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Livros de Linhagens: objetivos e caracterização

Os Livros de Linhagens, na sua forma atual, constituem compilações de textos de origens muito variadas.
O seu objetivo principal é, obviamente, apresentar a lista dos ascendentes de determinadas famílias, e sobretudo
mostrar o parentesco que une diversos descendentes de antepassados prestigiosos. Cada uma dessas famílias tem
a sua tradição, mas os compiladores de genealogia deram-lhe uma certa unidade. Embora tivessem manipulado
profundamente o material de que dispunham, raramente ocultaram de tal modo os fundos primitivos que não se
possam descobrir, em muitos casos, vestígios de textos anteriores. E, assim, as suas características podem-se, por
vezes, reconstituir com maior ou menor segurança, conforme os casos.
Por outro lado, inseridas já nas tradições familiares preexistentes a tais compilações, ou associadas pelos
compiladores às que eles recolhiam e mencionadas a outro propósito, aparecem nos Livros de Linhagens narrativas
que devem ter tido origens independentes das tradições familiares. A criação jogralesa, a épica dos cantares, os
primeiros ensaios de romances, os passos ainda incipientes de um género histórico já liberto dos seus antecedentes
clericais, todo esse mundo da literatura oral ou escrita que floresce desde o princípio do século XIII nas cortes de
reis e de ricos-homens, e que os nobres cultivam com paixão, deixou aqui os seus vestígios, grandes ou pequenos,
a maior parte das vezes únicos testemunhos de textos que não foram conservados por nenhuma outra fonte
medieval.
José Mattoso, Narrativas dos Livros de Linhagens
1. Indique o objetivo principal dos Livros de Linhagens.
2. Explique as razões da inserção nos Livros de Linhagens de textos de carácter narrativo.

O significado dos Livros de Linhagens em Portugal

Não podemos, portanto, deixar de relacionar a literatura genealógica portuguesa com uma expressão da
ideologia de classe, estimulada pelas ameaças de dissolução que ela sente vir de vários pontos. Em Portugal, nos
séculos XIII e XIV estas ameaças são muito nítidas. Ameaças sociais provenientes dos homens-bons e cavaleiros-
vilãos, que procuram o apoio do rei para evitarem que os nobres se instalem nos seus concelhos. Ameaças sociais,
ainda, procedentes dos mercadores que lhes emprestam dinheiro e por isso mesmo podem dominá-los. Ameaças
económicas derivadas do incremento da economia de produção, que deixa em condições de inferioridade as
senhoriais, que dificilmente abandonam o sistema de autoconsumo. Ameaças políticas, finalmente resultantes da
centralização régia que punha em risco a autonomia dos senhores nas suas honras e coutos. A primeira reação por
parte da nobreza consistiu, talvez, na sua reestruturação, isto é, no abandono do parentesco cognático e na adoção
da estrutura imagística, que permitia uma estabilidade económica maior, pois reforçava as formas de sucessão
patrimonial e evitava as partilhas, quando associada à exclusão ou inferiorização dos filhos segundos na herança. A
segunda consiste em converter o poder político em seu favor, aceitando-o como árbitro dos seus conflitos internos e
tentando o favor régio para enriquecer ou evitar a decadência. A terceira é justamente aquela que se exprime nos
Livros de Linhagens e que consiste em pôr a genealogia ao serviço da solidariedade da classe.
Os Livros de Linhagem adquirem, assim, um significado muito preciso. O contexto em que aparecem
explica que em Portugal, em vez de assistirmos, como no resto da Europa, à decadência da genealogia, vejamos,
pelo contrário, o seu desenvolvimento. Aparecendo na mesma época que a poesia trovadoresca, são, juntamente
com ela, a expressão de uma enorme pujança e vitalidade da classe nobre, que se mantém até à época da Peste
Negra.
José Mattoso, Os Livros de Linhagens em Portugal

A arte do autor da narrativa da Batalha do Salado


No fragmento da Biblioteca da Ajuda conhecido pelo nome de Terceiro Livro de Linhagens há uma narrativa
célebre da batalha do Salado que surpreende a quem está habituado não só à leitura dos próprios Livros de
Linhagens mas a toda a prosa medieval portuguesa anterior a Fernão Lopes. Não se pode deixar de admirar a arte
do Autor, quer se considere o conjunto narrativo quer o pormenor estilístico, quer os discursos quer as personagens,
quer o ritmo geral, quer a participação tática e topográfica da batalha. A disposição das linhas de combate, o
desenvolvimento da ação no espaço são-nos dados com clareza rara; um pathos percorre toda a ação, que tem um
ponto culminante e uma ressaca; as personagens principais têm poderosa saliência dramática, especialmente as do
campo mouro. O discurso do rei de Portugal resume de forma lapidar as motivações ideológicas dos guerreiros
congregados para fazer face a uma invasão árabe decisiva; as imprecações dos chefes tanto árabes como cristãos
aos seus deuses respetivos são realmente comovedoras. Uma certa ambiguidade entre o real e o maravilhoso
aureola a realidade, sem a anular. O Autor maneja com igual domínio o discurso direto e o indireto. Quanto à
construção frásica e estilística, em períodos longos, cláusulas frequentemente oratórias, com predomínio da
subordinação, não tem paralelo na prosa contemporânea e anterior. É uma prosa sábia, para a qual só encontramos
nível igual no século XVI.
Estamos perante um prosador que a um forte talento dramático e uma perceção singularmente viva do
espaço e do movimento acrescenta um excecional ofício, de formação clerical e latina.
António José Saraiva, O autor da narrativa da Batalha do Salado e a refundição do livro do Conde D. Pedro

