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Projeto “Relações Internacionais para Educadores” – 10 de julho de 2010 

BRASIL E EUA FRENTE AOS DESAFIOS REGIONAIS: ORIENTE MÉDIO  
 
 
 
BRASIL  E  EUA  FRENTE  AOS  DESAFIOS  REGIONAIS:  ORIENTE 
MÉDIO  
 
Por Hânder Leal 1
 

Quando  ouvimos  falar  em  Oriente  Médio,  pensamos  em  conflitos,  ditaduras, 
rivalidades  nacionais,  ausência  de  liberdades  políticas  e  de  direitos  individuais,  etc.  No 
imaginário ocidental, aquelas duas palavras, quando unidas dão origem a um emaranhado de 
povos  que  constroem  sua  História  através  de  lutas  que  evidenciam,  ao  invés  de  minimizar, 
suas  diferenças.  Entretanto,  raramente  percebemos  que  estas  diferenças  podem  ser 
construídas  para  servir  a  interesses  exclusos  e  de  natureza  silenciosa,  diferentemente  dos 
conflitos  por  eles  provocados.  Talvez  o  entendimento  de  nenhum  outro  lugar  do  mundo 
dependa tanto deste raciocínio quanto o do Oriente Médio, o que torna esta região do globo 
um objeto de estudo extremamente complexo nas Relações Internacionais contemporâneas.   

Somente quando percebemos que a realidade é um fenômeno socialmente construído, 
temos  a  capacidade  de  trilhar  o  caminho  para  a  compreensão  da  História.  Mas  será  que 
sabemos  mesmo  o  que  é  História?  Para  entender  o  seu  conceito,  devemos  conhecer  sua 
origem, qual seja, a interação de dois fatores muitas vezes esquecidos no estudo das ciências 
sociais: o tempo e a realidade.  

Tendo em vista que o homem é um ser social, a realidade social é construída por uma 
multiplicidade de fatores e atores que interagem simultaneamente. Porém, somente se fosse 
onisciente  o  homem  poderia  considerar  esta  realidade  um  resultado  absoluto,  puro  e 
verdadeiro  daquelas  interações  sociais  e,  portanto,  prescindir  da  História  para  entender  a 
sociedade  em  que  vive.  Como  ainda  não  o  é,  não  consegue  entender  sua  sociedade  usando 
apenas  a  realidade  que  o  cerca,  que  está  ao  alcance  de  sua  percepção.  Por  esse  motivo,  o 
indivíduo que desconhece sua História, se sente em meio a uma selva quando tenta entender 
sua  sociedade.  E  o  que  é  pior,  muitas  vezes  sequer  percebe  isso.  Para  este,  a  realidade  é  o 
único  instrumento  de  investigação  social.  Porém,  há  um  problema  aqui:  a  realidade  é 

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Graduando em Relações Internacionais da UFRGS.  
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construída,  manipulada  e  sorrateira.  É  o  espetáculo,  ou  melhor,  a  cortina  que  encobre  o 
espetáculo. A realidade, quando desvinculada da História, é simplesmente banal, banalizada 
e  banalizante.  Daí  ser  em  vão  qualquer  tentativa  de  compreender  uma  sociedade  sem 
conhecer sua História. 

E o mais grave de tudo isso: o indivíduo que desconhece sua História não é um agente 
social  em  sua  essência.  Portanto,  a  sociedade  garante  a  todo  indivíduo  o  direito  de  viver  a 
realidade  –  interpretação  de  um  momento  presente  –  por  mais  nua  e  crua  que  seja.  Não 
importa. Afinal de contas, a realidade é inventada. Para senti‐la, basta existir; e cada um o faz 
como  quer,  ou  como  pode.  Por  outro  lado,  poucos  conquistaram  o  direito  de  entender  a 
História  passada,  e  com  isso,  construir  um  futuro  e  um  legado  social  para  fazer  parte  da 
História no futuro.  

E suma, vivemos a realidade e construímos a História. Por isso a História é a fonte da 
memória de um povo, comumente chamada de “ciência do passado”. Preferimos chamá‐la de 
“ciência da seleção de realidades”. É seletiva porque nem toda a realidade passa pelo crivo da 
História.  Somente  as  realidades  estudadas  e  legitimadas  no  tempo  futuro  são  selecionadas 
para  fazer  parte  da  herança  da  civilização,  ou,  simplesmente,  História.  Este  é  o  motivo  da 
dependência da História em relação ao tempo: é o tempo que esconde a História da realidade. 
Por  isso  só  entendemos  os  processos  históricos  muito  depois  de  seu  acontecimento  e  é  por 
isso  também  que  não  existe  uma  História  do  presente,  somente  conhecemos  a  História  do 
passado.  Assim,  podemos  diferenciar  claramente  realidade  e  História.  Há  uma  realidade 
presente  e  pressuposta,  do  ponto  de  vista  de  seu  observador‐agente;  ao  passo  que  há  uma 
História,  absoluta  e  verificada  do  ponto  de  vista  do  seu  observador‐narrador.  Isso  é  crucial 
para o estudo de qualquer ciência social, inclusive as Relações Internacionais, pois conhecer 
apenas a realidade de uma região não é suficiente para entendê‐la.   

Deste  modo,  a  primeira  parte  deste  trabalho  compreende  uma  abordagem  histórica 
das  Relações  Internacionais  do  Oriente  Médio.  Seu  propósito  é  apresentar  a  contraditória 
natureza da correlação de forças em jogo que moldou as relações entre os Estados da região e 
que teve como efeito colateral o surgimento dos novos atores políticos na região – atores esses 
que por bem ou por mal ocupam as manchetes quando se trata de Relações Internacionais no 
Oriente  Médio.  A  segunda  parte  pretende  estabelecer  um  estudo  cultural  e  social  da 
civilização  islâmica,  apresentando  assim  os  fundamentos  das  reivindicações  sociais  no 
Oriente Médio.  

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 ABORDAGEM HISTÓRICA DO ORIENTE MÉDIO 
As  Relações  Internacionais  do  Oriente  Médio  são  extremamente  complexas,  pois  são 
moldadas não apenas por fatores inerentes à região, mas também por fatores externos. Deste 
modo, fica claro desde já que o status de zona mais conflituosa do mundo ao longo do século 
XX não  resulta  do fundamentalismo religioso,  tampouco  da suposta natureza  retrógrada  de 
suas  sociedades,  hipóteses  amplamente  difundidas  no  Ocidente. 2   Portanto,  a  natureza  das 
contradições que envolvem os intermináveis conflitos só pode ser entendida através de uma 
análise  clara  e  imparcial  que  vá  além  da  superficial  hipótese  que  trata  o  fundamentalismo 
religioso como um fator isolado e causa única das instabilidades políticas da região.  

É importante entendermos que os conflitos do Oriente Médio, assim como os próprios 
Estados  da  região,  têm  origem  na  idade  Moderna,  sendo  que  os  elementos  culturais  e 
religiosos  do  passado  funcionam  apenas  como  instrumento  de  legitimação  política  de 
interesses contemporâneos; não são a origem dos conflitos. Nas palavras de Vizentini (2002): 

 
   “A escola do Orientalismo, que observa as sociedades da região 
como exóticas, contribui para deformar o conhecimento que se produz sobre ela 
e  para  a  difusão  de  estereótipos  perigosos.  O  “antigo”,  quando  subsiste,  está 
enquadrado  em  uma  lógica  “moderna”,  em  que  elementos  do  passado  são 
resgatados com novos significados. Neste sentido, o fundamentalismo religioso 
tem mais a ver com um fenômeno contemporâneo de desenraizamento social do que 
com  um  mero  surgimento  de  fenômenos  atávicos  [hereditários]”  (VIZENTINI, 
2002, 13, grifo nosso).      

A  justificativa  religiosa  vista  a  cima  não  é  o  único  anacronismo  presente  na 


interpretação  ocidental  do  Oriente  Médio,  sobretudo  da  civilização  islâmica. 3   Há  um  outro 

2  As  sociedades  árabes  nada  tiveram  de  retrógrada  em  sua  antiguidade.  Nos  séculos  VII  e  XV,  o 
mundo  árabe  constituía  uma  civilização  urbana  e  comercial,  consideravelmente  desenvolvida  em 
termos de ciências, artes, medicina, filosofia, ao contrário da Europa, bastante atrasada no período da 
Idade Média. 
3  É  importante  não  confundir  “árabe”  com  “muçulmano”  ou  “islâmico”.  O  primeiro  é  uma 

classificação étnica e cultural, ao passo que o segundo e o terceiro são classificações religiosas. Esses 
termos nem sempre se encontram. Por exemplo: os países com maior população islâmica do mundo 
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fator  importante  muitas  vezes  negligenciado  pelos  formadores  de  opinião  ocidentais.  Os 
fatores  milenares  que  compõem  a  História  e  a  cultura  dos  povos  árabes  não  servem  para 
explicar as Relações Internacionais do Oriente Médio. Estas devem ser entendidas no contexto 
da expansão européia para a região quando da transição dos séculos XIX e XX, no contexto do 
colonialismo  tardio,  sobretudo  após  a  queda  do  Império  Turco  no  fim  da  Primeira  Guerra 
Mundial. 4   

A formação dos Estados do Oriente Médio  

A  correlação  de  forças  que  atua  sobre  a  formação  de  um  Estado  é  o  elemento 
constitutivo  da  natureza  de  suas  contradições.  Essa  máxima  é  ainda  mais  válida  em  se 
tratando  de  um  sistema  de  Estados,  como  é  o  caso  do  Oriente  Médio,  pois  aqui,  tais  forças 
encontram não apenas uma, mas uma série de conjunturas distintas com as quais podem se 
reproduzir a fim de adquirir novas facetas, novos mimetismos históricos. Em um sistema de 
Estados,  as  forças  em  jogo  atuam  da  mesma  maneira  que  um  vírus  que  invade  vários 
organismos  diferentes  para  interpretar  seus  respectivos  códigos  genéticos  e  assim,  adquirir 
mutabilidade e resistência crescentes.   

Duas  forças  atuaram  sobre  a  formação  dos  Estados  modernos  do  Oriente  Médio  e  a 
divisão  geopolítica  da  região.  A  primeira  é  a  pressão  expansionista  européia  a  partir  da 
Segunda  Revolução  Industrial  e,  sobretudo  depois  da  Primeira  Guerra  Mundial,  quando 
ocorreu a queda do Império Turco Otomano. A segunda diz respeito às rivalidades históricas 
entre as próprias lideranças locais. Muito embora o Império Otomano tenha cavado a própria 
cova quando decidiu entrar na Primeira Guerra ao lado da Alemanha e da Áustria, de modo 
que sua queda não foi resultado de conspiração das potências européias (HALLIDAY, 2008), 

(Indonésia  e  Paquistão)  não  são  árabes.  Do  mesmo  modo,  nem  todos  os  países  do  Oriente  Médio 
fazem  parte  do  mundo  árabe:  o  Irã  e  a  Turquia,  por  exemplo,  não  são  países  árabes.  Também  é 
necessário  entender  a  diferença  entre  “Islã”  e  “muçulmano”:  “Islã  significa  uma  comunidade  civil 
guiada pelo Corão (o livro sagrado) da religião, e muçulmano, aquele que se submete ao Islã (adepto 
de  Maomé).  O  Islã,  mais  do  que  uma  simples  religião,  constitui  uma  civilização  portadora  de  uma 
ética social e cultural dos povos que habitam esta região [do Oriente Médio]” (VIZENTINI, 2002, 18).  
4  Os  turcos  são  oriundos  da  Ásia  Central.  Enquanto  a  Europa  atravessava  a  Idade  Média,  estes 

dominaram o Oriente Médio e reunificaram o mundo muçulmano. Entretanto, acabaram deslocaram 
as  rotas  comerciais  terrestres  para  o  oceano,  o  que  tornou  o  Oriente  Médio  pobre  e  vulnerável  ao 
Ocidente quando este se recuperou da Idade Média (VIZENTINI, 2002).   
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não podemos ignorar que a Europa, antevendo os fatos, já arquitetava a partilha do Império. 
O território europeu nunca fora suficiente para manter o desenvolvimento das suas potências 
industriais. Deste modo, a partir da segunda metade do século XIX, o Império Turco passou a 
ser objeto de cobiça de Grã‐Bretanha e França.  

A Grã‐Bretanha, que já dominava o Egito e as periferias da península arábica, levava 
vantagem  nesta  corrida.  Durante  a  Primeira  Guerra,  o  Mapa  1:  Acordo  de  Sykes‐Picot 
famoso  militar  e  diplomata  Lawrance  da  Arábia,  (1916) 
prometendo apoio britânico à independência das províncias 
árabes  (Península  Arábica)  contra  o  Império  Turco, 
convenceu o Xerife 5  Hussein de Meca a apoiar militarmente 
as  forças  ocidentais  contra  os  turcos.  Estavam  lançadas  as 
cartas  para  que  as  duas  potências  européias  articulassem 
secretamente a  divisão do crescente fértil  após a  Queda  do 
Império  Turco  Otomano.  A  Grã‐Bretanha  ficaria  com  a 
Palestina,  a  Transjordânia  (atual  Jordânia)  e  o  Iraque,  ao 
passo  que  o  Líbano  e  a  Síria  caberiam  aos  franceses  (ver 
mapa  1). 6   O  que  o  Xerife  Hussein  não  sabia  é  que  nesta  Fonte: www.procon.org
partilha  lhe  caberia  apenas  a  Península  Arábica,  e  não  todo  o  Crescente  Fértil,  como 
imaginava (VIZENTINI, 2002, 21).   
As  rivalidades  entre  os  governos  locais  do  Império  Otomano  constituem  a  segunda 
força que atuou sobre a formação dos Estados do Oriente Médio. A ausência de um interesse 
pan‐árabe  e  a  consequente  fragmentação  política  da  região  facilitaram  a  expansão  européia 
no  Oriente  Médio,  fato  que  fica  ainda  mais  evidente  quando  consideramos  que  a  queda  do 
Império  Otomano  deu  origem  a  vários  Estados  na  região. 7   À  desconfiança  entre  as 

5  Autoridade local do Império Turco‐Otomano.  
6  Através do Acordo de Sykes‐Picot, assinado entre Grã‐Bretanha e França em 1916, aqueles territórios 
passariam  a  ser  Mandatos  das  duas  potências  européias,  modalidade  de  dominação  temporária  e 
permitida pela Liga das Nações, instituição antecessora da Organização das Nações Unidas. Somente 
em 1943, a Síria e o Líbano conseguiriam se emancipar da França (VIZENTINI, 2002).  
 
