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A missão do xerife: enforcar o estuprador!

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Três dias escoltando um estuprador para ser enforcado em Tucson! Pior
ainda para o xerife é escapar de duas mulheres traiçoeiras que pretendem
libertar o prisioneiro e fazer justiça com as próprias mãos!

© 1990 - SILVER KANE


“POBRECITOS MUERTOS”
Tradução De Claudia West
391014
1
UM REVÓLVER DE MARCA

O homem que desceu lentamente do cavalo na rua


principal de Amarillo estava coberto de poeira por causa da
viagem, mas apesar disso foi reconhecido por todos. E a
primeira reação foi uma espécie de debandada geral.
Havia vários moradores no alpendre, tranqüilamente
sentados, comentando os detalhes das próximas festas de
vaqueiros. Logo que viram aquele indivíduo, todos
desapareceram rapidamente e alguns chegaram até a derrubar
a cadeira em que estavam sentados.
Outros homens, que estavam na frente da porta do saloon,
entraram imediatamente como se fossem beber algo, mas na
verdade o que queriam era sair pela porta dos fundos e
desaparecer o mais rápido possível. Os comentários em voz
baixa percorreram a cidade de ponta a ponta:
— Berkeley chegou...
— Esse assassino nojento...
— Mas não estava preso em Leavenworth?
— E daí? Deve ter escapado...
— Pois a mim é que ele não pega...
— É melhor dar o fora. Onde está esse cara, está também
a morte.
O pânico espalhava-se pela cidade por causa da chegada
daquele pistoleiro com as roupas cobertas de poeira. Mas
outros cidadãos tiveram um pouco mais de bom senso. Logo
se lembraram de que a cidade de Amarillo não estava
indefesa.
— Este maldito Berkeley não tem mesmo nada para
fazer. Escolheu um mau lugar para dar sinais de vida.
— Claro. Porque o xerife Roque está aqui.
— Roque é o xerife mais rápido do Oeste.
— Quando Berkeley estiver ao alcance da sua mira, ele o
matará.
— E se ocorrer o contrário?
— O que quer dizer com isso?
— Que aconteceria se Berkeley matasse Roque?
Não era nem preciso responder. Se o xerife morresse, a
cidade ficaria à merca do pistoleiro. Ninguém podia
enfrentar seu gatilho implacável.
E um pensamento que até então não ocorrera a ninguém
fez estremecer muitos homens da cidade. Por que aquele
bandido viera justamente para lá? Teria vindo matar Roque?
Não se enganavam.
Berkeley amarrou tranqüilamente seu cavalo, sem olhar
para ninguém, porém, percebia perfeitamente o movimento
de alarme que começava a tomar conta da rua principal da
cidade. Acendeu um cigarro com gestos pausados, para que
todos se dessem conta de que estava calmo e avançou pelo
alpendre.
A maioria daqueles que o viram imaginaram que ia beber
algo no saloon, pois a travessia das planícies não seca apenas
a garganta, mas todo o corpo. Seca até mesmo aquilo que
todo homem traz pendurado. Mas, em vez disso, Berkeley
dirigiu-se à melhor loja de armas da cidade.
O velho Bromfield estava lá.
Tremendo da cabeça aos pés.
— Que... que deseja? — murmurou.
— Por que está me olhando desse jeito, velho de merda?
Não sou um freguês como todos os outros?
— Sim, senhor. O senhor é um freguês.
— Tenho a intenção de pagar.
— Olhe... francamente, sr. Berkeley... Prefiro que o
senhor não pague. Leve o que quiser, mas vá logo embora.
Havia duas outras pessoas na loja, duas serviçais que
limpavam cuidadosamente as armas. Elas olhavam para o
recém-chegado com uma mistura de espanto e medo.
— Pagarei o que levar — disse Berkeley com voz grave.
— Só que eu quero a melhor qualidade. Quero o melhor
revólver desta loja.
— O que houve com o seu?
— O cilindro não está girando bem. Quando alguém foge
da cadeia de Leavenworth e rouba um Colt, não pode
escolher o melhor. Tem de levar o que encontra mais à mão.
Mas agora preciso trocá-lo. Quero uma arma perfeita.
— E depois irá embora da cidade?
O sorriso de Berkeley foi irônico e sinistro.
— Depois que tiver feito um trabalhinho — respondeu.
— Que trabalho?
— Tenho de matar o xerife Roque.
Bromfield estremeceu.
Mas o olhar de aço do assassino que estava na sua frente
o obrigou a atender ao pedido. Com dedos inseguros pegou
um magnífico revólver que estava em uma prateleira de
vidro.
— Olhe — disse —, não é um Colt mas sim um Smith
Wesson. Já sei que quase todos aqui usam o Colt, mas o
Smith Wesson é de melhor qualidade. E tem um calibre .44
perfeito. As balas são de ponta achatada e o cartucho tem
uma potência excepcional. O poder de parada da bala é
tremendo. Pode deter a corrida de um búfalo.
Berkeley sorriu novamente.
— Você tem fama de possuir as melhores armas da
comarca, Bromfield. Quando recomenda uma arma, é porque
ela é boa de verdade.
— Ganhei esta fama merecidamente.
Berkeley segurou o revólver na mão para sentir seu peso.
Depois o fez girar na mão direita com movimentos precisos.
Mudou de mão um par de vezes para finalmente lançá-lo ao
ar e o recolher. Tudo foi feito com tamanha habilidade
assassina que o dono da loja sentiu novamente um frio lhe
percorrer a espinha.
— O que é que... acha? — murmurou.
— Quero seis balas — disse Berkeley.
— Tome.
Berkeley introduziu apenas uma no tambor. Girou o
revólver em sua mão direita e disparou. A bala passou de
raspão pela cabeça de Bromfield, que ficou pálido como um
morto.
O pistoleiro riu.
— Ah, ah... Assustei-o, Bromfield?
— Me... me... me...
— Quê?
— Merda.
— Ah, ah... Ficaria muito triste se perturbasse a sua
digestão, amigo. Na verdade, só estava experimentando o
revólver. Gostei deste berro, sabe? Acho que vou levá-lo.
— Já é seu.
— Quanto custa?
— Só 15 dólares.
— Hum... Pagarei daqui a cinco minutos.
— Para que precisa de cinco minutos?
— Muito simples. Para matar Roque.
Sorriu novamente daquela forma fria e cínica.
E saiu.
Não precisou aguardar muito.
Roque estava esperando por ele na frente da loja de
armas.
Berkeley tinha uns 28 anos, Roque tinha cerca de 26.
Berkeley parecia de rocha e o outro de aço. Roque era alto,
forte, ágil. Tinha um olhar cinzento e nele havia algo de
implacável, como o olhar de carrasco que mata sem cobrar,
só por prazer;
Ele estava com sua estrela de xerife no peito e com um
revólver no cinto que, coincidentemente, também era um
Smith Wesson de calibre .44.
Sorriu ironicamente para Berkeley e disse:
— Olá. Bem-vindo a Amarillo.
— Que surpresa, Roque!
— Surpresa por quê?
— Pensei que, ao saber que eu estava aqui, você tivesse
se escondido embaixo da mesa de sua sala.
— Sabe que eu pensei em fazer isso. Mas depois disse
para mim mesmo: Cara, vamos procurar um lugar para este
covarde do Berkeley se esconder.
— Um lugar para me esconder? E você encontrou?
— Claro que sim.
— Onde?
— No cemitério.
As feições do pistoleiro endureceram-se. Sabia que o
xerife nunca brincava, pois era um autêntico carniceiro. Mas
Berkeley voltou a sorrir, tentando ser o mais natural
possível.
— Roque, você parece muito decidido a fazer com que eu
passe umas férias em Amarillo, não?
— Claro... Umas férias eternas.
— Escute. Não fugi de Leavenworth para virar vegetal
numa cidade tão podre quanto esta.
— Então, para que você veio?
— Para matá-lo.
— Você quer se converter no dono de Amanho?
— Quero.
— Pois olhe que coincidência, Berkeley.
— Coincidência?
— Eu também estava com vontade de encontrá-lo. Queria
lhe enfiar uma bala entre... entre...
— Entre os olhos?
— Não. Entre as bolas.
Os dentes de Berkeley rangeram. Seu olhar era duro e
mortal.
— Atreva-se, Roque — disse.
— E por isso que estou aqui. Você acha esta distância
boa, Berkeley?
— Perfeita. Estamos a menos de dez passos.
— Você tem um bom revólver?
— Acabei de comprar um.
— Estou vendo que é igualzinho ao meu. Você sabe que
estas balas abrem um buraco do tamanho de um punho no
corpo? Como têm a ponta achatada, não o atravessam, ficam
dentro dele e machucam mais do que um tiro de canhão.
Imagine só como você vai ficar depois que eu enfiar duas
dessas no lugar que eu quero. Vai ficar lindo.
Os dentes de Berkeley rangeram novamente.
Mas, com exceção desse ruído, produzira-se na cidade
um absoluto e mortífero silêncio. Todos se afastaram
contendo a respiração.
Naquela parte de Amarillo seria possível ouvir o balançar
do rabo de um cavalo ou o zumbido de uma mosca.
Berkeley resmungou:
— Morre, seu desgraçado.
E sacou sua arma.
Foi mais rápido.
Todos se deram conta, com grande assombro, de que
tinha sido mais veloz do que o xerife Roque. Ia matá-lo!
Berkeley convertera-se no autentico campeão da morte!
Apertou o gatilho.
2
VOCÊ SERÁ ENFORCADO EM TUCSON

