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VENANCIO, R. P.. Onde estão os arquivos pessoais? Uma sondagem. In: OLIVEIRA, Lúcia Maria Velloso de. (Org.).

Arquivos pessoais e cultura: o direito à memória e à intimidade. Rio de Janeiro: Fundação Casa de Rui Barbosa,
2016, p. 59-73.

Onde estão os arquivos pessoais? Uma sondagem

Renato Pinto Venancio


(Escola de Ciência da Informação-UFMG)
Pesquisador do CNPQ – D1
E-mail: rvenancio@eci.ufmg.br

Há bases de dados, disponíveis na Internet, que em muito podem colaborar na

formulação de políticas arquivísticas. Conforme veremos, no que diz respeito aos arquivos

pessoais, o potencial é substancioso. Contudo, antes de explorarmos esse potencial, é preciso

explicar o título deste texto: “Onde estão os arquivos pessoais? Uma sondagem”. Do ponto

de vista físico, é sabido que os arquivos, de uma forma geral, se encontram em depósitos ou

em repositórios digitais. A referência ao “lugar” desses arquivos também não diz respeito aos

setores responsáveis pelo seu tratamento técnico, mas sim à sua dimensão institucional, isto

é, as instituições que de fato detêm a custódia oficial dos arquivos pessoais elevados à

condição de patrimônio documental local ou nacional.

Geralmente, tais acervos são custodiados por arquivos e bibliotecas. Em relação às

bibliotecas cabe lembrar a tradição dos manuscritos de escritores, assim como das coleções

especiais de papéis pessoais. No que diz respeito aos arquivos públicos, cabe sublinhar que

a eles são destinados os documentos produzidos no âmbito do Estado. Quando se aceitam

doações, legados e comodatos de arquivos pessoais, esse gesto visa à complementação do

acervo principal.

Contudo, apontar essas duas instituições como os únicos lugares dos arquivos

pessoais seria desconsiderar um universo bem mais amplo de instituições custodiadoras. Em

muitos países, constata-se cada vez mais que os arquivos privados não estão somente em
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instituições arquivísticas ou em bibliotecas públicas. Por isso é premente a necessidade de se

formular políticas públicas nacionais que levem em conta esse dado, trabalhando mais em

redes do que em sistemas.

Os títulos de artigos e pesquisas, de certa maneira, há mais de uma década manifestam

essa situação. Viviane Tessitore, em 2002, publicou um texto com o provocativo título “Os

arquivos fora dos arquivos”. Mais recentemente, Ana Maria de Almeida Camargo publicou

artigo com o título “Arquivos pessoais são arquivos”. Os exemplos poderiam ser

multiplicados, como no caso das pesquisas de Lucia Maria Velloso de Oliveira (2012, 2014)

e Luciana Heymann (2005, 2012, 2013). São textos que, embora nem sempre partam das

mesmas premissas teóricas ou nem sempre cheguem a conclusões semelhantes, contêm um

mesmo fio condutor: uma certa percepção da dificuldade de identificar o lugar institucional

dos arquivos privados considerados como patrimônio.

Esses “arquivos fora dos arquivos” suscitam questões teóricas e empíricas, como a

de identificar as instituições que detêm sua efetiva custódia. Só aparentemente o

levantamento dessa informação é fácil de ser realizado. Para ser bem-sucedido é preciso,

primeiro, definir o que se entende por “arquivos pessoais”. Na medida do possível, o critério

utilizado em nossa pesquisa foi a auto-definição das próprias instituições e a caracterização

apresentada de cada arquivo pessoal sob sua custódia. Para aplicação desse último critério,

foi necessário diferenciar “informações pessoais” de “arquivos pessoais” (COX, 2008).