7 O receio das elites governantes regionais em relação a propostas de integração não é exclusividade 

do  Oriente  Médio.  Desafio  semelhante  enfrentou  a  América  Latina  nas  primeiras  décadas  do  século 
XIX,  quando  as  aspirações  integracionistas  de  Simón  Bolívar,  que  pretendia  formar  um  Estado 
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monarquias  do  Golfo  Pérsico  (governadas  por  famílias  rivais),  acrescentam‐se  as  rivalidades 
históricas entre Arábia Saudita e Iêmen; Síria e Líbano; Egito e Síria, dentre outras. 8   

A aproximação entre a Europa e o Oriente Médio neste período, ao mesmo tempo em 
que  permitiu  aos  europeus  introduzirem  a  modernização  econômica  e  política  à  moda 
ocidental na região, permitiu aos árabes absorver valores vindos da Europa, porém estranhos 
à  natureza  política  da  civilização  islâmica. 9   Neste  período,  os  povos  árabes  tiveram  o 
primeiro  contato  com  valores  ocidentais  modernos  como  nação,  liberdade,  direito  de 
propriedade individual e etc. O resultado não planejado desse encontro cultural foi a criação 
de um sentimento nacionalista na região e o surgimento de um ideal de independência árabe. 
Entretanto,  salvo  exceções,  como  a  Turquia,  onde  o  movimento  nacionalista  modernizador 
permitiria, décadas mais tarde, a ascensão de um governo republicano e o Egito, que viria a 
conquistar a independência formal dos ingleses, o ressentimento nacionalista era dissuadido 
pelas potências européias.  

As origens do conflito palestino‐israelense  

Ao  contrário  do  que  muitos  pensam,  palestinos  e  israelenses  não  estão  em  guerra 
ininterrupta  há  séculos.  Foi  somente  no  pós‐Primeira  Guerra,  com  o  aumento  do  fluxo  de 
imigrantes  judeus  fugidos  da  Europa,  que  a  rivalidade  entre  árabes  e  judeus  alcançou 
maiores proporções no Oriente Médio. Deste modo também, a origem do longo histórico de 
ocupação da Palestina remonta a um período muito anterior à criação do Estado de Israel.  

A  comunidade  judaica  internacional  estava  organizada  através  do  Movimento 


Sionista,  movimento  de  caráter  nacionalista  judeu,  fundado  na  Europa  em  resposta  às 
crescentes  perseguições  e  massacres,  sobretudo  na  Rússia  czarista  e  na  Europa  Oriental  a 
partir  da  segunda  metade  do  século  XIX.  Não  demorou  para  o  movimento  se  expandir  por  

bolivariano  no  continente,  acabaram  cedendo  à  resistência  das  elites  e  das  populações  regionais 
(VIZENTINI, 2002).  
8  É  importante  notar  que  esses  fatores  permanecem  por  boa  parte  do  século  XX.  A  pressão  popular 

síria  foi  um  dos  fatores  que  derrubaram  as  Repúblicas  Árabes  Unidas,  união  entre  Síria  e  Egito,  em 
1961.  Arábia  Sudita  e  Iêmen  estiveram  em  conflito,  assim  como  Turquia  e  Síria.  Esta  por  sua  vez, 
invadiu o Líbano em 1976. 
9  É bom  lembrarmos que  o capitalismo  provocou empobrecimento  das economias  interioranas e sua 

urbanização  crescente.  Deste  modo,  somente  a  minoria  rica  e  pró‐ocidental  da  população  foi 
beneficiada por essa modernização.   
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toda  a  Europa  e  alcançar  apoio  internacional  para  a  promoção  do  seu  objetivo  maior,  qual 
seja, a criação de um Estado nacional para o povo Judeu. O fato de um movimento religioso 
ter caráter nacionalista não é motivo de espanto, já que a construção de um Estado nacional 
era  objetivo  de  todos  os  movimentos  nacionalistas  da  época.  O  problema  é  que  a  questão 
judaica viria a ser utilizada como instrumento político pelas potências européias para darem 
início a seu plano de longo prazo no século XX: a expansão rumo ao Oriente. Esse fator coloca 
o apoio das potências européias à causa nacionalista judaica na origem do conflito palestino‐
israelense.  

Através  da  Declaração  de  Balfour,  os  franceses  se  comprometeram  a  proteger  as 
minorias cristãs, ao passo que os britânicos dariam apoio às minorias judaicas que imigravam 
para o Oriente Médio. 10  Estes imigrantes compravam terras nas quais instalavam os kibbutz, 
fazendas  coletivas  com  certo  ideal  socialista  que  por  um  lado  constituiu  um  dos  mais 
promissores  experimentos  modernos  de  sociedade  igualitária,  por  outro,  porém,  eram 
militarmente  fortificadas  por  grupos  armados  para  contrapor  os  árabes  da  palestina. 
(HALLIDAY, 2008). É neste período – e não em nenhum ponto remoto da antiguidade, como 
pressupõem  as  teorias  tendenciosas  que  predominam  no  Ocidente  –  que  têm  início  a 
moderna disputa étnico‐ideológica, origem dos conflitos que prosseguem até os dias de hoje 
na região.  

A  Palestina  pode  ser  considerada  fruto  da  Primeira  Guerra  Mundial,  pois  a  nova 
combinação  de  forças  sobre  a  região  –  substituição  dos  árabes  pelos  britânicos  –  só  foi 
viabilizada  a  partir  da  queda  do  Império  Turco‐Otomano.  Vizentini  (2002)  aponta  que  a 
situação  da  Palestina  no  pós‐Primeira  Guerra  era  moldada  por  três  forças:  a  Grã‐Bretanha, 
que  exercia  o  Mandato  Britânico  na  Palestina;  os  judeus  sionistas,  que  passaram  a  ter  um 
poder institucional e militar cada vez maior, constituindo um quase‐Estado; e as forças árabes 
que se opunham a este processo através da mobilização política e militar.   

Entretanto,  um  fator  novo  viria  a  acelerar  a  reviravolta  política  na  região.  A 
perseguição  nazista  ao  povo  judeu  durante  a  Segunda  Guerra  Mundial  seria  decisiva  para 

10  Na  declaração  de  Balfour  (1917),  a  Grã‐Bretanha  prometia  a  criação  de  um  lar  nacional  para  os 
judeus na Palestina. Inicialmente, a proposta foi vista com cautela pela comunidade judaica britânica, 
que a interpretou como uma tentativa dos ingleses de promover a dispersão dos judeus da Inglaterra. 
Cabe  observar  que  os  próprios  judeus  também  se  preocupavam  com  a  possibilidade  desta  medida 
provocar instabilidade no Oriente Médio (HALLIDAY, 2008).    
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que as duas principais potências do mundo na época, os Estados Unidos e a União Soviética 
(URSS) passassem a apoiar a causa judaica (HALLIDAY, 2008). Deste modo, o holocausto deu 
um caráter de extrema urgência à questão judaica, a ponto de ser incogitável e impraticável 
qualquer  política  externa  que  se  opusesse  à  criação  do  Estado  de  Israel,  motivo  pelo  qual  a 
Segunda Guerra Mundial foi marcada pela ausência de apoio internacional à causa palestina 
(VIZENTINI, 2002).                 
Mapa 1: Partilha da 
  Palestina (1947) 

A criação do Estado de Israel 

No  período  da  Segunda‐Guerra  Mundial,  houve  um  aumento 


considerável  do  fluxo  de  imigrantes  judeus  fugidos  da  perseguição 
nazista, dando origem aos primeiros conflitos de maior proporção entre 
os  palestinos  e  os  recém‐chegados.  Nesta  época  ocorreu  o  grande 
levante  palestino  de  1936‐39,  no  qual  os  palestinos  acabaram 
derrotados  (VIZENTINI,  2002). 11   Em  1947,  não  podendo  conter  o 
crescente  fluxo  de  imigrantes  judaicos  clandestinos  fugidos  do  Fonte: wikimedia commons
holocausto, a Grã‐Bretanha encaminhou à ONU a Questão Palestina. 
É criado, então, um plano de partilha, prevendo que o território palestino passaria a abrigar 
um Estado judeu e outro árabe‐palestino. No dia 29 de novembro de 1947, o plano de partilha 
do território palestino foi aprovado pela Assembléia Geral da ONU, presidida na ocasião pelo 
gaúcho Osvaldo Aranha (ver mapa 2). 12   

Desde  o  começo,  os  países  árabes  se  opuzeram  claramente  à  criação  do  Estado  de 
Israel. Entretanto, “recusar o plano foi um erro que custou muito caro aos árabes e palestinos” 
(VIZENTINI, 2002, 31). Vejamos o porquê. As forças em jogo logo se alterariam e o plano de 
partilha  da  Palestina  não  seria  a  solução  para  o  fim  do  conflito  palestino‐israelense,  muito 

11 A população de judeus na Palestina subiu de 60 mil no imediato pós‐Primeira Guerra para 400 mil 
em 1939. Em 1918, a Palestina tinha 644 mil árabes, 574 mil muçulmanos e 70 mil cristãos. Em 1948, 
ano da criação do Estado de Israel, 32% da população (da Palestina) era composta por judeus (DUPAS 
E VIGEVANI, 2001).   
12 Resolução nº 181 da Assembléia Geral da ONU. A partilha foi aprovada com 33 votos a favor (países 

ocidentais), 13 contra (países do Oriente Médio e da Ásia) e 10 abstenções (entre elas, a Grã‐Bretanha). 
O Estado judaico teria 14 mil Km², compreendendo os territórios do Deserto de Neguev, o Golfo de 
Ákaba, e a região entre Tel‐Aviv e Haifa. O Estado árabe‐palestino teria 11 mil Km² e compreenderia 
os territórios da Cisjordânia e da Faixa de Gaza. A cidade de Jerusalém ficaria sob a tutela da ONU.   
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pelo contrário, provocaria o seu recrudescimento. O assassinato do mediador da ONU, conde 
Bernadott, por sionistas fanáticos, levou a Grã‐Bretanha a abanonar a causa judaica e encerrar 
o Mandato Britânico  na Palestina. Com isso, os judeus aproveitaram para declarar a criação 
do  Estado  de  Israel  em  14  de  maio  de  1948.  Em  contrapartida,  no  dia  seguinte,  a  Liga  de 
Estados Árabes declarou Guerra contra o novo Estado, sendo  derrotada pelos judeus, melhor 
equipados  e  treinados  na  segunda  guerra  pelas  forças  aliadas. 13   O  resultado  do  conflito  foi 
extremamente favorável ao Estado de Israel, que, além de garantir a vitória política e militar, 
saiu do confronto com 80% do território palestino. Como se o ataque israelense não bastasse, 
em 1950, o Egito e a Transjordânia (atual Jordânia) anexaram parte do território palestino – as 
regiões da Faixa de Gaza e a Cisjordânia, respectivamente.  

A  população  palestina,  expulsa  de  seu  território  pelas  forças  de  Israel  deu  origem  a 
uma  massa  dispersa  de  refugiados  que  passou  a  buscar  abrigo  em  países  árabes  vizinhos, 
como  o  Líbano  e  a  Síria. 14   Do  outro  lado  do  conflito,  para  garantir  o  seu  domínio  sobre  os 
territórios  ocupados,  Israel  investiu  esforços  no  povoamento  do  recém‐criado  Estado, 
atraindo judeus do mundo inteiro e provocando verdadeiras ondas de imigração judaica para 
a  Palestina.  Essas  cisões  sociais  e  políticas  levariam  ao  ressurgimento  do  fanatismo  e  do 
fundamentalismo exacerbados, tornando ainda mais distante o estabelecimento de um acordo 
entre israelenses e palestinos.  

Neste contexto, os palestinos se depararam com duas alternativas para conter o avanço 
israelense. A primeira era a  necessidade  manter  o vínculo  da população  palestina,  cada  vez 
mais  dispersa  pelos  países  vizinhos.  Para  tanto,  a  causa  palestina  encontrou  refúgio  na  luta 
armada,  organizada  pelos  primeiros  grupos  revolucionários  ainda  nos  anos  1950  e  1960. 
Nesta época surge o al‐Fatah, grupo militante liderado por Yasser Arafat, visando à criação de 
um Estado palestino laico e democrático como caminho para a unidade árabe. Por outro lado, 
a criação do Estado de Israel foi percebida pela maioria dos países árabes como um enclave 
colonialista na região que poderia abrir precedentes para a intervenção de outras potências, 
simbolizando  uma  derrota  das  elites  árabes  frente  às  ocidentais.  Neste  sentido,  a  segunda 

13 Por motivos políticos e também em função da dispersão geográfica dos judeus, Israel recebia amplo 
apoio  da  comunidade  internacional,  desde  os  EUA,  até  a  própria  URSS,  que  via  na  Liga  Árabe  um 
instrumento do neocolonialismo britânico a ser combatido (em vias de fato, a Liga Árabe era tutelada 
pela Grã‐Bretanha).   
14 Em 1950 quase um milhão de palestinos viviam nos campos criados pela Agência de Refugiados da 

ONU.  
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alternativa  passou  a  ser  investir  na  promoção  da  causa  palestina  no  mundo  árabe,  tendo 
como  valor  o  resgate  de  um  sentimento  de  pan‐arabismo  por  todo  o  Oriente  Médio.  Esta 
iniciativa resultou na criação da Organização para a Libertação da Palestina (OLP), em 1964, 
com o incentivo da Liga de Países Árabes. 15

O Oriente Médio nos anos 1960 e 1970: em vias de modernização?  

A aproximação entre o Oriente Médio e o Ocidente deu origem a uma verdadeira onda 
de  modernização  no  Oriente  Médio  durante  os  anos  1950  e  1960.  A  absorção  dos  valores 
políticos  ocidentais  pelas  sociedades  do  Oriente  Médio  levou  ao  poder  forças  que  se 
encontravam em diametral oposição às estruturas governantes vigentes – simbolizadas pelas 
monarquias conservadoras e pelas relações políticas feudais vigentes no mundo árabe. Essas 
forças  políticas  emergentes  deram  origem  ao  que  podemos  chamar  de  um  padrão  árabe  de 
nacionalismo.  

