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Projeto “Relações Internacionais para Educadores” – 10 de julho de 2010

BRASIL E EUA FRENTE AOS DESAFIOS REGIONAIS: ORIENTE MÉDIO

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BRASIL E E UA F RENTE AOS D ESAFIOS R EGIONAIS : ORIENTE

M ÉDIO

Por Hânder Leal 1

Quando ouvimos falar em Oriente Médio, pensamos em conflitos, ditaduras, rivalidades nacionais, ausência de liberdades políticas e de direitos individuais, etc. No imaginário ocidental, aquelas duas palavras, quando unidas dão origem a um emaranhado de povos que constroem sua História através de lutas que evidenciam, ao invés de minimizar, suas diferenças. Entretanto, raramente percebemos que estas diferenças podem ser construídas para servir a interesses exclusos e de natureza silenciosa, diferentemente dos conflitos por eles provocados. Talvez o entendimento de nenhum outro lugar do mundo dependa tanto deste raciocínio quanto o do Oriente Médio, o que torna esta região do globo um objeto de estudo extremamente complexo nas Relações Internacionais contemporâneas.

Somente quando percebemos que a realidade é um fenômeno socialmente construído, temos a capacidade de trilhar o caminho para a compreensão da História. Mas será que sabemos mesmo o que é História? Para entender o seu conceito, devemos conhecer sua origem, qual seja, a interação de dois fatores muitas vezes esquecidos no estudo das ciências sociais: o tempo e a realidade.

Tendo em vista que o homem é um ser social, a realidade social é construída por uma multiplicidade de fatores e atores que interagem simultaneamente. Porém, somente se fosse onisciente o homem poderia considerar esta realidade um resultado absoluto, puro e verdadeiro daquelas interações sociais e, portanto, prescindir da História para entender a sociedade em que vive. Como ainda não o é, não consegue entender sua sociedade usando apenas a realidade que o cerca, que está ao alcance de sua percepção. Por esse motivo, o indivíduo que desconhece sua História, se sente em meio a uma selva quando tenta entender sua sociedade. E o que é pior, muitas vezes sequer percebe isso. Para este, a realidade é o único instrumento de investigação social. Porém, há um problema aqui: a realidade é

1 Graduando em Relações Internacionais da UFRGS.

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E EUA FRENTE AOS DESAFIOS REGIONAIS: ORIENTE MÉDIO construída, manipulada e sorrateira. É o espetáculo,

construída, manipulada e sorrateira. É o espetáculo, ou melhor, a cortina que encobre o espetáculo. A realidade, quando desvinculada da História, é simplesmente banal, banalizada e banalizante. Daí ser em vão qualquer tentativa de compreender uma sociedade sem conhecer sua História.

E o mais grave de tudo isso: o indivíduo que desconhece sua História não é um agente social em sua essência. Portanto, a sociedade garante a todo indivíduo o direito de viver a realidade interpretação de um momento presente – por mais nua e crua que seja. Não importa. Afinal de contas, a realidade é inventada. Para sentila, basta existir; e cada um o faz como quer, ou como pode. Por outro lado, poucos conquistaram o direito de entender a História passada, e com isso, construir um futuro e um legado social para fazer parte da História no futuro.

E suma, vivemos a realidade e construímos a História. Por isso a História é a fonte da memória de um povo, comumente chamada de “ciência do passado”. Preferimos chamála de “ciência da seleção de realidades”. É seletiva porque nem toda a realidade passa pelo crivo da História. Somente as realidades estudadas e legitimadas no tempo futuro são selecionadas para fazer parte da herança da civilização, ou, simplesmente, História. Este é o motivo da dependência da História em relação ao tempo: é o tempo que esconde a História da realidade. Por isso entendemos os processos históricos muito depois de seu acontecimento e é por isso também que não existe uma História do presente, somente conhecemos a História do passado. Assim, podemos diferenciar claramente realidade e História. Há uma realidade presente e pressuposta, do ponto de vista de seu observadoragente; ao passo que há uma História, absoluta e verificada do ponto de vista do seu observadornarrador. Isso é crucial para o estudo de qualquer ciência social, inclusive as Relações Internacionais, pois conhecer apenas a realidade de uma região não é suficiente para entendê la.

Deste modo, a primeira parte deste trabalho compreende uma abordagem histórica das Relações Internacionais do Oriente Médio. Seu propósito é apresentar a contraditória natureza da correlação de forças em jogo que moldou as relações entre os Estados da região e que teve como efeito colateral o surgimento dos novos atores políticos na região – atores esses que por bem ou por mal ocupam as manchetes quando se trata de Relações Internacionais no Oriente Médio. A segunda parte pretende estabelecer um estudo cultural e social da civilização islâmica, apresentando assim os fundamentos das reivindicações sociais no Oriente Médio.

