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INTRODUÇÃO

A disciplina Contabilidade Geral visa capacitar os alunos a


compreenderem as informações geradas pela Contabilidade Financeira e
pela Contabilidade Gerencial.
O Módulo 1 é dedicado à Contabilidade Financeira. Estudaremos
a estrutura, o propósito e as características das demonstrações contábeis
de uso geral, além de elaborarmos essas demonstrações como
consequência da contabilização de várias operações.
Nos módulos 2 e 3, estudaremos a contabilização de algumas
transações típicas para a maior parte das empresas brasileiras: contas a
receber de clientes, estoque e imobilizado.
Nos módulos 4 e 5, estudaremos a análise das demonstrações
contábeis.
Nos módulos 6, 7 e 8, estudaremos a Contabilidade Gerencial,
cujo foco será tanto na elaboração da informação de custos pelo custeio
variável e pelo custeio por absorção quanto no uso da informação gerada
pelo custeio variável para tomada de decisão gerencial, considerando a
análise da margem de contribuição e do ponto de equilíbrio.
SUMÁRIO
MÓDULO I – INTRODUÇÃO, ESTRUTURA CONCEITUAL DA CONTABILIDADE E DEMONSTRAÇÕES
CONTÁBEIS DE PROPÓSITO GERAL.................................................................................................... 11

POR QUE ESTUDAR CONTABILIDADE? .......................................................................................... 12


CONTABILIDADE: DEFINIÇÃO ......................................................................................................... 13
OBJETIVO DA CONTABILIDADE ....................................................................................................... 14
USUÁRIOS DA INFORMAÇÃO CONTÁBIL....................................................................................... 14
CONTABILIDADE: AMBIENTE E CAMPO DE ATUAÇÃO ................................................................ 15
Ambiente ................................................................................................................................... 15
Campo de atuação ................................................................................................................... 15
LIMITAÇÕES DA CONTABILIDADE .................................................................................................. 17
PRINCIPAIS DEMONSTRAÇÕES ELABORADAS PELA CONTABILIDADE FINANCEIRA ............... 18
Balanço Patrimonial ................................................................................................................ 19
Demonstração do Resultado do Exercício ........................................................................... 26
Demonstração dos Fluxos de Caixa ...................................................................................... 31
CONCEITOS FUNDAMENTAIS ......................................................................................................... 35
Patrimônio ................................................................................................................................ 35
Ativo ........................................................................................................................................... 35
Passivo ....................................................................................................................................... 35
Patrimônio Líquido .................................................................................................................. 36
Resultado .................................................................................................................................. 36
Receita ....................................................................................................................................... 36
Despesa ..................................................................................................................................... 37
Como Receita e Despesa afetam o Patrimônio Líquido (Ativo Líquido) ........................... 37
EQUAÇÃO CONTÁBIL E NATUREZA DAS CONTAS ........................................................................ 37
ANÁLISE E REGISTRO DAS TRANSAÇÕES FINANCEIRAS .............................................................. 39
ESTRUTURA CONCEITUAL PARA ELABORAÇÃO E DIVULGAÇÃO DO RELATÓRIO CONTÁBIL-
FINANCEIRO ...................................................................................................................................... 41
CPC 00, Capítulo 1: objetivo do relatório contábil-financeiro de propósito geral .......... 42
CPC 00, Capítulo 3: estrutura conceitual para elaboração e divulgação do relatório
contábil-financeiro ................................................................................................................... 43
Características qualitativas fundamentais da informação contábil útil ...................... 43
Características qualitativas de melhoria da informação ............................................... 46
Aplicação conjunta das características qualitativas de melhoria ........................... 49
Restrição de custo na elaboração e na divulgação de relatório contábil-financeiro 49
CPC 00, Capítulo 4: premissa subjacente – continuidade .................................................. 49
MECÂNICA CONTÁBIL E ELABORAÇÃO DO BALANÇO PATRIMONIAL ...................................... 50
REGIME DE COMPETÊNCIA X REGIME DE CAIXA .......................................................................... 60
MÓDULO II – CONTABILIZAÇÃO DE TRANSAÇÕES TÍPICAS (1ª PARTE) .......................................... 65

RECEITA DE CONTRATO COM CLIENTES ....................................................................................... 65


Conceituação ............................................................................................................................ 65
Cinco etapas para o reconhecimento da receita ................................................................. 65
Etapa 1: identificação do contrato com cliente .............................................................. 66
Etapa 2: identificação das obrigações de desempenho ................................................ 66
Etapa 3: determinar o preço da transação ..................................................................... 67
Etapa 4: alocar o preço da transação às obrigações de desempenho ....................... 68
Etapa 5: reconhecer a receita ........................................................................................... 69
Mecânica contábil e elaboração das demonstrações contábeis: receita ......................... 71
MENSURAÇÃO E RECONHECIMENTO DAS PERDAS EM CONTAS A RECEBER .......................... 78
Mecânica contábil e elaboração das demonstrações contábeis: PECLD ......................... 82
Caso da Droga Raia: clientes .................................................................................................. 84

MÓDULO III – CONTABILIZAÇÃO DE TRANSAÇÕES TÍPICAS (2ª PARTE) ......................................... 87

OPERAÇÃO COM MERCADORIAS ................................................................................................... 87


Conceituação ............................................................................................................................ 87
Principais itens que compõem o Estoque ............................................................................ 88
Critérios de avaliação do estoque ......................................................................................... 89
Critérios de controle do estoque ........................................................................................... 93
Conceito e mensuração do CMV ............................................................................................ 93
Peps ou Fifo ......................................................................................................................... 94
Custo médio ponderado.................................................................................................... 96
CMPM: controle permanente ...................................................................................... 96
Identificação específica ...................................................................................................... 97
Mecânica contábil e elaboração das demonstrações contábeis: estoques..................... 97
Caso da Droga Raia: estoques ............................................................................................ 103
IMOBILIZADO ................................................................................................................................. 104
Conceito ................................................................................................................................. 104
Caso da Droga Raia: imobilizado ........................................................................................ 104
Critérios de avaliação do imobilizado ................................................................................ 108
Significado de depreciação .................................................................................................. 111
Critérios de mensuração da depreciação.......................................................................... 112
Métodos das quotas constantes ................................................................................... 113
Método do benefício consumido .................................................................................. 116
Mecânica contábil e elaboração das demonstrações contábeis: depreciação ............ 120
Perda por redução ao valor recuperável (impairment) .................................................... 128

MÓDULO IV – ANÁLISE DAS DEMONSTRAÇÕES CONTÁBEIS (INTRODUÇÃO) ............................. 141

PROPÓSITO DA ANÁLISE .............................................................................................................. 142


OBTENÇÃO DAS DEMONSTRAÇÕES CONTÁBEIS ...................................................................... 143
INVESTIGAR A CONFIABILIDADE DA INFORMAÇÃO OBTIDA ................................................... 145
DEFINIÇÃO DE PARÂMETROS ...................................................................................................... 148
CÁLCULOS ...................................................................................................................................... 149
Análise vertical ...................................................................................................................... 149
Análise horizontal ................................................................................................................. 151
Análise por indicadores ....................................................................................................... 154
Indicadores de liquidez ................................................................................................... 155
Liquidez corrente ....................................................................................................... 156
Liquidez geral.............................................................................................................. 156
Indicadores de endividamento ...................................................................................... 157
Endividamento geral .................................................................................................. 158
Endividamento oneroso ............................................................................................ 159
Indicadores de rentabilidade ......................................................................................... 161
Retorno sobre o patrimônio líquido ........................................................................ 161
A polêmica do PL médio ............................................................................................ 162
Retorno sobre o ativo ................................................................................................ 162

MÓDULO V – CONTABILIDADE DE CUSTOS .................................................................................... 165

CONCEITOS FUNDAMENTAIS E CLASSIFICAÇÃO DE CUSTOS.................................................. 165


Estrutura fundamental para o estudo de Contabilidade Gerencial............................... 165
Quanto ao produto: custos diretos e indiretos ................................................................ 167
Custos diretos .................................................................................................................. 167
Custos indiretos ............................................................................................................... 167
Quanto ao volume: custos fixos e variáveis ...................................................................... 170
Custos variáveis ............................................................................................................... 170
Custos fixos ...................................................................................................................... 171
Comentário sobre intervalo relevante ............................................................................... 172
Comentário sobre custos híbridos ..................................................................................... 173
Comentário sobre a mão de obra ...................................................................................... 174
SISTEMAS E MÉTODOS DE CUSTEIO ........................................................................................... 176
Fluxos de produção nos sistemas de custeio ................................................................... 178
Método de custeio por absorção........................................................................................ 179
Método de custeio variável ................................................................................................. 180
Comentário sobre a conciliação entre os métodos de custeio ...................................... 182
Comentário sobre a capacidade instalada e a legislação societária ............................. 183

MÓDULO VI – RELAÇÃO CUSTO-VOLUME-LUCRO (1ª PARTE) ....................................................... 189

INTRODUÇÃO ................................................................................................................................ 189


PONTO DE EQUILÍBRIO ................................................................................................................ 192
Ponto de equilíbrio contábil ................................................................................................ 192
Ponto de equilíbrio econômico ........................................................................................... 193
MARGEM DE SEGURANÇA ............................................................................................................ 194

MÓDULO VII – RELAÇÃO CUSTO-VOLUME-LUCRO (2ª PARTE) ...................................................... 197

MARGEM DE CONTRIBUIÇÃO DE MÚLTIPLOS PRODUTOS: MIX DE PRODUTOS .................. 197


CONTRIBUIÇÃO MARGINAL E LIMITAÇÃO DA CAPACIDADE DA PRODUÇÃO: FATOR
RESTRITIVO..................................................................................................................................... 200
Solução gráfica ...................................................................................................................... 203
Solução com auxílio do Solver ............................................................................................ 205
CONTRIBUIÇÃO MARGINAL E PEDIDOS ESPECIAIS .................................................................. 207

APÊNDICE ........................................................................................................................................... 209

MÓDULO I ...................................................................................................................................... 209


I) Funções desempenhadas ................................................................................................. 209
II) Demais demonstrações ................................................................................................... 210
MÓDULO III .................................................................................................................................... 212
I) Custo médio ponderado fixo: controle periódico ......................................................... 212
II) Método do varejo ............................................................................................................. 213
MÓDULO IV .................................................................................................................................... 213
I) Elaboração do parecer ...................................................................................................... 213
Contextualização da empresa, dos produtos e das atividades ................................ 213
Propósito da análise........................................................................................................ 214
Fonte dos dados, ajustes e reclassificações necessários, índice de preço .............. 215
Parâmetro de comparação ............................................................................................ 215
Estrutura de investimentos, financiamentos e de resultados: análise vertical ............ 215
Comportamento do resultado e da situação patrimonial da empresa: análise
horizontal.......................................................................................................................... 216
Situação econômico-financeira: liquidez, endividamento e rentabilidade – análise por
indicadores ....................................................................................................................... 216
Conclusão ......................................................................................................................... 218
MÓDULO VI .................................................................................................................................... 218
I) Quanto à ocorrência ......................................................................................................... 218
Custos básicos ................................................................................................................. 218
Custos de transformação ............................................................................................... 219
Custo fabril ....................................................................................................................... 220
Custo dos produtos fabricados ..................................................................................... 220
Custo dos produtos vendidos ........................................................................................ 221
II) Outras classificações de custos ...................................................................................... 222
Custo irrecuperável ......................................................................................................... 222
Custo de oportunidade ................................................................................................... 224
Custo controlável ............................................................................................................. 226
III) Comentário complementar sobre objeto de custeio ................................................. 226
IV) Método de custeio baseado em atividades ................................................................. 230
MÓDULO VII ................................................................................................................................... 233
I) Ponto de equilíbrio financeiro ......................................................................................... 233
II) Alavancagem operacional ............................................................................................... 234

BIBLIOGRAFIA .................................................................................................................................... 236

PROFESSOR-AUTOR ........................................................................................................................... 237


MÓDULO I – INTRODUÇÃO, ESTRUTURA
CONCEITUAL DA CONTABILIDADE E
DEMONSTRAÇÕES CONTÁBEIS DE
PROPÓSITO GERAL

No fim deste módulo, o aluno deverá saber o que é a Contabilidade, o seu objeto de estudo
e o seu objetivo.1 Deve, ainda, saber as formas como a Contabilidade é classificada – Financeira
ou Societária, Gerencial, de Custos, Tributária ou Fiscal, Pública, etc.; as limitações da
informação contábil; e a estrutura conceitual estabelecida pelo Comitê de Pronunciamentos
Contábeis (CPC), conhecida como Pronunciamento CPC 00, aprovada pela Comissão de
Valores Mobiliários (CVM) – Deliberação CVM nº 539/08 – e pelo Conselho Federal de
Contabilidade (CFC) – Resolução CFC nº 1.121/08.
Além disso, neste módulo, você vai estudar as principais demonstrações contábeis: Balanço
Patrimonial, Demonstração do Resultado do Exercício e Demonstração dos Fluxos de Caixa.
Buscando tornar o processo de aprendizagem mais dinâmico, ilustramos os conceitos mediante a
apresentação das demonstrações contábeis da empresa Raia Drogasil S.A., referentes ao período
encerrado em 31 de dezembro de 2016.
Raia Drogasil S.A. é a razão social da firma conhecida pelas marcas Droga Raia e Farmasil,
uma companhia aberta com ações negociadas na B32 que comercializa medicamentos, cosméticos

1
De acordo com os objetivos desta disciplina, a Contabilidade é ensinada como a “linguagem dos negócios”.
2
A BM&FBovespa fundiu-se com a Central de Custódia e Liquidação Financeira de Títulos Privados (Cetip), dando origem à
B3 (Brasil, Bolsa e Balcão), seu novo nome. Fonte: <https://veja.abril.com.br/economia/bovespa-anuncia-novo-nome-apos-
fusao-com-cetip>. Acesso em: 5 maio 2019.
e outros itens de higiene pessoal.3 Para facilitar a sua identificação, vamos referir-nos à empresa pelo
nome fantasia – Droga Raia.
A adequada compreensão deste módulo é fundamental ao estudo dos Módulos II e V, que
tratam do reconhecimento contábil de transações típicas que afetam a maior parte das empresas e
da análise das demonstrações contábeis, respectivamente.

Por que estudar Contabilidade?


“A Contabilidade é a linguagem dos negócios”. Se você não sabe ler o placar, não sabe como
anda o jogo nem distingue os vencedores dos perdedores.
Segundo o grande investidor norte-americano Warren Buffett (BUFFETT; CLARK, 2007),4
existem muitas maneiras de descrever o que está acontecendo com uma empresa. No entanto, seja
lá o que se diga, sempre se retorna à língua da Contabilidade. Quando a filha do seu amigo
perguntou que disciplinas cursar na faculdade, ele respondeu: “Contabilidade, a língua dos
negócios”. Para interpretar as demonstrações financeiras de uma empresa, você tem de saber
interpretar os números. Para isso, precisa aprender Contabilidade.
Desse modo, podemos concluir que, por meio da Contabilidade, traçam-se objetivos,
mensuram-se resultados e avaliam-se desempenhos. É por meio dos relatórios elaborados com base
no sistema de informações contábeis que administradores decidem o preço a ser praticado, o mix
de produtos a ser vendido e a tecnologia a ser utilizada.
Como toda e qualquer linguagem, a Contabilidade utiliza sinais e símbolos cognitivos
próprios, possui um vocabulário específico e uma “gramática” própria. Não falar a linguagem
própria, bem como não compreender os seus conceitos fundamentais e os seus princípios
norteadores torna difícil a interpretação de relatórios e a participação no mundo dos negócios.
Sem um conhecimento formal de Contabilidade, como seria a análise de uma empresa?
Como se calcularia a sua capacidade de pagar as dívidas, a sua lucratividade ou mesmo o retorno
do capital?

3
Detalhes sobre a empresa podem ser encontrados no seu website: <http://www.raiadrogasil.com.br>.
4
BUFFETT, Mary; CLARK, David. O Tao de Warren Buffett: como aplicar a sabedoria e os princípios de investimento do gênio
das finanças em sua vida. Rio de Janeiro: Sextante, 2007.

12
A Demonstração da Controladora – muitas vezes, denominada pelo termo em inglês holding –
representa a entidade constituída de forma legal que possui participações societárias em
outras empresas. É essa empresa que possui ações negociadas na Bolsa de Valores, e que paga
impostos e dividendos.

Visando a gerar melhor informação, a Contabilidade desenvolveu uma técnica para


evidenciar informações de uma entidade econômica abstrata, admitindo que a empresa
controladora e as suas controladas sejam uma única entidade objeto de contabilização. Essa
aglutinação gera as “Demonstrações Consolidadas”, que propiciam a visão integrada do
conjunto formado legalmente pelas diversas empresas existentes. Em termos de análise, a
Demonstração Consolidada tem uma qualidade superior e propicia a comparação com os
outros conglomerados.

Nesta edição, reproduzimos apenas as Demonstrações Consolidadas.

Contabilidade: definição
A Contabilidade é a ciência social que tem por objetivo medir, para poder INFORMAR, os
aspectos quantitativos e qualitativos do patrimônio de quaisquer entidades. Constitui um
instrumento para a gestão e o controle das entidades, além de representar um sustentáculo da
democracia econômica, já que, pelo seu intermédio, a sociedade é informada sobre o resultado da
aplicação dos recursos conferidos às entidades.
A contabilidade é o processo cujas metas são registrar, resumir, classificar e comunicar as
informações financeiras. O input desse processo são as transações que a empresa efetua. O output
são as demonstrações contábeis. Constitui-se no grande banco de dados de todas as empresas.
Genericamente, pode-se dizer que a contabilidade é uma indústria, tendo como matéria-prima os
dados econômico-financeiros captados pelos registros contábeis e processados de forma ordenada,
gerando as Demonstrações Contábeis ou Demonstrações Financeiras – como são denominadas pela
legislação brasileira – como produto final.
É possível visualizar essa afirmação por meio da seguinte ilustração:

Figura 1 – Contabilidade: matéria-prima e produto final

13
A Contabilidade possui a estrutura lógica conceitual fundamentada nos seus princípios
norteadores. A capacidade informativa da Contabilidade e a estruturação do sistema contábil são
viabilizadas por meio da elaboração de um “bom” Plano de Contas, que ordena todas as contas
utilizadas pela empresa por natureza e viabiliza a definição das áreas da empresa em que são
incorridos os gastos. Além disso, um “bom” Plano de Contas deve, ainda, permitir o seu
aprimoramento, bem como a criação de novas contas e detalhamentos (subcontas), sem prejuízo de
toda a sua estrutura.

Objetivo da Contabilidade
A Contabilidade é uma ciência fundamentalmente utilitária. O seu grande produto é o
provimento de informações para planejamento e controle, evidenciando informações referentes à
situação patrimonial, econômica e financeira de uma empresa.
O propósito básico da Contabilidade é prover aos “tomadores de decisões” – diretores, gerentes,
administradores da empresa e todos os interessados – informações úteis para a sua melhor atuação.
De modo objetivo, a Contabilidade é um sistema de informação e avaliação destinado a
prover os seus usuários com demonstrações e análises de natureza econômica, financeira, física e de
produtividade no que tange à entidade objeto da contabilização.
A Contabilidade Financeira – ou Societária –, a linguagem dos negócios, objetiva mostrar a
saúde financeira da empresa.

Usuários da informação contábil


A coleta – obtenção –, o registro e a sumarização da informação econômica visam a
fundamentar o processo decisório de todas as pessoas relacionadas com as entidades, tais como os
administradores, os investidores, o governo, os empregados, os financiadores e toda a sociedade, ou
seja, aqueles que constituem os agentes econômicos internos e externos.
De acordo com o objetivo de cada usuário – decisão quanto a investimentos ou financiamentos,
distribuição de resultados, entre outros –, existe uma demanda diferenciada de informações contábeis.
Por esse motivo, podemos dividir os usuários da informação do seguinte modo:
acionista controlador – retorno do capital comparado com o risco, a valorização da
empresa, o lucro e os dividendos;
administradores – retorno do capital e do ativo, otimização dos gastos realizados, otimização
das decisões futuras, lucratividade do mix de produtos e participação nos lucros;
financiadores – capacidade de pagamento, grau de endividamento;

14
governo – tributação e arrecadação de impostos, taxas e contribuições, além da
formulação de diretrizes da política econômica, bem como das atividades do Judiciário
e das agências reguladoras;
acionista minoritário – fluxo regular de dividendos e valorização da empresa e
empregados – capacidade de pagamento dos salários, perspectivas de crescimento da
empresa e participação nos lucros.

De forma geral, pode-se dizer que o conjunto completo de demonstrações contábeis


normatizadas pelo International Accounting Standards Board (Iasb) e pelo CPC visa a gerar
informação relevante a um amplo grupo de usuários que não têm condições de exigir informação
detalhada para atender às suas necessidades específicas.

Contabilidade: ambiente e campo de atuação


De modo resumido, vejamos o ambiente no qual a contabilidade gera informações e o seu
campo de atuação, bem como as diversas funções que o contador pode desempenhar.

Ambiente
A Contabilidade é um produto do seu meio. Ela resulta das condições socioeconômicas e
político-legais, bem como das suas limitações e influências, que variam no tempo. O campo de
atuação da Contabilidade é muito amplo, podendo abranger as pessoas físicas, as entidades de
finalidades não lucrativas e as entidades de Direito Público – como estado, município, União,
autarquia –, havendo uma regulamentação própria para Contabilidade Pública bem como
peculiaridades nas organizações sem fins lucrativos. Apesar dessa abrangência, o presente texto vai
pautar os seus exemplos e as suas aplicações em entidades que objetivam lucro.

Campo de atuação
Assim como existem diferentes tipos de decisões econômicas, a Contabilidade também se
estrutura para fornecer diferentes tipos de informações. A atuação segmentada da Contabilidade
Gerencial, da Contabilidade Financeira e da Contabilidade Fiscal retrata esse processo, que fornece,
no conjunto, as informações mais utilizadas no mundo dos negócios.
As principais diferenças são:
A Contabilidade Gerencial ou INTERNA abrange as informações a serem fornecidas aos
gestores da entidade, isto é, às pessoas internas à organização responsáveis por dirigir e
controlar as suas operações. Tais informações são utilizadas para traçar metas, avaliar o
desempenho dos setores da empresa, bem como dos seus funcionários, decidindo sobre a

15
produção de novos produtos ou não, além de todos os tipos de decisões gerenciais. Apesar
de a base das suas informações ser financeira, devem ser inclusas avaliações de fatores “não
financeiros”, como considerações políticas e ambientais, qualidade do produto, satisfação
do cliente e produtividade.
A Contabilidade Financeira ou EXTERNA se refere a recursos financeiros, obrigações e
atividades da entidade legal. A priori, a sua informação é destinada ao público externo à
entidade, e busca orientar investidores e credores ao decidirem onde alocar os seus
recursos. Tais decisões são importantes para a sociedade, uma vez que serão determinadas
quais empresas vão ou não receber recursos para o seu crescimento. Muitas outras pessoas
utilizam essas informações, tais como os executivos e os empregados da empresa, os
acionistas, os fornecedores e outros externos à empresa.
A Contabilidade Fiscal representa um setor de especialização da Contabilidade. Objetiva
fornecer informação ao órgão tributante – governo –, principalmente à Secretaria da
Receita Federal (SRF). O planejamento tributário significa a antecipação dos “efeitos dos
impostos” nas transações e na estruturação das operações, de modo que se minimize a
carga tributária, licitamente. Vale ressaltar que a declaração do Imposto de Renda é
baseada na informação proveniente da Contabilidade Financeira.

A Contabilidade Fiscal – ou Tributária – não será detalhada neste material. O breve


comentário tem por objetivo, simplesmente, demonstrar que não se deve confundi-la com a
Contabilidade Financeira.
A Contabilidade Financeira – ou Societária – está limitada pelos princípios contábeis
generalizadamente aceitos, que restringem as regras de reconhecimento da receita e mensuração
de custo, assim como os tipos de itens que são classificados como Ativos, Passivos e Patrimônio
Líquido no Balanço Patrimonial. Por sua vez, a Contabilidade Gerencial não está restrita àqueles
princípios contábeis.
A Contabilidade de Custos se localiza em uma área intermediária entre a Contabilidade
Financeira e a Contabilidade Gerencial, pois serve às duas.
A Contabilidade Financeira utiliza as informações geradas pela Contabilidade de Custos para
avaliar os estoques – necessário para apurar o Balanço Patrimonial – e para mensurar o custo dos
produtos vendidos – necessário para apurar o resultado do período.
Já a Contabilidade Gerencial utiliza as informações providas pela Contabilidade de Custos
para identificar que preço deve ser cobrado para cobrir o custo do produto, as despesas operacionais
e, ainda, remunerar o capital investido adequadamente.
Resumindo, pode-se afirmar que a contabilidade está inserida em três amplos campos de
atuação, orientados pelas necessidades dos seus usuários.

16
Quadro 1 – Campos de atuação da Contabilidade

Contabilidade Contabilidade Contabilidade


características
Gerencial Financeira Fiscal

adoção e
facultativa obrigatória obrigatória
elaboração

utilizada para relações internas relações externas relações tributárias

não condicionada condicionada às


vínculo à condicionada às
às disposições disposições legais e
legislação disposições legais
legais tributárias

Não precisa, mas,


vínculo aos
normalmente, acompanha
princípios Deve acompanhar
Não precisa – embora o Fisco tenha o
contábeis todos os princípios
acompanhar. poder de determinar
(estrutura contábeis.
tratamento diferente ou
conceitual)
criar exceções.

relatórios para conjunto completo


relatórios específicos
produto principal planejamento e de demonstrações
exigidos por lei
controle contábeis

interesse nas empresa como um


visão da empresa empresa como um todo
partes todo

rápida
a informação é relevante e confiável precisa (objetiva)
(aproximações)

a informação essência econômica


utilidade objetividade e legalidade
busca das transações

Limitações da contabilidade
Infelizmente, deve-se reconhecer que as informações contábeis não podem reproduzir o
patrimônio da empresa com total fidelidade e certeza de forma a atender com plenitude às
necessidades informacionais de todos os usuários. A contabilidade utiliza avaliações e, como todo
sistema de mensuração, tem limitações – inclusive de custo-benefício –, pois deve conciliar a
utilidade da informação com os requisitos da praticabilidade e da objetividade.

17
O fato de a contabilidade se concentrar na avaliação monetária apresenta um grande aspecto
positivo, mas também enseja limitações, visto que é impossível a quantificação monetária de todos
os eventos econômicos. O processo de avaliação é agravado pelo problema da flutuação de preços,
que impacta de forma definitiva a avaliação do patrimônio líquido e do resultado ao longo do
tempo. Desse modo, a informação do lucro líquido não deveria ser a única medida de avaliação do
sucesso de uma empresa durante um período.
O resultado exato de uma empresa – ou seja, a variação do patrimônio investido pelos
proprietários – somente poderá ser apurado no fim da sua vida, quando os ativos da empresa forem
liquidados. No entanto, para proporcionar informações úteis, a Contabilidade tem a missão de
calcular o resultado a intervalos regulares de tempo. Esse é o motivo pelo qual a Contabilidade é
estruturada sobre o conceito de lucro – regime de competência –, e não sobre o conceito de caixa –
regime de caixa.
Para aprimorar essa informação, é preciso introduzir, na quantificação do lucro, variáveis
não monetárias de mensuração subjetiva, como custo de oportunidade, inovação tecnológica,
qualidade de produtos, satisfação da clientela, investimentos sociais, ambientais e treinamento
de empregados.
No entanto, um aspecto fundamental deve ser esclarecido. O controle por meio das
informações contábeis é imprescindível para todas as empresas. Em longo prazo, na avaliação da
gestão da empresa, o conceito de Lucro é superior ao de Caixa, apesar de este ser uma informação
contábil de grande utilidade.
O conceito de lucro é obtido por meio do Regime de Competência, que representa a alocação
lógica e racional do fluxo de caixa ao longo da vida da empresa.
Dessa forma, a diferença entre o conceito de lucro e de caixa é apenas temporal, visto que
esses conceitos são idênticos no fim da vida da empresa.

Principais demonstrações elaboradas pela Contabilidade


Financeira
As principais demonstrações elaboradas pela Contabilidade Financeira são as demonstrações
contábeis de propósito geral. Isto é: relatórios contábil-financeiros elaborados com o objetivo de gerar
informação útil a uma ampla gama de usuários – investidores e credores, potenciais e efetivos – que não
têm condições de exigir relatórios específicos para as suas necessidades informacionais.
De acordo com os International Financial Reporting Standards (IFRSs), o conjunto completo
de demonstrações contábeis de propósito geral é composto de: balanço patrimonial, demonstração
do resultado do exercício, demonstração dos fluxos de caixa, demonstração das mutações do patrimônio
líquido e notas explicativas. A legislação brasileira (Lei nº 6.404, de 15 de dezembro de 1976 – LSA)
adicionou a demonstração do valor adicionado a esse rol.
A seguir, apresentamos tais relatórios.

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Balanço Patrimonial
O Balanço Patrimonial tem como objetivo mostrar a posição patrimonial e financeira de
determinada empresa em um momento específico e informar a capacidade de geração dos fluxos
futuros de caixa. Toda empresa prepara o seu Balanço Patrimonial no fim de cada ano. As
companhias abertas têm a obrigação de divulgá-lo ao público assim como as demais peças contábeis,
a cada trimestre. Para efeito interno (gerencial), o ideal é a elaboração na periodicidade mensal.
O Balanço Patrimonial relaciona e quantifica cada conta do Ativo, do Passivo e do
Patrimônio Líquido no último dia do período. Por meio dessa relação, o proprietário sabe o que
possui (ex.: caixa, estoque, equipamentos), o que deve (contas a pagar, empréstimos) e quanto
possui de patrimônio, líquido de dívidas, no fim do período. Este consiste no capital empreendido
no negócio mais os lucros, menos os prejuízos.
O Balanço Patrimonial consiste na relação, de modo ordenado, dos ativos (bens e direitos),
dos passivos (obrigações) e do patrimônio líquido (diferença entre os ativos e os passivos) de uma
empresa. A estrutura do Balanço Patrimonial é a seguinte:

passivo
ativo
patrimônio líquido

O Ativo evidencia onde está o dinheiro aplicado na empresa. O Passivo e o Patrimônio


Líquido mostram qual é a fonte do dinheiro aplicado na entidade.

ativo passivo

origem de recursos
aplicação de recursos
De onde o dinheiro veio?
Onde está o dinheiro?
patrimônio líquido

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A seguir, o Balanço Patrimonial representa a posição financeira da Droga Raia, em 31 de
dezembro de 2017.

Tabela 1 – Posição financeira da Droga Raia (31/12/2017)

Descrição 31/12/2017 31/12/2016

Ativo Total 6.464.249 5.659.303

Ativo Circulante 3.928.204 3.427.783

Caixa e Equivalentes de Caixa 264.873 276.632

Contas a Receber 1.049.074 877.353

Estoques 2.517.594 2.149.468

Tributos a Recuperar 78.778 111.772

Despesas Antecipadas 17.885 12.558

Ativo Não Circulante 2.536.045 2.231.520

Ativo Realizável em Longo Prazo 68.753 50.858

Contas a Receber 1.622 334

Despesas Antecipadas 4.941 4.553

Depósitos Judiciais 29.215 23.007

Tributos a Recuperar 32.975 22.964

Investimentos 0 0

Imobilizado 1.276.276 1.006.606

Intangível 1.191.016 1.174.056

Descrição 31/12/2017 31/12/2016

Passivo Total 6.464.249 5.659.303

Passivo Circulante 2.493.779 2.184.684

Obrigações Sociais e Trabalhistas 202.799 199.378

Fornecedores 1.815.687 1.615.587

Obrigações Fiscais 130.432 96.731

Empréstimos e Financiamentos 196.248 132.581

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Dividendos a Pagar 37.474 25.934

Aluguéis 65.768 56.297

Demais Contas a Pagar 33.579 36.673

Provisões 11.792 21.503

Passivo Não Circulante 720.098 538.664

Empréstimos e Financiamentos 414.711 281.387

Passivos com Partes Relacionadas 47.515 45.228

Programa de Recuperação Fiscal 20.988 16.271

Tributos Diferidos 228.715 193.187

Provisões 8.169 2.591

Patrimônio Líquido Consolidado 3.250.372 2.935.955

Capital Social Realizado 1.808.639 1.808.639

Reservas de Capital 151.156 138.553

Reservas de Lucros 1.280.751 980.442

Ajustes de Avaliação Patrimonial -18.033 -17.847

Participação dos Acionistas Não Controladores 27.859 26.168

Fonte: CVM. Disponível em: <http://www.cvm.gov.br>. Acesso em: 8 mar. 2018.

As contas do Ativo representam onde os recursos da empresa foram aplicados, e são apresentadas
em ordem decrescente de liquidez, ou seja, inicia-se com os itens de maior liquidez5 – caixa, bancos e
clientes –, que logo serão convertidos em caixa. No fim, são colocados os itens que deverão permanecer
mais tempo na empresa, como edifícios, equipamentos, veículos e móveis.
As contas do Passivo representam a origem dos recursos de terceiros e devem ser, inicialmente,
separadas considerando a data de vencimento, ou seja, se ela é inferior ou superior a um ano. Os
Passivos são agregados pela sua natureza, como fornecedores, empréstimos, impostos a pagar e
salários a pagar.
A seguir, é apresentado o Patrimônio Líquido, indicando o capital integralizado, as reservas
de capital e as reservas de lucros ou prejuízos acumulados.
O Passivo Total é formado pela soma do Passivo, que representa dívidas ou obrigações, e do
Patrimônio Líquido, que representa o valor pertencente aos acionistas. De forma ideal, deve-se

5
Entende-se por liquidez a capacidade e a velocidade de transformar bens e direitos em dinheiro.

21
procurar utilizar o termo Passivo apenas para as dívidas da empresa, não utilizando esse termo em
referência ao Patrimônio Líquido.
O total do Ativo e o total do Passivo + Patrimônio Líquido são sempre iguais, por isso, sendo
chamados Balanço. Daí, a equação fundamental da contabilidade:

ativo = passivo + patrimônio líquido

Estrutura do Balanço Patrimonial Consolidado

passivo

patrimônio líquido:
ativo
participação acionistas não controladores
participação acionistas controladores

Observe o Balanço Patrimonial da Droga Raia de 2017:


Ativo Total = R$ 6.464.249 mil.
Passivo = R$ 3.213.877 mil = (Passivo Circulante R$ 2.493.779 mil + Passivo Não
Circulante R$ 720.098 mil).
Patrimônio Líquido = R$ 3.250.372 mil.
Passivo + Patrimônio Líquido = R$ 6.464.249 mil = Ativo Total.

Os elementos componentes da estrutura do balanço patrimonial são definidos assim:

a) Ativo – recursos econômicos (bens e direitos) que a empresa controla e espera que lhe gerem
benefícios futuros. Os Ativos podem ter corpo, matéria definida – tais como prédios, máquinas ou
mercadorias –, sendo denominados de Ativos Tangíveis. Além disso, podem ter valor legal ou
representar direitos – como a marca e o ponto comercial –, sendo denominados Ativos Intangíveis.
Um dos problemas mais controversos em Contabilidade é mensurar o real valor dos Ativos.
Os itens do Ativo são agrupados do seguinte modo:
Ativo Circulante – recursos que serão realizados no exercício seguinte, ou seja, no período
de 12 meses após o encerramento do Balanço. Isso significa que todos serão utilizados na
atividade da empresa no curto prazo (máximo de 12 meses). Exemplo: caixa, bancos,
investimentos temporários, contas a receber, mercadorias e despesas antecipadas.
Ativo Não Circulante – Ativos não classificados no Ativo Circulante. Compreende os
Ativos Realizáveis em Longo Prazo, os Investimentos, os Imobilizados e os Intangíveis.
Ativo Realizável em Longo Prazo – realização após o término do exercício social seguinte,
ou seja, em um período superior a 12 meses após o encerramento do Balanço Patrimonial.

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Exemplo: contas a receber em longo prazo, despesas antecipadas em longo prazo,
empréstimos concedidos a receber em longo prazo.
No Ativo Realizável em Longo Prazo, é importante verificar que a lei societária apresenta um
posicionamento que representa uma exceção à classificação de acordo com o período de
recebimento do Ativo. No art. 179, a lei afirma que é obrigatório que sejam reconhecidos, no
Realizável em Longo Prazo, os direitos derivados de vendas, os adiantamentos ou os empréstimos a
sociedades coligadas ou controladas, diretores, acionistas ou participantes no lucro da companhia,
que não constituírem negócios usuais na exploração do objeto da companhia, mesmo que a data de
vencimento prevista seja no curto prazo:
Investimentos – investimentos permanentes, inclusive as propriedades para investimento.
Exemplo: investimentos em ações ou quotas, obras de arte, imóveis para aluguel ou
destinados à valorização de capital, ou ambos.
Imobilizado – direitos que tenham por objeto bens corpóreos destinados à manutenção
das atividades da companhia ou exercidos com essa finalidade, e os decorrentes de
operações que transfiram à companhia os benefícios, os riscos e o controle desses bens.
Exemplo: terrenos, edifícios, máquinas e equipamentos, móveis e utensílios, instalações,
obras em andamento, desde que destinados ao uso nas operações.
Intangível – direitos que tenham por objeto bens incorpóreos destinados à manutenção
da companhia ou exercidos com essa finalidade, inclusive o fundo de comércio adquirido.
No Balanço Patrimonial, os Ativos Intangíveis não podem ser avaliados a valor de
mercado. Exemplos: fundo de comércio, direitos autorais, marcas e patentes.

Verifique o Balanço Patrimonial da Droga Raia de 2017:


R$ 264.873 mil estão aplicados em dinheiro e depósitos bancários à disposição da entidade
(Caixa e Equivalentes de Caixa).
R$ 2.517.594 mil estão aplicados em mercadorias disponíveis para serem vendidas
(Estoques).
R$ 1.276.276 mil estão aplicados em bens destinados ao uso pela entidade, nas suas
operações normais (Imobilizado).

Todos esses itens representam aplicações de recursos realizadas no passado pela entidade, das
quais se tem expectativa de geração de benefícios, presentes e futuros, a serem percebidos e
controlados pela entidade.
Tais benefícios podem ser representados pela geração de caixa – como as mercadorias que
serão vendidas aos clientes – ou podem evitar a saída de caixa – como os prédios e os equipamentos
que não precisarão ser alugados, uma vez que a entidade já é proprietária ou os arrenda de terceiros
(Ativo Imobilizado).

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b) Passivo – são obrigações da empresa, contraídas junto a outras pessoas físicas ou jurídicas.
Os itens do Passivo são agrupados desta forma:
Passivo Circulante – espera-se a sua liquidação dentro dos 12 meses seguintes à data final
do Balanço – fornecedores, empréstimos, impostos a pagar e encargos sociais a recolher.
Passivo Não Circulante – compreende as obrigações não classificadas no Passivo
Circulante, isto é, cujo vencimento ocorrerá após o término do exercício social seguinte,
ou seja, no prazo superior a 12 meses seguintes à data do Balanço. São exemplos:
fornecedores em longo prazo, empréstimos em longo prazo e algumas provisões.

Desse modo, as obrigações da companhia – inclusive financiamentos para aquisição de


direitos do Ativo não Circulante – serão classificadas no Passivo Circulante, quando vencerem no
exercício seguinte, e no Passivo não Circulante, se tiverem vencimento em prazo maior.
Observe o Balanço Patrimonial da Droga Raia de 2017 (Passivo + PL):
R$ 1.815.687 mil são financiados pelos fornecedores das mercadorias – Fornecedores.
R$ 151.420 mil são financiados pelo governo – Obrigações Fiscais (R$ 130.432 mil) mais
Programa de Recuperação Fiscal (R$ 20.988 mil).
R$ 610.959 mil são financiados por bancos – Empréstimos e Financiamentos, sendo
R$ 196.248 mil de curto prazo + R$ 414.711 mil de longo prazo.

Todos esses itens têm uma característica em comum: representam obrigações da entidade
assumidas, no passado, que ainda não foram pagas, e exigirão desembolsos de recursos no futuro.

c) Patrimônio Líquido – origens de recursos dos acionistas. Em outras palavras, corresponde


à parcela do Ativo que excede o total dos Passivos. São exemplos: capital social, reserva de capital e
reserva de lucros.
Conjunto de bens e direitos de uma entidade, deduzida das suas obrigações para com
terceiros. Diferença entre o Ativo e o Passivo, ou seja, o valor contábil líquido da empresa.
Capital Social
Subscrito – compromisso de integralizar;
A realizar – subscrito, mas não integralizado;
Integralizado – valor já capitalizado;

Reserva de Capital
Ágio na colocação de ações;
Alienação de partes beneficiárias e bônus de subscrição;

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Reservas de Lucros – apropriação de Lucros que, no caso das três primeiras (legal, para
contingências e de lucros a realizar), podem ser dedutíveis do Dividendo Mínimo
Obrigatório:
Reserva Legal – 5% do Lucro Líquido, limitado a 20% do Capital Social;
Reservas para Contingências, como perdas futuras previstas em função da seca
esperada;
Reserva de Lucros a Realizar:
Lucro na Venda de Imobilizado em longo prazo;
Receita de Equivalência Patrimonial;
Reservas Estatutárias – retenção de lucros prevista nos estatutos da empresa;

Reserva de Reavaliação – é uma conta em desuso, pois a legislação brasileira proíbe novas
reavaliações a partir de 2008. Com isso, o seu saldo representa o efeito da reavaliação
(substituição do valor de custo histórico pelo valor de reposição) de itens do ativo
imobilizado.

Ajustes de Avaliação Patrimonial – utilizada para registrar a contrapartida do aumento ou


redução de itens do ativo ou do passivo mensurados a valor justo sem transitar pelo
resultado do período. A sua aplicabilidade é bastante restrita. Exemplo de ativos e passivos
mensurados a valor justo sem transitar pelo resultado do período são os instrumentos
financeiros mentidos para fins de proteção (hedge).

Lucros ou Prejuízos Acumulados – por força de lei, essa conta não deverá apresentar saldo
no fim do exercício. Essa conta terá caráter transitório, reconhecendo o lucro líquido do
período, as apropriações e reversões de reservas e a distribuição dos lucros.

Ações em Tesouraria (conta devedora, redutora do PL) – representa as ações de própria


emissão da entidade que ela recompra no mercado.

Veja o Balanço Patrimonial da Droga Raia de 2017:


R$ 1.808.639 mil são contribuições efetivas dos sócios – Capital Social.
R$ 1.280.751 mil são lucros obtidos pela entidade e ainda não distribuídos aos sócios na
forma de dividendos – Reserva de Lucros.

Em uma situação normal de descontinuidade da entidade – encerramento das suas atividades – e


liquidação dos seus Ativos – venda e transformação dos bens e direitos em dinheiro –, todo o Passivo
deve ser pago, e o PL sobra para os sócios. Em caso de falência, pode não haver capacidade de pagamento
dos passivos.

25
Demonstração do Resultado do Exercício
Uma das várias medidas de desempenho é representada pelo lucro líquido referente a
determinado período. Tal lucro é apurado pela Demonstração do Resultado do Exercício (DRE). O
lucro ou prejuízo é obtido pela subtração de todas as despesas das receitas auferidas. Desse modo, poderá
ser avaliado se determinada despesa está sendo incorrida de modo desproporcional, podendo-se avaliar
os motivos de tal fato, para que as possíveis soluções sejam mais prontamente identificadas.
A DRE é uma forma estruturada de evidenciar a composição do resultado da entidade, ou
seja, é um critério de organização das receitas auferidas e das despesas incorridas no período. Ao
apresentar o resultado (lucro ou prejuízo), a DRE evidencia a riqueza gerada pela entidade em
determinado período (exercício), sabendo-se que essa riqueza pertence, no fim das contas, aos
acionistas da entidade.
A forma de evidenciação básica das Despesas na estrutura da DRE, até o resultado
operacional, é constituída para gerar informações por meio de quatro funções organizacionais
da empresa:
1. produção;
2. comercial;
3. administrativa e
4. financeira.

A composição do primeiro item decorre da forma de atuação da empresa. Em uma indústria,


é apresentado o Custo dos Produtos Vendidos (CPV), que abrange gastos com a transformação da
matéria-prima em produto acabado. Em uma empresa comercial, o CPV é substituído pelo Custo
das Mercadorias Vendidas (CMV), que representa o custo dos estoques entregues aos clientes. Em
uma empresa de serviços, objetivando gerar informações úteis, procura-se destacar os gastos
relacionados à produção dos serviços. No item denominado Custo dos Serviços Prestados (CSP),
por exemplo, em uma empresa do setor de transporte rodoviário, os gastos com combustível,
salários dos motoristas, manutenção e depreciação dos veículos devem ser apresentados nessa conta.

Observação: Na prática, certos itens específicos são difíceis


de ser enquadrados. Nesses casos, a legislação prevê o item
Outras Receitas e Despesas Operacionais. No estudo da
contabilidade, você verificará contas iniciadas com o título
“Outras”, embora essa classificação receba críticas
recorrentes. Em diversas situações, representam a solução
mais prática para a classificação. O importante é que não
ocorra o abuso.

26
A Demonstração de Resultado do Exercício (DRE ou Derex) é um resumo ordenado de
receitas e despesas da empresa em determinado período, chegando-se ao lucro ou ao prejuízo. As
receitas são representadas pelas vendas de produtos – bens e serviços – realizadas no período de
referência (exercício), ainda que não tenham sido recebidas. Por sua vez, as despesas representam o
esforço da entidade para conseguir a sua receita do período sob exame, mesmo que não haja
desembolso de recursos nesse mesmo período.
Para compreender a DRE, é necessário conhecer a definição de alguns conceitos fundamentais:
Receitas – são aumentos nos benefícios econômicos durante o período contábil sob a
forma de entrada de recursos, isto é, do aumento de ativos ou da diminuição de passivos,
que resultam em aumento do patrimônio líquido e que não sejam provenientes de aportes
de capital pelos proprietários.
Despesas – são reduções de benefícios econômicos durante o período contábil sob a forma
de consumo de recursos, isto é, da redução de ativos ou do aumento de passivos, que
resultam em redução do patrimônio líquido e que não sejam decorrentes de distribuição
de lucros aos proprietários.
Resultado – diferença algébrica entre receitas e despesas. O resultado é também chamado
de lucro (se positivo) ou prejuízo (se negativo).

Na prática, a DRE é a apresentação, em forma resumida, das operações realizadas pela


empresa durante o exercício social, destacando-se o resultado líquido do período. Na verdade, a
análise do resultado do exercício significa a avaliação do desempenho da empresa.

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Observe, a DRE da Droga Raia de 2017:

Tabela 2 – DRE da Droga Raia de 2017

Descrição 2017 2016

Receita de Venda de Bens e/ou Serviços 13.212.505 11.256.565

Custo dos Bens Vendidos -9.224.505 -7.752.422

Resultado Bruto 3.988.000 3.504.143

Despesas Operacionais -3.195.416 -2.798.605

Despesas com Vendas -2.529.050 -2.218.765

Administrativas -328.664 -297.729

Depreciações e Amortizações -337.914 -274.434

Despesas Extraordinárias 212 -7.677

Resultado Antes do Resultado Financeiro e dos Tributos 792.584 705.538

Resultado Financeiro -106.040 -110.322

Receitas Financeiras 106.883 109.433

Despesas Financeiras -212.923 -219.755

Resultado Antes dos Tributos sobre o Lucro 686.544 595.216

Imposto de Renda e Contribuição Social sobre o Lucro -173.891 -143.964

Lucro/Prejuízo Líquido Consolidado do Período 512.653 451.252

Atribuído a Sócios da Empresa Controladora 511.163 447.685

Atribuído a Sócios Não Controladores 1.490 3.567

Lucro Básico por Ação 1,55047 1,35764

Lucro Diluído por Ação 1,54855 1,35764

Fonte: CVM. Disponível em: <http://www.cvm.gov.br>. Acesso em: 8 mar. 2018.

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Em 2017, a Droga Raia apurou:
A Receita de vendas foi de R$ 13.212.505 mil.
Os Custos das Mercadorias Vendidas totalizaram R$ 9.224.505 mil.
O Lucro Bruto (isto é, Receita menos os Custos das Mercadorias Vendidas) foi de
R$ 3.988.000 mil.
O Lucro Líquido foi de R$ 512.653 mil.

Além da DRE, as entidades são obrigadas a apresentar a Demonstração de Outros Resultados


Abrangentes, quando houver “outros resultados abrangentes” – o que não foi o caso da Droga Raia
em 2017.
Os “outros resultados abrangentes” são todos os eventos que atendem perfeitamente à
definição de receita ou despesa, mas não são reconhecidos na DRE como receita nem como despesa
por força dos pronunciamentos contábeis em vigor. São exemplos de “outros resultados
abrangentes” (nenhum deles discutido neste material):
ajuste ao valor justo de instrumentos financeiros de cobertura (hedge);
ajustes na provisão para benefícios a empregados de planos de benefício definido
decorrentes da alteração de premissas atuariais e
ajustes de variação cambial decorrentes de conversão de demonstrações contábeis para uma
moeda de apresentação diferente da moeda funcional.

O art. 187 da Lei das Sociedades por Ações (LSA) disciplina a apresentação da DRE por
função. A Demonstração é iniciada com o valor total da receita apurada nas suas operações de
vendas e prestação de serviços, da qual são subtraídas as deduções da receita e os custos das
mercadorias vendidas (CMV, CSP, CPV), apurando-se o lucro bruto. Desse modo, o lucro bruto
corresponde ao valor que a empresa consegue obter após recuperar o CMV.
A partir disso, são subtraídas as despesas operacionais segregadas por subtotais, conforme a
sua natureza, ou seja:
Despesas com vendas – despesas comerciais, realizadas para vender o produto, como
despesa de marketing e distribuição.
Despesas gerais e administrativas – gastos para direção geral da empresa, que representam
atividades que geram benefícios para todas as fases do negócio da empresa.
Despesas financeiras e receitas financeiras – as receitas e as despesas financeiras
correspondem aos rendimentos financeiros auferidos sobre as suas aplicações financeiras
(Ativo); e os juros incidentes, sobre empréstimos ou financiamentos (Passivo),
respectivamente.

Assim sendo, deduzindo-se as despesas operacionais totais do lucro bruto, apresenta-se o lucro
operacional, denominado na DRE como Resultado Antes dos Tributos sobre o Lucro – outro dado

29
importante na análise das operações da empresa. Nesse sentido, o Lucro Operacional corresponde
ao valor que a empresa consegue obter após recuperar o CMV e todas as despesas necessárias para
obter as receitas, ou seja, é o quanto a atividade operacional gera de riquezas para a entidade.
Uma empresa também pode efetuar a venda dos seus ativos não circulantes após um período
de uso. O valor desse resultado – que pode ser positivo ou negativo – é classificado dentro do
Resultado Operacional, na linha de Outras Receitas ou Despesas Operacionais.
A seguir, deduz-se a despesa com o imposto de renda e a Contribuição Social. Finalmente,
deduzem-se as participações (previstas no estatuto) de terceiros calculáveis sobre o lucro – tais como
empregados administradores, partes beneficiárias, debêntures e contribuições para fundos de
benefícios a empregados –, dessa forma, chegando-se, ao lucro ou ao prejuízo líquido do exercício.
Ao ser dividido pelo número de ações, chega-se ao lucro ou ao prejuízo por ação, valor final da DRE.
Como se nota no texto da alínea b do § 1º do art. 187 da LSA, nos mesmos períodos em que
forem lançados os rendimentos e as receitas, deverão estar registrados todos os custos, as despesas,
os encargos e os riscos correspondentes àquelas receitas. Por esse conceito – também denominado
contraposição de receitas e despesas (Princípio da Confrontação de Despesas com Receitas e com o
Período Contábil) –, ao se contabilizar, por exemplo, a receita da venda de determinado produto,
devem-se registrar, no mesmo período, todas as despesas em que se incorre no que tange àquela
receita, tais como:
o custo do produto vendido, que englobaria material, mão de obra e demais custos da sua
fabricação;
as despesas operacionais incorridas, seja de comercialização, seja de administração, e
o imposto sobre a renda (lucro) auferida.

Nesse sentido, se a empresa conceder, por exemplo, um período de garantia e de revisões


gratuitas ao cliente pelo produto vendido, o custo de tal garantia deverá estar apropriado, por
estimativa, nesse mesmo período, e não no período futuro, quando será realizada a substituição de
peças ou a revisão gratuita. Por esse motivo é que, havendo a cláusula de garantia sobre as vendas,
deve-se constituir uma provisão para custos de garantia.
A partir dessa filosofia, a comissão dos vendedores deve estar provisionada como despesa, no
mesmo período do reconhecimento da venda – mesmo sendo paga, total ou parcialmente, somente
quando do recebimento das duplicatas correspondentes.
Um aspecto muito relevante ocorre quando a empresa efetua vendas e compras a prazo. Nesse
caso, há um efeito decorrente do “custo do dinheiro” entre a data original da transação e o efeito
financeiro. Nesse caso, quando os valores são materiais, o ideal é a aplicação do conceito de Ajuste
a Valor Presente.

30
Demonstração dos Fluxos de Caixa
A Demonstração dos Fluxos de Caixa (DFC) evidencia a variação do caixa, indispensável para o
pagamento das obrigações no prazo previsto assim como para o bom funcionamento da empresa.
A Lei nº 11.638, de 28 de dezembro de 2007, tornou obrigatória a evidenciação da DFC. O
CPC emitiu o Pronunciamento Técnico nº 3, apresentando as normas para a sua elaboração.
A DFC mostra as origens e aplicações de caixa, que são a base para a avaliação da situação
financeira da empresa e a sua capacidade de pagamento das obrigações. Essa demonstração auxilia
a responder a perguntas vitais, como “Onde foi obtido o dinheiro?” e “Onde o dinheiro foi aplicado
e com que objetivo?”, e a perguntas específicas, como:
Onde a empresa consegue recursos?
Quanto dos recursos financeiros foi gerado internamente pela empresa?
Como foi financiada a expansão com a compra de ativos imobilizados?
A empresa está-se expandindo em ritmo mais acelerado do que a sua geração de recursos?
A política de distribuição de dividendos está em equilíbrio com a geração operacional?
Quais são os movimentos financeiros com os acionistas e os financiadores?