De repente, naquele segundo assombroso, todos ouviram


algo ainda mais assombroso. Não foi um disparo, mas sim
um dique. O gatilho do revólver de Berkeley não havia
funcionado! Não servia para nada! Ele estava perdido!
Agora Roque estava numa situação privilegiada e dispôs-
se a disparar, com a arma apontada para a cabeça de
Berkeley.
Este resmungou novamente:
— Filho da puta!
Mas as palavras morreram na sua garganta ao perceber
que o xerife não disparava. Na última fração de segundo,
Roque deteve o movimento do seu dedo. Como se não
pudesse acreditar no que ouvira, perguntou:
— O insulto era para mim?
— Não. Para o porco do Bromfield.
— Deu-lhe uma arma imprestável?
— Ele disse que era boa.
— As armas novas às vezes não funcionam, amigo. É
preciso experimentá-las antes.
— Você pode me matar agora.
Roque sorriu inesperadamente, embora seu sorriso
continuasse com aquele ar sinistro.
— Isto foi uma espécie de aviso do destino, Berkeley —
disse. — Não matei você por uma fração de segundo, mas
estou contente com isto.
— Por quê?
— Um dia, quando eu era ajudante do xerife de Tucson,
há cerca de um ano, jurei levar você para ser enforcado lá. E
cumprirei o juramento. Uma bala é rápida demais e causa
pouco sofrimento. Uma boa corda em volta do pescoço
resulta muito mais... divertida.
Berkeley empalideceu.
— O que foi que eu fiz em Tucson, Roque?
— Você já se esqueceu?
— É impossível lembrar tudo o que a gente faz.
Roque cuspiu no chão com desprezo.
— Só por isso você já mereceria ser arrastado por um
cavalo, seu bastardo. Você violentou uma mulher chamada
Sandra.
Os lábios de Berkeley esboçaram um sorriso zombeteiro.
Aquela lembrança não parecia incomodá-lo. Pelo contrário,
parecia diverti-lo.
— Sandra não era uma mulher que valesse a pena —
disse. — Não me diverti com ela.
— É só isto que você tem a dizer?
— E o que você quer que eu diga?
— Apenas uma coisa: você se lembra de que em Tucson
o estupro é punido com a pena de morte?
— Bem... Pode ser que tenha ouvido isto alguma vez.
— Talvez você gostasse de comprovar se isso é verdade,
não, Berkeley? Seria divertido comprová-lo... com seu
pescoço. Dizem que a corda não é muito saudável, sabe?
Corta a nossa digestão.
Berkeley estava ficando cada vez mais pálido. Qualquer
pessoa poderia perceber que o xerife estava falando como
um verdadeiro carrasco. Mas aquela palidez adquiriu tons
cadavéricos quando as pessoas, que até então tinham
permanecido silenciosas, começaram a avançar pouco a
pouco, como uma maré humana.
Começaram os gritos.
— Menos gentilezas, Roque!
— Este cara é um assassino!
— Pertencia ao bando do Manfred!
— Foi condenado à morte em Laramie!
— Por que esperar até ele ser enforcado em Tucson? Será
que em Amarillo não sabemos fazer justiça?
— Enforque-o, xerife!
— Vamos linchá-lo!
— Mãos à obra!
Dezenas de mãos ergueram-se mecanicamente para
Berkeley. Todos o rodearam, como um cinturão mortal.
Algumas daquelas mãos levantaram uma corda.
— Vamos acabar com ele!
— Arrastem-no até aquela árvore!
Lá perto existia uma árvore na qual mais de um homem
havia sido enforcado. E este teria sido o fim de Berkeley se o
revólver do xerife Roque não tivesse girado repentinamente,
como uma roleta da morte. O gesto foi efetuado com tanta
rapidez que se tinha a sensação de que todo o mundo poderia
ser atravessado por uma só bala ao mesmo tempo. A
multidão deteve-se como se tivesse trombado contra uma
parede.
Roque gritou:
— Quietos! Dispararei contra qualquer pessoa que se
atrever a tocar neste homem!
— Você está louco, Roque? — gritou um dos que
estavam mais perto. — Será que você se atreveria a matar
um dos seus vizinhos?
— Não me atreveria a matar, mas juro que poderia lhe
deixar coxo.
Não estava brincando. E ser coxo no Oeste também não
era brincadeira. Era melhor morrer.
A multidão foi recuando paulatinamente. Mais do que o
revólver apontado, o que fez as pessoas retrocederem foi a
firme decisão estampada no rosto do xerife. Estava resolvido
a cumprir sua ameaça.
Um dos moradores pediu calma com um gesto.
— Escute aqui, Roque — disse, — nós não somos um
grupo de sanguinários. Queremos apenas fazer justiça.
— A Justiça será feita.
— Sim, mas em Tucson.
— E daí?
— Tucson fica muito longe daqui.
Vocês ficarão sabendo da execução. Não estou tentando
salvar este malfeitor, pelo contrário. Vocês viram que eu
queria matá-lo. Mas como Berkeley continua vivo, vou
cumprir o juramento que fiz. Quero enviá-lo à forca na
cidade onde cometeu o crime.
— Escute, Roque... Você tem sido um bom xerife. Nunca
fugiu das responsabilidades nem se acovardou jamais. Mas
não entendemos por que você quer se arriscar levando este
cara até Tucson, sabendo que pelo caminho ele pode escapar
ou seus amigos podem libertá-lo. Porque o grupo do
Manfred ainda continua agindo.
— Se este cara escapar, vocês nunca tornarão a me ver
em Amarilho — murmurou o xerife Roque.
— Por quê?
— Ou os amigos dele me matam ou eu darei um tiro na
minha boca.
Produziu-se um brusco silêncio. Parecia até que as
pessoas tinham parado de respirar.
E que todos sabiam que o xerife Roque falava sério. Não
receava enfrentar um bando inteiro para cumprir uma
promessa. Não havia dúvidas de que levaria Berkeley para
Tucson... ou morreria no caminho.
É claro que teria sido mais simples enforcá-lo ali mesmo,
muitos continuavam pensando. Porém, ninguém se atreveu a
saltar sobre o xerife e tratar de desarmá-lo para fazê-lo
mudar de opinião. Além do fato de o revólver de Roque ser
demasiadamente rápido para fazer essas brincadeiras, ele
tinha se dedicado muito à cidade, durante o ano em que
morara lá. Todos o respeitavam.
As pessoas foram se afastando. Roque guardou seu Smith
Wesson.
— Sairemos imediatamente — disse. — Escolherei para
este canalha um cavalo menos rápido do que o meu. Assim
não terá oportunidade de fugir.
Berkeley sorriu ironicamente. A partir do momento em
que percebeu que não seria linchado, parecia ter recuperado
o sangue-frio.
— Tudo bem, xerife — disse. — Você vai me dar um
cavalo menos rápido do que o seu. Só que se esqueceu de um
pequeno detalhe.
— Que detalhe?
— O meu cavalo pode ser mais lento, porém eu sou mais
rápido. O meu revólver falhou, mas continuo sendo melhor
pistoleiro do que você. Agora era para você estar morto.
Todos viram.
— E o que você quer dizer com tudo isso?
— Que não me deixe nem meio segundo com um
revólver na mão, Roque. Porque senão te mato como a um
cachorro. E não importa que você esteja armado. Como
atirador você já não vaie nada. E muito lento para mim.
Roque disse:
— Talvez.
Mas o soco que deu não foi nem um pouquinho lento.
Atingiu Berkeley no queixo e o arremessou como um saco
até o outro lado da rua.
Roque berrou:
— Você quer outro? Sei dar socos ainda mais rápidos que
esse.
Berkeley não respondeu nada.
Diacho, a primeira coisa que tinha de fazer era tentar
encontrar sua mandíbula.
3
UM BELO PAR DE PERNAS

Se Berkeley tinha algum plano de fuga, não pôde


concretizá-lo, pois os dois homens chegaram naquela mesma
noite à cidade de Cross, parte do longo caminho para
Tucson.
Cross era uma cidade bastante miserável. Consistia em
duas ruas nas quais havia um hotel, uma casa de
empréstimos, algumas moradias e um saloon.
Os mugidos do gado longhom chegavam de grandes
estábulos onde os animais descansavam.
Os dois cavalos entraram na cidade: o de Roque,
excelente, e o de Berkeley, muito ruim.
Por outro lado, seria difícil que este pudesse fugir, pois
estava com as mãos amarradas na parte dianteira da sela e,
nessas condições, teria grande dificuldade para dominar o
cavalo.
Roque, que ia à frente, virou um pouco a cabeça para
olhar seu prisioneiro.
— Acho que nós vamos passar a noite aqui — disse.
— Ah, é? Você vai me pagar um hotel e tudo? —
perguntou, ironicamente.
— Sim, mas não alimente esperanças. Você dormirá
algemado à cabeceira da cama.
— E quanto demorará em chegarmos a Tucson?
— Sete dias, talvez.
— Ah, ah... Sete dias significam sete noites. Você não vai
me vencer, Roque. Você se acha muito esperto, mas não vai
poder me vigiar sempre. Uma noite dessas, num vacilo seu, a
minha oportunidade chegará. Além do mais...
— Além do mais, o quê?
— Bem... Ah, ah... Você sabe que pertenci ao bando do
Manfred. Eles são bons amigos. Em algum lugar do caminho
estarão nos esperando e então... adeus.
Roque encolheu os ombros. Várias pessoas olhavam para
eles, mas isto não o impediu de dizer:
— Disse que levaria você para Tucson e é isto o que vou
fazer, seu miserável! Agora vou, beber algo.
— E eu?
— Agüente aí.
Amarrou o cavalo do prisioneiro na frente do saloon.
Berkeley não podia desmontar porque suas mãos
continuavam atadas na sela e por isso também não podia
desamarrar o cavalo. Mesmo que alguém o ajudasse, coisa
muito difícil de acontecer, não chegaria longe.
Roque pareceu despreocupar-se com ele.
Entrou no saloon.
Logo percebeu que aquilo era mais do que uma casa de
bebidas. Também era uma casa de mulheres. A abundância
de criadores de gado que estava de passagem pela cidade
sem dúvida propiciava grandes negócios de cama. Por isso
havia numerosas garotas por lá, à espera de uma
oportunidade. Uma delas despertou a atenção de Roque.
Era muito mais jovem do que as outras. Até mesmo
poderia se dizer que ela era ainda menina. Como chegara até
aquele antro, Roque não sabia, mas o fato é que ela estava lá,
olhando para ele. Seus olhos profundamente rasgados,
brilhantes, inquietos, eram um chamado e uma provocação.
Roque nunca tinha sentido algo tão direto, como se aquele
olhar penetrasse na sua pele.
No entanto, decidiu não lhe dar importância. Apanhou
uma garrafa de whisky que estava sobre o balcão e serviu-se.
Sentiu então, ao seu lado, o perfume da pele da moça.
Parecia um milagre, mas a pele daquela garota dedicada
ao ofício mais triste do mundo tinha um perfume natural,
como o de uma virgem pronta para o amor.
— Olá, xerife — ela murmurou.
— Olá, menina.
— Você está trabalhando ou procura divertimento?
— Há muito tempo não me divirto — respondeu Roque.
— Melhor... Então agora você tem uma oportunidade
para isso.
— Como é seu nome?
— Ingrid.
Roque sorriu.
— Pois sinto muito, Ingrid — disse, — mas estou com
um cara aí fora. É um passarinho que eu tenho de levar para
uma gaiola em Tucson. E não posso deixá-lo solto enquanto
nós nos divertimos. Talvez alguma outra noite quando eu
voltar, tudo bem?
Ela também sorriu.
Um sorriso perturbador, que nos seus lábios resultava
maravilhosamente jovem, aflorou em sua boca.
— E nem sequer vai me pagar uma bebida? — perguntou.
— Claro que sim. Eu mesmo a servirei.
Roque regressou com a garrafa em uma das mãos,.
enquanto com a outra tentava apanhar um copo limpo. Um
reflexo do aço naquele copo foi o que o fez reagir.
Tudo foi muito rápido.
A moça retirara o punhal de uma prega da saia, mas a
arma parecia ter nascido da sua mão direita. Com um único
movimento seco, dirigiu-a ao coração do xerife.
Roque movimentou a garrafa. A superfície curva e
escorregadia da mesma fez a lâmina de aço deslizar,
evitando que penetrasse no seu coração. Apenas o raspou,
enquanto os homens e mulheres que estavam por perto, tão
surpreendidos quanto ele, lançavam um grito surdo.
As coisas tinham sido tão rápidas como um raio. Ela
emitiu uma espécie de gemido ao perceber que havia
falhado. Ainda não compreendia como. Lançou o braço para
trás e desferiu um novo golpe com todas as suas forças.
Mas não chegou a tempo. Roque já tinha conseguido
reagir. A própria garrafa serviu para dar uma pancada no
pulso da moça, que lançou um grito de dor com a sensação
de que seu braço quebrara. A faca caiu no chão.
Roque segurou a garota pela bela cabeleira loira, evitando
sua fuga.
E disse em voz áspera:
— Quieta aí, sua puta.
As pessoas se mantinham num silencio sinistro fazendo o
gemido desesperado da moça ser ouvido em todo o saloon.
Sem soltar, Roque foi apertando aquele frágil corpo
feminino contra o balcão fazendo-o contrair-se em dores.
— Por que você queria soltar Berkeley, sua maldita? —
gritou o xerife. — Por quê?
Houve outro momento de dramático silêncio.
E, finalmente, a boca de Ingrid entreabriu-se
dolorosamente para dizer:
— Porque ele é meu irmão...