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E EUA FRENTE AOS DESAFIOS REGIONAIS: ORIENTE MÉDIO ABORDAGEM HISTÓRICA DO ORIENTE MÉDIO As Relações

ABORDAGEM HISTÓRICA DO ORIENTE MÉDIO

As Relações Internacionais do Oriente Médio são extremamente complexas, pois são

moldadas não apenas por fatores inerentes à região, mas também por fatores externos. Deste modo, fica claro desde já que o status de zona mais conflituosa do mundo ao longo do século

XX não resulta do fundamentalismo religioso, tampouco da suposta natureza retrógrada de suas sociedades, hipóteses amplamente difundidas no Ocidente. 2 Portanto, a natureza das contradições que envolvem os intermináveis conflitos pode ser entendida através de uma análise clara e imparcial que além da superficial hipótese que trata o fundamentalismo religioso como um fator isolado e causa única das instabilidades políticas da região.

É importante entendermos que os conflitos do Oriente Médio, assim como os próprios Estados da região, têm origem na idade Moderna, sendo que os elementos culturais e religiosos do passado funcionam apenas como instrumento de legitimação política de interesses contemporâneos; não são a origem dos conflitos. Nas palavras de Vizentini (2002):

“A escola do Orientalismo, que observa as sociedades da região

como exóticas, contribui para deformar o conhecimento que se produz sobre ela

e para a difusão de estereótipos perigosos. O “antigo”, quando subsiste, está

enquadrado em uma lógica “moderna”, em que elementos do passado são

resgatados com novos significados. Neste sentido, o fundamentalismo religioso

tem mais a ver com um fenômeno contemporâneo de desenraizamento social do que

com um mero surgimento de fenômenos atávicos [hereditários]” (VIZENTINI,

2002, 13, grifo nosso).

A justificativa religiosa vista a cima não é o único anacronismo presente na

interpretação ocidental do Oriente Médio, sobretudo da civilização islâmica. 3 Há um outro

2 As sociedades árabes nada tiveram de retrógrada em sua antiguidade. Nos séculos VII e XV, o mundo árabe constituía uma civilização urbana e comercial, consideravelmente desenvolvida em termos de ciências, artes, medicina, filosofia, ao contrário da Europa, bastante atrasada no período da Idade Média. 3 É importante não confundir “árabe” com “muçulmano” ou “islâmico”. O primeiro é uma classificação étnica e cultural, ao passo que o segundo e o terceiro são classificações religiosas. Esses termos nem sempre se encontram. Por exemplo: os países com maior população islâmica do mundo

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E EUA FRENTE AOS DESAFIOS REGIONAIS: ORIENTE MÉDIO fator importante muitas vezes negligenciado pelos

fator importante muitas vezes negligenciado pelos formadores de opinião ocidentais. Os fatores milenares que compõem a História e a cultura dos povos árabes não servem para explicar as Relações Internacionais do Oriente Médio. Estas devem ser entendidas no contexto da expansão européia para a região quando da transição dos séculos XIX e XX, no contexto do colonialismo tardio, sobretudo após a queda do Império Turco no fim da Primeira Guerra Mundial. 4

A formação dos Estados do Oriente Médio

A correlação de forças que atua sobre a formação de um Estado é o elemento constitutivo da natureza de suas contradições. Essa máxima é ainda mais válida em se tratando de um sistema de Estados, como é o caso do Oriente Médio, pois aqui, tais forças encontram não apenas uma, mas uma série de conjunturas distintas com as quais podem se reproduzir a fim de adquirir novas facetas, novos mimetismos históricos. Em um sistema de Estados, as forças em jogo atuam da mesma maneira que um vírus que invade vários organismos diferentes para interpretar seus respectivos códigos genéticos e assim, adquirir mutabilidade e resistência crescentes.

Duas forças atuaram sobre a formação dos Estados modernos do Oriente Médio e a divisão geopolítica da região. A primeira é a pressão expansionista européia a partir da Segunda Revolução Industrial e, sobretudo depois da Primeira Guerra Mundial, quando ocorreu a queda do Império Turco Otomano. A segunda diz respeito às rivalidades históricas entre as próprias lideranças locais. Muito embora o Império Otomano tenha cavado a própria cova quando decidiu entrar na Primeira Guerra ao lado da Alemanha e da Áustria, de modo que sua queda não foi resultado de conspiração das potências européias (HALLIDAY, 2008),

(Indonésia e Paquistão) não são árabes. Do mesmo modo, nem todos os países do Oriente Médio fazem parte do mundo árabe: o Irã e a Turquia, por exemplo, não são países árabes. Também é necessário entender a diferença entre “Islã” e “muçulmano”: “Islã significa uma comunidade civil guiada pelo Corão (o livro sagrado) da religião, e muçulmano, aquele que se submete ao Islã (adepto de Maomé). O Islã, mais do que uma simples religião, constitui uma civilização portadora de uma ética social e cultural dos povos que habitam esta região [do Oriente Médio]” (VIZENTINI, 2002, 18). 4 Os turcos são oriundos da Ásia Central. Enquanto a Europa atravessava a Idade Média, estes dominaram o Oriente Médio e reunificaram o mundo muçulmano. Entretanto, acabaram deslocaram as rotas comerciais terrestres para o oceano, o que tornou o Oriente Médio pobre e vulnerável ao Ocidente quando este se recuperou da Idade Média (VIZENTINI, 2002).