O caixa é vital para o bom funcionamento de qualquer empresa. O modo como os fluxos de
caixa é administrado pode determinar o sucesso ou fracasso de uma empresa. As contas devem ser
pagas no seu vencimento, e o dinheiro excedente pode ser aplicado na compra de estoque, de
equipamentos ou na geração de rendimentos financeiros.
Entende-se por “Equivalente à Caixa” os recursos aplicados em Bancos conta-movimento e
Aplicações Financeiras de imediata realização, ou seja, aqueles com valores resgatáveis no curto
prazo e insignificante risco de mudança de valor.
Dessa forma, ∆Cx = (Cx1 + Bancos1 + Aplic. Fin. resgatável em CP1) – (Cx0 + Bancos0 +
Aplic. Fin. resgatável em CP0).

31
Vejamos a DFC da Droga Raia de 2017:

Tabela 3 – DFC da Droga Raia de 2017

Descrição 2017 2016

Caixa Líquido Atividades Operacionais 628.840 555.529

Caixa Gerado nas Operações 1.123.361 938.195

Lucro Líquido Antes do I.R. e C.S.L.L. 686.544 595.216

Depreciações e Amortizações 337.914 274.434

Plano de Remuneração com Ações Restritas, Líquido 12.638 7.984

Juros sobre Opção de Compra de Ações Adicionais 2.287 13.596

Resultado na Venda ou Baixa do Ativo Imobilizado e Intangível 6.609 12.189

(Provisão) Reversão para Demandas Judiciais 7.788 6.667

(Provisão) Reversão para Perdas no Estoque 3.656 -14.147

(Provisão) Reversão de Perdas Estimadas para Créditos de


2.314 -504
Liquidação Duvidosa

(Reversão) Provisão para Encerramento de Lojas -811 737

Despesa de Juros 64.234 42.023

Amortizações de Custos de Transação de Debêntures 188 0

Variações nos Ativos e Passivos -344.483 -257.109

Clientes e Outras Contas a Receber -173.728 -176.255

Estoques -371.782 -484.868

Outros Ativos Circulantes 27.852 -55.081

Ativos no Realizável em Longo Prazo -17.895 -6.360

Fornecedores 208.482 403.633

Salários e Encargos Sociais 3.421 33.971

Impostos, Taxas e Contribuições -19.937 753

Outras Obrigações -10.368 15.171

Aluguéis a Pagar 9.472 11.927

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Descrição 2017 2016

Outros -150.038 -125.557

Juros Pagos -36.863 -21.896

I.R. e Contribuição Social Pagos -113.175 -103.661

Caixa Líquido Atividades de Investimento -639.180 -489.057

Aquisições de Imobilizado e Intangível -640.330 -490.169

Recebimentos por Vendas de Imobilizados 1.150 1.112

Caixa Líquido Atividades de Financiamento -1.419 -55.891

Empréstimos e Financiamentos Tomados 393.951 222.468

Pagamentos de Empréstimos e Financiamentos -224.523 -125.017

Juros sobre Capital e Dividendos Pagos -170.847 -153.342

Aumento (Redução) de Caixa e Equivalentes -11.759 10.581

Saldo Inicial de Caixa e Equivalentes 276.632 266.051

Saldo Final de Caixa e Equivalentes 264.873 276.632

Fonte: CVM. Disponível em: <http://www.cvm.gov.br>. Acesso em: 8 mar. 2018.

Analisando a DFC da Droga Raia de 2017, é possível perceber que:


O saldo final de Caixa e Equivalentes reduziu de R$ 276.632 mil em 2016 para
R$ 264.873 mil em 2017.
A atividade operacional gerou caixa líquido no montante de R$ 628.840 mil,
demonstrando que a compra e a venda de medicamentos e demais mercadorias é uma
atividade geradora de caixa.
A atividade de investimento consumiu caixa líquido no montante de R$ 639.180 mil,
demonstrando que a Droga Raia está investindo na sua expansão com a abertura de
novas lojas.
A atividade de financiamento consumiu caixa líquido no montante de R$ 1.419 mil,
demonstrando que a entidade distribuiu mais dinheiro aos sócios (dividendos) e aos
credores (juros e amortização do principal) do que captou com eles – os sócios não
aumentaram o capital social, e a entidade obteve empréstimo e financiamentos com
credores em montante menor do que o da amortização do principal.

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A DFC classifica os recebimentos e os pagamentos de caixa em três atividades: operacional,
de investimento e de financiamento.

a) Atividades operacionais
Consistem no reconhecimento dos ingressos e dos desembolsos atrelados, exclusivamente, às
atividades principais do empreendimento, ou seja, da sua operação – como recebimentos de vendas
à vista ou a prazo, decorrentes do recebimento de duplicatas, contrapondo-se aos desembolsos com
a compra de mercadorias para revenda, de matérias-primas, mão de obra, despesas com vendas,
administrativas e outras.
O Fluxo de Caixa Operacional é apresentado de forma diferenciada pelo Método Direto e
pelo Método Indireto. A Raia Drogasil S.A. apresentou o fluxo de caixa da atividade operacional
de 2016 pelo método indireto.

b) Atividades de investimento
Incluem entradas de caixa pela venda de imóveis, veículos, equipamentos, recebimento do
principal em um empréstimo feito a outras empresas, operações financeiras em função de aplicações
ou resgates. Nessa categoria, saídas de caixa podem resultar da compra de um imóvel ou equipamento,
ou outro ativo para a produção, participações acionárias, concedendo empréstimo para terceiros ou
efetuando aplicações financeiras de longo prazo, não incluídas no equivalente à caixa.

c) Atividades de financiamento
Reúnem todos os ingressos e desembolsos oriundos da captação de recursos de terceiros de curto
e longo prazo (financiamentos, empréstimos bancários), bem como dos recursos dos proprietários
(acionistas ou quotistas), abrangendo os aportes ou as reduções de capital e dividendos, objeto desses
recursos. Dessa forma, são considerados gerações de caixa pela atividade de financiamento os ingressos
de dinheiro decorrentes de aumento do Capital Social, obtenção de Empréstimos e Financiamentos.
Por outro lado, são consideradas consumo de Caixa, pela atividade de financiamento, as saídas de
dinheiro para pagar Dividendos, amortizar os Empréstimos e os Financiamentos.
Note que o nome da demonstração é DFC, uma vez que apresenta a variação do saldo de
caixa, que pode ser causada por três razões diferentes: pelas atividades operacionais, pelas atividades
de investimento e pelas atividades de financiamento, abrangendo recursos de terceiros e recursos
dos acionistas.
As transações que não envolvem caixa – como a aquisição de um terreno em troca de ações
ou o pagamento de um financiamento com um ativo imobilizado – apesar de não serem
apresentadas no corpo da demonstração, devem ter a sua evidenciação efetuada em nota explicativa
ou como informações complementares.

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Conceitos fundamentais
Patrimônio
Uma informação fundamental apresentada pela Contabilidade é a avaliação do patrimônio
da empresa e a quantificação da sua variação ao longo dos anos. De forma sintética, podemos dizer
que o Balanço Patrimonial é formado por três componentes: Ativo, Passivo e Patrimônio Líquido.
A sua posição financeira é refletida pela relação entre tais componentes. O termo Balanço indica o
equilíbrio entre eles, como pode ser demonstrado pela equação:

ativo = passivo + patrimônio líquido

A sua evidenciação:

aplicações origens

passivo
ativo
patrimônio líquido

Essa equação pode ser entendida por meio do conceito de Origens e Aplicações. O Passivo e o
Patrimônio Líquido representam as fontes de recursos – origens – obtidas pela empresa, e o Ativo
indica a destinação – aplicações – desses recursos. Afinal, pelo método das partidas dobradas:

aplicações = origens

Ativo
Entende-se por Ativo os recursos controlados por uma entidade em consequência de eventos
passados dos quais se espera que resultem fluxos de benefícios econômicos futuros ou potencial de
serviços para a entidade.
O Ativo aumenta de valor pelo reconhecimento contábil de uma receita, pela obtenção de
recursos com terceiros ou com sócios da entidade, ou pela venda de outro ativo com lucro.

Passivo
Entende-se por Passivo as obrigações presentes da entidade, derivadas de eventos já ocorridos,
cujo pagamento se espera que resulte em saída de recursos da entidade, recursos capazes de gerar
benefícios econômicos ou potencial de serviços. Também se pode dizer que o Passivo representa a
origem de recursos financiados por terceiros, além das obrigações assumidas pela entidade que

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exigirão desembolso de recursos no futuro, ou seja, contas a pagar, salários a pagar, impostos a
pagar, entre outros.
O Passivo aumenta de valor pela captação de um empréstimo ou financiamento, pela compra de
um ativo a prazo ou pelo reconhecimento contábil de uma despesa ainda não paga. Por outro lado, o
Passivo diminui de valor pelo efetivo pagamento ou pelo reconhecimento contábil de uma receita que
havia sido recebida antecipadamente, como o adiantamento de clientes.

Patrimônio Líquido
Assim como o Passivo, o Patrimônio Líquido (PL) também representa origem de recursos,
sendo que o PL corresponde aos recursos financiados pelos sócios da entidade, na forma de capital
social, e também pelos lucros retidos.
O PL também é chamado de Ativo Líquido, afinal, corresponde ao resíduo dos (diferença
entre) ativos reconhecidos e passivos reconhecidos. Desse modo, o termo Ativo Líquido designa a
parcela dos ativos que sobra depois de descontar todos os passivos da entidade.

Resultado
O resultado deriva do confronto das receitas com as despesas e, consequentemente, pode ser
positivo – lucro –, se as receitas forem maiores do que as despesas; ou negativo – prejuízo –, se as
receitas forem menores do que as despesas.
No caso de lucro, representa a riqueza gerada pela empresa durante determinado período de
tempo, que pertence aos acionistas da entidade. Quando a empresa incorre em prejuízo, ocorre uma
destruição da riqueza dos acionistas.

Receita
Corresponde à geração de recursos provenientes da venda de mercadorias (como no setor
varejista), da prestação de serviços (como em consultas médicas), entre outros. Resulta em um
aumento em caixa ou em contas a receber.
Entende-se por Receita os “aumentos de benefícios econômicos durante o período contábil
sob a forma de entradas ou aumentos de ativos ou diminuições de passivos que resultam em
aumento do patrimônio líquido e que não sejam provenientes de aportes dos proprietários da
entidade” (IFRS for SMEs e CPC-PME § 2.23(a)).

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Despesa
Corresponde ao consumo de recursos decorrentes das mesmas atividades que deram origem às
receitas, tais como a venda de Estoque – Custo das Mercadorias Vendidas (CMV) ou Custo dos
Produtos Vendidos (CPV) –, a prestação de serviços – Custo dos Serviços Prestados (CSP) –, Salário de
vendedores (Despesa com Vendas), Salário dos diretores (Despesa Administrativa), Juros sobre Dívidas
(Despesa Financeira), Venda do Imobilizado com Prejuízo (Outra Despesa Operacional).
Entende-se por Despesa os “decréscimos nos benefícios econômicos durante o período
contábil sob a forma de saída de recursos ou redução de ativos ou incrementos em passivos que
resultam em decréscimos no patrimônio líquido e que não sejam provenientes de distribuição aos
proprietários da entidade” (IFRS for SMEs e CPC-PME § 2.23(b)).

Como Receita e Despesa afetam o Patrimônio Líquido (Ativo Líquido)


Os ativos da empresa contribuem para a sua continuidade e o seu futuro crescimento. As
receitas e as despesas vão afetar o Patrimônio Líquido (Ativo Líquido), sendo apuradas para
determinar se a empresa apurou um lucro (receitas superiores a despesas) ou um prejuízo (despesas
superiores a receitas).
Desse modo, o reconhecimento de receitas aumenta o lucro do período e, consequentemente,
o PL. O contrário ocorre com o reconhecimento de despesas.

Equação contábil e natureza das contas


A equação contábil é baseada na dupla entrada, ou seja, cada transação possui efeito duplo. Uma
transação pode afetar ambos os lados da equação, no mesmo valor, ou apenas um lado da equação,
aumentando e diminuindo na mesma quantia, anulando a mudança nesse lado da equação.
A equação fundamental contábil é:

ativo = passivo + patrimônio líquido

Exemplo 1:
Se um negócio possui ativos de $ 500.000,00, obrigações (Passivo) de $ 300.000,00 e
Patrimônio Líquido de $ 200.000, a equação contábil é a seguinte:

ativo = passivo + patrimônio líquido

$ 500.000 = $ 300.000 + $ 200.000

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ativo = passivo + patrimônio líquido

ativo = passivo + capital social + reserva de lucros (receitas – despesas)

Se há somente uma receita, esta vai aumentar o resultado do período. Em contrapartida, se


há somente uma despesa, está vai diminuir o resultado do período.
Logo, se há receitas ou despesas no período, essas alterarão o resultado – lucro ou prejuízo –
do período. No fim do período, é efetuado o confronto entre o total das receitas e das despesas,
sendo apurado o resultado e, consequentemente, verificado o efeito no Patrimônio Líquido. O
Patrimônio Líquido será aumentado se houver lucro ou será reduzido se ocorrer prejuízo.
No fim desse período, se a empresa gerou uma receita de vendas de $ 300.000 e uma despesa
de $ 250.000, se apresentou lucro líquido de $ 50.000 – exclusivamente compreendido por receitas
e despesas que transitaram pelo caixa –, a equação contábil será:

ativo = passivo + patrimônio líquido

$ 550.000 = $ 300.000 + $ 250.000

($ 500.000 + $ 50.000) ($ 200.000 + $ 50.000)

ativo anterior + PL anterior + lucro do período


ativo da venda à vista

Exemplo 2:
Se $ 10.000 forem utilizados para pagar dívidas com fornecedores (Passivo), a equação
contábil passará a ser:

ativo = passivo + patrimônio líquido

$ 540.000 = $ 290.000 + $ 250.000

($ 550.000 – $ 10.000) = ($ 300.000 – $ 10.000)

ativo anterior – pagamento passivo anterior – pagamento

Nesse caso, a conta Caixa (Ativo) diminuiu em $ 10.000 assim como a conta Fornecedores
(Passivo), pois a dívida diminuiu no mesmo valor.

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Análise e registro das transações financeiras
Se, a cada transação, tivéssemos de fazer um novo Balanço Patrimonial, o tempo consumido
seria muito grande. Além disso, muitas informações de determinado item poderiam perder-se. Por
esse motivo, deve haver uma conta para cada item do Balanço Patrimonial (Ativos, Passivos e PL)
bem como da Demonstração de Resultado (Receitas e Despesas).
No fim do período, as demonstrações contábeis devem ser elaboradas com base no saldo de
cada conta. Um modo mais simples de fazê-lo é por meio de razonetes. Os razonetes também são
chamados de contas T, por causa da sua aparência. Os lançamentos são efetuados na estrutura de um
T, em que é apresentado o nome da conta sobre a barra horizontal; do lado esquerdo, são apresentados
os valores lançados a débito, representando as aplicações dos recursos da empresa; do lado direito, os
valores lançados a crédito, que representam as origens dos recursos. Para facilitar a identificação das
contrapartidas, os razonetes apresentam códigos aos lançamentos. Nenhum dos dois lados significa
algo “bom” ou “ruim”. Os nomes débito e crédito representam apenas aplicações e origens,
respectivamente, como fruto de uma convenção. A seguir, vejamos como isso ocorre:

nome da conta

valor dos lançamentos a débito valor dos lançamentos a crédito

somatório dos débitos somatório dos créditos

Cabe ressaltar que um lançamento a débito no Ativo aumentará o valor desse Ativo, e um
lançamento a crédito diminuirá o seu valor. Seguindo o mesmo raciocínio, um lançamento a débito no
Passivo diminuirá o valor desse Passivo, e um lançamento a crédito aumentará o seu valor.
Pela mesma convenção, as despesas também aumentam por débitos e reduzem por créditos.
Enquanto as Receitas e o Patrimônio Líquido, tal qual o Passivo, aumentam por créditos e reduzem
por débitos.

ativos e despesas passivos, PL e receitas

débito crédito débito crédito

aumento diminuição diminuição aumento

Para cada transação, duas ou mais contas estão sempre envolvidas, e os débitos serão sempre
iguais aos créditos (dupla entrada ou partidas dobradas).

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Exemplo 1:

No dia 1º de junho de X0, a Empresa Delta comprou um carro à vista por $ 45.000.
Duas contas estão envolvidas. O ativo Carro aumenta, dessa forma, é um débito (Aplicação).
Já o ativo Caixa diminui, desse modo, é um crédito:

ativo = passivo + patrimônio líquido

caixa (45.000)
carro 45.000

$0 = sem lançamento sem lançamentos

caixa carro

débito crédito débito crédito

– 45.000 + 45.000

Exemplo 2:
O dono da empresa integraliza $ 250 em dinheiro como capital social inicial.

ativo patrimônio líquido


= passivo +
(caixa) (capital social)

$ 250 = nenhum lançamento + $ 250

ativo passivo patrimônio líquido


(caixa) (capital social)

débito crédito débito crédito débito crédito

+ 250 + 250

Exemplo 3:

A Cia. Maratinga prestou serviços no valor de $ 300 (Receita), recebendo o seu valor à vista.

ativo patrimônio líquido


= passivo +
(caixa) (reserva de lucros)

$ 300 = nenhum lançamento + $ 300

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ativo passivo patrimônio líquido
(caixa) (reserva de lucros)

débito crédito débito crédito débito crédito

+ 300 + 300

A grande vantagem dos razonetes é que os saldos das contas já são apurados automaticamente.
Por outro lado, a informação dos históricos fica sumarizada nos códigos dos lançamentos, o que
pode dificultar a identificação de eventuais erros. Partindo desses saldos, fica fácil apurar o Balanço
Patrimonial: basta transcrever os saldos finais de cada conta.

Estrutura conceitual para elaboração e divulgação do


relatório contábil-financeiro
João Paulo, de cinco anos, levou a sua prima Juliana, de quatro anos, para jogar futebol. Com
todo o carinho, ensinou a Juliana que, para jogar futebol, bastava chutar a bola até entrar pelo
espaço demarcado pelas traves e, dessa forma, marcar um gol. Quando a menina, toda feliz, estava
prestes a marcar um gol, Joãozinho se jogou sobre a bola, vitorioso. Juliana começou a chorar
dizendo que ele pegou a sua bola com as mãos. João Paulo, com muita paciência, consolou Juliana,
explicando que o goleiro pode pegar a bola com as mãos, pois a sua função é fazer com que ninguém
marque o gol contra o seu time. Para evitar maiores problemas, resolveu explicar para a sua prima
todas as regras do jogo. Juliana, depois das explicações, jogou com maior certeza e, toda feliz,
marcou o gol de vitória do seu time.
O mesmo se aplica à Contabilidade. Para que possamos utilizá-la de forma correta, é
indispensável que saibamos as regras do jogo, isto é, que tenhamos pleno conhecimento da sua
estrutura conceitual básica.
No Brasil, a partir de 2008, adotou-se uma nova Estrutura Conceitual Básica da
Contabilidade, emitida pelo CPC – em linha com o Framework for the Preparation and Presentation
of Financial Statements, emitido pelo Iasb – e aprovada pela CVM por meio da Deliberação
nº 539/08. A Estrutura Conceitual do CPC é complementada, no Brasil, pela Resolução nº 750/93
do CFC, que foi alterada pela Resolução nº 1.282, em 2010.
Em 2 de dezembro de 2011, o CPC efetuou uma mudança no texto do Pronunciamento
conhecido como CPC 00, que apresenta os conceitos básicos para a atuação da contabilidade. O
novo texto representa parte do material desenvolvido pelo Iasb e pelo Fasb, que estão efetuando a
atualização em etapas, tendo sido aprovado pela Deliberação nº 675 da CVM, de 13 de dezembro
de 2011, e pelo CFC, por meio da Resolução CFC nº 1.374, de 8 de dezembro de 2011.

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O novo texto abrange dois capítulos. O Capítulo 1 – Objetivo da elaboração e divulgação de
relatório contábil-financeiro de propósito geral – e o Capítulo 3 – Características qualitativas da
informação contábil financeira útil. O Capítulo 2 – Entidade Contábil – será incluso futuramente,
assim que o Iasb e o Fasb finalizarem o projeto de revisão da Estrutura Conceitual.
Por enquanto, os itens referentes aos Elementos das Demonstrações Contábeis, o seu
Reconhecimento e Mensuração, e os conceitos de manutenção do capital foram mantidos,
constituindo o Capítulo 4, que também incluiu o conceito da Continuidade pela denominação
Premissa Subjacente.
O objetivo do “Pronunciamento Conceitual Básico – Estrutura Conceitual para Elaboração
e Divulgação de Relatório Contábil-Financeiro” é servir como fonte dos conceitos básicos e
fundamentais a serem utilizados na elaboração e na interpretação dos Pronunciamentos Técnicos,
na preparação e na utilização das demonstrações contábeis das entidades, e também para a
elaboração de outros relatórios.
A Estrutura Conceitual é muito útil para todos, pois estabelece os fundamentos que devem
amparar as estimativas, julgamentos e modelos que são utilizados na elaboração dos relatórios
contábil-financeiros. Dessa forma, o seu conhecimento se torna indispensável para o profissional
que está no mundo dos negócios.
As informações contidas em tais relatórios se destinam, primariamente, aos seguintes usuários
externos: investidores, financiadores e outros credores, sem hierarquia de prioridade, quando estes
forem tomar decisões relacionadas ao fornecimento de recursos para a entidade.

CPC 00, Capítulo 1: objetivo do relatório contábil-financeiro de propósito geral

OB2. O objetivo do relatório contábil-financeiro de propósito geral é fornecer informações


contábil-financeiras acerca da entidade que reporta essa informação que sejam úteis a
investidores existentes e em potencial, a credores por empréstimos e a outros credores, quando
da tomada de decisão ligada ao fornecimento de recursos para a entidade. Essas decisões
envolvem comprar, vender ou manter participações em instrumentos patrimoniais e em
instrumentos de dívida, e oferecer ou disponibilizar empréstimos ou outras formas de crédito.

No capítulo 1, ainda é assinalado que o desempenho financeiro deve ser refletido segundo o
Regime de Competência, uma vez que este proporciona informações de melhor qualidade do que
aquelas obtidas por meio do movimento de caixa da empresa, conhecido como “Regime de Caixa”.

OB17. O regime de competência retrata com prioridade os efeitos de transações, e outros


eventos e circunstâncias sobre os recursos econômicos e reivindicações da entidade que
reporta a informação nos períodos em que ditos efeitos são produzidos, ainda que os
recebimentos e os pagamentos em caixa derivados ocorram em períodos distintos.

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Segundo o Regime de Competência, as transações econômicas devem ser reconhecidas
quando ocorrem, isto é, independentemente da sua realização financeira (pagamento ou
recebimento). Desse modo, informam aos usuários não somente sobre transações passadas
envolvendo o pagamento e o recebimento de caixa ou outros recursos financeiros, mas também
sobre obrigações de pagamento no futuro e sobre recursos que serão recebidos no futuro,
apresentando informações sobre transações passadas e outros eventos mais úteis aos usuários na
tomada de decisões econômicas.
Por exemplo, uma loja vendeu estoques no mês de janeiro no montante de $ 220.000. Metade
desse valor foi vendida à vista, e a outra metade, mediante cartão de crédito. A loja só recebe o valor do
cartão de crédito no mês seguinte às vendas. O Regime de Competência determina que a loja apure a
Receita total de $ 220.000 em janeiro, porque esse foi o valor vendido transferido para os clientes,
mesmo que ela ainda não tenha recebido o dinheiro efetivamente.
Desse modo, o reconhecimento contábil dos elementos patrimoniais deve ser fundamental
na data em que ocorrem as transações e os eventos econômicos. Todas as Demonstrações Contábeis,
exceto a DFC, seguem o Regime de Competência.
Os detalhes e os desdobramentos da adoção do Regime de Competência, bem como a sua
diferença em relação ao Regime de Caixa, são apresentados no Módulo V deste material.

CPC 00, Capítulo 3: estrutura conceitual para elaboração e divulgação do


relatório contábil-financeiro

Características qualitativas fundamentais da informação contábil útil


As características qualitativas são atributos que tornam as demonstrações contábeis úteis aos seus
leitores. Esse conceito é mais bem compreendido se entendermos as demonstrações contábeis como
produtos – bens, como todo e qualquer bem ou serviço que você adquira, tal qual um livro – que devem
ser “consumidos” pelos seus usuários. A sua qualidade poderá ser mensurada pelo grau de satisfação das
necessidades dos consumidores, ou seja, dos usuários das informações contábeis. Como consequência
da maior qualidade das informações, estas possuem maior utilidade ao processo decisório e à
compreensão da empresa analisada, gerando a redução da assimetria informacional. Essa propriedade
permite que a contabilidade gere valor ao sistema econômico.
Desse modo, objetivando o melhor atendimento das necessidades dos seus usuários, as
demonstrações contábeis devem possuir as seguintes características fundamentais: relevância e
representação fidedigna.

a) Relevância
Para serem úteis, as informações devem ser relevantes às necessidades dos usuários na tomada
de decisões. As informações são relevantes quando podem influenciar as decisões econômicas dos
usuários, ajudando-os a avaliar o impacto de eventos passados e presentes, ou predizer o desempenho

43
de eventos futuros, ou confirmando ou corrigindo as suas avaliações anteriores. Em outras palavras,
dizemos que a informação é relevante quando é útil para predizer o resultado, o fluxo de caixa ou a
situação patrimonial da entidade, isto é, o valor preditivo da informação; e quando ela é útil para
avaliar as razões das dispersões entre o que se havia previsto, o resultado, o fluxo de caixa e a situação
patrimonial efetivos da entidade, isto é, valor confirmatório da informação.
Um artifício prático para avaliar a relevância da informação é pela análise da sua
materialidade, que é analisada sob dois aspectos: natureza da informação e magnitude.

Natureza da informação
A ideia de relevância pode ser associada à de utilidade. Quanto maior a utilidade da informação
para o usuário, maior a sua importância e a sua relevância. A relevância da informação contábil se verifica
quando altera a compreensão do usuário, ajuda a avaliar as operações efetuadas e traz mudança no
processo decisório, ou quando confirma o entendimento anterior. Para melhor compreensão do que
seja relevância, vamos pensar em um exemplo prático. Se um comercial de TV mostra a grande redução
de preços em uma loja em Chicago (EUA), e você não pretende viajar para tal local nem conhece
ninguém naquela cidade, essa informação não possui relevância para você.

Magnitude
Uma informação é material se a sua não apresentação ou distorção nas demonstrações
contábeis puder influenciar as decisões econômicas dos usuários. A magnitude depende do tamanho
do item ou do erro, julgado nas circunstâncias específicas da sua não apresentação ou distorção
(valor envolvido).
O jornal O Globo, de 25 de outubro de 2009, informou que uma juíza mandou soltar dois
acusados do roubo de duas galinhas pela insignificância do caso, isto é, pela falta de materialidade.
De forma geral, esse conceito pode ser relativo. Por exemplo, enquanto uma perda de
$ 100.000 pode constituir um fato relevante para uma empresa de pequeno porte, esse valor pode
não ser tão significativo para uma empresa de grande porte.
Com isso, a natureza da informação diz respeito ao conteúdo informacional, enquanto a
materialidade, ao valor envolvido.

b) Representação fidedigna
Os relatórios contábil-financeiros representam um fenômeno econômico em palavras e
números. Para ser útil, a informação contábil-financeira não deve só representar um fenômeno
relevante, mas também deve representar, com fidedignidade, o fenômeno que se propõe a representar.

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Para ser uma representação fidedigna, a informação deve possuir três atributos:
Ser completa, ou seja, deve conter o necessário para que o usuário compreenda o
fenômeno. Para ser confiável, a informação constante das demonstrações contábeis deve
ser completa, dentro dos limites de materialidade e custo. Uma omissão pode tornar a
informação falsa ou distorcida e, com isso, não confiável e deficiente em termos da sua
relevância. Desse modo, pode ajudar na prevenção de fraudes, uma vez que propicia um
controle amplo das operações da empresa. Nesse sentido, um procedimento errado em
uma área da empresa pode ser descoberto por outra. Por exemplo, o reflexo de uma
compra de estoques de mercadorias a prazo pode ser verificado tanto pela tesouraria como
pela área de controle de suprimentos.
Ser neutra, isto é, estar desprovida de viés na seleção ou na apresentação, não podendo ser
distorcida para mais ou para menos. Dessa forma, o profissional de contabilidade deve
procurar reconhecer uma transação econômica de acordo com a realidade, e não conforme
o interesse da sua empresa. Por exemplo, uma empresa pode estar em uma fase muito difícil,
e seria conveniente para ela não reconhecer todos os seus gastos, para parecer que a sua
situação financeira é melhor. Esse fato ocorreu em muitas situações de fraude nos Estados
Unidos, no início do século, e está totalmente errado. Além disso, uma empresa que possua
vários processos na Justiça contra ela deve considerar o fato nas suas demonstrações
contábeis, mesmo que seja representado um aspecto negativo para a empresa.
Ser livre de erro, não significando total exatidão, mas que o processo para a obtenção da
informação tenha sido selecionado e aplicado livre de erros.

Representação fidedigna não significa exatidão em todos os aspectos e, em decorrência,


aumenta-se a importância de uma evidenciação com qualidade, descrevendo como foi desenvolvido
o processo para a mensuração do valor estimado.
Por si só, representação fidedigna não resulta em informação útil necessariamente. Por
exemplo, a entidade que reporta a informação pode receber um item do imobilizado por meio de
subvenção governamental. Ao reportar que adquiriu um ativo sem custo, a entidade retrataria com
fidedignidade o custo desse ativo. No entanto, provavelmente, essa informação não seria muito útil,
pois este ativo vai gerar benefícios futuros para a empresa.
Comparando-se com o texto anterior do Pronunciamento 00, duas mudanças
importantes ocorreram, sendo que o posicionamento foi explicado, pois envolve controvérsias.
As alterações dizem respeito às eliminações, no texto, dos conceitos da essência sobre a forma e
da Prudência (Conservadorismo).
A essência sobre a forma foi retirada da condição de componente separado da representação
fidedigna, por ser considerado que a sua manutenção seria uma redundância. A representação
pela forma legal que difira da substância econômica não pode resultar em representação

45
fidedigna. Desse modo, na realidade, essência sobre a forma continua bandeira insubstituível nas
normas do Iasb.
A característica prudência (conservadorismo) também foi retirada da condição de aspecto da
representação fidedigna por ser considerada inconsistente com a neutralidade. O posicionamento é que
não devem ser aplicadas, de forma não criteriosa, subavaliações de ativos e superavaliações de passivos,
com consequentes registros de desempenhos posteriores inflados. No entanto, deve ser mantida a
posição de que os ativos não devem ser mensurados por um valor superior ao da sua recuperação
econômica, e os passivos não devem ser omitidos. Contudo, o Iasb decidiu reintroduzir a prudência na
Estrutura Conceitual, mas significando cautela no exercício de julgamentos profissionais.
As características qualitativas fundamentais devem ser aplicadas de forma conjunta. A
informação precisa, concomitantemente, ser relevante e representar com fidedignidade a realidade
reportada para ser útil. Nem a representação fidedigna de fenômeno irrelevante tampouco a
representação não fidedigna de fenômeno relevante auxilia os usuários a tomarem boas decisões. O
processo mais efetivo para a aplicação das características qualitativas fundamentais usualmente deve
ter a seguinte apresentação:
Identificar o fenômeno econômico que tenha o potencial de ser útil para os usuários da
informação contábil-financeira reportada pela entidade.
Identificar o tipo de informação sobre o fenômeno que seria mais relevante se estivesse
disponível e que poderia ser representado com fidedignidade.
Determinar se a informação está disponível e pode ser representada com fidedignidade.

Características qualitativas de melhoria da informação


As características qualitativas de melhoria podem auxiliar a determinar qual alternativa, que
seja considerada equivalente em termos de relevância e fidedignidade de representação, deve ser
escolhida para retratar um fenômeno.

a) Comparabilidade
Comparabilidade é a característica que permite a identificação e a compreensão de
similaridades e diferenças entre os itens. É diferente da consistência, que significa aplicação dos
mesmos métodos para os mesmos itens. Comparabilidade é o objetivo, já a consistência é um auxílio
na obtenção desse objetivo. Comparabilidade implica também fazer com que coisas diferentes não
pareçam iguais ou coisas iguais não pareçam diferentes.
Comparabilidade não significa uniformidade, indicando que um procedimento novo pode
ser aplicado, desde que devidamente ponderado e evidenciado. No entanto, deve ser reconhecido
que, apesar de um fenômeno econômico singular poder ser representado com fidedignidade de
múltiplas formas, a discricionariedade na escolha de métodos contábeis alternativos para o mesmo
fenômeno econômico diminui a comparabilidade.

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No entanto, deve-se tomar o cuidado de efetuar as comparações de forma correta. Por exemplo,
na análise de uma demonstração trimestral, é importante que os dados sejam comparados com o
mesmo trimestre dos anos anteriores, e não com os trimestres anteriores, em função da sazonalidade.
Por exemplo, espera-se que uma empresa que fabrica brinquedos tenha melhores resultados no último
trimestre do ano, de outubro a dezembro. Por outro lado, é provável que uma empresa que vende
material escolar, em geral, tenha melhores resultados no primeiro trimestre do ano.
A intenção de comparabilidade é uma das causas da normalização contínua das práticas
contábeis. Se não houvesse normatização, cada empresa poderia usar um tratamento diferenciado,
e não haveria comparação.

b) Verificabilidade
A verificabilidade ajuda a assegurar aos usuários que a informação representa, de modo
fidedigno, o fenômeno econômico que se propõe a representar. A verificabilidade significa que
diferentes observadores, cônscios e independentes, podem chegar a um consenso, embora não
cheguem, necessariamente, a um completo acordo quanto ao retrato de uma realidade econômica
em particular ser uma representação fidedigna. Informação quantificável não necessita ser um único
ponto estimado para ser verificável. Uma faixa de possíveis montantes com as suas probabilidades
respectivas também pode ser verificável.
A verificação pode ser direta ou indireta. Verificação direta significa checar um montante ou
outra representação por meio de observação direta, por exemplo, por meio da contagem de caixa.
Verificação indireta significa checar os dados de entrada do modelo, fórmula ou outra técnica, e
recalcular os resultados obtidos por meio da aplicação da mesma metodologia. Um exemplo é a
verificação do valor contábil dos estoques por meio da checagem dos dados de entrada (quantidade
e custos) e por meio do recálculo do saldo final dos estoques, utilizando a mesma premissa adotada
no fluxo do custo (por exemplo, utilizando o método Peps).
Um fato importante diz respeito às estimativas sobre eventos futuros. Para ajudar os usuários a
decidir se desejam usar dita informação, é necessário divulgar as premissas subjacentes, os métodos de
obtenção da informação e outros fatores e circunstâncias que suportam tais estimativas.
No objetivo de ampliar a verificabilidade, a empresa deve utilizar o conhecimento de especialistas,
como advogados, na análise de uma contingência decorrente de processo judicial; engenheiros, para a
definição da vida útil de um equipamento; e veterinários, para avaliação de um ativo biológico animal.
Tais profissionais emitem laudos e pareceres que constituem uma referência documental para o
reconhecimento contábil e a comprovação pela auditoria independente.

47
c) Tempestividade
Para ser útil ao usuário, qualquer instrumento – uma ferramenta, um medicamento e até uma
informação – precisa ser disponibilizado a tempo, de modo que o usuário possa, efetivamente, utilizá-
lo nos seus propósitos, por exemplo, realizar um conserto, curar-se de uma enfermidade ou tomar
uma decisão. Caso contrário, o instrumento não terá qualquer serventia e perderá a sua relevância.
Tempestividade significa ter informação disponível e oportuna para tomadores de decisão a
tempo de poder influenciá-los nas suas decisões. Em geral, a informação mais antiga é a que tem
menos utilidade. No entanto, certa informação pode ter o atributo tempestividade prolongado após
o encerramento do período contábil, em decorrência de alguns usuários, por exemplo, necessitarem
identificar e avaliar tendências.
Por outro lado, a pressa na geração da informação não deve provocar a disponibilização de
informações precárias ou duvidosas. Nesse caso, a informação perderia confiabilidade. Desse modo,
a busca da tempestividade implica um trade-off entre relevância e confiabilidade, o que deve ser
avaliado pelo contador com bom senso e neutralidade, caso a caso.

d) Compreensibilidade
Compreensibilidade significa que a classificação, a caracterização e a apresentação da
informação são feitas com clareza e concisão, tornando-a compreensível. No entanto, não é
admissível a exclusão da informação complexa e não facilmente compreensível se esse fato tornar o
relatório incompleto e distorcido, pois certos fenômenos são realmente difíceis. Os relatórios
contábil-financeiros são elaborados na presunção de que o usuário tem conhecimento razoável de
negócios e que age diligentemente, mas isso não exclui a necessidade de ajuda de consultor para
fenômenos complexos.
As informações apresentadas nas demonstrações contábeis devem ser diretas e claras. As
demonstrações contábeis devem ser elaboradas de modo que possam ser entendidas por usuários
não contadores, desde que estes estejam interessados e dispostos a compreender a situação
patrimonial e o desempenho da entidade analisada, mesmo que, para isso, seja necessário estudar
os conceitos básicos da Contabilidade e das demonstrações contábeis, assim como dados sobre a
empresa analisada e sobre o mercado em que atua.
Em virtude de o mundo dos negócios ser competitivo e envolver operações estruturadas e
sofisticadas, como acontece no mercado financeiro, a demonstração contábil também deve conter as
informações sobre operações complexas que sejam relevantes para a tomada de decisão, ajudando o
usuário a conhecer melhor a situação patrimonial e o desempenho da entidade. Essa postura está
vinculada ao fato de o foco da contabilidade ser uma linguagem – a linguagem dos negócios.
Exemplo: a direção de uma empresa brasileira resolveu apresentar de forma bastante didática
uma operação complexa realizada. Como consequência, as ações dessa empresa tiveram uma subida
no mercado. Motivo: os investidores conseguiram entender o efetivo benefício da transação
econômica para a empresa e valorizaram o fato.

48
Aplicação conjunta das características qualitativas de melhoria
A aplicação das características qualitativas de melhoria é um processo que requer bom senso.
Algumas vezes, uma característica qualitativa de melhoria pode ter de ser diminuída para a
maximização de outra característica qualitativa. Por exemplo, a redução temporária na
comparabilidade como resultado da aplicação prospectiva de uma nova norma contábil-financeira
pode ser vantajosa para o aprimoramento da relevância ou da representação fidedigna no longo
prazo. É fundamental que sejam efetuadas divulgações apropriadas.

Restrição de custo na elaboração e na divulgação de relatório contábil-


financeiro
O custo de gerar a informação é uma restrição que deve estar sempre presente no processo de
elaboração e divulgação de relatório contábil-financeiro. Esse processo impõe custos, sendo
importante que os ditos custos sejam justificados pelos benefícios gerados pela divulgação da
informação. Existem variados tipos de custos e benefícios a considerar.
Fornecedores de informação contábil-financeira envidam grande parte dos seus esforços na coleta,
no processamento, na verificação e na disseminação de informação contábil-financeira. Usuários de
informação contábil-financeira também incorrem em custos de análise e interpretação de informação
fornecida. Se a informação demandada não é fornecida, os usuários incorrem em custos adicionais de
obtenção da informação por meio de outras fontes ou por meio da sua estimativa.
Nesse sentido, a avaliação dos preparadores das Demonstrações Contábeis é sempre
necessária, pois não deve haver falta nem excesso.
O equilíbrio resulta em funcionamento mais eficiente dos mercados de capitais e em custo menor
de capital para a economia como um todo. O investidor individual, o credor por empréstimo ou outro
credor também se beneficiam desse processo por meio de decisões realizadas com melhor informação.
Essa restrição deve ser considerada, inclusive, pelas entidades reguladoras.
Um tratamento diferenciado pode ser apropriado em decorrência dos tamanhos variados das
entidades, das diferentes formas de captação de capital (pública ou privadamente), das diferentes
necessidades de usuários ou de outros fatores.

CPC 00, Capítulo 4: premissa subjacente – continuidade


Este item, que era considerado um Pressuposto Básico da Contabilidade, está sendo
apresentado como Premissa Subjacente. O fato é que o conceito é fundamental para a plena atuação
da Contabilidade.
Tal qual o fundador da empresa que acredita que a sua empresa (recém-constituída ou não) terá
longa vida útil – como é o caso da Granado, que tem 50 anos –, o contador também acredita (tem por
premissa) que a empresa (entidade objeto da contabilização) terá vida útil indeterminada.

49
Pronunciamento CPC, item 4.1:

Continuidade

23. As demonstrações contábeis são normalmente preparadas no pressuposto de que a


entidade está em marcha e continuará em operação no futuro previsível. Dessa forma,
presume-se que a entidade não tem a intenção nem a necessidade de entrar em liquidação,
nem reduzir materialmente a escala das suas operações; se tal intenção ou necessidade existir,
as demonstrações contábeis terão de ser preparadas em uma base diferente e, nesse caso, tal
base deverá ser divulgada.

A Contabilidade da empresa deve elaborar as demonstrações contábeis partindo da ideia de


que a entidade deverá continuar em operação no futuro, ou seja, não será encerrada em um futuro
previsível. Desse modo, presume-se que a empresa não tem a intenção nem a necessidade de colocar
todos os seus Ativos à venda.
Se a intenção de descontinuar a empresa ou a necessidade existir em decorrência de uma
situação adversa, as demonstrações contábeis terão de ser preparadas em uma base diferente, que
deve ser divulgada. Quando a empresa estiver em processo de encerramento das suas atividades e
liquidação dos seus Ativos para pagamento dos seus Passivos, todos esses itens deverão ser avaliados
pelo valor líquido de realização.

Mecânica contábil e elaboração do balanço patrimonial


A mecânica contábil se baseia no método das partidas dobradas, ou seja, todo evento é
reconhecido mediante dois registros, um que corresponde à aplicação dos recursos e outro que
representa as origens, isto é, um lançamento a débito e outro a crédito. Pode haver mais de um
lançamento a débito ou a crédito.
Existem duas formas “clássicas” de se apresentar o método das partidas dobradas: por meio
dos lançamentos em Diário e do registro em razonetes (ou conta T).
O método das partidas dobradas demanda o conhecimento dos conceitos de débito e crédito.
Por esse método, o Ativo tem natureza devedora, enquanto o Passivo e o Patrimônio Líquido têm
natureza credora.
Como o Ativo tem natureza devedora, precisamos fazer um lançamento a débito para
aumentar o seu saldo. Por outro lado, para reduzir o seu saldo, fazemos um lançamento a crédito.
O Passivo e o Patrimônio Líquido, por outro lado, têm natureza credora. Desse modo, para
aumentar os seus saldos, fazemos lançamentos a crédito. Para diminuir, fazemos lançamentos a débito.
Para muitos não contadores, é difícil entender a Contabilidade pela dificuldade de aceitar os
conceitos de débito e crédito. Desse modo, além dessas duas formas clássicas de aplicação do método
das partidas dobradas (diário e razonete), apresentamos outra, opcional no preparo das
demonstrações contábeis: o preenchimento da Matriz de Lançamentos.

50
Entre as vantagens da Matriz de Lançamentos, podemos destacar:
Auxilia a visualização dos lançamentos efetuados (partidas dobradas).
Auxilia a verificação de um possível erro.
Evita o uso dos termos “débito” e “crédito”, substituindo-os por “aplicação” e “origem”.

A aplicação identifica o destino dos recursos, ou seja, responde à pergunta: “Onde o dinheiro
foi aplicado?”. A origem identifica a fonte do recurso, isto é, responde à questão: “De onde o
dinheiro veio?”.
Vejamos as duas formas de processamento contábil mediante um exemplo que será
desenvolvido duas vezes. Na matriz, podemos ter ainda melhor visão dos nossos lançamentos. Ao
mesmo tempo que vamos fazer dois lançamentos, débito e crédito, poderemos ver as duas contas
afetadas para manter o equilíbrio do BP (A = P + PL). Cabe ressaltar que todas as formas nos
permitem apurar as mesmas demonstrações contábeis. Exemplo:
Em 2 de janeiro de X7, dois amigos resolvem formar uma sociedade, a Cia. Comercial
NECC. Eles contribuíram com $ 800 em dinheiro, cada um, para a formação do capital
social da entidade.
No dia 18 de janeiro, a Cia. Comercial NECC comprou mercadorias, a prazo, por $ 500,
para pagamento em março de X7.
No dia 31 de janeiro, a Cia. Comercial NECC comprou móveis e utensílios para o
escritório administrativo por $ 350, à vista.

Com base nessas transações, realize todos os lançamentos contábeis e apure o Balanço
Patrimonial da Cia. Comercial NECC em 31 de janeiro de X7.
Primeiramente, resolveremos pelos lançamentos na forma de diário.
Estrutura de Lançamento em Diário:
Data de ocorrência do evento:

D conta devedora valor

C conta credora valor

Histórico, descrevendo as principais características da transação.

51
Vejamos os lançamentos da Cia. Comercial NECC, seguindo a estrutura do Diário:
Em 2 de janeiro de X7:

D caixa – AC 1.600,00

C capital social – PL 1.600,00

No dia 2 de janeiro, constituição da empresa e contribuição de $ 800,00 de cada sócio, para a


formação do capital social da entidade.

Em 18 de janeiro de X7:

D estoque de mercadorias – AC 500,00

C fornecedores a pagar – PC 500,00

No dia 18 de janeiro, aquisição de mercadorias a prazo, com vencimento em março de X7.

Em 31 de janeiro de X7:

D imobilizado (móveis e utensílios) – AÑC 350,00

C caixa – AC 350,00

No dia 31 de janeiro, aquisição de móveis e utensílios à vista.

Com base nesses lançamentos, é necessário apurar o saldo de cada conta, só então poderemos
apurar as demonstrações contábeis. Para apurar os saldos, faz-se necessário refletir todos os
lançamentos nas contas respectivas. Desse modo, vejamos:

Tabela 4 – Saldos das contas

conta: caixa – AC

data valor

2/1/x7 1.600,00

31/1/x7 – 350,00

saldo 1.250,00

52
conta: capital social – PL

data valor

2/1/x7 1.600,00

saldo 1.600,00

conta: estoque de mercadorias – AC

data valor

18/1/x7 500,00

saldo 500,00

conta: fornecedores a pagar – PC

data valor

18/1/x7 500,00

saldo 500,00

conta: imobilizado (móveis e utensílios) – AÑC

data valor

31/1/x7 350,00

saldo 350,00

53
Esses saldos são evidenciados no Balanço Patrimonial da Cia. Comercial NECC, apurado em
31/1/X7, seguindo a estrutura estudada neste capítulo:

Tabela 5 – Balanço Patrimonial da Cia. Comercial NECC (31/1/X7)

Balanço Patrimonial da Cia. Comercial NECC, apurado em 31/1/X7

ativo circulante passivo circulante

caixa 1.250,00 fornecedores a pagar 500,00

estoque de mercadorias 500,00 total do passivo circulante 500,00

total ativo circulante 1.750,00

patrimônio líquido

ativo não circulante capital social 1.600,00

imobilizado (móveis e utensílios) 350,00 total do patrimônio líquido 1.600,00

total do ativo não circulante 350,00

total do ativo 2.100,00 total do passivo + PL 2.100,00

O lançamento em razonetes (contas T) é muito semelhante à apuração dos saldos que


acabamos de fazer (última etapa do lançamento na forma de diários). Para cada conta, criamos uma
conta T. No entanto, temos duas colunas nos razonetes, uma à esquerda e outra à direita do
travessão vertical.
Do lado esquerdo do travessão vertical, registramos os lançamentos a débito dessa conta –
para aumentar o saldo de Ativos e Despesas, ou para reduzir o saldo de Passivos, Patrimônio Líquido
ou receitas. Do lado direito, lançamos os créditos – para reduzir o saldo de Ativos e despesas, ou
para aumentar o saldo de Passivos, Patrimônio Líquido ou receitas.
Para facilitar a identificação dos eventos econômicos que deram origem aos registros, vamos
inserir as datas dos eventos. Uma alternativa seria inserir códigos que designassem os históricos dos
respectivos eventos. Por fim, após o reconhecimento de todas as transações e os eventos, apuramos
os saldos finais das contas, que correspondem ao somatório de todos os débitos menos o somatório
de todos os créditos lançados em cada conta.

54
Vejamos o desenvolvimento desse mesmo exemplo pelo lançamento em razonetes:

conta: caixa (AC)

débito (aumenta) crédito (reduz)

2/1/x7 1.600 –

350 31/1/x7

saldo 1.250 –

conta: estoque (AC)

débito (aumenta) crédito (reduz)

18/1/X7 500 –

saldo 500 –

conta: imobilizado (AÑC)

débito (aumenta) crédito (reduz)

31/1/X7 350 –

saldo 350 –

conta: fornecedores (PC)

débito (reduz) crédito (aumenta)

500 18/1/X7

500 saldo

55
conta: capital social (PL)

débito (reduz) crédito (aumenta)

1.600 2/1/X7

1.600 saldo

Esses saldos finais são evidenciados no Balanço Patrimonial da Cia. Comercial NECC,
apurado em 31/1/X7, seguindo a estrutura estudada neste módulo:

Tabela 6 – Balanço Patrimonial da Cia. Comercial NECC (31/1/X7)

Balanço Patrimonial da Cia. Comercial NECC, apurado em 31/1/X7

ativo circulante passivo circulante

caixa 1.250,00 fornecedores a pagar 500,00

estoque de mercadorias 500,00 total do passivo circulante 500,00

total ativo circulante 1.750,00

patrimônio líquido

ativo não circulante capital social 1.600,00

imobilizado (móveis e utensílios) 350,00 total do patrimônio líquido 1.600,00

total do ativo não circulante 350,00

total do ativo 2.100,00 total do passivo + PL 2.100,00

Finalmente, vejamos a matriz de lançamentos. Ela funciona como uma grande tabela, na qual
cada coluna corresponde a uma conta, e cada linha corresponde a uma transação que afetou o
patrimônio ou o desempenho da entidade.
Para preencher essa planilha, é necessário fazer duas perguntas (para cada transação): “Onde
o dinheiro foi aplicado?” e “De onde o dinheiro veio?”.

56
O ponto de partida é o saldo inicial da empresa. A cada novo evento, é preciso fazer dois
lançamentos referentes a este.

Tabela 7 – Matriz de lançamentos

ativo = passivo + PL verificação:


ativo –
móveis e capital (passivo +
eventos/contas caixa estoques = fornecedores
utensílios social PL)

saldos iniciais =

constituição =

compra a prazo =

compra à vista =

saldos finais =

A última coluna, da direita, apresenta o somatório dos valores que compõem o Ativo
subtraído do somatório dos valores que compõem o Passivo e o Patrimônio Líquido. Considerando
a equação fundamental da Contabilidade, essa diferença precisa ser igual a zero. Caso contrário, é
sinal de que houve algum erro de lançamento.
Começando o preenchimento da tabela, considerando que a Cia. Comercial NECC foi
constituída neste exercício, os saldos iniciais evidenciados na planilha foram todos zero.

ativo = passivo + PL verificação:


ativo –
móveis e capital (passivo +
eventos/contas caixa estoques utensílios = fornecedores social PL)

saldos iniciais – – – = – – 0

Para melhor compreensão, vamos proceder a cada lançamento em separado:


Pela constituição da entidade, foram aplicados $ 1.600 no caixa. Essa aplicação teve como
origem o capital social ($ 1.600).

57
Tabela 8 – Matriz de lançamentos: constituição da entidade

ativo = passivo + PL verificação:


ativo –
móveis e capital (passivo +
eventos/contas caixa estoques = fornecedores
utensílios social PL)

saldos iniciais - - - = - - -

constituição 1.600 = 1.600 -

Pela compra de mercadorias a prazo, aplicaram-se $ 500 nos estoques, tendo esses recursos
origem com os fornecedores.

Tabela 9 – Matriz de lançamentos: compra de mercadorias a prazo

ativo = passivo + PL verificação:


ativo –
móveis e capital (passivo +
eventos/contas caixa estoques = fornecedores
utensílios social PL)

saldos iniciais - - - = - - -

constituição 1.600 = 1.600 -

compra a prazo 500 = 500 -

Pela compra de móveis e utensílios à vista, aplicaram-se $ 350 nos Móveis e Utensílios, tendo
esses recursos o caixa como origem.

Tabela 10 – Matriz de lançamentos: compra de móveis e utensílios à vista

ativo = passivo + PL verificação:


ativo –
móveis e capital (passivo +
eventos/contas caixa estoques = fornecedores
utensílios social PL)

saldos iniciais - - - = - - -

constituição 1.600 = 1.600 -

compra a prazo 500 = 500 -

compra à vista (350) 350 = -

58
Comparando essa forma de lançamento (matriz) com as apresentadas anteriormente, a matriz
contempla as vantagens dos razonetes, isto é, já apura os saldos das contas automaticamente – os
somatórios de cada coluna, na última linha –, enquanto, na primeira coluna, a matriz apresenta os
históricos de cada lançamento de forma resumida, o que foi citado como uma vantagem do diário
sobre o razonete. Além disso, ainda oferece uma ferramenta de verificação dos valores lançados – a
coluna de verificação.

Tabela 11 – Matriz de lançamentos: saldos finais

ativo = passivo + PL
verificação:
ativo –
móveis e capital
eventos/contas caixa estoques = fornecedores (passivo + PL)
utensílios social

saldos iniciais - - - = - - -

constituição 1.600 = 1.600 -

compra a prazo 500 = 500 -

compra à vista (350) 350 = -

saldos finais 1.250 500 350 = 500 1.600 -

Uma vez que a matriz tenha sido preenchida e verificada, basta transcrever os saldos finais de
cada conta (a última linha) para o Balanço Patrimonial, ou seja, partindo da matriz preenchida, é
suficiente olhar para as duas linhas do extremo – a primeira, com os nomes das contas; e a última,
com os saldos finais das respectivas contas.

ativo = passivo + PL verificação:


ativo –
móveis e capital (passivo +
eventos/contas caixa estoques utensílios = fornecedores social PL)

saldos finais 1.250 500 350 = 500 1.600 0

2.100 = 2.100

Com isso, só resta organizar os saldos finais na estrutura do Balanço Patrimonial.