4
SANGUE NAS PAREDES

Roque soltou-a. Sua mão, que parecia de aço, ficou por


um momento suspensa no ar.
Como se não pudesse acreditar, perguntou:
— Como é seu nome?
— Ingrid Berkeley....
— Diacho!
— Por que achou que eu tinha lhe abordado? —
perguntou ela agressivamente, desistindo de fugir. —
Acredita realmente que eu queria ir para a cama com você?
— Na verdade eu não podia entender por que você estava
aqui — disse Roque em voz baixa. — Você não parece puta.
— E não sou.
— O que está fazendo aqui, então?
— Quando me disseram que você estava levando meu
irmão para Tucson, pensei que era muito provável que
parassem neste lugar. Decidi arriscar e vim rapidamente para
cá. Uma das moças me emprestou uma roupa. A única coisa
que eu queria era... era...
— Matar-me?
— Não, não pretendia isto. Mas, para libertar meu irmão,
seria obrigada a fazê-lo.
O xerife de Amarillo passou o dorso da mão pela boca.
— Quer dizer que você está tentando evitar que eu
enforque seu irmãozinho... — sussurrou.
— É a coisa que mais desejo no mundo.
— Pois sinto muito, menina, mas isto não é possível. Seu
irmão será enforcado em Tucson.
— Mas... por quê?
— Por ser ladrão, assassino, estuprador e um filho da
puta.
Ela lançou um grito e com suas longas unhas tentou
desesperadamente arranhar o rosto do xerife.
Mas este não lhe deu a menor importância. Com a mão
direita segurou o rosto da moça e a empurrou para frente.
Ingrid Berkeley pareceu voar pelos ares. Gritou novamente
quando seu corpo bateu na parede.
Certamente não morreria daquela queda, mas tinha sido
um golpe forte. A garota de pernas apetitosas caiu no chão,
mostrando quase tudo. Roque estalou os dedos.
— Beba alguma coisa a minha saúde, gostosa — disse,
enquanto se dirigia para a porta. — Já está pago.
Mas, naquele momento, uma voz grave de um
desconhecido perguntou:
— Quer dizer que você é Ingrid Berkeley, não é?
Ainda caída no chão, ela contemplou aquela espécie de
gigante de olhos brilhantes que a estava interrogando.
— Sim, e daí? — perguntou.
— Gosto de você, garota.
— Que ótimo, senhor.
— Agora mesmo você vai para um quarto comigo. Vou
lhe jogar na cama e vou rasgar você pela metade com esta
espada que eu tenho no meio das pernas.
O homem que tinha acabado de falar parecia estar muito
confiante. Mas a garota olhou-o com desprezo.
— Acho que todos escutaram o que eu disse. Não sou
uma dessas.
— Para mim, é como se fosse.
— Por que?
— Porque você está aqui.
— Eu vim aqui para salvar meu irmão.
— Não me venha com desculpas. Você é tão puta quanto
as outras. Vamos! Se levante! Mostre o que você sabe fazer!
E, para que ela se levantasse do chão, lhe deu um pontapé
que a fez gritar de dor. Depois, segurou-a pelos cabelos para
erguê-la.
Curiosamente, ninguém se dispôs a ajudar Ingrid
Berkeley. Todos permaneceram quietos nos seus lugares,
presenciando aquela odiosa cena.
Mas, de repente, perto da porta, ouviu-se a voz de Roque
que calmamente acendia um cigarro.
— É verdade que você está querendo ir para a cama?
— Sim, por que?
— Não quer ir comigo?
O homenzarrão gritou fora de si:
— Maricas!
— Caramba, mas não era para fazer nada de ruim. Era só
para você me contar sua vida, que deve ser muito engraçada.
Os dentes do gigante rangeram.
E uma voz advertiu:
— Cuidado, Roque.
— Por que?
— Você não conhece esse homem.
— Por isso quero ir para a cama com ele. Só para
conhecer.
— Menos piadas, xerife — disse outro. — O senhor não
sabe com quem está se metendo. Este homem é Vickers, o
esfaqueador mais cruel que existe daqui até Nevada.
— E daí?
— Nada... Só que estão rifando uma cova, e parece que o
número premiado está em seu poder.
Para demonstrar que aquilo era verdade, Vickers mostrou
os dentes em um sorriso sinistro. E com um movimento
rápido tirou a faca que estava presa no seu cinto.
Era uma peça incrível. A lâmina de aço media quase dois
palmos. E brilhava como se tivessem acabado de afiá-la com
um esqueleto humano.
Grunhiu:
— Venha cá, homem da Lei. Deixe-me fazer sua barba.
Roque passou a mão pelo rosto.
— Depois você me faz uma massagem?
Vickers começava a descontrolar-se.
Falou entre os dentes:
— Vou fazer é uma massagem nos seus bagos!
— Não sei se você vai poder encontrá-los, macho.
— Por que não?
— Porque eles estão aqui.
E apontou sua garganta.
Vickers não agüentava mais.
Lançou-se como uma bala, fazendo no ar, com a ponta da
sua faca, um alucinante ziguezague.
Isto era o que o xerife Roque queria: deixá-lo nervoso.
Um esfaqueador que atacasse friamente oferecia muito mais
perigo. Além disso, pôde apreciar sua técnica. Percebeu que
Vickers segurava a faca com a mão esquerda, mas não era
canhoto. Fazia aquilo para desorientá-lo. Na última fração de
segundo, mudaria a faca de mão.
Dito e feito. A habilidade de Vickers era assombrosa,
bem como sua rapidez. Se Roque imaginasse que o ataque
viria pela esquerda, como parecia lógico, seria atingido pela
faca. Mas, em vez disso, conseguiu se esquivar do golpe bem
no instante em que seu inimigo trocava a arma de mão.
A lâmina de aço rasgou o ar.
Vickers lançou um rugido.
Não estava entendendo nada.
E Roque, que nem sequer tinha soltado o cigarro, arrojou-
o contra o rosto de Vickers que, ao ter seu olho atingido pela
brasa, gritou de dor.
Roque não perdeu tempo. Levantou a perna direita e com
força brutal desferiu-lhe um pontapé no estômago. Vickers
encolheu-se, porém não soltou a faca. Sua boca cobriu-se de
uma espuma branca.
Roque atacou então com a perna esquerda.
Desta vez, acertou-o em cheio no baixo ventre.
O grito de Vickers deve ter sido ouvido do outro lado da
cidade.
Seus olhos quase saíram das órbitas.
Suas mãos tremiam.
Tanto que não pôde impedir que os dedos de ferro de
Roque apertassem sua mão direita e a torcessem com a força
de uma máquina implacável. Com os olhos revirados,
Vickers viu que a lâmina de aço girava para sua direção.
E não pôde fazer nada.
Apenas gritou:
— NAAAAAAAO
A enorme faca cravou-se no seu ventre, O sangue
esguichou até o balcão e respingou na parede. O xerife
arrancou a faca e enfiou-a novamente, desta vez, no
estômago. Vickers caiu com a lâmina ainda metida em suas
entranhas.
Roque disse tranqüilamente:
— Bem... Ele fez tudo sozinho, até mesmo enfiar-se a
própria faca. Bom rapaz.
E acendeu outro cigarro.
O silêncio dentro do saloon era sepulcral.
Todos olhavam para Roque com olhos amedrontados,
principalmente Ingrid Berkeley.
Ela murmurou:
— Mas você e um... um...
— Alguns dizem que sou um matador de homens —
suspirou Roque. — O que eu posso fazer?
— Por que você me salvou?
— Digamos que é porque te acho muito simpática.
— Mesmo que tenha tentado matá-lo?
— Tentam matar-me várias vezes por semana — disse
Roque, encolhendo os ombros. — Já não dou bola para isso.
E saiu. Pôde ver que Berkeley o esperava pacientemente,
pois não havia outro remédio, sobre a sela do cavalo.
Berkeley perguntou:
— Parece que houve confusão aí dentro, não é?
— Muita.
— E quem você atacou?
— Uma pessoa que não me deixava fumar tranqüilo.
— Sem dúvida você acabou com ele.
— Adivinhou.
— E, então, xerife? Nós vamos dormir nesta cidade?
— Não.
— Por quê?
— Porque a tua irmãzinha Ingrid está aqui — disse
Roque. — E ela não está querendo que você viaje comigo. E
como não quero problemas...
Berkeley tentou saltar da sela, porém desistiu por causa
das cordas.
— Merda — gritou. — Minha irmã está aqui? Você é um
filho da puta, Roque! Pelo menos me deixe vê-la!
— Não, cara.
— Por que não?
— Mais tarde poderão se ver. Eu a convidarei para o seu
enterro.
E saltou em cima do cavalo, puxando o de Berkeley, que
nesse instante lançou um grito que deve ter sido ouvido por
toda a cidade.
— Filho da puta!
Roque estalou dois dedos enquanto falava baixinho:
— Mas o que é que há, cara? Não se canse... Senão vai
ficar sem voz para se despedir quando estiver na forca...

5
UM CONDADO E UMA JUÍZA

Roque sabia que, por volta da meia-noite, podiam chegar


ao povoado de Luchino Valley, onde encontrariam um
quarto para dormir. E sabia que lá ele já não teria nenhuma
autoridade sobre ninguém, porque estavam no condado
vizinho. Provisoriamente Luchino Valley era a capital desse
condado.
É claro que isto não tinha muita importância para ele.
Atravessaria muitos condados até chegar a Tucson, por
isso era bom se acostumar.
Efetivamente, encontraram um quarto, puderam deixar os
cavalos descansando e foram dormir. Roque pediu ajuda ao
dono do hotel para algemar Berkeley à cama.
No dia seguinte tomaram juntos o café da manhã. Não
podia levar seu prisioneiro até Tucson sem alimentá-lo.
Estavam terminando quando entrou na hospedaria um
homem com um distintivo no peito que olhou receosamente
em volta e depois se dirigiu a eles.
— Olá, xerife — disse, cumprimentando Roque. — Sou o
xerife Jackson.
— Obrigado, amigo mas, se veio me oferecer ajuda, não é
preciso. Até agora o prisioneiro tem se comportado bem.
— Maldito — resmungou Berkeley. — Claro que tenho
de me comportar bem. Este cretino não me deixa nem comer
com as duas mãos. Uma delas está algemada à mesa.
— Sinto muito, mas não venho oferecer-lhe ajuda —
disse Jackson. — Estou trazendo uma ordem do juiz.
— Que juiz?
— O do condado, naturalmente.
— E o que ele quer?
— Vê-lo. Deseja que o senhor vá ao escritório dele, para
uma simples formalidade. Enquanto isso, tomarei conta do
prisioneiro.
— Pode fazer isto, Jackson, mas a responsabilidade será
sua.
— Não se preocupe. Pode soltá-lo que eu cuidarei dele.
Dirigindo-se a Berkeley, acrescentou:
— Venha cá, imbecil.
Logo que os dois homens se afastaram, Roque dirigiu-se
ao escritório do juiz. Não era difícil encontrá-lo porque
estava instalado em um edifício com uma placa e com a
bandeira norte-americana. Seguindo um velho costume,
Roque ignorou o segurança que vigiava o vestíbulo e entrou
no escritório do juiz sem bater à porta.
Teve uma bela surpresa.
Esperava encontrar um homem de barba, e encontrou
uma mulher com belos cabelos encaracolados.
Esperava encontrar um velho barrigudo, e deparou-se
com um par de peitos que quase chegava no outro lado do
escritório.
Linda mulher.
— Que deseja? — ela perguntou.
— Quero falar com o juiz do condado.
— O juiz do condado sou eu.
Roque franziu a testa. Pôde dizer apenas:
— Que saco!
— O senhor não é lá muito bem-educado.
— Pelo contrário, sou até demais.
— É mesmo?
— Sim, porque se dissesse tudo o que estou pensando, a
senhora nem acreditaria.
— Então diga o que pensa.
— Gostosona!
A mulher arqueou as sobrancelhas.
— Como se atreve! Eu posso mandar prendê-lo por
desacato!
— Pode, mas foi a senhora quem mandou dizer o que eu
estava pensando.
— Mais respeito comigo — disse em tom sério. — Sou o
juiz deste condado. E pelo visto o senhor é o xerife de
Amarillo que está transportando um prisioneiro chamado
Berkeley.
— Está muito bem informada...
— É natural. Parece que você causou confusão antes de
chegar a esta cidade. Houve um esfaqueamento numa
taberna.
— Mais ou menos isso.
— Que tipo de pessoa é o senhor?
— Um cara que será enforcado qualquer dia destes.
— E mesmo? E qual será seu último desejo?
— Que, quando o alçapão da forca abrir, eu caia dentro
de um barril de whisky.
— É bom saber disso. Sente-se, por favor. Roque
acomodou-se na cadeira e ficou muito satisfeito porque tinha
uma visão mais direta das tetas da muito respeitável senhora
juíza.
E a muito respeitável senhora juíza disse:
— O senhor e eu temos de ter uma conversinha, xerife.
— Já estamos conversando.
— O senhor tem de me entregar Berkeley.
— Por que?
— Ele também foi condenado à morte neste condado.
Cometeu um assassinato e foi julgado à revelia.
— E daí?
— Tem de ser enforcado.
— E por que tem de ser aqui?
— Porque é o primeiro condado pelo qual passa, e
portanto a sentença deve ser cumprida.
— Olhe, minha cara, a sentença também poderia ter sido
cumprida em Amarillo, quando eu o prendi. Posso até lhe
dizer que tentaram linchá-lo, porém eu evitei isso. Não
permitirei que o enforquem nesta maldita cidade chamada
Luchino Valley. Vou enforcá-lo em Tucson.
— Por quê?
— Porque em Tucson ele fez uma coisa que eu acho
particularmente odiosa. E como penso que a sentença deve
ser cumprida no lugar onde se cometeu o pior delito, tenho
de levá-lo para lá.
A juíza levantou-se e deu uma volta em torno da mesa.
Era ainda mais bela de pé do que sentada. Porque de pé não
só aparecia o suculento par de seios que podiam carregar
todos os livros sobre leis entre eles, como se podia notar um
sensacional e voluptuoso traseiro.
Ela pareceu dar-se conta do brilho de admiração que
havia nos olhos de Roque, porque perguntou:
— O que é que há?
— Nada... E que nunca tinha visto um juiz assim.
— Eu também nunca tinha visto um xerife como o
senhor. Não compreendo sua atitude, Roque, porque o que
estou lhe oferecendo é terminar bem seu trabalho, cumprir
uma sentença e se livrar desse maldito prisioneiro.
— Não farei isto, juíza... Desculpe, ainda não sei como se
chama.
— Magda.
— Está bem, Magda. Já lhe disse que não o farei e
expliquei meus motivos. Este assassino será enforcado em
Tucson.
— Isto é o que o senhor acha. Sabe que tenho autoridade
para fazer cumprir a Lei no meu próprio território?
— Experimente.
Roque não sacou o revólver, porém pousou suavemente
dois dedos sobre ele. Magda compreendeu perfeitamente que
aquele assunto só poderia ser resolvido à bala. E recuou.
— Não tenho forças policiais suficientes nesta cidade —
disse, — porque Luchino Valley é uma espécie de capital
provisória do condado. Mas ficou claro que o senhor está se
opondo as minhas ordens.
— É verdade. E eu sinto muito.
— Sentirá ainda mais quando eu mandar prender você. E
não pense que isto não acontecerá só porque agora não tenho
condições de cumprir o que estou dizendo. Mas não faltará
oportunidade. Se for preciso, posso mandar segui-lo até
Tucson.
— A senhora tem muita personalidade, juíza.
— Sim.
— E muito de tudo.
— O que quer dizer com isto?
— Nada... Nada...
— Estou lhe dando uma chance, Roque. Lamentará muito
por não aceitar.
— Tudo bem... Já lhe disse por que quero enforcar
Berkeley em Tucson. Mas, e a senhora? Por que se preocupa
tanto com o caso, juíza?
— Já lhe disse. Tenho de cumprir com o meu dever.
Existe uma sentença emitida no meu território e penso fazê-
la cumprir.
Roque também se levantou. Estava gostando de admirar
aquela mulher, mas a conversa já não tinha muito sentido.
Ele não cederia. Portanto, sorriu e disse em voz baixa:
— Minhas saudações, juíza.
— Já vai?
— Tenho de me apressar. Tucson fica longe.
— Juro que vai se arrepender por isto, Roque.
— Eu também gostaria de lhe jurar um par de coisas.
— Quais?
— Bem... É melhor não dizer nada.
Como se ela tivesse adivinhado o que se passava pela
cabeça de Roque, disse:
— Porco.
— Obrigado, dona Magda.
— Eu o chamo de porco e ainda me agradece?
— Sim. Porque depois de tudo o que pensei, poderia ter
me chamado de coisas muito piores.
Cumprimentou-a e saiu.
Ela ainda gritou através da porta:
— Desgraçado!
Roque enfiou o chapéu na cabeça enquanto fazia um
gesto de resignação. Depois, murmurou:
— Só agora a gostosona começou a reagir.