Como é sabido, os arquivos pessoais contêm informações pessoais, mas nem sempre um

fundo ou coleção que contenha informações pessoais gera um arquivo pessoal. Os arquivos

de hospitais, escolas ou de sistemas prisionais contêm milhões de informações pessoais, mas


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não geram arquivos pessoais. Um recenseamento nacional de população gera uma quantidade

gigantesca de informações pessoais, mas não gera arquivos pessoais.

Portanto, o conceito de arquivo pessoal, que identificamos nas instituições, diz

respeito ao titular como sujeito acumulador, tanto dos documentos produzidos quanto dos

recebidos. Esse conceito, na verdade, é bastante genérico e de difícil operacionalização, pois

não há como auferir se as instituições o utilizam com rigor. Esse conceito também não

esclarece, por exemplo, o mínimo de atividades a partir das quais reconheceríamos a

existência de um arquivo pessoal, consequentemente também não esclarece o número

mínimo de séries para considerarmos um conjunto documental representativo da vida de uma

pessoa. Esses critérios, por outro lado, não resolvem a questão da sempre porosa fronteira

entre coleções e fundos arquivísticos: muitos arquivos pessoais são, na verdade, coleções, ou

seja, documentos acumulados pelas próprias instituições.

Não discutiremos aqui essas questões e outras que remetem às múltiplas fronteiras

dos arquivos pessoais. Deixamos isso por conta dos próprios critérios de cada instituição.

Cabem a elas definirem se custodiam fundos ou coleções - cabendo também lembrar o uso

bastante frequente do termo “acervo” (relativo à documentos produzidos ou recebidos,

proveniente de um mesmo titular, mas não necessariamente acumulados por ele) -, dando

origem as seguintes categorias, registradas nas instituições de custódia: “arquivos privados

pessoais”, “arquivos privados de pessoas físicas”, “fundos individuais”, “documentos

particulares”, “documentos pessoais”, “fundos familiares”, “fundos de personalidades”,

“coleções de documentos pessoais”, “acervos de documentos pessoais”, etc.

Portanto, nossa abordagem do tema “arquivos pessoais” será institucional.

Comecemos, então, pela dimensão institucional mais evidente. A Lei de arquivo de 1991 e o
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decreto de 2002 que a regulamenta, assim como a Resolução 17, de 2003, do Conselho

Nacional de Arquivos – CONARQ, dispõem “sobre os procedimentos relativos à declaração

de interesse público e social de arquivos privados de pessoas físicas ou jurídicas”.

Esses instrumentos, no entanto, tiveram muito poucos resultados: desde 1991, apenas

16 arquivos privados, sendo 12 deles de pessoas físicas, foram considerados de interesse

público e social. Somam-se a esses outros cinco acervos de presidentes, após a promulgação

de lei federal, também de 1991, que “dispôs sobre a preservação, organização e proteção dos

acervos documentais privados dos presidentes da República” (BRASIL, 1991).

Essa pequena amostragem – referente a 17 ocorrências - pode ser considerada uma

primeira aproximação em nossa sondagem. Apesar do pequeno número, diversas instituições

declaram possuir oficialmente a custódia desses arquivos, conforme registrado no CONARQ

ou nos decretos presidenciais que se seguiram à declaração de interesse público e social do

acervo:

Associação Cultural;
Centro de Cidadania;
Cinemateca Brasileira;
Departamento de Universidade;
Estação Biológica;
Fundação;
Fundação da Memória;
Fundação Memorial;
Instituto;
Instituto de Pesquisa;
Memorial.1

1
Conselho Nacional de Arquivos. Disponível em: http://www.conarq.arquivonacional.gov.br/ Acesso em 10
de out. 2016. Informação complementada por correspondência via e-mail.
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Não se trata aqui de discutir o estatuto jurídico de cada uma dessa instituições ou,

conforme mencionamos, o local da guarda física dos acervos ou ainda o setor responsável

por seu tratamento técnico. O que importa aqui é identificar as instituições que detêm a

custódia oficial do acerco, informação também registrada nos sites de instituições privadas

mantidas por ex-presidentes. Outra observação importante é que não vamos nos dedicar às

situações de fragmentação de fundos e coleções ou ainda à história custodial dos mesmos

após a chancela oficial, pois o que importa é a formulação e utilização de um critério

unificado, no caso, a época em que esses acervos passaram à condição de patrimônio.