59
Tabela 12 – Balanço Patrimonial da Cia. Comercial NECC (31/1/X7)

Balanço Patrimonial da Cia. Comercial NECC, apurado em 31/1/X7

ativo circulante passivo circulante

caixa 1.250,00 fornecedores a pagar 500,00

estoque de mercadorias 500,00 total do passivo circulante 500,00

total ativo circulante 1.750,00

patrimônio líquido

ativo não circulante capital social 1.600,00

imobilizado (móveis e utensílios) 350,00 total do patrimônio líquido 1.600,00

total do ativo não circulante 350,00

total do ativo 2.100,00 total do passivo + PL 2.100,00

Finalmente, reiteramos que as três formas de processamento dos atos e dos fatos que afetaram
o patrimônio da entidade propiciam a apuração de demonstrações contábeis idênticas – as três
formas são corretas. Cabe ao leitor escolher a forma da sua preferência, reconhecendo que cada
alternativa pode ser a mais aplicável em determinada situação.

Regime de Competência X Regime de Caixa


O Regime de Competência é adotado pela contabilidade das empresas, visando a dotá-las de
uma fiel expressão monetária de todos os bens, os direitos e as obrigações representativos da sua
estrutura patrimonial. A adoção desse regime é consubstanciada na LSA (Lei nº 6.404/76), no seu
art. 177 e no § 1º do art. 187.

Lei nº 6.404/76:

Art. 177. A escrituração da companhia será mantida em registros


permanentes, com obediência aos preceitos da legislação comercial e desta
lei e aos princípios de contabilidade geralmente aceitos, devendo observar
métodos ou critérios uniformes no tempo e registrar as mutações
patrimoniais segundo o regime de competência.

60
Art. 187. A demonstração do resultado do exercício discriminará: [...]
§ 1º Na determinação do resultado do exercício serão computados:
a) as receitas e os rendimentos ganhos no período,
independentemente da sua realização em moeda; e
b) os custos, despesas, encargos e perdas, pagos ou incorridos,
correspondentes a essas receitas e rendimentos. (grifo nosso)

Essas conceituações da lei representam o regime contábil de competência. Segundo a


Realização da Receita, as transações são reconhecidas no exercício em que ocorrer o evento
econômico – como a venda de bens ou a prestação de serviços –, ou seja, quando do fornecimento
de bens ou serviços em troca de outros bens ou direitos, tal como os títulos a receber. Assim sendo,
esse fundamento norteia a contabilização das vendas de bens e a prestação de serviços, e o
consequente registro das contas a receber, independentemente da sua realização financeira.
Pela confrontação de despesas com receitas e períodos contábeis, os gastos só devem ser
reconhecidos, contabilmente, como despesas quando for possível confrontá-los com a receita
relacionada no mesmo período em que a receita foi reconhecida. Caso contrário, serão reconhecidos
como ativo ou perda, da seguinte forma:
Se o gasto não for confrontado com nenhuma receita no momento presente, mas tiver a
capacidade de gerar receita em um período futuro, será contabilizado como um ativo.
Se o gasto não for confrontado com nenhuma receita, nem no momento presente nem no
futuro, será contabilizado como uma perda.

Esses dois conceitos formam o que se chama de regime de competência, em que receitas e gastos
são contabilizados como tais no período da ocorrência do seu fato gerador, não quando são
recebidos ou pagos em dinheiro.
O resultado contábil é determinado por meio da aplicação do regime de competência,
independentemente da movimentação de numerário ocorrida no mesmo período.
Em decorrência disso:
A receita de venda é contabilizada por ocasião da venda, e não na ocasião do seu
recebimento.
Ex.: No mês de agosto, uma loja vendeu o total de $ 5.000, sendo $ 1.200 à
vista, $ 1.800 no cartão de crédito, a ser recebido no início de setembro, e
$ 2.000 a prazo, parcelados em quatro meses sem juros. Segundo o Regime de
Competência, utilizado pela Contabilidade, se a loja vendeu, efetivamente,
$ 5.000 no mês de agosto, essa é a receita reconhecida, ou seja, $ 5.000. Pelo
Regime de Caixa, no mês de agosto, só é reconhecido o valor que, efetivamente,
ingressou em caixa, ou seja, $ 1.200.

61
A despesa de pessoal – salários e respectivos encargos – é reconhecida no mês em que se
recebeu tal prestação de serviços, mesmo sendo paga no mês seguinte.
Ex.: A Contabilidade vai reconhecer o valor total dos salários no mês em que os
funcionários trabalharam, mesmo que efetue o desembolso de caixa, isto é, o
efetivo pagamento, no início do mês posterior.

A despesa do imposto de renda é registrada no mesmo período em que os lucros foram


auferidos, e não no exercício seguinte, quando o tributo é declarado e pago.

Desse modo, o Regime de Caixa consiste em classificar e reconhecer as operações de uma


entidade pelo efetivo Ingresso e Desembolso de Bens Numerários. Mais precisamente, a sua adoção
está, a rigor, voltada ao Fluxo Financeiro – ou Fluxo de Caixa – de um empreendimento.
Determinadas operações das empresas são efetuadas em dinheiro, à vista, sendo a sua
realização na data do efeito financeiro.
No entanto, muitas operações são efetuadas em datas diferentes, e a Contabilidade deve
efetuar um tratamento contábil conhecido como “lançamentos de ajuste” para regularizar as contas
de Balanço (BP) e de Resultado (DRE).
Essas operações podem ter o seu fato econômico gerador posterior ou anterior ao Caixa.

a) Efeito Caixa antes do efeito econômico


Receitas recebidas antecipadamente.
Um exemplo dessa situação ocorre quando uma empresa do setor editorial recebe o
pagamento de assinaturas dos seus clientes com o compromisso de entregar revistas durante o
período da assinatura.
Vamos admitir o seguinte evento: uma editora recebe $ 120,00 por uma assinatura anual,
para a entrega mensal de uma revista.
Lançamento do recebimento antecipado:

D caixa (ativo) 120,00

C receitas recebidas antecipadamente (passivo) 120,00

Nessa data, não existe reconhecimento do Resultado. Este é auferido no momento da entrega
da revista.
No momento da entrega do exemplar do mês, o seguinte lançamento será realizado:

62
Lançamento do reconhecimento da receita:

D receitas recebidas antecipadamente (passivo) 10,00

C receitas de assinatura (DRE – receita) 10,00

Durante os 12 meses em que o assinante tem direito à revista, a empresa reconhecerá uma
receita de assinatura de $ 10,00, na Demonstração de Resultado, abatendo esse valor da Receita
Recebida Antecipadamente, do Passivo – Balanço Patrimonial, até zerar o saldo dessa conta, o que
vai representar o término do prazo da vigência da assinatura da revista.
Despesas pagas antecipadamente:
Essa é uma situação análoga, no sentido do caixa movimentado antes do fato gerador da
despesa. Por exemplo, uma empresa efetua o pagamento de uma apólice de seguro que vai proteger
o seu ativo pelo período de 12 meses. No momento do pagamento, a empresa reconhece um ativo
denominado como Seguros Pagos Antecipadamente. O montante será apropriado para o resultado
como Despesa de Seguro de acordo com o período de cobertura da apólice. Do mesmo modo que
foi feito no exemplo anterior, o valor da despesa mensal de seguros será o mesmo durante os 12
meses em que o seguro está em vigor (DRE). A cada mês, a conta Despesas pagas antecipadamente
(Balanço) será reduzida em 1/12 desse valor (mesmo valor da despesa mensal) até que essa conta
não mais exista (final de 12 meses).

b) Efeito Caixa após o efeito econômico


Um exemplo dessa situação são os Serviços Prestados, mas não Recebidos. Uma empresa
prestadora de serviços executa as suas atividades para o seu cliente e somente emite a fatura no final
do mês, para recebimento no mês seguinte. Segundo o Regime de Competência, a receita é
reconhecida (DRE) contra Duplicatas a Receber de Clientes (BP). No entanto, pelo Regime de
Caixa, só há efetivo reconhecimento no momento em que o pagamento é efetivado pelo cliente
(mês seguinte).
Essa mesma empresa poderá ter reconhecido uma Despesa que ainda não foi paga,
correspondendo a Despesas Incorridas, mas não pagas.
Um exemplo seria o caso de Despesas de salários do mês de outubro, pagas no dia 5 de
novembro. A despesa é reconhecida no período em que os empregados estão trabalhando, ou seja,
no mês de outubro (DRE). Nessa data, é reconhecido o Passivo da empresa com os Salários a Pagar
(BP). No momento do pagamento no mês de novembro, o caixa é reduzido, e a conta do Passivo é
encerrada. Pelo Regime de Caixa, só há o reconhecimento no mês de novembro quando ocorre
desembolso de caixa relativo ao pagamento dos salários.

63
c) Casos das construtoras
Na atividade diária das empresas, ocorrem operações cujo tratamento é complexo e requer
julgamento de acordo com as situações específicas. Por exemplo, esse fato ocorre com o setor imobiliário
no reconhecimento da receita de uma empresa incorporadora, que vende apartamentos antes da sua
conclusão. Nesse caso, existe a abordagem do reconhecimento da receita de acordo com as etapas de
construção. Por outro lado, existe também a validade do reconhecimento somente no momento da
conclusão, quando há a denominada “entrega das chaves”.

d) Introdução à depreciação
Na sua atuação, uma empresa adquire ativos imobilizados que terão uma vida útil econômica
superior a um ano – por exemplo, edificações, máquinas e veículos – para compor a sua
infraestrutura, que propiciará a geração de produtos e serviços.
Esses ativos vão perdendo capacidade operacional durante a sua atividade. A fim de atender ao
objetivo informacional, a contabilidade desenvolve a sistemática de apropriação do “consumo” desse
ativo durante o tempo que está em atividade. Esse reconhecimento é denominado “depreciação”.
Por exemplo, uma empresa de transportes adquiriu um caminhão por $ 100.000. Ela estima
que o veículo será utilizado durante cinco anos e não terá valor econômico após esse período. É
necessário reconhecer, anualmente, a utilização do veículo. Nesse sentido, o tratamento mais usual
é dividir o custo de $ 100.000 pelos cinco anos, reconhecendo uma despesa de depreciação no valor
de $ 20.000 por ano.

64
MÓDULO II – CONTABILIZAÇÃO DE
TRANSAÇÕES TÍPICAS (1ª PARTE)

Neste módulo, vamos estudar a contabilização de transações típicas que afetam, praticamente, todas
as entidades comerciais – das mais simples às mais complexas. A rigor, estudaremos operações de
compra e venda de mercadorias com os seus reflexos no Estoque.
Quanto às receitas de vendas e prestação de serviços, estudaremos as cinco etapas para o
reconhecimento de receitas decorrentes de contratos com clientes e os reflexos no contas a receber
decorrentes de vendas a prazo.

Receita de contrato com clientes


Conceituação
Receita é aumento nos benefícios econômicos durante o período contábil, originado no curso
das atividades usuais da entidade, na forma de fluxos de entrada ou aumentos nos ativos ou redução
nos passivos que resultam em aumento no patrimônio líquido, e que não sejam provenientes de
aportes dos participantes do patrimônio.
Ainda de acordo com o CPC 48, Cliente é a parte que contratou com a entidade a
obtenção de bens ou serviços, que constituem um produto das atividades normais da entidade,
em troca de contraprestação; e Contrato é um acordo entre duas ou mais partes que cria direitos
e obrigações executáveis.

Cinco etapas para o reconhecimento da receita


O CPC 48 estabelece cinco etapas para o reconhecimento da receita. Vejamos cada uma:
Etapa 1: identificação do contrato com cliente
Um modo mais fácil para se compreender o significado de contrato é: contrato é um acordo entre
duas partes, a empresa e o seu cliente, segundo o qual as partes combinam o que a empresa fará (ex.:
entregará bem ou prestará serviço) e o quanto o cliente pagará por isso. Portanto, o contrato cria direitos
e obrigações para as partes.
Os contratos podem ser escritos, orais ou podem estar implícitos nas práticas tradicionais de
negócio de uma entidade.
Em algumas situações, pode ser necessário juntar dois ou mais contratos firmados por uma
entidade com determinado cliente em datas próximas, se o conjunto de contratos melhor representar a
substância econômica no negócio transacionado entre as partes.

Etapa 2: identificação das obrigações de desempenho


Obrigação de desempenho é a obrigação de fazer que a empresa assume perante o cliente em troca
de pagamento.
A obrigação de desempenho pode ser a obrigação de entregar bem ou de prestar serviços distintos,
ou série de bens e serviços distintos.
Bens ou serviços que a entidade se compromete a entregar a determinado cliente são distintos se
ambos os critérios forem atendidos:
a) O cliente pode beneficiar-se do bem ou do serviço, seja isoladamente ou em conjunto
com outros recursos que estejam prontamente disponíveis ao cliente (ou seja, o bem ou
o serviço é capaz de ser distinto); e
b) A promessa da entidade de transferir o bem ou o serviço ao cliente é separadamente
identificável de outras promessas contidas no contrato (ou seja, compromisso para
transferir o bem ou o serviço é distinto dentro do contexto do contrato).

Por exemplo, uma empresa de telefonia celular entra em um contrato com um cliente para
vender um aparelho celular e se comprometer a prestar serviços de telefonia móvel (voz e dados)
por 36 meses a determinado cliente. Muito provavelmente essa entidade determinará que a entrega
do aparelho celular é uma obrigação de desempenho distinta da promessa de prestar serviço de
telefonia celular (voz e dados).
Se o bem ou o serviço prometido não for distinto, a entidade deve combinar esse bem ou serviço
com outros bens ou serviços prometidos até que identifique o grupo de bens ou serviços que seja distinto.
Em alguns casos, isso pode resultar em que a entidade deva contabilizar todos os bens ou serviços
prometidos no contrato como uma única obrigação de desempenho.
Por exemplo, um cliente vai a um supermercado com uma lista de compras, seleciona os produtos
que lhe interessam, dirige-se ao caixa onde cada produto é registrado, paga o preço cobrado, embala os

66
produtos em sacolas e sai da loja carregando as mercadorias adquiridas. Por mais variada que seja a lista
de compras (p.ex., bananas, queijos, feijão, leite, material de limpeza, etc.), muito provavelmente essa
entidade determinará que a entrega das diversas mercadorias, em um único momento, é uma única
obrigação de desempenho.

Etapa 3: determinar o preço da transação


Preço da transação é o valor que a empresa espera ter direito a receber em troca da entrega de
bens ou prestação de serviços ao cliente.
O preço da transação pode ser fixo, variável ou ambos. O valor variável pode ser positivo
(prêmio) ou negativo (multa). Descontos, abatimentos e devoluções também são contraprestações
variáveis (valor negativo).
A entidade deve estimar o valor da contraprestação variável, utilizando qualquer dos métodos
a seguir, dependendo de por qual método a entidade espera melhor prever o valor da
contraprestação à qual tem direito:
a) valor esperado – o valor esperado é a soma de valores ponderados em função da
probabilidade de uma gama de possíveis valores de contraprestação. O valor esperado
pode ser uma estimativa apropriada do valor da contraprestação variável, se a entidade
tiver grande número de contratos com características similares.
b) valor mais provável – o valor mais provável é o valor único mais provável de uma gama
de possíveis valores de contraprestação (ou seja, o resultado único mais provável do
contrato). O valor mais provável pode ser uma estimativa apropriada do valor da
contraprestação variável, se o contrato tiver apenas dois possíveis resultados (por exemplo,
a entidade atingir um bônus de desempenho ou não).

Por exemplo, uma empresa de engenharia entra em um contrato com um cliente para
construir uma piscina na residência desse cliente. As partes combinam que prazo para construção
da piscina é de 45 dias e acordam que o cliente deverá pagar à entidade um preço fixo de
$ 40.000,00, mais um bônus de $ 5.000,00 se a piscina ficar pronta em até 40 dias, ou menos uma
multa de $ 8.000,00 se a piscina não ficar pronta em até 50 dias.
A entidade precisará determinar qual é o montante que ela espera ter direito a receber em
troca da construção da piscina. Nesse caso, deverá adotar o método do valor mais provável. Então,
precisará julgar qual dos três cenários é o mais provável: concluir a construção da piscina em até 40
dias, em até 45 dias, ou após 50 dias. Dependendo desse julgamento, a entidade determinará o
preço da transação em $ 45.000,00 (preço fixo mais bônus), $ 40.000,00 (somente preço fixo), ou
$ 32.000,00 (preço fixo menos multa). Importante que esse julgamento seja neutro, não viesado,
para viabilizar que a entidade melhor represente a essência econômica desse contrato.

67
Ao determinar o preço da transação, a entidade deve ajustar o valor prometido da
contraprestação para refletir os efeitos do valor do dinheiro no tempo, se a época dos pagamentos
pactuada pelas partes do contrato (seja expressa ou implicitamente) fornecer ao cliente ou à entidade
um benefício significativo de financiamento da transferência de bens ou serviços ao cliente. Nessas
circunstâncias, o contrato contém componente de financiamento significativo.
Componente de financiamento significativo pode existir, independentemente, se a promessa
de financiamento é expressamente declarada no contrato ou implícita pelos termos de pagamento
pactuados pelas partes do contrato. O objetivo, ao ajustar o valor prometido da contraprestação para
um componente de financiamento significativo, é que a entidade reconheça receitas pelo valor que
reflita o preço que o cliente teria pagado pelos bens ou serviços prometidos, se o cliente tivesse pagado
à vista por esses bens ou serviços quando (ou à medida que) foram transferidos ao cliente (ou seja, o
preço de venda à vista). Para tanto, a entidade deve utilizar a taxa de desconto que seria refletida em
transação de financiamento separada entre a entidade e o seu cliente no início do contrato.
Por exemplo, uma concessionária de automóveis entra em um contrato com um cliente para
vender um veículo a esse cliente. As partes combinam o controle do veículo é transferido
imediatamente ao cliente e acordam que o cliente deverá pagar à entidade um preço fixo de
$ 100.000,00, entretanto, o cliente pagará essa quantia somente um ano após a compra do veículo.
Muito provavelmente, a entidade identificará que há um componente de financiamento
significativo nesse contrato, afinal, o cliente pagará o preço, sem juros, somente um ano após ter
obtido o controle do bem adquirido. Então, a entidade precisará determinar qual seria o preço
equivalente à vista. Admitindo que a taxa de desconto seja 10% ao ano, o preço da transação seria
determinado em $ 90.909,09 (isto é, $ 100.000,00 ÷ (1 + 0,1)1, afinal, $ 100.000,00 é o valor
futuro, 0,1 ou 10% é a taxa de desconto, e 1 é o número de períodos em anos).
Importante observar que o “valor que a empresa espera ter direito a receber” é diferente do
“valor que a empresa espera receber”. O risco de inadimplência consiste na diferença entre esses
dois valores. A receita deve ser reconhecida com base no “valor que a empresa espera ter direito a
receber”, isto é, com base no preço da transação. A inadimplência é controlada à parte, na gestão
do Contas a Receber de clientes, conforme será estudado mais adiante neste módulo.

Etapa 4: alocar o preço da transação às obrigações de desempenho


Esta etapa só é relevante para contratos segundo os quais a entidade promete cumprir mais de
uma obrigação de desempenho. Portanto, havendo o compromisso de fazer mais de uma obrigação de
desempenho: é necessário alocar o preço da transação a cada obrigação de desempenho.
Essa alocação deve ser determinada com base no preço de venda individual de cada bem
ou serviço.

68
Havendo desconto por combo, deve-se alocar o preço de modo a melhor representar a
substância econômica da transação. Quando isso não for viável, a entidade deverá alternativamente
alocar o desconto proporcionalmente a todas as obrigações de desempenho estabelecidas em contrato.
Por exemplo, uma lanchonete costuma vender determinado lanche (sanduíche e refresco) por
$ 15,00 e também costuma vender camisetas com a marca da lanchonete por $ 10,00.
Excepcionalmente, durante o mês de outubro, como parte de comemoração do Dia das Crianças,
essa lanchonete oferece uma promoção: na compra de determinado lanche (sanduíche e refresco),
o cliente pode optar por levar uma camiseta, mediante o pagamento total de $ 20,00. Então, ao
entrar em um contrato com um cliente para vender um combo (sanduíche, refresco e camiseta), o
preço da transação é $ 20,00. Logo, a lanchonete precisará alocar o preço da transação às obrigações
de desempenho.
Ocorre que, em função do desconto, não poderá alocar $ 15,00 ao lanche e $ 10,00 à
camiseta, pois o somatório ultrapassaria o montante do preço da transação. Portanto, é necessário
também alocar o desconto de $ 5,00 (isto é, $ 25,00 menos $ 20,00). Caso a diretoria comercial da
lanchonete (que definiu as condições da promoção) determine que $ 4,00 do desconto são alocados
ao lanche e que $ 1,00 é alocado à camiseta, a entidade deverá reconhecer receita de $ 11,00 (isto
é, $ 15,00 menos $ 4,00) pela venda do lanche e $ 9,00 (isto é, $ 10,00 menos $ 1,00), pois essa
seria a melhor representação da substância econômica da transação. Contudo, se a diretoria
comercial, ou quem definiu as condições da promoção, não souber informar qual a melhor forma
de representar a substância econômica da transação, o desconto deverá ser proporcionalmente a
ambas as obrigações de desempenho, sendo a receita de venda do lanche reconhecida por $ 12,00
(isto é, $ 15,00 ÷ $ 25,00 × $ 20,00) e a receita de venda da camiseta reconhecida por $ 8,00 (isto
é, $ 10,00 ÷ $ 25,00 × $ 20,00).

Etapa 5: reconhecer a receita


A empresa deve reconhecer a receita se for provável que receberá a contraprestação à qual terá
direito em troca dos bens ou serviços prometidos; ou seja, a empresa deve reconhecer a receita no
momento (ou à medida que) satisfizer as obrigações de desempenho.
O critério fundamental para decidir se e quando a entidade satisfez as obrigações de
desempenho é a transferência do controle do bem ou serviço ao cliente.
O controle do ativo refere-se à capacidade de determinar o uso do ativo e de obter
substancialmente a totalidade dos benefícios restantes provenientes do ativo. O controle inclui a
capacidade de evitar que outras entidades direcionem o uso do ativo e obtenham benefícios desse ativo.

69
Em algumas situações, a entidade satisfaz a obrigação de desempenho em determinado
momento, em outras, a entidade satisfaz a obrigação de desempenho ao longo do tempo. A entidade
transfere o controle do bem ou serviço ao longo do tempo, portanto, satisfaz à obrigação de
desempenho e reconhece receitas ao longo do tempo, se um dos critérios a seguir for atendido:
a) O cliente recebe e consome simultaneamente os benefícios gerados pelo desempenho por
parte da entidade à medida que a entidade efetiva o desempenho.
b) O desempenho por parte da entidade cria ou melhora o ativo (por exemplo, produtos em
elaboração) que o cliente controla à medida que o ativo é criado ou melhorado.
c) O desempenho por parte da entidade não cria um ativo com uso alternativo para a
entidade e a entidade possui direito executável (enforcement) ao pagamento pelo
desempenho concluído até a data presente.

Por exemplo, um curso de inglês oferece aulas em dois dias por semana (terças-feiras e quintas-
feiras), sendo 90 minutos por aula, e cobra seis mensalidades de $ 400,00 (a primeira em fevereiro e a
última em julho). Sabendo-se que o aluno recebe e consome simultaneamente os benefícios gerados
pelo desempenho por parte da entidade à medida que a entidade oferece as aulas, esse curso deve
reconhecer a receita ao longo do tempo. Contudo, não deve reconhecer receita no montante de $ 400
por mês, afinal, os benefícios não são gerados uniformemente pela entidade ao longo desses seis anos.
Admitindo-se que o período letivo começa em 4 de fevereiro e termina em 9 de julho; e sabendo-
se que não há aulas nos seguintes feriados: Carnaval (de 4 a 8 de março), Páscoa (18 e 19 de abril), São
Jorge (23 de abril), Dia do Trabalho (1º de maio), Corpus Christi (20 de junho). São previstas oito
aulas em fevereiro (dias 5, 7, 12, 14, 19, 21, 26 e 28); seis aulas em março (dias 12, 14, 19, 21, 26 e
28); sete aulas em abril (dias 2, 4, 9, 11, 16, 25 e 30); nove aulas em maio (dias 2, 7, 9, 14, 16, 21, 23,
28 e 30); sete aulas em junho (dias 4, 6, 11, 13, 18, 25 e 27); e três aulas em julho (dias 2, 4 e 9).
Portanto, são previstas 40 aulas ao todo; consequentemente, a entidade deve reconhecer receita em
fevereiro pelo montante de $ 480,00 (isto é, 6 meses × $ 400/mês ÷ 40 aulas ao todo × 8 aulas em
fevereiro); em março pelo montante de $ 360,00 (isto é, 6 meses × $ 400/mês ÷ 40 aulas ao todo × 6
aulas em março); e assim por diante, sendo: $ 420,00 em abril, $ 540,00 em maio, $ 420,00 em junho,
e $ 180,00 em julho.
Quando a entidade não atende a nenhuma das três condições para reconhecimento da receita ao
longo do tempo é porque ela satisfaz a obrigação de desempenho em determinado momento; então,
deve reconhecer a receita em determinado momento.
Por exemplo, uma panificadora vende bolos sob encomenda. No dia 2 de abril, aceita encomenda
de determinado cliente para produzir um bolo de aniversário com determinadas características. As partes
concordam que o cliente pagará o valor de $ 200,00 por esse bolo até o dia 10 de abril, mas o bolo
somente deverá ser entregue ao cliente no dia da festa, em 12 de abril. Sabendo que a panificadora não
atende a nenhuma das três condições para reconhecimento da receita ao longo do tempo, ela deverá
reconhecer a receita em determinado momento, somente quando transferir o controle do bolo ao
cliente, isto é, no dia 12 de abril.

70
Mecânica contábil e elaboração das demonstrações contábeis: receita
A mecânica contábil é rigorosamente a mesma, independentemente de a entidade reconhecer
a receita em determinado momento ou ao longo do tempo.
Para simplificar e consolidar o entendimento dos pontos apresentados nos tópicos anteriores
deste módulo, tomemos o exemplo do curso de inglês, já discutido.
Para facilitar o entendimento, vamos apresentar somente os lançamentos contábeis com os
valores do recebimento de clientes, do reconhecimento da receita (considerando somente um aluno)
e vamos admitir que o curso de inglês incorre em despesas operacionais de $ 100,00 por mês, e que
tenha apurado o seguinte Balanço Patrimonial do início do exercício (1º/01/X0):

Tabela 13 – Balanço Patrimonial do curso de inglês (1º/01/X0)

Balanço Patrimonial – Curso de Inglês – 1º/01/X0

ativo circulante patrimônio líquido

disponibilidades 2.000,00 capital social 2.000,00

total do AC 2.000,00 total do PL 2.000,00

total do Ativo 2.000,00 total do passivo + PL 2.000,00

Para registrar esses eventos, o contador do curso de inglês precisaria fazer os seguintes
lançamentos contábeis no Diário:
Pelo recebimento da mensalidade em fevereiro:

D disponibilidades (AC) 400,00

C adiantamento de clientes (PC) 400,00

Recebimento da mensalidade de fevereiro.

Pelo reconhecimento da receita em fevereiro:

D adiantamento de clientes (PC) 400,00

D contas a receber de clientes (AC) 80,00

C receita de prestação de serviços (DRE) 480,00

Receita relativa às oito aulas ministradas em fevereiro.

71
Pelo reconhecimento das despesas em fevereiro:

D despesas operacionais (DRE) 100,00

C disponibilidades (AC) 100,00

Despesas operacionais do mês.

Pelo recebimento da mensalidade em março:

D disponibilidades (AC) 400,00

C contas a receber de clientes (AC) 80,00

C adiantamento de clientes (PC) 320,00

Recebimento da mensalidade de março.

Pelo reconhecimento da receita em março:

D adiantamento de clientes (PC) 320,00

D contas a receber de clientes (AC) 40,00

C receita de prestação de serviços (DRE) 360,00

Receita relativa às seis aulas ministradas em março.

Pelo reconhecimento das despesas em março:

D despesas operacionais (DRE) 100,00

C disponibilidades (AC) 100,00

Despesas operacionais do mês.

72
Pelo recebimento da mensalidade em abril:

D disponibilidades (AC) 400,00

C contas a receber de clientes (AC) 40,00

C adiantamento de clientes (PC) 360,00

Recebimento da mensalidade de abril.

Pelo reconhecimento da receita em abril:

D adiantamento de clientes (PC) 360,00

D contas a receber de clientes (AC) 60,00

C receita de prestação de serviços (DRE) 420,00

Receita relativa às sete aulas ministradas em abril.

Pelo reconhecimento das despesas em abril:

D despesas operacionais (DRE) 100,00

C disponibilidades (AC) 100,00

Despesas operacionais do mês.

Pelo recebimento da mensalidade em maio:

D disponibilidades (AC) 400,00

C contas a receber de clientes (AC) 60,00

C adiantamento de clientes (PC) 340,00

Recebimento da mensalidade de maio.

73
Pelo reconhecimento da receita em maio:

D adiantamento de clientes (PC) 340,00

D contas a receber de clientes (AC) 200,00

C receita de prestação de serviços (DRE) 540,00

Receita relativa às nove aulas ministradas em maio.

Pelo reconhecimento das despesas em maio:

D despesas operacionais (DRE) 100,00

C disponibilidades (AC) 100,00

Despesas operacionais do mês.

Pelo recebimento da mensalidade em junho:

D disponibilidades (AC) 400,00

C contas a receber de clientes (AC) 200,00

C adiantamento de clientes (PC) 200,00

Recebimento da mensalidade de junho.

Pelo reconhecimento da receita em junho:

D adiantamento de clientes (PC) 200,00

D contas a receber de clientes (AC) 220,00

C receita de prestação de serviços (DRE) 420,00

Receita relativa às sete aulas ministradas em junho.

74
Pelo reconhecimento das despesas em junho:

D despesas operacionais (DRE) 100,00

C disponibilidades (AC) 100,00

Despesas operacionais do mês.

Pelo recebimento da mensalidade em julho:

D disponibilidades (AC) 400,00

C contas a receber de clientes (AC) 220,00

C adiantamento de clientes (PC) 180,00

Recebimento da mensalidade de julho.

Pelo reconhecimento da receita em julho:

D adiantamento de clientes (PC) 180,00

C receita de prestação de serviços (DRE) 180,00

Receita relativa às três aulas ministradas em julho.

Pelo reconhecimento das despesas em julho:

D despesas operacionais (DRE) 100,00

C disponibilidades (AC) 100,00

Despesas operacionais do mês.

75
Ressalte-se que esses lançamentos poderiam ter sido efetuados na matriz de lançamentos,
conforme a seguir:

Tabela 14 – Matriz de lançamentos do curso de inglês

contas a
adiantamento capital
eventos disponibilidades receber de = resultado
de clientes social
clientes

saldos iniciais 2.000 = 2.000

fev. – recebimento 400 = 400

fev. – receita (8 aulas) 80 = (400) 480

fev. – despesa (100) = (100)

mar. – recebimento 400 (80) = 320

mar. – receita (6 aulas) 40 = (320) 360

mar. – despesa (100) = (100)

abr. – recebimento 400 (40) = 360

abr. – receita (7 aulas) 60 = (360) 420

abr. – despesa (100) = (100)

maio – recebimento 400 (60) = 340

maio – receita (9 aulas) 200 = (340) 540

maio – despesa (100) = (100)

jun. – recebimento 400 (200) = 200

jun. – receita (7 aulas) 220 = (200) 420

jun. – despesa (100) = (100)

jul. – recebimento 400 (220) = 180

jul. – receita (3 aulas) = (180) 180

jul. – despesa (100) = (100)

saldos finais 3.800 0 = 0 2.000 1.800

76
Dessa forma, o curso de inglês evidenciaria a seguinte DRE:

Tabela 15 – DRE do curso de inglês (31/07/X0)

Curso de Inglês

DRE apurada em 31/07/X0

receitas prestação de serviços 2.400,00

(–) despesas operacionais (600,00)

(=) lucro operacional 1.800,00

A seguinte Demonstração das Mutações do Patrimônio Líquido (DMPL):

Tabela 16 – DMPL do curso de inglês (31/07/X0)

Curso de Inglês

DMPL apurada em 31/07/X0

eventos/contas capital social lucros acumulados total PL

saldos iniciais 2.000,00 2.000,00

lucro do período 1.800,00 1.800,00

saldos finais 2.000,00 1.800,00 3.800,00

77
E o seguinte Balanço Patrimonial:

Tabela 17 – Balanço Patrimonial do curso de inglês (31/07/X0)

Balanço Patrimonial – Curso de Inglês – 31/07/X0

ativo circulante passivo circulante

disponibilidades 3.800,00 adiantamentos de clientes 0,00

contas a receber de clientes 0,00 total do PC 0,00

total do AC 3.800,00

Patrimônio Líquido

capital social 2.000,00

lucros acumulados 1.800,00

total do PL 3.800,00

total do ativo 3.800,00 total do passivo + PL 3.800,00

Mensuração e reconhecimento das perdas em contas a receber


Ao vender a prazo, a entidade corre o risco de não receber o dinheiro do cliente. A
probabilidade de não recebimento é denominada “risco de inadimplência”.
Considerando que o risco de inadimplência decorre da venda a prazo, é necessário reconhecer
a despesa associada a esse risco (Despesa com a Perda Esperada com Créditos de Liquidação
Duvidosa – PECLD), confrontando-a com a receita de vendas. Isso ocorre de forma semelhante ao
confronto do CMV com a Receita Bruta.
Em relação ao cálculo da PECLD, existem duas visões. A primeira, amplamente utilizada no
Brasil, é a apuração da perda pelo método de Perdas Estimadas ou Esperadas. Essa forma é
apresentada neste material. No entanto, o “Pronunciamento CPC 38 – Instrumentos Financeiros:
Reconhecimento e Mensuração” aborda a utilização do conceito de Perda Incorrida, quando a
despesa é reconhecida na ocasião em que o cliente deixa de efetuar o pagamento na data, ou quando
há um fato gerador negativo, indicando a existência de um sério problema com o cliente.

78
A Lei nº 6.404/76, com redação dada pela Lei nº 11.638/07, prevê o reconhecimento da
PECLD no art. 183.

Art. 183. No balanço, os elementos do ativo serão avaliados segundo os


seguintes critérios:
I - as aplicações em instrumentos financeiros, inclusive derivativos, e em
direitos e títulos de créditos, classificados no ativo circulante ou no
realizável a longo prazo:
a. pelo seu valor justo, quando se tratar de aplicações destinadas à
negociação ou disponíveis para venda; e
b. pelo valor de custo de aquisição ou valor de emissão, atualizado
conforme disposições legais ou contratuais, ajustado ao valor provável de
realização, quando este for inferior, no caso das demais aplicações e
os direitos e títulos de crédito. (grifo nosso)

Vejamos um exemplo: em 12 de abril, a Cia. Comercial RFJC vende a prazo 1.000 unidades
da mercadoria X ao cliente Fiel, por $ 10,00 a unidade, com prazo para recebimento em 14 de
maio. Sabe-se que cada unidade da mercadoria X custou $ 7,00 à Cia. Comercial RFJC. A Cia.
Comercial RFJC reconheceria os seguintes lançamentos contábeis:
Pela venda a prazo, no dia 12 – Reconhecimento da receita:

D duplicatas a receber (AC) ou clientes (AC) 10.000,00

C receita bruta de vendas (DRE) 10.000,00

Venda a prazo de 1.000 unidades da mercadoria X, ao cliente Fiel, no dia 12 de abril, com
vencimento em 14 de maio.

Pela venda a prazo, no dia 12 – Confronto do CMV com a receita:

D custo das mercadorias vendidas (DRE) 7.000,00

C estoque da mercadoria X (AC) 7.000,00

Venda de 1.000 unidades da mercadoria X, ao cliente Fiel, no dia 12.

79
O contador da Cia. Comercial RFJC, após efetuar uma análise com o setor de crédito da
empresa, estima que a probabilidade de o cliente Fiel não pagar a sua dívida é de 2% (risco de
inadimplência). Desse modo, há dúvida entre dois valores válidos para o Ativo Circulante –
Duplicatas a Receber: $ 10.000,00, valor que a Cia. Comercial RFJC tem o direito de cobrar do
cliente Fiel, ou $ 9.800,00, o valor mais provável que se espera que o cliente Fiel pague [$ 10.000,00
x (1 – 0,02)].
Conforme as normas contábeis, é necessário apresentar o Ativo, no máximo, pelo seu valor
recuperável. No caso das duplicatas a receber, o valor recuperável é o valor esperado de realização – nesse
exemplo, $ 9.800,00. Desse modo, a Cia. Comercial RFJC precisa reconhecer a Despesa com a
PECLD, no valor de $ 200,00 ($ 10.000,00 × 2%). Observe que esse procedimento é alinhado à
tradição do conservadorismo em contabilidade, segundo a qual sempre que houver dúvida entre dois
valores válidos para o Ativo, deve-se mensurar pelo menor.
Pela venda a prazo, no dia 12 de abril – Confronto da PECLD com a receita:

D despesa com perda esperada com créditos de liquidação duvidosa (DRE) 200,00

C perda esperada com créditos de liquidação duvidosa (redutora do AC) 200,00

Reconhecimento do risco de inadimplência (2%) sobre a venda a prazo ao cliente Fiel, no valor
de $ 10.000,00, com vencimento em 14 de maio.

As dúvidas recorrentes entre os nossos alunos são as seguintes:

Se o cliente pagar a dívida no dia 14 de maio, como fica a PECLD?


Se o cliente não pagar a dívida no dia 14 de maio, como fica a PECLD?

Primeiramente, vejamos o cenário otimista. Caso o cliente Fiel pague a sua dívida
($ 10.000,00) no dia combinado, a entidade reconhecerá o dinheiro recebido e a baixa das
Duplicatas a Receber. Subsequentemente, reconhecerá a reversão da PECLD; afinal, a expectativa
de inadimplência não se realizou.
Pelo recebimento do crédito, no dia 14 de maio – Reconhecimento do caixa:

D disponibilidades (AC) 10.000,00

C duplicatas a receber (AC) 10.000,00

Recebimento da duplicata contra o cliente Fiel, relativa à venda do dia 12 de abril, em 14 de maio.

80
Pelo recebimento do crédito, no dia 14 de maio – Reversão da PECLD:

D perda esperada com créditos de liquidação duvidosa (redutora do AC) 200,00

C despesa com perda esperada com créditos de liquidação duvidosa (DRE) 200,00

Reversão da PECLD constituída em 12 de abril, porque o risco de inadimplência não se realizou,


uma vez que cliente Fiel pagou a sua dívida em 14 de maio.

Por outro lado, se o cliente não pagar a dívida no dia 14 de maio, a Cia. Comercial RFJC
precisará rever a sua expectativa de risco de inadimplência.
Caso a entidade resolva manter a sua expectativa de não recebimento do cliente Fiel em 2%,
não precisará fazer qualquer novo lançamento. No entanto, digamos que a Cia. Comercial RFJC
estime, agora, que a probabilidade de o cliente Fiel não pagar a sua dívida ($ 10.000,00) seja de
5,5%. Nesse caso, precisará reconhecer o reforço da Perda Esperada com Créditos de Liquidação
Duvidosa em 3,5% (5,5% – 2%), ou seja, precisará aumentar o saldo da provisão em $ 350,00 ($
10.000,00 × 3,5%), perfazendo o saldo total da PECLD em $ 550,00 ($ 200,00 + $ 350,00). Isso
seria feito mediante o seguinte registro contábil.
Pelo não recebimento do crédito, no dia 14 de maio – Reforço da PECLD:

D despesa com perda esperada com créditos de liquidação duvidosa (DRE) 350,00

C perda esperada com créditos de liquidação duvidosa (redutora do AC) 350,00

Reforço da PECLD pelo aumento do risco de inadimplência (de 2% para 5,5%), visto que o
cliente Fiel não pagou a sua dívida no vencimento (14 de maio).

A questão mais relevante sobre a PECLD diz respeito à sua mensuração, ou seja: como medir
o risco de inadimplência? As empresas costumam medir tal risco pela análise histórica da
inadimplência sofrida sobre as vendas a prazo.
Por exemplo, imagine que a Cia. Comercial RFJC tenha vendido a prazo, nos últimos três
anos, $ 100.000.000,00, e que não recebeu $ 2.000.000,00 desse montante. Com isso, a taxa
histórica de inadimplência foi de 2% ($ 2.000.000,00/$ 100.000.000,00). A administração da Cia.
Comercial RFJC, estimando que a inadimplência histórica dos últimos três anos é um bom
indicador da inadimplência futura, utiliza a taxa de 2% para mensurar a Perda Esperada com
Créditos de Liquidação Duvidosa.
Adicionalmente, as empresas costumam fazer uma análise individualizada dos clientes,
buscando identificar eventuais ajustes a essa taxa histórica. Dessa forma, quando a entidade vende

81
a prazo – ou concede qualquer tipo de empréstimo e financiamento – a um cliente que sempre
pagou as suas dívidas em dia e, além disso, dispõe de excelente situação econômico-financeira,
reconhece a PECLD em uma taxa menor do que a média histórica geral. Por outro lado, ao conceder
crédito a um cliente com precária situação econômico-financeira ou que já atrasou o pagamento
das suas dívidas, a entidade reconhece a PECLD em uma taxa maior do que a média histórica geral.
Esse procedimento equivale ao reconhecimento da PECLD por um processo de rating.
Por exemplo, a administração da Cia. Comercial RFJC procedeu à revisão do risco de
inadimplência do cliente Fiel, ao constatar que ele não havia pagado a sua dívida na data de
vencimento. Como consequência, aumentou a taxa de provisionamento de 2% para 5,5% sobre o
valor do crédito.

Mecânica contábil e elaboração das demonstrações contábeis: PECLD


Pela Matriz de Lançamentos, os registros contábeis dessas transações seriam os seguintes. Para
facilitar a compreensão, imagine que a Cia. Comercial RFJC evidenciasse, no Balanço Patrimonial,
Estoques no valor de $ 7.000,00 e Capital Social de $ 7.000,00.
Inicialmente, vamos considerar somente os lançamentos reconhecidos em abril:

Tabela 18 – Matriz de lançamentos da Cia. Comercial RFJC

duplicatas (–) capital


eventos/contas disponibilidades estoques = resultado
a receber PECLD social

saldos iniciais 7.000 = 7.000

receita vendas 10.000 = 10.000

baixa merc.
(7.000) = (7.000)
vendidas

constituição PECLD (200) = (200)

saldos finais – 10.000 (200) – = 7.000 2.800

82
Considerando que o cliente Fiel pagou a sua dívida em maio, teríamos o ingresso do dinheiro
no Caixa e a reversão da PECLD:

Tabela 19 – Matriz de lançamentos: ingresso de dinheiro no Caixa e reversão da PECLD

duplicatas (–) capital


eventos/contas disponibilidades estoques = resultado
a receber PECLD social

saldos iniciais – 10.000 (200) – = 7.000 2.800

recebimento 10.000 (10.000) =

reversão PECLD 200 = 200

saldos finais 10.000 – – – = 7.000 3.000

Por outro lado, se o cliente Fiel não pagasse a sua dívida, haveria a necessidade de rever a
estimativa da PECLD e, se fosse o caso, reforçar o seu saldo. No exemplo desenvolvido neste tópico,
a Cia. Comercial RFJC reforçou a PECLD em 3,5%. Dessa forma:

Tabela 20 – Matriz de lançamentos: reforço da PECLD

duplicatas (–) capital


eventos/contas disponibilidades estoques = resultado
a receber PECLD social

saldos iniciais – 10.000 (200) – = 7.000 2.800

reforço PECLD (350) = (350)

saldos finais – 10.000 (550) – = 7.000 2.450

83
Caso da Droga Raia: clientes
Ilustramos os critérios de avaliação das Contas a Receber mediante a apresentação dos itens 4 –
“Principais práticas contábeis” – e 7 – “Clientes” – das Notas Explicativas da Droga Raia, 2017.

4-d-i-3. Principais práticas contábeis – Instrumentos financeiros – Ativos financeiros –


Empréstimos e Recebíveis

Incluem-se nesta categoria os recebíveis que são ativos financeiros não derivativos com
recebimentos fixos ou determináveis, não cotados em um mercado ativo. São classificados
como ativo circulante, exceto aqueles com prazo de vencimento superior a 12 meses após a
data de emissão do balanço, que são classificados como ativos não circulantes. Os recebíveis
do Grupo compreendem as contas a receber de clientes e as demais contas a receber.

4-e. Principais práticas contábeis – Clientes

As contas a receber de clientes são avaliadas pelo montante original da venda deduzida das
taxas de cartões de créditos, quando aplicável, e das perdas estimadas para créditos de
liquidação duvidosa. A perda para créditos de liquidação duvidosa é estabelecida quando
existe uma evidência provável de que o Grupo não será capaz de receber todos os valores
devidos. O valor da perda estimada é a diferença entre o valor contábil e o valor recuperável.

6. Clientes

A seguir, estão demonstrados os saldos de contas a receber por idade de vencimento:

2017 2016

A vencer: 919.711 738.319

Vencidas entre:

1 e 30 dias 5.895 24.008

31 e 60 dias 2.364 7.956

61 e 90 dias 988 2.204

91 e 180 dias 4.306 2.508

181 e 360 dias 1.471 2

Perdas estimadas para créditos de liquidação duvidosa -4.664 -2.756

Total dos clientes 930.071 772.241

84
O prazo médio de recebimento das contas a receber de clientes é de, aproximadamente, 38
dias – prazo considerado como parte das condições normais e inerentes das operações da
Companhia.
A movimentação da Perda Esperada com Créditos de Liquidação Duvidosa está demonstrada
a seguir:

2017 2016

Saldo inicial -2.756 -6.910

Adições -13.629 -11.278

Reversões 11.721 15.432

Saldo final -4.664 -2.756

As contas a receber são classificadas na categoria de ativos financeiros “Recebíveis” e, desse


modo, mensuradas de acordo com o descrito na Nota 4d-i-3.

85
MÓDULO III – CONTABILIZAÇÃO DE
TRANSAÇÕES TÍPICAS (2ª PARTE)

Neste módulo, vamos estudar a contabilização de transações típicas que afetam, praticamente,
todas as entidades comerciais, das mais simples às mais complexas. A rigor, estudaremos operações
de compra e venda de mercadorias com os seus reflexos no Estoque, bem como os aspectos relativos
à contabilização do Ativo Imobilizado.
Quanto às operações com mercadorias, estudaremos os Estoques, os seus conceitos, a sua
composição, os critérios de avaliação e de controle; o conceito de Custo das Mercadorias Vendidas
(CMV), a sua mensuração e a respectiva mecânica contábil, bem como aspectos relacionados com o
risco de inadimplência assumido pela entidade em decorrência de vendas a prazo.
Quanto ao Imobilizado, vamos estudar: os principais itens que o compõem, o seu critério
de avaliação, o conceito da Depreciação e os seus critérios de mensuração, e a mecânica contábil
correspondente.
Além disso, este módulo contém um Apêndice dedicado ao estudo Perda por
Irrecuperabilidade (impairment).

Operação com mercadorias


Conceituação
Estoque é toda aplicação de recursos que, diretamente relacionada à atividade-fim da
entidade, gera benefícios econômicos futuros por si só.
Conforme o glossário do CPC PME, estoques são ativos mantidos: (a) para a venda no curso
normal dos negócios, (b) no processo de produção para venda, ou (c) na forma de materiais ou
suprimentos a serem consumidos no processo de produção ou na prestação de serviços (Resolução
CFC nº 1.285/2010).
De forma geral, a compra do Estoque está vinculada à expectativa de auferir receita mediante
a principal atividade operacional da entidade.

Principais itens que compõem o Estoque


Os itens que compõem o Estoque variam de acordo com o ramo de atividades das entidades.
No entanto, pode-se dizer que, de forma geral, os itens abaixo são os mais comuns para as
seguintes atividades:

Quadro 2 – Composição do Estoque

ramo de atividade exemplo típico de estoque

comércio mercadorias para revenda

produtos acabados

indústria produtos em elaboração

matérias-primas

É comum que as empresas administrem os seus estoques de forma a reduzir o prazo médio
de estocagem. Desse modo, normalmente, o saldo da conta Estoques é evidenciado integralmente
no Ativo Circulante.
No entanto, nada impede que a entidade classifique no Ativo Não Circulante a parcela dos
seus estoques cuja probabilidade de realização financeira seja remota dentro de um ano.
A Souza Cruz S.A., por exemplo, evidencia uma parcela do seu “Estoque de Fumo” no Ativo
Não Circulante. No Balanço Patrimonial consolidado de 2010, essa parcela somou R$ 11 mil,
equivalente a 1,2% do seu estoque total (de AC + do AÑC). Isso decorre do fato de a Souza Cruz
comprar o fumo – matéria-prima do cigarro – na safra, que ocorre entre janeiro e março de cada
ano. Se a safra for muito boa, a Souza Cruz adquire toda a produção dos seus parceiros e armazena
a parcela que não pretende utilizar tão cedo em câmaras refrigeradas.
O Balanço Patrimonial da Droga Raia, de 2015, apresenta o Estoque pelo valor líquido de
R$ 1.633.604 mil, não evidenciando como ele é composto. Imagine quantas páginas seriam
necessárias para discriminar o seu Estoque, unidades de medicamentos, cosméticos e demais itens
de higiene pessoal.

88
Critérios de avaliação do estoque
De início, precisamos saber no que consiste o valor do estoque, ou seja, será que podemos
considerar, simplesmente, o valor negociado com o fornecedor?
Além do preço devido ou pago ao fornecedor, todos os demais gastos incorridos pela entidade
e necessários para colocar o ativo em condições de gerar benefícios para a entidade devem ser
considerados na determinação do custo dos estoques. Desse modo, os estoques são compostos de
itens registrados contabilmente a valores monetários representativos dos custos de aquisição e dos
gastos necessários à aquisição, desde que tais gastos sejam inevitáveis para colocá-los em condições
de serem vendidos e sejam irrecuperáveis.
Dessa forma, o custo de aquisição é composto do valor da nota fiscal de aquisição mais os
gastos com frete, seguro e armazenamento, quando pagos pelo comprador, e os tributos incidentes
sobre a compra quando o comprador não puder recuperar-se destes mediante compensação com o
ente tributante (Fisco), ao vender os estoques.
Em uma indústria, o Estoque de Produtos em Processo e o Estoque de Produtos Acabados
consideram, ainda, todos os gastos incorridos na produção (custos).6

Custo de empréstimos

Dependendo do conjunto de pronunciamentos contábeis adotado (IFRSs completos ou IFRS


para PMEs), os custos de empréstimos podem ser contabilizados como parte dos custos de
ativos qualificáveis (IFRSs completos) ou devem ser contabilizados como despesa do período
(IFRS para PMEs).

Imagine um estaleiro que capte um empréstimo no Banco Nacional de Desenvolvimento


Econômico e Social (BNDES), para financiar a construção de uma plataforma de petróleo – um
produto que demora mais de 18 meses para ficar pronto.

Se o estaleiro adotar os IFRSs completos, a plataforma de petróleo poderá ser considerada


como um ativo qualificável. Consequentemente, os juros incorridos por esse empréstimo são
reconhecidos como custo da plataforma de petróleo (Estoque de Produtos em Processo), até
o momento em que a plataforma de petróleo estiver pronta para ser entregue ao cliente. Caso
o prazo de financiamento se estenda além da data de conclusão da produção, os juros desse
período adicional não são contabilizados no Estoque, mas reconhecidos como Despesa
Financeira, no exercício de competência – tal quais os juros dos demais empréstimos.

Se o estaleiro adotar o IFRS para PMEs, deverá reconhecer todos os juros como despesa no
resultado do período.

6
Para mais detalhes sobre esse assunto, sugere-se consultar livros de Contabilidade de Custos ou Contabilidade Gerencial.
Uma sugestão é CARDOSO, Ricardo L.; MÁRIO, Poueri C.; AQUINO, André C. B. Contabilidade gerencial: mensuração,
monitoramento e incentivos. São Paulo: Atlas, 2007.