As  independências  e  as  descolonizações  em  curso  no  mundo  em  desenvolvimento, 
bem  como  a  eclosão  de  revoltas  populistas  e  antiimperialistas  na  região  geraram  uma  nova 
divisão  no  Oriente  Médio.  Assim  aconteceu  com  o  Egito,  país  que  se  tornou  uma  república 
nacionalista,  sob  a  liderança  de  Nasser,  líder  que  libertou  o  país  do  subjugo  britânico  e 
alcançou grande destaque não apenas no Oriente Médio, devido ao triunfo político na Guerra 
de  Suez,  mas  também  em  escala  global,  por  meio  da  aproximação  com  o  Movimento  dos 
Países Não‐Alinhados. 16   

A  modernização  política  também  alcançou  o  Magrebe. 17   Na  Argélia,  ex‐colônia 


francesa,  a  Frente  de  Libertação  Nacional  (FLN),  sob  forte  influência  da  onda  de 

15  O  apoio  financeiro  à  OLP  vinha  dos  países  árabes,  particularmente  daqueles  do  Golfo  Pérsico.  A 
Liga dos Países Árabes, havia sido criada em 1945, por Egito (tutelado pela Inglaterra), Iraque, Síria, 
Líbano,  Transjordânia,  Arábia  Saudita  e  Iêmen,  em  meio  ao  conturbado  cenário  político  de 
independências  e  nacionalismos  no  Oriente  Médio.  Constituiu  a  primeira  iniciativa  dos  países  da 
região no sentido de resolver seus problemas políticos, econômicos e militares, bem como preservar o 
pan‐arabismo  através  de  uma  união  do  mundo  árabe  –  leia‐se,  união  entre  as  elites  conservadoras 
árabes, que não podiam abrir mão dos vínculos com a Inglaterra (VIZENTINI, 2002). 
16 O estopim da Guerra de Suez foi a decisão de Nasser de nacionalizar o Canal de Suez, medida que 

custou  ao  Egito  pronta  retaliação  por  parte  das  potências  européias.  Apesar  de  derrotado 
militarmente, o Egito conseguiu manter o Canal nacionalizado com o apoio da URSS.  
17 Região norte da áfrica, com predominância de países árabes.  

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descolonização  que  libertava  o  continente  africano,  liderou  a  revolução  apoiada  em  um 
nacionalismo anticolonial sob implacável repressão francesa, sobretudo depois da descoberta 
de petróleo na porção argelina do Deserto do Saara. Outro exemplo foi a Líbia de Kadafi, que 
implementou  um  original  socialismo  islâmico,  com  reformas  sociais  e  posição  internacional 
antiimperialista – tudo isso financiado pela renda do petróleo. Na Península Arábica, o Iêmen 
do  Sul,  governado  por  um  regime  de  esquerda  e  orientação  marxista,  conquistou  a 
independência da Inglaterra. No Omã, entretanto, as mesmas forças tiveram que esperar até o 
começo da década de 1970 para cnoseguir implementar repúblicas democrático‐populares de 
orientação socialista, pois os sultões contavam com o apoio da Inglaterra (VIZENTINI, 2002). 
Porém,  não  demoraria  muito  para  que  estes  governos  revolucionários  gradativamente 
substituíssem  seu  viés  pan‐árabe  por  um  nacionalismo  com  características  opressivas  de 
regime militar.  

A herança de cinco séculos de dominação turca e a posterior intervenção européia logo 
se  fizeram  sentir.  A  presença  de  estruturas  políticas  pré‐modernas  barraram  as  forças 
modernizadoras  antes  que  estas  conseguissem  reverter  o  grande  atraso  sócio‐econômico  do 
Oriente  Médio  (VIZENTINI,  2002).  Esses  grupos  conservadores  e  autoritários  buscavam  se 
legitimar através do Islã para despistar a aproximação econômica e militar com os “infiéis” do 
Ocidente.  Neste  ponto,  é  importante  entendermos  que  o  islamismo  não  foi  a  fonte  da  nova 
onda de conservadorismo político que varreu o Oriente Médio nesse período. Constituiu sim, 
um instrumento social manipulado pelas forças conservadoras que queriam retomar o poder 
e cortar as raízes internas e externas da “ameaça modernizadora”. Deste modo, em todas as 
monarquias  absolutistas  do  Oriente  Médio  (Kuwait,  Catar,  Emirados  Árabes  Unidos,  Omã, 
Bahrein) a modernização foi apenas superficial, pois não viabilizou mudanças sociais.  

Com  o  fim  do  nasserismo 18   como  referência  política  para  o  Oriente  Médio,  a  URSS 
passou a se afastar gradualmente da região, perdendo uma zona de influência importante na 
geopolítica mundial. O efeito imediato disso foi o enfraquecimento da esquerda e do próprio 
ideal de revolução, bem como a ascensão de regimes militares nacionalistas em praticamente 
todo  o  Oriente  Médio.  Foi  esta  inflexão  que  impediu  o  esquerdismo  mundial  de  1968  de 
alcançar  as  bases  populares  no  Oriente  Médio.  Como  conseqüência  deste  isolamento  das 
forças de oposição do mundo árabe, os grupos extremistas passam a ser o último refúgio das 
forças de contestação do poder no Oriente Médio.  

 Em referência ao presidente Nasser, que governou o Egito de 1956 a 1970.  
18

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A Guerra dos Seis Dias e os seus desdobramentos no conflito palestino‐israelense 

Em  1967  a  solução  pacífica  para  o  dilema  entre  árabes  e  israelenses  se  tornou  uma 
possibilidade  ainda  mais  remota.  Na  Guerra  dos  Seis  Dias,  Israel  atacou  a  Síria,  o  Egito  e  a 
Jordânia, anexando e ocupando todo o território Palestino (a Cisjordânia, as Colinas de Golã e 
a Península do Sinai), bem como a cidade de Jerusalém, que estava sob tutela da ONU (ver 
mapa 3). 19  A eclosão da guerra dos seis dias foi resultado da intenção de Israel em contrapor o 
crescente poder militar e do erro de cálculo de Nasser, então presidente do Egito, que pediu a 
retirada  das  tropas  da  ONU  da  Península  de  Sinai,  ficando  vulnerável  ao  ataque  de  Israel 
(HALLIDAY,  2008).  Como  consequência  do  conflito,  1,5  milhões  de  árabes  (o  que 
correspondia a mais da metade de todos os árabes de origem palestina que viviam no Oriente 
Próximo)  ficaram  sob  o  controle  de  Israel.  A  ONU  exigiu  a  retirada  completa  de  Israel  dos 
territórios palestinos ocupados, medida que o país até hoje não cumpriu. Como conseqüência 
imediata do conflito, houve nova onda de refugiados e instabiliadde nos países vizinhos que, 
além  de  ter  que  abrigar  a  nossa  massa  de  refugiados,  tiveram  parte  de  seus  territórios 
tomados pelo Estado hebreu (VIZENTINI, 2002).   

O  crescente  nacionalismo  e  o  fortalecimento  da  causa  Mapa 3: Guerra dos 


sionista  no  Ocidente,  sobretudo  nos  Estados  Unidos,  levariam  o  Seis Dias
Egito e a Síria a atacarem Israel em 1973, durante a Guerra do Yon 
Kippur (Ano Novo judaico). O objetivo dos dois países era retomar 
os  territórios  perdidos  durante  a  Guerra  dos  Seis  Dias.  Objetivo 
esse  que  não  foi  alcançado  plenamente,  pois  o  Egito  conseguiu 
retomar apenas o Canal de Suez, muito embora as petromonarquias 
do  Golfo  Pérsico  tenham  financiado  fortemente  os  dois  países 
árabes. 

  

 A cidade é considerada sagrada para muçulmanos e judeus. Para os primeiros, isso se deve ao fato 
19

de Jerusalém abrigar a mesquita de al‐Aqsa, onde o profeta Maomé teria feito a miraj, sua ascensão ao 
paraíso. Para os judeus, Jerusalém abriga o Monte Sião, que teria sido conquistado por Davi, segundo 
rei  de  Israel.  Entretanto,  a  disputa  entre  judeus  e  muçulmanos  pelo  controle  de  Jerusalém  não  é 
constante ao longo da história dos dois povos, sendo resultado de nacionalismo moderno, sobretudo 
após 1967 (HALLIDAY, 2008).  
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A Crise do Petróleo e os Acordos de Camp David 

Havia  um  fator  novo  que  poderia  pesar  na  balança  a  favor  dos  países  árabes.  O 
crescente  consumo  de  petróleo  nos  países  industriais  do  Ocidente  passou  a  ser  um 
importante instrumento de barganha para os Estados árabes a partir do começo da década de 
1970. 20   Este  novo  cenário  deve  ser  entendido  no  contexto  de  mudanças  na  economia 
internacional  provocadas  pelo  fim  do  Acordo  de  Bretton  Woods 21 ,  manobra  dos  EUA  para 
conter  o  avanço  das  economias  japonesa  e  européia.  Deste  modo,  o  aumento  do  preço  do 
petróleo  faz  parte  de  um  projeto  que  aliava  as  grandes  companhias  petrolíferas,  todas 
ocidentais,  aos  países  produtores  membros  da  OPEP.  A  Guerra  do  Yon  Kippur  e  a 
depedência  ocidental  pelo  petróleo  árabe  foram  fatores  fundamentais  para  a  consolidação 
desse projeto entre Washington e as petromonarquias, assim como para diminuir a influência 
soviética no Oriente Médio. No plano regional, essa aliança deveria permitir um processo de 
desenvolvimento  que  aumentasse  as  exportações  dos  Estados  Unidos  para  a  região. 
Entretanto,  isso  só  seria  possível  se  a  renda  do  petróleo  fosse  revertida  em  aumento  da 
capacidade  de  consumo  da  população  árabe,  o  que  não  aconteceu  até  hoje,  de  modo  que  a 
economia do petróleo serviu apenas para aprofundar os desequilíbrio e contradições sociais.   

Este  concerto  entre  as  economias  ocidentais  e  as  petromonarquias  consolidou  a 


presença  do  Fundo  Monetário  Internacional  na  região,  dando  início  a  um  ciclo  de 
privatizações  e  abertura  de  mercados  em  países  como  o  Egito  pós‐Nasser  do  presidente 
Sadat. Este assinou um acordo de paz com Israel em Camp‐David (1978), pondo uma trégua 
ao conflito em troca da devolução da península de Sinai ao Egito, que, cada vez mais alinhado 
ao  Ocidente,  acabou  sendo  expulso  da  Liga  Árabe  e  da  OPEP  (VIZENTINI,  2002).  Apesar 
destes fatores, foi positivo o balanço das Relações Internacionais para os países árabes neste 
período, já que o mundo em desenvolvimento, inclusive o Brasil, foi‐se afastando de Israel e 
se  aproximando  da  causa  palestina.  Houve  também  uma  visível  mudança  na  correlação  de 

20 Em 1960 havia sido criada a Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP). Faziam parte 
desta organização Arábia Súdita,  Irã,  Iraque,  Kuwait  e  Venezuela.  Mais tarde  aderiram Catar,  Líbia, 
Indonésia, Emirados Árabes Unidos, Argélia, Nigéria, Equador e Gabão (VIZENTINI, 2002).  
21  O  Acordo  de  Bretton  Woods  (1944)  determinava  que  os  cada  país  deveria  manter  sua  taxa  de 

câmbio dentro de um determinado valor indexado ao dólar, que, por sua vez, tinha um valor fixo em 
relação ao ouro. Esse sistema foi a base da hegemonia do dólar na economia mundial, na medida em 
que esta era a única moeda que tinha paridade fixa em relação ao ouro. Isso garantiu a demanda por 
dólar na economia internacional. Porém, em função do aumento da demanda internacional por ouro, a 
paridade do dólar em relação ao metal foi suspensa pelos EUA em 1971.  
13
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forças  que  se  refletiu  inclusive  na  ONU,  na  qual  a  Palestina  conquistou  a  condição  de 
observador  permanente  ao  passo  que  Israel  começou  a  sofrer  as  primeiras  condenações, 
sendo o sionismo reconhecido internacionalmente como forma de racismo. 22    

Velhos conhecidos do Ocidente: Irã, Afeganistão e Iraque na Guerra Fria 

Não é de hoje que o Irã é motivo de preocupação para as potências ocidentais. “O Irã, 
devido  a  sua  posição  estratégica  –  acesso  ao  mar  –,  é  importante  eixo  de  comunicação, 
sobretudo para o escoamento de gás do Turcomenistão, principal corrente da Sibéria, além de 
ser  caminho  para  um  dos  únicos  oleodutos  que  ligam  a  Ásia  Central  ao  resto  do  mundo” 
(VIZNETINI, 2002, 108). Porém, nos anos 1980 a situação era diferente: o Irã era o principal 
aliado  dos  EUA  no  Oriente  Médio.  Em  1979,  a  liderança  deste  distante  país  aliado,  o 
repressivo  Xá  Reza  Pahlevi  foi  deposto  por  uma  grande  revolução  popular  –  contra  as 
desigualdades, contra o Ocidente e contra a modernização capitalista – que reunia uma ampla 
gama  de  grupos  sociais,  desde  os  comunistas  até  o  mulás 23 .  Entretanto,  apesar  da 
heterogeneidade  das  forças  que  se  opunham  ao  antigo  regime,  o  resultado  imediato  da 
revolução  foi  a  instauração  de  forças  fundamentalistas  que  impuseram  uma  ordem  social 
retrógrada sob o comando do Aiatolá Khomeini, novo líder político do país.  

O Afeganistão, por sua vez, era histórico aliado da URSS. Porém, em função da ajuda 
econômica  oferecida  ao  país,    o  Irã  passou  a  guiar  a  política  externa  afegã  de  modo  a  
aproximá‐lo  dos  aliados  iranianos,  como  EUA,  Paquistão  e  China.  Este  alinhamento  vinha 
acompanhado  de  crescente  repressão  aos  partidos  de  oposição,  o  que  desencadeou  uma 
revolta  popular  que  culminou  em  um  golpe  de  Estado  durante  a  “Revolução  de  Abril”. 
Entretanto, as reformas populares do novo governo não foram suficientes para conter a luta 
interna,  de  modo  que  a  própria  revolução  atingiu  excessos  que  acarretaram  revoltas  de 
guerrilhas  conservadoras  camponesas  que  recebiam  apoio  do  Paquistão,  aliado  ao  governo 
deposto. O novo governo, então, pede apoio à URSS para conter a crescente revolta popular. 
O  envio  de  tropas  soviéticas  ao  Afeganistão  foi  uma  tentativa  de  evitar  a  derrubada  do 
regime  do  Partido  Popular Democrático  do Afeganistão,  instaurado um ano antes.  Somente 
em  1988,  dez  anos  após  o  início  do  conflito,  as  tropas  soviéticas  se  retirariam  do  país.  O 
partido  comunista,  entretanto,  se  manteve  no  poder  até  a  queda  da  URSS.  A  intervenção 

 Yasser Arafat, líder da OLP, discursa na ONU em desembro de 1974.  
22

 Título dos líderes religiosos de mesquitas islâmicas.   
23

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soviética  no  Afeganistão  é  fundamental  para  o  entendimento  das  relações  entre  Oriente 
Médio e as potências ocidentais. Mais do que para enfraquecer a URSS, esse episódio serviu 
para fortalecer grupos como a Al‐Qaeda (guerrilha islâmica contra‐revolucionária da qual faz 
parte Osama Bin Laden) e outras organizações  apoiadas pelos aliados ocidentais, pela Arábia 
Saudita  e  pelo  Paquistão.  Cabe  observar  que,  violando  o  acordo  de  retirada  das  tropas 
soviéticas,  estes  aliados  continuaram  a  armar  e  financiar  os  rebeldes  talebãs 24   (HALLIDAY, 
2008). 