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E EUA FRENTE AOS DESAFIOS REGIONAIS: ORIENTE MÉDIO não podemos ignorar que a Europa, antevendo os

não podemos ignorar que a Europa, antevendo os fatos, já arquitetava a partilha do Império. O território europeu nunca fora suficiente para manter o desenvolvimento das suas potências industriais. Deste modo, a partir da segunda metade do século XIX, o Império Turco passou a ser objeto de cobiça de Grã Bretanha e França.

A Grã Bretanha, que já dominava o Egito e as periferias da península arábica, levava

vantagem nesta corrida. Durante a Primeira Guerra, o famoso militar e diplomata Lawrance da Arábia,

prometendo apoio britânico à independência das províncias árabes (Península Arábica) contra o Império Turco, convenceu o Xerife 5 Hussein de Meca a apoiar militarmente as forças ocidentais contra os turcos. Estavam lançadas as cartas para que as duas potências européias articulassem secretamente a divisão do crescente fértil após a Queda do Império Turco Otomano. A Grã Bretanha ficaria com a Palestina, a Transjordânia (atual Jordânia) e o Iraque, ao passo que o Líbano e a Síria caberiam aos franceses (ver mapa 1). 6 O que o Xerife Hussein não sabia é que nesta

partilha lhe caberia apenas a Península Arábica, e não todo o Crescente Fértil, como imaginava (VIZENTINI, 2002, 21). As rivalidades entre os governos locais do Império Otomano constituem a segunda força que atuou sobre a formação dos Estados do Oriente Médio. A ausência de um interesse panárabe e a consequente fragmentação política da região facilitaram a expansão européia

no Oriente Médio, fato que fica ainda mais evidente quando consideramos que a queda do Império Otomano deu origem a vários Estados na região. 7 À desconfiança entre as

Mapa 1: Acordo de SykesPicot

(1916)

entre as Mapa 1: Acordo de Sykes ‐ Picot (1916) Fonte: www.procon.org 5 Autoridade local do

Fonte: www.procon.org

5 Autoridade local do Império Turco Otomano.

6 Através do Acordo de Sykes Picot, assinado entre Grã Bretanha e França em 1916, aqueles territórios passariam a ser Mandatos das duas potências européias, modalidade de dominação temporária e permitida pela Liga das Nações, instituição antecessora da Organização das Nações Unidas. Somente em 1943, a Síria e o Líbano conseguiriam se emancipar da França (VIZENTINI, 2002).

7 O receio das elites governantes regionais em relação a propostas de integração não é exclusividade do Oriente Médio. Desafio semelhante enfrentou a América Latina nas primeiras décadas do século XIX, quando as aspirações integracionistas de Simón Bolívar, que pretendia formar um Estado

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E EUA FRENTE AOS DESAFIOS REGIONAIS: ORIENTE MÉDIO monarquias do Golfo Pérsico (governadas por famílias

monarquias do Golfo Pérsico (governadas por famílias rivais), acrescentam se as rivalidades históricas entre Arábia Saudita e Iêmen; Síria e Líbano; Egito e Síria, dentre outras. 8

A aproximação entre a Europa e o Oriente Médio neste período, ao mesmo tempo em que permitiu aos europeus introduzirem a modernização econômica e política à moda ocidental na região, permitiu aos árabes absorver valores vindos da Europa, porém estranhos à natureza política da civilização islâmica. 9 Neste período, os povos árabes tiveram o primeiro contato com valores ocidentais modernos como nação, liberdade, direito de propriedade individual e etc. O resultado não planejado desse encontro cultural foi a criação de um sentimento nacionalista na região e o surgimento de um ideal de independência árabe. Entretanto, salvo exceções, como a Turquia, onde o movimento nacionalista modernizador permitiria, décadas mais tarde, a ascensão de um governo republicano e o Egito, que viria a conquistar a independência formal dos ingleses, o ressentimento nacionalista era dissuadido pelas potências européias.