89
Agora, passemos, à segunda questão: “Como devemos mensurar os Estoques?”. Para
tanto, é necessário discutirmos antes uma questão mais abrangente: “Como devemos mensurar
os Ativos?”.
Os Ativos podem ser mensurados pelos valores de entrada (de compra) ou saída (de venda); e
estes, com base em valores passados, correntes ou futuros. Isso pode ser verificado no quadro abaixo:

Quadro 3 – Mensuração dos Ativos: valores de entrada e de saída

base para mensuração valores de entrada valores de saída

valores passados custo histórico preço de venda passado

valores correntes custo de reposição preço corrente de venda

valores futuros custo esperado valor realizável esperado

Fonte: Hendriksen e Breda (1999, p. 304).7

Vejamos um exemplo: a empresa Abu-aga Ltda. vende roupas e utensílios para recém-
nascidos. A proprietária do empreendimento, Da. Rosa, mantém registros de todas as transações
passadas e tem grande capacidade de analisar a conjuntura macroeconômica para fazer projeções.
Segundo os seus registros, no início do ano, a loja comprou o cortador de unhas (modelo
015) por $ 2,00 a unidade e, no mesmo período, revendeu-o por $ 4,50.
Hoje de manhã, a Abu-aga Ltda. comprou o mesmo modelo de cortador de unha por
$ 3,10 cada, e o produto está sendo vendido por $ 5,80.
Segundo as projeções, no fim do ano, a unidade do produto custará, aproximadamente,
$ 3,60 para a loja Abu-aga Ltda., que esperará revendê-lo por $ 6,00.
Nesse caso, os valores de entrada e saída, passados, correntes e futuros, são:

Quadro 4 – Mensuração dos Ativos: valores passados, correntes e futuros

base para mensuração valores de entrada valores de saída

valores passados $ 2,00 $ 4,50

valores correntes $ 3,10 $ 5,80

valores futuros $ 3,60 $ 6,00

7
HENDRIKSEN, Elton; BREDA; Michael Van. Teoria da contabilidade. São Paulo: Atlas, 1999.

90
Ainda em relação aos Ativos (de forma geral), sem focar os Estoques, é relevante ressaltar que
cada um dos critérios apresenta vantagens e desvantagens, conforme relacionadas a seguir.
A mensuração a valores passados é pouco subjetiva, pois é consubstanciada em notas fiscais e
demais documentos, como recibos e extratos bancários, demandando baixo custo para a sua
implementação. No entanto, os valores passados ficam defasados em consequência da perda do
poder aquisitivo da moeda, devendo ser considerado o custo histórico corrigido ou o preço de venda
passado corrigido, tratando-se de valores de entrada ou saída, respectivamente.
O problema reside em trazer o valor passado a valor presente, anulando o efeito inflacionário,
por dois motivos principais: os índices de inflação medidos e divulgados por órgãos governamentais,
normalmente, sofrem influência de pressões políticas, distorcendo o verdadeiro impacto da inflação
sobre os preços; mesmo não havendo pressões políticas, o segundo problema é inevitável, qual seja,
a discrepância entre a variação geral e a variação específica de preços da entidade, devendo a
administração escolher um índice.
Outro grande problema, relacionado à mensuração a valores passados, é a proibição de se
reconhecer, na contabilidade – para fins de apuração de tributos e distribuição de dividendos –, os
impactos da inflação, por determinação da Lei nº 9.249, de 23 de dezembro de 1995. Os itens que
compõem o patrimônio da entidade devem ser contabilizados a valores históricos, vedada a correção
monetária. Embora a inflação acumulada medida pelo IGP-M, desde 1º de janeiro de 1996 até 31
de dezembro de 2010, tenha sido de 363,64%.8
A mensuração a valores correntes é mais objetiva, pois considera o valor que está sendo
praticado no mercado, permitindo calcular a perda ou o ganho de oportunidade com a estocagem.
Por exemplo, se um item foi adquirido por $ 10 no mês passado e, hoje, seria adquirido por $ 15,
trabalhando em um ambiente sem inflação, podemos dizer que o ganho de oportunidade é de $ 4,50.
Isto é, valor atual menos valor passado menos os juros que a empresa deixou de ganhar por ter aplicado
recursos na compra dos estoques, supondo juros de 5% ao mês, temos: $ 15 – $ 10 – $ 0,50 = $ 4,50.
No entanto, a mensuração a valores correntes apresenta uma desvantagem difícil de ser sanada:
não existem, necessariamente, todos os produtos e serviços sendo negociados ao mesmo tempo; afinal,
novas tecnologias surgem enquanto outras ficam ultrapassadas, novos mercados despontam enquanto
outros desaparecem, etc. Além disso, a sua implementação é mais cara do que a da mensuração a
valores passados, pois há a necessidade de pessoal mais bem qualificado.
Finalmente, a mensuração a valores futuros é, a nosso ver, a que melhor atende à teoria
contábil, pois ativos são aplicações de recursos das quais se esperam benefícios futuros. Desse modo,

8
Exemplo: um apartamento adquirido em 31 de dezembro de 1995, na Barra da Tijuca, Rio de Janeiro, por R$ 100.000, era
negociado, em 31 de dezembro de 2010, a R$ 470.000 – valor diferente do custo corrigido pelo IGP-M (R$ 100.000 + 263,64%
= R$ 363.640), e em 31 de dezembro de 2017, a R$ 700.000 – valor bastante diferente do custo corrigido pelo IGP-M (R$
100.000 + 431,25% = R$ 531.250). No entanto, no Balanço Patrimonial, esse apartamento, se classificado como Ativo
Imobilizado, permanece avaliado por R$ 100.000 menos a depreciação acumulada.

91
o cotejamento das entradas futuras com as saídas futuras de caixa é o benefício futuro esperado do
ativo. Em contrapartida, esse método apresenta, como principal desvantagem, a subjetividade, que
envolve não só a determinação dos fluxos futuros de caixa, mas também a determinação de taxas de
desconto para trazer os valores futuros a valor presente. Tal dificuldade faz desse método o de mais
elevado gasto de implantação, pois é necessário maior controle e pessoal qualificado.
Focando novamente os Estoques, é necessário ressaltar que não se pode escolher livremente
qualquer dos seis critérios de mensuração, mas somente dois deles. A LSA estabelece que o Estoque
pode ser avaliado pelo valor de custo ou mercado, dos dois o menor. Veja o texto da lei.

Lei nº 6.404/76

Art. 183. No balanço, os elementos do ativo serão avaliados segundo os


seguintes critérios: [...]
II - os direitos que tiverem por objeto mercadorias e produtos do comércio da
companhia, assim como matérias-primas, produtos em fabricação e bens do
almoxarifado, pelo custo de aquisição ou produção, deduzido de provisão
para ajustá-lo ao valor de mercado, quando este for menor. (grifo nosso)

No que tange aos Estoques, a Prudência deu origem à regra de avaliação pelo valor de Custo
ou Mercado dos dois o menor. A questão é saber se esse valor de Mercado é associado ao mercado
fornecedor (valor de reposição) ou ao mercado consumidor (valor de realização). Para responder a
essa questão, recorremos ao item 13.4 do CPC PME, que estabelece:

CPC PME

13.4 A entidade avalia estoques pelo menor valor entre o custo e o preço
de venda estimado diminuído dos custos para completar a produção e
despesas de venda.

Desse modo, independentemente de se tratar de estoque de matérias-primas, produtos em


processo, produtos acabados ou mercadorias para revenda, os Estoques devem ser avaliados pelo
valor líquido de realização ao custo dos dois o menor.
Especificamente em relação ao estoque de matérias-primas por praticidade, pode-se utilizar o
valor de reposição (mercado fornecedor) como estimativa do valor realizável líquido (CPC 16, § 32).
Essa análise deve ser feita separadamente para cada subconta de estoque – matérias-primas ou
mercadorias, produtos em processo e produtos acabados.

92
Critérios de controle do estoque
Os estoques podem ser controlados diariamente (controle permanente), a cada mês,
trimestre, semestre ou ano (controle periódico).
Pelo sistema de controle permanente, a cada transação que afeta o estoque – compra ou
venda, por exemplo – é feito o respectivo registro contábil. Por outro lado, adotando-se o sistema
de controle periódico, os registros contábeis das diversas transações que afetaram o estoque só são
efetuados no fim do período.
Em função dos avanços e da redução de custos na área de tecnologia da informação, é razoável
esperar que cada vez mais empresas passem a controlar os seus estoques permanentemente, uma vez
que isso lhes permitiria evitar perdas de mercadorias, excesso de aplicação de recursos em estoques
bem como a escassez da mercadoria.
É importante para o conteúdo deste módulo o fato de o sistema de controle dos estoques –
periódico ou permanente – afetar a mensuração do CMV e, consequentemente, a sua própria
mensuração.

Conceito e mensuração do CMV


O CMV corresponde, simplesmente, à baixa da mercadoria vendida. Em outras palavras,
quando a empresa vende a mercadoria aos seus clientes, é necessário retirar a mercadoria da
prateleira e entregá-la ao consumidor. Consequentemente, o contador reconhece a Receita de
Vendas e o CMV, correspondente à baixa da mercadoria dos Estoques. Dessa forma, tem-se uma
“perfeita” confrontação da Despesa (baixa do produto vendido) com a Receita (gerada pela venda
do mesmo) – Regime da Competência.
A principal questão que surge com relação ao CMV não é a sua conceituação, mas a sua
mensuração, ou seja, a questão mais relevante é: como atribuir valor às mercadorias que foram vendidas?
Há vários métodos para determinar o valor do estoque quando bens idênticos são adquiridos
por preços diferentes em momentos diferentes. Nesse sentido, passamos a estudar os métodos de
mensuração do CMV. O interessante é que o valor apurado mediante cada um desses critérios pode
depender do sistema de controle de estoques adotado pela entidade.
Quando não se tratar de itens de estoque intercambiáveis, a entidade deve adotar o método
da identificação específica do custo. No entanto, na impossibilidade de se aplicar esse método, a
entidade deve escolher entre o Peps ou o Custo Médio. A escolha entre esses dois deve ser feita de
modo a melhor representar a realidade econômica e a essência das transações que envolvem os
estoques da entidade.

93
Os seguintes dados serão utilizados para ilustrar a diferença entre eles:
A Comercial Mineira Ltda. começou determinado período com 10 unidades do produto
MILK em estoque, as quais foram adquiridas por $ 20,00 cada uma. Durante esse período,
ocorreram as transações seguintes. Vamos determinar o estoque final de produtos MILK, adotando
cada um dos critérios.

Tabela 21 – Estoque de produtos MILK

quantidade custo de preço de


comprador e
data transação aquisição venda
fornecedor (unidades) ($) ($)

dia 5 compra à vista Ubá 30 25,00

dia 10 venda à vista Carangola 32 60,00

dia 22 compra a prazo Caxambu 5 30,00

dia 30 venda a prazo Areal 1 60,00

Vejamos cada um desses métodos.

Peps ou Fifo
Pelo método Peps (primeiro que entra, primeiro que sai), denominado em inglês Fifo (first in first
out), os custos dos itens baixados (CMV ou CPV) são avaliados pelo custo de aquisição do primeiro
item que entrou em estoque, e que ainda está mantido lá. Consequentemente, o estoque é avaliado pelo
custo de aquisição do item mais recente. Ou seja, dá-se baixa dos estoques sempre pelo item adquirido
há mais tempo ou mais antigo, ficando o estoque avaliado pelo valor mais atual.
Pelo Peps, não há diferença se a entidade adota o sistema de controle permanente ou
periódico – o valor apurado será o mesmo.

94
Tabela 22 – Peps (tanto faz controle permanente ou periódico)

entrada saída saldo final


data
(unid.) ($) (unid.) ($) (unid.) ($)

si 10 x 20,00 200,00

10 x 20,00
5 30 x 25,00 750,00 950,00
+ 30 x 25,00

10 x 20,00 200+
10 8 x 25,00 200,00
+ 22 x 25,00 550

8 x 25,00
22 5 × 30,00 150,00 350,00
+ 5 x 30,00

7 x 25,00
30 1 x 25,00 25,00 325,00
+ 5 x 30,00

soma 35 900,00 33 775,00

Nesse exemplo, podemos observar que, inicialmente, a Comercial Mineira Ltda. possuía 10
unidades do produto MILK em estoque, as quais foram adquiridas por $ 20,00 cada uma. Desse
modo, o valor dos estoques da companhia correspondia a $ 200,00.
No dia 5, a companhia adquiriu mais 30 unidades do mesmo produto, sendo que, dessa vez,
ao preço de $ 25,00 cada uma. Dessa forma, o estoque passa a ser avaliado a $ 950,00.
No dia 10, a companhia vendeu 32 unidades do produto MILK. Como adota o método Peps
na avaliação do CMV e do Estoque, o valor a ser lançado nos seus registros contábeis referente ao
CMV será de $ 750, ou seja, as 10 unidades do produto MILK, a $ 20,00 cada uma, que estavam
em estoque no início do período, mais 22 unidades a $ 25,00 cada uma, que fazem parte das
unidades adquiridas posteriormente. O estoque fica avaliado em $ 200,00, correspondente às oito
unidades remanescentes, adquiridas por $ 25,00 cada uma.
No dia 22, a Companhia Mineira Ltda. efetua uma nova compra do produto MILK, mais
cinco unidades ao valor de $ 30,00 cada uma. O estoque passa a ser avaliado a $ 350,00.
No dia 30, vende mais uma unidade. O CMV será de $ 25,00, correspondente ao custo das
unidades mais antigas no estoque da companhia. Já o valor do estoque corresponderá a $ 325,00,
referente às cinco unidades mais recentes, adquiridas a $ 30,00 cada uma, mais sete unidades
adquiridas por $ 25,00 cada (no dia 5).

95
Custo médio ponderado
O custo médio ponderado difere dependendo do sistema de controle. Quando se controlam
os estoques permanentemente e se avaliam os estoques pelo custo médio, tem-se o chamado Custo
Médio Ponderado Móvel (CMPM), método apresentado a seguir. Por outro lado, controlando-se
os estoques periodicamente, o custo médio passa a ser denominado Custo Médio Ponderado Fixo
(CMPF), apresentado no Apêndice 1 deste módulo.

CMPM: controle permanente


Mediante o CMPM, os estoques são avaliados pelo custo médio das mercadorias compradas,
ponderadas a cada aquisição. O CMPM demanda o registro permanente das entradas e das saídas
de mercadorias no estoque; afinal, pressupõe o controle permanente.
Agora, vamos exemplificar a adoção desse método utilizando o mesmo exercício apresentado
anteriormente para o método Peps.

Tabela 23 – CMPM

entrada saída saldo final


data
(unid.) ($) (unid.) ($) (unid.) ($)

si 10 x 20,00 200,00

5 30 x 25,00 750,00 40 x 23,75 950,00

10 32 × 23,75 760,00 8 x 23,75 190,00

22 5 x 30,00 150,00 13 x 26,154 340,00

30 1 × 26,154 26,154 12 x 26,154 313,848

soma 35 900,00 33 786,154

No início do período, a Comercial Mineira Ltda. possuía 10 unidades do produto MILK em


estoque, as quais foram adquiridas por $ 20,00 cada uma. Dessa forma, o valor dos estoques da
companhia correspondia a $ 200,00.
No dia 5, a companhia adquiriu mais 30 unidades do mesmo produto. No entanto, dessa vez, as
unidades do produto foram adquiridas ao preço de $ 25,00 cada uma. Dessa forma, o estoque passa a
ser avaliado a $ 950,00, sendo que o seu custo unitário – tirando-se a média entre o valor total dos
estoques e a quantidade total das mercadorias em estoque – passa a ser de $ 23,75.

96
No dia 10, a companhia vendeu 32 unidades do produto MILK. Pelo método do CMPM, o
CMV será de $ 760,00. Já o estoque fica avaliado a $ 190,00.
No dia 22, a Companhia Mineira Ltda. efetua uma nova compra do produto MILK, mais cinco
unidades ao valor de $ 30,00 cada uma. O estoque passa a ser avaliado a $ 340,00, sendo que o valor
unitário do produto MILK passa a ser agora de $ 26,154, arredondado para três casas decimais.
No dia 30, vende mais uma unidade. O CMV será de $ 26,154, e o valor do estoque
corresponderá a $ 313,848.
Conforme podemos observar, por levar para o CMV os estoques mais antigos, o método no
Peps apresenta os menores valores nessa rubrica. Já o CMPM, por considerar a média das aquisições,
apresenta valores intermediários entre os dois métodos. Já para as mercadorias que permanecem em
estoque, o inverso ocorre.

Identificação específica
Os estoques avaliados pelo critério da identificação específica são baixados pelo custo
específico do item identificado. Por exemplo, uma agência de veículos que tem, em estoque, três
automóveis – um da Ford, outro da VW e outro da GM –, ao vender o da Ford, deverá baixar o
custo específico daquele carro Ford, levando-o a resultado do período. Permanece o estoque
composto dos outros dois veículos, consequentemente, avaliado pelo somatório dos custos
específicos daqueles dois itens.
De forma genérica, pode-se afirmar que os quatro primeiros critérios são adotados para avaliar
estoques compostos de bens cujas unidades podem ser trocadas umas pelas outras, como um livro.
Quando você compra um livro, a livraria pode reconhecer a baixa do estoque pelo Peps, CMPM,
CMPF ou Varejo, não importando se entregou o livro recebido da Editora Atlas na primeira ou na
última compra – desde que sejam todos da mesma edição, para ser mais específico, de mesmo ISBN.
Por outro lado, o método da identificação específica é recomendável para avaliar estoques
compostos de bens cujas unidades não podem ser trocadas umas pelas outras, como: (a) uma obra
de arte em uma galeria de artes; (b) uma peça rara em um antiquário; (c) um automóvel em uma
agência de veículos, pois tem um número de chassi que o torna único.

Mecânica contábil e elaboração das demonstrações contábeis: estoques


A mecânica contábil é rigorosamente a mesma, independentemente do método de avaliação
do CMV. Dessa forma, neste tópico, são apresentados os lançamentos contábeis, tomando-se por
base o Peps.
Para simplificar e consolidar o entendimento dos pontos apresentados nos tópicos anteriores
deste módulo, tomemos o exemplo da Comercial Mineira Ltda., já discutido.

97
Para facilitar o entendimento, vamos apresentar somente os lançamentos contábeis com os
valores da baixa das mercadorias vendidas pelo Peps (primeiro a entrar é o primeiro a sair) e vamos
admitir que a Comercial Mineira Ltda. apurou o seguinte Balanço Patrimonial do início do
exercício (1º/01/X0):

Tabela 24 – Balanço Patrimonial da Comercial Mineira Ltda. (1º/01/X0)

Balanço Patrimonial – Comercial Mineira Ltda. – 1º/1/X0

ativo circulante patrimônio líquido

disponibilidades 1.800,00 capital social 2.000,00

estoques (MILK) 200,00 total do PL 2.000,00

total do AC 2.000,00

total do Ativo 2.000,00 total do passivo + PL 2.000,00

A Comercial Mineira Ltda. começou determinado período com 10 unidades do produto


MILK em estoque, as quais foram adquiridas por $ 20,00 cada (Estoque avaliado por $ 200,00 =
10 unidades × $ 20,00 por unidade). Durante esse período, ocorreram as transações abaixo. Pede-
se determinar o estoque final de produtos MILK adotando o critério Peps.

Tabela 25 – Estoque final de produtos MILK

comprador e quantidade custo de preço de


data transação
fornecedor (unidades) aquisição (R$) venda (R$)

dia 5 compra à vista Ubá 30 25,00

dia 10 venda à vista Carangola 32 60,00

dia 22 compra a Caxambu 5 30,00


prazo

dia 30 venda a prazo Areal 1 60,00

98
Tabela 26 – Peps: primeiro a entrar é o primeiro a sair

entrada saída saldo final


data
(unid.) ($) (unid.) ($) (unid.) ($)

SI 10 x 20,00 200,00

5 30 x 25,00 750,00 10 x 20,00 950,00

+ 30 × 25,00

10 10 x 20,00 200,00 + 08 x 25,00 200,00

+ 22 x 25,00 550,00

22 5 x 30,00 150,00 8 x 25,00 350,00

+ 5 x 30,00

30 1 x 25,00 25,00 7 x 25,00 325,00

+ 5 x 30,00

soma 35 900,00 33 775,00

Para registrar esses eventos, o contador da Comercial Mineira Ltda. precisaria fazer os
seguintes lançamentos contábeis no Diário:
Pela compra à vista, no dia 5:

D estoque da mercadoria MILK (AC) 750,00

C disponibilidades (AC) 750,00

Aquisição de 30 unidades da mercadoria MILK, do fornecedor Ubá, no dia 5.

99
Pela venda à vista, no dia 10 – Reconhecimento da Receita:

D disponibilidades (AC) 1.920,00

C receita bruta de vendas (DRE) 1.920,00

Venda de 32 unidades da mercadoria MILK, ao cliente Carangola, no dia 10.

Pela venda à vista, no dia 10 – Confronto da Despesa com a Receita (baixa pelo Peps):

D custo das mercadorias vendidas (DRE) 750,00

C estoque da mercadoria MILK (AC) 750,00

Venda de 32 unidades da mercadoria MILK, ao cliente Carangola, no dia 10.

Pela compra a prazo, no dia 22:

D estoque da mercadoria MILK (AC) 150,00

C fornecedores (PC) 150,00

Aquisição de cinco unidades da mercadoria MILK, do Caxambu, no dia 22.

Pela venda a prazo, no dia 30 – Reconhecimento da Receita:

D duplicatas a receber (AC) 60,00

C receita bruta de vendas (DRE) 60,00

Venda de uma unidade da mercadoria MILK, ao cliente Areal, no dia 30.

Pela venda a prazo, no dia 30 – Confronto da Despesa com a Receita (baixa pelo Peps):

D custo das mercadorias vendidas (DRE) 25,00

C estoque da mercadoria MILK (AC) 25,00

Venda de uma unidade da mercadoria MILK, ao cliente Areal, no dia 30.

100
Ressalte-se que esses lançamentos poderiam ter sido efetuados na matriz de lançamentos,
conforme a seguir:

Tabela 27 – Matriz de lançamentos: produtos MILK

capital
eventos disponibilidades clientes estoque = fornecedores resultado
social

saldos iniciais 1.800 200 = 2.000

5 – compra (750) 750 =

10 – venda 1.920 = 1.920

10 – baixa (750) = (750)


(Peps)
150 = 150
22 – compra
60 = 60
30 – venda
(25) = (25)
30 – baixa
(Peps)

saldos finais 2.970 60 325 = 150 2.000 1.205

É importante lembrar que, pelos outros critérios de mensuração do CMV, os lançamentos


contábeis seriam os mesmos – a mesma mecânica contábil. A única diferença seria no valor do
CMV reconhecido e, consequentemente, do lucro apurado.
Dessa forma, a Comercial Mineira Ltda. evidenciaria a seguinte DRE:

Tabela 28 – DRE da Comercial Mineira Ltda. (31/01/X0)

Comercial Mineira Ltda.

DRE apurada em 31/01/X0.

receitas de vendas 1.980,00

(–) custo mercadorias vendidas (775,00)

(=) lucro bruto 1.205,00

101
A seguinte DMPL:

Tabela 29 – DMPL da Comercial Mineira Ltda. (31/01/X0)

Comercial Mineira Ltda.

DMPL apurada em 31/01/X0.

eventos/contas capital social lucros acumulados total PL

saldos iniciais 2.000,00 2.000,00

lucro do período 1.205,00 1.205,00

saldos finais 2.000,00 1.205,00 3.205,00

E o seguinte Balanço Patrimonial:

Tabela 30 – Balanço Patrimonial da Comercial Mineira Ltda. (31/01/X0)

Balanço Patrimonial – Comercial Mineira Ltda. – 31/1/X0

ativo circulante passivo circulante

disponibilidades 2.970,00 fornecedores 150,00

clientes 60,00 total do PC 150,00

estoque (MILK) 325,00

total do AC 3.355,00 Patrimônio Líquido

capital social 2.000,00

lucros acumulados 1.205,00

total do PL 3.205,00

total do ativo 3.355,00 total do passivo + PL 3.355,00

102
Caso da Droga Raia: estoques
Ilustramos os critérios de avaliação dos estoques mediante a apresentação dos itens 4(f) –
Principais práticas contábeis (f) Estoques, e 7 – Estoques – das Notas Explicativas da Droga Raia, 2017.

4f. Principais práticas contábeis – Estoques

Os estoques são apresentados pelo menor valor entre o custo e o valor líquido realizável. O
custo é determinado por meio do método da média ponderada móvel. O valor realizável
líquido é o preço de venda estimado para o curso normal dos negócios, deduzidas as despesas
de venda e a provisão para perdas com mercadorias.

7. Estoques

2017 2016

mercadorias de revenda 2.529.596 2.131.661

mercadorias em poder de terceiros 0 25.929

materiais 1.819 2.043

provisão para perdas nos estoques -13.821 -10.165

total dos estoques 2.517.594 2.149.468

A movimentação da perda estimada com mercadorias é demonstrada a seguir:

2017 2016

saldo inicial -10.165 -24.312

adições -8.954 -6.015

reversões 5.298 20.162

saldo final -13.821 -10.165

Para o exercício findo em 31 de dezembro de 2017, o CMV reconhecido no resultado foi de


R$ 9.224.505 (R$ 7.752.422 – 2016) para o consolidado, incluindo o valor das baixas de
estoques de mercadorias reconhecidas como perdas no exercício que totalizaram R$ 84.770
(R$ 68.867 – 2016) para o Consolidado.

O efeito da constituição, reversão ou baixa das perdas estimadas com estoques de


mercadorias é registrado na demonstração do resultado, sob a rubrica de “custo das
mercadorias vendidas”.

103
Imobilizado
Conceito
Segundo o item do CPC 27 (IAS 16), Ativo Imobilizado é “o item tangível que: (a) é mantido
para uso na produção ou no fornecimento de mercadorias ou serviços, para aluguel a outros ou para
fins administrativos; (b) espera-se utilizar por mais de um período”.
Observe que se deve atender às duas condições, em outras palavras: (b) durar mais de um ano
e (a) ser utilizado nas atividades operacionais da entidade.

Caso da Droga Raia: imobilizado


O Balanço Patrimonial consolidado da Droga Raia, de 2017, apresenta o Imobilizado pelo
valor líquido de R$ 1.276.276 mil, não evidenciando como ele é composto. No entanto, essa
informação pode ser obtida nas Notas Explicativas (notas nº 4 – Principais práticas contábeis e
nº 10.a. – Imobilizado e intangível – Imobilizado).
Nas rubricas “Terrenos” e “Edificações”, são reconhecidos os imóveis onde serão localizadas
as lojas; as rubricas “Benfeitorias em imóveis de terceiros” dizem respeito às obras executadas em
imóveis alugados, e a rubrica “Reformas e modernização de lojas” também é relacionada aos imóveis
onde funcionam os pontos comerciais.
É interessante notar que, quando nós vamos à loja, não costumamos fazer a distinção entre o
que é o terreno e o que são as edificações sobre ele. No entanto, jurídica e contabilmente, esses dois
Ativos são distinguidos e reconhecidos separadamente. Juridicamente, isto é, nos termos do Direito
Imobiliário, tanto o terreno quanto as edificações são registrados no cartório de Registro Geral de
Imóveis. A rigor, normalmente, é feito o “registro” do terreno, e as edificações são “averbadas” ao
“registro” do respectivo terreno. Afinal, a edificação pode ser demolida e, em seguida, outra
edificação construída sobre o mesmo terreno.
Em uma visita à loja, tampouco distinguimos se os imóveis são próprios da entidade, alugados
ou arrendados, mas essa classificação também é relevante aos usuários das demonstrações contábeis.
Afinal, os imóveis próprios podem ser oferecidos em hipoteca como garantia de dívidas da entidade.
Por outro lado, imóveis arrendados não são aceitos como garantia de dívidas porque já existem
dívidas associadas a eles, isto é, o arrendamento a pagar.
Contabilmente, conforme pode ser observado na Nota Explicativa (nº 10.a) da Droga Raia,
2017, “Terrenos”, “Edificações”, “Móveis, utensílios e instalações”, “Máquinas e equipamentos”,
“Veículos”, “Benfeitorias em imóveis de terceiros” e “Reformas e modernização de lojas” também
são classificados separadamente. Afinal, o desgaste desses itens é diferente entre si.

104
4-i. Principais práticas contábeis – Imobilizado

São apresentados ao custo histórico de aquisição, líquido de depreciação acumulada ou perdas


acumuladas de valor recuperável, se for o caso. A depreciação é calculada pelo método linear ao
longo da vida útil do ativo de acordo com as taxas divulgadas na Nota 10a. O valor residual, a vida
útil dos ativos e os métodos de depreciação são revistos no encerramento de cada exercício e
ajustados de forma prospectiva, quando for o caso.

Terrenos e edifícios compreendem o escritório central, o centro de distribuição do Butantã e algumas


lojas próprias e são demonstrados pelo custo histórico de aquisição acrescido de reavaliação
ocorrida em outubro de 1987, com base em laudos de avaliação emitidos por peritos avaliadores
independentes, e incorporado ao custo atribuído quando da adoção do IFRS. O aumento no valor
contábil resultante da reavaliação dos terrenos e dos edifícios foi contabilizado a crédito de reserva
específica no patrimônio líquido, líquido do Imposto de Renda e da contribuição social diferidos.

Um item de imobilizado é baixado quando vendido ou quando nenhum benefício econômico futuro
for esperado do seu uso ou venda. Ganhos e perdas em alienações são determinados pela
comparação dos valores de alienação com o valor contábil e são inclusos no resultado do exercício
em que o ativo for baixado. Quando os ativos reavaliados forem destinados à venda, os valores
incluídos na reserva de reavaliação, quando da alienação, serão contabilizados em lucros
acumulados.

Reparos e manutenções são apropriados ao resultado durante o período em que são incorridos.

4-w.-3 Principais práticas contábeis – Julgamentos, estimativas e premissas contábeis


significativas – Redução ao valor recuperável (impairment)

Na aplicação das políticas contábeis do Grupo, a Administração faz julgamentos e elabora estimativas
a respeito dos valores contábeis dos ativos e passivos, os quais não são facilmente obtidos de outras
fontes. As estimativas e as respectivas premissas estão baseadas na experiência histórica e em outros
fatores considerados relevantes. As estimativas e as premissas são revisadas continuamente, e os
efeitos dessas revisões são reconhecidos no período em que ocorreu a revisão e em quaisquer
períodos futuros afetados.

As principais premissas relativas às fontes de incerteza nas estimativas futuras e outras importantes
fontes de incerteza em estimativas na data do balanço são apresentadas a seguir: […]

Existem regras específicas para avaliar a recuperabilidade dos ativos, especialmente imobilizado, ágio
e outros ativos intangíveis. Na data de encerramento do exercício, o Grupo realiza uma análise para
determinar se existe evidência de que o montante dos ativos de vida longa não será recuperável de
acordo com as unidades geradoras de caixa. Para determinar se o ágio apresenta redução em seu valor
recuperável, é necessário fazer estimativa do valor em uso das unidades geradoras de caixa para as
quais o ágio foi alocado. O cálculo do valor em uso exige que a Administração estime os fluxos de caixa
futuros esperados, oriundos das unidades geradoras de caixa e uma taxa de desconto adequada para
que o valor presente seja calculado. As principais premissas utilizadas para determinar o valor
recuperável das diversas unidades geradoras de caixa são detalhadas na Nota 10-b(ii).

105
10.a – Imobilizado e intangível – Imobilizado
A seguir, estão apresentadas as movimentações no ativo imobilizado no consolidado:

106
[…]

10.b(ii) – Imobilizado e intangível – Teste de perda por desvalorização do ágio e


intangíveis com vida útil indefinida (impairment)

A Companhia avaliou, com base em 31 de dezembro de 2017, a recuperação do valor contábil


do ágio originado pelas aquisições da Drogaria Vison Ltda., Raia S.A. e 4Bio S.A., adquiridas por
meio de combinações de negócios com base em seu valor em uso, utilizando o modelo de fluxo
de caixa descontado alocado às respectivas unidades geradoras de caixa que deram origem
aos respectivos ágios.

O valor recuperável das vendas efetuadas pelas unidades geradoras de caixa, cuja aquisição
originou os ágios, foi determinado por meio de cálculo baseado no valor em uso a partir de
projeções de caixa provenientes de orçamentos financeiros aprovados pela Administração ao
longo de um período de cinco anos. O fluxo de caixa projetado foi atualizado para refletir as
variações na demanda de produtos e serviços. A taxa de desconto, após os impostos, aplicada
às projeções do fluxo de caixa é de 15,6% antes dos impostos e 11,3% após os impostos (12,5%
– Dez-2016) para Drogaria Vison Ltda. e Raia S.A., e de 23,0% antes dos impostos e 16,1% após
os impostos (22,04% – Dez-2016) para 4Bio S.A. O teste de recuperação dos ativos intangíveis
da Companhia não resultou na necessidade de reconhecimento de perdas nos ativos
intangíveis (impairment).

Principais premissas utilizadas em cálculos com base no valor em uso:

O cálculo do valor em uso para as referidas unidades geradoras de caixa, projetado para os
próximos cinco anos, é mais sensível às seguintes premissas:

Receita de vendas e despesas

Reajuste de preços de medicamentos, inflação das demais mercadorias comercializadas e


despesas com vendas são reajustadas de acordo com a previsão da inflação geral ou dos
índices constantes nos contratos. Os percentuais médios de crescimento foram estimados em:
(i) média para os próximos três anos de 8,68% (9,66% – Dez-2016) com perpetuidade de 4,1%
(4,5% – Dez-2016) para Raia S.A., (ii) média para os próximos três anos de 7,98% (6,81% – Dez-
2016) com perpetuidade de 4,1% (4,5% – Dez-2016) para a Drogaria Vison Ltda. e de (iii) média
para os próximos três anos de 33,14% (23,1% – Dez-2016) com perpetuidade de 4,1% (7,5% –
Dez-2016) para 4Bio S.A.

Margens brutas

As margens brutas são baseadas nos valores do mês mais recente, de forma a evitar variações
sazonais ou de condições do mercado. Essas margens são aumentadas nos períodos em que
os reajustes dos preços dos medicamentos as afetam em razão dos estoques preexistentes.

107
Taxas de descontos

A taxa de desconto reflete a atual avaliação de mercado, referente aos riscos relacionados à
gestão dos recursos gerados pelas respectivas unidades geradoras de caixa.

Reajuste de preços de medicamentos

As estimativas são obtidas com base nos reajustes históricos e nas expectativas do mercado
farmacêutico.

Estimativas de taxas de crescimento

São determinadas com base nos índices de mercado, no histórico de desempenho das
unidades geradoras de caixa e nas expectativas futuras de performance avaliadas pela
Administração do Grupo.

Critérios de avaliação do imobilizado


No reconhecimento, o imobilizado é mensurado (inicialmente) pelo custo de aquisição. Na
mensuração subsequente, o imobilizado é avaliado pelo custo menos depreciação acumulada e perda
por irrecuperabilidade acumulada.
Uma questão que surge é: qual é o custo de aquisição? Restringe-se ao preço pago (devido)
ao fornecedor?
Consideram-se Custo de Aquisição, além do preço devido ou pago ao fornecedor, todos os
demais gastos incorridos pela entidade e necessários para colocar o ativo em condições de gerar benefícios
para a entidade. No caso do imobilizado, tais gastos são associados à colocação de tal ativo em
condições de ser utilizado nas atividades operacionais. Também compõe o custo do imobilizado a
estimativa dos custos de desmontagem e remoção do item, e de restauração da área na qual o item
está localizado.
Para exemplificar, imagine que a sua residência não tem aparelho de ar condicionado. Desse
modo, no último verão, que bateu os recordes de calor dos últimos anos, você resolveu comprar um
condicionador de ar, de 7.500 BTUs, à vista, por $ 779,00.
Considerando que o aparelho pesa 29 kg e tem as seguintes dimensões, em centímetros, 54,1
x 36,8 x 54,0, você solicitou que a loja o entregasse na sua residência. Por esse frete, você pagou
$ 26,00, em adição ao preço já pago.
Quando recebeu o aparelho de ar condicionado na sua casa, percebeu que não poderia utilizá-lo
enquanto não fosse devidamente instalado, o que implicaria, entre outras coisas, fazer um buraco na
parede. Para tanto, você contratou um pedreiro que lhe cobrou $ 95,00 para fazer o serviço: quebrar a
parede, retirar o entulho, preparar a tomada, instalar o aparelho e o acabamento no seu entorno.
Nesse caso, qual é o valor do Imobilizado?

108
Certamente, o aparelho de ar condicionado seria reconhecido no Imobilizado por $ 900,00,
ou seja, $ 779,00 + $ 26,00 + $ 95,00. Afinal, esse valor corresponde ao preço pago ou devido ao
fornecedor ($ 779,00) mais os gastos incorridos e necessários para colocá-lo em condições de ser
utilizado, bem como gerar benefícios ($ 26,00 + $ 95,00).
Se você morasse em um imóvel alugado, você teria a obrigação de retirar o aparelho de ar
condicionado e recuperar a parede quando da devolução das chaves ao proprietário. Vamos supor que
o valor presente da estimativa dos custos de remoção do aparelho e restauração da parede fosse $ 100.
Nesse caso, o aparelho de ar condicionado será reconhecido no Imobilizado por $ 1.000,00.
Outras dúvidas muito recorrentes com relação ao Custo do Imobilizado são:
Os juros e os demais encargos financeiros relacionados ao financiamento do Imobilizado
compõem o seu custo?
Os gastos com a manutenção e os reparos do Imobilizado também integram o seu Custo?
A depreciação afeta o valor do Imobilizado?
Considerando que o Imobilizado permanece na empresa durante muito tempo, a inflação
não distorce o seu valor histórico?

Vejamos essas questões separadamente.


Primeiro, os juros. Se a entidade adotar os IFRSs completos, consideram-se, sim, Custo do
Imobilizado os juros decorrentes de financiamentos, por terceiros, aplicados na sua construção. A
lógica desse tratamento é que “o custo final de um ativo representa, em última análise, o valor dos
bens adquiridos ou serviços prestados para a sua aquisição ou produção, e que, na sua essência, os
juros representam o custo do dinheiro utilizado na construção ou produção dos ativos, devendo ser,
portanto, a estes integrados” (Deliberação CVM nº 193/96).
Sobre esse assunto, veja a Deliberação CVM nº 193/96, da qual destacamos o seguinte trecho:

I - Os juros incorridos e demais encargos financeiros, relativamente a


financiamentos obtidos de terceiros, para construção de bens integrantes
do ativo imobilizado ou para produção de estoques de longa maturação,
devem ser registrados em conta destacada, que evidenciem a sua natureza,
e classificados no mesmo grupo do ativo que lhes deu origem. [...]
III - Os juros e encargos referidos no item I somente poderão ser ativados
até o momento em que o ativo em construção ou produção estiver
substancialmente completado e colocado em condições de uso ou venda.

Imagine uma companhia geradora de energia elétrica que capte um empréstimo no Banco
Nacional do Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) para financiar a construção da
barragem em um rio, necessária à instalação de uma nova usina hidrelétrica. Os juros incorridos por
esse empréstimo são reconhecidos como custo da barragem (Imobilizado) até o momento em que a

109
barragem estiver pronta para uso. Caso o prazo de financiamento se estenda além da data de conclusão
das obras, os juros desse período adicional não são contabilizados no Imobilizado, mas reconhecidos
como Despesa Financeira no exercício de competência – tais quais os juros dos demais empréstimos.
Caso a entidade adote o IFRS para PMES, tais juros (custos de empréstimos) não integram
o custo do Imobilizado, mas devem ser reconhecidos imediatamente como despesa financeira no
resultado do período em que foi incorrido.
Com relação à segunda questão, os gastos com manutenção e reparos só devem ser integrados
ao Imobilizado – somados ao item que sofreu a manutenção e reparado – se, e somente se, tal
manutenção aumentar a vida útil do bem ou a sua capacidade produtiva. Caso contrário, os gastos
com a manutenção devem ser reconhecidos como despesa do período em que foram incorridos.
Vejamos dois exemplos de gastos com manutenção: o primeiro reflete a situação na qual o
gasto com a manutenção é somado ao custo do imobilizado; no segundo exemplo, o gasto com a
manutenção é reconhecido, imediatamente, como despesa.
Imagine uma gráfica (tal qual a que imprimiu este material) que tenha uma imprensa
adquirida em 1973, que ainda funciona, mas precariamente, e fica ociosa a maior parte do tempo.
Por conta disso, a Da. Rosana, proprietária, resolveu gastar $ 7.000,00 com o restauro desse
equipamento, que envolveu a troca de algumas engrenagens e de todas as correias, e a eliminação
dos pontos de ferrugem. Com essa manutenção, o equipamento voltou a funcionar como na década
de 1980, quando era seminovo. Agora, voltou a ser um dos principais equipamentos da linha de
produção. Nesse caso, certamente, os gastos com a manutenção são integrados ao Imobilizado, pois
a máquina que estava praticamente sucateada voltou a ser utilizada normalmente, e é provável que
continue sendo por mais alguns anos.
Por outro lado, imagine que o motorista da gráfica, o Sr. Pedro, resolva trocar o óleo do caminhão
utilizado para fazer a entrega dos produtos (impressos) aos clientes, afinal, mais de 8.000 km já foram
rodados desde a última vez em que o óleo foi trocado. Nesse caso, os gastos incorridos com a
manutenção (óleo e filtro) são reconhecidos como Despesa do período, pois a troca do óleo não tem a
capacidade de aumentar a potencialidade de geração de benefícios pelo veículo.
A terceira questão – depreciação – será discutida de forma resumida neste ponto e voltará a
ser apresentada, detalhadamente, nos dois próximos tópicos deste capítulo. No que tange à
depreciação, conforme o Imobilizado vai sendo utilizado, isto é, vai gerando os benefícios que dele
se esperavam, vai-se reconhecendo a sua depreciação, que é contabilizada como conta redutora
(retificadora) do Imobilizado, na rubrica “Depreciações Acumuladas”. Desse modo, o valor contábil
do Imobilizado corresponde à diferença entre o seu Custo de Aquisição e a Depreciação Acumulada,
ou seja, o Valor Líquido (ou Valor Líquido de Livros).9

9
Veja, novamente, a Nota Explicativa nº 11 da Droga Raia, 2016, apresentada no tópico anterior. O valor líquido,
R$ 1.006.606 mil, já está deduzido da Depreciação Acumulada, que totaliza R$ 661.008 mil. Afinal, o valor bruto do
Imobilizado em 2016 era de R$ 1.667.614 mil.

110
Finalmente, registremos que a economia brasileira era caracterizada por elevados índices de
inflação até a década de 1990. Por essa razão, nessa época, as empresas precisavam reconhecer, nas
demonstrações contábeis, os efeitos da perda de poder aquisitivo da moeda. Afinal, o custo histórico
ficava rapidamente defasado, e a informação contábil perdia significância.
Com o Plano Real (1994), a inflação ficou razoavelmente controlada e, a partir de 1996, por
força da Lei nº 9.249/95, as empresas ficaram proibidas de reconhecer a variação monetária de
balanços. Com isso, podemos dizer que a inflação distorce a informação contábil ancorada no custo
histórico. Embora a ciência contábil tenha desenvolvido mecanismos para mitigar essa distorção, o
seu uso é proibido pela legislação societária e fiscal.

Significado de depreciação
Podemos apresentar a depreciação de duas formas: segundo uma visão estática e segundo uma
visão dinâmica.
Pela visão estática, a depreciação corresponde à redução do valor do ativo imobilizado, em
função de: desgaste pelo uso, ação da natureza e obsolescência tecnológica.
A seguir, os exemplos ajudam a ilustrar essas três causas da depreciação.
Normalmente, o veículo utilizado como táxi aparenta ser mais velho do que um carro
idêntico, de mesma idade, utilizado por particular. Afinal, o táxi costuma rodar mais quilômetros
do que o carro particular. Essa falsa aparência de “velho” decorre do maior desgaste sofrido pelo
uso do táxi.
No Rio de Janeiro, os bancos do calçadão de Copacabana aparentam ser mais antigos do que
os bancos da Praça Raul Soares, em Belo Horizonte. Afinal, a combinação da umidade com a
maresia, o vento e a areia, típicos da orla, causam a corrosão das estruturas metálicas e o
apodrecimento das madeiras em velocidade maior do que no interior, onde esses quatro fatores não
se combinam. Tal aparência de “antigo” é consequência de a ação da natureza ser mais intensa sobre
os bancos da beira da praia do que sobre os do interior.
A obsolescência tecnológica é característica marcante nos computadores. Embora funcionem,
os computadores perdem rapidamente o seu valor em função do lançamento de máquinas mais
modernas e velozes, bem como do lançamento de novos softwares, que demandam maior capacidade
de armazenamento e processamento.
Ressalte-se que essa distinção é meramente didática, uma vez que todas as três causas
costumam atuar em conjunto. Por exemplo, a tecla “enter” do computador que estou usando para
digitar este texto está com mau contato de tanto que já foi pressionada (desgaste pelo uso); já a
porta USB do mesmo computador não funciona mais, pois está com zinabre (ação da natureza).
Desse modo, se eu for tentar vender este computador, provavelmente não encontrarei nenhum
comprador. Isso não se deve ao estado do teclado ou da porta USB, mas, principalmente, pelo fato

111
de ter baixa capacidade de armazenamento e processamento, de forma que não é compatível,
praticamente, com nenhum novo software e periféricos (obsolescência tecnológica).
Enquanto a visão estática considera o imobilizado como um simples objeto que sofre redução
(perda) do seu valor, a visão dinâmica da depreciação considera o imobilizado como um agente
gerador de benefícios econômicos.
Ou seja, considerando-se que o ativo corresponde a aplicações de recursos das quais se
espera a geração de benefícios econômicos futuros, a depreciação é o reconhecimento contábil do
consumo efetivo dos benefícios econômicos que se esperava, no passado, que o imobilizado
gerasse (no futuro – que já é passado ou presente). Com isso, podemos dizer que a depreciação é
a alocação sistemática do valor depreciável do imobilizado ao longo da sua vida útil, conforme o
ativo imobilizado gera os benefícios econômicos que dele se esperava.
Imagine um taxista que, ao comprar um carro novo por $ 40.000,00, pense em mantê-lo até
que tenha rodado 200.000 km. Consequentemente, a cada 1 km efetivamente dirigido, o veículo
gerará 1/200.000 (um, duzentos mil avos) dos benefícios que se esperava ao adquiri-lo. Desse modo,
para cada quilômetro rodado, $ 0,20 será a parcela do Ativo Imobilizado reconhecida como despesa
de depreciação.

Curiosidade...

O termo Depreciação é utilizado quando se trata de bens tangíveis. Para os itens intangíveis
(marca e patentes, por exemplo), utiliza-se o termo Amortização.

Critérios de mensuração da depreciação


Com exceção do terreno, os bens da empresa têm vida útil limitada por deterioração ou por
se tornarem obsoletos. Os custos incorridos na sua aquisição devem ser apropriados à despesa, nos
exercícios sociais relacionados com a sua utilização.
Cinco variáveis são determinantes do valor da depreciação: o custo, a vida econômica do
imobilizado, a sua vida útil, o valor residual ao final da vida útil e o método de depreciação. Já
tratamos da determinação do custo no tópico 2.2.3 deste módulo; por isso, vejamos as demais
variáveis a seguir.
A vida econômica é o tempo total que se espera que o imobilizado leve para gerar benefícios
econômicos ao seu titular (pouco importa quem seja). Nesse sentido, a vida econômica é a vida
total do imobilizado, até que vire sucata.
A vida útil é a parcela da vida econômica durante a qual a entidade pretende utilizar o item
do imobilizado nas suas atividades operacionais.
O valor residual é o preço pelo qual a entidade espera vender o item do imobilizado no fim
da sua vida útil. Só é pertinente estimar o valor residual quando a entidade estimar vender o item

112
do imobilizado antes que este vire sucata, isto é, vida útil menor do que a vida econômica. Caso
contrário, o valor residual será zero.
Finalmente, o método de depreciação – vejamos dois desses métodos.

Métodos das quotas constantes


Segundo o método das quotas constantes, o valor da depreciação reconhecida é o mesmo a
cada período. Graficamente, apresenta-se como uma distribuição uniforme, afinal, é calculada
da seguinte forma:

depreciação = (custo – valor residual) ÷ tempo de vida útil

ou

depreciação = (custo – valor residual) x taxa de depreciação

Para ilustrar o cálculo da depreciação, vamos imaginar uma máquina adquirida em 1º de


janeiro de X1 e que comece a ser utilizada na mesma data, pelo custo de aquisição total de
$ 9.000,00. Considerando que o tempo de vida útil dessa máquina seja de 10 anos e admitindo que
o seu valor residual seja de $ 1.500,00 no fim desse período, a depreciação anual será de $ 750,00,
ou seja:

a valor de custo $ 9.000,00

b valor residual $ 1.500,00

c=a–b valor depreciável $ 7.500,00

d tempo de vida útil 10 anos

e=c÷d depreciação anual $ 750,00 ao ano

113
Desse modo, esse método é denominado das quotas constantes, porque o valor da
depreciação reconhecida anualmente é constante. No exemplo, $ 750,00 por ano, conforme
evidenciado no gráfico:

Gráfico 1 – Depreciação pelo método das quotas constantes

Nesse caso, admite-se que a máquina foi adquirida e começou a ser utilizada no início do ano
(em 1º/01/X1). No entanto, qual seria o valor da depreciação, nos anos X1 e X2, se a máquina
começasse a ser utilizada no meio do ano (em 1º/07/X1)?
Em X1, seria reconhecida a depreciação em montante equivalente à metade do valor da
depreciação anual, visto que a máquina foi utilizada somente durante seis meses nesse ano, portanto,
$ 375,00 ($ 750,00 ÷ 2). Já em X2, a depreciação anual seria reconhecida por $ 750,00, que
corresponde a um ano inteiro.
Muitas empresas não utilizam o cálculo baseado no dia do mês em que o bem foi adquirido.
Se este for adquirido do dia 1º ao 14, será considerado no mês em que foi adquirido. Se o for após
o dia 15, a sua compra será considerada no mês posterior. Afinal, esse tratamento é muito prático,
e o valor da depreciação de um mês acaba não sendo relevante.
Agora, imagine que a máquina começou a ser utilizada em 25/08/X1. Nesse caso, como
ficaria a sua depreciação nos anos X1 e X2?

114
Tabela 31 – Depreciação nos anos X1 e X2

a valor de custo $ 9.000,00

b valor residual $ 1.500,00

c=a–b valor depreciável $ 7.500,00

d tempo de vida útil 10 anos

e=c÷d depreciação anual $ 750,00 ao ano

em X1 $ 250,00 no ano

agosto 5 dias (*) – no mês

setembro o mês inteiro $ 62,50 no mês

outubro o mês inteiro $ 62,50 no mês

novembro o mês inteiro $ 62,50 no mês

dezembro o mês inteiro $ 62,50 no mês

em X2 o ano inteiro $ 750,00 no ano

(*) Pela praticidade, resolve-se não depreciar o bem em agosto de x1, porque só começou a
ser utilizado após o dia 15 do mês.

No entanto, nada impede que a empresa calcule a depreciação na exata proporção de dias
contados da data na qual foi posto em condições de uso. Calcula-se a depreciação pro rata temporis,
a cada dia desde o início da sua utilização.

115
Vejamos o exemplo novamente, mas adotando o critério da exata proporção pro rata temporis,
dia a dia:

Tabela 32 – Depreciação pro rata temporis

a valor de custo $ 9.000,00

b valor residual $ 1.500,00

c=a–b valor depreciável $ 7.500,00

d tempo de vida útil 10 anos

e=c÷d depreciação anual $ 750,00 ao ano

em X1 $ 260,42 no ano

agosto 5 dias (*) $ 10,42 no mês

setembro o mês inteiro $ 62,50 no mês

outubro o mês inteiro $ 62,50 no mês

novembro o mês inteiro $ 62,50 no mês

dezembro o mês inteiro $ 62,50 no mês

em X2 o ano inteiro $ 750,00 no ano

(*) Considerou-se que cada mês tem 30 dias, ou seja, que o ano tem 360 dias
(12 meses × 30 dias).

Método do benefício consumido


O método do benefício gerado é o que melhor representa o consumo do imobilizado no
processo de geração de receita.
Antes de estudar esse método de depreciação, é oportuno relembrar o processo de geração de
receitas dos estoques. Quando determinada unidade de mercadoria é vendida, ela é retirada da
prateleira e entregue ao cliente. Como consequência, o contador reconhece a Receita de Vendas e
o CMV (correspondente à baixa da mercadoria dos Estoques). Desse modo, tem-se uma “perfeita”
confrontação da Despesa (baixa do produto vendido) com a Receita (gerada pela sua venda).
Em se tratando do imobilizado – por exemplo, uma máquina utilizada no processo de
transformação das matérias-primas em produtos acabados –, a identificação do confronto das

116
despesas com as receitas fica um pouco prejudicada. Afinal, a empresa não vende a máquina, vende
o produto fabricado pela máquina. No entanto, é inegável que a máquina contribuiu ao processo
de geração de receita, produzindo o bem vendido. Desse modo, é necessário reconhecer a
depreciação da máquina. Nesse contexto, a depreciação corresponde à baixa parcial da máquina:
uma fração da máquina que é consumida no processo produtivo.
Relembrando os conceitos apresentados neste capítulo,10 é fácil perceber que o método de
depreciação pelos benefícios consumidos é o que mais se aproxima da visão dinâmica da depreciação.
Retornemos ao exemplo da máquina adquirida em 1º de janeiro de X1, por $ 9.000,00, cujo
valor residual esperado no fim da sua vida útil é de $ 1.500,00. Suponhamos que a máquina tenha
capacidade produtiva equivalente a 100.000 unidades de determinado produto.
Caso a produção efetiva dos anos X1 a X10 seja:

Tabela 33 – Capacidade produtiva da máquina

produção anual efetiva:

X1 5.000 unidades

X2 8.700 unidades

X3 6.500 unidades

X4 7.000 unidades

X5 8.100 unidades

X6 14.500 unidades

X7 10.200 unidades

X8 13.000 unidades

X9 15.000 unidades

X10 12.000 unidades

10
Os conceitos são: o Imobilizado é um agente gerador de benefícios econômicos, como todo e qualquer ativo; o Ativo
corresponde a aplicações de recursos das quais se espera a geração de benefícios futuros; a Depreciação é o
reconhecimento contábil do consumo efetivo dos benefícios que se esperava, no passado, que o Imobilizado gerasse (no
futuro – que já é passado ou presente).

117
Pelo método do benefício consumido, a depreciação será proporcional a essa produção. Dessa
forma, os valores da depreciação anual não serão constantes ao longo do tempo, mas acompanharão
as oscilações do volume produzido.

Gráfico 2 – Depreciação pelo método dos benefícios gerados

Os valores apresentados nesse gráfico foram calculados conforme demonstrado a seguir:

118
Tabela 34 – Depreciação: benefícios gerados

a valor de custo $ 9.000,00

b valor residual $ 1.500,00

c=a–b valor depreciável $ 7.500,00

d capacidade produtiva total 100.000 unidades

e produção anual efetiva:

X1 5.000 unidades

X2 8.700 unidades

X3 6.500 unidades

X4 7.000 unidades

X5 8.100 unidades

X6 14.500 unidades

X7 10.200 unidades

X8 13.000 unidades

X9 15.000 unidades

X10 12.000 unidades

Total 100.000 unidades

f=c÷dxe depreciação anual:

X1 $ 375,00 no ano

X2 $ 652,50 no ano

X3 $ 487,50 no ano

X4 $ 525,00 no ano

X5 $ 607,50 no ano

X6 $ 1.087,50 no ano

X7 $ 765,00 no ano

X8 $ 975,00 no ano

X9 $ 1.125,00 no ano

X10 $ 900,00 no ano

total $ 7.500,00

119
Embora esse método seja o que melhor permite confrontar as despesas associadas ao consumo
do imobilizado com os benefícios por ele gerados, não é o mais difundido, talvez, por ser pouco
prático estimar a produção total esperada (benefícios consumidos).