Apesar  do  apoio  estrangeiro  às  milícias  armadas,  o  regime  socialista  conseguiu  se 
manter no país mesmo depois do fim da URSS, quando em 1992 foi derrubado, dando início a 
uma guerra civil. Neste período, o Afeganistão passou a viver em verdadeiro caos, com uma 
gama  de  milícias  divididas  em etnias, “que recebiam apoio externo  das  potências  regionais, 
desejosas de ocupar o vácuo de poder provocado pela fragmentação da URSS” (VIZENTINI, 
2002, 82). É importante lembrar que, por estar localizado entre a China e o Irã, e, ao mesmo 
tempo, próximo dos países produtores de petróleo da Ásia Central, o Afeganistão ocupa uma 
posição estratégica na geopolítica do Oriente Médio, motivo pelo qual “companhias sauditas 
e americanas desejavam construir um oleoduto ligando o petróleo do Mar Cáspio ao Oceano 
Índico,  evitando  a  Rússia  e  o  Irã.  Assim,  necessitavam  de  um  governo  subserviente  em 
Cabul” (VIZENTINI, 2002, 82).  

Depois da queda do governo socialista, o Afeganistão passou a ser dividido por forças 
moderadas  e  fundamentalistas,  estas  apoiadas  pelos  ocidentais  e  pelo  Paquistão.  Como  as 
forças fundamentalistas não conseguiram chegar ao poder no país, o Paquistão recorreu aos 
serviços  de  inteligência  saudita  e  norte‐americano,  que  encontraram  então  os  talebãs  (ou, 
“estudantes da religião”), aos quais ofereceram treinamento e apoio financeiro. 25  Deste modo, 

24 Em abril de 1988, os Estados Unidos, a Grã‐Bretanha e seus aliados, Egito e Paquistão, assinaram um 
acordo  para suspender o  armamento  e  o  financiamento  das  guerrilhas  islâmicas  no Afeganistão, em 
troca  da  retirada  das  tropas  soviéticas  do  país.  Estas  se  retiraram  em  fevereiro  de  1989,  mas,  na 
tentativa  de  forçar  o  colapso  do  regime  comunista  em  Cabul  (capital  do  Afeganistão),  o  auxílio 
financeiro às guerrilhas foi mantido (HALLIDAY, 2008).  
25  É  a  partir  do  apoio  das  petromonarquias  e  dos  Estados  Unidos,  sobretudo  na  administração  de 

Ronald  Reagan  (1981‐1989),  contra  a  presença  soviética  na  Ásia  Central,  que  o  fundamentalismo 
islâmico  encontra  capacidade  para  se  internacionalizar  de  forma  moderna  e  eficaz.  Com  o  fim  da 
URSS, estes grupos ficariam “abandonas à própria sorte” (VIZENTINI, 2002, 102). É bom lembrarmos 
que  no  período  da  Guerra‐Fria,  vários  grupos  para‐militares  do  Oriente  Médio  se  beneficiaram  do 
apoio dos Estados Unidos e dos países árabes interessados em conter o “avanço comunista” na região.  
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o grupo conseguiu amplo apoio popular e não demorou para, em 1996, conquistar o poder na 
colcha de retalhos de etnias e facções na qual havia se transformado o devastado Afeganistão 
após o longo período de guerra civil. Por outro lado, não tardou a imposição de um governo 
autoritário, antimodernizante e que escapou do controle de seus apoiadores externos quando 
começou  a  ser  vincular  ao  terrorismo  e  ao  crime  organizado  internacional.  O  Afeganistão 
constitui,  portanto,  um  exemplo  claro  de  que  o  desenraizamento  cultural  e  a  manipulação 
externa formam um terreno fértil para a intolerância política e religiosa.  

Aproveitando a aparente vulnerabilidade iraniana, o Iraque invade o país vizinho em 
1980, dando início à Primeira Guerra do Golfo. Mesmo contando na época com amplo apoio 
do Ocidente, que reconhecia no país a força estabilizadora das tensões regionais, o Iraque de 
Saddam Hussein foi contido por um exército popular disposto a enfrentar uma guerra santa 
para  expulsar  os  invasores.  O  interesse  do  Ocidente  era  conter  a  revolução  antiimperialista 
em curso no Irã e garantir o acesso ao petróleo do Golfo, tendo em vista que a segunda crise 
do  petróleo  ameaçava  a  economia  global.  Nesta  época,  o  Irã  sofreu  as  primeiras  sanções  no 
Conselho  de  Segurança  da  ONU,  sem  que  isso  significasse  seu  completo  isolamento 
econômico.  O  prolongamento  da  Guerra  do  Golfo  foi  conseqüência  dos  interesses  das 
indústrias  bélicas ocidentais; da diplomacia do petróleo; do jogo de demonstração de poder 
militar entre Khomeini (Irã) e Saddam Hussein (Iraque); assim como das rivalidades internas 
entre árabes (sunitas) e persas (xiitas) (VIZENTINI, 2002). 26

Dez  anos  mais  tarde,  no  alvorecer  da  nova  ordem  mundial,  o  Iraque  “abandonado 
pelas  petromonarquias”  (VIZENTINI,  2002,  71),  invadiu  o  Kuwait,  dando  início  à  segunda 
Guerra  do  Golfo  (1990).  Novamente,  dois  elementos  se  fazem  presentes.  O  primeiro,  a 
retaliação  do  Ocidente,  ocorreu  não  apenas  pela  via  militar,  através  de  conflitos  de  média 
intensidade,  destinados  a  eliminar  a  capacidade  de  poder  das  potências  regionais,  mas 
também  pela  via  econômica,  através  de  embargos  em  diversos  setores  para  bloquear  o 
desenvolvimento da economia iraquiana. O segundo elemento foi a consolidação da aliança 
entre  o  ocidente  e  as  petromonarquias,  desta  vez,  Egito  e  Síria,  manobra  que  visava, 

  Xiitas  e  sunitas  são  as  duas  correntes  predominantes  do  Islã,  que  se  diferenciam  em  relação  ao 
26

profeta  Maomé  e  sua  descendência.  Os  Sunitas  consideram  os  sucessores  diretos  do  profeta 
Muhammad  Maomé;  já  os  Xiitas  acreditam  que  o  sucessor  deveria  ser  Ali,  genro  do  profeta.  Os 
Sunitas  correspondem  a  85%  de  todos  os  adeptos  da  região  islâmica  do  mundo,  com  uma  grande 
maioria em países como Arábia Saudita, Egito e Indonésia, enquanto os Xiitas predominam em países 
como Irã e Iraque. De um modo geral, os Xiitas correspondem à ala mais conservadora do Islã. 
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sobretudo,  garantir  uma  válvula  de  escape  para  as  economias  ocidentais.  Desta  vez,  “a 
ausência  da  bipolaridade  da  Guerra  Fria  fez  com  que  os  conflitos  regionais  extrapolassem 
seus limites anteriores” (VIZENTINI, 2002, 74). 27   

O Oriente Médio no pós‐Guerra Fria e o processo de Paz Israel‐OLP 

No começo dos anos 1990 reiniciaram os diálogos entre Israel e Palestina. Em grande 
parte, isso se deve aos esforços da diplomacia dos EUA, que passaram a adotar uma posição 
mediadora do conflito. A mudança na postura norte‐americana pode ser explicada pela perda 
da importância estratégica de Israel para o país após o fim da Guerra Fria, na medida em que 
diminuíram  relativamente  as  ameaças  militares  na  região.  Por  outro  lado,  a  necessidade  de 
corte  nos  gastos  militares  e  de  obtenção  de  petrodólares  no  mercado  financeiro  do  Golfo 
Pérsico  para  recuperar  a  economia  norte‐americana  –  em  evidente  descompasso  em  relação 
aos  grandes  centros  econômicos  como  Europa  e  Japão,  o  que  se  fez  sentir  na  contensão  do 
apoio  financeiro  a  Israel  –  também  contribuiu  para  essa  inflexão  (VIZENTINI,  2002).  Tudo 
isso, em vias práticas, sintetizava um esforço de desenvolver o Oriente Médio e promover a 
inserção  da  região  na  economia  mundial.  Além  disso,  o  bolsão  de  miséria  em  que  havia  se 
transformado  a  Faixa  de  Gaza  pesava  cada  vez  mais  sobre  a  segurança  civil  e  a  opinião 
pública do Estado de Israel. Do lado palestino, o apoio financeiro das petromonarquias à OLP 
havia reduzido drasticamente, tornando a situação incontrolável e levando esta organização a 
perder espaço para o movimento islâmico Hammas. 28   

É neste  contexto  que são retomadas as negociações entre palestinos  e  israelenses.  Em 


1993 ocorreu o Acordo de Oslo I, 29  propondo o reconhecimento mútuo entre Israel e a OLP, 
bem como a devolução de mais da metade da Faixa de Gaza aos Palestinos. No âmbito deste 
acordo,  também  foi  criada  a  Autoridade  Nacional  Palestina  (ANP),  responsável  pela 
segurança interna e funções estatais do território devolvido aos palestinos na ocasião. Dando 
continuidade  às  negociações  de  paz,  em  1996  ocorreu  Acordo  de  Oslo  II,  que  determinou  a 
transferência  de  outros  territórios  da  Cisjordânia,  que  ainda  estavam  sob  o  domínio 

27  É  durante  a  segunda  Guerra  do  Golfo  que  são  instaladas  a  maioria  das  bases  militares  norte‐
americanas no Golfo Pérsico.  
28  Movimento  islâmico  palestino  contrário  à  Autoridade  Nacional  Palestina  (ANP)  e  às  negociações 

com Israel.  
29 As negociações de Oslo foram mediadas por Bill Clinton, então presidente dos EUA.    

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israelense,  à  ANP.  Este  acordo  foi  um  problema  para  os  palestinos,  pois  não  havia 
continuidade geográfica entre os territórios devolvidos, o que cria ilhas palestinas no meio de 
Israel. Não é sem motivo, portanto, que os palestinos costumam chamar este acordo de “pele 
de leopardo” (ver mapa 4).  

Os  Acordos  de  Oslo  foram  marcados  pelo 


descontentamento  palestino  e  pelo  desgaste  das  tentativas  de 
mediação  internacional  do  conflito.  Dentre  os  motivos  do 
descontentamento  palestino,  podemos  destacar  (i)  a 
Declaração  de  Princípios  do  Acordo,  favorável  a  Israel,  na 
medida  em  que  não  previa  a  criação  de  um  Estado  palestino 
independente, apenas a retirada territorial limitada das forças 
israelenses;  (ii)  a  colonização  israelense;  (iii)  a  dependência 
econômica da Palestina em relação ao imperialismo econômico 
Mapa 4: Acordo de Oslo II  isrelense,  o  que  acarretou  um  quadro  com  poucos 
investimentos israelenses na Palestina e pobreza e decadência 
nesta  sociedade  e;  (iv)  o  déficit  democrático  do  processo  de  pacificação  (DUPAS  e 
VIGEVANI,  2001).  Este  último  fator  deu  origem  a  estruturas  autoritárias  palestinas 
desenvolvidas  em  consequência  dos  Acordos  de  Oslo,  de  modo  que  as  tropas  israelenses 
foram  substituídas  pela  liderança  ao  mesmo  tempo  autoritária  e  dividida  de  Yasser  Arafat. 
Autoritária porque, além de não ter sido um bom estrategista militar e político, adotava um 
discurso  demagógico  para  conter  a  verdadeira  guerra  urbana  em  curso  na  Palestina,  o  que 
afastava  o  apoio  dos  países  árabes  ao  mesmo  tempo  em  que  dificultava  uma  solução  com 
Israel.  O  líder  palestino  tinha  a  ilusão  de  que  uma  intervenção  internacional  devolveria  os 
territórios  tomados  por  Israel  e  parecia  ignorar  que  a  causa  de  seu  povo  era  –  e  continua 
sendo,  ao  que  tudo  indica  –  uma  causa  isolada:  “nenhum  país  árabe  foi  à  guerra  pelos 
palestinos  (como  nunca  foram)  e  a  guerra  permanece  interna”  (VIZENTINI,  2002,  116). 
Dividida porque não podia contentar as alas islâmicas mais radicais da palestina e ao mesmo 
tempo, conquistar o apoio da comunidade internacional e dos países árabes. 

No  final  da  década  de  1990,  a  eleição  de  Ehud  Barak,  do  partido  trabalhista,  para  a 
presidência de Israel e a nova mediação dos EUA dão um novo fôlego para as negociações de 
paz.  Entretanto,  as  mesmas  continuavam  sendo  barradas  pela  intransigência  de  ambos  os 
lados:  Israel  continuava  a  estabelecer  colônias  nos  territórios  ocupados,  ao  passo  que  a 

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Palestina exigia o retorno da situação pré‐1948, ou seja, o retorno dos refugiados e a reparação 
completa  dos  territórios  ocupados  por  Israel,  o  que  implicava  a  expulsão  das  colônias 
judaicas estabelecidas em 1967. Como a solução pacífica para o conflito parecia cada vez mais 
distante,  em outubro de 2000 ocorre a Intifada de al‐Aqsa, revolta popular palestina contra a 
invasão israelense da Cisjordânia, Gaza e Jerusalém Oriental.  

Parecia  claro  que  apenas  o  cessar  do  conflito  não  seria  suficiente  para  pacificar  a 
região. As quatro décadas de ocupação e opressão deixaram profundas seqüelas econômicas e 
sociais na Palestina, situação que somente o esforço conjunto dos países da região – inclusive 
de  Israel  –  poderia  reverter. 30   Portanto,  a  pacificação  deveria  ser  impulsionada  por  atores 
externos.  