As origens do conflito palestinoisraelense

Ao contrário do que muitos pensam, palestinos e israelenses não estão em guerra ininterrupta séculos. Foi somente no pós Primeira Guerra, com o aumento do fluxo de imigrantes judeus fugidos da Europa, que a rivalidade entre árabes e judeus alcançou maiores proporções no Oriente Médio. Deste modo também, a origem do longo histórico de ocupação da Palestina remonta a um período muito anterior à criação do Estado de Israel.

A comunidade judaica internacional estava organizada através do Movimento Sionista, movimento de caráter nacionalista judeu, fundado na Europa em resposta às crescentes perseguições e massacres, sobretudo na Rússia czarista e na Europa Oriental a partir da segunda metade do século XIX. Não demorou para o movimento se expandir por

bolivariano no continente, acabaram cedendo à resistência das elites e das populações regionais (VIZENTINI, 2002). 8 É importante notar que esses fatores permanecem por boa parte do século XX. A pressão popular síria foi um dos fatores que derrubaram as Repúblicas Árabes Unidas, união entre Síria e Egito, em 1961. Arábia Sudita e Iêmen estiveram em conflito, assim como Turquia e Síria. Esta por sua vez, invadiu o Líbano em 1976. 9 É bom lembrarmos que o capitalismo provocou empobrecimento das economias interioranas e sua urbanização crescente. Deste modo, somente a minoria rica e pró ocidental da população foi beneficiada por essa modernização.

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E EUA FRENTE AOS DESAFIOS REGIONAIS: ORIENTE MÉDIO toda a Europa e alcançar apoio internacional para

toda a Europa e alcançar apoio internacional para a promoção do seu objetivo maior, qual seja, a criação de um Estado nacional para o povo Judeu. O fato de um movimento religioso ter caráter nacionalista não é motivo de espanto, já que a construção de um Estado nacional era objetivo de todos os movimentos nacionalistas da época. O problema é que a questão judaica viria a ser utilizada como instrumento político pelas potências européias para darem início a seu plano de longo prazo no século XX: a expansão rumo ao Oriente. Esse fator coloca o apoio das potências européias à causa nacionalista judaica na origem do conflito palestinoisraelense.

Através da Declaração de Balfour, os franceses se comprometeram a proteger as minorias cristãs, ao passo que os britânicos dariam apoio às minorias judaicas que imigravam para o Oriente Médio. 10 Estes imigrantes compravam terras nas quais instalavam os kibbutz, fazendas coletivas com certo ideal socialista que por um lado constituiu um dos mais promissores experimentos modernos de sociedade igualitária, por outro, porém, eram militarmente fortificadas por grupos armados para contrapor os árabes da palestina. (HALLIDAY, 2008). É neste período – e não em nenhum ponto remoto da antiguidade, como pressupõem as teorias tendenciosas que predominam no Ocidente – que têm início a moderna disputa étnicoideológica, origem dos conflitos que prosseguem até os dias de hoje na região.

A Palestina pode ser considerada fruto da Primeira Guerra Mundial, pois a nova combinação de forças sobre a região substituição dos árabes pelos britânicos – só foi viabilizada a partir da queda do Império TurcoOtomano. Vizentini (2002) aponta que a situação da Palestina no pós Primeira Guerra era moldada por três forças: a GrãBretanha, que exercia o Mandato Britânico na Palestina; os judeus sionistas, que passaram a ter um poder institucional e militar cada vez maior, constituindo um quase Estado; e as forças árabes que se opunham a este processo através da mobilização política e militar.

Entretanto, um fator novo viria a acelerar a reviravolta política na região. A perseguição nazista ao povo judeu durante a Segunda Guerra Mundial seria decisiva para

10 Na declaração de Balfour (1917), a Grã Bretanha prometia a criação de um lar nacional para os judeus na Palestina. Inicialmente, a proposta foi vista com cautela pela comunidade judaica britânica, que a interpretou como uma tentativa dos ingleses de promover a dispersão dos judeus da Inglaterra. Cabe observar que os próprios judeus também se preocupavam com a possibilidade desta medida provocar instabilidade no Oriente Médio (HALLIDAY, 2008).

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E EUA FRENTE AOS DESAFIOS REGIONAIS: ORIENTE MÉDIO que as duas principais potências do mundo na

que as duas principais potências do mundo na época, os Estados Unidos e a União Soviética (URSS) passassem a apoiar a causa judaica (HALLIDAY, 2008). Deste modo, o holocausto deu um caráter de extrema urgência à questão judaica, a ponto de ser incogitável e impraticável qualquer política externa que se opusesse à criação do Estado de Israel, motivo pelo qual a Segunda Guerra Mundial foi marcada pela ausência de apoio internacional à causa palestina (VIZENTINI, 2002).

