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UNIVERSIDADE ESTÁCIO DE SÁ – UNESA


CURSO SUPERIOR TECNÓLOGICO EM SEGURANÇA PÚBLICA – CSTSP

LUCAS DE SOUZA LEMOS

EFICÁCIA DA LEI MARIA DA PENHA E DA LEI DE VIOLÊNCIA


DOMÉSTICA CONTRA A MULHER: ESTUDO COMPARADO ENTRE
BRASIL E URUGUAI

Artigo a ser apresentado à Banca do Exame do


Curso Superior de Tecnólogo em Segurança
Pública da Universidade Estácio de Sá –
CSTSP/UNESA, como requisito para
aprovação na disciplina de TCC em Segurança
Pública.

ORIENTADOR

Prof. Me. Roberto Cavalcanti Vianna

CABO FRIO – RIO DE JANEIRO


2

Maio de 2021

EFICÁCIA DA LEI MARIA DA PENHA E DA LEI DE VIOLÊNCIA


DOMÉSTICA CONTRA A MULHER: ESTUDO COMPARADO ENTRE
BRASIL E URUGUAI

Lucas de Souza Lemos1


Prof. Me. GEORGE WILTON TOLEDO2

RESUMO

O presente artigo tem como objetivo central, debater de maneira conceitual sobre a
Eficácia da Lei Maria da Penha e Da Lei de Violência Doméstica Contra Mulher,
sobretudo Estudo Comparado entre Brasil e Uruguai. A violência da mulher e o
processo pelo qual são transmitidos ao indivíduo os conhecimentos e atitudes
necessárias para que haja uma mudança na formação e transformação da
sociedade. Nas camadas mais mais simples, a aquisição de conhecimento não
exigia estabelecimentos especialmente destinados às tarefas educativas e uma
transformação de varoleres éticos e morais no estabeleciemnto do convivio
conjungal; a aprendizagem se realizava naturalmente, pois a formação
educacional estabelecida pelo o estado de direito, mudará o conceito da violência
e participação dos trabalhos comuns e conforme crescia, o papel do
desenvolvimentonas comunidades definia-se cada vez mais.Neste artigo, pude
abordas a importância do papel do Estado e a luta contra a violência Doméstica,
principalmente, reconhecer as políticas públicas que propiciam o processo de
empoderamento à estas mulheres e propõe sugestões de políticas públicas que
propiciem seu empoderamento, com vistas ao rompimento da situação de
violência, tais como: capacitação permanente dos profissionais que trabalham
com mulheres em situação de violência, voltada à igualdade entre mulheres
e homens, direitos humanos e cidadania, principalmente nas áreas de saúde,
segurança pública e judiciário;
1
Graduando em Tecnólogo em Segurança Pública pela UNESA – Universidade Estácio de Sá. E-mail:
lucassouza.lemos@yahoo.com.br
2
Professor orientador– Universidade Estácio de Sá. E-mail: eadprod@gmail.com
3

Palavras chaves: Violência, Mulher e Leis.


ABSTRACT

The main objective of this article is to debate in a conceptual way about the
Effectiveness of the Maria da Penha Law and the Domestic Violence Against Women
Act, especially a Comparative Study between Brazil and Uruguay. The violence of
women and the process by which the necessary knowledge and attitudes are
transmitted to the individual so that there is a change in the formation and
transformation of society. In the simplest layers, the acquisition of knowledge did not
require establishments specially destined to educational tasks and a transformation
of ethical and moral varolerers in the establishment of conjugal coexistence; the
learning took place naturally, because the educational formation established by the
rule of law, will change the concept of violence and participation in common works
and as it grew, the role of development in the communities was increasingly defined.
In this article, I was able to address the importance of the role of the State and the
fight against Domestic violence, mainly, to recognize the public policies that provide
the empowerment process to these women and proposes suggestions of public
policies that propitiate their empowerment, with a view to breaking the situation of
violence, such as: permanent training of professionals who work with women in
situations of violence, aimed at equality between women and men, human rights and
citizenship, especially in the areas of health, public security and the judiciary;

Key words: Violence, Women and Laws.


4

INTRODUÇÃO

O Artigo a ser realizada neste trabalho é classificada como pesquisa


bibliográfica, que traz um parâmetro dos pensamentos dos autores diante do tema
falado no trabalho ao qual é a violência doméstica contra a mulher. Com essa
pesquisa podemos relatar as diferenças de gênero e violência que a mulher sofre
durante um relacionamento conturbado e com isso mostramos tanto a fala do autor
quanto o pensamento da sociedade machista e patriarca lista que ainda existe.
É confirmado que mesmo com a vigência da Lei Maria da Penha,
determinados atos de violência contra a mulher no Brasil e no Uruguai ainda
constituem um desafio anormal. A violência doméstica contra a mulher, infligida pelo
seu companheiro masculino, causa impactos negativos em uma realidade
conhecida e legitimada, na medida da vitimização, na maior parte das pesquisas
realizadas, que tratam de tal fenômeno. Os impactos interferem em diversos campos
da vida destas mulheres, como nas suas capacidades parentais e até no seu papel
na educação dos filhos.
Embora muito tenha se avançado neste âmbito, as leis de proteção às
mulheres ainda permanecem limitadas, essencialmente no que se refere à proteção
e prevenção da violência doméstica, atingindo diretamente os Direitos Humanos
destas mulheres. A violência contra a mulher é, em um primeiro olhar, uma violação
dos direitos das mulheres, sendo considerado um problema social severo e
determinado por múltiplos condicionantes, mostrando raízes oriundas da construção
sócio-histórica e cultural das relações de poder e de hierarquia, e na desigualdade
entre os gêneros.
Cerca de um terço de todas as mulheres, a nível mundial, já foi vítima de
violência física ou sexual, cometida por um companheiro íntimo. A violência contra
mulher inclui toda a conduta que traga amedrontamento, constrangimento,
menosprezo, manipulação, segregação, vigilância constante, assédio obstinado,
insulto, extorsão, ridicularização, exploração ou o entrave ao direito de ir e vir da
mulher.
No Brasil, há dois principais mecanismos legais que tratam sobre as questões
relacionadas à violência doméstica contra a mulher: Convenção Belém do Pará
5