As duas grandes peças narrativas dos Livros de Linhagens

As duas grandes peças narrativas dos Nobiliários são a descrição da Batalha do Salado e a lenda de Gaia,
a primeira intercalada no Nobiliário da Ajuda e a segunda representada em duas versões, uma no Livro Velho e a
outra no Nobiliário de D. Pedro.
O trecho do Salado, incompleto ao princípio, é uma soberba página de guerra, provavelmente escrita por
um clérigo que assistiu à batalha. Só uma testemunha do feito podia assim dar-nos o seu quadro completo, e só
quem vivesse essa hora suprema de luta podia dar à narrativa o movimento e o ardor que a caracterizam.
O trecho começa pelo descritivo da posição das hostes, frente a frente. O rei de Portugal "quanto mais
olhava pelos mouros, tanto lhi mais e mais crecía e esforçava o coraçom, como honre que era de grandes dias".
Segue-se um pequeno e admirável discurso de Afonso IV aos seus homens: a história de Portugal, o esforço do
povo e dos reis na conquista da terra, o forte empenho do rei em continuar a obra dos seus antepassados, e a
grande ameaça que pesava sobre a Espanha. (...)
A vera cruz de Marmelar, pregada numa grande haste, é passada pelo arraial por um clérigo, montado num
jumento muito alvo. Todos lhe fazem oração. Segue-se a batalha. A descrição, apesar de certo fartum retórico
especificamente clerical, é assombrosa de realismo e de colorido. Sente-se o afã dos combatentes, assiste-se ao
lento desanimar dos cristãos, cansados de lutar, às suas preces desesperadas. Surge a Vera Cruz. Então os
corpos, reparados de força moral, lançam-se de novo ao ataque "como leões bravos"; o sangue corre pelos
manípulos "de-las lorigas até os cotovelos". Um pouco mais e estava vencida a batalha. (...)

A chamada Lenda de Gaia foi popularíssima nos Livros de Linhagens, prova de que havia nela particular encanto que
afagava os sentimentos do homem medieval: a aventura perigosa, o desejo de vingança, o castigo da infidelidade conjugal e o
ódio ao mouro.
É uma velha história de caráter pronunciadamente germânico, filiada no ciclo de Salomão e Marcolfo e aparentada
com certos poemas franceses. O próprio texto, na versão mais artística (B), acusa evidente germanismo, na explicação
etimológica do nome próprio Ártiga, "que queria tanto dizer naquel tempo, castigada e ensinada e comprida de tôdolos bê'es".
A lenda, na versão mais simples (A), tem este enredo: o rei mouro Abencadão rapta a mulher do rei Ramiro. Este
apronta uma armada e vai a Gaia, usando um estratagema para readquirir a mulher: a uma criada da rainha, que vem à porta,
pede-lhe água e deixa cair na bilha o seu anel. A esposa conhece que é o marido, chama-o e, contra o previsto, entrega-o ao rei
mouro. Ramiro pede-lhe que, depois dum farto repasto de capão assado, regueífa e vinho, o deixe soprar o corno até lhe sair o
fôlego. Foi-lhe concedido. Ouvindo o som da buzina, a gente de Ramiro, que estava de emboscada, acorre e extermina os
mouros. Embarcam de novo e chegam a Âncora. Saudosa de Abencadão, a rainha chora por ele e con fessa-o a Ramiro. Este,
apoiado pelo filho, deita-a ao mar, ligada pela garganta a uma pedra de moinho.
O autor da versão B, dum conto bárbaro e incoerente fez uma novela agradável, cheia de cor e até de verdade
psicológica. A rainha cristã, Aldara, tem aqui sérios motivos para desamar o marido. Ramiro tinha raptado uma irmã do rei
mouro Alboçadam e fizera dela sua barregã, com o nome de Ártiga. Pouco depois, Alboçadam vinga-se, furtando-lhe a rainha
D. Aldara. A situação psicológica está descrita com veracidade nos dizeres de Aldara e na confusão do mouro, espantado
daquela explosão de ódio. (...)
Vê-se que o autor possuía todos os recursos da língua e em subido grau a arte de contar. Isso mesmo se revela
noutro passo da lenda. A versão A diz, com uma crueza bárbara, que Ordonho foi quem instigou o pai contra a mãe, ao ouvir-
lhe a confissão do seu amor pelo mouro. O autor de B, possivelmente o próprio D. Pedro, deu ao conto mais verosimilhança, e
mais ternura: o filho, ao princípio, condói-se da sorte da mãe. (...)
Temos pois em B o curioso exemplo da refundição artística, superiormente feita, dum esboço narrativo anterior:
amiudaram-se os pormenores significativos, intensificou-se o discurso directo, deu-se coerência às situações e subtilizou-se a
paixão instintiva e bárbara, dando-lhe humanidade e finura psicológica. Deste esforço resultou uma das mais lindas páginas de
novela da nossa literatura antiga.
M. Rodrigues Lapa, Lições de Literatura Portuguesa/Época Medieval

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