Mapa 1: Partilha da Palestina (1947)

A criação do Estado de Israel

da Palestina (1947) A criação do Estado de Israel Fonte: wikimedia commons No período da Segunda

Fonte: wikimedia commons

No período da Segunda Guerra Mundial, houve um aumento considerável do fluxo de imigrantes judeus fugidos da perseguição nazista, dando origem aos primeiros conflitos de maior proporção entre os palestinos e os recém chegados. Nesta época ocorreu o grande levante palestino de 1936 39, no qual os palestinos acabaram derrotados (VIZENTINI, 2002). 11 Em 1947, não podendo conter o crescente fluxo de imigrantes judaicos clandestinos fugidos do

holocausto, a Grã Bretanha encaminhou à ONU a Questão Palestina. É criado, então, um plano de partilha, prevendo que o território palestino passaria a abrigar

um Estado judeu e outro árabe palestino. No dia 29 de novembro de 1947, o plano de partilha do território palestino foi aprovado pela Assembléia Geral da ONU, presidida na ocasião pelo gaúcho Osvaldo Aranha (ver mapa 2). 12

Desde o começo, os países árabes se opuzeram claramente à criação do Estado de Israel. Entretanto, “recusar o plano foi um erro que custou muito caro aos árabes e palestinos” (VIZENTINI, 2002, 31). Vejamos o porquê. As forças em jogo logo se alterariam e o plano de partilha da Palestina não seria a solução para o fim do conflito palestinoisraelense, muito

11 A população de judeus na Palestina subiu de 60 mil no imediato pós Primeira Guerra para 400 mil em 1939. Em 1918, a Palestina tinha 644 mil árabes, 574 mil muçulmanos e 70 mil cristãos. Em 1948, ano da criação do Estado de Israel, 32% da população (da Palestina) era composta por judeus (DUPAS E VIGEVANI, 2001).

12 Resolução nº 181 da Assembléia Geral da ONU. A partilha foi aprovada com 33 votos a favor (países

ocidentais), 13 contra (países do Oriente Médio e da Ásia) e 10 abstenções (entre elas, a Grã Bretanha).

O Estado judaico teria 14 mil Km², compreendendo os territórios do Deserto de Neguev, o Golfo de

Ákaba, e a região entre TelAviv e Haifa. O Estado árabe palestino teria 11 mil Km² e compreenderia

os territórios da Cisjordânia e da Faixa de Gaza. A cidade de Jerusalém ficaria sob a tutela da ONU.

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E EUA FRENTE AOS DESAFIOS REGIONAIS: ORIENTE MÉDIO pelo contrário, provocaria o seu recrudescimento. O

pelo contrário, provocaria o seu recrudescimento. O assassinato do mediador da ONU, conde Bernadott, por sionistas fanáticos, levou a Grã Bretanha a abanonar a causa judaica e encerrar

o Mandato Britânico na Palestina. Com isso, os judeus aproveitaram para declarar a criação

do Estado de Israel em 14 de maio de 1948. Em contrapartida, no dia seguinte, a Liga de Estados Árabes declarou Guerra contra o novo Estado, sendo derrotada pelos judeus, melhor equipados e treinados na segunda guerra pelas forças aliadas. 13 O resultado do conflito foi extremamente favorável ao Estado de Israel, que, além de garantir a vitória política e militar,

saiu do confronto com 80% do território palestino. Como se o ataque israelense não bastasse, em 1950, o Egito e a Transjordânia (atual Jordânia) anexaram parte do território palestino – as regiões da Faixa de Gaza e a Cisjordânia, respectivamente.

A população palestina, expulsa de seu território pelas forças de Israel deu origem a uma massa dispersa de refugiados que passou a buscar abrigo em países árabes vizinhos, como o Líbano e a Síria. 14 Do outro lado do conflito, para garantir o seu domínio sobre os territórios ocupados, Israel investiu esforços no povoamento do recém criado Estado, atraindo judeus do mundo inteiro e provocando verdadeiras ondas de imigração judaica para

a Palestina. Essas cisões sociais e políticas levariam ao ressurgimento do fanatismo e do

fundamentalismo exacerbados, tornando ainda mais distante o estabelecimento de um acordo

entre israelenses e palestinos.

Neste contexto, os palestinos se depararam com duas alternativas para conter o avanço israelense. A primeira era a necessidade manter o vínculo da população palestina, cada vez

mais dispersa pelos países vizinhos. Para tanto, a causa palestina encontrou refúgio na luta armada, organizada pelos primeiros grupos revolucionários ainda nos anos 1950 e 1960. Nesta época surge o alFatah, grupo militante liderado por Yasser Arafat, visando à criação de um Estado palestino laico e democrático como caminho para a unidade árabe. Por outro lado,

a criação do Estado de Israel foi percebida pela maioria dos países árabes como um enclave

colonialista na região que poderia abrir precedentes para a intervenção de outras potências,

simbolizando uma derrota das elites árabes frente às ocidentais. Neste sentido, a segunda

13 Por motivos políticos e também em função da dispersão geográfica dos judeus, Israel recebia amplo apoio da comunidade internacional, desde os EUA, até a própria URSS, que via na Liga Árabe um instrumento do neocolonialismo britânico a ser combatido (em vias de fato, a Liga Árabe era tutelada pela Grã Bretanha). 14 Em 1950 quase um milhão de palestinos viviam nos campos criados pela Agência de Refugiados da ONU.