Mecânica contábil e elaboração das demonstrações contábeis:


depreciação
A conta “Depreciação Acumulada”, de natureza credora, é classificada no Balanço
Patrimonial, no lado do ativo, como uma redução do custo do bem depreciado. Dessa forma, a
“Depreciação Acumulada” é uma conta redutora (ou retificadora) do Imobilizado.
A conta “Despesa de Depreciação”, de natureza devedora, é computada na DRE.
Exemplo: um veículo de passageiros (0 km) foi comprado por $ 25.000,00, em 1º/01/X1.
Como a sua depreciação é realizada em cinco anos pelo método das quotas constantes (taxa de
depreciação = 20% ao ano), considerando-se o valor residual nulo, será reconhecida depreciação
anual de $ 5.000,00.

Tabela 35 – Depreciação do veículo (31/12/X1)

valores evidenciados em 31/12/X1

na demonstração
no balanço patrimonial
do resultado do exercício

(–) despesa de depreciação (5.000,00) veículo de passageiros 25.000,00

(–) depreciação acumulada (5.000,00)

valor líquido 20.000,00

Desse modo, o lançamento contábil efetuado em 31/12/X1 foi:

D despesa de depreciação (DRE) 5.000,00

C depreciação acumulada (redutora do ativo) 5.000,00

Histórico: reconhecimento da depreciação anual do veículo, à taxa de 20% ao ano e valor


residual nulo.

120
Atenção: A depreciação é uma transação que não envolve
caixa nesse período, isto é, apesar de ser uma despesa, o seu
valor não é desembolsado no ato do reconhecimento da
depreciação. O efeito caixa ocorreu na data da aquisição do
Ativo se a compra foi à vista, ou no pagamento das parcelas,
se a compra foi a prazo.

Esse mesmo registro é efetuado ao longo dos cinco anos do prazo de vida útil do veículo. Na
DRE, uma despesa de depreciação nesse valor ($ 5.000) é reconhecida a cada ano. No Balanço
Patrimonial, a cada ano, o valor da depreciação vai sendo acumulado, até completar o valor total
do ativo, considerando valor residual nulo.

Tabela 36 – Depreciação do veículo (de 31/12/X2 a 31/12/X5)

valores evidenciados em 31/12/X2

na demonstração
no balanço patrimonial
do resultado do exercício

(–) despesa de depreciação (5.000,00) veículo de passageiros 25.000,00

(–) depreciação acumulada (10.000,00)

valor líquido 15.000,00

valores evidenciados em 31/12/X3

na demonstração do resultado do
no balanço patrimonial
exercício

(–) despesa de depreciação (5.000,00) veículo de passageiros 25.000,00

(–) depreciação acumulada (15.000,00)

valor líquido 10.000,00

121
valores evidenciados em 31/12/X4

na demonstração do resultado do
no balanço patrimonial
exercício

(–) despesa de depreciação (5.000,00) veículo de passageiros 25.000,00

(–) depreciação acumulada (20.000,00)

valor líquido 5.000,00

valores evidenciados em 31/12/X5

na demonstração do resultado do
no balanço patrimonial
exercício

(–) despesa de depreciação (5.000,00) veículo de passageiros 25.000,00

(–) depreciação acumulada (25.000,00)

valor líquido –

Uma dúvida que surge é: como reconhecer a venda do imobilizado?


Essa questão pode ser analisada em dois cenários:
quando o bem ainda não está totalmente depreciado e
quando o bem já está totalmente depreciado.

Digamos que a empresa do exemplo anterior tivesse vendido o veículo no dia 1º/01/X4,
quando o veículo já estava avaliado, na Contabilidade, pelo valor líquido de $ 10.000,00 (o mesmo
evidenciado no BP de 31/12/X3). Suponhamos que o bem tenha sido vendido por $ 12.000,00. A
empresa apuraria um ganho de $ 2.000,00, que seria assim contabilizado:
Primeiro, é necessário reconhecer venda:

D disponibilidades (ativo circulante) 12.000,00

C outras receitas operacionais (DRE) 12.000,00

Histórico: reconhecimento da venda do veículo usado, à vista.

122
Em segundo lugar, é necessário “preparar” o ativo vendido para ser baixado, eliminando-se o
saldo da conta depreciação acumulada contra o saldo da conta do respectivo bem:

D depreciação acumulada (redutora do ativo imobilizado) 15.000,00

C veículos (ativo imobilizado) 15.000,00

Histórico: baixa da depreciação acumulada, contra o saldo da conta Veículos, como preparação
ao reconhecimento da venda desse ativo.

Por fim, reconhece-se a baixa do veículo vendido.

D outra despesa operacional (DRE) 10.000,00

C veículos (ativo imobilizado) 10.000,00

Histórico: baixa do veículo vendido.

Observe que o ganho seria apresentado na DRE pelo valor líquido ($ 2.000,00).
Pela Matriz de Lançamentos, vamos considerar que a empresa tivesse apurado o seguinte
Balanço Patrimonial em 31/12/X3:

Quadro 5 – Balanço patrimonial em 31/12/X3

balanço patrimonial – 31/12/X3

ativo passivo –

ativo circulante

disponibilidades 8.000,00

ativo não circulante imobilizado patrimônio líquido

veículos de passageiros 25.000,00 capital social 12.000,00

(–) depreciação acumulada (15.000,00) reserva de lucros 6.000,00

total do imobilizado 10.000,00 total do PL 18.000,00

total do ativo 18.000,00 total do passivo + PL 18.000,00

123
Desse modo, ao vender o veículo, cujo custo histórico é $ 25.000,00 e já depreciado em
$ 15.000,00, por $ 12.000,00, reconheceria os seguintes registros contábeis:

Tabela 37 – Depreciação: registros contábeis

(–) reserva
capital
disponib. veículos depreciação = de resultado
social
acumulada lucros

saldos iniciais 8.000,00 25.000,00 (15.000,00) = 12.000,00 6.000,00

reconhecimento 12.000,00 = 12.000,00


da venda

baixa da (15.000,00) 15.000,00 =


depreciação
acumulada

baixa do veículo (10.000,00) = (10.000,00)


vendido

somatórios 20.000,00 – – = 12.000,00 6.000,00 2.000,00


parciais

transferência = 2.000,00 (2.000,00)


do resultado

saldos finais 20.000,00 – – = 12.000,00 8.000,00 –

124
Dessa forma, o Balanço Patrimonial apurado em 1º/01/X4, logo após a venda do veículo,
seria evidenciado da seguinte forma:

Tabela 38 – Balanço patrimonial em 1º/01/X4

balanço patrimonial – 1º/01/X4 logo após a venda

ativo passivo circulante –

ativo circulante

disponibilidades 20.000,00

ativo não circulante imobilizado patrimônio líquido

veículos de passageiros – capital social 12.000,00

(–) depreciação acumulada – reserva de lucros 8.000,00

total do imobilizado – total do PL 20.000,00

total do ativo 20.000,00 total do passivo + PL 20.000,00

A mesma lógica seria adotada se a empresa vendesse o veículo depois de transcorrido todo o
seu tempo de vida útil.
Digamos que a empresa tivesse vendido o veículo em 21/01/X8, por $ 1.500,00, quando o
saldo da Depreciação Acumulada já era idêntico ao do custo de aquisição ($ 25.000,00). Seriam
reconhecidos os seguintes lançamentos contábeis:
Pelo reconhecimento da receita de vendas:

D disponibilidades (ativo circulante) 1.500,00

C outras receitas operacionais (DRE) 1.500,00

Histórico: reconhecimento da venda do veículo usado, à vista.

125
Pela baixa da Depreciação Acumulada:

D depreciação acumulada (redutora do ativo imobilizado) 25.000,00

C veículos (ativo imobilizado) 25.000,00

Histórico: baixa da depreciação acumulada, contra o saldo da conta Veículos, como preparação
ao reconhecimento da venda desse ativo.

Nesse caso, não é necessário realizar o terceiro lançamento contábil, pois o saldo da conta
Veículos já está zerado, não havendo valor de Outra Despesa Operacional a ser reconhecido. Pela
Matriz de Lançamentos, vamos considerar que a empresa tivesse apurado, em 21/1/X8, antes da
venda, o seguinte Balanço Patrimonial:

Tabela 39 – Balanço patrimonial (21/01/X8), antes da venda

balanço patrimonial – 21/01/X8, antes da venda

ativo passivo –

ativo circulante

disponibilidades 35.000,00

ativo não circulante imobilizado patrimônio líquido

veículos de passageiros 25.000,00 capital social 12.000,00

(–) depreciação acumulada (25.000,00) lucros acumulados 23.000,00

total do imobilizado – total do PL 35.000,00

total do ativo 35.000,00 total do passivo + PL 35.000,00

126
Nesse contexto, ao vender o veículo já totalmente depreciado, por $ 1.500,00, reconheceria
os seguintes registros contábeis:

Tabela 40 – Depreciação: registros contábeis

(–)
capital lucros
disponib. veículos depreciação = resultado
social acumulados
acumulada

saldos iniciais 35.000,00 25.000,00 (25.000,00) = 12.000,00 23.000,00

reconhecimento 1.500,00 = 1.500,00


da venda

baixa da (25.000,00) 25.000,00 =


depreciação
acumulada

somatórios 36.500,00 – – = 12.000,00 23.000,00 1.500,00


parciais

transferência = 1.500,00 (1.500,00)


do resultado

saldos finais 36.500,00 – – = 12.000,00 24.500,00 –

Desse modo, o Balanço Patrimonial apurado em 21/01/X8, logo após a venda do veículo,
seria evidenciado da seguinte forma:

127
Tabela 41 – Balanço patrimonial (21/01/X8), logo após a venda

balanço patrimonial – 21/01/X8, logo após a venda

ativo passivo –

ativo circulante

disponibilidades 36.500,00

ativo não circulante imobilizado patrimônio líquido

veículos de passageiros – capital social 12.000,00

(–) depreciação acumulada – lucros acumulados 24.500,00

total do imobilizado – total do PL 36.500,00

total do ativo 36.500,00 total do passivo + PL 36.500,00

Perda por redução ao valor recuperável (impairment)


A informação contábil precisa ser neutra (não otimista). Uma das formas de alcançar essa
qualidade (característica qualitativa) é identificar se o valor contábil dos ativos será recuperado, quer
pela venda (valor realizável líquido), quer pelo uso ao longo da sua vida útil (valor presente dos
benefícios futuros esperados). Em outras palavras, podemos dizer que o valor contábil não será
recuperado se for maior do que o maior valor entre o valor líquido de realização (aquele que se
pretende auferir na venda) e o valor presente dos fluxos futuros esperados (aquele que se pretende
auferir mediante o uso).
O conceito de perda por irrecuperabilidade já vem sendo adotado pelas empresas brasileiras
há décadas para alguns itens do Ativo Circulante. As duplicatas a receber de clientes são reduzidas
pela expectativa de não recebimento (inadimplência), por meio da Perda Esperada com Créditos
de Liquidação Duvidosa (PECLD). Os estoques são reduzidos ao valor de mercado caso este seja
menor. Vejamos um exemplo:
No início de 2008, a Cia. Vende TV tinha 1.000 unidades de TV analógica em estoque,
adquiridas por $ 300,00 cada (custo de aquisição), que ela pretendia revender por $ 500,00 cada.
Em função da aprovação da legislação sobre TV digital, os consumidores só querem comprar TV
digital. Com isso, as TVs analógicas estão “encalhando”. Por conseguinte, as empresas revendedoras
(concorrentes da Cia. Vende TV) baixaram o preço de venda da TV analógica, de $ 500,00 para
$ 290,00, e espera gastar $ 10,00 para vender (comissão de vendedores e impostos sobre vendas).

128
Considerando que a Cia. Vende TV precisou acompanhar a política de descontos dos seus
concorrentes, reconheceu a Perda por Irrecuperabilidade das mercadorias analógicas no montante
de $ 20.000,00 [1.000 unidades x ($ 280,00 – $ 300,00)]. A contabilização é bastante simples: a
aplicação é a perda na DRE, e a origem é a redução do valor dos Estoques, em conta retificadora
do Ativo Circulante.
A novidade introduzida na contabilidade brasileira, pela Lei nº 11.638/07 e pelo
Pronunciamento CPC nº 1, diz respeito à obrigatoriedade de reconhecer a perda por
irrecuperabilidade também para os itens do Ativo Imobilizado e Intangível.
Vejamos um exemplo numérico:
A Cia. Prudencial apresentou Balanço Patrimonial e DRE, a seguir, apurados em
31/12/2008, antes de proceder aos testes de recuperabilidade dos seus ativos:

Tabela 42 – Balanço patrimonial (31/12/2008)

ativo passivo + PL

ativo circulante passivo circulante

disponibilidades 5.000,00 contas a pagar 1.500,00

total AC 5.000,00 total do PC 1.500,00

ativo não circulante patrimônio líquido

máquina X 35.000,00 capital social 30.000,00

– depr. acum. (máq. X) (25.000,00) lucros acumulados 3.500,00

– perda irrecup. (máq. X) – total do PL 33.500,00

máquina Y 60.000,00

– depr. acum. (máq. Y) (40.000,00)

– perda irrecup. (máq. Y) –

total AP 30.000,00

ativo total 35.000,00 passivo + PL total 35.000,00

129
Tabela 43 – DRE (31/12/2008)

receita bruta 23.800,00

deduções da receita –

receita líquida 23.800,00

custo dos serviços prestados (13.450,00)

lucro bruto 10.350,00

despesas operacionais (7.650,00)

lucro operacional antes do Imposto de Renda 2.700,00

Imposto de Renda –

lucro líquido 2.700,00

Para realizar os testes de recuperabilidade das duas máquinas, foram identificados:


valor contábil da máquina X: $ 10.000,00;
valor contábil da máquina Y: $ 20.000,00;
valor corrente de venda da máquina X: $ 12.000,00;
gastos estimados para retirada e venda da máquina X (no ano corrente): $ 1.500,00;
valor corrente de venda da máquina Y: $ 18.000,00;
gastos estimados para retirada e venda da máquina Y (no ano corrente): $ 1.600,00;
tempo de vida útil remanescente estimado para a máquina X: 5 anos;
produção anual estimada para a máquina X: ano 1 = 1.200 unidades; ano 2 = 1.200
unidades; ano 3 = 1.000 unidades; ano 4 = 1.000 unidades; ano 5 = 1.000 unidades;
margem de contribuição unitária do produto fabricado na máquina X: $ 10,00/unidade;
gastos normais de manutenção periódica da máquina X: ano 1 = $ 40,00; ano 2 = zero;
ano 3 = $ 40,00; ano 4 = $ 20,00; ano 5 = zero;
valor de venda estimado da máquina X, no fim da sua vida útil: $ 3.200,00;
gastos estimados para retirada e venda da máquina X (no fim da sua vida útil): $ 1.500,00;
tempo de vida útil remanescente estimado para a máquina Y: 3 anos;
produção anual estimada para a máquina Y: ano 1 = 1.000 unidades; ano 2 = 1.000
unidades; ano 3 = 1.000 unidades;
margem de contribuição unitária do produto fabricado na máquina Y: $ 6,00/unidade;

130
gastos normais de manutenção periódica da máquina Y: ano 1 = zero; ano 2 = $ 250,00;
ano 3 = zero;
valor de venda estimado da máquina Y, no final da sua vida útil: $ 7.000,00;
gastos estimados para retirada e venda da máquina Y (no fim da sua vida útil): $ 1.296,00 e
taxa de desconto (custo do capital da Cia. Prudencial): 10% ao ano.

Vejamos os cálculos de cada máquina isoladamente. Comecemos pela máquina X.

Tabela 44 – Valor contábil

máquina X 2008

custo histórico (valor original) da máquina X: 35.000,00

depreciação acumulada da máquina X: (25.000,00)

valor contábil da máquina X: 10.000,00

Tabela 45 – Valor realizável líquido

máquina X 2008

valor corrente de venda da máquina X: 12.000,00

gastos estimados para retirada e venda de máquina X (no ano corrente) (1.500,00)

valor realizável líquido da máquina X: 10.500,00

131
Tabela 46 – Valor em uso (valor presente dos benefícios futuros):11

máquina X 2008 2009 2010 2011 2012 2013

tempo de vida útil


remanescente estimado
5
para a máquina X (em
anos)

produção anual
estimada para a 1.200 1.200 1.000 1.000 1.000
máquina X

margem de
contribuição unitária do
10,00
produto fabricado na
máquina X ($/unidade)

margem de
contribuição total anual
12.000,00 12.000,00 10.000,00 10.000,00 10.000,00
do produto fabricado na
máquina X ($/ano)

gastos anuais normais


de manutenção
40,00 – 40,00 20,00 –
periódica da máquina X
($/ano):

valor de venda
estimado da máquina X 3.200,00
no fim da sua vida útil

11
O cálculo do valor presente envolve conhecimentos de Matemática Financeira, pelo menos que o VP = VF × (1 + i)n. No
Excel, utiliza-se a função (fx) financeira VPL. Na HP12-C, utilizam-se as teclas <i>, <CHS>, <g> (para acessar as “teclas” azuis
<CFo>, <CFj> e <Nj>) e a tecla <f> (para acessar a “tecla” laranja <NPV>).

132
máquina X 2008 2009 2010 2011 2012 2013

gastos estimados para


retirada e venda da
1.500,00
máquina X (no fim da
sua vida útil)

benefícios futuros
esperados da máquina
11.960,00 12.000,00 9.960,00 9.980,00 11.700,00
X ao longo da sua vida
útil

taxa de desconto (custo


do capital da Cia. 10%
Prudencial)

valor em uso (valor


presente líquido dos
42.354,43
benefícios futuros) de
máquina X

Considerando que o valor contábil ($ 10.000,00) é menor do que o maior valor entre o
Realizável Líquido ($ 10.500,00) e o Em Uso ($ 42.354,43), não há de se reconhecer qualquer
perda por irrecuperabilidade em relação à máquina X.

Tabela 47 – Teste de recuperabilidade da máquina X

teste de recuperabilidade da máquina X:

valor contábil: 10.000,00

maior entre valor realizável líquido em uso: 42.354,43

perda por irrecuperabilidade: não aplicável

133
Agora, vejamos os mesmos cálculos para a máquina Y:

Tabela 48 – Valor contábil

máquina Y 2008

custo histórico (valor original) da máquina Y 60.000,00

depreciação acumulada da máquina Y (40.000,00)

valor contábil da máquina Y 20.000,00

Tabela 49 – Valor realizável líquido

máquina Y 2008

valor corrente de venda da máquina Y 18.000,00

gastos estimados para retirada e venda da máquina Y (no ano corrente) (1.600,00)

valor realizável líquido da máquina Y 16.400,00

Tabela 50 – Valor em uso (valor presente dos benefícios futuros)

máquina Y 2008 2009 2010 2011

tempo de vida útil remanescente estimado


3
para a máquina Y (em anos)

produção anual estimada para a máquina Y 1000 1000 1000

margem de contribuição unitária do produto


6,00
fabricado na máquina Y ($ unidade)

margem de contribuição total anual do


6.000,00 6.000,00 6.000,00
produto fabricado na máquina Y ($/ano)

gastos anuais normais de manutenção


– 250,00 –
periódica da máquina Y ($/ano)

valor de venda estimado da máquina Y no


7.000,00
fim da sua vida útil

134
máquina Y 2008 2009 2010 2011

gastos estimados para retirada e venda da


1.296,00
máquina Y (no fim da sua vida útil)

benefícios futuros esperados da máquina Y 11.704,0


6.000,00 5.750,00
ao longo da sua vida útil 0

taxa de desconto (custo do capital da Cia.


10%
Prudencial)

valor em uso (valor presente líquido dos 19.000,


benefícios futuros) da máquina Y 00

Considerando que o valor contábil ($ 20.000,00) excede o maior valor entre o Realizável
Líquido ($ 16.400,00) e o Em Uso ($ 19.000,00) em $ 1.000,00, é necessário reconhecer a perda
por irrecuperabilidade em relação à máquina Y nesse montante.

Tabela 51 – Teste de recuperabilidade da máquina Y

teste de recuperabilidade da máquina Y

valor contábil 20.000,00

maior entre valor realizável líquido e valor em uso 19.000,00

perda por irrecuperabilidade: 1.000,00

Realizando-se os lançamentos contábeis necessários, conforme a Matriz de Lançamentos


que segue:

135
136
ativo =

disponib (depr. (perda (depr. (perda lucros


contas máq. X máq. Y = contas a pg. capital social resultado
ilidades acum. X) irrecup. X) acum. Y) irrecup. Y) acum.

saldos iniciais 5.000,00 35.000,00 (25.000,00) - 60.000,00 (40.000,00) - = 1.500,00 30.000,00 3.500,00

impairment Y (1.000,00) = (1.000,00)

saldos
5.000,00 35.000,00 (25.000,00) - 60.000,00 (40.000,00) (1.000,00) =
parciais

retenção
= 1.500 30.000 3.500 (1.000,00)
lucro
Tabela 52 – Matriz de lançamentos

saldos finais 5.000,00 35.000,00 (25.000,00) - 60.000,00 (40.000,00) (1.000,00) 1.500,00 30.000,00 2.500,00 -
Podemos elaborar as demonstrações contábeis ajustadas:

Tabela 53 – Balanço patrimonial

ativo passivo + PL

ativo circulante passivo circulante

disponibilidades 5.000,00 contas a pagar 1.500,00

total do AC 5.000,00 total do PC 1.500,00

ativo não circulante patrimônio líquido

máquina X 35.000,00 capital social 30.000,00

– depr. acum. (máq. X) (25.000,00) lucros acumulados 2.500,00

– perda irrecup. (máq. X) – total do PL 32.500,00

máquina Y 60.000,00

– depr. acum. (máq. Y) (40.000,00)

– perda irrecup. (máq. Y) (1.000,00)

total do AÑC 29.000,00

ativo total 34.000,00 passivo + PL total 34.000,00

137
Tabela 54 – DRE

receita Bruta 23.800,00

deduções da receita –

receita líquida 23.800,00

custo dos serviços prestados (13.450,00)

lucro bruto 10.350,00

despesas operacionais (7.650,00)

perda irrecuperabilidade (1.000,00)

lucro antes do Imposto de Renda 1.700,00

Imposto de Renda –

lucro líquido 1.700,00

Observe que o reconhecimento do impairment não gera qualquer impacto tributário.


Se as estimativas utilizadas para calcular o valor recuperável sofrerem alterações
significativamente positivas para a entidade, o cálculo do valor recuperável (maior valor entre o
Realizável Líquido e o Em Uso) deverá ser refeito, e a Perda por Irrecuperabilidade poderá ser
reduzida ou anulada.
Conforme o § 106 do Pronunciamento CPC nº 1, as situações que sugerem tais alterações
favoráveis à entidade podem ser:
O valor de mercado do ativo aumentou significativamente durante o período.
Durante o período, ocorreram ou ocorrerão, em futuro próximo, mudanças significativas,
com efeito favorável sobre a entidade, nos ambientes tecnológico, de mercado, econômico ou legal
no qual ela opera, ou no mercado no qual o ativo é utilizado.
As taxas de juros de mercado ou outras taxas de mercado aplicáveis sobre o retorno de
investimentos diminuíram durante o período, e essas diminuições, possivelmente, afetarão a taxa
de desconto usada no cálculo do valor do ativo em uso e aumentarão, substancialmente, o seu
valor recuperável.
Durante o período, ocorreram ou ocorrerão, em futuro próximo, mudanças significativas, com
efeito favorável sobre a entidade, na medida ou na maneira pela qual o ativo é utilizado ou deverá ser
utilizado. Tais mudanças incluem gastos incorridos durante o período, com a finalidade de melhorar
ou aprimorar o desempenho de um ativo ou de reestruturar a operação à qual o ativo pertence.

138
Nos relatórios internos, existe evidência que indica que o desempenho econômico do ativo é
ou será melhor do que o esperado.
Observe que, com o passar do tempo, o valor presente dos benefícios futuros (valor em uso)
aumenta. Segundo o § 111 do Pronunciamento CPC nº 1, isso não é fundamento para reverter a
perda reconhecida em períodos anteriores.
A reversão da perda deve ser evidenciada na DRE como recuperação de uma despesa
(somando ao lucro do período), e o maior valor que se poderá reverter é o saldo remanescente da
provisão, ou seja, não será possível aumentar o valor original como se fosse uma reavaliação – afinal,
a Lei nº 11.638/07 proibiu a reavaliação.

139
MÓDULO IV – ANÁLISE DAS
DEMONSTRAÇÕES CONTÁBEIS
(INTRODUÇÃO)

A análise das demonstrações contábeis corresponde à interpretação das informações


evidenciadas nos relatórios contábeis.
Neste módulo, são apresentadas as principais técnicas de análise da DRE e do Balanço
Patrimonial de uma entidade com fins lucrativos.
Antes de estudar a análise propriamente dita, é necessário comentar algumas questões
fundamentais para toda e qualquer análise, como a definição do seu propósito.
O módulo está organizado em seis unidades:
A primeira unidade – Propósito da análise – discute o primeiro passo de uma análise, isto
é, a definição do seu objetivo.
A segunda unidade – Obtenção das demonstrações contábeis – apresenta a necessidade de
dispor do material a ser analisado e sugere fontes em que as informações contábeis podem
ser obtidas.
A unidade seguinte – Investigar a confiabilidade da informação obtida – sugere que o
analista, antes de fazer qualquer cálculo, deve-se perguntar se a informação de que dispõe
é confiável ou se há necessidade de proceder a ajustes e reclassificações, comentadas na
seção.
A quarta unidade – Definição de parâmetros – mostra que não é suficiente fazer os cálculos,
devem-se ter alguns parâmetros de comparação (benchmarks) para analisar as
demonstrações contábeis.
A quinta e maior unidade deste módulo – Cálculos – apresenta as três principais técnicas
de análise – a análise vertical, a análise horizontal e a análise por indicadores –
exemplificadas e interpretadas com base nas demonstrações contábeis da Droga Raia,
referentes ao ano de 2016.
Por fim, a sexta unidade – Elaboração do parecer – sugere uma sequência de itens que
devem ser abordados no parecer que exprime a percepção do analista com relação à
situação econômico-financeira da entidade analisada.

Propósito da análise
Diversos podem ser os propósitos da análise (financeira ou gerencial), dependendo de cada caso.
Vejamos alguns exemplos típicos:
Mensurar o desempenho de subunidades. O diretor financeiro de uma empresa tem a
necessidade de avaliar o desempenho dos gerentes de cada divisão (subunidade ou centro
de responsabilidade) da empresa. Com base nessa avaliação, ele pode decidir questões
relacionadas a bonificações e promoções (caso o desempenho seja satisfatório), ou a
treinamentos e demissões (caso o desempenho seja insatisfatório).
Analisar a situação creditícia de potencial cliente, parceiro, fornecedor ou concorrente.
Quando uma empresa realiza uma venda a prazo, é necessário avaliar o risco de crédito (a
probabilidade de o cliente não pagar). Desse modo, o gerente financeiro da empresa
analisa as demonstrações contábeis do cliente para identificar como anda a sua “saúde”
financeira. Se estiver muito boa, o gerente financeiro pode conceder um prazo maior para
pagamento e até não exigir garantias (aval, por exemplo). Se a “saúde” financeira estiver
muito ruim, ele pode não autorizar a venda a prazo, exigindo o pagamento à vista – afinal,
há razoável expectativa de o cliente não conseguir honrar o seu compromisso, de forma
que a venda se transformaria, na pior das hipóteses, em uma “doação”. Por sua vez, se a
“saúde” financeira for intermediária, o gerente financeiro poderá autorizar a venda com
restrições, por exemplo, conceder poucos dias de prazo, cobrar juros e garantias. Esse
mesmo tipo de análise é aplicado quando a empresa contrata um fornecedor para lhe
prestar serviços por um longo período ou realiza algum contrato que implique uma
parceria de longo prazo. Se a “saúde” financeira do parceiro (supostamente de longo prazo)
for muito ruim, é provável que ele descontinue a sua atividade e não consiga honrar os
compromissos firmados no contrato, que deverá ser encerrado antecipadamente. Esse tipo
de análise também é aplicado para avaliar o desempenho de um concorrente, ao comparar
a sua situação com a da própria empresa, identificar a probabilidade de uma guerra de
preços, entre outras finalidades.
Verificar a situação de empresas investidas. Um potencial investidor, antes de comprar
títulos de uma empresa (por exemplo, ações), analisa a sua situação econômico-financeira,
bem como avalia se o preço de mercado das ações é atrativo ou se está elevado. Da mesma

142
forma, um investidor (efetivo) analisa a situação econômico-financeira da empresa na qual
investe para decidir se deve vender os seus títulos ou mantê-los.
Verificar a situação econômico-financeira de empresas reguladas. Quando o impacto
da falência de uma empresa regulada for, potencialmente, muito prejudicial à sociedade
(em especial, ao mercado regulado), é normal que o órgão regulador acompanhe a “saúde”
econômico-financeira das empresas reguladas. Por exemplo, isso ocorre com: (a) O Banco
Central do Brasil (Bacen), que regula as instituições financeiras. Imagine o impacto social
que a falência de um banco causaria na nossa sociedade! Diversos correntistas e
investidores perderiam os seus recursos. (b) A Superintendência de Seguros Privados
(Susep), que regula as seguradoras. Imagine o impacto social que a falência de uma
seguradora causaria na nossa sociedade! Diversos segurados perderiam o direito de serem
indenizados caso o sinistro ocorresse. (c) A Agência Nacional de Saúde Suplementar
(ANS), que regula as operadoras de planos de saúde. Imagine o impacto social que a
falência de um plano de saúde causaria na nossa sociedade! Diversos beneficiários dos
planos perderiam o direito de ser atendidos em hospitais, clínicas e laboratórios caso
ficassem doentes. (d) A Superintendência Nacional da Previdência Complementar, do
Ministério da Previdência (Previc), que regula os fundos de pensão. Imagine o impacto
social que a falência de uma entidade fechada de previdência complementar causaria na
nossa sociedade! Diversos aposentados e pensionistas não conseguiriam mais receber os
seus proventos, da mesma forma que diversos trabalhadores perderiam o direito de receber
os proventos no futuro, quando atingissem a idade para a aposentadoria. A rigor, todos
esses órgãos reguladores acompanham a “saúde” econômico-financeira das empresas que
regulam e fiscalizam por meio das suas demonstrações contábeis.

Obtenção das demonstrações contábeis


Uma vez definido o propósito da análise, é necessário obter as demonstrações contábeis da
empresa a ser analisada. Afinal, sem ter acesso às demonstrações contábeis, é impossível analisá-las!
Ainda assim, entendemos ser relevante uma rápida discussão sobre esse ponto.
Voltemos aos propósitos de análise, apresentados na Unidade 3.1:
Mensurar o desempenho das subunidades – o diretor financeiro de uma empresa tem,
em tese, livre acesso à informação econômico-financeira da empresa na qual trabalha,
principalmente no que tange ao desempenho dos seus subordinados.
Analisar a situação creditícia de potencial cliente, parceiro, fornecedor ou
concorrente – quando um cliente pede prazo para pagamento da sua dívida, ele tem
interesse em disponibilizar as suas demonstrações contábeis ao vendedor; caso contrário,
o vendedor não concederá o crédito e exigirá o pagamento à vista. Da mesma forma,

143
quando se estabelece uma parceria de longo prazo, o fornecedor ou qualquer outro
parceiro interessado no negócio disponibiliza as suas informações contábeis; caso
contrário, a empresa buscará outra pessoa para firmar a parceria. Com relação ao
concorrente, ocorre exatamente o contrário; ele evitará tornar as suas informações
acessíveis aos demais concorrentes. Dessa forma, podem-se obter as suas informações
contábeis em bancos de dados, como o Economática e o do Serasa.
Verificar a situação de empresas investidas – as empresas que oferecem os seus títulos à
negociação no mercado público (companhias abertas, negociadas na B3) são obrigadas,
pela CVM, a divulgar as suas demonstrações contábeis trimestrais e anuais, que podem ser
acessadas no portal da CVM (www.cvm.gov.br). As demonstrações anuais também são
publicadas em jornais de grande circulação e nos diários oficiais.
Verificar a situação econômico-financeira de empresas reguladas – o órgão regulador
tem “poder de polícia” sobre as entidades reguladas, ou seja, ou a empresa regulada fornece
as informações solicitadas (requeridas) pelo órgão regulador, ou fica sujeita a penalidades.

Em qualquer dessas situações, bem como em qualquer outra não citada, o interessado pode
obter as demonstrações contábeis por diversos meios. Se a empresa que se pretende analisar for uma
Sociedade por Ações, as suas demonstrações contábeis podem ser obtidas no site da CVM
(www.cvm.gov.br) ou da B3 (www.b3.com.br/pt_br/) ou em bancos de dados privados mediante
pagamento de assinatura anual, como o Economática (www.economatica.com) e o Serasa
(www.serasa.com.br). Além disso, também é possível obter as demonstrações contábeis das
Sociedades por Ações nos jornais de grande circulação (como Valor Econômico, Gazeta Mercantil,
Folha de S.Paulo, Estadão e O Globo – só para citar alguns exemplos) e nos diários oficiais (da União
e dos estados).
Caso a empresa não seja Sociedade por Ações, por exemplo, uma empresa por “quotas de
responsabilidade limitada” (Ltda.), o interessado deverá acessar o site da empresa e verificar se ela
disponibiliza as suas demonstrações contábeis espontaneamente. Caso negativo, ele pode solicitar
tal informação por e-mail, telefone, fax, etc.
Caso não se obtenham as demonstrações contábeis por nenhum dos meios acima, pode-
se solicitá-las a alguma entidade de pesquisa que disponha de um banco de dados de
demonstrações contábeis.

144
Investigar a confiabilidade da informação obtida
Antes de analisar as demonstrações contábeis, isto é, antes de realizar os cálculos, é necessário
investigar a confiabilidade das informações obtidas.
O primeiro passo para investigar a confiabilidade das demonstrações contábeis é ler o parecer
dos auditores independentes (externos). Se houver ressalva, o analista deve julgar se o ponto da
ressalva é relevante ao propósito da sua análise. Em caso afirmativo, será necessário preceder a ajustes
nas demonstrações contábeis obtidas.
Independentemente do conteúdo do parecer dos auditores, é sempre indicado ler as notas
explicativas. Dessa forma, é possível conhecer as práticas contábeis efetivamente adotadas pela empresa.
Adicionalmente à leitura das notas explicativas, é fundamental conhecer melhor a empresa
analisada, os seus produtos e as suas atividades. Desse modo, o analista precisa ler também o
relatório da administração, acessar o site da empresa e procurar notícias em revistas especializadas,
jornais e sites, em busca de informações atualizadas sobre a empresa.
Com base em todo o conhecimento adquirido pela leitura aqui recomendada, o analista estará
apto a efetuar os ajustes e as reclassificações necessários para tornar a informação mais confiável e
representativa da realidade econômica da entidade analisada. Além disso, poderá escolher o índice
de preços que melhor reflita a perda de poder aquisitivo da empresa e calcular a variação monetária
das demonstrações contábeis.
Vejamos um exemplo. Imagine que você identifique, no Balanço Patrimonial, que o parque
fabril da empresa está avaliado em R$ 1 milhão. Além disso, por meio das notas explicativas, você
observa que a empresa deprecia o seu parque fabril à taxa de 10% ao ano e não reconhece qualquer
perda por redução ao valor recuperável (impairment) para o seu parque fabril. O parecer dos
auditores independentes é “limpo”. No entanto, lendo sobre as últimas notícias da empresa, na
internet, você descobriu que o seu parque fabril já está obsoleto e sucateado. O que você fará?
Certamente, fará um ajuste no seu Balanço Patrimonial, reduzirá o ativo imobilizado e o
patrimônio líquido em R$ 1 milhão.
Os ajustes mais comuns são relacionados à supervalorização dos ativos ou à subavaliação dos
passivos, no Balanço Patrimonial, por exemplo:
A empresa não reconhece a perda esperada com créditos de liquidação duvidosa (PECLD),
apresentada no Módulo III desta apostila.
A empresa não reconhece a perda relativa à redução ao valor de mercado ou a provisão
para perdas no estoque, apresentada no Módulo III desta apostila.
A empresa adota critérios de depreciação do imobilizado compatíveis com os parâmetros
aceitos pela legislação do Imposto de Renda, mas não condizentes com a realidade econômica
dos ativos, ou não reconhece a perda por redução ao valor recuperável (impairment) do
imobilizado, quando necessário (Temas estudados no Módulo III desta apostila).
A empresa não reconhece provisões passivas, provisão para férias e 13º salário.

145
Todos os exemplos apresentados são relacionados à postura não conservadora. No entanto,
pode haver situações em que a empresa é extremamente conservadora, reduzindo os seus ativos ou
aumentando os seus passivos em valor maior do que o adequado. De todo modo, em ambos os
casos não observou a característica qualitativa da representação fidedigna.
Ao realizar os ajustes, tanto no ativo quanto no passivo, o mais comum é ajustar, como o
próprio nome sugere, o patrimônio líquido da entidade. Afinal, pela equação fundamental da
contabilidade, ativo = passivo + patrimônio líquido. Desse modo, vejamos o reflexo no patrimônio
líquido decorrente de quatro ajustes típicos:
Se o Ativo estiver superavaliado no Balanço Patrimonial, o analista reduzirá o valor do
Ativo e, consequentemente, reduzirá o valor do Patrimônio Líquido.
Se o Ativo estiver subavaliado no Balanço Patrimonial, o analista aumentará o valor do
Ativo e, consequentemente, aumentará o valor do Patrimônio Líquido.
Se o Passivo estiver superavaliado no Balanço Patrimonial, o analista reduzirá o valor do
Passivo e, consequentemente, aumentará o valor do Patrimônio Líquido.
Se o Passivo estiver subavaliado no Balanço Patrimonial, o analista aumentará o valor
do Passivo e, consequentemente, reduzirá o valor do Patrimônio Líquido.

No entanto, o mais correto é ajustar, também, o resultado do período na DRE. Normalmente,


por questão de praticidade, todos esses ajustes são feitos no patrimônio líquido, diretamente no saldo
da conta lucros acumulados, sem que se altere o valor do lucro (ou prejuízo) na DRE.
Por exemplo, se o passivo estiver subavaliado, é necessário reconhecer uma despesa,
reforçando o valor do Passivo. Ocorre que o reconhecimento da despesa alteraria a DRE e o lucro
nela evidenciado. Dessa maneira, por praticidade, a contrapartida do reforço do passivo implica
somente a redução de PL (lucros acumulados).
Ainda há outras situações que não sugerem a necessidade de realização de ajustes ao valor do
patrimônio ou do resultado, mas sugerem a necessidade de reclassificações, pelo menos. Imagine
uma empresa que tem um valor a receber daqui a 36 meses e o classifica no ativo circulante. Isso
está errado! O correto seria classificar esse direito no realizável no longo prazo (ativo não circulante).
O analista, desejando conhecer a liquidez da empresa, deverá reclassificar tal direito, reduzindo o
AC e aumentando o RLP no mesmo montante. Certamente, essa reclassificação não alterará o valor
do patrimônio e, por conseguinte, não demandará qualquer ajuste no patrimônio líquido. Ainda
assim, é importante fazer tal reclassificação para se evitarem distorções nos indicadores de liquidez.
As situações mais comuns que demandam reclassificações são:
contabilização de direitos realizáveis no longo prazo classificados equivocadamente no
ativo circulante;
reconhecimento de obrigações exigíveis no curto prazo classificadas equivocadamente no
exigível em longo prazo (passivo não circulante);

146
reconhecimento de despesas operacionais como se fossem despesas não operacionais
(outras despesas), aumentando indevidamente o resultado operacional;
reconhecimento de receitas não operacionais como se fossem operacionais, aumentando o
resultado operacional indevidamente.

A literatura de contabilidade oferece diversos exemplos de suspeitas, e até de evidências, do que


se costuma chamar “Manipulação da Informação Contábil” ou “Gerenciamento de Resultados”.
Não se pode esquecer que, para desenvolver adequadamente a análise, muitas vezes, é
necessário atualizar os valores apresentados nas demonstrações contábeis de acordo com a inflação.
Isso ocorre, principalmente, quando se comparam valores de datas diferentes.
Vejamos um exemplo: ao comparar a receita bruta de 20X5 (digamos, R$ 1,2 milhão) com
a Receita Bruta de 20X4 (por exemplo, R$ 1 milhão), de uma mesma empresa, não se deve afirmar
que houve um acréscimo de 20% na Receita Bruta, antes de corrigir os valores de 20X4 para a
moeda de 20X5. Digamos que a inflação de 20X5 tenha sido 10%. Nesse contexto, a Receita Bruta
de 20X4 atualizada para 20X5 seria de R$ 1,1 milhão (R$ 1 milhão x 1,1). Consequentemente, o
acréscimo da receita seria somente de 9,09% [(R$ 1,2 milhão – R$ 1,1 milhão) ÷ R$ 1,1 milhão],
bem inferior aos 20% calculados a priori.
A maior dificuldade de fazer essa atualização monetária não consiste nos cálculos em si, que
podem ser muito simples (quando estudarmos a análise horizontal),12 mas, sim, na escolha do índice
de inflação que “melhor” represente a perda de poder aquisitivo da empresa analisada. A escolha de
índices de inflação equivocados pode distorcer toda a análise. Imagine, no exemplo da comparação
da receita de 20X5 com a de 20X4, se considerássemos que a inflação de 20X4 tivesse sido de 30%.
Diríamos que a receita teria sofrido uma queda, em termos reais, de -7,69% [(R$ 1,2 milhão –
R$ 1,3 milhão) / R$ 1,3 milhão], bem inferior aos acréscimos de 20% (nominais) e 9,09% (reais)
calculados anteriormente.

Informações detalhadas sobre a inflação no Brasil podem ser obtidas na Revista Conjuntura
Econômica, editada pela Fundação Getulio Vargas mensalmente, bem como em sites
especializados:

<www.fgv.br>

<www.ibge.gov.br>

<www.fipe.org.br>

12
É importante ressaltar que a correção monetária pode ser reconhecida nas demonstrações contábeis de forma muito
mais adequada (e complexa) do que a abordada nesta apostila: a chamada Correção Monetária Integral. Sobre tal assunto,
os seguintes livros são sugeridos: MARTINS, Eliseu. Análise da correção monetária das demonstrações financeiras. São Paulo:
Atlas, 1993; ALMEIDA, Marcelo Cavalcanti. Auditoria da correção monetária integral das demonstrações financeiras. São Paulo:
Atlas, 1988.

147
Definição de parâmetros
Uma vez que se conhece a empresa e se confia nas suas demonstrações contábeis – ajustadas
e reclassificadas, ou não –, é necessário conhecer um pouco sobre o seu ramo de atuação, o seu
histórico ou sobre as estimativas que se tinha a respeito do futuro da empresa, dependendo do
propósito da análise. Todo esse conhecimento adicional é necessário para se definirem os
parâmetros com os quais a situação e o desempenho efetivo da empresa serão comparados.
Nesse sentido, dependendo do propósito da análise, pode-se:
comparar a empresa com a média do setor econômico em que ela atua. Por exemplo,
imagine que vamos analisar uma empresa siderúrgica, por hipótese a Companhia
Siderúrgica Nacional (CSN). Deveríamos calcular de outras empresas siderúrgicas – como
a Vicunha, a Gerdau e a Usiminas – todos os índices que calcularíamos da CSN. Dessa
forma, seríamos capazes de identificar quais seriam a situação econômico-financeira e o
desempenho médio das principais empresas desse setor econômico para, então,
compararmos a situação e o desempenho efetivos da CSN (empresa hipoteticamente
analisada).
comparar a empresa (hoje) com a empresa no passado. Vejamos, ainda, o exemplo
hipotético da análise da CSN. Poderíamos desenvolver todos os cálculos que fazemos de
2005, para diversos anos mais remotos. Digamos 20X4, 20X3, 20X2, 20X1 e 20X0. Dessa
forma, poderíamos comparar a situação e o desempenho atuais da CSN com o seu próprio
desempenho e a situação econômico-financeira em períodos anteriores.
comparar a empresa (hoje) com o que havia sido estimado (orçamento). Tendo-se acesso
a informações gerenciais, é possível comparar o desempenho efetivo com o que havia sido
estimado no passado. Por exemplo, tendo-se acesso aos planos de investimentos e aos
orçamentos detalhados, o analista é capaz de avaliar se o desempenho efetivo foi adequado
ao que se esperava.

Certamente, a definição de parâmetros é uma etapa fundamental da análise e, talvez, uma das
mais subjetivas e “perigosas”. Se o parâmetro for mal definido, pode-se chegar a conclusões equivocadas,
mesmo se todas as demais etapas da análise forem desenvolvidas com o maior rigor técnico.
Vejamos um exemplo alheio à contabilidade. Todos nós sabemos que 37oC (Celsius) é um
parâmetro para definir se uma pessoa adulta está com febre. Imagine uma enfermeira que, dispondo
de um termômetro de última geração, meça a temperatura de um paciente e verifique que ele está
com 39,5oC. No entanto, ao analisar o resultado, a enfermeira se engana em relação ao parâmetro,
acreditando que só há febre se a temperatura for superior a 40oC. Ela dirá ao trêmulo paciente que
ele está ótimo e que pode voltar às suas atividades normais, quando, na verdade, o paciente necessita
de cuidados médicos.

148
É possível obter parâmetros para algumas medidas econômico-financeiras em sites de
corretoras de valores mobiliários e em revistas especializadas. Exemplos são:

<www.agorasenior.com.br>

<www.infoinvest.com.br>

Revista Conjuntura Econômica – suplemento 500 Maiores Empresas

Revista Exame – suplemento Maiores e Melhores e Jornal Valor Econômico – suplementos


Valor 1000.

Cálculos
A análise das demonstrações contábeis é feita por três métodos basicamente: a análise vertical
(ou de estrutura), a análise horizontal (ou de comportamento) e a análise por indicadores (ou
quocientes). Nesta unidade, são apresentados os três métodos, desenvolvendo-se o exemplo da
Droga Raia.

Análise vertical
A análise vertical tem por finalidade verificar a estrutura patrimonial e de resultado da
entidade. É utilizada para avaliar a relação entre as contas de uma única demonstração contábil. A
conta que representa a totalidade da demonstração contábil é tida como 100%, enquanto os outros
itens são expressos em percentagem dessa conta. Desse modo, trata-se de uma metodologia de
análise que mostra a participação percentual de cada um dos itens das demonstrações contábeis em
relação ao somatório do seu grupo.
Com esse instrumento, podemos visualizar, de modo objetivo e direto, a representatividade
de cada componente das demonstrações, identificando aqueles que mais contribuem para a
formação do conjunto objeto da análise.
A análise vertical é de grande importância, principalmente, quando aplicada à
demonstração de resultado do exercício, porque possibilita detectar a composição percentual
das receitas e despesas, evidenciando aquelas que mais influenciaram na formação do lucro ou
do prejuízo.
A análise vertical da DRE considera a receita como 100%, uma vez que é da receita que todas
as despesas são subtraídas até se chegar ao resultado do período (lucro ou prejuízo). Vejamos a
análise vertical da DRE da Droga Raia, de 2017.

149
Tabela 55 – Análise vertical da DRE da Droga Raia (2017)

Nesse exemplo, identificamos que o CMV corresponde a 69,8% da Receita, as Despesas


líquidas das Receitas Operacionais correspondem a 24,2% da Receita, enquanto o Lucro Líquido
corresponde a 3,9%, isto é, a empresa tem uma lucratividade líquida de 3,9%, em 2017.
Quando a análise vertical é aplicada ao Balanço Patrimonial, possibilita detectar a composição
percentual dos tipos de aplicações e as origens de recursos que compõem o patrimônio da entidade.
A análise vertical do BP considera o Ativo total como 100%, já que este corresponde ao
patrimônio total da entidade. Vejamos a análise vertical do BP da Droga Raia, em 2017.

Tabela 56 – Análise vertical do BP da Droga Raia (2017)

Nesse exemplo, identificamos que 60,8% do patrimônio são aplicados em Ativos Realizáveis
no Curto Prazo (Ativo Circulante – AC), 1,1% em Ativos Realizáveis em Longo Prazo (RLP),
19,7% em Imobilizado e 18,4% em Intangível. Enquanto isso, identificamos que o patrimônio é
financiado, 38,6% com dívidas que vencem no curto prazo (Passivo Circulante, PC), 11,1% por
dívidas que vencem no longo prazo (Passivo Não Circulante, PÑC) e 50,3% por capitais próprios
da entidade (Patrimônio Líquido – PL).

150
Análise horizontal
A análise horizontal tem por finalidade verificar o comportamento do patrimônio e do
resultado da entidade. É utilizada para avaliar a relação, ao longo do tempo, de cada conta das
demonstrações contábeis entre, no mínimo, dois períodos. Os valores da demonstração contábil de
data mais remota são tidos como base, enquanto os valores dos anos mais recentes são expressos em
percentagem, em relação ao valor do ano anterior.
Trata-se de metodologia de análise que mostra o comportamento – evolução ou involução –
de cada um dos itens das demonstrações contábeis, período após período, tal qual a análise de uma
série histórica.
Vejamos a análise horizontal da DRE da Droga Raia, em que se comparam os valores de 2017
com os de 2016:

Tabela 57 – Análise horizontal da DRE da Droga Raia (2017-2016)

Nesse exemplo, verifica-se que a Receita aumentou 17,4%, o que, associado ao aumento do
CMV em 19%, provocou o aumento do Lucro Bruto em 13,8%. O Lucro antes de resultados
financeiros e tributos teve um aumento nominal de 12,3%. Na última linha, percebe-se que o Lucro
Líquido aumentou 13,6% entre 2016 e 2017.
Ocorre que essa análise é enganosa, uma vez que ignora o impacto da inflação – perda do
poder aquisitivo da moeda.
Em função de a análise horizontal comparar valores de datas diferentes, é necessário, antes de
desenvolver os seus cálculos, anular o efeito da inflação sobre os números apresentados nas
Demonstrações Contábeis analisadas. Isso pode ocorrer de duas formas:
Pela atualização dos valores obtidos nas Demonstrações Contábeis tradicionais (apuradas
em valores nominais). Essa alternativa não chega a ser complicada; basta utilizar uma
simples planilha eletrônica para fazer os cálculos. O verdadeiro problema encontrado pelo
analista é a escolha do índice de preços. Por exemplo: IGP-M, IGP-DI, IPC, IPA, IPC-
A, INCC, variação cambial, variação do preço do barril de petróleo tipo Brent, variação

151
do preço da saca de café, etc. Qual deles melhor reflete a perda de poder aquisitivo sofrida
pela empresa sob análise?
Pela obtenção das Demonstrações Contábeis apuradas em Moeda de Poder Aquisitivo
Constante, ou seja, de acordo com a Correção Monetária Integral. Essa seria a melhor
alternativa para o analista, não fosse pelo fato de a CVM ter desobrigado as empresas a
divulgar as suas demonstrações contábeis por esse critério (Instrução CVM nº 248/96).

Em vista disso, a análise horizontal é efetuada tomando-se por base dois ou mais períodos,
cujos valores são expressos em moeda constante e em valores monetários da mesma data, tendo por
objetivo observar a evolução ou involução dos seus componentes.

Sobre a Correção Monetária Integral (CMI), sugerem-se:

ALMEIDA, Marcelo Cavalcanti. Auditoria da correção monetária integral das


demonstrações financeiras. São Paulo: Atlas, 1988.

MARTINS, Eliseu. Análise da correção monetária das demonstrações financeiras. São


Paulo: Atlas, 1993.

Novamente, vejamos o exemplo de aplicação da análise horizontal na DRE da Droga Raia, em


que se comparam os valores de 2016 com os de 2017, considerando-se que a inflação medida pelo IGP-
M da FGV, entre 31 de dezembro de 2016 e 31 de dezembro de 2017, seja um bom parâmetro para
medir a perda de poder aquisitivo da empresa. Desse modo, vamos atualizar os valores de 2016 em -
0,52%. Isso mesmo, em 2017 houve deflação!
Em primeiro lugar, é necessário atualizar os valores de 2016, que estavam expressos em moeda
de 2016 e por isso representavam o poder aquisitivo de 31 de dezembro de 2016, $2016, para
moeda de poder aquisitivo em 31 de dezembro de 2017, $2017:

Tabela 58 – Análise horizontal da DRE da Droga Raia (2017-2016): IGP-M (FGV)

152
Uma vez que se tenham atualizado os valores do ano mais remoto (2016) ao poder aquisitivo
do ano mais recente (2017) é que se deve desenvolver a análise horizontal. Dessa forma, comparam-
se os valores do ano mais recente (2017) com os valores do ano mais remoto corrigidos para a moeda
de 2016 (2016 em $2017), como veremos a seguir:

Tabela 59 – Análise horizontal da DRE da Droga Raia (2017-2016): correção para a moeda de 2016

Com a atualização monetária, percebe-se que a Receita aumentou 18%, o que, associado
ao aumento do CMV em 19,6%, provocou o aumento do Lucro Bruto em 14,4%. O Lucro antes
do resultado financeiro e dos tributos sofreu um aumento real de 12,9%. Na última linha,
percebe-se que o Lucro Líquido real também aumentou 14,2% em 2017 comparado com 2016.
Com a atualização monetária, tem-se o que é conhecido como “variação real”, ou seja, já
expurgado o efeito inflacionário.
Esses resultados não são significativamente diferentes daqueles obtidos sem se atualizarem os
valores de 2016, que sugerem ter ocorrido um aumento de 17,4% na Receita e de 13,6% no Lucro
Líquido. Essa é a diferença entre variação nominal e variação real.13 Tal diferença não foi
representativa porque a variação de preços no período foi muito pequena (-0,52%). Contudo, o
meu objetivo didático aqui é apresentar a técnica independentemente dos valores envolvidos.
Quando a análise horizontal é aplicada ao Balanço Patrimonial, é possível detectar o
comportamento – a evolução ou a involução – de cada aplicação e a origem de recursos que
compõem o patrimônio da entidade.

13
A variação nominal desconsidera os efeitos da inflação.

153
Vejamos a análise horizontal do Balanço Patrimonial da Droga Raia, tendo sido os valores de
2016 atualizados pelo IGP-M (FGV).

Tabela 60 – Análise horizontal do Balanço Patrimonial da Droga Raia: valores de 2016 atualizados
pelo IGP-M (FGV)

Pela análise horizontal do Balanço Patrimonial, percebe-se que o patrimônio (Ativo Total,
ou Passivo + Patrimônio Líquido) sofreu um aumento real de 14,8%, entre 2016 e 2017. O Ativo
Circulante aumentou 15,2%, o Ativo Realizável em Longo Prazo aumentou 35,9%, o imobilizado
aumentou 27,5%, e o intangível aumentou 2%, enquanto o Passivo Circulante aumentou 14,7%,
o Passivo não Circulante aumentou 34,4%, e o Patrimônio Líquido teve aumento real de 11,3%.