(BRASIL, 1996); Lei Maria da Penha – Lei nº 11.340 (BRASIL, 2006)3. No Uruguai, o
principal mecanismo legal que trata sobre a violência doméstica contra a mulher é a
Lei de Violência Doméstica – Lei n° 17.514 (URUGUAI, 2002) 4.
A violência contra a mulher pode ser expressa como uma violência
psicológica – atitude capaz de trazer dano ou agravo à saúde psicológica, tais como
o dano emocional, a diminuição da autoestima e o prejuízo ao progresso; uma
violência física – quando a conduta interfere na integridade ou na saúde corporal da
vítima; uma violência patrimonial – que compreende retenção, furto, destruição
parcial ou total de artigos, instrumentos de trabalho, documentos individuais, bens,
posses e direitos ou rendimentos econômicos; uma violência moral – caracterizada
por calúnia, injúria ou difamação da pessoa; ou uma violência sexual –
compreendida como qualquer conduta que obrigue a mulher a assistir, manter ou ser
parte de intercurso sexual não desejado; incluindo a comercialização ou utilização
da sexualidade, sob qualquer pretexto, a proibição do uso de método
contraceptivo, união em matrimônio, gestação, interrupção de gestação,
prostituição, limitação ou invalidação do exercício dos direitos sexuais e
reprodutivos.

1 - DESENVOLVIMENTO

1.1- Violência Contra Mulher


1.1.1 - Analisar os antecedentes históricos da Lei de combate à
violência
A violência contra a mulher é uma indagação de construção histórica —
portanto, que traz em seu objetivo uma relação com as categorias de gênero, classe
e raça/etnia e suas relações de poder. Pode ser considerada como toda e qualquer
conduta de gênero, que ou até podendo causar morte, sofrimento e violência física,
sexual ou psicológico à mulher, tanto na esfera pública quanto na privada.
Segundo a ONU (Organizações das Nações Unidas) Em quase todos os
países ditos civilizados, os ataques, assassinatos e estupros de mulheres ou
meninas são fatos históricos, pois esses países possuem os mais diferentes
sistemas econômicos e políticos. As Nações Unidas foram o primeiro Dia

3
Lei Maria da Penha – Lei nº 11.340 (BRASIL, 2006)
4
Lei de Violência Doméstica – Lei n° 17.514 (URUGUAI, 2002)
6

Internacional da Mulher realizado após a mobilização contra esse tipo de violência


em 1975. Dez anos atrás, as Nações Unidas e sua Comissão de Direitos Humanos
criaram um capítulo de condenação na Conferência de Viena de 1993 e propuseram
coibir a violência de gênero. Medidas.
No Brasil, o pretexto do adultério, o assassinato de mulheres era legitimo
antes da República. Koener mostra que relação sexual da mulher fora do casamento
constituída adultério – o que o livro v das Ordenações Filipinas permita que o marido
matasse a ambos. O Código Criminal de 1930 atenuava o homicídio praticado pelo
marido quando houvesse adultério. Observe-se que, se o marido mantivesse relação
constante com outra mulher, esta situação constituía concubinato e não e não
adultério. Posteriormente, o Código Civil 1916 alterou esta disposição considerando
o adultério de ambos os cônjuges razão de desquite.
Os relatórios das Nações Unidas em 1949 e 1962 apontavam que, de acordo
com as disposições da Carta das Nações Unidas, afirmava-se claramente que os
direitos entre homens e mulheres são iguais, enquanto a Declaração Universal dos
Direitos Humanos estipula que existe liberdade entre os homens e mulheres. E os
direitos humanos devem ser igualmente aplicáveis a ambos.
Em 1979, a Assembleia Geral das Nações Unidas adotaram a Convenção de
exclusão de todas as Formas de Discriminação contra a Mulher (CEDAW), mas
conhecida como a Lei Internacional dos Direitos da Mulher. Essa Convenção visou a
relatar os direitos da mulher na busca de igualdade de gênero, para repreender
qualquer tipo de descriminação.
Através do Movimento Feminista com relatos de histórias, reivindicações e
conquistas por direitos das mulheres, que se deram acontecimentos a situações
femininas.
O caminho entre os direitos das mulheres e as lutas para a igualdade das
minorias em geral estiveram sempre entrelaçados. Na época do Brasil
Colônia (1500-1822), pouco foi conquistado. Vivia-se uma cultura enraizada de
repressão às minorias, desigualdade e de patriarcado. As mulheres eram
propriedade de seus pais, maridos, irmãos ou quaisquer que fossem os chefes da
família. Nesse período, a luta das mulheres era focada em algumas carências
extremamente significativas à época: direito à vida política, educação, direito ao
divórcio e livre acesso ao mercado de trabalho.
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Durante o Império (1822-1889), passou a ser reconhecido o direito à