Nesta  época,  Ehud  Barak  propôs  a  divisão  de  Jerusalém,  o  que  foi  prontamente 
recusado por Arafat. O problema é que o líder palestino havia prometido demais a seu povo, 
ao  mesmo  tempo  em  que  se  mostrava  um  negociador  pouco  flexível.  Do  outro  lado,  a 
situação não era muito diferente. A intransigência e o recrudescimento dos conflitos fizeram 
nascer  uma  nova onda de conservadorismo  no Estado  hebreu. Ignorando  que a legitimação 
da  ANP  era  a  única  via  para  a  pacificação  da  Palestina  e  o  enfraquecimento  de  grupos 
fundamentalistas  como  o  Hammas  e  a  Jihad  Islâmica,  o  novo  presidente  de  Israel,  Ariel 
Sharon, do partido conservador Likud, tinha como objetivo eliminar a ANP e inviabilizar os 
acordos de Oslo (VIZENTINI, 2002). 31  Tem início então, uma nova ofensiva contra Gaza em 

30 Entre 1969 e 1992 a renda per capita  cresceu  quatro  vezes  na Palestina  e  duas  vezes  no Estado  de 


Israel. Entretanto, o PIB palestino gira em torno dos US$ 5 bilhões, ao passo que o israelense equivale 
a US$ 100 bilhões (DUPAS E VIGEVANI, 2001).  
31  Sobre  o  Hammas,  ver  nota  28.  O  Jihad  Islâmica  é  um  grupo  fundamentalista  islâmico.  “Para 

entender a cultura jihadista é preciso atentar para duas características. Em primeiro lugar, a ida a um 
país estrangeiro para participar do jihad é, em geral, designada pelo vocabulário hujra, ou “migração”. 
É o termo que descreve a imigração do profeta Maomé, e de seus companheiros, de Meca a Medina no 
ano  622  da Era  Cristã, acontecimento  fundamental  no  islamismo  e  que  marca  o  início  do  calendário 
muçulmano: para um jihadista, estar no Afeganistão ou no Iraque constitui uma experiência mística... 
(...)  Outro  mito  poderoso  é  o  da  destruição  de  um  império  por  um  punhado  de  jovens  munidos 
apenas de armas leves – da mesma forma que os exércitos muçulmanos do século VII derrubaram o 
Império Persa” (CHETERIAN, 2008). O al Fatah é o grupo centrista da Organização para a Libertação 
da  Palestina  (OLP).  Ao  contrário  da  OLP,  os  dois  primeiros  grupos  são  independentes  dos  países 
árabes.  Deste  modo,  o  nacionalismo  palestino  não  é  moldado  pelos  Estados  árabes,  mas  sim  pelas 
constantes recusas do Estado de Israel em aceitar uma solução viável para as duas partes do conflito 
(HALLIDAY, 2008).  
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2002.  Para  não  deixar  dúvida  de  a  via  israelense  é  o  isolamento  e  não  a  pacificação  e  o 
diálogo,  Israel  iniciou  a  construção  de  um  muro  ao  redor  das  áreas  palestinas  ocupadas, 
incorporando áreas anexadas em 1967 e travou um novo confronto contra o Líbano em 2006. 
É  importante  notarmos  que  “até  os  países  árabes  conservadores  lucram  com  isto,  pois  a 
imagem  de  um  Israel  intolerante  serve  de  desvio  para  suas  populações  não  perceberem  a 
opressão  que  sofrem” 
Mapa 5: Evolução da ocupação israelense em Gaza (1946-2000)
(VIZENTINI, 2002, 118).   

O  futuro  do  conflito  entre 


árabes  e  israelenses  depende  da 
importância  estratégica  de  Israel 
para  os  Estados  Unidos.  O  país 
representa  a  possibilidade  de  uma 
retaguarda  segura  para  que  os 
EUA  possam  garantir  sua 
expansão  rumo  à  Ásia  Central, 
fonte de grande parte das reservas 
dos principais recursos energéticos 
Fonte: Leeds Palestine Solidarity Campaign. http://www.leedspsc.org.uk/ do  planeta. 32   Entretanto,  isso  só 
sera possível na medida em que forem normalizadas as relações entre Israel e seus vizinhos, 
motivo  pelo  qual,  impedir  que  o  Estado  judaico  continue  um  pólo  de  tensão  no  Oriente 
Médio  continuará  sendo  uma  das  prioridades  da  diplomacia  norte‐americana  no  Oriente 
Médio.  

Enquanto  a  paz  não  vem,  “um  conflito  prolongado  de  baixa  intensidade  sem  saída 
política, combinando revolta palestina e auto‐isolamento físico israelense, é o percurso mais 
provável  num  futuro  próximo”  (DUPAS  e  VIGEVANI,  2001).  Os  estudiosos  mais  céticos 
acreditam que o futuro próximo do conflito palestino‐israelense não aponta para a criação de 
um Estado palestino, mas sim para a consolidação da soberania exclusiva do Estado de Israel 
através  um  regime  de  segregação  étnica  similar  ao  que  existiu  na  África  do  Sul 
(MEARSHEIMER, 2010).  

  A  preocupação  dos  EUA  com  a  questão  energética  não  é  infundada.  “Os  EUA  produzem  9,8%  e 
32

controlam  25,6%  do  petróleo  mundial.  Detêm  2,85%  das  reservas  comprovadas,  que  dariam  para 
garantir seu consumo por apenas quatro anos” (VIZENTINI, 2002, 107).  
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Entendendo a geopolítica do Petróleo e a “guerra ao terror”. 

Para entendermos a geopolítica do petróleo, devemos antes esclarecer o que o ocidente 
convencionou  chamar  de  “fundamentalismo  islâmico”.  Como  vimos,  a  origem  histórica  do 
“fundamentalismo  islâmico”  moderno  remonta  ao  período  entre‐guerras,  quando  “esses 
movimentos  foram  apoiados  pelos  Estados  conservadores,  particularmente  as 
petromonarquias,  as  quais,  inclusive,  legitimavam‐se  [e  ainda  legitimam‐se]  aos  olhos  da 
população  como  verdadeiras  defensoras  do  “islã  puro”...(...)  Tal  apego  ao  islã  servia  para 
encobrir a aliança dos monarcas com o Ocidente e o caráter socialmente conservador desses” 
(VIZENTINI,  2002,  100).  Salvo  raras  exceções,  esta  “aliança”  conseguiu  afastar  do  Oriente 
Médio as forças modernizadoras, esquerdistas, nacionalistas, laicas, pan‐árabes que tentaram 
se estabelecer na região.  

Mas  como  esse  conservadorismo  se  mantinha  a  se  expandia  no  Oriente  Médio?  “... 
entre  as  multidões  árabes  que  trabalhavam  nas  petromonarquias,  algumas  pessoas  eram 
selecionadas,  tornando‐se  empresários  milionários  e  fiéis  aliados  dos  xeques  e  emires  do 
Golfo. 33   Retornando  a  seus  países  de  origem,  muitos  dos  quais  dominados  por  governos 
reformistas,  estes  se  tornavam  uma  casta  ligada  internacionalmente  a  seus  antigos 
empregadores...”  (VIZENTINI,  2002,  101).  Portanto,  o  enriquecimento  no  Oriente  Médio 
ocorre através da aproximação de pessoas e grupos com a economia do petróleo do Golfo, em 
um ambiente em que as petromonarquias conservadoras definem os líderes dos países. Isso 
significa que a principal força que mantém o conservadorismo em alta no Oriente Médio não 
é  de  natureza  religiosa,  mas  sim,  política  e  econômica.  Conforme  veremos  mais  adiante,  as 
contradições desta aliança que sustenta a geopolítica do petróleo, só começam a aparecer para 
o Ocidente quando o contato desse fundamentalismo com as forças da modernidade (e agora, 
da pós‐modernidade) geram o estranhamento cultural e ultrapassa os limites previstos pelos 
seus próprios criadores.  

A  queda  da  URSS  provocou  um  “vazio  de  poder”  na  Ásia  Central,  zona  que,  como 
vimos,  concentra  a  maior  quantidade  de  recursos  energéticos  do  planeta.  O 
“fundamentalismo  islâmico”  construído  pela  geopolítica  do  petróleo  –  aliança  entre  o 
Ocidente  e  o  conservadorismo  das  petromonarquias  –  seria  o  elemento  que  permitiria  aos 
Estados Unidos legitimar a ocupação deste vazio de poder. Neste contexto, os atentados de 11 

33 Chefes políticos nas monarquias islâmicas.  
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de setembro de 2001 dariam início à “guerra ao terror”, protagonizada pelos Estados Unidos 
e seus aliados.   

No Afeganistão, a invasão ocidental aumentou ainda mais o caos político do país, que 
ficou a mercê da ingerência de países vizinhos e daquelas potências. Logo após a invasão, foi 
instaurado  um  governo  pró‐EUA  sem  legitimidade  popular  e  tiveram  continuidade  os 
conflitos locais e a tensão política generalizada em todo o – mais fragmentado do que nunca – 
Afeganistão.  Para  Halliday  (2008),  o  11  de  setembro  foi  o  resultado  de  uma  política  de 
demostração de poder e de “inflação da ameaça”. É importante notarmos, no entanto, que foi 
o 11 de setembro não estava nos planos da política externa da administração Bush. Antes, esta 
tendia  a  ter  um  caráter  menos  intervencionista,  na  medida  que  era  crítica  ao  excesso  de 
protagonismo internacional da política do governo Clinton. No entanto, o episódio mudaria 
os  rumos  da  política  externa  norte‐americana,  uma  vez  que  os  Estados  Unidos  se  viram 
obrigados a resgatar a estratégia militar engavetada  desde o final da Guerra‐Fria e articular 
com urgência um plano de ação no Oriente Médio.  

Sob  a  alegação  de  supostas  armas  de  destruição  em  massa  no  Iraque  –  suspeita  que 
tinha lá seus fundamentos, tendo em vista que o Iraque utilizou armas biológicas no massacre 
à  minoria  curda  nos  anos  1980  –  os  Estados  Unidos  decidem  invadir  o  país  em  2003. 34   No 
Iraque,  foi  adotada  uma  estratégia  de  “inflação  da  ameaça”,  na  medida  que  a  presença  de 
armas de destruição em massa legitimariam a intervenção no Iraque frente à opinião pública 
internacional.  Porém,  diferentemente  da  Guerra  do  Golfo,  desta  vez  foi  forte  a  oposição  da 
comunidade  internacional,  inclusive  dos  países  do  Golfo  Pérsico.  Os  objetivos  da  invasão 
foram de cunho econômico (necessidade de atender o lobby da indústria bélica, muito forte 
no Congresso norte‐americano) e geopolítico (aproximação da Ásia Central, fonte de recursos 
energéticos). O controle do Iraque é fundamental para a consolidação deste último objetivo, 
pois cercou o Irã. Após a queda de Saddam, este é o único país anti‐EUA da Ásia Central.  

34 Os curdos constituem hoje a maior população sem território do mundo. Sua principal reivindicação 
é  o  reconhecimento  da  liberdade  cultural  e  lingüística,  negada  por  décadas  por  países  como  o  Irã, 
Iraque  e  Turquia.  A  história  recente  do  Oriente  Médio  mostra  que  os  raros  casos  de  grupos  curdos 
com  aspirações  nacionalistas  tem  servido  de  subterfúgio  para  repressões  agressivas  por  parte 
daqueles  Estados.  Porém,  tão  evidente  quanto  a  opressão  a  este  povo,  é  a  indiferença  das  potências 
ocidentais  quanto  às  arbitrariedades  às  quais  o  povo  curdo  tem  sido  submetido.  Entretanto,  para 
Halliday (2008), não é apenas a fraqueza política dos líderes curdos e a opressão daqueles países o que 
impede  a  formação  de  um  Estado  curdo.  O  motivo  seria  a  diversidade  linguística  e  cultural  deste 
povo – aspecto negado pelas própria lideranças curdas. 
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O outro lado da guerra em curso no Iraque é o recrudescimento do fundamentalismo e 
da intolerância em todo o Oriente Médio, na medida em que os voluntários recrutados pelas 
forças  de  oposição  ao  exército  americano  retornam  aos  seus  países  alimentados  pelos 
aprendizados  da  escola  da  guerra.  Esses  verdadeiros  braços  da  al‐Qaeda  e  de  outras 
organizações estão prontos para preencher o vazio político em países devastados pela guerra 
civil,  como  o  Líbano,  o  Iêmen,  o  Afeganistão,  o  Iraque  e  a  Somália,  dentre  outros 
(CHETERIAN, 2008).    

A ordem econômica do Oriente Médio 

Ao  contrário  do  que  pode  parecer,  o  Oriente  Médio  está  plenamente  integrado  na 
economia  internacional.  A  região  fornece  cerca  de  um  terço  do  petróleo  do  mundo  e  tem 
capacidade para alcançar os dois terços em dez anos. 35  Isso se fez sentir na economia mundial 
por  duas  vezes  na  década  de  1970  e  novamente  em  1991,  durante  a  crise  do  kuwait  que 
desencadeou  a  primeira  guerra  do  Golfo,  gerando  instabilidade  financeira  mundial  em 
função do brusco aumento dos preços do petróleo.  

Entretanto, tendo em vista que os maiores consumidores de petróleo do mundo são os 
países  mais  industrializados  e  com  maior  poder  militar,  membros  da  OCDE  (Organização 
para  a  Cooperação  e Desenvolvimento  Econômico), quando se tentou a  ameaça  do corte  do 
fornecimento de petróleo nos anos 1990 – Iraque de Saddam Hussein –, o petróleo não teve o 
mesmo  efeito  de  barganha  para  os  países  do  Oriente  Médio  como  tivera  nos  anos  1970 
(HALLIDAY, 2008). Ou seja, a diplomacia do petróleo estaria perdendo as suas forças, pois a 
economia do Oriente Médio continua extremamente dependente da exportação do petróleo. 
Além disso, a ausência de políticas de distribuição da renda do petróleo para a promoção do 
desenvolvimento  da  população  gera  um  déficit  educacional  que  dificulta  o  ajuste  das 
economias da região aos padrões internacionais de  competitividade. 

Outro  fator  importante  é  que  o  capitalismo  árabe,  sustentado  pelas  riquezas  do 
petróleo, deu origem a um novo pólo financeiro internacional no Golfo Pérsico. A renda do 
petróleo, assim como os fundos de ações comprados por outros Estados da região na forma 

 As ex‐repúblicas soviéticas do Mar Cáspio (Kazaquistão e Azerbaijão) não são alternativas ao Golfo 
35

Pérsico como fonte de petróleo no mercado internacional. Deste modo, ainda é (e continuará sendo) 
muito grande a influência dos países do Oriente Médio na oferta internacional de petróleo. 
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de  empréstimos,  doações  e  remessas  são,  em  grande  medida,  reinvestidos  no  Ocidente  e 
contribuem muito para a estabilidade do mercado financeiro ocidental. Cabe observar que as 
rendas  do  Golfo  Pérsico  no  Ocidente  giravam  em  torno  de  US$  5  trilhões  em  2001  (quase  a 
metade  do  PIB  norte‐americano,  que  naquele  ano  foi  de  US$  11  trilhões).  É  neste  encontro 
com o sistema financeiro internacional que se completa o ciclo da geopolítica do petróleo. Há 
ainda  um  terceiro  fator  que  comprova  que  o  Oriente  Médio  está  plenamente  integrado  na 
economia internacional: o crescente fluxo migratório de trabalhadores do Oriente Médio e do 
Norte da África em direção à Europa (HALLIDAY, 2008).  