6
A MORTE NO AR

Roque dirigiu-se imediatamente para a cadeia do


condado, que ficava perto do escritório do juiz. Tinha de tirar
Berkeley de lá para continuarem viagem até Tucson.
Encontrou o xerife meio adormecido em uma cadeira.
Roque acordou-o puxando um pouco do tabaco que aparecia
em um dos bolsos da sua camisa. O outro deu um pulo.
— Prefiro perder a minha mulher que o meu tabaco!
— Só queria te acordar, amigo.
Jackson resmungou:
— Justamente agora... Estava sonhando com uma mulher
cheia de curvas.
— Pois sonhe menos e solte Berkeley.
— Tem autorização do juiz?
— Pode enfiar a autorização da senhorita juiz naquele
lugar.
— Não chegaram a um acordo?
— Não. Nem eu quis lhe entregar meu prisioneiro nem
ela quis ir para a cama comigo.
— Tudo bem... Não me importa que leve esse cara
embora daqui.
Os dois dirigiram-se até a cela, que ficava no final de um
corredor. Todas as outras jaulas estavam desocupadas.
Berkeley estava em uma cama beliche, sob a janela.
Roque olhou para ele.
O que se seguiu foi instantâneo.
Aconteceu em décimos de segundo.
Roque sacou o revólver com um movimento fulgurante.
E apertou o gatilho.
***
Berkeley deu um salto e todo seu corpo pulou por cima
da cama, dando uma espécie de volta no ar. Mas isto não foi
nada em comparação com o que a cobra fez. Porque a
serpente, que deslizava desde as grades da janela até a
cabeça do prisioneiro que dormia, ficou praticamente partida
ao meio pela potente bala, e as duas metades contorceram-se
no ar antes de cair no chão como duas migalhas.
Berkeley balbuciou:
— Mas... o que aconteceu?
— Nada — disse Roque do outro lado da porta de grades.
— Você não deveria ter dormido, sabe? Um pouco mais e
você acordaria no outro mundo.
— Meu Deus... E... é uma cascavel...
— E bem abastecida. Tinha pelo menos um litro de
veneno nas glândulas.
— De onde é que ela saiu?
— Deve ter entrado pela janela — disse com voz
vacilante o xerife Jackson. — Bem, certamente entrou por
lá... Todos vimos...
— Claro que vimos — sussurrou Roque. Mas eu quero
dizer uma coisa: deve haver centenas de serpentes iguais a
esta fora da cidade, mas é impossível que elas circulem
livremente aqui dentro. Estes bichos assustam-se facilmente.
Escondem-se na areia e só atacam quando alguém invade seu
território, ou seja, quando está a uma distância muito
próxima. Não andam por aí, pelas ruas, entre as patas dos
cavalos, nem entram nos saloons para ver se alguém lhes
paga uma bebida.
— O que quer dizer, Roque?
— Que alguém a transportou até aqui. E enfiou o bicho
pela janela. Berkeley teria morrido sem perceber o que
estava ocorrendo.
Berkeley estremeceu.
Estava tão pálido que parecia ter morrido de verdade.
— Você está insinuando que tentaram me matar? —
perguntou.
— O que é que você acha?
— Também... Uma mordida de cobra aqui ou uma corda
em Tucson dá quase no mesmo. Mas, se tenho de morrer,
quanto mais tarde, melhor.
— Pois você se livrou por pouco, Berkeley.
— E... escuta, Roque.
— Estou ouvindo.
— Quero que você me proteja. Enquanto for seu
prisioneiro, tenho direito à vida.
— Mas você só continua vivo porque eu o protejo.
— E tem outra coisa... Apesar de estar com medo de que
isto se repita, quero que você me defenda não só porque é
seu dever, mas porque posso lhe ser útil.
Roque observou-o ceticamente.
— Útil em quê? — perguntou.
— Você sabe que pertenci ao bando do Manfred. Á
margem desse assunto que tenho em Tucson por causa
daquela moça chamada Sandra, e que na sua opinião vai me
levar à forca, assaltei algumas diligências com esse grupo de
bandidos.
— Já sei.
— Então, xerife, é melhor falar claramente. Vamos fazer
um acordo?
— Que acordo?
— Posso ajudá-lo a capturar Manfred. Conheço todos os
seus esconderijos. Com minha ajuda, este cara pode cair nas
suas mãos.
Roque procurou demonstrar pouco interesse sobre o
assunto.
— De qualquer forma ele cairá — disse.
— Você é que pensa. Mas quero lhe contar algo mais.
— Mais?
— Sim. Manfred não é, na verdade, o chefão. Existe uma
outra pessoa que é quem realmente dirige o bando. Se este
chefe não cair, mesmo que Manfred morra o bando
continuará.
Roque ergueu uma sobrancelha.
— Sempre suspeitei disso. Mas não estou entendendo
aonde você quer chegar.
— Eu conheço o verdadeiro chefe.
Roque avançou pouco a pouco, demonstrando agora um
interesse maior. Apoiou-se na grade, sem abrir a porta.
— Então me diga quem é ele — sussurrou.
— Escute aqui, Roque, você acha que sou idiota?
— Por quê?
— Porque eu falei em um acordo.
— Não posso fazer acordos, Berkeley.
— Mas será um bom negócio para você. Capturando
Manfred e seu chefe secreto não estaria apenas servindo à
Lei. Você se converteria também no xerife mais famoso do
Oeste. Não acha que a proposta é interessante?
— Todos desejam subir de posto em seu trabalho —
reconheceu Roque. — Mas não posso desrespeitar a Lei.
— Ninguém está dizendo que você deve fazer isto. Sei
que você pode me enforcar por causa do que fiz com Sandra.
Peço apenas que fale com o xerife de Tucson e que ele seja
uma espécie de árbitro.
— Arbitro para quê?
Talvez eu seja mais útil vivo do que morto. Posso contar
tudo que sei desde que a minha sentença de morte seja
anulada. Quero que uma pessoa relativamente neutra, como
o xerife de Tucson, decida o que é conveniente fazer. Não
vejo nada errado no fato de um xerife consultar outro.
Roque pensou durante um longo minuto. Finalmente
encolheu os ombros e disse em voz baixa:
— Você tem razão. Não tenho nada contra consultar um
outro xerife.
— E então...?
— É possível que você esteja me oferecendo uma solução
até que razoável. Não sei... Mas uma coisa eu lhe garanto:
que chegará vivo a Tucson. Quando estivermos lá,
examinaremos novamente a questão.
— Isto é ter bom senso, Roque.
— Costumo ter bom senso com os homens. Com as
mulheres, nunca.
— Que é que você vai fazer agora?
— Continuar viagem com você. E, pelo caminho,
convidá-lo para comer.
— Comer o quê?
Roque apontou para os restos do bicho no chão da cela e
perguntou.
— O que é que você acha de uma sopa de cobra?
7
BRILHA, NAVALHA, BRILHA

A cidade se chamava Dry River, talvez porque por ela


passava um riacho quase sempre seco. Não obstante, nunca
faltava água, porque havia numerosos poços que perfuravam
a grande bacia existente por baixo do rio. Por esta razão,
tratava-se de uma cidade grande e relativamente próspera
para aquela região.
Os dois homens chegaram por volta do meio-dia. O
corcel puro-sangue montado por Roque estava bastante
descansado, porém o cavalo magro no qual ia o seu
prisioneiro parecia arrastar-se.
Roque disse:
— Acho que será melhor passarmos a noite aqui. Não sei
como você está, mas seu cavalo está uma merda.
— Será melhor enforcá-lo junto comigo — disse
Berkeley. — Está tão arrasado que nem vai se importar de
ficar pendurado.
— Então vamos lá.
Dirigiram-se ao único hotel que havia. Era um lugar
decente e bastante limpo, onde não se via nenhum babado
nas janelas e nenhum morto tomando ar fresco na porta.
O dono disse:
— Boa noite, xerife Roque.
— O senhor me conhece?
— Claro. Há dois anos o senhor matou um foragido aqui;
um cara chamado Kurt.
— Tem razão. Já tinha me esquecido. E isto porque eu
roubei uma garrafa de whisky do morto.
— E há uma outra coisa mais. Está sendo esperado no
quarto número 12. Parece que alguém tinha certeza de que o
senhor passaria por aqui.
— É mesmo? E quem está me esperando?
— Uma mulher.
— Deve ser alguma velha à qual estou devendo dinheiro
— resmungou Roque. — Só pode ser isso.
— Não, xerife, nada disso. É uma mulher cheia de
curvas. Na frente é como um vagão de trem e atrás como
uma locomotiva. Tive que controlar minhas mãos.
— Puxa... E o que ela quer?
— Não sei. Talvez ver você!
Roque fez uma careta. Para ele era evidente que só uma
mulher poderia estar lá, esperando-o: a juíza de Luchino
Valley. A única pessoa que sabia por onde eles tinham de
passar. E como ainda estavam no seu território, certamente
queria acabar de convencer Roque a entregar-lhe seu
prisioneiro. Talvez também quisesse dizer que o mandaria
para a cadeia se não obedecesse. As mulheres são capazes de
tudo.
Fez um gesto de resignação.
— Vou vê-la — disse.
— Vai passar a mão nela? — perguntou, muito
entusiasmado, o dono do hotel.
— Não sei. Por que?
— Para que eu possa olhar pelo buraco da fechadura.
— Vá plantar batatas, seu hoteleiro tarado!
— Ora, não fique assim. A gente tem de ter alguma
distração na vida.
— Pois, então vá se distrair vigiando o preso. Vou deixá-
lo algemado a esta argola aí.
E assim foi feito. Berkeley resignou-se, porque a única
coisa que lhe interessava naquele momento era chegar vivo a
Tucson. Com um gesto de tédio, Roque subiu até o quarto
12, enquanto pensava que não havia nada pior do que
encontrar uma mulher insistente, porém sensacional, e não
poder lhe dar o que merece por ser ela uma juíza. E
impressionante tudo o que um homem honrado tem de
agüentar.
Bateu à porta.
— Entre — disse uma voz em tom sensual.
Roque empurrou a porta.
E viu a cama.
Quase desmaiou.
Estava praticamente nua.
Era possível esquecer o mundo inteiro quando se via uma
mulher assim.
Mas não era a juíza.
Era uma desconhecida.
E também não foi a juíza quem levantou a navalha por
trás de Roque e avançou em direção ao seu pescoço. Uma
lâmina de aço que brilhava no ar como o raio.
***
Roque só pôde livrar-se da morte devido ao brilho da
lâmina. Do outro lado do quarto havia um candelabro de
bronze, e sua superfície brilhante refletiu o impacto da luz.
Um homem menos rápido nem o teria percebido. Porém,
para Roque, aquilo era como um aviso dos céus.
Virou-se como um raio.
Nunca se movimentara com tamanha rapidez. A sensação
da morte subiu até sua boca.
A navalha raspou-lhe o pescoço, embora sem chegar a
feri-lo. Às suas costas ouviu uma espécie de gemido.
Roque bateu contra a parede.
Tudo sucedera com a rapidez de um sonho.
Virou a cabeça e viu então a mulher que o estava
esperando atrás da porta. Ela tinha acabado de errar o
primeiro golpe, porém já estava pronta a atacá-lo novamente
com a navalha.
Roque balbuciou com assombro:
— Ingrid...
8
O TÚMULO ESTÁ PRONTO