educação da mulher, área em que seria consagrada Nísia Floresta (Dionísia
Gonçalves Pin, 1819-1885), fundadora da primeira escola para meninas no Brasil e
grande ativista pela emancipação feminina. Até então não havia uma proibição de
fato à interação das mulheres na vida política, visto que não eram nem mesmo
reconhecidas como possuidoras de direitos pelos constituintes, fato que levou a
várias tentativas de alistamento eleitoral sem sucesso.
Algumas mudanças começam a ocorrer no mercado de trabalho durante as
greves realizadas em 1907 (greve das costureiras) e 1917, com a influência de
imigrantes europeus (italianos e espanhóis), e de inspirações anarco - sindicalistas,
que buscavam melhores condições de trabalho em fábricas, em sua maioria têxtil,
onde predominava a força de trabalho feminina. Entre as exigências das
paralisações, estava à regularização do trabalho feminino, a jornada de oito horas e
a abolição de trabalho noturno para mulheres. No mesmo ano (1917), foi aprovada a
resolução para salário igualitário pela Conferência do Conselho Feminino da
Organização Internacional do Trabalho e a aceitação de mulheres no serviço
público.
Ainda no início do século XX, são retomadas as discussões acerca da
participação de mulheres na política do Brasil. É fundada então, em 1922, a
Federação Brasileira pelo Progresso Feminino, onde os principais objetivos eram a
batalha pelo voto e livre acesso das mulheres ao campo de trabalho. Em 1928, é
autorizado o primeiro voto feminino (Celina Guimarães Viana, Mossoró-RN), mesmo
ano em que é eleita a primeira prefeita no país (Alzira Soriano de Souza, em Lajes-
RN). Ambos os atos foram anulados, porém abriram um grande precedente para a
discussão sobre o direito à cidadania das mulheres.
Alguns anos depois, em 24 de Fevereiro de 1932, no governo de Getúlio
Vargas, é garantido o sufrágio feminino, sendo inserido no corpo do texto do Código
Eleitoral Provisório (Decreto 21076) o direito ao voto e à candidatura das mulheres,
conquista que só seria plena na Constituição de 1946. Um ano após o Decreto de
32, é eleita Carlota Pereira de Queiróz, primeira deputada federal brasileira,
integrante da assembleia constituinte dos anos seguintes.
Durante o período que antecede o Estado Novo, as militantes do feminismo
divulgavam suas ideias por meio de reuniões, jornais, explicativos, e da arte de
maneira geral. Todas as formas de divulgação da repressão sofrida e os direitos que
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não eram levados em consideração, eram válidas. Desta forma, muitas vezes
aproveitam greves e periódicos sindicalistas e anarquistas para manifestarem sua
luta, conquistas e carências.
Entre os dois períodos ditatoriais vividos pelo Brasil, o movimento perde muita
força. Destacando conquistas como a criação da Fundação das Mulheres do Brasil,
aprovação da lei do divórcio, e a criação do Movimento Feminino Pela Anistia no ano
de 1975, considerado como o Ano Internacional da Mulher, realizando debates sobre
a condição da mulher. Nos anos 80 foi criado o Conselho Nacional dos Direitos da
Mulher, que passaria a Secretaria de Estado dos Direitos da Mulher, e passou a
ter status ministerial como Secretaria de Política para as Mulheres.
A partir da década de 60, o movimento incorporou questões que necessitam
melhoramento até os dias de hoje, entre elas o acesso a métodos contraceptivos,
saúde preventivo, igualdade entre homens e mulheres, proteção à mulher contra a
violência doméstica, equiparação salarial, apoio em casos de assédio, entre tantos
outros temas pertinentes à condição da mulher.
Com base no movimento feminista estamos vendo que a luta para combater a
violência doméstica ainda é muito grande, pois o machismo ainda existe mesmo em
meio ao mundo atualizado e evolutivo que vivemos. No próximo texto abordaremos
os desafios e avanços que a Lei Maria da Penha nos trouxe para orientar as
mulheres vítimas de Violência Doméstica.

1.2 - Compreender os avanços e desafios para a concretude da Lei Maria da penha.

Deste modo, Com a carência de conhecimento histórico da violência familiar


contra a mulher, era necessário um tratamento diferenciado para orientar as
mulheres com problemas de violência. Com a chegada da Lei 11.340 em 2006,
criou-se mais do que uma lei, um verdadeiro sistema voltado para atendimento às
mulheres que estão envolvidas em situações de violência doméstica.

Novos mecanismos de proteção buscam colocar a mulher a


salvo da agressão, havendo até a possibilidade de ser
decretada a prisão preventiva do agressor Agora, de acordo
com a nova lei, a vítima será ouvida, agora sempre estará
acompanhada de defensor e recebera proteção não só da
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autoridade policial, mas da própria justiça que, de forma


imediata, deverá adotar medidas protetivas de urgência. (DIAS,
2007, p. 8).