O Brasil e o projeto nuclear do Irã  

O Brasil não é um ator novo no Oriente Médio. Já nos anos 1950 e 1960, o país buscava 
aumentar  sua  presença  na  região:  em  1956,  o  Brasil  enviou  efetivos  para  a  Guerra  de  Suez. 
Até  1973,  a  política  externa  brasileira  para  o  Oriente  Médio  assumia  uma  posição  realista, 
imparcial  e  equânime,  recorrendo  aos  princípios  de  Justiça,  paz  e  prevalência  dos  Direitos, 
postura que viria a ser retomada a partir do final dos anos 1990. Durante os governos Médici 
e  Geisel,  a  política  externa  brasileira  para  o  Oriente  Médio  passou  a  ser  guiada  pelo 
“pragmatismo  responsável”.  Por  causa  da  Crise  do  Petróleo,  pela  primeira  vez  o  Brasil 
assumiu  uma  postura  pró‐causa  Palestina,  condenando  claramente  a  política  de  Israel  e 
alinhando‐se aos países árabes exportadores de petróleo (DUPAS e VIGEVANI, 2001). 36  Hoje, 
a política externa brasileira para o Oriente Médio tem por objetivo a atenuação das estruturas 
hegemônicas, através do multilateralismo e da democratização das Relações Internacionais.  

O impasse do Irã com o Ocidente gira em torno da ameaça nuclear iraniana, levando o 
enriquecimento de Urânio – direito adquirido do Irã, segundo o Tratado de Não‐Proliferação 
Nuclear  (TNP),  a  encontrar  resistência  no  Conselho  de  Segurança  da  ONU. 37   Após  a 

36 A Primeira Crise do Petróleo (1973) causou aumento mundial dos preços desta commodity. Nos anos 
1970, o Brasil ainda não era auto‐suficiente em Petróleo, dependendo majoritariamente dos países do 
Oriente Médio para importar essa fonte energética. O voto do Brasil em favor da resolução aprovada 
pela  ONU  que  classificava  o  sionismo  como  uma  forma  de  racismo  é  um  bom  exemplo  deste 
“pragmatismo responsável”.  
37 “O TNP tem dois objetivos: diminuir,  até eliminar,  o  arsenal  nuclear  das cinco  potências atômicas 

oficiais  (EUA,  Grã‐Bretanha,  França,  China  e  Rússia)  e  evitar  que  outros  países  usem  a  tecnologia 
nuclear  para  construir  armamentos.  Mas  existem  muitos  interesses  contraditórios  nesta  questão.  As 
cinco  potencias  atômicas  oficiais  não  reduziram  seus  armamentos.  Os  EUA,  mesmo  que  reduzisse, 
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Revolução  Iraniana,  os  Estados  Unidos  deixaram  de  fornecer  urânio  para  o  reator  nuclear 
iraniano  –  construído  pelos  próprios  EUA  nos  anos  1970.  Desde  então,  o  Irã  enfrenta 
dificuldades para suprir o reator, utilizado para pesquisa médica. Em 1988, o país assinou um 
acordo com a Argentina para o fornecimento do urânio enriquecido a 20%, cujo estoque acaba 
no fim de 2010. Antes da assinatura do acordo nuclear entre Brasil, Turquia e Irã, a Rússia e a 
França eram as indicada dos EUA para enriquecer o urânio iraniano. O Irã recusou a proposta 
da  Agência  de  enviar  de  uma  vez  só  80%  de  seu  urânio  para  ser  enriquecido  nestes  dois 
países, preferindo que o envio se desse em etapas.   

Depois de impasses entre o Irã e os EUA na Agência Internacional de Energia Atômica 
(AIEA),  o  Brasil  viria  a  desempenhar  um  papel  fundamental  para  a  retomada  das 
negociações. Em maio de 2010 o presidente Lula intermediou a negociação entre o presidente 
iraniano, Mahmoud Ahmadinejad, e o primeiro‐ministro da Turquia, Tayyiq Erdogan sobre o 
envio de 1,2 mil Kg de urânio iraniano para a Turquia, que ficaria responsável por estocar o 
material  enquanto  Rússia  e  França  fariam  o  enriquecimento.  Este  episódio  faz  jus  à  postura 
histórica do Brasil em relação à questão nuclear, pois não é de hoje que o Brasil acredita que 
os países do Oriente Médio e da América Latina, assim como qualquer Estado soberano, não 
podem  ser  impedidos  de  desenvolver  tecnologia  nuclear  para  fins  pacíficos  e  para  a 
promoção do desenvolvimento econômico.  

A aproximação do Brasil com o Irã, país chave para a pacificação do Oriente Médio – 
devido a sua grande população, capacidade econômica e posição geopolítica 38  – mostra que o 
Brasil assume uma nova postura de mediador das questões que envolvem o Oriente Médio. 
Esse  destaque  amplia  muito  os  horizontes  brasileiros  na  região.  Dentre  as  vantagens  dessa 
aproximação  com  o  Oriente  Médio,  merecem  destaque  o  aumento  do  fluxo  comercial  e  a 
autorização conferida pelo Irã para que a Petrobras explorasse o petróleo da região (SILVA, 
2010). 39    

tem uma quantidade grande de armas. Mas estas cinco potências procuram constranger outros países 
que estão desenvolvendo tecnologia nuclear, mesmo alegando que é para fins pacíficos. (...) Além de 
Estados  Unidos,  Inglaterra,  França,  China  e  Rússia,  a  Índia  e  o  Paquistão  também  tem  armamentos 
nucleares  e  suspeita‐se,  até  hoje  não  comprovado,  que  Israel  e  Coréia  do  Norte  também  possuam” 
(SILVA, 2010).   
38 O Irã é a 16ª economia do mundo.  

39  “...o  Brasil  já  é  o  oitavo  exportador  para  o  Irã,  e  inclui  automóveis,  alimentos,  minérios  e 

medicamentos.  O  fluxo  de  comércio  entre  os  dois  países  é  de  2  bilhões  de  dólares.  É   importante 
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Porém,  o  feito  diplomático  das  potências  emergentes  seria  bloqueado  pelos  poderes 
centrais  no  Conselho  de  Segurança  da  ONU.  Não  conseguindo  o  esperado  sucesso 
diplomático, os Estados Unidos recorreram à ONU para a aprovação, em junho de 2010, de 
uma  nova  rodada  de  sanções  contra  o  Irã.  A  aprovação  das  sanções  ao  Irã  mostra  que  as 
forças  em  xeque  no  sistema  internacional  contam  com  um  último  refúgio  para  isolar  a 
economia  iraniana  e  diluir  o  protagonismo  das  potências  emergentes:  o  Conselho  de 
Segurança da ONU. Os Estados Unidos também contaram com o apoio da Rússia e da China, 
esta  temendo que  um novo conflito no Oriente  Médio, desencadeado  pela  iminência de um 
ataque israelense ao Irã, resultasse em novo aumento no preço do petróleo.  

Isso entretanto, não tira o brilho da atuação brasileira na região do Oriente Médio. A 
aproximação  do  Brasil  com  o  Oriente  Médio  não  se  restringe  ao  Irã,  de  modo  que  o  país 
assume uma postura plural e tem livre acesso à praticamente todos os países da região, como 
mostra  a  última  visita  do  presidente  Lula  ao  Oriente  Médio,  na  qual  foram  visitados  tanto 
Israel,  como  a  Autoridade  Nacional  Palestina  (REIS  da  SILVA,  2010).  O  Brasil  mostra, 
portanto,  que  não  é  uma  postura  militar  que  encaminhará  a  pacificação  do  Oriente  Médio, 
mas sim, a aproximação econômica e política.  

 
 
ABORDAGEM CULTURAL DO ORIENTE MÉDIO  
Para  entendermos  as  transformações  de  uma  sociedade  abalada  por  mais  de  meio 
século  de  conflitos  e  que  aos  poucos  começa  a  se  reconstruir  em  meio  a  violentas  divisões 
étnicas, culturais e religiosas, que parecem desconhecer as fronteiras políticas a elas impostas, 
faremos, nesta seção uma abordagem cultural do Oriente Médio.  

Geopolítica e cultura no Oriente Médio 

Segundo Dupas e Vigevani (2001), no caso do conflito entre israelenses e palestinos, o 
que ocorre é a ascensão de dois modelos excludentes de identidade coletiva em cada uma das 
duas sociedades, um baseado na religião e outro na democracia. Entretanto, cabe questionar 

ressaltar  que  Ahmadinejad  veio  acompanhado,  na  visita  de  2009,  de  200  empresários  iranianos, 
interessados no incremento de negócios com o Brasil” (REIS da SILVA, 2010). 
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até  que  ponto  estes  dois  modelos  são  realmente  excludentes.  Para  esclarecer  esta  dúvida, 
devemos  estudar  as  semelhanças  estruturais  e  o  paralelismo  que  existe  entre  eles.  É 
demasiado simplista acreditar que a solução do conflito seria a construção de uma identidade 
coletiva  democrática  e  não‐religiosa,  na  qual  o  fundamentalismo  religioso  desse  lugar  à 
democracia,  permitindo,  deste  modo,  a  resproximação  cultural  entre  os  dois  povos.  Isso 
porque, não podemos esquecer que não são apenas as diferenças culturais que alimentam o 
conflito  entre  árabes  e  israelenses,  pois  existem  também  os  fatores  geopolíticos,  conforme 
vimos na primeira parte deste trabalho.   

O  Oriente  Médio  tem  muito  mais  semelhanças  do  que  diferenças  com  o  resto  do 
mundo  (HALLIDAY,  2008).  É  uma  região  integrada  na  economia  mundial.  Compartilha 
alguns  valores  com  a  civilização  ocidental,  como  soberania  cultural  e  direitos  universais.  O 
que o Oriente Médio procura é um lugar justo no sistema internacional. Mas que lugar é esse?  

Para entender como o Oriente Médio se insere na geopolítica mundial, devemos ter em 
mente  que  os  Estados  islâmicos  não  representam  um  inimigo  criado  pelo  Ocidente  em 
substituição  ao  comunismo  como  afirmam  os  pensadores  mais  radicais.  Isso  porque  o 
islamismo  não  é  uma  alternativa  às  democracias  liberais  ocidentais,  como  era  o  caso  do 
comunismo,  tampouco  representa  uma  ameaça  militar  –  mesmo  considerando‐se  o  Irã 
(HALLIDAY, 2008).  

Para  a  análise  dos  reflexos  da  globalização  no  Oriente  Médio,  é  fundamental 
considerarmos  a  dinâmica  dos  dois  principais  indicadores  da  globalização  na  sociedades 
ocidentais: (i) a abertura de mercado e a (ii) democratização (HALLIDAY, 2008). Processos de 
liberalização  e  democratização são observados em países como  a Turquia,  embora o  uso  do 
poder  militar  e  abusos  de  direito  sejam  ainda  recorrentes.  Em  Israel,  a  democratização  tem 
levado  ao  caminho  inverso:  mais  segregacionismo  étnico‐cultural  e  fanatismo  religioso.  No 
Irã e no mundo árabe, a mudança também é lenta e, às vezes, regressiva. 40   

Halliday (2008) argumenta que a origem dos conflitos no Oriente  Médio não está em 
sua  suposta  particularidade  cultural  ou  religiosa,  mas  sim  na  absorção  de  alguns  valores 
ocidentais  declarados  como  universais  mas  que  são  interpretados  de  maneira  diversa  nas 
sociedades  daquela  região.  O  que  devemos  perceber  é  que  este  argumento  pressupõe  uma 

40 Nas últimas eleições iranianas, por exemplo, houve suspeita de fraude eleitoral e forte repressão às 
manifestações populares, inclusive com bloqueio de meios de comunicação como a internet, isolando 
temporariamente o país do resto do mundo.    
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diferença cultural original entre o Oriente Médio e o mundo Ocidental. Portanto, ignorar essa 
diferença e avaliar de maneira única os valores ocidentais nas sociedades islâmicas é um dos 
erros que dificultam a interpretação e a mediação da conjuntura política da região.  

Isso reforça nosso argumento de que a incidência de conflitos desde o pós‐Guerra não 
é uma herança cultural da região, mas sim, um recurso utilizado pelos grupos de poder. Este 
recurso  se  materializa  através  da  criação  de  um  presente  ideologicamente  construído  com 
base  no passado, processo no qual, a história é utilizada não para explicar o contexto político 
presente,  mas  sim,  para  esconder  suas  contradições    através  de  um  historicismo  seletivo. 
Portanto, é bom termos claro que o conservadorismo político que marca algumas sociedades 
árabes não é resultado do islamismo: tanto o Irã pré‐Revolução como a Turquia eram Estados 
autoritários, centralizadores, porém anti‐islâmicos e laicos (HALLIDAY, 2008).  

Explicando as “contradições” do mundo árabe.  

A  maioria  dos  problemas  sociais  que  afligem  as  sociedades  do  Oriente  Médio  são 
antigos conhecidos também dos povos ocidentais. A corrupção, a crise no gerenciamento das 
finanças  públicas,  o  preconceito  contra  os  imigrantes,  e  outras  contradições  sociais  não  são 
exclusividade  daquela  região.  Tampouco  alguns  condicionantes  sociais  perfeitamente 
contestáveis  como  a  sucessão  dinástica,  o  tratamento  desigual  às  mulheres  no  que  tange  ao 
mercado de trabalho, restrições à liberdade de expressão e liberdade cultural são observados 
apenas no Oriente Médio.  

O autoritarismo político como vimos ao longo deste trabalho, é resultado das alianças 
de  poder  que  formularam  a  política  internacional  moderna  do  Oriente  Médio,  não  sendo, 
portanto,  resultado  apenas  dos  condicionantes  culturais  das  sociedades  islâmicas.  Além 
disso, o autoritarismo político da região não significa que não possa haver um “secularismo” 
nas sociedades islâmicas. 41  Isso porque, embora os Estados laicos sejam minoria na região, e 

  Por  secularismo,  entendemos  a  separação  entre  política  e  religião  em  um  Estado.  O  Brasil,  por 
41

exemplo, é um Estado laico, conforme dispõe o art. 19, I, da Constituição Federal de 1988: “É vedado à 
União,  aos  Estados,  ao  Distrito  Federal  e  aos  Municípios:  estabelecer  cultos  religiosos  ou  igrejas, 
subvencioná‐los, embaraçar‐lhes o funcionamento ou manter com eles ou seus representantes relações 
de  dependência  ou  aliança,  ressalvada,  na  forma  da  lei,  a  colaboração  de  interesse  público”. 
Entretanto,  cabe  observar  a  contradição  com  o  preâmbulo  da  nossa  Constituição,  que  dispõe  que 
“Nós, representantes do povo brasileiro, reunidos em Assembléia Nacional Constituinte para instituir 
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embora  os  símbolos  e  a  linguagem  religiosos  sejam  recursos  usados  com  freqüência  para 
legitimar o poder, existe uma distinção clara entre o líder político (geralmente um presidente, 
sultão  ou  rei,  dependendo  do  país)  e  as  lideranças  religiosas  em  praticamente  todos  os 
Estados  do  Oriente  Médio  (HALLIDAY,  2008).  Este  argumento  ajuda  a  derrubar  o  mito  do 
particularismo  nas  relações  de  poder  nas  sociedades  islâmicas.  A  dinâmica  é  a  mesma 
presente  na  civilização  ocidental,  na  medida  em  que  o  recurso  à  religião,  elemento  cíclico, 
também  se  fez  presente  nas  sociedades  ocidentais.  O  mesmo  acontece  com  o    terrorismo, 
presente em todas as sociedades do mundo em épocas de crise, como comprova a história da 
Europa no período da crise do capitalismo nos anos 1970, em países como Espanha e Irlanda.    