A amostragem apresentada é pouco significativa e não permite estabelecer uma

tendência. Além disso, há casos em que a família declara ter a custódia oficial do acervo (por

exemplo, Isaac Rozemberg). Apesar disso, é possível observar, nessa primeira aproximação,

a diversidade de instituições custodiadoras de arquivos pessoais.

A consulta ao Cadastro Nacional de Entidades Custodiadoras de Acervos

Arquivísticos – CODEARQ,2 mantido pelo CONARQ, amplia a pesquisa e propicia

identificar uma tipologia mais variada de instituições que custodiam arquivos pessoais. Essa

base mostra que, além da declaração de interesse público e social, há outros critérios

nacionais e locais de valoração de arquivos pessoais e coleções, transmutados em patrimônio.

Ao todo, o CODEARQ registra atualmente - ou seja, até 10 de outubro de 2016 -, 337

instituições custodiadoras de acervos arquivísticos públicos e privados, de pessoas físicas e

jurídicas. Por meio dos instrumentos de pesquisa disponíveis na internet, assim como via

2
Conselho Nacional de Arquivos. Disponível em: http://www.conarq.arquivonacional.gov.br/entidades-
custodiadoras/o-cadastro.html Acesso em: 10 out. 2016.
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consultas por e-mail,3 foram identificadas 100 instituições custodiadoras de arquivos

pessoais e coleções (Quadro 1), que eventualmente também incluem acervos considerados

de interesse público e social, anteriormente mencionados.

Uma primeira questão a ser apontada é que nosso levantamento revela a adesão

voluntária ao cadastro e não necessariamente a realidade da custódia dos arquivos pessoais e

coleções. O sub-registro de bibliotecas públicas e/ou universitárias como local de custodia

de arquivos pessoais – apenas quatro ocorrências -, é um exemplo flagrante dessa situação.

Quadro 1 - Instituições públicas e privadas custodiadoras arquivos pessoais ou


familiares – CODEARQ

Instituições públicas custodiadoras Instituições privadas custodiadoras

Arquivo Público – 46 instituições Arquivo Histórico – 1 instituição


Biblioteca Pública – 3 instituições Biblioteca Comunitária – 1 instituição
Museu - 7 instituições Museu – 1 instituição
Outras – 12 instituições Outras – 29 instituições

Total – 68 instituições Total – 32 instituições


Fonte: Cadastro Nacional de Entidades Custodiadoras de Acervos Arquivísticos. Disponível em:
http://www.conarq.arquivonacional.gov.br/entidades-custodiadoras/o-cadastro.html Acesso em: 10 out. 2016.

Tal constatação, em si, é uma possível contribuição do tipo de sistematização de

informação aqui proposta: caso o CONARQ queira ampliar a representatividade do cadastro,

deveria voltar-se às bibliotecas públicas e universitárias para identificar quais os arquivos

pessoais estão ali custodiados.

3
Gostaria de deixar aqui registrado nosso agradecimento a dezenas de arquivistas e funcionários de instituições
arquivísticas que atenderam a nossos pedidos de informação.
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Outro aspecto a ser sublinhado é o da representatividade do universo de arquivos

públicos registrados no cadastro. Uma maneira de tentar avaliar essa dimensão é compará-la

a outras formas de registros de entidades que custodiam acervos públicos. É possível, por

exemplo, comparar o conjunto dos arquivos públicos - que tem ou não a custodia de acervos

pessoais – ao total que disponibilizam páginas em redes sociais, como o Facebook (Quadro

2).