Essa lei resulta de um projeto iniciado em 2002, que contou com a


participação de 15 ONGs que trabalham com violência doméstica. O Grupo de
Trabalho interministerial sob a coordenação da Secretaria Especial de Políticas para
as mulheres elaborou o projeto que, no final do ano de 2004, foi enviado ao
Congresso Nacional. Depois da realização de audiências públicas por todo o país, e
de algumas alterações feitas pelo Senado Federal, a Lei foi finalmente, em 7 de
agosto de 2006, sancionada pelo Presidente da República e passou a vigorar em 22
de setembro do mesmo ano.
Trata-se sem dúvida de uma verdadeira mudança de quebra de paradigma no
enfrentamento à violência doméstica, que 10 anos depois, conquistou muitos
avanços e ainda encontra muitos desafios para ser alcançados, pois infelizmente
ainda existem mulheres presas em seu silêncio.
Esta é uma lei de caráter misto, que traz aspectos processuais e previsões
para a promoção de políticas públicas, prevendo em seu texto diversas medidas
protetivas e também a responsabilidade do Estado em ajudar na reconstrução da
vida das mulheres, de forma que entre nas áreas de cadastramento de programas
para a inclusão social, do governo federal, estadual e municipal; atendimento
especializado na saúde, com objetivo de preservar a integridade física e
principalmente psicológica da vítima; além de assegurar a manutenção do vínculo
trabalhista, caso seja necessário o afastamento do local de trabalho.
A lei nos respalda essa realidade em papel, mas infelizmente quando olhamos
para a pratica muitas das vezes ela não é realizada como deveria ser pois muitas
mulheres ainda não conseguem realizar esse procedimento de proteção que foi
criado por conta da falta de coragem que ainda não existe.
No que se refere aos meios de recuperação dos agressores, a Lei Maria da
Penha mudou a realidade processual dos crimes de violência doméstica e familiar
contra a mulher. Ao proibir a aplicação da Lei no 9.099/95, impossibilitou a punição
dos réus com penas pecuniárias (multa e cesta básica) e a aplicação dos institutos
despenaliza dores nela previstos, como a suspensão condicional do processo e a
transação penal.
10

Ainda assim, o rol trazido pela Lei não é exaustivo, pois o art 7°
utiliza a expressão “entre outras”. Portanto, não se trata de
numerus clausus, podendo haver o reconhecimento de ações
outras que configurem violência doméstica e familiar contra a
mulher. As ações fora do elenco legal podem gerar a adoção
de medidas protetivas no âmbito civil, mas não em sede de
Direito Penal, pela falta de tipicidade. (DIAS, 2007, p. 46).

Com as palavras de Maria Berenice Dias afirma que não precisa de ações
para comprovar violência Doméstica e delitos, mesmo com ou sem crimes o correto
é denunciar e a autoridade entrar com o processo e encaminhar o agressor a
delegacia para mostrar que a Lei Maria da Penha ela tem respaldo de proteção a
mulher.
Com isso percebemos uma das mais importantes inovações da Lei Maria da
Penha onde reside seu verdadeiro alcance. Citamos:

[...] o conceito de violência doméstica adotado pela Lei


ultrapassa a limitada noção dos crimes de lesão corporal de
natureza leve ou ameaça prevista no Código Penal. Inscrevem-
se outras categorias que ampliam o conceito de crime e essas
passam a ser questionadas como ‘não jurídicas’. Igualmente, a
ruptura dogmática entre as esferas civil e penal, com a criação
de um juizado híbrido, sofre resistências, tanto de natureza
teórica quanto prática. No primeiro caso, pelo questionamento
dessa ruptura através do argumento da inconstitucionalidade e,
no segundo, pelas negativas de solucionar questões de
natureza civil/familiar e penal em um mesmo juizado.
(CAMPOS, 2011, p. 6-7).

A Lei também deixa claro que indiretamente, diz respeito ao conceito de


família e às uniões homo afetivas. No seu artigo 2º, dispõe que “Toda mulher,
independentemente de classe, raça, etnia, orientação sexual (...) goza, dos direitos
fundamentais inerentes à pessoa humana” e o parágrafo segundo do artigo 5º reitera
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que todas as situações que configuram violência doméstica e familiar independem


de orientação sexual.

O preceito tem enorme repercussão, Como é assegurada


proteção legal a fatos que ocorrem no ambiente doméstico,
isso quer dizer que as uniões de pessoas do mesmo sexo são
entidades familiares. Violência doméstica, como diz o próprio
nome, é violência que acontece no seio de uma família. Assim,
a Lei Maria da Penha ampliou o conceito de família alcançando
as uniões homo afetiva. Pela primeira vez foi consagrada, no
âmbito infraconstitucional, a ideia de que a família não é
constituída por imposição da lei, mas sim por vontade dos seus
próprios membros. Ao ser afirmado que está sob o abrigo da
Lei a mulher, sem distinguir sua orientação sexual, encontra-se
assegurada proteção tanto às lésbicas como às travestis, as
transexuais e os transgênicos do sexo feminino que mantêm
relação íntima de afeto em ambiente familiar ou de convívio.
Em todos esses relacionamentos as situações de violência
contra o gênero feminino justificam especial proteção (DIAS,
2007, p. 35).