Sim, era Ingrid Berkeley, a irmã do pistoleiro, a mulher


que estivera esperando lá. Toda a encenação do encontro no
quarto e da mulher na cama não passara de uma armadilha.
Roque falou:
— Quer dizer que queria me distrair com esta puta
quando entrasse no quarto, e então você me dava a passagem
para o além com todas as despesas pagas, não é?
— Isto era... o que eu pensava fazer, maldito.
— Quem é essa fulana que está na cama? Uma colega do
saloon?
— Eu paguei para ela ficar aí.
— E ela não se importa de participar de um assassinato?
— Não era um assassinato. Era um ato de Justiça.
Roque estava perdendo a paciência. Ingrid Berkeley já
tinha ultrapassado todos os limites. Perdeu o controle e,
quando se ouviu o ruído da bofetada no quarto, foi como se
algo tivesse acabado de explodir na própria cabeça do xerife.
Mas o que parecia ter acabado de explodir era a cabeça de
Ingrid. O impacto da mão de Roque foi tão forte que a moça
foi jogada contra a parede.
De lá ela olhou para o xerife com os olhos repletos de
ódio.
— Solte o meu irmão — implorou.
— O seu irmão é um estuprador assassino.
— Tem o direito de se defender — disse Ingrid.
— Isso se verá quando chegarmos a Tucson.
— Logo que chegarem a Tucson, você o mandará para a
forca.
— O que é lógico. Por isso o estou levando.
— Desgraçado...
Naquele momento Ingrid perdeu completamente o
controle. Jogou-se sobre o xerife como uma fera. Suas mãos
jovens e fortes arranharam-lhe o rosto com fúria incontida.
O ódio da garota era indescritível.
E como batia!
Roque teve de segurar as mãos dela, porque senão ela o
teria jogado no chão. Fez isto com tanta violência, que quase
a levantou. A garota, impossibilitada de atacá-lo, fitou-o com
um olhar furioso enquanto seus lábios repetiam:
— Maldito...
Mas aqueles lábios estavam muito próximos. Próximos
demais. Seu hálito queimava e o resto do seu corpo também.
Roque também disse:
— Maldita...
No entanto, o tom com que pronunciou esta palavra foi
muito diferente do dela. De repente percebeu que seus braços
movimentavam-se instintivamente, e que sua boca tornara-se
seca. E que uma espécie de infinita loucura apoderava-se
dele.
Era como uma alucinação.
Atraiu Ingrid para si.
E a beijou na boca.
No pescoço.
Nas orelhas.
Quase mordeu seus ombros.
Era o desejo que o convertia em outro homem. Era como
se tivesse esquecido tudo. Ninguém teria sido capaz de
descrever o que poderia acontecer ali, naquele exato instante
se, de repente, a voz da mulher que estava na cama não
interrompesse.
— Escutem, se quiserem eu também posso participar.
Íamos nos divertir mais. Se preferirem ficar a sós, eu vou
embora.
Roque retornou à realidade. Suas mãos abriram-se e ele
soltou Ingrid Berkeley. Com um gesto que parecia um
pedido de desculpas, murmurou:
— Sinto muito, Ingrid.
— O que é que você sente?
— Ter me comportado dessa maneira. Eu sei que você
quer salvar seu irmão. Mas perceba que estou apenas
cumprindo com o meu dever.
— Mandar homens para a forca é cumprir com o seu
dever?
— Isto é parte do meu ofício. Mas quem sabe seu irmão,
afinal de contas, possa se salvar em Tucson. Temos um
acordo, só que não sei se vai dar certo.
— Que acordo?
— Parece que ele conhece a verdadeira identidade do
chefe do bando do qual fez parte, o bando do Manfred.
— E daí?
— Ele prometeu me revelar o nome. E então o xerife de
Tucson decidirá se ele deve ser enforcado ou não.
As palavras de Roque não conseguiram tranqüilizar
Ingrid, mas ela finalmente balbuciou:
— Ele vai lhe dizer esse nome?
— Sim.
— Espero que o faça. Mas escute bem uma coisa, maldito
xerife: aconteça o que acontecer, não permitirei que você o
enforque. O que sucedeu hoje tornará a ocorrer antes que
vocês ponham os pés no Arizona.
— O que sucedeu... Você está se referindo ao ataque com
a navalha ou aos beijos?
Ela retrucou:
— Ainda matarei você, Roque.
Saiu batendo a porta.
Então, a mulher que permanecia na cama levantou-se e
disse:
— Finalmente a sos...
— Escute aqui... Tenho um prisioneiro lá embaixo!
— E daí?
— É que ele passou o dia sem comer...
Muito carinhosamente, a mulher encostou-se em Roque e
apertou seu corpo contra o dele, enquanto sussurrava:
— Ele que se estrepe.
As mulheres, quando resolvem ficar meigas e doces, são
umas maravilhas.
9
CHUMBO ARDENDO

A coisa começou em um lugar chamado Laramie Bulls.


Era um prado rodeado de colinas onde sempre havia gado
pastando com toda tranqüilidade; naquela manhã, porém,
não se via nenhum animal. Tudo estava tão calmo e solitário
como o último paraíso.
Dava prazer ver aquilo.
Mas, no entanto, Roque gritou:
— Cuidado!
Seus movimentos foram brutais e instantâneos. Tinham
acabado de entrar no vale quando repentinamente saltou da
sela do seu cavalo e lançou-se como uma catapulta em cima
de Berkeley. Os dois rolaram pelo solo, enquanto os cavalos
empinaram-se furiosamente.
Neste instante os tiros começaram. Felizmente Roque
tinha percebido tudo a tempo e saltado em frações de
segundo, porque do contrário teria sido liquidado.
Começaram a disparar desde as colinas e as balas passavam
de raspão pelas selas dos cavalos.
Um atraso nos movimentos do xerife e todas aquelas
balas teriam partido seu corpo pela metade. E também teriam
liquidado seu prisioneiro, porque o chumbo que raspou na
crina do seu cavalo arrancou-lhe uma orelha. Embora não
tivesse sido mortalmente ferido, o animal lançou um terrível
relincho de dor.
Roque berrou:
— Fique grudado às rochas!
Havia diversas rochas ao fundo. Berkeley escondeu-se
entre elas com grande dificuldade, porque a corda com que
estava amarrado o impedia de afastar-se do seu cavalo. Este
poderia arrastá-lo a qualquer momento.
Roque praguejou.
Um tiro certeiro dado pelo xerife partiu a corda pela
metade. Berkeley revirou-se assustado, enquanto os cavalos
fugiam a galope.
— Mas que diabos está acontecendo aqui? —
perguntava-se Berkeley. — Que porra é essa?
As balas continuavam levantando poeira, bem perto de
onde os dois homens estavam. Aquele vale, antes aprazível,
parecia ter se convertido em uma filial do inferno.
— Estão tentando nos matar — gritou Roque. — Você
acha pouco?
— Compreendo perfeitamente que queiram acabar com
você — respondeu Berkeley. — Mas por que também
atiraram contra mim?
— Porque você é uma testemunha perigosa para os
homens do Manfred.
— Eu?
— Claro, cara. A esta altura já devem estar sabendo que
você está pensando em delatar o chefe. Para eles não é
conveniente que você chegue vivo a Tucson.
— Sim, posso entender isto... Mas e como você
adivinhou que estavam nos esperando aqui... Tudo estava tão
tranqüilo, tão...
Roque interrompeu:
— Adivinhei tudo por causa das vacas.
— As vacas?
— Sim. Normalmente; este vale está cheio delas. Achei
muito estranho que de repente ele estivesse tão vazio.
Compreendi que alguém devia tê-las afugentado daqui.
— Mas por quê?
— Você parece idiota, Berkeley. Para que não
pudéssemos nos refugiar atrás delas. Em um prado com
dezenas de animais que pudessem nos servir como escudo,
nunca poderiam nos balear.
Berkeley soltou um grunhido de aprovação. De repente
compreendeu por que tantos homens que tinham enfrentado
aquele xerife já estavam mortos, enquanto ele permanecia
vivo. Roque não deixava escapar nada. E era evidente que o
levaria a Tucson nem que fosse a última missão que
cumprisse na Terra.
— Que pena que não acertaram sua cabeça logo de cara,
Roque.
Mas isto poderia acontecer a qualquer momento. As balas
assobiavam em todas as direções e passavam raspando por
eles. Pedaços de grama saltavam junto as suas cabeças. As
balas partiam-se nas rochas, provocando nuvens de lascas.
Berkeley falou:
— Estamos perdidos...
— Talvez — respondeu tranqüilamente Roque.
— Porra, xerife, preciso de um revólver...! Quero que
você solte imediatamente as minhas mãos e me dê uma
arma!
— Você continua sendo um prisioneiro, Berkeley.
— Mas eles estão a fim de nos liquidar!
Roque não respondeu. O preso já não estava atado à sela
do cavalo, mas suas mãos continuavam amarradas. Deixou
de preocupar-se com ele e observou com olhos de águia as
duas colinas de onde partiam os disparos, e concluiu que
havia quatro homens atirando naquele momento.
Os clarões de pólvora mostravam a posição dos
atiradores. Alguns deles, sentindo-se mais seguros, erguiam-
se um pouco sobre as pedras que os escondiam na colina. Às
vezes, o sol causticante iluminava os botões de metal do
colete de um dos pistoleiros, fazendo-os brilhar
intensamente.
Quase sem nenhum movimento, Roque apanhara sua
arma.
Segurou o revólver com as duas mãos e apontou
cuidadosamente em direção àqueles botões, contendo a
respiração. Não mudou de posição, apesar de saber que
poderia ser morto a qualquer momento por um balaço. Por
um breve instante todos os seus músculos ficaram tão tensos
que pareciam de metal.
Soou um disparo.
E um grito.
O homem que estava lá em cima nem se deu conta de que
um dos seus botões tinha sido arrancado. Subitamente notou
que algo o impulsionava pelos ares. Soltou a sua arma
enquanto rolava colina abaixo.
Berkeley pôde dizer apenas:
— Um a menos.
Mas o clarão do tiro tinha delatado Roque, e uma
saraivada de balas caiu sobre ele. Protegeu-se entre as rochas
que recebiam tantos impactos ao mesmo tempo em que
parecia que iam explodir.
O ruído era ensurdecedor.
Todo o horizonte parecia afundar. Berkeley tinha se
protegido da melhor maneira possível, enfiando seu corpo
em um espaço inverossímil. Porém, seus olhos estavam bem
abertos e ele enxergava o que Roque não podia ver. E nesta
situação interessava-lhe muito ajudar Roque, pois a vida dos
dois corria perigo.
— Estão cometendo um erro — disse.
— Que erro?
— Estão nos mantendo imobilizados com o fogo. Mas
enquanto disparam contra nós, dois deles deveriam deslizar e
tentar caçar-nos pelas costas. Parecem idiotas, mas acho que
não vão demorar muito tempo para perceber o erro.
— Existe uma razão para eles não fazerem isto — gritou
Roque.
— Qual?
— Eles sabem que somos dois e pensam que você está
armado e livre. Podemos estar apontando em diversas
direções.
— Pois, se pensam que estou armado e livre, então me
deixe armado e livre — resmungou Berkeley.
— Nada disso. Eu faço as coisas direito até o fim.
— Filho de uma puta!
— Você!
A discussão entre aqueles dois homens prosseguiria
interminavelmente se naquele momento não tivesse ocorrido
o que Berkeley tinha considerado lógico. Um outro atirador
começou a deslizar colina abaixo enquanto os outros dois
continuavam disparando. Aquele atacante movia-se muito
bem, mas tinha cometido um erro fatal: não percebera que a
fivela do seu cinto era maciça e demasiado brilhante.
A fivela refletia os raios do sol e se tornara um alvo
perfeito. A uns 50 metros um revólver .44 ou .45 não perdoa.
Berkeley disse:
— Ali.
Roque continuava segurando a arma com as duas mãos.
Girou-a com precisão. A fivela do inimigo resplandeceu ante
seus olhos como uma alucinação.
Bangue!
O disparo provocou um ruído parecido com o grasnido de
um corvo. A fivela abriu-se em dois pedaços enquanto
também se partia em dois o ventre que estava por, trás dela:
Ouviu-se um grito de agonia enquanto Roque
murmurava:
— Sinto muito.
Mas sabia que não tinha razão para isto. Todos aqueles
bandidos pertenciam ao bando de Manfred e eram
assassinos. Os outros dois continuaram disparando lá do alto,
mas agora com tremendo nervosismo, porque sabiam que a
vantagem numérica tinha desaparecido.
Roque tinha dois revólveres, um deles na mão e outro no
coldre. Deu o segundo a Berkeley, depois de tirar todas as
balas do tambor.
— Tome — disse. — Estenda o braço e faça o sol se
refletir no cano deste berro. Quero que ele brilhe.
— Você quer chamar a atenção deles, não é?
— Claro.
— E também quer que eu fique sem dedos, não e mesmo?
— Quem sabe assim você deixará em paz a bunda das
mulheres.
Roque não esperou a resposta de Berkeley, que fez o que
lhe havia mandado, possivelmente porquê não tinha outra
saída. O revólver começou a emitir reflexos e a atrair a
atenção dos atiradores que fizeram fogo cerrado naquela
direção.
Cada vez que as balas passavam raspando pela sua mão,
Berkeley maldizia:
— Merda! Merda! MERDA!
Era o mínimo que podia dizer naquele momento. Por
outro lado, Roque já percebera que aquela situação não podia
durar muito tempo. Se vacilasse um só minuto, seu
prisioneiro seria morto.
Por isso, jogou-se ao chão girando sobre si mesmo,
mudando de posição, agora que o fogo não estava mais
concentrado nele. Viu os clarões que partiam da colina da
direita.
Pôde perceber a cabeça do inimigo. Apesar da longa
distância, uns 60 metros, mirou cuidadosamente e disparou
com tanta rapidez que as três balas formaram um só barulho.
A primeira falhou, mas as outras duas acertaram em cheio a
cabeça do inimigo.
O único que restava tentou deslizar para um lado da
encosta, para fugir. Roque o seguiu com uma série de
balaços e teve a certeza de tê-lo acertado na coxa, porém não
pôde evitar que ele se perdesse de vista.
Logo se dirigiu para Berkeley que não recebera nenhum
tiro direto na mão, mas mostrava duas linhas de sangue
causadas pelas balas que passaram de raspão. O cano do
revólver tinha sido arrancado por um dos tiros.
Roque resmungou:
— Você teve sorte. Ainda poderá passar a mão por
alguma bunda de vez em quando.
— E você? Não quer passar a mão numa coisa?
— Quê?
— No meu saco.
— Vá a merda, Berkeley. Anda, fique de pé.
O prisioneiro levantou-se lentamente, adivinhando o que
o xerife queria lhe pedir. Tratava-se, sem dúvida, de
identificar os corpos que estavam espalhados. Berkeley
lançou-lhe uma olhada enquanto pronunciava seus nomes.
— Este era Goss... Este, Villander... E este, Macomby.
Bons rapazes.
— Todos eles pertenciam ao bando do Manfred?
— Sim.
— Eram grandes amigos seus, não é?
— Só faltava a gente ir para a cama juntos.
— Você reconheceu o que fugiu?
— Não, mas estava ferido. Sem dúvida vai abandonar o
grupo e criar ovelhas na Austrália.
Roque recarregou sua arma.
— Vamos buscar os cavalos — disse. — Certamente
devem estar no lugar onde há o melhor pasto.
— Claro que sim. Os animais são mais espertos do que os
homens.
Efetivamente, encontraram os cavalos pastando a cerca
de 800 metros de distância. Berkeley resmungou:
— Você vai me amarrar à sela de novo?
— Claro que vou. Você já sabe que gosto de fazer as
coisas direitinho até o final.
Berkeley fez uma careta e demonstrou ao xerife o grande
afeto que sentia por ele.
— Filho da puta.
E o xerife demonstrando-lhe todo seu carinho respondeu:
— Você!