Também é importante frisarmos que as contradições sociais internas do Oriente Médio 
não são exclusividade dos países árabes. O sistema político e econômico do Estado de Israel é 
marcado  pelo  clientelismo  e  pelo  patronato.  Do  mesmo  modo,  a  influência  militar  é  grande 
no país, assim como a presença de líderes políticos de origem militar (HALLIDAY, 2008). 

Neste ponto, devemos deixar claro que o conflito palestino‐israelense não é a causa da 
crise no mundo árabe, sendo apenas parte da explicação do problema, ou mesmo um pretexto 
para  as  rigorosas  leis  de  alguns  países  da  região.  Isso  porque,  este  conflito  não  tem  relação 
alguma  com  a  concentração  dos  recursos  do  petróleo,  o  conservadorismo  político,  a 
desigualdade  de  renda  e  gênero  em  questões  de  educação  e  outras  contradições  daquelas 
sociedades.  O  que  acontece  é  que  muitas  vezes  este  conflito  é  utilizado  com  o  fim  político, 
qual seja,  mascarar a falta de democracia e outras arbitrariedades de alguns governos mais 
autoritários do Oriente Médio (HALLIDAY, 2008).  

Apesar de todo o autoritarismo político resultado da problemática inserção do Oriente 
Médio no sistema internacional, não se pode dizer que a região esteve alheia à modernidade e 
às  mudanças  sociais,  políticas  e  econômicas  que  ocorreram  em  escala  global  ao  longo  do  
século  XX.  Deste  modo,  a  análise  de  muitas  sociedades  do  Oriente  Médio  também  pode 
seguir  a  perspectiva  marxista  que  pauta  o  estudo  político  em  sociedades  ocidentais.  O 
marxismo  se  fez  presente  na  história  política  de  países  como  Irã,  Iraque,  Egito,  Sudão  e 

um  Estado  Democrático,  destinado  a  assegurar  o  exercício  dos  direitos  sociais  e  individuais,  a 
liberdade,  a  segurança,  o  bem‐estar,  o  desenvolvimento,  a  igualdade  e  a  justiça  como  valores 
supremos  de  uma  sociedade  fraterna,  pluralista  e  sem  preconceitos,  fundada  na  harmonia  social  e 
comprometida,  na  ordem  interna  e  internacional,  com  a  solução  pacífica  das  controvérsias, 
promulgamos, sob a proteção de Deus, a seguinte CONSTITUIÇÃO DA REPÚBLICA FEDERATIVA DO 
BRASIL” (grifo nosso).
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Líbano e mesmo em Israel, onde o Partido Comunista foi o único a apoiar a causa palestina 
nos anos 1960 e 1970. No Iêmen e no Afeganistão os partidos de viés comunista chegaram a 
ocupar  o  poder  por  um  período  significativo  (1967‐94  e  1978‐92,  respectivamente).    Isso 
contribui  para  quebrar  o  mito  de  que  todos  os  países  do  Oriente  Médio  são  sociedades 
estagnadas, marcadas pela imobilidade política e social (HALLIDAY, 2008).  

Por  outro  lado,  a  ascensão  das  lideranças  militares  ao  poder  não  representa  a 
modernização  ou  a  vitória  dos  interesses  nacionais,  mas  sim,  a  ascensão  de  uma  nova  elite, 
que lançará mão de um discurso político modernizante apenas para legitimar o controle dos 
recursos  econômicos  e  de  poder  do  país.  Assim,  é  equivocado  acreditar  que  as  revoltas 
militares nacionalistas ocorridas em muitos países do Oriente Médio (e em outras regiões do 
mundo) libertaram seus povos da opressão dos regimes monárquicos, pois, em linhas gerais, 
não  houve  avanços  significativos  em  termos  de  direitos  humanos  e  políticos.  Portanto,  as 
revoluções  militares  e  nacionalistas  não  atenuaram,  mas  sim,  aumentaram  o  poder  e  o 
controle dos Estados sobre suas populações (HALLIDAY, 2008). 

A transição pós‐moderna no Oriente Médio 

Pós‐modernidade  significa  o  encurtamento  do  espaço  e  do  tempo  nas  motivações 


individuais que pautam as relações sociais. Pressupõe o domínio dos valores locais sobre os 
globais – sendo a globalização entendida como o apogeu e o início do declínio da sociedade 
moderna  –  e  dos  valores  imediatos  sobre  os  permanentes.  Neste  sentido,  trata‐se  ainda  de 
uma  forte  reação  do  instinto  humano  de  liberdade  à  força  das  instituições  construídas  na 
modernidade. Desde o Estado‐Nação, até a racionalidade, todas as instituições modernas são 
desmistificadas  e  desconstruídas.  Nos  tempos  pós‐modernos  não  há  mais  uma  verdade 
absoluta, mas a ruptura e a incerteza permanente (BAUMAN, 1998).  

No  mundo  muçulmano,  a  pós‐modernidade  se  manifesta  através  do  resgate  e 


recrudescimento dos valores culturais e religiosos, e da recusa às instituições modernas como 
o secularismo, o nacionalismo, e o racionalismo, incutidas nas sociedades islâmicas ao longo 
de sua inserção no sistema internacional. Assim como acontece com qualquer outra região do 
mundo,  a  demanda  pós‐moderna  do  Oriente  Médio  é  o  reconhecimento  da  legitimação  de 
suas  próprias  instituições  políticas  e  sociais.  Portanto,  a  região  se  insere  em  um  fenômeno 
social de escala global, que não pode ser entendido por meio de particularismos construídos.    

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No  período  de  transição  pós‐moderna  que  presenciamos,  devemos  atentar  para  a 
glocalização, fenômeno que representa a luta das forças em transição: de um lado, a razão e as 
demais instituições que representam a modernidade; de outro, a individualidade e a busca da 
identidade  representando  a  pós‐modernidade.  A  glocalização  remonta  a  um  conceito  de 
Estado‐Nação  que  faça  frente  ao  atual  modelo  de  homogeneização  cultural  globalizante  e 
revitalize  a  identidade  local  como  meio  diferenciador  de  coesão  social,  pois  o  Estado  que 
quiser  manter  sua  legitimidade  social  deve  opor‐se  à  tendência  padronizante  decorrente  do 
processo  de  globalização  e  buscar  atender  às  demandas  setorizadas,  gerando  redes  de 
colaboração  voluntária  que  mantenham  uma  heterogeneidade  de  identidades  sociais. 
Atender  aos  anseios  econômicos  e  políticos  dessas  identidades,  antes  que  a  marginalização 
social desses grupos faça crescer neles uma ideologia antimodernizante, é fundamental para 
garantir o caráter autônomo do desenvolvimento econômico no Oriente Médio e em qualquer 
região do mundo na pós‐modernidade. 

Entretanto, o cenário acima parece demasiado otimista. Os valores pós‐modernos são 
cada  vez  mais  predominantes, de modo que o  conhecimento  virou  instrumento de poder; a 
sabedoria foi substituída pela opinião pública; a liberdade deu origem à indiferença; e a razão 
cedeu  lugar  à  emoção  e  à  vontade  imediata.  Neste  contexto,  não  é  de  se  estranhar  que  os 
valores  tradicionais,  por  mais  fundamentalistas  e  anacrônicos  que  possam  parecer,  sejam 
resgatados,  difundidos  e  amplamente  aceitos  com  tamanha  facilidade,  servindo  para 
mascarar fins exclusos em várias partes do mundo, inclusive no Oriente Médio. 

Relações  Internacionais  e  pós‐modernidade:  seus  reflexos  na  construção  da 


identidade no Oriente Médio 

No imediato pós‐Guerra Fria, emergiu uma verdadeira áurea de idealismo decorrente 
das  mudanças  no  sistema  internacional.  Por  um  curto  período  de  menos  de  duas  décadas, 
predominou  a  ilusão  universal  de  que  os  valores  de  cooperação  internacional  prevaleciam 
sobre os valores militares no sistema internacional. Entretanto, essa visão ideal‐universalista 
foi substituída ainda na década de 1990, quando o iluminismo das Relações Internacionais do 
pós‐Guerra  Fria  passou  a  ser  gradativamente  substituído  pelo    nacionalismo,  pela 
autodeterminação  e  por  uma  lógica  de  fragmentação  daquele  sistema.  A  pós‐modernidade 
atingia em cheio as Relações Internacionais.    

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Neste  período,  os  conflitos  regionais  e  os  conflitos  locais  com  consequências 
internacionais  alcançaram  maior  visibilidade,  dando  grande  alcance  às  demandas  das 
identidades  locais.  Isso  se  explica,  em  grande  medida,  pela  aceleração  de  duas  tendências 
antagônicas  em  curso  desde  então  nas  Relações  Internacionais.  A  primeira  diz  respeito  ao 
aprofundamento  da  permeabilidade  das  fronteiras  no  âmbito  cultural,  social  e  econômico, 
mudança  que  representou  um  aumento  da  interdependência  entre  os  povos.  A  segunda 
corresponde  ao  delineamento  mais  claro  das  fronteiras  e  divisões  econômicas  e  políticas,  o 
que constitui, uma clara barreira à interdependência. Deste modo, “a resolução dos conflitos 
que  ameaçam  a  estabilidade  e  a  paz  nas  Relações  Internacionais  contemporâneas  passa  por 
uma intrincada relação entre os poderes militar, econômico, político e cultural. Não é possível 
deixar‐se  iludir  pela  mesma  tendência  simplista  encontrada  na  Guerra  Fria,  agora 
substituindo o fator militar pelo econômico” (DUPAS e VIGEVANI, 2001). Ou seja, apenas a 
Economia  não  é  suficiente  para  explicar  as  Relações  Internacionais  no  contexto  da  pós‐
modernidade.  

Entre  os  episódios  que  ilustram  a  desconstrução  da  proposta  bipolar  de  sistema 
internacional, merecem destaque as crises do petróleo que atingiram o mundo na década de 
1970,  o  fim  do  estado  de  bem‐estar  social  nos  países  desenvolvidos,  a  desnacionalização  e 
transnacionalização do capital produtivo e a aceleração de sua financeirização, assim como a 
regionalização  dos  blocos  econômicos  (ASEAN,  NAFTA,  Mercosul,  União  Européia,  dentre 
outros).  Esta  dinâmica atingiu seu ápice nos  anos  1980, quando o  neoliberalismo  entrou  em 
cena com o objetivo de substituir o equilíbrio de poder e os valores modernos como soberania 
e  Estado‐nação  pelo  capital  como  estrutura  máxima  do  sistema  internacional.  Finalmente, 
ocorreu  a  despolarização  do  mundo  com  o  fim  da  Guerra  Fria,  dando  lugar  a  um  breve 
período  em  que  o  sistema  pareceria  ter  um  só  pólo,  os  Estados  Unidos.  Como  resultado  de 
todo este processo, o sistema internacional se tornou heterogêneo, multilateral e anárquico. 42

Mas  como  entender  as  Relações  Internacionais  do  Oriente  Médio  neste  contexto  pós‐
moderno? Primeiramente, é necessário recusar a recorrente tentativa de justificar a realidade 

 Entretanto, esta interpretação não é unanimidade. A escola neo‐realista das Relações Internacionais 
42

acredita  que  os  fundamentos  básicos  do  sistema  internacional  não  mudaram  com  o  fim  da  Guerra 
Fria. O sistema é anárquico na medida em que o poder é a principal fonte de segurança dos Estados. O 
principais teórico realistas das Relações Internacionais é Kenneth Waltz, no seu “Teoria das Relações 
Internacionais”.  Para  um  estudo  sobre  a  anarquia  no  sistema  internacional,  ver  Redley  Bull,  “A 
sociedade Anárquica”.  
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política  e  cultural  da  região  através  de  um  suposto  descompasso  com  a  modernidade  das 
relações  sociais  contemporâneas  em  curso  na  civilização  ocidental,  conforme  mostrado 
anteriormente neste trabalho. Em segundo lugar, devemos retomar a dinâmica das Relações 
Internacionais  modernas  no  Oriente  Médio,  pautadas  pela  aliança  entre  o  expansionismo 
europeu e os interesses das elites locais. Este processo, como vimos, moldou as relações entre 
Estados  não  apenas  no  Oriente  Médio,  mas  em  todo  o  mundo  periférico  ao  longo  da  Idade 
Moderna.  Portanto,  devemos  abandonar  os  particularismos  quando  estudamos  a  dinâmica 
das  Relações  Internacionais  e  das  demais  relações  sociais  no  Oriente  Médio.  Este  aclamado 
particularismo,  conforme  procuramos  demonstrar  ao  longo  deste  trabalho,  foi,  e  continua 
sendo,  construído,  tanto  por  forças  externas,  como  internas.  Do  mesmo  modo,  a  tradição 
também pode ser construída ou mesmo inventada (HOBSBAWM e RANGER, 1992).  

O  comportamento  político  e  social  do  Oriente  Médio  não  é  um  fenômeno  único, 
podendo ser explicado pelos mesmos fatores analíticos utilizados quando estudamos outras 
partes do mundo. Segundo Halliday (2008), a história moderna da região data de 1798 – ano 
da invasão francesa ao Egito – e deve ser entendida no contexto histórico e internacional de 
expansão política e comercial européia, que atingiu também outras regiões do globo, como a 
América  Latina  e  a  Ásia.  Embora  tenham  um  apelo  da  antiguidade,  os  Estados  do  Oriente 
Médio são criações modernas, resultantes do colapso do Império Turco Otomano e da Rússia 
Czarista no final da Primeira Guerra Mundial, bem como da interação dos Estados da região 
com os poderes políticos, econômicos e militares do sistema internacional. Trata‐se, portanto, 
de  dois  séculos  de  subordinação  ao  Ocidente  que  resultaram  na  criação  de  Estados 
autoritários e economias rentistas, bem como formações sociais instáveis e subordinadas aos 
grupos centralizadores de poder. Isso é suficiente para quebrar o mito do particularismo da 
dinâmica política do Oriente Médio, pois as forças determinantes que moldam a política da 
região  nos  últimos  duzentos  anos  resultam  de  fatores  também  externos,  quais  sejam,  a 
expansão econômica e militar do Ocidente.   