Análise por indicadores


Para o exame da situação econômico-financeira de uma empresa, com vista à avaliação da sua
capacidade e qualidade, em termos de LIQUIDEZ, ENDIVIDAMENTO e RENTABILIDADE, o
analista deve-se valer das Demonstrações Contábeis de, pelo menos, três exercícios sucessivos, e deles
extrair os diversos indicadores que lhe forneçam as informações desejadas.
O objetivo da análise definirá não só o tipo de INDICADORES a serem utilizados, mas
também a postura do analista.
Ao gestor da empresa importa, fundamentalmente, detectar problemas e pontos fortes existentes
para, a partir daí, traçar uma estratégia no sentido de corrigir as falhas ou aproveitar as oportunidades.
Já ao investidor ou credor externo interessa saber da viabilidade ou não da aplicação de recursos na
empresa. A ótica do analista é que determinará os caminhos a serem trilhados.
Em um empréstimo de capital de giro de curto prazo, por exemplo, o gerente de um
banco – basicamente, interessado no retorno seguro do capital emprestado – privilegiará os
aspectos de LIQUIDEZ e ENDIVIDAMENTO. Já em se tratando de empréstimo de longo
prazo, o gerente também dará ênfase à eficiência operacional da empresa, ou seja, ao enfoque
da RENTABILIDADE.

154
O principal instrumento utilizado para a análise da situação econômico-financeira de uma
empresa é o índice, ou seja, o resultado da comparação entre grandezas.
Os índices estabelecem a relação entre contas ou grupo de contas das Demonstrações Contábeis,
visando a evidenciar determinado aspecto da situação econômico-financeira de uma empresa. Desse
modo, os índices servem como termômetro na avaliação da “saúde financeira” da empresa.
No entanto, o índice não deve ser considerado isoladamente, mas, sim, sob o aspecto
dinâmico e dentro de contexto mais amplo, em que outros indicadores e variáveis devem ser
ponderados de forma conjugada.
Por exemplo, um elevado grau de endividamento não significa, necessariamente, que a
empresa esteja à beira da insolvência. Há empresas que convivem com níveis altos de
endividamento sem comprometer a sua solvência, já que há outros fatores que podem atenuar
essa condição.
Para melhor compreensão da influência de cada indicador na análise, faremos o seu estudo
em três grupos:
Indicadores de Liquidez – medem a posição financeira da empresa, em termos de
capacidade de pagamento.
Indicadores de Endividamento – avaliam a segurança oferecida pela empresa aos capitais
alheios e revelam a sua política de obtenção de recursos.
Indicadores de Rentabilidade – avaliam o desempenho global da empresa, em termos de
capacidade de remunerar o capital nela aplicado.

Considere as demonstrações contábeis da Droga Raia, cujos dados servirão de base para o
estudo dos índices econômico-financeiros.

Indicadores de liquidez
Os índices de liquidez são medidas de avaliação da capacidade financeira da empresa em
satisfazer os compromissos para com terceiros. Evidenciam quanto a empresa dispõe de bens e
direitos, realizáveis em determinado período, em relação às obrigações exigíveis, no mesmo período.
Entre os índices de liquidez mais conhecidos, estão a Liquidez Corrente e a Liquidez Geral. Cada
um fornece informações diferentes sobre a situação da empresa.
De maneira geral, define-se que, QUANTO MAIOR a liquidez, MELHOR será a situação
financeira da empresa. No entanto, devemos ter em mente que um alto índice de liquidez não
representa, necessariamente, boa saúde financeira. O cumprimento das obrigações nas datas
previstas depende de uma adequada administração dos prazos de recebimento e de pagamento.
Desse modo, uma empresa que possui altos índices de liquidez, mas mantém mercadorias
estocadas por períodos elevados, recebe com atraso as suas vendas a prazo ou mantém duplicatas
incobráveis na conta Clientes, poderá ter problemas de liquidez, ou seja, poderá ter dificuldades
para honrar os seus compromissos nos vencimentos.

155
Liquidez corrente
A Liquidez Corrente (LC) corresponde ao quociente entre o Ativo Circulante (AC) e o
Passivo Circulante (PC).

AC
LC =
PC

A LC é um dos índices mais conhecidos e utilizados na análise de balanços. Indica quanto a


empresa poderá dispor em recursos de curto prazo (disponibilidades, clientes, estoques, etc.) para
pagar as suas dívidas circulantes (fornecedores, empréstimos e financiamentos de curto prazo,
contas a pagar, etc.).

Liquidez geral
A Liquidez Geral (LG) corresponde ao quociente entre o somatório do Ativo Circulante (AC)
com o Realizável em Longo Prazo (RLP), e o somatório do Passivo Circulante (PC) com o Passivo
não Circulante (PÑC).

AC + RLP
LG =
PC + PÑC

A liquidez geral é uma medida da capacidade de pagamento de todo o passivo exigível da


empresa (PC + PÑC), utilizando-se todos os ativos realizáveis da entidade (AC + RLP). Esse índice
indica quanto a empresa poderá dispor de recursos circulantes e de longo prazo para honrar todos
os seus compromissos assumidos com terceiros (circulantes e de longo prazo).

156
Vejamos os cálculos dos Indicadores de Liquidez da Droga Raia, em 2017:

Tabela 61 – Indicadores de liquidez da Droga Raia (2017)

Em vista disso, a Droga Raia apresenta:


liquidez corrente de 1,58, isto é, a empresa poderá dispor de R$ 1,58 de AC (bens e
direitos de curto prazo) para cada R$ 1,00 de PC (obrigações de curto prazo).
liquidez geral de 1,24, ou seja, para cada R$ 1,00 de dívidas totais (de curto e longo prazo)
a empresa poderá dispor de R$ 1,24 de recursos realizáveis no curto e no longo prazo.
Desse modo, a priori, conseguirá pagar todas as dívidas de curto e longo prazo utilizando
somente os ativos realizáveis nos mesmos prazos.

Indicadores de endividamento
Os índices de endividamento avaliam a “segurança” que a empresa oferece aos capitais de
terceiros, e revelam a sua política de obtenção de recursos e de alocação destes nos diversos itens
do Ativo.
O Ativo de uma empresa é financiado pelos capitais próprios (PL) e por capitais de terceiros
(Passivo). Quanto maior for a participação de capitais de terceiros nos negócios de uma empresa,
maior será o risco a que os terceiros estão expostos.
A interpretação básica dos índices de endividamento é: QUANTO MAIOR, PIOR.

157
Endividamento geral
O Endividamento Geral (EG) corresponde ao quociente entre o somatório do Passivo
Circulante (PC) com o Passivo Não Circulante (PÑC) pelo Ativo total.

PC + PÑC
EG =
Ativo

Esse índice revela o grau de endividamento total da empresa. Expressa a proporção de recursos
de terceiros financiando o Ativo e, por diferença (1 – EG), a fração do Ativo que está sendo
financiada pelos recursos próprios.
A análise desse indicador, por diversos períodos sucessivos, mostra a política de obtenção de
recursos da empresa, isto é, se a empresa vem financiando o seu Ativo predominantemente com
recursos próprios ou de terceiros, e em que proporção.
Quanto menor for o endividamento, menor o risco que a empresa estará oferecendo aos
capitais de terceiros. No entanto, deve-se considerar que determinadas empresas convivem muito
bem com endividamento relativamente elevado, principalmente quando o endividamento tiver um
perfil de longo prazo ou quando o Passivo de Curto Prazo não for oneroso, fruto de uma adequada
administração de prazos de fornecedores (Origens de Capital de Giro).
O endividamento de uma empresa pode apresentar as seguintes situações:

Passivo > PL Logo, Endividamento Geral > 0,5

passivo
ativo

PL

Passivo = PL Logo, Endividamento Geral = 0,5

passivo
ativo
PL

158
Passivo < PL Logo, Endividamento Geral < 0,5

passivo

ativo
PL

A adequação desse índice para cada empresa dependerá, entre outros aspectos, de
comparações com os índices apresentados por outras empresas de mesmo setor econômico, da
tendência demonstrada na análise de diversos exercícios, da composição do endividamento – curto
ou longo prazo – e, ainda, do custo financeiro dessas dívidas.

Endividamento oneroso
O Endividamento Oneroso (EO) ou Passivo Oneroso sobre Ativo (POSA) corresponde ao
quociente entre o somatório do Passivo Circulante Oneroso (PCO) com o Passivo não Circulante
Oneroso (PÑCO) pelo Ativo total.

PCO + PÑCO
EO = POSA =
Ativo

Por Passivo Oneroso (seja de curto ou de longo prazo), entendem-se as dívidas com terceiros
sobre as quais a entidade paga (deve, incorre) juros (despesas financeiras). Exemplos de passivos
onerosos são: empréstimos, financiamentos, debêntures e impostos parcelados.14
Esse índice mostra a participação das fontes onerosas de capital no financiamento dos
investimentos totais da empresa, revelando a sua dependência de instituições financeiras.
Deve-se observar que, quanto maior for esse índice, maiores serão as despesas financeiras
incorridas, o que afeta negativamente o resultado do exercício e o fluxo de caixa da entidade.
Também é oportuno lembrar que o analista sempre deve tomar um padrão como referência
para análise – tema apresentado na Unidade 5.4 deste módulo.

14
Das dívidas tributárias (obrigações fiscais), só devem ser considerados como passivo oneroso os impostos parcelados,
isto é, aqueles tributos que a entidade não pagou na data de vencimento e renegociou a sua dívida com o poder público,
comprometendo-se a pagá-la em tantos meses futuros, acrescido de correção monetária e juros. Um exemplo,
razoavelmente comum, de imposto parcelado é decorrente do Programa de Recuperação Fiscal (Refis), da SRF.

159
Vejamos os cálculos dos Indicadores de Endividamento da Droga Raia, em 2017.

Tabela 62 – Indicadores de endividamento da Droga Raia (2017)

A Droga Raia apresenta, portanto:


endividamento geral de 0,50. De onde se pode concluir que: (a) a empresa deve a terceiros,
no curto e no longo prazo, o correspondente a 50% do seu Ativo; e (b) dos recursos
investidos no Ativo, 50% provêm de terceiros (fornecedores, bancos, etc.).
endividamento oneroso, ou passivo oneroso sobre ativo, de 0,11. Isso representa que
apenas 11% dos Ativos estão sendo financiados por recursos onerosos de terceiros (dívidas
onerosas). A princípio, esse representa um índice bastante baixo. No entanto, deve-se
ponderar o custo financeiro incidente sobre esses recursos bem como a sua finalidade.
Observe que cabe ao analista julgar quais itens de passivo são onerosos. Nesse caso,
compreendemos que do passivo circulante somente os Empréstimos e Financiamentos são
onerosos. No entanto, do passivo não circulante entendemos que além dos Empréstimos
e Financiamentos também são onerosos os Passivos com Partes Relacionadas (se o
empréstimo obtido com as partes relacionadas foi realizado em condições normais de
mercado, certamente a Droga Raia está pagando juros a suas partes relacionadas) e a
obrigação decorrente do Programa de Recuperação Fiscal (que o governo cobra juros com
base na Selic).

160
Indicadores de rentabilidade
A rentabilidade é o reflexo das políticas e das decisões adotadas pelos administradores da
entidade, expressando o nível de eficiência e o grau do êxito econômico-financeiro atingido.
Todos os índices de rentabilidade devem ser considerados: QUANTO MAIOR, MELHOR.

Retorno sobre o patrimônio líquido


O Retorno sobre o Patrimônio Líquido (RPL) corresponde ao quociente entre o Lucro
Líquido (LL) e o Patrimônio Líquido médio (PLm).

LL
RPL = x 100
PLm

Sabe-se que o Patrimônio Líquido médio (PLm) corresponde à média aritmética do


Patrimônio Líquido (PL) da entidade, medido em duas datas consecutivas, no início e no final do
período contábil, ao qual se refere o Lucro Líquido utilizado como numerador. Sempre que houver
dados de duas demonstrações consecutivas, deve-se utilizar a média do Patrimônio Líquido para
comparar com o Lucro, de forma a melhor traduzir a rentabilidade do período, tendo em vista que
o PL pode sofrer alterações durante o exercício, tais como: aumento de capital, distribuição de
dividendos, saída de sócios, etc.

(PL0 + PL1)
PLmédio =
2

Desse modo, se o numerador for o Lucro Líquido do ano de 20X7, o PLm será a média do PL
de 1º/01/20X7 com o PL de 31/12/20X7. Caso o numerador seja o lucro do primeiro trimestre de
20X7, o PLm será a média do PL de 1º/01/20X7 com o PL de 31/03/20X7. Atenção especial no
cálculo do Patrimônio Líquido médio deve ser atribuída ao problema da inflação, estudado na Análise
Horizontal (tópico 6.5.2 deste módulo). Afinal, o Patrimônio Líquido da data mais remota (PL0)
deve ser atualizado monetariamente até a data do Patrimônio Líquido da data mais recente (PL1).
O RPL mede a remuneração dos capitais próprios investidos na empresa, ou seja, quanto foi
acrescentado em determinado período ao patrimônio dos sócios. Do ponto de vista de quem investe
em uma empresa, esse deve ser o índice mais importante.
O RPL permite, além de avaliar a remuneração do capital próprio, analisar se esse rendimento
é compatível com alternativas de aplicação (custo de oportunidade). Um investidor, por exemplo,
avaliando a RPL, poderá optar por uma aplicação no mercado financeiro em vez de aplicar em uma
empresa que está oferecendo baixa rentabilidade.

161
A polêmica do PL médio
Na literatura, não há unanimidade quanto ao denominador desta fórmula. Entre as diversas
formas de se apurar o denominador, além do PL médio, vejamos o PL inicial (PLi).

LL
RPL = x 100
PLi

Os que defendem o uso do PL inicial sustentam o seu argumento no conceito de


rentabilidade. O investidor que aplicou efetivamente o PLi, no fim de determinado período, quer
saber a que taxa foi remunerado, então, divide o ganho pelo valor efetivamente investido (PLi). Essa
abordagem é bastante lógica e intuitiva, mesmo porque é assim que raciocinamos quando
conversamos com o gerente do banco sobre as alternativas de investimento. Vejamos:
O gerente do banco nos oferece três fundos de investimento com diferentes riscos e
rentabilidades esperadas. Digamos que tenhamos R$ 10.000,00 disponíveis para investir. A
rentabilidade de cada fundo de investimento é apurada mediante a divisão do rendimento esperado
pelo capital investido (R$ 10.000,00, que seria o nosso PLi).
Não há problema algum em se trabalhar com o PL inicial. Nesse ponto, não há critério certo
nem critério errado. Você é o analista, consequentemente, você deverá escolher o critério de análise
(PLm ou PLi), conforme você se sentir mais “confortável”.
No entanto, ressaltamos que, para calcular o retorno real do investimento, é necessário
atualizar o PL inicial pela taxa de inflação.

Retorno sobre o ativo


O Retorno sobre o Ativo (RA) corresponde ao quociente entre o Lucro Líquido (LL)
deduzido das Despesas Financeiras líquidas do efeito tributário e o Ativo Total médio.

LL + Despesa Financeira x (1 – @ IR)


RA = x 100
Ativo médio

Também conhecida como Taxa de Retorno dos Investimentos, esse índice reflete a que taxa
a empresa remunera os investimentos totais nela aplicados.
Na fórmula, @IR representa a alíquota de IR (Imposto de Renda) e CS (Contribuição Social
sobre o Lucro), que para a maioria das empresas brasileiras é de 34%.
A necessidade de se adicionarem ao lucro líquido as despesas financeiras líquidas do efeito
tributário decorre da lógica desse indicador. O Retorno sobre o Ativo, como o próprio nome sugere,

162
mede a rentabilidade que a entidade oferece a todos os recursos nela investidos (ativo total),
independentemente de como são financiados (recursos próprios ou de terceiros),
consequentemente, é necessário contemplar no numerador todas as remunerações que a entidade
oferece aos seus financiadores. Sabendo que o Ativo é financiado pelo Passivo e pelo Patrimônio
Líquido, o numerador precisa contemplar a remuneração oferecida aos sócios (patrimônio líquido),
isto é, o Lucro Líquido, e a remuneração oferecida pela entidade aos terceiros (passivo), o que é
reconhecido contabilmente pelas Despesas Financeiras.
A exclusão dos impactos tributários sobre as despesas financeiras é justificada pelo fato de tais
despesas serem dedutíveis do IR e da CS. A literatura de finanças apresenta a despesa financeira como
um tax-shield, ou seja, uma proteção ao pagamento de impostos. Afinal, em função da dedutibilidade
fiscal da despesa financeira, o ônus efetivo do custo de capital de terceiros é a Despesa Financeira x (1 –
@IR), ou seja, deduzida da parcela da sua respectiva dedutibilidade.
Sempre que houver dados de duas demonstrações consecutivas, deve-se utilizar o Ativo Total
Médio para comparar com o Lucro.
Sabe-se que o Ativo Total médio (ATm) corresponde à simples média aritmética do Ativo
Total da entidade, medido em duas datas consecutivas, no início e no final do período contábil ao
qual se refere o numerador, ou seja, ATm = (AT1 + AT0) / 2.
Preferencialmente, o Ativo total do início do período deve ser corrigido pela inflação
observada no período.

(Ativo0 + Ativo1)
Ativo médio =
2

163
Vejamos os cálculos dos Indicadores de Rentabilidade da Droga Raia, em 2017, tomando-se
os valores de 2016 corrigidos pelo IGP-M (FGV):

Tabela 63 – Indicadores de Rentabilidade da Droga Raia (2017): correção de 2016 pelo IGP-M
(FGV)

Por essa análise, é possível identificar que a Droga Raia apresentou:


retorno do patrimônio líquido de 16,6%; isso significa que os sócios obtiveram uma
remuneração de 16,6%, no período, sobre o capital investido na empresa.
retorno do ativo de 10,8%, ou seja, o capital total investido nessa empresa – quer por
terceiros, quer pelos sócios – é remunerado a 10,8% ao ano.

164
MÓDULO V – CONTABILIDADE DE CUSTOS

Este módulo é dedicado à introdução ao estudo da Contabilidade Gerencial. A rigor,


começamos com a apresentação dos conceitos fundamentais de custos, as três classificações mais
comuns dos custos – quanto à ocorrência, quanto ao produto e quanto ao volume – e apresentamos
comentários relativos a outros conceitos importantes à adequada compreensão de custos. Na
sequência, apresentamos os dois sistemas de custeio – por ordem e por processo – e os dois métodos
de custeio mais comuns entre entidades fabris – custeio variável e custeio por absorção. No
apêndice, apresentamos custeio baseado em atividades.
No fim deste módulo, esperamos que o leitor esteja apto a compreender os fundamentos da
Contabilidade de Custos e a mensurar os custos de produtos manufaturados mediante estruturas
não complexas.
O próximo módulo é dedicado ao uso gerencial da informação gerada com base no custeio
variável.

Conceitos fundamentais e classificação de custos


Estrutura fundamental para o estudo de Contabilidade Gerencial
Dois são os termos que entendemos serem os mais relevantes ao estudo da Contabilidade
Gerencial: custo e resultado.
Custo pode ser definido como os gastos incorridos na produção de bens e serviços. Desse
modo, gasto é gênero do qual custo é uma espécie. Outra espécie de gasto é a despesa, que
estudamos nos três módulos anteriores como “aumento de ativo ou redução de passivo, que reduz
o patrimônio líquido e não é distribuição aos proprietários da entidade”. No entanto, aqui cabe
diferenciar custo e despesa – o custo sendo o gasto incorrido na produção, e a despesa, o gasto
incorrido na obtenção de receita e manutenção da entidade.
Já o resultado, normalmente referenciado como lucro – sendo otimista –, é um dos principais
conceitos em Contabilidade. Ocorre que há diversas maneiras de medir o resultado (lucro ou
prejuízo), dependendo das premissas e do propósito de mensurar o desempenho. O importante é
que não há um método certo ou errado nem um método ideal. Os diversos métodos coexistem,
pois os usuários da contábil têm demandas diferentes por informação.
No entanto, qual lucro utilizar? Vamos nos ater a apenas três, por meio das definições que
apresentamos a seguir, para subsidiar o leitor no entendimento dos termos que utilizamos ao longo
deste material, ao falarmos em resultado (lucro) contábil, econômico e financeiro.
Desse modo, para o nosso contexto, consideramos que:
O resultado contábil deriva do confronto, em um dado período, de receitas e despesas
objetivamente identificáveis, as quais são reconhecidas tempestivamente, tendo por norte
a sua competência e a sua realização sob o ponto de vista contábil. Nesse sentido, as receitas
e as despesas são reconhecidas e mensuradas de acordo com os princípios contábeis. O
lucro contábil é aquele apurado pela Contabilidade Financeira. Desse modo, já o
estudamos nos Módulos II e III deste material.
O resultado econômico é o resultado contábil ajustado pelas receitas e despesas de natureza
subjetiva, as quais são reconhecidas tempestivamente, quando da ocorrência do evento
econômico que lhes deu origem. Leva em consideração, principalmente, o conceito de
custo de oportunidade, o qual tenta mensurar e medir por algum método. Além do custo
de oportunidade, podemos dizer que o capital intelectual e o valor da marca são outros
aspectos de natureza subjetiva.
O resultado financeiro está associado aos fluxos monetários de uma entidade e aos seus
respectivos prazos. Deriva da diferença, em um dado período, entre os ingressos potenciais
ou efetivos de caixa e as saídas potenciais ou efetivas de caixa, associados ao custo do
dinheiro no tempo.

Essa é uma forma de sintetizar conceitos já tão tratados pela literatura, de maneira a
possibilitar a correta interpretação das nossas exposições ao longo deste e do próximo módulo.
Basicamente, existem três critérios de classificação dos custos: quanto à sua ocorrência,
quanto à sua alocação ao produto e quanto ao volume de produção.
A seguir, veremos cada um dos critérios, lembrando sempre que os custos são os gastos
relacionados com a “produção” da empresa, em determinado período, e que toda a discussão sobre
custos depende do objeto de custeio analisado – aquele item ou aquela atividade cujo custo se
pretende medir.

166
Quanto ao produto: custos diretos e indiretos
Uma questão com relação a custos é saber quando eles têm um relacionamento direto ou
indireto com determinado objeto de custeio, normalmente, o próprio produto fabricado ou
serviço prestado.

Custos diretos
Custos diretos a um objeto de custeio são os custos diretamente relacionados a esse objeto,
isto é, que podem ser fácil e economicamente identificados ao objeto de custeio, sem qualquer
rateio. Entende-se por rateio a distribuição arbitrária dos custos que não são diretamente
identificados e apropriados aos objetos de custeio. São exemplos de custos diretos aqueles com
matéria-prima consumida e mão de obra dos operários. Em algumas situações, a mão de obra
pode ser um custo indireto.15
Em outras palavras, pode-se dizer que, em alguns casos, as parcelas de recursos são
consumidas apenas por um tipo de produto, e esse fato é fácil e objetivamente identificado, seja
devido à observação simples ou a sistemas automatizados, como controle eletrônico de vazão,
quadros de distribuição de energia, etc. Nesses casos, pode-se assumir que aquele produto é o
responsável por aquela parcela de recurso consumido, de modo que a mensuração desse consumo
se dá de forma direta. Por essa razão, dá-se o nome de “custo direto” à informação desse consumo
de recurso.
Dessa forma, para gerar tal informação, não é necessário nenhum tipo de aproximação ou
julgamento sobre qual produto consome qual parcela de recursos, ou seja, não são necessárias
distribuições arbitrárias ou, como chamam, “rateios”. Por isso, esse tipo de custo é mais crível por
representar a realidade sobre o consumo de recursos de forma mais objetiva e fidedigna.

Custos indiretos
Custos indiretos a um objeto de custeio são aqueles que não podem ser identificados com o
objeto de custeio de maneira economicamente viável, pois são comuns a dois ou mais objetos de
custeio (áreas ou produtos). Os custos indiretos são alocados ao objeto de custo por meio de um
método de alocação de custo denominado rateio. Logo, são aqueles que não oferecem condição de
medida objetiva; qualquer tentativa de alocação tem de ser feita de maneira estimada e, algumas
vezes, arbitrária. São exemplos de custos indiretos a depreciação, a manutenção, o seguro e o aluguel
do parque fabril.
Essa tipificação de custos é a utilizada para fins contábeis, tanto os societários quanto os fiscais.
Alguns insistem em utilizar essa tipificação também para despesas, o que, a nosso ver, seria uma

15
O salário do supervisor da produção corresponde a um custo indireto, por exemplo.

167
maneira de tentar expressar o Custo Total (full cost) de um produto. Isso pode gerar – e gera –
confusões, principalmente nas empresas prestadoras de serviços, que acabam por não segregar os seus
gastos em custo ou despesa.
No entanto, nada impede que empresas – principalmente as comerciais, como lojas de
departamentos e supermercados – classifiquem as suas despesas em “diretas e indiretas” em relação
“à linha de produtos”. Por quê? Comparemos as lojas dessas empresas às linhas de produção ou até
mesmo às fábricas: se considerarmos que as lojas são o local da “produção” do serviço de
comercialização, poderemos entender os gastos da loja – normalmente, denominados despesas –
como direta ou indiretamente relacionados aos diversos produtos ou famílias de produtos que ali se
encontram. Dessa maneira, teríamos uma adição aos custos das mercadorias vendidas de outros
gastos que representam esforço sem o qual não se teria a respectiva venda, aqui denominada
produção do serviço de comercialização.
Assim, dependendo do nível de identificação e acumulação adotado, pode-se, até mesmo, ver
uma possível alteração na classificação entre despesas e custos, especialmente, em nível gerencial.
Por exemplo, no supermercado, o Imposto Predial e Territorial Urbano (IPTU) da loja é uma
despesa indireta aos diversos produtos ali vendidos – laticínios, hortifrutigranjeiros,
eletrodomésticos, carnes, etc. –, ao passo que a depreciação da balança do açougue é uma despesa
direta às carnes ali expostas, mas indireta a cada tipo de carne. Daí, mais uma vez, a necessidade de
definir o objeto de custeio analisado: divisão de produtos – laticínios, hortifrutigranjeiros,
eletrodomésticos, carnes, etc. – ou os produtos em si – picanha, alcatra, filé-mignon, chã, patinho,
lagarto redondo, etc.
Dessa forma, além dos custos, as despesas também podem ser classificadas como diretas ou
indiretas. Enquanto o custo é classificado em direto ou indireto em relação ao produto, a despesa é
classificada em relação à origem da receita – o objeto de custeio, objeto em análise!
Vejamos outro exemplo: em uma loja de departamentos, a despesa de salário do vendedor de
eletrodomésticos é diretamente apropriada ao departamento de eletrodomésticos. Da mesma forma
que a despesa de propaganda específica de móveis – do tipo compre móveis nas Casas Bahia – é
diretamente alocada ao departamento de móveis.
Por outro lado, a despesa de aluguel da loja é indiretamente alocada aos diversos
departamentos, por conseguinte, é rateada entre eles – normalmente, em função da área (m2)
ocupada pelos departamentos. Da mesma forma, a despesa de propaganda institucional – do tipo
“Casas Bahia: dedicação total a você” – e a despesa com salário do gerente geral da loja são exemplos
de despesas indiretas que acabam sendo rateadas entre os diversos departamentos, seguindo algum
critério de rateio – normalmente, arbitrário e subjetivo.
Devemos ter atenção para que a tipificação seja coerente com o objeto de custeio, e não com
um “custo desejado”. Imagine uma fábrica de bolas de futebol e de vôlei. O custo do pedaço de
couro utilizado para fabricar a bola de futebol é um custo direto a esse objeto de custeio, ao passo
que o couro utilizado para fabricar a bola de vôlei é um custo direto à bola de vôlei. É possível dizer

168
isso porque a quantidade de couro utilizada na fabricação de cada bola é facilmente identificada
com a bola.
Já o custo da iluminação da fábrica em que as bolas são produzidas é um custo indireto a cada
tipo de bola. Embora a iluminação ajude na fabricação das bolas de futebol e de vôlei, não é viável
tentarmos determinar, exatamente, o quanto desse custo foi utilizado na fabricação de cada bola
especificamente. Sabemos que está lá, em cada bola, mas não exatamente quanto.
Os gestores podem preferir tomar decisões com base nos custos diretos em vez de nos custos
indiretos, visto que os custos diretos são mais “precisos”, em termos de alocação. Em resumo, a
apropriação direta de custo é o processo de transferência dos custos diretos a um objeto de custeio
determinado, ao passo que o rateio de custo é o processo de transferência dos custos indiretos ao
objeto de custeio.
Quando for necessário utilizar qualquer fator de rateio para a apropriação ou ocorrer o uso
de estimativas, e não de medição direta, o custo fica classificado como indireto em relação ao objeto
de custeio.
Diversos fatores afetam a classificação de custo como direto ou indireto:

A materialidade do custo em questão – análise da relação custo-benefício


Quanto maior o custo em questão, maior a relevância de se classificá-lo adequadamente.
Pensemos em uma companhia que trabalha com pedidos de vendas. Provavelmente, seria
economicamente viável identificar as despesas com a entrega do pedido diretamente a cada cliente.
Ao contrário, é provável que o custo do papel da fatura que segue juntamente com o pacote a ser
enviado ao cliente seja classificado como um custo indireto, porque não é economicamente viável
identificar o custo desse papel para cada cliente. Os benefícios de saber o valor exato do papel
utilizado na fatura de cada pedido não justificam o custo monetário e o tempo gasto em identificar
esse custo para cada pedido. Desse modo, a materialidade envolve a questão de custo-benefício.

Tecnologia disponível para coleta de informação


Desenvolvimentos nessa área estão proporcionando um aumento percentual dos custos a
serem classificados como diretos. Por exemplo, o código de barras permite que muitas fábricas
passem a tratar certos materiais considerados, anteriormente, custos indiretos – isto é, material
secundário de fábrica – como custos diretos dos produtos. O código de barras pode interpretar uma
série de custos de produção da mesma maneira rápida e eficiente com que os supermercados
registram, nos dias de hoje, os custos e os preços de muitos itens vendidos aos seus clientes.

Design das operações


O design das instalações pode impactar a classificação dos custos. Por exemplo, classificar um
custo como direto se torna mais fácil quando uma instalação da organização – ou parte dela – é
utilizada, exclusivamente, para um produto ou um objeto de custeio. Imagine uma fábrica

169
localizada em um grande galpão, no qual diferentes produtos são fabricados ao mesmo tempo.
Nesse caso, têm-se muitos custos indiretos aos diferentes produtos. Por outro lado, imagine uma
fábrica seccionada em diversas estações de trabalho pequenas e isoladas umas das outras, sendo que
cada uma delas fabrica um produto diferente. Nesse caso, são raros os exemplos de custos indiretos
aos diferentes produtos.16

Acordos contratuais
Um contrato que estabelece que determinado insumo – material, tecnologia, máquina, etc. – só
pode ser utilizado em um produto específico faz com que o consumo de tal insumo seja um custo direto
ao produto específico.

Quanto ao volume: custos fixos e variáveis


Os sistemas contábeis gerenciais registram os custos dos recursos adquiridos e acompanham
os seus usos posteriores. O acompanhamento desses custos permite que os gestores vejam como eles
se comportam.
Consideremos dois tipos de comportamento de custos encontrados na maioria desses
sistemas: custos variáveis e custos fixos. Um custo variável é um custo que se altera, em montante
total, em proporção ao volume produzido. Um custo fixo é um custo que não se altera, em
montante total, apesar das alterações do volume produzido.

Custos variáveis
Custos variáveis são aqueles cujo consumo é influenciado pelo nível de produção. Quanto
mais barras de Chocolate ao Leite se produzirem, mais cacau, manteiga de cacau, leite e açúcar serão
consumidos. Nesse sentido, a matéria-prima é um exemplo de custo variável, um custo que se altera,
em montante total, à medida que ocorrem mudanças no volume produzido.
Cabe observar que o custo variável por barra de Chocolate ao Leite não se altera com o número
de barras produzidas, porque o custo variável unitário é fixo – ou constante, ignorando-se algumas
características do desempenho da mão de obra, como ganho de produtividade pela aprendizagem e
redução da produtividade pelo cansaço, e ignorando-se, ainda, descontos obtidos pela aquisição de
um grande lote de matérias-primas.17

16
Até este ponto, só estamos preocupados com a classificação dos custos em direto e indireto, portanto, não estamos
analisando alternativas de descontinuidade da linha para evitar o custo de aluguel do galpão ou a manutenção do espaço
vazio – que não evitaria nem reduziria tal custo. Sobre tais alternativas, veja o tópico 3.1.5 deste módulo.
17
Consideremos que não existem falhas ou perdas, que são “normais” em processos de produção, quando ocorrem essas
alterações de volume. Vamos considerar uma figura de produção padronizada.

170
Para facilitar, vejamos um segundo exemplo: a despesa de Comissão de Vendas – 5%, por
exemplo – é uma despesa variável por volume de receita, isto é, por $ vendido. Se o vendedor vender
$ 1.000,00, ganhará a comissão de $ 50,00; se vender $ 200.000,00, ganhará $ 10.000,00, ou seja,
ganhará $ 0,05 a cada $ 1,00 vendido. Por isso, diz-se que a despesa variável e o custo variável por
unidade são fixos – no caso da despesa de comissão, $ 0,05 para cada $ 1,00 de vendas. No entanto,
no total, são variáveis – $ 50,00, se vender $ 1.000, ou $ 10.000,00, se vender $ 200 mil.

Custos fixos
Custos fixos são aqueles que não variam em função de alterações do nível de produção, dentro
do intervalo relevante de capacidade instalada.
Suponha que o aluguel e o seguro do prédio onde a fábrica de chocolates funciona custem
$ 6 milhões por ano. Independentemente do volume de barras de Chocolate ao Leite produzido em
determinado ano, a empresa incorrerá nos custos de aluguel e seguro da fábrica no valor de $ 6
milhões. Ambos são exemplos de custos fixos – custos que não se alteram, em montante total, em
relação ao volume. Por outro lado, os custos fixos tornam-se progressivamente menores, em termos
unitários, à medida que o volume produzido aumenta dentro de determinado limite de capacidade
instalada. Por exemplo, se a empresa produzir 10 milhões de barras de Chocolate ao Leite, nessa
fábrica, em determinado ano, o custo fixo de aluguel e seguro por barra é de $ 0,60 – isto é, $ 6
milhões/10.000.000 de barras. Por outro lado, se 15.000.000 barras de Chocolate ao Leite forem
fabricadas no ano, o custo fixo por barra será de $ 0,40.
Na realidade, os custos fixos dificultam o processo de tomada de decisões, tendo em vista o
fato de serem os responsáveis por apurações distorcidas do custo unitário total por produto. Alguns
chamam isso de efeito de “ilusão de ótica” nos gestores, por isso, há tanta controvérsia! São
importantes antes da realização dos investimentos, ou seja, antes da determinação da estrutura
técnico-administrativa da empresa. No dia a dia da empresa, tendem a ser o principal objeto de
ações dos programas de redução de custos, que visam a corrigir distorções ou inadequações neles
em relação às necessidades de longo prazo da empresa.
Em resumo, todos os custos podem ser classificados em fixos ou variáveis, ou em diretos ou
indiretos, ao mesmo tempo. Dessa forma, a matéria-prima é um custo direto e variável, enquanto os
seguros das fábricas são custos indiretos e fixos, tendo por objeto de custeio o produto fabricado.
É importante observar que, na classificação de custos em fixos e variáveis, leva-se em
consideração o custo total – quantidade vezes custo unitário –, e não o custo unitário, como pode
ser observado na tabela a seguir.

171
Tabela 64 – Custos fixos e variáveis

unitário total

custo fixo varia não varia

ex.: Produzindo 10.000.000 unidades ex.: aluguel = $ 6.000.000,00/ano


em um ano, o custo do aluguel
dividido pela produção é $ 0,60/un. =
$ 6.000.000,00 ÷ 10.000.000 un.

custo não varia varia


variável
ex.: matéria-prima = 2 kg/un., sendo ex.: Produzindo 10.000.000 unidades
$ 0,50/kg = $ 1,00/un. em um ano, o custo da matéria-prima
consumida no ano é $ 10.000.000,00 =
10.000.000 un. × $ 1,00/un.

Além dos custos, as despesas também são classificadas em fixas e variáveis quanto ao volume.
No entanto, enquanto os custos são classificados em relação ao volume produzido (quantidade
produzida), as despesas são classificadas em relação ao volume vendido (quantidade vendida ou
receita auferida).

Comentário sobre intervalo relevante


Nunca é demais ressaltar que os custos fixos permanecem constantes somente dentro do
intervalo relevante. Desse modo, dizer que os custos fixos não se alteram em decorrência do volume
produzido é uma simplificação da realidade. Essa simplificação só é válida para determinada
capacidade instalada (ou intervalo relevante). Afinal, os custos fixos totais sofrem alterações em função
do volume produzido. No entanto, essas alterações não guardam uma correlação perfeita de causa e
efeito. Os custos fixos totais crescem em degraus, ou seja, quando há alteração na capacidade instalada.
Retomando o exemplo da fábrica de chocolates que paga $ 6 milhões por ano de aluguel e
seguro, digamos que a sua capacidade instalada seja de 15 milhões de unidades de barras de
chocolate ao leite. Nesse caso, pouco importa o volume efetivamente produzido (de zero a 15
milhões de unidades) – o custo fixo anual será o mesmo ($ 6 milhões). No entanto, se o gestor da
fábrica resolver aumentar a capacidade instalada para 20 milhões de barras de chocolate por ano,
será necessário comprar novas máquinas, ampliar o parque fabril, contratar novos supervisores, etc.
Tudo isso demandará mais recursos e, consequentemente, aumentará os custos fixos – digamos para
$ 8 milhões por ano. A partir desse momento, o custo fixo total será de $ 8 milhões,
independentemente de a produção efetiva assumir qualquer valor entre 0 e 20 milhões de unidades.
Nesse caso, o intervalo relevante foi alterado.

172
Gráfico 3 – Intervalo relevante

Considerando que os custos fixos crescem em degraus conforme se altera a capacidade


instalada e que os custos variáveis crescem na mesma proporção que o volume aumenta, basta
conhecer o comportamento da receita para determinar o intervalo relevante. Isso ocorre uma vez
que o intervalo relevante contém o ponto no qual a receita se iguala ao custo total (fixo mais
variável) – ou seja, o ponto de equilíbrio. Em outras palavras, pode-se afirmar que o intervalo
relevante compreende uma faixa na qual a empresa apura prejuízo e outra na qual apura lucro,
sabendo-se que, nessas duas faixas, o custo fixo permanece constante.
No gráfico, observe o intervalo relevante representado pelo retângulo destacado, isto é, o
intervalo no qual o volume varia entre 3.500 unidades e 8.000 unidades. Observe que a faixa na
qual a empresa apura prejuízo fica à esquerda do volume 6.000 unidades – a linha dos custos
totais está acima da linha da receita. Por outro lado, a faixa de lucro fica à direita do volume 6.000
unidades – a linha da receita está acima da linha de custos totais.
Novamente, lembramos os possíveis ganhos de escala que podem vir a ocorrer quando se fala
em incrementos de produção. A empresa pode conseguir melhor custo de aquisição de matérias-
primas ao aumentar o volume de produção. Também pode ocorrer a figura de ganho por meio de
aprendizagem do processo, em que o aumento para determinados níveis de produção pode não
afetar significativamente o custo fixo, devido a alguma melhoria tecnológica inserida – tanto em
termos de maquinário quanto de mão de obra, que podem aumentar a produtividade.

Comentário sobre custos híbridos


Os custos híbridos são aqueles que têm características tanto de custo fixo quanto de custo
variável. Há autores que os denominam semifixos ou semivariáveis ou custos mistos.
Em uma indústria, um exemplo típico de custo híbrido é a energia elétrica. É comum as
empresas contratarem a aquisição de energia elétrica sob duas modalidades: demanda e consumo.

173
A aquisição por demanda implica a compra de determinada quantidade de quilowatts-hora
(kWh) por mês, de forma que a fábrica paga à concessionária distribuidora de energia elétrica
determinado valor (fixo) por mês, mesmo que o consumo efetivo seja inferior ao contratado. Quando
o consumo efetivo ultrapassa a quantidade de kWh comprada por demanda, a fábrica paga o excedente
em função do consumo efetivo (variável), de forma semelhante ao consumidor residencial.
Não obstante essas duas modalidades de aquisição de energia elétrica, o consumo desse recurso
no processo produtivo pode ser classificado integralmente como custo fixo ou custo variável – a
classificação dependerá do objeto de custeio e da forma como a energia elétrica for consumida.
Digamos que os objetos de custeio sejam os produtos. Além disso, digamos que a produção
dos diversos produtos ocorra em um grande galpão cuja iluminação beneficie a fabricação de todos
os produtos. Nesse caso, a energia elétrica (de iluminação) é um custo indireto a todos os produtos
fabricados no galpão.
Por outro lado, digamos que os produtos sejam processados em máquinas distintas e que cada
máquina tenha um medidor de energia elétrica efetivamente consumida (relógio). Nesse caso, a
energia elétrica – força-motriz de cada máquina, com os respectivos medidores – é um custo direto
aos produtos fabricados em cada máquina.

Comentário sobre a mão de obra


Livros estadunidenses apresentam a mão de obra como um custo variável, o que é compatível
com o sistema legal dos Estados Unidos. Afinal, lá é permitida a contratação e a remuneração de
empregados por hora trabalhada ou por tarefa executada – lote produzido, por exemplo.
No Brasil, por outro lado, a legislação trabalhista impõe ao empregador a obrigação de pagar
uma remuneração mensal mínima ao empregado, independentemente da produção obtida. A rigor,
o empregado costuma observar, todos os meses, o mesmo valor no seu contracheque,
independentemente de quanto produziu em cada mês. Da mesma forma, a empresa observa na
folha de pagamentos, todos os meses, o mesmo valor para cada empregado – o que faz sugerir que
a mão de obra seja um custo fixo.
E agora, o custo com a mão de obra é fixo ou variável?
Bornia (2002)18 sugere que a classificação da mão de obra seja determinada em função do
horizonte temporal analisado. Em se tratando de uma análise de curto prazo, a mão de obra seria
um custo fixo. Por outro lado, se o gestor estiver desenvolvendo uma análise de longo prazo, a mão
de obra seria um custo variável.
No entanto, a nossa proposta é tratar o custo com a mão de obra como um custo híbrido:
uma parcela variável, aquela convertida em produto, que agrega valor ao produto; e outra fixa,

18
BORNIA. Análise gerencial de custos em empresas modernas. 2002. p. 173-174.

174
aquela que não é revertida em produto, mas arcada pela empresa com o propósito de manter a
sua capacidade instalada.
Vejamos o exemplo de uma padaria. Uma fornada de 100 pães franceses consome de matéria-
prima: farinha de trigo, óleo, água, fermento, sal e açúcar. Além disso, demanda do padeiro em média:
5 minutos para selecionar e pesar os ingredientes;
15 minutos para misturar os ingredientes;
10 minutos para esticar a massa;
10 minutos para formar os pães e organizá-los no tabuleiro;
5 minutos para lavar os utensílios e
5 minutos para retirar os pães do forno e servi-los em um cesto que ficará exposto na frente
da loja.

O tempo em forno (para assar) não é computado como custo de mão de obra, pois o padeiro
desenvolve outras atividades enquanto o pão assa. Nesse exemplo hipotético, uma fornada (100
pães franceses) consome 50 minutos de mão de obra (padeiro).
Considerando que o salário do padeiro é de $ 400,00 por mês, e que a padaria incorre em
encargos trabalhistas e sociais equivalentes a 80% do salário mensal dos seus funcionários, o ônus
mensal da padaria, com um padeiro, é de $ 720,00 ($ 400 + 80% × $ 400). Sabendo-se que o
padeiro fica à disposição da padaria durante 160 horas por mês (220 horas descontados: descanso
semanal remunerado, férias, feriados, faltas abonadas, etc.), o ônus-hora com um padeiro é de
$ 4,50/hora ($ 720/160 horas).
Considerando que uma fornada-padrão consome 50 minutos, o custo de mão de obra por
fornada é de $ 3,75 (ou $ 0,0375 por pão francês).
Admitindo-se que, no mês passado, a padaria produziu 162 fornadas, temos que:
$ 607,50 (162 fornadas × $ 3,75/fornada) é o custo variável (e direto) da mão de obra
apropriado aos pães franceses produzidos no mês.
$ 112,50 ($ 720,00 – $ 607,50) correspondem a outros gastos de produção (fixos e
indiretos), não apropriados diretamente aos pães franceses produzidos, mas incorridos pela
padaria na manutenção da sua capacidade instalada normal.

É claro que esse exemplo é uma abstração da realidade. Afinal, os padeiros mais valorizados são
aqueles que produzem pães diferenciados. Os profissionais mais valorizados são aqueles que produzem
serviços diferenciados para a empresa! Além disso, o padeiro não faz uma única atividade (produção de
pães franceses). Isso significa que, na prática, o esforço de se mensurar o custo da mão de obra por
pãozinho acaba sendo maior do que o benefício dessa informação.
No entanto, de qualquer forma, fica o exemplo (simples) para que o conceito seja aplicado a
situações mais complexas nas quais a apuração do custo unitário da mão de obra seja relevante. Por
exemplo, casos de empresas prestadoras de serviços que têm o seu principal recurso na mão de obra e

175
que precisam identificar a parcela variável em função de quantidade de horas de atendimentos aos
clientes somadas às horas para manter a sua estrutura de atendimento qualificada, como o tempo de
treinamento da equipe, que não seria alocada a nenhum cliente especificamente.
Ainda com respeito à mão de obra, pode-se dizer que a parcela direta da mão de obra corresponde
ao gasto com pessoal que trabalha e atua, diretamente, sobre o produto que está sendo elaborado. Por
sua vez, a parcela indireta é relativa ao pessoal de chefia, supervisão ou ainda a atividades que, apesar de
vinculadas à produção, nada têm de aplicação direta sobre o produto, tais como manutenção, prevenção
de acidentes, contabilidade de custos, programação e controle da produção.
Destacamos que o design fabril – ou mesmo a pouca diversidade de produtos fabricados (o caso
de produtos feitos por encomenda) – pode levar-nos à figura de se ter apenas a classificação direta para
a mão de obra, se for possível a alocação dela por meio de medição direta.

Sistemas e métodos de custeio


No processo de apuração do custo dos produtos, os gestores dispõem de dois sistemas de
custeio – por ordem e por processo – e de três metodologias – o custeio por absorção, o custeio
variável e o custeio baseado em atividades.19 Embora cada qual apure um valor diferente para o
resultado e para o estoque final, não há como afirmar que um sistema ou um método seja melhor
do que o outro, pois essa avaliação depende do objetivo que se tem ao apurar os custos e do fluxo
de produção analisado.
Nesse contexto, quando alguém perguntar: “Qual é o custo do produto X?”, deve ser feita,
imediatamente, outra pergunta: “Em que será utilizada essa informação?”. Afinal, dependendo do
propósito dessa apuração, um ou outro sistema e um ou outro método de custeio será mais adequado.
Seguindo esse raciocínio, três pensamentos são fundamentais ao entendimento deste módulo –
e até deste material como um todo:
Não existe método de custeio certo nem errado! Muito menos o método “ideal”. Existem,
sim, métodos de custeio implantados e sendo utilizados nas empresas. Cada empresa
procura escolher e adequar os métodos conhecidos e disponíveis às suas necessidades de
informação de custo. Ou seja, depende do objetivo, da utilidade dessa informação, do
fluxo de produção – por ordem ou por processo –,20 e depende ainda do custo para
implantar e operar o método escolhido.

19
Existem, ainda, outros métodos, como o custeio direto e o RKW, os quais não são abordados em detalhes neste material.
São apresentados apenas breves comentários em CARDOSO; MÁRIO; AQUINO. Contabilidade gerencial: mensuração,
monitoramento e incentivos. São Paulo: Atlas, 2007. Seção 3.7 do Capítulo 3.
20
Detalhes sobre a produção por ordem e sobre a produção contínua são apresentados em MARTINS. Contabilidade de
custos. São Paulo: Atlas, 2003. Capítulos 12 e 13.

176
A mensuração do custo depende do objeto de custeio! Dependendo do objeto de custeio, os
custos serão classificados como fixos ou variáveis, e diretos ou indiretos, conforme
apresentado nos tópicos 4.1.3 e 4.1.4 deste módulo. Essas classificações afetam as
mensurações dos custos de forma diferenciada, de acordo com o método de custeio adotado.
Você obtém o que você mensura!21 Se você não mensurar, não vai analisar nem controlar.
Se a medida obtida contiver subjetividade ou desvios em relação à sua medida real, tais
distorções afetarão as decisões.

Dessa forma, antes de se medirem os custos, é fundamental conhecer a natureza daquilo que
se está medindo. Um dos aspectos dessa natureza que precisam ser contemplados é o fluxo de
produção. Para efeitos didáticos, o fluxo de produção é classificado em produção por ordem (ou
encomendas) e produção por processo (ou contínua). Esse fluxo determina a viabilidade do sistema
de custeio a ser utilizado, uma vez que é inerente à forma e aos aspectos da empresa (tópico 4.2.1
deste módulo).
Além da discussão sobre os processos e os métodos de custeio, ainda há duas bases de avaliação
dos custos: o custo-real (ou efetivo) e o custo-orçado (às vezes, chamado de custo-padrão). Essas são
bases definidas no escopo do sistema de custeio.
O custo-real trabalha com os custos dos recursos efetivamente consumidos no processo de
produção. Desse modo, é utilizado para refletir o passado, sendo de adoção obrigatória para fins
societários e tributários.
Por outro lado, o custo-orçado trabalha com estimativas de custos de recursos que se espera
sejam consumidos no processo de produção. Nesse sentido, é utilizado internamente, para fins
orçamentários e de precificação. Entendemos que o custo-padrão é um dos tipos de custo-orçado,
o qual também pode ser discricionário.
Esses dois critérios de avaliação são compatíveis com quaisquer processos de acumulação
identificados nos sistemas de custeio (por ordem e por processo) e com quaisquer métodos de
custeio (absorção, variável e ABC) – estudados a seguir.
Um ponto relativo à apuração do resultado e do patrimônio da entidade que está totalmente
vinculado à Contabilidade de Custos é a mensuração do CMV – o que pode ser feito pelo Peps
(primeiro que entra, primeiro que sai), Ueps (último que entra, primeiro que sai), CMPM (custo
médio ponderado móvel), CMPF (custo médio ponderado fixo), método do varejo e identificação
específica. No entanto, não abordaremos nenhum desses critérios, por entender que são
apresentados detalhadamente nos mais diversos livros de Contabilidade Geral, Contabilidade
Introdutória e Contabilidade Societária.

21
Esse pensamento é apresentado em Jiambalvo (Managerial accounting, 2004) – “You get what you measure!”.

177
Fluxos de produção nos sistemas de custeio22
Dependendo do fluxo de produção, têm-se dois sistemas de custeio distintos: o custeio por
ordem (ou encomenda) e o custeio por processo (ou contínuo).
Um exemplo de produção por ordem é o da marcenaria, na qual o consumidor vai até o
estabelecimento, identifica um produto que gostaria de comprar – muitas vezes, essa escolha é feita
folheando-se um catálogo ou percorrendo-se o mostruário (showroom), negocia o preço e paga um
sinal (caução ou garantia). Só então o gestor da marcenaria abrirá uma ordem (encomenda) para
que se inicie o processo de produção do móvel.
Outro exemplo de produção por ordem, sendo de serviço, é o da oficina mecânica, na qual o
consumidor leva o carro avariado, explica ao chefe da oficina os sintomas (problemas) que o carro
vem apresentando, negocia o preço e deixa o carro. Só então, o gestor da oficina abrirá uma ordem
(ordem de serviço) para que um mecânico inicie o conserto.
A partir desses dois exemplos, pode-se perceber que a identificação dos custos de cada ordem,
pelo menos dos custos diretos, é bastante facilitada. Basta analisar os custos dos recursos cujos
consumos foram apontados nas ordens, uma vez que as ordens têm início e fim delimitados pelas
datas de abertura e de encerramento da respectiva ordem. Por exemplo, a tinta verde consumida para
pintar o carro (verde) que chegou avariado na oficina mecânica é um custo direto do serviço de reparo
desse carro. Além disso, a apuração do estoque final também é substancialmente facilitada, pois só
permanecem em estoque aquelas ordens ainda não encerradas no fim do período contábil, cujos custos
são associados – repita-se – aos apontamentos nas respectivas fichas de ordens de produção.
Já a produção por processo (ou contínua), como o nome sugere, não tem início e fim
identificados com a mesma acurácia da produção por ordem. Afinal, a sua produção é contínua.
Desse modo, no fim do período de apuração (normalmente um mês), o contador apura o custo da
produção já iniciada, mas ainda não acabada (normalmente, por medições físicas).
Exemplos de produção contínua são: a fabricação de cimento, a moagem de farinha, a
extração e o refino de petróleo, a produção de biodiesel e a siderurgia. Desse modo, a produção
contínua é a realidade do processo de produção de itens em massa, padronizados, com pouca ou
nenhuma diferenciação.
O principal problema da produção contínua diz respeito à avaliação do estoque final, já que, no
fim do período de apuração, existem insumos em diferentes estágios de aplicação distribuídos ao longo
da linha (processo fabril). Dessa forma, é necessário adotar estimativas como a produção equivalente. A
produção equivalente mede os recursos consumidos para semielaborar unidades, relativamente aos
recursos necessários para completar as unidades. Digamos que determinada siderúrgica tenha iniciado
a produção de uma tonelada de aço e que, no fim do período, os produtos estejam 40% completos, em
média. Nesse caso, a produção semiacabada equivale a 400.000 kg (1.000.000 kg × 40%).

22
Em vários livros estrangeiros de Custos, o fluxo ou processo de produção é tratado como tipos de Sistemas de Custeio.
Por isso, tentamos convergir para um escopo em que os Sistemas de Custeio contemplem tanto a figura de processos de
acumulação (por ordem ou processo) como a figura de processos de mensuração (Custo Real ou Custo Orçado).

