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EIXO TEMÁTICO I: ESPORTE

Tema:
Tópico 6: Diferença entre o esporte educacional de rendimento e de participação
Habilidades: Diferenciar o esporte escolar do esporte de alto rendimento e de participação

Nossos alunos acompanham o noticiário, lêem o caderno de esportes, assistem aos jogos, acompanham campeonatos,
Olimpíadas e Copas do Mundo. Esse “mundo dos esportes”, como parte de nossa cultura, possui seus valores, princípios e regras
muito bem demarcados.

A vivência do esporte é um direito garantido por lei, portanto um direito de todos. Mas de que esporte estamos falando? A
Constituição brasileira de 1988, no seu art. 217, prevê que os recursos públicos sejam prioritariamente destinados à promoção do
esporte educacional. Outras leis complementares nos dão pistas de que existem diferentes formas de vivências e práticas
esportivas. Especificamente a Lei n. 9.615/98, batizada como “Lei Pelé”, regulariza o esporte em nosso país, caracterizando-o nas
seguintes manifestações:

- Esporte Educacional: praticado nos sistemas de ensino e em formas assistemáticas de educação, evitando-se a seletividade, a
hipercompetitividade de seus praticantes, com a finalidade de alcançar o desenvolvimento integral do indivíduo e a sua formação
para o exercício da cidadania e a prática do lazer.

- Esporte de participação: praticado de modo voluntário, compreendendo as modalidades desportivas praticadas com a finalidade
de contribuir para a integração dos praticantes na plenitude da vida social, na promoção da saúde e da educação e na
preservação do meio ambiente.

- Esporte de rendimento: praticado segundo normas gerais dessa lei e das regras de práticas desportivas – nacional e
internacional –, com a finalidade de obter resultados e integrar pessoas e comunidades do País, e estas com as de outras nações.

O esporte de participação será discutido no tópico nº 10 do eixo temático Esporte do Ensino Médio. Aqui, interessa-nos discutir o
esporte educacional e o esporte de rendimento.

Que tipo de esporte tem sido promovido na sua escola? Essa é uma boa pergunta para ser feita tanto aos nossos alunos como a
nós mesmos, para deflagrar a discussão do tópico. A leitura e a problematização da Constituição brasileira e da “Lei Pelé” são
estratégias interessantes para aprofundar esta questão.

Algumas considerações precisam ser feitas antes de respondermos à pergunta feita acima. O quadro abaixo pode ser utilizado
para discutir as características dos princípios e valores próprios de cada tipo de esporte.

ESPORTE DE ALTO RENDIMENTO ESPORTE ESCOLAR/EDUCACIONAL

FORMAÇÃO DE ATLETAS FORMAÇÃO DO ALUNO/CIDADÃO

REGRAS PADRONIZADAS DITADAS PELAS FEDERAÇÕES REGRAS ADAPTADAS PELOS ALUNOS

INCLUSÃO DE TODOS: TODOS TÊM DIREITOS IGUAIS DE


EXCLUSÃO DE MUITOS: OS MELHORES JOGAM
PARTICIPAR

ENFATIZA A VITÓRIA ENFATIZA O PROCESSO

INTERESSE EXARCERBADO NA VITÓRIA INTERESSE NA VIVÊNCIA LÚDICA E NA EDUCAÇÃO

SUBMETIDO AOS INTERESSES ECONÔMICOS DA ESTÁ SUBMETIDO AOS INTERESSES DOS ALUNOS E DA
INDÚSTRIA ESPORTIVA, DOS CLUBES E DA MÍDIA PROPOSTA PEDAGÓGICA DA ESCOLA

O esporte de rendimento, por ser veiculado pela mídia, exerce grande influência no ensino escolar. Por isso, de modo geral, a
escola tem refletido em suas aulas, torneios e Olimpíadas, aquilo que é próprio do esporte de rendimento: a seleção, a exclusão, a
premiação como fim, a competição fundada na sobrepujança, a concorrência, a comparação, o individualismo, dentre outros
princípios e valores.

O ensino do esporte educacional na escola demanda outra lógica na organização e implementação das aulas, daí a necessidade
e importância de ficar claro para os alunos o significado pedagógico do esporte. Se o professor considerar que “ensinar educação
física” é preparar os “bons” da turma para disputar torneios extra-escolares, o sentido educativo do esporte se perde, pois a
maioria dos alunos não terá chance de participar.
Os alunos estão na escola não porque seus pais os matricularam numa “escola de esportes” ou em um clube local, para se
tornarem atletas, mas porque, como alunos, todos têm os mesmos direitos de acesso aos conhecimentos disponibilizados pela
escola, inclusive aqueles relacionados às práticas corporais. Mas como garantir esses direitos a todos os alunos?