Podemos ver que a lei deixa bem claro que não existe nenhum tipo de
preconceito para proteção, pois ela mostra que as classes, raças, etnia e orientação
sexual têm seus direitos fundamentais independentes.
Com a Lei Maria da Penha podemos ressaltar algumas mudanças depois que
a lei foi criada com essas mudanças temos o livre acesso para denunciar os
agressores que ainda existe e muitas mulheres não conseguem se livrar de uma
vida de violência e de maus tratos.
Neste momento da contemporaneidade, a violência contra a mulher é uma
realidade bastante presente na vida das mulheres, se constituindo numa expressão
da questão social, a qual demanda intervenção do Estado via políticas sociais
públicas. Trata-se, pois, das desigualdades de gênero, raça e classe, portanto, um
dos objetos sobre os quais incide o trabalho dos (as) assistentes sociais, se
constituindo em “matéria prima” de sua intervenção.
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Observando o contexto apresenta segundo o pensamento constituído pelo autor


verificamos, a apropriação das categorias relações sociais de gênero, patriarcado e
raça pelos(as) profissionais de Serviço Social se faz necessária para uma apreensão
crítica das relações sociais e suas múltiplas determinações para além das classes,
pois a realidade sobre a qual os(as) assistentes sociais se debruçam é complexa e
multifacetada, sendo necessário, portanto, desvendar seus vários determinantes.

1.4 - Competência para julgar crimes de violência doméstica


Antes: crimes eram julgados por juizados especiais criminais, conforme a lei
9.099/95, onde são julgados crimes de menor potencial ofensivo.
Depois: com a nova lei, essa competência foi deslocada para os novos
juizados especializados de violência doméstica e familiar contra a mulher. Esses
juizados também são mais abrangentes em sua atuação, cuidando também de
questões cíveis (divórcio, pensão, guarda dos filhos, etc). Antes da Maria da Penha,
essas questões deveriam ser tratadas em separado na Vara da Família.
Detenção do suspeito de agressão
Antes: não havia previsão de decretação de prisão preventiva ou flagrante
do agressor.
Depois: com a alteração do parágrafo 9o do artigo 129 do Código Penal,
passa a existir essa possibilidade, de acordo com os riscos que a mulher corre.
Agravante de pena
Antes: violência doméstica não era agravante de pena.
Depois: o Código Penal passa a prever esse tipo de violência como
agravante.
Desistência da denúncia
Antes: a mulher podia desistir da denúncia ainda na delegacia.
Depois: a mulher só pode desistir da denúncia perante o juiz.
Penas
Antes: agressores podiam ser punidos com penas como multas e doação de
cestas básicas.
Depois: essas penas passaram a ser proibidas no caso de violência
doméstica.
Medidas de urgência
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Antes: como não havia instrumentos para afastar imediatamente a vítima do


convívio do agressor, muitos mulheres que denunciavam seus companheiros por
agressões ficavam à mercê de novas ameaças e agressões de seus maridos, que
não raro dissuadiam as vítimas de continuar o processo.
Depois: o juiz pode obrigar o suspeito de agressão a se afastar da casa da
vítima, além de ser proibido de manter contato com a vítima e seus familiares, se
julgar que isso seja necessário.
Medidas de assistência
Antes: muitas mulheres vítimas de violência doméstica são dependentes de
seus companheiros. Não havia previsão de assistência de mulheres nessa situação.
Depois: o juiz pode determinar a inclusão de mulheres dependentes de seus
agressores em programas de assistência governamentais, tais como a Bolsa
Família, além de obrigar o agressor à prestação de alimentos da vítima.
Outras determinações da Lei 11.340
Além das mudanças citadas acima, podem ser citadas outras medidas
importantes:
1) a mulher vítima de violência doméstica tem direito a serviços de
contracepção de emergência, além de prevenção de doenças sexualmente
transmissíveis (DST’s);
2) a vítima deve ser informada do andamento do processo e do ingresso e
saída da prisão do agressor;
3) o agressor pode ser obrigado a comparecer a programas de recuperação e
reeducação.
Portanto a Lei 11.340 ela veio com o mecanismo e sistema muito grande para
nos ajudar e proteger as mulheres vítima de violência doméstica, com a intenção de
muita melhoria.

2 - A VIOLÊNCIA DOMÉSTICA

2.1 Conceito de violência.

Para começarmos este capítulo precisamos entender o que leva o ser


humano a cometer violência contra as mulheres no Uruguai principalmente no Brasil
e no mundo, pois a violência não tem noção de fronteiras geográficas, raça, idade ou
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renda, atingindo assim, crianças, jovens, mulheres e idosos. A cada ano é


responsável pela morte de milhares de pessoas em todo o mundo.
Para cada pessoa que morre devido à violência, muita outra são feridas ou
sofrem devido a vários problemas físicos, sexuais, reprodutivos e mentais. Com este
tema podemos verificar no ponto de partida a controvérsia, a complexidade da
locução violência.
“Essa polêmica tem dado causa a muitas teorias sociológicas, antropológicas,
psicológicas e jurídicas, por isso, a imensa dificuldade de um tratamento científico do
tema” (Cavalcante, 2008, p.45).
A expressão violência é composto pelos prefixos vis, que significa força em
latim. Lembra ideias de vigor, potência e impulso.

