosso amor por Cristo. De-
vemos amá-lo com tudo o que podemos. Isaac Watts
apreendeu essa idéia em seu hino de 1707, Contemplação:

Se o mundo inteiro fosse meu,


seria oferta sem valor;
tudo o que sou, Senhor, é teu:
minha alma e todo o meu amor.

O fervoroso amor de Charles Spurgeon por Cristo


é evidente neste testemunho:

Nenhuma alegria na terra se compara à felicidade


de ser todo tomado de amor por Cristo. Se eu ti-
vesse de escolher entre todas as vidas que poderia
viver, certamente não optaria por ser imperador,
nem milionário, nem filósofo, pois poder, rique-
za e conhecimento trazem consigo sofrimentos.
Mas eu escolheria nada fazer senão amar meu Se-
nhor Jesus — nada, insisto, mas fazer todas as
coisas por sua causa e por amor a ele. 3

Terceiro modo, devemos amar ativamente a Cris-


to. Paulo recomendou certa vez os tessalonicenses pelo
"esforço motivado pelo amor" que via neles (lTs 1.3).
O amor a Cristo os estimulava a trabalhar diligente-
mente por ele.
Lembro-me de um homem de nossa igreja que tem
um tremendo tino comercial. Ele foi muitas vezes con-
vidado a servir como diácono, mas sempre declinou
dizendo não ser tão espiritual.
Uma vez repliquei: "Mas você é suficientemente
espiritual, pois ama a Cristo, não é?". Acenou com a
cabeça concordando plenamente. Então prossegui: "Os
outros homens de nosso corpo diaconal não são teólo-
gos. A qualificação necessária que eles têm para o servi-
ço é o amor sincero pelo Senhor, como você!".
O amor constrangeu Jesus a derramar seu sangue
sobre a cruz por você. Então, você não deveria dar-se

•Tom CÁRTER, 2,200 quotationsfrom the writings ofCharles H.


Spurgeon, Grand Rapids: Baker, 1988, p. 123.
incondicionalmente a ele? Jesus consentiu que os solda-
dos romanos pregassem suas mãos e seus pés numa cruz
destinada a criminosos por amor a você. Não trabalha-
rão suas mãos por ele? Seus pés não se moverão por ele?
Por que temos hoje muitos freqüentadores de igreja e
poucos servos? Porque as pessoas negligenciaram de-
monstrar seu amor incondicional por Cristo. Se você o
ama, mostre isso em atos de serviço em favor dele.
Quarto, devemos amar a Cristo pela fé. As Escritu-
ras descrevem a fé como "a prova das coisas que não
vemos" (Hb 11.1). Com isso em mente, considere a
declaração de 1 Pedro 1.8: "Mesmo não o tendo visto,
vocês o amam". Algumas pessoas protestam que não
podem amar a Cristo justamente porque nunca o viram.
Mas, quando se ama, há fé. Não se sabe se essas pessoas
estão dizendo a verdade ou nos enganando. Não se pode
ver o que elas serão daqui a dez anos, se têm alguma coisa
no passado, como maus tratos a crianças, ou se no futuro
cortarão o relacionamento conosco. Mas você os ama de
qualquer modo. Isso é fé!
Harry Rimmer certa vez enviou um questionário a
cerca de cem mulheres, perguntando: "Você amaria um
homem a quem nunca tivesse visto?". A maioria res-
pondeu sim com certas condições. Algumas disseram
que poderiam amar um homem que nunca tivessem
visto se soubessem que ele é bom e gentil. Outras res-
ponderam que poderiam amar esse homem se ele tivesse
realizado algum ato heróico. Outras, ainda, disseram que
poderiam amar um homem sem tê-lo visto se ele fosse
altruísta e pusesse os outros em primeiro lugar.
Todas essas características se aplicam ao objeto invi-
sível de nosso amor — Jesus Cristo. Ele é bom e amá-
vel. Ele realizou o maior ato heróico da história quando
adquiriu nossa salvação na cruz do Calvário. Ele tam-
bém provou seu altruísmo quando sofreu espontanea-
mente a ira de Deus pelas pessoas que o mataram.
Sim, podemos amar a Cristo pela fé. A Bíblia fala
da "fé que atua pelo amor" (Gl 5.6). Perceba, fé que
opera! E opera através do amor. Um cristão anônimo
expressou esse pensamento nestas palavras:

Jesus, estes olhos nunca viram


tua radiante forma;
o escuro véu dos sentidos está posto entre
tua bendita face e a minha.

Eu não te vejo, não te ouço,


todavia, tu estás comigo;
E a terra nunca me foi tão querida como
no ponto em que me encontrei contigo.