Só  há  uma  maneira  de  saber  se  a  tradição  é  construída  ou  original.  Apenas  o  estudo 
histórico  pode  averiguar  a  veracidade  daquilo  que  é  apresentado  como  tradicional  e 
autêntico. Deste modo, o ideal é questionarmos: “por quem e para que determinada tradição 
oficial  foi  construída?”  Segundo  Halliday  (2008),  o  historiador  deve  manter  um 
distanciamento  crítico  da  identificação  com  a  História;  deve  adotar  uma  perspectiva  cética 
sobre  a  construção  do  mito,  dos  símbolos  e  da  linguagem.  A  pós‐modernidade  fortaleceu  o 

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apelo  da  emotividade  e  da  individualidade,  indo  contra  os  pressupostos  de  racionalidade  e 
coletividade  da  era  moderna.  O  retorno  dos  argumentos  baseados  na  tradição  marca  a 
incessante busca pela identidade na sociedade pós‐moderna, período que alguns chamam de 
“iluminismo às avessas” (HALLIDAY, 2008). 43   

Essa  substituição  de  valores  em  pauta  na  dinâmica  das  sociedades  contemporâneas 
facilita  o  ressurgimento  da  tradição  e  do  nacionalismo,  porém  com  uma  diferença.  Ao 
contrário do período da modernidade, na pós‐modernidade estes dois valores renascem não 
de  dentro  para  fora,  como  uma  força  impulsionadora  do  expansionismo  europeu  ou  turco, 
mas  sim,  de  fora  para  dentro,  como  uma  reação  aos  valores  externos.  Essa  diferença  é 
explicada pelo seguinte fator: o ritmo de aproximação da política e da economia dos Estados é muito 
maior do que a capacidade de interação de suas culturas.  

Não  podemos  esquecer  que  na  pós‐modernidade  esse  processo  é  politicamente 


construído  e  que,  portanto,  a  preservação  da  identidade  cultural  construída  é  o  meio  que 
garante a coesão e a integridade populacional‐ideológica frente ao contato com o mundo e a 
cultura Ocidental – já que na economia isso não acontece. Isso explica a crescente xenofobia 
na  Europa,  o  nacionalismo  de  bases  fundamentalistas  no  Oriente  Médio,  ou  mesmo  o 
crescente  nacionalismo  observado  nos  Estados  Unidos  no  pós  11  de  Setembro.  Portanto,  a 
aceleração  do  contato  com  a  cultura  ocidental  globalizada,  com  maior  poder  de  penetração 
que  as  culturas  locais,  aumenta  o  potencial  desse  processo  de  transição  pós‐moderna  que 
resulta  na  construção  de  uma  coletividade  artificial  e  intolerante  não  apenas  no  Oriente 
Médio, mas em praticamente todas as regiões do mundo.  

O ser humano, na busca de sua identidade, passa a contestar os valores e instituições 
construídos  e  legitimados  por  séculos  de  modernidade.  Neste  processo,  a  transição  da 
modernidade para a pós‐modernidade assumiu no Oriente Médio uma dinâmica que coloca 
em  risco  a  histórica  aliança  entre  o  Ocidente  e  os  grupos  dominantes  locais.  O  lado  não 
planejado  desta  aliança  é  a  penetração  de  valores  culturais,  políticos  e  sociais  exógenos  às 
sociedades  árabes.  Para  o  bem  ou  para  o  mal,  esses  valores  ameaçam  a  coesão  social  e  a 
estabilidade política daquela região. Na tentativa de postergar o desfecho deste processo, as 
forças árabes no poder resgatam valores culturais tradicionais, dando origem a novas formas 

  Sobre  cultura  e  identidade  na  pós‐modernidade,  ver  Zygmunt  Bauman,  “O  Mal‐estar  da  Pós‐
43

Modernidade”.   
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de  nacionalismo  e  unidade  sócio‐cultural. 44   Portanto,  a  única  fonte  coletiva  de  identidade 
remanescente – e, desta feita, o último refúgio da modernidade nas sociedades islâmicas –, é o 
resgate dos valores tradicionais por parte dos interesses políticos e econômicos dominantes e 
colocados  em  xeque  pela  individualidade  desenfreada  proclamada  pelos  valores  pós‐
modernos,  oriundos  da  civilização  ocidental.  Tendo  em  vista  que  este  apelo  à  coletividade 
tem  uma  origem  exógena,  vertical  e  centralizadora,  acaba  recrudescendo  o  choque  entre  os 
valores pós‐modernos ocidentais e a tradição islâmica. Como a necessidade de centralização 
de  poder  é  cada  vez  maior,  a  legitimação  social  torna‐se  cada  vez  mais  custosa,  e  só  é 
alcançada ao preço de um apelo cada vez mais tradicional e antimodernizante. 

Finalmente,  cabe  lembrar  que  o  choque  da  transição  pós‐moderna  é  um  fenômeno 
universal,  que  não  ocorre  apenas  no  Oriente  Médio  e  que,  portanto,  todas  as  supostas 
particularidades  que  fazem  desta  região  a  mais  conflituosa  do  mundo  são  reflexos  de 
condicionantes construídos pela união de fatores internos e externos.  

QUESTÕES PARA DISCUSSÃO 

1.  O  que  alimenta  o  estranhamento  cultural  entre  a  civilização  ocidental  e  o  mundo 


muçulmano? 

2.  As  contradições  contemporâneas  das  sociedades  árabes  são  as  mesmas  das  sociedades 
ocidentais?  

3. Por que a sociedade islâmica é avessa à modernização ocidental (e vice‐versa)? 

4. Como construir uma modernização islâmica?  

5.  De  que  maneira  a  era  da  informação  contribui  para  aumentar  ou  diminuir  o 
fundamentalismo cultural, político, ou religioso?  

 Deste modo, a Al‐Qaeda, assim como outros grupos fundamentalistas islâmicos, é o efeito colateral 
44

de uma gama de projetos modernos criados pelos grupos no poder. A ligação com o passado é apenas 
retórica,  fazendo  com  que  a  ditadura  e  as  ideologias  nacionalista‐religiosas  funcionem  como  um 
mecanismo eficiente  de  legitimação  política.  A  tradição  acaba  servindo,  portanto,  como  instrumento 
de ascensão interna e contenção externa, dinâmica que se repete em praticamente todas as monarquias 
do Oriente Médio (HALLIDAY, 2008). 
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LINKS ÚTEIS 

Correio Internacional: www.correiointernacional.com

Meridiano 47: http://meridiano47.info/    

FILMES 

Kedma, de Amos Gitai.   

Maio  de  1948.  Alguns  dias  antes  da  criação  do  Estado  de  Israel,  alguns  sobreviventes  dos 
campos de concentração viajam de navio para chegar à Palestina, onde são recebidos à bala 
por soldados ingleses. Cansados e famintos, eles são imigrantes que desejam chegar até um 
kibbutz  onde  vivem  os  judeus.  No  caminho,  ajudados  por  uma  força  militar,  encontram 
árabes. Explode um conflito violento e trágico de proporções históricas. “Kedma” mostra um 
pouco de como nasceu a guerra entre palestinos e israelenses.  

Guerra e Paz no Oriente Médio (Brasil, 1995), de Carla Gil Pontes.  

Este  documentário  de  52  minutos  apresenta  os  principais  fatos  históricos  relacionados  ao 
Oriente Médio para se compreender os conflitos entre judeus e palestinos. A narrativa começa 
antes da fundação do Estado de Israel (1948) e mostra a evolução dos conflitos até o ano de 
1995.  Dessa  forma,  compreendem‐se  melhor  as  Guerras  Árabe‐israelenses;  a  intifada 
(insurreição – ou revolução das pedras – 1987) e o papel das lideranças (na Palestina, Yasser 
Arafat e a OLP, Organização para Libertação da Palestina; pelo lado de Israel, Itzhak Rabin). 

Persépolis (França, 2007), de Vincent Paronnaud e Marjane Satrapi.   

Persépolis  é  a  história  comovente  de  uma  menina  que  cresce  no  Irã  durante  a  Revolução 
Islâmica.  É  através  dos  olhos  da  precoce  e  extrovertida  Marjane,  de  9  anos,  que  vemos  a 
esperança de um povo ser destruída quando os fundamentalistas tomam o poder. Inteligente 
e destemida,  Marjane consegue fintar os  “guardas sociais”  e descobre  o punk,  os Abba  e  os 
Iron  Maiden.  Mas,  quando  o  seu  tio  é  cruelmente  executado  e  as  bombas  começam  a  cair 
sobre  Teerão  durante  a  guerra  Irã/Iraque,  o  medo  diário  que  invade  o  quotidiano  do  Irã 
torna‐se palpável. 

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Filhos do paraíso (Irã, 1997), de Majid Majidi.   

Ali é um menino de 9 anos proveniente de uma família humilde e que vive com seus pais e 
sua irmã, Zahra. Um dia ele perde o único par de sapatos da irmã e, tentando evitar a bronca 
dos  pais,  passa  a  dividir  seu  próprio  par  de  sapatos  com  ela,  com  ambos  revezando‐o. 
Enquanto  isso,  Ali  treina  para  obter  uma  boa  colocação  em  uma corrida  que  será  realizada, 
pois precisa da quantia dada como prêmio para comprar um novo par de sapatos para a irmã. 
Produção iraniana com uma história singela, O filme possui uma atmosfera de rara beleza e 
inocência. 

Valsa com Bashir (Israel, 2008), de Ari Folman.  

No formato de documentário animado, o filme retrata as tentativas de Folman, um veterano 
da  Guerra  do  Líbano  de  1982,  de  recuperar  suas  memórias  perdidas  dos  eventos  que 
marcaram  o  massacre  de  Sabra  e  Shatila.  A  película  foi  lançada  em  13  de  maio  de  2008 
durante  o  Festival  de  Cannes  e  foi  uma  das  cinco  indicadas  ao  Oscar  de  melhor  filme 
estrangeiro.  O  filme  retrata  de  forma  sensível  o  envolvimento  do  Estado  de  Israel  no 
massacre,  resgatando  a  participação  dos  pequenos  soldados  que  lutaram  nesta  guerra.  O 
trauma  gerado  pelo  massacre  ainda  é  presente  no  imaginário  israelense,  e  um  determinado 
momento  do  filme  é  possível  perceber  a  comparação  com  os  campos  de  concentração  que 
dizimaram um número enorme de judeus, negros, ciganos e homossexuais. 

 
Syriana – A indústria do Petróleo (EUA, 2005), de Stephen Gaghan.  
O título Syriana não é muito bem explicado na fita, mas ao que tudo indica refere‐se ao termo 
pelo  qual  é  conhecida,  nas  comunidades  de  informação  e  comando  mundial  do  negócio  de 
petróleo,  a  nova  partilha  política  realizada  pelos  ganhadores  da  guerra  nos  territórios  e 
populações situados sobre os lençóis de petróleo do Oriente Médio, logo após o término da 2ª 
Guerra Mundial. A palavra syriana voltou ser utilizada após a Guerra do Golfo e novamente 
após a derrubada do governo de Saddam Hussein no Iraque, na chamada Guerra do Iraque, 
para  se  referir  a  disputa  entre  as  grandes  corporações  dos  EUA  e  aliados  pelo  direito  de 
reconstruir as cidades destruídas pelas guerras e, claro, quem ficará responsável pelos lençóis 
de petróleo. O filme é um estudo sobre a corrupção na área de produção petrolífera. 
 

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Paradise Now (Palestina, 2005), de Hany Abu‐Assad.   

O  filme  conta  a  história  de  Said  e  Khaled,  dois  jovens  amigos  de  infância  de  Nablus  que 
foram recrutados para realizar um ataque suicida em Tel Aviv. O filme faz um contraste da 
pobreza  da  Faixa  de  Gaza  com  a  riqueza  de  Israel.  Também  mostra  um  lado  mais  humano 
dos  dois  amigos,  mostrando  suas  famílias,  amores  e  paixões.  Em  entrevista,  o  diretor 
declarou:  ʺos  políticos  querem  ver  [o  conflito  árabe‐israelense]  como  sendo  preto‐e‐branco, 
bem e mal, mas a arte quer ver como sendo algo humanoʺ. 

LEITURAS COMPLEMENTARES 45

DANILEVICZ,  Analúcia.  “Arábia  Saudita:  entre  o  conservadorismo  político  e  a 


modernização econômica”. Ciências & Letras (Porto Alegre), n. 33 , jan./jun. 2005 

DANILEVICZ,  Analúcia.    “Palestina:  terra  de  interesses  contraditórios  folha  da  história”, 
Porto Alegre, p. 06‐08, 15 out 2005.  

 
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 

BAUMAN, Zygmunt.   “O mal‐estar da pós‐modernidade”.  Rio de Janeiro: J. Zahar, 1998. 

CHETERIAN, V. “Juventude Islâmica Radical”. Le Monde Diplomatique Brasil, São Paulo, 
p.24‐25, dez. 2008.   

DUPAS,  Gilberto;  VIGEVANI  Tullo  (Orgs).  “Israel‐Palestina:  a  construção  da  Paz  vista  de 
uma perspectiva global”. São Paulo: UNESP, 2001.   

HALLIDAY, FRED. “Cem Mitos sobre o Oriente Médio”. Portugal: Ed. Tinta da China, 2008.  

HOBSBAWM, Eric; RANGER, Terance. “The invention of tradition”, 1992.  

MEARSHEIMER, John. “The Future of Palestine: Righteous Jews vs. the New Afrikaners”.  
2010.  Disponível  em  http://www.thejerusalemfund.org/ht/display/ContentDetails/i/10418. 
Acesso em maio de 2010.  

45
Textos disponíveis no site www.cursoripe.blogspot.com
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BRASIL E EUA FRENTE AOS DESAFIOS REGIONAIS: ORIENTE MÉDIO  
 
 
SILVA, André Reis. “As relações do Brasil com o Irã e a questão nuclear”. Meridiano 47, 18 
de  maio  de  2010.  Disponível  em  http://meridiano47.info/2010/05/18/as‐relacoes‐do‐brasil‐
com‐o‐ira‐e‐a‐questao‐nuclear‐por‐andre‐luiz‐reis‐da‐silva/. Acesso em junho de 2010.  

VIZENTINI, Paulo. “Oriente Médio e Afeganistão: Um século de Conflitos”. Porto Alegre: 
Leitura XXI, 2002.  

 
LEITURAS SUGERIDAS 

BAUMAN, Zygmunt.   “O mal‐estar da pós‐modernidade”.  Rio de Janeiro: J. Zahar, 1998. 

FROMKIN,  David.      “Paz  e  guerra  no  Oriente  Médio  :  a  queda  do  império  Otomano  e  a 
criação do Oriente Médio moderno”.  Rio de Janeiro: Contraponto, 2008. 

MASSOULIE, François.  “Os conflitos do Oriente Médio século XX”.  São Paulo: Ática, 1996. 

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