Não há dúvidas de que o texto aprovado constitui um


avanço para a sociedade brasileira, representando um marco
indelével na história da proteção legal conferida às mulheres.
Entretanto, não deixa de conter alguns aspectos que podem
gerar dúvidas na aplicação, e até mesmo, opções que revelam
uma formulação legal afastada da melhor técnica e das mais
recentes orientações criminológicas e de política criminal, daí a
necessidade de analisá-la na melhor perspectiva para as
vítimas, bem como discutir a melhor maneira de implementar
todos os seus preceitos. (PERES, Andreia, p.26. 1996)

A etimologia da palavra violência, porém, mais do que uma simples força, a


violência pode ser compreendida como o próprio abuso da força. Violência vem do
latim violência, que significa caráter violento ou bravio. O verbo violare, significa
tratar com violência, profanar, transgredir.
De acordo com dicionário “Aurélio, significado da palavra homem:” Mamífero,
primata, bípede, com capacidade de fala, e constitui o gênero humano, Individuo
masculino do gênero humano, força, coragem, ou vigor.
A Ação de brutalidade, abuso, constrangimento, desrespeito, discriminação,
impedimento, imposição, invasão, ofensa, proibição, sevícia, agressão física,
psíquica, moral ou patrimonial contra alguém e caracteriza relações intersubjetivas e
sociais definidas pela ofensa e intimidação pelo medo e terror.
15

Segundo o dicionário Aurélio violência seria ato violento, qualidade de violento


ou até mesmo ato de violentar. Do ponto de vista pragmático pode-se afirmar que a
violência consiste em ações de indivíduos, grupos, classes, nações que ocasionam
a morte de outros seres humanos ou que afetam sua integridade moral, física,
mental ou espiritual5
Em assim sendo, é mais interessante falar de violências, pois se trata de uma
realidade plural, diferenciada, cujas especificidades necessitam ser conhecidas. Vale
ressaltar que a violência ocorre em vários contextos e áreas, como por exemplo,
tanto no âmbito público quanto no âmbito privado.
A violências pode ser agredida por manipulada, subjugada, violada
psicológica, moralmente ou fisicamente é uma realidade que acontece tanto no
Brasil como no Uruguai e no mundo. O combate da violência contra a mulher é uma
luta internacional por este fato que as leis estão sendo sancionada de formas mais
rígidas.

2.2 - Violência contra a mulher no Brasil.

Segundo o estudo já observado anteriormente, a violência contra a mulher


não é nenhuma novidade diante da atual sociedade. Desde os tempos mais remotos
a violência já se fazia presente, não só no Brasil como também nos demais países.
A igreja evidentemente teve uma grande influência na ideia de submissão da mulher
ao homem.
Na Bíblia Sagrada, em seu primeiro livro chamado “Gênesis”, a mulher é
construída a partir de uma costela do homem, vindo depois da existência deste, para
fazer-lhe companhia. No mesmo livro bíblico, o primeiro pecado do mundo é
provocado pelo desejo feminino e pela desobediência de Eva ao oferecer do fruto
proibido a Adão.
Entanto a escritura Sagrada (bíblia) impõe uma condição secundária à
mulher, e ainda, atribui-lhe a culpa pela quebra do encanto do paraíso. Fato é, que é
uma interpretação literal, e que teologicamente, não está correspondendo à
verdadeira mensagem cristã. Porém, difundiu-se, a partir desta simples

5
FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda. Dicionário da língua portuguesa. 5. ed. Curitiba:
Positivo, 10p, 2010..
16

interpretação, a condição de submissão feminina, ante a ascendência do homem em


todas as relações.
No mundo pré-socrático, as mulheres eram tratadas como propriedade dos
homens, perdendo assim, a autonomia, a liberdade e até mesmo a disposição sobre
seu próprio corpo. Há registros na história de venda e troca de mulheres, como se
fossem mercadorias.
Eram escravizadas e levadas à prostituição pelos seus senhores e
maridos. O século XX foi definitivo para o reconhecimento de um amplo leque de
direitos humanos, responsável por profundas modificações na conduta dos diversos
segmentos sociais em diferentes regiões do nosso planeta.
Um dos principais resultados é a positivação dos direitos humanos das
mulheres junto à estrutura legislativa da ONU e da OEA, por meio de edição de
inúmeras declarações e pactos, a partir de 1948, em que foi publicada a Declaração
Universal de Direitos Humanos.
A partir daí, desde a Declaração Universal de 1948 6, o sistema patriarcal
ocidental passou gradativamente, nas legislações posteriores, a reconhecer a
diversidade biológica, social e cultural dos seres humanos, criando declarações e
pactos específicos para as mulheres.
Até a década de 1980, no Brasil e em outros países do mundo, o estudo
sobre a violência contra a mulher tinha como paradigma predominante o fato de
tratar-se de um problema privado, em que as ações do Estado se limitavam à sua
capacidade de intervenção.
É qualquer ato de violência que tem por base o gênero e que resulta ou pode
resultar em danos ou sofrimento de natureza física, sexual ou psicológica, incluindo
ameaças, a coerção ou a privação arbitrária da liberdade, quer se produzam na vida
pública ou privada.
Este conceito abrange as mais variadas agressões de forma física, sexual e
psicológica, com os mais variados agentes perpetradores, incluindo os de
relacionamento íntimo e familiar, pessoas da comunidade em geral, e aqueles
exercidos e tolerados pelo Estado.
Porém, apesar dos avanços na consolidação dos direitos da mulher no
mundo, no início do século XXI ainda não se pode dizer que as mulheres
conquistaram uma posição de igualdade perante os homens.
6
ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS. Declaração Universal dos Direitos Humanos, 1948
17