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E EUA FRENTE AOS DESAFIOS REGIONAIS: ORIENTE MÉDIO alternativa passou a ser investir na promoção da

alternativa passou a ser investir na promoção da causa palestina no mundo árabe, tendo como valor o resgate de um sentimento de panarabismo por todo o Oriente Médio. Esta iniciativa resultou na criação da Organização para a Libertação da Palestina (OLP), em 1964, com o incentivo da Liga de Países Árabes. 15

O Oriente Médio nos anos 1960 e 1970: em vias de modernização?

A aproximação entre o Oriente Médio e o Ocidente deu origem a uma verdadeira onda de modernização no Oriente Médio durante os anos 1950 e 1960. A absorção dos valores políticos ocidentais pelas sociedades do Oriente Médio levou ao poder forças que se encontravam em diametral oposição às estruturas governantes vigentes – simbolizadas pelas monarquias conservadoras e pelas relações políticas feudais vigentes no mundo árabe. Essas forças políticas emergentes deram origem ao que podemos chamar de um padrão árabe de nacionalismo.

As independências e as descolonizações em curso no mundo em desenvolvimento, bem como a eclosão de revoltas populistas e antiimperialistas na região geraram uma nova divisão no Oriente Médio. Assim aconteceu com o Egito, país que se tornou uma república nacionalista, sob a liderança de Nasser, líder que libertou o país do subjugo britânico e alcançou grande destaque não apenas no Oriente Médio, devido ao triunfo político na Guerra de Suez, mas também em escala global, por meio da aproximação com o Movimento dos Países NãoAlinhados. 16

A modernização política também alcançou o Magrebe. 17 Na Argélia, excolônia francesa, a Frente de Libertação Nacional (FLN), sob forte influência da onda de

15 O apoio financeiro à OLP vinha dos países árabes, particularmente daqueles do Golfo Pérsico. A Liga dos Países Árabes, havia sido criada em 1945, por Egito (tutelado pela Inglaterra), Iraque, Síria, Líbano, Transjordânia, Arábia Saudita e Iêmen, em meio ao conturbado cenário político de independências e nacionalismos no Oriente Médio. Constituiu a primeira iniciativa dos países da região no sentido de resolver seus problemas políticos, econômicos e militares, bem como preservar o pan arabismo através de uma união do mundo árabe – leia se, união entre as elites conservadoras árabes, que não podiam abrir mão dos vínculos com a Inglaterra (VIZENTINI, 2002).

16 O estopim da Guerra de Suez foi a decisão de Nasser de nacionalizar o Canal de Suez, medida que custou ao Egito pronta retaliação por parte das potências européias. Apesar de derrotado militarmente, o Egito conseguiu manter o Canal nacionalizado com o apoio da URSS.

17 Região norte da áfrica, com predominância de países árabes.

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E EUA FRENTE AOS DESAFIOS REGIONAIS: ORIENTE MÉDIO descolonização que libertava o continente africano,

descolonização que libertava o continente africano, liderou a revolução apoiada em um nacionalismo anticolonial sob implacável repressão francesa, sobretudo depois da descoberta de petróleo na porção argelina do Deserto do Saara. Outro exemplo foi a Líbia de Kadafi, que implementou um original socialismo islâmico, com reformas sociais e posição internacional antiimperialista tudo isso financiado pela renda do petróleo. Na Península Arábica, o Iêmen do Sul, governado por um regime de esquerda e orientação marxista, conquistou a independência da Inglaterra. No Omã, entretanto, as mesmas forças tiveram que esperar até o começo da década de 1970 para cnoseguir implementar repúblicas democráticopopulares de orientação socialista, pois os sultões contavam com o apoio da Inglaterra (VIZENTINI, 2002). Porém, não demoraria muito para que estes governos revolucionários gradativamente substituíssem seu viés panárabe por um nacionalismo com características opressivas de regime militar.