10
BONITA, BONITA

O caminho era longo, porém nenhum dos dois reclamava.


Quando chegaram a um povoado chamado Wilmore,
pareciam resignados a terem de partir novamente. A primeira
coisa que o xerife Roque fez foi procurar um saloon para
beber algo. Depois se meteriam em algum hotel.
Havia um saloon com um aspecto bastante atraente. Além
do mais, seu nome era muito convidativo.
Chamava-se “Os Mortos do Caminho”.
Lugar simpático!
O xerife desamarrou seu prisioneiro e entrou com ele.
Afinal, Berkeley também tinha direito de molhar a garganta.
Não havia quase ninguém no saloon. Algumas mesas, no
fundo, pareciam perdidas na penumbra.
O dono perguntou:
— Que desejam?
— Um terceiro andar para mim e outro para este
camarada — disse Roque.
— Que vem a ser isto?
— Ora, se pega um copo grande, coloca-se whisky no
andar térreo, rum em cima e brandy na parte superior.
Portanto, três andares.
— Bela combinação. Mas falta o telhado — replicou o
homem do bar.
— Claro — disse Roque. — Na parte do telhado coloque
um pouco de pólvora bem moída.
O taberneiro ficou pálido, porém ouviram-se discretos
aplausos no fundo do saloon, na parte das mesas ocultas pela
penumbra.
Roque virou-se confiante naquela direção. Uma pessoa
que aplaude não está com as mãos livres para matar.
E viu, então, a última pessoa que podia estar naquele
lugar. Era Magda, a juíza do condado.
Roque falou entre os dentes:
— Que surpresa agradável... Por que está aplaudindo?
— Pela combinação de seu drinque. Nunca tinha ouvido
tal barbaridade.
— Se quiser provar...
— Não. Ainda pretendo viver mais alguns anos.
— E que está fazendo aqui?
— Muito simples. Esperando você.
— E como sabia que eu passaria por aqui?
Magda, que estava tranqüilamente sentada em uma das
mesas do fundo, fez sinal para Roque se aproximar. Este
avançou em direção a ela, acompanhado pelo seu prisioneiro.
A partir deste momento ninguém mais conseguia Ouvir o
que conversavam, pois falavam em voz baixa.
A juíza murmurou:
— Não era tão complicado assim imaginar o caminho que
vocês seguiriam. Todos os que pretendem ir para Tucson
sem se desviar vão por este mesmo caminho.
— Tudo bem. Você se incomodou em vir nos esperar.
Mas para que? O que você quer?
— Que me entregue o prisioneiro.
— Você não tem direito de me pedir isto, Magda.
— Não sou Magda. Sou a juíza.
— Aqui você é apenas uma mulher.
— Nada disso. Este povoado ainda pertence ao meu
condado, e isto significa que ainda estamos dentro dos meus
limites. Ou seja, continuo sendo a juíza.
Roque pareceu duvidar por um momento, mas foi seu
próprio prisioneiro quem disse:
— Ela tem razão. Ainda estamos no território dela. Mas
suponho que você não vai me entregar, não é mesmo, xerife?
Esta fulana quer me enforcar.
— E que porra você pensa que eu quero?
— Bem... Mas é diferente. Ainda temos de chegar a
Tucson. E como diz o ditado: enquanto há vida existe
esperança. Em compensação, com certeza esta dona vai me
enforcar. Não vai me dar tempo nem de dizer qual é meu
último desejo.
— E qual seria seu último desejo, macaco? — Magda
perguntou, zombeteiramente.
— Ver suas ligas.
— Posso mostrá-las. Amanhã elas estarão penduradas na
janela do hotel.
— Não. Quero vê-las junto com suas coxas.
— Certo — disse Magda. — Sou capaz de levantar a saia
até onde quiser, desde que depois possa enforcar você.
Berkeley fez um gesto de defesa.
— Está vendo, xerife? Isto é jogar sujo.
— Por quê?
— Porque sou capaz de dizer que sim.
— De qualquer forma não vou entregar você, seu
bastardo — murmurou Roque com os olhos fixos no belo
rosto da juíza. — Você violou uma mulher chamada Sandra
em Tucson e quero que pague sua culpa lá mesmo. Você será
enforcado porque eu quero que seja assim e para que toda a
população daquela cidade possa assistir ao enforcamento.
Não é a mesma coisa deixar que você seja enforcado neste
condado fedorento. Aqui não serviria de exemplo.
Berkeley estremeceu.
— Um momento, xerife... — disse.
— O quê?
— Fizemos um trato.
— Que tipo de trato? — quis saber a juíza.
Roque encolheu os ombros.
— Acho que todos já sabem disso, menos você. A única
coisa que esse maldito Berkeley quer é salvar a pele.
— A custa de quê...? — perguntou Magda. — Ande,
explique isto melhor.
— Berkeley ofereceu-se para delatar os membros do
bando do Manfred, ao qual pertenceu. Especialmente o
chefe, cuja identidade todo o mundo ignora.
— E ele sabe quem é?
— Sim — grunhiu Berkeley, de má vontade.
— Pois então conte. — Magda falou mais alto.
Roque encolheu os ombros enquanto observava seu
prisioneiro.
— Desembuche — disse. — O juiz tem direito de saber.
— De jeito nenhum, cara — resmungou Berkeley.
— Não me enganam tão facilmente assim. A única
chance para livrar-me da corda é confessar tudo isto ante o
xerife de Tucson. Além do mais, nós fizemos este trato,
Roque. Não tente negar agora. Só falarei diante do xerife de
Tucson, para que ele decida se devo ou não ser enforcado.
Não vou jogar fora meu último cartucho.
Magda deu um golpe seco na mesa. Seu belo rosto, que
não parecia feito para as Leis mas sim para a cama, ficou
transfigurado.
— Sou eu quem impõe a Lei aqui — disse. — E não
admito que desafiem minha autoridade. Confesse tudo o que
sabe, seu bastardo!
— Essa não é uma linguagem própria de um juiz —
protestou Berkeley. — A senhora não pode me insultar.
— Você também não pode zombar de minha autoridade.
Anda, fale!
O próprio xerife pressionou-o:
— É melhor você falar, maldito. Assim acabamos com
este assunto nojento de uma vez por todas.
— O que é que há, Roque? — perguntou o prisioneiro. —
Você agora está do lado dela?
— É mais lógico estar do lado do juiz do que do lado de
um porco como você, Berkeley. Fale!
— De jeito nenhum. Já disse que o silêncio é minha
última bala. Além do mais, este seu jeito me é muito
estranho, Roque. Por que de repente você está apoiando essa
juíza? Por que é gostosa? O que é que há? Quer conquistá-
la?
O xerife encolheu os ombros.
— Não seria uma má idéia — disse.
Magda não suportou mais. Levantou-se bruscamente e
deu duas bofetadas que puderam ser ouvidas em todo o
saloon. Uma foi direto ao rosto de Berkeley, e a outra atingiu
o rosto de Roque.
Todos olharam para eles.
Os dois homens ficaram lívidos.
Magda gritou:
— Chega!
— O que é que chega? — perguntou Roque.
— Ninguém se mete comigo!
— Claro! — disse Roque.
— NINGUÉM!
— Ninguém quer se meter com você; eu só quero...
— O quê?
— Beijar você.
E abraçou-a.
Foi um movimento tão brusco, tão violento e rápido que
ela não pôde evitar. Quando percebeu o que estava
acontecendo, já estava nos braços de Roque.
Quase deu um pulo. Mas foi inútil.
Roque a apertava com força nos seus braços poderosos.
Dobrou-a entre eles como se fosse de borracha. Machucou-a.
Obrigou-a a gemer. Obrigou-a, com aquele gemido, a abrir a
sua suculenta boca.
E então a beijou.
Foi um beijo feroz.
Um desses que enlouquecem qualquer mulher.
A juíza batia no seu peito, mas era inútil. Roque
convertera-se em uma espécie de Vampiro. Não sugou o
sangue daquela mulher incrível, mas sim muita saliva.
Quando a soltou, ela ficou jogada em cima da mesa,
deixando à mostra suas belas pernas.
Não podia nem falar.
Só conseguiu murmurar: “Mal... mal... mal...” Não era
nem capaz de pronunciar a palavra maldito.
O único que pôde falar foi Berkeley, o prisioneiro.
— Também posso beijá-la, xerife? — perguntou, com os
olhos brilhando de entusiasmo.
O soco que recebeu o arremessou até o outro lado do
saloon. Roque o golpeara com tanta força que os pés de
Berkeley separaram-se do chão e ele empreendeu uma
espécie de vôo selvagem sem motor. Suas costas bateram no
balcão enquanto Roque gritava:
— Você não beija ninguém, estuprador de merda!
Berkeley escorregou até o chão. E, enquanto acariciava
sua mandíbula do melhor jeito possível, sussurrou:
— Ainda bem que só lhe pedi licença para beijá-la...
Imagine se chego a pedir para ir para a cama com ela...
Nossa, que dor!