Quadro 2 - Arquivos Públicos no Brasil

Arquivos Públicos no Arquivos Públicos no


CODEARQ Facebook

135 173

Fonte: Ver Quadro 1 e Facebook. Disponível em: https://pt-br.facebook.com/


Acesso em: 10 out. 2016.

Figura 1 –Arquivo Público Municipal no Facebook, não registrado no CODEARQ

Fonte: Facebook. Disponível em: https://pt-br.facebook.com Acesso em: 10 out. 2016.


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Figura 2 –Arquivo Público Municipal no Facebook, não registrado no CODEARQ

Fonte: Facebook. Disponível em: https://pt-br.facebook.com Acesso em: 10 out. 2016.

Conforme pode ser observado, há um flagrante sub-registro no CODEARQ (ver, por

exemplo, Figuras 1 e 2). O Facebook é cerca de 30% mais eficiente do que esse cadastro. Da

mesma forma que no caso das bibliotecas, o CONARQ poderia aprimorar a base de dados

em questão através do uso de redes sociais, para, por exemplo, estabelecer contatos com as

instituições não cadastradas, solicitando dados dos acervos. É preciso reconhecer, entretanto,

que as diferenças entre esses números não são tão imensas e que a abrangência das duas

fontes é relativamente restrita. Basta lembrar que o Brasil possui mais de 5.500 municípios!

Muito provavelmente o sub-registro decorre do déficit de instituições arquivísticas no nível

municipal ou então de formas de nominação institucional ainda não identificadas.

Os dados do CODEARQ, portanto, embora longe de ser exaustivos devem ser

considerados representativos. Do total de 100 instituições com a custódia de arquivos

pessoais, 68 são públicas e 32 privadas. Nesses dois conjuntos, observa-se a mesma


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diversidade: os arquivos públicos que custodiam arquivos pessoais podem ser agrupados a

partir das seguintes auto-definições institucionais:

Arquivo;
Arquivo Central;
Arquivo Geral;
Arquivo Histórico;
Arquivo Histórico-Geográfico;
Arquivo Municipal;
Arquivo Nacional;
Arquivo Público do Estado;
Arquivo Público Estadual;
Arquivo Público e Histórico;
Arquivo Público Municipal;
Departamento Estadual de Arquivo Público.

Outra fato importante é a diferenciação das formas de nomeação entre instituições

públicas e privadas. Ao que parece, a sociedade civil brasileira raramente nomeia como

“arquivo” instituições que custodiam acervos privados.4 Essa constatação deveria ser levada

em conta no traçado de qualquer política pública em relação ao tema.

Ainda no Quadro 1, no conjunto identificado como “outros”, nas duas colunas,

observa-se certa multiplicidade de tipos de instituições custodiadoras. O CODEARQ revela

situações muito diferenciadas de auto-identificação: há casos em que a instituição oficial não

é declarada como a custodiadora do acervo, mas sim um setor dela. Dessa maneira, no

CODEARQ consta o Arquivo-Museu de Literatura Brasileira e não Fundação Casa de Rui

4
No Quadro 1, dentre as instituições privadas, há uma exceção: o Arquivo Histórico Particular Hugo Daros.
Disponível em: http://www.conarq.gov.br/entidades-custodiadoras/o-cadastro/item/arquivo-historico-
particular-hugo-daros.html Acesso em 10 out. 2016.
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Barbosa; ou então Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil

e não Fundação Getúlio Vargas.

No grupo “outros” das instituições privadas, na segunda coluna do Quadro 1,

aparecem diversas ONGs que se autodenominam “centros de memória”, “casas de memória”,

“institutos de memória” e assim por diante. Cabe ainda destacar a presença de museus

declarando a custódia de arquivos pessoais. Tal qual as bibliotecas, os museus estão sub-

representados. Tal fato nos remete a uma nova base de dados a ser explorada: a do IBRAM.