178
Método de custeio por absorção
Também denominado custeio funcional, custeio tradicional ou full cost, é o critério utilizado
para fins de evidenciação legal do resultado, isto é, utilizado para fins societários (pagar dividendos)
e fiscais (pagar Imposto de Renda e contribuição social). É adotado para tais fins já que elimina
grande parte da discricionariedade do gestor na composição da informação de custo, aumentando
o controle dos agentes externos à firma sobre o impacto da informação de custo nos resultados
contábeis. Possui as seguintes características:
1. Atende às exigências societárias e fiscais, além de estar de acordo com os princípios e as
normas de contabilidade – foco dos livros de Contabilidade Geral – e com as normas da
legislação tributária.
2. Consiste em alocar aos produtos todos os custos incorridos no processo de fabricação, sejam
eles diretos ou indiretos, fixos ou variáveis.
3. As despesas de vendas – administrativas e outras – não incorporam o custo do produto, sendo
registradas diretamente no resultado do período.

Figura 2 – Esquema do custeio por absorção

No esquema, apresentou-se que o rateio é baseado em uma única base de rateio. Embora essa seja
a prática contábil mais adotada, tal afirmação não é necessariamente verdadeira, já que empresas podem
adotar mais de um critério de rateio – um para cada recurso consumido, por exemplo.

179
Informações adicionais:
Todos os custos são alocados aos produtos, sendo apropriados ao resultado no momento
da venda dos respectivos produtos.
Para o usuário externo, sugere-se a divisão da empresa em duas partes: a fábrica e as
atividades comercial, administrativa e financeira.
Apuração do custo de produção deve-se dar somente após rateio dos custos indiretos.
Os custos fixos totais independem de oscilações do volume fabricado – dentro do intervalo
relevante.
Apurações distorcidas do custo unitário total por produto, em cada período.

Método de custeio variável


Pela própria natureza dos custos fixos – invariabilidade no todo e variação por unidade, e por
propiciar valores de lucro não muito úteis para fins decisórios –, criou-se um critério alternativo ao
custeio por absorção. Trata-se do custeio variável, também denominado custeio gerencial e custeio por
contribuição, no qual só são agregados aos produtos os seus custos variáveis, considerando-se os
custos fixos como se fossem despesas – imediatamente no resultado.
Nas demonstrações contábeis à base do custeio variável, obtém-se um lucro (margem de
contribuição) que acompanha sempre a direção das vendas – o que não ocorre com o custeio por
absorção. Por contrariar os princípios do reconhecimento da receita e da confrontação de despesas
(regime de competência), o custeio variável não é válido para demonstrações contábeis de uso
externo, deixando de ser aceito tanto pela Auditoria Externa quanto pelo Fisco. No entanto, é fácil
trabalhar com ele durante o ano e fazer uma adaptação de fim de exercício para se voltar ao custeio
por absorção – esse tema é apresentado no tópico 4.2.5 deste módulo.
Desvantagens do custeio por absorção que justificam a adoção do custeio variável:
Custos indiretos e fixos dificultam a tomada de decisões.
Custos indiretos e fixos são apropriados aos produtos por meio de uma taxa de rateio –
arbitrariamente.
Difícil utilização em projeções orçamentárias e análises de viabilidade de projetos.

Vantagens do custeio variável:


Os custos dos produtos são mensuráveis objetivamente, pois não sofrerão processos
arbitrários ou subjetivos de distribuição dos custos fixos.
O lucro líquido não é afetado por mudanças de incremento ou diminuição de inventários.
Os dados necessários para a análise das relações custo-volume-lucro são rapidamente
obtidos do sistema de informação contábil – baseado no custeio variável.
O custeio variável é totalmente integrado com custo-padrão e orçamento flexível,
possibilitando o correto controle de custo.

180
Custeio variável constitui um conceito de custeamento de inventário que corresponde,
proporcionalmente, aos dispêndios necessários para manufaturar os produtos.
O custeio variável possibilita mais clareza no planejamento do lucro e na tomada de decisões.

Desvantagens do custeio variável:


A exclusão dos custos fixos para valoração dos estoques causa a sua subavaliação, fere os
princípios contábeis e altera o resultado do período.
Na prática, a separação entre custos fixos e variáveis não é tão clara como parece, pois
existem custos híbridos (semivariáveis e semifixos), podendo o custeio variável incorrer em
problemas semelhantes de identificação dos elementos de custeio.
Custeio variável é um conceito de custeamento e análise de custos para decisões de curto
prazo, mas subestima os custos fixos, que são ligados à capacidade de produção e de
planejamento de longo prazo, podendo trazer problemas de continuidade para a empresa.

Figura 3 – Esquema do custeio variável

custos dos recursos


(contas contábeis: materiais, salários,
encargos, energia, depreciação)

custos fixos
custos variáveis
(supervisão, aluguel, materiais
(materiais diretos, mão de obra direta)
auxiliares, energia, depreciação)

Receita

(-) Custos Variáveis dos Produtos Vendidos


(-) Despesas Variáveis

(=) Margem de Contribuição

(-) Custos Fixos do Período


(-) Despesas Fixas

(=) Lucro Operacional

181
Comentário sobre a conciliação entre os métodos de custeio
Como já dito, a utilização do custeio variável para fins de elaboração das demonstrações
contábeis e para a apuração de resultado tributável não é permitida legalmente no Brasil.
Sabe-se que o motivo é o fato de ele lançar para resultados todos os custos e as despesas fixos, o
que provoca uma redução do lucro do período, indo de encontro ao regime de competência.
Isso é o entendimento para o que vai ocorrer no fim do balanço do período, ou seja, quando do
encerramento para fins de divulgação e tributação. Por isso, muitas empresas deixam de utilizar o custeio
variável por acharem que seria um custo a mais em termos de sistemas e de estrutura.
Durante o período do exercício social e fiscal, a empresa pode trabalhar com o método do
custeio variável apenas. Isso é uma permissão para aquelas que necessitam de uma ferramenta de
gestão mais do que de uma ferramenta de apuração de resultados contábeis e fiscais.
Para operacionalizar essa situação, a empresa deverá manter controles específicos dos seus
custos fixos (indiretos, na maioria), lançados diretamente no resultado, e não por motivo de venda
e consequente baixa de estoques. No fim de cada período em que houver a necessidade de se apurar
o resultado contábil e o fiscal, a empresa deverá estornar os custos fixos lançados em resultado,
adicionando-os aos estoques não vendidos, recuperando e conciliando, dessa maneira, os custos de
produtos vendidos e os estoques de produtos acabados, em termos de valores patrimoniais
consistentes com a legislação e a norma contábil.
Em termos de lançamentos contábeis e do momento, considerando-se que se utilizou o
custeio variável e que se deseja obter os valores de estoque e de CPV, as contabilizações seriam:

182
Quadro 6 – Custeio variável: valores de estoque e de CPV

momento débito crédito

fim do período 1 estoques – diferença de custo CPV – diferença de custo fixo do


(ajuste para o fixo do período 1 lançado em período 1 lançado em resultado
absorção) resultado pelo variável pelo variável

lucros acumulados (reservas


início do período 2 estoques – diferença de custo
de lucro) – diferença de custo
(ajuste para o fixo do período 1 lançado em
fixo do período 1 lançado em
variável) resultado pelo variável
resultado pelo variável

lucros acumulados (reservas de


estoques – diferença de custo
lucro) – diferença de custo fixo
fixo do período 1 lançado em
do período 1 lançado em
fim do período 2 resultado pelo variável
resultado pelo variável
(ajuste de lucros
acumulados e de CPV – diferença de custo fixo estoques – diferença de custo
estoques para o do período 1 lançado em fixo do período 1 lançado em
método de custeio resultado pelo variável resultado pelo variável
por absorção)
estoques – diferença de custo CPV (lucro) – diferença de custo
fixo do período 2 lançado em fixo do período 1 lançado em
resultado pelo variável resultado pelo variável

Dessa maneira, o procedimento é repetido para os demais períodos. Com isso, pode-se
manter o foco na gestão da empresa com o subsídio às decisões dado pelo custeio variável e ajustar-
se ao custeio por absorção quando necessário.

Comentário sobre a capacidade instalada e a legislação societária


Em 2007, a CVM emitiu o Ofício-Circular CVM/SNC/SEP nº 1/2007, cujo propósito é
indicar diretrizes que devem ser seguidas pelas companhias abertas ao elaborarem as suas
demonstrações contábeis anuais, para fins societários, portanto, sem qualquer impacto tributário e
sem a pretensão de ser utilizada para fins decisórios internos às firmas.
Um dos pontos desse Ofício-Circular diz respeito à alocação dos custos fixos aos
produtos, o que deve ser feito com base na capacidade instalada normal de produção (item 3
do Ofício-Circular).

183
Veja o texto do item 3 do Ofício-Circular:

Ofício-Circular CVM/SNC/SEP nº 1/2007

3. Estoques

3.1 Critérios de avaliação de estoques

Devem ser adotados os critérios de avaliação de estoques estabelecidos no


art. 183 da Lei nº 6.404/76. Não serão aceitos procedimentos
alternativos que contrariem as regras estabelecidas no referido artigo,
especialmente os criados pela legislação tributária ou mesmo por
legislação especial que não contemple a Lei das Sociedades por Ações.

3.2 Divulgação em nota explicativa de Estoques

3.2.1 Divulgação em nota explicativa de estoques

Sempre que houver alteração significativa nos níveis de estocagem, esse


fato deverá ser objeto de esclarecimento em nota explicativa.

As companhias abertas que, por autorização da CVM, estiverem em fase


de implantação de sistema de contabilidade de custos, deverão esclarecer o
fato em nota explicativa, sujeitando-se, quanto aos efeitos, às restrições
cabíveis que venham a ser apontadas pela auditoria independente.

(OFÍCIO-CIRCULAR/CVM/PTE nº 309/86 e PARECER DE


ORIENTAÇÃO CVM nº 27/94)

3.2.2 Capacidade Ociosa


Devem ser fornecidas informações para dar ciência da dimensão do fato,
tais como: a existência, expectativa de mudança e tratamento contábil
relacionados à capacidade ociosa (PARECER DE ORIENTAÇÃO CVM
nº 24/92).

A esse respeito, o parágrafo 13 do pronunciamento internacional IAS – 2


dispõe: “A alocação de despesas indiretas fixas de produção [custos
indiretos e fixos] aos custos de transformação é baseada na capacidade

184
normal de produção. Capacidade normal é a produção que se espera
atingir, em média, ao longo de vários períodos ou de períodos
sazonais, em condições normais, levando em consideração a redução
da capacidade resultante de manutenção planejada. O nível real de
produção pode ser usado se estiver próximo da capacidade normal. O
montante das despesas indiretas fixas [custos indiretos e fixos]
alocadas a cada unidade de produção não aumenta como
consequência da baixa produção ou da inatividade da fábrica.
Despesas indiretas [custos indiretos] não alocadas aos custos são
tratadas como despesas no período em que foram incorridas”. (grifo
nosso)

Buscando completar a leitura desse trecho do Ofício-Circular, veja também o conteúdo


do art. 183 da Lei nº 6.404/76 e do Parecer de Orientação CVM nº 24/92:

Lei nº 6.404/76 – Lei das Sociedades por Ações

Art. 183. No balanço, os elementos do ativo serão avaliados segundo os


seguintes critérios: [...]
II - os direitos que tiverem por objeto mercadorias e produtos do comércio
da companhia, assim como matérias-primas, produtos em fabricação e
bens em almoxarifado, pelo custo de aquisição ou produção, deduzido de
provisão para ajustá-lo ao valor de mercado, quando este for inferior; [...]
§ 1º Para efeitos do disposto neste artigo, considera-se valor de mercado:
a) das matérias-primas e dos bens em almoxarifado, o preço pelo qual
possam ser repostos, mediante compra no mercado;
b) dos bens ou direitos destinados à venda, o preço líquido de realização
mediante venda no mercado, deduzidos os impostos e demais despesas
necessárias para a venda, e a margem de lucro; [...]
§ 4º Os estoques de mercadorias fungíveis destinadas à venda poderão ser
avaliados pelo valor de mercado, quando esse for o costume mercantil
aceito pela técnica contábil.

Parecer de Orientação CVM nº 24/1992

2. CAPACIDADE OCIOSA

185
O custo referente à capacidade instalada deve ser transferido às unidades
produzidas, integralmente, sempre que as instalações produtivas
estiverem sendo utilizadas em condições normais. A partir do ponto em
que a ociosidade deixar de estar dentro dos limites da normalidade, o
custo referente a essa ociosidade em excesso deve ser levado diretamente
à despesa não operacional, a título de item extraordinário, não se
admitindo a sua transferência para estoques, evitando-se, desta maneira, o
risco de uma superavaliação destes e da não possibilidade da sua recuperação.

A ociosidade anormal é um fator não rotineiro ou não recorrente e


pode acontecer em função de greve, recessão econômica acentuada
no setor de atuação da companhia ou outra razão econômica,
interna ou externa, extemporânea.

São custos de capacidade instalada, todos os de natureza fixa, como


depreciação, aluguéis, etc., inclusive os de supervisão incluídos nos gastos
indiretos de fabricação.

Na existência de capacidade ociosa, a companhia aberta elaborará nota


explicativa para dar ciência da dimensão do fato aos interessados em
suas informações. (grifo nosso)

Qual foi o racional da CVM ao emitir o Ofício-Circular com essa redação? Harmonizar as
práticas contábeis brasileiras às internacionais (IAS 2, § 13, e ARB 43 alterado pelo SFAS 151) e
fazer com que as empresas brasileiras apurem os custos dos produtos de forma mais coerente à
Teoria da Contabilidade, pelo menos, para fins societários (divulgação aos usuários externos).
A relação com a Teoria da Contabilidade pode ser observada pelo silogismo que segue:

Ativo é a aplicação de recursos da qual se espera a geração de benefícios futuros.

A ociosidade presente não gerará benefícios futuros.

Logo, os gastos de produção associados à manutenção de capacidade ociosa


(capacidade instalada maior do que a normal de produção) não devem ser
contabilizados como um Ativo (custo de produção, estoque), mas sim como
uma Despesa do período (ou até como uma perda – despesa extraordinária).

186
Quais são os impactos dessas normas na conciliação entre as informações geradas para fins
gerenciais – internos à firma – e aquelas necessárias para divulgação aos usuários externos.
O gestor preocupado em melhor administrar a produção não deveria considerar, para fins
internos, a ociosidade como um Ativo, mas imediatamente como uma perda. Ao exigir esse
tratamento contábil para fins societários – pelo menos no que diz respeito à ociosidade anormal –, a
CVM: (a) viabilizou o compartilhamento de informações entre os sistemas contábeis gerencial e
societário; (b) facilitou a conciliação entre as informações geradas por eles; (c) incentivou a
observância do conceito de Ativo nas demonstrações contábeis; (d) acelerou a harmonização das
práticas contábeis brasileiras com as internacionais.
Observe o texto do item 3.1 do Ofício-Circular CVM/SNC/SEP nº 1/2007: “Não serão
aceitos procedimentos alternativos que contrariem as regras estabelecidas no referido artigo,
especialmente os criados pela legislação tributária”. Desse modo, mesmo que a legislação do
Imposto de Renda não aceite o reconhecimento dos gastos relativos à capacidade ociosa como
despesa do período, as empresas deverão reconhecê-los como tal, observados os ditames das normas
societárias. Nesse caso, a base de cálculo do Imposto de Renda (lucro real) deverá ser ajustada –
adicionando-se tal despesa.
Independentemente da questão tributária, que definitivamente não é o nosso foco, uma
questão factual há de ser considerada quando se discute a ociosidade – é o tratamento dos gastos
com a manutenção do parque fabril durante o período de entressafra ou de férias coletivas.
Imagine uma instalação industrial dedicada ao processamento de um único tipo de matéria-
prima sujeita à oferta somente no período da safra, por exemplo, tabaco, morango, cana-de-açúcar
e açaí. Digamos que essa instalação seja utilizada no processo produtivo durante os meses de março
a novembro. No entanto, entre dezembro e fevereiro, suponha que a instalação fique parada em
função da normal escassez de matéria-prima e, claro, que a entidade arque com os gastos de
manutenção do parque fabril durante o período de escassez.
Qual é o adequado tratamento contábil desses gastos? Certamente, não é o reconhecimento
como despesa do período, uma vez que essa ociosidade é normal, esperada e inerente ao ciclo da
natureza. Nesse contexto, o mais adequado é considerá-los como custos dos itens produzidos com as
matérias-primas da safra subsequente. Dessa forma, tais gastos devem ser acumulados como Despesas
Antecipadas – ou em uma subconta de Estoque de Produtos em Processo, por exemplo, Gastos de
Manutenção durante a Entressafra – e alocados aos produtos produzidos com as matérias-primas
colhidas na safra que se esperava. Aproveitando os dados da situação hipotética utilizada para ilustrar
o caso, os gastos incorridos de dezembro a fevereiro com a manutenção do parque fabril deveriam ser
alocados aos produtos processados entre março e novembro.
O mesmo ocorre com os gastos de manutenção incorridos durante o período de férias coletivas:
devem ser acumulados e apropriados aos produtos produzidos nos 11 meses subsequentes às férias.
Essa questão se torna mais complexa se a empresa produzir um volume muito pequeno
durante a entressafra ou as férias coletivas. Nesse caso, só se consideraria custo do baixo volume

187
produzido proporcionalmente à produção normal na época pós-safra. Retomando o caso
hipotético, imagine que a produção mensal de dezembro, janeiro e fevereiro corresponda a 10% da
produção normal dos meses de março a novembro, e que os gastos mensais de manutenção sejam
$ 2.000 (fixos). A alocação desses gastos aos custos dos produtos seria:

Tabela 65 – Alocação dos gastos aos custos dos produtos

gasto com gasto com manutenção


mês produção
manutenção incorrido alocado

janeiro 2.000,00 100 258,06

fevereiro 2.000,00 100 258,06

março 2.000,00 1.000 2.580,65

abril 2.000,00 1.000 2.580,65

maio 2.000,00 1.000 2.580,65

junho 2.000,00 1.000 2.580,65

julho 2.000,00 1.000 2.580,65

agosto 2.000,00 1.000 2.580,65

setembro 2.000,00 1.000 2.580,65

outubro 2.000,00 1.000 2.580,65

novembro 2.000,00 1.000 2.580,65

dezembro 2.000,00 100 258,06

total 24.000,00 9.300 24.000,00

Nesse caso hipotético, o custo-padrão com manutenção seria de $ 2,580645/unidade


($ 24.000/9.300 unidades).

188
MÓDULO VI – RELAÇÃO CUSTO-VOLUME-
LUCRO (1ª PARTE)

Neste módulo, vamos estudar a utilização das informações geradas pela Contabilidade de
Custos elaborada com base no custeio variável. Desse modo, estudaremos a relação custo-volume-
lucro, que é muito útil para identificar a quantidade mínima que a entidade precisa produzir e
vender para não apurar prejuízo (ponto de equilíbrio), a queda máxima que as vendas podem sofrer
para que a entidade não apure prejuízo (margem de segurança).

Introdução
Uma vez que estudamos a Contabilidade de Custos, estamos aptos a analisar os Custos – o
que começa a ser o foco de estudo da Contabilidade Gerencial.
A análise da relação custo-volume-lucro (CVL) decorre da análise incremental, isto é, do
lucro que se obtém se mais uma unidade for vendida.
A grande vantagem da análise incremental é a praticidade e a facilidade. Afinal, projetar o
que ocorrerá com o lucro, se uma unidade adicional for vendida, é substancialmente mais fácil do
que estimar o lucro caso a venda adicional fosse de 25.595.781 unidades.
Observe que a análise incremental é desenvolvida nas mais comuns situações. Imagine que
você está caminhando na trilha de uma montanha com muita neblina. A neblina é tanta que você
não enxerga um palmo à sua volta. Como saberá se já chegou ao topo? Simples, analisando o esforço
adicional do próximo passo à frente, você saberá se ainda está subindo (ainda não chegou ao topo)
ou se já está descendo (já passou pelo topo).
Partindo de uma analogia simples como essa, neste módulo, analisaremos questões do tipo:
quantas unidades precisam ser produzidas e vendidas para não ter prejuízo? Em quanto as vendas
podem reduzir-se sem que a empresa tenha prejuízo? Se o volume alterar em x%, qual será o lucro?
Como essas três questões anteriores funcionam em uma empresa que produz e vende uma
diversidade de produtos? Que produto deve ter produção e venda incentivadas caso um recurso
comum a diversos produtos esteja em falta? Vale a pena aceitar uma oferta especial se o cliente
estiver disposto a pagar um preço menor do que o tradicionalmente cobrado pela empresa?
Para responder a todas essas questões, utilizaremos o custeio variável. Desse modo, é bom
ressaltar que não existe custo ou despesa eternamente fixos. Ambos são fixos dentro de certos limites
de oscilação da atividade a que se referem – intervalo relevante –, após o qual os custos aumentam
em degraus. Dessa forma, o custo com a supervisão de uma fábrica pode manter-se constante até
que ela atinja, por exemplo, 50% da sua capacidade – a partir daí, provavelmente, precisará de um
acréscimo para que a supervisão consiga desempenhar bem a sua função.
Podemos verificar, como no exemplo dado pelo professor Eliseu Martins (Contabilidade de
custos, 2003), que uma planta parada, sem atividade alguma, já é responsável pela existência de
alguns tipos de custos e despesas fixos, tais como vigia, lubrificação das máquinas, depreciação,
entre outros. Para colocá-la em condições de funcionamento – mesmo que a 10% da capacidade –
, já há um acréscimo abrupto desses custos, seja com chefias, mestres, mecânicos, almoxarifes, entre
outros. Com essa estrutura, talvez seja possível suportar até 20% da capacidade. Para aumentar um
pouco, serão necessários outros homens – para a recepção de materiais, controle de qualidade,
ferramentaria, etc. –, o que pode provocar uma variação menor ou maior do que a porcentagem de
acréscimo do volume de produção.
Em inúmeras empresas, os únicos custos realmente variáveis, no verdadeiro sentido da
palavra, são as matérias-primas. Mesmo assim, pode acontecer de o grau de consumo delas, em
algum tipo de empresa, não ser exatamente proporcional ao nível de produção.
Por exemplo, certas indústrias têm altas perdas no processamento da matéria-prima quando
o volume produzido é baixo e tendem a diminuir, percentualmente, quando a produção cresce. Em
contrapartida, a mão de obra direta pode crescer à medida que se produz mais, mas não de forma
exatamente proporcional, já que a produtividade tenderia a aumentar até certo ponto, para depois
começar a cair.
Se o pessoal da produção (chão de fábrica) tem oito horas para produzir 60 unidades –
considerando que, normalmente, levaria seis para tal volume –, provavelmente, gastará as oito horas
trabalhando de forma mais calma, caso o volume por hora não esteja condicionado por máquinas.
Se o volume passar para 80 unidades, eles vão trabalhar as mesmas oito horas. Ao chegar a 90
unidades, é possível que levem pouco mais de nove horas, em função do cansaço, que faz decrescer
a produtividade.
O estudo das relações entre receita (vendas), despesas (custos) e renda líquida (lucro líquido)
é denominado análise de custo-volume-lucro.
A análise de custo-volume-lucro propicia uma ampla visão financeira do processo de
planejamento. Ela examina o comportamento das receitas totais, dos custos totais e do lucro à
medida que ocorre uma mudança no nível de atividade, no preço de venda ou nos custos fixos.

190
Normalmente, os gerentes utilizam a análise custo-volume-lucro como ferramenta para
auxiliá-los em questões do tipo: em quanto seriam afetados os custos e as receitas se vendêssemos
1.000 unidades a mais? E se aumentássemos ou diminuíssemos o preço de venda, ou, ainda, se
expandíssemos o negócio para mercados no exterior?
O custo-volume-lucro foi desenvolvido com o intuito de simplificar as hipóteses sobre os
padrões de comportamento do custo e da receita.
A análise de custo-volume-lucro está baseada nas seguintes suposições:
1. Os custos totais podem ser divididos em uma parte fixa e outra parte variável com relação
ao nível de atividade (volume de unidades produzidas e vendidas).
2. O comportamento das receitas e dos custos totais é linear dentro de determinada faixa de
atividade. Isso significa dizer que os preços de venda são constantes dentro de determinada
faixa de atividade,23 que a produtividade é constante e que os custos dos insumos de
produção também são constantes dentro da faixa de atividade considerada. Quando
poderia caracterizar-se a não linearidade? No caso das receitas, reduções no preço de venda
podem ser necessárias para elevar o volume das vendas (elasticidade preço-demanda menor
do que –1). Da mesma forma, os custos variáveis unitários podem diminuir quando o nível
de atividade aumentar, isto é, à medida que os empregados aprenderem a manipular os
processos mais eficientemente.
3. O preço de venda unitário, os custos variáveis unitários e os custos fixos são conhecidos.
4. A análise tanto abrange um único produto quanto supõe que um dado mix de receita de
produtos permanecerá constante, mesmo quando a quantidade total de unidades vendidas
se alterar.
5. Todas as receitas e os custos podem ser adicionados e comparados sem levar em consideração
o valor do dinheiro no tempo.

A análise de custo-volume-lucro pode ser usada para examinar de que modo várias alternativas
de simulação levadas em consideração por um tomador de decisão afetam o lucro operacional.
Frequentemente, o ponto de equilíbrio é um item de interesse nessa análise. Os gestores desejam
evitar o estigma de auferir prejuízo.

23
Conforme estudado em Microeconomia, a elasticidade-preço da demanda faz com que o preço unitário se reduza
conforme a demanda aumenta (receita marginal decrescente).

191
Ponto de equilíbrio
O ponto de equilíbrio é o nível de atividade em que as receitas totais e os custos totais se
igualam, ou seja, é o nível de atividade no qual o lucro é igual a zero.
O ponto de equilíbrio pode ser analisado sob três aspectos: contábil, econômico e financeiro.
O ponto de equilíbrio financeiro é apresentado no apêndice deste capítulo.

Ponto de equilíbrio contábil


No Ponto de Equilíbrio Contábil (PEC), o lucro contábil é igual a zero. Pode-se calcular o
PEC em quantidade de unidades a serem produzidas e vendidas – PEC(un.) – e em termos
monetários, isto é, a receita que se precisa auferir para ter lucro contábil igual a zero – PEC($).

-./01/ 2341/ )= + >=


'() (*+. ) = =
5.6-75 81+0639*3çã1 *+30á63. ?67ç1 – ()@*+30. + >@*+30. )

PEC($) = PEC(un.) × Preço

Desse modo, o ponto de equilíbrio em unidades – PEC(un.) – representa a quantidade


mínima que a empresa deve vender para não apurar prejuízo, enquanto o ponto de equilíbrio em
moeda – PEC($) – representa a receita de vendas mínima que a empresa deve auferir para não
apurar prejuízo.
Esse tipo de análise é de grande importância tanto para empresas com fins lucrativos quanto
para entidades sem fins lucrativos, pois viabiliza a verificação dos custos em função do volume
produzido e, consequentemente, do resultado auferido.
Um ponto que merece destaque é a análise da margem de contribuição, que representa a
contribuição mínima de cada produto para cobrir todos os gastos fixos.
Para simplificar o nosso entendimento, demonstraremos um exemplo de apuração do ponto
de equilíbrio contábil, a seguir.
Preço de Venda: $ 500/un.
Custos e Despesas Variáveis: $ 350/un.
Custos e Despesas Fixos: $ 600.000/mês

No ponto de equilíbrio contábil, o lucro é zero. Se o lucro é zero, a receita é igual ao somatório
dos custos com as despesas. Dessa forma, Receita total = Custos totais + Despesas totais. Como a
Receita total = Quantidade × preço de venda, então:

Receita total = 500 × Quantidade

192
Como os Custos e as Despesas Totais são iguais ao somatório dos Custos e das Despesas
variáveis com os Custos e Despesas fixos, e como os Custos e as Despesas variáveis = Quantidade
× Custos e Despesas variáveis unitários, então:

Custos e Despesas variáveis = 350 × Quantidade

Logo, Custos e Despesas Totais = 350 × Quantidade + 600.000


Então, 500 × Quantidade = 350 × Quantidade + 600.000
Resolvendo, temos:

500 × Quantidade – 350 × Quantidade = 600.000


150 × Quantidade = 600.000
Quantidade = 600.000 ÷ 150 = 4.000 unidades por mês

Utilizando a fórmula, temos:

600.000 600.000
'() (*+. ) = = = 4.000
500 – 350 150

Por fim, em moeda (Receitas Totais), temos:

PEC($) = 4.000 un./mês × $ 500/un. = $ 2.000.000/mês

Com esse volume de vendas, teremos como Custos e Despesas Totais:

Variáveis: 4.000 un. × $ 350/un. = $ 1.400.000


Fixos: $ 600.000
Total: $ 2.000.000

A partir da unidade de número 4.001, cada margem de contribuição unitária que se “ocupava”
com a cobertura dos custos e das despesas fixos passa a contribuir para a formação do lucro.

Ponto de equilíbrio econômico


No Ponto de Equilíbrio Econômico (break-even-point), o lucro econômico é igual a zero –
sendo que o lucro econômico considera a remuneração do capital próprio como uma despesa.

193
A análise do Ponto de Equilíbrio Econômico (PEE) também serve para determinarmos a
quantidade que uma empresa deve vender para apurar certo nível de lucro. Para tanto, basta
adicionarmos, em unidades, ao numerador da equação do ponto de equilíbrio, o lucro antes do
Imposto de Renda (Lair), que remuneraria o capital próprio da empresa.

-./01/ 2341/ + K.36 )= + >= + K.36


'(( = EFGHIJ = =
5.6-75 81+0639*3çã1 *+30á63. ?67ç1 – ()@*+30. + >@*+30. )

sendo:

L*861 LíN*3O1 KK
K.36 = =
1 – .LíN*10. O7 PQ 1 − @PQ

Dando sequência ao exemplo acima, demonstraremos a quantidade que a empresa deverá


vender para apurar um lucro líquido de $ 15.000/mês.
Preço de venda: $ 500/un.
Custos e despesas variáveis: $ 350/un.
Custos e despesas fixos: $ 600.000/mês
Lucro líquido: $ 15.000/mês
Alíquota de Imposto de Renda: 25%

15.000 15.000
K.36 = = = 20.000
1 – 0,25 0,75

600.000 + 20.000 620.000


'(( = EUV.WWW = = = 4.1333, 3X
500 – 350 150

Considerando que o lucro líquido de $ 15.000/mês é o montante de que os acionistas


precisam para remunerar, adequadamente, o capital investido, o Ponto de Equilíbrio Econômico se
dá em 4.134 unidades.

Margem de segurança
A Margem de Segurança, como o próprio nome sugere, corresponde à redução das vendas
que determinada entidade pode sofrer, sem apurar prejuízo. Em outras palavras, pode-se dizer que
a Margem de Segurança é a diferença entre o nível efetivo de atividade e o nível de atividade do
ponto de equilíbrio.

194
receita atual – receitas P. Eq.
margem de segurança = × 100
receita atual

ou

quantidade atual – quantidade P. Eq.


margem de segurança = × 100
quantidade atual

Para simplificar o nosso entendimento, aproveitaremos o exemplo apresentado na unidade


anterior sobre a apuração do Ponto de Equilíbrio Contábil.
Preço de Venda: $ 500/un.
Custos e Despesas Variáveis: $ 350/un.
Custos e Despesas Fixos: $ 600.000/mês
Ponto de Equilíbrio Contábil = 4.000 un./mês

Suponha que aquela empresa esteja vendendo, efetivamente, 5.500 un./mês.

Desse modo:
Receita Atual = 5.500 un. × $ 500/un.= $ 2.750.000
Receita no Ponto de Equilíbrio = 4.000 un. × $ 500/un. = $ 2.000.000

$ 2.750.000 − $ 2.000.000
^.6-75 O7 _7-*6.+ç. = = 27,27%
$ 2.750.000

ou

5.500 – 4.000
^.6-75 O7 _7-*6.+ç. = = 27,27%
5.500

Ou seja, as vendas dessa empresa podem diminuir em 27,27% já que, ainda assim, não se
apura prejuízo.

195
MÓDULO VII – RELAÇÃO CUSTO-VOLUME-
LUCRO (2ª PARTE)

Neste módulo, vamos continuar estudando a utilização das informações geradas pela
Contabilidade de Custos elaborada com base no custeio variável, especificamente a relação custo-
volume-lucro. Contudo, estudaremos um assunto um pouco mais avançado, a decisão de
determinação do volume de produção para um mix de produtos e a decisão de determinação do
volume de produção em condição de restrição de fatores de produção, bem como o processo de
decisão de aceitar ou rejeitar pedidos especiais.

Margem de contribuição de múltiplos produtos: mix de


produtos
Já estudamos que devemos “sempre” priorizar a produção e a venda do item que oferecer a
maior Margem de Contribuição Unitária.
No entanto, algumas empresas produzem e comercializam uma quantidade tão grande de
diferentes itens que a análise proposta pode tornar-se praticamente inviável. Dessa maneira, o
foco de decisão passa a ser um lote formado por diferentes itens que guardem razoável correlação
entre o volume comercializado de determinado produto com o volume de outros produtos.
Nesse caso, o gestor pode usar como ferramentas o Ponto de Equilíbrio e a Margem de
Segurança para analisar o conjunto de produtos como se formassem um lote de produtos – um
mix de produtos –, e não só cada produto isoladamente.
É o exemplo de uma loja de materiais elétricos. Imagine a dificuldade que o gestor dessa loja
enfrentaria caso pretendesse analisar o ponto de equilíbrio de cada produto – calha da luminária,
reator, start, polos, lâmpadas, tomada, fio, fita isolante, etc. – isoladamente. Provavelmente, quando
ele acabasse de obter todos os dados para analisar e tomar a decisão, a decisão já seria intempestiva.
Vejamos o exemplo, agora com números:
O gestor da Varejista Comercial Ltda. está preocupado em identificar o volume de cada um
dos produtos do estoque que deve vender para que a sua empresa não apure prejuízo.
Sabe-se que os gastos fixos somam $ 48.800,00 por mês.
Sabe-se que os preços unitários e os custos variáveis unitários de cada um dos produtos são
os seguintes:

Tabela 66 – Preços unitários e custos variáveis unitários

preço de
unidade de custo variável
produto venda
medida unitário
unitário

x1 unidade 100,00 80,00

y2 quilograma 30,00 10,00

z3 litro 2,00 1,20

Admitindo-se que a seguinte correlação é válida, visto que o gestor da Varejista Comercial
Ltda. já vem analisando o comportamento dos seus clientes há alguns anos:

Tabela 67 – Correlação de produtos

produto correlação (peso no lote)

X1 1 unidade

Y2 10 quilogramas

Z3 30 litros

Ou seja, para cada unidade de X1 vendida, a loja vende 10 kg de Y2 e 30 litros de Z3. Com
isso, para verificar quantas unidades de cada um desses produtos, em média, a loja deve vender para
não apurar prejuízo, o gestor da Varejista Comercial Ltda. deverá transformar os diversos produtos
em um lote – composto de 1 X1, 10 Y2 e 30 Z3 – e calcular a Margem de Contribuição de um lote
desses produtos.

198
Tabela 68 – Margem de contribuição de um lote

produto unidade preço custo margem correlação margem de


de medida de variável contribuição (peso no contribuição
venda unitário unitária lote) lote
unitário

a b c=a–b d e=cxd

X1 unidade 100,00 80,00 20,00 1 20,00

Y2 quilograma 30,00 10,00 20,00 10 200,00

Z3 litro 2,00 1,20 0,80 30 24,00

total 244,00

Sabendo que os gastos fixos mensais totalizam $ 48.800,00 por mês, basta dividi-lo pela
Margem de Contribuição de um lote, ou seja, $ 244,00 por lote, para se obter que o ponto de
equilíbrio contábil em lotes é 200 lotes = $ 48.800,00 ÷ $ 244,00 por lote.
Por fim, para conhecer o volume de cada produto que, em média, deveria ser vendido, basta
multiplicar o peso de cada um desses produtos no lote – coluna d da tabela – pelo ponto de
equilíbrio contábil, 200 lotes.

Tabela 69 – Volume de cada produto

ponto de equilíbrio
produto unidade de medida
(unidades)

X1 unidade 200

Y2 quilograma 2.000

Z3 litro 6.000

Outra forma de determinar o Ponto de Equilíbrio para uma empresa multiprodutos é por
meio da fórmula:

PEC($) = Gastos fixos / Índice de margem de contribuição total

199
Em que o Índice de margem de contribuição total corresponde ao quociente entre a Margem
de contribuição total da empresa e a Receita bruta total da empresa.
O uso dessa fórmula é limitado pela necessidade de que a ponderação das vendas entre os
diversos produtos seja constante.

Contribuição marginal e limitação da capacidade da


produção: fator restritivo
Uma das principais decisões que o controller deve tomar, no tocante à produção, é a respeito
do mix de produtos, ou seja, que produtos fabricar e em que quantidade, de forma a maximizar o
resultado da empresa.
Quando estudamos a relação custo-volume-lucro, aprendemos que, se não houver qualquer
restrição, deveremos dar preferência ao produto que oferece a maior margem de contribuição
unitária, e que, se houver uma restrição, a decisão recairá sobre aquele que oferecer a maior margem
de contribuição unitária por fator restritivo.
No entanto, na maioria das vezes, as empresas se deparam com diversas restrições
simultaneamente, o que exige do controller um exercício maior de análise e reflexão, pois a resposta
não aparecerá de forma tão simples. Para tanto, devemos analisar a margem de contribuição
unitária que cada produto oferece e cada uma das restrições existentes, por meio do modelo de
programação linear.
Para simplificar o entendimento, podemos dizer que o gestor deve priorizar a produção e a
venda do item que oferecer a maior Margem de Contribuição Unitária por Fator Restritivo.
Vejamos um exemplo simples: a Vinícola Chateau du SzusterCardoso produz, engarrafa e vende
o melhor vinho tinto da região. A rigor, só produz um tipo de vinho seco, com as uvas do tipo Cabernet
Sauvignon. No entanto, trabalha com duas versões do produto – garrafa inteira (750 ml) e meia garrafa
(375 ml). Os preços de venda unitários e os respectivos custos variáveis são:

Tabela 70 – Preços de venda unitários e custos variáveis

produto preço de venda unitário custo variável unitário

garrafa inteira (750 ml) $ 200,00 $ 120,00

meia garrafa (375 ml) $ 130,00 $ 80,00

Os custos fixos anuais da Vinícola Chateau du SzusterCardoso somam $ 90.000,00. A


demanda pela garrafa inteira (750 ml) é de 1.000 unidades por ano, e a da meia garrafa é de 800
unidades por ano.

200
Devido à reprovação de um dos barris, pelo enólogo responsável, o envasamento deste ano
está limitado pela quantidade de vinho disponível nos barris aprovados no teste de qualidade
(estoque de matéria-prima), que é de 900 litros.
A Vinícola Chateau du SzusterCardoso tem por política não estocar vinho engarrafado, ou
seja, procura produzir o volume que se espera vender, a cada ano.
Considerando somente as informações acima, para que a Vinícola Chateau du
SzusterCardoso maximize o seu lucro neste ano, quantas garrafas inteiras (750 ml) e meias garrafas
(375 ml), respectivamente, deverão ser produzidas?
O primeiro passo é identificar a margem de contribuição unitária desses dois produtos:

Tabela 71 – Margem de contribuição unitária dos produtos

margem de
preço de venda custo variável
produto contribuição unitária
unitário (a) unitário (b)
(c = a – b)

garrafa inteira (750 ml) 200 120 80

meia garrafa (375 ml) 130 80 50

Se não fosse pela restrição no volume de vinho a ser engarrafado, em função da reprovação
de um dos barris, o gestor da Vinícola Chateau du SzusterCardoso deveria priorizar a produção da
garrafa inteira (750 ml), pois é esse o produto que gera a maior margem de contribuição unitária.
Produzindo 1.000 unidades da garrafa inteira, e se, por acaso, sobrasse vinho ainda a ser
engarrafado, o restante seria utilizado para produzir 800 unidades da meia garrafa. Afinal, a
demanda pela garrafa inteira (750 ml) é de 1.000 unidades por ano, e a da meia garrafa (375 ml) é
de 800 unidades por ano.
No entanto, há a restrição, já que a Vinícola Chateau du SzusterCardoso só dispõe de 900
litros de vinho e, para atender a toda a demanda de mercado, seriam necessários 1.050 litros (1.000
× 0,75 + 800 × 0,375). Desse modo, a solução baseada na margem de contribuição unitária (1.000
unidades de garrafas inteiras e 800 meias garrafas) não é viável.

201
É necessário analisar qual dos produtos oferece a maior margem de contribuição unitária por
fator restritivo:

Tabela 72 – Margem de contribuição unitária por fator restritivo

preço fator margem de


custo margem de restritivo
de contribuição
variável contribuição (por
produto venda unitária por
unitário unitária unidade)
unitário fator restritivo
(b) (c = a – b)
(a) (d) (e = c ÷ d)

garrafa inteira (750 ml) 200 120 80 0,75 106,667

meia garrafa (375 ml) 130 80 50 0,375 133,333

Agora, percebe-se que as meias garrafas (375 ml) devem ter a sua produção priorizada em
detrimento da produção das garrafas inteiras, uma vez que é esse o produto que mais remunera cada
litro de vinho (matéria-prima) consumido ($ 133,33/litro de vinho).
Considerando a demanda de mercado de 800 unidades de meia garrafa por ano, a Vinícola
Chateau du SzusterCardoso deverá produzir neste ano 800 meias garrafas (consumindo 300 litros
de vinho = 800 unidades × 0,375 litro/un.). Com o restante, 600 litros de vinho (900 – 300),
deverá produzir 800 garrafas inteiras (600 litros ÷ 0,75 litro/un.). Essa solução permitirá à Vinícola
Chateau du SzusterCardoso auferir o lucro de $ 14.000,00.

202
Tabela 73 – Lucro operacional

garrafa inteira (750 ml) meia garrafa (375 ml)

quantidade 800 800

preço unitário 200,00 130,00

custo unitário 120,00 80,00

garrafa inteira (750 ml) meia garrafa (375 ml) vinícola

receita 160.000,00 104.000,00 264.000

custos variáveis (96.000,00) (64.000,00) (160.000)

lucro bruto 64.000,00 40.000,00 104.000

custos fixos 0 0 (90.000)

lucro operacional  0  0 14.000

Solução gráfica
A resposta desse problema pode ser obtida por meio da análise gráfica, pois são contempladas
poucas restrições. Dessa forma, temos:

Gráfico 4 – Soluções

203
O gráfico apresenta diversas soluções possíveis e uma impossível. No eixo horizontal (X), está
apresentado o volume de garrafas inteiras (750 ml); no eixo vertical (Y), o volume de meias garrafas
(375 ml). A área cinza apresenta as soluções possíveis e interessantes, que respeitam todas as restrições:
disponibilidade de matéria-prima e demanda de mercado, e que não geram estoque de produtos
acabados. A melhor solução (maior lucro) está apresentada em negrito (800 unidades de cada
produto). Tais soluções foram apuradas mediante os mais simples cálculos, conforme demonstrado:

Tabela 74 – Soluções

garrafa meia litros de


Solução lucro lucro
inteira garrafa matéria-
solução possível ou operacional operacional
(750 ml) (375 ml) prima
impossível? (teórico) (efetivo)
X Y consumida

produção
1.200 0 900 possível 6.000,00 (10.000,00)
máxima de GI

produção
0 2.400 900 possível 30.000,00 (50.000,00)
máxima de MG

demanda de
1.000 800 1.050 impossível 30.000,00 impossível
mercado

priorizar
1.000 400 900 possível 10.000,00 10.000,00
produção de GI

priorizar
produção de 800 800 900 possível 14.000,00 14.000,00
MG

Na tabela, a coluna “litros de matéria-prima consumida” corresponde ao somatório do


produto (X x 0,75 + Y x 0,375). Considerando a restrição de vinho no estoque (900 litros), a solução
“demanda de mercado” é impossível, enquanto todas as demais são possíveis.
Considerando que a vinícola tem por política vender toda a produção – não trabalhar com
estoque de produtos acabados, vinho engarrafado –, não adianta produzir 1.200 unidades de garrafa
inteira, já que o mercado demanda, no máximo, 1.000 unidades desse produto. Da mesma forma,
não adianta produzir 2.400 unidades de meia garrafa, pois o mercado demanda, no máximo, 800
unidades desse produto. Por esse motivo, não se deve decidir com base no resultado apresentado na
coluna “Lucro Operacional (teórico)”. Afinal, se produzir 1.200 unidades de garrafa inteira e nada
da meia garrafa, venderá, no máximo, 1.000 unidades de garrafa inteira e nada da meia garrafa,
gerando um prejuízo (efetivo) de ($ 10.000,00).

204
Desse modo, o melhor para a Vinícola Chateau du SzusterCardoso é priorizar a produção de
meias garrafas até atender à demanda de mercado (800 unidades) e, com o vinho que sobrar,
engarrafar 800 unidades de garrafas inteiras, auferindo o lucro de $ 14.000,00.

Solução com auxílio do Solver


O primeiro passo para utilizar o Solver do Excel é abrir o Excel, verificar em “Ferramentas” se a
opção “Solver” está disponível e clicar nela. Caso o Solver não esteja disponível, será necessário instalá-
lo, clicando em “Ferramentas” e “Suplementos”. Em seguida, selecione “Solver” e clique em “OK”.
O segundo passo é elaborar uma planilha contendo todas as variáveis do problema:

Tabela 75 – Variáveis

A B C D

garrafa inteira meia garrafa


1
(750 ml) (375 ml)

2 quantidade (em un. de garrafas) 0 0

3 preço unitário 200 130

4 custo unitário 120 80

5 margem de contribuição unitária =b3-b4 =c3-c4

6 margem de contribuição total =b2*b5 =c2*c5 =b6+c6

7 restrições

8 litros de vinho por garrafa (em litros) 0,75 0,375

9 consumo de vinho (em litros) =b2*b8 =c2*c8 =b9+c9

10 demanda de mercado (em un.) 1000 800

11 lucro operacional =d6-90000

Para a variável quantidade, como não sabemos a priori (essa é nossa incógnita), digitamos
zero. O preço unitário e o custo variável foram informados no enunciado do problema. A margem
de contribuição unitária é a diferença entre o preço unitário e o custo variável. A margem de
contribuição total é o produto entre a quantidade de cada produto e a respectiva margem de

205
contribuição unitária. Somando a margem de contribuição total gerada pelos dois produtos,
encontra-se o consumo de vinho de cada tipo de produto.
O consumo de vinho por unidade de cada tipo de produto (0,75 para a garrafa inteira e 0,375
para a meia garrafa) bem como as restrições (disponibilidade de vinho e demanda mercadológica),
foram dados no enunciado. O consumo de vinho de cada tipo de produto corresponde ao resultado
da multiplicação da quantidade produzida pelo volume de vinho por garrafa. O somatório do
consumo de vinho de cada tipo de produto é o consumo total de vinho, que está restrito a 900
litros nesse caso.
Por fim, o lucro operacional é a diferença entre o consumo de vinho de cada tipo de produto
e o seu custo fixo anual ($ 90.000,00).

Figura 4 – Parâmetros do Solver

Considere que: a “célula de destino” é o lucro que queremos maximizar – “Máx”; as “células
variáveis” correspondem às quantidades de produtos garrafa inteira e meia garrafa que pretendemos
produzir; as “restrições” são, na ordem: (1) produção de garrafa inteira menor ou igual a 1.000
unidades; (2) produção de meia garrafa menor ou igual a 800 unidades; e (3) consumo total de
vinho menor ou igual a 900 litros. Informados todos os parâmetros, basta clicar em “Resolver” e
aguardar pela resposta do Solver.

206
Tabela 76 – Lucro operacional: resposta do Solver

A B C D

garrafa inteira meia garrafa


1
(750 ml) (375 ml)

2 quantidade (em un. de garrafas) 800 800

3 preço unitário 200,00 130,00

4 custo unitário 120,00 80,00

5 margem de contribuição unitária 80,00 50,00

6 margem de contribuição total 64.000,00 40.000,00 104.000,00

7 restrições

8 litros de vinho por garrafa (em litros) 0,750 0,375

9 consumo de vinho (em litros) 600,00 300,00 900,00

10 demanda de mercado (em un.) 1.000 800

11 lucro operacional 14.000,00

A resposta coincide com aquela apresentada desde o início desta unidade, com isso,
ratificando os nossos cálculos.

Contribuição marginal e pedidos especiais


A análise incremental também é relevante para investigar se é financeiramente interessante
atender a um pedido especial de venda pelo qual o cliente ofereça pagar preço unitário inferior ao
que, normalmente, é cobrado pela empresa fornecedora.
A necessidade de utilizar a análise marginal é que o custo fixo normal não será alterado se o
pedido especial puder ser atendido mediante aproveitamento da capacidade ociosa, portanto,
dentro do intervalo relevante.
Essa análise pode ser simplificada mediante a investigação de três questões:
1. Com a redução do preço, a margem de contribuição unitária permanecerá positiva?
2. A empresa está operando com capacidade ociosa?
3. O pedido especial acarretará aumento de algum gasto fixo?

207
Nesse sentido, se o fornecedor estiver operando com capacidade ociosa, se o pedido não
aumentar nenhum gasto fixo e se, mesmo com a redução do preço de venda, a margem de
contribuição unitária ainda ficar positiva, o lucro será majorado ao se atender ao pedido especial.
Desse modo, é interessante atender ao pedido.
Continuará sendo interessante – financeiramente vantajoso – atender ao pedido especial que
demande gastos fixos incrementais se a margem de contribuição total incremental for maior do que
os gastos fixos incrementais, pois o lucro continuará sendo majorado.
Por outro lado, se a margem de contribuição unitária das unidades adicionais for negativa, o
pedido especial não deverá ser atendido. Da mesma forma, não será interessante se a empresa não
estiver operando com capacidade ociosa e a ampliação da capacidade instalada demandar
investimentos de capital.
Na prática, ainda é necessário analisar questões relacionadas à expectativa de comportamento
do cliente contratante da oferta especial bem como dos concorrentes. Com relação ao primeiro, a
preocupação é que a venda por valor abaixo do normalmente praticado não provoque a
“canibalização” do produto, isto é, que o cliente exija sempre o preço diferenciado. No que tange
aos concorrentes, o efeito colateral de aceitar vender abaixo do preço normal é a possibilidade de
ser interpretado como uma “guerra de preços”, isto é, a partir da qual todos os concorrentes no
mercado relevante também reduziriam os seus preços.

208
APÊNDICE

MÓDULO I
I) Funções desempenhadas
Os contadores desempenham diferentes papéis na sociedade. Por meio da compreensão da
atuação dos contadores, será possível determinar a sua importância onde estão inseridos.
Na empresa: planejador tributário, analista financeiro, contador geral (hospitalar, rural,
fiscal, industrial, turismo, mineradora, cooperativa, securitária, de condomínio) e cargos
administrativos (área financeira, chief information officer, controller, executivo, logística).
Auditor interno, contador de custos, contador gerencial, atuário.
No órgão público: contador público (diversos entes públicos), auditor público (Tribunal
de Contas), agente fiscal de renda (municípios, estados, União), oficial contador (polícia
militar, exército, contador e auditor com patente de general de divisão) e diversos
concursos públicos (contador do Ministério Público, fiscal do Ministério do Trabalho,
Bacen, analista de finanças e controle).
No ensino: professor, pesquisador, escritor e conferencista.
Independente (autônomo): auditor independente, consultor, empresário contábil, perito
contábil, investigador de fraudes e parecerista.
II) Demais demonstrações
Em função dos objetivos da disciplina em questão, nesta apostila, priorizamos o estudo do
BP, da DRE e da DFC. Desse modo, quanto às demais demonstrações contábeis de propósito geral,
apresentamos somente os comentários que seguem.
A Demonstração das Mutações do Patrimônio Líquido (DMPL) explica as mudanças
ocorridas no Patrimônio Líquido da empresa, isto é, se os lucros são reinvestidos ou distribuídos
aos acionistas, além das reservas existentes e a integralização de capital.
As Notas Explicativas (NE) apresentam as práticas contábeis adotadas pela entidade e as
informações adicionais para melhor compreensão das Demonstrações Contábeis.
A geração de riqueza pela entidade e a sua distribuição entre os componentes da sociedade
são evidenciadas na Demonstração do Valor Adicionado (DVA).
Vejamos o esquema a seguir, que apresenta a inter-relação entre as principais demonstrações
contábeis de forma sistêmica:

210
Figura 5 – Inter-relação entre as principais demonstrações contábeis

211
MÓDULO III
I) Custo médio ponderado fixo: controle periódico
Segundo o Custo Médio Ponderado Fixo (CMPF), os estoques são avaliados pelo custo
médio das mercadorias compradas, ponderadas no fim de determinado período; afinal, o estoque é
controlado periodicamente.
Esse critério só é aceito pelo Fisco se apurado em curtos períodos de tempo e, ainda assim, se
os estoques não forem compostos de produtos com rotações e variações muito diferentes.
O CMPM demanda controle permanente dos estoques, e o seu valor é alterado sempre que
há novas entradas. Já o CMPF é utilizado quando os estoques são controlados periodicamente e,
não importando quantas entradas houve no período analisado, o seu valor é fixado no fim desse
período, dividindo-se o valor total das aquisições pelo número de itens adquiridos.
Vejamos o mesmo exemplo:

Tabela 77 – CMPF

entrada saída saldo final


data
(unid.) ($) (unid.) (unid.) ($)

si 10 x 20,00 200,00

05 30 x 25,00 750,00 40

10 32 8

22 5 x 30,00 150,00 13

30 1 12 x 24,444 293,333

soma 35 900,00 33 × 24,444 806,666

No final do período, o custo de cada unidade em estoque é (200 + 750 + 150) ÷ (10 + 30 +
05) = 1100,00 ÷ 45 = 24,444. Com isso, o estoque final é 12 x 24,444 = 293,333, e o CMV no
período é 33 x 24,444 = 806,666.