A herança de cinco séculos de dominação turca e a posterior intervenção européia logo se fizeram sentir. A presença de estruturas políticas pré modernas barraram as forças modernizadoras antes que estas conseguissem reverter o grande atraso sócioeconômico do Oriente Médio (VIZENTINI, 2002). Esses grupos conservadores e autoritários buscavam se legitimar através do Islã para despistar a aproximação econômica e militar com os “infiéis” do Ocidente. Neste ponto, é importante entendermos que o islamismo não foi a fonte da nova onda de conservadorismo político que varreu o Oriente Médio nesse período. Constituiu sim, um instrumento social manipulado pelas forças conservadoras que queriam retomar o poder e cortar as raízes internas e externas da “ameaça modernizadora”. Deste modo, em todas as monarquias absolutistas do Oriente Médio (Kuwait, Catar, Emirados Árabes Unidos, Omã, Bahrein) a modernização foi apenas superficial, pois não viabilizou mudanças sociais.

Com o fim do nasserismo 18 como referência política para o Oriente Médio, a URSS passou a se afastar gradualmente da região, perdendo uma zona de influência importante na geopolítica mundial. O efeito imediato disso foi o enfraquecimento da esquerda e do próprio ideal de revolução, bem como a ascensão de regimes militares nacionalistas em praticamente todo o Oriente Médio. Foi esta inflexão que impediu o esquerdismo mundial de 1968 de alcançar as bases populares no Oriente Médio. Como conseqüência deste isolamento das forças de oposição do mundo árabe, os grupos extremistas passam a ser o último refúgio das forças de contestação do poder no Oriente Médio.

18 Em referência ao presidente Nasser, que governou o Egito de 1956 a 1970.

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E EUA FRENTE AOS DESAFIOS REGIONAIS: ORIENTE MÉDIO A Guerra dos Seis Dias e os seus

A Guerra dos Seis Dias e os seus desdobramentos no conflito palestinoisraelense

Em 1967 a solução pacífica para o dilema entre árabes e israelenses se tornou uma

possibilidade ainda mais remota. Na Guerra dos Seis Dias, Israel atacou a Síria, o Egito e a

Jordânia, anexando e ocupando todo o território Palestino (a Cisjordânia, as Colinas de Golã e

a Península do Sinai), bem como a cidade de Jerusalém, que estava sob tutela da ONU (ver

mapa 3). 19 A eclosão da guerra dos seis dias foi resultado da intenção de Israel em contrapor o

crescente poder militar e do erro de cálculo de Nasser, então presidente do Egito, que pediu a

retirada das tropas da ONU da Península de Sinai, ficando vulnerável ao ataque de Israel

(HALLIDAY, 2008). Como consequência do conflito, 1,5 milhões de árabes (o que

correspondia a mais da metade de todos os árabes de origem palestina que viviam no Oriente

Próximo) ficaram sob o controle de Israel. A ONU exigiu a retirada completa de Israel dos

territórios palestinos ocupados, medida que o país até hoje não cumpriu. Como conseqüência

imediata do conflito, houve nova onda de refugiados e instabiliadde nos países vizinhos que,

além de ter que abrigar a nossa massa de refugiados, tiveram parte de seus territórios

tomados pelo Estado hebreu (VIZENTINI, 2002).

O crescente nacionalismo e o fortalecimento da causa

sionista no Ocidente, sobretudo nos Estados Unidos, levariam o

Egito e a Síria a atacarem Israel em 1973, durante a Guerra do Yon

Kippur (Ano Novo judaico). O objetivo dos dois países era retomar

os territórios perdidos durante a Guerra dos Seis Dias. Objetivo

esse que não foi alcançado plenamente, pois o Egito conseguiu

retomar a

p enas o C a na l de Suez , muito embora as petromonarquias

do Golfo Pérsico tenham financiado fortemente os dois países

árabes.

Mapa 3: Guerra dos Seis Dias

os dois países árabes. Mapa 3: Guerra dos Seis Dias 1 9 A cidade é considerada

19 A cidade é considerada sagrada para muçulmanos e judeus. Para os primeiros, isso se deve ao fato de Jerusalém abrigar a mesquita de alAqsa, onde o profeta Maomé teria feito a miraj, sua ascensão ao paraíso. Para os judeus, Jerusalém abriga o Monte Sião, que teria sido conquistado por Davi, segundo rei de Israel. Entretanto, a disputa entre judeus e muçulmanos pelo controle de Jerusalém não é constante ao longo da história dos dois povos, sendo resultado de nacionalismo moderno, sobretudo após 1967 (HALLIDAY, 2008).