O Instituto Brasileiro de Museus-IBRAM tem cadastrado sistematicamente as

instituições museais brasileiras. Na Rede Nacional de Identificação de Museus5 foram

registradas, até dezembro de 2015, 3.646 instituições. Nessa base de dados não há

indexadores de qualidade, o que dificulta muito a pesquisa. Ademais, a pergunta presente no

questionário, referente a arquivos, é: “a instituição possui arquivos históricos”, mas não se

explica o que se concebe como “arquivo histórico”, seriam aqueles da própria instituição ou

acervos adquiridos e monumentalizados pelo atributo “histórico”?

Tal situação forçou a pesquisa caso a caso, instituição por instituição. Apresentamos,

a seguir, uma amostragem desse levantamento, referente às instituições privadas. Uma das

razões da escolha por instituições privadas é que se trata de uma pesquisa maior ainda em

andamento. A outra razão é teórica. Acreditamos que através das instituições privadas se

consegue entender melhor como a sociedade está considerando a questão da custódia dos

arquivos pessoais.

5
Instituto Brasileiro de Museus. Disponível em: http://renim.museus.gov.br/ Acesso em 10 out. 2016.
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Ao todo, o cadastro do IBRAM registra 868 instituições privadas. O procedimento

utilizado para identificar aquelas que detêm a custódia de arquivos pessoais foi o mesmo

empregado em relação ao CODEARQ. Utilizou-se a base de dados, complementada por

instrumentos de pesquisa disponíveis online, assim como pelas informações prestadas por

funcionários das instituições.

Quadro 3 - Instituições privadas custodiadoras de arquivos pessoais - Rede Nacional de


Identificação de Museus – IBRAM

Instituição N.

Museu 49
Arquivo 02
Biblioteca -
Outras 40

Total 91
Fonte: Instituto Brasileiro de Museus. Disponível em: http://renim.museus.gov.br/ Acesso em 10 out. 2016.

Uma vez mais cabe aqui sugerir aos responsáveis pelo CODEARQ uma ação junto

aos museus, para ampliar as informações sobre instituições custodiadoras de acervos

arquivísticos em geral. Por mais imperfeitos e incompletos que sejam esses dados, ao

compará-los constata-se que os museus atualmente superam os arquivos públicos na custódia

de arquivos pessoais e coleções de documentos pessoais (ver Quadro 1 e 3). Eis aí uma

questão fundamental: é necessário que sejam pensados, não só em relação aos arquivos

pessoais - como também em relação aos arquivos privados institucionais (ou seja, de

empresas e associações) -, políticas públicas transversais, que mobilizem diversas

instituições cuja sociedade atribui responsabilidade de preservar para a posteridade os

registros da memória.
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A comparação entre as duas bases de dados – CODEARQ e IBRAM - permite avançar

estimativas interessantes. Se eliminarmos oito casos de redundâncias, ou seja, de instituições

que são registradas nas duas bases, chegamos à conclusão de que 9,5%6 das instituições

privadas museais brasileiras detêm a custódia de acervos pessoais. Ora, se esse dado for

aceito para o conjunto dos museus cadastrados (tanto públicos quanto privados) e se a ele

somarmos as informações do CODEARQ (também se eliminando as redundâncias),

chegaremos à estimativa de 450 instituições custodiadoras de arquivos pessoais no Brasil.

A essa estimativa, conforme mencionamos, deveriam ser acrescentados novos casos,

não contabilizados, principalmente de bibliotecas públicas e universitárias. Mais ainda, o

levantamento nas duas bases de dados revela a existência de outras instituições

subregistradas. Cabe aqui mencionar duas delas com abrangência nacional: academias de

letras e institutos históricos. O número dessas instituições nos estados e municípios da

federação, conforme pesquisas no Google revelam, é bastante elevado. Mas nos dois

cadastros pesquisados são citados apenas uma academia (Academia Brasileira de Letras) e

quatro institutos históricos e geográficos. No sentido de ilustrar a importância dessas

instituições, basta mencionar que a Academia Brasileira de Letras detém 288 acervos

pessoais, ao passo que o Arquivo Nacional detém 273 – dados que de forma alguma

representam um demérito para essa última instituição, uma vez que suas aquisições são