O sexo masculino continua desfrutando de maior acesso à educação e a


empregos bem remunerados. Além disso, a violência física e psicológica contra a
mulher continua a fazer parte do cotidiano da nossa vida moderna.
Populações que historicamente tiveram seus direitos negados passam a
dispor de proteção legal capaz de assegurar-lhes amplos direitos fundamentais.
Mulheres, crianças e idosos assumem, cada vez mais, a condição de cidadãos e
sujeitos de direitos.
A dignidade humana e o princípio da igualdade são as molas mestras da
ordem jurídica, política e social do Brasil e, paulatinamente, começam a delinear os
contornos de uma nova nação, permeando espaços públicos e privados, muito deles
considerados inatingíveis na égide das velhas ordens constitucionais.
Não se pode deixar de ressaltar que são inegáveis os avanços cognitivos e as
conquistas obtidas pelo segmento feminino ao longo das últimas décadas do século
passado, com a ampliação de sua participação na esfera pública, expressa pelo
ingresso efetivo nos campos de trabalho, cultura e educação.
Percebemos que ainda nos dias atuais, são muitas as barreiras para impedir
a plena inclusão social da mulher. Fato é, que isto está relacionado a posições de
poder, liderança e negociação, assim como de ocupação de espaços do mundo
público, sobretudo, onde se tem de tomar decisões técnicas, científicas,
empresariais ou políticas.
No desabrochar do século XXI, infelizmente, assistimos a uma avalanche de
atos de violência que afeta a vida de milhares de mulheres em seus vários estágios
de desenvolvimento, acarretando prejuízos, por vezes, irreversíveis à saúde física e
mental.
O conceito de violência contra a mulher importante é que se faça a distinção
desta, com violência doméstica e familiar, pois aparentemente possuem o mesmo
significad7o. A violência contra a mulher é um conceito mais amplo, podendo ser
considerado crime ou não.
É a chamada violência de gênero, pois abrange as várias formas de violência
como a violência sexual, moral, espiritual, familiar, doméstica, entre outras.

7
CAVALCANTI, Stela Valéria Soares de Farias. Violência Doméstica contra a mulher no Brasil.
Ed. Podivm . 2ª ed. Salvador, Bahia, p.45, 2008.
18

Diferentemente da violência doméstica e familiar, sendo esta, uma das modalidades


da violência contra a mulher.
Após a descrição das várias classificações contidas em tratados
internacionais e pela doutrina brasileira e estrangeira no que diz respeito aos tipos
de violência contra as mulheres.
A Violência física consiste em atos de cometimento físico sobre o corpo da
mulher, podendo ser através de tapas, chutes, socos, queimaduras, mordeduras,
punhaladas, estrangulamentos, mutilação genital, tortura, assassinato, ou seja,
qualquer conduta que ofenda a integridade física ou saúde corporal da mulher.
A violência psicológica é a ação ou omissão destinada a degradar ou
controlar as ações, comportamentos, crenças e decisões de outra pessoa por meio
de intimidação, manipulação, ameaçam direta ou indireta, dentre outras, ou seja, é a
violência entendida como qualquer conduta que lhe cause danos emocional e
diminuição da auto – estima.
A violência sexual se identifica com qualquer atividade sexual não consentida,
incluindo também o assédio sexual 8, ou seja, é qualquer conduta que constranja a
mulher a manter conjunção carnal não desejada, mediante intimidação, coação, etc.
A violência moral consiste no assédio moral, geralmente onde o patrão ou
chefe agride física ou psicologicamente seu funcionário com palavras, gestos ou
ações, sendo considerada qualquer conduta que configure injúria, calúnia ou
difamação.
A violência patrimonial que é aquela praticada contra o patrimônio da mulher,
sendo muito comum nos casos de violência doméstica e familiar (dano), ou seja, é a
conduta que configura retenção, subtração, destruição dos bens da vítima.
A violência institucional é a praticada em instituições prestadoras de serviços
públicos, como hospitais, postos de saúde, escolas, delegacias, no sistema prisional.
A violência de gênero é aquela praticada em razão de preconceito e
discriminação; e pôr fim à violência doméstica e familiar que é a ação ou omissão
que ocorre no espaço de convívio permanente de pessoas, com ou sem vínculo
familiar, inclusive as esporadicamente agregadas.
É aquela praticada por membros de uma mesma família. Vale lembrar que a
família fica entendida como indivíduos que são ou se consideram parentes, unidos
8
LIANE, Sonia, Rovinski, Reichert. Dano psíquico em mulheres vítimas de violência. ed. Lúmen
Júris. Pg, 45, 2005.
19

por laços naturais ou por afinidade. Como podemos perceber, violência pode estar
relacionada à pessoa humana de várias formas ou também ao seu patrimônio.
Esta variedade de utilizações do termo violência torna o conceito complexo e
suscita diversos debates que conduzem geralmente à concepções opostas:
positividade e negatividade. A violência pode ser positiva quando é empregada em
sentido favorável à alguma causa, por exemplo, como forma de resistência à
opressão.
Mas a maioria dos autores, das instituições e das sociedades percebe a
violência como negativa, demandando, assim o combate e a sua prevenção. A
concepção de que a violência é sempre negativa e para especificar que - dentre
tantas formas de violência – trabalharemos com a violência contra a mulher: aquela
que fere, ofende, subjuga, maltrata, humilha e viola seus direitos, que é empregada
não como forma de resistência, mas como meio de controlar e submeter às
mulheres. É importante destacar que a subordinação da mulher esteve presente em
quase todas as etapas da história da humanidade 9, corroborando assim uma cultura
que determinou papéis sociais às mulheres e aos homens, e legitimando a
inferioridade da mulher e a violência contra a mulher, por conseguinte, estando
subjugada não podia trazer à tona seus sofrimentos porque não encontrava adesão.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A violência doméstica contra a mulher constitui um grave problema que