Uma prática herdada do esporte de alto rendimento que foi incorporada pela escola e que precisa ser repensada é a “quem ganha
o jogo fica; quem perde sai”. Esse procedimento estimula os bons a serem cada vez melhores pelo fato de terem mais
oportunidade de jogar. Por sua vez, aqueles que têm mais dificuldade de aprendizagem ficam de fora e continuam com suas
dificuldades. É importante dar oportunidade aos alunos de refletir sobre as implicações de adotar essas normas.

Outra prática bem comum é “dois minutos ou dois gols”. A princípio, a regra é igualitária: todos têm os mesmos direitos, mas sob
quais condições? O time vencedor poderá em 30 segundos eliminar o time perdedor e, por essa razão, permanecer em campo até
que o sinal bata. Esses exemplos se aplicam a todos os esportes. Essa lógica poderá ser revertida se o professor modificar a
forma de organização dos jogos, como: todos os times jogam duas vezes independentemente da vitória ou da derrota. O critério
não seria dado pelo placar, mas pelo direito que todos têm de jogar o mesmo tempo.

Você constitui os times em suas aulas por meio do par ou ímpar com os melhores jogadores da sala escolhendo? É bom pensar
sobre o quanto esse ritual é constrangedor e perverso com muitos daqueles que são sempre os últimos a serem escolhidos. Seria
interessante se você conversasse com alguns desses alunos para entender o que se passa com cada um deles. No esporte de
alto rendimento, os times são formados, necessariamente, pelos melhores de um grupo, porque o principal objetivo da competição
nesse tipo de esporte é a busca da vitória, mas esse não é o objetivo do esporte escolar que tem compromisso com uma
educação e uma formação cidadã.

Mesmo que o professor forme previamente os times, ainda assim, algum tipo de discriminação poderá ser sentido por meio de
expressões como: “Eu não o quero no meu time! Ele não joga nada!” Somente mudar a estratégia não garante mudança de
atitude. As panelinhas continuarão existindo. Seria interessante lançar outros objetivos para o grupo que não unicamente o placar
favorável para a equipe. Existem alguns desafios/objetivos que só podem ser alcançados se o coletivo se mobilizar. O professor
deverá disponibilizar algum tempo para que os alunos se envolvam e encontrem soluções para os problemas dos colegas.
Encontrar uma solução significa ajudar o colega a encontrar uma forma de aprender a executar determinado gesto, não
interessando, aqui, se esse gesto é o padronizado ou não.

Uma professora da 5ª e da 6ª série encontrou a seguinte forma de equacionar esse problema: como não conhecia o grupo com o
qual iria trabalhar, na primeira aula prática de voleibol ela explicou aos alunos que iria fazer um diagnóstico das necessidades
daquele grupo para orientar as suas aulas. Deixou que eles jogassem à vontade e foi chamando um por um. Enquanto rebatia
com aquele aluno, ela ia conversando e fazendo perguntas sobre o que ele sabia sobre o voleibol, se já tinha jogado em algum
lugar, quais eram suas dificuldades e como ele se avaliava em relação aos critérios bom, regular, iniciante. Enquanto outro aluno
era chamado, ela anotava suas observações no quadro que havia preparado. Ela utilizou as letras A (bom), B (regular) e C
(iniciante) para indicar níveis de dificuldade.

Nome Passe Manchete Saques Gostaria de avançar Como se avalia com relação à turma

Antônio Assis C C C Medo de bola C

Bruno Pereira A B B Saques e recepção B

Cássia Abreu B A A Na cortada A

No final da aula, a professora reuniu o grupo e socializou suas impressões sobre aquele diagnóstico. No grupo havia pessoas com
facilidades em alguns fundamentos e outros com várias dificuldades. Ela propôs que, para cada necessidade individual, um colega
que já a tinha superado procurasse ajudar o outro a encontrar uma solução. No decorrer de suas aulas, assumiu a
responsabilidade de fortalecer essas parcerias ou laços de solidariedade entre os alunos. No final de um tempo estipulado, o
próprio grupo avaliou os avanços e se os objetivos foram alcançados. Inicialmente, dez alunos não conseguiam sacar; no final de
seis aulas, oito já conseguiam passar a bola sob a rede. Esse era um sinal de que a turma tinha crescido e conquistado algumas
vitórias.

Essa estratégia alterou a lógica de os alunos formarem os times nas aulas. Em uma atividade ou jogo cujo objetivo era
experimentar o passe, Bruno ficava com o Antônio para ajudá-lo a qualificar o seu gesto. No momento de dar um saque, o grupo
esperava que o Antônio tentasse algumas vezes até acertar. A conquista do Antônio passou a ser a conquista de todos.

Mas uma outra diferença entre o esporte escolar e o esporte de alto rendimento é quanto ao uso dos espaços e materiais
necessários para os jogos. Neste último, as distâncias, pesos e tamanhos de bolas, súmulas, uniformes e tamanhos de quadras
são determinados em centímetros, metros, linhas, gráficos e pontos pelo sistema esportivo. Na escola, reivindicamos os mesmos
espaços, as mesmas súmulas, os apitos, os árbitros, os pesos e tamanhos de bolas, as camisas numeradas, os tamanhos de rede
exigidos no esporte de rendimento.