6
Em relação aos 91 casos registrados no Quadro 3, diminuiu-se oito redundâncias, chegando-se ao valor de 83
ocorrências exclusivas da base do IBRAM. A partir desse número, calculou-se o percentual em relação ao total
de 868 instituições privadas registradas no referido cadastro.
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restritas ao perfil do acervo, mas que revelam, em contrapartida, a grande amplitude dos

acervos da primeira instituição (OLIVEIRA, 2009).7

Também é possível observar que não há uma relação hierárquica entre a abrangência

da instituição e o número que arquivos pessoais sob sua custodia. Os instrumentos de

pesquisa do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro registram 101 fundos e coleções

pessoais, ao passo que os instrumentos de pesquisa do Instituto Histórico e Geográfico do

Rio Grande do Sul registram a custódia 117 fundos e coleções. Em outras palavras, a

instituição regional, em termos de quantidade de acervos, supera a nacional.8

Todos esses dados podem ser ainda mais ampliados e esmiuçados através da

exploração de outras bases de instituições culturais, como o Sistema Nacional de Informações

e Indicadores Culturais – SNIIC.9 Ou então pela pesquisa de outras tipologias de instituições,

como no caso dos museus e centros de memória do futebol, que se multiplicam e

eventualmente custodiam acervos pessoais de jogadores (SANTOS, 2014). A sondagem

apresentada é, no entanto, suficiente para alertar a respeito da necessidade de se trabalhar em

rede, readequando a legislação sobre patrimônio, no sentido de replicar no interior desse

corpo legislativo os procedimentos arquivísticos. Com certeza, um museu, uma biblioteca,

ou qualquer outra instituição cultural que não se defina como arquivo público, podem

7
Arquivo Nacional. Disponível em: http://www.arquivonacional.gov.br Acesso em: 10 out. 2016. Academia
Brasileira de Letras. Disponível em: http://www.academia.org.br/memoria-da-abl/arquivo Acesso em: 10 out.
2016. Informações complementadas pelos arquivistas das duas instituições.
8
Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. Disponível em: https://ihgb.org.br/pesquisa.html Acesso em: 10
out. 2016. Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Sul. Disponível em:
http://www.ihgrgs.org.br/arquivo/GuiaAcervoIHG_site.pdf Acesso em: 10 out. 2016.
9
Sistema Nacional de Informações e Indicadores Culturais. Disponível em: http://sniic.cultura.gov.br/ Acesso
em: 10 out. 2016. Agradeço a Lucia Maria Velloso de Oliveira pela indicação dessa base de dados.
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implementar o tratamento técnico adequado aos arquivos pessoais. No entanto, a bibliografia

da área sublinha que há várias situações em que isso não ocorre (Camargo, 2009).

Em outras palavras, poder-se-ia planejar o trabalho em rede - não só em relação ao

conjunto de arquivos, bibliotecas e museus que custodiam arquivos e coleções de documentos

pessoais -, como também em relação às demais instituições encarregadas dessa missão. Outra

iniciativa importante seria a de observatórios para segmentos específicos, como as academias

de letras e os institutos históricos acima mencionados, no sentido de padronizar e aprimorar

o tratamento técnico dos acervos ou mesmo para elaborar cartilhas de boas práticas. O

trabalho em rede também poderia resultar em instrumentos de pesquisa mais aprimorados,

tendo em vista a fragmentação dos acervos, como no caso do legado documental de Carlos

Drummond de Andrade.