11
A ARMADILHA

Outro homem teria demorado muito para se recuperar,


porém Berkeley parecia de pedra. Quase imediatamente
levantou-se e os dois retomaram a viagem. Não ficaram na
cidade para dormir, como Roque havia planejado, porque a
mesma ainda estava sob jurisdição da juíza. E para ambos
era conveniente se afastar o mais rápido possível daquele
lugar.
Se foram a galope.
É verdade que o pangaré montado por Berkeley não podia
resistir por muito tempo mais. Portanto, Roque decidiu:
— Vamos ficar em Big Tower.
— O que é Big Tower?
— É uma espécie de cantina que existe numa
encruzilhada. Alugam quartos onde é possível passar uma
noite em companhia de ratos e baratas. Mas sobreviveremos.
— E por que temos de parar lá?
— Você acha que seu cavalo agüentará muito, Berkeley?
— E daí? Por mim, ele pode morrer agora mesmo.
Quanto menos resistir, melhor. Assim nunca chegaremos a
Tucson.
— Pode ser que você não tenha vontade de chegar, mas
eu tenho, Berkeley. Por isso quero evitar que seu cavalo caia
duro.
— E se ele for devorado pelos ratos em Big Tower?
— É um risco que temos de correr.
— Onde fica esta porcaria de cantina?
— A uns 8 quilômetros daqui.
Roque apontou para a esquerda e acrescentou:
— Vamos por este atalho.
Fez seu cavalo dar meia-volta, segurando sempre a corda
que estava amarrada ao animal do seu prisioneiro. Naquele
instante, perceberam o resplendor. Tratava-se de uma
claridade tênue, que aparecia debilmente por cima das
árvores, enchendo a noite de um tom que parecia ao mesmo
tempo sinistro e mágico.
Berkeley perguntou:
— O que estará acontecendo lá?
— Não sei. Parece que algo está se incendiando.
— Um rancho?
— Não. O brilho é muito fraco. Algo menos importante
deve estar queimando... Uma carroça, por exemplo.
— Bem... e daí?
— Acho que tenho de ir para lá — disse Roque.
— Pode haver pessoas em perigo.
— Pode ser, mas tudo é estranho.
— O quê? — perguntou Roque.
— Naquele lugar onde está o incêndio também está
chovendo. Olhe as nuvens. Nunca me engano nestes casos.
— Acho que você tem razão.. está chovendo um pouco, e
parece que as nuvens estão vindo para cá. Bem... De
qualquer forma, essa chuva não poderia apagar as chamas, e
pode haver gente em perigo. Vamos lá.
Desviou-se do caminho para dirigir-se até o local do
fogo. Berkeley não teve outra opção a não ser segui-lo.
Atravessaram então um pequeno bosque, onde as primeiras
gotas de uma chuva mansa e fraca caíram sobre eles. A
pouca distância distinguiram o que tinha lhes chamado a
atenção: era uma diligência que estava queimando
totalmente. Os dois cavalos que a puxavam estavam mortos.
Roque exclamou:
— Maldição!
— Um assalto! — grunhiu Berkeley.
— E esses covardes incendiaram a diligência! Veja! Há
pessoas mortas!
— Mortas?
— Podem estar só feridas. Vamos até lá...
Roque esporeou o cavalo e avançou. Ao aproximar-se, o
espetáculo tornou-se estarrecedor. A diligência queimava de
tal maneira que era absurdo pensar que alguém que estivesse
dentro dela ainda pudesse estar vivo. Mas talvez pudessem
ajudar os que estavam de fora, e por isso Roque aproximou-
se.
Pôde ver três homens.
Eles estavam caídos de bruços.
Berkeley disse:
— Acho que bateram as botas.
Mas ele não podia comprovar o fato porque suas mãos
continuavam amarradas à sela. Roque desceu do cavalo e foi
inclinar-se sobre o primeiro dos homens caídos.
Tudo foi muito rápido e estarrecedor.
Nem uma cobra furiosa teria se contorcido
instantaneamente como Roque. Durante um momento
parecia ter sido quase impossível vê-lo. Só um autêntico
demônio teria conseguido mudar de lugar e sacar seu
revólver com aquela rapidez alucinante.
Sem essa presença de espírito, não teria escapado. Os três
mortos já estavam se incorporando, todos ao mesmo tempo e
também com uma rapidez espantosa. Os revólveres que
traziam escondidos embaixo dos seus corpos brilharam com
o resplendor das chamas.
Mas Roque foi ainda mais rápido do que eles. Em um
piscar de olhos, sua arma começou a cuspir fogo como uma
metralhadora. O homem que estava mais perto, e que tinha
se ajoelhado, recebeu um tiro no queixo e caiu para trás com
a boca destroçada, enquanto emitia um lamento fraco.
Todo o corpo de Roque girou instantaneamente.
Continuava parecendo uma serpente furiosa.
O segundo dos seus inimigos tinha se colocado de barriga
no chão, e tentava disparar ainda no solo. Continuava em
uma posição semelhante à de um morto, e morto virou. A
bala penetrou entre suas sobrancelhas.
O sangue jorrou pelo, ar.
Parecia um chafariz sinistro.
E Roque deu de cara com os olhos desorbitados do
terceiro. Este dera um salto quase incrível e tinha conseguido
levantar-se. O revólver mirava a cabeça de Roque, e desta
vez quase foi o bandido que levou a melhor. Roque girou no
ar.
Com a rapidez de uma faísca, ouviu-se um disparo.
E um grito.
Aquele homem deu uma volta sobre si mesmo,
caminhando como um bêbado. Depois tropeçou e afundou
nas chamas que ainda devoravam a diligência.
Mas o fogo não o incomodava. Quando entrou de cabeça
naquele inferno, já estava morto.
Melhor para ele.
Roque pôde dizer apenas:
— Porra!
Todo seu corpo ainda vibrava. Parecia-lhe impossível
continuar vivo depois de tudo aquilo.
Mas Berkeley estava ainda mais assombrado. Não pôde
nem sequer se mover. Contemplou os corpos, as chamas e
disse, com uma voz que não parecia a sua:
— Era... era uma armadilha...
— Só agora é que você percebeu, seu idiota?
— E como é que você se deu conta? Tudo ocorreu em
uma fração de segundo... Estes três caras estavam bem
sincronizados e eram rápidos... Se você não tivesse
conseguido sacar o revólver meio segundo antes do que eles,
estaria morto. Mas como foi que você notou...?
Roque disse pensativamente:
— Por causa da chuva.
— O quê?
— Você ouviu perfeitamente bem. Pela chuva.
— E que tem a chuva a ver com isto?
— Muito simples. Esses camaradas estavam encharcados.
E, como a chuva está muito fraca, isto não era lógico.
— Continuo sem perceber a relação.
— Claro que sim, seu ignorante. Era evidente que alguém
tinha assaltado esta diligência, não é?
— Claro.
— E que a tinha incendiado.
— Sem dúvida.
— E que estes caras tinham conseguido escapar de dentro
dela, mas que foram baleados pelos assaltantes antes de
terem se afastado muito. Eles pareciam mortos.
— Sim, é verdade.
— Neste caso quase não estariam molhados, Berkeley.
Chove muito pouco e além do mais o incêndio começou há
alguns instantes. Ou seja, que até poucos minutos, tinham de
ter estado dentro da diligência. Não poderiam ter tido tempo
de se molharem até o momento em que chegamos. Isto
significa que estavam fora da diligência, não dentro.
Significa que eles incendiaram o veículo depois de matar os
cavalos. E que se jogaram no chão, fingindo estar mortos
quando ouviram que estávamos nos aproximando. Quando
os vi, acendeu uma espécie de luz no meu cérebro... Mas
quase foi tarde demais.
Berkeley passou a mão pelo queixo.
Estava abismado.
— Você tem colhões — disse.
Roque estalou os dedos.
— Era uma bela armadilha — acrescentou.
— Diabos... E estou passando por tudo isto só para ser
enforcado em Tucson?
— Receio que sim.
— Não vai ser preciso — disse Berkeley.
— Por que não?
— Porque antes vou ter um infarto. Não agüento mais
estes sustos. Se pelo menos tivesse pegado aquela juíza...
Mas nem isto.
Dirigiu uma última olhada aos mortos e falou:
— Escute, vá ver se algum deles tem alguma garrafa de
qualquer coisa.