Todavia, embora eu não veja e ainda


precise descansar na fé somente,
eu te amo, Senhor, e sempre te amarei,
invisível, mas não desconhecido!
Quinto, devemos amar a Jesus incondicionalmente;
advérbio este que costumamos empregar ao seu amor
por nós. A propósito, como ilustração, lembro da his-
tória de uma garotinha que estava apresentando a um
homem cada uma de suas bonecas pelo nome. Ele per-
guntou: "Qual a sua favorita?". Ela hesitou um pouco e
em seguida foi a outro quarto; voltou trazendo uma bo-
neca sem cabelos, nariz quebrado e sem perna. O homem
perguntou: "Por que você gosta mais dessa boneca?".
Ela respondeu: "Porque se eu não amasse essa bo-
neca, ninguém amaria".
Esse é um retrato de como Jesus nos ama. Quando
Cristo entregou sua vida por nós, o pecado já nos ha-
via desfigurado e tornado repulsivos. Quando não tí-
nhamos nenhuma beleza para lhe oferecer, ele nos amou
incondicionalmente.
Por isso, ame a Jesus incondicionalmente também.
Já vi muitas pessoas cheias de amor por Cristo quando
estão saudáveis, prósperas e desfrutando ávida. Mas en-
tão a adversidade ataca. Um membro da família morre
prematuramente. Um relacionamento matrimonial é
rompido. Um bebê nasce deformado. Um acidente deixa
um parente paralítico. Uma transfusão de sangue infecta
um membro da família com o vírus HTV. Lentamente o
amor se transforma em amargura.
Claro que esses problemas desafiam nossa compreen-
são, e é natural nos afligirmos com isso. Mas, quando
o ressentimento substitui o amor por Cristo, nosso
coração revela um amor condicional. Em Efésios 6.24
Paulo escreveu: "A graça seja com todos os que amam
a nosso Senhor Jesus Cristo com amor incorruptível".
Outras versões traduzem por "amor imortal" ou "um
amor não redutível". Esse é o amor incondicional por
Cristo.
Um jesuíta do século xvi chamado Francisco Xavier
descreve esse amor nestas palavras:

Por que, ó bendito Jesus Cristo,


eu deveria te amar?
Não por causa de um céu a ganhar
nem para do inferno escapar;
Não pela esperança de ter bens,
nem de buscar recompensa,
mas porque teu amor por mim provaste,
Ó sempre amado Senhor.

Assim eu te amo e amarei


e teus louvores cantarei;
porque tu és meu amado Deus,
e meu eterno Rei.

COMO VOCÊ PODE PÔR A PROVA


SEU AMOR POR CRISTO?
O Novo Testamento apresenta dois testes de nosso amor
por Cristo. Um é o amor por nossos irmãos, ljoão 4.20
adverte: "Se alguém afirmar: 'Eu amo a Deus', mas odi-
ar seu irmão, é mentiroso, pois quem não ama seu ir-
mão, a quem vê, não pode amar a Deus, a quem não vê".
Antes de cada refeição e na hora de deitar, faço um
teste simples para medir a quantidade de açúcar em
minha corrente sangüínea. Por ser diabético, tenho de
fazer isso para manter controle sobre a doença. Dou
uma picadinha no dedo com uma lanceta e espremo-o
até verter uma gota de sangue sobre a fita de teste.
Depois coloco-a no aparelho medidor e em poucos
segundos tenho a leitura de meu nível glicêmico.
Antes da invenção desses glicosímetros, eu achava
que podia estimar a quantidade de glicose no meu or-
ganismo conforme me sentisse. Agora sei que isso é
impossível. Quase sempre fico surpreso com o resul-
tado dos testes. Se estiver acima do limite desejado,
tenho de tomar uma injeção de insulina para reduzir.
Se o medidor estiver errado e minha taxa glicêmica
estiver realmente baixa, a insulina injetada irá me cau-
sar um choque. Mas meu glicosímetro nunca errou
em milhares de testes. Aprendi a confiar nele e dissipar
minhas preocupações.
Como você pode saber se ama a Cristo? Você crê
que o ama, mas deseja confirmação. Então observe o
medidor espiritual divino. Seu amor pelos outros cris-
tãos é a medida de seu amor por Cristo.
O segundo teste de amor se observa numa vida con-
trolada. Essa é a mensagem de 2Coríntios 5.14: "O
amor de Cristo nos constrange". A expressão "o amor
de Cristo" pode referir-se ao amor de Jesus por nós ou
ao nosso amor por ele. Os comentaristas discutem es-
sas duas opções. Mas por que excluir uma em detri-
mento da outra? O amor de Cristo por nós tem a in-
tenção de inspirar em nós semelhante amor a ele. Ambos
os amores controlam nosso comportamento.
Sua vida espiritual está fora de controle? Embora
professe amar a Cristo, você está vivendo descuidada-
mente? O pecado obliterou o último traço de santida-
de de sua vida? Então não diga que ama o Senhor, pois
isso não é verdade. Jesus disse: "Se vocês me amam,
obedecerão aos meus mandamentos [...] Quem tem
os meus mandamentos e lhes obedece, esse é o que me
ama [...] Se alguém me ama, obedecerá à minha pala-
vra" (Jo 14.15,21,23).
Se o amor que você professa por Cristo não con-
trolar seu temperamento, procure saber quem você
realmente ama. O amor autêntico por Jesus sempre
faz que o cristão se submeta a seu Mestre. As Escritu-
ras não fazem exceção.