Figura 3 – Instituições públicas e privadas custodiadoras do acervo Carlos Drummond


de Andrade

Fonte: Academia Mineira de Letras. Disponível em: http://academiamineiradeletras.org.br/ Acesso em: 10 out.
2016; Fundação Casa de Rui Barbosa. Disponível em: http://acervos.casaruibarbosa.gov.br/ Acesso em: 10 out.
2016; Instituto Moreira Salles. Disponível em: http://www.ims.com.br/ims/explore/acervo-a-z Acesso em: 10
out. 2016; Fundação Biblioteca Nacional. Disponível em: https://www.bn.br/explore/acervos/manuscritos
Acesso em: 10 out. 2016; Fundação Cultural Carlos Drummond de Andrade. Disponível em:
http://www.fccda.mg.gov.br/ Acesso em: 10 out. 2016.
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Por último, mas não menos importante, seria necessário qualificar essa rede, pensar

em estratégias nacionais, no sentido de enfrentar o grande desafio dos documentos digitais

pessoais, tema em relação a qual equipe de arquivistas da Fundação Casa de Rui Barbosa é

pioneira, como ficou registrado por ocasião da organização do arquivo digital de Rodrigo de

Souza Leão (RONDINELLI; ABREU, 2015).

Tanto os acervos de presidentes, citados no início desse texto, como de todos os

cidadãos brasileiros, migram cada vez mais para o suporte digital, assim como para a Internet,

e as futuras gerações não entenderão o Brasil de nossos dias sem a preservação desses

registros da memória. A Figura 4, proveniente do Memorial Dom Helder Câmara, em que

aparece um disquete ao lado do livro “Deus nos tempos de hoje”, representa esse desafio, o

desafio do entrelaçamento da tecnologia com a posteridade.

Figura 4 – Memorial Dom Helder Câmara

Fonte: Facebook. Disponível em: https://pt-br.facebook.com Acesso em: 10 out. 2016.


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Referências

BRASIL. Lei nº 8.394, de 30 de dezembro de 1991. Dispõe sobre a preservação, organização


e proteção dos acervos documentais privados dos presidentes da República, e dá outras
providências. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/L8394.htm Acesso
em: 10 out. 2016.

CAMARGO, Ana Maria de Almeida. Arquivos pessoais são arquivos. Revista do Arquivo
Público Mineiro, Belo Horizonte, n.2, p. 26-39, 2009. Disponível em:
http://www.siaapm.cultura.mg.gov.br/acervo/rapm_pdf/2009-2-A02.pdf Acesso em: 10 out.
2016.

COX, Richard J.. Personal archives and a new archival calling: readings, reflections and
ruminations. Duluth, MN,: Litwin Books, 2008.

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Disponível em: http://bibliotecadigital.fgv.br/dspace/handle/10438/6716 Acesso em: 10 out.
2016.

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Magalhães; Rafael Zamorano Bezerra. (Orgs.). Coleções e colecionadores: a polissemia das
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Heymann; Joëlle Rouchou; Isabel Travancas. (Orgs.). Arquivos Pessoais: reflexões
multidisciplinares e experiências de pesquisa. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2013, p. 67-76.

OLIVEIRA, Maria do Socorro dos Santos. A memória dos imortais no Arquivo da Academia
Brasileira de Letras. 2009. Dissertação (Mestrado Profissional em Bens Culturais e Projetos
Sociais) - Fundação Getulio Vargas, CPDOC, Rio de Janeiro, 2009. Disponível em:
http://bibliotecadigital.fgv.br/dspace/handle/10438/4157 Acesso em: 10 out. 2016.

OLIVEIRA, Lucia Maria Velloso de. Descrição e pesquisa: reflexões em torno dos arquivos
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Informação: uma perspectiva do cenário do poder público federal. In: Lucia Maria Velloso
de Oliveira; Maria Celina Soares de Mello e Silva. (Orgs.). Lei de Acesso à Informação:
impactos e limites nos arquivos de ciência e tecnologia. Rio de Janeiro: Museu de Astronomia
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