212
II) Método do varejo
As grandes empresas de varejo, que trabalham com uma infinidade de itens, podem adotar o
método do varejo, por ser mais simples e menos dispendioso. Dado o preço de venda do produto,
retiram-se as despesas e a margem de lucro, chegando-se ao custo do estoque. Esse critério é aceito
pelo Iasb, no seu posicionamento nº 2.
Imagine uma loja de departamentos que venda uma infinidade de diferentes itens cujo prazo
médio de estocagem seja muito pequeno. Sem um sistema informatizado de controle dos estoques
fica praticamente inviável a adoção de qualquer dos quatro métodos de avaliação dos Estoques, e,
consequentemente, do CMV. Por isso, no dia a dia, ela adota o Método do Varejo.
Dessa forma, ao vender determinada mercadoria cuja margem de lucro média seja de 30%
sobre o preço de venda de $ 10,00, o seu contador reconhece a receita de vendas (observando o
Princípio da Realização da Receita) e, para confrontar a despesa (CMV) associada àquela venda, faz
o seguinte cálculo: $ 10,00 x (1 – 0,3) = $ 7,00, e reconhece o CMV por $ 7,00.

MÓDULO IV
I) Elaboração do parecer
A análise das demonstrações contábeis pode ter diversas finalidades, mas o objetivo básico é
sempre identificar a situação econômico-financeira da entidade analisada. Desse modo, não existe
uma estrutura rígida predefinida de parecer. No entanto, normalmente, o analista apresenta
algumas características operacionais da empresa analisada, as fontes de coleta das informações
contábeis, os ajustes e as reclassificações efetuados, os cálculos efetuados e o parâmetro de
comparação adotado, para, finalmente, apresentar as suas conclusões quanto à situação econômico-
financeira da entidade analisada.
Vejamos o exemplo da Droga Raia, cuja situação econômico-financeira foi objeto de análise
deste capítulo.

Contextualização da empresa, dos produtos e das atividades


A história da Raia Drogasil S.A., conhecida pelo nome fantasia Droga Raia, remonta a 1905,
quando o farmacêutico João Baptista Raia inaugurou a Pharmacia Raia, na cidade de Araraquara,
interior do estado de São Paulo. Na década de 1980, já sob a liderança do atual presidente, o Sr.
Antonio Carlos Pipponzi, neto do fundador, a companhia começou a perseguir uma diferenciação
que a permitisse assumir uma posição de destaque no mercado.
Em 1987, foi lançado o Cartão Raia, que se acredita ser o primeiro cartão de fidelidade de
todo o varejo brasileiro, com a constituição de um banco de dados e sem envolver a concessão de
crédito. Nesse mesmo ano, a Droga Raia concluiu a informatização de toda a cadeia de suprimentos,

213
incluindo o centro de distribuição e as lojas, o que reduziu drasticamente os inventários e gerou
uma liquidez que permitiu à companhia impulsionar o seu crescimento. No início da década de
1980, a Droga Raia possuía sete lojas e, no fim da década, já tinha alcançado o número de 37 lojas.
Na década de 1990, ofereceu um plano de carreira e programas de treinamento para formar
talentos. Com a estruturação de uma carteira de Gestão de Benefício Farmácia e o início da
constituição de uma carteira de clientes corporativos, o ritmo de crescimento foi acelerado ainda
mais. No fim da década, o número de lojas já era 78.
Em 30 de setembro de 2008, houve o ingresso da Gávea Investimentos e da Pragma
Patrimônio como acionistas da companhia, cada um com 15% de participação, que fizeram
investimentos que suportaram a agressiva estratégia de crescimento orgânico e que vêm
contribuindo positivamente para a governança corporativa e o modelo de gestão da Droga Raia.
Em 31 de dezembro de 2009, a marca de 299 lojas foi atingida, o que significou, em apenas três
anos, dobrar o número de lojas, com o que foi encerrado o ano de 2006.
Em 31 de dezembro de 2010, a empresa possuía 350 lojas. Em outubro de 2011, a Raia foi
incorporada pela Drogasil e passou a ser denominada Raia Drogasil S.A., de forma a concentrar
sinergias para continuar e ampliar as suas participações no segmento de drogarias no Brasil. Com
isso, em 31 de dezembro de 2011, possuía 776 lojas. Em 1º de outubro de 2015, a Raia Drogasil
S.A. adquiriu 55% da 4Bio, a segunda maior varejista de medicamentos especiais do Brasil, e a líder
de mercado em Reprodução Assistida, Oncologia, Imunobiologia e Ginecologia.
Em 31 de dezembro de 2017 (2016), a empresa possuía 1.610 (1.420) lojas, distribuídas em
20 estados brasileiros (incluindo o Distrito Federal).
Ao longo da sua história, a Droga Raia buscou acompanhar as diversas etapas do
desenvolvimento do mercado brasileiro de drogarias, liderando diversas inovações do setor. O seu
slogan “Prazer em cuidar” traduz os valores que norteiam a busca da excelência humana e comercial
da rede e reflete a sua filosofia de atuação e a atitude perante os clientes, a comunidade, os
colaboradores e também perante os seus acionistas e os seus investidores, amparada por valores que
foram legados pelo seu fundador desde 1905.24

Propósito da análise
A presente análise tem por objetivo comparar a situação econômico-financeira da Droga Raia
em 2017 com a de 2016, simplesmente como exemplificação didática do conteúdo apresentado
neste módulo.

24
Disponível em: <http://www.cvm.gov.br>. Acesso em: 8 mar. 2018.

214
Fonte dos dados, ajustes e reclassificações necessários, índice de preço
Todos os dados foram obtidos no portal da Droga Raia <www.raiadrogasil.com.br>, exceto
o índice de preços, que foi obtido no portal da FGV <www.fgv.br>.
Utilizou-se o Índice Geral de Preços (IGP-M), medido pela FGV, para atualizar os valores
de 2016, apurados em 31 de dezembro de 2016, para moeda de poder aquisitivo de 31 de dezembro
de 2017. Nesse período, o IGP-M variou -0,52% (no ano anterior variou +7,17%). A escolha desse
índice se justifica pelo fato de ser um índice geral de preços (como o seu próprio nome sugere). Ou
seja, o IGP mede a inflação média da economia brasileira, que afeta tanto a entidade Droga Raia
quanto os seus fornecedores e consumidores.

Parâmetro de comparação
A situação econômico-financeira da Droga Raia, em 2016, é utilizada como parâmetro de
comparação com o ano subsequente (2017).

Estrutura de investimentos, financiamentos e de resultados: análise vertical


Em 2017, identificamos que 60,8% do patrimônio são aplicados em Ativos Realizáveis no
Curto Prazo (Ativo Circulante – AC), 1,1% em Ativos Realizáveis em Longo Prazo (RLP) e 38,2%
em Ativos sem expectativa de serem transformados em dinheiro (Imobilizado e Intangível,
somados). Em 2016, essas proporções eram 60,6% (AC), 0,9% (RLP) e 38,5% (Imobilizado mais
Intangível), o que nos permite identificar que a Droga Raia não alterou significativamente a sua
política de investimentos no último ano.
Esse mesmo patrimônio, em 2017, é financiado 38,6% com obrigações que vencem no curto
prazo (Passivo Circulante – PC) e 11,1% que vencem no longo prazo (Passivo não Circulante –
PÑC), enquanto os capitais próprios da entidade (Patrimônio Líquido – PL) financiam 50,3% do
Ativo Total. Em 2016, essas proporções eram 38,6% (PC), 9,5% (PÑC) e 51,9% (PL), sugerindo
que a Droga Raia também não alterou a sua política de financiamento ao longo do último ano.
Identificamos, ainda, que o CMV corresponde, em 2017, a 69,8% da Receita, as Despesas
Operacionais correspondem a 24,2% da Receita, enquanto o Lucro Líquido corresponde a 3,9%,
isto é, a empresa tem uma lucratividade líquida de 4% da Receita atualmente. Em 2016, o CMV
correspondia a 68,9% da Receita, as Despesas Operacionais correspondiam a 24,9% da Receita e a
lucratividade líquida era de somente 4%. Desse modo, a lucratividade teve pequena redução (0,1
ponto percentual) em 2017 em relação a 2016, o que ocorreu em função do aumento relativo do
CMV (comparada com a Receita).

215
Comportamento do resultado e da situação patrimonial da empresa:
análise horizontal
Com a correção monetária pelo IGP-M, percebe-se que a Receita teve aumento real de 18%.
Esse aumento da Receita, mitigado pelo maior aumento do CMV, em 19,6%, provocou o aumento
real do Lucro Bruto em 14,4%, que, por sua vez, mitigado pelo maior aumento das Despesas
Operacionais, em 14,8%, contribuiu para o aumento real do Lucro antes do Resultado Financeiro
e dos Tributos, de 12,9%.
Esse aumento do resultado foi favoravelmente impactado pela redução real do Resultado
Financeiro negativo (Despesas Financeiras maiores que Receitas Financeiras), de -3,4%, em grande
parte motivado pela redução do custo de capital da entidade, que é um reflexo da excelência da
gestão financeira da companhia em um momento de perda do grau de investimento por parte do
governo brasileiro. Por tudo isso, o Lucro Líquido teve significativo aumento em 2017 (comparado
com 2016), isto é, ter um acréscimo real de 14,2%.
Percebe-se, pela Análise Horizontal do Balanço Patrimonial, que o patrimônio (Ativo total, ou
Passivo + Patrimônio Líquido) sofreu um aumento real de 14,8%, em 2017 (comparado com 2016),
sendo que o Ativo Circulante aumentou 15,2%, o Realizável em Longo Prazo aumentou 35,9%, e
os Ativos Imobilizado e Intangível juntos aumentaram 13,74%. Por outro lado, o Passivo Circulante
aumentou 14,7%, o Passivo não Circulante aumentou 34,4%, e o Patrimônio Líquido teve pequeno
aumento real de 11,3%. A pequena variação real dos saldos dos subgrupos de Ativos e Passivos e do
PL reforçou a percepção obtida na análise vertical do Balanço Patrimonial, isto é, que a Droga Raia
não alterou as suas políticas de investimento e financiamento ao longo do último ano.
Além disso, a análise horizontal sugere que a Droga Raia teve um crescimento orgânico em
2017, fruto da bem-sucedida conclusão do processo de interação das marcas Raia e Drogasil.

Situação econômico-financeira: liquidez, endividamento e rentabilidade –


análise por indicadores
Em 2017, a Droga Raia apresenta boa liquidez, principalmente de curto prazo (Liquidez
Corrente, LC = 1,58). No longo prazo, a situação da empresa não preocupa (Liquidez Geral, LG =
1,24), situação muito semelhante à constatada em 2016 (LC = 1,57 e LG = 1,28). Podemos dizer
que essa variação irrelevante da liquidez corrente decorre da manutenção do ciclo operacional (119
dias) e do ciclo financeiro (54 dias).25
A Droga Raia é financiada igualmente por acionistas e terceiros (Endividamento Geral, EG
= 0,50), e as dívidas onerosas representam somente 11% do Ativo total (Endividamento Oneroso,

25
Os indicadores de prazos médios assim como os indicadores dos fluxos de caixa não são apresentados nesta apostila.
Aos que têm interesse nesses pontos, sugerimos a leitura dos itens 10.5.3.5 e 10.5.3.6 do Capítulo 10 de SZUSTER et al.
Contabilidade geral: introdução à contabilidade societária. 4. ed. São Paulo: Atlas, 2013.

216
EO = 0,11). Situação muito semelhante à identificada em 2016 (i.e., EG = 0,48 e EO = 0,08). A
liquidez geral acima de 1 e o baixo endividamento oneroso são características de empresas maduras
que estão crescendo organicamente.
No que tange à rentabilidade, a Droga Raia remunera os capitais nela investidos a uma taxa
próxima à do Certificado de Depósito Interbancário (CDI), que corresponde à taxa básica de
rendimentos na nossa economia. Afinal, em 2017, o CDI rendeu 9,93% ao ano (em 2016, o CDI
rendeu 14% ao ano), enquanto em 2017 a Droga Raia remunerou os seus acionistas a 16,6% ao
ano (em 2015, o RPL foi de 15,6%) e remunerou todos os recursos nela aplicados (Passivo e
Patrimônio Líquido) à taxa média de 10,8% ao ano (em 2016, o RA foi de 11,2%).26
O fato de a remuneração oferecida pela Droga Raia ter sido maior que a remuneração
oferecida pelo CDI, associado ao fato de que o RPL teve pequeno aumento enquanto o RA teve
pequena redução em 2016 (comparativamente a 2016), sugere que a Droga Raia está operando de
forma bastante eficiente no uso dos recursos financeiros nela aplicados.
Os índices comentados nesta unidade podem ser observados na tabela que segue:

Tabela 78 – Indicadores

Droga Raia 2017 2016

liquidez

liquidez corrente (LC) 1,58 1,57

liquidez geral (LG) 1,24 1,28

endividamento

endividamento geral (EG) 0,50 0,48

endividamento oneroso (EO) 0,11 0,08

rentabilidade

retorno sobre o patrimônio líquido (RPL) 16,6% 15,6%

retorno sobre o ativo (RA) 10,8% 11,2%

26
Observe que os parâmetros mais adequados para comparar o RPL e o RA de uma empresa em determinado período são:
(a) esses parâmetros da mesma empresa, apurados em anos anteriores; (b) esses parâmetros da mesma empresa, projetados
– no passado – para o ano corrente; (c) esses parâmetros de outras empresas – concorrentes, apurados no ano corrente.

217
Conclusão
A Droga Raia não está passando por dificuldades financeiras; afinal, apresenta confortável
liquidez, e o seu endividamento é compatível com a política de expansão: abertura de novas lojas e
consolidação do processo de integração das marcas Raia e Drogasil, além da aquisição do controle
da 4Bio, o que lhe insere no varejo de medicamentos especiais.
O aumento dos índices de rentabilidade parece ser consequência da significativa expansão
ocorrida no fim de 2011, com a incorporação da Raia pela Drogasil e do bem-sucedido processo
de integração finalizado em 2015. Espera-se que, de 2018 em diante, os frutos desse processo
(sinergia) se reflitam nas demonstrações contábeis, que poderá ser positivamente afetado pelo
provável reaquecimento da economia brasileira, conforme previsões de diversos analistas.
Finalmente, é necessário ressaltar algumas limitações dessa análise:
Não se tem conhecimento detalhado da empresa nem das suas transações.
Não se definiu um propósito específico para a análise, salvo o didático.
Não se trabalhou com os parâmetros de comparação comentados neste módulo, ou seja,
não foram analisados anos anteriores da entidade nem diferentes drogarias, farmácias ou
outras empresas varejistas.

MÓDULO VI
I) Quanto à ocorrência

Custos básicos
Custos básicos (CB) – ou custo primário – de um objeto de custeio são os custos
relacionados, exclusivamente, com o consumo das matérias-primas (MP) ou dos insumos.
Considerando uma empresa cuja principal atividade seja a fabricação de produtos
industrializados – portanto, uma indústria –, a matéria-prima consumida corresponde ao custo
básico, porque não haverá produto acabado se não houver matéria-prima a ser transformada. O
custo básico tem esse nome uma vez que consumir matéria-prima é condição sine qua non para
ter o produto acabado no fim do processo produtivo.

Algebricamente, CB = EIMP + Compras27 – EFMP

27
Devemos ter em mente que os estoques de matérias-primas serão adquiridos de alguns fornecedores e precisarão ter
o correto tratamento dos tributos inseridos nos valores das notas fiscais de compras (de entrada). Cada empresa tem de
verificar a sua situação fiscal e em qual regime se enquadra, e proceder de maneira tal que os estoques desses itens tenham
como valor de registro contábil o custo da sua aquisição, líquido dos tributos permitidos pela legislação fiscal aplicável. O
aspecto tributário é tratado nos principais livros de introdução à Contabilidade, em especial, nos livros Contabilidade geral,
de SZUSTER et al., e Manual de contabilidade societária, de IUDÍCIBUS; MARTINS; GELBCKE; SANTOS, ambos da Editora Atlas.

218
Em que EIMP = estoque inicial de matéria-prima e EFMP = estoque final de matéria-prima.

estoque matéria-prima estoque produtos em processo

EI MP EI PP

MP
MP comprada MP consumida
consumida
produtos
EF MP mão de obra
fabricados

outros custos

EF PP

Custos de transformação
Custos de transformação (CTr) – ou custo de conversão – de um objeto de custeio são os
custos relacionados à fabricação – exceto custos de matéria-prima. É tudo aquilo em que a indústria
incorre na transformação da matéria-prima em produto acabado. São exemplos a mão de obra direta
(MOD) e os gastos gerais de fabricação (GGF) – aluguel do parque fabril, energia, mão de obra
indireta, entre outros.

Algebricamente, CTr = MOD + GGF, ou CTr = EFPP + CPF – EIPP – CB

Em que EIPP = estoque inicial de produtos em processo, EFPP = estoque final de produtos em
processo e CPF = custo dos produtos fabricados.

estoque produtos em processo

EI PP

MP consumida
produtos
fabricados
mão de obra

outros custos

EF PP

219
Custo fabril
Custos de fabricação (CFa) – ou custo fabril – correspondem ao somatório de todos os custos
incorridos pela indústria em dado período, isto é, o somatório dos custos básicos com os custos de
transformação. Em outras palavras, é o somatório dos gastos relativos à matéria-prima consumida,
à mão de obra e aos gastos gerais de fabricação incorridos no período, independentemente da
variação de estoque de produtos em elaboração.

Algebricamente, CFa = CB + CTr, ou CFa = EFPP – EIPP + CPF.

estoque produtos em processo

EI PP

MP consumida
produtos
fabricados
mão de obra

outros custos

EF PP

Custo dos produtos fabricados


Custos dos produtos fabricados (CPF) correspondem ao custo fabril (CFa) ajustado pela
variação de estoque de produtos em elaboração. É o custo alocado aos produtos terminados no
período, independentemente de terem sido iniciados em outro período.
Dessa forma, o CPF é o custo fabril (CFa) mais o estoque inicial de produtos em processo
(EIPP), menos o estoque final de produtos em processo (EFPP). Em outras palavras, o CPF
corresponde ao valor dos produtos que ficaram prontos no período, disponíveis para
comercialização ou armazenamento e posterior venda.

Algebricamente, CPF = EIPP + CFa – EFPP.

220
estoque produtos em
estoque produtos acabados
processo

EI PP EI PA

CPV
MP produtos
consumida fabricados

produtos
mão de obra
fabricados
outros
EF PA
custos

EF PP

Custo dos produtos vendidos


Custo dos produtos vendidos (CPV) corresponde aos custos dos produtos vendidos no
período, ou seja, aos custos dos produtos fabricados ajustados pela variação de estoque de produtos
acabados. É o custo dos produtos fabricados (CPF) mais o estoque inicial de produtos acabados
(EIPA), menos o estoque final de produtos acabados (EFPA). Corresponde ao valor da baixa pela
transferência da propriedade dos produtos vendidos no período – valor da despesa que será
confrontado com a receita de vendas para se calcular o Lucro Bruto.

Algebricamente, CPV = EIPA + CPF – EFPA

Em que EIPA = estoque inicial de produtos acabados e EFPA = estoque final de produtos acabados.

estoque produtos acabados

EI PA

CPV
produtos
fabricados

EF PA

221
II) Outras classificações de custos
É comum encontrar outras classificações de custos na literatura de microeconomia e nas
empresas. Vejamos algumas delas:

Custo irrecuperável
Em Economia, custos irrecuperáveis – também chamados de custos afundados (sunk costs)
– são recursos empregados na construção de ativos que, uma vez realizados, não podem ser
revertidos em qualquer grau significante. Ou seja, o custo de oportunidade desses recursos, uma vez
empregados, é próximo de zero. Geralmente, estão associados a ativos específicos.28
O custo irrecuperável é aquela aplicação de recurso realizada no passado da qual se esperava
a geração de benefícios futuros. No entanto, no presente não mais se vislumbra a sua potencialidade
de geração de benefícios futuros, embora ainda não tenha sido totalmente amortizada.
De modo geral, contabilmente, o custo irrecuperável está relacionado à aquisição de ativos
não circulantes, isto é, custo cujo benefício é esperado para um período superior a um ano, como
tecnologia, máquinas e equipamentos.
Imagine que uma empresa tenha adquirido, há três anos, por $ 100.000, uma máquina cujo
tempo de vida útil era estimado em 10 anos. Hoje, essa máquina está contabilizada pelo valor
líquido de $ 70.000 ($ 100.000 menos $ 30.000 de depreciação). Ocorre que o preço de venda do
produto fabricado nessa máquina está menor do que o custo marginal (variável), ou seja,
independentemente da depreciação, a empresa perde dinheiro a cada unidade produzida e vendida.
Considere que você seja o gestor dessa empresa. Você continuaria produzindo esse produto
por mais sete anos, até terminar o tempo de vida útil da máquina? Certamente, não! Afinal, os
$ 70.000 de valor líquido da máquina correspondem a custos irrecuperáveis, pois já foram
incorridos – e até pagos – no passado, e não há nada que se possa fazer, nem no presente nem no
futuro, para reverter tal situação. Dessa forma, a melhor decisão é descontinuar a produção desse
produto e desfazer-se da máquina – vender por qualquer valor ou jogar fora –, de modo a evitar
perdas a cada nova unidade produzida.
Em alguns casos, os custos irrecuperáveis podem ser aplicações de recursos não reconhecidas
pela Contabilidade Societária como Ativo, mas como Despesa, como gastos com capacitação de
funcionários e publicidade.
Imagine uma empresa que pagou $ 20.000 por um curso de aperfeiçoamento do seu melhor
funcionário. Quando o funcionário retornou do curso, com o diploma, descobriu-se que ele havia

28
Ativos específicos são aqueles que, quando aplicados na situação para a qual foram projetados, auferem renda superior
a qualquer situação alternativa. O grau de especificidade do ativo é função da diferença de renda auferida entre a aplicação
original e a melhor aplicação alternativa.

222
praticado uma fraude – antes de se afastar para fazer o curso – e se apropriado indevidamente de
alguns ativos da empresa.
Considere que você seja o gestor dessa empresa. Você continuaria contando com essa pessoa
como um funcionário da sua equipe por mais cinco anos? Certamente, não! Afinal, os $ 20.000
pagos pelo curso correspondem a custos irrecuperáveis, pois já foram incorridos – e até pagos – no
passado, e não há nada que se possa fazer, nem no presente nem no futuro, para reverter tal situação.
Nesse contexto, é razoável que o gestor decida demitir o funcionário por justa causa, antes que ele
cause mais prejuízos para a empresa.
Um aspecto importante é como essa informação é contemplada nos modelos de decisão.
Aqui, fazemos a distinção de um modelo racional e não racional. Na teoria microeconômica –
portanto, na abordagem clássica da contabilidade –, o conceito de custo irrecuperável está
relacionado com o comportamento racional de decisão. Um agente racional não permite que os
custos irrecuperáveis influenciem a decisão.
Na compra de um tíquete de cinema, o espectador incorre em um recurso não reembolsável, já
que o preço do ticket se torna um sunk cost. Mesmo se o comprador decidir que não deve assistir ao
filme, não existe uma forma de rever o valor originalmente pago. Tal tíquete serve apenas para a sessão
daquele filme, ou seja, é específico a ele. O valor incorrido originalmente não deveria afetar qualquer
tomada de decisão racional futura sobre o uso do tíquete. Desse modo, o consumidor prefere perder o
tíquete, se depois de comprá-lo não mais atribuir valor ao filme, ao escutar um comentário de alguém
que sai do cinema, por exemplo. Consideramos que o consumidor não terá motivação para vender o
seu tíquete na porta do cinema.
Podemos citar, como exemplo de decisão empresarial, $ 50 milhões em investimentos feitos
na construção de uma nova planta industrial. Dessa quantia, $ 30 milhões já foram aplicados. No
entanto, o valor presente de tal empreendimento é zero, pois está incompleto – e a venda ou
recuperação do valor não é possível –, sendo que o valor esperado para o projeto original, no
presente momento, é muito baixo ou nulo. A planta pode ser finalizada com $ 20 milhões
adicionais, abandonada ou o projeto pode ser modificado para operar com $ 10 milhões adicionais.
Racionalmente, o abandono do projeto é a melhor decisão, mesmo que represente uma perda total
do valor já empregado.
Outro exemplo de sunk cost nos negócios é a promoção de uma marca, que não pode ser
recuperada de modo geral, exceto quando é vendida e transformada em dinheiro na saída do mercado.
Decisões sobre investimentos futuros, vendas ou propagandas deveriam ser tomadas em termos de
possibilidades futuras, não viesadas pelos recursos já empregados em propaganda pela empresa em
períodos anteriores. Ou seja, não deveríamos esperar algo do tipo: “Já que foi feita grande inversão de
recursos na marca X, continuamos empregando recursos nessa marca, mesmo não tendo expectativas
de confirmar o fluxo de caixa das vendas anteriormente projetadas para tal marca”.
No entanto, a economia comportamental (behavioural economics) reconhece que os custos
irrecuperáveis sempre afetam as decisões econômicas em função da aversão ao risco. As pessoas têm
fortes desincentivos para perder recursos, o que é chamado de aversão à perda. Por exemplo, muitas

223
pessoas se sentem obrigadas a ir ao cinema depois de comprarem um tíquete, mesmo não desejando
ver o filme, pois estariam desperdiçando um valor já pago. Os economistas denominariam tal
comportamento como “não racional”, pois o bem-estar de não ir é maior do que o de ir ao cinema,
dado que assistir ao filme aumentará a má alocação de recursos, no caso o custo de oportunidade
do tempo de ir ao cinema assistir a um filme não desejado.
Esse comportamento, considerado não racional, na teoria econômica, aponta para a falácia
do custo irrecuperável (sunk cost fallacy) e para a aversão ao risco.29
No caso de decisões de consumo, podem-se esperar comportamentos economicamente não
racionais. O que você acha que ocorre nas decisões empresariais? Na posição de decisores
empresariais, espera-se que indivíduos sejam mais racionais; desse modo, se tais gestores possuírem
incentivos errados, projetos que deveriam ser encerrados, como no exemplo anterior, podem vir a
ser concluídos. Políticos ou gerentes podem ter maior incentivo a evitar a reputação da perda total
ao abandonarem um projeto que não deveria ter sido iniciado. Mais uma forma do efeito falácia.
No conhecido projeto “Concorde”, os governos francês e inglês continuaram a financiar o
desenvolvimento do projeto do Concorde mesmo depois de, aparentemente, o modelo ter perdido
o potencial econômico como aeronave. O projeto foi mantido pelo governo inglês como um
desastre comercial, que “nunca deveria ter sido iniciado”, tendo sido quase cancelado. No entanto,
questões políticas e legais tornaram impossível, para ambos os governos, saírem do projeto antes de
outubro de 2003.
Por fim, os custos irrecuperáveis são utilizados em relações contratuais para alterar relações
de poder entre as partes. Estúdios cinematográficos sofrem com o sunk cost e acabam sendo
capturados por diretores que, à medida que os investimentos são feitos em contratação de atores,
cenários, figurinos e outros gastos iniciais, após algumas semanas de filmagem, acumulam
significativas somas de custos irrecuperáveis, e são incentivados a continuar o projeto.

Custo de oportunidade
O custo de oportunidade corresponde àquilo que se deixa de ganhar na segunda melhor
alternativa por se escolher a primeira. Em outras palavras e sem falsa modéstia, podemos afirmar
que você, leitor, não tem nada melhor para fazer agora do que estudar Contabilidade Gerencial.
Afinal, entre tantas alternativas possíveis – estudar Marketing, ir ao cinema, almoçar/lanchar/jantar,
ir à academia, trabalhar ou, até mesmo, namorar –, você escolheu estudar Contabilidade Gerencial.
Isso é sinal de que o que você está deixando de ganhar fazendo outras coisas vale menos do
que estudar Contabilidade Gerencial. Em outras palavras, o custo de oportunidade – do que está
deixando de fazer – é menor do que a satisfação obtida com o que está fazendo – estudando
Contabilidade Gerencial.

29
Kahneman e Tversky ganharam o Nobel em Economia pelos seus trabalhos nessa área.

224
Esse conceito não se aplica só às decisões de uma pessoa física. Imagine uma empresa que
disponha de $ 200.000 e tenha três projetos que demandam $ 200.000 cada e que todos exponham
o capital aplicado ao mesmo nível de risco. O projeto A tem um valor presente líquido de $
600.000; o projeto B tem um valor presente líquido de $ 450.000; o projeto C tem um valor
presente líquido negativo de $ 30.000. Por hipótese, nenhum dos projetos pode ser parcialmente
realizado, isto é, ou se aplicam os $ 200.000 ou se desiste do investimento.
Para simplificar, vamos admitir que a empresa não tem capacidade de obter financiamentos
com terceiros, isto é, só dispõe daqueles $ 200.000. Considere que você seja o gestor dessa empresa.
Em qual dos três projetos você investiria os $ 200.000? Certamente, no projeto A! Afinal, o projeto
A representa a melhor (primeira melhor) alternativa de investimento. Dos dois projetos descartados,
B (valor presente líquido positivo de $ 450.000) e C (valor presente líquido negativo de $ 30.000),
o projeto B é a segunda melhor alternativa (second best). Dessa forma, o custo de oportunidade de
investir em A, a primeira melhor alternativa, é de $ 450.000 (o que se deixa de ganhar por não
investir na segunda melhor alternativa – projeto B).

Custo econômico versus custo contábil

Em 1969, James Buchanan dá o significado econômico ao termo custo, como custo econômico,
dizendo que a palavra custo só assume significado se for tratada em conjunto com “escolha”.
Ou seja, tomadores de decisão sacrificarão recursos ao fazer uma escolha. Quando um agente
está diante de diversos rumos de ação, o custo de escolher uma alternativa é o benefício vindo
da alternativa mais atrativa entre as demais.

Custo de oportunidade é um conceito visto ex ante: uma decisão é feita puramente baseada
no acesso que o decisor tem do que poderá acontecer no futuro. Envolve subjetividade, dado
que apenas o decisor pode falar sobre as alternativas que ele tem no momento da escolha e
como ele valorou tais alternativas. Consequentemente, tal custo não é observável por outros.

O autor aponta que existem dois tipos de custo: um custo que influencia a escolha (choice-
influencing cost) e outro que é influenciado pela escolha, que surge da escolha feita (choice-
influenced cost). O primeiro é o custo de oportunidade. O segundo é o custo tradicionalmente
tratado pela contabilidade (custo contábil). São aqueles que decorrem das consequências ex post
à decisão.

Até o orçamento (budget), apesar de ser ex ante à decisão, normalmente, mensura apenas o
sacrifício de recursos empregados na decisão a ser tomada, sendo do tipo choice-influenced
cost, pois reúne o emprego monetário de uma decisão tomada. Outro ponto a ser destacado é
que nem todo sacrifício de recursos pode ser expresso (ou apenas com muito esforço) em
termos monetários, por isso, não é mensurado e não entra na lista dos tradicionais custos
contábeis.

225
Apesar de ser o conceito econômico correto, para fins gerenciais, pode não vir a ser aplicável,
pois um mínimo de verificabilidade é necessário. Gerentes poderiam justificar as suas decisões
usando algumas alternativas que nunca realizaram. Por outro lado, o custo contábil é mais
objetivo e menos suscetível ao comportamento oportunista dos gerentes. Desse modo,
enquanto o custo de oportunidade pode ser mais útil à decisão, o custo contábil pode ser mais
útil ao controle (incentivo e monitoramento).

Fonte: BUCHANAN, James M. Cost and choice: an inquiry into economic theory. Illinois: The University of Chicago Press, 1969.

Custo controlável
Os custos são classificados, para fins gerenciais, em controláveis e não controláveis.
Os custos controláveis são aqueles sobre os quais o gestor tem controle, isto é, ele decide sobre
o nível de consumo dos recursos e, consequentemente, sobre o valor do custo incorrido. Por outro
lado, os custos não controláveis são aqueles sobre os quais o gestor tem pouca ou nenhuma
influência. Também são denominados custos exógenos à decisão.

III) Comentário complementar sobre objeto de custeio


Desde o segundo parágrafo deste módulo, afirmamos que a classificação dos custos depende
da definição de qual seja o objeto de custeio, que, normalmente, é o produto.
Entende-se por produto o bem ou o serviço produzido pela entidade, cuja comercialização
corresponde à principal fonte operacional de recursos (receita de venda ou de prestação de serviços).
Embora o conceito de produto seja facilmente assimilado, surgem dúvidas quanto a outras
classificações: coprodutos, subprodutos e sucatas.
São coprodutos dois ou mais produtos que surgem do mesmo processo fabril, têm valor de
venda e condições de comercialização normais, além de, aproximadamente, a mesma relevância na
geração de receitas.
Os subprodutos também surgem do mesmo processo fabril e têm valor de venda e condições de
comercialização normais. No entanto, são praticamente irrelevantes na geração de receitas da entidade.
As sucatas podem ou não ser decorrentes do processo normal de produção, não têm valor de
venda nem condições de comercialização normais.30
Observemos que essas classificações são bastante subjetivas e podem ser interpretadas
diferentemente por empresas de um mesmo setor, pois dependem substancialmente do que se
entende por relevância e normalidade. Mesmo assim, não obstante a subjetividade, essas

30
É importante não confundir sucata com material metálico. A sucata pode ser a serragem em uma serralheria, os restos
de papel em uma gráfica ou mesmo uma peça avariada retirada de uma máquina. Observe, ainda, que empresas de ferro-
velho têm a sua principal atividade no comércio de sucata. Nesse caso, a sucata metálica é o próprio produto
comercializado, da mesma forma que o papel em uma cooperativa de catadores.

226
classificações são fundamentais na apuração dos custos dos produtos, pois influenciam a definição
do objeto de custeio.
Antes de analisarmos os impactos dessas classificações na contabilidade de custos, vejamos
um exemplo: a Sococo, empresa fundada em Maceió (AL), em 1966, produz e vende: bebidas –
Água de Coco Sococo e Sococo Mais; coco em flocos – Flococo, Sweet Floco e Sweet Floco
Queimado; coco ralado – Coco Ralado Sococo e Sweet Coco; doce de coco – Doce de Coco
Cremoso e Doce de Coco Queimado; e leite de coco – Leite de Coco Light e Leite de Coco Sococo.
No seu site, a Sococo apresenta:

Do coco, tudo se aproveita. A camada externa serve para fabricar substrato


agrícola, capachos, brochas, escovas, estofamentos e tecidos grossos para
sacos. A casca dura é usada no artesanato e como fonte de energia térmica
(combustível para caldeiras). As partes comestíveis do fruto são: a polpa
branca e a água, que podem ser consumidas quando o fruto ainda está
verde ou depois de maduro. Da polpa madura, extraem-se o leite, o coco
ralado, o farelo e o óleo. O leite de coco e o coco ralado são usados para
preparar uma infinidade de pratos doces e salgados. O farelo é destinado
ao consumo animal. O óleo é usado na alimentação e na fabricação de
sabão, cosméticos, detergentes.31

Desse exemplo, mesmo sem conhecer a dinâmica da linha de produção da Sococo, podemos
inferir que tudo o que a Sococo comercializa são coprodutos.
Digamos que a Sococo também produza farelo de coco para ração animal. Embora certa, a
sua comercialização seria restrita aos produtores rurais cujas fazendas sejam localizadas aos arredores
do seu parque fabril, de modo que a sua receita seria irrelevante – nesse caso, o farelo é um
subproduto.
Digamos, ainda, que a casca seja aproveitada da seguinte forma: a palha seja transformada em
escovas e vassouras para a limpeza do parque fabril, e o excedente vendido para artesãos locais,
quando eventualmente surjam compradores interessados, e a casca dura seja integralmente
aproveitada como combustível para as caldeiras. Nesse caso, a casca é uma sucata.
No que tange à apuração dos custos, essas classificações têm os seguintes impactos:

d) Os produtos recebem os seus custos normalmente. Quando a empresa os vende, reconhece


o fruto da sua venda como Receitas Operacionais de Venda (Receita Bruta) e, ainda, a baixa do
produto vendido como CPV.
Os coprodutos têm o mesmo tratamento dos produtos. Especificamente com relação aos seus
custos comuns, até a fase em que os coprodutos são separados e individualizados, surgem

31
Disponível em: <www.sococo.com.br>. Acesso em: 10 mar. 2007.

227
alternativas: distribuir os custos proporcionalmente ao volume ou à massa, ou distribuir os custos
proporcionalmente à receita estimada.
Digamos que se gastaram $ 10.000 para processar 1.000 kg de determinada matéria-prima
(coco) da qual nasceram dois coprodutos (flocos de coco e coco ralado). Considerando que o
rendimento dos 1.000 kg de coco corresponde a 40% de flocos de coco e 60% de coco ralado, e
distribuindo-se os custos comuns na proporção da massa aproveitada em cada coproduto, os flocos
de coco receberiam $ 4.000 dos custos comuns, e o coco ralado, os $ 6.000 restantes.
Para distribuir os custos na proporção da receita estimada, digamos que os flocos produzidos (com
40% dos 1.000 kg de matéria-prima) sejam vendidos por $ 6.000 e que o coco ralado produzido (com
40% dos 1.000 kg de matéria-prima) também seja vendido por $ 6.000. Nesse caso, os flocos de coco
receberiam $ 5.000 dos custos comuns, da mesma forma que o coco ralado.
Os subprodutos são avaliados pelo valor líquido de realização, mediante redução do valor do
custo dos produtos principais. O valor líquido de realização corresponde ao preço de venda
deduzido dos gastos necessários para completar a sua produção e daqueles relativos à venda (como
impostos e comissões).
Considerando que o farelo de coco – supostamente produzido pela Sococo e vendido aos
fazendeiros locais – produzido em decorrência do processamento de 1.000 kg de coco consumidos na
fabricação de flocos e de coco ralado seja, normalmente, vendido por $ 1.200, e que a Sococo gasta,
ainda, $ 150 para terminar a produção do farelo e, ao vender, precise pagar impostos sobre vendas e
comissões no valor de $ 50. Nesse caso, o farelo ficaria avaliado por $ 1.000, o seu valor líquido de
realização ($ 1.200 – $ 150 – $ 50). Dessa forma, aos flocos de coco e ao coco ralado só serão
distribuídos $ 9.000 ($ 10.000 incorridos no processo menos $ 1.000, que é o valor do farelo).
As sucatas não recebem custos, uma vez que a probabilidade da sua venda é tão remota e
incerta que a sua receita é irrelevante. Desse modo, não se atribuem custos ao estoque de sucatas,
sendo o seu controle extracontábil. Quando a empresa vender a sucata, reconhecerá o fruto da sua
venda como Outras Receitas Operacionais.
Seguindo o exemplo apresentado nesta seção, a palha utilizada como vassoura e escova bem
como a casca dura utilizada como combustível têm valor nulo. A rigor, a sua utilização reduz o
custo de produção dos produtos principais e subprodutos, uma vez que a empresa deixa de gastar
dinheiro ao não adquirir de terceiros material de limpeza e carvão, ou gás ou outro combustível.
Da mesma forma, o excedente da palha também é estocado por zero. Quando eventualmente for
vendida, o valor auferido será reconhecido como Outras Receitas Operacionais.

228
A uniformidade e a consistência da classificação entre coproduto, subproduto e sucata

A Copra, fundada em Maceió (AL), em 1998, também produz alimentos baseados em coco. A
rigor, os principais produtos da Copra são: flocos de coco, coco flocado, coco ralado grosso,
coco ralado médio, coco ralado fino e coco ralado extrafino. Desse modo, eles são classificados
como coprodutos.

Atualmente, a produção de leite de coco (seja congelado ou integral) é insignificante e está muito
abaixo da capacidade instalada. Embora as vendas não sejam eventuais, a sua receita é irrelevante
apesar de a margem de contribuição ser boa, sendo classificado como um subproduto. No entanto,
como a fábrica está passando por um processo de certificação junto às indústrias alimentícias, que
adquirem o produto com um preço maior (valor agregado), o Sr. Hélcio Oliveira Jr., sócio-gerente
da Copra, classificará o leite de coco concentrado como um coproduto. Desse modo, este receberá
a mesma atenção gerencial que o coco ralado recebe desde a fundação da empresa.

O farelo de coco é vendido como ração animal aos fazendeiros locais e, no seu beneficiamento,
é gerado o óleo de coco, que é vendido para fábricas de sabão. Embora o farelo de coco e o
óleo de coco devessem ser classificados como subprodutos (em relação aos produtos
principais), vêm sendo tratados efetivamente como sucatas, em função dos gastos necessários
para estabelecer um sistema de controle mais adequado. No entanto, esse cenário pode ser
alterado em breve, pois a administração da Copra está estudando a possibilidade de vender o
óleo de coco para alimentação humana, especificamente de recém-nascidos e bebês. Caso
esse projeto seja efetivamente implantado, certamente, o óleo de coco passará a ser tratado
gerencialmente como um produto principal (coproduto), demandando a mesma atenção que
o coco ralado.

Diferentemente da Sococo, a Copra só trabalha com o coco maduro e, atualmente, toda a


água de coco é jogada fora. Com isso, não recebe nenhuma das classificações discutidas
nesta unidade (coproduto, subproduto e sucata). No entanto, já está na fase final de
implantação da linha de aproveitamento da água de coco como bebida a ser comercializada.
Desse modo, em breve, a água de coco, na Copra, deixará de ser lixo para ser classificada
como um subproduto – uma vez que a sua receita será pouco representativa em comparação
à receita gerada pelos produtos principais (flocos de coco, coco flocado e coco ralado), além
da receita esperada do leite de coco concentrado.

Finalmente, a casca dura é, em grande parte, utilizada como combustível nas caldeiras da
própria empresa, e uma pequena parte é vendida para uma fábrica de revestimentos, com
isso, sendo tratada como uma sucata.

Comparando a Copra com a Sococo, percebemos que estão em estágios diferentes de


maturação e posicionamento de mercado. Portanto, é mais que razoável que adotem classificações
diferentes. Da mesma forma, considerando-se que a Copra está em expansão e desenvolvimento de
novos mercados, é natural que adote classificações diferentes ao longo do tempo.

229
IV) Método de custeio baseado em atividades
O Custeio Baseado em Atividades, ou Activity Based Costing (ABC), é um método de custeio
baseado na análise das atividades significativas desenvolvidas na empresa. Visa a eliminar as limitações
impostas pelos métodos tradicionais de custeio (Custeio por Absorção), criados em uma época em
que a mão de obra direta era a parcela mais significativa na estrutura dos custos dos produtos.
O objetivo principal do ABC é a alocação racional dos gastos indiretos a bens e serviços
produzidos, proporcionando um controle mais apurado dos gastos da empresa e um melhor suporte
nas decisões gerenciais.
Podemos inferir que o ABC pode ser adotado nas áreas administrativas e comerciais da
empresa da mesma forma que é empregado na área de produção, iniciando pela análise da estrutura
dos gastos dessas áreas com a determinação dos fatores que deram origem à demanda dos seus
serviços – em função das atividades desempenhadas.
Considerando a maior complexidade do ABC, comparado com o custeio por absorção, antes
que a empresa altere a metodologia de custeio – da absorção para o baseado em atividades –, é
recomendável considerar as seguintes questões:
O custo indireto é uma parcela significativa na composição do custo total?
Existe diversidade de produtos ou serviços com variação relevante nos volumes de
produção ou processo produtivo?
É comum a empresa receber encomendas especiais nas quais o volume ou as especificações
do produto variam de acordo com determinações impostas pelo cliente?

Antes de alterar o método de custeio em vistas a adotar o ABC, é necessário investigar essas
três questões. Sendo as respostas positivas, é provável que o custo de adoção do ABC seja compatível
com os benefícios informacionais que esse método gerará. Desse modo, antes de qualquer
reestruturação no método de custeio, faz-se necessária uma análise minuciosa das operações da
empresa no sentido de conhecer as atividades significativas, concluindo sobre a adequação ou não
da implantação e da operacionalização do custeio ABC.
Atividade é definida como uma conjugação coordenada de recursos – por exemplo, a mão de
obra, o material, a tecnologia e o ambiente – inseridos na gestão total da empresa. O produto de
uma atividade deverá estar sempre ligado à satisfação de uma necessidade de um cliente interno
(outro setor da empresa) ou de um cliente externo (consumidor final).
Pelo ABC, os valores dos recursos consumidos são alocados às atividades (objetos de custeio
da 1ª etapa) que consomem tais recursos, por meio de direcionadores de custos. Em seguida, tais
valores acumulados às atividades, que já podemos denominar custos das atividades, são direcionados
aos produtos (objetos de custeio da 2ª etapa) que se beneficiam dessas atividades.
Os direcionadores de custos (cost drivers) são fatores que geram ou influenciam o nível dos
recursos consumidos ou gastos de uma atividade ou de um objeto de custeio. Desse modo, os

230
direcionadores de custos são instrumentos de rastreamento e de quantificação dos gastos das
atividades e dos bens, serviços e clientes que se deseje custear (objetos de custeio).
Nesse esquema, percebemos que os direcionadores de custos servem de base para:
apuração do custo dos recursos consumidos pelas diferentes atividades (etapa 1) e
indicação da forma pela qual cada objeto a ser custeado participa no consumo dessas
atividades (etapa 2).

Figura 6 – Esquema do custeio baseado em atividades

231
Ao selecionar um direcionador de custo, a empresa deve dispor, no mínimo, de dados
estatísticos comprobatórios de correlação direta entre a ocorrência desse direcionador e o nível de
consumo de recursos da atividade correspondente. Para a escolha de direcionadores de custos,
devem ser considerados os seguintes fatores:
facilidade ou dificuldade na obtenção e no processamento dos dados relativos aos
direcionadores de custos;
correlação entre os direcionadores de custos selecionados e os recursos consumidos e
influência dos direcionadores de custos sobre o comportamento das pessoas.

Quanto menor for o número de direcionadores de custos, mais prática será a alocação do
valor dos recursos consumidos pelas atividades e pelos produtos. No entanto, será provável que o
custo assim apurado seja muito semelhante ao apurado pelo custeio por absorção e,
consequentemente, pouco relevante para o processo decisório. Por outro lado, quanto maior for o
número de direcionadores de custos, maior será a probabilidade de que os custos assim apurados
reflitam a realidade econômica. No entanto, o trabalho despendido no processo de alocação será
muito maior e mais oneroso.
Na busca de um meio-termo, o número de direcionadores de custos a serem empregados em
uma empresa está diretamente associado aos seguintes fatores:
nível de exatidão desejado no custeio do produto;
diversificação dos produtos;
número de atividades relevantes relacionadas a cada produto;
diversificação do volume de produção e
utilização de direcionadores de custos que guardem correlação com o consumo real da
atividade.

Sem dúvida, o modelo ABC é um importante avanço no cálculo do custo dos produtos. A
sua adoção apresenta resultados positivos, principalmente nas empresas com grande volume e
diversidade de produção.
Por fim, outra grande vantagem do ABC em relação aos demais métodos de custeio é que o
ABC permite ao gestor conhecer o custo de ociosidade, ou seja, saber quanto custa para a empresa
não produzir à capacidade instalada. Isso ocorre ao se determinarem os direcionadores de custos
com base na capacidade instalada de cada atividade. Consequentemente, aquelas atividades que não
operaram a 100% da capacidade instalada permaneceram ociosas, e os respectivos custos são
mensurados pelo ABC.
Cabe observar que a capacidade instalada à qual nos referimos acima é a capacidade instalada
viável e normal de utilização, que é diferente da capacidade instalada teórica (ou nominal).
Enquanto a capacidade instalada teórica de uma máquina, por exemplo, é a produção máxima
que pode ser extraída daquela máquina em um mês, sem qualquer parada no processo produtivo, a

232
capacidade instalada viável de utilização corresponde à capacidade instalada teórica descontada das
paralisações do processo produtivo em função de manutenção da máquina, troca de turno, set-up e
outras situações planejadas.
Além disso, a capacidade instalada viável de utilização se diferencia da capacidade instalada
efetivamente utilizada em função da ociosidade não planejada.

MÓDULO VII
I) Ponto de equilíbrio financeiro
No Ponto de Equilíbrio Financeiro (PEF), a geração líquida de caixa é nula, ou seja, o caixa
gerado se iguala ao caixa consumido no período.
Para determinar adequadamente o PEF, é necessário considerar o prazo médio de pagamento
aos fornecedores, o prazo médio de recebimento dos clientes, as despesas fixas que não implicam
desembolsos periódicos – como a despesa de depreciação – e os desembolsos necessários para honrar
os financiamentos, inclusive a amortização do principal.

-./01/ 2341/ O7/7591L/áb73/ + K.36 + .51603c.çã1 O7 Oíb3O. + ?.-.57+01 O7 3+b7/0357+01/


'(= =
5.6-75 O7 81+0639*3çã1 *+30á63.

O7/7591L/1 O7 )= + >= + K.36 + .51603c.çã1 O7 Oíb3O. + ?.-.57+01 O7 3+b7/0357+01/


=
?67ç1 – ()@*+30. + >@*+30. )

Dando sequência ao exemplo acima, demonstraremos o PEF daquela empresa se, nos gastos
fixos de $ 600.000, já estiver computada a depreciação de $ 100.000, e se a empresa tiver um
financiamento de $ 200.000, cuja despesa de juros já está computada nos gastos fixos, mas cujo
principal deverá ser amortizado em 60%.
preço de venda: $ 500/un.
custos e despesas variáveis: $ 350/un.

Custos e Despesas Fixos desembolsáveis: $ 500.000/mês ($ 600.000 – $ 100.000)


lucro líquido: $ 15.000/mês
alíquota de Imposto de Renda: 25%
amortização de dívida: $ 120.000 ($ 200.000 × 60%)

15.000 15.000
K.36 = = = 20.000
1 – 0,25 0,75

500.000 + 20.000 + 120.000 640.000


'(= = = = 4.266, 6X
500 – 350 150

233
Dessa forma, se a empresa produzir e vender 4.000 unidades, verificamos que não apurará
nem lucro nem prejuízo, além de não criar valor para os seus acionistas. Se produzir e vender
4.133 unidades, conseguirá remunerar os seus acionistas adequadamente – com lucro contábil de
$ 15.000 e lucro econômico de zero –, mas não conseguirá honrar as suas dívidas de
financiamento. Por fim, para satisfazer os acionistas e os financiadores externos, será necessário
produzir e vender 4.267 unidades.

II) Alavancagem operacional


A Alavancagem Operacional corresponde à ponderação entre a variação porcentual de lucro
e a variação porcentual de volume. Em outras palavras, pode-se dizer que a Alavancagem
Operacional indica quantas vezes o lucro aumenta em relação a cada variação de 1% nas vendas.

margem de contribuição total


alavancagem operacional =
lucro

Ou seja:

quantidade × margem cont. unit.


alavancagem operacional =
(Q atual – Q P. Eq. ) × margem cont. unit.

Em outras palavras:

porcentagem de acréscimo no lucro


alavancagem operacional =
porcentagem de acréscimo no volume

Ou seja:

(lucro atual – lucro anterior) × 100


alavancagem operacional = lucro anterior
(volume atual – volume anterior) × 100
volume anterior

Seguindo o mesmo exemplo. Atualmente, se a empresa vende 5.500 unidades por mês, está
tendo um lucro de:

$ 225.000 = [(5.500 un. – 4.000 un.) × $ 150/un.]

234
Imagine que essa empresa passe a vender 6.050 unidades por mês.
O acréscimo no volume será de 10% = [(6.050 un. – 5.500 un.) ÷ 5.500 un.].
O seu novo lucro será de $ 307.500 = [(6.050 un. – 4.000 un.) × $ 150/un.] e,
consequentemente, o acréscimo no lucro será de 36,67% = [($ 307.500 – $ 225.000)
÷ $ 225.000].
Desse modo:

fg,gh%
Alavancagem Operacional = = 3,667 vezes
UW%

Podemos dizer que Alavancagem Operacional = 36,37% ÷ 10% = 3,667 vezes.


Logo, em vez de as vendas terem aumentado para 6.050 un., se tivessem aumentado somente
para 5.610 un. – um aumento de 2% –, o lucro aumentaria em 7,33% = 2 × 3,667, ou seja, o novo
lucro seria de $ 241.500 = $ 225.000 × 1,0733.
A prova pode ser obtida multiplicando-se o volume que excede o ponto de equilíbrio – isto
é, 5.610 un. – 4.000 un. = 1.610 un. – pela margem de contribuição unitária – $ 150/un. – isto é,
$ 241.500 (1.610 un. × $ 150/un.).
Cabe ressaltar que a Alavancagem Operacional de 3,667 só é válida a partir do volume atual
de 5.500 unidades por mês. É interessante observar ainda que, à medida que aumenta a Margem
de Segurança, decresce a Alavancagem Operacional.

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BIBLIOGRAFIA
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Elsevier, 2014.

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financeiras. São Paulo: Atlas, 1988.

CARDOSO, Ricardo; MÁRIO, Poueri; AQUINO, André. Contabilidade gerencial: mensuração,


monitoramento e incentivos. São Paulo: Atlas, 2007.

______; SILVEIRA, Andrea. Contabilidade de ativos relevantes. Rio de Janeiro: FGV, 2017.

HENDRIKSEN, Elton; BREDA; Michael Van. Teoria da contabilidade. São Paulo: Atlas, 1999.

IUDÍCIBUS, Sérgio de et al. Manual de contabilidade societária. São Paulo: Atlas, 2010.

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______; DINIZ, J.; MIRANDA, J. Análise avançada das demonstrações contábeis. São Paulo:
Atlas, 2012.

SZUSTER, Natan et al. Contabilidade geral: introdução à contabilidade societária. 4. ed. São Paulo:
Atlas, 2013.

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PROFESSOR-AUTOR
Ricardo Lopes Cardoso é doutor (FEA/USP) e mestre (FAF/Uerj) em Ciências Contábeis,
professor de Contabilidade da FAF/Uerj, da FGV Ebape e da FGV Eaesp. Sócio da SzusterCardoso
Serviços Contábeis. Membro do Conselho Fiscal da ISA-CTEEP. Consultor independente do
Banco Mundial. Em 2010, atuou como Academic Fellow da IFRS Foundation, em Londres.
Ganhou o “Prêmio Contabilista do Ano” de 2009 conferido pela Mackenzie Rio. Coautor dos
livros Contabilidade geral e Contabilidade gerencial (Atlas-Gen) e Contabilidade de ativos relevantes
(FGV). Autor de diversos artigos publicados em relevantes periódicos acadêmicos: AAAJ,
PLOSone, Frontiers in Psy., RAP, ASAA, BAR e BBR, entre outras.

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