12
COITADO DOS MORTOS

Williamsburg era uma cidade coberta de poeira, tão


tranqüila, tão tediosa e sem nada para se fazer que lá as
pessoas levantavam-se de manhã, tomavam umas e outras e
depois se deitavam novamente para dormir a sesta.
Por isso o xerife de Williamsburg sempre tinha
pouquíssimas coisas para contar. Mas, dessa vez, estava
cheio de novidades.
— Escute, Roque, meu colega — disse enquanto
alcançava uma garrafa no único saloon da cidade, — ouvi
dizer que você está levando para Tucson esse cara que está lá
fora amarrado na sela. Também ouvi um boato de que ele se
chama Berkeley.
— É verdade. Pertencia ao bando do Manfred.
— Justamente disso é que eu queria falar. Manfred esteve
ontem à noite na cidade. Está fugindo, mas está bem pouco à
frente de vocês.
Roque ficou com o corpo tenso, enquanto seus olhos se
entrecerravam. Aquela era a notícia mais interessante que
ouvia há muito tempo.
— Quer dizer que ele esteve por aqui...
— Você acha estranho?
— Não, acho até que é lógico. Seus homens tentaram me
matar durante todo o caminho e às vezes penso que foi um
milagre não terem conseguido. Portanto, é de supor que
Manfred andava por perto para orientá-los.
O xerife acendeu um cigarro fedorento.
— Pois é, foi isto mesmo — explicou. — Ele mandou
que seus homens liquidassem você e este tal de Berkeley.
Parece que não quer que seu prisioneiro fale.
— Na verdade, tem razão. Berkeley prometeu dizer
coisas muito interessantes logo que chegarmos a Tucson. Ele
sabe o nome do verdadeiro chefe do Manfred, mas não quer
desembuchar até que cheguemos lá.
— Quer saber de uma coisa? — perguntou o xerife. —
Manfred fez de tudo para acabar com vocês, mas começa a
ficar assustado. Perdeu muitos homens e seu bando está com
pouca gente agora.
— E por isso está fugindo?
— Sim, mas não está longe. Se você for esperto, Roque,
poderá alcançá-lo.
— O que é que você realmente sabe, xerife?
— Antes de ontem ele comprou uma diligencia velha
aqui. Estava meio quebrada e não servia mais para nada.
Enganchou dois cavalos horrorosos nela e mandou-a embora
com alguns dos seus homens. Não sei o que pretendia com
uma coisa tão ridícula.
— Não era tão ridícula — disse Roque. — Preparou uma
armadilha muito engenhosa e que quase custou a nossa vida.
Mas não quero saber o que aconteceu, mas sim o que vai
acontecer. O que é que você sabe?
— Bastante. Contei a história da diligência porque está
tudo ligado. O cara que a vendeu disse a ele que também
poderia lhe dar algum dinheiro e documentos falsos para
chegar ao México. Ouvi Manfred dizer a um dos seus
homens que se encontraria com esse cara amanhã no hotel de
Begonia Pass, que fica a meio dia de distância daqui.
Também sei que o fulano que vendeu a diligência se chama
Ley.
Roque empurrou com tanta força a garrafa que ela ficou
balançando. Tudo aquilo era tremendamente interessante.
Passou o whisky para o outro e sussurrou:
— Quer dizer que, se eu chegar a tempo a Begonia Pass e
perguntar por um cara chamado Ley, darei de cara com
Manfred... E se tiver sorte poderei lhe enfiar uma bala no
meio do cérebro.
— Exatamente, Roque. Acho que desta vez você poderá
pegar aquele cretino. Oportunidade como essa, nunca mais
na vida.
Roque levantou-se.
— Alguém mais sabe disso? — perguntou em voz muito
baixa.
— Ninguém. Só eu ouvi aquele trecho da conversa. E não
comentei nada com ninguém.
— Pois continue assim. Escute... Vou pedir um quarto no
hotel desta maldita cidade para passar a noite. Depois quero
que você me desafie para um jogo de baralho amanhã de
manhã. E eu aceitarei. Também falarei sobre comprar um
cavalo novo amanhã à tarde.
— Estou compreendendo, Roque. Você quer dar a
impressão de que vai descansar um dia inteiro aqui. E à
meia-noite você vai se mandar para chegar o quanto antes a
Begonia Pass. É isso?
O xerife sorriu.
— É isso aí, meu chapa. Só que vou sair antes da meia-
noite.
E segurou as rédeas do cavalo de Berkeley para dirigir-se
até o único hotel da cidade. Todos ficaram sabendo que
pretendia descansar a noite inteira. Até o próprio Berkeley,
que acreditando na história exclamou:
— Puxa! Já estava na hora!
O coitado nem imaginava que naquela noite ia dormir
ainda menos que nas outras. O sino ainda não tocara as doze
badaladas quando estavam trotando novamente pelas
planícies.
— Às vezes é melhor ser enforcado — disse Berkeley.
***
Chegaram a Begonia Pass antes do meio-dia, um pouco
atrasados de acordo com as previsões de Roque. Cavalgar à
noite não é a mesma coisa que de dia, e além do mais seus
cavalos estavam exaustos.
Mas o xerife tinha certeza de que ainda chegariam a
tempo. Manfred não desconfiava de nada e certamente não
devia ter fugido, pois tinha de encontrar-se com um dos seus
cúmplices.
Não foram para o hotel. Roque dirigiu-se com seu
prisioneiro para a pequena cadeia local, onde os únicos
hóspedes eram dois babados, vigiados por um cara ainda
mais babado do que eles.
O xerife disse que queria que guardassem Berkeley lá
enquanto ele fazia um trabalho.
Berkeley, que nada sabia da conversa com o xerife de
Williamsburg, perguntou:
— Que trabalho?
— Vou capturar um filho da puta.
— Manfred?
Roque não respondeu. Limitou-se a deixar Berkeley na
cela da cadeia, porque precisava ficar com as mãos livres, e
dirigiu-se ao único hotel da cidade. Tudo parecia tranqüilo e
em ordem. Isto não teria ocorrido caso Manfred estivesse lá
em pé de guerra.
Mas sem dúvida Manfred não queria chamar a atenção.
Estava tentando passar despercebido, e por isso poucas
pessoas deviam saber que ele estava em Begonia Pass.
O xerife entrou no vestíbulo do hotel. Uma mulher com
os lábios muito pintados e os olhos brilhantes, olhos de
mulher ansiosa, observou-o desde a recepção. Não deu
importância à estrela mas sim ao peito amplo e à alta figura
do xerife.
— Em que posso lhe ser útil? — perguntou.
— Em muitas coisas.
— Posso sugerir uma? — perguntou ela.
— Diga.
— O meu quarto está bem aqui em cima.
— E o seu marido?
— Faz um ano que ele morreu.
— Não me parece estranho que a senhora tenha
conseguido liquidá-lo.
A mulher sorriu.
— Posso liquidar outros mais — disse. — Quer
experimentar, xerife?
— Quero, mas só depois de terminar o meu trabalho.
— E que trabalho pode ser esse, xerife? Tem tanta
importância assim? Não sabe que o primeiro trabalho de um
homem é satisfazer uma mulher?
— Isto depende. Às vezes o melhor trabalho de um
homem é matar outro homem.
Ela apertou os lábios.
— Está atrás de quem, xerife?
— Parece que um homem chamado Ley está hospedado
aqui.
— Não se registrou com este nome, mas não tem
importância. Eu o conheço. É um cara que trabalha como
intermediário. Tira gente da cadeia, empresta dinheiro a
juros altos para que as pessoas possam passar uma
temporada fora do país e providencia documentos falsos.
Estava no quarto número 8.
— E não está mais?
— Não.
— Por que?
— Morreu.
Roque ficou surpreso.
— Será que não foi você que o liquidou, boneca?
— Isto é o que ele gostaria. Mas Ley não fazia o meu
gênero.
— Pois então quem foi?
— Um outro cara que também está no hotel e que
também não se registrou com o nome verdadeiro. Mas não
me engana. Sei que se chama Manfred. Parece que Ley tinha
de lhe fazer um favor, emprestar dinheiro ou algo parecido, e
logo que o embolsou, Manfred o matou pelas costas. Isto
ocorreu na rua. Foi um assassinato asqueroso.
Roque assobiou baixinho.
Não se podia esperar outra coisa de Manfred., Era um
rato de esgoto, desses que transmitem sífilis só com o olhar.
— E agora ele está lá em cima? — perguntou com
ansiedade.
— Sim. Teve a cara-de-pau de ocupar o quarto do
falecido.
— Por quê?
— Porque disse que já estava pago.
Roque assobiou novamente.
— Pois é, nisto ele tem razão.
E acariciou suavemente a coronha do revólver indicando
que, apesar de tudo, Manfred não se livraria do caixão. Mas
a mulher da boquinha pintada suspirou:
— Acho que você também terá de matá-la.
— Uma mulher? Quem é ela?
— Uma qualquer. Muito bonita, na verdade. Se eu fosse
homem, não teria resistido. Apareceu no hotel e foi atrás de
Manfred. Ele logo disse que sim. Não sei qual foi o preço
que eles negociaram, mas posso assegurar que ela valia a
pena. Ainda devem estar trepando.
— Bem, mas de vez em quando terão de descansar —
disse Roque.
— Sim. Para falar do morto.
Os dentes de Roque rangeram.
— O próximo defunto vai ser o Manfred — disse. —
Pobre dele!
E subiu.
Acabaria com Manfred. Ele o mataria como se mata um
cão raivoso e depois jogaria seu cadáver pela janela.
Também jogaria a mulher que estava com ele, só que viva.
Abriu a porta com um pontapé.
O revólver estava na sua mão direita.
Com ele, poderia liquidar seis homens que tentassem
atrapalhá-lo.
Mas não teve de liquidar nenhum.
Porque o homem que estava no quarto, o único homem,
era um cadáver. Um coitadinho de um morto.
Manfred tinha um aspecto terrível. Estava na cama.
Nu.
Porém sem a mulher.
Em compensação, tinha uma ferida horrorosa no pescoço.
Haviam cortado sua jugular de um lado ao outro.
A janela estava aberta.
Estava claro que a mulher tinha fugido por lá depois de
terminar aquele belo trabalho.
Roque sussurrou:
— Não sei quem é essa fulana, mas, sem dúvida
nenhuma, levou a sério sua tarefa...

13
A VERDADE

Claro que isto não era totalmente verdadeiro. Por isso os


olhos de Roque tinham ficado sombrios. Ele sabia quem era
a fulana que tinha apagado Manfred, merecidamente. O
chefe de Manfred era uma mulher! Manfred, derrotado e
assustado, já não lhe servia para nada! Por isso ela tinha se
livrado dele!
E Roque suspeitava quem era essa mulher.
Uma fulana.
Mas quem sabia representar perfeitamente este papel?
Quem?
Os lábios do xerife apertaram-se, em um gesto de
amargura.
Aquela que dissera ser irmã de Berkeley.
Berkeley nunca a encontrara. Não se trataria de um
engano monumental e audaz? E, agora, que diabos
aconteceria?
A coisa estava clara para Roque. Terrivelmente clara.
Agora a chefe tentaria impedir Berkeley de falar ao
chegar a Tucson. Agora... tentaria matá-lo!
Roque colocou o revólver na cintura e pulou pela janela,
para não perder tempo.
Dirigiu-se então para a pequena prisão da cidade. Não
pôde ver o vigilante bêbado. Ele estava lá dentro, com uma
faca atravessada na garganta. Não pôde nem gritar.
Dos três prisioneiros, dois estavam num sono cerrado.
Não tinham percebido nada por causa da bebedeira. O
terceiro, que era Berkeley, estava olhando espantado para a
mulher que lhe apontava o revólver através das grades.
Roque só podia vê-la de costas.
Não sabia bem quem era. Porém, seu gesto foi doloroso
quando colocou a mão sobre o revólver. Tinha de agir
rápido. Muito rápido ou... Berkeley morreria!
Não tinha alternativa.
Chamou:
— Ei!
Ela virou-se. Houve um gesto brutal, instantâneo, do seu
revólver.
E o xerife teve de ser o mais rápido. Tinha de ser o mais
ligeiro ou morreria. Disparou uma vez e a bala penetrou
entre os olhos da mulher.
O rosto de Roque ainda refletia angústia quando guardou
o revólver no coldre.
E quando olhou para a mulher morta percebeu que não
era quem ele havia imaginado.
Magda, a juíza de Luchino Valley, jazia com os olhos
abertos, enquanto um fino fio de sangue escorria da sua testa.
Berkeley murmurou de dentro da cela:
— Ainda bem que você chegou a tempo, Roque. Um
pouco mais e estava frito.
— Pois é... A chefe delatou-se. Quis fechar sua boca para
sempre. Deu resultado a mentira que repetimos, por todos os
lugares, de que você conhecia o chefe do bando e que o
denunciaria em Tucson. Mas você realmente não o conhecia.
Foi como uma jogada de pôquer. Se falhasse, estaríamos
liquidados.
Berkeley disse tristemente:
— Não consegui descobrir quem era o chefe nem durante
o ano em que estive infiltrado na quadrilha do Manfred para
destruí-lo. Foi meu pior trabalho como agente federal, e você
sabe disso, Roque. Como foi amargo fingir que violava
minha própria mulher em Tucson e deixar que ela me
acusasse... Isto me convertia definitivamente em um
foragido, em um delinqüente... Mas agora tudo deu certo...
Era a nossa última oportunidade.
— Oportunidade que começou em Amarillo quando te
venderam um revólver com defeito, o que me permitiu te
prender — lembrou o xerife.
— E, quando continuamos falando como inimigos,
mesmo quando estávamos sozinhos. Assim, se houvesse
alguém à escuta, estaríamos protegidos.
Roque fechou os olhos da mulher.
— Sinto muito — disse. — Acho que como juíza ela não
ganhava o suficiente.
E levantou-se. Abriu a porta para que Berkeley pudesse
sair. Este suspirou aliviado enquanto dizia:
— O pior é que minha irmãzinha esteve a ponto de acabar
com todo nosso plano. Ela nunca suspeitou que eu era um
agente federal. Grande confusão ela aprontou!
— Eu vou dar um jeitinho na sua irmãzinha — disse
Roque.
— Só se ela quiser.
— Acho que ela vai querer.
— Pois faça um testamento antes — confidenciou
Berkeley. — Depois de um mês, você será prisioneiro dela.
Se for parecida comigo, deve ser insaciável na cama!

A seguir: O VALE DOS LOBOS

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