Projeto “Relações Internacionais para Educadores” – 10 de julho de 2010

BRASIL E EUA FRENTE AOS DESAFIOS REGIONAIS: ORIENTE MÉDIO

E EUA FRENTE AOS DESAFIOS REGIONAIS: ORIENTE MÉDIO A Crise do Petróleo e os Acordos de

A Crise do Petróleo e os Acordos de Camp David

Havia um fator novo que poderia pesar na balança a favor dos países árabes. O crescente consumo de petróleo nos países industriais do Ocidente passou a ser um importante instrumento de barganha para os Estados árabes a partir do começo da década de 1970. 20 Este novo cenário deve ser entendido no contexto de mudanças na economia internacional provocadas pelo fim do Acordo de Bretton Woods 21 , manobra dos EUA para conter o avanço das economias japonesa e européia. Deste modo, o aumento do preço do petróleo faz parte de um projeto que aliava as grandes companhias petrolíferas, todas ocidentais, aos países produtores membros da OPEP. A Guerra do Yon Kippur e a depedência ocidental pelo petróleo árabe foram fatores fundamentais para a consolidação desse projeto entre Washington e as petromonarquias, assim como para diminuir a influência soviética no Oriente Médio. No plano regional, essa aliança deveria permitir um processo de desenvolvimento que aumentasse as exportações dos Estados Unidos para a região. Entretanto, isso só seria possível se a renda do petróleo fosse revertida em aumento da capacidade de consumo da população árabe, o que não aconteceu até hoje, de modo que a economia do petróleo serviu apenas para aprofundar os desequilíbrio e contradições sociais.

Este concerto entre as economias ocidentais e as petromonarquias consolidou a presença do Fundo Monetário Internacional na região, dando início a um ciclo de privatizações e abertura de mercados em países como o Egito pós Nasser do presidente Sadat. Este assinou um acordo de paz com Israel em CampDavid (1978), pondo uma trégua ao conflito em troca da devolução da península de Sinai ao Egito, que, cada vez mais alinhado ao Ocidente, acabou sendo expulso da Liga Árabe e da OPEP (VIZENTINI, 2002). Apesar destes fatores, foi positivo o balanço das Relações Internacionais para os países árabes neste período, já que o mundo em desenvolvimento, inclusive o Brasil, foise afastando de Israel e se aproximando da causa palestina. Houve também uma visível mudança na correlação de

20 Em 1960 havia sido criada a Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP). Faziam parte desta organização Arábia Súdita, Irã, Iraque, Kuwait e Venezuela. Mais tarde aderiram Catar, Líbia, Indonésia, Emirados Árabes Unidos, Argélia, Nigéria, Equador e Gabão (VIZENTINI, 2002). 21 O Acordo de Bretton Woods (1944) determinava que os cada país deveria manter sua taxa de câmbio dentro de um determinado valor indexado ao dólar, que, por sua vez, tinha um valor fixo em relação ao ouro. Esse sistema foi a base da hegemonia do dólar na economia mundial, na medida em que esta era a única moeda que tinha paridade fixa em relação ao ouro. Isso garantiu a demanda por dólar na economia internacional. Porém, em função do aumento da demanda internacional por ouro, a paridade do dólar em relação ao metal foi suspensa pelos EUA em 1971.

Projeto “Relações Internacionais para Educadores” – 10 de julho de 2010

BRASIL E EUA FRENTE AOS DESAFIOS REGIONAIS: ORIENTE MÉDIO

E EUA FRENTE AOS DESAFIOS REGIONAIS: ORIENTE MÉDIO forças que se refletiu inclusive na ONU, na

forças que se refletiu inclusive na ONU, na qual a Palestina conquistou a condição de observador permanente ao passo que Israel começou a sofrer as primeiras condenações, sendo o sionismo reconhecido internacionalmente como forma de racismo. 22

Velhos conhecidos do Ocidente: Irã, Afeganistão e Iraque na Guerra Fria

Não é de hoje que o Irã é motivo de preocupação para as potências ocidentais. “O Irã, devido a sua posição estratégica – acesso ao mar –, é importante eixo de comunicação, sobretudo para o escoamento de gás do Turcomenistão, principal corrente da Sibéria, além de ser caminho para um dos únicos oleodutos que ligam a Ásia Central ao resto do mundo” (VIZNETINI, 2002, 108). Porém, nos anos 1980 a situação era diferente: o Irã era o principal aliado dos EUA no Oriente Médio. Em 1979, a liderança deste distante país aliado, o repressivo Reza Pahlevi foi deposto por uma grande revolução popular contra as desigualdades, contra o Ocidente e contra a modernização capitalista – que reunia uma ampla gama de grupos sociais, desde os comunistas até o mulás 23 . Entretanto, apesar da heterogeneidade das forças que se opunham ao antigo regime, o resultado imediato da revolução foi a instauração de forças fundamentalistas que impuseram uma ordem social retrógrada sob o comando do Aiatolá Khomeini, novo líder político do país.

O Afeganistão, por sua vez, era histórico aliado da URSS. Porém, em função da ajuda econômica oferecida ao país, o Irã passou a guiar a política externa afegã de modo a aproximálo dos aliados iranianos, como EUA, Paquistão e China. Este alinhamento vinha acompanhado de crescente repressão aos partidos de oposição, o que desencadeou uma revolta popular que culminou em um golpe de Estado durante a “Revolução de Abril”. Entretanto, as