TOMADA DE AÇÃO
Hoje Jesus lhe faz a mesma pergunta que fez a Pedro: "Você
me ama?" Essa é uma questão decisiva, pois se você não
ama Cristo estará eternamente perdido. Jesus disse aos ju-
deus contemporâneos seus: "Se Deus fosse o Pai de vocês,
vocês me amariam" (Jo 8.42). Isso quer dizer que aqueles
que não amam a Cristo, têm Satanás como pai espiritual.
Paulo foi mais longe ao dizer: "Se alguém não ama o Se-
nhor, seja amaldiçoado" (ICo 16.22). ETiago falasobre "o
Reino que ele prometeu aos que o amam" (Tg 2.5).
Não basta ser membro da igreja. Muitos membros
de igreja não amam a Cristo e estão perdidos. Alguém
pode dizer: "Acho que a fé, não o amor, é o único
ingrediente humano necessário à salvação". É verdade.
Mas muitos entendem fé como mero assentimento
mental. A Palavra de Deus ensina que a fé inspira amor
pelo Cristo em quem confiamos (cf. Gl 5.6; lTs 1.3).
Quase sempre ouço pessoas que não têm certeza da
salvação. Elas conhecem o evangelho e crêem em Cris-
to, mas duvidam que sua fé seja genuína. Não querem
ser enganadas para a condenação. Para orientá-las, per-
gunto-lhes: "Você ama a Cristo?". Essa indagação as
traz de volta à consciência e as ajuda a discernir a au-
tenticidade de sua fé.
O que acontece se você não consegue responder com
sinceridade, como Pedro: "Senhor, tu sabes todas as coi-
sas e sabes que te amo" (Jo 21.17)? O que sucederia se
você fosse forçado a reconhecer: "Jesus, tenho posto meu
amor em objetos indignos"? Nesse caso, comprometa-se a
amar a Jesus. O amor é ato de vontade, não uma emoção.
Você pode escolher amar o Senhor Jesus. Ele mesmo
quis dizer isso quando declarou que o maior dos man-
damentos era: "Ame o Senhor, o seu Deus, de todo o
seu coração, de toda a sua alma, de todo o seu entendi-
mento e de todas as suas forças" (Mc 12.30).
Jesus disse: "Pois onde estiver o seu tesouro, aí tam-
bém estará o seu coração" (Mt 6.21). Isso parece meio
retrógrado, não? Talvez esperássemos um versículo as-
sim: "Onde estiver o seu coração, também estará seu
tesouro". Mas não é assim. Primeiro transformamos
alguma coisa em nosso tesouro e depois nosso coração
irá atrás dela.
Por isso, transforme Jesus em seu tesouro, dando-
lhe o primeiro lugar na sua vida. Comprometa-se a
comungar com ele em oração, a ouvir sua voz através
das Escrituras, a meditar em seus atributos e a regozi-
jar-se em seu amor. Desse modo seu coração o amará.
Você tem a promessa e Jesus.
Sobre o livro

Categoria • Crescimento espiritual

Fim da execução # agosto de 2 0 0 3


l.a
edição v setembro de 2 0 0 3

Tiragem Ano
1 2 3 4 5 6 7 8 9 09 08 07 06 05 04 03

Formato # 12 x 1 7 c m
Mancha • 8,5 x 14,5 cm
Tipo e corpolentrelinha * A G a r a m o n d 12/ 1 4 , 5
(texto); Zurich B T 19/ 2 2 , 8 (títulos)
Papel * Off-Set 7 5 g/ m (miolo); Cartão Supremo 2 5 0
2

g/ m 2
(capa)

E q u i p e de realização
Tiragem # 4 mil exemplares

P r o d u ç ã o gráfica Impressão *» Edelbra Indústria Gráfica e Editora Ltda

Supervisão
Impresso no Brasil/ Printed in Brazil
SANDRA LEIVE

Fotolito
IMPRENSA DA EI!

Produção editorial

Coordenação
FABIANI MEDEIROS

Normalização
TÂNIA SILVEIRA

Edição de texto
LENITA ANANIAS

Revisão de provas
GIBSON JAMES

Projeto gráfico
S ü N I A PETICOV

Composição
S E T - U P TIME ARTES GRÁFICAS

Capa
ALEXANDRE GUSTAVO