carece ser reconhecido e enfrentado, tanto pela sociedade como pelos órgãos
governamentais, através da criação de políticas públicas que contemplem sua
prevenção e combate, assim como o fortalecimento da rede de apoio à vítima. É
imperioso que este fenômeno não seja compreendido em nível individual e privado,
mas sim como uma questão de direitos humanos, pois, além de afrontar a dignidade
da pessoa humana, impede o desenvolvimento pleno da cidadania da mulher.
Questionar a forma como a sociedade é estruturada e organizada, através de
relações desiguais de poder entre homens e mulheres, significa desarticular os
pilares de sustentação da violência contra a mulher. A construção de papéis
diferenciados é baseada em normas sociais e valores morais arraigados no tempo,

9
ALARCÃO, M. (Des)equilíbrios familiares: uma visão sistémica. 3. ed. Coimbra: Quarteto Editora,
2006.
20

que atribuem à mulher uma posição de inferioridade perante o homem, que utiliza-se
da violência como recurso maior para fazer valer sua supremacia.
Salienta-se que o mito da mulher ser a única prejudicada pela cultura
machista deve ser revisto à luz da Psicologia. Caso contrário, esta visão poderá
conduzir a interpretações unilaterais e simplistas, atribuindo à mulher a condição de
única vítima da cultura. É imprescindível considerar o fato de que o homem também
sofre as consequências da rigidez destes papéis, na medida em que é privado de
viver mais plenamente suas potencialidades. Daí a necessidade de buscar novas
relações sociais, não mais regidas pelo poder e dominação, e sim pela reciprocidade
entre os sexos, ratificando a igualdade da condição humana de ambos.
As mulheres que decidem romper um relacionamento violento também estão
rompendo com uma série de sonhos e expectativas em relação ao casamento e à
família. Há perdas e ganhos frente a esta decisão, que não devem ser ignorados
pelos profissionais de saúde. Reconhecê-las, implica poder trabalhá-las e, assim,
fortalecer a mulher no redirecionamento e estabelecimento de novos projetos de
vida.
Constatou-se, a partir dos dados coletados nas entrevistas realizadas, que as
razões de algumas mulheres permanecerem em uma relação conjugal violenta estão
intrinsecamente ligadas a questões referentes, principalmente, à dependência
financeira, à esperança de que o companheiro modificasse seu comportamento, ao
medo provocado por ameaças de morte, ou, ainda, em função dos filhos, frutos do
relacionamento.
Cabe ressaltar que o fator dependência financeira, em grande parte dos
casos, foi alegado para justificar a permanência nesse tipo de relacionamento. Por
diversas vezes, esteve intimamente relacionada à presença de filhos, associada à
impossibilidade de criá-los sem o auxílio do companheiro.
A violência doméstica gera repercussões significativas à saúde física e
psíquica da mulher, variando em sua expressão e intensidade, transcendendo aos
danos imediatos gerados pela violência física, como as lesões e fraturas. Não
obstante, ficou evidenciado nas falas das depoentes que algumas sequelas podem
repercutir na vida das vítimas, não imediatamente após a violência sofrida, podendo
se protrair indeterminadamente no tempo, a exemplo de dores de cabeça
constantes, aumento da pressão arterial e dificuldades para dormir.
21

O impacto desta realidade afeta desde a percepção da mulher sobre si


mesma, refletida nos sentimento de insegurança e impotência, até suas relações
com o meio social, fragilizadas em decorrência da situação de isolamento,
expressas pela falta de apoio de pessoas às quais possa recorrer. Estados de
tristeza, ansiedade e medo foram os mais destacados como consequências
psicológicas deste tipo de violência. Apenas uma depoente afirmou não ter
apresentado nenhuma consequência advinda da violência experiência. Uma grande
parcela das entrevistadas, entretanto, alegou que tal situação acarretou-lhes danos,
tanto à saúde física quanto psíquica.

REFERÊNCIAS

ALARCÃO, M. (Des)equilíbrios familiares: uma visão sistémica. 3. ed. Coimbra:


Quarteto Editora, 2006.

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perspectiva de gênero e feminista (Tese de Doutorado). UFBA – Universidade
Federal da Bahia. Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas. Salvador: UFBA,
2008.

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Curitiba: Positivo, 10p, 2010..

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Convenção Interamericana para Prevenir, Punir e Erradicar a Violência contra a
Mulher, concluída em Belém do Pará, em 9 de junho de 1994. Disponível em:
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto/1996/D1973.htm. Acesso em: 28 abr.
2021.

BRASIL. (2006). Lei nº 11.340, de 7 de agosto de 2006. Cria mecanismos para


coibir a violência doméstica e familiar contra a mulher, nos termos do § 8o do
art. 226 da Constituição Federal, da Convenção sobre a Eliminação de Todas
as Formas de Discriminação contra as Mulheres e da Convenção
Interamericana para Prevenir, Punir e Erradicar a Violência contra a Mulher;
dispõe sobre a criação dos Juizados de Violência Doméstica e Familiar contra
a Mulher; altera o Código de Processo Penal, o Código Penal e a Lei de
Execução Penal; e dá outras providências. Disponível em:
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2004-2006/2006/Lei/L11340.htm. Acesso
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