Ótimo se a sua escola tem tudo isso, mas esse esquema é realmente indispensável para desenvolvermos com nossos alunos o
esporte educacional? Ele será sempre incompleto se nossas reivindicações forem nesse sentido. Devemos lutar para que os
nossos espaços sejam adequados, limpos e seguros. Nossos materiais deverão ter qualidade, aparência e quantidade que
viabilizem um trabalho digno (o PDPI foi uma ótima oportunidade para essa reivindicação!). Porém, se a quadra da escola é muito
pequena, que novos arranjos materiais e regras do próprio jogo poderão ser construídos pelos alunos? Se existe uma única
quadra, por que não demarcá-la na transversal e improvisar o gol com cones ou pedras. Partindo dos elementos essenciais do
jogo (por exemplo, no caso do handebol: agarrar, lançar, arremessar, etc.), modifique as regras de modo que mais jogadores
entrem em quadra. Se marcar os pontos durante um jogo é interesse do grupo, não é necessário ter uma súmula oficial para que
isso ocorra. Podemos marcar no chão, no papel ou contar verbalmente. Além disso, saber quem ganhou ou quem perdeu não é o
mais importante. Se a iniciativa de apresentar uma alternativa ao esporte de rendimento não partir do professor, de quem mais
será?

As regras estabelecidas pelas federações esportivas são fechadas e inquestionáveis. Elas existem para ser cumpridas, e não
alteradas. No esporte escolar, o grupo poderá alterá-las visando atender aqueles que jogam, já que não se trata do esporte de
rendimento. Para ilustrar, utilizaremos o caso de “carregar” a bola. O grupo poderá ter outro entendimento sobre “carregar”,
dependendo de quem está jogando. O número de toques poderá ser ampliado se o objetivo for o maior número de alunos tocando
na bola e o aumento do seu tempo no ar. Leia o tópico O Sentido das Regras, onde mais exemplos são dados.

A encenação de um grande evento esportivo pode ser feita pelos alunos. Para isso, eles podem ser divididos em funções: técnico,
jogadores, imprensa (rádio, TV, jornal), comércio, torcida, dentre outros. Ao desempenharem o papel que cabe a cada um, a
professora pode pedir aos alunos que relacionem o esporte da escola e de sua realidade com aquele vivido pela mídia. Eles
perceberão que o esporte pode ter outros sentidos e significados além daqueles veiculados pela mídia e também quais os valores
e princípios valem a pena ser seguidos, quais devem ser problematizados, quais devem ser transformados e ressignificados.

Essas reflexões podem ajudar os professores a rever suas práticas e motivações, quanto aos alunos e à mudança de atitude para
com os colegas. Culminar esse estudo com um torneio escolar, no qual as oportunidades e vivências sejam um direito de todos e
a democracia e a ética, princípios norteadores, será uma boa forma de avaliar se o estudo deste tópico atingiu ou não o seu
objetivo.

Consideramos que essa temática, além das sugestões já apresentadas, poderá ser ensinada por meio da análise de jogos na TV
ou vídeos de partidas de jogos realizados na escola. As reportagens de jornais, suas imagens e manchetes podem suscitar
trabalhos interessantes.

Para saber mais:

BETTI, Mauro: A janela de vidro: esporte, televisão e educação física. Campinas, SP: Papirus, 1998.

DAOLIO, Jocimar. Cultura: educação física e futebol. Campinas, SP: Editora da Unicamp, 1997.

HILDEBRANDT-STRAMANN, Reiner. Textos pedagógicos sobre o ensino da educação física. 2. ed. Ijuí: Unijuí, 2003.

KUNZ, Elenor. Educação física: ensino & mudanças. Ijuí: Unijuí, 1991.

KUNZ, Elenor. Transformação didático-pedagógica do esporte. Ijuí: Unijuí, 1994.

MOREIRA, Wagner Wey e SIMÕES, Regina. Fenômeno esportivo no início de um novo milênio. Piracicaba: Editora da Unimep,
2000.

PICCOLO, Vilma L. Nista (Org.). Educação física escolar: ser... ou não ter? Campinas, SP: Editora da Unicamp, 1993.

VAGO, Tarcísio Mauro. “O esporte na escola” e o “esporte da escola”: da negação radical para uma relação de tensão
permanente: um diálogo com Valter Bracht. Revista Movimento, Escola Superior de Educação Física da UFRGS, Ano III, n. 5. dez.
1996.

Orientação Pedagógica: Diferença entre o esporte escolar e o esporte de alto rendimento


Conteúdo Básico Comum - Educação Física Ensino Fundamental
Autora: Aleluia Heringer Lisboa Teixeira
Centro de Referência Virtual do Professor - SEE-MG/2005